Reflexões de Vida e Suicídio
Reflexões de Vida e Suicídio
Marlon Grando
Epígrafe:
“Crescemos com a convicção de que a vida é o bem maior e a morte o maior horror, e ainda
assim nos tornamos testemunhas e vítimas de horrores piores que a morte ‒ sem poder
descobrir um ideal maior que a vida” ‒ Hanna Arendt
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Carta ao leitor, leitore, leitora e ao curioso que apanhou este livro numa livraria para dar uma
espiada.
Esta obra defenderá igualmente a vida e o suicídio, de maneira não paradoxal, não
anticivilizatória e não romantizada. Trata-se de uma obra de elevado caráter autobiográfico e,
por isso, alguns nomes são representados apenas por suas iniciais em maiúsculo seguidas de
um ponto, pois o autor não considera adequado criar nomes fictícios para pessoas reais.
Quanto aos “aspectos literários”, digamos assim, posso lhes adiantar que há uma mistura entre
tempos psicológicos e cronológicos, que variam a depender da natureza mais ou menos
abstrata do objeto da narrativa. Quanto mais nos aproximamos do final, mais o fluxo de
consciência aparece. Há inúmeras referências a outras artes de outros artistas, que não foram
grafadas como tais devido ao fato de esta obra, no âmbito ficcional, ser uma certa espécie de
“diário”, que, portanto, não tem compromissos externos. Tais referências aparecem, na grande
maioria das vezes, de forma indireta ‒ o que confere maior naturalidade à leitura e
ocultamento das outras camadas do texto. Para além disso, é vasta a riqueza e profundidade
filosófica, psicológica e psicanalítica da composição ‒ a personagem que narra enfrenta o
niilismo para além das soluções propostas pelos existencialistas. É uma história comovente e
inquietante. A construção da personagem principal, feita pelo autor, torna-a “demasiado real”.
Falamos aqui de uma personagem que enfrenta a pandemia no ano de 2020 e não raramente
comenta notícias reais de jornais “lidos ficcionalmente” todas as manhãs. E, para os leitores
que já conhecem as outras obras desse autor, o final desta será, no mínimo, bastante curioso.
O estilo de escrita aqui é muito próprio, todavia há clara influência de Machado de Assis e
Clarice Lispector ‒ ela mais do que ele. Sorte do leitor estar lendo um texto escrito pelo autor,
o que torna possível que este lhe afirme que há também arraigada uma influência de Virginia
Woolf no texto. No geral é um livro bastante equilibrado, que oscila entre uma acentuada
profundidade filosófica e a banalidade burlesca do cotidiano.
Não poderia deixar de agradecer a Universidade de São Paulo por não valorizar a
produção artística de seus alunos e, especialmente, por não as considerar creditáveis como
atividades extracurriculares. É, evidentemente, uma forma muitíssimo amável e inteligente de
incentivar seus alunos e de facilitar suas vidas pouquíssimo dispendiosas.
M.G
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28/03/2020 sábado
Depois de tantos anos de casados, é chegado o tempo em que a mulher se torna mãe daquele
que primeiro lhe chupou as tetas. E essa armadilha natural do matrimônio nada tem a ver com
uma derradeira necessidade de amar, como creem os românticos – no fim da vida, o amor do
qual falam já não nos é mais possível, nem mesmo bem-apessoado ou compreendido como
amor. E ainda se nos amassemos com a estupidez e o vigor da juventude, envoltos pelo véu
ilusório de uma paixão cega e comum, cobiçosos de uma vida sem fim, contrariando a aridez
e debilidade que advêm do costume, subtraindo a sabedoria oriunda dos erros pregressos,
sendo então uma vez mais uma tela em branco para os pecados mundanos que tanto nos
ensinam, não há sentimento, inocência ou impolida pureza, que resulte em tão deplorável
grilhão. Seja por uma escolha própria ou pela reprodução de uma cultura funesta, quis ela me
cuidar. Chegou minha vez de retribuir e senti-me incapaz. O senhorio de meu corpo mais uma
vez me provou estrangeiro: não o fiz, mesmo tanto o querendo fazer.
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Naquela mesma tarde fui ao terapeuta, ainda incerto sobre como iria racionalizar a
decisão que tomei sem nem mesmo falar com ele. Acabei lhe dizendo que não tinha forças
para trocar as fraldas e dar banho em Luzia todos os dias, ainda que a debilidade não tivesse
chegado a esse ponto, mas a hora viria, era uma questão de tempo, e o cigarro me roubaria o
fôlego e, vez ou outra, iria me fazer ter vertigens que certamente, por muito pouco, não me
levariam ao chão.
Não havia tentado, confesso. E sequer me dispus a tentar. Não daria certo. Eu sei
disso. O disse e ele me perguntou se isso não era medo de que ela voltasse. Francamente, não
sabia responder a essa questão e disse isso a ele. Perguntou-me então como eu estava
emocionalmente com todo o ocorrido. Tentei responder, mas senti uma imensa vontade de
lágrimas. Como se coubesse aos meus olhos, e não à boca, trazer àquela sala todas as palavras
29/03/2020 domingo
No dia seguinte tentei me entregar à rotina. Levantei às seis, tomei um bom banho e tão logo
deixei o banheiro acendi um cigarro. Matutava as incertezas de minha decisão. Luzia não
estava em casa então pude fumar sentado no sofá da sala. Juntei as cinzas num pires e as
joguei num canteiro que temos na janela acima do aparador – faz bem às plantas. Acendi
outro cigarro dali um minuto. Cada peteleco que dei na guimba deste foi sobre uma flor
diferente, como se as adubasse a pitadas. As bitucas as coloquei num copo que fica ao lado de
uma pequena lixeira sobre a pia de nossa cozinha apenas para isso. Junto-as ali para não sujar
o cinzeiro de vidro, que tem o papel único de ornar a mesa da sala, mas é também verdade que
elas deixam cheiro e Luzia não gosta – empesteia a casa, ela diz. Em seguida voltei ao quarto.
Vesti uma calça social preta, uma camiseta branca, o sapato gasto de sempre e um
suspensório. Estava quase pronto. Faltava o relógio. Dispus-me em frente à janela do quarto
onde logo abaixo tem uma escrivaninha miúda e de madeira velha banhada pelo sol que
irradiava forte naquela manhã. Sobre a sombra projetada pela parede, acima da mesa, salvos
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do sol, estavam distribuídos meus queridos – oito, para ser exato. Todos os dias os apanho um
a um, ensaio-os sobre meu pulso e os reposiciono de volta com esmero sobre a mesa,
refazendo a fila indiana na qual eles se encontram. Em seguida escolho o que mais me apetece
no dia e o ponho no braço esquerdo. Daquela vez optei pelo da pulseira de couro. O marrom
do couro contrasta bem com minha pele e, chamando a atenção para si, faz com que os poucos
olhos que me fitam se percam um pouco das manchas de tempo que tenho no braço. Deixei a
casa depois de apanhar um dos chapéus beges dentre os que ficam sobre um cabideiro atrás da
porta de saída. E, claro, tranquei a porta.
Fui à padaria e na volta esbarrei com Jussara nas escadas do prédio, sabia que ela
estivera em viagem recentemente e que talvez não soubesse do que ocorrera com Luzia.
Receei que ela me perguntasse pela esposa, mas isso não aconteceu. Conhecidos de longa
data, Jussara e eu somos vizinhos de porta e por muito tempo não nos demos bem, mas o mel
do hábito deu de endossar tal ódio e agora nutrimos um pelo o outro uma não declarada
afeição. Amistosamente nos cumprimentamos ao passarmos um pelo outro:
Não sou de usar elevadores, essas máquinas fazem mal à saúde. Já Jussara tem medo
deles, confessou-me uma vez. Nos esbarramos todos os dias um pouco antes das sete, eu
vindo da padaria e ela indo. Jussara – como posso dizer com sutileza? –, é uma mulher de
fogo inapagável – assim fica bom. É verdade que também precisava do dinheiro, mas
começou a se prostituir depois de velha por nutrir gosto ao ato. Tem uma vasta e consolidada
clientela no bairro da Liberdade. E é uma mulher de altos e baixos, mas na saúde e na doença
conserva ela um ar materno encantador e inabalável. Dá de comer aos clientes – café e bolo
que ela mesmo faz −, vez ou outra um pão de queijo. Cansei de ouvir suas conversas com
Luzia. É mineira, mas como só tece conversas sedosas, fora a regular troca de açoites comigo,
ninguém lhe nota o sotaque. Fala lento, de um jeito manso, move-se num rebolado elegante,
como o dos inúmeros gatos que tem em casa. Não é de despejar sua solidão por aí, mas aos
meus olhos ela não escapa. Padece do mesmo desalento que eu. Não sei se toma remédios.
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Deveria. Dorme à tarde para estar bem desperta à noite para quando os clientes chegarem.
Durmo cedo enquanto ela trabalha.
03/04/2020 sexta-feira
Acordei às seis e ao sair do apartamento dei de frente com um rapaz que estava por ir embora
da casa de Jussara. Mirei aquele corpo franzino e, pela ausência de pelos na face e pela finura
das pernas e braços, adivinhei nele uma idade na casa dos vinte anos. Estava vestido numa
polo laranja de gola verde musgo e num jeans demasiado largo para sua cintura. O cabelo
estava desgrenhado e pude ainda notar um arranhão em seu pescoço. Parecia ter pego
emprestado as roupas do pai para sair de casa e “fazer coisas de adulto”. Mirei o rosto sulcado
do rapaz e o perguntei como foi a noite – num tom irônico, não afinado aos ouvidos da
juventude. Respondeu-me com um sorriso torto e amarelado, feio, mas bem honesto. Em
todos os anos que aqui estive nunca sequer uma vez vi um cliente resmungar sobre os serviços
de Jussara. A mulher parece ser competente em seu ofício. Enfim, dei passagem ao rapaz e
desci em seu encalço.
Essa primeira semana foi monótona como se tudo tivesse se passado num longo
feriado chuvoso. Mas fazia sol e as ruas transbordavam um espesso ar convidativo – as
plantas das avenidas reluziam fortemente a luz do sol e a nervura das folhas verdes, em
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resposta, estavam demasiado vistosas, tão túmidas que mais pareciam com o espraiar de
afluentes de um grande rio amazônico. Os dias tinham uma beleza obscena que eu me
recusava’aceitar. A cada espreitadela de canto de olho que eu dava por entre as janelas do
apartamento era como se o mundo me cutucasse no intento de me lembrar que era um erro me
isolar dentro de casa. Fechei as janelas. Daquilo que é vivo, Luzia é tudo que tenho e que me
importa. Posso a visitar apenas aos finais de semana, e, para isso, tenho ainda de ter em mãos
um PCR feito durante a semana. Salvo o mercado e a padaria, esse foi o único motivo que me
levou a sair de casa durante esses seis primeiros dias de aguardo.
Desci até a Rua da Glória e fiz o teste num grande laboratório que estava atulhado de
gente. O uso de máscara, pelo que tenho percebido, talvez esteja resultando num maior brio
de leitura dos olhos entre nós homens e mulheres. Quem mais ganhou com isso foram os
herdeiros de bons olhos e feias bocas e narizes. É que a beleza de um desconhecido se encerra
no mundo aparente. O que pode vir a nos fazer nos encantarmos por seus segredos é a
coragem e a curiosidade que o não saber em nós desperta. Pensando bem, é uma questão
socrática estar aberto à obscuridade de uma beleza de patavinas − pode ser vistoso ou
hediondo, no final é a sorte quem nos irá dizer. É exatamente como o medo do escuro, comum
às nossas infâncias, e que nunca se deixou perder com o quedar dos anos. Apenas se mudou
de casa. O escuro é agora o outro, o estrangeiro, que na medida em que nos assusta, só o faz
por seu mistério. Tivéssemos o Diabo diante dos olhos não o temeríamos. É uma questão
simples: o medo é uma promessa. A gramática de meus olhos é também simples, reflete toda
a minha desgraça que, embora seja um terrível passado, é visto como o natural maquiar da
velhice.
Em casa, passei a viver de bife, ovo e salada, que também não passa de tomate e
pepino mal cortados. Não sei cozinhar sequer um arroz e, de acordo com as vicissitudes da
vida, estou – como posso sumariar? –, estou lascado.
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rubores o evocar do nome do rapaz. De súbito, Luzia, que parecia não se importar com a
minha presença, virou e disse:
– E o senhor, é casado?
E foi minha vez de enrubescer num misto de amor e tristeza. Disse-lhe que sim, que
era casado com uma mulher exuberante e que ali não viera pois estava a cuidar de casa.
Essa pergunta me uniu a garganta ao peito. Deixei o quarto e fui embora antes mesmo
que o horário de visitas acabasse.
06/1962
Foi por volta de junho de sessenta e dois que apareceu à porta de minha casa uma beata. Não
estava trajada pelo hábito, nem trazia no pescoço um escapulário, mas ao julgar pelo tamanho
da saia que vestia, pelo busto e braços cobertos por aquele algodão barato e florido, mesmo no
sol escaldante do interior de Minas Gerais, e não menos pela trança única e grossa que lhe
unia os cabelos até a altura da bunda, deixando exposta uma cara resignada e sofrida, era certo
de que tinha como ofício as palavras do senhor. Bateu-me à porta trazendo nos braços uma
criança de menos de um ano de idade. Ao ver de longe a pequena, não disse palavra. Soube
que era minha. Só não sabia de qual fruto de minhas escapadas à cidade pertencia tal
preciosidade. Tão logo a tive nos braços lhe mirei a pele. Café com leite era a menina. Não
tive dúvidas, a filha era de Joana.
Joana era uma mulher preta que trabalhava num dos bares da minha cidade natal.
Costumava dizer a ela que era encantado pelo par de jabuticabas que ela carregava nos olhos e
pelo caroço de manga que levava entre as pernas. Ela ria vexada, mas gostava muito de ouvir
minhas piadas. Tinha um sorriso miúdo, uma boca carnuda e um beijo dos mais doces ‒
pretidão de amor, tão doce a figura! Conheci-a no Pinga e Pelota, um dos bares preferidos
daqueles jovens que, como eu, moravam enfurnados nas roças nos arredores da cidade de
Unaí. Próximo da entrada da cidade, de fácil acesso e por ser muito barato o Pinga e Pelota
era ponto de reunião dos bêbados da cidade, trazendo como lanche seu clássico pão de queijo
recheado com pelotas a um preço acessível, era também local para onde escoavam os jovens
famintos e pouco abastados depois das festas naquela região. E foi numa madrugada, depois
de um rodeio, que conheci Joana. Ela atendia a uma das mesas ao meu lado, mas não tirava os
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olhos de mim. Mal abri a boca para lhe dar boa noite e ela me disse para que eu a esperasse
que logo ela sairia do trabalho. Naquele dia demos início àquilo que iria resultar em Fernanda.
O relacionamento durou pouco, pois na época tive medo de que meu pai soubesse que
eu estava por namorar uma “preta encardida” ‒ como ele dizia. A chegada repentina da neta,
cuja cor da pele fora motivo de aversão por parte de meu pai, causou discórdia em nossa casa.
Revelei o caso que tive a ele e resumi a ópera dizendo que, com a morte precoce da mãe da
menina, ficava eu agora inteiramente responsável pela tutela da criança. Seu Ulisses – como
eu chamava o bigodudo – teve ímpetos de nos expulsar de casa, mas cedeu aos apelos de
minha mãe, que insistiu que a menina morreria se nós a não acolhêssemos naquele momento.
Foi acertado entre nós três um prazo de tolerância de dois anos e, depois disso, eu e Fernanda
teríamos de ir embora, pois Seu Ulisses não sustentaria uma mestiça dentro de casa. Dona
Irene, vó coruja que foi, deu tudo de si para me treinar no enfrentamento dos caminhos
labirínticos da paternidade. Ao cabo do prazo eu parti para São Paulo, levando um galão de
leite e duas trouxas de roupa.
11/04/2020 sábado
Hoje no mear da tarde alguns meninos de nosso condomínio bateram à porta de nossa casa.
Procuravam por Luzia, que sempre lhes fizera bolos e outros quitutes. Ficaram decepcionados
em saber que ela não mais morava aqui.
Então tive de contar a ela a situação. Disse tudo numa só frase. Jussara me ouviu e não
teceu sequer um comentário. Voltou a entrar em casa e fechou-se lá dentro.
Bem, eu estava atrasado para meu encontro com Dionísio, então desci as escadas e não
me importei com a atitude estranha daquela mulher. Encontrei alguns vizinhos que ignoraram
as medidas de precaução da covid para levarem a mão ao meu ombro nos dizeres “Mas que
pena, hein”. Não me dispus a fingir um sorriso, disse apenas “Pois é. Até mais” e segui
andando. A sessão com Dionísio ocorreu dentro do esperado. Falamos sobre Luzia, como eu
me sentia com isso, como estavam sendo meus dias em casa sozinho e blá-blá-blá.
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– Antenor, o senhor precisa se lembrar de não reprimir seus sentimentos caso fique
depressivo outra vez. Está me ouvindo?
Num primeiro momento essa ideia me pareceu um pouco tola, mas o tempo ocioso a
tornou conveniente. Os dias têm sido tediosos e já consigo identificar algumas mudanças em
meu humor. Não tenho dormido bem, meu intestino tem funcionado mal e não consigo parar
de pensar em como está sendo essas primeiras semanas para Luzia.
Ligaram-me da casa de repouso terça à noite. Era Luzia que estava agitada
perguntando por mim.
– Mas por que a pressa, Luzia? – ela nunca foi dessas expansividades.
– Então só por essa noite, depois você me traz de volta. – e as últimas palavras desse
pedido me vieram aos ouvidos num tom de desespero incomum.
– Então o que é?
O telefone tornou a tocar enquanto eu já estava me arrumando para sair. Era uma das
funcionárias dizendo que Luzia continuava muito agitada – “algo sobre uma certidão”, disse
uma delas ao fundo. “Ficou assim o dia todo”, disse-me a outra.
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– Em dez minutos chego aí. – respondi ao telefone.
– Já demos a ela um remédio pra que ela se acalme, é provável que até o senhor chegar
aqui ela já vai estar dormindo. Sei que a situação é nova para o senhor, mas tente respeitar os
dias de visita. A pandemia é mais perigosa para os mais velhos, Seu Antenor. E essas coisas
costumam acontecer com frequência entre nossos internos. Logo passa.
Fui dormir já quase pela manhã, mordido pela saudade. Varei a madrugada mexendo
em algumas caixas que Luzia mantinha guardadas sobre os guarda-roupas. Lá encontrei um
antigo caderno de Fernanda e ao abri-lo me detive à segunda anotação que me saltou aos
olhos, estava com a ponta da folha dobrada e marcada com um asterisco: “Nasci porque se
nasce. Não dei permissão para isso. É natural – coisa que nos acontece. Uma tragédia
comum a todos: nasci – ponto. E um dia irei morrer. Vista assim, a vida nem parece ser
grande coisa. O início e o fim estão dados desde o começo. Tudo é tão previsível que chega a
me dar sono. Depois de mim um outro nascerá e fatalmente também virá a morrer. E assim
sucessivamente. É tudo tão simples visto desse jeito. Toda a coisa parece tão banal. Tudo é
pequeno, efêmero e finito. Nada tem sentido. E eu só sei me preocupar se viverei um grande
amor”. Estava assim, escrito em prosa, mas talvez caiba melhor aos versos. Fernanda dizia
não gostar de poesia, só não percebia que sua prosa a fazia uma quase poeta ‒ é uma pena ela
ter parado de escrever depois de sua adolescência. Sozinho me perguntei se ela chegou a viver
esse amor pelo qual tanto aspirava.
Guardei o caderno e, movido pelo texto, pus-me a pensar no óbvio: que eu estou
vivendo a fase final de minha vida. Tive uma filha, que me abandonou. E tive também um
grande amor, que enlouqueceu. É irônico o pássaro da loucura ter pousado logo em Luzia e
não em mim. De um jeito talvez amargo, tive tudo que a vida pode dar a alguém. Pareço não
ter o direito de reclamar da situação em que me encontro. É natural que as coisas acabem.
“Fernanda me deixou e agora foi a vez de Luzia fazer o mesmo” – pensei comigo enquanto
guardava o caderno. Não! Eu não estava sendo honesto comigo mesmo. Fui eu quem a
abandonou. E o latejar dessa hipocrisia fez com que meus pensamentos e desejos tivessem
naquele momento uma só forma e conteúdo: eu queria arrancar Luzia daquele lugar o quanto
antes. Mas isso era de madruga e no outro dia acordei como se tivesse sido surrado à noite.
Ela chegara.
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17/04/2020 sexta-feira
Meu dia começa com oito comprimidos que se dividem em dois antidepressivos, um
equilibrador de humor e algumas vitaminas. Isso não faz parte do charme da idade que
ostento. Fui diagnosticado bipolar em oitenta e três, depois de um surto de mania que tive um
ano antes − tardiamente, já aos quarenta e um anos. E esse foi um dos motivos para que eu
trocasse a bebida pelos livros. Luzia nunca deixou de beber, adora um vinhozinho, eu bem sei.
E os tem escondidos aos montes pela casa – foi hábito que adquiriu com medo de que eu
voltasse a beber nos primeiros anos depois da internação. Agora que ela é quem está internada
suas bebidas perderam a razão para estarem aqui, o que fez dessa minha última madrugada
uma grande busca ao tesouro. Vaguei por todos os cômodos vasculhando seus cantos e fundos
de gaveta à procura de garrafas. Encontrei sete. As darei à Jussara. Não perguntei, mas me
parece que ela é do tipo de pessoa que bebe. Se não for, os oferece aos clientes – assim todos
saímos ganhando. Coloquei-os em uma das caixas que separei para organizar minhas antigas
bagunças e as de Luzia. Estão agora sobre a mesa da cozinha.
Ontem Jussara me visitou no fim da tarde, trouxe um bolo de chocolate para que eu
desse aos meninos pela manhã – havia os avisado que hoje haveria bolo no quinhentos e dois.
Porém, em torno das dez da noite fiquei sedento por um doce, talvez seja consequência de
minha nova alimentação ou falta de sono, não sei. O que sei é que não quis macular a massa,
então apenas comi toda a cobertura. E o fiz com paciência e esmero, de tal modo que ninguém
percebeu que por ali passou uma formiga de setenta e oito anos.
Hoje não jantei, não tive fome. E há uma sensação de exaustão que não desgarra de
mim. Pelejo em inércia. E, por mais que me seja um incômodo e perturbe-me ficar assim tão
quieto, prefiro não ficar vagante. Se ando para lá e para cá a ansiedade dispara, conheço-me.
Há algo em minha garganta que não desce, e o peito dói miúdo-miúdo, mas como dói o dia
inteiro dói demais. Cansa-me, exaure-me. Piora ao anoitecer e é aí que me lembro de Dionísio
me cantando “Apesar de você/ Amanhã há de ser/ Outro dia”. Pode até ser verdade, mas
nesses momentos a esperança parece já não suster o verdor que um dia tivera, agora é madura,
adulta e falsa... Está podre.
25/04/2020 sábado
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Hoje foi dia de visita. Acordei me sentindo meio morto, mas isso já era esperado.
Demorei mais do que o habitual para me arrumar e apesar disso fui o primeiro visitante a
chegar ao Residencial Tamandaré. O pouco cabelo que tenho ainda estava molhado,
besuntava-me a nuca, e no calor que fazia eu não sabia o que era água e o que era suor. Luzia
estava dormindo, não quis a incomodar. “Ela não dormiu nada essa noite, Seu Antenor. Tem
andado muito agitada.”, disse-me a atendente. Então saí com promessas de voltar mais tarde.
Mediante uma ligação consegui adiantar o horário da minha terapia e tive a tarde
inteira livre. Em casa, pus-me a arrumar as últimas bagunças dos guarda-roupas e coloquei
tudo que encontrei sobre nossa cama. Dentre as pilhas que se formaram pendeu ao canto de
uma delas uma pasta preta sanfonada que eu nunca havia visto. Achei dentro dela um
envelope de papel pardo muito surrado que estava todo amassado e fincado numa de suas
dobras, bem no cantinho. Ali encontrei a certidão de óbito de minha filha. Fernanda havia
suicidado.
LUZIA! LUZIA! LUZIA! Não é direito de um pai saber que sua filha está morta?!
Quem você pensa que é para me esconder uma coisa como essa?!
Tenho até hoje o bilhete que Luzia me deu dizendo ser de Fernanda. Nele estava
escrito que minha menina havia ido morar no Uruguai com um novo namorado, e pedia para
que eu não a procurasse. Depois disso nunca mais deu notícias. Já fazem trinta e oito anos.
O calor do momento ao ter feito aquela primeira leitura trajou sua porca mentira como
uma incontestável verdade. Nunca passou pela minha cabeça a possibilidade de aquilo ter sido
uma asquerosa mentira. Dali em diante encontrei em minhas antigas atitudes todas as causas
para a suposta fuga de Fernanda. Fui cego, tolo e, na mesma medida em que me culpei pelo
abandono, nutri por Fernanda um ódio sem fim por me ter abandonado.
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peão e toda a casa se apequenou ante a minha inquietude. As coisas não faziam sentido, por
mais que eu insistisse em as pensar de modos distintos. Aquilo não podia ser verdade.
Ergui-me já outro, de coração amargo e cheio de ódio, e fui ver Luzia. Levei comigo a
certidão de óbito. Cheguei lá e ela estava tola pela doença, emudecida e com um olhar vago,
fitava tudo numa lentidão que parecia estar drogada, o bordo de seus olhos, arroxeados pela
insônia, davam-lhe um ar decrépito lamentável. Apesar dos pesares, pareceu me reconhecer.
– Fernanda?
– Antenor não pode saber... – disse num cochicho ardido e, num rápido golpe, tomou-
me o papel da mão e escondeu-o detrás das costas.
Pude a ouvir berrar ao fundo: “Não! O médico disse que não! Vai fazer mal pra ele!”
26/04/2020 domingo
O mal de fazer terapia há muito tempo é se deparar com a concretude indissolúvel de seus
demônios. O suicídio sempre foi um assunto velado entre mim e Dionísio. Afinal, ele, até
então, era-me um problema freado por uma robusta barragem: em todas as vezes em que a
depressão me visitou durante esses anos, o suicídio sempre foi algo deixado de lado, à sombra
da esperança de que minha filha um dia voltasse. E o que me parte o coração, no desvelar
desse triste passado, não é a saudade ou o atual macular da minguada esperança, o que me dói
é a perda do direito de me retirar dessa vida por mãos minhas. Não posso dar razão a você,
minha filha, e deixar que essa sua decisão de desabraçar o mundo faça sentido. Ainda que
performar o mesmo, de alguma forma, seja uma maneira estranha de me unir a você. Fazer
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isso seria validar minha dor de pai sem filha, seria consentir que todas as desgraças que se
abrigam em meu coração fossem bem-vindas, seria dar razão à sua irrefletida estupidez.
A culpa rasteja pelas esquinas de minha alma, agora num novo traje. O túmulo de um
suicida é poroso, exala, por entre seus buraquinhos, um sentimento que subjuga, como se os
vermes ao se alimentarem da carne podre do cadáver me agradecessem pelo banquete. Sou
como um animal desprotegido a vagar por um bosque enquanto, nos arbustos, está ela à
espreita. A culpa. Faminta e pretensiosa. Esperando para dar o bote. Sento-me à sala ela está
lá, vou ao quarto ela me acompanha, se me deito ela não me deixa dormir, quando me banho
me perco na amplitude de minha culpa como se estivesse por tentar tatear as fronteiras do
espaço. Não há algo outro. Afinal, o ar que respiro é tão necessário quanto saber se fui eu. Se
foi algo que eu fiz. Que eu não fiz. Que eu falei. Será se foi a falta de uma mãe nos seus
primeiros anos? Eu tentei, minha filha! Eu tentei, mas as coisas não funcionam como a gente
quer! E eu errei, é claro que errei, pois enquanto você aprendia a ser filha eu aprendia a ser
pai...
Talvez o ódio que sinto agora recaia todo sobre mim e te salve. Parece até tolice querer
o mobilizar de você, uma pessoa morta, para mim, que já quase nem me aguento com minhas
próprias questões. Mas a incoerência é a sua humanidade me invadindo, pedindo-me para ser
seu pai, é o seu sorriso depois de fazer coisa errada e o seu choro depois de um dia feliz, é
meu desentendimento, é a urgência que o desconhecido tem de ser amado, é onde a razão não
pisa e alça voo, é onde eu não sei ser nada além de seu pai.
Essa noite não dormi. Lembrei de você quando era pequena. Tão chorona... Sua avó te
punha no colo e sacolejava de vagarinho inhoinho... E você dormia feito um leão depois do
almoço. Nunca imaginei que fosse acabar assim.
Quando nos demos pro mundo e viemos parar em São Paulo, eu me preocupei de você
não gostar da cidade grande, aqui não tinha nem gosto nem cheiro de mato, não tinha galinha
e nem um potrinho pra você montar, muito menos vovó – que chorou mais do que você
quando nós fomos embora. Mas você era muito pequena e não sabia de nada. Gostava da
novidade. Não saber era seu ofício favorito – filósofa do papai. E em pouco tempo se tornou o
meu também. Olhar pra você e não saber o que iria se tonar. Professora? Juíza? Médica? Eu
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pensava grande, é que a cidade permitia. Tinha um mundo em cada esquina. Você ali comigo,
enrolada no pano que sua vó deu, grudada em mim feito uma macaquinha. Ô, bicho-preguiça!
Só sabia dormir. E como conseguia cagar tanto? Também nunca entendi o porquê não gostava
de manga, mas lambia meus dedos toda vez que eu comia a fruta. E essa sua beleza que
excede de muito a minha e a de sua mãe é um completo mistério.
Quando se é pai a vida é uma ordem. E é tudo tão esquisito e tão paradoxal que eu,
mesmo já não tendo você, continuo pai e tendo de lidar com os imperativos do ofício.
Chorei essa noite. No banho, como sempre o faço. As lágrimas costumam dar uma
concretude à tristeza que o simples advento de um banho consegue apagar. Mas isso, esse
novo dilúvio que se forma, parece me ler sob a carne toda a água que meus olhos não
conseguem chorar. Sou enxurrada sob e sobre a pele. Sou a coincidência entre a ideia e o
signo. Sou o impensável, o ilusório e o inverossímil. Sou o real enquanto fato e não objeto.
Sou seu pai. Não, sou menos. Sou seu.
Ter sido criado como eu fui. Ter tido um pai como o meu. Isso é coisa que oprime o
choro. Como se por dentro me fizesse tão seco que me secasse a fonte. O grande problema é
ter esse passado e ser um depressivo crônico. Desde de menino choro no banho. Escondo, de
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tudo e de todos, e até mesmo de mim. É como se o banheiro fosse um cômodo abstraído do
mundo, seguro e quente como um útero, que me acolhe e me permite demonstrar toda’minha
dor, desespero e desgosto pelo que se passa do lado de fora. Mas é tudo uma grande mentira,
pois o estrangeiro me habita, me molesta e me forma. Não há para onde fugir.
30/04/2020 quinta-feira
É o último dia do mês de abril e, por coincidência, deparo-me com meu último cigarro. O
fumo após o banho e esse breve momento, em que o inspirar se perverte e o expirar é trajado
de uma espessa cor branca, é como colocar a angústia numa coleira.
01/05/2020 sexta-feira
Essa noite tive vontade de beber algum dos vinhos de Luzia. O cigarro acabou, não tive ânimo
para ir comprar outro maço e o vício deu de querer desbravar outras vielas – velhas amigas, é
claro, mas calei a ânsia por seguir os vestígios da juventude que deram de rastejar para além
do porão de minha alma. Não cedi. Na manhã de hoje dei todas as bebidas para Jussara. Bati
em sua porta um pouco depois das oito e lá estava ela. O corpo coberto pelas curtas roupas do
serviço e, por cima delas, enfeitando e matizando sua pele clara, um tecido finíssimo e
translúcido – preto e com brilhinhos. Vexei-me um pouco e desviei as vistas daquele uniforme
do pecado. Ela não fez caso, ficou muito feliz com o presente e faltou me abraçar.
– Se bebo! Adoro uma bebidinha, Antenor. Faz até bem pra saúde se a gente não
exagerar, não é mesmo?
Convidou-me para entrar. A porta não poderia ficar aberta, pois algum gato podia
escapulir. Recusei por educação e, meio sem jeito, disse que talvez em um outro dia. Ela disse
para que eu voltasse amanhã para tomar um café, pois isso era o mínimo que ela podia fazer
em troca daquela caixa cheia de vinhos. Cedi ao pedido, mas só para encurtar a conversa. Não
tenho pretensão de a revisitar amanhã.
– O que ela fez dessa vez? – não havia motivo para rodeios.
– Fernanda me contou sobre o grave estado de saúde da sua noiva e gostaríamos de dar
uma nova chance para que sua filha passe em português.
– A gente nem consegue imaginar como deve estar sendo difícil pra ela ter que cuidar
da sua noiva enquanto o senhor trabalha – e agarrou uma de minhas mãos e a pôs entre as
dela. Eu nada disse, mas achei um pouco indecente de sua parte.
– Pois bem – disse eu abaixando a cabeça para que ela não me haurisse o riso e a
vergonha do rosto –, já que é assim, eu tenho de dizer à senhora que a situação é de fato muito
complicada e eu fico agradecido pela compreensão de vocês.
Fiz o sinal da cruz e fui embora num passo moroso, encurtado e sem pressa, como se
fosse ainda possível saborear o rumor de meu pequeno pecado...
Desci a Rua da Glória fantasiando qual seria o castigo mais adequado para Fernanda.
Não valia a pena contar a verdade àquela mulher e fazer com que minha filha pudesse mais à
frente perder o ano letivo. Tão clara quanto essa certeza era a necessidade de um corretivo,
alguma coisa que a fizesse sofrer, mas que não maculasse sua integridade física ou psíquica
como fizeram meus pais a mim. E foi na hora do jantar que a ideia me veio à mente, pronta
como se já estivesse em meus pensamentos, encoberta por uma poeira que escamoteia o
inatismo. Guardei silêncio por dois meses, que era o tempo das férias chegarem e de eu juntar
algum dinheiro. E em uma só tarde, ao cabo desse prazo, desci a Dr. Rodrigo Silva inteira,
pousando de sebo em sebo perguntando aos funcionários os nomes dos autores que eles
recomendavam para uma menina de doze anos. Ao final, conferi a lista e o nome de Lobato
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era o que mais aparecia. De garimpo em garimpo, durante a volta, encontrei todos os
dezessete volumes da coleção infantil. Eram lindos, verdes e de capa dura. Tinham um cheiro
de livro velho que Luzia odiou, mas que eu e Fernanda achamos diferente no início e, depois
de um tempo, passamos a cheirar seus miolos próximos das lombadas como dois viciados em
literatura. A edição era de cinquenta e um e a tenho até hoje em minha estante – a penitência
me trouxera enfim o Diabo para casa.
Naquelas férias, que duraram algo em torno de dois meses, lemos juntos oito
exemplares e, como não conhecíamos nada sobre literatura, os escolhemos de acordo com a
numeração. Fernanda, a princípio, detestou o castigo, mas, ali na sala de casa, sentada
obrigada no sofá ao lado de Luzia, que nessa época tricotava por uma renda extra, ouviu-me
ler os primeiros parágrafos das Reinações de Narizinho e, não tardou, ficou encantada pela
história. Começamos a nos revezar entre cada capítulo e, ao cabo da primeira obra, tínhamos
dado início a um hábito que só fora morrer quando sua grotesca adolescência chegou.
É-me de costume reler algum livro de Lobato nos meses de maio. Às vezes minha
cabeça dá lambretas e o narrador que me pousa ao ouvido da alma assume outra vez o tom da
voz de Fernanda. E pouco me importa se esse autor foi isso ou aquilo, como dizem hoje em
dia, para mim ele é a passagem que dá à minha filha o direito de burlar o grilhão do passado e
me revisitar.
02/05/2020 sábado
Não dormi essa noite. Fiquei burilando os dedos na mesa da sala enquanto fumava alguns
poucos cigarros. Estava frio e o adensar da fumaça fazia com que ela se esvaísse em caracol –
dançava espiralada e a angústia dava cambalhotas e cambalhotas no ar, feito uma criança a
brincar num gramado. O dispersar da fumaça era paulatino e dali uns segundos o que estava
diante dos olhos se fazia sentir apenas sob meu velho peito.
Deixei morrer o hábito de ligar todos os dias em busca de alguma notícia sobre Luzia.
Se a situação fosse outra, eu pediria o divórcio. Sinto-me traído, agudamente traído. Sei que o
mundo é caduco e que, por isso, até mesmo a mentira pode ser ato de amor. Sei que esse amor
é, por excelência, paradoxal e que querer lhe impor regras é ilusão da mocidade. Sei também
que o desejo de mudar o passado é outro absurdo, incoerência insensata, estupidez. Mas é
justamente essa ausência de sentido o combustível da intensidade: o desejo se desespera sem
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ter onde pousar, se agiganta. A razão, mesmo sem asas, decola, pois não há mais chão para
pisar e a queda que não se acaba se torna voo – não há feiura que não se atenua com um bom
batismo. O que posso fazer? Nada. Mãos atadas, nó cego e a inebriante vontade de ser livre –
há coisa mais humana que essa? Não sei, talvez o...
Jussara me bateu à porta às nove e alguma coisa. Trazia entre os braços uma bandeja
de alumínio repleta de comida. Eu ainda não havia dormido e meus olhos estavam secos e
ardendo e, possivelmente, vermelhos.
– Velho broxa, eu te falei pra ir tomar café comigo. Você fica nesse lero-lero que vai e
nada, né?! Então tá aqui o café que te prometi. – disse passando por mim e colocando a
bandeja sobre a mesa da sala. Puxou uma cadeira:
– Vamos. Senta.
– Jussara, eu...
– Senta!
– Jussara, é que...
Sentei.
Foi o melhor café da manhã que tomei em dias. O bolo de fubá estava uma delícia:
quentinho, com uma crostinha fininha e levemente mais doce do que a massa, que estava
úmida na medida certa.
– Não dormi.
–?
– Você não acha que eu poderia fazer uma visitinha pra ela?
– Ah, isso é fácil. Ainda mais pra quem faz exames todo o mês.
Minha pergunta tola não a constrangeu. Marinamos no silêncio meio segundo e ela me
fitou arregalando os olhos, erguendo os ombros e esticando o pescoço como um cágado.
Rimos então.
Dali um pouco ela foi embora. Deixou o bolo – essa foi minha janta.
03/05/2020 domingo
Não estou triste. A depressão não é uma tristeza e, para quem a sente, e entende um pouco a
gramática da doença, não se parece com uma. Acordar me tem sido difícil. Meus membros
doem. Doem bastante e parecem pesar centenas de quilos. Minha cabeça dói e a angústia se
assemelha a um objeto estranho alojado no espaço existente entre minha boca e garganta. Meu
cérebro me prende à cama, esta é a verdade. Eu não quero levantar, quero dormir mais,
“porque dormindo tudo isso se apaga” – obrigo-me a crer nessa mentira e esquecer do fato de
que a depressão me causa sonhos e pesadelos dos mais esquisitos e cruéis. Revisito meus
traumas de infância, vejo Fernanda morrendo, vejo Luzia com ódio de mim, vejo-me usando
droga outra vez, vejo meu pai batendo em minha mãe, vejo Joana desfigurada pelo parto,
vejo-me reproduzindo o ato de minha filha... Abro os olhos e deparo-me com a crueza e
desgraçada autonomia que a vida adulta nos enfia goela abaixo sem sequer nos pedir
permissão, e fico parado, somente existindo por alguns minutos, com as rédeas da vida
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pendendo ao meu lado. “Tenho que levantar” – penso eu. “Preciso tomar meus remédios, são
eles que vão me tirar desse buraco” “Ai, mas estão tão longe!” Coloco-os na sala, acima da
mesa de TV, para me obrigar a levantar. Se os pudesse tomar em cima da cama não deixaria o
quarto o dia todo, conheço-me.
Costumo deixar a louça para lavar pela manhã. De noite a doença se intensifica e eu só
quero habitar meu próprio umbigo, ser sugado por ele, cegado, emudecido, ensurdecido,
morto por ele. A verdade é que é assim que me sinto: morto. “Como morto? E já esteve morto
por acaso?” Não, mas já estive vivo e o que sinto agora é o completo oposto disso.
Lavo a louça ouvindo rádio: a doença que aterroriza o mundo todo está sendo
subestimada aqui no Brasil. É a mesma notícia há mais de um mês. Desligo o aparelho.
Abro a geladeira e dou uma olhada esperançosa de que há comida suficiente para que
eu não precise sair de casa. Não há. Vou ao banheiro e o fio-dental me desafia. Há dias não
encaro a dor de o passar. Deixo-o quieto outra vez. Apenas escovo os dentes. Minha gengiva
dói e alguns dentes do fundo sangram um pouco. A roupa que visto depois disso é a mesma
que vesti ontem e anteontem. Está pouco suja e eu não estou com saco para tirar o cinto de
uma calça e colocar em outra. Mal não faz – ninguém olha pra mim.
Já vestido e com um chapéu numa das mãos, abro um pouco a porta e espio o
corredor. Não quero encontrar Jussara, não estou a fim de papo. Não há ninguém no corredor,
então me ponho a descer. No meio do caminho me dou conta de que esqueci de pegar uma de
minhas sacolas retornáveis, odeio as do mercado – rasgam muito fácil e já as tenho aos
montes em casa, enfiadas na cabeça do botijão de gás na cozinha. Pois então que me encontro
em um impasse: não sei se subo e pego as sacolas ou se continuo meu caminho. Calculo
seriamente as variáveis envolvidas e percebo que é menos oneroso ir direto do jeito que estava
e apenas pegar menos coisas no mercado, o que também há de me tirar de dentro de casa mais
cedo para que eu faça outras compras quando essas primeiras pouquidades acabarem, mas,
por mais que eu deteste ter de sair outra vez, sei que isso ajuda. Então vou.
Já na rua, sinto o sol namorar meu corpo. É gostosinho, não nego, mas prefiro o sofá
de casa. Os corredores do mercado estão atulhados de gente. Sinto vontade de sumir. Dou
apenas uma passada rápida no açougue e outra na seção de hortifruti. O homem que me
atende tem o dobro do meu tamanho e a faca em sua mão parece de brinquedo. Gosto de
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arrastar o carrinho para lá e para cá enquanto procuro pelas frutas e verduras. Chego ao caixa.
E em menos de dez minutos estou de novo no caminho de volta.
É uma lástima que tudo se dê de maneira tão lenta. Tic-tac. A depressão, quando
aguda, causa uma dor física, miúda e contínua, como se transcendesse as barreiras do inferno
de onde vem e se alojasse entre meio às carnes da criatura que ela agora domina. Tic-tac. Uma
alfinetada. Tic-tac. Outra. Há um retrato de Luzia abraçada a Fernanda ao lado de minha caixa
de remédios. Ele me olha, convida-me ao passado, eu o fito em resposta, mas logo cesso o
ato, antes que as lembranças me engulam e cuspam-me de volta a esse presente horroroso.
Tic-tac. Volto-me ao teto e, por um momento, ouso deixar de tentar me refugiar no que vejo e
me sinto: morte. O cheiro de minha respiração me incomoda, o suor que me envolve o corpo é
grotesco... Será se me banho outra vez? Tic-tac. Não resisto, converso com o retrato: “Fui eu
o culpado, minha filha?” Tic-tac. E o silêncio ressoa junto ao relógio, como se titubeasse,
como se se perdesse, por um breve momento, no presente. Tic-tac. O presente é amargo, dói e
espanta. Fecho os olhos. Ele é tudo que tenho. Tic-tac – a Clarice não começa um livro mais
ou menos assim? “Tic-tac”. Vou ao meu quarto, deito e acabo dormindo. Sonhei que estava
internado outra vez.
02/1982
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Depressivo eu já havia ficado várias vezes, mas, de um jeito bruto e envergonhado, eu
ignorava a doença. A imagem de meu pai ainda era muito viva em minha cabeça e um filho de
Seu Ulisses não podia ficar de queixumes com a vida quando se tinha o que comer e onde
morar.
Quando se tem depressão o casamento se abala, não tem jeito. Minha vida sexual aos
quarenta anos era um desastre. Luzia fingia não se importar, mas eu percebia seu
descontentamento. E aquilo me feria no profundo, maculava a imagem de homem que eu
acreditava que deveria ser – viril, indelicado, sedento. Emagreci bastante, até ao ponto de
ficar feio, ossudo e de rosto chupado. As coisas iam de mal a pior e Fernanda insistia bastante
para que eu fosse ao médico, mas o meu remédio era negar.
As coisas mudaram quando contratei um moleque arteiro que vez ou outra aparecia em
meu bar para jogar sinuca com seus amigos. Chamava-se Ezequiel, era magrelo, tinha os
olhos um pouco deitados ao tom do amarelo, preto como o céu sem estrelas e tinha um sorriso
largo, largado e malandro. Era um bom menino, sabia contar boas piadas e, ele achava que eu
não percebia, mas era todo enamorado por Fernanda. Foi Ezequiel quem me apresentou a
maconha. Naquela época eu já tinha notado que a bebida afogueava minha melancolia, então
já havia diminuído um pouco meu consumo de álcool. Mas aquele cigarrinho do capeta era
diferente. A primeira vez em que o fumei não senti nada demais, apenas tossi como se fosse
virar meus pulmões do avesso. Não quis mais. Aquilo não era pra mim – disse ao menino.
Ezequiel riu da minha cara e disse que as coisas se davam assim mesmo no início, mas que
depois melhoravam. E ele estava certo. Dentro de poucos meses me apaixonei por aquela
planta. Não foi uma panaceia que fez curar minha melancolia, porém me avivava o riso,
reacendia a fome e, consequentemente, melhorava-me o ânimo ao ponto de às vezes eu
conseguir brincar com Luzia dentro do quarto feito Macunaíma com Ci, a Mãe do Mato, em
dia de noite estrelada.
O problema começou sem que eu notasse. Comecei a dormir menos, mas minha
disposição se tornou a de um cavalo. Passei a fumar maconha sozinho e o fazia sempre que
podia. Lia três ou mais livros por semana e dei início a planos de expandir meu negócio. A
mania é exuberante, viva, maravilhosa – o completo oposto da depressão –, o problema é que
ela acaba.
– ... E se você estiver grávida, minha filha, veja bem o que eu estou te dizendo, se você
estiver grávida eu quero o pai dessa criança aqui amanhã pedindo pra casar com você, você tá
me ouvindo?!
– Louco?! Louco de me preocupar como uma menina que mal consegue arrumar o
próprio quarto vai conseguir tomar conta de um filho!
E eu ficava ali falando mais e mais, até que Luzia já não se aguentava de me ouvir e ia
me tirar de lá. Cheguei ao ponto de bater em Fernanda. Nossas brigas eram diárias e a gente
andava pela casa gritando um com o outro, ela dizia que me odiava e que eu não batia bem da
cabeça – seja qual for o delírio, não interessa, ouvir isso de um filho parte o coração de um
pai. Meus sentimentos fervilhavam dentro de mim, crepitavam sob minha pele e eu chorava
copiosamente em meus banhos. Mas na frente de Luzia e Fernanda eu era um mármore.
Dos livros que li nesse período, e li muitos, não me lembro de nenhum. A leitura era
apressada, desapegada, acelerada como meu pensamento. O pensamento de um maníaco
parece estar sempre em desespero. É uma espécie de sufoco. O pensamento corre livre, feito
uma besta enjaulada que rompeu as grades de seu cativeiro, e se perde em si mesmo e, nessa
novel ausência de amarras, enovela-se e se debate. É o caos, o completo caos. O corpo quer
ceder, apagar-se, desligar-se, dormir, mas a cabeça insiste em se apegar à vigília. É tudo tão
ligeiro que assusta. Às vezes eu parecia ter mais de um, talvez dois ou três pensamentos ao
mesmo tempo a me açoitar as quinas do crânio. Deixei de sentir fome e comecei a tomar
muito café, tive gastrite que quase resultou numa úlcera – um dia cheguei a vomitar sangue. A
psicose se apresentou de um jeito estranho. Quando estávamos a sós, eu e ela, ela me julgava,
dizia-me coisas horríveis, acusava-me de ser paranoico, de ser um péssimo pai, de ter traído
Luzia, de usar outras drogas. E tudo me vinha aos ouvidos da alma numa só voz, grossa,
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diabólica, medonha. Eu nada disse a ninguém, tentei viver a vida como se dela ainda tivesse
controle. O problema foi que com o tempo eu passei a duvidar de mim mesmo, teria eu traído
Luzia e não me lembrava? Estava eu cheirando cocaína e autoiludindo-me com um
esquecimento fajuto? A voz principiou a dar espaço para outras vozes e eu agora escutava
melindres vindos das bocas das pessoas que eu conhecia. Fernanda me dizia reiteradamente
que eu só lhe tinha pego por obrigação, que não a amava. Luzia pedia o divórcio. Meus
clientes favoritos me acusavam de os roubar nas comandas. Etc! Etc! Etc!
Instituí o hábito de ler os livros de ponta-cabeça1, pois eu cria que da maneira comum
estava fácil demais. Passei a deixar o cômodo em que estava e retornar a ele inquirindo se as
pessoas que ali ficaram estavam falando sobre mim, pois eu “havia as ouvido falar sobre
mim”. De uma hora para a outra, tornei-me o mais inteligente entre todos os homens da
história da Terra e comecei a caminhar pelos cantos de casa falando sobre filosofia, literatura,
astronomia e questões escatológicas. Fui a um ou outro colégio entregar meu currículo
oferecendo minhas aulas: “especialista nas grandes questões da humanidade e na verdade”.
Descobri mais tarde que esse tipo de loucura tinha nome. Chama-se “sofomania” e esse
diagnóstico serviu também para que fossem justificadas as vozes que eu ouvia e que me
elogiavam. Já nessa altura meu nome era Narciso. De pouco em pouco, o bar foi se
esvaziando e os poucos clientes que lá ainda iam, vez ou outra, riam de mim. Ezequiel me
chamou para conversar e disse para que eu procurasse ajuda, que “isso” não ia acabar bem. O
demiti. Luzia não dava conta de corresponder mais às minhas vontades na cama então passei a
me demorar no banho desmedidamente. Até que então deixei de dormir. Deixava Luzia na
cama, ia para sala, ligava as luzes e lia os livros ao contrário durante toda a madruga até de
manhã e às vezes, nesse meio tempo, dirigia-me ao banheiro para me masturbar. Fernanda
passou a aparecer em casa apenas para dormir, ficava o dia inteiro na faculdade, estudando,
bebendo, fumando, indo para festas e evitando, o máximo que podia, contato com o pai. Isso
me doía e humilhava-me. Fiquei desesperado por me reaproximar de minha filha. Um dia fui
atrás dela e estrelamos uma grande cena em frente a todos seus amigos numa festa que
acontecia na FFLCH. Ela me levou de volta para casa e pude ouvir depois seu choro e
desalento confessado a Luzia que, assim como ela, pouco sabia o que fazer em relação a mim.
