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História

Medieval
Professor Dr. João Paulo Pacheco Rodrigues

EduFatecie
E D I T O R A
2021 by Editora EduFatecie
Copyright do Texto © 2021 Os autores
Copyright © Edição 2021 Editora EduFatecie
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o download da obra e o compartilhamento desde que sejam atribuídos créditos aos autores, mas sem a
possibilidade de alterá-la de nenhuma forma ou utilizá-la para fins comerciais.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação - CIP

R696h Rodrigues, João Paulo Pacheco


História medieval / João Paulo Pacheco Rodrigues .
Paranavaí: EduFatecie, 2021.
97 p. : il. Color.

ISBN 978-65-87911-38-0

1. Idade Média - História. 2. História – Período medieval.


I. Faculdade de Tecnologia e Ciências do Norte do Paraná - UniFatecie.
II. Núcleo de Educação a Distância. III. Título.

CDD : 23 ed. 909.07


Catalogação na publicação: Zineide Pereira dos Santos – CRB 9/1577
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Thiago Azenha As imagens utilizadas neste
livro foram obtidas a partir do
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Kauê Berto
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e Diagramação edufatecie@[Link]
André Dudatt
AUTOR

Prof: João Paulo Pacheco Rodrigues


• Doutor em História Social pela Universidade Estadual de Maringá (2019), Mestre
em História Cultural pela mesma (2012), Especialista em História do Brasil pela
Universidade Cândido Mendes-RJ (2015). Graduado em História pela Univer-
sidade Estadual de Maringá (2007). Tem experiência na área de História , com
ênfase em História do Brasil, História do Paraná e Patrimônio Cultural.
• Autor dos livros:
• AS ARTES DA HISTÓRIA: Memórias, Fontes e Métodos.. 1. ed. Maringá: Diá-
logos, 2019
• Estudos de História Regional no Vale do Ivaí. 1. ed. Maringá: Unicorpore, 2017.
• Ivatuba: História, Memória e Tradição Paranaense. 1. ed. Maringá: Unicorpore,
2014.

Link do Currículo na Plataforma Lattes.


[Link]
APRESENTAÇÃO DO MATERIAL

Bem-vindo, caro aluno (a), nas próximas páginas vamos mergulhar no período me-
dieval da história da humanidade e discutir questões importantes e que influenciaram todas
as sociedades do mundo moderno e contemporâneo. Através de documentos, imagens e
outras fontes históricas faremos uma reflexão sobre esses mil anos de História e o legado
deixado para o homem.
Antes de iniciar a nossa discussão vamos levantar algumas questões! Muitos co-
nhecem a Idade Média como a Idade das Trevas. Mas será que realmente esse período foi
uma época das trevas, de escuridão, em que não houve produção de conhecimento?
Outra questão importante, qual era o papel da figura do rei nesse período? Será que esse
rei foi tão absoluto como vimos nos filmes de Hollywood? Por último, quando nos
lembramos da Idade Média, sempre associamos a Igreja e o cristianismo como os maiores
influenciadores desse período, porém o poder estava apenas na mão dessa instituição?
Visando responder essas dúvidas, dividimos o nosso material em quatro partes.
Na unidade I vamos definir o que foi o termo idade Média e o principal modo de
produção desse período, o feudalismo. Na unidade II você ira saber mais sobre o Islamismo
e os Impérios Bizantinos e Otomanos que marcaram esse período seja com sua forma de
expressão, domínio, arte e religião, na terceira unidade focamos na questão da produção do
conhecimento e na consolidação do saber, falando sobre movimentos como a “escolástica”
e a “patrísticas” e grandes pensadores como Santo Agostinho e São Tomaz de Aquino, por
ultimo encerramos as nossas discussões, conhecendo sobre a arte na Idade medieval, des-
de a românica até a gótica, passando por práticas culturais como as tapeçarias, iluminuras
medievais, pinturas, e romances”.
Dessa forma, pretendemos mostrar uma nova vertente da Idade Média e que esse
conhecimento contribua na formação de cada novo historiador.

Tenham bons estudos e muito obrigado!


SUMÁRIO

UNIDADE I....................................................................................................... 3
O que foi a Idade Média ?

UNIDADE II.................................................................................................... 25
O Oriente

UNIDADE III................................................................................................... 47
O Saber Medieval

UNIDADE IV................................................................................................... 68
A Cultura Medieval
UNIDADE I
O que foi a Idade Média ?
Professor Doutor João Paulo Pacheco Rodrigues

Plano de Estudo:
• Periodização de uma época – Ocidental;
• A alta idade média e o surgimento do feudalismo.

Objetivos da Aprendizagem:
• Contextualizar o que foi a Idade Média;
• Examinar a visão renascentista desse período;
• Analisar o principal modo de produção.

3
INTRODUÇÃO

Quem inventou o nome Idade Média? Esse termo, assim como outras denomina-
ções históricas, foi criado depois que ela ocorreu. Imagina que você está com seus amigos,
discutindo a vida e vocês começam a pensar que o momento que vocês estão vivendo é
muito mais bacana que o momento em que seus pais viveram. Então você pode dizer que
você é um cara moderno e que quem veio antes de você é um mediano, um tempo das
trevas.

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 4


1. O QUE FOI A IDADE MÉDIA?

E assim, por muito tempo a Idade Média foi classificada como a idade das trevas!
Mas será que esse período foi sempre escuro? Não havia luz? Isso que vamos descobrir
nessa unidade.
Os humanistas da Renascença observam a Idade Média apoiados em um
fator de medo, gerado pela peste, fome e constantes guerras entre os mouros
e cristãos. Eles partem desse princípio para homogeneizar a Idade Média em
um período obscurecido pelas mazelas produzidas pelas instituições. Tem-
-se, nesse aspecto, uma clara amostragem do dispositivo. Os renascentistas
escrevem a história a partir de seus preceitos morais, condenando ou elo-
giando os acontecimentos.(BARBOSA e SILVA, 2018, p,5)

O termo idade das trevas é discriminatório e preconceituoso, essa visão deturpada


deve-se justamente por conta dos homens que viveram posteriormente a Idade Média,
principalmente os renascentistas que criticavam a Idade Média como uma época de muita
superstição, crença apenas na Igreja e ignorância por parte da sociedade. Qualificações
como “Período em que a humanidade não tomou banho” (BESSELAAR, 1970 p. 89-95),
“Idade das Trevas” (FRANCO JÚNIOR, 1988, p. 17-19), “Civilização da Barbárie” (INÁCIO
& LUCA, 1988, p.7), foram utilizadas por adeptos do renascimento na tentativa de denegrir
a Idade Média.
Esses intelectuais, acreditavam que o período mais fascinante na história da hu-
manidade, teria sido a Antiguidade, com sua filosofia, artes plásticas, ciência e também a
maneira de produzir História e preservar a memória.

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 5


De acordo com Jérôme Baschet, a Idade Média recebia este nome pois:
Media aetas, medium aevum, em latim, e as expressões equivalentes nas
línguas européias significam a idade do meio, um intervalo que não poderia
ser nomeado positivamente, um longo parêntese entre uma Antiguidade
presti-giosa e uma época nova, enfim, moderna. (BASCHET, 2006, p. 25 -
grifos no original).

A Reforma protestante, o surgimento da filosofia Iluminista e a Revolução Francesa


são os eventos históricos que caracterizam a modernidade e que fizeram com o que o
sentido dos acontecimentos fosse encontrado nas ações humanas e não no divino. É o
sujeito que produz a História, foi dito desde então e esse fazer histórico era resultante das
ações humanas, da razão, da consciência dos homens, era um fazer-se ao longo do tempo,
um processo evolutivo.
Por isso, a História tinha que ser governada pela razão, uma razão na qual se
acreditava que todos os aspectos da vida caminhavam em direção à perfeição futura. Essa
seria obtida por meio da acumulação de conhecimentos sobre o mundo. Os passos para
esse modo de compreender as ações humanas e a explicação histórica para esses atos
são encontrados no Renascimento, na qual compreende o movimento de renovação cultu-
ral ocorrido na Europa entre os séculos XIV e XVI.
Os historiadores desse período passaram a discutir o sentido da História e a bus-
car as razões do ser no mundo, não mais com implicações teológicas, mas em prol do
alcance da perfeição moral no mundo profano. Para isso, havia que se encontrar outra
lógica explicativa para as ações humanas, diferentes das postergadas durante a Idade
Média, constituída em um conhecimento que se defendia anti-teológico, ou estabelecida
pela razão.
A base para esse pensamento foi formulada pelos filósofos Iluministas. Podemos
dizer que o pensamento Iluminista se sustenta em três pilares comuns à maioria de seus
pensadores, são eles:
1) a fé na razão;
2) a permanência da natureza humana ao longo do tempo;
3) a capacidade racional do homem de realizar na História as metas universais do
inexorável progresso (BERLIN, 1997, p. 47). Segundo essas bases, a tradição e a igreja
não mais respondiam aos seus anseios de entender e explicar o mundo, havendo que
encontrar respostas fundadas na experiência e na observação.

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 6


1.1. Periodização de uma época - Ocidental
Para compreendermos a forma como os renascentistas analisavam o período
medieval, precisamos pontuar conceito de história e historicidade, desde a antiguidade até
o período moderno, uma vez que as suas transformações foram responsáveis pela forma
como o historiador examinou os fatos do passado e como eles criaram o conceito de Idade
Média.
Um elemento básico do conhecimento histórico é a historicidade, ou seja, o olhar
crítico lançado para a História é passado por diversas transformações e retificações de
tem-pos em tempos, o que acarreta em uma ampliação do conhecimento teórico
metodológico da disciplina. Dessa forma, tanto na História como na historiografia existe
uma historicidade, o que demonstra que ela ao decorrer dos anos ela se transforma ex-
pressando peculiarida-des na maneira de conceber o conhecimento do passado. E nesse
sentido percebemos que as formas de escritas históricas apresentam características
distintas, desde a antiguidade até o renascimento, é o que veremos adiante.

Uma característica básica do conhecimento histórico é a sua própria historicidade.


A historiografia é compreendida como o conjunto de estudos históricos; o conjunto das
variadas formas de escrever e pensar a História. Assim como a História, a historiografia
tem uma historicidade. Isso denota que ela muda de tempos em tempos, expressando as
diferentes formas de conceber o conhecimento do passado.
Quando se olha para os textos históricos produzidos na Antiguidade, constata-se
que entre os gregos e os romanos, por exemplo, havia muita semelhança entre a literatura
e a História. O que diferenciava ambas (e continua a diferenciar) era a preocupação com a
verdade. Para os historiadores desse período, fazer História implicava no trabalho do escri-
tor em usar de seu talento para elaborar uma oratória que explicasse o passado. O orador
era o homem mais capacitado para essa função e cabia a ele esclarecer e dar ‘exemplos’
de vida aos homens públicos e instruir o homem particular (HARTOG, 1998, p. 197).
A função do historiador era a de explanar o que ocorria entre os mortais; cabia a
ele explicar, traduzir para o outro o ocorrido. A divulgação dos grandes exemplos históricos
era considerada um modo de incentivar a imitação e a repetição das ações. A missão do
historiador era a de preservar aquilo que deve sua existência aos homens, para que o
tempo não o oblitere, e prestar aos extraordinários e gloriosos feitos de gregos e bárbaros,
louvor suficiente para assegurar-lhes evocação pela posteridade, fazendo assim sua glória
brilhar através dos séculos (ARENDT, 1988, p. 70).

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 7


Por volta do século XII a.C. A escrita foi baseada nas tradições orais, transmitidas
de geração em geração e nela se vê a exaltação das virtudes como a honra, o patriotismo,
o heroísmo, o amor, a amizade, a fidelidade e a hospitalidade (DOSSE, 2003). Heródoto de
Halicarnasso (485 a.C. e 430 a.C) considerado o ‘pai da História’’ procurou fazer uma es-
crita sobre o passado com o menor recurso possível aos conteúdos mitológicos presentes,
por exemplo, em Ilíada e na Odisséia. Sua narrativa era repleta de oráculos, adivinhações
e da interferência de mitos na explicação do acontecimento (REIS, 2006, p. 18).
Para os gregos, a vida se movia sempre em repetições, pois tinham um entendi-
mento cíclico do universo. Isso fazia da História um conhecimento necessário, através do
qual se retiravam ensinamentos. Eles concebiam a História como uma forma de imortalizar
os feitos humanos. A narrativa histórica devia convencer os leitores pela beleza, forma,
estruturação e ordenação dos argumentos (FUNARI, 2005).
Conhecer os preceitos retóricos e ser dotado de grande erudição eram condições
fundamentais para o historiador, o que fazia da historiografia antiga, uma escrita funda-
mentada na arte da demonstração, por isso o apreço por parte dos Renascentistas e a
crítica ao período medieval. A História ensinava como aprender com a desgraça e como ser
moderado na prosperidade (REIS, 2006, p. 17).
O trabalho dos historiadores nesse período implicava em usar seu talento para
elaborar uma oratória que explicasse o passado. E o orador era o homem mais capacitado
e incumbido de esclarecer e “dar exemplos” de via vida dos homens públicos e instruir o
homem particular (HARTOG, 1998, p. 197, apud ZANIRATO, 2011, p. 31).
De acordo com Zanirato (2011), o tempo nesse período era visto de forma
circular, sujeito a se repetir de tempos em tempos, e o papel da História, era de
elaborar uma narrativa que buscava a explicação dos acontecimentos em um dado
período nesse tempo. A História se encarregou de produzir uma narrativa sobre os
feitos oriundos da ação do homem, e registar acontecimentos que não eram sujeitos a
imortalidade, mas que deveriam ser recordados para ficarem na eternidade. E nesse
cenário, o historiador era incumbido de explanar o que ocorreria entre os mortais, e assim
o historiador, explicava e traduzia para outro o ocorrido e com essa divulgação dos
grandes feitos históricos era visto como uma forma de incentivar a imitação e repetição
das ações.
Segundo Dosse (2003, p.17, apud Zanirato, 2011, p.36), com a dissolução do
mun-do romano, a Igreja Católica ganhou força e se tornou a instituição mais poderosa
entre os séculos IV e XIV (Idade Média), e ela detinha o controle absoluto do saber. A
História nesse cenário torna-se um gênero inferior, a serviço da teologia, que era vista
como o verdadeiro saber.

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 8


Zanirato (2011), discorre que a escrita histórica no mundo medieval passou a ser
orientada por normas definidas pela Igreja, e a História humana era vista como sendo
resultante da intervenção divina, de forma que todos os fatos acontecidos eram efeitos da
relação de Deus com o mundo. Na Idade Média, o tempo e a História eram vistos como
uma sucessão iniciada com a Criação e predestinada a terminar com o Juízo Final, o que
fez o tempo ser visto como linear e progressivo, seu movimento era direcionado para o fim.
Nesse período, a História passou a expressar um caráter pessimista, providencialista e
apocalíptico. Deus estava no centro de todas as ações humanas, e a providência guiava
as ações humanas e o mundo caminhava para o fim, uma vez que os homens o mesmo
iam para o céu ou inferno, dependendo do que faziam na Terra. O estudo da História servia
ao cristianismo com uma confirmação da fé (ZANIRATO, 2011). E a tarefa principal do
historiador era de decifrar profecias e guiar os diversos relatos históricos ( FONTANA, 1998,
p.29, apud ZANIRATO 2011).
Ou seja, na Idade Média, com a dissolução do mundo romano, a Igreja Católica
adquiriu força que a tornou a mais poderosa instituição entre os séculos IV e XIV. Coube
a ela o controle absoluto do saber, aí incluído as diferentes escritas, que passaram a ser
controladas pelo poder eclesial constituído. A História, nesse contexto, tornou-se apenas
um gênero menor, a serviço da teologia, considerada o grande e verdadeiro saber (DOSSE,
2003, p. 217).
Com isso, a escrita histórica passou a ser orientada pelas normas definidas pela
Igreja, sempre afirmando que a História humana era resultante da intervenção divina; de
forma que os fatos ocorridos eram efeitos das relações de Deus com o mundo. O estudo
da História servia ao cristianismo como confirmação da fé. Por um lado, era uma forma
de confirmar as profecias anunciadas na Bíblia, ou de explicar porque não se cumpriram
os enunciados; por outro, era uma forma de incluir toda a História não cristã,‘nas pautas
marcadas pelo esquema bíblico’. A tarefa do bom historiador era a de ‘decifrar as profecias
e coordenar os diversos relatos históricos’ (FONTANA, 1998, p. 29).
Santo Agostinho (354 – 430), por exemplo, compreendia o sentido da História que
essa não originava dos atos particulares dos homens, mas sim das intenções divinas. Para
ele, havia duas ordens históricas: uma História sagrada, que narra os eventos reveladores
da presença de Deus e uma História secular, produto da vida dos homens, das ações
causadas pelos homens. A História sagrada era obra dos profetas diretamente inspirados
por Deus e a História secular era aquela que registrava os atos destinados a conduzir os

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 9


homens ao paraíso, ou ao inferno, às ações que mostravam a submissão ou a desobediên-
cia dos homens às determinações bíblicas (BIGNOTO, 1992, p. 180-182).
Mas essa forma de pensar a História mudou, Zanirato (2011), relata que no período
que compreende os séculos XIII e XVI, ou seja no final da Idade Média e início da Idade
Moderna, a Europa ocidental viveu a chamada Revolução Cultural, com o surgimento da
burguesia constitui-se uma nova ordem política e econômica. Essa mudança acarretou a
valorização da riqueza material, dos prazeres terrenos, a defesa do lucro e a possibilidade
de salvação. Com a descoberta da América, vieram questionamentos às formas de explicar
o mundo, e a religião já não estava dando conta de dar sentidos a todas as esferas do
mundo. Nesse período os historiadores passaram a discutir o real sentido da História, e
buscar as razões do ser no mundo, sem as implicações teológicas.
No Renascimento temos uma mudança na forma de compreender a História. Com
isso o homem passa a buscar respostas para suas perguntas, e a entender seu papel no
mundo sem a intervenção Divina. E para encontrar as respostas, os homens precisavam
de um conhecimento pautado no estabelecimento da razão, diferente da Idade Média, na
qual a Igreja determinava essa produção de saber. A escrita da História nesse período,
feita por filósofos, buscava abandonar as explicações centradas nos deuses, em mitos e
superstições.
Essa crítica se estende até o século XIX, quando a partir de 1850, um grupo de
pesquisadores ligados ao movimento do Romantismo irão se atentar a elementos, símbolos
e signos até então ignorados por historiadores renascentistas. Reconhecendo as belezas
do mundo medieval através das suas práticas artísticas e da arquitetura gótica, como
veremos nas unidades a seguir.
Os historiadores que se dedicaram aos estudos sobre a Idade Média, pontuavam
que não houve apenas uma Idade Média, mas sim variáveis, distintas, de múltiplas inter-
pretações e diversas ocorrências. Ele era flutuante, um período movimentado, marcado
pelo poder da Igreja, pelas graves epidemias como a Peste Negra na qual assolou grande
parte da população e de inúmeras batalhas que cruzaram a Europa. Porém este período
nos apresentou além da arquitetura gótica já citada, o surgimento das universidades e do
desenvolvimento da agricultura em grande escala.
Assim, a Idade Média deve ser pesquisada no seu conjunto, ou cerca no arco de
quase mil anos, atentando para suas singularidades, Le Goff, destaca que a Idade Média
é “de longa duração na história, mas um período de elaboração, de construção do mundo

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 10


moderno [...]. A Idade Média é a nossa juventude; talvez a nossa infância” (LE GOFF, 2008,
p. 33),além disso o pesquisador pontua que:
Eu diria que a Idade Média não é o período dourado que certos românticos
quiseram imaginar, mas também não é, apesar das fraquezas e aspectos
dos quais não gostamos, uma época obscurantista e triste, imagem que os
humanistas e os iluministas queriam propagar. É preciso considerá-la no seu
conjunto.” (LE GOFF, 2007, p.18)

Antes de adentramos na discussão sobre a Idade Média, cumpre destacar alguns


pesquisadores que com seus estudos contribuíram para o entendimento histórico desse
período e posteriormente foram objetos de pesquisa de historiadores, como por exemplo:
Gregório de Tours (538-594) que escreveu sobre a sociedade cristã franca, em suas obras
o autor relata a trajetória desses povos. As narrativas abordaram ações dos reis e dos san-
tos. Outro historiador foi Flodoardo de Reims (894-966) a qual a reconstituição foi feita nos
arquivos eclesiásticos pelos Bispos Reims. O objetivo de sua pesquisa era compreender a
instituição da Igreja no início da Idade Média. (DOSSE, 2003, p.221).
Jacques Bossuet (1627-1704), afirmava que a escrita era a fonte divina e ninguém
tinha o direito de banalizá-la, pois toda a explicação histórica ali se encontrava. Compete
ao historiador demonstrar, em sua escrita, o desígnio providencial. Por último, lembramos
de Giambattista Vico (1668-1744), preocupado em restituir a particularidade da sociedade
humana e, ao mesmo tempo, inseri-la no quadro da providência. Seus estudos cruzavam
as etapas primitivas do homem à época da ciência e da filosofia, de modo a mostrar que
houve uma evolução e essa se explicava pela vontade divina, que ensinará os bárbaros
pagãos de épocas primitivas, a fazer uso da razão e compreender assim os ensinamentos
de Deus (DOSSE, 2003,p.228).
A Idade Média, tem início no ano 476 d.c, ou seja mais de 1500 anos atrás e
termina em 1453. E por que ela começou justamente nesse ano? A data marca a invasão da
cidade ocidental de Roma, até então principal centro da Europa e consequentemente o fim
do Império Romano e o término desse período é marcado pela tomada de Constantinopla
pelos turcos. Essas duas balizas temporais não são unanimidades entre os pesquisadores.
De acordo com Marcelo Candido da Silva:
Os historiadores nunca entraram em consenso sobre os marcos precisos do
início e do fim da Idade Média: para uns, seria a queda de Roma, em 476, e
a queda de Constantinopla, em 1453; para outros, o Edito de Milão, em 313,
e a chegada dos espanhóis à América, em 1492. No entanto, esse período
é mais do que uma convenção cronológica. Desde o surgimento do termo,
no final do século XIV, não apenas eruditos e historiadores, como também
historiadores da arte, filósofos e sociólogos, buscaram identificar as carac-
terísticas que diferenciariam “os tempos médios” da Idade Antiga e da Idade
Moderna. As divergências nesse ponto são ainda maiores do que na escolha
das datas que marcariam o início e o fim do período. ( CÂNDIDO, 2019, p .8).

