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Annie Besant - A Doutrina Do Coração

Este documento apresenta três obras clássicas da autora Annie Besant: A Doutrina do Coração, A Vida Teosófica e Revelação, Inspiração e Observação. O texto discute temas como a doutrina do coração versus a doutrina do olho, a vida teosófica e o caminho do discipulado.
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Annie Besant - A Doutrina Do Coração

Este documento apresenta três obras clássicas da autora Annie Besant: A Doutrina do Coração, A Vida Teosófica e Revelação, Inspiração e Observação. O texto discute temas como a doutrina do coração versus a doutrina do olho, a vida teosófica e o caminho do discipulado.
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Annie Besant

A Doutrina do
Coração
A vida teosófica — Revelação, inspiração e observação

UNIVERSALISMO
Sumário

Prefácio à Edição Brasileira

Prefácio

A Doutrina do Coração

A Vida Teosófica

Revelação, Inspiração e Observação

Glossário
Prefácio à Edição Brasileira

Temos a satisfação de oferecer ao nosso público leitor, num só volume, três


preciosas obras da Dra. Annie Besant: A Doutrina do Coração, A Vida Teosófica
e Revelação, Inspiração e Observação. Apesar de serem originais clássicos do
ocultismo escritos no início do século, ainda são inéditos em nossa língua.

A Senda Espiritual do Ocultismo tem sido muito difundida na literatura


contemporânea, mas raramente o tema tem sido abordado com a profundidade
que o leitor encontrará neste texto. Eis o porquê de nossa preocupação em
resgatar textos antigos, que são anteriores ao modismo ocultista, hoje tão
generalizado e, frequentemente, comercializado numa apresentação superficial.

A autora afirma em A Vida Teosófica que se o estudante dessa temática ocultista


“não se tornar sábio para o auxílio de todos ao seu redor, então a sua vida é
verdadeiramente pior que a vida ordinária”. Pois a Senda acelerada que conduz
mais rapidamente aos últimos estágios da evolução humana existe justamente
para que o peregrino, espiritualmente fortalecido, possa facilitar o caminho e
aliviar o fardo daqueles que seguem na sua retaguarda. Assim, encontramos no
clássico ocultista Luz no Caminho: “...procura aliviar algum tanto o pesado karma
que ao mundo oprime; presta a tua ajuda aos poucos braços vigorosos que
impedem as potências das trevas de obter uma completa vitória. Agindo desta
forma, começarás a participar da felicidade que, em verdade, acarreta um terrível
trabalho e uma tristeza profunda, porém que é também um manancial de delícias
sem fim”. Essa é a Senda acelerada a das “alegrias e tristezas supraterrenas”.
Também Madame Blavatsky, em Ocultismo Prático, alertava que: “uma vez
tenha o desejo pelo Ocultismo realmente despertado no coração do homem, não
resta para ele qualquer esperança de paz, nem lugar algum de alívio e sossego
em todo o mundo... já não encontra sossego ou paz na vida de todos os dias”.

Dessa Senda de altruísmo, auto-entrega e auto-sacrifício em prol dos demais


trata A Doutrina do Coração, o genuíno Ocultismo; em contraposição à doutrina
do olho — o mero intelectualismo e discussões metafísicas congêneres, não
pertinentes à verdadeira prática da vida espiritual, que se expressa na
transformação de nossa conduta diária.

Em A Vida Teosófica, a autora apresenta um brilhante comentário sobre os


resultados que uma genuína compreensão da reencarnação e do karma
deveriam produzir em nossa vida cotidiana. É particularmente rara a maneira
como o karma é apresentado, em contraposição ao determinismo, como uma
criação contínua do nosso livre-arbítrio. Por isso, diz a autora: “Poucas coisas,
talvez, sejam tão perigosas como um pequeno conhecimento da lei do karma. E,
infelizmente, muitos de nós paramos no ponto de um pequeno conhecimento.”
Karma “...é uma criação contínua, e não algo estático esperando por nós”. “O
karma que você gera cada dia está modificando todos os resultados do karma
do passado”.

Em Revelação, Inspiração e Observação, a autora considera os aspectos


religiosos, místicos e científicos do estudo e investigação no Ocultismo, de modo
a evitar a crença cega, a superstição e o fanatismo que costumam vigorar nessas
áreas e que têm sido causa de terríveis males e guerras na história da
humanidade.

Fica assim o leitor convidado a investigar e descobrir por si mesmo o valor das
páginas que seguem.

A Editora
Prefácio

“Aprende a discernir o real do falso, o fugaz do permanente.


Aprende, sobretudo, a separar a erudição da Cabeça da sabedoria
da Alma, a Doutrina do Olho da Doutrina do Coração.”

A Voz do Silêncio

Sob o título A DOUTRINA DO CORAÇÃO apresentamos neste texto uma série


de ensaios que consistem principalmente de cartas recebidas de amigos
indianos. Elas não são apresentadas como provenientes de alguma “autoridade”,
mas simplesmente reúnem pensamentos que alguns de nós consideraram úteis,
e que, portanto, desejamos partilhar com os demais. Destinam-se apenas
àqueles que resolutamente buscam viver a Vida Superior e especialmente aos
que sabem que esta vida conduz ao ingresso definitivo no Caminho do
Discipulado sob a orientação dos Irmãos Superiores1 que trilharam este caminho
no passado e que permaneceram na Terra para auxiliar outros a trilharem-no,
por sua vez. Os pensamentos contidos nestas cartas são pensamentos que
pertencem a todas as religiões, embora a expressão e os sentimentos sejam
indianos. A devoção é do tipo nobre e intensa, conhecida no Leste como Bhakti
— a devoção que entrega a si mesma completa e sem reservas a Deus e ao
Homem Divino, através do qual Deus se manifesta na carne para os devotos.
Esta Bhakti encontrou sua expressão mais perfeita no Hinduísmo, e os escritores
destas cartas são hindus, acostumados à riqueza extraordinária do sânscrito e
transformando o inglês mais áspero numa construção harmoniosa de
pensamentos, por meio da doçura poética de sua língua materna. A indiferença
e a dignidade reservada dos anglo-saxões e sua reserva emocional são
inteiramente estranhas ao fluxo interior do sentimento religioso que transborda
do coração oriental tão naturalmente como a canção da cotovia. Em diversos
locais no Ocidente encontramos verdadeiros Bhakta (devoto) como São Tomás
de Kempis, Santa Thereza, São João da Cruz, São Francisco de Assis, Santa
Elizabeth da Hungria. Mas, na maioria das vezes, o sentimento religioso no
Ocidente, embora profundo e verdadeiro, tende ao silêncio e a esconder-se em
si mesmo. Para aqueles que evitam a expressão deste sentimento, estas cartas
não serão de muito auxílio, e nem pretenderiam tanto.
1. Referência aos MAHATMAS ou ADEPTOS (N.T.)
Consideremos agora um dos maiores contrastes da Vida Superior. Todos nós
reconhecemos que o Ocultismo nos faz exigências de tal ordem que há a
necessidade de um certo isolamento e rígida autodisciplina. Aprendemos, tanto
através de nossa muito amada e reverenciada H.P.B. como das tradições da
Vida Oculta, que a renúncia e o autocontrole rigorosos são indispensáveis para
aqueles que atravessam o portal do Templo. O Bhagavad-Gita constantemente
reitera o ensinamento da indiferença à dor e ao prazer, do perfeito equilíbrio sob
todas as circunstâncias sem o qual não é possível a Yoga verdadeira. Este lado
da Vida Oculta é reconhecido em teoria por todos, e alguns se esforçam com
seriedade para moldarem-se a tais ensinamentos. O outro lado da Vida Oculta é
apresentado em A Voz do Silêncio e consiste na imensa compaixão para com
todos os seres sencientes e da pronta resposta a cada necessidade humana
cuja perfeita expressão é encontrada NAQUELES a quem servimos, conferindo-
lhes, portanto, o título de “Os Mestres de Compaixão”. Tais são os principais
tópicos para os quais estas cartas procuram direcionar os nossos pensamentos,
sempre no aspecto cotidiano e prático, e é exatamente esse lado prático que
desprezamos na maioria das vezes em nossas vidas, embora muito da sua
beleza e perfeição possam tocar nossos corações. O verdadeiro Ocultista,
embora seja para si mesmo o mais severo dos juízes, o mais rígido dos
capatazes, é para os que estão à sua volta o mais querido dos amigos, o mais
gentil dos auxiliares. Atingir essa gentileza e o poder da compaixão deveria ser
o objetivo de cada um de nós, e somente pode ser obtido através da prática
constante da gentileza e compaixão para com todos os que nos rodeiam sem
exceção. Cada candidato à Ocultista deve ser uma pessoa, em sua casa e em
sua convivência, a quem todos procuram de imediato na dor, na ansiedade e no
mal, na certeza da amizade, na certeza do auxílio. O mais despojado de
atrativos, o mais enfadonho, o mais repulsivo dos seres deve sentir que nele,
pelo menos, encontra um amigo. Todo o anseio de uma vida melhor, todo desejo
embrionário do servir altruísta, cada querer incipiente de uma vida mais nobre
deve nele encontrar alguém pronto a encorajar e fortalecer, para que toda
semente do bem possa iniciar a germinar sob a presença reconfortante e
estimulante da sua natureza amorosa.

Alcançar este poder de serviço é uma questão de autotreinamento na vida diária.


Primeiro, devemos reconhecer que o SER em todas as coisas é uno, de modo
que com cada pessoa que tenhamos contato, devemos ignorar o que nela não é
agradável em seu envoltório exterior2 e reconhecer o SER em seu coração. O
próximo passo é compreender — em sentimento e não somente em teoria —
que o SER está buscando expressar-se através dos revestimentos que o
obstruem e que a natureza interior é inteiramente amável, chegando a nós
desfigurada pelos invólucros que a envolvem. Então, devemos nos identificar
com este SER, que é em verdade nós mesmos em essência, e cooperar com ele
em sua luta contra os elementos inferiores que sufocam a sua expressão. E, uma
vez que devemos trabalhar com o nosso irmão através de nossa própria natureza
inferior, a única maneira de efetivamente ajudar é ver as coisas como nosso
irmão as vê, com suas limitações, seus preconceitos, sua visão distorcida; e,
desta forma, vendo-as e sendo atingido por elas em nossa natureza inferior,
devemos ajudá-lo na sua maneira de ser e não na nossa, pois somente assim a
real ajuda poderá ser ofertada. Conseguimos isto com o treinamento Oculto.
Aprendemos a nos afastar de nossa natureza inferior, a estudá-la, a sentir seus
sentimentos sem sermos afetados por eles, e, assim, enquanto experimentamos
emocionalmente, julgamos, intelectualmente.

2. A autora refere-se ao eu inferior ou personalidade (do grego PERSONA, máscara), que na


literatura teosófica simboliza o agregado dos corpos físico, emocional e mental, enquanto
envoltório exterior da expressão do Ser ou Eu Superior. (N. T.)

Devemos utilizar este método para ajudar nosso irmão e, enquanto sentirmos
como ele sente, tal qual a corda afinada ressoa na corda equivalente ao ser
tocada, temos de utilizar a nossa personalidade (eu inferior) desidentificada para
julgar, aconselhar e elevar. Isto deve ser feito de tal forma que o nosso irmão
esteja consciente de que é a sua natureza superior que está expressando a si
mesma através dos nossos lábios.

Devemos desejar compartilhar o que temos de melhor; não reter, mas dar; tal é
a vida do Espírito. Com frequência o “melhor” de nós poderia não ser atrativo
para aquele que estamos tentando ajudar, tal como uma nobre poesia
declamada para uma criança; então, deveremos dar o melhor que ele possa
assimilar, guardando o restante, não porque nós o repelimos, mas porque ele
ainda não o quer. Assim os Mestres da Compaixão nos auxiliam, nós que somos
crianças para Eles; da mesma forma devemos buscar ajudar aqueles que são
mais jovens que nós na vida do Espírito.

Também não devemos esquecer que a pessoa que acontece estar conosco num
determinado instante é destinada a nós pelo Mestre para servir naquele
momento. Se, por negligência, impaciência ou indiferença não o atendermos,
teremos faltado em nosso trabalho para com o Mestre. Com frequência
esquecemos este dever imediato absorvendo-nos em outro trabalho, não
compreendendo que a ajuda da alma humana que nos é enviada é o nosso
trabalho do momento; devemos estar atentos a esse perigo mais sutil, porque o
dever é usado para mascarar o dever, e a falha na percepção é a falha na
realização. Não devemos nos apegar nem mesmo ao trabalho de qualquer
espécie; na verdade, sempre trabalhando, mas com a alma livre e “atenta”,
pronta para captar o mais leve sopro d’Ele que pode necessitar de nossos
serviços para alguém desamparado, o qual, através de nós, Ele deseja ajudar.

A austeridade do eu inferior, mencionada acima, é uma condição deste serviço


de auxílio, pois somente aquele que não se preocupa consigo mesmo,
indiferente ao prazer ou dor pessoais, é suficientemente livre para ter a perfeita
empatia. Não tendo necessidades, ele pode dar tudo. Não tendo apego a si
mesmo, torna-se o amor encarnado para os outros.

Em Ocultismo, o livro da vida é aquele para o qual voltamos a nossa maior


atenção. Estudamos outros livros simplesmente por ser necessário para que se
possa viver, pois o estudo, até mesmo de obras ocultistas, é somente um meio
para a espiritualidade, se estivermos buscando viver a Vida Oculta; é a vida e
não o conhecimento, o coração puro e não um intelecto abarrotado, que nos
conduz aos pés do nosso Mestre.

A palavra “devoção” é a chave para todo o verdadeiro progresso na vida


espiritual. Se, durante o trabalho, buscarmos o crescimento do movimento
espiritual e não o sucesso gratificante, o servir aos Mestres e não a nossa
autogratificação, não seremos desencorajados pelos fracassos temporários,
nem pelas nuvens e desalentos que experimentamos em nossa própria vida
interior.

Servir pela finalidade do serviço e não pelo prazer de servir é tomar um passo
avante, pois então começamos a adquirir o equilíbrio, que nos capacita a servir
com contentamento tanto no fracasso como no sucesso, na escuridão interior e
na luz interior. Quando conseguimos dominar a personalidade até o ponto de
sentirmos um prazer real do trabalho para o Mestre, trabalho esse doloroso para
a natureza inferior, o próximo passo é fazê-lo zelosa e integralmente, mesmo
quando então esse prazer desaparece e toda a alegria e a luz tornam-se
obscurecidas. Por outro lado, ao servirmos aos sagrados seres, poderemos estar
servindo a nossa própria personalidade, isto é, servindo, para obtermos alguma
recompensa d’Eles, ao invés de o fazermos por puro amor.

Até onde esta forma sutil de egoísmo prevalecer, correremos o perigo de nos
afastarmos do serviço se a escuridão permanecer por um bom tempo à nossa
volta e se nos sentirmos mortos interiormente e sem esperanças. É nesta noite
do espírito que o serviço mais nobre é retribuído, e os últimos laços do eu inferior
são rompidos.

Aplacamos esta tensão com a devoção, porque descobrimos que os aspirantes


em todas as partes correm riscos, e o progresso do trabalho do Mestre é
obstruído pela predominância do ser pessoal. Aqui está o nosso inimigo, aqui é
o nosso campo de batalha. Identificando isto, o aspirante deveria saudar todos
os acontecimentos de sua vida diária que aparam as arestas da personalidade
e deveria ser agradecido a todas as “pessoas desagradáveis” que reprimem e
irritam sua sensibilidade e que perturbam seu amor próprio. São seus melhores
amigos, seus auxiliares mais úteis, e jamais deveriam ser considerados senão
com gratidão pelos serviços que prestaram no aniquilamento do nosso inimigo
mais poderoso. Observando a vida diária desta forma, ela se torna uma escola
de Ocultismo, e começamos a aprender que o equilíbrio perfeito, necessário nos
caminhos mais avançados do discipulado, anterior ao conhecimento mais
profundo e ao poder consequente, pode ser colocado em nossas mãos. Onde
não existe um sereno autodomínio, indiferença aos assuntos pessoais, tranquila
devoção ao trabalho para os outros, não há um verdadeiro Ocultismo, não há
vida verdadeiramente espiritual. O psiquismo inferior não requer nenhuma
dessas qualidades, sendo por isso avidamente dominado pelos pseudo-
ocultistas; mas a Loja Branca solicita-as dos seus postulantes, e faz desta
aptidão a condição de acesso à Classe dos Neófitos. Portanto, que seja o
objetivo de cada aspirante treinar para poder servir e praticar a rígida
autodisciplina de modo que “quando o Mestre olhar dentro do seu coração não
encontre nele nenhuma mácula”. Então, Ele o pegará pela mão e o conduzirá.

