Revista Marítima Brasileira: Diretoria Do Patrimônio Histórico E Documentação Da Marinha
Revista Marítima Brasileira: Diretoria Do Patrimônio Histórico E Documentação Da Marinha
REVISTA
MARÍTIMA
BRASILEIRA
(Editada desde 1851)
v. 137 n. 01/03
jan./mar. 2017
R. Marít. Bras. Rio de Janeiro v. 137 n. 01/03 p. 1-320 jan. / mar. 2017
A Revista Marítima Brasileira, a partir do 2o trimestre
de 2009, passou a adotar o Acordo Ortográfico de 1990,
com base no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa,
editado pela Academia Brasileira de Letras – Decretos nos
6.583, 6.584 e 6.585, de 29 de setembro de 2008.
SECRETARIA-GERAL DA MARINHA
Almirante de Esquadra Liseo Zampronio
Assessoria Técnica
Capitão de Mar e Guerra (RM1-T) Nelson Luiz Avidos Silva
Terceiro-Sargento-PD Isabelle de Medeiros Vidal
Diagramação
Desenhista Industrial Felipe dos Santos Motta
Designer Gráfica Amanda Christina do Carmo Pacheco
Artífice de Artes Gráficas Celso França Antunes
Assinatura/Distribuição
Suboficial-RM1-CN Maurício Oliveira de Rezende
Marinheiro-RM2 Pedro Paulo Moreira Cerqueira
Impressão / Tiragem
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SUMÁRIO
8 NOSSA CAPA
DESCOMISSIONAMENTO DO NAVIO-AERÓDROMO SÃO PAULO
Eduardo Bacellar Leal Ferreira– Almirante de Esquadra
Correspondência do Comandante da Marinha ao Ministro da Defesa
11 ARAEX – UNO
José Alberto Accioly Fragelli – Almirante de Esquadra (Refo)
O NAeL Minas Gerais apoiando a Marinha argentina na qualificação de pilotos.
Em 1992, o 25 de Mayo suspende reparos e nunca mais se fez ao mar. Atuação do Minas
219 NECROLÓGIO
longo período para sua conclusão, aproxi- Vida útil média das aeronaves A-4
madamente dez anos, além de incertezas Skyhawk: a modernização em curso das
técnicas e elevados custos. São as seguintes aeronaves A-4 estenderá sua vida útil,
considerações mais relevantes: em média, até 2030. Ou seja, quando a
Estrutura do navio: a inspeção na parte modernização do navio estiver próxima de
estrutural do navio apresentou, de uma ser concluída, suas atuais aeronaves serão
forma geral, muito bom estado, havendo a desativadas, gerando a necessidade de
necessidade de reparos pontuais, principal- obtenção de novas unidades compatíveis
mente nas seções das praças de máquinas. com o convés de voo do NAe São Paulo,
Sistemas de Aviação (catapultas, apa- inexistentes hoje no mercado.
relho de parada e elevadores): além da Capacidade industrial, riscos e inedi-
obsolescência, descontinuidade e falta de tismo da obra: o recente enfraquecimento
sobressalentes, o reparo dos sistemas de da indústria naval brasileira, com reflexos
aviação exige um conhecimento muito observados na capacitação de pessoal e
específico e mão de obra especializada, qualidade dos serviços, a complexa matriz
disponível apenas no exterior, especifica- de riscos e o ineditismo deste tipo de obra
mente nos EUA, único país que detém o no Brasil geram lacunas muito grandes de
domínio total da tecnologia de catapulta. planejamento, dificultando sobremaneira o
A alternativa de sua substituição esbarra seu correto dimensionamento e, consequen-
na ausência de uma solução técnica, pois as temente, a estimativa de custos.
catapultas disponíveis no mercado exigem Assim, o Almirantado concluiu que o
um convés de voo maior que o do NAe Programa de Modernização do NAe São
São Paulo, e aquelas instaladas a bordo, Paulo é inviável, decidindo pela desmobi-
que utilizam vapor superaquecido, não são lização do meio, a ser conduzida ao longo
mais fabricadas. dos próximos três anos, e propõe a [Link].
Sistema de Propulsão: em razão de um programa de obtenção de um novo con-
grande número de avarias, idade avan- junto navio-aeródromo x aeronaves, que
çada dos equipamentos e complexidade ocupará a terceira prioridade de aquisições
das normas internacionais de segurança da Marinha, logo após o Prosub/Programa
a serem atendidas, a possibilidade de Nuclear e o Programa de Construção das
reparo do atual sistema de propulsão a Corvetas Classe Tamandaré. O custo de
vapor foi considerada de alto risco e com aquisição do novo binômio será substan-
disponibilidade futura contestável. Sua cialmente menor que o de modernização
substituição por uma planta elétrica in- do NAe São Paulo e obtenção de aeronaves
tegrada é tecnicamente exequível, porém compatíveis com o navio, as quais, reitero,
requer um investimento muito elevado e não existem no mercado, necessitando ser
traz consigo algumas incertezas. O Brasil desenvolvidas.
ainda não domina a tecnologia envolvida. A capacidade de conduzir operações
A possibilidade de substituição da atual de guerra naval com emprego de aviação
planta de vapor superaquecido por outra de asa fixa, obtida às custas de grandes
com as mesmas características foi consi- investimentos e intensos treinamentos dos
derada inviável técnica e economicamen- nossos pilotos no País e no exterior, será
te, uma vez que este tipo de instalação mantida, até o recebimento do novo navio,
não é mais utilizado pelas Marinhas em a partir da Base Aérea e Naval e de outras
sistemas de propulsão. instalações de terra, bem como por meio
RMB1oT/2017 9
DESMOBILIZAÇÃO DO NAVIO-AERÓDROMO SÃO PAULO
* NR - A respeito do assunto, o Comandante da Marinha publicou nota de no 143 no Boletim de Ordens e Notícias,
a 15 de fevereiro de 2017.
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ARAEX – UNO
* Foi chefe do Estado-Maior da Armada, comandante de Operações Navais, diretor-geral do Pessoal da Marinha,
diretor de Hidrografia e Navegação e diretor de Ensino da Marinha. Comandou o 5o Distrito Naval, a Escola
Naval, o Centro de Adestramento Almirante Marques Leão, a Fragata Liberal, o Contratorpedeiro Alagoas
e o Corpo de Aspirantes e, na reserva, foi diretor-presidente da Coordenadoria-Geral do Programa de De-
senvolvimento do Submarino com Propulsão Nuclear.
ARAEX – UNO
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ARAEX – UNO
a concorrência inicial
para dar assistência
técnica à AFNE San-
tiago para trocar as
turbinas Parsons pela
GE/Fiat LM 2500 gás
turbina.
Em 1992, quando
os velhos sistemas de
propulsão já tinham
sido retirados de bor-
do e era previsto o
início das obras, por
motivos superiores os
trabalhos foram sus-
pensos ou cancelados
e o 25 de Mayo nunca
mais se fez ao mar. Super Étendard da Marinha Argentina
Nesta situação, a
Argentina precisava manter os seus pilotos com uma série de fortes edificados para
qualificados nos 12 Super Étendard adqui- protegê-la.
ridos da França e, por esta razão, solicitou A bordo do Minas, estavam embarcados
apoio ao Brasil. dois esquadrões de helicópteros navais e o
Sendo eu o chefe do Estado-Maior da Grupo de Aviação Embarcado (GAE) da
Esquadra, fui escolhido para comandar Força Aérea Brasileira (FAB), com quatro
um Grupo-Tarefa brasileiro, composto aviões Grumman S2-E / Tracker.
pelo nosso Minas Gerais e pelo Contra- Agradou-me positivamente o perfeito
torpedeiro Mariz e Barros, incorporando entrosamento entre a nossa gente marinhei-
uma corveta argentina da classe Meko 140 ra e os militares da FAB, numa confraterni-
quando chegássemos a Puerto Belgrano. zação extraordinária, tanto no campo pro-
Suspendemos do Rio de Janeiro no dia fissional como na área de convívio, como
17 de novembro de 1993, atracando três se fosse uma única força, muito diferente
dias depois em Rio Grande para abasteci- de 1964, quando presenciei problemas entre
mento. O meu staff era muito bom, a co- as nossas duas forças.
meçar pelo comandante do Minas Gerais, Chegando a Puerto Belgrano, apresen-
Capitão de Mar e Guerra Wilson Jorge tei-me ao comandante de la Flota (Co-
Montalvão e tendo como meu braço direito mench), Contra-Almirante Fusari, que me
o excepcional Capitão de Mar e Guerra recebeu com grande cordialidade.
João Afonso Prado Maia de Faria, como O Minas estava em estado quase perfei-
meu chefe do Estado-Maior. to, tendo apenas o problema da catapulta,
Saindo de Rio Grande, chegamos três e não tínhamos certeza de poder lançar os
dias depois a Puerto Belgrano, base da Super Étendard. Pessoalmente, o nosso co-
Esquadra argentina. Eu nunca lá tinha es- mandante de Operações Navais, Almirante
tado e me surpreendi pela grandeza dessa Cézar de Andrade, determinou-me que não
base, construída no início do século XX, corresse risco operando com a mesma.
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ARAEX – UNO
Assim, combinei com o Almirante Fusa- ses entraram no Estreito de São Carlos,
ri que a qualificação dos pilotos se limitaria visando iniciar o desembarque, o General
ao toque e à arremetida. Menendez, comandante das ilhas, pediu
Já havia algum tempo que os pilotos apoio aéreo, que só chegou horas depois,
argentinos não operavam em um navio- devido à cadeia burocrática de comando,
-aeródromo. Determinei, assim, que o atrasando a solicitação para que os aviões
comandante do GAE, Tenente-Coronel decolassem de suas bases, o que provocou
(AV) Reale, fosse à Base Aeronaval Capi- a chegada deles à área já tendo ocorrido o
tan Espora para presenciar o treinamento desembarque inglês, e assim a prioridade
dos pilotos argentinos. Lá foi feita na pista dos alvos passara a ser os escoltas e não
uma pintura reproduzindo o convés de voo os navios com tropa.
do nosso navio. O Almirante Fusari explicou-me que
No terceiro dia, o Tenente-Coronel a Argentina não possuía Distritos Navais
Reale me deu o pronto, participando que e sim Comandantes de Áreas Marítimas
os pilotos estavam aptos a operar de bordo. e aconselhou-me a não deixar ser criada
Fui então à mencionada base aeronaval, a Guarda Costeira, pois a mesma, que
onde fui apresentado ao Capitan de Navio lá é chamada de Prefeitura Naval, tinha
(CMG) Colombo, comandante da Aviação sugado em muito os recursos e a projeção
Naval argentina. Ele me levou a um salão da Marinha.
para mostrar-me um grande mural na No dia 27 de novembro, suspendemos
parede, reproduzindo as façanhas extraor- para a realização das operações com os
dinárias dos aviadores navais argentinos aviões Super Étendard. Antes de sair do
na Guerra das Malvinas (Falklands), que Rio, meu saudoso amigo e chefe Almirante
partiam das bases de Rio Grande e Rio Oliveira, em sua sensibilidade e vocação
Galego, no extremo sul da Argentina, jurídica, conversou comigo sobre, caso
para alcançarem os navios ingleses, tendo houvesse um acidente, a quem caberia
de fazer dois reabastecimentos em voo, a apuração do inquérito – à Armada da
um na ida e outro na volta. Ao todo eram Argentina ou a Marinha do Brasil. O pri-
sete horas de voo, sentados em cabines meiro avião que tocou no convés do Minas
desconfortáveis de um caça e sob ameaça correu por todo ele e, ao decolar, ficou
de não encontrarem o avião reabastece- oculto pelo casco do navio, dando a im-
dor e caírem no mar, em águas geladas pressão que tinha caído ao mar, vindo-me
que garantiriam apenas sete minutos de logo a mente a preocupação do Almirante
sobrevivência. Oliveira. Pouco depois, o avião apareceu
Convidei o Almirante Fusari para as- e com ele desapareceu o nosso susto. Foi
sistir à operação de seus pilotos a bordo o único contratempo que tivemos em inú-
do Minas. Ele perguntou-me se poderia meros toques e arremetidas.
levar mais dois almirantes, o comandante No fim do dia, o Comandante Colombo
dos Fuzileiros Navais e o comandante da deu por satisfeita a qualificação de todos
Área do Atlântico. Claro que concordei. os pilotos e sugeriu que se encerrasse a
Ele me explicou que antes das Malvinas operação, regressando à base.
a Marinha argentina tinha cerca de 30 No dia seguinte, suspendemos de
almirantes, mas agora estava reduzida a Puerto Belgrano, onde fomos muito feli-
11, pela experiência vivida naquela guerra. zes e iniciamos o retorno, passando por
Explicou-me que, quando os navios ingle- Montevidéu.
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ARAEX – UNO
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A SEGUNDA MAIS ANTIGA DO MUNDO
ELCIO DE SÁ FREITAS*
Vice-Almirante (Refo-EN)
SUMÁRIO
Apresentação
Introdução
Marinha, Engenharia e Capacitações
Militarização e Navios de Guerra
Expectativas e Realidades
Pendores
Educação Contínua
Especialistas
Organização e Hábitos de Trabalho
Documentação Técnica
Responsabilidades
Liderança
Oficiais Engenheiros e o Pensamento Naval
Confiança
* Serviu na Diretoria de Engenharia Naval de dezembro de 1981 a agosto de 1990, tendo sido seu diretor de abril
de 1985 a agosto de 1990. Colaborador frequente da RMB. Autor do livro A Busca de Grandeza.
MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA
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MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA
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MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA
tarefas práticas, desde as mais simples curso para oficiais engenheiros, procurem
às mais complexas. Além disso, deverão obter o máximo conhecimento possível
ampliar, aprofundar e manter atualizada sobre os vários sistemas de engenharia
sua formação, não só mediante cursos de navios de guerra. E não deixem de
programados pela Marinha, mas princi- aprofundar esse conhecimento em todas
palmente por iniciativa própria, estudan- as oportunidades de estudo e prática.
do em livros, revistas técnicas e cursos a
distância. Para tanto, terão que renunciar EXPECTATIVAS E REALIDADES
a muitas horas de lazer. A compensação
será tornarem-se competentes e valori- Quais são suas expectativas neste mo-
zados, tanto na Marinha como no meio mento? Certamente esperam ter uma carreira
civil, de onde todos viemos. estável, progresso profissional, meios de
vida aceitáveis e contribuir para obtermos o
MILITARIZAÇÃO E NAVIOS DE poder naval indispensável a um País como o
GUERRA nosso. Acima de tudo,
esperam ser felizes.