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 11


Além disso, Le Goff reforça que:
Da Antiguidade ao século XVIII desenvolveu-se, ao redor do conceito de de-
cadência, uma visão pessimista da história, que voltou a apresentar-se em
algumas ideologias da história no século XX. Já com o Iluminismo afirmou-se
uma visão otimista da história a partir da ideia de progresso, que agora co-
nhece, na segunda metade do século XX, uma crise. (LE GOFF, 1990, p. 8)

De fato, o importante é compreender as transformações que ocorreram na Idade


Média, os historiadores que pesquisam esse período, costumam relacioná-lo como a tran-
sição entre a Antiguidade para a Idade Moderna.
O autor continua:
“Existe, é verdade, uma Idade Média “má”: os senhores oprimiam os campo-
neses, a Igreja era intolerante e submetia os espíritos independentes (que
eram chamados de hereges) à Inquisição, que praticava a tortura e mata-
va os revoltosos nas fogueiras... Havia muita fome e muitos pobres (...). No
entanto, existe também a “bela” Idade Média, presente, principalmente, na
admiração das crianças: diante dos cavaleiros, dos castelos fortificados, das
catedrais, da arte românica e da arte gótica, das cores (dos vitrais, por exem-
plo) e da festa. Também esquecemos quase sempre que, na Idade Média,
embora as mulheres ainda tivessem um lugar inferior aos dos homens, ad-
quiriram ou conquistaram uma posição mais justa, mais igual, de mais pres-
tígio na sociedade – posição que nunca tinham tido antes, nem mesmo em
Atenas, na Antiguidade.” (LE GOFF, 2007, p.18-19)

Nesses quase mil anos de História, a Europa foi palco de profundas mudanças em
toda sua esfera política, econômica, social, cultural e religiosa, como destaca Durkheim na
obra “A evolução pedagógica” lançada em 1995.
Nada mais inexato, porém, do que essa concepção da Idade Média e, portan-
to, nada mais impróprio do que a palavra com a qual essa época é designada.
Muito longe de ter sido um simples período de transição, sem originalidade,
entre duas civilizações originais e brilhantes, é, ao contrário, o momento em
que se elaboraram os germes fecundos de uma civilização inteiramente nova.
E isso nos é mostrado notadamente pela história do ensino e da pedagogia. A
Escola, tal como a encontramos no início da Idade Média, constitui com efeito
uma grande e importante novidade; distingue-se por traços cortados de tudo
quanto os antigos chamavam com o mesmo nome. É claro, já o dissemos,
que ela retira da civilização pagã a matéria do ensino; mas essa matéria foi
elaborada de uma maneira totalmente nova, e dessa elaboração nasceu algo
inteiramente novo. É o que acabo de mostrar. Mas pode ser dito que nesse
momento é que apareceu a Escola, no sentido próprio do termo. Pois uma
escola não é apenas um local onde o professor ensina; é um ser moral, um
meio moral, impregnado de certas idéias [sic], de certos sentimentos, um
meio que envolve tanto o professor quanto os alunos. Ora, a Antigüidade [sic]
não conheceu nada semelhante. Teve professores, mas não teve Escolas de
verdade. Na pedagogia, pois, a Idade Média foi inovadora. Durkheim (1995,
p. 37).

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 12


2. A ALTA IDADE MÉDIA E O SURGIMENTO DO FEUDALISMO

A Idade Média também pode ser dividida em duas partes, os primeiros 500 anos
são conhecidos como Alta Idade Média, na qual as sociedades passaram lentamente a
viver um novo modo de vida, uma nova organização social (o feudalismo) e o apogeu da
Igreja, a sua grande influência em boa parte da Europa. Já a segunda parte, conhecida
como Baixa Idade Média, é marcada pela crise do feudalismo, as cruzadas, a expansão
comercial, e o surgimento das cidades e núcleos urbanos.
A Alta Idade Média, período que se estende desde a queda do Império Romano,
no século V, até aproximadamente o século X, foi marcada por um processo contínuo de
declínio urbano e de ruralização do Ocidente europeu. Durante esse período o campo
gradativamente se fortaleceu, organizando-se na forma de feudos, que se espalharam por
grande parte da Europa. Podemos caracterizar o feudalismo como um modo de produção,
na qual o principal polo aglutinador seria o feudo, e desses procedem relações senhores e
camponeses e suseranos e vassalos.
O pesquisador Pierre Bonnassie destaca como “época arcaica” do feudo o período
entre os últimos decênios do século IX e os primeiros do século XI, e o situa na Europa
meridional – Languedoc e Catalunha (1999, p. 96). Como veremos a seguir, no
regime feudal, o senhor era o detentor de uma grande extensão territorial, em que ele
exercia o poder sobre seus servos e escravos. Um senhor feudal poderia ser vassalo de
outro; porém, nos limites de suas terras ele tinha poder absoluto: era o senhor, protetor,

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 13


juiz, chefe de polícia e administrador.
Essa primeira fase da Idade Média, marcada pelo processo de ruralização,
sofreu alterações significativas a partir do século XI, através do ressurgimento e
fortalecimento das cidades. Os novos espaços urbanos que se constituíram desde o início
desse século se apresentaram extremamente diferenciados das antigas aglomerações
urbanas, sobretudo no seu aspecto econômico.
Houve um processo de acentuada migração dos homens do campo para as
cida-des. A superfície urbana aumentou significativamente, as construções cresceram de
forma irregular e a aglomeração passou a exigir, cada vez mais, uma melhor organização
e uma forte fiscalização das atividades exercidas em seus domínios.
Ao longo dos séculos XI e XII houve um aumento significativo do número de ci-
dades e, consequentemente, da população urbana no Ocidente medieval. Nesta unidade
iremos abordar mais as questões conceituais, as características que definem esse
período chamado de Alta Idade Média.
Lembrando que essa é uma divisão tradicional, existem historiadores que
discor-dam dessa ordem e apresentam o visões mais contemporâneas como Jacques Le
Goff na obra “Para Uma Outra Idade Média: Tempo, Trabalho e Cultura no Ocidente”
lançada em 1977, que compreende a Idade Média desde o século III, quando inicia a
crise do Império Romano até o século XVIII no final do que denominamos de absolutismo.

Se se pode identificar na crise do mundo romano do século 3º o ponto de


partida que dará origem ao Ocidente medieval, parece legítimo considerar
as invasões bárbaras do século 5º como o acontecimento que precipitou as
transformações, dando-lhes um aspecto catastrófico e modificando-lhe pro-
fundamente o aspecto. [...] As invasões deixaram chagas mal cicatrizadas
– campos destruídos, cidades arruinadas -, precipitou a evolução econômi-
ca – declínio da agricultura, recuo urbano -, a retração demográfica e as
transformações sociais. Os camponeses viram-se obrigados a se colocar sob
dependência cada vez maior dos grandes proprietários, estes passaram tam-
bém a ser chefes de grupos armados, e a situação do colono tornava-se cada
vez mais próxima da do escravo. (LE GOFF, 2005, p. 21-22)

Nos nossos estudos as discussões permeiam a Alta Idade Média entre o século
V ao X com forte presença do feudalismo e a Baixa Idade Média do século X até o XV,
período marcado pela crise desse sistema.
Quando pensamos no sistema político vigente durante a Alta Idade Média, de-
notamos como um conjunto fragmentado e descentralizado, fruto do declínio do Império
Romano do ocidente. Paulatinamente deixa de existir a figura de uma entidade reconheci-
da legitimamente e também legalmente como a autoridade de poder, centralizado, ou seja,

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 14


como uma autoridade dotada de um monopólio do uso da força capaz de se impor sobre
autoridades inferiores.
Esse tempo marca a ascensão e fortalecimento das autoridades locais, dos cha-
mados poderes locais. Dentro do feudalismo ainda vai existir a figura do rei, mas este
enfraquecido. Temos a ausência de uma centralização política devido a uma insuficiência
do uso da força militar por parte do rei. Nesse caso, os poderes regionais são muitas vezes
mais relevantes do que o poder central, o servo não é considerado um escravo, porém não
é um trabalhador livre e vive sob a tutela do senhor.
Para le Goff, o feudalismo se caracteriza como :
Um sistema de organização econômica, social e política baseada nos víncu-
los de homem a homem, no qual uma classe de guerreiros especializados
– os senhores – subordinados uns aos outros por uma hierarquia de vínculos
de dependência, domina uma massa campesinata que explora a terra e lhes
fornece com que viver. (LE GOFF, 1980, p. 82).

Esse sistema tinha como consequência a ausência do monopólio do uso da força.


Como era durante o Império Romano, o poder estava fragmentado e descentralizado, na
mão dos suseranos. Isso não significava que o rei não exercia em momento algum o seu
poder de autoridade máxima. Em momentos de crise, de invasão de outros povos, era
função do rei comandar os exércitos na defesa dos seus territórios.
No início do século VI, verificam-se fenômenos políticos significativos. De
um lado, alguns reinos romano-bárbaros já se implantavam firmemente em
territórios do Império do Ocidente, onde a única autoridade política autentica-
mente romana é a Igreja e especialmente o papado; de outro lado, o Império
do Oriente conserva ainda a sua unidade e a sua força, o que lhe permitirá
tentar a reconquista do Ocidente. Estes três centros de poder, tão diferentes
entre si, se enfrentarão numa complexa luta ideológica e militar. (MANACOR-
DA, 2006, p. 111).

Portanto a sua autoridade não era uma constante, ela era flutuante. Lembrando
que por legitimidade entendemos de forma bem genérica a aceitação de um poder. Nesse
âmbito, a nobreza, muitas vezes durante as guerras, emanava uma liderança mais har-
monizada e equilibrada. Era comum algum nobre ser mais poderoso e com um exército
maior, enfrentar o rei em questão e se colocar contra essa figura, como diversas vezes
aconteceu ao longo do feudalismo, como veremos nos outros capítulos.
Por isso é importante saber diferenciar e não confundir o rei medieval com o rei
absolutista. O rei absoluto é uma outra categoria de monarca com outros atributos de poder
que levam este a exercer um poder centralizado e não fragmentado. Já o monarca feudal é
diferente daquele exibido nos filmes de Hollywood, em que é representado como uma figura
muito poderosa, uma vez que os filmes tendem a transportar o poder do Rei absolutista dos
séculos XV e XVIII para a realidade política do rei feudal do século V ao XX. “Seus recursos

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 15


econômicos provinham quase exclusivamente de seus domínios pessoai enquanto senhor,
enquanto de seus vassalos pedia contribuições militares(ANDERSON, 1991, p. 147).
Outro fator importante para compreender o contexto histórico da Alta Idade Média,
trata-se da produção material e econômica na Europa. Primeiro ponto: a principal atividade
era agricultura de subsistência, o feudo era a unidade produtiva do feudalismo.
E você, aluno (a) se recorda como era esse feudo? Trata-se de um latifúndio,
uma grande propriedade rural e que visava ser autossuficiente. Ele tem como seu objetivo
primeiro produzir para o seu próprio sustento, tornando-se uma agricultura de
subsistência. Mais do que isso, seria um:
Modo de produção no qual as relações sociais de produção estão basea-
das na servidão; a propriedade dos meios de produção está dividida entre
a classe dominante, a nobreza feudal, e a classe dominada, os servos, cujo
objetivo fundamental da produção é o valor de uso. (MONTEIRO, 1987, p. 5).

A propriedade territorial era concedida aos indivíduos por um poderoso senhor


(membro da alta nobreza) em troca de fidelidade e ajuda militar.
O direito feudal é aquele conjunto de costumes (e mais tarde, mas secun-
dariamente, de algumas leis imperiais, sentenças de cúrias feudais, teoriza-
ções doutrinais) que pouco a pouco se acumularam durante todo o período
medieval e que disciplinam aquele universo de relações entre senhores e
vassalos, entre superiores e inferiores, que é a ordem feudal: relações pes-
soais que consistem em homenagem e fidelidade por parte do vassalo e em
proteção por parte do senhor. Um universo jurídico exclusivo, que desenvol-
veu suas próprias regras e que tem seus próprios tribunais para aplicá-las;
Grossi (2014, p. 275)

Esse modo de produção esteve presente principalmente em estados do antigo do


Império Carolíngio: França, Bélgica, Suíça, Alemanha, na região da Gália entre os riachos
Loire e Reno, como podemos observar no mapa a seguir.

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 16


Figura 1: Atlas by William R. Shepherd (Shepherd, William. Historical Atlas. New York: Henry Holt and Company, 1911)

Fonte: [Link]

Pierre Anderson, destaca que as bases para o feudalismo foram fundadas na região
da Gália e posteriormente difundidas entre os outros centros europeus.
Foi entre o Loire e o Reno que apareceu pela primeira vez a servidão, onde
se desenvolveu um sistema senhorial, onde a justiça foi mais profunda e, por
fim, a subenfeudação foi mais acentuada. Nessa região, as vilas conviviam
com numerosas aldeias camponesas, reduto de mão-de-obra em potencial.
Entre os séculos VII e IX observa-se a tendência à ampliação da vila através
do desbravamento de novas áreas para a exploração agrícola como também
a incorporação do vicus, suas terras e seus habitantes. (ANDERSON, 1991,
p. 153).

Cumpre lembrar que nenhum feudo se originou do nada, esses foram foram con-
sequências das invasões tardias que culminaram na descentralização do poder do rei e
da ascensão da nobreza e do seu arsenal militar, dessa forma o Feudalismo pode ser
entendido também como uma forma de sociedade que surge em consequência do colapso
do governo central (FRANCO JUNIOR, 1988, p. 87).
O feudo era constituído por três espaços: o primeiro tratava-se do Manso Senhorial:
que era o local onde ficavam as terras do senhor feudal e os mecanismos de produção como
o moinho, além de abrigar o castelo, residência do senhor feudal. Havia outras modalidades
de mansos, como a destinada aos servos, que era o espaço na qual eram produzidos a
agricultura de subsistência dos camponeses, também chamados de servos.
E por último, havia as propriedades denominadas de Mansos Comunais: espaço
em que os camponeses poderiam coletar matéria prima para a produção de casa, arma-
zém. Esse local ficava próximo aos rios e eram conhecidos como áreas comuns. A estrutura
social era composta por três categorias, ou classes: o clero, os nobres e servos, sendo

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 17


que organização era imutável. Devido a influência e poder da Igreja, o clero desfrutava de
posição privilegiada durante o feudalismo, uma vez que a Instituição pregava que o homem
já nasce predestinado a viver em uma classe definida por Deus, sendo ela a representação
da figura divina na terra
A Igreja possuía uma grande quantidade de terras e ao mesmo tempo que esse
número crescia, o seu poder militar aumentava a sua supremacia política e cultural. Outra
questão importante, em um primeiro momento, no seu surgimento, os feudos eram de
ordem pública, como afirma o historiador Pierre Bonnassie:
Bem público, concedido a um agente da autoridade pública, em troca de ser-
viços públicos a serem prestados. Consistia quase sempre em uma terra so-
bre a qual incidiam direitos fiscais. O outorgante era geralmente um duque
ou um conde, e o beneficiário, um alcaide, que deveria, como contrapartida,
administrar e defender o território concedido (BONNASSIE, 1999, p. 96).

No entanto, ao passar a ser de propriedade da aristocracia, o feudo mudou a sua


natureza e deixou de ser um bem público para um bem privado. Assim, podemos definir os
feudos como uma propriedade voltada para a autossuficiência na qual emergem autorida-
des locais como duques e condes que exercem um poder sobre as cidades próximas. Além
dessas figuras, temos também a autoridade da Igreja, tema da nossa terceira unidade.
Na figura 2 podemos observamos como era a estrutura de um feudo durante a Alta
idade Média:
Figura 2: O Feudo.

Fonte: [Link]

A principal mão de obra no feudo era a servidão, como podemos defini-la? Quem
seria o servo? Como surgiu essa relação?
O servo não teria direito à terra no modo de produção feudalista, ou seja, o direito
de propriedade. Dificilmente ele não seria um dia proprietário e também não teria o direito

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 18


à terra, pois o servo está inserido em uma condição de submissão em uma sociedade que
é essencialmente agrícola.
O apogeu das relações servo e vassalo têm suas origens relacionadas ao cres-
cimento agrícola, que ocasionou em um número alto de terras e títulos para os nobres,
aumentando ainda mais as suas riquezas.
Nesse modo de produção, o servo teria as suas obrigações como o trabalho na terra
e o senhor feudal, por outro lado, tinha por obrigação garantir a eles proteção militar. Além
do trabalho no campo, os camponeses eram obrigados a cuidarem dos animais, pomares,
piscicultura e até a confecção de vinhos para os seus senhores.
Ao receber a terra do senhor feudal, o servo deveria pagar uma quantidade razoá-
vel de tributações, na qual denominamos de “obrigações”, que seriam variáveis formas
de impostos. Os tributos variavam conforme a necessidade do senhor feudal, como por
exemplo a corveia, a talha e a banalidade.
Exemplificando: a corveia, um dos mais famosos tributos da Idade Média, consistia
em uma série de serviços prestados na propriedade agrícola do senhor feudal. Em um nú-
mero determinado de dias, o servo era obrigado a desempenhar funções como a limpeza
do castelo, a construção de muros além de trabalhar nas lavouras durante o período do
plantio e da colheita. Observem abaixo um exemplo das obrigações que eram impostas
aos camponeses.
Walafredus, um colono e sua mulher, uma colona, [...] homens de Saint Ger-
main, têm dois filhos, [...]. Ele detém dois mansos livres com sete bunuaria
(um quarto de acre) de terra arável, seis acres de vinha e quatro de prados.
Devem por cada manso uma vaca por ano, um porco no ano seguinte, quatro
denários pelo direito de utilizar a madeira, dois módios (18 a 26 litros) de vi-
nho pelo direito de usar as pastagens, mais uma ovelha e um cordeiro. Deve
ainda lavrar quatro varas para um cereal de inverno e duas varas para um
cereal de primavera. Devem corvéias, carretos, trabalho manual, cortes de
árvores quando para isso receber ordens. (GUÉNARD e MONTEIRO, 1987,
p. 47)

Outro imposto conhecido desta época, era a talha, na qual o servo era obrigado
a repassar para o senhor feudal, 50% de sua produção, considerando todo o lucro bruto.
Haviam também as banalidades, impostos em que o servo era forçado a pagar ao senhor
feudal caso ele utilizasse de alguns dos serviços ou instalações do castelo.
Enfim, tudo que o servo produzia era passivo de tributação. E essa é a grande
questão, quando falamos sobre a relação de Servo e senhor feudal, pois o servo ao rece-
ber a terra, já começava devendo inúmeras obrigações, que ele dificilmente conseguiria
pagar essa dívida .

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 19


Figura 3: Ilustração medieval de homens colhendo trigo com ganchos, em uma página do calendário.

Fonte : Queen Mary’s Psalter (Ms. Royal 2. B. VII)

Nesse caso, qual a relação do servo com a escravidão? Ele era escravo? Existiu
escravidão durante o feudalismo? A resposta é que de certa forma existiu. Há vários histo-
riadores que mencionam a existência da escravidão em pequeno número nas sociedades
feudais. Pois historicamente não houve a abolição da escravidão na Europa durante esse
período o fim da escravidão.
Quando o Império Romano tem a sua derrocada no ocidente, a escravidão não
foi proibida então. Ela poderia continuar existindo, no entanto esse sistema não era mais
viável, no caso rentável. Então gradativamente aquele processo do colonato romano foi
substituindo a mão de obra escrava pela mão de obra servil, que foi trabalhar nos feudos
durante a Alta Idade Média.
Essa é uma pergunta muito importante. Pois devido os altos impostos, o servo aca-
bava vivenciando uma relação de escravidão, no entanto ele não era uma propriedade do
Senhor feudal. Este, não poderia vendê-lo, servir como moeda de troca, pois o camponês
não era o seu escravo, embora viva uma relação escravista.
Para Karl Marx, o feudalismo como “modo de produção” difere do sistema escravis-
ta pois nele “o produtor direto se encontra na posse de seus próprios meios de produção,
as condições de trabalho objetivas necessárias à realização de seu trabalho e à geração
de seus meios de subsistência; ele exerce de modo autônomo sua agricultura, bem como
a indústria rural caseira ligada a ela” (1985, p. 251), ao passo que no regime escravista “o
escravo trabalha com as condições de produção alheias e não de forma autônoma” (1985,
p. 251).

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 20


Cumpre ressaltar que existem estudos que divergem da narrativa em que o feudo
era um espaço onde o senhor impregnava as suas vontades aos seus vassalos, Marc
Bloch destaca, que há registros em quem o vassalo concedia ao senhor a sua terra em
troca de proteção militar.
Muitos proprietários de alódios1 entregavam a sua propriedade a um senhor
de condição mais elevada. Esses nobres, depois de terem prestado homena-
gem ao novo senhor, recebiam seu antigo patrimônio na qualidade de honro-
so feudo vassálico (BLOCH, 1987, p. 185).

Para o historiador Jaime Estevão dos Reis “servidão implica, portanto, que a rela-
ção de propriedade deve estabelecer-se como uma relação entre senhores e servos, de
forma que o produtor direto não seja livre”. Trata-se de uma ausência de liberdade “que
pode variar desde a servidão com trabalho pessoal até a mera obrigação tributária” (MARX,
1985, p. 251).

SAIBA MAIS
A Idade Média foi um período com muitas peculiaridades, desde a forma com os seus
castelos eram concebidos, os duelos entre membros da nobreza, o papel da mulher
nessa sociedade na qual tinham direito de escolher com quem e quando casar; a pro-
fissão que gostaria de seguir. Enfim, ao citar esses exemplos observamos mesmo que
os costumes e ordens desse período ficaram para trás, mas ainda é comum em alguns
lugares do oriente essas designações ainda persistirem.

Fonte: LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Lisboa: Editorial Estampa, 1983, 02

volumes.

REFLITA
O monarca, em outras palavras, era um suserano feudal de seus vassalos, aos quais
estava ligado por laços de feudalidade, e não um soberano supremo colocado acima de
seus súditos. Seus recursos econômicos provinham (ANDERSON, 1991, p. 147).

