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Murakami: A Arte de Ser Romancista

1) O documento resume o livro "Romancista como vocação", de Haruki Murakami, onde o autor fala sobre sua carreira como escritor e dá dicas para aspirantes a romancistas. 2) Murakami relata como começou a escrever tardiamente e fala sobre a importância de prêmios literários e sobre criar obras originais. 3) Ele também descreve seus métodos de escrita, como estabelecer metas diárias, e a importância da leitura, memória e observação do mundo ao redor para criar hist

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Murakami: A Arte de Ser Romancista

1) O documento resume o livro "Romancista como vocação", de Haruki Murakami, onde o autor fala sobre sua carreira como escritor e dá dicas para aspirantes a romancistas. 2) Murakami relata como começou a escrever tardiamente e fala sobre a importância de prêmios literários e sobre criar obras originais. 3) Ele também descreve seus métodos de escrita, como estabelecer metas diárias, e a importância da leitura, memória e observação do mundo ao redor para criar hist

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DOI: 10.5585/Dialogia.n27.

7749 Resenhas

Romancista como vocação,


de Haruki Murakami

Tradução: Eunice Suenaga


São Paulo: Alfaguara, 2017. 1ª edição. 166 p.

Sandra Delmonte Gallego Honda


Mestra em Educação. Pós-Graduada em Literatura e Estudos
Linguísticos pela Universidade Nove de Julho, São Paulo, SP - Brasil
[Link]@[Link]

Haruki Murakami é considerado um dos autores mais importantes da atual


literatura japonesa. Tem suas obras traduzidas para mais 50 idiomas e é ganhador
de prêmios importantes da Literatura. Aos 29 anos escreveu seu primeiro livro
Ouça a canção do vento que venceu o prêmio literário de uma importante
revista japonesa em que foi publicado. Depois disso, não parou mais de escrever.
Murakami transita em vários estilos narrativos: ficção, ensaio e reportagem,
mas é no romance que ele prefere se debruçar por considerar vital para ele. Em
especial nesse livro, o escritor fala sobre generosidade, o início de sua carreira, a
relação turbulenta entre autores e prêmios literários, a originalidade, a inspiração,
as formas de encontrar tempo para escrever, sua relação com a educação, seus
personagens, seu público alvo e sua carreira no exterior.
O primeiro capítulo é acerca da individualidade do escritor, em que ele consi-
dera o relacionamento amistoso muito raro entre eles. Por outro lado acredita na
generosidade que existe por parte dos romancistas que, segundo ele, acolhem,
dão força e encorajam os artistas de outros meios por saberem que nesse meio
não há concorrência. Segundo Murakami, escrever romance é fácil, difícil é se
manter nesse ofício de escrevê-lo porque exige talento de seus criadores. Considera
escrever romance um ato penoso e acredita que não seja para todas as pessoas já
que, segundo ele, não tem trabalho com mais rodeios do que o romance e se o
romancista não tomar cuidado, vai ficar parafraseando uma obra com a outra
até que se torne “bonecas russas, aquelas que saem uma de dentro da outra e
são todas iguais”. (p.14) Na opinião do escritor, para que um escritor consiga se
manter como romancista, deverá passar por um aprimoramento para conseguir
viver desse ofício.

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Romancista como vocação, de Haruki Murakami

