Pré-Modernismo e Vanguardas na Arte
Pré-Modernismo e Vanguardas na Arte
SEGALL, Lasar. Morte. 1917.Óleo sobre tela, 92,5 x 104 cm. Coleção particular. Fotografia de Rômulo Fialdini.
PONTO DE PARTIDA
O Pré-Modernismo foi um período cultural brasileiro arcaicas da chamada República Velha (1889-1930) e
e vanguardas europeias
de transição entre as estéticas simbolista e parnasiana a se preocupar com a realidade nacional, inclusive
e o movimento modernista que se desenvolveria em voltando os olhos para os problemas regionais.
seguida. No âmbito social e histórico, é o momento
em que as ideias conservadoras, ancoradas no gosto Do ponto de vista cultural, o Pré-Modernismo foi
da classe dominante na época, convivem com os influenciado pelos movimentos vanguardistas
aspectos renovadores, propostos por aqueles que europeus do início do século XX, sob o prenúncio da
começam a esboçar críticas contra as instituições Primeira Guerra Mundial.
Acontece no Brasil
A falta de mão de obra nas lavouras de café estim ula o governo a incentivar a
•
imigração.
mo e pela política do
• A chamada República Velha é marcada pelo coronelis
de São Paulo e Minas Gerais.
“café com leite”, que alterna no poder governantes
do país; no Nordeste, a
• Explodem revoltas e conflitos em várias regiões
aço e o fanatismo religioso;
Revolução de Canudos (1896-1897), o fenômeno do cang
Revolta da Chibata (1910); em
no Rio de Janeiro, a Revolta da Vacina (1904) e a
em São Paulo, começam a
Santa Catarina, a Guerra do Contestado (1912-1916);
ocorrer as primeiras greves operárias (1917).
o maxixe e a modinha ―
• Culturalmente, ritmos musicais populares ― como
nasce o samba e as festividades
chegam às camadas mais elitizadas. No Rio de Janeiro,
carnavalescas ganham cada vez mais adeptos.
As vanguardas europeias
Futurismo ― Surgiu em 1909, com o manisfesto futurista do poeta Filippo Tommaso Marinetti.
Pregava o rompimento com o passado, propondo uma nova forma de arte, capaz de expressar
a velocidade do progresso e das máquinas. Na literatura, tinha como princípio desconstruir a
sintaxe gramatical: abolia o adjetivo e o advérbio. Para os verbos, admitia apenas o infinitivo,
“capaz de se adaptar elasticamente ao substantivo e dar o sentido de continuidade e da
intuição que nele se percebe”.
PICASSO, Pablo. Les demoiselles d’Avignon (1907). Nova York: Museu de Arte
Moderna.
Dadaísmo ― Surgiu em 1916, com o chamado primeiro Manifesto Dadá, de Tristan Tzara. Os
dadaístas pregavam a arte da demolição, da anarquia dos valores e formas, da total liberdade
de criação. Valorizando a linguagem simples, eram antigramaticais e tinham como objetivo
chocar, causar surpresa. Ao todo, os dadaístas propuseram sete manifestos.
Pegue a tesoura.
Escolha no jornal um artigo do tamanho que você deseja dar a seu poema.
Recorte em seguida com atenção algumas palavras que formam esse artigo e
[meta-as num saco.
Agite suavemente.
TZARA, Tristan. Manifesto sobre o Amor Fraco e o Amor Amargo. In: TELES, Gilberto Mendonça. Vanguardas europeias e o Moder-
nismo brasileiro. Petrópolis: Vozes, 1986.
1. Qual gênero textual é usado por Tristan Tzara nesse texto? De que forma essa escolha é, ao mesmo tempo,
favorável e contrário ao “fazer poético” dos parnasianos?
2. Por que, apesar do aparente objetivismo presente nessa “receita para fazer um poema”, pode-se afirmar que os
dadaístas são a favor da subjetividade?
3. De acordo com o texto, os dadaístas se preocupavam com a opinião pública? Por quê?
4. Experimente a receita proposta por Tristan Tzara e registre a seguir sua experiência. O resultado se parece com
você? Por quê?
Reprodução
ASPECTOS FORMAIS
ASPECTOS TEMÁTICOS
Graça Aranha
A preocupação com a realidade nacional levou Em Canaã, é vísivel a convivência das correntes
os pré-modernistas a versar sobre temáticas estéticas e filosóficas do século XIX, como o Realismo
socioculturais da época, seja discutindo conflitos, — que transparece na prosa documental —, o
seja explorando as diversas regiões do país. Da mesma Simbolismo — marcado pela preocupação metafísica
forma, o desenvolvimento urbano e as inovações — e o Naturalismo, que se nota na violência e no
modernizadoras também serviam de assunto para os horror de algumas cenas.
pré-modernistas, que ainda se dedicaram ao tom de
sátira e denúncia política.
