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Table of Contents

INTRODUÇÃ O
ESBOÇO DA CARTA DE PAULO A TITO
1. PRIMEIRO SERMÃ O: SERVO DA PALAVRA DE DEUS [Tito 1.1-4]
2. SEGUNDO SERMÃ O: PROMESSA ATUAL E ESPERANÇA FUTURA
[Tito 1.1-4]
3. TERCEIRO SERMÃ O: A FÉ COMUM [Tito 1.4, 5]
4. QUARTO SERMÃ O: LIDERANÇA NA IGREJA (1) [Tito 1.5, 6]
5. QUINTO SERMÃ O: A LIDERANÇA NA IGREJA (2) [Tito 1.7-9]
6. SEXTO SERMÃ O: MANTENDO A VERDADE [Tito 1.9-10]
7. SÉ TIMO SERMÃ O: O ADVERSÁ RIO DE DENTRO [Tito 1.10-12]
8. OITAVO SERMÃ O: SADIOS NA FÉ [Tito 1.12-15]
9. A TIRANIA DA TRADIÇÃ O [Tito 1.15, 16]
10. O CARÁ TER CRISTÃ O (1) [Tito 2.1-3]
11. O CARÁ TER CRISTÃ O (2) [Tito 2.3-5]
12. CARÁ TER CRISTÃ O (3) [Tito 2.6-13]
13. GRAÇA E GLÓ RIA [Tito 2.11-14]
14. O MANDATO DO PREGADOR [Tito 2.15-3.2]
15. DEUS É QUEM SALVA [Tito 3.3-5]
16. NOVA VIDA EM CRISTO [Tito 3.4-7]
17. PROVEITOSAMENTE OCUPADOS [Tt 3.8-15]
ORAÇÕ ES ANTES E DEPOIS DO SERMÃ O
SERMÕES SOBRE TITO
Joã o Calvino
 
Tradução
Valter Graciano Martins
 

Copyright © 2015 de Robert White


Ediçã o baseada na traduçã o inglesa publicada
pela The Banner of Truth Trust,
3 Murrayfield Road, Edinburgh EH12 6EL, UK.
 
Todos os direitos em língua portuguesa reservados por

EDITORA MONERGISMO
SCRN 712/713, Bloco B, Loja 28 — Ed. Francisco Morato
Brasília, DF, Brasil — CEP 70.760-620
[Link]
 
1ª ediçã o, 2019
 
Traduçã o: Valter Graciano Martins
Revisã o: Felipe Sabino de Araú jo Neto e Fabrício Tavares de Moraes
Capa: Bá rbara Lima Vasconcelos
PROIBIDA A REPRODUÇÃ O POR QUAISQUER MEIOS, SALVO EM BREVES CITAÇÕ ES, COM INDICAÇÃ O DA
FONTE.

 
 
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Calvino, Joã o
Sermõ es sobre Tito / Joã o Calvino, traduçã o Valter Graciano Martins — Brasília, DF:
Editora Monergismo, 2019.
Título original: Sermons on Titus
1. Sermõ es — Joã o Calvino 2. Novo Testamento — Tito 3. Teologia reformada I. Título
CDD 230

 
 
 
 

