PARTE II - Sistemas Jurídicos Comparados: Matéria Do 2º Teste
PARTE II - Sistemas Jurídicos Comparados: Matéria Do 2º Teste
Estes dois são os sistemas jurídicos comparados dominantes, mas, se perspetivarmos o que eles
têm em como, são apenas um → um sistema jurídico comparado ocidental1 (subsistemas romano-
germânico e anglo-saxónico).
Os sistemas common law e civil law têm mais em comum do que têm de diferente (base
filosófica, tradição judaico-cristã protestante). O islamismo fez outro movimento em que o
Corão continua a ser fonte de direito (a vida do profeta é fonte de direito).
Os sistemas costumeiros também mantêm uma ligação pré-constitucional, pré-moderna que
o sistema jurídico ocidental não tem.
Os sistemas hindus, consuetudinários e islâmicos têm em comum o peso do direito
costumeiro, ou seja, do direito não estadual formal porque mesmo no sistema islâmico há
muita diversidade (as fontes de direito até podem ser as mesmas, mas o direito aplicado em
Magreb no norte de África, não é o mesmo que é aplicado na Arábia Saudita e essa diferença
é uma diferença que não é religiosa e sim cultural). O hinduísmo não é especificamente uma
1
A sebenta trata até por família jurídica ocidental.
2
No Estado islâmico, por exemplo, direito e religião misturam-se.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
religião, é mais uma filosofia de vida, mas vive também muito do peso do costume e os
sistemas consuetudinários.
PROBLEMA: casar as essas tradições com emergentes Estados formais, como o direito dos
estados (exemplo: sistema de castas na Índia – violação de direitos humanitários, do princípio da
igualdade e da não discriminação) → este problema é comum a todos.
O costume é fonte de direito, mas não um costume que seja inconstitucional – EXEMPLO DO
SISTEMA DE CASTAS (PowerPoint para completar).
O problema do direito do Estado com o direito consuetudinário é um problema que se coloca
antes das fontes de direito. O professor Santos Justos diz, e bem, que uma fonte de direito não se
pode pronunciar sobre a validade de outra. A constituição não esgota o direito que está em vigor
porque ela própria é uma fonte de direito.
Mais do que o costume contra a lei, segundo a lei e além da lei, o costume contra a lei não é
admitido como fonte de direito. O problema do costume como fonte de direito só se coloca se for
contra a lei. Um problema diferente desse é quando o costume acontece à margem da lei.
Quando o costume e o direito se confrontam numa situação, nenhum deles quer deixar de ser
aplicado → problema político e não jurídico. Como é que um conta para o outro?
BRASIL: caso de uma comunidade indígena, um cidadão acusado de feitiçaria é assassinado
porque os assassinos acham que estão a cumprir a sua lei. O Estado tem de aplicar o seu regime
porque não pode deixar de se aplicar. Mas vai deixar-se irritar pelo outro ou não? Diria que sim.
O sistema estadual formal tem de se deixar irritar, na medida em que tem de ter em conta nas
circunstâncias atenuantes o facto do assassino ter agido convencido da legalidade da sua ação,
conforme a lei do costume (o que chamamos “exceção cultural”). O indivíduo não deixa de ser
sancionado, mas a circunstância concreta daquela pessoa tem de ser tomada em consideração. Isto
acontece no art.39.º constituição da África do Sul – direito fundamental à diferença e ao livre
desenvolvimento da personalidade no quadro da própria constituição. → O sistema deixa-se irritar
quando tem em conta os direitos fundamentais.
Apuro técnico (sebenta) – ideia de que há racionalidade jurídica, um método jurídico. Esta ideia
é muito europeia continental, a ideia da premissa maior e menor.
Os sistemas vão se contaminando, tanto que hoje em dia não há sistemas puros. Dos sistemas
consuetudinários, nós3 já herdamos coisas como a resolução alternativa de litígios (mediação,
arbitragem, conciliação). Os próprios sistemas jurídicos consuetudinários vão recebendo as
influências, até deste apuro técnico.
O direito consuetudinário é tradicionalmente oral e por isso previsível. As comunidades que
se guiam por este direito, tentam redigir o costume a escrito – OBEJTIVO: alcançar a
segurança e previsibilidade jurídica.
Há dois movimentos:
• Redução a escrito do costume: tem o valor que as pessoas lhe queiram dar, não é por ser
reduzido a escrito que vale mais ou vale menos;
• O legislador querer codificar o costume: aí o costume deixa de ser costume e passa a ser
lei.
(o professor falou na aula do dia 28.04)
3
Europeus continentais, sistemas estaduais formais.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
Vamos estudar a parte dos sistemas jurídicos que é consuetudinária, nomeadamente quando
ela tem instrumentos de garantia
Como é enunciado na sebenta, o nosso foco não são “as ordens jurídicas estaduais dos países
africanos (…), mas as regras e as práticas jurídicas (direito consuetudinário) características dos
diversos povos africanos” [página 155]
NOTE-SE que o episódio dos touros de morte não caracteriza o sistema jurídico português como
um sistema jurídico consuetudinário. Ele lida com o costume, mas não se caracteriza como
consuetudinário.
4
Todos os que estão presentes no mapa do PowerPoint da primeira parte da matéria.
5
Sebenta “Os direitos tradicionais africanos” – páginas 155 e seguintes.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
Evolução histórica
Este direito consuetudinário não se confunde nem com a tradição jurídica religiosa, nem com
o direito que advém da colonização → este direito é pré-colonização religiosa e estadual.
[Ideia sem dimensão de cientificidade, é meramente uma opinião do professor] As religiões
monoteístas casam bem com as perspetivas do direito consuetudinário, na medida em que
protegem valores que são semelhantes:
▪ A ideia um Deus omnipotente e omnipresente (não se vê, mas respeita-se) não é muito
diferente da ideia dos elementos, da Natureza divina;
▪ A ideia dos antepassados também são traços sociais e religiosos que casam bem;
▪ …
Há muitas influências cruzadas entre o que é a normatividade religiosa que se foi impondo
com comandos simples (mandamentos) e o direito consuetudinário. Não obstante, o direito
consuetudinário é diferente do direito religioso.