Em apenas um ano Porém, ao longo da
vocês militarizaram-
O mundo evolui carreira, expectativas
-se. Não tiveram a velozmente, principalmente se defrontarão com re-
longa formação naval nos setores tecnológicos. alidades. Os primeiros
de gerações que os anos costumam ser os
precederam. Poderia Nestes, a obsolescência mais difíceis, como
haver dúvidas sobre profissional só pode ser em todas as carreiras.
militarização assim Mas os primeiros anos
tão rápida. Quanto
evitada por educação também serão os da
a isso, lembro as pa- contínua juventude que vocês
lavras atribuídas a têm e terão por mais
Benjamin Constant, de uma década. Ela é
eminente prócer da República: “Os mi- extraordinariamente resistente e resiliente.
litares são o povo de uniforme”. E real- Resiste a grandes esforços e choques. Rapi-
mente são. Ouso explicitar as palavras de damente se recupera de tensões e embates.
Benjamin Constant: os militares são civis Regida por pensamentos positivos, sempre
que acrescentaram virtudes militares às sai vitoriosa. Portanto, empreguem bem seus
virtudes civis. Constatei essa verdade em anos de juventude. Tenham sempre pensa-
meu serviço na ativa, chefiando oficiais mentos positivos e construtivos.
engenheiros oriundos deste centro de
formação: eles eram ótimos militares, PENDORES
portadores de virtudes civis. Só lhes fal-
tava a vivência em navios de guerra, que Num conjunto amplo como o de vocês
vieram a obter em atividades de engenha- existem vários pendores profissionais. To-
ria a bordo. Logo perceberam que o alvo dos serão valiosos para a Marinha, desde
de sua dedicação profissional tinha que que bem cultivados. Alguns sentem ou
ser o navio e toda a sua infraestrutura de sentirão forte atração por projetos de enge-
projeto, construção, apoio, manutenção e nharia; outros, por construção, apoio e ma-
modernização. Portanto, neste primeiro nutenção; outros, ainda, por gerenciamento
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MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA
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MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA
pelo menos 15 anos ininterruptos. Mu- são óbvios, mas verifiquei que ainda assim
danças de funções e comando ou chefia, são esquecidos. Eles serão úteis em toda a
requisitos indispensáveis da carreira carreira de vocês.
militar, praticamente impedem a obten- 1º – O propósito de quem organiza deve
ção de engenheiros especialistas. Eles ser multiplicar sua ação pessoal. Evitem
têm que pertencer aos quadros civis da burocracias e centralização excessiva.
Marinha, mas a questão transcende as 2º – Datem todos os documentos de
decisões navais. trabalho e neles registrem referências úteis.
Enquanto a Marinha não puder for- Exijam o mesmo de seus subordinados.
mar e manter engenheiros especialistas 3º – Obtenham informações suficientes
em seus quadros civis, o Corpo de En- antes de iniciar qualquer trabalho não
genheiros da Marinha (CEM) terá que rotineiro: antecedentes técnicos e opera-
suprir essa importante lacuna, tanto cionais, situação atual, fatores técnicos
quanto possível. Vocês tomarão parte no envolvidos, condições de segurança
esforço, que exigirá ainda mais de suas necessárias, normas e instruções técnicas
capacitações. pertinentes etc. Sempre que possível,
examinem o sistema ou equipamento a
ORGANIZAÇÃO E HÁBITOS DE ser instalado ou reparado e obtenham
TRABALHO informações dos operadores.
4º – Elaborem, mantenham e preser-
Provavelmente a primeira comissão de vem registros técnicos de trabalhos im-
vocês na Marinha será também o primeiro portantes. Eles serão úteis para trabalhos
ou o segundo trabalho como engenheiros. futuros. Mantenham e preservem instru-
Tendo obtido êxito num curso de gradu- ções e registros técnicos que receberem
ação e no concurso ao CEM, cada um de seus antecessores.
de vocês já possui seu modo aprovado 5º – Planejem, tanto quanto possível,
de organizar-se e trabalhar. Porém, do- dias, semanas e meses. Ao final de cada
ravante o trabalho não será acadêmico, dia, replanejem o dia seguinte.
exceto quando realizarem cursos de pós- 6º – Planejem e controlem a execução
-graduação. Mesmo para aqueles que de tarefas. Em muitos casos o controle
forem designados para setores de projeto, presencial é indispensável. Não as dei-
mais próximos de tarefas acadêmicas, xem incompletas.
será conveniente reajustar os modos de 7º – Observem bem os subordinados.
organizar-se e os hábitos de trabalho. Avaliem seus desempenhos. Aprendam
Para os que forem enviados para a “linha com os melhores dentre eles.
de frente” (estaleiro, estação naval, base 8º – Avaliem resultados e deles tirem
naval) a conveniência do reajuste será lições.
ainda maior. Ele é necessário porque 9º – Elogiem seus subordinados sem-
agora não trabalharão apenas para vocês pre que merecerem.
mesmos, mas para uma organização com 10º – Se necessário, requeiram assistên-
determinadas condições. cia técnica, principalmente diante de requi-
Cada um saberá fazer seu reajuste. sitos de segurança. A assistência técnica
Mas eis alguns princípios, que obtive em necessária poderá ser a de base, estaleiro,
leituras e experiência pessoal e também na Diretoria Especializada ou a do fabricante.
observação de novos engenheiros. Alguns 11º – Nunca aceitem argumentos que
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MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA
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MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA
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MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA
Em sua recente formação, vocês conhe- pelidas por seus pensamentos navais.
ceram este tema de grande importância no Pensamento naval é uma força mental
meio civil e militar. Para nós, militares, só é resultante. Tem várias e distintas forças
liderança a que une as virtudes da liderança componentes. Requer estudos, análises
civil às virtudes militares. e reflexões sobre uma Marinha e sua
Liderança é técnica e arte. Em parte é missão no presente e no futuro.
inata, e em parte é adquirida. Cada um de Pensamentos navais devem abran-
vocês possui liderança inata, em maior ger todos os aspectos relevantes para
ou menor grau. Doravante, todos deverão o poder naval, desde os de geração de
ampliar suas lideranças inatas, median- meios até os de consecução de fins;
te leituras, reflexões e, principalmente, desde exames de oportunidades até os
mediante a observação de suas próprias de identificação e superação de dificul-
atitudes e resultados. Daí poderão fazer dades; desde a geopolítica do momento
correções úteis em até a geopolítica previsível em futuro
procedimentos, mas próximo.
que não afetem suas Em todas as Ma-
personalidades. Marinhas evoluem rinhas, oficiais nos
A parte inata da impelidas por pensamentos p o s t o s m a i s e l e -
liderança é muito vados, com lastro
importante. Ela de-
navais. Pensamento de conhecimento e
termina os setores naval é uma força mental experiência, contri-
buem para a evolu-
e os limites em que resultante. Tem várias ção do pensamento
pode ser ampliada.
Assim, é improvável forças componentes. naval. E nos países
que um líder natural Num mundo cada vez mais de vanguarda, po-
para grandes empre- derosas bases téc-
endimentos de campo
tecnológico, a componente nico-científico-in-
se torne líder numa científica-tecnológica- dustriais de defesa
organização de pes- industrial é fundamental também influem in-
tensamente no pen-
quisa e desenvolvi-
mento. No entanto, samento naval.
militares têm o dever Pensamentos na-
de dar o melhor de si em todos os setores vais são tão mais importantes quanto
de atividade, ainda que só em alguns mais pertinentes forem suas forças
possam ser líderes naturais. componentes. Num mundo cada vez
Cultivem seus dons de liderança. Assim mais tecnológico, a componente
se tornarão mais capazes. científica-tecnológica-industrial é
fundamental. Ela ainda é incipien-
OFICIAIS ENGENHEIROS E O te no pensamento naval brasileiro.
PENSAMENTO NAVAL Desenvolvê-la é parte essencial da
missão do CEM. Incluirá vocês. Neste
“The empire of the future is the em- primeiro curso, e nos cursos e práticas
pire of the minds” dos próximos 15 anos, vocês estarão
Winston Churchill criando a base para suas contribuições
Marinhas de guerra evoluem im- pessoais.
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MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA
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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS*
SUMÁRIO
Introdução
Aviões
O Interesse Militar
O Período entre Guerras
O Helicóptero
Considerações Finais
* Palestra proferida pelo autor no Seminário do Centenário da Aviação Naval, no Instituto Histórico e Geográfico Brasi-
leiro, em 17 de novembro de 2016.
** Engenheiro Naval pela Universidade de São Paulo e Mestre em Arquitetura Naval pela Universidade de Londres.
Membro dos Institutos Histórico e Geográfico Brasileiro, Geografia e História Militar do Brasil e História
Militar Terrestre, membro da Academia de Marinha de Portugal e do Conselho Internacional de Museus.
Foi diretor de Engenharia Naval e do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha. Presidente da
Sociedade Brasileira de Engenharia Naval e vice-Presidente do Comitê Internacional de Museus de História
Militar e Coleções de Armas.
Autor de capítulos nos livros: Atlântico – A História de um oceano; Guerra no Mar, Batalhas e Campanhas Navais
que mudaram a História; e Charles Darwin. Coordenador e colaborador do livro A Importância do Mar
na História do Brasil; coordenador e um dos autores do livro Introdução à História Marítima Brasileira.
É autor de artigos sobre História Naval e Arquitetura Naval. Colaborador assíduo da RMB.
INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS
com bom êxito em guerras no passado, resolveu também iniciar suas aquisições
servindo como postos de observação, como de zepelins.3
na Guerra Civil americana e na Guerra da Em seu artigo já citado, “Ce que je ferai,
Tríplice Aliança contra o Paraguai, por ce que l’on fera”, do início de 1905, Santos
exemplo. A dirigibilidade lhes deu um novo Dumont prevê também como possível e
potencial. Alberto Santos Dumont publi- provável, além dos dirigíveis, a existência
cou, no número de 15 de fevereiro de 1905 futura de aviões com motores potentes. Ele
do periódico francês Je Sais Tout, um artigo já estava voltando sua atenção e criativida-
intitulado “Ce que je ferai, ce que l’on fera” de para eles.
(“O que farei, o que se fará”)1, em que ele
comenta seus projetos e suas esperanças. AVIÕES
Entre eles, prevê que existirão “cruzadores
aéreos”, balões dirigíveis militares com 200 No ano seguinte, 1906, Santos Dumont
metros de comprimento e 28 de diâmetro, decolou, na França, com o 14 Bis, um ae-
que “realizarão ações sensacionais durante roplano de configuração canard, ou seja,
uma guerra”. Seus sonhos refletiam uma com as asas atrás, que saiu do solo por
genialidade notável2. meio de seu próprio motor e hélice e voou
Nessa mesma época, um oficial aposen- a pequena distância do chão, na presença
tado do Exército alemão, o Conde Ferdi- de muitas testemunhas. Chamava-se 14 Bis
nand von Zeppelin, passou a se dedicar a porque ele pretendia testar seus controles
dirigíveis. Construiu o primeiro em 1900, inovativos em voos em que estaria pendu-
pensando em grandes aeronaves, cheias rado no seu balão 14. Utilizou nesse avião
com hidrogênio, para transportar passagei- um motor novo, potente e leve, que estava
ros e carga, mas seu passado o fez perceber disponível na França, o Antoinette4, desen-
o potencial militar dessas aeronaves, que volvido pelo engenheiro Léon Levavasseur
logo passaram a ser chamadas de zepelins. para motorizar barcos de corrida.
O Exército alemão fez suas encomendas e, Depois Levavasseur se associou a Louis
antes do início da Primeira Guerra Mundial, Blériot, criando, em 1906, a empresa An-
já possuía sete em serviço, principalmente toinette, primeira a se dedicar à fabricação
destinadas a missões de reconhecimento. de motores para a aviação. Seus motores
A Marinha Imperial da Alemanha, por foram empregados em quase todos os novos
sua vez, não estava confiante na eficácia aviões fabricados na Europa.
desse meio e mantinha os recursos financei- Longe dali, nos Estados Unidos da
ros a ela disponíveis, principalmente con- América (EUA), os dois irmãos Wright,
centrados na obtenção de grandes navios Wilbur e Olliver, também desenvolviam
de guerra que pudessem disputar o domínio aeroplanos e já haviam voado com pla-
do mar. Considerando, porém, a falta de nadores. Em seguida, no final de 1903,
cruzadores ligeiros, tradicionalmente uti- experimentaram um avião motorizado,
lizados para missões de reconhecimento, que decolou de uma rampa com trilho na
1 DUMONT, Alberto Santos. “O que farei, o que se fará”, in Revista Marítima Brasileira, v.134 n.07/09, jun./
set. 2014.
2 Além de sua notável contribuição pioneira para o desenvolvimento da aviação, Santos Dumont inspirou Cartier
para fabricar para ele um relógio de pulso, que é o primeiro dos usados a partir de então.
3 MASSIE, Robert K. Castles of Steel, p. 361, 362.
4 Em homenagem a Antoinette Gastambide.
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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS
Praia de Kitty Hawk, com o auxílio de um vencedor, juntou-se aos pioneiros aéreos
vento de 30 a 40 nós, e fez um pequeno prediletos da imprensa internacional: San-
voo5. Mais tarde, repetiram o feito com tos Dumont, Voisin, Farman e, depois de
novos modelos de aviões, sempre com sua apresentação na França, também em
auxílio de rampa e trilho para decolar, 1908, os irmãos Wright.
o que, no entanto, não desmerece seus Blériot, que se associara a Levavaseur
feitos, que somente foram reconhecidos na Fábrica Antoinette, em 1909, atravessou
na França em 1908. o Canal da Mancha com um avião monopla-
Santos Dumont, por sua vez, tinha no, voando cerca de 35 km entre Calais e
apresentado um novo avião monoplano, Dover, a 80 metros de altura, com uma ve-
que voou em 1906, o Demoiselle, assim locidade de 60 km/h9. Foi um feito notável,
batizado por se assemelhar a uma libélula6. que chamou muito a atenção do público na
Provavelmente, essa foi sua contribuição época e fez com que este pioneiro recebesse
mais significativa para o desenvolvimento encomendas de particulares para reproduzir
do avião. Em minha opinião, foi também seu protótipo exitoso. Iniciava-se assim
seu projeto mais importante. uma indústria aeronáutica, a Blériot Aero-
Sem dúvida, ele e os irmãos Wright nautique, que produziu mais de 800 aviões
foram importantes pioneiros da aviação, entre 1909 e 191410.
mas logo outros se juntaram a eles, como Desde 1909, oficinas artesanais que
os irmãos Gabriel Voisin, Henry Farman e fabricavam aviões começaram a receber
Ferdinand Ferber. encomendas comerciais e a se converter em
Na América, enquanto os irmãos Wri- indústrias. Em poucos anos, a aviação se
ght garantiam suas patentes, que depois difundiu por meio de associações e clubes
causaram dificuldades e atrasos para os esportivos, e voar deixou de ser uma ativi-
outros pioneiros americanos, um grupo de dade exclusiva de pioneiros, disseminando-
empreendedores, aviadores e engenheiros -se pelo mundo.
liderados por Alexander Graham Bell 7 O sucesso no desenvolvimento dos
fundou uma associação para empreendi- aviões11 deve-se a um patamar tecnológico
mentos aéreos. Fazia parte desse grupo existente nessa época. Sem esse patamar
Glenn Hammond Curtiss, que, mais tar- de tecnologia disponível e conhecimento
de, ficou famoso por seus motores para acumulado e compartilhado, não haveria
aviação e projetos de aviões. Incentivado capacidade para desenvolver e obter
por Bell, ele participou de concurso ins- paulatinamente o progresso do avião.
tituído pela revista americana Scientific O sucesso alcançado pelo 14 Bis, por
American 8, em 1908. Consagrando-se exemplo, dependeu da existência de um
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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS
12 Muito simplificadamente: o percurso maior do ar na superfície superior, convexa, da asa, quando comparado
com o percurso do ar na superfície inferior, faz com que o fluxo de ar que percorre a parte superior tenha que
aumentar sua velocidade, ou seja, sua energia cinética, para depois encontrar o fluxo de ar da parte inferior.