Sumá rio
INTRODUÇÃ O
ESBOÇO DA CARTA DE PAULO A TITO
1. PRIMEIRO SERMÃ O: SERVO DA PALAVRA DE DEUS [Tito 1.1-4]
2. SEGUNDO SERMÃ O: PROMESSA ATUAL E ESPERANÇA FUTURA [Tito 1.1-4]
3. TERCEIRO SERMÃ O: A FÉ COMUM [Tito 1.4, 5]
4. QUARTO SERMÃ O: LIDERANÇA NA IGREJA (1) [Tito 1.5, 6]
5. QUINTO SERMÃ O: A LIDERANÇA NA IGREJA (2) [Tito 1.7-9]
6. SEXTO SERMÃ O: MANTENDO A VERDADE [Tito 1.9-10]
7. SÉ TIMO SERMÃ O: O ADVERSÁ RIO DE DENTRO [Tito 1.10-12]
8. OITAVO SERMÃ O: SADIOS NA FÉ [Tito 1.12-15]
9. A TIRANIA DA TRADIÇÃ O [Tito 1.15, 16]
10. O CARÁ TER CRISTÃ O (1) [Tito 2.1-3]
11. O CARÁ TER CRISTÃ O (2) [Tito 2.3-5]
12. CARÁ TER CRISTÃ O (3) [Tito 2.6-13]
13. GRAÇA E GLÓ RIA [Tito 2.11-14]
14. O MANDATO DO PREGADOR [Tito 2.15-3.2]
15. DEUS É QUEM SALVA [Tito 3.3-5]
16. NOVA VIDA EM CRISTO [Tito 3.4-7]
17. PROVEITOSAMENTE OCUPADOS [Tt 3.8-15]
ORAÇÕ ES ANTES E DEPOIS DO SERMÃ O