NOTA: Embora o direito consuetudinário seja diferente do direito religioso, vamos ver adiante
que o direito de inspiração religiosa vive muito do direito consuetudinário e dos costumes.
Estes sistemas jurídicos consuetudinários também são diferentes. Conviveram e estabeleceram
influências recíprocas e diferentes com a colonização europeia (especialmente até ao séc. XIX e
XX), o que levou a muitas alterações.
Grande parte da colonização estadual feita foi de forma indireta porque ela própria beneficiou
das estruturas consuetudinárias de poder. Muitos dos líderes consuetudinários, no caso
português, por exemplo, tinham patentes militares no exército e era através deles que esse
poder da colonização era exercido (assim como os missionários).
→ Governo indireto
Forma de governo colonial que se fazia através das estruturas do poder consuetudinário. Líderes
tribais e reis integravam a administração pública ou militar, e eram estes líderes que continuavam
a exercer o poder, não apenas em nome próprio, mas também em nome de uma qualquer ligação
(divindade, por exemplo) – Exercer o poder através de estruturas de poderes locais.
Os próprios missionários eram presenças fortes nestes espaços e assim não só se exercia o poder
da metrópole, mas também se garantia a sobrevivência das estruturas consuetudinárias
tradicionais jurídicas, políticas… → o governo indireto garante exceções pessoais, o Estado não
interferia nas relações pessoais.
O governo indireto, na verdade, tem como contraponto o princípio da assimilação que tenderia a
integrar o direito consuetudinário nas estruturas formais do Estado.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
→ Assimilação6
Quando a administração colonial se tornava mais efetiva era preciso garantir essa presença e ao
fazer isso, em Portugal nomeadamente, criou-se o estatuto do assimilado.
ESTATUTO DO ASSIMILADO: extensão da nacionalidade colonial, retirando a tal exceção
pessoal. Quem quisesse participar dos benefícios da lei do colonizador tinha de se sujeitar aos
seus órgãos → Totalmente discriminatório porque há sociedades que não têm acesso aos mesmos
“bens” do que outras, quer quisesse ou não.
O princípio da assimilação tinha exceções, nomeadamente, de base pessoal. Ou seja, quem
participasse do direito do Estado, quem renunciasse à sua pretensão comunitária e quisesse
participar do direito do Estado (designado o “estatuto do assimilado”7, em Portugal) tinha um
estatuto privilegiado no direito a determinados cargos, o direito ao acesso de trabalho na função
pública, por exemplo.
Evidentemente que isto era altamente discriminatório porque discrimina as populações
locais em função da sua participação no projeto colonial (só os assimilados, os que escrevessem
é que tinham acesso à função pública).
Contudo, foram estas exceções/discriminações que permitiram a presença, ainda hoje, do
direito consuetudinário porque, caso contrário, se o direito estadual fosse aplicado a toda a gente,
por toda a parte, o mesmo tinha desaparecido. → sobrevivência dos sistemas jurídicos
consuetudinários à margem da legislação estadual formal.
NOTA: isto seria irrealista porque não havia forma de o aplicar8 (exemplo do caso de colonização
inglesa na Índia que passou pelos mesmos problemas do que a portuguesa noutros locais, vezes
os milhões de pessoas a mais que são).
Os franceses, desde a Revolução francesa que acreditam que os valores da mesma são tão
universais que conseguem fazer de qualquer pessoa um mesmo e bom cidadão. É na França que
se colocam os problemas de não haver sinais exteriores de religiosidade, mas não há para
ninguém. Os franceses acreditam que os valores do Estado laico são iguais para toda a gente. O
problema é que isto não é assim.
CONSEQUÊNCIA:
6
Ideia de universalidade dos valores.
7
Séc. XX.
8
O facto de aplicar o direito estadual a toda a gente e por toda a parte.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
− Ou se recusa a validade desta convicção – provavelmente era o que fazia a visão francesa
(universalista);
− Ou se aceita a validade desta convicção.
O direito comparado procura colocar esta normatividade sempre num contexto que promova a sua aceitação.
9
O tribunal assenta no prossuposto de uma racionalidade que recusa a ideia de feitiçaria.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
Muito dos traços do direito consuetudinário vem de uma tradição oral, mística e muitas vezes
proverbial (Assim como o direito hindu, por exemplo – recitação de mantras; ou então o direito
islâmico, muito dele recitado através de poemas e de canções). A tradição oral e proverbial são,
muitas vezes, fontes de direito.
[Opinião do professor, por isso é que está entre aspas] “Este direito consuetudinário não é um
estado de natureza puro de revelação do direito”, em larga medida podemos dizer que é
discriminatório (relativamente às mulheres, aos homens, aos mais velhos…). Isto são processos
de evolução e a virtude do costume é mesmo essa: por não estar escrito também evolui e também
se desenvolve. Quando este é reduzido a escrito, pelo contrário, cristaliza-se, deixa de poder
evoluir. Muitas comunidades reduzem o costume a escrito para “facilitar”. → PREJUIZO
DESTA AÇÃO: de alguma forma, vai matando a ação de desenvolvimento do costume, tendo
em conta que o cristaliza.
NOTA: o costume não é positivado, é apenas reduzido a escrito. Não está aprovado pelos órgãos
do Estado, existem sanções criminais que não são reconhecidas pelo estado, sanções essas podem
ser até privativas de liberdade ou cruéis e proibidas pelo Estado → aqui é que surge o problema.
O FENÓMENTO DE REDUZIR A ESCRITO NÃO É POSITIVÁ-LO.
Esta tradição oral e mística que é característica do costume, ela própria vai evoluindo (fluído).
Esta fluidez acaba por ser também um problema.
Há casos que nos chocam e que nos custa aceitar (crimes de violação que deixavam de ser
punidos caso houvesse um casamento a seguir, por exemplo – uma espécie de efeito
retroativo do casamento).