Para que se conserve a mesma energia inicial, é necessário que ocorra uma diminuição de pressão no fluxo
superior. Como não se alterou a pressão da parte inferior, consequentemente resulta na asa uma força de
sustentação, que a mantém em voo, se for igual ou superior ao peso do veículo.
13 CROUCH, Tom D. Asas.
14 MASSIE, Robert K. Castles of Steel, p. 362.
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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS
Os zepelins tinham, então, desempenho poder aéreo do inimigo, ele poderia causar
superior ao dos aeroplanos, e pouco se danos, que não se limitariam à frente de
podia fazer contra eles. Mesmo assim, combate. Em sua opinião, isso poderia
Churchill acreditava que os aviões eram até levar a uma possível futura dissua-
militarmente mais promissores, inclusive são do emprego da força para resolver
para combater os zepelins, que, carregados conflitos entre países. O futuro mostrou,
de hidrogênio, eram muito vulneráveis. no entanto, que bombardeios não foram
Isso ainda era um palpite, pois os zepelins suficientes para dissuadir a violência entre
podiam operar à noite, tinham raio de países. Mas, curiosamente, supõe-se ter
ação superior ao dos aviões e alcançavam alcançado esse efeito dissuasório no final
altitudes maiores. Mesmo assim, o esforço do século XX, com a ameaça das armas
da Marinha Real bri- nucleares. Mesmo as-
tânica, da qual Chur- sim, isto somente se
chill se tornou first Desde 1910 os tornou uma possibili-
lord of the Admiralty dade provável quando
durante sua prepara-
aviões estavam em não foi mais possí-
ção para a Primeira desenvolvimento para vel ganhar vantagens
Guerra Mundial, se emprego militar. Diversos decisivas ao atacar
concentrou em avi- primeiro e passou a
ões para emprego em exércitos começaram a ser conveniente evitar
reconhecimentos e explorar seu emprego em uma guerra nuclear.
como arma defensi- Desde 1910, porém,
va. Logo o Exército
reconhecimentos aéreos os aviões estavam em
do Reino Unido tam- desenvolvimento para
bém passou a se interessar neles. emprego militar. Diversos exércitos come-
Herbert Wells, jornalista, historiador e çaram a explorar em manobras seu emprego
escritor famoso por suas obras de ficção em reconhecimentos aéreos. Com o bom
científica15, em um de seus livros, publi- resultado obtido, vários países os incorpo-
cado em 1908, previu que, com o empre- raram a suas Forças Armadas17.
go de aeronaves, haveria uma alteração Em 1911 começaram, de fato, a realizar
no caráter da guerra: “... nenhum lado missões de guerra. Durante um conflito
fica imune aos mais graves prejuízos; e entre a Itália e a Turquia na Líbia, os ita-
enquanto acontece um vasto aumento da lianos os utilizaram para reconhecimentos,
capacidade destruidora da guerra, há tam- e um dos aviões lançou granadas contra o
bém uma grande indecisão”16. A indecisão inimigo, num ato precursor do bombar-
a que ele se refere seria causada pelas deio aéreo. Daí para diante, aviões foram
consequências da grande potência de des- empregados em guerras, inclusive nos
truição em ambos os lados conflitantes. Bálcãs, onde a Turquia tinha 20 aviões e
Enquanto não se eliminasse totalmente o a Bulgária 2518.
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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS
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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS
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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS
menor capacidade de inovação do que a arte da guerra e até previram que a guerra
alemã, e produziu 55.092 aviões21. terrestre e a naval poderiam se tornar ob-
A Alemanha conseguiu, com seus mode- soletas com o progresso da aviação militar.
los mais avançados, estar tecnologicamente Giulio Douhet22 (1869-1930), um ofi-
na frente dos franceses e ingleses, utilizan- cial do Exército italiano, desde o início
do novos materiais e desenvolvendo ino- percebeu o que poderia ocorrer e disse, an-
vações, como as asas grossas com secções tes de 1914, que “uma nova arma surgiu. O
retas de perfil de aerofólio. Destacou-se céu se tornou um novo campo de batalha”.
no emprego de novas estruturas de avião, Mais tarde, ele foi um dos grandes teóricos
que foram muito importantes para o futuro do emprego do Poder Aéreo e até acredi-
da aviação. Utilizaram tubos estruturais tou que tudo se resolveria no futuro nesse
de aço soldados, cobertura de alumínio e novo ambiente. Caberiam às outras Forças
aviões inteiramente metálicos – como os Armadas tarefas defensivas, enquanto uma
desenvolvidos por Hugo Junkers – e caças força aérea destruiria os centros vitais e
de estrutura de duralumínio. Os alemães abateria a moral do inimigo, inclusive
continuaram produzindo, mesmo quando o atacando cidades e fazendo com que sua
bloqueio inimigo fez com que não tivessem população perdesse a vontade de lutar.
mais matérias-primas importadas, como a No futuro, essa profecia se mostrou
borracha, por exemplo, o que exigiu que exagerada, apesar de ter se confirmado par-
fabricassem, como alternativa precária, cialmente. As outras Forças Armadas conti-
rodas para aviões em madeira. nuaram muito importantes, principalmente
Ainda nessa guerra, a fábrica de por sua maior capacidade de permanência
Junkers se uniu à Fokker. Um de seus em um local distante. As reações humanas,
aviões, o Fokker [Link], de 1918, é con- por sua vez, nem sempre são previsíveis, e
siderado o melhor caça da guerra e foi o bombardeio de cidades pode não abater
utilizado durante anos depois do con- o ânimo das tropas que estão combatendo,
flito por vários países, em suas Forças como o tempo mostrou ser verdade.
Armadas. Tinha as asas desenvolvidas As ideias de Douhet, embora bem
por Junkers e duas metralhadoras de tiro conhecidas na Itália, por ter publicado ar-
frontal. Fabricaram-se cerca de 3.300 tigos desde 1910, um livro em 1918 e por
desses aviões durante o conflito. seu clássico Comando dos Ares, de 1921,
Esses fatos comprovam que a capaci- custaram a ser traduzidas e consideradas
dade tecnológica produtiva e inovadora nos cursos de estratégia das escolas de al-
de um país já tinha adquirido uma impor- tos estudos militares dos EUA e do Reino
tância vital para a guerra, e a dependência Unido e só ganharam atenção e importância
do Poder Militar em tecnologia, inclusive na década de 1930. Enquanto isso, as ver-
a tecnologia aeronáutica, também se tor- dadeiras campanhas para divulgar a impor-
nou crescente. tância futura da aviação militar, realizadas
Algumas pessoas, como Giulio Douhet, por Mitchell, nos EUA, e Trenchard, no
Billy Mitchell e Hugh Trenchard, perce- Reino Unido, tiveram maior repercussão
beram a mudança que estava ocorrendo na nos seus respectivos países.
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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS
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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS
23 Martins, Helio Leoncio. História Naval Brasileira, Quinto Volume, Tomo II. Serviço de Documentação Geral
da Marinha, Rio de Janeiro, 1985, pg.117.
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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS
Aeronáutica, incorporando todo o material, teste com o XR-4, em cujo projeto introduzira
equipamentos e instalações aeronáuticas da várias inovações, foi um completo sucesso.
Marinha e do Exército. Diversos outros fabricantes, além da
Essa medida radical copiava o que ha- empresa de Sikorsky, inclusive franceses
via ocorrido em países de regime totalitá- e britânicos, também produziram novos
rio, como a Alemanha. Por outro lado, as helicópteros. Em sua aplicação militar,
Forças Aéreas unificadas da França e do primeiro encontraram emprego evacuando
Reino Unido foram criadas mantendo as feridos da linha de frente, transportando
forças aeronavais, de natureza tática, sob pessoas e em outras tarefas auxiliares. Na
o controle de suas respectivas Marinhas. Guerra da Coreia e em outros conflitos
dessa época, sua utilidade se mostrou
O HELICÓPTERO crescente, e na Guerra
do Vietnã já exerceu
Se o desenvolvi- Com os desenvolvimentos tarefas operativas im-
mento do avião de- ocorridos na segunda portantes.
pendeu de um longo Para as Marinhas,
processo evolutivo, metade do século XX, os o helicóptero demons-
que necessitou da evo- meios aéreos se mostraram trou ser um excelente
lução de um patamar meio para a guerra
de conhecimento e imprescindíveis para antissubmarino, tanto
desenvolvimento tec- emprego tático nas na detecção acústica
nológico para que se Marinhas à distância como uti-
obtivesse um resulta- lizando torpedos para
do satisfatório, sendo destruir os submari-
controverso apontar um inventor, no caso nos. Tornou-se, portanto, um meio orgânico
do helicóptero esse fato ainda é mais imprescindível para elas.
evidente.
São vários os pioneiros que tentaram CONSIDERAÇÕES FINAIS
conseguir uma decolagem e um pouso
vertical, ou quase vertical. A primeira O progresso das indústrias aeronáuti-
máquina de asa rotativa que logrou subir cas e das companhias de aviação ocorreu
alguns centímetros com um piloto, apesar aceleradamente entre 1926 e 1941. Nas
de descontrolada, foi a de Louis Breguet, Marinhas, também foi nesse período que
em 1907. Seguiram-se muitos outros que se desenvolveram os navios-aeródromo,
alcançaram sucessos relativos, até que, que durante a Segunda Guerra Mundial,
em 1923, o engenheiro Juan de la Cier- na frente do Oceano Pacífico, se tornaram
va buscou uma solução intermediária, os novos navios capitais das esquadras.
o autogiro, que chegou a ser industrial- Lá, na Batalha de Mar de Coral, pela
mente produzido e comerciado, sendo primeira vez, não houve combates de
que alguns foram vendidos para Forças superfície entre navios, mas ataques de
Armadas dos EUA. aviões às duas forças navais, america-
É possível que os resultados obtidos por na e japonesa, e também, durante essa
Igor Ivan Sikorsky (1889-1972) com o desen- guerra, os navios-aeródromo mostraram
volvimento de um novo helicóptero tenham que eram capazes de projetar poder sobre
sido os melhores até então. Em 1942, seu terra, por meio de suas aeronaves.
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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS
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INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA
NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
SUMÁRIO
Sumário
Introdução
Sobre o apoio logístico integrado
Que padrão deve ser adotado, levando em conta a Base Industrial de Defesa?
Obtenção de informações e dados referentes ao apoio logístico
Evolução do gerenciamento das informações específicas
Padrão adotado (EUA)
Padrão adotado na Europa e outros países
A ISO 10303 – Step
Considerações finais
* Foi chefe do Departamento Industrial da Base Almirante Castro e Silva; assessor no reparo de submarinos no
Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro; comandante da Corveta Caboclo, do Submarino Humaitá, da Força
de Apoio e dos Centros de Instrução Almirante Alexandrino e Almirante Átila Monteiro Aché. Foi diretor
de Ensino da Marinha. Publicou o livro Logística Pura e vários artigos sobre logística.
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
1 ILS: “ILS x ALI”. Revista do Clube Naval, ano 112, nr. 325, jan/fev/mar 2003, p. 38-42.
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INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
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INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
4 O primeiro curso, sob auspícios da DEN, foi ministrado em 1982 pelo CDR (USN) Cowdrill sob o título de
Gerência de Projeto na Obtenção de Meios Flutuantes. O terceiro, por oficiais da MB, aconteceu em 1984.
5 Sobre essas diferenças, ver artigo “ILS x ALI”, Revista do Clube Naval no 325/2003, p. 38-42.
6 Sobre Base Industrial de Defesa, artigo do autor sobre emprego do CALS. Consultar RMB v. 134 no 07 jul/set
2014, p.203, Seção Artigos Avulsos. O artigo completo está disponível na Biblioteca da Marinha.
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INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
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INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
7 A SGML é uma norma ISO: ISO 8879:1986 Information processing – Text and office systems – Standard Ge-
neralized Markup Language (SGML).
8 XML (eXtensible Markup Language) é uma recomendação da W3C para gerar linguagens de marcação para
necessidades especiais.
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INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
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INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
10 DEX - Data exchange: É o processo de estruturar dados segundo um schema (fonte) e transformá-los em dados
estruturados sob a forma de um schema (alvo) que seja a representação precisa do primeiro. O processo per-
mite que os dados sejam compartilhados por diferentes programas de computador. Schema X é a descrição
da estrutura de um documento X, sendo X uma linguagem de esquema, por exemplo XML.
