L y u
(0 poderoso impuso que caracterou es poticas neolberais desde finais
dios anos setenta encontra-se hoje provavelmente esgotado, Todavia, =
suas marcas ainda serdo sentidas por bastante tempo. O nedliberslismo
deixa como legado uma brutal concentragaa monopdlica na produgéo: 0
‘comércio, as finangas e os meios de comunicagéo; o aprofundamento
nas condigées de pobreza e excluséo vividas pelas grandes maiarias;
bem como a destrugéa da intervengéo social do Estada em nome e
beneficio do mercado.
Que Estado para que democracia?
isa as cicatrizes deixadas pela reestruturagdo regréssiva
do capitalsma promovida pelos regimes neoliberais. Seus autores se
interrogam sobre os efeitos da aparente au real vitéria ideolégico-
cultural do neolberalsmo, discutindo as possibildades de superagao
ddemocrética de um ciclo que marcou mais de vinte anos na experiéncia
politica de boa parte das sociedades ocidentais contemporéness,
Pés-Neoliberalismo il - Gue Estado pare que democracia?
pretende desta forma dar continuidade &s reflexées iniciadas no volume
PésNealiberalismo - As poiticas sociais e o Estado
democrético, publcado em 1995 e amplamente reconhecido como um
dos textos fundamentais para compreender a complexe trama da crise
promovida pelos regimes neoliberais.
; Atilio A. Boron
Emir Sader Francisco de Oliveira
Pablo Genti Lefofn=Tan ateln over
(organizadores) Michael Lowy
Robin Blackburn
Y eDITORA a,
iS ae
Exmoil vendos@verescombr LAC NED
iiaColegio A OUTRA MARGEM
poeneoliberalsmo I~ Que Estado para que democracia?
Emir Sader e Pablo Gentili (08)
~ Globaizagio excludente — Desigualdade, exclusdo €
ddemocracia na nova ordem mundial
Pablo Gentili (Org)
~ A guerra dos deuses ~ Religiio politica na América Latina
Michael Lowy
_ Politica e democracia em tempos de globaliza¢o
José Maria Gomez
+ que Estado para que democrat
[Emir Sader e Pablo Gent
Outros autores: Francisco de O}
Lowy, Robin Blackburn.
ISBN 85 326.2231-3
|. América Latina Politica e governo 2. Ca
eo epp-320.15
Indices para catalogo sistemitica:
L Estado e
stado ¢democracia:Ciéncia politica 320.15
390.5354
ress
EMIR SADER E PABLO GENTILI (orgs.)
Atilio A. Boron, Francisco de Oliveira,
Géran Therborn, Michael Lowy e
Robin Blackburn
POS-NEOLIBERALISMO
ll
Que Estado para que democracia?
y EDITORA
VOZES
Pet
polis
1999ditora Vozes Ltda.
100
25689-900 Petrdpolis, RJ
Interne: hitp:/www.vozes.com.br
Brasil
CLACSO- Conselho Latino-Americano
de Ciéncias Sociais
Callao 875, piso 3°
1023 Buenos Aires
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Argentina
'
1
(
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poderi ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma
e/ou quaisquer meios (eletrénico ou mecénico, incluindo
fotocépia e gravago) ou arquivada em qualquer sistema ou
| bbanco de dados sem permissio esorita da Editora.
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Editoragio e org. literdria: Enio P. Giachini
ISBN 85.326.2231-3
UENF CCH - BIBLIOT
Duwgto de: {ers W2 MR a
Data: Oh). {jog
ati fi compost impress pela Etre Vozes Leda
ua Frei Luis, 100 Pirdplis, RJ - Brasil ~ CEP 25689-900
Caixa Postal 90023 - Tel. (OXX24) 237-5112, ‘} f
Fax: (OXX24) 231-4676.
