Zeta Games - Marcus Garrett
Zeta Games - Marcus Garrett
Zeta
Games
Memórias de uma
Locadora nos Anos 90
São Paulo, SP
Edição do Autor
2018
2 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 3
MARCUS VINICIUS GARRETT CHIADO
Zeta Games
Memórias de uma
Locadora nos Anos 90 ‘‘
Nada é tão doloroso
Dados internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
1. Videogames
2. Crônicas
3. Videolocadoras
Agradeço aos amigos descritos a seguir pela amizade, inspiração e pelo auxílio na
confecção desta obra: Geraldine Nakamura, Melissa Yuki N. Chiado, Mauricio Chiado,
Mauro Berimbau, André Forte, Marcos Khalil, Teresa Avalos, Daniel Ravazzi, Andrea
Kogan, Eduardo Avellar, Pedro Ivo Prates e Raphael Morrone, e aos colecionadores
Ricardo Wilmers e Alexandre Bastos - cujas coleções, na forma de alguns itens, Este livro é dedicado ao meu sogro,
aparecem em fotos neste livro. Yoshio Nakamura, que nos deixou muito cedo.
2 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 3
Pre I
naugurada em um período em que as
locadoras de games ainda existiam, mas
que começavam a sofrer o impacto
da popularização da pirataria fácil
fá
e barata proporcionada pelos consoles
32 Bit e os CDs graváveis, a Zeta Games
se destacava por ser muito mais do que
uma locadora, por ser um ponto de
encontro de amigos.
Muitos colegas me perguntavam:
“Cara, a Podium e a Hornet Games têm
muito mais jogos e são mais baratas, por que
você vai tanto lá na Zeta?”. A resposta era um
misto de coisas que até hoje não consigo explicar
cio
bem, mas que na época também pouco importava para
um moleque de 16 anos.
De fato, a Zeta Games estava longe de ser a melhor
locadora do Cambuci e arredores. Ela era a mais bonita
e imponente de todas, tinha um telão gigante rodando
games do recém-lançado Nintendo 64 que chamava e
muito a atenção da criançada que acompanhava os pais
na também extinta Doceira Santa Clara. A Zeta era muito O Mega D
rive brigav
forte em oferta de games para Nintendo 64, talvez a nas pratel
eiras. Cré
a por espa
ço
dito: Pedr
melhor de todas. Ivo Prates
/CLUB 16 o
-BIT.
Havia alguns jogos de Mega Drive e
Super NES com algumas boas surpresas
que não se encontravam em locadoras
mais antigas, a seção de PlayStation e Sega
Saturn era bem defasada, até porque a
pirataria rolava solta e, penso eu, não eram
plataformas que tinham muita procura para
justificar o investimento. E até para esses
consoles, a Hornet Games era muito superior
por existir há mais tempo.
Só que aí entra o fator Marcus Garrett. O
jovem dono de 23 anos era um poço infinito
de simpatia. Ele cativava muita gente. Lembro
da primeira vez que entrei na loja, meio que
com medo do que esperar, já que uma locadora
bonitona em plena Lins de Vasconcelos, daquele
6 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 7
IN E
ra uma vez um mundo que A molecada fazia vigília à porta e
parece distante, um “tempo- sonhava com os games até que a
e-espaço” em que algumas locadora abrisse.
facilidades “modernas” com Adoro videogames desde
as quais estamos acostumados e que que me conheço por gente e
nos parecem garantidas, tais como tive o prazer de vivenciar essa
a Netflix, o YouTube, serviços de realidade também “do outro lado
TRO
streaming e torrents, não faziam do balcão”, pois fui proprietário
parte do cotidiano. A própria da Zeta Games entre os anos
Internet, como a conhecemos, de 1996 e 1999. Foram muitas
inexistia no Brasil. Pode parecer aventuras, vários “causos”
inconcebível aos jovens e aos curiosos e engraçados, alegrias e
adolescentes do séc. XXI, mas tristezas, amizades. Amigos com
esta era a realidade até meados os quais, passados mais de vinte
dos anos 1990. Do ponto de anos, mantenho laços afetivos.
vista atual, vivíamos as “trevas” A partir de agora, assim
mes em termos de praticidade, facilidade espero, abrem-se janelas para
ta Ga
” da Ze apai.
DU
te iro s eP
rês M
osque , Mauricio e prontidão tecnológica, tudo demorava e o passado, para meados dos
Os “T 6: Eu (esq.) rett.
9
em 19 : Marcus G
ar demandava tempo, paciência. anos 1990, para o... Mundo das
o Naquele mundo longínquo, reinava locadoras!
Crédit
ainda uma categoria de negócio, iniciada Que tal dar uma
no começo dos anos oitenta, típica de espiada...?
um período pré-Google: as locadoras de
videogames. Não havia grupos de Facebook
ou WhatsApp, fóruns ou listas de discussão
por e-mail. Assim, aqueles estabelecimentos
funcionavam como uma espécie de “clube
ÇÃO
social”, eram um verdadeiro ponto de
encontro em que a garotada tinha, com
exclusividade, a chance de conhecer os
lançamentos que só viam em revistas de
games. Batiam papo, contavam e ouviam
boatos, e trocavam informações variadas sobre
um universo único e fascinante de pixels e
sons. Com preços exorbitantes em produtos
novos, alugar era a palavra de ordem:
alugar significava variedade, quantidade e
diversão praticamente sem fim.
As crianças aguardavam ansiosamente
Marcus
a sexta-feira, dia sagrado de nove entre dez que sob
atualme
nte e o
rou da Z único te
meninos, para obter o “cálice sagrado” da Crédito
: Marcu
eta Gam levisor
es – e fu
s Garre nciona!
vez, o título difícil que todo mundo queria e tt.
ninguém possuía ou havia sequer visto.
8 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 9
A Ideia
N
o final de 1995 me formei
em Comunicação Social
com habilitação em Rádio
e TV, um curso da UMESP
(Universidade Metodista de São
Paulo) que escolhi de maneira um
tanto precipitada. Pressão dos pais,
imaturidade, falta de pesquisa ou
de conversa com profissionais
da área, não importa, achei que
a faculdade seria uma coisa,
contudo, ela mostrou-se outra.
Explico: apesar de ter “dirigido”
e editado pequenos filmes em
A Ideia
VHS durante o Ensino Médio,
as atividades de produção e de
direção de programas de TV Parte da
seção d
da inau a
ou de rádio acabaram não me guração frente (foto ti
). Crédit rada de
o: Marc pois
seduzindo, à época eu preferia o lado us Garr
ett.
técnico da profissão, o apertar de botões.
Faltando três meses para a conclusão, mamãe
faleceu abruptamente em setembro daquele
ano, vítima de um infarto fulminante.
Desorientado e sentindo uma tristeza que
parecia não ter fim, terminei o curso de
qualquer jeito, no “automático”, e peguei
o diploma em 1996. Minha vida, dali em
diante, seria uma incógnita, já que nunca
havia trabalhado de maneira formal e não
tinha experiência alguma, além de não sentir
vontade de seguir minha área de formação.
Eu precisava trabalhar, tinha de ocupar
minha cabeça, caso contrário, só pensava na
falta que mamãe fazia. Tenho três irmãos
– por parte de pai – sobre os quais falei em
meu livro anterior: “Jogos Eletrônicos & Eu:
Crônicas de um Passado Presente”. Mauricio,
o mais novo (oito anos mais velho que eu),
estava sempre próximo e acompanhava
o meu dilema em relação ao que fazer
em termos profissionais. Comerciante e
formado em administração de empresas
pela FAAP, ele estava no ramo de bijuterias e
10 ZETA GAMES - Memórias de uma locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma locadora nos Anos 90 11
artigos correlatos há anos, possuía bastante por meio do inventário de
experiência na área comercial e em vendas. minha mãe, e prontamente
Pensávamos em algo que pudéssemos coloquei à venda meu Ford
montar juntos, conversávamos sobre o Maverick de 1977, carro que
assunto e chegamos mesmo a ir a um evento era um xodó, um sonho de
de empreendedorismo no Anhembi, local em moleque. Novamente fomos
que vi Daniel Azulay (artista e apresentador brindados com uma ótima
do antigo programa infantil “Turma do surpresa: ele foi vendido – em
Lambe-Lambe”, sucesso de audiência nos uma loja especializada em
anos 1980) em um dos estandes. Pena que veículos antigos na
tive vergonha de falar com ele… Av. dos Bandeirantes – em
Daniel Azulay e sua Turma do Na feira havia ofertas de todos os tipos questão de dias!
Lambe-Lambe. Crédito: Oficina de negócios, alguns estapafúrdios, outros Uma das primeiras conversas
de Desenho Daniel Azulay
mais “reais”, todavia, nada nos empolgou. envolveu a decisão a respeito
Voltamos à prancheta! de qual seria a função de cada
Depois de muita conversa e de várias um no negócio. Mauricio, em foto atual.
