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Revista Marítima Brasileira: Diretoria Do Patrimônio Histórico E Documentação Da Marinha

Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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DIRETORIA DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E DOCUMENTAÇÃO DA MARINHA

REVISTA
MARÍTIMA
BRASILEIRA
(Editada desde 1851)

v. 137 n. 01/03
jan./mar. 2017

FUNDADOR COLABORADOR BENEMÉRITO

Sabino Elói Pessoa Luiz Edmundo Brígido Bittencourt


Tenente da Marinha – Conselheiro do Império Vice-Almirante

R. Marít. Bras. Rio de Janeiro v. 137 n. 01/03 p. 1-320 jan. / mar. 2017
A Revista Marítima Brasileira, a partir do 2o trimestre
de 2009, passou a adotar o Acordo Ortográfico de 1990,
com base no Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa,
editado pela Academia Brasileira de Letras – Decretos nos
6.583, 6.584 e 6.585, de 29 de setembro de 2008.

Revista Marítima Brasileira / Serviço de Documentação Geral da Marinha.


–– v. 1, n. 1, 1851 — Rio de Janeiro:
Ministério da Marinha, 1851 — v.: il. — Trimestral.

Editada pela Biblioteca da Marinha até 1943.


Irregular: 1851-80. –– ISSN 0034-9860.

1. MARINHA — Periódico (Brasil). I. Brasil. Serviço de Documentação Geral da Marinha.

CDD — 359.00981 –– 359.005


COMANDO DA MARINHA
Almirante de Esquadra Eduardo Bacellar Leal Ferreira

SECRETARIA-GERAL DA MARINHA
Almirante de Esquadra Liseo Zampronio

DIRETORIA DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E DOCUMENTAÇÃO DA MARINHA


Vice-Almirante (RM1) José Carlos Mathias

REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRA


Corpo Editorial
Capitão de Mar e Guerra (Refo) Milton Sergio Silva Corrêa (Diretor)
Capitão de Mar e Guerra (RM1) Carlos Marcello Ramos e Silva
Jornalista Deolinda Oliveira Monteiro
Jornalista Kelly Cristiane Ibrahim

Assessoria Técnica
Capitão de Mar e Guerra (RM1-T) Nelson Luiz Avidos Silva
Terceiro-Sargento-PD Isabelle de Medeiros Vidal

Diagramação
Desenhista Industrial Felipe dos Santos Motta
Designer Gráfica Amanda Christina do Carmo Pacheco
Artífice de Artes Gráficas Celso França Antunes

Assinatura/Distribuição
Suboficial-RM1-CN Maurício Oliveira de Rezende
Marinheiro-RM2 Pedro Paulo Moreira Cerqueira

Departamento de Publicações e Divulgação


Capitão de Corveta (T) Ericson Castro de Santana

Impressão / Tiragem
CMI – Serviços Editoriais Eireli ME / 8.000
REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRA
Rua Dom Manuel no 15 — Praça XV de Novembro — Centro — 20010-090 — Rio de Janeiro — RJ
 (21) 2104-5493 / -5506 - R. 215, 2524-9460

A REVISTA MARÍTIMA BRASILEIRA (RMB) é uma publicação oficial da MARINHA DO


BRASIL desde 1851, sendo editada trimestralmente pela DIRETORIA DO PATRIMÔNIO
HISTÓRICO E DOCUMENTAÇÃO DA MARINHA. As opiniões emitidas em artigos são de
exclusiva responsabilidade dos autores, não refletindo o pensamento oficial da MARINHA.
As matérias publicadas podem ser reproduzidas, com a citação da fonte.
A Revista honra o compromisso assumido no “Programa” pelo seu fundador,
Sabino Elói Pessoa:
“3o – Receberá artigos que versem sobre Marinha...
5o – ... procurará difundir tudo quanto possa contribuir para o melhoramento
e progresso da nossa Marinha de Guerra e Mercante; programar ideias tendentes a dar
impulso à administração da Marinha e a suas delegações, segundo o melhor ponto de
vista a que seja possível atingir...”
Ao longo de sua singradura, a RMB busca aperfeiçoar o “Programa” ao se
atribuir a “Missão” de divulgar teses, ideias e conceitos que contribuam também para
o aprimoramento da consciência marítima dos brasileiros. Como tal, está presente em
universidades, bibliotecas públicas e privadas do País, entre outras instituições.
Empenha-se em trazer teoria e técnica aplicadas para solver questões que retardam
o desenvolvimento social e material da Nação.
Divulga ensinamentos a respeito da ética e do trabalho, esclarecendo o que nos
cabe realizar na Marinha e no País, respeitando conceitos e fundamentos filosóficos.
Mostra como a conquista da honra ocorre na formação militar, analisando a
lógica do mercado vis-à-vis com nossa ambiência naval.
Atende plenamente à “índole da revista e, confiando no futuro, protestamos
indiferença sobre política e prometemos não nos envolver em seus tão sedutores quanto
perigosos enleios”.

Na internet:
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Contato e remessa de matéria: Assinatura e alteração de dados:
E-mail: rmbmateria@[Link] E-mail: rmbassinatura@[Link]
Intranet: dphdm-083@dphdoc Intranet: dphdm-085@dphdoc

Os preços do número avulso e da assinatura anual são, respectivamente:


BRASIL (R$ 15,00 e R$ 60,00) EXTERIOR (US$ 10 e US$ 40)

O pagamento da assinatura pode ser feito por desconto mensal em folha de pagamento, por
intermédio de Caixa Consignatária, no valor de R$ 5,00, ou enviando nome, endereço, CPF, cópia
do comprovante de depósito na conta corrente 13000048-0 agência 3915, do Banco Santander,
em nome do Departamento Cultural do Abrigo do Marinheiro, CNPJ – 72.063.654/0011-47.
SUMÁRIO

8 NOSSA CAPA
DESCOMISSIONAMENTO DO NAVIO-AERÓDROMO SÃO PAULO
Eduardo Bacellar Leal Ferreira– Almirante de Esquadra
Correspondência do Comandante da Marinha ao Ministro da Defesa

11 ARAEX – UNO
José Alberto Accioly Fragelli – Almirante de Esquadra (Refo)
O NAeL Minas Gerais apoiando a Marinha argentina na qualificação de pilotos.
Em 1992, o 25 de Mayo suspende reparos e nunca mais se fez ao mar. Atuação do Minas

17 MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA


Elcio de Sá Freitas – Vice-Almirante (Refo-EN)
Marinha, Engenharia e capacitações. Militarização, expectativa e realidade.
Pendores – educação – organização – documentação técnica. Pensamento naval

27 INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS


Armando de Senna Bittencourt – Vice-Almirante (Refo-EN)
Pioneirismo de Santos Dumont. O zepelin – o avião. Interesse militar. Escola de
Aviação Naval. Correio Aéreo. O helicóptero. Operações aéreas

39 INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE


SISTEMAS DE DEFESA
Ruy Barcellos Capetti – Vice-Almirante (Refo)
Apoio Logístico Integrado. Base Industrial de Defesa. Informações de dados
referentes ao apoio logístico – gerenciamento. Padrão adotado nos EUA e na Europa. Papel
do Ministério da Defesa

51 SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES


Tiudorico Leite Barboza – Contra-Almirante (Refo-EN)
Famílias de meios flutuantes – embarcações/navios e sistemas oceânicos. Navios
e plataformas

61 PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA


MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL
Henrique Peyroteo Portela Guedes – Capitão de Mar e Guerra (Marinha de Portugal)
A união africana. Organização marítima da África do Oeste e Central. Comunidades
econômicas na África Ocidental e na Central. Grupo G7 dos amigos do Golfo da Guiné.
Universidades marítimas. A Cimeira de Yaoundé

71 CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?


Nelson Marcio Romaneli de Almeida – Capitão de Mar e Guerra (IM)
Conceituação de conflito. A guerra como fenômeno social – breve análise

80 ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL


Marcus Vinicius de Castro Loureiro – Capitão de Mar e Guerra
O setor cibernético e o militar naval. Vulnerabilidades – ataques cibernéticos –
identificação – proteção
87 TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL
José Augusto Abreu de Moura – Capitão de Mar e Guerra (Refo)
O despreparo da Marinha e suas consequências. Na Guerra Fria. Alterações globais
e no Brasil. Situação atual – prioridades

109 COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO


AVALIADOR
Archimedes Francisco Delgado – Capitão de Mar e Guerra (RM1)
Senso de justiça – competência do avaliador. Feedback – fator de melhoria de
desempenho. Componentes da competência

117 A INTERDEPENDÊNCIA ENTRE ENERGIA E ÁGUA


Leonam dos Santos Guimarães – Capitão de Mar e Guerra (RM1-EN)
Produção de energia dependente de água. Interdependência e mútua vulnerabilidade.
Necessidades atuais e futuras. Metas do desenvolvimento sustentável. Dessalinização

121 DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS


DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA
Reis Friede – Desembargador Federal
Análise dos pronunciamentos nas posses dos presidentes da República, desde
Deodoro até Washington Luís. Comentários diversos. O sagrado direito do voto

139 O GUAJARÁ E O INÍCIO DA NAVEGAÇÃO A VAPOR NO RIO MADEIRA


Dante Ribeiro da Fonseca – Historiador
Navegação no Rio Amazonas e no Madeira. Os navios Guajará, mercante, de guerra,
a vela e vapor. Família Miranda proprietária do navio. Viagem pioneira em 1858/59

151 AERONAVES REMOTAMENTE PILOTADAS: IDENTIFICANDO


PROMISSORAS OPORTUNIDADES DE EMPREGO
Alessandro Pires Black Ferreira– Capitão de Fragata
Operações ribeirinhas – apoio à hidrografia – busca e salvamento – patrulha e inspeção
naval – guerra eletrônica e antiaérea – operação Antártica – operação de paz – apoio humanitário

158 LOGÍSTICA BASEADA EM DESEMPENHO


Marcos Valle Machado da Silva – Capitão de Fragata (RM1)
Considerações conceituais. Aplicação em sistemas novos e antigos. Redução no
custo do ciclo de vida. Estudo de caso das aeronaves da US Navy. Emprego na MB

173 RADIOMONITORAÇÃO DE REDES DE SATÉLITES GEOESTACIONÁRIOS


Pedro Henrique Ribeiro Barbosa – Capitão de Corveta
Necessidade de vigilância. Comando e controle. Os satélites geoestacionários.
Interferências. Estação terrena de monitoração de satélites

183 PROJEÇÃO ANFÍBIA: SUA EVOLUÇÃO NO UNITED STATES MARINE CORPS E NO


CORPO DE FUZILEIROS NAVAIS DO BRASIL
Thiago Ribeiro de Jesus – Capitão-Tenente (FN)
Cenário mundial atual. Conceitos de projeção anfíbia – evolução nos EUA e no
Brasil. A projeção e a política externa brasileira. Doutrina e recursos humanos e logísticos
200 PLANEJAMENTO DE MANUTENÇÃO EM INSTALAÇÕES DA MB
Christovam Leal Chaves – Capitão-Tenente (EN)
Manutenção nas edificações – custo – planejamento e controle. Vida econômica
ótima. Estudo de caso

208 A VELA COMO INSTRUMENTO DE EDUCAÇÃO E FORMAÇÃO PARA O


DESENVOLVIMENTO SOCIAL NO BRASIL
Sylvio Seoane Lanzellotti – Aspirante
Importância da vela no Programa Olímpico da Marinha. O programa no
desenvolvimento de atletas de alto rendimento. A vela proveu o maior número de medalhas
em Olimpíadas. Ferramenta de educação e desenvolvimento social

215 CARTAS DOS LEITORES

219 NECROLÓGIO

227 O LADO PITORESCO DA VIDA NAVAL

235 DOAÇÕES À DPHDM

238 ACONTECEU HÁ CEM ANOS


Seleção de matérias publicadas na RMB há um século. O que acontecia em nossa
Marinha, no País e em outras partes do mundo

254 REVISTA DE REVISTAS


Sinopses de matérias selecionadas em mais de meia centena de publicações
recebidas do Brasil e do exterior

269 NOTICIÁRIO MARÍTIMO


Coletânea de notícias mais significativas da Marinha do Brasil e de outras
Marinhas, incluída a Mercante, e assuntos de interesse da comunidade marítima
NOSSA CAPA

DESCOMISSIONAMENTO DO NAVIO-AERÓDROMO SÃO PAULO

C onsiderando a relevância do assunto


para o Brasil e para a Marinha, trans-
crevemos comunicação de 14 de fevereiro
primeiros anos em atividade pela Esquadra
brasileira, possibilitando à Marinha adqui-
rir a capacitação para operar aeronaves de
de 2017 do Comandante da Marinha, Al- alta performance embarcadas. Entretanto,
mirante de Esquadra Eduardo Bacellar Leal seus complexos e antigos sistemas exigiram
Ferreira, ao ministro de Estado da Defesa, um volume financeiro de investimentos em
Raul Jungmann, a respeito da desmobiliza- manutenção além do que a Força dispunha,
ção do NAe São Paulo: ocasionando progressivas limitações, o que
“O Navio-Aeródromo (NAe) São Pau- culminou, em 2005, na parada do navio
lo foi incorporado à Marinha em 2000, para um Período de Grandes Reparos.
a partir de uma compra de oportunidade Após diversas tentativas, sem sucesso,
da Marinha Nacional da França, com os de recuperar a capacidade operativa do
propósitos precípuos de substituir o antigo meio, o Almirantado decidiu, em 2014,
Navio-Aeródromo Ligeiro Minas Gerais, desenvolver estudos técnicos para realizar
em término de vida útil, e proporcionar a um Programa de Modernização com foco
evolução das operações aéreas embarcadas na substituição do sistema de propulsão de
com o emprego dos aviões de asa fixa e vapor superaquecido para elétrica integrada
propulsão a jato A-4 Skyhawk. e na substituição/modernização dos siste-
Apesar de já contar com 37 anos de mas de aviação.
serviço ativo no momento da aquisição, Lamentavelmente, os estudos de exequi-
o navio cumpriu bem a sua missão nos bilidade do referido Programa indicam um
DESMOBILIZAÇÃO DO NAVIO-AERÓDROMO SÃO PAULO

longo período para sua conclusão, aproxi- Vida útil média das aeronaves A-4
madamente dez anos, além de incertezas Skyhawk: a modernização em curso das
técnicas e elevados custos. São as seguintes aeronaves A-4 estenderá sua vida útil,
considerações mais relevantes: em média, até 2030. Ou seja, quando a
Estrutura do navio: a inspeção na parte modernização do navio estiver próxima de
estrutural do navio apresentou, de uma ser concluída, suas atuais aeronaves serão
forma geral, muito bom estado, havendo a desativadas, gerando a necessidade de
necessidade de reparos pontuais, principal- obtenção de novas unidades compatíveis
mente nas seções das praças de máquinas. com o convés de voo do NAe São Paulo,
Sistemas de Aviação (catapultas, apa- inexistentes hoje no mercado.
relho de parada e elevadores): além da Capacidade industrial, riscos e inedi-
obsolescência, descontinuidade e falta de tismo da obra: o recente enfraquecimento
sobressalentes, o reparo dos sistemas de da indústria naval brasileira, com reflexos
aviação exige um conhecimento muito observados na capacitação de pessoal e
específico e mão de obra especializada, qualidade dos serviços, a complexa matriz
disponível apenas no exterior, especifica- de riscos e o ineditismo deste tipo de obra
mente nos EUA, único país que detém o no Brasil geram lacunas muito grandes de
domínio total da tecnologia de catapulta. planejamento, dificultando sobremaneira o
A alternativa de sua substituição esbarra seu correto dimensionamento e, consequen-
na ausência de uma solução técnica, pois as temente, a estimativa de custos.
catapultas disponíveis no mercado exigem Assim, o Almirantado concluiu que o
um convés de voo maior que o do NAe Programa de Modernização do NAe São
São Paulo, e aquelas instaladas a bordo, Paulo é inviável, decidindo pela desmobi-
que utilizam vapor superaquecido, não são lização do meio, a ser conduzida ao longo
mais fabricadas. dos próximos três anos, e propõe a [Link].
Sistema de Propulsão: em razão de um programa de obtenção de um novo con-
grande número de avarias, idade avan- junto navio-aeródromo x aeronaves, que
çada dos equipamentos e complexidade ocupará a terceira prioridade de aquisições
das normas internacionais de segurança da Marinha, logo após o Prosub/Programa
a serem atendidas, a possibilidade de Nuclear e o Programa de Construção das
reparo do atual sistema de propulsão a Corvetas Classe Tamandaré. O custo de
vapor foi considerada de alto risco e com aquisição do novo binômio será substan-
disponibilidade futura contestável. Sua cialmente menor que o de modernização
substituição por uma planta elétrica in- do NAe São Paulo e obtenção de aeronaves
tegrada é tecnicamente exequível, porém compatíveis com o navio, as quais, reitero,
requer um investimento muito elevado e não existem no mercado, necessitando ser
traz consigo algumas incertezas. O Brasil desenvolvidas.
ainda não domina a tecnologia envolvida. A capacidade de conduzir operações
A possibilidade de substituição da atual de guerra naval com emprego de aviação
planta de vapor superaquecido por outra de asa fixa, obtida às custas de grandes
com as mesmas características foi consi- investimentos e intensos treinamentos dos
derada inviável técnica e economicamen- nossos pilotos no País e no exterior, será
te, uma vez que este tipo de instalação mantida, até o recebimento do novo navio,
não é mais utilizado pelas Marinhas em a partir da Base Aérea e Naval e de outras
sistemas de propulsão. instalações de terra, bem como por meio

RMB1oT/2017 9
DESMOBILIZAÇÃO DO NAVIO-AERÓDROMO SÃO PAULO

de treinamentos com navios-aeródromo que uma campanha de comunicação social


de Marinhas amigas, a exemplo do que as para os públicos interno e externo será lan-
Marinhas do Reino Unido, da Itália e da Ar- çada, com o propósito de esclarecer todos
gentina estão realizando nos últimos anos. os aspectos da decisão tomada e conscienti-
Por fim, Sr. Ministro, antevendo possí- zar a sociedade brasileira da importância de
veis efeitos negativos da decisão sobre a mantermos a capacidade de operar aviação
motivação de nosso pessoal, em especial os embarcada para garantirmos a soberania e
envolvidos com a atividade aérea, participo a defesa do País”.*

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<FORÇAS ARMADAS>; Navio Aeródromo ;

* NR - A respeito do assunto, o Comandante da Marinha publicou nota de no 143 no Boletim de Ordens e Notícias,
a 15 de fevereiro de 2017.

10 RMB1oT/2017
ARAEX – UNO

JOSÉ ALBERTO ACCIOLY FRAGELLI*


Almirante de Esquadra (Refo)

E m novembro de 1993, foi realizada


a primeira Operação Araex, entre as
Armadas da Argentina e do Brasil, quando
Colossus, construído para a Marinha inglesa
com o nome de HMS Venerable. A Holanda
operou este navio de 1948 até vendê-lo para
o nosso Navio-Aeródromo Ligeiro (NAeL) a Argentina com o nome de [Link]. Karel
Minas Gerais foi empregado na manutenção Doorman, em homenagem ao almirante ho-
da qualificação de pilotos argentinos, que landês que morreu na Batalha do Mar de Java
operavam os novos Super Étendard. contra o Japão, na Segunda Guerra Mundial.
A Marinha argentina possuiu em seu his- O 25 de Mayo participou do conflito
tórico dois navios-aeródromos: o primeiro, entre Argentina e Chile pela posse do Canal
o Independencia, ex-HMS Warrior, classe de Beagle. Na época, seu convés de voo
Colossus, adquirido da Inglaterra em 1958; foi aumentado de forma a capacitá-lo para
o segundo, o 25 de Mayo, foi negociado receber mais de 21 aviões, como era inicial-
com a Holanda em 1969, também da classe mente previsto.

* Foi chefe do Estado-Maior da Armada, comandante de Operações Navais, diretor-geral do Pessoal da Marinha,
diretor de Hidrografia e Navegação e diretor de Ensino da Marinha. Comandou o 5o Distrito Naval, a Escola
Naval, o Centro de Adestramento Almirante Marques Leão, a Fragata Liberal, o Contratorpedeiro Alagoas
e o Corpo de Aspirantes e, na reserva, foi diretor-presidente da Coordenadoria-Geral do Programa de De-
senvolvimento do Submarino com Propulsão Nuclear.
ARAEX – UNO

O 25 de Mayo na Guerra das Falklands/Malvinas

Em 2 de abril de 1982, iniciou-se o Em 2 de maio de 1982, o cruzador argen-


conflito entre Argentina e Inglaterra pela tino General Belgrano foi afundado pelo
posse das Ilhas Falklands/Malvinas, com a submarino nuclear inglês HMS Conqueror.
invasão das mesmas por ordem do General Sob ameaças de outros ataques de sub-
Galtieri, Presidente marinos nucleares, a
da Argentina. esquadra de superfície
Aquelas ilhas, situ- Em 1992, quando o sistema argentina recolheu-
adas na extremidade -se às suas bases, não
meridional do conti- de propulsão já tinha dando oportunidade ao
nente sul-americano, sido retirado de bordo, os 25 de Mayo de voltar
têm, entre outras, a
possibilidade de con-
trabalhos foram suspensos aconflito. tentar participar do

trole do hemisfério e o 25 de Mayo nunca mais Em 1988, a Arma-


austral. Pela sua posi- se fez ao mar da argentina iniciou
ção, normalmente são um grande refit no seu
submetidas a ventos navio-aeródromo, vi-
muito fortes. Consta que o 25 de Mayo sus- sando inclusive à troca de sua propulsão,
pendeu para esta área, mas teve problemas primeiro incluindo o Cosag1 com novas
em sua propulsão, reduzindo sua velocidade; caldeiras. Posteriormente, mudou o projeto,
encontrou surpreendentemente uma grande substituindo pelo Codog2 com quatro mo-
calmaria, não permitindo operações aéreas. tores diesel. Em 1990, a Fincantieri venceu
1 N.R.: Acrônimo de sistema de propulsão Combined Steam and Gas (Combinado Vapor e Gás).
2 N.R.: Acrônimo de sistema de propulsão Combined Diesel or Gas (Combinado Diesel ou Gás).

12 RMB1oT/2017
ARAEX – UNO

a concorrência inicial
para dar assistência
técnica à AFNE San-
tiago para trocar as
turbinas Parsons pela
GE/Fiat LM 2500 gás
turbina.
Em 1992, quando
os velhos sistemas de
propulsão já tinham
sido retirados de bor-
do e era previsto o
início das obras, por
motivos superiores os
trabalhos foram sus-
pensos ou cancelados
e o 25 de Mayo nunca
mais se fez ao mar. Super Étendard da Marinha Argentina
Nesta situação, a
Argentina precisava manter os seus pilotos com uma série de fortes edificados para
qualificados nos 12 Super Étendard adqui- protegê-la.
ridos da França e, por esta razão, solicitou A bordo do Minas, estavam embarcados
apoio ao Brasil. dois esquadrões de helicópteros navais e o
Sendo eu o chefe do Estado-Maior da Grupo de Aviação Embarcado (GAE) da
Esquadra, fui escolhido para comandar Força Aérea Brasileira (FAB), com quatro
um Grupo-Tarefa brasileiro, composto aviões Grumman S2-E / Tracker.
pelo nosso Minas Gerais e pelo Contra- Agradou-me positivamente o perfeito
torpedeiro Mariz e Barros, incorporando entrosamento entre a nossa gente marinhei-
uma corveta argentina da classe Meko 140 ra e os militares da FAB, numa confraterni-
quando chegássemos a Puerto Belgrano. zação extraordinária, tanto no campo pro-
Suspendemos do Rio de Janeiro no dia fissional como na área de convívio, como
17 de novembro de 1993, atracando três se fosse uma única força, muito diferente
dias depois em Rio Grande para abasteci- de 1964, quando presenciei problemas entre
mento. O meu staff era muito bom, a co- as nossas duas forças.
meçar pelo comandante do Minas Gerais, Chegando a Puerto Belgrano, apresen-
Capitão de Mar e Guerra Wilson Jorge tei-me ao comandante de la Flota (Co-
Montalvão e tendo como meu braço direito mench), Contra-Almirante Fusari, que me
o excepcional Capitão de Mar e Guerra recebeu com grande cordialidade.
João Afonso Prado Maia de Faria, como O Minas estava em estado quase perfei-
meu chefe do Estado-Maior. to, tendo apenas o problema da catapulta,
Saindo de Rio Grande, chegamos três e não tínhamos certeza de poder lançar os
dias depois a Puerto Belgrano, base da Super Étendard. Pessoalmente, o nosso co-
Esquadra argentina. Eu nunca lá tinha es- mandante de Operações Navais, Almirante
tado e me surpreendi pela grandeza dessa Cézar de Andrade, determinou-me que não
base, construída no início do século XX, corresse risco operando com a mesma.

RMB1oT/2017 13
ARAEX – UNO

Assim, combinei com o Almirante Fusa- ses entraram no Estreito de São Carlos,
ri que a qualificação dos pilotos se limitaria visando iniciar o desembarque, o General
ao toque e à arremetida. Menendez, comandante das ilhas, pediu
Já havia algum tempo que os pilotos apoio aéreo, que só chegou horas depois,
argentinos não operavam em um navio- devido à cadeia burocrática de comando,
-aeródromo. Determinei, assim, que o atrasando a solicitação para que os aviões
comandante do GAE, Tenente-Coronel decolassem de suas bases, o que provocou
(AV) Reale, fosse à Base Aeronaval Capi- a chegada deles à área já tendo ocorrido o
tan Espora para presenciar o treinamento desembarque inglês, e assim a prioridade
dos pilotos argentinos. Lá foi feita na pista dos alvos passara a ser os escoltas e não
uma pintura reproduzindo o convés de voo os navios com tropa.
do nosso navio. O Almirante Fusari explicou-me que
No terceiro dia, o Tenente-Coronel a Argentina não possuía Distritos Navais
Reale me deu o pronto, participando que e sim Comandantes de Áreas Marítimas
os pilotos estavam aptos a operar de bordo. e aconselhou-me a não deixar ser criada
Fui então à mencionada base aeronaval, a Guarda Costeira, pois a mesma, que
onde fui apresentado ao Capitan de Navio lá é chamada de Prefeitura Naval, tinha
(CMG) Colombo, comandante da Aviação sugado em muito os recursos e a projeção
Naval argentina. Ele me levou a um salão da Marinha.
para mostrar-me um grande mural na No dia 27 de novembro, suspendemos
parede, reproduzindo as façanhas extraor- para a realização das operações com os
dinárias dos aviadores navais argentinos aviões Super Étendard. Antes de sair do
na Guerra das Malvinas (Falklands), que Rio, meu saudoso amigo e chefe Almirante
partiam das bases de Rio Grande e Rio Oliveira, em sua sensibilidade e vocação
Galego, no extremo sul da Argentina, jurídica, conversou comigo sobre, caso
para alcançarem os navios ingleses, tendo houvesse um acidente, a quem caberia
de fazer dois reabastecimentos em voo, a apuração do inquérito – à Armada da
um na ida e outro na volta. Ao todo eram Argentina ou a Marinha do Brasil. O pri-
sete horas de voo, sentados em cabines meiro avião que tocou no convés do Minas
desconfortáveis de um caça e sob ameaça correu por todo ele e, ao decolar, ficou
de não encontrarem o avião reabastece- oculto pelo casco do navio, dando a im-
dor e caírem no mar, em águas geladas pressão que tinha caído ao mar, vindo-me
que garantiriam apenas sete minutos de logo a mente a preocupação do Almirante
sobrevivência. Oliveira. Pouco depois, o avião apareceu
Convidei o Almirante Fusari para as- e com ele desapareceu o nosso susto. Foi
sistir à operação de seus pilotos a bordo o único contratempo que tivemos em inú-
do Minas. Ele perguntou-me se poderia meros toques e arremetidas.
levar mais dois almirantes, o comandante No fim do dia, o Comandante Colombo
dos Fuzileiros Navais e o comandante da deu por satisfeita a qualificação de todos
Área do Atlântico. Claro que concordei. os pilotos e sugeriu que se encerrasse a
Ele me explicou que antes das Malvinas operação, regressando à base.
a Marinha argentina tinha cerca de 30 No dia seguinte, suspendemos de
almirantes, mas agora estava reduzida a Puerto Belgrano, onde fomos muito feli-
11, pela experiência vivida naquela guerra. zes e iniciamos o retorno, passando por
Explicou-me que, quando os navios ingle- Montevidéu.

14 RMB1oT/2017
ARAEX – UNO

Na viagem de volta, o comandante do comandante da aeronave colocava o trem


GAE convidou-me para voar em um dos de pouso dianteiro e seguia diretamente
seus aviões. Aceitei, com a condição de por ela, não podendo cometer o menor
ficar na cabine. Então ele informou-me que desvio, pois a ponta da asa de boreste
era o único piloto a bordo, que podia voar passava a menos de cinco metros da ilha
sem copiloto e que consequentemente, eu do navio. O piloto só se concentrava nesta
teria de ser submetido a um treinamento tarefa, e as outras mais simples eram feitas
para realizar umas poucas tarefas na oca- pelo copiloto. Fizemos ao todo 16 decola-
sião da decolagem do avião. gens e pousos. O Minas tinha cinco cabos
O Tracker não era catapultado, ele de parada. No pouso, o Tenente-Coronel
decolava em corrida livre. Era um avião Reale perguntava-me qual dos cabos eu
muito grande para operar a bordo do Mi- escolheria, e ele pousava exatamente no
nas. O piloto levava o avião para a popa, cabo escolhido. Era fantástica a sua perícia
acelerava à máxima potência, segurando como piloto.
com os freios até atingir a maior acelera- No dia 7 de dezembro de 1993, o querido
ção, quando então soltava os freios. No e saudoso Minas entrou barra adentro na
convés do Minas existia uma linha preta Baía de Guanabara, com mais uma missão
pintada da popa até o final da proa, onde o bem cumprida.

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<FORÇAS ARMADAS>; Marinha da Argentina; Marinha do Brasil; Navio-Aeródromo;
Aviação Naval;

RMB1oT/2017 15
A SEGUNDA MAIS ANTIGA DO MUNDO

A Revista Marítima Brasileira completou 166 anos em


1o de março de 2017. Fundada em 1851 pelo
Primeiro Tenente Sabino Elói Pessoa,
foi a segunda revista mais antiga do mundo
a tratar de assuntos marítimos e navais.
Conforme os registros obtidos, a Rússia foi o
primeiro país a lançar uma revista marítima,
a Morskoii Sbornik, (1848).
Depois vieram:
Brasil – Revista Marítima Brasileira (1851),
França – Revue Maritime (1866),
Itália – Rivista Marittima (1868),
Portugal – Anais do Clube Militar Naval (1870),
Estados Unidos – U.S Naval Institute Proceedings (1873)
República Argentina – Boletín Del Centro Naval (1882).
MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA
MARINHA

ELCIO DE SÁ FREITAS*
Vice-Almirante (Refo-EN)

SUMÁRIO

Apresentação
Introdução
Marinha, Engenharia e Capacitações
Militarização e Navios de Guerra
Expectativas e Realidades
Pendores
Educação Contínua
Especialistas
Organização e Hábitos de Trabalho
Documentação Técnica
Responsabilidades
Liderança
Oficiais Engenheiros e o Pensamento Naval
Confiança

APRESENTAÇÃO “A Amazônia Azul apresenta impor-


tância política, estratégica e econômica,

O Comandante do Centro de Instrução Al-


mirante Wandenkolk (CIAW), Contra-
-Almirante Paulo Cesar Demby Corrêa, fez
pelos seus recursos naturais e por ser a
principal via de transporte do comércio
exterior. Para a garantia do emprego
a seguinte apresentação do Vice-Almirante desses espaços, sem interferências exter-
(Refo EN) Elcio de Sá Freitas, que ministrou nas que possam contrariar os interesses
aula inaugural, em dezembro de 2016, para brasileiros, é necessário um Poder Naval
o Curso de Formação de Oficiais no CIAW. moderno, equilibrado e balanceado.

* Serviu na Diretoria de Engenharia Naval de dezembro de 1981 a agosto de 1990, tendo sido seu diretor de abril
de 1985 a agosto de 1990. Colaborador frequente da RMB. Autor do livro A Busca de Grandeza.
MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA

Uma Força Naval dotada de


tais pressupostos demanda o
desenvolvimento de tecnologias
autóctones, com suporte de ins-
tituições nacionais públicas e
privadas. Em que pese a escassez
dos recursos financeiros, a Mari-
nha do Brasil (MB) tem auferido
resultados importantes, tanto no
que se refere à reestruturação do
setor de Ciência, Tecnologia &
Inovação (C,T&I) quanto para fa-
zer frente aos desafios da gerência
tecnológica e ao desenvolvimento
de equipamentos e sistemas. A In: [Link]
estratégia adotada permitiu alcan- [Link]
çar resultados relevantes, como
os bem-sucedidos projetos das fragatas primeiros-tenentes do Corpo de Engenheiros
classe Niterói, das corvetas classe Barroso da Marinha, em 17 de dezembro de 2016.
e dos submarinos classes Tupi e Tikuna, Esses oficiais cumprem a etapa inicial de um
construídos no Arsenal de Marinha do Rio período de reestruturação e aperfeiçoamento
de Janeiro (AMRJ); o desenvolvimento do de carreira, realizando o Curso Especial de
míssil antinavio (MAN-SUP) e de sensores, Atividades de Engenharia, e que será proce-
tecnologias de materiais para aplicações dido, ao longo de 2017, por estágios de quali-
militares e sistemas informatizados; e o ficação profissional a bordo dos meios navais
domínio do ciclo de combustível nuclear. e de fuzileiros navais, nas Organizações
Entretanto, persiste a dependência de com- Militares Prestadoras de Serviço (OMPS) E
ponentes e insumos produzidos no exterior, e I e nas Diretorias Especializadas.
frequentemente submetidos a cerceamentos. O diretor-geral do Pessoal da Mari-
Nesse contexto, considerando a cons- nha deixou patente que “não há Marinha
tante necessidade do aprimoramento da de guerra sem uma Engenharia forte
capacidade de manutenção, com ênfase na e estruturada”. Essa realidade pode
recuperação da capacidade operativa da ser sumarizada pela figura acima, que
Marinha do presente, assim como na gestão ilustra os complexos e desafiantes es-
dos programas estratégicos para as Marinhas forços de engenharia para um país que
do amanhã e do futuro, o diretor-geral do se propõe a construir um submarino
pessoal da Marinha, Almirante de Esquadra com propulsão nuclear.
Ilques Barbosa Júnior, formulou um convite Antes de passarmos à aula inaugu-
ao Vice-Almirante (Refº-EN) Elcio de Sá ral propriamente dita, é oportuno citar
Freitas para ministrar uma aula inaugural que “há uma relação forte, embora não
sobre aspectos primordiais que devem nor- evidente, entre projeto, construção e
tear a carreira dos oficiais que concluíram reparo de navios de guerra. Abolidas as
com aproveitamento o Curso de Formação duas primeiras atividades, a terceira se
de Oficiais no Centro de Instrução Almiran- degrada”. (VA-EN ELCIO, in “A Busca
te Wandenkolk (CIAW) e dos nomeados de Grandeza”, p. 43).”

