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JOSE ORTEGA Y GASSET
LIGGES de
METAFISICA
Tradugdo de Felipe Denardii 2019 —CEDET
SDET
is leciones de metafisica
Copyeight © by Horedeos de Ortega y Caset, 2018,
to Feofisional e Tenoligio
Tadugsoe
alipe Denar
Revisto & prepare
cpp 190.2/501.01
todos ox dttos det obs,
+ rerodugao desta digo por qualquer meio ou forma, sea cbs
fotolia raagio ou qualquer outa ma de repos sem
ermisio expres do die he
SUMARIO
Nota preliminar 7
LIGOES DE METAFISICA
Aulal 13
Aula 33
Aula Hl 55
AulalV 73
AulaV 93
Aula VI 113
Aula VIE 121
Aula VIL 129
Aula IX 145
AulaX 153
Aula XI 161
Aula XW 171
Aula XIN 183
Aula XIV 193
ANEXOS
TTeses para um sistema de filosofia 209
Ensimesmarse e alterar-se 219AULAL
[A falsidade do estudo —A metafisica e sua necessidade
—Antagonismno entre o estudante e o criador da ciéncia —
Curiosidade e preocupacio — A tragédia da pedagogia —
Cultura sem saizes: rebarbarizagao — Pergunta e resposta —
O “fazer” ea justificagao da metafisica}
spero que durante este curso vocés entendam
perfeitamente a primeira frase que, depois
desta, vou enunciar? A frase é esta: nés va-
mos estudar metafisica, ¢ isso que vamos fazer é, a
principio, uma falsidade. Pode parecer, & primeira
vista, algo estupefaciente, mas 0 estupor que pro-
duz nao tira a frase sua dose de verdade. Com essa
frase — notem bem — nao se diz. que a metafisica
seja uma falsidade: ela nao se refere 4 metafisica,
mas ao fato de nés nos propormos a estud-la. Nao
se trata, pois, da falsidade de um ou de muitos dos
T [As primeira paginas desta aula foram publicadas por Ortega sob
te Sobre el estudiar ye estudiante, Obras completa, v0
aJOSE ORTEGAY.GESSET
nossos pensamentos, mas da falsidade de um fazer
nosso — do que vamos fazer agora: estudar uma
disciplina, Porque isso que eu afirmei nao vale apenas
para a metafisica, sendo s6 eminentemente para ela.
Segundo isso, estudar seria, em geral, uma falsidade,
Nao parece que tal frase e semelhante tese sejam,
as mais oportunas para serem ditas por um professor
a0s seus discipulos, sobretudo no comego de um
curso, Pode-se dizer que equivalem a recomendar a
auséncia, a fuga, a irem ¢ ndo voltarem mais. Logo
vyeremos isso: veremos se vocés yo embora ¢ se no
voltam porque eu comecei enunciando tamanha
enormidade pedagégica. Talvez aconteca o contrério
—talver acontega que essa inaudita afirmagao Ihes
interesse. Antes de acontecer uma coisa ou outra —
antes de voc@s resolverem ir embora ou ficar—, vou
esclarecer seu significado.
Eu no disse que estudar seja apenas uma falsida-
de; é possivel que contenha facetas, lados, ingredien-
tes que nao sejam falsos, mas basta-me que alguma
dessas facetas, lados ou ingredientes constitutivos do
estudar seja falso para que meu enunciado possua
a sua verdade,
Ora, isso me parece indiscutivel, Por uma simples
razdo: as disciplinas, seja a metafisica ou a geometria,
existem, esto ai porque certos homens as criaram
gracas a um tremendo esforgo, e se despenderam
este foi porque precisavam daquelas disciplinas,
porque tinham necessidade delas. As verdades que
elas contém foram encontradas originariamente por
14
LUGDESDE METAFISICA
um homem ¢ logo repensadas ou reencontradas por
outros, que sobrepuseram seu esforco ao do primeiro.
