Classicismo e Poesia de Camões
Classicismo e Poesia de Camões
A Camões
Quando nalma pesar de tua raça
A névoa da apagada e vil tristeza,
Busque ela sempre a glória que não passa,
Em teu poema de heroísmo e de beleza.
O tempo cobre o chão de verde manto, Amor é fogo que arde sem se ver;
Que já coberto foi de neve fria, É ferida que dói e não se sente;
E em mim converte em choro o doce canto. É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer;
E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto: É um não querer mais que bem querer;
Que não se muda já como soía. (costumava) É solitário andar por entre a gente;
Luís de Camões É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder;
C) A poesia lírica de Camões tem o Amor como tema principal
e apresenta um conflito entre o amor carnal, marcado pelo É querer estar preso por vontade;
desejo e fonte de sofrimento, e o amor idealizado, puro, É servir a quem vence, o vencedor;
expressão no neoplatonismo. É ter com quem nos mata lealdade.
Mas como causar pode seu favor Que as magoadas iras me ensinaram
Nos corações humanos amizade, A não querer já nunca ser contente.
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?
Luís de Camões Errei todo o discurso dos meus anos;
Dei causa a que a fortuna castigasse
*Camões recorre com alguma frequência a antíteses e a As minhas mais fundadas esperanças.
paradoxos, numa tentativa de refletir sobre a complexidade do
sentimento amoroso. De amor não vi senão breves enganos.
Oh! Quem tanto pudesse, que fartasse
Tanto de meu estado me acho incerto Este meu duro Gênio de vinganças!
Luís de Camões
Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio; A grande dor das cousas que passaram
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto. A grande dor das cousas que passaram
transmutou-se em finíssimo prazer
É tudo quanto sinto um desconcerto; quando, entre fotos mil que se esgarçavam,
Da alma um fogo me sai, da vista um rio; tive a fortuna e graça de te ver.
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto. Os beijos e amavios que se amavam,
descuidados de teu e meu querer,
Estando em terra, chego ao Céu voando; outra vez reflorindo, esvoaçaram
Numa hora acho mil anos, e é de jeito em orvalhada luz de amanhecer.
Que em mil anos não posso achar uma hora.
Ó bendito passado que era atroz,
Se me pergunta alguém porque assim ando, e gozoso hoje terno se apresenta
Respondo que não sei; porém suspeito e faz vibrar de novo minha voz
Que só porque vos vi, minha Senhora.
Luís de Camões para exaltar o redivivo amor
que de memória-imagem se alimenta
Busque Amor novas artes, novo engenho e em doçura converte o próprio horror!
Carlos Drummond de Andrade
Busque Amor novas artes, novo engenho
para matar-me, e novas esquivanças; 3. A poesia Épica de Camões
que não pode tirar-me as esperanças
que mal me tirará o que eu não tenho.
Porém já cinco sóis eram passados 2 - Invocação – O poeta pede inspiração às musas. Camões elege
Que dali nos partíramos, cortando como suas inspiradoras as Tágides, ninfas do rio Tejo.
Os mares nunca doutrem navegados,
Prosperamente os ventos assoprando, 3 – Dedicatória – O poema é dedicado a D. Sebastião, rei de
Quando uma noite, estando descuidados Portugal.
Na cortadora proa vigiando,
Uma nuvem, que os ares escurece, 4 - Narração - A narração de Os Lusíadas compreende três ações
Sobre nossas cabeças aparece. principais: a viagem de Vasco da Gama às Índias, a narrativa da
história de Portugal e as lutas e intervenções dos deuses do
Tão temerosa vinha e carregada, Olimpo. Paralelamente às ações históricas desenvolve-se uma
Que pôs nos corações um grande medo; ação mitológica: a luta que travam os deuses olímpicos Vênus e
Bramindo, o negro mar de longe brada, Marte (favoráveis aos lusos) e Baco e Netuno (contrários às
Como se desse em vão nalgum rochedo. navegações).
