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Artigoaugusto

1) O documento apresenta um dossiê sobre saúde e doença na Amazônia, abordando contribuições da interdisciplinaridade através de diversos artigos. 2) Os artigos discutem temas como saberes tradicionais e biomedicina, a história de doenças como malária em Manaus, isolamento social durante a pandemia de covid-19 entre indígenas, e a atuação de médicos cubanos na Amazônia Paraense. 3) A interseccionalidade de cultura, meio ambiente e aspectos
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Artigoaugusto

1) O documento apresenta um dossiê sobre saúde e doença na Amazônia, abordando contribuições da interdisciplinaridade através de diversos artigos. 2) Os artigos discutem temas como saberes tradicionais e biomedicina, a história de doenças como malária em Manaus, isolamento social durante a pandemia de covid-19 entre indígenas, e a atuação de médicos cubanos na Amazônia Paraense. 3) A interseccionalidade de cultura, meio ambiente e aspectos
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REVISTA DO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LINGUAGENS E

SABERES NA AMAZÔNIA

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ – CAMPUS BRAGANÇA

VOLUME IX – NÚMERO 02 – JUNHO 2021 – ISSN – 2318-1346


QUALIS B3

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NOVA REVISTA AMAZÔNICA

DOSSIÊ "SAÚDE E DOENÇA NA AMAZÔNIA: CONTRIBUIÇÕES DA


INTERDISCIPLINARIDADE"

APRESENTAÇÃO
Vanderlúcia da Silva Ponte
Érico Silva Muniz
Rômulo de Paula Andrade
Tânia Chaves_______________________________________________________________ 04

MÉDICA DA (E NA) FLORESTA: A TRAJETÓRIA DE UMA PARTEIRA, PAJÉ E


BENZEDEIRA TEMBÉ TENETHERAR
Ana Lídia Nauar Pantoja_____________________________________________________ 09

ASSIMETRIAS DA MEMÓRIA: TRAJETÓRIAS SIMILARES, LEMBRANÇAS


DESIGUAIS – MARIA DO CARMO SARMENTO E BETINA FERRO DE SOUZA,
MÉDICAS NO PARÁ
Aristóteles Guilliod de Miranda
José Maria de Castro Abreu Júnior_____________________________________________ 21

ENTRE MIASMAS E O ANOPHELES: A HISTÓRIA DA MALÁRIA NO


ALVORECER DA REPÚBLICA EM MANAUS
Márcio De Carvalho e Silva
Keith Valéria de Oliveira Barbosa_____________________________________________ 37

“NO OLHO DO FURAÇÃO”: A CONSTRUÇÃO PROJETO DE ISOLAMENTO


SOCIAL FRENTE AO COVID-19, EM UM GRUPO INDÍGENA NA AMAZÔNIA
Petrônio Lauro Potiguar Junior_______________________________________________ 51

UMA EXPERIÊNCIA EM SAÚDE, LÍNGUA E HUMANIZAÇÃO NO CONTATO


ENTRE MÉDICOS CUBANOS E PACIENTES BRASILEIROS NA AMAZÔNIA
PARAENSE
Danieli Pinto Silva
Tabita Fernandes da silva____________________________________________________ 67

SAÚDE PÚBLICA EM TEMPOS DE GUERRA: HOSPITAIS DO SESP E A SÃ


POLÍTICA DE BOA VIZINHANÇA NAS CIDADE PARAENSES DE BREVES E
SANTARÉM (1942-1945)
Edivando da Silva Costa_____________________________________________________ 87

SEXO É SÓ PARA QUEM PODE PAGAR: UM DIÁLOGO COM O COTIDIANO DA


PROSTITUIÇÃO NO PARÁ
Augusto César Pinto Figueiredo______________________________________________ 105

PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE PACIENTES COM LEISHMANIOSE VISCERAL


NAS REGIÕES DO BRASIL
Erilana Silva Pacheco
Josiane Silva de Lima Azevedo
Yrlane Paes Ferreira
Sylvia de Fátima dos Santos Guerra
Márcia Cristina dos Santos Guerra____________________________________________ 123

SEÇÃO LIVRE

DESAFIOS NA INCLUSÃO DE SABERES E PRÁTICAS SOCIOAMBIENTAIS


LOCAIS NO PLANO DE MANEJO DA RESEX MARINHA CAETÉ-TAPERAÇU
Marcelo do Vale Oliveira___________________________________________________ 133

SOBRE AS EXPERIÊNCIAS DE COMENSALIDADES DE IMIGRANTES


BRASILEIROS E PARAENSES EM CATALUNHA
Miguel de Nazaré Brito Picanço______________________________________________ 153

A BIBLIOTECA COMO ESPAÇO DE EDUCAÇÃO: O LETRAMENTO DE JOVENS


E ADULTOS – PROJETO “ALFABETIZAR PARA LIBERTAR”
Camila de Cássia Brito
Karley dos Reis Ribeiro
Joana D'Arc de Vasconcelos Neves____________________________________________ 173

CANTOS E GRITOS DA TERRA: CAMPESINOS E PROPRIETÁRIOS RURAIS NOS


PROCESSOS DE REFORMA E CONTRARREFORMA AGRÁRIA DO CHILE (1958-
1990)
Vanderlei Vazelesk Ribeiro__________________________________________________ 191

A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE LINGUÍSTICA SURDA: A


NARRATIVIZAÇÃO AVALIATIVA SURDA SOBRE PORTUGUÊS E LIBRAS
Marília do Socorro Oliveira Araújo
Elenilce Reis Farias Peixoto
Rosângela do Socorro Nogueira de Sousa_______________________________________ 209

PEDAGOGIA MATERIALISTA HISTÓRICO-CRÍTICA: O CONTO LITERÁRIO


COMO PROPOSTA DE ENSINO-APRENDIZAGEM DE LÍNGUA MATERNA
Valdeci Batista de Melo Oliveira
Francisco Pereira Smith Júnior
André Boniatti
Edina Boniatti____________________________________________________________ 225
SAÚDE E DOENÇA NA AMAZÔNIA: CONTRIBUIÇÕES DA
INTERDISCIPLINARIDADE

APRESENTAÇÃO

A Amazônia brasileira e suas fronteiras internacionais apresentam um cenário


diverso e multifacetado de culturas, biomas e sujeitos sociais. Rica em sua diversidade
biológica e plural em sua sociodiversidade, a realidade amazônica compõe complexas
relações para se pensar o fenômeno saúde e doença. O perfil epidemiológico dessa região,
ainda hoje, aponta para a convivência com doenças transmissíveis, de fácil controle, e
outros problemas sanitários de diversas complexidades, dadas as dimensões ecológicas e
culturais da floresta.
Fortemente impactada pelos projetos de desenvolvimento, a floresta e a paisagem
dos rios têm reagido e, cada vez mais, modificado a forma como se adoece e morre na
Amazônia. O controle do adoecer e morrer é imprescindível da complementariedade entre
os saberes dos conhecedores das práticas de cura tradicional e dos conhecimentos da
biomedicina ocidental e de suas tecnologias. É na rica relação entre os diferentes sujeitos
sociais, suas culturas, posições políticas e sociais que esse dossiê busca levar o leitor para
entender a saúde, a doença e as suas múltiplas relações interdisciplinares.
Ana Lídia Nauar Pantoja faz um estudo exploratório com base no método
biográfico e da história oral, e toma como ponto de análise a biografia de Francisca dos
Santos Tembé. O estudo busca refletir sobre as tensões entre os saberes (e poderes) entre
os especialistas médicos e os especialistas ditos tradicionais. O enfoque do estudo busca
mostrar como esses saberes, historicamente postos como subalternos, continuam
resistindo, apesar dos processos de hegemonia da medicina e de suas práticas. Nesse
contexto, a autora enfatiza a necessidade das políticas públicas assumirem uma posição
de valorização desses saberes, já que se trata de saberes ancestrais, transmitidos de
geração em geração, que sustentam as identidades das populações indígenas e de outras
comunidades que compõem a Amazônia brasileira.
Aristóteles Guilliod de Miranda e José Maria de Castro Abreu Júnior lançam mão
da análise das biografias comparadas de duas importantes médicas do Estado do Pará
pioneiras no ensino de cardiologia e do uso do aparelho eletrocardiograma – Maria do
Carmo Sarmento Carvalho e Bettina Ferro de Souza -, formadas nos anos de 1930, pela
Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará. Ao analisar as trajetórias de ambas as
mulheres, os autores analisam o “esquecimento” que levou a sociedade de cardiologia e
os mais destacados médicos da área a silenciarem o pioneirismo de Maria do Carmo
Sarmento de Carvalho e destacar a trajetória de Bettina Ferro. Ainda que ambas tenham
sido mulheres e médicas, segundo os autores, é a trajetória política de Maria do Carmo e
seu percurso marginal, fora dos padrões ideais da classe médica, que possibilita que
alguns sujeitos sociais, “escapa (pem) aos cânones de memória” como foi o caso de Maria
do Carmo Sarmento.
No cenário da Belle Époque, em Manaus, Márcio de Carvalho e Silva e Keith
Valéria de Oliveira Barbosa analisam como a malária tomou proporções epidêmicas no
período republicano. Em um cenário de transformação urbana e modernização, ao passo
em que a cidade era saneada, a epidemia da malária e da febre amarela se intensificava,
assim como o discurso médico-sanitarista também se transformava. Reconhecendo o
âmbito social da doença, os autores procuram mostrar seus agentes sociais e, a própria
noção da doença, como decorrente dos determinantes políticos e sociais do seu tempo. A
produção do discurso médico compõe oscilações entre a defesa da teoria dos miasmas,
em razão das condições insalubres da cidade, sobretudo, do curso dos igarapés (discurso
mais presente nos últimos anos da época provinciana), e a defesa do caráter científico do
vetor Anophele, que sugeria a profilaxia sanitária da cidade (já no século XX). Em ambos
os discursos buscava-se justificar as mudanças na paisagem urbana da cidade,
formalizando uma interpretação híbrida sobre a doença.
Com base em sua experiência de campo, no período em que eclode a pandemia da
Covid-19 no Brasil e no mundo, Petrônio Potiguar relata como o plano de isolamento
social na aldeia Mapuera, localizada na fronteira entre o Pará e o Amazonas, foi
tensionado por questões religiosas. O cenário da Covid-19 leva o pesquisador a
questionar-se acerca do papel do antropólogo perante essa realidade, denominada por ele,
“no olho do furação” da Covid-19. Com a entrada de 45 pessoas, inesperadamente, na
aldeia, o plano de isolamento construído com algumas lideranças e o cacique geral é
desconsiderado e a despreocupação com os riscos atribuída à “fé em Deus”. No entanto,
mesmo em contexto adverso, o autor relata que o plano inspirou a adoção de medidas
nacionais para os DSEI’s do Brasil, sendo adotado parcialmente e com relativo controle
da doença, o que reforça, no autor, a ideia de que são imprescindíveis ações conjuntas,
interdisciplinares e dialógicas com os indígenas para que o enfrentamento da Covid-19
seja exitoso.
Danieli Pinto Silva e Tabita Fernandes da Silva apresentam impasses e diferenças
linguísticas no contato entre a comunidade bragantina e os médicos cubanos estabelecidos
na cidade de Bragança (PA) em virtude do Programa Mais Médicos. As pesquisadoras
mostram que o contato linguístico espanhol/português lançou mão de estratégias e
soluções variadas na interação da prática clínica. A pesquisa mostra que se construiu em
Bragança uma relação que lançou mão de termos linguísticos populares, mímicas,
movimentos e variedades regionais da língua em nome do atendimento de saúde
humanizado.
Recorrendo à história da saúde pública, Edivando da Silva Costa estuda o Serviço
Especial de Saúde Pública (SESP) e o modelo hospitalar posto em prática nas cidades de
Breves e Santarém entre 1942 e 1945. Criado como agência binacional de cooperação
entre Brasil e Estados Unidos, o SESP ficou conhecido por implementar um modelo de
atenção à saúde horizontalizado. O arranjo político dos interesses pela floresta no
contexto da guerra e dos anseios do governo Vargas para a região viabilizaram estruturas
de saúde pública até então desconhecidas pelas populações do arquipélago do Marajó e
do oeste paraense.
No artigo “Sexo é só pra quem pode pagar: um diálogo com o cotidiano da
prostituição no Pará”, Augusto César Pinto Figueiredo debate através do recurso da
história oral as memórias sobre as dinâmicas das trabalhadoras do sexo em áreas de
barragens na Amazônia. Por meio de discussão teórica e trabalho de campo o texto
descreve o cotidiano da prostituição em meio a questões culturais, psicológicas e de
ordem prática da vida material.
Erilana Silva Pacheco, Josiane Silva de Lima Azevedo, Yrlane Paes Ferreira,
Sylvia de Fátima dos Santos Guerra e Márcia Cristina dos Santos Guerra expõem dados
epidemiológicos sobre a Leishmaniose visceral, doença endêmica no Brasil. A alta
incidência da doença nas regiões norte e nordeste, apresentada de forma detalhada em
gráficos e tabelas, indica o crescimento da doença em locais que vivenciaram redução de
áreas de florestas, facilitando a entrada da Leishmaniose nos centros urbanos. Ou seja,
uma leitura pela epidemiologia que revela também as faces das condições sanitárias e de
acesso à saúde nas regiões do país.
Esperamos que aqueles que tenham encontrado este dossiê possam se beneficiar
da interdisciplinaridade na área de estudos em saúde como tônica e possibilidade para
tematizar nossos problemas e dinamizar nossos saberes na Amazônia.

Os organizadores

Vanderlúcia da Silva Ponte


Antropóloga, Professora Adjunto da Faculdade de História, Campus de Bragança, do
Programa de Pós-graduação em Linguagens e Saberes da Amazônia (UFPA) e do
Programa de Educação Escolar Indígena (UEPA/UFPA/UFOPA/UNIFESSPA). Líder
do Grupo de Estudos e Pesquisas Interculturais Pará-Maranhão (GEIPAM). E-mail:
[email protected].

Érico Silva Muniz


Historiador, Professor Adjunto da Faculdade de História, Campus de Bragança, e do
Programa de Pós-Graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia da Universidade
Federal do Pará (UFPA). Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas Interculturais Pará-
Maranhão (GEIPAM). E-mail: [email protected].

Rômulo de Paula Andrade


Professor do Programa de Pós-Graduação em História das Ciências e da Saúde da Casa
de Oswaldo Cruz, na Fundação Oswaldo Cruz. Pesquisa e orienta temas relacionados aos
impactos ambientais e sanitários de projetos de desenvolvimento na região amazônica,
além de trabalhos sobre a história do combate à fome no país. E-mail:
[email protected]

Tânia Chaves
MD, Ph.D, Médica Infectologista, Docente da FAMED/UFPA. Pesquisadora em Saúde
Pública/IEC/SVS/MS/Vice-Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em
Epidemiologia e Vigilância em Saúde do Instituto Evandro Chagas/SVS/MS. Membro e
Consultora das Sociedades Cientificas Brasileiras de Imunizações/ e de Infectologia.
Presidente da Sociedad Latino Americana del Viajero. E-mail: [email protected]
DOSSIÊ AMAZÔNIA 9

MÉDICA DA (E NA) FLORESTA: A TRAJETÓRIA DE UMA PARTEIRA, PAJÉ E


BENZEDEIRA TEMBÉ TENETHERAR

Ana Lídia Nauar Pantoja1

RESUMO

A proposta deste artigo é fazer uma reflexão sobre a importância dos saberes tradicionais e práticas de
curas tradicionais entre os povos indígenas Tembé Tenethehar, Nordeste do estado do Pará, por meio
das narrativas biográficas de uma parteira, pajé e benzedeira da Aldeia Ytuaçu. A pesquisa de caráter
exploratória com utilização do método biográfico e história oral, teve os dados submetidos à análise
qualitativa, apontando para a importância que as mulheres assumem na comunidade e em particular a
parteira Francisca, cuja trajetória revela a tradição de uma medicina popular que nem sempre é
valorizada no contexto das políticas de atenção à saúde indígena que vêm sendo implementadas pelo
Estado no local, apontando, com isso, para os riscos de desenraizamentos de valores culturais
ancestrais essenciais à preservação das suas tradições e identidades.

Palavras-chave: Parteiras. Saúde. Medicina popular. Saberes ancestrais.

DOCTOR (AND/IN THE) FOREST: THE PATH OF A MIDWIFE, PAJÉ AND


TEMBÉ TENETHEHAR FAITH HEALER

ABSTRACT

The purpose of this article is to reflect on the importance of traditional knowledge and traditional
healing practices among the Tembé Tenethehar indigenous peoples, in the northeast of the state of
Pará, through the biographical narratives of a midwife, shaman and healer from Aldeia Ytuaçu. The
exploratory research using the biographical method and oral history, had the data submitted to
qualitative analysis, pointing to the importance that women assume in the community and in particular
the midwife Francisca, whose trajectory reveals, the tradition of popular medicine that it is not always
valued in the context of indigenous health care policies that have been implemented by the State and at
the local level, thereby pointing to the risks of uprooting ancestral cultural values essential to the
preservation of their traditions and identities.

Keywords: Midwives. Health. Popular medicine. Ancestral knowledge.

Data de submissão: 23.04.2021


Data de aprovação: 23.05.2021

INTRODUÇÃO

As doenças e as preocupações em torno da saúde sempre estiveram presentes em todas


as sociedades humanas, e, assim, pode-se considerá-las universais. Cada sociedade ou grupo
social desenvolveu, ao longo do tempo, suas formas particulares de organização coletiva,
atualizadas em práticas e ideias pautadas em lógicas culturais próprias e específicas na busca
de soluções para as diversas situações apresentadas. No campo da saúde, do mesmo modo,
todas as sociedades humanas desenvolveram ideias e materiais em busca de conhecimentos e
técnicas que fossem capazes de dar respostas aos episódios de doenças vivenciados de forma
individual ou coletiva. Com esse objetivo, toda sociedade e cada uma em particular, também

1
Doutora em Antropologia Social. Professora Adjunta IV de Antropologia Social na Universidade do Estado do
Pará, Centro de Ciências Sociais e Educação. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação
Escolar Indígena – PPGEEI (UEPA/UFPA/UFOPA/UNIFESSPA). E-mail: [email protected].
10 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

desenvolveu conhecimentos, práticas e instituições que aqui compreende-se como “sistemas


de atenção à saúde”, tal como propõem Langdon e Wiik (2010). Nesse sentido, parto do
pressuposto de que, sendo a cultura um fenômeno universal, ela oferece uma visão de mundo
às pessoas, que orienta as suas práticas e saberes na vida cotidiana de um modo geral, nas
quais também se encontram inseridas as questões relativas à saúde e à doença. Ou seja, não é
possível separar os conhecimentos, técnicas e práticas em saúde, dos outros aspectos da
cultura de uma sociedade ou indivíduo.
A Amazônia brasileira é palco de uma diversidade cultural enorme que se atualiza,
entre outros aspectos, no rico universo simbólico das diversas práticas de cura tradicionais e
saberes em torno da gestação e do nascimento das crianças. Nas sociedades indígenas, o
nascimento em domicílio é parte da cultura e da tradição secular que se mantém, apesar das
interferências do conhecimento, da prática médico-hospitalar e a imposição do saber médico
científico. No contexto de comunidades tradicionais como as indígenas, os partos domiciliares
se inserem e fazem parte de uma rede de significados simbólicos que expressam saberes que
são pautados nas crenças culturais e no conhecimento da natureza.
Neste artigo, realizo uma breve reflexão sobre a importância dessas práticas para a
manutenção e fortalecimento das identidades dos povos indígenas, a partir da trajetória e
história de vida de Francisca dos Santos Tembé, parteira tradicional da aldeia Tembé Ytuaçu,
na parte alta do rio Guamá, localizada no município de Santa Luzia, Nordeste do estado do
Pará. Trata-se uma mulher de importância reconhecida na aldeia por deter saberes ligados às
atividades realizadas como parteira e, também, como pajé e “rezadeira” (benzedeira) no local.
Dentre as tantas mulheres do mesmo modo importantes na aldeia, a escolha recaiu em
Francisca pela sua trajetória de vida, pelo reconhecimento coletivo de sua atuação como
detentora de saberes de cura e como parteira, e por ser uma grande referência para seu povo,
Tembé Tenetherar. Trata-se, portanto, de uma mulher sábia, muito valorizada na aldeia pela
sua atuação como rezadeira bem como pelas práticas de cura realizadas como pajé e ainda
pelos inúmeros partos feitos, de gerações diversas de mulheres na comunidade onde mora
atualmente.
Tomei conhecimento da sua história através das alunas e alunos indígenas, em janeiro
de 20152. Na ocasião das aulas, como parte das atividades ministradas no contexto da
disciplina História Indígena na Amazônia, solicitei aos grupos de alunos, que entrevistassem
pessoas que a sua comunidade julgasse importantes e fundamentais no local por sua atuação
em prol do coletivo e sua contribuição à história e cultura do grupo, e, uma das escolhidas foi
a parteira Francisca. Ouvi várias histórias de mulheres trazidas pelos grupos de alunas e
alunos Tembé Tenetehar e a da parteira me chamou atenção em particular, pela sua
importância na continuidade e fortalecimento do grupo por meio de suas práticas culturais
tradicionais, já que ela, sendo filha de parteira, “pegou” crianças que formam algumas
gerações atuais da comunidade e durante muitos anos é a pessoa responsável pelos rituais de
cura e benzeções, sobretudo, de crianças da aldeia.
Neste ponto, importa ressaltar a centralidade que as mulheres indígenas, como as do
povo Tembé Tenetehar, assumem no contexto de suas lutas históricas e culturais. É exemplar
nessa direção a grandeza da liderança política e cultural da aldeia Tekohaw, Verônica Tembé.
A partir de fins do século passado, como posto por Ivânia Neves (2018), Verônica liderou as
lutas em defesa do território Tembé e, portanto, assumiu um papel fundamental no processo
de reconhecimento e demarcação da Terra Indígena (TI) Alto Guamá. Ponte e Teisserenc
(2013, p. 1), em estudo sobre o aprendizado e a transmissão de conhecimento na aldeia

2
Precisamente, pela turma de História, do curso Intercultural Indígena, da Universidade do Estado do Pará
(UEPA), quando uma disciplina fora por mim ministrada. Agradeço, portanto, a turma, pela oportunidade de
conhecimento e aprendizado sobre as experiências e importância das mulheres na organização e fortalecimento
da identidade cultural do povo Tembé Tenetherar.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 11

Tembé Tenetherar, apontam como os saberes e práticas tradicionais encontram-se


relacionados às ações coletivas no território que envolve muitos conflitos e, cujo contexto, as
mulheres assumiram historicamente papel importante na luta e defesa do território e,
consequentemente, na manutenção da identidade étnica do grupo. As autoras ressaltam que,
sobretudo na década de 1950, época em que os homens das aldeias estiveram envolvidos nas
frentes de atração criadas pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI), momento em que eles se
ausentaram das aldeias, as mulheres tiveram que ficar à frente, assumindo responsabilidades
na defesa de seu povo.
Nesse contexto de luta pelo território, elas imprimiram outras dinâmicas que
favoreceram o seu papel como líderes, como foi o caso de Verônica Tembé que assumiu o
controle político de todo o grupo. Além de aproximar os Tembé que se encontravam dispersos
ao longo do Rio Gurupi e com isso criou uma nova aldeia – a aldeia Tekohaw – ela também
atualizou novas formas de valorização da cultura do grupo por meio de ações de incentivo ao
fortalecimento de sua língua nativa, de seus rituais ancestrais e práticas tradicionais, dentre
estas as de cura. Nesse sentido, as autoras mostram como as práticas relativas ao cuidado do
corpo e da saúde por meio de rituais de iniciação e outros, assumiram importante lugar
enquanto “estratégia de revalorização de costumes e saberes, associada às lutas por direitos,
em especial, o direito ao próprio território” (PONTE; TEISSERENC, 2013, p. 2). E em um
desses importantes rituais descritos pelas autoras (o ritual da Festa da Moça), resta evidente a
importância dos saberes (e poderes) das mulheres enquanto “donas da festa”, pois são elas
que, “por meio de um canto, clamam aos espíritos da floresta por proteção às ‘meninas
moças’ e aos rapazes” (PONTE; TEISSERENC, 2013, p. 7). Esse mesmo tipo de conexão
com os espíritos “encantados” da natureza, veio à tona nas narrativas de Francisca quando se
referiu ao dom que deles recebeu para fazer os partos e os rituais de cura como pajé e
benzedeira.
Assinalo que este texto tem por base a pesquisa exploratória que teve início na sala de
aula e posteriormente se estendeu para a comunidade, momentos em que pude conversar e
entrevistar Francisca3. Nesse sentido, tomo por base a metodologia de narrativa biográfica que
privilegia a história oral e a centralidade do indivíduo nas narrativas, neste caso a da parteira
Francisca. Convém deixar claro que trabalhos dessa natureza guardam uma certa
complexidade, pois que a ideia de história de vida pressupõe uma “unidade do eu” que na
verdade é inexistente, portanto, ilusória, como nos ensina Bourdieu (2006), em seu clássico
estudo “A ilusão biográfica”. Este autor propõe a ideia de “fragmentação do eu” em oposição
ao que ele denominou de “unidade do eu”, ou seja, a ilusão de uma linearidade, como uma
série de acontecimentos que seguem uma ordem cronológica. Nesse sentido, a narrativa
biográfica revela o caráter dinâmico da trajetória do indivíduo, ou seja, o movimento em
múltiplas direções que é peculiar a todo processo histórico, e aqui se incluem as experiências
vividas pelo indivíduo ao longo do tempo, e, portanto, envolve (ou pode envolver) outros
também, pois não se faz uma história sozinha(o).
E no que diz respeito particularmente à importância da biografia de mulheres, esta
reside na valorização de sujeitos que por muito tempo tiveram suas práticas invisibilizadas por
uma história que se dizia oficial, posto que, como sabe-se, as mulheres e suas experiências
históricas, sempre foram consideradas de menor importância. O método biográfico nesse
sentido se coloca como o campo perfeito à verificação de lacunas utilizadas pelos excluídos
da história, entre estes sujeitos, as mulheres. E, se considerar-se o componente étnico-racial –
neste caso as mulheres indígenas – esta invisibilidade, silenciamento e exclusão da história
ganha dimensões muito maiores.

3
Aproveito para registrar aqui a minha enorme gratidão para com a Dona Francisca Tembé, por sua gentileza e
generosidade em me receber em sua casa na aldeia e confiar a mim suas experiências em torno das práticas de
pajelança e como parteira e benzedeira tradicional de seu povo.
12 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Particularmente, no contexto da Amazônia, é de fundamental importância dar


visibilidade às experiências de mulheres que por muito tempo tiveram suas histórias negadas
por uma lógica instrumental e positivista que tem relegado-as a uma posição de inferioridade
e subalternidade. Face a essa realidade, há, pelo menos, três ou quatro décadas, pesquisadoras
e pesquisadores locais, sobretudo da área de Ciências Humanas e Sociais, tem procurado
suprir essa lacuna e cada vez mais investido em pesquisas nas quais as mulheres assumem o
lugar de sujeitas principais. Nessa esteira, ressalto a importância das publicações do Grupo de
Pesquisa Eneida de Morais – GEPEM/UFPA – que inclusive atualmente possui uma Revista
Eletrônica intitulada “Revista Gênero na Amazônia”, que tem contribuído substancialmente
na divulgação semestral de pesquisas de excelência, cujos temas têm sido as mulheres e suas
experiências na região. Também nesse sentido, destaco a Enciclopédia “Mulheres Pan-
Amazônidas”, organizada por Simonian (2011), que traz uma contribuição inédita no sentido
de construir uma contralógica, oferecendo – por meio das várias biografias apresentadas no
mesmo volume – uma proposta de compreensão das mulheres biografadas como sujeitas de
uma história da Amazônia (ou de parte dela), contada por elas mesmas, trazendo experiências
culturais relevantes e diversas tornando possível ao público mais amplo, conhecê-las em suas
particularidades e complexidades.
Assim, e com o intuito de valorizar a voz de uma mulher indígena da Amazônia,
apresento e analiso a seguir a trajetória de vida de Francisca dos Santos Tembé. O desafio
assumido aqui é o de tentar compreender, a partir das suas experiências, as (re) significações
da arte e do ofício de partejar e as alterações que essa prática sofreu (e vem sofrendo) nas
últimas décadas, na Aldeia Ytuaçu. Ressalto, nesse sentido, que esta reflexão se insere
(também) no contexto das relações e significados das práticas realizada pelas parteiras
tradicionais na Amazônia, as quais, ainda que em número mais reduzido atualmente,
permanecem em muitas comunidades tradicionais assumindo papel importante na sua
reprodução, como é também o caso de inúmeras comunidades quilombolas no estado do Pará.
No contexto específico da Aldeia Ytuaçu, essa prática vem, aos poucos, com a introdução do
subsistema de saúde médico, deixando de ser frequente, o que é visto com certa preocupação
sobretudo por Francisca e pelas mulheres de sua geração.
Os povos Tembé Tenetehar se encontram em territórios pertencentes aos estados do
Pará e Maranhão, separados pelo Rio Gurupi. De acordo com Wagley e Galvão (1961), eles
falam a mesma língua – o tupi guarani – possuem a mesma tradição cultural e consideram
pertencer a um único povo que se autodenomina Tenetehar. A antropóloga Vanderlúcia Ponte
(2014, p. 29), em sua tese de doutorado desenvolveu uma rica análise sobre a relação entre
território e saúde desse povo, na qual destaca que eles foram diferenciados na percepção de
viajantes naturalistas que os identificaram como dois subgrupos: o grupo que se fixou na
região do Maranhão foi denominado Guajajara, e o que ficou na região do Pará, foi
denominado Tembé. De acordo com a autora, embora tenham sido considerados como
pertencentes a um único grupo, eles guardam diferenças culturais marcantes um em relação ao
outro.

1 ORIGEM E TRAJETÓRIA DE FRANCISCA E SUA FAMÍLIA

Francisca dos Santos Soares Tembé nasceu – pelas mãos de uma parteira, a Senhora
Antonina dos Santos Farias, que era sua avó materna –, na aldeia Tembé Ytuaçu, na parte alta
do rio Guamá, em 25 de outubro de 1959 e, atualmente, está com 61 anos. Filha de Luiza
Agostinha Farias (que também era parteira) e Félix Sarmento dos Santos, que era “funcionário
braçal da FUNAI”, ou, como ele era conhecido pelo órgão, “amansador de índio”, ela é a
terceira filha do casal que teve um total de seis filhos, todos nascidos na mesma aldeia.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 13

Francisca casou-se aos 15 anos com Pedro Soares Tembé, que é raizeiro4 e caçador na mesma
aldeia. Junto com ele constituiu sua família, teve seu primeiro filho com 15 anos de idade,
logo após se casar. No mesmo local e ao longo de mais de 40 anos, viu sua família crescer a
partir do casamento de seus filhos, a formação de suas famílias e o nascimento de seus netos.
Ao lado de seu marido e com a expansão da sua família, ela criou a aldeia Ytuwaçu no
ano de 1984, onde vive atualmente. Esta aldeia é constituída principalmente pelos seus
descendentes, dentre estes, filhos, netos e, agora, bisnetos. Atualmente ela tem sete filhos, 25
netos e quatro bisnetos. Portanto, Francisca descende diretamente de uma família de mulheres
parteiras e pajés de povo Tembé Tenetehar. Tanto sua mãe quanto sua avó materna
partejavam e praticavam também a pajelança nas aldeias onde moravam.
Nesse ambiente de mulheres sábias, Francisca cresceu vendo sua mãe e sua avó
exercitarem essas práticas ancestrais. Pelo relato dela e de outras pessoas da aldeia, ficou
patente que o conhecimento em torno da prática de partejar foi sendo mantido e repassado às
mulheres de sua família, por várias gerações, tratando-se, portanto, de um saber ancestral
intergeracional. A sua mãe Luíza foi a parteira que “pegou” os seus sete filhos e por sua vez,
ela e seus irmãos foram “pegos” pela avó materna que se chamava Antonina dos Santos
Farias. São mulheres sábias pertencentes a várias gerações de uma mesma família de parteiras
que se sucederam ao longo do tempo no mesmo local. Tal como também acontece em outros
povos indígenas da Amazônia, entre os Tembé Tenetehar – a exemplo dos povos indígenas da
região do Baixo Amazonas, pesquisados por Vaz Filho (2016) – as mulheres são as principais
guardiãs dos saberes e práticas de cura tradicionais ligadas ao mundo cosmológico desses
povos.

2 A MEDICINA POPULAR E A PAJELANÇA

Falar das práticas das mulheres parteiras, pajés e curandeiras no contexto amazônico é
situá-las, portanto, no âmbito de seus universos cosmológicos e como parte de um sistema
simbólico que possui lógicas culturais específicas. Nesse sentido, em uma conversa que tive
com Francisca em um fim de tarde no quintal de sua casa, ela ressaltou que, apesar de ter
convivido desde a infância com mulheres de sua família que atualizavam cotidianamente
práticas e saberes em torno da pajelança e do ofício de partejar, ela atribui seu conhecimento
em torno dessas práticas, a um dom, uma missão, pois compreende ter sido escolhida pelos
seres encantados da natureza (das matas ou dos rios) – conhecidos também por Caruanas5 –
para seguir a carreira de pajé e parteira. Sempre se referindo a tais seres com muito respeito,
ela ressaltou que foi deles que recebeu as orientações e conhecimentos em torno das mesmas
práticas. Ela conta que, embora nunca os tenha visto, desde criança sentia a presença dos
Caruanas que se comunicavam com ela e chegavam a “perturbá-la”, dada sua resistência em
atender aos seus chamados.
Assim, após muito relutar em atender aos chamados dos Caruanas, finalmente
começou a atuar como pajé já na sua fase adulta – aos 27 anos de idade – após muita
“perturbação” dos encantados acabou cedendo e conta que passou a exercer o dom
especialmente a partir de um episódio inusitado. Em seu relato, há referência de um certo dia,
quando sentiu um mal-estar no corpo seguido de desmaio, tendo permanecido desacordada
4
Raizeiro é o nome dado à pessoa (geralmente um homem) na aldeia que conhece a floresta e sabe onde estão as
raízes e vai apanhá-las quando as pessoas delas necessitam para tratamento de saúde.
5
Caruanas é o termo também conhecido, evocado e referido no contexto da pajelança cabocla amazônica para
designar os seres encantados da natureza. De acordo com Dona Zeneida Lima (1992, p. 165-166), “quem cura
são os Caruanas através do pajé. [...] e eles são seres encantados, donos dos mistérios do mundo (p. 135)”. Essa
autora, indígena e pajé da ilha de Marajó, no Pará, ressalta ainda sobre isso que: “Se não fosse pelos ataques, a
doença inexplicável e o rápido desenvolvimento do meu poder de cura, exercido desde cedo, eu não seria
diferente de tantas crianças em minha idade.”
14 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

durante 20 dias. Nesse tempo, apenas dormiu e ficou sem comer e beber nada. Ela acredita
que os Caruanas a protegeram durante esse tempo, pois, do contrário, não teria sobrevivido
tantos dias sem comer e beber água. Ela tomou esse evento como um sinal de que deveria
seguir os seus ensinamentos e, desse modo, quando voltou a si, resolveu atender aos
chamados deles e começou a fazer os trabalhos de cura na aldeia.
Ao estudar a medicina popular na Amazônia rural e se detendo particularmente na
“pajelança cabocla”, Maués (1994) destaca que esta é uma prática secular na região, sendo
constituída por um conjunto de práticas de cura xamanística. Segundo este autor, tais rituais
guardam suas origens nas crenças e costumes dos indígenas Tupinambás antigos,
sincretizados após o contato com os brancos e negros a partir da segunda metade do século
XVIII. Dentre as crenças que sustentam e dão significado às mesmas práticas, está a crença
nos “encantados” – os Caruanas – que são seres invisíveis que se apresentam durante os
rituais de cura incorporados no pajé ou xamã.
Apesar da existência de outras medicinas nas áreas rurais amazônicas, o autor ressalta
que ainda é o pajé (eu diria, também, a pajé), que desempenha o papel de médico (ou médica)
popular mais importante nas comunidades. Esse (ou essa) especialista6 (mulher ou homem) é,
em geral, alguém que conhece profundamente os remédios da fauna e da flora e quase sempre
exerce também as funções de benzedor ou benzedeira e de parteira7. Segundo Maués (1994),
quando a parteira também é pajé, passa a ser muito solicitada por se tratar de uma “parteira de
dom”, ou seja, aquela que trabalha com a assistência dos “encantados” Caruanas, das florestas
ou dos rios.
De fato, tais aspectos, como se pode perceber, parecem mesmo ocupar parte
importante da história de vida de Francisca. O ofício de partejar ela iniciou aos 33 anos de
idade e, de acordo com seu relato, teria acontecido no contexto de uma emergência, em que
uma mulher grávida e em trabalho de parto, necessitou de alguém que “pegasse” o seu bebê.
Ou seja, na ausência de sua mãe que era a parteira conhecida e oficial da aldeia, ela teve que
fazer o parto tendo sido bem-sucedida na missão cuja orientação ela atribui aos Caruanas.
Ressalta ainda Francisca que apesar de ter exercido a profissão por pouco tempo – sete
anos – ela fez muitos partos na aldeia. Conta que “pegou” nesse tempo, mais de 58 crianças
em aldeias distintas entre os Tembé Tenetehar. E que só não “pegou” mais crianças porque as
mulheres da aldeia começaram a ir para o hospital na cidade e foram, aos poucos, perdendo a
confiança em seu conhecimento e em sua prática.

3 A ATUAÇÃO COMO AGENTE DE SAÚDE NA ALDEIA

Apesar de sua importância como parteira na comunidade e mesmo com o


reconhecimento de seu trabalho pelos seus pares indígenas, sobretudo as mulheres em idade
reprodutiva, Francisca nos últimos anos foi deixando de fazer os partos e praticar a pajelança.
No que se refere ao ofício de partejar (que ela exerceu dos 33 aos 40 anos), há pelo menos 15
anos ela deixou de exercê-lo em face do impedimento imposto pelo Sistema Único de Saúde
(SUS), ao qual foi incorporada como agente de saúde. Segundo ela, “[...] disseram que estava
acontecendo muitos problemas e que não era mais pra mim me responsabilizar pelas mulheres
grávidas, pois caso alguma coisa desse errado eu seria a culpada.” (Francisca dos Santos
Soares Tembé, 2015).
Nesse trecho da narrativa de Francisca fica evidenciado que na aldeia Tembé Ytuaçu,
pelo menos no que se refere à realidade das parteiras indígenas, o respeito às lógicas culturais
internas da comunidade, expressas em tais saberes tradicionais, não acontece como deveria.

6
Que também pode ser uma mulher, como no caso de Francisca.
7
Quando se trata de uma mulher, como dito na nota anterior.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 15

De fato, com a imposição do sistema de saúde indígena na aldeia, Francisca foi levada a
abandonar suas práticas tradicionais do partejar, embora tenha sido incorporada ao mesmo
sistema como agente de saúde. Em seu trabalho nesta nova função, ela foi recomendada a não
fazer mais os partos sozinha – sem o acompanhamento de um médico – pois, se assim o
fizesse, estaria pondo em risco a vida das gestantes e das crianças.
De acordo com Del Priore (2009), as mulheres benzedeiras, pajés e parteiras, possuem
uma longa história na região amazônica. Desde o período colonial essas práticas eram
exercidas por mulheres que tratavam, principalmente, de outras mulheres em um contexto em
que praticamente não existiam médicos. Então as médicas eram elas que, por possuírem
conhecimentos específicos e diferenciados daquele defendido pela ciência médica, com
frequência, eram vistas e tratadas como suspeitas, acusadas de feitiçarias e sofriam
perseguições tanto pelos inquisidores do Tribunal do Santo Ofício da Igreja Católica,
instalado aqui no Brasil à época, como pelas autoridades civis que representavam o Estado
brasileiro.
É importante lembrar que, durante o século XVIII, o Pará (que à época era Província
do Grão Pará e Maranhão), foi palco de grandes embates entre agentes de cura que se
empenharam em resolver o problema das epidemias de cólera e lepra que se alastravam,
contexto em que as disputas de saberes (e poderes) entre a medicina científica e as práticas de
cura tradicionais foram bastante evidentes em todo o Brasil. Santos et al. (2012, p. 12),
ressaltam, por exemplo, que, durante muito tempo e até os dias atuais, a medicina científica
conviveu com outras práticas de cura de caráter popular, sempre tentando impor seu saber
como o único possível e com propriedade de explicar as causas e apontar a cura para as
doenças. E assim, de acordo com os mesmos autores, “médicos, intelectuais e cientistas
conviviam, muitas vezes de forma pouco harmoniosa com práticas populares dos pajés,
benzedeiras, homeopatas, boticários, feiticeiros (sic), barbeiros, sangradores, espíritas,
práticas estas consideradas como charlatanismo pelos médicos”. Ao que parece (e a narrativa
de Francisca confirma), esse embate entre o que Langdon e Wiik (2010) denominam de
“sistemas de saúde” diferenciados culturalmente, permanece nos tempos atuais, contexto em
que se observa a imposição do modelo biomédico sobre as práticas tradicionais de cura.
Como se sabe, foi na passagem do século XIX para o XX que a medicina social
passou a desenvolver o projeto de medicalização da sociedade como parte de uma política
mais ampla de higienização dos espaços sociais. Nestes termos e progressivamente, as
parteiras foram sendo afastadas do cenário público. Isso em face da valorização da prática
médica que acompanhou – e acompanha – o discurso higienista. A partir desse momento, elas
vão sendo substituídas pelos médicos. Enfim, como se depreende de Barroso (2009), o parto
se institucionaliza e o saber médico é legitimado em detrimento do saber da parteira que passa
ser considerada uma prática ultrapassada e de risco às mulheres e suas crianças.
Particularmente entre os povos indígenas, a prática das parteiras vem sofrendo
alterações a partir da instituição de políticas públicas voltadas para o projeto de atenção à
saúde indígena, atualizado nas últimas décadas. Ferreira (2013), aponta que foi na década
iniciada em 1970, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) inseriu nas suas
recomendações, tal proposição. E isso em “[…] consonância com a nova ordem
internacional” (OMS, 1978, p. 3) e que o Estado Nacional integrasse as medicinas tradicionais
a seus sistemas de saúde, inclusive os saberes e as práticas das parteiras.
Entretanto, somente em 2002, com a publicação do documento “Estratégias da OMS
sobre a medicina tradicional, 2002-2005”, a OMS passou a estimular os Estados Nacionais a
regular, disciplinar e controlar as respectivas medicinas tradicionais (ORGANIZAÇÃO,
2002). Também, foram criadas diretrizes básicas para o estabelecimento das relações de
cooperação entre a ciência médica – sistema oficial de saúde – e as medicinas tradicionais.
Porém, esses processos todos têm sido difíceis de se efetivarem no âmbito da gestão pública.
16 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

No Brasil, de acordo com Ferreira (2013, p. 205), as recomendações internacionais se


efetivaram via políticas públicas “[...] delineadas como ações e programas governamentais
voltados para a realização de objetivos específicos [...]”, com o intuito de integrar as
medicinas tradicionais ao sistema de saúde oficial. Dentre estas políticas, destaca-se a Política
Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas (PNASI), que considera as especificidades
das medicinas indígenas, referindo-as como práticas tradicionais de saúde que operam a partir
de lógicas culturais específicas no contexto de um sistema baseado nas relações cosmológicas,
destacando que:

As práticas de cura respondem a uma lógica interna de cada comunidade indígena e


são produto de sua relação com o mundo espiritual e os seres do ambiente em que
vivem. Essas práticas e concepções são, geralmente, recursos de saúde de eficácia
empírica e simbólica, de acordo com a definição mais recente da OMS. (BRASIL,
2002, p. 16-17).

Observa-se que a PNASI8, apesar de considerar, em tese, que as práticas de cura


tradicionais são detentoras de especificidades baseadas em lógicas internas, na prática esse
reconhecimento nem sempre se apresenta. Desse modo e de acordo com seus relatos, para se
tornar agente de saúde, há 18 anos, Francisca teve que se deslocar de sua aldeia até a capital
do estado do Pará, Belém, para fazer um curso de capacitação promovido pela Fundação
Nacional de Saúde (FUNASA). Nessa ocasião, ela foi orientada a não mais partejar nos
domicílios, sob a justificativa de que haveria riscos à saúde das mulheres e das crianças
nascidas pelas mãos da parteira. Ao mesmo tempo, na sua aldeia, as mulheres grávidas
passaram a ser incentivadas pelo SUS – Sistema Único de Saúde – a realizarem o pré-natal
com acompanhamento dos médicos e enfermeiros na cidade e a fazerem seus partos nos
hospitais.
Francisca seguiu tais orientações, tendo deixado de fazer os partos há pelo menos 17
anos, lembrando que “[...] quando eles [o seu povo, sobretudo as mulheres em idade
reprodutiva] começaram a conhecer a vida dos brancos nos hospitais, deixaram a confiança
nas parteiras”. No entanto, nesse espaço de tempo em que está trabalhando como agente de
saúde, houve um caso de emergência que ela não pôde deixar de atender. Isso ocorreu há sete
anos.
Ela relatou que nessa ocasião, uma mulher grávida da aldeia retornou, após ter sido
assistida por médicos do hospital da cidade de Capitão Poço que haviam dito que não “estava
na hora” da criança nascer. Então de volta à aldeia, a mulher deveria aguardar mais um pouco
a hora do parto e no mesmo dia, à noite, sentiu as dores. No entanto, não houve tempo dela
retornar ao hospital. Na ocasião, Francisca foi, então, chamada para atender a parturiente e o
fez como os tantos atendimentos similares já feitos por ela anteriormente e todos bem-
sucedidos, com a ajuda dos encantados Caruanas.
É importante ressaltar que apesar das restrições sofridas em torno do seu ofício
tradicional de partejar e de ter se tornado uma agente de saúde, Francisca ainda é chamada
pelas mulheres grávidas na aldeia para “puxar a barriga” e “ajeitar o nenê na barriga”. Isso
acontece, segundo ela, porque as mulheres fazem o exame de ultrassonografia recomendado
pelo médico, porém não confiam nos resultados e passam a procurá-la para ver a posição da
criança no ventre. Assim, e embora tenha diminuído a frequência da procura pelos cuidados
de Francisca, ela continua atendendo e cuidando da saúde das mulheres e das crianças da
aldeia.

8
A PNASI – Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas – foi elaborada pela FUNASA –
Fundação Nacional de Saúde – e aprovada pelo Ministério da Saúde, por meio da Portaria 254, de 31 de janeiro
de 2002 e publicada no Diário Oficial da União (DOU) número 26 – Seção 1, p.46 a 49, de 06 de fevereiro de
2002.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 17

A prática como benzedeira é a única, dentre as consideradas tradicionais, que ela


continua a desenvolver com mais frequência. Assim, as pessoas da aldeia a procuram para
rezar em crianças e adultos quando adoecem. A maior procura é para identificar as doenças,
para, segundo ela, saber se é “quebranto”, “bicho da água” ou “bicho do mato” ou “se é
preciso ir ao médico”, neste caso deixando nítido o reconhecimento dos limites de seus
conhecimentos, recomendando que a pessoa procure o médico. Recorrentemente, ela é
chamada a qualquer hora para rezar e benzer as pessoas acometidas pelos “males do corpo”,
momentos em que recomenda os banhos de ervas para tratar os casos identificados como
doenças. Dentre os principais estão: o quebranto (que atinge mais as crianças), o parto
quebrado (oriundo de “pouco resguardo” da mulher) e rasgaduras no corpo.
Ademais, as atividades desenvolvidas como agente de saúde não a satisfaz. Estas se
restringem a acompanhar os casos identificados como doenças (de acordo com os preceitos da
ciência médica), sob o cuidado principal de médicos e enfermeiros que atuam no Posto de
Saúde da aldeia. Como já não parteja há alguns anos, ela considera que pode até esquecer
como se faz. Fica aqui, portanto, o registro de uma situação preocupante que é o processo –
que inclusive é histórico –, de perda das suas crenças e costumes baseados em suas tradições
culturais, o que inclui as práticas em torno da gestação das mulheres e o consequente
nascimento das crianças.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A percepção das práticas e histórias das benzedeiras, pajés e parteiras como Francisca
são reveladoras de uma tradição de medicina popular, cuja importância e eficácia nem sempre
são valorizadas no contexto das políticas de atenção à saúde indígena que vem sendo
implementadas pelo Estado, apontando para o risco de desenraizamento de valores culturais
ancestrais, essenciais à preservação de suas tradições e de suas identidades. A história de vida
de Francisca, particularmente sua experiência como parteira, pajé e benzedeira – e, mais
recentemente, como agente de saúde – na Aldeia Tembé, aponta as alterações que o sistema
de saúde impôs nos costumes relativos aos partos e nascimentos das crianças indígenas. Ao
assumir a função de agente de saúde, Francisca ao tempo em que foi proibida de partejar, viu-
se também obrigada a aprender técnicas na área da saúde, que são próprias da ciência médica.
Isso significa que, tal como há séculos ocorre, a medicina científica permanece impondo seu
saber e seu domínio e assim, não reconhece a validade e a importância dos conhecimentos e
práticas tradicionais de cura na comunidade.
No que diz respeito particularmente ao ofício de partejar, é nítida a insatisfação dela
diante da proibição imposta pelo sistema médico de saúde, associada a uma preocupação por
ela externada, de, sem poder exercitar seus saberes, vir a esquecer as técnicas e o
conhecimento herdados de sua mãe e avó, temendo que, com o passar do tempo, tal saber se
perca totalmente, já que não mais praticado na aldeia com a mesma frequência que fazia há
alguns anos. Faz-se assim, urgente, pensarmos propostas de intervenção face às políticas de
saúde das populações indígenas que de fato integrem os saberes tradicionais e diferenciados
desses povos, pois se trata também de salvaguardar um patrimônio imaterial que significa
muito para a história e para as suas identidades, particularmente para os Tembé Tenetherar.

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DOSSIÊ AMAZÔNIA 21

ASSIMETRIAS DA MEMÓRIA: TRAJETÓRIAS SIMILARES,


LEMBRANÇAS DESIGUAIS – MARIA DO CARMO SARMENTO E BETTINA
FERRO DE SOUZA, MÉDICAS NO PARÁ

Aristóteles Guilliod de Miranda1


José Maria de Castro Abreu Júnior2

“Não há futuro para a História das mulheres sem um permanente


exercício arqueológico da memória”
(Losandro Antônio Tedeschi)

RESUMO

O artigo aborda as trajetórias de duas médicas paraenses, graduadas pela antiga Faculdade de Medicina
e Cirurgia do Pará – atualmente Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará, na segunda
metade da década de 1930, ambas figuras de destaque na especialidade de Cardiologia, que começava a
se firmar como tal: Maria do Carmo Sarmento Carvalho, a que primeiro utilizou o aparelho de
eletrocardiograma em Belém do Pará, tendo tido, também, grande atividade política pelo Partido
Comunista Brasileiro, mas que permanece esquecida em seu pioneirismo; e Bettina Ferro de Souza, que
firmou-se como figura destacada tanto na docência quanto na especialidade, tornando-se uma espécie
de padroeira da Cardiologia no Pará. As diferenças entre ambas as médicas e os possíveis motivos para
que as lembranças relacionadas a elas resultassem tão desiguais, com o apagamento da memória de uma
e a celebração da outra, são apresentadas e discutidas, procurando-se explicações para tal fato.

Palavras-chave: História da Medicina. Mulheres na medicina.

MEMORY ASYMMETRIES: SIMILAR PATHS, UNEQUAL


MEMORIES - MARIA DO CARMO SARMENTO AND BETTINA FERRO DE
SOUZA, DOCTORS IN PARÁ

ABSTRACT

This article illustrates the trajectories of two female doctors from state of Pará-Brazil, graduated from
the former School of Medicine and Surgery of Pará, now, School of Medicine of Federal University of
Pará in the late 1930s, and who had important roles in Cardiology, which had only begun to establish
itself as a medicine specialty at the time: Maria do Carmo Sarmento Carvalho and Bettina Ferro de
Souza. The former, was the first to use electrocardiography in Belém-Pará, and, who was also a great
activist for the Brazilian Communist Party; her pioneering, however, seems to have been forgotten. The
latter, stood out both academically, by teaching at the School of Medicine and also, in the Cardiology
field, thus becoming some kind of patroness of this specialty in Belem-Pará. The differences between
these two women will be presented and discussed in order to try and find the possible reasons why one
is celebrated while the other was somewhat erased in the memory of people.

Key words: History of Medicine. Women and medicine.

Data de submissão: 03.02.2021


Data de aprovação:30.04.2021
INTRODUÇÃO

1
Médico, Doutor em Biologia de Agentes Infecciosos e Parasitários pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
Médico do Serviço de Cirurgia do Hospital Universitário João de Barros Barreto/UFPA. Sócio Efetivo do Instituto
Histórico e Geográfico do Pará. E-mail: [email protected].
2
Médico, Doutor em História pela UFPA. Professor de Patologia da Faculdade de Medicina da UFPA. Sócio
Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. E-mail: [email protected].
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Estudar comparativamente as sociedades ou a vida de personagens históricos constitui-


se em um método de abordagem dentre tantos utilizados pela História em suas abordagens,
sendo clássicos os trabalhos de Plutarco (45 d.C – 125 d.C.) contrapondo a vida de figuras de
políticos e militares do mundo grego com outras do mundo romano da Antiguidade Clássica.
Os 23 pares de biografias comparadas analisados por Plutarco, e que chegaram aos nossos dias,
são considerados referência fundamental para a Historiografia, representando um marco nos
estudos biográficos, à despeito dos séculos que nos separam da sua elaboração pelo grande
polímata grego (JOSÉ, 2009).
Além desse modelo comparativo, as biografias têm ganhado o “recente entusiasmo” dos
historiadores, a despeito da complexidade do tema, considerando-se suas ambiguidades.
Partindo de uma provocação, para incrementar a discussão – “pode-se escrever a vida de um
indivíduo?” Levi (2006, p.167-169), dá a sua resposta: “as biografias individuais só despertam
interesse quando ilustram os comportamentos ou as aparências ligadas às condições sociais
estatisticamente mais frequentes” (LEVI, 2006, p.174).
Considerando as noções do método comparativo e também a prosopografia, nossa
abordagem analisa a trajetória de duas médicas paraenses – Maria do Carmo Sarmento Carvalho
e Bettina Ferro de Souza, formadas nos anos de 1930, na Faculdade de Medicina e Cirurgia do
Pará, período em que o exercício da medicina por mulheres ainda era incipiente no Brasil3.
Ambas também se destacaram como pioneiras na mesma especialidade – a cardiologia. Mesmo
sendo reconhecidas por seus contemporâneos, uma tem sua memória preservada fazendo parte
do inconsciente coletivo notadamente da classe médica de Belém. A outra, raramente é
lembrada, aparecendo muitas vezes como “nota” ou “rodapé” nas narrativas memorialísticas
tão comuns no ambiente médico. Partindo das suas trajetórias paralelas e suas peculiaridades –
mulheres, médicas e cardiologistas pioneiras, tenta-se entender onde esses caminhos se
distanciam na edificação de suas memórias, ao ponto de uma praticamente desaparecer dos
relatos, enquanto que a outra assume aspectos de verdadeira santidade. Em suma, adaptando as
palavras de Plutarco nas suas Vidas Paralelas a figuras femininas e atualizando-as por conta
das peculiaridades individuais: “Examinarei em confronto o caráter e as disposições de alma de
ambas a partir das ações e da vida pública de cada uma, mas renunciarei a comparar seus
discursos e a dar opinião sobre qual as duas é mais agradável ou mais hábil ao falar”
(VÁRZEAS, 2010, p.35).

1 MARIA DO CARMO: UM NOME GARIMPADO NOS ESCANINHOS DA


MEMÓRIA

Em 1989, em palestra inaugural à 3ª Jornada Paraense de Cardiologia, promovida pela


Sociedade Paraense de Cardiologia, o médico Paulo Roberto Pereira Toscano, ao esboçar um
histórico dessa especialidade no Pará, fez a seguinte afirmação: “Na década de 40, com a
introdução de eletrocardiografia, pela Dra. Maria do Carmo Sarmento, teve início a Cardiologia
como especialidade autônoma em Belém” (TOSCANO, 1989, p.24). Além de destacar o papel
da médica citada como introdutora da eletrocardiografia em Belém, Toscano descreveu,
também, o aparelho que realizava o exame naqueles tempos iniciais:
3
Dados estatísticos da Faculdade de Medicina da UFRJ, antiga Faculdade Nacional de Medicina, uma das
principais escolas médicas do país, mostram que, entre 1949 e 1968, o número de médicas formadas correspondia
a 10% do total de egressos por ano. A partir de 1969 começou uma curva crescente que aumentou de 16,48%
para 38,53% em apenas dois anos. No ano de 1999 o percentual era de 63,51% (FRANCO, 2001, p.52). Na
Faculdade de Medicina da Bahia, a escola médica mais antiga do Brasil, a desproporção entre o número de
formados versus formadas também persistiu até a década de 60 do século XX, quando a tendência passou a sofrer
progressiva mudança sendo no intervalo de 1980 a 1993 maior o número de médicas formadas do que de médicos
(TAVARES-NETO, 2008, p.41).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 23

Dêem asas à imaginação os que estão me ouvindo, para “visualizar” o


eletrocardiógrafo de então, tão grande em tamanho como nas dificuldades para operá-
lo, desde a interferência por corrente alternada até o sistema fotográfico de registro do
traçado (TOSCANO, 1989, p.24).

