Revista
A Flora
Abril/2021 - Número 2
Sustentabilidade e a
produção de bioativos
como aproveitar a biodiversidade brasileira
Editorial...................................................................2
Silvana M. Zucolotto
Qual é a planta?
Maracujá-da-Caatinga................................................3
Pedro H. V. Teles, Bruna R. L. A. de Queiroz e Jackson R. G. da S. Almeida
Artigo de Capa
Sustentabilidade e a produção de bioativos...............4
Antônio A. M. Pereira-Junior, Arquimedes L. Nunes-Filho, Clícia J.
Neves-Fonseca, Juliana G. Trinas, Maria Eduarda Rodrigues-Pereira e
Valdir F. Veiga-Junior
Artigo
O centenário do Prof. Dr. Walter Baptist Mors...............8
Gilda G. Leitão
Extensão
Ervanaria: uma possibilidade para a Fitoterapia no
SUS...........................................................................14
Ana Carla Koetz Prade
Experiências
Extração e identificação do mentol da hortelã e de
balas.........................................................................17
Fernando B. da Costa, Beatriz C. de Souza e Walter Lopes
Ensino
Problematização de casos clínicos no ensino
e aprendizagem em Farmacognosia como
estratégia de aproximação da atuação do
Farmacêutico.............................................................18
Ana Carla G. Pinto, Cleiane S. P. de Moraes, Lucas V. P. da S. Pantoja,
Marcieni A. de Andrade e Surianne S. de A. Trindade
Fito ou Fake?
Comercialização pela internet de produtos irregulares para
gerenciamento do peso...............................................19
Leandro Medeiros
Molécula em Foco
Artepilina C..............................................................20
Editora-Chefe: Lucas de O. Pires e Rosane N. Castro
Silvana M. Zucolotto (UFRN)
Atualidades
Editores Associados: Comparação entre fitoterápicos industrializados e
Leopoldo C. Baratto (UFRJ)
manipulados...............................................................21
Douglas S. A. Chaves (UFRRJ)
Luis Carlos Marques
Diagramação e Editoração:
Celeide Luz (UFRJ) Biografia
Leopoldo C. Baratto (UFRJ) Prof. Gokithi Akisue.....................................................22
José Luiz A. Ritto e Leopoldo C. Baratto
Produção:
Sociedade Brasileira de Farmacognosia (2019-2021)
Presidente: Leopoldo C. Baratto
Vice-Presidente: Cid A. M. Santos
Tesoureira: Naomi K. Simas A Revista A Flora é uma publicação de divulgação científica, sem
Secretária: Carla R. Andrighetti quaisquer fins lucrativos. Proibida a comercialização desta revista.
Editorial
É com imensa satisfação que publicamos o nº 2
da Revista A Flora em 2021. Por meio desse novo canal
de divulgação científica da Sociedade Brasileira de
Farmacognosia (SBFgnosia) pretendemos levar cada
vez mais aos nossos leitores informações a respeito da
Farmacognosia e suas áreas em linguagem simples,
atrativa, dinâmica e acessível, com artigos da área de ensino,
pesquisa e extensão. Esperamos que a Revista A Flora
contribua com a atualização de assuntos da área, com a
prática profissional, com o ensino de Farmacognosia e que
inspire a realização de projetos de extensão. Neste segundo
número, destaca-se o artigo de capa que trata de um tema
extremamente importante, Sustentabilidade e a produção
de bioativos: como aproveitar a biodiversidade brasileira, o
qual teve na sua elaboração a participação de duas alunas do
ensino médio, a Juliana e a Maria Eduarda como coautoras.
Um grande exemplo de inserção da ciência na escola, do
papel e da importância da ciência e dos cientistas em nossas
vidas e para combater o negacionismo científico atual.
A molécula da vez é a artepilina C com todo seu
histórico e potencial e em "Qual é a planta?" a escolhida
foi a belíssima espécie da nossa biodiversidade, Passiflora
cincinnata. Em "Atualidades", um panorama geral sobre a
diferença entre fitoterápicos manipulados e industrializados, e
na seção de extensão será apresentado um belo exemplo
de sucesso de implantação de uma ervanaria no SUS!
Na linha de combate as fake news, foi proposto um
tema bastante polêmico sobre produtos ditos naturais
indicados para o gerenciamento do peso. E que tal
inserir uma nova aula prática em Farmacognosia com
balas Halls ou então a problematização com criação
de casos clínicos pelos alunos? E por fim, vocês terão a
oportunidade de conhecer sobre o centenário do Prof.
Walter Baptist Mors e a biografia do Prof. Gokithi Akisue.
Espero que apreciem a leitura do número 2 de A
Flora e que cada vez mais possamos fortalecer a área
de Farmacognosia por meio do compartilhamento do
conhecimento.
A SBFgnosia dedica este número de A Flora em
memória à Elfriede Marianne Bacchi (1953-2021),
professora de Farmacognosia da USP.
Silvana M. Zucolotto
Editora-Chefe da Revista A Flora
Universidade Federal do Rio Grande do Norte
Qual é a planta?
Maracujá-da-Caatinga
Passiflora cincinnata Mast. (Passifloraceae)
Pedro H. V. Teles, Bruna R. L. A. de Queiroz – Estudantes de graduação em Farmácia, UNIVASF
Jackson R. G. da S. Almeida – Professor de Farmacognosia, Colegiado de Farmácia, UNIVASF
Passiflora cincinnata é uma espécie silvestre,
nativa do Brasil, encontrada principalmente na
região semiárida do Nordeste, que apresenta grande
potencial de mercado, por ser considerado um produto
diferenciado, quando comparado a outras espécies de
maracujá. Devido à sua composição química, atividade
antioxidante, e seu sabor característico, tem sido
crescente o interesse por esta espécie, por parte das
indústrias de alimentos, cosméticos e farmacêutica.
A planta tem sido bastante utilizada para consumo in
natura ou na forma de sucos, doces, geleias, para fins
medicinais e como planta ornamental. É encontrada
principalmente nas regiões Norte, Nordeste, Centro-
Oeste e Sudeste do Brasil, com domínios fitogeográficos
nos biomas Amazônia, Caatinga, Cerrado e Mata
Atlântica. É conhecida popularmente como maracujá-
da-Caatinga, maracujá-do-mato, maracujá-mochila e Maracujá-da-Caatinga com flores e frutos.
maracujá-tubarão. (Foto capturada pelo próprio autor)
Na medicina tradicional, o infuso das partes aéreas
da planta é indicado no combate a inflamações, insônia Em relação aos estudos farmacológicos, foi
e gripe; as folhas e frutos são indicados no tratamento investigado o efeito do extrato etanólico das folhas
de hipertensão, tosse, inflamação e como calmante. de P. cincinnata em camundongos submetidos a um
O chá das folhas também é utilizado na medicina modelo progressivo de doença de Parkinson induzida
popular para o tratamento de hemorroidas e infecções por reserpina. Os resultados mostraram que o
tratamento com o extrato atrasou o aparecimento de
sexualmente transmissíveis.
deficiências motoras e evitou a ocorrência de aumento
As sementes do maracujá da Caatinga apresentam
do comportamento da catalepsia (incapacidade de
na sua composição os ácidos linoleico e oleico. A planta
movimentos) na fase pré-motora, sugerindo um
também é rica em potássio, ferro, fósforo, cálcio,
efeito neuroprotetor. O extrato etanólico bruto
vitamina A, vitamina C e vitaminas do complexo B.
das partes aéreas da espécie apresentou atividade
Em relação aos metabólitos secundários, o estudo da
antinociceptiva e anti-inflamatória em modelos
composição química utilizando cromatografia líquida
experimentais em camundongos. Outros estudos
de alta eficiência acoplada a detector de arranjo de
mostram que a planta possui potencial de ação sobre
diodos e espectrometria de massas (CLAE-DAD-EM/ o Sistema Nervoso Central (atividade ansiolítica e
EM) mostrou a presença de flavonoides em extratos antidepressiva), efeito anticolinesterásico, como
obtidos de diferentes partes da planta (cascas dos frutos, também potencial hipolipidêmico (diminuição dos
flores, folhas, sementes e talos). Foram identificadas níveis de colesterol). Estudos de toxicidade aguda e
14 substâncias, sendo relatada principalmente a subaguda mostraram que os extratos da planta não
presença de flavonoides O- e C-glicosilados derivados apresentaram quaisquer sinais característicos de
da apigenina, orientina, iso-orientina, vitexina, e toxicidade nas doses administradas em camundongos.
isovitexina, os quais são considerados marcadores Esta espécie nativa apresenta boas perspectivas
quimiotaxonômicos para espécies de Passiflora, mas para a realização de novos estudos químicos e
descritos pela primeira vez na espécie P. cincinnata. farmacológicos, principalmente estudos clínicos, os
Na polpa dos frutos também foram encontrados ácido quais não foram encontrados na literatura pesquisada.
trans-ferúlico, ácido clorogênico, ácido p-cumárico, Estes estudos são fundamentais para o desenvolvimento
quercetina, rutina, naringenina e ácido gálico. de um novo medicamento fitoterápico.
Revista A Flora 3 Número 2 - Abril/2021
Artigo de Capa
Sustentabilidade e a produção de bioativos:
como aproveitar a biodiversidade brasileira
Antônio A. M. Pereira-Junior1, Arquimedes L. Nunes-Filho1, Clícia J. Neves-Fonseca1, Juliana G. Trinas1,2, Maria
Eduarda Rodrigues-Pereira1,2, Valdir F. Veiga-Junior1
1
Seção de Química, Instituto Militar de Engenharia, Rio de Janeiro-RJ; 2Colégio Militar do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro-RJ
Nossas plantas medicinais O investimento tem sido bem recompensado. Juntos,
os dois produtos já renderam mais de US$ 500
O Brasil é considerado um expoente de milhões para a empresa que investiu na potente ação
biodiversidade e se configura como berço de farmacológica de uma planta nativa e outra exótica
espécies animais e vegetais de valor inestimável. cultivada. Essa iniciativa, entretanto, ainda é isolada.
Suas dimensões continentais permitem compartilhar São extensos os relatos das propriedades
medicinais de nossas plantas. Já nos séculos XVI e XVII,
a Amazônia, o Pantanal e o Pampa com os países
os primeiros cronistas, viajantes, naturalistas e jesuítas
vizinhos e ainda assim contar com biomas únicos no descobriram que os habitantes dessa terra detinham
planeta, como a Caatinga, o Cerrado e a Mata Atlântica, conhecimentos empíricos consolidados durante
além da praticamente inexplorada Amazônia Azul, os milênios. Eles relataram as maravilhas e enigmas
4,5 milhões de km2 de território marítimo brasileiro. das plantas “mágicas” dos sertões brasileiros. Ainda
A perda do patrimônio genético de nossos biomas, no século XIX, as descrições das características,
composição e propriedades farmacológicas das
sobretudo, em decorrência do desflorestamento, é plantas medicinais nacionais foram estudadas
uma questão que coloca em risco a soberania nacional. pelo farmacêutico Theodoro Peckolt na pequena
Somente na Mata Atlântica, que possui apenas 12,4% Cantagalo, no interior do estado do Rio de Janeiro.
de sua cobertura original, são estimadas mais de 20.200 Os últimos cem anos foram marcados por contribuições
espécies de plantas, das quais 7.400 são endêmicas, tal técnico-científicas nas mais diversas esferas de estudo
contingente é superior a biodiversidade vegetal de toda e aplicação, com destaque para a enciclopédia de
Manuel Pio Corrêa, os seis volumes de seu Dicionário
a Europa (12,5 mil espécies) e da América do Norte (17 das plantas úteis do Brasil e das exóticas cultivadas. Mais
mil espécies). Dentre as espécies vegetais encontradas recentemente as pesquisas químicas e farmacológicas
nessa região, vale mencionar a presença de plantas realizadas nas universidades e institutos de pesquisa
medicinais como, por exemplo, a goiabeira, pata-de- foram responsáveis por uma evolução significativa
vaca, maracujá, pitanga, guaco, pimenta-rosa, copaíba, no conhecimento científico. O conjunto de estudos
erva-baleeira, espinheira-santa, entre muitas outras. A é bem robusto, mas ainda existem diversos
entraves para o desenvolvimento do produto final.
primeira delas a se tornar um medicamento fitoterápico As iniciativas já realizadas com a erva-baleeira e
foi a erva baleeira, também conhecida popularmente o maracujá, e outras que podem ser citadas, como o
como maria milagrosa (Varronia curassavica Jacq., syn. Kronel, gel ginecológico fitoterápico produzido pela
Cordia verbenacea A.DC). A partir do óleo essencial Hebron a partir da aroeira (Schinus terebinthifolius
dessa planta obtém-se o Acheflan®, que é o anti- Raddi), deixam claro que é possível, apesar de
legislações complexas, levar a nossa biodiversidade
inflamatório tópico líder no mercado brasileiro,
para o balcão da farmácia. Várias das dificuldades
principalmente, para o tratamento da tendinite crônica residem na ausência de metodologias sustentáveis
e dor miofascial. Outro fitoterápico da mesma empresa, de longo prazo na realização de pesquisas e
Aché, de Guarulhos-SP, é o Sintocalmy®, que consiste implantação de projetos. As premissas que delimitam
em um calmante produzido a partir de extratos de um a sustentabilidade são fatores importantes para o
maracujá nativo do sul dos Estados Unidos da América, desenvolvimento de novos fitoterápicos.
mas cultivado no Brasil (Passiflora incarnata L.).