Mauricio Chiado
sugestões, apresentei a comerciante experiente, Crédito: Marcu s Ga rrett
ideia que tive ao meu seria o responsável pela parte
irmão, um assunto financeira, por pagamentos e compras, e Vendas de consoles , jogos
com o qual sempre pela administração em si. Eu cuidaria dos e acessórios, ideia originária
tive familiaridade: que jogos, ou seja, quais títulos comprar e em do meu irmão, que insistia nas
tal se montássemos quais quantidades, os lançamentos que vendas, queria que fôssemos
uma locadora de valiam a pena, os consoles etc. Nós também uma loja.
videogames? Eu tinha decidimos os serviços que ofereceríamos. A
começado a colecionar locadora deveria ter: Deste planejamento inicial
videogames antigos e até que o negócio virasse
microcomputadores Locação tradicional , isto é, os clientes realidade, teríamos gastos,
clássicos há pouco tempo, tomariam cartuchos e CDs emprestados, e os esforço e levaria tempo!
conhecia alguns amigos devolveriam em um prazo pré-determinado.
colecionadores e entusiastas,
e estava sempre no meio Locação interna , com videogames, para
de gente que curtia o tema que os clientes jogassem no local.
e nutria o mesmo hobby.
Em meados dos anos 1990,
Marcus
hoje. Cré aluguéis de jogos, quer
dito: Ari
ana Ass
umpção fossem em cartucho ou em
. Ford Maverick 1977
CD, eram comuns, havia
diversas locadoras na cidade. Fui
surpreendido logo de cara, meu
irmão gostou da ideia e achou que o risco não
era grande, sendo assim, resolvemos seguir
em frente! Eu tinha algum dinheiro, recebido
c e com o proprietário, um
senhor idoso que, aos meus
olhos, parecia desconfiado.
o
incluía o aluguel da linha
telefônica (número 278-8790!
A
WarGa
mes, a
locadora primeira ansiosamente.
à qual ti
aces ve No meio tempo, Mauricio
Scan: E so em 1984.
duardo
Luccas. conversou com o contador que
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cuidava da Redoma, afinal, precisaríamos a facilidade com que desenhava era um
abrir uma microempresa. Como sugestão, assombro. Conversamos por telefone, dei a Defe
n
em q der, ca
o contador nos orientou a comprar uma ideia, expliquei o conceito e, para a minha u rt
pess e alien ucho de
oas! íg A
firma já aberta, expediente que agilizaria alegria, ele topou! Na minha concepção, o Créd enas ab tari 26
ito: d 00
Mar uzem
o processo, já que bastaria alterar o alien seguraria um controle de videogame cus
Garr
ett.
nome e adicionar os novos sócios. De “genérico” e seria acompanhado dos
imediato, comecei a trabalhar com o que dizeres Zeta Games. O Rick foi além:
me competia, buscar informações sobre fez uma bela arte em que o alienígena
possíveis fornecedores, bem como pensar sorria e coloriu as letras “E” e “T” do
nos consoles e nos jogos que teríamos no título para que elas se destacassem,
início. Pensávamos também sobre o nome da formando o termo ET (E.T.). Genial!
locadora... Batizar algo é sempre um processo Aprovamos o logotipo e seguimos
complicado! Após algumas ideias malucas em frente, contratamos uma
e extravagantes, finalmente encontramos o empresa que produzia fachadas
nome: Zeta Games. Explico: desde criança, de lojas, pintadas à mão em
gosto muito de Ufologia, a pseudociência que uma espécie de tela gigante,
estuda os discos voadores, o e aguardamos. A entrega só
fenômeno extraterrestre. “Zeta” aconteceria, infelizmente,
é um dos nomes pelo qual após a abertura do
são chamados os famosos estabelecimento. Voltando
alienígenas do tipo “Grey”, os ao contador, deu tudo certo
cinzentos que, conforme se em relação à empresa, já
diz, abduzem os humanos éramos sócios e a papelada
para experimentos. estava saindo.
Meu irmão achou que o Também decidimos acerca de alguns
nome soava bem, tinha fornecedores. Compraríamos jogos e
sonoridade, e assim foi... consoles de empresas grandes, tais como
A loja dos alienígenas a Tec Toy, que representava os produtos
dos videogames estava a da SEGA no Brasil, e a Playtronic, dona da
caminho! licença da Nintendo no país, basicamente
A história da para abastecer o estoque de vendas.
criação do logotipo é A bela fachada pintada à mão.
mais curiosa porque Crédito: Marcus Garrett
envolve uma pessoa
conhecida de quem
sou amigo desde
1992. Na UMESP,
estudei com o Rick
e
íge n as qu Zavala, o “Rick” que ficou
n
os alie vala
lo c a dora d ito: Rick Za conhecido ao ter vencido o programa
:a réd
ames tes! C
Zeta G m os clien de TV “Cake Boss”, do Buddy Valastro, em
ia
abduz
2017. Pois bem, o Rick sempre foi talentoso
como desenhista, ilustrador e escultor,
16 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 17
(inexistiam os televisores
de plasma, LCD ou LED)
cuja tela ficava voltada para a
porta. Atentem a este detalhe,
voltaremos a ele depois...
Além da UZ, achamos
UZ Games
: outro fornecedor similar,
cuja
locadora uma loja e locadora no bairro
o
decoraçã
inspirou a do Tatuapé, creio que na
dito:
Zeta. Cré Rua Serra de Japi, cujo nome,
halil
Marcos K
acredito, fosse Multi Games.
Por fim, achei também, sem
Compraríamos também, querer, um rapaz de uns trinta
principalmente jogos, e poucos anos, talvez quarenta,
de alguns distribuidores que comercializava consoles da Zeta.
“arcade”
menores, tais como a UZ PlayStation e CDs de jogos piratas, s m es as ao estilo
A rett
arcus Gar
Games, uma tradicional loja ele possuía todos os lançamentos Crédito: M
que ficava no Ipiranga, em e praticava bons preços. Não me recordo do riscado os consoles da minha
uma travessa da Rua Silva nome, talvez Francisco (Chico), ele possuía vida, só tinha uma vaga ideia
Bueno, cujo dono era Marcos uma locadora, se eu não estiver equivocado, de como o mercado evoluíra.
Khalil, amigo de um amigo. O na Rua Celso Garcia. De cara, comprei um Uma surpresa e tanto que tive!
local era muito bem decorado, PlayStation desbloqueado e vários CDs, Comprei algumas revistas de
colorido e cheio de pôsteres, de afinal, eu precisava me acostumar com o games na banca para me inteirar,
bonecos e de estandes, mas um produto e com os jogos. Fiquei maravilhado precisei correr contra o tempo.
detalhe chamava mais a atenção: com a qualidade em termos visuais e Desde o início, desejávamos
a TV imensa de retroprojeção sonoros, fazia tempo que eu não possuía gabinetes ao estilo fliperama, que
videogames modernos. Em realidade, estava acomodassem os consoles, para
acostumado a brincar com jogos do “Amiga”, que a molecada pudesse jogar no
à ocasião um potente microcomputador local. Não precisamos pesquisar,
de 16 bits com jogos incríveis – e eu havia pois um amigo colecionador,
A lendária
prim
Games, em eira loja da UZ
amigo Mar preendim O PlayStation, da Sony,
cos Khalil ento do
TV de retr à época. estava no auge em 1996.
oprojeção A
e a decora (ao fundo
ção servir )
inspiração am de
para a Zet
Crédito: M a Games.
arcos Khal
il.
18 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 19
o Wando, já havia fabricado voltada para fora, era visível) chegasse a
– com a ajuda do irmão – zero, a TV desligava automaticamente, mas
gabinetes semelhantes para somente ela, o console seguia ligado caso a
outra locadora. Montados pessoa pagasse um adicional para continuar.
de maneira artesanal e para Inicialmente, mandamos fabricar seis
que se jogasse sentado, eram gabinetes, nós os batizamos de “mesas” e os
de madeira, decorados com numeramos, é claro, de 1 a 6.
fórmica vermelha e com Com a fabricação dos gabinetes em
acabamento em borracha. No andamento, precisávamos, obviamente,
corpo principal, havia uma adquirir o mesmo número de televisores.
superfície que servia de apoio Seriam seis televisores e uma TV de
para o televisor. No interior retroprojeção, aquela que vimos na UZ
do gabinete, o videogame Games e que citei anteriormente. Ela não
era armazenado de modo saía da nossa cabeça, ficamos encantados
que ficasse protegido contra com o resultado e achávamos que o televisor
terceiros, inacessível. À frente da chamaria bastante a atenção. À época, o
superfície em questão, como se de filho de um falecido amigo de meu pai era
ra a troca
fosse a continuação dela, vinha a tampa pa Garrett. gerente de uma das unidades da extinta G.