we
SUMARIO
1
Os “novos Leviatas” e a pdlis democratica: neoliberalismo,
decomposigao estatal e decadéncia da democracia na
América Latina, 7
Atilio A. Boron
2
A sombra do Manifesto Comunista: globalizacao e reforma do
Estado na América Le tina, 6
Francisco de OI
3
As teorias do Estado e seus desafios no fim de século, 79
Géran Therborn
Michael Lowy
5
0 “capitalismo cinzento” e o problema do Estado, 108
Robin Blackburn
6
Estado e democracia: os dilemas do soci
na virada de século, 120
Emir Sader
Robin Blackburn, At
Emir Sader e
Boron, Michael Lowy,
jéran Therbornie Estado para que democracia? foi or-
a ore dade do Estado do Rio de Ja
GigRn) a segunda parte do Semindrio Intermacional
oe Neolberalismo. Os textos aqui apresentados consti-
Fem algumas das principais contribuicGes realizadas na-
quele evento.
Durante trés dias, em setembro de 1996, professores,
alunos, diigentes sindicais, politicos e militantes de dife-
rentes movimentos sociais participaram ativamente das
sessdes do seminario. Nosso agradecimento esta dirigido
‘em primeiro lugar a eles.
‘Atilio Boron, Francisco de Oliveira, Géran Therbom,
Michael Lawy ¢ Robin Blackburn demostraram, como sem-
pre, ndo so sua jé amplamente conhecida rigorosidade analit
capara compreender os problemas do Estado ¢ a democracia
no capitalismo contemporineo, mas também seu compro-
ico com as lutas populares no Brasil e
na América Latina. Luis Fernandes e Emilio Taddei também
realizaram uma contribuigo fundamental no planejamento
de Pés-Neoliberalismo II e, especificamente, na coordena-
ai go que fecha o presente volume,
Finalmente, € mais uma vez, devemos destacar nosso
agradecimento ao Departamento de Politicas Sociais da Fa-
‘culdade de Servigo Social da Universidade do Estado do Rio
de Janeiro e 4 FAPERJ 0 apoio permanente para a realizagao
do. Alguns, os que puderam, tomaram-se reais (¢ vorazes)
Consumidores; Outros, a maioria, tiveram que se contentar
cm ser consumidores virtuais, apropriando-se — gragas a te-
Tevisdo e & propaganda de maneira simbélica ou vicéria das
“festim neoliberal”. Convém acentuar que 0 ca
10 ou vicério deste consumo nao prejulga, de
mancira alguma, que o mesmo seja irrelevante do ponto de
sta de sua capacidade para conferir legitimidade ao capi-
‘o democritico. A manipulago ideoldgica praticada atra-
.gao de massa, principalmente a
fusa a fronteira entre consu-
mos reais e simbélicos (Garcia Canclini, 1995).
Em todo caso, as completas e pitorescas “converses” €
apostasias politicas aludidas acima — entre as quais sobres-
saem as do PSOE na Espanha, a do Labor Party na Nova Ze-
‘ado peronismo na Argentina, a do PRI no México ea
do partido socialista no Chile ~ ndo deveriam nos surpreen-
der porque um trago caracteristico de todas as ideologias
chamadas “de época” é precisamente suscitar a intensa ade-
diregio politica que depois, da noite para o dia,
busca de novas certezas e oportunidades. O neoliberalismo
alguns indicios que parecem indicar que seu itiner:
rico teria alcangado seu zénite: a resisténcia social a suas
icas aumentou notavelmente na Europa —
principalmente na Franca e Itélia e, em menor medida, na
‘Alemanha e no Reino Unido. Na América Latina, sobretudo
as ditaduras neoliberais foi bastante forte e ist
ficuldades em que tropegou seu avango nos
"7és-Neoliberalismo TT
Por outro lado, novos muros de contencdo comegama serer.
uidos no México e 0 aumento da conflitividade social na
‘Argentina parece pressagiar o final do experimento menenis
{a, sem divvida o mais radical e selvagem de todos quantos fo.
fam postos em marcha na regio (Boron, 1995; 1993.94)
Com seu esgotamento ¢ eventual substituigo tomam-se pa
tentes os numerosos problemas que o neoliberalismo reinante
criou, simplesmente ignorou ou contribuiu para agravar, tudo
co que obriga as forgas democraticas a planejar estratégias efi-
cazes para enffentar a pesada heranga que devera deixar
como legado.