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É parte deste romance: desejo muito que este livro, quando publicado, venha com a capa ao contrário do texto
– algo que claramente faz com que o leitor, de maneira simbólica, “repita” a experiência da loucura da
personagem. Isso há de gerar outro tipo de experiência sensorial ao leitor e será, dentre outras coisas, um
charme. Acredito também que as leituras feitas em locais públicos despertarão curiosidade nas pessoas, pois
imagine você se deparar com alguém no metrô lendo um livro que aparentemente está ao contrário. Essa
curiosidade, penso eu, tende a aumentar o público do livro. E, no fim das contas, todos saímos ganhando.
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Eu sentia que havia algo de errado comigo e passei a ter medo de mim mesmo, como se eu
fosse capaz de perversas atrocidades como matar um outro ser humano ou me matar. Deixei
de usar facas no almoço e Luzia passou a cortar os bifes para mim. Eu me sentia um tolo, mas
tinha medo. Elas, em meio a esse alvoroço, tornaram-se cada vez mais próximas – às vezes
choravam juntas; de noite, entreolhavam-se em silêncio na mesa de jantar, a angústia passeava
por entre seus olhos, e evitavam me olhar no rosto, queriam evitar dar azo às minhas
paranoias, pisavam em ovos, comiam rápido e enfiavam-se em seus quartos assim que davam
fim a seus pratos. Não demorou muito, comecei a jantar sozinho e, à socapa, elas me fizeram
um excluído dentro de casa. A carência que em mim foi desperta por esse afastamento fez
com que eu passasse a rodeá-las em busca de algum par de ouvidos que desse conta de
suportar o desvario que me escorria pela boca. Não havia sossego entre nós.
Foi numa manhã de carnaval que Fernanda apareceu em casa com alguns amigos,
estavam se preparando para ir num dos blocos da Faria Lima − disseram. Um dos jovens, no
calado, ofereceu-me um comprimido branco, um pouco graúdo, mas engolível, disse que
ajudava a “curtir” o carnaval, que todos haviam tomado. Eu não me enraiveci pelo convite, na
verdade, fiquei lisonjeado. Pouco fiquei bravo com o fato de que Fernanda também havia
tomado a droga – ora, e eu não fumava maconha?! Resolvi então tomar o comprimido.
Almoçamos e os garotos se despediram.
– Eu tô cansada, a gente vai depois. Deita aqui no sofá e me dá uma aula, vai.
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perigoso. Todos ali viram do que eu era capaz. A loucura estava por me usurpar, à luz do dia,
um futuro como pai e esposo. E o que mais eu tinha? Nada! Nada sobrava!
Na clínica fui recebido por uma enfermeira e por um dos internos, que era médico.
Não se tratava de uma clínica psiquiátrica comum, eles atendiam os usuários de drogas,
apresentavam e os introduzia ao programa dos doze passos. E eu estava ali, logo me ficou
claro, pois minha família acreditava que eu cheirava cocaína. Eu só sabia negar e minha
negação tinha de fato os pés fincados na realidade, pois eu nunca havia cheirado, mas meu
estado naquele momento era alarmante demais para que minhas palavras pudessem ter alguma
credibilidade. Enquanto Fernanda e Luzia conversavam com os dois eu arquejava e até
mesmo tremia um pouco, estava com a cabeça a milhão e os cantos das unhas de meus dedos
das mãos sangravam, os havia roído na viagem até ali até a carne. Passeei as mãos por meus
bolsos, em busca de um cigarro para afogar tamanha ansiedade, mas não encontrei o maço –
na correria, decerto tinha o esquecido em casa. O interno que ali estava me deu alguns. Fumei
o primeiro, da ponta à guimba, quase numa só tragada. Fui levado a um quarto no andar de
cima e lá foram postas minhas coisas. Desci de volta, com o rosto inchado e as narinas
entupidas pelo choro que me escorria involuntariamente pelo rosto, ainda muito nervoso e
atordoado por toda intempestividade da situação, e fui recebido por dois internos que me
abriram espaço num banco de granito ao qual estavam sentados ao lado do bebedouro da
clínica. Fernanda e Luzia foram embora e só me restava aceitar ficar ali.
No cair da noite outra enfermeira veio me atender e deu-me alguns calmantes para que
eu dormisse. Deu certo. Fui acordado às sete da manhã por um alarme. Desci, tomei o café da
manhã, que consistia em um pão murcho com manteiga e café preto, doce e queimado. Foi-
me dado um copo com meu nome que passou a ficar, assim como ficavam os dos outros
internos, pendurados num grande escorredor simplório, feito de ripas de madeira clara e
pregos, ao lado do bebedouro.
Às sete e meia conheci B., psicólogo, adicto (alcoólatra) e há mais de vinte anos
limpo, um homem baixo, da voz potente, de nariz pontudo e cabelo preto e um pouco
grisalho. B. coordenava a primeira reunião do dia, nela nós internos fazíamos a leitura de
livros sobre adicção em conjunto e partilhávamos nossas experiências pessoais e histórias de
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vida. A palavra “adicto”, pelo que pude notar, é uma espécie de eufemismo para “viciado” e
serve como refúgio para aqueles que não querem revelar seu vício. “Viciado” é uma palavra
que não soa bem aos ouvidos dos familiares e desconhecidos − mas, claro, dentre aqueles que
criam na capacidade mobilizadora da mudança semântica desse sinônimo, a palavra “adicto”
era trajada com enorme glamour.
“O que você é?” “Olá, meu nome é Fulano, sou adicto” – “Ora, ora. Se não é um
viciado classe A!”
“O que você é?” “Olá, meu nome é Ciclano, sou viciado em pinga” – “Ora se não é
um pinguço sujo e sem salvação!”
Naquele dia a calmaria de minha manhã foi interrompida por uma visita repentina de
Ezequiel, que mentiu ser meu sobrinho para poder entrar na clínica e contar-me o que de fato
havia acontecido: Fernanda e Luzia haviam me enganado. O comprimido branco que me
deram era na verdade um sonífero. E o plano delas era me levar dormindo para dentro da
clínica, por isso a presença dos amigos de Fernanda, eles iriam as ajudar a me carregar até o
carro. A ideia era que eu acordasse dentro da clínica e não fizesse uma grande cena devido à
internação compulsória – haviam conseguido a medida protetiva de um juiz semana antes.
Tinham chamado Ezequiel para as ajudar, pediram que fosse ele a me dar o comprimido,
porém ele se recusou a participar dessa patifaria.
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A raiva que isso me despertou nunca tive igual. Quase que de imediato explodi num
ataque de ansiedade. O choro me escorria pelos olhos outra vez enquanto eu clamava que
chamassem Luzia e Fernanda ali. Tive a sensação de que iria morrer. Meu corpo pulsava ódio
e desespero, a mania acentuava tudo e eu me sentia latejar como se tivesse acabado de sair de
uma sessão de tortura diretamente de dentro de uma colmeia de vespas gigante. Dirigi-me até
o portão da clínica e tentei saltar o muro. Fui impedido por dois funcionários. Sentaram-me,
deram-me um copo d’água e alguns calmantes. Minha cabeça latejava e as duas só foram
aparecer no fim da tarde. Choraram bastante durante nossa conversa e diziam estarem fazendo
aquilo por amor. Ao cabo, eu ainda em desacordo com o que estava acontecendo, num intento
de me acalmar, elas me disseram que voltariam no dia seguinte para me buscar. Mentira!
Outra mentira! No outro dia acordei cedo e arrumei todas as minhas coisas – calças,
camisetas, cuecas, meus travesseiros e cobertor, tudo – e desci. Despedi-me de todos, um por
um, e as esperei sentado num banco liso de granito ao lado da porta onde ficava a recepção, o
dia todo. Os internos passavam, olhavam-me, negavam com a cabeça, tinham dó. Elas não
vieram. Quando me dei conta da mentira me senti humilhado. Eu era o doente que elas
enganavam pela segunda vez. Um bando de viciados em álcool, pó e crack me olharam com
pena durante todo um dia. Eu não valia um centavo.
Minha cabeça doía bastante e nesse segundo dia não consegui dormir. Os quartos para
homens ficavam numa ala separada do segundo andar e uma porta de ferro era fechada com
um cadeado trancando todos os internos durante a noite. Minha dor de cabeça não passava e
eu me sentia consumido por um misto tão vasto de sentimentos ruins que eu sequer sabia dar
nome a eles. A sensação de estar no fundo do poço é indissociável, foge à capacidade
expressiva da palavra, apenas é. Levantei do quarto em que estava e caminhei até o corredor
que existia entre os quartos. As portas todas fechadas, liguei a luz e sentei-me. Apoiei minha
cabeça contra a porta de ferro e pedi por ajuda – a dor era grande demais. Não fui atendido.
Acho que sequer fui ouvido, pois minha voz fraquejava. Comecei a pendular devagarinho
enquanto abraçava meus joelhos e minha cabeça martelava aquele metal frio e gelado: tec-tec.
O escorrer das lágrimas me salgaram a boca que hora dessa já não se mantinha fechada – tec-
tec –, principiava um grito amedrontado, afogado, interrompido e o resultado dessa quietude
era apenas o revelar do abismo entre meus dentes se enchendo de uma água amarga e salobra.
03/1982
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As primeiras semanas foram difíceis. Minha mania ainda estava a milhão e eu ainda não havia
sido diagnosticado e isso dificultou meu relacionamento com os outros internos – eu era
narcisista demais, autocentrado demais, sufocava os outros com minhas conversas. Caetano
que me perdoe, mas eu achava feio até mesmo o espelho, pois o que ele refletia era cópia que,
por definição, é inferior ao original.
Dentro da clínica passei a ser “o Mineirinho”, era assim que me chamavam. E com o
deitar dos dias meu estado de euforia foi arrefecendo, arrefecendo, caiiiiiiindo, até que cessou.
Recordo-me até hoje que no dia em que eu cheguei, mais tarde, já de noite, chegou
também um outro homem. Mais velho do que eu, mais alto, de barba malfeita e muito branco
‒ fora a cara, que era queimada pelo sol. Não conseguia nem falar. Tremia e babava muito.
Era esquizofrênico e estava ali depois de ter tido uma recaída.
– Treme e baba assim por conta dos remédios. – Nos disse o interno que era médico
enquanto nós nos fixávamos na imagem daquele homem que era a própria personificação da
loucura.
Entrou num andado curto e trêmulo, seus pés palmilhavam o chão no dificultoso, era
amparado pelo braço por um dos enfermeiros enquanto caminhava devagarinhoinho até
chegar a uma mesa de plástico que ficava sob um guarda sol branco de haste de madeira ao
lado de uma parede granulada cinza escuro, bem longe da gente – longe de todos.
Descobrimos primeiro que era rico, pois tirou do bolso um luckystrike mentolado – cigarro
caro, de gente fina. Na clínica todos nós fumávamos Gift, um cigarro branco que era uma
merreca, nos valores de hoje custaria ele algo em torno dos dois reais o maço. Rolava um
boato entre os internos que esse cigarro era contrabandeado do Paraguai e que era proibido
pois até rabos de ratos podiam ser encontrados moídos entre seu fumo. Depois nos
aproximamos do novo interno, como o fazem os curiosos num safári, seu olhar era fixo e
distante e era-lhe difícil acender o cigarro pois tremia bastante. Com ajuda de um dos internos
ele conseguiu e dali um pouco nós conseguimos arrancar dele seu nome: “A.”, balbuciou com
esforço.
No outro dia de manhã o dono da clínica apareceu, era um rapaz magro do nariz fino,
cabelo preto em cuia e sobrancelhas bem pretas, chamava-se M.. Nos disse quem era o A.:
fazendeiro milionário de Patos de Minas, divorciado, pai de dois filhos e tinha recaído ao ir
para um motel com uma mulher que lhe ofereceu de novo a droga e ele não resistiu. A. estava
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visivelmente muito mal e se de início nos assustou um pouco, depois nos despertou pena. No
decorrer do mês seu cigarro acabou. Ele fumava entre duas a três cartelas por dia, não era de
se admirar que uma hora acabasse. Sua família foi informada e se recusou a pagar novos
cigarros a ele. Restava-lhe o Maratá. O Maratá era um fumo disponibilizado pela clínica e
ficava guardado dentro de uma vasilha vazia de margarina que era colocada em cima de uma
mesa branca de plástico no espaço em que nos reuníamos pelas manhãs com B. Era um fumo
preto e de cheiro forte e de baixíssima qualidade. Os internos o enrolavam em folhas de papel
de um caderno que era posto ao lado da caixinha do fumo. Um dos internos, depois do
ocorrido, se comprometeu em enrolar o fumo para o A., pois a tremura deste, por mais que
arrefecida, depois de alguns dias, ainda não lhe permitia dar conta de desempenhar essa
atividade. Porém aconteceu algo muito curioso. Nós internos não nos aguentamos e rimos
muito da situação: o A. fumava tão sofregamente que mal chegava o cigarro em sua mão ele
acabava – e alguns outros se apagavam com sua baba; babava muito, andava com um pano de
prato num dos ombros para cima e para baixo. H. lhe disse que não enrolaria mais cigarros
por um tempo. Havia cansado. Foi aí que eu tive uma ideia: arranquei uma folha inteira do
caderno e a enchi de fumo, enrolei-a e isso resultou num charuto enorme de um palmo de
comprimento e de uns dois dedos e meio de grossura. Foi a primeira vez que vimos o A.
sorrir. Era fácil haurir o agradecimento de seus olhos e sua condição miserável fumando
desenfreadamente aquela tocha nos rendeu muitas risadas. Ali eu passei a valer um centavo e
todos os outros internos também passaram a valer um pouco mais do que valiam antes.
Num determinado dia o dono da clínica apareceu de repente e nos pediu para que não
enrolássemos mais cigarros para o A., isso estava por atrasar sua recuperação – disse ele. Com
nossa recusa, A. passou a vagar pela clínica carregando a vasilha de Maratá numa mão e uma
folha de caderno na outra, chegava próximo de um interno, o cutucava e estendia o braço com
as peças de seu vício, o interno então negava e o A. partia para outro residente. Ficava assim o
dia todo, era de dar dó, mas o tempo nos mostrou que foi o certo a ser feito. Com o passar dos
dias A. foi recuperando aos poucos sua capacidade de falar e os tremores foram diminuindo.
Víamos aquilo acontecer e nos sentíamos felizes por ele, porém a diminuição dos tremores
resultou num lamentável fenômeno. A família de A. acabou por lhe enviar dinheiro para mais
cigarros e, como agora estava menos trêmulo, ele voltou a fumar por conta própria. O
problema era que o cigarro o fazia retroceder. A fumaça lhe invadia o corpo e seu nariz
escorria, a baba ressurgia, seu olhar ficava distante e seus tremores voltavam a se acentuar –
tudo se dava de tal modo que o cigarro acabava por lhe tirar a capacidade de fumar outros
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cigarros e o pior: ele voltava à não intencionada mudez incapacitante dos primeiros dias.
Tornava-se um bicho outra vez.
05/05/2020 terça-feira
Hoje pela manhã alguns meninos voltaram a tocar cá em casa. Queriam bolo. Eu nada tinha
além de algumas frutas, mas não se interessaram por elas. Fechei a porta e deparei-me com a
bagunça da casa. Havia roupas distribuídas sobre os encostos das cadeiras, sapatos espalhados
pelo chão da sala e bitucas e cinzas de cigarro sobre a mesa da sala. Luzia ficaria louca
comigo se visse isso. Decidi tomar uma atitude: fugi de casa e fui ao mercado, levei comigo
uma receita de bolo que encontrei na internet e um saco de lixo que no caminho joguei fora na
caçamba que fica no andar térreo. Aproveitei para comprar mais carne, pois só restava um
pouco de frango no congelador e eu não estava a fim de ter de voltar ali tão cedo.
Já em casa, apanhei a batedeira de Luzia e segui a receita. A massa ficou das mais
vistosas, mas o bolo murchou no forno e ficou baix inho, baixinho. Olhei a validade do fermento
e estava tudo certo. Joguei tudo fora e tentei outra vez. A pilha de louças que estava na pia
dobrou de tamanho e eu fingi não notar, passei a andar pela cozinha evitando contato visual
com aquele cafarnaum.
A merda do bolo deu errado outra vez. Tomei um banho e bati na porta de Jussara.
– Pois não, velho broxa? Como andam as coisas? – disse ela por uma fresta miúda que
freava o escapulir dos gatos.
– Não, nada disso. Ela está ótima. Eu preciso da sua ajuda pra fazer um bolo. Não sei
no que eu tô errando, mas já fiz duas vezes e a massa não cresce.
– Antenor, você... nessa idade... mal tem cabelo na cabeça, já deve ter consórcio com o
coveiro e não sabe fazer um bolo?! Você não tem vergonha?!
Freei o passo.
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– Pra que tanto você quer esse bolo?
– Então você vai me dizer que quer um bolo inteiro só pra você?
– São pra’quelas pestes que ficam vindo aqui pedir bolo! A mãe não dá comida direito
em casa e sou eu quem pago!
Eu não havia pensado bem na decisão de pedir ajuda a Jussara. Quando entrei em casa
me dei conta da calamidade instaurada naquele lugar – tive nojo de mim mesmo. Corri daqui
para ali arrastando toda a bagunça para dentro de um dos quartos e depois corri para a pia.
Não deu tempo, ela bateu na porta. Abri para que ela entrasse e ofereci a ela um copo d’água.
“Não tem nada nessa casa...”, pensei, esquecido das frutas.
Estendi o celular para que ela lesse a receita e fiquei a observando enquanto ela lia.
– Uai, Antenor. Aqui não tem nada de errado. Faz aí a receita de novo, deixa eu ver o
que você tá fazendo que não tá dando certo.
Apanhei a cartela que estava em cima da geladeira e descobri que já não havia ovos
suficientes. Jussara buscou alguns em sua casa e enquanto eu me debruçava sobre os
ingredientes ela assumiu a pia por mim – como é solicita essa mulher!
Então nos calamos. A massa ficou pronta antes que todas as louças ficassem limpas.
Tive mão de um pano e passei a secar alguns pratos para abrir mais espaço sobre a pia para
Jussara.
– Pus no forno.
– Velho broxa, você pré-aqueceu o forno antes de pôr essa massa lá?
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Não havia o feito. Dei uma negativa à Jussara numa feição de desorgulho, serrando os
lábios, e corri em direção ao fogão para tentar remediar o meu equívoco.
Vexei-me com o comentário, mas por fim tudo deu certo. Ainda ganhei um puxão de
orelha por querer abrir o forno e dar uma espiada no bolo antes da hora, mas isso é coisa tola
que não difere na magna irrelevância de meu relato.
Comemos juntos e eu passei um café para nós dois. Confesso que a companhia me fez
bem, a sensação de sufoco e essa ânsia por entender as razões de Fernanda para ter feito
aquilo continuam difíceis de aguentar e é-me quase impossível não pensar nisso, ainda assim
a presença de Jussara conseguiu me distrair um pouco desse furação – é uma pena que não
tivemos muito sobre o que conversar. Apenas falamos um pouco sobre Luzia, o clima e
Jussara performou um longo monólogo sobre um de seus gatos – tinha o encontrado muito
fraquinho e com um só olho e estava com medo de que os outros gatos lhe arrancassem o que
ainda restava, pois ele era arisco e brigava bastante. Combinamos de irmos juntos no próximo
sábado fazer uma visita a Luzia – seria muito grosseiro de minha parte negar a ela o pedido
que me fez depois do auxílio que me prestou nessa tarde.
06/05/2020 quarta-feira
As crianças vieram esta manhã. Acordei cedo e pus o bolo cinco minutos no forno para que
ele ficasse quentinho para quando elas chegassem. “Fui eu que fiz”, disse-lhes enquanto elas
me sorriam com seus olhos e sujavam suas bocas com o marrom do chocolate – bangueludos!
Todos os três. É curioso como a criança tem um poder de alegrar a gente. Luzia sempre
gostou de crianças, era apaixonada por esses pirralhos filhos de nossos vizinhos, era a avó de
todo o condomínio. Minha decisão de não ter filhos quase acabou com nosso casamento e
muito a feriu. Hoje vejo que talvez eu estivesse errado quanto a aquele meu antigo ultimato,
mas já é muito tarde para mudar as coisas.
Enquanto estive na clínica não fui diagnosticado com bipolaridade. Cheguei um dia a
discutir com o dono da clínica que disse a mim que eu era esquizofrênico – e quem era ele
para fazer diagnósticos?! Do cu de quem havia saído esse diploma?! A esquizofrenia é uma
doença muito estigmatizada até mesmo entre os doentes mentais, ninguém lida bem com ela.
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E por mais que eu tivesse tido alucinações era inaceitável para mim a possibilidade de eu ser
esquizofrênico. Tendo o A. como exemplo de um caso grave de esquizofrenia diante de meus
olhos, tudo que me inseria no campo desse espectro psiquiátrico era por mim repudiado.
Como minha mania deu de dormir enquanto eu estava lá preso, a necessidade de saber
o que havia de errado comigo também se calou – não só em mim, mas entre todos os meus
cuidantes. Estavam tão felizes que eu estava melhor que se esqueceram por completo dessa
questão tão essencial. Quando saí da clínica, em abril de oitenta e dois, o que eu queria era
simplesmente enterrar aquele passado, deixá-lo esquecido e guardado naquela caixa da
memória onde sepultamos aquilo que não nos orgulha sobre nós mesmos – varrer tudo para
debaixo do tapete do esquecimento. Eu ambicionava me afastar da sombra da loucura de
modo tal que ela nunca mais pudesse me alcançar. Acontece que isso me foi impossível. Meu
passado me invade como um aviso, uma obsessão e um desespero. O terror de que tudo se
repita é tão grande que tudo passa a se repetir dentro de mim, para que fique cá preso e não
ressoe no mundo do lado de fora outra vez.
Após a internação, a depressão que conheci nunca mais foi embora, apenas abrandou
durante um período ou outro, mas nunca sumiu por completo. Tornei-me distímico, e ter
distimia é ter a depressão como uma certeza, você deixa de se perguntar o que fazer para que
a doença vá embora e acabe de vez e passa a se perguntar como tornar um pouco mais fácil as
tarefas do dia-a-dia, como conviver com esse demônio que te habita, como se tornar amigo e
até amante do carrasco de seu martírio. O que me salva é o senso de humor, em especial a
ironia machadiana e a ousadia de Saramago. E ainda há quem diz que a literatura não salva
vidas...
Nesses últimos dias um pensamento tomou conta de mim. O que será que eu estava
fazendo no exato momento em que Fernanda se matou? Será se eu estava rindo, fumando um
cigarro, tendo uma conversa sobre mulheres com algum dos internos, se estava no banheiro
ou mesmo dormindo? E se eu estivesse lá? Será se ela pensou em mim? O que muito me
incomoda é não ter havido sequer um sinal de sua funesta intenção. E me pergunto
intimamente se foi minha loucura que não me permitiu enxergar que ela também sofria.
No segundo mês de internação eu já estava muito melhor. Nadava todos os dias e fazia
exercícios numa academia que tinha ao lado da clínica, dia sim dia não. Nas quartas-feiras
íamos a pé a uma reunião dos Narcóticos Anônimos que acontecia por ali perto. Na sexta
íamos de van às reuniões dos Alcoólicos Anônimos do outro lado da cidade, no Butantã. Foi
ali que ouvi inúmeras histórias que, caso postas num livro, se tornariam bons romances – cada
uma delas. Eu mesmo, se fosse capaz, bem letrado no ofício de fazer arte, talvez me arriscaria
a escrever um. As vidas daqueles que mais sofrem são fascinantes, cheias de reviravoltas,
percalços e de uma incontornável tristeza que humanizava seus relatos – era uma comum
tristeza existente entre nós que democratizava nossos encontros e nos colocava numa posição
de pertencimento, nossa palavra tinha um mesmo valor – versada no idioma da dor, fazia-nos,
completos desconhecidos, irmãos.
Lembro-me de um rapaz novo, muito novo, que apareceu no A.A. num desespero
abismal. Sua mulher havia sumido no mundo com seus dois filhos pequenos e apenas lhe
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deixara um bilhete dizendo ser impossível conviver com ele e suas bebedeiras. Não me
lembro seu nome, mas me lembro do avermelhar de seu rosto e olhos enquanto dizia, a
soluços e com uma voz grunhida, tudo que lhe acontecera. As veias de seu pescoço ficaram
muito saltadas, pois ele tentava frear a pressão do choro que lhe subia à face, e seu desalento
de pai me doía como se suas palavras me esmagassem o coração.
Mal sabia eu que dentro de poucos meses seria eu o pai sem filhos.
As coisas dentro da clínica melhoraram bastante para todos com a chegada minha e do
A. Teci laços de amizades que não foram duradouros, mas muito moldaram quem sou hoje
como ser humano. Para mim foi uma grande surpresa ver, sentir e presenciar a humanidade
comum que tem um viciado em crack. Havia em mim uma crença de que a droga os
animalizava e os reduzia a bestas sedentas por uma pedra, mas na verdade, eles eram
claramente tão humanos quanto eu. Descobri que o crack é fumado em latinhas de refrigerante
ou de cerveja e que os pedrados usam cinzas de cigarros para não perder sequer um pedaço
pequetitinho da droga – o Gift é o que mais usam, pois é o mais barato.
Conheci na clínica um policial que passava por sua vigésima terceira internação. Era
um homem grande, faixa preta em jiu-jitsu, formado em história, careca, tinha o rosto
escurecido pelo raspar da barba densa e um olhar paranoico e silencioso – sua presença era
dotada de uma áurea que causava medo nas pessoas, mas suas conversas eram ricas em
detalhes, assombros e tristezas das mais tocantes e, invariavelmente, fascinantes.
Conversei com D. sobre diversos assuntos – história, religião, sua vida policial, a luta
que praticava, uso de drogas, como começou, quem o apresentou, por quem ele gostaria de
parar e o que ele havia passado em todas as suas internações anteriores. Os relatos me foram
chocantes, mas eram interessantíssimos, ele sabia contar suas histórias como se estivesse por
redigir um romance no ar, as palavras deixavam sua boca junto à fumaça e pairavam diante de
mim para que minha imaginação as bem namorasse por alguns instantes, era de fato um ser
humano admirável e de distinta habilidade retórica.
Foi amarrado numa cama durante semanas e forçado a tomar remédios inadequados
para o seu tratamento, ficou muito fraco e magérrimo que quase veio a morrer; em outra
clínica pela qual também passou os internos eram dopados ao ponto de não conseguirem
denunciar os abusos para as famílias quando essas os visitavam, passou também por clínicas
que se diziam religiosas, mas usavam os viciados para trabalhar em pequenas e grandes
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fazendas, plantando alho, colhendo ovos, capinando mato, cortando cana debaixo de sol e
chuva. Com ele tive muito mais do que uns dez quilos de prosa. A história que mais me
marcou, contudo, foi a sobre seu pai. D. se viciou em crack muito cedo e começou a morar na
rua quando tinha apenas doze anos. Passava fome, foi abusado e tinha impulsos suicidas que
eram freados apenas pelo regozijo do vício – “a pedra me mantinha vivo”, disse-me ele uma
vez. D. nunca havia conhecido seu pai e sua mãe nunca houvera lhe dito quem era o homem
que os tinha abandonado tão cedo. Um certo dia um homem moreno, do cabelo bem baixinho
– D. disse que não esquecia as veias saltadas de seus antebraços e de uma cicatriz que ele
tinha no rosto, abaixo de um dos olhos... –, um homem apareceu de repente no beco onde D.
morava com outros nove ou dez viciados e o chamou para conversar. Andaram um pouco
pelas ruas de São Paulo e, perto da Praça da República, entraram numa padaria. O homem lhe
pagou um refrigerante de laranja e uma coxinha, o tratou muito bem e, antes que D.
terminasse de comer, simplesmente foi embora, quase sem lhe dizer palavra ou mesmo lhe
informar sobre quem era, deixando D. ali, confuso e em êxtase por ter sido tão bem tratado
por um estranho. Nas semanas seguintes esse homem veio a óbito e D. então descobriu,
através de sua mãe, que ele era seu pai, mas não quis ir no velório. Eu não sei o que pensar
sobre essa história, mas ela me acompanha até os dias de hoje. D. falava sobre isso
abertamente e até num tom de indiferença, ele gostava de se trajar de uma aparência de
homem bruto e sem sentimentos, mas era claramente uma pessoa muito machucada pela vida.
Para não só falar de tristeza, valho-me duma curta anedota que o interno médico nos
contou que na época fez muito sucesso entre os internos homens: era um rapaz muito novo e
havia acabado de entrar na faculdade de medicina. Usava cocaína para estudar e, a despeito do
vício, se formou de maneira impecável. Em todos os anos em que morou em Goiânia, cidade
onde se graduava, ele teve uma empregada que lhe deixava a casa em ordem. Era muito nova
a moça e tinha um acanhado ar de beleza que o atiçava. Certo dia o interno médico se teve de
uma carreira para tomar coragem e interpelar a moça, queria saber se ela aceitava sair com
ele. Engataram um namoro que durou muito tempo. Depois do término o interno médico, por
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alguma estranheza pessoal, não conseguia ter relações com outras mulheres em sua casa,
naquela mesma cama e mesmo quarto onde estivera diversas vezes com sua ex-namorada.
Então ele passou a frequentar motéis. Os motéis, pelo que pude entender, são
estabelecimentos que servem, em primeiro lugar, para cheirar cocaína e, em segundo, para ter
relações sexuais ‒ nunca fui em um. O interno médico passou a ficar paranoico e sua sina era
que as camas dos motéis sempre davam de frente para a porta dos quartos. Seu delírio era tão
grande – tinha medo de que a polícia estava vindo o pegar – que ele passou a fazer sexo
apenas em posições que lhe permitiam fitar a porta do quarto durante o ato. Vez ou outra ele
“ouvia” alguma batida na porta e parava o que estava fazendo para se esconder sob as
cobertas. Chegou a procurar por supostas câmeras escondidas espalhadas pelos quartos por
onde passava. Alucinava e via-se dentro de uma abordagem policial. Eu nitidamente não
tenho o dom necessário para tornar cômico esse relato, mas ele nos rendeu muitas risadas
enquanto estávamos lá.
O médico era um sujeito de meia idade, cabelo grisalho, barriga protuberante, braços e
pernas finas, usava óculos para ler e bicava açaí como boca de pito. Era um homem
temperamental e discutimos muitas vezes por conta disso. Seu nariz costumava sangrar com
frequência e ele se vexava pelos ocorridos que o obrigavam a correr até ao banheiro para se
limpar. Ninguém se importava com aquilo, mas para ele era humilhante. Foi com ele que
aprendi a ler não-ficção. Ainda prefiro os romances, porém alguns livros de não-ficção me são
de muito gosto.
07/05/2020 quinta-feira
Tive insônia outra vez. A lua cheia, com seu vestido de sol, fez o escuro de meu quarto se
encolher e suavizou o peso de minhas pálpebras a tal ponto que não me recordo de um só
piscar um pouco mais demorado na noite passada. É difícil dizer, essa exaustão de mentar na
qual me enfiei faz me escapulir da memória onde fora eu pousar nessa madrugada. Sei que o
pássaro do sonho alçou voo já quase pela manhã. Tive um sono irrequieto e pi-co-ta-dinho. A
leveza e a naturalidade do despregar de meus olhos me faziam doer a secura de lágrimas.
Acordei depois das uma da tarde e, por meio minuto, não ousei me mexer – reticente como
um defunto e o fundo de silêncio das coisas que me cercavam fizera de mim apenas mais um
móvel da casa. Levantei, cabulei o banho que costumo tomar logo que acordo e troquei o
almoço por algumas frutas e um biscoito que encontrei no fundo do armário que há debaixo
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da pia. Tentei ler, mas não consegui me focar. Tentei trocar o livro que lia por um de leitura
mais suave e sequer Hemingway me foi tragável. Tentei não pensar em minha filha e também
falhei. Ora! Se não é minha mente uma terra fértil onde crescem rosas muito espinhosas de
ferrões maldosos que são resultado de uma fabulação inteiramente diferente daquela que
constitui o conjunto macio das pétalas. Essa parte vermelha de divina lisura fica aqui no
papel. Pode alguém, por desatenção ou ingenuidade, esquecer que sua existência e a do caule
espinhoso são uma só, mas isso é coisa das mais perdoáveis – a literatura, amigo papel, nos dá
a rosa sem nos ferir os dedos e essa ilusão incruenta é aquilo que chamamos de mágica
(agrada o público).
Na clínica ninguém acreditava que meu problema era apenas a maconha. Quando eu
lhes disse que só fumava um baseadinho eles tiveram a decência de, na minha presença, fingir
uns na frente dos outros que acreditavam em minha palavra. É muito comum que alguns
internos neguem seu vício em alguma droga. Geralmente os que omitem o crack dizem que
apenas cheiram e os que omitem a cocaína dizem que apenas bebem ou fumam maconha. Não
é de se admirar que eles esperavam uma confissão da minha parte depois de algumas semanas
que eu estava ali. Todos, em um momento ou outro, aproximaram-se de mim no intento de me
perguntar aos cochichos se era mesmo verdade que eu não cheirava – era estranhíssimo um
interno não cheirar, estávamos nos anos oitenta. Eu tentava me desviar do assédio, fazia
perguntas como quem jogava comida a um grupo de pombos: “Mas vocês acham mesmo que
a Vera Fischer dá uns teco?” E eles se perdiam em conjecturas e eu tomava meus cafés em
silêncio. Havia um dos internos que dizia convicto já ter cheirado “na mesma nota que a
princesa”, referindo-se a nossa querida Helena. Isso, porém, não adiantou por muito tempo e
eles então voltaram a insistir: “Pode falar, Mineirinho. Eu não vou contar pra ninguém não...”
– era muito comum esse tipo de suborno retórico barato. A verdade é que a maconha
acentuava meu estado maníaco a tal ponto que quem me via, elétrico como eu ficava, tinha
uma certeza integral de que meu problema era o pó.
O único que não me questionou a respeito do meu suposto segredo foi um interno
chamado AL. O AL. era um homem gordo que amava pão com mortadela e tinha alguns
tiques nos olhos que o faziam piscar ora ininterruptamente ora forçosamente. Ele tinha o
hábito de evitar contato visual e falava muito pouco. Pelo que me foi dito, sua família não o
queria mais em casa. Para o manter afastado mandavam dinheiro para a clínica para que ele
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ficasse perpetuamente preso ali – ou era o dono da clínica que o mantinha ali sem cobrar
nada, não me recordo. Devido à sua condição mental debilitante acredito que o convívio
constante com diferentes pessoas e o contínuo desempenhar de variadas atividades dentro da
clínica lhe fazia bem – ele adorava limpar a piscina, pegava uma peneira de haste comprida e
ficava a catar bichinhos que nela caiam (mosquitos, besouros, libélulas etc.). AL., no fim das
contas, era o xodó da instituição. Ele era um pouco arisco, tinha lá os seus caprichos e
manhas, mas aos poucos fui me aproximando dele. Em algumas semanas nos tornamos
amigos e eu me mudei para o quarto em que ele estava. O escolhi para ser meu padrinho no
N.A. e passei a o chamar assim: “Padrinho”. Todos presentes na reunião riram bastante com
minha escolha. Alguns, mais preciosistas quanto os objetivos de um apadrinhamento,
recomendaram que eu voltasse atrás e escolhesse outro. Recusei. E o que havia de errado em
ter um doente mental como padrinho? De certa maneira todos nós éramos um pouco lé-lé-da-
cuca. E, aliás, esse apadrinhamento vinha com o benefício de ninguém ficar no meu pé me
ditando o que eu deveria ou não fazer. AL. adorou o novo título, envaideceu-se deveras, e
ficou ainda mais próximo de mim.
Um dia tivemos uma conversa onde conheci sua história e um lado dele que nunca
havia visto. Seu andar era comumente despojado e um sorriso estava sempre estampado em
seu rosto, mas naquela conversa seu semblante foi real e profundo, o tom de voz fora outro e
as palavras que lhe desceram da boca tornaram visível a dor que escondia. Contou-me que
usara drogas, mas nada muito exagerado que justificasse sua internação. Foi na verdade um
episódio ocorrido num dia de carnaval que fez com que ele ficasse “daquele jeito”.
AL. pulou o muro de um prédio, não me lembro com que intenção, a questão é que
quando ele chegou ao outro lado havia alguns homens ali que o espancaram e o estupraram.
Essa última parte ele não me contou, quem me disse foi uma das enfermeiras, dias depois. O
espancamento havia deixado sequelas irreversíveis em seu cérebro e desde então ele havia
ficado assim meio bobo. Dizia o tempo todo que queria voltar para Santa Bárbara, ninguém
nunca soube o que isso significava, mas acredito que algum antigo ocorrido em Santa Bárbara
era uma de suas únicas lembranças felizes que lhe ainda restava, ou simplesmente seria Santa
Bárbara a cidade onde morava sua família – hoje quando me recordo dele me lembro também
de Zé-do-burro de Dias Gomes. Por debaixo daquele semblante de um sorriso forçado,
inventado e performado eu passei a notar sua melancolia. Ele não falava sobre a própria
família e ficava visivelmente desconcertado quando o assunto surgia através de uma boca
alheia. A dor do abandono, a mesma que ele sentia e que eu conheci depois, é uma sensação
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que nos despedaça, nos deixa em ruínas e há um certo quê de desespero que nos faz vasculhar
entre nossos destroços o motivo pelo qual fomos deixamos.
Havia também mulheres internadas. Durante o dia ficávamos juntos delas em um pátio
ensolarado e à noite dormíamos em quartos de alas diferentes. Conheci lá uma mulher de
nome J. que era uma figura! Magérrima e fumante compulsiva, tinha o cabelo loiro
oxigenado, o nariz fino, a cara chupada e todas suas roupas lhe eram um pouco largas. Ela
gostava de se inventar como uma personagem fictícia muito das bravas, mas não demorou
para todos nós notarmos que aquilo era uma farsa. J. era alcoólatra e sua magreza era
justificada pelo seu vício. Deixou de comer para apenas beber. A única refeição que fazia no
dia era um copo de leite com achocolatado, não porque tinha fome, o fazia para conseguir
energia suficiente para se sustentar de pé e continuar bebendo. Seu marido, que apareceu por
lá algumas vezes, também era alcóolatra e prometia se internar depois que ela saísse limpa e,
como ele mesmo dizia, “uma nova mulher”. Eu soube depois que ele não se internou e que J.
assim que saiu teve uma recaída e teve ainda a pachorra de ir beber num bar que ficava ao
lado da casa do dono da clínica. Internou-se outra vez e, da última vez que tive notícias de sua
pessoa, parecia estar bem.
Entre os adictos a recaída é algo muito comum. Alguns deles se internam quase que
apenas no intuito de ganharem força e capacitarem-se fisicamente para usar a droga outra vez
por longos períodos sem grande risco de morte – e há aqueles também que cedem
momentaneamente por uma questão de agrado à família.
O crack, pelo que vi, traumatiza profundamente, mas não é a pior das drogas. O álcool
é realmente muito mais aterrorizante. A recaída se encontra em cada esquina e até mesmo
dentro da própria casa do viciado. Um interno, que já passava pela sua terceira internação,
contou-me que deixou de ir nas reuniões de família pois certa vez foi ao banheiro e teve
vontade de lamber o mictório que estava por exalar um cheiro forte de álcool que vinha da
urina de seus primos, tios e irmãos que estavam bebendo litros e mais litros de cerveja durante
uma ceia de natal no fim do ano.
O problema do vício é o perpétuo tormento. Nos primeiros dois anos que deixei de
fumar maconha tive vários sonhos e pesadelos com a droga. Ela me perseguia. E eu, querendo
ou não, sou apaixonado por ela até hoje – digamos que mantenho algo como uma paixão
platônica.
Depois daquela noite em que fomos acordados por gritos de desespero, eu fiquei
completamente imerso na curiosidade de descobrir qual era o efeito do crack. Obviamente não
queria nem estava disposto a usar a droga, então me reuni com meus colegas de quarto na
noite seguinte e pedi para que me contassem qual era “o barato”. O primeiro a me responder
foi o policial, disse que viu um amigo gozar depois da primeira tragada que deu na lata. Em
seguida H. nos disse que a primeira sensação da primeira fumada é uma experiência de outro
mundo, algo completamente inexplicável. Depois, em todas as vezes em que a pessoa volta a
usar a droga, é pela procura de obter a mesma sensação que a da primeira vez – que, todos
concordaram, nunca se repete. F. disse sobre como o vício lhe toma as rédeas da vida fazendo
do adicto uma marionete dos meios e pessoas que possam lhe oferecer a droga: “Eu ‘pedrei’
todos os móveis da casa da minha mãe”, disse por fim.
Dias depois tivemos, na roda de conversa pela manhã, uma partilha sobre depressão e
suicídio e o que me chamou atenção foi o caráter paradoxal que alguns dos internos relataram
em relação ao crack: sentiam às vezes vontade de morrer para dar fim às penúrias causadas
pelo vício, mas ao mesmo tempo era o suprir do vício que lhes dava motivo para viver.
Essa última questão me fez notar que talvez Fernanda e Luzia são para mim esse
objeto. Eu costumava ter, quando mais novo, um olhar um tanto ingênuo sobre a velhice.
Acreditava que chegado uma certa idade haveria tão pouco tempo para se viver que as coisas
deixariam de ter importância, perderiam o sentido... – algo assim. E me é muito claro hoje que
as coisas nunca de fato tiveram um sentido. Mas é exatamente esse esvaziamento de tudo,
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esse niilismo ferrenho, essa insignificância e banalidade do mundo que possibilita conferir a
ele algum sentido. O problema é que nesse instante me é muito difícil conferir algum valor ou
significado às coisas ou pessoas que ainda me restam. Luzia já não responde por si e isso me
parece ser um jeito tristemente poético de dizer que sua alma se esvaiu e esqueceu-se de levar
junto seu corpo. Está morta. Visitá-la não me traz prazer algum – minto, porém quando o traz
é um prazer amargoso demais da conta. Eu ainda a amo, é verdade, mas o que vejo agora é só
uma aparência conhecida e vazia daquilo que ela foi um dia. É doloroso. Por um outro lado
tem Fernanda e sua ausência que se tornou presença e que escupiu em mim uma tola e
redundante esperança de que um dia irá ela voltar. O admitir de seu desaparecimento do
mundo, de seu apagamento completo, de seu fim... é algo que não me desce. É algo que está
para além das fronteiras de uma possível aceitação da minha parte. É algo que me mata.
Hoje foi a primeira vez, depois de trinta e oito anos, que pensei em suicídio.
09/05/2020 sábado
Ontem não saí de casa. O ensolarar da manhã alfinetou o chão de meu quarto e um dos feixes
de luz deu de me esquentar uma das orelhas e parte da testa – levantei-me irritado. Passei um
café e estava cansado demais para ir à padaria. Deixei de comer e fumei um cigarro. Na janela
da sala fui invadido por um pensamento estranho e irrefreável que me fizera projetar a
imagem de minha cabeça se chocando contra o asfalto ali abaixo. Parecia coisa de momento,
pensei que se tratava de um pensamento trágico fortuito daqueles que todos temos uma vez ou
outra durante a vida, mas essa imagem ficou se repetindo em minha cabeça e continuou assim
por todo o resto do dia, tornando-se cada vez mais nítida, cada vez mais bem descrita e
pormenorizada. Com a força de meus braços, apoio-me no parapeito e sinto o suor de minhas
axilas se embeberem do vento paulistano. Eis que então faço força e, aos tremores, ergo meu
tronco janela afora. Olho para baixo e sinto vertigens. Fecho então os olhos para cegar o medo
e, com um impulso orquestrado pela ponta de meus pés, despeço-me do chão de casa e sou
lançado em direção ao solo. Quando sinto que já não há volta abro os olhos e vejo o negrume
do asfalto se aproximar de mim de pouquinho em pouquinho. Com o sopro do ar meus poucos
fios de cabelo pululam. Meu coração está a mil por hora e o tempo parece não seguir a mesma
lei que lhe é de costume. Um pedestre do outro lado da rua e um motorista a passear com seu
carro no outro lado da via contemplam e guardam para si tragédias distintas – sou a estrela de
muitos palcos. Num primeiro momento, minha cabeça se suja com a escama de poeira que
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encobre o asfalto, em seguida ele me atinge. Minha cabeça se choca contra a aspereza da rua e
o desnivelamento microscópico daquela superfície deixa marcas irregulares em meu couro
cabeludo. Sou tocado, perto de minha têmpora direita, por pequenos grãos de asfalto que se
encontram por ali perdidos e atordoados pela então queda. Esse impacto deixa marcas em meu
rosto como se eu tivesse dormido sobre um saco de arroz. Uma fissura miúda começa a se
romper em minha testa e vai se expandindo na medida em que todo o resto de meu corpo se
aproxima do chão. O rosado filete de pele sob a epiderme acima do meu crânio se expõe e a
fissura se arregaça mais e torna-se uma brecha. Um sangue espesso e escarlate espirra no
chão, uma parte maior de minha cabeça colide contra o asfalto e a brecha se torna um grande
buraco, minha cabeça se despedaça em inúmeras partes como uma laranja que se rompe ao ser
esmagada. Meus miolos se espalham pelo asfalto no mesmo instante em que todo meu corpo
atinge o chão. O barulho é seco, embora imageticamente se assemelhe à queda dum balão
d’água. E é seguido de um grito de uma mulher que desconheço. O sangue toma conta de
tudo, espalha-se como se eu tivesse explodido, invade os vãos que há entre as partes de meu
corpo que tocam o chão e aquelas que não se deixaram quedar por completo, escorre
vagaroso, com o leve declive do asfalto naquele ponto da rua e ziguezagueia enquanto traça o
percurso de alguns poucos metros e cai, gotinha por gotinha, num bueiro de grade suja e
enferrujada, fazendo com que aquele vermelho purulento e velho se dilua na cor verde
apodrecido do esgoto da Liberdade. Um homem chega perto, tenta reconhecer a quem
pertence aquele corpo, mas o cadáver não tem mais cabeça e tudo que sabem do defunto ali
estirado é que era algum velho – pelo estilo das roupas e o cabelo branco a ser matizado de
vermelho aos arredores do corpo. Alguns ossos despontam para fora da carne. Uns romperam
o tecido das roupas, outros apenas fizeram aflorar saliências sob o tecido úmido da camisa e
das calças. A cena é horrível e se repete. De novo, de novo e de novo. Fico inquieto e tento
me ocupar em uma ou outra tarefa que de algum jeito possa me alienar dessa ideia. Há algo
em mim que anseia pela janela da sala, mas não sou eu.
Passei a ter medo das janelas de casa e fechei todas elas. Os cômodos, agora mais
escuros, deixam-me mais introspectivo e aquela imagem se repete em minha cabeça com
maior vivacidade e crueza. Não consigo ler e minha atenção está falha ao ponto de sequer a
TV conseguir me desafogar de meus pensamentos sombrios. Sento-me no sofá da sala, acendo
um cigarro e fumo de maneira laboriosa, tentando reacender em minha mente boas memórias,
mas elas me são inalcançáveis.
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Não consegui dormir até esta manhã quando Jussara me bateu à porta dizendo que nós
estávamos atrasados para visitar Luzia. Deixei-a entrar e ela se indignou com a situação do
ambiente. O cheiro de cigarro decerto estava forte, pois ali pouco ou nada ventilava e eu havia
fumado e peidado durante toda a madrugada e a bagunça, antes escondida no quarto, estava de
volta à sala. Jussara deu um tapa em meu ombro e disse para que eu tomasse um banho.
Enquanto eu caminhava em direção ao meu quarto pude a ver abrindo as janelas. Tranquei a
porta do meu quarto com receio de que ela ousasse abrir também as desse cômodo e fizesse-
me dar de frente com meu medo logo que eu saísse do banho.
– Não faz mal, não faz mal. Eu volto depois e trago um bolo pra ela. – disse a boa puta
enquanto nos despedíamos dos funcionários. Deixei Jussara apreciar a boa intenção que teve e
não a lembrei de que Luzia é diabética.
Depois de chegar em casa e conseguir dormir um pouco, dei-me conta do que tinha
feito. O remorso começou a me roer por dentro e eu acabei por bater à porta do outro lado do
corredor.
– Velho broxa, mas já está com saudades? Entre, entre, por favor. – chamou-me e
dessa vez fiquei sem jeito de recusar.
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A idade me ensinou que as melhores desculpas são aquelas sinceras, diretas e seguidas
de uma conversa em que você simplesmente deixa o outro falar, escuta em silêncio e acresce
questões sobre o assunto que está por ser dito como quem acresce lenha à uma fogueira.
Pedi desculpas a Jussara e ela disse não ter notado minha má educação. Depois a
deixei falar – ela sempre enverada para alguma questão envolvendo seus gatos. Não tive
muito interesse, para ser honesto, e, não vendo o famigerado caolho, perguntei onde ele
estava.
– Trancado no meu quarto. Antenor, eu já não sei o que fazer com ele, sabe? Se eu
solto ele briga com os outros e se eu deixo preso ele fica miando o dia todo.
– O que?
– E se é tão bom assim, por que você mesmo não fica com ele?
Tentei remendar a conversa e desconversar, mentir que eu era alérgico, dizer que mal
estava conseguindo cuidar de mim mesmo, até encenei uns espirros, mas não teve jeito. Levei
um sermão e fiquei com o gato. Pelo menos não tive de comprar nada. Jussara me deu um
pouco de ração e uma caixa de areia, explicou-me também como cuidar do caolho e disse-me
que se precisasse de ajuda, que era só chamar. Eu que não volto lá nunca mais! Tô vendo essa
mulher me empurrar outro gato!
10/05/2020 domingo
Ontem ele não saiu debaixo do sofá. Tentei de tudo, mas não teve jeito. Quando acordei hoje
pela manhã o encontrei em cima da mesa da sala. Estava dormindo, então o deixei quieto.
Arrastei uma cadeira, com esmero para não o acordar, e fumei um cigarro ao seu lado e em
silêncio. De olho fechado ele até parece um gato normal. É cinza e tem listras pretas que se
espraiam pelo seu corpo junto a uma tonalidade bege mais acanhada. Parece mais magro do
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que o comum. Ainda não sei se pretendo de fato ficar com ele, mas cuidarei dele pelo menos
durante essa semana, assim Jussara não poderá dizer que eu sequer tentara.
Também eu estou mais magro. Desde que Luzia saiu de casa meu cinto encurtara dois
buracos. Há uma farmácia na Rua Tamandaré onde a balança é confiável, mas não estou com
disposição suficiente para ir até lá me pesar. A perda de peso não foi tão grande pois noto no
espelho que meu rosto continua encorpado.
Hoje fiz a barba. Acordei me sentindo um pouco melhor do que nos últimos dias e até
lavei as louças que estavam acumuladas. O barulho que fiz enquanto as lavava fez com que o
gato fugisse outra vez para debaixo do sofá. Ele é um camaradinha um tanto arisco para o
meu gosto. Do que vale ter um animal de estimação se não posso o acariciar? Ao menos não
está miando em meus ouvidos. Percebi que ele circula pela sala quando eu vou para o meu
quarto – sobe nos móveis, deita no tapete e até dorme. Esperto ele. Quando volto para sala ele
se esconde e fica com os olhos o olho em meu encalço e só se move quando eu não estou
olhando. Agora à noite fui à cozinha pegar um copo d’água e ele estava ali ao lado, na
lavanderia, na caixa de areia. Olhou-me como quem não queria nada. Fiz um prato de salada e
algumas frutas cortadas e ele se interessou pela iguaria. Seguiu-me até a sala num miado fino
de pedinte. Todo bicho de rua é um pouco mendigo, mas esse gato é um completo mendigo!