Mas se as encontraram é porque as buscaram, ¢ se
as buscaram é porque tinham necessidade delas. E se
no as tivessem encontrado teriam considerado fra-
cassadas as suas vidas. Se, a0 contrério, encontraram
co que buscavam, é evidente que isso que encontraram.
se adequava a necessidade que sentiam. Isso, que &
6bvio, € contudo muito importante. Dizemos que
encontramos uma verdade quando achamos certo
pensamento que satisfaz. uma necessidade intelectual
previamente sentida por nés. Se nao nos sentimos
necessitados desse pensamento, ele ndo seré para
nés uma verdade. Verdade é, portanto, aquilo que
aquieta uma inquietude de nossa inteligéncia, Sem
esta inquietude nao é possivel aquele aquietamento.
Do mesmo modo dizemos que encontramos a chave
quando achamos o preciso objeto que nos serve para,
abrir um armério, de euja abertura temos necessidade.
‘A precisa busca se acalma no preciso encontro: este
€ funcao daquela.
Generalizando a expresso, teremos que uma
verdade nio existe propriamente senio para quem
tem necessidade dela; que uma ciéncia nao é tal
ciéncia sendo para quem a busca com afi; enfim,
que a metafisica nao é metafisica sendo para quem
necessita dela.
Para quem nao necessita, para quem nao a busca,
a metafisica é uma série de palavras, ou, se quiserem,
de idéias, que, ainda que se creia té-las entendido
1sJ0S€ ORTEGAY GASSET
uma a uma, carecem definitivamente de sentidos isto
& para entender verdadeiramente algo, e sobretudo
a metafisica, nao faz falta ter aquilo que se chama
de talento nem possuir grandes conhecimentos pré-
vios — 0 que faz falta, a0 contrario, é uma condi-
cao elementar, mas fundamental: 0 que faz falta €
necessitar dela.
Entretanto, hé diversas formas de necessidade. Se
alguém me obriga inexoravelmente a fazer algo, eu 0
farei necessariamente e, contudo, a necessidade desse
meu fazer nao é minha, nao surgiu em mim, pois
me foi imposta desde fora. Eu sinto, por exemplo, a
necessidade de passear, e esta necessidade € minha,
brota em mim — o que nao quer dizer que seja um
capricho ou um gosto, nao; sendo uma necessidade,
tem um carater de imposigao e nao se origina no
‘meu arbitrio, mas me é imposta desde dentro do meu
set; eu a sinto, com efeito, como uma necessidade
minba. Mas quando saio para passear ¢ 0 guarda
de transito me obriga a seguir numa determinada
dircgdo, encontro-me com outra necessidade, que
j4 nao € minha, mas que me € imposta do exterior,
¢ diante disso 0 maximo que posso fazer é reflet
€ me convencer de suas vantagens, ¢ em vista
0
aceité-la. Mas aceitar uma nceessidade, reconhecé-la,
no é senti-la, senti-la imediatamente como uma
necessidade minha — é mais uma necessidade das
coisas, que delas me chega, forasteira, estranha a
mim, Nés a chamaremos de necessidade mediata,em
oposicdo & imediata, a qual eu sinto, de fato, como
16
LUgOESDE METAFSICA
tal necessidade, nascida em mim, com suas raizes em
mim, inata, autdctone, auténtica,
Hi uma expressio de Séo Francisco de Assis onde
ambas as formas de necessidade aparecem sutilmente
contrapostas. Sao Francisco costumava dizer: “Neces-
sito de pouco, e desse pouco necessito muito pouco”.
Na primeira parte da frase, S40 Francisco alude as
necessidades exteriores ou mediatas; na segunda,
as intimas, auténticas ¢ imediatas. Sao Francisco
necessitava, como todo ser vivo, comer para vivet,
mas nele essa necessidade exterior era muito escas-
sa — isto é, materialmente ele necessitava comer
muito potco para viver. Mas, além disso, sua atitude
{intima era de nao sentir uma grande necessidade de
viver; sentia muito pouco apego efetivo & vida e,
conseqtientemente, sentia muito pouca necessidade
intima da necessidade externa de comer.