3. Mercados e democracia: as contradigoes
Dadas estas circunstincias, parece oportuno fazer refe-
réncia & relagdo entre mercados e democracia, um tema que
reine a excluso — econdmica, social e politica - do neolibe-
ralismo com a decadéncia das instituigdes da democracia re-
presentativa, questo que se encontra no centro do atual de-
bate da teoria politica. Por qué? Porque a profunda reestrutu-
rago econémica e social precipitada desde a crise do keyne-
sianismo~em meados da década de 70 —e o auge das idéias
neoliberais, assistimos a uma expansdo dos mercados sem
precedentes na historia do capitalismo. O resultado desta
inédita mercantilizagdo da vida social foi um notavel dese-
quilibrio na relagao entre mercado, estado e sociedade. A
avassaladora presenga dos mercados e sua hegemonia em se-
tores crescentes da vida publica contemporanea, impensivel
até ha trinta ou quarenta anos, pds em questo um tema que
antes nem sequer se discutia: como reconciliar este auge dos
mereados com a preservagio da democracia? Porque, como
oe E evidente que a relagdo entre os dois s6 foi harmo-
peionalmente, ¢ isto devido basicamente a quatro
Tazbes que passamos a expor.
18
_ — ee
(Os “novos Leviatis” ¢ a pélis democratics
sério: democracia ou capitalism
3.1. Excurso neces: r
democratic?
‘Antes de apresentar essas razbes é preciso introduzir
uma breve nota de cautela. Embora a palavra democracis
ou a expressio “democracia capitalista” possam aparecer al-
Gumas vezes no texto, na realidade uma concepedo mais
gorosa e precisa s6 autorizaria a falar de ‘capitalismo demo-
cratico”. Nao obstante, razOes de estilo obrigam as vezes a
gm uso que se presta a uma certa confusio. De fato, falar de
democracia, simplesmente, deixa de lado as enormes € muito
significativas diferengas entre a verséo da democracia na
Grécia Classica, que precariamente apareceu em algumas ci-
dades européias nos albores do Renascimento, ou a que co-
nhecemos no século XX em algumas sociedades capitalistas.
Tal como argumentamos em outro lugar, a democracia como
forma de organizagao do poder social no espago piiblico é in-
separdvel da estrutura econémico-social sobre a qual esse
poder repousa. Suas distintas modalidades de organiza¢ao —
ditatoriais ou democraticas, ou as seis formas classicas do
poder politico plasmadas em A Politica de Aristételes — dei-
tam raizes no solo de um modo de produgao e de um tipo de
estrutura social que Ihe é proprio, tudo isto tornando suma-
mente impreciso e confuso um discurso que fale sobre a “de-
mocracia” sem outras qualificagdes. De fato, de que demo-
cracia se fala?
Neste sentido, alguns autores fizeram uma fervorosa de-
fesa de uma democracia “sem adjetivos” (Krauze, 1986, p.
44-75). No entanto, uma recente andlise da literatura revelou
a enorme proliferagdo de “adjetivos” que na ciéncia politica
so empregados para qualificar o funcionamento dos regi-
mes democraticos (Collier, 1995; O’Donnell, 1996, p. 5-7).
Nio obstante isso, a adjetivagdo da democracia — mesmo
quando para tal efeito empregam-se termos “fortes” ou mui
19eee
Pos Neotbealsmo It
jpnificagio como “capitalismo” ou “socia.
! temo” =nio resolve de vez 0 problema. E isto € assim por.
i gue mesmo se utilizarmos uina expressio como “democra
| ia capitalista”, ndo podemos evitar que a mesma projete so-
| thea totalidade do discurso uma conotagio claramente apo.