Annie Besant
A Doutrina do Coração

O desastre paira sobre aquele que faz depender a sua fé das parafernálias
externas e não da paz da vida interna, a qual não depende das circunstâncias
da vida externa. Na verdade, quanto mais desfavoráveis forem as circunstâncias
externas e quanto maior for o sacrifício de viver em meio a tais circunstâncias,
mais próximos estaremos do objetivo final, por causa da própria natureza das
provações que temos de superar. Portanto é desaconselhável ser atraído
demasiadamente por qualquer manifestação externa de vida religiosa, pois tudo
o que está no plano da matéria é efêmero, ilusório e conduz necessariamente ao
desapontamento. Todo aquele que é fortemente atraído por qualquer das
modalidades externas do viver terá de aprender, mais cedo ou mais tarde, a
relativa insignificância de todas as coisas exteriores. E quanto mais cedo
passarmos pelas experiências exigidas pelo karma passado, melhor para nós.
De fato é sempre desagradável ser subitamente arrancado do próprio meio, mas
a taça que cura a insensatez é sempre amarga e deve ser tomada para que a
doença seja erradicada. Quando a brisa gentil que vem da “Flor de Lótus” soprar
sobre a alma, então você saberá que o pior ambiente externo não é
suficientemente poderoso para superar a música que ela traz.

Assim como um europeu que é atraído pelo Ocultismo sente-se mais próximo
dos Grandes Seres quando se encontra na Índia, assim um indiano sente-se
quando escala as alturas do seu nevado Himavat, embora seja uma ilusão, pois
ninguém se aproxima dos Senhores da Pureza através da locomoção física, mas
sim tornando-se mais puro e mais forte através do sofrimento constante pelo
bem-estar do mundo. Quanto à ignorância do pobre iludido mundo com relação
aos nossos reverenciados Senhores, lembramo-nos das palavras: “O sibilar da
serpente causa um mal maior ao sublime Himavat do que a calúnia e o abuso do
mundo a qualquer um de nós.”

Se alguma vez for admitido, como deveria ser por todos aqueles que possuem
algum conhecimento de Ocultismo, que existem hostes de agentes invisíveis
interferindo constantemente nos afazeres humanos, Elementais e Elementares
de vários graus criando todo tipo de ilusão e mascarando as aparências, assim
como os membros da Loja Negra que se regozijam em enganar e iludir os
aspirantes da verdadeira sabedoria — dever-se-á também reconhecer que a
Natureza, em sua imensa misericórdia e absoluta justiça, deve ter dotado o
homem com uma tremenda faculdade para discriminar entre as vozes destes
habitantes etéreos e as dos Mestres. E imagino que todos concordarão que
razão, intuição e consciência são nossas faculdades mais elevadas, o único meio
pelo qual podemos distinguir o verdadeiro do falso, o bem do mal, o certo do
errado. E assim, tudo que deixe de iluminar a razão e que não satisfaça as
pretensões mais escrupulosas de natureza moral não deve jamais ser
considerado como uma comunicação dos Mestres.

Lembremo-nos também de que Eles são Mestres de Sabedoria e de Compaixão,


que Suas palavras iluminam e expandem, nunca confundem ou atormentam a
mente; elas confortam, não perturbam; elevam, não rebaixam. Eles nunca
utilizam métodos que debilitam ou paralisam a razão e a intuição. Qual seria o
resultado inevitável se esses Senhores do Amor e da Luz forçassem
comunicações com Seus discípulos aviltando igualmente a razão e o senso
ético? Uma credulidade cega tomaria o lugar da fé inteligente, haveria paralisia
moral no lugar de crescimento espiritual, e os Neófitos seriam abandonados, sem
nada para orientá-los, constantemente a mercê de qualquer ninfa travessa, ou,
ainda pior, de um Dugpa malévolo.

Será este o destino do discipulado? Poderá ser este o caminho do Amor e da


Sabedoria? Não acredito que qualquer homem sensato acredite nisto por um
instante sequer, embora por um momento certo encantamento possa ser
lançado sobre ele, fazendo com que admita os mais rematados absurdos.

Entre as várias dúvidas surgidas na mente do discípulo, causando-lhe angústia,


está a dúvida de se uma fraqueza física pode ser um obstáculo ao progresso
espiritual. O processo de assimilação do alimento espiritual não envolve fluxo de
energias físicas, e o progresso espiritual pode continuar enquanto o corpo sofre.
É um ledo engano, decorrente de falta de conhecimento e de equilíbrio, supor-
se que a tortura e a inanição do corpo o torne-o suscetível a experiências
espirituais. É por fazer aquilo que melhor serve ao propósito dos Santos Seres
que o progresso firme e real é obtido. Quando é chegado o momento certo das
experiências espirituais ficarem impressas na consciência cerebral, o corpo não
pode obstaculizar o caminho. A pouca dificuldade que pode ser por ele
ocasionada também pode ser suplantada em segundos. É uma ilusão imaginar-
se que qualquer esforço físico possa promover o progresso espiritual por um
único passo que seja. A maneira de nos aproximarmos Deles é realizando o que
de melhor se adapta a Sua vontade, e assim agindo, nada mais é necessário ser
feito.

A mim me parece que há uma suavidade peculiar em ser resignadamente


paciente, em sacrificar com alegria a vontade própria pela vontade Daqueles que
sabem mais e sempre guiam de modo correto. Não existe desejo pessoal na vida
do Espírito. Portanto, o discípulo deve alegremente sacrificar sua felicidade
pessoal enquanto Eles descobrem o momento certo de trabalhar para os outros
através dele. Talvez o discípulo sinta-se algumas vezes desamparado quando
está só, mas ele sempre Os encontrará ao seu lado quando existe trabalho a ser
realizado. Períodos de trevas devem se alternar com períodos de luz, e
certamente a escuridão chegará em um momento em que afetará somente a
nós, e então nossa dor pessoal será assim intensificada. Sentir a presença e
influência Deles é realmente o presente mais divino imaginável, mas mesmo isto
deveremos estar prontos a sacrificar, se, renunciando ao que estimamos como
o mais elevado e melhor, o atingimento do bem final do mundo, torna-se mais
fácil.

Tente e compreenda a beleza do sofrimento desde que somente este nos torna
mais aptos para o trabalho. Certamente não podemos nunca almejar a paz
pessoal se o mundo em luta deve ser ajudado. Tente e sinta que, embora a
escuridão pareça preencher tudo à sua volta, ela não é real. Se algumas vezes
Eles Se revestem de Maya exterior de indiferença, isso é apenas para emitir
Suas bênçãos com maior abundância quando o tempo é chegado. As palavras
não têm grande utilidade quando a escuridão prevalece, entretanto, o discípulo
deve procurar permanecer com sua fé inabalável na proximidade dos Grandes
Seres e sentir que, embora a luz esteja temporariamente afastada da mente-
consciência, ela, sábia e misericordiosa, sob a supervisão Deles, cresce
interiormente todos os dias. Quando a mente torna-se novamente sensível,
reconhece com surpresa e alegria como o trabalho espiritual tinha estado em
franco progresso, embora sem a conscientização dos detalhes. Conhecemos a
Lei. No mundo espiritual, noites de maior ou menor horror invariavelmente
seguem-se ao dia, e os sábios, reconhecendo a escuridão como a consequência
de uma lei natural, não mais se afligem. Podemos repousar seguros de que a
escuridão por sua vez se dissipará. Lembremo-nos sempre de que por trás da
fumaça mais espessa sempre se encontra a luz da Flor de Lótus dos Grandes
Senhores da terra. Permaneça firme e nunca perca a fé Neles, e então nada há
a temer. Deveis ter provas e certamente as tereis, mas estareis seguros de
resistir-lhes. Quando a escuridão que envolve a Alma como uma mortalha se
dissipar, conseguiremos ver como era imaginária e ilusória. Entretanto, enquanto
tal escuridão perdurar, ela será real o suficiente para causar a ruína de muitas
almas nobres que ainda não adquiriram força bastante para resistir.

A vida espiritual e o amor não se exaurem pelo uso. O gasto apenas faz com
que o estoque aumente, tornando-o mais rico e intenso. Tente e seja tão feliz e
alegre quanto possa, pois a verdadeira vida espiritual está na alegria, e o pesar
é apenas o resultado da nossa ignorância e ausência de uma clara visão.

Você deve resistir, tanto quanto possa, ao sentimento de tristeza que obscurece
a atmosfera espiritual. Embora não possa impedir inteiramente a sua chegada,
não se renda por completo ao pesar. Lembre-se de que a Beatitude mora no
coração do Universo.

O desespero não deve encontrar guarida no coração do discípulo devotado, pois


ele enfraquece a fé e a devoção, construindo uma arena para os Poderes das
Trevas ali combaterem. Este sentimento é apenas um encanto lançado por eles
para torturar o discípulo, e, se possível, obterem alguma vantagem a partir desta
ilusão. Aprendi, através da experiência mais amarga, que a autoconfiança é
ineficaz e até decepcionante em provas desta natureza, e a única maneira para
escapar incólume destas ilusões é devotar-se inteiramente a Eles (Os Santos
Seres). A razão é óbvia. A força, para ser eficaz em sua oposição, deve estar no
mesmo plano em que age o poder a ser neutralizado. Portanto, como esses
problemas e ilusões não provêm do eu pessoal1, este é totalmente ineficaz
contra eles. Assim sendo, já que são provenientes dos seres das trevas, somente
podem ser neutralizados pelos Irmãos da Luz. Desta forma, para haver
segurança, é necessário entregarmo-nos — nossos “eus” separados e pessoais
— e libertarmo-nos de todo Ahamkara.

1. Self (N.T.)

Sabedores de que a nossa Sociedade2, ou no que diz respeito a ela — ou


especificamente no âmbito do pensamento universal, qualquer movimento de
relevância — encontra-se sob a observação e guarda de Poderes muito mais
sábios e elevados do que nosso pequenino eu, não devemos nos preocupar
muito sobre o destino final da Sociedade. Devemos sim nos contentar em realizar
a tarefa que nos é devida, cuidadosa e diligentemente, desempenhando o papel
a nós destinados segundo nosso melhor esclarecimento e capacidade. O
cuidado e a solicitude possuem, sem dúvida alguma, suas funções próprias na
economia da Natureza. Nos homens comuns eles colocam o cérebro para
trabalhar, e até os músculos para se movimentarem, e se não fosse por esses o
mundo não teria realizado metade do progresso que conseguiu nos planos
físicos e intelectual. Mas, em um determinado estágio da evolução humana, eles
são substituídos por um senso de dever e amor pela Verdade, e a clareza de
visão e a impetuosidade pelo trabalho atingidos nunca poderão ser preenchidos
por qualquer quantidade de energia molecular e vigor do sistema nervoso.
Portanto, livre-se de todo o desespero e, com a sua Alma voltada para a Fonte
de Luz, trabalhe para a grande meta para a qual você está aqui, com seu coração
abrangendo toda a humanidade, embora perfeitamente renunciante ao resultado
de suas tarefas. Assim ensinaram nossos Sábios, assim Shri Krishna exortou a
Arjuna no campo de batalha, e assim devemos direcionar nossas energias.
2. A Sociedade Teosófica (N.T.)

Meus sentimentos pessoais em relação aos sofrimentos do mundo são


precisamente como os seus. Nada me aflige mais do que a maneira cega e
frenética com a qual a grande maioria de nossos companheiros persegue os
prazeres dos sentidos, e a visão totalmente vazia e errônea que assumem diante
da vida. A visão desta ignorância e loucura toca meu coração com maior ternura
do que as misérias físicas que o povo suporta. E, embora o nobre místico
Rantideva tenha me inspirado profundamente anos atrás, considero os
sentimentos de Buda como mais eruditos e mais transcendentais, em função da
visão direta da natureza interior das coisas que desde então me é permitido
experimentar. E, ainda que, alegremente sofresse a agonia para aliviar um
discípulo da tortura a qual é submetido, e embora tenha considerado as causas
bem como as consequências íntimas dos sofrimentos de um discípulo, minha
tristeza por eles não tem a metade da intensidade da tristeza que sinto pela
miséria desses desaventurados ignorantes que ingenuamente pagam a punição
pelos seus delitos do passado.

As funções do intelecto são meramente a comparação e o raciocínio; o


conhecimento espiritual está muito além do seu alcance. Provavelmente você
está satisfeito com as sutilezas intelectuais existentes no seu ambiente atual;
mas, apesar de tudo, o mundo é somente uma escola, uma academia de
treinamento, e nenhuma experiência, seja dolorosa ou ridícula, é desprovida de
utilidade e valor o homem previdente. Os males que enfrentamos tornam-nos
mais sábios, e cada erro que cometemos auxilia-nos para o futuro. Por isso não
devemos resmungar contra o destino, embora externamente ele possa não nos
causar a menor inveja.

O karma, como ensinado no Gita e no Yoga Vasishtha, significa atos e vontades


provenientes de Vasana ou desejo. Encontra-se distintamente estabelecido
nestes códigos de ética de que nada feito a partir do puro senso do dever, nada
que seja induzido pelo sentimento do “deve ser feito”, por assim dizer, pode
macular a natureza moral do executante, mesmo que este esteja errado em sua
concepção do dever e da propriedade. O erro naturalmente deve ser expiado
pelo sofrimento, o qual deve ser proporcional às consequências do erro; mas,
certamente, não degradará o caráter ou maculará o Jivatma.

É aconselhável utilizar todos os acontecimentos da vida como lições a serem


convertidas em vantagens, e, portanto, a dor causada pela separação dos
amigos a quem amamos deve assim ser utilizada. O que são espaço e tempo no
plano do Espírito? Ilusões do cérebro, não-entidades meramente, que adquirem
um semblante de realidade pela impotência da mente, o invólucro que aprisiona
o Jivatma. O sofrimento simplesmente oferece um impulso novo e mais potente
para vivermos juntos no Espírito. O bem virá para cada um de nós no final,
quando estivermos além da dor, por isso não devemos reclamar. Mais ainda,
sabedores de que para os discípulos nenhuma consequência acontece sem que
seja a vontade dos seus Senhores, deveremos considerar cada incidente
doloroso como um passo em direção ao progresso espiritual, como um meio para
o desenvolvimento interior, que nos capacitará a servi-Los melhor, assim como
à Humanidade.

Se pudéssemos servir somente a Eles, se, através de todas as tempestades e


conflagrações, nossas Almas se voltassem para os sagrados Seres3, o que
importariam a dor e os sofrimentos que tais conflitos causam a nossos
envoltórios transitórios? Entendamos um pouco a significação interna destes
sofrimentos, das vicissitudes das circunstâncias externas — como tanta dor
suportada significa igual quantidade de mau karma trabalhado, significa tanto
poder de serviço obtido, significa uma boa lição aprendida. Não serão estes
pensamentos o suficiente para nos dar suporte através de qualquer quantidade
destas misérias ilusórias?

3. Lotus Feet (N.T.)

Quão doce é sofrer, quando se sabe e se tem fé; quão diferente da infelicidade
do ignorante, do cético, do incrédulo. Pode-se até desejar que todo o sofrimento
e miséria do mundo sejam nossos para que o resto da nossa espécie torne-se
liberada e feliz. A crucificação de Jesus Cristo simboliza esta fase da mente do
discípulo. Você não concorda? Seja somente sempre firme na fé e na devoção
e jamais se afaste do sagrado caminho do Amor e da Verdade. Esta é a sua
parte — o resto será feito para você pelos Senhores Misericordiosos aos Quais
você serve. Você sabe de tudo isto, e se eu falo a respeito, é apenas para
reforçá-lo em seu conhecimento; pois com frequência esquecemos algumas de
nossas melhores lições, e nas épocas difíceis o dever de um amigo é mais
lembrar-lhe os seus próprios princípios do que incutir novas verdades. Era desta
forma que Draupadi consolava seu sábio marido Yudhisthira, quando um terrível
infortúnio derrubava por um momento sua habitual serenidade, e assim o próprio
Vasishtha teve que ser confortado quando foi dilacerado pela dor da morte de
seus filhos. É verdadeiramente indescritível o lado de Maya deste mundo! Por
um lado é tão belo e romântico e por outro tão terrível e infeliz! Maya é o mistério
de todos os mistérios, e aquele que compreendeu Maya descobriu sua própria
unidade com BRAHMAN — a Suprema Felicidade e a Suprema Luz.