Pois bem: quando o homem se vé obrigado a acei-
tar uma necessidade externa, mediata, encontra-se
numa situagio equivoca, bivalente, porque equivale &
sugestao de que faga sua —“aceitar” quer dizer isto
—uma necessidade que nao é sua, Fle tem, querendo
ow nao, de se comportar como se fosse sua; ele é,
portanto, convocado a uma ficgdo,a uma falsidade.
E ainda que o homem ponha toda a sua boa vontade
a servigo de senti-la como sua, nao quer dizer que 0
consiga, 0 que nem sequer é provavel.
Feito esse esclarecimento, vejamos qual é a situa-
40 normal do homem chamada “estudar”, usando
esta palavra sobretudo no sentido que tem enquan-
vJOSEOMTEGAYGASSET
to estudo do estudante — ou, em outras palavras,
perguntemo-nos o que € 0 estudante enquanto tal,
E acontece que nos deparamos com algo tao estu-
pefaciente quanto a escandalosa frase com a qual
iniciei o curso. Deparamo-nos com o fato de que 0
estudante é um ser humano, masculino ou feminino,
a0 qual a vida impée a necessidade de estudar as
cigncias das quais ele nao sentiu imediata, auténtica
necessidade, Se deixarmos de lado os casos excep-
cionais, reconheceremos que no melhor dos casos 0
estudante sente uma necessidade sincera, porém vaga,
de estudar “algo”, assim in genere, de “saber”, de
instruir-se. Mas a vagueza desse desejo evidencia sua
escassa autenticidade. f evidente que um tal estado
de espirito jamais levou a criagao de um saber —
porque este é sempre concreto, é saber precisamente
isto on precisamente aquilo, e segundo a lei que en
insinuava hé pouco, da funcionalidade entre buscar
¢ encontrar, entre necessidade e satisfagdo, os que
criaram um saber o fizeram porque sentiram, ndo 0
vago afai de saber, mas 0 concretfssimo afa de ave~
riguar tal coisa determinada.
Isso revela que, mesmo no melhor dos casos —e
repito, salvas as excegdes —, 0 desejo de saber que
© bom estudante possa sentir é completamente hete-
rogeneo, talvez-antagdnico ao estado de espirito que
levou a criagdo do saber mesmo, Porque a situacio do
estudante perante a ciéncia € oposta Aquela em que
estava o seu criador. E, com efeito, a ciéncia nao existe
antes de sew criador. Ele nao a encontrou primeiro e
18
LUCOESDEMETARISCA
depois sentiu a necessidade de possui-la, mas primeiro
sentiu uma necessidade vital e nao-cientifica, ¢ esta
6 levou a buscar sua satisfagaio; encontrando-a em
certas idéias, destas resultou a ciéncia.
Ao contrario, o estudante se encontra, desde logo,
com a ciéncia pronta, como uma cordilheira que se
Jevanta diante dele e impede seu caminho vital. No
melhor dos casos, repito, a cordilheira da ciéncia
6 agrada, 0 atrai, parece-Ihe bonita, promete-the
triunfos na vida. Mas nada disso tem a ver com a
necessidade auténtica que leva a criar a ciéneia. A
prova disso est no fato de esse desejo geral de saber
ser incapaz.de se concretizar por si mesmo no desejo
estrito de um saber determinado. Além disso, repito,
niko é um desejo o que leva propriamente ao saber,
mas uma necessidade. O desejo nao existe se previa
mente ndo existe a coisa desejada, seja na realidade,
seja, pelo menos, na imaginagio. O que ainda ndo
existe de fato, nao pode provocar o desejo. Nossos
desejos disparam-se no contato com 0 que jé esté
ai. A necessidade auténtica, ao contrario, existe sem_
‘que tenha de preexistir, nem mesmo na imaginagao,
aquilo que poderia satisfazé-la, Nevessita-se precisa-
mente daquilo que nao se tem, do que falta, daquilo
que nao ha, e a necessidade € mais estritamente tal
precisamente quanto menos se tenha, quanto menos
haja aquilo de que se necessita.