Processos informais de resolução de litígios: quem garante o direito é a própria comunidade
(As próprias estruturas tradicionais), muitas vezes através da mediação e da conciliação –
reconhecer à vítima um papel importante. Aqui, todos os membros da comunidade têm direito a
uma opinião que é tida em conta (relevância da opinião dos restantes membros do grupo).
NOTA: a verdade é que “nós”11 fomos importando alguns destes parâmetros. O direito estadual
formal tem assumido muitas destes mecanismos alternativos de resolução de litígios, importados
dos sistemas consuetudinários.
10
Exemplo dado pelo professor de quando lhe bateram no carro.
11
Sistema estadual formal.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
Estes mecanismos alternativos de resolução de litígios são muito oriundos d’ Os Maori da Nova
Zelândia porque os neozelandeses foram um dos primeiros países a reconhecer o valor destas
comunidades.
→ No hinduísmo não existe nenhum conceito que corresponda diretamente à ideia de regra de
comportamento passível de ser imposta pela força aos membros da comunidade (conceito
de Direito entendido pela tradição jurídica ocidental) – conceito mais próximo é Dharma,
que traduz uma ideia de dever;
→ Desta forma, o hinduísmo não tem uma natureza verdadeiramente normativa deôntica
porque não tem uma sanção terrena, ao contrário do cristianismo, por exemplo (“não
matarás” é uma ordem);
→ O hinduísmo vive da observância espontânea do direito, muito transmitida socialmente pela
pressão social e da aculturação → dificuldade de quebrar a roda
DHARMA: conjunto de regras (jurídicas, morais, religiosas, de ritual, civilizacionais) que se
impõem aos indivíduos por força da natureza das coisas e em atenção à sua condição na sociedade.
Este dever de obediência impendia sobre todos, sem exceção (até mesmo do chefe e fundamento
da organização política da Índia, o Rája). É uma vivencia mais espiritual do que física porque há
uma ideia de imposição de comportamentos, há uma rejeição da vida terrena e acredita-se na
transmigração das almas.
FONTES DO DHARMA:
O VEDA
Conjunto de todas as verdades religiosas e morais que se encontravam escritas e recolhidas,
parcialmente, nos struti e nos Dharmasastra12.
12
Figuras mais próximas dos nossos livros de Direito
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
• Os struti que não estão codificados ou escritos são transmitidos por mantras, canções,
poemas;
• Os Dharmasastra deixaram de ser escritos a partir do século VIII – os que estavam
escritos passaram a ser considerados sagrados e passou-se a proceder apenas à sua
interpretação e comentário.
• Os valores que são aqui protegidos são valores espirituais (despojamento), ligados à
pureza e à verdade como expressão do caminho para a pureza espiritual.
O COSTUME
O costume acaba por constituir a principal fonte de direito positivo, na medida em que completa
os preceitos deduzidos dos textos sagrados.
A TRADIÇÃO
SISTEMA DE CASTAS:
É isto que legitima que comunidades islâmicas que estão expatriadas invoquem o seu direito ao
direito de âmbito pessoal (prossuposto diferente do direito que nós estudamos).
DIREITO DE ÂMBITO PESSOAL:
→ Vigora em diversos países, mas não tem em nenhum deles aplicação territorial,
coexistindo com o direito de outras confissões religiosas, Direito consuetudinário e
subordinando-se às fontes estaduais (ordenamentos jurídicos híbridos);
→ Fortemente diversificado em razão de critérios espaciais, sociais e pessoais e regula
essencialmente estatuto pessoal (relações familiares e sucessórias).
→ A ponderação do âmbito pessoal: até onde o direito do estado se pode afirmar, sem
desrespeitar o âmbito pessoal.
Depois de vários séculos de dominação muçulmana, a Índia foi, no século XIX, submetida à
autoridade da Coroa britânica – período colonial britânico. Esta colonização teve, desde o início,
inteiro respeito pelas instituições locais e teve o cuidado de manter o direito hindu, contudo, o
respeito por este não foi tanto.
Tamanha foi a ignorância por parte dos ingleses que, sem entenderem o real conteúdo e sentido
do Dharma, traduziram os Dharmasastra de modo a que estes se tornassem mais acessíveis aos
juízes britânicos. Contudo, nesse processo, depararam-se com algumas dificuldades:
Como não foi possível os ingleses adquirirem um conhecimento global do sistema, não foram
capazes de procederem à sua correta aplicação.
✓ Na sequência das traduções de que foi objeto, o Direito hindu sofreu consideráveis
deformações:
1. Foram consideradas em vigor regras que já tinham caído em desuso;
2. Foram inobservados muitos costumes;
3. Foram utilizadas formulas britânicas incompatíveis com o Direito hindu.
Procedeu-se a várias reformas legislativas que operaram profundas alterações no Direito hindu:
O sistema jurídico chines, mais uma vez, não é o sistema da república popular da
china.
A influencia filosófica:
• Taoismo
• Confucionismo
13
A Índia é a maior democracia do mundo, é uma Républica democrática e laica, muito plural.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
Não tendo uma matriz judaica crista, não têm uma dimensão religiosa, ou seja,
não tem esta dimensão exterior, há uma crença na ordem espontânea do
universo, consagrada na crença de LI e o FÁ.
Como livro sagrado, temos o Tao te Ching,
A cultura oriental é a grande oposição, até na forma de pensar, não há uma ordem
das coisas
tal como nós a temos.
Ao taoismo, seguiu-se a influencia do Confucionismo:
Este trouxe um desenvolvimento de uma certa filosofia assente num conjunto de
princípios que não especificamente religiosas e não têm por si só uma dimensão
coerciva externa. São regras de conduta mais dirigidas a uma dimensão
espiritual do individuo. (altruísmo, cortesia, moralidade);
3. Dois elementos
A partir do século III, com a Escola dos Legalistas (que chama atenção de FA garantir
nomeadamente a norma governo e funcionamento da vida social):
LI, influencia pelo Taoísmos- regras de conduta não escritas que se aplicam
essencialmente às relações sociais, de adesão social espontânea. Muito ligado à
história, à tradição, a um conjunto de valores com uma grande dimensão espiritual.