A cena surpreendente de Kali de pé sobre o prostrado Shiva é uma ilustração da


utilidade —a utilização superior — da Ira e do Ódio. A cor escura representa a
Ira; com a espada ela significa também a coragem física, e toda a cena significa
que enquanto o homem sente ira, ódio e força física, ele deve utilizá-los para a
supressão das outras paixões, o massacre dos desejos da carne. Também
representa o que realmente acontece quando a mente pela primeira vez se volta
para a vida superior. Todavia carecemos ainda de sabedoria e equilíbrio mental
e então atropelamos os nossos desejos com as nossas paixões; direcionamos
nossa ira contra nossos próprios vícios, suprimindo-os desta forma; também
empregamos nosso orgulho contra as tendências indignas do corpo e da mente,
e assim subimos o primeiro degrau da escada. O prostrado Shiva mostra que
quando alguém se engaja numa guerra como essa, ele não considera o seu mais
elevado princípio, o Atma. Ao contrário, ele de fato o despreza e somente
reconhece sua verdadeira posição, durante a batalha, com relação ao Atma,
quando tiver aniquilado o último inimigo do seu Ser. Assim, Kali descobre Shiva
a seus pés somente quando ela mata o último dos Daitya, a personificação de
Ahamkara, envergonhando-se então de sua fúria insana. Enquanto as paixões
não tenham sido de todo subjugadas, devemos usá-las para a sua própria
supressão, neutralizando a força de uma contra a outra, e, então, a sós,
podemos de imediato matar o nosso egoísmo, obtendo o primeiro vislumbre do
nosso Atma — o Shiva dentro de nós — a quem ignoramos enquanto os desejos
estão devastando o coração.

Possamos nós sempre permanecer ao largo do nosso tacanho desejo pessoal


para servir a Eles com lealdade; é experiência minha que, seguindo, assim,
somente a Sua orientação, podemos sempre evitar alguns precipícios perigosos
para o qual nos dirigimos inconscientemente. A princípio parece difícil romper
com as preferências pessoais, mas ao final o resultado do sacrifício é a alegria.
Não há treinamento melhor do que os poucos e rápidos anos na vida do discípulo
quando ele é conduzido somente por desapontamentos que o levam a buscar
proteção nos abençoados pés dos Senhores, pois lá é o único lugar para
repousar. E então cresce no discípulo o constante hábito de pensar que seu
único refúgio está Neles; sempre que o Mestre não se encontra em seus
pensamentos, ele se sente miserável e desamparado. Então, na grande
escuridão do desespero, nasce para ele uma luz que nunca mais ficará ofuscada.
Aqueles cujos olhos penetram no futuro distante, velado aos nossos olhos
mortais, têm feito e farão o que é melhor para o mundo. Os resultados imediatos
e as satisfações temporárias devem ser sacrificados, se o alvo final tiver de ser
assegurado sem oportunidade de fracasso. Quanto mais forte desejarmos
construir as oportunidades para o sucesso final, menos devemos almejar pela
colheita do dia. Somente através da dor chegaremos à perfeição e à pureza;
somente pela dor poderemos ser servos dignos da Órfã4 que chora
incessantemente pelo alimento espiritual. A vida somente tem valor quando
sacrificada aos Pés do Mestre.

4. A Humanidade (N.T.)

Regozijemo-nos pelas oportunidades de servir à grande Causa através dos


sacrifícios pessoais, pois tais sofrimentos podem ser por Eles utilizados para
elevar em mais um pequeno passo a pobre e pecadora Humanidade. Qualquer
dor sofrida por um discípulo é a garantia de um ganho correspondente para o
mundo. Portanto, ele deve sofrer voluntária e alegremente, pois vê com um
pouco mais de clareza do que os cegos mortais pelos quais ele sofre. No curso
da evolução existe uma lei dolorosamente evidente, até para os olhos do
iniciante, que diz que nada que tenha um valor real pode ser obtido sem um
sacrifício5 correspondente.

5. O termo “sacrifício” é usado no sentido de “dedicação” ou uma ação “sacra”. (N.T.)

Aquele que renuncia a todo o sentido do eu e faz de si próprio um instrumento


de trabalho para as Mãos Divinas não precisa temer as provas e dificuldades do
mundo. “Por Vós conduzido, eu trabalho”. Esta é a maneira mais fácil de transpor
a esfera do karma individual, pois aquele que coloca todas as suas capacidades
aos Pés dos Mestres não cria karma para si; e, como prometeu Shri Krishna:
“Responsabilizo-me pelo equilíbrio dos seus débitos.” O discípulo não precisa
preocupar-se com os frutos de suas ações. Assim ensinou o grande Mestre
cristão: “Não te preocupes com o amanhã.”

Não permita que os impulsos governem a sua conduta. A excitação pertence à


esfera da sensação, não à da conduta. A excitação na conduta não tem lugar no
verdadeiro Ocultismo, pois o Ocultista deve ser sempre dono de si mesmo. Um
dos aspectos mais difíceis na vida do Ocultista é manter o equilíbrio
harmoniosamente, e este poder provém da verdadeira introspecção espiritual. O
Ocultista deve levar uma vida mais interna do que externa. Ele sente,
compreende e sabe cada vez mais, embora se mostre cada vez menos. Até os
sacrifícios a serem feitos pertencem mais ao mundo interno do que ao externo.
Na devoção religiosa comum todo o sacrifício e esforço possíveis são dedicados
a estabelecer laços com objetos externos bem como em superar a avareza e as
tentações no plano físico. Entretanto, na vida do Ocultista, o sacrifício e o esforço
possíveis devem ser utilizados para objetivos bem maiores. Você deve
compreender quais são os objetos reais para os quais sua energia e devoção
devem ser direcionados, e o objeto externo deve, portanto, ser subordinado.
Resumindo, nunca seja um indivíduo peculiar. Assim como Hamsa6 da mistura
de leite e água separa um do outro, tomando o primeiro, deixando a água, assim
o ocultista extrai e retém a vida e a quintessência de todas as diferentes
qualidades, rejeitando os revestimentos que as encobrem.
6. Na mitologia hindu, o cisne (Hamsa) é tido como o animal capaz de separar o leite da água, o
que simboliza a capacidade de separar o real do irreal, chamado geralmente discernimento
(VIVEKA). (N.T.)

Como podem as pessoas supor que os Mestres devem interferir em suas vidas
e ações pessoais, ao mesmo tempo que argumentam a favor da Sua não-
existência ou pela Sua indiferença moral pelo fato Deles não interferirem? Elas
podem, pela mesma razão, questionar a existência de uma Lei moral neste
Universo, e argumentar que a existência de injustiças e práticas infames na
humanidade atuam contra a suposição desta lei. Por que elas se esquecem que
os Mestres são Jivanmuktas e que trabalham com a Lei, identificando-Se com a
Lei, e que na verdade são o próprio espírito da lei? Mas não há necessidade de
haver angústia quanto a isto, pois o tribunal ao qual nos submetemos em
assuntos de consciência não é a opinião pública, mas o nosso próprio Ser
Superior. São batalhas como essas que purificam o coração e elevam a alma, e
não a luta furiosa a qual nossas paixões, ou até uma “indignação justa” e o
chamado “ressentimento justificado” nos impelem.

O que são para nós os problemas e as dificuldades? Não são tão bem-vindos
como os prazeres e as facilidades? Não são eles nossos melhores treinadores
e educadores, repletos de lições salutares? Não são eles convenientes para nos
impulsionar de modo mais equilibrado através das mudanças da vida e das
vicissitudes do destino? E não seria uma desonra para nós se fracassássemos
em preservar a tranquilidade e o equilíbrio da mente que devem sempre marcar
a disposição do discípulo? Certamente ele deveria permanecer sereno em meio
a todas as tormentas e tempestades externas. Este é um mundo louco em sua
totalidade se apenas o observarmos externamente; e que loucura
decepcionante! É a verdadeira insanidade da demência onde o objeto da doença
ignora a sua condição, embora acredite estar perfeitamente sadio. Oh, se a
harmonia e a música que reinam dentro da Alma das coisas não fossem
perceptíveis a nós, cujos olhos foram abertos a essa loucura total que perpassa
a aparência externa, a vida nos seria intolerável!

Você não considera que não é aceitável sentir-se desanimado quando estamos
obedecendo à vontade dos Senhores e cumprindo com nossos deveres? Você
deveria sentir não somente paz e contentamento, mas também alegria e boa
disposição enquanto serve Àqueles cujo serviço é nosso privilégio mais elevado
e cuja memória é nosso prazer mais verdadeiro.

O fato Deles nunca nos abandonarem é tão certo quanto a morte. Mas cabe a
nós nos ligarmos a Eles com devoção real e profunda. Se ela for real e profunda,
não existe a mais remota oportunidade de nos afastarmos das suas sagradas
influências. Mas sabemos o que significa a devoção real e profunda. Vocês
sabem tanto quanto eu que nada menos do que a renúncia completa da vontade
pessoal, a aniquilação absoluta do elemento pessoal no homem, pode constituir
o Bhakti característico e verdadeiro. É somente quando a natureza humana
inteira está em perfeita harmonia com a Lei Divina, quando não existe nenhuma
nota dissonante em nenhuma parte do sistema, quando todos os pensamentos,
idéias, fantasias, desejos, emoções, voluntários ou não, vibram em resposta e
em concordância completa com o “Grande Sopro”7, que o verdadeiro ideal de
devoção é atingido, não antes disto. Somente ficamos além do risco do fracasso
quando atingimos este estágio de Bhakti, que as segura por si só o progresso
permanente e o sucesso indubitável. O discípulo não falha pela falta de cuidado
e amor da parte dos Grandes Mestres, mas sim pelas suas próprias
perversidades e fraquezas inatas. E não podemos dizer que a perversidade é
impossível em alguém que prolonga a idéia de separação, arraigado por eras ao
pensamento ilusório e à corrupção, sem estar ainda inteiramente afastado disto.

7. O “alento Divino” (N. T.).

Não devemos nos iludir de forma alguma. Algumas verdades são realmente
amargas, mas o caminho mais sábio é conhecê-las e enfrentá-las. Habitar um
paraíso fantasioso é fechar a porta para o real Campos Elísios. É verdade que
se deliberadamente nos sentarmos para descobrir se ainda existe em nós algum
traço de separatividade ou personalidade, ou algum desejo de contrapor-se ao
curso natural dos acontecimentos, não encontraremos qualquer motivo ou razão
para tal auto-afirmação ou desejo. Como sabemos e acreditamos que a idéia de
isolamento é um mero produto de Maya, que a ignorância e todos os desejos
pessoais fluem somente deste sentimento de isolamento e que são a raiz de toda
a nossa miséria, não podemos senão rechaçar estas noções falsas e ilusórias
quando pensamos ou refletimos sobre elas. Mas, se analisarmos os fatos
verdadeiros e nos observarmos durante o dia todo, verificando as várias
maneiras de conduta, que se alteram com as diferentes circunstâncias, uma
conclusão bem diferente se imporá sobre nós por si mesma, e descobriremos
que a verdadeira realização em nossa vida do nosso conhecimento e crença é
ainda um incidente distante que se aproxima ocasionalmente por um pequeno
momento quando estamos inteiramente esquecidos do corpo e do ambiente
material, completamente envolvidos na contemplação do Divino — mais ainda,
mergulhados na Própria Deidade.

Para nós, pela suprema misericórdia dos nossos Senhores, as coisas na terra
são um pouco mais claras e mais inteligíveis do que para o homem mundano,
por isso ficamos tão ansiosos para devotarmos a energia de nossa vida ao
serviço Deles. Um cético diria, com grande desprezo, que toda atividade —
caridade, benevolência, patriotismo etc. — é puro mercantilismo, uma questão
de dar e receber. Mas o aspecto mais nobre que mesmo esta ridicularizada
honestidade mercantil — rigorosamente traduzida e aplicada aos caminhos
superiores da vida — representa à visão superior está além do alcance visual
daquele que escarnece; assim, ele ri e despreza a honestidade, rotulando-a de
mercantilismo, e o mundo tolo e sem coração, sedento de um pouco de diversão,
ri com ele, chamando-o de companheiro astuto e espirituoso. Se olharmos a
superfície dessa nossa esfera maravilhosa, encontraremos tristeza e melancolia
espalhadas entre as almas, e o desespero paralisará todos os esforços para
melhorar esta condição. Mas, ao olhar mais abaixo, todas as inconsistências se
desfazem, tudo parece belo e harmonioso, e o coração bate vigoroso e torna-se
alegre, abrindo generosamente seus tesouros ao universo circundante! Por isso
não precisamos nos sentir desanimados diante de um sinal assustador e nem
lamentar pelas loucuras e cegueira dos homens entre os quais nascemos.

Existem leis morais imutáveis, assim como existem leis físicas uniformes. Estas
leis morais podem ser violadas pelo homem, dotado de individualidade e pela
liberdade que o envolve. Cada violação dessas torna-se uma força moral na
direção contrária a que a evolução aponta e pertence ao plano moral. E pela Lei
da Reação cada uma tem a tendência para evocar a operação da lei correta.
Quando essas forças opositoras acumulam e adquirem uma forma gigantesca,
a força reacionária torna-se necessariamente violenta, resultando em revoluções
morais e espirituais, guerras santas, cruzadas religiosas, e outros atos
semelhantes. Pela ampliação desta teoria entendemos a necessidade do
aparecimento dos Avatares na Terra. Como tudo se torna fácil quando os olhos
estão abertos, e como parecem incompreensíveis quando a visão espiritual está
cega ou mesmo toldada e embotada! A natureza em sua bondade infinita
forneceu ao homem nos planos externos cópias exatas dos seus trabalhos
internos, e, na verdade, aqueles que possuem olhos para ver, verão, e aqueles
que possuem ouvidos para ouvir, ouvirão.

Como é intenso o desejo de cuidar da Alma sofredora nas horas de provas


terríveis e na escuridão oprimente! Mas a experiência revela que aqueles que
passaram por provações semelhantes, nesses momentos não percebem o
auxílio que é sempre ofertado, tornando-se abatidos por uma triste sensação de
solidão e de estarem totalmente desamparados. Se fosse de outra forma,
metade do efeito da prova estaria perdido, e a força e o aprendizado que se
seguem a cada provação dessas teriam que ser adquiridos através de anos com
caminhadas vacilantes e às escuras. A Lei da Ação e Reação opera em todos
os lugares... Aquele cuja devoção é completa, isto é, cujos atos e pensamentos
consagram todas as suas energias e seus haveres à Suprema Deidade e que
percebe a sua própria insignificância bem como a falsidade da idéia da
separação — a este ser em particular não será permitido que os poderes das
trevas se aproximem, e estará protegido dos perigos que ameaçam a sua Alma.
A passagem do Gita que você está considerando deve ser interpretada para
significar que todo aquele que possui o sentimento da devoção desperto jamais
será desertado. Mas não existe garantia contra aberrações temporárias, pois,
em determinado sentido, todo ser vivente, do mais elevado Anjo ao mais simples
protozoário, está sob a proteção do Logos do seu sistema, atravessando os
vários estágios e modos de existência no caminho de retorno ao Seu centro,
para desfrutar pela eternidade da bem-aventurança de Moksha.

O exterior sempre revela o interior ao olho que vê, e pessoas e lugares são,
portanto, sempre interessantes. Novamente, o mundo externo não é algo
desprezível como você poderia imaginar durante a primeira intensidade e
agudeza de sua Vairagya ou desgosto expresso, pois, se assim fosse, toda a
criação seria um desperdício de energia tolo e sem propósito. Mas sabemos que
não é bem assim; que por outro lado existe uma filosofia profunda e sonora,
mesmo nestas manifestações ilusórias ou revestimentos exteriores, e que
Carlyle em seu Sartor Resartur demonstrou um pouco desta filosofia. Por que
então sentir náusea e horror dos mais indesejáveis objetos inúteis? Não serão
repletos de sábias lições os mantos com os quais a Deidade Suprema se oculta
de nós?

Você está correto quando afirma que todas as coisas, as belas e as impuras,
possuem seus lugares na Natureza e constituem, pelas suas diferenças e
variedade, a perfeição do Logos Supremo.