Desenvolvimento insustentável?
Segundo o relatório divulgado pelo Jardim
Botânico Real do Reino Unido em 2020, a cada cinco
espécies de plantas no planeta, duas estão ameaçadas
de extinção. As principais ameaças estão relacionadas
às atividades do setor agroindustrial, aquicultura e
ascensão exacerbada do consumo, interferindo na
dinâmica dos habitats. Nessa pesquisa também foi
avaliado que 13% de 5.400 plantas medicinais, isto
é, cerca de 723 espécies, estariam sob ameaça de
extinção. Fica claro que as plantas medicinais também
estão sendo afetadas por modelos extrativistas
Revista A Flora 4 Número 2 - Abril/2021
Artigo de Capa
insustentáveis. Uma das espécies medicinais que foi A sustentabilidade se tornou o alvo de diversas ações
praticamente extinta é o teixo-do-pacífico (Taxus fomentadas pela Organização das Nações Unidas
brevifolia Nutt.), espécie endêmica da região oeste da (ONU). Após um relatório intitulado Who Care Wins
América do Norte. Quantidades muito pequenas de (Ganha quem se importa), desde 2005 surgiram
uma substância ativa em diversos tipos de câncer, o medidas e avaliações de conformidade (Compliance),
taxol, são encontradas somente nas cascas da árvore índices como o ISE (Índice de Sustentabilidade
Empresarial) para empresas comprometidas com
adulta. Para a extração desse princípio ativo, cascas
práticas sustentáveis (que renderam cerca de 60%
das árvores centenárias foram retiradas e muitas delas
acima da Ibovespa no período 2005-2020), e também
acabaram morrendo. O processo continuou até que de qualificação ASG, sigla pra Ambiental, Social e
se encontrasse uma substância similar nas folhas de Governança corporativa (ESG, em inglês). O sistema
outra espécie do mesmo gênero (Taxus baccata L.), que financeiro tem direcionado investimentos baseados
proporcionou a obtenção do taxol a partir de alguns em critérios ASG, como a neutralização de emissões
poucos passos de modificação estrutural empregando e o carbono zero. Essas diretrizes englobam não
síntese orgânica. somente ações ambientais, mas também práticas que
No Brasil, entre as espécies ameaçadas de extinção contemplam aspectos relativos à responsabilidade e
encontram-se diversas plantas medicinais, como o preocupação com questões sócio sustentáveis.
barbatimão (Stryphnodendron adstringens (Mart.) Desde 2015, a ONU define 169 metas
Coville), empregado no tratamento de infecções compreendidas em 17 Objetivos de Desenvolvimento
por Staphylococcus aureus. Outro exemplo dessa Sustentável (17 ODS) que devem ser atendidos
mazela, se refere ao extrativismo da espinheira-santa até 2030 por empresas e nações, debruçando seus
(Monteverdia ilicifolia (Mart. ex Reissek) Biral), espécie esforços na busca por medidas que sejam mais
que foi explorada de maneira insustentável e intensa na holísticas no que se refere à igualdade, cuidado com o
região sul do país após comprovação de suas potentes próximo e preservação do meio ambiente, que sejam
atividades antiulcerogênicas. A dificuldade de acesso efetivas e abrangentes. Apesar das metas e dos ODS
à espécie também resultou em fraudes e adulterações mais amplos, pode-se dizer que o desenvolvimento
na sua comercialização, tendo sido relatado no Rio de sustentável ainda é pautado por obstáculos e desafios.
Se por um lado a proteção de espécies da flora é
Janeiro sua substituição por outras espécies, como
considerada um entrave ao progresso econômico por
Sorocea bonplandii (Baill.) W.C.Burger, Lanj. & de Boer
alguns países, para grandes corporações, os 17 ODS
e Zollernia ilicifolia (Brongn.) Vogel.
são tidos como variáveis de grande relevância para
Seja por serem espécies raras ou com uma a obtenção de certificados e selos que asseguram
biomassa muito pequena, com constituintes ativos em conformidade e compromisso. Além disso, pode-
quantidades ínfimas ou em matrizes muito complexas, se dizer que os princípios ASG são empregados com
por terem seu habitat modificado ou com pressões de o intuito de impedir que empresas que cumprem
ocupação do solo, por não terem sido domesticadas alguns poucos ODS se autodenominem sustentáveis
ou não haver estrutura de manejo florestal, ou por ignorando critérios importantes, em especial, os
questões de gênero que dificultem a transmissão do sociais.
conhecimento tradicional com relação às formas de Para indústrias de grande porte a integração das
preparo, o que está em jogo não é só a viabilidade do bases do desenvolvimento sustentável de fitoterápicos
emprego de plantas como produtoras de bioativos ainda é alvo de amadurecimento.
de forma comercial, mas também a sua exploração
desmedida que pode levar à extinção. Em geral, o
risco é condicionado pelo aumento no consumo e
diminuição da disponibilidade das reservas naturais.
Em um cenário mais abrangente, pode-se dizer que
essa situação está relacionada com a ausência de
ações que preconizem a sustentabilidade de forma
ampla.
Sustentabilidade possível
Se no passado não muito distante as ações
eram pontuais e visavam apenas a reciclagem, a
redução e o reuso de materiais (o 3R), nos últimos
anos a compreensão do que é necessário para se
alcançar a sustentabilidade foi muito ampliada e
inclui os cuidados socioambientais, a qualidade
dos recursos hídricos, universalidade e equidade
da educação, igualdade de gênero, entre outros.
Revista A Flora 5 Número 2 - Abril/2021
Artigo de Capa
Conservação e Manejo Sustentável de Plantas Medicinais Seja com a produção a partir do cultivo ou com o
extrativismo sustentável ligado a comunidades e
Uma diferenciação deve ser lembrada: pelas
cooperativas, Centroflora, Beraca e Symrise são
leis brasileiras, o termo preservação relaciona-se à
alguns dos principais atores nesse cenário de extração
integridade e perenidade, ou seja, intocabilidade.
de produtos da biodiversidade nacional para obtenção
Já o termo conservação refere-se à proteção dos
de insumos e comercialização para outras empresas.
recursos naturais com a utilização racional do meio e
em atendimento aos princípios da sustentabilidade,
garantindo a existência para as futuras gerações. Logo, O papel da mulher no manejo de plantas medicinais
o que se deseja é a conservação das florestas brasileiras, Entre os 17 ODS, o quinto objetivo é a igualdade
a utilização dos recursos naturais, mas sem destruição. de gênero e na área de plantas medicinais poucas
O manejo florestal sustentável (MFS) consiste questões têm sua importância tão negligenciada.
na exploração racional de produtos madeireiros e O manejo de plantas medicinais frequentemente
não-madeireiros com intuito de preservar o equilíbrio acontece em quintais, sendo comum o manuseio
e a integridade da floresta, minimizando impactos entre homens e mulheres. Por estar ligada a uma
e adversidades socioambientais. Esse modelo visa atividade doméstica, há predominância feminina
a criação de meios e ferramentas que viabilizem nesta manipulação, devido à divisão do trabalho que
a conservação, ou seja, a integração, gestão e ainda é pautado pelo gênero. O entendimento sobre
planejamento das etapas que delineiam a exploração e as aplicações do uso terapêutico das plantas está
produção agrícolas de forma colaborativa e cooperativa associado à luta pela soberania alimentar e cuidado
garantindo a manutenção dos ecossistemas. O MFS com a casa comumente aprendido com a mãe, a
permite a incorporação de diversas espécies avó, a tia e a vizinha transmitido entre gerações,
madeireiras, assim como de produtos e subprodutos constituindo, assim, um importante saber popular
não-madeireiros, promovendo o uso de bens e tradicional, patrimônio cultural de usos e costumes
serviços florestais de maneira racional. Associado às e também pela conservação da biodiversidade.
premissas que delineiam o tripé da sustentabilidade: Atualmente, os papéis desempenhados pelas
desenvolvimento econômico, social e ambiental. mulheres são relatados como produtoras de alimentos,
Apesar de sua importância, o MFS ainda é pouco administradoras dos recursos naturais, angariadoras
difundido no país e os objetos do manejo, com de receitas e zeladoras da alimentação doméstica e do
incorporação de espécies madeireiras diversas, de resguardo nutricional dos indivíduos, sendo condições
múltiplos produtos e subprodutos não-madeireiros, necessárias para o desenvolvimento rural sustentável
bem como a utilização de outros bens e serviços e a garantia de segurança familiar. De acordo com
florestais, ainda são irrisórios. As próprias pesquisas dados do IBGE, o número de mulheres responsáveis
acadêmicas têm focado muito mais em espécies por propriedades rurais no Brasil alcançou quase 1
herbáceas que nas arbóreas e mesmo as arbustivas. milhão, no contexto apresentado, um número muito
Os estudos científicos no Brasil com estas últimas baixo em um universo de 5,07 milhões, em 2017.
são mais focados em germinação e propagação de A identificação de fatores alinhados com o
sementes que no uso e aplicação de subprodutos. feminino está relacionada também à possibilidade de
Esse distanciamento que as pesquisas no país têm das preservação de aspectos culturais das comunidades
necessidades para o desenvolvimento e a inovação é tradicionais do campo, assim como possibilitam
um dos motivos pelos quais são raros os fitoterápicos o uso e conservação de uma maior diversidade de
baseados em espécies arbóreas no Brasil. Por plantas, seja de uso medicinal, alimentar ou ritual, que
outro lado, apesar de espécies como o ipê-roxo contribui com a preservação da identidade cultural,
(Handroanthus impetiginosus (Mart. ex DC.) Mattos) costumes regionais, religiosos e como estratégia de
serem extensamente exportadas, não há informações manutenção da saúde. Assim, ainda que a atividade de
sobre seu cultivo, levando à extração sem controle no cuidado das plantas dos quintais contenha a riqueza
país e os bioprodutos são desenvolvidos no exterior. cultural à qual deve ser preservada, do ponto de vista
São poucas e raras as experiências de cultivo de das relações de gênero deve ser repensada. O desafio
espécies medicinais nativas, como o jaborandi está em romper com as desigualdades de gênero
(Pilocarpus microphyllus Stapf ex Wardlew.), pela presente nessas relações familiares, construindo-se
Merck, em Parnaíba, no Piauí, interrompida há nova divisão sexual do trabalho, para que de forma
mais de uma década. Em seu lugar, a Vegeflora igualitária, homens e mulheres possam contribuir com
(parte da Centroflora) assumiu as operações e a perpetuação das espécies medicinais. Pondera-se
expandiu para Carajás, no Pará. No Maranhão, que a mulher, com seu conhecimento a respeito de
empresas como a Quercegen e a Sourcetech modos tradicionais de coleta, preparação, dose e uso,
passaram cultivar e produzir o jaborandi em Barra constituem informação essencial no desenvolvimento
do Corda, extraindo a pilocarpina das folhas, que é de fitoterápicos e representa um exímio artifício na
exportada principalmente para o laboratório alemão busca da conservação e manutenção da diversidade
Boehringer Ingelheim, para a produção de colírios. de espécies medicinais.