PRINCIPAIS OBRAS
O PRÉ-MODERNISMO NO BRASIL Canaã (1902)
Malazarte (1911)
Na prosa, destacaram-se Graça Aranha, Euclides
A estética da vida (1921)
da Cunha, Lima Barreto e Monteiro Lobato. Na
poesia, até então bastante acadêmica, de caráter
O espírito moderno (1925)
estritamente parnasiano, destaca-se a figura de
Augusto dos Anjos — cuja miscelânea estética — Futurismo, manifesto de Marinetti e seus companheiros
parnasiana, simbolista e naturalista — resulta numa (1926)
poesia de “estranhamento”, feita de rigor formal,
musicalidade dissonante, vocabulário científico, por A viagem maravilhosa (1929)
vezes grotesco, que já incorpora alguns aspectos
vanguardistas, como imagens insólitas e absurdas. O meu próprio romance (1931)
abrevia-lhe o olhar; agride-o e estonteia-o; raios do Sol do que aos troncos seculares —
enlaça-o na trama espinescente e não o atrai; ali, de todo oposta, é mais obscura, é mais
repulsa-o com as folhas urticantes, com o original, é mais comovedora. O Sol é o inimigo
espinho, com os gravetos estalados em lanças; que é forçoso evitar, iludir ou combater. E
e vanguardas europeias
GLOSSÁRIO
Epinescente ― que tem forma de espinho.
Urticantes ― que queimam como urtiga.
Eufórbias ― família de angiospermas com muitas espécies, algumas cultivadas para fins ornamentais ou
medicinais.
Agros ― ásperos, rigorosos,
Bracejar ― movimento de mover os braços.
Flexuosos ― tortuosos.
Candentes ― que ardem em brasa.
8
Capítulo III
e vanguardas europeias
O sertanejo
Reprodução
O sertanejo é, antes de tudo, um forte. Não tem o
raquitismo exaustivo dos mestiços neurastênicos
do litoral.
Avança celeremente, num bambolear característico, de que parecem ser o traço geométrico
os meandros das trilhas sertanejas. E se na marcha estaca pelo motivo mais vulgar, para
enrolar um cigarro, bater o isqueiro, ou travar ligeira conversa com um amigo, cai logo — cai
é o termo — de cócoras, atravessando largo tempo numa posição de equilíbrio instável, em
que todo o seu corpo fica suspenso pelos dedos grandes dos pés, sentado sobre os calcanhares,
com uma simplicidade a um tempo ridícula e adorável.
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GLOSSÁRIO
Neurastênico – no texto, disposição irritadiça, pessimista.
Desempeno – qualidade de desempenado, aprumado.
Fealdade – qualidade do que é feio.
Hércules – semideus latino, que encarna a força, a coragem e valentia.
Quasímodo – personagem da obra O Corcunda de Notre-Dame, de Victor Hugo. É sinônimo de monstruoso,
disforme.
1. Embora o autor afirme logo no primeiro parágrafo que o sertanejo é um forte, o texto é dividido em duas partes
que se antagonizam ao descrever o sertanejo. Qual é o marco que divide essas duas partes?
2. Por que as “fraquezas” expostas sobre o sertanejo contribuem para reforçar a tese do texto? De que forma isso
acontece? Dê exemplos retirados do texto.
3. Que relação existe, segundo o texto, entre a aparência do sertanejo e sua verdadeira essência? De que forma
a segunda se sobrepõe à primeira?
4. Retome a imagem de abertura da página 1. Que relação é possível estabelecer entre a figura do sertanejo
descrita por Euclides da Cunha e a imagem pintada por Lasar Segall? Retire exemplos do texto.
5. Com base em seus conhecimentos e no glossário lido, por que Euclides da Cunha caracteriza o sertanejo como
Hércules-Quasímodo?
6. Com base no que você aprendeu sobre as vanguardas europeias, qual delas deve ter influenciado Lasar Segall
nessa tela? De que modo essa estética se relaciona à figura do sertanejo descrita por Euclides da Cunha?
A pátria que quisera ter era um mito; era um BARRETO, Lima. Triste fim de Policarpo Quaresma. Disponível
em: [Link]. Acesso em: 20 jun. 2009.
fantasma criado por ele no silêncio do seu
gabinete. Nem a física, nem a moral, nem a
intelectual, nem a política que julgava existir,
havia. A que existia de fato, era a do Tenente
Antonino, a do doutor Campos, a do homem
do Itamarati.
Por dentro do texto
E, bem pensado, mesmo na sua pureza, o que
vinha a ser a Pátria? Não teria levado toda a sua Nesse trecho, ao final do livro, há um balanço
do personagem Policarpo Quaresma, que
vida norteado por uma ilusão, por uma ideia a
percebe quanto foi tolo e ingênuo. Quaresma
menos, sem base, sem apoio, por um Deus ou revê a noção de pátria e toma consciência
uma Deusa cujo império se esvaía? Não sabia de que a pátria que um dia ele quisera não
que essa ideia nascera da amplificação da passava de um fantasma; a única pátria de
crendice dos povos greco-romanos de que os fato a existir era aquela dos poderosos, dos
ancestrais mortos continuariam a viver como governantes. Repare ainda no tom de sátira
sombras e era preciso alimentá-las para que (“...ia para a cova, sem deixar traço seu [...]
eles não perseguissem os descendentes? [...] e sem sequer uma asneira!”) que conclui
o balanço acerca do patriotismo cego de
Reviu a história; viu as mutilações, os Quaresma, que nada tinha lhe dado em
acréscimos em todos os países históricos e troca, apenas um triste fim.
perguntou de si para si: como um homem que
vivesse quatro séculos sendo francês, inglês,
italiano, alemão, podia sentir a Pátria?