1Alódio refere-se a um direito imobiliário

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 21


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Após essa explanação, pontuamos nesta unidade alguns conceitos e características


importantes para compreender o que foi a Idade Média. A primeira de que diferentemente
do que ela já foi limitada, não trata-se da “idade das trevas”, dos tempos da escuridão.
Houve sim um período controlado por ações da Igreja que buscavam sedimentar e ampliar
os seus poderes políticos, no entanto nesses quase mil anos de História, assistimos o
nascimento e o despertar da arquitetura gótica, das relações comerciais nas cidades, do
surgimento das primeiras universidades.
O feudalismo trata-se de uma tema inesgotável de investigações e possibilidades,
a seguir indicaremos uma série de livros e produções cinematográficas que podem instigar
novas pesquisas ao campo da história.

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 22


LEITURA COMPLEMENTAR

A influência da Idade Média em nossos dias: cultura, representações e festi-


vidades.
O período medieval apesar de representar a gestação do mundo moderno, nas
identidades sociais, políticas, religiosas e também culturais, foi por muito tempo
negligenciado e erroneamente chamado de Idade das Trevas.

Disponível em :
[Link]
Fonte: VAZ, Angela Omati Aguiar. A influência da Idade Média em nossos dias:
cultura, representações e festividades. REVISTA DON DOMÊNICO. 8º edição. 2016.

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 23


MATERIAL COMPLEMENTAR

LIVRO
Título: A Idade Média e o Dinheiro – ensaio de antropologia histó-
rica.
Autor: Jacques Le Goff
Editora: Civilização Brasileira, 2014.
Sinopse: Nesta obra, Le Goff revela uma das grandes particu-
laridades da Idade Média, a lida com o dinheiro, as moedas, em
uma sociedade dominada pela religião, o cristianismo ensinou aos
cristãos a atitude que deveriam adotar ante o dinheiro e quais as
consequências para essas atitudes.

FILME/VÍDEO
Título: Rei Arthur: A lenda da Espada.
Ano: 2017
Sinopse: Essa história já recebeu diversas adaptações do cinema,
porém em “Rei Arthur - A Lenda da Espada”, Arthur vivido pelo
ator Charlie Hunnam é um jovem das ruas que controla os becos
de Londinium e desconhece sua predestinação até o momento em
que entra em contato pela primeira vez com a lendária espada a
Excalibur. Desafiado pela espada, ele precisa tomar difíceis deci-
sões, durante a Idade Média.

WEB

O Cerco Medieval
Através dessa reportagem da revista Super Interessante você será transportado
para o mundo medieval e a forma como os feudos arquitetaram os seus castelos na incum-
bência de se proteger de ataques dos povos invasores.
MARTON, Fabio. Cerco Medieval. Super Interessante. 10 abril de 2020. Disponível
em [Link] Acesso em 17 de agosto de 2020.

UNIDADE I O que foi a Idade Média ? 24


UNIDADE II
O Oriente
Professor Doutor João Paulo Pacheco Rodrigues

Plano de Estudo:
• O Islã e o Império Otomano;
• O Império Bizantino;
• A Reconquista ibérica.

Objetivos da Aprendizagem:
• Examinar a gênese do Islamismo;
• Analisar o desenvolvimento do Império Otomano;
• Compreender a importância do Império Bizantino;
• Estabelecer e contextualizar o processo de Reconquista Ibérica.

25
INTRODUÇÃO

Nessa unidade convido você caro aluno (a) a mergulhar no mundo Medieval, um
mundo não apenas marcado pelo domínio da igreja Católica mas também com fortes in-
fluências do Oriente. Seja ele através do islamismo, da ascensão do Império Otomano,
a conquista de Constantinopla e o grande conflito de quase oito séculos entre Mouros e
Cristãos que marcaram a reconquista da Península Ibérica.

UNIDADE II O Oriente 26
1. ISLAMISMO E O IMPÉRIO OTOMANO

Ao estudar o islamismo existe uma diferença fundamental que muitas pessoas


confundem entre o que é ser árabe e o que é ser praticante da religião islâmica. Os árabes
tratam-se de etnia da antiguidade que habitava inicialmente o que podemos chamar de
Península Arábica no Oriente Médio.
O Islamismo é atualmente uma religião de mais de 1,4 bilhão de seres humanos,
“caracterizada por monoteísmo estrito e síntese entre fé e organização sociopolítica” (HOU-
AISS, 2001, p.1655), aparentada com o monoteísmo judaico, religião também parente do
cristianismo, a partir do século VII.
Quais as propostas dessa religião tão importante? Por que nós falamos tanto hoje
de muçulmanos e de islamismo? O que pensavam os islâmicos no primeiro século da sua
existência. Quem foi o profeta que recebeu uma revelação de Deus Allah e transformou em
uma série de preceitos e ensinamentos? Podemos afirmar, que o islamismo, trata-se uma
das religiões mais importantes e mais fundamentais do mundo contemporâneo, surgida
durante a Idade Média. Islã é o aportuguesamento da palavra em árabe islam. Essa pala-
vra, nesse idioma, significa submissão, assim, “o verdadeiro ‘muçulmano’ é aquele que se
declara perfeitamente ‘submisso’ a Deus” (PIAZZA, 1991, p. 384).
No século V da Alta Idade Média, na Península Arábica cujo hoje há vários países
como a Arábia Saudita, naquela região os árabes eram politeístas ou seja acreditavam
em vários Deuses. Os islâmicos chamam a esse período anterior a revelação do Profeta

UNIDADE II O Oriente 27
de “era da ignorância”. Quase todos eram comerciantes, nômades ou seminômades, a
Península Arábica não era politicamente importante, não era religiosamente unificada, e
os árabes estavam um pouco a parte desse mundo que os cercavam, como o Império
Bizantino , o Império Persa e outras unidades contemporâneas deste século VII. Ou seja,
não havia ainda nesse período uma unidade religiosa e política no território.
Em 570, em um ramo pobre de uma família de Meca, teria nascido aquele que
mudaria toda essa história, Maomé Mohamed, profeta que de acordo com o Alcorão, te-
ria receberia no futuro a revelação de Deus, para transformar toda a Península Arábica,
para unificar a religião, para ensinar um novo conceito, o verdadeiro conceito de Deus, um
entidade única, que deveria ser espalhado, ser empregado e expandido para todas as
pessoas.
O futuro profeta trabalhava como líder de caravanas, um mercador que realizava
viagens. Durante todo o seu exercício de comércio à longa distância, ele estudava a religião
dos judeus o monoteísmo, posteriormente, conhecendo o cristianismo, foi conhecendo
monoteísmos que tornavam a judeus e a cristãos tão diferentes dos árabes politeístas.
Refletia muito sobre isso , na sua inteligência privilegiada e na sua ética que era conhecida
no local.
Aos 21 anos, passou a trabalhar para uma viúva rica chamada Khadija e aos 25
anos se casou com ela, com quem teve vários ilhos, dos quais somente Fátima
sobreviveu (MATOS, 2009, p. 455). Aos 40 anos, retirado em uma caverna no Monte-
Hira, isolado e re letindo sobre os conhecimentos e preceitos religiosos, teria recebido a
visita do arcanjo, Gabriel, o mesmo que na tradição cristã teria anunciando a vinda de
Jesus na terra para Maria.
Então o Arcanjo dá a ele a obrigação de recitar e de aprender decorar as revelações
sobre Deus que seriam agora a posse de uma nova verdade. Esse acontecimento ficou
conhecido como Noite do Destino e deu início às revelações de Allah para Muhammad.
Essas palavras serviram como base estrutural pra as características do islamismo.
De acordo com Piazza (1991, p. 384),
o islamismo apresenta-se como uma religião
• “sem dogmas, a não ser o seu absoluto monoteísmo, que faz de Alá um
deus inteiramente transcendente e solitário...”;
• “sem sacramentos, pois o islamismo não reconhece a separação entre Sa-
grado e Profano...”;
• “sem sacerdotes, pois não admite intermediários entre Deus e os homens...”;
• “sem liturgia, sem sacrifícios, sem imagens...”;
• “sem estrutura eclesial (estrutura hierárquica); no entanto, tem os seus teó-
logos (ulema: conhecer), os seus pregadores (khatib), os seus mestres de
oração (irmã), os seus pregoeiros de oração () (PIAZZA, 1991, p. 384).

UNIDADE II O Oriente 28
Retornando a casa, ele teria confessado a seu círculo íntimo o que teria
ocorrido, temendo estar louco, o aconselharam a ter paciência e a receber com
tranquilidade essa revelação. A partir desse momento o profeta teria sido iluminado,
recebendo diretamente do Arcanjo Gabriel, os ideais divinos, o principal era de que só
existe um Deus, Alá, aquele que distribuiu misericórdia, aquele que é clemente e
misericordioso. Esse Deus não admitiria nenhuma imagem, não permitiria que fosse feita
nenhuma representação dele , esse código de conduta, buscava reforçar a submissão do
homem a Deus, por isso ser devoto do Islã é ser aquele que se submete apenas a Deus,
diferente do cristianismo.
Nessa região não era comum a figura de um rei oponente, não havia uma
tradição monárquica majestosa como o Império Bizantino ou Persa, portanto, os
islâmicos não tinham o costume de se ajoelharem, a partir das revelações a Maomé,
foram instruídos a colocar seu rosto no chão cinco vezes ao dia, voltados
inicialmente para Jerusalém e depois em um segundo momento voltados para a cidade
de Meca, onde o profeta vai continuar sua pregação.
Para Regina Teresa e Silva (201), em suas peregrinações não havia a presença
de imagens e isso foi desagradando alguns comerciantes da região que viviam comércio,
prin-cipalmente dos mercadores de Meca, onde havia uma grande pedra composta por
diversas representações de Deuses, inclusive uma representação de Nossa Senhora.
Essa escultura era muito conhecida na região e para lá a luíam caravanas religio-
sas. No entanto para Maomé, essa veneração tratava-se de um pecado mortal, sendo
uma de suas missões extinguir a idolatria e a veneração desses retratos feitos pelos
homens.
Outro mandamento advindo do Alcorão seria a abstenção de álcool, além de
guar-dar o jejum em um mês especial chamado Ramadã. O islâmico deveria orar cinco
vezes como já mencionado anteriormente à Jerusalém, posteriormente a Meca. E
também doar uma parte daquilo que ganhasse como uma esmola obrigatória, pois a
pobreza deveria ser amparada e se puder, uma vez na vida, o islâmico deveria
peregrinar a Meca.
Essas seriam as obrigações básicas de um islâmico e Maomé começou a
difundir essas ideias primeiramente na sua família na cidade de Meca, o movimento
passou a ga-nhar força e naturalmente foi recebendo oposição de grandes
comerciantes que temiam essa nova ideia, um ideário de monoteísmo, que afastava as
imagens, consequentemente enfraquecia o comércio dessas. As peregrinações de
Maomé, também criticavam os altos lucros que Meca obtinha devido aos iéis que por ali
chegavam e isso começou a incomodar ainda mais as autoridades locais.

UNIDADE II O Oriente 29
De acordo com Jacques Jomier (2002) em 622 a perseguição a Maomé e aos seus
seguidores fizeram com que esses, peregrinassem para a cidade de Medina, localizada
no oeste da Arábia Saudita., denominada de Hégira, evento que inaugurou o calendário
islâmico, essa jornada, posteriormente ficou conhecida como “Grande Fuga” e teria sido
acompanhada por cerca de duzentos islâmicos. Nesse espaço foi construída a primeira
mesquita, o primeiro local de adoração de Allah, o primeiro local de pregação dessas ideias
que passaram a fazer mais sucesso.
A influência do profeta também o transformou em um grande líder militar, uma das
conquistas mais marcantes realizadas por seus seguidores foi a “Batalha de Badr”, em 624
d.C na região ocidental da Arábia, contra os seus opositores, conhecidos como coraixitas.
Em 630 a cidade de Meca é conquistada pelos mulçumanos, Maomé e seus dez
mil seguidores, decidem por purificar o local, retirando todas as imagens, cobrindo-a com
pano verde, que mais tarde seria um símbolo do Islã. Dois anos após a conquista de Meca,
o grande líder do islamismo acaba falecendo, porém seus seguidores deram continuidade
aos seus ideias, formando posteriormente um dos maiores impérios da Idade Média, o
Império Otomano, é também após a sua morte que o Alcorão começa ser escrito, através
de fragmentos deixados por ele.

1.1. O Império Otomano


Em linhas gerais, podemos afirmar que o Império Otomano, ou Império Turco-O-
tomano, foi um dos mais longos da história da humanidade, “incluía a maior parte dos
territórios do Império Romano Oriental e controlava faixas do Norte dos Bálcãs e da costa
norte do mar Negro, regiões que Bizâncio jamais dominara”(QUATAERT, 2008, p.13). Ofi-
cialmente o período em atividade vai de 1299, data da sua criação pelo Osman de Segut
(1280-1326), também conhecido como Osman I até 1923, após a I Guerra Mundial, na qual
os otomanos foram obrigados a assinar o Armistício de Mudros, tratado que concedia aos
vencedores da Guerra, direitos políticos e econômicos locais.
Segundo Donald Quataert (2008), originário da tribo nômade de Oriundos da tribo
de Ghuzz, hoje localizado no Cazaquistão, os otomanos, termo em que os adeptos desse
império foram chamados, efetuaram um massivo processo de expansão territorial não so-
mente na Europa, mas também em outros continente como a África e parte da Ásia, como
podemos observar no mapa abaixo:

UNIDADE II O Oriente 30
Figura 1: O Império Otomano 1300-1512.

Fonte: QUATAERT, 2008

Osman de Segut, uma das principais figuras desse império, pertencia a um grupo
de nômades convertidos pelo Islã, ou seja, podemos afirmar que a undação desse reino oi
fruto da expansão árabe, que discutimos no primeiro tópico dessa unidade.
Aproveitando da desfragmentação territorial presente na Idade Média, a queda da
dinastia Seljúcida e a divisão da Anatólia em distintos territórios, no século 13. Ottoman I
foi paulatinamente conquistando estados importantes no Ocidente e Oriente. Os primeiros
na região da Ásia Menor, até o seu apogeu com a conquista de a queda de Constantinopla
em 1453, baliza temporal que muitos historiadores apontam como o final da Idade Média.
Após sua morte em 1326, o exército otomano passou a ser liderado pelo seu filho
Orkhan, dando início a uma nova era de conquistas, dessa vez englobando as regiões
Nicéia (parte da Grécia e Turquia), a Bursa, também conhecida como Prusa e em “1354
a ocupação otomana de uma cidade (Type) situada no lado europeu dos Dardanelos,
uma das três vias marítimas que dividem a Europa e a Ásia” (QUATAERT, 2008, p. 28).
Além de líder militar, Orkhan também possuía habilidades administrativas que o
alçaram à figura de grande Imperador.

UNIDADE II O Oriente 31
O êxito obtido pelos Otomanos na formação de um Estado deveu-se sem dú-
vida à sua excepcional flexibilidade, à rapidez e a uma pragmática capacida-
de de adaptação a condições variáveis. Na dinastia fundada, de ascendência
turca, a descendência fazia-se pela linha masculina; ela nasceu numa zona
profundamente heterogênea habitada por cristãos e muçulmanos e por povos
que falavam grego e turco. (QUATAERT, 2008, p. 27).

Pautados pelo Alcorão, os Otamanos foram responsáveis pela criação de um exér-


cito conhecido como “janízaros”, esses eram frutos das conquistas feitas pelo grupo de
Orkhan, que passava a doutriná-los e educá-los conforme os mandamentos ditados por
Maomé. Muitos desses, eram compostos por crianças e jovens, que ao serem capturados,
tornavam-se propriedades do Império Otomano.
Os líderes do Império Otomano, foram em sua maioria sultões, quando esses che-
gavam ao poder, era necessário que afirmassem a sua liderança, era preciso demonstrar a
sua aptidão e designo de estar no comando e uma dessas formas, era através da conquista
de territórios, de povos e da conversão desses em islâmicos.
Nesse âmbito, o principal feito dos Otomanos foi a conquista de Constantinopla,
em 29 de maio de 1453, até então centro do Império Bizantino. Assim, quando Mehmed, o
Conquistador, ou Maomé II, chegou ao poder em 1541, detinha de um forte alicerce militar
e ideológico em se espelhar. “Passados apenas dois anos, em 1453, concretizou o maior
sonho otomano e muçulmano de sempre: a conquista da milenar Constantinopla, a cidade
dos césares” (QUATAERT, 2008, p. 27).
O domínio sobre Constantinopla foi veloz e intenso. Em um rápido período de tem-
po, Mehmed, o Conquistador tratou de transformar a igreja de Santa Sofia em Mesquita.
Posteriormente, o imperador dos otomanos adotou uma série de medidas como
forma de expandir ainda mais a influência social, religiosa e cultural.
Mehmed encarregou-se de imediato de devolver à cidade as antigas glórias;
em 1478, o número de habitantes duplicou, passando dos 30.000 que po-
voavam as aldeias dispersas cercadas por sólidas fortificações para 70.000.
Um século mais tarde, esta grande capital vangloriar-se dos seus 400.000
habitantes. As conquistas deste sultão prosseguiram; entre 1459 e 1461 os
derradeiros fragmentos bizantinos na Moreia (Grécia Meridional) e em Tre-
bizonda, no Mar Negro, ficaram sob dominação otomana; Mehmed também
anexou o Sul da Crimeia e estabeleceu laços duradouros com os khans da
Crimeia, sucessores dos Mongóis que outrora se haviam apossado da região
(QUATAERT, 2008, p. 27).

UNIDADE II O Oriente 32
2. IMPÉRIO BIZANTINO

Na primeira unidade do nosso livro, destacamos o marco temporal para o início


da Idade Média, muitos historiadores definem como o fim do Império Romano, o começo
do período medieval. No ano 476, quando esse império tem sua ruína, uma nova ordem
ganhou destaque, dividido em duas partes, o lado oriental do Império Romano se tornou
uma das supremacias do mundo.
Mas por que o Império Romano do Oriente sobreviveu e o do Ocidente não? A
resposta para essa pergunta deve-se a forma como essa sociedade estava organizada
politicamente, socialmente e principalmente economicamente, uma vez que as despesas e
necessidades desse grupo eram diferentes.
O Império Romano do ocidente recebeu o nome de Império Bizantino durante a
Idade Média, pelo fato de sua capital ser a cidade de Bizâncio, que posteriormente teve
o nome alterado para Constantinopla, aquela mesma que falamos no primeiro capítulo e
que também foi tema dessa unidade ao retratar o Império Otomano. A mudança de nome
deveu-se também a uma forma de homenagear seu patrono, Constantino.
A região foi fundada pelo Imperador romano Constantino, ainda no ano de 330
depois de Cristo, “Constantino tratou também de acautelar a segurança da nova cidade, ao
edificar uma primeira muralha que cobria uma área de cerca de 750 hectares” (MONTEIRO,
1987, p.17). No ano de 395, depois de Cristo, o Imperador Romano Teodósio dividiu o

UNIDADE II O Oriente 33
império entre ocidente e oriente, como forma de aliviar as tensões políticas locais e salva-
guarda dos territórios da região.
E por que estudar o Império Bizantino é tão importante? Por quase mil anos, esse
governo foi o eixo de ligação entre a Europa e Ásia, através do Estreito de Bósforo. Exem-
plificando, você já ouviu falar que na Turquia, existe a parte asiática e a parte europeia?
Ela é considerada geograficamente um país transcontinental.
Localizada no Estreito de Bósforo, trata-se de um ponto estratégico, um ponto de
passagem entre Europa e Ásia, na qual nos próximos séculos foram palcos de sociedades
diferentes, principalmente no âmbito religioso, com o apogeu do Cristianismo e posterior-
mente do Islamismo.
Construída numa encruzilhada de importantes rotas marítimas e terrestres
(via marítima entre o mar Negro e o mar Mediterrâneo, vias terrestres da
Europa Continental ao Índico e do vale do Danúbio ao do Eufrates), estava
fadada a tornar-se simultaneamente um centro político e econômico de pri-
meira grandeza. Em virtude de sua situação geográfica, Constantinopla seria
ao mesmo tempo potência marítima e continental. (GIORDANI, 1968, p. 38).

Em relação a parte ocidental, a localização privilegiada da parte oriental ajudou


no combate contra as invasões de outros povos durante a Idade Média, no mapa abaixo
podemos observar a extensão territorial do Império Bizantino durante o seu apogeu, no
século XI.

Figura 2: extensão do Império Bizantino no ano 1025.

Fonte: Ilustração: Cplakidas / Wikimedia Commons / CC-BY 3.0

A sua etnia era composta por povos gregos, egípcios e por moradores do leste
europeu. Por conta disso, o idioma desse império foi o grego. Os países dessa região foram

UNIDADE II O Oriente 34
fortemente influenciados pela cultura grega., uma vez que o idioma russo é uma
variação da língua falada nesse império.
E como funcionava a política durante o Império Bizantino? Ela era
centralizada nas mãos do Imperador, que governava através do Cesaropapismo. Ou
seja, ele detinha influência política e também religiosa.
O imperador recebia o título de basileu,
Ao contato do Oriente, ele se tornou o auto crator, e, a partir do início do sécu-
lo VII, o basileus, isto é, o imperador por excelência, o senhor que dispõe de
autoridade absoluta. Enfim, o cristianismo fez dele o eleito de Deus, o ungido
do Senhor, o representante de Deus sobre a terra, seu lugar-tenente à frente
dos exércitos, e, como se diziam em Bizâncio, o príncipe igual aos apóstolos.
(DIEHL, 1961, p. 82)

Os historiadores apontam que o mais influente desse governo foi Justiniano, que
governou entre os anos de 527 a 565. Ele foi responsável por criar um código de leis,
chamado “código Justiniano”, que até os dias de hoje influencia o direito atual. Trata-se de
um código de leis, inspirado no código Romano, aquele que definia o que era público e o
que era privado, além da lei das doze tábuas, O trabalho foi dirigido por Triboniano, um fun-
cionário da corte de Justiniano. Sobre o processo de criação do código, Lyvia Vasconcelos
Baptista (2019) destaca:
Logo nos primeiros anos de governo, Justiniano, que havia assumido o trono
depois da morte do seu tio, Justino, em 527, iniciou a elaboração do material
jurídico, ressaltando a importância da composição frente à situação caóti-
ca em que se encontravam as leis, jurisconsultos e constituições imperiais
emitidas até aquele momento. Intenta-se, desta forma, produzir uma obra
compreensiva e sistematizada, baseada na herança legal do período clás-
sico, que, certamente, conseguiu se transformar numa autorizada fonte de
informação do Direito Romano (BAPTISTA, 2019, p. 90).