Em seguida, acrescentou: “É do meu conhecimento que a pioneira Dra. Maria do Carmo


foi uma autodidata, e quanto esforço há de ter despendido para estudar, fazer e interpretar
eletrocardiogramas, no início da década de 40” (TOSCANO,1989, p.24).
Na década de 1990, já estava consolidado um grupo de Cardiologia do Hospital da Santa
Casa de Misericórdia do Pará o qual ministrava cursos básicos de Eletrocardiograma para
estudantes de medicina e para médicos. Na última aula de cada curso, antecedendo o jantar
comemorativo, uma personalidade de destaque na Cardiologia era homenageada. Em 1991, a
grande homenageada fora a médica Bettina Ferro de Souza, professora de Propedêutica Médica
da antiga Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, atual Faculdade de Medicina da
Universidade Federal do Pará, e reconhecida como grande formadora de várias gerações de
clínicos e cardiologistas.
Naquela noite, ao saudar a professora Bettina e citando tópicos do vasto currículo da
famosa mestra, o médico Tadeu Daibes, pela organização do curso, mencionou ter sido ela “a
primeira cardiologista no Pará”. Em seu discurso de agradecimento, Bettina, para surpresa de
muitos dos presentes, retificou a informação sobre o seu suposto pioneirismo restaurando a
verdade ao afirmar que a pioneira fora Maria do Carmo Sarmento, a médica que trouxera o
primeiro eletrocardiógrafo para Belém, confirmando a informação anteriormente prestada por
Paulo Toscano.
Como resultado da atitude de Bettina, em 19954, ao final do curso de Eletrocardiograma,
foi a vez da médica Maria do Carmo ser homenageada, tendo sido representada, naquela
ocasião, por uma parenta sanando, pelo menos momentaneamente, a falha pelo
desconhecimento da sua importância para a medicina no Pará (DAIBES, 2019).
Esses dois fatos, isolados e pontuais, originaram-se de depoimentos, manifestações
orais. Para Pollak (1989, p.4) os estudos da História Oral, ressaltam a importância das ditas
“memórias subterrâneas”, privilegiando a análise dos excluídos, dos marginalizados e das
minorias, em uma oposição a dita “memória oficial”. Possivelmente o caso da Dra. Maria do
Carmo, até aqui à margem da história local, uma outsider por razões que serão brevemente
abordadas. O primeiro registro, felizmente reproduzido no jornal, permitiu sua pesquisa na
hemeroteca da Biblioteca Nacional, importante ferramenta atual na rede de computadores, nem
sempre completa, mas, pelo menos, satisfatória na medida do possível. Se assim não fora,
certamente a manifestação do médico Paulo Toscano naquele evento científico teria se perdido
para sempre por conta dos caprichos de Mnemosine.5
A informação de Tadeu Daibes – a segunda fonte, não pode ser atribuída ao acaso,
considerando que o primeiro a ser contatado por nós fora o médico Antônio Castelo Branco,
também membro do “grupo dos três”6 da Cardiologia da Santa Casa, ainda que a propósito de
outros assuntos, mas, de qualquer maneira, relacionados à Medicina, como saber sobre um
determinado professor da antiga Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, e complementado
pela pergunta: “sabes alguma coisa sobre a Dra. Maria do Carmo Sarmento?”. A resposta de

4
O tempo decorrido entre a “descoberta” do feito da médica Maria do Carmo pela professora Bettina e a
homenagem àquela pelo grupo da Cardiologia da Santa Casa do Pará deveu-se ao fato de já haver alguns nomes
relacionados para ser homenageados, e também à dificuldade em contatar familiares da médica, uma vez que ela
não estava morando em Belém, além de o seu estado de saúde não a permitir viajar (DAIBES, 2019).
5
Na mitologia grega, a personificação da Memória ou Lembrança. Filha do Céu e da Terra. Júpiter amou-a durante
nove noites e, ao fim de nove meses Mnemosine deu à luz as Musas. (Dicionário, 1976, p.124).
6
Segundo Tadeu Daibes os outros componentes eram os médicos Nelson Gama e Antônio Carlos Castelo Branco.
24 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Antônio Carlos de pouco saber sobre a médica mencionada foi seguida da informação que
“talvez o Daibes saiba um pouco mais” (BRANCO, 2019). Memória e esquecimento
coexistindo como unidade. Novamente vindo à tona as “memórias subterrâneas” que de
maneira quase imperceptível tendem a aflorar em determinados momentos entrando em disputa
com as “memórias oficiais” (POLLAK, 1989. p.4).
O contato seguinte, desta vez com o médico Tadeu Daibes, pode parecer à primeira vista
que pouco rendera, considerando este somente lembrar-se dos fatos acima narrados e que a
homenageada fora representada por uma sobrinha, talvez e que esta era estudante de medicina
no Rio de Janeiro. Entretanto, tais referências, aparentemente vagas, sustentam um dos
postulados da história oral, qual seja a importância do testemunho oral como núcleo de
investigação, jamais como acessório (MIKKA, 1988:132. Apud: AMADO; FERREIRA, 2006,
p.xiv).
Sem dispensar um tratamento crítico da fonte oral (VOLDMAN, 2006, p.249), aí é que
entra o olhar aguçado do pesquisador, nesse caso, os ouvidos! Na recepção e transformação das
duas informações em fato histórico: o reconhecimento do pioneirismo da Dra. Maria do Carmo,
evento referendado pela Dra. Bettina, considerada como um ícone da cardiologia paraense e,
por tudo isso, legitimada como fonte. Daí em diante “as soluções e explicações devem ser
buscadas onde sempre estiveram: na boa e antiga teoria da história” (AMADO; FERREIRA,
2006, p.xvi), desdobrando as informações, cotejando-as, confirmando-as ou não quando
possível, refazendo perguntas ou elaborando novas. E foi o que tentamos fazer: preencher
lacunas, a partir desses modestos testemunhos buscando a reconstituição do passado.
Os dados fornecidos por Daibes, constituídos pela vivência de fatos posteriormente
evocados, podem ser classificados como “arquivos provocados”, segundo Jacques Ozouf (Apud
BECKER, 2006, p.28), e pertencentes “à mesma categoria das recordações ou memórias”
(BECKER, 2006, p.28). Nesse caso específico uma “memória subterrânea” que provocada veio
à tona se contrapondo aquela memória coletiva organizada que resume a imagem que uma
sociedade majoritária deseja impor (POLLAK, 1989, p.8). Especificamente, neste estudo, a
sociedade médica e as memórias que esta deseja reter para si. Considerando que as
coletividades, em diferentes tamanhos (partidos, igrejas, famílias, nações) buscam no passado
referências para manter coesão dos grupos, definindo seu lugar respectivo, e fornecendo pontos
de referência, o que Pollak (1989, p.9) entende como uma “memória enquadrada”.

2 DADOS BIOGRÁFICOS OU QUEM FOI MARIA DO CARMO

O desconhecimento, inclusive dos cardiologistas paraenses, sobre a médica Maria do


Carmo Sarmento foi à tônica do processo de elaboração deste trabalho, sendo poucas as
informações obtidas sobre ela, constituindo-se em um viés a mais na abordagem do personagem
e permitindo conjecturar os motivos de seu olvido. Sua história oficial dentro da Sociedade
Brasileira de Cardiologia se resume a três linhas ressaltando ter iniciado a eletrocardiografia
em Belém (LUNA, 1993, p.98). Cabe ao historiador não só acrescentar mais linhas a biografia
desta personagem, como também questionar o porquê de a doutora ter ficado à margem da
história.
Maria do Carmo Sarmento Ferreira de Carvalho nasceu em Belém, a 5 de maio de 1908,
filha de Augusto Paulo de Carvalho, advogado e lente de Francês da Escola Normal, atual
Instituto de Educação do Pará (LUCTO, 1916), e Emiliana Sarmento Ferreira, professora
catedrática de Francês do antigo Colégio Estadual Paes de Carvalho, e que hoje dá nome a uma
escola estadual em Belém (REGO, 2002, p.97 e 99). Por sua filiação depreende-se uma
consistente estrutura familiar, com ênfase no aspecto educacional, embora tenha ficado órfã de
pai aos seis anos, junto a mais três irmãos (LUCTO, 1916).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 25

Tendo iniciado seus estudos em 1932, formou-se em 11 de dezembro de 1937 (Figura


1) pela Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará (MIRANDA; ABREU JR., 2009, p.202).
Durante sua vida de estudante teve passagem pelo Diretório Acadêmico de Medicina, como
membro da Comissão de Beneficência e Previdência (MIRANDA; ABREU JR, 2009, p.215).
Figura entre as 15 primeiras mulheres a graduar-se na mencionada escola médica7,
fundada em 1919 e que teve seus primeiros formandos em 1924. É considerada pioneira na
Cardiologia no Pará, por ter instalado, juntamente com o médico Francisco Rosário Conte, “os
primeiros aparelhos de eletrocardiografia em Belém” no Hospital da Santa Casa de Misericórdia
(MEIRA, 1986b, p.42).

Figura 1- Maria do Carmo por ocasião de sua colação de grau, em 1937

Fonte: Coleção dos autores.

Sua atividade no hospital da Santa Casa proporcionou o convívio com os estudantes de


medicina, que utilizavam o hospital para treinamento, tendo inclusive publicado um trabalho
científico sobre eletrocardiograma na Revista do Acadêmico de Medicina, órgão do Diretório
Acadêmico da faculdade (CARVALHO, 1944), possivelmente um dos primeiros trabalhos
realizados em Belém utilizando essa nova ferramenta de trabalho médico8.

7
Naquele ano de 1937 formaram-se quatro mulheres (FMCP, 1945, mapa nº 5)
8
Até agora, no Pará, apenas um trabalho sobre Eletrocardiograma anterior a este é conhecido. Trata-se de um texto
de Pedro Borges intitulado “Noções de Electrocardiografia” apresentado na Revista Pará Médico de junho de 1939
26 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Em suas reminiscências dos tempos de estudante de medicina, após definir Maria do


Carmo como “colega distinta, estudante, incentivadora dos mais moços” e “cardiologista de
reais méritos, introdutora do eletrocardiograma como método propedêutico”, Meira assim
descreve os primeiros tempos da eletrocardiografia:

Os primeiros aparelhos, muito sensíveis, a eletricidade instável, instalou na Santa


Casa um ambiente que neutralizava esses efeitos prejudiciais, uma verdadeira gaiola
telada, onde colocava o aparelho e o divã para deitar o paciente (MEIRA, 1990, p.65).

E complementa, lançando luzes sobre a atuação de Maria do Carmo no hospital da Santa


Casa naqueles anos iniciais da década de 19409: “Quando estudei clínica médica, com Acylino
de Leão, Arthur França e Gastão Vieira, o Rosário Conte, Pedro Borges e Maria do Carmo
ensinavam, na qualidade de assistentes” (MEIRA, 1986b, p.42). Ainda, segundo esse autor, ela
“funcionava como assistente na Faculdade, mas não chegou a fazer concurso para a cátedra,
que veio a ser ocupada por Garcia Filho” (MEIRA, 1990, p.65). Paralelamente, ainda segundo
o mesmo autor: “Ensinou muitas gerações de jovens no Ginásio Paes de Carvalho, a cadeira de
inglês” (MEIRA, 1990, p.65). Informação não referenciada no livro sobre a história do
mencionado colégio, um dado ausente, o qual involuntariamente serve de mais um elemento de
reforço de seu esquecimento ou teria Meira a confundido com Emiliana Sarmento Ferreira,
professora catedrática de Francês no mencionado colégio e mãe da médica? (REGO, 2002,
p.96).
Sua carreira profissional certamente foi impactada pela militância política no Partido
Comunista Brasileiro (PCB), tendo pertencido a “uma excelente geração de médicos ligados ao
Partido (OLIVEIRA, 2010, p.518). Segundo esse autor: [Maria do Carmo] “médica humanista,
sensível aos problemas sociais, interessou-se pelo estudo da filosofia marxista e acabou
ingressando no Partido em 1944” integrando a célula Castro Alves (OLIVEIRA, 2010, p.518).
Nos arquivos do antigo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS), consta uma ficha
com o seu nome, datada de 21 de novembro de 1951. O documento não apresenta nem uma
anotação além da identificação e de um número de prontuário. Um detalhe: no quadrado onde
deveriam ser anotadas características físicas tais como altura, marcas, cabelos, etc., consta
destaque, a palavra “Dulce”. Seria este um codinome? (DEOPS, 1951).
Na eleição de 2 de dezembro de 1945, à semelhança de outros médicos ligados ao
Partido, em nível nacional10, candidatou-se a deputada federal, mas não foi eleita (OLIVEIRA,
2010, p.518). Com o cancelamento do registro pelo TSE, em maio de 1947, o PCB entrou
novamente na clandestinidade, não obstante Maria do Carmo prosseguiu atuando nas várias
ações empreendidas pelo partido. Entre 1949 e 1950, principalmente, fez-se presente em
comícios e assembleias, assinou manifestos participando efetivamente da campanha em favor
da Paz (OLIVEIRA, 2010, p.518). Em 1952, tornou-se vice-presidente do Movimento pela

(BORGES, 1939, p.10). Diferente do trabalho de Maria do Carmo, fruto de pesquisa com pacientes do Hospital
da Santa Casa de Misericórdia do Pará, o trabalho de Pedro Borges, em linhas gerais, é uma revisão teórica do
assunto.
9
Clóvis Olinto de Bastos Meira (1917-2002), paraense, médico formado em 8 de dezembro de 1940 pela então
Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará. Professor catedrático de Medicina Legal da Faculdade de Direito da
UFPA, destacou-se, também como cirurgião. Foi membro da Academia Paraense de Letras e do Instituto Histórico
e Geográfico do Pará. Dentre os vários livros de sua autoria destacam-se: “Médicos de outrora no Pará”; “Medicina
de outrora no Pará”, “E tempo passou”, todos tendo a Medicina paraense e seus personagens como foco central.
10
Um desses nomes foi Samuel Pessoa, professor de Parasitologia da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo, que também não conseguiu ser eleito. Por conta de suas posições políticas, Pessoa foi perseguido, desde
os anos da Guerra Fria, por sua postura anti-americanista, perseguição exacerbada nos anos da ditadura militar
pós-1964.Ver: PAIVA, Carlos Henrique Assunção. Samuel Pessoa: uma trajetória científica no contexto do
sanitarismo campanhista e desenvolvimentista no Brasil. Hist. cienc. saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro , v. 13,
n. 4, p. 795-831, Dec. 2006.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 27

Vida e Liberdade, o Movil, organizado pelo médico Wilson da Motta Silveira e responsável
pela implantação dos Conselhos de Paz, nos bairros de Belém (OLIVEIRA, 2001, p.169).
Em 1955, em apoio a uma campanha pela Amazônia, eterna fornecedora de matérias-
prima, como borracha, castanha, essências e óleos vegetais, madeiras de lei, mas possuidora de
ricas jazidas de minérios, “e, ao que se estima, de um dos maiores lençóis petrolíferos do
mundo”, e que “está sob controle dos trustes internacionais”, juntamente com um grupo de
personalidades, Maria do Carmo, assinou o Manifesto de Convocação da Conferência Nacional
de Defesa da Amazônia, a ser realizada em Belém entre 13 a 17 de abril de 195511 (A
AMAZÔNIA, 1955).
Até 1962 participou de uma nova base de médicos do PCB, e embora mantendo suas
convicções ideológicas, afastou-se da militância partidária com o golpe militar de 1964
(OLIVEIRA, 2010, 518).
Além da Cardiologia da Santa Casa, aonde chegou à Chefia da Clínica Cardiológica
daquele hospital, Maria do Carmo exercia sua atividade profissional na Av. Presidente Vargas,
nº 145, no edifício Bern, salas 25 e 26 (A Dra. MARIA, 1947; CRM-PA).
Um exemplo do reconhecimento da sua atuação como profissional, acima de tendências
políticas, foi o fato de ter sido chamada a Macapá, em 1945, para assistir a esposa do então
capitão Janary Gentil Nunes, governador do recém-criado Território Federal do Amapá, vítima
de grave cardiopatia (MONTORIL, 2011).
Em consonância com os avanços da Cardiologia, em 1947 comunica “a seus colegas”,
pelo jornal, a instalação em seu consultório de um “eletro-esteto-esfigmografo Cambridge”,
colocando-o a disposição em terminados dias da semana (A Dra. MARIA, 1947)12. Se
considerarmos que a Cardiologia como especialidade estava se organizando, no Brasil, nos anos
de 1930, com a chamada “geração pioneira”, solidificando-se na década seguinte, tornando-se
“plenamente preparado para um progresso até certo ponto rápido” (REIS, 1986, p.376), Maria
do Carmo estava perfeitamente sintonizada com os avanços desenvolvidos nos grandes centros
do país.
Juntamente com um grupo de 16 médicos, em 16 de maio de 1957, fez parte da fundação
da Sociedade Brasileira de Cardiologia – Regional do Pará, mais tarde rebatizada de Sociedade
Paraense de Cardiologia (REZENDE, 2002 p.210).
Uma última informação sobre Maria do Carmo vem dos seus apontamentos junto ao
Conselho Regional de Medicina do Estado do Pará. Em sua ficha de dados financeiros no
referido órgão, consultada em 21 de março de 2003, consta como “aposentada”, com dados
“atualizados” em 03 de novembro de 1999 (CRM-PA). Se ainda viva naquele ano de 2003,
Maria do Carmo estaria com 95 anos, não se sabendo a data da sua morte. A partir desse registro
cessam as fontes conhecidas sobre Maria do Carmo Sarmento (como era mais conhecida
profissionalmente, com a supressão do sobrenome paterno).
Até onde pudemos apurar, a residência, enquanto viveu em Belém, foi na mesma na
avenida Presidente Vargas, no número 351/ 816, no edifício Palácio do Rádio, um dos primeiros
prédios modernos construídos naquele perímetro urbano central da cidade de Belém, figurando
entre os compradores iniciais do prédio (EDIFÍCIO, 1952).

3 INTERMEZZO: O ELETROCARDIÓGRAFO

11
Em pesquisa nos jornais de Belém, do período referido, não encontramos nenhuma notícia dando conta da
realização da mencionada conferência. (N.A.)
12
Supomos tratar-se de um modelo inicial, mais rudimentar àquele que seria mais tarde conhecido simplesmente
como eletrocardiógrafo. (N.A.)
28 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

A história da invenção/criação do eletrocardiógrafo foge ao propósito desse artigo.


Entretanto, torna-se necessário contextualizar o início da sua efetiva utilização na prática
médica para entendermos o que isso significa, historicamente, para a medicina no Pará13.
Segundo Reis (1986, p.373), os [dois] primeiros eletrocardiógrafos – “tipo
galvanômetro de corda” chegaram ao Brasil por volta de 1910-1912, sendo instalados no antigo
Hospício da Praia Vermelha, atual prédio da Universidade Federal do Rio de Janeiro e no
Hospital da Santa Casa do Rio de Janeiro, respectivamente.
Nos anos de 1920, em razão de várias modificações, os aparelhos diminuíram de
tamanho e peso, podendo ser transportados com mais facilidade, e, como tal, permitindo a
ampliação de seu uso em vários ambientes. O primeiro aparelho verdadeiramente portátil foi
fabricado em Londres em 1929. Ainda assim, pesava em torno de 13 kg (BURCH; De
PASQUALE 1990, p.41), fato confirmado pelo resumo de artigo, publicado na revista Brazil
Médico, de 1930, onde se lê:

Um novo electro-cardiographo facilmente transportavel – CH. J. KELLER


(Leipzig, da Clinica do prof. Morawitz) – Munchener mediziniszhe Wochenschrift
n.30, pag. 1267, 1930.
O autor recommenda o novo apparelho que é fornecido pela Phys. Und med.
Apparatebau-Geselschaft, Freiburg, in B., Zahringestr., preço 1:500$000. Vantagens:
Suporta muito bem o transporte e pesa, apenas, 12 kilos. O modo de usar o apparelho
não exige grande aprendizagem; qualquer enfermeira póde com duas ou tres lições
manejal-o. O apparelho é muito sensivel de sorte que as curvas podem ser lidas sem
correcção. O gasto de corrente é minimo. O novo apparelho vem contribuir
enormentemente para a diffusão da electrocardiographia na clinica domiciliar. –
M.R.J (BRAZIL MÉDICO, 1930, p.10).

E continua Reis (1986, p.376) relatando sobre o surto de progresso e evolução da


cardiologia brasileira, na segunda metade da década de 1930 e início da de 1940, inclusive com
a criação de uma Sociedade da especialidade, sendo considerado pelo autor como “os anos
heroicos da cardiologia nacional”. Para esse autor, após a geração” pioneira, “nos anos 40, o
meio cardiológico brasileiro já estava plenamente preparado para um progresso até certo ponto
rápido” (REIS, 1986, p.376).
É nesse contexto que se inicia em Belém o uso do eletrocardiógrafo, pela Dra. Maria do
Carmo Sarmento de Carvalho, logo seguida por outros médicos interessados na revolucionária
novidade tecnológica no campo da medicina, dentre estes Bettina Ferro de Souza, e da qual
certamente já tinham conhecimento, considerando que até os meados da década de 1930, a
formação médica até então era voltada para a Europa, predominantemente de origem francesa
e alemã (SOUZA, 2017, p.37) de onde chegavam os livros e as novidades.
Um fato restou sem resposta nesse relato: como o primeiro eletrocardiógrafo chegou a
Belém nos anos de 1930? E por que foi parar nas mãos de Maria do Carmo? Os autores que
escreveram sobre ambas as médicas nada falam a respeito. De acordo com o médico Jorge
Alberto Langbeck Ohana, a médica lhe revelara que o aparelho fora trazido, a seu pedido, por
um comandante de navio que fazia linha da Europa até Belém e com quem manteve algum
relacionamento. Ainda, segundo Ohana, Maria do Carmo chegou a viajar no navio pelo baixo
Amazonas até Manaus, realizando atendimento médico aos habitantes dos locais de parada da
embarcação (OHANA, 2019). Perdido o nome do protagonista e a sua nacionalidade,
poderíamos falar nos “traçados do coração” corroborando essa história? Quem sabe.

4 A “CANDURA EM PESSOA” OU ERA UMA VEZ A BETTINA

13
Entre as inúmeras obras, citaríamos o trabalho de Burch e DePasquale – A history of electrocardiography, - por
nós aqui utilizado. (N.A.)
DOSSIÊ AMAZÔNIA 29

Ao revisarmos os textos produzidos sobre História da Medicina ao longo dos últimos


50 anos, no estado do Pará, observa-se a tradição de memorialistas, médicos em sua maioria,
destacando-se a figura de Clóvis Meira, com narrativas heroicas dos grandes fatos ou
personalidades consideradas importantes. É esse memorialista quem descreve uma “festa
promovida pelo Centro de Ciências da Saúde, no auditório da antiga Faculdade de Medicina e
Cirurgia do Pará”, para homenagear professores da mencionada faculdade, “que se
aposentavam, depois de longo tirocínio no ensino”. Além de José Monteiro Leite, catedrático
de Anatomia Patológica, e Heber Chilon Monção, assistente de Pediatria, figurava, também,
Bettina Ferro e Souza, professora titular de Propedêutica Médica, e, segundo o autor, “todos
notáveis educadores”, descritos também como “bons médicos, excelentes professores, conduta
ética irrepreensível e preparo intelectual do mais alto nível” (MEIRA, 1986a, p.227).
As palavras de Meira particularmente sobre Bettina “a candura em pessoa”, conferem a
ela um certo sopro de divindade, que se tornaria habitual nas narrativas sobre essa médica,
tratamento fartamente empregado por Alencar (2013, p.23) em seu trabalho com o intuito de
“resgatar a trajetória profissional e de vida da professora Bettina”, [...] “em virtude da
contribuição da referida docente para a história da medicina no Pará e no país”, em uma postura
assumidamente ufanista.
Segundo Meira: “A Bettina, formada com a turma de 1935, a mais antiga, era dos anos
30, uma das primeiras mulheres a se formar em medicina, antecedida por Olga Paes de Andrade
e Lucidéa Lobato”14.
Bettina Ferro de Souza, paraense de Belém, nascida em uma família de 9 irmãos
(ALENCAR, 2013, p.25), em 14 de maio de 1913, era filha de João Batista Ferreira de Souza
e de Zuleide Ferro de Souza. Seu pai era advogado e professor de Latim e de Direito, além de
político pelo Partido Civilista, pelo qual chegou a senador. Sua mãe, professora, faleceu quando
a futura médica tinha 8 anos de idade, passando a responsabilidade de sua criação e dos outros
irmãos para a irmã mais velha, Maria Amélia, na ocasião com 14 anos. Formada em medicina
pela Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará, em 08 de dezembro de 1935 (Figura 2)
(REZENDE, 2001, p.48), “próximo de 1950 [...], após fazer um curso no Rio de Janeiro,
começou a exercer a Cardiologia Clínica, já com ‘status’ de especialidade”, segundo
(TOSCANO, 1989, p.24). Em 3 de outubro de 1949 assumiu o cargo de médica do Instituto de
Aposentadoria e Pensões dos Comerciários (IAPC), por concurso público (REZENDE, 2001.
p.49). A docência iniciou-se em 1950, “na condição de instrutora de ensino não remunerada, da
2ª Cadeira de Clínica Médica da Faculdade de Medicina e Cirurgia da UFPA, vinculando-se,
posteriormente à disciplina de Propedêutica Médica, em 1952, “e dela fazendo um apostolado,
até a sua aposentadoria” (TOSCANO, 1993, p.85), tornando-se Livre Docente de Clínica
Propedêutica Médica em 1953, defendendo a tese “Beribéri e Cardiopatia” (TOSCANO, 1993,
p.86). Para esse autor:

A abordagem científica mais antiga da Cardiologia, que se tem notícia, em Belém,


ocorreu em 1956, através de dois cursos proferidos pela prof.ª Bettina: “Alguns
aspectos da Cardiologia Clínica” (para alunos da 5ª e 6ª séries do curso médico) e
“Noções de Eletrocardiografia”, em 18 aulas, durante 2 meses.

Para Meira:

[Bettina] Sempre foi muito estudiosa, aplicadíssima, aluna exemplar. Trazia essa aura
do Ginásio Paes de Carvalho. Quando o professor perguntava alguma coisa a alguém

14
Cronologicamente, Bettina Ferro de Souza foi a 9ª mulher a se formar pela então FMCP (Ver: MIRANDA;
ABREU JR., 2009).
30 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

e ninguém sabia, podia perguntar à Bettina. Vinha sempre a resposta, recordam seus
contemporâneos” (MEIRA, 1986a, p.227).

Professora por vocação sabia ensinar e prender a atenção dos alunos, ainda que
professando uma cadeira difícil de ser transmitida (...) [Bettina] é de uma acuidade
excepcional no uso dos sentidos. Tem um ouvido de ouro, dizem todos. Suas
possibilidades de diagnosticar podem ser tidas como de certeza, sempre confirmadas
pelos aparelhos eletrônicos sofisticados. Dedicada à Clínica e ao Ensino, tem vivido
para os pacientes e os alunos, sempre somando e fazendo crescer a aura de simpatia e
de cultura que orna seu espírito” (MEIRA, 1986a, p.228).

Figura 2 – Bettina Ferro por ocasião de sua colação de grau, em 1935

Fonte: Coleção dos autores.

Bettina foi a fundadora e primeira presidente, em 1957, da Sociedade Brasileira de


Cardiologia – Secção do Pará, hoje Sociedade Paraense de Cardiologia. Em 1970, organizou o
Congresso Brasileiro de Cardiologia, realizado em Belém do Pará, tornando-se a primeira
mulher a presidir a entidade nacional (REZENDE, 2001, p.49). Em 1974 torna-se professora
Titular da disciplina de Clínica Propedêutica Médica, sendo aposentada pela compulsória em
1983 (ALENCAR, 2013, p.125 e 127).
Paralelamente ao aspecto profissional, científico, Bettina teve também uma faceta
pessoal marcante - suas atividades religiosas: foi catequista, na igreja de São João Batista, na
Cidade Velha, organizadora de pastorinhas, “em louvação ao Menino Jesus e as apresentava
em teatrinhos religiosos de Belém (REZENDE, 2001, p.49).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 31

Bettina tem o seu lado “humano” representado pela fala de um dos seus vários ex-alunos
e discípulos. O médico Murilo de Souza Morhy é quem nos conta que quando a Faculdade de
Medicina precisou abrir outra turma de Propedêutica Médica, disciplina em que ela era a única
mulher professora, ela conseguiu reunir em torno dela somente professores mais jovens,
assumindo uma posição de liderança, sem atritos. E com o detalhe de, geralmente após as
reuniões deliberativas com seus assistentes, sempre rolava um uisquezinho, apreciado
prazerosamente pela mestra (MORHY, 2019). Ela era Ferro de Souza, mas não era de ferro!

5 À GUISA DE CONCLUSÃO OU CAMARADA DO CARMO VERSUS BEATA


BETTINA

Seria possível atribuir o silêncio sobre o papel da médica Maria do Carmo Sarmento no
desenvolvimento da Cardiologia paraense à figura da professora Bettina? Pensar num
apagamento de memória feminina ironicamente por outra mulher? Acreditamos que não; que
embora a memória da médica Bettina tenha permanecido, ela própria contribuiu para a
manutenção da memória da Maria do Carmo, ao reconhecer o papel desta nos primórdios da
cardiologia no Pará.
Se ambas podem ser consideradas precursoras em vários sentidos “a primeira
cardiologista”, “a primeira professora”, “a primeira Titular”, não podemos deixar de levar em
conta a época em que se formaram e iniciaram as suas atividades profissionais: as décadas de
1930-40, período em que as mudanças sociais se fizeram sentir, por meio de políticas sociais e
educacionais, possibilitando novas oportunidades profissionais para as mulheres, sobretudo às
pertencentes aos extratos superiores de uma sociedade que se urbanizava e se modernizava, à
mulher sendo atribuídos novos papeis (AZEVEDO; FERREIRA, 2006, p.241). Neste processo,
a educação exercendo um papel, ainda que a presença da mulher, particularmente na medicina,
fosse exceção. As palavras de Rezende (2001, p.49) sobre Bettina, guardadas as proporções,
fazem sentido, também para Maria do Carmo:

A Professora Bettina venceu, resolutamente, as dificuldades e os preconceito da


época, pela concretização daquilo que, para muitos, se resumia em simples aspiração.
Ela soube imprimir, às vitórias, um cunho de sua personalidade forte e perseverante.
No Brasil, na primeira metade do século XX, a organização universitária privilegiava
as profissões tradicionais de médico, professor, engenheiro e advogado. As duas
primeiras foram, por ela, escolhidas por vocação e por tradição. [...]. Por sua
competência de dedicação construiu clientela heterogênea sob o ponto de vista social,
com predomínio dos pobres e dos mais desamparados, extensão de sua convicção
religiosa.

Se existem pontos em comum, como o fato de ambas terem iniciado sua profissão
praticamente ao mesmo tempo, no final dos anos de 1930 e início dos anos de 1940, quando
novas tecnologias começavam a ser utilizadas na medicina – neste caso, o eletrocardiograma,
grandes são as diferenças entre elas.
Bettina fez o modelo tradicional do que se esperava de uma mulher: comportada e
obediente; estudiosa e competente; religiosa e cumpridora de tarefas; o perfil idealizado para o
modelo de médico enquadrado no que pede/pedia a sociedade, ainda que, de certo modo, por
sua competência tenha sido uma precursora ao ponto de conseguir ocupar lugares
tradicionalmente reservados aos homens, como a docência no ensino superior e até cargos de
direção no ambiente acadêmico. Isso tudo lhe conferiu um quê de santidade nos arraiais da
medicina paraense, gerando seguidores e verdadeiros devotos, à semelhança do que aconteceu
com a memória de Camilo Salgado.
É possível fazer um paralelo com o proposto por Goffman (2001, p.17) quando o autor
estuda o que denomina “instituições totais” (manicômios, prisões e conventos), cujos
32 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

mecanismos acarretam consequências na formação do indivíduo que delas participam sob


determinada condição. Por extensão, podemos entender a medicina, como uma “profissão
totalizante”; um médico o será 24 horas por dia, mesmo depois de sua aposentadoria, e a
sociedade médica e não-médica vai exigir dele um modo de agir, uma postura, uma espécie de
“enquadramento” mediado pela imposição de regras de conduta, uma espécie de conversão a
determinados valores.
Bettina preenche essas expectativas do que se esperava de uma mulher que exercesse a
medicina naquele período: dedicação total ao ofício, cujas únicas atividades paralelas seriam às
ligadas à igreja e que serviriam como elemento de reforço à visão caritativa que a profissão
médica reivindica para si. A professora dedicada e desapegada que, conforme nos conta Alencar
(2013, p.62), foi capaz de doar até seu anel de formatura para a igreja, sendo dessa autora a
contribuição mais recente para a fixação da memória de Bettina nos moldes citados, na obra
intitulada “A trajetória de Bettina Ferro e sua contribuição para a ciência e a sociedade”
(ALENCAR, 2013). Obra mais de admiradora, a autora se vê, de alguma forma, refletida na
biografada, gerando uma forte identificação, expressando-se na personalidade daquele que
escreve, o que, por vezes, tende a omitir aspectos da vida do biografado que de algum modo
sejam menos relevantes para a autora. O estudo é, portanto, calcado na tradição de uma história
moral e estruturada em personalidades modelares nas suas virtudes, predestinadas à pátria e/ou
a serviço de Deus (LEVILLAIN, 2003, p.149), destacando-se uma valorização da personalidade
que acaba por heroicizar a protagonista.
Maria do Carmo, por outro lado, assumiu uma postura divergente, por seu
posicionamento e ativismo político, em um momento em que o campo político era ainda mais
restrito para mulheres do que a medicina, além da orientação partidária de Maria do Carmo, ao
optar pelo Partido Comunista Brasileiro, instituição que viveu boa parte da sua existência na
clandestinidade, sempre estigmatizado, mesmo em dias de “promessas democráticas”, e cujos
membros, não raro, acabavam em algum momento presos (OLIVEIRA, 2009). Questão que
deve ter lhe acarretado problemas até mesmo em suas relações pessoais, a despeito da sua
competência e pioneirismo – aqui, particularmente, comprovado pela inovadora utilização do
eletrocardiograma como ferramenta na prática médica, com o reconhecimento inclusive
daquela que se tornaria ícone na cardiologia do Pará, como exemplo, podemos citar o médico
Jorge Alberto Langbeck Ohana, que conversou com a Dra. Maria do Carmo em 1999, ocasião
na qual a mesma, mesmo apresentando lapsos de memória, recordou não ter conseguido se
tornar professora na Faculdade de Medicina, pois os dirigentes da instituição não gostavam de
sua pessoa (OHANA, 2019), afirmação que pode ser interpretada como consequência da sua
militância política, considerando o engajamento ideológico da direção da faculdade. Foram
grandes, portanto, os obstáculos para o seu merecido reconhecimento como profissional,
contribuindo para o silêncio em torno da sua real contribuição para o desenvolvimento da
ciência médica no estado do Pará.
Maria do Carmo é o exemplo do que Sarlo (2007, p.17) define como sujeito marginal,
ignorado pelos modos de narrar o passado; no caso específico, a história tradicional,
institucional e oficial. Daí a necessidade de garimpar vestígios de sua existência na tradição
oral já que esta personagem escapa aos cânones de memória.

AGRADECIMENTOS

Agradecemos aos médicos Tadeu Daibes, Antônio Carlos Castelo Branco, Murilo
Morhy e Jorge Ohana pelos depoimentos sobre as médicas Maria do Carmo e Bettina. Ao
professor Dr. Aldrin Moura de Figueiredo pela leitura e sugestões dos originais, e à professora
Dra. Maíra Maia pelas indicações de leituras para a fundamentação teórica deste trabalho.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 33

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DOSSIÊ AMAZÔNIA 37

ENTRE MIASMAS E O ANOPHELES:


UMA BREVE HISTÓRIA DA MALÁRIA NO ALVORECER DA REPÚBLICA EM
MANAUS (1898-1904)

Márcio de Carvalho e Silva1


Keith Valéria de Oliveira Barbosa2

RESUMO

Os primeiros anos de República em Manaus foram movimentados devido às alterações significativas na


paisagem da cidade, como a construção e o nivelamento de ruas e o aterro de igarapés. Esses
acontecimentos foram propiciados graças ao acúmulo de capital advindo da comercialização do látex, a
ponto de a cidade ficar conhecida como a “Paris dos Trópicos”, dada o cosmopolitismo que a cidade
assumira com a economia da borracha. Ao mesmo tempo em que se expandiu enquanto cidade, Manaus
também assistiu a expansão de doenças como a malária, esta que protagonizou sucessivas epidemias no
período da Belle Époque. No presente artigo iremos abordar como a doença ganhou uma visibilidade
diferenciada em relação à época provincial, destacando-se nos relatórios de autoridades sanitárias e dos
governantes no alvorecer da República em Manaus. Para tanto utilizaremos a técnica da análise de
discursos de modo a verificar as mudanças e permanências no entendimento sobre a doença entre 1898
e 1904. Ao mesmo tempo, iremos verificar como o recrudescimento da doença na cidade traz, à reboque,
novos embates entre os médicos amazonenses em relação à etiologia e à transmissão da moléstia, isto é,
a partir da ideia do mosquito enquanto vetor nos primeiros anos do século XX.

Palavras-chave: Manaus. História da Malária. República. Mosquito.

BETWEEN MIASMAS AND ANOPHELES:


A BRIEF HISTORY OF MALARIA AT THE DAWN OF THE REPUBLIC IN
MANAUS (1898-1904)

ABSTRACT

The first years of the Republic in Manaus were busy due to significant changes in the city's landscape,
such as the construction and levelling of streets and the embankment of creeks. These events were
propitiated thanks to the accumulation of capital from the latex trade, to the point where the city became
known as the "Paris of the Tropics", given the cosmopolitanism that the city assumed with the rubber
economy. At the same time as it expanded as a city, Manaus also saw the expansion of diseases such as
malaria, which led to successive epidemics during the Belle Époque. In this article we will address how
the disease gained a different visibility in relation to the provincial period, highlighting the reports of
health authorities and rulers at the dawn of the Republic in Manaus. For that we will use the technique
of discourse analysis in order to verify the changes and permanences in the understanding about the
disease between 1898 and 1904. At the same time, we will verify how the recrudescence of the disease
in the city brings, in tow, new clashes between Amazonian physicians in relation to the etiology and
transmission of the disease, that is, from the idea of the mosquito as a vector in the early years of the
twentieth century.

Keywords: Manaus. History of Malaria. Republic. Mosquito.

1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM).
Professor-titular na Secretária de Educação do Estado do Amazonas (SEDUC). E-mail:
[email protected].
2
Professora do Curso de História da Universidade Federal do Amazonas e do Programa de Pós-Graduação em
História (PPGH-UFAM). Bacharel e Licenciada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2008).
Mestre em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (2010). Doutora em História das Ciências
e da Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz- Fiocruz (2014).
38 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Data de submissão: 24.04.2021


Data de aprovação: 16.05.2021

INTRODUÇÃO

O presente artigo trata da história da malária nos primeiros anos da República de


Manaus. Nesse período a cidade passava por aquilo que se conheceu como Belle Époque3,
cenário em que seu espaço urbano começou a ser transformado atendendo os anseios das elites
e dos governantes locais. Nesse momento, buscou-se atender a um projeto de modernização do
espaço urbano seguindo os moldes europeus com o aterramento de igarapés, a construção de
longas avenidas e a instalação do primeiro sistema de esgoto na cidade. Essas transformações
foram financiadas pela economia da borracha. No entanto, a pobreza e a miséria vivenciada por
grande parte da população da cidade evidenciava as contradições desse período (DIAS, 1999).
Ao mesmo tempo em que a paisagem urbana se modificava, encarava-se também velhos
problemas, como as epidemias, sobretudo de febre amarela e malária. No instante em que se
efetuam as reformas urbanas, a malária tornou-se um problema recorrente na cidade, passando
a ser objeto de preocupação de médicos e autoridades locais.
Nesse sentido, buscamos examinar a história da malária nos anos iniciais da República.
Para tanto se fez necessário, inicialmente, descrever como a doença era entendida na Província
do Amazonas, identificar os agentes que discursavam sobre ela nos primeiros anos da República
e, por fim, verificar os embates entre os médicos-sanitaristas em torno da teoria do mosquito-
vetor.
Durante a época provinciana, as categorias que balizaram a doença se pautavam
prioritariamente no termo “febres”. Sendo assim, era muito comum haver denominações anexas
como febres palustres ou febre palustre para a malária. Essa interpretação se devia naquele
momento às influências da teoria dos miasmas no saber médico amazonense. Segundo Cybele
Costa (2008), a teoria miasmática encontrou vazão na Província do Amazonas devido em parte
às características do meio ambiente amazônico, como o clima quente e úmido e as ações
humanas por conta da caça de peixes com timbó, que liberava veneno nos rios e matava os
peixes.
Dessa forma, haveria então a liberação de uma matéria pútrida que viajava pela água e
pelo ar e seu contato com o corpo humano provocava as febres. Outro ponto se devia à
possibilidade das febres serem causadas pelas alterações no temperamento e na constituição
física de um indivíduo, que poderiam ocasionalmente desencadear um estado mórbido. Assim,
a malária era entendida naquele momento com base nas causas predisponentes, um dos
elementos que ajudava a balizar o paradigma miasmático no saber médico no século XIX.
Os reflexos da teoria miasmática no saber médico amazônico acabaram por ultrapassar
o século XIX e adentraram o século XX. Observamos isso quando tivemos contato com os
relatórios da Junta de Higiene de Manaus. Segundo o Inspetor de Higiene do Estado, Dr.
Henrique Alvares Pereira, em 1897:

Examinnando os mapas verifica-se que o impaludismo em suas múltiplas


manifestações foi a que mais victimas produziu. Debaixo de uma zona como a que
estamos, como um ar impregnado de humidade e onde a vida dos vegetaes é um de
uma exuberância indescriptivel, é natural que o impaludismo endemicamente viva
comnosco nas mais vantajosas condições. Em outros anos, durante a época menos
chuvosa, temos sido acometidos de fébres palustres epidemicamente tomando caracter

3
O conceito de Belle Époque cristalizado pela historiografia celebrativa amazonense diz respeito a um momento
histórico (que se iniciam em 1890 e finda nas primeiras décadas do século XX) em que as elites locais buscavam
seguir uma mentalidade burguesa e ostentavam as benesses dos melhoramentos urbanos realizados na área central
de Manaus patrocinados pela economia da borracha. Ver mais em DIAS, 1999.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 39

assustador; o anno último, porém, esta capital não experimentou os efeitos da


epidemia paludica. (PEREIRA, 1897, p. 94).

Percebemos que os elementos da natureza amazônica como a alta umidade, a quantidade


de vegetais e o regime das águas contribuíram para a incidência da doença. Nesse sentido,
podemos observar as influências ainda presentes da teoria miasmática no entendimento sobre a
malária.
Com o passar dos anos, a teoria do mosquito-vetor foi adentrando no saber médico local
e a partir de então podemos observar uma certa mudança na interpretação sobre a malária com
acolhida da ideia do mosquito Anopheles, enquanto transmissor da doença entre os médicos-
sanitaristas amazonenses. Isso não implicou no desgaste da teoria miasmática de modo total,
embora tenha havido uma mescla de interpretações sobre a malária e em alguns casos uma
rivalidade aberta entre os médicos amazonenses no tocante à etiologia da doença.
Desse modo, nosso artigo parte da hipótese de que houve mudanças na interpretação e
diagnóstico da doença, que ocorreu em parte devido ao decreto que criou o primeiro
Regulamento Sanitário Republicano em Manaus. Acreditamos que esse órgão, embora
estivesse subordinado a Junta de Higiene, passou a tratar dos assuntos sanitários com um viés
científico, mais preocupado com as questões de higiene e salubridade se comparados a época
provincial.
Além disso, observa-se o intenso trânsito de informações que os médicos amazonenses
absorvem no contexto em que a cidade de Manaus passa pelo seu primeiro surto de urbanização
no final do século XIX, assim como a formação das primeiras comissões de saneamento de
Manaus compostas por médicos-sanitaristas. Esses novos conhecimentos e as mudanças na
fisionomia da cidade provocam novos debates sobre a malária, sobretudo entre 1898 e 1904.
Ao mesmo tempo, suscitam a chegada de novos paradigmas, como o do mosquito-vetor que
passarão a ser debatidos entre os médicos locais, sem desconsiderar as ideias já existentes
conforme veremos adiante.

1 A MALÁRIA NA CIDADE DA BORRACHA: TRANSFORMAÇÕES URBANAS E


DEBATES MÉDICOS

Os últimos anos do século XIX foram intensos em Manaus. A produção da borracha


natural em larga escala e o consequentemente escoamento do produto atendendo as
necessidades do capital estrangeiro permitiram um acúmulo de capital jamais visto.
Rapidamente, a cidade atraiu pessoas de diferentes localidades, desde estrangeiros e nacionais
que vieram fazer negócios e em alguns casos fixar residência. Os administradores locais
aproveitaram o excedente comercial e tornaram a cidade um verdadeiro canteiro de obras. A
historiadora Maria Luiza Ugarte Pinheiro (2015) disserta que nesse momento houve a:

Renovação dos prédios públicos, as construções monumentais, os aterros e desaterros,


a abertura de ruas e avenidas foram acompanhadas pela incorporação, em alguns casos
pioneiros, de tecnologias urbanas modernas como o sistema de bondes, a iluminação
elétrica, sistema de galerias para drenagem de água e esgoto, além da abertura de
espaços destinados ao lazer refinado, hipódromo, teatro, clubes, etc.. (PINHEIRO,
2015, p. 41-42).

Ao mesmo tempo em que a cidade se transformava do ponto de vista estético, algumas


velhas conhecidas marcavam sua presença no instante em que se efetuavam as reformas
urbanas. Falamos aqui da malária que alcança notoriedade devido a três epidemias sucessivas.
Primeiro em 1897, a doença atinge 1.074 óbitos, posteriormente em 1899 morrem 710 e por
último em 1900, 1.495 vidas são ceifadas naquela que foi a maior epidemia da história de
Manaus no século XX conforme Júlio Silva (2012).
40 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Não obstante, as autoridades governamentais e médicos-sanitaristas começaram a


fornecer suas explicações para o elevado número de óbitos. Um deles foi o médico
Hermenegildo Campos, que fez o seguinte comentário:

Nesses anos (1897 a 1898) as excavações tornaram-se um delírio; eram feitas em


todos os lugares e ao mesmo tempo cavava-se, aterrava-se depois lugares excavados;
recavava o mesmo lugar, etc. Tal movimento de terras, concorreu muito para a
recrudescência das febres. Aterraram-se igarapés, deixando-se grande espaço entre os
dois aterros, ficando pântanos artificiaes dentro da cidade. (CAMPOS, 1988, p. 65-
66).

Observa-se na fala do médico a crítica em relação a intervenção no espaço urbano, pois


“cavava-se e recavava o mesmo lugar”. Segundo Hermenegildo Campos, o movimento de
terras ocorrido em grande medida para aterrar igarapés não levaram em conta os riscos de se
produzirem os pântanos artificiais, e, portanto, as febres (leia-se malária) voltaram a ser uma
realidade na cidade, pois disseminavam os miasmas no ambiente. Em outras palavras, ao
mesmo tempo em que as obras buscavam embelezar a urbes, não consideravam os riscos contra
a salubridade da cidade. Nota-se o primeiro embate entre o projeto de cidade que se pretendia
construir e os sanitaristas.
Os debates sobre as doenças foram fruto de um momento importante do ponto de vista
sanitário em Manaus. Segundo Júlio Schweickardt (2009), os primeiros anos da República em
Manaus assistiram à formação de diferentes comissões de saúde pública e tiveram como
objetivo o estudo e a formação de medidas de saneamento na cidade e, posteriormente, a
organização de profilaxias específicas para o combate das doenças tropicais - a exemplo da
febre amarela e malária. Esse movimento foi um reflexo de um evento anterior, a criação do
Primeiro Regulamento do Serviço Sanitário de Manaus em 1891 na gestão do então governador
Guilherme de José Moreira. Para Silva Filho (2013), o Serviço Sanitário estava subordinado a
uma Inspetoria de Higiene que a partir daquele momento seria responsável pela administração
pública dos assuntos relacionados às condições de salubridade da capital e dos municípios
amazonenses, muito embora apenas Manaus tenha sido objeto de trabalho do referido órgão.
Acreditamos que esse duplo movimento contribuiu para intensificar o debate em relação
às doenças na cidade. Ressalte-se que as discussões sobre as doenças não eram necessidade
nova, pois durante a Província do Amazonas, os médicos e os presidentes de Província (O
equivalente aos governantes na República), conservavam no tocante ao debate as influências
da teoria miasmática e da climatologia médica sobre interpretação da malária. A climatologia
médica é um campo do conhecimento científico que leva em conta as características ambientais
e humanas de uma determinada região, como possíveis responsáveis pelo aparecimento de uma
doença. Segundo Flávio Edler (2003), um dos fatores que refletiam nesse processo, seriam os
circunfusa, ou seja, as questões relativas ao clima, a geologia e hidrologia de um referido lugar.
Observamos essa assertiva ao examinar os relatórios da Junta de Higiene de 1898:

Procurando o factor que tem motivado o aumento das febres palustres, julgamos não
ser contrariados incriminando como causa determinante o começo da vasante do Rio
Negro. Bem sabemos que a proporção que o volume das aguas diminue, vae ficando
descoberto nas margens do rio citado e dos igarapés existente na cidade e
circunvisinhança. Em vários logares dos igarapés da Cachoeirinha, Cachoeira Grande,
Castelhana, Manaós e Bittencourt etc., os raios de sol não penetram até a superfície
do solo em virtude dos diagramas neles existentes, constituídos pelas grandes árvores,
não só em suas margens como nos próprios leitos: dahi a resultante assaz desfavorável
da existência de uma atmosfera pesada, excessivamente viciada, contendo em si todos
os miasmas, todos os princípios deletérios possíveis. (MATTA; PALHANO, 1898, p.
73).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 41

É perceptível como o discurso dos médicos sobre a doença vai se modificando a partir
da aparição de novos elementos. Se antes as ações humanas eram as responsáveis pelo aumento
das febres, temos agora o fenômeno da vazante do Rio Negro, que alimenta os igarapés que
entrecortam a cidade, como amplificador do processo. Segundo Cristiana Grobe (2014) , os
igarapés eram comumente depreciados no discurso dos médicos e governantes, uma vez que
eram vistos como obstáculos ao crescimento e desenvolvimento urbano, além de serem
elementos possuidores e proliferadores de doenças.
Outro médico que na época deu sua contribuição para o debate foi o Dr. Carlos Grey.
Ele afirmava que “as causas geradoras residem na grande quantidade de águas que nos vem das
chuvas e da cheia do rio e dos igarapés” (GREY, 1899, p. 74). Todavia, o discurso do médico
ressalta também que:

As primeiras encontrando as nossas ruas descalçadas, constantemente revolvidas,


como que para buscar novas camadas de germens para a superfície, cheias de imensos
buracos, aterros feitos sem ordem nem providencia por toda a cidade de modo a
impedirem o naturalmente escoamento das aguas, formam ali e acolá pequenos e
grandes pântanos artificiais que infeccionam todo o ambiente e só tendem a
desaparecer com a grande secca da estação futura; as segundas sem a canalização
regular que lhes tolha o passo, invadem os terrenos marginaes, alagam-nos e vem por
idêntico processo ao das chuvas constituir outros tantos pântanos.. (Ibid.)

Vale ressaltar que Carlos Grey ainda faz sugestões para a melhoria da salubridade do
instituto e da cidade a partir de experiências realizadas em outras partes do país, a seguir
exposto:

Eu o aconselharia seguir um plano methodico de arruamento, calçamento e dreinagem


da cidade e a modificação completa do abastecimento d’agua, não só a relação a
quantidade como a qualidade: para este segundo ponto nos lembraríamos imitar a
cidade de Campos (no Rio de Janeiro), que como se base está situada quase na foz do
Rio Parahyba, depois de extensissimo percurso pelos Estados de S. Paulo e Rio de
Janeiro. Pois bem, Campos é abastecido pela água do Parahyba que se torna boa
qualidade depois da filtração e purificação para ser lançada nas bombas no
encanamento geral [...] (Ibid.)

A sugestão feita pelo médico em relação ao abastecimento da água mostra que havia
circulação de ideias entre os médicos em nível nacional com o local, isto a partir dos exemplos
de ações realizadas em outros estados brasileiros. No que diz respeito ao plano de arruamento,
percebemos que o modelo descrito pelo médico para o Instituto apresenta características mais
específicas:

Nós indicaremos o nivelamento e calçamento das ruas e cercanias do Instituto de


modo a terminar com os charcos existentes alli mesmo junto d’elle e do projectado
palácio do governo; rever o nivelamento do próprio terreno do Instituto, examinar o
estado do igarapé dos fundos na Rua Leonardo Malcher, dando escoamento as suas
aguas, se necessário for. (Id. , pp. 74-75).

Podemos observar mais uma vez o intuito de modificar os elementos que faziam parte
da paisagem urbana a partir de nivelamentos dos terrenos, isto com o objetivo hidráulico, ou
seja, sem permitir acúmulo de água estagnada. Desse modo, o discurso dos médicos-sanitaristas
não se punha necessariamente contra os aterramentos, mas sim ao modo de como eles eram
realizados.
Essa questão se manteria na pauta de discussão e estaria longe de ser consenso a partir
dos primeiros anos do século XX. Em 1900, a família dos Nery assume o poder na cidade e o
governador Silvério Nery se posiciona na sessão “Hygiene Pública” nos seguintes termos:
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O saneamento desta cidade, como a de todo o globo, implica imediatamente a


purificação de duas zonas distinctas: o ambiente e o sub-solo. O ambiente porque leva
a economia organica dos habitantes todos os germens tóxicos que contém o sub-solo,
porque delle pela evaporação emanam miasmas, que são absolvidos e pela infiltração
envenenam o lençol d’agua subjacente que, uma vez utilisado, se torna grandemente
nocivo a saude pública. Para intoxicação do ambiente contribuem fatores accidentaes
e estes factores estiveram aggindo a pouco intensamente [...] taes foram as multiplas
excavações no solo, comprehendendo extentíssimas areas e feitas a modo de repellir
a todo critério [...] a consequencia imediata dessa cegueira em matéria de saúde
pública, deu-se a mais tremenda propagação da toxina do impaludismo. Ainda
encontrei infelizmente excavações, ao assumir a administração, e um dos meus
primeiros actos foi manda-las sustar de prompto. O impaludismo que tomara caracter
epidemico, cedeu então. (NERY, 1901, pp. 11-12). Grifos nosso.

Vemos aqui a combinação de dois elementos que justificam a presença da malária na


cidade: o ambiente e o subsolo, pois ambos têm potencial para produzir os germes causadores
da doença. Todavia, as escavações realizadas também contribuem para o processo. Em outros
termos, os aterros e desaterros de igarapés, o que nos lembra o discurso de parte dos sanitaristas
em relação aos riscos dos movimentos de terras conforme Silva Filho (2013).
É válido ainda destacar a ausência do termo “febres” na fala do governador, embora
haja elementos da climatologia médica a exemplo do papel do meio ambiente e da teoria
miasmática em seu entendimento, bem como os pressupostos da teoria do solo de Max von
Pettenkoffer, algo que ressalta o papel das condições climáticas para a ativação do germe no
ambiente segundo (BENCHIMOL, 2001).
A preocupação do governador em suspender as obras se deve pelo fato da moléstia ter
alcançado em 1900 a cifra de 1.495 óbitos, e constitui-se na maior epidemia registrada da
doença, superando as 1.074 vítimas de 1898 (SILVA, 2012). Acreditamos que as duas
epidemias, num intervalo de três anos, contribuíram para modificar as ações dos agentes
públicos em relação à doença, materializadas na paragem das obras de terraplanagem.
Todavia, essas ações ainda não são suficientes para alterar o entendimento em relação
às causas da doença. Em relatório anexo à mensagem, o chefe da Diretoria de Higiene Pública,
Dr. Alfredo da Matta (1901), utiliza-se do argumento da autoridade quando se posiciona em
relação às modalidades de malária.

O mestre dos mestres, sobre o assumpto, Laveran, que tem estudado com abnegação
cientifica o paludismo com todas as suas evoluções e modalidades, declara que a terra
é indispensável a propagação do paludismo, declarando que a influencia do solo é
tornada manifesta e que os trabalhos de subbida e terraplanagem são particularmente
perigosos nos paizes palustres; estes trabalhos podem mesmo dar logar a epidemias
de febres palustres fora dos focos epidêmicos. (MATTA, 1901, p. 6-7).

Alphonse Laveran foi médico-militar e cirurgião francês e responsável por identificar


no sangue de doentes de Malária, ou seja, o protozoário Plasmodium em seu primeiro estágio
de reprodução em 1880 (SCHWEICKARDT, 2009). No entanto, Alfredo da Matta não faz
nenhuma menção a esse fato, embora reconheça a importância do solo na propagação da
doença, conforme apontado pelo médico-cirurgião francês.
Outro elemento que o médico considera relevante nesse assunto é o papel da água para
a propagação da doença, assim descrita:

Si folhearmos o trabalho de Laveran sobre a água veremos que ele cita de Raymond
que diz os habitantes de Landes Bordelezas e de muitos pontos do departamento de
Gironde, bebem a água pantanosa: ora aqueles que filtram essa agua em filtros de
carvão não contraem a febre palustre. Substitua-se as palavras Landes Bordelezas por
Manaós e Gironde por Amazonas e essa directoria declara corretamente que taes
DOSSIÊ AMAZÔNIA 43

proposições nos são aplicáveis de modo exacto, pois, é por demais importante o papel
da água sobre a pathogenia do paludismo. (Id., p. 15)

Nesse momento são tomados como modelos o fornecimento da água em diferentes


regiões da França e sua relação com o aparecimento da doença, muito embora o médico
reconheça os limites dessa comparação. Desse modo, podemos afirmar que os elementos da
climatologia, como o papel da água se constituía naquele momento como obstáculo
epistemológico para aceitação total da ideia do mosquito Anopheles enquanto transmissor da
malária entre os higienistas amazonenses, embora a menção aos trabalhos de Laveran
representasse um primeiro sintoma numa possível mudança de abordagem nos anos seguintes.
No ano seguinte, a Mensagem de governo de 1902 confirma a queda no número de
óbitos por malária em Manaus. Enquanto em 1900 houve 1495 mortes por malária, em 1901, a
cifra caiu para 614 vítimas (SILVA, 2012). Segundo o governador Silvério Nery as razões disso
se devem a paralisação dos serviços de terraplanagem:

Tenho por seguro que a paralysação quase completa de movimentos de terras, que
tanto concorreu, para o poussées de febres de tempos que não vão longe, é o principal
factor d’esse descrescimento de porcentagem, descrescimo que ainda será maior se, a
respeito de todos os casos, os diagnósticos tiveram por base o exame seguro, o único
possível de bacteriologia. (NERY, 1902, p.12).

É interessante notar que a diminuição dos serviços de modificação do solo contribuiu


para o decréscimo das febres na cidade. Citamos também a solicitação por um diagnóstico mais
preciso sobre os casos registrados, seguindo os parâmetros da bacteriologia, ramo da ciência
que estava se impondo naquele momento. Em seguida, o governador chega a questionar a
classificação da moléstia. Para ele:

Se acobertam apreciações incompletas ou casos de fundo desconhecido ou deturpado,


como aconteceu com as próprias grandes febres que se manifestam simultaneamente
com a pyrexia das excavações, nem todas talvez de natureza realmente paludosas e
com o aparecimento de cólicas biliares e estados semelhantes, de origem
desconhecida e, pela facilidade também, a conta do impaludismo postas. (Ibid.)