No segundo capítulo, o escritor relata que começou sua carreira tardiamente,


aos 30 anos, após ter ganhado o Prêmio Literário da Revista Gunzô, fazendo o
caminho inverso: primeiro se casou, montou o próprio negócio, contraiu muitas
dívidas e só mais tarde começou a faculdade. Diante disso sentiu a necessidade de
escrever e escreveu seu primeiro romance, porém não gostou do resultado.
Foi em uma partida de baseball que teve o que ele chama de “epifania”
e pensou que poderia ser um romancista. Isso ocorreu no momento em que o
jogador bateu com o taco na bola, o som emitido por esse movimento fez com que
ele tivesse essa sensação que nem ele mesmo consegue explicar. Da mesma forma,
em outra época de sua vida, ele descreve uma manhã que, ao ser acordado com
a ligação do editor da revista “Gunzô” foi informando que estava entre os cinco
finalistas para o prêmio literário que leva o nome da revista. Saiu para caminhar
e viu um pombo correio ferido e esse pombo tremia em suas mãos. Nessa hora ele
sentiu que ganharia o prêmio.
Murakami não se considera nenhum gênio do romance, mas que hoje ele
consegue viver bem com o que ganha como romancista.
No terceiro capítulo o escritor disserta sobre a relevância desses prêmios e
enfatiza o prêmio Akutagawa confessando o alívio por nunca ter ganhado tal
prêmio. Para Murakami, ganhar esses prêmios não significa que as obras sejam
de qualidade, uma vez que o critério para indicação não seja esse. Porém é grato
ao prêmio Gunzô, pois foi através desse prêmio que as portas do mundo literário
se abriram para ele. Mas ficar entre os finalistas já lhe causava incômodo pela
impossibilidade de evitar o assédio, já que ele mesmo se julga antissocial.
A respeito do Nobel e outros prêmios tidos por ele como importantes, o
escritor diz que não existe um critério certo para a premiação, uma vez que entre
os vencedores existem obras de boa a má qualidade. Murakami relata que ainda
hoje é questionado sobre o prêmio Akutagawa e para isso ele responde que “o
mais importante é que se tenha bons leitores. Nenhum prêmio literário, nenhuma
medalha, nenhuma resenha favorável possuem significado substancial se compa-
rados com os leitores que compram seus livros com o próprio dinheiro.” (p.40)
Murakami considera exagerada a relevância que dão ao prêmio e sente-se
orgulhoso em poder sobreviver como escritor sem precisar ganhar o prêmio
Akutagawa. E que, mesmo sem nunca ter ganhado, recebeu vários convites para
participar de juris de prêmios literários, quais foram todos recusados. Para ele, um
escritor precisa somente escrever obras de qualidade para seus leitores.

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HONDA, S. D. G. Resenhas

O quarto capítulo, vai apresentar conceitos do escritor acerca da originali-


dade. E essa é uma questão que ele mesmo considera difícil de responder. Para
isso faz um paralelo com a música exemplificando com a estranheza causada
com o surgimento dos Beatles e os Beach Boys e explica ao leitor que o motivo foi
pelo som que ainda não existia no mundo musical. Murakami prossegue expli-
cando ao leitor que, pelo fato de serem originais, as músicas dos Beatles ainda
emocionam jovens de 15 anos, sua idade quando eles surgiram, e no entanto, a
estranheza vai diminuindo com o passar dos anos, sem deixar de ser original e,
assim, passa a ser um clássico.
Após exemplificar com a música, o escritor explicita ao leitor o que acontece
com o escritor de romances quando esse é tido como “original”. Em sua opinião,
esse escritor precisa se reinventar quando o assunto é a qualidade das obras, e é
nessa reinvenção que alguns autores perdem seu brilho por não ter conseguido
esse feito, o que não significa não serem bons.
O escritor relata as duras críticas que recebia cada vez que lançava uma obra
e o quanto isso poderia impedir seu processo de reinvenção, mas que, hoje em dia,
ele se considera um escritor livre e que essa liberdade foi adquirida por não precisar
escrever seus romances com as regras e por ter seu estilo próprio de escrita, o que
antes não era possível. Isso para ele é ser original. E ser original é ser livre.
No quinto capítulo o escritor fala aos leitores sobre novos escritores, relatando
que sempre é procurado por eles para que lhes diga o que precisa ser feito para
ser um bom escritor. Murakami sugere o hábito incansável da leitura e leitura e
de todos os tipos, de boa e má qualidade tendo um vasto repertório além do olhar
atendo ao redor para conseguir o máximo possível de material.
Por não ter vivenciado nenhuma catástrofe, revolução ou nada peculiar, e
ter uma rotina de vida comum, Murakami revela que só podia contar com o que
estava à sua volta e com isso fazia um “jogo da memória”. Nesse sentido o escritor
relaciona a memória com “gavetas”, onde ela própria seleciona o que é aproveitável
ou não. E é esse material que ele utiliza, ou seja, usa da memória seletiva para
poder ter material para escrever até hoje. A dica do escritor é sempre estar atento
no entorno para poder criar, e nomeia esse ato como “energia naturalmente
renovável”, o que, segundo ele, é a chave é não perder a ambição e identificar esses
“diamantes brutos” que a vida coloca em volta e fazer deles bons romances.
No sexto capítulo, Murakami vai falar ao leitor os métodos que ele desen-
volveu para escrever romances. Embora escreva ensaios e contos, é no romance