Interesseiro, só vem atrás de mim por interesse! Sentei-me e ele se ergueu em duas patas e
apoiou-se em minhas pernas, perto da altura dos joelhos. Dei algumas balançadinhas para
testar sua confiança e ele não cedeu. Desci a mão em sua direção e, aos muxoxos, o vi voltar
para debaixo do sofá. Essa experiência me fez clara a certeza de que o ganharei somente
através do suborno. É um deputado esse meu gato!
– Velho broxa, a essa hora?! Aconteceu alguma coisa? – disse adentrando o corredor e
fechando a porta a suas costas.
– Não, nada. É que o gato deu de querer minha comida, mas eu não sei o que dar pra
ele.
– De preferência, ração. Mas pode dar banana e maçã de vez em quando, ele gosta.
– Luís.
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– “Luís!” É verdade, mas por que esse nome de gente mesmo?
– Livros?
Jussara estava enrolada num roupão vermelho e com uma maquiagem carregada no
rosto. Eu não me ative da hora e quando olhei no relógio já havia passado da meia noite.
Antes de ir embora insisti:
Voltei para casa e testei o gato. Pelo que pude ver, gosta mais de ser chamado de Luís
do que de Camões, então vou chamá-lo de Camões que é para ele saber que não estou aqui
para o agradar.
Apanhei uma banana na fruteira e dividi com ele. Tive de colocar uma fatia no chão
para que ele saísse debaixo do sofá. Camões é um gato muito sem cerimônias, assim que
comeu a primeira fatia pulou sobre minha barriga e pediu mais. Passei a dar a ele pequenas
fatias e enquanto isso acariciei sua cabeça e seu corpo. O pulguento solta bastante pelos,
minha mão ficou cheia deles, mas tudo valeu apena. Depois da refeição, Camões ficou deitado
sobre a minha barriga. E eu fiquei ali, num contentamento descontente, tentando não deixar
aquela ideia fixa tomar conta de mim outra vez – não deu certo, mas ao menos descobri que
ter uma companhia ajuda um pouco.
16/05/2020 sábado
As coisas pioraram bastante no decorrer da semana, sequer tive energia para escrever. Tentei
fazer bolo para receber os meninos na sexta, mas me distraí e a massa queimou. Não tive
coragem de pedir ovos para Jussara outra vez e a possibilidade de que eu fosse no mercado
comprar outros era risível. Não tinha nada de comer para lhes oferecer, mas deixei que
entrassem para conhecer o gato.
Mergulhados no bicho, pouco ligaram para minha piada – mais importante era pegar o
Camões. Tentaram se enfiar debaixo do sofá e fizeram com que o gato fugisse para detrás do
rack da TV. Ficaram quinze minutos esperando que ele saísse e depois foram embora
decepcionados. Camões é um gato de poucos amigos.
Hoje fui à terapia e relatei meus pensamentos para Dionísio. Ele insistiu
veementemente para que eu me consultasse com meu psiquiatra. O problema é que a
internação de Luzia não está sendo nada barata e eu estou sem dinheiro suficiente para pagar
por uma consulta. “É um caso de emergência, ele deve levar isso em consideração”, disse-me
Dionísio. O respondi que veria o que posso fazer, mas ambos sabemos que eu nada farei até
ter o dinheiro para pagar a consulta. Dentre outras coisas, Dionísio gostou da nova presença
na casa e disse-me que estará disponível vinte quatro horas por dia para “seja lá qual for a
questão que surgir”. A verdade é que não há muito o que ele possa fazer. O dinheiro da
aposentadoria caiu na conta dia seis deste mês e as despesas de Luzia tomaram conta de quase
tudo que tínhamos. Quase fiquei sem dinheiro para meus remédios e o que sobrou já nem sei
se é o bastante para que eu coma de forma descente até o fim do mês. E eu sequer tenho
conseguido cagar! Meu intestino me odeia: fiz a apendicectomia, tive um íleo paralítico que
se prolongou e doeu que nem morfina resolvia – resultado: cirurgia. Anos depois tive uma
brida: a cicatriz da antiga cirurgia formou uma alça que deu de estrangular outra vez meu
intestino – resultado: mais uma cirurgia. Isso que eu ainda nem falei das hemorroidas e do
martírio que é cagar tendo essas desgraças no cu... – que coisa humilhante! Eu fico indignado!
Como é que pode um trem desse! Alguma divindade sádica mais afeita a ironias deu de dar
vida a um homem do cu todo fodido sem que ele próprio tivesse mesmo um dia ofertado a
arruela a alguém! Isso, papel amigo! Ria do velho que nem o cu presta! Você não sabe o
futuro que te aguarda...
03/1982
Fazia parte da cultura interna da clínica que quando um interno estivesse prestes a sair todos
os outros lhe davam algum presente. Como aquilo a que tínhamos acesso era limitado por
inúmeras razões que não vêm ao caso, os presentes se resumiam a desenhos mais ou menos
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bem-feitos, a variar de acordo com o traquejo do autor, e seus significados eram ditos à
pessoa que estava de saída depois de ela dar um relato de toda sua vida e um conselho para
cada um dos que ali ficavam.
No tempo em que fiquei internado, vi apenas um interno deixar a clínica por conclusão
do período de internação – minha estadia fora mais curta do que o comum. O policial foi
outro que deixou a clínica, mas por conta própria e contra a vontade de sua família. De um dia
para o outro ele passou a racionalizar sua vontade de voltar às ruas para usar droga dizendo
que sua mulher estava o traindo e ele tinha de sair para “resolver” o que estava acontecendo.
As ligações dos internos para os familiares se davam nas terças, para um grupo, e nas quintas,
para outro. Porém, numa quarta-feira, o policial teve uma crise de nervos e ameaçou a
enfermeira que estava com as chaves do portão de saída. Ela pediu pra’que ele ligasse para
casa avisando que iria sair. A ligação foi feita e quem atendeu foi sua mulher. Ele parecia ter
se acalmado, nos primeiros minutos de conversa, mas, de súbito, irrompeu num surto de raiva
assustador. Todos nós ficamos afastados olhando a cena. O policial era um homem grande e
seus arroubos de fúria podiam certamente chegar a ferir alguém. A chamada se encerrou e ele
nos disse que ouviu a voz de um homem no fundo da ligação e que era com ele que sua
esposa o estava traindo. Pediu meu isqueiro de presente enquanto nos despedíamos – dei-lhe.
D. assinou um termo de responsabilidade e foi embora. Saiu gritando que estava indo usar
outra vez.
A saída que me causou maior impacto, porém, foi outra. Chamava-se AD. e estava,
assim como o policial e F., em meu quarto. Estava internado devido ao crack e ao álcool. Era
filho de mãe solteira e nunca conheceu o pai. Começou a trabalhar muito cedo e teve de
deixar a escola para ajudar a mãe com as despesas de casa. Seu primeiro trabalho foi como
picolezeiro e ele contava com apenas nove anos de idade. Alguns garotos de sua antiga escola
o bulinavam bastante, chamavam-no de pobre e diziam que sua desistência dos estudos era
consequência de sua “gigantesca burrice”. AD. era um jovem magrelo, baixinho e de pavio
curto – um prólogo do livro futuro. Os garotos que o maltratavam passaram a o procurar pelas
ruas de sua cidade para o espancar e em seguida o roubar. Isso se tornou rotina e não demorou
muito para que AD. fosse despedido e acusado de estar roubando os lucros do carrinho com o
qual caminhava.
Dois anos depois, AD. catava latas na rua para ajudar em casa enquanto sua mãe
cuidava de seus irmãos e vendia marmitas como complemento de renda do auxílio que
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recebiam de alguns vizinhos e amigos. Foi num fim de tarde que ele viu despontar no topo da
rua de sua casa dois rapazinhos. Identificou-os de imediato, eles faziam parte daqueles que o
maltratavam anos antes. Sem nem mesmo pensar, AD. apanhou um canivete que guardava em
casa e subiu a rua, assim que os meninos o reconheceram e deram início aos xingamentos AD.
sacou a navalha do bolso e esfaqueou os dois. Um morreu e o outro fugiu machucado.
AD. não chegou a ser preso por esse crime, e depois desse episódio passou a se sentir
mais à vontade para andar pelas ruas sem medo de ser assaltado ou violentado de alguma
maneira. Entrou para o tráfico e com isso conseguiu dar melhor qualidade de vida para sua
mãe e seus irmãos. Aos quarenta e dois anos já tinha sido preso diversas vezes, mas por
crimes menores. Cumpriu dois anos na Papuda e viu onze homens serem queimados vivos
durante uma rebelião. Em outra cadeia levou três tiros durante uma outra rebelião que
estourou no meio de uma madrugada. No chão, embebido do próprio sangue, viu seu amigo e
companheiro de cela morrer na sua frente.
Sua internação tinha se dado depois que ele fora pego traficando junto a um outro
amigo conhecido como “C.”. A família de AD. interviu no processo judicial que ele se enfiou
e conseguiu colocar a internação como uma opção paralela à prisão. Foi feito o acordo e seus
últimos três meses de pena foram cumpridos dentro da clínica.
Soube que ficou limpo por quase um ano depois da internação, mas que recaiu e
voltou a traficar.
Não me recordo de nenhum dos desenhos que AD. recebeu no dia de sua despedida,
mas me lembro de sua mãe e filha que estavam muito emocionadas com a nova postura do
pai/filho.
No decorrer do meu segundo mês de internação pude ver, assim como também o pôde
os outros internos, uma grande melhora por parte do A. Tremia menos, já conseguia conversar
relativamente bem e tinha deixado de fumar. Gostava de falar sobre mulheres, contar histórias
das namoradas que teve durante a vida e falava abertamente sobre seu vício. O problema do
A. era ser rico. Nunca lhe faltava dinheiro para comprar a droga e ele, no fundo, acreditava
poder fazer tudo o que quisesse – em outras palavras: o dinheiro que tinha o fodia. Era peixe
que morria pelo bolso e não pelo anzol. Decerto foi esse sentimento que o levou a fugir
durante uma reunião do N.A.
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O dono da clínica, depois de ter se dado conta da ausência de um interno no círculo da
partilha, chamou a mim e a mais dois internos. Atravessamos a rua e entramos em sua
camionete. Eu fui chamado devido à simpatia que A. tinha por mim. Os outros foram
chamados porque eram fortes e isso facilitaria as coisas, caso fosse preciso de força. Andamos
pelas ruas da região por cerca de quinze minutos e conseguimos o encontrar num posto de
gasolina doutro lado do bairro.
Nesse dia descobrimos que parte dos tremores do A. eram perpetrados por ele no
intento de parecer mais frágil para que não nos preocupássemos com o risco de uma fuga de
sua parte. Sua locomoção na clínica era notoriamente dificultosa e nós já havíamos notado
que seus tremores se acentuavam quando ele nos pedia, no almoço ou na janta, para que
lavássemos seu prato e talheres.
Depois do episódio de sua fuga ele voltou a fumar e foi só dar o primeiro trago que o
tempo deu marcha ré e ele passou a babar e mutar-se outra vez. Antes disso, A. estrelou um
episódio demasiado cômico para mim e um dos enfermeiros. Embora trágico, não nos fora
possível represar a risada.
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todo mijado e que, para além disso, seu nariz estava por escorrer bastante, junto à boca.
Paulatinamente, cessamos o riso, tomamos o ar necessário e o ajudamos a se despir e entrar
num banheiro. Ele tinha adquirido o costume de ficar vários dias sem tomar banho e de andar
mijado e cagado pela clínica sem nenhum pudor, muitos dos internos passaram até mesmo a
ter nojo dele; embora o cheiro fosse de fato forte, não desistimos do A.
As coisas mudaram por um breve momento na vez em que fora servido para nós,
semanas depois, num dia de noite fria e céu estreladinho, uma sopa de pés de galinha. Isso
elevou o humor de A. a tal ponto que todos foram contagiados pela sua felicidade. O
malandro até voltou a falar para nos contar que sua mãe sempre lhe fazia essa sopa. Até
mesmo os mais melancólicos se entusiasmaram durante aquele jantar. Era como se a
felicidade do A. deslegitimasse a infelicidade de todos nós. Claramente não há nada de
romanesco em afirmar que o sorriso de um desgraçado vale mais do que o de um rei.
23/05/2020 sábado
Minha depressão acaba de atingir um novo patamar. Eu estava aqui pensando em Fernanda
quando me dei conta de que ela é minha filha. Ora, mas que obviedade, não?! Ela é minha
filha. M-i-n-h-a. Minha filha. E o que isso quer dizer? Quer dizer que há muito de mim nela.
Aí está o problema. A doença que tenho é marcada por uma forte propensão a ser hereditária.
E, levando isso em consideração, creio que o que a matou veio de mim.
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Anos atrás tive uma descompensação depressiva e eu e meu médico decidimos que
iríamos tentar ajustar a dose da bupropiona. A mudança fazia sentido, eu estava muito para
baixo e precisava de algum estímulo. Elevamos cento e cinquenta miligramas de minha dose
habitual de trezentas e isso foi o suficiente para me desencadear a mania. O estado misto é
pavoroso. Ele subtrai todo o canhestro prazer que poderia advir da mania fazendo com que
dela reste apenas os piores sintomas. Para além disso, a depressão se intensifica de uma
maneira profunda e assustadoramente rápida. O acelerar do pensamento, comum à mania, faz
com que os pensamentos intrusivos se multipliquem e a ideação suicida, se existente, que não
se efetivava em automutilação durante a debilitante depressão, passa a se repetir
desenfreadamente dentro da cabeça de um indivíduo que agora se encontra completamente
capaz de se matar. Dormir, com o tempo, torna-se impossível. E uma incomensurável agitação
interna faz com que o cérebro, que não desliga, imploda. Assim começam as alucinações. É
desesperador se deparar com a concretude de sua própria loucura. Ela se torna visível e até
mesmo palpável. O mundo se dobra ao seu saber e não há precedentes de um martírio maior
do que o seu na Terra. Você se torna grande, cheio de si, alcança o mais elevado grau de
narcisismo. O outro se apaga e, por mais que você possa estar rodeado de pessoas queridas,
você julga estar só, completamente só.
Talvez sou eu uma espécie de Narciso mais esperto, que teme o rio e se engraça da
própria covardia. Sobrevive, não se afoga, vai embora sem se despedir do próprio retrato e faz
da água um mero apetrecho em favor da vida. Porém ainda que eu me faça do avesso e nesse
avesso ludibrie o desejo que tenho de me matar, senão o rio, o mundo há de me afogar. É
questão de tempo.
Havia sobre o sofá, de frente ao qual agora passo a maior parte do dia deitado, um
Narciso de um bom tamanho, enquadrado numa bela moldura de madeira clara permeada por
traços marrons de uma outra madeira mais escura. Eu o conservava ali, pois era ali onde Luzia
se sentava à minha frente e dessa maneira a imagem que se formava – dela junto a ele –
lembrava-me do risco de minha loucura e o que eu poderia perder em decorrência dela.
Sempre disse a Luzia que achava a pintura muito bela e que Caravaggio devia fazer parte de
nossa decoração. Não quis revelar a ela que sua pessoa era o motivo de minha sanidade e que
o quadro era só um lembrete, ou talvez uma censura, disso. Está ele agora em seu quarto no
Residencial Tamandaré – eu já contei isso aqui? E o que perde você com meu remendo, papel
amigo?
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24/05/2020 domingo
Hoje não a visitei. Pedi que Jussara fosse em meu lugar, mas ela também não pôde ir
pois não havia feito o PCR durante a semana. Decidi ligar para o lar de idosos. Fui atendido
por uma moça de voz meiga que me disse que Luzia estava bem. Somente o braço
adormecido pelo derrame que a incomodava – já não lhe é mais possível tricotar tão bem
quanto antes e eu nem imagino a falta que isso está fazendo a ela.
– Antenor?
– Então se agasalhe bem. Semana que vem vou te visitar. Você quer alguma coisa de
casa?
Fui até meu quarto e retirei algumas caixas que estavam há muito guardadas sob nossa
cama. Estavam bastante empoeiradas, não eram abertas desde a adolescência de Fernanda. Eu
estava certo de que iria encontrar uma boneca por ali, mas ainda não encontrei. Fernanda
nunca foi muito fã de bonecas, gostava de carrinhos e de dinossauros. Seu jeito de ser no
mundo era mais abrutalhado, jogava bola com os meninos do condomínio e não fazia
cerimônias para dizer o que pensava. “Tem tipo de homem” – dizia-me Luzia à socapa dentro
do quarto. “É coisa da geração. Deixa a menina” – eu lhe respondia. Amanhã olharei dentro
das caixas que restam e quem sabe... Já me cansei o bastante por hoje.
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Depois de remexer as caixas me senti um pouco melhor, fiz minha janta – peito de
frango com alface, tomate e batata-doce – e jantei ao lado de Camões, que ultimamente tem
estado menos arisco e às vezes dá de roçar em minhas pernas enquanto leio. É um bom rapaz.
29/05/2020 sexta-feira
Mais de mil pessoas morreram nas últimas vinte e quatro horas! Sei que faço parte do grupo
de risco e que por isso não devo ficar perambulando por aí, mas não há jeito de evitar as
pessoas para todo o sempre. Aliás essa atual necessidade de isolamento até mesmo piora meu
quadro depressivo. Tudo conspira para que eu não fique bem ou não fique vivo e não há nada
que eu possa fazer quanto a isso.
Amarga-me a boca o fato de a morte de um idoso ser socialmente mais aceitável que a
de um jovem. Morre um, dois, três velhos e o alarde é pequenininho assim ó: “.” – do
tamanho dum ponto. Já estava com os dias contados, não é verdade? Ninguém se importa
conosco de verdade.
Quando mais novo eu me perguntava sobre como deveria ser a velhice, se os velhos se
sabiam feios e se faziam sexo. Hoje tenho minhas respostas. Cresci gostando de sexo e vou
continuar gostando até o dia de minha morte. E se não o posso fazer como nos tempos de
minha juventude ressignifico o ato. Faço de outro jeito. É simples. O mundo sempre arranja
um jeito de caber no nosso bolso.
Numa das caixas que abri hoje mais cedo encontrei uma foto antiga minha e de Luzia,
Luzia sentada em meu colo com a mão em meu peito e performando um riso frouxo frouxo,
possivelmente rindo de alguma graça que eu lhe dissera ao pé do ouvido. Éramos um belo
casal – ela principalmente, eu sempre tive uma beleza mais modesta. Levei a foto ao banheiro,
coloquei-a ao lado do espelho e, por um momento, permitir-me observar os contrastes entre o
presente e o passado. O ralo da pia está entupido com os pelos da última vez que fiz a barba e
havia respingos de pasta de dente borrando o meu reflexo. Forcei um sorriso. Meus dentes são
amarelos e um dos incisivos da parte de baixo é tortinho. Não me incomodo com isso. Meu
rosto é enrugado e se forço o riso, como o fiz, até mesmo a pele que me encobre o pescoço se
enruga. Há manchinhas por toda parte. Os cabelos do topo de minha cabeça há muito rareiam
e mesmo assim eu não os corto. A beleza não está nas coisas, não está nos corpos – nunca
esteve. Luzia para mim nunca deixou de ser a mais bela entre as mulheres, mesmo agora. O
enrugar de sua pele, o obscurecer de suas olheiras, o aparecer das marcas de expressão em seu
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rosto, o decair de suas pálpebras, o afinar de suas pernas e sobrancelhas, a perda das curvas
dos primeiros anos de amor, tudo isso não maculou sequer um cadinho de sua beleza. Luzia é
uma obra de arte em contínua mudança, assim como o são os olhos de quem a ama.
O pensamento suicida não desgarra de minha cabeça e tudo o que posso fazer é
esperar. Fiz as contas e descobri que não terei dinheiro suficiente para ir a meu psiquiatra
habitual. Terei de ir em um novo e mais barato.
Além dessa estranha obsessão por me jogar pela janela, ando tendo alguns
pensamentos intrusivos durante o dia. Mais cedo, quando fui ao banheiro, meu aparelho de
barbear bordejava a cuba da pia, meu pensamento, de súbito e contra a minha vontade,
centrou-se no brilho metálico das lâminas e passou a formar imagens de mim me cortando
com aquilo. Apanhei o barbeador e o joguei fora. Isso aconteceu pela manhã. Já na hora do
almoço algo muito semelhante me ocorreu com a faca que eu estava usando para comer.
“Essa história da faca outra vez, Antenor?” Pois é...
02/06/2020 terça-feira
Pouco dormi nos últimos dias e meu corpo está exausto de mim. Erguer um braço é doloroso
e, quem dera isso fosse drama da minha parte, mas mal consigo ficar de pé. Minha cama me
seduz, meu sofá me seduz, quero-me inerte o tempo todo e deito numa quietude de pássaro no
ninho que até pareço um defunto num caixão. O gato, coitado, mal sabe o trabalho que tem
me dado trocar sua água e pôr ração em seu potinho. Mas, vez ou outra, durante o dia, ele
deixa o que está fazendo de lado e vem ao bordo de minha cama ou do sofá me fazer uma
carícia. Ficam assim pagos os meus serviços.
Ter uma filha é como ler um livro de filosofia pela primeira vez. É natural pensar que
tanto as palavras quanto a infância, por nos serem conhecidas devido às experiências
passadas, nos traduziria os embaraços do presente. Bobagem! É tudo muito confuso, você se
embrenha naquilo com prepotência e sede de saber e falha, falha, falha... O segredo é não
deixar a criança saber que você está tão perdido quanto ela.
Das memórias que ainda conservo de oitenta e dois, apenas uma com ela me é feliz.
Cheguei em casa cansado e Fernanda estava por ler um livro no sofá – recordo-me deste dia
com bastante frequência. Peguei meu prato que já estava pronto na cozinha e sentei na
poltrona à sua frente.
– Presta? – perguntei.
– O que?
– O livro.
Marinamos no silêncio alguns minutos e Luzia veio se juntar a nós. Fernanda foi à
cozinha e, num grito, nos ofereceu suco. Apenas eu quis. Então ela veio.
– Viu.
Fiquei mordido com essa resposta. Sequer acabei meu prato e deixei as duas a sós com
a novela na sala. Capenguei pelos cômodos em silêncio e fui pousando de canto em canto
esfregando a pequenez de minha ferida nas paredes de casa – remoendo, remoendo,
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remoendo. Quando acabei havia uma cratera em meu ser, tornei-me um poço de mágoa. Luzia
foi a primeira a perceber que havia algo errado, mas nada disse. Apenas me abraçou as costas
e deu-me um beijo bem na esquina do pescoço com o ombro.
Fui deitar cedo e, não vi nada, mas estou certo de que Luzia questionou Fernanda se
algo havia acontecido. Para minha surpresa, veio a diaba pedir para dormir comigo. Fazia frio
e ela me pediu, como sempre o fazia na infância, para que eu lhe esquentasse os pés. Eu o fiz,
pondo os meus sobre os dela, e, quando eu estava deixando a vigília e agarrando-me de vez ao
sono, Fernanda disse assim: “Mas é claro que eu te amo, seu bocó...” – baixinho baixinho,
estava na fase em que falar isso em voz alta era vergonhoso. Amava-me no calado, no
cochicho, no chiado. O amor de quem não sabe amar é sovina, contido, é medroso. É um
amor imaturo que não se admite frágil, desamparado ou desprotegido. Viver é perigoso, é
verdade – e daí?
04/06/2020 quinta-feira
Hoje Fernanda está por fazer anos – há mais de trinta anos tem ela vinte. É provável que se
estivesse viva estaríamos nos reunindo, eu, ela e sua mãe – netos talvez? Não sei. Não consigo
me conter e essa data sempre me leva a pensar o que estaríamos fazendo no dia de seu
aniversário. Porém, algo outro veio me ocupar a cabeça hoje. Estou absorto em uma notícia
que li mais cedo no jornal. Morreu em Recife um garoto de apenas cinco anos. Sua mãe,
empregada doméstica, estava por passear com os cachorros da patroa e deixou o pequeno aos
cuidados dessa. A mulher o pôs sozinho num elevador e o deslindar dessa história resultou
numa queda fatalíssima do nono andar de um condomínio luxuosíssimo recifense. O menino
era preto como Fernanda. E fosse outro o acaso da vida poderia ser mesmo minha filha a cair
daquele prédio. O que me rasgou mais ainda o coração foi ler que uma fiança de vinte mil
reais restituiu a liberdade à então condenada. Como chegamos ao ponto de a riqueza dar
anuência para que pessoas brancas matem pessoas pretas?! Crianças pretas!
Pensar sobre isso fez com que uma espécie de raiva e tristeza, da mais amarga, se
alojasse em meu coração. Não hei de esquecer essa tragédia, pois, para além de tamanha
maldade e impunidade grotesca de tal ocorrido, soma-se a isso o fato de a certidão de óbito de
Fernanda revelar que a causa de sua morte também fora uma queda de uma grande altitude,
em março de oitenta e dois.
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Uma criança! Mas como pode?! Vinte mil reais???!!! É isso o valor da vida de uma
criança?!
Está mais do que claro que estamos diante de um fato incontornável que atesta, de
maneira indubitável, que o Brasil escravista não acabou.
06/06/2020 sábado
As ruas estão vaziíssimas – pude ver indo e voltando do hospital. Está até gostoso de
andar por aí. O movimento dos carros também está mudado, há poucos nas vias – quase
nenhum. Não sei se foi ilusão minha, mas o ar me pareceu mais leve, mais tragável. Deve ser
a natureza se curando dos homens...
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Hoje a visitei. Estava muito bem vestida e havia passado batom. Reconheceu-me. Eu a
elogiei e ela sorriu ‒ senti-me em casa. Havia mais de uma década, se não me engano, que eu
não a via de batom. Tinha pego emprestado de uma outra interna, disse-me uma enfermeira.
Estava estupenda – sempre esteve.
Ficamos nos namorando, trocando carícias leves e agradáveis – uma mão no rosto, um
toque no nariz, um deslize no pescoço, um cafuné, um abraço tranquilo... Até que Luzia me
atacou! Queria porque queria me beijar. Meu primeiro ímpeto foi de ceder, mas, mesmo sendo
ela minha esposa, vi que havia algo errado. E eu lá ia me aproveitar de uma mulher que já não
responde por si?! Desvencilhei-me de sua empreitada virando o rosto e o batom deu de marcar
minha bochecha, Luzia lançou o braço em direção às minhas orelhas e prendeu-me o rosto –
dessa vez desviei a face e fui de encontro a seu corpo e a abracei. Nesse momento ela se deu
conta de que meu comportamento esguio era proposital:
– Luzia, é que acontece que você não está nos seus melhores dias e...
– Lógico que não, Luzia... Olha, veja bem... você está adoentada e não é razoável que
eu me aproveite de você.
Semana que vem levo Jussara comigo. Assim Luzia não se assanha outra vez.
07/06/2020 Domingo
Encontrei-me com Dionísio, que teve a boa vontade de me ver no dia de hoje, e a reflexão que
resultou desse encontro fica aqui expressa:
Para quem nasce, e tanto sofre, e entende-se vivente, ausentar-se de si é mais do que
um direito. É que quando se rompe as barreiras da carne, o espírito vislumbra, no intervalo
entre ossos, tudo aquilo que não sou. E essa riqueza sem cifra ou lastro, invisível, insípida,
insondável provoca terror. É aqui que tudo começa, pois quando me aninho outra vez em meu
corpo, só de passagem, intitulo o mistério e tão logo o sou. Tenho de ser o que não sou, isso é
viver. Toda palavra embeleza o medonho, ilude, engana e nos salva de nós, acalma o animal
que em mim faz morada. É preciso escapar do presente, é preciso viver de passado, é preciso
se enganar com o futuro. Ser humano é só fio de memória. Todo futuro é memória. Venha,
venha! Esconda-se do presente comigo. Dê uma espiada lá fora. Está vendo? Todo esse
abismo sou eu, porém só me entendo em minha pequeneza, naquilo que fui. E o que fui? Fui
pai de Fernanda e agora não tenho filha, sou pai de uma ideia. Há uma quimera em meu
coração.
10/06/2020 quarta-feira
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Quando não consigo ler, como nesta manhã, fico inquieto. Não há o que fazer nesta casa – ou
melhor, não há o que eu queira fazer nessa casa. A bagunça me cerca, Luís se diverte se
enfiando nas calças, camisas e calções jogados pelo chão – eu fico olhando. Parece uma
criança, vê diversão em tudo.
Quando criança eu trabalhava mais meu pai. Meu trabalho era capinar braquiária,
panhar alho na lavoura pra mulher do patrão, tirar as alças que prendiam os bags às
empilhadeiras enquanto eles eram empilhados no barracão, fazer sabão com banha de porco e
qualquer outro bico que aparecesse pelas bandas da casa grande. Tudo tinha lá seu perigo,
havia cobra no mato, abelha em cachopa, carrapato de capivara e traíra dos dentes grandes
que mordia até mesmo depois de morta. Uma manga uma vez despencou de uma alturona e
desmaiou a filha mais velha do patrão, ela era meio lerdinha e, depois disso, eu passei a
apanhar da minha mãe toda vez que ela me via passar debaixo dos pés de manga. O filho de
um outro peão uma vez perdeu uma perna pra colheitadeira. Uma cena horrorosa – contou-me
meu pai. Ainda assim eu gostava de chegar sujo em casa depois de um dia longo de serviço e
ver o aceno que meu pai fazia com a cabeça quando me via – coisa mais próxima de um
elogio que eu conseguia arrancar de sua parte.
Era também eu que dava comida aos porcos que ficavam num chiqueiro num terreno
atrás da casa grande. Os coitados ficavam presos num cercado de madeira e arame farpado o
dia todo, o chão era uma mistura de terra, lama, bosta e mijo – fedia bastante, mas o nariz
acostuma. Não podia esquecer de dar comida pra eles senão corria o risco de os porcos
maiores comerem os leitõezinhos das leitoas.
Era eu que cortava também as abóboras e jogava lá dentro do cercado dos porcos, mas
cortava sem esmero que porco não tem muita cerimônia pra comer. Porém lá pelos meus
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nove/dez anos meu ofício passou a ser brincar com o filho do patrão. O menino já tinha
aprendido a ler e escrever e isso era o suficiente pra que ele pudesse um dia tomar conta das
terras do pai.
Brincávamos o dia todo. Fizesse sol ou chuva estávamos lá, exercendo o ofício de ser
criança (embora aquilo fosse realmente meu trabalho). Andávamos descalços na terra, no
cascalho e na brita – andar descalço na brita requer um certo traquejo, tem de saber se
equilibrar num tal rebolado que distribui seu peso igualmente nos pontos de toque da sola de
seu pé com as pedras, senão dói demais e homem nenhum aguenta. A gente corria na brita.
O filho do patrão foi sempre um rapaz efeminado, mas frescura mesmo tinha
nenhuma. Aos olhos do pai era ele o próprio Don Juan. Nunca fiz caso da sexualidade de
Junio – era assim que o chamavam. O importante era ter um amigo e ele fora o primeiro que
tive. Fomos nós quem descobrimos o caso da filha do patrão com um peão da roça vizinha.
Escondidos em meio à mata que cercava a fazenda, vimos os dois de namoro atrás do
chiqueiro. Para nossa surpresa, houve casamento e não assassinato, mas o peão continuou
sendo peão e nunca, até a morte do patrão, teve as mordomias da casa grande. Eu, pelo
contrário, passei a almoçar de vez em quando com aquela gente. A empregada da casa grande,
lá pelas onze horas, dava de buscar o menino Junio pela fazenda – era hora do almoço. Eu os
acompanhava até a porta da residência e, dia vai dia vem, fui convidado para entrar. O
primeiro almoço me deu medo, porque o copo que me deram era de vidro e eu nunca tinha
visto um negócio daqueles. Eu só sabia comer de colher e tive de encenar alguma vivência
com o garfo e a faca. Quando ia beber água largava os dois talheres e segurava o copo com as
duas mãos – primeiro, pra não ser pego tremendo e segundo, porque eu tinha medo de que se
eu quebrasse algo pudesse acontecer alguma coisa a meu pai. A despeito dessa tensão que me
amolecia as pernas, a comida era coisa de outro mundo. Carne tinha todo dia e não era só
peixe e frango não. Tinha carne vermelha e de sobra. Também havia alguns hábitos a serem
seguidos na mesa que me eram estranhos. Por exemplo, quando serviam frango o primeiro a
servir era o patrão, que pegava o pescoço, uma coxa e uma asa – e às vezes cascava a pele
sequinha do peito só pra ele. Todo santo dia tinha purê de abóbora e o purê era dele e só dele.
A gente só podia comer se sobrasse e quando ele já não mais estivesse na mesa. A primeira
vez que comi purê de abóbora foi do prato do Junio, ele gostava de se sentar ao meu lado e
ofereceu-me um cadinho na ponta dum garfo. Aquela foi a melhor garfada de toda a minha
vida, não pelo purê ser desmedidamente gostoso – de fato, ruim não era, mas a mágica estava
em experimentar um pouco do poder do patrão.
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Os anos se foram passando e a gente foi ficando menos menino e mais rapaz. Eu
nunca fui bobo de não perceber que o gosto que Junio tinha por mim ia além da amizade.
Mas, por mais que seus olhos o entregassem, sua coragem era fraca. Nunca sequer tentou um
beijo e também não se excedia nos carinhos. O máximo que tivemos foram abraços mais
demorados do que o comum, mas a verdade é que no fundo nos gostávamos feito irmãos.
Nossa amizade acabou quando lhe arrumaram uma esposa, era filha dum outro
fazendeiro, antigo amigo do pai do patrão. Nos bastidores do palco da vida o mexerico era
sempre o mesmo: “o filho do Seu Pablo é viado”. A maioria dos funcionários achava que
aquilo era falta de buceta e que a menina Mônica, por mais que nova, ia corrigir o que o
mundo tivera feito torto.
Fui ao casamento, e só não fui padrinho, pois para o patrão era oportuno acurar os
laços com um outro fazendeiro da região. A moça com quem Junio se casou era bonita,
delicada, pequena, muito branca e, não sei se a causa era medo, só sei que era embatucada –
em questão de palavras parecia um defunto. No fervor da cerimônia e dos cumprimentos ela
apenas sorria vexada e virava o rosto apertando os olhos. Não sei se seu incômodo era ter um
marido como o Junio ou se simplesmente era esse seu jeito de ser mulher.
Junio e eu nunca mais nos falamos. Trocamos olhares apenas em uma ou outra ocasião
e, de resto, para todos, parecíamos completos desconhecidos. O fim de uma amizade como a
nossa, que se deu de maneira sorrateira e gradual, é uma espécie de morte simbólica que
engatinha e amansa o luto. Não sofri, não chorei, não me incomodei, mas o amo até hoje. É
ele o passado que em mim me agrada e, pode parecer rude, mas não me doeria saber por
alguma boca perdida no mundo que sua vida já se acabou. O que pôde me dar já está dado.
11/06/2020 quinta-feira
Hoje foi Luís quem me acordou. Dei-lhe ração e sentei-me no sofá da sala. Sonhei com Luzia
esta noite. Estava eu deitado ao seu lado na cama, como sempre o fizemos, ela do lado direito,
eu, do esquerdo e sua respiração calma e lenta aquecendo a fração de meu rosto entre minha
boca e o nariz.
Mesmo a vida e os sonhos sendo páginas de um mesmo livro a releitura pouco ou nada
acresce ao vivido – é pura saudade, e um certo pesar de não poder escrever uma mesma
página por mais de uma vez. Assim se amassa as páginas do livro da vida, é tão natural que
parece errado que nos venha a ferir. Ler, reler, ler, reler, ler, sonhar. Reviver é impossível. Os
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instantes morrem como dominós a se derrubarem uns aos outros numa sequência linear. Essas
peças não têm braços, portanto, não voltam a se erguer, mas a cena ocorrida, para quem tem
um pouco de imaginação, ao se deparar com seu efeito, é presumível a magnitude da causa.
Há um pouco de tristeza em divagar, entre ruínas, pelas memórias de um prédio, de uma obra
de arte ou de um castelo de areia que agora, nesse instante, só se dizem em não ser o que antes
foram – coisa que deixa a saudade ainda mais interessante, pois Luzia me atravessou o peito
durante toda a manhã sem que a ferida de sua ausência se opusesse a sua lembrança. Vai ver é
assim mesmo, ter de fazer em si uma ferida pequena por onde o passado possa uma vez mais
se enfiar em nós... Há algo de erótico na saudade que me ocupa.
Arrumei uma coceira na cabeça e acho que estou com caspa. O dinheiro está curto e
um shampoo anticaspa não é a coisa mais barata desse mundo. Só hoje já tomei dois banhos
para ver se a coceira passa e ainda são onze e meia. Só de pensar em ir até a farmácia comprar
essa merda eu já me canso. Eu deveria ganhar um prêmio por conseguir ter caspa com tão
pouco cabelo. Sinto-me um macaco com essa coceira.
Sonhar com Luzia me fez bem. Consegui abrir a janela da sala e, escorado no sofá,
pude sentir o ar a ser chupado para dentro de casa. Contudo, não a deixei aberta por muito
tempo pois fiquei com medo do Luís cair dali de cima. Preciso de algumas telas de proteção –
fariam bem até para mim mesmo. O pensamento obsessivo ainda não desgarrou de mim. Há
algo no pensamento suicida que estou tendo que se assemelha a um estupro. Não reconheço
esse pensamento como sendo meu. Ele me é estranho, averso à minha vontade e à natureza
instintiva do meu querer viver. Ele me invade, de súbito, sem pedir permissão. Instaura-se em
minha mente e domina-me, subjuga-me. Sinto-me completamente incapaz de reagir. É
medonho se dar conta da ausência de controle que temos sobre nós mesmos. Não há para onde
fugir quando se teme a si próprio – ao menos Luís tem me distraído um pouco nos últimos
dias.
Tive de ir falar com Jussara. Preciso que ela me acompanhe no sábado, pois já não sei
o que esperar de Luzia. E a humilhação do episódio da semana passada imprimiu em mim
uma vergonha tamanha que, não fosse Luzia a estar lá, eu jamais voltaria a passar perto
daquele lugar. Será se ainda se lembram do ocorrido? Ora! A notícia já deve ter circulado por
entre todos os funcionários! “Setenta e oito anos, pego no ato!” “Mas será se ainda
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funciona??” “Pelo visto a pipa do vovô ainda sobe”, vão dizer coisas desse tipo. Eles que vão
à merda!
Jussara disse estar muito ocupada, mas me assegurou que tentará ir. Como eu bem a
conheço, ou creio que assim o sei, é-me quase certo de que sua companhia está garantida.
Para além do mais, o que vai uma puta velha fazer às oito da manhã de um sábado?
Perguntou-me também sobre Luís, se eu não precisava doutra roupinha pra ele. Disse-
lhe que não, que o pior do frio já havia passado e que a secadora de minha lavanderia deixava
a roupinha dele enxuta em um instante.
Caiu a noite e meu humor, como lhe é de costume, quis fazer com que eu me enfiasse
debaixo das cobertas e ficasse ali fingindo ter sono e não depressão. Pus um Caetano na
vitrola e tive um curto diálogo com meu gato:
Ignorou-me como se já não me amasse mais – o problema dos gatos é a carência dos
homens.
– Enquanto o Caetano não vem você fica com os meus, né? Peste pulguenta!
E assim ficamos ali dividindo o mesmo recinto. Luís deu de sair quando a batedeira foi
posta em serviço. Dessa vez acertei no bolo. Cresceu, ficou com casquinha por fora e
molhadinho por dentro. Perfeito. E a Luzia que precisava assistir a Ana Maria Braga...
Dei-me dois pedaços graúdos de janta. Estava esgotado demais para fazer um jantar de
adulto. Deitei-me logo depois que comi, mas não consegui dormir – coisa que justifica a
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pobreza destas minhas palavras a descansar mais que eu mesmo neste papel, mas quem sabe
amanhã? Amanhã há de ser outro dia.
12/06/2020 sexta-feira
O dia foi outro. Dormi mais que a cama e fui acordado pelos pirralhos do prédio. Hoje, pela
primeira vez, conseguiram pegar o Luís. Foi evidente seu desconforto e não erraria por muito
quem, vendo a cena, suspeitasse-lhe um desespero, porém sobreviveu e é isso que importa.
Esquentei o bolo no forno enquanto as crianças brincavam com o gato e fiz-me alguns ovos
mexidos com banana – a banana amassadinha tira aquele gosto forte do ovo e ainda
acrescenta um dulçor ao prato que cai muito bem a um café da manhã, fica uma delícia.
Comemos juntos na mesa da sala.
– Pois a minha dormiu pouquíssimo essa noite... – não fui entendido. Então prossegui:
– Como conseguiram pegar o Luís dessa vez?
– Foi fácil, a gente prendeu ele dentro do calção que ele tava dentro.
Foi aí que me dei conta de que a bagunça da casa estava aparente. São bons meninos
os três, branquelos, quase da mesma altura, faltam-lhes quase os mesmos dentes na boca e
aparentam ter a mesma idade. São Pedro, Tadeu e Saulo, mas eu não sei dizer quem é quem.
É-me muito nítido que não se importaram com a zona que estava a casa, mas eu fiquei
bastante incomodado, para ser sincero. Esperei-os sair e arrastei tudo para dentro do quarto de
Fernanda. Depois disso fui à farmácia.
Luís se esgueirou pela casa o dia todo, coitado. É o gato mais cagão da vizinhança
agora que foi feito de boneco pelas crianças.
Eu nada fiz o dia todo, apenas abri a janela da sala lá pelas cinco da tarde e deixei o sol
do fim do dia lambuzar o piso sobre meus pés. Quando me pus a fechá-la a cena de minha
queda deu de se repetir em minha cabeça outra vez. Tentei pensar em outra coisa, lavar a
louça, varrer o chão, distrair-me de mim mesmo num livro, mas nada funcionou. Então liguei
a televisão: essa caixa elétrica não costuma me ser do agrado, porém dessa vez encontrei o
Santos a jogar num canal de esportes.
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Faço parte da geração santista que viu Pelé correr pelos gramados. Os botecos de
esquina que tinham alguma TV nos anos sessenta eram pontos de encontro de todos os
santistas da cidade. A verdade é que reuniam todo tipo de gente, todo mundo queria ver Pelé
jogar – santistas, corinthianos, são-paulinos e palmeirenses eram todos um só coração, tinham
o nacionalismo como chagas e, na hipertrofia fascistóide de suas incapacidades de amar,
viam-se como um enorme coração de mãe. Na fazenda não tínhamos TV em casa e meu pai
não gostava que eu falasse de futebol perto dele. Sentia-se um pouco humilhado de ainda não
ter sido capaz de dar uma de presente à minha mãe. Minha mãe, por outro lado, era uma
esponja sedenta por toda e qualquer espécie de fofoca. Perguntava-me sobre tudo que eu havia
visto na cidade, mas, na verdade, não queria saber se eu tinha visto algo “novo”, se o
fazendeiro que ela viu na quermesse era corno, se a moça que eu ia ver nesta semana era a
mesma da semana passada, ela queria uma história, detalhada, bem contada e cheia de
emoção. Que fosse sobre gravetos, areia, cabelos, pregos, trapos, ramos secos, asas de
mosca, grampos, cuspe de aves, etc. – não importava. Tinha apenas de lhe fazer viver. Ah,
minha mãe, se a senhora tivesse aprendido a ler! O mundo lhe caberia nas mãos, num cisco
debaixo de sua unha. Quando eu não tinha mais nada a dizer ela me olhava com olhos de
pedinte, famintos como se o silêncio lhe ferisse. Foi só depois de muitos anos que eu fui
entender que meu silêncio fazia com que as ordens de meu pai para que ela pusesse a casa em
dia voltassem a soar e assim, outra vez, ela era subtraída do mundo. O fim da prosa, por mais
que eu não entendesse as sinuosidades de sua aflição, incomodava-me e eu, em resposta,
acabava inventando. Quando a mentira agrada sem amargurar a alma temos aquilo que
chamamos de crime de amor. Fui tão culpado o quanto pude.
Em sessenta e três, ano antes de que eu me mudasse para São Paulo com Fernanda,
conseguimos comprar uma TV. Meu pai não contribuiu com muita coisa e ficou mordido por
ter sido eu o maior investidor nas ações do presente, mas amansou o orgulho depois de ver a
felicidade da minha mãe ante a novela. Não me recordo o nome exato da trama, mas me
lembro que o enredo contava a história de uma presidiária que escondia sua identidade de um
homem que lhe falava sempre ao telefone, era apaixonada por ele. Naquele ano, em
novembro, vimos o Santos ser campeão mundial em cima do Milan. Pelé não jogou na
decisão. Meu pai foi quem mais gostou do último jogo. As brigas entre os jogadores para ele
foram o encanto que faltava àqueles vinte e dois homens sedentos por uma bola. Maldini,
Zagueiro do Milan, deu uma entrada dura em Almir Pernambuquinho – o atacante do peixe. A
briga que se formou durou cerca de uns dez minutos, paralisando o jogo, e pude ver meu pai
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saltar exaltado em frente à TV. O zagueiro italiano acabou sendo expulso por dar uma
voadora num torcedor do peixe e, ao canto do sofá, eu via minha mãe vidrada na algazarra por
entre os dedos que lhe cobriam a face e tapavam a boca. O jogo, ao meu ver, não foi dos
melhores. Amarildo ainda conseguiu ser expulso por dar uma cabeçada em Ismael e meu pai
não se aguentava sentado de tanto a comichão por uma nova briga o atiçava. Tudo foi
definido por um gol de pênalti de Dalmo e a alegria foi proporcional à feiura do jogo.
13/06/2020 sábado
Nunca perguntei a meus pais, mas estou certo de que me viraram as nádegas rumo ao luar
quando nasci. Almejavam sorte, a estima da Fortuna e o apreço do acaso – amor demais. A
lua não se acanhou frente ao miúdo buraco e à feição de esperança de meus pais, ofendida
pela animalidade da crença no tolo ditado que motivou tal ato de despir e voltear o menino,
deu de lhe lascar dentro do botico o dedo do azar.
Não é de hoje que me reconheço como o mais caipora entre os homens. Luzia não
gostava de me ouvir reclamar da má sorte, mas com o tempo se acostumou a me ignorar. Seu
olhar cerrado, porém, continuava a empilhar o silêncio do recinto no intento de que ele caísse
sobre mim e calasse-me. Mas a verdade é que aqueles olhos muito diziam a meus ouvidos.
Para Luzia as palavras tinham força e eu quando me queixava estava por ser um imã de más
energias. Os anos deram de ceder ao tempo e as desgraças não pararam de me acontecer. Essa
é a unha encravada do meu ceticismo. Ainda não dou razão à minha mulher – não por apego à
verdade, é que não me é tragável a admissão de que estive errado durante todos esses anos.
Continuo firme em meus lamentos, a maioria deles vazios de rancor, e todos carregados de
histórias.
Hoje, como não podia ser diferente, o acaso me apresentou um novo tipo de
humilhação. Às sete e meia encontrei Jussara no corredor entre nossas portas. Estávamos com
tempo de sobra então resolvemos tomar um cafezinho antes de ir. Tudo ocorria bem,
trocávamos poucas palavras e, se no passeio de nossos olhos ocorresse um breve encontro
entre as bilocas que nos decoram a face, resolvíamos isso com um sorriso de lábios chupados
e o erguer de uma ou ambas sobrancelhas. Esse enfeite ao silêncio muito me agrada. São duas
humanidades a se efetivarem uma ao lado da outra e sem que nenhuma delas interrompa a
maneira tão distinta e única como ambas se revelam, são ali apenas presença – um amuleto de
paz e liberdade.
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Às sete e quarenta e cinco decidimos ir. Fui ao banheiro e Jussara colocou as louças do
café sobre a pia. Despedi-me de Luís com um carinho em sua cabeça, dei a frente à Jussara,
que me aguardava na sala, e retiramo-nos do apartamento dando início ao percurso habitual
escadaria abaixo.
A essa altura estávamos no terceiro andar, então enveredamos para o elevador dali
mesmo. Jussara estava muito inquieta, roendo as unhas e arrumando e rearrumando os cabelos
de segundo em segundo. A porta chegou, eu a abri e dei passagem a ela, mas a mulher não
entrou. Ficou encarando a máquina como se aquilo estivesse prestes a engoli-la e subtrai-la de
sua querida existência no mundo.
– Jussara, tem como você me ajudar? Entra logo, a gente vai se atrasar. – olhei para o
relógio e já eram sete e cinquenta e três. Ela não se moveu.
– Velho broxa, se esse negócio me matar eu volto do inferno pra puxar seu pé, cê tá
me ouvindo?!
– E lá velho escuta alguma coisa?! Me dê a sua mão. – ela o fez. Segurei a porta com a
mão esquerda, dei dois passos e fui me enfiando de costas no elevador enquanto ela me
acompanhava no vagaroso de quem teme muito um medo bobo. Não hei de descrever o grito
que deu quando aquela máquina deu de apitar, nem a força com que tive que lhe segurar o
punho para que não me escapasse. O que importa é que entrou. De olhos fechados, tremendo
um pouco, mas entrou.
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– Cê tá ficando doido, Antenor?!
Não respondi. Ela se agarrou a mim outra vez quase que de imediato. O problema foi o
elevador chacoalhar enquanto passávamos pelas junções do terceiro andar com o segundo e
do segundo com o primeiro. Jussara já não mais respirava depois da primeira chacoalha e na
segunda gemeu baixinho, feito um cachorro que teve a pata pisada. Estava tensa como um boi
antes do abate. Quando chegamos ao térreo o elevador deu um tranco e ela, não satisfeita em
me agarrar um dos braços com suas duas mãos, colou seu corpo ao meu e encolheu-se sob
meu peito feito um piolho de galinha. A porta se abriu antes que eu a empurrasse, foi puxada
por fora. Ali estavam Dona Luna e o Seu Ravi, moradores do seiscentos e dois – estrelas de
um casamento aparentemente infeliz e sem graça que vivem em prontidão por um quebra-pau,
uma gente que se um dia não foi feia já nem se lembra mais. A vizinha, ao ver a cena, não se
aguentou e deixou escapulir:
Tantas coisas me aconteceram no dia de hoje que não há coração que dê conta de
suster uma mão que necessita tanto de escrever. Então o farei aos pedaços. Bom que o papel
não estranha os excessos dessa rica pobreza de minhas palavras.
Hoje o dia é outro, mas não lhe cravo a data na folha. É que o relato que se segue
ainda pertence a ontem e nas esquinas de meu ser o carro que corre pelas vias de minha alma
é preferencial e o motorista preza pela tranquilidade das linhas retas.