Abria-se cu s
dito: Mar
uma tampa trancada com chave, ela abria e jogos. Cré Aronson, a que ficava na Rua Brigadeiro Luís
dava acesso ao console, afinal, precisaríamos Antônio (do lado do centro da cidade, não
trocar os jogos. Na parte da frente, mais do lado dos Jardins), então, fomos à loja em
abaixo, existia uma protuberância sobre a busca de bons negócios.
qual ficavam os controles ao estilo arcade, Lá chegando, fomos
ou seja, com manche e botões profissionais. bem atendidos pela
Abriam-se os controles dos videogames e pessoa (acho que o nome
descartavam-se os plásticos de acabamento do rapaz era Wagner)
externo (as “capas”), ao passo que, de posse e, graças a uma boa
das placas de circuito e do cabo com o negociação, adquirimos
conector original, soldavam-se os controles seis televisores de 21
profissionais ao conjunto. Trocando em polegadas da marca
miúdos, o videogame “achava” que estava Cineral e, inebriados com
conectado ao controle que vinha de fábrica. a TV enorme, acabamos
A coisa toda funcionava muito bem e ainda comprando uma de 52 ou 54
passava a sensação, ao jogador, de se estar polegadas, não me recordo
em frente a uma máquina de fliperama. ao certo, da marca Zenith.
Porém, ainda faltava algo... A marcação de Parte da Espero que o Marcos Khalil,
seção d
tempo. O problema foi resolvido pelo amigo depois
da
a frente
(foto tira ao ler isto, não se chateie,
Crédito inauguração). da
Daniel Ravazzi, técnico em eletrônica. Ele : Marcu
s Garre
tt
afinal, copiamos a ideia dele de
criou um circuito (um timer com mostrador maneira escancarada! A entrega
digital) que controlava os minutos, bastava dos produtos aconteceria em alguns dias.
pressionar e segurar um botão, escondido Em paralelo, trabalhamos em todos os
no interior do gabinete, para realizar o espaços do nosso empreendimento, a palavra
ajuste. Quando o contador (a telinha ficava de ordem era limpar e preparar o imóvel
20 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 21
para receber a e adesivos de “ALUGADO”
locadora. Sim, o (para quando determinado
dono, o senhor jogo estivesse fora), recibos
sobre o qual de locação e um enorme
comentei, aceitou painel com conjuntos de
a nossa proposta! letras plásticas, desses que
Decidimos derrubar vemos em bares e lanchonetes,
a parede que dividia para que afixássemos a tabela
os salões, mas não de preços à parede. Quanto às
completamente, já vitrines, meu irmão pretendia
Exemplo
Crédito
de softw que lá permaneceria usar sobras da outra loja: a ideia
: Tem de are de controle
Tudo Pro
gramas
de loca
ções. uma pequena mureta era poupar recursos. Em relação
.
de separação entre a aos recibos de locação, precisamos
parte de locação e a de comprá-los porque não teríamos,
jogo. A seção da frente comportaria a locadora em tempo para a abertura, um
propriamente dita, a de trás teria a locação software de controle pronto. Meu
interna, a qual inicialmente chamamos de amigo de infância, o Marcelo Jarretta
“Jogo por Tempo”. Concluído o serviço do (mencionei-o bastante no “Jogos os
foto d
ta em
pedreiro, limpamos a sujeira. Instalou-se um Eletrônicos & Eu”), acabou criando c e lo Jarret
r
ia Ma ett
infânc arcus Garr
novo esquema de iluminação, ele consistia esse software – rodava em DOS! – para igo de
O am . Crédito: M
que pudéssemos gerenciar os aluguéis. 80
de lâmpadas grandes e circulares que faziam anos
lembrar... Discos voadores! Na realidade, Embora já existisse o Windows 95, rodá-lo
aproveitamos parcialmente a instalação em DOS facilitava as coisas principalmente
que havia sido realizada pela loja de roupas. porque poderíamos usar um PC barato,
Optamos por pintar o piso e a fachada com antigo. O programa também gerava etiquetas
as cores cinza (“concreto”) e vermelha, que, claro, podiam ser lidas por meio de um
sendo que o Mauricio teve a ideia de leitor de código de barras, fazia reservas, O software do Marcelo Jarretta lia o
não executar a pintura de maneira calculava multas por atraso e imprimia os código de barras no verso do cartucho.
Crédito: Mauro Berimbau.
uniforme, mas traçar faixas retilíneas comprovantes de empréstimo
para que se intercalassem as cores. e devolução. Ele
Ótima sacada, ela deu vida ao que, funciona muitíssimo
se totalmente cinza, ficaria sem bem, porém,
graça. As paredes internas foram somente foi entregue
pintadas de branco, algo mais após a inauguração
tradicional e que, segundo quem da Zeta. Depois da
entende de cores e pintura, deixa instalação no PC,
o ambiente maior e “arejado”. precisei ficar por
Tivemos de visitar uma loja que horas e horas, por
fornecia suprimentos para locadoras, lá dias na verdade,
adquirimos expositores para dispor os jogos, cadastrando cada
adesivos de lacre (para que os futuros clientes um dos jogos que
“espertinhos” não abrissem os cartuchos e compramos, afinal,
adulterassem o conteúdo!), fichas em branco o software não
22 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 23
adivinhava o que possuíamos de Super Mario 64 à nossa frente. Os gráficos
em estoque! eram incríveis, o 3D parecia mais bonito e
Em termos de jogos, convincente em comparação aos poucos
naquela altura já havíamos jogos que vi no PlayStation. Incrível! Não
comprado bastante coisa: demorou para que juntássemos A e B: se
cartuchos de Master ligássemos o novo console de 64 bits (que
System, Mega Drive e pouco depois viria a ser lançado nos Estados
Super NES, CDs de Saturn Unidos) ao televisor de retroprojeção e,
e de PlayStation (originais conforme a UZ Games fazia, a tela ficasse
para locação externa, Caixa do Mega
Drive. virada para a entrada da Zeta
o Ivo Prates.
piratas para locação Crédito: Pedr Games... Wow. “Um baita
interna, precisávamos chamariz”, como previu o
de variedade), e os rapaz! Resumo da ópera: saí
consoles propriamente de lá com a caixa em japonês
ditos, que operariam debaixo do braço e com
dentro dos gabinetes: dois Super NES, Master
Sy dois jogos: Super Mario 64
Toy nas stem e Mega D
um Saturn e três PlayStation. Enquanto pra riv
Prates/C teleiras. Créd e, a Tec e Pilot Wings. Não éramos
lube 16 ito: Ped
aprontávamos tudo, recebi um telefonema -BIT. ro Ivo os pioneiros do bairro nem
do fornecedor da Rua Celso Garcia, ele dizia tampouco a única locadora
que havia chegado uma grande novidade do pedaço, longe disso, mas
em primeira mão, um console lançado teríamos, no dia da abertura,
no Japão fazia poucos meses. “Você o videogame de última
precisa ver, se tiver esse aparelho na geração ligado à nossa TV
sua locadora, será um baita sucesso enorme! Eba!
e chamariz”, disse ele. Visitei-o Bem, já que toquei no
no dia seguinte e, em meio a um assunto “concorrência”,
monte de CDs de PlayStation, existiam algumas locadoras
controles e consoles da Sony, bem próximas, a Podium Games (que
lá estava o mistério: o novo ficava na Rua Heitor Peixoto, travessa da
Nintendo 64. “Saiu no Japão e eu Av. Lins), a Hornet Games, à Rua Teodureto
já tenho, estou vendendo!”, disse Souto no Cambuci, e outras menores que
o rapaz enquanto gesticulava.
Prontamente, ele encaixou no
videogame um cartucho em cuja
etiqueta havia o Mario, ligou o
aparelho (saído de uma caixa
vistosa e, claro, com escritos em
japonês) e ficamos boquiabertos:
o rosto do Mario em 3D, enorme,
dançava pela tela em cores e
efeitos. O rapaz iniciou a partida e, SEGA Sat
urn
PlayStatio : concorrente mais
estupefatos, acompanhamos o surgimento CLUB 16-B
n. Crédito
: Pedro Iv
fraco do
IT. o Prates/
de um mundo tridimensional, o desenrolar
24 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 25
mais atuavam como Locação interna (chamávamos
videolocadoras, quase de “Jogo por Tempo”). Valor da
não ofereciam jogos, hora, mas também fazíamos meia:
caso da FireFox e da
Fellow. A Podium e a
Hornet tinham história,
contavam com acervos
maiores e ficavam perto
o bastante da Zeta para
que a criançada, a pé,
fosse “pulando” de uma
em uma, isto é, visitasse
todas numa tacada só. A
competição seria feroz, mas
a boa localização, em uma
A caixa ja
ponesa do
Nintendo via principal e movimentada,
64.
era vantagem notória da Depois de tantos
nossa. Sorrateiramente, preparativos, ou seja, firma
pesquisamos os preços deles para que, de aberta e com a papelada em dia,
maneira óbvia, instituíssemos os valores que loja pintada e limpa, lâmpadas
seriam praticados por nós. Abaixo, a tabela novas instaladas, mesas de
demonstrativa: jogo nos lugares – com os
videogames dentro de cada
uma – e com os respectivos
timers funcionando, vitrines
limpas e decoradas com
mercadorias, expositores de
As vitrines reaproveitadas da Redoma Boutique, agora
metal instalados e recheados cheias de games. Crédito: Marcus Garrett.
de caixas de cartuchos e CDs
à mostra, estoque devidamente O antigo prov
ador de roup
“Almoxarifado as virou noss
catalogado e disponível (curiosidade: ”. Crédito: Ma o
rcus Garrett.
usamos o provador da antiga loja de
roupas como repositório do acervo
para locação, nós o apelidamos de
Super Mario
64: 3D de ar
rasar à époc
“Almoxarifado”), telefone ligado e
a.
funcionando (não existia celular,
muito menos WhatsApp, e a
nossa linha telefônica, como citei
anteriormente, era alugada),
sistema de alarme instalado e
testado... Tudo tinindo!