Este ideário tradicional (não sendo arde law)
FA, influencia pela escola legalista – este, pelo contrário, refere-se às normas, é um
direito estadual formal, impostas pelo estado e acompanhadas de um aparelho
coercivo.
14
TESTE!
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
Depois de 1975, morre Mao, e aí se dá uma grande modificação. Desde logo, pela
criação de uma constituição, descolonização (fruto das revoluções, como a de
Portugal (25 de abril) onde se libertam as colónias) 1999 – Macau e 1997 – Hong
Kong.
Mas só 1982, Beng Chioping, diz “enriquecer é glorioso” – junta-se ao sistema
capitalista e por isso, a china tem feito uma liberalização económica muito grande.
Não foi a soberania que se transferiu, transferiu-se foi a soberania – isto com a
transferência de Hong Kong e Macau.
Enquanto o estado europeu privilegia a unidade, outro privilegiam outra formas. A
China quando recebeu o exercício de soberania de Macau e Hong Kong criou o
princípio um pais dois sistemas para tentar atrair Taiwan.
“Um país dois sistemas” tem por base um tratado de direito internacional –
declaração conjunta e o direito à autodeterminação dos povos. Este deu origem a
modalidades de constitucionalismos Regional – constituída pela Lei Básica (chinesa,
a china exerce a soberania, mas reconhece autonomia) da República popular da
china que se aplicam em cada região administrativa especial.
Durante 50 anos, as regiões, tem o direito de estilo de vida próprio, mantendo a
autonomia legislativa e judicial.
Hong Kong (tem diminuído a sua relevância) mantem ambições democráticas, mas
Macau não, apesar de registar umas diversas prosperidades (principalmente em
receitas de jogo).
Recentemente, a China deu o primeiro passo para acabar com a autonomia
legislativa, porque aprova a Lei de Segurança Nacional (é, pois, ilegal porque não
estava prevista no tratado de direito internacional).
EM 1999 – Transferência da soberania de Macau, mas rapidamente, os próprios
líderes democráticos de Macau perceberam que seria necessário reafirmar a
autonomia destes, isto é apenas possível pela descolonização portuguesa – começa-
se a verificar uma interligação com portuguesa.
15
TESTE
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
✓ A atenção dispensada ao Direito Islâmico nas últimas décadas é o resultado dos atentados
terroristas de 11 de setembro de 2001, dos subsequentes atendados em Madrid (2004) e e,
Londres (2005);
✓ Já antes do 11 de setembro, o Islão e o seu Direito já eram percebidos no Ocidente como uma
ameaça, uma força retrógrada inimiga da democracia e incompatível com os padrões
internacionais de direitos humanos;
✓ Até 1979, data da revolução iraniana que marcou o “renascimento islâmico”, o direito
islâmico era uma não questão, tendo em conta que o seu campo de aplicação era apenas
reservado a matérias de estatuto pessoal, família e sucessões;
✓ Contudo, após a data anteriormente referida, tudo mudou.
O direito islâmico é:
• Um direito de base religiosa, mas que, no entanto, não é o suficiente para o excluir do
estudo do direito comparado dos sistemas jurídicos comparados, uma vez que tem uma
dimensão normativa, prescritiva e consequencial – “não farás”; “se fizeres, terás tal
consequência”;
• Um direito de base pessoal, que faz com que se aproxime do direito hindu, mas que, por
outro lado, se afaste do sistemas jurídicos romano-germânicos/ocidentais;
• O direito da comunidade dos muçulmanos – Umma.
É essencialmente isto que suscita uma ambição extraterritorial que é também uma das fontes do
problema entre o direito ocidental e islâmico. → problemas de pluralismo jurídico, como já
abordado em aula.
O direito muçulmano é diferente do direito dos países muçulmanos!!! Nas aulas, iremos falar
do direito islâmico, lembrando que, muitas vezes, esses países assumem como sua lei o direito
islâmico, codificam-no (inclusivamente no próprio Alcorão, assumindo-o como uma das fontes
de direito).
É importante realçar que o direito islâmico é um sistema jurídico no qual vão convivendo
diferentes fontes de direito. Contudo, além das fontes de direito do direito islâmico, vigoram,
ainda, nos sistemas jurídicos dos países islâmicos fontes de direito estadual – sistemas híbridos.
Adicionando a estas duas dimensões, convivem muitas vezes fontes consuetudinárias (direito
de origem consuetudinária) que são um dos fundamentos desta tendência mais conservadora16.
Por exemplo, já vimos que os sistemas jurídicos num pais como o Afeganistão é altamente
conservador não só pela Sharia, mas também pelos costumes que são igualmente válidos neste
aspeto.
A própria ideia típica do sistema jurídico comparado islâmico é uma ideia que tem diferentes
fontes de direito, sendo estes fruto de uma evolução histórica e uma divisão política.
A Sharia17 (vontade divina) admite duas grandes comunidades religiosas:
16
Mais ainda em comunidades onde há uma pluralidade de direitos religiosos.
17
OU Xaria, pode ser escrito das duas formas.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
*A origem desta separação em duas comunidades, essencialmente, está relacionada com o poder
e tem reflexos no direito islâmico e das suas fontes:
Um pouco de história…
Após a morte de Maomé, os muçulmanos depararam-se com o problema da escolha de um novo
líder – problema da sucessão do Profeta.
Sucederam-se no lugar de califa18, pelo acordo da comunidade (embora sem consenso absoluto),
Abu-Bark, Omar e Osman, leais companheiros de Maomé. Paralelamente ganhou forma a defesa
da hereditariedade do califado, que colocou o primo de Maomé, Ali, no poder.
OU SEJA,
✓ Os Shiitas defendiam a sucessão hereditária do califado que passaria pelo seu primo Ali
e, nessa medida, defendiam o Alcorão como única e verdadeira fonte de direito
(retiravam poder na sucessão do Profeta).