Revista A Flora 6 Número 2 - Abril/2021
Artigo de Capa
Biorrefinarias e a sustentabilidade
PARA SABER MAIS:
Biorrefinaria é um conceito moderno de emprego AZEVEDO, C. D. Plantas medicinais e aromáticas.
integral de qualquer biomassa. Similar ao conceito das Niterói: PESAGRO-RIO, 2002.
refinarias de petróleo, que aproveitam do gás ao asfalto,
AZEVEDO, C. D.; MOURA, M. A. Cultivo de plantas
na biorrefinaria a ideia é observar a matéria-prima de medicinais: guia prático. Niterói: Programa Rio Rural,
forma plural e aproveitá-la por completo. Os maiores 2010.
desenvolvimentos nesse sentido ocorreram nas
BRAGA, C. M. Histórico da utilização de plantas medicinais.
bioindústrias em que os rejeitos eram tão volumosos
Monografia (Graduação). Curso de Licenciatura
e agressivos ao meio ambiente que precisavam ser em Biologia a Distância, Universidade de Brasília e
urgentemente transformados em materiais úteis para Universidade Estadual de Goiás, Brasília, 2011.
a sociedade em vez de serem descartados de maneira
CORTELETE, B. C. P. et al. Plantas medicinais e
inadequada. Dentre os quais, vale citar as principais Agroecologia: uma forma de cultivar o saber popular na
indústrias de papel e celulose (e sua imensa quantidade comunidade rural Nossa Senhora da Guia, Cáceres, MT. XI
de ligninas), de cítricos (com os óleos essenciais e Congresso Brasileiro de Agroecologia, v. 15, n. 2, p. 1-6.
flavonoides nas cascas) e canavieira (com rejeitos
EMBRAPA. Mapa, Embrapa e IBGE apresentam os dados
poluentes como a vinhaça). Esse conceito se expandiu sobre mulheres rurais. 16 de março de 2020.
para as indústrias de oleaginosas, da fruticultura, Disponível em: https://www.embrapa.br/busca-de-
entre muitas outras, sobretudo no segmento de noticias/-/noticia/50779965/mapa-embrapa-e-ibge-
apresentam-os-dados-sobre-mulheres-rurais
alimentos, bem como de fármacos e cosméticos. Se
a indústria de bioativos tinha quase que exclusivamente FURLAN, M. R. et al. A reprodução de gênero no cuidado
preocupações relacionadas aos testes com animais e dos quintais no Brasil. Revista Agroalimentaria, v. 23, n.
45, p. 159-173, 2017.
o uso de solventes tóxicos, nos dias de hoje, toda a
indústria presa pela rastreabilidade e no atendimento HAMMER, J.; PIVO, G. The Triple Bottom Line and
a todas as 17 ODS e suas metas, preocupação Sustainable Economic Development Theory and
estendida a todos os fornecedores. Assim, as palavras- Practice. Economic Development Quarterly, v. 31, n. 1, p.
25-36, 2016.
chave no desenvolvimento de bioativos passam por
química verde e sustentável, fortalecimento da cadeia HASENCLEVER, L. et al. A indústria de fitoterápicos
produtiva e de valor, valorização de fornecedores, brasileira: desafios e oportunidades. Ciência & Saúde
comércio justo, transferência de tecnologias para Coletiva, v. 22, p. 2559-2569, 2017.
o campo, uso adequado de água e da energia, IBF. Bioma Mata Atlântica.
envolvimento de cooperativas e comunidades, entre Disponível em: https://www.ibflorestas.org.br/bioma-
muitos outros. mata-atlantica
De forma abrangente, não há mais espaço
JUNIOR, C. C.; SCHEFFER, M. C. Boas práticas agrícolas
para sustentar um “des-envolvimento”. Para um (BPA) de plantas medicinais, aromáticas e condimentares.
crescimento sustentável, todos os atores devem estar Emater, 2013.
envolvidos. Ganha quem se importa.
Revista A Flora 7 Número 2 - Abril/2021
sds1
Artigo
O centenário do Prof. Dr. Walter Baptist Mors
Gilda G. Leitão - Instituto de Pesquisas de Produtos Naturais, UFRJ
O Prof. Walter Baptist Mors nasceu no dia 23 de primeiro artigo da série, Walter e Otto relatam, junto
novembro de 1920, em São Paulo-SP. Portanto, se com o igualmente famoso químico de produtos naturais
ainda estivesse entre nós, teria completado 100 anos Carl Djerassi, o isolamento e identificação estrutural
de vida em 2020. (através de degradação alcalina e infravermelho) da
A carreira científica de Walter Mors se divide em anibina, 1, e da 4-metoxi-paracotoína, 2. No segundo,
duas etapas, ambas como servidor público, no Ministério relatam o isolamento da cotoína, 3, e da pinocembrina,
da Agricultura e na Universidade, e este artigo enfatiza 4, hoje um flavonoide bem conhecido, mostrando sua
seus estudos com produtos naturais. semelhança estrutural com a anibina e a 4-metoxi-
Walter Mors graduou-se em Química em 1942, paracotoína, publicadas anteriormente por eles. Walter
pela Faculdade Nacional de Filosofia, Ciências e e Otto chamam a atenção do leitor sobre a relação
Letras da Universidade de São Paulo, e ingressou no química entre as espécies de Aniba e comentam sobre a
ano seguinte no Instituto Agronômico do Norte, do surpresa no isolamento da pinocembrina, de ocorrência
Ministério da Agricultura, hoje EMBRAPA CEPATU, relativamente comum em espécies do gênero Pinus,
em Belém, no Pará. Foi lá que adquiriu o gosto pela porém, na época, rara nas Angiospermas, e até
Botânica Econômica que cultivou durante toda a vida. aquele momento restrita a madeiras de cerejeiras. Os
Fruto dessa paixão, mais tarde, e em parceria com o cientistas então atentam para o fato da pinocembrina
amigo Carlos Toledo Rizzini, escreveu o livro Botânica estar presente em uma espécie da família Lauraceae
Econômica Brasileira, traduzido para o alemão e para o sugerir uma distribuição mais ampla dessa flavanona
inglês e publicado em duas edições. fora das Coníferas, algo antes impensado. Essa era uma
das características desses dois pesquisadores, pensar
No Instituto de Química Agrícola com Otto R. nas relações moleculares e sistemáticas e não se limitar
Gottlieb: a química do pau-rosa apenas à descrição do isolamento das substâncias.
Em 1947, foi transferido para o Instituto de Química 1 R = OCH3, Ar = 3-piridila;
Agrícola (IQA), no Rio de Janeiro, onde consolidou sua
afeição pela química dos produtos naturais, sempre 2 R = OCH3, Ar = -COC6H5
trabalhando com plantas da Amazônia, junto com Otto (piperonila);
R. Gottlieb, que à época também estava no IQA. Foi
nesse período que também nasceu o seu interesse pelas 5 R=OCH3, Ar = -CH=CHC6H5
relações entre química e sistemática botânica. Ainda
no IQA teve seu primeiro contato com propriedades
biodinâmicas de produtos naturais, assunto que seria
mais tarde aprofundado na Universidade.
Os dois pesquisadores trabalharam com diversas
espécies brasileiras do gênero Aniba (família Lauraceae), de
onde Otto já havia isolado um nitroderivado (o 1-nitro-
2-feniletano) de Aniba rosaeodora Ducke1, o pau-rosa, 3
cujo óleo essencial possui enorme valor comercial até
hoje, sendo usado na indústria da perfumaria, como por
exemplo, no famoso perfume Chanel Nº 5.
Uma série de publicações nos periódicos Journal
of Organic Chemistry2 e Journal of the American
Chemical Society3,4,5, tendo como título The Chemistry
of Rosewood, relata o isolamento e identificação
de alfa-pironas de espécies de plantas exploradas 4
comercialmente na América do Sul como pau-rosa. No
1 de Morais, A.A., Rezende, C.M.A.M., Von Bulow, M.V., Mourão, J.C., Gottlieb, O.R., da Rocha, A.I., Magalhães, M.T. Óleos essenciais
de espécies do gênero Aniba. Acta Amazonica, v.2., n., p.41-44, 1972.
2 Gottlieb, O. R., Mors, W. B. The Chemistry of Rosewood III. Isolation of 5,6-Dehydrokavain and4-Methoxyparacotoin from Aniba
firmula Mez. J. Org. Chem., v.24, n.1, p. 17-18, 1959.
3 Mors, W. B. Gottlieb, O. R., Djerassi, C. The Chemistry of Rosewood. J. Am. Chem. Soc., v.79, p.4507-4511, 1957.
4 Gottlieb, O. R., Mors, W. B. The Chemistry of Rosewood II. J. Am. Chem. Soc., v.80, p.2263-2265, 1958.
5 Herbst, D., Mors, W.B., Gottlieb, WO.R., Djerassi, C. Naturally Occurring Oxygen Heterocyclics. IV. The Methylation of Pyrones. J. Am.
Chem. Soc., v.81, p.2427-2430, 1959.
Revista A Flora 8 Número 2 - Abril/2021
Artigo
1 Na sequência, relatam o isolamento e identificação Nasce o Centro de Pesquisas de Produtos Naturais
de uma estiril-pirona de Aniba firmula (Nees & Mart.) na Faculdade Nacional de Farmácia da Universidade
Mez, a 5,6-desidro-kavaína, 5, semelhante a um do Brasil
produto natural isolado da raiz de uma espécie de Piper
da Polinésia, a P. methysticum G. Forst., ou kava-kava, No final de 1962, começo de 1963, por uma
mudança no Ministério da Agricultura, é extinto o
muito usada até hoje como ansiolítico na fitoterapia.
Instituto de Química Agrícola. A extinção do IQA
Em outra publicação6 confirmam que a estrutura
determinou uma mudança completa na vida de Walter
da substância isolada da raiz de kava e batizada de
Mors e de vários dos seus colegas do mesmo órgão. A
composto A era a mesma estiril-pirona isolada de
convite do Prof. Paulo da Silva Lacaz, à época Professor
Aniba firmula. Vale lembrar aqui que os métodos de Catedrático do Departamento de Bioquímica, parte do
identificação dessa época eram a análise elementar, a grupo se transfere para a Faculdade de Farmácia da
medida do ponto de fusão, e análise de espectros de Universidade do Brasil (UFRJ), onde é criado o Centro
ultravioleta e de infravermelho, além de reações de de Pesquisas de Produtos Naturais.
degradação química. Durante um período de sobreposição (1966-73),
Em 1959, uma publicação na Nature7 busca Walter Mors ainda dirigiu o então criado Centro de
relacionar filogeneticamente os aspectos químicos das Tecnologia Agrícola e Alimentar, do Ministério da
espécies de Aniba, utilizando os dados obtidos sobre Agricultura, como podemos ver na publicação no
as substâncias isoladas nos anos anteriores, dividindo periódico JACS9, em conjunto com Seiva Cascon,
assim as espécies do gênero em dois grupos, conforme Bernard Tursch e colegas de Stanford, onde aparecem
a ocorrência de alfa-pironas com ou sem substituição como afiliações o então criado CPPN e o Centro de
na posição 4 do anel. Essa era uma visão bem incomum Tecnologia do Ministério da Agricultura. O contínuo
à época e já mostrava as ideias de sistemática química interesse do Walter Mors pelas plantas amazônicas é
vegetal de Otto e Walter. mostrado nessa publicação, com a planta Ichthyothere
Um passo importante na vida de Walter Mors, e terminalis S.F.Blake, uma erva usada pelas populações
que pode ser atestado através dessas publicações, foi ribeirinhas da Amazônia para pescar. Esta espécie
ter trabalhado nos anos de 1956 e 1957 como bolsista contém substâncias tóxicas para os peixes, que os
da Fundação Rockefeller, na Wayne State University, pesquisadores identificaram como sendo os derivados
em Detroit, com Carl Djerassi, que seria, daí por acetilênicos ichthyothereol e seus acetatos, cujo
diante, grande impulsionador da química de produtos isolamento e identificação são relatados nesse artigo;
naturais nos seus primórdios no Brasil. Ainda no IQA, a planta era misturada à farinha de mandioca e usada
com Otto, Mauro Taveira Magalhães e pesquisadores como iscas para serem ingeridas pelos peixes, que
morriam em seguida, facilitando assim a pesca. Os
da Universidade de Sheffield (Inglaterra), publicam
autores destacam ainda a natureza química diferente
artigo sobre a ocorrência das aril- e estiril-pironas
das substâncias isoladas dessa planta e das que ocorrem
isoladas de Aniba. Nesse trabalho, são descritos os
nos timbós, plantas do gênero Derris, também utilizadas
três tipos estruturais de aril- e estiril-pironas isoladas
para pescar, por conterem substâncias tóxicas para
anteriormente e mais um quarto tipo, cujas estruturas
os peixes (os rotenoides), e que como veremos mais a
são agora confirmadas por síntese8. Aqui já estamos frente, foram bem estudadas por Mors.
falando do ano de 1971. Foi ainda como CPPN, que em 1967 Walter Mors,
Na sequência histórica, em 1960, Walter obtém e seu aluno de mestrado Miguel Fascio, hoje professor
o título de doutor pela Universidade do Brasil, hoje aposentado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA)
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e o publicaram na prestigiosa revista Science, seus estudos
título de Livre Docente pela mesma Universidade. Aqui com a sucupira-branca, Pterodon emarginatus Vogel
ressaltamos que, como veremos mais à frente, Walter (=P. pubescens (Benth.) Benth.), de onde isolaram o
entrou para a Academia Brasileira de Ciências em 1957, 14,15-epoxi-geranilgeraniol, substância responsável
sendo eleito membro titular em 1959, portanto, antes por impedir a penetração, na pele do hospedeiro, de
de obter o título de doutor, tal a importância de suas cercárias de Schistosoma mansoni, agente causador da
pesquisas. esquistossomose, uma doença endêmica no Brasil10.