18 RMB1oT/2017
MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA

No Auditório do CIAW (esq/dir):


CA (EN) Ricardo, VA (Refo-EN) Elcio, VA (EN) Neves, AE Ilques, VA Garcez e CA Demby

INTRODUÇÃO MARINHA, ENGENHARIA E


CAPACITAÇÕES

C aros novos tenentes do Corpo de


Engenheiros da Marinha,
Proferir esta aula inaugural é honra e
Engenharia é cada vez mais impor-
tante em todas as Marinhas. Navios de
responsabilidade. É honra por ser convite guerra são densas concentrações das
da Marinha. E é responsabilidade porque mais diversas engenharias. Projetá-los,
devo iluminar a carreira que vocês agora construí-los, apoiá-los, mantê-los e mo-
iniciam. dernizá-los é missão
Tentarei imagi- que doravante tam-
nar as expectativas Este curso que hoje iniciam bém será a de vocês.
de vocês; recorrerei Para bem cumpri-las
às minhas própria é apenas o primeiro numa vocês terão de capa-
expectativas quando longa série destinada a citar-se mais e mais,
me tornei engenhei- capacitá-los. tanto técnica como
ro; refletirei sobre gerencialmente, des-
minha vida como Capacitação resulta de de os passos iniciais
chefe de engenhei- estudo e prática até os dos escalões
ros e sobre os anos mais elevados. Este
como professor de curso que hoje ini-
Engenharia para alunos civis e militares; ciam é apenas o primeiro numa longa
e tentarei transmitir um resumo do que série destinada a capacitá-los.
vivi e aprendi como engenheiro de campo Capacitação resulta de estudo e práti-
e de projeto, como subordinado e como ca. Vocês possuem a necessária forma-
chefe, tanto no Brasil como no exterior. ção básica. Mas terão que aplicá-la em

RMB1oT/2017 19
MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA

tarefas práticas, desde as mais simples curso para oficiais engenheiros, procurem
às mais complexas. Além disso, deverão obter o máximo conhecimento possível
ampliar, aprofundar e manter atualizada sobre os vários sistemas de engenharia
sua formação, não só mediante cursos de navios de guerra. E não deixem de
programados pela Marinha, mas princi- aprofundar esse conhecimento em todas
palmente por iniciativa própria, estudan- as oportunidades de estudo e prática.
do em livros, revistas técnicas e cursos a
distância. Para tanto, terão que renunciar EXPECTATIVAS E REALIDADES
a muitas horas de lazer. A compensação
será tornarem-se competentes e valori- Quais são suas expectativas neste mo-
zados, tanto na Marinha como no meio mento? Certamente esperam ter uma carreira
civil, de onde todos viemos. estável, progresso profissional, meios de
vida aceitáveis e contribuir para obtermos o
MILITARIZAÇÃO E NAVIOS DE poder naval indispensável a um País como o
GUERRA nosso. Acima de tudo,
esperam ser felizes.
Em apenas um ano Porém, ao longo da
vocês militarizaram-
O mundo evolui carreira, expectativas
-se. Não tiveram a velozmente, principalmente se defrontarão com re-
longa formação naval nos setores tecnológicos. alidades. Os primeiros
de gerações que os anos costumam ser os
precederam. Poderia Nestes, a obsolescência mais difíceis, como
haver dúvidas sobre profissional só pode ser em todas as carreiras.
militarização assim Mas os primeiros anos
tão rápida. Quanto
evitada por educação também serão os da
a isso, lembro as pa- contínua juventude que vocês
lavras atribuídas a têm e terão por mais
Benjamin Constant, de uma década. Ela é
eminente prócer da República: “Os mi- extraordinariamente resistente e resiliente.
litares são o povo de uniforme”. E real- Resiste a grandes esforços e choques. Rapi-
mente são. Ouso explicitar as palavras de damente se recupera de tensões e embates.
Benjamin Constant: os militares são civis Regida por pensamentos positivos, sempre
que acrescentaram virtudes militares às sai vitoriosa. Portanto, empreguem bem seus
virtudes civis. Constatei essa verdade em anos de juventude. Tenham sempre pensa-
meu serviço na ativa, chefiando oficiais mentos positivos e construtivos.
engenheiros oriundos deste centro de
formação: eles eram ótimos militares, PENDORES
portadores de virtudes civis. Só lhes fal-
tava a vivência em navios de guerra, que Num conjunto amplo como o de vocês
vieram a obter em atividades de engenha- existem vários pendores profissionais. To-
ria a bordo. Logo perceberam que o alvo dos serão valiosos para a Marinha, desde
de sua dedicação profissional tinha que que bem cultivados. Alguns sentem ou
ser o navio e toda a sua infraestrutura de sentirão forte atração por projetos de enge-
projeto, construção, apoio, manutenção e nharia; outros, por construção, apoio e ma-
modernização. Portanto, neste primeiro nutenção; outros, ainda, por gerenciamento

20 RMB1oT/2017
MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA

técnico ou por pesquisa e desenvolvimento. A maior parte da educação contínua


Alguns já terão identificado seu pendor,deve ocorrer quase sem interrupção das
e outros não. Mesmo os que já o tenham funções de cada profissional. Os períodos
identificado poderão ter-se enganado. De-
de interrupção têm que ser curtos. Do con-
verão confirmá-lo. Seja qual for o pendor,
trário, grandes empresas faliriam. Muitos
todos deverão estar prontos a empenhar-se
deles realizam-se a distância, via internet,
nas tarefas e funções que lhes forem atri-
até mesmo em universidades americanas.
buídas, sem com isso renunciarem às suasEm alguns cursos é necessária presença
preferências, que normalmente a Marinha apenas durante poucas horas semanais.
atenderá diante de bons serviços prestados.
Porém em todos, cada participante tem que
Empenhando-se, ampliarão sua capacidade subtrair horas ao seu lazer para obter mais
e visão profissional, sempre importantes,
que um mero certificado de participação.
principalmente nos postos mais altos da Em qualquer curso de educação con-
carreira. Seu valor será reconhecido. tínua, as horas de estudo individual são
a base para eficácia.
EDUCAÇÃO Este curso que agora
CONTÍNUA
Enquanto a Marinha não iniciam é o primeiro
na educação contínua
O mundo evolui puder formar e manter de vocês. Dediquem-
velozmente, princi- engenheiros especialistas -se intensamente ao
palmente nos setores estudo individual.
tecnológicos. Nes- em seus quadros civis, o Ajam sempre assim.
tes, a obsolescência Corpo de Engenheiros terá Isso os tornará mais
profissional só pode capazes.
ser evitada por edu-
que suprir essa importante
cação contínua. Mas lacuna, tanto quanto ESPECIALISTAS
essa educação não possível
se consegue apenas Marinhas de guerra
com cursos de pós- são organismos am-
-graduação, embora eles sejam indispen- plos e complexos. Possuem vários siste-
sáveis para todos vocês que demonstrarem mas: operacionais, administrativos, educa-
aptidão e mérito. cionais e técnicos-financeiros-gerenciais.
Educação contínua é uma sequência Todos esses sistemas requerem diversas
quase ininterrupta de obtenção de conhe- capacitações em vários níveis, a serem
cimentos, desde os mais técnicos aos mais obtidas por educação contínua e prática
gerenciais, desde os imediatos até os de em diversos órgãos da Marinha. Oficiais
longo alcance, desde processos de exe- passam a funções de comando ou chefia à
cução até os de planejamento, controle e medida que ascendem.
avaliação. Inclui obtenção e atualização Quase todas as capacitações e níveis
de conhecimentos. Abrange teorias e necessários conseguem-se nos Corpos e
práticas. Realiza-se em universidades, Quadros militares da Marinha. Mas neles
em centros tecnológicos ou gerenciais, é muito difícil formar e manter engenhei-
em fábricas, em sociedades técnicas e ros militares especialistas. Especialistas
em grupos especializados. E também nos são os que se dedicam exclusivamente a
locais de trabalho. um setor estreito da engenharia durante

RMB1oT/2017 21
MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA

pelo menos 15 anos ininterruptos. Mu- são óbvios, mas verifiquei que ainda assim
danças de funções e comando ou chefia, são esquecidos. Eles serão úteis em toda a
requisitos indispensáveis da carreira carreira de vocês.
militar, praticamente impedem a obten- 1º – O propósito de quem organiza deve
ção de engenheiros especialistas. Eles ser multiplicar sua ação pessoal. Evitem
têm que pertencer aos quadros civis da burocracias e centralização excessiva.
Marinha, mas a questão transcende as 2º – Datem todos os documentos de
decisões navais. trabalho e neles registrem referências úteis.
Enquanto a Marinha não puder for- Exijam o mesmo de seus subordinados.
mar e manter engenheiros especialistas 3º – Obtenham informações suficientes
em seus quadros civis, o Corpo de En- antes de iniciar qualquer trabalho não
genheiros da Marinha (CEM) terá que rotineiro: antecedentes técnicos e opera-
suprir essa importante lacuna, tanto cionais, situação atual, fatores técnicos
quanto possível. Vocês tomarão parte no envolvidos, condições de segurança
esforço, que exigirá ainda mais de suas necessárias, normas e instruções técnicas
capacitações. pertinentes etc. Sempre que possível,
examinem o sistema ou equipamento a
ORGANIZAÇÃO E HÁBITOS DE ser instalado ou reparado e obtenham
TRABALHO informações dos operadores.
4º – Elaborem, mantenham e preser-
Provavelmente a primeira comissão de vem registros técnicos de trabalhos im-
vocês na Marinha será também o primeiro portantes. Eles serão úteis para trabalhos
ou o segundo trabalho como engenheiros. futuros. Mantenham e preservem instru-
Tendo obtido êxito num curso de gradu- ções e registros técnicos que receberem
ação e no concurso ao CEM, cada um de seus antecessores.
de vocês já possui seu modo aprovado 5º – Planejem, tanto quanto possível,
de organizar-se e trabalhar. Porém, do- dias, semanas e meses. Ao final de cada
ravante o trabalho não será acadêmico, dia, replanejem o dia seguinte.
exceto quando realizarem cursos de pós- 6º – Planejem e controlem a execução
-graduação. Mesmo para aqueles que de tarefas. Em muitos casos o controle
forem designados para setores de projeto, presencial é indispensável. Não as dei-
mais próximos de tarefas acadêmicas, xem incompletas.
será conveniente reajustar os modos de 7º – Observem bem os subordinados.
organizar-se e os hábitos de trabalho. Avaliem seus desempenhos. Aprendam
Para os que forem enviados para a “linha com os melhores dentre eles.
de frente” (estaleiro, estação naval, base 8º – Avaliem resultados e deles tirem
naval) a conveniência do reajuste será lições.
ainda maior. Ele é necessário porque 9º – Elogiem seus subordinados sem-
agora não trabalharão apenas para vocês pre que merecerem.
mesmos, mas para uma organização com 10º – Se necessário, requeiram assistên-
determinadas condições. cia técnica, principalmente diante de requi-
Cada um saberá fazer seu reajuste. sitos de segurança. A assistência técnica
Mas eis alguns princípios, que obtive em necessária poderá ser a de base, estaleiro,
leituras e experiência pessoal e também na Diretoria Especializada ou a do fabricante.
observação de novos engenheiros. Alguns 11º – Nunca aceitem argumentos que

22 RMB1oT/2017
MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA

tentem justificar práticas duvidosas. Boas esforços de controle de avarias. Utilizei


práticas de engenharia nunca se opõem às essas informações mais tarde, no projeto
ciências de engenharia. e na construção do Navio-Escola Brasil
12º – Aprendam com os chefes. Em e das corvetas classe Inhaúma.
cada função, deverão preparar-se para 2º – Uma de minhas primeiras tarefas
substituí-los e preparar subordinados que como engenheiro, em 1964, foi retirar e
substituirão vocês. substituir um tampão no casco resistente
13º – Verifiquem quais são os tópicos de um submarino que recebêramos da
de engenharia e gerência cujo estudo po- Marinha americana. Qualquer falha
derá melhorar seus desempenhos pessoais. no casco resistente, quando submerso,
Procurem estudá-los em livros, revistas pode destruir o submarino e toda a sua
técnicas, cursos na internet etc. tripulação. Como retirar e substituir o
14º – Instruam os subordinados. Procu- tampão? Felizmente dispúnhamos da
rem identificar meios para instruí-los. documentação técnica necessária, que a
Marinha americana
DOCUMENTAÇÃO também fornecera.
TÉCNICA Sem um eficiente sistema 3º – Durante um
mês de 1967, estive
Engenharia se faz de elaboração, distribuição, no arsenal da Mari-
com documentação utilização, revisões e nha americana em
técnica, tanto em pro-
jeto como em cons-
preservação de documentos Filadélfia, preparan-
do-me para substituir
trução, manutenção, técnicos, o progresso é lento o chefe do recém-
modernização e geren- e difícil. Documentação -criado Grupo de Re-
ciamento. Sem um efi- paros de Submarinos
ciente sistema de ela- técnica é capital acumulado do AMRJ. Ainda no
boração, distribuição, Brasil, dediquei mui-
utilização, revisões e tas horas a copiar,
preservação de documentos técnicos, o estudar e organizar um extenso conjunto de
progresso é lento e difícil. Documentação instruções técnicas da Marinha americana
técnica é capital acumulado. Citarei três para reparos em submarinos, muitas já vá-
exemplos de minha própria experiência: rias vezes revisadas. Elas haviam sido obti-
1º – Em 1963, no Instituto de Tecnolo- das pelo oficial que eu viria a suceder, meu
gia de Massachusetts (MIT), tive que me antigo chefe. Contudo, havia um problema:
informar sobre danos de guerra impostos muitas das instruções faziam referência a
a contratorpedeiros no Pacífico. Recorri outras, que não possuíamos. Anotei todas
ao Arquivo Técnico que a Marinha ame- essas referências e também fiz uma lista
ricana lá mantinha e logo descobri vários de dúvidas que me surgiram durante o es-
relatórios de comandantes desses navios. tudo. No arsenal de Filadélfia, diante desse
Eles me alertaram sobre a vulnerabilida- material, programaram-me uma sequência
de dos sistemas automáticos da época a de consultas a engenheiros experientes em
impactos e sobre a gravidade da toxidez e cada um dos tópicos em questão. Deles
perda de visibilidade causada pela queima recebi as explicações de que necessitava,
de cabos elétricos em incêndios durante e cada um prontamente me entregou as
combates, dificultando ou frustrando referências que eu procurava obter. Eles

RMB1oT/2017 23
MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA

as tinham à mão. Para eficiência e boas máximo conhecimento possível sobre os


práticas de engenharia, documentação vários sistemas de engenharia de navios
técnica é ferramenta de trabalho. de guerra. E não deixem de aprofundar
Ainda não formamos a necessária esse conhecimento em todas as oportu-
cultura de documentação técnica. Ela nidades de estudo e prática.
deve ser instilada em todos, desde os seus 2º – Obtenham informações sufi-
primeiros anos na Marinha. Buscamos cientes antes de iniciar um trabalho não
capacitação tecnológica. Mas capacitação rotineiro: antecedentes técnicos e opera-
tecnológica tem três elementos princi- cionais, situação atual, fatores técnicos
pais: cérebros, documentação técnica e envolvidos, condições de segurança ne-
hardware. A documentação é que permite cessárias, normas e instruções técnicas
o acesso de cérebros a experiências e pertinentes etc. Sempre que possível,
conhecimentos acumulados. examinem o sistema, equipamento ou
instalação a ser reparado ou instalado e
RESPONSABILIDADES obtenham informações dos operadores.
3º – Planejem e controlem a execução
Estejam atentos a e tarefas. Em mui-
seus deveres milita- tos casos o controle
res, mas não esque- Como oficiais de Marinha, presencial é indis-
çam das responsabili- temos que nos empenhar pensável.
dades técnicas. Como 4º – Se necessário,
oficiais de Marinha, para que os navios operem. requeiram assistência
temos que nos empe- Como oficiais engenheiros, técnica, principalmen-
nhar para que os navios temos a responsabilidade de te diante de requi-
operem. Como oficiais sitos de segurança.
engenheiros, temos que operem em segurança A assistência técnica
também a responsabi- necessária poderá ser
lidade de que operem a de base, estaleiro,
em segurança. Normalmente essas duas Diretoria Especializada ou a do fabricante.
imposições não colidem. Mas há casos 5º – Nunca aceitem argumentos que
críticos, em que a responsabilidade de tentem justificar práticas duvidosas.
engenharia tem que prevalecer para ga- Boas práticas de engenharia nunca se
rantir indispensável segurança pessoal opõem às ciências de engenharia.
ou material. Vocês perguntarão como 6º – Verifiquem quais são os tópicos
poderão identificar esses casos, ainda de engenharia e gerência cujo estudo
mais com a diversidade de engenharias poderá melhorar seus desempenhos pes-
concentradas num navio e a impossibi- soais. Procurem estudá-los em livros,
lidade de conhecer bem todo esse vasto revistas técnicas, cursos na internet etc.
campo. Não há uma resposta infalível
para essa pergunta. Mas vocês terão alta LIDERANÇA
probabilidade de identificar e solucionar
esses casos críticos se adotarem as se- Liderança é a capacidade de galva-
guintes diretrizes, que novamente citarei: nizar vontades e esforços de um grupo
1º – Neste primeiro curso para ofi- ou de uma organização para cumprir um
ciais engenheiros, procurem obter o propósito desejado.

24 RMB1oT/2017
MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA

Em sua recente formação, vocês conhe- pelidas por seus pensamentos navais.
ceram este tema de grande importância no Pensamento naval é uma força mental
meio civil e militar. Para nós, militares, só é resultante. Tem várias e distintas forças
liderança a que une as virtudes da liderança componentes. Requer estudos, análises
civil às virtudes militares. e reflexões sobre uma Marinha e sua
Liderança é técnica e arte. Em parte é missão no presente e no futuro.
inata, e em parte é adquirida. Cada um de Pensamentos navais devem abran-
vocês possui liderança inata, em maior ger todos os aspectos relevantes para
ou menor grau. Doravante, todos deverão o poder naval, desde os de geração de
ampliar suas lideranças inatas, median- meios até os de consecução de fins;
te leituras, reflexões e, principalmente, desde exames de oportunidades até os
mediante a observação de suas próprias de identificação e superação de dificul-
atitudes e resultados. Daí poderão fazer dades; desde a geopolítica do momento
correções úteis em até a geopolítica previsível em futuro
procedimentos, mas próximo.
que não afetem suas Em todas as Ma-
personalidades. Marinhas evoluem rinhas, oficiais nos
A parte inata da impelidas por pensamentos p o s t o s m a i s e l e -
liderança é muito vados, com lastro
importante. Ela de-
navais. Pensamento de conhecimento e
termina os setores naval é uma força mental experiência, contri-
buem para a evolu-
e os limites em que resultante. Tem várias ção do pensamento
pode ser ampliada.
Assim, é improvável forças componentes. naval. E nos países
que um líder natural Num mundo cada vez mais de vanguarda, po-
para grandes empre- derosas bases téc-
endimentos de campo
tecnológico, a componente nico-científico-in-
se torne líder numa científica-tecnológica- dustriais de defesa
organização de pes- industrial é fundamental também influem in-
tensamente no pen-
quisa e desenvolvi-
mento. No entanto, samento naval.
militares têm o dever Pensamentos na-
de dar o melhor de si em todos os setores vais são tão mais importantes quanto
de atividade, ainda que só em alguns mais pertinentes forem suas forças
possam ser líderes naturais. componentes. Num mundo cada vez
Cultivem seus dons de liderança. Assim mais tecnológico, a componente
se tornarão mais capazes. científica-tecnológica-industrial é
fundamental. Ela ainda é incipien-
OFICIAIS ENGENHEIROS E O te no pensamento naval brasileiro.
PENSAMENTO NAVAL Desenvolvê-la é parte essencial da
missão do CEM. Incluirá vocês. Neste
“The empire of the future is the em- primeiro curso, e nos cursos e práticas
pire of the minds” dos próximos 15 anos, vocês estarão
Winston Churchill criando a base para suas contribuições
Marinhas de guerra evoluem im- pessoais.

RMB1oT/2017 25
MENSAGEM AO CORPO DE ENGENHEIROS DA MARINHA

CONFIANÇA suas próprias valorizações profissionais.


Os trechos serão menos árduos quando
Do que eu dis- temperados por ide-
se, certamente vo- alismo pragmático,
cês concluíram que Mantenham pensamentos indispensável para
a carreira de oficiais positivos e construtivos. os que desejam real-
do CEM é árdua. Em mente vencer.
verdade tem trechos Acima de tudo, mantenham Haverá momen-
árduos, como quase confiança em vocês mesmos tos de quase euforia,
todas as carreiras. e alguns de pouco
Neles será necessá- ânimo. Não se dei-
rio dedicar ao serviço e ao estudo muitas xem levar nem por uns nem por outros.
horas que pertenceriam ao lazer e a ou- Mantenham pensamentos positivos e
tras conveniências pessoais. Mas vocês construtivos. Acima de tudo, mantenham
também estarão dedicando essas horas às confiança em vocês mesmos.

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<EDUCAÇÃO>; Ensino; Formação de oficial; Engenharia naval;

26 RMB1oT/2017
INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS*

ARMANDO DE SENNA BITTENCOURT **


Vice-Almirante (Refo-EN)

SUMÁRIO

Introdução
Aviões
O Interesse Militar
O Período entre Guerras
O Helicóptero
Considerações Finais

INTRODUÇÃO Prêmio Deutsch, realizando o feito de con-


tornar a Torre Eiffel, pilotando um balão di-

A conquista do ar se tornou efetiva


com balões e Santos Dumont foi
um importante pioneiro entre os que lhes
rigível, saindo e regressando a Saint-Cloud,
em menos de 30 minutos. Desde o início do
uso de balões, imaginou-se a possibilidade
deram dirigibilidade. Em 1901, ganhou o de seu emprego militar. Foram utilizados

* Palestra proferida pelo autor no Seminário do Centenário da Aviação Naval, no Instituto Histórico e Geográfico Brasi-
leiro, em 17 de novembro de 2016.
** Engenheiro Naval pela Universidade de São Paulo e Mestre em Arquitetura Naval pela Universidade de Londres.
Membro dos Institutos Histórico e Geográfico Brasileiro, Geografia e História Militar do Brasil e História
Militar Terrestre, membro da Academia de Marinha de Portugal e do Conselho Internacional de Museus.
Foi diretor de Engenharia Naval e do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha. Presidente da
Sociedade Brasileira de Engenharia Naval e vice-Presidente do Comitê Internacional de Museus de História
Militar e Coleções de Armas.
Autor de capítulos nos livros: Atlântico – A História de um oceano; Guerra no Mar, Batalhas e Campanhas Navais
que mudaram a História; e Charles Darwin. Coordenador e colaborador do livro A Importância do Mar
na História do Brasil; coordenador e um dos autores do livro Introdução à História Marítima Brasileira.
É autor de artigos sobre História Naval e Arquitetura Naval. Colaborador assíduo da RMB.
INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS

com bom êxito em guerras no passado, resolveu também iniciar suas aquisições
servindo como postos de observação, como de zepelins.3
na Guerra Civil americana e na Guerra da Em seu artigo já citado, “Ce que je ferai,
Tríplice Aliança contra o Paraguai, por ce que l’on fera”, do início de 1905, Santos
exemplo. A dirigibilidade lhes deu um novo Dumont prevê também como possível e
potencial. Alberto Santos Dumont publi- provável, além dos dirigíveis, a existência
cou, no número de 15 de fevereiro de 1905 futura de aviões com motores potentes. Ele
do periódico francês Je Sais Tout, um artigo já estava voltando sua atenção e criativida-
intitulado “Ce que je ferai, ce que l’on fera” de para eles.
(“O que farei, o que se fará”)1, em que ele
comenta seus projetos e suas esperanças. AVIÕES
Entre eles, prevê que existirão “cruzadores
aéreos”, balões dirigíveis militares com 200 No ano seguinte, 1906, Santos Dumont
metros de comprimento e 28 de diâmetro, decolou, na França, com o 14 Bis, um ae-
que “realizarão ações sensacionais durante roplano de configuração canard, ou seja,
uma guerra”. Seus sonhos refletiam uma com as asas atrás, que saiu do solo por
genialidade notável2. meio de seu próprio motor e hélice e voou
Nessa mesma época, um oficial aposen- a pequena distância do chão, na presença
tado do Exército alemão, o Conde Ferdi- de muitas testemunhas. Chamava-se 14 Bis
nand von Zeppelin, passou a se dedicar a porque ele pretendia testar seus controles
dirigíveis. Construiu o primeiro em 1900, inovativos em voos em que estaria pendu-
pensando em grandes aeronaves, cheias rado no seu balão 14. Utilizou nesse avião
com hidrogênio, para transportar passagei- um motor novo, potente e leve, que estava
ros e carga, mas seu passado o fez perceber disponível na França, o Antoinette4, desen-
o potencial militar dessas aeronaves, que volvido pelo engenheiro Léon Levavasseur
logo passaram a ser chamadas de zepelins. para motorizar barcos de corrida.
O Exército alemão fez suas encomendas e, Depois Levavasseur se associou a Louis
antes do início da Primeira Guerra Mundial, Blériot, criando, em 1906, a empresa An-
já possuía sete em serviço, principalmente toinette, primeira a se dedicar à fabricação
destinadas a missões de reconhecimento. de motores para a aviação. Seus motores
A Marinha Imperial da Alemanha, por foram empregados em quase todos os novos
sua vez, não estava confiante na eficácia aviões fabricados na Europa.
desse meio e mantinha os recursos financei- Longe dali, nos Estados Unidos da
ros a ela disponíveis, principalmente con- América (EUA), os dois irmãos Wright,
centrados na obtenção de grandes navios Wilbur e Olliver, também desenvolviam
de guerra que pudessem disputar o domínio aeroplanos e já haviam voado com pla-
do mar. Considerando, porém, a falta de nadores. Em seguida, no final de 1903,
cruzadores ligeiros, tradicionalmente uti- experimentaram um avião motorizado,
lizados para missões de reconhecimento, que decolou de uma rampa com trilho na

1 DUMONT, Alberto Santos. “O que farei, o que se fará”, in Revista Marítima Brasileira, v.134 n.07/09, jun./
set. 2014.
2 Além de sua notável contribuição pioneira para o desenvolvimento da aviação, Santos Dumont inspirou Cartier
para fabricar para ele um relógio de pulso, que é o primeiro dos usados a partir de então.
3 MASSIE, Robert K. Castles of Steel, p. 361, 362.
4 Em homenagem a Antoinette Gastambide.

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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS

Praia de Kitty Hawk, com o auxílio de um vencedor, juntou-se aos pioneiros aéreos
vento de 30 a 40 nós, e fez um pequeno prediletos da imprensa internacional: San-
voo5. Mais tarde, repetiram o feito com tos Dumont, Voisin, Farman e, depois de
novos modelos de aviões, sempre com sua apresentação na França, também em
auxílio de rampa e trilho para decolar, 1908, os irmãos Wright.
o que, no entanto, não desmerece seus Blériot, que se associara a Levavaseur
feitos, que somente foram reconhecidos na Fábrica Antoinette, em 1909, atravessou
na França em 1908. o Canal da Mancha com um avião monopla-
Santos Dumont, por sua vez, tinha no, voando cerca de 35 km entre Calais e
apresentado um novo avião monoplano, Dover, a 80 metros de altura, com uma ve-
que voou em 1906, o Demoiselle, assim locidade de 60 km/h9. Foi um feito notável,
batizado por se assemelhar a uma libélula6. que chamou muito a atenção do público na
Provavelmente, essa foi sua contribuição época e fez com que este pioneiro recebesse
mais significativa para o desenvolvimento encomendas de particulares para reproduzir
do avião. Em minha opinião, foi também seu protótipo exitoso. Iniciava-se assim
seu projeto mais importante. uma indústria aeronáutica, a Blériot Aero-
Sem dúvida, ele e os irmãos Wright nautique, que produziu mais de 800 aviões
foram importantes pioneiros da aviação, entre 1909 e 191410.
mas logo outros se juntaram a eles, como Desde 1909, oficinas artesanais que
os irmãos Gabriel Voisin, Henry Farman e fabricavam aviões começaram a receber
Ferdinand Ferber. encomendas comerciais e a se converter em
Na América, enquanto os irmãos Wri- indústrias. Em poucos anos, a aviação se
ght garantiam suas patentes, que depois difundiu por meio de associações e clubes
causaram dificuldades e atrasos para os esportivos, e voar deixou de ser uma ativi-
outros pioneiros americanos, um grupo de dade exclusiva de pioneiros, disseminando-
empreendedores, aviadores e engenheiros -se pelo mundo.
liderados por Alexander Graham Bell 7 O sucesso no desenvolvimento dos
fundou uma associação para empreendi- aviões11 deve-se a um patamar tecnológico
mentos aéreos. Fazia parte desse grupo existente nessa época. Sem esse patamar
Glenn Hammond Curtiss, que, mais tar- de tecnologia disponível e conhecimento
de, ficou famoso por seus motores para acumulado e compartilhado, não haveria
aviação e projetos de aviões. Incentivado capacidade para desenvolver e obter
por Bell, ele participou de concurso ins- paulatinamente o progresso do avião.
tituído pela revista americana Scientific O sucesso alcançado pelo 14 Bis, por
American 8, em 1908. Consagrando-se exemplo, dependeu da existência de um

5 CROUCH. Tom D., p. 81, 82 e 92.


6 Também denominada Demoiselle, em inglês, mais especificamente para as libélulas do gênero Agrion, da família
Calopteryx, que inclui numerosas espécies.
7 Bell, também conhecido por ter desenvolvido o telefone e um aerobarco pioneiro, o Bras D’Or, para águas
tranquilas, tornara-se um próspero empresário que residia no Canadá.
8 A Scientific American, também uma iniciativa de Bell, continua sendo publicada e pode ser encontrada no Brasil,
traduzida para o português, em muitas bancas de jornal.
9 CROUCH, Tom D. Asas, p. 126.
10 CROUCH, Tom D. Asas, p. 141.
11 Todos contribuíram para o desenvolvimento do avião, alguns até realizando feitos notáveis. É difícil definir o
que seria “inventar o avião”.

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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS

motor potente e leve, da disponibilidade de O INTERESSE MILITAR


materiais leves adequados e da experiência
obtida por Santos Dumont no desenvolvi- O interesse militar inicialmente não
mento da dirigibilidade de balões, entre foi significativo. Em 1908, os irmãos
muitas outras coisas. Decididamente, avi- Wright foram contratados pelos EUA
ões não resultaram de um invento fortuito para desenvolver um avião que atingisse
de um indivíduo ou do produto de uma a velocidade de 64 km/h e voasse uma
feliz descoberta ocasional que em inglês distância de 200 km, transportando duas
se define como serendipity, mas sim de pessoas. Entregaram a primeira unidade
um processo árduo de desenvolvimento em meados de 1909. Mais tarde, os Wright
científico e tecnológico, que ocorreu ao ofereceram a patente de seu novo avião ao
longo do tempo. Cada nova experiência Almirantado britânico, que, no entanto,
realimentava o conhecimento que, como não se entusiasmou com a oferta. Voar
é cumulativo, levava ao progresso para era visto como uma atividade de entre-
patamares tecnológicos mais elevados. tenimento, um esporte. A única utilidade
Concorreu para isso o resultado do que viam nos aviões e balões dirigíveis era
trabalho dos cientistas que criaram as ba- para eventuais tarefas de reconhecimen-
ses da aerodinâmica. Destacam-se: Lord to. Somente próximo à Primeira Guerra
Rayleigh (1842-1919), que demonstrou Mundial ficaram evidentes a importância
a existência de uma força de sustentação do reconhecimento aéreo para a guerra e a
que aparece em um cilindro girando sub- possibilidade de outros empregos.
metido ao fluxo de um fluido; Frederick Em 1909, o Reino Unido construiu um
Lanchester (1868-1946), que publicou dirigível rígido, que, ao se preparar para
sobre essa sustentação que é gerada pelo o voo inaugural, foi destruído pelo vento,
fluxo de ar em asas convexas12; Ludwig o que fez arrefecer ainda mais o interesse
Prandt (1875-1953), que demonstrou britânico nessas aeronaves14. Porém o de-
a existência da camada limite, criou a senvolvimento de zepelins pelos alemães
teoria da circulação e deu condições à causou-lhes uma grande preocupação.
Universidade de Göttingen, na Alemanha, Perceberam que este tipo de aeronave
de desenvolver a teoria dos aerofólios poderia bombardear suas indústrias, esta-
(formas das seções retas das asas grossas leiros, portos, bases navais e depósitos de
de um avião); e Theodor von Kármán, que combustível. A sensação de insegurança
aprofundou o trabalho de Prandt. Criaram- se refletiu em sensacionalismo nos meios
-se, assim, as bases científicas que foram de comunicação do Reino Unido, e logo
essenciais para impulsionar o desenvolvi- zepelins, produtos da imaginação das
mento tecnológico do avião, a partir das pessoas, foram “avistados” sobrevoando
primeiras décadas do século XX.13 a Grã-Bretanha e noticiados pelos jornais.

12 Muito simplificadamente: o percurso maior do ar na superfície superior, convexa, da asa, quando comparado
com o percurso do ar na superfície inferior, faz com que o fluxo de ar que percorre a parte superior tenha que
aumentar sua velocidade, ou seja, sua energia cinética, para depois encontrar o fluxo de ar da parte inferior.
Para que se conserve a mesma energia inicial, é necessário que ocorra uma diminuição de pressão no fluxo
superior. Como não se alterou a pressão da parte inferior, consequentemente resulta na asa uma força de
sustentação, que a mantém em voo, se for igual ou superior ao peso do veículo.
13 CROUCH, Tom D. Asas.
14 MASSIE, Robert K. Castles of Steel, p. 362.

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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS

Os zepelins tinham, então, desempenho poder aéreo do inimigo, ele poderia causar
superior ao dos aeroplanos, e pouco se danos, que não se limitariam à frente de
podia fazer contra eles. Mesmo assim, combate. Em sua opinião, isso poderia
Churchill acreditava que os aviões eram até levar a uma possível futura dissua-
militarmente mais promissores, inclusive são do emprego da força para resolver
para combater os zepelins, que, carregados conflitos entre países. O futuro mostrou,
de hidrogênio, eram muito vulneráveis. no entanto, que bombardeios não foram
Isso ainda era um palpite, pois os zepelins suficientes para dissuadir a violência entre
podiam operar à noite, tinham raio de países. Mas, curiosamente, supõe-se ter
ação superior ao dos aviões e alcançavam alcançado esse efeito dissuasório no final
altitudes maiores. Mesmo assim, o esforço do século XX, com a ameaça das armas
da Marinha Real bri- nucleares. Mesmo as-
tânica, da qual Chur- sim, isto somente se
chill se tornou first Desde 1910 os tornou uma possibili-
lord of the Admiralty dade provável quando
durante sua prepara-
aviões estavam em não foi mais possí-
ção para a Primeira desenvolvimento para vel ganhar vantagens
Guerra Mundial, se emprego militar. Diversos decisivas ao atacar
concentrou em avi- primeiro e passou a
ões para emprego em exércitos começaram a ser conveniente evitar
reconhecimentos e explorar seu emprego em uma guerra nuclear.
como arma defensi- Desde 1910, porém,
va. Logo o Exército
reconhecimentos aéreos os aviões estavam em
do Reino Unido tam- desenvolvimento para
bém passou a se interessar neles. emprego militar. Diversos exércitos come-
Herbert Wells, jornalista, historiador e çaram a explorar em manobras seu emprego
escritor famoso por suas obras de ficção em reconhecimentos aéreos. Com o bom
científica15, em um de seus livros, publi- resultado obtido, vários países os incorpo-
cado em 1908, previu que, com o empre- raram a suas Forças Armadas17.
go de aeronaves, haveria uma alteração Em 1911 começaram, de fato, a realizar
no caráter da guerra: “... nenhum lado missões de guerra. Durante um conflito
fica imune aos mais graves prejuízos; e entre a Itália e a Turquia na Líbia, os ita-
enquanto acontece um vasto aumento da lianos os utilizaram para reconhecimentos,
capacidade destruidora da guerra, há tam- e um dos aviões lançou granadas contra o
bém uma grande indecisão”16. A indecisão inimigo, num ato precursor do bombar-
a que ele se refere seria causada pelas deio aéreo. Daí para diante, aviões foram
consequências da grande potência de des- empregados em guerras, inclusive nos
truição em ambos os lados conflitantes. Bálcãs, onde a Turquia tinha 20 aviões e
Enquanto não se eliminasse totalmente o a Bulgária 2518.

15 Wells é considerado o “pai da ficção científica”.


16 WELLS, H. G. The War in Air, and Particulary How Mr. Bert Smallways faired While It Lasted, G. Bell,
Londres, 1908.
17 CROUCH, Tom D. Asas, p.166.
18 CROUCH, idem, p. 168.

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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS

O desempenho da aviação nesses episó- em 1914, os britânicos atacaram a base


dios impressionou favoravelmente alguns de Nordholtz, próxima a Cuxhaven, na
líderes militares, que perceberam que a Alemanha, sem alcançar bom êxito. Outra
utilização de aviões seria imprescindível incursão, que chegou mais próxima do
nas guerras futuras, porém havia ainda os sucesso, ocorreu em dezembro, com sete
que permaneciam céticos. hidroaviões da Marinha Real. Esta ope-
A partir de 1913, os navios de guerra da ração teve vários percalços, inclusive um
Marinha Real britânica começaram a ser ataque de um zepelim e de aviões alemães
adaptados para levar a bordo hidroaviões19, à Força Naval britânica que apoiava os
com o propósito de realizarem reconheci- sete hidroaviões. Foi o primeiro combate
mentos no mar, procurando navios inimi- entre navios de superfície e meios aéreos
gos. Após a missão, pousariam na água e da História. Esse ataque demonstrou que os
seriam recolhidos a bordo por um guindaste zepelins não seriam eficazes contra navios
do seu próprio navio. de guerra no mar, por falta de agilidade nas
No Brasil, essas novidades eram re- manobras, mesmo sem artilharia antiaérea,
cebidas com entusiasmo por alguns, que o navio manobrando no momento certo,
defendiam a ideia podia se esquivar de
de criar um serviço seus ataques.
aeronáutico para a Em 1914 vários países já Durante a Primei-
Marinha. Em 1914, possuíam aviões militares ra Guerra Mundial,
fundou-se uma Esco- no entanto, ocorreram
la Brasileira de Avia- e balões dirigíveis em suas dezenas de ataques de
ção, de iniciativa pri- Forças Armadas zepelins a cidades dos
vada, na qual o então países envolvidos no
ministro da Marinha, conflito, com mortes e
Almirante Alexandrino de Alencar, man- destruição. Em 1916, um avião britânico
dou inscrever 25 alunos e para a qual derrubou um deles, provando sua vulnera-
designou um fiscal, o Primeiro-Tenente bilidade. Mais tarde, a artilharia antiaérea
Jorge Henrique Moller, que foi o primeiro progrediu e se mostrou eficaz, atingindo
militar brasileiro brevetado como aviador. zepelins no ar e derrubando-os. Eram alvos
Em 1914, vários países já possuíam grandes, pouco ágeis e cheios de hidrogênio
aviões militares e balões dirigíveis em inflamável.
suas Forças Armadas. Quando se iniciou Os aviões foram empregados também
a Primeira Guerra Mundial, eles causaram para caça a outros aviões, combatendo no
muita preocupação, pela possibilidade de ar e derrubando inimigos. Para isso, foi
emprego para bombardeios aéreos de cida- preciso armá-los com uma metralhadora
des, principalmente os zepelins, que foram frontal, que atirasse entre as pás do hélice
utilizados pelos alemães contra alvos em girante, sincronizando a cadência do tiro
terra na Bélgica logo nos primeiros dias com a rotação do propulsor.
do conflito. Com a aviação de caça, nasceu o culto
Como destruir os zepelins no solo, em do aviador herói, do ás dos combates
suas bases, utilizando aviões era a solução entre aviões, como os franceses Adolphe
óbvia para o problema, no início da guerra, Pégoud, Roland Garros e Georges-Marie

19 MASSIE, Robert K. Castles of Steel, p. 362, 363.

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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS

Guynemer e os alemães Max Immelman, tecimento e à exaustão, pois ela e os outros


Oswald Boelcke e Manfred von Richtho- países beligerantes não haviam se preparado
fen, o famoso “Barão Vermelho”. Com a para uma guerra longa. Curiosamente, uma
guerra terrestre paralisada nas trincheiras e guerra continental que deveria ser resolvida
atolada nos lamaçais, a aviação se tornou o em terra, com o impasse dos exércitos nas
refúgio daqueles que se alistavam buscan- trincheiras, foi resolvida no mar. A última
do aventuras e querendo se tornar heróis. esperança dos alemães, então, era utilizar
A utilidade da aviação militar, no en- seus submarinos sem restrições, atacando
tanto, não era ainda uma opinião unânime também os navios neutros que abasteciam
nas Forças Armadas. Existe uma anedota o Reino Unido e seus aliados. Isso levou
em que um oficial superior britânico, a que países até então neutros, vendo seus
dirigindo-se aos pilotos, lhes disse que navios mercantes atacados e afundados,
podiam se divertir à vontade, mas que declarassem guerra à Alemanha e a seus
tomassem cuidado para não assustar os aliados. Em 1917, os EUA, o Brasil e ou-
cavalos. A tradição da cavalaria, com tros países entraram no conflito mundial.
seus ataques fron- O Brasil participou da
tais heroicos, ainda Primeira Guerra Mun-
povoava a mente de Em 1916, a MB se dial enviando: uma
alguns, mas os tem- interessou em ter uma missão médica à Fran-
pos haviam mudado. ça, que é lembrada pe-
Com a metralhadora Aviação, criando sua los franceses até hoje;
e outras armas de Escola de Aviação Naval e uma Força Naval para
repetição, que se de- adquirindo seus primeiros substituir os ingleses
senvolveram após o no patrulhamento entre
aparecimento relati- aviões Dakar, no Senegal, e o
vamente recente das Estreito de Gibraltar;
pólvoras “sem fu- nove oficiais aviado-
maça”. A cavalaria perdera seu destaque. res, que se integraram à Royal Air Force
Em 1916, a MB também se interessou (RAF) na frente europeia; dois oficiais e
em ter uma Aviação, criando sua Escola de um suboficial para os EUA; e uma missão
Aviação Naval e adquirindo seus primeiros aérea para a Itália, chefiada pelo Capitão de
aviões, os Curtiss F, nos EUA. Eram hidro- Corveta Protógenes Guimarães.
aviões produzidos pela fábrica Curtiss, que A indústria aeronáutica mundial se
era então a principal fornecedora das Forças desenvolveu e produziu durante a guerra
Armadas dos Estados Unidos e que também aproximadamente 230 mil aviões20, incluin-
exportava para a Europa, principalmente do os países que não eram beligerantes. A
para a Marinha Real britânica. indústria francesa enfatizou a padronização
Após a Batalha Naval da Jutlândia, entre e a produção e fabricou 51.700 aviões; a
a Grande Esquadra Britânica e a Esquadra alemã, a pesquisa e o desenvolvimento,
de Alto-Mar alemã, em 31 de maio e 1º de com apoio de suas universidades – Göttin-
junho de 1916, a Alemanha concluiu que gen e Aachen –, produzindo cerca de 38 mil
o bloqueio exercido pelos navios de super- aeronaves. A britânica também se baseou
fície do Reino Unido a levaria ao desabas- em pesquisa e desenvolvimento, mas com

20 CROUCH, Tom D. Asas, p.191.

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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS

menor capacidade de inovação do que a arte da guerra e até previram que a guerra
alemã, e produziu 55.092 aviões21. terrestre e a naval poderiam se tornar ob-
A Alemanha conseguiu, com seus mode- soletas com o progresso da aviação militar.
los mais avançados, estar tecnologicamente Giulio Douhet22 (1869-1930), um ofi-
na frente dos franceses e ingleses, utilizan- cial do Exército italiano, desde o início
do novos materiais e desenvolvendo ino- percebeu o que poderia ocorrer e disse, an-
vações, como as asas grossas com secções tes de 1914, que “uma nova arma surgiu. O
retas de perfil de aerofólio. Destacou-se céu se tornou um novo campo de batalha”.
no emprego de novas estruturas de avião, Mais tarde, ele foi um dos grandes teóricos
que foram muito importantes para o futuro do emprego do Poder Aéreo e até acredi-
da aviação. Utilizaram tubos estruturais tou que tudo se resolveria no futuro nesse
de aço soldados, cobertura de alumínio e novo ambiente. Caberiam às outras Forças
aviões inteiramente metálicos – como os Armadas tarefas defensivas, enquanto uma
desenvolvidos por Hugo Junkers – e caças força aérea destruiria os centros vitais e
de estrutura de duralumínio. Os alemães abateria a moral do inimigo, inclusive
continuaram produzindo, mesmo quando o atacando cidades e fazendo com que sua
bloqueio inimigo fez com que não tivessem população perdesse a vontade de lutar.
mais matérias-primas importadas, como a No futuro, essa profecia se mostrou
borracha, por exemplo, o que exigiu que exagerada, apesar de ter se confirmado par-
fabricassem, como alternativa precária, cialmente. As outras Forças Armadas conti-
rodas para aviões em madeira. nuaram muito importantes, principalmente
Ainda nessa guerra, a fábrica de por sua maior capacidade de permanência
Junkers se uniu à Fokker. Um de seus em um local distante. As reações humanas,
aviões, o Fokker [Link], de 1918, é con- por sua vez, nem sempre são previsíveis, e
siderado o melhor caça da guerra e foi o bombardeio de cidades pode não abater
utilizado durante anos depois do con- o ânimo das tropas que estão combatendo,
flito por vários países, em suas Forças como o tempo mostrou ser verdade.
Armadas. Tinha as asas desenvolvidas As ideias de Douhet, embora bem
por Junkers e duas metralhadoras de tiro conhecidas na Itália, por ter publicado ar-
frontal. Fabricaram-se cerca de 3.300 tigos desde 1910, um livro em 1918 e por
desses aviões durante o conflito. seu clássico Comando dos Ares, de 1921,
Esses fatos comprovam que a capaci- custaram a ser traduzidas e consideradas
dade tecnológica produtiva e inovadora nos cursos de estratégia das escolas de al-
de um país já tinha adquirido uma impor- tos estudos militares dos EUA e do Reino
tância vital para a guerra, e a dependência Unido e só ganharam atenção e importância
do Poder Militar em tecnologia, inclusive na década de 1930. Enquanto isso, as ver-
a tecnologia aeronáutica, também se tor- dadeiras campanhas para divulgar a impor-
nou crescente. tância futura da aviação militar, realizadas
Algumas pessoas, como Giulio Douhet, por Mitchell, nos EUA, e Trenchard, no
Billy Mitchell e Hugh Trenchard, perce- Reino Unido, tiveram maior repercussão
beram a mudança que estava ocorrendo na nos seus respectivos países.

21 CROUCH, Tom D. Asas, p.191.


22 DOUET, Giulio, general italiano e teórico aeronáutico, conhecido internacionalmente por sua estratégia de
emprego do Poder Aéreo, em que ele afirma que a potência que conseguir dominar o ar dominará o mundo.