✓ Os Sunitas, por sua vez, defendiam a sucessão feita pelo colégio dos conselheiros que
elegeriam um desses líderes (sucessão não hereditária).
Para além desta sua forte ideia de sucessão não hereditária, os Sunitas assumiam, ainda, como
fontes de direito, além do Alcorão:
• IJMA: o consenso da comunidade. Foi na verdade a fonte de direto usada para que os
califas sucedessem a Maomé. Legitimou a sucessão dos califas e ainda hoje é aceite como
fonte de direito pelos sunitas;
• SUNNA: tradição dos hadiths. Eram o complemento normativo do Alcorão pela própria
vida do profeta. O exemplo que o profeta deu durante a sua vida que integrava as lacunas
do alcorão.
• QIYSAS: analogia. Há uma disputa entre aceitar, ou não a analogia como uma fonte. No
entanto, o professor referiu em aula que esta seria mais uma ferramenta interpretativa do
que propriamente uma fonte de direito.
“Com a morte de Ali, foi renovado o problema sucessório e, com ele, a oposição entre os
defensores do sufrágio comunitário (Omíades19) e os legitimistas (Shiitas).” Esta disputa traduziu-
se numa “divisão na comunidade de fiéis e conduziu ao isolamento dos Shiitas20”.
18
Conselheiro do Profeta.
19
QUEM SÃO OS OMÍADES?
20
Fação minoritária até aos nossos dias.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
2. Rejeitam o Ijma: «por ter sido este que esteve na base da investidura daqueles califas
“ilegítimos”»
FONTES DE DIREITO:
ALCORÃO21
→ Alcorão foi a designação escolhida para identificar a mensagem trazida aos homens pelo
Profeta;
→ É lhe reconhecida a qualidade de Lei fundamental, por ser a verbalização da vontade
divina;
→ Não é um verdadeiro código de natureza jurídica, sendo, sobretudo, uma compilação de
princípios religiosos;
«Pode ser visto como um código, ainda que o número de disposições “propriamente jurídicas”
seja relativamente pequeno. Porque “essencialmente um livro de princípios religiosos e morais, o
Alcorão estabelece as bases da comunidade sem atentar especialmente na dimensão jurídica das
relações entre os seus membros.»
→ “A relação primordial a ordenar não é a que une os homens entre si, mas a que une os
fiéis a Deus”, deixando muitas vezes por esclarecer “as consequências práticas da
inobservância de muitas das suas disposições”;
→ Não tem um tratamento sistemático de matérias;
→ Não prevê consequências jurídicas do incumprimento das disposições que nele estão
contempladas;
→ O Alcorão é completado pela Sunna.
NOTA: importante lembrar sempre que não há consenso quanto ao facto da Sunna ser uma fonte
de direito. Apenas os Sunitas a consideram como tal
→ O Alcorão trata das mais variadas matérias, desde da proibição da ingestão de carne de
porco até à punição do adultério. A título de exemplo…
ALGUNS PRECEITOS NORMATIVOS PRESENTES NO ALCORÃO22:
▪ “Ele vos proibiu a carne de animal que haja morrido, o sangue derramado, a carne de
porco, e o que se imolou em nome que não seja de Deus. Quem, forçado, sem intenção de
rebeldia ou transgressão, coma, não cometerá pecado. Deus é indulgente,
misericordioso.” (2:173)
Refere-se à alimentação sagrada que cumpre os preceitos do Alcorão. É proibida a carne de
porco, bom como toda a alimentação através do sangue
▪ “Quanto à adúltera e ao adúltero, vergastai-os com cem vergastadas, cada um; que a
vossa compaixão não vos demova de cumprir a lei de Deus, se realmente credes em Deus
e no Dia do Juízo Final. Que uma parte dos fiéis testemunhe o castigo.” (24:2)
Não existindo a compaixão, ou seja, indiretamente acabando por admitir a sanção com a morte,
aos adúlteros e adúlteras.
▪ “Dize às fiéis que recatem os seus olhares, conservem os seus pudores e não mostrem os
seus atrativos, além dos que (normalmente) aparecem; que cubram o colo com seus véus
21
Significa leitura ou recitação.
22
Estão explicitados mais exemplos na sebenta (páginas 137/138)
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
e não mostrem os seus atrativos, a não ser aos seus esposos (…). Ó fiéis, voltai-vos todos,
arrependidos, a Deus, a fim de que vos salveis!” (24:31)
Uso obrigatório do véu para as mulheres com o intuito de conservar a honra, a castidade, a
dignidade e a integridade das mesmas. Os únicos a quem poder mostrar os seus atrativos são aos
seus esposos.
▪ “Ó fiéis! É-vos preceituado a lei de Talião para o homicídio. Livre por livre, cativo por
cativo, mulher por mulher. Quem quer que seja perdoado pelo irmão do morto (o
herdeiro) em troca de uma remissão, deve cumpri-lo e ressarci-lo com benevolência. Isso
é alívio e bondade de vosso Senhor. Quem, depois disso, recorrer à vingança terá
doloroso castigo” (2:178)
A aplicação das leis de talião (qisas) no homicídio, apenas. Esta lei “confere à família da vítima
a faculdade de infligir no homicida um sofrimento idêntico ao por ele causado”.
LEI DE TALIÃO
Atualmente, associamos a lei de Talião a uma sanção deveras extremista (“olho por olho, dente
pro dente”, uma frase tida em conta num sentido muito literal). No entanto, se analisarmos a
criação desta lei no tempo em que se enquadrava chegaremos à conclusão que a mesma nada mais
foi do que uma ideia de proporcionalidade. Não nos esqueçamos que, antes da lei de Talião,
vigorava uma ideia de justiça que determinaria uma vingança sem limites.
→ Há aparentes contradições entre preceitos, como é o exemplo de estar escrito que “não
há constrangimento na religião” e, posteriormente, estar escrito que “a hostilidade contra
os infiéis cessará se eles se converterem ao Islão”.