Para ver isso com plena clareza nao ¢ preciso sair
do nosso tema: basta compararmos o modo com
que se aproxima de uma ciéncia pronta quem vai
19JOSE ORTEGA EnSSET
estudé-la e quem sente auténtica, sincera necessidade
dela. Aquele tenderé a ndo questionar 0 contetido
da cigncia, a nao criticé-la: a0 contratio, tenderd a
se confortar pensando que esse conteiido da cigncia
pronta tem um valor definitivo, que é a pura verda-
de. O que ele busca é simplesmente assimilé-la tal e
como ja esta af. O necessitado de uma ciéncia, por
sua vez — aquele que sente a profunda necessidade
da verdade —, se aproximara com cautela do saber
jd pronto, cheio de suspicécia, submetendo-o a cri-
tica, partindo quase de um preconceito de que nao é
verdade o que livro sustenta; em suma, precisamente
porque necesita do saber com radical anguistia,
pensaré que ainda nao o encontrou, e procuraré
desfazer aquilo que se apresenta como pronto. Ho-
mens assim so os que constantemente corrigem,
renovam, recriam a ciéncia.
‘Mas isso nio € 0 que significa, em seu sentido
normal, o estudar € o estudante, Se a ciéncia ain-
da nao estivesse af, 0 bom estudante nao sentiria
necessidade dela, ou seja, nao seria um estudante.
Portanto, trata-se de uma necessidade externa que
Ihe é imposta. Ao colocar 0 homem nessa situago
de estudante se 0 obriga a fazer algo falso, a fingir
que sente uma necessidade que nao sente.
Mas a isso podem ser feitas algumas objegdes.
Dir-se-d, por exemplo, que ha estudantes que sen-
tem profundamente a necessidade de resolver cer-
tos problemas constitutivos de tal ou qual ciéncia.
De certo existem, mas é insincero chamé-los de
20
LUGOES DE METARISICA
estudantes. E insincero ¢ injusto. Porque se trata de
casos excepcionais, de criaturas que, ainda que no
houvesse estudos nem ciéncia, melhor ou pios, por si
mesmos e sozinhos, a inventariam, e dedicariam, por
inexoravel vocacao, seu esforco a investiga-la. Mas e
08 outros? A imensa e normal maioria? Estes, € no
aqueles poucos venturosos, estes so os que realizam o
verdadeiro sentido —e no o utépico — das palavras
“estudar” ¢ “estudante”. E com estes que se é injusto
a0 niio reconhevé-los como os verdadeiros estudantes
ea nio se colocar subordinado a eles o problema do
que é estudar como forma e tipo de fazer humano.
E um imperativo do nosso tempo, cujas graves
raz6es exporei outro dia neste curso, obrigar-nos a
pensar as coisas em seu desnudo, efetivo e dramatico
ser: Ea Gnica maneira de verdadeiramente nos depa-
rarmos com elas. Seria encantador se ser estudante
ignificasse sentir uma vivacissima urgéncia por este,
€ por outro, por outro saber. Mas a verdade é estri-
tamente o contrario: ser estudante é homem se ver
obrigado a interessar-se diretamente pelo que ndo
Ihe interessa ou, no maximo, pelo que the interessa
apenas vaga, genérica e indiretamente.
A outra objegdo que me poderia ser feita € recor-
dar o fato indiscutivel de que os garotos ou garotas
tém sincera curiosidade ¢ peculiares interesses. O
estudante nao o é “em geral”, mas estuda ciéncias
ou letras, ¢ isso supée uma predeterminagao de seu
espirito, uma apeténcia menos vaga e nao imposta
de fora.
21Jose ORTEAY Gasser
No século XIX se deu demasiada importéncia &
curiosidade e As afeigdes, quiseram fundar nelas coi-
sas demasiado graves, quer dizer, demasiado pesadas
para que entidades tao pouco sérias como aquelas
pudessem sustenté-las.