O código Justiniano foi dividido em quatro partes essenciais, a primeira denomi-


nada de Codex, que determinava o que pertencia ao estado, leis imperiais, que visavam
substituir o Código Teodosiano, até então em vigor. A segunda parte, chamada de Digesto,
seria as ramificações desta lei. Como por exemplo, hoje temos leis para a saúde, para a
educação, para a cultura. Então o “digesto” seria a fragmentação desta lei, composta por
mais de 1500 livros escritos por jurisconsultos da época clássica.
A terceira parte, conhecemos como Institutas no qual professores de direito dentro
do Império Bizantino vão reescrever as leis de forma didática para população ter acesso.
E por fim e não menos importante, temos as Novelas que seriam a possibilidade de se criar
novas leis de acordo com a necessidade política, econômica e social do império.
No entanto, quanto mais centralizado é o poder, maior a chance de insatisfação da
população, uma vez que não existia uma democracia neste império, o poder emanava ape-

UNIDADE II O Oriente 35
nas das mãos do imperador. No ano de 532 vai ocorrer uma grande manifestação contrária
ao governo, a “Revolta de Nika”. Se no Império Romano, ainda no período da Antiguidade,
os eventos foram realizados no Coliseu, no Império Bizantino, a grande diversão eram as
corridas de cavalos, no hipódromo da cidade. Existia uma grande rivalidade entre dois
grupos a “verde” e a “äzul”, sobre esses grupos,
Na tentativa de explicar a separação entre os Verdes e Azuis no Império Bi-
zantino muitos historiadores criaram teorias de diferenciação destas duas
facções. Manojlović aponta para a separação entre duas classes sociais:
sendo os aristocratas a cor azul, e o povo verde45. Manojlović também apon-
ta para uma separação de cunho religioso, vinculado à própria questão so-
cial. Assim, propõe que os Azuis seriam aristocratas, de Constantinopla, de
províncias europeias, da elite intelectual de províncias da Ásia ou do Egito,
sendo ortodoxos, enquanto os Verdes seriam o povo de classe mais baixa,
dos fellahin do Egito, dos estrangeiros da Síria ou Antioquia, sendo monofisi-
tas (NETE, 2012, p. 82).

Havia muita violência entre esses dois grupos, e na tentativa de reduzir essa rixa,
Justiniano decidiu punir os líderes de ambas, condenando-os à morte. A decisão do então
imperador desagradou os dois grupos e durante uma das corridas, os mesmos se uniram e
levantaram um motim contra Justiniano. Esse conflito foi apenas o estopim da
insatisfação dos moradores da região contra o imperador. O levante durou cerca de três
dias, aconselhado por sua esposa a Imperatriz Teodora, Justiniano resistiu aos ataques.
Resultando no total de 30 mil mortos dentro do hipódromo.
E quais as consequências da “Revolta de Nika”? Justiniano tornou-se ainda mais
forte e as pessoas passaram a temê-lo, além disso o Império Bizantino começou a se
expandir, aumentando as suas fronteiras para áreas da Ásia e Europa. Esse crescimento
teve uma queda com a morte de Justiniano em 14 de novembro de 565 aos 83 anos.
Sobre a economia do Império Bizantino, ela era pautada no comércio do Mar Me-
diterrâneo, era uma economia baseada na produção de tecidos, na agricultura realizada
pelos camponeses e pelo domínio das rotas comerciais do mar já citado. Existia uma gama
de manufaturas, compostas por servos que trabalhavam nesse império e nessas rotas co-
merciais, eram negociados produtos como trigo, o ouro e alguns condimentos e temperos.
A existência milenar do Império Bizantino em boa parte foi resultado de uma
economia estável, que lhe dava os recursos necessários para enfrentar os
inúmeros inimigos externos e para sustentar os imensos gastos exigidos pela
corte e pela Igreja. Quando as vigas mestras de sua economia foram enfra-
quecidas, todo o império oscilou: a decadência econômica preparou o desa-
parecimento político de Bizâncio (JUNIOR, 1977, p. 23) .

De acordo com Giordani (1998), a religião do Império Bizantino era predominante


cristã, no entanto devido às distintas diferenças culturais e sociais, existiam vertentes que
pensavam o cristianismo de maneiras diferentes. Como por exemplo o “movimento icono-

UNIDADE II O Oriente 36
clasta” que eram aqueles que não aceitavam a adoração de imagens sagradas. Eles tinham
o costume de invadir igrejas, templos religiosos e quebrar imagens, pois acreditavam que
aquilo não representava a verdadeira fé. Afirmavam que você não poderia orar por aquela
imagem e sim somente ter uma ligação direta com Deus. Os imperadores tentavam reprimir
esse movimento, porém era muito difícil, pois agiam sempre às escondidas, na madrugada.
Outro movimento de grande influência no Império Bizantino, eram os “monofisis-
tas”, que acreditavam que Jesus não era formado pelo corpo e alma, ou seja pelo divino e
humano mas sim apenas pela parte sacra, nesta visão, Jesus teria apenas uma natureza
e não duas como defendido pelo cristianismo. Sobre essa ordem, Maria Regina da Cunha
Rodrigues (1963) destaca que:
O Monofisismo, heresia cristológica do V século provocada pelo arquimandri-
ta Eutíquio, ao ensinar que em Cristo havia uma só natureza, foi condenado
no Concílio Ecumênico de Calcedônia em 451. As decisões dogmáticas deste
Concílio — dualidade das naturezas divina e humana unidas pelo mistério da
união hipostática na pessoa de Jesus Cristo, Filho de Deus feito homem, —
foram pacificamente recebidas no Ocidente Cristão; recusadas, desvirtuadas,
criticadas, entretanto o foram no Oriente, com a cumplicidade dos Patriarcas
do Egito e Constantinopla. ( RODRIGUES, 1963, p. 1).

E haviam os opositores a esse grupo, os chamados “arianos ”que negavam a


existência da consubstancialidade entre Jesus e Deus, ou seja, eram contra o dogma da
Santíssima Trindade (Deus seria ao mesmo tempo o pai, filho e o espírito santo). O “aria-
nismo” foi um movimento presente desde os primórdios da Igreja Católica, ainda no ano de
319, defendido por Ário, em Alexandria e acreditavam que a única natureza de Jesus era
corporal.
Então existiam diversas correntes do cristianismo na Europa oriental, e a Igreja
Católica de Roma sempre procurou reprimir esses movimentos, ela julgava que todos
aqueles que seguiam essas vertentes eram infiéis, hereges.
Assim, as disputas de caráter teológicos e eclesiásticas culminaram no desgas-
tes entre as duas igrejas e na separação de poderes religiosos da capital do berço do
cristianismo no ocidente (Roma) e do Império Romano do Oriente (Constantinopla). Ao
longo dos séculos, os conflitos de ordem política entre as duas aumentaram, e a Igreja de
Constantinopla deixou de ser subordinada a Roma, em 867.
No início do século XI, a crítica dos romanos centrava-se no “Cesaropapismo” e em
outros usos de objetos e símbolos durante as celebrações, como o pão não fermentado.
Sobre a crítica da figura patriarcal na Igreja, Maria Leonor Ferreira (2019) ressalta que :
Em Bizâncio exercia-se ainda o cesaropapismo, um “sistema político em que
se encontram fundidos o poder civil e o religioso” (Moderna Enciclopédia Uni-
versal, 1985), ou seja, o soberano político, o imperador, tinha poder sobre a

UNIDADE II O Oriente 37
Igreja, escolhendo os patriarcas e demais cargos eclesiásticos dentro dos
seus favoritos, dentro da sua livre vontade, tendo também o poder de de-
por quem havia sido eleito por si. Em Roma a situação não era idêntica. No
Ocidente, o Papa ganha maiores poderes e lutava por uma cada vez maior
teocracia Papal, ou seja, um sistema em que o Papa estava acima dos reis,
podendo destituí-los, coroá-los imperadores ou excomunga-los. Assim, a di-
ferenciação entre o exercer do poder era ainda considerável, na medida em
que, a Oriente o Patriarca se havia tornado num peão do imperador, e a Oci-
dente o Papa podia tornar os imperadores seus peões. (FERREIRA, 2019,
p. 4).

Portanto, a relação cada vez mais irregular culminou no rompimento entre as duas
instituições, chegando ao ponto do Papa Leão IX e o Patriarca Miguel I Cerulário se ex-
comungarem mutuamente. Esse evento, ficou conhecido como o Cisma do Oriente, ou
Grande Cisma e tornou-se um marco importante nos estudos das Histórias das Religiões
pois data o rompimento e a divisão da Igreja Católica, entre a Igreja comandada pelo pontí-
fice de Roma, e a Igreja chefiada pelo patriarca, em Constantinopla no ano de 1054.
Essa ruptura, originou a Igreja Católica Ortodoxa, assim, o cristianismo passou a
se constituir em dois centros, os Ortodoxos e a Igreja Católica Apostólica Romana, com
sede em Roma. Existem diferenças substanciais entre as duas Igrejas, a de rito ortodoxo
acredita que a salvação é resultado apenas da fé, já a de Roma além da fé, o fiel necessita
realizar obras em prol da instituição. Outro aspecto que distingue as duas Igrejas, é a
crença no purgatório, uma vez que este foi instituído por Roma no “Segundo Concílio de
Lyon” no ano 1274, quando Constantinopla não reconhecia a supremacia papal.
Além disso, podemos considerar que no que tange a natureza dos seus ritos
litúrgicos, a Igreja Ortodoxa é estática, diferente da Igreja Católica de Roma, no qual
houve uma série de reuniões entre o papa e os bispos da Europa, concílios que
transformaram as cerimônias religiosas, na instituição de Constantinopla os ritos sofreram
poucas mudanças. Outra diferença entre as duas igrejas é o idioma oficial, enquanto em
Roma temos o latim, em Constantinopla temos o grego, reforçando mais uma vez a
influência dessa cultura no Império Bizantino. É nesse período que temos a construção da
basílica de Santa Sofia, a mesma que foi invadida pelo exército Otamano em 1453 e
transformada em mesquita.
Ao estudar esses fatos históricos, notamos como a História e os
acontecimentos estão conectados, sendo grande parte a sucessão de eventos que
ocasionaram mudanças substanciais na forma de viver e se organizar socialmente. Além
do surgimento da igreja Ortodoxa, outras vertentes cristãs, todas de origem católica,
emergiram nesse período, como por exemplo a Igreja Cristã Ucraniana, que passou a
ser administrada pelo patriarcado de Constantinopla.

UNIDADE II O Oriente 38
Se no começo desse tópico destacamos a posição geográfica privilegiada do Im-
pério Bizantino, podemos considerar que a mesma também acarretou em sua ruína, em
1453. A localização próximo ao continente da Ásia, possibilitava o ataque de diversos
grupos rivais, entre eles os próprios romanos, através das Cruzadas e o islamismo, ataques
oriundos do mundo Arábe.
Em 1204, através do processo de cruzadas, os cristãos romanos promovem uma
série de saques para amedrontar a população, eles não chegam a dominar politicamente
a região, mas enfraquecem Constantinopla, tornando-a cada vez fragmentada, até a sua
ruptura em 1453.
A conquista de Constantinopla, mais do que um feito do Império Otomano, foi
também consequência dessa descentralização de poder de um Império que vigorou por
mais de mil anos e influencia até os dias de hoje a sociedade, seja ela através da sua
língua, dos seus dogmas cristãos ou de sua arte e expressão cultural.

UNIDADE II O Oriente 39
3. A RECONQUISTA IBÉRICA

Pouquíssimas histórias são tão arrepiantes e inspiradas no puro heroísmo como


foi o lento processo de retomada cristã dos territórios que haviam sido conquistados pelos
mouros na Península Ibérica. Foram quase oito séculos de forte presença islâmica nos
territórios que hoje correspondem a Portugal e a Espanha (711 a 1492).
Como já dito anteriormente, a História da humanidade é resultado de processos
contínuos interligados, Eric Wolf (1999) destaca que é dever do historiador, compreender
que a sociedade possui um total de processos múltiplos que são interconectados, e se
forem compreendidos isoladamente empobrecem o entendimento histórico. Por muitos
anos, permaneceu a ideia de que a História ocidental era o centro, e de que esta poderia
ser compreendida por si só, no entanto, ela só é compreendida de uma maneira ampla se
percebermos as conexões existentes entre as culturas.
O tema desse tópico e resultado desses processos, é decorrência da rivalidade en-
tre cristãos e mulçumanos que levaram a conquista de Constantinopla na parte oriental e a
forte influência da Igreja Católica na parte ocidental. É durante esse contexto que acontece
o processo de “Reconquista da Península Ibérica” ou também denominada a “Retomada
Cristã”.
A Península Ibérica está localizada no continente europeu, e está dividida por dois
territórios, a Espanha e Portugal, além disso, há também outras regiões como o principado
de Andorra e a Gibraltar, pertencente à ordem britânica.

UNIDADE II O Oriente 40
O conflito opôs cristãos e mulçumanos em uma disputa que perdurou por séculos
e modificou parte da estrutura política, econômica e social dessa região. Mas por que esse
território foi alvo de disputas entre esses dois povos? O que havia de tão importante na Pe-
nínsula Ibérica? Para responder essas perguntas, precisamos realizar uma breve reflexão
sobre a origem dessa região. Estudiosos afirmam que a Península Ibérica chegou a ser
povoada até 10 mil anos atrás, os nômades que viviam nesse espaço compartilhavam da
agricultura de subsistência, além da domesticação de animais. No entanto, é a partir do
século III a.c, que o poderoso Império Romano invade a região e domina os povos celtas e
iberos presentes. De acordo com Nilsa Areán García (2006).
No ano de 210 a. C., iniciou-se a colonização da Península Ibérica como em-
preendimento da expansão do Império Romano, que inicialmente, se deteve
no litoral mediterrâneo principalmente visando a estabelecer o domínio de
cidades de colonização grega e fenícia. Posteriormente, de 197 a 133 a. C.,
durante o Império de Augusto, houve uma grande investida em direção ao
interior da Península com sua quase total incorporação ao Império, ficando
apenas o extremo norte povoado pelos bascos e cántabros, e extremo no-
roeste, povoado pelos galaicos à margem imperial. Segundo Bassetto (2001,
p. 102), somente em 19 d.C. os povos do norte e noroeste foram romaniza-
dos, ainda que Estrabão, em sua Geografia (29 a. C.), afirme que estes povos
caracterizavam-se pela “brutalidade e selvageria”. (GARCÍA, 2009, p. 26).

Os romanos controlaram as fronteiras da Península Ibérica por quase sete séculos


e as práticas fundidas nesse território influenciaram grande parte da economia do mundo
Medieval e Moderno, como por exemplo a rota marítima e o comércio local, a construção
de estradas, vias e alamedas que ligavam os territórios, além da fusão do latim nas regiões
da Espanha e Portugal.
Como já discutido no primeiro tópico dessa unidade, a partir do século VIII, os
mulçumanos estavam empenhados cada vez mais em expandir os seus domínios políticos
e econômicos na Europa. Após a morte de Maomé, os Árabes focaram seus esforços no
norte da África, continente próximo a Península Ibérica, em 711 o líder do Império Islâmico
Tarik ibn-Zyiad, junto com o seu exército marchou até o estreito de Gibraltar e invadiu a
Península. O exército cristão, que naquele período era formado por povos germânicos
convertidos, foi derrotado e a partir desse momento, por longos oito séculos, uma série de
conflitos e guerras de ordem religiosa e política aconteceram.
No entanto a resposta dos Visigodos ( os povos germânicos que viviam no local) foi
de certa forma rápida, sete anos após a derrota dos cristãos, Pelágio, chefe dos Visigodos,
reuniu parte do exército que encontrava-se isolados nas montanhas, dando início a uma
nova empreitada em busca da conquista de parte das terras que foram conquistadas pelos
mouros. Essa disputa ficou conhecida como “Batalha de Covadonga” e quase vinte anos

UNIDADE II O Oriente 41
após o conflito, o território próximo ao rio Douro, voltou a pertencer mais uma vez aos
cristãos. É importante destacar que esse conflito refere-se apenas a uma parte das terras
dominadas pelos Árabes, ao estudar sobre esse império precisamos compreender que
as suas forças são cada vez mais pujantes e por onde passavam iam controlando esses
territórios por meio da força.
Para compreender melhor o quadro desses conflitos, listamos um quadro com os
acontecimentos mais marcantes desse processo de reconquista da Península Ibérica.

Quadro 1: Linha temporal da Reconquista Ibérica


Ano Acontecimento Histórico
711 O mulçumanos invadem a Península Ibérica.
Pelágio, chefe dos Visigodos, avança sobre o exército dos
718
Mouros dando início ao processo de reconquista da Península.
Afonso I lidera o ataque à região da Galiza, antes pertencente aos
750
Árabes.
Acontece a “Batalha de Burbia”, onde os mouros conquistaram parte
791
da região da Galiza. O conflito foi liderado por Emir Hixam I.
Mais um conflito na Península, dessa vez, vitória dos povos cristãos.
930-950 A “Batalha de Simancas”, é marcada pela presença do
imperador Ramiro II, que vence o líder árabe Abd al- Rahman III.
O filho do Imperador Ramiro II, é derrotado pelos mouros na “Bata-
981 lha de Rueda” e o reino é obrigado a pagar tributos ao Califado de
Córdova, localizado no norte da África.
Afonso I do reino de Aragão, conquista o território de
1118
Saragoça, atualmente um município da Espanha.
Com apoio da Segunda Cruzada, o rei D. Afonso Henrique recon-
1147
quista a cidade de Lisboa no episódio chamado “Cerco de Lisboa”
Acontece a “Batalha de Navas de Tolosa”, conflito que reuniu líderes
1212 da igreja católica e os reinos de Portugal, Leão e Espanha derrotan-
do o Califado Almóada.
A cidade de Sevilha, até então uma das poucas províncias ainda sob
1252 domínio dos Mouros é reconquistada pelos espanhóis sob a lideran-
ça de Fernando III de Castela
Após um longo período de conflitos, portugueses e espanhóis vol-
1340 tam a controlar parte do reino de Granada. A disputa ficou conhecida
como “Batalha do Salado”.
Início da criação do estado moderno da Espanha, com o casamento
1469
de Isabel, de Castela, e o príncipe Fernando, de Aragão
1482-1492 Conquista total do reino de Granada.
Inicia-se o período das Grandes navegações e descobertas
1493
marítimas por parte de Portugal e Espanha..
Fonte: adaptado pelo autor.

UNIDADE II O Oriente 42
Como podemos observar, o processo de reconquista da Península Ibérica foi mo-
tivado por dois pontos centrais: o primeiro de cunho religioso e o segundo político. Havia
uma preocupação em expandir e reconquistar os territórios que já tinham sido de domínios
da Igreja Católica, é nesse quadro que temos o apogeu das Cruzadas. Quanto mais terras,
mais riquezas, mais poder e maior a influência religiosa. Outro fato que merece destaque,
os moradores dos reinos que antes pertenciam aos Mouros e depois passou a ser controla-
do pelos povos cristãos, tiveram duas opções: ou aceitavam a fé católica ou eram expulsos
da região.

SAIBA MAIS
A reconquista da Península Ibérica foi possível através do movimento militar religioso da
Igreja Católica, na qual chamamos de Cruzadas. Ela teve início em 1095 após o Concí-
lio de Clermont pelo Papa Urbano II, no qual prometia a todos os fiéis a salvação para
aqueles que lutassem em favor da Igreja. A tomada de Jerusalém em 1099 foi um dos
maiores feitos desse movimento.

Fonte: MARCHON, B.; KIEFFER, J.-F. As grandes religiões do mundo. São Paulo: Paulinas, 1995.

REFLITA
De acordo com o que foi discutido nessa unidade, como podemos refletir sobre a figura
de Allah (Alá) no Islamismo?
“Também grafado como al – Llah ou Allah: Deus único dos muçulmanos, sendo o mes-
mo de judeus e de cristãos que, de acordo com a crença muçulmana, revelou-se para
Muhammad (por volta do ano 610. Para o Islã, Alá está acima da imaginação e da con-
cepção humana, sendo proibida a sua representação”. (COSTA, 2006, p.6).

UNIDADE II O Oriente 43
CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como dito na introdução desta unidade, discutimos uma série de aspectos da Idade
Média que estão conectados historicamente. É preciso compreender que cada território,
por mais que apresentasse a sua própria cultura, ao entrar em contato com outros povos
também absorveu essas características desses. Temos como exemplo a expansão do isla-
mismo, que ao passar do tempo foi agregando cada vez mais fiéis e as cidades que por ora
foram de domínios dos cristãos e depois dos mouros.

UNIDADE II O Oriente 44
LEITURA COMPLEMENTAR

AS GRANDES RELIGIÕES DO MUNDO

Nesse livro os autores contextualizam historicamente as varias religiões do mun-


do, como o cristianismo e o islamismo pelo viés de categorias de diferentes disciplinas(
sociologia, antropologia, literatura) . Compreendendo esses fenômenos religiosos através
da luz de alguns conceitos desenvolvidos por cientistas da religião.
Fonte: MARCHON, B.; KIEFFER, J.-[Link] grandes religiões do mundo.São Paulo: Paulinas, 1995.

Disponível em:
[Link]
As%20grandes%20religi%C3%B5es%20do%[Link]

UNIDADE II O Oriente 45
MATERIAL COMPLEMENTAR

LIVRO
Título: História Do Império Bizantino
Autor: Mario Curtis Giordani
Editora: Vozes, 2001
Nessa obra de grande importância para os estudos da história
Medieval, Mario Curtis Giordani, o autor apresenta as principais
características do Império Bizantino e a influência que o mesmo
exerce até os dias de hoje, principalmente aos povos do leste
europeu. Destaque para a análise do Código Justiniano e do
processo de conquista da cidade de Constantinopla .

FILME/VÍDEO
Título: Cruzada
Ano: 2005
Sinopse: O épico protagonizado por Orlando Bloom narra as
aventuras do ferreiro Balian e seu pai Baron Godfrey, na primeira
cruzada organizada pela Igreja Católica, entre os séculos XI e XII.
A conquista da cidade de Jerusalém é retratada nesse conflito
que conta com elenco de peso, como os atores Eva Green, Liam
Neeson, Jeremy Irons e David Thewlis.