34 RMB1oT/2017
INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS

O PERÍODO ENTRE GUERRAS Saint Exupery, que desapareceria pilotan-


do um avião na Segunda Guerra Mundial,
A indústria aeronáutica, no Período En- as imortalizou em seus livros, como
tre Guerras, inevitavelmente sofreu com Correio Sul, Voo Noturno e outros, que
a diminuição das encomendas militares, se tornaram famosos internacionalmente.
pois não existia ainda uma demanda civil Nos EUA, o transporte aéreo iniciou-
de vulto. Era preciso abrir mercados. -se nos correios, em uma rota entre Wa-
A aviação civil mundial iniciou-se shington e Nova Iorque. Depois, com a
formalmente em 1919, quando foi assi- expansão dos serviços, tornou-se possível
nada a Convenção Internacional sobre enviar por via aérea uma carta de São
Navegação Aérea e estabeleceu-se, na Francisco para Nova Iorque, transpor-
Liga das Nações, uma Comissão para a tando-a em menos de 30 horas. As rotas
Navegação Aérea, com a finalidade de do correio aéreo foram as pioneiras das
arbitrar sobre disputas. rotas comerciais que mais tarde seriam
Os zepelins, que antes da guerra já criadas no território americano.
haviam transportado muitos passageiros, No Brasil, o serviço regular de Cor-
deram ensejo para reio Aéreo Nacional
que a Alemanha fos- começou somente em
se a primeira a resta-
belecer o transporte
No Brasil, o serviço regular 1936, entre Rio-San-
tos-Florianópolis.
comercial, em 1919. de Correio Aéreo Nacional Outros mercados,
Logo aviões rema- começou somente em além do transporte
nescentes da guerra de passageiros, car-
começaram também 1936, entre Rio-Santos- gas e correio aéreo,
a prestar serviços de Florianópolis também se abriram,
transporte e, ainda como o de fotografias
em 1919, companhias aéreas e o de serviços
de países como a França e o Reino Unido para a agricultura.
abriram seus serviços, inclusive para trans- O empreendimento comercial de trans-
posição do Canal da Mancha. porte aéreo, no entanto, criava dificuldades
Na busca por mercados, o correio aéreo econômicas para as empresas de inicia-
era uma boa opção. A Aerospaciale fran- tiva privada. Essas companhias aéreas
cesa, por exemplo, iniciou um serviço de precisavam de subsídios governamentais
correio da cidade de Toulouse, na França, para manter a regularidade dos voos e se
até Casablanca, no Marrocos. Em 1925, sustentar. Consequentemente, algumas
a rota foi ampliada, através do Saara, até delas foram estatizadas, ou obrigadas a se
Dacar, no Senegal. Além disso, a com- fundir com outras. O sucesso do transporte
panhia estabeleceu uma rota separada, aéreo, nesse período entre as duas guerras
na América do Sul, de Natal, no Brasil, mundiais, no entanto, foi inegável.
primeiro até Montevidéu, no Uruguai, e Na União Soviética, as lutas internas que
depois até o Chile, voando sobre os Andes. se seguiram à Revolução fizeram com que o
Notabilizaram-se nessas rotas pioneiras governo incentivasse a produção e o cresci-
do correio aéreo da Aerospaciale, quando mento de sua indústria aeronáutica militar.
voar ainda era uma aventura, pilotos como A França, apesar das dificuldades orça-
Jean Mermoz e Antoine de Saint Exupery. mentárias, manteve uma Força Aérea bem

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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS

superior às de outras nações, empregando-a Mitchell, no cargo de vice-comandante do


principalmente em suas colônias. Serviço Aéreo dos EUA, fez uma demons-
No Reino Unido, onde o General Tren- tração empregando aviões contra navios,
chard criou o conceito de “controle aéreo” utilizando navios de guerra que seriam
e defendeu a formação da primeira Força sucateados, e os aviões mostraram do que
Aérea independente do mundo, a RAF, a eram capazes, afundando alguns deles.
maior parte do emprego da Força Aérea Em 1919, a MB já possuía uma Flotilha
ocorreu também nas colônias britânicas, de Aviões de Guerra, com 31 hidroaviões,
atuando em revoltas e outros conflitos. na época chamados de aerobotes, sendo
Nos EUA, porém, para manter a sete deles fabricados na Itália (Macchi
atenção, foi necessário persistir com a rea- M-9 e 7 e Ansaldo ISV A). Pouco tempo
lização de feitos notá- depois, começou tam-
veis, como a travessia bém a obter aviões
do Atlântico, viagens que pousavam em ter-
de longa distância e Tanto a segurança do ra. Mas as atividades
mesmo competições sistema globalizado de aéreas da Marinha
e espetáculos de acro-
bacias. Mitchell se
transporte marítimo como foram precárias até
1930, quando o Al-
empenhou em divul- a guerra de litoral levam ao mirante Protógenes
gar a importância do mesmo fim: a permanente Guimarães, futuro
avião, o que, infeliz- patrono da Aviação
mente, confirmou sua mobilização de forças Naval brasileira, tor-
fama de exibicionista. navais de vários Estados nou-se ministro da
Tanto na Primeira
Guerra Mundial como
para propósitos comuns Marinha, tomando di-
versas providências e
nesse emprego em iniciando uma grande
guerras coloniais, as Forças Aéreas tam- aquisição de aviões. Chegou-se a ter 84
bém mostraram que, nos bombardeios que aviões na MB em 1933.
se fizeram necessários, não era possível A instrução de voo foi atualizada, utili-
distinguir combatentes dos não combaten- zando como modelo a Escola de Gosport,
tes e que a população civil também sofreria do Reino Unido – segundo o Almirante
baixas. Tanto Mitchell quanto Trenchard Helio Leoncio Martins, em História Naval
e Douhet apontaram isso como inevitável, Brasileira23, com excelentes resultados,
intrínseco do emprego do Poder Aéreo, formando os primeiros oficiais pilotos
o que, para horror da opinião pública, com mentalidade militar. Ainda segundo
evidenciou-se nos conflitos anteriores à ele, em 1938, “a Aviação Naval tinha
Segunda Guerra Mundial, como na Guerra atingido apreciável nível de eficiência;
Civil espanhola (Guernica, por exemplo) bem equipada, com excelente treinamento,
e na conquista de Shanghai pelo Japão. boa organização, manutenção satisfatória e
O importante, no entanto, era provar doutrina de operações”.
que esse Poder Aéreo era necessário para Em 1941, seguindo uma tendência
o futuro do Poder Militar. O Brigadeiro mundial, criou-se no Brasil o Ministério da

23 Martins, Helio Leoncio. História Naval Brasileira, Quinto Volume, Tomo II. Serviço de Documentação Geral
da Marinha, Rio de Janeiro, 1985, pg.117.

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INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS

Aeronáutica, incorporando todo o material, teste com o XR-4, em cujo projeto introduzira
equipamentos e instalações aeronáuticas da várias inovações, foi um completo sucesso.
Marinha e do Exército. Diversos outros fabricantes, além da
Essa medida radical copiava o que ha- empresa de Sikorsky, inclusive franceses
via ocorrido em países de regime totalitá- e britânicos, também produziram novos
rio, como a Alemanha. Por outro lado, as helicópteros. Em sua aplicação militar,
Forças Aéreas unificadas da França e do primeiro encontraram emprego evacuando
Reino Unido foram criadas mantendo as feridos da linha de frente, transportando
forças aeronavais, de natureza tática, sob pessoas e em outras tarefas auxiliares. Na
o controle de suas respectivas Marinhas. Guerra da Coreia e em outros conflitos
dessa época, sua utilidade se mostrou
O HELICÓPTERO crescente, e na Guerra
do Vietnã já exerceu
Se o desenvolvi- Com os desenvolvimentos tarefas operativas im-
mento do avião de- ocorridos na segunda portantes.
pendeu de um longo Para as Marinhas,
processo evolutivo, metade do século XX, os o helicóptero demons-
que necessitou da evo- meios aéreos se mostraram trou ser um excelente
lução de um patamar meio para a guerra
de conhecimento e imprescindíveis para antissubmarino, tanto
desenvolvimento tec- emprego tático nas na detecção acústica
nológico para que se Marinhas à distância como uti-
obtivesse um resulta- lizando torpedos para
do satisfatório, sendo destruir os submari-
controverso apontar um inventor, no caso nos. Tornou-se, portanto, um meio orgânico
do helicóptero esse fato ainda é mais imprescindível para elas.
evidente.
São vários os pioneiros que tentaram CONSIDERAÇÕES FINAIS
conseguir uma decolagem e um pouso
vertical, ou quase vertical. A primeira O progresso das indústrias aeronáuti-
máquina de asa rotativa que logrou subir cas e das companhias de aviação ocorreu
alguns centímetros com um piloto, apesar aceleradamente entre 1926 e 1941. Nas
de descontrolada, foi a de Louis Breguet, Marinhas, também foi nesse período que
em 1907. Seguiram-se muitos outros que se desenvolveram os navios-aeródromo,
alcançaram sucessos relativos, até que, que durante a Segunda Guerra Mundial,
em 1923, o engenheiro Juan de la Cier- na frente do Oceano Pacífico, se tornaram
va buscou uma solução intermediária, os novos navios capitais das esquadras.
o autogiro, que chegou a ser industrial- Lá, na Batalha de Mar de Coral, pela
mente produzido e comerciado, sendo primeira vez, não houve combates de
que alguns foram vendidos para Forças superfície entre navios, mas ataques de
Armadas dos EUA. aviões às duas forças navais, america-
É possível que os resultados obtidos por na e japonesa, e também, durante essa
Igor Ivan Sikorsky (1889-1972) com o desen- guerra, os navios-aeródromo mostraram
volvimento de um novo helicóptero tenham que eram capazes de projetar poder sobre
sido os melhores até então. Em 1942, seu terra, por meio de suas aeronaves.

RMB1oT/2017 37
INÍCIO DO EMPREGO MILITAR DOS MEIOS AÉREOS

Com os desenvolvimentos ocorridos e helicópteros, tanto para sua proteção


na segunda metade do século XX, os quanto para projetar poder. Assim, nesse
meios aéreos se mostraram imprescindí- novo ambiente, que nos é contemporâ-
veis para emprego tático nas Marinhas. neo, a Marinha do Brasil voltou a ter sua
As forças navais necessitam de aviões Força Aeronaval.

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<FORÇAS ARMADAS>; Aviação Militar;

38 RMB1oT/2017
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA
NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

Amateurs study strategy, professionals study logistics.


(General Omar Bradley, in T. Pierce, Proceedings of
the US Naval Institute, Vol. 122, No 9, p. 74)

RUY BARCELLOS CAPETTI*


Vice-Almirante (Refo)

SUMÁRIO

Sumário
Introdução
Sobre o apoio logístico integrado
Que padrão deve ser adotado, levando em conta a Base Industrial de Defesa?
Obtenção de informações e dados referentes ao apoio logístico
Evolução do gerenciamento das informações específicas
Padrão adotado (EUA)
Padrão adotado na Europa e outros países
A ISO 10303 – Step
Considerações finais

SUMÁRIO gística entre os componentes do Ministério


da Defesa, os elementos da Base Industrial

O artigo trata da necessidade de serem


estabelecidas regras para o intercâm-
bio de dados técnicos de engenharia e de lo-
de Defesa e todos os demais atores envolvi-
dos no processo de obtenção de complexos
sistemas de defesa.

* Foi chefe do Departamento Industrial da Base Almirante Castro e Silva; assessor no reparo de submarinos no
Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro; comandante da Corveta Caboclo, do Submarino Humaitá, da Força
de Apoio e dos Centros de Instrução Almirante Alexandrino e Almirante Átila Monteiro Aché. Foi diretor
de Ensino da Marinha. Publicou o livro Logística Pura e vários artigos sobre logística.
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

INTRODUÇÃO Esses tópicos, cujos reconhecimento


e aprofundamento são essenciais para a
Muito embora o texto que se segue faça obtenção dos produtos de defesa, estão
ocasionais referências ao preparo do Poder inseridos na técnica de engenharia bastante
Naval, tratanto-se de material de emprego difundida nos países de cultura avançada
militar destinado à pauta da Defesa, a – o Integrated Logistics Support – ILS1
amplitude da sua abrangência alcança as e fazem parte do contexto da qualidade.
Forças Armadas nacionais, o Ministério da A principal ferramenta dessa técnica é a
Defesa e todos os atores envolvidos com o Análise de Apoio Logístico.
aparelhamento da expressão militar do País. Deles somente o do item 4 é abordado,
Tal característica indica a necessidade por não ter sido encontrada muita literatura
de órgão superior de controle que oriente sobre tal tema na língua pátria. Neste texto,
e supervisione os muitos processos pratica- quando nos referirmos a produto estaremos
dos por todos os citados atores, de modo a nos referindo a qualquer plataforma, siste-
alcançar padronização necessária, da qual ma ou equipamento (sistemas, equipamen-
resulte desempenho otimizado da Logística tos, instalações de apoio ou veículos aéreos,
de Defesa. terrestres, marítimos,
Quando se trata civis ou militares), e
do preparo dos pode- No preparo dos poderes projeto – terá a defini-
res militares compo- militares, um dos mais ção básica de tarefa de
nentes, um dos mais desenvolver, manter
importantes, se não o importantes, se não o e descartar o produto.
mais importante pro- mais importante processo
cesso a ser considera-
do, é o de obtenção.
a ser considerado, é o de SOBRE LOGÍSTICO
O APOIO

Para sua condução, obtenção INTEGRADO


certas áreas de co-
nhecimentos devem Para efeitos neste
ser perfeitamente dominadas, devendo ser texto, ILS é Apoio Logístico como
enfatizada a atenção dos atores envolvidos, praticado em países atualizados tecnica-
nos principais pontos relacionados a seguir: mente, o mesmo que “ALI nos moldes
1. como a engenharia de sistemas se do ILS”. ALI é o processo praticado na
adequa ao processo de obtenção; Marinha do Brasil e diverge do conceito
2. a análise de apoiabilidade como parte original, conforme exposto no artigo ILS
do processo de engenharia de sistemas; x ALI (ver nota 1).
3. como desenvolver os requisitos de O ILS foi conceitualmente derivado
apoiabilidade; da técnica de análise custo-benefício, nos
4. a obtenção e a geração de dados refe- Estados Unidos da América (EUA), no
rentes ao apoio; início dos anos 60 do século passado e,
5. considerações logísticas nos contra- modernamente, se constitui em notável
tos; e ferramenta de uso na engenharia de sis-
6. papel da logística nas Equipes Inte- temas, voltado para a maximização da
gradas de Produtos. produtividade.

1 ILS: “ILS x ALI”. Revista do Clube Naval, ano 112, nr. 325, jan/fev/mar 2003, p. 38-42.

40 RMB1oT/2017
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

O conceito se desenvolveu a partir da comunicação com clientes internos e exter-


complexidade cada vez maior dos produtos nos, com coerência e ampla possibilidade
e das consequentes dificuldades de esti- de reutilização.
mativas com vistas à alocação de recursos No processo, cuja principal ferramenta
necessários ao apoio logístico, ao longo de de realização é a Análise de Apoio Logís-
seus ciclos de vida, até seus descartes (ou tico, a armazenagem de mais de 600 dados
redistribuições). era inicialmente feita (e ainda é em alguns
Se o apoio logístico ao produto não países) em bancos de dados relacionais,
fosse cogitado a partir da sua fase con- denominados LSAR3, dos quais se podia
ceitual, resultaria em sérios problemas, extrair diversos relatórios padronizados
principalmente de manutenção, ao longo sobre o produto, ou outros relatórios ad
dos períodos de utilização, e encarece- hoc, por meio de queries (consultas) es-
ria o custo de posse. pecíficos. O planeja-
Diante da crescente mento da manutenção
escassez, cada vez Se o apoio logístico ao é o foco principal das
mais acentuada, dos produto não fosse cogitado atividades logísticas
recursos para asse- desenvolvidas.
gurar a otimização em sua fase conceitual, As primeiras ma-
de suas disponibili- resultaria em sérios nifestações nativas de
dades, isso se tornava interesse pelo Apoio
inaceitável. problemas, principalmente Logístico Integrado
Instruções especí- de manutenção, ao longo na Marinha do Bra-
ficas nos EUA (a Di- dos períodos de utilização, e sil (MB), cunhadas
retiva DoD 4003, e as de ALI, ocorreram ali
MIL-STD 1388-1A e encareceria o custo de posse pelos idos de 70/80,
1388-2B) orientaram no período do boom
o estabelecimento da da construção naval
estrutura do ILS, sua organização segundo militar. Embora tradução da sigla da mes-
elementos logísticos, o dicionário dos da- ma metodologia, já usada por Marinhas de
dos a serem considerados e a estrutura da países de elevada competência militar de
base de armazenamento, no início bancos língua inglesa, qual seja o Integrated Logis-
de dados relacionais. tics Support (ILS), os conceitos respectivos
Além da grande quantidade de informa- da expressão nativa e da sua tradução para
ções e dados de engenharia, proveniente das a língua pátria não coincidiam.
atividades de CAD/CAM/CAE2, o ILS é a As primeiras referências ao ALI o
principal fonte de outra grande quantidade caracterizavam como uma atividade lo-
de dados de natureza logística. Todos esses gística de integração de qualquer novo
dados devem ser armazenados em bases ativo de defesa complexo (principalmente
de dados convenientes, que proporcionem supersistemas, como navios, e sistemas,
acesso em cada caso particular, por meio da como carros anfíbios de desembarque, e

2 Computer-aided design (CAD), Computer-aided manufacturing (CAM), Computer-aided engineering (CAE),


Product Data Management (PDM)/Enterprise Data Management (EDM), bem como outros sistemas CAx
(termo genérico para descrever o uso da tecnologia da informação para auxiliar no projeto, na análise e na
fabricação de produtos).
3 LSAR – Logistics Support Analysis Record, em português Banco de Dados da Análise de Apoio Logístico.

RMB1oT/2017 41
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

tantos outros) ao sistema de apoio logístico QUE PADRÃO DEVE SER


vigente, entendimento este em desacordo ADOTADO, LEVANDO EM
com o conceito original do ILS, expresso CONTA A BASE INDUSTRIAL DE
pela definição na origem. DEFESA?
Curso realizado na Diretoria de En-
genharia Naval (DEN)4, ministrado por No passado, numa proposta de instrução
colaborador da Marinha dos EUA nos sobre adoção do “ALI nos moldes do ILS”,
anos de 1982-1984, já disseminava os sugerimos que a autoridade decisora optas-
conceitos corretos, mas estes não moti- se por um modelo de ILS – EUA ou Reino
varam a MB como um todo. Não houve Unido (UK). A escolha, agora, é entre EUA
disseminação apropriada. e Europa, mas em ambos os casos o padrão
Ainda hoje, muito embora se encon- de intercâmbio de dados derivados deve
trem nas Forças Armadas referências à atender também ao que é usado na indústria
Apoio Logístico Integrado, tradução de nacional, por razões óbvias. Portanto, esse
Integrated Logistics Support, parecendo, tópico deve ser discutido num ambiente em
à primeira vista, que se trata da mesma que a indústria esteja presente.
coisa, há pontos conceituais muito di- Tecidas tais considerações sobre o ILS
vergentes na sua aplicação. Por isso, ao e sobre o ALI, retomemos o foco principal
longo do artigo, e quando necessário, a do artigo.
expressão na língua originária – Integra-
ted Logistics Support (ILS) – será usada OBTENÇÃO DE INFORMAÇÕES
preferencialmente. E DADOS REFERENTES AO
Essas diferenças conceituais 5 na APOIO LOGÍSTICO
aplicação do ILS e do ALI brasileiro
geram muitas dificuldades, uma vez que Importantes aspectos a serem consi-
o processo, como praticado no ambiente derados na interação entre as instituições
militar nacional, vem sofrendo vários componentes do Poder Militar de um país
empecilhos, por falta de orientação e (principalmente no que diz respeito ao pre-
supervisão centralizadas, o que resulta na paro) são as trocas de informações e dados
não padronização de uso de ferramentas de natureza técnica e os de natureza logística
apropriadas, e de processos, padrões, referentes aos seus diferentes produtos,
instruções, modelos, análises e várias levando em consideração, principalmente,
outros instrumentos necessários para as a necessidade de padronização com vistas
boas práticas de execução do “ALI nos à interoperabilidade. Não só internamente,
moldes do ILS”. no ambiente militar, mas por razões óbvias,
O ALI nacional, para refletir a natureza essa preocupação deve se estender à Base In-
de metodologia analítica e o processo ge- dustrial de Defesa6, no sentido de serem es-
rencial internacionalmente aceitos, deve tabelecidos padrões e comportamentos que
seguir um padrão também internacional- normatizem toda comunicação empresarial
mente aceito. entre as diversas instituições participantes.

4 O primeiro curso, sob auspícios da DEN, foi ministrado em 1982 pelo CDR (USN) Cowdrill sob o título de
Gerência de Projeto na Obtenção de Meios Flutuantes. O terceiro, por oficiais da MB, aconteceu em 1984.
5 Sobre essas diferenças, ver artigo “ILS x ALI”, Revista do Clube Naval no 325/2003, p. 38-42.
6 Sobre Base Industrial de Defesa, artigo do autor sobre emprego do CALS. Consultar RMB v. 134 no 07 jul/set
2014, p.203, Seção Artigos Avulsos. O artigo completo está disponível na Biblioteca da Marinha.

42 RMB1oT/2017
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

Embora de natureza variada, as comuni- ou abrir um rasgo de chaveta num eixo


cações organizacionais aqui focadas são as recém-fabricado, numa oficina do sistema
que têm como objetivo facilitar a integração de apoio. Nesses casos, de acordo com a
entre os colaboradores para que estejam programação da produção, a matéria-prima,
comprometidos com os objetivos da orga- ou a peça, seria encaminhada a um torno
nização (pela padronização e consequente ou a uma fresa, onde seria feito o serviço.
aumento da produtividade). O material seria encaixado na máquina
Aqui, o foco são as comunicações das por competentes torneiros-fresadores (às
informações e dados técnicos de engenha- vezes operários um pouco envelhecidos),
ria e os dados de logística provenientes que consultariam os dados geométricos
da gestão do ciclo de vida dos produtos indicados no desenho técnico da peça, fa-
de emprego militar. Por exemplo, na riam as medições e ajustagens necessárias
obtenção de um material de emprego e executariam o serviço. Como a máquina
militar, a partir da iniciativa privada, será era velha, podia apresentar algum tipo de
necesssário transmitir folga inaceitável, o
à instituição fornece- que obrigava a para-
dora (uma prestadora O foco da abordagem da do processo várias
de serviços de manu- vezes para controle de
tenção, um estaleiro são as comunicações das qualidade.
de construção, uma informações e dados Ao término do ser-
manufatura etc.) in- viço, o produto final
formações e dados
técnicos de engenharia seria encaminhado a
técnicos de engenha- e os dados de logística um centro de custos
ria e de apoio logís- provenientes da gestão do (acondicionamento e
tico que permitam o transporte, por exem-
fornecimento do pro- ciclo de vida dos produtos plo) e devolvido ao
duto desejado com a de emprego militar solicitante do serviço,
qualidade requerida. sem nenhuma infor-
Num passado não mação de natureza
muito remoto, e até mesmo nos dias técnica ou logística.
atuais, ainda se encontra em países tecni- De meados do século passado ao
camente atrasados a prática ultrapassada início do atual, contudo, alguns setores
de fornecer os elementos de informação da iniciativa privada brasileira, como a
técnica e os dados necessários por meio de indústria automobilística, a da construção
documentos escritos, tais como desenhos naval, aeroespacial e outras semelhantes,
técnicos, relatórios, descrição de serviços, se modernizaram.
instruções de fabricação, entre tantos Após a Segunda Guerra Mundial e o
outros, de modo a orientar o fornecedor desenvolvimento dos recursos computa-
na entrega do objeto ou serviço desejado. cionais, as máquinas NC, ou máquinas
Citamos aqui um exemplo para ilustrar de controle numérico e, em seguida, as
como sucedia na nossa época de serviço máquinas CNC, ou de controle numérico
ativo (final do século passado). Imagine- computadorizado, se tornaram comuns. Os
mos a necessidade de usinar uma peça em robôs de fabricação nas montadoras de au-
aço, como um punho de periscópio, abrir tomóveis se tornaram realidade. Surgiram
furos, fazer o recartilhado indicado etc., os routers (tupias) CNC. Os softwares de

RMB1oT/2017 43
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

CAD/CAM/CAE entraram nas rotinas de (subconjunto do Standard Generalized


design e de produção. Mais atualmente, Markup Language – SGML7) e no uso de
surgiram as impressoras 3D, até com ca- navegadores, a internet proporcionava que
pacidade de usinagem. informações voassem de ponto a ponto do
Se fosse necessário realizar os serviços planeta, com a velocidade da luz. Porém a
de fabricação da peça ou do eixo acima linguagem para codificar suas páginas não
exemplificados, o solicitante enviaria um se prestava bem para o manuseio dos dados
arquivo digital à mecânica selecionada, e de informações que não fossem texto, daí
com instruções ou comandos que seriam criou-se um novo subconjunto conhecido
diretamente inseridos na máquina CNC como XML8, proporcionando uma maneira
apropriada, e a matéria-prima seria con- mais adequada de veiculação dos dados
vertida na peça desejada com alto grau de e das informações por meio dos recursos
qualidade. A econo- computacionais.
mia daí decorrente Entretanto, mui-
seria notável. A Tecnologia da Informação to trabalho teve que
A Tecnologia da permitiu às comunicações se ser realizado para
Informação (TI) per- se chegar ao estágio
mitiu às comunica- expandirem na quantidade de desenvolvimento
ções se expandirem de armazenamento e de atual, em função de
quase que ilimitada- transmissão de dados e muitas dificuldades.
mente na quantidade Tratando-se da área
de armazenamento informações, e na qualidade, industrial, a maioria
e de transmissão de velocidade e segurança delas provinha da falta
dados e informações, de padronização de
e na qualidade, ve- no intercâmbio dos diversos softwares,
locidade e segurança pacotes de dados originados de diferen-
no intercâmbio dos tes desenvolvedores e
pacotes de dados. Fo- que não se comunica-
ram desenvolvidas técnicas como a de hi- vam, bem como as diferentes tecnologias
perlinks, linguagens de marcação (markup que cada interessado usava para resolver o
languages), diferentes linguagens de com- problema da comunicação das informações
putador, programas aplicativos em auxílio e dados peculiares a cada ramo de atividade
a diferentes áreas de conhecimentos, enfim, industrial praticada.
uma verdadeira avalanche de inovações Qualquer que fosse a área industrial,
tecnológicas, que seria aqui impossível de contudo, além da necessidade das ativida-
serem elencadas. des típicas de engenharia, surgia a imperio-
O aparecimento da internet e de seus sa necessidade de projetar e fornecer apoio
diferentes serviços foi praticamente fru- logístico aos produtos disponibilizados,
to dessas tecnologias. Baseada em uma o que gerava uma imensa quantidade de
linguagem de marcação conhecida como dados logísticos e, consequentemente,
Hypertext Markup Language – HTML criava a necessidade de ações no sentido

7 A SGML é uma norma ISO: ISO 8879:1986 Information processing – Text and office systems – Standard Ge-
neralized Markup Language (SGML).
8 XML (eXtensible Markup Language) é uma recomendação da W3C para gerar linguagens de marcação para
necessidades especiais.

44 RMB1oT/2017
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

de gerenciá-los. Surgia uma disciplina de uma iniciativa conhecida como Computer


grande importância, a Logistics Manage- Aided Logistics Support (CALS)9. A Mari-
ment Information (LMI), ou gerenciamento nha americana iniciou esforços similares
das informações logísticas. em 1987 e prosseguiu em 1991. Esses pro-
gramas foram combinados e expandidos a
EVOLUÇÃO DO GERENCIAMENTO todos os serviços sob o nome de Joint CALS
DAS INFORMAÇÕES ESPECÍFICAS (JCALS). O uso do JCALS foi aprovado em
agosto de 1998.
O Programa que possibilitou a racio- Em 1996, como consequência da Re-
nalização da obtenção do apoio logís- forma do Sistema de Obtenção do DoD
tico nas atividades EUA (DoD Acqui-
de construção/produ- sition Reform Act),
ção/manufatura foi o As especificações militares entre outras razões
Integrated Logistics
Support Program,
em vigor nas duas últimas visando descomplicar
o relacionamento com
desenvolvido no am- décadas do século passado a indústria civil (redu-
biente militar do De- eram de uso limitado aos zindo as exigências de
partment of Defense contratos, dando pre-
dos EUA (DoD EUA), seus países de origem, ferência aos padrões
em 1964, de acordo e por isso os MIL- da indústria em vez
com a Diretiva DoD
4100.35, e segundo os
STD-1388, mesmo depois dos padrões militares,
muito mais rigorosos
MIL-STD-1388-1A e de cancelados, continuaram e que encareciam, se
2A. A base de dados a ser requisitados como não inviabilizavam,
inicialmente adotada a obtenção dos siste-
foi o Logistics Sup- padrões em muitos mas, equipamentos
port Analysis Record contratos de obtenção de e produtos), o MIL-
(LSAR), provenien- STD-1388-2B foi
te das diretrizes do
diferentes países cancelado e passou a
MIL-STD- 1388-2A servir de referência
(1984), depois MIL-STD-2B (1991). O no gerenciamento das informações prove-
repositório desses elementos de dados nientes do ILS a MIL-PRF-49506, embora
(mais de 600) foram os bancos de dados re- por pouco tempo. Com a mesma finalidade,
lacionais, e as informações que produziam no Department of Defense do Reino Unido
eram apresentadas por meio de relatórios, (DoD UK), o DEF-Stan 00-60 (1998), mais
alguns padronizados, outros obtidos ad hoc. tarde DEF-STD-0600 (2010) e, na Austrá-
Além do DoD EUA a tecnologia disse- lia, a DEF (AUST) 5692 (2003).
minada pelo ILS foi adotada pela indústria Essas especificações militares eram de
e propagou-se internacionalmente, tanto no uso limitado aos seus países de origem, e
meio militar, como no civil. por isso os MIL-STD-1388, mesmo depois
Em 1986, o Exército dos EUA começou de cancelados, continuaram a ser requisita-
a trabalhar na transformação dos LSAR, dos como padrões em muitos contratos de
produto intensivo em papel, no contexto de obtenção de diferentes países.

9 CALS - Ver nota 6.

RMB1oT/2017 45
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

Desde a implantação da MIL- características, também fora dela, tanto


-PRF-49506, contudo, já era vislumbra- em projetos civis como militares.
da uma especificação substituta a partir No DoD EUA, o padrão Geia foi ado-
do meio civil. De fato, pelo cancelamen- tado no dia 15 de outubro de 2007 para
to dos MIL-STD-1388 surgiram duas uso como novo e melhorado substituto do
iniciativas de substituição da Análise cancelado MIL-STD-1388-2B. Segundo
de Apoio Logístico (LSA), processo o documento de adoção, “esse standard
nuclear do ILS. A primeira, desenvol- Geia-STD-0007 define os dados de obten-
vida dentro da estrutura do Government ção necessários para estabelecer o sistema
Electronics and Information Technology de apoio para sistemas, equipamentos,
Association (Geia), e da qual resultou produtos…”.
a publicação do Geia-STD-0007 (e do Como se trata de um padrão que esta-
manual associado Geia-HB-0007, for- belece normas gerais para o gerenciamento
necendo informações adicionais sobre do fluxo de informações técnicas e de apoio
o uso e dimensionamento dos dados no sobre diversos produtos finais, e levando
Geia-STD-0007) elaborada pela SAE em conta a variedade desses produtos,
International, em 2007) e a segunda foram criados diversos “protocolos’’ para
iniciativa, originada na Aerospace and permitir o enquadramento das informa-
Defence Industries Association of Eu- ções específicas para cada caso particular.
rope (ASD), em 2005, da qual resultou Assim, nasceram vários protocolos de
a publicação do S3000L - International aplicação, entre eles o protocolo AP239
Procedure specification for Logistics da ISO 10303, que trata especificamente
Support Analysis (LSA). dos Product Life Cycle Support (PLCS).
Ambas especificações contêm instru- Em outras palavras, tal protocolo trata par-
ções para a criação e desenvolvimento dos ticularmente das informações e dos dados
dados provenientes da Análise de Apoio de apoio de qualquer produto, por todo o
Logístico segundo modelos de intercâmbio seu ciclo de vida.
semelhantes – os DEX10. Muito embora esse padrão não imponha
o uso de uma específica metodologia ou
PADRÃO ADOTADO (EUA) ferramentas técnicas de análise de apoia-
bilidade, deixando a escolha ao critério
O padrão adotado como referência da atividade de obtenção, o importante é
no campo militar nos EUA, em 2007, que, em decorrência dos dados que pres-
passou a ser a Government Eletronics creve, o resultado será o detalhamento
and Information Technology Association dos produtos finais necessários ao apoio
Standard Logistics Product Data, ou Geia- logístico, tais como, por exemplo, manuais
-STD-0007. Enquanto ele é principalmen- de operadores e mantenedores, listas de
te usado naquele país, e somente para fins sobressalentes, programas de treinamen-
dos programas militares, a especificação to para operadores e mantenedores etc.,
S3000L tem sido usada mais amplamente, requeridos para apoiar o sistema ou o
principalmente na Europa e, pelas suas equipamento final em obtenção.

10 DEX - Data exchange: É o processo de estruturar dados segundo um schema (fonte) e transformá-los em dados
estruturados sob a forma de um schema (alvo) que seja a representação precisa do primeiro. O processo per-
mite que os dados sejam compartilhados por diferentes programas de computador. Schema X é a descrição
da estrutura de um documento X, sendo X uma linguagem de esquema, por exemplo XML.

46 RMB1oT/2017
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

PADRÃO ADOTADO NA EUROPA CA-Computer-aided manufacturing e Pro-


E OUTROS PAÍSES duct Data Management PDM, e tem como
alvos os designs dos sistemas mecânicos e
A S3000L é uma especificação que elétricos, focalizando principalmente nos
faz parte do esforço de padronização dados de geometria e suas tolerâncias e
desenvolvido pela ISO, sob os auspícios nos dados provenientes de análises e de
de entidades tanto civis como militares, manufaturas de indústrias, expandindo-os
de grande cultura e larga experiência no em informações específicas para várias
campo das atividades industriais em seus indústrias já estabelecidas (automotiva,
diferentes setores. Seu propósito é definir aeroespacial, construção naval, plantas de
os processos, os requisitos gerais e o in- processamento de óleo e gás, entre outras).
tercâmbio de informações relacionadas, A ISO em questão pode ser referida,
que regulam a aplicação da Análise de então, “como o padrão para a representação
Apoio Logístico ao longo do ciclo de vida e troca de informações na fabricação do
dos produtos aeroespaciais e de defesa. A produto” e é um aspecto vital a ser levado
abrangência dessa especificação é tal que em consideração na gestão do ciclo de vida
ela também pode ser usada em proveito de qualquer produto.
de complexos produtos técnicos de outros Para cada caso particular da área in-
domínios industriais. dustrial a tecnologia Step gera um modelo
Sua concepção baseia-se geralmente de informações do Produto (Product In-
nos processos do MIL-STD-1388-1A, formation Model) usando a linguagem de
MIL-HDBK-502 e DEF-STD-00-60 e nos modelagem Express. Esse modelo deve ser
modelos de atividades da ISO 10303-239 o registro mestre dos tópicos integrados e
PLCS. Foi concebida e elaborada para modelos de aplicação relativo à informa-
também servir de manual na criação e no ção. É um processo tão complexo que tem
desenvolvimento das ferramentas de inter- que ser dividido em várias partes. Geram-se
câmbio dos dados provenientes da Análise assim protocolos de aplicação AP, cada um
de Apoio Logístico, por meio de DEX, com voltado para uma área industrial específica.
vistas aos relevantes dados indicados pela Os de maior interesse para esse texto são
MIL-STD-1388-2B. o AP233 Early Requirement Analysis e o
AP239 Maintenance and Repair.
A ISO 10303 – STEP O protocolo AP239 ou Product Life
Cycle Support – PLCS, refere-se às infor-
A ISO 10303 – Step: também conhecida mações concernentes ao design do sistema
informalmente como Step (de Standard for de apoio logístico de novos produtos em
the Exchange of Product model data), é um obtenção. É orientado pela tecnologia do
padrão internacional para a integração, a ILS. É usado atualmente para registro das
apresentação e o intercâmbio de dados de informações e dos dados provenientes da
produtos industriais, via computador. Análise de Apoio Logístico e como proto-
Ela foi elaborada e é mantida pelo colo de intercâmbio de informações e dados
comitê técnico ISO TC 184 (sistemas de técnicos e logísticos.
automação e integração industriais), sub- Como deve haver a transformação de
comitê SC4 Industrial Data, sendo usada diferentes recipientes de dados, dos LSAR
para padronizar o processo de intercâmbio (a grande maioria ainda sob a técnica dos
de dados entre os diversos sistemas CAx, bancos de dados relacionais) para Data

RMB1oT/2017 47
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

Modules, segundo o emprego da linguagem de centralizar o controle sobre a Logística


de marcação XML, surgiu a necessidade do de Defesa, enquanto esta é mantida descen-
estabelecimento de especificações (DEX) tralizada da execução.
para o intercâmbio de dados entre várias B – É recomendável a criação, no
disciplinas de engenharia (tais como a âmbito do Ministério da Defesa, de uma
engenharia do design, a engenharia de comunidade de profissionais de logística,
manutenção, a engenharia de confiabilida- para exporem e discutirem os problemas
de e a produção de publicações técnicas). inerentes. A organização acima sugerida
Tais especificações regulam a construção em A, além de contribuir também para a
dos Data Exchanges, modelos que são interação com a Base Industrial de Defe-
esquemas de interação entre o processo de sa, poderia assumir a responsabilidade e
Análise Logística e os processos particu- tarefas inerentes ao gerenciamento dessa
lares de uma área industrial específica, e o comunidade a ser criada.
intercâmbio de infor- C – É recomendá-
mações e dados usan- vel a indicação de uma
do computadores. Cabe ao Ministério da organização de ensino

CONSIDERAÇÕES
Defesa assumir o papel de que mantenha a base
de conhecimentos das
FINAIS orientação e supervisão disciplinas de Logís-
das atividades logísticas tica de Defesa, que
Seguem-se algu- centralize a dissemi-
mas considerações que ocorrem dentro do seu nação da doutrina con-
segundo o ponto de contexto cernente e propague
vista do autor, inferi- os conhecimentos de
das a partir da matéria caráter gerencial e téc-
apresentada no texto, levando em conta a nico, além de quaisquer outras disciplinas
sua complexidade, indicativo da necessida- de interesse.
de de orientação e supervisão superiores: D – Tratando-se do tópico específico
abordado nesse artigo (intercâmbio de
De natureza genérica dados), são recomendáveis iniciativas
no sentido de estabelecer um protocolo
A – Cabe ao Ministério da Defesa assu- de entendimentos com a Base Industrial
mir o papel de orientação e supervisão das de Defesa, visando às comunicações de
atividades logísticas que ocorrem dentro dados técnicos, levando em consideração
do seu contexto: nas Forças Armadas e a documentação citada, para permitir a
no próprio Ministério (segundo sua dupla padronização de conhecimentos e facilitar
personalidade, tanto como órgão da gestão o entendimento entre as partes.
pública quanto como órgão de gerencia-
mento das peculiares atividades militares Relativas ao ILS
de defesa). Por razões claras, nele deveria
ser criado uma organização para gerenciar A – Enfatizar a forte polarização nos
as tarefas logísticas específicas, tanto as do conceitos e princípios da qualidade em
contexto militar como também fora deste, todos os processos relatados. Assim, con-
no trato com o componente civil da Base siderar o ciclo PDCA (Planejar, Executar,
Industrial de Defesa. Trata-se, ainda mais, Controlar a ação planejada e Corrigir)

48 RMB1oT/2017
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

como a fórmula mágica permanente para priado11) para haver sempre entendimento
gerenciar o processo de intercâmbio de preciso entre as partes, evitar falhas de
dados (mas não só ele), visando sempre à tradução ou evitar que sejam criados termos
melhoria contínua. e expressões que não reflitam a fase do
B – Tornar equivalentes as metodologias processo a que se referem. Tal medida pode
do ALI e do ILS. Para isso é preciso, prin- contribuir muito para a uniformização de
cipalmente, perceber e separar as diferentes procedimentos e, pela simplicidade decor-
áreas em que atividades específicas aconte- rente, para a economia de meios.
cem. Muito embora tudo ocorra no campo E – Eliminar o inconveniente do Setor
administrativo, diversos assuntos têm ca- do Material fazer distinção entre Organi-
racterísticas distintas. Por exemplo, definir zações Militares no trato do material. Uma
uma necessidade de meio ou material de Gestão, ou Gerência do Material, deve ser
emprego militar tem enfoque predominan- centralizada, enquanto descentralizada a
temente estratégico; definir requisitos para execução. O trato do material deve ter, pois,
desenvolver a concepção (fase conceitual) supervisão centralizada num único órgão,
que resolve uma necessidade cai prelimi- que ditará as normas a serem seguidas, até
narmente no campo da pesquisa e de mer- mesmo em relação aos suprimentos. Isso
cados; definir uma estratégia de obtenção não implica alterar subordinações e cargos,
e iniciar o processo de desenvolvimento que são atividades administrativas do setor
de um sistema recai na área da Engenharia do pessoal.
de Sistemas; um programa de ILS recai F – Atribuir ênfase, na Gerência do
na área da Engenharia de Sistemas e mais Material, ao caráter sistêmico, em ou-
especificamente da Engenharia Logística; o tras palavras, Diretorias Especializadas,
gerenciamento de um período operacional principalmente na área do material. Estas
recai na esfera administrativa-operativa; o devem ser Diretorias de Sistemas (exem-
apoio logístico diz respeito ao campo da plos, na MB: Diretorias de Sistemas de
Logística; idem quanto ao descarte ou à Armas, de Sistemas de Comunicações, de
realocação de um material de emprego mi- Sistemas de Navios – tratando dos siste-
litar etc. Tal seleção contribuirá, em muito, mas de casco, sistemas da propulsão, das
para separar aspectos técnicos dos aspectos auxiliares etc. –, de Sistemas de Propulsão
gerenciais em fluxogramas elucidativos dos Nuclear etc.).
diferentes processos. G – Evitar confundir a fase de identi-
C – Tornar permanente o processo do ficação da necessidade de um novo meio
ILS ao longo de todo o ciclo de vida dos sis- (problema estratégico/tático, da alçada do
temas, embora devidamente dimensionado Sistema de Requisitos) com o processo que
para cada caso particular. Tal processo não se segue, que é de Engenharia de Sistemas
deve ser interrompido, nem mesmo depois (da alçada dos Sistemas e Orçamentação e
da avaliação global dos sistemas. de Obtenção), e que vai da concepção ao
D – Tornar prioritário o estabelecimento fim do ciclo de vida do sistema solução.
de cultura (pelo menos por meio de um H – Buscar estabelecer, na medida do
glossário e pela adoção de inglês apro- possível, a padronização (de nomenclatura,

11 ASD Simplified Technical English, Specification ASD-STE100 (STE), especificação internacional para a
preparação de documentação técnica, numa linguagem controlada. Consultar na internet o STEMG STE
Maintenance Group.