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da seguinte maneira. Como o carrinho tem Às janelas acode gente. Crianças repimpadas
Artigo e Numeral
Gramática do Ensino Médio
pouco serviço e passa a mor parte do tempo no peitoril gritam para dentro:
a cochilar no depósito, a ferrugem, insidiosa
inimiga da inação, sub-repticiamente vem — Mamãe, o carrinho “evem” vindo!
pintar de vermelho o eixo das rodas, de modo
e vanguardas europeias
que, mal sai à rua o veículo, o pobrezinho do Muita moça nervosa deixa a costura e tapa os
eixo grita como um gotoso, geme, range, ringe ouvidos:
— perturbando lamentavelmente o Silêncio do
Oblivion. — Que inferneira! Não se pode com essa
barulhada!
Quando Isaac Fac-Tofum — um mulato retaco,
grosso e curto como certas taturanas — recebe Não obstante o terrível veículo passa,
ordem para ir a tal parte atacar um olheiro
indiferente à admiração como à censura,
de saúvas, o rolete d’homem mete as garrafas
de formicida, a enxada e o fósforo dentro garboso, todo de ferro e ferrugem, nhem-
do carrinho e, imagem da Compenetração, nhim, nhem-nhim, empurrado pela dignidade
símbolo da Convicção Inabalável, parte nhem- infinita de Isaac-Toco-de-Vela.
nhim, nhem-nhim, através das vias principais
da cidade, em busca do mal-aventurado Enquanto o carrinho da Câmara não torna ao
olheiro. depósito municipal, o Silêncio não reentra na
posse dos seus domínios.
De sobrecenho carregado, Isaac leva o olhar
atentamente fito à frente ─ para “evitar
algum desatre”. Nas ruas desertas apenas um LOBATO, Monteiro. Cidades mortas. São Paulo: Brasiliense, 1984.
ou outro cachorrinho se estira ao sol. Isaac
a vinte passos, divisando o vulto de um um,
para, ergue a mão em viseira, firma os olhos.
Por dentro do texto
— Diabo! À mó que é Joli do Pedro Surdo? E
com uma pedra o espanta: “Sai porquera! Repare na caracterização dos personagens
Não ouve o carro? Não tem medo de morrê Zé Burro e Isaac Fac-Totum, no uso da
masgaiado?” onomatopeia (nhem-nhim) e no falar regional
(“Sai porquera! [...] Não tem medo de morrê
E, convencido de que salvou a vida a um masgaiado?” “Evem”). Percebe-se nesses
cristão,Isaac-Garrafa-de-Licor-de-Cacau três aspectos ecos modernistas, que fogem
retoma os varais e lá segue por Oblivion afora, à linguagem acadêmica da época e inova ao
nhem-nhim, nhem-nhim, com solenidade de retratar a vida em lugares distantes da capital,
dalai lama do Tibé. longe do rádio, do cinema, ou do automóvel.
GLOSSÁRIO
Sediciosos ― insurgentes, revoltosos.
Capina ― a retirada da grama.
Borbota ― que aparece em grande quantidade, em profusão.
Insidiosa ― traiçoeira, enganosa.
Sub-repticiamente ― de forma ilícita, fraudulenta.
Gotoso ― relativo a gota.
Ringe ― que produz ruído.
Repimpadas ― bem acomodadas, refesteladas.
Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênese da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Augusto dos Anjos
Come e à vida em geral declara gerra, Augusto dos Anjos deu preferência
ao soneto, formato marcadamente
parnasiano. Observe, porém, o vocabulário
científico, por vezes fúnebre (“amoníaco”,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los, “hipocondríaco”,“cardíaco”,“carnificina”),
que permeia o texto. Repare na metáfora
E há de deixar-me apenas os cabelos, acerca do verme (“operário das ruínas”) e
na comparação que o eu lírico faz entre sua
Na frialdade inorgânica da terra! ânsia e a de um cardíaco. Juntas, culminam
na espera pelo verme que lhe roerá os olhos
e deixará apenas os cabelos, exprimindo o
asco do eu lírico diante da existência — já
ANJOS, Augusto dos. “Psicologia de um vencido”. Eu. Disponível malfadada pelos signos do zodíaco.
em: [Link]. Acesso em: 19 jun. 2009.
GLOSSÁRIO
Rutilância – qualidade do que é rutilante, esplendoroso, brilhante, cintilante.
Amoníaco – gás incolor de odor característico resultante da síntese orgânica, usado na fabricação de fertilizantes.
Frialdade – qualidade do que apresenta baixa temperatura.
Hipocondríaco – que sofre de hipocondria, distúrbio compulsivo que leva o paciente a se preocupar demasiadamente
com seu estado de saúde.
15
EXERCITANDO
Artigo e Numeral
Gramática do Ensino Médio
1. Em 1893, o pintor norueguês Edvard Munch (1863-1944) pintou a tela reproduzida a seguir. Observe-a com atenção
e, depois, faça o que se pede.
e vanguardas europeias
a) Com base no que você aprendeu sobre as vanguardas europeias do ínicio do século, a qual delas pertence a
obra acima? Justifique sua resposta.
b) Retome o contexto histórico e cultural do início do século XX e faça uma associação livre entre esse contexto
e a tela.