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INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
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INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
CONSIDERAÇÕES
Defesa assumir o papel de que mantenha a base
de conhecimentos das
FINAIS orientação e supervisão disciplinas de Logís-
das atividades logísticas tica de Defesa, que
Seguem-se algu- centralize a dissemi-
mas considerações que ocorrem dentro do seu nação da doutrina con-
segundo o ponto de contexto cernente e propague
vista do autor, inferi- os conhecimentos de
das a partir da matéria caráter gerencial e téc-
apresentada no texto, levando em conta a nico, além de quaisquer outras disciplinas
sua complexidade, indicativo da necessida- de interesse.
de de orientação e supervisão superiores: D – Tratando-se do tópico específico
abordado nesse artigo (intercâmbio de
De natureza genérica dados), são recomendáveis iniciativas
no sentido de estabelecer um protocolo
A – Cabe ao Ministério da Defesa assu- de entendimentos com a Base Industrial
mir o papel de orientação e supervisão das de Defesa, visando às comunicações de
atividades logísticas que ocorrem dentro dados técnicos, levando em consideração
do seu contexto: nas Forças Armadas e a documentação citada, para permitir a
no próprio Ministério (segundo sua dupla padronização de conhecimentos e facilitar
personalidade, tanto como órgão da gestão o entendimento entre as partes.
pública quanto como órgão de gerencia-
mento das peculiares atividades militares Relativas ao ILS
de defesa). Por razões claras, nele deveria
ser criado uma organização para gerenciar A – Enfatizar a forte polarização nos
as tarefas logísticas específicas, tanto as do conceitos e princípios da qualidade em
contexto militar como também fora deste, todos os processos relatados. Assim, con-
no trato com o componente civil da Base siderar o ciclo PDCA (Planejar, Executar,
Industrial de Defesa. Trata-se, ainda mais, Controlar a ação planejada e Corrigir)
48 RMB1oT/2017
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
como a fórmula mágica permanente para priado11) para haver sempre entendimento
gerenciar o processo de intercâmbio de preciso entre as partes, evitar falhas de
dados (mas não só ele), visando sempre à tradução ou evitar que sejam criados termos
melhoria contínua. e expressões que não reflitam a fase do
B – Tornar equivalentes as metodologias processo a que se referem. Tal medida pode
do ALI e do ILS. Para isso é preciso, prin- contribuir muito para a uniformização de
cipalmente, perceber e separar as diferentes procedimentos e, pela simplicidade decor-
áreas em que atividades específicas aconte- rente, para a economia de meios.
cem. Muito embora tudo ocorra no campo E – Eliminar o inconveniente do Setor
administrativo, diversos assuntos têm ca- do Material fazer distinção entre Organi-
racterísticas distintas. Por exemplo, definir zações Militares no trato do material. Uma
uma necessidade de meio ou material de Gestão, ou Gerência do Material, deve ser
emprego militar tem enfoque predominan- centralizada, enquanto descentralizada a
temente estratégico; definir requisitos para execução. O trato do material deve ter, pois,
desenvolver a concepção (fase conceitual) supervisão centralizada num único órgão,
que resolve uma necessidade cai prelimi- que ditará as normas a serem seguidas, até
narmente no campo da pesquisa e de mer- mesmo em relação aos suprimentos. Isso
cados; definir uma estratégia de obtenção não implica alterar subordinações e cargos,
e iniciar o processo de desenvolvimento que são atividades administrativas do setor
de um sistema recai na área da Engenharia do pessoal.
de Sistemas; um programa de ILS recai F – Atribuir ênfase, na Gerência do
na área da Engenharia de Sistemas e mais Material, ao caráter sistêmico, em ou-
especificamente da Engenharia Logística; o tras palavras, Diretorias Especializadas,
gerenciamento de um período operacional principalmente na área do material. Estas
recai na esfera administrativa-operativa; o devem ser Diretorias de Sistemas (exem-
apoio logístico diz respeito ao campo da plos, na MB: Diretorias de Sistemas de
Logística; idem quanto ao descarte ou à Armas, de Sistemas de Comunicações, de
realocação de um material de emprego mi- Sistemas de Navios – tratando dos siste-
litar etc. Tal seleção contribuirá, em muito, mas de casco, sistemas da propulsão, das
para separar aspectos técnicos dos aspectos auxiliares etc. –, de Sistemas de Propulsão
gerenciais em fluxogramas elucidativos dos Nuclear etc.).
diferentes processos. G – Evitar confundir a fase de identi-
C – Tornar permanente o processo do ficação da necessidade de um novo meio
ILS ao longo de todo o ciclo de vida dos sis- (problema estratégico/tático, da alçada do
temas, embora devidamente dimensionado Sistema de Requisitos) com o processo que
para cada caso particular. Tal processo não se segue, que é de Engenharia de Sistemas
deve ser interrompido, nem mesmo depois (da alçada dos Sistemas e Orçamentação e
da avaliação global dos sistemas. de Obtenção), e que vai da concepção ao
D – Tornar prioritário o estabelecimento fim do ciclo de vida do sistema solução.
de cultura (pelo menos por meio de um H – Buscar estabelecer, na medida do
glossário e pela adoção de inglês apro- possível, a padronização (de nomenclatura,
11 ASD Simplified Technical English, Specification ASD-STE100 (STE), especificação internacional para a
preparação de documentação técnica, numa linguagem controlada. Consultar na internet o STEMG STE
Maintenance Group.
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INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA
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SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES
SUMÁRIO
Introdução
Definições
O projeto de sistemas oceânicos
A divisão de tipos de embarcações/navios e demais sistemas oceânicos em famílias
Descrição dos principais tipos de embarcações/navios e demais sistemas oceânicos
Conclusão
* Serviu na Diretoria de Engenharia Naval e no Centro de Projetos de Navios. Um dos principais participantes dos
projetos das corvetas classe Inhaúma e Barroso. D.S.C. em Engenharia Oceânica, pelo Instituto Alberto Luiz
Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-
-UFRJ). Faz, atualmente, parte do Corpo Docente do Centro de Instrução Almirante Wandenkolk (CIAW).
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES
nente pela reativação da indústria naval Há, assim, duas alternativas para o pro-
mercante brasileira. Por se tratar de um as- jetista: enquadrar o novo sistema flutuante a
sunto global e abrangente, que ocuparia um ser obtido numa das famílias já existentes ou
volume de leitura relativamente extenso, se lançar num processo de inovação em ter-
invocando assuntos correlatos, este artigo mos de projeto, razão pela qual é importante
aborda somente os tipos de produtos finais que se tenha o conhecimento do espectro
que são resultantes da cadeia produtiva na de famílias de meios flutuantes existentes.
construção naval mercante e offshore, e que
são os objetos do seu planejamento. A DIVISÃO DE TIPOS DE
EMBARCAÇÕES/NAVIOS E
DEFINIÇÕES DEMAIS SISTEMAS OCEÂNICOS
EM FAMÍLIAS
Os termos embarcação e navio, embora
possam ter o mesmo significado, não têm Para esta divisão, vamos explorar três
o mesmo uso na prática. Atualizando a referências. De Eyres [2] temos os tipos de
definição de Fonseca [1] para abranger os embarcações/navios e sistemas oceânicos
materiais atuais, teríamos: em nove grandes famílias, a saber:
Embarcação: “construção feita de ma- – barcos de alta velocidade;
deira, concreto, ferro, aço, alumínio, ma- – navios offshore;
teriais compósitos ou combinações desses – navios pesqueiros;
que flutua e é destinada a transportar, pela – embarcações (crafts) de apoio oceâ-
água, pessoas ou objetos”. nico e de porto;
Navio: “embarcação de grande porte”. – navios de carga geral;
Como podemos ver, as definições acima, – graneleiros;
embora sejam emanadas de uma referência – navios de passageiros;
consagrada, não estabelecem a fronteira – submersíveis; e
entre embarcação e navio e deixam de – navios de guerra.
fora os demais sistemas oceânicos, como Essas nove grandes famílias acima
plataformas offshore, que serão também mencionadas contemplam, ao todo, 44 tipos
objeto deste artigo. de navios diferentes, sendo que alguns dão
origem a subtipos, como, por exemplo, o
O PROJETO DE SISTEMAS caso dos submersíveis e navios de guerra.
OCEÂNICOS Já de Lamb [3] temos os tipos de em-
barcações/navios e sistemas oceânicos
O projeto de embarcações/navios e siste- divididos em três grandes famílias abaixo
mas oceânicos é, talvez, a mais demandante relacionadas, não havendo referências a
de todas as tarefas de engenharia, pois, navios de guerra:
normalmente, são grandes e complexos – navios comerciais;
produtos manufaturados. Antes que o pro- – navios industriais; e
jetista possa iniciar o projeto, o armador – navios prestadores de serviços.
precisa especificar a natureza do meio Essas três grandes famílias citadas, por sua
flutuante do qual precisa e que deseja, as vez, contemplam ao todo 36 tipos de navios.
áreas de operação e outras considerações Finalmente, de Watson [4] temos os ti-
especiais, que vêm a constituir os chamados pos de embarcações/ navios e sistemas oce-
“Requisitos do Armador”. ânicos em seis grandes famílias, que são:
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SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES
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SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES
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SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES
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SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES
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SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES
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SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES
Plataformas de perfuração
semissubmersíveis
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SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES
des guindastes com estruturas massivas se – sistema de amarração feito por meio
estendendo acima do convés principal e a de turret;
existência de um grande poço se estenden- – sistema de movimentação de fluidos;
do para baixo do casco, de modo a acomo- – comportamento no mar (seakeeping)
dar as operações de perfuração. Possuem com impacto no desempenho da planta de
movimentos maiores de arfagem, jogo e processamento e no conforto.
caturro do que uma plataforma semissub- As Figuras 15 e 16 mostram o perfil e o
mersível, devido às maiores excitações arranjo de operação típicos de uma FPSO.
dos estados de mar e diferentes respostas a
estes, o mesmo ocorrendo para movimentos
de avanço e caimento. A Figura 14 mostra
um navio de perfuração.
RMB1oT/2017 59
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES
REFERÊNCIAS
[1] FONSECA, M.M. Arte Naval. Rio de Janeiro: Editora SDM, 2005.
[2] EYRES, D.J. Ship Construction. 6th Edition. Oxford: Elsevier, 2007.
[3] LAMB, T.T. Ship Design and Construction. Jersey City: Sname, 2004, Vol II
[4] WATSON, D,G.M. Practical Ship Design. Elsevier, Ocean Engineering Book Series, 1991, Vol I.
[5] VASCONCELOS, J. M. Estabilidade de Sistemas Flutuantes. Rio de Janeiro: Instituto de Ciências
Náuticas, 2005.
60 RMB1oT/2017
PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA
ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA
NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL
SUMÁRIO
Introdução
União Africana
Organização Marítima da África do Oeste e do Centro
Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental
Comunidade Econômica dos Estados da África Central
Comissão do Golfo da Guiné
Grupo do G7 dos amigos do Golfo da Guiné
Universidades marítimas
A Cimeira de Yaoundé
Algumas reflexões
* N.R.: Autor do livro A Pirataria Marítima Contemporânea: as duas últimas décadas. Colaborador costumeiro
da Revista Marítima Brasileira, em especial sobre Pirataria Marítima (2o e 4o trim./2008, 3o trim./2010, 3o
trim./2011, 3o trim./2013, 3o trim./2014, 3o trim./2015, e 1o trim./2016).
PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL
A pirataria na re-
gião do GG tem es-
tado mais ativa nas
últimas duas déca-
das, nomeadamente
nas águas da Nigéria,
em geral, e no delta
do Rio Níger, em
particular.
Começou pelo pe-
queno roubo, con-
tudo foi evoluindo
para situações que
já denotam planeja-
mento e organiza-
ção, como o roubo de
combustível (bunke-
ring) e o sequestro Piratas nigerianos (Foto: CCTV África)
de tripulantes para
a obtenção de resgates. Esta mudança no mar territorial ou em águas interiores)
gradual no modus operandi dos piratas e instiga os países da região a partici-
do GG, associada ao aumento da violên- parem ativamente no combate a este
cia durante os seus atos e, ainda, o fato fenômeno; e a Resolução 2.039 (2012),
de o protagonismo de 29 de fevereiro,
da pirataria no con- que veio mostrar a
tinente africano ter O Conselho de Segurança da grande preocupação
passado para esta
região, devido ao seu
ONU manifestou profunda do CSNU com esta
problemática e que
declínio nas águas preocupação com os atos de exorta a Comunidade
da Somália, levaram pirataria e com os assaltos à Econômica dos Es-
o Conselho de Se- tados da África Oci-
gurança das Nações mão armada contra navios dental, a Comunidade
Unidas (CSNU) a no mar do Golfo da Guiné Econômica dos Esta-
aprovar duas Reso- dos da África Central
luções neste âmbito: e a Comissão Golfo
a Resolução 2.018 (2011), de 31 de ou- da Guiné a trabalharem conjuntamente
tubro, que condena os atos de pirataria na elaboração de uma estratégia regional
marítima (atos ilícitos1 cometidos fora do de luta contra a pirataria e os assaltos à
mar territorial2) e os assaltos à mão arma- mão armada contra navios e contra outras
da contra navios (atos ilícitos do mesmo atividades ilícitas praticadas no mar, em
gênero dos da pirataria, só que cometidos cooperação com a União Africana. Esta
1 De violência e/ou de detenção e/ou de pilhagem cometidos, para fins privados, pela tripulação e/ou pelos passa-
geiros de um navio privado, e dirigidos contra um navio e/ou pessoas e/ou bens a bordo do mesmo.
2 O mar territorial consiste numa zona marítima, sob soberania nacional, que vai até às 12 milhas náuticas, contadas
a partir da “linha de costa” (linha de base reta ou normal) de um Estado. Uma milha náutica são 1.852 metros.
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PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL
agendas a segurança
e a defesa do espaço
marítimo.