Por que a comunicação do mundo externo com o mundo interior deve ser
cortada, causando tristeza e opressão ao coração? O fato é que o mundo externo
ainda tem algumas lições a ensinar, e uma delas é que também é divino em sua
essência, divino em sua substância e divino em seus métodos, e que, portanto,
você deveria ser mais amável com ele. Por outro lado, tristeza e melancolia
possuem a sua utilidade e filosofia. Elas são necessárias para a evolução e
crescimento da Alma humana tais como a alegria e disposição. Contudo, são
necessárias somente nos estágios iniciais de nosso crescimento e dispensadas
quando o Ser desenvolveu-se e abriu seu coração ao Sol Divino.

Você sabe como a evolução se processa. Começamos sem nenhuma sensação.


Gradualmente nós a desenvolvemos e, em um determinado ponto de nossa
peregrinação, nós a possuímos em seu grau mais intenso. Então vem um
período onde a sensação é encarada como Maya, começando a diminuir, e o
conhecimento passa a predominar, até que no final toda a sensação é
consumida pelo conhecimento, e atingimos a paz absoluta. Mas não a paz na
ignorância, tal como no início da nossa vida no reino mineral, mas a paz na
onisciência; paz não na apatia como se fosse na morte, como vemos nas pedras,
mas na vida absoluta e no amor absoluto. Isto conduz ao repouso, porque anima
tudo o que é e derrama suas bênçãos sobre todo o Universo. Mas os extremos
se encontram, e, então, em um dos aspectos, o início e o fim coincidem.

Dois pontos devem ser esclarecidos: (1) que médiuns destreinados sempre
correm o risco de evidenciar palavras realmente ditas pelo inimigo como
determinações do Mestre; e (2) que o Mestre somente diz o que o intelecto da
audiência possa compreender e que não contrarie o sentido da moral. As
palavras do Mestre, por muito que estejam em oposição aos pensamentos
anteriores de alguém, nunca deixam de trazer a mais absoluta convicção,
semelhante ao intelecto e ao sentido de moral da pessoa a quem se dirige. Elas
vêm como uma revelação, retificando um erro que de imediato torna-se aparente;
transbordam como uma coluna de luz dissipando as trevas; não requerem
credulidade ou fé cega.

Você sabe como o inimigo tem trabalhado contra nós, e se falharmos em nossa
devoção aos Mestres ou na realização de nossas obrigações, as quais Eles
amavelmente nos confiam, ele não porá fim aos problemas. Mas esses
problemas não nos importam muito; podemos suportá-los pacientemente e sem
agitação; o que realmente nos tortura e tira a paz de nossa mente é o
afastamento de nossos Senhores, o que ocasionalmente nos ameaça. Nada
pode nos atormentar mais — nenhuma dor pessoal, nenhuma perda física,
embora possam ser grandes. Pois sabemos, além de qualquer dúvida, que tudo
o que é pessoal é transitório e fugaz, e tudo o que é físico é ilusório e falso, e
somente a loucura e a ignorância pranteiam as coisas que pertencem ao mundo
das sombras.

Para o discípulo pouco representa o ganho obtido pelo ensinamento no plano


intelectual. O conhecimento que se infiltra da Alma para o intelecto é o único que
vale e, certamente, à medida que os dias passam, o suprimento deste
conhecimento aumenta. E com esse aumento o discípulo consegue eliminar tudo
que o atrapalha no Caminho.
O sentimento de dor é aquele no qual todos os que trilham a vida do Espírito
tornam-se habituados. Sabemos que a dor não pode durar para sempre e,
mesmo que assim fosse, ela não teria muita importância. Não podemos esperar
ser de alguma serventia a Eles ou à Humanidade sem receber dos inimigos
nossa completa medida de sofrimento. Mas a ira desses Monarcas das Trevas
é algumas vezes terrível de ser enfrentada, e eles assustam pela Maya que criam
algumas vezes. Porém um coração puro nada tem a temer e permanece seguro
do triunfo. O discípulo não deve se angustiar com a dor passageira e com a
ilusão que eles tentam criar. Ocasionalmente, eles parecem provocar uma
destruição interior regular, e então o discípulo deve debruçar-se sobre as ruínas
de si mesmo e esperar silenciosamente que Asuric Maya passe. Ele deve
sempre permitir que a onda da dúvida e da inquietação passem sobre ele,
segurando firme a âncora que descobriu. O inimigo não causará dano real ou
substancial enquanto ele permanecer devotado a Eles com toda a sua alma e
com toda a sua força. “Aquele que se apegar a Mim atravessará com facilidade
o oceano da morte e também o mundo com o Meu auxílio.”

Nada poderá acontecer ao discípulo que não seja o melhor para ele. Desde que
se tenha colocado deliberadamente nas Mãos dos benevolentes Mestres, Eles
cuidam para que tudo aconteça no momento apropriado — o momento no qual
será colhida a melhor vantagem, tanto para o discípulo como para o mundo.
Portanto, ele deverá encarar tudo o que surgir em seu caminho com um espírito
alegre e satisfeito e “não se preocupar com o amanhã”...

A casca de árvore lançada num mar revolto durante uma tempestade está mais
em paz do que a vida do peregrino no santuário do Espírito. Uma vida pacífica
significa estagnação e morte para aquele que não adquiriu o direito à paz pela
destruição completa do inimigo — a personalidade.

Não devemos cair na ilusão causada pela ignorância. Todo Amor verdadeiro é
um atributo do Espírito, e Prana e Brakti são dois aspectos da Divina Prakriti
(Natureza) que torna a vida do aspirante que busca as águas da imortalidade
digna de ser vivida. Na escuridão tormentosa da vida do discípulo, a única luz
vem do Amor, pois o Amor e Ananda (Felicidade) no seu sentido mais elevado,
idênticos, e quanto mais puro e mais espiritual for o Amor, mais ele partilha da
natureza de Ananda e menos se mescla com os elementos impróprios. Somente
o amor sagrado do Mestre é majestosamente sereno pois não contém nada em
si que não partilhe do Divino.

A prudência e a moderação são imprescindíveis no Ocultismo como em tudo


mais. Na verdade, na vida do Ocultista, todas as faculdades da mente humana
que são consideradas como virtudes no sentido comum são muito utilizadas e
exercitadas, sendo acessórios necessários à verdadeira vida que faz um
discípulo. O mundo não pode ser auxiliado tão facilmente como muitos
imaginam, mesmo se houvesse mais agentes disponíveis para o trabalho. O
conhecimento por parte do discípulo não é a única coisa necessária. Olhe em
torno e pondere antes de concluir se o conhecimento e a devoção de poucos
poderão empurrar os braços do tempo. Nenhuma única tentativa poderá ser
realizada sem provocar uma feroz hostilidade do outro lado, e estará o mundo
preparado para sobreviver à reação? Se você aprende de tudo quanto tem visto
entenderá como os nossos Senhores são sábios em não ir além do que vão.

Qual seria a validade da vida se não sofrêssemos — sofrer para fazer o mundo
que geme sob nossos olhos um pouco mais puro, sofrer para obter um pouco
mais das águas da vida que saciarão a sede de alguns lábios ressequidos?

Na verdade, se não fosse pelo sofrimento que é o destino do discípulo que trilha
com os pés sangrando o Caminho, ele se desviaria e perderia de vista o objetivo
para o qual deveria estar sempre atento. A Maya do mundo fenomênico
confunde, enfeitiça, e a mim me parece que a eliminação da dor seria
inevitavelmente seguida do esquecimento das realidades da existência, e com o
desaparecimento da sombra da vida espiritual sua luz também se acabaria.
Desde que o homem não foi ainda transformado num Deus, é inútil esperar que
ele esteja em alegria ininterrupta de felicidade espiritual. Nos períodos da sua
ausência somente o sofrimento mantém firmes os pés do discípulo, salvando-o
da morte que certamente o surpreenderia no esquecimento das verdades do
mundo espiritual.

O discípulo não deverá ficar perturbado ou surpreso quando as forças espirituais


voltadas contra ele pelos inimigos descobrirem seu campo de ação em um plano
mais elevado do que o do intelecto físico. É verdade que as brasas dissipadas
em uma “falha” de sua personalidade, não vista ou não notada, podem ser
inflamadas até a chama; mas a chama traz em si o sinal da derradeira destruição
de alguma fraqueza que deve ser queimada. Até o momento em que a mancha
da personalidade não tiver sido retirada, o vício em suas várias formas pode
encontrar abrigo em uma câmara esquecida do coração, embora possa não
encontrar expressão na vida mental. E a única maneira de apresentar o santuário
do coração imaculado é deixar o farol penetrar nas “gretas” escuras e
calmamente testemunhar o trabalho de sua destruição. O discípulo não deve
permitir nunca que este processo de purificação o desanime, quaisquer que
sejam as monstruosidades que ele seja obrigado a testemunhar. Ele deve se
manter firme aos Pés do Mestre que habita na gloriosa região purificadora de
tudo o que é material; então ele nada terá a temer ou ansiar. Ele tem fé nos Que
protegem e ajudam e poderá deixar os trabalhos do plano espiritual para serem
observados e direcionados por Eles. Quando o ciclo da escuridão tiver
terminado, ele novamente reconhecerá como o ouro brilha quando a escória é
retirada.

Em nossa esfera mundana, como em todos os planos de existência, a noite


alterna-se com o dia — há uma sombra por trás da lâmpada. Apesar disso, quão
estranho que os homens de cultura e erudição fantasiem que com o avanço da
Ciência, da trivial Ciência materialista, toda a miséria — individual, racial e
nacional — cessará para sempre; doenças, secas, pragas, guerras, inundações,
recusas, os próprios cataclismos, pertencerão todos ao passado remoto!

O interesse que temos em todos os assuntos desta esfera ilusória pertence


somente às emoções e ao intelecto, e não tocam a Alma. Enquanto nos
identificarmos com o corpo e com a mente, as vicissitudes que dominam a
Sociedade Teosófica, os perigos que ameaçam a sua vida ou unidade exercem
uma influência depressiva, e até algumas vezes delirante, sobre nossos
espíritos. Mas quando começarmos a viver no espírito, a compreender a
natureza ilusória de toda a existência exterior, o caráter transitório de toda
organização humana, e a imutabilidade da Vida interna, deveremos, caso a
consciência cerebral reflita ou não o conhecimento, sentir calma interior, uma
espécie de despreocupação com esse mundo de sombras, e permanecer imune
às revoluções e explosões do mundo. Uma vez que o Ego Superior é atingido, o
conhecimento de que as Leis e os Poderes que governam o universo são
infinitamente sábios torna-se instintivo, e a paz em meio as agonias exteriores é
inevitável.

Numa primeira aproximação, no plano em que vivemos existem três modos de


se encarar a miséria humana em geral. Podemos considerá-la, por exemplo: (1)
como um teste de caráter; (2) como um agente retribuidor; e, (3) como um meio
de educação no sentido mais amplo da palavra. Ponderando sobre todos esses
pontos de vista, imagino que a “morte”, experimentada ocasionalmente por todos
os aspirantes, está para a dor aguda quase que na mesma relação que o
confinamento solitário está para a prisão com trabalhos forçados. A ilustração é,
sem dúvida, grosseira, mas me parece muito sugestiva, e tenho visto que
invariavelmente a analogia é de grande ajuda na compreensão de proposições
abstratas e sutis; daí este plano para explicar as idéias. Novamente, todas as
forças aqui estão trabalhando para a evolução da humanidade perfeita, e é
somente através do desenvolvimento harmonioso de todas as nossas
faculdades superiores e virtudes nobres que conseguimos atingir a perfeição. E
este desenvolvimento harmonioso é possível somente através de exercícios
apropriados destas faculdades e virtudes, embora requeiram condições
particulares para cada atributo distinto. O intenso sofrimento não testa, nem
retribui ou coloca em ação as mesmas capacidades e méritos da humanidade
como um triste e insípido vazio interior. Paciência, resistência passiva, fé,
devoção são muito melhor desenvolvidas sob um estado de melancolia mental
do que durante uma luta árdua e ativa. A Lei da Ação e Reação confirma-se no
plano moral, e as virtudes evocadas por este “torpor” mental são as melhores
adaptadas para o combate e a conquista; e certamente não são as mesmas com
as quais você enfrenta a dor verdadeira, embora martirizante. Uma palavra a
mais sobre este ponto e seguirei adiante. Este estado de mente indica que o
peregrino está na região limítrofe entre o conhecido e o desconhecido, com uma
tendência distinta para este último. Marca um grau definido de crescimento
espiritual e indica o estágio no qual a Alma em sua caminhada para a frente
compreendeu vagamente, embora de maneira inconfundível, o caráter ilusório
do mundo material, e está descontente e aborrecida com as coisas grosseiras
que vê e sabe, e busca o aspecto mais verdadeiro, o conhecimento mais
substancial.

A explicação acima, embora sem seguir um método, satisfará, assim espero,


quanto à utilidade de vairagya — do sentimento de ausência de toda a vida e
realidade tanto em você mesmo quanto no mundo à sua volta — na economia
da Natureza. Ao mesmo tempo, essa explicação mostra como vairagya serve de
pedra de toque para a firmeza da mente e simplicidade do coração e como uma
medida punitiva também serve como antídoto contra o egoísmo intelectual — o
erro filosófico de identificar o Ser com a personalidade — a insensatez de querer
nutrir a Alma com o alimento material grosseiro. Além disso, ela desenvolve, ou
melhor, tende a desenvolver a verdadeira fé e devoção e despertar a Razão
superior e o Amor pelo Divino.

Do mais elevado ao mais inferior, a vida é uma alternância entre repouso e


movimento, luz e trevas, prazer e dor. Por isso, nunca permita que seu coração
mergulhe em desespero ou que seja levado por alguma corrente adversa de
pensamento. Você provou a si mesmo intelectualmente, e está agora de fato
experimentando, o caráter obscuro e irreal das coisas percebidas através dos
órgãos do sentido ou pela mente e a natureza efêmera de todos os divertimentos
físicos e emocionais. Portanto, encaminhe-se para a senda que o conduzirá a
uma visão da vida real por mais acidentadas que sejam as regiões que ela
conduz, embora destituídas de alegria os desertos através dos quais agora e
depois esta senda nos conduzirá. Acima de tudo, tenha fé nos Misericordiosos,
nossos Sábios Mestres, e devote seu coração e sua alma ao serviço Deles, e
tudo terminará bem.

O NECESSÁRIO para a eliminação de qualquer vício é:

(1) Um conhecimento preciso sobre o próprio vício;

(2) Um reconhecimento — uma sensação viva de que é um vício, de que é


bobagem acolhê-lo, e de que não vale a pena; e por fim,

(3) A vontade de “exterminá-lo”.

Esta vontade penetrará na esfera subconsciente onde mora o vício, e lenta,


porém seguramente, o eliminará.

A verdadeira tranquilidade da mente nunca é o produto da indiferença e do


desinteresse, mas origina-se somente da visão direta da sabedoria mais elevada
e mais profunda.
Um discípulo, da grande Loja dos Mestres, por mais humilde que seja, deve viver
no Eterno, e sua vida deve ser uma vida de Amor Universal, ou então deverá
abandonar suas aspirações mais elevadas. O serviço ativo que cada discípulo
deve prestar ao mundo é diferente para cada classe de alunos, sendo
determinado pela natureza e disposição peculiares e capacidade do indivíduo.
Naturalmente você sabe que, até que a perfeição tenha sido atingida, deve-se
manter uma diversidade, até mesmo no modo do serviço que um chela deve
executar.

É simplesmente impossível superestimar a eficácia da Verdade em todas as


suas fases e capacidade no auxílio da evolução da Alma humana. Devemos
amar a Verdade, buscar a Verdade e viver a Verdade; somente assim a Luz
Divina, que é a Sublime Verdade, poderá ser vista pelo estudante de Ocultismo.
Onde existe a mais leve inclinação para a falsidade, sob qualquer forma, existe
escuridão e ignorância, e sua filha, a dor. E esta inclinação pela falsidade
pertence à personalidade inferior sem dúvida. É neste ponto que nossos
interesses se chocam, que a luta pela existência atinge o seu máximo, sendo
portanto aqui que a covardia, a desonestidade e a fraude encontram campo.

Os “sinais e sintomas” do funcionamento deste ser inferior não podem nunca


permanecer escondidos daquele que com sinceridade ama a Verdade e busca
a Verdade e é devotado Aos Irmãos Maiores como fundamento de sua conduta.
A menos que o coração seja completamente perverso, nunca deixarão de haver
dúvidas relativas à retidão de qualquer ato em particular; e então o verdadeiro
discípulo perguntará a si mesmo: “Meu Mestre ficará contente se eu fizer isto?”,
ou: “Foi sob a Sua orientação que agi desta forma?” E a resposta verdadeira logo
virá, e ele aprenderá a corrigir-se e a harmonizar seus desejos com a Vontade
Divina, alcançando a sabedoria e a paz.