 
INTRODUÇÃO
As três cartas que, juntas, constituem as Epístolas Pastorais de Paulo
— 1 e 2 Timó teo e Tito — pertencem ao final da vida do apó stolo.
Diferentemente das outras cartas de Paulo, que sã o endereçadas
coletivamente a uma igreja cristã , estas sã o endereçadas
pessoalmente a homens a quem ele considera colegas íntimos e de
plena confiança: Timó teo em É feso e Tito em Creta. A despeito das
aparências, as cartas nã o sã o um projeto de reforma nem um
manual de governo eclesiá stico. As incumbências de Paulo a
Timó teo sã o específicas: refutar os falsos mestres que se encontram
ativos em É feso (1Tm 1.3); manter a sã doutrina e, se possível,
juntar-se ao apó stolo em Roma (2Tm 1.13; 4.9). Igualmente
específica é sua ordem a Tito: completar a obra começada em Creta,
estabelecendo em cada cidade presbíteros que sejam, a um só
tempo, homens íntegros e mestres eficientes, capazes de coibir a
influência de certos oponentes judeus cristã os, “porque existem
muitos insubordinados, palradores frívolos e enganadores,
especialmente os da circuncisã o” (Tt 1.5-10).
No que concerne à liderança irrepreensível, ao ensino fiel e ao bem-
estar espiritual dos membros da igreja, a carta a Tito soa uma nota
fortemente ética e evangelística em sua ênfase sobre o viver íntegro,
pelo qual Deus é honrado e os estranhos sã o atraídos à fé. A fé que
se expressa publicamente em culto a Deus também se expressa
publicamente em obras excelentes, pelas quais se entendem nã o
simplesmente os bons feitos, mas visível e atrativamente as boas
açõ es (Tt 2.7, 14; 3.8, 14). A partir dessas açõ es os incrédulos podem
receber um vislumbre do poder do evangelho e de sua graça,
libertando-os dos maus atos e capacitando os crentes a viver, “no
presente século, sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.12). [1]
Portanto, em seus sermõ es sobre Tito, Calvino ressalta
consistentemente a centralidade da Palavra revelada de Deus na
vida coletiva da igreja e a necessidade de que cada crente se
conforme ao padrã o divino de santidade, integridade e pureza. Uma
vida saudá vel é, pela obra graciosa do Espírito, tanto a consequência
quanto o acompanhamento do ensino saudá vel. Entretanto, a
inconsistência de conduta nã o é fá cil de evitar, e o mundo com razã o
condenará os cristã os que dizem uma coisa e fazem outra.
Transformaçã o à semelhança de Cristo é uma obra da vida inteira.
Arrolados na escola de Deus, os crentes sã o instados a tirar proveito
de cada dia, crescendo nã o só em conhecimento, mas também em
amor, e nã o somente para proveito pró prio, mas para o benefício de
seus semelhantes, aos quais estamos jungidos pelos laços de
humanidade e fraternidade. Desta forma, a igreja é fortalecida, seu
testemunho é confirmado e se dá prova tangível de que ela é o que
alega ser — a comunidade dos redimidos de Deus sobre a terra.
Dada a importâ ncia que Calvino vinculou aos pastores e presbíteros
em seu conceito de ministério, é inevitá vel que o pregador insista
longamente nas funçõ es e qualidades do prestre-evesque , o
presbítero-supervisor, como delineado por Paulo, e que ele
comentaria de um modo á cido sobre a indiferença de Roma para
com o ensino dos apó stolos. Ecos da cena genebrina contemporâ nea
podem ser encontrados na sensível defesa que o Reformador faz da
disciplina eclesiá stica, em suas advertências contra os falsos
mestres (onde ele tem em mente particularmente Serveto), e sua
defesa em prol da generosa hospitalidade que deve ser estendida
aos refugiados religiosos para os quais Genebra representava um
precioso lugar de asilo.
Um lampejo da compreensã o que o pró prio Calvino tinha de seu
papel como arauto do evangelho é fornecido por uma série de
passagens sobre “nó s”, onde a atençã o é dirigida nã o ao universal —
“nó s, humanos”; “nó s, cristã os”; “nó s, pecadores” — mas ao
particular: “nó s, pregadores”; “nó s, ministros da Palavra de Deus”.
Acima de tudo, os sermõ es sobre Tito revelam o coraçã o do pastor
Calvino, o pastor do rebanho de Deus, cujos membros sã o nutridos
pela Palavra da verdade, feitos um com Cristo pelo poder
regenerador do Espírito, adotados na família de Deus, cuja promessa
da herança celestial nã o pode falhar. Embora o pregador recuse-se a
aprovar a divisã o tradicional entre clérigos e leigos, ele nã o é um
nivelador. É verdade que, pela graça, todos somos filhos de Deus e
do mesmo rol de membros de Cristo. Cada um de nó s é guarda de
nossos irmã os. Todavia, nem Paulo, em sua carta a Tito, nem