16
a) ( ) O Pré-Modernismo foi uma escola literária que teve como objetivo unificar as características das diversas
escolas que a antecederam.
b) ( ) Os pré-modernistas eram extremamente nacionalistas e buscavam recuperar os valores românticos.
c) ( ) O Pré-Modernismo foi um período literário brasileiro em que conviveram diversas estéticas, entre elas o
Naturalismo, o Simbolismo e o Realismo.
d) ( ) Lima Barreto e Euclides da Cunha são autores pré-modernos.
e) ( ) Quanto à forma, o estilo pré-modernista inovou completamente na linguagem, abandonando qualquer res-
quício da estética parnasiana, por exemplo.
17
Aproxima-se a seca.
Entretanto não foge logo, abandonando a terra a pouco e pouco invadida pelo limbo candente
que irradia do Ceará.
Mas o nosso sertanejo faz exceção à regra. A seca não o apavora. É um complemento à sua
vida tormentosa, emoldurando-a em cenários tremendos. Enfrenta-a, estoico. Apesar das
dolorosas tradições que conhece através de um sem número de terríveis episódios, alimenta
a todo o transe esperanças de uma resistência impossível.
[...]
Procura em seguida desvendar o futuro. Volve o olhar para as alturas; atenta longamente nos
quadrantes; e perquire os traços mais fugitivos das paisagens.
imagem pendente
18
[...]
Como lhe parecia ilógico com ele mesmo estar ali metido naquele estreito calabouço? Pois
ele, o Quaresma plácido, o Quaresma de tão profundos pensamentos patrióticos, merecia
aquele triste fim? De que maneira sorrateira o Destino o arrastara até ali, sem que ele
pudesse pressentir o seu extravagante propósito, tão aparentemente sem relação com o resto
da sua vida? Teria sido ele com os seus atos passados, com as suas ações encadeadas no tempo,
que fizera com que aquele velho deus docilmente o trouxesse até à execução de tal desígnio?
Ou teriam sido os fatos externos, que venceram a ele, Quaresma, e fizeram-no escravo da
sentença da onipotente divindade? Ele não sabia, e, quando teimava em pensar, as duas coisas
se baralhavam, se emaranhavam e a conclusão certa e exata lhe fugia.
Não estava ali há muitas horas. Fora preso pela manhã, logo ao erguer-se da cama; e, pelo
cálculo aproximado do tempo, pois estava sem relógio e mesmo se o tivesse não poderia
consultá-lo à fraca luz da masmorra, imaginava podiam ser onze horas.
Por que estava preso? Ao certo não sabia; o oficial que o conduzira, nada lhe quisera dizer;
e, desde que saíra da ilha das Enxadas para a das Cobras, não trocara palavra com ninguém,
não vira nenhum conhecido no caminho, nem o próprio Ricardo que lhe podia, com um olhar,
com um gesto, trazer sossego às suas dúvidas. Entretanto, ele atribuía a prisão à carta que
escrevera ao presidente, protestando contra a cena que presenciara na véspera.
Não se pudera conter. Aquela leva de desgraçados a sair assim, a desoras, escolhidos a esmo,
para uma carniçaria distante, falara fundo a todos os seus sentimentos; pusera diante dos
seus olhos todos os seus princípios morais; desafiara a sua coragem moral e a sua solidariedade
humana; e ele escrevera a carta com veemência, com paixão, indignado. Nada omitiu do seu
pensamento; falou claro, franca e nitidamente.
19
Devia ser por isso que ele estava ali naquela masmorra, engaiolado, trancafiado, isolado
Artigo e Numeral
Gramática do Ensino Médio
dos seus semelhantes como uma fera, como um criminoso, sepultado na treva, sofrendo
umidade, misturado com os seus detritos, quase sem comer... Como acabarei? Como acabarei?
E a pergunta lhe vinha, no meio da revoada de pensamentos que aquela angústia provocava
e vanguardas europeias
pensar. Não havia base para qualquer hipótese. Era de conduta tão irregular e incerta o
Governo que tudo ele podia esperar: a liberdade ou a morte, mais esta que aquela.
O tempo estava de morte, de carnificina; todos tinham sede de matar, para afirmar mais a
vitória e senti-la bem na consciência coisa sua, própria, e altamente honrosa.
BARRETO, Lima. Triste fim do Policarpo Quaresma. Disponível em: [Link]. Acesso em: 20 jun.2009.
b) Na sua opinião e de acordo com esse trecho, apesar do “triste fim de Quaresma”, ele parece ter mudado de
ideia quanto aos seus princípios? Explique.
20
a) Jeca Tatu é um de seus personagens mais populares e denuncia, com irreverência, o abandono da autoridades
em relação aos trabalhadores rurais.
b) A linguagem regional é uma das marcas de sua obra.
c) Nas obras infantis, Lobato não se preocupou em adotar um tom didático ou moralizante, concentrando-se ape-
nas no fantástico.
d) Nos livros de contos Urupês e Cidades mortas, lançou mão do tom de anedotas, com finais quase sempre depri-
mentes ou trágicos.
e) A paisagem do Vale do Paraíba, já bastante tomado pela cultura cafeeira, serve de cenário para muitas de suas
histórias.