Este vocibulo, “curiosidade”, como tantos outros,
tem duplo sentido: um deles primario e substancial, ¢
outro pejorativo e insultuoso, assim como a palavra
“aficionado”, que significa aquele que ama algo ver-
dadciramente, mas também aquele que é apenas um
amador. O sentido préprio da palavra “curiosidade”
brota da raiz de uma palavra latina (para a qual
Heidegger chamou a atengao recentemente), cia, os
cuidados, as coitas, o que eu chamo de “preocupagio”.
De cura vem
curiosidade”. Daqui que em nossa lin-
guagem vulgar um homem curioso seja um homem
cuidadoso, ou seja, um homem que faz. com atengo e
extremo rigor ¢ esmero 0 que tem de fazer, que nao se
despreocupa daquilo que 0 ocupa, mas, ao contritio,
se preocupa com sua ocupacao. No antigo espanhol
“onida
ainda era preocupar-se, curare. Esse sentido
otigindrio de cura ou cuidados sobrevive em nossas
expresses vigentes “curador”, “procurador”, “procu-
rar”, “curar”; ena prépria palavra “cura”, que se ligou
ao sacerdote porque este cuida das almas. Curiosidade
6 portanto, cuidado, preocupago. Vice-versa, incuria
€descuido, despreocupacao; e seguranga, securitas, &
auséncia de cuidados e preocupagdes.
Por exemplo, se eu procuro minhas chayes é por-
‘que me preocupo com elas, ¢ se me preocupo com
2
LUgoES De META
clas 6 porque tenho necessidade de fazer algo, de
‘ocupar-me.
Quando esse preocupar-se € exercido mecani-
camente, insinceramente, sem motivo suficiente, €
degenera em ansiedade, temos um vicio humano
que consiste em fingir cuidado pelo que nao nos
preocupa de verdade, num falso preocupar-se com
coisas que nao vao de fato nos ocupar; portanto, em,
ser incapaz de auténtica preocupagio. E é isso que
significam pejorativamente empregadas as palavras
“curiosidade” e “ser um curioso”.
Quando se diz, pois, que a curiosidade nos leva
4 cigncia, das duas uma: ou nos referimos aquela
sincera preocupagao com ela, que nao é sendo o
que eu chamei antes de “necessidade imediata ¢
auténtica” — a qual reconhecemos que nao costu-
ma ser sentida pelo estudante —, ou nos referimos
a curiosidade frivola, & ansiedade de meter o nariz,
em todas as coisas, ¢ isto no creio que possa servir
para tornar o homem um cientista,
Essas objegdes siio, portanto, vas. Nao facamos
idealizagdes da aspera realidade, beatices que nos
induzem a debilitar, nublar, adocicar os problemas,
a amortecer 0 seu golpe.? O fato é que o estudante
tépico é um homem que nao sente necessidade direta
da cigncia, preocupacao com ela, e, contudo, se vé
forcado a ocupar-se dela. Isso ja significa a falsidade
geral do estudar, Mas logo vem a concrecio, quase
ponerles bolas en los cuernos”.— Wt
23JOSEORTEGAY ASSET
perversa de tio miraculosa, dessa falsidade, porque
nao se obriga um estudante a estudar em geral, ¢ ele
se depara, querendo ou nao, com o estudo dissociado
em carreiras especiais, ¢ cada carreira constituida por
disciplinas singulares, por tal ou qual ciéncia. Quem
pretende que o jovem sinta efetiva necessidade, num
certo ano de sua vida, por tal ciéncia que os homens
antecessores tiveram gana de inventar?