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Romancista como vocação, de Haruki Murakami

que ele se expressa de melhor forma. Tem o romance como vital, mas que o conto
é necessário para ele como aliado antes de escrever os romances.
O escritor diz que não consegue fazer duas coisas ao mesmo tempo e, por
isso, estabelece uma meta diária e uma quantidade de horas para escrever. Ele
desenvolve esse método porque o romance demanda muito tempo até a conclusão
e como no Japão não é comum o adiantamento por parte das editoras, ele sempre
acaba utilizando suas economias. Assim, com essas metas ele escreve manuscritos
que equivalem a duas páginas por dia. Além disso, faz inúmeras revisões em seus
textos até que expire o “estado de cura”.
O ato de reescrever é muito válido na opinião do escritor, e se orgulha de não
precisar escrever com rapidez por não precisar estipular prazos e, com isso, ele
pode mudar o que quiser e no tempo que quiser. Desse modo ele defende, também,
a liberdade.
Com esse método, garante Murakami, as obras chegam aos seus leitores com a
qualidade que ele almejou e o que lhe importa é a sensação que vem por parte deles.
No sétimo capítulo, o escritor explicita sua forma de escrever, classificando
esse ato como individual porque converte algo subjetivo em algo objetivo, como
deve ser a prática de um romancista, segundo ele.
Pondera a importância de um escritor ter um local adequado para a escrita.
Esclarece que para manter sua rotina de escrita, adquiriu a prática de exercícios
físicos. Assim, consegue deixar sua mente resistente para ter disposição e disciplina
para sentar e escrever por tantas horas seguidas.
Murakami enfatiza que cada indivíduo tem sua teoria, e se essa que ele
desenvolveu servir de referência para outros escritores ele fica feliz.
No oitavo capítulo, Murakami deixa claro o quão o sistema educacional o
desagrada desde sempre. Nunca gostou de ir à escola (embora frequentasse) e
nem de estudar, porém lia muita coisa e assistia a filmes, além de praticar esportes
com frequência, o que, segundo ele, foi primordial para adquirir conhecimentos
técnicos. Para o escritor, o sistema educacional só busca técnicas para que seus
alunos sejam aprovados no vestibular, em especial no Japão, e considera impor-
tante a necessidade das diferentes visões no sistema educacional, diferentes visões
de mundo e da forma de pensar. É o que ele chama de “sofisticação do sistema”.
Critica as atitudes de professores “certinhos”, preocupados com horários, por
exemplo. Aponta o bullying e os problemas sociais como motivação para modifi-
cação do método. Um método que provoque a sociedade que não tem o local de

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refúgio, onde o indivíduo pudesse encontrar um acordo mais eficiente para ambas
as partes e isso, segundo ele, nunca funcionou. Um local de refúgio onde pudessem
afastar-se dessa hierarquia, do bullying e desse sistema, ato que ele chama de
“espaço para recuperação do indivíduo”. Para o escritor, seria importante ver o
mundo por outras perspectivas e expressa seu desejo de um dia as escolas não
suprimirem a imaginação das crianças, sendo uma escola plena e livre.
No nono capítulo, Murakami fala sobre a criação dos seus personagens.
Revela ao leitor que, no início, eles não tinham nome por considerar um ato falso.
Somente mais tarde viu a necessidade de nomeá-los para não confundir o leitor já
que seus romances ficaram longos, mas que, mesmo assim, só criava personagens
de caráter íntegro. Os personagens de caráter duvidoso ou de má índole foram
criados a partir de suas experiências com pessoas próximas que o traíram ou o
decepcionaram.
O receio de nomear seus personagens era a possibilidade de algum leitor se
identificar na história. Tanto que ele escrevia sempre em primeira pessoa, mas
hoje em dia consegue mesclar entre primeira e terceira pessoa. Mesmo com todo
esse tempo, Murakami diz que ainda há muito a aprender com e dos personagens
dos seus romances.
É no décimo capítulo que o escritor vai revelar ao leitor que nunca pensou
em um público alvo no momento da escrita dos seus romances. À essa prática ele
dá o nome de autocura que é onde o escritor ele faz a autocorreção dele mesmo e
por causa dessa autocorreção, seus romances surgiram naturalmente.
Só começou a se preocupar com o público alvo após ter ganhado seu primeiro
prêmio literário e por consequência ter certa responsabilidade.
No início, Murakami tinha a teoria do “escrever para se sentir bem” e diante
disso recebeu duras críticas, inclusive de um crítico renomado que questionava o
teor literário de suas obras, fato que não o abalou. Mas com o passar do tempo,
esse “se sentir bem” começou a preocupá-lo, porque assim ele começaria a escrever
sempre as mesmas coisas o que causaria cansaço em seus leitores.
Começou a buscar seu estilo próprio de escrever, algo que só ele conseguisse
fazer. Para dedicar-se totalmente à escrita dos romances, mudou totalmente seu
hábito de vida e com isso começou a ter mais contato com os leitores. Hoje, com 65
anos, ele tem consciência de que seu público mudou porque sua forma de escrever
também mudou.