Chegamos no Residencial Tamandaré e Luzia estava dormindo. Tivera tido uma noite
de insônia e resmungou à enfermeira que tentou a acordar. Jussara e eu não fomos embora,
resolvemos esperar a dorminhoca. Sentamo-nos num dos sofás da sala, uma área espaçosa,
arejada e bem limpinha – muito fria para o meu gosto. Deixo aqui anotado que tenho de trazer
mais roupas de frio a Luzia, assim não esqueço.
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Onde eu estava? Ah sim, sentamo-nos no sofá e o aguardo nos despertou um
incômodo comum. Aos poucos fomos nos conformando com a necessidade de ter uma
conversa – digo, ao menos eu não estava no melhor de meus humores e preferia, por isso, o
silêncio. Jussara estava meio ensimesmada digerindo sua experiência com o elevador, mas,
depois de se amargar com longos quinze minutos de autotortura, desembaraçou-se do passado
recente e deu início à conversa. Perguntou-me sobre Luís.
– Está lá, me dando trabalho. – A resposta que dei foi seca e desinteressada, pois não
quis demonstrar meu apego ao bichinho, mas a verdade aqui tem de ser dita. No início eu era
indiferente a esse meu gato. E a indiferença é justamente o ponto de união entre o amor e o
ódio – como bem sabe qualquer um que pensa um pouco, ela é o oposto de ambos. Pois que
agora me é claro que já não sou indiferente ao Luís. Só não lhe confesso o amor senão o
sentimento me domina – há quem não saiba que o enunciar em curtos comentários, discursos
ou versos é aquilo que torna mais concreta a imagem desse amor em nossos corações. Assim
digo que “o Luís está lá, me dando trabalho” – ao coração, mas isso... isso é segredo.
Ora, é bem verdade que a idade me fez pousar nos estereótipos da velhice. Não escuto
direito do ouvido esquerdo, não sou de muitos amigos, não me interesso pela vida dos outros
e minhas conversas se dividem entre resmungos, mal-entendidos e respostas curtas e
desinteressadas. Vendo dessa maneira é curioso o amor de Luzia ter se sustentado durante
tantos anos por uma pessoa assim como eu, talvez o passado ou uma ideia de estimação mais
amigável de minha pessoa o tenha sustido – ao menos uma flor mais charmosa tinha de ter se
nutrido desse esterco que chamo de acaso.
Bom, por que sou tão chato? Não minto que nunca pensei sobre isto, o fiz, mas não me
incomodei com minhas conclusões ou fiz-me diferente em decorrência delas. Esta rabugem
que dá tom à minha voz e estrutura a postura de meu corpo é nada mais nada menos que meu
jeito de ser no mundo. Eu sou assim, por quê? O fato é que sempre fui meio chato. Tenho um
gosto por pirraçar as outras pessoas e nunca me doeu as incomodar. Porém acredito que a
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depressão crônica agrava um pouco as coisas. Foi ela quem colaborou para o meu isolamento
ao longo dos anos, de modo que agora já não tenho mais amigos. No entanto até gosto de ficar
só, os livros alimentam com mais vigor o solitário. A saudade que tenho de Luzia não é
suprimível e a companhia de um gato parece ser suficiente para que eu não me jogue pela
janela de casa e assim me mate.
Fiquei mais amargo depois que Fernanda “me abandonou”. Foi um período muito
doloroso de minha vida, porque coincidiu com o rebote da primeira mania que tive. A
depressão que se seguiu dessa mania me deixou obsessivo pela melhora e por autocuidados.
Fiz tudo que pude para ficar em melhor forma e ter em recompensa a tão sonhada saúde
mental. Não deu tão certo como eu esperava, mas claramente me ajudou um pouco e um
pouco para quem padece de um mal crônico é quase um muito, um muito que só se percebe
quando se perde. Essa obsessão me tornou um homem bastante autocentrado. Durante minha
vida o máximo que pude fazer para fugir da depressão eu fiz. Apenas fumar... fumar foi algo
do qual não consegui me separar. A mágoa que Fernanda plantou em meu peito cresceu
desmedidamente e tornou-se ódio. Luzia sofreu muito com esse lado raivoso de minha
distimia. Não sei quantos anos foram, mas sei que vivi mais de década exalando ódio por
onde passava. Luzia me cuidou como pôde. Não sei o que fiz para merecer tanto.
A chatura me compõe, ela atravessa minha história como recanto de minhas lamúrias
que são muitas. É ela quem dá tom grosseiro às minhas palavras, que torna ásperas as letras
que aqui repousam, que envolve num véu mais apresentável a minha tragédia. Há em todo
vivente um choro que nunca cessa, ele sobe ao palco da vida trajado numa pele que soa, que
se move e que fenece. Seus olhos são secos, pois água com sal não mais angaria ajuda. Você
está só, pois está crescido e tudo que tem é seu jeito de soar e mover-se sobre esse chão
humano que encobre a terra. No discurso e na ação o homem se revela muito mais do que
intenciona, muito mais do que gostaria. E por isso sou chato. Era isso ou fechar-se pro mundo.
E a sina de quem desabrocha é ter espinhos.
– Cê não acha uma boa ideia cuidar da sua vida, não? – A respondi depois de um
segundo.
– Um banho resolve.
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– Não, aí você já incomoda o diabo que eu guardo debaixo do braço. – Essa resposta
gerou uma troca de olhares suspeita entre mim e a puta velha. Eu esperava que Jussara me
atirasse outro insulto. Mas foi diferente. Ela não se aguentou e caiu na gargalhada. Eu também
ri bastante, não teve como segurar. A risada de Jussara é das mais contagiosas – parece o
resultado de um cruzamento entre um porco e uma chaleira. Dentro em pouco todos na sala
estavam rindo juntos de nós. Salvo os dois prosas ruins, ninguém sabia dizer ao certo qual era
o motivo daquele riso coletivo e pouco lhe importavam a causa. Surfaram em nosso riso e se
banharam em nossa felicidade. É como dizem... sabiá que segue joão-de-barro vira ajudante
de pedreiro e a casa de quem momentaneamente está feliz nunca teve paredes.
Depois disso tecemos uma conversa descente. Eu não estava disposto a falar sobre
mim, mas me dispus a saber mais sobre Jussara. Descobri que ela viera de uma cidade
próxima à minha: Três Marias. E que era a mais nova de sete irmãos homens. Nenhum quis
vir para São Paulo e ela veio só, “com pouca idade, nenhum dinheiro e muita coragem” –
essas palavras não são minhas, seu caráter demasiado brega me obriga a grafá-las de modo
distinto. Foi casada com um metalúrgico, um homem magro, alto e de voz grossa que, por
pouco, não fora radialista. Enviuvou em oitenta e um e então saiu do Bela Vista e veio morar
na Liberdade – não aguentou ficar na mesma casa em que vivera com o falecido.
– E não quis mais casar? Lembro de ter te conhecido em oitenta e dois, você era uma
menina moça, parecia ter a mesma idade de Fernanda. Por que não casou?
– Antenor, com o casamento eu aprendi que eu gosto de pinto e não de homem. – ela
fala essas coisas sem pudor algum, numa naturalidade como se estivesse por falar sobre
chupetas num orfanato.
– Tá certo. – Ri vexado.
Hoje é outro dia e ainda não levei o relato ao cabo. Estou me sentindo a mesma merda
de sempre e aquele pensamento invasivo não desgarra de mim. Porém nada é tão ruim nesse
mundo que não possa piorar. “Pois não é, Seu Antenor?” Luís deu de mijar no sofá...
Luzia enfim apareceu para nos ver. Estava linda como de costume, toda coberta por
roupas de frio. A conversa nos foi um pouco difícil, pois ela estava letárgica e presa a
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preocupações do passado, mas seu humor estava ótimo. Perguntou-nos se queríamos almoço.
Agradecemos e ela ficou mordida com a recusa. A verdade é que eu não podia dizer que
queria, pois uma das enfermeiras já havia me alertado sobre essa nova obsessão de Luzia.
Aceitar o pedido só iria dar azo para que ela voltasse a vagar pela casa procurando por
panelas.
– Luzia, próxima vez que eu vier vou te trazer mais algumas roupas de frio. Se esfriar
durante a semana eu venho antes e deixo na recepção.
– E as suas? Não me apareça aqui com roupa furada, Antenor, que eu tenho vergonha
dessa gente, hein.
– Luzia, agora eu te vejo tão pouco. É claro que eu vou me arrumar bem pra te
encontrar. Minha cara, se a senhora ainda não sabe você por acaso é o amor da minha vida ‒
esta última frase tive de a dizer com os olhos.
– Eu te conheço, Antenor. Você pega uma camisa surrada que tem mais de vinte anos
do fundo do guarda-roupa e diz que tá nova! ‒ disse acarinhando um de meus braços.
– Pois cuide mesmo, Jussara. Vai lá tomar um chazinho com ele de vez em quando. Se
ninguém tomar iniciativa ele esquece que existe mundo e fica o dia inteiro com a cara enfiada
num livro.
Jussara e Luzia têm um gosto por me infantilizar que nunca entendi. Quem vê as duas
falando sobre mim pensa que estão falando de um menino. Uma falta de respeito!
Enfezei-me, mas mantive a pose de bom rapaz. Luzia merece toda a anistia desse
mundo.
16/06/2020 Terça-feira
A terapia, por outro lado, torna mais fácil dar profundidade e textura a esse diabo que
me assombra a mente ‒ o humaniza, mas não o mata. Os motivos para que eu tenha essa ânsia
inconsciente por terminar a minha vida me são diáfanos. Até mesmo a obsessão pelas janelas
já me está justificada. A certidão de óbito de Fernanda, como já disse, descreve uma queda
não acidental do alto de um prédio e há algo em meu corpo, uma chibata irracional que me
impele a repetir seu ato como se o fazer fosse de algum modo me aproximar um pouco mais
de minha finada filha. Diferente do que muitos possam vir a crer, caso eu de fato me mate,
não há em mim, a nível consciente, alguma arbitrariedade em favor de um desejo por minha
própria morte. Ambos profissionais que me cuidam da saúde, e também eu mesmo, estamos
de mãos atadas frente a esse pensamento intrusivo que se esforça por tomar as rédeas de
minha vontade. E está formado entre nós três um silêncio de Pilatos, pois é claro para todos
nós que nada mais há o que fazer a não ser esperar. Esperar pelo que? Ora, a depressão em
casos como o meu tende a ter um caráter cíclico e interminável. De modo tal que se os
remédios não me são suficientes para uma melhora completa “basta” esperar alguns dias,
semanas ou meses para que a doença arrefeça a si própria. Enfim, lavo minhas mãos. Papel
amigo, você sabe que eu tentei.
Esqueci de dizer que sábado, antes de irmos embora, fomos todos chamados à sala e
uma enfermeira justificou o que levara o lar de idosos permitir outra vez o trânsito dos
familiares para cômodos que não só o quarto do hospedado: os velhos estavam ficando
depressivos com o isolamento. E, de fato, Luzia parecia muito melhor naquele dia do que nos
outros em que estava presa em seu quarto.
18/06/2020 Quinta-feira
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Na data de hoje comumente as pessoas de meu condomínio se reúnem numa reunião
festiva simplória, porém muito apreciada pelos moradores, para comemorar o Dia da
Imigração Japonesa. Cada um geralmente leva o que quer de sua casa e o sindico fica
responsável pela organização e reserva do salão de festas. Luzia adorava esse dia do ano.
Fazia bolos monumentais para ter o prazer de receber uma penca generosa de elogios dos
condôminos. Levava um caderninho com o qual trocava receitas com as vizinhas e nunca se
esquecia de fazer um bolo menor para as crianças, ou de cenoura ou de chocolate – lembrei-
me disso nessa manhã enquanto observava Luís circular pela sala com uma de minhas meias
na boca.
Hoje é quinta-feira e amanhã é dia receber as crianças aqui em casa. Achei que seria
uma boa ideia trocar o bolo de chocolate das últimas semanas por um bolo de cenoura, então
abri o caderno de Luzia, encontrei a receita e fui ao mercado. O que acho curioso em seu
caderno é o cuidado com a letra e com as pontuações. Luzia sempre foi muito cuidadosa com
as coisas que fazia. Os traços distribuídos pelas páginas estão aqui grafados à régua. Meu
único incômodo é não ter encontrado a receita de seu bolo de chocolate. Até hoje de manhã eu
havia me esquecido da existência desse caderninho e antes de sair para o mercado fiquei o
foleando por uma meia hora, memorando as delícias que ela um dia me tivera feito.
Já na calçada fui invadido pelo frescor de uma rua vazia. Há algo de erótico em ter o
que é público só para si. O Largo da Pólvora estava vaziíssimo. Não resisti e resolvi que iria
ler um bocado em um de seus bancos. Subi em casa outra vez e perscrutei minha estante em
busca de um prazer fortuito, um livro com mais cara de paixão de carnaval do que de eterno
casamento. Escolhi um opúsculo jeitosinho, cheio de aforismos de Drummond. Desci,
atravessei a rua outra vez, penetrei o Largo da Pólvora e fiz daquele ermo meu castelo. O dia
estava vicejante. Acendi um cigarro e banhei-me de Drummond. Suas mínimas máximas
nessa obra são como pequeninas guloseimas. Revisitei minhas antigas marcações – coisa de
muito bom gosto, modéstia parte. Há nelas quase sempre a união entre a ironia e a
profundidade despretensiosa. Há em Carlinhos – o chamo assim para fingir que um dia fomos
próximos –, há em Carlinhos, meu conterrâneo, a genialidade e elegância de um bom
humorista. Em suas páginas é mais bonito o dente amarelo de angústia embebido por cafés e
cigarros. É menos funesta a vida e menos sombria a morte. Seu humor é de um bom mineiro e
seu legado tem a riqueza de ser sem sotaque. Talvez tenha eu ficado até feliz por essa quase
uma hora que se passou. Faltou Luís ao meu lado.
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Fui ao mercado com isso na cabeça: “Faltou Luís ao meu lado”. Decidi comprar
apenas frango e ovos, cenouras para o bolo, uma lata de leite condensado, um pouco de alface
e algumas frutas. Deixei o peixe e os outros excessos para um momento de maior opulência.
Se assim o faço durante três semanas não me pesará no bolso uma coleira para o Luís. Invés
de voltar direto para casa, desci até um petshop na Rua da Glória e comprei a bendita coleira,
dessa vez com Drummond na cabeça: “Nossos mortos estão sepultados em nós, mas
preferimos visitá-los no cemitério”.
20/06/2020 sábado
Quinta à noite falhei em fazer o bolo para os meninos. Ficou massudo demais e eu
ainda tive a estupidez de ter lhe posto a cobertura antes de experimentar a massa. Perdi tudo
que não consegui lamber. Bati na porta de Jussara já tarde da noite e ela me listou quais
puderam ter sido meus erros – não podia se ausentar de casa para me ajudar pessoalmente,
pois estava ocupada, mas me enviou um áudio reiterando os pormenores da receita. Apeguei-
me às suas palavras e refiz o doce. Dessa vez deu certo, o problema de antes foi ter batido
demais a massa. A gastronomia é cheia de caprichos...
As crianças vieram pela manhã de ontem. Tocaram a campainha antes das nove horas.
Cumprimentaram-me e entraram, um deles dizia estar com fome. A verdade é que todos
estavam, mas não se engraçaram muito pelo bolo sem cobertura de chocolate. Pedi-lhes
desculpas e expliquei-lhes minha culpa nesse resultado insosso que lhes ocupavam os pratos.
Entristeci-me um pouco no calado quando eles largaram os talheres sem dar cabo ao lanche.
Gosto quando eles comem tudo.
Sequer iam conseguir ver o Luís, que agora se esconde no quarto quando eles chegam
– escuta a campainha e enfia-se debaixo da cama. Mas eu não pude deixar que mais uma
desilusão os amofinasse naquela manhã. Antes que os meninos fossem embora peguei o gato
e entreguei a um deles. Agora desde ontem o Luís tem me evitado pela casa – rancoroso feito
o pai. Quem sabe um passeio não o faça se esquecer dessa minha generosa traição?
Luzia – fui vê-la. Luzia estava inquieta, incomodada e não queria conversar.
Tampouco queria que eu fosse embora. E me fez ficar sentado a vendo tentar tricotar com
aquele braço ruim dela. Os movimentos melhoraram um pouco e ela tem se acertado
gradualmente num rebolado canhestro de ombro, apesar disso falta muito ainda para
conseguir fazer alguma peça inteira em menos de duas semanas.
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A todo momento em que estive ao seu lado nessa manhã uma questão me importunava
o corpo – cocei a cabeça um tanto, balancei as pernas um monte e até arranquei uma
pelezinha doída do canto de um dedo da minha mão direita − fiz janta agora a pouco e tive de
lidar com o ardor nada agradável da ferida enquanto temperava o frango e a salada com sal.
Eu queria perguntar a Luzia onde Fernanda fora enterrada, mas não sei por que não tive
coragem. Alguma coisa em minha cabeça fazia eu sentir que aquilo era errado, como se fazer
tal pergunta fosse uma espécie de ataque pessoal à sua imagem de boa mulher e boa mãe. E
seu jeito caduco, mais acentuado naquele período da manhã, dava-lhe um ar mais vulnerável
que o habitual – tive medo de a transtornar de alguma maneira. Calei-me. Porém, antes de ir
embora, fiz um pedido ao rapaz que me atendeu na recepção. O pedi que durante a semana
eles tentassem arrancar de Luzia onde nossa filha fora enterrada. Disse que “me esqueci” e
que Luzia hoje também não havia lembrado, “sabe como é cabeça de velho, né?”. O rapaz me
disse em resposta que o pedido ficaria anotado na “ficha online da paciente” e que entrariam
em contato comigo caso obtivessem alguma resposta.
Fui embora com as mãos nos bolsos. Estava frio e minhas luvas haviam ficado em
casa no cesto de roupas, cheias de pelos do Luís.
Não conversei com Dionísio hoje. Mudei nosso encontro semanal para uma dinâmica
quinzenal, porque o dinheiro está curto e também porque ninguém merece ficar toda a semana
ouvindo um velho babão chorar pela filha morta e pela esposa senil.
Perdi meu lugar na sala de casa. O sofá menor, que sempre preferi ao grande por me
dar apoio às pernas e pescoço durante minhas leituras, pertence agora ao Luís. O cheiro de
mijo não sai, não importa o que faço. O forrei com duas camadas de toalhas e renunciei ao
trono da casa. Agora o esperto fica deitado ali o dia todo ao meu lado se lambendo e me
observando. Seu rosto é de uma peculiaridade meio esquisita. A maneira como seu corpo
reagiu e cobriu o espaço em que o olho lhe foi arrancado dá a impressão de que esse foi
chupado para dentro da face – fosse um desenho infantil o gato daria de tossir e o olho lhe
escapuliria para fora outra vez.
24/06/2020 quarta-feira
A notícia fez meu coração bater mais forte. Os pais de Luzia haviam sido enterrados
nesse cemitério ‒ eram judeus. Luzia nunca foi afeita à cultura espiritual de sua família. Não
tem religião alguma. Crendices tem várias – uma delas, os signos do zodíaco, foi uma infeção
que contraiu do contato com Jussara. A ortodoxia de minha sogra era motivo de discórdia
entre nossas famílias. A ideia de que Luzia tenha enterrado nossa filha naquele chão não me
desperta incômodo algum, porém me é muito estranha. Afinal suicida não se enterra naquele
lugar. Bom, está feito. Imagino que fora por essa e outras razões que antes tanto lutara para
colocar seu sobrenome em Fernanda.
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bolsa pus duas garrafinhas d’água e uma cumbuca para que Luís não tivesse de beber do chão
caso ficasse com sede. A verdade é que não consegui encontrar o túmulo de minha filha. O
passeio, por outro lado, não me foi um absoluto fracasso. Aquele lugar é lindo. Andar por
entre todo aquele verde de gramados e árvores fez com que eu me sentisse um pouco melhor.
Luís foi quem não gostou. Vez ou outra firmava as patas no chão e lutava contra a coleira.
Depois de perceber que o combate entre nossas forças tinha um só resultado, cedeu resignado.
Fui embora carregando Luís no colo. O sol deu de esquentar bastante e fiquei com
receio de que aquele clima inóspito fosse machucar as patas do meu camaradinha. Minha nuca
é testemunha viva da realidade daquele perigo. Está vermelha feito um pimentão.
25/06/2020 quinta-feira
Hoje não levei Luís comigo. O céu amanheceu laranja roseado e a previsão para a tarde, li na
internet, era de chuva. Preferi ir só e não colocar uma das sete vidas daquele pulguento
maldito em risco. Também porque se pegasse chuva eu correria o risco de não ser aceito por
nenhum motorista de aplicativo – não há quem goste de um gato molhado a lhe empestear o
carro.
Caminhei bastante, mais do que ontem, porém o resultado foi o mesmo: não a
encontrei. O cemitério estava como no dia anterior: vazio vazio. No entanto, gostei da
caminhada que fiz. Parei aqui e ali namorando um ou outro nome estranho cravado nas
lápides e lendo alguns epitáfios – alguns muito bonitos, outros, muito comuns ou ruins (Qual
é a natureza do fetiche que as pessoas têm por mentir que o falecido foi um anjo na terra?
Nunca vou entender...). Pude folgar a máscara de meu rosto e até mesmo fumei alguns
cigarros enquanto procurava por Fernanda. Faltou o cafezinho para fazer boca de pito. Tão
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por isso quando cheguei em casa, já pelo fim da tarde, a primeira coisa que fiz foi coar um
café. Há um detalhe nessa fazedura que quem me ensinou foi minha filha. Refiro-me ao ato de
dobrar o canto do filtro antes de colocá-lo no coador para que a borra não lhe escape pelas
bordas. Todas as vezes em que o faço me lembro dela.
Anoiteceu e eu tardei lembrar de que amanhã os meninos virão cedo. Meu ânimo não
me permitiu ir ao mercado e tive de pedir a Jussara que fizesse algo aos pequenos. Amanhã
ela virá tomar café conosco.
Os pensamentos suicidas, nesses dois últimos dias, têm rareado, mas a culpa que sinto
por estar vivo ainda é enorme. Sua decisão de morrer, minha filha, choca-me mais do que sua
ausência. A sensação de sufocamento me atormenta, todavia, conseguir passar quase meia
hora sem pensar em tirar a própria vida é um privilégio! E acredito que isso está diretamente
ligado à nova realidade que se instaurou em minha vida após a ligação de quarta-feira. Vou
finalmente reencontrar minha filha! É questão de tempo! E a alegria funesta que em
decorrência disso me invade é revigorante. Vivo pela promessa do desfecho de uma longa
tristeza, para que ela me possa doer em sua completude e à mercê dos panos quentes do
costume, que nada curam, nada apagam, mas tudo adormecem. Tão logo a terei ao alcance
dos braços, mais cedo o amargor dessa saudade de pai sem filha se torna agridoce.
Impulsionado pela boa-nova, tive energia para esconder a bagunça de casa e lavar as
louças da pia. A vitrola participou da festa e foi pano de fundo e testemunha de minha
melhora.
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– São Paulo é como o mundo todo/ No mundo, um grande amor perdi – Cantei para o
Luís. Talvez seja a hora de ele conhecer melhor a minha história.
26/06/2020 sexta-feira
Fernanda contava seis anos quando a perguntei pela primeira vez o que ela queria ser quando
viesse a crescer. Disse-me que queria ser pai e bateu o pé em não aceitar que “pai” não era
profissão. A questionei sobre a causa de seu desejo e ela me disse que queria mandar nos
outros. Não mais me opus à sua escolha. De fato, fazia bastante sentido.
Por muito me questionei a respeito de que se talvez tivesse eu lhe dado outra educação
não teria ela “me abandonado”. Mas a verdade é que nunca vou saber ao certo quais foram
seus reais motivos para fazer o que fez. As conversas com Dionísio têm me ajudado a
entender isso. Dionísio tem me ajudado a entender também que nunca houvera motivo para
que eu agisse de outra maneira. Meu pai me criou para ser peão de roça e eu odiava a ideia de
ter de ficar a vida inteira enfiado no meio do mato dizendo “sim, senhor/não, senhor” pra uma
gente que dava mais valor aos cachorros de casa do que aos próprios funcionários. Fernanda
foi o que quis. Lutei muito para que isso acontecesse. Mesmo em meio a tantas desgraças
ocorridas, continuo a crer que ser pai é como ser um jardineiro que trabalha no escuro. É
cauteloso, não poda o que não conhece – respeita a escuridão na qual o outro se abriga. E no
reconhecer de que desconhece, de que tudo pode vir-a-ser daquele filho amado, contenta-se
com a tarefa de apenas regar o jardim da aprendizagem por onde a criança vagueia de pés
descalços, sujos de terra, livre de preocupações com supostos deveres futuros.
Luís parece estar mais amigo da ideia de sair por aí. Hoje estava frio e ele ficou uma
figura vestido de dinossaurinho com aquela coleira vermelha. Fomos para o cemitério depois
do café da manhã. Jussara fez pudim de leite e todos comemos até dizermos chega. Os
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meninos ficaram um pouco chateados quando eu lhes disse que hoje não poderia entregar o
gato a eles. Fiquei com receio dele ficar arisco na hora que fossemos sair de casa. Jussara
resolveu o problema os convidando para o apartamento dela.
– Lá tem um gato pra cada um de vocês e ainda sobra! – o suborno foi muito bem-
vindo, pois me desocupou a casa mais cedo do que eu esperava e permitiu-me sair antes das
dez.
Luís fez um grande sucesso nas ruas. Hoje estavam cheias, pois os bares e restaurantes
reabriram.
Fomos levados por um motorista que ficou calado a viagem inteira, mas no final me
pediu permissão para tirar uma foto do Luís, pois queria mandar para a filha dele que estava
em casa. Deixei, naturalmente, e ainda posei para a foto.
Meu único incômodo do dia foi o volume enorme e incomum de pessoas que estavam
por todos os cantos do cemitério. Inquiri a um dos funcionários no portão de entrada se estava
ocorrendo algum evento e ele me informou que hoje era o “Dia Internacional de Apoia Às
Vítimas de Tortura”. A maioria vinha visitar algum parente e aproveitavam depois para se
encontrarem diante do túmulo de Vladmir Herzog. Tiravam fotos e publicavam nas redes em
protesto. Achei belíssima a atitude daquelas pessoas. Os túmulos, todos eles, estavam repletos
de pedras brancas.
Os corredores pelos quais podemos andar pelo cemitério, em sua maioria, são feitos de
blocos quadrados graúdos de pedra que têm uma cor marrom acinzentada. Os rodapés que
lhes limitam as extremidades são do mesmo material, porém têm uma espécie de marcação
caiada – ou pintada − em seus topos que nos informa os números das lápides – diversos
tracinhos retangulares e um pouco espaçados uns dos outros. Encontrei Fernanda no final de
um dos corredores do setor P – quadra 121, lápide número 7.
Não fosse por seu nome, sua lápide se confundiria com todas as outras que ali estão. É
preta, mais simplória que as que lhe circundam, e seu túmulo é de cimento cru coberto por
grama-amendoim. Ajoelhei-me e a acariciei com um zelo saudoso de pai emocionado. Uma
dor morreu dentro de mim naquele momento e deu lugar a outra e um alívio estranho a meu
espírito me fez chorar. Sentei-me ali mesmo no chão e, tendo a grama a meu alcance, dividi
uma mão entre a filha do passado e o filho do presente, que se encolheu em meu colo. Não sei
quanto tempo fiquei por ali. Meu choro não foi copioso, mas meu alívio foi sem precedentes.
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Apresentei Luís a Fernanda – “Veio ocupar sua vaga”, disse a ela. Havia muitas pedras na
lápide ao lado e eu não pude me evitar de pegar uma e dar a Fernanda. Ainda hei de voltar lá,
ler Monteiro Lobato para ela mais uma vez.
Vou dormir agora e Luzia sequer suspeita o tamanho da vontade que estou de a
abraçar.
27/06/2020 sábado
Este mundo que se transforma em consonância com o piscar dos olhos tem como constante a
banalidade de minha tristeza a todos os outros. É esperar por sapatos de defuntos querer
daquilo que tanto se transforma uma renovação. Sou efêmero em tudo e em todos e hoje,
desfiando-me e recompondo-me junto a Dionísio, entendi que minha insignificância, por mais
que me iguale a todos os desimportantes que por aí existem, não subtrai de meu ser sua
inigualável singularidade.
Dionísio propôs que eu pensasse sobre isso e escrevesse uma mensagem a mim
mesmo. Esse exercício parece bobo, mas deve ter algum valor que desconheço. Então aqui
vai, papel amigo – que o desdouro de minhas palavras não obscureça a riqueza que nelas pode
estar enterrada:
Você, meu caro velho, é único em todos os olhos que te tocam, para todas as mãos que
já lhe despiram e todas as bocas que lhe beijaram, mas você não é nada. Você é sempre para
um outro e essa maneira de existir, repartida em outros corpos por aí, por esse mundo, por
essas ruas tortas e essas ladeiras que nos cansam, é destituída de forma fixa. Você, meu caro
amigo, pode se virar do avesso para ser amado, haverá sempre aquele que lhe terá como um
pobre diabo ou um desgraçado sem coração. Ninguém, meu companheiro de trincheiras, é o
que quer ser e mal nenhum há nisso. Somos muito mais do que um dia podíamos ter sonhado
em ser. A sua tolice, muitíssimo humana, é se doer por aquilo que não consegue ser aos outros
e achar que isso é de alguma maneira um erro de ser o que é. Há em meu olho esquerdo o céu
e no direito, o inferno. Estando num e noutro, quem quer que seja, estará em casa. Por que
seria diferente com você? Sente-se, acalme-se. Um par de chifres não é tão pior assim do que
uma coroa de espinhos.
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É curioso o impasse ético no qual me enfiei junto a Dionísio. Digo “impasse”, porém
talvez se trate da solução de que tanto careço. Ao que parece, falta-me aceitar que o
julgamento que me cabe é o deontológico. Todavia, Fernanda e Luzia têm de ser julgadas por
mim segundo um tribunal utilitário. Essa diferença de tratamento pode parecer injusta, porém
tanto eu quanto Dionísio acreditamos ser a única postura possível frente à concretude dos
fatos. Ora, não posso cair na besteira de crer que estou ciente das reais intenções de Fernanda
ao se matar e de Luzia ao esconder isso de mim – coisa que, no campo teórico, esvazia por
completo aquilo que alimenta minha obsessão por encontrar em mim tais respostas. Porém,
como bem sabe qualquer um que tenha bom senso, minha humanidade não é fiel à lógica.
Sendo assim, encontro-me preso à velha luta entre razão e emoção. Embora eu saiba que
nunca estou no completo controle de minhas ações, sei que pertenço a mim mesmo e, como
dono de meu ondulado e velho nariz, escolho ainda o que me dói. É que os versos dessa dor
me compõem como gente e eu já não mais sei viver sem eles. O trauma é minha segunda pele.
O sofrimento me povoa o silêncio e, distraído na silente solidão de meu dia-a-dia, sinto o
gozo inconfesso de a vida se afirmar em cada dor que me invade o corpo ou que nele faz
morada.
03/07/2020 sexta-feira
Ontem Jussara e eu nos juntamos na missão de fazer um bolo diferente para os meninos. O
resultado de nossa fraterna união foi um bolo de chocolate com recheio de creme de coco e
cobertura de brigadeiro. Raspei a panela do creme e ela, a do brigadeiro enquanto
conversávamos sentados no sofá da sala. A complacência em seu rosto, a familiaridade dos
móveis, a presença de meus livros distribuídos pelos cantos da casa e um até ao meu lado, a
remota lembrança da paz que ali um dia vivi e o adocicar de meus lábios que me denunciavam
que aquele momento presente era seguro, que eu estava abrigado do mal que há no mundo,
que ali já não me era proibido me abrir, nada adiantou para o desconforto e tamanha vergonha
que senti ao tentar contar para Jussara sobre Fernanda. Era-me difícil represar as investidas de
meu choro e minha respiração relutava diante de sua atenção. Doía-me querer ser humano na
frente de um outro, senti-me humilhado pelo abandono e ainda não tinha percebido quão
grande é o constrangimento de ser um pai vivo sem um filho que se deu à morte. Com muito
custo, fui deixando a caverna. Hesitante como o animal que dá os primeiros passos ao sair do
útero da mãe, palmilhei os entrelaces amadeirados de meu chão riscado com a parte de minha
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alma que é arisca ao sol. Aquilo parecia que iria me matar. Testemunhando minha
dificuldade, Jussara me deu um sinal de que iria se virar de costas, acenei-lhe que sim, que eu
estava de acordo com isso. E assim, enfim, contei a ela sobre Fernanda. As palavras me
deixavam a boca enquanto meu rosto fervia e a culpa me enozava a garganta, eu já estava por
perder o fôlego quando Jussara teve o zelo de me servir um copo d’água. “Então o Luís teve a
honra de conhecer a irmã?” – disse ela. Como é compassiva essa mulher! A convidei para ir
no cemitério comigo qualquer dia desses – dizendo isso agora sinto que o convite é um tanto
descabido devido à estranheza inerente ao seu teor fúnebre, mas na hora me pareceu oportuno;
eu não estava por pensar muito claramente. Jussara se dispôs a comprar flores, mas disse a ela
que aqueles túmulos carecem de pedras brancas – coisa cultural.
– Mais ou menos o tamanho de um ovo – fiz com a mão −. Lá tem, não precisa levar.
– Não, ainda não sei, mas se trata apenas de um gracejo simbólico. Não deve ser muito
diferente das flores. Gente é gente, seja aqui ou na Europa, e a gente gosta bastante da ilusão
de que o morto venha a saber que ainda vive em nós, daí as rosas. As pedras não devem ser
muito diferentes disso.
Jussara disse que levaria as pedras dela, eu não fiz caso. Vamos na quarta-feira, pois
quinta é feriado e é provável que o número de pessoas por lá aumente.
Não posso deixar de dizer que os meninos adoraram o bolo. Comeram até ficarem com
o envolto das bocas todo sujo. Empanzinados, até deram folga pro Luís, nem perguntaram por
ele. Diferente das outras massas, essa fica mais gostosa geladinha. Aproveitamos pra fazer
bastante no intuito de que dure até semana que vem.
Tenho estado melhor. A bagunça da casa diminuiu, o que é um bom sinal. A pilha de
louças não tem ficado tão grande. E a vassoura vez ou outra, nessa semana, deu de dar um
charme na casa. Apenas meu intestino que não tem me sido do agrado. Sinto dor ao evacuar e
sei, com toda a certeza, de que a culpa disso é minha. Tenho de me alimentar melhor. Porém
esse tato mais preciosista com os autocuidados ainda não está ao meu alcance. Seguirei com o
pouco que posso, legando algumas carências para o futuro breve ou distante e de resto serei
arrastado pela corrente do tempo rumo ao enigma da vida, como uma mosca a arrastar uma
formiga a lhe morder o pé.
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Ah, quase me esqueço! Jussara – Santa Jussara! – ensinou-me como tirar o cheiro do
xixi do Luís do sofá. Vinagre de álcool com água e um produtinho vagabundo pra finalizar –
um spray besta e barato; emprestou-me um frasco pela metade. A casa agora continua sem
estar com o melhor cheiro do mundo, mas o que importa é que não cheira mais a mijo de gato
e isso teve um impacto positivo em meu humor. Luís descobriu um jeito de subir em meu
guarda-roupas e está dormindo lá toda a noite. Atualmente é ele quem me acorda pelas
manhãs.
08/07/2020 quarta-feira
Papel amigo, você sabe que o café que acabei de derrubar em você não foi de propósito e é-
me claro que não seria isso motivo suficiente para que você resolvesse se embolar todo e
enfiar-se para sempre na lixeira que jaz ao chão ao nosso lado.
É curioso, não é? Em que momento eu em criança, menino e rapaz, feliz que fui, iria
imaginar que me tornaria um suicida em potencial quando crescesse? A vida era boa e se
prometia melhor – a lágrima era uma resposta ao presente.
Aquele amargor paulatino do mundo, que conhecemos com o chegar da vida adulta, se
o nomeamos bem o chamamos de “costume”. E me parece ser ele o principal suspeito de
nossa tragédia. Afinal é ele, o costume, que encerra o encantamento do mundo e é também ele
que nos faz crer ver de perto quem somos. Não contente ele passa a entalhar a imagem nossa e
do outro em nossas mentes – faz obras de artes das mais belas às mais horríveis, todas
inumanamente fixas, imutáveis, irreais e profundamente apaixonantes ‒ às vezes perfeitas. O
costume é uma maneira cansada de se existir no mundo. Indício disso é o fato de que hoje não
mais se morre pleno de vida, há um desejo comum por descansar em paz.
O que melhor assegura a vida é se apaixonar por ela na infância. A criança é o pai do
homem e não conhece o desencanto do mundo. Tão natural de minha parte como pai de um
suicida é me perguntar o que faltou à infância de minha filha. O problema é que cada vez mais
tenho me dado conta de que Fernanda era uma ilha em que as promessas de minhas pegadas
eram apenas delírios de um pai de primeira viagem.
E o que ganho eu por me enfiar nesse ermo de memórias? Quão masoquista fui me
tornando ao longo dos anos que já não me contento em ser surrado apenas pelo presente? E lá
tenho futuro que eu queira desbravar? Estou para morrer! Aceitar que se morre é uma tarefa
árdua e pensar nela, na morte, e a encarar de frente é algo que me suscita um desespero
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humilhante. Quase oito décadas nesse mundo e sou ainda birrento perante o ultimato da
morte! Mas ainda há tanto para ser resolvido, que sequer ela me é uma opção. Sim, sou
partidário do ilusório e narcisista desejo de que meu fim solva todas as nódoas de espaços e
tempos das quais fiz e faço parte – e nesses excessos não me excedo, apenas sou menor do
que meus desejos: nada mais do que o comum.
Ser adulto e adular a criança que ainda em ti vive é a estupidez que costumam chamar
de amor próprio. Acham que o bom é a plena correspondência de suas vontades e, como
resultado disso, forçam-se a crer que seu deus caprichoso sempre é o melhor no que lhes faz –
imbecis, leem a bíblia conforme manda o cabresto dos costumes para amansar o Diabo,
porque prazer mesmo é o proibido, o condenável, o errado, a perversão, a heresia, o
sacrilégio, o tabu e tudo aquilo que lhes faz humanos e dá-lhes reais motivos para viver. Por
isso quero o impossível: reencontrar-me com Fernanda e abraça-la junto à Luzia, uma Luzia
cheia de lucidez e vigor, sem, contudo, esquecer que o deus que pode tudo e vê-me nesse
insuportável penar, sem fim nem razão, sem me dar nada, é um filho da puta, sádico e cruel.
Meu deus é, cuspido, a cara da humanidade, seu único milagre é eternizar o nosso extermínio:
ele gosta de assistir a mesma novela e variar as personagens. Chegou a minha vez de o
mandar tomar no cu.
Jussara e eu fomos hoje ao cemitério. Ela levou uma das gatas dela – uma
preciosidade, cheia de elegância e bastante peludinha. Muito manhosa – um ataque ao coração
felino do Luís. É verdade que quis avançar nele quando o viu no corredor entre nossas portas
e que desviou de minhas carícias e até mesmo que rosnou quando tentei a pegar no colo, mas
com Jussara ela é um amor. E a visão desse namoro basta ao fascínio bobo que em mim se faz
notar por ela. Esfrega-se nas pernas lisas de Jussara, apoia a cabecinha em seu rosto e, na
pequeneza do segundo em que é tocada pela dona, põe-se a ronronar. O rostinho é preto assim
como as patas, o rabo e as pernas. O corpo, no entanto, é branco – todo branco, com feitio de
alface-de-cão. O olho é azuuuuul... que chega dar sede. Estava muito bem amarrada por uma
coleira azul e rosa – Jussara não confia nos próprios gatos.
– Lembro dela... – disse olhando para o túmulo e depois se voltando para mim – Tão
nova... Costumava ir lá em casa com aquela amiga dela do cabelo azul. Iam comer pão de
queijo, pudim ou fumar cigarros escondidas de Luzia. Conversávamos muito.
Fernanda desde que entrou na faculdade andava para baixo e para cima com uma
mocinha que agora o nome me escapa – almoçava e até mesmo dormia aqui em casa de vez
em quando, tinha o cabelo raspado e usava argolas das mais grandes – Luzia a achava
exagerada, espalhafatosa –, falava bastante sobre filosofia, detinha um jeito eloquente de se
expressar, transbordava um ar professoral e, acima de tudo, odiava o Figueiredo. Parecia uma
boa menina. Quem via as duas juntas podia dizer que eram irmãs – não se largavam nunca.
– Jussara, você não se sente só? – perguntei, tocado pela presente ausência de
Fernanda.
– Como assim?
– Ah, eu me contento com meus gatos, velho broxa. Dão menos trabalho. – disse e me
fitou com aqueles olhos de mendigo, ambos famintos de minha anuência.
– Eu?
– Ah, bem...
– Jussara! Me poupe! É claro que eu tô falando com você! Fica aí me olhando desse
jeito!
.
94
.
Virei meu rosto de uma só vez e a peguei no flagra! Desconcertada, tentou dar uma de
esperta e desviou o olhar para o túmulo que estava atrás de mim.
– Fernanda, minha filha – fui dizendo –, você poderia, por gentileza, pedir à vizinha de
sua mãe pra que ela desembuche de uma vez?
– Tá bom, velho broxa! – finalmente a bendita resolveu mostrar para o que veio – Ó,
eu vou perguntar, mas não quero ninguém aqui se incomodando com a minha pergunta, viu?
– Ai, Antenor! Olha o tamanho das besteiras que você fala! – e olhava-me em negares
de cabeça.
– Pois Fernanda não tem sequer uma reclamação a fazer quanto a isso – disse
apontando para o túmulo – Viu só? – e chiei com o dedo.
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– Então desembucha, mulher!
– Tá bom, tá bom! Eu só queria saber por que você e Luzia nunca tiveram um outro
filho.
Não pude dar uma resposta satisfatória à minha amiga. A verdade é que essa pergunta
faz doer em mim a culpa que sinto pela infelicidade de mãe sem filhos que tanto atormentou
Luzia ao longo do nosso casamento.
Quando ando na rua toda menina negra na casa dos vinte anos que me aparece pela
frente se torna Fernanda. Nunca contei a ninguém, fora a Dionísio, mas, até muito
recentemente, antes de Luzia ficar doente, eu costumava sair de casa dizendo que ia ler em
algum lugar, porém, eu ia vagar pelas principais avenidas daqui dos arredores de casa
esperando que me surgisse pela frente alguma moça parecida com Fernanda. Quanto mais
parecida mais meu coração se acelerava – era uma espécie de esporte radical. No começo fiz
isso contra a minha vontade e até mesmo com vergonha de mim mesmo, porém, depois de um
tempo, eu o fazia para que as minhas vivências da vigília convergissem com meu desejo de
sonhar à noite com minha filha. Eu sei que isso parece loucura ou algum tipo patológico de
obsessão, mas a sensação de a ter por perto, ao alcance de meus braços uma vez mais, mesmo
que ilusória, é algo que torna irrelevante qualquer rótulo que atribua algum tipo de loucura ao
meu ser.
Por que não tive filhos? Há quem cometa o erro parental de abrir mão da própria vida
para direcionar todos seus esforços que lhe prendem no mundo rumo aquele detentor do
reputado título de “filho” – o nome disso é desespero, mas como o maltrato com as palavras
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não nos dói como a fome e a sede fica tal atitude encarcerada no conceito fixo e acabado do
“amor”. Assim errei e assim erraria outra vez até o fim dos tempos caso houvesse o ensejo.
Ser pai é conhecer a leveza da morte de quem não se encerra em si mesmo.
E lá me era possível amar à sombra de tão grande abandono? Naquele tempo eu ainda
amava um amor reputado marcado pelo emporcalhar do desejo, não entendia que a rispidez do
passado tinha lugar à luz do sol do amanhã e que seria dali em diante também parte do
exercício de meus futuros amores. Para além disso, a brutalidade com a qual a ferida do
abandono me esquartejava o peito não encontrava sossego da exasperação de meu desprezo
em a não hospedar com as mesmas regalias de minhas antigas angústias e decepções.
Sentimento grosseiro, ocioso, animal – um jeito de enganar a mim mesmo, recusando o cru, o
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grotesco, o real; envolvendo-me num reduto de apetite por posses, contiguidade e controle.
Uma maneira de despojar o que há de humano do outro lado da minha saudade e ficar sedento
pelos resíduos do cárcere de uma quimera que tem braços, olhos, nariz, boca, orelhas, pernas
e braços, mas não é gente.
Naquele momento amar, dizer sim à Luzia, seria abraçar o desconhecido que habita o
outro, disso eu sabia. E adotar assim significava dar azo ao acaso para que Fernanda se
repetisse noutros corpos, noutras faces, noutro filho.
10/07/2020 sexta-feira
11/07/2020 sábado
Há uma tristeza do ter-de-morrer que me erra o corpo toda vez em que o mundo me abala.
Não brota em mim, daí disso, um desejo consciente por morrer, mas, por um breve momento,
tão pequeno que o pensamento não o pega entre os dedos e o expõe aqui fora, o fardo da
morte me é um alívio. E eu o aceito ainda como se tivesse escolha de um dia não ser cravado
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na terra que jaz sob meus pés e chamo essa minha prepotência de serenidade – o gasto véu
ilusório da vontade de vida.
Recebi uma ligação do Residencial Tamandaré logo cedo que encrustou em mim esse
abalo, disseram-me que um dos internos está com covid. Até o fim do dia todos lá farão
exames e eu serei informado se Luzia foi contaminada. Até o fim do dia meus setenta e oito
anos parecerão um frame do bater de asas de um beija-flor – muito, mas muito mais curtos do
que essa espera que tenho pela frente.
Ao saber da notícia joguei fora o café que estava por tomar – não podia arriscar ofertar
esse agrado à ansiedade que está sempre em meu bolso esperando a oportunidade para dar as
caras e tomar conta de todo meu corpo. Como era esperado, ela veio. Escrevo agora ao meio-
dia, depois do almoço que não tive, meus dedos já estão sem a pele que lhes costuma cobrir
da aridez do visível e daqui a pouco será a vez de minha carne se expor ao sol. Luzia sequer
tem consciência do perigo que corre.
Hoje à tarde eu deveria me consultar com Dionísio, mas não estou bem da cabeça para
isso. Luís parece ler a angústia sob as rugas de minha pele, está mais afetuoso que de
costume. Vem, olha-me, mia miúdo, sobe no sofá e esfrega-se em meus braços. Meus dedos
ardem quando tento lhe acariciar os pelos então não o faço. Ele estranha a falta de minha
resposta, hesita em se entregar a mim, para e olha-me em aguardo. Diante desse grão de
doçura eu, amargo que estou, falho em lhe prover um agrado à altura do carinho que me
dedica, mas por hoje, meu gato amigo, tudo que terá de mim são dois dorsos de duas mãos de
dedos mascados pelo medo de um amor velho se tornar um velho amor.
O inferno é uma questão de ponto de vista. Nunca foi um lugar. Agora mesmo se
instaurou cá em casa e o Diabo trouxe consigo seu relógio monocórdico: Tic-tac “Luzia vai
morrer e você ficará só nesse mundo” Tic-tac “Você nunca a consolou pela morte de
Fernanda” Tic-tac “Nem filhos a deu para que dela cuidassem num momento como esse” Tic-
tac “Você vai morrer sozinho” Tic-tac “A solidão de um velho não dói a ninguém” Tic-tac
“Luzia, por favor, não morra, eu não hei de aguentar!” Tic-tac “E do que me vale continuar
viva se você me enfiou nesse asilo?” Tic-tac “Foi para o seu bem. Foi, não foi?” Tic-tac
“Luzia, me perdoe!” Tic-tac “Talvez se eu estivesse em casa não teria pego essa doença
horrível!” Tic-Tac “A janela da sala muito me seduz...” Tic-tac “Luís, se eu morrer não
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invente de brigar com os gatos de Jussara.” Tic-tac “São meio-dia e cinquenta e sete” Tic-tac
“Não deixe que a razão se alastre pelo corpo: seja metade gente e metade bicho, pois o
coração se pudesse pensar pararia.”
Este mundo pretensioso, cheio de cores, cores e mais cores e mais cores e mais... Quer
gritar: “VIDAAA!”, mas é tão silencioso, aquietado, calado, taciturno, cinza... Chega a dar dó
da gente que vive nele. As cores nas ruas só me trazem morte aos olhos – todas elas, tão
vazias de espírito, um pecado à pintura, tão sem vigor, tão sem verdade... A felicidade que
almejam transpor trasborda a mais pura impureza daquilo que é falso e sem alma. O ar que
circula nas ruas é sujo e o sopro com o qual o vento espremido sopra as calçadas por onde
passa é insuficiente para as manter limpas. Forço os olhos, pouco pouco, e vejo a imundice.
Bitucas de cigarro, tampas de latinhas, papéis dos mais rasgados, pombos asquerosos – ora!
Um sopro de vida, não é mesmo?! Repugnante! Copos plásticos pisoteados, canudos
descartáveis, plantas agonizando em meio à turba vagante humana, mendigos dormentes –
sombras concretas –, e até mesmo um amontoado de pelos e cabelos humanos sobre o
gradeado de um bueiro. Tudo está sujo, degredado, podre, humanizado! Até mesmo as
árvores! Suas folhas que caem ao chão, no vagaroso de quem pendula, nos revela, na
futilidade de um segundo atento, que a sujeira também lhes capeia o verdor. Ninguém está a
salvo e até mesmo o amor se banha na morte.
A água que há pouco correu por sobre meu corpo não chegou sequer perto de me
arrancar o odor da velhice – há quem gosta, pois tal olor alude à sabedoria, e há quem detesta,
pois seu futum faz recordar a morte. Eu não o sinto. É meu e meu demais da conta para que o
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sentir se dissocie do aroma do hábito e faça outro o que lhe é corriqueiro. E se a sina de meus
olhos é nunca se terem para além dos espelhos, a de meu nariz é a de não se dar conta de meu
próprio cheiro. Mas é sempre assim, há sempre, sob alguma unha, um grão de poeira, num
canto de um olho, uma remelinha escondida, nos confins dos cabelos, um restinho de pele
seca que mais parece caspa, e tudo isso sou eu, e o mais que isso ignoro, porém também me
compõe. Ignoro o sem vida que sou e que morro a todo momento desde de que nasci, olvido
que o nascimento é uma espécie de princípio de morte, que sou o invólucro de um túmulo que
se desfaz e refaz dia após dia, noite após noite, minuto após minuto e segundo após segundo,
cada vez mais decrépito. É que apodrecer é também vida e por onde ando, nonde toco, para
aonde olho profano tudo, até o que me escapa ao tino. A morte me envolve como uma
segunda pele, tão calorosa quanto os seios que me vieram aos lábios quando pequenino fui. E,
é claro, hei de ter a petulância humana de, quando ela “vier”, dizer-me surpreso e
despreparado.
– Minha cara, a gente nunca te espera porque você sempre esteve por aqui. – direi a
ela.
É numa hora dessas que aquele “de fé” se guarda em si mesmo e arma-se: reza. É que
a morte é medonha para quem odeia a vida. A ponte para deus, mais curta que a fé, é o
desespero.