Assim, do que foi uma necessidade to auténtica
vaz, a qual alguns homens — os criadotes da
ciéncia — dedicaram sua vida inteira, faz-se uma
necessidade morta ¢ uma atividade falsa. Nao crie-
mos ilusdes: nesse estado de espitito nao se pode
chegar a saber o saber humano. Estudar 6, pois, algo
constitutivamente contraditério e falso. O estudante
€ uma falsificagio do homem. Porque o homem é
Propriamente apenas aquilo que é autenticamente,
por intima ¢ inexoravel necessidade, Ser homem
no € ser, ou, o que é dizer o mesmo, fazer qualquer
coisa, mas ser 0 que irremediavelmente se é
e
ha os
modos mais distintos entre si de ser homem, e todos
eles igualmente auténticos. 0 homem pode ser ho-
mem de ciéncia, ou homem de negécios, ou homem.
politico, ou homem religioso, porque todas essas
coisas so, como veremos, necessidades constitutivas
¢ imediatas da condigéo humana, Mas o homem por
si mesmo jamais seria estudante, como o homem por
simesmo jamais seria pagador de impostos. Ele tern
de pagar impostos, tem de estudar, mas ndo é nem
contribuinte nem estudante. Ser estudante, como ser
mM
ES DEMETAFISICA
pagador de impostos, é algo “artificial” que o homem
se vé obrigado a ser.
Isso, que a principio pode parecer estupefaciente,
6a tragédia constitutiva da pedagogia, e desse pa-
radoxo to cruel deve surgir, a meu ver, a reforma
da educagao.
E por ser a atividade mesma, o fazer que a pe-
dagogia regula ¢ que chamamos de “estudar”, algo
humanamente falso, acontece 0 que nao se costuma
destacar tanto quanto se deveria, a saber, que em
nenhuma ordem da vida é tao constante, habitual e
tolerada a falsidade como no ensino. Eu sei que ha
também uma falsa justiga, isto 6, que se cometem.
abusos nos julgamentos ¢ audiéncias. Mas pondere
cada um de vooés que me escutam, a partir de sua
experiéneia, se nao nos darfamos por muito conten-
tes se existissem, na efetividade do ensino, menos
insuficiéncias, falsidades ¢ abusos do que padecemos
na ordem juridica. O que ali se considera abuso in-
toleravel — que nao se faca justi¢a — corresponde
quase ao normal do ensino: que o estudante no
estude, e que, se estuda, dando o melhor de si, nao
aprenda; ¢ é claro que, se o estudante, seja pela razao
que for, no aprende, o professor no poder dizer
que ensina, mas, no maximo, que tenta, mas no
consegue ensinar,
Entretanto amontoa-se gigantescamente, geracio
apés geragio, 0 pavoroso aglomerado dos saberes
humanos que o estudante tem de assimilar, de es-
tudar, E conforme o saber aumente, se enriquega ¢
2sJOSE ORTEGA VGASSET
specialize, mais longe ele estara de sentir, imediata
¢ autenticamente, a necessidade dele. Ou seja, have-
1 cada vez menos congruéncia entre o triste fazer
humano que ¢ estudar e o admiravel fazer humano
que € 0 verdadeiro saber. E.a isso acresceré a terri-
vel dissociacio que, hé um século pelo menos, teve
inicio entre a cultura vivaz, entre o auténtico saber e
o homem médio. Porque, como a cultura ou o saber
no tém mais realidade que responder ¢ satisfazer
‘numa ou noutra medida as necessidades efetivamente
sentidas, € 0 modo de transmitir a cultura é 0 estudar,
© qual nao € sentir essas necessidades, temos que a
cultura ou o saber vai ficando no ar, sem raizes de
sinceridade no homem médio, a quem se obriga a
ingurgité-lo, a engoli-lo. Ou seja, introduz-se na
mente humana um corpo estranho, um repertério
de idgias inassimilaveis, ou, o que € dizer 0 mesmo,
mortas, Essa cultura desenraizada do homem, que
do brota dele espontaneamente, carece de autoc
tonia, de indigenato — é algo imposto, extrinseco,
estranho, estrangeiro, ininteligivel —, em suma, inreal.