WEB

O que você precisa saber sobre o Império otomano.


Nessa reportagem da revista Galileu do grupo Globo, o Império Otomano é apresen-
tado desde a sua origem no século XIII e suas conquistas territoriais, até a sua derrocada
no pós Primeira Guerra Mundial.

Fonte: PETERSEM Tomas. O que você precisa saber sobre o Império Otomano. Revista Galileu.

Novembro de 2019.

Disponível em:
[Link]
-[Link]
Acesso em: 25 de agosto de 2020.

UNIDADE II O Oriente 46
UNIDADE III
O Saber Medieval
Professor Doutor João Paulo Pacheco Rodrigues

Plano de Estudo:
● A Escolástica e as Universidades;
● A produção e a conservação do saber.

Objetivos da Aprendizagem:
● Analisar o surgimento das primeiras universidade da Idade Média;
● Examinar a obra de São Tomaz de Aquino;
● Compreender a relação entre fé e filosofia nos estudos de Santo Agostinho e da
escolástica.

47
INTRODUÇÃO

Caro aluno e aluna, neste capítulo vamos discutir um dos aspectos mais importan-
tes da Idade Média e que derruba por terra o mito de que esse período das trevas, pois foi
durante essa era que as grandes universidades surgiram na Europa.

UNIDADE III O Saber Medieval 48


1. A ESCOLÁSTICA E AS UNIVERSIDADES

As universidades na Idade Média foram em parte, uma marca da Igreja e foi à


base do conhecimento e do ensino que temos até o dia de hoje. Foi à época das grandes
construções, catedrais e cruzadas e todas essas eram argumentadas pelo amor de Deus.
As Catedrais eram construídas para o louvor a Deus, as cruzadas para o combate em favor
de Deus e a universidade era a busca do saber e ensinamentos de Cristo.
É durante a Idade Média que surge um dos maiores contribuintes intelectuais para
o mundo: o sistema universitário No seio da Igreja Católica nasceu uma das primeiras
universidades do mundo por volta do século XII, no meio de uma agitação intelectual.
As instituições que a Idade Média nos legou são de um valor maior e mais im-
perecível do que suas catedrais. E a universidade é nitidamente uma institui-
ção medieval – tanto quanto a monarquia constitucional, ou os parlamentos,
ou o julgamento por meio do júri. As universidades e os produtos imediatos
das suas atividades podem ser afirmados, constituem a grande realização
da Idade Média na esfera intelectual. Sua organização, suas tradições, seus
estudos e seus exercícios influenciaram o progresso e o desenvolvimento
intelectual da Europa mais poderosamente, ou (talvez devesse ser dito) mais
exclusivamente, do que qualquer escola, com toda a probabilidade, jamais
fará novamente. (RASHDALL, 1952, p.3)

De acordo com Le Goff (1977) elas nasceram próximas das catedrais e mosteiros,
pois em cada um desses tinha ao lado um colégio e esses ao passar dos anos foram se
transformando em pequenos centros de estudos, recebendo o apoio de autoridades locais.
Como por exemplo, a Universidade de Montpellier na França que fica ao lado da fachada
da Catedral.

UNIDADE III O Saber Medieval 49


A primeira universidade foi a de Bolonha, fundada em 1158 na Itália, que teve a
sua origem da fusão da escola episcopal com a escola monacal camaldulense de São
Félix, onde estudavam profundamente o direito. No mesmo ano também foi fundada a
Universidade de Sorbonne em Paris.
No século XIII o número de estudantes matriculados na universidade italiana já
passava de dez mil e reunia grupos étnicos distintos, como além dos italianos, os mouros e
espanhóis. “Em Bolonha, o sistema de organização e de ensino dos Estudos Gerais segue
outros moldes para atender anseios municipais, carente de juristas e de administradores”
(BOHER, 2012, p.3).
Já na universidade francesa formaram grandes pesquisadores, como Tomás de
Aquino, responsável pela “escolástica” no qual veremos a seguir.
No século XII, as escolas em Paris já alcançavam um extraordinário desen-
volvimento. As Escolas de Artes Liberais e as de Teologia se agruparam às
Escolas de Direito e de Medicina na região da Île de la Cité, nascendo assim
a Universidade de Paris na França (1150), com seus renomados mestres
(Guillaume de Champeaux, Abélard, Gilbert de la Porrée, Petrus Lombardus
e muitos outros), que atraíam estudantes de todas as partes do país e das
regiões próximas. Nesse mesmo século, surgiu, ainda, a universidade de Mo-
dena (1175) na Itália. (SIMÕES. 2013, p. 136).

Na Inglaterra, a conceituada Universidade de Oxford teve sua gênese sob os olhos


do Papa Inocêncio IV, ainda no século XII. Os alunos ingleses frequentavam a
Universidade de Paris, contrário dessa ideia, o rei Henrique II da Inglaterra os proibiu.
O núcleo de pesquisa de Oxford rapidamente se expandiu e em 1167 estava
estabelecida como um grande centro de conhecimento.

O primeiro sentimento que se experimenta quando se visita Oxford é um res-


peito involuntário pela antiguidade que fundou estabelecimentos tão imensos
a fim de facilitar o desenvolvimento do espírito humano, e pelas instituições
políticas do povo que as preservou intactas através dos tempos. (...) As fa-
culdades, cujo conjunto constitui a Universidade de Oxford, foram fundadas
originalmente para que nelas se pudesse adquirir toda a instrução que com-
portavam os séculos que as viram nascer. Foram ricamente dotadas no ob-
jetivo de nelas fixar os melhores mestres e oferecer gratuitamente a melhor
educação possível. Tal é, evidentemente, o objetivo e o espírito dessas fun-
ções, várias das quais remontam aos séculos XIII e XIV. Segundo o costume
dessa época, que tinha poucos conhecimentos e prezava apenas a riqueza
territorial, uma imensa extensão de terreno foi concedida às faculdades como
propriedade inalienável (TOCQUEVILE, 2000, p. 51).

Posteriormente inicia-se um processo de expansão dessas universidades para o


leste europeu, onde são criadas as universidades de: Lérida (1300) na Espanha, a de
Roma (1303) na Itália, a de Avignon (1303) e a de Orléans (1305) na França, a de Perugia

UNIDADE III O Saber Medieval 50


(1308) em Portugal, a de Cambridge (1318) na Inglaterra, a de Florença (1321) na Itália, a
de Grenoble na França (1339), a de Pisa (1343) na Itália, a de Praga (1348) na República
Tcheca, a de Pávia (1361) na Itália, a de Jagiellonian (1364) na Cracóvia na Polônia, a de
Viena (1365) na Áustria, a de Heidelberg (1367) na Alemanha, a de Ferrara (1391) na Itália
(SIMÕES, 2013, p 137).
Thomas Ransom Giles destaca que:
É nas universidades que o acervo dos conhecimentos se organiza, se con-
serva e se transmite. A universidade é o verdadeiro centro da atividade in-
telectual onde o processo educativo progride mais do que em qualquer ou-
tra instituição. A função da universidade como casa de liberdade intelectual,
numa época altamente desconfiada de qualquer suspeita de heresia, é de
máxima importância. É o único lugar onde assuntos proibidos ou suspeitos
podem ser discutidos com certa impunidade. (GILES, 1987, p.63).

No século seguinte, o desenvolvimento universitário continuou com a criação das


universidades alemãs nas cidades de Wurzburg (1402) de Leipzig (1409) e Rostock (1419),
ainda na Itália, criando a universidade de Turim e na Escócia o centro de estudos de St.
Andrews e de Glasgow.
Desde a Idade Média, as universidades eram tidas como locais de grandes prestí-
gios, “a universidade era uma escola de fundação pontifícia cujos membros, organizados
em corporações ou não, gozavam de certos privilégios eclesiásticos” (ROSSATO, 2005,
p.19).
Giles (1987) ressalta que para ingressar ao campo universitário o aluno deveria
passar por um processo rigoroso e atender algumas necessidades, como por exemplo, ser
maior de 21 anos, ter no mínimo seis anos dedicados a estudos e por último ser aprovado
em um debate que julgaria se o aluno estava apto para cursar bacharelado e ou licenciatura.
Com o passar dos anos as universidades vão lentamente se afastando os mu-
ros teológicos da Igreja, esse é um processo devagar, que vai culminar apenas na Idade
Moderna, porém a França é umas das primeiras a dar indícios dessa relação, quando a
colação de grau passa a funcionar como uma licença para lecionar, ela passa a ter uma
autonomia, e isso anteriormente só era cedido pela Igreja.
Quanto a forma como o ensino era transmitido, no princípio era através da fala e
reprodução, os livros eram lidos pelos professores e os alunos os reproduziam, uma vez
que o custo desses eram muito altos.
A educação universitária, a princípio, era totalmente livresca, feita por uma
seleção muito limitada de livros em cada campo, livros que eram aceitos
como se suas palavras fossem a absoluta e última verdade. Era dirigida mui-
to mais para o domínio do poder dos discursos formais, especialmente ar-
gumentação, do que para a aquisição de conhecimento ou para a busca da
verdade no sentido mais amplo, ou mesmo para familiarizar o estudante com
aquelas fontes literárias do saber que, embora ao seu alcance, estavam fora
da aprovação eclesiástica ortodoxa (MONROE, 1939, p. 133).

UNIDADE III O Saber Medieval 51


Nas aulas do curso de direito, havia um espaço para o debate, professor e aluno se
organizavam e apresentavam posicionamentos ideológicos de natureza jurídica, na qual era
fundamental dominar a arte da retórica. “O importante nesse processo de materialização de
suas ideias é que elas foram tão reais e corresponderam, significativamente, aos interesses
dos homens e que muitas prevalecem ainda hoje” (OLIVEIRA, 2007, 118).
Outro fator que merece atenção no que tange às universidades na Idade Média
foram os conflitos de ordem política entre realeza e papado que vão interferir diretamente
nos campos universitários. Ainda no século XIII, ou seja, na Baixa Idade Média, essas insti-
tuições enxergavam as universidades como centros essenciais de apoio político e cultural,
como já dito anteriormente, existiam uma fermentação artística e científica que acabava se
disseminando por grande parte da sociedade.
Assim, eram publicadas leis e bulas papais na finalidade de deliberar sobre o
funcionamento e organização das mesmas. Temos como exemplo a Authentica Habita,
de Frederico Barba Roxa, de 1158, e a bula de Gregório IX intitulada Parens scientiarum
universitas, de 1231. “Ambas foram promulgadas para proteger a vida e os interesses dos
estudantes e mestres e para organizar a vida acadêmica” (OLIVEIRA, 2007, 118).
Enquanto as universidades estiverem atreladas aos pensamentos católicos, surgiu
nesses centros de pesquisa uma corrente filosófica responsável por um método de pensa-
mento crítico. A “escolástica”. Tanto a ciência moderna, quanto os postulados filosóficos que
hoje permeiam a sociedade são heranças que nós temos na Idade Média e do pensamento
dos escolásticos.
O que foi a Escolástica? Em linhas gerais, chamava-se de Escolástica todo mé-
todo de pensamento crítico e os trabalhos feitos nas universidades medievais da Europa
fundadas pela Igreja, em que eram conjunto do pensamento e do saber dos intelectuais da
época. Acima de tudo o uso da razão como ferramenta indispensável no que tange tanto a
teologia como a filosofia.
A escolástica foi um método de pensamento e de ensino que surgiu e se
formou nas escolas medievais e se plasmou de modo inexcedível nas univer-
sidades do século XIII, máxime através do magistério e das obras de Santo
Tomás de Aquino. O termo escolástica, porém, significa ainda o conjunto das
doutrinas literárias, filosóficas, jurídicas, médicas e teológicas, e mais outras
científicas, que se elaboraram e corporificam no ensino das escolas univer-
sitárias do século XII ao século XV, pois não nos cabe considerar a Segunda
Escolástica que floresceu na época do Renascimento (NUNES, 1979, p. 244).

Então se pode dizer que a Escolástica foi basicamente o movimento nas universi-
dades europeias medievais que buscavam racionalizar a fé. Para entendermos bem essa
questão, temos que mergulhar na História e entender que desde a era da “Patrística”, ou

UNIDADE III O Saber Medieval 52


seja, os pais da igreja que fundamentaram toda a teologia cristã nos primeiros séculos, e
que teve como maior expoente Santo Agostinho, sempre houve no ambiente católico uma
divergência muito grande entre questões teológicas e os debates sobre como fundamentar
a doutrina cristã.
De acordo com Dario Antiseri (2003) o principal objetivo que estabeleceu a “Esco-
lástica” nas universidades de toda a Europa era justamente provar a existência de Deus
e os dogmas da Igreja através da síntese, ou seja, a união entre a Filosofia ou razão e a
Teologia ou o estudo da fé.
Neste cenário de disputas intelectuais que nós temos Santo Anselmo da Cantuária,
um monge Agostiniano que é considerado o primeiro grande pensador escolástico no final
do século XI, com a sua tentativa de provar Deus através do argumento ontológico, que diz
que a mera possibilidade de conseguirmos conceber um ser tão perfeito, quanto Deus isso
por si só já é a prova de que ele exista na realidade.
Posteriormente, no século XII, a Europa começa a vivenciar um impacto cultural
muito grande com a introdução das obras de Aristóteles trazidas e traduzidas por árabes e
muçulmanos que estavam instalados na Península Ibérica, como já discutido no capítulo
dois. E assim que a filosofia platônica aliada aos escritos de Agostinho deixa de ser a
centralidade de todo o pensamento cristão e a filosofia aristotélica passa a ser a nova fonte
de fundamentação diante da teologia católica.
Então essa união da fé e da razão (a fé a serviço da razão e a razão a serviço da
fé) e nesse caso centrada nas obras de Aristóteles, foi o que deu início ao que nós podemos
chamar de o auge da tradição “Escolástica” no século XIII, principalmente com São Tomás
de Aquino, que sem dúvidas foi o maior expoente de toda essa metodologia.
Uma dupla condição domina o desenvolvimento da filosofia tomista: a distin-
ção entre razão e fé, e a necessidade de sua concordância. Todo o domínio
da filosofia pertence exclusivamente à razão; isso significa que a filosofia
deve admitir apenas o que é acessível à luz natural e demonstrável apenas
por seus recursos. A teologia baseia-se, ao contrário, na revelação, isto é,
afinal de contas, na autoridade de Deus (GILSON, 1995, p. 655).

Sua influência é tamanha, que dividimos os escolásticos em pré e pós-tomista. São


Tomás é considerado o maior pensador escolástico, pois interpretou as noções aristotélicas
que haviam acabado de chegar à Europa e com isso criou uma metodologia a serviço da
fé cristã.
Para Aquino, basta olharmos a criação para vermos que Deus existe e que
o mundo e o homem são imagens de Deus. Porque, ao observarmos o mun-
do, vemos todos os tipos de efeitos para os quais devemos supor que haja
uma causa. E essa causa supõe, necessariamente, uma “causa primeira”,
começo e fim de todo o movimento. É um universo finito, limitado e ordenado
pela “causa primeira”, pois sua ausência levaria a uma proliferação infinita de
causas, à desordem, ao caos. (ALMEIDA, 2005, p. 25).

UNIDADE III O Saber Medieval 53


A grande contribuição de São Tomás de Aquino foi justamente ter conseguido se
utilizar a refinada filosofia grega em Aristóteles para fazer da doutrina católica uma doutrina
racional, uma doutrina fundamentada não somente na fé, mas também na razão, para
aquele período.
A Igreja precisava de alguém que compreendesse a filosofia de Aristóteles e mos-
trasse que ela não estava em desacordo com a fé cristã, com a doutrina católica, mas sim
que o aristotelismo era um importante instrumento para que as pessoas pudessem entender
ainda mais a fé e com isso se tornarem um instrumento para que pudessem compreender
a revelação de Deus que está no evangelho, nas sagradas escrituras.
A Suma teológica de Tomás de Aquino, texto de fins pedagógicos, um manual
para as novas universidades, marca profundamente até hoje a concepção de
conhecimento, e a pedagogia curricular de nossas universidades, principal-
mente o campo da educação, herdeira direta e persistente da educação cris-
tã. A Suma é perfeito exemplo do pensamento e da dialética escolásticos: não
admite contradição, é um sistema de argumentação que parte de verdades
indemonstráveis, princípios, e por intermédio de perguntas e respostas divide
os argumentos por meio da distinção de oposições, e, como conclusão, afir-
ma uma unidade, uma resposta única e inequívoca. (ALMEIDA, 2005, p.25)

Através da “Suma teológica”, obra escrita entre 1265 a 1273 em que Aquino dialoga
com questões referentes a Deus, natureza, filosofia e o ser humano os escritos de Tomás
de Aquino “são indiciários tanto de um rompimento de uma tradição agostiniana na Idade
Média central quanto de uma aproximação com os escritos de Aristóteles” (FONTOURA,
2016, p.72).
Em sua dissertação de mestrado, Lucia Sant’Anna elucida a importância desse
conjunto de obras com a necessidade de uma nova formação acadêmica.
Sto. Tomás percebe a necessidade de escrever uma Suma de Teologia quan-
do, em Orvieto, ocupa a função de leitor conventual. O leitor conventual era
responsável pela formação dos frades que não haviam tido oportunidade de
estudar na universidade. Essa formação tinha como objetivo preparar melhor
os frades para as suas duas principais tarefas: pregar e ouvir confissões.
Os leitores conventuais usavam para a instrução dos frades uma série de
manuais de pastoral do Santo. Tomás percebe a necessidade de escrever
uma Suma de Teologia quando, em Orvieto, ocupa a função de leitor conven-
tual. O leitor conventual era responsável pela formação dos frades que não
haviam tido oportunidade de estudar na universidade. Essa formação tinha
como objetivo preparar melhor os frades para as suas duas principais tarefas:
pregar e ouvir confissões. (SANT’ANNA, 2008, p. 20).

Aquino se torna não apenas o grande nome da “Escolástica”, mas ele se torna
também uma referência da filosofia e teologia na Idade Média. Pautada em parâmetros
criados para o agir, para o pensar e como compreender a sociedade naquele tempo em
forma de diálogos.
E como que se dá a relação entre fé e razão, entre filosofia e teologia no pensa-
mento de São Tomás de Aquino? O teólogo, ao valorizar a razão, equilibra a filosofia junto

UNIDADE III O Saber Medieval 54


com a teologia. Assim, para entender o homem e o mundo, é necessário se ater a Deus. O
ser divino seja na filosofia ou na teologia deve ser o principal de observação, na qual o ho-
mem encontraria as respostas na sagrada escritura. A razão nesse pensamento funcionaria
como um mecanismo para preparar as pessoas, para sim elas terem fé e crer em Deus.
Nesse âmbito, filosofia e teologia têm as suas diferenças, pois, enquanto a primeira
vai nos conceder um conhecimento imperfeito sobre as coisas, a segunda será responsável
por revelar, esclarecer esse conhecimento.
Para São Tomás de Aquino, a fé qualifica a razão, essa poderia até possuir conheci-
mento sobre as coisas sobre o homem, mas é uma noção imperfeita na qual é aperfeiçoada
pela fé, pelo dom divino, através da graça. Assim, a natureza racional do homem agiria de
certa forma mais equilibrada se a fé conduzisse a sua vida. Aquino defendia que o ponto
de partida para esse diálogo entre fé e razão, seria por meio das “verdades racionais” uma
vez que seria ele o elo que ligaria os cristãos e os pagãos que deveriam ser convertidos, a
razão seria o ponto comum entre esses dois grupos.

Figura 1: São Thomaz de Aquino, retratado por Gentile da Fabriano.

Fonte: [Link]

Outros grandes pensadores do movimento escolásticos foram Alberto Magno,


professor de São Tomás de Aquino, Roger Bacon um dos maiores cientistas de todos os
tempos, São Boaventura, Pedro Abelardo, Duns Escoto, grande parte destes que viveram
no século XIII, que com suas obras revolucionaram a filosofia e a teologia no mundo oci-
dental, de uma forma nunca vista até então.

UNIDADE III O Saber Medieval 55


Quanto ao método utilizado pelos “escolásticos” como era sua forma de produção
de conhecimento? O que os diferenciava?
Na Idade Média se seguia um padrão “dialético” a fim de se obter conhecimento,
era então colocada uma questão a ser tratada e o autor, ou aquela pessoa que iria debater,
criava uma consideração, um argumento que deveria ser confrontado, por último o pro-
fessor escolástico fazia uma síntese do que analisava como verdadeiro, como correto, ao
contrastar argumentos contrários debatidos.
O que traz uma verdadeira unidade à Escolástica é o seu método: o mestre
escolástico deve extrair do texto canônico – que traz a Escolástica o princípio
de Autoridade – a matéria para um problema, e a partir daí desenvolvê-lo
em relação a um interlocutor imaginário pronto a lhe opor objeções. A base
do método é o desejo de explicitar tudo, esgotando sistematicamente todas
as possibilidades. O método escolástico desenvolve-se em torno de alguns
pontos essenciais, entre eles a ‘precisão vocabular’ e a ‘Dialética’ – conjunto
de operações que fazem do objeto de saber um problema que será exposto e
sustentado contra o interlocutor real ou imaginário (BARROS, 2012, p. 233).

Esse era o método escolástico de aprendizagem, na qual as conclusões eram


retiradas sempre através do debate de ideias, que nas escolas medievais eram sempre
regidas pelo bom uso da lógica formal através de um mestre que ministrava os debates dos
seus alunos.
A Escolástica fundamenta-se, neste aspecto em particular, no ‘princípio de
autoridade’: será uma ciência do comentário, e, por mais magistrais e criati-
vas que sejam as elaborações produzidas por seus mestres, existirá sempre
uma série de textos canônicos dos quais os mestres escolásticos deverão
extrair toda a exposição de seus pensamentos (BARROS, 2012, p. 233).