Conforme comentamos anteriormente ainda não havia um diagnóstico preciso sobre a


doença, havendo, portanto, a possibilidade de surgirem morbidades de origem desconhecida ou
então, a confusão com outras doenças de sintomas parecidos como a febre tifóide no caso das
febres paulistas; o que levava as autoridades a duvidarem dos diagnósticos realizados
(TEIXEIRA, 2004).
Era comum nos atestados de óbito os médicos declararem que a causa da morte fosse
impaludismo, não podendo saber que variedade da doença havia se manifestado (CAMPOS,
1988). Desse modo, havia uma classificação aproximada da causa do óbito que considera as
consultas feitas pelos mais antigos clínicos da cidade, ou seja, aqueles que se ocupavam com a
doença. A identificação do Anopheles enquanto transmissor da doença no fim do século XIX
viria a trazer um novo e importante elemento no debate sobre a malária nos anos subsequentes.

2 ENFIM, O ANOPHELES. MAS NÃO APENAS ELE

A primeira experiência que identificou o Anopheles enquanto transmissor da malária em


humanos foi realizada em 1899 pelos médicos italianos Amigo Bignani, Giovanni Grassi e
Giuseppe Bastinelli (SCHWEICKARDT, 2009). Utilizando voluntários humanos como cobaias
previamente picados por mosquitos infectados, percebeu-se que a malária poderia se
desenvolver nos seres humanos com a picada do mosquito. A partir de então, se configurou a
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teoria do mosquito-vetor dentro do meio científico e ela não tardou a estimular debates devido
às novas perspectivas sobre as doenças tropicais, após a percepção do mosquito como
transmissor da febre amarela e da malária em Cuba, observado pela comissão estadunidense
chefiada por Reed e Carroll, e na Itália por Grassi, respectivamente (SCHWEICKARDT, 2009;
SILVA FILHO, 2013).
As observações tiveram ressonância na medicina brasileira, onde posteriormente se
detectou o Stegomyia fasciata como agente transmissor da febre amarela a partir das
experiências realizadas por Emílio Ribas, em São Paulo, e o Anopheles como transmissor da
malária a partir dos estudos de Adolpho Lutz nas linhas ferroviárias no vale paulistano
(BENCHIMOL, 2005; SILVA FILHO, 2013).
Desse modo, há uma ressignificação no que diz respeito ao entendimento das doenças
que antes eram entendidas unicamente sob as bases da teoria miasmática e começam a se
misturar como os pressupostos da medicina tropical que traz como fato novo a participação dos
parasitas que agem dentro do organismo nos seres humanos e os mosquitos infectados como
vetores conforme veremos adiante.
Segundo o médico, Dr. Alfredo da Matta:

Se tem seguido, dia após dia, a evolução do paludismo nos Anopheles que tinham se
alimentado de sangue palustre; se tem realizado a inoculação dessa moléstia em
indivíduos sãos; fora dos focos de infecção, fazendo-os serem picados pelos
Anopheles inficionados. Em todas as zonas palustres a existência desses culicidios
tem sido demonstrada e a nossa as possui em abundância; a sua destruição se impõe.
Os mosquitos necessitam de água estagnada para sua evolução; é na superfície delas
que as gêmeas depositam seus óvulos e em taes águas que as larvas e as nymphas
vivem até o momento de sua transformação em insetos perfeitos [...] (MATTA,
1902, p. 65).

Com efeito, o Dr. Alfredo da Matta torna-se o primeiro médico amazonense a


reconhecer o protagonismo do mosquito Anopheles na transmissão da malária, embora ainda
guarde as influências da teoria miasmática ao evidenciar uma possível relação entre a água e
sua importância no ciclo de vida do vetor.
Assim, entendemos que houve uma aceitação preliminar em relação aos trabalhos
realizados com mosquitos no Brasil e em outras partes do mundo pelos médicos amazonenses.
Um exemplo disso é o momento em que o Dr. Alfredo da Matta faz menção ao médico inglês
Patrick Manson para atestar sua posição.
Porém, é necessario elucidar que para eles não é desconsiderado o papel da água
estagnada na transmissão da doença. Ela passa a ser ressignificada e tornar-se-á importante no
que diz respeito ao ciclo de vida e para a evolução do mosquito.
Alfredo da Matta ainda cita medidas de combate ao mosquito inspiradas nas conclusões
do médico Hilário de Gouveia. Elas foram trabalhadas na tese de Júlio Schweickardt, mas
reproduzimos aqui por considerar sua relevância - sem esquecer do pioneirismo do autor citado
- que Alfredo da Matta esclarece-nos da seguinte maneira).

A prophylaxia da febre amarela é a mesma do paludismo e da filarioses [...] Para evitar


os mosquitos: a) a proteção dos indivíduos sãos pelos mosquiteiros; b) o isolamento
do mesmo processo, o único que offerece toda a segurança para preservação das
pessoas sãs; c) durante as horas de nocividade desses insetos procurar abrigo nas
alturas; d) nos meios perigosos habitar os andares mais elevados das casas e arejá-los
largamente; e) cobrir com telas metálicas inacessíveis aos mosquitos os reservatórios
d’água, até mesmo os jarros com flores, tanto no interior da habitação, como em suas
vizinhanças. (MATTA, 1902, p. 65-66 apud SCHWEICKARDT, 2009, p. 135)

A primeira observação diz respeito ao entendimento de que havia a mesma profilaxia


DOSSIÊ AMAZÔNIA 45

para três moléstias que tinham o mosquito como vetor. Isso é uma questão importante porque
a espécie que transmite a febre amarela não é Anopheles, tampouco é este que transmite a
filariose, mas sim o mosquito Culex fatigans; conforme Patrick Manson atestou pela primeira
vez em 1877 quando trabalhava na Ásia.
Em suma, é compreensível que haja essa orientação, pois as discussões em torno do
mosquito-vetor estavam sendo assimiladas a pouco tempo pelos higienistas locais e havia
crença de que combatendo um mosquito, os outros poderiam ser eliminados. De resto, as
medidas citadas acima possuem um caráter defensivo, na qual o mosquito independente se
estivesse infectado ou não, deveria ser evitado, seja com mosquiteiros, uso de telas metálicas
etc.
Essas medidas não são necessariamente novas, pois já vinham sendo aplicadas em outras
partes do mundo, como nas colônias da África e Ásia pelas potências coloniais como Alemanha,
França e Inglaterra, mas a sua aparição na fala dos higienistas amazonenses constitui-se num
fato inédito na documentação.
Desse modo, são sugeridas como medidas para destruir os mosquitos os seguintes
procedimentos:

a) empregar contra as larvas substancias reconhecidas como eficazes: alcatrão,


petróleo e mesmo sal de cosinha em dose alta (para os pântanos), lembrando-se, porem
que o emprego dessas substancias deve ser renovado todas as semanas; b) quando o
emprego desses meios é impossível, por haver necessidade da água do reservatório,
como bebida para o homem e para os animais, povoar o depósito com peixes nos quais
destroem as larvas dos mosquitos ou cobri-los com telas metálicas, de malhas
finíssimas; c) drenar e nivelar o solo, evitando a estagnação das águas. (MANSON,
1897 apud SCHWEICKARDT, 2009, p. 80)

O foco principal nas medidas de ataque é justamente eliminar as larvas, segundo estágio
no ciclo de vida do Anopheles. O objetivo seria interromper a cadeia de transmissão homem-
mosquito antes do último chegar a sua fase adulta. Desse modo, podemos considerar o programa
apresentado por Alfredo da Matta como híbrido, pois apresenta uma mescla de ações verticais
e horizontais, uma vez que buscam agir de forma autoritária sobre a paisagem, principalmente
os igarapés e ao mesmo tempo consideram seus aspectos sociais numa perspectiva mais ampla.
Dessa forma, podemos perceber a importância social da doença e do mosquito Anopheles como
atores sociais, sendo igualmente fatores numa possível configuração e estruturação das
estruturas sociais na urbe.
Obviamente, não podemos perder de vista os interesses políticos e sociais em torno
dessas ações. Nesse sentido, convém retomarmos as lições de Sidney Chalhoub a respeito do
assunto, para ele na corte imperial buscou-se gerir a cidade e a política de acordo com critérios
puramente técnicos, de modo a escamotear a intencionalidade dos atores sociais presentes no
pensar dessas intervenções que visavam combater a febre amarela naquele momento
(CHALHOUB, 1996). Argumentamos que os médicos-sanitaristas amazonenses se valeram de
um discurso científico e da profilaxia de combate à malária para impor a sua visão de cidade
saneada e livre das doenças naquele momento.
Conforme vamos avançando da documentação percebemos que a doença continuaria a
ser uma presença constante no discurso dos agentes do Estado nos anos seguintes. Segundo
Alfredo da Matta em Relatório (1903, p. 35) “ A malária voltaria a registrar o aumento em
número de óbitos com 776 vítimas, representando 49,9 % sobre a mortalidade geral” . O médico
não faz menção a razão do aumento de casos, todavia disserta sobre as principais modalidades
da doença que são “febre intermitente, febre remitente simples ou complicada; manifestações
larvadas; cachexia palustre, além da intercurrência do impaludismo em outras moléstias” (Id.,
p. 43).
Esse último ponto é importante, pois segundo Alfredo da Matta seria difícil sem o
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auxílio do microscópio diferenciar a moléstia da tuberculose, outra doença que existia também
em Manaus.
A fim de asseverar tal interpretação, o médico recorre novamente às referências
estrangeiras, demonstrando seu conhecimento acerca das experiências médicas em nível
internacional. Segundo ele:

O que tanto nos impressiona, aqui no norte, taes as lesões que o impaludismo
determina em duas importantes vísceras, o baço e o fígado, tem perdido quase a sua
importância clássica perante a cabal experiência e peremptória demonstração que a
phymatose as produz também, como declaram Widal, Collet, Rendu e Gallavardin.
Podem ser hepatites tuberculosas, esplenomegalia [...] Não estamos, é bem verdade,
compreendidos na conclusão de Bernheim, na ação predisponente do impaludado
para nelle manifestar a phymatose. Jeannonpoulos tira também a mesma conclusão,
isto é, que os tuberculosos da Ásia Menor são aptos a se impaludar e vice- versa..
(MATTA, 1903, p. 43).

Assim, entendemos a importância do microscópio para o médico, pois com o uso desse
instrumento seria possível diferenciar a malária de quaisquer outras doenças. O problema do
diagnóstico é entendido como de suma importância. Pois implicaria na possibilidade de uma
melhor compreensão sobre a etiologia da doença que comumente confundia os médicos locais
devido aos seus sintomas.
Para tanto, em 1904, o governador Constantino Nery criou a Comissão de Saneamento
de Manaus. O objetivo dela seria estudar as condições do clima e natureza do solo amazônico,
de modo a propor medidas sanitárias que pudessem amenizar os impactos das doenças sobre a
população local, dentre elas a malária (SCHWEICKARDT, 2009).
Por conseguinte, o governador nomeou seu irmão, Dr. Márcio Nery como chefe da
referida comissão. Não pretendemos aqui falar dela e de sua composição4, mas sim verificar os
pontos que Márcio Nery considerou relevantes na discussão e entendimento do problema da
malária em Manaus.
Ao lado do homem, há uma flora microbiana e uma fauna de animalculação nocivas
e parasitas, que tiram benefício da temperatura e da humidade e de climas
intertropicais com o nosso. Muitos encontram o seu meio optimo e desenvolvem-se
com exuberância, constituindo-se como uma ameaça aos habitantes desse clima [...]
Todas as vezes que a temperatura se aproxima do corpo humano, esses seres
extremamente pequenos, adquirem uma recrudescência de sua virulência, tornando-
se extremamente perigosas para o homem. Em Manaós, encontram-se uma variedade
uma rica variedade de mosquitos, muitos dos quais se prestam a vehiculação de
agentes pathogenicos. (NÉRY, 1905, p. 122-123).

Para o chefe da comissão de saneamento, o clima tropical de Manaus contribuía para a


criação de condições que aumentassem a virulência dos mosquitos, reconhecidos transmissores
de doenças sob a população local. Além disso, as variáveis climáticas e a rica fauna de insetos
transmissores poderiam amplificar o processo, agindo também outros fatores, como:

[...] em muitas ruas em que os aterros não concluídos deixam covões, nas depressões
das próprias ruas, nas margens dos igarapés de águas pouco correntes [...] a água da
chuva colecionando-se, pode tornar-se e efetivamente se torna viveiros de mosquitos
de todas as espécies [...] (Id., p. 124)

4
O historiador Júlio César Schweickardt fala sobre a constituição da Comissão de Saneamento de Manaós no
capítulo 3 de sua tese. Ver tópico 3.3: A comissão de saneamento em Manaus (1904-1906). (SCHWEICKARDT,
2009, pp. 150-184).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 47

Nesse momento, o dr. Márcio Nery ressalta a mesma crítica em relação aos aterros
realizada por muitos sanitaristas já citados, e segue então a mesma linha adotada por Alfredo
da Matta. Uma das características da comissão é a utilização de pesquisas sobre os mosquitos,
no qual são assinalados os seus locais de procriação e a parte do ano em sua aparição é mais
constante na cidade de Manaus.
Nesse sentido, o dr. Márcio Nery comenta que:

As águas da bacia do Rio Negro sobem em regra geral a começar na segunda quinzena
do mês de dezembro. Coincide, de ordinário, essa enchente com o período das chuvas
[...] as águas paradas ou lentamente correntes, oferecem um meio favorável para o
desenvolvimento de toda uma fauna de culicidios que em nuvens se levanta da agua
desde que o voulo sofreu a sua metamorfose. Foi o que observou esse ano no Igarapé
da Cachoeirinha, no Igarapé do Bittencourt e no Igarapé de Manaós. Os Anopheles,
que até então, dificilmente se encontravam, começaram a aparecer dentro dos
domicílios. Em Junho, começa a vazante dos rios que constituem a bacia do Rio
Negro. Em muitos pontos ficam aguas estagnadas, que pouco a pouco, se evaporam
sob a influência do sol na estação secca. Até certo ponto, repetem-se os mesmos
fenômenos que se observam no princípio das enchentes. (SCHWEICKARDT, 2009,
p. 177)

Para o médico, o regime das águas também apresenta sua parcela de responsabilidade,
pois cria condições favoráveis para a proliferação dos mosquitos; seja durante o período de
chuvas no início do ano, seja na vazante. Nessa condição, a quantidade de mosquitos na cidade
era renovada mais facilmente, contribuindo para a permanência da malária em Manaus durante
todo o ano.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A história da malária, no alvorecer da República em Manaus, apresentou idas e vindas


e esteve longe de promover um consenso no discurso de governantes e médicos-sanitaristas
acerca da sua etiologia e transmissão na capital da Borracha. Para desenvolver nossa
investigação nos valemos da análise do discurso a fim de compreender as perspectivas sobre a
malária nos relatórios médicos e nas mensagens de governo. Identificamos que a narrativa sobre
as influências dos miasmas estavam presentes desde o ínicio na documentação analisada.
Embora tais debates remontam aos últimos anos da época provinciana, verifica-se a importância
da água e do ar para o desencadeamento das febres, ou seja, podemos dizer que houve uma
certa mudança em seu entendimento à medida que entramos no século XX.
Podemos observar que os elementos da paisagem urbana da cidade como a vegetação e
os igarapés também eram responsabilizados por liberarem os miasmas no ambiente. Além disso,
as ações humanas como as escavações e aterros em áreas previamente alagadas também foram
compreendidas em grande medida pelos médicos-sanitaristas e governadores responsáveis por
desencadear as febres em Manaus.
Por fim, a acolhida da teoria do mosquito representou mais um elemento no debate sobre
a malária à medida que o Anopheles passou a ser identificado como mosquito transmissor da
doença. O fato não implicou necessariamente o desgaste total das teorias dos miasmas, pois
como vimos, os aterros e os igarapés continuaram a ser espaços vistos como potenciais
criadouros de mosquitos, formalizando uma interpretação híbrida sobre a doença. Em síntese,
os debates sobre a malária acompanharam as transformações urbanísticas de Manaus, na virada
do século XIX para o século XX, e como vimos mesmo após a acolhida de uma nova teoria
continuou orbitando entre miasmas e Anopheles.

REFERÊNCIAS
48 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

BENCHIMOL, Jaime Larry (Coord.). Febre Amarela: a doença e a vacina, uma história
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MATTA, Alfredo Augusto da. Relatório da Diretoria Geral de Higiene Pública do Estado do
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DOSSIÊ AMAZÔNIA 49

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DOSSIÊ AMAZÔNIA 51

“NO OLHO DO FURAÇÃO”: A CONSTRUÇÃO PROJETO DE ISOLAMENTO


SOCIAL FRENTE AO COVID-19, EM UM GRUPO INDÍGENA NA AMAZÔNIA

Petrônio Lauro Potiguar Junior1

RESUMO

Expomos aqui este relato de experiência, fruto de uma viagem de cinco meses de pesquisa de campo na
aldeia Mapuera, onde vivem vários grupos indígenas denominado genericamente de “Etnia Wai Wai”,
na cidade de Oriximiná, no noroeste do Pará, por conta da fase final da tese de doutorado que está em
curso. Apresentamos aqui os momentos de angustias e inquietações vividos pelo autor desse relato e
indígenas nesse local, nas primeiras manifestações da pandemia da Covid-19, denominado aqui de “olho
do furacão”, em março de 2020.Tal experiência nos direcionou ao seguinte questionamento: como
antropólogo poderia contribuir em contexto de pandêmico em grupos indígenas, em especial, em
Mapuera? A partir dessa pergunta, articulações foram feitas envolvendo cacique geral, lideranças,
Conselho de Saúde da Mapuera, lideranças da igreja evangélica local, professores e profissionais da
saúde que prestam serviço no local pela Fundação Ovídio Machado, frente ao Distrito Sanitário Guamá
Tocantins- DSEI-GUATOC, incidido na elaboração de um projeto de isolamento social. Até a primeira
quinzena de junho de 2020, momento da saída de campo, o referido projeto não tinha sido usado, pois
nenhum caso de covid-19 acometera qualquer indígena no local, mas somente atingido alguns deles que
estavam fora desse espaço, como na cidade de Belém, Santarém e Oriximiná, inclusive com óbito.
Também notícias dão conta que, apesar de não adesão ao “projeto de Isolamento Social” pelo DSEI-
GUATOC, sua produção serviu de parâmetro para a feitura de um plano de proteção à equipe de saúde
e aos indígenas do local, revelando um dos objetivos dessa proposição, inspirar ações de políticas
públicas em tempos de pandemia para a proteção dos povos indígenas na Amazônia, independentemente
de quem quer que seja.

Palavras-Chave: Covid-19. Isolamento. Antropologia.

“IN THE EYE OF THE HURRICANE”: THE DEVELOPMENT OF THE SOCIAL


ISOLATION PROJECT IN FRONT OF THE COVID-19, IN A INDIGENOUS GROUP
IN AMAZONIA

ABSTRACT

Here we expose this experience report, the result of a journey of five months of field research in the
village Mapuera, where several indigenous groups live, generically called “Wai Wai Ethnicity”, in the
city of Oriximiná, northwest of the state of Pará, because of the final phase of the doctoral thesis that is
underway. Here we present the moments of distress and concerns experienced by the author of this
report and native people in this place, in the first manifestations of the Covid-19 pandemic, here
denominated “eye of the hurricane”, in March 2020. This experience leads us to the following question:
How could an anthropologist help in the pandemic context that affects indigenous groups, especially in
Mapuera? From that question, articulations were made involving the cacique chief, leadership, Mapuera
Health Council, leaders of the local evangelical church, teachers and health professionals who provide
service on the scene by Ovídio Machado Foundation, in front of the Guamá Tocantins- DSEI-GUATOC
Sanitary District, focused on the development of a social isolation project. Until the first half of June
2020, moment of field departure, the referred project had not been used, since no case of Covid-19 had

1
Doutorando em Sociologia e Antropologia/PPGSA UFPA; Mestrado em Agricultura Familiar e
Desenvolvimento Sustentável. Graduado em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia. Já foi bolsista do
Museu Paraense Emilio Goeldi. É professor Efetivo da Universidade do Estado do Pará-UEPA, no Centro de
Ciências Sociais e da Educação. Realiza estudos sobre povos indígenas, especificamente a saúde/doença/cura e
participa de grupos de estudo credenciado pelo CNPQ e possui texto e orienta trabalhos sobre a temática
mencionada. E-mail: [email protected].
52 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

affected any indigenous in the place, but only reached some of them who were outside that space, as in
the city of Belém, Santarém and Oriximiná, including death. Also news reports that, despite the non-
adherence to the “Social Isolation project” by the DSEI-GUATOC, its production served as a parameter
for the development of a protection plan for the health team and the native people of the place, revealing
one of the goals of this proposition: Inspire public policy actions in times of pandemic to protect
indigenous peoples in the Amazonia, regardless of whoever they are.

Keywords: Covid-19. Isolation. Anthropology.

Data de submissão: 15. 04. 2021


Data de aprovação: 02. 05. 2021

1 O LOCAL DA EXPERIÊNCIA

As Terras Indígenas - TI Nhamundá-Mapuera e Trombetas-Mapuera, estão localizadas


na região norte do Brasil, Amazônia Setentrional, na fronteira tríplice dos Estados do Pará,
Amazonas e Roraima, sendo o conjunto cortado ao meio pela linha do Equador. Segundo
Cardozo e Do Vale Junior (2012), ambas TI’s somam uma área de 5.020.418 ha, das quais
3.970.898 ha. Pertence à TI Trombetas-Mapuera e 1.049.520 ha. a TI Nhamundá-Mapuera.
Nesta última área se localiza, locus dessa experiência, a aldeia Mapuera, conforme demonstra
o mapa.

Figura 1 - Localização da Terra Indígena Nhamundá Mapuera, em vermelho

Fonte: Instituto Socioambiental – ISA.

A aldeia Mapuera faz parte do conjunto das Terras Indígenas Nhamundá-Mapuera, na


Amazônia Setentrional, próxima à fronteira entre o Estado do Pará e do Amazonas, às margens
do rio Mapuera, afluente/ formador do Rio Trombetas. Nesse local habitam aproximadamente
DOSSIÊ AMAZÔNIA 53

1055 indígenas, conforme o Instituto de Socioambiental – ISA, dentre os quais encontram-se


diversas etnias que fazem parte do complexo cultural Tarumã-Parukoto, sendo elas: Wai Wai,
Katuena, Hixkaryana, Mawayana, Xowyana, Tikyana, Xereu, Tunayana, Kamarayana,
Yaipîyana, Parîkwoto, Pianokoto, Tirió, Aramayana, Okomoyana e Caruma Wapixana. Mas
todos que lá vivem se autodenominam “Wai-Wai 2 (CARDOZO e VALE JUNIOR:2012;
QUEIROZ, 2008; QUEIROZ:1999; QUEIROZ e GIRARDI, 2012).
Estivemos em Mapuera por aproximadamente cinco meses, por conta da última pesquisa
de campo para o Doutorado que o autor realiza no Programa de Pós Graduação em Sociologia e
Antropologia na Universidade Federal do Pará – PPGSA/UFPA. Aqui será relatado os caminhos
trilhados na pesquisa de campo, antes do início da pandemia Covid-193 - denominada aqui de
“olho do furacão” - no Brasil, em fevereiro de 2020, até sua presença no Estado do Pará, em
março do mesmo ano. Mostramos aqui como fora vivenciada a ameaça dessa pandemia, em
Mapuera, a partir dos dramas pessoais e dos indígenas que ali vivem, somado a elaboração do
projeto de isolamento social até a saída do autor deste relato desse local, em meados de junho
de 2020.
Expor os caminhos trilhados junto com lideranças e a equipe de saúde para elaboração
de um projeto de isolamento social, bem como, a expertise de todos frente a possibilidade de
entrada de indígenas para essa aldeia diante da pandemia que se alastrava pelo país, foi a forma
de socializar essa experiência, revelando seus limites e perspectivas pelas particularidades ali
existentes. A maioria desses indígenas eram oriundos das cidades de Belém, Santarém e
Oriximiná, onde a primeira e a segunda estavam com casos de Covid-19 e óbitos confirmados.
Oriximiná, a sede municipal da Mapuera não possuía nenhum registro dessa doença, nesse
momento da pesquisa, mas inspirava cuidados pela velocidade em que a pandemia avançava e
os cuidados necessário para seu enfrentamento, tornando-se, assim, o foco deste relato.
Esse relato de experiência foi fruto da coleta de dados em campo para doutorado, cujo
método etnográfico, foi sua base do início ao fim da pesquisa. Aqui o recorte temporal se
direciona para o início da Covid-19, em março de 2020, no Estado do Pará, culminando com a
saída do autor de campo, em junho do mesmo ano. As conversas formais e informais com
lideranças indígenas, profissionais de saúde e da educação, permitiram vivenciar experiências
diversas em Mapuera, inclusive a aqui relatada, materializada na exposição de um projeto de
isolamento social cuja nuances serão reveladas a partir de agora.

2 A PESQUISA DE CAMPO E O COVID-19: “UM INIMIGO INVISIVEL”

No momento de nossa saída de Belém-Oriximiná-Cachoeira Porteira-Aldeia Mapuera4,


no início de fevereiro de 2020, as notícias sobre coronavírus e a doença COVID-19 era de sua

2
A denominação genérica de “Wai Wai” dos indígenas na aldeia Mapuera, se dá pelo processo histórico de
surgimento do local. Mas no decorrer dos deslocamentos, os intercasamentos e a busca constante por indígenas
isolados para serem convertidos ao evangelho protestante, outras etnias se somaram aos Wai Wai, mas o
predomínio étnico Wai Wai, tornou essa a língua mais falada nas aldeias. Além disso acordos internos fizeram
com que os indígenas da Mapuera fossem nominados de “Etnia Wai Wai” visando garantir direitos e políticas
públicas de saúde, educação de forma diferenciada.
3
Respeitando o tempo e os debates, percebe-se que ora falava-se em “Coronavirus”, ora em “Covid-19”. Isso se
deu pelas incertezas e familiaridade com categorias veiculadas pelos meios de comunicação sobre esse
vírus/doença, cuja a base de referência era a Organização Mundial de Saúde- OMS. “Covid-19”, diz respeito à
doença oriunda do vírus denominado de “Coronavirus” que surgiu primeiramente em 2002, na China e depois, em
2012, em alguns países Árabes. Dessa forma, Covid, somado ao número 19, diz respeito a demarcação do tempo
em que ele se apresenta, na contemporaneidade, o ano de 2019, em sua nova configuração. (Fonte:
https://coronavirus.saude.gov.br: consultado em 30 de março 2021).
4
Para ter acesso a aldeia Mapuera, inicia-se a viagem saindo de Belém, via aérea, para a cidade de Santarém, em
uma hora. Dessa cidade, via fluvial, por três horas e meia, chego até a cidade de Oriximiná. A partir de Oriximiná,
o deslocamento até Cachoeira Porteira, se efetiva por barco, por dezessete horas. De lá, sigo para a aldeia Mapuera,
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ocorrência somente na China. Passados dias, a pandemia se alastrava pela Itália, Espanha,
Inglaterra. Em seguida, chegava nos Estados Unidos da América. Final de fevereiro e início de
março, desse mesmo ano, a pandemia atinge a América Latina e o Brasil, até chegar no Estado
do Pará, na segunda quinzena de março do ano em tela.
Na Mapuera, nos encontrávamos imerso na pesquisa: registrando o cotidiano no diário
de campo; circulando pela aldeia; conversando informalmente com as pessoas, realizando
entrevistas e registrando imagens. Quando nos demos conta, já se faziam trinta e cinco dias no
local. Sempre procurávamos nos atualizar com notícias, via televisão e internet5. Nesse interim,
o diretor da Organização Mundial de Saúde - OMS Tedros Adhanom anunciava, em final de
fevereiro de 2020, que estávamos frente a uma Pandemia, já que a Covid-19 ultrapassava e
avançava em vários continentes, inclusive na América Latina.
A notícia sobre a chegada da Covid-19 no Brasil se espalhou, dando início a
contaminação no país, sendo a cidade de São Paulo a primeira capital a registrar uma
contaminação e, posteriormente, o óbito. Posteriormente, essa cidade tornou-se o epicentro da
pandemia no país, seguido pelo estado do Amazonas, acendendo o sinal de alertas, no Pará,
pela proximidade geográfica.
No Pará, em março de 2020, o primeiro caso de Covid-19 foi anunciado. As
preocupações nos rondavam em Mapuera, pois, na mesma força que corriam as notícias, o vírus
avançava na capital paraense, Belém, e no interior. As notícias davam conta que a Covid-19
estava em todos os lugares, nos levando a pensar que, sua chegada na aldeia, seria uma questão
de tempo. Além disso, os deslocamentos de indígenas Mapuera-Oriximiná e vice-versa, eram
constantes. Somado a isso, muitos desses indígenas estudavam em diversas cidades e
manifestavam o desejo de retornar para aldeia6, aumentado a preocupação de todos por conta
do cenário pandêmico que nos encontrávamos
Os trajetos pelo rio Mapuera, via canoa e barco, para acessar a aldeia de mesmo nome,
tornou-se limitado, consequência de casos de Covid-19 em Santarém, Óbidos e Oriximiná7.
Diante disso, o prefeito do município-sede - Oriximiná - decreta estado de emergência: aulas
foram suspensas e limitações de deslocamentos municipais e intermunicipais foram efetivadas8.
No entanto, uma medida não fora obedecida na aldeia, a realização dos cultos evangélicos9.
Com o passar dos dias, as restrições de acesso à Belém do Pará, onde residíamos, e
Mapuera, local de desempenho dessa pesquisa, foram se sedimentando. Portos e aeroportos
próximos a região, tem decretos publicados cujo conteúdo versava sobre a necessidade de tais

com dezoito horas com uma parada para descanso, geralmente, pela noite, retomando tal viagem no dia seguinte,
até o local desta pesquisa.
5
A partir de junho de 2018, foram realizadas instalações na aldeia Mapuera que possibilitaram a inserção na
internet no local, permitindo assim, acesso as noticias de forma geral. No momento da pesquisa de campo a notícia
que dominava os meios de comunicação em todo o mundo, era a pandemia do coronavirus.
6
É necessário esclarecer que o retorno dos indígenas de várias cidades como Belém, Santarém e Óbidos, tornava
a tensão em Mapuera mais presente entre profissionais de saúde, o autor do relato de experiência e os indígenas
que ali estavam antes da pandemia, já que as mencionadas cidades já apresentavam casos da covid-19, inclusive
números crescentes de mortes. Somado a esse contexto de insegurança, o cacique geral da aldeia estava em viagem
por vários estados e, possivelmente, retornaria a Mapuera pelos dias seguintes.
7
Essas cidades fazem parte do trajeto do transporte hidroviário na região, até a chegada na aldeia Mapuera.
8
Por conta da situação que se apresentava, a equipe de saúde na Mapuera começa a receber instruções de
permanência no local por mais dias para evitar contatos com outras pessoas fora da aldeia. Além disso, o método
era: Quando sair da aldeia, o profissional deveria ficar em quarentena, em Oriximiná, até seu retorno para Mapuera.
9
Há mais de 40 anos os indígenas da aldeia Mapuera foram evangelizados pela Igreja Protestante Batista. Desde
então, a base religiosa do local se pauta nas diretrizes desse protestantismo. Assim, os cultos ocorrem dias de
quarta e domingo, onde pode-se contar a presença de, aproximadamente, 200 pessoas em cada evento dessa
natureza, em especial, aos domingos. (QUEIROZ, 1999; WAI WAI AWPEYASA, André; WAI WAI KOYON,
Nelson; POTIGUAR JUNIOR, 2017).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 55

espaços serem fechados por quinze dias, no princípio de abril de 2020, evitando a circulação de
pessoas e contágio pelo coronavírus.
A instabilidade se fez presente no campo tanto para todos nós, equipe de saúde,
professores quanto para alguns indígenas. Notícias chegavam de que indígenas que desejavam
adentar a aldeia Mapuera, foram proibidos de fazê-lo, inclusive o cacique geral, por ser
desconhecido o estado de saúde deles. Após uma semana, com negociações frente ao Ministério
Público; medição da temperatura e uma quarentena de sete dias, na cidade de Oriximiná, os
indígenas e o cacique chegaram a Mapuera.
Diante do fato acima, decidimos ficar mais recolhidos e passando a entrevistar os
indígenas no local onde estávamos instalados10. A tática que adotamos em campo não diminuiria
a possibilidade de contrair o Covid-19, pois o contato com pessoas iria se fazer sem uma
garantia de que elas não tivessem se aproximado dos recém-chegados. Mas dez dias se passaram
e os ânimos se acalmaram, pois era o tempo suficiente para perceber a manifestação ou não da
doença no local, frente a situação ali vivida. Felizmente nada ocorrera.
As notícias chegavam de forma rápida e todo o cuidado, até a duração da quarentena
decretada inicialmente no país e no Pará, demonstrava que um inimigo oculto nos rondava. Isso
fez com que a pressão familiar, relativo ao nosso retorno à Belém, crescesse. Mas a decisão já
estava tomada: continuaríamos em Mapuera até meados de junho do corrente ano, que fora no
prazo planejado para a execução dos estudos. Seguimos realizando a pesquisa de campo,
tomando as precauções11.
Na Mapuera, por conta das restrições de deslocamentos, todos sabiam que nossa
alimentação se escasseava, sendo impossível navegar pelo rio visando realizar compras de
suprimentos alimentares na cidade sede. Receber ou enviar encomendas/alimentos, via avião,
estavam proibidas por medidas protetivas da equipe de saúde do DSEI-GUATOC, convocados
a ficar mais dias na aldeia. Com indígenas, trocas e doações foram acionadas: a cada carne de
caça recebida, doávamos sal, açúcar e arroz e assim os intercâmbios tornaram-se constantes.
Isso foi até o final de maio e início de junho de 202012.
Com a instalação da pandemia no Pará e nas regiões próximas a Mapuera, realizamos
palestras, rodas de conversas na escola local sobre a Covid-19, remédios caseiros e a
importância do uso de limão para possibilitar o aumento da imunidade13 das pessoas, via a
vitamina C que o mesmo possui.

10
Durante dias em campo, podemos perceber que o cacique geral da aldeia Mapuera, desde de sua chegada, se
colocou em quarentena, em sua casa, pelo menos dez dias. Quando de nossa saída da Mapuera, perguntamos ao
mesmo: “Quando o senhor vai a Belém cacique? “Ele respondeu “Como fiz aqui, só vou com tudo estiver passado
professô”.
11
No decorre desse contexto, surgem dois casos de malária na Mapuera, causando-nos incômodos, já que em
aldeias próximas já havia ocorrido um surto dessa doença, deixando ainda mais frágil os indígenas dessa região.
12
Para além da troca de alimento com os indígenas, ocorreram esses intercâmbios com a equipe de saúde. Nas
refeições diárias, doávamos arroz e eles complementavam com feijão e carne e vice-versa, tornando possível
nossos almoços e jantares.
13
A ideia em fazer esse debate na escola, se dava pelo limão está em abundancia na aldeia, nesse período, mas
pouco aproveitado, a ponto de perceber eles caídos no chão, até apodrecer. A partir dessa discussão, a adesão ao
uso desse fruto fora visível, mostrando que ações simples como essa, podem fazer efeito, desde que a explicações
e diálogos sejam numa linguagem acessível para compreensão de todos.
56 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Figura 2 – Campanha de incentivo ao consumo do suco de limão na língua Wai Wai.

Enpotopo kuupu tuuna oranci cîîxapu coronavirus Cewne kuupu tuuna oranci yiraconhîrî
kahsira ehtome Mapuera ewto pono. maki
Ewnaxku awahsira ehtome
Karpe apun yehtonr coronavirus awahsira
ehtome

Ahce wa menta on tapota


Eroke yihtînoko
Watzap/facebook yari makî ekatimra esko
Ekatimko ero yehtopo Ahnoro
Ewto pore ahto so na apoyeno komo
yexitaw

Erowimaw pooco, caaca komo


Criação: Petrônio Potiguar
Takî mukurunpes karpanxan komo
Apoio: Grupo de Estudos Indígenas da Amazônia – GEIA-UEPA poritomo komo marha.14
Conselho de Saúde indígena da Aldeia Mapuera

Fonte: Caderno de campo do autor/ março de 2020.

Nesse evento, elaboramos um material que fora demonstrado na escola e na igreja local
e distribuído em grupos de Whatzaap na aldeia que chamava atenção para a importância de
tornar o suco de limão para auxiliar no aumento da imunidade. Além disso, “tomar” o sol pela
manhã, por conta da absorção de vitamina D, dentre outros cuidados eram ações simples e de
fácil adesão, mesmo que a longo prazo.
Após o evento acima, as aulas escolares, por decreto municipal, foram suspensas na
aldeia, fazendo as pessoas se recolherem ainda mais. A partir desse momento a preocupação de
todos era presente, pois a cada espirro e tosse ficávamos em alerta15.
Após anunciados casos de Covid-19 e óbitos, em Belém e Santarém16 e a determinação
da quarentena nesses e outros municípios do Pará, 45 estudantes universitários indígenas que
estudam nessas cidades, manifestaram retornar para Mapuera, instalando uma crise entre
lideranças e a equipe de saúde, aprovando e desaprovando, respectivamente, essa entrada no
local17.

14
Tradução para o português: Com um copo de água e meio limão, você evita a gripe e deixa seu corpo mais
resistente ao coronavirus. Se gostou dessa ideia, tome uma atitude, saia do WhatsApp e facebook e espalhe ela por
toda aldeia que tenha parentes. Assim você pode salvar a vida de um velho (pooco), velha (caaca), jovens
(karpamxan) e adultos (poritomo).
15
Para registro, é bom chamar atenção que Mapuera sofre com constantes quedas de temperatura, ora estava quente,
ora abafado ora frio, causando um desequilíbrio no organismo e alterações no corpo, possibilitando o surgimento
tosses e febres, tornando a imunidade de indígenas e a nossa, ainda mais frágil. Além disso esses sintomas eram
características da Covid-19, o que aumentava nossa insegurança.
16
Todos os dias, menos as terças feira, há uma linha de transporte que sai de Santarém para Oriximiná, deslocando
aproximadamente, de 100 a 200 pessoas em cada viagem, sendo que, 50% desses passageiros tem destino final a
cidade de Oriximiná.
17
Notei que um dos motivadores para o retorno dos indígenas à Mapuera, além da vontade de estar perto da família,
foi o anuncio de doação de cesta básicas pelo governo federal, desde que estivessem nas aldeias. Outra questão,
DOSSIÊ AMAZÔNIA 57

O deslocamento dos indígenas para Mapuera, no ponto de vistas de alguns profissionais


de saúde e indígenas, colocava em risco a população que estava ali, já que além de saírem de
uma área de risco – Belém e Santarém –, não se sabia o estado de saúde desses agentes que
pretendiam se deslocar para essa aldeia. Complementando esse quadro de fragilidade, grande
parte dos indígenas que ali vivem ultrapassam a faixa etária dos 60 anos, chamados ali de
poocos (velhos) e caacas (velhas) e muitos com comorbidades, como diabetes e asma. A crise
se acirrou ainda mais18.
Com a presença do Covid-19 no Pará, ameaçando chegar na aldeia, se apresentava da
seguinte forma para nós: estar na aldeia, possuíamos uma sensação de segurança, mas caso as
vindas de indígenas para Mapuera, seja por medida judicial ou não, se concretizasse, tornaria
nossas preocupações constantes. Por outro lado, seguir para Belém e Santarém, nos
deparávamos com casos da doença e óbitos que aumentavam a cada dia. Estávamos diante do
velho ditado popular: “Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come!”. A verdade é que nos
encontrávamos no meio do “olho do furacão”, o Covid – 19.
Todo esse contexto nos levou a seguinte pergunta: que papel, como antropólogo,
poderíamos desempenhar diante da ameaça do “olho do furacão”, o Covid-19, na Mapuera?
Essa inquietação nos levou a iniciar diálogos com a equipe de saúde, representantes da igreja e
da escola local e as lideranças, considerando que nos encontrávamos frente a vidas e histórias
situadas e não meras estatísticas como se tornara as mortes nos noticiários internacional,
nacional e local. Isso precisava ser olhado com sensibilidade e empatia (WAI WAI
AWPEYASA; WAI WAI KOYON, POTIGUAR JUNIOR, 2019; SEGATA, 2020; ABA,
2020). Foi a partir dessa inquietação que iniciamos, juntos aos indígenas e lideranças nessa
aldeia, a produção de um projeto de isolamento social para Mapuera. Vamos a uma ideia
resumida dele19.

3 ANTECEDENTES DO PROJETO DE ISOLAMENTO SOCIAL, EM MAPUERA,


ENTRE OS INDÍGENAS “WAI WAI”

Com receio da entrada na aldeia do “olho do furacão”, via a inserção de indígenas


oriundos de Belém, Santarém e Óbidos, articulamos uma reunião com o cacique geral, Conselho
de Saúde local, lideranças, responsáveis pela igreja evangélica e pela única escola no local e a
equipe de saúde, para expor perigos e possibilidades de contaminação em Mapuera,
consequente da entrada desses agentes socias na aldeia.
Nas reuniões – no total de duas – presenciamos esclarecimentos da equipe de saúde;
reclamações das lideranças indígenas referente orientações sobre a pandemia; cobranças do
Conselho de Saúde de Mapuera frente a médicos, enfermeiros, Agentes de Saúde Indígena -
AIS e técnicos de enfermagem relativo a ações frente ao Covid-19.

segundo as “fofocas”, era que um dos incentivadores da volta para aldeia, seria uma liderança contrário ao cacique
geral, instaurando uma briga política nesse cenário dentro da aldeia.
18
Após discussões, impedimentos e ações de movimentos contrários a essa entrada de indígenas na Mapuera, no
Ministério Público Estadual, houve autorização dessa inserção, desde que eles cumprissem uma semana de
quarentena em Oriximiná e, após esse contexto, se deslocassem para Mapuera.
19
Nesse processo sempre estávamos em contato com a orientadora e numa dessas conversas, que nos colocava a
par de toda a situação em Belém. No início, ela mencionava que o Covid-19 já estava “em todos os cantos” e que,
supostamente estaríamos mais protegidos na aldeia. Ainda mais, a necessidade de ficar em campo pela dificuldade
que teríamos em retornar, no futuro, já que a pandemia poderia durar muito tempo o que, de fato, alteraria todos
os calendários de pesquisa. As atividades em universidades, museus; voos domésticos pelo estado do Pará, também
foram cancelados a época. Estávamos “preso” ao campo e o campo a nós. A saída e permanecer na aldeia até
passar o período crítico da pandemia, segundo a orientadora do autor desse relato, seria o caminho a seguir. E
assim fora feito!
58 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Decisões foram tomadas, como a obrigatoriedade de a equipe de saúde atender os


indígenas com máscara e o esboço do projeto de isolamento social, a partir da primeira reunião;
um controle das lideranças diante da entrada de indígenas no local, na segunda reunião. Muitas
questões ventiladas, mas, em nossa avaliação, poucas soluções tomadas20.
Na reunião, por duas vezes, pedimos a palavra para explicar algumas questões que
tratasse da contaminação pelo Covid-19 até a internação em hospitais. Deixamos claro que, em
caso de contaminação no local, a aldeia não possuía estrutura para esse tipo de demanda e que
providencias deveriam ser tomadas, urgentemente, como o isolamento dos recém-chegados em
Mapuera.
Após esclarecimentos, tínhamos inquietações sobre possibilidades da vinda de
indígenas para aldeia e a percepção de que algo deveria ser feito de forma rápida e concreta21.
As preocupações se fortaleceram quando, no dia seguinte a primeira reunião, perguntamos para
um componente da equipe de saúde sobre esse primeiro encontro, a resposta fora desanimadora:
“A impressão que tenho, é que estamos nadando contra a maré. Agora vou deixar as coisas
acontecerem.”22.
A partir da resposta dada, levamos três dias ininterruptos pensando em um projeto que
tratasse da recepção aos indígenas que para essa aldeia se dirigissem em pleno pique de
contaminação da Covid-19. Começamos a alinhavar um projeto de “Isolamento Social na
Aldeia Mapuera” pautado nas experiências no local e nas condições que ali se apresentavam.
Para tal, pedimos informações e discutimos com o cacique geral, Conselho de Saúde,
lideranças, responsáveis pela escola e igreja evangélica local e a equipe de saúde.
Constantemente, essa última era consultada para checar dados e assim ser inserido no processo
de execução do mesmo.
Assim o projeto de isolamento social, revelou sua face particularizada e interdisciplinar,
mostrando que ações dessa natureza e com povos indígenas, necessitam se pautar nesse perfil,
isto é, em um processo dialogal, para que, de fato, tais inciativas sejam elaboradas e
concretizadas tanto na teoria como na prática, considerando especificidades ali existentes.
(BUCHELLET, 1989; LANGDON; GARNELO, 2004; SEGATA, 2020).

4 UMA EXPERIÊNCIA FRENTE AO “OLHO DO FURACÃO”, O COVID-19:


O RESUMO DO PROJETO

Com uma equipe formada por indígenas e não indígenas, a proposta surgiu a partir da
experiência de seus componentes, seja morando, trabalhando ou pesquisando na aldeia
Mapuera. O propósito foi a orientação sobre o Covid-19 e a contextualização da prática do
isolamento social temporário dos indígenas recém-chegados no local.
Para equipe reunida, era clara as dificuldades de se materializar o distanciamento social
entre indígenas, em Mapuera, pela estrutura predial de suas casas, com um único

20
Até esse momento, março e abril 2020, percebemos poucas ações do Distrito Sanitário Guamá-Tocantins-DSEI
GUATOC, seja para a proteção da equipe de saúde e dos indígenas do local. Elas somente se fazem presente, pelos
idos de maio e junho deste ano.
21
Ao todo, ocorreram duas reuniões com a equipe de saúde e lideranças em Mapuera, cujo o tema era a Covid-19.
Uma participamos e outra não. Mas redigimos as atas das duas reuniões – a última com base nas anotações de
algumas lideranças - o que nos forneceu segurança para algumas afirmações aqui colocadas.
22
Dentre outras questões, o que incomodava os profissionais de saúde, era a falta de ação das lideranças no local,
apesar da preocupação de algumas. A principal inquietação desses profissionais era o não cancelamento dos cultos
na aldeia, um espaço de aglomeração de pessoas e potencial transmissor de qualquer doença, como o Covid-19.
Além disso, era notório, na maioria dos indígenas, em Mapuera, o apoio a vinda dos estudantes que estavam na
cidade de Belém, Santarém e Óbidos, e que para médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem não indígena,
era uma irresponsabilidade. Por outro lado, esse retorno dos alunos-indígenas, aliviava a saudade e as preocupações
de pais e avôs desses agentes sociais, em Mapuera. Daí o desanimo revelado no profissional de saúde.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 59

compartimento, inviabilizando qualquer tipo de isolamento que siga os protocolos do


Ministério da Saúde - MS. Isso levou o grupo a pensar em alternativas que se apresentassem
nesse local para possibilitar esse isolamento, exclusivamente para os que na aldeia chegavam23.
Apostamos no voluntariado dos indígenas no momento da chegada em Mapuera, a partir
das orientações dada pela equipe de saúde às lideranças e fiscais na aldeia. A intenção era somar
esforços para que esse isolamento ocorresse, pelos motivos aqui elencados. O papel das
lideranças, fiscais, professores, pastores da igreja evangélica e de familiares, possuía
importância crucial nesse momento, já que eles é quem tinham contato direto com os indígenas
desejosos em retornar para esse local.
O projeto buscou aproveitar espaços já existente na localidade, bem como, otimizar
esses lugares para promover os cuidados e prevenção por meio da quarentena/isolamento social
frente a ameaça de Covid-19, a custo zero24.
Fora cogitada, parcerias com o DSEI/GUATOC, através das ações de médicos
enfermeiros e agentes de saúde que já desenvolvem atividades no Posto Indígena de Saúde –
PIS, em Mapuera. Eles tão somente acresceriam em suas rotinas, as visitas aos locais de
isolamento para monitoramento da pressão, oxigenação e temperatura.
A Secretaria Municipal de Educação de Oriximiná – SEMED, seria a parceira no
fornecimento materiais de limpeza e alimentos, por intermédio do envio de merenda escolar25
a quem, por ventura, ficasse em quarentena na escola e outros espaços na comunidade
cumprindo isolamento. A doação de cesta básica pelo governo federal, foi outra alternativa
pensada para alimentação aos que nesses espaços se isolassem.
Outro objetivo, foi oferecer proteção e prevenção à população indígena local, em caso
de necessidade de um isolamento social/quarentena forçada, aos que para essa aldeia se dirigem.
Visava prevenir e acolher os indígenas idosos com suspeitas de gripe sintomática, diabetes,
pressão alta etc. frágeis ao Covid-19 26 , evitando assim, a disseminação e o alarmismo na
Mapuera, bem como, a perda de parte da história do lugar que se faz presente em suas memórias.
A primeira possibilidade de recepção dos indígenas recém-chegados, foi a Escola de
Ensino Fundamental Wai Wai que estava com suas atividades suspensas por decreto municipal
e estadual. O espaço se apresentava conforme as figuras abaixo:

23
Esclarecemos que a recepção de indígenas que se deslocaram para Mapuera no período do “olho do furacão” o
Covid-19, todos, por recomendação do Ministério Público Estadual, cumpriram uma “quarentena” de uma semana
na cidade de Oriximiná para, em seguida, se deslocarem para Mapuera, segundo a informação do Responsável
Técnico - RT pela Casa de Saúde Indígena CASAI de Oriximiná. Daí a necessidade de mais uma semana de
isolamento na aldeia, para complementar esse ciclo. Pelo menos era essa a ideia central do projeto.
24
O custo zero considerava que os locais - escola, “Casa dos Professores” e dois alojamentos da Igreja evangélica,
em sua maioria, estavam estruturados. Além disso, a parceria com a prefeitura municipal e outros pormenores
ligados a ela, facilitavam o acesso a alimentos e materiais necessários para a manutenção e limpeza desses locais.
Isso ficará mais claro nos parágrafos seguintes.
25
É bom lembrar que a merenda escolar, por lei, já tinha sido prevista no orçamento anual das secretarias de
educação para as escolas dessa região, dentre elas, as que compõe as áreas indígenas. Desse modo, mesmo com a
suspensão das aulas, essa merenda, por lei, deveria ser oferecida para auxiliar familiares em tempos de pandemia,
revelando ônus zero para Secretaria Municipal de Educação de Oriximiná, na elaboração e execução do projeto de
isolamento já que, absolutamente nada, seria acrescido em seu orçamento anual. Isso era válido para possível
necessidade de ações de seus funcionários que, exerciam a função como cozinheiro e serviços gerais, poderiam
prestar serviços no período da quarentena.
26
Havia o entendimento que, isolando os recém chegados, além de protege-los, protegia também os indígenas
inseridos no grupo de riscos: idoso, diabéticos etc.
60 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Figura 3 - Escola Indígena Wai Wai. (Parte frontal)

Fonte: Do autor/abril de 2020

Figura 4 - Escola Indígena Wai Wai. (copa cozinha)

Fonte: Do autor/abril de 2020

Com 10 salas, o prédio poderia ser isolado e as salas compartimentadas, por divisórias
de madeiras, transformando-os em 2 espaços em cada sala. Com essa estratégia, a escola
acomodaria, num todo, 20 pessoas. Além disso, esse espaço possui uma cozinha que continha
DOSSIÊ AMAZÔNIA 61

pratos, colheres, panelas, fogão e gás, além de uma estrutura para atar rede nas salas. Possuía
moveis comuns como cadeiras e mesas que poderiam ser usados como suporte para todo
apetrecho que os ocupantes deste espaço possuíssem. O local continha luz, água, banheiro, um
freezer horizontal e wi-fi, o que impediria o isolamento total dos indígenas que para esse espaço
fossem encaminhados, em especial, os mais jovens27.
Em caso de isolamento, a pessoa ficaria por 10 dias nos locais, com visitas programadas
de parentes objetivando o fornecimento de alimentos (café, almoço e jantar). Após isso, se
programariam visitas da equipe de saúde em três períodos: pela manhã, pela tarde e uma pela
noite, visando o monitoramento dos indígenas como pressão, oxigenação e temperatura.
Outro local escolhido para servir de isolamento, fora a “Casa dos professores” que sem
uso, nesse momento da pandemia, abrigaria 3 indígenas, adotando as mesmas estratégias usadas
na escola local.

Figura 5 - Área frontal da “Casa dos Professores”

Fonte: Do autor/abril 2020.

27
Destacamos que em julho de 2018, quando em campo, fora instalada a rede de Wi-fi na Mapuera, um dos pontos
principais de sua transmissão, estava a escola aqui mencionada e a residência do cacique geral no centro dessa
aldeia, próximo “Casa dos professores”.
62 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Figura 6 - Cozinha da “Casa dos Professores”

Fonte: Do autor/abril 2020.

“A casa do Professor” possui três quartos (figura 5), uma cozinha (figura 6), uma sala,
um banheiro e acesso à internet, fornecida pela proximidade da casa do cacique geral. Há uma
caixa d’água que serviria de apoio, com fornecimento de água. O procedimento de visitas iria
se realizar da mesma maneira a adotada na escola Wai Wai, seja da família e profissionais da
saúde.
Outros espaços pensados para recepção/isolamento dos indígenas que se dirigissem a
Mapuera, foram dois alojamentos construído por conta do VIII Congresso Nacional das
Lideranças Indígenas Evangélicas – VIII CONPLEI, em 2018, ao lado da igreja evangélica.

Figuras 7 e 8 - Alojamento próximo a igreja evangélica na Mapuera.

Fonte: Do autor/abril de 2020.


DOSSIÊ AMAZÔNIA 63

Sem uso, esses locais como demonstram nas figuras 7 e 8, foram alternativas para o
isolamento pretendido. Os mesmos exigiriam reparos urgentes por não possuírem água
encanada. Isso seria providenciado pelos Agente Indígenas de Saneamento – AISAN 28 ,
conforme acordado em reunião29.
As alternativas se apresentavam como forma de amenizar e tranquilizar os indígenas da
aldeia e, ao mesmo tempo monitorar, os “parentes” oriundos de vários lugares com direção à
Mapuera, evitando o surgimento e prevenção do Covid-19 e preservando a saúde mental e física
do que ali vivem, mesmo que opiniões diversas sobre esse contexto existissem no local.
Nos lugares destinados ao isolamento dos indígenas, seriam tão somente permitidas
visitas de familiares da forma que não expusessem esses visitantes, numa evidencia que o
isolamento não requer aproximação física de familiares, amigos, irmãos etc. Elas se dariam da
seguinte forma: 8:00-9:00 (Café); 12:00-13:00 (Almoço) e 19:00-20:00 (Janta) e seguindo
todos os protocolos organizado pela equipe de saúde, em especial, o distanciamento.
As visitas dos profissionais de saúde se dariam para monitoramento de forma que as
orientações médicas seriam realizadas por enfermeiros e AIS’s. Isso se daria, considerando que
as demandas cotidianas desses profissionais no PSI não seriam comprometidas. Nessa
estratégia adotada, não alterava a rotina deles, já que o horários de visitação e monitoramento
da equipe de saúde, sempre se dariam às 9:00-10:00; 15:00-16:00 e 18:00-19:00 hs, isto é, o
momento de menos pico de atendimento no PIS e o revezamento entre eles, era viável, segundo
fora planejado.30
Nesse projeto de isolamento, pensou-se em um mínimo de estrutura, que não alterasse
e onerasse qualquer uma das secretarias envolvidas nesse processo, sejam de saúde ou
educação, mas aproveitasse seus funcionários e serviços, sem desregular sua base salarial. Na
escola, os funcionários com funções de cozinheiros, copeiros e vigias, seriam aproveitados,
segundo negociações com a SEMED/Oriximiná, para que pudessem realizar seus serviços nesse
espaço. Para isso seriam providenciados os devidos cuidados com sua segurança e saúde como
o uso de máscaras, álcool em gel e distanciamento, foram pensados.
Já o DSEI –GUATOC como parceiro, entraria com a seguinte estrutura de pessoal: 01
médico; 01 enfermeira; 04 Agente de Saúde Indígena. Além disso, o da Secretaria Municipal
de Saúde – SEMSA, seria acionado para a doação de materiais necessário para esse contexto
visando a proteção dos profissionais de saúde e dos indígenas isolados.
Para garantir o processo de limpeza, atendimento, pensou-se em um mínimo de estrutura
de higiene. Para isso a parceria com a SEMED e a SEMSA, visava manter o local limpo e em
segurança no contexto do atendimento/monitoramento diário. Assim, a estrutura material foi
desenhada: Máscaras de proteção (200); Álcool Gel (60 litros); desinfetante Kboa (60 litros);
detergentes (60 litros); vassouras (04); rodos (04); luvas de proteção (20 pares); escapulas para
armar redes (30). Isso visava atender os momentos emergenciais desse isolamento.
De todo modo, o cuidado e a prevenção, foram caminhos para que, mesmo estando em
uma curva crescente da pandemia, necessário se fez ter prevenções, evitando aproximação,
contaminação e disseminação pelo “olho do furacão”, o Covid-19, na aldeia Mapuera, onde se

28
Alertamos que qualquer atividade de caráter emergencial, a mesma é acionada por meio de reunião com
lideranças, que convoca indígenas para a busca de madeira na mata ou de qualquer material para construção de
abrigos etc, o chamado mutirão. Percebemos que em pouco tempo, com esses mutirões, eles conseguem construir
determinados espaços e realizar diversas atividades, em tempo recorde.
29
A cisterna de fornecimento de água em Mapuera, está instalada a uns vinte metros desses alojamentos, o que
facilitava reparos e instalações urgentes referente ao fornecimento de água. Relativo a energia, essa seria uma
extensão da igreja evangélica, já que ela estava localizada ao lado desses alojamentos.
30
As visitas de familiares e da equipe de saúde para realização de monitoramento, foram pensadas de forma
diferente, para evitar acumular pessoas no local. Por isso o tempo uma hora para visita da família depois a entrada
da equipe de saúde, tornando-se forma mais adequada para esse contexto.
64 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

centrou essa proposição ora apresentada. Caso progredisse a pandemia e o isolamento, novas
formas estruturais deveriam ser pensadas junto aos parceiros e as equipes aqui mencionados,
pois a saída do autor da Mapuera e desse relato de experiência, seria iminente, como de fato
ocorreu.

5 CHEGANDO AO FIM: O QUE OCORRERA APÓS A PRODUÇÃO DO PROJETO


DE ISOLAMENTO SOCIAL?