6 Gottlieb, O.R. & Mors, W.B., Identity of Compound A from Kava Root with 5,6-Dehydrokavain. J. Org. Chem., v.24, n.10, p.1614-1615,
1959a.
7 Mors, W. B., Gottlieb, O. R. Phylogeny of the Genus Aniba Aubl.-A Comparative Morphological and Chemical Observation. Nature,
v.184, n. 4698, p.1589, 1959.
8 Bittencourt, A.M., Gottlieb, O.R., Mors, W.B., Magalhães, M.T., Mageswaran, S., Ollis, W.D., Sutherland, I.O. The Natural Occurrence
of 6-Styryl-2-Pyrones and their Synthesis. Tetrahedron, v.27, p. 1045-1048, 1971.
9 Cascon, S. C., Mors, W. B., Tursch, B. M., Aplin, R.T., Durham, L. J. Ichthyothereol and Its Acetate, the Active Polyacetylene Constituents
of lchthyothere terminalis (Spreng.) Malme, a Fish Poison from the Lower Amazon. J. Am. Chem. Soc., v.87, n.22, p.5237-5241, 1965.
10 Mors, W.B., dos Santos Filho, M.F. Monteiro, H.J., Gilbert, B. Chemoprophylactic Agent in Schistosomiasis: 14,15-Epoxygeranylgeraniol.
Science, v. 157, n.3791, p.950-951, 1967.
Revista A Flora 9 Número 2 - Abril/2021
Artigo
1 Assim, mostraram o potencial profilático dessa Estudos com Flavonoides
planta no combate a essa doença negligenciada.
Walter Mors, sempre dedicado ao NPPN, ali
Ainda com Miguel Fascio, agora já como professor da deixou sua marca e um grande legado à química dos
Universidade Federal da Bahia (UFBA), publicam em produtos naturais. Muitos de seus trabalhos voltaram-
197611, a continuação do trabalho com quatro espécies se ao isolamento de flavonoides, sempre estudando
de Pterodon, relatando o isolamento de diversos plantas da medicina tradicional brasileira ou usadas
diterpenos furânicos, com uma extensa descrição de por índios e populações da Amazônia, como é o caso
dados de ressonância magnética nuclear (RMN) das dos timbós do gênero Derris, que trabalhou com Maria
substâncias isoladas. Celia do Nascimento e José Paz Parente. Uma série de
publicações no conceituado periódico Phytochemistry
O CPPN se transforma em NPPN relata o isolamento e identificação de flavonoides,
isoflavonoides, rotenoides e chalconas dessas
Em 1975, o CPPN foi transferido para o campus plantas. Na publicação de 197212, os autores relatam
da Ilha do Fundão, onde, em 1976, oficializado pelo o isolamento de uma chalcona inédita, a derricidina,
Conselho Universitário, passou a ser um Órgão além de duas chalconas anteriormente isoladas de
Suplementar e ter status de Núcleo, passando então a Lonchocarpus sericeus (Poir.) Kunth ex DC. (= Derris
se chamar Núcleo de Pesquisas de Produtos Naturais, sericea (Poir.) Ducke), e sua transformação em meio
já que, segundo o Reitor à época, Luiz Renato Caldas, ácido, para as flavanonas correspondentes. Nesse
não poderia existir um Centro dentro de outro Centro artigo são discutidos dados de RMN das substâncias
(no caso, o Centro de Ciências da Saúde, onde está isoladas e dados de fragmentação por espectrometria
de massas para diferenciação entre os pares chalcona-
localizado até hoje o IPPN).
flavanona. Na publicação com a espécie Dahlstedtia
Na Figura 1 podemos ver o Prof. Walter e sua esposa,
araripensis (Benth.) M.J.Silva & A.M.G.Azevedo (=
D. Haydée, que foi quem desenhou o logotipo do NPPN.
Derris araripensis (Benth.) N.F.Mattos)13, Walter e Maria
A planta representada no logo é a ipecacuanha, planta Celia descrevem o isolamento e identificação de nove
medicinal bastante importante da América do Sul e cuja flavonoides, sendo oito descritos pela primeira vez na
exploração predatória quase a levou a extinção. literatura. As estruturas foram identificadas por dados
espectroscópicos e espectrométricos e por degradação
química. Estudos com Derris spruceana (Benth.)
A.M.G.Azevedo & R.A.Camargo14 levaram, dessa vez,
os autores a isolar isoflavonoides e cumestanos.
Já no gênero Dahlstonia, os autores descrevem o
isolamento e identificação de flavonoides prenilados,
formando anéis de cinco e de seis membros adicionais
às estruturas dos flavonoides15.
Com Maria Célia do Nascimento, Benjamin Gilbert,
Keith Brown, José Paz Parente (que foi seu aluno de
mestrado no CPPN), dentre outros colaboradores,
Walter publica uma série de artigos nos Anais da
Fig. 1. Logotipo do NPPN criado e desenhado por D. Haydée Mors, esposa Academia Brasileira de Ciências, sobre o isolamento
do Prof. Walter B. Mors (foto à direita, cedida por seu neto Luiz Mors).
e atividade biológica de flavonoides16-20 (incluindo a
descrição das derriobtusonas A e B, 6 e 7, os primeiros
11 Fascio, M., Mors, W.B., Gilbert, B., Mahajan, J.R., Monteiro, M.B., dos Santos Filho, D., Vichnewski, W. Diterpenoid Furans from
Pterodon Species. Phytochemistry, v.15, p.201-202, 1976.
12 do Nascimento, M.C., Mors, W. B., Chalcones of the Root Bark of Derris sericea. Phytochemistry, v.11, p;3023-3028, 1972.
13 do Nascimento, M.C., Mors, W. B., Flavonoids of Derris araripensis. Phytochemistry, v.20, p.147-152, 1981.
14 Garcia, M., Kano, M.H.C., Vieira, D.M., Nascimento, M.C., Mors, W.B. Isoflavonoids from Derris spruceana. Phytochemistry, v.25, n.10.,
p. 2425-2427, 1986.
15 Garcez, F. R., Scramin, S., Nascimento, M. C., Mors, W. B. Prenylated Flavonoids as Evolutionary Indicators in the Genus Dahlstedia.
Phytochemistry, v.27., n.4, p.1079-1083, 1988.
16 do Nascimento, M. C., Mors, W. B. New Reactions of Chalcones from Derris sericea. An. Acad. Bras. Cienc., v. 43, n.3-4, p.831, 1971.
17 de Oliveira, M. M., Mors, W. B., Gilbert, B. Tumor Inhibiting Action of Condensed Flavanoids. An. Acad. Bras. Cienc., v. 43, n.3-4, p.832,
1971.
18 de Oliveira, M. M., Sampaio, M. R. P., Simon, F., Gilbert, B., Mors, W. B. Antitumor Activity of Condensed Flavanols. An. Acad. Bras.
Cienc., v. 44, n.1, p.41-44, 1972.
19 do Nascimento, M. C., Mors, W. B. Flavonoids of Derris araripensis. An. Acad. Bras. Cienc., v.52, n.1., p. 187, 1980.
20 Mors, W. B., do Nascimento, M. C., Rodrigues, F., Scramin, S. Flavonoids from the Genus Dahlstedtia - A Contribition Using
Chemosystematics of Tephrosieae. An. Acad. Bras. Cienc., v.55, n.1, p.142, 1983.
Revista A Flora 10 Número 2 - Abril/2021
Artigo
auronóis naturais descritos na literatura21,22, de
1 a piperovatina, responsável pela ação analgésica da
saponinas23,24 e de outros produtos naturais de plantas planta33.
da flora brasileira25-28, prestigiando assim o excelente
periódico da Academia da qual havia se tornado Estudos com plantas antiofídicas: o carro-chefe do
membro titular em 1959. NPPN nos anos 1980-1990
Walter Mors implantou no NPPN linhas de pesquisa
que até hoje são inspiradoras nessa Instituição.
Destacam-se, nessas linhas, os estudos sobre plantas
usadas contra picadas de cobra, conhecidas como
“antiofídicas”.
Em 1991, Walter Mors publica uma nota no
periódico Memórias do Instituto Oswaldo Cruz34,
contando a história de como ressurgiu o interesse,
nos anos 80, em plantas da medicina popular usadas
6 R1 = R2 = H
como antiofídicas. Conta ele que esse interesse foi
7 R1+R2 = -O-CH2-O
fruto de uma publicação pelo grupo do renomado Koji
Nakanishi, da Universidade de Columbia em Nova
Iorque, sobre o isolamento de duas substâncias ativas
Com José Paz Parente, formou um grupo de
de uma espécie de garrafada, um elixir preparado no
pesquisa, cujos estudantes mais tarde se tornariam
nordeste do Brasil e chamado Específico Pessoa, que era
professores não só do IPPN (Bernadete Pereira da
Silva; Ricardo Machado Kuster, hoje transferido para usado contra picadas de cobra. À época, o anúncio da
a UFES), mas também de outras instituições (Leda atividade biológica das cabenegrinas AI e AII, 8 e 9, em
Mathias, UENF; Bettina M. Ruppelt, UFF). Com esse um congresso mundial de química de produtos naturais
grupo aprofundou estudos sobre rotenoides de Clitoria causou enorme rebuliço na comunidade científica e
fairchildiana R.A.Howard29,30, furanocumarinas de o ressurgimento do interesse por essas plantas tidas
Dorstenia31, e sobre os constituintes da planta medicinal como antiofídicas. Nessa nota, Walter fala ainda de
quebra-pedra (gênero Phyllanthus)32, dentre outras. seus trabalhos com a erva-botão, Eclipta prostrata (L.)
Outra aluna de mestrado de Walter Mors no NPPN, L., e dos trabalhos de João Batista Calixto, professor
que também se tornou professora da instituição, foi atualmente aposentado da Universidade Federal
Sonia Soares Costa. Juntos trabalharam a planta Piper de Santa Catarina (UFSC), com a planta Mandevilla
corcovadense (Miq.) C.DC. (= Ottonia corcovadensis pohliana (Stadelm.) A.H.Gentry (= M. velutina (A.DC.)
Miq.), uma Piperaceae cujas raízes são usadas como Woodson), uma Apocynaceae de onde foi isolada a
mastigatório na medicina popular para aliviar dores primeira substância natural antagonista de bradicinina,
de dente. Dessa planta, isolaram 5 amidas, dentre elas um potente agente pró-inflamatório.
21 do Nascimento, M. C., Vasconcellos Dias, R. L. D., Mors, W. B. Derriobtusones A and B - 1st Examples of Natural Auronols. An. Acad.
Bras. Cienc., v. 48, n.2, p.354-355, 1976.
22 do Nascimento, M. C., Vasconcellos Dias, R. L. D., Mors, W. B. Flavonoids of Derris obtuse: Aurones and Auronols. Phytochemistry, v.15,
p.1553-1558, 1976a.
23 Parente, J. P. e Mors, W.B. Phytochemical Study of Pediandra puvalu. An. Acad. Bras. Cienc., v. 52, n.2, p. 428, 1980.
24 Parente, J. P., Mors, W. B., Derrissaponin, New Hydrophilic Constituent from Timbó-Urucú. An. Acad. Bras. Cienc., v. 52, n.3., p. 503-
514, 1980a.
25 Brown, K. S., Baker, P. M., Mors, W. B., Weiss, U. Ortho and Para Naphthoquinone Methides. An. Acad. Bras. Cienc., v.43, n.3-4, p. 831,
1971.
26 dos Santos, D., Gilbert, B., Vichnewski, W., Mors, W. B., Baker, P. M. Prophylaxis of Schistosomiasis - Diterpenes From Pterodon
pubescens Benth. An. Acad. Bras. Cienc., v.43, n.3-4, p.832, 1971.
27 Cascon, S. C., Brown, K. S., Mors, W. B. Triterpenes of Biogenic Importance in Cabralea polytricha A. Juss. (Meliaceae). An. Acad. Bras.
Cienc., v. 43, n.3-4, p. 831, 1971.