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Romancista como vocação, de Haruki Murakami

O escritor parte do princípio de que escrever para se sentir bem é algo que
agrada a ele mesmo porque sempre haverá quem critique e, assim, não adianta
tentar agradar a todos. Se estiver agradando a si próprio estará evitando desgastes.
Mesmo nesse “sentir-se bem” ele fica feliz em saber que suas obras são lidas por
gerações e é por isso, segundo ele, que nunca desanimou e nem se deprimiu.
No décimo primeiro capítulo, Murakami expõe a trajetória de suas obras e
conta que a versão em inglês de Caçando carneiros teve aceitação melhor do que
a esperada, tanto que o New York Times fez uma resenha elogiosa e uma grande
divulgação, mas que ainda assim a vendagem, segundo ele, ficou longe de ser
um sucesso, o que seria diferente, em sua opinião, se naquela época já existissem
os e-books e a internet. Lançou o livro Japão em primeiro lugar qual era um
incentivo para o desenvolvimento do país, porém os americanos se interessavam
pela economia do Japão e não pela cultura literária.
O escritor revela que os americanos com os quais teve contato o aconse-
lhavam a contratar agentes locais e publicar seus livros em grandes editoras se
quisesse ser bem sucedido, e assim o fez, atribuindo seu sucesso à sólida influência
da indústria literária.
Pelo fato de ter passado por várias experiências desagradáveis no Japão,
Murakami decidiu explorar o mercado editorial em outro país o que o fez recusar
vários convites dentro de seu país, como: viajar para poder escrever diário de
viagens e escrever em revistas. Por sempre ser muito criticado e atacado pesso-
almente no Japão, a conclusão que chegou foi de que aquilo era a “liberação da
frustração” que membros da indústria literária japonesa sentiam.
Murakami expõe que foram essas adversidades que o fez procurar esses
novos rumos no exterior e tomou tudo como desafio. Assim, a partir do ano 2000
as vendagens cresceram significativamente e conseguiu firmar-se como escritor
lá fora.
Sem poder comprovar os dados, ele atribui esse sucesso à queda do comu-
nismo e à queda do Muro de Berlim para explicar a vendagem na Rússia e no
Leste europeu.
Essa discrepância, segundo ele, deve-se à diferença e ao modo de perceber e
de reagir à transformação, porque no Japão o modernismo não existiu, de fato, por
não haver a separação do mundo subjetivo do objetivo como havia na sociedade
ocidental.

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HONDA, S. D. G. Resenhas

A atribuição de seu sucesso também foi direcionada aos excelentes tradutores


com quem, segundo ele, teve a sorte de trabalhar.
Murakami queria testar seu potencial no mercado estrangeiro como um
escritor praticamente desconhecido e nesse território, como um desconhecido, ele
fala em público, recebe jornalistas, mas justifica a atitude com sua responsabili-
dade de ser um “escritor japonês”
Murakami encerra o capítulo, e o livro, revelando ao leitor que ainda se
considera um escritor em desenvolvimento e que essa margem é infinita. Seu
próximo passo será descer para o seu interior e explorá-lo mais a fundo. É mais
um desafio, e o desafio como meta é gratificante.

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