A Teosofia não é algo que possa ser forçado ou trabalhado com indecisão8 na
cabeça ou no coração de alguém. Deve ser assimilada com tranquilidade no
curso natural da evolução e inalada como o ar ao nosso redor. De outra forma
causará indigestão, usando-se uma expressão vulgar.

8. No original nolens volens. (N. T.)

Ao sentir o crescimento da nossa Alma, compreendemos a calma que nenhum


evento exterior parece atingir. Isto mais uma vez é a melhor prova de
desenvolvimento espiritual, e aquele que o sente, embora leve e vagamente, não
precisa se preocupar com qualquer dos fenômenos ocultos. Desde o início de
meu noviciado, fui ensinada a confiar mais na calma interior do que em qualquer
fenômeno dos planos físico, astral ou espiritual. E, com condições favoráveis e
força pessoal, quanto menos os fenômenos forem vistos, mais fácil é conseguir
um verdadeiro e substancial progresso espiritual. Portanto, meu humilde
conselho a você é que devote sua atenção sempre para o crescimento da paz
interior e não aspire a conhecer em detalhe o processo pelo qual se efetua o
crescimento. Se for paciente, puro e devotado, você saberá de tudo a seu tempo,
mas lembre-se sempre de que a satisfação perfeita e resignada é a parte
essencial da vida espiritual.

O progresso espiritual não é sempre o mesmo como a benevolência e o auto-


sacrifício, embora estes devam, no tempo oportuno, conduzir ao primeiro.

É verdade que existe, no desejo de ganhar a afeição das pessoas que nos
cercam, um trago de personalidade que, se eliminado, nos tornaria um anjo; mas
devemos nos lembrar de que por muito e muito tempo nossas ações ainda
continuarão a ser levemente tingidas com o sentimento do “eu”. Devemos nos
empenhar constantemente para aniquilar este sentimento tanto quanto possível,
mas desde que o “eu” deva mostrar-se de alguma maneira, é melhor que ele
exista como um fator imperceptível na conduta que é gentil, delicada e
conducente ao bem-estar geral, ao invés de se conduzir com o coração
endurecido, o caráter inflexível, com o “eu” manifestando-se em cores bem
menos atraentes e agradáveis. Com isso, em nenhum momento, sugiro que não
se deva realizar esforços para lavar esta mancha indistinta, e o que desejo
transmitir é que a roupagem macia e bonita com a qual a mente se veste não
deve ser atirada ao fogo simplesmente por não apresentar uma brancura
imaculada. Devemos ter em mente que todas as nossas ações são mais ou
menos o resultado de dois fatores: um desejo de autogratificação e um desejo
de beneficiar o mundo — o nosso esforço constante deve ser o de atenuar o
primeiro tanto quanto possível, já que enquanto existir o germe da personalidade,
ele não poderá ser inteiramente eliminado. Este germe pode ser aniquilado pelos
processos nos quais o discípulo aprende, à medida que progride, através da
devoção e das boas ações.

Os Mestres estão sempre próximos daqueles que Os servem e que, através da


auto-abnegação completa, devotaram-se de corpo, mente e alma ao serviço
Deles. E até mesmo uma palavra gentil dirigida a Eles não fica sem uma
resposta. Nas épocas das provas severas, Eles, segundo uma lei beneficente,
deixam o discípulo enfrentar sua própria batalha sem o Seu auxílio; porém
qualquer pessoa que encoraje o servidor Deles a permanecer firme tem, com
certeza, sua recompensa.

Não há dúvida de que, mantendo-nos serenos e calmos, à medida que os dias


passam, estamos cada vez mais sob aquela influência que é a essência da vida,
e, um dia, o discípulo se surpreenderá ao descobrir que cresceu
maravilhosamente sem saber ou perceber este processo de crescimento.
Verdadeiramente, a Alma, no seu legítimo florescer, “cresce como a flor,
inconscientemente”, mas ganhando em doçura e beleza pela absorção da luz
solar do Espírito.

Uma lealdade combativa em favor de qualquer pessoa ou causa dificilmente é


recomendável para um discípulo, e certamente não indica progresso espiritual.
O primeiro passo, em quase todos os casos, possui o efeito semelhante ao
mexer em ninho de marimbondos. Todos os componentes singulares do seu mau
karma jorram à sua volta, e fazem aquele que não está firme sentir-se tonto e
inseguro. Porém, quem tem como objetivo dar sua própria vida, se necessário
for, pelo bem dos demais, sem se importar consigo mesmo, nada tem a temer.
Cada solavanco nestes altos e baixos deste vórtice de misérias e provações dá
força e confiança, promovendo o crescimento da Alma.

Lembre-se de que todo o sofrimento que um discípulo deve passar é uma parte
integral do seu treinamento, e flui do seu desejo de aniquilar a personalidade que
existe nele. Ao término, descobrirá a flor da sua Alma abrindo-se graciosa pela
tempestade subjugada, e o amor e a misericórdia do Mestre mais do que
compensando por tudo o que ele sofreu e se sacrificou. É somente uma prova
do momento, porque ao final ele descobrirá que não houve nenhum sacrifício, e
o ganho foi total.

O amor no plano mais elevado repousa somente nas alturas serenas da alegria,
e nada pode lançar uma sombra sobre a sua dignidade imaculada.

Piedade e compaixão são os sentimentos apropriados para nutrir-se em relação


à humanidade pecadora, e não devemos estimular qualquer outra emoção tais
como ressentimento, aborrecimento ou irritação. Estes últimos podem não
somente nos prejudicar, mas também àqueles contra quem ocasionalmente
acolhemos estes sentimentos; em outras palavras, àqueles que de bom grado
desejaríamos aperfeiçoar e livrar de todos os erros. À medida que crescemos
espiritualmente, nossos pensamentos crescem incrivelmente mais fortes em
poder dinâmico, e somente aqueles que possuem uma experiência real sabem
como um pensamento, mesmo passageiro, de um Iniciado resulta em uma forma
objetiva.

É maravilhoso como os Poderes das Trevas parecem varrer, por assim dizer, de
uma só vez, todos os tesouros espirituais mais ricos de alguém, reunidos com
sofrimento e cuidados após anos de estudo e experimentação incessantes. É
maravilhoso porque, apesar de tudo, é uma ilusão, e descobrimos isto logo que
a paz é restaurada e a luz nos ilumina novamente. Vemos que não perdemos
nada — que todos os nossos tesouros estão lá, e que a tempestade e as perdas
eram só uma quimera.

Embora as perspectivas possam a qualquer momento se apresentar


dilacerantes, embora possa parecer triste e melancólico o estado das coisas,
não devemos nem por um único momento deixar espaço para o desespero, pois
este enfraquece a mente e diminui a nossa capacidade de servir aos nossos
Mestres.

Tenha a certeza de que os Senhores da Compaixão estão sempre olhando seus


verdadeiros devotos, e nunca permitem que aqueles de corações honestos e os
buscadores determinados da luz permaneçam na ilusão; mesmo quando num
recesso temporário, os Sábios Senhores mostram lições que os ajudarão
sobremaneira para o resto de suas vidas.

São simplesmente nossas ignorância e cegueira que emprestam uma aparência


de estranheza e incompreensibilidade ao nosso trabalho. Se passarmos a ver as
coisas sob sua luz verdadeira e em seus significados plenos e mais profundos,
tudo parecerá perfeitamente justo e correto, a expressão mais perfeita da razão
mais elevada.

Segue diretamente da Lei de Justiça e Compaixão — a Lei do Karma e a direção


moral do Universo — que não existe na ordem das coisas manifestas nem um
pouco mais de dor e miséria que sejam absolutamente necessários para os fins
da evolução mais plena. O fato de que cada ato de auto-sacrifício por parte da
mônada em evolução fortalece as mãos do Mestre, trazendo um reforço, por
assim dizer, às Forças do Bem, será uma realidade antes de que venhamos a
ser partes do passado pelo menos um bom percentual da presente raça.

Não seria muito valioso para nós se soubéssemos com precisão tudo o que
aconteceria conosco. Pois não estamos preocupados com os resultados, e tudo
o que nos importa é o nosso próprio dever; enquanto o caminho estiver claro
para nós, são de pouca importância as consequências dos passos dados neste
plano exterior. É a vida interior que é a vida real; e se a nossa fé na orientação
dos Senhores for firme, não devemos ter dúvidas de que quaisquer que sejam
as aparências desta esfera ilusória, tudo estará bem interiormente, e o mundo
estará seguindo em sua linha de evolução. Esta idéia nos traz conforto, há bem-
aventurança neste pensamento, e somente ele deveria ser suficiente para nos
encorajar quanto aos nossos deveres atuais e nos estimular para uma maior
atividade e trabalho mais firme.

Existe uma grande diferença entre aquele que sabe que a vida espiritual é uma
realidade e o homem que somente balbucia sobre ela mas que não a percebe,
que tenta agarrá-la ou mantê-la, mas não inala seu hálito perfumado e nem sente
seu toque delicado.

Há muito mais sabedoria Naqueles que nos observam do que podemos imaginar,
e se somente prendêssemos com firmeza a nossa fé nisto, não cairíamos em
erros graves e seguramente evitaríamos muitas das preocupações
desnecessárias, inferiores e inúteis. Pois não são poucos os nossos erros que
podem ser atribuídos ao excesso de ansiedade e medo, a nervos
demasiadamente sensíveis e até ao zelo ardoroso.

Você agora compreenderá que a devoção integral é um fator poderoso na


promoção do crescimento da Alma, embora não tenha sido vista e nem
compreendida até o momento, e você não me responsabilizará por tê-lo
aconselhado a deixar de lado todos os pensamentos sobre os fenômenos e o
conhecimento espiritistas, poder psíquico e experiências incomuns, pois sob a
serena luz solar da paz cada flor da Alma sorri e desabrocha rica em sua cor
radiante, peculiar. Então, um dia, o discípulo olha com assombro para a beleza
e para a fragrância deliciosa de cada flor, regozija-se, e no regozijo entende que
a beleza e o esplendor emanam do Senhor a Quem ele serviu. O processo de
crescimento não se encontra no artigo trivial e detestável conhecido dos
frequentadores do pseudo-ocultismo. É algo misterioso, tão doce, tão sutil, que
ninguém pode falar sobre ele, mas somente conhecê-lo pelo servir.

Você provou algumas gotas do néctar da Paz, e, ao provar, descobriu força.


Sabe agora e para sempre que na calma da Alma está o verdadeiro
conhecimento, e da divina tranquilidade do coração provém o poder. A
experiência da paz e da alegria celestiais é portanto a única vida espiritual
verdadeira, e o crescimento na paz é o único que significa crescimento da Alma.
O testemunho de fenômenos incomuns pelos sentidos físicos faz surgir a
curiosidade e não promove o crescimento. A devoção e a paz formam a
atmosfera na qual a Alma vive, e quanto mais você o tiver, mais vida sua Alma
possuirá. Por isso, confie sempre nas experiências do seu Ser Superior como
um teste do seu próprio progresso, como também da realidade do mundo
espiritual, e não atribua importância alguma aos fenômenos físicos os quais
nunca fazem, e nunca podem criar uma fonte de força e consolo.

Os servos humildes e devotos dos Mestres realmente formam uma corrente na


qual cada elo está ligado aos Compassivos Seres. Portanto, a energia que liga
um elo da cadeia com o seguinte implica a força da corrente que sempre se
aproxima Deles. Por esta razão, não devemos cair na ilusão popular de
considerar como fraqueza o amor tão amplamente partilhado com o Divino.

Até o amor comum, se real, profundo e abnegado, é a manifestação mais pura


e elevada do Ser Superior e, se abrigado no âmago de alguém com constância
e desejo do auto-sacrifício, o conduzirá finalmente a uma compreensão mais
clara do mundo espiritual do que qualquer outro ato ou emoção humanos. O que
dizer então de um amor que tem como base uma aspiração comum de alcançar
o Trono de Deus, que reza unido para sofrer pela humanidade ignorante e
pecadora, e um penhor mútuo para sacrificar sua própria felicidade e conforto
com o intuito de melhor resignar-se ao serviço Daqueles que estão sempre
construindo um baluarte com Suas bênçãos entre as terríveis forças do mau e a
Humanidade — indefesa e órfã!... Mas as idéias do mundo são sempre
distorcidas pelo egoísmo e infâmia da natureza humana. Se no amor existe
fraqueza, não sei onde repousa a força. A verdadeira força não consiste de
disputas e oposições, mas reside com toda sua potência no amor e na paz
interior. Portanto, o homem que deseja viver e crescer deve amar sempre e
sofrer pelo amor.
Quando o mundo, cego em sua ignorância e vaidade, fez justiça aos seus
verdadeiros salvadores e mais devotados servos? Basta que alguém veja, e
nesta visão tente dissipar, tanto quanto possível, a ilusão das pessoas próximas.
O desejo de que cada um tenha os olhos para ver e reconhecer o Poder que
trabalha para a sua regeneração permanecerá irrealizado até que a atual
escuridão que nos envolve como uma mortalha, obscurecendo a visão espiritual,
tenha sido completamente afastada.

PAZ A TODOS OS SERES.


A Vida Teosófica1

Há certas maneiras de olhar a vida que parecem surgir naturalmente de nossos


estudos teosóficos. De bom grado eu desejaria inspirar meus leitores com
renovada energia e determinação, em meio às provações do momento, no
sentido de porem em prática na vida diária as doutrinas que nós tão
continuamente estudamos. Pois, se a teosofia não for uma ciência da vida, se o
teósofo, por meio da Sabedoria Divina que ele estuda, não se tornar sábio para
o auxílio de todos ao seu redor, então sua vida é realmente pior do que a vida
comum. Pois, onde a inspiração é maior, não se elevar é cair mais baixo do que
o homem comum. Há uma grande verdade naquela parábola onde é dito que o
homem que não usou seu talento era merecedor da punição mais pesada, e que
aquele que sabia e não agiu deveria ser castigado com muitas chicotadas,
enquanto que aquele que não sabia e não agiu deveria apenas ser castigado
com poucas. Agora, o teósofo não pode pretender não saber. De todos os lados,
conhecimentos jorram sobre ele. Com estas vantagens de conhecimento, nosso
fazer deve ser melhor que o fazer da maioria à nossa volta, e, a menos que
possamos corroborar a teosofia na vida, quanto menos nos professarmos
teósofos, melhor.
1. The Theosophic Life — TPH, Adyar, 1984 — Reedição de texto publicado no início do século.

Quais os principais pontos na vida sobre os quais brilha uma luz mais forte? Do
primeiro objetivo — ser um núcleo de Fraternidade — deduz-se que nosso
principal trabalho deve basear-se no auxiliar, tanto quanto possamos, tudo o que
conduz à Fraternidade, e assim nos dando conta de que ela não deve ser uma
mera profissão vazia. Não me alongarei sobre este ponto, mas analisarei as duas
grandes doutrinas da reencarnação e do karma.