Por sob a cultura recebida, mas ndo autenticamente
assimilada, o homem permaneceré intacto, ou seja,
inculto; ou seja, um bérbaro, Quando o saber era
mais breve, mais elementar e mais organico, estava
mais proximo de poder ser verdadeiramente sentido
pelo homem médio, que entao 0 assimilava, rectiava
e revitalizava dentro de si. Assim se explica 0 para-
doxo colossal destas décadas: que um gigantesco
progresso da cultura tenha produzido um tipo de
26
LUGDES DEMETAFSICA
homem como o atual, indiscutivelmente mais barbaro
que o de cem anos atras. E que a aculturagio ou 0
acimulo de cultura produza, de forma paradoxal,
‘mas automatica, uma rebarbarizagio da humanidade.
Voces compreenderao que nao se resolve © pro-
blema dizendo: “Bem, entao, se estudar é uma falsi-
ficagao do homem, que ademais leva ou pode levar
a tais conseqiiéncias, que nao se estude!”, Dizer isso
nao seria resolver o problema: seria simplesmente
ignora-lo, Estudar e ser estudante é sempre, e sobre-
tudo hoje, uma necessidade inexoravel do homem.
Este tem, querendo ou no, de assimilar o saber
acumulado, sob pena de sucumbir individual ou
coletivamente, Se uma geragio deixasse de estudar,
a humanidade atual, em suas nove décimas partes,
morreria fulminantemente. O ntimero de homens
que vivem hoje s6 pode subsistir gragas a técnica
superior de aproveitamento do planeta que as cién-
cias possibilitam. As técnicas podem ser ensinadas
mecanicamente. Mas as técnicas advém do saber, €
se este nao pode ser ensinado, chegard uma hora em
que também as técnicas sucumbirao.
Portanto, € preciso estudar; e isso, repito, é uma,
necessidade do homem — mas uma necessidade ex-
terna, mediata, como o é virar aquela direita que me
aponta o guarda de transito quando preciso passat.
Mas ha entre ambas essas necessidades externas —
estudar e virar & direita — uma diferenca essencial,
que converte o estudo num problema substantivo.
Para que o transito funcione perfeitamente nao é
aJOSE ORTESRY GASSET
necessdrio que eu sinta intimamente a necessidade
de virar & direita: basta que cu de fato caminhe nessa
diregao; basta que eu a aceite, que eu finja senti-la.
Mas com o estudo nao acontece o mesmo; para que
cu entenda de verdade uma ciéneia nao basta que eu
finja em mim a necessidade dela ou, dito de outro
modo, nao basta que eu tenha vontade de aceit-la;
enfim, nao basta que eu estude. f preciso, além disso,
que eu sinta autenticamente sua necessidade, que
me preocupem esponténea e verdadeiramente suas
quest&es; s6 assim entenderei as solugdes que ela dé
ou pretende dar a essas questdes. Nao se pode enten-
der uma resposta quando nao se sentiu a pergunta
& qual ela responde.
© caso do estudar é, pois, diferente do caso de
virar & direita. Neste é suficiente que eu o exerga bem
Para que renda o efeito desejado. Naquele, nao; no
basta que eu seja um bom estudante para que logre
assimilar a ciéncia, Temos nele, portanto, um fazer do
homem que se nega a si mesmo: é ao mesmo tempo
necessdrio c imitil. E preciso fazé-lo para lograr um
certo fim, mas resulta que nao se 0 logra. Por isso,
porque as duas coisas so verdade ao mesmo tempo
—sua necessidade e sua inutilidade — 0 estudar é um
problema. Um problema é sempre uma contradigo
que a inteligéncia encontra diante de si, que a puxa
em duas diregGes opostas e ameaga rasgé-la.
A solugo de um problema téo cru ¢ bicérneo
se depreende de tudo 0 que foi dito: nao consiste
em decretar que nio se estude, mas em reformar
28
Ligh be METAFISICA
profundamente esse fazer humano que é o estudar
¢, conseqiientemente, o ser do estudante. Para isso
€ preciso virar do avesso o ensino e dizer: ensinar
no é priméria e fundamentalmente sendo ensinar a
necessidade de uma ciéncia, e nao ensinar a ciéncia
cuja necessidade seja impossivel de fazer o estudante
sent
‘Mas talvez algum de voeés esteja se perguntand:
‘0 que tudo isso tem a ver com um curso de metafisica?
