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Influência Indígena

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ee eee dot. f 229 - 294- 5-7 BRASIL: LINGUAS INDIGENAS Em 1498, com Vasco da Gama, é a vez dos portugueses seguirem o exemplo dos tomanos ¢ safrem pelo mundo invadindo novas terras, conquistando, escravizan- do. dizimando povos e impondo sua lingua e sua religio. Esse empreendimento colonial ¢ imperial vai se desenrolar primeiro na India e na Aftca e, em 1500, na América do Sul, com a invaséo e ocupacdo portuguesa das terras que mais tarde formariam o Brasil. ria pedoqiqee FS ager Panalale, asin, i antenna SS [Nio se sabe dizer ao certo quantas eram as nagées indigenas que habitavam o teri- {6rio brasileiro no inicio do século XVI, nem qual era a populagio total. Também no é possivel determinar com exatiddo o mtimero de linguas diferentes empregadas poresses povos. Os niimeros variam entre Ie 6 milhes de habitantese 300 linguas. Hoje, os descendentes desses povos somam menos de 300 mil, falando cerca de 180 linguas, muitas delas empregadas por um niimero extremamente reduzido de pes- soas, 0 que sinaliza sua provivel extingdo futura. A chegada no Brasil de padres jesuftas com a missio de cristianizar os indios deu inicio a um interessante fendmeno linguistico que foi o surgimento das chamadas linguas gerais. Essas linguas gerais s20, de fato, inguas do grupo tupi que os jesu- tas empregaram para se comuinicar com os indigenas, transmitir a eles as crencas ‘europeias, convencé-los dos valores supostamente superiores da civilizagio exist. precisamente de um jesufta, José de Anchieta, a primeira gramatica escrta de uma lingua indigena: Artes de gramdtica da lingua mais usada na costa do Brasil (1595), tuma deserigdo da lingua tupi. Anchieta, como se sabe, também escreveu pegas de teatro e poemas nessa lingua. ‘Duas linguas gerais se desenvolveram assim: a lingua geral amazénica (ou nheen- gatu, “Iingua boa, bonita”), empregada na porcio norte da colénia, ¢a lingua geral paulista, empregada inicialmente em Sto Paulo e posteriormente difundida para ou- tras regides através da agdo dos bandeirantes, que penetravam nos series interiores para capturarindios ¢escraviz+los. Essaslinguas era empregadas pelos padres, pe- los indios, por muitos dos portugueses que viviam no Brasil e por seus descendentes rmestigos, uma ver que, na falta de mulheres brancas na colénia, os casamentos de brancos com indias eram uma prtica muito comum. Com isso, por um longo perio- do inicial da nossa histéra colonial, o portugués foi ingua minoritria, uma vez que a ‘maioria da populagao era composta de indigenase mestigos, que aprendiam a lingua da mac. E muito conhecida ¢ citada a seguinte passagem de uma carta do padre ‘Anténio Vieira, jesufta, que viveu boa parte de sua vida no Brasil, no século XVI E certo que as fanaias dos Portugueses [nds de S. Paulo etd to ligadas hoje umas com as outras, que as mulheres eos filhos se eriam mestia e domesticamente, a lingua que nas dita fais se fala € dos nds, ea portuguesa a vi os meninos aprender escola. (Carta do Pe. Antnio Vieira, 1654) Poucos anos depois da carta de Vieira, o governador de Sao Paulo, Artur de Sé ¢ “Meneses, escrevia em 1698 ao rei de Portugal solicitando que os padres enviados para aquela regido fossem conhecedores da Iingua geral porque, em suas palavras, {..] a maior parte daquela gente se nfo explica em outro idiom, e principalmente o sexo feminino todos os servos, e desta falta se experimenta irrepardel perda, como hoje se vé ‘em Sio Paulo com 0 novo Vighrio que veio provide naquela Igea, © qual hé mister quem 0 inmerprete, TASTORIA DO PORTUGUES BRASLERO O religioso Félix de Azara, exercendo suas fungdes no Paraguai, observava, num texto escrito cem anos depois de Vieira e Meneses, que ali também predominava a lingua guarani em detrimento do espanhol e comparava a situagio com a de Sto Paulo (provincia que naquela época abarcava Minas Gerais, Mato Grosso e Goits): Lo mismo ha sucedido exactamente en la imensa provincia de San Pablo, donde los port. {gneses, habiendo olvidado su idioma, no hablan sino el guaran. De fato, 0 mesmo uso sistemitico de uma lingua geral para catequizar os indigenas foi feito pelos jesuitas no Paraguai com o guarani. Até hoje, a populagio paraguaia € majoritariamente bilingue, empregando o espanhol paraguaio e o guarani (cha- ‘mado abanheenga, “lingua de homem, \ingua de gente”), sendo que a maioria dos falantes monolingues 6 conhecem o guarani. O mesmo, talvez, poderia ter ocorrido no Brasil se, entre outras eoisas, a Coroa portuguesa ndo tivesse proibido explici mente 0 emprego de qualquer outra lingua no ensino que ndo 0 portugués. Essa proibigdo fazia parte de uma politica maior, que incluiu também a expulsio dos jesuftas das terras brasileiras.Is0 ocorreu em 1757, durante o governo do Marqués de Pombal como primeiro-ministro de Portugal. E claro que uma lingua ndo deixa de ser falada por decreto, por mais que isso tenha algum impacto real sobre a vida dos falantes. Os principais fatores histéricos que determinaram o desaparecimento da lingua geral paulista sd0 de ordem econdmica. ‘Com o descobrimento do ouro nas Minas Gerais, no final do século XVI, a captura de indios para a escravizacao declinou em favor do envio de grandes contingentes de escravos negros para as minas, Ocorreu também uma grande migragio de portu- gucses (cerca de 300 mil) para o Brasil, desejosos de enriquecer com a exploragdo do ouro. Isso decerto favoreceu a expansto do uso do portuguiés, tanto em sua versio ‘europeia quanto em sua versio brasileira, que jd ia se constituindo gracas sobretudo ‘aos escravos. O deslocamento do principal polo da economia colonial também pro- ‘vocou o deslocamento da capital da colénia de Salvador para o Rio de Janeiro em 1765, porto que se firmou como o principal escoadouro do ouro do interior. Assim, a lingua geral paulista foi aos poucos deixando de ser falada, até extinguirse por completo, Ao que tudo indica, jd no final do século XVIII, o portugués predomi- nava na parte meridional da col6nia, Por seu turno, a lingua geral amaz6nica, apesar de proibida, continuoua ser falada, embora cada vez por menos gente. Hoje em dia, ‘com o nome de nheengatu, cla & empregada pela populagdo que vive as margens do tio Negro, no estado do Amazonas. Na cidade de Sao Gabriel da Cachoeira, banha- da pelo Negro, o nheengatu se tornou lingua co-oficial do municfpio, em 2002, a0 lado do portugués, do banjua e do tueano. |As populagdes indigenas brasileiras foram sistematicamente massacradas ao longo de todo 0 periodo colonial ¢ também depois da Independéncia. Até hoje, os fndios bra- silcitos sio alvo de perseguico ¢ assasinato por parte de latifundidrios ¢ de outros cnn int | interessados em explora as terasindigenas. Os fndios que foram viver no meio urbano ‘compem o segmento mais miserével da populagao, vivendo em condigBes precérias © de grande pentria. O fenémeno do suicidio de indios € registrado em diversas regides brasileiras: em 2009, por exemplo, ocorreu um suicidio a cada dez dias no Mato Gros- so do Sul. A taxa de mortalidade de bebés indigenas €o dobro da média nacional ‘Apesar do grande niimero de linguas indigenas, 0 tpi foi a que mais contribuigées deu ao Ps, sobretudo no léxico, por causa principalmente da ago dos bandeirantes paulistas, que denominavam com palavras tupis 0s ocais e acidentes geograficos que fencontravam em seu caminho sertio adentro. Por essa razo, € comum encontrar toponimia de origem tupi mesmo onde nunca houve uma populacio tupi original Se calcula em tomo de dez mil os vocabulos de origem tupi empregados na nossa lin- ‘gua. A maiotia deles se refere & flora € fauna e a caracteristicas ecol6gicas, geolog- cas ¢ hidrol6gicas do Brasil. Existem também outras palavras de uso muito frequente no PB que provém do tupi: arapuca, arataca, biboca, caatinga, caigara, caipira, ca- pao, capim, capoeira, catapora, coroca, cui, cufea, guri, jururu, mingau, muquirana, mutirdo, nhenhenhém, pagoca, peba, pereba, peteca, pindatha, pipoca, pito, pixaim, sapecar, sarard, suru, tapera, taquara, taturana, tipoia, tririca, tocaia etc. ‘iba ruim, mau, imprestivel ro imprestivel [para a navege- He raiba idem) ‘anhé, ahange | gtr, espitito, deménio | Anhangab (SP: “to do malafico” bberaba bihante Uberaba (MG): “fo brihante”; aberaba (GA: “pedra brihante” eas ‘mato, planta, folha | Cajuru GPs: “boca do mato", Caatbs (BAX ‘matagol; Ceapranga AM “mato vermetho" eat ‘bom, Bonito Cat (BA) Catuipe (RS): “na 6qua bo®, no ro bom” coareci, quaraci | sol ‘Coarac (A); Guaraci (PR; Guareciaba (MG). “Teabelo do sal, ato ¢, “low” | cui ereuciia | Curitiba: “pinheiral™ ub, gos ‘ale, bala, goto Paranagué (PR: “vale do ro", ist &, “bala”; ‘Guanebara (Ri: demi; Jaregus (SP): "se ‘thor do vale” ‘guard | garca CGuaratingueté (SP: “abund8ncia de gargat | brancas"; Guarapranga (SPI: “garga verme- | ' | tho"; Guarabira (PB): “garga ompinada® TN {HISTORIA DO PORTUGUES BRASKERO Qe [Link] brasilero ‘Taquara (RS); Taquari (RS): “rio das taquaras”; Taquaratinge (SP): “taquara branca” Piratininga SP): “peixe branco”, isto 6, "seco": ltatinga (SP): “pedra banca"; nga (MA): "rio bbranco"; Upatininga (PE: “lagoa seca” {Algucs termes de rges top equi tpn bri) s pesquisadores ainda ndo conseguiram chegar a um consenso a respeito de al- guma influéncia das linguas indigenas sobre 0 #8 que no seja a contribuiga0 30 léxico. Por exemplo, ha quem atribua as promtincias das consoantes [f] ¢ [5] como [9] € [ds] no chamado dialeto cuiabano como uma caracteristica herdada dos indios bororos que habitavam a regiiio. Esses indios falavam uma lingua do grupo macro-jé, diferente do tupi. Como se sabe, palavras como chuva e caixa soam, nesse dialeto, como ['fuva] e [kaa], assim como gente e laranja soam como [dsete] ¢ [l'ridsa). Em seu livto classico, O dialeto caipira (1920), Amadeu Amaral informa que tam- bem no interior de Sao Paulo, naquela época, existiam as pronincias [9] e [45]. ‘Outro aspecto fonético que algumnas pessoas propdem atribuir a um substrato tupi é 0 cchamado “R caipira” (retroflexo), to caracteristico de uma ampla drea do centro-sil do Brasil. No alfabeto fonético seu simbolo ¢ (1). A justificativa para tal atribuigao 6 fato dessa érea corresponder em grandes linhas ao terrt6rio onde era falada ou para onde foi levada a kingua geral paulista, que era tupi. Algm disso, o [1] também ocorre no espanhol do Paraguai, pais onde a maioria da populagio emprega o guarani, lin- 1a muito préxima do tupi. No espanhol paraguaio, contudo, esse 1] soa mais brando do que o do dialeto caipira. Amadeu Amaral, no livto jd citado, ao tratar do {,] diz: “f. muito provavelmente, o mesmo r brando dos autéctones”, isto é, dos indios. No tupi ¢ no guarani o padrio silébico € cvcv, consoante-vogal-consoante-wogal, de modo que nao existem encontros consonantais (a palavra cruz se transformoxt em curugd na fala tupi), 0 que também é caracteristico de outras linguas, como o japonés (onde Brasil se diz Burajia). Essas linguas também no tem sflaba travada Por consoante (como em carta, pasto, delta). F. provavel que, tendo de pronunciar Palavras do portugués com travamento silébico com (r], os falantes da lingua geral articulassem esse (r} com uma retroflexdo que fizia a consoante se transformar prati- ‘camente numa semivogal, tomando a palavra mais préxima de seu padrio silibico: porta {‘parta] (cvecv) —+ ['pauta] (cvvev). eens | | [ ASTORIA DO PORTUGUES BRASLERO ‘Amadeu Amaral também explica que na fala caipira o grupo gu + vogal tende a ser pronuneciado como se no houvesseo “A exposiva gutural gh tem uma tonalidade Especial, sobretudo antes dos semiditongos cuja prepostiva € u, caso em que fre Gquentemente se vocaliza: éu-ua = gu, lév-ua = légua’. Em tupi, segundo alguns pesquisadores, ndo se pode dizer que exstisse a consoante [): 0 que ovorria era uma forte velarizagao da semivogal [0] que, 20 ouvides dos portugueses, soava como 0 gu de dgua Isso explica porque, nos topénimos beasleiros, € omum ocorrer 0 cle ‘mento -guagu, do tupi wasu, “grande” Fenbmeno semelhante ocorreu quando as Kinguas romanicas adotaram palavras ger- anicas com a semivogal [0] também muito velarizada: wardon > guardar; werra > guera; winda > guindar, Wilhelm > Guilherme etc. Para ouvidos brasileitos, a palavra huevo (‘ovo") em muitas variedades do espanol americano soa como giebo. Segundo Amadeu Amaral, o dialet caipira nao apresentava dstingao entre (be [v}, havendo muito intercdmbio de uma consoante pela outra. Ora, o tupi apresentava uma dnica consoante (B}, diferente tanto do {b} quanto do [v} do portugues. Isso explica por que, na toponfiia brasileira, ocorrem hesitagbes como Itu-verava e U- beraba, nomes formados com 0 elemento Bera, “brlhante”: “cachoeira brilhante” (Ituverava) e “égua brilhante” (Uberaba). a | | | | | \ \

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