O projeto “Isolamento Social na aldeia Mapuera” foi entregue ao cacique geral e a


equipe de saúde. Dias depois, barulhos de motores de lanchas e canoas, pela noite, madrugada
e durante o dia, foram ouvidos, anunciando a chegada de indígenas no local em final de abril e
início de maio de 2020. O quantitativo deles – os recém chegados – perfaziam um total de,
aproximadamente, 45 (quarenta e cinco).
Estarmos diante de 45 indígenas oriundos de vários lugares onde o Covid-19 estava em
pleno pico, nos assustou e tirou a concentração para a realização de pesquisa. Decidimos nos
isolar em casa escrevendo relatos e materiais para a tese. Assim teríamos menos exposição e
riscos, mas sempre atentos ao uso ou não do projeto de isolamento social.
Os indígenas, de forma geral, estavam divididos em suas opiniões sobre essa chegada e
posterior isolamento, uns preocupados outros não. O uso de máscaras e procedimentos
necessários para evitar a contaminação, ainda não era percebido em Mapuera, até mesmo
porque, em todo o Brasil, os protocolos e cuidados necessários com uso de álcool em gel e
máscaras, ainda eram tateante no país, e muito incipiente nos lugares distantes nesse período
inicial da Covid-19, pelas incertezas que esse vírus e essa doença traziam.
Quinze dias se passaram e era notável a circulação dos recém-chegados na aldeia. O
tamanho de nossa preocupação era a dimensão da despreocupação de alguns indígenas frente
ao Covid-19. Isso se dava pela quarentena que eles tinham passado na cidade de Oriximiná e a
fé em Deus: “Nós aqui, tamo protegido dessa doença. Se morre, agradece pro estar perto de
Jesus. Se viver agradece por permanecer vivo. Mas a aldeia tá protegida”.
E o projeto de isolamento social? A crença de que nenhum dos indígenas chegados na
aldeia, não eram potenciais transmissores do Covid-19, era maior nas lideranças e no cacicado
do que em nós. Até esse momento, o projeto não fora executado. O desejo era que realmente ele
não fosse usado, pois não sendo utilizado e, parecendo contraditório, ele estaria dando certo,
pois apontaria que nenhum infectado teria adentrado em Mapuera.
Informamos aqui que os protocolos sugeridos pelos Ministério da Saúde e OMS, sob a
ótica técnica, faltou ser mais detalhados, já que a ideia inicial era uma “proposta” emergencial,
o que suscitava adequações futuras. Mesmo assim e da forma como fora finalizada, o projeto
atendia as necessidades urgentes que o contexto pedia. A partir desse momento, percebemos
que era hora de sair de campo junto a equipe de saúde, cuja a troca iria ser feita em meados de
junho de 2020.
É necessário esclarecer que o projeto de isolamento social foi compartilhado com DSEI
GUATOC e, segundo informes posteriores, soubemos que o mesmo não iria aderir a tal
proposição, não se sabe por que motivos. Mas um mês depois do retorno para Belém, na
primeira quinzena de junho, esse DSEI, lançou um projeto de proteção aos indígenas e
profissionais da saúde que atuam nessa aldeia frente ao Covid-19 e nele percebi que linhas do
mesmo possuía “semelhanças” do que foi aqui apresentada.
Não importa que motivos da não adesão ao projeto aqui apresentado pelo DSEI-
GUATOC, mas sim compreender que ele fora feito sob várias mãos e pensando na
particularidade do local. Além disso, saber que a proposição aqui apresentada, serviu de
inspiração a projetos institucionais do governo federal, nos deixou confortável, por ver que as
ideias do cacique geral da aldeia, do Conselho de Saúde local, da equipe de Saúde da Mapuera,
DOSSIÊ AMAZÔNIA 65

do diretor da Escola Wai Wai e professores, do representante da igreja evangélica e do autor


desse relato experiência, auxiliaram o DSEI-GUATOC na construção de políticas públicas em
um momento tão difícil, no enfrentamento do “olho do furação, a Covid-19, nesse local.
Essa experiência revelou, a necessidade de um debate múltiplo para enfrentar o Covid-
19 e que os antropólogos e a antropologia, dentre outras áreas do conhecimento, sozinhas, não
materializam projetos dessa natureza se não for dialogal, interdisciplinar e partilhado com os
principais envolvidos nesses contextos, os povos indígenas na Amazônia. (BUCHILLET, 1989;
WAI WAI AWPEYASA; WAI WAI KOYON; POTIGUAR JUNIOR, 2019).
Ainda mais, compreendemos que a experiência, respondeu a principal questão que nós
fazíamos durante a pesquisa de campo relativo ao papel do antropólogo num contexto
pandêmico. Não só respondeu como impulsionou a proposição desse projeto de isolamento
social na certeza de a empatia, o respeito às diferenças, são bases para experiências como essa
e acreditando que o “olho do furacão”, o Covid-19, não se trata de apenas de “uma gripezinha”,
mas sim de um vírus letal que se não for enfrentado com responsabilidade e empatia, tornar-se-
á – se é que já não se tornou – arma principal para um genocídio e etnocídio que assola/assolará
os povos indígenas, cuja vulnerabilidade é clara e latente.
Para esclarecimentos finais, em 30 de junho de 2020, a cidade sede da Mapuera,
Oriximiná, registrava 10 casos suspeitos, 1.712, casos confirmados, 28 óbitos, 29 internados,
1.732 em isolamento. Mas 1.709 casos descartados, 1.399 curados. Nenhum caso dentro da
aldeia Mapuera31.
Hoje, 15 de abril de 2021, momento de fechamento desse texto, a cidade de Oriximiná
conta com 8.142 mil casos, 5.633 descartados; 25 internados, 7.252 recuperados, 1.309 em
isolamento e 153 óbitos32.
O que chama atenção é que, em menos de um ano, a cidade sede da Mapuera, Oriximiná,
teve um aumento de aproximadamente 400% de casos confirmados e aproximadamente 500%
de óbitos. Por outro lado, em Mapuera, temos notícias de 3 óbitos, e alguns casos de Covid-19,
embrionários.
Os dados de Oriximiná, como município, estão postados no site oficial dessa prefeitura,
não especificando as populações indígenas. Além disso, está em curso o processo de vacinação
que tem no município 5.618 de vacinas aplicadas, sem especificar os indígenas. Em Mapuera,
onde a vacina também está em curso, surgem problemas graves de negacionismos, fruto de fake
news espalhadas entre eles, via Facebook e WhatsApp - e que causa preocupação constante nas
lideranças nesse local, mas isso, são objetos para análises e produções posteriores.
Por fim, acreditamos que tudo isso vai passar!

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32
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(MTPA) e temas afim. Organização Rosineide da Silva Bentes. Serie Vidas. Editora CRV.
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DOSSIÊ AMAZÔNIA 67

UMA EXPERIÊNCIA EM SAÚDE, LÍNGUA E HUMANIZAÇÃO NO CONTATO


ENTRE MÉDICOS CUBANOS E PACIENTES BRASILEIROS NA AMAZÔNIA
PARAENSE

Danielle Pinto Silva1


Tabita Fernandes da Silva2

RESUMO

Este artigo traz o recorte de um estudo mais amplo da dissertação intitulada “Médicos cubanos e
comunidade bragantina: notas sobre o contato linguístico espanhol/português em terras brasileiras” que
teve como objetivo apresentar alguns aspectos da situação do contato linguístico que se estabeleceu
entre médicos cubanos e parte da comunidade bragantina no âmbito do Programa Mais Médicos, nos
anos de 2015 a 2017, no município de Bragança-PA. Neste recorte, apresentamos algumas questões de
natureza linguística que emergiram desse contato linguístico nas práticas de saúde entre os médicos
cubanos e pacientes bragantinos, em que ambos estavam interessados em entender e se fazerem
entendidos em seus relatos verbais. Dessa forma, a pesquisa consistiu em analisar os impasses impostos
pelas diferenças linguísticas dos dois grupos bem como sobre as estratégias desenvolvidas, por ambos,
para atingirem os propósitos prioritários das consultas médicas no contexto em que se encontravam.
Assim, os resultados evidenciaram que o esforço mútuo e a cooperação na aceitação das estratégias e
esforços de tradução propostos no contexto garantiram o sucesso das interpretações dos sintomas da
enfermidade e de seus diagnósticos, culminado em uma experiência integrativa entre saúde, língua e
humanização na Amazônia paraense. O caminho metodológico da pesquisa constituiu-se em uma
abordagem hermenêutica e, para isso, foram realizadas entrevistas, aplicação de questionários e
observações, bem como foram adotados princípios teóricos das áreas Línguas em Contato Weinreich
(1953) e Thomason (2001), da Sociolinguística Labov (2008) e Calvet (2004), Bortoni- Ricardo (2005)
e da Tradução cultural Jakobson (1995).

Palavras-chave: Médicos cubanos. Pacientes bragantinos. Amazônia paraense. Contato linguístico.


Humanização.

AN EXPERIENCE IN HEALTH, LANGUAGE AND HUMANIZATION IN THE


CONTACT BETWEEN CUBAN PHYSICIANS AND BRAZILIAN PATIENTS IN
THE PARAENSE AMAZON

ABSTRACT

This article presents an excerpt from a broader study of the dissertation entitled “Cuban Doctors and the
Bragantine Community: Notes on Spanish / Portuguese Linguistic Contact in Brazilian Lands” which
aimed to present some aspects of the situation of linguistic contact that was established between Cuban
doctors and part of the bragantine community within the scope of the Mais Médicos Program, from 2015
to 2017, in the municipality of Bragança-PA. In this section, we present some linguistic issues that
emerged from this linguistic contact in health practices between Cuban doctors and Bragantine patients,
in which both were interested in understanding and making themselves understood in their verbal
reports. Thus, the research consisted of analyzing the impasses imposed by the linguistic differences of
the two groups as well as on the strategies developed, by both, to achieve the priority purposes of medical
consultations in the context in which they found themselves. Thus, the results showed that the mutual
effort and cooperation in accepting the strategies and translation efforts proposed in the context
guaranteed the success of the interpretations of the symptoms of the disease and their diagnoses,
culminating in an integrative experience between health, language and humanization in the Amazon.

1
Graduada em Letras e Pedagogia. Mestra em Linguagens e Saberes na Amazônia. E-mail: [email protected]
2
Discente na Universidade Federal do Pará. Mestra em Linguística – UFPA (2000). Doutora em Linguística –
UnB (2010). E-mail: [email protected].
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from Pará. The methodological path of the research consisted of a hermeneutic approach and, for this,
interviews, questionnaires and observations were carried out, as well as theoretical principles from the
Languages in Contact Weinreich (1953) and Thomason (2001), from Sociolinguistics Labov (2008) and
Calvet (2004), Bortoni- Ricardo (2005) and the Cultural Translation Jakobson (1995).

Keywords: Cuban doctors. Bragantine patients. Paraense Amazon. Linguistic contact. Humanization.

Data de submissão: 20. 04. 2021


Data de aprovação: 02. 05. 2021

INTRODUÇÃO

Este trabalho constitui-se em uma breve reflexão sobre a estreita relação entre
linguagem e saúde nas práticas de interação entre os médicos cubanos e a comunidade
bragantina, na Amazônia paraense por ocasião da implantação e execução do Programa Mais
Médicos (PMM), no município de Bragança-PA.
O PMM foi organizado e implantado em 08 de julho de 2013, durante o governo de
Dilma Rousseff, por intermédio da Medida Provisória nº 621. Esta foi, em 22 de outubro do
mesmo ano, convertida na Lei nº 12.871 (BRASIL, 2013), com a finalidade de alcançar as ações
de aperfeiçoamento na área de Atenção Básica em Saúde em regiões prioritárias para o SUS3.
Segundo o Ministério da Saúde (2015), o problema da “falta de médicos” foi definido como
prioridade e o governo federal estudava desde 2011 modos de tentar enfrentá-lo.
Uma das principais parcerias do governo federal foi com o governo de Cuba. Ambos os
países estabeleceram acordos políticos e econômicos, desde o ano de 2013, a fim de interiorizar
políticas de saúde em várias regiões brasileiras como alternativas à defasagem de médicos,
apontada como o maior problema do SUS (IPEA, 2013), bem como para garantir atendimento
público à sociedade local.
A experiência da presença de médicos cubanos ao Brasil em um município da Amazônia
paraense, Bragança, criou uma oportunidade profícua para se refletir sobre a relação entre
saúde, língua e humanização em contextos de saúde em que a situação de contato entre línguas
diferentes e variedades de uma mesma língua era bastante evidente.
Neste contexto, o presente artigo privilegia um dos pontos de análise da dissertação de
mestrado “Médicos cubanos e comunidade bragantina: notas sobre o contato linguístico
espanhol/português em terras brasileiras” (SILVA, 2018). O foco da pesquisa maior foi a
situação de contato entre duas línguas que compartilhavam um espaço social comum, o da
saúde, e como se dava a relação desses sujeitos com as línguas diferentes em uma situação cuja
necessidade de interagir verbalmente era imperiosa e necessária.
O aspecto do estudo das línguas em contato aqui abordado centra-se no reconhecimento
de que os contextos de contato entre línguas criam situações que incidem fortemente na
qualidade e no sucesso das interações verbais, geram interferências de uma língua sobre outra
e até ocasionam mudanças linguísticas. Entendemos que os contextos de contato linguístico
devem ser considerados e reconhecidos a fim de que, a partir da identificação dos impasses de
comunicação neles gerados, possam ser dirimidos e, até, solucionados quando possível.
Por meio da observação do contexto de atuação dos profissionais de saúde cubanos no
PMM, houve a possibilidade de investigar a interação entre o português e o espanhol, a mescla
de culturas e identidades capazes de interagir e fazer emergir novos modos de comunicação
entre os grupos sociais envolvidos e a importância da interação verbal na área da saúde, pois é
um campo que deve ser fundado na conversa, na anamnese, na interação entre pessoas, de

3
SUS: Sistema Único de Saúde
DOSSIÊ AMAZÔNIA 69

maneira a possibilitar uma partilha de saberes e um entendimento mútuo entre os grupos


envolvidos.
A decisão por discutir, conforme já mencionado, apenas, alguns impasses, estratégias
e soluções encontrados pelos dois grupos envolvidos – médicos cubanos e pacientes
bragantinos – para o sucesso da interação na prática médica, bem como uma reflexão
desenvolvida a partir do olhar do pesquisador, levanta a necessidade de se olhar para a relação
entre médicos cubanos e comunidade bragantina com o propósito não só de compreender os
entrelaçamentos desses saberes e fazeres em suas culturas e línguas, mas de entender a
experiência da atuação de humanização dos médicos cubanos na Amazônia Paraense.
A esse respeito, algumas questões foram levantadas na pesquisa: a) quais as principais
dificuldades/impasses em relação à língua portuguesa enfrentadas pelos médicos e pacientes?
Como os médicos resolvem o impasse de serem falantes do espanhol em país cuja língua oficial
é o português? b) Que impasses surgem nas interações mediadas pelo uso de línguas e
variedades distintas da mesma língua? c) Como o fator variação linguística se impõe como uma
questão fundamental em contextos de contato linguístico? d) Que estratégias os médicos e
pacientes utilizaram para resolver seus impasses nas dúvidas linguísticas que surgiram?
Tais questões orientaram a pesquisa e direcionaram o trabalho para cinco eixos:
primeiro, trazer à luz os princípios fundamentais do contato linguístico e os fundamentos da
variação linguística; segundo, perceber quais estratégicas e táticas foram adotadas pelos dois
grupos para que a comunicação fosse eficaz entre eles; terceiro, observar alguns contrastes
linguísticos em cada uma das línguas estudadas, buscando suas inter-relações; em quarto lugar,
registrar as 47 conversas dos médicos cubanos e dos pacientes bragantinos a fim de reunir os
dados necessários que atestassem os comportamentos linguísticos desses dois grupos para
realização da etapa final de análise.
Os caminhos metodológicos da pesquisa desenvolveram-se sobre o eixo da abordagem
hermenêutica de cunho qualitativo (GADAMER, 1998), considerando, para a experiência, a
importância da linguagem como meio de comunicação e objeto da compreensão.
As pesquisas ocorreram a partir de meados de 2017, estendendo-se a todo o ano de 2018.
Foi desenvolvida, exclusivamente, nas comunidades bragantinas do Cacoal, do Treme e nos
bairros de Vila Nova, Perpétuo Socorro e Bacuriteua, localizados na periferia da cidade e, em
alguns momentos, nas residências de alguns médicos cubanos e na Secretaria Municipal de
Saúde do município.
Contamos com a participação de 13 (treze) indivíduos, todos residentes no município
de Bragança – 05 médicos cooperados cubanos; 05 bragantinos/pacientes e 03 agentes/técnicos
responsáveis pelas unidades de saúde no município.
A coleta de dados obedeceu a procedimentos básicos como a utilização de questionários
com perguntas elaboradas previamente para os médicos cubanos, entrevistas com os
colaboradores bragantinos e anotações de campo registradas por escrito. Tais anotações de
campo com as conversas informais foram extremamente importantes para a pesquisa em razão
das impossibilidades de gravações, filmagens e registros fotográficos. Na pesquisa direta com
os médicos não foi permitido o uso de gravadores e de máquinas fotográficas em virtude do
contrato de trabalho estabelecido entre eles e Cuba, sendo, assim, autorizados apenas os
questionários que seriam respondidos por eles em momentos oportunos.
Para que o estudo se encaminhasse e atingisse os objetivos e as coletas de dados
realizadas, houve uma série de negociações com os médicos cooperados cubanos, bem como
autorização da coordenação do PMM em Bragança e do coordenador geral do Programa no
Pará. As restrições surgidas em torno da pesquisa de campo foram consideradas e respeitadas.
As técnicas de nossa pesquisa buscaram ajustes em virtude de algumas restrições por
parte do público entrevistado associando-se, dessa forma, ao que Marconi e Lakatos (2003, p.
33) afirmam: “tanto os métodos quanto as técnicas devem adequar-se ao problema a ser
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estudado, às hipóteses levantadas que se queira confirmar, e ao tipo de informantes com que se
vai entrar em contato”.
As dificuldades linguísticas constituíram uma das principais dificuldades enfrentadas
por médicos cubanos e pacientes bragantinos, acentuadas pela questão da variação linguística,
visto que ambos colocaram-se em contato com estruturas e regras linguísticas de outra língua e
com indivíduos que traziam consigo suas bagagens culturais, étnicas, suas representações de
mundo e do outro, implicadas na língua além de uma variedade linguística característica da
Amazônia paraense.
A partir de esforços de compartilhamento e interação, Silva (2018) pôde observar
algumas das atividades tradutórias que possibilitaram o diálogo entre as duas culturas e uma
ressignificação de signos tradicionais, tanto da área médica quanto da dos saberes populares. O
recurso de formas espontâneas de tradução tornou-se, então, fundamental, vindo a se tornar,
assim, a própria prática de sobrevivência e manutenção da interação entre médicos e pacientes
bragantinos. No exercício e tentativa mútua de tradução linguística, os dois grupos adentraram
no repertório cultural um do outro.

1 A INTERAÇÃO NA PRÁTICA CLÍNICA: MÉDICOS CUBANOS E PACIENTES


BRAGANTINOS

1.1 MÉDICOS CUBANOS NO BRASIL

A falta de assistência médica no Brasil, principalmente nos interiores, nas regiões de


periferia das grandes cidades e em distritos indígenas, fez com que projetos de cooperação
internacional no campo da saúde surgissem como importante meio de fortalecer as diversas
estruturas que fazem parte dos sistemas de saúde do nosso país. O PMM, foi um desses projetos
que ganhou legitimidade em virtude do seu propósito de melhorar a cobertura e a qualidade no
modelo de atendimento na área de Atenção Básica para a população então desassistida do Brasil
(BRASIL, 2015).
Assim, o programa foi considerado uma estratégia do sistema para aproximação entre
população/serviço e preconizava que os profissionais participassem de uma série de atividades
de educação e de integração ensino-serviço, para que desenvolvessem uma atenção à saúde de
qualidade de acordo com as diretrizes da Política Nacional de Atenção Básica (BRASIL, 2011,
art. 6º). Esta, sendo caracterizada:

Por um conjunto de ações de saúde, nos âmbitos individual e coletivo, que abrange a
promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento,
a reabilitação, redução de danos e a manutenção da saúde com o objetivo de
desenvolver uma atenção integral que impacte na situação de saúde das coletividades.

Os médicos cooperados cubanos estão entre o grupo de outros médicos – estrangeiros e


brasileiros – que aderiram ao PMM. A Lei Federal nº 12.871 estabelece a adesão de médicos
brasileiros e estrangeiros ao Programa Mais Médicos. É necessário, não obstante, destacar que
essa participação segue uma ordem prevista no artigo 13, § 1º, incisos I, II e III dessa lei, como
se observa:

[Primeiro, ocupam as vagas, os] [...] médicos formados em instituições de educação


superior brasileira ou com diploma revalidado no País, inclusive os aposentados [...]
[Depois os] [...] médicos brasileiros formados em instituições estrangeiras com
habilitação para exercício da Medicina no exterior [...] [E, finalmente, os] [...] médicos
estrangeiros com habilitação para exercício da Medicina no exterior. (BRASIL, 2013).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 71

Foi nesse processo, é importante frisar, que os médicos cubanos se encaixavam, fazendo
parte, não do todo do PMM, mas sim de um dos espectros de ações do Programa.
A contratação desses profissionais cubanos, entretanto, fez parte de um regime de
acordo diferenciado. Enquanto, venezuelanos, argentinos e espanhóis se inscreveram
voluntariamente no programa, os cubanos atuavam como prestadores de serviço de um pacote
oferecido pelo governo de Cuba ao Ministério da Saúde, sob intermediação da Organização
Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Advindos de Cuba, trouxeram a formação médica desse país. Cuba tem uma saúde
pública de caráter estatal e social com acessibilidade e gratuidade. A formação de seus
profissionais em saúde é voltada para a saúde da família, na qual médicos são clínicos gerais
mas têm conhecimento de pediatria, pequenas cirurgias e até de ginecologia e obstetrícia.
A implantação do PMM e a contratação de médicos cubanos causaram inúmeras
polêmicas em vários setores da sociedade brasileira. Associações médicas, organizações de
classe, políticos de oposição, estudantes de medicina e parte da mídia se posicionaram
antagonicamente, fazendo severas críticas à qualidade dos médicos e às formas de contrato
estabelecidas pelo PMM.
Conforme Silva (2018), o contato, a priori, entre os médicos cooperados cubanos e os
brasileiros ocorreu marcado por conflitos interculturais, expressos por uma acentuada
desconsideração ao médico estrangeiro, baseada na concepção de que este viria ocupar o lugar
do médico brasileiro, o que fez com que inúmeros brasileiros inferissem negativamente à
presença dos médicos cubanos.

1.2. PACIENTES BRAGANTINOS

Dentre os muitos brasileiros que se posicionavam a respeito da contratação e vinda dos


médicos cooperados cubanos, centramo-nos nos indivíduos que precisavam de atendimento
médico, os pacientes, vistos por nós como os sujeitos que teriam maior proximidade com os
médicos, nos espaços de saúde, e que compunham um dos principais lados da interação médico-
paciente.
Os pacientes do PMM no Brasil geralmente eram sujeitos de comunidades mais
vulneráveis ao serviço da assistência médica primária, uma população que mais precisavam do
SUS, a parcela mais pobre e mais afetada pela desigualdade social. Nesse contexto, o PMM
esperava garantir mais médicos e mais saúde para essas populações, especialmente nas regiões
Norte e Nordeste, buscando, assim, interiorizar as políticas de saúde.
De acordo com o Ministério da Saúde, dos 360 mil médicos em atividade no Brasil em
2012, 206 mil trabalhavam na região Sudeste. Pesquisas da Estação de Pesquisas de Sinais de
Mercado da Universidade Federal de Minas Gerais - EPSM (UFMG, 2012) sobre a escassez de
médicos no país mostra que cerca de 1,3 mil dos 5.565 municípios brasileiros possuem um
médico para atender cada 3 mil habitantes.
Do total de cidades, 7% não possuem médicos que morem nesses mesmos locais.
Apenas 4% dos profissionais brasileiros, registrados nos conselhos, estão na região Norte. A
proporção é de 0,9 médico por 1 mil habitantes na região. Segundo o Instituto de Pesquisa
Econômica Aplicada (IPEA), a desigualdade na saúde ocorre porque os equipamentos e a
presença dos profissionais são diferenciados. Essa complexidade é maior pelo fato de termos
um sistema único de saúde especialmente na atuação pública, fazendo com que todo o país seja
atendido embora as regiões mais ricas sejam aquelas que possuem melhores equipamentos e
maior presença de profissionais, enquanto os estados mais pobres não têm o mesmo padrão de
intervenção. É cada vez mais recorrente a recusa de médicos para trabalhar em regiões
longínquas.
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Em virtude de fazerem parte dessa estatística de vulnerabilidade, os cidadãos


bragantinos foram contemplados com o PMM. A pesquisa analisou 05 comunidades, bairros e
vilas na cidade de Bragança-PA cujas populações são amparadas pelo sistema municipal de
saúde, em que o SUS é o único sistema que lhes garante a busca por condições melhores de
vida e saúde.
Em vários momentos da pesquisa de campo revelou-se, por um lado, que com a presença
do médico estrangeiro cubano, os bragantinos/brasileiros se deram conta de que estavam diante
de sujeitos diferentes, cujas diferenças eram notadas, sobretudo, a partir da língua; de outro, o
médico cooperado cubano chegado ao Brasil também entrou em contato com muitas diferenças,
entre elas as diferenças linguísticas, que foram constatadas. O contato com uma nova cultura e
uma nova língua requeria uma estreita relação já que a língua atuaria como instrumento na
integração entre culturas e, por que não dizer entre países, como foi o caso entre Cuba e Brasil
(espanhol/português) na situação a que nos referimos, em um contexto que se pode considerar
dentro da normalidade e “sem conflitos” aparentes.
Não pode haver dúvidas, portanto, com base num regime democrático e no ritmo da
globalização cada vez mais acentuado, que a coexistência pacífica de línguas e
culturas diferentes, num mesmo contexto político, deve ser vista como algo
perfeitamente normal, e possível. (DAMKE, 2008, p. 4).

É comum, diante do estrangeiro, emergir a noção de pertencimento a um grupo e a noção


de que aqueles que não pertencem a esse grupo são, em consequência, diferentes de nós. Tal
sentimento persiste nos seres humanos, ao longo de nossa história, lembrando-nos sempre a
percepção daqueles que são iguais, com os quais se elaboram relações de reciprocidade e
confiança, vínculos solidários, e a percepção dos diferentes, aos quais cabe a desconfiança, o
estranhamento4 e até a repulsa, ainda que por razões aceitáveis.
Nesse sentido, vale a orientação de Christoph Wulf que, em diálogo com Morin
sublinha:

A estranheza diante de si mesmo é uma experiência essencial, pois ela permite abrir-
se às outras culturas, e ao outro. [...] o que é essencial é partir da não compreensão, de
uma situação em que não compreendemos o estranho nem compreendemos a nós
mesmos. (MORIN; WULF, 2003, p. 36-8).

Se, por um lado, a presença do médico cooperado cubano suscitou atitudes de


preconceito, julgamento, avaliação negativa e até rejeição, importa destacar que, para grande
parte dos usuários do PMM, a vinda dos médicos cubanos trouxe tranquilidade e saúde para
pessoas que não tinham a presença tão frequente de médicos em suas comunidades.
Nesse contexto de extrema necessidade, a presença do médico estrangeiro vinha
preencher uma lacuna e, como em todo contexto de contato entre cultura e línguas diferentes, a
prática de linguagem surgiu como um fator determinante nas interações entre pacientes e
médicos. A comunicação precisava acontecer para que os direitos integrais e igualitários de
saúde não fossem ignorados e tivessem sucesso.

1.3 A INTERAÇÃO NA PRÁTICA CLÍNICA

A comunicação na prática clínica é muito mais que informações ou dados da


enfermidade ali apresentados: é uma troca recíproca de benefícios e, inclusive, de sentimentos.

4
Sentimento de desconforto e estranhamento que resultam em uma sensação profunda de não pertencimento
ao seu ambiente de origem. (TEDESCO, 2013)
DOSSIÊ AMAZÔNIA 73

Na consulta médica o paciente e o médico precisam estar em uma forte conexão nas diversas
fases de suas interações, porque expressar ideias e sentimentos implica a necessidade de se fazer
ouvir, de se expressar e de entender.
Nesse contexto, a interação verbal não compreende apenas a interação face a face, mas
tudo que está envolvido no processo de comunicação verbal, inclusive os atos sociais de caráter
não verbal como os gestos e atos simbólicos, que estabelecem relações e significações entre o
verbal e os horizontes sociais de valor, segundo a teoria de Bakhtin (1999, p. 117).
A interação entre os médicos cubanos e os pacientes bragantinos pressupunha, como em
todas as relações humanas, a presença de um contexto, que configuraria os limites e as
possibilidades de cada sujeito.
Tais interações observadas envolvem, de um lado, os médicos cubanos e, de outro, os
pacientes, ambos interessados em entender e se fazerem entendidos nos seus relatos verbais.
Assim, um dos lados quer se fazer entender no relato das doenças, sintomas e dor que lhes
acometem, bem como entender as orientações médicas dadas; o outro quer entender os relatos
dos pacientes e se fazer entendido nos diagnósticos e terapia que quer aplicar.
Assim, estamos diante de atitudes e de representações – como sistemas de interpretação,
que regem nossa relação com o mundo e com os outros, orientando e organizando as condutas
e as comunicações sociais. (JODELET, 2002, p. 5).
Na especialidade da clínica médica, os níveis de expressabilidade e de
compreensibilidade precisam ser bem cuidadosos, pois podem ter efeitos decisivos na vida dos
médicos e dos pacientes: equívocos no diagnóstico e nas formas de tratamento. Sem a mínima
condição de expressão e de compreensão, a vida de um e a carreira de outro poderiam ser
seriamente afetadas.
Nesse particular, em Bragança várias questões emergiram envolvendo o uso da língua
portuguesa nas interações médicas, tanto dos médicos cubanos – falantes de espanhol, mas
usuários do portunhol nas consultas – quanto dos pacientes bragantinos que, por sua vez, usam
uma variedade de português marcada pelo regionalismo da região.
Cada um desses grupos, na pesquisa, apresentam um ponto de vista sobre estas questões
de linguagem presentes nas situações de contato. E foi esse olhar específico o caminho
fundamental para que compreendêssemos o significado da situação linguística estudada.
Por meio da pesquisa de campo com indivíduos dos dois grupos foi possível detectar
alguns pontos de tensão e dificuldade na interação requerida na prática médica. A pesquisa
ressaltou dificuldades características do nosso sistema de saúde bem como encontrou
dificuldades de práticas de linguagem suscitadas no contexto da clínica médica em situações de
contato linguístico: a começar pelas diferenças entre as línguas até as diferenças culturais que
os dois grupos tiveram que enfrentar.
Assim, os impasses de comunicação acabaram se constituindo como dificuldade para os
médicos cooperados do PMM no início do contato pois, apesar de terem uma noção de fala e
escrita do português, foram apresentados às variantes linguísticas da região bragantina dotadas
de características marcantes da região. Os pacientes, por sua vez, também enfrentaram
dificuldades nas questões linguísticas de modo que os dois grupos precisaram fazer acordos que
permitissem o sucesso da interação.
Em se tratando de contextos de saúde, Pimenta e Texeira (1996, p. 473), ressaltam que
“a comunicação da experiência dolorosa pelos doentes aos profissionais de saúde que lhes
atendem é fundamental para a compreensão do quadro álgico, implementação de medidas
analgésicas e avaliação da eficácia terapêutica”. Desse modo, a importância de poder comunicar
a situação de enfermidade é a base para que haja um diagnóstico preciso. E a linguagem verbal
– a que utiliza a palavra – impõe-se como uma ferramenta com elevado nível de importância.
Como as línguas dos dois grupos a que estamos no referindo eram diferentes, a barreira de
expressão e compreensão surgiu.
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Certamente que as demais formas de linguagem também assumem o seu lugar de


relevância conforme este estudo mostra, tanto que para o entendimento, logo de imediato, dos
males que afligiam os pacientes, suas dores e doenças apresentadas, surgiu como necessária a
elaboração de novas linguagens e traduções para sanar a barreira linguística que se apresentava
entre médicos e pacientes naquele contexto em Bragança.

2 CONTATO LÍNGUÍSTICO NA INTERAÇÃO MÉDICO-PACIENTE: IMPASSES E


SOLUÇÕES

O contato linguístico tem sido estudado sob abordagens e enfoques diversos, mas, no
meio dessa diversidade, estudiosos como Weinreich (1953), Labov (1980), Tarallo (1987),
Thomason (2001), Couto (2009) concordam com a ideia geral – excetuem-se as diferenças de
enfoque e abordagem – de que os contatos linguísticos carregam a ideia central de que
indivíduos ou comunidades inteiras entram em contato com línguas distintas ou dialetos
distintos cujos resultados trazem algum tipo de efeito para as línguas envolvidas.
Weinreich (1953), por exemplo, considera o contato de línguas como um aspecto do
contato entre culturas e a interferência exercida por um sistema linguístico sobre o outro, uma
faceta da difusão cultural e da aculturação decorrentes do contato entre comunidades
linguístico-culturais distintas. Dessa forma, para o autor, culturas em contato e,
consequentemente, línguas em contato, terminam por acarretar algum tipo de interferência entre
uma língua e outra.
Para Thomason (2001), os contatos linguísticos se reconhecem em comunidades de
todas as dimensões, desde as pequenas às grandes nações e apresentam consequências sociais
que podem ser favorecedoras e desfavorecedoras, ocasionando ou não interferências de uma
língua sobre outra. Assim, pensar em contato linguístico é ver uma relação entre duas ou mais
línguas e o que dessa comunhão resulta.
As situações de contato linguístico são tão relevantes para a história das línguas que
podem induzir mudanças nas línguas envolvidas. Conforme Thomason (2001, p. 62), “o
contato seria a causa de qualquer mudança linguística” já que, segundo a autora, certas
mudanças teriam menos probabilidade de ocorrer fora de uma situação de contato particular.
De acordo com Calvet (2002), a situação de plurilinguismo experimentada no globo
terrestre revela a inegável situação de contato a que os homens estão expostos.

O plurilinguismo faz com que as línguas estejam constantemente em contato. O lugar


desses contatos pode ser o indivíduo (bilíngue, ou em situação de aquisição) ou a
comunidade. E o resultado dos contatos é um dos primeiros objetos de estudo da
Sociolinguística (CALVET, 2002, p.35).

Tratando da situação de plurilinguismo vivenciada por indivíduos em contexto de


contato com uma língua diferente da sua, Calvet (2002) apresenta dois casos típicos:

Temos aqui dois casos típicos: pode ser uma pessoa que está de passagem (um turista,
por exemplo) que tentará então lançar mão de uma terceira língua que tanto ele e a
comunidade em que se encontra conheçam [...]. Mas pode se tratar também de uma
pessoa que tem a intenção de permanecer naquela comunidade, sendo-lhe, por isso,
necessário, para se assimilar, adquirir a língua da comunidade de acolhida. Esta é a
situação na qual se encontram os trabalhadores migrantes que chegam a seu país de
acolhida, sem conhecer ou sabendo bem pouco a língua (CALVET, 2002, p.40)

O segundo tipo de situação apresentada pelo autor aplica-se à dos médicos cubanos
chegados a Bragança que enfrentaram o desafio de necessitar adquirir a língua portuguesa para
garantir sua sobrevivência no novo espaço. O contato com a nova língua implicava algum tipo
DOSSIÊ AMAZÔNIA 75

de efeito para a sua língua de origem, bem como o natural surgimento de atitudes e
comportamentos diante da nova língua.
Assim como geram consequências para as línguas dos povos envolvidos, as situações
de contato linguístico acionam, também, determinados comportamentos e atitudes linguísticas.
A aceitação ou não de outra língua está diretamente relacionada com as crenças que os falantes
têm sobre essas outras línguas e que, consequentemente, podem influenciar na decisão de
afirmar se uma língua é bonita ou feia, fácil ou difícil de ser compreendida.
Considerando a situação de contato estabelecida entre médicos cubanos e sociedade
bragantina, não se pode negar que a imigração dos “médicos cubanos” para o Brasil, através do
PMM, tenha gerados vários questionamentos, dentre eles o preconceito, que pode ir além da
questão de raça e classe social: pode alcançar o linguístico, que é o que nos interessa aqui. E,
mais ainda, os comportamentos que esse certo modo de falar pode provocar. Calvet (2002, p.
69) chama a atenção para dois tipos de consequências sobre os comportamentos linguísticos:
“uns se referem ao modo como os falantes encaram sua própria fala, outros se referem às
reações dos falantes ao falar dos outros”.
Em Bragança no contexto a que vimos nos referindo, foi visível o quanto o espanhol e
a variedade do portunhol usada pelos médicos acionou atitudes e comportamentos dos falantes
bragantinos. Da mesma forma, a variedade de português usada pelos bragantinos também gerou
atitudes e comportamentos nos médicos cubanos uma vez que se depararam com uma variedade
de português que era uma espécie de contra expectativa em relação à variedade de português
que haviam aprendido em alguns cursos anteriores.
No contato linguístico estabelecido entre médicos cubanos e pacientes bragantinos foi
possível observar alguns impasses e dificuldades e, ao lado disso, estratégias e soluções para
dirimi-las e superá-las, as quais serão tratadas na seção seguinte.

2.1 IMPASSES LINGUÍSTICOS NA INTERAÇÃO MÉDICO-PACIENTE

2.1.1 O PORTUGUÊS E O ESPANHOL

O grupo de médicos e de pacientes, na imperiosa necessidade de interação, encontraram


alguns impasses que os contextos de contato linguístico – quer entre línguas distintas, quer em
variedades distintas de uma mesma língua – impõem. E esses impasses aconteceram no uso da
língua, diante de termos e expressões do léxico, por um lado, tão naturais para o paciente
bragantino, mas, por outro, tão esdrúxulos para os médicos cubanos.
Para demostrar essa situação, o quadro abaixo mostra algumas das expressões
particulares do nortista bragantino, marcadas pelo regionalismo para nomear as partes do corpo
e os males que lhes afligem.

Tabela 1 - Termos linguísticos populares bragantinos.

PARTES DO CORPO TERMOS POPULARES

Espinhela caída
Coluna vertebral Dor nos quartos
Dor no espinhaço

Dor na moleira
Cabeça
Moleira aberta/mole
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Dor no pé da barriga
Barriga Dor de veado
Barriga d’água

Pés, mãos, pernas Curuba, pereba, frieira

Corpo inteiro Catapora, bexiga, cobreiro, quentura.

Fonte: Silva (2018, p. 84).

Para os médicos cooperados cubanos, embora o espanhol se aproxime do português,


entendiam que suas dificuldades residiam no fato de estarem inseridos no novo sistema de
língua e cultura em que cada língua possui suas variedades carregadas de significações,
interpretações, subjetividades individuais e particularidades regionais correspondentes a
singularidades culturais.
De fato, como nos diz Jakobson (1995), a língua pode ser vista como a ocorrência da
cultura. E, ainda na mesma linha de raciocínio, Labov (2008 apud SILVA, 2018) considera que
a língua não constitui um sistema coerente e racional, mas um sistema marcado por alterações,
ou seja, por variações linguísticas relacionadas à organização social.
Dentre todos os impasses observados nas interações verbais entre os médicos cubanos
e os pacientes bragantinos selecionamos dois ligados às línguas dos dois grupos para discussão:
a) línguas de origem distintas de cada grupo; b) o uso de duas variedades distintas do português,
que era a língua comum aos dois grupos para a interação verbal. Desses dois impasses seria
previsível que surgisse a insegurança de incompreensão mútua, de ambos os lados, gerada pelo
entendimento de que as diferenças linguísticas poderiam trazer algum efeito negativo para os
propósitos fundamentais da clínica médica.
Assim, os médicos cooperados observavam que, em muitos casos, tinham que adaptar
significados de palavras isoladas que tinham a mesma pronúncia do espanhol, mas com
significados diferentes na variedade linguística bragantina para, então, compreenderem o fluxo
natural da fala de seus pacientes. Nessa reflexão, os médicos frequentemente precisavam de
uma destreza acompanhada de muitas observações para identificar o que o paciente dizia e o
modo como ele estava comunicando sua dor. De outro lado, o paciente também precisava
adaptar-se à pronúncia do português usada pelo médico carregada do sotaque do espanhol.

2.1.2 A VARIAÇÃO LINGUÍSTICA E PACIENTES BRAGANTINOS

Como já é consenso na literatura linguística, nem a língua nem a fala são imutáveis. A
língua evolui, transformando-se, historicamente, como já tem sido largamente demonstrado por
meio da Linguística Histórica e da Sociolinguística. Fatores diversos influenciam a mudança
das línguas que ocorre de modo lento e gradual. A fala também se modifica conforme a história
pessoal de cada indivíduo, sua formação escolar e cultural, as influências que recebe do grupo
social onde está inserido e até as suas intenções.
A Sociolinguística, a partir dos anos 1960, por meio dos estudos de Labov (1980) deu
grande relevo à importância e ao lugar da variação linguística nos estudos linguísticos,
elucidando as regularidades por trás da aparência caótica da variação. A variação linguística,
chamada, também de variante, é definida, segundo Calvet (2002, p. 90) como: “variável é o
conjunto constituído pelos diferentes modos de realizar a mesma coisa (um fonema, um signo...)
e por variante, cada uma das formas de realizar a mesma coisa”.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 77

Assim, a concepção de língua adotada neste estudo é a que a toma como um elemento
heterogêneo, naturalmente variável e mutante cujas possibilidades de mudança e variação lhes
são inerentes (Labov, 2008; Calvet, 2002).
Concebemos, ainda, que as manifestações da língua estão intrinsecamente associadas a
fatores de natureza social, cultural, histórica, situacional, discursiva entre outros. Segundo
Jakobson (1995), a língua nunca é um mecanismo isolado, mas interage com outros sistemas
de signos geradores da linguagem. Disso decorre que a língua não se realiza efetivamente fora
das enunciações discursivas e dos contextos culturais, não sendo, viável, por tal razão,
dimensioná-la ou concebê-la fora destes.
Assim, consideramos neste trabalho tanto as importantes aquisições teóricas da
Sociolinguística Variacionista no tocante à estreita associação entre língua e sociedade e da
variação como uma ocorrência regular e normal nas línguas, quanto em concepções posteriores
que concebem a variação como marca de identidade social (LE PAGE, 1980).
A concepção de Le Page é a de que todo ato de fala é um ato de identidade e que a
linguagem seria um ato primordial para marcar a identidade, privilegiando, nesse processo,
algumas fontes de influência, conforme Bortoni-Ricardo (2005, p. 175) referindo-se à
concepção de Le Page, comenta:

Para esse sociolinguista britânico, o comportamento linguístico está permanentemente


submetido a múltiplas e co-ocorrentes fontes de influência relacionadas aos diferentes
aspectos da identidade social, tais como sexo, idade, antecedente regional, inserção
no sistema de produção e pertencimento a grupo étnico, ocupacional, religioso, de
vizinhança etc. (BORTONI-RICARDO, 2005, p. 175).

A essas fontes de influência que marcam as distintas identidades, Bortoni-Ricardo dá


relevo para um aspecto contemplado apenas indiretamente na concepção de Le Page: o contexto
situacional na produção da fala. A autora concebe contexto em uma acepção dinâmica, como
um produto conjunto da ação dos participantes no próprio processo comunicativo em que
falante e ouvinte, juntos, se influenciam e constroem o contexto comunicativo. (BORTONI-
RICARDO, 2005, p. 176).
Assim, compreendemos a variação linguística como ocorrência natural das línguas,
intrinsecamente associadas às diversas situações que cercam a vida de seus usuários. O Brasil,
por exemplo, por suas dimensões territoriais, entre outras razões, é um espaço bastante
favorável à variação linguística regional que é atravessada por fatores de natureza social, os
quais, juntos, produzem uma diferenciação linguística acentuada. Diferenças entre a variedade
de língua usada nos grandes centros urbanos e as usadas nas regiões mais afastadas e mais
periféricas são muito comuns no Brasil. Tais diferenças entre essas variedades linguísticas têm
estreita relação com questões sociais. Segundo Bagno (2011, p. 121)

A sociedade brasileira não está toda ela vivendo segundo tendências, crenças, ideias
e práticas iguais para todos os cidadãos. Em regiões mais afastadas dos grandes
centros urbanos é possível encontrar pessoas vivendo sem energia elétrica, sem água
encanada, sem rede de esgoto, sem televisão, sem acesso à internet. É bastante
previsível que ali as pessoas falem de um modo que se distancia grandemente das
variedades urbanas e que empreguem palavras e expressões antigas que já não são
empregadas pelos falantes urbanos, além de usarem também formas novas
desconhecidas das demais comunidades de fala.

É importante lembrar que as variedades linguísticas do português brasileiro usadas pelas


camadas socialmente menos favorecidas são desprestigiadas especialmente pelo fato de serem
indicadoras das identidades dos indivíduos e dos grupos que as utilizam, acionando
frequentemente atitudes de preconceito. Conforme o mesmo autor:
78 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Apesar do nivelamento das diferenças sociolinguísticas que presenciamos na história


recente do Brasil, as marcas mais características das variedades regionais e sociais
permanecem como elementos definidores das identidades individuais e dos grupos,
além de servirem como instrumento para as práticas de discriminação/valorização e
de exclusão/privilegiamento tão frequentes em nossa sociedade (BAGNO, 2011, p.
122).

Desse modo, as variedades do português usado pelos pacientes bragantinos revelavam


muitos aspectos das vidas desses indivíduos e se constituíam como características sociais
marcantes de suas identidades. Uma forte evidência do profundo entrelaçamento e
indissociabilidade entre a língua e a vida do falante.
Assim, ao se comunicar e interpretar os sintomas das enfermidades dos pacientes, os
médicos cooperados enfrentavam maiores dificuldades na fronteira linguística por várias
razões: a) eles eram os imigrantes, portanto, deles era requerida a adaptação à língua e à cultura;
b) o tipo de imigração experimentada por eles era do tipo voluntária, logo, isso implicava
ciência da barreira linguística que enfrentariam; c) em casos de erro de diagnóstico de um
paciente é mais comum que a responsabilidade recaia sobre o médico do que sobre o paciente;
d) em uma consulta médica, o médico é visto como a figura de autoridade, assim, dele
geralmente espera-se que conduza a consulta e que busque estratégias para o sucesso daquela
interação. Logo, a condução da consulta, em termos de responsabilidade, pesava mais para o
médico. Acrescente-se a isso o agravante das variedades da língua encontradas no dia a dia nos
vários contextos onde estavam inseridos, sobretudo, nas unidades básicas de saúde.
Visto não imaginarem as grandes diferenças de traços culturais registrados nas várias
regiões do Brasil, os médicos cooperados cubanos muitas vezes não compreendiam a
diversidade dos termos das doenças populares dos pacientes bragantinos, pois o que lhes fora
apresentado nos cursos de língua portuguesa estava longe das peculiaridades das variedades
linguísticas usadas na Amazônia paraense.
Embora o português e o espanhol tenham a mesma origem, o latim, cada língua seguiu
seu próprio caminho, carregando as influências culturais, históricas e sociais que geraram as
diferenças significativas entre elas ao ponto de serem consideradas línguas distintas. Desse
modo, pode-se dizer que as línguas dos dois grupos em estudo marcam, sem dúvida, a
identidade de cada um, revelando como estão organizados e quais os significados expressos por
cada um.
Nessa perspectiva, partimos da ideia de que a comunicação entre os médicos cooperados
e os pacientes bragantinos só se tornava funcional quando havia compreensão suficiente entre
os envolvidos. No momento da consulta médica, médicos cooperados, por vezes, se sentiam
deslocados daquele espaço social porque circulavam códigos linguísticos diferentes5 que os
pacientes bragantinos usavam e compreender essa variedade linguística regional era uma
tentativa de adaptação, através da língua, dos valores culturais e identitários que caracterizam
o povo bragantino e seus modos de interação.
Um momento interessante da pesquisa foi o exemplo de um paciente que relatou ao
médico que sentia dores na “xereca”. Na variedade regional bragantina, a palavra é um
substantivo que se refere a uma parte íntima do corpo feminino; no espanhol, é um adjetivo e
significa “covarde”. Impasses linguísticos dessa natureza marcaram vários momentos das
consultas. Importante notar que os termos que compõem o vocabulário de um indivíduo dão
indícios de sua classe social, da faixa etária, do lugar onde reside, de seu grau de letramento,
ou seja, o vocabulário de uma pessoa carrega traços da identidade dessa pessoa.

5
“Algumas doenças (nomes) já que cada região do Brasil tem suas particularidades”. (M3)
DOSSIÊ AMAZÔNIA 79

Assim, o uso da língua do paciente nas consultas, não é somente um instrumento de


comunicação, de interação com o médico cooperado cubano, mas uma forma de contato com a
identidade do sujeito/paciente. Isso colabora para a afirmação de que os sujeitos são
alfabetizados nos contextos de suas culturas e meio onde estão inseridos historicamente. Nas
interações em contextos de saúde, é preciso que haja atenção para esse aspecto a fim de que
uma consulta médica não se torne inócua.
O quadro abaixo ilustra exemplos de termos populares bragantinos que apresentam
semelhança fônicas entre o português e o espanhol, porém diferenças de significado. Os termos
foram usados pelos pacientes bragantinos durante as consultas médicas com os médicos
cubanos para relatar suas enfermidades e os significados em espanhol.

Tabela 2 - Diferenças e semelhanças das línguas em contato: português/espanhol

PORTUGUÊS
ESPANHOL
(Variedade lexical empregada pelos
(Cuba)
bragantinos)
Curuba (feridas na pele) Curuba (fruta de fazer suco)

Roxo (cor) Rojo (vermelho)

Bucho (barriga) Bucho (comida)

Bode (menstruação) Bode (cabra)

Xereca (órgão sexual feminino) Xereca (covarde)

Esquisito (estranho) Exquisito (gostoso/ delicioso)


Fonte: Silva (2018, p. 88).

É importante esclarecer que, apesar das semelhanças entre as duas línguas, as


dificuldades que existem nos seus aprendizados resultam dos fenômenos de variação
linguística. Além desse fator, outros se cruzam no momento da fala, como, por exemplo, os
tabus que existem em torno do uso de certas palavras referentes a doenças ou a partes do corpo
que fazem com que um paciente comunique por circunlóquios, metáforas ou eufemismos os
sintomas de sua enfermidade ou o nome da parte do corpo afetada. Esses aspectos culturais
atravessam continuamente o uso da língua.
Segundo Labov “não se pode entender o desenvolvimento de uma mudança linguística
sem levar em conta a vida social da comunidade em que ela ocorre” (LABOV, 2008 apud
SILVA, 2018).
Dito isso, na análise dos dados da pesquisa, alguns colaboradores médicos identificavam
as variedades linguísticas de seus pacientes e por vezes as consideravam estranhas e
desconhecidas, conforme o relato de um dos médicos6: “Nas consultas existem várias palavras
estranhas: cobreiro (Herpex zoster), caxumba (parotidite), frieira no pé (pé de atleta, micoses),
dor nos quartos (lombalgia). (M2) e a esse respeito M3 continua e esclarece, mais ainda: “Sim,
encontrei muitas palavras estranhas como, por exemplo: gastura, quentura”.
Essas variedades linguísticas do nortista bragantino são usuais e significativas para as
práticas culturais de sua comunidade. Isso corrobora e comprova que as línguas são elementos

6
Todos os colaboradores receberam um código, visando preservar suas identidades, de acordo com os princípios
éticos da pesquisa científica e do contrato que rege a permanência dos médicos cooperados cubanos em nosso país.
Para definir o nome dos médicos cooperados cubanos tomou-se a letra inicial de suas profissões M, seguida do
número de informantes: 1, 2, 3, 4, 5. Em seguida consideramos a letra P para designar os pacientes participantes
da pesquisa, também seguidos das numerações.
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dinâmicos que variam e sofrem modificações por conta de fatores históricos, culturais e sociais.
(SILVA, 2018).
A pesquisa mostrou que os médicos cooperados cubanos se comunicavam com os
pacientes bragantinos por meio de uma alternância entre as variedades linguísticas
significativas dentro de uma mesma interação: ora usavam termos da medicina cubana e/ou
universal e os termos da variedade linguística da região onde estavam inseridos. Os pacientes,
por sua vez, por meio da variedade linguística empregada buscaram esforço comunicativo e
revelaram traços de suas identidades. A esse respeito, Bortoni- Ricardo comenta (2005):

A variação linguística, que já foi vista na infância da ciência linguística, como uma
ruptura da unidade do sistema, é concebida hoje como um dos principais recursos
postos à disposição dos falantes para cumprir duas finalidades cruciais: a) ampliar a
eficácia de sua comunicação; b) marcar sua identidade social (BORTONI-RICARDO,
2005, p. 175).

Reiteramos que a variação linguística em processo de interação de grupos sociais e


individuais tem suas particularidades e especificidades. E, segundo Silva (2018), um grupo de
médicos cooperados cubanos apresentava uma variedade linguística de português diferente
daquela da comunidade brasileira e, especificamente, da bragantina. Assim, nesse contato, cada
um, médicos e pacientes, usaram os recursos linguísticos que lhes foi concebido em seu
processo de aprendizagem para viabilizar a comunicação.

2.2 ESTRATÉGIAS E SOLUÇÕES DIANTE DOS IMPASSES LINGUÍSTICOS NA


INTERAÇÃO MÉDICO-PACIENTE

Com bastante esforço, os médicos foram, no decorrer de suas interações com os


pacientes, criando instrumentos capazes de facilitar a compreensão e interpretação da
comunicação da dor pelos doentes. Lançaram mão de estratégias que lhes pareciam mais claras
e eficazes nos momentos das consultas. Desde as estratégias mais simples que eram resolvidas
sem a intervenção de terceiros, até as que envolviam um terceiro indivíduo que pudesse atuar
como tradutor. As estratégias usavam tanto a linguagem verbal quanto a não verbal conforme
comentamos a seguir.
Diante de palavras e expressões desconhecidas os médicos usavam os toques físicos e
pediam que o paciente indicasse, tocando o ponto ou órgão de dor. Embora esta já seja uma
estratégia complementar e corriqueira nas consultas, naquela situação específica tornava-se
mais do que um recurso complementar, tornava-se um recurso de tradução, imprescindível para
que o médico pudesse entender o relato do paciente.
Havia situações em que não era possível a indicação do sofrimento físico por meio de
toque de apontar o órgão. Como comunicar uma dor, por exemplo, que mudava de intensidade
e de duração? Por isso, em muitos casos, além dos toques físicos, tanto médicos quanto
pacientes apelavam para o uso de mímicas para indicar os movimentos, intermitências e duração
da dor, o grau de intensidade e certos detalhes da enfermidade que não eram passíveis de toque
físico. Nessa negociação, pacientes e médicos colaboravam para que a consulta prosseguisse
com sucesso.
Quando havia, por parte do médico, a preocupação e a insegurança de que uma dada
recomendação de tratamento poderia não ser bem entendida pelo paciente, o médico, não raras
vezes, buscava também fazer desenhos que ajudassem o paciente a entender a orientação
médica. Recomendações referentes aos horários de medicação, do dia e da noite, eram
traduzidos por meio de desenhos.
Ao lado da estratégia de fazer desenhos para traduzir determinadas recomendações, os
usos das cores também convergiam para a tarefa da tradução. Assim, os usos das canetas
DOSSIÊ AMAZÔNIA 81

coloridas também eram utilizadas para sinalizar detalhes nas recomendações escritas, enfatizar
determinados pormenores recomendados, focalizar aspectos de importância da receita e,
também, para conferir uma eficácia mais terapêutica à interação.
Para se fazer melhor compreendido, o médico também buscava a estratégia de falar
pausadamente, de pronunciar as palavras em um ritmo que desse condições ao paciente de
apreender o conteúdo do diálogo e a estratégia da repetição das orientações como forma de
garantir a eficácia daquela consulta.
Quando o médico sentia dificuldade com algum termo ou expressão usada pelo paciente
em que as demais estratégias eram ineficazes para a compreensão, o médico recorria a um
terceiro indivíduo para atuar como tradutor. Alguém que fizesse parte do quadro da equipe de
saúde presente no momento daquele impasse, geralmente era acionado para fazer a mediação
entre o médico e o paciente e assim resolver o impasse linguístico.
Os pacientes relataram que, em alguns momentos, se sentiram incomodados com a
língua espanhola, pois, muitas vezes não compreendiam o que o médico cooperado falava. Mas
a dificuldade na comunicação, em momento algum, foi empecilho para a realização das
consultas médicas, pois, naquele acordo tácito, aceitavam as estratégias sugeridas pelos
médicos para suprir as necessidades ali apresentadas.
Assim, reiteramos que o uso de linguagem não verbal, de fala mais pausada e repetida,
mímicas e auxílio de outros profissionais da saúde no consultório médico, foram as estratégias
mais usadas pelos pacientes bragantinos para comunicar e fazer entender os sintomas e dores
da sua realidade. A esse respeito, esclarece Queiroz (2014, p. 09);
Informações de qualquer natureza (verbais e não verbais) são fundamentais na medida
em que funcionam como pistas para o provedor de saúde, pois trazem detalhes que
indicam os estados físico e mental do paciente e, portanto, são informações
imprescindíveis para a realização de um diagnóstico apurado e um programa de
tratamento adequado.

Assim, a importância da comunicação na relação médicos cubanos e pacientes


brasileiros foi se ressignificando a cada nova consulta, e, sempre que uma nova dificuldade se
apresentava, uma outra estratégia de comunicação era buscada, ultrapassando as barreiras
impostas pela diferença linguística que terminava por instaurar o entendimento efetivo.