PARA IR ALÉM
Sobradinho
O homem chega e já desfaz a natureza
Tira a gente põe represa, diz que tudo vai mudar
O São Francisco lá pra cima da Bahia
Diz que dia menos dia vai subir bem devagar
E passo a passo vai cumprindo a profecia
Do beato que dizia que o sertão ia alagar
O sertão vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
O mar também vire sertão
Vai virar mar
Dá no coração
O medo que algum dia
21
1. Mais de setenta anos depois da Revolução de Canudos, cinco cidades da região tiveram de ser inundadas para
a construção da Usina Hidrelétrica de Sobradinho. Que relação esse fato guarda com as profecias de Antônio
Conselheiro? Em que versos isso aparece no texto?
2. Que semelhança existe entre a música de Sá e Guarabira e Os sertões, de Euclides da Cunha, no que diz respeito
à ação do homem sobre o meio ambiente?
3. A música também fala do “medo de que um dia o mar também vire sertão”. Como base em seus conhecimentos
gerais sobre o uso sustentável da água no planeta, esse medo teria algum fundamento? Por quê?
AMPLIANDO O
CONHECIMENTO
1. (PUC-RS) A viagem de Euclides da Cunha à região de Canudos, onde ocorre a revolta dos seguidores de Antonio
Conselheiro,
a) ratifica sua posição em relação aos fanáticos rebeldes, expressa em seu artigo “A Nossa Vendeia”.
c) demove-o da concepção determinista vigente na época, que concebe o homem como um cruzamento de con-
dicionamentos.
d) retifica a opinião vigente, passando a considerar a revolta como resultante do atraso da nação.
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É a mais curta e a mais acidentada. Ilude a princípio, perlongando o vale de Cariacá, numa
cinta de terrenos férteis sombreados de cerradões que prefiguram verdadeiras matas.
[...]
Tinha meio caminho andado. As estradas pioravam crivadas de veredas, serpeando em morros,
alçando-se em rampas, caindo em grotões, desabrigadas, sem sombras...
[...]
3. (PUC-RS) Todas as afirmativas que seguem estão associadas ao trecho selecionado de Os sertões, em que os homens
se dirigem para o local do embate, EXCETO
a) Atenção e rapidez são necessárias numa trajetória que leva os viajantes a uma experiência belicosa.
b) A presença do inimigo é percebida pelo rastros de sua passagem ainda recente.
c) Os obstáculos que se apresentam prenunciam os trágicos eventos que ocorrerão.
d) Pelo assunto do trecho, é possível inferir que se trata de um episódio constante na segunda parte da obra.
e) A estrada referida perturba a avaliação inicial do viajante dada a riqueza natural da área.
23
E que tinha ele feito de sua vida? Nada. Levara toda ela atrás da miragem de estudar a pátria,
e vanguardas europeias
por amá-la e querê-la muito, no intuito de contribuir para a sua felicidade e prosperidade.
Gastara a sua mocidade nisso, a sua virilidade também; e, agora que estava na velhice, como
ela o recompensava, como ela o premiava, como ela o condecorava? Matando-o.
E o que não deixara de ver, de gozar, de fruir, na sua vida? Tudo. Não brincara, não pandegara,
não amara — todo esse lado da existência que parece fugir um pouco à sua tristeza necessária,
ele não vira, ele não provara, ele não experimentara.
Desde dezoito anos que o tal patriotismo lhe absorvia e por ele fizera a tolice de estudar
inutilidades.
Pois que fossem... Em que lhe contribuiria para a felicidade saber o nome dos heróis do
Brasil? Em nada...O importante é que ele tivesse sido feliz. Foi?
Não. Lembrou-se das suas coisas de tupi, do folklore, das suas tentativas agrícolas... Restava
disso tudo em sua alma uma satisfação? Nenhuma! Nenhuma!
Instrução: Para responder à questão 4, analise as afirmativas que seguem, sobre o personagem do texto em
questão.
a) a I e a II, apenas.
b) a I e a III, apenas.
c) a II e a IV, apenas.
e) a I, a II, a III e a IV
A questão de número 7 toma por base uma passagem do romance Canaã, do escritor pré-modernista Graça Aranha (1868-
1931), e um trecho do romance Mad Maria, do ficcionista contemporâneo Márcio Souza (1946).
Pré- Simbolismo
Canaã
— Mora aqui há muito tempo? ─ perguntou Milkau.
— Fui nascido e criado nessas bandas, sinhô moço... Ali
perto do Mangaraí. — E tateando o espaço, estendia a
mão para o outro lado do rio: — Não vê um casarão lá
no fundo? Foi ali que me fiz homem, na fazenda do
capitão Matos, defunto meu sinhô, que Deus haja!
E a conversa foi continuando por uma série de perguntas
de Milkau sobre a vida passada daquela região, às quais
o velho respondia gostoso, por ter ocasião de relembrar
os tempos de outrora, sentindo-se incapaz, como todos
os humildes e primitivos, de tomar a iniciativa dos
assuntos. Ele contou por frases gaguejadas a sua triste
vida, toda ela um pobre drama sem movimento, sem
lances, sem variedade, mas de quão intensa e profunda
agonia! Contou a velha casa cheia de escravos, as
festas simples, os trabalhos e os castigos... E na tosca
linguagem balbuciava com a figura em êxtase a sua
turva recordação.
— Ah, tudo isso, meu sinhô moço, acabou... Cadê Courtney Francis / Anderson Araujo / Fernando André Silva_Stock.xchng
fazenda?
Defunto meu sinhô morreu, filho dele foi vivendo até que governo tirou os escravos. Tudo debandou.