"Ó Potestade (disse) sublimada: A narrativa com Vasco da Gama e os navegadores já no Oceano
Que ameaço divino ou que segredo Índico, na costa leste da África, próximo ao Canal de Moçambique,
Este clima e este mar nos apresenta, e termina com a partida de Calicute, não sendo narrado o regresso
Que mor cousa parece que tormenta?" a Lisboa. Os acontecimentos históricos anteriores são relatados
por discursos dos protagonistas humanos (Vasco da Gama e seu
Não acabava, quando uma figura irmão Paulo da Gama), e os acontecimentos futuros são
Se nos mostra no ar, robusta e válida, anunciados pelos deuses ou outras personagens com o dom da
De disforme e grandíssima estatura; profecia.
O rosto carregado, a barba esquálida,
Os olhos encovados, e a postura 5 - Epílogo – É conclusão do poema, onde o poeta pede às musas
Medonha e má e a cor terrena e pálida; que façam calar a voz da sua lira, pois se vê desiludido com a
Cheios de terra e crespos os cabelos, pátria decadente.
A boca negra, os dentes amarelos. Contrastando com o tom vibrante e ufanista do início, contém as
lamentações e críticas do poeta, num tom agora pessimista,
Tão grande era de membros, que bem posso desencantado.
Certificar-te que este era o segundo
De Rodes estranhíssimo Colosso, 3.3. Episódio do Velho do Restelo
Que um dos sete milagres foi do mundo. "Mas um velho d'aspeito venerando,
Cum tom de voz nos fala, horrendo e grosso, Que ficava nas praias, entre a gente,
Que pareceu sair do mar profundo. Postos em nós os olhos, meneando
Arrepiam-se as carnes e o cabelo, Três vezes a cabeça, descontente,
A mi e a todos, só de ouvi-lo e vê-lo! A voz pesada um pouco alevantando,
VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência
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CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula)
Questão 03
(Mackenzie 2009) No texto, o eu lírico:
a) chama a atenção do leitor para as artimanhas que as mulheres
apaixonadas costumam tramar a fim de conquistar os homens.
b) dirige-se ao deus Amor, manifestando seu descontentamento
com relação às falsas atitudes da amada.
c) manifesta poeticamente a ideia de que o Amor, atendendo a
diferentes vontades, produz diferentes efeitos.
A pintura e o poema, embora sendo produtos de duas linguagens d) declara que, embora o amor esteja presente em todas as
artísticas diferentes, participaram do mesmo contexto social e pessoas, nem todos o aceitam, fato que gera desentendimentos
cultural de produção pelo fato de ambos dolorosos.
a) apresentarem um retrato realista, evidenciado pelo unicórnio e) dirige-se à pessoa amada para expressar seu entendimento a
presente na pintura e pelos adjetivos usados no poema. respeito dos aspectos contraditórios do sentimento amoroso.
b) valorizarem o excesso de enfeites na apresentação pessoa e na
variação de atitudes da mulher, evidenciadas pelos adjetivos do Questão 04
poema. (G1 - ifsp 2016) Leia o soneto abaixo, de Luís Vaz de Camões,
c) apresentarem um retrato ideal de mulher marcado pela para responder à questão.
sobriedade e o equilíbrio, evidenciados pela postura, expressão
e vestimenta da moça e os adjetivos usados no poema. Eu cantarei de amor tão docemente,
d) desprezarem o conceito medieval da idealização da mulher como Por uns termos em si tão concertados
base da produção artística, evidenciado pelos adjetivos usados que dois mil acidentes namorados
no poema. faça sentir ao peito que não sente.
Atravessa as águas também, excelente amigo Bloom, Está no pensamento como ideia;
quebra o mar em dois. [e] o vivo e puro amor de que sou feito,
O mar é um mamífero, como a matéria simples busca a forma.
o barco, o punhal do sacrifício.
VestCursos – Especialista em Preparação para Vestibulares de Alta Concorrência
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CURSO ANUAL DE LITERATURA – (Prof. Steller de Paula)
Questão 08
(Pucsp 2001) Tu só, tu, puro Amor, com força crua
Que os corações humanos tanto obriga,
Deste causa à molesta morte sua,
Como se fora pérfida inimiga.
Se dizem, fero Amor, que a sede tua
Nem com lágrimas tristes se mitiga,
É porque queres, áspero e tirano,
Tuas aras banhar em sangue humano.
É tudo quanto sinto um desconcerto; (Camões, L. V. de. Sonetos. Lisboa: Livraria Clássica Editora. 1961.