RMB1oT/2017 49
INTERCÂMBIO DE DADOS TÉCNICOS E DE LOGÍSTICA NA OBTENÇÃO DE SISTEMAS DE DEFESA

principalmente) das fases de um processo Análise de Apoio Logístico). Tais medi-


de obtenção de sistemas complexos, no das visam à simplicidade de organização,
âmbito das Forças Armadas. Da mesma supervisão e controle pelo órgão superior
forma, estabelecer categorias de obtenção (Ministério da Defesa) e contribuem para
(para facilitar o planejamento e estabelecer a absorção de conhecimentos pela leitura
o devido dimensionamento – tailoring – da de material estrangeiro.

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<ARTES MILITARES>; Logística; Poder militar; Apoio logístico;

50 RMB1oT/2017
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES

TIUDORICO LEITE BARBOZA *


Contra-Almirante (Refo-EN)

SUMÁRIO

Introdução
Definições
O projeto de sistemas oceânicos
A divisão de tipos de embarcações/navios e demais sistemas oceânicos em famílias
Descrição dos principais tipos de embarcações/navios e demais sistemas oceânicos
Conclusão

INTRODUÇÃO de leitores da revista: a produção naval


mercante e offshore, principalmente con-

E ste artigo se propõe a abrir espaço na


Revista Marítima Brasileira para um
assunto ligado ao Poder Marítimo que
siderando as atribuições e a atuação da
Diretoria de Portos e Costas (DPC). Este
enfoque se deve, principalmente, ao fato
se supõe ser de interesse da comunidade de que tem havido uma procura perma-

* Serviu na Diretoria de Engenharia Naval e no Centro de Projetos de Navios. Um dos principais participantes dos
projetos das corvetas classe Inhaúma e Barroso. D.S.C. em Engenharia Oceânica, pelo Instituto Alberto Luiz
Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe-
-UFRJ). Faz, atualmente, parte do Corpo Docente do Centro de Instrução Almirante Wandenkolk (CIAW).
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES

nente pela reativação da indústria naval Há, assim, duas alternativas para o pro-
mercante brasileira. Por se tratar de um as- jetista: enquadrar o novo sistema flutuante a
sunto global e abrangente, que ocuparia um ser obtido numa das famílias já existentes ou
volume de leitura relativamente extenso, se lançar num processo de inovação em ter-
invocando assuntos correlatos, este artigo mos de projeto, razão pela qual é importante
aborda somente os tipos de produtos finais que se tenha o conhecimento do espectro
que são resultantes da cadeia produtiva na de famílias de meios flutuantes existentes.
construção naval mercante e offshore, e que
são os objetos do seu planejamento. A DIVISÃO DE TIPOS DE
EMBARCAÇÕES/NAVIOS E
DEFINIÇÕES DEMAIS SISTEMAS OCEÂNICOS
EM FAMÍLIAS
Os termos embarcação e navio, embora
possam ter o mesmo significado, não têm Para esta divisão, vamos explorar três
o mesmo uso na prática. Atualizando a referências. De Eyres [2] temos os tipos de
definição de Fonseca [1] para abranger os embarcações/navios e sistemas oceânicos
materiais atuais, teríamos: em nove grandes famílias, a saber:
Embarcação: “construção feita de ma- – barcos de alta velocidade;
deira, concreto, ferro, aço, alumínio, ma- – navios offshore;
teriais compósitos ou combinações desses – navios pesqueiros;
que flutua e é destinada a transportar, pela – embarcações (crafts) de apoio oceâ-
água, pessoas ou objetos”. nico e de porto;
Navio: “embarcação de grande porte”. – navios de carga geral;
Como podemos ver, as definições acima, – graneleiros;
embora sejam emanadas de uma referência – navios de passageiros;
consagrada, não estabelecem a fronteira – submersíveis; e
entre embarcação e navio e deixam de – navios de guerra.
fora os demais sistemas oceânicos, como Essas nove grandes famílias acima
plataformas offshore, que serão também mencionadas contemplam, ao todo, 44 tipos
objeto deste artigo. de navios diferentes, sendo que alguns dão
origem a subtipos, como, por exemplo, o
O PROJETO DE SISTEMAS caso dos submersíveis e navios de guerra.
OCEÂNICOS Já de Lamb [3] temos os tipos de em-
barcações/navios e sistemas oceânicos
O projeto de embarcações/navios e siste- divididos em três grandes famílias abaixo
mas oceânicos é, talvez, a mais demandante relacionadas, não havendo referências a
de todas as tarefas de engenharia, pois, navios de guerra:
normalmente, são grandes e complexos – navios comerciais;
produtos manufaturados. Antes que o pro- – navios industriais; e
jetista possa iniciar o projeto, o armador – navios prestadores de serviços.
precisa especificar a natureza do meio Essas três grandes famílias citadas, por sua
flutuante do qual precisa e que deseja, as vez, contemplam ao todo 36 tipos de navios.
áreas de operação e outras considerações Finalmente, de Watson [4] temos os ti-
especiais, que vêm a constituir os chamados pos de embarcações/ navios e sistemas oce-
“Requisitos do Armador”. ânicos em seis grandes famílias, que são:

52 RMB1oT/2017
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES

– navios de carga geral, subdivididos em rebocadores, divididos em rebocadores


navios transportadores de carga refrigerada, de alto-mar (ou oceânicos) e rebocadores
porta-contêineres e roll-on /roll-off; de porto.
– navios-graneleiros, subdivididos em
petroleiros, graneleiros propriamente ditos, DESCRIÇÃO DOS PRINCIPAIS
transportadores de gás liquefeito (gás natu- TIPOS DE EMBARCAÇÕES/
ral, com 75% a 95% de metano) e gás não NAVIOS E DEMAIS SISTEMAS
natural constituído de propano, propileno, OCEÂNICOS
butano ou mistura);
– navios de passageiros; Tendo em vista que não é exequível
– rebocadores; descrever, em termos de um artigo, todos
– barcos de alta velocidade; e os tipos de navios/embarcações e demais
– navios de guerra. sistemas oceânicos existentes, ou mesmo
Como pode ser visto, a divisão em aqueles abordados em [2], [3] e [4] já
grandes famílias é um tanto ou quanto citados, a descrição em pauta é limitada
subjetiva, mas em cada grande família de àqueles meios flutuantes que são objetos
uma ou outra referência há características de interseção dos conjuntos discutidos
específicas de cada tipo. Também a seleção pelas três referências, tomadas, no mínimo,
de que tipos de navios são mais relevantes, duas a duas.
no que diz respeito a descrever e detalhar as
suas características, não é a mesma para as Navios de carga geral
três referências citadas, mas há uma inter-
seção de interesse comum. Assim, temos o Possuem vários grandes e desobs-
seguinte quadro para cada referência: truídos porões de carga, e um ou mais
I- Por Eyres [2] são selecionados quatro conveses podem fazer parte do interior
tipos de embarcações/navios para objeto de dos porões. Como normalmente são dois
suas descrições: os navios de carga geral, conveses que fazem parte, são conheci-
os graneleiros propriamente ditos, os petro- dos como navios twin-decks, os quais
leiros e os navios de passageiros; permitem grande flexibilidade no que diz
II- Por Lamb [3] são selecionados: respeito ao carregamento e descarrega-
– oito entre os 13 da família de embar- mento. Permitem segregação de cargas e
cações/navios comerciais: porta-contêiner, têm aprimoradas características de estabi-
roll-on/roll-off, barcaças transportadoras lidade. Têm deslocamentos típicos entre
de contêiner, petroleiros, graneleiros pro- 15 mil e 20 mil toneladas, velocidades na
priamente ditos, transportadores de gás faixa de 12 a 18 nós e, embora possa não
liquefeito (LNG), barcaças com integração ser a divisão mais costumeira, segundo
ao rebocador e ferryboats; Watson [4], podem ser subdivididos
– cinco entre os 13 da família de em- como abaixo:
barcações/navios industriais: pesqueiros – Navios para transporte de carga
para pesca com rede, unidades perfura- refrigerada: são navios providos de sis-
doras offshore, plataformas de perfuração temas de refrigeração nos porões para
semissubmersíveis, navios para perfuração transporte de cargas perecíveis. Os porões
e plataformas oceânicas; são isolados termicamente para reduzir
– um entre os oito da família de navios/ a transferência de calor e, assim, a carga
embarcações prestadores de serviços: os pode ser transportada congelada ou frigo-

RMB1oT/2017 53
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES

rificada; os porões podem ter diferentes


temperaturas, de acordo com os requisitos
da carga. Os possíveis efeitos de baixas
temperaturas nas estruturas vizinhas é
um fator que deve ser levado em conta
no projeto. Juntamente com os tipos de
navios roll-on/roll off , são navios mais
rápidos que os demais navios de carga
geral, com velocidades de até 22 nós. A
Figura 1 ilustra um navio para transporte
de carga refrigerada.

Figura 2 - Navio porta-contêiner

forma de trailers. Podem ser rapidamente


carregados por meio de portões na proa, na
popa e, às vezes, nos bordos para veículos
menores. Alguns têm sido adaptados para o
transporte de contêineres. A seção de trans-
porte do navio é um grande porão aberto,
com uma rampa usualmente na seção de
popa, existindo rampas internas que con-
Figura 1- Navio para transporte de carga refrigerada duzem a carga do convés de carregamento
para outros espaços do twin-deck. O porte
– Navios porta-contêiner: são navios destes navios se estende até a ordem de
destinados a transportar caixas reusáveis, 28.000 t de deslocamento e 16.000 t de
com seções quadradas de 2.435 mm (8 porte bruto (deadweight), com velocidade
pés) de lado, com comprimentos padrões na faixa de 18 a 22 nós [4]. A Figura 3
de 6.055mm (20 pés), 9.125mm (30 pés) ilustra um navio roll-on/roll-off.
e 12.190mm (40 pés). São usados para
transporte da maioria das cargas, estando
em uso as cargas líquidas e refrigeradas,
estas últimas podendo ser transportadas
em contêineres com sistemas de refrigera-
ção próprios ou providos pelo sistema de
refrigeração do navio.
Os navios porta-contêiner têm capaci-
dade de carga entre 1.000 a 2.500 TEU
(twenty equivalente unit), em que o TEU
representa a capacidade do contêiner pa-
drão de 6.055mm ou 20 pés [4]. A Figura
2 ilustra um navio porta-contêiner.
– Navios roll-on/roll-off: são projetados
para carga sobre rodas, usualmente na Figura 3 - Navio roll-on/roll-off

54 RMB1oT/2017
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES

A Figura 4 ilustra um navio de carga geral.

Figura 4 - Navio de carga geral


Figura 5 - Navio-petroleiro
Navios-graneleiros
de cargas a serem transportadas. Possuem
O chamado granel pode ser sólido, líqui- um porte bruto que vai desde pequenas
do ou gás liquefeito, e assim, dentro desta capacidades até 200.000 t e velocidade na
classificação, são graneleiros os navios faixa de 12 a 16 nós.
listados a seguir [4]: Os graneleiros ditos combinados são
– Petroleiros: tipo de navio transpor- aqueles projetados para transportar qual-
tador de óleo cru cujo porte tem crescido quer uma das várias cargas a granel numa
significativamente de modo a permitir eco- particular viagem, e os petroleiros/mine-
nomias de escala e a responder às demandas raleiros são os mais populares e comuns
por óleo cada vez maiores. Petroleiros com [4]. A Figura 6 ilustra um navio graneleiro
designações como ULCC (Ultra Large propriamente dito.
Crude Carrier) com porte bruto acima de
320.000 t e deslocamento até a ordem de
2.000.000 t e VLCC (Very Large Crude
Carrier) com porte bruto entre 200 mil e
320.000 t têm sido construídos, embora a
tendência corrente seja por um porte bruto
menor, na faixa entre 20 mil e 150.000 t,
com velocidade entre 12 e 16 nós [4]. A
Figura 5 ilustra um navio-petroleiro.
– Graneleiros para grãos sólidos ou
graneleiros propriamente ditos: navios de
um único convés, com as seções de carga
divididas em porões e tanques que têm Figura 6 - Navio graneleiro
apresentado grandes economias de escala
no transporte de carga como grão, açúcar – Graneleiros para gás natural (gaseiros)
e minério. Os arranjos de tanques e de líquido: realizam o transporte de gás natu-
porões variam de acordo com o espectro ral, o qual compreende entre 75% a 95%

RMB1oT/2017 55
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES

de metano na forma líquida (liquefeita). tanques semipressurizados operam numa


O uso desses navios começou em 1959 e pressão de cerca de 8 bar e temperatura na
tem crescido regularmente desde então. faixa de -7º C, sendo necessário isolamento
Navios especiais com variações deste tipo térmico e uma planta de reliquefação para
são utilizados para transportar vários gases, que a carga não fique em ebulição. Os tan-
simultaneamente, numa variedade de tan- ques totalmente refrigerados operam a uma
ques combinados dotados de sistemas de temperatura de cerca de - 45º C e requerem
refrigeração voltados para transportar o gás uma construção com casco duplo. Esses
natural na forma líquida a pressão atmosfé- navios existem em portes com capacidade
rica e temperatura no entorno de -164º C. O de transporte de até 95.000 m3 e velocidade
projeto desses navios deve fazer com que a na faixa entre 16 e 19 nós. A Figura 7 ilustra
estrutura do casco seja protegida contra as um navio gaseiro.
baixas temperaturas, reduzir a perda de gás
ao mínimo e evitar a condensação deste gás
fugaz nas regiões do navio ocupadas pelos
tanques. Os tanques e seus isolamentos
térmicos são envoltos por uma estrutura
de casco duplo e são constituídos de duas
paredes estruturais em que a primeira, que
fica em contato com o líquido, constitui-
-se de uma liga de aço com 9% de níquel,
enquanto a segunda barreira é feita de aço
inoxidável. Esses navios existem numa
grande variedade de porte e podem chegar Figura 7 - Navio gaseiro
a transportar até 130.000 m3 de gás, numa
faixa de velocidade entre 16 e 19 nós.
– Graneleiros para gás não natural Navios de passageiros
líquido (gaseiros): realizam o transporte
de gás não natural, que pode ser propano, Podem ser classificados em duas ca-
propileno e butano ou uma mistura deles. tegorias: os de cruzeiro e os ferries. Os
Todos os três têm uma temperatura crítica navios de cruzeiro foram desenvolvidos
(acima da qual o gás não pode ser liquefeito a partir dos liners transoceânicos e têm
por pressurização) acima da temperatura crescido muito em porte e popularidade nos
ambiente normal e podem ser liquefeitos a últimos anos, enquanto os ferries proveem
baixas temperaturas na pressão atmosférica uma ligação no sistema de transporte e
ou em temperatura normal sob alta pressão frequentemente têm recursos roll-on/roll-
ou em uma condição intermediária de tem- -off em adição aos recursos destinados ao
peratura não tão baixa e pressão acima da transporte de passageiros.
pressão atmosférica, em tanques que podem Os navios de cruzeiro ficam na faixa de
ser pressurizados ou semipressurizados e porte em que a capacidade de transporte
ainda parcialmente refrigerados ou total- pode atingir 3.500 passageiros e a arquea-
mente refrigerados à pressão atmosférica. ção bruta pode chegar a 130 mil (arqueação
Os tanques totalmente pressurizados ope- é um adimensional) e a velocidade na faixa
ram numa pressão aproximada de 17 bar e de 22 a 25 nós. O porte dos ferries varia
são usualmente cilíndricos ou esféricos; os de acordo com os requisitos da rota, e a

56 RMB1oT/2017
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES

assistir a manobras de grandes navios em


águas confinadas e participar de operações
de socorro, salvamento e combate a incên-
dio. Podem ser classificados, grosso modo,
como de porto e oceânicos. A característica
principal de um rebocador é a sua capaci-
dade de bollard-pull (empuxo do hélice
na velocidade zero). A Figura 10 ilustra
Figura 8 - Liner moderno um rebocador.

Barcos de alta velocidade

Possuem um número de configurações


do casco e sistemas de propulsão variados
em função dos seguintes aspectos:
– o uso de hidrofólios traz benefícios de-
vido à redução da resistência ao avanço pelo
fato de levantar o casco para fora d’àgua;
– os catamarãs evitam a perda de esta-
bilidade a altas velocidades;
Figura 9 - Ferry – veículos sobre colchões possibilitam
operações anfíbias;
velocidade fica usualmente na faixa de 20 – o efeito de ondas é minimizado nos
a 22 nós. As Figuras 8 e 9 ilustram um liner barcos tipo Swath (small waterplane area
moderno e um ferry. twin hull);
– alguns barcos são projetados de modo
Rebocadores a reduzir o embarque d’água e permitir as
suas operações em águas restritas.
Desenvolvem uma grande quantidade A Figura 11 ilustra um barco de alta
de tarefas, como movimentar barcaças, velocidade com casco do tipo catamarã.

Figura 10- Rebocador Figura 11 - Barco de alta velocidade

RMB1oT/2017 57
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES

Unidades ou plataformas perfuradoras estrutura é formada, basicamente, por um


não eleváveis e autoeleváveis convés onde são instalados os principais
equipamentos de produção e perfuração e
Atualmente são consideradas as unidades colinas de sustentação do convés que, na
móveis mais complexas que operam em maior parte das vezes, são cilindros com se-
ambiente hostil nas plataformas continentais ção circular sobre flutuadores denominados
do mundo, com equipamentos de perfuração pontoons [3]. A Figura 13 ilustra uma pla-
e metodologia desenvolvidos para atender taforma de perfuração semissubmersível.
aos requisitos mais exigentes aplicáveis à
operação em águas relativamente profundas,
com ondas, ventos e correntes. As unidades
não eleváveis são basicamente estruturas em
treliças que são projetadas individualmente
para localizações específicas, levando em
conta as condições de fundo do mar, pro-
fundidade média da água e intensos estados
de mar e vento. As unidades autoeleváveis,
mais conhecidas como jack-up, são descritas
como um tipo de unidade com casco em
forma de barcaça e reserva de flutuabilidade
para transportar com segurança os equipa-
mentos de perfuração para uma localização
Figura 13- Plataforma de perfuração
determinada em que a unidade inteira é ele- semissubmersível
vada até a uma posição predefinida acima da
superfície oceânica [3]. A Figura 12 ilustra
uma plataforma autoelevável. Navios de perfuração

As principais características que os


distinguem de outros navios são os gran-

Figura 12 - Plataforma autoelevável

Plataformas de perfuração
semissubmersíveis

Estruturas flutuantes projetadas para


perfuração ou produção de petróleo e cuja Figura 14 - Navio de perfuração

58 RMB1oT/2017
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES

des guindastes com estruturas massivas se – sistema de amarração feito por meio
estendendo acima do convés principal e a de turret;
existência de um grande poço se estenden- – sistema de movimentação de fluidos;
do para baixo do casco, de modo a acomo- – comportamento no mar (seakeeping)
dar as operações de perfuração. Possuem com impacto no desempenho da planta de
movimentos maiores de arfagem, jogo e processamento e no conforto.
caturro do que uma plataforma semissub- As Figuras 15 e 16 mostram o perfil e o
mersível, devido às maiores excitações arranjo de operação típicos de uma FPSO.
dos estados de mar e diferentes respostas a
estes, o mesmo ocorrendo para movimentos
de avanço e caimento. A Figura 14 mostra
um navio de perfuração.

Plataformas FPSO (Floating


Production Storage and Offloading)

Sistema flutuante para exploração de


petróleo que reúne, numa única unidade,
as funções de produção, armazenamento
e descarregamento para outros navios.
A sua principal diferença, em relação
a um navio comum, está no fato de não
navegar, permanecendo numa posição
predeterminada. Os principais aspectos,
que são objeto de desafio no projeto des-
ses sistemas, são: Figura 15 - FPSO

Figura 16- Arranjo de operação de uma FPSO

RMB1oT/2017 59
SISTEMAS OCEÂNICOS NÃO MILITARES

CONCLUSÃO vêm surgindo no campo da construção naval


não militar, não somente porque esta faz
O espectro de tipos de sistemas oceânicos parte do Poder Marítimo, mas também pela
é grande e abrangente e merece um acom- possibilidade de que técnicas, tecnologias,
panhamento de perto, sob pena de perda da métodos e processos possam ser absorvidos
atualização com relação às inovações que no campo da construção naval militar.

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<PODER MARÍTIMO>; Marinha Mercante; Navio Mercante; Classificação de navio;

REFERÊNCIAS

[1] FONSECA, M.M. Arte Naval. Rio de Janeiro: Editora SDM, 2005.
[2] EYRES, D.J. Ship Construction. 6th Edition. Oxford: Elsevier, 2007.
[3] LAMB, T.T. Ship Design and Construction. Jersey City: Sname, 2004, Vol II
[4] WATSON, D,G.M. Practical Ship Design. Elsevier, Ocean Engineering Book Series, 1991, Vol I.
[5] VASCONCELOS, J. M. Estabilidade de Sistemas Flutuantes. Rio de Janeiro: Instituto de Ciências
Náuticas, 2005.

60 RMB1oT/2017
PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA
ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA
NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL

HENRIQUE PEYROTEO PORTELA GUEDES*


Capitão de Mar e Guerra (Marinha de Portugal)

SUMÁRIO

Introdução
União Africana
Organização Marítima da África do Oeste e do Centro
Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental
Comunidade Econômica dos Estados da África Central
Comissão do Golfo da Guiné
Grupo do G7 dos amigos do Golfo da Guiné
Universidades marítimas
A Cimeira de Yaoundé
Algumas reflexões

INTRODUÇÃO de ilicitude tem crescido paulatinamente


ao longo dos cerca de 7.700 km de costa

P assados quatro anos do final do boom


de pirataria marítima na Somália, o
continente africano continua, ainda, a
do Golfo da Guiné (GG). Este Golfo, cujas
águas banham países de duas grandes re-
giões da África, a Ocidental e a Central,
ser assolado quotidianamente por esta estende-se, genericamente, do Senegal a
hedionda atividade ilícita, agora na sua Angola, incluindo 17 países costeiros e
costa ocidental. A verdade é que este tipo dois arquipelágicos.

* N.R.: Autor do livro A Pirataria Marítima Contemporânea: as duas últimas décadas. Colaborador costumeiro
da Revista Marítima Brasileira, em especial sobre Pirataria Marítima (2o e 4o trim./2008, 3o trim./2010, 3o
trim./2011, 3o trim./2013, 3o trim./2014, 3o trim./2015, e 1o trim./2016).
PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL

A pirataria na re-
gião do GG tem es-
tado mais ativa nas
últimas duas déca-
das, nomeadamente
nas águas da Nigéria,
em geral, e no delta
do Rio Níger, em
particular.
Começou pelo pe-
queno roubo, con-
tudo foi evoluindo
para situações que
já denotam planeja-
mento e organiza-
ção, como o roubo de
combustível (bunke-
ring) e o sequestro Piratas nigerianos (Foto: CCTV África)
de tripulantes para
a obtenção de resgates. Esta mudança no mar territorial ou em águas interiores)
gradual no modus operandi dos piratas e instiga os países da região a partici-
do GG, associada ao aumento da violên- parem ativamente no combate a este
cia durante os seus atos e, ainda, o fato fenômeno; e a Resolução 2.039 (2012),
de o protagonismo de 29 de fevereiro,
da pirataria no con- que veio mostrar a
tinente africano ter O Conselho de Segurança da grande preocupação
passado para esta
região, devido ao seu
ONU manifestou profunda do CSNU com esta
problemática e que
declínio nas águas preocupação com os atos de exorta a Comunidade
da Somália, levaram pirataria e com os assaltos à Econômica dos Es-
o Conselho de Se- tados da África Oci-
gurança das Nações mão armada contra navios dental, a Comunidade
Unidas (CSNU) a no mar do Golfo da Guiné Econômica dos Esta-
aprovar duas Reso- dos da África Central
luções neste âmbito: e a Comissão Golfo
a Resolução 2.018 (2011), de 31 de ou- da Guiné a trabalharem conjuntamente
tubro, que condena os atos de pirataria na elaboração de uma estratégia regional
marítima (atos ilícitos1 cometidos fora do de luta contra a pirataria e os assaltos à
mar territorial2) e os assaltos à mão arma- mão armada contra navios e contra outras
da contra navios (atos ilícitos do mesmo atividades ilícitas praticadas no mar, em
gênero dos da pirataria, só que cometidos cooperação com a União Africana. Esta

1 De violência e/ou de detenção e/ou de pilhagem cometidos, para fins privados, pela tripulação e/ou pelos passa-
geiros de um navio privado, e dirigidos contra um navio e/ou pessoas e/ou bens a bordo do mesmo.
2 O mar territorial consiste numa zona marítima, sob soberania nacional, que vai até às 12 milhas náuticas, contadas
a partir da “linha de costa” (linha de base reta ou normal) de um Estado. Uma milha náutica são 1.852 metros.

62 RMB1oT/2017
PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL

agendas a segurança
e a defesa do espaço
marítimo.

UNIÃO
AFRICANA

Sucessora da Or-
ganização da Unidade
Africana 3 , a União
Africana (UA) foi
fundada em 2002 em
Durban, na África do
Sul, e encontra-se se-
diada em Adis Abeba,
Boarding team da Marinha dos Camarões no Exercício Obangame Express na Etiópia. O seu pre-
(Foto: US AFRICOM) sidente em exercício,
desde 30 de janeiro
Resolução incitava ainda os Estados deste de 2016, é o atual Presidente da República
Golfo a fazerem uma Cimeira. Esta foi do Chade, Idriss Déby Itno. Em 9 de julho
realizada em 19 de março de 2013, no de 2011, o Sudão do Sul tornou-se o 54º
Benim, para delinearem uma estratégia estado-membro.
comum para combater este fenômeno. A UA tem como principais objetivos,
O CSNU, em 25 de abril de 2016, por entre outros, obter
meio de uma declara- maior solidariedade
ção presidencial, vol- entre os vários países
tou a manifestar a pro- Logo após a sua criação, da África, defender a
funda preocupação a UA começou a delinear integridade territorial
da ONU com os atos e independência dos
de pirataria e com os
uma Arquitetura de
estados-membros e
assaltos à mão armada Paz e Segurança para o acelerar a integração
contra navios no mar continente africano política, social e eco-
do GG, salientando a nômica da África.
necessidade de uma Logo após a sua
abordagem abrangente, liderada pelos Es- criação, a UA começou a delinear uma
tados da região com o apoio internacional, Arquitetura de Paz e Segurança para o
de forma a fazer face à atual situação que continente africano. É curioso notar que,
se vive neste Golfo. inicialmente, no arranque de todo este
Neste momento existe um grande processo, a segurança marítima não era
número de organizações ativas na região considerada como estratégica. Contudo,
do GG, conforme se pode ver a seguir, as o mar, que vem ganhando protagonismo
quais, ao contrário do que acontecia no nos últimos anos, tornou-se também palco
passado, já começaram a incluir nas suas de diversos conflitos, dos quais se salienta

3 Criada em 25 de maio de 1963, em Adis Abeba, na Etiópia.

RMB1oT/2017 63
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a pirataria marítima, o que levou a UA, – a África como um ator forte, influente
constituída na sua maioria por Estados e parceiro a nível mundial.
litorâneos, a preocupar-se verdadeiramente A aprovação desses documentos estra-
com o mesmo. Isso demonstra a aprovação, tégicos vem mostrar a preocupação comum
em 31 de janeiro de 2014, da Declaração de dos Estados africanos com o seu cresci-
Adis Abeba4, na qual os ministros africanos mento econômico e com a sua segurança,
adotaram a Estratégia Marítima Integrada da fazendo refletir nestes escritos os desafios,
África 20505 e o seu Plano de Ação de Ope- as ameaças e as oportunidades que têm
racionalização. Esta Estratégia não aborda pela frente.
só aspectos de segurança relacionados com
a pirataria marítima, mas também da pesca ORGANIZAÇÃO MARÍTIMA DA
ilegal, do tráfico de pessoas e do terrorismo ÁFRICA DO OESTE E DO CENTRO
marítimo, apontando também um conjunto
de oportunidades em termos de economia. A Organização Marítima da África do
Um ano mais tarde, em janeiro de 2015, a Oeste e do Centro6 e 7 (Mowca), constituída
Conferência da União Africana, na sua 24ª por 20 estados costeiros e cinco não cos-
Sessão Ordinária, realizada em Adis Abeba, teiros, encontra-se sediada em Abidjan, na
estabeleceu a Agenda 2063, identificando Costa do Marfim, e o seu secretário-geral
as aspirações africanas até o ano de 2063, é Alain Michel Luvambano. Foi estabe-
mencionadas a seguir: lecida em 7 de maio de 1975, em Lagos,
– uma África próspera, baseada no cres- na Nigéria, pelos ministros africanos dos
cimento inclusivo e no desenvolvimento Transportes dos Estados da África Ociden-
sustentável; tal e Central, que resolveram criar um orga-
– um continente integrado, politica- nismo permanente de concertação, ao qual
mente unido com base nos ideais do pan- atribuíram a designação da Conferência
-africanismo e na visão do renascimento Ministerial dos Estados da África Ocidental
da África; e Central para o transporte marítimo. O seu
– uma África de bom governo, democra- nome atual foi adotado, na sequência das
cia, respeito pelos direitos humanos, pela reformas feitas pela Assembleia-Geral dos
justiça e pelo estado de direito; Ministros dos Transportes, numa sessão
– uma África pacífica e segura; extraordinária que decorreu em Abidjan,
– uma África com uma forte identidade entre 4 e 6 de agosto de 1999.
cultural, herança, valor e ética comuns; O papel principal desta organização
– uma África onde o desenvolvimento deveria ser um pouco o de autoridade ma-
seja orientado para as pessoas, confiando rítima regional, devendo servir de elo no
especialmente no potencial da mulher e da estabelecimento de contatos e na negociação
juventude; e entre o setor privado, os portos, as autorida-

4 Esta foi colocada à consideração a 6 de dezembro de 2012, durante a 2.ª Conferência dos Ministros africanos
responsáveis pelos assuntos marítimos.
5 Em inglês Africa´s Integrated Maritime Strategy 2050 - AIM 2050.
6 Do inglês Maritime Organization of West and Central Africa (Mowca). Em francês: Organisation Maritime de
L´Afrique de L´Ouest et du Centre (Omaoc).
7  Países costeiros: Angola, Benim, Camarões, Cabo Verde, Congo, República Democrática do Congo, Costa
do Marfim, Gabão, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Guiné Equatorial, Libéria, Mauritânia, Nigéria,
São Tomé e Príncipe, Senegal, Serra Leoa e Togo. Países não costeiros: Burkina Faso, República Centro
Africana, Chade, Mali e Níger.

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des marítimas e os organismos de ensino. com sede em Abuja, na Nigéria, é com-


Contudo isso não tem acontecido. Apesar posta por 15 países10 situados na região da
do seu tempo de existência, e do apoio que África Ocidental, desde o Senegal à Nigé-
tem tido por parte da Organização Marítima ria, unidos por laços culturais, geopolíticos
Internacional (IMO), a Mowca não tem tido e interesses econômicos em comum. A
uma posição de destaque até a presente data, Cedeao existe para promover a cooperação
o que é comprovado pelo fato de não lhe ter econômica, política e de segurança entre
sido atribuído nenhum papel de relevo na os Estados. Em junho de 2007, na sua 32a
arquitetura da nova estrutura de segurança Conferência de chefes de Estado e do go-
marítima que resultou da Cimeira de 2013, verno, ocorrida em Abuja, a Cedeao adotou
realizada em Yaoundé, nos Camarões. No a “Visão 2020”, um documento estratégico
entanto, em 2008, a Mowca, com a con- cujo objetivo principal é contribuir para a
tribuição da IMO, emitiu um Memorando criação de uma união econômica regional
de Entendimento para o estabelecimento sustentável e segura, com a participação, no
de uma Guarda Costeira integrada para a processo de integração, de toda a população
África Ocidental e Central, com vista ao dos países da região. Muitos dos objetivos
melhoramento da segurança marítima em da Visão 2020, assim como do Tratado
geral. Contudo, o mesmo não teve sucesso, revisto da Cedeao, de 23 de julho de 1993,
pois a adesão dos Estados costeiros foi muito têm sido minados pelos desafios que têm
diminuta, em muito devido à falta de meios aparecido no domínio marítimo, tais como
por parte dos países, assim como à ausência a exploração descontrolada dos recursos
de uma consciência marítima. No entanto, marinhos, a poluição, o contrabando, os
o memorando veio alavancar a criação de tráficos de drogas e de pessoas, a pirataria
Centros Regionais de Coordenação de Sal- marítima, os assaltos à mão armada contra
vamento Marítimo8 (RMRCC), indispensá- navios etc. Para fazer face a estes novos
veis para uma boa articulação na segurança desafios, e na sequência do lançamento da
marítima. Espera-se que esta organização Estratégia Marítima Integrada de África
ainda possa vir a ter um papel ativo nas áreas 2050 por parte da UA, iniciou também a
da educação marítima e segurança portuária Cedeao a elaboração de um documento es-
e na relação com as autoridades marítimas tratégico semelhante, a Ecowas, Integrated
nacionais para a implementação de normas Maritime Strategy (EIMS). Este foi direcio-
marítimas internacionais. nado para os países desta comunidade com
o objetivo de regulamentar as atividades e a
COMUNIDADE ECONÔMICA utilização do domínio marítimo, bem como
DOS ESTADOS DA ÁFRICA identificar as medidas para o combate às
OCIDENTAL suas ameaças. Esse documento veio a ser
adotado na 44ª Conferência de chefes de
Criada em 28 de maio de 1975, pelo Tra- Estado e do governo, ocorrida em Yamous-
tado de Lagos, a Comunidade Econômica soukro, na Costa do Marfim, em 28 e 29 de
dos Estados da África Ocidental9 (Cedeao), março de 2014.

8 Do inglês Regional Maritime Rescue Coordinating Centre.


9 Em inglês Economic Community Of West African States (Ecowas). Em francês Communauté Economique Des
Etats de l’Afrique de l’Ouest (Cedeao).
10 Países: Benim, Burkina Faso, Cabo Verde, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Guiné, Guiné-Bissau, Libéria,
Mali, Níger, Nigéria, Senegal, Serra Leoa e Togo.

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COMUNIDADE ECONÔMICA DOS COMISSÃO DO GOLFO DA GUINÉ


ESTADOS DA ÁFRICA CENTRAL
A Comissão do Golfo da Guiné13 (CGG)
O tratado que instituiu a Comunidade foi estabelecida em 3 de julho de 2001, por
Econômica dos Estados da África Central11 um tratado assinado em Libreville, com o
(Ceeac) foi assinado em 18 de outubro de objetivo de defender os interesses comuns,
1983 em Libreville, no Gabão. Contudo, harmonizando as políticas no que diz res-
só entrou em vigor em 18 de dezembro peito à gestão do petróleo e dos recursos
de 1984, tendo a Ceeac sido considerada naturais em geral, assente no diálogo e
operacional em janeiro de 1985. Esta Co- na concertação, tendo como base os laços
munidade esteve inativa entre 1992 e 1997. de amizade, solidariedade e fraternidade
É composta atualmente por 11 países12. O entre os Estados que a constituem. Fatores
seu objetivo inicial foi promover e reforçar externos, resultantes de uma conjuntura
a cooperação harmoniosa e o desenvolvi- em permanente mudança, fizeram com que
mento equilibrado e autossustentado nas esta Comissão ultimamente, à semelhança
áreas da atividade econômica e social, das comunidades econômicas da região,
com vista a alcançar a economia coletiva, se direcionasse mais para os aspectos
elevar o nível de vida, aumentar e manter relacionados com a paz e a segurança,
a estabilidade econômica, reforçar as re- nomeadamente com a pirataria marítima
lações pacíficas entre Estados-membros e os assaltos à mão armada contra navios
e contribuir para o progresso e desenvol- no mar do GG.
vimento do continente africano. Só mais O Presidente da República da Guiné
tarde é que esta comunidade ampliou a Equatorial, Teodoro Obiang Mbasogo, é
sua visão de integração para poder passar o atual presidente da CGG, desde 10 de
a incluir a promoção da paz, da segurança agosto de 2013. A República do Gana
e da estabilidade na sua sub-região. Os manifestou vontade de vir a aderir à CGG.
países da Ceeac adotaram, em outubro de
2007, um plano estratégico de integração GRUPO DO G7 DOS AMIGOS DO
e uma Visão para 2025, com vista a tornar GOLFO DA GUINÉ
a região um local de paz, de solidariedade,
de desenvolvimento equilibrado e de livre Este Grupo do G7 dos amigos do Golfo
circulação de pessoas, bens e serviços. da Guiné14 e 15, que tem como principal foco

11 Em inglês Economic Community of Central African States (Eccas) e em francês Communauté Economique des
Etats de l’Afrique Central (Ceeac).
12 Países: Angola, Burundi, Camarões, Chade, Gabão, Guiné Equatorial, República Centro-Africana, República
Democrática do Congo, Congo, Ruanda e São Tomé e Príncipe.
13  É composta por oito países: Angola, Camarões, República Democrática do Congo, Congo, Gabão, Guiné
Equatorial, Nigéria e São Tomé e Príncipe.
14 Do inglês G7 Friends Of the Gulf of Guinea Group (G7++Fogg).
15 É composto pelo G7 (Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido), pelo Grupo de
Amigos [(Bélgica, Coreia do Sul, Dinamarca, Espanha, Noruega, Países Baixos, Portugal, Suíça, Austrália
(observador), Brasil (observador), União Europeia, UNODC, Interpol e IMO (observador)] e pelos Estados
da região (Angola, Benim, Burkina Faso, Camarões, Cabo Verde, República Centro-Africana, Chade, Re-
pública Democrática do Congo, Costa do Marfim, Guiné Equatorial, Gabão, Gâmbia, Gana, Guiné-Bissau,
Guiné, Libéria, Mali, Níger, Nigéria, Congo, Senegal, S. Tomé e Príncipe, Serra Leoa e Togo). A Grécia, a
Turquia e o Uruguai foram como observadores para a reunião.

66 RMB1oT/2017
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a pirataria marítima, nasceu em 2011, na uma nova arquitetura regional de segurança


sequência do G8 ter discutido pela primeira marítima para o GG. A região considerada
vez, durante uma reunião, a situação da vai desde o Rio Senegal, no Senegal, até a
segurança marítima no GG. O Grupo do foz do Rio Cunene, em Angola. Para perce-
G7 dispõe de um grupo de trabalho que tem ber melhor esta arquitetura é preciso recuar
auxiliado na coordenação das diferentes ini-ao ano 2009, quando a Ceeac decidiu de-
ciativas marítimas, nomeadamente na cria- senvolver uma estratégia marítima baseada
ção de capacidades, evitando duplicações em seis princípios: gestão da informação,
entre os doadores e os Estados da região. vigilância coletiva por meio da deteção e
Este Grupo reuniu-se em Portugal em partilha de informação, harmonização legal
6 e 7 de junho de 2016, sob a presidência e funcional da ação dos Estados no mar,
portuguesa. autofinanciamento por meio da contribui-
ção dos Estados da re-
UNIVERSIDADES gião e apoio logístico
MARÍTIMAS Na região do Golfo da e institucionalização
Guiné existem pelo menos de uma conferência
Na região do GG marítima para a África
existem pelo menos três universidades ligadas Central.
três universidades li- a assuntos do mar e que Na sequência do
gadas a assuntos do lançamento desta es-
mar em geral e que
vêm se preocupando com tratégia, foi criado,
vêm se preocupando os aspectos da segurança em outubro de 2009,
com os aspectos da marítima o Centro Regional
segurança marítima de Segurança Maríti-
em particular. Temos ma da África Central
então a Regional Academy of Science and (Cresmac)16, em Ponta Negra, no Congo,
Technology of the Sea, em Adidjan; The passando este a ser o responsável pela co-
Regional Maritime University, em Accra, ordenação da segurança marítima na África
no Gana; e The Maritime Academy of Central. Esta estratégia incluiu também a
Nigeria, em Oron, na Nigéria. A existência criação de três zonas de segurança marítima
destas universidades vem contribuindo de (A, B e D), tendo sido previsto, para cada
forma decisiva para maior conscientização uma, um centro de operação marítima,
marítima na região. designado por Centro de Coordenação
Multinacional17 (CCM). As zonas ficaram
A CIMEIRA DE YAOUNDÉ distribuídas da seguinte forma: a Zona A
abrangerá Angola e a República Demo-
Esta Cimeira dos chefes de Estado e crática do Congo; a Zona B, o Congo e
de governo dos Estados da África Central o Gabão (parte) e a Zona D, São Tomé e
e Ocidental, sobre segurança no domínio Príncipe, o Gabão (parte), a Guiné Equa-
marítimo comum, realizou-se em 24 e 25 de torial e os Camarões. Contudo, com a nova
junho de 2013 nos Camarões e dela resultou arquitetura regional de segurança marítima,

16 Em inglês Regional Coordination Centre for Maritime Security in Central Africa e em francês Centre Régional
de Securité Maritime de l’Afrique Central (Cresmac).
17 Em inglês Center for Multinational Coordination (CMC).