26 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 27
Finalmente!
A
brimos a Zeta
Bazar e Locações
de Videogames
Ltda., “Zeta Games”
para os íntimos, em um dia
de semana, provavelmente
numa quarta ou quinta-feira
de agosto de 1996. Eu quase ia
me esquecendo, mas Papai quis
nos ajudar, ele cuidaria da parte
do Caixa, cobraria dos clientes
e faria tanto a abertura quanto
o fechamento do “movimento”,
tudo em papel, pois não tínhamos
um programa que controlasse mativa.
a e cha
o fluxo. Nos primeiros dias não b e m decorad
da era
A facha arcus Garrett.
houve tantos clientes, mas Crédito
:M
A Brincadeira
logo a novidade se espalhou
entre a molecada como fogo
em capim seco. A TV enorme
Começava
cumpria o papel de chamar
a atenção dos transeuntes,
até as pessoas que viajavam
nos ônibus, que subiam e
desciam a Lins, esticavam
o pescoço para olhar a
cabeçona tridimensional do
encanador italiano! A locação
interna, o “Jogo por Tempo”,
foi um sucesso imediato,
a meninada às vezes
precisava ficar na espera
para que vagasse uma
das mesas. Todo mundo
queria jogar PlayStation!
Como mencionei, o acervo
de jogos do console da
Sony era composto de A cabeçona em
3D do Mario
chamariz! Cr era um baita
CDs piratas, tornava-se édito: Marcus
Garrett.
impossível ter variedade e quantidade
apenas com títulos originais, sendo assim,
28 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 29
tínhamos um fichário em que talão de papel, e a pessoa o assinava, ficando
enfiávamos as capas dos jogos em com a cópia “carbonada”. Visão que os
clientes tinha
saquinhos plásticos para que a Em menos de um mês, entravam. Cr m logo que
édito: Marcus
Garrett.
meninada pudesse escolhê-los – acredito que o Marcelo tenha
se a pessoa jogasse por uma hora, entregue o software, então,
podia trocar de jogo por até três bastava efetuar o cadastro
vezes; se jogasse meia, duas diretamente no programa e
vezes. A receptividade foi tão pronto. O processo, a partir
grande que, quase de imediato, de então automatizado,
encomendamos duas mesas mostrou-se muito melhor
adicionais e buscamos, para e prático principalmente
a felicidade do tal Wagner, para controlar os jogos em
mais televisores na G. atraso, pois gerava uma série
Aronson. Basta dizer que de relatórios pertinentes.
o faturamento da locação Sobrou para mim: tive de
interna pagava os aluguéis “passar a limpo” todos
do imóvel e do telefone, os cadastros antigos, em
po”, era
e ainda sobrava dinheiro. papel, digitando-os no
por Tem computador...
a, o “J o go
rrett . “Uma hora na mesa 2!”, “meia
o intern ito: Marcus Ga
Locaçã ! C ré d hora na 6!”, “falta muito para acabar na 5?”. Nem tudo eram flores,
esso
um suc
Este era o dia a dia do salão de os cadastros davam
jogos. briga de vez em quando.
Nos primeiros dias também Alguns clientes não
começamos a cadastrar os queriam, nem por reza brava, indicar
clientes que queriam alugar referências pessoais, achavam aquilo “um
jogos, levá-los para casa. absurdo”: “Como!? Vou incomodar meu
O processo era simples: o irmão por causa de cartucho de videogame?”.
interessado preenchia uma “Minha cunhada está dormindo agora, não
ficha, lia as regras e a assinava, vou telefonar para ela!”. “Meu tio foi levar
mas precisava indicar ao menos minha avó ao caratê, não pode atender!”...
uma referência pessoal a quem e coisas do tipo. Até que, certo dia, o
ligaríamos para averiguar se o negócio quase azedou mesmo: um cliente
cliente era conhecido da pessoa estrangeiro, acho que argentino ou chileno,
em questão, geralmente o pai, rasgou a ficha de inscrição na cara de Papai,
irmão ou familiar. Não me lembro dizendo algo do tipo: “não tenho ninguém
ao certo, mas creio que pedíamos para indicar, toma essa m%$#&*!@”, ao
comprovante de endereço em que o Seu Gilberto, praticante de Boxe na
nome da pessoa, tudo por motivos juventude, prontamente fechou o punho e
de segurança nossa. Aprovado o já se preparava para golpeá-lo na cara – não
cadastro, guardávamos a ficha em fosse Mauricio, veloz como um guepardo,
uma caixa e o cliente estava apto a apaziguar a situação! No fim, o “gringo”
a alugar. Anotávamos o título do se mostrou um bom cliente de locação.
jogo e a respectiva data de devolução no Vá entender! A verdade: por mais cuidado
30 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 31
que tomássemos, gente alugados, mas percebemos rapidamente que
mal-intencionada lesou a isso desagradava os clientes, eles queriam
locadora em mais de uma poder alugar na sexta e devolver diretamente
oportunidade. Chegavam na segunda, logo, fizemos a alteração. O
sorridentes, forneciam dados domingo, cujo movimento variava de
falsos, locavam e sumiam... mediano para ruim, servia a quem quisesse
Alugávamos até três jogos jogar no local ou comprar algo de última
para cada pessoa, o número hora. Em relação às folgas, combinamos
máximo, e pagava-se uma assim: Mauricio folgaria aos domingos, pois
úblico
diária de acordo com o tipo de a ste r S ystem: p era casado e tinha uma filha pequena, e
M .
de longe
videogame. Os cartuchos do fiel vinha ro Iv o eu e Papai folgaríamos às segundas.
Ped
Crédito: B 16-BIT
.
Master System eram os mais Prate s/ C LU Tenho de confessar a vocês: folgar às
baratos, seguidos dos jogos para segundas-feiras era péssimo, meus
a.
Mega Drive e Super NES. Os CDs de cador amigos estavam no trabalho e quase
ualq uer lo
PlayStation (originais) e de Saturn lar em q nunca eu conseguia combinar algo
: popu
Sonic : Tectoy.
(a grande maioria da Tec Toy), Crédit
o com eles. Apesar de tudo, trabalhar
juntamente com os cartuchos do na Zeta era divertido, delicioso e
Nintendo 64, eram os mais caros. não enjoava!
Em relação ao Master System, com Posso dizer que era curioso
o tempo tivemos clientes assíduos ver a reação das crianças e
os quais diziam que a Zeta era dos adolescentes quando um
uma das únicas locadoras com lançamento chegava ou quando
jogos para o sistema em catálogo. um cartucho muito esperado,
Tínhamos diversos clientes que vivia alugado, ficava
fiéis além dos donos do Master disponível. O brilho nos olhos, a
System, havia gente que vinha alegria pura e simples de quem
até de outros bairros: diziam não tinha preocupação alguma na vida além
gostar do atendimento e da de escolher com qual jogo brincar a
variedade – principalmente seguir, contagiava, inebriava. Eu
dos jogos do Nintendo 64, lembrava da minha infância: época
sistema que, com o tempo, em que, tendo alugado o inédito
viraria o carro-chefe da Decathlon em 1984, descobri aquele
Zeta, o diferencial frente à clássico da Activision no Atari 2600.
concorrência. Eu observava os pais e as crianças,
Nossa locadora ficava o carinho com que a mãe dava um
aberta os sete dias da jogo de presente ao filho, o sorriso
semana, acredito que espontâneo, os risos fáceis... Mamãe
das 8h30 da manhã ou havia falecido recentemente, minha
9h até por volta de 20h, ligação com ela era muito forte e eu
20h30. Inicialmente, ainda estava em luto. A alegria das
computávamos os pessoas que visitavam a Zeta era como
Nintendo 64:
domingos como data o nosso difere
carro-chefe da
Zeta Games, uma injeção de ânimo, um reviver de
ncial em relaç era
de devolução dos jogos Verso d Crédito: Pedr
o Ivo
ão à concorrê
ncia. tempos passados, felizes. Claro que
acaixa de Prates/CLUB
16-B IT.
para o S um jogo, da Te
aturn. C c Toy,
rédito:
Tectoy.