3 HUMANIZAÇÃO COMO CUIDADO NO TRATAMENTO MÉDICO

Como já mencionado, a vinda dos médicos cooperados cubanos para o Brasil e,


especificamente, para a região amazônica/Bragança, trouxe uma certa tranquilidade e
assistência médica para as pessoas que não tinham o acesso frequente de médicos em suas
comunidades.
Assim, vale ressaltar que a atenção, o respeito, a competência e a humanidade foram
fatores observados, evidenciados e vividos durante a pesquisa. Tais elementos contribuíram
para uma avaliação positiva do Programa Mais Médicos, nas comunidades que fizeram parte
do estudo.
Dentre tais elementos de natureza positiva, o cuidado humanizado, a noção de respeito
ao paciente bragantino sustentou-se durante a presença dos médicos cooperados no PMM
presentes nos princípios que norteavam a ação médica na região bragantina. Entende-se, assim,
que uma comunicação bem eficaz diminui possíveis conflitos que podem ser gerados durante o
tratamento médico. Compreender o paciente como um todo, levando em consideração sua
cultura, sua individualidade, suas regras linguísticas é item fundamental para que a experiência
da dor para o doente seja menos focalizada e ele, o doente, considere-se respeitado.
82 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

O contato dos médicos cubanos com os pacientes bragantinos foi marcado por sutilezas,
novas linguagens, dando sentido e significado às suas interações e a cada novo contexto de onde
ambos os grupos faziam parte. Entendeu-se que o êxito e o sucesso de todo esse processo do
direito à saúde foram garantidos devido aos laços que foram marcados pela disposição para as
trocas linguísticas e culturais, de vivências e de histórias.
A ajuda ao próximo, o tratamento diferenciado, a capacidade de ouvir respeitando as
diferenças e o apoio quando necessário foi reconhecido pelos pacientes por nós consultados,
pois os médicos cubanos também faziam atendimentos domiciliares e fora de seus horários de
trabalho. De acordo com uma das pacientes: “[...] ela é boazinha... olha pra gente e vai em casa
na outra hora que não tá aqui no posto...Eu gostei. Porque antes, a gente vinha aqui no posto e
não tinha médico” (P2)7.
Esse cenário nos levou a pensar na forte atuação dos médicos cooperados cubanos nesse
atendimento humanizado, com foco nos determinantes sociais e ambientais visto que as
populações que eles serviam moram em lugares remotos, periferias de grandes cidades e
distritos indígenas, considerados os mais afetados pelos efeitos das desigualdades sociais que
afetam o Brasil. E, de fato, é importante ressaltar que a migração dos médicos cubanos ocorreu
de forma ordenada e sob condições humanitárias.
Assim, a experiência de pesquisa com médicos cubanos e pacientes bragantinos revelou
que um bom relacionamento entre médicos e pacientes em união com a qualidade técnica
possibilita um atendimento individualizado para os doentes por parte do médico, gerando
satisfação no paciente durante o tratamento e, concomitantemente, firmando um olhar
diferenciado e sensível para as questões humanas.
No tocante ao termo humanizar, Oliveira (2001, p.104) define:

Humanizar caracteriza-se em colocar a cabeça e o coração na tarefa a ser


desenvolvida, entregar-se de maneira sincera e leal ao outro e saber ouvir com ciência
e paciência as palavras e os silêncios. O relacionamento e o contato direto fazem
crescer, e é neste momento de troca que humanizo, porque assim posso me reconhecer
e me identificar como gente, como ser humano.

Essa arte de saber olhar, ouvir e tocar constatada na relação do cotidiano entre médicos
cubanos e comunidade bragantina, ultrapassou as diferenças de fronteiras de língua e ampliou,
com o tempo, a percepção dos pacientes sobre o cuidado afetuoso, do sentimento de
importância, de um relacionamento mais humanizado conforme ilustra o excerto a seguir.

A recepção da comunidade bragantina ao trabalho desenvolvido por nos foi muito


bom, mesmo das dificuldades no meio pela língua o povo acolheu muito grato pelo
jeito de nos trabalhar, na entrega, no humanismo e sem impasses de horário ou tempo
de chuva ou sol. A gente trabalha sempre para melhorar a saúde das pessoas. (M2)

Esse tratamento humanizado, apresentado pelo médico acima, foi uma das
características bem visíveis e elogiadas por pacientes bragantinos, refletindo suas satisfações.
O modelo de comunicação “médico cooperado × paciente” pode ser uma proposta, uma pista
para se instituir a cultura do cuidado humanizado entre médicos brasileiros e seus pacientes.
Para os médicos cubanos, essa relação participativa e compreensiva do sentimento, da
dor do paciente bragantino é carregada de significações, de interpretações individuais e bastante
simbólicas por uma importante razão: cada comunidade transmite suas narrações, comunica-se
de forma diferente e, o contar da dor, também é um fato cultural, o que para os médicos
cooperados precisa ser altamente observado.

7
P2: Paciente 2 – abreviação utilizada para indicar os pacientes entrevistados.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 83

Na troca do contar e ouvir sensivelmente é que se pode chegar mais próximo de um


diagnóstico preciso para um tratamento efetivo. Em certos casos, em um tratamento mais
humanizado podem até ser dispensados exames laboratoriais e remédios farmacêuticos de modo
que a recomendação para uma vida mais saudável, como alimentação adequada, atividades
físicas podem fazer grande diferença.
Certamente que a proposta deste estudo não é a de romantizar a atuação dos médicos
cubanos em sua breve passagem pelo Brasil, mas a de apresentar o olhar de uma parcela de
cidadãos bragantinos que construíram uma relação médico-paciente com aqueles médicos e
também a de apresentar o olhar de alguns desses médicos nessa mesma relação. Muitos aspectos
dessa questão ainda estão por serem investigados. A este estudo coube esse breve recorte.

4 CONSIDERAÇOES FINAIS

O contato dos médicos cubanos com a comunidade bragantina através do PMM


apresentou uma série de experiências, tanto para a saúde como para outros campos de pesquisa.
A pesquisa permitiu observarmos o seguinte: quando os falantes de espanhol e os de português
foram colocados lado a lado, no contexto linguístico do outro, suas diferenças e semelhanças
foram postas à prova. A partir desse contexto as interações foram criando sentido e estimulando
suas compreensões.
Percebemos que ambos os grupos, médicos e pacientes, tiveram a oportunidade de se
enriquecer de estratégias para facilitar as interações. Fizeram descrição e comparações dos
aspectos universais de cada língua, das variedades regionais nos seus contextos de
comunicação.
Nesse aspecto, para a compreensão mútua, médicos e pacientes utilizaram-se de
linguagens não verbais como mímicas, toque e desenhos, além de falas pausadas para diminuir
as dificuldades e até a convocação de um terceiro indivíduo para mediar o impasse linguístico
surgido durante suas interações.
Em verdade, essas estratégias e soluções foram reações particulares dos médicos e
pacientes para exercer seus poderes de decisão a fim de alcançarem metas de comunicação,
produzindo, assim, escolhas e repertórios sempre na missão das dinâmicas em interação e
especial para a narração, interpretação e avaliação dos sintomas da dor.
Tornou-se evidente que a procura por estratégias e soluções para manter o sucesso na
comunicação foi o ponto forte que marcou a atuação dos médicos cubanos na comunidade
bragantina, caracterizando a sua forma de atendimento como atendimento humanizado, muito
necessário, principalmente no ambiente de saúde, tão descabido de humanização e
insistentemente provido de dor e sofrimento.
Dor e sofrimento são experiências que carregam aspectos sociais, biológicos e culturais,
por isso as assistências terapêuticas precisam ser acrescentadas de cuidado humano, valorização
da vida e respeito à cultura do paciente. Assim, os médicos cubanos acreditavam que as
variedades linguísticas bragantina/amazônica carregavam um conjunto de valores
socioculturais dos pacientes que merecia ser considerado com cuidado.
Desse modo, compreende-se que, em contextos de contato linguístico, a possibilidade
da troca sempre está presente. Na pesquisa em foco, médicos e pacientes estiveram expostos a
uma situação em que a interação era imperiosa e a troca, inevitável. Dos impasses e dificuldades
surgidos nas questões linguísticas emergiram as soluções que viabilizaram a interação e,
consequentemente, a prática médica. Desse recorte de estudo fica ressaltado que os contextos
de contato linguístico são importantes ambientes de observação que abrigam questões humanas
muito significativas que merecem ser elucidadas.

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84 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

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SAÚDE PÚBLICA EM TEMPOS DE GUERRA:


HOSPITAIS DO SESP E A SÃ POLÍTICA DE BOA VIZINHANÇA NAS CIDADE
PARAENSES DE BREVES E SANTARÉM (1942-1945)

Edivando da Silva Costa1

RESUMO

O presente artigo tem por objetivo analisar as políticas públicas direcionadas para as cidades paraenses
de Breves e Santarém, durante o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. Criado em 1942, o SESP –
Serviço Especial de Saúde Pública -, agência de iniciativa brasileira e norte-americana, iniciou um vasto
programa de saúde e saneamento na região amazônica, com a instalação de estruturas médico-
-hospitalares apresentadas como novos modelos de atenção à saúde da população local. Analisaram-se,
principalmente, como fontes documentais, jornais em circulação pelo país, relatórios e boletins
produzidos pelo Serviço. Essas fontes revelam o esforço em representar uma região carente de estrutura
médico-hospitalar e imersa à sua própria sorte, cuja redenção viria com as ações do SESP. Refletir de
forma crítica sobre essas questões nos permitiu investigar compreensões sobre o Pará daquele contexto,
os diferentes interesses políticos em jogo e a celebração da política de boa vizinhança entre Brasil e
Estados Unidos.

Palavras-chave: SESP. Hospitais. Amazônia Paraense. Segunda Guerra.

PUBLIC HEALTH IN TIMES OF WAR:


SESP HOSPITALS AND THE SAFE GOOD NEIGHBOR POLICY IN THE STATE
OF PARÁ CITIES OF BREVES AND SANTARÉM (1942-1945)

ABSTRACT

The purpose of this paper is to analyze public policies aimed to the Breves and Santarém cities in Pará,
during the course of the Second World War. Created in 1942, SESP — Special Service for Public Health
—, a Brazilian and North American initiative agency, started a vast health and sanitation program in the
Amazon region, with the installation of medical and hospital structures presented as new models of care
to the health of the local population. They were analyzed, mainly, as documentary sources, newspapers
in circulation throughout the country, reports and bulletins produced by the Service. These sources
reveal the effort to represent a region in need of a medical and hospital structure, and immersed in its
own fate, whose redemption would come with the actions of SESP. Reflecting critically on these issues
allowed us to investigate understandings about Pará in that context, the different political interests at
stake and the celebration of the good neighborly policy between Brazil and the United States.

Keywords: SESP. Hospitals. Amazon of Pará. Second War.

Data de submissão: 20.04.2021


Data de aprovação: 18.05.2021

INTRODUÇÃO

Nos idos de 1942, ocorreu, no Rio de Janeiro, a III Conferência dos Chanceleres.
Durante as reuniões, representantes do governo do Brasil e dos Estados Unidos firmaram uma
série de acordos e, entre eles, a criação do SESP - Serviço Especial de Saúde Pública. A nova
agência tinha como principal propósito atuar na área da saúde e saneamento da região
amazônica. Segundo Campos (2000, p. 201) “para os Estados Unidos, a adesão do Brasil à
1
Doutorando em História pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e Professor de História da Escola de
Aplicação da Universidade Federal do Pará (EAUFPA). E-mail: [email protected].
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causa dos Aliados tornou-se imperativa, sendo o projeto de saúde e saneamento vital para os
interesses norte-americanos no Brasil”. A Amazônia voltava a ser destaque no cenário nacional
e internacional, tendo a borracha como figura central e o produto regional a ser explorado. Se
no final do século XIX e início do XX, capitais como Belém e Manaus experimentaram “a
riqueza criada pelo látex e a contribuição para uma reorganização do espaço urbano, sempre
em função do mercado especializado da borracha” (SARGES, 2010, p. 114), a década dos anos
40 do século XX vai assistir aos esforços de uma política pública voltada sobretudo para as
cidades do interior da Amazônia.
Nos anos iniciais do século XX, a questão da saúde pública ficou cada vez mais presente
na agenda política e diplomática dos países e se acentuou no decorrer da Segunda Guerra
Mundial, quando os Estados Unidos criaram agências de saúde com projeções internacionais.
Segundo Cueto (2015, p. 12) “durante a maior parte dos séculos XIX e XX, o termo saúde
internacional associou-se a acordos governamentais, disciplinas universitárias e programas
sanitários em países pobres”. Assim nasceria o SESP, uma agência bilateral, programada para
atuar nas regiões mais pobres do Brasil, a priori na Amazônia, depois se estendendo país afora.
Ainda na Conferência, ficou acordado que “a defesa do Hemisfério Ocidental requeria a
mobilização das forças vitais, humanas e materiais, das repúblicas americanas, isto é, em áreas
carentes de recursos médicos e sanitários, mas com potencial grande em recursos naturais”
(BRASIL, 1944, p. 7). Não apenas o Brasil tornou-se alvo da política externa norte-americana.
Como o interesse estava voltado também para a exploração dos recursos naturais, soava quase
que imperativo a influência na saúde pública dos países vizinhos. Nesse contexto, os Estados
Unidos se colocaram na dianteira na construção de uma agenda de saúde e saneamento para
esses países.
Em vista disso, o artigo busca analisar as ações do Programa da Amazônia proposto pelo
SESP nas cidades paraenses de Breves e Santarém, entre os anos de 1942 a 1945, momento de
instalação de arquiteturas de saúde em algumas cidades do interior do Pará. Afinal, quais os
limites e interesses de uma política pública de saúde, de iniciativa internacional em cooperação
com o governo brasileiro, voltada para a Amazônia paraense em pleno contexto da Segunda
Guerra Mundial? O que era Breves e Santarém nesse contexto? Quais as articulações entre os
governos locais e os representantes do SESP para a instalação de hospitais nessas cidades?
Como a imprensa e os meios informativos do Serviço se colocaram nesse debate? Que tipo de
reação as estruturas médicas geraram nas comunidades locais? Responder a essas questões nos
permite entender as políticas públicas direcionadas para a Amazônia em plena Guerra Mundial.
Visando a atingir os objetivos deste trabalho foi realizado levantamento, pesquisa e
análise de documentos oficiais produzidos pelo SESP, sobretudo das atividades desenvolvidas
na Amazônia paraense. Parte do acervo pesquisado se encontra nos arquivos e bibliotecas do
Instituto Evandro Chagas, em Ananindeua no Pará e na Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz, no
Rio de Janeiro. Tratam-se de fontes bastante dispersas pelo país e de certa maneira impõem
dificuldades de acesso ao pesquisador. Bacellar (2005) aponta para os problemas enfrentados,
de forma geral, aos serviços públicos: falta de pessoal, de instalações adequadas e de recursos.
[...]. Aventurar-se pelos arquivos é sempre um desafio, [...] mas um esforço que quase sempre
levará a alcançar resultados muito gratificantes. Também foram consultados jornais em
circulação pelo país, como o periódico carioca O Jornal. Nele, foi possível observar como os
noticiários estavam em sintonia com os discursos produzidos pelo SESP, com posicionamentos
alinhados quanto a atuação da agência na Amazônia. A parcialidade de periódicos é alertada
por Bacellar (2005, p. 63), para quem “documento algum é neutro, e sempre carrega consigo a
opinião da pessoa e/ou do órgão que o escreveu”. De posse da documentação, foi possível
problematizar e buscar o entendimento das ações do Serviço e as intencionalidades postas em
pauta. Conforme sugere Bloch (2001, p.79), “tudo o que o homem diz ou escreve, tudo que
fabrica e toca pode e deve informar sobre ele”. Em tempos de guerra, os meios de comunicações
DOSSIÊ AMAZÔNIA 89

como boletins e jornais não demostravam neutralidade e eram utilizados para legitimar os
projetos desenvolvidos pelo SESP a partir da parceria estabelecida entre Brasil e Estados
Unidos.

1 UM POUCO SOBRE OS HOSPITAIS

O final do século XVIII trouxe um novo olhar e novos sentidos para os hospitais. De
um espaço onde o personagem não era o doente que precisava de cura, mas o pobre que estava
morrendo e deveria receber os últimos cuidados e o último sacramento, se tornaria o lugar do
tratamento terapêutico, instrumento destinado a curar (FOUCAULT, 1995). “Nesse novo
quadro o hospital tradicional perdeu espaço. Foi preciso transformá-lo física e conceitualmente,
foi preciso que ele perdesse sua feição assistencial em benefício da terapêutica” (SANGLARD,
2006, p. 16).
Em meados do século XIX a história da saúde passa por importantes mudanças. Em
alguns países europeus e nos Estados Unidos, o campo da medicina social direcionou-se para
os problemas sanitários. É um período de novas descobertas que nortearam as bases teóricas da
medicina, como os estudos patológicos e a proposição de novos meios de intervenção visando
à contenção e à cura desse processo (SILVEIRA; FIGUEIREDO, 2011). As autoras advertem
que no Brasil tais mudanças ocorreram no início do século XX e com ritmos diferentes entre as
regiões. No Pará, a construção das primeiras arquiteturas hospitalares foi iniciativa das ações
filantrópicas, a exemplo do hospital D. Luiz I da Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente
do Pará, em 1877 e tinha como propósito dar assistência aos portugueses no combate às
epidemias que assolavam a capital paraense (FIGUEIREDO, 2018). Por longos anos, os
hospitais “tiveram um papel atrelado à ideia de caridade, espaço para receber doentes pobres
que por motivações diversas viam-se reféns das mais diversas doenças” (GOMES, 2019, p. 21).
Na segunda metade do século XIX outras arquiteturas hospitalares foram construídas
com o objetivo de dotar a cidade de melhores condições de higiene, baseando-se nas teorias
médicas e sanitárias vigentes, como o hospital Juliano Moreira e hospital Domingos Freire.
Nesse período, as epidemias de febre amarela e varíola geraram as primeiras medidas
saneadoras na cidade, com a proibição de enterramentos nas igrejas e com isso, a construção
dos cemitérios da Soledade e de Santa Isabel (MIRANDA, 2018). Ainda segundo Miranda
(2018, p. 81), sendo uma população muito pobre dependiam da “compaixão e caridade das
pessoas [...]. As irmandades, beneficências e misericórdias, instituições lusas de caridade eram
responsáveis por grande parte da história da saúde de Belém”. A Santa Casa de Misericórdia
está entre as instituições com atuação nas ações de saúde na capital do Pará surgida no seio das
irmandades. Fundada em 1650, funcionou como irmandade até 1890, quando passou a ser
Associação Civil de Caridade e transformou-se em Fundação em 1990, passando a ser
financiada pelo governo do estado (MIRANDA et al., 2015).
O processo de institucionalização da assistência à saúde no Pará ocorreu na virada do
século XIX para o XX. Na capital paraense, as inaugurações dos hospitais São Sebastião e
Domingues Freire, associados à medicina moderna, representaram o avanço na área da saúde
pública da cidade. Os hospitais impulsionaram uma nova fase das políticas públicas, onde
práticas ligadas à caridade, embora não desaparecessem, sediaram espaço à ciência médica na
estrutura hospitalar (RODRIGUES, 2021). Mesmo institucionalizado, o saber médico no Pará
concentrou suas atenções em Belém, em detrimento do interior do Estado. “Durante quase toda
a Primeira República, vale dizer, os moradores do interior raramente viram médico e
farmacêutico passarem por suas vilas e povoados” (RODRIGUES, 2021, p. 202). Em meados
da década de 1920, existiam alguns postos de saúde, espalhados por algumas cidades do
interior, tendo como base ações voltadas para a profilaxia ao paludismo e as verminoses, além
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de oferecer serviços como pequenas cirurgias, vacinação e conferências de educação sanitária


(VIEIRA, 2016).
Nos idos de 1943, uma equipe de engenheiros sanitaristas do SESP percorreu algumas
cidades da Amazônia com o intuito de fazer o levantamento de um inquérito e observar as
condições sanitárias locais. A par desses dados, o objetivo seria “elaborar um eficiente
programa de saneamento” (MIRANDA; TABOSA, 1948, p. 689). Jornais em circulação pelo
país divulgavam as ações realizadas na Amazônia e divulgavam quase diariamente os planos
de trabalhos do Programa reforçando aos leitores a parceria existente entre Brasil e Estados
Unidos e a luta travada contra as doenças. Em um longo texto, O Jornal noticiava a cooperação
do Estado com os municípios para a execução das obras. Os planos teriam sido enviados ao
interventor federal e previam ações como, “a construção de postos de higiene, [...] sub-postos,
[...] hospitais, [...] construção de sanatórios e abastecimento de água em lugares do interior a
serem feitos pelo SESP em cooperação com o Estado e município” (FUNCIONARÃO, 1945,
p. 6). Se as instalações assumiam caráter de serviço permanente, também se constituíam como
modelos de intervenções e de controle sobre a população, principalmente nas práticas médicas
e de higiene, sobre os hábitos e costumes locais.
No contexto da Segunda Guerra Mundial, muitos “soldados da borracha” foram
enviados para o interior com o intuito de extrair o látex tido como essencial dentro dos esforços
de guerra. Como forma de justificar as ações na região, buscou-se descredenciar as condições
médicas locais, ao apresentar “o estado do Pará e, de um modo geral, em todo o Vale
Amazônico, os Postos de Higiene constituíam os únicos recursos médicos da cidade” (BRASIL,
1942-1945, p. 9). Esse fato serviu como justificativa para a implantação dos hospitais tidos
como modernos e os cuidados com a saúde dos trabalhadores, colocando-os como responsáveis
pelo atendimento à saúde básica da população. Embora estivesse presente em vários
municípios, uma série de exigências eram feitas para a instalação dessas estruturas, e não se
tratavam apenas de uma simples solicitação da prefeitura, mas impunham algumas obrigações
para o poder público local, em geral, com a doação de terrenos, aproveitamento de prédios já
existentes e a contribuição em soma de dinheiro.

2 A SÃ POLÍTICA DE BOA VIZINHANÇA

A instalação do SESP a partir da celebração dos acordos bilaterais entre Brasil e Estados
Unidos era justificada pela necessidade de se estabelecerem esforços conjuntos na luta e
combate contra as doenças. Segundo o norte-americano George Dunham, os serviços
Cooperativos Interamericanos de Saúde Pública foram organizados para ajudar o
fortalecimento da “política de boa vizinhança, num momento em que a ameaça de conquista
alemã era mais séria e se tornava necessária todos os meios possíveis para combater a influência
do Eixo nas Américas” (BRASIL, 1944, p. 7). A prática de promoção de saúde a partir de laços
cooperativos possuía um alvo em comum, sendo, ao mesmo tempo, os países alinhados ao
“Eixo” e os mosquitos os grandes adversários a serem combatidos. Estratégia sanitária foi como
o jornal carioca Diário da Noite se referiu à criação do SESP. Para o periódico, a agência
“resultou de um dos acordos de Washington e trazia, na hora penosa da guerra, um instrumento
de boa vizinhança e por isso seu custeio resulta de contribuições de brasileiros e norte-
americanos” (ESTRATÉGIA, 1943, p. 1). Nesse ínterim, os Estados Unidos, além de se
colocarem na dianteira do processo como os responsáveis na condução das ações na luta contra
os inimigos, propagavam a ideia de que os países vizinhos eram dependentes de auxílio e
proteção contra os adversários.
O Brasil vivia os anos do chamado Estado Novo, período em que a administração de
Getúlio Vargas instituiu um governo ditatorial que, por meio de uma Constituição autoritária
possuía, como uma das orientações, o controle social através da presença de um Estado forte
DOSSIÊ AMAZÔNIA 91

comandado por um líder carismático, capaz de conduzir as massas no caminho da ordem


(CAPELATO, 2007).
A aproximação do Brasil com os Estados Unidos foi uma jogada política estratégica,
isto é, Getúlio Vargas buscou tirar vantagens do governo norte-americano, para que uma aliança
fosse possível com aquele país. Segundo Delmo Arguelhes (2015, p. 74), a “política externa de
Vargas é tida como pragmática e exemplar. Ele teria conduzido a aproximação do Brasil com
os Estados Unidos de modo a extrair o máximo de vantagens”. A neutralidade bélica sustentada
pelo Brasil em pleno curso da guerra chegaria ao fim, pois a reunião dos Ministros das Relações
Exteriores das Repúblicas Americanas “não foi apenas o momento temporal que marcou o fim
da neutralidade brasileira, mas através de negociações sutis com o governo norte-americano,
alimentou-se um sonho, uma projeção mundial de nação” (ARGUELHES, 2015, p. 75).
Tendo sido criado em tempos de guerra, o IAIA — Instituto de Assuntos
Interamericanos — desenvolvia suas atividades ligadas aos esforços para abastecimento
durante o combate, e sua atuação ocorria principalmente nas áreas de interesse na produção de
recursos minerais. De acordo com o presidente, o General George Dunham, “milhares de
trabalhadores estavam ativamente empenhados na produção de cobre, manganês, chumbo,
borracha, fibras, quinino, madeira e outros materiais importantes para o esforço de guerra”
(BRASIL, 1944, p. 1). A demanda por trabalhadores sadios e aptos para a exploração dos
produtos naturais fomentou iniciativas para a instalação de uma rede de saúde, além de exaltar
o papel desempenhado pelos profissionais de saúde, pois “por trás das curvas de produção,
havia uma emocionante história do trabalho humano. Médicos e engenheiros sanitários se
desdobram em esforços para manter esses homens saudáveis e felizes” (BRASIL, 1944, p. 1).
Na fala do general, os trabalhadores ligados à exploração das riquezas naturais, seriam figuras
indispensáveis para a concretização da vitória na guerra e, suas atividades essenciais, mesmo
que a batalha fosse em outro campo, pois, “na produção complexamente constituída da guerra
total, a permanente vigilância contra a doença torna-se o preço necessário da saúde, como o é
da liberdade” (BRASIL, 1944, p. 1).
Política de boa vizinhança e programas cooperativos passaram a ser temas explorados
ao longo da guerra e estavam presentes nas mensagens de vários profissionais que atuaram no
SESP. Criada durante a Conferência Pan-Americana de Montevideo, em 1933, por Franklin D.
Roosevelt, na época presidente dos Estados Unidos, referia-se a um período de relações
políticas americanas com os países da América Latina entre 1933 até 1945, tinha entre os
objetivos minimizar a influência europeia na América Latina (TOTA, 2000). Para o governo
norte-americano, as Américas tinham de se transformar em uma fortaleza do hemisfério e dos
próprios Estados Unidos (TOTA, 2000). “Espírito de boa vontade” e “pan-americanismo”, era
como o general Dunham se referia, à aproximação entre “Getúlio Vargas e Roosevelt, [...]
amizade sincera que existia entre os dois povos e que se firmaria ainda mais na assistência
mútua e na cooperação mútua [...]” (COOPERAÇÃO, 1943, p. 6). Intensificava-se um discurso
em que a ideia era consolidar cada vez mais a necessidade de integração dos países americanos,
sob a hegemonia dos Estados Unidos. Tal relação extrapolou as fronteiras políticas e passou a
influenciar questões diplomáticas entre os países das Américas. Mayra Lago em artigo,
demonstra como o discurso pan-americanista para a América Latina foi construído e divulgado,
por exemplo, através da revista Em Guarda: para a defesa das Américas. Segundo a autora,
buscava-se elaborar e propagar imagens da grande amizade entre os Estados Unidos e a
América Latina e os esforços de guerra que deveriam ser postos em prática para evitar a invasão
do inimigo nazista (LAGO, 2019).
George Dunham que por sinal assinava vários artigos nos Boletins do SESP, escreveu
outra matéria intitulada “Dois anos de cooperação continental”, na qual fazia um balanço das
lutas contra as doenças e como os esforços teriam assumido dimensões continentais. Tratava-
-se de um empenho em justificar a ideia de que a colaboração entre os países teria favorecido
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“o trabalho no setor da saúde e concorrido para valorizar o sentido de unidade americana”


(BRASIL, 1944, p. 1). Para ratificar a importância da união entre as nações no combate às
doenças em tempos de guerra, seguia afirmando que “na doença, as Américas tinham um
inimigo mais formidável que Hitler. Pois Hitler, como tantos candidatos ao domínio do mundo,
via aproximar o seu ocaso, [...] a luta contra a doença, entretanto, não tinha um fim à vista”
(BRASIL, 1944, p. 1). Entende-se que os boletins do SESP foram utilizados não apenas como
um meio de informação e propaganda, mas sobretudo como instrumento de representações na
construção de imagens exploradas entre os países, principalmente quando elegia as doenças
como inimigo mais mortal que Hitler. Como bem nos sugere o historiador Roger Chartier,
(1990, p. 17) “as representações do mundo social são construídas, e são determinadas pelos
interesses de grupos que as forjam. Daí, para cada caso, o necessário relacionamento dos
discursos proferidos com a posição de quem os utiliza”. Dessa maneira, em tempos de guerra,
os meios de comunicações como boletins e jornais eram utilizados para legitimar projetos e
retratavam os inimigos que deveriam ser exterminados.
Para além do campo de batalha, acenava-se para o campo de luta da saúde como uma
árdua guerra a ser vencida, e os discursos enfatizavam a necessidade de cooperação, pois “as
doenças não reconheciam as fronteiras políticas e atingia a todas as pessoas, sem a distinção de
raça, cor ou crença” (BRASIL, 1947, p. 1). Nesta toada, o Dr. Crispin Insaurralde, ao escrever
um artigo sobre “A saúde na política do bom vizinho”, enfatizou a prática da boa vizinhança
no exercício da medicina e saneamento, como elemento para “estreitar laços de amizade,
ampliar o horizonte do médico das Américas – o que determinaria no futuro um saneamento e
uma medicina continental, no terreno social, científico e moral” (BRASIL, 1944, p. 7). A
intensificação desses discursos exprimia as necessidades apresentadas pelo contexto da guerra
em que exércitos aliados precisavam de matérias primas; os soldados americanos estacionados
no Brasil deveriam ser protegidos das doenças tropicais; os trabalhadores envolvidos na
produção da borracha e minério precisariam de prevenção contra a malária e outras doenças
(CAMPOS, 2005).
Para outro norte-americano, o Dr. John Yagly, da Divisão de Saúde e Saneamento do
IAIA, o programa de cooperação teria “iniciado para atender as necessidades de tempo de
guerra, o trabalho prometia produzir frutos que se fariam sentir por muito tempo após a guerra”
(BRASIL, 1944, p. 7). Prosseguindo, afirmava o médico que “passados mais de dois anos do
início do programa, [...] milhões de trabalhadores das indústrias estratégicas nas outras
Américas estavam se beneficiando das atividades de saúde e saneamento” (BRASIL, 1944, p.
3). Ao fazer referência à guerra e a luta contra as doenças que atingiam as regiões produtoras
de materiais estratégicos de guerra, seguia o médico afirmando que “a luta interamericana
contra a doença não era tão espetacular quanto os choques no campo de batalha. Mas, seus
resultados se fariam sentir permanente nas relações entre os países do continente” (BRASIL,
1944, p. 3). Além de projetar a extensão dos serviços realizados para um contexto pós-guerra,
buscava-se reforçar a necessidade de parceria entre os países, como se todos fossem
dependentes das investidas norte-americanas. Estruturas médicas como os hospitais eram
apresentadas como espaços das benfeitorias do SESP na batalha contra as doenças.

3 OS HOSPITAIS PARAENSES DE BREVES E SANTARÉM

Os edifícios inaugurados constituem, no dizer das placas de bronze que tem à entrada,
‘símbolos de uma sã política de boa vizinhança’. Entretanto, seu valor é muito mais
que simbólico, uma vez que eles se destinam a um papel de crescente importância na
vida da comunidade. (BOLETIM Nº 27, 1945, p.1).

Deu-se a construção e inauguração dos hospitais nas cidades paraenses de Breves e


Santarém, que, para além de estruturas prediais, tornaram-se símbolos forjados da política de
DOSSIÊ AMAZÔNIA 93

boa vizinhança entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, e serviram para legitimar os
discursos das autoridades sobre as ações que o SESP estava realizando na região. Ao chegar à
cidade de Santarém para a inauguração da casa de saúde, a comitiva “via tremular as bandeiras
brasileira e americana e fez-se ouvir o hino nacional brasileiro e em seguida o hino americano,
entoados por uma banda de música” (FIOCRUZ, p. 23). Neste cenário, eivado de patriotismo,
“os representantes cercados pelo povo”, acompanharam os discursos das autoridades presentes.
Durante a cerimônia, o Coronel Harold C. Gotaas afirmava ter o hospital “valor intrínseco para
a população da cidade, sendo mais um passo para o desenvolvimento e progresso da saúde
pública no Brasil” (BRASIL, 1945, p. 1).
Com a inauguração da arquitetura médico-hospitalar, o coronel aproveitou para creditar
aos norte-americanos, a iniciativa e liderança na agenda da saúde global. Gotaas enfatizava na
cerimônia que o ato fazia “parte do programa de cooperação continental em matéria de saúde
pública e saneamento, de educação e de abastecimento alimentar, em que estamos todos tão
profundamente interessados” (BRASIL, 1945, p. 7). Concebido em cooperação internacional,
servia o hospital como ponto de referência para creditar a parceria estabelecida entre Brasil e
Estados Unidos e, a este último, legitimar suas ações junto aos países americanos. Segundo
Mauad (2005, p. 45), “havia declarado interesse, por parte do Departamento de Estado dos
EUA, em consolidar a presença na América Latina através de planos de cooperação
internacional e alianças políticas que garantissem a hegemonia dos EUA na região”.
Na cidade de Breves, os discursos seguiam a mesma toada. Durante a conferência de
inauguração do hospital o Dr. Christopherson, reforçava a importância de contar com
“habitantes saudáveis e fortes que trabalhem e produzem material estratégico e alimentos como
requisitos para ganhar a guerra” (BRASIL, 1945, p. 5). A fala do representante norte-americano
aliava saúde, vitória e guerra como estratégia dos EUA em estabelecer cooperação com o Brasil.
Eivada de intencionalidades, tais falas seguiam uma mesma linha de raciocínio e reforçavam a
importância da parceria entre os países, em prol do combate às doenças e, como consequência,
o progresso e o desenvolvimento locais, evidenciando, nesse processo, a colaboração dos
Estados Unidos. Desse modo, é dada, além de um protagonismo no que diz respeito ao
desenvolvimento do país, a ideia de que o Brasil ficasse devedor das ações norte-americanas
Conforme estabelecido nos decretos, a instalação das arquiteturas médicas pelo interior
da Amazônia contaria com a colaboração do SESP e a contrapartida das prefeituras locais. Os
vários discursos das autoridades buscavam justificar as construções como novos modelos de
atenção à saúde da população local, fruto da política de boa vizinhança, apontando, para isso, a
ação das políticas públicas nessas localidades.

Figura 1 - Projeto do Hospital de Santarém – Pará

Fonte: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Postos de Higiene e Hospitais construídos pelo


Serviço Especial de Saúde Pública no Estado do Pará. 1942-1945. p. 174.
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O projeto previa a construção do hospital no modelo pavilhonar. Segundo Silveira et al.


(2011, p. 137), “o sistema pavilhonar manteve sua hegemonia no campo da edificação
hospitalar até o início do século XX, sendo a partir de então, questionado, revisto e modificado”.
Esse modelo europeu foi substituído pela influência norte-americana com base no higienismo
e na bacteriologia. Nessa nova estrutura, a construção em bloco único tornou-se a tônica do
modelo hospitalar até hoje (COSTA, 2011). Construídos em meados do século XX, as estruturas
prediais do SESP ainda seguiam os padrões da estrutura pavilhonar. A planta do hospital de
Santarém mostra a organização por blocos e interligados por corredores que ligavam uma
unidade à outra. Os blocos divididos poderiam ser utilizados para isolar os pacientes e seus
diferentes tipos de doenças, pois “esses edifícios seguiam a tipologia organizacional e atendiam
a critérios definidos pela terapia de isolamento e pela higiene dos estabelecimentos para a
saúde” (COSTA, 2011, p. 130). As inúmeras janelas presentes na arquitetura contribuiriam com
a iluminação e ventilação natural das salas.
Localizada na região do Tapajós, oeste do Pará, Santarém receberia a maior estrutura
física do SESP. O hospital, planejado para receber 50 leitos, teria “auditório, primeiros socorros,
gabinete dentário, farmácia, fisioterapia, raio X, bacteriologia, operações, pré-natal, partos,
berçário, enfermaria, refeitórios, etc.” (BRASIL, 1942-1945, p. 175). Tratava-se de um hospital
moderno, espaço terapêutico e “medicalizado”. Na década de 1940 a cidade era “o maior
empório comercial do Baixo Amazonas. Seu comércio era intenso com o país, e com o
estrangeiro” (BRASIL, 1942-1945, p. 159). Contava ainda com “uma pequena indústria de
construção naval, curtumes, olarias, usina elétrica, usina de beneficiamento de algodão e
cereais, e muitas outras pequenas oficinas” (BRASIL, 1942-1945, p. 159). Esses elementos
contribuíam para diferenciá-la da maioria das cidades amazônicas, principalmente pela
dinâmica estabelecida com outros países, e poderiam ter sido fator fundamental para que o
SESP pudesse construir na região um hospital de grandes proporções para a realidade do interior
da Amazônia. Até a década de 1960, era comum na Amazônia a existência de pequenas cidades
associadas frequentemente à circulação fluvial, o que lhes conferiam fortes ligações com a
dinâmica da natureza, com a vida rural não moderna e com o ritmo da floresta ainda pouco
explorada (TRINDADE JÚNIOR, 2010, p. 118).
A economia local possuía “uma agricultura com grau regular de desenvolvimento de
cereais, algodão e juta. Havia pequenos seringais cultivados, indústrias extrativas de óleos
vegetais, madeiras, etc. E grande indústria de pesca do pirarucu, etc.” (BRASIL, 1942-1945, p.
160). Tais atividades, principalmente as extrativas e de pesca faziam e ainda fazem parte do
trabalho laboral do homem amazônico, muitos deles, essenciais para a subsistência da
população, como o caso da pesca. Segundo Santos, G. Santos, A. (2005, p. 165), “a pesca é
uma das atividades humanas mais importantes na Amazônia, constituindo-se em fonte de
alimento, comércio, renda e lazer para grande parte da sua população, especialmente as que
residem nas margens dos rios”. Como outras cidades do interior amazônico, credita-se ao boom
da borracha fator que assegurou a função de entreposto comercial para a cidade, reafirmando
seu papel na liderança na porção oeste do Pará (OLIVEIRA, 2008). O possível potencial de
extração gomífera e a dinâmica apresentada pelo município poderiam ter sido fatores para o
Serviço buscar se instalar na região. Aliás, essa cidade recebeu além da maior estrutura médico-
hospitalar os cursos para guardas e visitadoras sanitárias, agentes de saúde com vasta atuação
pelo interior da Amazônia.
Entre os anos de 1944 e 1945, o SESP realizou um inquérito no município e “malária,
helmintoses, disenterias, lepra, tuberculose, bouba e úlcera tropical”, eram as principais
doenças que acometiam a população local (BRASIL, 1942-1945, p. 162). Sendo a região
cortada por rios, muitas dessas enfermidades estariam associadas com o cotidiano dos
moradores. Um exemplo, seria a úlcera tropical que “ocorria com frequência, em indivíduos
DOSSIÊ AMAZÔNIA 95

que habitam próximos a leitos de reservatório de água, em áreas de inundações e atividades que
acontecem perto dos leitos de água, como a agricultura” (BOLEIRA et al., 2010, p. 282).
Medidas de combates a essas doenças estavam presentes na agenda das políticas públicas de
saúde no Brasil. Nos anos iniciais da República, debates sobre o saneamento rural e as várias
doenças que grassavam, sobretudo na zona rural, fomentaram a instalação dos primeiros postos
de saúde e a realização das primeiras obras de engenharia sanitária (HOCHMAN, 1998). Os
discursos de combates a essas doenças entraram também na agenda de atuação do SESP na
Amazônia, apontando em seus inquéritos como medidas importantes a serem tomadas, como
forma de uma intervenção e cuidados com as cidades e a população.
Sobre os recursos médicos em Santarém, o inquérito sanitário informava existir “três
consultórios médicos e três gabinetes dentários. No interior do município, existia os dois
hospitais Ford, localizados em Belterra e Fordlândia, respectivamente” (BRASIL, 1942-1945,
p. 171). Essa estrutura médica teria sido construída para atender os familiares e funcionários da
Ford no trabalho nos seringais (KLUSKA, 2017). Havia ainda, “o Hospital São José, mantido
pela Congregação da Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, e subvencionado pelo
governo municipal. O governo do Estado mantinha um Posto de Saúde, em Santarém”
(BRASIL, 1942-1945, p. 171). Se a existência dessas casas de saúde indica a atuação de
entidades privadas e filantrópicas nos cuidados da população local, a construção de um hospital
sugere as ações de intervenção do Estado. Ao buscar dar publicidade, o SESP reforçava o
discurso de que sua construção era “importante por sua localização, e que o edifício serviria ao
mesmo tempo de hospital e Posto de Higiene”. A construção “iniciada em março de 1943 e
finalizada em dezembro de 1945” (BRASIL, 1942-1945, p. 171) era apresentada como uma das
maiores edificações e representava a atuação do poder público e a interiorização da saúde nessa
região.

Figura 2 - Vista do hospital já concluído

Fonte: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Postos de Higiene e Hospitais construídos pelo


Serviço Especial de Saúde Pública no Estado do Pará. 1942 – 1945.

A imagem retrata a vista lateral do hospital de Santarém já concluído. De acordo com


Mauad (1996, p. 11), “a fotografia pode, por um lado, contribuir para a veiculação de novos
comportamentos e representações da classe que possui o controle dos meios; e, por outro, atuar
como eficiente meio de controle social, através da educação do olhar”. Como símbolo da
política de boa vizinhança, a maior construção do SESP no interior do Pará estava pronta a ser
divulgada. Era uma forma de o SESP imprimir sua marca na Amazônia e registrá-la como uma
grande arquitetura que inauguraria uma nova frente de atenção à saúde pública na região.
96 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Segundo os dados disponibilizados, “o terreno para a construção doado pela prefeitura


possuía uma área distribuída em hospital: 1.385m², Posto de Higiene: 425m², Residência das
enfermeiras: 485m², Necrotério: 77m² e garagem: 153m²” (BRASIL, 1942-1945, p. 172). A
construção de um hospital de grande porte sintetizava a presença do poder público na questão
de saúde, a partir da parceira estabelecida com as autoridades políticas locais, imprimindo uma
nova marca na saúde da região. Presumivelmente, depois de instalado, o hospital se tornaria a
maior estrutura médica na cidade e serviria como uma forma de legitimar as ações do SESP
para a população. Não à toa, o registro captura o momento na qual moradores locais, homens,
mulheres e crianças transitam nos arredores do edifício. Enquanto símbolo da boa vizinhança,
apresentar as pessoas em seu entorno traria um significado importante, sobretudo na divulgação
das ações do Serviço.
Apesar de se tratar de uma estrutura nova e equipada, o hospital, mesmo inaugurado,
parece ter encontrado dificuldades para entrar em funcionamento. Em ofício datado de fevereiro
de 1946, o então prefeito da cidade, o médico sanitarista Ismael Araújo informava a Waldir
Bouhid, Diretor do Departamento Estadual de Saúde, que Santarém havia irrompido um surto
de palustre, e tão logo recebera um abaixo-assinado dos moradores das zonas afetadas solicitou
auxílio das autoridades a fim de tomar providencias necessárias para o funcionamento do
hospital (PARÁ, 1946, n.p). Ao ser pressionado pelos moradores, o prefeito cobrou agilidade
para o seu funcionamento pois teria ocupado “o lugar do antigo existente, de propriedade de
uma ordem religiosa que, bem ou mal, vinha servindo a população. Apesar de perfeitamente
instalado, não funcionava, causando grande prejuízo aos moradores” (PARÁ, 1946, n.p).
Em poucos dias, o Diretor do Departamento Estadual de Saúde encaminhou o ofício do
prefeito ao Dr. Osvaldo José da Silva, Diretor do Programa do Amazonas do SESP, e solicitou
“informações exatas sobre os trabalhos do Serviço naquela região, e se possível, fossem
tomadas as providencias que julgar por bem no caso em apreço” (PARÁ, 1946, n.p). Ainda no
ofício afirmava “se tratar de matéria referente ao interesse público, e esclarecia que as
informações que V.S. se dignar prestar-nos, seriam transmitidas ao Governo do Estado”. Apesar
de o documento não informar os motivos pelos quais o hospital não estava em atividade,
mostrava as falhas do Serviço, pois, mesmo pronto, não atendia as necessidades da população.
Privados de atendimentos médicos, moradores se mobilizaram através do abaixo-assinado
exigindo o funcionamento do hospital. Provavelmente, entre eles estavam moradores presentes
nas cerimônias de inauguração e ouviram os discursos dos representantes do governo com
promessas de melhorias nas condições de vida. No caso de Santarém, o atraso no funcionamento
do hospital poderia contribuir para o descrédito do SESP, além de mostrar, também, os anseios
dos moradores pelo seu efetivo exercício no combate às doenças. Em meio à proliferação das
enfermidades, coube aos moradores reclamar o atendimento médico-hospitalar junto ao poder
público municipal.
Breves foi outro município paraense a receber as instalações de um hospital. A
construção “era justificada pela posição estratégica da cidade, além disso, a alta incidência de
doenças era outro fator a indicar a construção do hospital” (BRASIL, 1942-1945, p. 75). Rota
da borracha no final do século XIX, a cidade estava em uma área estratégica. Por conta da
extração do látex, o movimento comercial em Breves chamou a atenção pelo seu valor
comercial, devido aos vapores atravessarem o estreito do lugar no trânsito entre Belém/Manaus
(FÉLIX; NERY, 2019, p. 7). Os trabalhos tiveram início em abril de 1943 e abrangeriam,
atrelados à edificação, um necrotério com capela, casa das máquinas geradoras e um sistema de
abastecimento de água (BRASIL, 1942-1945, p. 75). Segundo os apontamentos dos inquéritos
“foram encontradas muitas dificuldades para a construção. A não ser as pedras, areia e parte da
madeira necessárias, todo o material usado na construção foi envidado de Belém” (BRASIL,
1942-1945, p. 75). Segundo Bastos (1996. p. 68), uma das formas encontradas pelo SESP para
sanar as dificuldades com material, foi “arrendar a Serraria e Carpintaria ‘Fluminense’,
DOSSIÊ AMAZÔNIA 97

localizada em Belém. [...] Dessa forma, o SESP acelerou a fabricação de muitas peças
necessárias à instalação dos prédios construídos no interior”.

Figura 3 - Projeto do Hospital de Breves – PA

Fonte: MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO E SAÚDE. Postos de Higiene e Hospitais construídos pelo


Serviço Especial de Saúde Pública no Estado do Pará. 1942 – 1945. p. 59.

O projeto acima previa como seria o hospital de Breves, cidade localizada na ilha do
Marajó. Para a construção, a prefeitura local teria doado o terreno com “área de 9.600 metros
quadrados, localizada no centro da cidade” (BRASIL, 1942-1945, p. 75). Tratava-se de um
edifício com 12 leitos e sua estrutura mantinha o modelo pavilhonar, padrão nas construções
do SESP. Símbolo da política de boa vizinhança, teria sido o primeiro edifício inaugurado e era
apresentado como a intervenção do poder público na área da saúde na Amazônia. Durante a
cerimônia de entrega, “a comitiva era esperada no trapiche por uma multidão que demonstrava
o seu entusiasmo pela obra do SESP e teria acompanhado os visitantes até o local de
inauguração, ouvindo atentamente os discursos e aplaudindo-os calorosamente” (BRASIL,
1945, p. 2). Realçar a presença dos moradores locais durante os festejos não deixava de ser uma
estratégia, pois poderia servir como visibilidade para políticos locais reafirmarem as medidas
sanitárias em curso na cidade e dar publicidade as ações desenvolvidas pelo Serviço na região.
Sobre as condições sanitárias, a maioria das doenças presentes na cidade eram as
mesmas encontradas em outros municípios amazônicos. Além da malária, apresentava índices
de “helmintoses, disenterias, lepra, tuberculose, bouba e úlcera tropical” (BRASIL, 1942-1945,
p. 56). Aliás, diversos esforços eram empregados no país, na organização de ações para o
enfrentamento da malária. Os anos de “1930 e 1940 foram marcadas pelo surgimento de
estruturas sanitárias e campanhas dedicadas ao combate à malária, levadas a cabo tanto pelo
governo brasileiro, [...] como pelos esforços da fundação Rockfeller”. (HOCHMAN; MELLO;
SANTOS, 2002, p. 235). Breves teria sido uma das primeiras cidades do país a receber do SESP
tratamentos para malária, a partir “da experiência de expurgo com o famoso DDT, um inseticida
que estava revolucionando os métodos de controle da malária” (BRASIL, 1945, p. 4). Para
Campos (2006, p. 130) “o sucesso desta nova técnica fez com que, cada vez mais, os
responsáveis pelas políticas sanitárias acreditassem que o DDT substituiria as tradicionais
formas de controle da malária”. A cidade de Breves “foi a escolhida por ser um dos lugares
mais assolados pela malária, em virtude de ser construída numa várzea, perto de pântanos, sobre
aterros de serragem” (BRASIL, 1945, p. 4). Tais ideias reproduzem justificativas da
necessidade de intervenções, sobretudo ao relacionar as más condições de moradia da cidade a
um lugar insalubre e propício a todas as moléstias.
98 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Entre janeiro e março de 1945, foi realizado um levantamento das condições de


habitação da cidade. Das 170 casas existentes na cidade, 144 foram inspecionadas, sendo “boas
57, regulares 43 e más 44”. Sobre os utensílios para lavar as mãos, as residências foram
classificadas como: “bons 26, regulares 6, maus 112”. Em relação aos quintais, “4 foram
classificados como bons, 6 regulares e 134 maus”. Casas com fossas foram classificadas como:
“boa 1, regulares 0, más 29”. Sobre o uso de fossas, “2 casas davam diretamente para o rio e
114 não possuíam fossas” (BRASIL, 1942-1945, p. 60). A precariedade das habitações não
eram realidades apenas das cidades do interior da Amazônia. Se ainda hoje casas feitas de
madeira e cobertas de palhas fazem parte do cenário de comunidades ribeirinhas, também
encontramos essa estrutura na capital do Pará, principalmente nas áreas mais afastadas do
centro. Através dos relatos dos moradores de Belém, na década de 1940 a estrutura da periferia
apresentava “barracas, casas de pobres, casa de chão batidos [...]. Não havia água encanada e
as habitações apresentavam péssimas condições de higiene e saneamento, situando-se no meio
da rua sem pavimentação” (FONTES, 2002, p. 222 - 223). Os dados apresentados pelos
inquéritos buscam mostrar as cidades paraenses carentes de saneamento e, ao mesmo tempo,
justificar os discursos das autoridades com relação à necessidade de levar saúde e higiene para
a população local.
Se os relatórios apresentados pelo SESP buscavam evidenciar a cidade como espaço
cheio de problemas quanto a serviços de saneamento e condições de moradia da população, o
hospital era apresentado como uma estrutura moderna, feita de alvenaria, e estaria sob gerência
do Estado, apta a promover a saúde pública na região. Com “capacidade para 16 leitos, contaria
com o Dr. Brasilino Ricardo de Queiroz, cinco enfermeiras – uma enfermeira chefe diplomada
pela Escola Ana Neri, no Rio, e quatro outras com curso em Belém” (BOLETIM, 1945, p. 2).
Além da estrutura montada, Breves contaria com profissionais da saúde – médicos e
enfermeiras – e a estes somavam-se as atividades de outros agentes de saúde como os guardas
e visitadoras, iniciativas consideradas importantes para a extensão do poder público em uma
pequena cidade do interior da Amazônia. Não à toa, as autoridades políticas locais se
apropriavam dessas ações e celebravam as intervenções realizadas. Por ocasião de sua
inauguração, o Dr. Lameira Bittencourt, secretário geral do Estado, representando o Interventor
Federal, teria agradecido os benefícios trazidos pelo SESP à população local e elogiou a
campanha feita com o apoio do governo estadual (BRASIL, 1945, p. 2).
Economicamente, Breves contava com “7 pequenos estabelecimentos comerciais mal
sortidos, uma serraria e uma usina de beneficiamento da borracha. O município produzia,
borracha, madeira, oleaginosas, açúcar, couro e peles” (BRASIL, 1942-1945, p. 24). Parte das
ocupações da cidade estava relacionada as riquezas naturais extraídas da região. Nos anos de
1930, com o enfraquecimento dos seringais que marcaram a história local, em função da posição
estratégica e instalação de grupos empresariais, a extração da madeira impulsionou o
crescimento do espaço urbano” (PACHECO, 2010, p. 10). Há de se destacar que Breves foi o
município de maior produção gomífera, na região das ilhas, entre os períodos de 1900 a 1910
(WEINSTEIN, 1993). Presumivelmente, esse histórico teria impulsionado o município a ser
uma das sedes escolhidas para a atuação do SESP, principalmente pelo contexto marcado pela
necessidade em reativar a produção de borracha na Amazônia, dentro dos esforços de guerra.
Os hospitais construídos pelo SESP nas cidades paraenses alinhavam o discurso de
promoção da saúde da população, pois “se destinavam a um papel de crescente importância na
vida da comunidade” (BRASIL, 1945, p. 1). Ao mesmo tempo, reforçavam o discurso político
dos tempos de guerra, como os símbolos de uma sã política de boa vizinhança.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
DOSSIÊ AMAZÔNIA 99

Durante a III Conferência de Chanceleres ocorridas na cidade do Rio de Janeiro, Brasil


e Estados Unidos celebraram uma série de acordos bilaterais. De acordo com as decisões
estabelecidas ficou acordado “medidas sanitárias e de saúde adequadas, como contribuição
indispensável para que os povos das repúblicas americanas pudessem assegurar seu poder
defensivo e os meios de resistir à opressão” (BRASIL, 1944, p. 7). As discussões sobre saúde
e o combate às doenças estavam entre as principais pautas estabelecidas nas reuniões políticas,
deixando claro, também, o teor bélico do contexto, demonstrando, ao mesmo tempo, as doenças
e os países do “Eixo” como principais inimigos.
Nascido durante esse contexto, o SESP atuou com uma vasta agenda na área da saúde e
saneamento no país. Formação de vários profissionais como visitadoras e guardas sanitários,
instalação de sentinas, abastecimento de água e, como vimos, a construção de hospitais, foram
ações desenvolvidas na região amazônica. Após a realização dos inquéritos sanitários e a
apresentação de um quadro desfavorável, as cidades paraenses de Breves e Santarém,
receberam estruturas médicas. A construção tornou-se símbolo de uma sã política de boa
vizinhança, onde os discursos alinhavam os laços de amizade e debates sobre saúde pública.
Em tempos de guerra, saúde e paz contrapunham-se à ideia de doenças e nazismo. Fruto de
discussões diplomáticas, a criação de agências de saúde garantiu aos Estados Unidos, por um
lado, a formação de alianças no contexto da guerra e o acesso a suprimentos de recursos naturais
dentro dos esforços de guerra. Por outro, possibilitou ao governo Vargas a inserção de políticas
públicas na Amazônia, essenciais dentro do projeto de ampliar a presença do Estado na região.
A instalação dos hospitais concretizou intervenções dos serviços públicos e o atendimento à
saúde dos moradores de cidades do interior do Pará.

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(1917-1924). 2016. Dissertação. (Mestrado em História) - Programa de Pós-Graduação em
História Social da Amazônia. Universidade Federal do Pará. Belém – PA, 2016.

WEINSTEIN, Barbara. A Borracha na Amazônia: Expansão e Decadência (1850-1920).


São Paulo: Editora HUCITEC/USP, 1993.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 105

SEXO É SÓ PARA QUEM PODE PAGAR: UM DIÁLOGO COM O COTIDIANO DA


PROSTITUIÇÃO NO PARÁ

Augusto César Pinto Figueiredo1


RESUMO

O presente artigo é o resultado do primeiro ano de pesquisa de campo desenvolvida para a tese de
doutorado intitulada: “A história da prostituição em áreas de barragens na Amazônia: O lado sombrio
do grande capital”, e das discussões gestas na disciplina “Sociobiodiversidade e trabalho”. No presente
artigo abordamos diversos aspectos como perfil das profissionais do sexo, perfil dos clientes, valor dos
programas, abordamos brevemente os motivos que levam essas pessoas a ingressarem no mercado do
sexo. Falaremos sobre metodologia de pesquisa de campo, os desafios de fazer pesquisa de campo
durante o período de pandemia, apresentamos a transcrição de diálogos que foram coletados ao longo
do ano de 2020 com cerca de 50 profissionais do sexo. As perguntas inicialmente eram abertas, mas tão
logo as entrevistadas se sentiam à vontade, as perguntas abertas davam espaço a narrativas de vida e
trajetórias que iam do histórico familiar até o momento que as levou a “escolha” do mercado da prestação
de serviços sexuais. Os dados coletados resultaram numa tabela que apresentamos as características
físicas, faixa etária, os tipos de programas e os cachês médios cobrados por programa.

Palavras-chave: Prostituição. Profissionais do sexo. História oral. Serviços sexuais.

SEX IS RESERVED FOR THOSE WHO CAN AFFORD IT: A DIALOGUE WITH
THE DAILY PROSTITUTION IN PARÁ

ABSTRACT

This article is the result of the first year of field research developed for the doctoral thesis entitled: “The
history of prostitution in dam areas in the Amazon: The dark side of great capital”, It is also the results
of the discussions conducted in the discipline “Sociobiodiversity and job". This paper, we discuss
several aspects such as the profile of sex workers, the profile of clients, the value of a pool, we briefly
discuss the reasons that lead these people to enter the sex market. We talk about the challenges of doing
field research during the pandemic period, we present the transcript of dialogues that were collected
throughout the year 2020 with a total of 50 sex workers. The questions were initially open, but as soon
as the interviewees felt at ease, the open questions turned into life narratives and trajectories that started
from family history to the moment that led them to “choose” the sex market. The data collected resulted
in a table that presents the physical characteristics, age group, types of pooling and the average fees
charged per pooling.

Keywords: Prostitution. Sex workers. Oral history. Sexual pooling.

Data de submissão: 19. 04. 2021


Data de aprovação: 15. 05. 2021

INTRODUÇÃO

Segundo dados de 2015, da Fundação Mineira de Educação e Cultura, FUMEC,


estima-se que o Brasil possui 1,5 milhões de pessoas, entre homens e mulheres, que vivem
em situação de prostituição. No entanto, o que leva uma mulher a entrar no mercado da
prestação de serviços sexuais? A prostituição pode ser considerada uma profissão? Quem as
apresenta a esse mercado? Quais os critérios que tornam a prestação de serviços sexuais um
mercado lucrativo para algumas mulheres e pouco rentável para outras? Quanto ganha,
1
Professor efetivo da Universidade Federal do Pará. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em História da
Amazônia da Universidade Federal do Pará. E-mail: [email protected].
106 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

aproximadamente, uma operária do sexo? Qual o perfil dos homens que buscam esse tipo de
companhia?
Guimarães Neto (2014, p. 28) explica que historiadores e estudiosos das ciências sociais
investigam, primordialmente, os momentos e contextos políticos, econômicos e culturais em
que as diversas práticas de trabalho emergem e se tornam corrente no dia a dia das sociedades.
O comércio de prestação de serviços sexuais é indubitavelmente uma prática de trabalho que se
fez e faz muito presente no cotidiano de nossa sociedade.
Outro fator deveras relevante é a questão psicológica que muitas vezes passa
despercebida no universo da prestação de serviços sexuais. Muitos relatos colhidos no presente
trabalho expressam fortemente questões como: abusos na infância, iniciação sexual precoce,
insegurança com o corpo e bullying sofrido ao longo da infância e adolescência. Thompson
(2002, p. 12) explica que:

Muitas vezes surpreendo-me pela resistência, particularmente dos sociólogos, a essa


dimensão psicológica. Muito recentemente, estive discutindo com uma amiga
brasileira sua pesquisa sobre o turismo sexual. Elementos cruciais na situação são
obviamente a desigualdade econômica, a pobreza das mulheres brasileiras locais e a
riqueza dos turistas visitantes, e as imagens quase contrárias que têm um do outro: os
turistas imaginando as mulheres brasileiras como altamente sexuais, “tropicais”,
enquanto as mulheres achando que os homens são frios e pouco exigentes
sexualmente. Mas enquanto essas pressões estruturais compõem o contexto para o
turismo sexual, elas não explicam porque certas mulheres se tornam prostitutas e
outras não. Poderíamos supor que outros fatores psicológicos estejam envolvidos, tais
como o aban- dono na infância, uma mãe distante e fria ou o abuso sexual por parte
do pai ou avô. Creio que tanto as perspectivas sociais quanto as psico- lógicas são
igualmente relevantes para a interpretação (THOMPSON, 2002, p. 12).