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Arquitetura regional de segurança marítima após a Cimeira de Yaoundé (Foto adaptada a partir da imagem original da OBF)
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na sequência da Cimeira de Yaoundé, está sediado em Cotonou, no Benim. Tudo in-


praticamente assumido que a Zona D irá dica que o CCM da Zona F possa vir a ser
integrar a Zona B. A confirmar-se esta últi- instalado em Accra, no Gana.
ma situação, o Congo, que pertencia à Zona A arquitetura regional de segurança
B, irá passar a fazer parte da Zona A – que marítima para a África Ocidental e Central
também abrange Angola e a República De- assenta-se, assim, em dois centros regio-
mocrática do Congo –, e o Gabão, país que nais, o Cresmac, para a África Central, e
estava dividido parcialmente pelas Zonas o Cresmao, para a África Ocidental, cada
B e D, passará a fazer parte só da Zona D. um deles responsável por coordenar três
O CCM para a Zona D foi o primeiro a zonas de segurança marítima (o Cresmac
entrar em funciona- as Zonas A, B(?) e D
mento, em setembro e o Cresmao as Zo-
de 2009, e ficou se- Apesar do elevado número nas E, F e G). Por sua
diado em Douala, nos de organizações existentes vez, estes dois centros
Camarões. Existem são coordenados pelo
fortes indícios de que no continente africano, Centro de Coordena-
o CCM para a Zona A os aspectos da segurança ção Inter-Regional19
venha a ser instalado
em Luanda.
marítima estão ainda longe (ICC), que já entrou
em funcionamento em
A Cedeao, após a de um controle efetivo. Yaoundé, em 11 de
Cimeira de Yaoundé, Será justo afirmar que setembro de 2014. O
resolveu adotar para a ICC, devido a alguns
África Ocidental uma começaram a ser dados constrangimentos fi-
estrutura semelhante os primeiros passos no nanceiros, de pessoal e
à da CEEAC, estabe-
lecendo também três
sentido da criação de uma logísticos, ainda não se
encontra, até a presente
zonas de segurança consciência marítima na data, completamente
marítima (E, F e G), África operacional.
prevendo, para cada Apesar das grandes
uma um CCM, coor- preocupações atuais
denado pelo Centro Regional de Segurança destas duas regiões serem a pirataria ma-
Marítima da África Ocidental (Cresmao)18, rítima e os assaltos à mão armada contra
cuja instalação está prevista em Abidjan. navios, tendo a própria arquitetura regional
Estas zonas compreendem os seguintes de segurança marítima sido desenhada
países: a Zona E, a Nigéria, o Benim e o pensando nestas, existem outros aspetos
Togo; a Zona F, o Gana, a Costa do Marfim, de segurança marítima que preocupam os
a Libéria, a Serra Leoa e a Guiné; e a Zona países destas regiões. Isso fica evidenciado
G, a Guiné-Bissau, a Gâmbia, o Senegal e pela aprovação, nesta Cimeira de Yaoundé,
Cabo Verde. do Código de Conduta de Yaoundé, que
O primeiro CCM da África Ocidental a foi elaborado tendo como principais ob-
entrar em ação foi o da Zona E, que ficou jetivos a pirataria marítima e os assaltos à

18 Em inglês Regional Coordination Centre for Maritime Security in Western Africa e em francês Centre Régional
de Securité Maritime de l’Afrique de l’Ouest (Cresmao).
19 Em inglês Interregional Coordination Centre (ICC).

RMB1oT/2017 69
PIRATARIA MARÍTIMA ALAVANCA ARQUITETURA DE SEGURANÇA MARÍTIMA NA ÁFRICA OCIDENTAL E CENTRAL

mão armada contra navios. Contudo, este aprovados, o desenvolvimento e a imple-


também leva em consideração aspectos mentação de novas estratégias, a arquitetura
mais latos da segurança marítima, como a de segurança marítima adotada e a instalação
pesca ilegal, o terrorismo e os vários tipos e operacionalização dos diversos centros de
de contrabando. Este código de conduta e coordenação marítima são bons exemplos do
a troca de informação que o apoia têm sido que está sendo feito em prol da segurança
um precioso auxílio no âmbito da coopera- marítima. O fato de todas estas iniciativas te-
ção entre Estados regionais. rem por trás essencialmente países africanos
demonstra bem a vontade e o compromisso
ALGUMAS REFLEXÕES destes na construção de um futuro melhor
para o continente. Torna-se pois de vital
Apesar do elevado número de organiza- importância que as várias organizações
ções já existentes no continente africano, africanas juntem sinergias na procura do
em geral, e na África Ocidental e Central bem comum e não atuem de forma isolada e
em particular, os aspectos da segurança rival na procura de protagonismo. Será justo
marítima estão ainda muito longe de um afirmar que já começaram a ser dados os
controle efetivo. Contudo, o conjunto de primeiros passos firmes no sentido da cria-
reuniões no mais alto nível, os documentos ção de uma consciência marítima na África.

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<PODER MARÍTIMO>; África; Pirataria; Segurança;

70 RMB1oT/2017
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?*

NELSON MARCIO ROMANELI DE ALMEIDA**


Capitão de Mar e Guerra (IM)

SUMÁRIO

Introdução
Conflito – Conceituação
A Guerra como Fenômeno Social - Breve Análise
Considerações Finais

INTRODUÇÃO Estados, no cenário internacional ainda não


existe uma entidade formalmente designada

“P apel de juiz é resolver conflitos e não


de criar”1. Essa afirmação recente de
um ministro do Superior Tribunal Federal
para exercer o controle do comportamento
humano. Entre os Estados observa-se tão-
-somente uma postura de relacionamento
se adequa bem à sociedade, mas não aos transversal, sem ocorrer qualquer tipo de
Estados. Em que pese ser válido o con- submissão, ou seja, não existem “juízes”
ceito hobbesiano do sistema anárquico de que “resolverão os conflitos”.

* Adaptação do trabalho apresentado na Escola de Guerra Naval-CPEM-2016, com o título:“Em uma era de
múltiplas transformações sociais, econômicas e na política internacional, os conflitos são inevitáveis?”.
** Vice-Diretor de Coordenação do Orçamento da Marinha.
1 MOREIRA, Rene. “ ‘Papel de juiz é resolver conflitos e não de criar’, diz ministro do STF”. O Estado de S.
Paulo, São Paulo, 18 mar. 2016 disponível em < [Link]
-stf-alfineta-sergio-moro-no-interior-de-sp>. Acesso em 18 mar. 2016.
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?

O relacionamento entre os Estados é incompatibilidade acerca de objetos, de


dinâmico e traz em seu bojo os mais varia- desejos ou de propósitos diferentes, mas
dos interesses, que são inerentes a cada um em geral sobre opiniões, juízos de valor
dos envolvidos, podendo tais interesses ser ou simplesmente impressões que se tem
uníssonos ou díspares. Quando existe a con- sobre uma questão ou conjunto de fatos; o
cordância de ideias está presente o estado conflito é de ordem vivencial, imediato ou
de paz, mas quando emergem dissonâncias repetido ao longo do tempo; e, o conflito
de pensamentos poderá surgir o conflito. é uma forma possível de relação social2.
E, nesse sentido, considerando que os Nesse sentido, depreende-se que o con-
Estados “não têm amigos, mas interesses” e flito é uma elaboração social que nasce da
que os conflitos são uma realidade em nível natureza humana e que pode, dependendo
global, há que se pensar se as múltiplas das suas razões, da forma como as partes o
transformações sociais, econômicas e na percebem e da maneira como se desenrola,
Política Internacional (PI) podem exercer ser entendido como positivo ou negativo.
alguma influência na forma como os Esta- A caracterização de um conflito dependerá,
dos percebem e efetuam o gerenciamento dentre outros aspectos, das experiências
de conflitos. pessoais dos líderes, dos seus anseios e
Chega-se, então, às questões em investi- de motivações em buscar soluções menos
gação no presente estudo. Até que ponto as danosas.
dinâmicas mudanças impostas pela globali- Em termos de conceituação de conflito,
zação contribuem para evitar um conflito? Freund (1995, p. 58), assim se expressa:
E os exemplos de conflitos passados podem “El conflicto consiste en un enfrenta-
nos ajudar a entender o tema? miento por choque intencionado, entre
Inspirado por essa realidade, o presente dos seres o grupos de la misma especie
trabalho tem o propósito de analisar se os que manifiestan, los unos respecto a los
conflitos são realmente inevitáveis à luz otros, una intención hostil, en general
dessas mudanças. E, para tal, será estrutu- a propósito de un derecho, y que para
rado da seguinte forma: inicialmente será mantener, afirmar o reestablecer el de-
apresentado um breve marco teórico acerca recho, tratan de romper la resistência
do termo conflito, contextualizando-o no del outro eventualmente por el recurso
escopo deste trabalho; seguir-se-á a expo- a la violencia, la que puede, llegado el
sição da guerra enquanto fenômeno social caso, tender al aniquilamiento fisico
e uma breve análise; e, por fim, serão feitas del otro.”
as considerações finais à luz da literatura
estudada. Assim, da análise desse conceito, depre-
ende-se que: o enfrentamento deve ser mani-
CONFLITO – CONCEITUAÇÃO festo entre as partes; não há conflito entre um
homem e um animal; há de estar presente a
O sociólogo alemão Julien Freund determinação de causar algum dano na outra
(1921-1993) lança algumas ideias para parte; os direitos violados são a causa principal
reflexão antes de partir para a definição do início dos conflitos; e o uso da violência é
de conflito, quais sejam: o conflito não previsto, ou seja, não existe conflito de ideias
nasce necessariamente por conta de uma para se fazer valer seus direitos.

2 FREUND, 1995, p. 20-23.

72 RMB1oT/2017
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?

Em síntese, são elencadas algumas li- legal e uma forma de conflito envolvendo
ções acerca do conflito que merecem desta- um alto grau de paridade legal, de hostili-
que, a saber: o atual regime internacional de dade e de violência dos grupos humanos
Estados em que vivemos guarda uma seme- organizados”4.
lhança com o estado da natureza proposto Observa-se que o autor acima já prevê
por Hobbes, ou seja, trata-se de um sistema o ponto de vista sociológico para o trata-
anárquico de Estados, sem uma instância mento da guerra enquanto fenômeno social.
superior; o conflito é intrínseco às socieda- Dessa forma, já em 1945, Gaston Bouthoul
des e pode vir a contribuir de alguma forma (1896-1980) cunhou o termo polemologia
para a unidade do grupo, ou até mesmo para designar uma nova possibilidade de
exercer um papel de equilíbrio no cenário incluir na sociologia o estudo científico das
mundial; o conflito é uma relação social, guerras e da agressividade organizada, no
um fenômeno social, em que a presença intuito de que se pudesse perceber como
de seres humanos com suas características esse fenômeno violento ocorria e permitir
pessoais no processo pode ser considerada que, a par desses estudos, se pudesse efetuar
um fator potencializador para a consecução algum controle nos futuros acontecimentos.
desses; e o conflito é Nesse sentido,
o resultado do anseio nasceu a polemologia
subjetivo de pessoas e Entre outras coisas, o como sendo “o estu-
grupos para defender conflito é o resultado do do objetivo e científi-
seus direitos e suas
pretensões.
anseio subjetivo de pessoas co das guerras como
fenômenos sociais
e grupos para defender seus suscetíveis de obser-
A GUERRA direitos e suas pretensões vação igual a outro
COMO qualquer”5.
FENÔMENO Enquanto fenôme-
SOCIAL – BREVE ANÁLISE no social, e por ser considerada a forma
mais grave e profunda de conflito social
O Manual de Doutrina Militar, do (presença da violência extremada), a guerra
Ministério da Defesa, conceitua a guerra, pode ser observada desde os primórdios da
que será objeto desse estudo, como sendo o civilização humana. Seja por sobrevivên-
conflito no seu grau máximo de violência, cia, busca de comida, motivos territoriais,
podendo implicar a mobilização do Poder políticos, étnicos ou religiosos, entre ou-
Nacional, com relevância para o Poder tros, o homem usou, usa e usará a violência
Militar, para fazer valer a vontade de uma como forma de resolução desses conflitos.
das partes3. Essa afirmação encontra eco nas pala-
De modo a que se possa melhor entender vras de Howard6 (2004, citado por BAL-
o fenômeno da guerra, ao se combinar os TAZAR, 2006, p.169), que afirma que
pontos de vistas jurídico, sociológico, mi- provas arqueológicas, antropológicas e
litar e psicológico tem-se que é “um estado documentais assinalam que a guerra sempre

3 BRASIL, 2007, p.21.


4 WRIGHT, 1988, p.5.
5 BOUTHOUL, 1984, p. 66-67.
6 HOWARD, Michael, A Invenção da Paz – Reflexões sobre a guerra e a Ordem Internacional, Lisboa: Guimarães
Editores. 2004.

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CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?

foi “a norma universal” ao longo da história de um hormônio que induz à agressivida-


humana, sendo irrelevante investigar se de. A guerra, como já mencionado, é um
resultava de uma agressividade natural ou fenômeno social, e para que possamos obter
se essa hostilidade nasceu da necessidade os melhores rumos a seguir no processo
de lutar pela posse de itens escassos, como decisório, há que se recorrer à polemologia
a água e a terra. como ferramenta para obtenção de infor-
Já no plano científico, em 2008, foi mações que contribuirão para controlar ou,
apresentada uma teoria em universidades quem sabe, evitar os conflitos.
americanas e no Reino Unido que sugere Outro ponto que muito se observa nos
que a guerra é um produto da cultura hu- dias de hoje é a tentativa de redução de
mana e, por isso, um fenômeno recente.7 arsenais dos Estados. Simplesmente redu-
Esse estudo sugere que a questão da so- zir o poderio bélico dos Estados por meio
brevivência dos mais fortes nas lutas como da assinatura de tratados ou convenções
parte do instinto de preservação pode ser internacionais não parece ser a panaceia
explicada até mesmo sob a ótica biológica, que tornará as guerras inevitáveis. Se
científica e não somente no que tange aos não houver a preocupação de se trabalhar
aspectos sociológicos questões como cultura,
e psicológicos. valores e crenças dos
Entretanto, Bona- indivíduos, todos os
nate (2001, p. 274) já
Simplesmente reduzir o esforços poderão ser
apresentava um con- poderio bélico dos Estados inócuos.
traponto a esse estudo, por meio da assinatura de No mundo contem-
na medida em que porâneo, vive-se uma
afirma que o compor- tratados ou convenções espécie de culto aos
tamento humano não internacionais não parece conflitos, na medida
é constante e que a
guerra pode ser consi-
ser a panaceia que tornará em que a competição e
o desejo de vencer su-
derada um fenômeno as guerras inevitáveis peram, muitas vezes,
mais sociológico, ou a questão racional que
seja, é consequência envolve o processo da
dos costumes e das tradições das socie- guerra. A violência pode ser observada
dades e não da estrutura orgânica do ser nas diversas etapas desse processo, desde
humano em si. a questão psicológica até a física. Conside-
Os hormônios que o organismo humano rando o atual sistema anárquico de Estados
produz podem até ser controlados, mas não em que se observa uma espécie de horizon-
se consegue atuar sobre todas as variáveis talização de relações, não havendo vínculos
que estão presentes no comportamento do de subordinação e nem o estabelecimento
ser humano, desde a vaidade, passando por de um órgão de controle (“juiz supremo”),
interesse e culminando com a necessidade os Estados mais fortes acabam por buscar
de poder. Dessa forma, não basta traçarmos as formas mais fáceis de resolução de que-
as possíveis diretrizes ou linhas de ação que relas, qual seja a possibilidade de aplicação
poderão compor o processo da guerra ou da violência nos conflitos desencadeados
aplicarmos formas de reduzir a produção por esses Estados.

7 Disponível em: < [Link]

74 RMB1oT/2017
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?

Da observação da história percebe-se Mais recentemente, a imprensa noticiou


que as guerras podem possuir as mais que a Argentina voltou a avocar a sobera-
variadas motivações, desde econômicas, nia das Ilhas Falkland, sob o pretexto de
busca de poder, vaidade dos líderes, orgu- que ainda existiam “questões coloniais”
lho ou até políticas. Não se pode admitir mal resolvidas em pleno século XXI. Essa
que somente motivações, por exemplo, de iniciativa tem criado constrangimentos di-
cunho nacionalista ou puramente questões plomáticos entre os dois países. Tal atitude
territoriais possam vir a ser o estopim de pode, se não for corretamente gerenciada
conflitos. Interesses materiais e tangíveis no plano diplomático, escalar e até mesmo
de uma nação podem fomentar ou ser fo- conduzir a um possível recrudescimento de
mentados por meio da guerra. conflito que foi encerrado em 1982. Nesse
Na visão de alguns autores, a guerra sentido, cabe mencionar que nesse processo
exerce um papel fundamental para o de- estão presentes sentimentos nacionalistas
senvolvimento da humanidade, uma vez de perda do lado argentino. Entretanto, o
que contribui para o progresso, em lugar que dizer da exploração pelo Reino Uni-
de prejudicá-lo. A do (RU) das recentes
própria Atenas as- descobertas de hidro-
cendeu ao tope da sua Na visão de alguns autores, carbonetos na área das
civilização não so- a guerra exerce um Ilhas? Essa questão de
mente pelas guerras, cunho econômico não
mas devido a elas. Já papel fundamental para é recente, na medida
no que tange à Ale- o desenvolvimento da em que o RU já estu-
manha, é dito que os
preparativos para as
humanidade, uma vez que dava aquela área desde
a crise do petróleo de
guerras não foram um contribui para o progresso, 1970 e sabia que o
desastre econômico, em lugar de prejudicá-lo óleo daquela região
mas sim impulsiona- era de boa qualidade,
dores da economia.8 aliado ao fato de que a
Em outras palavras, questões de cunho Argentina também tem conhecimento dessa
econômico podem ser, ainda que veladas, informação. Fica o questionamento: será
as causas mais profundas de uma guerra. Os que esse aspecto econômico foi levado em
decisores podem considerar a possibilida- conta por ocasião da “invasão” das Ilhas
de, por exemplo, de se deflagrar uma guerra pela Argentina em 1982? Estaria o RU
quando um Estado que está em uma situa- protelando a “devolução” da soberania à
ção confortável em termos de economia se Argentina por conta dessas reservas de
sente pressionado por aquele “aventureiro” hidrocarbonetos? Esse pode ser um exem-
que se “atreve” a crescer, tornando-se uma plo de questões econômicas “veladas” que
ameaça. Essas situações foram observadas podem ser a motivação de guerras ou do
ao longo da história, sendo relevante men- recrudescimento delas.
cionar que, de alguma forma, ocorreram Entretanto, existem correntes que
transformações no plano econômico no apregoam que os verdadeiros motivos que
interregno desses conflitos (por exemplo, impelem as nações à guerra não são ex-
Peloponeso e Grande Guerra). clusivamente de cunho econômico. Estão

8 ANGELL, 2002, p. 140.

RMB1oT/2017 75
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?

presentes as causas naturais da guerra, ou sob o enfoque também das questões que são
ainda aquelas que são “estranhas ao influxo inerentes ao ser humano e não somente da
da razão”, podendo-se citar a vaidade; o comparação de poderes combatentes.
espírito de competição; o desejo de sobres- O General Homer Lea (1876-1912)
sair, de ocupar uma posição influente e de afirma “não só que a guerra é inevitável,
ostentar poder e prestígio; um impulso de mas que qualquer esforço sistemático
ira; o desejo de dominar um rival a qualquer para aboli-la atenta, inutilmente, contra as
preço, entre outros. E, de modo geral, o fato leis universais”. O General John J. Storey
de que tanto os seres humanos como as na- (1869-1921) assevera que alguns idealistas
ções sempre se digladiaram e continuarão sustentam o seu ponto de vista afirmando
a fazê-lo porque “esta é a sua natureza”9. que, com o avanço da civilização, a guerra
Para ilustrar este ponto cabe a seguinte não mais existirá. Entretanto, ressaltam
reflexão: Realmente existiam armas de que “a civilização não mudou a natureza
destruição em massa no Iraque? Ou seria humana. É a natureza humana que torna
o perfil excessiva- a guerra inevitável.
mente “explosivo”, A luta armada não
combinado com as “Não só que a guerra desaparecerá da terra
causas acima cita- é inevitável, mas que enquanto a natureza
das, do ex-presidente humana não mudar”.10
“texano” George W. qualquer esforço Os idealistas pare-
Bush que contribuiu sistemático para aboli-la cem se equivocar ao
para se levar a cabo a
II Guerra do Iraque?
atenta, inutilmente, contra declarar que as múl-
tiplas transformações
Enfim, constata-se as leis universais” nas mais variadas áreas
que a presença de General Homer Lea (por exemplo, sociais,
um ser humano no econômicas e na po-
complexo processo lítica internacional)
decisório da guerra pode vir a ser o motivo poderiam tornar as guerras evitáveis. Re-
de sua inevitabilidade. almente, tais mudanças podem ser mais um
Dessa forma, as ditas causas naturais elemento que contribuirá para a montagem
apontam para que não se trate o fenômeno do mosaico da guerra. Entretanto, olvidam-
da guerra como um simples modelo carte- -se do fato que alterações nas culturas,
siano de escolhas. Quando existe a presença nos valores e na natureza humana têm um
do ser humano não podemos implementar tempo de maturação bem maior do que as
um modelo simplório que toma como base demais alterações. Os indivíduos sempre
a capacidade cognitiva da razão, mas que terão interesses, vaidades, vontades, espíri-
não parece ser adequado à compreensão da to competitivo, orgulho etc., que moldarão
realidade como um todo. Há que se levar suas atitudes.
em conta todos aqueles fatores psicológicos Para ilustrar esse ponto, relembra-se a
e sociológicos envolvidos na guerra, con- Guerra do Peloponeso. Naquela ocasião, o
forme já abordado. Quando se está diante dilema de segurança fez com que a guerra
do tabuleiro de xadrez que é a guerra, o fosse altamente provável (o que é diferente
cálculo dos movimentos deve ser estudado de inevitável), mas as decisões humanas
9 Ibidem, p. 135.
10 Ibidem, p. 139-140.

76 RMB1oT/2017
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?

foram bastante importantes naquele mo- por si só acabam por justificar uma guerra
mento, relevando mencionar que o acaso ou torná-la inevitável.
e as personalidades dos líderes tiveram O conflito, tanto entre as nações (que
importância elevada nas decisões11. Nesse são as guerras) como entre os demais
ponto, mais uma vez o “fator humano” organismos, pode ser considerado uma
prescindiu a razão e alterou o rumo da his- “condição de vida e de sobrevivência”.
tória, na medida em que, se fosse adotada E essa lei biológica que é inerente ao ser
uma postura pragmática e livre de emoções, humano acaba por vedar a humanidade de
o referido conflito poderia ter sido evitado. obedecer à máxima de oferecer ao inimigo
No tocante à Primeira Guerra Mundial, o a outra face, fazendo com que essa afirma-
livro de Churchil retrata bem esse ponto ao ção não seja aceita pela natureza humana.
afirmar que as nações estavam insatisfeitas Assim surge a disposição para o conflito,
com a prosperidade material e se voltaram que deve perdurar enquanto subsista a
para a guerra. Mas, naquela ocasião, “os nossa espécie13.
homens é que estavam desejosos por ar- Mas, enfim, são as guerras inevitáveis
riscar”12. à luz das transforma-
Na verdade, na- ções que o mundo
quele período impe- São as guerras inevitáveis sofre constantemente
rava a crença de que à luz das transformações em todas as esferas?
os Estados estariam Antes de buscar essa
prontos a agir no sen-
que o mundo sofre resposta, há que se
tido de resolver os constantemente em procurar entender as
problemas da Europa todas as esferas? lições que o passado
tão-somente com o nos proporciona, de
uso da força. Essa modo a antever pos-
ideia estava na mente dos homens (líderes) síveis situações que possam evoluir para
que se achavam “indestrutíveis”, e não conflitos. Os conflitos existem desde o
houve a possibilidade de se buscar uma início dos tempos e continuarão a existir
solução pacífica para as questões que se enquanto a civilização estiver presente no
avizinhavam. mundo. Logo, as atenções e os esforços de-
Os conflitos são de caráter universal vem ser dirigidos para encontrar formas de
e existem desde que o homem é homem, extingui-los, diminui-los ou, pelo menos,
mas atualmente pode-se inferir que os controlá-los, a fim de reduzir os efeitos
Estados envolvem-se em conflitos por nocivos decorrentes.
conta do antagonismo de ideias ou quanto
à interpretação de um direito violado. E CONSIDERAÇÕES FINAIS
é essa dissonância de interpretação que
acaba por fazer aflorar os sentimentos da Com base na literatura pesquisada, tem-
natureza humana que desencadeiam os -se que os conflitos são de caráter universal
conflitos (por exemplo, vaidade, orgulho e emergem no seio da sociedade, sendo algo
da sua posição, rivalidade e necessidade de inerente a esta, e podem assumir um papel
grandeza, entre outros). Esses sentimentos de estabilizador nas relações. Os conflitos

11 NYE, 2002, p.22.


12 Ibidem, p. 98.
13 ANGELL, 2002, p.143.

RMB1oT/2017 77
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?

tendem a surgir como anseios subjetivos o andamento da guerra; e, na Primeira


de grupos e pessoas, de modo a buscar o Guerra Mundial, em que pese haver alter-
atingimento de suas pretensões ou a reivin- nativas, “os homens estavam desejosos por
dicação de direitos. arriscar”. Relevante mencionar também o
No escopo deste trabalho, foi utilizado espaço decorrido entre essas duas guerras
o conceito de guerra que significa um tipo e que nesse período, certamente, ocorreram
de conflito no seu grau máximo de violên- transformações econômicas, sociais e na PI.
cia, podendo implicar À luz do pensamen-
mobilização do Po- to acadêmico exposto
der Nacional. Como Os conflitos existem desde no presente trabalho,
a estrutura mundial os primórdios da civilização infere-se que questões
guarda uma seme- econômicas premen-
lhança com o sistema e continuarão a existir tes e causas naturais
anárquico de Estados enquanto a natureza da guerra que são es-
proposto por Hobbes,
a polemologia, que
humana estiver presente tranhas ao influxo da
razão (e.g. vaidade,
estuda o fenômeno da no mundo. Assim, todos orgulho, brio, neces-
guerra, pode oferecer os esforços devem ser sidade de poder, entre
ferramentas valiosas outras) são variáveis
para que as decisões direcionados na incessante que conduzem ao ra-
futuras possam ser busca de formas de ciocínio de que, mes-
mais bem avaliadas.
Questões de cunho
extingui-los, diminui-los mo ocorrendo múlti-
plas transformações
econômico podem fo- ou, pelo menos, controlá- sociais, econômicas e
mentar um conflito los, a fim de minimizar os na PI no cenário mun-
e torná-lo inevitável, dial, permanece válida
pois os líderes podem eventuais efeitos danosos à a afirmação de que a
enxergar uma even- sociedade civilização ainda não
tual “oportunidade de alterou a natureza hu-
negócios” na guerra. mana, e os motivos
Da análise dos pontos de vista abordados denominados muitas vezes de irracionais
no presente trabalho, aduz-se que os confli- acabam por justificar uma guerra ou torná-
tos possuem um elemento que exerce uma -la inevitável.
influência grande no processo da guerra, Por fim, observa-se que os conflitos
qual seja, o ser humano. Suas caracterís- existem desde os primórdios da civilização
ticas intrínsecas acabam por introduzir e continuarão a existir enquanto a natureza
um ingrediente que pode ser incontrolável humana estiver presente no mundo. Assim,
nesse processo. Alguns exemplos históri- todos os esforços devem ser direcionados
cos de guerras que não seriam inevitáveis na incessante busca de formas de extingui-
acabam por enriquecer tal afirmação: no -los, diminui-los ou, pelo menos, controlá-
Peloponeso, as “decisões humanas” e “as -los, a fim de minimizar os eventuais efeitos
personalidades dos líderes” influenciaram danosos à sociedade.

78 RMB1oT/2017
CONFLITOS SÃO INEVITÁVEIS?

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<GUERRAS>; Conflito;

REFERÊNCIAS

ANGELL, Norman. A Grande Ilusão, São Paulo: UnB, 2002.


BALTAZAR, Maria da Saudade. “(Re)Pensar a Sociologia dos Conflitos: a disputa paradigmática
entre a Paz Negativa e/ou a Paz Positiva”. Revista Nação e Defesa, no 116, Instituto da Defesa
Nacional, Lisboa. 2007. Disponível em <[Link]
textointegral/[Link]>. Acesso em 27 de fevereiro de 2016.
BONANATE, Luigi. A Guerra. São Paulo: Estação Liberdade, 2001.
BOUTHOUL. Gaston. Tratado de Polemologia. Madrid: Ediciones Ejército, 1984.
BRASIL. Ministério da Defesa. Portaria Normativa nº 113/SPEAI/MD. Doutrina Militar de Defesa.
Brasília, 2007.
FRANÇA, Júnia Lessa; VASCONCELLOS, Ana Cristina de. Manual para Normalização de Publi-
cações Técnico-Científicas. 7o. ed. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2004.
FREUND, Julien. Sociología del conflicto. Madrid: Ediciones Ejército, 1995.
MOREIRA, Rene. “ ‘Papel de juiz é o de resolver conflitos e não de criar’, diz ministro do STF”. O
Estado de S. Paulo, São Paulo, 18 mar. 2016. Disponível em < [Link]
noticias/geral,ministro-do-stf-alfineta-sergio-moro-no-interior-de-sp>. Acesso em 18 mar. 2016.
NYE JUNIOR, Joseph S. Compreender os conflitos internacionais: uma introdução à teoria e à história.
3. ed. Lisboa: Gradiva, 2002. 304 p. ISBN 9726628458.
WRIGHT, Quincy. A Guerra. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército,

RMB1oT/2017 79
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO
PODER NAVAL*

MARCUS VINICIUS DE CASTRO LOUREIRO**


Capitão de Mar e Guerra

SUMÁRIO

Introdução
O setor cibernético
Setor militar naval
Identificação de vulnerabilidades
A proteção
Considerações finais

INTRODUÇÃO cibernéticos. A constante evolução tecno-


lógica nos equipamentos militares, nem

N ão se pode ignorar que a nossa


crescente dependência de sistemas,
equipamentos e serviços conectados a uma
sempre acompanhada do nível de segurança
cibernética necessária, permite inferir que a
ação de um único hacker pode ser decisiva
rede tem aumentado a nossa exposição e para burlar e/ou abalar as defesas de um
consequente risco aos incidentes e ataques adversário. Em virtude disso, as grandes

*N.R.: 1o colocado no Concurso da Revista Passadiço de 2016.


** Adjunto do Estado-Maior Conjunto do Comando de Defesa Cibernética – Comando do 7o Distrito Naval.
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL

potências militares e, também, países firewall, ou a instalação de um antivírus


com dificuldades para manter os custos de nos computadores. É necessário reforçar
Forças Armadas convencionais estão se as capacidades de segurança cibernética
aprofundando na guerra cibernética. com foco na gestão de riscos e analisar,
As forças navais não se encontram conjuntamente, as vulnerabilidades de to-
alheias a este cenário, pois a proteção dos os sistemas controlados e monitorados
contra ataques maliciosos aos sistemas por softwares.
computadorizados, a
bordo dos navios, está O SETOR
atingindo o topo da É necessário reforçar as CIBERNÉTICO
agenda das principais capacidades de segurança
Marinhas do mundo. A conectividade
Renomados exer- cibernética com foco na global, a existência de
cícios combinados, gestão de riscos e analisar vulnerabilidades e o
como o Joint War- anonimato são caracte-
rior, já contemplam
as vulnerabilidades de todos rísticas que favorecem
a ameaça e execução os sistemas controlados e a utilização do espaço
de ações cibernéticas. monitorados por softwares cibernético. É um setor
Os desafios, atu- que cresce em com-
almente, estão em plexidade e em que se
aprimorar a doutrina de defesa cibernética, observa, ainda, um déficit de conhecimento
encontrar a melhor estratégia para a capa- especializado. É quase uma regra esperar
citação dos recursos humanos frente a esta que a atividade dos hackers supere a tec-
nova ameaça, e a mitigação dos riscos, nologia de prevenção.
já que a evolução desses sistemas torna Os ataques cibernéticos, cada vez mais
imperativo que os ativos de informação1, sofisticados, vêm sendo considerados uma
a bordo dos navios, estejam seguros contra ameaça emergente em face de serem uma
todas as formas de incidentes cibernéticos. alternativa de baixo custo e não necessi-
Entretanto, a ação de proteção passa por tarem de logística (recursos tecnológicos
um conjunto complexo de questões, e complexos). As motivações dos ataques
não apenas sobre o funcionamento de um são imprecisas e variam entre ganho pes-

1 Ativos de informação – meios de armazenamento, transmissão e processamento de dados e informação, os equi-


pamentos necessários a isso, os sistemas utilizados para tal, os sistemas de informação de um modo geral,
bem como os locais onde se encontram esses meios e as pessoas que a eles têm acesso.

RMB1oT/2017 81
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL

soal, cunho político, roubo de informações, dade fornece às Marinhas plataformas e


hacktivismo2, sabotagem, negação ou de- sistemas de armas com precisão, agilidade
gradação do acesso ao espaço cibernético e velocidade sem precedentes, também
e o mapeamento das redes. abre vários vetores de ataque para os ha-
Ressalta-se, ainda, que os impactos ckers. O sistema de arma dos Tomahawk,
sobre o pessoal militar e a população civil, por exemplo, utiliza o espaço cibernético
hoje, influem de forma crucial nos plane- para receber dados em voo dos centros de
jamentos, nas decisões e no andamento dos comando operacionais.
conflitos. Essa perspectiva leva a se vis- Fruto disso, a preocupação com a ame-
lumbrar a priorização da ação cibernética, aça cibernética só aumenta, a ponto do
quando comparada à incremento do nível de
cinética3. De acordo proteção dos sistemas
com Richard Clarke Os ataques cibernéticos computadorizados e
(2010), “o espaço ci- representam uma ameaça automatizados tornar-
bernético é vital para -se foco na constru-
os conflitos atuais e
tão grande quanto os ção naval dos navios
para a vantagem mi- mísseis e os torpedos militares. Para o es-
litar futura”. pecialista em defesa
Ben Farmer (2015),
SETOR MILITAR NAVAL os ataques cibernéticos representam uma
ameaça tão grande quanto os mísseis e os
As Marinhas necessitam de acesso e uso torpedos. Novos navios, como o Litoral
irrestrito do seu espaço cibernético de inte- Combat Ship, da Marinha dos Estados
resse (por ex: segurança nas comunicações, Unidos da América (US Navy), e o futuro
manutenção do C2, aquisição de informa- Type-26 (Global Combat Ship), da Marinha
ções de inteligência) para bem executar as do Reino Unido (RN), já foram projetados
suas tarefas militares. com proteção cibernética integrada para os
Cabe destacar que os sistemas empre- seus equipamentos e sistemas.
gados nos novos navios vêm se tornando Os navios mais antigos, em que a
cada vez mais dependentes de uma rede preocupação com sistemas e softwares é
de computadores. Enquanto a conectivi- menor e nem sempre é fácil substituir sis-

2 Hacktivismo – Junção de hacking com o ativismo político (bloqueios virtuais, bombardeios de e-mail, invasões
de computadores e do uso de vírus e worms, para infectar redes computacionais).
3 Cinética – envolve equipamentos, armamento e/ou forças militares.

82 RMB1oT/2017
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL

dos sistemas de rastre-


amento e embarcações
não existentes apare-
cessem, bem como sur-
gissem falsos alertas
de socorro, colisão e
informações alteradas
do curso dos navios;
b) interceptações
nas comunicações via
Inmarsat (telecomu-
nicações via satélite),
a ponto de a empresa
Trustwave, braço de
segurança cibernética
da Singtel (Singapore
Telecommunications
Limited), ter sido con-
tratada para fornecer o
serviço UTM (Unified
Threat Management
− firewall avançado,
antivírus, prevenção
temas antiquados, ou já sem atualizações de intrusão e filtros web, com suporte
pelos fabricantes, também demandam global 24 horas), baseado em software e
significativa atenção. Essas características integrado com o hardware da Inmarsat a
os convertem nos alvos mais frágeis para bordo de navios, para proteger os dados e
ações dos hackers. reduzir o risco cibernético de companhias
da Marinha Mercante;
IDENTIFICAÇÃO DE c) alterações em informações de satéli-
VULNERABILIDADES tes, do GPS (Global Positioning System)
e do ECDIS (Electronic Chart Display
Dentre as possibilidades das ações ci- and Information System), sendo possível
bernéticas sobre os meios do Poder Naval, a modificação de rota dos navios. Em de-
encontram-se: corrência, afirma Mollman (2015), algumas
a) alterações no AIS (Automatic Identifi- academias de formação militar naval estão
cation System), sistema de monitoração de recrudescendo e enfatizando o ensino da
curto alcance utilizado em navios e Servi- navegação astronômica e a navegação pelo
ços de Tráfego de Embarcações. Segundo sistema Loran4;
Bartlett (2015), testes já foram efetuados d) comprometimento da malha de redes
no sistema AIS e fizeram, por exemplo, de comunicação, seja de voz, dados ou ví-
com que navios inteiros desaparecessem deo, que trazem consigo vulnerabilidades

4 Loran – sistema terrestre de radionavegação, baseado na utilização de emissões coordenadas de impulsos ra-
dioelétricos de ondas MF e LF.

RMB1oT/2017 83
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL

que podem ser exploradas por um inimigo A US Navy está desenvolvendo o sis-
ou oponente, que pode atacar as redes tema Rhimes (Resilient Hull, Mechanical,
de comando e controle de uma imensa and Electrical Security). Trata-se de um sis-
variedade de sistemas militares, buscando tema de proteção cibernética projetado para
a desestabilização ou a degradação da ca- tornar seus sistemas de controle mecânicos
pacidade militar; e elétricos (controle de danos/combate a in-
e) afetar os sistemas mecânicos, como cêndios, máquinas de suspender e fundear,
os de energia e de controle de propulsão. geração de energia, hidráulicas, máquina do
Um navio poderia perder o controle sobre leme e controle da propulsão) resistentes a
a alimentação dos equipamentos, encalhar, ataques cibernéticos. O Rhimes se baseia
mudar de direção etc.; e em técnicas avançadas de resiliência ciber-
f) comprometimento dos sistemas de nética para se defender desses ataques. A
combate. A perda ou a degradação do poder maioria dos controladores físicos possui
combatente. Um radar, hoje, é uma porta aber- backups redundantes (cópias de segurança)
ta em um computador. A mesma frequência que permitem que o sistema permaneça
poderia ser utilizada para transmitir um operacional em caso de falha.
pacote de dados de volta ao computador e Em caráter geral, a mitigação de riscos
alterar o funcionamento do sistema de de- de um ataque cibernético, no mínimo,
fesa antiaérea, por exemplo. Especialistas deve identificar as ameaças, elaborar um
militares da Airforce-Technology (2008) e programa de conscientização da tripulação
o escritor Richard Clarke (2010) garantem e desenvolver padrões e diretrizes a fim de
que o sistema de ataque cibernético dos resolver as questões de segurança ciber-
EUA, chamado de Senior Suter, possui esta nética. O caminho passa pelo incremento
capacidade. Afirmam que essa tecnologia, de inspeções para minimizar falhas, im-
inicialmente testada pelos EUA nas guerras plementar controle de acesso de usuários
do Iraque e do Afeganistão, foi utilizada por e soluções de segurança adequadas para
Israel num ataque sobre uma instalação de os sistemas de bordo, instituir planos de
armas nucleares na Síria, em 2007. contingência e também estar preparado
para gerenciar incidentes que possam vir
A PROTEÇÃO a acontecer. Além disso, é preciso manter
os sistemas atualizados e aperfeiçoados
Os países com maior tradição e cultura ao longo de toda sua vida útil e trocar
de defesa já sinalizam medidas para reduzir informações com o setor privado (for-
as vulnerabilidades e os riscos neste impor- necedores), para o desenvolvimento de
tante flanco estratégico. melhores práticas.