32 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 33
passávamos alguns apertos, havia brigas preservar a própria saúde. Contudo, meu particulares, na região. A locadora
homéricas entre pais e filhos, birras, criança pai, que não era nada sutil, pegava o spray de era o ponto de encontro, eles
se jogando no chão, meninos mal-educados, “Bom Ar” e saía borrifando o perfume, sem saíam do colégio – os alunos do
tinha de tudo! Ainda assim, eu saboreava nenhuma cerimônia, pelo salão de jogo. Às COPI (hoje FIAP), bem próximo,
aqueles momentos com um ar de “já vi isso vezes borrifava, na cara dura, praticamente visitavam quase todos os dias – e
há muito tempo”. sobre os meninos: “Vão tomar banho e lá iam para bater papo, jogar e
O tópico “encrencas”, aliás, traz voltem depois!”, palavras “carinhosas” do conhecer as novidades. “Você
muitas histórias engraçadas... Éramos Seu Gilberto! Eu ficava com pena, criança não está matando aula, né?”.
constantemente visitados por crianças é criança, pobres ou ricos, eles têm “Seu pai sabe que está aqui?”,
pobres, humildes, que não chegavam a vontades, desejos, aspirações e sonhos sempre perguntávamos. “Não,
ser moradoras de rua, mas careciam de como qualquer uma. A gente também tio, não estou em horário de aula,
cuidados óbvios, de asseio e atenção. não permitia que a molecada entrasse meu pai sabe”... A coisa ia assim
Elas chegavam e “espantavam” os demais sem camiseta, podiam espernear, brigar, até que, certo dia, algum pai ou
clientes, que reclamavam do mau cheiro xingar... Não podia! Lembro de um alguma mãe fez uma denúncia e
e do comportamento duvidoso. Eu pedia, menino, ele devia ter uns 8 ou 10 anos o Juizado de Menores apareceu.
Bom Ar: o
com respeito e educação, que procurassem Seu Gilberto
de idade, que, após ser convidado a Posso dizer que foi um “Deus
se comportar, que se lavassem e tivessem abusava dele! deixar a Zeta por estar sem, regressou nos acuda”, os agentes chegaram
mais cuidado com a higiene – para o bem passados 15 minutos com... um saco bradando em voz alta e queriam
delas – até mesmo para de lixo enfiado, com direito aos “ver o fliperama”, pediam
furos na cabeça e nos braços, como às crianças que mostrassem
se fosse uma camiseta! “Pronto, os respectivos documentos,
tio, não estou mais pelado”. O perguntando também, é claro, se
funcionamento da mente de uma matavam aula. Numa expressão
criança é algo mágico... muito usada atualmente, eles
Conforme citei, a Zeta era
muito bem localizada, ficava
numa avenida movimentada
do bairro do Cambuci, e havia
várias escolas, públicas e
as
fliperam
lembrar arret
e s a s ” faziam a rc u s G
As “m ito: M
te. Créd
realmen
34 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 35
chegaram “tocando o terror”. Eu estava de para a Zeta. Quando ele chegou,
folga no dia, era uma segunda, mas soube O serviço mais procurado da locadora inicialmente para o PlayStation,
da história pela boca do Mauricio. A situação era, sem dúvida, a locação interna. Às sextas mas logo sucedido pelo Saturn
só se acalmava quando mostrávamos aos (após o colégio) e aos sábados o salão ficava e um pouco depois pelo
agentes que os jogos eram de consoles literalmente abarrotado. Filas de espera Super NES, a garotada ficou
domésticos, aparelhos que qualquer um eram comuns, anotávamos em um caderno alucinada. As costumeiras filas
tinha em casa, e que as crianças compravam os nomes de cada um e o tempo de jogo aos sábados aumentaram, os
a hora, não havia fichas ou “sangria” de desejado, a lista não parava de crescer, as meninos jogavam uns contra os
dinheiro, não se tratava de um “jogo de azar”. cadeiras mal tinham tempo de esfriar e já outros e berravam, gritavam, só
Somente então, já mais calmos, pediam para havia novos meninos sobre elas – e meninas faltavam subir nas mesas e dar
que tomássemos cuidado com o horário de (uma parcela pequena de garotas jogadoras, golpes reais nos demais, uma
aula, que as crianças não podiam faltar etc. é claro, que também gostavam de jogar). Os loucura! Uma cena não sai da
Ufa! Essa inspeção dos agentes aconteceu títulos mais procurados eram geralmente minha memória: todas as mesas
mais de uma vez – e era sempre a mesma os de luta, os de corrida e os de futebol, de jogo da Zeta com o bendito
coisa: crianças em pânico, desespero, ocasionalmente aparecia um simulador de Zero 2 em funcionamento
choradeira, RG para lá e para cá, videogames voo ou uma aventura. Um jogo, contudo, foi simultaneamente. Incrível! Não
sendo mostrados e agentes indo embora. A coroado como o campeão dos campeões na sei como a molecada não enjoava
memória pode pregar peças, Zeta Games: Street Fighter Zero 2! Uma das daquilo, mas logo tomamos
Mauricio acha que chegou continuações da famosa série de jogos de proveito da popularidade e
até a ir ao Juizado para luta, ele foi lançado (em arcade) no Japão organizamos um torneio cujo
conversar com fiscais ou pela Capcom em 1996, sendo a sequência primeiro prêmio era nada menos
algum outro profissional, de Street Fighter Alpha: Warrior’s Dreams que um Nintendo 64. Conforme
mas sem prejuízo com golpes adicionais e novos movimentos. a expressão: “Estávamos
Sucesso! podendo!”.
absoluta
ero 2 : mania
ighter Z
Street F le cada.
a m o
entre
36 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 37
Ainda sobre o Street Fighter Zero 2, (no lugar de “Tatsumaki Senpuu
era engraçado escutar as expressões dos Kyaku”). No box em destaque, copiei
meninos, que procuravam repetir os nomes o texto de um fórum, ele ilustra as
dos golpes em inglês, muitos dos quais pronúncias em questão, cada uma
um tanto ininteligíveis. Surgiam pérolas mais esdrúxula que a outra!
como “Tiger Robocop” (em vez de “Tiger Além de Street Fighter, variados
Uppercut”) e “Papai Freddy Krueger” títulos fizeram sucesso. Mortal
C E ): Kombat Trilogy (chamado de
ru m GDJ
io (fó “Trilông!”) foi bastante procurado
o Sampa
eandr ercut (Sa
gat) quando saiu, Battle Arena Toshinden
a l de L Tiger Upp
origin Meu e Virtua Fighter, ambos de luta
Texto en) p, Kaiser no
Hadouke
n (Ryu e K Tiger Roboco o, em 3D, idem. Logo
A b iuki, a Tô-Apertad
Ráduguem,
Adugu i, Copo, Tiger Vou chegaram os da Mortal Kombat
uquem. cort , T iger
búrguer, Bad Aiguêr Ümer Trilogy: também
Nuvem, Ham Vai Pra Casa,
Tiger Marvel e os dos popular quando
Pegar, Tiger Abacate. X-Men, favoritos
do, Senha…
chegou (ao lado) e
en)
n (Ryu e K Supermerca The Need for Speed,
Shoryuke olywood, entre os aficionados.
, Roriugui, H
um dos favoritos
Shariuquem lsin) Do gênero corrida e (abaixo).
, R o li ú k e. Y o g a Flame (Dha em,
Oriuge n Play, Buga V de carros em geral,
Iu ga Fei, Rodar
a Vem ga, Io os destaques iam
a k i S e n puu Kyaku Y o b a M ei, Macumb
Tatsu m para a série The Need
(Ryu) Flei. for Speed, Driver
F re d d y K ruger, (perseguição policial),
Papai , m (Guile)
ruuuuguen Sonic Boo ull,
Ascais-fais-f n , u”), Halek F Top Gear 3000 e Gran
ar u gu e, A Tak Tak F u ge
A le x F ull (“aléquif o ga F ire Turismo. Resident Evil,
Tatat uugen, Fú,
Ralequif
ú,
Y
af ru gu em ,
Rodectecf , M an ék ga Vai , Donkey Kong Country e Tony Hawk Pro
Batat c Trugues uga Fai, Bu
ge, Trac Tra (Dhalsin) – G i
a Tsa Tsa Tsu u e Faio, Dos-fo Skater eram igualmente populares. Outra
T ch ep T u guen, A ta q
M ac u mba Vai, Ioga P H Ú I! , unanimidade da qual não podemos nos
Tchep
taque das C
orujas, Cuscuz, HÚ
Tartaruga, A gu ên , (E. Honda) – , Um Boi! esquecer é Campeonato Brasileiro/
q u er F ru ta , Abortap tu
O B o i, U-ui,Pu-Pui!