UNIÃO
AFRICANA
Sucessora da Or-
ganização da Unidade
Africana 3 , a União
Africana (UA) foi
fundada em 2002 em
Durban, na África do
Sul, e encontra-se se-
diada em Adis Abeba,
Boarding team da Marinha dos Camarões no Exercício Obangame Express na Etiópia. O seu pre-
(Foto: US AFRICOM) sidente em exercício,
desde 30 de janeiro
Resolução incitava ainda os Estados deste de 2016, é o atual Presidente da República
Golfo a fazerem uma Cimeira. Esta foi do Chade, Idriss Déby Itno. Em 9 de julho
realizada em 19 de março de 2013, no de 2011, o Sudão do Sul tornou-se o 54º
Benim, para delinearem uma estratégia estado-membro.
comum para combater este fenômeno. A UA tem como principais objetivos,
O CSNU, em 25 de abril de 2016, por entre outros, obter
meio de uma declara- maior solidariedade
ção presidencial, vol- entre os vários países
tou a manifestar a pro- Logo após a sua criação, da África, defender a
funda preocupação a UA começou a delinear integridade territorial
da ONU com os atos e independência dos
de pirataria e com os
uma Arquitetura de
estados-membros e
assaltos à mão armada Paz e Segurança para o acelerar a integração
contra navios no mar continente africano política, social e eco-
do GG, salientando a nômica da África.
necessidade de uma Logo após a sua
abordagem abrangente, liderada pelos Es- criação, a UA começou a delinear uma
tados da região com o apoio internacional, Arquitetura de Paz e Segurança para o
de forma a fazer face à atual situação que continente africano. É curioso notar que,
se vive neste Golfo. inicialmente, no arranque de todo este
Neste momento existe um grande processo, a segurança marítima não era
número de organizações ativas na região considerada como estratégica. Contudo,
do GG, conforme se pode ver a seguir, as o mar, que vem ganhando protagonismo
quais, ao contrário do que acontecia no nos últimos anos, tornou-se também palco
passado, já começaram a incluir nas suas de diversos conflitos, dos quais se salienta
RMB1oT/2017 63
PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL
a pirataria marítima, o que levou a UA, – a África como um ator forte, influente
constituída na sua maioria por Estados e parceiro a nível mundial.
litorâneos, a preocupar-se verdadeiramente A aprovação desses documentos estra-
com o mesmo. Isso demonstra a aprovação, tégicos vem mostrar a preocupação comum
em 31 de janeiro de 2014, da Declaração de dos Estados africanos com o seu cresci-
Adis Abeba4, na qual os ministros africanos mento econômico e com a sua segurança,
adotaram a Estratégia Marítima Integrada da fazendo refletir nestes escritos os desafios,
África 20505 e o seu Plano de Ação de Ope- as ameaças e as oportunidades que têm
racionalização. Esta Estratégia não aborda pela frente.
só aspectos de segurança relacionados com
a pirataria marítima, mas também da pesca ORGANIZAÇÃO MARÍTIMA DA
ilegal, do tráfico de pessoas e do terrorismo ÁFRICA DO OESTE E DO CENTRO
marítimo, apontando também um conjunto
de oportunidades em termos de economia. A Organização Marítima da África do
Um ano mais tarde, em janeiro de 2015, a Oeste e do Centro6 e 7 (Mowca), constituída
Conferência da União Africana, na sua 24ª por 20 estados costeiros e cinco não cos-
Sessão Ordinária, realizada em Adis Abeba, teiros, encontra-se sediada em Abidjan, na
estabeleceu a Agenda 2063, identificando Costa do Marfim, e o seu secretário-geral
as aspirações africanas até o ano de 2063, é Alain Michel Luvambano. Foi estabe-
mencionadas a seguir: lecida em 7 de maio de 1975, em Lagos,
– uma África próspera, baseada no cres- na Nigéria, pelos ministros africanos dos
cimento inclusivo e no desenvolvimento Transportes dos Estados da África Ociden-
sustentável; tal e Central, que resolveram criar um orga-
– um continente integrado, politica- nismo permanente de concertação, ao qual
mente unido com base nos ideais do pan- atribuíram a designação da Conferência
-africanismo e na visão do renascimento Ministerial dos Estados da África Ocidental
da África; e Central para o transporte marítimo. O seu
– uma África de bom governo, democra- nome atual foi adotado, na sequência das
cia, respeito pelos direitos humanos, pela reformas feitas pela Assembleia-Geral dos
justiça e pelo estado de direito; Ministros dos Transportes, numa sessão
– uma África pacífica e segura; extraordinária que decorreu em Abidjan,
– uma África com uma forte identidade entre 4 e 6 de agosto de 1999.
cultural, herança, valor e ética comuns; O papel principal desta organização
– uma África onde o desenvolvimento deveria ser um pouco o de autoridade ma-
seja orientado para as pessoas, confiando rítima regional, devendo servir de elo no
especialmente no potencial da mulher e da estabelecimento de contatos e na negociação
juventude; e entre o setor privado, os portos, as autorida-
4 Esta foi colocada à consideração a 6 de dezembro de 2012, durante a 2.ª Conferência dos Ministros africanos
responsáveis pelos assuntos marítimos.
5 Em inglês Africa´s Integrated Maritime Strategy 2050 - AIM 2050.
6 Do inglês Maritime Organization of West and Central Africa (Mowca). Em francês: Organisation Maritime de
L´Afrique de L´Ouest et du Centre (Omaoc).
7 Países costeiros: Angola, Benim, Camarões, Cabo Verde, Congo, República Democrática do Congo, Costa
do Marfim, Gabão, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Libéria, Mauritânia, Nigéria,
São Tomé e Príncipe, Senegal, Serra Leoa e Togo. Países não costeiros: Burkina Faso, República Centro
Africana, Chade, Mali e Níger.
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PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL
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PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL
11 Em inglês Economic Community of Central African States (Eccas) e em francês Communauté Economique des
Etats de l’Afrique Central (Ceeac).
12 Países: Angola, Burundi, Camarões, Chade, Gabão, Guiné Equatorial, República Centro-Africana, República
Democrática do Congo, Congo, Ruanda e São Tomé e Príncipe.
13 É composta por oito países: Angola, Camarões, República Democrática do Congo, Congo, Gabão, Guiné
Equatorial, Nigéria e São Tomé e Príncipe.
14 Do inglês G7 Friends Of the Gulf of Guinea Group (G7++Fogg).
15 É composto pelo G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), pelo Grupo de
Amigos [(Bélgica, Coreia do Sul, Dinamarca, Espanha, Noruega, Países Baixos, Portugal, Suíça, Austrália
(observador), Brasil (observador), União Europeia, UNODC, Interpol e IMO (observador)] e pelos Estados
da região (Angola, Benim, Burkina Faso, Camarões, Cabo Verde, República Centro-Africana, Chade, Re-
pública Democrática do Congo, Costa do Marfim, Guiné Equatorial, Gabão, Gâmbia, Gana, Guiné-Bissau,
Guiné, Libéria, Mali, Níger, Nigéria, Congo, Senegal, S. Tomé e Príncipe, Serra Leoa e Togo). A Grécia, a
Turquia e o Uruguai foram como observadores para a reunião.
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PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL
16 Em inglês Regional Coordination Centre for Maritime Security in Central Africa e em francês Centre Régional
de Securité Maritime de l’Afrique Central (Cresmac).
17 Em inglês Center for Multinational Coordination (CMC).
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Arquitetura regional de segurança marítima após a Cimeira de Yaoundé (Foto adaptada a partir da imagem original da OBF)
PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL
18 Em inglês Regional Coordination Centre for Maritime Security in Western Africa e em francês Centre Régional
de Securité Maritime de l’Afrique de l’Ouest (Cresmao).
19 Em inglês Interregional Coordination Centre (ICC).
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PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL
70 RMB1oT/2017
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?*
SUMÁRIO
Introdução
Conflito – Conceituação
A Guerra como Fenômeno Social - Breve Análise
Considerações Finais
* Adaptação do trabalho apresentado na Escola de Guerra Naval-CPEM-2016, com o título:“Em uma era de
múltiplas transformações sociais, econômicas e na política internacional, os conflitos são inevitáveis?”.
** Vice-Diretor de Coordenação do Orçamento da Marinha.
1 MOREIRA, Rene. “ ‘Papel de juiz é resolver conflitos e não de criar’, diz ministro do STF”. O Estado de S.
Paulo, São Paulo, 18 mar. 2016 disponível em < [Link]
-stf-alfineta-sergio-moro-no-interior-de-sp>. Acesso em 18 mar. 2016.
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?
72 RMB1oT/2017
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?
Em síntese, são elencadas algumas li- legal e uma forma de conflito envolvendo
ções acerca do conflito que merecem desta- um alto grau de paridade legal, de hostili-
que, a saber: o atual regime internacional de dade e de violência dos grupos humanos
Estados em que vivemos guarda uma seme- organizados”4.
lhança com o estado da natureza proposto Observa-se que o autor acima já prevê
por Hobbes, ou seja, trata-se de um sistema o ponto de vista sociológico para o trata-
anárquico de Estados, sem uma instância mento da guerra enquanto fenômeno social.
superior; o conflito é intrínseco às socieda- Dessa forma, já em 1945, Gaston Bouthoul
des e pode vir a contribuir de alguma forma (1896-1980) cunhou o termo polemologia
para a unidade do grupo, ou até mesmo para designar uma nova possibilidade de
exercer um papel de equilíbrio no cenário incluir na sociologia o estudo científico das
mundial; o conflito é uma relação social, guerras e da agressividade organizada, no
um fenômeno social, em que a presença intuito de que se pudesse perceber como
de seres humanos com suas características esse fenômeno violento ocorria e permitir
pessoais no processo pode ser considerada que, a par desses estudos, se pudesse efetuar
um fator potencializador para a consecução algum controle nos futuros acontecimentos.
desses; e o conflito é Nesse sentido,
o resultado do anseio nasceu a polemologia
subjetivo de pessoas e Entre outras coisas, o como sendo “o estu-
grupos para defender conflito é o resultado do do objetivo e científi-
seus direitos e suas
pretensões.
anseio subjetivo de pessoas co das guerras como
fenômenos sociais
e grupos para defender seus suscetíveis de obser-
A GUERRA direitos e suas pretensões vação igual a outro
COMO qualquer”5.
FENÔMENO Enquanto fenôme-
SOCIAL – BREVE ANÁLISE no social, e por ser considerada a forma
mais grave e profunda de conflito social
O Manual de Doutrina Militar, do (presença da violência extremada), a guerra
Ministério da Defesa, conceitua a guerra, pode ser observada desde os primórdios da
que será objeto desse estudo, como sendo o civilização humana. Seja por sobrevivên-
conflito no seu grau máximo de violência, cia, busca de comida, motivos territoriais,
podendo implicar a mobilização do Poder políticos, étnicos ou religiosos, entre ou-
Nacional, com relevância para o Poder tros, o homem usou, usa e usará a violência
Militar, para fazer valer a vontade de uma como forma de resolução desses conflitos.
das partes3. Essa afirmação encontra eco nas pala-
De modo a que se possa melhor entender vras de Howard6 (2004, citado por BAL-
o fenômeno da guerra, ao se combinar os TAZAR, 2006, p.169), que afirma que
pontos de vistas jurídico, sociológico, mi- provas arqueológicas, antropológicas e
litar e psicológico tem-se que é “um estado documentais assinalam que a guerra sempre
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CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?
74 RMB1oT/2017
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?
RMB1oT/2017 75
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?
presentes as causas naturais da guerra, ou sob o enfoque também das questões que são
ainda aquelas que são “estranhas ao influxo inerentes ao ser humano e não somente da
da razão”, podendo-se citar a vaidade; o comparação de poderes combatentes.
espírito de competição; o desejo de sobres- O General Homer Lea (1876-1912)
sair, de ocupar uma posição influente e de afirma “não só que a guerra é inevitável,
ostentar poder e prestígio; um impulso de mas que qualquer esforço sistemático
ira; o desejo de dominar um rival a qualquer para aboli-la atenta, inutilmente, contra as
preço, entre outros. E, de modo geral, o fato leis universais”. O General John J. Storey
de que tanto os seres humanos como as na- (1869-1921) assevera que alguns idealistas
ções sempre se digladiaram e continuarão sustentam o seu ponto de vista afirmando
a fazê-lo porque “esta é a sua natureza”9. que, com o avanço da civilização, a guerra
Para ilustrar este ponto cabe a seguinte não mais existirá. Entretanto, ressaltam
reflexão: Realmente existiam armas de que “a civilização não mudou a natureza
destruição em massa no Iraque? Ou seria humana. É a natureza humana que torna
o perfil excessiva- a guerra inevitável.
mente “explosivo”, A luta armada não
combinado com as “Não só que a guerra desaparecerá da terra
causas acima cita- é inevitável, mas que enquanto a natureza
das, do ex-presidente humana não mudar”.10
“texano” George W. qualquer esforço Os idealistas pare-
Bush que contribuiu sistemático para aboli-la cem se equivocar ao
para se levar a cabo a
II Guerra do Iraque?
atenta, inutilmente, contra declarar que as múl-
tiplas transformações
Enfim, constata-se as leis universais” nas mais variadas áreas
que a presença de General Homer Lea (por exemplo, sociais,
um ser humano no econômicas e na po-
complexo processo lítica internacional)
decisório da guerra pode vir a ser o motivo poderiam tornar as guerras evitáveis. Re-
de sua inevitabilidade. almente, tais mudanças podem ser mais um
Dessa forma, as ditas causas naturais elemento que contribuirá para a montagem
apontam para que não se trate o fenômeno do mosaico da guerra. Entretanto, olvidam-
da guerra como um simples modelo carte- -se do fato que alterações nas culturas,
siano de escolhas. Quando existe a presença nos valores e na natureza humana têm um
do ser humano não podemos implementar tempo de maturação bem maior do que as
um modelo simplório que toma como base demais alterações. Os indivíduos sempre
a capacidade cognitiva da razão, mas que terão interesses, vaidades, vontades, espíri-
não parece ser adequado à compreensão da to competitivo, orgulho etc., que moldarão
realidade como um todo. Há que se levar suas atitudes.
em conta todos aqueles fatores psicológicos Para ilustrar esse ponto, relembra-se a
e sociológicos envolvidos na guerra, con- Guerra do Peloponeso. Naquela ocasião, o
forme já abordado. Quando se está diante dilema de segurança fez com que a guerra
do tabuleiro de xadrez que é a guerra, o fosse altamente provável (o que é diferente
cálculo dos movimentos deve ser estudado de inevitável), mas as decisões humanas
9 Ibidem, p. 135.
10 Ibidem, p. 139-140.
76 RMB1oT/2017
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?
foram bastante importantes naquele mo- por si só acabam por justificar uma guerra
mento, relevando mencionar que o acaso ou torná-la inevitável.
e as personalidades dos líderes tiveram O conflito, tanto entre as nações (que
importância elevada nas decisões11. Nesse são as guerras) como entre os demais
ponto, mais uma vez o “fator humano” organismos, pode ser considerado uma
prescindiu a razão e alterou o rumo da his- “condição de vida e de sobrevivência”.
tória, na medida em que, se fosse adotada E essa lei biológica que é inerente ao ser
uma postura pragmática e livre de emoções, humano acaba por vedar a humanidade de
o referido conflito poderia ter sido evitado. obedecer à máxima de oferecer ao inimigo
No tocante à Primeira Guerra Mundial, o a outra face, fazendo com que essa afirma-
livro de Churchil retrata bem esse ponto ao ção não seja aceita pela natureza humana.
afirmar que as nações estavam insatisfeitas Assim surge a disposição para o conflito,
com a prosperidade material e se voltaram que deve perdurar enquanto subsista a
para a guerra. Mas, naquela ocasião, “os nossa espécie13.
homens é que estavam desejosos por ar- Mas, enfim, são as guerras inevitáveis
riscar”12. à luz das transforma-
Na verdade, na- ções que o mundo
quele período impe- São as guerras inevitáveis sofre constantemente
rava a crença de que à luz das transformações em todas as esferas?
os Estados estariam Antes de buscar essa
prontos a agir no sen-
que o mundo sofre resposta, há que se
tido de resolver os constantemente em procurar entender as
problemas da Europa todas as esferas? lições que o passado
tão-somente com o nos proporciona, de
uso da força. Essa modo a antever pos-
ideia estava na mente dos homens (líderes) síveis situações que possam evoluir para
que se achavam “indestrutíveis”, e não conflitos. Os conflitos existem desde o
houve a possibilidade de se buscar uma início dos tempos e continuarão a existir
solução pacífica para as questões que se enquanto a civilização estiver presente no
avizinhavam. mundo. Logo, as atenções e os esforços de-
Os conflitos são de caráter universal vem ser dirigidos para encontrar formas de
e existem desde que o homem é homem, extingui-los, diminui-los ou, pelo menos,
mas atualmente pode-se inferir que os controlá-los, a fim de reduzir os efeitos
Estados envolvem-se em conflitos por nocivos decorrentes.
conta do antagonismo de ideias ou quanto
à interpretação de um direito violado. E CONSIDERAÇÕES FINAIS
é essa dissonância de interpretação que
acaba por fazer aflorar os sentimentos da Com base na literatura pesquisada, tem-
natureza humana que desencadeiam os -se que os conflitos são de caráter universal
conflitos (por exemplo, vaidade, orgulho e emergem no seio da sociedade, sendo algo
da sua posição, rivalidade e necessidade de inerente a esta, e podem assumir um papel
grandeza, entre outros). Esses sentimentos de estabilizador nas relações. Os conflitos
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CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?