Da alma um fogo me sai, da vista um rio; Fragmento.)
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora certo.
Porém já cinco sóis eram passados
Estando em terra, chego ao Céu voando; Que dali nos partíramos, cortando
Numa hora acho mil anos, e é de jeito Os mares nunca doutrem navegados,
Que em mil anos não posso achar uma hora. Prosperamente os ventos assoprando,
Quando uma noite, estando descuidados
Se me pergunta alguém por que assim ando, Na cortadora proa vigiando,
Respondo que não sei; porém suspeito Uma nuvem, que os ares escurece,
Que só porque vos vi, minha Senhora. Sobre nossas cabeças aparece.
40. (G1 - ifsp 2012) A leitura do poema permite afirmar que o eu Assinale a alternativa que apresenta, respectivamente, a
lírico se sente classificação dos textos.
a) confuso, provavelmente pelo amor que tem por uma senhora. a) Épico e lírico.
b) alegre, provavelmente porque seu amor é correspondido. b) Lírico e épico.
c) triste, provavelmente porque não consegue amar ninguém. c) Lírico e dramático.
d) desconcertado, provavelmente porque a senhora o ama demais. d) Dramático e épico.
e) perdido, provavelmente porque foi rejeitado pela amada.
Questão 05
Questão 02 Leia o trecho de Os Lusíadas.
(G1 - ifsp 2012) Considere:
Tão temerosa vinha e carregada,
• ardor x frio Que pôs nos corações um grande medo;
• choro x rio Bramindo, o negro mar de longe brada,
• abarco x nada aperto Como se desse em vão nalgum rochedo,
– Ó Potestade, disse, sublimada:
Esses jogos de palavras, exemplos do pré-Barroco na poesia de Que ameaço divino ou que segredo
Camões, constituem Este clima e este mar nos apresenta,
a) eufemismos que revelam o sofrimento do eu lírico.
b) antíteses que confirmam o desconcerto do eu lírico. Que mor coisa parece que tormenta?
c) sinestesias que marcam as contradições do eu lírico. Não acabava, quando uma figura
d) hipérboles que exageram o sofrimento do eu lírico. Se nos mostra no ar, robusta e válida,
e) metáforas que comparam a dor com a vida do eu lírico. De disforme e grandíssima estatura;
O rosto carregado, a barba esquálida,
Questão 03 Os olhos encovados, e a postura
(G1 - ifsp 2016) Considerando o Classicismo em Portugal, assinale Medonha e má e a cor terrena e pálida;
a alternativa correta. Cheios de terra e crespos os cabelos,
a) Os Lusíadas é a principal obra lírica de Camões e o tema central A boca negra, os dentes amarelos.
é o sofrimento por um amor não correspondido.
b) Os Lusíadas tem como temática a descoberta do Brasil e a (NEVES, João Alves das e TUFANO, Douglas. Luís de Camões.
relação entre o colonizador e o índio. São Paulo: Moderna, 1980.)
c) Luís Vaz de Camões é o principal autor do Classicismo em
Portugal e destacou-se por sua produção épica e lírica. (G1 - ifsp 2014) As estrofes referem-se ao
d) Uma característica dos versos de Camões é que eles não a) Velho do Restelo que, devido à sua insanidade e à sua
apresentam uma métrica, são livres e brancos. aparência marcada pela passagem do tempo, aterroriza os
e) Uma característica de Camões é que ele desprezava Portugal e marinheiros portugueses.
o povo português.
b) Velho do Restelo que recrimina os portugueses por partirem em ( ) Quanto à forma, os dois poemas são sonetos.
busca de riquezas, abandonando mulheres, crianças e idosos à ( ) O título “Encarnação” contém uma certa ambiguidade, aliando
própria sorte. um sentido espiritual a um erótico.
c) Gigante Adamastor, personagem que representa um dos perigos
enfrentados pelos portugueses, ressaltando o lado heroico dos A sequência correta de preenchimento dos parênteses, de cima
protagonistas. para baixo, é:
d) Gigante Adamastor que, submetido ao comando da deusa a) F – F – V – F
Vênus, surge para proteger os navegantes contra o mar revolto b) V – V – F – V
do Cabo das Tormentas. c) V – F – V – F
e) ao soldado que, obedecendo às ordens do rei de Portugal, mata d) V – V – V – V
cruelmente Inês de Castro, jovem espanhola amante de D. e) F – V – F – F
Pedro.