Papai cas Futebol Brasileiro, uma versão
guên, Catra Li)
Abroptaptu m Kick (Chun “nacionalizada” do International
d am , R et et uguen, Dá u S p in ning Bird k i,
Estu , Batata Sinin Gudó ru
Hambúrguer Pini-Ha-Ih,
Teco do Seu C o ru ja s, razy Taxi,
atráquio das Mini
Taxi, C i-
Nariguda, B et et u ken , Dhalsin, Min
it u ge ta tu k en, Atuk d o P in ta dinho, Sim ês ), S in im
Tota men hin
h re is tu k en , O Pai tá Co e ta iken (“Táxi” em
c
Smas ba, Ataq u
, Itaquacetu Taxim.
Hambúrguer T su ru gen,
sê Tsê
da Suruba, T p Trep
itudurê!, Tre
Top Gear
Rat aq u iteq u 3000, clássico
T ék
ein, To Ték
Trep Turugu
do Super NES
(acima) e o
Tuuguem. “queridinho”
Donkey Kong
Sagat Country (ao
Muitos sustos e arrepios
em Resident Evil. lado).
38 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 39
Superstar Soccer da digamos, “pitorescas”, gente que falava
Konami, um dos cartuchos sozinha e gesticulava muito enquanto
pioneiros no quesito jogava, nada preocupante desde que não
“simulação” e com visual incomodassem os demais. Lembro-me de
ao estilo que, de forma um rapaz, ele devia ter uns 30 ou 35 anos,
ainda rústica, lembra que sempre queria brincar com o Formula
os da atualidade. Ele 1 do PlayStation. O detalhe é que vinha
virou febre porque, “armado” com bloco de papel, caneta,
nalizaçã
o” além de ótima jogabilidade, revistas, ou seja, chegava equipado para
7: “nacio
ld in h o Soccer 9 bol da Konami trazia times brasileiros e narração “quase” que tomasse nota dos tempos que fazia
Rona de fute
lar jogo
do popu em português – segundo a lenda, feita no em cada pista, da velocidade máxima,
Paraguai (“graande djugada!”, “qui recordes etc, tudo sob um ar sério e
lindo!”, “foorte bombaa!”). No ano convicto. Acho que o Ayrton Senna
seguinte, lançaram o Ronaldinho estava ali e eu não percebia! Com o
Soccer 97... Quanta criatividade! tempo e a popularidade da locação
No geral os clientes se interna, chegamos a ter oito mesas,
comportavam quando havia posteriormente adquirimos também
algum mal-entendido ou um gabinete de carro, feito de
desavença – até mesmo meninos madeira com pedais e câmbio de
chatos e “pirracentos”. Uma metal, e equipado com o jogo Cruis’n
leve bronca era o suficiente USA (rodando em um Nintendo 64).
para que a ordem voltasse. Uma máquina de fliperama antiga (sem
Se bem me lembro, nunca fichas, cobrávamos por hora), que veio
expulsamos alguém ou algo com o Knights of the Round, mas que
parecido, sempre reinou, apesar logo substituímos por Double Dragon,
das broncas homéricas dadas completava o “time”. Outra
pelo meu pai ou justamente imagem que está em minha
por causa delas, a paz. Às mente e que ilustra a procura
vezes apareciam pessoas, por nosso estabelecimento:
crianças esperando, sentadas
à porta, pela abertura
da locadora às 8h30 da
O salão de
jogos da Ze manhã. Quanta vontade
ta
no auge: 8 de jogar!
mesas arca
um fliperam
de, A locação externa
a
real e um era igualmente um
Recibos de
“carrinho” sucesso. Como a Zeta locação externa,
com Cruis’n
USA. Crédi era um pouco mais muito procurada
to: às sextas-feiras.
Marcus nova em relação Crédito: Marcus
Garrett.
à concorrência, Garrett.
decidimo-nos
por transformar
o Nintendo
40 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 41
Seu Gilberto e o GoldenEye do N64 cogitação para a maioria
dos moleques, não
Por André Forte havia outro meio
para conhecer um
Analisar os jogos de N64 hoje e não rir lançamento, o jeito era
das texturas de fotos dos atores coladas dar a sorte de alugar
porcamente nos polígonos é uma tarefa o cartucho assim
bem difícil, mas, para a época, nenhuma que ele chegasse à
pessoa em sã consciência não se espantaria prateleira. As crianças
com o visual do game em seu lançamento disputavam essa Lacres: proteção contra
os “espertinhos”.
chance, levavam isso a sério! Crédito: Mauro Berimb
para o N64, certo? au.
Não para o Seu Gilberto. Daquele Como não havia YouTube
jeito “sincerão”, ele apontou para o telão para conferir um vídeo de
instalado no meio da loja que rodava gameplay, elas só podiam
o game e soltou: “Não sei o que essa sonhar e usar a imaginação
molecada vê nessa coisa. Tudo quadrado, até que a espera acabasse e
com a mesma cara…”. voltassem para casa com o título
Bem, não dá pra dizer que ele estava tão desejado. Tempos difíceis...
errado. A experiência só não era
melhor e mais completa porque
as embalagens originais eram
cortadas e retirávamos os manuais.
O cartucho era entregue ao cliente
64 no carro-chefe, já que perdíamos das em uma caixa de plástico padrão
demais em quantidade de jogos de outras comum às locadoras. Outro detalhe
plataformas prévias. Comprávamos quase fundamental era selar os cartuchos
todos os lançamentos do 64, chegamos a com os infames lacres, colocávamos
ter, se a memória não falha, mais de 200 dois em cada sobre os orifícios dos
cartuchos para o sistema. Um dos favoritos parafusos – e ainda dávamos um
era o GoldenEye 007, game tridimensional visto em ambos com uma
egria
em primeira pessoa baseado no filme caneta dourada. Isso era cação da al
e: personifi tt.
André Fort ré di to : M arcus Garre
juvenil. C
homônimo. Possuíamos mais de 10 cópias do necessário por causa dos
cartucho – e todos acabavam alugados entre “espertinhos”, gente que
a sexta e o sábado, até o Mauricio o colocava abria o cartucho e trocava
para jogar na TV de retroprojeção quando a placa interna ou por uma
sobrava! pirata ou por uma de outro
Esperar pela sexta-feira era gostoso, eu jogo qualquer; coisa que
adorava a antecipação, bastava dar a hora de seria descoberta quando
GoldenEye 007: um dos saída dos colégios ou o horário do almoço
favoritos do Nintendo 64.
e os meninos começavam a aparecer na Mauro B
erimbau
Zeta como se fossem pipocas estourando jogando
no
gabinete
numa panela quente! Conforme mencionei carrinho de
. Crédito
:
na introdução, comprar estava fora de Marcus G
arrett.
42 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 43
o próximo cliente o locasse. jogar e bater papo. Dois casos são notórios e oficialmente, mais sobre isto adiante. O acompanhados de um superior,
Alugávamos bastantes jogos de de destaque: Mauro Berimbau e André Forte. mais legal, contudo, foi testemunhar o um sargento ou tenente,
Nintendo 64 e de Super NES, Com o primeiro, tive uma ligação afetiva crescimento dos dois, vê-los se transformar, apareciam em busca das
mas também um bom número quase imediata, sentia como se ele fosse o com o passar dos anos, de garotos em novidades. Vê-los adentrar a loja
de Mega Drive e Saturn. Locações irmão mais novo que não tive: partilhávamos homens. O André Forte se transformou em devidamente paramentados,
de CD originais de PlayStation os mesmos gostos em uma série de coisas, jornalista de games e criou o site Kapoow!, desejando alugar jogos de Saturn,
praticamente inexistiam, e os filmes, músicas, livros... Era impressionante. o Mauro Berimbau é professor da ESPM – era divertido. Sempre que via o
cartuchos de Master System, Afinidade inata! O segundo também era Escola Superior de Propaganda e Marketing, superior, eu batia continência, ao
como informado, tinham um um garoto nota 10, educado, divertido, faz doutorado na área e se especializou em que ele respondia: “Não precisa
público fiel, mas limitado. brincalhão e amigo... André Forte. Eu estava games digitais e Advergames. Há 22 anos fazer isso, filho!”. Certa vez,
Acabei fazendo amizade sempre à espera de que aparecessem, pois eram moleques, meus clientes! perguntei a um dos soldados
com muitos dos meninos que aprendi muito com eles e com as dicas de Além da molecada, tivemos um público rasos: “Onde vocês jogam? No
frequentavam a loja, amizades lançamentos e de jogos que valiam a pena ser diferente na Zeta. Havia um quartel do quartel mesmo?”. “Sim, tem uma
que extrapolavam as paredes da adquiridos, ambos estavam sempre ligados exército no bairro do Cambuci, acho que salinha lá em que a gente deixa o
locadora e faziam com que nos às novidades. O Mauro ajudava bastante ainda existe, e os soldados apareciam videogame ligado”, respondeu o
encontrássemos fora dali para a gente e chegou até a trabalhar conosco fardados na locadora. Quase sempre recruta. Veio à minha mente, de
imediato, a imagem do Sargento
Tainha, antigo personagem
dos gibis do Recruta Zero,
esmagando tudo com os pés,
Marcus e seu pezinho no Jornalismo de raiva, como costumava fazer
trabalho enquanto quando o Zero aprontava alguma
Por André Forte ainda estava cursando ou era desobediente.