Sendo o Alcorão um corpo normativo incompleto, o principal problema com que a comunidade
se deparava era: O TRATAMENTO DOS PROBLEMAS NÃO CONSIDERADOS PELA LEI.
Ora:
• Enquanto Maomé foi vivo, estas questões eram submetidas ao seu juízo;
• Depois da morte de Maomé, eram submetidas para o seu exemplo;
• Quando até esta fonte se revelava insuficiente, recorriam às normas costumeiras das tribos
pré-islâmicas.
SUNNA
Na resolução dos problemas, os atos do Profeta instruíram um modelo de comportamento que
deveria ser seguido por todos os fiéis. Assim, podemos concluir que, à sua morte, Maomé não
deixou apenas a mensagem revelada, deixou também o seu exemplo. Posto isto, os muçulmanos
ocuparam-se do tratamento sistemático desse exemplo feito tanto de grandiosas ações como de
pequenos gestos.
Os “ditos e feitos” dos Profetas (hadiths) foram organizados em coletâneas e passaram a
constituir a Sunna.
SUNNA: tradição do Profeta que no século IX adquiriu o estatuto de fonte da Lei revelada, ao
lado do Alcorão.
→ Os hadiths têm uma tradição em larga medida oral, ou por vezes proverbial, sendo, por
vezes, contadas como histórias;
→ Nessa medida, aproximam-se de fábulas, mas que acabam por ter um sentido normativo
na concretização do Alcorão como fonte de direito.
A ideia da Sunna, que esta ligada à sucessão não hereditária, é ainda hoje importante porque a
determinação e aplicação da mesma dava poder a um corpo de religiosos que exerceriam o poder
– os ulamas.
ULAMAS: casta de homens notáveis conhecidos pelo seu elevado nível de conhecimento em
matéria religiosa; líderes religiosos investidos num poder normativo, até quase de produção
legislativa, e foi essa ideia de sucessão não hereditária que levou ao desenvolvimento de um
princípio de autoridade que reforçou o poder dos ulamas.
→ Eles eram responsáveis pela estruturação da Sharia e intérpretes por excelência do seu texto;
→ Cabia-lhes a administração da justiça nos tribunais da Sharia e a supervisão do
funcionamento dos tribunais paralelos à jurisdição religiosa;
→ O poder dos ulamas foi de tal modo grande que a religião pode permanecer intacta por entre
as escolas e ritos que ganharam forma ao longo do processo de sistematização da Sharia;
Quatro escolas de jurisprudência islâmica viram reconhecido o seu carácter oficial e passaram
a ter como grande objetivo a conformação dos termos da ortodoxia. A estas escolas, ancoradas
em interpretações próprias da Sharia, foi-lhes admitida a possibilidade de os indivíduos mais
qualificados exercerem um esforço pessoal de interpretação – ijtihad – a partir das fontes
originárias → DIFERENTES FORMAS DE LEITURA DOS FUNDAMENTOS DO ISLÃO
Os ortodoxos temeram pela unidade da Umma, o que levou os ulamas a declararem “encerrada
a porta do esforço”.
É esta a imagem que perdura até hoje, a de um Islão subordinado à Sharia e àqueles que
zelam pelo cumprimento dos seus preceitos. Um Islão incapaz de se relacionar com o que
quer possa significar uma possibilidade de mudança.
SÉCULO XIX: século marcado pelo atentado aos ulamas.
→ A partir do ano de 1800, os ulamas viram o seu poder a ser alvo de ataques. Motivos:
• Momentos de crise vividos no império Otomano;
• Poder político começou a não se mostrar muito interessado em manter a cumplicidade
que tinha tido, até então, com os ulamas.;
→ Viram-se criticados;
→ Começaram a ficar isolados;
→ Foram privados de muitas das suas anteriores prerrogativas;
→ Eram vistos como “corruptos sequiosos do poder” e um “obstáculo à solução dos problemas
que assolavam o mundo muçulmano”;
→ Foi-lhes retirado, pelo sultão Mahmud II, o controlo da administração da justiça
• “Criação de um Conselho de Justiça provido de poderes de supervisão dos tribunais e
o estabelecimento de uma nova estrutura de tribunais seculares”.
→ A criação de uma nova estrutura judiciária de inspiração ocidental (“tribunais seculares de
tipo ocidental") também afetou o poder dos ulamas. Como?
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
Para completar…
A Sharia foi objeto de várias reformas24:
− Reformas diretas:
• Codificação de matérias reguladas pela Sharia em diplomas legais que combinavam
os princípios consagrados na Sharia com regras e princípios de tipo ocidental.
− Reformas indiretas:
• Juízes de formação ocidental, nos tribunais, ajustavam as disposições da Lei
revelada ao seu próprio entendimento do Direito.
Depois de muito tempo a verem o seu poder a ser alvo de ataques, na última metade do sec. XX
assistiu-se a uma re-islamização do direito, como uma reação à presença colonial estrangeira25.
Este “ascendente recuperado pelos ulamas faz temer o regresso dos Estados de maioria
muçulmana a interpretações literais da Lei revelada e à reinstituição de soluções jurídicas
desajustadas às atuais necessidades das populações muçulmanas”. Este movimento encontrou eco
na Primavera Árabe.
PRIMAVÉRA ÁRABE – foi um conjunto de movimentos políticos que começaram no Norte de
África, Argélia, Tunísia, movimentos que tinham ambições democráticas – oposição a regimes
autoritários26. Estas primaveras estiveram na origem de problemas da Síria e na altura foram vistas
com alguma bondade pelo mundo ocidental, o problema foi quando estas levavam ao poder
partidos políticos de influência islâmica.
Os grupos islamistas não estiveram envolvidos nas manifestações que conduziram à queda de
Ben Ali e de Hosni Mubarak, em 2011, mas foram os principais beneficiários dos processos
democráticos desencadeados, somando vitórias eleitorais na Tunísia, Marrocos e no Egito,
fazendo temer um “Inverno islamista”, inimigo dos direitos humanos.
