UMA ESPERANÇA
SÁBADO, JULHO 05, 2008
Aqui em casa pousou uma esperança. Não a
clássica, que tantas vezes veriFca-se ser
ilusória, embora mesmo assim nos sustente
sempre. Mas a outra, bem concreta e verde: o
inseto.
Houve um grito abafado de um de meus
Flhos:
- Uma esperança! e na parede, bem em cima
de sua cadeira! Emoção dele também que
unia em uma só as duas esperanças, já tem
idade para isso. Antes surpresa minha:
esperança é coisa secreta e costuma pousar
diretamente em mim, sem ninguém saber, e
não acima de minha cabeça numa parede.
Pequeno rebuliço: mas era indubitável, lá
estava ela, e mais magra e verde não poderia
ser.
- Ela quase não tem corpo, queixei-me.
- Ela só tem alma, explicou meu Flho e, como
Flhos são uma surpresa para nós, descobri
com surpresa que ele falava das duas
esperanças.
Ela caminhava devagar sobre os Fapos das
longas pernas, por entre os quadros da
parede. Três vezes tentou renitente uma
saída entre dois quadros, três vezes teve que
retroceder caminho. Custava a aprender.
- Ela é burrinha, comentou o menino.
- Sei disso, respondi um pouco trágica.
- Está agora procurando outro caminho, olhe,
coitada, como ela hesita.
- Sei, é assim mesmo.
- Parece que esperança não tem olhos,
mamãe, é guiada pelas antenas.
- Sei, continuei mais infeliz ainda.
Ali Fcamos, não sei quanto tempo olhando.
Vigiando-a como se vigiava na Grécia ou em
Roma o começo de fogo do lar para que não
se apagasse.
- Ela se esqueceu de que pode voar, mamãe, e
pensa que só pode andar devagar assim.
Andava mesmo devagar - estaria por acaso
ferida? Ah não, senão de um modo ou de
outro escorreria sangue, tem sido sempre
assim comigo.
Foi então que farejando o mundo que é
comível, saiu de trás de um quadro uma
aranha. Não uma aranha, mas me parecia "a"
aranha. Andando pela sua teia invisível,
parecia transladar-se maciamente no ar. Ela
queria a esperança. Mas nós também
queríamos e, oh! Deus, queríamos menos que
comê-la. Meu Flho foi buscar a vassoura. Eu
disse fracamente, confusa, sem saber se
chegara infelizmente a hora certa de perder a
esperança:
- É que não se mata aranha, me disseram que
traz sorte...
- Mas ela vai esmigalhar a esperança!
respondeu o menino com ferocidade.
- Preciso falar com a empregada para limpar
atrás dos quadros - falei sentindo a frase
deslocada e ouvindo o certo cansaço que
havia na minha voz. Depois devaneei um
pouco de como eu seria sucinta e misteriosa
com a empregada: eu lhe diria apenas: você
faz o favor de facilitar o caminho da
esperança.
O menino, morta a aranha, fez um trocadilho,
com o inseto e a nossa esperança. Meu outro
Flho, que estava vendo televisão, ouviu e riu
de prazer. Não havia dúvida: a esperança
pousara em casa, alma e corpo.
Mas como é bonito o inseto: mais pousa que
vive, é um esqueletinho verde, e tem uma
forma tão delicada que isso explica por que
eu, que gosto de pegar nas coisas, nunca
tentei pegá-la.
Uma vez, aliás, agora é que me lembro, uma
esperança bem menor que esta, pousara no
meu braço. Não senti nada, de tão leve que
era, foi só visualmente que tomei consciência
de sua presença. Encabulei com a delicadeza.
Eu não mexia o braço e pensei: "e essa agora?
que devo fazer?" Em verdade nada Fz. Fiquei
extremamente quieta como se uma bor
tivesse nascido em mim. Depois não me
lembro mais o que aconteceu. E, acho que
não aconteceu nada.
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