28 Gilbert, B., Mors, W. B., Baker, P. M., Tomassini, T. C. M., Coulart, E. G., Holanda, J. C. D., Costa, J. A. R. D., Lopes, J. C. D., dos Santos
Filho, D., Sarti, S. J., Turco, A. M. T., Vichnewski, W., Lopes, J. L. C., Thames, A. W., Pellegrino, J., Katz, E. N. Anthelmintic Activity of Essential
Oils and Their Chemical Components. An. Acad. Bras. Cienc., v. 44, n. S, p. 423-428, 1972.
29 Mathias, L. M., Mors, W. B., Parente, J. P. Rotenoids from Seeds of Clitoria fairchildiana. Phytochemistry, v.48, n.8, p.1449-1451, 1998.
30 Mathias, L. M., da Silva, B. P., Mors, W. B., Parente, J.P. Isolation and Structural Elucidation of a Novel Rotenoid from the Seeds of
Clitoria fairchildiana. Nat. Prod. Res., v.19, n.4, p.325-329, 2005.
31 Kuster, R. M., Bernardo, R. R., da Silva, A. J. R., Parente, J. P., Mors, W. B. Furocoumarins from the Rhizomes of Dorstenia brasilzenszsis.
Phytochemistry, v.36, n.1, p.221-223,1994.
32 Kuster, R. M., Mors, W. B., Wagner, H. Cyclohexenyl Butenolides from Phyllanthus klotzschianus. Biochem. Syst. & Ecol., v. 25, n.7,
p.675, 1997.
33 Costa, S. S., Mors, W. B. Amides of Ottonia corcovadensis. Phytochemistry, v. 20, n.6, p. 1305-1307, 1981.
34 Mors, W. B. Plants Against Snakebites. Mem. Inst. Oswaldo Cruz, v.86, Suppl. II, p.193, 1991.
Revista A Flora 11 Número 2 - Abril/2021
Artigo
1 Com Nuno, colaboradores do NPPN e do
Departamento de Farmacologia da UFRJ, publicou
diversos artigos sobre o tema, por exemplo, sobre a
triagem farmacológica de plantas recomendadas na
medicina popular como antídotos para envenenamento
por picada de cobra35. Nessa publicação são descritos
os efeitos de proteção contra o veneno de jararaca por
15 substâncias isoladas dessas plantas e pertencentes a
diversas classes de produtos naturais. Em outro artigo,
8 de revisão36, Walter Mors, Nuno Alvares Pereira e Renato
de Siqueira Jaccoud, este último Professor Catedrático
da cadeira de Farmacognosia da Faculdade de Farmácia
da UFRJ, fazem uma revisão sobre o uso histórico de
plantas usadas como antídotos para veneno de cobras,
citando inclusive Plínio, o Velho (78 AC), que dedicou
um capítulo inteiro de sua obra Naturalis Historia, a
esse tema. Na sequência de trabalhos com plantas
9
antiofídicas, publica, sempre com Nuno Alvares Pereira
e Maria Célia do Nascimento, artigo37 em que discutem,
a nível molecular, a ação de produtos naturais isolados
Nessa publicação, Walter comenta ainda a de diversas fontes vegetais, na neutralização do veneno
impressionante coincidência da Eclipta prostrata de jararaca.
também ser usada na medicina tradicional chinesa. Parte importante dos trabalhos com plantas
Este tema, que foi carro-chefe das pesquisas antiofídicas são os estudos com as substâncias ativas
no NPPN durante muito tempo, até hoje inspira de Eclipta prostrata, na neutralização da atividade
seus pesquisadores, tanto na área da fitoquímica miotóxica do veneno de cascavel, com os professores
quanto na área da síntese orgânica. Como grande Maria Helena da Silva (Instituto de Microbiologia Prof.
parceiro nesses estudos, figura o Prof. Nuno Alvares Paulo de Góes, UFRJ), Paulo Assis Melo e Guilherme
Pereira (Figura 2), do Departamento de Farmacologia Suarez-Kurtz, à época, docentes do Instituto de
do Instituto de Ciências Biomédicas da UFRJ. Ciências Biomédicas da UFRJ. O grupo do NPPN isola
as substâncias ativas - a wedelolactona, 10, o sitosterol
e o estigmasterol38. Nessa publicação, o grupo descreve
a inibição dos efeitos miotóxico e hemorrágico pelos
extratos de E. prostrata. Na sequência de artigos com
essa planta, descrevem o efeito antagônico de seus
constituintes sobre a miotoxina de cascavel e seus
efeitos hemorrágicos39,40.
10
Fig. 2. Walter B. Mors (à esquerda) e Nuno Álvares Pereira (à direita) na festa
de inauguração da Sala Walter Mors, no NPPN (foto Orbino Cosme, Arquivo
Institucional, IPPN/UFRJ).
35 Pereira, N. A., Pereira, B. M., do Nascimento, M. C., Parente, J. P., Mors, W. B. Pharmacological Screening of Plants Recommended
by Folk Medicine as Snake Venom Antidotes; IV. Protection Against Jararaca Venom by Isolated Constituents. Planta Med., v.60, n.2, p.99-100,
1994.
36 Pereira, N. A., Jacoud, R. J. S., Mors, W. B. Triaga Brasilica: Reviewed Interest in a Seventeenth-century Panacea. Toxicon, v.34, n.5,
p.511-516, 1996.
37 Mors, W. B., do Nascimento, M. C., Pereira, B. M. R., Pereira, N. A. Plant natural products active against snakebite - the molecular
approach. Phytochemistry, v.55, p. 627-642, 2000.
38 Mors, W. B., do Nascimento, M. C., Parente, J. P., da Silva, M. H., Melo, P. A., Suarez-Kurtz, G. Neutralization of Lethal and Myotoxic
Activities of South American Rattlesnake Venom by Extracts and Constituents of the Plant Eclipta prostrata (Asteraceae). Toxicon, v.27, n.9,
p.1003-1009,1989.
39 Melo, P. A., Mors, W. B., do Nascimento, M. C., Suarez-kurtz, G. Antagonism of the Myotoxin and Hemorrhagic Effects of Crotalidae
Venoms by Eclipta prostrata Extracts and Constituents. J. Eur. Pharmacol., v.183, n.2, p.572-573, 1990.
40 Melo, P. A., do Nascimento, M. C., Mors, W.B., Suarez-Kurtz, G. Inhibition of the Myotoxic and Hemorrhagic Activities of the Crotalid
Venoms by Eclipta prostrata (Asteraceae) Extracts and Constituents. Toxicon, v. 32, n.5, p.595-603, 1994.
Revista A Flora 12 Número 2 - Abril/2021
Artigo
1 Ainda com os amigos de sempre Nuno A. Pereira e "Cultivos Pioneiros" do Conselho Nacional de
Carlos Toledo Rizzini, escreveu o livro Medicinal Plants Desenvolvimento Científico e Tecnológico-CNPq.
of Brazil (Fig. 3). Seu mérito científico foi reconhecido através da
condecoração com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do
Mérito Científico, em setembro de 1994, e da medalha
Simão Mathias, outorgada, em 2001, pela Sociedade
Brasileira de Química. A SBQ, reconhecendo ainda seu
valor científico, criou uma medalha com seu nome,
a Medalha Walter Mors, que vem sendo concedida a
pesquisadores de renome no Brasil, na área da Química.
Walter B. Mors foi um pioneiro ao perceber, ainda
nos anos 50, a importância de uma visão multidisciplinar
da pesquisa com plantas, permeando aspectos da
Botânica, Química e Farmacologia, unindo químicos,
farmacêuticos, botânicos e farmacólogos.
Suas publicações atingem um número considerável
de citações, sendo 380 para o livro mostrado na Figura
3 (Medicinal Plants of Brazil), e mais de 200 citações
para os artigos relacionados a plantas antiofídicas.
No dia 6 de outubro de 2008 falece nosso querido
professor.
Ângelo da Cunha Pinto, em editorial sobre a vida de
Walter Mors na revista Química Nova41, cita um de seus
ex-alunos, o Prof. Lauro Barata, que afirma que Walter
havia criado o conceito de rede, trabalhando sempre
de maneira multidisciplinar e integrada, focando em
pesquisas que evidenciassem o potencial de nossa rica
flora.
O pioneirismo de Walter Mors na química de
produtos naturais no Brasil o coloca para sempre na
história da ciência brasileira.
Fig. 3. Os amigos Walter B. Mors (acima, à esquerda) e Nuno A. Pereira
(abaixo, à esquerda), acima à direita a capa do livro publicado com
Carlos Toledo Rizzini, e abaixo, palavras do amigo Nuno A. Pereira,
em entrevista à Associação Brasileira de Farmacêuticos, disponível em
http://www.ivfrj.ccsdecania.ufrj.br/ivfonline/edicao_0041/prof_nuno.html
(montagem cedida por Paulo Assis Melo).
Honrarias
Walter Mors integrou inúmeros Conselhos e PARA SABER MAIS:
Grupos de Trabalho, entre eles o grupo de trabalho V Jornada Fluminense de Produtos Naturais, IPPN/UFRJ,
sobre Plantas Tropicais Subaproveitadas de Valor 2020.
Econômico Promissor, da National Academy of Sciences Disponível em: https://www.youtube.com/results?search_
dos Estados Unidos. query=V+Jornada+fluminenese+de+produtos+naturais
Coordenou o grupo de trabalho internacional para
elaboração do Programa Interciência de Recursos Agradecimentos: ao Prof. Paulo Assis Melo, UFRJ, pelas informações sobre o
Biológicos e, ainda, o Grupo Assessor do Programa número de citações dos artigos e pela cortesia no envio da Figura 3.
41 Pinto, A. C., Walter Baptist Mors. Quím. Nova, v.31, n.8, p.2227, 2008.
Revista A Flora 13 Número 2 - Abril/2021
Artigo de Extensão
Ervanaria:
1
uma possibilidade para a Fitoterapia no SUS
Ana Carla Koetz Prade - Farmacêutica, Coordenadora dos programas Farmácia Viva e Centro Municipal de Práticas
Integrativas no SUS de São Bento do Sul, SC
Desde 2006 o Brasil conta com uma Política Nacional fitoterápicos, até Unidades de Saúde que possuem
de Plantas Medicinais e Fitoterápicos (PNPMF)1, a qual pequenas hortas de plantas medicinais para suas
define e propõe ações nas diversas áreas que contemplam a atividades coletivas de educação permanente em
fitoterapia. Conectando saberes tradicionais, que são saúde. Nota-se que o gerenciamento destas ações
os caminhos que conduzem esta alternativa de cuidado, pode estar em diferentes âmbitos: desde diretrizes de
secretarias estaduais de saúde até à gerência direta
às orientações técnicas e científicas, a PNPMF surgiu
das Unidades de Saúde (enfermeiras responsáveis),
para consolidar a fitoterapia como parte importante podendo a fitoterapia não ser uma unanimidade
da medicina tradicional do nosso país. Desenvolvida em todas as unidades de um mesmo município.
sobre alicerces práticos e não apenas sobre normativas Neste contexto, percebe-se um sentimento de
determinadas a partir de deliberações, esta política desalento por parte dos municípios que decidem inserir
tomou como base exemplos de municípios e estados a fitoterapia e suas ações na RAS. Há falta de diretrizes
que, pelo esforço conjunto de profissionais de saúde concretas e de um protocolo objetivo de ações de
engajados e colegas do meio acadêmico, instituíram implementação. A ausência de financiamento próprio
em suas rotinas de atendimentos a fitoterapia como para trabalhar com as Práticas Integrativas inviabiliza
recurso terapêutico aos usuários do SUS, em meados muitas ações, que dependem da compra de insumos
básicos para realização das atividades mais simples.
da década de 80 e 90. Desta forma, construiu-se uma
A via de financiamento federal é através de editais
política que visa atender tanto as questões técnicas que contemplam ações de custeio de implementação,
relativas à toda cadeia produtiva de plantas medicinais porém estes editais não preveem recursos para
quanto às questões de implementação da fitoterapia manutenção dos serviços, o que acaba por desmotivar
no âmbito do SUS e o acesso da população a este a maioria dos gestores e profissionais de saúde.
recurso terapêutico na Rede de Atenção à Saúde (RAS). Outra questão que merece consideração é a carência de
Quando se discute o acesso da população às formação e preparo de grande parte dos profissionais
plantas medicinais e fitoterapia no SUS, é importante de saúde no que diz respeito à fitoterapia como recurso
ressaltar que a fitoterapia é reconhecida dentro do terapêutico. A redução de carga horária de disciplinas
Sistema Único e pelo Ministério da Saúde como uma como Farmacognosia e Botânica impactou os
estudantes de Farmácia, restringindo o aprofundamento
Prática Integrativa e Complementar (PIC). As Práticas
nestas matérias tão necessárias para o entendimento
Integrativas e Complementares em saúde, denominadas da fitoterapia e sua aplicação. A grande parte das
pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como faculdades de saúde não possuem Práticas Integrativas e/ou
medicinas tradicionais e complementares, foram Fitoterapia em suas grades curriculares, dificultando
institucionalizadas no SUS por meio da Política Nacional o entendimento dos futuros profissionais sobre estes
de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC)2. recursos e suas potencialidades. Apesar dos cursos de
Há diferenças significativas de gerenciamento entre capacitação oferecidos pelo Ministério da Saúde em sua
os municípios e estados que já possuem programas plataforma AVASUS, percebe-se ainda uma carência de
de fitoterapia em andamento em seus sistemas bases e rotinas clínicas que assegurem aos profissionais
públicos de saúde. Uma vez que a implementação a possibilidade de inserir as plantas medicinais e
os fitoterápicos como um recurso complementar
da PNPMF é descentralizada, sugerindo que cada
em suas rotinas de cuidados com os pacientes.
local realize a organização das ações e serviços A visível descentralização da fitoterapia e dos
conforme a sua realidade, uma gama de possibilidades modelos de inserção no Brasil levou o município de São
de trabalho surge desta “abertura”. Os modelos Bento do Sul, localizado no planalto norte de Santa
adotados pelos estados e municípios vão desde Catarina, a criar uma metodologia própria para produzir
farmácias de manipulação públicas, que produzem plantas medicinais, beneficiá-las (transformando-as em
1 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos, Departamento de Assistência Farmacêutica.
Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. Brasília: Ministério da Saúde, 2006.
2 BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Assistência à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Política Nacional de Práticas
Integrativas e Complementares no SUS: PNPIC-SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2006.
Revista A Flora 14 Número 2 - Abril/2021
Artigo de Extensão
droga vegetal) e dispensá-las à população. O trabalho a pulverização do material vegetal desidratado,
iniciou em 2017 com a construção de canteiros contendo partindo do princípio de que o processo de redução do
as espécies escolhidas através de um levantamento tamanho do material reduz o tempo de validade do
etnobotânico. Os atendimentos de fitoterapia eram produto final (maior exposição dos princípios ativos). Ao
realizados nas hortas, com a dispensação da planta término do processo são realizados testes de qualidade
in natura. O crescimento da demanda por plantas organolépticos, testes macroscópicos da droga vegetal,
sazonais despertou a necessidade de desidratar estas perda por dessecação e alguns lotes foram testados
espécies para garantir o fornecimento durante o qualitativamente quanto a presença dos princípios
período em que elas não estariam disponíveis. Além ativos. A droga vegetal é armazenada em potes de PVC
disto, a colheita consciente, com o objetivo de atender escuro na sala de dispensação. Cada colheita e processo
os padrões particulares de cada espécie para garantir de secagem resulta em um lote de produção daquela
o máximo de metabólitos secundários de interesse
determinada espécie.
terapêutico, também reiterava a necessidade de
desidratar as espécies cultivadas ou colhidas em campo. A B
Desta forma, a coordenação do programa de
fitoterapia, intitulado Farmácia Viva, chegou, então, à
idealização de uma estrutura para o beneficiamento das
espécies de interesse terapêutico. Após uma supervisão
conjunta com a Vigilância Sanitária Municipal (VISA) do
local onde seriam beneficiadas as plantas medicinais,
algumas reformas foram realizadas e chegou-se a um
modelo estrutural para realizar as etapas do processo de
triagem, secagem e armazenamento. Após a reforma,
o local recebeu a denominação de Ervanaria pela VISA
e passou a operar com as seguintes atribuições do
CNAE 11099-6/05 (cód. 320): “Beneficiamento de chá,
mate e ervas para infusão. Estabelecimento fabril no
qual se exercem atividades de beneficiamento de chá,
de mate e/ou de outras ervas para infusão”. Dentro
desta atribuição, o município fica apto a desidratar
espécies vegetais neste local e o acesso a estes chás
C D
passou a ser regulado pela coordenação do programa.
O termo Ervanaria foi citado legalmente pela
primeira vez na Lei nº 5.991/73, sendo classificado
como local de venda de plantas medicinais
desidratadas. Atualmente o termo pode ser ampliado
para locais de produção, venda e/ou dispensação
de plantas medicinais secas, na forma de droga
vegetal. As legislações que regulamentam os
programas de fitoterapia não referenciam a expressão
“Ervanaria”, portanto o termo foi adotado pelo
município por contemplar a legislação de 1973 e por
compilar as funcionalidades do CNAE 11099-6/05.
A Ervanaria construída por São Bento do
Sul é constituída por quatro ambientes: sala de
paramentação, sala de secagem da planta medicinal,
sala de triagem, manipulação e controle de qualidade e
sala de armazenamento/dispensação. A desidratadora Ambientes da Ervanaria de São Bento do Sul: (A) Sala de secagem da planta
de plantas medicinais foi construída artesanalmente medicinal; (B) Sala de manipulação; (C) Sala de armazenamento; (D) Área de
segundo os parâmetros indicados pela Embrapa e dispensação. Fonte: acervo da autora.
possui controle de umidade e temperatura (através
Apesar de não estar configurada como uma Farmácia
de um termo-higrômetro) para monitoramento do
processo de secagem. A desidratadora é aquecida por Viva aos rigores da Resolução - RDC Nº 18, de 3 de abril de
um aquecedor elétrico com produção de ventilação e 2013, com Autorização de Funcionamento Especial
a temperatura durante a secagem pode ser ajustada (AFE) emitida pela ANVISA, o modelo adotado por São
entre 40-55 ºC. As plantas são dispostas em bandejas Bento do Sul consegue contemplar as prescrições de
com telas para promover a circulação do ar aquecido fitoterapia. Para controle dos processos foram adotadas
por toda a matéria-prima vegetal. Não é realizada medidas de monitoramento, como o Manual de Boas
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Práticas e o de Procedimento Operacional Padrão, qualidade, segurança e, principalmente, baixo custo.
além do fluxograma de processos e rastreamento de Criar alternativas que a própria Política Nacional de
produtos, produção de lotes descritivos e controle de Plantas Medicinais e Fitoterápicos enseja, quando
qualidade de material vegetal desidratado. A dispensação se refere a sua descentralização, deixa uma lacuna
destes produtos está sob a orientação do farmacêutico aberta para adaptá-la conforme as necessidades dos
e as receitas são arquivadas no estabelecimento, além municípios e estados.
de estarem igualmente disponíveis para consulta no
Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC). As plantas
cultivadas pelo município são provenientes de hortas
comunitárias e as espécies nativas são coletadas em
áreas de preservação ambiental que possuem convênio
com a prefeitura. O acesso aos produtos da ervanaria
é possível após o usuário passar por uma consulta
em fitoterapia, agendada por encaminhamento de
profissionais de saúde da RAS ou por livre demanda
no Centro Municipal de Práticas Integrativas, local
onde ocorrem os atendimentos. A prescrição das
plantas é inserida de forma complementar no contexto
terapêutico do paciente.
No SUS as questões financeiras são um dos gargalos
do desenvolvimento e manutenção de serviços, em
particular ao que tange às Farmácias Vivas (a rigor do
conceito). Além da questão financeira, normativas e
regulações carregadas de processos extremamente Horta da Ervanaria de São Bento do Sul-SC.
Fonte: acervo da autora.
complexos e com alto custo (como doseamentos e
análises laboratoriais) desestimulam os profissionais. A
qualidade é uma questão de suma importância em todas
as etapas da cadeia produtiva e criar metodologias
acessíveis e práticas se faz igualmente necessário.
A questão do uso racional e orientado das plantas
medicinais não está em congruência com o acesso aos
seus produtos e serviços. Neste contexto, se os chás/
drogas vegetais não forem produzidos pelos municípios,
o cidadão continuará consumindo e comprando em
qualquer local que venda estes produtos, muitas vezes sem
o mínimo de critério de qualidade. Desta forma, São
Bento do Sul mostra em sua experiência prática que
Calêndula e alcachofra cultivadas na Ervanaria.
é possível trabalhar a fitoterapia no âmbito do SUS com Fonte: acervo da autora.
PARA SABER MAIS:
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Ciência, Tecnologia e Insumos Estratégicos. Departamento de Assistência Farmacêutica
e Insumos Estratégicos. Programa Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos. 1. ed., 2. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde,
2015.
Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Manual de implantação de serviços
de práticas integrativas e complementares no SUS. Brasília: Ministério da Saúde, 2018.
Figueredo, C. A.; Gurgel, I. G. D.; Gurgel Junior, G. D. A Política Nacional de Plantas Medicinais e Fitoterápicos: construção,
perspectivas e desafios. Physis, v. 24, n. 2, p. 381-400, 2014.
Saad, G. A.; Léda, P. H. O.; Sá, I. M.; Seixlack, A. C. C. Fitoterapia Contemporânea: Tradição e Ciência na Clínica Prática. 2 ed. Rio
de Janeiro: Guanabara Koogan, 2016.
Santos, R. L.; Guimarães, G.P., Nobre, M. S. C.; Portela, A. S. Análise sobre a fitoterapia como prática integrativa no Sistema
Único de Saúde. Revista Brasileira de Plantas Medicinais, v. 13, n. 4, 486-491, 2011.
Revista A Flora 16 Número 2 - Abril/2021
Experiências
Extração e identificação do mentol da hortelã e de balas
Fernando B. da Costa, Beatriz C. de Souza e Walter Lopes
Faculdade de Ciências Farmacêuticas de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, Ribeirão Preto, SP
A importância do mentol Na Figura 2 encontra-se
o material básico necessário
O mentol é uma substância natural da classe dos para esse experimento. Após
monoterpenos que está presente no óleo volátil de serem realizadas as extrações
algumas espécies de hortelã, conferindo-lhes o aroma do óleo volátil e das balas,
e sabor mentolado típicos, e por isso é amplamente procede-se a análise por meio
utilizado como aromatizante em medicamentos, da CCD, utilizando sílica gel
produtos de higiene bucal, gomas de mascar e balas. (folhas de alumínio, Merck)
Neste experimento, extraímos o mentol presente na como fase estacionária e
hortelã e em balas de menta. Para identificar o mentol, fase móvel composta por
utilizamos a cromatografia em camada delgada (CCD), que tolueno:acetato de etila
é um método de separação de substâncias baseado na (93:7), a qual foi colocada
diferença de afinidade das moléculas entre duas fases, previamente na cuba
uma fixa (fase estacionária) e outra móvel (fase móvel). cromatográfica contendo
Fig. 2 Material básico a ser
empregado na análise do mentol.
papel de filtro para promover
Materiais e Métodos sua saturação. As amostras
foram aplicadas com capilares de vidro demarcados na
O óleo volátil de hortelã investigado neste base da placa e, após a eluição, o anisaldeído sulfúrico
experimento foi extraído por hidrodestilação a partir foi usado como revelador, sendo aplicado na placa com
de 25 g de folhas secas de hortelã-pimenta (Mentha x borrifador, seguido de aquecimento em estufa. Um
piperita L., Lamiaceae) utilizando aparato de Clevenger secador de cabelo em alta temperatura pode substituir a
como mostrado na Figura 1. Para a montagem desse estufa nesse processo, assim como o uso de um algodão
aparato, são necessários um condensador especial onde para delicadamente se espalhar o revelador na placa.
o óleo e a água condensados ficarão retidos, um balão de
fundo redondo de 500 mL, onde a planta fica em contato O que acontece no experimento?
com a água em ebulição, e uma manta aquecedora,
além de garras e suporte. Na hidrodestilação, o Na Figura 3 é possível visualizar a placa de CCD após
material vegetal fica em contato direto com a água sua revelação contendo as seguintes amostras: padrão
(adicionada até a metade do balão) e, assim, o óleo volátil autêntico de mentol (1), óleo volátil extraído da hortelã
(2) e material extraído da bala (3).
é destilado juntamente com a água. Em seguida, o óleo
é condensado e posteriormente separado da água, por Comparando-se as duas
diferença de densidades, abrindo-se a torneira na base amostras obtidas com o padrão
inferior do cano do aparato para retirar apenas o óleo. de mentol (1), é possível
observar sua nítida mancha
Já o preparo do material azul na amostra de bala (3),
a ser identificado das balas foi e uma mancha mais clara
feito triturando-se duas balas de entre duas manchas azuis
menta (Halls Extra Forte preto) escuras, referente ao mentol,
em gral com pistilo. Depois no óleo volátil extraído por
hidrodestilação da hortelã (2).
são adicionados 30 mL de água Observa-se que o óleo volátil
destilada medidos em proveta de possui outros constituintes
50 mL, que então são transferidos além do mentol. O valor da
para um funil de separação de 250 razão da distância de migração
mL. O gral onde estavam as balas do mentol pela distância 1 2 3
é lavado por duas vezes com 10 percorrida pela fase móvel
mL de éter dietílico, reunindo-se (entre o ponto de partida das Fig. 3. Placa de CCD
após revelação.
essas frações à mistura do funil amostras e o final da eluição
Fig. 1. Aparato de Clevenger.
de separação. - ou frente de solvente) é de aproximadamente 0,30.