Topétiea, porque 2 fase implica em validar uma suposiio
cnidentemente inaceitivel: que neste tipo de regime politico
componente “capitalista” € um mero adjetivo que apenas
Gualifiea o funcionamento de uma democracia plenamente
desenvolvida (Boron, 1991, p. 65-101). Nesta linha de anéili-
Se Carlos Pereyra estava certo quando disse que “democracia
| ‘burguesa” era “um conceito monstruoso” toda vez que o
; mesmo “esconde uma circunstancia decisiva da historia con-
erosions: ‘ademocracia foi obtida e preservada, em maior
‘ou menor medida em distintas latitudes, contra a burguesia”
(Pereyra, 1990, p. 33). Dupla dificuldade, portanto, da adje-
tivagdo de outrora: em primeiro lugar, a que surge de atribuir
gratuitamente burguesia uma conquista historica como a
democracia, que foi obra de seculares lutas populares contra
adominagao do capital; em segundo lugar, porque se for acei-
taaexpressio “democracia burguesa”, o propriamente “bur-
‘gués” converte-se num dado acidental, numa especificacao
de tipo acessério sobre uma esséncia fetichizada, a democra-
cia cujo valor permaneceria imutavel além dos avatares con-
cretos de sua existéncia.
to carregados des
O que fazer entdo? Nao se trata de adjetivar ou nio adje-
tivar, mas de inverter os termos. Uma expressdo como “capi-
| talismo democritico” recupera com mais fidelidade que @
' frase “democracia burguesa” o verdadeiro significado da de-
| tna burguesa a0 sublinhar que seus tragos e notas defi-
paees sheiges livres periédicas, direitos e liberdades
aiiuais, ce. so, apesar de sua indubitvel importin-
is formas politias eujo funcionamento ¢eficdca espectt-
‘am para eclipsar, muito menos dissolver, a estru-
20
Os “novos Leviatds" ea palis democritica
tura antidemocratica da sociedade capitalista. Esta estrutura
define limites intransponiveis para a democracia, pois re~
pousa num sistema de relagGes sociais que gira em tomo da
Exploragao da forga de trabalho, considerada como uma
mercadoria. Isto coloca numa situago de inferioridade es-
trutural os trabalhadores, que necessariamente devem ven-
ria forga de trabalho para poder subsistir, ao pas-
tue podem adquiri-la, os capitalistas, numa
minio nao disputado na cipula do sistema.
O resultado é uma ditadura de facto dos capitalistas sobre os
assalariados, quaisquer que sejam as formas sociais e politi-
gas —como a democracia — das quais aquela se revestir © de-
baixo das quais se ocultar. Dai a tendencial incompatibilida-
de existente entre o capitalismo como formagao social ea de-
mocracia concebida, como na tradi¢o classica da teoria
politica, num sentido mais amplo ¢ integral e nao tio-somente
fem seus aspectos formais e procedimentais (Boron, 1994b,
p. 7-48). E exatamente por isso que Ellen Meiksins Wood tem
razio quando se pergunta, num magnifico ensaio rico em su-
gestdes tedricas: Poderd o capitalismo sobreviver a uma plena
‘extenstio da democracia (Meiksins Wood, 1995, p. 204-237)?
E por isso que preferimos utilizar a expressao “capitalismo
demogratico” em lugar de outras de uso mais corrente mas
caracterizadas por uma ambigiiidade nada inocente.
der sua pro}
so que situa 0s 4
posigao de predor
Dito isto, vamos agora as fontes da incompatibilidade
entre mercados e democracia.
3.2. Ascendente ou descendente?
Em primeiro lugar, é preciso lembrar que légica de fun-
cionamento da democracia é incompativel com a que prima
nos mercados. Além de suas miitiplas variantes, uma demo-
cracia genuina remete a um modelo ascendente de organiza-
do do poder social (Bobbio, 1976b, p. 28-29). Este cons-
21A
sessontets )
sobre a base do reconhecimento da plena autonomig
tudi-se : .
tr pets contitutivos €o “demos”, de Baixo para cima
a sas conreasehistoricamentesituadas desta consi,
ao sto miltiplas, desde a restritiva democracia ateniense do
Péricles até as inclusivas democracias “keynesia.