Valemos lembrar que há quase mil anos atrás nós não tínhamos os mesmos recur-
sos de ensino que nós temos hoje, então tem que se levar em conta a dificuldade de cada
época, nesse período, o estudo era voltado para a oratória, da dialética, e da retórica.
A diferenciação que geralmente se faz entre a filosofia patrística, ou seja, dos pa-
dres dos primeiros séculos do cristianismo que veremos a seguir, pela tradição Escolástica,
que começou pelo século X está marcada, principalmente, na forma como os dois lidaram
com a filosofia grega.
Os “Patrísticos” e os primeiros escolásticos anteriores a São Tomás de Aquino
cujo pensamento pertence a uma divisão majoritariamente platônica, especialmente se
consideramos a figura de Agostinho o maior expoente da patrística, não admitiam que sob
nenhuma hipótese que a ciência fosse separada da teologia, pois na visão deles, razão e
fé estava sempre atrelada a outra, em alguns casos, os “Patrísticos”, preferiam dar valor
somente à fé em detrimento da razão.

UNIDADE III O Saber Medieval 56


Já com a introdução das obras de Aristóteles nas universidades europeias no final
do século XII, os escolásticos, começaram a adotar a concepção de teologia independente
da filosofia, embora eles concebessem que a filosofia estivesse a serviço da teologia, os
escolásticos afirmavam que a fé e a razão possuíam papéis distintos, porém complementa-
res, uma vez que levam a um só objetivo: compreender a Deus e a realidade por ele criada.
São Tomás de Aquino entende que o papel da razão, nesse caso é justamente de
demonstrar e explicar os mistérios revelados pela fé, e esse debate acerca da autonomia
ou não da fé sobre a razão se dá até o século XIV, quando o teólogo Guilherme de Ockham,
também do pensamento escolástico é considerado o precursor do racionalismo, do carte-
sianismo e do empirismo moderno concebe a separação entre razão e fé, adjunto com as
novas descobertas da Ciência Moderna.
Guilherme de Ockham (1290-1349) – franciscano que inicia seus estudos em
Oxford – representará a segunda força do pensamento escolástico no século
XIV. Na verdade, tal como observa Chaunu, ele “só penetra no interior do
aristotelismo para melhor o desmantelar” (CHAUNU, 1993, p.103). O nomina-
lismo que será introduzido por Ockham no pensamento escolástico, na ver-
dade destruindo-o ou desmantelando-o, traduz de certo modo a consciência
de um fracasso do antigo pensamento escolástico diante de um novo mundo
para o qual já não fornece as respostas. (BARROS, 2012, p. 238).

De acordo com Le Goff (1977), entre os séculos XIV e XV, a “Escolástica” começou
a perder espaço e consequentemente seguidores, pois esse período marcou as renovações
culturais na Europa, principalmente com advento do Renascentismo e o fim da Idade
Média.
No entanto, nessa época, que marcou também o início da contrarreforma
católica contra os protestantes carismáticos, vamos ter grandes obras de escolásticos
tardios que escreveram sobre importantes temas como o jusnaturalismo, além de tratado
sobre economia que forneceram as bases para o liberalismo austríaco.

UNIDADE III O Saber Medieval 57


2. A PRODUÇÃO E A CONSERVAÇÃO DO SABER

Até o presente momento, procuramos refletir como o conhecimento, a produção do


saber se desenvolveu durante a Idade Média, na primeira unidade focamos nos séculos XI
até o século XV, período que compreender a Baixa Idade Média, nessa época como já ex-
posto, a principal metodologia e produção de ensino foi influenciada pela “Escolástica”, no
entanto antes dela, havia outras ramificações dentro da Igreja que afirmavam a importância
da fé para compreensão do mundo humano. Nesse período, anterior a “escolástica”, temos
o surgimento dos “patrícios”, movimento filosófico empreendido pelos padres, que tinham
a finalidade de evangelizar os pagãos e converter aqueles que a Igreja considerava infiéis
para a fé cristã.
Mas o que foi a “Patrística”? No que esses padres se fundamentavam?
A “patrística” foi um movimento de transição da Antiguidade Clássica para a Idade
Média, na qual a filosofia dessa metodologia não é marcada por característica nem perten-
cente do período antigo, nem do medievo, ao menos da Alta Idade Média.
A Patrística, gênese da literatura cristã, representa a expressão da fé dos
denominados Santos Padres da Igreja, teólogos de excepcional saber e de
reconhecida santidade. Construtores da teologia católica e mestres da dou-
trina cristã floresceram entre os séculos 11 e VIII. Melchior Cano (2) assim os
caracteriza:
1. Ortodoxia doutrinária;
2. Santidade de vida;
3. Reconhecimento, ao menos indireto, por parte da Igreja;
4. Antiguidade. (SOUZA e FILHO, 1988, p.202).

UNIDADE III O Saber Medieval 58


Os adeptos a “patrística” tinham como finalidade dar continuidade as palavras de
Cristo presente na bíblia, ou seja, levar a palavra de Deus aos homens e nessa empreitada
eles utilizavam as escrituras sagradas como um instrumento muito poderoso, principalmen-
te as epístolas de Paulo e o evangelho de João.
Quando o cristianismo passou a ser a religião oficial do Império Romano ainda
no século IV com o decreto do Imperador Teodósio I, os cristãos ainda eram alvos de
perseguições e como era uma prática que estava crescendo, não havia seguidores em
alguns territórios europeus.
Vencido o paganismo (Edito de Constantino, 313) a Igreja concentra a sua
atividade nas próprias doutrinas. As heresias surgidas então, como o arianis-
mo, o maniqueísmo, o pelagianismo, o donatismo, o nestorianismo e outras,
ensejaram o despontar dos apologistas da fé no campo filosófico quanto no
teológico. Conquanto a filosofia patrística não tenha alcançado um corpo e
uno, desenvolveu-se amplamente no que concerne ao dogma, às questões
morais, ao fim do homem, às virtudes, à existência, à natureza e atributos de
Deus, sua relação com o mundo, à graça, à natureza da alma e suas faculda-
des. (SOUZA e FILHO, 1988, p. 203).

A principal dificuldade encontrada entre os “Patrísticos” foi difundir a fé católica


entre aqueles povos que já estavam acostumados com a filosofia e a cultura grega. Estes
já possuíam uma visão de mundo pautada na racionalidade. Então os padres equacio-
naram, ou seja, delimitaram a relação entre fé e razão, para assim poder converter essas
sociedades.
Ou seja, eles inseriram o evangelho, as escrituras bíblicas nesses grupos que para
eles eram totalmente novos, desconhecidos e por muitos visto como absurdas. Entre os
princípios introduzidos pelos “Patrísticos” está à criação do mundo, o pecado original,
o juízo final, a santíssima trindade e a ressurreição de Jesus.
Todas essas passagens tinham como principal fio condutor a figura de Deus, elas
eram explicadas através da fé, afastando-se da racionalidade e isso para os gregos princi-
palmente, era algo inaceitável. Havia então uma incompatibilidade de ideias, de visões de
mundo, da maneira como esses grupos enxergavam o papel do homem na sociedade.
De acordo com Claudio Moreschini (2008) a primeiro fase da “Patrística” foi formada
por padres apologistas, ou seja, aqueles que eram pagãos e se converteram ao cristianis-
mo e escreviam apologias, ou seja, defendia a fé de Cristo através de elogios e exaltação.
Nessa fase, a obra de Justino, mártir vai ser de grande importância a esses padres, uma
vez que ele narrava sua trajetória de vida e afirmava que a busca pela verdade só seria
alcançada após a sua conversão.

UNIDADE III O Saber Medieval 59


S. Justino (166), nascido em Naplusa na Galiléia, mártir. Escritor leigo, au-
tor de duas Apologias e do Diálogo com o judeu Trifão, é o mais destacado
apologista do século li. ‘“‘ “O cristianismo para ele não é, antes de tudo, uma
doutrina, porém, uma pessoa: o Verbo encarnado e crucificado em Jesus”
(SOUZA e FILHO, 1988, p. 205).

A segunda corrente afirmava que fé e razão eram conciliáveis e que cada uma
teria o seu campo de atuação. Por último, a terceira corrente afirmava que a fé traz as
verdades e a razão auxilia o seu entendimento. Importante destacar que os embates entre
fé e razão nunca cessaram durante a Idade Média, houve conflitos entre os dois, por isso
os “Patrísticos” vão se apoiar na filosofia de Platão para desvelar a relação entre religião e
racionalidade.
Os “Patrísticos” mergulharam nas filosofias do “Neoplatonismo”, escola fundada
no século III em Alexandria que no seu cerne era composto por argumentos metafísicos
e epistemológicos. Essa teoria era fundamentada nos escritos de Platão. Os principais
pensadores desse período foram Plotino e seu discípulo Porfírio, ambos no século III.
Os “Patrísticos” também exploraram a figura da Virgem Maria, para os seus devo-
tos, ela era a protetora, a mãe bondosa, a justiceira e defensora das minorias. Apesar de
existirem poucas passagens de sua vida na Bíblia, Maria, ao longo do tempo tornou-se um
personagem extremamente familiar e habituado na Igreja Católica. (RODRIGUES, 2012, p.
12).
O documento biográfico de santos “Legenda Áurea”, escrito no século XIII pelo fra-
de Jacopo de Varazze (2003), revela que Maria foi gerada da união de Joaquim, fazendeiro
e criador de ovelhas, natural de Nazaré, e Ana, filha de Nathan, um sacerdote que vivia em
Belém e tinha outras duas irmãs. Casaram-se prematuramente, o documento menciona
que constituíam um casal “justo” e seguidor dos mandamentos do Senhor, no entanto, não
conseguiam dar a luz a nenhum filho.
Após 20 anos de amargura e pedidos, Ana engravidou e deu à luz a uma filha, que
recebeu o nome de Maria. Ao completar três anos, a menina foi levada ao templo, onde, de
acordo com a promessa dos pais, viveria a serviço do divino. A Virgem foi ali educada e só
retornou à casa dos pais aos 14 anos para se casar com José.
Segundo a historiadora Edilece Souza Couto (2004), até esse período são pou-
quíssimos os registros sobre a vida de Maria. Sua biografia torna-se mais completa após
o nascimento de Jesus Cristo, nas passagens bíblicas. O historiador Oscar Calavia Saez
(2008) ressalta a existência de diversos fatores que contribuíram para transformar a figura
de Nossa Senhora de uma vaga referência evangélica a um personagem eximiamente fami-
liar e divino de modo equivalente ao seu filho como, por exemplo, o dogma da Maternidade

UNIDADE III O Saber Medieval 60


Divina, i proclamado pela Igreja Católica no Concílio de Éfeso em 431 considerando Maria
a “Mãe de Deus”. O Dogma sobre a Virgindade perpétua enveredou-se nas falas do
Bispo Ambrósio de Milão, por volta do ano 391 ou 392, no documento “De Institutione
Virginis”, que se dedica em defender a virgindade perpétua de Nossa Senhora
(RODRIGUES, 2012, p. 23).
Sobre essa temática, os cristãos acreditam que Maria era pura quando concebeu
Jesus, mas apenas a Igreja Católica e os ortodoxos creem que ela ficou eternamente vir-
gem. Alguns setores do catolicismo ligam a ideia da sua pureza na tese do nascimento de
Cristo pela profecia de Isaías, presente no capítulo 7 da Bíblia Sagrada “Pois saibam que
Javé lhes dará um sinal: A jovem concebeu e dará à luz um filho, e o chamará pelo nome de
Emanuel”. O terceiro dogma refere-se à Imaculada Conceição, em 8 de dezembro de 1854,
publicada pelo Papa Pio IX
Que a doutrina que defende que a beatíssima Virgem Maria foi preservada de
toda a mancha do pecado original desde o primeiro instante da sua concep-
ção, por singular graça de privilégio de Deus omnipotente e em atenção aos
merecimentos de Jesus Cristo salvador do gênero humano, foi revelada por
Deus e que, por isso deve ser admitida com fé firme e constante por todos
os fiéis “1.

Por meio dessas bulas dogmáticas, Maria paulatinamente passa da condição de


Serva do Senhor conforme é mencionada em Lucas, capítulo 1 versículo 38-48, para Mãe
de Deus e Mãe da Igreja.
Assim, consideramos que por quase sete séculos, os “Patrísticos” foram responsá-
veis por firmar a fé católica, fortalecer os ritos cristãos e difundir os dogmas do cristianismo
pela Europa. É nesse contexto, que vamos ter o desenvolvimento do maior expoente da
“Patrística”, que foi Santo Agostinho.
Agostinho de Hipona, nascido em Tagaste, no norte da África no ano de 354 é
considerado o mais dos “Patrísticos” e responsável por refletir sobre a história do homem e
a sua relação com a Igreja.
Le Goff (1977) aponta que Agostinho era um homem inquieto e estava sempre
em busca de um conforto para a alma, de uma verdade que ele pudesse abraçar e que
pudesse mostrar o caminho certo para um caminho de uma vida tranquila. E através dessa
jornada, nesse caminho que ele percorre, encontra Cristo.
Agostinho iniciou seus estudos na própria Tagaste e, posteriormente, foi a
Madauro cursar gramática, com a intenção de formar-se em retórica, estudo
que poderia garantir a profissão de advogado ou seguir carreira burocrática,
mas devido à falta de dinheiro retornou à sua casa. Somente iria concluir

1Disponível em [Link]
Acesso no dia 27/08/2020.

UNIDADE III O Saber Medieval 61


sua formação em Cartago, com a ajuda financeira de um amigo da família,
Romaniano. Sua formação cultural se deu pelos autores latinos, estudando
principalmente Virgílio e Cícero, assim como os demais clássicos. (PIRATELI,
2003, p. 329).

Por longos anos, Agostinho se dedicou a estudar outras doutrinas, só que o seu
espírito inquieto teria feito com que ele questionasse todas essas dogmas, até a sua con-
versão. Para isso, inicialmente nós temos os esforços da sua mãe da Mônica ao tentar
converter o Agostinho ao cristianismo, Mônica era uma pessoa humilde, não era letrada,
simplesmente uma dona de casa trabalhadora que não tinha instrução mas que tinha a fé
fervorosa de uma verdadeira serva de Deus.
Mas isso não foi suficiente para converter Agostinho à fé cristã, pois o mesmo
não simpatizava com cristianismo. A princípio, começou a flertar com a filosofia quando
descobriu as obras do Cícero, principalmente o “Hortênsio” mostrou uma filosofia como
uma arte de viver típica do período Helenístico.
Após ter lido Hortênsio, de Cícero, - livro escrito em forma de diálogos, no
qual o pensador latino respondeu às dificuldades de Hortênsio com a filosofia
- o estudante Agostinho considerou ter passado por sua primeira “conversão”:
à Filosofia, despertando em sua alma, segundo seu próprio testemunho, o
“amor da sabedoria”. (PIRATELI, 2003, p. 329).

Posteriormente, o Santo Agostinho, foi se dedicando aos estudos do maniqueísmo,


que era uma doutrina em que afirmava que o bem e o mal são as únicas coisas existem
nesse mundo e que não apenas existem, elas constitui o nosso mundo, são princípios
ontológicos, estão no fundamento de todas as coisas.
O amadurecimento do próprio pensamento do autor, tanto em nível intelectual
como espiritual, através de sua maior compreensão do cristianismo, mostra
como em seu pensamento a ontologia e a ética se relacionam profundamen-
te. A compreensão do “ser” tanto da natureza humana como da realidade do
mundo fazem parte de uma mesma interrogação do pensar que redundam
diretamente na forma como o homem se comporta frente a seu mundo. A
interrogação ontológica e a interrogação ética em Agostinho estão absoluta-
mente implicadas, logo, a fundamentação do agir não pode ser reduzida a um
aspecto da realidade humana, precisa partir da relação do ser humano com a
totalidade desta realidade (VAHL, 2016, p.15).

Assim, na concepção Agostiniana, o pecado não seria fruto de um erro da vontade


humana, mas sim fruto do mal que é constitutivo desse nosso próprio mundo. Se o mal
assim como o bem, constitui o mundo e está presente em toda a nossa essência, então o
pecado faz parte do homem, ele estaria intrínseco na sociedade.
De acordo com Agostinho:
A defectibilidade da alma vem de seus atos e da pena que padece pelas di-
ficuldades - consequência dessa defectibilidade. Todo o mal se reduz a isso.
Ora, o agir ou o padecer não são substâncias. Portanto, a substância não é
um mal. [...] Por exemplo, [...] se alguém, repentinamente, fixasse de frente

UNIDADE III O Saber Medieval 62


o sol de meio-dia, seus olhos feridos pelos raios se ofuscariam. Serão por
acaso maus, por isso, o sol ou os olhos? De modo algum, porque eles são
substâncias. O mal está em mirar imprudentemente e no incômodo que se
segue. Esse desaparecerá, porém, depois de os olhos terem descansado e
se dirigido a uma luz conveniente (AGOSTINHO, 1992: 70-71).

Posteriormente, Agostinho encontra o Bispo Ambrósio, que naquele período era um


grande orador, e ao presenciar um dos sermões, durante a vigília da Páscoa, na cidade de
Milão, se converte à fé cristã no ano de 387.
Agostinho narra esse episódio na obra “Confissões”
Chegando a Milão, fui visitar o bispo Ambrósio, conhecido pelas suas quali-
dades em toda a terra e vosso piedoso servidor, cuja eloquência zelosamente
servia ao vosso povo “a fina flor do vosso trigo, a alegria do azeite de oliveira
e a sóbria embriaguez do vinho” (AGOSTINHO, 1999, p. 140).

Esse cristianismo é reverenciado nas epístolas de Paulo, quando Agostinho perce-


be que a conversão não é sim um ato íntimo mas sim um olhar para dentro de si, uma forma
de encontrar Jesus Cristo e as suas verdades.
Milão foi o ponto decisivo da conversão do futuro bispo de Hipona, o local
que, segundo o filósofo-teólogo, o “levou” a Deus. Sua conversão se deu
a partir de três situações: o encontro com o bispo Ambrósio; a adoção da
filosofia neoplatônica e a preferência pela leitura das cartas de São Paulo.
(PIRATELI, 2003, p. 330).

Assim como outros “Patrísticos” Santo Agostinho também foi influenciado pelo
Neoplatonismo, pela forma que as ideias platônicas coincidem com as do Evangelho, da
cristandade. Quando este começa a harmonizar as ideias filosóficas com as verdades da
Bíblia dá-se início ao que podemos denominar de filosofar na fé. É nesse momento, que
apesar dos esforços dos primeiros padres do movimento “Patrísticos”, a Igreja Católica
apresenta uma filosofia Cristã. Uma vez que para ele a fé é uma substância de vida e
de pensamento, ela não seria apenas um apetrecho que a pessoa deveria usar quando
convém, mas sim a fé seria a substância da vida do homem.
Santo Agostinho afirmava que era necessário crer para entender e entender para
crer. Assim a razão e fé são sim conciliáveis e dessa forma era possível vivenciar o mundo
e Deus . Nesse quadro, a razão continuava submissa à fé, ela seria um instrumento, que
vai servir para entender as verdades que foram reveladas no Evangelho.
Em sua vida, Agostinho publicou mais de cem obras, que versavam sobre as
here-sias dos arianos (aqueles mencionados no capítulo II), dos maniqueistas e dos
povos pagãos. Uma de suas produções mais conhecidas, se chama “Confissões” na qual
ele narrou os primeiros anos de vida, quando ainda era pagão, até o momento em que é
convertido. É considerada uma autobiografia, mesmo que conte apenas uma parte dos

UNIDADE III O Saber Medieval 63


acontecimentos vividos por Agostinho.

Outra obra de grande relevância foi “Cidade de Deus”, na qual o autor descreveu
o mundo em duas partes: a dos homens e a dos céus, ou o mundo terreno e o mundo
espiritual. No ano de 391, foi ordenado padre na cidade de Hipoana, posteriormente Bispo
da mesma em 397, onde permaneceu até 430 quando faleceu. Quase um milênio depois,
foi proclamado Santo pelo papa Bonifácio VIII em 1298.

SAIBA MAIS
Tanto os “Patrísticos” quanto os “escolásticos” foram responsáveis pela formação e pro-
dução do saber durante a Idade Média, porém esse conhecimento não se ateve apenas
nas mãos da Igreja, outros pensadores difundiram suas ideias e foram importantes para
compreensão da forma como as sociedades se organizavam no mundo medieval, como
por exemplo os mouros : Avicena, Averróis, Alfarabi e Algazáli.

Fonte: OLIVEIRA. Terezinha. Origem e memória das universidades medievais a preservação de


uma instituição educacional. Varia hist. vol.23 no.37 Belo Horizonte Jan./June 2007

REFLITA
Observe abaixo o trecho da obra “A predestinação dos Patrísticos”, na qual Agostinha
revela o momento em que seu coração se converte ao cristianismo.
Quando, por uma análise profunda, arranquei do mais íntimo toda a minha miséria e
a reuni perante a vista do meu coração, levantou-se enorme tempestade que arrastou
consigo uma chuva torrencial de lágrimas. [...] oprimido pela mais antiga dor do coração.
[...] Eis que ouço uma voz [...]. Cantava e repetia frequentes vezes: “Toma e lê; toma e
lê”. [...] persuadindo-me de que Deus só me mandava uma coisa: abrir o códice, e ler o
primeiro capítulo que encontrasse. [...]. Apenas acabei de ler estas frases, penetrou-me
no coração uma espécie de luz serena, e todas as trevas da dúvida fugiram
(AGOSTINHO, 1999, p. 222-223).

UNIDADE III O Saber Medieval 64


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nessa unidade realizamos uma reflexão sobre a forma que a produção do saber e o
conhecimento foram praticados durante a Idade Média. No final da Antiguidade observamos
o surgimento dos “Patrísticos”, liderados pelos padres da Igreja, esse movimento perdurou
por sete séculos e teve como principal pensador Santo Agostinho, posteriormente, outro
organização metodológica ganhou força, os “escolásticos” apresentaram ao mundo a filo-
sofia medieval, pautada na racionalização da fé, tendo como maior expoente São Thomaz
de Aquino.

UNIDADE III O Saber Medieval 65


LEITURA COMPLEMENTAR

As virtudes no pensamento de Santo Tomás de Aquino


Nesse artigo, o autor discute sobre o tratado das virtudes de Tomás de Aquino,
tendo como base a ética de Aristóteles como objetivo esclarecer qual a finalidade do homem
em suas ações. No tratado das virtudes, Tomás faz uma distinção entre virtudes morais e
virtudes intelectuais.

[Link]

mas_de_aquino.pdf

UNIDADE III O Saber Medieval 66


MATERIAL COMPLEMENTAR

LIVRO
Título: Confissões
Autor: Santo Agostinho
Editora : Penguin; 1ª Edição (12 abril 2017)
A obra que narra a vida de Santo Agostinho, desde os primeiros
anos de vida no norte da África, até o processo de conversão ao
cristianismo em 387 na cidade de Milão.