A camada etérea, que fica na parte superior do Essa razão representa o fator de retenção (Rf) do mentol
funil devido à sua menor densidade, é separada em neste experimento, que demonstra que o mentol teve
um erlenmeyer de 50 mL, e nela adiciona-se pequena maior afinidade pela fase estacionária do que pela fase
quantidade de agente dessecante (Na2SO4), seguido de móvel.
agitação vigorosa por alguns segundos. Essa solução é Com este experimento simples e fácil de se montar
filtrada em um funil de vidro com papel de filtro comum em um laboratório, além de rápido de executar, é possível
e depois transferida para um béquer de vidro de 50 efetuar uma etapa importante do controle de qualidade
mL, que é então colocado em banho-maria em capela de óleos voláteis e de produtos industrializados que
de exaustão para evaporar o éter. O resíduo seco é contém algumas de suas substâncias, podendo ser
ressuspendido em 1 mL de tolueno com ajuda de uma adaptado a outros óleos e produtos, incluindo até
pipeta de Pasteur para posterior análise por CCD. medicamentos.
Lembre-se de cuidar do meio ambiente e observe a forma de descarte das soluções estudadas. Utilizamos solventes ácidos e básicos nesse experimento,
os quais precisam ser descartados adequadamente. *As fotos deste artigo pertencem ao acervo dos autores.
Revista A Flora 17 Número 2 - Abril/2021
Ensino
Problematização de casos clínicos no ensino e
aprendizagem em Farmacognosia como estratégia
de aproximação da atuação do farmacêutico
Ana Carla Godinho Pinto – Departamento de Farmácia, UFPA
Cleiane Santana Pinheiro de Moraes – Departamento de Farmácia, UFPA
Lucas Villar Pedrosa da Silva Pantoja – Departamento de Farmácia, UFPA
Marcieni Ataíde de Andrade – Departamento de Farmácia, UFPA
Surianne Samantha de Amorim Trindade – Departamento de Farmácia, UFPA
As metodologias de ensino podem ser compreendidas transtorno autolimitado.
como um conjunto de procedimentos didáticos, Durante a elaboração do caso e as discussões
representados por seus métodos de ensino. Neste sentido, referentes a sua resolução, buscou-se enfatizar a atividade
ao longo dos anos os professores têm buscado novos farmacológica do fármaco selecionado (que pode fazer
métodos de ensino para atender às necessidades atuais parte de diferentes classes de metabólitos secundários),
de acordo com os avanços tecnológicos e para aprimorar seus pontos positivos, sua estrutura química e métodos
a formação do profissional para seu campo de atuação. As para a sua identificação em um produto natural e formas
novas metodologias acadêmicas de ensino podem atingir mais adequadas de extração. Nesta atividade o docente
certo grau de excelência no que diz respeito a fixação do (professor e monitores) atuaram como moderadores
aprendizado. auxiliando os alunos na elaboração do caso clínico e
Uma das formas de complementar o processo de na tomada de decisão acerca das condutas mais
ensino-aprendizagem são os projetos de monitoria adequadas.
acadêmica, que tem por função a organização laboratorial Inicialmente, a implantação da problematização e da
para a execução das aulas práticas, o auxílio na condução construção dos casos clínicos gerou certa resistência por
parte dos alunos, o que foi absolutamente normal, haja vista
destas e encontros periódicos para sanar as dúvidas
que, a ruptura de um padrão é sempre um desafio. Contudo,
residuais dos alunos. Portanto, a monitoria baseia-se na
segundo relatos dos próprios discentes, esta abordagem
proposta de docentes (professor e monitores) auxiliarem
foi fundamental para alicerçar o entendimento de que o
no aprendizado dos alunos.
conhecimento técnico, quando não está contextualizado
Em vista disso, a monitoria resolveu implantar
a uma situação realística, pode ser maçante e, muitas
como estratégia de ensino, a problematização em
vezes, mal compreendido. Portanto, uma aproximação do
Farmacognosia, através da construção de casos clínicos
conteúdo teórico à atuação do profissional farmacêutico
para auxiliar no desenvolvimento do futuro profissional,
pode contribuir com o processo de aprendizagem. Esta
com o progredir do pensamento crítico e do raciocínio
experiência, ainda, promoveu a sensibilização de que
rápido para prática assistencial e seu devido desfecho, visto
dialogar com o paciente, no sentido de entender o contexto
que, o caso clínico constitui uma descrição ordenada dos
em que ele está inserido, é dever de um profissional
eventos que ocorrem a um paciente no decurso de uma de saúde.
doença, englobando as hipóteses diagnósticas, condutas Sem dúvida, a implantação do projeto de monitoria
adotadas e evolução do quadro. aliado aos casos clínicos contribuiu positivamente para o
O método pedagógico escolhido teve a finalidade de processo de ensino-aprendizagem, pela aproximação cada
aperfeiçoar a aprendizagem acadêmico-profissional das vez mais da “sala de aula” ao cotidiano da vida profissional
aulas teóricas ministradas em Farmacognosia, visto que, e pela capacitação do aluno para sua vida profissional
a problematização e consequente redação do caso clínico e acadêmica. Além disso, o ensino da Farmacognosia
eram de responsabilidade dos próprios alunos norteados ocorreu de forma mais prática e objetiva.
pelos temas determinados previamente pelo professor Por fim, é de suma importância que os novos métodos
e pelos monitores. O caso clínico deveria ser estruturado de aprendizagem sejam mais utilizados por parte dos
por meio da problematização entre a melhor conduta docentes, para contribuir com o processo de ensino-
terapêutica e a melhor indicação terapêutica envolvida no aprendizagem e para despertar nos alunos o interesse
caso, tendo como tópico o uso terapêutico de fármacos e entendimento sobre importância das disciplinas no
descobertos a partir de produtos naturais sobre um contexto na atuação profissional.
Revista A Flora 18 Número 2 - Abril/2021
Fito ou Fake?
Comercialização pela internet de produtos
irregulares para gerenciamento do peso
Leandro Medeiros – Professor de Fitoterapia, Universidade Católica de Pernambuco, Unicap
Não é difícil chegar na caixa de spam do e-mail, ou Frases como “você mais magra, jovem e bonita”
mesmo ver anúncios promovidos em sites de busca, também são encontradas e também não permitidas em
propagandas de produtos voltados para emagrecimento. suplementos, dado o seu caráter apelativo e indutivo ao
Home pages são montadas com uma estrutura de consumo. O site exibe ainda fotos de supostas usuárias
conteúdo baseada no “bê-a-bá do marketing”, trazendo do produto contendo relatos de satisfação sobre os
o problema, a solução do problema com alegações e
resultados, com o “antes e depois”, além de selo de
vantagens, nível de aprovação dos usuários e relatos de
garantia, o que também é proibido. Não há também
satisfação.
a informação de fabricante, responsável técnico e
Dado que o sobrepeso e a obesidade são questões
de saúde epidemiologicamente relevantes, que geram outros dizeres legais importantes para que possa
um impacto estético a partir do que a sociedade moderna ser executada rastreabilidade do produto e eventual
entende como “padrão de beleza”, a demanda e oferta inspeção sanitária, em caso de denúncia. Com todo esse
de produtos com alegação de redução de medidas, da conjunto de irregularidades, fica clara a impossibilidade
gordura e do peso corporal, assim como a melhora da de garantir a qualidade, eficácia e segurança, sendo um
saúde geral, é algo cada vez mais comum. produto, portanto, potencialmente perigoso à saúde da
Um destes produtos, segundo um site de compra, coletividade. Este é apenas um caso observado diante
é uma fórmula contendo óleo de cártamo (Carthamus de um "mar de websites" contendo oferta destes tipos de
tinctorius L.), guaraná (Paullinia cupana Kunth),
produtos, que são estruturados dessa mesma forma, com
fenilalanina, cafeína, triptofano e cromo (picolinato), com
o intuito de enganar e induzir o usuário à compra.
alegação de ser um “nutracêutico” aprovado pela Anvisa
Os profissionais de saúde e instituições competentes
e que cumpre todas as normas vigentes. Com base
nas informações contidas no site, podemos analisar que devem estabelecer uma rotina de denúncia às
existem irregularidades sanitárias graves. Segundo sua autoridades sanitárias para aumentar a vigilância sobre
composição ativa, este se aproxima mais da definição de a comercialização de produtos irregulares, pois é nosso
suplemento alimentar do que de fitoterápico, portanto, dever ético a denúncia, uma vez que está prevista em
a análise aqui será feita sob a ótica da legislação de todos os códigos de ética profissionais. Além disso,
alimentos no Brasil. Quanto à composição, não está claro devemos também pautar nossas atividades visando
se o guaraná se apresenta na forma de droga vegetal educação em saúde sobre o uso racional de suplementos
pulverizada ou derivado vegetal, e segundo a IN 02/2018 alimentares, buscando a prevenção na utilização e
da Anvisa, somente a forma de droga vegetal pulverizada produtos irregulares, o que se expande também às
seria autorizada na composição de alimentos. Os demais
plantas medicinais e fitoterápicos.
ingredientes podem estar inseridos em alimentos,
inclusive em associação. Mas outra irregularidade é a
PARA SABER MAIS:
ausência da quantidade de cada componente na forma
farmacêutica, e especificamente para os nutrientes, Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária.
não há como entender se suas respectivas quantidades Resolução da Diretoria Colegiada n.º 243, de 26 de
estão dentro dos limites mínimos e máximos diários de julho de 2018. Dispõe sobre os requisitos sanitários
consumo. Palavras em idioma diferente do português não dos suplementos alimentares. Diário Oficial da União.
são permitidas nas regras de rotulagem, o que é observado Brasília, DF, 27 de julho de 2018.
também da embalagem secundária do produto, como
“weight loss suport”. Brasil. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Instrução
Adicionalmente, os termos “perda de peso”, “redução normativa n.º 28, de 26 de julho de 2018. Estabelece as
de medidas”, “inibe o apetite” não são alegações de uso listas de constituintes, de limites de uso, de alegações
permitidas em suplementos alimentares até o presente e de rotulagem complementar dos suplementos
momento no Brasil, podendo ser caracterizadas como alimentares. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 27 de
finalidade terapêutica ou medicamentosa, o que também julho de 2018.
não é permitido nesta categoria de produtos.
Revista A Flora 19 Número 2 - Abril/2021
Molécula em Foco
Artepilina C
Lucas de O. Pires e Rosane N. Castro – Instituto de Química, UFRRJ
Origem Seu baixo peso molecular (300,4 g.mol-1) e ponto de
A Artepilina C (Art-C) (ácido 3,5-diprenil-4- fusão (98-99 °C) permitem fácil identificação através de
hidroxicinâmico) é o principal derivado fenólico diferentes técnicas analíticas, e sua extração pode ser
prenilado, considerado marcador químico da própolis realizada por diferentes solventes, uma vez que, apesar
verde brasileira, que é elaborada pelas abelhas de possuir um grupo ácido, os grupos prenilas conferem
Apis mellifera L. A sua principal fonte botânica é a à Art-C características mais apolares. A solubilidade é
planta Baccharis dracunculifolia DC. (Asteraceae) importante no desenvolvimento de metodologias para o
amplamente distribuída pela região Sudeste, conhecida isolamento deste princípio ativo, especialmente quando
popularmente como alecrim-do-campo ou vassourinha poucas rotas sintéticas são descritas para sua obtenção.
do campo.