inavos, passando por miiltiplas for.
nas intermédias. Bm todas elas, no entanto, hi um processo
Falco que parte da base e que ~seja mediante a interven.
io direta dos cidaddos ou através de variados sistemas de
representagao e delegacao (mais ou menos
to popular) -culmina constituindo a autoridade politica. Co-
‘mo dizfamos acima, uma suposi¢o essencial deste arranjo é
a igualdade dos cidadios. Nas democracias plenamente de-
to traduz-se na total inclusividade do “de-
‘mos” no processo democritico, expressa no sufrégio univer-
sal e igual que acaba com as seculares exclusdes de género,
classe, educagio ¢ etnia,
‘O mercado, pelo contririo, obedece a uma logica descen-
dente: so os grupos beneficiados por seu funcionamento
principalmente os oligopélios — que tém capacidade de
onstrui-lo”, controlé-lo e modificé-lo a sua imagem e se-
melhanga, eo fazem de cima para baixo. Se na democracia 0
que conta é base sobre a qual repousa, nos mercados 0s ato-
res erucaissio os que se concentram na cupula, Na primeira,
to tem origem embaixo; nos segundos, em cima. Os
eras etm —em sua prtica, embora no em su retd-
Far tc Prcetstes de gualiak inclusividade
Fars Grarem democritca,Exigem compradores€ ver:
1 sperghe ta ‘oso iguais—nem podem ser— porgue hi
desea aa Os compre venda essencia,e sobre a Ne
dir eats innamento dos mereados, qu, £0 divi-
uma ison see is em dua classes, troduz
Gia dos vee nee incompativel com a ‘democra-
forga de trabalho e a daqueles 4¥°
2
(0s “novos Leviatls" e apélis democritica
podem adqui
fundamental é ignorada — ou abertamente subestimada
sua importaneia — por toda a tra
seu discurso da “liberdade mercantil” depois que aquela
realizada € ndo se interessando por suas conseqiiéncias (Bo-
ron, 1994b, p. 49-121).
3.3. Participagao ou exclus4o?
Libertada dos limites erigidos por uma estrutura capita-
democracia esta animada por uma ldgica includente,
abarcativa e participativa, tendencialmente orientada para a /
criagio de uma ordem politica fundada na vontade coletiva.
‘Uma democracia cabalmente merecedora desse nome supde
completa identificagao entre 0 “demos” e 0 corpo eleitoral
efetivo. Mas, nas distintas fases da evolugao do capil mo
democratico, esta identidade esteve muito longe de se satis-
fazer. Exclusées de natureza diversa impediram, até data
‘bem recente, a participago das mulheres, dos trabalhadores,
dos analfabetos, dos migrantes intemos, certas etnias estig-
matizadas (no necessariamente “minorias étnicas”, se
Iembrarmos 0 caso do apartheid na Africa do Sul, onde os
excluidos eram a maioria esmagadora da populagio) e varias
outras categorias sociais de tipo distinto. Se a democracia é
governo ‘“do povo, pelo povo e para o povo”, segundo reza a
formula de Abrado Lincoln, a participagdo do povo s6 pode
ser tio irrestrita como é inapelavel a sua plena exclusividade.
Mas nao & este 0 caso do mercado, pois responde a uma
légica completamente di ‘Nio existe nele uma dina
a inclusionista, nem um aff de potenciar a participagao de
todos. Pelo contririo, a competigao, a segmentacdo ¢ a se
tividade so os tragos que o definem. Numa palavra, se a de-
rmocracia orienta-se tendencialmente para aintegragdo deto- 7
dos, conferindo aos membros da sociedade o status de cida- Y
wm
2Bma” —t—te
ie-Neolberatismo I
‘io, o mercado opera sobre a base da competigdo ¢ da “so.
trovivencia dos mais aptos”, € no esté em seus planos pro.