23
(casamento, divórcio, sucessões).
24
Penso que não é um tópico que deva sair, de qualquer modo, dá para completar as respostas.
25
Em especial, dos ocidentais.
26
No Egito, por exemplo, derrubaram um ditador.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
Ainda que os islamistas dominem a retórica dos direitos humanos na perfeição e não tenham
qualquer dificuldade em alternar entre as referências aos direitos humanos da Sharia e referencias
aos padrões internacionais de direitos humanos, é evidente que estarão sempre a falar de coisas
muito diferentes daquelas em que pensamos quando falamos sobre o mesmo tema, mas de uma
perspetiva ocidental.
Ainda hoje, vemos o poder que atualmente tem a re-islamização do direito, mais conservador,
repressivo, cristalizado numa certa interpretação conservadora do Alcorão, fruto de um
movimento histórico caracterizado pelos seus altos e baixos.
IJMA
→ A ideia do Ijma ser uma fonte de direito consensual (apenas os sunitas atribuem à ijma a
qualidade de fonte de direito) e assenta, em larga medida, no dogma da infalibilidade da
própria comunidade dos crentes (o dogma de fé que não é juridicamente decisivo);
→ Acentua a ideia do culto da autoridade, do poder reforçado dos ulamas;
→ É uma fonte de direito que tem evoluído pouco.
QIYSAS
→ Permite flexibilidade, no entanto, remete para o problema de quem aplicaria este direito
(ulamas e os seus sucessores, como cultores desta normatividade de base religiosa e
pessoal);
→ Não é uma verdadeira fonte de direito;
→ É uma ferramenta interpretativa;
→ Dá soluções que não estão previstas no Alcorão ou na Sunna.
Quando falamos do sistema jurídico islâmico, falamos de um sistema ideal;
Não falamos do direito dos Estados islâmicos
Colocamos os mesmos problemas que, como vimos em aulas anteriores, também se
colocam a propósito de outros sistemas jurídicos comparados:
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
O sistema jurídico islâmico com toda esta particularidade acabou por ter um renovado
interesse a partir do 11 de setembro;
A verdade é que este evento foi estudado por alguns autores como um verdadeiro choque
de civilizações termos em confronto ideias civilizacionais diferentes, com ideias de
direitos também diferentes que levaram a alguns desafios:
• A principal questão era como é que se pode tratar juridicamente/condicionar o
direito/impor algo a alguém esta ideia de coercibilidade, sem que essa pessoa está
disposta a dar a sua vida por uma afirmação política?
• Saber se os terroristas eram criminosos ou combatentes de uma guerra, que
apenas seguiam as leis da guerra, para, posteriormente, saberem qual o
tratamento que os mesmos deveriam receber e de que forma seriam julgados;
• Como é que o direito, que tem na base esta ideia de coercibilidade, pode ser
aplicado a pessoas que não partilham desse consenso;
• Foi discutida uma ideia a propósito deste sancionamento criminal do direito penal
do individuo, havendo quem defendesse que as garantias que oferecemos aos
criminosos não deveriam ser oferecidas aos terroristas porque eles não
partilhavam deste consenso social mínimo27 (consenso de participar na vida em
comunidade) → ideia autoritária e excludente, de não assimilação, de não
integração, repressiva28;
*EXEMPLO: caso da base de Guantánamo – alguns dos terroristas desta altura estão detidos sem
acusação, sem limites de prisão preventiva, durante muito tempo sujeitos a práticas de tortura.
Guantánamo não é território americano (a base fica em Cuba) e, portanto, não estava sujeita ao
princípio da territorialidade, nem, por exemplo, às normas penais americanas. Por outro lado,
como eles não eram combatentes nem criminosos, não mereciam as proteções das convenções de
Genebra sobre os prisioneiros de guerra, nem a proteção do direito penal, respetivamente. Ou
seja, alguns deles já estão presos há 20 anos, sem serem acusados, sujeitos apenas a um controlo
judicial muito limitado porque acontecem no contexto de tribunais militares quase secretos e em
vários momentos sujeitos à própria ideia de tortura.
27
Existem pareceres jurídicos americanos respeitantes a esta matéria.
28
Felizmente, esta ideia do direito penal do inimigo (exposta por um autor alemão) não fez vencimento.
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
(As medidas adotadas ao combate ao terrorismo, muitas delas são de duvidosa legalidade, muita
duvidosa constitucionalidade – práticas de tortura, por exemplo)
Esta ideia do choque de civilizações é muito perigosa para o direito porque leva à
radicalização do outro lado. Levou a que ao que parecia ser um choque de civilizações,
ocorresse, em larga medida, no próprio espaço islâmico → levou a uma forte luta interna,
também;
REALÇAR que esta ideia de choque de civilizações, como referido anteriormente, tem muito a
ver com o que é o sistema jurídico islâmico: direito de base pessoal, base religiosa (e não só),
também ele muito fragmentado, quer na diversidade das fontes de direito, quer na interpretação
que lhe é dada. Todo este sistema jurídico, também ele sujeito a movimentos internos que
reforçaram o poder do culto da autoridade (interpretação conservadora e radical do direito
islâmico).
Grande parte deste exercício ainda hoje o sentimos, nomeadamente na adoção de certas medidas
de combate/prevenção ao terrorismo e no financiamento ao terrorismo porque foram utilizados
mecanismos menos claros de transferências financeiras para financiar o terrorismo (grande parte,
mecanismos também usados para o tráfico de droga) e que levaram a que a repressão ao terrorismo
levasse a dificultar esses movimentos financeiros globais na origem de algumas mediáticas de
tensões. Cada vez mais estes movimentos internacionais de capitais são controlados, inicialmente
na repressão ao trafico de droga, mas agora mais voltadas para a repressão do financiamento do
terrorismo e de crimes económico financeiros.
COMMON LAW (regras e casos em particular) – filme: A luta desigual [da juíza
progressista]; evolução da jurisprudência do precedente da discriminação em função da raça (era
aceitável nos tribunais discriminar pessoas conforme a sua raça – o precedente foi evoluindo
conforme a evolução do contexto).