REENCARNAÇÃO
Que diferença deve aparecer numa vida na qual a doutrina da reencarnação é
definitivamente aceita? Em primeiro lugar, olhar a vida com um horizonte mais
amplo deveria nos dar uma paciente força e uma ausência de pressa que não
são muito características da vida moderna. Com a perda da doutrina da pré-
existência da alma no Cristianismo e a consequente infinitude do céu e do
inferno, toda a sorte de uma condição eterna passou a depender desta única
vida. Inevitavelmente, com esta mudança de pensamento, a pressa tornou-se
uma das características da vida. Tal como num barco quando existe perigo de
naufrágio há pânico e luta, assim também com todos os que acreditam naquele
pesadelo de um inferno eterno e no sonho de um céu eterno, este elemento de
pressa entra na vida — tanto para ser feito, problemas tão vastos e um tempo
tão breve. A vida torna-se uma luta, na qual o fracasso terá como resposta uma
dor perpétua. Com a perda da crença na reencarnação, ser “salvo” também
perdeu seu significado antigo — que o ciclo de renascimentos havia chegado ao
fim, e que o homem havia se transformado em “um pilar no templo de Deus para
de lá não mais sair.” A antiga idéia cristã não era ser salvo do inferno, mas do
sempre recorrente ciclo de renascimentos, das infindáveis “ressurreições” na
carne que Tertuliano falou. “Para aquele que triunfou” havia a promessa de
tornar-se um pilar no grande templo da humanidade, para não mais sair, mas
para sustentar aquele templo como uma poderosa força mantenedora. Aquela
esplêndida idéia de salvação transformou-se na mesquinha salvação individual
de uma simples unidade da raça humana. Mas quando se compreende que nós
temos muitas chances, que cada fracasso traz o sucesso um pouco mais perto,
e que o último fracasso é o limiar do sucesso, então uma grande força cresce na
vida. Há tempo suficiente, intermináveis oportunidades, e a queda de hoje é a
elevação de amanhã. E lentamente, à medida que este pensamento da
reencarnação se torna parte de nós, um princípio a ser vivido, descobrimos que
nossa vida encontra a calma, a serenidade que advém da consciência de uma
vida imortal. Nós estamos vivendo um dia dentre muitos dias, e o que não
podemos fazer hoje, amanhã deveremos alcançar inevitavelmente. Imenso é o
poder desta idéia, desde que plenamente reconhecida, quando sentimos que
não há nada que esteja além de nossas forças, pois temos tempo durante o qual
nossas forças podem gradualmente evoluir. Mas não é apenas isto; todas as
pessoas ao nosso redor ganham um novo aspecto quando compreendemos o
fato da reencarnação. Com nossos amigos temos um laço mais próximo, pois
todos que conhecemos como um amigo vêm de nosso passado, Espírito
aclamando Espírito através do obscurecedor véu do corpo material; e
compreendemos a imortalidade do amor à medida que compreendemos a
imortalidade da vida. E quando ao invés de amigos nós encontramos um inimigo,
que diferente o aspecto quando conhecemos a verdade da reencarnação! O que
é o inimigo? Alguém que ofendemos no passado, alguém com quem temos uma
dívida, e que aparece para reclamá-la. O pagamento nos deixa livres. Ele é um
libertador, não um inimigo; ele nos dá a oportunidade de saldarmos um débito,
sem cujo pagamento nunca estaríamos livres. Quando o vemos sob esta luz, em
que se transforma a raiva ou o ressentimento? Em que se transformam
quaisquer sentimentos, senão em gratidão para com aquele que nos cobra o
pagamento de uma antiga dívida e nos deixa livres para seguirmos nosso
caminho? Ninguém pode nos causar danos senão nós mesmos; o inimigo que
parece nos golpear é apenas a nossa própria mão golpeando a nossa própria
face, nossa própria ação que surge em uma nova encarnação. Se estamos
zangados, estamos zangados conosco mesmos, ressentidos conosco mesmos,
sendo vingativos contra nós mesmos. Não há inimigos quando a reencarnação
é completamente compreendida. Olhando para todas as coisas desta maneira,
uma grande amargura irá embora de nossas vidas. Pois aquilo que fere não é a
injúria, mas o ressentimento, a sensação de algo errado, o sentimento de ter sido
injustamente tratado. Estes são os aguilhões que causam a dor em qualquer
ação, e quando compreendemos que se trata apenas do pagamento de uma
dívida, então nenhum destes aguilhões está presente; há apenas a restauração
do equilíbrio de uma antiga má ação. Todos os aguilhões desaparecem e
permanece apenas a atividade, a qual é o restabelecimento do equilíbrio.

E quando assim tivermos olhado para amigos e inimigos, que dizer das
circunstâncias da vida? A reencarnação nos faz compreender que as
circunstâncias ao nosso redor são exatamente aquelas melhores para o nosso
crescimento e evolução. É um profundo engano imaginar que em outras
circunstâncias quaisquer de nós estaríamos melhor do que estamos agora. As
pessoas dizem: “Se apenas minhas circunstâncias fossem diferentes, eu poderia
levar uma vida muito mais útil.” Erro! Você está fazendo o máximo onde você
está, em qualquer outro lugar você estaria pior, não melhor. Você está cercado
exatamente pelas coisas que você quer para o próximo passo no caminho
ascendente, e no momento que você estiver pronto para seguir qualquer outra
linha na vida, naquele momento aquela linha de vida se abrirá à sua frente. Há
um obstáculo na família? Este é exatamente o obstáculo requerido para te
ensinar paciência. Há negócios que interferem? Esta é a situação necessária
para desenvolver qualidades nas quais você está deficiente. Em cada caso
particular, tão sábia é a Boa Lei. As circunstâncias ao seu redor são as melhores
que a sabedoria de um arcanjo poderia planejar para o seu crescimento e
desenvolvimento. É impossível descrever a paz que este conhecimento traz para
a vida. Todo aborrecimento desaparece, toda preocupação cessa, e a ansiedade
por algo diferente não mais corrói o coração. Um contentamento completo,
absoluto, perfeito, desce sobre a alma; neste contentamento a lição do meio
ambiente doloroso foi aprendida, e este gradualmente se modificará.

E mesmo assim, este não é todo o benefício que advém de uma real
compreensão da reencarnação. Ela dá uma infinita tolerância, infinita paciência
com tudo ao nosso redor. O grande problema do verdadeiro bom homem ou
mulher é que as pessoas não são boas da maneira que ele ou ela desejam que
elas sejam boas. “Se pelo menos o meu vizinho fizesse o que eu penso que ele
deveria fazer, quanto melhoraria sua vida.” As boas pessoas se preocupam
demasiadamente, não com melhorarem suas próprias vidas, mas com reformar
as vidas dos seus semelhantes. Tudo isso é trabalho posto fora. O Ser em cada
um sabe seu próprio caminho muito melhor do que o Ser em qualquer outra
pessoa pode julgar por ele, e estabelece sua rota na vida de acordo com o
desenvolvimento que ele deseja e de que necessita. Ele escolhe o seu melhor
caminho. “Mas”, diriam vocês, “ele está tomando um caminho errado.” Errado
talvez para vocês, mas certo para ele. As lições que aquele Ser quer aprender
em seu presente corpo, quem pode julgar? Será que nós sabemos cada
incidente de suas experiências passadas, suas anteriores tentativas, fracassos
e vitórias, de forma que possamos dizer o que agora ele requer para o próximo
passo no desenvolvimento de sua vida? Aquela experiência que te parece tão
terrível pode ser a mesma experiência de que ele necessita; o fracasso que
pensas ser tão mau, pode ser o mesmo fracasso que tornará o sucesso
inevitável. Nós não podemos julgar nossas próprias vidas, cegos pelo corpo;
como então poderemos julgar a vida de outro? Não há lição mais vital do que
não tentar controlar ou moldar outros de acordo com nossas próprias idéias. Será
que nunca nos ocorreu que neste mundo — que é de Deus — há infinitas
variedades de formas, infinitas diferenças de experiências? Por quê? Porque
apenas nessa infinita diversidade podem os infinitos poderes do Ser se tornarem
manifestos. O que é uma falta para nós, cegos e ignorantes, é apenas o que é
requerido quando visto do outro lado. Nós precisamos escolher nosso caminho
de acordo com o nosso conhecimento e a nossa consciência e deixar os outros
escolherem os seus.

Mas, vocês poderiam perguntar — “isso quer dizer que nunca deveríamos
orientar, nunca dar conselhos?” Não. Este é o auxílio razoável que vocês podem
dar; mas vocês não deveriam tentar coagir, não deveriam dizer: “Você deve fazer
isto já”. O Ser está em todo o homem, e como diz o grande dito do Egito, que
tenho tão frequentemente citado: “Ele faz seu próprio caminho de acordo com a
Palavra”. “A Palavra” significa aquilo que é entoado pela natureza quando
perfeita, construída por infinitas vibrações que compõem uma nota, e o conjunto
de todas as notas constituindo o acorde daquela vida particular. Esta é “A
Palavra.” De acordo com “A Palavra” daquele Ser individualizado ele constrói
seu caminho. Algumas vezes em um acorde musical uma nota discordante é
necessária para a perfeição da harmonia. Ela soa muito mal, quando separada,
mas como parte da harmonia de um grande acorde, aquela nota que era tão
discordante enriquece e torna perfeito o acorde. A metade do segredo dos
belíssimos acordes de Beethoven jaz no poder com que ele usa notas
discordantes. Sem elas quão diferente seria sua música, quão menos rica,
menos melodiosa e menos esplêndida. E há na vida humana tais notas
aparentemente discordantes. Chocando-se separadamente, elas assustam e até
mesmo nos horrorizam, mas na Palavra final aquelas notas também encontram
sua resolução, e todo o acorde da vida é perfeito. A reencarnação nos ensina
que por percebermos tão-somente um mero fragmento de uma vida não
podemos julgá-la. Se eu cobrisse praticamente todo um quadro na parede, como
poderia um observador julgara beleza, ou falta de beleza, de toda a pintura?
Similarmente, como poderemos julgar a beleza do quadro, no qual aquilo que
nos parece um defeito pode ser a sombra que dá profundidade e beleza ao todo
da vida, a qual é muito mais complexa do que podemos imaginar? Se todas as
vidas fossem feitas de acordo com nossas estúpidas idéias, que tipo de universo
veríamos ao nosso redor? Mas o Universo é o pensamento de Deus, e ele está
se manifestando em todos os pontos dele, e quando vemos o que para nós
parece um pecado, é sábio perguntarmos a nós mesmos: “Qual o significado
desta manifestação do Ser?”, e não condená-la. Então aprendemos. Não
precisamos copiá-la. Para nós ela poder ser má. Mas nunca deveríamos julgar
nossos semelhantes. Esta é a lei afirmada em todas as grandes escrituras. A
atitude do teósofo deveria ser sempre aquela de um aprendiz na vida: “O que
tem este homem, ou aquela circunstância, para me ensinar? O que tenho eu que
aprender deste problema?” Desta maneira deveríamos olhar a vida, e, ao fazer
isso, estaríamos tão interessados nela que não teríamos tempo para julgar ou
culpar, e nossa vida começaria a ser uma vida de sabedoria.

KARMA: Uma Criação Contínua


Muito mais poderia ser dito nesta linha de pensamento; mas permitam-me agora
mudar para um dos ensinamentos teosóficos mais mal-entendidos, a doutrina do
karma. Poucas coisas, talvez, são tão perigosas como um pequeno
conhecimento da lei do karma. E infelizmente muitos de nós paramos no ponto
do pequeno conhecimento. Nós precisamos lembrar como o karma é gerado, e
julgarmos por aquilo que sabemos, não pelo que imaginamos. As pessoas com
frequência falam do karma como se ele fosse uma grande carga jogada sobre a
cabeça do homem ao nascer, contra a qual ele nada pode fazer. Algumas vezes
isso ocorre, mas na vasta maioria dos casos o karma que vocês estão criando
todos os dias está modificando todos os resultados do karma do passado. É uma
criação contínua, e não algo parado esperando por nós; não é uma espada
pendendo sobre nós, a qual pode cair a qualquer momento. Uma maneira de
considerar isso praticamente é relembrar as leis kármicas: o pensamento cria o
caráter; o desejo, a oportunidade; a atividade, o meio ambiente. Observem
qualquer um dos seus dias e perceberão seus pensamentos muito misturados,
alguns úteis, outros nocivos; e se tiverem que fazer um balanço, a resultante da
mescla de todos esses pensamentos na corrente kármica pode ser algo muito
difícil de determinar. Assim também com os desejos; parte do dia estarão
desejando nobremente, outra parte baixamente; algumas vezes sabiamente,
outras vezes estupidamente. A resultante dos desejos do dia também não é fácil
de ser vista, mas ela certamente será muito misturada. Da mesma forma com
suas ações; algumas palavras violentas, outras bondosas; algumas amáveis,
outras ásperas; muito mescladas mais uma vez. O estudo de um dia provará que
vocês estão criando um karma muito variado, e que é difícil dizer se o resultado
final é bom ou mau. Apliquem isso para suas vidas passadas e vocês se
libertarão da noção de uma enorme corrente que varre suas vidas.

Aquela corrente é formada por milhares e milhares de diferentes correntes, e


elas atuam umas contra as outras. No caso de muitas das decisões que vocês
tomam e as ações que seguem tais decisões, os pratos da balança do karma
estão equilibrados. Uma real compreensão do karma é um estímulo para a ação
vigorosa. A qualquer momento vocês podem mudar o resultado de destinos e
podem alterar o peso em um prato ou outro da balança de suas sortes. O karma
está sempre sendo feito. Seja qual for a circunstância, façam o melhor uso dela
no momento, e se a balança estiver muito pesada contra vocês, não se
importem, vocês terão feito o melhor, e isso irá para o outro prato da balança,
tornando-os mais equilibrados para todo o futuro. A ação vigorosa é sempre
sábia. Não importa se ela parece não poder resolver, vocês terão diminuído o
peso contra vocês. Cada esforço tem seu pleno resultado, e quão mais sábios
vocês forem, melhor vocês podem pensar, desejar e agir. Se vocês olharem o
karma dessa maneira, ele nunca os paralisará, mas sempre os inspirará. “Mas”,
dirão vocês, “há certas coisas, apesar de tudo, nas quais meu destino é mais
forte do que eu.” Vocês podem algumas vezes enganar o destino, quando não
podem enfrentá-lo face a face. Quando navegando com ventos contrários, o
navegante não pode mudar o vento, mas ele pode mudar a direção das velas. A
direção do navio depende da relação das velas com o vento, e, por meio de um
bordejo cuidadoso, pode-se quase que navegar contra um vento adverso, e com
um pequeno trabalho a mais chegar ao porto desejado. Isto é uma parábola a
respeito do karma. Se você não pode mudar sua sorte, mude a si mesmo, e
encontrando-a num ângulo diferente, você irá deslizando com sucesso onde o
fracasso parecia inevitável. “Yoga é habilidade na ação”, e esta é uma maneira
pela qual o homem sábio governa seus astros ao invés de ser governado por
eles. Nas coisas que são realmente inevitáveis, e nas quais você não pode
mudar sua atitude, permaneça firme. Elas são muito poucas. Quando houver um
destino tão poderoso que você possa apenas curvar-se ante ele, mesmo então
aprenda com ele, e daquele destino você colherá uma flor de sabedoria que
talvez uma sina mais feliz não o permitiria colher. E assim, em todas as ocasiões,
nós descobrimos que podemos enfrentar e conquistar e, mesmo da derrota,
podemos colher a flor da vitória.

Desta maneira nós aprendemos a vida teosófica, e ela se torna mais e mais
realidade a cada semana que vivemos. A vida teosófica precisa ser uma vida de
serviço. A menos que estejamos servindo, não temos direito algum de viver. Nós
vivemos pelo constante sacrifício de outras vidas por todos os lados, e nós
devemos retribuí-lo; de outro modo, para usar uma frase antiga, nós somos tão-
somente ladrões e não retribuímos as dádivas recebidas. O serviço é o grande
iluminador. Quanto mais servimos, mais sábios nos tornamos, pois aprendemos
sabedoria não pelo estudo, mas vivendo. Há um sentido no qual o dito seguinte
é perfeitamente verdadeiro: “Aquele que cumpre a vontade conhecerá a
doutrina.” Viver a vida de serviço clareia a atmosfera mental dos nevoeiros
deformantes do preconceito, da paixão e do temperamento. Unicamente o
serviço torna a vista simples, de forma que todo o corpo esteja cheio de luz, e
somente aqueles que servem são os que verdadeiramente vivem. Este é o ideal
teosófico com o qual devemos permear o viver de cada um de nós, pois é na
medida que nos doamos em serviço aos demais que podemos clamar o serviço
Daqueles que estão em alturas mais elevadas do que nós. Aqueles que servem
a humanidade servem na proporção do serviço prestado. Eles estão fadados a
enviar correntes de vida por canais que as carregarão a todos os lugares e as
distribuirão, e Eles buscam, a fim de que possam servir a humanidade, aqueles
cujas vidas sejam um longo serviço para a raça. Por serviço não me refiro
somente aos grandes atos de serviço feitos pelo mártir ou pelo herói. Sempre
que por amor você serve um homem ou mulher, você serve a raça. Na Índia,
todo homem verdadeiramente religioso oferece cinco sacrifícios cada dia. Um
destes sacrifícios é o “sacrifício aos homens”; poderíamos chamá-lo de sacrifício
à humanidade. A aplicação disso é que antes que o dono da casa se alimente,
ele deve alimentar alguém que necessite de alimento. Somente após ter
alimentado outro pode ele tomar o seu próprio alimento. Nós também servimos
a raça, servindo o semelhante que estiver mais perto e podemos glorificar cada
singelo ato de serviço vendo, atrás daquele que o recebe, o grande ideal: “Ao te
servir eu sirvo a raça, e tu és a mão da raça”.