– Ó, meu caro crente, defensor da moral e dos bons costumes, se tu soubesses que só
não ouve deus te mandar ir para o inferno por ter cera nos ouvidos, quantos banhos deixaria
de tomar? O seu respiro, desmascarado, mais que sua prece, tornou-se arma. Irá sufocar a si
mesmo se algum dia sentir o peso de seu voto? Não! De modo algum! Que morram todos!
Não é mesmo? A vida é o bem maior do mundo! − A sua, é claro. O seu cadáver é também
mortal, não é mesmo? Um mortal que é mortal nunca foi pleonasmo, hoje nem mesmo morto.
Há em cada esquina um assassino sem máscara. A cada rosto tranquilo, sereno e exposto, um
chão se abre numa vala comum, uma mãe chora, um filho adoece, um pai morre e tudo
continua bem, até que chega a sua vez.
Vivo! Morto. Vivo! Morto . Vivo! Vivo! Morto. Morto. Vivo! Morto. Morto. Morto. Morto ... Quando
será a minha vez de brincar? A de Luzia é agora.
12/07/2020 domingo
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Não dormi. Fiquei a noite inteira ligando para o Residencial. As enfermeiras não tiveram
descanso, pois, além de mim, disseram-me, havia outros familiares preocupados buscando
informação sobre seus entes queridos. É certo que procuravam alguma fagulha de fé daquelas
bocas jovens que ficaram no celular o dia inteiro mesmo sem saber suster uma conversa
decente durante uma ligação. Que enfiem a fé no cu quando a encontrarem! Eu que não a
quero! Estou certo de que foi um deles, um dos parentes de algum dos outros residentes, que
empesteou os velhos da casa. Eu quero Luzia viva ao meu lado e só isso me importa agora.
Não faz mal, já aconteceu outras vezes e é possível controlar. Eu queria falar com
Luzia e isso era de maior importância naquele momento. Enfiei-me em frente às duas moças
que estavam no balcão e danei a fazer perguntas. Não obtive uma só resposta, apenas ouvi
ambas atendentes me pedirem calma. “Calma, senhor. Todos internos da Tamandaré estão em
quartos isolados” e a angústia me espremia mais e mais o peito. “Calma, senhor. São muitos
casos” e a clausura de meu desespero me dava vontade de arranhar meu próprio corpo.
“Calma, senhor. Não vai ser possível falar com ela agora”, foi então que rompi em insensatez
e principiei a falar de meus mais de quarenta anos de casado. Os olhos das atendentes se
perdiam de mim e, desconcertados, fitavam o povaréu em meu envolto. Um segurança
apareceu e tirou-me de lá, à força. Sentou-me do lado de fora e, aos poucos, fui me
amargurando de meu desespero. Eu vagava os olhos para os andares mais de cima daquele
prédio verde leitoso, evadindo-me daquela gente à minha volta e perguntando-me onde será
que Luzia estava guardada – ela é uma preciosidade, é preciso cuidado, zelo, cautela! Dali de
fora eu via o rosto da morte se abrindo diante de mim. Era uma morte fria, de um piso cinza
com quadradinhos pretos, cadeiras de um beje morto e de mau gosto e havia carpas para todos
os lados: carpas em quadros, nas paredes, em pinturas e até incrustadas em madeira – peixe
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tolo! Horroroso! Não creio que minha mulher está sendo tratada por um hospital que se
engraça mais por um peixe idiota desses do que por gente!
Antes de ir embora adentrei a recepção outra vez, agora mais calmo, pedi papel e
caneta a uma das atendentes e dei a elas meu número de celular. Pedi que me ligassem a
qualquer hora se tivessem alguma notícia sobre Luzia – disseram-me que o lar de idosos já
tinha lhes passado meu contato. A TV atrás delas, suspensa, grudada a um painel de madeira,
dava mais corpo à morte que eu insistia em enxergar naquele lugar. “Brasil ultrapassa mil em
número de mortes mais uma vez” – dizia a merda da reportagem. E as duas imbecis que me
atenderam se apiedaram da minha situação e deram-se o direito de me tratar como se eu fosse
uma criança! O ódio me foi grande. Só não as mandei irem tomar no cu, pois isso acabaria
com as chances de elas me ligarem para me dar notícias sobre Luzia quando o momento
viesse.
Pelo menos dei a sorte de que o plano de saúde de Luzia cobre a estadia naquele
hospital ‒ assinamos há pouco mais de um ano: “Prevent” alguma coisa. Assinei alguns
papéis e tive de trocar o meu contato de emergência – eu “havia tido contato com algum
infectado nas últimas duas semanas” e Luzia não era mais elegível como minha responsável
legal. Não soube o nome de quem colocar, então dei às moças o nome e o número de Jussara
Eu nunca perguntei a Jussara seu sobrenome e fiquei sem jeito de dar de pronto um
sobrenome padrão qualquer, a moça poderia descobrir a mentira em meus olhos. Então pensei
um pouco enquanto fingia tentar lembrar e o primeiro nome que me veio à cabeça foi
“Ricoeur”.
– E como se escreve?
– Escreve “rico” e depois escreve “eu”. E como isso é uma mentira e mentira tem “r”,
aí você coloca o “r” por último...
E assim ficou: “Jussara Ricoeur” – chique demais para uma puta velha como ela, mas
não para a minha responsável legal. Coisas da vida: ganhar o título pelo ofício e não por quem
se é – daí que melhor cabe à minha amiga o título de “puta velha”, não é verdade?
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A prioridade do momento não sou eu e acredito que não há razão para que eu conte à
Jussara o que fiz ou o que se passa com Luzia. Não estou com vontade de falar com ninguém.
Só me resta aguardar a ligação.
Desci numa banca cá perto de casa e gastei até o que não podia com novos maços de
cigarro, só para me assegurar de que não chegarão a faltar. Luzia morre a todo momento em
que penso nela.
A janela, vista cá do sofá, está mais sedutora – não nego – e pego-me pensando que
mal me faria caminhar até ela e deter-me ali por um instante. Fumar, apoiar os braços em seu
parapeito, ver a copa das árvores de cima e contemplar algum transeunte tolo vagando sem se
saber observado. Acompanhado por mais que sua sombra, o seguiria também um par de olhos
velhos que, no escoltar de seus passos, distrair-se-ia do desassossego profundo que sente,
palmilhando o chão com os olhos, doando àquele, por meros segundos, toda a atenção de que
é capaz – está doente de amor, cativo a ruminar e supor o que será de amanhã. Diante da
miragem de paz, a sede de seus olhos, de súbito, teria de encarar o extinguir de seu recanto
com o chegar da esquina e tudo se encerraria numa completa ingratidão. O desaparecido, não
agradecido pelo momento de dobrada vigília, seria esquecido, sem dor, no quedar dum
segundo. E os olhos velhos ver-se-iam outra vez sem refúgio do desassossego.
Encontro-me num pêndulo que oscila a gosto da tortura que este mundo me imputa.
Num extremo está Luzia a morrer, morrer e morrer. No outro extremo estou eu, atirando-
me pela janela e oferecendo meu crânio ao chão. Ele o aceita e é só festa: miolos para todos
os lados e uma reunião enorme de gente formando uma roda à minha volta. O ponto de
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equilíbrio é minha alma impregnada pela certeza de que não posso morrer agora e deixar
Luzia só.
Creio padecer de uma loucura imperfeita, carente de maior delírio para cumprimento
de seu dever. Não é este seu papel: criar uma realidade outra, mais feliz? Anda! Que é seu
encargo me fazer crer que Luzia está bem! Levante-se! Que ainda não consumou seu dever!
Trabalhe! Prove-me que a vida vale a pena! Você é fraca! Débil! Franzina! Inútil!
Há anos a morte me é negada e hoje sou eu quem a nego. O ranger do fechar da janela
parece o princípio de um choro que não me comove. Sufoco seu pranto e prendo-me a esta
vida como se dela gostasse, como se dela pudesse fruir sem tormento. Pode haver Antenor
sem Luzia, mas nunca haverá Luzia sem Antenor! Há muito perdi o direito de fazer doer
quem amo.
Minha cabeça está a milhão, já não bastasse isso, os cantos de meus dedos da mão
direita estão em carne e tenho de segurar a caneta doutro modo para que não me doa o roçar
das feridas no papel – este excerto é um esforço. Peço desculpas pelos garranchos que aqui
repousam, mas minha sobriedade e minha loucura dividem o mesmo rosto, têm os mesmos
dentes, as mesmas curvas e o mesmo vício em me fazer doer. Não é de se admirar que seu
caráter hediondo se transponha ao papel. Essa feiura sou eu.
A paz − é um tanto irônico escrever sobre ela enquanto minha cabeça fervilha − é um
ermo intocado que se esfacela a qualquer indício de terror. Paz não é o prazer que se segue da
execução de um tirano. A paz é uma fábula – mentira inventada que não se sente. Palavra que
é só casca. É o véu invisível que encobre os céus dos poetas. É pura retórica, signo perdido no
mundo. A paz não existe e apenas a sua ausência se faz sentir – isso é tudo que temos.
13/07/2020 segunda-feira
Ainda não tive notícias. Passei a noite procurando pelo cheiro de Luzia em nosso lençol e
travesseiros. Encontrei-o fraco e cheio de memórias, parecia um sussurro a se espalhar por
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meu rosto. Luzia está se apagando do mundo e escrevendo-se mais fundo em mim. Uma lauda
velha como eu, já não muito morro também, e aí ficamos nós dois esquecidos por todos...
Queria que algum dia tivessem me dito que a hora de aprender a morrer é o agora.
Demorei tanto, tanto... que quando me dei conta já parecia ser tarde demais para fazer algo a
respeito. E foi então mais fácil ceder ao sofrer do que à remissão do erro. Não tenho mais
filhos e meus dois únicos amigos são figuras questionáveis. Uma prostituta com um pé nos
sessenta anos, depressiva, cheia de gatos e sem nenhum porto seguro nesse mar de gente que
chamamos mundo. E um rapaz demasiado novo que recebe dinheiro para me escutar depreciar
a vida há mais de três anos. Ah! Não posso esquecer também do gato. Luís é um camaradinha
muito amável.
Pensando bem, não sou muito exigente e, verdade verdadeira, contento-me com os
poucos amigos que tenho. Essa coisa que toma posse de mim e faz com que eu queira dar
cabo a tudo é uma ofensa tremenda àqueles de quem gosto – ou amo?
Não consigo parar de fumar e mal sei qual fora a última vez que comi. Minha cabeça
se divide entre ansiar por notícias sobre Luzia, devanear sobre essa minha vida bosta e pintar
minha imagem se atirando pela janela do quinto andar – faz tudo num só golpe. É uma
espécie de poder que a loucura me concede: o poder de me foder três vezes mais do que o
normal.
Há uma certa beleza no pensar a respeito a quem se destinaria o que é meu quando eu
me for? Estive pensando nisso agora a pouco. Cai por terra a cobiça humana ou meu desejo se
projeta para além do túmulo? “Dê isso a fulano, dê aquilo a ciclano”. É no mínimo cômico o
conteúdo de qualquer testamento: “deixo isso a beltrano, deixo aquilo a cicrano” – como
assim “deixa”, e morto lá escolhe alguma coisa?! Ou por acaso pensa que se ausentará para
fazer uma viagem? É mal humano desejar como se fosse imortal. E por mais que nesse
momento eu queira tão poucas coisas – Luzia viva e eu também – quero-as tanto, tanto... que
torno a não aceitar que tudo isso, que um dia foi, venha a acabar.
Costumávamos dizer cá em casa que família é quem por quem vale a pena chorar. E,
por mais que o objetivo primeiro dessa crença autoimposta fosse legitimar ainda mais o amor
de Luzia por Fernanda e o de Fernanda por Luzia, como mãe e filha, há um outro fundo de
verdade nesse provérbio. Não há uma pessoa sequer de minha família que já não me tenha
feito chorar. Chorei também por amigos e por amigas. Tudo me leva a crer que o que une a
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todos em minha história é justamente aquilo que primeiro fiz quando dei as caras no mundo.
Não me hei de recordar se fora por medo ou por me assustar com o desconforto do acaso e o
abandono do útero, mas o repetir desse choro, que nunca cessa, parece hoje denunciar que nos
assombramos com a surpresa de que nosso amor não muda o mundo, pois os queria tanto,
tanto, tanto, que fora desolador o fato de não serem eles eternos.
Família não se diz pelo sangue, diz-se pelo afeto que se permite sentir, um afeto
fundado numa ilusão por nós mesmos criada. Meu peito dói por uma angústia distinta da
depressão nesse momento, porque Luzia, eu sinto, está indo embora, e eu a amo a ponto de
não conseguir crer em sua finitude. Esse cegar da razão, por mais que não pareça e por mais
que muitos insistam em dizer que está além de nossas faculdades controlar o que sentimos, é
por completo uma escolha. Pois eu escolho chorar, porque eu escolho manter edificada essa
tosca ilusão, porque essa é a condição de possibilidade para que eu a tenha cá comigo, viva,
acessível, incólume – vibrando sob meu peito e diante dos meus olhos. A profundidade do que
sinto, em última instância, repousa em minha vontade de o sentir. Foi preciso muitos anos de
casado para que eu entendesse o que Luzia sempre me dizia antes de dormirmos: “muito te
quiero” – ela, que nada sabia de espanhol, era versada na língua sem pátria do amor.
Papel amigo, mal sabe você o tamanho da tortura que é pensar que pode Luzia vir a
morrer sufocada. Estou por chorar encolhido no sofá ou em nossa cama nas pausas entre os
cigarros. Mais cedo me sentei no chão do banheiro e deixei a água cair por não sei quanto
tempo. Nada alivia essa dor, essa preocupação... e hei de chorar mais ainda. Tenho medo de
que os vizinhos me ouçam, então o faço baixinho, reprimo o som o máximo que consigo. Se o
pior vier a acontecer, será se poderei enterrar Luzia? Um pouco de minha esperança ainda faz
morada no futuro, mas até quando?
15/07/2020 quarta-feira
Luís fugiu. Não vi acontecer, mas acredito que fora logo depois que cheguei do mercado, no
minuto em que a porta ficara aberta enquanto eu passava para dentro com as sacolas e as
colocava sobre o balcão da cozinha. “E mais essa agora?!” E a culpa foi toda minha.
Quando me dei conta de que ele não estava em casa entrei em pânico. Procurei
debaixo do sofá, atrás da televisão, embaixo da cama e até mesmo usei um cabo de vassoura
para cutucar o vazio em cima do guarda-roupas. Desci as escadas e o procurei pelos outros
andares do prédio, faltava-me fôlego e eu me escorava pelos cantos das escadas para pegar
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um ar uma vez ou outra. Cedi ao cansaço e passei a vagar pelo condomínio usando os
elevadores, chamando-o com o sopro de fôlego que me restava. Num último ato de esperança,
desci até o outro lado da rua de casa e o procurei no Largo da Pólvora: nada.
Subi de volta à casa e passei a conviver com o receio de que talvez o hospital tivesse
me ligado no telefone fixo e eu não havia atendido. Acalmou-me um pouco a certeza, filha do
bom senso e da lógica, de que se não me encontrassem com o fixo iriam naturalmente me
ligar no celular.
Não acredito que perdi meu companheirinho. E a culpa foi toda minha! Fiquei com a
cabeça fincada na situação de Luzia e esqueci-me de lhe dar de comer.
Pedi ajuda a Jussara e ela veio cá em casa me ajudar a fazer alguns cartazes de gato
desaparecido. Ao menos meu celular tinha várias fotos boas do Luís e não demorou muito já
tínhamos umas cinquentas folhas impressas.
Jussara se prontificou a colar alguns cartazes nas escadas e eu coloquei alguns outros
nos elevadores do condomínio. Descemos juntos na rua e pusemos também em alguns postes.
Não é possível que ninguém não tenha visto o Luís por aí. Como algum corno cego vai me
dizer que não se lembra de um gato sem um olho?!
A despeito disso, tive de contar a Jussara o que se passa com Luzia. Jussara ficou
muito abalada com a notícia. Ensimesmou-se alguns minutos para que o abalo se assentasse e,
de uma hora para outra, fungou fundo o nariz, ergueu-se da cadeira e perguntou-me se eu não
precisava de ajuda para arrumar a casa. Eu naturalmente disse que não, estava deveras vexado
pela bagunça e sujeira e não queria que ela continuasse a se importar com aquilo. Mesmo
assim Jussara disse que viria hoje me ajudar com isso, que arrumar e limpar as coisas me faria
bem, serviria de distração. E é mesmo verdade que ela veio. Desligamos o rádio e a TV, que
só falavam de morte, e ligamos a vitrola. Deixei que ela escolhesse o disco. Jussara, ao
contrário do que eu esperava, é uma mulher de elevada cultura – quem diria! Escolheu
Eternelle de Édith Piaf e arranhou um bom francês cantando junto à francesa. Eu não sou
versado em tal língua, mas me pareceu que Jussara sabia muito bem o que estava dizendo.
Perguntei a ela onde aprendera tal língua e ela me disse que tinha um velho amigo da
embaixada francesa que uma vez dera a ela de presente um bom desconto num curso da
Aliança Francesa. Dispôs-se a me ensinar, mas eu, depois de lhe agradecer a boa vontade de
sua parte, disse-lhe que não estava com cabeça para isso.
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– Faz alguma coisa, Antenor. Alguma coisa que te ocupe a cabeça.
– O que?
– Ler, fumar, ver algum filme, acompanhar alguma série. Hoje em dia tem muita coisa
boa online.
– Jussara, se eu fico só minha cabeça vagueia, vagueia e vai parar em Luzia. Não
interessa o que eu faça. E agora, no Luís. Como se já não me bastasse uma coisa só!
– Grande respeito...
– Você não costumava jogar baralho com a Luzia? Ela mesmo quando ia lá em casa
perdia horrores pra mim. Se quiser a gente pode...
– Você ganhar de mim?! Minha filha, que falta de respeito essa sua. Eu provavelmente
jogava muito antes de você nascer!
– Ai, Antenor. Me poupa dessa sua prosa vencida. A diferença nossa de idade nem
aparenta ser tanta assim! E o que interessa mesmo é jogar.
Senti-me lisonjeado pelo comentário, talvez tenha até enrubescido, mas não estou tão
certo quanto a isso.
– Então pega os baralhos ali naquela gaveta que eu vou pegar uma toalha pra forrar a
mesa. – disse a ela.
Então jogamos. Jogamos e jogamos muito. E nossa conversa enquanto isso foi um
santo remédio. Jogaremos amanhã outra vez, que também é dia de prepararmos bolo para as
crianças, conforme combinamos.
Não estou conseguindo dormir. Sinto falta do Luís e meu coração fica apertado só de
pensar que ele está na rua de novo. Há tantos carros correndo e passando um pelos outros com
pressa que só me vem à cabeça a concretização do pior dos casos: ele ser atropelado. E, não
só isso, a ausência de um olho decerto o torna alvo de desgosto de muita gente ruim por aí.
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Fico com medo de que alguém possa fazer mal a ele. Fere-me também a possibilidade de
outra pessoa o pegar para si. De qualquer forma, se ele não me aparece mais eu nunca irei
saber o desfecho dessa história. “Outra vez, Antenor?!” – sim, e agora com um gato! “Você é
um fodido mesmo!” – pois se não estou por ouvir a voz da verdade! Ai, ai...
16/07/2020 quinta-feira
As crianças chegaram não muito tempo depois. Abri a porta e deparei-me com um dos
pequenos segurando o pardal numa das mãos.
– Joga isso fora, moleque! – disse retraindo a porta e escondendo-me por detrás da
brecha que se formou.
O menino hesitou meio segundo e um outro lhe deu um tapa na mão com o pássaro e o
defuntinho voou longe. Começaram os dois garotos a se estapearem e eu não fiz caso.
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Cochichei com o que estava de fora da briga o perguntando o que eles faziam aqui se hoje era
ainda quinta-feira.
– A mãe da gente ficou sabendo que a Dona Luzia não tá bem da saúde, então a gente
veio ver como tava o senhor.
É claro que a puta velha não tinha conseguido ficar com a boca fechada... Chamei os
brigões para dentro e disse-lhes que hoje, a princípio, não teria bolo, mas que amanhã
certamente iria ter. Deixei-os sentados no sofá um minuto e fui tirar satisfação com Jussara.
Toquei sua campainha meio torto, pois o pardal do inferno estava agora perto de sua porta de
entrada.
– Jussara, você não tem vergonha de ter uma boca grande dessas, não?!
– Ó, as pestes apareceram mais cedo hoje e a culpa é sua, então se arruma aí e vai
tomar conta deles um minuto enquanto eu lavo as louças pra gente fazer um bolo pra eles.
– Então me serve de um gato manso seu aí que o Luís não gosta das brincadeiras das
crianças, não.
Jussara fechou a porta e voltou com uma gatinha toda bege, o rostinho e as patinhas
amarronzadas e bem peludinha – uma teteia.
– Sem beliscar ou apertar demais a gata, hein! – Remediei. Dei uma olhada e ela
parecia gostar da atenção que estava por ganhar.
Jussara demorou mais do que eu esperava e eu tive de ficar sentado na poltrona da sala
respondendo um sem fim de perguntas daqueles pirralhos:
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– O Luís tem várias namoradas.
– Eu não sei, pergunta pra ele. – Confesso que não estava nos meus melhores dias.
– Mas ele nem aparece pra ver a gente. O Luís não gosta de gente?
– Sério?
Ai, mas que perguntinha danada que esse moleque me fez! Não havia tempo para
pensar numa resposta séria a essa questão, nem mesmo alguma necessidade de lhe responder
bem pensadamente, então simplesmente dei corda ao papo:
– Gosto, meu pai me deu um videogame novo e minha mãe bateu no meu irmão ontem
porque ele tinha me beliscado.
Depois que todos foram embora, a pergunta daquele pequerrucho me ficou na cabeça,
coçando, pulando e esperneando – não me dava sossego. Que eu já gostei da minha vida disso
não há dúvidas, mas se eu gosto... – chega a ser engraçado me perguntar a respeito disso com
tudo que venho passando. Na verdade, inclusa nessa questão está também a implicância
constante desse desvario sem sentido que é todo sofrimento que tenho passado. E para que?
Com qual finalidade? O que eu deveria estar fazendo num momento como esse?
Aparentemente só me resta apanhar da vida até meus últimos dias. Porém, calha pensar que se
fosse deus um camarada muito honesto e nos soprasse num dos ouvidos o que deveríamos
fazer da vida do nascimento à morte, antes de nascermos, talvez ele diria algo como "Vá,
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chegou a sua vez de brincar". Parece-me se tratar duma questão de ética transcendental essa
coisa de zelar pelo mundo por onde estou de passagem, pois se há um sentido a tudo isso ele
não se resume às particularidades de minha vida individual ou da vida de minha família e
amigos. É preciso enfrentar o fato de que um dia haverá outro e terei de lhe ceder meu lugar
nesse espaço e nesse tempo. Esse apagamento diante do outro, despreocupado,
agnosticamente livre das amarras do medo e da angústia, que são apenas formas apaixonadas
de não saber, é uma espécie de amor a uma promessa de humanidade. E pensar nisso só me
leva a crer que tenho de brincar enquanto há tempo, dar cabo a meu isolamento e talvez voltar
a me revelar sobre o palco do mundo público. É ruim demais ser sozinho, estar só, distante
doutro peito que pulsa como o meu. A literatura é um santo remédio, pois o leitor é sempre
amorfo e pode encarnar outros corpos, vestir outras peles, outros ossos, outro sexo, pode
sentir um pouco da dor sem dono que é aquela que repousa em papel no exercício do poder de
transitoriedade que sua humanidade lhe confere. A tragédia humaniza – eis o motivo que me
leva a gostar de livros tão tristes –, humaniza e me rasga profundo, revela-me mais do que eu
sabia sobre mim mesmo, mais do que eu acreditava poder sentir. O leitor dá vida própria a
uma obra a escrevendo junto ao autor. É natural da palavra romper a barreira do possível e
isso fundamenta a possibilidade de que vivos e mortos se unam no engendrar de uma
humanidade mais bem acabada, esculpida a cada frase, a cada mistério desvelado, a cada
morte sofrida e a cada estranheza tornada pública. Se gosto da minha vida? Qual delas?
Recebi uma mensagem do hospital que dizia que Luzia não está melhorando. Se não
houver nenhuma resposta de seu corpo até o fim de semana, será entubada. Eu não tenho
palavras para descrever o que estou sentindo agora. Jussara veio, há pouco, no início da noite.
Contei a ela a novel desgraça e seguiu-se disso um carteado mudo de risos, palavras e riqueza
de gestos. Apenas a música ao fundo. E minha cabeça estava tão distante daquele conjunto de
papéis sobre a mesa da sala e de tudo que eu sequer me recordo qual era o vinil a tocar.
Luís... Luís me entende, não tenho dúvidas disso. Hoje lhe dei comida na mão como
forma de desculpas pelo que fiz a ele nos últimos dias. Agora, antes de me deitar, dividimos
uma maçã e uma banana – ambas com o gosto roubado pela angústia e pela tristeza.
19/07/2020 domingo
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Luzia foi entubada. Está sedada e não sente dor. Normalmente é permitido que o paciente
ligue para casa e “se despeça”. No caso de minha mulher, sua fraqueza é tamanha que sequer
isso puderam lhe oferecer.
Fiquei encolhido em minha cama desde que recebi a notícia. Levantei há pouco para ir
ao banheiro e aproveitei para fumar um cigarro. Sentei-me no sofá de casa bem de frente para
a janela da sala. Permiti que aquele pensamento funesto tomasse corpo dentro de mim. Sinto
raiva, muita raiva, raiva demais! Raiva de mim por ser louco. Raiva da doença que me
desgraça a vida a quase quarenta anos. Raiva da filha que não tenho e dos filhos que não tive.
Raiva de estar só. Raiva dos amigos perdidos. Raiva do desconhecido que infectou Luzia.
Raiva de mim que a internei naquele lugar. Raiva de todos, todos que estão por aí
perambulando como se a vida de nós idosos não valesse nada! Raiva do presidente – um
canalha, cercado de ministros incompetentes e de gente sem coração. Como pode estar eu
assim sendo tão violentado?! Quando foi que todo cuidado que aprendi a ter comigo mesmo
passou a não ser o suficiente? De tão esquecida tem de ser assim violentamente imposta a
verdade de que temos de cuidar uns dos outros? Essa doença maldita tira toda a dignidade da
morte de uma pessoa. Não há velório, não há despedida. As pessoas simplesmente
desaparecem da face da Terra. A crueldade anda nas sombras das supostas boas intenções.
“Pela defesa do direito de ir e vir” – como é insensível esse homem grosseiro e seus
apoiadores! O direito à vida antecede todo e qualquer outro direito que lhe vier a ser
contraposto!
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quando Luzia se for ela fará morada logo em alguém como eu, um frasco tão pequeno e
depreciado que não muito demora e também há de sucumbir...
A ansiedade tem me azucrinado bastante. Liguei para o meu médico e, depois de vinte
minutos de espera sendo enrolado pela secretária, ele pediu para que eu dobrasse a dose de
olanzapina e diminuísse pela metade a de bupropiona e acresceu um outro remédio à minha
sopa de comprimidos diária – um sublingual: mirtazapina, à noite, um comprimido de quinze
miligramas. Com essa mudança estou por tomar três antidepressivos, um equilibrador de
humor de liberação distinta de acordo com os turnos do dia e um antipsicótico – são eles:
venlafaxina – trezentos e setenta e cinco miligramas ao acordar –, junto a ela, bupropiona –
cento e cinquenta miligramas agora com a mudança –, lítio de liberação rápida – seiscentas
miligramas na hora do almoço –, lítio de liberação prolongada – novecentas miligramas à
noite –, olanzapina – dez miligramas antes de dormir – e, por último, a novidade: mirtazapina
– quinze miligramas na hora de dormir. Confesso que achei gostosinho esse novo remédio, é
adocicado e não tem aquele gosto amargo que os remédios costumam ter.
23/07/2020 quinta-feira
Foi uma enfermeira que me disse hoje pela manhã que o quadro de Luzia se
estabilizou e a infecção em seus pulmões não está mais avançando. O alívio me foi tão grande
que me deitei no sofá ao lado de Luís para lhe contar a novidade e acabei acordando só agora
no meio da tarde.
Ontem, no entanto, quase dei fim à minha vida. Aquele pensamento estuprador me
violou o dia inteiro. Também meu pensamento está muito acelerado e a ansiedade passou a
me sufocar. Deitei-me com Luís debaixo das cobertas no sofá, mas não conseguia parar
quieto, minha doença me exorcizava – coçava os braços, a cabeça, a barriga, as costas;
mordiscava os cantos dos dedos menos lesados, balançava um dos pés ininterruptamente e
torcia-os no ar no intento de os estalar; e, ao fechar de meus olhos, tinha uma certa espécie de
alucinação visual muito esquisita, que, porém, não me é estranha – uma velha conhecida
doutros tempos de menor lucidez. Então me sentei, apanhei o último cigarro da cartela que
estava disposta sobre a mesinha da sala diante de mim. Pendia ele no canto da mesa, ao lado
de um pouco de fumo que havia caído de outros cigarros, de um livro de Nietzsche e de
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algumas bitucas – daria uma bela foto. Deixei-me levar pela fumaça que subia e dispersava-se
próxima ao teto e fui sendo possuído pela ideia de minha cabeça rachando contra o chão sujo
do asfalto. Tive raiva do fato de não estar tendo controle sobre meus pensamentos, mas não
uma raiva comum, meus dentes rangeram e meus braços tremeram como se eu estivesse por
erguer muito peso, e talvez eu estivesse mesmo. Aos gritos atravessei a sala e fui com tudo de
encontro à janela principal, empurrei-a com os dois braços com toda a força e todo o ódio que
estava sentindo naquele momento, ela se abriu e meus braços se projetaram para fora fazendo
meu coração se acelerar. Quase no mesmo instante os encolhi e as venezianas voltaram com
tudo contra o meu rosto. A pancada foi forte e fez-me lacrimejar um pouco. Tive depois a
audácia de voltar a fumar meus cigarros na janela – foi um prazer sem igual.
Chamei Jussara para lhe contar a boa nova. Fui também informado de que quatro dos
colegas de Luzia do Residencial não resistiram, essa parte não contei a Jussara, pois não
queria a preocupar tornando exposta a fragilidade de nossa recém felicidade. E então fizemos
bolo? Não mesmo, dessa vez Jussara me ensinou a fazer pães de queijo. Fiquei de comprar
goiabada para que os meninos não estranhassem a falta de doce amanhã. Estou ruim de
dinheiro e tive de comprar meu remédio no crédito, mas investir na alegria daqueles pirralhos
é de certa maneira fazer bem à minha própria saúde – e olhe que são os antidepressivos mais
baratos e eficientes da face da Terra!
A qualidade da felicidade que tenho, considerando o cenário geral, é das mais porcas,
eu sei, mas não interessa, felicidade é como dinheiro amassado, não perde o valor – “que
comparaçãozinha mais mequetrefe essa sua, hein, Seu Antenor?” Pois é verdade, estou feliz e
não há tempo a perder pensando em belas palavras para traduzir a beleza da vida em papel,
ela é raríssima e fugaz como um verso dentre os mais de quinze mil que compõe a Ilíada.
Quando posso simplesmente fruir de meu bom humor é apenas isso que irei fazer.
27/07/2020 segunda-feira
Hoje levei Luís para dar um passeio pela manhã aqui no bairro da Liberdade. O pilantra ficou
a madrugada inteira correndo feito um foguete pelos cantos da casa. Tentei fechar a porta do
quarto e deixar ele de fora e ele deu de a arranhar pedindo para entrar outra vez. Ignorei-o um
minuto ou dois, mas acabei cedendo ao rei da casa e em consequência disso mal dormi – é o
terceiro dia consecutivo que isso me acontece.
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Descemos à rua e nos sentamos por uns minutos no Largo da Pólvora. Estávamos
sozinhos e Luís só queria saber de dormir – vai entender... Sentei-me e não deu um minuto ele
estava deitado em meu colo tirando um cochilo e enchendo a minha calça de pelos.
Aproveitei para ler um pouco e acalmar os ânimos. Estou louco para saber quando
Luzia poderá voltar para casa. Uma das enfermeiras me ligou e disse que se tudo ocorrer bem
até o fim dessa semana ela estará de volta ao Residencial.
Estou sentindo uma falta corpórea de Luzia. Quero à noite fruir de seus braços tocando
o meu rosto. Quero lhe mirar a boca com os olhos antes de lhe dar um beijo de boa noite.
Quero sentir o adensar do aroma de sua pele quando vou de encontro a seu rosto e encontrar
no percorrer desse curto espaço entre nós dois aquilo que é de qualidade inefável nesse
mundo. Quero sentir o calor de seus pés sobre as cobertas. Quero que ela me peça mais uma
vez para que eu faça a barba pela manhã, pois está lhe causando coceira. Quero me levantar
em plena madrugada para mijar e ficar incomodado com seu pedido repentino e habitual para
que eu lhe traga água. Quero descansar a vista das leituras desviando meus olhos para o sofá
da frente, onde ela esteve sempre sentada fazendo seu crochê. Quero que meu erro rotineiro
de trazer quatro talheres à mesa deixe de ser ato falho e volte a ser um agrado dum detalhe em
lhe dizer “te amo” apenas em razão de zelo. Quero lavar a louça ao seu lado enquanto
ponhamos um bom samba a tocar na vitrola. Quero comer os doces que só ela sabe fazer.
Quero ter espinhas e cravos mais uma vez, só para servir a seu estranho gosto de os apertar.
Quero sair de dentro do banheiro do nosso quarto depois de ter cagado e olhar em seu rosto e
dizer que alguém morrera lá dentro. Quero ouvir o som de seu riso me ouvindo xingar as
cartas do baralho. Quero namorar seus olhos expectantes que sempre antes de minha primeira
garfada me mirava o rosto a tentar ler a minha reação à sua comida. Quero mentir para ela
uma vez mais e fazê-la feliz até mesmo do jeito errado. Quero sentir a leveza de estar ao seu
lado, de sentir sua presença como um baluarte de São Dimas. Quero ter com quem contar
quando está tudo arruinado e confuso. Quero alguém que escute minhas bobagens com o
coração e que, na observância de minha insignificância perante o mundo, veja-me como um
amor de toda uma vida.
Mais cedo, quando estive por caminhar com Luís, havia em cada canto em que eu
olhava um desmascarado. Recebi de um ou outro o que me pareceu ser um olhar amistoso,
pois se engraçaram do velhinho com seu gato caolho. Pois veja se não se importam mais com
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a vida de um gato do que com a de uma pessoa – estivesse eu só, é certo que sequer notariam
minha presença na rua. E algo outro também me incomoda: esta injustiça de sobreviver sem
mérito.
Cheguei até a Praça da Liberdade, Luís estava com medo dos carros. Sentei-me num
banco e pus-me a ler e o pulguento se enfiou por debaixo dos meus braços. Dessa vez eu o
pirracei de minuto em minuto para que ele não dormisse – assim quem sabe talvez eu consiga
dormir hoje à noite.
Antes de ser Praça da Liberdade, esse local foi chamado de Praça dos Enforcados e é
no mínimo curioso o fato da liberdade residir no mesmo terreno da morte.
Morte, morte, morte, morte, morte... – Estou sempre por falar dela como se fosse eu um
homem valente, feroz, resistente e destemido! Mas a verdade é que em vida eu sou um
tremendo covarde! Só tenho coragem de enfrentar a morte através da escrita em papel.
Voltando para casa passei em frente ao mercado e vi que o quilo da ameixa está um
assalto! Ultrapassa o preço de algumas carnes de segunda, o que me faz suspeitar que uma
crise vem por aí. O Brasil não poderia estar em piores mãos num momento como esse.
Vida, vida, vida, vida, vida... – Às vezes suspeito que o verbo “vivemos” é uma forma
mais branda de dizer que estamos passeando no inferno.
Hoje estou em clima de aforismos. Não desgruda de mim uma boa vontade de
escrever, porém, contudo, todavia e, no entanto, eu estou por fruir de uma preguiça vadia,
cheia de vontade de perambular por aí feito uma pulga andarilha num canil.
Toda galinha um dia foi pinto e ninguém julga uma galinha por ter se desfeito do pinto
quando cresceu.
Clarice tem um gosto estranhamente elevado por galinhas que eu nunca entendi.
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Quando novo me preocupava em talvez um dia ser broxa e na velhice descobri que só se
broxa quando novo.
Não há metafísica no mundo animal, mas o mundo deles é o mesmo que o nosso.
As crianças deveriam ter uma maior licença para fazer brincadeiras travessas enquanto seus
dentes ainda lhes são provisórios.
Será que Chico Buarque se lembra que seu nome não é Chico?
O ser humano é uma espécie de peixe que carrega sua carência de rio em um copo d’água.
Se passo três dias sem tomar banho começo a cheirar como meus antepassados.
A inteligência de um homem pode ser medida pelo tempo que demorou para descobrir que a
vida não se resume a sexo.
A bestialidade dos homens faz com que no mundo não haja arma mais poderosa do que uma
buceta.
Saudade é uma palavra assim tão brasileira por nós brasileiros não nos contentarmos apenas
com as outras formas de sofrer.
Reencarnamos o genocídio alemão, pois a elite brasileira não se contenta com as outras
formas de matar.
Brasil é nação que diz partilhar o pão sem nunca ter partilhado uma terra.
Jesus ainda não voltou, pois privatizaram o mundo e ele agora pertence ao Diabo.
29/07/2020 quarta-feira
Papel amigo, não sinta muita saudade. Apenas irei fazer um examezinho para
encontrar o meu amor neste fim de semana e já volto.
31/07/2020 sexta-feira
Tive uma espécie de orgasmo com o resultado negativo do exame hoje cedo. As
crianças vieram e dei a elas o bolo que ainda estava na geladeira – foi pouco, então lhes dei
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também os pães de queijo. Um dos pequenos me perguntou por que eu tanto sorria. Disse a
ele que estava querendo mostrar a dentadura nova. Todos riram e a felicidade atravessou a
sala, onde estávamos, num só passo – demasiado fugidia para o meu gosto. Malgrado sua
breve existência, valeu cada segundo. As crianças se empanturraram como da última vez.
Jussara foi quem talvez mais ficou feliz com o sucesso do doce e dos salgados – não
acreditava que sua ideia daria tão certo.
Luís estava deitado sobre a mesa da sala pela manhã, antes de os meninos chegarem.
Resolvi sentar ao seu lado para tomar um chá. Num primeiro momento, quis o deixar quieto,
mas ao receber o resultado do exame em meu celular me tive de suas patinhas dianteiras e o
fiz de marionete por uns tantos segundos só para ver ele se contagiar com a minha alegria –
dançamos.
Estou me sentindo ótimo com tudo que me ocorreu nesses últimos dois dias. Os
pensamentos suicidas continuam me violando, mas estou certo de que não tomarão controle
sobre mim. O momento poderia ser de grande e plena felicidade, entretanto confesso que
estou aflito quanto o estado de saúde atual de Luzia. Pego-me pensando a todo momento se o
corpo dela será capaz de suportar a convalescência. Não faço a mínima ideia de quão grande
fora o estrago.
O jeito que Luís está por me olhar nos últimos dias tem causado um certo abalo em
minhas certezas mais íntimas sobre as coisas – não sei muito bem precisar o que há de novo,
mas seu olho sem-par está fortemente penetrante. Sinto-me ligado a essa peste com pulgas tão
profundamente que estou por ser levado a acreditar que isso é amor. E lá bicho é capaz de
amar?! Ai, e se for? Olhe o tempo que perdi negando os pedidos de Luzia por um cachorro –
o tanto que a fiz sofrer está por me rasgar a alma inteira. “Desculpe, amor meu. A ferida me
era grande demais para eu aceitar algo assim. Pelo menos Jussara foi uma ótima vizinha, não
foi? Emprestava-lhe um gato ou outro durante toda a semana. Sua nítida felicidade com aquilo
me desconcertava, mas a ideia de sofrer outro abandono me roía as vísceras, não sei bem
explicar o que sentia. A ideia de amar outra vez, alguém mais e não só a você, causava-me
uma angústia, uma certa vertigem e um profundo desespero. Eu sei que fui egoísta. Mas me
era grande a certeza de que eu não sobreviveria a outra eventual perda.”
121
‒ ...
Estou sentado na mesa da sala e Luís está por tirar um cochilinho em meu colo. Essa é
uma boa hora para que investiguemos a natureza do sentimento que nos une. Papel amigo,
você não se cansa dessas minhas besteiras? Diga-me. “Seu velho da prosa vencida!” Ora, não
seja assim tão rude. Vejamos, façamos assim: por hora, hei de maneirar a melancolia em
minhas palavras. Espero que lhe seja do agrado. Então vamos!
Muito confundido com a paixão, o amor não existe em repouso. O sentimento mais
elevado de todos não poderia ser rebento de nossas paixões, nem a elas dever suas proezas.
Uma paixão avassaladora, demasiado profunda, intensa e completamente involuntária – é a
isso que chamam “amor”. Que somos viventes dotados de palavra não há dúvida, mas o uso
que costumamos fazer da linguagem pode, em alguns casos, gerar a suspeita de que a
diferença entre nós e os bonobos é de grau e não qualitativa. E não é assim tão grande
sacrilégio nos aproximar de outros animais de outras espécies, os textos de Freud já mais do
que nos provaram que a ideia de que temos arbítrio talvez não esteja tão correta assim. Mas
suponhamos que temos e que aqui jaz nossa diferença em relação a nossos amigos animais.
Essa peste que está a ronronar em meu colo e esquentar minhas coxas me faz questionar o
componente racional do amor pelo qual tanto prezo.
122
nos focarmos nesse detalhe podemos depreender duas percepções a respeito do sentimento
animal. A primeira vê a ausência de razão como impeditiva do acontecimento do amor.
Todavia, se considerarmos que essa razão é apenas uma faculdade exclusivamente humana
necessária para que possamos ter essa disposição de abertura, talvez poderemos afirmar que
esse felino projeto de belzebu Luís de Camões ama, pois, suposto a abertura como a condição
necessária e direta para o amor, nada nos impede de afirmar tal acontecimento na alma felina,
ou seja, na ausência de arbítrio, o animal ainda é capaz de amar o seu humano. O convívio, o
toque, o carinho, as brigas e reconciliações, essas coisas podem levar animais de diferentes
espécies a amar, inclusive o homem – nem literatura, nem filosofia monopolizam o saber
necessário para amar, mas dado o tempo em que vivemos, averso a experiências humanas
diretas, império de opiniões e informações, reino da pressa e ambição perpétuas, podemos
afirmar com um elevado grau de certeza a raridade aguda do amor entre nós. Pelo menos
agora posso dizer que o exercito abundantemente junto ao meu gato...
O amor enquanto uma escolha diária, por outro lado, é dito impuro por digladiar uma
eterna e sanguinária batalha contra o mundo das tentações e dos costumes. É impuro, pois é
assassino, amansa o medo e as angústias – naturais respostas ao não saber. Os homens, no
entanto, são ufanistas de um sentimento porco, estúpido, corrosivo, delicioso e infernal. O
chamam de amor por não terem bom tato com as palavras. A paixão é diabólica e animalesca.
É sempre intensa, ou mui prazerosa ou terrivelmente excruciante – não há meios termos ou
paz. A verdade é que pouca gente ama nesse nosso mundo. As pessoas costumam legitimar a
ausência de arbítrio daquilo que sentem por, pura e simplesmente, engraçarem-se da natureza
animalesca das paixões que os aprisionam. O verdadeiro amor conserva o traço mais humano
do humano: a razão. E não havia de ser diferente. Amamos quando adentramos o abismo que
é o outro e não nos comovemos com a escuridão à nossa volta. Tateamos às cegas um
possível campo minado, damos anuência às feridas que disso podem surgir e não nos
esquivamos da possibilidade de nossa ruína. É absurdo e belo!
123
minúsculo quando comparado a um “eu escolhi te amar”. Com um bom uso da palavra
deixamos de ser bicho para ser gente. Deixamos de sermos escravos para amarmos libertos na
ignorância própria do amor.
Devanear sobre isso me leva a pensar no olhar estrangeiro que hoje une as pessoas. Na
minha época, amores tinham o costume de serem de toda uma vida. Os casórios se davam,
subtraindo os casos dos arranjados, que não eram poucos, porém, até mesmo alguns deles
eram edificados na certeza de que o outro ao seu lado no altar era a melhor coisa que
acontecera em toda sua vida. Esse panegírico patriarcal foi perdido pelos jovens de hoje. A
tecnologia os afasta da possibilidade de experimentar um mundo real, com pessoas reais e de
profundidades humanas. Seus amores são fugazes e fundamentam-se na velha e diabólica
paixão que nos rasga o peito – apaixonam-se por ideias e as chamam, se não me engano, de
“perfil”. Dado dois anos de casado – às vezes mais, às vezes menos −, os parceiros descobrem
que a pessoa com a qual eles escolheram passar o resto de suas vidas é, não a melhor do
mundo, mas a melhor até agora – esse arranca-rabo está na TV o tempo todo; Luzia que
gostava dessas fofocas. Isso é no melhor dos casos. No pior, creio eu, o casado percebe no
outro uma incógnita geradora de repulsa e aversão que, não muita tarda, torna-se indiferença,
pois é comum que o hábito cristalize em nós uma espécie de certeza quanto ao outro das mais
perniciosas ao casamento – passamos a ver o outro como um ser acabado. Isso, fosse eu quem
ditasse as leis da natureza, seria o maior dos pecados. Assassinar o mistério de um outro é
abrir as pernas para a indiferença – o maior dos males, dentre os possíveis, de um casamento.
Já hoje a separação não mais choca e, por mais que meu tato tenha gosto por conservar as
boas coisas do passado, parece-me que esse novo estilo de vida também tem suas riquezas.
Falta-me com quem conservar sobre tão complicadas coisas e genuínas grandes questões.
Deixo aqui grafado esse meu devaneio, papel amigo. Pensar acalora o coração e essa fogueira
me impele a fazer de meu cigarro uma tocha – o bom e velho mimetismo entre a carne e a
alma.
Teimo em olhar para o relógio como se pudesse, com o poder da mente, fazer os
ponteiros rodarem mais rápido. Mas ele gira vagaroso que só. Se me sento próximo a ele
consigo ouvir seu tic-tic. Quando fico muito centrado em alguma coisa o Luís passa a me
olhar como se quisesse haurir de meu rosto uma explicação para minha quietude, embora eu
124
esteja fervilhando por dentro. Não faço a mínima ideia de como sumariar aquilo que estou
sentindo – muito menos como o fazer para um gato.
É curioso que certos episódios da vida, como esse pelo qual estou passando agora,
resultam num não intencionado, porém demasiado querido, expurgo de meu humor
deprimido. A depressão parece faltar ao trabalho, como se no percurso que costuma fazer até
as profundezas do meu peito estivesse por ocorrer um gigantesco engarrafamento. Nele é
velado o medo de uma maior desgraça e todos enlutados presentes são coloridinhos, pois são
fragmentos duma felicidade moribunda. Seja ela qual for, meu coração agradece.
É-me demasiado claro o desconhecimento das pessoas comuns quanto a essa minha
maldita doença. Quando Luzia e eu ainda saíamos, mesmo depois da “fuga” de Fernanda, as
pessoas mais atrevidas com quem convivíamos, ao saberem de minha doença por uma ou
outra boca, acariciavam meu ombro e passavam-me uma espécie de “receita para a
felicidade”. A estupidez humana é notoriamente incomensurável. Também o é a ausência de
bom senso. Os imbecis de suposto bom coração eram simplesmente incapazes de perceber o
óbvio: que suas felicidades tinham dono. Alguns filhos da puta, sem mãe, tinham a insolência
de ficarem me observando como se eu fosse um espécime de macaco num zoológico.
Queriam ver “o bipolar” “variar de humor”. Porém, na maioria das vezes as pessoas se
inteiravam apenas da minha depressão. Luzia tentava ser discreta, mas sempre deixava
escapar o laudo de minha estranheza.
A burrice é uma das mais profundas faculdades humanas. Para além do fato dessas
pessoas não saberem o que é a depressão e acharem que sabiam, havia em todas a crença tola
de que um depressivo quer ser feliz e não consegue – uma asnice colossal, podiam contar os
próprios neurônios nos dedos duma mão. O motivo que me leva a querer ser feliz repousa no
fato de eu ser um ser humano. O depressivo não anseia por felicidade por ser depressivo, a
felicidade é menos uma carência humana do que um luxo. O que eu mais quero em dias
difíceis é degustar um mundo monótono e insosso. O meu desejo é por experimentar a
sensaboria da vida, as insignificâncias da vida diária. Eu quero tomar um copo d’água sem
que ela me desça o esôfago parecendo bigornas. Eu quero ter o prazer de fumar um cigarro
chinfrim, quero deixar de o fumar como um moderador da angústia. Eu quero tomar banhos
quentes e frios e deixar o banheiro me sentindo fresco, sentindo-me renovado, sentindo-me
vivo. Hoje não mais, mas quis, por muito tempo, fazer um sexo simplório, que me desse ao
menos um breve momento de prazer. Eu quero me olhar no espelho e ser indiferente às
125
minhas imperfeições, eu quero deixar de as aumentar. Quero ter um sono sem pesadelos e
acordar disposto para abrir os olhos. Eu quero ter o prazer de ter uma tristeza que não me
maltrate mais do que sua força lhe permite. Quero experimentar a mágoa, a desgraça, o ódio,
a raiva, o rancor, o abalo, a lástima, o ciúme, o desânimo e a inquietação na intensidade do
arbítrio do real. Quero deixar de me ferir mais agudamente sempre que algo ruim me
acontece. Quero ser humano e não uma máquina de conceber tristezas e mais profundas
desgraças. A felicidade pode ser enfiada na porra do meu cu e perder-se de vez do que há do
lado fora e pode também nunca mais voltar a me envolver! O depressivo padece por uma
experiência carente do factual. Felicidade é a cereja do bolo que todos nós dividimos na face
da Terra. Quero apenas uma vida sem graça e sem muitos enlevos. Quero a honestidade em
meu sorriso e o conforto seco de não ter de o mostrar na condição de uma fantasia que, nos
bastidores do fictício, revela-se um demônio enclausurado por uma jaula de lábios e dentes.
Agora à noite tomei chá outra vez, mas dessa vez foi de camomila e, depois desse, fiz
chá-mate com leite e um pouco de açúcar mascavo. Será se Luzia já chegou ao Residencial?
Liguei mais cedo, porém ninguém me atendeu. Decerto estão muito ocupados com a volta
daqueles que não faleceram.
Enquanto meu luto ardia enormemente, como labaredas de uma inquisição. A dor de
Luzia foi se apagando do mundo e abrigando-se sob sua carne. Arrependo-me diariamente de
não me ter curado junto a ela, de não me ter aberto para que meu luto escorresse de minhas
cruas carnes e desse lugar a um sentimento de maior paz.
Mesmo Luzia, num dado momento, não aguentou. Quando cedeu, seu pioneiro
amargor preconizou depois a intensificação do meu. Bem sabe aquele que se dói no calado
que a dor passa a pulsar em todo e qualquer ato que este venha a fazer. Nosso luto tilintava
entre nós e o silêncio foi ganhando espaço, de modo que fiquei recluso aos meus livros e ela,
às suas linhas e agulhas.