vrever o acesso usiversal da populacdo a todos os bens que
Tyo trocados em seu Ambito, O mercado é, na realidade, um
Embito de confrontagdes impiedosas ~ a esfera do egoismo
‘universal, como observava Hegel — na qual hé ganhadores,
que sio fortemente recompensados, ¢ perdedores, que sio
Gorrespondentemente castigados. A participagio no consu-
mo, diferente da participagio na vida democritica, longe de
ser um direito, é, na realidade, um privilégio que se adquire
da mesma maneira que se adquire qualquer outro bem no
mercado. Se na democracia a participagio de um exige e po-
tencia a participagdo dos demais, no mercado 0 consumo de
um significa 0 nfo-consumo do outro. A logica da democra-
cia éa de um jogo de somas positivas. A do mercado é a de
+} um jogo de soma zero: o lucro do capitalista é a insuficiéncia
|| do salario. Portanto, no mercado, para que alguém ganhe, 0
‘outro tem que perder.
3.4, Justiga ou lucro?
Em terceiro lugar, a democracia esté animada por um afi
Vn justiga. Nao é por acaso que Platao inicia o primeiro capi-
tulo de 4 Repiiblica —ponto de partida de dois mil e quinhen-
tos anos de reflexao teérico-politica a nivel universal — com
uma discussio sobre o que constitui a virtude suprema da po-
lis. A resposta apresentada no final desse luminoso primeiro
\ capitulo que ela nao pode ser outra que a justiga. Por exten-
sio é possivel afirmar, como conseqiiéncia, que a justica
também deve ser 0 objetivo final da democracia, dado que,
enquanto forma politica especifica de organizagio da cidade,
Seria incongruente que aquela pudesse se constituir em torno
da obtengao de fins incompativeis com os desta.
24
(0s “novos Leviatis" e a pélis democritica
Sendo assim, 6 oportuno sublinbar que a justica supde 0
desenvolvimento dum argumento irredutivel ao calculo de
Gusto-beneficio, que preside toda transagdo mercantil. A de-
fnocracia, por outro lado, é uma ficgio que nao se apdia so-
bre uma plataforma minima de justiga. Se é impossivel al-
cangar ajustiga absoluta, um certo minimo de justiga —histo-
ricamenie Varidvel, certamente — é absolutamente imprescin-
divel para que, nas palavras de Fernando Henrique Cardoso,
se possa “suprimir o cheiro de farsa da politica democratica”
(Cardoso, 1985, p. 17). Concluindo, & muito improvavel e
mais que problematica a sobrevivéncia da democracia numa
sociedade dividida pela injustiga, com seus desestabilizado-
res extremos de pobreza e riqueza ¢ com sua extraordinéria \ {
vulnierabilidade 4 pregacio destrutiva dos demagogos. Co-
mo lembrou Jean-Jacques Rousseau: “Quereis dar consis-
téncia ao estado? Aproximai o quanto for possivel os graus
extremos: ndo permitais nem pessoas opulentas nem mendi-
gos. Estes dois estados, insepardveis por natureza, sao igual-
mente funestos para o bem comum: de um lado saem os fau-
tores da tirania e, do outro, os tiranos; é sempre entre eles que
se faz.o trafico da liberdade publica, uma a compra e outro a
vende” (Rousseau, 1980, p. 292-293),
Todavia, se a justiga é o valor orientador de uma demo-
cracia, o mercado é— tanto por sua estrutura como pela légi-
ca de seu funcionamento— completamente indiferente diante {
dela. O que o mobiliza eo pée em tensio é a busca do lucro —
© animus lucrandi dos romanos ~ ¢ a paixao pela riqueza. O
que reina em seu territério é 0 lucro e nao a justica; 0 rendi-d
mento ¢ no a eqilidade. A justica é uma distorgao “ex-
tra-econémica” que interfere no célculo de custos ¢ benefi-
cios. E uma externalidade intrusiva, completamente alheia e
imracional, para as expectativas dos agentes econémicos en-
Volvidos numa luta sem quartel para sobreviver num meio
cada vez mais hostil. O mercado se parece com o ltigubre ce-
>_—_—_—zées
f pbsNeoliberaism I
obbesian da guerra de todos conta todos, na qu,
nario hol
vahecia o autor do Leviatd, no ha justiga, nem le}
como recon viamente, nessas condigdes dificilmente po.