78 RMB1oT/2017
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?
REFERÊNCIAS
RMB1oT/2017 79
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO
PODER NAVAL*
SUMÁRIO
Introdução
O setor cibernético
Setor militar naval
Identificação de vulnerabilidades
A proteção
Considerações finais
RMB1oT/2017 81
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL
2 Hacktivismo – Junção de hacking com o ativismo político (bloqueios virtuais, bombardeios de e-mail, invasões
de computadores e do uso de vírus e worms, para infectar redes computacionais).
3 Cinética – envolve equipamentos, armamento e/ou forças militares.
82 RMB1oT/2017
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL
4 Loran – sistema terrestre de radionavegação, baseado na utilização de emissões coordenadas de impulsos ra-
dioelétricos de ondas MF e LF.
RMB1oT/2017 83
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL
que podem ser exploradas por um inimigo A US Navy está desenvolvendo o sis-
ou oponente, que pode atacar as redes tema Rhimes (Resilient Hull, Mechanical,
de comando e controle de uma imensa and Electrical Security). Trata-se de um sis-
variedade de sistemas militares, buscando tema de proteção cibernética projetado para
a desestabilização ou a degradação da ca- tornar seus sistemas de controle mecânicos
pacidade militar; e elétricos (controle de danos/combate a in-
e) afetar os sistemas mecânicos, como cêndios, máquinas de suspender e fundear,
os de energia e de controle de propulsão. geração de energia, hidráulicas, máquina do
Um navio poderia perder o controle sobre leme e controle da propulsão) resistentes a
a alimentação dos equipamentos, encalhar, ataques cibernéticos. O Rhimes se baseia
mudar de direção etc.; e em técnicas avançadas de resiliência ciber-
f) comprometimento dos sistemas de nética para se defender desses ataques. A
combate. A perda ou a degradação do poder maioria dos controladores físicos possui
combatente. Um radar, hoje, é uma porta aber- backups redundantes (cópias de segurança)
ta em um computador. A mesma frequência que permitem que o sistema permaneça
poderia ser utilizada para transmitir um operacional em caso de falha.
pacote de dados de volta ao computador e Em caráter geral, a mitigação de riscos
alterar o funcionamento do sistema de de- de um ataque cibernético, no mínimo,
fesa antiaérea, por exemplo. Especialistas deve identificar as ameaças, elaborar um
militares da Airforce-Technology (2008) e programa de conscientização da tripulação
o escritor Richard Clarke (2010) garantem e desenvolver padrões e diretrizes a fim de
que o sistema de ataque cibernético dos resolver as questões de segurança ciber-
EUA, chamado de Senior Suter, possui esta nética. O caminho passa pelo incremento
capacidade. Afirmam que essa tecnologia, de inspeções para minimizar falhas, im-
inicialmente testada pelos EUA nas guerras plementar controle de acesso de usuários
do Iraque e do Afeganistão, foi utilizada por e soluções de segurança adequadas para
Israel num ataque sobre uma instalação de os sistemas de bordo, instituir planos de
armas nucleares na Síria, em 2007. contingência e também estar preparado
para gerenciar incidentes que possam vir
A PROTEÇÃO a acontecer. Além disso, é preciso manter
os sistemas atualizados e aperfeiçoados
Os países com maior tradição e cultura ao longo de toda sua vida útil e trocar
de defesa já sinalizam medidas para reduzir informações com o setor privado (for-
as vulnerabilidades e os riscos neste impor- necedores), para o desenvolvimento de
tante flanco estratégico. melhores práticas.
84 RMB1oT/2017
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL
REFERÊNCIAS
RMB1oT/2017 85
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL
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86 RMB1oT/2017
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL*
SUMÁRIO
Introdução
O despreparo e suas consequências
O Brasil na Guerra Fria
As alterações globais
As alterações no Brasil
A situação atual
As prioridades
Conclusão
* Publicado na Revista da Escola de Guerra Naval (EGN) em 2015 e revisto pelo autor em fevereiro de 2017.
* Comandou o CT Pernambuco. Instrutor de Centro de Jogos de Guerra da EGN. Professor do Programa de Pós-
-Graduação em Estudos Marítimos da EGN. Doutor em Ciência Política.
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL
88 RMB1oT/2017
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL
Nessas condições, não é difícil supor por de 1939 ocorrera a batalha naval do Rio
que a Marinha do Brasil (MB), no início dos da Prata, na costa do Uruguai, envolvendo
anos 1940, estava longe de ser a força po- navios ingleses e o encouraçado de bolso
derosa do início do século XX, construída alemão Graff Spee. Em consequência,
com os recursos do auge da exportação de realizou-se a conferência de julho de 1940
borracha e sob os auspícios do Barão do Rio em Havana, em que os chanceleres e re-
Branco, que convencera o poder político presentantes americanos declararam a neu-
das vantagens de uma boa esquadra para a tralidade das Américas, e foi estabelecida
política externa (Pereira, 2015, 128). uma zona de segurança marítima em torno
Alguns desses navios ainda estavam do continente para a proteção da navega-
em atividade, mas não ção costeira contra as
eram apropriados para possíveis extensões da
as operações antissub- O real envolvimento guerra que se travava
marino, como então se brasileiro ocorreu em na Europa (Pereira,
necessitava, por não 2015, 62).
terem sido para isso janeiro de 1942, quando No início de 1941,
especificados. Além foram rompidas as relações começaram a ser rea-
disso, estavam em lizadas, nessa zona de
péssimo estado por
diplomáticas com os segurança, as “patru-
não terem recebido a países do Eixo, seguindo- lhas da neutralidade”
necessária manuten- se o torpedeamento de por uma força-tarefa
ção devido à constante da Marinha norte-
falta de recursos entre mercantes nacionais -americana 1 que, a
os dois momentos, culminando, em agosto, partir de maio, passou
o que também era a
causa das reduzidís-
com os cinco afundamentos adefrequentar o porto
Recife, o qual se
simas e inadequadas próximos à costa da Bahia e tornou sua base naval
dotações de munições de Sergipe em outubro (United
então disponíveis (Pe- States, 2015 “Chrono-
reira, 2015, 128-134). logy”, iii).
A MB até tentara se reequipar – entre O real envolvimento brasileiro ocorreu
algumas outras tentativas, houvera um com o rápido crescimento das tensões a
“plano naval” elaborado em 1932 e imple- partir de janeiro de 1942, quando foram
mentado apenas em diminuta parte nos dez rompidas as relações diplomáticas com os
anos seguintes também pela notória falta países do Eixo, seguindo-se o torpedeamen-
de recursos, mas com foco exclusivamente to de mercantes nacionais por submarinos
regional – visando reduzir a inferioridade alemães e italianos, culminando, em agosto,
diante dos poderes navais do Chile e da com os cinco afundamentos próximos à
Argentina (Vidigal, 1982, 93-97). costa da Bahia e de Sergipe, fato que pro-
Alguns fatos indicavam que as hostilida- vocou violentas manifestações populares
des se aproximavam do País. Em dezembro contra alemães, italianos e japoneses e a
1 Os EUA também eram neutros, e assim permaneceram até o ataque japonês à base naval de Pearl Harbour, em 7
de dezembro de 1941, tendo declarado guerra ao Japão no dia seguinte e no dia 11 do mesmo mês à Alemanha
e à Itália, que declararam guerra, nesse mesmo dia, aos EUA.
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3 Período de alto crescimento econômico: 9,3% em 1968; 9,0% em 1969; 9,5% em 1970; 11,3% em 1971; 10,4%
em 1972 e 11,4% em 1973.
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qualquer outro país”, exigindo dos Estados Nesse mesmo ano, logo após a Guerra
“provedores de segurança” a capacidade de do Golfo (agosto/1990-abril/1991), os
projeção de poder sobre terra (ações mili- EUA emitiram uma estratégia de seguran-
tares sobre terra a partir de meios navais), ça nacional que transmitia o propósito de
a fim de restaurar ou manter a estabilidade estabelecer uma “Nova Ordem Mundial”,
internacional, questão fundamental para o assumindo como indispensável a lide-
sistema (Till, 2006, 9-13). rança norte-americana e incluindo várias
Till fornece, assim, a fundamentação instruções prevendo a presença avançada
das estratégias navais dos países desen- e a projeção de poder por suas forças onde
volvidos, de suas alianças e também de fosse necessário (United States of America,
vários países em desenvolvimento, como 1991, V, 27- 28).
Portugal (que pertence a uma dessas alian- O documento implicou profundas altera-
ças, a Organização do Tratado do Atlântico ções para a Marinha e o Corpo de Fuzileiros
Norte – Otan) (Rodri- Navais norte-america-
gues, 2014, 2-4). Seus nos, cujas estratégias,
argumentos, a par de O fim da Guerra Fria em vez de uma ame-
procedentes, servem à trouxe a redução das verbas aça global, passaram
manipulação política a focar os desafios e
da ética, pela veicu- e dos meios navais; e os oportunidades regio-
lação de ações para atentados terroristas de nais, a fim de moldar
benefício de Estados o futuro de forma fa-
mais poderosos como
11 de setembro de 2001 vorável aos interesses
realizadas em provei- acarretaram a Guerra do país, reforçando as
to do bem comum, Global ao Terror alianças, impedindo a
aspecto previsto na formação de ameaças
lógica da harmoni- e ajudando-o a pre-
zação de interesses identificada por Carr servar a posição estratégica conquistada
(Carr, 1981, 52). com o fim da Guerra Fria (United States
A Guerra Fria terminou formalmente of America, 1992, 2).
com a Paz de Paris quando, em novembro Em decorrência, a Marinha norte-ameri-
de 1990, os membros da Conferência cana alterou, por meio de dois documentos
de Segurança e Cooperação da Europa – From the Sea (1992) e Forward From the
(CSCE), entre eles os que haviam iniciado Sea (1994) –, o foco estratégico e as priori-
a Segunda Guerra Mundial – Alemanha dades de aplicação de recursos das operações
(já reunificada), União das Repúblicas no mar (“on the sea”) para as operações a
Socialistas Soviéticas (URSS), França, partir do mar (“from the sea”) –, ações de
Reino Unido e EUA –, firmaram um acordo projeção de poder com o propósito de in-
estabelecendo instituições parlamentares fluenciar os eventos nas regiões litorâneas
em todos os Estados, consagrando a vitória do mundo, considerando que, como nação
da superpotência ocidental. O evento não marítima, a estratégia de segurança dos EUA
foi muito noticiado, em virtude da grande era necessariamente transoceânica e seus
relevância dos acontecimentos que se se- interesses vitais estavam nas extremidades
guiram, concernentes ao colapso da URSS, finais das “estradas do mar” (“highways of
que veio a se dissolver em 25 de dezembro the sea”), que começavam em seu território
de 1991 (Bobbitt, 2003, 56). e chegavam a todos os quadrantes do mundo.
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5 O conflito Norte-Sul é o que ocorre entre países pobres e ricos e aparece sob algumas formas, inclusive a de co-
lônia versus metrópole e varia de intensidade segundo alguns fatores, como ciclos de crescimento econômico
mundial, conflitos entre grandes potências e conflitos entre países ricos.
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No Brasil, esse serviço fica a cargo provida, em muitos casos, pelos sistemas
da Marinha e é realizado pelo Comando existentes, dos quais eventualmente fazem
do Controle Naval do Tráfego Marítimo parte vários países, enquanto que a prote-
(Comcontram), diretamente subordinado ção dos ativos litorâneos corre por conta
ao Comando de Operações Navais, a quem apenas do dono do litoral, pois acordos que
compete prover os meios de defesa eventu- envolvessem outro Estado provavelmente
almente necessários. acarretariam perda de soberania.