Patrão se mudou com a família para Vitória, onde tem seu emprego; meus parceiros furaram esse
mato grande e cada um levantou casa aqui e acolá, onde bem quiseram. Eu com minha gente vim
para cá, para essas terras de seu coronel. Tempo hoje anda triste. Governo acabou com as fazendas,
e nos pôs todos no olho do mundo, a caçar de comer, a comprar de vestir, a trabalhar como boi para
viver. Ah! tempo bom de fazenda! A gente trabalhava junto, quem apanhava café apanhava, quem
debulhava milho debulhava, tudo de parceria, bandão de gente, mulatas, cafuzas...
Que importava feitor?... Nunca ninguém morreu de pancada.
Comida sempre havia, e quando era sábado, véspera de domingo, ah! meu sinhô, tambor velho
roncava até de madrugada...
E assim o antigo escravo ia misturando no tempero travoso da saudade a lembrança dos prazeres
de ontem, da sua vida congregada, amparada na domesticidade da fazenda, com o desespero do
isolamento de agora, com a melancolia de um mundo desmoronado.
(Graça Aranha, Canaã. 1902. 1 ed.)
25
estão suficientemente adaptados para enfrentar terreno tão adverso. Collier gostaria de estar
longe de tudo aquilo, não precisava mais se expor daquela maneira. Ele sabia que poderia
adoecer, e quem caísse doente no Abunã estaria condenado. As condições de trabalho não
eram o forte daquele projeto maluco.
Collier pode ver um grupo de nove barbadianos carregando um trilho. O dia começa agora a
clarear e logo o sol estará forte e o céu sem nuvens.
Os barbadianos já estão bastante suados, as peles negras brilham e eles vão chapinhando na
água que lhes atinge os joelhos. Collier tem ali sob as suas ordens cento e cinquenta homens.
O objetivo é atravessar os pantanais do Rio Abunã com uma ferrovia, o que não parece difícil.
Os barbadianos estão carregando o trilho na direção do sítio onde outros trabalhadores estão
abrindo valas com picaretas e pás.
Quando ele passa a mão sobre a pele do braço, é como se experimentasse a pele grossa de
algum sáurio. Os braços do engenheiro Collier foram cruelmente mordidos pelos mosquitos.
Tudo porque esqueceu de vestir uma camisa de mangas compridas. Ele tinha sido obrigado a
entrar vinte metros na mata virgem e foi imediatamente sugado e ferrado pelos insetos.
Seu cotovelo direito virou uma maçã mole e sangrenta, o seu cotovelo esquerdo virou uma
cereja madura.
[...]
Collier está com sede e tem uma ponta de dor de cabeça, seu maior temor é de ficar doente
no Abunã, mas ninguém sabe que ele tem medo, é um homem seco, fechado, quase sempre
ríspido. Dentre as suas atribuições, ele chefia os cento e cinquenta trabalhadores, quarenta
alemães turbulentos, vinte espanhóis cretinos, quarenta barbadianos idiotas, trinta chineses
imbecis, além de portugueses, italianos e outras nacionalidades exóticas, mais alguns poucos
brasileiros, todos estúpidos.
7. (Unesp) O preconceito, como grande obstáculo à interação humana, tem sido amplamente questionado nos últimos
tempos.
26
a) identifique, em Mad Maria, o modo preconceituoso com que o enunciador se refere à nacionalidade dos traba-
lhadores envolvidos na construção da ferrovia.
b) o Pré-Modernismo consolidou o projeto literário que tinha como objetivos o culto à forma e a preocupação
social.
c) o Quinhentismo se caracterizou, principalmente, pelos relatos de viagem, descrições de imagens da terra bra-
sileira e dos habitantes nativos que marcaram para sempre a identidade brasileira.
d) o Realismo e o Naturalismo receberam influência de um contexto histórico e social evidenciado pelo avanço
científico e pela Revolução Industrial.
e) a produção literária contemporânea é marcada pela intertextualidade, pela narrativa fragmentada, além de
apresentar o conto como foco da prosa de ficção.
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“Ei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender
entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d`esguicho, é
sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.
e vanguardas europeias
— “Não vê que...
De pé ou sentado as ideias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com
coisa.”
(Monteiro Lobato, Urupês)
“Jeca Total
jeca total deve ser jeca tatu
presente, passado, representante da gente no senado
em plena sessão, defendendo um projeto que eleva
o teto salarial do sertão.
jeca total deve ser jeca tatu
doente curado, representante da gente na sala
defronte da televisão, assistindo Gabriela viver tantas cores
dores da emancipação.”
(Gilberto Gil)
a) Desmitificando o retrato do herói brasileiro, Monteiro Lobato cria uma personagem inepta às circunstâncias
do homem civilizado, ao passo que Gilberto Gil prega um jeca integrado à sociedade e digno representante do
homem brasileiro.
b) A primeira estrofe dos versos de Gilberto Gil se opõe às ideias de Monteiro Lobato, para quem o caboclo do
interior do Brasil era incapaz de expressar suas ideias e de falar fluentemente.
c) Os versos de Gilberto Gil fazem referência a Jeca Tatu, personagem criada por Monteiro Lobato para represen-
tar o homem atrasado do interior do Brasil. Ideologicamente, o Jeca Total de Gilberto Gil é o mesmo Jeca Tatu
de Monteiro Lobato.