Questão 07 - FUVEST
Questão 06 (G1 - ifsp 2013) São características das obras do Classicismo:
(Pucrs 2013) Compare o poema de Camões e o poema a) o individualismo, a subjetividade, a idealização, o sentimento
“Encarnação”, leia as afirmativas que seguem e preencha os exacerbado.
parênteses com V para verdadeiro e F para falso. b) o egocentrismo, a interação da natureza com o eu, as formas
perfeitas.
Poema 1 c) o contraste entre o grotesco e o sublime, a valorização da
natureza, o escapismo.
Transforma-se o amador na cousa amada, d) a observação da realidade, a valorização do eu, a perfeição da
por virtude do muito imaginar; natureza.
não tenho, logo, mais que desejar, e) a retomada da mitologia pagã, a pureza das formas, a busca da
pois em mim tenho a parte desejada. perfeição estética.
Questão 09 Questão 11
TEXTO PARA AS PRÓXIMAS 2 QUESTÕES. (Fuvest - Adaptada) Considere as seguintes afirmações sobre a fala
do Velho do Restelo, em "Os Lusíadas":
(Ufscar 2003) As questões adiante baseiam-se no poema épico "Os
Lusíadas", de Luís Vaz de Camões, do qual se reproduzem, a I. No seu teor de crítica às navegações e conquistas, encontra-se
seguir, três estrofes. refletida e sintetizada a experiência das perdas que causaram,
Mas um velho, de aspeito venerando, [= aspecto) experiência esta já acumulada na época em que o poema foi
Que ficava nas praias, entre a gente, escrito.
Postos em nós os olhos, meneando lI. As críticas aí dirigidas às grandes navegações podem ser lidas
Três vezes a cabeça, descontente, como um reflexo do pensamento conservador, herança do
A voz pesada um pouco alevantando, feudalism, contrário às mudanças.
Que nós no mar ouvimos claramente, III. A condenação enfática que aí se faz à empresa das navegações
C’um saber só de experiências feito, e conquistas revela que Camões, apesar de exaltá-la, manteve uma
Tais palavras tirou do experto peito: postura crítica ao avaliá-la.
Questão 13
(Insper 2012) Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
muda-se o ser, muda-se a confiança;
todo o mundo é composto de mudança,
tomando sempre novas qualidades.
Assinale a alternativa em que se analisa corretamente o sentido "Terror de te amar num sítio tão frágil como o mundo.
dos versos de Camões.
a) O foco temático do soneto está relacionado à instabilidade do ser Mal de te amar neste lugar de imperfeição
humano, eternamente insatisfeito com as suas condições de Onde tudo nos quebra e emudece
vida e com a inevitabilidade da morte. Onde tudo nos mente e nos separa."
b) Pode-se inferir, a partir da leitura dos dois tercetos, que, com o (SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, "Terror de
passar do tempo, a recusa da instabilidade se torna maior, te amar", em Antologia Poética)
graças à sabedoria e à experiência adquiridas.
c) Ao tratar de mudanças e da passagem do tempo, o soneto Dos dois textos transcritos, o primeiro é de Luís Vaz de Camões
expressa a ideia de circularidade, já que ele se baseia no (século XVI) e o segundo, de Sophia de Mello Breyner Andresen
postulado da imutabilidade. (século XX). Compare-os, discutindo, através de critérios formais e
d) Na segunda estrofe, o eu lírico vê com pessimismo as mudanças temáticos, aspectos em que ambos se aproximam e apectos em
que se operam no mundo, porque constata que elas são que ambos se distanciam um do outro.
geradoras de um mal cuja dor não pode ser superada.
e) As duas últimas estrofes autorizam concluir que a ideia de que
nada é permanente não passa de uma ilusão.
Questão 14
(Enem 2ª aplicação 2010) Texto I
XLI
Ouvia:
Que não podia odiar
E nem temer
Porque tu eras eu.
E como seria
Odiar a mim mesma
E a mim mesma temer.
Texto II
Transforma-se o amador na cousa amada