O Comcontram acompanha diutur- O provimento de energia a um país envol-
namente o tráfego marítimo de interesse ve a segurança energética – a disponibilidade
nacional no mundo e o tráfego marítimo de fontes de energia suficientes e a segurança
nacional e estrangeiro nas águas de jurisdi- da energia –, a capacidade de fazer com que
ção brasileira, empregando vários sistemas, os insumos energéticos dessas fontes che-
tais como o Automatic Identification System guem efetivamente aos utilizadores, apesar
(AIS), o Long-Range Identification and Tra- de eventuais ameaças de qualquer natureza,
cking (LRIT), o Programa de Rastreamento o que muitas vezes envolve esforço militar,
de Embarcações Pesqueiras por Satélite especialmente em casos de conflito (India,
(Preps) e o Sistema de Informações sobre 2007, 46).
o Tráfego Marítimo (Sistram), cujos dados O Brasil, sendo praticamente autossu-
são fornecidos às companhias de navegação. ficiente em petróleo, teria garantida sua
Existem vários outros sistemas pelo segurança energética e, dispondo da maior
mundo afora, e, além disso, o tráfego ma- parte de suas fontes no mar, em posições
rítimo pode contar com as medidas de pro- por vezes muito afastadas da costa, teria
teção ou defesa por forças navais de vários condições de prover sua segurança da ener-
países em locais especialmente perigosos, gia inferiores às dos países cujas fontes se
como as forças-tarefa que operam na área situam no próprio território, mas superiores
da Somália, já comentadas. às dos que importam grande percentagem
Tais recursos provêm, assim, razoável do que consomem de fontes distantes que,
segurança contra as “novas ameaças” – em além de necessitarem proteger as linhas
tempo de paz e mesmo contra as ameaças de comunicações marítimas, têm as fontes
estatais em tempo de crise ou conflito, sob o controle de outros Estados, o que
se o país estiver do lado favorável na pode comprometer também sua segurança
governança internacional, pois se não for energética, situação que já foi a nossa no
assim, a situação será oposta. Evoque-se passado recente.
aqui o bloqueio do Iraque, decretado pelo
Conselho de Segurança da ONU em 25 AS PRIORIDADES
de agosto de 1990, por ocasião da Guerra
do Golfo (United, 1990), exercido pela Pelo exposto, vê-se que as prioridades
Marinha norte-americana e várias outras e para a preparação do poder naval, ou sua
que anulou a única linha de comunicações determinação, têm variado nos três últimos
marítimas daquele país. ciclos da MB: a Segunda Guerra Mundial, o
Vê-se, assim, que, como as plataformas Plano de Renovação dos anos 1960-70 e o
petrolíferas, a navegação mercante também atual Plano de Articulação e Equipamento
está sujeita a ameaças e necessita de prote- da Marinha do Brasil (Paemb), elaborado
ção, por vezes militar. Ocorre, porém, que, para permitir o cumprimento da Estratégia
na segunda situação, essa proteção pode ser Nacional de Defesa (END).
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importante – defesa contra oponentes mais mas também podem operar em apoio direto
poderosos, pois tanto a capacidade de con- de forças navais, participando de ações de
trolar áreas marítimas como a de projetar controle de áreas marítimas e, eventual-
poder continuam presentes na END e no mente, de projeção de poder.
Paemb, ainda que em proveito da defesa
dos ativos e de interesses nacionais, sem CONCLUSÃO
quaisquer propósitos intervencionistas,
como disposto na PND e na Constituição Verifica-se que a evolução das priorida-
Federal (Brasil, 2012a, item 5.12). des navais corresponde ao progresso insti-
Assim, estão sendo priorizados a cons- tucional do País e à evolução da conjuntura
trução de submarinos – SNA e convencio- internacional.
nais, ora em andamento, apesar dos cortes A Segunda Guerra Mundial surpre-
orçamentários –, e o SisGAAz, que, em endeu o País com a necessidade de uma
fase final de especificação, teve que ter seus Marinha atualizada, e a MB reagiu, ain-
trabalhos sustados em da que sem qualquer
2015 devido a esses priorização de meios,
cortes (Stochero, Cabe enfatizar que, tornando-se uma for-
2015), sistemas desti- ça adequada para a
nados primariamente
em caso de uma época. No Plano de
à tarefa de negação, necessidade real, Renovação dos anos
enquanto outros mais a cobrança de um mau 1960-70, houve crite-
específicos para as riosa priorização dos
outras tarefas (cons- desempenho recairá meios e conseguiu-se
trução de escoltas e de sobre a Marinha modernizar a Força,
navios-aeródromos, sob o condicionamen-
por exemplo) aguar- to estratégico interno
dam disponibilidade financeira. Cabe, con- da maior necessidade de proteger o tráfego
tudo, lembrar que, apesar dessa destinação marítimo e externo da bipolaridade. Estes
primária, o SNA e o SisGAAz também têm últimos aspectos constituíram a diferença
emprego nas outras tarefas: básica para a elaboração do atual Paemb,
O SisGAAz previsto é um sistema de voltado prioritariamente à defesa dos
monitoramento de alto nível, que deverá ativos litorâneos vitais em um contexto
permitir aos comandos conhecer as po- internacional ainda unipolar, mas sem
sições e prováveis intenções dos vetores constrições externas.
amigos e hostis navegando em boa parte do A percepção da necessidade de prepa-
Atlântico Sul, podendo, assim, aumentar a ração para a defesa dos ativos litorâneos e
eficiência dos meios operativos (SNA, sub- costeiros começou nos anos 1980, intensi-
marinos não nucleares, navios e aeronaves), ficou-se com o crescimento da exploração
fornecendo-lhes apoio de comunicações marítima de petróleo e teve seu ápice com
e vigilância para que obtenham posições a descoberta das grandes reservas do pré-
vantajosas em relação aos oponentes. -sal, fato presente na gênese da vontade
Os SNA podem exercer dissuasão contra política de investir na defesa naval e na
forças navais e submarinos em grandes citada alteração de prioridade, cabendo
áreas, como o Atlântico Sul, operando destacar que, pela primeira vez, se faz uma
isoladamente com o apoio pelo SisGAAz, priorização de meios e infraestrutura de
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defesa – um projeto de força – com base por parte do governo. Cabe, porém, enfati-
em necessidades e orientações determina- zar que, em caso de uma necessidade real,
das pelo poder político, o que lhe confere a cobrança de um mau desempenho recairá
a necessária legitimidade. sobre a Marinha.
Existem também, como acima exposto, Nunca é demais evocar o testemunho de
sensíveis diferenças entre as condições para um velho marinheiro sobre os idos de 1942:
elaboração e implementação dos dois pla- “O povo chegava na Praça Mauá e
nos, todas apontando para a complexidade tinha um velho encouraçado lá, que não
e custos muito maiores na situação atual, o tinha mais serventia e o povo falava: Vai
que, apesar da legitimidade, não encontra pro mar, o que tá fazendo isso aí? Vai
correspondência na destinação de recursos pro mar!” (Pereira, 2015, citação p.134)
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COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO
(PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR
SUMÁRIO
* Comandou o Aviso de Instrução Aspirante Nascimento, o Rebocador de Alto-Mar Tridente e a Base Fluvial de
Ladário. MBA em Gestão Internacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Curso Superior
de Guerra Naval no Instituto de Guerra Marítima da Itália e Curso Superior de Estado-Maior Interforças
na Itália. Autor do livro Liderança – A arte de conduzir ao sucesso, professor de Liderança e de Jogos de
Guerra na Escola de Guerra Naval.
COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR
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COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR
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COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR
subordinados, levando em conta que isso Além disso, para que a avaliação seja
pode provocar falhas e erros na execução fiel ao nível de desempenho do avaliado,
das tarefas, os quais devem ser considera- ela deve estar pautada em um sistema estru-
dos como fontes de aprendizado. turado, capaz de unificar os critérios pelos
Vale lembrar que diversos estudiosos e quais os subordinados são avaliados, o que
pensadores chamam a atenção para o fato constitui a tarefa mais simples da avaliação,
de que os erros são, na verdade, tentativas sendo feita por técnicos especializados.
de acerto; e só acerta quem tenta. É desta No entanto, a parte mais difícil da
forma que o líder deve encarar os eventuais avaliação é aquela feita pelo líder, pois se
erros cometidos por seus liderados na ten- baseia em aspectos intuitivos e subjetivos.
tativa de, com boa fé, realizar uma tarefa Dessa forma, o líder deve avaliar cada um
de modo mais eficiente. de seus subordinados levando em conta
Ao perceberem que a avaliação é feita o grau de complexidade das tarefas que
com base no grau de acomodação dos executa (diretamente proporcional ao de-
avaliados às normas e aos procedimentos senvolvimento profissional), os resultados
da organização, os subordinados dispostos que obtém na execução dessas tarefas, ou
a inovar e efetivamente contribuir para seja, a performance, e o comportamento,
a evolução da organização sentem-se caracterizado pelo grau de adesão aos
desmotivados para a realização do seu tra- valores da organização, pelo grau de com-
balho. Essa desmotivação é explicada por prometimento com os objetivos a alcançar,
Herzberg, conforme citado em AGUIAR pelo tipo de relacionamento com pares,
(2005, p.362), ao ensinar que os fatores subordinados e superiores etc.
motivadores inerentes ao trabalho desen- Assim, para desenvolver seu senso
volvido pelas pessoas são “a liberdade de justiça e atuar como avaliador, o líder
de criar, de inovar, de procurar formas deve conhecer profundamente cada um de
próprias e únicas de atingir os resultados seus liderados, deixando de lado a vaidade
das tarefas acometidas”. própria, a fim de evitar ser influenciado por
Assim, o líder que avalia seus liderados bajuladores, sem se deixar levar por impres-
segundo o critério do grau de acomodação sões superficiais e imediatistas, que podem
às normas e aos procedimentos em vigor, conduzir a erros importantes de julgamento.
considerando o comportamento cauteloso, Dentre os erros mais comuns de ava-
pouco criativo e conformista como maduro liação, cabe citar: os efeitos halo e horn,
e integrador, dificilmente conseguirá que nos quais o avaliador considera que, se um
sua equipe tenha um desempenho acima colaborador é bom ou ruim em determinada
de mediano. tarefa, terá desempenho semelhante em
Para que obtenha sempre uma melhoria todas; a tendência central, segundo a qual
no desempenho de sua equipe, o líder deve o avaliador procura avaliar todos os cola-
avaliar seus colaboradores de maneira a boradores como medianos; o efeito de re-
incentivar o comportamento independente, centicidade, no qual o avaliador baseia suas
inovador e criativo, aceitando os eventuais observações apenas nos fatos mais recentes,
erros que possam vir a acontecer como sejam bons ou ruins; a autoidentificação,
fases do aprendizado e evitando cair na que ocorre quando o líder tende a avaliar
armadilha de considerar o liderado com melhor os colaboradores que possuam a
iniciativa e capacidade de inovação como mesma formação ou os mesmos interesses
desintegrador ou “criador de casos”. que ele; e o erro de fadiga, em que, devido
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COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR
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COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR
relação entre líder e liderado, que faça com a organização ou instituição a que ambos
que o receptor interprete as observações pertencem. Para isso, o líder deve procurar
apresentadas pelo avaliador como contri- ser o mais descritivo possível em relação ao
buições para o seu próprio aperfeiçoamento, comportamento do avaliado e ao que dele
sejam essas observações positivas ou nega- se espera no futuro, evitando expressões
tivas. Visto dessa forma, o feedback torna- ambíguas ou vagas.
-se uma fonte de energia tanto para o líder Resumidamente, ao final do feedback,
quanto para os liderados, incentivando-os a líder e liderados devem deixar estabelecido
aperfeiçoar seu comportamento e a produzir um conjunto de metas e compromissos a se-
ótimos resultados, além de fortalecer a lide- rem cumpridos durante o próximo período
rança exercida pelo avaliador. de avaliação, visando ao desenvolvimento
A realização desse feedback demonstra, profissional do liderado e ao seu preparo
por parte do líder, consideração e respeito para novos desafios e para o cumprimento
pelos seus subordinados, minimizando suas de tarefas mais complexas.
incertezas e ansiedades, além de reconhe- Assim, para desenvolver a competência
cimento com seu esforço em realizar suas do senso de justiça e avaliar corretamente
tarefas de maneira seus liderados, o líder
correta, fortalecendo precisa agir com leal-
o exercício da lide- Para desenvolver a dade, integridade, equi-
rança. Além disso, competência do senso líbrio e respeito. Além
orienta os liderados disso, é necessário que
quanto ao comporta- de justiça e avaliar tenha bem desenvol-
mento e ao desempe- corretamente seus liderados, vidas as habilidades
nho deles esperados, de coragem moral, de
fazendo com que
o líder precisa agir com reconhecimento, de
saibam como estão lealdade, integridade, ouvinte e de estimu-
sendo vistos no seu equilíbrio e respeito lador, tendo em vista
ambiente de trabalho, que as críticas contidas
o que contribui para o no feedback devem ser
seu autoconhecimento. feitas com sinceridade, honestidade e res-
Dessa forma, para realizar uma avalia- peito, evitando desmotivar o avaliado, a
ção isenta e fornecer um feedback útil ao quem deve sempre ser concedida a palavra,
avaliado e à organização ou instituição a quer seja para este expor suas dificuldades
que pertença, o líder precisa preparar-se no cumprimento das tarefas em que seu
adequada e previamente. É inaceitável desempenho tenha deixado a desejar, quer
que, durante o feedback, o líder venha a seja para contribuir para o aperfeiçoamento
descontrolar-se ou a empregar expressões dos processos nos quais tenha apresentado
que possam ofender o avaliado ou afetar bom desempenho.
negativamente sua autoestima. As críticas
que eventualmente serão feitas durante a AS COMPONENTES DA
conversa de feedback precisam ser cuida- COMPETÊNCIA SENSO DE
dosamente preparadas, medindo-se as pa- JUSTIÇA
lavras, sem deixar de expressar a verdade,
com clareza, honestidade e lealdade para Concluindo, para adquirir a competência
com o avaliado e, principalmente, para com do senso de justiça, de modo que possa
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COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR
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COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR
determinado, pois poderá ser obrigado a en- é capaz de gerar confiança, que é a base
frentar situações difíceis e constrangedoras. sobre a qual se sustenta a liderança.
Enfim, o líder precisa desenvolver e Agindo dessa forma, o chefe constituirá
praticar conhecimentos, habilidades e um exemplo para seus subordinados, que
atitudes apontadas de maneira autêntica passarão a enxergá-lo não apenas como
e sincera, pois somente a autenticidade chefe, mas como líder.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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terdisciplinar. São Paulo: Saraiva, 2005.
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gente. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
GOLEMAN, Daniel. Liderança. A Inteligência Emocional na formação do líder de sucesso. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2015.
RABAGLIO, Maria Odete. Gestão por competências: ferramentas para atração e captação de talentos
humanos. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2014.
SIQUEIRA, Wagner. Avaliação de Desempenho: como romper amarras e superar modelos ultrapas-
sados. Rio de Janeiro: Reichman Affonso, 2002.
116 RMB1oT/2017
A INTERDEPENDÊNCIA ENTRE ENERGIA E ÁGUA
* Doutor em Engenharia, diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro
do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Colaborador assíduo da RMB.
1 Em: [Link]
A INTERDEPENDÊNCIA ENTRE ENERGIA E ÁGUA
energia pode afetar os recursos de água de estresse. Além disso, pela primeira vez o
doce, tanto na sua quantidade como na sua WEO 2016 observa a relação energia-água,
qualidade. Por outro lado, a dependência analisando as necessidades energéticas para
dos serviços de abastecimento de água da diferentes processos no setor de água, in-
disponibilidade de energia afetará a capa- cluindo abastecimento, distribuição, trata-
cidade de fornecer água potável e serviços mento de águas residuais e dessalinização.
de saneamento às populações. As principais conclusões foram divulgadas
no Global Water Forum, na COP22, em 15
de novembro de 2016.