Jornalismo, chegando rente Calma! Tem mais! Dois
Mesa dife
A Zeta Games era também um local até a me acompanhar que usáva
mos integrantes do grupo de
para acumular habilidades sobre games. no início de minha no “Game Heavy Metal “Tropa de Shock”
o”.
Aniversári
O nerd cabeludo, o tal do Garrett, virou carreira na EGM Brasil di to : M arcus
Cré
certa vez para mim, e, ao apontar para o ao dividir autoria de Garrett.
Mario 64 que rodava no telão, me disse: textos e entrevistas
“Olha, eu não sei onde isso vai parar, mas inesquecíveis.
para mim isso é apenas o estopim para os E não é que ele
gráficos realistas nos videogames”. Papos estava certo? Hoje
como esses permeavam boa parte das os gráficos estão
minhas visitas à locadora. Eu aprendia a ainda melhores,
cada dia e me interessava em entender com efeitos de luz e
mais sobre o mercado de games e fatos sombra extremamente
históricos não tão divertidos, como a realistas jamais
Reserva de Mercado que ocorreu no Brasil imagináveis no N64.
da ditadura militar. E hoje ele já acumula
Ironia do destino, com o fim da Zeta o quatro obras literárias
Marcus pegou gosto pela escrita e, meio imperdíveis e até um
que ao mesmo tempo, ele me ajudou nas documentário sobre o
primeiras oportunidades de mostrar meu tema.
44 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 45
alugavam jogos da gente, salvo engano, muito pouca gente trabalhava com cartão de
Marcio, o baterista, um rapaz bem alto, crédito ou andava com dinheiro na carteira.
magro e sempre vestido com roupas de Aceitávamos cartão também, porém,
couro, e o vocalista, o Don, um jovem não era um processo eletrônico,
muito falante e comunicativo. Ambos era preciso pegar um talonário de
moravam perto da locadora, eram papel e inseri-lo numa maquineta
extremamente educados e simpáticos. O plástica, encaixar o cartão do cliente
vocalista contava “causos” a respeito de em uma parte específica do conjunto
shows e de viagens para outros países, e, segurando firme, deslizar uma
eu e o Mauro chegamos até a ganhar ou superfície da maquineta sobre o cartão
comprar, não me lembro, um dos CD do e, consequentemente, o papel. A
A Tec Toy estava no auge à época
grupo devidamente autografado: “Angels of da Zeta. Crédito: Tectoy. informação ficava impressa no “boleto”,
Eternity”. Muito legal! contudo, antes era necessário telefonar à
Voltando aos serviços, outro que televisores. A duração de cada jogá-los etc. Quando o evento operadora para que ela autorizasse a operação.
plagiamos de locadoras concorrentes foi festa era, geralmente, de quatro acabava, empacotávamos tudo Ufa! Em relação aos cheques, contratamos
o “Game Aniversário”. A coisa funcionava horas. Contratávamos também e levávamos de volta à Zeta. um serviço telefônico para que pudéssemos
assim: íamos à festa da criança e levávamos um monitor, geralmente algum A gente se cansava bastante, “consultá-los” (em realidade, verificar se o
duas mesas diferentes das que usávamos garoto que frequentava a loja, os aniversários aconteciam à cliente não havia dado cheques sem fundo na
na Zeta (compradas especialmente para para que ele tomasse conta noite e depois de um dia de praça), bastava ligar para uma central, passar
isso de outro fornecedor), elas seguiam do equipamento, trocasse trabalho normal. Certa vez, certas informações e, em instantes, vinha
equipadas com dois videogames e dois os jogos, explicasse como durante a desmontagem após a a resposta – quase sempre positiva. Era um
festa, alguém colocou uma das tanto constrangedor, afinal, a pessoa esperava
Age. à nossa frente.
l. Crédito
: Nintendo TVs sobre a extremidade da
o Brasi
Nin tendo para caçamba da picape do Mauricio, Quase ia me esquecendo, tivemos
: licença da
Playtronic ela escorregou e caiu! Vimos assistência técnica! O amigão Daniel, o
o desenrolar do desastre em mesmo dos timers, ia à Zeta aos sábados
câmera lenta, porém, não deu e executava alguns serviços, sendo que o
tempo de fazer nada, de salvar principal era o desbloqueio do PlayStation
a pobre TV. O curioso é que, e, em menor escala, o desbloqueio e o
mesmo com o gabinete plástico chaveamento do Saturn. Um chip especial
rachado e quebrado, ela ainda era soldado a alguns pontos da placa e
funcionava. Não se fazem mais afixado nela com cuidado, um processo
aparelhos assim! simples, rápido e que dava pouco trabalho.
As vendas eram o nosso ponto Às vezes era necessário regular ou alinhar o
fraco, apesar das vitrines cheias canhão de leitura a laser do aparelho. Outros
de produtos, os videogames, serviços necessários: transcodificar consoles,
principalmente os nacionais da arrumar cabos e controles com mau contato.
Tec Toy e da Playtronic, eram Quando defeitos complexos apareciam e
caros para os padrões da época. demandavam maior cuidado ou peças que
Vendíamos, é claro, mas pouco não tínhamos, levávamos o que quer que
em comparação à renda gerada fosse a outra assistência na cidade (jeito
pelos demais serviços. Na época paulistano de se referir ao centro) em um
aceitávamos cheques, já que esquema de parceria.
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anos depois, constatamos: Ouro”. Esse cliente pagava projetadas, mas sempre perguntei a mim
não poderíamos estar um valor X por mês, recebia mesmo como seria a imagem, digamos, de
mais errados.. Antes, a carteirinha (simples, só de um filme, desenho ou série. Num sábado,
porém, tenho mais farra) e tinha o direito de jogar após o expediente, peguei o aparelho
histórias a contar. livremente, por quantas horas de videocassete de casa, juntei amigos e
Ao lado da Zeta quisesse, na própria locadora. Ele clientes, alugamos “Independence Day”,
havia uma doçaria também podia alugar mais jogos filme de 1996 que retrata uma invasão
famosa no bairro, e ficar com eles por mais tempo, alienígena ao estilo “Guerra dos Mundos”, e
a Santa Clara, e eu e tinha acesso privilegiado aos realizamos a “Sessão de Cinema Zeta Games”
vivia lá, os doces e lançamentos. Era uma espécie com direito a pipoca, refrigerante e muita
os salgados eram de clube, uma maneira de diversão. Com o som bem alto, aposto que
muito bons. Quando presentear os clientes um pouco assustamos quem caminhasse na calçada em
Papai e eu não mais abastados, de segurá-los na frente à locadora. Uma experiência e tanto
conseguíamos Zeta e brigar com a concorrência. anos antes do aparecimento dos televisores
almoçar em casa, a Não me recordo, sinceramente, de Plasma, LCD e LED!
salvação da lavoura se a ideia foi eficaz, acho que
era o “vizinho” e tivemos menos de cinco
suas coxinhas, sócios do tipo Ouro e olhe lá.
bolinhos de queijo Inconscientemente, acredito que
e bombas de estávamos percebendo a queda
chocolate. Com o no movimento, o começo do
tempo, contudo, processo que descrevo mais à
n.
layStatio percebemos que frente...
ueio de P
desbloq
al de um a meninada saía da locadora Antes de encerrar este
Nota fisc rcus Garrett.
M a
Crédito: para comprar bebida ao lado, longo capítulo, existe uma
Coca-Cola ou sucos, e Mauricio, história que envolve a enorme
O movimento do primeiro Natal foi muito perspicaz, teve a ideia TV de retroprojeção. Eu via,
incrível, somados todos os serviços e, de “transformar” a Santa Clara diariamente, telas de jogos ali
claro, as vendas, tivemos a certeza de que em mais uma concorrente.
havíamos escolhido o negócio certo! Logo Explico: compramos uma ay no te
lão.
depen dence D
cedo, na véspera de Natal, vendemos um geladeira, provavelmente na G. Pip oca & In
Nintendo 64 da Playtronic para um bom Aronson do Wagner novamente,
cliente de locações, ele chegou um tanto e passamos a vender bebidas.
desesperado e queria o videogame de Os meninos não necessitavam
qualquer jeito, pois presentearia o filho com mais desgrudar os olhos do
o console. Via-se o prenúncio de um 24 de PlayStation para que matassem
dezembro bem movimentado e de ótimas a sede. De quebra, eu assaltava
vendas, permanecemos na Zeta até por a geladeira também porque
volta de 20h30, uma vez que os clientes não ninguém é de ferro!
paravam de chegar. Por fim, encerramos o Notando uma leve queda no
dia e fomos curtir o nosso Natal – o segundo movimento, o Mauricio – sempre
sem minha mãe. Achávamos que “ficaríamos ele! – bolou outro diferencial,
ricos”... era um sonho natalino! Cerca de dois algo que chamamos de “Sócio
48 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 49
O
tempo foi
passando, novos
jogos lançados
e alugados,
títulos mais “maduros” que
demonstravam, de melhor
maneira, as capacidades
do Nintendo 64, tais como
Star Wars: Rogue Squadron
e The Legend of Zelda:
Ocarina of Time, cartuchos
estes que não paravam na
prateleira. Novas amizades
foram feitas, conheci uns
meninos “metaleiros” –
além do pessoal do Tropa
de Shock – que adoravam
música e guitarra, cabeludos
que não saíam da Zeta e
com os quais os assuntos pareciam nunca
esgotar: Van Halen, Iron Maiden, Joe po era
m
do gru rrett
Satriani, Yngwie Malmsteen, Helloween... tegra n te s
us G a
ock: in édito: Marc
Outras festas com Game Aniversário eram de Sh r
Tropa da Zeta. C
es
contratadas, clientes que, contentes, client
chamavam a gente uma
vez mais para alegrar o
menino aniversariante
da vez.
