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Passeio Noturno pt.

III

Cheguei em casa mais uma vez carregando a pasta cheia de papéis, relatórios, estudos,
pesquisas, propostas, contratos. Minha mulher estava dormindo no sofá, a televisão ligada
e uma garrafa de vinho vazia em cima da mesinha de centro. Aparentemente minha filha
havia saído de casa, enquanto meu filho estava ouvindo aquela música infernal. Conforme
me arrumo para meu "passeio noturno", consigo sentir algo crescendo dentro de mim, um
desejo infindável que só pode ser saciado no momento em que sinto a linha tênue entre a
vida e a morte sendo cruzada abaixo de meus pneus. Porém, a satisfação não dura muito
tempo. Esse desejo tem se tornado cada vez mais frequente, quase como uma necessidade
que me atormenta e me fascina ao mesmo tempo.

Pego as chaves do meu carro e me dirijo até a porta, passando pela sala. Minha mulher
ainda está desmaiada no sofá, consigo sentir o cheiro de álcool emanando do seu suor,
impregnando a sala de estar. Entro no carro e começo a dirigir por lugares escuros e
desertos em busca de mais uma vítima, sinto meu sangue fervendo, a excitação deixa
minha mente nublada, porém nunca me senti mais vivo e consciente do que nesse
momento. Após cerca de meia hora dirigindo por aí, finalmente uma oportunidade, meu
corpo se incendeia no momento em que vejo a forma reluzente de uma mulher contra a luz
dos meus faróis. A vítima está de costas, o cabelo castanho longo cobrindo suas costas, a
pele pálida refletindo luz tal como a lua. Por um momento todas essas características me
parecem familiares, mas não há tempo para pensar. Piso no acelerador como se minha vida
dependesse disso, jogando a vítima para frente e logo depois passando por cima de seu
tronco repetidamente. Me deleito com o delicioso som de seus ossos estralando e pela
sensação de seus órgãos sendo esmagados, sendo inundado por um prazer de origens
quase primitivas. Ao terminar, saio de meu carro para admirar minha obra prima de
proporções tão grandiosas quanto a Mona Lisa, porém, a sensação de familiaridade que
senti anteriormente passa pela minha cabeça como um flash. Naquele momento reparei que
a musa inspiradora da minha obra de arte me era literalmente familiar. Aquele corpo
praticamente dividido ao meio na estrada uma vez já compôs a pessoa a quem eu me
referia como filha, agora se resumindo a apenas duas metades jogadas em uma rua escura.
Por algum motivo, ver o corpo de minha filha sem vida não me traz nenhuma tristeza, pelo
contrário, em minha mente passavam apenas o alívio temporário da minha insaciável
vontade de matar e o plano de como agir no dia seguinte quando o corpo de minha filha
fosse achado pela polícia.

Como de costume, observo o carro para ver se não há amassados ou manchas, limpando
as rodas com alguns lenços que achei na bolsa dela. Em seguida, entro no carro e volto
para casa, do mesmo jeito de sempre, porém agora minha mulher está de pé na cozinha
preparando café para a ressaca.

- Está mais relaxado depois do seu passeio noturno meu amor?

- Sim. - Eu digo. - Vou dormir agora, terei um dia horrível no trabalho amanhã. Nossa
filha não voltou ainda?

- Não, ela falou que voltaria tarde. Boa noite querido.


Após a tranquila noite de sono, acordo no horário correto, às 5:30, tomo banho e começo a
me preparar para descer para o café da manhã, após vestir meu terno usual do trabalho,
desço as escadas e encontro minha esposa na cozinha me chamando com voz de choro.

- Querido, nossa filha não voltou ainda, eu estou muito preocupada, já liguei para as
amigas dela, mas nenhuma viu ela depois de ontem a noite quando saiu do
restaurante.

- Ela deve estar com algum namorado ou foi dormir na casa de alguma outra amiga
querida. - Eu digo. - Não se preocupe.

Mesmo sabendo do real paradeiro de quem eu chamava de filha e o que aconteceu com a
mesma, não posso deixar de me surpreender de não sentir ao menos um pingo de remorso
pelo que fiz, continuo a sentir somente o prazer oriundo de meus passeios. Pouco depois de
me sentar a mesa para o café da manhã, na televisão da sala, a qual estava ligada, o
jornalista começa a falar:

- “Foi encontrado o corpo de uma jovem na faixa de 18 anos, morta na Avenida Belmonte….
Aparentemente morta por atropelamento de carro. A jovem que parecia estar vindo de um
encontro com amigos foi atropelada por um carro esportivo preto com para-choque
reforçado, declara as duas testemunhas que estavam próximas ao local de onde viram o
acontecido e acionaram as autoridades. ”

Após ouvir isso tento me lembrar de algum local de onde alguém pudesse estar
observando, enquanto isso minha esposa já está à frente da televisão assistindo a notícia,
aos prantos e clamando a Deus para que não seja nossa filha a garota da qual o jornalista
falou. Nesse momento tive certeza, realmente teria um dia horrível no trabalho.

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