84 RMB1oT/2017
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL

CONSIDERAÇÕES FINAIS recuperação e resposta diante dessa nova


ameaça no ambiente marítimo.
No âmbito da cibernética, quanto A proteção dos navios passa pela ela-
maior o grau tecnológico e a dependência boração de ações de conscientização e
da interconexão por redes de comunica- sensibilização neste domínio específico,
ção de dados, maior será a vulnerabilida- bem como por ações preventivas e redução
de dos equipamentos das vulnerabilidades, a
e sistemas. Os ata- fim de garantir que os
ques estão cada vez Sob o ponto de vista ativos de comunicação
mais sofisticados, e doutrinário, pode-se e informação existen-
nota-se o crescimen- tes a bordo possuam a
to no universo de
dizer que as operações adequada segurança e
atores e alvos. das Marinhas no espaço resiliência cibernética5.
A preparação para cibernético enfrentam hoje Em médio prazo, todas
garantir a utilização as Marinhas necessi-
com segurança do os desafios típicos de outras tarão ser capazes de
espaço cibernético disciplinas emergentes na mitigar o impacto dos
pelas forças navais
trata-se de uma ten-
História, tais como foram ataques por ações de
proteção e, se neces-
dência mundial. É a Guerra Antiaérea e a sário, de defesa ativa.
imperativo organizar Guerra Antissubmarino Sob o ponto de vista
e treinar equipes de doutrinário, pode-se
profissionais em de- dizer que as operações
fesa cibernética para êxito contra os pos- das Marinhas no espaço cibernético en-
síveis adversários no espaço cibernético, frentam hoje os desafios típicos de outras
e que se desenvolvam ações destinadas disciplinas emergentes na História, tais
a aumentar as capacidades de prevenção, como foram a Guerra Antiaérea e a Guerra
defesa, detecção, exploração, análise, Antissubmarino.

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<GUERRAS>; Guerra cibernética;

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Acesso em 10 abr. 2016.

5 Resiliência Cibernética – capacidade de manter as infraestruturas críticas de tecnologia da informação e comu-


nicações operando em condições de ataque cibernético ou de restabelecê-las após uma ação adversa.

RMB1oT/2017 85
ATAQUES CIBERNÉTICOS: AMEAÇAS REAIS AO PODER NAVAL

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86 RMB1oT/2017
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL*

JOSÉ AUGUSTO ABREU DE MOURA**


Capitão de Mar e Guerra (Refo)

SUMÁRIO

Introdução
O despreparo e suas consequências
O Brasil na Guerra Fria
As alterações globais
As alterações no Brasil
A situação atual
As prioridades
Conclusão

INTRODUÇÃO mobilização popular – a Guerra da Tríplice


Aliança (1864-1870). Depois dele, temos
A Defesa Nacional é assunto de baixa vivido este invejável período em harmonia
prioridade no Brasil, fato evidenciado mais com os vizinhos.
uma vez nas eleições presidenciais de 2014, Esses aspectos provocaram crenças
pela falta de qualquer menção relevante a que até hoje (fevereiro/2017) permeiam o
respeito nas campanhas. imaginário nacional, como:
É bem verdade que já faz 146 anos des- –­não há demandas críticas de Defesa
de o último conflito em que houve grande que superem as graves demandas socio-

* Publicado na Revista da Escola de Guerra Naval (EGN) em 2015 e revisto pelo autor em fevereiro de 2017.
* Comandou o CT Pernambuco. Instrutor de Centro de Jogos de Guerra da EGN. Professor do Programa de Pós-
-Graduação em Estudos Marítimos da EGN. Doutor em Ciência Política.
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

econômicas do País – opinião expressa Unidos da América (EUA), dada a preca-


até mesmo por uma autoridade militar há riedade das capacidades nacionais, numa
alguns anos (FLORES, 2002, 79); e condição benevolamente tratada como
–­guerra só seria possível com os vizinhos aliança, o que por si só já é uma situação
– é comum a frase: “Porque alguém de fora desgastante. O contexto, porém, envolveu
viria aqui nos incomodar?”. Por essa crença, se outras questões sensíveis para líderes e
vivemos em harmonia e se temos superiorida- marinheiros brasileiros.
de regional, ainda que pequena, não temos por Esses fatos devem ser lembrados com o
que nos preocupar; além do mais, resolvemos propósito de evitar situações semelhantes
todos os problemas de fronteiras até o início no futuro – em especial em tempos de
do século XX. crise econômica como
Sobre esta última a atual, recordando o
afirmação, poucos O País era constituído que muito justamente
evocam hoje que o por “arquipélagos o ministro da Defesa
momento histórico fez constar do Livro
imediatamente ante- populacionais” ao longo da Branco da Defesa Na-
rior à Segunda Guerra costa, carentes de ligações cional (LBDN): “...
Mundial talvez tenha
constituído o ápice da
terrestres entre eles; havia defesa não é delegável
e devemos estar prepa-
descrença em amea- que proteger os navios rados para combater
ças extrarregionais mercantes nacionais qualquer agressão”
entre as elites nacio- (Brasil, 2012b, 8).
nais, o que, aliado a
fatores econômicos e de política interna, O DESPREPARO E SUAS
conduziu ao grande despreparo do País CONSEQUÊNCIAS
quando “alguém de fora veio aqui nos
incomodar”, sob a forma de submarinos Os anos 1930 foram pródigos em difi-
alemães e italianos afundando mercantes culdades econômicas típicas de uma eco-
brasileiros em nosso litoral. nomia agroexportadora, dramaticamente
Com a guerra, aguçava-se o problema aumentadas pela quebra da bolsa de Nova
de manter o abastecimento das grandes Iorque em 1929, o que nos levou duas
cidades – então realizado primordialmente vezes à moratória da dívida externa, em
pelo transporte marítimo, pois o País era 1932 e 1937. Esses problemas estenderam
constituído por “arquipélagos popula- aos maiores centros urbanos o ciclo de
cionais” ao longo da costa, carentes de convulsões da década anterior: a Revolu-
ligações terrestres entre eles; havia que ção de 1930, cuja vitória trouxe alterações
proteger os navios mercantes nacionais fundamentais nas instituições nacionais; a
contra as unidades da força submarina da Revolução Constitucionalista de São Paulo
Alemanha, provavelmente a melhor do (1932), praticamente uma guerra civil; a
mundo na época; e dar resposta à agressão Intentona Comunista de 1935 e o putsch
sofrida, como o clamor popular – que então integralista de 1938, estas duas últimas
apareceu – passou a exigir (Pereira, 2015, devidas também à influência das ideologias
141-181, 135-136). comunista, fascista e nazista, que mobili-
Tais necessidades custaram ao Brasil a zavam boa parte da elite pensante do País
dependência total em relação aos Estados (Pereira, 2015, 18-19).

88 RMB1oT/2017
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

Nessas condições, não é difícil supor por de 1939 ocorrera a batalha naval do Rio
que a Marinha do Brasil (MB), no início dos da Prata, na costa do Uruguai, envolvendo
anos 1940, estava longe de ser a força po- navios ingleses e o encouraçado de bolso
derosa do início do século XX, construída alemão Graff Spee. Em consequência,
com os recursos do auge da exportação de realizou-se a conferência de julho de 1940
borracha e sob os auspícios do Barão do Rio em Havana, em que os chanceleres e re-
Branco, que convencera o poder político presentantes americanos declararam a neu-
das vantagens de uma boa esquadra para a tralidade das Américas, e foi estabelecida
política externa (Pereira, 2015, 128). uma zona de segurança marítima em torno
Alguns desses navios ainda estavam do continente para a proteção da navega-
em atividade, mas não ção costeira contra as
eram apropriados para possíveis extensões da
as operações antissub- O real envolvimento guerra que se travava
marino, como então se brasileiro ocorreu em na Europa (Pereira,
necessitava, por não 2015, 62).
terem sido para isso janeiro de 1942, quando No início de 1941,
especificados. Além foram rompidas as relações começaram a ser rea-
disso, estavam em lizadas, nessa zona de
péssimo estado por
diplomáticas com os segurança, as “patru-
não terem recebido a países do Eixo, seguindo- lhas da neutralidade”
necessária manuten- se o torpedeamento de por uma força-tarefa
ção devido à constante da Marinha norte-
falta de recursos entre mercantes nacionais -americana 1 que, a
os dois momentos, culminando, em agosto, partir de maio, passou
o que também era a
causa das reduzidís-
com os cinco afundamentos adefrequentar o porto
Recife, o qual se
simas e inadequadas próximos à costa da Bahia e tornou sua base naval
dotações de munições de Sergipe em outubro (United
então disponíveis (Pe- States, 2015 “Chrono-
reira, 2015, 128-134). logy”, iii).
A MB até tentara se reequipar – entre O real envolvimento brasileiro ocorreu
algumas outras tentativas, houvera um com o rápido crescimento das tensões a
“plano naval” elaborado em 1932 e imple- partir de janeiro de 1942, quando foram
mentado apenas em diminuta parte nos dez rompidas as relações diplomáticas com os
anos seguintes também pela notória falta países do Eixo, seguindo-se o torpedeamen-
de recursos, mas com foco exclusivamente to de mercantes nacionais por submarinos
regional – visando reduzir a inferioridade alemães e italianos, culminando, em agosto,
diante dos poderes navais do Chile e da com os cinco afundamentos próximos à
Argentina (Vidigal, 1982, 93-97). costa da Bahia e de Sergipe, fato que pro-
Alguns fatos indicavam que as hostilida- vocou violentas manifestações populares
des se aproximavam do País. Em dezembro contra alemães, italianos e japoneses e a

1 Os EUA também eram neutros, e assim permaneceram até o ataque japonês à base naval de Pearl Harbour, em 7
de dezembro de 1941, tendo declarado guerra ao Japão no dia seguinte e no dia 11 do mesmo mês à Alemanha
e à Itália, que declararam guerra, nesse mesmo dia, aos EUA.

RMB1oT/2017 89
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

declaração de guerra contra Alemanha e a Força Naval do Nordeste (FNN), não


a Itália2 (United States, 2015, “Narrative autorizando o comando da força norte-
Outline”, 11). -americana a “controlar a administração e
Nessas condições, o despreparo nacio- a disciplina das forças brasileiras”.
nal custou ao País medidas amargas, mas Com isso, o almirante norte-americano
inevitáveis: tornou-se o comandante de todas as forças
- em 22 de abril de 1942, após o afun- que operavam contra o Eixo no Atlântico
damento de mais um navio pelos alemães, Sul (United States, 2015, “Narrative Outli-
o Presidente Vargas determinou a cessação ne”, 13; Pereira, 2015, 229-232).
de todas as viagens de mercantes brasilei- Os fatos acima demonstram que o poder
ros (que se dirigiam principalmente aos político, simplesmente, não podia contar
EUA, levando materiais estratégicos). com o poder naval nacional na dura con-
Após isso, articulou um encontro seu com juntura com que se defrontava, fato que
o comandante da força naval que fazia as só tem paralelo durante a consolidação
patrulhas da neutralidade (Vice-Almirante da Independência (1822-1824), quando
Jonas Howard Ingram) e lhe propôs assumir Cochrane e seus oficiais foram contratados
a responsabilidade para formar a Marinha
pela navegação bra- brasileira, prestes a se
sileira se ela fosse O Presidente Vargas defrontar com a arma-
reiniciada, recebendo da da metrópole.
resposta afirmativa,
ofereceu – e a Marinha O Brasil permitiu
com a ressalva de que Americana aceitou aos norte-americanos
não poderia garantir – completo controle a implantação de bases
o êxito total (Pereira, navais, aéreas e outras
2015, p. 64; United operacional sobre todas as estruturas em vários
States, 2015 “Win- forças de defesa do Brasil pontos do Nordeste,
ning over President destacando-se que a
Vargas”, 48-50); base aérea de Natal foi
- em 12 de setembro de 1942, a MB foi decisiva para a vitória aliada e que, após o
colocada sob o comando do Almirante In- conflito, todas as instalações foram devol-
gram por ordem do Presidente, via ministro vidas às forças brasileiras.
da Marinha. (United States, 2015, “Narra- Durante a guerra, a MB recebeu 24
tive Outline”, 13; Pereira, 2015, 231§2); e navios de escolta dos EUA. O Almirante
- em 28 de setembro de 1942, o Pre- Ingram revelou-se um ótimo interlocutor
sidente do Brasil ofereceu ao Almirante entre as autoridades brasileiras e as norte-
Ingram – e ele aceitou – completo controle -americanas; assessorou informalmente o
operacional sobre todas as forças de defesa Presidente do Brasil; organizou a defesa
do Brasil –, acordo que chocou o secretário do País, dividindo as forças disponíveis
da Marinha norte-americana, Frank Knox, em forças-tarefa, e chegou a fornecer ma-
presente ao encontro, no Rio. A formaliza- terial e munição de suas forças para a FNN
ção desse entendimento, contudo, reduziu (bombas de profundidade e calhas para seu
tal amplitude às forças efetivamente en- lançamento) (Pereira, 2015, 65, 131, 234,
volvidas em operações de guerra, como 243, 246, 291).

2 A guerra contra o Japão só seria declarada em 6 de junho de 1945.

90 RMB1oT/2017
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

A MB partiu do zero e, com essas imensa força de submarinos procuraria


operações, atingiu considerável eficiência interromper o comércio ocidental.
(United States, 2015, “Liaison, American- Esse papel coincidia com a expertise da
-Brazilian-British”, 72,73), tornando-se MB, resultante das ações naquele conflito,
assim a principal Marinha sul-americana, e servia para exorcizar o trauma dele resul-
pela disponibilidade de material atua- tante, numa época em que a manutenção
lizado e experiência prática recente na ininterrupta da navegação marítima conti-
guerra naval (Alves, 2005, 11§3), ainda nuava sendo uma necessidade vital do País,
que apenas em guerra antissubmarino e por incluir o abastecimento de petróleo.
no nível tático. Em meados dos anos 1960, porém, as
Cumpria-se assim, mais um dos “ciclos duas superpotências rivais atingiram o
dos 40 anos” de expansão moderada e enco- equilíbrio estratégico e passaram a pra-
lhimento que perseguem a MB desde o século ticar uma política de congelamento da
XIX (Pesce, 2013, 438), sendo que a nova partilha do poder mundial para preservar a
expansão então iniciada resultou da pressão distribuição da segurança e da riqueza, si-
dos acontecimentos, tuação que se traduzia
sem que a escolha dos em restrições a seus
meios houvesse obede- O governo deu a subordinados para a
cido a prioridades ou máxima prioridade ao obtenção de tecnolo-
considerações prévias gias sensíveis (princi-
das autoridades brasi- desenvolvimento, para palmente a nuclear),
leiras, voltadas, antes tanto orientando a política que tivessem potencial
do conflito, exclusiva-
mente para os contextos
externa a buscar o interesse para arranhar a bipola-
ridade – a lógica que
regional e interno. nacional, a despeito do produziu o Tratado de
conflito Leste-Oeste Não-Proliferação Nu-
O BRASIL NA clear (TNP), em 1968
GUERRA FRIA (Cervo, 2008, p. 132).
Na época, o Presidente Costa e Silva
Credite-se também ao despreparo acima (1967-1969) considerava tais tecnologias
exposto a situação de dependência logística necessárias ao progresso e rechaçou o con-
e doutrinária em relação aos EUA, que ceito de segurança coletiva que orientava
perdurou por algumas décadas, eufemisti- a política de segurança do País, também
camente reduzida para militares e políticos criticando a bipolaridade como parâme-
pela crença de que o País era um “aliado tro obsoleto de política exterior (Cervo,
especial” (Alves, 2005, 2, 15). 2008, p.133, 131). Assim, o governo deu
Nesse período, a MB recebia navios a máxima prioridade ao desenvolvimento,
norte-americanos antiquados, principal- para tanto orientando a política externa a
mente contratorpedeiros (destroyers, na buscar o interesse nacional, a despeito do
terminologia em inglês), veteranos da conflito Leste-Oeste ou qualquer outro
Segunda Guerra Mundial e especializados condicionamento (Gonçalves; Miyamoto,
em guerra antissubmarino (Vidigal, 1982, 1993, p. 221).
118 – 124) – o papel que cabia às Marinhas Como esse desenvolvimento e a política
periféricas numa possível guerra contra o externa então praticada iriam incomodar
bloco soviético, quando, esperava-se, sua outros atores do sistema internacional,

RMB1oT/2017 91
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

havia a necessidade de possuir uma maior da criação da Petrobras (Brasil, 2010). Na


parcela do poder mundial. Assim, foi inicia- época da implementação do Plano de Reno-
da, também naquele governo, uma política vação (anos 1970), o País importava – em
de nacionalização da segurança, posterior- longas viagens por mar – mais de 80% do
mente incluída no Segundo Plano Nacional petróleo que consumia, o que o tornava
de Desenvolvimento emitido durante o go- fortemente dependente do contexto econô-
verno Geisel (1974-1979), que, procurando mico internacional e acarretava importância
aumentar as capacidades nacionais, previa primordial à defesa da navegação mercante
a eliminação da dependência estrutural nas considerações estratégicas (Corrêa,
(energia, infraestrutura, indústrias de base) 2010, 33), além dos aspectos ligados ao
e o domínio das tecnologias de ponta que conflito Leste-Oeste.
eram negadas pelas potências, como as Em coerência, o plano deu maior atenção
ligadas à energia nuclear e à fabricação de à proteção do tráfego marítimo, consideran-
armamentos (Cervo, do como ameaças os
2008, 132,133,134, ataques de submarinos
136). O Plano de Renovação e a obstrução de portos
O País vivia uma
época de bonan-
continuava rigorosamente edeterminais por ações
minagem. Assim, os
ça econômica – o na linha de pensamento principais navios cons-
“milagre brasileiro” estratégico norte- truídos – as fragatas
(Magalhães, 1976, classe Niterói – tiveram
11-12; 128, tab.V-1)3 americano, preparando- priorizada sua capacida-
– e nesse contexto foi se para a defesa coletiva de antissubmarino, em
aprovado, em 1967, o detrimento das capaci-
Plano de Renovação
do hemisfério contra os dades antissuperfície e
de Meios Flutuantes, soviéticos antiaérea, e foram tam-
pelo qual a Marinha, bém adquiridos navios-
a partir do fim dessa -varredores (de minas)
década, passou a negociar com firmas da e submarinos.
Europa a construção de modernos navios, Além disso, reconhecida a incapaci-
submarinos e aeronaves, recebidos até dade financeira de criar uma força naval
início dos anos 1980, fugindo dos padrões que satisfizesse a todas as necessidades,
da assistência militar norte-americana de considerou-se que sua preparação previa a
enormes dificuldades para o fornecimento participação na proteção do tráfego maríti-
de equipamentos sofisticados (Vidigal, mo interamericano, em conjunto com meios
1982, 123). navais das Marinhas amigas, que nela
Durante a Segunda Guerra Mundial também estariam presentes por força dos
(1939-1945), o Brasil era importador, não tratados existentes. Desta forma, o Plano
de petróleo, mas de seus derivados, pois a de Renovação, mesmo com os principais
primeira refinaria só começaria a operar meios construídos na Europa, continuava
em setembro de 1950 (Refinaria Landulpho rigorosamente na linha de pensamento
Alves, em Mataripe, BA), três anos antes estratégico norte-americano, preparando-se

3 Período de alto crescimento econômico: 9,3% em 1968; 9,0% em 1969; 9,5% em 1970; 11,3% em 1971; 10,4%
em 1972 e 11,4% em 1973.

92 RMB1oT/2017
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

para a defesa coletiva do hemisfério contra sobre o tráfego marítimo, quadruplicando


os soviéticos (Vidigal, 1982, 120 – 123). o número de navios entre 1992 e 2012
E esta foi a última vez que se investiu (Worldwide, 2014).
com peso na aquisição de meios navais para Segundo a United Nations Conference
o atendimento a necessidades estratégicas de on Trade and Development (Unctad), o
um contexto bem definido. É bem verdade transporte marítimo é, atualmente, o prin-
que, em fins dos anos 1970 e nos anos 1980 cipal motor da globalização, respondendo
tentou-se a continuidade com um “minipro- pelo comércio global em cerca de 80% do
grama”, empregando os parcos recursos então volume e 70% do valor, sendo esses quan-
disponíveis, pelo qual foram construídas no titativos ainda maiores no caso dos países
País cinco corvetas aqui projetadas e cinco em desenvolvimento (Panitchpakdi, 2012,
submarinos de projeto alemão, mas com “Highlight”). Geoffrey Till afirma que ele
tal lentidão de desembolsos que o último tende a continuar crescendo com o aumento
submarino (Tikuna) só da população mundial,
foi lançado ao mar em sendo que os mares
2004 e a última corveta Os mares constituem a constituem a única via
(Barroso) em 2008. única via capaz de suportar capaz de suportar tal
Durante esse pe- crescimento para que
ríodo, em fins dos
o crescimento para que sejam mantidos os atu-
anos 1980 e nos anos sejam mantidos os atuais ais padrões de vida
1990, premidos pela padrões de vida (Till, 2006, 8).
falta de meios flutuan- Cabe notar que esse
tes, fizemos algumas crescimento também
aquisições de oportunidade, como os quatro se reflete no porte dos navios e na frequência
contratorpedeiros norte-americanos antigos das viagens, o que vem impactando drama-
da classe Garcia, que duraram pouco, e ticamente as infraestruturas portuária e de
quatro fragatas britânicas da classe Bro- transferência de cargas de/para o interior.
adsword, das quais duas continuam em Recentemente houve congestionamento em
atividade atualmente (Vidigal, 2002, 56; portos da Costa Oeste norte-americana, da
MARINHA, 2017). Ásia Oriental e do Norte da Europa, regiões
em que tais infraestruturas são excelentes,
AS ALTERAÇÕES GLOBAIS evidenciando que esse problema é global,
exigindo novos arranjos dos governos e das
Muita água passou sob a ponte depois firmas transportadoras (principalmente na
daquele último grande investimento. área de contentores), com investimentos
No plano econômico, a globalização ini- que ultrapassam a capacidade da maioria
ciada nos anos 1980 se acentuou, questio- dos países, mas cuja falta trará graves
nando o modelo industrial de substituição entraves ao desenvolvimento econômico
de importações adotado por vários países, (Stratfor, 2015).
inclusive o Brasil, e multiplicando o comér- Pelo exposto, Geoffrey Till considera
cio internacional, com efeitos expressivos que existe atualmente um “sistema globa-
sobre o transporte marítimo, que saltou de lizado de comércio marítimo”, pelo qual “o
3.704 milhões de toneladas em 1980 para que acontece em qualquer parte do mundo
9.548 milhões em 2013 (Developments, pode produzir consequências graves e
2014, 5, tab. 1.3), um aumento de 158%; e imediatas na segurança e na economia de

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TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

qualquer outro país”, exigindo dos Estados Nesse mesmo ano, logo após a Guerra
“provedores de segurança” a capacidade de do Golfo (agosto/1990-abril/1991), os
projeção de poder sobre terra (ações mili- EUA emitiram uma estratégia de seguran-
tares sobre terra a partir de meios navais), ça nacional que transmitia o propósito de
a fim de restaurar ou manter a estabilidade estabelecer uma “Nova Ordem Mundial”,
internacional, questão fundamental para o assumindo como indispensável a lide-
sistema (Till, 2006, 9-13). rança norte-americana e incluindo várias
Till fornece, assim, a fundamentação instruções prevendo a presença avançada
das estratégias navais dos países desen- e a projeção de poder por suas forças onde
volvidos, de suas alianças e também de fosse necessário (United States of America,
vários países em desenvolvimento, como 1991, V, 27- 28).
Portugal (que pertence a uma dessas alian- O documento implicou profundas altera-
ças, a Organização do Tratado do Atlântico ções para a Marinha e o Corpo de Fuzileiros
Norte – Otan) (Rodri- Navais norte-america-
gues, 2014, 2-4). Seus nos, cujas estratégias,
argumentos, a par de O fim da Guerra Fria em vez de uma ame-
procedentes, servem à trouxe a redução das verbas aça global, passaram
manipulação política a focar os desafios e
da ética, pela veicu- e dos meios navais; e os oportunidades regio-
lação de ações para atentados terroristas de nais, a fim de moldar
benefício de Estados o futuro de forma fa-
mais poderosos como
11 de setembro de 2001 vorável aos interesses
realizadas em provei- acarretaram a Guerra do país, reforçando as
to do bem comum, Global ao Terror alianças, impedindo a
aspecto previsto na formação de ameaças
lógica da harmoni- e ajudando-o a pre-
zação de interesses identificada por Carr servar a posição estratégica conquistada
(Carr, 1981, 52). com o fim da Guerra Fria (United States
A Guerra Fria terminou formalmente of America, 1992, 2).
com a Paz de Paris quando, em novembro Em decorrência, a Marinha norte-ameri-
de 1990, os membros da Conferência cana alterou, por meio de dois documentos
de Segurança e Cooperação da Europa – From the Sea (1992) e Forward From the
(CSCE), entre eles os que haviam iniciado Sea (1994) –, o foco estratégico e as priori-
a Segunda Guerra Mundial – Alemanha dades de aplicação de recursos das operações
(já reunificada), União das Repúblicas no mar (“on the sea”) para as operações a
Socialistas Soviéticas (URSS), França, partir do mar (“from the sea”) –, ações de
Reino Unido e EUA –, firmaram um acordo projeção de poder com o propósito de in-
estabelecendo instituições parlamentares fluenciar os eventos nas regiões litorâneas
em todos os Estados, consagrando a vitória do mundo, considerando que, como nação
da superpotência ocidental. O evento não marítima, a estratégia de segurança dos EUA
foi muito noticiado, em virtude da grande era necessariamente transoceânica e seus
relevância dos acontecimentos que se se- interesses vitais estavam nas extremidades
guiram, concernentes ao colapso da URSS, finais das “estradas do mar” (“highways of
que veio a se dissolver em 25 de dezembro the sea”), que começavam em seu território
de 1991 (Bobbitt, 2003, 56). e chegavam a todos os quadrantes do mundo.

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TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

Tal medida seria implementada princi- (International, 2015) –, até incentivos a


palmente por forças navais desdobradas em outros países para cooperarem com suas
todas as regiões de maior importância estra- forças navais numa espécie de governança
tégica do planeta (Atlântico, Mediterrâneo, marítima global.
Pacífico, Índico, Mar Vermelho, Golfo Pér- Entre essas últimas estão a Prolifera-
sico e Caribe), para demonstrar a intenção tion Security Initiative (PSI), baixada em
e a capacidade de juntar aliados e potências 2003, pela qual os EUA e países que a ela
amigas na defesa de interesses comuns e aderissem assumiriam o direito de “realizar
também para permitir reação a crises se interdições no mar, no ar e em terra” com
essa dissuasão falhasse, intervindo em o propósito de coibir
litorais alheios (United States Of America, “carregamentos de armas biológi-
1994, “The Strategic Imperative”), numa cas, químicas e nucleares, assim como
concepção que, neste estudo, é tratada pelo materiais que poderiam ser usados para
nome da doutrina operacional que daí se fornecer ou produzir tais armas, para
originou – Guerra de terroristas e países sus-
Litoral. Esses con- peitos de tentar adquirir
ceitos foram reafir- Tanto a segurança do armas de destruição em
mados na Estratégia massa” (Arms Control
Cooperativa para o sistema globalizado de Association, 2013).
Século XXI, lançada transporte marítimo como
em 2007 e revisada A iniciativa recebeu
em 2015 (United Sta-
a guerra de litoral levam ao críticas por usar as
tes Of America, 2015, mesmo fim: a permanente fórmulas “armas de
Introduction §5 e 6; mobilização de forças destruição em massa”
Section II – Forward e “combate ao terro-
Presence and navais de vários Estados rismo” para:
Partnership). para propósitos comuns “simplesmente
O fim da Guerra estender a presença
Fria trouxe, porém, a naval e a capacidade
redução das verbas e, consequentemente, combatente dos EUA e de seus aliados
dos meios navais; e os atentados terroris- às linhas de comunicações marítimas,
tas de 11 de setembro de 2001 em Nova hidrovias, regiões costeiras, rotas de
Iorque e Washington acarretaram a Guerra trânsito militar e de energia vitais e
Global ao Terror, na qual os EUA, além de cobiçadas e para dentro de quaisquer
se lançarem em duas grandes campanhas mares a qualquer tempo se considerar
militares, no Afeganistão e no Iraque, bus- que é necessário para atingir exigências
caram envolver a comunidade internacional políticas e estratégicas” (Rozoff, 2009).
numa série de medidas, desde a instituição
de novos procedimentos portuários inter- Outra iniciativa foi a Marinha de Mil
nacionais, como o Código Internacional Navios (Thousand Ship Navy – TSN),
de Segurança de Navios e Facilidades lançada em 2006, que congregaria
Portuárias (International Ship and Port forças navais, operadores portuários,
Facility Security Code – ISPS Code) – um armadores e agências internacionais, de
abrangente conjunto de medidas de segu- governos e não governamentais, num es-
rança de navios e facilidades portuárias forço contra problemas comuns (adress

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TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

mutual concerns), patrulhando os mares de cerca de 31 países, que se destinam a


do mundo (Rozoff, 2009). prover segurança marítima, realizando
Ambas as iniciativas obtiveram êxito. A ações contra o terrorismo (FT150), contra
PSI começou com 11 países e, em junho de a pirataria (FT151) e para promover a se-
2013, contava com 102; a TSN, formalmen- gurança e a cooperação no Golfo da Arábia
te chamada Global Maritime Partnership, (FT152) (Combined, 2017).
é atualmente voltada contra a pirataria e As tecnologias também viveram revolu-
sua principal expressão é a Força-Tarefa ções no período em questão. A revolução
151, uma das que operam na região da da Tecnologia da Informação (TI) foi ini-
Somália (Arms Control Association, 2013; ciada nos anos 1970, provocando grande
Dunnigan, 2014). impacto sobre a atividade humana com
Vê-se, desta forma, que tanto a segu- a generalização do uso de computadores;
rança do sistema globalizado de transporte depois, a partir dos anos 1980, com o uso
marítimo como a guerra de litoral levam ao dos microcomputadores; a partir dos anos
mesmo fim: a permanente mobilização de 1990, com a Internet e, a partir dos anos
forças navais de vários Estados para propó- 2000, com os sistemas miniaturizados –
sitos comuns, assim julgados por critérios smart phones, i-pads e tablets, que não
estabelecidos pelos EUA, tendo por prin- param de ser renovados em várias gerações,
cipais acólitos os países da Organização do tudo se assemelhando a uma sucessão de
Tratado do Atlântico Norte (Otan). revoluções ou a uma revolução permanente.
As chamadas “novas ameaças” – pi- Uma outra revolução, a Revolução nos
rataria, tráficos ilícitos (drogas, armas e Assuntos Militares (RAM) foi detectada
pessoas) e o crime organizado –, apesar nos anos 1980, embora tenha conquistado
de realmente constituírem um problema notoriedade a partir do início dos anos 1990
atual, têm sido exageradas para justificar a (WATTS, 2011, 1-3). Em vários aspectos
pertinência dessa mobilização (Noto, 2011, ela consistiu na aplicação da revolução da
86, 87, 91). TI aos sistemas militares, e se fez sentir
As ações na região da Somália, por inicialmente em três importantíssimos pon-
exemplo, envolvem cinco Forças-Tarefa tos, que tinham potencial para alterar forte-
(FT), sendo uma da União Europeia (UE), mente – como efetivamente alteraram – os
uma da Otan e três sob o comando da Ma- paradigmas de emprego e mesmo de cons-
rinha dos EUA. tituição das Forças Armadas: o progresso
A FT da União Europeia (European das munições de grande precisão (como os
Union Naval Force – EU Navfor) conduz mísseis), os sistemas de sensores capazes
uma operação permanente contra a pira- de cobrir grandes áreas e os sistemas de
taria (Operação Atalanta) (EU Navfor, comando e controle (C2) computadorizados
2017); e a da Otan realiza a operação Oce- (Watts, 2011, 2, 5).
an Shield, de controle de áreas marítimas Desde então, a RAM já abrangeu tantos
para coibir a ação de piratas, incluindo aspectos que também há divergências sobre
a identificação de navios e a escolta de se continua como uma revolução perma-
mercantes (North, 2017). nente, com uma sucessão de paradigmas
As três comandadas pela marinha norte- em decorrência do progresso científico-
-americana – FT150, FT151 e FT152 – -tecnológico ou se passou à fase de evo-
constituem a Combined Maritime Forces, lução acelerada, a partir da consolidação
e incluem navios e oficiais de estado-maior dos novos paradigmas – nos vários campos

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TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

da atividade militar, tendo produzido, em lançados da costa contra alvos no mar. É o


conjunto com as concepções estratégicas caso dos mísseis DF21, balístico antinavio
antes citadas, relevantes alterações no (Watts, 2011, 9-10) e DF10, de cruzeiro
campo naval, como: antinavio (Want, 2015), ambos chineses.
– Enorme expansão das possibilidades ­– Emprego de submarinos e de navios
da vigilância sobre terra e mar por meio de de superfície de porte médio em ações de
um sem número de sistemas que empregam projeção de poder sobre terra, empregan-
principalmente satélites e, mais recente- do mísseis não nucleares de muito longo
mente aeronaves remotamente pilotadas alcance e grande precisão, orientados por
(ARP), proporcionando aos decisores navegação satelital (GPS). Os submarinos
possibilidades de ação proativa antes não podem lançá-los em imersão a partir de pon-
imaginadas e criando, na guerra naval, tos inusitados, por vezes próximos à costa
conceitos como “Consciência Situacional inimiga, o que possibilita inúmeras aplica-
Marítima” e “Consciência do Domínio ções operacionais, como fogos precursores
Marítimo” (Maritime Domain Awareness). sobre aeródromos e centros de comando,
Esses conceitos referem-se, com pequenas em operações de intervenção. É o caso dos
variações, à efetiva compreensão de tudo o submarinos nucleares de ataque (SNA)4
que está associado com o meio marinho que norte-americanos e britânicos e contratorpe-
possa causar impacto na defesa, na segu- deiros (Destroyer Guided Missiles – DDG)
rança, na economia e no meio ambiente do norte-americanos que lançam os Tomahawk
entorno estratégico. Trata-se da formação Land Attack Missiles (TLAM), de 1.400
da percepção advinda do processamento milhas (2.600 km) de alcance.
de dados disponíveis que podem afetar Cabe notar que com tais armas, am-
as Linhas de Comunicações Marítimas pliaram-se enormemente as possibilidades
(LCM), a exploração e o aproveitamento de emprego estratégico dos submarinos,
dos recursos no mar; o meio ambiente; a também deram aos navios de superfície
soberania nas áreas de jurisdição nacionais de porte médio um papel estratégico in-
e a salvaguarda da vida humana no mar dividual nas ações de projeção de poder,
na região de responsabilidade de Busca e considerando que tais unidades eram ante-
Salvamento, resultando em informações riormente empregadas basicamente como
acuradas, oportunas e relevantes (Brasil, escoltas de unidades maiores, como navios-
2014a, 1-4, item1.2.5). -aeródromos, os quais, estes sim, com a
– Integração em rede de plataformas aviação embarcada, detinham a primazia
geograficamente muito dispersas – com o nessas ações.
emprego de comunicações por satélite – Este último aspecto permitiu à Marinha
otimizando o emprego de seus sensores e norte-americana otimizar a capacidade
sistemas de armas. Esta possibilidade (que estratégica de suas forças, nas atuais con-
inclui os submarinos), em conjunto com a dições de redução do número de meios.
acima citada, pode permitir o controle de
grandes áreas marítimas ou sua negação a AS ALTERAÇÕES NO BRASIL
vetores hostis.
­– Emprego de mísseis balísticos e de O Brasil também viveu muitas experi-
cruzeiro não nucleares de longo alcance, ências desde os anos 1960.
4 Trata-se de um submarino a ser empregado primariamente contra navios e forças navais, cujo armamento básico
consta de torpedos, minas e mísseis táticos não nucleares.

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TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

No plano econômico, após o “mila- da década de 2000 a 2010, aumentou


gre”, que terminou ainda nos anos 1970, sensivelmente seu nível de interlocução
seguiu-se, na década seguinte, uma grave no concerto das nações, fazendo parte
crise, notando-se o esgotamento do mo- do relevante subgrupo dos emergentes
delo de substituição de importações, que conhecido como Brics (Brasil, Rússia,
implicava sensível protecionismo indus- Índia, China e África do Sul), que procura
trial e teve fim com a abertura comercial coordenar políticas e tem se distinguido
iniciada no final da década, como efeito por iniciativas inovadoras, como o Banco
das pressões da globalização econômica dos Brics, de apoio ao desenvolvimento
(UNAMA, 2007). (Corrêa, 2014).
Seguiram-se, a partir de meados dos No tocante às iniciativas para a redução
anos 1990, o fim da hiperinflação, outra da dependência do petróleo importado,
crise econômica no além da exploração
fim dessa década e de petróleo em ter-
uma notável ascensão Após o “milagre”, nos ra firme, os investi-
entre 2003 e 2010, mentos na prospecção
quando o Produto
anos 1970, seguiu-se, na marítima obtiveram
Interno Bruto (PIB) década seguinte, uma grave seu primeiro êxito em
quadruplicou (em dó- crise, com o esgotamento 1968 (Guaricema-SE)
lares), tendo o País (Corrêa, 2010, 34),
chegado a atingir a do modelo de substituição seguindo-se vários ou-
posição de sexta eco- de importações e seu tros, como a Bacia de
nomia do mundo em
2011 e se mantido
protecionismo industrial Campos, que, tendo
seu primeiro campo
na sétima entre 2012 e teve fim com a abertura descoberto em 1974,
e 2014 (IPRI, 2016; comercial do final da passou a ser conti-
Nakagawa, 2016). nuamente explorada,
Atualmente, o País década, pelas pressões da com várias outras des-
passa novamente por globalização cobertas nas décadas
dificuldades na eco- seguintes, e hoje é a
nomia, tendo caído principal província pe-
para a nona posição em 2015 (IPRI, 2016; trolífera do País (Dados, 2015).
Nakagawa, 2016). Tais dificuldades são O paradigma da defesa coletiva hemis-
atribuídas por alguns à conjuntura inter- férica, com prioridade à defesa do tráfego
nacional, agravada, no caso do Brasil, por marítimo, perdurou durante a Guerra Fria,
uma condução questionável da política eco- mas a partir de inícios dos anos 1970 tam-
nômica e, ineditamente, pela crise hídrica bém ganhou força a possibilidade de um
provocada pela falta de chuvas em 2014 e conflito no Cone Sul, em virtude da contro-
2015, que reduziu drasticamente o nível vérsia com a Argentina sobre a construção
dos reservatórios do Sudeste, com graves da usina de Itaipu.
consequências para o abastecimento de Nos anos 1980, porém, essa possibili-
água e de energia elétrica (Caldas, 2015). dade foi substituída pela ameaça de países
No campo político, o País alcançou desenvolvidos (o eterno conflito Norte-
a estabilidade democrática e, por esse -Sul), em face das pressões originadas na
motivo e mais os êxitos econômicos globalização econômica e do exemplo

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TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

da Guerra das Malvinas (abril-junho de a autossuficiência, o que só viria a ocorrer


1982), percebida como mais uma de suas em 2006 (Dias, 2008, slide 9).
manifestações (Vidigal, 2002, 27-29; No tocante à tecnologia, o início da re-
Reuveny;Thompson, 2002)5, perspectiva volução da TI foi acompanhado pela MB,
esta que ultrapassou o período restante da pois coincidiu com a construção dos navios
bipolaridade e vige até os dias atuais. do Plano de Renovação – as fragatas classe
Nesse novo contexto, a Marinha passou Niterói foram os primeiros navios da Mari-
a se preparar, com o material disponível, nha dotados de sistemas digitais de controle
para a defesa de pontos da costa – portos de dados táticos e de armas. Posterior-
e regiões petrolíferas litorâneas, em espe- mente, contudo, apesar de serem mantidos
cial a maior delas, a Bacia de Campos –, quadros de pessoal a par das tecnologias
principalmente contra a aproximação de de ponta, a limitação na construção de
outros submarinos, meios e o fato de as
mas raciocinando estruturas necessárias
também com a ame- A proteção ao tráfego (satélites, por exem-
aça de forças navais plo) ultrapassarem o
agressoras de países marítimo continuava âmbito da Marinha res-
desenvolvidos contra sendo priorizada, tanto tringiram pesadamente
setores limitados da para a obtenção de bens esse acompanhamento
fronteira marítima, em termos de imple-
como ocorrera nas e divisas, acentuada pelo mentação prática.
Malvinas. aumento do comércio A Revolução em
Essa concepção, Assuntos Militares
preconizada pelo Al- exterior provocado pela (RAM) não foi acom-
mirante Flores (Flo- globalização, quanto para a panhada pela MB. O
res, 2002, 80), dera obtenção de petróleo, pois Plano de Renovação
força, no início dos foi anterior a ela, e às
anos 1980, à ideia a autossuficiência só viria a fragatas classe Niterói,
preexistente de cons- ocorrer em 2006 apesar de terem sido do-
truir o Submarino tadas de mísseis, tinham
Nuclear de Ataque concepção de emprego
(SNA), arma que se mostrara decisiva no semelhante à de quando essa arma começou
citado conflito e que proporcionaria grande a ser instalada em meios navais, na década
vantagem a seus detentores em confronta- de 1950 – como arma tática cujo alcance e
ções semelhantes (Corrêa, 2010, 88). eficácia superavam os canhões. A então nova
Apesar dessa concepção, a proteção possibilidade das fragatas classe Niterói – um
ao tráfego marítimo continuava sendo enlace que permitia passar automaticamente
priorizada, tanto para a obtenção de bens e para o sistema de dados táticos das outras
divisas, acentuada pelo aumento do comér- fragatas um alvo detectado e acompanhado
cio exterior provocado pela globalização, por apenas uma delas –, apesar de ter dado
quanto para a obtenção de petróleo, pois a origem a alguns procedimentos operativos, já
crescente produção doméstica não atingira era um sistema em uso em várias Marinhas.