sear postulada| ima afinidade de funcionamento entre os
adatom democttica, dado que Os agentes
mercedes © 0 cies se veer compelidos a fazé- sob
| ue anagem que atinica coisa sensata€tratar de maxi-
esi eer a qualquer prego. Este trago fi eer
Tamenteeaptado por Karl Marx quando, no Prélogo a pri-
meira edigao de O capital, disse: “Nao pinto em cor-de-rosa,
rertamente, as figuras do capitalista e do proprietirio de ter-
va, Mas aqui sé se trata de pessoas na medida em que sio.a
personificacao de categorias écondmicas, portadores de de-
‘erminadas Telagaes € iiteresses de classe. Meu ponto de
sta, segundo o qual concebo como proceso de histéria na-
i turalo desenvolvimento da formagao econdmico-social, me-
nos que nenhum outro poderia responsabilizar o individuo
por relagSes das quais ele continua sendo socialmente uma
criatura por mais que subjetivamente possa elevar-se sobre
‘as mesmas” (Mark, 1975, I, p. 8 — itilico no original)
3.5. Da pdlis aos mercados ou dos mercados a pélis?
Finalmente, a democracia possui uma légica expansiva
Por parte da igualdade estabelecida na esfera da politica ~
| sti \da no. sufrégio universal e na igualdade pe-
ante lei~e que a impele a “transportar” sua dindmica igua-
ria para os mais diversos terrenos da sociedade e da eco-
nomia (Bowles e Gintis, 1982; 1986). A histéria dos capita-
smos democriticos em nosso século foi esta: a progressiva
| Conquista de direitos c entitlements sociais e econémicos as-
| setae Sobre 0 poder aumentado dos sindicatos dos parti-
* e organizagdes representativas das classes e camadas po-
Pulares que, pelo menos em parte, foram capazes de traduzir
26
(s “novos Leviatis" ea pélis democritica
sua presenga politica em beneficios sociais ti
cretos para os trabalhadores. O resultado foi um crescente | | |
a recreagio, etc. ~ tornaram-se bens coletivos cuja efetiva
proviso passou a depender de uma radical redefinigio do |
papel tradicionalmente exercido pelos estados nacionai
bem conhecido que o keynesianismo foi a formila politica
que assumiu esta mutagdo no regime de acumulagdo ¢ no
modelo de hegemonia burguesa (Buci-Glucksmann, 1981;
Negri, 1991; Off, 1984), Pelo mesmo processo produzi
um formidavel avango no proceso de cidadania e na integra- “eo
G0 das massas ao estado, tendo tudo isso cristalizado numa
inédita democratizagao da sociedade e do estado capitalistas.