Ao refletirmos sobre as perguntas que guiaram o presente trabalho surgiu outro


questionamento. Qual aporte metodológico seria o ideal para trabalharmos com narrativas orais
dessas operarias do sexo? A resposta foi quase que imediata, optamos pelo uso da História Oral.
Thompson (2000, p.10) explica que, em primeiro lugar, a história oral é um método que sempre
foi essencialmente interdisciplinar, um caminho cruzado entre sociólogos, antropólogos,
historiadores, estudantes de literatura e cultura, dentre outros. Thompson continua relatando
que, ao longo de sua vida de pesquisador, ele sempre observou como determinadas disciplinas
podem ser transformadas por novos modos de pesquisa, além de ver como uma força crucial da
história e o fato dela permanecer como uma forma fundamental de interação humana, que
transcende as fronteiras disciplinares.

1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA

Alberti (2005, p.155-202) enfatiza alguns equívocos sobre a História oral que devem ser
descartados de imediato, como a consideração de que a História oral é a própria História; de
que a história vista “de baixo” é a democrática, em oposição à história das elites; e que a História
oral busca dar voz às minorias, o que apenas reforçaria as diferenças sociais. Para a autora, a
História oral deve ser compreendida como visões de mundo e experiências de vida. Logo, dar
voz aos relatos de vida de mulheres que estão à margem da sociedade, por meio de seus relatos
de vida, é comprimir com o papel não só de historiador, mas de partícipe de um grupo de
pessoas que buscam, por meio das ciências sociais, derrubar barreiras e, talvez, assim,
minimizar ao máximo as mazelas sociais que as meretrizes historicamente são submetidas.
Utilizar a História oral é trabalhar num campo movediço, onde questões, como a
veracidade dos depoimentos, devem ser consideradas como elemento válido dentro de uma
pesquisa acadêmica séria. Ou mesmo, por se tratar de uma questão mais voltada à memória
individual, não deva ser considerado como apenas um imaginário das entrevistadas, uma
DOSSIÊ AMAZÔNIA 107

tentativa de maquiar uma realidade dura e cruel no cotidiano que muitas vezes, é transformar
em um “conto de fadas, ou até mesmo o oposto”.
Neste caso, David (2013, p. 160) explica que a problemática da verdade não deve
subjugar o trabalho com a História oral. Sem questionar a busca contínua pelo como se deu
determinado fato ou evento histórico, mas devemos reconhecer a multiplicidade de narrativas,
buscar compreender que o depoimento oral é desencadeado pela construção de uma narrativa
ucrônica2 (PORTELLI, 1993, p. 41-58), inserida no campo da memória e que determina aquilo
que o personagem gostaria que tivesse ocorrido ou a sua representação do real.
David (2013, p. 160) complementa afirmando que não se trata de questionar a verdade
ou não do depoimento, mas apenas compreender que esse é construído socialmente pelo
entrevistado que, dando sentido à sua vida, arquiteta um ponto de vista, uma representação
sobre determinado momento relacionado à sua trajetória. E mesmo que essas lembranças
possam indicar a representação do indivíduo sobre determinado fato ou evento, elas estão
carregadas de densidade histórica e demonstram as múltiplas visões do passado, um ponto de
vista do indivíduo que demonstra muito de si e do grupo ao qual ele pertencia.
Para muito além disso, a História oral nos subsidia com elementos para melhor
compreender a possibilidade de múltiplas narrativas e que essas apontam que não há uma
verdade única e que, em decorrência da sociedade ser composta por diversos grupos sociais
participantes concomitantemente de um mesmo período ou evento histórico, cada grupo terá
uma visão de mundo, uma experiência de vida que compõe o todo. (DAVID 2013, p.160)
Thompson (2002, p. 16) deixa bem claro a importância do uso da História oral, uma vez que
todo homem e toda mulher têm uma história de vida para contar que é de interesse histórico e
social, e muito se pode compreender a partir dos poderosos e privilegiados, tais como
proprietários de terra, advogados, padres, empresários, banqueiros, etc.
Entretanto, a História oral tem um poder único de nos dar acesso às experiências
daqueles que vivem às margens do poder, e cujas vozes estão ocultas, pois as vidas dessas
pessoas são praticamente improváveis de serem documentadas nos arquivos. Thompson
enfatiza ainda que essas vozes ocultas são acima de tudo de mulheres, e é justamente por isso
que a História oral tem sido tão fundamental para a criação da História das mulheres.
No entanto, ao trabalhar com História oral é necessário, na hora da entrevista, o
pesquisador ter amplo conhecimento do assunto, pois este será constantemente sabatinado por
seus entrevistados. Um dos maiores entreves na hora de entrevistar é não estar devidamente
munido de informações básicas e demonstrar para o seu entrevistado o desconhecimento de
suas práticas e terminologias locais.
Quando o entrevistado reconhece que o pesquisador tem clareza ao tratar do métier do
entrevistado, o pesquisador conquistará confiança e respeito tendo a oportunidade de obter
ainda mais informações e detalhes, que são imprescindíveis para a sua pesquisa. Thompson
(1992, p. 255) explica que:

A menos que o informante seja, de algum modo, mais bem informado do que o
entrevistador. Este vem para aprender e, de fato, muitas vezes consegue que as pessoas
falem exatamente dentro desse espírito. Por exemplo, Roy Hay descobriu, em sua
pesquisa com construtores navais que Clydeside, que, muitas vezes, ‘nossa própria
ignorância’ pode tornar-se útil. Em muitas ocasiões, são trabalhadores mais velhos
recebiam minhas perguntas ingênuas com divertida tolerância e me diziam ‘Não, não,
garoto, não foi desse jeito’, ao que se seguia uma descrição clara e detalhada do que
verdadeiramente acontecera” (THOMPSON, 1992, p. 255).

2
Neste texto, o autor destaca que as narrativas se apresentam como sonhos de uma vida que poderia ter ocorrido
de maneira diversa, não se encontra na realidade, mas, sim, na possibilidade desejada, e a função do ucrônico seria
a de sustentar a esperança.
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Escolhemos fazer entrevistas e utilizar questionários tanto abertos quanto fechados. As


entrevistas foram feitas ao longo do ano de 2020, nas cidades de Belém, Ananindeua, Marituba,
Tucuruí, Altamira e Santarém no estado do Pará. Ademais, utilizamos as entrevistas tanto para
coleta de dados quantitativos quanto quanlitativos, bem como dar voz a essas mulheres que
raramente têm os seus relatos de vida documentados. Thompson (2002, p. 16) reforça que o
ponto chave é que os historiadores orais deveriam sempre pensar sobre as implicações
quantitativas de sua pesquisa, e ter uma estratégia de amostragem que se adapte a seus
propósitos, e, assim, visar a um poder explanatório que é ao mesmo tempo qualitativo e
quantitativo.
Bruns e Gomes (1996), durante pesquisa de campo, procuraram compreender a prática
da prostituição a partir de como essas profissionais do sexo vivenciavam sua sexualidade. Para
isso, os autores realizaram entrevistas com 15 prostitutas institucionalizadas, com idade entre
18 e 33 anos, com escolaridade até o ensino médio.
Inicialmente foram trabalhadas perguntas fechadas, logo depois abertas e, por fim, assim
que as entrevistadas se sentiam à vontade, as perguntas abertas davam espaço às narrativas de
vida e trajetórias que iam do histórico familiar até o momento que as levou a “escolha” do
mercado da prestação de serviços sexuais como alternativa de trabalho. Seja qual for o motivo,
e aqui usaremos uma frase um tanto clichê, mas o mercado do sexo pago só existe porque existe
demanda.
Para Bruns (2001), “Se existe quem vende prazer, é porque existe quem compra prazer.
Essa demanda desconhece crises econômicas, pandemias, guerras e tragédias climáticas.
Justamente por isso, não podemos deixar de falar mesmo que brevemente da questão da Covid
19, uma vez que nossa pesquisa foi realizada no ano de 2020, em pleno auge da pandemia.
As entrevistas foram realizadas em sua maioria por meio de vídeo chamadas, algumas
por telefone, outras via chat de aplicativo de mensagens instantâneas e apenas cerca de 20%
foram desenvolvidas pessoalmente. Thompson (2002, p. 26) traz à tona os desafios para os
pesquisadores que utilizam a História oral como aporte metodológico. Thompson faz a seguinte
indagação a respeito do uso das novas tecnologias da comunicação durante a pesquisa de
campo:

Aqui já encontramos nosso quarto desafio: as novas tecnologias de comunicação.


Devemos abraçá-las como uma oportunidade maravilhosa, ou devemos reconhecê-las
como os mensageiros de nosso futuro es- quecimento? Afinal, a história oral como a
conhecemos era indubita- velmente uma criança da idade de ouro do som, quando o
rádio era a principal forma da comunicação de massa – uma era passada já distan- te.
E eu não penso que, até o momento, historiadores orais têm apre- sentado um registro
muito expressivo de afinidades com os avanços técnicos. Muitos vídeos de história
oral que foram produzidos são te- diosamente formais e repetitivos para se ver, por
que seus criadores não reconhecem a necessidade de técnicas bastante diferentes a fim
de fazer com que o trabalho audiovisual prenda os que o assistem e trans- mita sua
mensagem. E, lamentavelmente, a mesma fraqueza tem se re- petido na maior parte
dos CD-Roms de projetos de história oral que tenho visto.Existem também novas
excitantes possibilidades para difundir a história oral através da multimídia e da
internet. Dispositivos de multimídia têm um potencial especial para integrar som,
imagens visuais e texto, e eles podem ser um importante caminho de atração para uma
audiência mais jovem. Criar sites de memória na internet, e combinar di- ferentes
tipos de documento, são novas formas igualmente importantes (THOMPSON, 2002,
p. 26).

David (2013, p. 164) alerta que quando o pesquisador invade a privacidade do


entrevistado, com questões que o obrigam a relembrar momentos de sua vida, muitos deles que
se deseja esquecer, é muito recomendável que, seja criado um ambiente confortável para o
DOSSIÊ AMAZÔNIA 109

entrevistado, para que o mesmo se sinta à vontade para falar ou até mesmo deixar de falar.
Assim, o ambiente deve ser escolhido ou aprovado pelo próprio entrevistado. Além disso, locais
relacionados ao período narrado ou à temática possibilitam a melhor rememoração do passado,
sendo ainda possível a utilização de fotos ou objetos que ajudem o entrevistado a se recordar
do tema proposto.
Saraiva (2009, p. 8-15) descreve em seu capítulo introdutório as dificuldades que teve
para fazer a coleta de dados em ambiente de meretrício. Este capítulo serviu como norte para
as minhas idas à campo. Cerca de 30% dos encontros presenciais foram realizados em quartos
de Hotéis/Motéis, apartamentos alugados por temporada, locais usualmente utilizados para o
atendimento de clientes, além destas, algumas poucas entrevistas foram realizadas nas próprias
casas das profissionais, que também eram utilizadas como espaço de trabalho. Ressaltamos que
máscaras, distanciamento social e álcool em gel foram medidas de prevenção e segurança
adotadas durante as entrevistas presenciais.
Fazer a entrevista no local de atendimento dessas mulheres, teve como intuito dar
subsídios para que elas pudessem acessar as camadas mais profundas de suas memórias.
Quando o pesquisador opta pela coleta de depoimento oral, ele precisa ter clareza que vai
adentrar em um campo delicado e íntimo da memória do entrevistado.
Saraiva (2009, p. 9) relata uma situação recorrente durante sua pesquisa de campo:
mesmo depois de os pesquisadores exporem os seus objetivos às trabalhadoras do sexo, muitas
delas acreditavam que pelo pesquisador ser homem ele ainda era um cliente em potencial.
Ser tratado como uma cliente em potencial, foi também uma experiência vivenciada por
mim em meu trabalho, mas tal situações foram sutilmente contornadas. Em muitos momentos
da pesquisa de campus, assim como Saraiva, tive de ouvir propostas que iam desde pagar para
fazer sexo e poder ouvir os relatos a simplesmente pagar para ouvir somente os relatos.
As garotas de programa relataram que, por conta da pandemia, houve uma drástica
redução no número de programas realizados diariamente. Alguns relatos de diminuição falam
de uma perda entre 40% e 55% da renda diária obtida com os programas. Algumas meretrizes
relataram que faziam entre 03 e 05 programas diários, antes da pandemia de Covid 19.
Algumas mulheres, encontraram formas alternativas de recuperarem parte dos ganhos,
e ao mesmo tempo diminuir o contato social com inúmeros parceiros. Uma alternativa um tanto
inusitada foi por meio de rifas. Toda a semana, um programa “completo” com uma trabalhadora
do sexo era rifado. Com o valor recebido das rifas, a mulher ganhava o suficiente para o seu
sustento por uma semana de trabalho, e o cliente que comprava a rifa por cerca de 15 ou 20
reais, dependendo da meretriz, ganhava um programa por um custo bastante inferior ao que
pagaria usualmente num programa regular com a profissional do sexo.
Outra queixa corriqueiramente ouvida, durante as entrevistas, por parte das profissionais
do sexo é que os programas são exaustivos, uma vez que os clientes demandavam delas um
grande esforço físico durante o ato sexual. Os clientes pagam e querem a melhor performance
possível, não levando em consideração se aquele é o terceiro ou mesmo o quinto programa do
dia daquela meretriz, mas com a pandemia as coisas mudaram e ficaram mais amenas pelo
número reduzido de programas.
Sob a ótica das profissionais do sexo, uma questão curiosa foi levantada por quase todas
elas, durante as entrevistas, ao que concerne a diminuição do número de programas realizados.
Para elas, o fato da diminuição do número de programas não ocorreu por conta do vírus, ou pela
proibição de circulação das pessoas, mas pelo simples fato delas atenderem um público,
majoritariamente, de mulheres e homens casados. Esses clientes teriam se sentido obrigados a
ficarem confinados em casa com seus cônjuges, durante o período de quarentena, tornando a
possibilidade de encontros extraconjugais praticamente inviáveis.
Muitas meretrizes também afirmam que, para elas, o motivo para o aumento da violência
doméstica, e o número considerável de casais que entraram com o processo de divórcio era
110 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

justamente por conta da rotina “aprisionada” dos cônjuges, já que esses estavam acostumados
a sair 01 ou 02 vezes por semana com outras mulheres. Vale ressaltar que essas conclusões
foram retiradas dos relatos das profissionais entrevistadas e, portanto, não devem ser
entendidas, nesse artigo, como conclusões científicas.
Contudo, se por um lado houve uma diminuição na quantidade de programas realizados
pelas profissionais do sexo, por outro, um auxílio, no valor de R$600, do Governo Federal
acabou mitigando as perdas financeiras, uma vez que praticamente todas receberam o auxílio
emergencial. Para muitas, esse valor não foi suficiente face ao valor perdido no número de
programas, uma vez que o valor médio de um programa gira em torno de R$100 e R$200.
Obviamente, estamos tratando, aqui, de média de valores. Temos clareza que dependendo das
habilidades e dotes da mulher, do público alvo, do fator étnico e da idade, os cachês podem
chegar próximo de R$800, ou, até mesmo R$2.000, fazendo com que algumas tenham sentido,
financeiramente, mais que outras.
Durante o período de entrevistas, foi possível ter contato direto com 50 mulheres que
trabalham diretamente com a prostituição. Essas mulheres têm entre 18 a 40 anos, mas por
questões de sigilo e segurança, as identidades dessas mulheres serão preservadas. Como
pseudônimos, ao narrarmos suas trajetórias de vida utilizaremos nomes de flores.
No momento em que as profissionais aceitavam participar da entrevista, elas eram
apresentadas às flores disponíveis, essas seriam as representações de suas identidades. As flores
já escolhidas eram automaticamente retiradas da lista. Dentre essas 50 mulheres, foram
escolhidas 05, que aqui terão suas narrativas trabalhadas por dois motivos deveras relevantes:
essas possuem mesma faixa etária, classe social e características étnicas e o fato delas não
estarem satisfeitas com suas aparências físicas.

2 DESENVOLVIMENTO

Todavia, vamos discutir a questão da prostituição como profissão? Guimarães Neto


(2014, p. 28) explica que, levando em consideração o ponto de vista historiográfico, esse campo
de investigação apresenta profícuas atualizações temáticas e acaba por problematizar a
historicidade das categorias trabalho e trabalhador sob diversos ângulos. Ao falarmos de
prostituição, mais especificamente no contexto Amazônico, precisamos levar em consideração
que a prostituição, apesar de ter entrado na classificação brasileira de ocupações (CBO) em
2002, indexada na CBO com o número 5198-05, ter reconhecido a ocupação de “profissional
do sexo” como membro da família “prestador de serviço”, poucas mudanças sociais efetivas
foram notadas. Para Rodrigues (2003, p. 68) os êxitos dessa inclusão são insuficientes para
modificar o estatuto formal da prostituição ou seu reconhecimento como profissão, isso porque
o êxito inerente ao reconhecimento da profissão demandaria outras medidas relacionadas a
iniciativa de legislação.
Para Rodrigues (2009), o reconhecimento da profissão, as iniciativas e legislação
voltadas a esse membro da família de prestadores de serviços é uma questão crucial para o
combate à sua exclusão e discriminação, bem como para a conquista da cidadania. As
mudanças históricas relacionadas à liberação sexual, costumes, domínio do próprio corpo e
independência foram significativas, mas não suficientes para dar às profissionais do sexo a
dignidade humana inerente a todos garantida pela CF/88. Reduzidas a prestadoras de serviços,
por enquanto, no mundo real, os avanços sobre a ocupação, trabalho, legislação e
reconhecimento da prostituição foram ínfimos diante da projeção negativa em que essas
profissionais hoje em dia se encontram.
Será que transformar a prostituição em serviço é uma forma de oportunizar as variações
da dinâmica desse ofício de forma tão constante?
DOSSIÊ AMAZÔNIA 111

A inclusão na CBO permite que essas mulheres venham a recolher contribuições


previdenciárias, como profissional do sexo, tendo a garantia dos direitos comuns a todos os
trabalhadores, como aposentadorias e auxílio doença (DONEL, 2011). A Consolidação das Leis
do Trabalho – CLT não abarca esta atividade, dentre as diferentes categorias de trabalhadores,
cabe a profissional de sexo recolher o valor de 20 % para a previdência social sobre a renda.
Por outro lado, sem declarar a profissão de meretriz, pode-se recolher 11% sobre arenda, o que
garante praticamente todos os direitos previdenciários, exceção à aposentadoria por tempo de
serviço e auxílio doença por moléstia que não permita continuar exercendo a profissão dita
como a mais antiga do mundo (DONEL, 2011; SILVA, 2008).
Agora que temos clareza que trabalhar como meretriz é reconhecidamente um prestação
de serviço, o presente artigo irá trazer o perfil dessas mulheres. Sobre o prisma do primeiro
motivo escolhido. Temos: moças caucasianas, entre 18 e 26 anos de idade, filhas de pais de
classe trabalhadora e mães geralmente domésticas. Algumas possuem ensino médio completo,
outras chegaram até a ingressar no ensino superior, mas acabaram abandonando por não
conseguirem manter não só as mensalidades das faculdades particulares, como também toda a
logística que envolve cursar o nível superior, como adquirir apostilas, livros, transporte,
comida, pacote de dados de internet, entre outros custos adicionais. Esses dois principais
motivos levaram a maioria das entrevistadas, que cursavam o nível superior, a abandonar as
faculdades, entre o segundo e o quarto semestre.
Além da questão dos custos para manter uma faculdade particular, ainda há a questão
de horário de atendimento dos clientes, que não segue o horário comercial. Isto é, como a
maioria das entrevistadas trabalham usando aplicativos e sites de encontros especializados, a
todo o momento elas são acionadas e precisavam sair no meio das aulas para não perderem
clientes que, muitas vezes, só podem ser atendidos naquele determinado horário.
Como algumas das famílias das profissionais não sabem do ofício, ao tentar manter a
discrição, as profissionais optam por atender os clientes no horário que supostamente deveriam
estar em sala de aula, culminando, quase sempre, em perda do semestre letivo da faculdade,
reprovações por faltas, não cumprimento das atividades acadêmicas propostas, entre outros
motivos diversos. Algumas profissionais do sexo relataram que sentiam vergonha de seus
professores e colegas de classe, uma vez que tinham de atender chamadas telefônicas durante
as aulas e combinar preços e tipos de programas dentro da sala de aula.
Como o controle de circulação para maiores de 18 anos em sala de aula é menos
complexo, algumas meninas precisavam conversar abertamente com seus professores sobre
seus trabalhos, numa tentativa de justificar suas ausências constantes, ou saídas inesperadas no
meio das aulas, na tentativa de achar alternativas para não reprovar e continuar os estudos.
Foram também relatados episódios de bullying que as profissionais sofrem por parte dos
colegas que sabem o motivo de suas saídas corriqueiras. Seja pela rotina, pela grande
rotatividade de carros que param para buscar e deixar essas moças dentro de um curto espaço
de tempo, pelos vários atendimentos por telefone, ou pelo tempo quase fechado, de 1 hora entre
a saída e o retorno delas para a sala de aula.
Alguns relatos narrados apenas como bullying se misturavam e se destacavam por se
configurarem como assédio sexual. Estes aconteciam por parte dos funcionários da escola,
como porteiros, serventes, secretários, colegas de classe e professores. Algumas foram
chantageadas por esses homens e ameaçadas de terem suas vidas expostas as suas famílias e
amigos, casos elas se negassem a prestar favores sexuais a eles. Agravando ainda mais a
situação de vergonha e sentimento de impotência, o que as leva de garotas de programa à
vítimas, em minutos.

3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
112 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Ires, de 18 anos de idade, relata que muitos sites escondem a presença do rufião.
Agenciadores que teclam com os clientes, marcam os encontros, acertam os valores dos
programas e o tipo de programa que o cliente deseja. Sites como FatalModel, Skokka,
NorteSexy, Paradise Girl, SexBooking, entre outros, que são muito difundidos na internet e
entre as garotas de programa. Logo depois de ver o portfólio da mulher no site, o cliente pode
entrar em contato diretamente com a garota de programa escolhida, por meio de aplicativos de
mensagem instantânea ou por telefone, para fechar o programa. Ires fez o seguinte relato:

Sabe Augusto, eu comecei a fazer programas quando eu tinha 15 anos. Eu tinha umas
colegas da minha sala que faziam programa e me colocaram nessa barca. Eu tentei me
cadastrar em 03 sites desse ai de programa. Um dos sites pediu minha identidade e
como eu sou de menor acabou não rolando. Eles ainda me deram o maior mijada. Mas
dois sites, eu me dei bem pra caralho. Só falei que tenho 18 anos e pronto [...]. Como
moro com a minha mãe e padrasto, eu não posso sair certos horários. Eu vivo
recebendo mensagem 24 horas dos caras. As vezes, faço uns 03 programas da hora
que eu vou para a aula. Essa porra de Pandemia fudeu com a minha vida, agora só
consigo fazer 01 programa por dia. O babado ficou tão foda pra mim, que eu tive de
pagar para o moderador marcar os programas pra mim [...] parte da grana, eu banco o
meu namorado. Ele é um frango, ele tem 19 anos e é barbeiro. Ele é liso o coitado
(risadas). Ele nem desconfia que eu saio com caras e ainda uso o dinheiro para pagar
as coisas pra ele. Eu amo aquele frangote.

Tanto Ires quanto outras garotas que foram entrevistadas durante a pesquisa de campo,
relatam que vivem relacionamentos amorosos, mas que seus companheiros desconhecem ou
em alguns casos já as questionaram, mas não sabem que suas namoradas, companheiras e
esposas trabalham no mercado da prestação de serviços sexuais. Muitas utilizam o dinheiro que
ganham para ajudar os seus cônjuges com despesas do lar, no caso das mulheres casadas ou que
vivem em regime de união estável, outras ajudam a custear os estudos, passeios, presentes e
negócios de seus noivos ou namorados.
Já as mulheres mais jovens, que ainda estão sob o jugo dos pais, e não têm parceiros
amorosos fixos, utilizam a maior parte do valor ganho nos programas para sustentar as
“vaidades” e comprar bens de consumo que estão muito além das possibilidades de seus pais.
Em entrevista com Lírio, de 19 anos de idade, ela revela que:
Eu não preciso fazer isso porque minha mãe e meu padrasto bancam os meus estudos
e tudo mais. Meu pai paga pensão. Só que eu quero comprar as coisas que eles não
podem me dá como esse Iphones aqui que eu uso, maquiagem, roupas de marca,
bolsas caras e sapatos. Eu sou cara! (risadas). Eu não faço com qualquer um aí. Eu
olho a lata do cara antes no Whats e peço até foto. Se eu não for com a cara do maluco,
eu não saio. Sabe Augusto, eu amo é o dinheiro e não dou de graça ainda mais para
pobre, feio e liso. Odeio homem liso. Tenho que aproveitar que tô nova e com tudo
durinho (risadas). Depois quando tudo cair, eu quero ter grana para fazer minhas
cirurgias plásticas e levantar tudo (risadas). Quem gosta de homem é veado, mulher
gosta é de grana! (risadas). Mulher é artigo de luxo. Então, sexo é só para quem tem
dinheiro para pagar.

A partir não só do relato de Lírio, e mais de inúmeras meretrizes, se fez necessário a


confecção da tabela abaixo, para entendermos quanto custa em média um programa com essas
mulheres. A tabela abaixo foi confeccionada utilizando os mais diversos sites especializados
em mediar encontros sexuais, e da mesma forma, tabular também os valores que as garotas de
programa afirmavam que cobravam durante as entrevistas. Thompson (2002, p. 14) explica a
importância do uso da estatística somada à História oral, para melhor entender como os grupos
de pessoas apresentam comportamentos diferenciados dos seus pares:
DOSSIÊ AMAZÔNIA 113

A partir das estatísticas pode-se estimar o número das famílias de Bangladesh, se


homens e mulheres têm trabalho remunerado, e mesmo sua renda e pobreza relativa.
Mas, sem relatos em profundidade, é impossível compreender porque eles, mais do
que outros vizinhos e parentes, foram para a Inglaterra; como experimentaram a
mudança entre duas culturas totalmente diferentes; o que significa ser uma mulher de
Bangladesh coberta pelo véu nas ruas de um país ocidental altamente sexualizado;
quais são suas esperanças e aspirações para o futuro. A história oral pode nos contar
isso, não só sobre esses grupos, como também sobre uma interminável gama de grupos
migrantes, no Brasil ou em qualquer lugar do mundo (THOMPSON, 2002, p. 14-15).

Assim, os dados da tabela nos subsidiarão na busca por resposta acerca da dinâmica que
atrela maiores ganhos ou menores ganhos às características étnicas. Assim como subsidiar a
melhor compreensão do segundo motivo que nos levou a escolha do público-alvo da presente
pesquisa.

Tabela 1 - Relação características físicas x idade x tipo de programa x valor.

Características Físicas Idade Tipo de Programa Valor Médio

Padrão R$400-600
18-23 Completo R$600-800

Padrão R$250-350
24-29 Completo R$350-450
Branca, cabelos loiros ou ruivos,
estatura alta ou mediana, olhos
azuis ou verdes. Padrão R$200-250
30-35 Completo R$250-300

Padrão R$150-180
35-40 Completo R$180-220

R$300-400
Padrão
18-23 R$350-500
Completo
R$200-250
Padrão
24-29 R$250-300
Branca, cabelos pretos baixa ou Completo
mediana, olhos castanhos ou
R$130-180
pretos Padrão
30-35 R$150-200
Completo
R$100-120
Padrão
35-40 R$80-140
Completo

18-23 Padrão R$150-200


Completo R$200-250

24-29 Padrão R$120-150


Parda, cabelos negros, estatura
Completo R$150-200
variada, olhos negros, castanhos
ou verdes.
30-35 Padrão R$100-120
Completo R$120-150

35-40 Padrão R$80-90


114 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Completo R$90-110

R$120-150
Padrão
18-23 R$150-180
Completo
R$100-120
Padrão
24-29 R$120-150
Negra, cabelos negros, estatura Completo
variada, olhos negros ou
R$80-100
castanhos. Padrão
30-35 R$90-110
Completo
R$50-60
Padrão
35-40 R$60-80
Completo
Fonte: Elaborada pelos autores, com base em sites especializados e entrevista realizadas com 50
profissionais do sexo, ao longo do ano de 2020.

A tabela traz dados que relacionam o valor médio para cada programa. Conforme a
mulher vai se enquadrando nas categorias: aparência física, idade, tipo de programa, o valor
torna-se mais alto ou mais barato. Ao falar de cor da pele, nossa pesquisa constatou que ser
caucasiana agrega um valor mais elevado na hora de negociar o sexo. Em média, as mulheres
brancas e loiras ganham quase o dobro das pardas e quase três vezes mais que as negras. A
discussão, aqui, vai muito além do gênero. Banuth e Santos (2016, p. 765) afirmam que,
recentemente, críticas são tecidas aos limites da noção de gênero, e a tendência do debate
feminista atual é conceber que “mulher” não é uma categoria unitária.
Segundo Brah (2006), mulheres não existem simplesmente como mulheres, mas como
categorias diferenciadas, onde cada categoria se refere a uma condição social específica. A
categoria gênero mostra-se limitada para delimitar os eixos que tangenciam a construção do
próprio sistema de gênero, tais como classe, raça e política heterossexual (MAYORGA et al.,
2011).
Nesse sentido, no fim dos anos 1990, emergiram no debate internacional feminista,
categorias que, articuladas à de gênero, permeiam o social e se remetem à existência de
diferenciações entre as mulheres. São as categorias de articulação e/ou interseccionalidades
(PISCITELLI, 2008).
Uma categoria de articulação que consiste em forte marcador de diferença social é a
“raça”. Tal como Ferreira e Camargo (2011), consideramos que o conceito de “raça”, do ponto
de vista da genética, é pouco operacional e sem valor científico. Na atualidade, aceita-se que
raça é uma construção social que classifica e tipifica os indivíduos em função de suas
características fenotípicas perceptíveis.
A partir de práticas e discursos sociais, a categoria “raça” contribui para fomentar
processos de exclusão, discriminação e preconceito. O modelo eurocêntrico de beleza
influencia fortemente na escolha das profissionais do sexo por seus clientes
O segundo item mais importante na hora de determinar o valor do programa é a faixa
etária. Quanto mais jovem a mulher for, mais caro custará o sexo, o programa. Existe o fetiche
popular que vem de dogmas da igreja, que prega a questão da virgindade e pureza. Na pesquisa
realizada por Aquino, Nicolau e Pinheiro (2008, p. 15) as prostitutas consideram a idade um
fator de grande influência na concorrência pelo cliente, principalmente na negociação do
programa. Mulheres mais velhas podem ser vistas como mais experientes; em contrapartida,
mulheres jovens podem ser mais requisitadas por clientes menos interessados na experiência
sexual. Assim, notamos, em nosso estudo, a influência da idade da prostituta com o número de
clientes semanais: as mais velhas atraíam menos clientes.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 115

O terceiro item mais importante na hora de determinar o valor do cachê é o tipo de


programa que a profissional do sexo oferece. Há mulheres que dividem os programas em sexo
simples, ou seja, vagina, com camisinha; outras colocam um valor maior para o sexo simples
sem camisinha; há diferenças maiores ainda quando se tem o completo, ou seja, oral, vaginal e
anal, com ou sem camisinha; por fim, tem os valores maiores ainda quando são convidadas para
realizarem sexo em grupo, com ou sem camisinhas; por fim, o valor maior a ser cobrado pelas
mulheres são aqueles serviços sexuais realizados em eventos fechados em que geralmente a
meretriz é paga por diária, não por horas. Além de clientes que pagam cachês muito mais
elevados para a operária do sexo se submeter a relações fora da rotina sexual regular. Contudo,
em regras gerais, os programas são basicamente divididos em completo e básico.
A partir da compreensão do valor dos programas, que foi detalhado na tabela acima,
podemos começar a dissertar o segundo motivo para a escolhas desse grupo de 05 mulheres que
compõem o presente artigo. A questão latente da não aceitação de suas aparências físicas, e os
bullying que elas sofreram ao longo da infância e adolescência. Os relatos coletados durantes
as entrevistas revelaram que existe uma questão mais profunda ligando a forma com que essas
mulheres usam a prostituição.
Thompson (2002, p. 16) explica que como historiadores orais, jamais deveríamos ficar
satisfeitos com abordagens aleatórias para escolher aqueles que irão ouvir, uma vez que isso
enfraquece seriamente as conclusões que podem ser tiradas de suas entrevistas. Em todo projeto
se faz necessário dar a correta atenção à formulação de estratégias apropriadas de amostragem.
Existem, obviamente, diversos tipos diferentes de amostragens possíveis. Para o pesquisador
criar uma amostra plenamente representativa, esse deve retirar uma sub-amostra de um survey
existente, ou produzir uma nova amostra aleatória ou por cota, local ou nacional.
Segundo Souza (2007), cada mulher apresenta motivos específicos para justificar sua
prática, como estar desempregada, almejar sair da casa dos pais, necessitar de manter terceiros,
como filhos e pais, e até mesmo buscar por um status social. Para Molina e Kodato (2005), a
crise econômica e social pelas quais passam a maioria das mulheres é uma das principais causas
de entrada na prostituição, e nesse espaço encontram uma possibilidade real de geração de renda
suficiente e rápida.
No entanto, em nossa pesquisa, a prostituição está intimamente e assombrosamente
ligada aos ganhos exponencialmente rápidos, para tratamentos de beleza e cirurgias que possam
trazer satisfação pessoal, e a auto afirmação dentro de padrões estéticos de beleza, outrora
inalcançáveis, vista a realidade humilde dessas mulheres. A questão do uso do corpo para obter
vantagens financeiras e revertê-las em procedimentos estéticos e/ou plásticas nos saltou os
olhos durante as entrevistas com as operárias do sexo, entre os 18 e 21 anos, entre essas, não
foram feitos relatos a respeito de desejos e planos de futuro envolvendo carreira profissional
fora da prostituição, casamentos e filhos. Correia e Holanda (2012, p. 430) afirmam que para
continuar no mercado, as mulheres precisam se diferenciar em seus atributos físicos e sociais.
Sendo assim, o culto à beleza e a preocupação com os modismos fazem parte do cotidiano
dessas mulheres. Logo, numa sociedade em que “ser bonita” e “estar bem vestida” é quase um
sinônimo de realização pessoal, sucesso e felicidade, fugir a esses padrões pode ser visto como
uma ameaça às possibilidades de trabalho.
Vale ressaltar que durante outra pesquisa de campo, realizada em 2018, que gerou um
artigo intitulado “A prostituição em grandes projetos na Amazônia: o impacto do grande capital
nos fluxos de mão de obra na UHE Belo Monte” realizada na cidade de Altamira,
(FIGUEIREDO, 2018) observou diversos relatos de mulheres que afirmavam quererem deixar
a prostituição o mais breve possível. Mulheres que queriam um emprego mais ortodoxo, que
buscavam um companheiro para casar-se, desejavam constituir família ou abrir um negócio
próprio. A comércio do sexo era tido por essas mulheres, entrevistadas em 2017, como um fim
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que justificava os meios. Na presente pesquisa, notamos uma mudança de paradigmas por parte
das operárias do sexo.
Observamos nos relatos da presente pesquisa, uma preocupação maior com a questão
estética; motivações mais voltadas para a aquisição de bens materiais, viagens e entretenimento.
Mulheres que usam os valores obtidos com a venda de serviços sexuais na prostituição para
pagarem implantes de silicone nos seios e nos glúteos, lipoaspirações, abdominoplastias,
bichectomias, metoplastias, blefaroplastia, rinoplastias, aplicações de toxina botulínica,
tratamentos dentários com implantes e facetas, entre outros procedimentos estéticos. Bruns e
Guimarões (2010) explicam que:

Por outro lado, a prostituição pode ser uma maneira de ganhar muito dinheiro com
rapidez, mais do que se ganharia em qualquer outra profissão, fazendo com que a
mulher possa participar mais ativamente da sociedade de consumo. Nesse caso, a
questão financeira não seria fator relevante apenas para as prostitutas de classe social
baixa, pois existem profissionais do sexo da classe média e alta que buscam melhores
condições financeiras, e pela prostituição poderiam se dar ao luxo de possuir uma vida
mais confortável, que não apenas permitisse consumir-lhes, roupas de grife e
perfumes caros, mas também ter sonhos e desejos de estar inseridas num mundo
mágico, criado pela mídia e apresentado como lugar onde se é feliz (BRUNS e
GUIMARÃES, 2010).

Os procedimentos estéticos e cirúrgicos que têm como propósito melhorar a aparência


para elevar ainda mais as possibilidades de ganhos com os programas, somados a uma melhora
da autoestima dessas mulheres. Uma vez que a clientela paga valores mais substanciais para
mulheres que tenham um padrão de beleza mais difundido pela internet, redes sociais, mídias
televisivas, pela moda, pelas novelas e produções cinematográficas.
São mulheres, em sua maioria loiras, com corpos fisicamente esculturais, com cabelos
longos, seios e glúteos fartos, rosto fino e delicado, dentes perfeitos e principalmente uma
aparência jovial. O padrão de beleza europeu e norte americano com pitadas tupiniquins no
tocante aos glúteos.
Em entrevista com Violeta, de 21 anos de idade, a jovem revelou que desde criança é
insatisfeita com o formato de seu nariz, essa insatisfação começou na infância e se acentuou na
adolescência, com o bullying que sofria na escola e em sua vizinhança. O bullying continuou
acontecendo durante boa parte de sua adolescência. Ela, por outro lado, também passou a não
aceitar o tamanho dos seios. Violeta, que é de família de baixa renda, entrou na prostituição por
intermédio de uma amiga de sala de aula. A moça relata que viu na prostituição a chance de
juntar dinheiro e mudar tudo aquilo que a incomodava durantes anos de sua vida, sobre essa
situação Violeta diz:

Eu fui zoada muito tempo na rua de casa, na escola, pela geralzona. Eu chorava quase
todo o dia porque o meu apelido era nariz de bolota, porquinha, narizinho, nariz de
palhaça, bozo e o caralho a quatro. Ai depois aqueles filhos da puta começaram a me
chamar de peito pequeno, de machinho, de sem peito e de despeitada. Eu via as
molecas da minha rua e da minha sala com peitões, e eu era a fudida sem peito. Um
dia, eu vi a Ana, uma doida da minha sala saindo num carrão de um velho. Depois de
mais de uma hora ela voltou para a escola. Eu chamei ela e falei: Qual é a do velho?
Ele te banca? Quanto tú cobra? Foi quando ela me deu a letras na real e me colocou
dentro. Ele foi a minha cafetina. Arrumava as barcas pra mim, e eu tinha que dá uma
parte pra ela. Ela foi a primeira mulher que eu curti. O velho queria curtir com duas
meninas ao mesmo tempo. Então, Ana me chamou para a barca com ela. Depois que
curti com a Ana, eu comecei a sair também com mulher. Ai, depois que eu já sabia
fazer os paranauês, eu mandei ela tomar no cú [...]. Paguei 13 mil conto pelos peitos
e depois mais 10 mil conto para fazer o nariz. Levei 03 anos dando muito a pepeca e
engolindo muita porra para levantar essa mixaria toda. Agora, eu vou colocar bunda
e depois perna. Vou dominar o mundo! Ninguém me segura mais! (risadas).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 117

Durante as entrevistas, foi observado que muitas jovens acabam entrando no mundo da
prostituição levadas por colegas de classe, primas e algumas por parentes mais velhas, como
tias e cunhadas. Existe dentro dessa dinâmica da prostituição, muitas vezes perversa, um toque
de curiosidade por parte dessas jovens, visando a questão financeira. Com esse objetivo
financeiro em mente é fácil cair nas mãos de rufiões experientes em convencer mulheres a
ingressarem de corpo e alma na carreira de prostituta.
Além, é claro, do cliente, que busca sempre a satisfação de seus desejos e impulsos
sexuais, com a iniciante na carreira, a qualquer custo, e faz com que um único cliente sempre
disposto a pagar pelo serviço seja visto iniciante como um dinheiro “fácil, seguro, rentável e
sedutor’’ para muitas mulheres a prostituição é um mundo mágico de ganhos “fáceis”. Bauman
(1998) afirma que este mundo mágico é um mundo criado, pois estamos diante de um mercado
voltado ao consumidor, como afirma vigorosamente, com a intenção de manter uma procura
infinitamente insatisfeita, ou seja, há sempre uma busca por novas experiências e sensações que
irão aparecer, acreditando-se estar em busca da felicidade.
Clientes que pagam para realizarem todos os seus desejos, não se importando com quem
eles estão usando para isso, entre esses relatos destacamos: clientes que pediam para que elas
fizessem as suas necessidades fisiológicas em cima deles ou vice-versa; homens que pediam
para que essas mulheres se vestissem como crianças; pedidos para que a mulher os chamassem
de pai, mãe, tio e tia; pedidos para que as profissionais fingissem que estavam dormindo para
que eles fingissem que estavam as estuprando; clientes que queriam introduzir nas partes
íntimas das garotas de programa os mais diversos objetos, tais como garrafas pet de 2 litros de
refrigerante; clientes que pediam para amarrar ou serem amarrados e açoitados; clientes que
levam os seus animais de estimação e pedem para as prostitutas manterem relação sexual com
eles e os seus animais.
São tão variados os relatos que essas mulheres fizeram, de situações que passaram a
sentir repulsa por esses clientes. Muitas se recusaram a satisfazer tais fetiches, que como elas
bem classificaram, são fetiches doentios. Entretanto, algumas delas acabaram se submetendo
pelo auto valor financeiro que esses clientes oferecem. Para Bauman (1998), a enorme sedução
do mercado acarreta uma grande divisão de águas: de um lado os que podem arcar com esses
desejos e do outro aqueles que não podem, caracterizando, assim, uma marca de sucesso e
fracasso.
Magnólia, de 26 anos de idade, detalhou em sua entrevista que aceitou fingir que estava
dormindo para que dois clientes, que pagaram cerca de um mil reais, para que ela fingisse um
suposto “falso” estupro. De acordo com o relato de Magnólia, essa já havia feito outros
programas com dois homens ao mesmo tempo. Logo, achava que a questão do “falso” estupro
era apenas um fetiche, e que ela teria total controle da situação. Ao chegar no sítio de um dos
clientes, na cidade de Tucuruí, eles a amarraram a cama, a amordaçaram e fizeram todo o tipo
de atrocidades durante quase uma hora.
Ela não os denunciou a polícia por medo, pois os clientes além de terem um alto poder
financeiro, tinham também a conversa no aplicativo de mensagem instantânea, onde eles
falavam do fetiche, e ela aceitou participar pela quantia oferecida. Magnólia relatou, durante a
sua entrevista, que jamais se recuperou do ocorrido, e que tem súbitos ataques de pânico durante
atos sexuais corriqueiros, seja com seu namorado ou com outros clientes.
Isto posto, quem são esses clientes que geralmente procuram a companhia de
profissionais do sexo por meio digital? De acordo com os dados levantados durante as
entrevistas, os clientes são, na maioria, homens, entre 28 e 50 anos de idade, casados, de classe
média e alta, de variadas profissões como comerciantes, bancários, médicos, advogados,
engenheiros, dentistas, Web designers, professores, entre outras. Homens que buscam viver
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uma relação fora do casamento, com mulheres mais jovens que suas esposas, ou que buscam
realizar as suas fantasias sexuais que não conseguem realizar com seus cônjuges.
Russo (2007) explica que a procura por prostitutas é motivada pela busca de um tipo
específico de mulher, de prazer ou de fantasia sexual, por isso, que não se trata de um serviço
prestado por qualquer mulher ou homem, mas por uma profissional específica, que é a meretriz,
uma vez que essa está inserida em um contexto bastante particular, que proporciona sensações
próprias, e um leque de possibilidades e experiências bastante específicas.
Alguns clientes, aparentemente, pelos relatos, apresentam desvios de ordem sexual e
acabam encontrando nas profissionais do sexo a oportunidade de fazerem inversões de papeis
sem serem julgados, o que muito provavelmente ocorreria caso tentassem fazer o mesmo em
suas casas, com suas esposas. Outros apenas por pura compulsão sexual e apelo carnal. Existe
uma parcela menor de mulheres que são casadas, têm filhos e empregos estáveis, mas que
escondem de seus maridos e da sociedade, como um todo, a sua homossexualidade.
Ires relatou que muitas clientes casadas que, habitualmente saiam com ela, a
convidavam para fazer programas em suas casas com os seus maridos. Essas clientes usavam o
aniversário de seus maridos como pretexto para levá-la para as suas casas e a oferecer como
presente surpresa para os seus cônjuges. Ires narra, que praticamente todas as vezes, que foi
“dada” como presente de aniversário para os maridos de suas clientes, as esposas participavam
do ato sexual juntamente com os maridos. Ires detalhou um desses encontros a três:

Ela é advogada e tem uns 42 anos eu acho, montada na grana é casada e tem até filho.
Ela me disse que sempre gostou de curtir com mulher, mas a família dela não aceitaria,
e eles são da igreja e tal. Ai ela curte com as “prima” aqui como eu, ela curte com puta
e não é de hoje essa parada não mano. Ela mora numa casa do caralho. Eu fui lá um
dia porque ela me pagou para curtir com o marido dela, Porra, era para o pateta me
comer, mas quem mais me comeu foi ela. Se ele não se tocou que ela é sapato naquele
dia, ele deve ser cego. Ganhei quinhentão para curtir com os dois. Muita mais que ela
me paga pra curti comigo aquela mão de vaca do caralho. Tu acredita que ela paga
R$150 para sair comigo.

Todavia, existe o cliente que tem necessidade afetiva. Durante uma entrevista com
Lótus, ela mostrou fotos no aplicativo de mensagens que utiliza para manter contato com os
seus clientes. Falou dos mais assíduos e mais antigos homens que costuma atender. O relato
que ela fez de um dos clientes acabou chamando a atenção, não por ser um relato sexual na sua
essência, mas por ser um relato que demonstrou um enorme afeto pelo cliente e vice-versa.

Esse aqui é o Felipe, ele tem 38 anos, e é um dos meus melhores clientes. Ele é sempre
muito gentil e amoroso. Muitas vezes, ele traz presentinhos como bombons, flores,
perfumes e já até me deu um brinco de ouro. Ele é funcionário público da Polícia
Federal, ele é casado e tem duas filhas lindas. A esposa dele é médica e trabalha na
polícia federal também. Eu sempre o vejo as quarta-feira por causa da mulher dele
que tá sempre ocupada nos dias de quarta. As vezes, ele marca e vamos para um motel,
outras vezes para um hotel, e passamos duas horas só conversando mesmo. Eu nem
tiro a roupa. Ele só quer conversar mesmo. Fala dos problemas do trabalho, dos
problemas da casa dele e das filhas. Eu adoro a companhia dele. Mas não curto muito
transar com ele não. Ele é meio travado. Começamos a sair tem quase dois anos. Ele
diz que sou a namoradinha dele das quartas. Acho que ele é carente muito carente. Ele
precisa muito de alguém para conversar, e ele achou em mim uma pessoa pra ouvir
ele (risadas). Recebo sempre R$100 transando ou não transado com ele. É um dinheiro
muito fácil.

Questões de cunho afetivo estão muito presentes dentro das relações comerciais. No
artigo intitulado “Dinheiro, afeto, sexualidade: A relação de prostitutas com seus clientes”,
Burbulhan, Bruns e Guimarães (2012, p. 673) relatam que as profissionais do sexo, do estudo
DOSSIÊ AMAZÔNIA 119

realizados por elas, corroboraram que os clientes não as procuram exclusivamente para práticas
sexuais, muitas vezes desejam apenas conversar e desabafar as preocupações e problemas
relacionados à família, ao trabalho e à própria masculinidade. Burbulhan, Bruns e Guimarães
explicam, ainda, que nas falas das participantes de sua pesquisa foi possível perceber a grande
gama de motivações que levam os clientes a buscar as profissionais do sexo. Percebemos que
ambos se utilizam do dinheiro para suprir suas necessidades. Os clientes pagando e elas
recebendo.
Burbulhan, Bruns e Guimarães finalizando dizendo que assim, nessa díade, ambos estão
à procura de suprir suas carências, sejam elas econômicas, emocionais, psicológicas ou, ainda,
biológicas. Para o cliente, o dinheiro paga, além da satisfação de determinadas carências, pela
manutenção de uma sexualidade masculina herdada do modelo patriarcal de ser homem.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

O objetivo deste artigo foi responder a alguns questionamentos sobre a prestação de


serviços sexuais, entre eles: mesmo sendo considerada uma das profissões mais antigas do
mundo, ainda existe a dúvida: a prostituição é ou não uma profissão? E se realmente a
prostituição é uma profissão reconhecidamente legal, dentro do sistema jurídico brasileiro.
Foram abordados, ao longo do artigo, questões de cunho metodológico, em especial, ao
que concerne aos desafios enfrentados para a execução da pesquisa em tempos de pandemia
mundial; visto que adentrar ao mundo da prostituição, apresenta riscos para os pesquisados.
Além de obter o consentimento de alguns cafetões, cafetinas e das próprias meretrizes para
realizar as entrevistas.
O presente trabalho também buscou fazer uma relação entre características físicas, faixa
etária e tipo de programa para determinar os valores. Foi confeccionada uma tabela, a qual
detalhou e demonstrou que mulheres caucasianas, com idade entre 18 e 21 anos, que oferecem
serviços sexuais diversos, ganham os maiores cachês se comparadas com mulheres negras, com
maior idade, mesmo essas prestando os mesmos leques de serviços que as mulheres
caucasianas.
Foi traçado um breve perfil dos clientes que procuram esse tipo de serviço. Assim como
foram detalhados relatos de algumas relações vividas entre clientes e operárias do sexo, por
meio de narrativas coletadas ao longo das entrevistas. Constatamos, por meio dos relatos, que
nem sempre o cliente busca uma relação sexual. Existem fatores que envolvem o emocional e
o psicológico, os quais entram no jogo da prestação de serviços sexuais.
As narrativas utilizadas nesse trabalho são utilizadas não somente para ilustrar as
fundamentações teórica. Os questionários abriram caminho para conversas mais abertas e
espontâneas, que serviram para dar voz as profissionais do sexo, durante o processo de escrita
desse artigo. Voz que, majoritariamente, vivem silenciadas à sombra da sociedade.
Com esse trabalho, foi possível concluir que, majoritariamente, o que ainda leva
mulheres a escolherem ser profissionais do sexo é o dinheiro. São mulheres que buscam uma
vida financeiramente melhor, e como a maioria tem pouca instrução, acabam optando por essa
atividade. Além de uma parcela significativa das jovens que optam pelo meretrício para ganhar
de forma mais rápida, grandes somas, e usá-las em cirurgias plásticas ou/e procedimentos
estéticos que visam corrigir, por meio destes, “imperfeições” físicas. Além de tentarem
amenizar dores psicológicas, advindas de processos de bullying sofridos na
infância/adolescência, ou mesmo de forças externas que as levam a buscar um padrão de beleza
“Hollywoodiano”, amplamente difundido pelas mídias sociais, televisivas e cinematográficas.
120 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

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DOSSIÊ AMAZÔNIA 123

PERFIL EPIDEMIOLÓGICO DE PACIENTES COM LEISHMANIOSE VISCERAL


NAS REGIÕES DO BRASIL

Erilana Silva Pacheco1


Josiane Silva de Lima Azevedo2
Yrlane Paes Ferreira3
Sylvia de Fátima dos Santos Guerra4
Márcia Cristina dos Santos Guerra5

RESUMO

A Leishmaniose visceral (LV) é uma doença endêmica no Brasil que pode ocasionar óbito do
indivíduo em 95% dos casos não tratados, sendo considerada um problema de saúde pública. O
presente estudo teve como objetivo descrever o perfil epidemiológico da LV das diferentes regiões do
Brasil. Para isso, os dados analisados das regiões Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste do
Brasil no período de 2014 a 2018 foram coletados do Sistema de Informação de Agravos de
Notificação, sendo analisada a incidência, letalidade, gênero, faixa etária, escolaridade, critério de
confirmação e evolução do caso empregando o teste de Qui-quadrado, teste G e regressão linear
simples. Durante o período do estudo ocorreram 19.053 casos de LV no Brasil, com maior incidência
nas regiões Norte e Nordeste. Ocorrência maior na faixa etária menor de 14 anos, baixa escolaridade,
gênero masculino, que obtiveram diagnóstico laboratorial e cura. Casos de LV ainda são recorrentes
no cenário atual, sendo necessário ações efetivas nos diferentes níveis de prevenção podem reduzir
significativamente os índices desta doença no Brasil.

Palavras-chave: Leishmaniose Visceral Humana. Perfil epidemiológico. Leshmaniose.

EPIDEMIOLOGICAL PROFILE OF PATIENTS WITH VISCERAL


LEISHMANIASIS IN BRAZILIAN REGIONS

ABSTRACT

Visceral Leishmaniasis (VL) is an endemic disease in Brazil and can cause death in 95% of untreated
cases, being considered a public health problem. The present study aimed to describe the
epidemiological profile of VL in different regions of Brazil. For this, the analyzed data from the North,
Northeast, South, Southeast and Midwest regions of Brazil in the period from 2014 to 2018 were
collected from the Notifiable Diseases Information System, analyzing the incidence, lethality, gender,
age group, schooling, confirmation criteria and case evolution using the Chi-square test, G test and
simple linear regression. During the study period, there were 19,053 cases of VL in Brazil, with a
higher incidence in the North and Northeast regions. Most occurrence in the age group under 14 years,
low education, male, who obtained laboratory diagnosis and cure. VL cases are still recurrent in the
current scenario, requiring effective actions at different levels of prevention can significantly reduce
the rates of this disease in Brazil.

1
Graduada no curso de Bacharelado em Biomedicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia
(UNIFAMAZ). E-mail: [email protected].
2
Graduada no curso de Bacharelado em Biomedicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia
(UNIFAMAZ). E-mail: [email protected].
3
Graduada no curso de Bacharelado em Biomedicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia
(UNIFAMAZ). E-mail: [email protected].
4
Doutora em Doenças Tropicais. Docente do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ);
Pesquisadora colaboradora do Instituto Evandro Chagas (IEC). E-mail: [email protected].
5
Mestre em Saúde, Sociedade e Endemias na Amazônia pela Universidade Federal do Pará (UFPa). Docente do
Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ). E-mail: [email protected].
124 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Keywords: Human Visceral Leishmaniasis. Epidemiological profile. Leishmaniasis.

Data de submissão: 25.04.2021


Data de aprovação: 16.05.2021

INTRODUÇÃO

Agentes etiológicos como os protozoários, bactérias, vírus e fungos são responsáveis


pelas doenças infectocontagiosas, que se caracterizam pelo desequilíbrio entre a relação
parasita-hospedeiro [1,2]. Tal relação é formada por uma tríade: a suscetibilidade do
hospedeiro, infecciosidade/virulência do parasita e as condições ambientais, o desequilíbrio
desses sistemas resulta no aparecimento de uma doença específica, todavia, uma quarta
variável pode estar envolvida neste processo que são os vetores, considerados como
transmissores de doenças [3,4].
Segundo a Agência Nacional de Águas (ANA), aproximadamente 45% da população
brasileira possui tratamento inadequado de esgoto e grande parte dos domicílios destina seu
esgoto sanitário diretamente em corpos de água, essa falta de condições higiênico-sanitárias
adequadas, gera o acometimento dessa população por diversas doenças causadas por
patógenos de veiculação hídrica, bem como serve de criadouro para artrópodes vetores de
diversas doenças [5-7]. Observando o cenário dos últimos 50 anos no Brasil, doenças
transmitidas por vetores e as relacionadas a saneamento básico são as mais comuns em nosso
país, dentre eles podemos citar: ascaridíase, amebíase, giardíase, toxoplasmose, doenças de
chagas, malária e leishmaniose [1,8].
A Leishmaniose é uma doença causada pelo protozoário da família Trypanosomatidae
e gênero Leishmania com mais de 20 espécies, onde tais espécies são transmitidas
principalmente através da picada de flebotomíneos fêmeas infectadas, pois as mesmas,
tendem a se alimentar de sangue para obter proteínas e aminoácidos para o desenvolvimento
dos ovos, enquanto que, os flebotomíneos machos não são hematófagos. Os animais selvagens
e domésticos costumam ser o principal reservatório do gênero Leishmania, no qual, o
reservatório tende a variar de acordo com a espécie [9-10]. Tal doença é dividida em três
formas: cutânea (mais comum), mucocutânea e a visceral (forma mais grave) [9-10].
A Leishmaniose visceral (LV) é uma forma grave que pode ocasionar o óbito do
indivíduo em 95% dos casos não tratados. Segundo a OMS, estima-se que ocorra anualmente
em todo o mundo de 50 mil a 90 mil casos novos, sendo a maioria não notificado. Em 2018,
observou-se que 95% dos casos notificados concentravam-se em apenas 10 países, estando o
Brasil incluso nesta realidade. A LV pode apresentar como manifestação clínica febre alta,
perda de peso, palidez nas mucosas, hepatoesplenomegalia discreta, por vezes, tosse e diarreia
podendo a sintomatologia agravar com o emagrecimento progressivo levando o paciente a
desnutrição e caquexia acentuada, sendo comum nesses casos o edema generalizado, dispneia,
dores musculares, problemas digestivos e epistaxe. [9-10]
Esta doença frequentemente acomete indivíduos em baixas condições
socioeconômicas, estando relacionados à desnutrição, condições inadequadas de moradia e
saneamento, sistema imunológico debilitado e carência de recursos financeiros.
Características do local de residência, tal como alterações climáticas, tornam áreas endêmicas
para Leishmaniose. [9-12]
Conhecendo as regiões e a população mais suscetíveis ao desenvolvimento da doença,
ações de prevenção em saúde podem ser desenvolvidas visando reduzir o impacto do agravo
na saúde pública e restaurando a qualidade de vida da população. Desta forma, o presente
estudo tem como objetivo descrever os aspectos epidemiológicos da LV nas diferentes regiões
do Brasil.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 125

1 MÉTODOS

Trata-se de um estudo epidemiológico descritivo de série histórica, sobre casos de LV


nas regiões (Norte, Nordeste, Sudeste, Sul e Centro-oeste) do Brasil, no período de 2014 a
2018, na qual os dados dos casos confirmados foram obtidos através do Sistema de
Informação de Agravos de Notificação (SINANNET), disponível no site do Departamento de
Informática do Sistema Único de Saúde (DATASUS) [13] sendo acessado pelo endereço
eletrônico: http://www.datasus.gov.br.
A obtenção dos dados foi feita através do DATASUS durante o período de julho/2020
a agosto/2020. Na plataforma, foram selecionadas todas as regiões do Brasil, categorizadas
pelas seguintes variáveis representadas na Tabela 1.
As características gerais dos casos com LV foram descritas usando a estatística
descritiva (as variáveis categóricas foram apresentadas em frequências e percentuais e as
variáveis numéricas em mediana e desvio-quartílico). Para comparação das macrorregiões em
relação a variável sexo, idade, escolaridade, critério de confirmação diagnóstica e evolução do
caso foi utilizado o teste de Qui-quadrado e teste G. Foi utilizado a regressão linear simples
para avaliar a tendência da taxa de incidência e taxa de mortalidade nas macrorregiões. As
análises estatísticas foram calculadas usando o programa Bioesta 5.3. O nível de significância
adotado foi de 5%.