5 O conflito Norte-Sul é o que ocorre entre países pobres e ricos e aparece sob algumas formas, inclusive a de co-
lônia versus metrópole e varia de intensidade segundo alguns fatores, como ciclos de crescimento econômico
mundial, conflitos entre grandes potências e conflitos entre países ricos.

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TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

Assim, o Plano de Renovação represen- taformas cujo afastamento da costa chega a


tou uma importante atualização da MB, 302 km (163 milhas) (Brasil, 2013a) e que
mas para um estágio anterior à RAM. As se espalham por diversas partes do litoral.
capacidades eram fundamentalmente as Assim, a quase totalidade da produção
da Segunda Guerra Mundial: priorizadas de petróleo e gás – insumos vitais à vida
para o engajamento de alvos submarinos do País – depende de instalações estáticas
e razoavelmente aumentadas contra alvos e isoladas no mar, vulneráveis tanto a
de superfície (principalmente pela adoção ameaças assimétricas como estatais. As
de mísseis e dos helicópteros de ataque assimétricas, ainda que teoricamente li-
Linx), mas ainda bastante limitadas contra mitadas, são objeto das patrulhas navais
alvos aéreos. A Força Naval, além disso, se e medidas correntes de monitoramento e
ressentia de apoio aéreo, bastante restrito controle do tráfego marítimo, incluindo o
devido aos parcos meios da Força Aérea de pesqueiros.
Brasileira (FAB), e mais ainda após 1996, No que toca às estatais, cabe lembrar
quando essa força de- que as plataformas,
sativou suas aerona- por sua importância
ves antissubmarino A quase totalidade da e vulnerabilidade,
P-16, as únicas ade- constituem objetivos
quadas a tal tarefa, e
produção de petróleo e convidativos a ações
que operavam de terra gás depende de instalações de coerção – típicas
e embarcadas (Palma; estáticas e isoladas no mar, de quadros de crises
Carneiro, 2012). político-estratégicas
vulneráveis tanto a ameaças – ou de destruição, no
A SITUAÇÃO assimétricas como estatais caso de um conflito
ATUAL aberto. Elas podem ser
ameaçadas por forças
A década de 2000 trouxe para o Brasil navais que naveguem ostensivamente ou
importantes alterações em termos de ne- submarinos, sendo que todos esses vetores
cessidades estratégicas. Em 2004 foram podem se aproximar ou não, se dispuserem
descobertas as reservas de petróleo do de armas de longo alcance, as quais também
pré-sal, cuja extensão, posteriormen- podem ser lançadas contra instalações em
te determinada, abrange as bacias de terra, como tem ocorrido em praticamente
Santos, Campos e Espírito Santo; e, em todas as intervenções do pós-Guerra Fria,
2006, atingiu-se a autossuficiência no em que o Tomahawk Land Attack Missile
produto, a qual foi perdida entre 2012, (TLAM) foi o carro-chefe.
em face do aumento de consumo e da O maciço tráfego marítimo da atuali-
paralisação das licitações de campos dade, por sua vez, é objeto de acompanha-
petrolíferos desde 2008, mas retomada mento por vários sistemas e organizações
em 2015 (Dias, 2008, slide 9; Teixeira, regulados pela Organização Marítima
2013; Jasper, 2016). Internacional (International Maritime Or-
Hoje as jazidas marítimas são decisi- ganization – IMO – órgão da Organização
vamente importantes, respondendo por das Nações Unidas – ONU), que, em âm-
93,44% do petróleo e 76,12% do gás pro- bito nacional, multilateral e privado (pelas
duzidos no País (percentagens de 2015) companhias de navegação), monitoram
(Brasil, 2016, tabelas 2.9 e 2.13), em pla- continuamente os navios no mar.

100 RMB1oT/2017
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

No Brasil, esse serviço fica a cargo provida, em muitos casos, pelos sistemas
da Marinha e é realizado pelo Comando existentes, dos quais eventualmente fazem
do Controle Naval do Tráfego Marítimo parte vários países, enquanto que a prote-
(Comcontram), diretamente subordinado ção dos ativos litorâneos corre por conta
ao Comando de Operações Navais, a quem apenas do dono do litoral, pois acordos que
compete prover os meios de defesa eventu- envolvessem outro Estado provavelmente
almente necessários. acarretariam perda de soberania.
O Comcontram acompanha diutur- O provimento de energia a um país envol-
namente o tráfego marítimo de interesse ve a segurança energética – a disponibilidade
nacional no mundo e o tráfego marítimo de fontes de energia suficientes e a segurança
nacional e estrangeiro nas águas de jurisdi- da energia –, a capacidade de fazer com que
ção brasileira, empregando vários sistemas, os insumos energéticos dessas fontes che-
tais como o Automatic Identification System guem efetivamente aos utilizadores, apesar
(AIS), o Long-Range Identification and Tra- de eventuais ameaças de qualquer natureza,
cking (LRIT), o Programa de Rastreamento o que muitas vezes envolve esforço militar,
de Embarcações Pesqueiras por Satélite especialmente em casos de conflito (India,
(Preps) e o Sistema de Informações sobre 2007, 46).
o Tráfego Marítimo (Sistram), cujos dados O Brasil, sendo praticamente autossu-
são fornecidos às companhias de navegação. ficiente em petróleo, teria garantida sua
Existem vários outros sistemas pelo segurança energética e, dispondo da maior
mundo afora, e, além disso, o tráfego ma- parte de suas fontes no mar, em posições
rítimo pode contar com as medidas de pro- por vezes muito afastadas da costa, teria
teção ou defesa por forças navais de vários condições de prover sua segurança da ener-
países em locais especialmente perigosos, gia inferiores às dos países cujas fontes se
como as forças-tarefa que operam na área situam no próprio território, mas superiores
da Somália, já comentadas. às dos que importam grande percentagem
Tais recursos provêm, assim, razoável do que consomem de fontes distantes que,
segurança contra as “novas ameaças” – em além de necessitarem proteger as linhas
tempo de paz e mesmo contra as ameaças de comunicações marítimas, têm as fontes
estatais em tempo de crise ou conflito, sob o controle de outros Estados, o que
se o país estiver do lado favorável na pode comprometer também sua segurança
governança internacional, pois se não for energética, situação que já foi a nossa no
assim, a situação será oposta. Evoque-se passado recente.
aqui o bloqueio do Iraque, decretado pelo
Conselho de Segurança da ONU em 25 AS PRIORIDADES
de agosto de 1990, por ocasião da Guerra
do Golfo (United, 1990), exercido pela Pelo exposto, vê-se que as prioridades
Marinha norte-americana e várias outras e para a preparação do poder naval, ou sua
que anulou a única linha de comunicações determinação, têm variado nos três últimos
marítimas daquele país. ciclos da MB: a Segunda Guerra Mundial, o
Vê-se, assim, que, como as plataformas Plano de Renovação dos anos 1960-70 e o
petrolíferas, a navegação mercante também atual Plano de Articulação e Equipamento
está sujeita a ameaças e necessita de prote- da Marinha do Brasil (Paemb), elaborado
ção, por vezes militar. Ocorre, porém, que, para permitir o cumprimento da Estratégia
na segunda situação, essa proteção pode ser Nacional de Defesa (END).

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TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

No primeiro, não houve escolha de prio- A negação do uso do mar, o controle


ridades; a precedência da ameaça sobre a de áreas marítimas e a projeção de poder
preparação das forças impôs providências devem ter por foco, sem hierarquização
reativas que demandaram muito mais a de objetivos e de acordo com as cir-
ação política do Presidente da República cunstâncias:
para viabilizá-la do que qualquer ação da – defesa proativa das plataformas
MB para seleção dos meios navais, o que petrolíferas;
não houve, pois correu por conta do que a – defesa proativa das instalações na-
Marinha norte-americana julgou disponível vais e portuárias, dos arquipélagos e das
para fornecimento. ilhas oceânicas nas águas jurisdicionais
No segundo, a determinação das prio- brasileiras; e
ridades foi realizada pela MB, mas com – prontidão para responder a qualquer
predominância dos ameaça, por Estado ou
aspectos logísticos li- por forças não conven-
gados à modernização As prioridades para a cionais ou criminosas,
dos meios, porque os às vias marítimas de
estratégicos estavam preparação do poder comércio.
fortemente condicio- naval têm variado nos três Antes mesmo, nas
nados pela conjun- Diretrizes, o docu-
tura internacional da
últimos ciclos da MB: a mento determina às
bipolaridade. Segunda Guerra Mundial, três Forças Armadas
No terceiro, a de- o Plano de Renovação dos a dissuasão de forças
terminação das prio- hostis nos limites dos
ridades está sendo anos 1960-70 e o atual espaços jurisdicionais
realizada pela MB, Plano de Articulação e do País (marítimo, aé-
com base em novas
orientações políticas
Equipamento da Marinha reo e terrestre) (Brasil,
2012, 2) e, em coerên-
e estratégicas defini- do Brasil cia, também prioriza
das domesticamente a preparação para a
– pela END, emitida negação do uso do mar
em dezembro de 2008, revisada em 2012 sobre a preparação para o controle de áreas
(Brasil, 2012; Brasil, 2013) –, num contexto marítimas e para a projeção de poder (Bra-
internacional em que não existe filiação sil, 2012, 10).
rígida a qualquer ditame externo. Tal prioridade implica importantes
Nessas orientações, ainda que a navega- alterações doutrinárias e culturais para
ção mercante tenha sua grande importância uma Marinha que, desde sua participação
reconhecida, a END definiu a prioridade à na Grande Guerra, sempre esteve voltada
defesa contra ações de projeção de poder para o controle de áreas marítimas a fim de
contra as plataformas petrolíferas e outros proteger o tráfego mercante.
ativos litorâneos. Nos Objetivos Estratégicos A priorização atual tem a ver com a pers-
para a MB (Brasil, 2012, p.10), estabeleceu pectiva do conflito Norte-Sul vislumbrada a
a “defesa proativa” das plataformas petrolí- partir dos anos 1980, que pressupõe adver-
feras e de outros ativos litorâneos, enquanto sários extrarregionais mais poderosos – a
determinou apenas uma postura reativa em pior ameaça –, já que a postura de negação
relação às linhas de comunicações marítimas: do uso do mar assume a inferioridade ante

102 RMB1oT/2017
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

o oponente e, sendo realizada nas águas os aspectos tecnológicos (considerando que


jurisdicionais e suas proximidades, é for- houve uma RAM) e estratégicos nela envol-
temente condicionada pela necessidade de vidos, o que envolve, além de meios – mais
garantir a segurança da energia, defendendo numerosos e muito mais modernos, como o
as vulneráveis plataformas petrolíferas. submarino de propulsão nuclear; novas es-
Configura-se, assim, uma diferença truturas, como o Sistema de Gerenciamento
básica entre a elaboração do Plano de Re- da Amazônia Azul (SisGAAz), a nova base/
novação dos anos 1960 e a do atual Paemb, estaleiro de submarinos, a 2a Esquadra e a
mas existem outras, e importantes: 2a Divisão de Fuzileiros Navais.
–­O Plano de Renovação foi elaborado –­O Plano de Renovação, ao se verificar
num contexto em que os principais fatores que não havia recursos para a obtenção
que condicionavam a aplicação do poder do grande número de meios, assumiu a
militar brasileiro provinham de acordos estratégia da defesa coletiva, prevendo que
internacionais interpretados diretamente sua tarefa principal – proteger o tráfego
pelas Forças Armadas, que, a partir daí, re- marítimo hemisférico – seria dividida com
alizavam independen- as demais Marinhas da
temente seu “projeto região.
de força” – a previsão Verifica-se que a evolução Hoje, ainda que a
dos meios considera- proteção do tráfego
dos necessários, sem
das prioridades navais marítimo continue
maior envolvimento corresponde ao progresso sendo preparada, e
do poder político. O institucional do País e à envolvendo parceiros
Paemb foi elaborado regionais, ela não é
para permitir à Ma- evolução da conjuntura mais a tarefa principal
rinha o cumprimento internacional da MB, mas sim de-
da END – um docu- fender proativamente
mento emitido pelo as plataformas e ativos
poder político para orientar a preparação costeiros e dissuadir forças inimigas de
do poder militar, ou seja, das três forças adentrarem nos espaços jurisdicionais do
coordenadamente, levando em conta o País, o que implica, em princípio, ação
atendimento da Política Nacional de Defesa isolada e, consequentemente, despesas
(PND) (Brasil, 2012a), documento também exclusivamente nacionais.
emitido pelo poder político, aspectos que Quanto a este aspecto, note-se que a
conferem legitimidade aos esforços. legitimidade dos esforços não está sendo
– O Plano de Renovação envolveu, correspondida pela destinação de recur-
basicamente, meios, com reduzido acrés- sos por parte do governo, que se mantém
cimo de capacidades novas – a operação em cerca de 1,4% do PIB (SIPRI, 2017),
de modernos helicópteros foi uma delas quando o necessário seria cerca de 2%,
– e um aspecto condicionante primordial: como observado pelo ministro da Defesa
a modernização de sistemas. Tanto o (Amorim, 2013).
número de meios visualizados como os Cabe observar que a prioridade à nega-
aspectos estratégicos e operacionais não ção do uso do mar, que distingue a concep-
variavam muito – os navios deveriam ser ção atual da antiga, implica tão-somente a
principalmente antissubmarinos. O Paemb forma de iniciar a implementação da END,
tem que considerar, além da modernização, obtendo sua capacidade atualmente mais

RMB1oT/2017 103
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

importante – defesa contra oponentes mais mas também podem operar em apoio direto
poderosos, pois tanto a capacidade de con- de forças navais, participando de ações de
trolar áreas marítimas como a de projetar controle de áreas marítimas e, eventual-
poder continuam presentes na END e no mente, de projeção de poder.
Paemb, ainda que em proveito da defesa
dos ativos e de interesses nacionais, sem CONCLUSÃO
quaisquer propósitos intervencionistas,
como disposto na PND e na Constituição Verifica-se que a evolução das priorida-
Federal (Brasil, 2012a, item 5.12). des navais corresponde ao progresso insti-
Assim, estão sendo priorizados a cons- tucional do País e à evolução da conjuntura
trução de submarinos – SNA e convencio- internacional.
nais, ora em andamento, apesar dos cortes A Segunda Guerra Mundial surpre-
orçamentários –, e o SisGAAz, que, em endeu o País com a necessidade de uma
fase final de especificação, teve que ter seus Marinha atualizada, e a MB reagiu, ain-
trabalhos sustados em da que sem qualquer
2015 devido a esses priorização de meios,
cortes (Stochero, Cabe enfatizar que, tornando-se uma for-
2015), sistemas desti- ça adequada para a
nados primariamente
em caso de uma época. No Plano de
à tarefa de negação, necessidade real, Renovação dos anos
enquanto outros mais a cobrança de um mau 1960-70, houve crite-
específicos para as riosa priorização dos
outras tarefas (cons- desempenho recairá meios e conseguiu-se
trução de escoltas e de sobre a Marinha modernizar a Força,
navios-aeródromos, sob o condicionamen-
por exemplo) aguar- to estratégico interno
dam disponibilidade financeira. Cabe, con- da maior necessidade de proteger o tráfego
tudo, lembrar que, apesar dessa destinação marítimo e externo da bipolaridade. Estes
primária, o SNA e o SisGAAz também têm últimos aspectos constituíram a diferença
emprego nas outras tarefas: básica para a elaboração do atual Paemb,
­O SisGAAz previsto é um sistema de voltado prioritariamente à defesa dos
monitoramento de alto nível, que deverá ativos litorâneos vitais em um contexto
permitir aos comandos conhecer as po- internacional ainda unipolar, mas sem
sições e prováveis intenções dos vetores constrições externas.
amigos e hostis navegando em boa parte do A percepção da necessidade de prepa-
Atlântico Sul, podendo, assim, aumentar a ração para a defesa dos ativos litorâneos e
eficiência dos meios operativos (SNA, sub- costeiros começou nos anos 1980, intensi-
marinos não nucleares, navios e aeronaves), ficou-se com o crescimento da exploração
fornecendo-lhes apoio de comunicações marítima de petróleo e teve seu ápice com
e vigilância para que obtenham posições a descoberta das grandes reservas do pré-
vantajosas em relação aos oponentes. -sal, fato presente na gênese da vontade
Os SNA podem exercer dissuasão contra política de investir na defesa naval e na
forças navais e submarinos em grandes citada alteração de prioridade, cabendo
áreas, como o Atlântico Sul, operando destacar que, pela primeira vez, se faz uma
isoladamente com o apoio pelo SisGAAz, priorização de meios e infraestrutura de

104 RMB1oT/2017
TRÊS CICLOS DA MARINHA DO BRASIL

defesa – um projeto de força – com base por parte do governo. Cabe, porém, enfati-
em necessidades e orientações determina- zar que, em caso de uma necessidade real,
das pelo poder político, o que lhe confere a cobrança de um mau desempenho recairá
a necessária legitimidade. sobre a Marinha.
Existem também, como acima exposto, Nunca é demais evocar o testemunho de
sensíveis diferenças entre as condições para um velho marinheiro sobre os idos de 1942:
elaboração e implementação dos dois pla- “O povo chegava na Praça Mauá e
nos, todas apontando para a complexidade tinha um velho encouraçado lá, que não
e custos muito maiores na situação atual, o tinha mais serventia e o povo falava: Vai
que, apesar da legitimidade, não encontra pro mar, o que tá fazendo isso aí? Vai
correspondência na destinação de recursos pro mar!” (Pereira, 2015, citação p.134)

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<FORÇAS ARMADAS>; Marinha do Brasil; História da Marinha do Brasil; Estratégia;
Política nacional;

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COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO
(PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR

ARCHIMEDES FRANCISCO DELGADO*


Capitão de Mar e Guerra (RM1)

SUMÁRIO

Senso de justiça – competência do líder avaliador


O feedback como fator de melhoria de desempenho
As componentes da competência senso de justiça

A competência é conceituada, segundo a de cada componente desse conjunto, neces-


escola dos Estados Unidos da América, como sários para a obtenção de competência para
o conjunto de conhecimentos, habilidades e cargos ou funções de liderança.
atitudes que devam ser praticadas por uma pes- Assim, foi apresentado que os conheci-
soa que busque atingir um bom desempenho mentos mínimos que um líder deve procurar
profissional em determinado cargo ou função obter referem-se aos Liderados, ao Ambiente
(RABAGLIO, 2014). Na primeira parte deste no qual o grupo está inserido, à Profissão e
artigo, na edição anterior desta revista, foram ao próprio Autoconhecimento, formando o
enumerados e analisados os aspectos mínimos acrônimo LAPA.

* Comandou o Aviso de Instrução Aspirante Nascimento, o Rebocador de Alto-Mar Tridente e a Base Fluvial de
Ladário. MBA em Gestão Internacional na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Curso Superior
de Guerra Naval no Instituto de Guerra Marítima da Itália e Curso Superior de Estado-Maior Interforças
na Itália. Autor do livro Liderança – A arte de conduzir ao sucesso, professor de Liderança e de Jogos de
Guerra na Escola de Guerra Naval.
COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR

de fomentar a confiança das pessoas, sen-


do, portanto, imprescindíveis a qualquer
LÍDER.
Foi mostrado, então, que o conjunto des-
ses conhecimentos, habilidades e atitudes
remete às cinco competências consideradas
mínimas do líder contemporâneo: a agili-
dade de raciocínio, de modo a ser capaz de
adaptar-se rapidamente a novas e inespera-
das situações; a disposição para trabalhar
em equipe, atuando como motivador,
coordenador e conciliador; a resiliência,
No que se refere às habilidades, foram evitando sucumbir ante as primeiras dificul-
enumeradas as de Reconhecimento, Ousa- dades; o empreendedorismo, estabelecendo
dia, Coragem (com ênfase no seu aspecto objetivos e metas ousadas e orientando
moral), Humildade, os liderados para o
Estímulo (classifi- caminho do sucesso; e
cando o líder como A principal atividade do avador atuação como culti-
de novos líderes,
um criador de estresse
em nível adequado ao líder, decorrente do seu que é a mais importan-
aumento da produtivi- senso de justiça, é a de te tarefa de um líder,
dade), Delegação (no notadamente o militar,
intuito de preparar avaliador do desempenho no sentido de preparar
seus liderados para de seus liderados seus futuros eventuais
novos desafios) e de substitutos.
ser bom Ouvinte, for- Entretanto, há mais
mando o acrônimo ROCHEDO. uma competência do líder que, por ser de
Finalmente, a componente da atitude importância especial, foi reservada para
foi relacionada à Lealdade, à Integridade,à este artigo específico: o senso de justiça,
Determinação, ao Equilíbrio e ao Respeito, que possibilita ao líder analisar as reais
uma vez que, independentemente da cultura necessidades de seus liderados e atendê-las
organizacional do grupo de liderados, essas (e não às vontades) e, ainda, atuar como
atitudes são sempre importantes e capazes um desenvolvedor de competências e ava-
liador justo e sensato do desempenho dos
liderados, com o cuidado de lhes fornecer
feedback sobre seus pontos fortes, buscan-
do potencializá-los, e sobre os aspectos em
que precisem melhorar, de modo a eliminá-
-los ou, pelo menos, minimizá-los.
Essa avaliação individual que o líder
realiza de cada liderado é a chamada avalia-
ção absoluta, que visa ao desenvolvimento
pessoal do liderado, e difere da avaliação re-
lativa, realizada por um colegiado, com foco
no desenvolvimento da carreira do avaliado.

110 RMB1oT/2017
COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR

Considerando que o escopo do presente organização, aproximando o desempenho


artigo restringe-se à atuação individual do real do avaliado daquele que a organização
líder, será abordada apenas a avaliação deseja e espera. Assim, para que a avalia-
absoluta como sexta competência do líder ção reflita realmente o desempenho dos
contemporâneo, correlacionando-a aos subordinados e tenha a utilidade apontada,
conhecimentos, às habilidades e às atitudes é preciso que o avaliador tome o cuidado de
apontadas no artigo anterior. A avaliação “não confundir produtividade com o grau
relativa, por ser executada por um colegia- de integração e aceitação dos indivíduos
do, comparando as avaliações absolutas de às normas e aos procedimentos da orga-
várias pessoas, não será objeto deste estudo, nização onde estão inseridos”, conforme
apesar da necessidade de que cada um dos ressalta Frederick Herzberg, citado em
componentes do colegiado possua também AGUIAR (2005, p.362).
essa sexta competência. Em face disso, a avaliação de desem-
penho dos integrantes de uma organização
SENSO DE pode ficar distorcida
JUSTIÇA – caso o líder deixe-se
COMPETÊNCIA Cabe ao líder, incentivar levar pela tendência
DO LÍDER a criatividade de seus de avaliá-los de acordo
AVALIADOR com o grau de acomo-
subordinados, levando dação ao ambiente de
Esta competência em conta que isso pode trabalho, em vez da
é de fundamental im- capacidade técnico-
portância para a mo- provocar falhas e erros -profissional, do com-
tivação dos liderados, na execução das tarefas, prometimento, da ca-
na medida em que os quais devem ser pacidade de inovação
envolve, prioritaria- ou, em última análise,
mente, as habilidades considerados como fontes da produtividade. Tal
do líder referentes de aprendizado distorção, comum nas
à coragem e ao re- grandes organizações,
conhecimento, além inibe a iniciativa e a
daquela de ser um bom ouvinte. Isso porque capacidade de inovação dos liderados, pois
a principal atividade do líder, decorrente do costuma premiar aqueles que não causam
seu senso de justiça, é a de avaliador do de- desconforto ao chefe por não trazerem
sempenho de seus liderados. Dessa forma, novas ideias que o obrigue a pensar de
apesar da predominância das habilidades maneira diferente à que está acostumado.
acima citadas, para bem desempenhar esta Portanto, é importante que o avaliador
competência o líder precisa praticar todas conscientize-se de que os colaboradores
as habilidades e atitudes selecionadas como que não arriscam e não se aventuram a reali-
mínimas e necessárias ao exercício da lide- zar uma tarefa de modo inovador, buscando
rança, além de conhecer todos os aspectos um resultado sempre melhor, em nada con-
apontados anteriormente. tribuem para o crescimento da organização
Neste ponto, vale enfatizar que a e para o aumento de sua eficiência, seja ela
avaliação deve ser útil para o avaliado, medida em termos de serviços prestados ou
contribuindo para o seu desenvolvimento de materiais produzidos. Cabe, portanto,
profissional e pessoal, e também para a ao líder, incentivar a criatividade de seus

RMB1oT/2017 111
COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR

subordinados, levando em conta que isso Além disso, para que a avaliação seja
pode provocar falhas e erros na execução fiel ao nível de desempenho do avaliado,
das tarefas, os quais devem ser considera- ela deve estar pautada em um sistema estru-
dos como fontes de aprendizado. turado, capaz de unificar os critérios pelos
Vale lembrar que diversos estudiosos e quais os subordinados são avaliados, o que
pensadores chamam a atenção para o fato constitui a tarefa mais simples da avaliação,
de que os erros são, na verdade, tentativas sendo feita por técnicos especializados.
de acerto; e só acerta quem tenta. É desta No entanto, a parte mais difícil da
forma que o líder deve encarar os eventuais avaliação é aquela feita pelo líder, pois se
erros cometidos por seus liderados na ten- baseia em aspectos intuitivos e subjetivos.
tativa de, com boa fé, realizar uma tarefa Dessa forma, o líder deve avaliar cada um
de modo mais eficiente. de seus subordinados levando em conta
Ao perceberem que a avaliação é feita o grau de complexidade das tarefas que
com base no grau de acomodação dos executa (diretamente proporcional ao de-
avaliados às normas e aos procedimentos senvolvimento profissional), os resultados
da organização, os subordinados dispostos que obtém na execução dessas tarefas, ou
a inovar e efetivamente contribuir para seja, a performance, e o comportamento,
a evolução da organização sentem-se caracterizado pelo grau de adesão aos
desmotivados para a realização do seu tra- valores da organização, pelo grau de com-
balho. Essa desmotivação é explicada por prometimento com os objetivos a alcançar,
Herzberg, conforme citado em AGUIAR pelo tipo de relacionamento com pares,
(2005, p.362), ao ensinar que os fatores subordinados e superiores etc.
motivadores inerentes ao trabalho desen- Assim, para desenvolver seu senso
volvido pelas pessoas são “a liberdade de justiça e atuar como avaliador, o líder
de criar, de inovar, de procurar formas deve conhecer profundamente cada um de
próprias e únicas de atingir os resultados seus liderados, deixando de lado a vaidade
das tarefas acometidas”. própria, a fim de evitar ser influenciado por
Assim, o líder que avalia seus liderados bajuladores, sem se deixar levar por impres-
segundo o critério do grau de acomodação sões superficiais e imediatistas, que podem
às normas e aos procedimentos em vigor, conduzir a erros importantes de julgamento.
considerando o comportamento cauteloso, Dentre os erros mais comuns de ava-
pouco criativo e conformista como maduro liação, cabe citar: os efeitos halo e horn,
e integrador, dificilmente conseguirá que nos quais o avaliador considera que, se um
sua equipe tenha um desempenho acima colaborador é bom ou ruim em determinada
de mediano. tarefa, terá desempenho semelhante em
Para que obtenha sempre uma melhoria todas; a tendência central, segundo a qual
no desempenho de sua equipe, o líder deve o avaliador procura avaliar todos os cola-
avaliar seus colaboradores de maneira a boradores como medianos; o efeito de re-
incentivar o comportamento independente, centicidade, no qual o avaliador baseia suas
inovador e criativo, aceitando os eventuais observações apenas nos fatos mais recentes,
erros que possam vir a acontecer como sejam bons ou ruins; a autoidentificação,
fases do aprendizado e evitando cair na que ocorre quando o líder tende a avaliar
armadilha de considerar o liderado com melhor os colaboradores que possuam a
iniciativa e capacidade de inovação como mesma formação ou os mesmos interesses
desintegrador ou “criador de casos”. que ele; e o erro de fadiga, em que, devido

112 RMB1oT/2017
COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR

ao grande número de avaliações feitas, o critérios estabelecidos. Em outras palavras,


líder perde o foco e tende a mudar os cri- é preciso que o líder forneça ao liderado um
térios, ao avaliar os últimos colaboradores feedback da sua atuação, indicando-lhe o que
(CHIAVENATTO, 2010). considera seus pontos fortes e os aspectos
Todavia, como este artigo não tem a em que precise melhorar. Somente com este
intenção de analisar processos de avaliação feedback o avaliado poderá corrigir seus
ou os erros a eles inerentes, a exemplifi- procedimentos considerados fracos e aper-
cação acima, de forma bastante sumária, feiçoar e explorar cada vez melhor aqueles
dos erros mais comuns de avaliação tem a considerados fortes, aproximando-se do
finalidade apenas de ressaltar a importânciadesempenho dele esperado pela organização.
do desenvolvimento da competência do O feedback pode ser fornecido diaria-
senso de justiça, de modo a “vacinar” o mente, de modo informal, mas é fundamen-
líder contra esses e outros erros comuns no tal que também o seja em uma entrevista
processo de avaliação dos subordinados. periódica formal entre avaliador e avaliado,
para a qual o primei-
O FEEDBACK ro deve preparar-se
COMO É de suma importância cuidadosamente. Esse
FATOR DE que o líder incentive seus preparo é importan-
MELHORIA DE te porque o feedback
DESEMPENHO liderados a adquirir um não pode ser encarado
comportamento inovador como uma sessão de
O processo de
avaliação de desem-
e observe como cada um censura e críticas, mas
sim como uma conver-
penho visa, primor- deles lida com a inovação e sa amigável e sincera
dialmente, aproximar os desafios que ela provoca com a finalidade de
o desempenho real ajudar o desenvolvi-
do avaliado daquele mento profissional e
esperado pela organização. Entretanto, pessoal do avaliado.
esse processo tem sido empregado, em Existe uma tendência natural de trans-
muitas organizações de maneira limitada, formar o feedback em uma resenha dos
servindo apenas para subsidiar processos erros e acertos passados do avaliado, sem
de escolha ou de designação de cargos ou foco no futuro. Esses erros e acertos podem,
funções, normalmente realizados, na fase eventualmente, ser abordados no feedback,
de avaliação relativa, por um colegiado. porém apenas de modo a servir de orienta-
Uma vez que a principal finalidade da ção para definir os aspectos em que o lidera-
avaliação é buscar a melhoria do desem- do precise se desenvolver para lidar com os
penho dos avaliados, ou seja, o seu desen- futuros desafios que irá enfrentar. Para isso,
volvimento profissional, não basta ao líder é de suma importância que o líder, atuando
avaliar seus liderados individualmente e como avaliador, incentive seus liderados
encaminhar suas observações para o cole- a adquirir um comportamento inovador
giado encarregado da avaliação relativa. e observe como cada um deles lida com
É fundamental que converse com cada um a inovação e os desafios que ela provoca.
dos avaliados individualmente, indicando- Para a realização de um feedback provei-
-lhes os motivos pelos quais os avaliou toso, deve existir entre avaliador e avaliado
de determinada maneira, em cada um dos uma relação de confiança mútua, típica da

RMB1oT/2017 113
COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR

relação entre líder e liderado, que faça com a organização ou instituição a que ambos
que o receptor interprete as observações pertencem. Para isso, o líder deve procurar
apresentadas pelo avaliador como contri- ser o mais descritivo possível em relação ao
buições para o seu próprio aperfeiçoamento, comportamento do avaliado e ao que dele
sejam essas observações positivas ou nega- se espera no futuro, evitando expressões
tivas. Visto dessa forma, o feedback torna- ambíguas ou vagas.
-se uma fonte de energia tanto para o líder Resumidamente, ao final do feedback,
quanto para os liderados, incentivando-os a líder e liderados devem deixar estabelecido
aperfeiçoar seu comportamento e a produzir um conjunto de metas e compromissos a se-
ótimos resultados, além de fortalecer a lide- rem cumpridos durante o próximo período
rança exercida pelo avaliador. de avaliação, visando ao desenvolvimento
A realização desse feedback demonstra, profissional do liderado e ao seu preparo
por parte do líder, consideração e respeito para novos desafios e para o cumprimento
pelos seus subordinados, minimizando suas de tarefas mais complexas.
incertezas e ansiedades, além de reconhe- Assim, para desenvolver a competência
cimento com seu esforço em realizar suas do senso de justiça e avaliar corretamente
tarefas de maneira seus liderados, o líder
correta, fortalecendo precisa agir com leal-
o exercício da lide- Para desenvolver a dade, integridade, equi-
rança. Além disso, competência do senso líbrio e respeito. Além
orienta os liderados disso, é necessário que
quanto ao comporta- de justiça e avaliar tenha bem desenvol-
mento e ao desempe- corretamente seus liderados, vidas as habilidades
nho deles esperados, de coragem moral, de
fazendo com que
o líder precisa agir com reconhecimento, de
saibam como estão lealdade, integridade, ouvinte e de estimu-
sendo vistos no seu equilíbrio e respeito lador, tendo em vista
ambiente de trabalho, que as críticas contidas
o que contribui para o no feedback devem ser
seu autoconhecimento. feitas com sinceridade, honestidade e res-
Dessa forma, para realizar uma avalia- peito, evitando desmotivar o avaliado, a
ção isenta e fornecer um feedback útil ao quem deve sempre ser concedida a palavra,
avaliado e à organização ou instituição a quer seja para este expor suas dificuldades
que pertença, o líder precisa preparar-se no cumprimento das tarefas em que seu
adequada e previamente. É inaceitável desempenho tenha deixado a desejar, quer
que, durante o feedback, o líder venha a seja para contribuir para o aperfeiçoamento
descontrolar-se ou a empregar expressões dos processos nos quais tenha apresentado
que possam ofender o avaliado ou afetar bom desempenho.
negativamente sua autoestima. As críticas
que eventualmente serão feitas durante a AS COMPONENTES DA
conversa de feedback precisam ser cuida- COMPETÊNCIA SENSO DE
dosamente preparadas, medindo-se as pa- JUSTIÇA
lavras, sem deixar de expressar a verdade,
com clareza, honestidade e lealdade para Concluindo, para adquirir a competência
com o avaliado e, principalmente, para com do senso de justiça, de modo que possa

114 RMB1oT/2017
COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR

avaliar corretamente o desem-


penho de seus subordinados, o
líder precisa exercitar todos os
conhecimentos, habilidades e
atitudes listadas no artigo ante-
rior, conforme alguns exemplos
abaixo.
Para identificar os pontos
fortes e fracos de cada colabo-
rador, o líder precisa conhecer
não só as tarefas que cada um
deles executa (conhecimento
profissional), como também
a personalidade e o potencial
profissional de cada um deles
em particular (conhecimento
dos liderados), além dos valores, da ética e só poderão ser criadas se o líder delegar
da cultura da organização a que pertencem tarefas importantes a seus subordinados,
(conhecimento do ambiente). Além disso, demonstrando estar sempre disponível para
o líder somente será capaz de realizar um orientá-los, e, ao mesmo tempo, tiver hu-
feedback proveitoso mildade para reconhe-
para os liderados e cer o valor das novas
para a organização se O líder precisa desenvolver soluções e acatá-las,
tiver consciência dos e praticar conhecimentos, se for o caso. Além
seus próprios pontos disso, somente pode-
fortes e fracos e de habilidades e atitudes rá realizar um bom
sua maneira de enca- de maneira autêntica e feedback se for capaz
rar situações inespe- de ouvir com atenção
radas e um absoluto
sincera, pois somente a as dificuldades e su-
autocontrole (autoco- autenticidade é capaz gestões dos liderados,
nhecimento). de gerar confiança, que procurando ajudá-los
No que se refere a vencer essas dificul-
às habilidades, é ne- é a base sobre a qual se dades e avaliando com
cessário que o líder sustenta a liderança isenção as sugestões.
seja capaz de exter- Finalmente, as ati-
nar reconhecimento tudes apontadas no
quando o subordinado realizar um bom artigo anterior são de fundamental impor-
trabalho, assim como precisa ter coragem tância, pois é preciso que o líder seja leal e
moral para demonstrar as eventuais falhas, íntegro, não só no momento da avaliação,
caso o trabalho tenha sido feito de maneira mas principalmente no feedback, quando
insatisfatória. Por outro lado, o líder pre- o respeito e o equilíbrio emocional são
cisa ter ousadia para testar novas práticas também de absoluta importância. E, para
desenvolvidas pelos colaboradores, além que tenha condições de executar as tarefas
de estimulá-los a desenvolver novas solu- que lhe cabem em um eficiente sistema de
ções. Essas novas soluções, por sua vez, avaliação de desempenho, é preciso ser

RMB1oT/2017 115
COMPETÊNCIAS DO LÍDER CONTEMPORÂNEO (PARTE II) – O LÍDER COMO AVALIADOR

determinado, pois poderá ser obrigado a en- é capaz de gerar confiança, que é a base
frentar situações difíceis e constrangedoras. sobre a qual se sustenta a liderança.
Enfim, o líder precisa desenvolver e Agindo dessa forma, o chefe constituirá
praticar conhecimentos, habilidades e um exemplo para seus subordinados, que
atitudes apontadas de maneira autêntica passarão a enxergá-lo não apenas como
e sincera, pois somente a autenticidade chefe, mas como líder.

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<VALORES>; Liderança; Comportamento;

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AGUIAR, Maria Aparecida Ferreira de. Psicologia aplicada à Administração: uma abordagem in-
terdisciplinar. São Paulo: Saraiva, 2005.
CHIAVENATTO, Idalberto. Gestão de pessoas. 3o ed. Rio de Janeiro: Campus, 2010.
GOLEMAN, Daniel. Inteligência Emocional: a teoria revolucionária que redefine o que é ser inteli-
gente. Tradução de Marcos Santarrita. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
GOLEMAN, Daniel. Liderança. A Inteligência Emocional na formação do líder de sucesso. Rio de
Janeiro: Objetiva, 2015.
RABAGLIO, Maria Odete. Gestão por competências: ferramentas para atração e captação de talentos
humanos. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2014.
SIQUEIRA, Wagner. Avaliação de Desempenho: como romper amarras e superar modelos ultrapas-
sados. Rio de Janeiro: Reichman Affonso, 2002.

116 RMB1oT/2017
A INTERDEPENDÊNCIA ENTRE ENERGIA E ÁGUA

LEONAM DOS SANTOS GUIMARÃES*


Capitão de Mar e Guerra (RM1-EN)

A produção de energia depende da água, crescentes em muitas regiões, como con-


principalmente para o resfriamento de sequência do crescimento populacional,
usinas termelétricas, mas também na pro- do desenvolvimento socioeconômico e das
dução, no transporte e mudanças climáticas.
no processamento de Sua interdependên-
combustíveis fósseis. cia tende, portanto,
Além disso, cada vez a amplificar a mútua
mais a água é usada vulnerabilidade.
na irrigação de cul- Para o setor de
turas para produção energia, as restrições
de biomassa de uso à água podem pôr em
energético. Por outro causa a confiabilida-
lado, a energia é vital Bandeira da Agência Internacional de de das operações das
para o funcionamento Energia Atômica (AIEA), usinas termelétricas
uma organização das Nações Unidas1
de sistemas que co- existentes, bem como
letam, transportam, a viabilidade física,
distribuem e tratam a água, garantindo seu econômica e ambiental de futuros projetos.
fornecimento para seus diversos usos. Igualmente importante em termos de riscos
Tanto a energia como a água são recur- relacionados à água enfrentados pelo setor
sos que enfrentam demandas e restrições energético, o seu uso para a produção de

* Doutor em Engenharia, diretor de Planejamento, Gestão e Meio Ambiente da Eletrobrás Eletronuclear e membro
do Grupo Permanente de Assessoria do Diretor-Geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).
Colaborador assíduo da RMB.
1 Em: [Link]
A INTERDEPENDÊNCIA ENTRE ENERGIA E ÁGUA

energia pode afetar os recursos de água de estresse. Além disso, pela primeira vez o
doce, tanto na sua quantidade como na sua WEO 2016 observa a relação energia-água,
qualidade. Por outro lado, a dependência analisando as necessidades energéticas para
dos serviços de abastecimento de água da diferentes processos no setor de água, in-
disponibilidade de energia afetará a capa- cluindo abastecimento, distribuição, trata-
cidade de fornecer água potável e serviços mento de águas residuais e dessalinização.
de saneamento às populações. As principais conclusões foram divulgadas
no Global Water Forum, na COP22, em 15
de novembro de 2016.