Calvino, em seus sermõ es, falam de um presbiterado ao qual todos
os crentes podem aspirar indiscriminadamente. O padrã o de Deus
para a igreja é bem ordenado, onde há os que ensinam e os que sã o
ensinados, cada um segundo sua vocaçã o. Portanto, os que ensinam
fielmente lideram; e os demais recebem a Palavra, nã o
passivamente, mas com reverência e açã o de graças.
Nã o obstante, o pastorado nã o é uma casta privilegiada. O presbítero
nã o é mais que um administrador na casa de Deus, conduzindo-a
sob o olhar vigilante de seu Senhor no céu, a quem ele tem de
sempre prestar contas. Seu modelo nã o é o sacerdote sacrificador ou
o prelado moná rquico da Igreja Cató lica Romana, e sim Cristo, o
Servo obediente. Sua liderança é como a de alguém cuja vida e
doutrina sã o julgadas, respectivamente, pelos homens e por Deus, e
cuja conduta no pú lpito e fora dele tem de ser exemplar. Como
mestre, ele mesmo tem de ser ensinado constantemente; deve
confiar em seu pró prio juízo sem o auxílio de ninguém, buscar
conselhos mais sá bios e atentar para as advertências bem
intencionadas. A presunçã o, nã o menos que a cupidez, a ambiçã o e a
imoralidade, lhe constituem em morte.
***
A primeira obra de Calvino sobre as Epístolas Pastorais tomou a
forma de um comentá rio sobre 1 e 2 Timó teo, publicada em 1548.
Um comentá rio separado sobre Tito apareceu no início de 1550. [2]
Somente em setembro de 1554 é que o Reformador, no curso de
seus deveres regulares de pregaçã o, em Genebra, começou a expor a
primeira das Epístolas Pastorais, seguida pela segunda em abril de
1555 e pela terceira — Tito — em agosto daquele ano. Ele dedicou
dezessete sermõ es à ú ltima epístola mencionada, pregando
normalmente duas vezes a cada domingo sobre os versículos
consecutivos e concluindo a série em meados de outubro de 1555.
[3]
Anotadas taquigraficamente por Denis Raguenier e transcritas
subsequentemente, as três séries de sermõ es foram publicadas
juntas em um só volume pelo tipó grafo genebrino Conrad Badius em
1561, sob o título Sermons de Iean Calvin sur les deux Epistres S. Paul
à Timothée et sur l’Epistre à Tite . [4] A obra foi habilmente traduzida
para o inglês por Laurence Tomson e impressa em Londres por G.
Bishop e T. Woodcocke em 1579. Uma versã o grandemente
abreviada e modernizada da traduçã o de Tomson foi publicada em
Nova York em 1830, e uma reimpressã o fac-similar do volume
inteiro foi publicada por The Banner of Truth Trust em 1983.
A traduçã o atual dos Sermões sobre a Carta a Tito foi feita
recentemente com base no francês de 1561. É baseada no texto
preparado por G. Baum, E. Cunitz e E. Reuss para sua monumental
ediçã o das obras reunidas de Calvino. No entanto, a leitura foi
totalmente cotejada com a có pia da ediçã o de Badius fornecida pela
Bibliothèque de Genève. Os títulos dos sermõ es sã o de minha lavra.
A pontuaçã o foi modernizada e foram introduzidas divisõ es em
pará grafos onde no original nã o aparece nenhuma.
Com frequência, o pregador cita a Escritura de memó ria ou ainda se
contenta em parafraseá -la, nem sempre da mesma forma; em cada
caso, eu traduzi o texto conforme ele o cita. As referências bíblicas,
que aparecem nas margens do texto de Calvino, sã o identificadas à
medida que ocorrem. Em alguns lugares, elas foram corrigidas e
referências ausentes foram adicionadas. Um pequeno nú mero de
notas explicativas também foram incluídas. Calvino começava seus
sermõ es com uma oraçã o para iluminaçã o e os concluía com uma
breve oraçã o de improviso, que por sua vez levava a uma longa
oraçã o de intercessã o cuja forma, ao menos para o culto matutino de
domingo, era afixada pela liturgia genebrina de 1542. Eu restaurei a
oraçã o de improviso que os editores da CO omitiram, e incluí tanto a
oraçã o por iluminaçã o como a oraçã o intercessó ria no final deste
volume. Também está incluso o “Esboço da Carta de Paulo a Tito”,
que prefaciou a ediçã o de 1561 e que Calvino já havia acrescentado
a seu Comentário a Tito (1550). Em deferência à s normas da
polêmica do século XVI, nã o tentei suavizar as farpas dirigidas por
Calvino ou à Igreja Cató lica Romana — principalmente à sua
hierarquia — ou a outros oponentes que, visando a ridicularizar o
Reformador, algumas vezes podiam ser encontrados na pró pria
Genebra.
É -me um grande prazer expressar minha gratidã o aos curadores de
The Banner of Truth por concordarem em publicar este volume, e
minha gratidã o ao editor, Jonathan Watson, cujo auxílio,
encorajamento e sá bio conselho têm sido, como sempre, de valor
imensurá vel para mim.
 