Tabela 1- Categorização das variáveis independentes para o cálculo das razões de incidência

Nome da variável Nível Significado


Sexo 1 Masculino
2 Feminino
1 < 14 anos
2 15-19 anos
Grupos de idades 3 20-39 anos
4 40-59 anos
5 >= 60 anos
1 Analfabeto
Escolaridade 2 Ensino Fund.
Completo
3 Ensino Médio
Completo
4 Ensino Superior

Critério de 1 Laboratorial
Confirmação 2 Clínico –
Epidemiológico
1 Cura da LV
Evolução do Caso 2 Abandono da LV
3 Óbito por LV
4 Óbito por outra
causa
5 Transferência
Fonte: Autoria Própria.

Foram utilizados dados de estimativas populacionais das regiões do Brasil para o


cálculo da taxa de 100.000 habitantes nos anos de 2014 a 2018, coletados no site do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) [14], acessado pelo endereço eletrônico:
126 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9103-estimativas-de-populacao.

2 RESULTADOS

Com base nos dados coletados, estima-se que durante o período do estudo, o Brasil
tenha aproximadamente 19.053 casos em todas as suas regiões, demonstrando um percentual
de 19,05 % em relação ao número de habitantes.
Ao observar a incidência por região, conforme exposto na Figura 1, nota-se um maior
número de casos nas regiões Norte e Nordeste no período de 2014 a 2018.

Figura 1 - Incidência de casos de LV notificados por região – 2014 a 2018

Fonte: Ministério da Saúde/SVS-Sistema de Informação de agravos de Notificação-


SinanNet,Agosto/2020.

O dado referente ao aumento na taxa de incidência de LV em grandes regiões do


Brasil no período estudado mostra tendência crescente na região Norte, a cada ano, em média,
há um aumento de 0,61 por 100.000 habitantes. As outras regiões apresentaram estabilidade
na taxa de incidência (Tabela 2).

Tabela 2 - Tendência da taxa de incidência de LV por regiões do Brasil- 2014 a 2018

Equação de Coef. Valor


Ano 2014 2015 2016 2017 2018
Regressão Determinação de p
Norte 2.52 2.90 3.51 4.80 4.60 y = 0.61x + 1.85 R² = 0.90 0.0123
Nordeste 4.31 3.80 3.21 3.84 3.87 y = -0.08x + 4.06 R² = 0.11 0.5787
Sudeste 0.69 0.77 0.88 1.26 0.69 y = 0.05x + 0.72 R² = 0.10 0.5942
Centro Oeste 1.84 1.52 1.48 1.78 1.24 y = -0.09x + 1.86 R² = 0.37 0.2734
Sul 0.02 0.02 0.06 0.06 0.05 y = 0.01x + 0.01 R² = 0.63 0.1259
Fonte: Autoria Própria.

Na associação das taxas de incidência das variáveis por macrorregiões, o sexo


DOSSIÊ AMAZÔNIA 127

masculino apresentou predomínio em todas as regiões, com diferença significativa (p=0,002)


entre as regiões.
A variável faixa etária apresentou diferença significativa (p=0,0001) entre as regiões
onde, a maioria dos casos estão concentrados na faixa etária ≥14 anos nas regiões Norte,
Nordeste, Sudeste e Centro-Oeste, exceto na região Sul, na qual o número de casos foi maior
entre 20-39 anos.
O grau de escolaridade apresentou significância (p< 0,0001), onde o nível analfabeto e
fundamental completo apresentou-se elevado nas regiões do Brasil.
Na variável evolução do caso e critério de confirmação também se observou
significância estatística (p< 0,0001), tendo a região Nordeste com maior frenquência de cura e
a região Centro – Oeste com menor frequência, no critério abandono as regiões Sudeste e Sul
apresentaram menores frequências, enquanto que a região Norte teve maior frequência de
casos, com taxa menor de óbitos na região Sul.
Em relação aos critérios laboratoriais, a região Nordeste apresentou baixa frequência
de casos, enquanto que a região Sudeste notificou alta frequência. Na escala critério clínico, a
região Nordeste apresentou alta frequência, as regiões Norte, Sudeste e Centro-Oeste
mostraram estabilidade e a região sul apresentou baixa frequência (Tabela 3).

Tabela 3 - Taxa de incidência das variáveis por regiões, 2014 a 2018

Norte Nordeste % Sudeste % Centro- % Sul % Total % Valor


n=329 % n=10794 n=3711 0este n=61 n=19053 de p
n=1228
Gênero
Masculino 2049 62.9 7199 66.7 2422 65.3 808 65.8 42 68.9 12520 65.7 0.002a
Feminino 1210 37.1 3595 33.3 1289 34.7 420 34.2 19 31.1 6533 34.3
Faixa etária
< 14 anos 1782 54.7 5064 46.9 1282 34.5 412 33.6 17 27.9 8557 44.9 <0.0001b
15 - 19 ANOS 173 5.3 571 5.3 150 4.0 45 3.7 2 3.3 941 4.9
20-39 ANOS 715 21.9 2514 23.3 840 22.6 317 25.8 18 29.5 4404 23.1
40-59 ANOS 418 12.8 1879 17.4 916 24.7 288 23.5 11 18.0 3512 18.4
>= 60 171 5.2 765 7.1 523 14.1 166 13.5 13 21.3 1638 8.6
EM BRANCO/Ign 0 0.0 1 0.0 0 0.0 0 0.0 0 0.0 1 0.0
Escolaridade
ANALFABETO 80 2.5 431 4.0 84 2.3 22 1.8 0 0.0 617 3.2 <0.0001b
Fundamental 892 27.4 3124 28.9 1026 27.6 325 26.5 15 24.6 5382 28.2
Médio 302 9.3 867 8.0 333 9.0 145 11.8 10 16.4 1657 8.7
Superior 40 1.2 67 0.6 47 1.3 34 2.8 2 3.3 190 1.0
IGN/BRANCO* 504 15.5 2184 20.2 1184 31.9 340 27.7 19 31.1 4231 22.2
NÃO SE APLICA* 1441 44.2 4121 38.2 1037 27.9 362 29.5 15 24.6 6976 36.6
Evolução do caso
Cura 2428 74.5 6825 63.2 2929 78.9 37 3.0 37 60.7 12256 64.3 <0.0001b
Abandono 31 1.0 83 0.8 16 0.4 12 1.0 1 1.6 143 0.8
Óbito 164 5.0 812 7.5 358 9.6 90 7.3 12 19.7 1436 7.5
Óbito por outra causa 85 2.6 223 2.1 109 2.9 63 5.1 2 3.3 482 2.5
Transferência* 127 3.9 920 8.5 64 1.7 35 2.9 1 1.6 1147 6.0
Ign\branco* 424 13.0 1931 17.9 235 6.3 101 8.2 8 13.1 2699 14.2
Critério de confirmação
Laboratorial 2926 89.8 8947 82.9 3453 93.0 1101 89.7 51 83.6 16478 86.5 <0.0001a
Clínico epidemiológico 333 10.2 1847 17.1 258 7.0 127 10.3 10 16.4 2575 13.5
a
Teste do qui-quadrado
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b
Teste G
Fonte: Autoria Própria.

A taxa de mortalidade apresentou tendência crescente na região Norte, a cada ano, em


média há um aumento na taxa de mortalidade de 0,05 por 100.000 habitantes. As outras
regiões apresentaram estabilidade na taxa (Tabela 4).

Tabela 4 - Taxa de mortalidade de LV por regiões do Brasil- 2014 a 2018

Equação de Coef. Valor


2014 2015 2016 2017 2018
regressão Determinação de p

Norte 0.093 0.177 0.136 0.190 0.324 y = 0.05x + 0.04 R² = 0.74 0.0580
Nordeste 0.274 0.293 0.269 0.304 0.291 y = 0.004x + 0.27 R² = 0.23 0.6002
Sudeste 0.065 0.070 0.086 0.129 0.065 y = 0.01x + 0.06 R² = 0.12 0.5727
Centro Oeste 0.145 0.149 0.096 0.088 0.099 y = -0.02x + 0.16 R² = 0.68 0.0812
Sul 0.003 0.000 0.020 0.013 0.003 y = 0.001x + 0.004 R² = 0.06 0.6900
Fonte: Autoria Própria.

A taxa de letalidade nas macrorregiões apresentou estabilidade em praticamente todas


as regiões, com exceção da região Sul que apresentou altas taxas de letalidade, no ano de
2016 e posterior queda nos anos de 2017 e 2018, conforme demonstrado na Figura 2.

Figura 2 - Taxa de Letalidade de LV notificados por região – 2014 a 2018

Fonte: Ministério da Saúde/SVS-Sistema de Informação de agravos de Notificação-Sinan


Net,Agosto/2020.

3 DISCUSSÃO

Com a diminuição das áreas de florestas ocorre o aumento da extensão demográfica


DOSSIÊ AMAZÔNIA 129

facilitando a entrada da Leishmaniose nos centros. Durante o estudo foram obtidos dados
referentes ao perfil epidemiológico de pacientes com LV nas diferentes regiões do Brasil.
A incidência média da LV nas regiões do Brasil oscilou durante o período estudado,
com maior detecção nas regiões Norte e Nordeste. Tais dados do Nordeste também foram
relatados em estudo conduzido por Lucena; Medeiros [15], analisando casos novos dos
diferentes estados da região Nordeste no período de 2010 a 2017, relataram variação da
incidência e declínio na região e, apesar da diminuição dos casos, o Nordeste apresenta uma
das maiores incidências média de LV do Brasil.
Segundo Barbosa; Guimarães; Luz [16], as populações mais vulneráveis estão nas áreas
periféricas, onde não possuem um saneamento básico, realidade observada na região Norte e
Nordeste, as quais apresentam as mais precárias condições sanitárias do Brasil [17].
A faixa etária mais acometida por LV foi < 14 anos, o que corrobora com dados
expostos em estudo conduzido por Farias et al [18] realizado na região Norte de Minas Gerais,
no período de 2011 a 2015 e por Barbosa [19] em Rio Grande do Norte, no período de 2007 a
2015. Possivelmente, tal fato é associado a imaturidade imunológica desta faixa etária [19, 20].
No presente estudo pode ser observado que o sexo masculino foi o mais acometido
pelo LV. Tal realidade também foi relatada em diferentes estudos tal como Barbosa [19], Farias
et al.[18], Rocha et al[21] e Ortiz; Anversa [22], estando possivelmente associado a uma maior
exposição ao vetor devido atividades laborais.
Comparando o presente estudo com o citado, conclui-se que, mesmo essas regiões
apresentando redução na taxa de incidência, ainda assim, a região Nordeste permanece sendo
a região com a maior prevalência da doença em relação as demais regiões do Brasil.
Em relação ao nível de escolaridade, a predominância dos casos se dá nas classes,
analfabeto e ensino fundamental em todas as regiões do Brasil, descritas, de acordo com
dados colhidos para o estudo em questão, sendo tais dados observados em estudo realizado
em Fortaleza [23] no período de 2007 a 2017 e Pernambuco entre os anos de 2003 e 2015[24].
Como afirmado por Almeida et al [23], a baixa escolaridade pode sugerir que estão mais
vulneráveis a doença pessoas com baixas condições socioeconômicas.
A maioria dos casos evoluiu a cura e obteve diagnóstico laboratorial, situação também
observada por Almeida et al [23] em Fortaleza, o que demonstra possivelmente que quando há
confirmação da doença logo o tratamento é implementado e a saúde dos acometidos
restaurada.
A taxa de mortalidade que apresentou tendência crescente foi a região Norte, a qual
apresentou uma das maiores incidências da doença, enquanto que a letalidade demonstrou não
variar no tempo estudado, com exceção da região sul que apresentou um pico no ano de 2016.
Tal região foi a última no Brasil a notificar casos de LV[25].
Desta forma, observa-se que a LV ainda é uma realidade no Brasil, acometendo
principalmente indivíduos com baixas condições socioeconômicas. Há programas de saúde
que desenvolvem ações de controle estando focados em detectar, diagnosticar e tratar os casos
notificados. No entanto, mesmo com um amplo programa de controle nas regiões, a LV ainda
é um problema de saúde pública e ações atuantes nos diferentes níveis de prevenção podem
reduzir significativamente os índices desta doença.
Para tanto, se faz necessário a busca incessante por estratégias que auxiliem no
planejamento de novas metodologias para ações voltadas ao combate de vetores e
reservatórios, com alternativas precisas de prevenção, diagnóstico, monitoramento,
tratamento, e cuidados da popopulação, bem como, políticas de saúde pública para serem
aplicadas nessas regiões, resultando na diminuição do número de casos e notificações nas
regiões do Brasil.
130 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

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SEÇÃO LIVRE 133

DESAFIOS NA INCLUSÃO DE SABERES E PRÁTICAS SOCIOAMBIENTAIS


LOCAIS NO PLANO DE MANEJO DA RESEX MARINHA CAETÉ-TAPERAÇU

Marcelo do Vale Oliveira1

RESUMO

O objetivo geral é de compreender os desafios da inclusão dos saberes e práticas socioambientais locais
na coprodução do Plano de Manejo da Resex Caeté-Taperaçu. A questão central é quais os desafios da
inclusão das práticas socioambientais locais na coprodução do Plano de Manejo da Resex marinha
Caeté-Taperaçu? A partir de uma abordagem da Sociologia da Ação Pública (LASCOUMES e LE
GALÈS, 2012; TEISSERENC e TEISSERENC, 2014) vinculamos uma nova perspectiva de olhar
interdisciplinar sobre as políticas públicas, na qual o Estado tem sua centralidade contestada, com maior
participação de diferentes atores nas discussões com implementações e gerenciamentos, a partir de novas
dinâmicas e mobilizações locais. A base de dados analisados foi constituída a partir de informações
documentais e entrevistas de vinte pessoas envolvidas na coprodução. E o resultado principal evidencia
que em um processo tão rico em aprendizados e em conquistas socioambientais ainda não se conseguiu
romper com a hegemonia de interesses outros vinculados à uma racionalidade que não ambiental e nem
das populações locais. Mas não se pode deixar de reconhecer a capacidade de resistir, de inventar, de
aprender, de segmentos sociais como as populações tradicionais, em parceria com outros segmentos de
atores (Instituições de ensino e pesquisa, organismos do Estado), vem conseguindo se impor, enfrentar
forças políticas e econômicas que as negam, via adoção das referências da conservação ambiental.

Palavras-chave: Ação Pública. Plano de Manejo. Resex. Saberes e práticas socioambientais.

CHALLENGES IN THE INCLUSION OF LOCAL SOCIAL AND


ENVIRONMENTAL KNOWLEDGE AND PRACTICES IN THE MARINHA CAETÉ-
TAPERAÇU EXTRACTIVE RESERVE MANAGEMENT PLAN

ABSTRACT

The general objective is to understand the challenges of including local social and environmental
knowledge and practices in the co-production of the Resex Caeté-Taperaçu Management Plan. The
central question is what are the challenges of including local socioenvironmental practices in the co-
production of the Management Plan for the Caeté-Taperaçu marine resex? From an approach of the
Sociology of Public Action (LASCOUMES and LE GALÈS, 2012; TEISSERENC and TEISSERENC,
2014) we link a new perspective of interdisciplinary view on public policies, in which the State has its
centrality contested, with greater participation of different actors in discussions with implementations
and management, based on new dynamics and local mobilizations. The analyzed database was
constituted from documentary information and interviews of twenty people involved in the co-
production. And the main result shows that in a process so rich in learning and socioenvironmental
achievements, it has not yet been possible to break with the hegemony of other interests linked to a
rationality that is neither environmental nor local populations. However, the capacity to resist, to invent,
to learn, from social segments such as traditional populations, in partnership with other segments of
actors (teaching and research institutions, State bodies), has been able to impose itself, face political and
economic forces that deny them, through the adoption of environmental conservation references.

Keywords: Public Action. Management Plan. Resex. Socio-environmental knowledge and practices.

Data de submissão: 05. 10. 2020


Data de aprovação: 23. 12. 2020

1
Doutor em Sociologia (PPGSA/UFPA). Técnico em Assuntos Educacionais na Universidade Federal do Pará.
E-mail: [email protected]
134 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

INTRODUÇÃO

As populações tradicionais locais que tem seu modo de vida diretamente vinculado com
o território da Resex Caeté-Taperaçu reproduzem atividades que se ligam à pesca, mais
especificamente à artesanal2. Seus saberes são construídos enquanto identidade e cultura desses
grupos sociais. O saber tradicional é a fonte das cosmovisões construídas por esses grupos pela
relação empírica com a natureza e com a sociedade, seus modos de vida, formas de organização
social e para a prática dessas atividades extrativistas e sentidos para as relações sociais
estabelecidas entre si e com os outros. Também esses saberes tradicionais locais influem nas
tecnologias e técnicas construídas e utilizadas nas atividades extrativistas que é o seu foco
(OLIVEIRA, 2018).
E há, nas quatro últimas décadas do século XX, aspectos que proporcionaram maior
pressão sobre o ecossistema de manguezal localizado na costa paraense, que abrange a citada
Resex. Essa pressão se dá relacionada à integração regional ocorrida com Belém, com o advento
da política desenvolvimentista dos governos militares brasileiros, via construção de malha
rodoviária, facilitando os deslocamentos populacionais e de produtos entre as regiões e à
construção de uma Rodovia estadual, a PA-458, que liga a sede do município de Bragança à
praia de Ajuruteua, tendo 36 km de extensão e cortando o manguezal localizado na península
bragantina. Também o fato da valorização dos produtos oriundos do manguezal pelo mercado,
acarreta no aumento da demanda, o que repercutiu na mobilidade de populações de pescadores,
principalmente vindas da região nordeste do Brasil, inserindo modelos diferentes de pesca,
tendencialmente caracterizados pela larga escala.
Concatenado com essas mudanças vivenciadas, Silva Junior (2013) destaca a ocorrência
de crescimento do setor pesqueiro e a tendência ao uso de lógicas mais vinculadas ao
capitalismo a partir da década de 90 do século XX com a intensificação da chegada de
imigrantes da região nordeste brasileira, principalmente, do Estado do Ceará. Para o autor, há
expansão da atividade pesqueira marítima, com a implantação de fábricas de beneficiamento
de pescado, e que repercute nas imigrações também à nível regional, se destacando a chegada
de pescadores de outros municípios próximos à Bragança e do nordeste brasileiro.
Assim, há um contexto social, político e econômico local dinâmico e de transformações
constantes acerca das atividades extrativistas e do território costeiro de Bragança. Esse
movimento dinâmico em direção ao aumento da escala produtiva e do consumo dos produtos
provenientes desse ecossistema específico produz pressões em territórios historicamente
vinculados ao modo de vida e reprodução de populações tradicionais locais, o que desencadeia
nas discussões em torno da conservação e do uso desses recursos naturais, na forma de Unidades
de Conservação.
Dessa forma, criou-se consentimentos, principalmente por representantes do Estado,
acerca do modelo de Reserva Extrativista (RESEX) para garantir os territórios e a reprodução
de um modo de vida específico, o das populações tradicionais. Esse formato de Unidade de
Conservação (UC), segundo Diegues (2005), é pautado no uso sustentável dos recursos por
populações que habitam e se relacionam com esses ecossistemas há séculos e décadas. A
criação de uma Unidade de Conservação nesses moldes atende a demandas históricas da região

2
De acordo com a lei Federal da Pesca, nº 11.959/09, a pesca se constitui “como toda operação, ação ou ato tendente
a extrair, colher, apanhar, apreender ou capturar recursos pesqueiros” (BRASIL, 2009, p. 76). O conceito de pesca
artesanal aqui utilizado é de Diegues (2005) e refere-se a pescadores que se concentram nas regiões litorâneas, rios
e lagos, possuindo um modo de vida baseado na pesca, mas exercendo atividades complementares, como o
extrativismo vegetal, o artesanato e a pequena agricultura. Especificamente, no nordeste paraense, destacam-se a
coleta de mexilhão, turu, cipós, plantas medicinais, lenha, madeira para carvão, entre outros (FURTADO et al.,
2006) como atividades complementares entre os pescadores artesanais.
SEÇÃO LIVRE 135

bragantina, principalmente dessas comunidades (MANESCHY, 2005). E nesse sentido, em um


primeiro olhar, a implementação dessa UC traz, além dos atores já citados, a visibilidade de
múltiplos interesses e perspectivas entre diferentes grupos sociais (públicos e privados) desse
contexto nos objetivos da RESEX, na relação entre humanidade e natureza e na representação
dos atores dentro do Conselho Deliberativo (CD).
Assim, a coprodução do Plano de Manejo (PM)3 tem um caráter centrado nas
multiplicidades de atores, interesses, perspectivas e, nessa arena de disputas, acordos e
conflitos, os saberes e práticas socioambientais das comunidades tradicionais locais estão
colocados. De todas as mudanças sociais, políticas e econômicas ocorridas no bojo de todos
esses processos, nossa intenção é compreender os desafios da inclusão dos saberes e práticas
socioambientais locais4 no Plano de Manejo da Resex Caeté-Taperaçu, ressaltando as relações
instituídas entre os atores envolvidos, seus saberes e práticas, interesses, conflitos e acordos.
Dessa forma, nosso interesse é em compreender os desafios da inclusão dos saberes e práticas
socioambientais em um instrumento de gestão desse território que é o Plano de Manejo da
Resex Caeté-Taperaçu.
Dentro da abrangência do município situa-se essa Resex, cujo diploma legal de criação
é o decreto s/nº de 20/05/2005. Seu território abrange uma área de 42.489,17 hectares, sendo
24 mil de manguezais (DOMINGUES, 2008). De acordo com o Diário Oficial da União nº 197
de 13.10.2011 no termo de concessão celebrado entre o Instituto Chico Mendes de Conservação
da Biodiversidade (ICMBio) e a Associação dos Usuários e Moradores da Resex Marinha
Caeté-Taperaçu (Assuremacata) foi cedido o direito do uso gratuito e resolúvel da área que
abrange a Resex para à Associação, com vigência de 50 anos, via o Contrato de Concessão de
Direito Real e de Uso (CCDRU) nº10/2011, assinado em 28.09.2011.
Assim, na construção da metodologia utilizada, a principal referência da abordagem que
aqui se operou foi a Sociologia da Ação Pública (LASCOUMES; LE GALÈS, 2012;
TEISSERENC; TEISSERENC, 2014), compreendida enquanto perspectiva para a contribuição
de transformações sociais, resolução dos conflitos e interação entre diferentes grupos com
diversos interesses na gestão das políticas públicas. Nesse sentido, se inclui a repartição dos
recursos; criação ou compensação das igualdades e de determinada ordem social e política; e a
regulação de suas tensões e resolução dos conflitos, com o objetivo comum de sanar
determinada situação vista como um problema. Um dos aspectos centrais da Ação Pública local
trata-se da interação entre autoridades públicas e atores sociais, mais ou menos organizados. O
conceito está coadunado com a perspectiva de análise “Bottom Up”, pois o foco analítico são
as relações entre diferentes atores, seus interesses, suas concordâncias e discordâncias, a
formação de grupos, as regras do jogo, os conflitos ocorridos, suas mediações e as resoluções
ou não, no caso, entre os atores coletivos e individuais envolvidos no processo de coprodução
do PM da Resex Caeté-Taperaçu.
O procedimento é qualitativo, baseado em Minayo (2004), para a coleta dos dados
primários. As etapas da pesquisa foram: o levantamento e análise das referências pertinentes; a
pesquisa documental; a pesquisa de campo, subdividida em observação direta e entrevistas
semiestruturadas; e a análise de dados.
Os interlocutores são atores que participam/participaram do CD da Resex. A partir da
divisão entre atores com perfil mais técnico e científico e de atores com saberes classificados
teoricamente como tradicionais. Assim, foram entrevistados vinte atores no período de 11.2014
a 06.2016, sendo dez com perfil mais técnico e dez vinculados às comunidades tradicionais.

3
Plano de Manejo, segundo SNUC (2000), é um documento técnico mediante o qual, com fundamento nos
objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas para o uso da área e
o manejo dos recursos naturais.
4
Partimos da afirmação da inclusão desses saberes e práticas socioambientais na coprodução do PM da RESEX
Caeté-Taperaçu por ser um resultado “marginal” da tese do autor.
136 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Por fim, o artigo se divide em três seções: 1) Resex Caeté-Taperaçu, sua estrutura e
alguns desafios dessa institucionalidade, 2) Conselho Deliberativo e a relação entre atores e 3)
Desafios da inclusão dos saberes e práticas socioambientais no Plano de Manejo da Resex
Marinha Caeté-Taperaçu; além das considerações finais e referências.

1 RESEX CAETÉ-TAPERAÇU, SUA ESTRUTURA E ALGUNS DESAFIOS DESSA


INSTITUCIONALIDADE

Dentro do modelo de Unidade de Conservação existem diferentes formas de uso e


controle de dado território, um desses formatos é a Reserva Extrativista. O Estado a conceitua
em seu artigo 18 enquanto:

[...] uma área utilizada por populações extrativistas tradicionais, cuja subsistência
baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na
criação de animais de pequeno porte, e tem como objetivos básicos proteger os meios
de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos
naturais da unidade (SNUC, 2000, p. 10).

A Resex Caeté-Taperaçu foi criada em 2005 e nesse início foi instituída a sua
Associação de Usuários (Assuremacata), ainda como única instituição com sede nesse contexto.
O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) era o órgão vinculado à União que
acompanhava a implementação da Unidade de Conservação. Nesse início ainda não havia a
atual estrutura baseada no ICMBio, que será instalada em 2007.
Esse início será importante para a construção das duas principais perspectivas
exprimidas pelos interlocutores sobre o que é a Resex Marinha Caeté-Taperaçu: uma vinculada
ao seu objetivo institucional e outra vinculada às políticas públicas instituídas com a criação da
Reserva Extrativista. Não necessariamente essas duas maneiras de ver a Resex tem um caráter
dicotômico, de contraposição entre ambas.
A primeira baseia-se no arcabouço jurídico-legal de uma Reserva Extrativista,
tendencialmente, encontra-se nos discursos produzidos por atores representantes de instituições
públicas. A Reserva Extrativista implementada no município de Bragança, pelo menos
enquanto ideia e intenção, é formatada a partir da perspectiva contida na legislação e
regulamentos que embasam esse formato de UC.
Nessa perspectiva, os atores ressaltam a Resex Caeté-Taperaçu enquanto garantia para
conservação dos ecossistemas (territórios), como valor construído historicamente no contexto
brasileiro e que está colocado na legislação que normatiza as Unidades. Há a tendência de ser
um discurso mais dos atores das instituições públicas, mas que se apresenta entre alguns
associados e atores das populações tradicionais locais, pois há legitimidade social enquanto
perspectiva que se propõe a continuação de um modo de vida e de reprodução social bem
característico das comunidades dentro e no entorno do território dessa Unidade; ou que pelo
menos se busca aproximar.
Dentro dessa perspectiva jurídico-legal, há dificuldades na gestão desse território e na
inclusão dos saberes e práticas socioambientais, por mais paradoxal que possa parecer. E essa
questão é explicada por uma legislação descontextualizada das práticas históricas locais5.
Acerca da segunda perspectiva principal, ela se vincula à Associação dos Usuários e
Moradores da Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu (Assuremacata). Aqui a RESEX
é confundida com a Associação, assim como as políticas públicas em implementação. A partir
da criação da Unidade, ocorrem debates dentro e entre as comunidades e suas lideranças no
sentido de viabilizar a eleição da primeira presidência e equipe para o gerenciamento da

5
Essa discussão será realizada com mais elementos na segunda seção.
SEÇÃO LIVRE 137

Assuremacata. De acordo com Ata da assembleia, a criação da Assuremacata ocorre em


08/08/2005. Nesse ato os delegados e delegadas da Assuremacata já estavam eleitos e
participaram representando as comunidades abrangidas pela Resex. Há presença de
representantes de outras Unidades vizinhas, como Curuçá e Viseu. E representantes de diversas
instituições vinculadas à União (CNPT-Ibama, UFBA, UFPA) e ao município de Bragança
(Secretaria Municipal de Agricultura e Meio Ambiente de Bragança, Secretária de Economia e
Pesca de Bragança).
Depois da criação da Unidade e instituição da Associação dos Usuários constrói-se a
perspectiva participativa e de gerenciamento do território da Resex via Assuremacata. Seu
primeiro presidente afirma que nas reuniões preparatórias para a implementação da Unidade
ficou compreendido entre os atores representantes das populações locais que a gestão desse
território ficaria a cargo deles, através de sua Associação. Ou seja, a partir de uma referência
de centralidade do Estado que essas populações sempre observaram em suas (pontuais) relações
com esse ente, constrói-se o discurso e imaginário de centralidade da Assuremacata no
gerenciamento do território e das políticas sociais a serem implementadas na Unidade,
emulando as práticas outrora percebidas no fazer do Estado.
A instalação do ICMBio em Bragança e o cumprimento de seu papel institucional é visto
por alguns atores entrevistados vinculados à Assuremacata como uma intromissão de uma
instituição em relação ao papel da outra e não enquanto um modelo de compartilhamento das
decisões gerenciais acerca da Unidade e suas políticas públicas. Quando esse compartilhamento
no gerenciamento da Resex é internalizado pelos atores, principalmente pelas perspectivas das
populações tradicionais locais, alguns tendem a representá-lo enquanto uma relação de poder
entre as instituições postas, simplificando a sua complexidade e suas possibilidades em torno
do Território. Assim, há um sentimento de frustração entre os integrantes da primeira gestão da
Associação, com o evidenciamento de uma incompreensão em torno dessa “intromissão”. Não
é evidente se há ou não equívoco de interpretação de quadro legal estabelecido à época por
parte da Associação; o fato é que a partir de então é construído e aceito coletivamente um
entendimento da Associação como única gestora, ou pelo menos algumas lideranças tentam
impor e reproduzir essa condição às comunidades tradicionais locais, isso principalmente no
momento em que o ICMBio ainda não está instalado em Bragança.
A distribuição de benefícios sociais, que no contexto local aparece como a primeira
grande ação percebida no conjunto de programas governamentais que acompanham a
institucionalização da Reserva, é realizada via Assuremacata. Os bens duráveis concedidos às
famílias contempladas eram eletrodomésticos, principalmente geladeira e fogão, como parte de
um programa de fomento para os moradores. Nesse bojo, havia também uma política de
regularização fundiária objetivando normatizar o uso das áreas ocupadas durante décadas pelas
comunidades residentes, algumas com mais de 30 anos de existência, como o caso da Pontinha
do Bacuriteua, onde famílias não possuíam direito legal sobre suas áreas e viviam em condições
difíceis do ponto de vista material. Há também inclusão dessas populações locais em políticas
de assistência social e de combate à fome, como o Bolsa Família e Bolsa Verde. A distribuição
dos benefícios é ponto de conflito entre grupos internos da Associação e com algumas
instituições públicas, como o ICMBio e um dos desafios para o funcionamento esperado da
Associação e da Reserva.
A lógica da distribuição dos benefícios, a partir da perspectiva do Estado, relaciona-se
com as ações de conservação, sustentabilidade e conservação dos recursos naturais da Reserva,
através da garantia do direito à habitação e dos subsídios, com o sentido de prover qualidade de
vida para essas populações, em um sentido moderno do termo. Os beneficiários precisavam
estar identificados como famílias da reforma agrária, que é uma política do governo federal. Há
uma relação do INCRA com os beneficiários da Resex, sendo que não necessariamente todo
usuário é um beneficiário, mas todo o beneficiário tem que ser obrigatoriamente usuário.
138 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Existem diversos critérios técnicos usados para a escolha dos beneficiários. O INCRA, uma das
instituições públicas participantes desse conjunto de ações, tem como função institucional
nesses processos de garantir o acesso à questão da terra no Brasil e seus benefícios, atuando
com grupos de sem-terras, quilombolas e outros.
Um dos desafios locais que se impõe, a partir da implementação dessas políticas
públicas, é estabelecer entre a Assuremacata e as populações tradicionais locais uma relação
pública, baseada em direitos e deveres, acerca dos benefícios e dos objetivos da Associação.
Historicamente em Bragança as populações locais, vinculadas às atividades extrativistas,
baseiam suas ações em relações de compadrio e parentesco, constituindo em alguns casos
enquanto sistema de dominação, como explicitado por Oliveira (2013) e Oliveira & Maneschy
(2014).
Essa necessidade de estabelecimento de uma relação pública torna-se evidente pelo uso
de recursos públicos envolvidos na distribuição dos benefícios e das políticas públicas, pelas
quais a Associação é a responsável. O critério do compadrio e do parentesco desvirtua o caráter
público e justeza na aplicação dos recursos. Essa questão também pode ser relacionada
historicamente na relação entre essas comunidades e o Estado. A centralidade do Estado na
implementação das políticas públicas em Bragança e a exclusão de grande parte dessas
populações desses direitos é primordial para compreender as perspectivas e discursos
construídos em torno dos benefícios, não como direitos, mas sim como “ajuda”. Ressalta-se, de
que esses benefícios distribuídos possam ter sido a primeira relação dessas comunidades com
o Estado. Portanto, essa instituição se faz presente de uma forma nunca antes vista entre essas
comunidades. Porém, juntamente com esses benefícios, constroem-se as lógicas de “favor”, não
de direito, não de promoção da cidadania, não de direitos constitucionais, criando uma relação
de favorecimento, de dívida, de relação patrimonialista, de dominação e não de políticas
públicas, numa acepção ideal. É algo “dado”. Dessa forma, se constrói o imaginário das relações
locais em uma política nacional.
Há distorções criadas entre os objetivos dos benefícios e os discursos produzidos e
reproduzidos pelas populações tradicionais locais, vinculando os benefícios a grupos políticos
e políticos específicos, principalmente. Os objetivos preceituados nos benefícios não são
reproduzidos entre as populações locais, não atingindo suas finalidades, em virtude de
interesses políticos, econômicos e sociais privados de grupos e indivíduos inseridos na
implementação dessas políticas e sem um debate democrático e participativo. Nesse sentido,
conflitos internos entre as comunidades abrangidas por essas políticas públicas se evidenciam
a partir de (des)informações baseadas em interesses privados de grupos dentro da Associação e
da atuação do poder local6 dentro e entre esses grupos. Ressalta-se que algumas comunidades
historicamente já possuíam rivalidades vinculadas às atividades extrativistas de pesca e coleta
de Caranguejo. A partir da distribuição dos benefícios ocorre o acirramento entre algumas
comunidades e novos conflitos entre outras, colaborando para um processo de individualização
nessa distribuição.
As lideranças buscam se fortalecer internamente e entre as populações tradicionais
locais, e algumas estratégias utilizadas buscam desinformar os extrativistas acerca dos
potenciais beneficiários e comunidades e de quem não preenche os critérios para ser
contemplado por essa política pública. Também foi indicado que há disputas internas entre
indivíduos dentro de uma mesma comunidade e que a forma como se procedeu essa distribuição
afastou da Associação os beneficiários que garantiram o acesso às casas, que delimitaram na
conquista desse bem sua relação com a Assuremacata. Uma das lideranças comunitárias e

6
Teisserenc (2016) coloca que o Poder local na Amazônia trata-se de um poder com origens no sistema de
dominação do “período colonial” baseado no aviamento realizado no contexto do “Ciclo da Borracha”. Tal sistema
de poder local se concretiza nos comportamentos individuais de dependência por parte dos cidadãos locais, e que
se reproduzem em todos os domínios da sua vida cotidiana e através das estratégias de ação.
SEÇÃO LIVRE 139

usuário afirma que “a Resex veio pra fazer a diferença. Os sócios [da Assuremacata] não estão
dando valor pra ela, principalmente os que foram beneficiados por ela, deixaram de comparecer
aqui, deixaram de pagar sua mensalidade”.
Assim, os desafios que se apresentam são: de descontruir e construir discursos acerca
do benefícios enquanto política pública, com direitos e deveres das populações tradicionais
locais; de quem tem direito e dos limites da política; da probidade e lisura no gerenciamento
desses recursos pela Associação; de buscar o afastamento de relações patrimonialistas e de
compadrio no acesso a esses recursos; de cumprimento dos critérios7, a serem utilizados e de
consensos nas práticas dentro da Associação (OLIVEIRA, 2018).
Nesse contexto de políticas públicas implementadas, principalmente nos dez primeiros
anos de criação da Resex, os atores entrevistados, tanto técnicos quanto “usuários/associados”,
acerca da Assuremacata e seus problemas, levantam questões relacionadas com disputas de
poder interno na associação que perpassam pelos principais conflitos e desafios aqui analisados.
Existem dois principais grupos interessados em gerenciar a Associação e com indivíduos
vinculados e apoiados por Partidos Políticos, sendo um microcosmo da disputa local, isso
durante à época de coprodução do PM, pois são os partidos que disputaram a eleição municipal
de 2012, com a existência de pressões externas no gerenciamento dos benefícios e fomentos.
Em virtude dessa disputa, há uma perspectiva entre os entrevistados de que a maioria
das populações tradicionais locais desconhece a Unidade, seus limites territoriais, seus
objetivos e sua natureza institucional. Esses entrevistados relacionam à Resex em Bragança à
distribuição de benefícios materiais. Portanto, um dos desdobramentos da distribuição desses
benefícios é a produção e reprodução de discursos, seja por interesses de gerenciamento e de
quem se beneficia da política, que confundem a instituição/instrumento Reserva Extrativista e
a instituição Associação dos usuários. Uma das possibilidades de explicação desse fenômeno
são os interesses e pressões externas de agentes do poder local de Bragança, sejam Partidos
Políticos e empresas, coadunados com interesses dos gerenciadores da Associação.
O interesse do poder local se vinculou ao montante de dinheiro disponibilizado para a
Unidade e os objetivos para a aplicação desses recursos. Houve disputas entre empresários
exteriores ao município e os locais. Essa escolha era feita via licitação e grande parte das
escolhas iniciais eram empresas de fora, com maior experiência, expertise e preparo para esses
processos. A partir de lobby dos grupos de empresários locais em relação à Associação e de
interesses internos de membros da Associação, em acordos informais de apoio à algumas
lideranças para a disputa de cargos eletivos, abriu-se a possibilidade de outros processos
licitatórios para a construção de casas e venda de materiais como geladeira, fogão e redes de
pesca. Empresas locais sem experiência nesses processos realizaram sua legalização para a
concorrência nesses processos.
Assim, culmina-se na eleição de 2013 para a Associação, quando houve discursos
produzidos principalmente em torno de sua legitimidade e de não existir chapa vencedora;
assim, a eleição estaria “sub judice”. Contudo, nas entrevistas realizadas, outros atores
reafirmam a legitimidade do atual presidente, inclusive com documentos judiciais
comprovando. Além disso, há a legitimidade da atual gestão da Associação por parte da atual
gestora do ICMBio na Resex estudada, observada nas discussões sobre o novo acordo de gestão
de pesca nessa Unidade e na reunião que participamos sobre a produção de sugestões para
atualização da legislação das atividades extrativista do caranguejo. Contudo, o discurso da não
legitimidade é persistente, engloba vários “usuários” e instituições públicas, provavelmente
pela diminuição das reuniões do CD, pois ainda pode se observar um período de transição entre
a antiga e atual gestão do ICMBio, e pela dificuldade de atração das populações tradicionais
locais que estão dispersas e retorno à normalidade das ações da Associação.
7
Idealmente seria necessário que esses critérios também contivessem elementos a partir da observação da realidade
local, o que não se dá nesse caso.
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E essa disputa política em torno da Associação se desdobrou na atuação de alguns


representantes dos polos dentro do CD. Nessas disputas os interesses pessoais também eram
percebidos por vários conselhos, técnicos e populações tradicionais locais. Ser conselheiro, com
a visibilidade que essa tarefa tinha, acabou sendo percebido, por atores interessados em disputar
cargos eletivos e partidos políticos em busca de lideranças, de forma valorativa, mas não no
sentido original da função de conselheiro, contribuindo para o desvio institucional e na
finalidade da Associação e da representação dos Polos. Nesse sentido, essa relação entre
conselheiros e agentes externos, quando se desdobra no desvio do objetivo do Conselho e da
Reserva, apresenta-se enquanto desafio nas deliberações de demandas que atendam a objetivos
mais coletivos e centrados nas premissas que instituem essa Unidade de Conservação.

2 CONSELHO DELIBERATIVO E AS RELAÇÕES ENTRE ATORES

A perspectiva de gerenciamento do território dessa Unidade é centrada no Conselho


Deliberativo (CD), baseado na atuação de multiatores, podendo ser analisado a partir da
perspectiva da Sociologia da Ação Pública (LASCOUMES; LE GALÈS, 2012) vinculada a
uma nova perspectiva de olhar interdisciplinar sobre as políticas; maior participação de
diferentes atores nas discussões; implementações e gerenciamentos junto com o Estado. Nesse
sentido, há desnaturalização de uma perspectiva hegemônica da natureza como submetida a um
direito humano natural, baseada na exploração pelo homem, indo em direção à construção de
concepção focada na finitude do recurso e na importância da relação entre humanidade e
natureza, ocorrendo descentralização de responsabilidades entre Estado e as coletividades
territoriais, via processos de cogestão e participação, considerados inovações institucionais
nesses contextos.
Jacobi (2003) ressalta a criação e contribuição de espaços deliberativos para o
fortalecimento de gestões democráticas, integradas e compartilhadas em processos que
envolvem multiatores. Evidencia-se o funcionamento desses espaços enquanto possibilidade de
questionamento do processo decisório do Estado e das relações instituídas entre Estado e
Sociedade Civil no campo das políticas públicas, tornando-se como desafio a transformação
desses espaços em efetivamente públicos, tanto em seu formato, quanto nos resultados.
Gohn (2002, p. 11) ressalta que historicamente os conselhos “populares” são propostos
por setores ligados à esquerda ou de oposição ao regime militar do período de 1964 a 1985. A
autora analisa esses conselhos, a partir dos movimentos sociais, atuando com parcelas de poder
junto ao Executivo, criando “uma espécie de poder popular paralelo às estruturas institucionais;
ou como organismos de administração municipal, criados pelo governo para incorporar o
movimento popular aos processos, no sentido de que sejam assumidas tarefas de
aconselhamento, de deliberação e/ou execução”.
Para Lascoumes & Le Galès (2012) esses instrumentos evidenciam seu caráter
institucionalizador, pois são determinantes (e não deterministas) em relação aos
comportamentos dos atores, suas incertezas, interesses, relações de força, trazendo consigo
representações acerca dos problemas advindos do jogo entre atores participantes. Para os
autores, os limites na forma de atuação, dos recursos disponíveis e estratégias a serem utilizadas
pelos atores sociais e políticos vinculam-se diretamente à escolha do instrumento, que incidirá
na capacidade de ação dos atores dentro das instâncias decisórias, no caso da Resex Caeté-
Taperaçu: o CD.
Os mais variados atores representantes de diversas instituições, seja o Estado, ONGs,
partidos políticos, as lideranças comunitárias, entre outros, produzem discursos eivados de
interesses e que podem ser apropriados pelas populações locais. É produzida a importância dos
instrumentos (Unidade de Conservação, Assuremacata, o CD) no sentido de normatização e
regulação do uso desses ecossistemas/territórios e se constrói a perspectiva dos instrumentos
SEÇÃO LIVRE 141

enquanto garantidores dos recursos naturais necessários para o seu modo de vida e a
continuação de sua reprodução.
A análise do CD da Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu, a partir da
perspectiva de instrumento de participação e poder é o tema compreendido por Silva Junior
(2013), centrando sua análise na contribuição desse instrumento para a mudança nas relações
de poder entre atores técnicos e a população tradicional. De acordo com o autor, o CD da Resex
Marinha Caeté-Taperaçu se caracteriza enquanto espaço ao debate e proposições, possibilitando
a participação das populações tradicionais em processos decisórios e na democratização das
relações entre diferentes atores do Estado, sociedade local e comunidades de usuários dos
recursos naturais, permeadas por assimetrias, conflitos políticos, sociais e ambientais, disputas
entre vários conselheiros e divergências entre as instituições participantes.
O CD da Resex Caeté-Taperaçu é criado via Portaria de número 17, de 24/09/2007, do
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Dentro dos instrumentos
que são inerentes à Resex, o objetivo do CD, numa perspectiva do Estado, é “contribuir com
ações voltadas à efetiva implantação e implementação do Plano de Manejo dessa Unidade e ao
cumprimento dos objetivos de sua criação”. O Conselho se estrutura a partir da premissa do
compartilhamento da deliberação e de poder e participação dos mais diversos grupos,
instituições e atores, não se focando somente na representação estatal, mas em uma gestão
compartilhada.
A perspectiva de gerenciamento da Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu
possibilita a produção de deliberações e demandas entre diferentes atores de variadas
perspectivas. Traz a possibilidade de inserção de saberes teóricos e experienciações, vinculadas
aos seus modos de vida e formação, que devem ser evidenciadas nesses processos para
compreensão de consensos, dissensos, acordos e desacordos no âmbito das Unidades de
Conservação em relação ao território. Este se constitui, dessa forma, um território da
participação, pautado em múltiplas perspectivas que se friccionam e promovem sua
dinamização, do ponto de vista de seu gerenciamento e da criação de regras de uso desses
recursos naturais. Contudo, hegemonicamente, o território da Resex Caeté-Taperaçu é
vislumbrado a partir do léxico e perspectiva do Estado, via a utilização do arcabouço jurídico-
legal que institucionaliza o instrumento Resex nos discursos produzidos por esses atores,
principalmente vinculados a instituições públicas, mas também incorporados por algumas
lideranças comunitárias.
A concretização do compartilhamento da gestão e da caracterização da ação pública na
UC estudada se dá efetivamente com a vinda do ICMBio e da criação do CD, respectivamente
em 2007 e 2008. Nesse momento começa-se a romper com a lógica da gestão centrada na
Assuremacata, o que repercute em tensionamentos entre os atores colocados. Por outro lado,
internamente na Associação afloram interesses distintos, em parte pela pressão feita pelo poder
local (principalmente partidos e lideranças políticas locais) entre grupos diferentes começam a
se materializar, provocando tensionamentos no território abarcado pela Unidade de
Conservação e fragilização do papel institucional dessa Associação.
Apesar da divisão interna na Associação em grupos vinculados a lideranças políticas e
partidos políticos que levam à disputas de poder e à fragmentar sua atuação, há centralidade de
informações na Associação, o que se desdobra na desmobilização das comunidades e em
disputas entre o representantes dos Polos e lideranças das comunidades. Nas discussões sobre
a questão do defeso do caranguejo, alguns conselheiros percebiam essa centralidade de
informação em algumas pessoas e pequenos grupos vinculados à Assuremacata, indicando a
existência de interesses pessoais, de comunidades específicas e interesses de comerciantes,
patrões e atravessadores, evidenciando disputas e conflitos internos e fragmentação em diversos
grupos de interesse no âmbito da Associação.
142 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

A partir dessa centralidade nas informações, uma das estratégias adotadas por
determinados representantes de polo ou comunidade dentro do Conselho era a desarticulação
de reuniões marcadas em comunidades pelo CD. De acordo com um conselheiro representante
de polo, “quando o ICMBio marcava uma reunião dentro de um polo existiam pessoas dentro
da Associação que iam desarticulando as reuniões que tinham o objetivo de socializar as
informações do conselho”. Esse discurso evidencia o distanciamento entre a participação nas
reuniões do Conselho e o distanciamento dos conselheiros em relação às populações
tradicionais locais.
A dificuldade de socialização das decisões do CD também afeta os representantes de
instituições públicas. Porém, a partir de contextos diferentes que se desdobram nessa
dificuldade. “A gente comenta com um mais próximo ou se demanda alguma situação aí você
chega no coordenador e diz que ta acontecendo isso, que vai precisar disso, ou se precisar tomar
alguma decisão, mas no dia a dia fica mais com a pessoa”, afirma uma conselheira representante
de instituição pública estadual. Ou seja, a socialização acontece junto as chefias de forma
pontual e não contínua. A procura pela chefia ocorre mais em casos de demandas que fujam da
responsabilidade institucional do servidor público.
Para alguns atores, essa flexibilidade na inserção de demandas nos debates realizados
não necessariamente garante que essas deliberações democraticamente aceitas sejam levadas
em conta nas definições posteriores, pois há o não cumprimento das decisões do conselho e
diferenças entre o decidido e o implementado. Uma das conselheiras (MT, entrevistada em
2016), representante de polo, coloca que uma das demandas nacionais da Conferência de
Reserva em Áreas de Marinha (CONFRE), vinculada à assistência técnica (ATER) dessas
Unidades de Conservação, em sua forma final se diferencia da forma como os debates se deram
no Conselho Deliberativo. Uma das explicações possíveis para esse fenômeno é levantada pelo
segundo presidente da Assuremacata, acerca das decisões tomadas sobre o defeso do
caranguejo. Trata-se da existência de diferentes níveis de decisão para as demandas
apresentadas. Há nível de decisão no âmbito do CD, cuja demanda aprovada em uma
determinada reunião é encaminhada para a análise de outras instituições públicas, que além de
responsáveis pela fiscalização e cumprimento da legislação vigente, há também interesses
políticos, econômicos e estratégicos.
Nas entrevistas realizadas é citada a participação limitada de algumas dessas instituições
que compõem o CD, ocorrendo muitas ausências de algumas ou outras que nunca participaram
de nenhuma reunião deliberativa e na tese de Silva Junior (2013) é indicado o dado de que 19
das 23 instituições com direito à participação frequentaram as reuniões do Conselho no período
de 2010 a 2012. Esse instrumento possibilita a participação de diferentes atores, incluindo as
populações tradicionais locais e a Associação, numa arena permeada por relações de poder,
pontos destacados por Silva Junior (2013) em sua análise sobre o CD enquanto espaço de
participação e poder na Resex Caeté-Taperaçu.
Um desses desafios se refere ao posicionamento dos atores participantes do CD. A partir
da forma como o gestor da Resex, vinculado ao ICMBio, os diferentes atores se posicionam,
enquanto possibilidade de participar, demandar e decidir democraticamente, fato corroborado
por grande parte dos atores entrevistados, o que não descarta também imposições e decisões
diferentes das tomadas no Conselho (OLIVEIRA, 2018).
É ressaltada a atuação da Associação, além de sua representação em torno dos interesses
das populações tradicionais locais, enquanto instituição com poder de comunicação junto às
comunidades das decisões tomadas do ponto de vista gerencial e das políticas públicas
implementadas na Unidade. Contudo, a partir das questões já levantadas acerca dos conflitos
internos e da influência do poder local sobre a Associação ocorrem problemas legais com a
instituição, no que tange sua representação e representatividade diante das populações
tradicionais locais e demais atores envolvidos nos processos da Resex. Muitos entrevistados
SEÇÃO LIVRE 143

evidenciam, sejam atores representantes de instituições públicas e dos polos, a personalização


da Associação em determinado representante, com finalidades que desviam dos objetivos da
Instituição, geralmente utilizando o espaço do CD com fins eleitorais eivados por interesses
pessoais e de grupos externos ao conselho e à Associação.