Marrakesh COP223
2 Em :[Link]
[Link]
3 Em: [Link]
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A INTERDEPENDÊNCIA ENTRE ENERGIA E ÁGUA
4 Em: [Link]
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A INTERDEPENDÊNCIA ENTRE ENERGIA E ÁGUA
Tendo em vista que a gestão desses recursos campo para a aplicação da dessalinização
tem um forte componente transnacional, os em grande escala, para a qual a energia
efeitos geopolíticos dessa transição se tor- nuclear seria uma alternativa viável.
narão cada vez mais pronunciados. Com efeito, a energia nuclear já está
Note-se, finalmente, que a água do mar sendo usada para dessalinização e tem
é um recurso praticamente inesgotável. potencial para um uso muito maior. A
Seu efetivo uso, entretanto, depende da dessalinização nuclear é muito competitiva
disponibilidade de energia abundante e a em termos de custos, e somente os reatores
baixo custo para dessalinização e posterior nucleares são capazes de fornecer as copio-
transporte e distribuição para os locais ca- sas quantidades de energia necessárias para
rentes em água doce. Isto abre um amplo projetos em grande escala no futuro.
Dessalinização Nuclear5
5 Em: [Link]
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DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO
SOB O PRISMA DOS DISCURSOS PRESIDENCIAIS
DURANTE A REPÚBLICA VELHA
REIS FRIEDE*
Desembargador Federal
SUMÁRIO
Introdução
Dos discursos dos Presidentes da República Velha (ou Primeira República)
Deodoro da Fonseca
Floriano Peixoto
Prudente de Moraes
Campos Sales
Rodrigues Alves
Afonso Pena
Nilo Peçanha
Hermes da Fonseca
Wenceslau Braz
Epitácio Pessoa
Arthur Bernardes
Washington Luís
Conclusão
* Vice-Presidente do Tribunal Regional Federal (TRF)/2ª Região. Ex-membro do Ministério Público e professor
titular da Universidade Veiga de Almeida e do mestrado em Desenvolvimento Local do Centro Universitário
Augusto Motta (Unisuam). Colaborador costumeiro da RMB.
DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS
DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA
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DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS
DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA
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DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA
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DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS
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DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS
DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA
rania nacional, solenemente enunciada pel exercido pelas forças militares de terra
pelo escrutínio de 1o de Março. [...]. e mar sobre os denominados inimigos da
O lustro de existência que hoje com- República, vitória que, segundo o transcrito
pleta a República brasileira tem sido de pronunciamento, possibilitou a estabilidade
lutas quase permanentes com adversá- republicana. No entanto, ao longo de seu
rios de toda a espécie [...]. governo, Prudente de Morais realizou cor-
Como expressão concreta desse tes no orçamento militar, o que acarretou
período de funestas dissensões e lutas, problemas quanto ao ensino e à formação
rememoro com amargura a revolta de 6 da oficialidade militar, impedindo, ainda, a
de setembro do ano próximo passado. modernização das instituições castrenses.
Essa revolta,
que foi o mais CAMPOS SALES
violento abalo A vitória da República
de que se podia O Presidente Cam-
ressentir o regi-
foi decisiva para provar pos Sales (15 de no-
me proclamado a a estabilidade das novas vembro de 1898 a 15
15 de Novembro instituições, que tiveram de novembro de 1902),
de 1889, iniciada ao discorrer por oca-
sob o pretexto de para defendê-las a sião de sua posse, não
defender a Cons- coragem, a pertinácia e a se referiu às forças
tituição da Repú-
blica e de libertar
dedicação do benemérito militares. Em nenhum
momento citou termos
a Pátria do jugo chefe de Estado, auxiliado semelhantes aos pro-
de uma suposta eficazmente pelas forças feridos por Deodoro,
ditadura militar, Floriano e Prudente.
reuniu, sob a sua militares de terra e mar Tratou, principalmen-
bandeira, todos os Prudente de Moraes te, de aspectos per-
elementos adver- tinentes à economia,
sos à ordem e à paz tendo em vista que, ao
pública, concluindo por caracterizar-se assumir, herdou uma grave crise econômi-
em um movimento formidável de ataque ca. De importante para o presente estudo,
às instituições nacionais, arvorando o cabe registrar que o discurso de 15 de
estandarte da restauração monárquica. novembro de 1898, de certo modo, teceu
Mas, por isso mesmo que essa luta tre- considerações a respeito da harmonia que
menda foi travada pela coligação de todos deve existir entre os poderes republicanos,
os inimigos, a vitória da República foi de- embora tenha conferido uma função ex-
cisiva para provar a estabilidade das novas tremamente acanhada ao Poder Judiciário,
instituições, que tiveram para defendê-las reveladora mesmo de uma independência
a coragem, a pertinácia e a dedicação do institucional meramente formal:
benemérito chefe de Estado, auxiliado Desde que, sob a influência de funes-
eficazmente pelas forças militares de terra tas tendências e dominado por mal enten-
e mar [...]. (BONFIM, 2004, p. 44) dida aspiração de supremacia, alguns dos
poderes tentarem levar a sua ação além
Como se vê novamente, um Presidente, das fronteiras demarcadas, em manifesto
ao ser investido no cargo, faz alusão ao pa- detrimento das prerrogativas de outro,
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DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA
Não quer isto dizer, entretanto, que A Justiça Federal, pairando na es-
devemos descurar de colocar as nossas fera serena e garantidora dos direitos e
forças militares, de tradições tão ricas de guarda da Constituição, vai firmando em
bravura e patriotismo, em condições de sábios arestos alguns pontos duvidosos
bem desempenharem a sua nobre e eleva- desta, mal compreendidos no início de
da missão de defensoras da honra nacional sua execução. É a prova mais eloquen-
e guardas vigilantes da Constituição e te de que não é prudente promover
das leis. A perda de valiosas unidades reformas antes de pedir à experiência
de combate sofrida pela nossa Marinha, e à aplicação leal da Constituição indi-
de anos a esta parte, justifica de sobejo cações seguras sobre o alcance dos dis-
o ato do Governo brasileiro procurando positivos, que se afiguram imperfeitos
substituí-las de acordo com as exigências ou deficientes. A alta cultura jurídica
dos modernos en- dos nossos juízes deve
sinamentos da arte inspirar a mais com-
naval. Da mesma No regime presidencial, pleta segurança de que
forma, melhorar a o Supremo Tribunal,
organização militar mais que em outro colocado na cúpula da
e renovar o material qualquer, o Poder organização judiciá-
de guerra, dentro ria, pode desempenhar
dos limites impos-
Executivo deve dar com lustre o brilhante
tos pela situação exemplo de respeito e papel representado na
financeira, é dever cordialidade em suas União Americana pelo
comezinho do nos- Instituto que serviu
so como de todo relações com os outros de modelo ao nosso
Governo cônscio Poderes que a Constituição legislador constituinte.
de suas responsa- (BONFIM, 2004, p.
bilidades, sem que
criou, independentes e 100-101)
se possa atribuir ao harmônicos
seu cumprimento Afonso Pena A transcrição supra
propósito de ame- possibilita observar
aça ou intuito de alguns pontos interes-
agressão a povo algum, pois que a nossa santes do discurso de Afonso Pena, o qual,
preocupação foi e sempre será angariar num momento, destacou a missão outrora
e estreitar relações com todas as nações. consagrada às forças de terra e mar, ou seja,
No regime presidencial, mais que a de “defensoras da honra nacional e guar-
em outro qualquer, o Poder Executivo das vigilantes da Constituição e das leis”.
deve dar exemplo de respeito e cordia- Em seguida, afirma que a “Justiça Federal,
lidade em suas relações com os outros pairando na esfera serena e garantidora
Poderes que a Constituição criou, dos direitos e guarda da Constituição, vai
independentes e harmônicos. firmando em sábios arestos alguns pontos
Assim praticarei, convencido da duvidosos desta, mal compreendidos no
sabedoria desta norma consagrada em início de sua execução”.
todas as legislações e que se impõe de Vê-se, portanto, que a mesma missão
modo iniludível a qualquer espírito aten- (guarda da Constituição) foi atribuída
to na história política dos povos cultos. simultaneamente às Forças Militares e
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DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS
DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA
ao Poder Judiciário, o que, a nosso ver, não surgirá o sol do cesarismo; mas,
ao mesmo tempo em que reflete o antigo sob a égide de um soldado, o País há
protagonismo daquelas, traduz o incipiente de ver firmar-se de vez a mais civil das
status institucional deste. repúblicas, pela abrogação das práticas
e dos hábitos contrários ao regime e de
NILO PEÇANHA tudo que tem servido para deturpar o
espírito e a inteligência da Constituição
Com a morte de Afonso Pena, ocorrida de 24 de Fevereiro. [...].
em 14 de junho de 1909, assume o vice- E ser-me-á fácil a tarefa porque,
-presidente Nilo Peçanha (14 de junho de soldado, só tenho uma aspiração – o
1909 a 15 de novembro de 1910), que não cumprimento inflexível da lei; cidadão,
realiza discurso de posse, muito prova- só tenho um ideal – a estabilidade do
velmente por conta regime e a felicidade
do momento de luto da pátria. (BONFIM,
nacional. Ser-me-á fácil a tarefa 2004, p. 113; 119)
porque, soldado,
HERMES DA Sobre a importân-
FONSECA só tenho uma aspiração – cia das Forças Arma-
o cumprimento inflexível das, dando especial
Posteriormente, de destaque à missão de
15 de novembro de
da lei; cidadão, só tenho defesa nacional e ao
1910 a 15 de novem- um ideal – a estabilidade respectivo orçamento
bro de 1914, o militar do regime e a felicidade militar, disse Hermes
Hermes da Fonseca, da Fonseca:
que havia sido minis- da pátria Mas o fato de haver
tro da Guerra durante Hermes da Fonseca sido sempre de paz e de
o governo de Afonso fraternidade a política
Pena, é eleito para o internacional do Brasil
cargo de Presidente da República, tendo to- e o propósito formal de prosseguir em
mado posse em sessão solene do Congresso tão sábia política, não significam nem
Nacional. Sua condição marcial foi devida- impõem que nos descuremos dos legí-
mente registrada numa das passagens de timos meios de defesa do País.
seu discurso, mormente ao dizer, em tom de Na medida dos recursos financeiros
esclarecimento, que sua origem castrense da República, cumpre persistir no apa-
não o afastaria dos “princípios republicanos relhamento da nossa Marinha, não só
e dos reais interesses da nação”: pela inteira execução do plano adotado
A minha qualidade de soldado, assim como pelo preparo intensivo do pessoal
como não influiu para que os elementos incumbido, para isto, as escolas técnicas
civis do país me julgassem digno de pre- de eletricidade, maquinistas e marujos.
sidir aos destinos da República, também, Não basta, porém, a aquisição de
afirmo-o sob a fé de todo o meu passado, navios de guerra, que largos sacrifícios
não será causa para que me divorcie, le- custam à nação; é necessário, para que
vando por estreito sentimento de classe, se conservem em condições de desem-
dos verdadeiros princípios republicanos penhar o papel a que podem ser cha-
e dos reais interesses da nação. Comigo mados um dia, que a Esquadra, apesar
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DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA
das despesas que isso acarreta, esteja se tornar Presidente da República, quando
em constante movimento, pois é no ocupava a pasta da Guerra no governo
incessante labutar em alto-mar, no per- Afonso Pena, dedicou-se a um projeto
manente funcionamento das máquinas e de modernização do Exército, o qual, no
nos exercícios de toda a espécie que os início do século XX, segundo a maioria da
oficiais e tripulação se habilitarão para oficialidade, encontrava-se militarmente
o perfeito desempenho de suas funções. atrasado. À época, entre outras medidas
No que diz respeito às forças de terra, postas em prática, um grupo de oficiais
estou ainda convencido de que, executa- foi enviado para estagiar junto ao Exér-
do integralmente o plano de organização cito alemão. Retornando ao Brasil, esses
delineado na última reforma, poderemos oficiais deflagraram uma campanha pelo
preparar, em pouco tempo, um exército aperfeiçoamento profissional da instituição.
em condições de enfrentar o mais forte Conforme explica Cristina Monteiro de
e mais disciplinado adversário. Andrada Luna:
A lei do sorteio, com a criação das Devido ao afã modernizador, o
linhas de tiro, que muito se tem desen- grupo foi pejorativamente apelidado
volvido, preparará, dentro em pouco, de “jovens turcos” por uma parcela
numerosa e excelente reserva para o de militares e civis que se opunham
Exército. às suas ideias. O apodo fazia alusão a
Estou certo de que, no limite das do- oficiais turcos que haviam estagiado no
tações orçamentárias, estabelecendo-se Exército alemão e, que, ao retornar à
verbas parceladas e convenientes, pode- Turquia, engajaram-se em um partido
remos, em poucos anos, pelo desenvol- nacionalista e reformista, oficialmente
vimento paulatino de arsenais e fábricas, conhecido como Comitê de União e Pro-
aquisição de armamentos e material gresso, mas informalmente conhecido
bélico, constituídas as unidades táticas como Jovens Turcos, por ser formado
que pela reforma foram criadas, formar por estudantes universitários e jovens
uma nação militarmente forte, sem que oficiais progressistas. Na Turquia, os
haja necessidade de se manterem os Jovens Turcos participaram de uma
nossos quartéis repletos de soldados, rebelião contra o sultanato e de um
pois que, pelos processos adotados, cada processo de transformações que acabou
um dos nossos patrícios se transformará por resultar, em 1923, na Proclamação
em cidadão-soldado. (BONFIM, 2004, da República sob a liderança de Mustafá
p. 117-118). Kemal, após o Império Otomano ter sido
extinto pela derrota na Primeira Guerra
Cumpre notar que o discurso de Hermes Mundial, em 1918.
da Fonseca enaltece o clássico papel ins- Contudo, o apelido que surgiu de
titucional de defesa nacional. Pelo menos forma pejorativa passou a ser visto como
no que se refere aos discursos de posse, um símbolo de abnegação e patriotismo,
pode-se dizer que, de todos os presidentes conforme destacou Estevão Leitão de
da República, Hermes da Fonseca é o Carvalho em sua autobiografia intitulada
primeiro a abordar de modo tão claro a Memórias de um soldado legalista.
missão das Forças Armadas em matéria de Em relação ao pensamento dos jo-
defesa nacional. Cabe destacar, inclusive, vens turcos, é importante notar que o
que Hermes da Fonseca, mesmo antes de grupo considerava o Brasil uma nação
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