— Robert White
Sydney, julho de 2015

ESBOÇO DA CARTA DE PAULO A TITO


Paulo, tendo apenas lançado os fundamentos de uma igreja em Creta
e se vendo obrigado a mudar-se para outros lugares — nã o sendo
pastor de uma ilha, mas apó stolo aos gentios —, confiara a Tito, na
qualidade de evangelista, a tarefa de continuar a obra começada.
Pode-se ver facilmente, à luz da carta, que, logo apó s a partida de
Paulo, Sataná s se empenhou nã o só em subverter o governo e a
ordem da igreja, mas também em corromper seu ensino. Havia
pessoas ambiciosas que buscavam promover-se como mestres na
igreja e ser tidos entre seus pastores. Uma vez que Tito recusou-se a
partilhar de seus propó sitos perversos, promoveram-se contra ele
falató rios de um tipo calunioso e derrogató rio entre alguns grupos.
Havia também judeus que, com o pretexto de sustentar a lei de
Moisés, praticavam toda sorte de inconveniência. Essas pessoas
encontraram um auditó rio disposto e nã o se fez nenhuma tentativa
para dissimular o apoio deles.
Portanto, o alvo de Paulo, ao escrever como o fez, era conferir a Tito
reconhecimento e autoridade para que ele suportasse melhor um
fardo tã o pesado do ofício. Pois nã o há dú vida de que havia alguns
que achassem fá cil menosprezá -lo, como se ele nã o tivesse mais
condiçã o do que qualquer outro ministro ou pastor. É também
possível que aqui e ali se ouvissem queixas de que ele estava
empreendendo demais e assim assumia mais autoridade do que lhe
era pró prio; porque ele nã o devia admitir ninguém como pastor até
que pessoalmente examinasse e testasse o candidato.
E assim podemos inferir que Paulo nã o escreveu tanto em razã o do
pró prio Tito, mas por causa das congregaçõ es cretenses em geral. É
imprová vel que em sua carta ele pretendesse reprovar Tito pela
prontidã o em promover pessoas que eram indignas de ser
supervisores e pastores; nem desejasse instruí-lo como um
principiante ou alguém totalmente novato para o ofício, com o fim
de mostrar-lhe como deveria instruir seu povo. Visto, porém, que
Tito nã o era tido na devida estima e respeito, aqui Paulo lhe outorga
autoridade para designar ministros e fazer o que é necessá rio para o
bom governo da igreja, como ele pró prio teria feito se estivesse
presente. Pois, de igual modo, visto que muitos teriam preferido
outro tipo de ensino e estilo de instruçã o do que aqueles
empregados por Tito, Paulo deixa claro que ele a nenhum aprova
senã o estes e rejeita todos os demais e exorta Tito a continuar como
vem fazendo desde o início.
Daí ele discutir antes de tudo que tipo de homens devem ser
escolhidos como ministros. Entre os demais dons que ele requer de
um ministro, Paulo deseja que seja alguém bem versado na sã
doutrina e de tal modo equipado com ela, que repila os adversá rios.
Nesta conexã o, ele menciona um nú mero de falhas entre os cristã os,
mas repreende principalmente os judeus que buscavam santidade
em distinçõ es sobre alimento e em outras questõ es externas. Com o
intuito de rebater suas tolices, ele descreve as prá ticas que
realmente constituem a piedade e o viver cristã o. Para corroborar
seu ensino, ele dá uma lista detalhada de qual é o dever de alguém
em conformidade com sua vocaçã o. Para que as pessoas nã o sejam
importunadas por ouvir a mesma coisa repetidas vezes, ele ordena a
Tito de maneira explícita que enfatize este ponto cuidadosa e
constantemente, e explica que este é o alvo da redençã o e da
salvaçã o que Cristo já conquistou para nó s. Se algum indivíduo
confuso ou obstinado resistir e recusar-se a se submeter, ele lhe diz
que nada tem a ver com o tal.
Vemos, portanto, que o ú nico propó sito da carta de Paulo era
defender a causa de Tito e dar-lhe toda assistência enquanto este
estava comprometido com a obra do Senhor.

1. PRIMEIRO SERMÃO: SERVO DA PALAVRA DE DEUS [Tito 1.1-


4]
Paulo, servo de Deus e apóstolo de Jesus Cristo, para promover a fé que
é dos eleitos de Deus e o pleno conhecimento da verdade segundo a
piedade, na esperança da vida eterna que o Deus que não pode mentir
prometeu antes dos tempos eternos e, em tempos devidos, manifestou
a sua palavra mediante a pregação que me foi confiada por mandato
de Deus, nosso Salvador, a Tito, verdadeiro filho, segundo a fé comum,
graça e paz, da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador.
 