Perder um filho para um suicídio impregna nos pais um sentimento de culpa que se faz
sentir de inúmeras maneiras diferentes. Eu amava Luzia com meu olhar e ela me amava de
volta com o dela. Nunca carecemos de palavra para nos entendermos no seio um do outro. É
que a ausência de Fernanda fez com que não tivéssemos mais permissão para sermos felizes.
Declarações e juras gerariam sorrisos, e mesmo uma felicidade pequeníssima como aquela
que se segue do tragar do vapor de uma paixão alegre era religiosamente reprimida pela
ausência de nossa filha presente entre nós.
O que aqui escrevo sobre Luzia, muito pouco foi dito a ela. Ainda assim, dei de
arriscar, uma ou outra vez, uma ação de romper com essa barreira funesta. Com o tempo
fomos nos entendendo no silêncio um do outro, é verdade, mas os ouvidos dela mereciam
mais. E toda vez que me declaro a ela me dói profundo o ultimato de Fernanda: “é proibido
ser feliz, pai e mãe”.
Em nenhum momento cheguei a pensar que Fernanda havia morrido. E quando via
Luzia chorar pensava que era pelo “abandono”, assim como eu. Nos primeiros dias de luto
Luzia estava mais chorosa do que eu. No intento de a cuidar fui fisgado pela tristeza, juntou-
127
se a ela o rebote de minha primeira mania e tive uma descompensação depressiva gravíssima.
Não me matei por ainda crer que um dia Fernanda estaria de volta em casa.
Essa coisa de falar sobre Luzia só me acresce a saudade. E isso hoje está por ser
inevitável. Não seria essa nova tinta de minha caneta a culpada por meu desassossego? Eis a
aflição em papel:
Não canso de me perguntar sobre a escolha de Luzia de ter vivido ao lado de um velho
casmurro como eu. E o pior é a crua verdade de que eu era chato desde o início. Antes de nos
mudarmos para cá moramos noutra casa – um apartamento miudinho na Conselheiro Furtado.
Foi coisa de pouco tempo, mas sua pequeneza fez com que o atual dobrasse de tamanho
quando nos mudamos. Nos apaixonamos, fora ele uma espécie de filho para nós dois.
Fernanda não podia se conter tamanha era a sua felicidade de ter um quarto só para si. Nossas
portas são de madeira, as maçanetas são de um metal amarelado e os azulejos, onde tem, são
de um branco sujo que beira o mijo – achamos lindíssimo. A julgar pelo matiz de meus
dentes, sendo o tabaco o artista, poderia eu dizer que essa casa estampa também meu sorriso.
Veja as paredes, que de tanto convívio, além de tudo, fizeram-se, de certa maneira,
minhas amigas. Das brigas que viram, e viram muitas, serviram-me de escoro. E nos causava
risada o fato de serem finas, pois acreditávamos que os vizinhos podiam nos ouvir fazendo
sexo. Eu bem que poderia, mas a razão não me permite as desqualificar como amigas.
Estiveram, e estão, cá, rijas, assíduas em dar apoio e respeitar o ruminar de meu silêncio,
sempre que preciso.
De nada valeria procurar tal constância entre os homens. O tempo que gastaria em tal
procura, e num forçado convívio, poderia eu aproveitar melhor, acredito, na companhia de
meus livros. Eu sei que essa crença é decerto uma consequência de minha depressão e
também não nego o fato de que fazer novos amigos iria me fazer bem, mas eu tenho setenta e
oito anos até o mear do mês que vem e gosto mais de livros do que de pessoas – menos Luzia,
e menos Luís que, para mim, é também um certo tipo especial de gente... E talvez Jussara.
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terceira idade, é ela a idade dos reumatismos. Eu mesmo tenho vários − inúmeros! Mas só
tenho gosto de reclamar deles para Luzia, pois ela sempre diz que para brincar dentro do
quarto nunca ouviu nadica de nada da boca do velho coitado.
Papel amigo, fica aqui a confissão da causa de seu abandono: estou cansado e se eu
não tentar dormir sei que ficarei um prego amanhã no Residencial. (a verdade mesmo é que
quero dividir uma banana com o Luís). Até logo.
01/08/2020 sábado
Dormi muito pouco. Estou ansioso e Luzia não me saiu da cabeça durante toda a madrugada.
Ainda são sete da manhã e sair de casa agora faria com que eu tivesse de ficar de pé em frente
ao lar de idosos aguardando eles abrirem suas portas. Prefiro ficar meia hora mais em casa,
pitando e tomando um cafezinho.
Desde ontem me encontro num estado pecaminoso – ora sou agoureiro de um mau
futuro, ora sou adivinho do concretizar de uma boa esperança. E esse estado de espírito que
pendula entre o medo e a esperança, bem sabem os espinosanos, é o precursor da catástrofe. É
duro não saber o que me aguarda.
Ainda agora liguei o rádio. A economia está desabando no mundo todo – disseram-me
o mesmo mais de uma estação. Enquanto os jornalistas davam corpo aos dados de queda das
bolsas e de aumentos das inflações se abateu sobre mim uma tristeza das mais pontiagudas. A
sentença de nossa nação está dada, ficou-me claro: o Brasil voltará para o mapa da fome. É
questão de tempo.
Décadas atrás se me fosse revelado o que viria a acontecer nesse nosso futuro de hoje
eu certamente iria pensar que toda essa sinfonia genocida e desafinada ao ideal coro
democrático na verdade se tratava de um enredo dum livro ainda por mim desconhecido de
Aldous Huxley ou de George Orwell.
Valo-me aqui duma pergunta que não hei de responder: quando foi que não vivemos
uma crise humanitária? – A covid é, acima de tudo, uma doença que se infiltra nas brechas de
democracias adoecidas, é quase como se fosse uma funesta comorbidade do escravismo
imperialista.
Todavia, creio que a maior parcela de culpa dessa barbárie é nossa, dos vivos – e não
me refiro aqui apenas à covid. Somos um povo que enriquece para servir aos outros e não a
nós mesmos – nada mudamos. Somos um povo conhecido mundialmente por sua suposta
felicidade e é um tanto óbvio que tal estereótipo ignora o fato de ser a tragédia o combustível
do humor. A felicidade brasileira é um choro do avesso. É uma resposta desesperada à
violência de uma classe rica que desgosta de todo um povo, mas que, talvez, ao se engraçar
por seu sorriso, irá lhe surrar enquanto ri e não enquanto braveja.
Veja bem que esse meu devaneio não acabou por resultar num certo tipo de manifesto!
Agora me deixe servir da minha própria hipocrisia:
Não consigo ficar de tudo isolado, gosto das visitas das crianças e gosto bastante, de
maneira inconfessa, da companhia de Jussara – essa puta velha é um amor de mulher! Mas a
verdade é que, em casos como o meu, isolar-se de tudo e de todos seria, no mínimo, uma
forma simbólica de morrer. Sou um ser humano doente no sentido de que a dor me é uma
constante. Preciso daqueles três pirralhos e daquela puta para fazerem com que eu me esqueça
de tão fixo pesar.
130
Coisa outra que me pesa é Jussara ter decidido não me acompanhar no Residencial no
dia de hoje. Disse-me que não quer correr o risco de ver a amiga em tão ruim estado – que
quer “conservar” dela uma boa imagem. Prometeu-me que na próxima semana, a depender do
caráter de meu relato porvir, a irá visitar. Não sei pelo que esperar e por isso espero o melhor
desse mundo – meu pessimismo se deixa levar pela esperança de bem-estar de Luzia, não
nego. Será isso um erro?
Saberemos.
Regresso de outro mundo. O que me impele a escrever num momento como este é
apenas o desespero por acalentar meu coração com palavras cheias do amargor da angústia e
do salgado de minhas lágrimas – e talvez seja essa uma forma efetiva de eu não me atirar pela
janela.
Luzia estava lá, deitada sobre a cama e numa posição talvez desconfortável na qual sua
cabeça permanecia imóvel e afundada no centro de um travesseiro com uma fronha com
babados amarelos, e assim o fazia também seu corpo naquele colchão fino e suado – parecia
um defunto.
Está sem forças até mesmo para se sentar ou mesmo se inclinar sozinha. Doeu-me
cada segundo de olhar em que ali estive. Num primeiro momento, não lhe fora possível virar
o rosto em minha direção e eu tive de estar colado à sua cama, e um tanto descaído para
frente, para que seus olhos viessem de encontro aos meus. Vi neles a timidez de um olhar
doído que queria apenas se esconder. Pedi a ela que não os fechasse.
A discrição com que sofria, com tudo que calava, com tudo que sorvia e reprimia a
fazia implodir ali, diante de mim. A Luzia que conheci parece já não mais existir naquele
conjunto de carnes e ossos – e isso me dói, e me dói, e me dói, dói-me muito! É assombroso.
A geografia de seu rosto revela uma mulher que não mais vive, uma mulher que agora é
apenas um aguardo. E como está magra! Meu deus! Como está magra! Está só pele e ossos!
− Antenor? – Disse ela uma vez mais. E eu me coloquei bem acima de seu rosto outra
vez, de modo tal que sombreei o dela.
Meu coração foi esmagado por essas palavras. Principiei a ler em sua feição aquela
velha beleza que tanto conheço e amo no intento de me anuviar de toda aquela situação. Suas
lágrimas estavam emergindo de dentro de seu crânio e acumulando-se aos pés de seus olhos,
nas pálpebras inferiores. Virei-lhe o rosto e as fiz escorrer para lhe desafogar os olhos. Não
me contive e chorei junto a ela. Luzia estava muito dispersa, talvez, zonza e, sem se dar conta
do tanto que aquilo me feria, continuou:
Naquele momento a solidão de seu corpo apodrecido tomou conta de mim, invadiu-me
profundo e tomou-me inteiro. O QUE FIZERAM CONTIGO, AMOR MEU?!
Seu corpo estava demasiado frio e o gelado de seus braços e mãos, de repente, vadiou
seu corpo e saltou rumo ao meu. Meu contato com sua pele fora o ponto de partida e,
enfiando-se pela ponta de meus dedos, todo o espírito de sua morte tomou conta de mim.
Espraiou-se até os confins daquilo que sequer eu sei ser, daquilo que não encontro em mim
por nem mesmo saber que tenho de o procurar. E o fez como se estivesse por tentar suturar a
cratera recém aberta de meu luto – com agulhas candentes e linhas de cerol, pois aquilo me
doeu demais, aquilo me rasgou às mordidas, aquilo exterminou até mesmo a minha mais
antiga e perdida inocência. Aprofundei-me em seus olhos e, mediante o toque de minhas
mãos, perdidas em seu corpo, adentrei o inferno – previ o mundo sem ela e senti uma dor sem
remédios. Em sequer um momento senti uma flama de vida vindo de seu corpo. A fraqueza de
seus pulmões tornava ruidoso seu respirar e a melodia de sua dor me impelia a me contorcer
de agonia. “Seu amor não muda o mundo” – diziam-me as paredes daquele quarto.
Sentei-me numa cadeira diante de seu leito e enquanto isso Luzia continuava dizendo,
numa voz soprada e dificultosa, “Muita dor, Antenor. Muita dor.” E, por um segundo, do
discreto fungar de seu choro eu a ouvi dizer “Desculpa”. Não quis ter mão de outras palavras
para me especificar qual era a dor que estava sentindo, mas ainda assim acredito que, nesse
ponto, seu estado senil não foi a causa do limite de suas poucas palavras. Sua dor de morrente
é uma só – é a dor de quem sabe ter chegado ao fim sem ainda se ir. E eu que aqui hei de ficar
sem ela, estando ali vivo ao seu lado, a fazia se doer também pela sua futura ausência e meu
inevitável abandono que, evidentemente, não há de tardar. A maré de seus olhos não cessava e
seu recuo me convidava ao desejo compassivo de por ela sofrer.
Nunca fomos ingênuos de acreditar que eu lidaria bem com sua morte ou ela com a
minha. Porém, tínhamos declarado uma batalha obscura, uma disputa escondida e silenciosa
entre nós. Em nosso íntimo, torcíamos para sermos o último a morrer do casal. Nunca
quisemos fazer doer tanto ao outro como ela agora o faz a mim. Hoje já não é mais possível
que sejamos aliados na angústia do existir, a morte a quer, a quer e muito. E eu estava vendo,
diante de mim, um pedido de socorro! Um anseio pela morte e pelo cabo de seu sofrimento.
Ergui-me da cadeira ao seu lado e tranquei a porta do quarto. Fui ao bordo de sua
cama e namorei seus olhos pela última vez − nossas lágrimas se encontraram em seu corpo,
pois seus quedares convergiram ao mesmo lado de seu pescoço, afundado pela magreza.
Luzia calou. Entendeu tudo. E segredou em mim a licença para o crime que queria que contra
ela eu cometesse. Dei-lhe um beijo e toquei seu corpo vivo como se aquilo estivesse prestes a
acabar. E fazer isso seria um ato de amor? – perguntei-me mil vezes e seus olhos cansados me
diziam que sim.
Percorri vagaroso sua cintura, como sempre o fiz ao acarinhá-la, e caminhei as mãos
por seu corpo em direção ao pescoço. Estagnei na altura do peito e desandei a chorar
copiosamente. Balbuciei inúmeras vezes que ela nada havia feito de errado. De olhos
fechados senti Luzia me agarrar uma das mãos e levá-la até sua boca. Beijou-a. Fitei-a e mais
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uma vez ela me acenou com a cabeça. Firmei então minha mão direita sobre sua boca e
abaixei-me para beijar sua testa enquanto levava a mão esquerda em direção ao seu nariz.
Dei-lhe o beijo e lá colei minha boca enquanto lhe fechava as comportas da face. E fiz tudo
com a maior leveza que pude. Meu coração se acelerou tanto que tive medo de ter um ataque
cardíaco. Luzia fechou os olhos e, depois de um tempo, principiou a ter espasmos. Tremeu
toda, braços e pernas e ventre e até mesmo a cabeça que eu pressionava contra o macio de seu
travesseiro e colchão. Isso, isso foi demais para mim...
Fui fraco demais para dar cabo ao intento e distanciei-me de seu corpo num choro
brutal. Faltava-me ar, era impossível respirar e ela tossia muito ao meu lado. Luzia lançou
uma outra vez sua mão em um de meus braços e o puxou em direção a ela, mas dessa vez eu
me afastei e deixei o dela quedar desajudado. Sentei-me na cadeira outra vez e esperei por
alguns minutos. Luzia transbordava inerte diante de mim, feito uma estátua oca e sem vida,
transpassada pelo rio da tristeza, da angústia e do desespero. Ergui-me e, antes de sair, segurei
o choro e pedi-lhe desculpas – foi como ter lhe dado um tiro, pude ver o empoçar de seus
olhos.
Não há o que me console pelo meu ato de desamor por Luzia. Sinto-me
profundamente desamparado. Jussara bateu há pouco na porta e eu a mandei ir para o inferno.
É demasiado duro, doloroso, feio demais esse meu jeito de amar, todo falho e corrupto e
fraco... Não sei sequer precisar o que estou sentindo. Minha vida foi uma mentira!
Lembro dos meus onze e poucos anos, naquele dia eu assassinei deus de uma vez por
todas. Foi quando me descobri objeto da indiferença de um grande Nada e desde então não
mais pude pensar impunimente, é que as profundezas de meu inconsciente, daí em diante,
continuamente insistiram em me integrar ao pecado e, para o meu azar, a prisão em que me
encontro desde o berço se estrutura em tudo que fui e deixei de ser. Bem sabe o poeta que
esquecimento ainda é memória, e, por isso, olvidar nunca exterminou o verme cristão que me
rói o peito em silêncio. Nos primeiros anos de maior lucidez não me desesperei, pois no
velório de deus tive a coragem de menino que homem já não tem, o tempo correu e o amor de
Fernanda me amansava ‒ e, depois, o de Luzia, sempre a meu alcance, era-me um calmante ‒,
eu tinha minhas divindades em casa. E agora as coisas, bruscamente, viraram de ponta-cabeça
e dessa vez eu estou só. Sei que a confusão é o primeiro e último estado da ordem, mas creio
que a mim não há mais tempo para que as coisas se acertem.
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Aquilo que um dia há de me matar já faz morada em meu corpo. É só uma questão de
tempo. E o relógio há de girar a gosto de minha inquietude e do encorpar da minha antiga
coragem de enfrentar o novo.
09/08/2020 domingo
Estou por temer a janela da sala como se ela estivesse apta a me torturar e não a vejo
como uma opção viável ao meu objetivo. Apesar disso, ainda a quero aberta para que eu possa
a namorar à distância e ver o fim de minha dor como possibilidade concreta ao desespero de
minhas ações. “O caminho é outro” – diz ela a mim em seu sopro.
O que farei é muito simples: despedir-me-ei de quem eu julgo importante. Meu tempo
de vida será limitado pelo tempo que resta à Luzia nesse mundo. Estou no aguardo de sua
morte para dar cabo à minha vida – como? Ainda não sei.
O caminho de saída dessa vida, portanto, encontra-se quase livre para meus tortos e
afobados passos. Luís já está mais amansado e irá se dar bem com seus amigos do
apartamento da frente quando eu vier a morrer e Jussara pode, por conta própria, fazer papel
de avó das crianças do condomínio. Sou, com efeito, descartável. Basta Luzia morrer.
Ontem, no início da tarde, enveredei pela Avenida Liberdade e fui até uma floricultura
que conheço já faz muitos anos. É antiga como o sebo que está à sua frente, também
conhecido meu de longa data – um reduto empoeirado de opúsculos a um bom preço. A
floricultura é simplória, mas deu conta de minha carência por duas rosas – uma branca e uma
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vermelha – colombianas. O florista teve a desfaçatez de perguntar se eram para o meu pai –
rimos como dois bons velhos amigos e nos emaranhamos numa boa prosa que durou um
quarto de hora. Saí de lá com promessas falsas de um futuro retorno e o homem que me
atendeu, constrangido por ter perguntado por minha esposa, pegou meu endereço para me
“presentear” futuramente.
As pétalas das rosas não são tão delicadas como os poetas costumam dizer em seus
versos. É mesmo até redundante dizer que os poetas costumam mentir, mas aqui o fica
grafado por ser talvez essa uma verdade que o papel ainda não conhece a respeito desse nosso
mundo enganador.
Não quis mexer nas coisas de Luzia, então coloquei as plantas numa jarra de água que
pouco uso. Estão agora elas ao meu lado, acima da impressora – inclinadas em minha direção
como se estivessem por dançar valsa agarradas uma à outra. Permiti-me as observar um
minuto e descobri que aquele floreiro tem sangue de artista. Há nessas duas irmãs de uma só
terra diversas gotículas de uma água espirrada pelo floreiro. As gotinhas parecem ter vida
própria. Não se deixam sorver e parecem estar de pé sobre as pétalas diante de mim – é lindo!
Contrariam as leis de minhas arcaicas expectativas.
É a primeira vez que compro rosas. Luzia sempre gostou mais de girassóis. A
vermelha está quase toda desabrochada e o miolo da branca ainda se encontra um pouco
acanhado. Não demora muito atingirão o ápice de suas vidas e depois hão de decair, primeiro,
a curtas passadas e, mais adiante, a largos saltos – exatamente como estou eu por fazer cá
nesse quarto envelhecendo os dias, as horas e os minutos.
Essas flores hão de ser a parte simbólica de minhas despedidas. Mas, antes que eu as
venha as pôr em prática, creio que devo uma despedida a mim mesmo.
Viver é a união da flexão do passado do verbo “ver” (vi) e desse mesmo verbo em
natura, no infinitivo pessoal (ver). A conjunção de ambos os termos, nesse sentido, expressa
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inicialmente o passado por nós já visto e que em nós carregamos e, por fim, a ideia vaga que
temos sobre nosso futuro. Viver é, portanto, na medida em que o real se diz nos ponteiros de
um relógio quebrado, a união entre um passado fictício-factual e um futuro fictício, e damos a
isso o nome de presente – suposto real e filho bastardo de duas fábulas.
É curioso saborear esse sofisma. Quando foi a última vez que vivi no presente?
Presente é aquilo que damos a quem chega ao mundo. A criança adentra essa eterna casa
pelos braços de alguém. Esse alguém hoje em dia é comumente um médico e a arquitetura de
seu corpo ao tocar, pela primeira vez, aquela cruenta preciosidade é reveladora de uma
promessa de posse: “este mundo é também seu” – diz seu corpo com os braços estendidos e
palmas das mãos voltadas para cima. Tal promessa, todavia, quer se dizer de igualdade, coisa
que nos revela que nosso primeiro contato com o real se dá através de uma ficção; nesse caso,
uma mentira.
Enfim nascemos. E daí em diante passamos a sentir a ainda insofrida ferida do desejo.
Não demora muito ela se versa na gramática do suplício e nós passamos a rejeitar nosso
presente – o viver, sendo um futuro ou passado, é, antes disso, uma fuga de si mesmo.
O simples fato de uma vagina que expele uma criança ao mundo ter uma ou outra cor
é suficiente para que parte do mundo desse novo alguém lhe seja tomada. Eu me pergunto
qual fora o espólio de minha humanidade. Nasci de uma menina branca na casa dos quinze
anos, numa terra que tinha dono e em um tempo que se curvava ao meu sexo e à minha cor.
Pois hoje percebo que o espólio, embora tenha me sido grande, pois sempre o é, foi menor do
que o de muitos. E que direito tenho eu de me matar tendo tido essa mina em meu passado?
Ai, como é rico e convenientemente paradoxal o campo semântico de algumas palavras!
Como isso cai bem a essa página, papel amigo! Poupa-me tantas palavras...
Vivi uma vida de vícios da qual não me arrependo. Não tardei muito descobrir que as
flores da vida se nutrem de estrume. Mesmo assim odiei e odeio cada uma das minhas
desgraças. E, dada a natureza humana de tudo aquilo que senti, resta saber se falhei como um
sábio ou como um tolo. Como posso eu a essa altura da vida confessar meu amor ao mundo
depois de tudo que ele me fez?
Não posso.
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oferta sem pensar duas vezes. E lá alguém em sã consciência deseja ser escravo da própria
moral?! Viver sem pecar é um pecado. Serei Diabo do berço à campa – amém.
Minha razão me impede, porém há algo em mim que não sou eu que me empurra em
direção àquela janela da sala. A imagem de minha queda se repete em minha cabeça de novo
e de novo e de novo. E minha covardia é tamanha que arrumei uma maneira de a racionalizar.
“Que Luzia não seja culpada por meus atos” – eis a beleza de um falso amor.
A tragédia caminha entre os homens e irei eu atrás de seus rastros. Meu plano é pegar
o transporte público e correr as mãos discretamente por todos seus cantos. Deixar meu nariz
de fora da máscara e, melhor do que isso, usar uma que não serve para nada a não ser para não
ser barrado nas catracas pelos funcionários do metrô. Farei isso durante três dias. Depois disso
esperarei acontecer. Ficarei trancado em casa, lendo meus livros, tomando meu café sem
açúcar e até mesmo irei ao mercado antes de tudo para ter comida suficiente por pelo menos
mais duas semanas. Luzia não resistirá mais do que isso.
10/08/2020 segunda-feira
Fui hoje ao cemitério e levei Luís comigo. Há plantas esparramadas para todos os lados
daquele lugar e muitas árvores nos sombrearam o percurso que traçamos até o túmulo de
Fernanda. O frio era ameno e o frescor foi perdendo espaço, conforme caminhávamos, para
uma secura ardida que se infiltrou em nossas narinas. A ponta de meu nariz, de minhas
orelhas e de meus dedos cederam ao frio e foram essas as frações de meu corpo que se
permitiram gelar nessa manhã. Luís e eu perseguimos o sol pela sombra e, diante da lápide de
minha filha, estacamos um poquito cansados. Sentei-me e Luís se arranjou em meu colo. Tirei
da bolsa uma vasilha miúda e servi água ao pequeno. Dei alguns goles na garrafa que levei
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dentro da bolsa e dei início a uma carícia amorosa na grama-amendoim que enfeita a lápide de
Fernanda. Levei a ela a rosa branca. Tirei-a da bolsa ainda ruim de fôlego e a soltei um pouco
adiante de onde eu estava por passar a mão.
O céu estava limpo e, por um segundo, eu o achei dos mais estranhos. Essa coisa de
dizer que o céu está limpo é muito esquisita. Limpo de que? E lá por acaso nuvem é sujeira?
Ora, parecem tão limpinhas – mesmo as de chuva. É a água que cai delas que limpa muita
coisa aqui embaixo. Céu limpo? Bobeira! Mas..., mas também não está sujo. Tem de estar
algo, não é verdade? Ora! Tem que eu sei. E de fato estava. O céu estava azul e a simplicidade
de seu ser não carecia naquele momento de banho ou chafurdar. A gente inventa muita coisa,
vai ver por isso viver é tão confuso. Do que é feito o azul? Não sei, de pergunta inventada.
Devo ter ficado meia hora em silêncio – coisa que não foi intencional e foge do que
me é de costume. É que as palavras pareciam estar se decidindo sobre qual principiaria a dar
tom à minha despedida. Enquanto meu silêncio vazio se despejava em torno de nós, passamos
a existir ali num novo planeta, onde só havia espaço para mim, para o Luís e para Fernanda –
um pai, dois filhos, um defunto e a promessa de um outro cadáver.
− Culpo-me pelo erro de não ter lhe olhado nos olhos e a chamado para uma conversa
honesta sobre a morte quando tive a oportunidade. Eu poderia ter feito isso desde que você era
muito nova, talvez, se o fizesse, as coisas não chegariam onde chegaram. Mas qual pai sabe
de fato o que está fazendo? Qual pai tem uma certeza inabalável de estar fazendo o certo? O
certo, agora eu sei o certo. O certo era ter lhe falado que um dia eu e sua mãe não mais
estaríamos ao seu lado – não por desamor ou abandono, mas é que as coisas são assim
mesmo: acabam – é preciso se acostumar com a ideia da morte. “Te colocamos num mundo
em que tudo morre, inclusive você” – como explicar isso a uma criança? Que também ela há
de morrer, que a morte está em cada esquina, que viver é perigoso, que a felicidade é uma
promessa e, se realizada, é diminuta, fugidia, um quase nada? Como eu deveria ter lhe
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contado, uma pessoa que estava aqui há tão pouco tempo, que você estava fadada a sofrer
muito mais do que qualquer outra coisa dali em diante? Como eu deveria ter pedido a você
para que você se contentasse com os poucos prazeres da vida e que resistisse diante do
desencanto do mundo e dos desprazeres que estavam por vir, que seriam muitos, e que
aceitasse que as coisas “simplesmente são assim”? Eu não o fiz. E essa não fazedura é um dos
meus maiores erros de pai. Tive medo de tirar o colorido de seus olhos, tive medo de te
assustar, de te preocupar, de te fazer chorar por mim e por sua mãe, de te traumatizar com
uma verdade na qual ninguém acredita: você também morre.
− Entre nós a morte não encontrou berço em palavras e talvez por isso seu suicídio me
fora tão chocante. Sua depressão, como a minha depois de um tempo, não teve rosto. Seus
olhos não perderam o brilho, seu sorriso não se amarelou, o tom de sua voz não arrefeceu. E
não havia de ser diferente, pois hoje sei: ela é assim. Nos rói por dentro, no calado, como se a
gente fosse um pequi. Nem eu nem você nunca gostamos de pequi. Quando você era
menininha chegava a fazer ânsia só com o cheiro. Sua mãe, inteirada de nosso desgosto,
passou a desgostar daquilo que tanto amava só por conta de nós dois. Amor em família é
assim mesmo. Minha mãe e eu deixamos de comer quiabo, pois meu pai odiava. Nosso amor
era partilhar do mesmo ódio e das mesmas feridas. O problema foi o partilhar da mesma
mudez. Seu avô nunca disse que me amava, sua avó sempre apanhou calada, eu nunca lhe
disse nada sobre a morte e você emudeceu.
− Ser depressivo é ser um tanto versado nas artes do teatro. O corpo inflama e a alma
dói e o que antes era premissa de um choro aterrador preconiza agora um silêncio de aparente
indolência. É proibido andar aos prantos na rua, é proibido se doer recluso em casa, é proibido
que o sofrimento apareça diante dos olhos dos outros. Imagine só o estrago que não seria se
todos descobrissem duma só vez que estamos todos nós por um fio?! Que estamos “bem” por
um triz?! Que há dias em que só não morremos por mãos nossas por nos termos sido
adestrados à fiel doutrina de que a vida é o maior bem de todos?!
− Fernanda, minha filha, estou no intento de dar fim a tudo isso. Cansei de apanhar da
vida. E você não sabe a tortura que foi ver sua mãe naquele estado. Não sei o quanto dessa
vida morri por vocês, mas sei que morri muito no recente encontro com sua mãe.
− Viver é morrer aos poucos, a morte eu não sei o que é. A verdade é que viver
também não sei. É coisa de adulto não saber das coisas em segredo, mas, cá entre nós,
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confesso ao pé de seu ouvidinho de menina não crescida: não sei viver sem esperar por ti,
minha filha.
Eu não sei o que há com o Luís que só dorme quando saímos na rua. Dentro de casa
parece um foguete correndo de um lado pro outro, derrubando os móveis e não me deixando
dormir.
Aproveitei para dar uma caminhada naquele lugar e fumei uns dois ou três cigarros.
As cinzas do último fiz questão de jogar sobre a grama-amendoim de Fernanda – algo como
um mimo entre dois mundos.
Como é gostosa a liberdade de fazer compras como se a morte lhe aguardasse para dali
alguns dias! Veja bem se já não estou no Éden: queijo brie com goiabada – da boa!, um pote
de sorvete de brownie com caramelo de cinco litros, uma caixa de petit gâteaux, carne de
primeira cortada em bifes grossos e uma fina camada de gordura para conferir suculência a
meu prato, ovo caipira da gema amareliiiiinha, abacaxi descascado e cortado em rodelas numa
bandejinha de isopor envolta por um papel filme só esperando para que eu o tempere com
raspas de limão siciliano e sal grosso rosa do himalaia, morango – que está os olhos da cara –,
maçã importada e uvas dos mais variados sabores, flor de sal, azeite do porto, uma caixa de
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chocolate setenta porcento, pão integral do mais caro, bacon, pancetta, pitaya, lichia, café – o
mais caro que encontrei − e atum para o Luis! E também mais um monte de besteirinhas e
guloseimas de nome esquecível que eu nem sonho em como pagar no mês que vem. O banco
que se foda! Ah... até esmoreço com esse alívio. Fodam-se os bancos! Fodam-se os
banqueiros! Foda-se o mundo! Tudo agora cabe em meu bolso furado de futuro defunto!
11/08/2020 terça-feira
Hoje, como planejado, fui ao metrô. Acordei cedo e sentindo-me vivo – ter decidido morrer
teve um efeito surpreendente em meu ânimo. Depois de um bom banho, caminhei pelo quarto,
sentindo o frescor do encontro do ar com meu corpo recém beijado pela água morna do
chuveiro e sentei-me na cama, ao lado da mesa de cabeceira. Ali escolhi um relógio – um
pitchuquinho de prata, para não chamar muita atenção. Luzia me dera ele depois de ter lido,
um tanto quanto à força, o Memórias Póstumas. A esperta gostou da obra e para me agradecer
do involuntário impulso rumo à boa leitura ainda cravou na joia as inicias B.C. Veja se não
me casei com quem melhor soube me amar!
Fui até a sala e desafiei a janela por alguns minutos. O cigarro estava saboroso e
sequer era mentolado. Desfilei minha beleza em retiro pela cozinha e depois me escapuli de
volta ao quarto. Minha cueca velha e amarelada foi coberta por uma de minhas melhores
roupas. Uma calça sport fino preta, bem justa – Luzia amava me ver com essa calça, nos
passeios rodopiava a cabeça em nosso envolto e, se ninguém olhava, lascava-me aquele tapa
safado na surdina. Ríamos feito dois idiotas de vinte anos ‒ alguns pleonasmos valem a pena.
Vesti primeiro uma camisa social branca, mas o espelho ralhou que eu estava muito
noivo. Meti a mão no guarda-roupas e deixei que o acaso decidisse por mim. Veio afora uma
camisa social verde claro que sempre odiei, dada por uma amiga de Luzia. A malandra
enviuvou e sempre que tinha a oportunidade empurrava alguma camisa do finado marido a
alguém. Porém, fui fiel ao acaso e a vesti. Coube direitinho. E, por mais que os anos me
tenham surrado bastante, senti-me sessentão outra vez.
O blazer – não tenho muitos, pois é caro e a maioria são tão antigos que já estragaram
ou têm um defeitinho ali e aqui −, escolhi o marrom. É um marrom caramelo que aluguei para
ir na formatura da escola de Fernanda e acabei por o comprar depois – o bar ia bem, Fernanda
nunca foi muito gastona e Luzia só reclamou duas vezes: valeu a pena.
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Antes de sair de casa, namorei-me uma última vez no espelho do quarto e com toda
humildade que tinha, que naquele momento era nenhuma, disse que estava lindo. O chapéu
escolhido combinou bastante com o blazer e o conjunto da obra reverberava vigor e
jovialidade. Minha única chateação foi não ter um lenço verde que combinasse com toda a
veste. Pois vou comprá-lo! A internet resolve o problema rapidinho. Se chegar cedo já me
embalo todo para o caixão na roupa com a qual quero ser enterrado. E essa... essa camisa me
caiu tão bem que percebi que a julguei mal por todos esses anos. Ora! Aquela partilha de
viúvo que tanto critiquei tinha de ter valido para alguma coisa!
Espiei o corredor antes de sair. Estava livre. Desci pelas escadas de queixo alto, pois,
convenhamos, tratava-se de um galã e não de um Antenor. Dei um pulo na farmácia, antes de
subir até a praça da liberdade, e consegui encontrar uma máscara verde! De passinho em
passinho – agora num fiel e sintônico matrimônio entre as peças de roupa que me cobriam o
corpo − cheguei até a praça. Era muito cedo, porém não tão cedo ao ponto de estar cheia de
pessoas indo ao trabalho. Boa parte dos trabalhadores já haviam ido. E ali eu me dei conta de
que estava me enfiando na parte da manhã na qual menos gente está circulando pelo metrô.
Pois que se foda! Fui mesmo assim.
Ao passar pela catraca, pousei minhas duas mãos sobre aquele metal gelado, as
esfreguei bem, de um lado para o outro − um ato um tanto esquisito e meio erótico. Depois
veio o rodopio que me jogou buraco adentro e então massageei fartamente meus olhos. Quem
visse de fora poderia até mesmo pensar que eu estava chorando, mas se tratava de algo muito
menos alarmante para aquelas pessoas: eu estava me matando.
Segui o caminho até o metrô me expondo com esmero. Baixei a máscara e deixei meu
nariz ao relento – não fiz o mesmo com a boca, pois achei que alguém poderia vir chamar
minha atenção. Andando pelas escadas pude identificar vários irmãos de nariz, provavelmente
não com o mesmo intuito que eu. Nas escadas rolantes fiz minhas mãos escorregarem durante
todo o percurso buraco abaixo e, em seguida, não me esqueci, claro, esfreguei-as em meu
rosto outra vez.
Penetrei o metrô como um cão farejador à procura de cocaína. A minha droga eram os
moribundos. Fitei de baixo a cima todos que pude. Aquele ou aquela que tinha mais cara de
doente eu ia atrás. Dei sorte! Uma mulher de camisa roxa e legging sortida espirrou bem na
minha frente. Enquanto o metrô não parava e ela não descia, gravei os locais de repouso de
suas mãos e esperei. Ela desceu duas estações mais adiante, na São Bento. Caminhei então até
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onde ela estava e entreguei-me à promessa de vírus que nela antevi. Antes disso, a chegada na
Sé avultou o número de passageiros e eu repeti o mesmo processo o quanto pude nas estações
seguintes. Notei que algumas pessoas, geralmente mais jovens, olhavam-me com ar de
reprovação. Decerto era o nariz para fora que os incomodava. Não fiz caso, dei meu passeio
rumo à morte durante quase uma hora e depois voltei para casa. Tomei um banho, pois estava
com calor, brinquei um pouco com Luís, dividimos uma maçã e vim aqui lhe confessar meu
crime, papel amigo.
12/08/2020 quarta-feira
Em meu intento impulsivo e ultra individualista de me retirar desse mundo, não me dei
conta de que estava por ser um instrumento da barbárie.
Dei início à manhã de hoje de modo idêntico ao que fiz ontem, porém estava ainda
mais seguro de meu futuro êxito em morrer e de meu direito de fazer com que tal bem se
consumasse. Por isso cruzei o quarteirão, daqui de casa até o metrô, sem máscara. Estava por
usar até as mesmas roupas! – Santo deus! Que perigo!
Pois um jovem esbelto estava escorado na escadaria rumo ao buraco onde fica o metrô
liberdade. Chegando mais próximo da entrada pude o ver por inteiro. Estava todo de preto, era
cheio de brincos e piercings, fumava um cigarro e carregava uma bolsa de ombro, também
preta, a tiracolo. Quando se deu conta de minha imagem me parou:
Desviei o olhar, enquanto descia a escadaria, rumo a seu rosto. Orquestrei uma cara
fechada e cheia de carranca e disse:
− Tá falando comigo?
− E o que é? – Perguntei. Achei que iria me pedir um isqueiro emprestado, pois estava
por colocar outro cigarro entre os dedos. Enquanto eu tirava a suposição de meu bolso, ele me
disse bastante rispidamente o seguinte:
O desgraçado pisou na minha ferida, pois, verdade seja dita, no fundo eu sabia que eu
estava errado fazendo aquilo. Meu problema era ainda não ter me dado conta da magnitude do
meu erro.
− E da sua vida, por que você não cuida dela? – Disse a ele num resmungo. Ele me
fitou em negares de cabeça e eu não resisti em fazer um adendo a meu desconforto:
− Não consegue deixar um velho morrer em paz, não?! Eu não tô na porra do meu
direito?!
− Ãn?
− Seu nome.
− Antenor.
− Pois, seu Antenor, meu problema não é com a sua morte. Quanto a isso você pode
ficar à vontade. Mas você já parou pra pensar o quanto de pessoas essa sua atitude pode
matar?
Ai! Doeu fundo! Minha cabeça virou do avesso e o moleque ficou por me pregar um
sermão que não ouvi, pois suas primeiras palavras me levaram a ficar imerso na culpa que
antes se escondia de mim. De súbito o mundo passou a caber em minha garganta, meu trato
respiratório se inutilizou e eu fiquei ali fixo como uma pedra, assombrado com o tamanho
peso de minhas insensatas escolhas. Veio então uma vergonha azeda me atormentar e somou-
se a ela um espanto mobilizador de uma angústia desmoralizante. Isso fez com que meus
olhos abrissem as comportas de minha alma − fraca, estúpida, imunda e tola, maculada pelos
mais vis dos pecados da insensatez humana. Rompeu-se a barragem fictícia que me nutria da
serenidade de ter uma pretensa verdade entre as mãos. Ali mesmo, naquele chão sujo comum
aos locais públicos, foi despejada minha incomensurável hipocrisia. Se me fosse possível teria
tido mão de minhas lágrimas para esfregar e limpar cada canto daquele lugar por onde passei,
porém eu não era nada além de uma porca ameaça pulsante com os sapatos a escorrer uma
água salobra e mirrada rumo ao chão. O garoto se assustou com meu choro repentino e quis
remediar a situação. “Não, não” – disse a ele – “Se afaste!”. Senti-me acuado diante dele e o
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ar me faltava, principiei a hiperventilar e o rapaz me perguntou se eu acreditava estar tendo
um infarto. O estupor da crua verdade até então não notada por mim me permitiu o responder
apenas através de gestos. O pedi que esperasse. Estava por lidar com a ideia de que minha
intenção suicida, que era além de covarde, revelou-se, no final das contas, também egoísta.
Tão logo entendi: não existe vida individual.
Dentre aquilo que sou há tudo que fui e não fui nessa vida. Nesse mundo e nessa hora
sou criança, menino, rapaz, mulher, mocinha, rico, pobre, bicho, pó, sal e até alegre. Sou tudo
aquilo que afirmei e tudo aquilo que neguei em meu passado. Não sou Antenor, sou o
universo todo e suas estrelas, planetas e buracos negros − a luz que fenece e a que lhes escapa.
A simples ideia de que ontem e hoje eu fui muito provavelmente instrumento dum
assassinato em massa faz com que meu estômago revire e isso me causa ânsias. Chorei mais
cedo, como já disse, e se me atenho durante um maior tempo a essa questão volto a chorar. Já
tomei quatro banhos hoje e ainda estou por me sentir sujo. Agora há pouco fui colocar
algumas roupas para lavar e dei um espirro – senti-o como se fosse um tiro a me atravessar o
peito. Tenho medo de estar sendo a causa da morte de algum desconhecido, tenho medo de
que alguém do condomínio adoeça por minha causa.
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Na volta para casa minha cabeça estava a milhão e, ainda bem, pelo menos consegui
lembrar de não me escorar no corrimão das escadas enquanto subia até o quinto andar.
Demorei mais do que o comum para trilhar essa subida e uma moça de pouca idade cruzou
comigo na escadaria do terceiro andar. Deu-me bom-dia enquanto eu me ocultava detrás do
meu blazer feito um vampiro com sua capa diante do sol – protegendo-a do vírus e da visão
de meu choro.
Acabei também de me dar conta de que posso passar essa maldita doença para o Luís.
Pesquisei na internet e não encontrei artigos que me confortassem quanto a esse risco. Todo
esse turbilhão de possibilidades funestas está por acentuar minha ansiedade a tal ponto que
não consigo parar de tremer. Apanhei a caixa de remédios antigos em cima do armário da
cozinha e procurei ali alguns ansiolíticos e encontrei apenas cartelas vazias e remédios
vencidos ‒ só depois fui lembrar de que havia um frasco de Rivotril na cabeceira de Luzia.
Tomei os vencidos – até então, era o que tinha. Minha letra, também por isso, está um
garrancho, uma coisa horrorosa e quase ininteligível! E minha escrita, posso ver, na forma e
no conteúdo aparenta o desespero. Corrida, tosca, quase sem parágrafos, talvez esteja sem
coerência, sem coesão e eu finjo me importar com essa merda pura e simplesmente pelo
desejo de que essa baboseira retórica me faça abandonar, ao menos por um mero segundo, as
agulhas morais e éticas com as quais pico, alfineto, furo e espeto minha consciência
insensível.
A imagem de Luzia se repetiu em minha cabeça durante o dia inteiro desde que
cheguei da rua, como um alerta de que o melhor tempo para a amar está se esgotando. Seu
recente retrato se desenha em minha mente de maneira airosa e mais demorada em seus
detalhes do que eu gostaria. Seus olhos absortos e perdidos numa dor excruciante estão secos,
cativos no labirinto infrutífero do fim da existência e não carecem de lágrima para ilustrar o
quão grande é o seu tormento. Sua secura esmaece o castanho e seus olhos aparentam terem
sido pintados a lápis por um artista principiante, parecem estar na iminência de se desfazerem
ali mesmo, diante de mim. Sua quietude involuntária me é agoniante, está encarcerada em seu
próprio corpo e movimenta-se muito pouco e com imensa dificuldade. Não há silêncio em seu
entorno, sua respiração é ruidosa e esse estertor é melindroso com quem o escuta, é como se a
morte estivesse por me dizer ao pé d’ouvido que está vindo a buscar. Luzia, amor meu, o que
ainda faz aqui?! “Muita dor, Antenor... Muita dor” – e morro a cada uma dessas palavras.
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Liguei no Residencial e pedi para falar com ela. Responderam-me que ela não está em
condições de falar ao telefone. “Pois que o deixem ao lado dela” – pedi-lhes. Cederam. Ao
som dos ruídos agudos de sua respiração hesitante, apanhei alguns álbuns de foto e performei
um monólogo sobre o que via e o que me vinha à memória.
O peso dos anos me dobra as costas. Ser corcunda é enxergar o mundo através dos
olhos do princípio de uma queda. Há décadas que caio e há poucas fotos disso, porém há
várias de outras épocas mais joviais e menos infelizes. Nestas não me reconheço, vou além.
Transcendo a opacidade de minha imprecisa memória e encarno todo antigo eu que observo.
Revivo seus antigos beijos, minha querida e linda Luiza, e sinto saudade da maciez de sua
boca no verão e das rachaduras de seus lábios no inverno.
Aonde vou essa sua vida me persegue, já não muito demora e essas minhas carnes
velhas serão o último abrigo de um ser humano estupendo. O clima, minha cara, você terá de
se habituar, é inóspito! Há fumaça o dia inteiro e uma tal angústia a me pesar o peito e a
garganta, uma depressão a se abrigar em meu intestino e a merda que ali está não gosta muito
de ir embora. Sorte essa sua de fazer morada em meu coração, tivesse outros mil lhe daria
todos – está vendo como eu sei ser brega? Isso é por você.
Papel amigo, dou fim ao crime de não lhe apresentar adequadamente minha amada
mulher:
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Pelas ruas, calçadas e cantos ocultos da grande São Paulo, magros, baixos, altos,
gordos, belos e feios, todos estranhos, a viam como uma velha. Os vizinhos, amigos e amigas
― presentes e âncoras desse nosso acaso mundano ―, viam Luzia como uma mulher
apagada, contida, que não respondia aos achaques da idade, ou mesmo ao grosso passado que
uma sexagenária carrega. Mas acontece de os olhos humanos serem voláteis: às vezes veem o
vazio sob uma alma carregada de angústias, outras, enxergam o inexistente ante o palpável e
alguns chegam até ao absurdo de se encontrarem no imutável. Em Luzia a pele sempre foi
grossa, uma barreira aos olhos alheios. Viveu num mundo tão seu e caótico, que se doía como
se só lhe restasse implodir. Mas nunca cedia ― não na frente dos outros. Tal aquele que a via
sempre calada, a suspeitava serena, uma velha coitada a testemunhar o cabo dos anos.
Emudecida, crepitava sob sua pele o ardor da cruz de ser mãe sem filha, e outra tormenta
ainda mais antiga: a de ser minha mulher.
Seu passado, assim como a mim, arruinou seu presente em sua própria cabeça. Uma
cabecinha pequena e de cabelos preto no branco, macios, limpíssimos e sedosos. E como era
magra... Em verdade, parecia uma flor. E não é curioso que flor que se perde da terra ainda é
dita flor, e se lhe é arrancada as pétalas continua flor, e ainda que lhe estraçalhassem em mil e
um pedaços continuaria ela flor? Porém, coitada da flor, que murchou com o tempo e agora,
tudo, todo o outro que a via flor não mais assim a vê. Mulheres morrem antes de morrer. Com
Luzia não foi diferente – sua vida talvez se resumiu à transfiguração de meus olhos, cheios de
amor, é verdade, mas que ocupavam uma face na qual havia também uma boca sofrida e
pouco usada. Nos amamos com os olhos e nos doemos com o silencio de duas bocas coibidas,
fomos amantes de ouvidos sequiosos, pois o cupido quando envelhece já não nos atordoa mais
a visão, amiga-se da música e passa a nos revelar que o amor também soa. Partilhamos a
desgraça de um silêncio perpétuo.
“Do que se nutre uma flor morta?” “Se não mais se esverdeia, para que vale?” Luzia
em nada disso pensava, tinha de cuidar de Antenor.
Ai, como as mãos descarnadas se esfriam no inverno e nos passa a tocar como se
pertencessem a um corpo defunto... Se ainda tivesse filhos, raro espécime Luzia, suas mãos
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cadavéricas deixariam saudades. As minhas de nada valem. Não consigo me desviar da culpa
pelo seu estado. E ainda assim muito, muito mesmo, te quiero.
13/08/2020 quinta-feira
Acordei com Jussara esmurrando minha porta de entrada. Não sei donde tirou tanta força para
conseguir a fazer soar até para meus velhos ouvidos em meu quarto. “Velho broxa! Atende
essa porta agora!”, “Anda, Antenor!”, “Dio Santo!” – escutei coisas como essas enquanto
atravessava a sala rumo ao barulho.
− Bruaca?! Ah, seu filho da puta! Você coloca a porra de um aviso igual esse na porta
de casa e some! Não atende celular, não responde mensagem, não responde e-mail! Eu já tava
era ligando pro chaveiro pra abrir a merda dessa porta, achando que você tava tendo algum
piripaque aí dentro!
− Jussara?
− Antenor! Para de gracinha que a coisa aqui é séria! Como é que você tá?! Tem
comida suficiente pras duas semanas?!
− Fique tranquila que se eu morrer eu deixo minha maior riqueza pra você.
− Bom, como você tá aí, tá bem e não vai poder sair?! É isso?! Eu vou fazer um doce
sozinha pras crianças pra amanhã!
− Olha, velho broxa, você que se prepare, porque se você não morrer dessa merda de
doença eu juro que vou costurar essa boca podre sua!
− E eu que achava que bafo não conseguia passar por debaixo da porta. Tá muito
forte?
− Tá bão, tá bão.
Aqui estou eu, em meu segundo dia de isolamento. Liguei hoje cedo no Residencial e
fiquei por me declarar à Luzia por uns cinco minutos. Sei que não é muito, mas é o que posso
fazer por enquanto.
Tenho evitado Luís pela casa, pois estou com medo de o infectar e, para bem dizer a
verdade, fora alguns poucos espirros e uma narina entupida quando me deito, não tenho tido
sintomas. Será se estou doente mesmo? Bom, melhor remediar...
Tento lutar contra aquele pensamento invasivo, mas ele está por me estuprar durante
toda a manhã. Minha queda do quinto andar se repete em minha cabeça em câmera lenta e
assemelha-se a algum tipo nefasto de dança. O intento de meu espírito é corresponder
fisicamente à imagem que se repete em minha cabeça. A bipolaridade é uma doença que
escancara a ausência de domínio que temos sobre nós mesmos.
Não estou com saco para explicar aquele uso de aspas – quem sabe outro dia.
Não aguentei. Cedi e agora Luís está deitado sobre a minha barriga aqui no sofá. Dei-
me conta de que a possibilidade de seu contágio, estando fechado comigo em casa por duas
semanas, é a mesma estando eu o evitando ou não.
151
Tenho apenas cinco maços de cigarro sobrando e meu cartão está estourado. Não hei
de pedir à Jussara dinheiro emprestado para comprar cigarro, porque eu estou completamente
lascado financeiramente e incapaz de a pagar depois. Não sei como comprarei meus remédios
daqui a algumas semanas e não faço a mínima ideia de como hei de pagar todas essas
porcarias que comprei no mercado. Acho que terei de vender um de meus relógios. Aaaaaah!
Foda-se! Não quero pensar sobre isso agora. Essas desgraças futuras estão por me deixar
ansioso.
Olhei no armário da cozinha e meus chás estão quase acabando. Café tem de sobra.
Agora essa! E eu lá vou me entupir de cafeína para ficar doido de vez?!
Lembro-me que ao fim de minha internação, no dia em que fui embora da clínica,
Luzia havia ido me buscar sozinha – fomos para casa de táxi. Deu-me a notícia da “fuga”
ainda dentro do carro e eu de imediato me emputeci. Porém, num primeiro momento, não fiz
grande alarde. Achei que aquilo logo se acabaria e que Fernanda não demoraria a voltar para
casa.