Semelhanças Diferenças
Berço civilizacional – identidade de Um lastro histórico – desde a
valores; Reforma;
Direito laico; A diferente interpretação da
Direito científico, técnico – o método Separação de Poderes;
do direito;
Influenciado pelas revoluções
liberais e do humanismo;
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
…. Powerpoint
Os sistemas jurídicos híbridos
29
TESTE!
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
1. ENQUADRAMENTO HISTÓRICO
2. A TRADIÇÃO ROMANA
A tradição latina que surge da interpretação de separação de poderes que surge em
frança, a seguir à revolução francesa.
• Montesquieu afirmava que o juiz não é mais do que a boca da lei.
Obvio que isto acabou por receber várias críticas, principalmente pelos germânicos.
O liberalismo traduz-se no racionalismo. Os românticos, dizem o contrário, “rouba-
se” a vontade do povo, estes muitos ligados à guerra (Alemanha).
A LEI
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
30
TESTE
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
• Por sua vez, o prof. Marcello Caetano afirma que os acentos era quase como
uma instrução – “definição em termos genéricos para os tribunais”.
Ora não fazia sentido este tipo de argumentação porque o próprio código civil dizia
que os acentos decorriam como força obrigatória geral.
O tribunal constitucional declarou parcialmente inconstitucional, depois, declarou a
inconstitucionalidade com força obrigatória geral (tal como Castanheira Neves
defendia), por violarem o princípio da tipicidade das normas (ART.112, atualmente).
Os acentos, no entanto, continuaram em vigor, mas não como força obrigatória geral,
mas, após três decisões conforme a inconstitucionalidade, os acentos foram
revogados.
Assim, conclui-se que Portugal é um sistema civil law.
A função dos acentos no direito comparado:
O problema é evitar os juízes rebeldes e para isso foram criados os acórdãos de
uniformização de jurisprudência pelo código do processo civil. Tentando colocar
este problema no sitio certo, ou seja, em sede de recurso – garantias de recurso.
A verdade é que os assentos tinham um papel muito importante, entre a imobilidade
e a estabilidade em tempo de reforço constitucional da autoridade – a independência
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
CONTEUDO NOVO
A tradição germânica
Na Alemanha não houve uma revolução tal como aconteceu em frança. Nesta altura
havia estados alemão.
Houve uma transição pacifica entre o antigo regime e liberalismo.
Não há reação tão sentida anticlerical, anti jurisprudência, separação de poderes.
Na Alemanha, em 1814, polémica entre:
31
TESTE!!!!!!!
Tradição germânica ou assentos
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
Savigny defendia, pelo contrário, “da Vocação da Nossa Época para a legislação”
defendia um caminho alemão para o direito, desenvolvendo o seu direito civil com
base no direito romano, com base na jurisprudência, com base na doutrina para
desenvolver o direito civil alemão. Rejeita, pois, a codificação geral.
Do lado de Savigny, defendia-se o romantismo alemão de inspiração hegeliana, que
defendia uma corrente historicista que liga a revelação do Direito ao espírito do
povo (Volksgeist), negando a possibilidade de construir-se o Direito abstratamente.
O romantismo defende o espírito do povo, uma ideia quase orgânica do povo, que
tem expressão na literatura.
• Há a exaltação das paixões, da guerra – é, pois, muito alemão.
• O romantismo teve muitas alertas que muitos autores do liberalismo
aceitaram.
Savifgny oponha-se à codificação civil e imediata e acaba por ganhar, todo o século
19 é passado a desenvolver um código civil alemão:
Desenvolve-se com várias fontes de direito: a jurisprudência foi durante muito
tempo usada para resolver estas questões, com base da recessão do direito romano
(e daí o sistema romano – germânico), com base no direito consuetudinário, com os
processos judiciais.
O código civil é promulgado apenas em 1900, quando a ciência jurídica já
tinha desenvolvido um arcabouço teórico e sistemático de vulto, através da própria
escola de Savigny e da jurisprudência dos conceitos de Puchta e Ihering.
No Brasil, Teixeira de Freitas tem uma reação à escola histórica do direito, criticando
também o código de Seabra, que incluía muitas decisões do direito alemão.
Isto acaba por nos chamar à atenção que a verdade é que a jurisprudência tem um
papel no desenvolvimento do direito.
Na medida em que:
3. Um sistema romano – germânico
É possível falar de um sistema romano – germânico tendo por base todas estas
diferenças, no entanto, a lei é a base, é a fonte primordial. No entanto a tradição
germânica diz-nos que a jurisprudência desempenha um papel no desenvolvimento
do próprio direito.
EX. o CC francês dizia que os “indivíduos são responsáveis não apenas pelos
danos …”
Cabe ao juiz decidir, acaba por desenvolver a “responsabilidade pelo risco” – o
tribunal tem um papel no desenvolvimento do direito e, portanto, não é apenas a
boca que pronuncia a lei.
O juiz tem um papel criador, criador no sentido também na função criativa na
escolha do Direito aplicável porque pode aplicar o direito constitucional português
ou o direito da União Europeia.
Conclusão
A lei é o ponto de partida, tal como refere a tradição latina para o sistema romano –
germânico, mas não se pode excluir o papel dos juízes no desenvolvimento do
direito tal como a tradição germânica denota.32
3.2. Método jurídico
O sistema romano germânico vive ainda muito da ideia do método jurídico aplicado
silogisticamente – o silogismo judiciário vive ainda da lógica aristotélica.
Os limites da lógica aristotélica que se refletem na ideia de que o tribunal é a boca
da lei, uma ideia um pouco redutora.
32
TESTE – TRADIÇÃO LATINA E GERMANICA
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
33
O prof não deu muita relevância às características
Matéria do 2º teste Licenciatura Direito 2021/2022
isto reflete a mudança que se tem vindo a efetivar acerca da forma como se tem o
poder de separação de poderes.