Propriedades biológicas
Estudos in vitro relacionam as propriedades
antioxidantes e antitumorais da própolis verde à
presença da Art-C. Esta substância acabou se tornando
um marcador biológico de qualidade para as atividades
da própolis verde comercial no mercado interno e
externo. A atividade antitumoral da Art-C, isolada da
Artepilina C, substância fenólica de baixo peso molecular, biomarcador da própolis verde, está relacionada com a fragmentação
própolis verde brasileira.
do ácido desoxirribonucleico (DNA, material genético),
Histórico agindo como um indutor de apoptose (morte celular),
ou ainda impedindo a proliferação dessas células. Além
A Artepilina C foi isolada pela primeira vez a partir disso, a Art-C apresenta propriedade antioxidante,
da espécie Flourensia heterolepis (Asteraceae) por contribuindo com pesquisas sobre diversas doenças
Bohlmann e Jakupovic em 1979, mas a substância só associadas ao estresse oxidativo celular e atividade anti-
foi identificada na própolis verde brasileira no início da inflamatória, impedindo a síntese de citocinas e outras
década de 1990 por cientistas japoneses. A composição moléculas pró-inflamatórias.
química da própolis verde, por depender diretamente da
flora local, é muito complexa e possui as características Aspectos farmococinéticos e toxidez
fitogeográficas da região produtora. Isso significa
que suas propriedades biológicas estão associadas ao Através de um estudo in vivo em ratos, foi
sinergismo entre as substâncias que estão presentes, demonstrado que a Art-C é absorvida através de
administração oral (10 mg.kg-1) com concentração
sendo Art-C a substância majoritária.
máxima no plasma após 1 hora (22 µg.mL-1), e estudos
com células (in vitro) sugerem que essa substância é
Classe química
absorvida mediante difusão passiva. Dados acerca do
A Art-C (C19H24O3) pertence à classe dos metabolismo dessa substância ainda são escassos, mas
fenilpropanoides (C6-C3), sendo um derivado do estudos in vitro sugerem que a Art-C é majoritariamente
ácido p-cumárico. Sua estrutura é formada por um metabolizada pelo fígado por enzimas que pertencem a
sistema cinâmico (azul), que confere característica CYP450. Não existem registros sobre a toxidez da própolis
ácida, apresenta hidroxila fenólica (preto), além de verde e da Art-C em baixas concentrações. A literatura
portar dois grupos prenilas (vermelho). A presença da ressalva que pela baixa toxidez em mitocôndrias, e suas
hidroxila fenólica é responsável pela captura de radicais propriedades antioxidantes, a Art-C pode agir como um
livres e, consequentemente, por suas propriedades potente inibidor de peroxidação lipídica, causada pela
antioxidantes. ação dos radicais livres.
Revista A Flora 1
20 Número 2 - Abril/2021
Atualidades
Comparação entre fitoterápicos industrializados e
manipulados
Luis Carlos Marques - Professor de Farmacognosia
A fitoterapia tem crescido na última década (nos extratos, processos, produtos acabados, validação
principalmente pela entrada do nutricionista no de métodos etc.), representando um perfil regulatório
segmento prescritor a partir de norma do Conselho excessivo que tem contribuído ao pequeno número de
Federal de Nutrição (CFN) de 2006; no entanto, nota- produtos no mercado e deslocado as empresas aos setores
se comportamento heterogêneo entre os segmentos de suplementos nutricionais, fitocosméticos e à linha da
industrial e de manipulação. Assim, buscou-se avaliar Medicina Tradicional Chinesa. Em relação às farmácias
alguns aspectos técnicos e legais distintos entre esses magistrais, a norma RDC Nº 67 de 2007 determina:
dois setores. “7.3.13- Devem ser realizados testes para determinação
O primeiro se refere ao número de produtos dos caracteres organolépticos, materiais estranhos, de
disponíveis. O industrializado precisa passar por
contaminação microbiológica, umidade e cinzas totais.
estudos completos de segurança, eficácia e qualidade,
E ainda, avaliação dos caracteres macroscópicos para
o que demora anos e tem alto custo. Assim, há poucos
plantas íntegras ou grosseiramente rasuradas; caracteres
produtos fitoterápicos industrializados disponíveis,
microscópicos para materiais fragmentados ou pó. Para
além de limitações em associações, dosagens, formas
as matérias-primas líquidas de origem vegetal, além
farmacêuticas e há ainda redução periódica pela
descontinuidade de alguns produtos principalmente por dos testes mencionados (quando aplicáveis), deve ser
questões de desempenho comercial. De modo oposto, as realizada a determinação da densidade”. Não se exigem
farmácias magistrais tem total flexibilidade para a oferta os imprescindíveis testes de CCD e os fitoquímicos,
de matérias-primas, gerando inúmeros fitoterápicos, mesmo qualitativos, que confirmariam identidade de
isolados ou em associações, em formulações diversas, extratos e teores de ativos necessários. Abre-se ainda a
além de ampla variedade de dosagens e formas possibilidade de aceitação de laudos dos fornecedores
farmacêuticas, algumas modistas e questionáveis (ex. (geralmente traduções dos laudos internacionais) ou
bombons com fármacos). Inúmeras dessas matérias- a terceirização de testes. É, portanto, tecnicamente
primas são lançadas anualmente por importadores com inadequada para garantir um padrão mínimo de
marcas comerciais, isto é, como se fossem registradas na controle de qualidade de fitoterápicos.
Anvisa, geralmente com composição não declarada ou Realizei ao longo da vida acadêmica algumas
dissimulada para evitar-se a cópia de concorrentes. avaliações da qualidade de drogas vegetais de farmácias
No tocante à fundamentação científica, magistrais nos moldes farmacognósticos básicos
os fitoterápicos industrializados são altamente (Infarma, 15(7/8): 70-72, 2003; Rev. Eletr. Farm., 4(1):
regulados e aprovados com indicações terapêuticas 95-103, 2007), repetidas outras vezes com alunos de
submetidas à rígida avaliação técnica. De forma graduação, e os resultados foram muito negativos.
oposta, as farmácias magistrais encontram total Publicamos, também, uma revisão dos principais
flexibilidade para ofertar matérias-primas com
problemas nesta área (Revista de Fitoterapia, 14(2):
indicações terapêuticas pouco avaliadas, às vezes
1129-136, 2014) e os casos são diversos, preocupantes
apenas com indícios de evidências farmacológicas em
e que envolvem, além das matérias-primas magistrais,
modelos animais, cabendo ao profissional prescritor a
também fitoterápicos industrializados que são
responsabilidade por sua utilização. Essa flexibilidade
registrados na Anvisa, mas não são monitorados na fase
permite grande manipulação das informações por parte
dos distribuidores, direcionando-as ao que interessa pós-registro.
comercialmente (emagrecedores, redutores de medidas, É uma situação preocupante, excessiva por
rejuvenescedores, ganho de massa muscular etc.). Esse um lado e generosamente liberal por outro, criando
segmento incorpora também novidades não avaliadas, um mercado de fitoterápicos pouco adequado às
como ocorre com a ‘canela-de-velho’, disponível de necessidades e expectativas dos pacientes brasileiros
forma generalizada nas farmácias. e contrário à Política Nacional de Plantas Medicinais e
No aspecto do controle de qualidade, as indústrias Fitoterápicos que tem como meta garantir à população
farmacêuticas precisam avaliar todos os aspectos brasileira o acesso seguro e o uso racional de plantas
possíveis conforme RDC Nº 26 de 2014 e outras medicinais e fitoterápicos.
Revista A Flora 21 Número 2 - Abril/2021
Biografia
Prof. Gokithi Akisue
José Luiz A. Ritto - Professor de Farmacognosia
Leopoldo C. Baratto - Professor de Farmacognosia, Faculdade de Farmácia, UFRJ
A imigração japonesa Foi casado com a nossa querida e ilustre Profa.
no Brasil começou Maria Kubota Akisue (in memorian), engrandecendo
oficialmente em 1908 ainda mais suas qualidades e virtudes. Nutre grande
com a chegada do navio amizade e carinho pelo Prof. Fernando de Oliveira,
Kasato Maru, no porto já que trabalharam juntos e publicaram vários livros, como:
de Santos, no dia 18 Fundamentos de Farmacobotânica, Farmacognosia,
de junho. Ao longo das Práticas de Morfologia Vegetal, Fundamentos de
Cromatografia em Camada Delgada Aplicada a
primeiras quatro décadas,
Fitoterápicos e Farmacognosia: Básica e Aplicada.
os japoneses enfrentaram
O domínio da técnica farmacêutica, de química,
diversos problemas e
da botânica, e a percepção do importante papel social
consquistas, cujos filhos do farmacêutico, marcaram os mais de 30 anos de
e netos destes primeiros dedicação como docente na Universidade de São Paulo.
imigrantes, já enraizados, Após aposentar-se jamais interrompeu a sua missão
Gokithi Akisue, farmacolando da
turma de 1958. decidiram permanecer de educador e orientador. Auxiliou na estruturação
Fonte: Acervo da Universidade de São Paulo definitivamente por aqui. curricular para a Farmacobotânica, Farmacognosia
Foi neste contexto aos 16/12/1933 que nasceu e Controle de Qualidade em Fitoterápicos, planejou
atividades práticas laboratoriais, implementou e
Gokithi Akisue, na cidade de São Roque (70 km de São
organizou laboratórios, tendo contribuído no início de
Paulo-SP). Gokithi teve uma infância marcada por muitas
vários cursos de Farmácia, destacando-se as seguintes
restrições em função da guerra, sofria com chacotas
universidades: PUC-Campinas, UNIMEP (Piracicaba),
de outras crianças e jovens da região por pertencer
Faculdade Oswaldo Cruz (São Paulo), USF (Bragança
a uma etnia diferente dos brasileiros e moradores Paulista), UNIP (vários campi), entre outras. Atualmente
daquela região. Dentre os outros irmãos, foi escolhido é professor titular da Faculdade de Pindamonhangaba.
para estudar em um internato na cidade de São Paulo. Na Sociedade Brasileira de Farmacognosia, Prof.
O pós-guerra foi trazendo maior expectativa e Gokithi teve expressiva participação nas décadas
oportunidades. Seu pai foi convidado para administrar iniciais após a sua reativação no ano de 1976, ocupando
um armazém na capital do estado e a família mudou-se os cargos de vice-presidente nas gestões 1984-1986 e
para lá. Gokithi estudava e ajudava o pai no armazém. 1987-1988, e de presidente na gestão 1990-1991. Prof.
Dentre os clientes que lá frequentavam, um freguês Gokithi esteve presente na Assembleia da SBFgnosia
especial o incentivou a fazer o vestibular para o curso de que decidiu pela criação da Revista Brasileira de
Farmácia: tratava-se do Prof. Tarcilo Neubert de Tolêdo. Farmacognosia, sendo um grande colaborador que
Gokithi seguiu a orientação e foi aprovado, concluiu o contribuiu com diversos artigos publicados. Hoje,
curso de Farmácia em 1958 e logo foi convidado para após 35 anos, a Revista Brasileira de Farmacognosia
trabalhar como assistente do Prof. Tarcilo nas disciplinas é um dos principais periódicos especializados na área
de Farmacognosia e Botânica, com foco na identificação de produtos naturais no Brasil e América Latina, com
e caracterização de plantas medicinais. grande repercussão internacional.
A partir de então, edificou toda sua trajetória no Sua paixão é o cultivo de plantas medicinais,
ensino superior, denotando a sua curiosidade científica tanto que possui um sítio e orgulha-se em contar
que já cultivou cerca de 40 mil touceiras de capim-
com uma exitosa carreira acadêmica. Foi especialista,
limão (Cymbopogon citratus (DC.) Stapf, Poaceae),
mestre e doutor, orientou dezenas de pós-graduandos,
onde completava após o cultivo as etapas de coleta,
publicou dezenas de artigos científicos e fortaleceu
secagem, rasura, embalagem e controle de qualidade
a área de anatomia vegetal, sempre mostrando-a
da droga vegetal. No Brasil, foi um dos pioneiros nos
como uma atividade essencial para o farmacêutico no cultivos de zedoária (Curcuma zedoaria (Christm.)
controle de qualidade de drogas vegetais. Também Roscoe, Zingiberaceae); Ginkgo biloba L., Ginkgoaceae;
treinou e ensinou inúmeros profissionais da indústria Centella asiatica (L.) Urb., Apiaceae; e ginseng brasileiro
farmacêutica e, no ensino, padronizou aulas práticas, (Hebanthe erianthos (Poir.) Pedersen. Para nossa
descreveu dezenas de plantas e as ilustrou com desenhos satisfação, continua escrevendo e espera concluir mais
manuais feitos a nanquim. Difundiu a cromatografia em um livro em breve.
camada delgada e preparou inúmeras aulas práticas, Ao Prof. Gokithi agradecemos toda contribuição e
ensinando métodos de extração, identificação, dedicação à ciência com seus exemplos continuamente
purificação e isolamento de classes de substâncias. renovados.
Revista A Flora 22 Número 2 - Abril/2021
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Sugestão de citação:
Autor (Sobrenome, Nome - ex: Silva, M.). Título do Artigo.
Revista A Flora. Número 2, Páginas do Artigo. Sociedade
Brasileira de Farmacognosia: Rio de Janeiro, 2020.