Olhe se não é o gosto de café junto ao cigarro e à loucura me fazendo pousar nessa
estranha lembrança. Primeiro Luzia e eu conversamos bastante sobre a internação e sobre
minhas mudanças de hábito. Ela estava chorosa e eu não entendia o porquê, a “fuga” de
Fernanda não me parecia, naquele momento, motivo suficiente para dar fim ao tiquinho de
felicidade que minha saída da clínica podia nos oferecer.
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Bem, conversamos até tarde e resolvemos tomar um café. Não dei cabo ao copo. De
súbito, logo nos primeiros goles, um taquipsiquismo timidozinho eclodiu em minha cabeça –
eu ainda não havia sido diagnosticado e não sabia o que era aquilo. Em meu íntimo eu
acreditava ser louco, mas não confessava isso a mim nem a ninguém. Então disfarcei diante
de Luzia meu estranho desconforto. A ansiedade danou a saltitar dentro de mim: eu queria
transar com Luzia o quanto antes! Afinal eu havia passado três meses internado. Fomos para o
quarto e notei, no caminho, que ela estava meio arredia.
A mulher então se virou, finalmente, e deu-me um beijo, que começou vagaroso e foi
aos poucos se incendiando. Enquanto Luzia lutava com seu luto, eu me desesperava com meu
pau que não subia de jeito nenhum − estava eu castrado pela ansiedade. Porém, de uma hora
para outra, enquanto me beijava, Luzia estacou, ficou rígida feito uma pedra com boca. Deixei
de a beijar, afastei meu rosto do dela e senti lágrimas escorrerem de suas bochechas rosadas
em direção à palidez de meu pescoço. Abracei-a e disse:
O som dessas palavras a fez desatar num choro caudaloso inesgotável. Em minha
consciência, ignorante da real causa de seu pranto, pensei que aquilo tinha sido coisa de
hormônios ou cansaço. Dói-me saber hoje que ela sofreu no calado durante todos esses anos.
Por trinta e oito anos, Luzia e eu cultivamos culpas de qualidades distintas segredadas dentro
de nós. Em nossos íntimos, perambulando para lá e para cá no silêncio sentencioso habitual de
nossa casa, nutríamos uma chaga, uma erva daninha, o desabotoar de uma flor amarela,
solitária e mórbida que nos roía e exauria as bordas da alma, deixando-a nanica ao ponto de só
nela caber a dúvida quanto ao que havíamos feito à Fernanda.
14/08/2020 sexta-feira
Tenho sido forçado a aprender que sou mero personagem de meus atos. O autor não sei quem
é. Agora há pouco pela manhã me aconteceu algo que me deixou embatucado, completamente
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alheio ao meu entorno. Estou por me perguntar há horas o que fiz para merecer tanto dessas
pessoas.
‒ Miau...
Quando não! Uma penca de papéis começou a ser enfiada por debaixo de minha porta.
Ouvi risadinhas. Aqueles pivetes! – filhos da puta amoleceram meu coração! Não sei se a
ideia fora deles ou de Jussara, mas fizeram um monte de desenhos cheios de mensagens
lindas! “Melhora logo, seu Antenor. Estou com saudades”, “Seu Antenor e Luís, é pra vocês
estarem sarados depois de amanhã!”, “Não morre não, seu Antenor. Eu sei que o senhor é
velho, mas não faz isso não. Não tem nem onde enterrar – eu vi no jornal!”, “Velho broxa!
Kkkkk, eu vi a tia Jussara chamando o senhor assim”, “O que que é broxa, Seu Antenor?”,
“Seu Antenor, deixa a gente passear com o Luís pro senhor?” [Link].
Sempre que me vejo sendo amado caio numa espécie esquisita de embaraço. Dionísio
diz que isso tem a ver com o fato de meu pai não ter tido o hábito de dizer que me amava e
também por ele quase nunca ter me elogiado ou me parabenizado por um feito meu qualquer
durante meus anos de menino. Minha mãe o pouco que disse a mim foi entre dentes – nunca
entendi o porquê, mas ao menos em suas feituras o amor lhe escapava de sob as carnes e se
externava, e eu o admirava como se fosse feito de fumaça e magia.
De todo e qualquer jeito sou atingido por algum tipo canhestro de incômodo – não sei
bem precisar o que é. Há nesse incômodo um pouco de repulsa – talvez? − e, principalmente,
uma sensação de constrangimento, medo e inadequação. É como se, de súbito, despissem-me
de minhas roupas no meio de um gigantesco bloco de carnaval. Não sei como reagir a essas
coisas – como se meu corpo não reconhecesse a natureza peculiar daquilo que não me fere.
Amei Luzia mais no privado do que no público, porque também para mim é dificílimo
declarar o que sinto. É como um crime, aperta-me o peito, dói-me, perturba-me. Tudo se
passa como se o mundo não pudesse descobrir minha faculdade de amar, ela se refugia no
escuro, num recanto obscuro onde as palavras não têm voz e nada têm senão a forma vazia do
154
pensamento. Sou João-de-barro, meu amor não bate asas, é arisco, só se sabe doar no negrume
do ninho. Luzia merecia o mundo e eu a tranquei numa toca.
A felicidade que senti ao ler aquelas cartas compartilha da natureza dolente de minhas
tentativas de declaração. A vida parece ter me surrado de tal maneira que meu corpo e espírito
operam reduzidos ao signo da dor. Dizer coisas assim torna o texto melancólico e minha
intenção não é te enfadar, papel amigo. A questão é que eu já não sei ser feliz, entende? A
natureza me dera dentes para que eu me alimentasse e, em seguida, os ocultasse – ponto. Sem
luz, sem sol, só sombra.
Saí do sofá, onde estava sentado, e fui ao banheiro. Usei uma lâmina de barbear
novinha e a imagem dela rasgando o meu pescoço só apareceu duas vezes em minha cabeça
enquanto eu fazia a barba – estou ficando um pouco melhor.
Ao cabo do trato no velho moribundo ele ficou ali, parado diante do espelho. De
repente, sorriu um sorriso falso e arriscou gostar de si mesmo. Não conseguiu, porém não se
odiou – na balança da vida aquele estava por se fazer um dia medíocre. Antenor adorava dias
medíocres. Saiu do banheiro e pôs-se a reler as cartas que recebeu. Reparou nos mínimos
detalhes, como o cuidado que as crianças tiveram em desenhar o gato com um só olho e as
inúmeras manchinhas que puseram na parte careca que divisava os cabelos do dono. Chamou
o gato e mostrou os desenhos a ele. Luís, o admirável felino, estava mais interessado no colo
de seu dono. E ali ficaram sentados um bom tempo até que adormeceram.
Mentir é uma arte que poucos dominam. Te assustei, papel amigo? Creio que não.
Você é um papel dos mais espertos!
− Velho broxa?
− Ah, Antenor! Você também! E se te acontece algo, como que a gente entra aí?!
− Jussara?
− Oi?
− Você tá em casa?
− Tô.
− Tá.
− Puta velha! Você aí correndo perigo! Imagina se acontece alguma coisa com voc...
− Tô sem a chave!
− Então procura!
− Velho broxa, a gente devia te colocar num hospício! – disse ela e veio caminhando
em direção ao meu apartamento. Encontrou a chave debaixo do meu capacho e escorregou-a
de volta para dentro.
− Jussara?
− Oi?
15/08/2020 sábado
Estou certo de que não há manobra mental que me salve da intensa dor de sobreviver à morte
de Luzia que se aproxima ‒ ninguém nunca gostou de sobreviver ao outro. Liguei no
Residencial hoje cedo e estrelei a ela mais um monólogo de uns bons quinze minutos. Ela,
quando minha voz se emberça ao seu lado, num celular posto sobre sua cama, próximo ao
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travesseiro, performa uma escuta ausente; seu espírito parece ter rompido suas relações com o
real, está vadio, pairando solto por aí – talvez sequer me entende, talvez, para ela, eu seja
apenas um ruído e não mais um amontoado de palavras. E é por isso que tento soar melódico,
falo e quase canto, pois ambiciono ganhar e cultivar sua calma à guisa dum poema de
trovador a que não se entende, mas que aquece o coração a melodia do desentendimento.
Depois da ligação resolvi fumar um cigarro na maldita janela da sala. Tentei levantar
do sofá, mas bruscamente um enorme desgosto pela vida se abateu sobre mim. Vi-me preso a
uma dor que me queria aquietado, que a melhor posição para sofrer era aquela na qual eu
havia de imitar um feto. Ainda assim consegui me erguer e arrisquei alguns curtos passos.
Meu andado, ancorado, foi regrado por uma repentina partição entre meu corpo e minha alma.
Enquanto eu escorria relutante pelo chão daquele recinto, resistindo aos pesares que me
vinham à mente, rumo ao abismo que me quer engolir, meu espírito ansioso e suave já lá
estava, saltitante e inquieto, aguardando-me e olhando janela afora.
Nosso reencontro se deu no calor do fogo e no arder do cigarro. Com a fumaça dos
primeiros tragos enlacei a angústia recém-nascida de meu breve contato com Luzia e a tornei
quebrantável por breves segundos, o suficiente para então a quebrar em partículas tão
pequeninas que sua leveza fragmentária pôde ser soprada para longe de mim, como se o
fossem pequenos detritos rarefeitos da estaca que está cravada em meu coração. Errou-me a
carne e pairou no ar no morrente dos segundos, teve fim o sopro e ela logo voltou a me
invadir. Notei que se fito apenas o horizonte, o sol num retângulo, minha imagem
despencando janela a baixo rareia em minha mente. O que não posso fazer é olhar diretamente
para o chão, para a aspereza daquele asfalto crespo e sedutor.
Pessoa foi um camarada dos mais assertivos quando disse que “um poente é um
fenômeno intelectual”. Diante de mim, por todo fim dessa tarde, o sol se embebeu dos meus
olhos. Ali fiquei por diversos minutos ou até mesmo hora, ileso. Minha cabeça, num primeiro
momento, divagou entre as nódoas que se embaraçam em meu passado e depois foi quedar em
Luzia. Aí a imagem do sol me engoliu e em seu regaço passei a não sentir nada. A
onipresença da poluição paulista estava por tornar aquele poente um fenômeno de magnânima
beleza, como se ele fosse um belíssimo retrato pintado com tinta laranja à base de chumbo.
Vozezinhas pipocavam ao fundo de minha cabeça e teciam diálogos, no mínimo, curiosos.
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− Há pouca felicidade no horizonte.
− Obviamente não, porém foram tão escassas, houve desmedidamente mais pesares.
− Ainda não lhe é claro que o mundo que lhe bate é o mesmo que lhe sopra as feridas e
o faz tudo num só golpe. Tão mais feliz é aquele que poucas felicidades tem, pois é de sua
natureza colecionar menos tristezas. Há homens que experimentam os frutos do paraíso ao
caminhar pelo inferno, é verdade. A matemática da vida é compensatória. É uma questão de
escolha.
Cortei o papo filosófico dessa minha vozinha nietzscheana. Meu pai, tivesse ainda
vivo, diria a Nietzsche que “pimenta no cu dos outros é refresco”.
Deixei a janela de lado e fui rever as cartinhas que os meninos me escreveram. Luzia
iria adorar essa homenagem. Assim que puder eu levarei essas folhas a ela. Por enquanto, hei
de apenas lhe namorar os ouvidos à distância e, talvez, ler uma ou outra para lhe alegrar um
pouco o dia.
Antes que eu me esqueça: o pudim de Jussara estava um espetáculo, comi e até lambi
o prato. Fiquei com preguiça de o lavar e quem o ver como está ali em cima da bancada da
cozinha decerto pensará que se trata de um prato mui bem lavado. Era em horas como essa
que Luzia dizia “Quieta de porqueira, Antenor!”, e eu então lhe respondia que aquilo era um
treino para mais tarde. Ficava rosa a mulher. Dava para ver de longe a contenção de seu riso.
“Só você com essas coisas, Atenor. Ai, ai!” – cuspia essa vergonha no ar. E eu completava,
ainda lambendo o prato: “Acho bom ser só eu mesmo!”. Às vezes ríamos e estrelávamos
conversas assim e às vezes nada falávamos um ao outro. Nosso humor era proporcional à
quantidade de tempo que havíamos passado sem falar de nossa filha. Esquecíamos, num ou
noutro momento, mas a lembrança quase sempre imperava e era, sem exceção, conjunta.
Nunca pudemos nos deixar enganar pelos olhos um do outro, Fernanda ainda tinha seu lugar à
mesa ao nosso lado – do café à janta.
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16/08/2020 domingo
Morreu Mercedes Bacha, li no jornal de hoje agora há pouco, enquanto tomava um chá.
Minha esperança morta de que haja uma vida para além dessa deseja, de todo coração, que a
recém finada se encontre com Gabo outra vez.
Não me entristeci com tal notícia. Os velhos morrem e isso é natural – “Menos Luzia,
né, Seu Antenor?”. Sim, menos Luzia, que é para mim um universo num corpo e não
simplesmente uma mulher – ou melhor: A Mulher.
E não é que o filho da puta daquele floreiro me trouxe uma rosa! Disse a ele que eu
estava com covid e que, por isso, não poderíamos conversar no dia de hoje. Ele é um bom
homem, quando entendeu que eu não poderia descer para buscar a encomenda, pediu para
subir no prédio e deixou a belezura em cima do meu capacho ‒ veio até com bilhetinho de
como a cuidar; não prometo nada, mas tentarei ter esse zelo. E quem sabe eu realmente não o
visite futuramente ‒ se até lá eu estiver vivo... o que me impede? Enfim, a nova rosa veio
testemunhar a antiga morrer para compreender o futuro que a aguarda ‒ assim como Luzia me
foi um breviário de meu futuro definho. Adorei o presente!
Papel amigo, a despeito do que eu lhe disse agorinha mesmo, o jornal de hoje me doeu
bastante. Despertou-me raiva, até ódio e uma certa tristeza das mais pontiagudas. Uma
menininha havia sendo estuprada desde seus seis anos de idade, no Espírito Santo. Está agora
com dez anos e encontra-se em Recife para abortar um filho do tio. Há dores, como essa, que
são incomensuráveis. Lembro-me da delicadeza, ingenuidade e pureza de Fernanda na idade
dessa garota. Não há nada em seu corpinho e na maneira em que se veste ou não veste que
justifique tamanha violência. É tremendamente doentia a atitude de um indivíduo desses,
como o tio dessa garota, mas dele não tenho raiva. Será punido por seu crime e pouco me
interessa se a qualidade de sua punição pode ou não um dia chegar a equivaler à crueldade de
seu ato.
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Fernanda seria historiadora e Luzia era versada, pelo tempo e pelo gosto, na arte de ser mãe.
O tio dessa garota se formou pedófilo e estuprador. A todo ser humano que vejo há nele o
ecoar dum processo educacional. A mídia sensacionalista, vi ontem na Tv, está fomentando
burburinhos de que deveriam tais crimes serem punidos com a morte. E é aqui que meu ódio
começa.
Corre no Brasil um rio que não se acaba, maior do que todos os mares e oceanos
juntos. Nascemos sôfregos pelo seu rareio e por isso muito bebemos de sua fonte. Há quem
viva a magros goles e há quem tenha uma sede ávida até mesmo por seu lodo, há também os
comedidos e os filósofos são muito poucos ‒ esses respiram debaixo d’água; já a maioria tem
o rio como o maior entre os horrores, são aqueles que nele se afogam, mas que vivem como se
não carecessem de água para existir. Defendem-se de tudo, crendo em falsas verdades e, com
o juízo de quem há muito está morto, inertes no profundo do leito, distantes do mundo real,
insistem em dizer o certo e o errado. Mas ao contrário do que apregoa o pensamento vulgar,
punição não “resolve” crime algum. As prisões deveriam funcionar como grandes centros
educacionais – é neles onde se aprende a bem banhar-se naquele rio. Mas não quero falar
sobre isso, pois já devem existir acadêmicos demais, e mais capacitados do que eu, para
defender o óbvio.
Cristãos fanáticos são perigosos – isso é um fato concreto, atual e histórico −, são
sanguinários. E esse fato poderia fazer com que essa suposta defesa à vida tão violenta, que
orquestraram diante daquele hospital, fosse um paradoxo. Porém, por detrás das cortinas do
“bom cristão”, que se autointitula “cidadão de bem”, está uma pessoa que deprecia a vida tal
160
como ela é e que se força desesperadamente a crer que há uma vida melhor e eterna após sua
morte. Essa promessa de felicidade futura que nunca chega e esse desgosto pelo terreno
revelam que, por debaixo dos panos, todo cristão fanático odeia a vida. Em face de um aborto,
seus inconscientes transbordam inveja – do feto a ser morto. O que um cristão fanático mais
deseja, em seu íntimo, é se matar. Invejam, invejarão e invejaram o feto que foi retirado
daquela garotinha de dez anos, como se aquele projeto viscoso de ser estivesse por consumar
a parte mais desejável de suas cobiças quando viesse a morrer. Nesse mundo “cristianizado”
tudo é efêmero, nele nada valem as vidas. Ovacionam um mártir sem sequer realmente
compreender seus atos. E digo mais: foi Jesus que se recusou a escapar de seus algozes. Foi
ele, outra vez, que não deu ouvidos a Pedro, que lhe disse que “isso não acontecerá contigo”.
Não só o fez como o recriminou vivamente: “Vai para trás de mim, Satanás!” Sua explicação,
contudo, evoca uma maior causa e, não deixemos de perceber, que o direito à vida e o direito
à morte são um só: “És um escândalo para mim porque não pensas as coisas de Deus, mas sim
as dos humanos” ‒ diz Jesus, em Mateus 16, 22:23. Aqui sua crucificação pode, sem muito
esforço, ser encarada como um empreendimento suicida. E fez tudo isso por amor ‒ coisa que
hoje quase ninguém sabe o que é. Seu legado são seus atos e seu martírio nunca deveria se
repetir, muito menos quando quem sofre é uma garota de dez anos. Esses “cristãos” de merda
jamais foram a favor da vida, querem o sofrimento da criança e do feto que, se viesse ao
mundo, viveria à sombra de uma relação incestuosa e para sempre se saberia um fruto amargo
e indesejado de um estupro.
Não posso esquecer de lhe lembrar, querido papel, que sou um sujeito de classe. Pois
que nas palavras de Pessoa essa máxima pessimista da hiena tem outro gosto e outra forma –
mais adequados às papilas gustativas dum velho leitor como eu: “A minha vida é como se me
batessem com ela.” – diz o bom português da Rua do Douradores.
17/08/2020 segunda-feira
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A fumaça de meu cigarro está com o gosto e o cheiro vadios. Suspeito que estou com covid.
Isso até poderia me ser de grande abalo, mas não foi. Estava a fumar um cigarro no sofá,
agora pela manhã, e dei-me conta de que podia estar talvez com o gosto da morte em minha
boca. Então fumei mais, mais e mais e também mais um. Fosse eu visto dali do meu lado,
por um par de olhos alheios, poderia minha imagem causar uma certa impressão de ansiedade,
mas isso era eu mostrando para a morte que dela não tenho mais medo.
Sei que sob minha carne ainda pulsa o perigo – para mim e para quem amo. Sei que
meu estado natural é o estado de alerta e que vivo como quem tem de ninar um leão. Mas essa
noite a fera deu de me lamber ‒ gentileza essa que, num primeiro momento, deixou-me todo
eriçado. Não parecia verídico ser aquilo uma defesa da vida. Cerrei os olhos, e com um quê de
estranheza a me coçar os cantos d’alma, a vi passear em meu horizonte, para lá e para cá, a
noite inteira ‒ andandinha, sapeca, serelepe. Deixou-me numa espécie de transe em que tudo
parecia tão perto, tão fácil e possível, que eu não mais era um homem e sim um... ‒ não sei se
devo escrever uma coisa dessas ‒ falar em voz alta jamais! E lá vou eu adubar a loucura? Ah!
Mas quero tanto dizer... Digo então noutro arranjo, mais discreto. Confesso assim, de um jeito
rasteiro, de modo que o caladinho do papel me dê abrigo, que aqui é lugar de se mentir:
encontro-me acarinhado pela certeza de que agora serei o dono de minha morte, sem deveres
ou encargos inconclusos. Finalmente pude entender que a vida me terá só até enquanto eu
quiser ‒ e assim atravessei a noite, matutando minha morte, ouvindo o quedar de pás de terra
sobre meu caixão, esticando os pés no escuro e no aperto de um simplório caixote, pronto
para jamais levantar, cheguei a sentir o cheiro de meus ossos se desencapando de minha carne
e até sorri para os vermes que me quiseram roer o corpo ‒ meu calmante, minha sagrada
utopia esteve ali por dançar no compasso do meu desejo ‒, e, pela manhã, de ombros levinhos
‒ a respiração já me era outra ‒, consenti estar no mundo, como se ele ainda não me coubesse
nas mãos.
É um privilégio assim, pela manhã, sentir a vida à sombra do sono da angústia. É até
mesmo estranho, isso de não me doer. Respiro fundo um ar sujo e esfumaçado e ele me
penetra e escurece a carne de meus pulmões. Dou um trago a mais e sinto-me como que a um
passo mais próximo da morte. Esmoreço. Deito aquietado e respiro vagaroso para que tudo
que sou deite também dentro de mim e performe de antemão o eterno sossego ao qual me hei
de dar quando vier a hora. Reconheço nessa experiência um certo prazer em estar morto sem
estar morto. É como gostar do sono pela vida que ele nos tira, nos desafogando da náusea da
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vigília, e aceitar doar a parte da vida que também a ele requer – aqui falo dos sonhos que
esquecemos e do prazer, que nos é roubado, por existir apenas por formalidade, junto a um
outro num pequeno quarto, numa mesma cama, num mesmo calor, num mesmo corpo, das
dez e meia da noite às sete da manhã.
A matemática, a contragosto dos palermas, está mais bem alocada no campo das
humanidades. Pois da vida que ganho em sonho e perco em sono, fica quitado a experiência
justa de se viver e morrer-se vivendo. Escolher com quem se viver é, portanto, escolher com
quem se morre. E, por isso, dizer que “eu quero morrer com você pelo resto da vida” para um
outro alguém é, sem sombra de dúvidas, uma grande promessa de amor ‒ o romantismo está
por carecer de alguma novidade e não é de hoje. Deixo aqui minha colaboração. E lá é grande
o problema da coincidência semântica dos verbos “viver” e “morrer” no correr do tempo
passante? Uma doida uma vez disse que “Deus também é rato” e ninguém reclamou! Então:
xiii... Voltemos ao romance papai e mamãe:
O dia de hoje começou bem, pois, pela primeira vez, consegui acreditar que Luzia
morre em mim – não como se me escapasse ou como se a ela eu abandonasse agora que está
moribunda, digo, em defesa da imagem desse gozo, que há poucos prazeres maiores que esse:
o de se sentir abrigo de quem se ama. A casa é velha, cheira a sepulcro porque a morte é nossa
vizinha de porta e também nossa antiquada e indelicada visita, mas não se acanhe: tem lugar
para todo um mundo. Há, no entanto, um problema na porta que se abre apenas para poucos,
mas esse empenamento é um mero detalhe, viver é difícil e eu ainda não sei o fazer sem você.
Por isso lhe peço calma, será breve a estadia. Sei que uma casa assim tão vazia causa medo e
que os reflexos de Fernanda por toda parte não ajudam, mas a mesmice desse bricabraque é
falha do proprietário que nunca soube bem gerenciar esse negócio de viver. Brinque com o
gato ‒ dê-lhe o dedo e espere ele lhe ceder o nariz, em seguida o acarinhe de baixo para cima;
é fácil!
Tanto fui que já não posso mais estar em posse de mim mesmo por inteiro. Meu pai é
hoje um bigode numa sombra. Minha mãe, dela me recordo dos olhos, graúúúdos que só. Da
boca, não me recordo. É que Dona Irene nunca soube dizer com os lábios, fez-se lacônica
pelos caprichos de meu avô e meu pai deu de a fazer calar o resto. Joana! Ai, Joana! Dela não
me esqueço. Pois que quando transávamos eu colava meu nariz ao dela e olhava no profundo
163
de seus olhos como se aquelas jaboticabas de mel estivessem por me hipnotizar ‒ essa
memória sem sôfrego afeto e o passado que arrasta consigo foi o que me permitiu dar à
Fernanda alguns pequenos detalhes de sua mãe.
O passado está por me assaltar o bom juízo. Sem minha filha e sem Luzia este
apartamento me parece grande demais para um só. Quanto mais penso, menor fico. Não é
nem meio dia e já estou menor que um pigmeu. Ao fim do dia serei minúsculo feito um ponto
intruso num calhamaço de Saramago...
Antes disso, aproveito-me do desatino para desafogar minha caneta no papel, grafando
aqui algumas notas vadias que costumo escrever numa folha à parte das outras ‒ não quero as
perder, pois são elas talvez os únicos rabiscos dos quais eu realmente me orgulho de ter
escrito, parecem bons, eu até, se tivesse mais tempo e coragem, as mostraria a alguém.
Provavelmente para Jussara, porque aquela puta velha é das mais desbocadas e não mentiria
para mim apenas para me agradar. Descoberta a mentira, é cobrado o preço por cada momento
de felicidade que ela chegou a dar ‒ isso não se faz. Há quem mente com o receio de ferir os
outros, como me fez Luzia, mas o prolongamento de uma ilusão esgarça as feridas no revelar
da verdade. De toda e qualquer forma, como eu bem dizia sobre as notas: tê-las no caderno
garantir-me-ão de que o tempo terá de se esforçar mais para que nele elas se percam ‒ esse é
um mero favor que presto a mim mesmo enquanto finjo que mereço ser, de alguma forma,
lembrado:
O que posso fazer de melhor por uma pessoa senão a bem incompreender até que ela
se torne o próprio desentendimento que tenho de mim?
É que o tempo da tragédia e a comédia da existência são uma só coisa, pois na vida o
papel de se ver é ser visto.
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Se é mesmo verdade que o sentido da vida independe de mim? De que isso me
importa?
Vida é tudo aquilo que transcorre entre o nascimento e a morte. Desejar a vida é,
portanto, desejar a morte.
Estou com gostos por correr maiores riscos, aqui vai outro, feito ao léu:
Um resumo
Se fui forte?
18/08/2020 terça-feira
Estou por ruminar minha decisão. É-me grande o desejo de morte e ter a depressão como uma
certeza torna bruxuleante a opção que me tolhe o sofrer. Sei que estou no meu limite e que o
fim da vida de Luzia está próximo, mas ainda assim não estou resoluto quanto a minha
decisão. Talvez isso seja maneira de eu procurar algum motivo para escolher a vida, não nego.
Sei que não se trata de covardia de minha parte, pois viver não é fácil e, para bem dizer a
verdade, na situação em que me encontro, é até repugnante. Hoje ao levantar do sofá tive uma
leve vertigem e senti uma aguda fraqueza nas pernas, tive dificuldades de me colocar de pé,
senti-as chacoalhar contra minha vontade enquanto eu me erguia ‒ será se engordei do tanto
de porcarias que ando comendo? Não, não deve ser isso, eu estava muito magro para ficar
com sobrepeso assim tão rápido. A verdade, sem contornos, é que estou velho, sou frágil, mas
não vou ficar me lamentando por isso por mais tempo que um só minuto ‒ é hora de culpar o
sedentarismo (dou-me, enfim, esse alívio). Contudo, quem me assegura que minha vida será
mesmo minha se eu escolher a viver? Continuo sendo o dono de minha morte, mas até
quando? “Vou-me ir, está decidido!” Mas machuco alguém com isso? ‒ e esse quê de
incerteza ainda não sei de onde vem. Sou eu, sei que sou eu. Ou não sou? Dói-me fundo o
medo de perder o juízo ‒ eu não sou nada sem ele. Fumo um cigarrinho e vasculho-me;
vasculho-me e nada encontro, pois só o verdadeiro dono da casa sabe onde está ‒ está o que?
As violências que são tantas que já nem mais sei as causas do que me dói. É, meu caro gato, o
fogo que arde sem se ver hoje é outro ‒ mal-afamado é esse nosso passado, não me arrancou
um olho, como lhe fez, pois lhe pareceu pouco não me ter todo para si. Que deitemos tamanho
besta no papel:
Era um pequeno projeto esquizoide de ser, até então sem nome ou verdadeira vida ‒
uma promessa de sujeitinho dum subjetivo sem fora nem dentro. Tinha a felicidade de não
saber e nem mesmo sentir, era ausente o capricho de se crer “importante”, sequer suspeitava
que seria obrigado a viver como se carregasse uma cruz sobre pedras em brasa ‒ somente
166
existia a gosto do acaso. Descartável, sem dúvidas, o era. Pois aquilo que não sofre humano
ainda não é. Mas era muito esperado: a família de um caseiro havia ido embora para a Bahia e
deixado um par de casais de cachorros para cuidar, outros dois peões tiveram de ser dados à
guerra, e o filho do caseiro restante arrastara a mãe e a irmã para a cidade para lhes cuidarem
da perna arrancada. Faltava criado que desse conta da casa grande. Diante disso, ofereceram
um grande incentivo para os futuros escravos: uma casinha de cama pequena, a bordejar os
domínios da sede, que estava agora vazia. As noites ali eram frias e o casal a ser escolhido iria
dispor de um só cobertor, fino e apequenado ‒ para mode de driblar o casamento mais fácil.
Dia vai, dia vem... Ajuntaram um peão de bom feitio para o cumprimento dessa tarefa
‒ forte, sisudo e obediente feito um vassalo, que assentiu com o consórcio por uns poucos
trocados ‒ à filha de um carreteiro de semente pra safra que estava ali de passagem vendendo
a garota para quem mais o pagasse ‒ magrelinha, embatucada, diziam-lhe virgem e já era
versada na arte de ser dona de casa: quatorze anos ou um miúdo mais. Duas garrafas de pinga,
três sacos de manga, duas mudas de jurubeba e uns tantos cruzados ‒ esse foi o valor de
minha mãe. Então puseram os dois pobres diabos a treparem a gosto dos donos da casa.
Viesse mulher, sorria a patroa ‒ teria outra vez uma sombra. Viesse homem, agradava o
patrão, pois toda cria assim era lucro.
Mal saído daquele corpo, pus-me a me versar em falsos saberes. Todo o sentido: o ar
a me invadir as narinas, o líquido que era expulso de meu corpo, a dor que se revelava no
profundo de meu peito, a luz que se apresentava e agredia-me os olhos ‒ até ali mais
amigados do escuro ‒, o pousar dos lábios de minha madrinha em minha pequena cabeça e
meu rosto, a inexplicável secura das coisas, os barulhos ‒ muitas vozes, muitos ladros, muitos
choros ‒ , e a experiência doutros inúmeros afetos me compunham de fora para dentro, à
guisa de serem meu esquecimento futuro, como se ainda ao estranho não fosse lícito algo
outro que-não apenas me ser. E eu, que há pouco era tudo, fui sendo apequenado pelos
tenebrosos negares do mundo, daí que minha mãe fora esmaecendo assim como o saboroso
gosto pela vida daquele colostro que antes me viera à boca ‒ esse magnético embrião do
desejo me deixou com uma infinda saudade de tudo poder; por dentro, envolveu-me no feitiço
do perpétuo querer e, dali em diante, não mais tive o que quis, nunca mais; pois saciedade se
fez um jeito de querer do avesso. E fui sendo mais eu, e fui sendo mais gente. Viver é ouvir
“não” mesmo na extinção da palavra. Tive de pagar com dor por todo ser que me escapou por
entre os dedos. No desapontamento que disso seguiu ‒ comigo, com o mundo, com tudo ‒ vi
aquele prazer pela vida, paulatinamente, ir se apagando de mim. Bem como diziam os
viciados em crack na clínica, quase quarenta anos atrás: não há nada como uma primeira vez.
Junto ao choque da vida veio o engatilhar de um certo fascínio e espanto por tudo
aquilo que, aos poucos, eu deixaria de ser. A leitura do mundo precedia a das palavras e
enquanto isso eu me letrava, por angústia e por medo, naquilo que mais me acalentava do
terror de viver. A indelicadeza de minha mãe não era pouca, mas ao menos seu forçado
interesse por mim a levava a poder se ausentar um pouco dos deveres da casa ‒ meu preço era
o chupar de seus seios e o calor de seu corpo. À noitinha, se eu chorasse com muita vontade,
meu pai me punha em seu colo para mode d’eu me calar. Dali eu gritava “mama”, que estava
por empratar a janta da fera. Não podia me cagar senão meu pai aprontava um berreiro, e
doeu-me cada segundo de aguardo pelo tempo que essa escolha não se fez minha. Aprendi a
chamar “papa”, mas ele nunca vinha. Minha mãe passeava pela casa comigo no colo e levava-
me para a casa grande depois do almoço. Lá tinha espelhos em todo canto ‒ todos sem alma ‒
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e um menino que chorava e berrava junto comigo. Em casa eu pouco ouvia meu nome, mas
ali só se falava de Junio e Antenor. Pega o Junio”, “Traz o Antenor”, “Troca o Junio”,
“Limpa o Antenor” ‒ algo assim. Pedir colo em conjunto devia ser mais efetivo, não sei ‒ ou
é isso ou fica na conta da fábula, que é onde bem repousa os detalhes...
O tempo passou e eu cultivei o meu nome dentro de mim ‒ é que eu era uma pergunta
que necessitava de resposta. Finalmente aprendi que eu era “Antenor” e, mais do que isso,
contentei-me em ser essa palavra. “Quem é você?” “Antenor!” ‒ agora eu sabia das coisas:
“existir é ser nome” ‒ intui. Que universo terrível era esse que me cabia inteiro na boca? Até
mesmo os espelhos se amansaram: ganharam alma e eu pude me ver neles. Daí em diante tudo
aquilo que não era mais eu também careceu de ter nome. Por essa razão, tive de incorporar
todo o horrendo enigma do cosmos comunalmente, que isso era jeito imemorial de apagá-lo.
Dividir-lhe em partes era o primeiro passo e o segundo era dar nome a essas. Para isso, tive de
adentrar uma seita na qual estavam meu pai, minha mãe, minha madrinha, a mulher do patrão,
o patrão e a filha mais velha dele. Essa seita promovia o encobrimento do medo de ser
vulnerável por estarmos sempre à mercê da morte. A estratégia era simples: atribuíamos ao
enigma pequenos barulhinhos ‒ sílabas ‒, até que o silêncio parecesse vazio. Depois
juntávamos os tinidos num arranjo que era só nosso ‒ palavras. E assim todos se acalmavam ‒
até fizeram-me crer em minha eternidade, e que a morte não mais era um problema, pois se
resolvia com o “céu” ... Logo eu crentezinho! Quem diria! Não é verdade, papel amigo? O
que acha? Ora! Não façamos julgamentos tão precipitados, afinal, não vive quem não se
defende da vida. Já hoje minhas armas são outras, não sou mais amigado dos pecados, vejo-os
como tudo aquilo que não fiz, desejando o fazer e tudo aquilo que fiz sem o desejar ‒ e que
não consultemos dicionários, pois dar significado às coisas é brincar de ser dono do mundo e
na terceira idade é bom fazer algum exercício ‒ estou precisando.
Não demorei a perguntar das coisas que havia visto, porque isso de saber sobre o
mundo era saber sobre mim ‒ e o sentido da vida, se havia um, só era eu e meu corpo. A
sinuosidade ainda era coisa que não me habitava as perguntas ‒ perguntar A querendo saber B
era coisa de adulto. “O que fizeram do seu pinto, mãe?” ‒ horrorizei-a. “O meu também vai
cair?” ‒ aqui ela riu. “De onde vem os bebês?” ‒ e essa questão era envolta de um grande
segredo e assombroso mistério. Contou-me sobre “a cegonha”. “E de onde ela vem?” ‒ não se
aguentou do embaraço e pôs-me para dormir. Repreendeu-me por falar dessas coisas ‒ disse
que era pecado. E eu andei a pecar por todo canto da casa. Persegui-a ‒ “Não sei, Antenor! Já
te disse!”. Insisti muito com ela, que ralhou, ralhou, ralhou e, enfim, cedeu: revelou-me que o
itinerário da vida começava dentro de uma barriga de uma mulher casada e que fora meu pai
quem plantou em minha mãe uma semente, porque bebê nascia assim igual jerimu ‒ foi o
suficiente.
Porém, lá em casa o quarto era um só, e depois que saí do berço foi me dado uma rede
que ficava agarrada nas paredes do cômodo. De noite o barulho era pouco e se eu balançasse
eu levava um coro. Os cachorros latiam e eu chamava minha mãe, que logo me disse que
aquilo era pra afastar o Diabo que gostava de fazer mal a menino que não dormia depois de
rezar. Pra dizer a verdade, nunca vi nem escutei meu pai tocar em minha mãe, não creio que
eles fossem demasiado discretos, ao bem dizer da franqueza me parece que sentiam vergonha
um do outro. Meu momento de eureca me fora dado por um casal de cachorros. A chuva
passara e bem ali, no quintal, meti-me a pular em poças. Minha mãe berrou pra mim panhar
tomate na horta e eu enveredei para lhe fazer o favor. Dando a volta na casa encontrei dois
cachorros de costas um para o outro ‒ estavam grudados. Não pensei duas vezes e tentei os
separar, mas nada adiantava. Eis que minha demora levou minha mãe a me verificar. Foi um
berreiro que nunca esqueci! Que eu tinha de sair dali, que os cachorros depois se acertavam e
que aquilo não era coisa de criança ver! Já de noite meu pai se engraçou do ocorrido:
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‒ Antenor, venha cá! ‒ e lá fui eu. ‒ Tenha pressa não, Zé palmito. ‒ disse ele ‒ Um
dia chega sua vez de trepar. Deixa os cachorro fazer as cria deles; tá teno muita cobra esses
dia; jazim nós pricisa de outros.
Era coisa do comum algum cachorro montar nas pernas da gente ‒ conforme a
preguiça que estávamos no momento, ele ficava ali um tanto mais um tanto menos. Menos
ordinário que isso era os assistir montando um no outro. Por isso, em questão de segundo, a
matemática da vida me deu o resultado pelo qual eu tanto esperava ‒ coisa quiçá diferente do
que os freudianos esperariam. O nome “cena primária”, desde que o li pela primeira vez,
despertou-me um certo incômodo. A ideia de ser nada e vir-a-ser depois do ato sexual é falsa.
Toda vida é um legado ‒ um gigantesco legado.
Perdoe-me, papel amigo. Preciso me explicar e decerto essa será a maior digressão já
feita na história ‒ paciência... Ainda que limitada e picotada pela minúscula profundidade dos
meus rasos saberes, deve valer algo: tudo que existe, existiu e existirá esteve uma vez
concentrado num ponto menor que o núcleo de um átomo. Não havia espaço ou sequer tempo.
Era uma simples promessa de universo, absurdamente densa e ridiculamente quente.
Passaram-se mais de treze bilhões de anos e o início de tudo continua um mistério. É como se
tivéssemos ligado a televisão no meio de um filme e nos deparado com, como diria Clarice,
uma “Explosão!” ‒ é tudo que podemos ver se rebobinarmos a fita que temos do cosmos.
Nunca soubemos verdadeiramente de onde viemos, mas se hoje somos é porque no início, de
algum modo, estivemos ali ‒ nada vem do nada. Coincidir aquilo que ignoro com “nada” é
impreciso, um crime filosófico. Por isso, o coito não pode ser algo outro senão um último ato
que antecede uma nova peça ‒ a morte nasce com a vida, são degraus de uma mesma escada,
o início de uma vida é o início de uma morte. Viver e morrer são um só verbo.
E eis-me aqui, ruminando as esquinas da vida. Tamanho nos foram os feitos ‒ não há
como negar: principiamos por lascar pedras, nos educamos no manuseio do fogo e também
aprendemos a o fazer, vieram-surgiram machadinhas, lanças, jarros, o conforto em cavernas...
São tantas coisas! Não conto todas..., mas ninguém em sã consciência deixaria de relembrar a
filosofia socrática, a lógica aristotélica, a linguagem, o papiro, a escrita, a luneta de Galileu, a
revolução de Copérnico, houve Newton e Descartes e Merleau-Ponty, a bússola, a pólvora, o
papel, a impressão, navegamos, construímos, desbravamos o que antes era sonho ‒
dominamos o mundo. Einstein!!! E o que dizer dos dias de hoje? Telefones, celulares, a
internet, robôs cirurgiões, impressão de órgãos em 3D, variedades de antibióticos, vacinas ‒
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finjamos esquecer o atual atraso ‒, o que mais? Anestesias, mapeamento genético, engenharia
genética! Já até clonaram um macaco! Uff... Quem sabe um dia os ricos não morram, não é
mesmo?
Que não confundamos evolução com progresso! Pisamos na lua e ainda há fome no
mundo. Do que vale estender tanto a vida se no trato afetivo pouco ou nada mudamos?
Cultuamos e naturalizamos um “amor” possessivo no qual a supressão da liberdade dá lugar à
objetificação do indivíduo. Existimos como crianças mimadas e fazemos eventos festivos para
comemorar um pacto que nos restringe o concretizar dos desejos. E vivemos no ano de 2020
como se fossemos o ápice de toda evolução, quando poucos são os que entendem que ser
humano é estar humano, que os passos de Darwin são quase invisíveis vistos de perto, que o
outro é um distinto que é igual. Somos um completo atraso, é isso que somos! ‒ não há do que
se orgulhar! Sou prova disso: do que vale o amor que apenas pensei? Luzia apodrece nesse
exato momento e nunca ouviu a metade do que eu já aqui escrevi.
Milhares morrem todos os dias e a elite quer o povo na rua. Vivo de hora emprestada!
Não quero que minha morte escreva a história de minha vida, mas o que posso fazer se me
querem tomar o direito de morrer? Sei que aquele pensamento obsessivo está por me
atravessar o espírito, mas estou ciente de meu juízo: eu já não quero mais, estou no meu limite
‒ conto os segundos para Luzia se ir, ela não merece mais sofrer e eu preciso que se abra a
porta de minha saída daqui. Talvez eu já nem seja um homem e sim uma dinamite. A
explosão há de ocorrer, mas será fraca e ferirá mui poucas vidas ‒ irão me esquecer sem
grandes danos. E sei que o Luís está mais amigável, Jussara poderá o cuidar em minha
ausência. Não posso negar que reconheço um quê de vida nessa ideia suicida, pois a morte,
quando vier, será não querer mais morrer. Mas, se não me dei minha vida, dar-me-ei minha
morte ‒ assim me encaixo na justa medida e tenho o privilégio de me dizer aristotélico.
Há um crucifixo na parede, pendurado por Luzia, que está por me atiçar os miolos.
Diz-me sobre morte e eternidade numa só palavra ‒ transborda uma assombrosa ironia. E eu
então antevejo o futuro: “Jesus: o suicida ‒ mártir!” “Antenor: o suicida ‒ doido!” Por que
desejar a morte é loucura? O que diriam os moralistas se soubessem que a morte de Freud foi
voluntária? O chamariam de “doido”, “biruta”, “tresloucado”, “insano”? “Logo ele?” Sim,
logo ele! Se o suicídio não é algo absurdo, então por que o restante das pessoas tem de
continuar aguentando quando a vida já não é mais suportável? Como esses filhos da puta têm
a coragem de me dizer que tenho direito à vida se dela me tolhem a morte? Somos livres ou
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somos súditos? Ah! É verdade, minha vida vale muito: ela “faz a economia girar”. Pois eu
espero que, em altíssima velocidade, ela gire no cu de um neoliberal!
Sei que é válida a exaltação, mas que talvez eu tenha, para alguns, passado do limite ‒
eu gosto disso, de realmente ter o direito e a liberdade em pelo menos uma coisa em minha
vida, e, no findar das contas, esse texto tem um só dono, não faz mal...
Estou por tentar enobrecer a minha vida de algum modo há pelo menos uma hora,
atribuir-lhe algum grande valor, dar-lhe um sentido mais amigável..., mas nada me ocorre ‒
minto, algo me ocorre, porém não o que quero. É que a maior parte do universo é uma energia
escura de natureza desconhecida e um quarto diz respeito a uma “matéria escura” e apenas 4%
corresponde àquilo que nos é visível ‒ átomos e moléculas. “Que falta fará esse grão de poeira
no oceano?” ‒ eu poderia me perguntar. Acontece que esse pensamento, no entanto, parece-
me demasiado estúpido quando eu agora o escrevo: “Você é absurdamente pequeno” ‒ diz a
ciência. “Está validado a morte e o fim dos direitos humanos” ‒ Pensa, infantilmente, o
imbecil. E lá não é o mundo do tamanho de minha humanidade? ‒ Oh! Que poético...
‒ Gostou, seu pestinha? Você é um gato cheio de gatitude, eu sei. Então o que você me
diz da vida?
‒ ?... ‒ (silêncio)
‒ Luís, nunca pensei que eu adotaria um filósofo! Olha se eu não tenho de dar um jeito
de te arrumar um pouco de erva de gato!
Aguardo o envelope que Jussara me prometeu passar por debaixo da porta. Enquanto
isso me deixe concluir o que eu estava dizendo ‒ acontece que: não há coerência em qualificar
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o valor da vida como nulo apenas pelo quão pequenos somos, até parece que eu não consigo
reconhecer que tenho desejos que muito mais me preocupam do que “ser pequeno/nulo” ‒
meu café pra boca de pito é um bom exemplo, nesse momento. Já sei! Dionísio pode me
ajudar com essa questão.
Papel amigo, desculpe-me pela bagunça, mas, por enquanto, isso sou eu.
19/08/2020 quarta-feira
Hoje é dia do historiador ‒ minha saudade tem muitos aniversários... lembrei-me dela
por quase toda a manhã. Quem dera me fosse só um momento saudoso, mas aquele
pensamento maligno hoje está atacado. Como ele não passa, eu tenho de pendurar minha
mente em algo outro, porém nunca dá certo: ele me persegue. No desespero por desviá-lo de
mim, acabei me enlaçando na culpa que sinto por Luzia estar como está... Ah! Não quero falar
sobre isso.
Ontem, antes de dormir, resolvi fumar um cigarro na mesa da sala e dar um pouco da
erva de gato para o Luís ‒ papel amigo, você tinha de ver a felicidade de maconheiro daquele
pilantra! No início ele estava um tanto receoso, então pincei um pouco da erva e esfreguei-a
em seu fuço ‒ nunca vi aquele olho tão arregalado! Juro! Ele pulou no montinho que fiz e
deitou e rolou uns bons cinco minutos. Fui na cozinha pegar um tico de café, no passinho,
porque aquela cena não merecia uma interrupção. Quando voltei o encontrei na Jamaica ‒
estava lerdo, seu olho estava baixo e ele pouco ou nada se mexia. Por um segundo pensei ter
matado o gato e já nesse segundo culpei Jussara que não me disse quanto de erva dar para o
Luís. Peguei-o no colo e deixei-o ali, curtindo a brisa, em cima da cadeira e de mim. Eu, da
maconha, só sinto falta de uma coisa. Ai! Que as comidas ficavam muito saborosas quando eu
me amigava do cigarrinho do capeta ‒ até suspiro. Fernanda era uma maconheira nata, sequer
sabia esconder ‒ empolgava-se na militância e, com os olhos vermelhos feito um pimentão,
dizia-me: “Por isso, pai. Tá me ouvindo?” e eu dizia-lhe que sim. “Por isso a escravidão
nunca acabou no Brasil”. “O que?!” ‒ eu a amofinava. Não sei se chegou a dar aulas, mas fez
alguns estágios aqui próximo de casa... E se... ‒ não, não, não! Antenor, seu jumento! Esse
caminho não!
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principiou a amassar pão no estofo da cadeira e em minha perna. Gato pizzaiolo! Faz isso o
dia inteiro. Reparei que essa noite ele ficou mais calmo ‒ olha como eu sou um bom dono: eu
drogo meu gato! Só sei que sobrou um restinho a ssiiim de erva e aquele pacote rasgado sobre a
mesa ficou por namorar meus olhos. Tive ideias travessas, não nego, mas emudeci a criança
encapetada que em mim faz morada e fui dormir.
Hoje faço anos. Nesta data, Luzia e eu costumávamos descer a Dr. Rodrigo Silva com
duas listas de nomes de autores escolhidos por mim ‒ ela com a dela, eu com a minha.
Garimpávamos os sebos e, expectantes, mostrávamos um ao outro livros com capas e títulos
curiosos. Luzia tem alergia à poeira e já chegou a usar máscaras para me acompanhar ‒ ela é
um amor! Nosso percurso livresco tinha cabo em frente ao maior sebo do Brasil ‒ o famoso
“Sebo do Messias”, que, para infelicidade do dono, está por ter o nome maculado nesses
últimos anos. Ali mesmo eu me enfiava dentro de uma floricultura bem miúda, logo em frente
ao sebo ‒ a mesma em que comprei as rosas recentemente ‒, e comprava um ou vários
girassóis para Luzia ‒ o dinheiro me regrava a opulência, mas eu me preparava por meses,
juntando os trocados do dia-a-dia num cofrinho de um porco feioso que Fernanda me deu ‒
adoro ele! Depois disso, entrávamos numa padaria muito antiga bem ali ao lado, eu comia
dois pães de queijo e tomava um café, Luzia era às vezes esquisitinha, mas eu aprendi a gostar
disso mais do que eu cria ser possível. Ela pedia um café grande, tomava-o e, em menos de
cinco minutos, ia ao banheiro mijar. De volta à mesa, pedia um suco de abacaxi com gengibre
e sorria para mim no dito: “Deu calor...” ‒ o quanto isso está por me dar saudades hoje,
ninguém faz conta. Na volta para casa Luzia me fazia atravessar a rua para que eu não usasse
o troco para jogar na loteria ‒ apontava-me os girassóis, erguia as sobrancelhas e dizia-me
“ano que vem tem outros”. Eu lhe respondia que se ganhássemos compraríamos uma
cobertura e plantaríamos inúmeros girassóis no terraço. “Vai doer as costas de tanto regar” ‒
não tinha como dobrar essa mulher na conversa! Porém, no amor a coisa era diferente. Antes
de entrarmos em casa sentávamos num dos bancos de pedra do largo da pólvora e eu tentava a
convencer a ler pelo menos dois ou três dos livros que ela havia comprado comigo. Luzia
sempre aceitou e às vezes mais do que três, sua única condição era que lêssemos juntos, em
voz alta, pelo menos um deles. Certa vez experimentei fazer algo diferente, fingi nunca ter
lido uma obra do José Mauros de Vasconcelos e empurrei um livro à Luzia. Fiz o cálculo
exato das páginas do O meu Pé de Laranja Lima e ela, dessabida de qualquer coisa, teve de
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ler a parte em que o Portuga morre ‒ chorou tanto que não quis mais continuar a leitura e eu
tive de terminar o livro por ela.
‒ Luzia, é que assim eu me doo de uma dor que não é minha. Esse é meu jeito de me
perder das nossas.
‒ Se da próxima vez você não me avisar... ‒ Não avisei, e ela terminou a obra, entre
lágrimas, mas terminou.