Esta expansividade propria de um modelo democratico
contrapde-se a um movimento em sentido contrario, que se
a nos mercados. Se nas conjunturas de ascenso da luta
de classes e de ofensiva dos setores populares a democratiza-
40 dos capitalismos traduziu-se na mencionada “socializa-y
0 de demandas”, na fase que se constitui a partir da con-, /[
tra-ofensiva burguesa langada desde o final dos anos setental
verifica-se um processo diametralmente oposto de “privat
zago” ou “mercantilizagao” dos velhos direitos de cidada- V
nia, O correlato de tudo isto é uma acentuada —e, segundo os
es, acelerada ~ ‘“descidadanizagdo” de grandes setores
sociais, vitimas do avassalador predominio de critérios eco-
némicos ou contaveis em esferas antes estruturadas em fun-
io de categorias éticas, normativas, ou pelo menos extra-
mercantis. Direitos;demandas e necessidades anteriormente
consideradas como assuntos piblicos transformaram-se, da
noite para o dia, em questdes individuais diante das quais os
governos de inspiragao neoliberal consideram que nada tém
a fazer a nfo ser criar as condigSes mais favoriveis para que
c%)seja 0 mercado 0 encarregado a Ihes
“transporte” de critérios de “eusto-benctcon PO 9
“racionalidade econémica” da economia para a nan €
mina na reeriagdo de uma nova ordem politica any
ip desigualdade ¢ exclusio proprias dos mercadec at
ff entéo dominada pelo igualitarismo da poltice Some
de ou a edueagio eram direitos consubstanciais ident
da cidadania, a colonizagio da politica pela esnge®
transforma em outras tantas mercadorias que devernan ce
quiridas no mercado, por aqueles que podem pagé las
4. Uma reconciliagao proviséria e suas exi enc
A vista destas contradigdes € evidente que o tema da
compatibilidade entre 0 mercado e a democracia é bastante
problematico e desafia qualquer tentacdo simplificadora, No
entanto, durante muito tempo se pensou que a convivéncia
entre ambos era relativamente simples e que os velhos con-
flitos tinham sido definitivamente superados. Parece que foi
realmente assim durante o periodo compreendido entre a re-
estruturagdo keynesiana posta em marcha desde a Grande
Depresso— e com mais forga desde o final da Segunda Guer-
ra Mundial — e meados da década de setenta. A sil cele:
bridade adquirida pela ideologia do “fim das ldeclogie 7
do “fim das lutas de classes” sao testemunhos aie
triunfalista clima de opinido que tinha se apoderado
guesia (Bell, 1960; Lipset, 1963).
Todavia, esgotado esse periodo ~ certamente 0 Mn
plendoroso em toda a histéria do capitalismo = as
xas e as conhecidas incompatibilidades eet ae
vez para o primeiro plano. A extraorinira di Tn
ses anos, adquiriram diversos prognéstioos MEET
profundo pessimismo (lembremos, simp! 7 ment
goes catastrofistas do Clube de Roma ou 0:
.ertamente 0 mais ¢S-
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Os “novos Leviatis” e a pélis democratica
térios da Comissio Trilateral, especialmente o relativo 4 in-
governabilidade das democracias) demonstram os alcances
da mudanga experimentada pelo clima ideolégico-politico
do Ocidente (Meadows, 1972; Crozier, 1975).
E que as possibilidades de harmonizar mercados e demo-
cracia assentavam-se sobre dois pressupostos muito caros a
matriz do pensamento liberal: um era relativo as caracteristi-
cas da estrutura social do capitalismo; outro, referido a pré-
pria eficdcia das instituigdes democrdticas para corrigir as
tendéncias mais desorganizadoras ou desequilibradoras dos
mercados, tema ao qual voltaremos na préxima segao.
4.1. 0 paraiso perdido: os prognésticos falidos
evolugao da desigualdade nas sociedades capi
A antecipagao tedrica do liberalismo acerca do futuro da
desigualdade sintetizava-se em duas estipulagdes: por um la-
do, que as desigualdades econémicas e sociais proprias dos
mercados livres e competitivos flutuariam dentro de limites
razoiveis; por outro lado, sustentava-se também que, com o
Passar do tempo, essas desigualdades tenderiam a diminuir,
evitando a polarizagio social. Isto era assim porque, entre
Outras razSes, supunha-se que na sociedade capitalista nao
estava fechado o acesso a propriedade privada e que os agen.
tes econémicos nao estavam fatalmente condenados a servi-
dio do trabalho assalariado. No pensamento de John Locke—
certamente bem conhecido por Adam Smith — a ameaga da
fome era equilibrada pela possibilidade, sempre existente, de
0 faminto poder “voltar com seus pés” e emigrar para as ine
ferminaveis planuras da América do Norte em busea de sua
Prosperidade. Por outro lado, 0 liberalismo classico também
Postulava que, precisamente por obra dos mercados, » ten-
déncia Predominante No terreno da desigualdade social seria
Para baixo, encurtando as distancias que separavam ricos
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reés-Neoliberalismo I
pobres. Estas eram, por exemplo, as expectativas que tinha
Fejam Smith, o pai fundador da filosofia econémica do libe-