A vida torna-se grande quando a olhamos desta mais ampla perspectiva, quando
vemos as coisas como elas são, ao invés de estarmos cegos pelas aparências
exteriores. Que nossas vidas sejam grandes e não mesquinhas. A vida grande
é a vida feliz, e aquele cujos ideais são grandes é ele mesmo grande; pois a
matéria se molda de acordo com a vontade do Espírito que a anima, e uma vida
que é insignificante do ponto de vista externo pode ser grande por causa do
esplendor do ideal que ela encerra. Se não pudermos fazer grandes coisas, que
façamos pequenas coisas perfeitamente, pois, a per feição jaz na perfeição de
cada detalhe e não no tamanho do ato. Não há nada grande, nem nada pequeno
do ponto de vista do Ser. O ato do Rei, cuja vontade molda uma nação, não é
maior do ponto de vista do Ser que o ato da mãe ao afagar uma criança
chorando. Cada um é necessário, é parte da Divina atividade. Porque é
necessário, ele é grande em seu próprio lugar, e o todo, não qualquer uma das
partes, é a vida do Ser. Ela é como um imenso mosaico, e cada fragmento que
não esteja no seu próprio lugar provoca uma mancha na perfeição do todo.
Nossas vidas são perfeitas na medida em que preenchem a lacuna apropriada
no grande mosaico, e se deixamos de fazer nosso trabalho, enquanto ansiamos
por outro, dois lugares podem ficar vazios, e o todo mal feito.

Estas são algumas das lições que fundamentam a vida que é verdadeiramente
teosófica. Desta maneira a teosofia se converte num auxílio, num imenso poder,
e se assim pudermos viver, nossas vidas ensinarão teosofia melhor do que a
língua de qualquer orador, por mais habilidoso e eloquente que ele seja. Isto
porque há apenas poucos oradores, enquanto muitos são os que vivem, e suas
vidas podem pregar mais eloquentemente que qualquer perícia da oratória. Esta
a mensagem que queria aqui trazer, esta a inspiração que desejaria transmitir à
vida de cada leitor — a inspiração pela qual, ainda que imperfeitamente, oriento
a minha própria vida. Pois percebo que na medida que estes pensamentos se
tornam mais fortes e mais influentes, na medida que eles se transformam em
realidades vivas e não somente belas teorias, toda a vida se torna esplêndida,
não importando que circunstâncias externas possam existir.

Vigia! Como está a Noite?


“A Noite está perto do Amanhecer.”
Como sabes que o Sol está próximo?
“A Estrela da Manhã, a Estrela no Oriente
“Está brilhando sobre o horizonte.”
Irmãos! Preparem-se! Levantem suas cabeças.
Revelação, Inspiração e
Observação1
sua abordagem pelo estudante teosófico

Aqueles que assumem com seriedade o estudo da teosofia não devem ficar
satisfeitos com a mera leitura da volumosa literatura teosófica que foi derramada
sobre o mundo durante os séculos passados e continua a fluir em nossos dias.
Eles devem, também, se tiverem alguma aptidão interna para esta investigação,
preparar-se para desenvolver as faculdades pelas quais podem verificar por si
mesmos o que lhes é contado por outros. Mas, em todo caso, muito estudo
teórico é desejável antes que se passe para o estudo prático e, na maior parte
dos casos, não será possível desenvolver os sentidos mais sutis dentro dos
limites da atual encarnação, embora possa ser construído um bom alicerce para
este desenvolvimento na próxima. Assim, o estudo teórico deve ocupar uma
grande parte do treinamento de cada estudante teosófico, e sua atitude com
relação a este estudo é uma questão de séria importância. O estudante necessita
discriminar os livros que lê, e adequar sua atitude ao tipo de livro; deve procurar
compreender o que significa Revelação, e o que é Inspiração, sabendo distinguir
literatura revelada de literatura inspirada, e, a ambas dos registros de
observações.

1. Palestra feita na convenção inglesa da Sociedade Teosófica, em 4 de julho de 1909, e


publicada pela Theosophical Publishig House, Adyar, em 1980.

Algumas Escrituras tidas como autorizadas estão por trás de todas as grandes
religiões. Assim, o Hinduísmo tem o Veda. A palavra significa conhecimento e
se refere ao conhecimento do que é eternamente verdadeiro. É o conhecimento
do Logos, o conhecimento do senhor de um universo; o conhecimento do que é,
e não do que parece; o conhecimento de realidades, não de fenômenos. Ele
permanece sempre no Logos; é parte Dele. Na sua forma manifestada, como
revelado para ajuda do homem, vem a ser os Vedas, e sob esta forma passa por
muitos estágios, até que finalmente pouco resta do original. Todas as escolas
hindus de filosofia reconhecem a suprema autoridade dos Vedas; mas depois de
feito este reconhecimento formal, o intelecto é deixado completamente livre para
inquirir, julgar e especular. Rígido como é o Hinduísmo em sua política social,
ele sempre deu liberdade ao intelecto humano; em filosofia, em metafísica,
sempre compreendeu que a verdade tem de ser buscada, e que não deve haver
castigo para o erro, porque este já é suficientemente punido pelo fato de ser erro
e gerar infortúnios através das leis naturais. Mesmo hoje aquela antiga liberdade
é mantida, e o homem pode pensar e escrever como quiser, contanto que siga
na prática os costumes sociais de sua casta. O Hinduísmo divide todo
conhecimento em dois tipos — o supremo e o inferior. No inferior ele coloca todos
os seus livros sagrados — seguindo nisto o dito de um Upanishad1 —
juntamente com qualquer outra literatura, com toda ciência, toda instrução; na
categoria do supremo, ele coloca apenas “o conhecimento Daquele por Quem
todo o resto é conhecido”. Aí você tem o Hinduísmo em poucas palavras. Uma
vez que o supremo conhecimento é atingido e a iluminação é experimentada,
todas as Escrituras passam a ser inúteis. Isto é afirmado com toda clareza e
coragem numa conhecida passagem do Bhagavad Gita: “Todos os Vedas são
tão úteis para um Brâhmane iluminado quanto um reservatório de água num
lugar coberto pelas águas”2. Qual é a necessidade de um reservatório quando a
água está por toda parte? Qual é a necessidade de Escrituras quando o homem
é iluminado? A revelação é inútil para aquele a quem o Ser está revelado.

1. Mudakopanishad, I, i, 5.

2. on, cit, ii, 46.

Nos primeiros dias do Budismo, os Vedas eram tidos em alta conta, porque o
Senhor Buda, como afirma o Dr. Rhys Davids, “nasceu, foi educado, viveu e
morreu como hindu3”. Mas a condição da liberdade intelectual para os budistas
está contida no sábio conselho do seu Instrutor: “Não acreditem em uma coisa
dita simplesmente porque é dita, nem em tradições porque vêm sendo
transmitidas de um para outro desde a antiguidade; nem em rumores enquanto
rumores; nem em escritos de sábios apenas porque foram sábios que os
escreveram, nem na mera autoridade de seus próprios instrutores ou mestres.
Mas devemos acreditar quando o escrito, a doutrina ou dito, é corroborado pela
nossa própria razão e consciência. Por isso tenho ensinado a vocês a não
acreditar apenas por haverem escutado, mas acreditarem quando a crença
ocorre a partir de sua própria consciência, e então agirem de acordo com isto e
intensamente”4. Mesmo a revelação, para o budista, deve ser confrontada com
a pedra de toque da razão e da consciência; deve haver uma resposta a ela a
partir de dentro, o testemunho interior do Ser, antes que possa ser aceita como
verdadeira.

3. Buddhism, p. 116.

4. Kalama Sutta de Anguttara Nikiya.

Nas fés cristã e muçulmana — ambas grandemente influenciadas pelo Judaísmo


— a natureza autoritária da revelação é mais acentuada que em qualquer fé
anterior. Na época moderna, a dominação e o jugo da Escritura revelada têm
sido muito atenuados para a cristandade pelo crescimento do espírito crítico e
pelas pesquisas acadêmicas. O moderno estudioso cristão enfrenta poucos
obstáculos a mais que o hindu por causa da sua revelação. Ele faz uma
reverência convencional diante dela, como quem levanta o chapéu, e depois
segue livremente o seu caminho.

REVELAÇÃO
O que é Revelação? É a comunicação, feita por um Ser superior à humanidade,
de fatos conhecidos por Ele mas desconhecidos por aqueles a quem Ele faz a
revelação — fatos que eles não podem perceber pelo exercício dos poderes que
desenvolveram até agora. Estes fatos podem ser verificados a qualquer
momento por quem haja alcançado o nível do Revelador, que pode ser um
Avatar, um Rishi, ou o Fundador de uma religião. Eles “falam com autoridade”, a
autoridade do conhecimento, a única autoridade diante da qual todos os homens
sensatos se curvam. Verificamos que estes grandes Seres não escreveram seus
próprios ensinamentos; ensinaram, mas não fizeram registros. Algum seguidor
ou discípulo, talvez depois de muitos anos e mesmo séculos, registrou o que ele
ou seus antepassados escutaram; por isso, a revelação — e esta regra
praticamente não tem exceção — é inevitavelmente, em alguma medida,
colorida, estreitada e distorcida por quem a transcreve. O que foi escutado
originalmente por quem rodeava o Instrutor divino persiste de fato nos registros
akáshicos, e sempre pode ser recuperado por aqueles que desenvolveram a
percepção interna necessária a sua leitura. Em muitos casos, registros
qualificados terão sido feitos por pessoas altamente habilitadas; mas tais livros
preciosos são mantidos sob a firme custódia dos seus guardiães escolhidos, em
templos secretos, em bibliotecas de rocha, disponíveis para o estudo de altos
Ocultistas e ninguém mais.

Os maometanos diriam que no caso do seu livro sagrado há mais certeza de que
as próprias palavras do seu Profeta foram preservadas. E, sem dúvida, isto se
deve à extrema autoridade do AI Quran sobre as mentes dos fiéis do Islamismo.

Qual deve ser a atitude do estudante teosófico em relação à revelação? Ele deve
tratar as escrituras do mundo com reverência, lembrando sua origem, mas não
sentir submissão diante de nenhuma delas, sabendo que são transmitidas a ele
através de vários canais. Deve buscar a ajuda dos melhores eruditos, e receber
toda a luz possível das descobertas arqueológicas e históricas, usando o seu
melhor senso crítico para separar a verdade essencial revelada de todos os
acréscimos que podem haver se acumulado ao seu redor. Se já desenvolveu
suas qualidades psíquicas mais elevadas, o estudante deve tentar investigar e
distinguir o antigo do moderno e pesquisar os registros akáshicos para uma
comparação, confirmação ou contradição da revelação tal como ela chegou até
suas mãos. Podem ser imensos os serviços prestados por tais estudantes
teosóficos na medida em que eles se tornem mais numerosos e melhor
equipados para esta tarefa gigantesca. E sem este equipamento externo, muita
coisa pode ser feita através do desenvolvimento interno; ele deve desenvolver
dentro de si mesmo seus próprios poderes espirituais; pode procurar, em
meditação profunda, a verdade que brilha na revelação sob os muitos véus da
ignorância e das construções errôneas e purificar de tal modo sua vida que seus
corpos se tornarão translúcidos à luz do espírito dentro dele, iluminando as
palavras escritas. “Nenhum homem conhece as coisas de Deus, mas sim o Seu
Espírito”5. Mas aquele espírito mora em cada filho do homem; e na medida em
que Sua luz brilha, as coisas divinas são reveladas para os puros de coração.
Até que o Espírito interno responda deste modo aos ensinamentos e afirmações
revelados, o estudante teosófico deve manter seu julgamento em suspenso
diante das pretensões de cada revelação. Ela não é verdadeira para ele até que
possa dar-lhe eco na voz de seu próprio Espírito, seu mais profundo Ser. Ela
pode ser útil e bonita e merecedora do mais profundo estudo e da mais reverente
pesquisa, como as Bíblias do mundo. Mas até que sejam afirmadas pelo Espírito
interior, não pode haver submissão, para que não se dê aos erros humanos o
que é devido apenas ao Espírito divino.

5. “The things of God knoweth no man but the Spirit of God”.

INSPIRAÇÃO
O que é Inspiração? É a elevação das faculdades humanas normais por alguma
influência externa através de um grau após outro de poder intelectual, moral e
espiritual, até o ponto em que a influência externa pode até mesmo afastar o
homem de seu corpo e usar este último para a expressão de outro indivíduo;
quando o novo possuidor é um Ser de uma estatura que transcende inteiramente
o homem, a inspiração pode transformar-se em revelação. Alguns podem pensar
que a palavra deveria restringir-se ao despertar dos poderes do indivíduo a partir
de um ponto acima da sua capacidade normal até o ponto mais alto do exercício
possível destes poderes, sem a expulsão do seu proprietário e sua substituição
por outro indivíduo de maior grandeza que ele.

Os graus inferiores de inspiração estão ao alcance da experiência de muitas


pessoas. Será que você nunca sentiu, quando escutava alguém cujo poder e
conhecimento eram maiores que os seus, que as suas capacidades mentais
eram elevadas a um nível mais alto do que o nível que você podia alcançar sem
ajuda? Em tais ocasiões você capta aspectos da realidade que até então eram
incompreensíveis; você vê plenamente onde antes havia obscuridade; o campo
de pensamento se torna iluminado, e os objetos são vistos em relações até então
inimagináveis: você sente que você sabe. No dia seguinte você quer compartilhar
com um amigo os tesouros que adquiriu e começa a contar a luminosa exposição
ouvida, a descrever os grandes horizontes que se abriram para você. E você
fracassa: onde está a luz, onde estão as cenas distantes e amplas que seus
olhos haviam percorrido? Sua mente mergulhou de novo em seu nível normal; a
inspiração passou. O que ocorre com as faculdades intelectuais ocorre com as
faculdades morais. Você havia visto uma beleza desconhecida, havia sentido
uma avassaladora admiração pelo elevado e o puro: o que aconteceu com o
ardor e a intensidade? Será que as frias cinzas da aprovação intelectual são tudo
o que resta do coração coberto de emoção, do deleitamento apaixonado no ideal
moral? Por que ele parece agora tão frio, cinzento, sem atrativos? Você foi
elevado para um nível superior ao nível que você pode chegar sem ajuda, mas
não obstante o ideal moral e o seu poder foram mostrados a você “na Montanha”,
e o fato de que você já experimentou uma vez o seu poder que a tudo domina o
deixará mais suscetível a ele no futuro, e virá o dia em que aquilo que você sentiu
quando inspirado por outro se transformará no exercício normal de suas próprias
faculdades morais.

Quanto aos graus mais elevados de inspiração, alguns de nós podem saber o
que é estar em presença dos Mestres e sentir a maravilhosa elevação da Sua
presença. Não há necessidade de palavras nem de ensinamento; Sua presença
é suficiente. Quando saímos daquela presença outra vez para o mundo comum,
percebemos a diferença entre a sua atmosfera e a atmosfera daquele que é
Santo. Mas nós já soubemos, e a memória permanece como um poder
duradouro.

Aqueles que escreveram ou falaram sob inspiração foram elevados deste modo.
Suas próprias faculdades intelectuais e morais foram assim estimuladas e
erguidas a um nível muito acima do normal. Ainda são eles que escrevem ou
falam, seus próprios temperamentos e caráteres dão colorido ao que dizem e
deixam marcas no que escrevem. Mas escrevem e falam com muito mais
nobreza e poder do que fariam sem ajuda.

Deste modo podemos nos elevar a graus cada vez maiores de inspiração, até
que atingimos o estágio em que a mente e as emoções do homem já não
controlam seu corpo, mas este é controlado inteiramente por Alguém maior.

Então já não é mais o próprio homem que fala, mas é “o Espírito do (seu) Pai
que fala” nele; suas próprias limitações são deixadas de lado, suas
idiossincrasias desaparecem, e as expressões inspiradas fluem em toda pureza.
Neste ponto a inspiração pode transformar-se em revelação.