20/08/2020 quinta-feira
Dedilho o chão com o olhar e calculo o tamanho do passo que tenho de dar. Por uma questão
de segurança o correto seria galgar um curtíssimo espaço do aqui até o lá, mas se agora sou
outro não posso me fiar em juízos sobre um mundo passado ‒ seria falsear o que tenho pela
frente. O palmilhar dum passo costumava começar naquilo que tenho segredado no mais
profundo de mim. O que percebia, no entanto, era de aparência simploriamente imagética:
meu calcanhar se despede do chão e meu peso, numa fração de segundo, percorre o solado de
meu pé se concentrando mais e mais até o dedão. Quando este se ergue, minha outra perna se
encarrega do ofício árduo de trabalhar dobrado, o desequilíbrio, velho conhecido, apresenta-se
adestrado e crê-se ciente da queda porvir. Meu corpo se desdobra e meus músculos trabalham
para me impulsionar adiante, sinto tudo como tão natural que sequer penso no que faço,
apenas o faço. Na descida, arrefeço o esforço da perna em labuta e deixo-me quedar com o
coração sereno por confiar ter um chão ali logo abaixo. Eis que os últimos se fazem os
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primeiros, pois nessa hora o dedão e seus quatro vizinhos são os primeiros a tocar o novo
solo. O esforço da perna de apoio atravessa meu corpo e reencontra sua casa agora em outro
bairro. O restante do pé e meu calcanhar, nessa ordem, finalmente, encontram o chão e eu,
pleno de tudo, desapercebido da vida e do mundo, mudo inteiramente o universo.
21/08/2020 sexta-feira
22/08/2020 sábado
Quase oito décadas no mundo pensando que o amor era meramente o mais elevado
sentimento que um alguém poderia sentir por um outro e talvez não haja erro em ter amado
assim por tanto tempo um amor errado, eu, que me cri sábio na escassez de certezas, esqueci-
me que escassez não é ausência, de que pouco não é nada, de que estar à beira da morte é
ainda estar completamente dentro da vida. Mas não me culpo, pois o carrasco nunca pede
perdão ao machado, que era até então feito só para cortar árvores. Mas me espanto. É que eu
me via assim tão pequeno, que não me parecia ser possível ser sem tamanho. Eu, uma flecha
entre abismos, desgracei-me por uma ausência de vento no rosto que nunca irei sentir. Não
sabia que o que o abismo engole é também abismo ‒ e o céu que o encobre, assim conforme
um abismo, também não tem chão. E se tudo é profundo, por que não me afogo? Respiro. Só
se... só se eu fosse também uma espécie de precipício e isso me levava a um silêncio
esquisito, cheio de dúvidas, vazio de respostas, repleto de uma dor muda que só a percebia
quem nunca soube ser sem ela. E eu, como se soubesse andar sem tão arcaica muleta,
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experimentei ser, não o que eu era, mas o que sou e nessa troca da mentira pela verdade fui
invadido por um intruso que vi no espelho. E ele me perguntou:
23/08/2020 domingo
Ausentei-me, pois a vida estava por me virar do avesso. Sinto-me, não menos, como uma
personagem de Clarice ‒ de um segundo para um outro, desfiz-me em estilhaços! A epifania
que há dias se desenha e redesenha em meus olhos, a gosto dos caprichos de minha mente,
continua um tanto obscura e já estou por me amigar à certeza de que viver talvez seja
completamente distinto daquilo que eu até aqui imaginava ‒ parece estar entre as coisas das
quais não se imagina. Está difícil reajuntar meus cacos, as peças não mais se namoram como
antes e há novas dores que chegam sempre de surpresa ‒ a verdade é que morri. Tão pesado
me é o espanto diante do irromper dessas chagas que me planta os pés na terra ‒, tudo se
passa como se eu estivesse por reorganizar meu jeito mais íntimo de sofrer, aprendendo a
ouvir doutra maneira os negares à minha existência. Tamanho absurdo é coisa profunda e
intrincada que ainda não sei explicar por completo, estou há quatro dias falhando em escrever
tudo que sinto porque o tradicional entrelace de meus pensamentos fora desfeito por algo
assim muito mais forte do que uma bomba! Retornei ao pó e a tristeza que não foi embora,
enquanto torcida, escorreu e tornou-me barro, fez-se outra ‒ foi como se eu tivesse sido
apagado e agora até mesmo meu passado está por ser reescrito. A lábia, o lápis, a loucura e
um repentino vislumbre do outro me deram A Fórmula Mágica da Paz.
Procurei pelas coisas de Luzia por agulhas e linhas que me bem servissem para o
agrado que eu queria fazer ao Luís. Demorei-me em falhar e consumei essa azeda falha
quando desisti da infrutífera caça ao tesouro e fui até a sala fumar um cigarrinho. Foi aí que
Jussara me ligou por vídeo:
‒ Jussara, você, por acaso, tem linha e agulhas de crochê por aí? É que o Luís est...
‒ Entendi, que ótimo! Quer dizer então que ‘o senhor’ está de aniversário hoje?
‒ Ah, é? Então tome um banho e se arrume que hoje você vai ganhar um presente.
‒ É segredo.
‒ ...
E me instruiu passo a passo como eu deveria fazer para entrar em uma “chamada
online” que iria ocorrer dali uma hora, às sete e meia.
‒ Concordo plenamente, seu tranqueira, vai levar essa daí também? Trazer de volta
você não quer, né? ‒ o Luís está com uma mania de roubar minhas meias e levar para cima do
guarda-roupas. Não sei o quanto o magoaria se eu subisse num banco e pegasse-as de volta,
então, por enquanto, deixo-as por lá ‒ é um pilantra da melhor qualidade, esse meu
camaradinha!
Tomei meu banho, fiz a barba, ignorei a repetição da imagem da gilete me talhando o
pescoço e fumei um cigarro ao lado do gato ‒ o Luís sempre me espera na porta do banheiro.
Enviei uma mensagem para Jussara, perguntando o quanto eu teria de me arrumar e ela disse
que “o de sempre está ótimo”, e assim o fiz: apanhei uma camiseta branca mais larguinha,
pois, com o blazer por cima, ficará mais quentinha ‒ pensei. São Paulo estava fria como o
coração do presidente, tive de colocar uma blusa de frio por debaixo da camiseta. Enfiei tudo
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numa calça social preta, o que fez o contorno de minhas ancas ficar barrigudinho. Daí então
me enlacei em meu cinto preto, que é bege do outro lado da tira ‒ “dois por um”, foi o que me
disse o vendedor. Escolhi de sapato dois pares de meia e uma pantufa que tenho há mais de
década. E, claro, meu chapéu bege não poderia faltar ‒ eu não sabia o que Jussara me ia
aprontar, mas decidi pôr o blazer por precaução. Desafiei o fio dental e travamos uma batalha
sanguinária. Dei de comer ao Luís, para que ele ficasse em paz durante “a chamada” e sentei-
me pronto no sofá da sala às sete horas em ponto.
O tempo não passava e convenci-me de que Jussara chamar-me-ia para jogar cartas ‒
sei que os computadores têm essa opção hoje em dia e pareceu-me uma boa ideia para um
aniversário à distância. O Luís estava por dormir em cima do guarda-roupas e, no vazio da
casa, dava para escutar o tic-tac do relógio da sala. Nessas horas, em tempos passados, eu
costumava pedir que Luzia me presenteasse com um disco da vitrola à sua, e completamente
sua, escolha. Com uma dor saudosa e adocicada, dedilhei os discos, como se caminhasse por
sobre os cumes de montanhas muito próximas, e deixei que o amigo acaso escolhesse por
mim. Veio-me às mãos “Argumento”, de ninguém mais ninguém menos, que o homem que
mais bem sabe chorar nesse Brasil: queridíssimo, amigo meu, Paulinho da Viola e
“Sobrevivendo no Inferno”. Os Racionais entraram aqui em casa por acaso. Luzia mantinha
contato com um ou outro amigo de Fernanda e às vezes lhes fazia bolos e outros quitutes ‒ se
a sinceridade me adoça o pecado, posso dizer francamente que eu gostava mais dos doces do
que das visitas; eles ficavam esquisitos ao conversarem comigo, pareciam ter medo de mim.
Não demorou e eu principiei a comer calado em meu quarto. Numa visita curtinha, coisa
banal, um rapaz nos entregou um vinil ‒ disse que era em nome de todos, mas não cri nesse
suposto empenho por parte de tanta gente (eram pelo menos uns cinco). Foi uma grande
surpresa para mim e Luzia a qualidade do presente ‒ não esperávamos algo assim tão
brasileiro que parecia ter sido escrito e cantado em resposta às chibatas e chacinas passadas,
em defesa do movimento negro, em defesa do povo contra a violência policial, em favor da
igualdade num país escravista como é o nosso. Não houve como não nos afeiçoarmos por essa
música tão revolucionária ‒ Luzia chegou a me dar uma camisa do grupo e eu, em resposta,
dei-lhe um boné, que ela passou a usar em dias quentes para se abanar pela casa.
A primeira música a tocar foi “Coisas do mundo, minha nega”, ao seu cabo Luzia já
estava agarrada em meu peito, regrando-me os balanços de nossos passos, pois, como eu
nunca soube muito bem dançar, na sombra de seus rastros eu me acertava vagaroso,
esforçando-me e dando a ela meus melhores erros. Tão gostoso devaneio durou uns bons
quinze minutos ‒ o outro disco deixei tocar inteiro. “Jorge da Capadócia” encabeça o álbum
com uma prece suave e envolvente ‒ tudo que meu cigarro precisava para fazer um tour
tranquilo pelo meu corpo. Próximo ao fim do álbum, tive de interromper a música, porque
Jussara me ligou para dizer que tudo estava pronto e que estavam todos ao meu aguardo.
Meu mal é de berço, desde que me entendo por gente fico ansioso com coisas como
essa e os sinais são muito claros: primeiro me torno um mijão, depois sinto calor e não me
aguento quieto, a depender do caso posso chegar a tremer. “Todos estamos te aguardando” ‒
dissera Jussara. Tremi ‒ mentalmente eu não me havia preparado para aquilo e, até mesmo se
soubesse o que me aguardava, não teria condições de me preparar para aquilo, nem que fosse
me dado mil anos para que eu me aprontasse.
‒ Vou deixar esse aqui na porta da sua casa e fico com um outro que eu tenho aqui que
também funciona, viu? Em cima do tapete.
Esperei-a reaparecer na câmera e frestei a porta na medida para que só meu braço
passasse, porque o Luís me acompanhou até a porta de saída. Houve então outra missa para
que eu conseguisse enfiar o cabo daquele bem-dito fone nos buracos certos no computador. A
181
essa altura eu já estava me sentindo uma anta e Jussara não saía do celular, em frente à
câmera. Daí conversamos brevemente e ela deu de me perguntar: “Você tá preparado?” ‒
principiei a filosofar lhe dizendo que nada nos prepara para o futuro, pois atravessamos a
contingência a cada segundo em que vivemos e, quando eu ia deslegitimar sua pergunta,
mostrando-a sem fundamento, aconteceu!
Boooo ooooom!!!
182
como se me atacassem. Fui no banheiro sem dar aviso e passei uma água no rosto. Meditei
meio minuto procurando sinais de mania e psicose em meus silêncios, mas eu estava são e
aquilo, eu tinha de voltar para aquilo, mas como? Lembrei-me que eu o havia mudado de
lugar, então corri na cozinha e tomei várias gotas de Rivotril, porque minhas mãos, em
repouso, não paravam de tremer ‒ fiquei com vergonha de que me descobrissem tão
impactado e o calor se abateu sobre mim; pensei em tirar o blazer, mas com ele eu ficava mais
bem perfilado e menos gordo, porque as roupas por debaixo de minha camiseta estavam por
me estufar, então fiquei do jeito que estava, marinando no suor. Jussara me perguntou se
havia acontecido algo ‒ disse-lhe(s) que eu era “um pouco” ansioso e que não me aguentei e
tive de dar um pulo no banheiro. Desculpei-me por minha má educação e tive de ouvir os
parabéns serem cantados outra vez, agora integralmente. Meu desconcerto não cabia em mim
e eu tentava performar um sorriso que os agradasse ‒ mas fazia tanto tempo... minha boca
estava virgem de felicidade e era-me difícil ficar daquele jeito tão aparente sem transparecer a
tristeza que carrego em mim. Meus olhos queriam desaguar tão fortemente que minha
impressão era de ter de sufocar o irromper de uma comporta de Itaipu dentro de mim. O
marejar de meus olhos, receoso e involuntário, deixara-me preocupado com chorar na frente
deles ‒ apavorava-me o medo de começar e não parar nunca mais. E quando eu já estava
baqueado o bastante, Jussara, que estava por coordenar a reunião, pediu-me para que eu fosse
até a porta de casa pegar “meus presentes” (???). Prendi o Luís no quarto e cavouquei a
gaveta do armário da sala, à procura de uma máscara limpa e a encontrei! O abrir da porta me
foi um desafio, porque aquilo tudo não parecia verdade, não podia ser verdade, eu pouco ou
nada os fiz bem ‒ não fazia sentido.
Quando abri a porta e vi os presentes a fechei de volta. Jussara estava do outro lado,
com o celular em mãos, filmando toda a cena. Liguei para ela:
‒ Velho broxa, aceita que hoje é seu dia, vai. Essas pessoas gostam de você. Faz um
agrado pra elas, entra na brincadeira.
‒ Tchau, velho broxa. Anda logo! Vem cá pegar esses presentes! ‒ e desligou.
Respirei fundo e enfiei-me no quarto outra vez. “Eu não mereço, não. Por que vocês
tão fazendo isso pra mim? É por conta da Luzia, é?” ‒ perguntei, num momento de coragem,
183
visivelmente emocionado. Uma enxurrada de microfones se abrira e incontáveis vozes
disseram: “É pra você, Seu Antenor”, “É, a gente fez por você”, “A gente fez por você, Seu
Antenor”, “É pra você, Seu Antenor! Fui eu que tive a ideia!” ‒ gritou Tadeu, um dos
pequenos. E continuaram a se justificar ‒ alguns começaram a conversar entre si a respeito de
mim, visivelmente comovidos e preocupados comigo; em meio à algazarra, muitos
escreveram no chat. Uma das pestes do trio prometeu que viria aqui dia vinte e seis, disse que
chegaria o mais cedo que a mãe permitisse. Aí desabei, não teve jeito. Saí da frente do
computador e tirei os fones de ouvido, porque escutar tantas pessoas se compadecendo por
mim daquela forma me machucava. Não quero que me entenda mal, papel amigo. Embora eu
não me creia merecedor de tamanho afeto, eu reconheci aquilo como a maior bondade que me
fora feita na vida. Mas a verdade é que não sei ser gostado da maneira correta ‒ chorei, doeu-
me e, por um momento, até me senti impelido a aceitar que aquilo poderia ser, parcialmente,
consequência de meus atos. Minha consciência apertou o rabo da porca para tanto e, nos
finalmentes, acabei não aceitando. Daí meu corpo foi tomado por uma espécie estranha de
desespero, como se estivessem, com suas mãos, dedos, dedinhos e dedões, por me fazerem
cócegas ininterruptamente. É que eles, dessabidos dos espinhos de tamanha bondade, estavam
por tentar arrancar uma das certezas que me constituem no profundo, um traço mórbido de
minha personalidade, uma face de mim que não está ao alcance dos meus braços, que não há
jeito, entende? “Eu sou desprezível, eu não posso ser amado, eu não sou amável, eu sou
errado, inadequado, desinteressante e, por isso, tenho de errar o mínimo possível, ou melhor,
não posso errar, nunca! Tenho sempre de ser melhor do que eu mesmo, atropelar o
impossível, pois se não o for serei motivo de ódio e repulsa para tudo e todos. Eu preciso! Eu
preciso! Eu preciso corresponder às suas expectativas! Seu desejo é minha roupa!”. Eu sou
uma criança de espírito enjeitado, não versada em bons afetos, não letrada no elogio,
expropriada dos cuidados, profunda e involuntariamente apaixonada pelo engodo daquilo que
é friamente humano e, sem que eu me dê conta, meu nariz sente o cheiro da maldade e a
procura sofregamente, transbordante da baba da cobiça, encontra-a em todo lugar. Fui
completamente arquitetado para o ódio, mas até nisso falhei, pois sou e fui tão errante, que
aprendi a amar, de um jeito contido, com pouco efeito no mundo e nos outros, mas esse, até
ali, fora o melhor que eu pude fazer ‒ sim, o fiz e, milagrosamente, fui amado de volta. Será
se vou poder amar plenamente um ser humano outra vez? Parece perigoso demais. É isso que
está acontecendo? ‒ pensei. O Luís me desvirtuou de mim com um miado e, em resposta ao
meu chiado, saiu andando para os fundos de casa.
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Recompus-me na medida do possível e reabri a porta e pus-me a catar os presentes ‒
eram muitos. Eu tentava não chorar e isso fazia com que as lágrimas me descessem pelo nariz.
Jussara parecia estar num zoológico, filmando-me como se eu fosse um macaco, estava com
um sorriso tão grande no rosto, que mais parecia um tubarão. Quando eu estava por apanhar
os últimos, essa mulher me aparece com uma mesa cheia de comida ‒ até purê de abóbora
fizeram, não sei como! Deve ter sido Luzia... Trouxe as bandejas, pratos e panelas para dentro
e fechei a porta. Já mais calmo, cortei uma fatia de bolo e a comi junto deles, em frente ao
computador ‒ tinha gosto de vontade de choro. Peguei um copo da cozinha, com um
pouquinho de água, e o fiz de cinzeiro ‒ conversamos muito. Tudo ia bem até eu abrir essa
minha boca indagadora. Causei um grande embaraço: o Seu Ravi, do seiscentos e dois, estava
sozinho e aquietado, coisa que não costuma ser do seu perfil. Perguntei-lhe,
despretensiosamente, onde estava a “digníssima” ‒ Dona Luna. Constrangido, ele tentou me
responder, mas acabou por começar a chorar e saiu da chamada. Fiquei preocupadíssimo e
senti-me uma pessoa horrível, foi então que me disseram que ele havia se despedido dela há
alguns dias atrás e que o hospital a havia sedado para que ela “fosse embora em paz”.
Desculpei-me com todos e pedi à Jussara o contato do Seu Ravi para que eu me desculpasse
também com ele. Não demorou muito para que as pessoas passassem a se entreter com outras
coisas que-não eu e isso me foi um alívio. Eu não havia jantado, então fiquei petiscando as
iguarias que me foram dadas. Estava em silêncio, aquietado, observando as outras pessoas e
forçando-me a crer que aquilo tudo era realmente por mim. Meu coração foi se aninhando no
sereno da nova angústia e o frio deu de me comer os dedos das mãos e dos pés. Fui cordial e
despedi-me de todos um a um e, ao falar com Jussara, pedi a ela que desse uma olhada em
suas mensagens. Assim que recebi o contato me desculpei com o Seu Ravi e, movido pela
culpa de o ter feito chorar em frente aos nossos vizinhos, dispus-me a ter uma conversa com
ele já que tínhamos esse dissabor em comum e dormi tranquilo, crente de que ele não iria
aceitar.
No dia seguinte, acordei, tomei meus remédios, petisquei uns morangos numa das
bandejas que estava sobre a mesa, fumei um cigarro e dividi uma maçã que encontrei na
geladeira com o Luís.
Minha ligação para Luzia estava por contar quase uma hora quando ele me ligou,
despedi-me da gata e o atendi:
‒ Seu Ravi?
185
‒ Oi, Seu Antenor. Bom dia.
‒ Antenor ‒ e disse numa voz morosa ‒, sou eu é que tenho que te pedir desculpas por
ter ficado tão emotivo. É que faz tão pouco tempo, sabe? E eu achei que eu estava preparado
para participar do seu aniversário. Bem, ainda não estou conseguindo me controlar.
Honestamente, se o senhor me permite dizer, não sei como você consegue.
Nesse momento eu soube que o melhor remédio para ele eu não poderia dar, mas
deixei a presença amiga guardada para um outro momento e passei a tatear os cantos de
minha mente, em busca de boas palavras.
‒ Seu Ravi, essa dor tem suas fases e, com o tempo, melhora um pouco, mas, pelo
menos eu, sinto que nunca serei o mesmo.
‒ E eu, Antenor! Que já não sei o que fazer da vida: nada mais faz sentido! Aqui a
casa tá parecendo tão vazia sem ela.
‒ Sei bem como é: terrível! Mas deixe eu te perguntar uma coisa: e antes, fazia
sentido?
‒ Antes eu nem pensava nada sobre isso. O que eu tinha era suficiente.
‒ Olhe, meu amigo, talvez seja uma boa ideia encontrar uma distração; digo, não para
esquecê-la, mas pra aliviar você um pouco dessa dor. Por exemplo, eu tenho um caderno
fuleiro aqui e, uma vez ou outra, costumo escrever algumas coisas nele, uma besteirinha de
nada, só pra me dar um respiro da falta que Luzia faz. Não precisa ser exatamente escrever.
Qualquer coisa serve: pintar uma tela, ler um bom livro, montar um quebra-cabeças, fazer um
exercício físico; pessoalmente, acho que o melhor é ter um animal de estimação.
‒ O que o senhor acha sobre pegar uma gata emprestada com a Jussara? É bom assim
ter uma companhia. Eu tenho um pestinha aqui que já nem sei o que seria de mim sem ele.
186
‒ A ideia não é das piores, Antenor, mas e se eu me apego à bichinha e depois tenho
que devolver?
‒ Então acho que conseguimos resolver hoje mesmo esse seu problema de companhia.
Seu filho dirige?
‒ Dirige? Aquele ali na adolescência me deu trabalho, fazendo racha dentro lá da USP,
na cidade universitária.
‒ Acredito que a gente pode procurar um centro de adoção aqui perto ou perto da casa
do seu filho.
‒ Sessenta e nove.
‒ A idade do amor!
‒ Pois é.
‒ Mas o que eu queria te dizer é que o senhor já tem muito passado nas costas pra não
conseguir levar essa gente na lábia. E outra, que motivo eles teriam pra enrolar, quer dono
melhor que o senhor?!
Dito e feito ‒ pá-pum: comi-o pelas beiradas, feito um mineiro doido das origens, e ele
se convenceu, despedimo-nos e ele fez a ligação. Para a minha surpresa, em questão de pouco
mais de uma hora, o Seu Ravi escolheu uma cadelinha das mais graciosas ‒ carameluda, do
focinho preto e pelo eriçado, seu rabinho era mais escuro conforme mais distante estava do
corpo, a extremidade era pretinha-pretinha, parecia pintada à tinta (debruada). Ora vai ora
vem, deu certo! O filho dele chegou no fim da tarde e trouxe a cadela e mantimentos para a
nova irmã de quatro patas e para o pai. Ravi me ligou emocionado para me contar ‒ “Eu disse
à atendente que eu estou na idade do amor e ela riu bastante, foi muito carinhosa comigo”.
187
“Quando gente é peixe palavra é anzol e isca” ‒ brinquei. Ele então se despediu, disse que
tinha que escovar a cachorra. Assisti um filme porcaria junto do Luís e, já de noite, fui
conferir as mensagens em meu celular e o grupo do condomínio contava mais de quinhentas.
Abri-o e deparei-me com um vídeo... um vídeo com esta legenda: “Eu e a nova vizinha de
vocês” ‒ aquilo era de uma beleza cheia de passado: a cadela sorrindo, um tanto
desconcertada enquanto, de rabo baixo abanando ligeiro, comia ração na mão do Seu Ravi.
Esse ocorrido me deixou azoretado ‒ um pouco aéreo e ansioso, mas uma ansiedade...
uma ansiedade boa (?). Não soube explicar ‒ minha angústia estava mais doce... vá lá
entender! E hoje sei que fora ele o gérmen essencial de minha epifania.
Na sexta-feira, encontrei-me com Dionísio pelo computador e decidi ser franco sobre
minha resolução suicida. O curioso, que eu não esperava, foi que a conversa entre nós foi
bem-humorada.
‒ Rapaz, como vai? Aprender é que nem unha e cabelo de defunto e eu tenho andado
um tanto ocioso. Você sabe...
‒ Eu vou muito bem, graças a deus. Eu é que tenho que te perguntar: e o que tem feito
com todo esse tempo?
‒ Olha com esse eu já te conto, mas nos próximos eu vou ter que orar pra deus fechar
essa boca engraçadinha sua.
‒ Olha, Dionísio, hoje é um dia especial. Primeiro porque poderemos fumar juntos
pela primeira vez e segundo porque tomei a decisão de me matar e vim ter uma conversa
franca contigo.
‒ ...
188
‒ Aí é que está: aconteceram algumas coisas comigo antes de ontem e agora estou
confuso.
‒ Antenor, antes de tudo, tem como você me fazer um resumo sobre como você está?
‒ Ainda velho, ainda doido, ainda com o cu doendo pra cagar, ainda belo...
‒ Antenor????...
‒ Luzia está para morrer, agora, além da bipolaridade, eu ainda tenho de aguentar esse
pensamento invasivo, sofro quando como, porque mal consigo cagar e se eu não como minha
depressão se acentua. Enfim, viver já me é um fardo e estou cansado de tudo isso. Olha,
rapaz, até dois dias atrás eu tinha certeza absoluta de que eu era só mais um velho moribundo
fazendo hora extra no mundo, mas aí o condomínio inteiro se reuniu para me fazer uma festa
de aniversário online e, por razões que eu não sei explicar e provavelmente incorretas, fizeram
parecer que, na verdade, eu sou muito querido.
‒ Até parece que você não me conhece. Enfim, já que tenho que rezar a missa: me
senti de maneira parecida como quando Luzia dizia que me amava várias e várias vezes sem
parar ou quando Fernanda chorava pra eu não ir para o trabalho. Dionísio, o amor me dói
como se o aceitar fosse me cobrir de um engodo sanguinolento e dispor-me nu num
descampado, em meio à savana africana. Mas não foi todo esse carinho que me baqueou.
Digo, teve um grande efeito sobre mim e causou-me até uma ansiedade estranha, senti dentro
de mim um calor esquisito e fiquei um tanto desorientado. O que quero dizer tem a ver com
isso, mas não é exatamente isso.
Contei a ele a história do Seu Ravi com a cadelinha e meu papel nela.
189
‒ Antenor, você consegue me dizer em poucas palavras o que você fez para o seu
vizinho?
‒ Antenor, essas “outras pessoas” viram o que aconteceu com o senhor Ravi na
chamada?
‒ Viram.
‒?
‒ Eu não posso falar, Antenor, não adianta se você não chegar a essa conclusão por si
próprio. Mas me diz aqui: qual é a sensação de se sentir útil, de fazer parte daquilo que
provocou a felicidade de outro ser humano?
‒ É maravilhoso, não posso negar e tenho muita dificuldade em descrever isso, mas
me emocionei que até meu rosto ficou quente e tive de me conter e equilibrar umas
lagriminhas bestas em meus olhos.
‒ Você então percebe que só você, mais ninguém, é que poderia ter feito isso pelo Seu
Ravi?
‒ Talvez.
‒ Como “talvez”?
‒ Rapaz, não me amola. Você sabe que esse “talvez” quer dizer “sim”.
‒ Bom, olha, Antenor: acho que agora já tá muito claro que essa sua decisão tem que
ser revista, não é verdade?
‒ Sim, perdão, talvez eu esteja sendo um pouco indelicado. Mas, ainda assim, e eu
tenho de aguentar o que aguento porque de vez em quando eu posso ser útil pra alguém?
190
‒ Antenor?
‒ Pois não?
‒ Então você tá me falando que esses mais de cento e dez mil mortos começaram a ser
assassinados no século XV?
‒ Então tá bom... Antenor, agora você sabe me dizer onde nasceu a ajuda que
beneficiou o Seu Ravi?
O universo parou nesse instante. Não tenho o que descrever, pois pensamento algum
tive. Até tentei falar, mas me embananei com as palavras. Ruminei o silêncio um minuto e,
logo em seguida, principiei a rir que quase não parei mais. Um sorriso encrustou-se em meu
rosto e eu disse:
‒ “Quíron?”
‒ Sua sorte é que eu não sou rico, senão te comprava para ser meu papagaio.
‒ Sim, senhor.
‒ Então vamos fazer um combinado: se decidir se matar, não importa o dia ou a hora,
entra em contato comigo. Quanto ao pagamento, proponho outro trato: o senhor só vai ter de
me pagar depois da pandemia, pode ser?
191
‒ Desse jeito você vai acabar indo pro céu, hein?! ‒ disse-lhe, com o sorriso no rosto.
Estou cansado, amanhã conversaremos mais, papel amigo. Não sinta saudades, eu
estou por inteiro em tudo que já vivemos ‒ releia-me.
24/08/2020 segunda-feira
Estou em metamorfose e o que se passa dentro e fora de mim me seria um completo mistério,
se não fosse esse novo sabor da Absoluta Incerteza. Até aqui, estrelei uma vida errante, doí-
me da pouca felicidade que senti, pois não me era lícito seu partilhar com ninguém, perdi
amigos ‒ sim, os que tive há décadas e décadas atrás ‒, não mais me sinto imortal, meu pai e
minha mãe foram para o saco ‒ não vi, recebi uma carta curta e direta da fazenda de Junio,
nada mais. A verdade é que a vida sempre nos foi um fardo ‒ e essa verdade é indubitável ‒,
mas há poucos dias me inteirei de que, embora a vida nos seja um fardo, imposta e não dada,
nada nos impede que lhes demos sentido, mesmo que estejamos por passear no Inferno.
Talvez eu esteja sendo um pouco impreciso, pois esse “nada” parece ignorar que experenciar
o real é raro e que vivemos na ilusão, no que, sem querer, inventamos. Mas aí está: nada é
mais real que nada. A nulidade da vida se alastra em suas ilusões. E, mesmo que eu as não
possa dizer reais, sei que meu sofrimento é mais real do que eu. E, portanto, mais uma vez:
dar ou não sentido ao próprio sofrimento é arbitrário ‒ odeio um pouco essa verdade: ela
esteve debaixo do meu nariz e até dentro de mim desde que nasci ‒ foram quase oito décadas
para que eu chegasse até ela.
Foi assim que descobri que não há quem passeie sozinho no Inferno e, com o Seu
Ravi, aprendi que não sou detentor do monopólio de todo o sofrimento do mundo. Sofro
agora como vivente de uma experiência individual múltipla de várias formas de sofrer, minha
dor emagrece ao se irmanar à dos outros. A morte de Fernanda me é outra: compõe-me e eu já
não renego essa ferida. Não mais confundo perdão com esquecimento e sei que aquele é
menos um ato do que uma prática. Sou guardião da memória de Luzia e de Fernanda ‒ eu que,
192
tantas vezes pobre, tive a riqueza esquecida em meus bolsos. E, malgrado ainda me doa dizer
isso: sou útil ‒ (alívio)...
O que quero dizer é que, dado a coincidência dos verbos “sofrer” e “viver”, hoje estou
seguro em afirmar que o sentido da vida pode depender de uma escolha individual, mas sei
que são poucos para os quais ela é acessível ‒ para mim não o era até semana passada! Onde
errei? ‒ pergunto-me há três dias. Acredito que o meu problema foi crer que o silêncio não
diz, para além do compasso da arte. Logo ele, que se demora em todas as línguas! Seu
desentendimento, suspeito, se dá por ele apenas dizer o óbvio. É que o desejo primeiro de
homem é errar, abrigar-se da dureza das coisas anônimas lhes dando nomes e apelidos. Aliás,
não pode ser tão fácil assim a vida de um pecador! Ora! Pois, “pelo pecado, a morte veio ao
mundo” ‒ não é o que dizem? Eis o que ouço: “a vida existe pelo pecado”. E o que concluo:
“no intento de partilhar o paraíso para com outros e fruir ao máximo daquilo que lhes era
possível, Adão e Eva tiveram filhos, em razão de o amor carecer de outros alvos. A vontade
de deus sempre foi a de que nunca tivéssemos existido, de que nunca tivéssemos acesso ao
divino, de que nunca passássemos de completos inferiores-não-pensantes e chegássemos ao
patamar de sermos sua imagem e semelhança. Zangado, fez, e faz até hoje, o papel de Diabo”
‒ não sei você, papel amigo, mas essa história me pareceu mais convincente..., mas ainda
prefiro a de Saramago.
Nesse mundo de escolhas em que ninguém nunca escolhe nada, pela primeira vez, sei
que escolhi. Pela primeira vez escolhi e sei que fui e sei que sou e sei que estou pobre de
certezas como nunca antes estive, tenho uma só. Mal não faz, a maldade seria se crer sábio ‒
um munido de sabedoria. A sabedoria, não a tenho, a sou em ato ‒ digo, eu calmo diante do
Desconhecido.
Se compreender é esquecer de amar, como diz Pessoa, não posso aceitar que amar é
puramente incompreender. É bem saber incompreender ‒ os poetas insistem em meias-
verdades, não por falha ou mal-intencionado obscurantismo: é que nunca há clareza em
palavras ‒ nem nestas.
25/08/2020 terça-feira
193
Sim, a vida é uma história contada por um idiota que não cobre os custos dos
investimentos. Como pode um velho à beira da morte, de repente, aprender a amar? ‒
ninguém acreditaria numa merda dessas, tanto porque, além de imbecil, esse idiota seria
também sádico, coisa que, pensando bem, a despeito desse ermo em devaneio, endossa a
minha teoria de que só o Diabo existe.
O que sinto? Tenho minha infância a me roer o peito outra vez e, diante do abismo de
tudo, que nada é e aqui sempre esteve, escolhi a vida e permiti-me brincar com os anos
suportáveis que ainda me restam. Não me agarro à mentira de que tudo passa, pois sei que há
machucados que ficam, mas já não me pode ser então mais claro que o que não se dói está
morto.
Liguei há pouco no Residencial. Luzia está com a respiração fraca e talvez sequer
resista a essa noite. A esperança, quem dera eu sóbrio pudesse a sentir, ela, enquanto variação
semântica da fé, diferente desta, apresenta-se sem certezas, mas se trata apenas de uma forma
mais esperta de encobrir o mesmo medo do “mal”. Esperança, presente de Pandora, não a
sinto e também dela não careço. Sinto... simplesmente sinto, o que sinto agora não tem nome.
Não sei se a dor porvir há de me desintegrar. Sou tentado a dizer que não, mas mora
em mim algo maior do que minha vontade. Posso, pelo menos, ausentar-me de mim,
encontrando-me noutro tempo, talvez? Embora nenhuma lembrança seja realmente feliz, essa
é uma das que mais se aproxima disso:
Naquele momento, até mesmo o mistério, se me ferisse, seria bem-vindo. E o
repentino despregar de meus lábios foi sucedido por um silêncio sem aparente razão. É que o
amor, entendi depois, nunca foi coisa que coubesse na boca da gente ‒ o de verdade existe no
terreno do invisível, do mais profundo calado. Ela estava linda, que até brilhava diante de
mim! Fiquei por demais sem palavras e as lágrimas se equilibravam em meus olhos receosas
do assombro de uma possível queda. Luzia deu de sorrir para minha mudez e conversamo-nos
por troca de olhares. “É emoção, seu padre. Já passa...” – disse e orquestrou-me uma
piscadela. Casamos!
Nem Jesus nem Sócrates escolheram deitar a pena ao papel – eu, contudo, tenho a
obrigação moral de o rabiscar, querido amigo. Esse é meu jeito de expressar humildade:
incorrer em erros num falatório sobre o amor, nos traços de uma aparente felicidade. Mas
“onde está a tristeza?” ‒ alguém poderia me perguntar. “Sou ela em saudade” ‒ eu
responderia.
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A felicidade só pode ser narrada em terceira pessoa, por um narrador inumano, seco e
sem coração. Quando escrevo sobre mim mesmo não estou fazendo literatura, estou sentindo,
em vida, o tão sonhado gosto da morte ‒ não que eu queira adiantar as coisas, ele sempre está
por aqui, refiro-me apenas ao jeito de o sentir.
.
.
.
Hoje o Luís conseguiu tombar a caixa de areia ‒ foi merda à milanesa pra todo lado.
Mas nada maior que a cagada de querer taxar livros ‒ li, mais cedo, no jornal. O plano
daquele crápula é assassinar a cultura deste país ‒ quer fazer uma nação esquecer que pode
agir, e o pior é que está conseguido. A história do Brasil certamente foi escrita pelo Diabo...
Limpei a caixa de areia, troquei toda a areia e tentei fazer uma malandragem com uma
fita adesiva embaixo da caixa ‒ pode não ter ficado tão bom, porém agora está mais difícil
desse pilantra a derrubar. Ai, ai... Luís, Luís, Luís... façamos as pazes com o tinhoso, antes
que Ele creia que já não gostamos mais Dele:
O Diabo me deu um amor no tempo da madureza: uma peste pulguenta de um olho só!
Luís me olha como se em volta de minha alma não houvesse ossos, não houvesse carne, não
houvesse dor. Para quem ama, as pessoas são de vidro ‒ é evidente: está mais dedicado ao
dono hoje do que nos últimos dias ‒ até peguei uma meia no cesto de roupa suja e dei a ele,
em forma de agradecimento, mas ele não a tirou do chão.
De ontem para hoje, mais de mil e duzentas pessoas morreram. E eu sinto a dor de
todas essas vidas, e mal consigo entender donde veio tamanha frieza nas vozes que escuto na
TV e no rádio ‒ será isso empenho em salvar vidas? “Não se desesperem.” Como?! Tamanha
é a tragédia que, ao que parece, o recurso de defesa está por ser reduzir as pessoas a números.
Dói-me essas vidas, que vão, as outras, que ficam, as que ainda não vieram e as que estão por
chegar ‒ ninguém sai ileso de um extermínio em massa. Ele mora na História, passeia pelas
ruas, invade todas as casas, voará pelos ares, assombrará nossos netos. O esquecimento da
barbárie é barbárie e, do que depender de mim, tão cruel genocídio não se ancorará no
passado: fica aqui no papel.
Espero que saiba o futuro que viver é estar à sombra de desesperos.
.
.
.
195
Estou ansioso, Luzia está por um fio e não estou conseguindo dormir. Vou dar uma
arrumada na casa, pois haverá visita amanhã. Meu deus! Haverá visita amanhã! E o bolo?!
Ah! Se bem que... aquelas pestes podem se entreter com um gato por uma horinha.
26/08/2020 quarta-feira
Consegui dormir umas duas horinhas e quando acordei estava esgotado. Liguei no residencial
e Luzia ainda resistia, decidi tomar um banho para me pôr mais desperto para ter uma
conversa com ela. Enfiei-me no banheiro e não sei por quanto tempo. As gotas de vapor se
condensavam e desciam pelos azulejos azuis de veios brancos ‒ feito cabeça de leite fervido ‒
e eu as acompanhava esquecido de mim, às vezes ligando gotículas menores arrastando meu
dedo entre elas, de modo que lhes democratizasse a queda, também as fazendo gotas. A água
a correr sobre minha cabeça e eu, na certeza de que seria este o último dia de Luzia: a revia e
a revisitava um tanto amargo com o mundo que aceita gente assim acabar. Meu problema ali
já não era em aceitar sua morte, é que dada a tamanha dificuldade que tive para conseguir
amar, é tremendamente frustrante que a repercussão dessa prática não possa mudar tudo, não
seja onipotente, seja falha, mas se doer disso é uma besteira, eu sabia, mas meu corpo
entendia que aquela era hora de dor ‒ foi essa que encontrei. Saí do banheiro e fui-me
calçando as roupas ‒ estava friooo demais. A campainha começou a tocar e eu adivinhei que
eram as pestes. Corri para a sala e o Luís fugiu para cima do guarda-roupas. Ao abrir da porta
vi Jussara, atipicamente embatucada, seca de expansividades, receosa de tudo, olhava-me
pressionando os lábios, numa feição de empatia que se encorpava com o marejar de seus
olhos.
Entendi.
Jussara enfim me abraçou e disse “Ela se foi". Respirei fundo e sem dor, pois aquele ar
me invadiu os pulmões como se me desse viço à vida. Tamanho me fora o alívio que
esmoreci. Ficamos ali, no silêncio um do outro, uns tantos minutos. Não chorei. Doeu-me
mais não poder me despedir de maneira adequada, não lhe poder ter dado um bonito enterro
ou visto seu belo rosto uma última vez, ainda que no caixão. Pedi a Jussara para que
entrássemos. Ofereci-lhe água e ela recusou. Sentamo-nos um em cada sofá. Fumei um
cigarro e ela também o fez. O Luís veio caminhando pela sala, um tanto cauteloso, pescoçudo,
procurando pelas crianças. Não as achando, abrigou-se em meu colo ‒ ele sabe, sei que sabe.
Nesse meio tempo, eu e Jussara nada falamos. Ergui-me, de repente e dirigi-me à cozinha.
Voltei de lá com uma batedeira e a pus sobre a mesa da sala. A cozinha estava uma bagunça e
o bolo teria de ser feito ali mesmo.
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‒ Jussara? ‒ e ela me olhou meio espantada, um tanto bicuda ‒ Você tem ovos? ‒
perguntei. E ela então me abriu um sorriso compadecido.
Fizemos o bolo, limpamos a cozinha e só depois as pestes chegaram. Liguei para o
Seu Ravi e ofereci-lhe um pedaço de bolo ‒ “Eu que fiz”. Ficou muito agradecido, mas teve
medo de encontrar tantas pessoas assim pessoalmente. Sei que ele está certo e que eu estou
errado, mas é difícil morrer a vida para a proteger. Não sei o que faria se tivesse passado o dia
de hoje sozinho.
Foi um café da manhã muito animado, as crianças não paravam de me perguntar o que
fiz com tantos presentes ‒ “Ainda nem os abri”, confessei e deixei-os abrir por mim. Foi uma
festa! Quando olho assim para eles, todos sorridentes, empolgados com a vida, empolgados
comigo! Ah... Sinto uma certa euforia atravessada pela tristeza de os saber finitos, de os saber
sofrentes, de os saber à mercê dum passado escravista, de uma rotineira crueldade política e
da cultura doentia do falso “amor”. E em meio a tanta desgraça, ver aqueles sorrisos me leva à
segura certeza de que sobreviver é um legado. No entanto, não me desgarrei de meu direito de
ser dono de minha morte. O falecimento de Luzia muda minha vida de muitas formas. As
fronteiras da Colômbia e da Suíça me estão abertas outra vez ‒ viverei minha vida sendo o
dono dela, como a todos deveria ocorrer, até o fim (que a mim pertence).
Não me entenda mal. É que defender o Suicídio é defender a Vida. Mas só quem ama
verdadeiramente a vida pode dar fim a ela. O que não ama não se mata, tolhida sua
oportunidade de amar, o sujeito é exterminado ‒ pela cultura do desamparo que faz do
suicídio um tabu e silencia os doentes, pela instrumentalização capitalista do cristianismo para
a exploração do povo que não pode ter o direito de dar fim ao seu martírio, pelo abandono do
sistema público de saúde, pela incapacidade das faculdades de formar professores capacitados
para tratarem desse assunto tão importante dentro de suas salas de aula, pela quase absoluta
ausência de acolhimento dos sobreviventes, pela não finada cultura moderna da extrema
individualidade, pela romantização criminosa do suicídio em grandes e pequenas obras ‒
Goethe que se foda! ‒, pelo sistema educacional embrutecedor, que condena o sofrimento e
criminaliza a ignorância e pelo desrespeito do direito humano à Vida, como se a Morte não
fizesse parte desta.
O Suicídio não é um mal, não pode ser um mal. A morte em desespero é que é um mal
‒ ela é sempre involuntária, sempre um extermínio. Para o Suicídio, com S maiúsculo, não há
de haver cura. Ora! Tomá-los como uma só coisa é torturar e assassinar pessoas ‒ o fazer é
encarcerar o suicida em seu desespero e impor uma morte violenta ao Suicida que não pode
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ser dono de si. É uma ironia demasiado funesta um país que se diz cristão cuidar tão
inadequadamente de seus cidadãos em estado grave de sofrimento psíquico, assim como é
cruel negar a eutanásia e impor a vida a quem, no domínio de suas razões, não quer viver
mais. Eu perdi uma filha sem aviso, alguém perderá o pai, uma mãe, um marido, um amigo,
uma esposa. Do que vale a palavra se não pode apaziguar o que me dói? Se não é ouvida?
Qual gosto tem uma vida que se conhece e já não se quer viva? Do que tanto têm medo?
Não falar sobre a morte é matar.
Sei que a inconsciência é o fundamento da vida, pois viver é não pensar e, por isso,
quando refleti pela primeira vez me espantei, vi-me, numa fração de segundo, morto, calmo e,
dado a nulidade da vida, assumi meu papel de vivo-defunto num estalo. É que deus há muito
está morto, e fora então preciso que o divino fosse legado aos homens, e assim se deu, e foram
justamente os que solaparam o fundamento da vida, num martírio, numa imolação, num
suicídio acordado, os contemplados pela Autêntica Filosofia. Se a morte não me pertencer, em
todos os sentidos possíveis, serei dado a ela e, como sou ser humano, não posso ser objeto de
posse. Se me tiram isso, a vida se torna uma tarefa de desrespeito à liberdade, torna-se
impossível a genuína felicidade. E, talvez o pior: mal posso me doar aos outros se não me
tenho por inteiro ‒ eis a extinção do amor.
Contudo, como disse antes, no estrangeiro faz morada a minha salvação. Foi por isso
que, mais tranquilo, logo agora me pus em prática. A água da jarra na cozinha estava até
amarelecida. As rosas estavam murchas ‒ uma menos que a outra ‒, coitadas, cabisbaixas,
tristonhas, escurecidas, secas, pareciam que choravam. Apanhei a mais vistosa, cruzei o
corredor e, num segundo de coragem, dei a rosa à Jussara, um beijo e, com muitos anos de
atraso, declarei-lhe meu amor. Prometi-lhe uma flor mais vistosa e ela não fez caso. Não quis
entrar na casa, pois não queria a incomodar, mas tinha uma comichão a me morder os cantos
d’alma.
‒ Jussara, você por acaso não tem por aí uma namorada para o Luís?
‒ Ai, velho broxa, esse negócio de fazer cria não é bom não.
‒ Não, digo, eu quero outro gato, pra companhia...
‒ A Alessandra do oitocentos e um tá se desfazendo de uns gatos, porque percebeu que
“passou do limite”.
Fomos andando até lá e tudo ocorreu numa boa, até o apartamento estava mais
cheiroso do que a primeira vez em que a visitei. Agora o Luís tem um novo companheirinho ‒
ele é abranquelado nas beiradas do corpo e no centro é cinza com preto; sua pelagem cinza é
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atravessada por linhas pretas que se bifurcam próximo à cabeça e, outra vez, um pouco acima
das sobrancelhas, param se abrindo, parecem duas patinhas miúdas de caranguejo; seu nariz é
marrom escuro, quase preto e seus olhos têm cor de biloca verde, são lindos! Vai chamar
“Diadorim”, que assim eu correjo o meu amigo João.
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10/09/2020 quinta-feira
O horizonte quadrado e eu com meus olhos redondos que nunca veem a terra escorrer em
curvas que-não aquelas que só imagino, arrisco-me ir à janela ‒ meu medo tem que se
amansar. Vista de cima, a cidade parece uma colagem feita com incontáveis porcelanatos.
Vista por dentro, o que antes tinha semblante de arte, falece ‒ não há fascínio: andamos de
cabrestos, como se a novidade não nos estivesse nos olhos. Sim! Até eu. Por que não eu? Ser
o tempo todo é difícil ‒ o passado não ajuda, a memória não alcança, o trauma oculta, a
depressão deslembra e o maior problema é que nos dá algo-outro em lugar do agora e assim
ele escapa. Como qualquer outro, eu só tenho o agora, um novo-incompreendido que a quase
a todo momento é sufocado pelo desgoverno de meus medos. Sou mui pouco e, antes fosse
menos, antes fosse mais, a graça de ser é uma só ‒ digo eu, que não era.
Meu problema era estar em mim e achar que essa prisão era tudo. Mas, muito embora
tal cárcere seja perpétuo, há vãos entre suas barras. “Tá, mas o que tanto fazia nessa
escuridão, se o escuro é medo?” É que a Luz que há fora cega e o diferente também era medo.
‒ Como um ser sempre assombrado deixar-se-ia se perder do medo? Logo ele, que na
noite é um mundo inteiro?
‒ Mas inteiro não se conhece. Dorme o sonho no escuro e de dia, se encara a própria
sombra, vira o rosto. Já não a sente como a eternidade.
‒ Hm... é uma pena que a pedra, a flor, o corpo, o vivo e o morto não possam se
igualar.
‒ Homem não é bicho que aceita que é também o que não sabe e também o que não
sente. É que o mistério dá medo, o invisível transtorna, e se o enigma fascina é por estar preso
a uma tela, imiscuído em parágrafos, silenciando em um som, perdido numa reflexão pueril da
infância, tudo que não seja um corpo humano a existir num mundo de pessoas.
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‒ Ironia é ele, que se vê até por dentro, não gostar de si mesmo.
‒ Não! Está muito cedo ainda para dizer coisas como essas.
‒ Por quê?
‒ Isso! Assim está melhor! Não se pode fazer Filosofia sem começar por uma
pergunta: por que o que?
‒ Encontrei um prazer fúnebre em não me doer só, maior que este é o que agora sinto
ao me saber alívio para a dor do outro. Por que viver? Do contrário perco a chance de espalhar
Luzias e Fernandas por aí, perco o direito de abrandar o sofrimento de um outro com os meus,
arranco e destruo o sentido que minha vida pode vir a ter, pois deixo de cuidar de um mundo
que será morada de inúmeras outras pessoas, pois marco o futuro com minha ausência e
minha possível presença fica esquecida e desfeita como se eu nunca sequer tivesse existido,
como se todo o sofrido por mim tivesse sido em vão. Quero espalhar Luzias e Fernandas por
aí e também eu, para que a dor de nossa existência não se repita ou, pelo menos, não se dê de
maneira tão aguda nos indivíduos porvir.
‒ A princípio, toda forma de existir é válida e sua legitimidade repousa numa nulidade
comum.
‒ Como posso me matar se sei a dor que um suicídio provoca? Ou você não viu a
festa?
‒ ...
‒ Desembucha!
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‒ A nulidade é relativa.
‒ Duvido!
‒ O que sabemos?
‒ Nada, evidentemente.
‒ ...
‒ Acalme-se...
‒?
‒ Precisei perder uma filha e ver morrer uma esposa para que todo sofrimento se
ajuntasse em minha ação de ajudar o Seu Ravi.
‒ Bem, posso dar sentido à morte de Fernanda na medida em que ela me educa para
ser um instrumento de prevenção à vida de outros.
‒ E o que é isso?
‒ Amor? Aquela sua farpa que não se pode tirar com pinça?
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‒ O próprio.
‒ E qual é o proveito de amar essa gente que vive esquecida do amor, que mais odeia
do que afaga, que mais se importa consigo do que com os outros, que vive toda uma vida sem
amar e que talvez, ou certamente, nunca irá mudar?
‒ O acontecimento do amor não pode se dar às expensas dos outros, ele é mais do que
um simples sentimento unidirecional. É uma forma de existir.
‒ E quem não?
‒ Sei...
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