Desenrolava-se o
dia a dia com o qual
estávamos acostumados:
pais, filhos, barulho,
corre-corre, telefone que
tocava, “chegou o jogo?”,
O COMEÇO
“quanto custa o controle do
PlayStation?”... Porém, nos
primeiros meses de 1998,
DO FIM
o movimento começou a
cair... inexplicavelmente... A
molecada foi sumindo do salão
de jogo, da locação interna, as
locações externas diminuíam, o
telefone tocava menos e quase
50 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Mamórias de uma Locadora nos Anos 90 51
não se realizavam vendas... Um crescendo movimentado em que vários
até que a coisa toda parecia ter estancado. clientes saíam do trabalho e iam
“Será que apareceram mais concorrentes?”, à Zeta para devolver os jogos
perguntava meu pai. “Deve ser algo alugados na sexta anterior.
passageiro, vai melhorar”, dizia meu irmão. Em meio à bagunça, um deles
Não, Mauricio, não ia melhorar, só piorar, tentava acessar o Almoxarifado
víamos o prelúdio do fim da chamada “Era enquanto os demais ficavam
das Locadoras”, um fenômeno que, sem dó de olho no movimento e nas
nem piedade, fulminou todo mundo! pessoas. Para o azar do ladrão,
A pirataria de CDs de PlayStation, verdade um dos clientes, um policial à
seja dita, foi um dos motivos importantes paisana com quem tínhamos
para a derrocada daquele tipo de negócio. Ao amizade (Alan, creio), percebeu
invés de alugar um jogo ou pagar para jogá-lo a ação dos bandidos enquanto
por uma hora ao preço de R$ 3,00, jogava na TV de retroprojeção,
o menino ia com a mãe à Rua Santa Efigênia rapidamente largou o controle,
ou à Rua 25 de Março e comprava o mesmo – sacou a arma e deu-lhes
pirata – por R$ 5,00, sendo que não precisaria voz de prisão. A Polícia foi
devolvê-lo jamais nem teria minutos chamada, contudo, os ladrões
contados para que a partida acabasse. O jogo se aproveitaram da grande
era dele por míseros R$ 5,00! A pirataria quantidade de clientes e de uma
tomou um vulto incrível, incontrolável, e bobeada do policial, e fugiram
as locadoras começaram a quebrar, a falir. antes mesmo que a viatura
Há outros motivos, como a situação ruim chegasse, correram.
do país e salários baixos, mas imagino O roubo de fato, a tentativa
que este tenha sido o principal: a pirataria bem-sucedida, aconteceu assim:
“institucionalizada”. meu irmão, tentando reverter o
Vendo a situação, meu irmão teve uma fraco movimento, ficava até tarde
conversa séria comigo e me orientou a na Zeta Games, mantinha a loja
deixar o negócio e a procurar emprego, aberta mesmo com o comércio
pois temia o pior. Papai apoiou a ideia. em volta, isto é, lojas, doçaria,
Mauricio ficaria só na Zeta, mas contrataria bancos, escritórios, todo fechado.
nosso amigo e cliente, o Mauro, já que ele Resultado: já quase 21h, dois
não saía mesmo de lá. À época, o amigo bandidos em uma moto entraram
Marcelo Jarretta convidou-me a trabalhar no estabelecimento, anunciaram
na área de informática e assim foi... A Zeta o assalto, renderam o Mauricio no
Games, minha locadora querida, entrou no banheiro e limparam o estoque.
que seria a fase final de existência. Além Levaram todos os cartuchos de
do movimento fraco e que só fazia cair, Nintendo 64 e mais algumas
no segundo semestre de 1998 sofremos
uma tentativa de furto e, logo depois, um
coisas, parece que sabiam, de
antemão, onde estavam os itens ERA HORA
DE PARAR...
assalto bem-sucedido. Na primeira tentativa mais caros. Disseram-lhe, ainda,
quatro homens entraram na loja, era o que ficasse quietinho, pois
finzinho de tarde de uma segunda-feira, dia voltariam para “buscar o resto”.
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“M
auricio, chega, não dá
mais, esse roubo foi um
sinal”, disse ao meu irmão.
“É, chega, não adianta
mais insistir”, veio a resposta. Com tristeza
e sensação de derrota, como se tivéssemos
nadado por quase três anos e morrido na
praia, tomamos a dolorosa decisão: hora de
encerrar as atividades. Dividiríamos o que
restava do estoque e cada um faria o que
quisesse com as respectivas coisas. No meu
caso, vendi a minha parte, na forma de lote,
para a UZ Games.
Epílogo
Três anos que literalmente voaram de tão
rápido que passaram!
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sonho. Não existiam empresas olhasse para o Mauro de hoje,
A
que desenvolviam games como ele ficaria muito orgulhoso!”
hoje, então, trabalhar em uma Em outra conversa, desta
locadora era a única forma vez com meu irmão e sócio, o
de se “trabalhar com jogos”. Mauricio, ele revelou:
Minha irmã, a Mônica, foi quem “Abri a Zeta Games com você
descobriu a Zeta ao passar em mais por uma coisa prática,
frente da loja, foi então que não era tão ligado aos jogos –
decidi ir até lá para conhecer. embora eu gostasse de jogar
De cliente, com o tempo, na TV grande que tivemos, eu
virei funcionário, embora adorava o 007 do Nintendo 64.
MI
meus pais não concordassem No fundo, eu mais quis ajudá-lo
muito, eles preferiam que a fazer algo, a trabalhar, eu me
eu estudasse, já que eu “não preocupava muito com você,
precisava daquilo”. Mas eu com seu futuro... E, claro, era
quis. Desempenhei uma série divertido, foi legal enquanto
de funções, atendia em balcão, durou”.
cobrava, emprestava e devolvia Bastante tempo transcorreu
jogos, punha games nas mesas desde o encerramento do nosso
para que a molecada jogasse, negócio. Papai se foi, não está
atendia telefone... As amizades mais entre nós. Muita água
ZA
que fiz foi o mais importante. rolou, várias coisas aconteceram
O Marcus transformou a em minha vida: casei-me,
minha vida, me afetou com o mudei-me de casa, passei em
carinho dele, apresentou coisas um concurso público e virei
legais, desenhos japoneses, servidor, tive uma filha, tornei-
guitarristas, bandas de Rock, me pesquisador e autor de livros
coisas essenciais para a minha sobre o início da história dos
vida até hoje. Por causa dessa videogames no Brasil e lancei
minha experiência, escolhi um documentário sobre o
estudar Propaganda e Marketing mesmo tema... Ufa!
DE
na ESPM com ênfase em jogos Depois de 23 anos, o que
digitais e tenho uma carreira significa a Zeta Games para
acadêmica na área, faço mim? O mesmo que sempre
doutorado. Hoje recebo convites significou:
para dar aulas e palestras,
participo de convenções, tudo
um sonho para aquele Mauro
dos anos 1990... Lembrar da Zeta
Games e daquela época é uma
grande emoção, cheguei onde
cheguei por causa do que lá vivi.
Se aquele Mauro da Zeta Games
56 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 57
E
stas fotos foram tiradas no dia em que
Eu e
” Mateos,
rte, Ro dr igo “Duvisa das nossas
é Fo m a
dir.: Andr e foge. Aci
Da esq. p/ jo nome m a.
cl ie n te assíduo cu o s da Z et
um preç
a tabela de
cabeças,
Apêndice
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Bobagens dentro do Alm
oxarifado.
s vitrines
igo Mateo
s. Conteúdo da . Muito
m nom e” e Rodr lh ad o no chão
“rapaz se espa
frente aind
a!
é Forte, o trabalho à
Berim bau, Andr
dir.: Mauro
Da esq. p/ A turma
ajudand
o a gen
te na de
smonta
gem da
s vitrines
.
60 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 ZETA GAMES - Memórias de uma Locadora nos Anos 90 61
Mais um adeus ao salão de jogos
.
Últimos
minuto
s de vid
a do ou
trora fa
m oso salã
o de jog
os da Z
eta.
Documentário
[Link]
Revista Jogos 80
[Link]