Marrakesh COP223

As interdependências entre energia e


água deverão ser intensificadas nos pró-
ximos anos, uma vez que as necessidades
destas no setor energético e as necessida-
des energéticas do setor de água crescem
simultaneamente. A água é essencial para
Capa do Sumário Executivo do World Energy todas as fases da produção de energia: este
Outlook WEO 20162 setor é responsável por 10% das retiradas
mundiais de água, principalmente para o
O World Energy Outlook – WEO funcionamento das centrais termelétricas,
2016, lançado pela Agência Internacional bem como para a produção de combustíveis
de Energia (IEA) em 16 de novembro de fósseis e biocombustíveis. Estas necessida-
2016, tem um capítulo dedicado ao nexo des aumentam, especialmente para água
entre energia e água e analisa como as que é consumida (isto é, que é retirada de
complexas interdependências entre esses uma fonte, mas não devolvida a ela). No
dois recursos se aprofundarão nas próximas setor de energia há uma mudança para
décadas. Esta análise atualiza o trabalho tecnologias avançadas de resfriamento que
anterior, realizado em 2012, e avalia as retiram menos água, mas que, por sua vez,
necessidades atuais e futuras de água doce consomem mais.
para a produção de energia, destacando O crescimento da procura por biocom-
potenciais vulnerabilidades e pontos-chave bustíveis aumenta o consumo de água e

2 Em :[Link]
[Link]
3 Em: [Link]

118 RMB1oT/2017
A INTERDEPENDÊNCIA ENTRE ENERGIA E ÁGUA

uma maior utilização da energia nuclear realização bem-sucedida de uma série de


aumenta os níveis de retirada e de consumo. metas de desenvolvimento e de mitigação
No outro lado da equação energia-água, a das mudanças climáticas. Há várias cone-
análise do WEO 2016 fornece uma primeira xões entre os novos Objetivos de Desen-
estimativa global sistemática da quantidade volvimento Sustentável das Nações Unidas
de energia usada para fornecer água aos (SDG) sobre água limpa e saneamento (SDG
consumidores. Em 6) e energia limpa e
2014, cerca de 4% acessível (SDG 7), que,
do consumo global Em 2040, a quantidade de se bem geridos, permi-
de energia elétrica foi
utilizado para extrair,
energia usada no setor de tem alcançar os dois
conjuntos de metas.
distribuir e tratar água água é projetada para mais Existem também
e esgoto, juntamente do que o dobro muitas oportunidades
com 50 milhões de to- economicamente vi-
neladas de óleo equi- áveis para economias
valente de energia térmica, principalmente de energia e água que podem aliviar as
diesel, usado para bombas de irrigação e pressões sobre ambos os recursos, se con-
gás em usinas de dessalinização. siderados de forma integrada. Os esforços
Até o período de 2040, a quantidade de para combater as alterações climáticas
energia usada no setor podem exacerbar o
de água é projetada estresse hídrico ou ser
para mais do que o A dessalinização nuclear limitados pela dispo-
dobro. A capacidade é muito competitiva em nibilidade de água em
de dessalinização au- alguns casos.
menta acentuadamente termos de custos, e somente Algumas tecnolo-
no Oriente Médio e os reatores nucleares são gias de baixas emis-
no Norte da África, e
a demanda por trata-
capazes de fornecer energia sões de carbono, como
a energia eólica e solar,
mento de águas residu- necessária para projetos em requerem muito pouca
ais (e níveis mais altos grande escala água, mas quanto mais
de tratamento) cres- uma via de descarbo-
ce especialmente nas nização se baseia nos
economias emergentes. Em 2040, 16% do biocombustíveis, concentrando a energia
consumo de eletricidade no Oriente Médio solar, a captura de carbono ou a energia
estará relacionado ao fornecimento de água. nuclear, mais água é consumida.
A gestão das interdependências água- Possivelmente, a gestão combinada
-energia é crucial para as perspectivas de e harmônica da energia e da água seja
o maior desafio para
uma efetiva transição
para uma economia de
baixo carbono, reque-
rida pela mitigação das
Metas do Desenvolvimento Sustentável4 mudanças climáticas.

4 Em: [Link]

RMB1oT/2017 119
A INTERDEPENDÊNCIA ENTRE ENERGIA E ÁGUA

Tendo em vista que a gestão desses recursos campo para a aplicação da dessalinização
tem um forte componente transnacional, os em grande escala, para a qual a energia
efeitos geopolíticos dessa transição se tor- nuclear seria uma alternativa viável.
narão cada vez mais pronunciados. Com efeito, a energia nuclear já está
Note-se, finalmente, que a água do mar sendo usada para dessalinização e tem
é um recurso praticamente inesgotável. potencial para um uso muito maior. A
Seu efetivo uso, entretanto, depende da dessalinização nuclear é muito competitiva
disponibilidade de energia abundante e a em termos de custos, e somente os reatores
baixo custo para dessalinização e posterior nucleares são capazes de fornecer as copio-
transporte e distribuição para os locais ca- sas quantidades de energia necessárias para
rentes em água doce. Isto abre um amplo projetos em grande escala no futuro.

Dessalinização Nuclear5

1 CLASSIFICAÇÃO PARA ÍNDICE REMISSIVO:


<CIÊNCIA E TECNOLOGIA>; Energia nuclear; Ciência; Política nuclear; Água;

5 Em: [Link]

120 RMB1oT/2017
DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO
SOB O PRISMA DOS DISCURSOS PRESIDENCIAIS
DURANTE A REPÚBLICA VELHA

REIS FRIEDE*
Desembargador Federal

SUMÁRIO

Introdução
Dos discursos dos Presidentes da República Velha (ou Primeira República)
Deodoro da Fonseca
Floriano Peixoto
Prudente de Moraes
Campos Sales
Rodrigues Alves
Afonso Pena
Nilo Peçanha
Hermes da Fonseca
Wenceslau Braz
Epitácio Pessoa
Arthur Bernardes
Washington Luís
Conclusão

* Vice-Presidente do Tribunal Regional Federal (TRF)/2ª Região. Ex-membro do Ministério Público e professor
titular da Universidade Veiga de Almeida e do mestrado em Desenvolvimento Local do Centro Universitário
Augusto Motta (Unisuam). Colaborador costumeiro da RMB.
DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS
DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA

INTRODUÇÃO relacionado com o tema de fundo abordado


no trabalho.

A construção do presente artigo partiu de


uma premissa: a de que os discursos,
notadamente aqueles articulados por oca-
DOS DISCURSOS DOS
PRESIDENTES DA REPÚBLICA
sião da assunção do mandato presidencial, VELHA (OU PRIMEIRA
abarcam, representam e refletem parte REPÚBLICA)
da história nacional, o que nos inspirou
a analisar os pronunciamentos de posse A República Velha (ou Primeira Re-
realizados pelos presidentes durante a Re- pública) abarca a fase compreendida
pública Velha, desde Deodoro da Fonseca entre a Proclamação da República (15 de
até Washington Luís. novembro de 1889) até a Revolução de
Nesse sentido, Fernando Lyra, então 1930, movimento que depôs o Presidente
deputado federal, na qualidade de líder do Washington Luís, em 24 de outubro do
antigo Movimento Democrático Brasileiro mesmo ano. Trata-se, como cediço, de um
(MDB), em discurso publicado no Diário período extremamente conturbado da histó-
do Congresso Nacional de 2 de abril de ria nacional, caracterizado pela ocorrência
1975, afirmou que os discursos, como de diversas revoltas que, volta e meia,
testemunhos de uma época, “integram o redundavam numa intervenção militar, evi-
acervo histórico de qualquer povo civiliza- denciando, assim, o papel desempenhado
do, valendo como fonte das mais originais pelas Forças Armadas de então, enquanto
e autênticas para fixar o grau de desenvol- instrumento de estabilização política, bem
vimento político”. (BRASIL, 1975, p. 2) como a incapacidade de o Poder Judiciário
Tendo em vista o escopo a ser alcançado atuar como mecanismo de solução de cri-
pelo texto ora introduzido, a empreitada ses, apesar de formalmente independente.
limitou-se a identificar, fragmentar e ana-
lisar, especificamente, o ponto de vista DEODORO DA FONSECA
anunciado pelos presidentes da época em
relação às Forças Armadas e ao Poder Ju- Laurentino Gomes, discorrendo sobre
diciário, de modo a buscar informações que o período imediatamente antecedente aos
possibilitassem verificar a respectiva traje- 15 de novembro de 1889, traçou o seguinte
tória institucional em momentos pretéritos. quadro:
Para tanto, foram examinados diversos Na última eleição parlamentar do
discursos presidenciais, sendo que, em Império, realizada em 31 de agosto de
alguns casos, tendo em vista a inexistência 1889, o Partido Republicano elegeu
de uma preleção de posse, outros, relativos somente dois deputados e nenhum
a momentos posteriores, foram sopesados senador. Os votos colhidos pelos seus
em substituição, adotando-se, em qualquer candidatos em todo o País não chegaram
caso, o critério cronológico. a 15% do total apurado. O resultado era
Obviamente, como não poderia dei- pior do que o obtido quatro anos antes,
xar de ser, permitimo-nos, em alguns no pleito de 1885 [...]. Sem eco nas ur-
momentos, extrair certas inferências dos nas, os civis encontraram nos militares
fragmentos textuais transcritos, para, em o elemento de força que lhes faltava
seguida, consignar a nossa própria obser- para a mudança do regime. (GOMES,
vação acerca dos fatos, tudo historicamente 2013, p. 19)

122 RMB1oT/2017
DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS
DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA

Laurentino (2013, p. 175) menciona, para a defesa da integridade da pátria e


como um dos antecedentes históricos ao da ordem pública, o governo provisó-
advento da República, o episódio da Questão rio, por todos os meios a seu alcance,
Militar, ou seja, uma série de conflitos envol- permite e garante a todos os habitantes
vendo o Exército e o governo imperial entre do Brasil, nacionais e estrangeiros, a
agosto de 1886 e maio de 1887, cujos des- segurança da vida e da propriedade, o
dobramentos ocasionariam profundas fendas respeito aos direitos individuais e polí-
nas relações hierárquicas, de modo que a ticos, salvas, quanto a estes, as limita-
Monarquia não possuía mais condições de ções exigidas pelo bem da pátria e pela
impor disciplina aos quartéis. Por conta legítima defesa do governo proclamado
desse e de outros fatores, criou-se, assim, o pelo povo, pelo Exército, pela Armada
“caldo de cultura” que viabilizou diversas nacional. (BONFIM, 2004, p. 29-30)
intervenções militares
ocorridas no Brasil, no Notemos a força
qual as Forças Arma- O povo, o Exército e das palavras de Deo-
das figuraram como as doro, que nenhuma dú-
grandes responsáveis a Armada nacional vida deixam a respeito
pela fundação da Re- [...] acabam de do status e do poder
pública brasileira, evi- decretar a deposição das Forças Armadas
denciando, ademais, no final do século XIX:
certa incapacidade da dinastia imperial “O povo, o Exército e
da sociedade civil da e consequentemente a Armada nacional [...]
ocasião em conduzir acabam de decretar a
os rumos do Estado a extinção do sistema deposição da dinastia
liberal. Com efeito, o monárquico representativo imperial e consequen-
advento republicano Deodoro da Fonseca temente a extinção do
consolidou definitiva- sistema monárquico
mente a importância representativo”.
institucional das Forças Armadas. Ademais, o Marechal, ao mesmo tem-
Quando da Proclamação da República, po em que confere às Forças Armadas a
o Marechal Deodoro da Fonseca (15 de denominação de depositárias da vontade
novembro de 1889 a 23 de novembro de nacional, realça o compromisso de lhes
1891) fez expressa referência ao Exército e assegurar o papel de principais mantene-
à Armada (não existia a Força Aérea, ainda, doras da ordem e das instituições. Como
por razões óbvias): comprova a história, tal concepção quanto
Concidadãos – O povo, o Exército à missão das Forças Armadas iria se repetir
e a Armada nacional, em perfeita co- ao longo do século XX, possibilitando,
munhão de sentimentos com os nossos como veremos nos registros subsequentes,
concidadãos residentes nas províncias, diversas intervenções na cena nacional, tais
acabam de decretar a deposição da di- como as de 1937 e 1964.
nastia imperial e, consequentemente, a
extinção do sistema monárquico repre- FLORIANO PEIXOTO
sentativo [...].
No uso das atribuições e faculdades Deodoro, como se sabe, governou provi-
extraordinárias de que se acha investido soriamente de 15 de novembro de 1889 a 25

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de fevereiro de 1891. Era preciso, portanto, Paulista e representante da elite cafeeira


eleger o Presidente da República para um paulista, na pasta da Fazenda. Como não
mandato regular de quatro anos. Sem se poderia deixar de ser, ao discursar, Floriano
afastar do governo, Deodoro candidatou- destacou o papel do Exército e da Armada.
-se ao pleito, o que lhe facilitava, a toda Sinteticamente, afirmou o militar:
evidência, o eventual manejo das Forças São conhecidos os fatos que se rea-
Armadas em seu benefício, caso viesse lizaram nesta cidade [Rio de Janeiro] e
a perder as eleições para o candidato da no seu porto durante a noite de 22 e na
oposição, Prudente de Moraes. A bem da manhã do dia seguinte, precedidos de
verdade, havia um sentimento de que De- levantamento do heroico estado do Rio
odoro, uma vez derrotado, não entregaria o Grande do Sul, e atitude francamente
poder. Eleito indiretamente com 129 votos, hostil do estado do Pará. A Armada,
contra 97 de Prudente, o Marechal toma grande parte do Exército e cidadãos de
posse aos 26 de fevereiro de 1891. diversas classes promoveram pelas ar-
Em 3 de novembro de 1891, no episódio mas o restabelecimento da Constituição
que restou historicamente conhecido como e das leis suspensas pelo decreto de 3
o Golpe de 3 de Novembro, Deodoro da deste mês [novembro], que dissolveu
Fonseca dissolve o Congresso Nacional e o Congresso Nacional. A história re-
instaura o estado de sítio, suspendendo as gistrará esse feito cívico das classes
disposições da Constituição republicana re- armadas do País em prol da lei, que não
ferentes aos direitos individuais e políticos, pode ser substituída pela força; mas ela
possibilitando, assim, que qualquer pessoa registrará igualmente o ato de abnegação
fosse presa sem direito a habeas corpus, e patriotismo do generalíssimo Manoel
o que motivou uma nova intervenção do Deodoro da Fonseca resignando o poder
Exército. Por sua vez, unidades da Armada, a fim de poupar a luta entre irmãos, o
tendo como um dos líderes o Almirante derramamento do sangue de brasileiros,
Custódio de Mello, ameaçam bombardear o choque entre os seus companheiros de
o Rio de Janeiro (Distrito Federal), caso armas, fatores gloriosos do imortal mo-
Deodoro não voltasse atrás e restaurasse vimento de 15 de novembro, destinados
as condições políticas, acontecimento que a defender, unidos, a honra nacional e
restou conhecido como a primeira Revolta a integridade da pátria contra o estran-
da Armada (1891). geiro e a defender e garantir a ordem e
Pressionado devido à crise política e as instituições republicanas no interior
econômica que havia se instalado no País, do País.
causada, notadamente, pela política do En- Esses acontecimentos que não têm
cilhamento, Deodoro renuncia ao mandato muitos modelos nos anais da humani-
presidencial em 23 de novembro de 1891, dade e dos quais podemos nos gloriar,
assumindo o vice Floriano Peixoto (23 de como justamente nos gloriamos das
novembro de 1891 a 15 de novembro de duas revoluções pacíficas que operaram
1894), que inaugura uma fase de governo pela República, a transformação de
antideodorista, na qual se constata uma todo nosso direito político e pela aboli-
coalizão político-militar, tendo em suas ção do elemento servil, a transformação
fileiras, por exemplo, o Almirante Custó- do trabalho nacional, atestarão aos
dio de Mello como ministro da Armada, e vindouros o amor do povo, da Marinha
Rodrigues Alves, do Partido Republicano e do Exército pelas liberdades consti-

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tucionais, que formam e enobrecem a decide permanecer no cargo até o fim do


vida das nações modernas. [...]. quadriênio para o qual Deodoro havia sido
No governo do Estado, que me foi eleito, provocando uma ferrenha oposição
conferido pela Constituição, confio na por parte de alguns segmentos da sociedade
retidão de sua consciência para promo- e dos militares. Diante do impasse suces-
ver o bem da pátria. Da confiança do sório, novamente a embrionária República
povo, do Exército e da Marinha espero vê-se perante uma nova investida militar,
não desmerecer. Das forças de terra agora contra a permanência do florianismo.
e mar conheço o valor realçado pela Assim, diante desse ambiente conturba-
disciplina e pelo respeito aos direitos do, em março de 1892, 13 oficiais-generais
da sociedade civil. Admirei e admiro do Exército e da Marinha assinam um mani-
os meus bons companheiros na guerra festo (conhecido como o Manifesto dos 13
e na paz. Generais) questionan-
A coragem e do a legitimidade do
a constância que Das forças de terra e mar governo de Floriano,
mostraram [os mi-
litares] nos com-
conheço o valor realçado bem como pleiteando
a imediata realização
bates se transfor- pela disciplina e pelo de eleições para Pre-
maram nos anos respeito aos direitos da sidente da República.
de paz, que temos Em reação, Floriano
fruído, no amor da sociedade civil. Admirei determina a prisão e
Liberdade e da Re- e admiro os meus bons a reforma de vários
pública, que com
o povo fundaram
companheiros na guerra militares. Com efeito, en-
e com ele querem e na paz quanto a primeira su-
manter e conso- Floriano Peixoto blevação da Marinha
lidar. (BONFIM, atuou contra Deodoro
2004, p. 36-37) da Fonseca, que pre-
tendia permanecer no poder e foi impedido
Da análise do discurso de Floriano de seu intento, o segundo levante, por seu
Peixoto extrai-se, com muita evidência, turno, guarda relação com a questão da
o protagonismo das Forças Armadas de sucessão de Floriano, tema que encontrava
outrora, cujo poder detinha as condições interpretação e solução jurídica junto ao art.
de apoiar ou rejeitar o governo que se ins- 42 da Carta de 1891, o que, evidentemente,
talava, deixando patente, assim, o respeito não aconteceu sob o agasalho do Poder
do Presidente em relação aos militares, por Judiciário daquela quadra.
ele chamados de companheiros. Assim, em 6 de setembro de 1893, ofi-
Mas a assunção de Floriano ainda ciais da Força Naval, novamente liderados
provocaria outro imbróglio. O art. 42 da por Custódio de Mello, deflagram, no Rio
Constituição de 1891 previa que, no caso de Janeiro a segunda Revolta da Armada,
de vaga, por qualquer causa, da Presidência cujo objetivo era depor Floriano, cujo de-
antes de completados dois anos do período sejo, contrariando o texto constitucional,
presidencial, nova eleição deveria ser rea- era completar o mandato do Presidente
lizada. Não obstante, Floriano faz ouvidos anterior. O movimento, que contou com o
moucos para tal regra constitucional e apoio do Almirante Eduardo Wandenkolk,

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ministro da pasta da Marinha no governo nível de envolvimento das Forças Armadas


de Deodoro, bem como do Almirante com a política na incipiente República
Saldanha da Gama, então comandante da brasileira, aspecto que acabava por gerar o
Escola Naval, ameaçava destruir a capital, quadro abaixo descrito por Tobias Monteiro:
sofrendo, então, forte oposição do Exérci- [...] nas forças militares onde penetra
to, fato que comprova a falta de consenso o vírus da política, forças que subvertem
político entre os próprios militares. regimes, depõem autoridades e mudam
Interessante registrar um dado histórico, situações, os legalistas e os revolucio-
qual seja o fato da Armada não ter parti- nários revezam-se na sua dupla tarefa.
cipado efetivamente da Proclamação da Muitos dos que o levaram [refere-se a
República (1889), mas ter se envolvido, Floriano] ao poder em nome da Cons-
num curto lapso temporal, e sob a liderança tituição depressa passaram a arrogar-
de Custódio, em dois episódios (1891 e -se o poder de interpretá-la e impor a
1893). A explicação, segundo o que o pró- decisão dos canhões; do mesmo modo,
prio Almirante registrou, seria a seguinte: alguns dos que contra eles o defenderam
Na monarquia nunca nos filiamos a e dos mais próximos à sua pessoa já
nenhum partido político, nem uma só preparavam as armas para substituí-los
vez exercemos o direito de voto nos e conspiravam para opor-se ao advento
comícios eleitorais, jamais ocupamos do governo civil.
lugar político, e muito menos nos pres- Era em tudo o espetáculo tão cons-
tamos a manejos militares eleitorais nos tante na vida política do Brasil, desde a
cargos de administração, inerentes ao Independência, de verem-se os homens
serviço militar, que nos foram confiados. caídos do governo trocar os papéis com
Íamos, sim, sempre que o dever militar e os da oposição vencedora; as palavras
o desejo de gratidão o exigiam, ao Paço e as ações passam de uns a outros, pro-
Militar cumprimentar o chefe da Nação, feridas e praticadas com a mesma falta
de quem nunca sofremos desgostos de de convicções e a mesma paixão de inte-
uma só injustiça. Mas, se é certo que resse ferido ou satisfeito. (MONTEIRO,
nossas ideias republicanas, ainda que 2005, p. 46-47)
platônicas, nos afastavam das lutas
partidárias e do convívio dos homens E essa relação militarismo-política,
políticos e dos cortesãos, não é menos como veremos durante o presente texto, se
certo de que servimos a nosso país com repetiria em outras ocasiões.
a maior dedicação, lealdade e patriotis-
mo, do que nossa fé de ofício fornece PRUDENTE DE MORAES
inequívocas e exuberantes provas. [...]
servindo nós agora a República, princi- Prudente de Moraes (15 de novembro
palmente depois de termos por duas [as de 1894 a 15 de novembro de 1898), um
Revoltas da Armada, em 1891 e 1893] advogado, quebra a sequência de militares
vezes arriscado nossa vida para salvá-la. no poder. Não obstante, também consagra
(MELLO, 1938, p. 25-26) a atuação e o apoio das Forças Armadas na
sua alçada à Presidência. Ao ser empossado
O cenário relativo à transição e respecti- e discursar, registrou:
vos embates ocorridos à época entre deodo- Assumindo hoje a Presidência da
ristas e florianistas demonstra justamente o República, obedeço à resolução da sobe-

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rania nacional, solenemente enunciada pel exercido pelas forças militares de terra
pelo escrutínio de 1o de Março. [...]. e mar sobre os denominados inimigos da
O lustro de existência que hoje com- República, vitória que, segundo o transcrito
pleta a República brasileira tem sido de pronunciamento, possibilitou a estabilidade
lutas quase permanentes com adversá- republicana. No entanto, ao longo de seu
rios de toda a espécie [...]. governo, Prudente de Morais realizou cor-
Como expressão concreta desse tes no orçamento militar, o que acarretou
período de funestas dissensões e lutas, problemas quanto ao ensino e à formação
rememoro com amargura a revolta de 6 da oficialidade militar, impedindo, ainda, a
de setembro do ano próximo passado. modernização das instituições castrenses.
Essa revolta,
que foi o mais CAMPOS SALES
violento abalo A vitória da República
de que se podia O Presidente Cam-
ressentir o regi-
foi decisiva para provar pos Sales (15 de no-
me proclamado a a estabilidade das novas vembro de 1898 a 15
15 de Novembro instituições, que tiveram de novembro de 1902),
de 1889, iniciada ao discorrer por oca-
sob o pretexto de para defendê-las a sião de sua posse, não
defender a Cons- coragem, a pertinácia e a se referiu às forças
tituição da Repú-
blica e de libertar
dedicação do benemérito militares. Em nenhum
momento citou termos
a Pátria do jugo chefe de Estado, auxiliado semelhantes aos pro-
de uma suposta eficazmente pelas forças feridos por Deodoro,
ditadura militar, Floriano e Prudente.
reuniu, sob a sua militares de terra e mar Tratou, principalmen-
bandeira, todos os Prudente de Moraes te, de aspectos per-
elementos adver- tinentes à economia,
sos à ordem e à paz tendo em vista que, ao
pública, concluindo por caracterizar-se assumir, herdou uma grave crise econômi-
em um movimento formidável de ataque ca. De importante para o presente estudo,
às instituições nacionais, arvorando o cabe registrar que o discurso de 15 de
estandarte da restauração monárquica. novembro de 1898, de certo modo, teceu
Mas, por isso mesmo que essa luta tre- considerações a respeito da harmonia que
menda foi travada pela coligação de todos deve existir entre os poderes republicanos,
os inimigos, a vitória da República foi de- embora tenha conferido uma função ex-
cisiva para provar a estabilidade das novas tremamente acanhada ao Poder Judiciário,
instituições, que tiveram para defendê-las reveladora mesmo de uma independência
a coragem, a pertinácia e a dedicação do institucional meramente formal:
benemérito chefe de Estado, auxiliado Desde que, sob a influência de funes-
eficazmente pelas forças militares de terra tas tendências e dominado por mal enten-
e mar [...]. (BONFIM, 2004, p. 44) dida aspiração de supremacia, alguns dos
poderes tentarem levar a sua ação além
Como se vê novamente, um Presidente, das fronteiras demarcadas, em manifesto
ao ser investido no cargo, faz alusão ao pa- detrimento das prerrogativas de outro,

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estará nesse momento substancialmen- exercer em nome do sufrágio direto da


te transformada e invertida a ordem Nação, afirmo aqui, desde já, o meu
constitucional e aberto o mais perigoso mais profundo respeito ante a conduta
conflito do qual poderá surgir uma crise dos demais poderes, na órbita de sua
cujos perniciosos efeitos venham afetar soberania. Esta atitude, que será rigo-
o próprio organismo nacional. rosamente observada, dará forças ao
Este perigo é mais para temer-se nas depositário do Executivo para, de seu
urbanizações novas, sobretudo nas fases lado, opor obstinada resistência a todas
que precedem às experiências definiti- as tentativas invasoras.
vas, quando ainda não se tem alcançado, O papel do Judiciário no jogo das
por um longo pro- funções constitucio-
cesso de aplicação, nais torna mais remo-
estabelecer no pró- As linhas que separam tas as suas relações
prio terreno, isto é, com os outros poderes.
praticamente, as
as respectivas esferas É um poder que não
linhas que sepa- de competência. Isto luta; não ataca; não se
ram as respectivas indica bem o cuidado, o defende: julga. Sem
esferas de compe- a iniciativa que aos
tência. Isto indica zelo patriótico, a sincera outros cabe, a sua ação
bem o cuidado, o solicitude, a isenção de não se manifesta se-
zelo patriótico, a
sincera solicitude,
ânimo e o sentimento de não quando provocada.
Fora desta região de
a isenção de âni- justiça que, em cada um paz e pureza, a única
mo e o sentimento dos órgãos da soberania em que reina a justiça,
de justiça que, em o seu prestígio moral
cada um dos ór- nacional, devem presidir o desfaz-se ao sopro das
gãos da soberania exame e assinalamento das paixões.
nacional, devem São mais diretas
presidir o exame
funções respectivas e mais frequentes as
e assinalamento Campos Sales relações entre o Exe-
das funções res- cutivo e o Legislativo.
pectivas. Estes são os poderes
Não ceder nem usurpar. que colaboram em estreita aliança na
Fora daí, em vez de poderes coorde- dupla esfera do governo e da adminis-
nados, não teremos senão forças rivais, tração; a eles, pois, compete manter, no
em perpétua hostilidade, produzindo a desdobramento de sua comum atividade,
perturbação, a desordem e a anarquia uma contínua e harmônica convergência
nas próprias regiões em que paira o de esforços a bem da República. (BON-
poder público para vigiar pela tranqui- FIM, 2004, p. 58-59)
lidade e pela segurança da comunhão
nacional e garantir a eficácia de todos Cumpre destacar quão palidamente
os direitos. Campos Sales concebia o status do Poder
Defendendo intransigentemente e Judiciário, cuja posição de isolamento, se-
com o mais apurado zelo as prerro- gundo o governante, tornava remota a sua
gativas conferidas ao poder que vou relação com os outros poderes.

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RODRIGUES ALVES Esperando ser um Governo justo,


confio na disciplina dos espíritos, no
Rodrigues Alves (15 de novembro de espírito de ordem dos meus concida-
1902 a 15 de novembro de 1906) foi o dãos, na ação legal das Forças Armadas
Presidente da República seguinte. Dife- e no seu nunca desmentido patriotismo.
rentemente de seu antecessor, referiu-se (BONFIM, 2004, p. 81-82)
às forças militares. De relevante para a
nossa pesquisa, destaca-se, outrossim, ter Ao afirmar que pretendia “dedicar es-
feito menção ao princípio da separação pecial atenção aos interesses das classes
dos poderes: armadas”, Rodrigues Alves preocupa-se
Não permitem as nossas condições em demonstrar, desde logo, alguma de-
financeiras grandes promessas, que ferência pelas forças de terra e mar. Da
não poderiam, ali- mesma forma, ao dizer
ás, ser satisfeitas. de sua confiança na
Espero, todavia, Todos se acham “ação legal das For-
poder dedicar ças Armadas e no seu
especial atenção
convencidos de que a nunca desmentido pa-
aos interesses das ordem e a tranquilidade triotismo”, demonstra
classes armadas, geral são indispensáveis o mandatário empos-
de terra e mar, pro- sado quão frequente
curando acudir às para a marcha normal dos era o emprego das ins-
suas mais urgen- negócios públicos e para o tituições castrenses em
tes necessidades
e promovendo os
aproveitamento regular dos matéria de sustentação
do poder político.
melhoramentos grandes recursos do País
que forem compa- Rodrigues Alves AFONSO PENA
tíveis com os nos-
sos recursos. [...]. Em seguida, Afon-
Adstrito aos encargos que lhe in- so Pena (15 de novembro de 1906 a 14 de
cumbe e bem disposto a não abrir mão junho de 1909) alcança a Presidência da
dos direitos e atribuições que lhe são República, tomando posse em sessão solene
assegurados pela Constituição de 24 no Congresso Nacional. Da mesma forma,
de fevereiro, o Governo há de respeitar cita as Forças Armadas em seu discurso:
como lhe cumpre, a esfera da ação em Por nossa parte, temos mantido
que tiverem a girar os demais poderes tradicionalmente uma política de paz e
da República. de concórdia, conseguindo dirimir, na
A ação do Governo, estou certo, não calma dos gabinetes ou dos tribunais,
há de ser embaraçada por tendências questões herdadas dos tempos coloniais.
perturbadoras de qualquer natureza. O A conservação do mesmo quadro das
período das agitações passou. Todos se forças de mar e terra, durante longos
acham convencidos de que a ordem e a anos, apesar do grande aumento da nos-
tranquilidade geral são indispensáveis sa população e do incremento que tem
para a marcha normal dos negócios pú- tido o nosso comércio interno e externo,
blicos e para o aproveitamento regular dá testemunho eloquente dos intuitos
dos grandes recursos do País. pacíficos que nos animam.

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DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS
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Não quer isto dizer, entretanto, que A Justiça Federal, pairando na es-
devemos descurar de colocar as nossas fera serena e garantidora dos direitos e
forças militares, de tradições tão ricas de guarda da Constituição, vai firmando em
bravura e patriotismo, em condições de sábios arestos alguns pontos duvidosos
bem desempenharem a sua nobre e eleva- desta, mal compreendidos no início de
da missão de defensoras da honra nacional sua execução. É a prova mais eloquen-
e guardas vigilantes da Constituição e te de que não é prudente promover
das leis. A perda de valiosas unidades reformas antes de pedir à experiência
de combate sofrida pela nossa Marinha, e à aplicação leal da Constituição indi-
de anos a esta parte, justifica de sobejo cações seguras sobre o alcance dos dis-
o ato do Governo brasileiro procurando positivos, que se afiguram imperfeitos
substituí-las de acordo com as exigências ou deficientes. A alta cultura jurídica
dos modernos en- dos nossos juízes deve
sinamentos da arte inspirar a mais com-
naval. Da mesma No regime presidencial, pleta segurança de que
forma, melhorar a o Supremo Tribunal,
organização militar mais que em outro colocado na cúpula da
e renovar o material qualquer, o Poder organização judiciá-
de guerra, dentro ria, pode desempenhar
dos limites impos-
Executivo deve dar com lustre o brilhante
tos pela situação exemplo de respeito e papel representado na
financeira, é dever cordialidade em suas União Americana pelo
comezinho do nos- Instituto que serviu
so como de todo relações com os outros de modelo ao nosso
Governo cônscio Poderes que a Constituição legislador constituinte.
de suas responsa- (BONFIM, 2004, p.
bilidades, sem que
criou, independentes e 100-101)
se possa atribuir ao harmônicos
seu cumprimento Afonso Pena A transcrição supra
propósito de ame- possibilita observar
aça ou intuito de alguns pontos interes-
agressão a povo algum, pois que a nossa santes do discurso de Afonso Pena, o qual,
preocupação foi e sempre será angariar num momento, destacou a missão outrora
e estreitar relações com todas as nações. consagrada às forças de terra e mar, ou seja,
No regime presidencial, mais que a de “defensoras da honra nacional e guar-
em outro qualquer, o Poder Executivo das vigilantes da Constituição e das leis”.
deve dar exemplo de respeito e cordia- Em seguida, afirma que a “Justiça Federal,
lidade em suas relações com os outros pairando na esfera serena e garantidora
Poderes que a Constituição criou, dos direitos e guarda da Constituição, vai
independentes e harmônicos. firmando em sábios arestos alguns pontos
Assim praticarei, convencido da duvidosos desta, mal compreendidos no
sabedoria desta norma consagrada em início de sua execução”.
todas as legislações e que se impõe de Vê-se, portanto, que a mesma missão
modo iniludível a qualquer espírito aten- (guarda da Constituição) foi atribuída
to na história política dos povos cultos. simultaneamente às Forças Militares e

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DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS
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ao Poder Judiciário, o que, a nosso ver, não surgirá o sol do cesarismo; mas,
ao mesmo tempo em que reflete o antigo sob a égide de um soldado, o País há
protagonismo daquelas, traduz o incipiente de ver firmar-se de vez a mais civil das
status institucional deste. repúblicas, pela abrogação das práticas
e dos hábitos contrários ao regime e de
NILO PEÇANHA tudo que tem servido para deturpar o
espírito e a inteligência da Constituição
Com a morte de Afonso Pena, ocorrida de 24 de Fevereiro. [...].
em 14 de junho de 1909, assume o vice- E ser-me-á fácil a tarefa porque,
-presidente Nilo Peçanha (14 de junho de soldado, só tenho uma aspiração – o
1909 a 15 de novembro de 1910), que não cumprimento inflexível da lei; cidadão,
realiza discurso de posse, muito prova- só tenho um ideal – a estabilidade do
velmente por conta regime e a felicidade
do momento de luto da pátria. (BONFIM,
nacional. Ser-me-á fácil a tarefa 2004, p. 113; 119)
porque, soldado,
HERMES DA Sobre a importân-
FONSECA só tenho uma aspiração – cia das Forças Arma-
o cumprimento inflexível das, dando especial
Posteriormente, de destaque à missão de
15 de novembro de
da lei; cidadão, só tenho defesa nacional e ao
1910 a 15 de novem- um ideal – a estabilidade respectivo orçamento
bro de 1914, o militar do regime e a felicidade militar, disse Hermes
Hermes da Fonseca, da Fonseca:
que havia sido minis- da pátria Mas o fato de haver
tro da Guerra durante Hermes da Fonseca sido sempre de paz e de
o governo de Afonso fraternidade a política
Pena, é eleito para o internacional do Brasil
cargo de Presidente da República, tendo to- e o propósito formal de prosseguir em
mado posse em sessão solene do Congresso tão sábia política, não significam nem
Nacional. Sua condição marcial foi devida- impõem que nos descuremos dos legí-
mente registrada numa das passagens de timos meios de defesa do País.
seu discurso, mormente ao dizer, em tom de Na medida dos recursos financeiros
esclarecimento, que sua origem castrense da República, cumpre persistir no apa-
não o afastaria dos “princípios republicanos relhamento da nossa Marinha, não só
e dos reais interesses da nação”: pela inteira execução do plano adotado
A minha qualidade de soldado, assim como pelo preparo intensivo do pessoal
como não influiu para que os elementos incumbido, para isto, as escolas técnicas
civis do país me julgassem digno de pre- de eletricidade, maquinistas e marujos.
sidir aos destinos da República, também, Não basta, porém, a aquisição de
afirmo-o sob a fé de todo o meu passado, navios de guerra, que largos sacrifícios
não será causa para que me divorcie, le- custam à nação; é necessário, para que
vando por estreito sentimento de classe, se conservem em condições de desem-
dos verdadeiros princípios republicanos penhar o papel a que podem ser cha-
e dos reais interesses da nação. Comigo mados um dia, que a Esquadra, apesar

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DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS
DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA

das despesas que isso acarreta, esteja se tornar Presidente da República, quando
em constante movimento, pois é no ocupava a pasta da Guerra no governo
incessante labutar em alto-mar, no per- Afonso Pena, dedicou-se a um projeto
manente funcionamento das máquinas e de modernização do Exército, o qual, no
nos exercícios de toda a espécie que os início do século XX, segundo a maioria da
oficiais e tripulação se habilitarão para oficialidade, encontrava-se militarmente
o perfeito desempenho de suas funções. atrasado. À época, entre outras medidas
No que diz respeito às forças de terra, postas em prática, um grupo de oficiais
estou ainda convencido de que, executa- foi enviado para estagiar junto ao Exér-
do integralmente o plano de organização cito alemão. Retornando ao Brasil, esses
delineado na última reforma, poderemos oficiais deflagraram uma campanha pelo
preparar, em pouco tempo, um exército aperfeiçoamento profissional da instituição.
em condições de enfrentar o mais forte Conforme explica Cristina Monteiro de
e mais disciplinado adversário. Andrada Luna:
A lei do sorteio, com a criação das Devido ao afã modernizador, o
linhas de tiro, que muito se tem desen- grupo foi pejorativamente apelidado
volvido, preparará, dentro em pouco, de “jovens turcos” por uma parcela
numerosa e excelente reserva para o de militares e civis que se opunham
Exército. às suas ideias. O apodo fazia alusão a
Estou certo de que, no limite das do- oficiais turcos que haviam estagiado no
tações orçamentárias, estabelecendo-se Exército alemão e, que, ao retornar à
verbas parceladas e convenientes, pode- Turquia, engajaram-se em um partido
remos, em poucos anos, pelo desenvol- nacionalista e reformista, oficialmente
vimento paulatino de arsenais e fábricas, conhecido como Comitê de União e Pro-
aquisição de armamentos e material gresso, mas informalmente conhecido
bélico, constituídas as unidades táticas como Jovens Turcos, por ser formado
que pela reforma foram criadas, formar por estudantes universitários e jovens
uma nação militarmente forte, sem que oficiais progressistas. Na Turquia, os
haja necessidade de se manterem os Jovens Turcos participaram de uma
nossos quartéis repletos de soldados, rebelião contra o sultanato e de um
pois que, pelos processos adotados, cada processo de transformações que acabou
um dos nossos patrícios se transformará por resultar, em 1923, na Proclamação
em cidadão-soldado. (BONFIM, 2004, da República sob a liderança de Mustafá
p. 117-118). Kemal, após o Império Otomano ter sido
extinto pela derrota na Primeira Guerra
Cumpre notar que o discurso de Hermes Mundial, em 1918.
da Fonseca enaltece o clássico papel ins- Contudo, o apelido que surgiu de
titucional de defesa nacional. Pelo menos forma pejorativa passou a ser visto como
no que se refere aos discursos de posse, um símbolo de abnegação e patriotismo,
pode-se dizer que, de todos os presidentes conforme destacou Estevão Leitão de
da República, Hermes da Fonseca é o Carvalho em sua autobiografia intitulada
primeiro a abordar de modo tão claro a Memórias de um soldado legalista.
missão das Forças Armadas em matéria de Em relação ao pensamento dos jo-
defesa nacional. Cabe destacar, inclusive, vens turcos, é importante notar que o
que Hermes da Fonseca, mesmo antes de grupo considerava o Brasil uma nação

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DAS FORÇAS ARMADAS E DO PODER JUDICIÁRIO SOB O PRISMA DOS
DISCURSOS PRESIDENCIAIS DURANTE A REPÚBLICA VELHA

incipiente, desprovida de nacionalidade tornar-se, em dados momentos, um fator


e de instituições verdadeiramente nacio- decisivo de transformação política ou de
nais. O referencial para suas conclusões estabilização social”.
era a Nação e o Estado-Nação tal como
se desenvolveram nos países da Eu- O trecho destacado pela autora revela
ropa Ocidental e nos Estados Unidos. um dado interessante já naquela ocasião:
Dessa forma, os jovens turcos não se malgrado o profissionalismo que se des-
preocupavam apenas com o Exército, pertava no seio castrense, o sentimento
mas também com a compleição física de que as Forças Armadas deveriam atuar
do brasileiro e sua educação; com o como instrumento de “transformação
estágio agrário da política ou de estabili-
economia nacional zação social” não ha-
e com a dependên- O sentimento de que as via cessado, afirmação
cia e o atraso do Forças Armadas deveriam comprovada por meio
País em relação às das diversas interven-
grandes potências atuar como instrumento de ções militares ocorri-
e a países da Amé- “transformação política ou das desde então, tais
rica Latina como
Chile e Argentina,
de estabilização social” não como o Tenentismo
da década de 1920 e o
cujos exércitos já havia cessado,