Nã o é a primeira vez que tantos homens ímpios, reivindicando
pertencer à congregaçã o cristã , têm se esforçado com o má ximo de
seu empenho para subverter a ordem da igreja e obstruir o curso de
tudo o que é bom e santo. Têm feito tudo o que podem para
corromper todas as coisas. Sabemos que uma igreja nã o pode
manter-se sadia sem pastores bons e fiéis. Deus forneceu uma
norma boa e segura para sua escolha e designaçã o no ofício. Nã o
obstante, muitos homens têm tentado promover-se através de
ambiçã o e por meios corruptos. Mesmo no período dos apó stolos,
quando o evangelho florescia em toda sua pureza, este mal já
prevalecia, como podemos ver. Por contraste, se andarmos em
obediência a Deus, a verdade na qual somos instruídos terá
autoridade sobre nó s, e os que sã o encarregados dessa tarefa serã o
ouvidos com respeito. Pois se os pastores forem desprezados, a
Palavra também será desprezada e calcada sob os pés.
Ora, é ó bvio que já nos dias de Paulo havia muito desafeto e
protesto. Falsos mestres eram prontamente tolerados e bem
recebidos, embora os fardos que impunham fossem pesados e
severos. No entanto, quando os homens que buscavam servir a Deus
lealmente faziam o que lhes era requerido, de imediato apareciam
facçõ es, formavam-se panelas e surgiam conflitos com o intuito de
subvertê-los e assenhorear-se deles. É isso que Paulo tinha em
mente quando escreveu esta epístola. Seu propó sito era castigar os
que desejavam prejudicar a ordem e o bom governo da igreja, que se
recusavam a submeter-se ao jugo ou receber mansamente e com
deferência a Palavra que lhes era anunciada. Além de tudo isso, visto
que sempre houve pessoas levianas que preferiam dar rédeas soltas
à sua curiosidade, em vez de edificar mediante a sã doutrina, Paulo
descarta todas as frivolidades infrutíferas, mostrando que, se
mantivermos o ensino que é de acordo com Deus, devemos
depositar nossa confiança nele e deixar-nos encorajar a invocá -lo
com a devida confiança. Além do mais, para que nossa vida seja
devidamente ordenada, temos de mostrar, por nossas açõ es, que
nossa herança está no céu e que devemos passar por este mundo
sem nos determos nele.
Portanto, essa é a meta de Paulo ao escrever esta carta.
Consideremos, pois, se tais admoestaçõ es nã o se aplicam também
aos nossos pró prios tempos e se nã o nos sã o muitíssimo
proveitosas. Pois que tipo de pregadores podemos ter hoje se
dermos importâ ncia à opiniã o popular? Quã o ardiloso tem sido
Sataná s em introduzir homens indignos para trazer desdém e
opró brio à Palavra de Deus! Há muitos cujo desejo é propor como
pastores e ministros da Palavra indivíduos que ou sã o de uma vida
dissoluta ou sã o destituídos de zelo, que amam meramente tagarelar
e que até zombam de Deus. Preferem uma taverna a qualquer outra
coisa!
Por que as pessoas preferem tais coisas? Porque percebem que tais
pregadores sã o facilmente amordaçados; que o que dizem pode ser
ridicularizado; inclusive podem ser silenciados ou corrigidos num
instante. Aliá s, poderiam trabalhar apenas para receber ordens
como asnos e ser intimados à repreensã o: “Quem você pensa ser?
Você nem sabe que é afortunado em ocupar a posiçã o que ocupa.
Você nã o serve nem mesmo para ser guardador de porcos ou
vaqueiro, mas aqui você é um pastor!”.
Portanto, há muitas pessoas malignas que procuram pregadores que
se ajustam ao gosto delas. Vemos isso acontecer tanto agora como