O PROCESSO DE INSPIRAÇÃO
O processo em que tudo isto ocorre é muito simples. Sabemos que, devido à
correlação entre as mudanças na consciência e as vibrações da matéria, cada
mudança na consciência é acompanhada por uma vibração da matéria
apropriada pela consciência e que forma o seu corpo; cada vibração da matéria
de um corpo é acompanhada por uma mudança na consciência corporificada.
Qualquer destes dois termos da equação pode ser o iniciador, o outro sempre
responde. Quando duas ou mais pessoas estão juntas, sendo uma delas mais
evoluída que a outra ou outras, a pessoa mais evoluída, pensando, desejando,
atuando, estabelece em seus próprios corpos mental, astral e físico, uma série
de vibrações que correspondem às mudanças em sua consciência; estas
vibrações causam vibrações similares na matéria mental, astral e física que está
entre ela e a pessoa ou pessoas menos avançadas presentes. Estas vibrações
na matéria interveniente causam vibrações similares no corpo ou corpos
vizinhos. Elas são imediatamente respondidas por mudanças correspondentes
na consciência ou consciências corporificadas, e a pessoa ou pessoas,
colocadas assim en rapport com alguém mais avançado, pensam, desejam e
agem a um nível mais elevado do que seria possível por sua própria iniciativa.
São capazes de compreender com mais agudeza, sentir com mais calor e agir
com mais nobreza do que poderiam sem ajuda. Quando o estímulo se afasta,
elas gradualmente descem de novo a seu nível normal, mas a memória
permanece, e lembram que “souberam”. Além disso, será mais fácil para elas
responderem uma segunda vez, e assim sucessivamente, até que se
estabeleçam permanentemente no nível mais elevado. Daí o valor da companhia
daqueles que estão mais avançados que nós, e de viver “em sua atmosfera”.
Palavras não são necessárias; pode haver pouca conversa, mas
imperceptivelmente o corpo sutil sintoniza num ponto mais elevado, e talvez só
quando a companhia se interrompe é que o mais jovem toma consciência da
mudança que foi produzida pelo contato com o mais velho.

Resultados similares podem ser alcançados através da leitura dos escritos


daqueles que são mais evoluídos do que nós. Uma série de mudanças similares
tem lugar, embora menos poderosamente do que quando estimuladas pela
presença direta. Além disso, o estudo reverente e determinado pode atrair a
atenção do escritor, quer ele esteja ou não em seu próprio corpo, e pode atraí-lo
ao estudante, fazendo com que este último fique envolvido na sua atmosfera
numa intensidade comparável àquela em que estivesse fisicamente presente.
Daí o valor de ler literatura nobre; nós somos elevados durante aquele tempo até
o nível dela, e esta leitura, se perseverarmos, não só nos elevará a um nível
superior, mas também nos estabelecerá nele. Em consequência disso, é grande
o valor de uma leitura breve antes da meditação, porque nos transporta a uma
atmosfera mais favorável ao trabalho da meditação do que poderíamos começar
sem nenhuma ajuda. Daí, igualmente, o valor dos “lugares santos”, porque em
tais lugares de meditação a atmosfera está literalmente vibrando numa faixa
mais elevada do que a nossa própria; e por isso nos aconselham com tanta
frequência a mantermos, se possível, uma peça ou lugar separado para meditar;
o local ganhará em pouco tempo uma atmosfera mais pura e sutil que o mundo
circundante. O conhecimento destas leis terá pouca utilidade para o estudante
teosófico se ele não as aplicar em sua própria ajuda e em favor dos outros ao
seu redor.

ATITUDE EM RELAÇÃO À INSPIRAÇÃO


Qual deve ser a atitude do estudante teosófico em relação ao homem ou ao livro
inspirado? Ele deve ser receptivo, paralisando todas as suas vibrações normais
tanto quanto possível, e abrindo toda sua natureza para o impacto e influxo das
ondas de vibração que se derramam sobre ele. Mas sua atitude necessitaria ser
mais que receptiva: deveria tentar sintonizar suavemente a si mesmo e cooperar
com o influxo das ondas. Ele deveria tentar fortalecer as vibrações simpáticas,
de modo que as mudanças correspondentes na consciência fossem tão
completas quanto possível. Para isso ele deve fazer fluir, em direção ao Objeto
inspirador, seu amor, sua fé, sua completa confiança e auto-entrega, pois só
assim ele pode sintonizar seus corpos em harmonia com os corpos do Inspirador.
Ele deve, na ocasião, esvaziar-se de suas próprias idéias, sentimentos,
atividades, dedicando-se a reproduzir, não a iniciar. Como o lago sereno pode
refletir a lua e as estrelas, mas ao mesmo tempo, se agitado por uma brisa ligeira,
só pode emitir reflexos fragmentados, assim também o ser inferior, paralisando
sua mente, acalmando seus desejos e impondo imobilidade a suas atividades,
reproduz dentro de si a imagem do superior, assim também os discípulos são
capazes de refletir a mente do Mestre. E do mesmo modo, se seus próprios
pensamentos surgem, se seus próprios desejos despertam, ele não terá mais
que reflexos fragmentados, luzes dançantes e que não lhe dizem nada.

Se você vai ler um dos livros inspirados do mundo — A Imitação de Cristo; Os


Versos Áureos de Pitágoras; Luz no Caminho; A Voz do Silêncio — será bom
anteceder a leitura com uma oração, se esta for sua maneira habitual de elevar
a consciência ao seu nível mais elevado, ou com a repetição de um mantra, ou
o suave canto de um ritmo familiar e apreciado, para colocar a si mesmo num
estado harmonioso e receptivo. E então leia uma frase, releia, medite sobre ela.
Saboreie-a mentalmente, absorva sua essência, sua vida.

Assim o seu corpo sutil se tornará, ao menos parcialmente, sintonizado com o


do autor inspirado, e repetindo suas vibrações você estabelecerá em sua
consciência as mudanças correspondentes. Os livros inspirados têm um valor
incalculável: são passos de uma escada situada entre a terra e céu, uma
verdadeira escada de Jacó, por onde sobem e descem os anjos de Deus.
OBSERVAÇÃO
Ainda há um terceiro tipo de livro que merece a atenção do estudante teosófico,
mas em relação ao qual sua atitude deve ser inteiramente diferente da adotada
frente ao que é revelado e inspirado. São livros contendo as observações de
estudantes mais avançados, observações de estudantes que estão evoluindo no
conhecimento e poder sobre os planos sutis, e ainda não alcançaram a estatura
de um Homem Perfeito. Há livros escritos por discípulos, como “A Doutrina
Secreta” e “Budismo Esotérico”, que não são registros de observações diretas
dos estudantes, mas mais propriamente transcrições dos ensinamentos dos
Mestres, nos quais podem aparecer erros de compreensão daqueles
ensinamentos. A própria H.P. Blavatsky nos disse que havia, inevitavelmente,
erros em A Doutrina Secreta; e como nós temos naquele livro maravilhoso suas
próprias descrições de quadros mostrados a ela pelo seu Mestre, há uma
abertura para possíveis erros de observação: provavelmente estes não são
sérios, na medida em que ela foi cuidadosamente ajudada e supervisionada
durante a produção da obra. Estes dois livros se destacam do conjunto da nossa
literatura, porque os Mestres participaram diretamente da sua produção. Os
livros de que falo são aqueles escritos por discípulos usando suas próprias
faculdades normais, faculdades ainda em curso de evolução; livros que abordam
principalmente os planos astral, mental e búdico, a constituição do homem, o
passado de indivíduos, nações, raças e mundos. Gradualmente estamos
acumulando uma grande quantidade de literatura deste tipo, uma literatura de
observações escrita por estudantes usando faculdades superfísicas. Com
relação a isto, certas coisas precisam ser levadas em conta.

Primeiro: os estudantes em questão estão em processo de evolução, e as


faculdades de que eles fazem uso hoje, que se tornaram suas faculdades
normais, estão mais desenvolvidas e alcançam planos mais elevados do que os
conseguidos há dez ou quinze anos. Por consequência, eles vêem agora muito
mais do que viam na época, tanto em quantidade como em qualidade, e esta
visão mais ampla deve inevitavelmente dar informes diferentes, em plenitude,
dos que resultaram da visão anterior e mais estreita.

Segundo: esta maior plenitude mudará as proporções relativas e a perspectiva.


Uma coisa que parecia imponente e independente quando vista sozinha pode
tornar-se subordinada e comparativamente insignificante quando vista como
parte de um todo maior. Podem mudar a forma e a cor, observadas num contexto
que se torna visível só quando olhado a partir de uma visão mais alta. Aquilo que
era um globo, navegando através do espaço para o olho físico, se transforma na
extremidade de um corpo contínuo, materialmente atrelado ao sol, quando visto
com a visão superfísica. Terá sido errado descrevê-lo como um globo? Sim, e
não.
Ele era e ainda é um globo no plano físico, correspondendo a tudo que se pensa
aqui embaixo de um globo. Em regiões mais sutis não é um globo, mas um corpo,
cuja extremidade é um globo apenas para a visão mais grosseira, a qual é
incapaz de perceber sua continuidade para ela invisível.

Terceiro: a visão mais aguçada detecta estágios intermediários antes


impossíveis de ver, e mostra uma série de mudanças entre dois estágios que,
para a vista menos aguda, estavam em sequência imediata. Assim, nas
primeiras observações, foi dito que o último átomo físico se dissolvia na matéria
astral. Doze anos mais tarde, ao ser estudado um fenômeno similar, foi visto que
o átomo físico se divide em um imenso número de partículas inconcebivelmente
pequenas, e que elas imediatamente se agrupam em 49 átomos astrais, que
podem ou não combinar-se novamente em moléculas astrais. Em outro exemplo
foi mencionada uma parede composta de turbilhões: uma visão mais aguçada
não vê parede, mas apenas uma cobertura ilusória, causada pelo rápido
movimento, como o círculo de fogo traçado por uma tocha acesa posta a girar
incessantemente. Sob a luz contínua de um combustível ou da eletricidade, um
disco com raios brancos e pretos parece, ao girar, cinzento; apague a luz e deixe
a escuridão ser interrompida por um rápido clarão; o disco aparece como imóvel,
com cada raio branco ou preto distinto dos outros. Qual é a observação
verdadeira? Em cada caso o olho dá um testemunho verdadeiro do que ele vê.
As diferentes condições lhe impõem visões diferentes.

Outras diferenças também ocorrem, mas estas podem servir como amostras.
Será então que os livros dedicados a observações são inúteis? Eles só se tornam
inúteis, e até nocivos, quando o estudante teosófico os trata como revelações ou
inspirações ao invés de observações. A observação é a base do conhecimento
científico; a correção das primeiras observações por outras posteriores é a
condição do progresso científico. O estudante de ótica, quando confrontado com
o disco de raios brancos e pretos, com o disco cinzento e com o disco girando,
mas captado como se estivesse imóvel, não conclui que as observações
conflitantes tornam-se, por isto, inúteis. Ele pesquisa e descobre as condições
da luz, e a constituição do olho, o que explicará as informações igualmente
verdadeiras mas contraditórias. Ele submete as observações a renovados
experimentos e ao escrutínio da razão, até que, das contradições, emerge a
verdade com seus muitos lados.

ATITUDE CIENTÍFICA
Qual deve ser a atitude do estudante teosófico diante dos livros de observação?
Vocês devem assumir a atitude do estudante científico, não do crente. Devem
enfocá-los com uma clara inteligência, uma mente sagaz, um intelecto ávido,
uma razão ponderada e crítica. Não aceitar como finais observações feitas por
outros estudantes, mesmo que estes estudantes estejam usando faculdades que
vocês ainda não desenvolveram. Devem aceitá-las apenas pelo que são —
observações sujeitas à modificação, correção e revisão, e mantê-las dentro de
uma visão flexível, como hipóteses temporariamente aceitas até que sejam
confirmadas ou negadas por observações ulteriores, inclusive as suas próprias.
Se elas iluminam obscuridades, se conduzem a uma sã moralidade, pegue-as e
use-as; mas nunca deixe que se transformem em grilhões para sua mente nem
obstáculos para seu pensamento. Estude estes livros, mas não perca o senso
crítico; entenda-os, mas deixe seu julgamento em suspenso; estes livros são
úteis como auxiliares, mas perigosos como mestres; devem ser estudados, não
adorados. Tenha suas próprias opiniões, não peça emprestado as dos outros;
não tenha tanta pressa de saber que você aceita o conhecimento de outros,
porque as opiniões definitivas e acabadas, como certas roupas compradas
prontas, nunca servem muito bem nem são apropriadas.

Há uma perigosa tendência na Sociedade Teosófica a dar autoridade a livros de


observações, ao invés de usá-los como material de estudo. Não devemos
aumentar o número já existente daqueles que acreditam cegamente, mas sim o
número dos estudantes sóbrios e sensatos, que pacientemente formam suas
próprias opiniões e educam suas próprias faculdades. Use seu próprio
julgamento para cada observação que lhe for submetida; examine-a tão
completamente quanto possível; critique-a do modo mais completo possível.
Vocês não nos prestam um bom serviço quando transformam estudantes em
papas e repetem, como papagaios, afirmações que não sabem se são
verdadeiras. Além disso, a crença cega gera o ceticismo igualmente cego; vocês
colocam um estudante num pedestal e o chamam em voz alta de profeta, apesar
de seus protestos; mas depois, quando descobrem que cometeu algum erro,
como ele advertiu que provavelmente ocorreria, dão-lhe as costas, arrasam-no
e o tratam cruelmente. Vocês o ridicularizam quando deveriam ridicularizar sua
própria cegueira, sua própria estupidez, sua própria ansiedade por acreditar.

Já não será tempo de deixarmos de ser crianças e começarmos a ser homens e


mulheres, compreendendo a grandeza das nossas oportunidades e a pequenez
das nossas realizações? Já não será hora de oferecer à Verdade a homenagem
do estudo em vez da credulidade cega? Estejamos sempre prontos a corrigir
uma impressão errada ou observação imperfeita, e a caminhar com olhos
abertos e mente alerta, lembrando que o melhor serviço à Verdade é o exame.
A Verdade é um sol que brilha com sua própria luz; uma vez visto, não pode ser
rejeitado. “Que lutem a Verdade e a falsidade; quem alguma vez viu a Verdade
perder numa justa confrontação?”
Glossário

Adeptos — Termo usado para indicar os “Iniciados” na ciência secreta. A


palavra significa “perito” (skilled) — alguém que é especializado na sabedoria
esotérica.

Ahamkara — O “produtor do eu”, a noção do “eu” individual, Aham é o “eu” e


kara significa “fazer”, ou criar o egoísmo.

Ananda — Felicidade, alegria, bem-aventurança.

Atma(n) — Pura Consciência, Espírito, o Ser Universal no Homem.

Avatar ou Avatara — É a manifestação de uma consciência divina através de


uma forma ilusória individualizada. Esta forma humana não teve “encarnações
anteriores”.

Bhagavad Gita — Texto clássico (filosófico-religioso) da Índia antiga, onde


Arjuna é instruído por Krishna.

Bhakti — Devoção, adoração. A Bakti Yoga é a via da devoção, da comunhão


com o Ser Supremo.

Brahman — O Todo, o Ser Universal, a Divindade, o princípio incognoscível do


Universo.

Daitya — Titãs ou gigantes, filhos de Diti (na mitologia do Vishnu-Purana).

Dugpa — Formas mentais, criadas pelo pensamento, que visam enganar os


aspirantes (neófitos) na senda oculta.

Elementais — Os “espíritos da Natureza”, forças invisíveis relacionadas aos


quatro elementos.

Hamsa — Ave mística (cisne, pelicano) que representa a sabedoria divina.

Jivanmuktas — Um ser que atingiu a Libertação (a iluminação).

Jivatma — A vida universal no homem, o espírito universal (Atma) presente no


homem.

Kali — A esposa de Shiva.

Karma — Ação, a lei de harmonia e equilíbrio, causa e efeito.


Loja Branca — A Grande Fraternidade Branca, a Hierarquia da Compaixão.

Mahatma — Instrutor, mestre, ser de elevada estatura espiritual.

Maya — Ilusão, poder cósmico que possibilita a existência fenomenal.

Moksha — Libertação, iluminação (Nirvana).

Mônada — A unidade indivisível (em grego), a centelha divina, uma emanação


do Logos.

Neófitos — Aprendizes na ciência oculta.

Ocultismo — A Arte Real, “Ciência da Vida” ou Atma-Vidya. Segundo Blavatsky,


o verdadeiro ocultismo consiste na grande renúncia ao “eu”.

Prakriti — Matéria, a energia que é o substrato da Natureza.

Prana — Vitalidade, energia vital.

Shiva (Siva) — Terceira pessoa da trindade Hindu, o aspecto “transformador”


(renovador).

Vairagya — Desapego, desprendimento. Não identificação com naga (os


desejos).

Vasana — Impressões, tendências presentes na memória.

Viveka — Discernimento, a reta percepção de distinguir o real.

“Voz do Silêncio (A)” — Obra com textos do budismo Mahayana, traduzida e


editada por Blavatsky.

Yoga Vasishtha — Texto de vedanta advaita, a filosofia da Índia que enfatiza a


identidade entre Atma e Brahman.

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