Eu espero —e com isto eu comecei — que durante
este curso vocés entendam nao s6 que 0 que foi dito
tem a ver com a metafisica, mas também que ja es-
tamos nela. Por ora, demos uma justificativa mais
clara para ter comegado assim antecipando uma
primeira definigao da metafisica, aparentemente a
mais modesta, a qual ninguém se atreverd a inva-
lidar: digamos que metafisica é algo que o homem
faz; alguns homens, pelo menos; depois veremos se
no so todos, ainda que ndo se déem conta. Mas
essa definigio nao nos basta, porque o homem faz
muitas coisas e ndo apenas metafisica; mais ainda, 0
homem € um incessante, ineludivel e puro fazer. Faz
sua fazenda, faz. politica, faz inchistria, faz versos, faz
cincia, faz, paciéneias e quando parece que nao faz.
nada é porque espera, e esperar, sua experiéncia 0
confirma, é &s vezes um terrivel € angustioso fazer:
é fazer tempo; e o que nem sequer espera, o que
verdadeiramente nao faz nada, 0 faitnéant, este faz 0
nada, ou seja, sustenta e suporta o nada de si mesmo,
o terrivel vazio vital que chamamos de tédio, spleen,
2»JOSE ORTEGAY GASSET
desespero. Quem nio espera, desespera; um fazer tio
horrivel, que carece de um esforgo tio feroz a ponto
de ser um dos que o homem menos pode agiientar,
€ que costuma levé-lo a fazer o efetivo e absoluto
nada, a aniquilar-se, suicidar-se.
Em meio a tao variado, tio omnimodo fazes,
como reconheceremos o peculiarmente metafisico?
Para isso terei de antecipar uma segunda definigao
mais determinada: o homem faz metafisica quando
busca uma orientacao radical em sua situacao.
Mas qual é a situagdo do homem? Este nao se
encontra somente em uma, mas em muitas situa-
‘ges distintas; por exemplo, vocés se encontram
agora em uma, casualmente na de se pér a estudar
metafisica, como ha duas horas se encontravam em
outra, ¢ amanha em outra, Entretanto, todas essas
situagdes, por diferentes que sejam, coincidem todas
em serem porgdes da vida de vocés. Portanto a vida
do homem se compoe de situagdes, como a matéria
se compée de atomos. Sempre que se vive, vive-se
numa determinada situagio. Mas é evidente que,
0 serem todas situagdes
que sejam, hd nelas uma estrutura elementary, funda-
mental, que as faz, todas, situagdes do homem. Essa
estrutura genérica é 0 que elas tém essencialmente
de vida humana. Ou, dito de outra forma, quaisquer
que sejam os ingredientes variéveis que formem a
situagdo em que eu me encontre, é evidente que
essa situacdo seré um viver. Portanto, a situagio do
homem é a vida, é viver.
‘is, por mais distintas
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LUCOES DE METAFISICA
E dizemos que a metafisica consiste em o homem
buscar uma orientagio radical em sua situagio. Mas
isso supde que a situacdo do homem — isto é, sua
vida — consiste numa radical desorientagdo. Nao
dizemos, pois, que 0 homem, dentro de sua vida, se
cencontre desorientado parcialmente nesta ou noutra
‘ordem,em seus negécios ou em seu caminhar por uma
paisagem, ou na politica. Aquele que se desorienta no
campo busca um mapa ou uma biissola, ou pergunta
a um transeunte, ¢ isso lhe basta para se orientar.
Mas nossa definigéo pressupde uma desorientagio
total, radical; ou seja, ndio que acontega ao homem.
de se desorientar, de se perder em sua vida, mas sim
quea situagao do homem, a vida, é desorientagio, €
estar perdido — e por isso existe a metafisica.
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