FILME/VÍDEO
Título: O Nome da Rosa
Ano: 1986
Sinopse: O longa narra a história de William de Baskerville,
monge franciscano interpretado pelo autor Sean Connery, que ao
chegar a um mosteiro na Itália em 1327 presencia uma série de
assassinatos. Seus pares vão afirmar que se tratava de obra do
Diabo, porém o Monge questiona a natureza dos crimes e passa
a investigá-los.

WEB

Título: Santo Tomás de Aquino - Razão a serviço da fé


Matéria produzida pelo portal de educação do UOL, na qual apresenta a influência
do filósofo Aristóteles na obra de São Tomás de Aquino.

Fonte: SALATIEL, José Renato. Santo Tomás de Aquino - Razão a serviço da fé.
UOL Educação. 28 de novembro de 2012.
Disponível em [Link]
[Link]
Acesso em 29 de agosto de 2020V

UNIDADE III O Saber Medieval 67


UNIDADE IV
A Cultura Medieval
Professor Doutor João Paulo Pacheco Rodrigues

Plano de Estudo:
• Arte românica e gótica;
• Pinturas, iluminuras e tapeçarias;
• O Romance de cavalaria.

Objetivos da Aprendizagem:
• Explorar a arquitetura românica e gótica;
• Refletir sobre as práticas culturais medievais como pinturas, tapeçarias e iluminuras;
• Apreender sobre o movimento literário medieval
denominado Romance de Cavalaria.

68
INTRODUÇÃO

Até o momento discutimos vários aspectos da Idade Média, sua organização polí-
tica, econômica, social e religiosa. Nesta última unidade vamos refletir um pouco sobre o
legado cultural desse período. Na primeira parte, uma discussão sobre a arte Românica e
arte Gótica, as duas mais expoentes do período medieval. Em seguida, uma síntese sobre
algumas práticas e costumes culturais desses povos, como as pinturas, iluminuras e tape-
çarias e por último uma discussão literária, sobre as “Novelas” ou Romances Medievais.

UNIDADE IV A Cultura Medieval 69


1. ARTE ROMÂNICA E GÓTICA

Antes de iniciar as nossas observações sobre a História da Arte na Idade Média,


é importante salientar, que podemos considerar o termo Arte como um reflexo do que as
sociedade está vivendo. Nesse período dominado pelas instituições religiosas, por boa par-
te, as construções, símbolos e signos estiveram ligados e sob domínio da Igreja Católica.
Podemos considerar que grande parte da arte na Idade Média foi expressa principalmente
por meio da arquitetura. Foi nessa época que os arquitetos avançaram nos padrões de
construção, tornando possível construir edifícios mais altos, mais pesados ​​e mais fortes.
O progresso dessas construções deveu-se ao contexto de grande abundância agrícola
trazida pelo regime feudal, como vimos na primeira unidade.
A arte da Idade Média transmite-nos um conceito alargado do homem e da
sua relação com o mundo e constitui a própria essência desta época. Dá-nos
a justa medida das misérias e grandezas do seu espírito. Mostra-o em todas
as etapas e vicissitudes da sua vida. Deus está no centro do Universo mas,
através do seu filho encarnado, Jesus Cristo, dá ao homem e å humanidade
uma dimensão divina.( MARQUES, 2007, p. 3).

Para Marcelo Cândido da Silva (2019), nesse meio, duas correntes firmaram-se
durante este período. A partir do século X tivemos o desenvolvimento da arte românica.
Os princípios arquitetônicos dominaram as novas construções até o século XII. Foi neste
ponto que a arte gótica gradualmente tomou o lugar do romance. No entanto, essa subs-
tituição não foi feita da noite para o dia: esses dois gêneros estiveram em contato por um
breve período transitório.

UNIDADE IV A Cultura Medieval 70


Podemos definir a arte românica como um estilo arquitetônico, pictórico e de-
corativo ao mesmo tempo. As decorações (pinturas, esculturas) da arte românica estão
diretamente ligadas à arquitetura, uma vez que nela estão integradas. As influências da arte
românica são numerosas: este movimento foi influenciado pelas ideias do Renascimento
Carolíngio, da Antiguidade, do Império Bizantino, dos Orientais e dos Celtas.
De acordo Marisa Marques (2007), originária do norte da Itália, a arte românica
surgiu em meados do século X, período em que foram construídas as primeiras igrejas
românicas. Elas eram caracterizadas por abóbadas, variavam entre dois tipos: as de berço
e as de arestas. Esta forma também inspirou o nome de nave, designando a parte principal
da igreja.
Gradualmente, o estilo românico se espalhou pela Europa. Naquela época, várias
igrejas haviam sido destruídas durante as invasões bárbaras ou por incêndios. É por esta
razão que se realizou uma vasta obra de reconstrução e os arquitetos aproveitaram para
melhorar os métodos construtivos e também os materiais.
As construções de pedra foram sendo substituídas gradativamente as de madeira,
mais suscetíveis a incêndios. Grandes edifícios religiosos como abadias, mosteiros e igrejas
foram praticamente as únicas construções que exibiam a arquitetura românica.
A arte esteve então ao serviço da religião e da fé, principalmente pelo que a maioria
dos edifícios românicos se caracterizam pelo rigor e pela austeridade arquitetônica.
A forma exterior era maciça, construída com grandes abóbadas de pedra. No geral,
a altura dos edifícios também eram limitadas. Todas as aberturas nas paredes possuíam
uma forma arredondada, as torres geralmente quadradas (ou poligonais) e não muito pon-
tiagudas. As paredes decoradas com inúmeras esculturas e pinturas.
Se na arquitetura romana a ordem a que pertenciam os capitéis era a de-
finição primordial. já no Românico esses capitéis serão um dos fatores de
inovação da arte cristã e é neles que a escultura românica mais se afirma. “É
no período Românico que se reinventa o uso da escultura, colocando-a ao
serviço da arquitetura, da ilustração religiosa e da devoção “ Não obstante o
significado dessas figuras poder ser múltiplo, as iconografias remetem-nos
para tempos ancestrais em que esses seres imaginários passaram da tra-
dição oral às imagens dos manuscritos e finalmente å pedra. (MARQUES,
2007, p. 36).

Na arquitetura românica, geralmente, a porta da igreja era colocada sob três arcos
e estes arcos acima, por uma abertura circular. Entre a porta e os arcos encontrava-se o
lintel, geralmente ornamentado ou gravado, e o tímpano que era o espaço semicircular entre
o arco e o lintel. A abóbada também era desenhada com o mesmo espírito do semicírculo,
visto que geralmente formava-se um semicilindro.

UNIDADE IV A Cultura Medieval 71


Por diversas vezes, a igreja possuía duas naves, uma principal e outra transversal.
É esta nave transversal que dá a forma de cruz a várias igrejas românicas. As igrejas
românicas também tinham criptas acessíveis a todos. As criptas eram pequenas cavidades
recuadas que continham relíquias de um santo.
Todas essas novas características puderam se desenvolver graças às inovações
técnicas na construção. Embora os trabalhadores não usassem muitos equipamentos de
elevação, eles ainda conseguiram erguer essas igrejas de tamanho impressionante e so-
fisticação técnica. Além disso, a pedra passou a ser extraída diretamente das pedreiras, o
que aumentou sua qualidade. Os pisos dos edifícios eram geralmente de terra batida. No
entanto, em alguns lugares, o chão era coberto por um enorme mosaico colorido ou calçada
de pedra.

Figura 1: Basílica de Saint-Sernin em Toulouse

Fonte: [Link]
nin_de_Toulouse_-_exposition_ouest-[Link]

Os escultores do período românico eram muito criativos, e fizeram várias escul-


turas de um mundo imaginário ou onírico, muitas vezes inspirado em mitos e folclore. É
por isso que muitas dessas esculturas representavam bestas imaginárias (dragões, grifos).
As esculturas eram integradas, adornam paredes e colunas, decoram criptas, claustros e
igrejas. Na verdade, cada espaço livre costumava ser ocupado por uma escultura.

UNIDADE IV A Cultura Medieval 72


Os monstros nos capitéis fizeram parte dos programas escatológicos, deli-
mitando as possibilidades do homem face ao desconhecido, tanto no plano
terreno como no plano místico. Para o homem da Idade Média não existe
fronteira entre o visível e o invisível, entre o real e o sobrenatural, entre este
mundo e o outro. Essas estranhas criaturas simbolizam uma reflexão sobre
o mundo físico e seus limites perante o mundo espiritual, atestando assim os
objetivos didáticos dos programas iconográficos (MARQUES, 2007 p. 38).

Além de decorar as instalações, as esculturas também desempenharam um pa-


pel de transmissão de conhecimento. Os escultores frequentemente ilustravam assuntos
bíblicos, incluindo conexões entre o Antigo e o Novo Testamentos. Os episódios cristãos
representados por essas esculturas permitiriam, assim, aumentar a fé cristã. Esculturas
representavam cenas de vários personagens, sejam da vida cotidiana ou bíblicas. Outras
esculturas apresentavam bestas fantásticas, plantas imaginárias ou padrões geométricos.
A tinta também foi usada como ornamento em edifícios religiosos. Várias igrejas
foram decoradas com grandes afrescos. Geralmente, estas eram realizadas com a arga-
massa da parede ainda molhada. Essa prática também favoreceu a conservação desses
afrescos.
Os artistas embelezaram suas pinturas com muitos detalhes e deram um estilo
realista às suas obras. Os temas das pinturas foram retirados de manuscritos populares,
referências diárias ou folclóricas ou mesmo temas sagrados importantes. Quase todas as
superfícies disponíveis foram pintadas ou cobertas com mosaicos. Por outro lado, o uso
do mosaico para fins decorativos diminuiu durante o período românico, uma vez que esta
técnica era bastante cara. Os pintores usaram cores vivas, como amarelo, vermelho, verde,
branco e preto.
Outras artes praticadas durante o período românico incluíam esmaltação (prática
ornamental) e iluminação (manuscritos de imagem) capitulares (adornando as primeiras
letras de um manuscrito), vitrais (várias aberturas foram decoradas com vitrais coloridos,
embora estes não fossem tão grandes ou tão numerosos como os vitrais do período gótico).
“Se na igreja românica a luz contrasta com a substância pesada e sombria das
paredes, na igreja gótica a luz é filtrada através dos vitrais. absorvendo e transfigurando
essas mesmas paredes” (MARQUES, 2007 p.38).
Posteriormente a arte românica, tivemos no século XII, o surgimento de uma nova
vertente na história das Artes. O gótico nasceu na região de Paris, e dissipou-se
depois pela Europa. A arte gótica foi um fenômeno europeu de características muito
complexas e variadas, que influenciou todos os setores da produção artística, conduzindo
a grandes desenvolvimentos também nas chamadas artes menores: como a ourivesaria,
miniatura, talha em marfim, vitral e tecidos.

UNIDADE IV A Cultura Medieval 73


Em meados do século XII, o prestígio dos grandes mosteiros era incontestá-
vel. Os religiosos e intelectuais mais influentes eram monges, como o abade
beneditino Surger e o organizador da Ordem Cisterciense, São Bernardo de
Clairvaux. Os empreendimentos artísticos eram totalmente dominados e con-
trolados pelos principais hierarcas monásticos, e era nos mosteiros que se
encontravam as melhores oportunidades de trabalho. (WILLIAMSON, 1998,
introdução).

O nascimento oficial do estilo é identificado na arquitetura, com a construção do coro


da Abadia de Saint-Denis em Paris, consagrado em 1144. Da França a notícia se espalhou
de diferentes maneiras e tempos na Inglaterra, Alemanha, Espanha, Itália, Áustria, Boêmia,
Hungria, Escandinávia, Polônia, Transilvânia, Moldávia, diversificando-se e adaptando-se a
um grande número de clientes e finalidades diferentes.
Por exemplo, na Espanha e na Inglaterra, o gótico marca o nascimento de monar-
quias nacionais, enquanto em outras áreas foi uma expressão de poderes feudais, ou de
comunas livres dominadas pela nova rica burguesia urbana. No período gótico existia uma
estreita relação entre arte e fé cristã, mas foi também o período em que renasceu a arte se-
cular e profana. Se em algumas áreas buscavam-se expressivos efeitos antinaturalíssimos,
em outras (como na escultura renascentista) assistimos ao resgate do estudo do corpo
humano e de outros elementos do cotidiano.
Devido à sua origem francesa, a arquitetura gótica foi chamada de “opus francige-
num” na Idade Média. Em Veneza, porém, era conhecida como uma forma de construção
“ao estilo alemão”. O termo “gótico”, propriamente “dos godos”, um antigo povo germânico,
foi usado pela primeira vez para indicar este estilo artístico e arquitetônico por Giorgio Vasari
no século XVI como sinônimo de nórdico, bárbaro, caprichoso, oposto ao renascimento da
linguagem clássica Renascença
Era o aparecimento do estilo gótico. [...] Era principalmente uma invenção técni-
ca; contudo, em seus efeitos, tornou-se muito mais do que isso, foi descoberta
de que o método de abobadar uma igreja por meio de arcos transversais podia
ser desenvolvido de maneira [...] sistemática e com objetivos mais ambiciosos
do que arquitetos normandos sequer chegaram a imaginar. [...] era possível
erigir uma espécie de estrutura de pedra para manter o edifício coeso. Bastava
empregar pilares leves e costelas estreitas nas arestas da abóbada. [...] Não
havia necessidade alguma de pesadas paredes de pedra, pelo contrário, nas
paredes podiam ser abertas grandes janelas. Essa era a ideia dominante das
catedrais góticas desenvolvidas no norte da França [...]. O princípio de cruza-
mento de “nervuras” não era bastante, por si só, para esse estilo revolucionário
de construção gótica foi necessário um número de outras invenções técnicas
para tornar possível o milagre. (GOMBRICH, 1993, p. 137).

A perda da conotação negativa do termo remonta à segunda metade do século


XVIII quando, primeiro na Inglaterra e na Alemanha, houve uma reavaliação desse período
da história da arte, que resultou também em um verdadeiro renascimento, o Neo-Gótico,
que gradualmente se enraizou também na França, Itália e parte dos países anglo-saxões.

UNIDADE IV A Cultura Medieval 74


A originalidade da arquitetura gótica deu-se pelo desaparecimento das grossas pa-
redes típicas do românico. O peso da estrutura não era mais absorvido pelas paredes, mas
distribuído em pilares e uma série de estruturas secundárias colocadas fora dos edifícios.
Assim nasceram as paredes de luz, cobertas por janelas, que correspondiam ao exterior,
uma complexa rede de elementos para a liberação das forças. Os arcobotantes, os piná-
culos, os arcos de descarga eram todos elementos estruturais, que continham e dirigiam
os impulsos laterais da cobertura ao solo, enquanto as paredes de enchimento perderam
importância, substituídas pelas janelas.
Além disso, a arquitetura gótica não se esgotava na estrutura estática: os edifícios,
libertados do limite das paredes de alvenaria, desenvolveram-se com impulso vertical. Na
Inglaterra houve um novo desenvolvimento da abóbada cruzada com uma abóbada de seis
segmentos e depois uma abóbada radial ou em forma de leque: essas foram soluções que
permitiram uma distribuição de peso ainda melhor. A catedral gótica foi concebida
como uma metáfora do Paraíso, por isso o Juízo Final, passagem da bíblia,
costumava ser esculpido em sua entrada.
Nos séculos XIV e XV, o gótico desenvolveu-se em novas direções em comparação
com as formas dos dois séculos anteriores. A construção dos séculos XIV e XV caracteri-
zou-se por uma nave central de altura considerável e duas naves muito mais baixas. Isso
significava que a luz se concentrava sobretudo no nível do clerestório (parte superior da
nave, transeptos e coro de uma igreja, com uma série de janelas ou vitros, acima dos
telhados das naves laterais e que formavam a fonte principal de luz para a parte central do
prédio).
Dentro da conjuntura filosófico-teológica do século XII, na qual se enquadra
o nascimento da arte gótica, encontram-se três vertentes fundamentais – as
ideias do abade Suger de Saint-Denis, principal responsável pela recuperação
dos escritos do Pseudo Dionísio é habitualmente considerado o “criador” de
uma “arquitetura de luz”; o pensamento escolástico derivado das escolas de
Paris e arredores; e, por fim, o ideário cisterciense de despojamento e asce-
tismo preconizada por São Bernardo de Claraval (VILLAMARIZ, 2012, p. 18).

Já no gótico tardio, o arranjo interno mais comum seguiu o modelo da igreja salão,
ou seja, com corredores laterais de igual altura em relação ao central. Isso significava que
a luz não vinha mais de cima, mas sim das paredes laterais, iluminando todo o ambiente
de forma homogênea. A direcionalidade tradicional também foi modificada, perdendo a
conotação forte para os eixos anteriores, em favor de uma espacialidade policêntrica. Essa
nova visão do espaço também estava relacionada à religiosidade mais terrena e mundana
do século XV. A arte gótica e românica influenciou todo um contexto de artistas da Idade
Média, não foram apenas Igrejas e monumentos construídos, mas também pinturas, obje-
tos, que refletiam a importância dessas duas vertentes.

UNIDADE IV A Cultura Medieval 75


2. PINTURAS, ILUMINURAS E TAPEÇARIAS

A arte medieval cobre um período de aproximadamente 1000 anos, em um contexto


espacial extremamente vasto e variado. Estudar as cores usadas pelos pintores da Idade
Média é entender como eram usadas e percebidas naquele período. Os requisitos mais
importantes eram dois: brilho e intensidade. As cores, portanto, foram aplicadas com forte
saturação, sem matizes e meios-tons, para sublinhar a força expressiva, necessária para
trazer à tona o significado simbólico.
Tratando principalmente de temas religiosos, observou-se uma tendência à procura
de luz, ouro e pedras preciosas, as próprias metáforas de valor artístico. Era a “metafísica
da luz” que via o mundo como uma emanação de Deus - luz suprema - atribuindo à luz um
valor não apenas místico e espiritual, mas também estético. Nessa época, as cores também
passaram a ter um significado simbólico. Ainda hoje, a Igreja, por exemplo, prescreve cores
litúrgicas para as vestes do altar e as vestes do celebrante, peculiares a cada época do ano
e às várias ocasiões rituais.
No espaço divino, a cor revelava a presença de Deus, as cores são, de fato, fruto
da interação entre a luz e as trevas. Na Idade Média, acreditava-se até que a luz que filtrava
pelos vitrais das igrejas tinha propriedades curativas, nesse segmento, a arte bizantina,
manteve forte influência na Itália, pelo menos até o período mais significativo da iconoclas-
tia (730-843). Ravenna, que herdou de Milão o que restou da ideia imperial no século V, foi

UNIDADE IV A Cultura Medieval 76


(principalmente com seus mosaicos) um dos mais importantes centros de difusão dessa
arte, que permaneceu um modelo de requinte e equilíbrio técnico.
A pintura do período gótico desenvolveu-se posteriormente a outras técnicas de
pintura na Europa. Somente na segunda metade do século XIII, a pintura veio a se renovar
plenamente, graças à obra de Giotto.
Artesãos de imagens trabalhavam em pequenos ateliês, com um único
aprendiz. As regulamentações incluíam [...] regras para o aprendizado dos
iniciantes na profissão, (por exemplo, que devia durar no mínimo sete anos)
e davam conselhos sobre o procedimento corretos para se esculpirem ima-
gens e crucifixos: ninguém pode e nem deve trabalhar em dia santo [...] nem
à noite [...] nem deve fazer imagens ou crucifixo [...] se não com material
apropriado [...] se para outra pessoa que não seja um clérigo, ou homem da
igreja ou cavaleiro, ou nobre para seu uso. [...] imagem que não seja esculpi-
da numa única peça[...]. Nenhum pintor de imagens pode ou deve vender um
trabalho no qual o ouro [...] tenha sido aplicado ao estanho [...]o trabalho lhe
é imperfeito (WILLIAMSON, 1998, p. 18).

As razões deste atraso estiveram provavelmente relacionadas com os diferentes


modelos que a pintura e a escultura possuíam: no período românico a escultura já tinha sido
renovada, em alguns casos redescobrindo as obras clássicas ainda existentes, enquanto
para a pintura o principal modelo de referência era em todo o caso a Escola Bizantina. Com a
conquista de Constantinopla durante a quarta cruzada (1204) e com a formação dos Reinos
Latinos do Oriente, o fluxo de pinturas e mosaicos bizantinos se tornou ainda mais denso.
Na segunda metade do século XIII, na época de Nicola Pisano, a desconexão entre
vivacidade narrativa naturalista e força expressiva entre escultura e pintura atingiu seu auge,
com os pintores diante das extraordinárias inovações introduzidas pelos escultores. Em duas
gerações, porém, os pintores foram capazes de avançar, renovando modelos e linguagens,
até nas artes pictóricas para recuperar o espaço, a vivacidade narrativa, as figuras credíveis
e as configurações arquitetônicas e paisagísticas plausíveis. A pintura também foi beneficiada
na renovação por ter uma clientela maior, devido aos custos mais baratos.
Do românico, a pintura, sobretudo na Itália central, herdou a difusão das mesas
pintadas, amparada pelas encomendas mendicantes pela sua portabilidade prática. Os
assuntos principais versavam sobre: crucifixos em forma, muitas vezes pendurados nas
extremidades dos corredores da igreja para despertar a emoção dos fiéis;
Virgem Maria com o seu filho, símbolos da Eclésia e de uma relação mãe / filho que
humanizava a religião e também representações de santos, entre as quais se destacam as
novas iconografias ligadas à figura de São Francisco de Assis. Entre os mestres italianos
do século XIII destacamos Berlinghiero Berlinghieri e Margaritone d’Arezzo, ambos ainda
totalmente bizantinos, mas começando a mostrar alguns personagens tipicamente ociden-

UNIDADE IV A Cultura Medieval 77


tais. Além da escola de Giotto (Taddeo Gaddi, Giottino, o Mestre de Santa Cecília, Maso di
Banco, etc.), a escola de Siena também teve grande importância depois com mestres como
Duccio di Buoninsegna, Pietro e Ambrogio Lorenzetti e Simone Martini.