no passado. Quisera Deus tais coisas nã o fossem tã o comuns!
Portanto, mais que qualquer outra coisa, temos de atentar bem para
a advertência de Paulo, de modo a termos pessoas competentes para
ensinar e que cumpram fielmente seu dever. E quando pregarem
como pretendem fazer, que sua vida seja compatível com sua
pregaçã o; que esta confirme a doutrina que proclamam e deem
visível prova dela. Além do mais, hoje vemos muitos cujos ouvidos
sã o tã o delicados que, tã o logo um tênue nervo é tocado, se irritam,
se enfurecem e demandam uma completa mudança quando a
pregaçã o nã o lhes sai ao gosto. Raramente um em cem está disposto
a calmamente obedecer ao santo ensino. Pensem naqueles que
alegam ruidosamente ser crentes verdadeiros. Se alguém tenta
instruí-los, mas nã o lhes permite continuar em sua vida pecaminosa,
imediatamente se tornam irritados ou seguem de mal a pior e
terminam inclusive perdendo o gosto e prazer pela verdade de Deus.
Outros ficam embaraçados e desafiam tudo, e se contentam com as
coisas que causam tortura e ruína, contanto que sejam deixados
livres para causar seus danos.
Assim, quando vemos estas coisas, certifiquemo-nos de que o
Espírito Santo já fez justa provisã o para tais males e já nos supriu
com um remédio, de modo que cada um de nó s obedeça
serenamente e com toda humildade à Palavra de Deus. E quando
virmos entrar em cena agitadores e escarnecedores, com o intuito
de atazanar-nos e atormentar-nos, fujamos deles como de uma
praga e procuremos dar cabo deles. Se quisermos que Deus nos
ajude a reter a posse do tesouro de seu evangelho, de nossa parte
nã o tomemos partido com os que desejam ver tudo arruinado, o
rebanho de Cristo disperso e a casa de Deus destruída. Por fim,
como hoje o povo de Deus está tã o consumido por estú pida
curiosidade como sempre, sejamos cautelosos em evocar o que aqui
Paulo nos ensina: quando lemos a Palavra de Deus e quando vamos
à igreja, que nosso ú nico alvo seja ser instruídos na sã doutrina —
aquela doutrina que promove nossa salvaçã o, de modo que
cresçamos continuamente na fé de nosso Senhor Jesus Cristo, tendo
certeza da salvaçã o que ele conquistou para nó s e confiando na
graça que ele já nos comprou. Que sejamos aptos a invocar a Deus
com pureza e sem pretexto e olhemos sempre para a herança
celestial; conheçamos a vontade de Deus, de modo que nã o
vacilemos nem duvidemos, mas prossigamos em frente, uma vez que
somos aprovados por Deus e uma vez que nos apegamos tã o
somente à sua Palavra.
Recordemos, pois, que esta carta nos é tã o necessá ria hoje como
sempre o foi. Passemos agora ao que a carta contém.
Em primeiro lugar, Paulo se autodenomina servo de Deus e apóstolo
de Jesus Cristo. Ora, o termo “servo”, neste texto, comunica nã o
apenas a ideia de submissã o. Naturalmente, todos nó s devemos
engajar-nos no serviço de Deus, pois ele já se agradou de aceitar-
nos. Aqui, Paulo enfatiza a natureza especial da tarefa que lhe foi
confiada. E, assim, há diferença entre aquele que vive em “sujeiçã o”
e aquele que é “servo”. Todo povo vive sujeito a um governo ou à
liderança daqueles sob os quais ele vive, os portadores de um ofício
que exercem uma funçã o pú blica. Assim, Paulo nã o era apenas um
cristã o a serviço de Deus, mas também era um mestre que tinha uma
responsabilidade particular e uma posiçã o na igreja. Ele descreve tal
responsabilidade denominando-se “apó stolo de Jesus Cristo”.