d) Os versos de Gilberto Gil, posteriores ao texto de Monteiro Lobato, revelam as mesmas preocupações do es-
critor paulista, isto é, ocupam-se da realidade nacional, da sondagem do homem brasileiro. Posteriormente a
Urupês, Lobato desenvolve a teoria do Jeca “doente curado”.
a) A vida literária brasileira do início do século XX não apresentava sinais de renovação, a não ser por um grupo
de escritores cujo ponto em comum era o interesse pela análise da realidade brasileira. Esse aspecto temático
antecipa uma das tendências do Modernismo. Quanto à linguagem, nenhum deles rompeu com o estilo clássico
da época.
b) Lima Barreto e Monteiro Lobato aproximam-se por expressarem uma visão crítica dos problemas socioculturais
brasileiros. Lima Barreto contempla a cidade, ao passo que Monteiro Lobato volta-se para o campo. Por criarem
uma literatura que investigasse mais profundamente o Brasil, esses autores são considerados pré-modernos.
c) A obra de Monteiro Lobato caracteriza-se por mostrar o estado de abatimento físico e a miséria cultural do
camponês brasileiro. Esses traços podem ser verificados nos contos “Urupês” e “Negrinha”. Em “Urupês”, Mon-
teiro Lobato cria a personagem Jeca Tatu. Pelo tom irreverente e caricatural, essa personagem torna-se um
emblema deformado do sertanejo brasileiro.
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“[...]
Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco,
anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como
incapaz, moralmente, de amar Ceci.
Por felicidade nossa — e de D. Antônio de Mariz — não os viu Alencar; sonhou-os qual Rousseau.
Do contrário lá teríamos o filho de Araré a moquear a linda menina num bom braseiro de
pau—brasil, em vez de acompanhá-la em adoração pelas selvas, como o Ariel benfazejo do
Paquequer.”
(Monteiro Lobato, Urupês)
a) Nesses parágrafos introdutórios de “Urupês”, Monteiro Lobato faz uma crítica ao herói nacional criado pelo Roman-
tismo ainda vivo na memória literária brasileira do início do século XX. Para Lobato, o verdadeiro homem represen-
tante do Brasil é o Jeca Tatu, figura real e desinteressante que se contrapõe ao herói idealizado.
b) No primeiro parágrafo, o autor exalta a figura do “bom selvagem” criada por Rousseau e largamente cultuada pelos
escritores românticos. Lobato lamenta a morte de heróis como Peri, bruto convertido em cavalheiro português.
c) No segundo parágrafo, o autor afirma que o novo “herói” brasileiro é fruto da “cruel etnologia dos sertanistas mo-
dernos”. Isto significa que Lobato não compactua com os estudos antropológicos, pois esses estudos estão em busca
de verdades e as verdades são cruéis e não fazem bem à literatura.
d) No último parágrafo, Lobato sugere um ritual antropofágico entre o índio e o português (Peri e Ceci), caso Alencar
não tivesse feito de nosso índio truculento um bom selvagem. Mas o ritual não aconteceu, “por felicidade nossa − e
de D. Antônio de Mariz”. Nessa afirmação, temos um Lobato pacifista.
12. (UFU) Considerando a leitura da narrativa Negrinha, de Monteiro Lobato, leia o fragmento seguinte e assinale a
alternativa INCORRETA.
Negrinha olhou para os lados, ressabiada, com o coração aos pinotes. Que ventura, santo
Deus! Seria possível? Depois, pegou a boneca. E, muito sem jeito, como quem pega o Senhor
Menino, sorria para ela e para as meninas, com assustados relanços de olhos para a porta.
a) Quando uma criada furta um pedaço de carne do prato de Negrinha, ela reage xingando a criada com os mes-
mos nomes com os quais a xingavam todos os dias, sendo severamente punida por D. Inácia.
b) Negrinha, após ficar órfã, foi criada por D. Inácia que lhe tratava sem carinho, atribuindo-lhe diversos apelidos
como: barata descascada, bruxa, pestinha, trapo. Além desses apelidos, Negrinha tinha ainda o corpo tatuado
de sinais, cicatrizes e vergões.
c) Negrinha viu uma boneca pela primeira vez em sua vida, quando duas sobrinhas de D. Inácia, por ocasião de
festejos natalinos, presentearam-na com uma.
d) Negrinha na condição de bicho-gente e, após ter o conhecimento de uma “boneca”, toma consciência do mun-
do e da alegria de viver. No entanto, ela não tem a oportunidade de desfrutar dessa alegria.
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baixa e com vocação para a vida fácil, que atinge o sucesso por meio de embustes e sorte. Valendo-se de Castro,
Lima Barreto promove um desnudamento da intelectualidade brasileira, com muito riso e ironia.
a) Castro atende ao anúncio “Precisa-se de um professor de língua javanesa”, porque seu pai era javanês, tendo
e vanguardas europeias
chegado ao Brasil como tripulante de um navio mercante e por aqui se estabelecendo e constituindo família.
É com o pai que Castro aprende javanês.
b) Castro aprende a soletrar e a escrever o “a b c” malaio, mais vinte palavras e duas ou três regras de gramática.