Figura 2: Tríptico (interior), 1333 por Taddeo Gaddi

Fonte:[Link]

Podemos definir como iluminuras medievais, os manuscritos decorados com ouro


ou prata, mas tanto no uso comum quanto na terminologia adotada por estudiosos moder-
nos, o termo é usado para se referir a qualquer manuscrito ilustre do comércio Os primeiros
manuscritos iluminados datam do período 400-600, produzidos inicialmente na Itália e no
Império Romano do Oriente.
Artefatos semelhantes do Extremo Oriente são sempre descritos como pinturas,
assim como as obras da América Central. Os manuscritos islâmicos podem ser referidos
como comentados, ilustrados ou pintados, embora sejam essencialmente feitos com as
técnicas das obras ocidentais.
No centro da concepção medieval do mundo e do homem: ela remete
não somente aos objetos figurados (retábulos, esculturas, vitrais, minia-
turas, etc.), mas também às “imagens” da linguagem, metáforas, ale-
gorias, similitudes, das obras literárias ou da pregação. Ela se refere
também , às “imagens mentais” da meditação e da memória, dos sonhos
e das visões (SCHMITT, 2006, p. 593)

A maioria desses manuscritos eram de natureza religiosa. No entanto, especial-


mente a partir do século XIII em diante, um número cada vez maior de textos seculares foi
ilustrado. A maioria das iluminuras foram criadas como códices, que substituíram os rolos

UNIDADE IV A Cultura Medieval 78


de pergaminho. Poucos fragmentos de manuscritos iluminados em papiro chegaram até nós,
pois este suporte não possuía a força de pergaminho. A maioria dos manuscritos medievais,
ilustrados ou não, foram escritos em pergaminho (mais comumente pele de bezerro, ovelha
ou cabra), já as mais importantes eram escritas em um tecido chamado de "velino."
A partir do final da Idade Média, os manuscritos começaram a ser produzidos no
papel. Os primeiros livros impressos às vezes eram produzidos com espaços livres deixa-
dos em branco para permitir a inserção de miniaturas, ou tinham capitulares iluminados ou
decorações marginais, mas a introdução da impressão rapidamente levou ao declínio da
ilustração. As iluminuras continuaram a ser produzidas até o início do século XVI, mas em
pequenas quantidades, especialmente para os mais ricos. Elas podem ser consideradas
como fontes importantes para compreender a cultura medieval, uma vez que muitas dessas
foram conservadas.
Os historiadores das artes as classificam de acordo com os períodos históricos em
que foram criados (mas não se limitando a isso): Antiguidade Tardia, Insular, Iluminuras Ca-
rolíngios, Iluminuras Otomanas, Manuscritos Românicos e Manuscritos Góticos, embora
existam alguns exemplos de períodos posteriores.
No período de expansão do cristianismo, elas estavam presentes no evangelho. O
período românico viu a criação de muitas Bíblias, amplamente ilustradas tanto neste perío-
do quanto no gótico. Folhas soltas ou pôsteres de pergaminho, couro ou papel circulavam
com histórias ou lendas sobre a vida de santos, cavaleiros ou outras figuras mitológicas,
assim como narrativas de eventos sociais ou milagrosos, eventos populares,
Não há imagem na Idade Média que seja uma pura representação. Na
maioria das vezes trata-se de um objeto, dando lugar a usos, manipula-
ções, ritos; um objeto que se esconde ou se desvela; que se veste ou se
despe, que se beija ou se come (BASCHET, 1996, p. 9).

O “Livro das Horas”, também conhecido como livro devocional pessoal de um leigo
rico, era frequentemente ilustrado no período gótico. Outros livros, litúrgicos e não litúrgi-
cos, continuaram a ser ilustrados em toda época medieval. O mundo bizantino continuou
a produzir Iluminuras em seu próprio estilo, versões dos quais se espalharam para outras
áreas ortodoxas e cristãs orientais. A reutilização de pergaminhos, raspando a superfície
escrita e pintada, era uma prática comum, e muitas vezes os traços deixados pelo texto
original eram conhecidos como palimpsestos.
O mundo muçulmano e em particular a Península Ibérica, com as suas tradições
literárias, não interrompidas pela Idade Média, foram fundamentais na transmissão das
obras clássicas antigas aos círculos intelectuais e universidades da Europa Ocidental ao

UNIDADE IV A Cultura Medieval 79


longo do século XII, durante o qual surgiram livros de papel pela primeira vez na Europa
e, com eles, abrangentes tratados de ciências, especialmente astrologia e medicina, nos
quais haviam a presença de ilustrações para apoiar o texto.
O período gótico assistiu a um aumento na produção desses artefatos, o que tam-
bém levou à proliferação de obras seculares, como notícias e literatura. A nobreza passou a
criar bibliotecas pessoais; Filipe, o Ousado, provavelmente teve uma das maiores coleções.
Em seu acervo, mais de 600 Iluminuras foram catalogadas.
Joachin Gaehde (2002) revela que até o século XII, a maioria das Iluminuras eram
produzidas em mosteiros, para serem colocados na biblioteca ou serviam de encomendas.
Os grandes mosteiros costumavam ter áreas separadas para monges que se
especializaram na produção de manuscritos, chamadas “scriptorium”. Dentro das
paredes de um “scriptorium” havia áreas individuais onde um monge poderia sentar-se e
trabalhar em um manuscrito sem ser incomodado por seus irmãos. A separação desses
monges do resto do claustro indicava o quanto eles eram importantes na comunidade.
No século XIV, o claustro dos monges que escreviam no “scriptorium” tornou-se
um lugar comercial urbano, especialmente em Paris, Roma e Holanda. Embora o processo
de criação de uma Iluminuras não tenha se alterado muito, a mudança dos mosteiros para
ambientes comerciais foi uma etapa radical. A demanda por manuscritos havia crescido a
tal ponto que as bibliotecas monásticas não eram mais capazes de satisfazê-la, tanto que
começaram a fazer experiências com o pessoas que não eram monges
Esses indivíduos muitas vezes viviam perto do mosteiro e, em alguns casos, dis-
farçavam-se de monges sempre que entravam no mosteiro, do qual poderiam sair no final
do dia. Na verdade, os ilustradores eram frequentemente muito conhecidos e aclamados
e muitos deles são bem conhecidos até hoje. Nesse processo, o artista era enviado ao
rubricador, que acrescentava os títulos (em vermelho ou não), as tampas dos capítulos, as
notas e assim por diante, e então era enviado ao ilustrador, esse utilizava uma vasta paleta
de cores, como podemos observar:
Um pigmento muito usado era o verde, que podia ser obtido a partir das
pétalas de plantas como salsa, erva-moura, arruda e madressilva. A planta
era esmagada e misturada a um gante, um tipo de cola, que, em geral, era
a clara de ovo. Essa mistura definia o tom de verde que seria obtido, quanto
mais planta, mais saturado, fazendo a cor ficar mais forte e o líquido
mais denso. (VISALLI, 2016, p.139).

Outra prática cultural importante no período medieval foram os tapetes. Pendurados


nas paredes de pedra dos castelos, em grandes salas e difíceis de aquecer, combinavam
a função decorativa com a de isolamento térmico durante o inverno. O grande sucesso das

UNIDADE IV A Cultura Medieval 80


tapeçarias ao longo dos séculos deve-se provavelmente à sua portabilidade. Reis e nobres
poderiam enrolá-los e levá-los consigo ao viajar entre uma residência e outra, além de
auxiliá-los em caso de incêndio ou saque.
De acordo com Jack Tresidder (2003) na obra “Os símbolos e os significados”, os
tapetes foram produzidos desde a antiguidade, ainda que a dificuldade de preservação dos
materiais que os compõem, fibras têxteis naturais como a lã, o algodão ou o linho, tenha
influenciado fortemente a quantidade e a qualidade. As tapeçarias mais antigas que chega-
ram até nós, datam do antigo Egito e da Grécia helênica tardia, mas estavam espalhadas
por todo o mundo, do Japão à América pré-colombiana.
Para Florido Vasconcellos, as tapeçarias coptas, vindas do Egito nos primeiros
séculos da era cristã, já apresentavam grande habilidade técnica aliada a desenhos muito
complexos. Em um vaso descoberto em Chiusi do século 4 aC. Penélope e seu tear eram
representados; a diferença com o tear de hoje usado para a produção de tapeçarias, o tear
de meia altura, é o método de tensionar a urdidura (conjunto de fios de mesmo compri-
mento reunidos paralelamente no tear por entre os quais se faz a trama) e a posição em
que o tecido era confeccionado, batido e enrolado para cima. No tear de Penélope, os fios
da urdidura eram mantidos esticados por pesos de tear; nos teares modernos, a tensão era
mantida por uma viga parada por uma engrenagem.
O desenvolvimento da tapeçaria na Europa remonta ao início do século XIV, pri-
meiro na Alemanha e na Suíça, depois na França e na Holanda. O pico de produção foi
alcançado no Renascimento, em particular nos Flandres e na França, em Arras, Paris,
Aubusson, Tournai, Bruxelas, Audenarde, Grammont, Enghien, Beauvais. A Royal Gobelins
Manufactory, fundada em Paris em 1662, continua a produzir até hoje.
Também importantes são as tapeçarias flamengas do primeiro quartel do século
XVI, preservadas na Galeria de Arte Cívica de Forlì: Crucificação com figuras e Crucificação
com cenas da Paixão, para a qual foi apoiada a atribuição à manufatura por Pieter van
Aelst. O ciclo do período barroco preservado no Museu Nacional do Palazzo Mansi em
Lucca também é notável
Os maiores artistas da tapeçaria foram Raphael, Pieter Paul Rubens, Simon Vouet,
Charles Le Brun, François Boucher, Francisco Goya, William Morris, até Pablo Picasso,
Joan Miró.
De acordo com Jacques Le Goff em “O Homem Medieval”, o Papa Leão X teria
encomendado a Rafael um ciclo sobre os “Atos dos Apóstolos”, feito na Flandres e repetido
várias vezes: trata-se de duas séries completas, uma no Vaticano, outra em Mântua no

UNIDADE IV A Cultura Medieval 81


Palácio Ducal, e uma série incompleta, em Urbino. Atualmente, essas artes estão no Museu
de Victoria e Albert Museum, em Londres.
Outro famoso ciclo de tapeçarias do século XVI é aquele encomendado pelo grão-
-duque Cosimo de ‘Medici a Pontormo e Bronzino, um dos maiores mestres do maneirismo
florentino. O ciclo é dedicado às histórias do patriarca Giuseppe, mas tem como subtexto
alegórico o bom governo de Cosimo e a indissociabilidade do destino de Florença dos da
família Médici.

Figura 4: A dama e o unicórnio. Museu de Cluny, Paris

Fonte:[Link]

The_Lady_and_the_unicorn_Desire.jpg

Para sua realização, o governo Médici estabeleceu uma fábrica específica, ini-
cialmente confiada a mestres fabricantes de tapeçaria dos Alpes. O ciclo, constituído por
vinte tapeçarias, foi restaurado e está alojado entre Florença, no Palazzo Vecchio, sua
localização original, onde são guardadas dez tapeçarias, e Roma, no palácio do Quirinal,
onde as outras dez chegaram em 1882.
A partir do final do século XVIII, com a transição para a produção industrial e o
aumento do custo do trabalho (os tempos de processamento muito longos determinam
custos proibitivos), a moda das tapeçarias começou a declinar como manifestação externa
do prestígio da aristocracia e foi afetada por fortes mudanças sociais do momento: durante
a Revolução Francesa, a multidão os queimou não só para recuperar os fios de ouro tecidos
nas tapeçarias, mas também para destruir as bandeiras da classe derrotada.

UNIDADE IV A Cultura Medieval 82


3. ROMANCE DE CAVALARIA

A arte medieval corresponde a um gênero que englobou distintas categorias, na


literatura, a mais famosa foram os “Romances” ou “Novelas” de Cavalaria. Originárias de
poemas épicos, narravam as aventuras de cavaleiros e reinos escritas em formas de prosa.
De acordo com Le Goff em “O homem medieval”, o cavaleiro da Idade Média nasceu
como um simples guerreiro, um homem armado que ia para a batalha a cavalo, lutando com
lança e espada. Mas, à medida que a literatura de romance medieval começou a florescer
no século XII, uma cultura sofisticada de comportamento cortês nas relações entre homens
e mulheres começou a mudar a imagem idealizada do cavaleiro.
O longo poema de Wace, Brut (por volta de 1155), apresentou a nobreza de língua
francesa ao lendário Rei Arthur, cuja corte era a maior de todas. Nos reinados do rei Hen-
rique II (1154-89) e de Ricardo Coração de Leão (1189-99), guerreiros que tinham cortes
suntuosas foram celebrados.
Cada cavaleiro deveria estar pronto para lutar pelo amor de sua amada, com suas
vitórias ele ganharia seu amor e defenderia sua honra. Nessas linhas, os cavaleiros eram
absolutamente leais a ela e cumpriam todas as ordens , seja enviá-lo em uma missão im-
possível, expulsá-lo de sua companhia ou acusá-lo de algum crime terrível, em um pedido
desesperado de ajuda.
Nesse caso, temos a imersão de um elemento importante, a tragédia. O amor de
Lancelot por Guinevere nunca terá um final feliz, porque ela é a esposa do Rei Arthur.

UNIDADE IV A Cultura Medieval 83


Isso representava o modelo do amor cortês: uma dedicação que une os amantes até a
morte, mas que nunca resultará em uma união feliz. A devoção de Lancelot por Guinevere
é perigosa e acabará por destruir a corte: fofocas e calúnias revelarão sua relação com o
rei e Arthur será forçado a usar suas armas contra seu melhor cavaleiro.
De acordo com José D’Assunção Barros na obra “A arenas dos trovadores – as
representações das tensões sociais no cancioneiro medieval ibérico (séculos XIII-XIV)”o
amor trágico e idealizado de Lancelot e Guinevere não poderia culminar em casamento;
pelo contrário, termina com a morte. A tragédia dos amantes é um modelo criado na Idade
Média e repetido ao longo do tempo. Tristão e Isolda, Lancelot e Guinevere, Romeu e
Julieta: cada casal está ligado por um amor impossível, os amantes estão condenados
pelas circunstâncias.
Por que o amor está tão intimamente relacionado à morte na literatura? A resposta
para esses literários é simples. Todos os amores acabam, porque os amantes se separam
e porque morrem. Portanto, o amor para ser perfeito - contanto que seja perfeito e não
termine em frieza ou termine em traição - então deve terminar em morte.
Para Xosé Ramón Pena em “Literatura Galega Medieval”, a literatura medieval não
ilustrou o amor apenas em sua forma trágica, as convenções do amor cortês não visavam,
encorajar os amantes a abraçar a morte; em vez disso, prescreviam regras de conduta
para os homens e mulheres da aristocracia, por meio da qual o namoro poderia levar ao
casamento. Para a nobreza, quase todos os casamentos eram arranjados pelas famílias
dos casais, muitas vezes quando a esposa e o marido eram pouco mais que filhos.
Mas a Igreja insistia em que o sacramento do matrimônio só fosse válido na presen-
ça do consentimento pleno e voluntário do casal. Assim, podemos perceber outro propósito
dessa literatura, cheia de amor à primeira vista, amor pretendido como reconhecimento da
beleza e status sempre combinado com virtudes e lealdade. Essa literatura mostra ao seu
público uma versão estética da realidade econômica, tornando lindas as transações de
casamentos aristocráticos arranjados.
Assim, podemos perceber outro propósito dessa literatura, cheia de amor à primeira
vista, amor pretendido como reconhecimento da beleza e status sempre combinado com
virtudes e lealdade. Esta literatura mostra ao seu público uma versão estética da realidade
econômica, narrando histórias de casamentos aristocráticos arranjados.
Nessas poesias, dois amantes são nobres, belos, corteses e virtuosos: ele é um
grande cavaleiro e ela uma dama perfeita. Este é o ideal de amor medieval que culmina
no casamento. Mas o interessante sobre esse romance com final feliz é que não se trata

UNIDADE IV A Cultura Medieval 84


de desejo individual. O ideal é feito para ser adaptável, maleável; pode caber qualquer
pessoa apropriada. Quando o herói se reúne com sua amante perdida, ele não consegue
reconhecê-la, observando que “Todas as mulheres parecem iguais”. O amor cortês é um
ideal de devoção à senhora mais bela e cortês. Em cada história de amor haverá um novo
cavaleiro que é o maior de todos e que amará e será amado por uma nova dama que
também é a mais bela.

SAIBA MAIS
Além dos Romances de Cavalaria, outra prática cultural importante foi o trovadorismo.
Surgido no início do século XI, era composto por uma série de poesias e poemas escrita
pelos “trovadores”. Esses percorriam o território europeu cantando suas cantigas, popu-
larizando esse gênero literário.

Fonte: GOMBRICH, E. H. A história da arte. Rio de Janeiro: LTC, 1993.

REFLITA
Lei atentamente os verso de Bertrand de Born, presente na obra de Norbert Elias e re-
flita como os literários reproduziam a coragem e a violência física no mundo medieval
Eu vos digo que nem comer, nem beber, nem dormir têm tanto sabor para mim como
ouvir o grito ‘Para a frente’, de ambos os lados, e cavalos sem cavaleiros refugando
e relinchando, ouvir o grito ‘Acudi! Acudi!’e ver o pequeno e o poderoso tombarem na
grama das trincheiras e os mortos atravessados pela madeira de lanças adornadas com
flâmulas. (Bertrand de Born, canção de gesta do século XII).

Fonte: ELIAS, N. O processo civilizador: uma história dos costumes. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,

1994.

UNIDADE IV A Cultura Medieval 85


CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta unidade buscamos mergulhar nos aspectos culturais da Idade Média, refor-
çando o que foi exposto desde a primeira unidade, esse período não deve ser contextuali-
zado como a idade das trevas, mas sim do florescimento das práticas culturais, mesmo que
muitas dessas estavam sob domínio da igreja, como observamos nas edificações góticas
e românicas.

UNIDADE IV A Cultura Medieval 86


LEITURA COMPLEMENTAR

Título: O patrimônio artístico e as representações discursivas e estéticas do sagra-


do e do fantástico em obras sacras.
Esse artigo investiga os sentidos do patrimônio e da arte sacra no Brasil e busca
compreender os efeitos das construções discursivas apoiadas na “negação” das identidades
culturais e religiosas, distintas das ocidentais, pautando como alguns exemplos de repre-
sentações do fantástico nas artes visuais na Europa e na América espanhola e portuguesa.

PELEGRINI. Sandra. O patrimônio artístico e as representações discursivas e


estéticas do sagrado e do fantástico em obras sacras. Revista Brasileira de História das
Religiões – Ano I, no. 1 – Dossiê Identidades Religiosas e História. 2007
Disponível em : [Link]

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MATERIAL COMPLEMENTAR

LIVRO
Título: O tempo das Catedrais a arte e a sociedade 980 – 1420
Autor: Georges Duby
Editora: Estampa.
Ano: 1978
Sinopse: Essa obra de Georges Duby retrata o apogeu das cons-
truções religiosas durante o período medieval. Com uma vasta
bibliografia e imagens, o leitor é convidado a conhecer um pouco
da história desses grandes prédios arquitetônicos que marcaram a
história da humanidade.

FILME/VÍDEO
Título: O sétimo selo
Ano: 1956
Sinopse: O drama sueco dirigido por Ingmar Bergman foi baseado
em uma peça de teatro do mesmo autor. No filme, um cavaleiro
medieval é desafiado em uma partida de xadrez, o seu adversário
é a morte. A história se passa por meio de uma Europa em crise
com a peste negra e forte influência e domínio da Igreja católica. O
tema principal é o medo da morte!

WEB

O que são as gárgulas?


Nessa reportagem, é retratada a história e como um dos objetos da arquitetura
gótica se tornou presente nas igrejas e fortalezas. As gárgulas eram uma espécie de
pássaros monstruosos que tinham a finalidade de teatralizar ainda mais as grandes
edificações.

Fonte: [Link]

UNIDADE IV A Cultura Medieval 88


REFERÊNCIAS

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CONCLUSÃO GERAL

Ao final dessas 4 unidades, pudemos refletir e problematizar algumas questões


importantes sobre a Idade Média, o período que foi marcado pelo fim do Império Romano,
ascensão do feudalismo, monopólio da Igreja Cristã Ocidental, surgimento das universida-
des que promoveram o conhecimento e a racionalização do saber e também a expansão de
práticas culturais como as pinturas, obras literárias, arquiteturas, grandes construções que
até hoje atraem turistas do mundo todo.
Na apresentação desse material, foram feitos alguns questionamentos. Apresenta-
do todo conteúdo, vamos a eles!
A Idade Média foi mesmo o período das Trevas? A resposta é não! Esse termo foi
citado pelos pensadores renascentistas em uma tentativa de denegrir o período medieval.
Porém durante a Idade Média muitas coisas no que tange ao conhecimento, as questões
de fé e domínio político sucederam. É fato que por muitos séculos o conhecimento esteve
atrelado a Igreja, mas isso não significa que esse período foi estático. A Idade Média foi
uma era dinâmica, do surgimento de novas culturas.
Outra questão levantada na nossa apresentação foi sobre a figura do rei. Será
mesmo que o rei medieval foi aquele apresentado em filmes, com poder sob domínio e
centralizador? A resposta também é não, nesse período o rei perdeu parte do seu poder, as
invasões bárbaras e tantas outras invasões resultaram na descentralização dos domínios
dos reis e o surgimento de um novo modo de produção, o feudalismo, como vimos na
primeira unidade.
Por último retomamos a questão do conhecimento e das universidades. Elas esti-
veram atreladas apenas a Igreja? Esse é outro mito que derrubamos nessas unidades, pois
apesar de muitas universidades nasceram ao lado das Igrejas, dos mosteiros. O conheci-
mento não se ateve apenas a Igreja Católica, temos como exemplo grandes pensadores da
filosofia como os mouro Avicena, Averróis, Alfarabi e Algazáli.
Por meio dessas questões levantadas e dos temas trabalhados nas quatro unida-
des, espero ter propiciado a você aluno um momento de reflexão e análise do que foi a
Idade Média e como essa foi tratada por muito tempo de forma inconsistente por parte de
historiadores e outros pesquisadores. Há ainda muitas outras questões a serem debatidas
e que merecem nossa atenção, afinal a História é uma ciência que nunca se esgota, o
seu campo de pesquisa é cheio de possibilidades e isso faz com que nós profissionais se
dediquemos cada vez mais!

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