Sabemos que Deus enviou seu Filho sob a condiçã o de que somente
ele exercesse domínio sobre nó s. Ele nã o vive pessoalmente entre
nó s, mas escolheu aqueles a quem ele bem quis para declararem sua
Palavra e o representarem em sua ausência. Isso é explicado mais
plenamente no quarto capítulo de Efésios: “Aquele que desceu é
também o mesmo que subiu acima de todos os céus, para encher
todas as coisas. E ele mesmo concedeu uns para apó stolos, outros
para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e
mestres” (Ef 4.10, 11). Ele nã o abandonou os seus, mas assim
estabeleceu um governo para que nã o cesse de governar-nos,
embora, no corpo, ele esteja ausente.
Portanto, o propó sito de Paulo é claro. Também vemos que ele nã o
escreveu exclusivamente para um homem, mas para que seu ensino
visasse a todo o povo cristã o. Pois havia muitos homens malignos,
como já pontuamos, que rejeitavam a liderança de Tito. Desse modo,
Paulo serve aqui como um tipo de escudo e reforça com sua pró pria
autoridade aquele que está sendo atacado. Consequentemente, nã o
foi por causa de Tito que ele reivindica para si esses títulos
honoríficos. Isso teria sido sem sentido. Tito o conhecia como pai,
visto que Paulo tinha boas razõ es para chamá -lo “verdadeiro filho”;
e Tito também sabia por quem Paulo fora enviado. Assim, Paulo nã o
tinha necessidade de causar impressã o em alguém que já o tinha em
má ximo respeito. Visto, porém, que o povo de Creta nã o queria ser
governado por Tito, Paulo nã o se lhes apresenta como uma pessoa
avulsa, mas como alguém enviado por Deus e por nosso Senhor
Jesus Cristo.
Entretanto, a fim de dar mais substâ ncia à s suas palavras, Paulo
acrescenta para promover a fé que é dos eleitos de Deus . E entã o
explica o que é esta fé: o pleno conhecimento da verdade , o que nã o é
uma coisa simples, mas segundo a piedade [ou no temor de Deus]; e
é na esperança da vida eterna .
Aqui podemos ver o que o apostolado de Paulo envolve. Nã o é uma
honra fú til ou algum título etéreo, mas uma solene incumbência de
declarar a Palavra de Deus, a fim de que o povo seja edificado em
toda a bondade, a salvaçã o que nos é prometida seja proclamada e
os crentes sejam levados a participar dela. Em suma, esse é o
significado desta passagem. No entanto, a entenderemos melhor se
aplicarmos este ensino a nó s mesmos. Sempre houve dois extremos
no que diz respeito à recepçã o da Palavra. Ou aceitamos os que a
proclamam ou os rejeitamos. Muitos têm sido motivados pela
ignorâ ncia ou, melhor, pela estupidez, de modo que nã o podem
diferenciar o bem do mal, mas se contentam meramente em ouvir
palavras vagas e afetadas. Deste modo, a plebe cresce sem cultura,
como é o caso hoje no papado. Os que sã o apó statas na igreja e em
seu frenesi rejeitam a Palavra de Deus, nã o obstante alegam que de
boa vontade se submetem à santa mã e igreja, e em nome da
humildade deflagram guerra, à semelhança de bestas dementes,
contra Deus e contra sua Palavra. Todavia, querendo promover a
honra de Deus, se submetem à tirania dos homens!
Ora, qual a razã o disso? Carência de sabedoria e de discernimento.
Imaginam ser suficiente ouvir a palavra “igreja” ecoando em seus
ouvidos. Na verdade, eles indagam o que a Palavra significa e,
quando o papa se denomina o vigá rio de Cristo e sucessor de Pedro,
deveriam inquirir se ele tem razã o ou nã o. Se ele fosse capaz de
provar sua tese,