Não faz mais progressos porque está bem jantado e bem dormido e por empenhar-se mais “na bibliografia e
história literária do idioma que ia ensinar”.
c) Castro escreve um artigo sobre a língua javanesa à base de citações. Seu prestígio de erudito cresce: é convi-
dado a representar o Brasil num “Congresso de Linguística”, mas o presidente o inscreve numa seção de tupi-
guarani, por ser Castro um “americano-brasileiro”.
d) A polícia prende um marujo que falava “uma língua esquisita”. Ninguém o entende. Castro é chamado à delega-
cia como intérprete, mas demora-se em ir. Chegando lá, o marujo, que era javanês, já se encontrava solto.
Leia o fragmento abaixo, que servirá de referência para responder às questões 14, 15 e 16.
“As obras que a República manda editar para a propaganda de suas riquezas e excelências,
logo que são impressas completamente, distribuem-se a 3 mancheias por quem as queira.
Todos as aceitam e logo passam adiante, por meio de venda. Não julgue o meu correspondente
que os “sebos” as aceitem.
São tão mofinas, tão escandalosamente mentirosas, tão infladas de um otimismo de encomenda
que ninguém as compra, por sabê-las falsas e destituídas de toda e qualquer honestidade
informativa, de forma a não oferecer nenhum lucro aos revendedores de livros, por falta de
compradores. Onde o meu leitor poderá encontrá-las, se quer ter informações mais ou menos
transbordantes de entusiasmo pago, é nas lojas de merceeiros nos açougues, nas quitandas,
assim mesmo em fragmentos, pois todos as pedem nas repartições públicas para vendê-las a
peso aos retalhistas de carne verde, aos vendeiros e aos vendedores de couves.
Contudo, a fim de que o meu delicado missivista não fique fazendo mau juízo a meu respeito,
vou dar-lhe algumas informações sobre o poderoso e rico país da Bruzundanga.”
(LIMA BARRETO, Afonso Henriques de. Os Bruzundangas. Rio – São Paulo – Fortaleza: ABC Editora, 2005. p. 33)
d) são comercializadas, nos sebos, mas sem dar lucro aos revendedores.
15. (UFRN) Por meio das expressões “otimismo de encomenda” (linha 5) e “entusiasmo pago” (linha 9), o narrador
a) mostra-se incoerente, pois, ao mesmo tempo, critica e elogia as obras que a República manda editar.
b) recomenda a leitura das obras que a República manda editar.
c) revela-se satisfeito com as informações divulgadas pelas obras que a República manda editar.
d) desqualifica as obras que a República manda editar.
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Assinale, entre as opções abaixo, a que corresponde a uma leitura CORRETA da obra.
a) A literatura produzida no país dos bruzundangas é apontada como um exemplo a ser seguido, pois, quanto mais
incompreensível for a obra, mais admirado será o autor.
b) O narrador preocupa-se com o destino e os conflitos interiores dos personagens, porque não há entre estes
c) Ao criticar as caduquices das oligarquias e as desigualdades sociais dos bruzundangas, o autor pretende denun-
ciar tais costumes e hábitos para que nos sirvam de ensinamento.
d) Ao enaltecer a visão provinciana da classe governante, o narrador discorda de que tal visão provenha do culto
ao dinheiro.
17. (FPE) Alguns dos autores representativos da literatura brasileira estão listados abaixo. Correlacione esses autores
a informações a respeito de sua vida e de sua obra.
1) Machado de Assis
2) Graciliano Ramos
3) José de Alencar
4) Olavo Bilac
5) Euclides da Cunha
( ) Como jornalista, foi enviado a Canudos e presenciou a mortandade que se seguiu à destruição do arraial. Na
sua volta, escreveu um documento amargurado sobre o conflito, dividido em: A terra/ o Homem/ a Luta. Em
sua obra, há uma contradição: enquanto as observações pessoais são justas, a teoria é falha, pois toma por
base os princípios deterministas.
( ) Preso por suas ideias políticas, escreveu um texto autobiográfico, um libelo contra a injustiça e a sordidez do
cárcere. Embora sendo descendente de latifundiários, analisou com aspereza o universo de onde provinha.
Como escritor, inovou na construção da narrativa e na visão do universo sertanejo.
( ) Poeta, participou como figura maior do Parnasianismo, movimento que valorizava a forma e adotava modelos
greco-latinos. Versou sobre os temas desses modelos, aos quais acrescentou o amor sensual e o amor platônico.
Tornou-se conhecido como o poeta ufanista, pelos poemas laudatórios dedicados a um Brasil idealizado.
( ) Um dos nossos primeiros romancistas, escreveu romances históricos, urbanos e regionalistas. Sua originalidade
vem das narrativas indianistas que transformam o índio brasileiro em herói, em cavaleiro medieval. A
descrição da natureza, um dos eixos centrais de sua obra, é exuberante.
( ) No início influenciado pelo Romantismo, este autor mudou o rumo de sua narrativa, numa segunda fase,
adotando como temas principais o adultério, o egoísmo, a vaidade, o interesse, a hipocrisia, a ambiguidade
feminina. Sua obra, com pessimismo e ironia, provoca o desmascaramento das aparências da burguesia
brasileira no século XIX.
A sequência CORRETA é:
a) 3, 2, 1, 4, 5
b) 5, 2, 4, 3, 1
c) 4, 2, 1, 3, 5
d) 2, 1, 5, 4, 3
e) 5, 3, 4, 2, 1
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Gramática do Ensino Médio
Pré-Modernismo
Artigo e Numeral e vanguardas europeias