3 DESAFIOS DA INCLUSÃO DOS SABERES E PRÁTICAS SOCIOAMBIENTAIS NO


PLANO DE MANEJO DA RESEX MARINHA CAETÉ-TAPERAÇU

O PM, conceituado no SNUC (2000), é o documento onde estão definidos os


fundamentos e objetivos gerais de uma Unidade de Conservação, estabelecendo as formas de
planejamento, administração e gestão. Assim como, as normas para o uso da área e o manejo
dos recursos naturais, incluso também a implantação das estruturas físicas necessárias à gestão
da Unidade. Deve-se preceituar a permanência e o uso dos recursos naturais por essas
populações tradicionais, baseadas na sustentabilidade da biodiversidade local.
Dentro do PM (ABDALA et al., 2012) há o pressuposto de garantir o território das
comunidades, a partir das especificidades dos seus modos de vida, valorizando o saber
tradicional das populações, cuja relação com o meio natural não se resume ao caráter
econômico, ou de simples fonte de autoconsumo. Silva Junior (2013, p.43) ressalta, a partir de
entrevista realizada com um agente técnico do ICMBIo, que desde a criação da Resex Caeté-
Taperaçu, foram injetados pela União cerca de R$ 40 milhões de reais na economia do
município, com o insumo de créditos, construção de casas, distribuição de canoas e
eletrodomésticos, abarcando cerca de cinco mil famílias. O PM, enquanto instrumento de
gestão, tem sua gênese percebida a partir dos diferentes interesses e direitos encapsulados nas
regras instituídas, via sua organização em multiatores. E esses diferentes interesses e direitos
postos nesses processos de ação pública pressupõem a existência de relações de poder entre os
atores envolvidos.
São nesses espaços participativos que se dá a coprodução do PM da Resex Caeté-
Taperaçu. Em um primeiro momento, esses processos são representados pela maioria dos atores
entrevistados, conselheiros ou não, enquanto processo participativo coproduzido por diferentes
atores representantes de instituições públicas federais, estaduais e municipais, políticos,
pescadores artesanais, colaboradores e outros. Contudo, com limites na participação de
determinados atores. O período de realização desse processo é entre 2009 a 2012, cuja
aprovação ocorreu no final de 2012, com sua portaria sendo publicada em 12/12/2013, com o
Nº 265.
O Plano de Manejo aparece nos discursos dos técnicos, principalmente, como
instrumento de gestão previsto na legislação que regula a Unidade de Conservação, sendo
legitimador, em uma perspectiva do Estado, dessa Reserva Extrativista. Os discursos o
apresentam como regramento sobre os usos, tendo como premissa uma forma mais adaptativa
desse uso. A formação de parte significativa dos técnicos em áreas de conhecimento vinculadas
às ciências biológicas e naturais, certamente, contribui para essa perspectiva. Assim, há
instituída nessas perspectivas o componente do conhecimento científico, seus referenciais
teóricos e conceitos, embasando os pontos de vista utilizados na perspectiva em torno do plano.
Ainda nessa concepção dos representantes do Estado, esses atores trazem em seus
discursos perspectiva de futuro em relação à Resex e ao PM e de regras institucionalizadas do
uso desses territórios. O Plano carrega em si a possibilidade de reflexão em torno do futuro
desejável para a Unidade. Há aproximações e intercâmbio entre diferentes atores, modos de
vida e pontos de vista sobre a questão ambiental no contexto englobado pela Resex Caeté-
Taperaçu.
Outra questão que flerta, em tese, mais diretamente com as populações tradicionais
locais que dependem dos recursos presentes no território da Resex Caeté-Taperaçu, é a
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contextualização local realizada e representada pelos atores participantes. Essa


contextualização abarca a diversidade ecológica, a diversidade humana, relações e dinâmicas
econômicas, as dinâmicas locais de uso dos recursos naturais, principalmente no que tange às
populações tradicionais locais, e algumas observações das contradições desse uso.
Esse instrumento deve conter medidas com a finalidade de promoção da relação entre o
instrumento e vida econômica e social das comunidades abarcadas e na vizinhança da Unidade.
Assim, em vista da forma racionalizada com que esse instrumento é pensado, nossa indagação
é: quais os desafios para a inclusão dos saberes e práticas socioambientais das comunidades
tradicionais dentro e no entorno da Resex marinha Caeté-Taperaçu?
O SNUC (2000) em diversas passagens se refere e norteia pressupostos em relação a
inserção e forma como os saberes não-científicos, no nosso caso específico, tradicionais, devem
ser observados e operados pelos agentes do Estado no sentido de inclusão nos instrumentos
preceituados para o gerenciamento das Unidades de Conservação, principalmente no que
concerne a uma Reserva Extrativista. Por exemplo, o décimo terceiro objetivo contido no
SNUC (2000) relaciona a proteção dos recursos naturais à valorização do saber, cultura e
reprodução das populações tradicionais. Especificamente à Reserva extrativista, em sua
conceituação, se evidencia uma área utilizada por populações extrativistas tradicionais com
objetivos de proteção desses meios de vida e cultura, assegurando o uso sustentável desses
recursos naturais dentro de determinada unidade.
Quando o SNUC (2000) coloca enquanto premissa no artigo n. 32, acerca de incentivar
o desenvolvimento de pesquisas sobre fauna, flora e ecologia nas Unidades em uma articulação
entre “órgãos executores”, com os cientistas, elegem a concepção de “formas de uso sustentável
dos recursos naturais”, a partir da “valorização” do saber das populações tradicionais; esse
tópico tem essa preocupação de interpretar as perspectivas da coprodução do PM em relação
aos saberes acionados nos debates das oficinas realizadas nas comunidades e do CD, no sentido
de evidenciar como esses conhecimentos se relacionam e os mecanismos por detrás das
estratégias, acordos e conflitos existentes nesse processo.
Nesse sentido, o próprio PM da Resex Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu explicita a
pequena inclusão de conhecimento (saber) tradicional no documento final. Abdala et al., (2012,
p. 01) reconhecem que “na atual fase há pouco conhecimento tradicional agregado neste
diagnóstico e os textos, em geral, são voltados a juntar e organizar o conhecimento técnico-
científico e institucional existentes sobre as áreas”.
Assim, o PM tende a centrar-se em aspectos técnicos que dificultam a compreensão dos
atores locais e a inclusão de seus saberes e práticas. A questão do PM se apresentar somente
em um formato escrito, que é muito científico e centrado numa educação formal, dificulta e
afasta as populações tradicionais locais por terem sua expressão calcada na oralidade via
experiência e não na formalidade preceituada na gênese do instrumento. Um dos atores técnicos
(JC, entrevistado em 23.02.2016) ressalta o esforço dos envolvidos nesse processo empregando
técnicas como o mapa falado nas oficinas, buscando tornar os debates e o processo palatável
para as comunidades e populações locais. Mesmo assim, há dificuldade pelos conselheiros
representantes das populações tradicionais locais em compreender a linguagem técnica
utilizada para a coprodução do PM.
Nesse sentido, ele tem referência legal-institucional, pela forma de apresentação, e
busca levantar demandas locais em formato de informações via oficinas realizadas. É o caminho
instituído como forma de estabelecimento de diálogos entre esses saberes. O ator (FR,
entrevistado em 08.05.2015) evidencia o reconhecimento dos atores participantes em relação
aos discursos produzidos a partir de diferentes perspectivas, fricções entre diferentes
concepções de interpretação do mundo e do meio ambiente, especificamente. Nesse sentido, a
coprodução do PM institui o diálogo entre os atores e seus saberes, com a presença do Estado,
dos pescadores, de políticos e outros representantes da sociedade civil nesse processo.
SEÇÃO LIVRE 145

Os atores participantes reconhecem a possibilidade de diálogo, de articulação, de


existência de outras possibilidades de pensar o território e de existência de diferentes
posicionamentos acerca dos assuntos pautados; os atores percebem essas possibilidades no
processo de coprodução em si, no momento do debate intermediado pela empresa contratada.
Obviamente que essa possibilidade de participação e deliberações coexiste com limites,
restrições, dominação simbólica, assimetrias e relações verticais.
Essa relação entre diversos saberes é um dos aspectos onde mais se sobressalta
estratégias vinculadas aos movimentos dentro do CD. Estratégias observadas nas relações
instituídas entre os atores participantes, no que concerne o acionamento de diferentes saberes,
técnicos/científicos e tradicionais, nas discussões sobre os temas demandados e colocados nas
reuniões. Como exemplo, alguns atores ressaltam que, para a construção da contextualização
local e participação das comunidades, utilizou-se, nas oficinas acerca do PM, a estratégia de
aproximação entre a linguagem mais técnica da empresa responsável pela produção do Plano e
a linguagem mais tradicional reproduzida pelas comunidades locais.
Uma das possibilidades em relação à desarticulação, tensionamentos e discordâncias
entre atores participantes de Ações Públicas, citadas por Câmara (2013), é a relação entre
diferentes e diversos saberes, principalmente entre técnicos/científicos e tradicionais, que
implicam nas relações entre atores. Assim, dentro da Resex Marinha Caeté-Taperaçu há a
possibilidade de diálogos entre saberes e reconhecimento do conhecimento tradicional dos
tiradores de caranguejo acerca do período de defeso. Ressalta-se que é citado um processo
biológico do caranguejo tanto sua denominação científica (ecdise) e em sua denominação
tradicional dos pescadores artesanais da região (troca de carapaça). Porém, as justificativas
utilizadas a seguir no texto são de caráter científico, buscando traduzir o discurso tradicional e
legitimá-lo a partir de pesquisas científicas.
Três atores representantes das comunidades tradicionais levantam tensões e conflitos
que ocorreram entre os saberes colocados. PT (entrevistado em 31.05.2016) afirma que existiam
resistências em relação a não inclusão ou referência em relação as luas, marés, período das
chuvas, o ciclo de caranguejo e demais observações importantes para os tiradores de caranguejo
em sua atividade extrativista, e na construção social e apropriação dos territórios, em relação
ao momento de delimitação dos períodos de reprodução do caranguejo, denominado localmente
como “andada”. Esse ator ressalta que “um dia veio uma portaria decretada pelo Ibama que não
levou em consideração o que a gente discutia. Eles não aceitaram, o que prejudica o coletor
aqui que fica parado”. Outro experiente tirador de caranguejo da comunidade do Acarajó,
representante no CD e participante da coprodução do PM, também evidencia o mesmo fato do
ator anterior: resistências em detrimento da inclusão ou de levar em consideração o
conhecimento produzido pelas comunidades tradicionais locais, o que implicava em conflitos.
Com menor espaço em relação ao saber local, se visualiza no documento final tentativas
de integrar os saberes científicos com os tradicionais. As vozes, discursos e saberes das
populações tradicionais, em grande parte, estão ausentes no PM ou são traduzidas para uma
perspectiva técnico-científica, a partir do uso de pesquisas dessa natureza realizadas junto às
comunidades. A linguagem e perspectiva de mundo utilizada na compilação dessas informações
é basicamente científica e técnica, com presença de conceitos e referências teóricas específicas
das áreas das Ciências Biológicas, Naturais e da Terra.
Por mais que haja essa predominância de referências legais e teóricas vinculados ao
Estado e ao conhecimento científico, não significa que não exista possibilidade de atuação de
atores com outras referências de conhecimento tradicional e empírico participando da
coprodução do PM. Os saberes tradicionais locais são transformados em informação para
subsidiar a construção do documento final e o planejamento do gerenciamento do território da
Resex. Essa diferenciação opera enquanto uma diferença que hegemoniza o saber científico,
dando pesos assimétricos aos saberes colocados em disputa. E esses conflitos se materializavam
146 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

em confrontos no campo dos saberes, com a acusação dos atores locais sobre a marginalização
de seus saberes e práticas; marginalização num sentido de verticalização valorativa.
De acordo com Létourneau (2014), há possibilidades de existência de problemas,
tensões e conflitos de comunicação entre os atores participantes devido a tendência ao não
compartilhamento de linguagens e a não compreensão da multiplicidade entre os níveis de
intervenção. Nesse sentido, o autor evidencia a importância dos saberes contextualizados e
práticos ligados ao conhecimento empírico que contrastam com o prestígio dos saberes
especializados, evidenciando nas relações entre experts e saberes comuns possibilidades de
compreensão das situações, não somente enquanto espaço de confrontação e colaboração, mas
também ocasião da estratégia de tradução mútua dos saberes, de preferência com maior
consciência dos limites disciplinares por todos os atores.
Há verticalização no uso dos saberes inseridos no documento. Há uma valorização da
produção científica, de conceitos, análises, metodologias, coleta de dados a partir de um
referencial científico/técnico. Contudo, o fato de uma tendência há verticalização e hegemonia
de um conhecimento sobre o outro não exclui a participação dos atores e a incorporação e
reconhecimento de seus saberes tradicionais na legislação. O movimento que se dá é de
tradução para uma linguagem técnica e apropriação no léxico científico utilizado pelo Estado.
Por exemplo, acerca do período da “andada” conhecido entre os tiradores de caranguejo, a
Portaria Ibama 034/2003 traduz enquanto período reprodutivo dos caranguejos, onde machos e
fêmeas saem de suas galerias para acasalamento e liberação de larvas. Esse processo onde os
caranguejos estão “andando” no manguezal ocorre nos períodos de lua nova e cheia, durante os
meses de dezembro a abril (ABDALA et al., 2012, p. 68).
Outra questão central na relação entre saberes, e que influencia na inclusão dos saberes
tradicionais, é levantada por um dos representantes de Instituições Públicas, no caso a
Universidade, é a distância entre a lógica de assembleia, de direito a voto, instituída no âmbito
do CD e na coprodução do PM da Resex, com as práticas decisórias dos atores e comunidades
tradicionais locais. Um dos atores técnicos entrevistados, e representante da Universidade,
ressalta a falta de preparação e capacitação desses atores tradicionais locais em se apropriar
desses instrumentos do Estado para demandar suas necessidades em políticas públicas, de certos
benefícios, como seguro defeso, e como garantia de manutenção da Reserva. Não se trata de
uma questão de incapacidade desses atores e sim de necessidade de formação para sua atuação
nesses espaços e com esses instrumentos, que para a grande maioria são novidades.
Ainda acerca das metodologias aplicadas na coprodução do PM, havia a tentativa de
possibilitar entre os atores a produção do discurso oral. Contudo, essa metodologia não era
espontânea, ou não havia sido motivo de debate em relação a sua escolha. Uma das técnicas
representantes do Estado diz que “foi uma metodologia que a gente foi jogando para que as
pessoas falassem. É uma metodologia que ajuda a captar as coisas, mas ela não é espontânea”.
Era uma metodologia colocada via Estado, e possivelmente escolhida a partir da característica
do uso da linguagem oral em seu cotidiano pelas populações tradicionais locais abarcadas pela
Reserva. Contudo, o espaço do CD é diferente das práticas e realidades nas comunidades. Ele
pressupõe formação, preparo e domínio sobre signos que não são os dessas populações, e sim
do Estado e do conhecimento científico. Assim, um dos atores, representante do Estado, afirma
que “existiam dificuldades, mas a grande dificuldade é eles quererem falar: ‘será que isso é
importante, ah isso não serve não, vou ficar calado’”.
Ressalta-se que esses problemas e dificuldades de comunicação entre atores também
ocorrem no âmbito do Conselho, com o uso de diversas estratégias na perspectiva de solução
das tensões criadas. Há dificuldades, postas no discurso seguinte, em estabelecer a relação entre
os instrumentos e as discussões colocadas com o contexto local da Resex e dessa forma há
estratégias vinculadas à tradução entre esses saberes e a maior aproximação de conselheiros
SEÇÃO LIVRE 147

com perfil mais técnico com as comunidades locais, com o intuito de diminuir possíveis
problemas nas decisões deliberadas dentro do Conselho.
Outros atores participantes no CD também colocam essa estratégia de tradução entre
saberes como forma encontrada de facilitar o entendimento e o diálogo entre os atores. Percebe-
se que a dificuldade é sempre observada entre os atores representantes das populações
tradicionais locais da Resex, possivelmente pela tendência do predomínio de uma linguagem
técnica e científica nessas discussões, e da escrita materializada nos documentos (atas,
relatórios) produzidos. Dessa forma, é representada nos discursos a dificuldade de alguns
Conselheiros com o texto escrito, fato historicamente documentado e diretamente ligado à baixa
escolarização formal entre os pescadores artesanais e que, nesse sentido, impõe o desafio de
reforçar tentativas de outras formas que possibilitem maior participação desses atores ou que
esses processos tenham maior sentido educativo, independentemente do tipo de conhecimento.
No sentido dessa dificuldade de compreensão dos temas debatidos durante a coprodução
do PM da Resex, os atores do CD, juntamente com a empresa responsável por esse processo,
institui a estratégia de tradução dos saberes colocados em discussão, para possibilitar o
entendimento de conceitos, referências teóricas e metodologias operacionalizadas em pesquisas
utilizadas. Soma-se a isso, a relação histórica com o Estado centralizador em relação as políticas
públicas que não permitia maior manejo dessas populações em relação a esses instrumentos
estatais de gerenciamento do território, portanto há dificuldades de compreensão e uso dos
instrumentos, concepções e normatização jurídico-legal impostas pelo Estado. Um dos atores
representantes (NC, entrevistado em 01.06.2016) das comunidades e que trabalhou parte
significativa de sua vida como pescador, e também presidiu a Associação dos Usuários, afirma
que “muitas vezes nós não fomos educados a discutir, nós pescadores, somos muito
acomodados a concordar com tudo, que venha tudo par ter facilidade e não trabalho”. A
estratégia de tradução era concretizada na leitura de trechos debatidos onde se percebia
dificuldade de compreensão entre os atores.
Havia a tendência de não corresponder os objetivos e planejamento realizado com as
demandas discutidas nos debates, pois centrou-se o debate em torno dos direitos ligados à
habitação e os bens duráveis, o que é compreensível visto a dificuldade histórica na região de
acessos dessas populações tradicionais à políticas públicas de habitação e fomento de suas
atividades extrativistas. Porém, o debate ultrapassou os espaços institucionais delimitados no
âmbito do CD e, de acordo com alguns atores entrevistados, criou dificuldades no andamento
da coprodução do PM dessa Resex (OLIVEIRA, 2018).
Desse modo, se tentava traduzir os termos técnicos para a linguagem cotidiana e
utilizada empiricamente em suas atividades por essas populações. Os atores argumentam que
essa estratégia visava a participação e socialização entre os diferentes atores dos assuntos
inerentes ao processo de coprodução. E os seus desdobramentos foram observados por alguns
atores enquanto inserção de práticas e questões empíricas ligadas ao conhecimento tradicional
local nas discussões e no documento final do Plano. Contudo, a partir das expectativas criadas
por atores, principalmente alguns representantes das comunidades, o segundo presidente da
Associação afirma que “muitas coisas foram colocadas, outras não. Até mesmo a interpretação,
eles colocavam palavras que o caboclo não entendia, e colocavam palavras que deixava em
aberto”. Com isso, possibilitava-se diversas interpretações acerca do PM e limitava-se a
participação dos representantes das comunidades locais.
Dentro da coprodução do PM da Resex Marinha Caeté-Taperaçu, ressurgem questões
diretamente ligadas ao contexto local e importantes, ao nosso ver, enquanto norte de construção
do instrumento. Há conflitos, entre comunidades próximas, Vila dos Pescadores e Vila do
Bonifácio, que, na verdade, são sobre as formas diferentes de pesca acerca das escalas,
tecnologias, mobilidade dos pescadores e técnicas. Nesse sentido, o PM é limitado pela
delimitação do território, englobando somente grupos de pescadores que atuam nesse território.
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Localmente, as formas de pesca com maior escala de produção ou considerada industrializada


tem como característica maior mobilidade na atividade da coleta de peixes, uma mobilidade
que ultrapassa as fronteiras do território da Resex, em alguns casos atuando em áreas de outros
Estados da federação e até em outros países. O não regramento de alguns grupos, e que não
abarca outros pescadores e empresas de pesca, propicia conflitos acerca do cumprimento das
regras instituídas via instrumento.
Um dos atores entrevistados (PT, entrevistado em 31.05.2016) e conselheiro vinculado
às populações tradicionais locais, coloca que na coprodução do PM existiam formas diferentes
de como os pescadores artesanais e os empresários da pesca eram atingidos pelas regras
construídas dentro do instrumento. Ele afirma que existia “muita pressão” em torno das práticas
dos pescadores artesanais e que o Plano se desdobra diretamente em torno desse grupo
específico, e que em relação ao empresariado da pesca de maior escala “eles não são muito
atingidos, é graúdos e nós temos uma série de regras pra cumprir, fica prejudicado. Eles forma
uma barreira e o peixe não passa”.
Em virtude da forma como é desenvolvida a pesca de maior escala citada por esse ator,
que se caracteriza, enquanto método, como uma pesca de bloqueio (MORAES, 2007) nesse
contexto específico, impedindo o deslocamento dos cardumes para os furos, igarapés e estuários
dentro do território da Caeté-Taperaçu; e pela característica dos territórios e/ou pesqueiros
apropriados por esse tipo de pesca (águas oceânicas, salgadas e de maior profundidade) em que
grande parte desses territórios extrapolam a delimitação física da Reserva Extrativista, essa
pesca de maior escala não é diretamente atingida pelo instrumento do PM, gerando conflitos no
processo de coprodução.
Os conflitos entre comunidades que também repercutem nos debates realizados para a
coprodução do Plano de Manejo são pelo acesso aos direitos à habitação e à garantia dos
benefícios/fomentos entre as populações tradicionais locais, o que se configura enquanto
desvios no objetivo específico desse instrumento. As disputas e conflitos entre comunidades se
davam no sentido de garantir esses direitos, o que reflete a forma como se distribuiu a partir da
indicação das pessoas, configurando patrimonialismo; o próprio cadastro das pessoas que
continha equívocos entre critérios e perfil dos “beneficiários/usuários” e era manejado por
interesses de grupos e indivíduos, não partindo de um princípio justo e igualitário e dos critérios
postos. Dessa forma, um ator técnico evidencia que os debates sobre os benefícios foram
realizados também reuniões da coprodução do PM, desviando o foco central relacionado,
preceituado no SNUC (2000), ao gerenciamento do território da Unidade, sobre saberes e
práticas locais.
Essas políticas públicas também propiciavam o acesso a tecnologias de pesca pautadas
na legalidade de sua configuração. Algumas das tecnologias de pesca contempladas pelas
políticas foram redes de pesca e a forma de apropriação dos territórios também entraram nas
discussões da coprodução do PM e conflitos ocorrem. Em relação a rede de pesca, as discussões
que geravam tensões eram sobre a configuração da malha a ser utilizada. A malha
historicamente usada localmente, principalmente da década de 90 do século XX aquando a
maior inserção da pesca dita tradicional na cadeia produtiva que se configura a partir do término
da construção da PA-458 e das migrações populacionais de pescadores oriundos do Estado do
Ceará, é considerada inadequada à luz da legislação utilizada no norteamento da coprodução
do instrumento.
Nesse sentido, é proposto o aumento da malha e eliminação da configuração utilizada
localmente. Os atores participantes (AA, entrevistado em 31.05.2016), principalmente
representantes das populações tradicionais locais, observavam a ocorrência de “muita discussão
em cima disso, teve muitos que concordaram e muitos discordaram”; outro ator (NC,
entrevistado em 01.06.2016) afirma que “essa discussão começou desde o início, sobre qual
material usar, quantas braças, quantos metros de rede”, mas nesses casos específicos, acordos
SEÇÃO LIVRE 149

foram realizados a partir do reconhecimento desses mesmos atores acerca da degradação que o
uso dessa malha provocava nos pesqueiros. Por fim, houve consenso em torno da malha, pelo
menos no nível do CD. Mas esse fato evidencia o quanto a legislação que serviu de norte para
as discussões das demandas e problemas a serem colocadas no PM, não espelham os interesses
dessas populações e são descontextualizados da realidade a ser interpretada na coprodução
desse instrumento de gerenciamento do território.
Sobre o método de pesca denominado “curral”8, as discussões tenderam a ser
conflituosas e tensas em relação à quantidade de madeira necessária para a construção dessa
tecnologia de pesca, o que é, proporcionalmente, direto ao tamanho repercutindo em menores
currais ou na divisão entre pescadores de um curral e, consequentemente, de um pesqueiro ou
território de pesca. Um dos atores das populações tradicionais representa esses debates
enquanto “bate boca” entre os representantes dos pescadores, que utilizam esse método e os
atores técnicos, especificamente do ICMBio. Os atores das populações tradicionais em sua
prática e conhecimento da pesca local relacionam o tamanho de um curral com a quantidade de
peixes a ser coletada. Assim, na experiência dos pescadores locais, quanto menor o curral menor
a possibilidade de produção. O Estado propusera sessenta moirões, madeira que sustenta o
curral, de acordo com Araújo e Pereira (2015), e os atores consideraram pouco pela escassez
de peixe afirmada por eles. Então a discussão ficava entre sessenta, oitenta e cento e vinte
mourões e ninguém aceitava a quantidade de madeira a ser usada na construção proposta pelo
Estado.
Portanto, em algumas questões específicas se percebe a existência de acordos entre os
mais diferentes atores no sentido de construir consensos em torno de determinadas regras a
serem incluídas no PM. Porém, o maior desafio em relação a esse tema é a implementação
dessas novas regras entre os pescadores locais.
Em conclusão, essas relações entre os saberes e práticas acionados na coprodução do
PM da Unidade de Conservação aqui tratada podem ser vislumbradas enquanto desdobramentos
dos conflitos de poder existentes localmente. Como já evidenciado, há diferentes campos de
poder onde as disputas e conflitos se materializam: o poder entre os pescadores mesmo, da
Associação, e pontuados por um discurso com elementos tradicionais; o discurso do ICMBIo,
que se vincula com a ideia de sustentabilidade e dos ambientalistas, de um modo geral que
relaciona com o discurso pós-moderno; o discurso de uma oficialidade governamental, de
Estado, que não obrigatoriamente é o do ICMBIo, e sim da prefeitura, das Secretarias de Ciência
e Tecnologia e Meio Ambiente, ligado à modernidade. E, nesse sentido, se inserem fricções
entre os grupos de poder ali presentes a uma legalidade escrita, e o caso das comunidades
tradicionais que não se vinculam diretamente com essas perspectivas, excludente de parte
significativa dos “usuários”.

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com a criação da Resex Marinha Caeté-Taperaçu ocorre o processo de inserção de


diferentes grupos (técnicos, populações locais, políticos, poder local) em torno das políticas
públicas ambientais. Essa inserção produz diferentes perspectivas acerca do instrumento
Unidade de Conservação, indo do seu objetivo institucional posto na legislação que o regula e
outra vinculada aos desdobramentos dessa política pública nas populações locais.
A tentativa aqui não é de desqualificação do documento produzido, mas sim de
problematizar o porquê da tendência a ausência desse entrelaçamento entre saberes de modo

8
“O curral é uma armadilha fixa, em forma de cerca feita de varas de madeira, armadas em beiras de praias ou
bancos de areia, no meio dos rios ou do mar, com aproximadamente 20 a 30 metros de extensão. Possui uma
abertura por onde os peixes penetram durante a maré cheia e, com a baixa-mar, ficam aprisionados, quando então
os pescadores procedem à despesca” (MORAES, 2007, p. 56).
150 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

mais claro e efetivo, como preceituado do ponto de vista jurídico-legal no SNUC. Porém não
significa dizer que, durante todo o processo de coprodução desse Plano, não tenha havido
tentativas nesse sentido, porém há grande assimetria no uso dos saberes aqui analisados para a
construção da escrita do documento final.
Dessa forma, em um processo tão rico em aprendizados e em conquistas
socioambientais ainda não conseguiu até hoje romper com a hegemonia de interesses outros
vinculados à uma racionalidade que não é a ambiental. Racionalidade presente nas instituições
públicas, sobretudo no nível do poder local, onde as ideias de sustentabilidade, de direitos
sociais, normalmente, não encontram eco. Um dos fatores que explica esse fenômeno é o
processo de fragilização do papel institucional da Associação dos Usuários, ocorrendo desvios
em seus objetivos e a fragmentação em diferentes grupos de interesse, com vínculos partidários
com diferentes partidos políticos, o que acarretou na não inclusão dos saberes e práticas
socioambientais de forma efetiva na coprodução do Plano de Manejo.
Mas, não se pode deixar de reconhecer a capacidade de resistir, de inventar, de aprender,
de segmentos sociais como as populações tradicionais, em parceria com outros segmentos de
atores (ONG, Instituições de ensino e pesquisa, organismos do Estado), vem conseguindo se
impor, enfrentar forças políticas e econômicas que as negam, via adoção das referências da
conservação ambiental. Há diversidade nos interesses que os atores das populações tradicionais
locais afirmam representar, principalmente no âmbito do CD, alguns se referem aos direitos das
populações locais em relação à educação formal, saúde, juventude, renda, fomentos, habitação
e bolsas em períodos de defeso.

AGRADECIMENTOS

À Universidade Federal do Pará (UFPA), à PROPESP/UFPA, às instituições com


representantes entrevistados, ao Campus Universitário de Bragança (UFPA), à Thaissa Santos
e aos pescadores locais.

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SEÇÃO LIVRE 153

SOBRE AS EXPERIÊNCIAS DE COMENSALIDADES DE IMIGRANTES


BRASILEIROS E PARAENSES EM BARCELONA

Miguel de Nazaré Brito Picanço1

RESUMO

Este artigo é de cunho etnográfico e se inscreve no âmbito do meu Pós-doutorado em Antropologia da


Alimentação, instância levada a cabo no período de julho de 2018 a janeiro de 2019, no Observatorio
de la Alimentação, na Universidade de Barcelona, cujo objetivo é descrever e analisar, por meio de
narrativas textuais e imagéticas, as experiências de comensalidades vivificadas por brasileiros, em
particular pelos paraenses, que vivem Barcelona. Por meio de observação em campo, conversas e
entrevistas, pode-se notar que os comportamentos alimentares dos imigrantes que habitam em
Barcelona constituem-se em recursos políticos de resistência e afirmação frente a outros contextos
alimentares.

Palavras-chave: Comida brasileira. Migração. Comensalidades. Resistência.

CONCERNING THE COMMENSALITY EXPERIENCES OF


BRAZILIAN AND STATE OF PARÁ IMMIGRANTS IN BARCELONA

ABSTRACT

This article is of an ethnographic nature and falls under the scope of my Post-doctorate in
Anthropology of Food, an instance carried out from July 2018 to January 2019, at the Observatory of
Food, at the University of Barcelona, whose objective is describe and analyze, through textual and
imagery narratives, the experiences of commensalities enlivened by Brazilians, in particular by
paraenses, who live in Barcelona. Through field observation, conversations and interviews, it can be
noted that the eating behaviors of immigrants living in Barcelona constitute political resources of
resistance and affirmation in relation to other food contexts.

Keywords: Brazilian food. Migration. Commensalities. Resistance

Data de submissão: 14.03.2021


Data de aprovação: 30.04.2021

INTRODUÇÃO

Com a intensificação recente dos processos globais, os fluxos migratórios de bens


alimentícios em escala transnacional foram potencializados, provocando um reordenamento
no campo alimentar, intensificando a circulação dos alimentos, que em movimentos contínuos
e graduais acompanham cada vez mais as pessoas em escalas transnacionais, implicando
considerável impacto no campo da alimentação. Neste caso, ganha especial relevância o fato
de muitos produtos, anteriormente restritos ao país de origem, passarem a ser disponibilizados
em terras distantes (ROCHA; RIAL, 2014, p. 3).

1
É Doutor em Ciências e Pós-doutor em Antropologia da Alimentação, na linha de pesquisa Patrimônio
Alimentar e Turismo, pelo Observatorio de la Alimentación, na Universidad de Barcelona. É pesquisador
colaborador do Observatorio de la Alimentación (Odela/Universidad de Barcelona), pesquisador membro do
Laboratório de Políticas Culturais e Ambientais do Brasil (LApCAB/UNISINOS) e pesquisador membro do
Alere, Grupo de Pesquisa em História da Alimentação e Abastecimento na Amazônia/CNPq. Desenvolve
pesquisas nos campos da Antropologia Visual e da Antropologia da Alimentação, em particular da comida como
patrimônio alimentar do nordeste paraense. E-mail: [email protected].
154 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

As arguições sobre os fluxos alimentares numa perspectiva global, quase sempre,


senão sempre, são construídas a partir dos movimentos migratórios de pessoas. Dito de outro
modo, o deslocamento de alimentos vinculado ao fluxo migratório das pessoas constitui a
base para compreender-se tanto a expansão da história global, quanto os diferentes sistemas
alimentares inventados e reinventados por meio de trocas culinárias no decorrer desses
movimentos (PICANÇO, 2018). Portanto, a alimentação, vinculada às migrações, é “[...] parte
constitutiva da história humana” (ROCHA; RIAL, 2014, p. 4).
Sendo assim, considera-se que as coisas alusivas ao ato de comer têm desempenhado
papel decisivo para a expansão e corroboração da história global, uma vez que os produtos
alimentícios foram os primeiros dentre os demais a serem comercializados em termos globais.
Isso resultou na aproximação e nos intercâmbios de culturas, desde uma perspectiva
alimentar. Com isso, pode-se considerar que nenhuma outra dimensão da vida foi tão profícua
em termos globais quanto às dimensões enredadas com o ato de comer. Isso decorre do fato
de a alimentação humana ter lugar privilegiado de interligação. “[...] entre pessoas, lugares e
contextos culturais” (ROCHA; RIAL, 2014, p. 3).
Assim, este paper discorre sobre os movimentos migratórios e suas implicações nos
novos e antigos modos de comer, considerando as experiências e as práticas de acesso ao
alimento, de sociabilidades e comensalidades empreendidas por imigrantes brasileiros e
paraenses no território catalão, particularmente em Barcelona.
Este artigo está estruturado em duas seções. Na primeira, descrevo por meio de
narrativas textuais e imagéticas os lugares onde os imigrantes acessam os alimentos de origem
brasileira, ou não, para posterior feitura de suas comidas, assim como aponto algumas
experiências vivificadas por esses imigrantes em outros lugares onde as comidas são dispostas
prontas para degustação. Falo dos restaurantes, principalmente aqueles que povoam as rotas
turísticas de Barcelona. Na segunda seção, as descrições e análises são elaboradas a partir de
observações, às vezes, participantes, de conversas formais e informais obtidas durante
experiências dos e com os imigrantes em relação à cozinha brasileira e paraense, agora não
mais nos mercados, mas em suas casas, em suas cozinhas, em suas mesas.
Dito isso, importa frisar aqui que este artigo se inscreve no âmbito do meu Pós-
doutorado em Antropologia da Alimentação, na linha de pesquisa: Alimentação, patrimônio e
turismo, levado a cabo de julho de 2018 a janeiro de 2019, no Observatorio de la
Alimentação, na Universidade de Barcelona. Também é necessário registrar que o trabalho de
campo teve início no ano de 2017, no período em que estive em Barcelona cursando o
Doutorado Sanduíche (PDSE/CAPES).

1 SOBRE OS LUGARES ONDE COMPRAM E COMEM OS IMIGRANTES


BRASILEIROS E PARAENSES EM CATALUNHA

Inicio esta seção pontuando que faz tempo que a cozinha brasileira e a paraense
transpuseram o Atlântico e se presentificaram no mercado Catalão, povoando ora as
prateleiras dos supermercados, das tabernas, dos sites, dos açougues, dos restaurantes e ora as
mesas dos mais de 37.691 imigrantes brasileiros que habitam em Catalunha, pois, conforme
dados do Ministério das Relações Exteriores (2015), a Espanha é o sexto país com maior
concentração de imigrantes brasileiros. O mais amplo contingente reside nas cidades de
Madri, com 49 mil imigrantes, totalizando 86.691 brasileiros vivendo legalmente naquele
país, afora aqueles que ali habitam informalmente.
Estes últimos, assim como os outros, atravessaram meu fazer antropológico durante
esta empreitada – suas vozes estão registradas em algum lugar das páginas deste artigo – que
teve início no ano de 2017, quando estive no Observatorio de la Alimentacíón, para uma
SEÇÃO LIVRE 155

instância doutoral, no âmbito do PDSE, cuja continuidade se deu no segundo semestre do ano
de 2018, desta vez, no âmbito do meu Pós-doutorado.
Minhas incursões em campo no ano de 2017 me permitiram notar, dentre outras
coisas, que os alimentos brasileiros estão dispostos nos mercados de Barcelona de modo
diversificado, por exemplo, arroz e feijão (mesmo não sendo de origem brasileira) são
facilmente encontrados nas grandes redes de supermercado, o mesmo ocorrendo com a
mandioca. Já outros são dispostos nas prateleiras dos açougues, das tabernas e das lojas afro-
latinas, que são facilmente encontradas pelo território catalão, inclusive elas se fazem notar
em lugares centrais de Barcelona, como a Avenida Via Laietana, considerada zona turística da
cidade, conforme mostra a imagem 1.
Nessas lojas são encontrados inúmeros produtos alimentícios de origem brasileira, tais
como: arroz, feijão, café, temperos, condimentos, enlatados, embutidos, etc.

Imagem 1 - Loja Afro-latina

Fonte: arquivo do autor, 2018.

Dentre eles, estão alguns que dizem muito da cozinha paraense, a saber, a mandioca e
seus derivados, tais como goma para tapioca, farinha de tapioca, macaxeira in natura, farofa,
carimã e farinha de mesa. “Esta última é disposta em sacas e vendida a granel, assim como
fazem os paraenses em suas barracas de farinhas nas feiras das cidades do estado do Pará. [...].
(PICANÇO, 2017, p. 214), conforme mostra a imagem 2.
156 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Imagem 2 - Farinha a granel

Fonte: arquivo do autor, 2017.

Além das lojas físicas, os imigrantes também contam com a venda dos já citados e de
outros produtos alimentícios brasileiros, como, por exemplo, as verduras e legumes, como
couve, quiabo, etc., além das pamonhas, conforme me relatou Larysse Farias, que é paraense
e vive em Barcelona faz 15 anos.

Às vezes eu compro nas lojas dos paquistaneses e dos marroquinos, que vendem
muita comida do Brasil. Outras coisas eu compro pela internet. Por exemplo, tem
uma página no facebook que é de uma horta brasileira e eles vendem uma infinidade
de coisas do Brasil. Por exemplo, eu sempre compro dessa horta pamonha, couve,
quiabo e outras coisas. A gente pede e chega rapidinho (Entrevista concedida em 25
de outubro de 2018).

Além disso, os brasileiros e paraenses podem recorrer a La Boqueria (imagem 3),


considerado o mercado mais famoso e quiçá mais turístico de Barcelona, localizado na
Rambla de Sant Josep, mais conhecida como Rambla de Barcelona.
SEÇÃO LIVRE 157

Imagem 3 - La Boqueria

Fonte: arquivo do autor, 2018.

Afora isso, ao La Boqueria é atribuída a fama de mercado cosmopolita. Nele, os


visitantes, além de conhecerem, degustarem e encontrarem alimentos da cozinha nativa da
Catalunha, também experimentam uma infinidade de sabores das mais variadas cozinhas do
planeta, inclusive do Brasil e do Pará, pois as lojas de alimentos latinas, conforme mostra a
imagem 4, ajudam no adensamento da qualidade cosmopolita atribuída ao mercado, quando
elas ali comercializam uma leva significativa de alimentos de origem brasileira, ou não. Estes,
em alguns lugares do Brasil, como no estado do Pará, são, segundo Picanço (2018), apontados
como patrimônio alimentar do lugar, tais como a pupunha, o cupuaçu, a farinha de mandioca
e a goma para tapioca.

Imagem 4 - Loja latina em La Boqueria

Fonte: arquivo do autor, 2018.


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Nos lugares até aqui mencionados, os brasileiros e paraenses podem acessar produtos
alimentícios para fazerem suas comidas, porém existem outros lugares em Catalunha onde os
alimentos já lhes esperam prontos para serem degustados.

Imagens 5 a 7 - Brasa Rio e os sabores brasileiros e paraenses

Fonte: arquivo do autor, 2018.

Falo dos restaurantes brasileiros que povoam aquele território, dentre os quais cito o
Brasa Rio, situado em Santa Coloma de Gramenet. No cardápio, além da feijoada, os clientes
também podem degustar, dentre outros sabores, o churrasco de picanha com arroz e feijão à
brasileira com farofa e de sobremesa as tão apreciadas coxinhas. Além disso, para os
brasileiros paraenses, o restaurante disponibiliza apetitosos sucos de cupuaçu (imagens 5, 6 e
7).
Ademais, o churrasco brasileiro pode ser degustado em outros lugares especializados
no assunto, como na Churrascaria Brasileira, que está localizada no shopping Splauem em
Cornellà de Llobregat. A demanda pelo churrasco brasileiro é tanta, que os brasileiros, os
catalães e outros aguardam em filas, conforme imagens 8, 9 e 10, para degustá-lo. De fato,
essa churrascaria é uma franquia da marca Churrascaria Brasayleña e povoa outros shoppings
de Barcelona.
SEÇÃO LIVRE 159

Imagens 8 a 10 - Na Churrascaria Brasayleña

Fonte: arquivo do autor.

Importa ressaltar que tanto o Brasa Rio quanto a Churrascaria Brasayleña, são espaços
gastronômicos situados à margem da rota turística de Barcelona, diferentemente daqueles que
estão sediados no “coração” daquela cidade, como é o caso do La Carioca, conforme mostra a
imagem 11, localizado exatamente na zona turística do lugar.
O La Carioca encontra-se situado na Plaça de Pau Vila, centro de Barcelona. É um
lugar requintado, com práticas alinhadas à indústria turística com discursos que enfatizam que
ali se tem a melhor, a mais tradicional comida brasileira. No cardápio, uma variedade de
pratos, dentre os quais: a feijoada, o feijão, o arroz, o churrasco e bebidas, como a caipirinha.
Além desses, no referido restaurante, se pode também degustar a tapioca e o açaí. Pelo
que observei, estas duas últimas comidas são os pratos considerados os “carros-chefe” do La
Carioca, ao menos era o que indicava nos banners de propagandas dispostas em frente ao
restaurante, cujos destaques eram para a tapioca e suas benesses, como a sua suposta ausência
de glúten, assim como para o açaí, que, segundo o encarte, é rico em proteínas, nutrientes e
antioxidantes, conforme indica a imagem 12.
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Imagem 11 - La Carioca

Fonte: arquivo do autor, 2018.

Imagem 12 - Tapioca e Açaí, cardápios principais do La Carioca

Fonte: arquivo do autor, 2018.

As comidas em destaque na mencionada placa me chamaram a atenção pelo fato de


tanto a tapioca quanto o açaí estarem ali, sendo comercializados e degustados na condição de
comida nacional, pois conforme sinalizado por Cascudo (2011) e Picanço (2018), tanto um
SEÇÃO LIVRE 161

quanto o outro, em termos de Brasil, estão mais para comidas regionais (Norte e Nordeste) do
que para comida nacional.
O açaí, por exemplo, é uma das mais importantes comidas da mesa dos paraenses, de
norte a sul daquele estado. Na capital Belém, o fruto constitui-se em alimento diário, em prato
principal da mesa daquela gente. Com a tapioca não é diferente, lá ela também se manifesta
como comida do dia a dia seja no café da manhã, ou no café da tarde. A iguaria pronta para o
consumo pode ser encontrada com facilidade pelas barracas espalhadas pelas ruas de Belém,
assim como pelos tabuleiros dos tapioqueiros que as vendem todas as tardes, pelas ruas da
capital paraense.
Portanto, parece que a tapioca e o açaí são dois pratos considerados comidas
tradicionais do Pará e de outros estados do Norte e do Nordeste brasileiro e, por serem assim,
não povoam com regularidade as mesas dos cariocas. Assim, não seria descabido apontar que
estamos diante de um processo que tenta nacionalizar os patrimônios alimentares que
historicamente têm funcionado como marcadores das identidades coletivas do Norte e quiçá
do Nordeste do Brasil.
Segundo Picanço (2018), a tentativa de nacionalizar a tapioca se deu quando
nutricionistas descobriram nela a ausência de glúten. Isso teria então provocado o
deslocamento do seu consumo do eixo norte-nordeste para as demais regiões brasileiras. Caso
parecido ocorreu com o açaí, que, por ser provido de propriedades energéticas, passou a nutrir
esportistas ou não em todas as partes do Brasil, onde é consumido como bebida energética,
enquanto que no Pará ele continua sendo comida.
Ademais, as tapiocas do La Carioca, - que são mais de dez modalidades recheadas de
carne seca, picanha, queijo, carne de frango, mortadela, etc. - são incorporados elementos que
normalmente não estão presentes nas tapiocas comidas no dia a dia dos belenenses, pois lá,
elas são tradicionalmente feitas de duas maneiras: as enxutas e/ou salgadas, que depois de
prontas são levemente encharcadas com margarina ou manteiga, e as molhadas e/ou doces,
que são encharcadas com leite de coco e leite condensado e recheadas com coco ralado. Tanto
uma quanto a outra são, quase sempre, degustadas acompanhadas de café.
Afora isso, no La Carioca, outros elementos são agregados à iguaria, tais como o
cesto, a bandeira brasileira e o encarte com a imagem do Cristo Redentor, conforme mostrado
na imagem 13. O conjunto dessas incorporações ao mesmo tempo em que torna a iguaria
gourmetizada, funciona como recurso a memória que potencializa uma das competências
inerentes à comida, a saber, a capacidade de aguçar as memórias afetivas e gustativas das
pessoas, no caso aqui tratado, dos imigrantes brasileiros e paraenses, pois tais detalhes
remetem a lembranças do lugar de origem, da casa, da família.
162 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Imagem 13 - Tapioca gourmetizada no La Carioca

Fonte: arquivo do autor, 2018.

Outrossim, argumenta-se aqui que esses elementos são estrategicamente incorporados


à tapioca e se inscrevem em práticas que dialogam com os pressupostos da indústria turística,
cuja finalidade é tornar as coisas vendáveis, inclusive aquelas tidas como patrimônio cultural,
dentre as quais se incluem os patrimônios alimentares. Tais incorporações possibilitam a
reinvenção da tradição, compreendidas como releituras, necessárias para que a coisa continue
como tradição (SERRA, 2014).
Nesse processo, segundo Prats (2006) e Serra (2014), o turismo funcionaria com lugar
privilegiado para a continuidade da tradição. Isso é notório no caso do La Carioca, que dispõe
no epicentro de seu discurso e de suas práticas a ideia de que ali se tem a melhor, a mais
tradicional comida brasileira em Barcelona, tratando-se, portanto, de “[...] estrategia que
contribuye a legitimar el patrimônio cultral y los atractivos de uma localidad através de
discursos y prácticas culturales y turisticas.” (WINTER, 2013, p. 788). Ou seja, alguns bens,
tidos como patrimônios culturais, assim permanecem na medida em que a indústria do
turismo e do entretenimento os dispõe como mercadorias comercializáveis (mesmo que como
coisas híbridas, mais ou menos próximas daquilo que um dia elas foram, ou daquilo que elas
ainda são em seu contexto primeiro) em eventos e lugares estratégicos dispostos pelas mais
diversas cidades do mundo. (PRATS, 2006; SERRA, 2014).
Portanto, segundo Prats (2006) e Serra (2014), ao se manifestarem em contextos
turísticos, as coisas, inclusive as comidas, reproduzidas se mostram recursivamente capazes
de garantir a continuidade da tradição, ao mesmo tempo que se fazem próprias ao consumo,
assegurando-lhes a condição, no caso da tapioca, de patrimônio alimentar de brasileiros e
paraenses.
Dito isso, a partir da próxima seção tratarei de outras experiências dos emigrantes com
a comida brasileira e paraense, agora em outros lugares, a saber, em suas casas e com os
amigos, conforme descrevo no que segue.
SEÇÃO LIVRE 163

2 ESTRATÉGIAS E EXPERIÊNCIAS DE COMENSALIDADES PARA ALÉM DOS


MERCADOS E DO TURISMO

As comidas vendidas nesses lugares não têm o mesmo gosto da comida brasileira.
Por mais que eles ponham temperos e se esforcem, não adianta, fica parecido, mas
não é a mesma coisa (Fernanda Calandrini, entrevista em 15 de dezembro de 2018).

A epígrafe acima refere-se ao descontentamento de Fernanda Calandrini natural de


Viseu, no estado do Pará, e que vive em Barcelona faz 15 anos, em relação ao sabor das
comidas comercializadas nos estabelecimentos citados na seção anterior. Assim como ela,
todos os demais brasileiros com quem dialoguei comungam da mesma percepção: a comida
brasileira vendida nesses lugares de Barcelona não tem o mesmo sabor, “na verdade a gente
come uma ideia da comida brasileira, mas é o que tem” (Maria Clara, em entrevista, em 5 de
dezembro de 2018).
Além da insatisfação no tocante ao sabor, para alguns, a comida parece ser desprovida
de sustança, ao menos para Getro, que é natural de Ribeirão Cascalheira, Mato Grosso e está
em Barcelona faz dois anos. “A comida daqui é sem gosto e parece que não sustenta a gente.
Quando eu cheguei aqui, eu comia toda hora e parecia que não tinha comido nada. Ainda
hoje, dois anos depois, continua não me enchendo” (Getro, em entrevista concedida em 20 de
novembro de 2018).
Afora isso, outros estranhamentos dos imigrantes dizem respeito à composição do
prato e aos horários das refeições. Diferentemente do Brasil, em Barcelona o cardápio segue
outra estrutura, a saber: primeiro, serve-se a entrada, que pode ser uma salada mediterrânea:
verduras e legumes como esparragos, azeitonas, atum e ovos, mas também pode ser lentilhas
com toicinho de jamón e chouriço, por exemplo, depois, serve-se o prato principal, que
normalmente é à base de carne de peixe, de frango, de porco ou de boi, e em seguida é servida
a sobremesa: uma fruta, um creme, um doce, etc, (conforme mostram as imagens 14 a 17).
Tudo isso entremeado pelo pão, que ocupa centralidade na composição alimentar do povo
Catalão, o qual costuma finalizar as refeições consumindo o pão encharcado nas sobras do
molho que fica no prato, conforme mostrado na imagem 18.
Ademais, os horários das refeições dos brasileiros e catalães também são marcados por
diferenças, pois enquanto no Brasil, de modo geral, se almoça às 12h, em Catalunha,
particularmente em Barcelona, se come a partir das 14h e se janta entre 21 e 22h. Alguns dos
meus interlocutores disseram estarem adaptados à estrutura e à composição da cozinha catalã,
outros nem tanto, e na tentativa de amenizar os conflitos e as diferenças culinárias, seja entre
os gostos, os horários ou a estrutura do cardápio, eles empreendem algumas estratégias e
experiências de comensalidades, que descreverei no que segue.
Durante minha estada em Barcelona no ano de 2017, conheci Cynara Blanco, de 44
anos, natural da cidade de Bragança, do estado do Pará e que vive em Barcelona desde o ano
de 2003. Cynara se diz adaptada ao lugar, porém não se desprendeu de algumas coisas de sua
terra natal, em especial do sabor da comida que compunha seu paladar de outrora: “sinto
muita saudade da comida da minha terra” (Cynara Blanco, em entrevista concedida em 25 de
maio de 2017) e para amenizar tal saudade ela costuma cozinhar e oferecer almoços
paraenses.

Sempre que posso faço um almoço, principalmente em datas especiais,


comemorativas e convido meus amigos paraenses que moram aqui, convido outros
brasileiros de outras partes do Brasil e também convido meus amigos espanhóis e
sempre sirvo essas comidas típicas do Pará (Cynara Blanco, em entrevista concedida
em 25 de maio de 2017).
164 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Imagens 14 a 17 - Estrutura alimentar básica em Barcelona

Fonte: arquivo do autor, 2018.

A convite de Cynara, testemunhei dois almoços em sua casa. O primeiro ocorreu no


dia 21 de outubro e lá estavam, além da anfitriã, Fernanda Calandrini, com sua filha e sua
neta, e Paula Monteiro, que é paraense, da cidade de Bragança. No cardápio, uma caldeirada
de peixe acompanhada de pimenta na salga, farinha d’água e açaí, ambos de origem
bragantina. O segundo almoço se deu no dia 1º de dezembro, por ocasião do aniversário de
Cynara, conforme mostram as imagens 19 a 23, que foi regado a pato no tucupi, maniçoba e
farinha d’água, trazidos de Bragança nas malas de Cynara, em sua última viagem ao Brasil,
em setembro de 2018.
Imagem 18 - O pão nas sobras do prato

Fonte: arquivo do autor, 2018.


SEÇÃO LIVRE 165

Desta última vez, entre os convidados, estavam brasileiros de quase todas as regiões
do país, além de espanhóis, salvadorenhos e José, que é de origem boliviana com
nacionalidade francesa e é casado há nove anos com Isis, a qual é do Mato Grosso e vive em
Barcelona faz 14 anos.

Imagens 19 a 23 - Almoço paraense em Barcelona

Fonte: arquivo do autor, 2018.

Isis me relatou que, apesar de estar acostumada com a cozinha catalã, em sua casa não
falta comida brasileira, especialmente feijão e arroz, além da pimenta malagueta na salga ao
óleo e da farofa de farinha de mandioca com ovos. Em algumas ocasiões especiais, ou nos
finais de semana, Isis costuma fazer feijoada, churrasco de picanha e vinagrete. Suas
experiências culinárias têm sido provadas e aprovadas por seu esposo José: “Me encanta la
comida brasileña, me gusta mucho de la barbacoa de picanha, me encanta la farofa de harina
de mandioca con huevo, la vinagreta y la pimienta malagueta” (José, em entrevista concedida
em 1º de dezembro de 2018).
Próximas às práticas comensais levadas a cabo por Cynara são as empreendidas por
Maria Clara, de 33 anos, brasileira de São Paulo, que vive entre França e Barcelona faz 11
anos. Atualmente é professora associada do Campus de La Alimentación, da Universidad de
Barcelona, onde ministra a disciplina Antropologia da Alimentação. Maria Clara se diz
adaptada à cozinha catalã, mas, mesmo assim, o arroz povoa sua mesa ao menos duas vezes
na semana. “Tem alguns produtos brasileiros que eu como, ou quando bate a saudade de casa,
como o pão de queijo, a coxinha, o brigadeiro, a feijoada, a moqueca, o camarão na moranga,
a tapioca.” (Maria Clara, em entrevista em 5 de dezembro de 2018). Afora isso, em ocasiões
especiais ela convida os amigos brasileiros e estrangeiros para comer em sua casa. Também
costuma preparar comidas brasileiras para oferecer ao namorado.

Às vezes eu chamo amigos brasileiros e outros daqui pra comer em casa, aí eu faço
algo brasileiro pra que eles conheçam. Alguns deles já conhecem, então, quando eu
os convido, eles me pedem para fazer aquele prato. [...] Isso geralmente acontece em
momentos especiais e festivos, como, por exemplo, há dois anos atrás, no
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aniversário do meu namorado, que é francês, eu fiz caldinho de feijão e era inverno.
Todo mundo adorou, não conheciam. Sempre que tenho oportunidade, faço alguma
comida brasileira para a família dele [...] eles adoram [...] (Maria Clara, em
entrevista em 5 de dezembro de 2018).

Quase todos os alimentos utilizados por Maria Clara para a feitura dos pratos
brasileiros são facilmente encontrados por ela nos supermercados e lojas afro-latinas, sediadas
em Barcelona, como aquelas supramencionadas anteriormente, outros nem tanto, como é o
caso da couve, que “[...] aqui é muito difícil de encontrar, assim como a mandioquinha. No
Brasil, eu comia muito, na casa da minha mãe sempre tinha cozida, ou sopa, ou purê de
mandioquinha. Sinto muita saudade da couve e da mandioquinha”. (Maria Clara em entrevista
em 5 de dezembro de 2018). Outros alimentos são trazidos por ela do Brasil: “eu congelo o
catupiry e trago congelado em bolsinha térmica, embaixo, na mala. Já trouxe cachaça
também, chocolate bis, paçoca e café [...]”. (Maria Clara em entrevista em 5 de dezembro,
2018).
Outra imigrante brasileira que vive há 12 anos em território catalão é Elza Ortiz, que é
natural de Porto Velho/ Rondônia e tem 45 anos. Como as demais, se diz adaptada ao lugar e
aprecia a cozinha catalã, mas, apesar disso, segue comendo à moda brasileira, em especial o
arroz e o feijão. “Eu mesma faço minha comida porque o sabor dos alimentos daqui é
diferente e, para tentar deixar a comida o mais próximo possível do sabor do Brasil, eu me
aproprio de alguns temperos brasileiros que são vendidos nas lojas afro-latinas.” (Elza Ortiz,
em entrevista concedida em 18 de dezembro de 2018).
Sendo assim, parece que foi na tentativa de continuar com o gosto de sua comida de
origem que, no dia 10 de dezembro de 2018, ao retornar do Brasil, onde esteve por 30 dias de
férias, Elza trouxe em sua mala duas iguarias que, segundo ela, não são encontradas na
Catalunha, a saber, 1 quilo de charque e 1 quilo de calabresa. Com esta última, Elza fez um
risoto, já o charque ajudou na composição de uma feijoada preparada e oferecida por ela, no
dia 18 de novembro de 2018, para a qual fui convidado. Afora o charque, todos os demais
ingredientes, particularmente aqueles derivados de porco, foram facilmente adquiridos nos
mercados de Barcelona, conforme mostra a imagem 24.

Imagem 24 - O porco nos balcões de Barcelona

Fonte: arquivo do autor, 2018.


SEÇÃO LIVRE 167

A facilidade na aquisição dos referidos derivados se explica pelo fato de a carne de


porco e seus derivados serem deveras apreciados pelos catalães e por isso os diversos cortes
da carne do animal, ou ele mesmo, são facilmente encontrados nas prateleiras e balcões dos
açougues e dos supermercados daquele território.
Outra modalidade do suíno constantemente presente nas prateiras, balcões e
corredores dos supermercados é o Jamón, conforme mostram as imagens 25 a 27. Talvez este
seja, dentre os alimentos derivados do suíno, o mais comum na dieta de Barcelona,
principalmente os bocadillos de Jamón, que são os preferidos, nos lanches e merendas, entre
os jovens estudantes primários e universitários, mas isso não significa que os adultos não o
apreciem também.
Diferentemente da Catalunha, no Brasil, a carne de porco aparece como um alimento
“marginal”. Não se apresenta com regularidade nos mercados e nas mesas, não é comida do
cotidiano, ao menos no território paraense, onde o animal e tudo o que dele deriva são
classificados como comida reimosa. Mas afinal o que é uma comida reimosa?

Imagens 25 a 27 - O Jamón, protagonista do comer catalão

Fonte: arquivo do autor, 2018.

Uma comida é reimosa quando está associada a um determinado tabu alimentar, ou


seja, são alimentos proibidos, ao menos temporariamente, providos da “[...] reima (do grego
rheum= fluido viscoso), utilizada para classificar o grau de segurança dos animais selvagens e
domésticos para o consumo” (SILVA, 2017, p. 127).

A reima é caracterizada por um sistema classificatório de oposições binárias entre


alimentos perigosos (reimosos) e não perigosos (não reimosos), sendo aplicado às
pessoas em estados físicos e sociais de liminaridade ou estados de representação
ritual e simbólica de transição ou passagem, como enfermidades, menstruação e pós-
parto (MURRIETA, 1998 apud SILVA, 2017, p. 127).
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No Pará, em particular nas comunidades rurais desse estado, a reima é uma categoria
advinda da sabedoria popular com significativas implicações no comportamento alimentar
daquele povo. Além da carne de porco, a carne de pato, o caranguejo, o camarão, os peixes de
pele, os ovos, dentre outros, são proibidos em determinados estados patológicos dos
comensais paraenses, sob pena de serem acometidos por agravações inflamatórias de
ulcerações e feridas cirúrgicas, potencializando o processo de supuração da área suturada no
corpo, que podem ser seguidas de reações alérgicas.
Dito isso, reporto-me agora à última experiência por mim testemunhada durante este
tempo de pesquisa, ocorrida no dia 8 de dezembro de 2018, e foi protagonizada por Maria
Clara e seus alunos, do curso de Nutrição e Tecnologia de Alimentos, do Campus de La
Alimentación, da Universidad de Barcelona.
Durante o primeiro semestre de 2018, Maria Clara ministrou a disciplina Antropologia
da Alimentação e como parte do processo avaliativo, os referidos alunos empreenderam um
trabalho de campo, onde entrevistaram imigrantes das mais variadas nacionalidades, inclusive
brasileiros que vivem em Barcelona. O referido trabalho tinha por objetivo investigar os
aspectos socioantropológicos e nutricionais do comportamento alimentar dos imigrantes
entrevistados. Os resultados da investigação foram socializados pelos estudantes, na
modalidade seminário, no último dia letivo, em 18 de dezembro de 2018.
Ao final dos seminários, as classes foram contempladas com uma mostra gustativa
oferecida pela Maria Clara. No cardápio, brigadeiros e farofa, conforme mostrado nas
imagens de 28 a 30. As manifestações e reações dos alunos frente às iguarias foram, a
princípio, de curiosidade, seguidas de estranhamento - já que, para quase todos, aquele era o
primeiro contato com aqueles alimentos – e, por fim, de satisfação manifestada em expressões
como: “que rica, muy buena, boníssima, que buena.”
Disse que a comida brasileira parecia estranha a quase, mas não a todos, isso porque
entre os estudantes estava Maiellen Oro Bozzini, que tem 25 anos, de nacionalidade
Argentina, mas vive em Barcelona desde a infância, a quem a cozinha brasileira parece
familiar, “me encanta la comida brasileña. Ya comi tapioca, coxinhas, pan de queso, la
feijoada, frijoles negros con arroz, barbacoa de picanha, pastel, brigadeiros.” (Maiellen em
entrevista, em 5 de dezembro de 2018).
Faz um ano e meio que Maiellen conheceu Beatriz, que é brasileira, e sua amiga, a
qual vive em Barcelona com a família. Foi Beatriz quem lhe apresentou o paladar brasileiro e
desde então, ao menos três vezes ao mês, sua dieta é povoada pela comida brasileira, ora
degustada na casa de Beatriz, principalmente aos domingos, ora em sua própria casa, “Mi
madre me prepara frijoles negros con arroz” (Maiellen em entrevista, em 5 de dezembro de
2018), ora no restaurante La Carioca, onde ela vai com Beatriz para comer tapioca.
A título de finalização, torna-se necessário frisar que o gosto da e pela comida
brasileira e paraense parece ser o vetor das experiências de comensalidades empreendidas por
Cynara, Elza, Maria Clara, e tantos outros imigrantes brasileiros e paraenses em Catalunha,
que assim fazem pelo desejo de “[...] matar a saudade de casa, sentir-se em casa sem estar
nela. É mais pra ter um contato, manter essa relação e sentir o gostinho do Brasil.” (Maria
Clara em entrevista em 5 de dezembro de 2018). Assim, um diálogo com os pressupostos
socioantropológicos (BOURDIEU, 1988, FISHLER, 1995 e CONTRERAS; GRACIA, 2011)
sobre o gosto ajudaria no entendimento das experiências comensais de meus interlocutores.
SEÇÃO LIVRE 169

Imagens 28 a 30 - Mostra gustativa na turma de Maria Clara

Fonte: arquivo do autor, 2018.

Para Bourdieu (1988), os gostos, ao mesmo tempo em que expressam a identidade


sociocultural de classes ou subclasses, reproduzem a distinção entre elas, pois, por mais que
aparentemente as escolhas sejam feitas mediante gostos individuais, elas estão condicionadas
àquilo que o autor chama de capital econômico e simbólico específico. Sendo assim, as
escolhas, as preferências e gostos seriam previsíveis, porque seus conteúdos estariam
condicionados por um estilo de vida. Assim, os gostos, inclusive os alimentares, seriam
elaborados no bojo da transmissão e da reprodução social.
Em sua análise, Bourdieu contrapõe os gostos das classes populares – gostos de
“necessidades”, com os gostos das classes altas, gosto de luxo ou de liberdade. Nas primeiras
classes, o gosto finda a ideia da necessidade como atributo, como um dom, que contribui para
que as comidas econômicas e nutritivas potencializem a reprodução da força de trabalho
imposta a um baixo valor. De outro modo, os gostos de luxo, notados como atributos próprios
daqueles sujeitos cujas condições materiais de existência nada têm a ver com a necessidade,
mas estão intrinsecamente relacionados à liberdade ou facilidade disponibilizadas pelo capital.
Nessa lógica, Bourdieu defende a ideia de que o conteúdo das preferências que
compõem o gosto de necessidade é determinado pelas relações de produção, quando os
trabalhadores tendem a manifestar preferências pelos alimentos tidos como mais baratos e
mais nutritivos, isto é, as classes populares tendem a comer, com mais frequência, aqueles
alimentos que lhes proporcionam maior sensação de saciedade, por um custo menor. Por outro
lado, no gosto de liberdade, o conteúdo das preferências é definido em função da
arbitrariedade, ou seja: o gosto por alimentos mais leves e refinados deriva das pretensões dos
estratos ascendentes e da distinção das classes dominantes.
Por outro lado e, de certo modo, em contraposição às prerrogativas de Bourdieu,
Fishler (1995), assevera que os gostos alimentares são construções imbricadas nas dimensões
palatáveis e olfativas, que são próprias de cada alimento, que, em diálogo com determinados
contextos culturais, são elaborados, internalizados e coletivizados. Portanto, supõe-se que o
gosto e todas suas implicações, as escolhas, as variações, incorporações e transformações dos
170 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

comportamentos alimentares não decorrem necessariamente de uma ordem hierárquica, ou da


competitividade entre classes, como sugere Bourdieu (1988). Elas resultam, antes, dos
movimentos e das trajetórias vivificadas pelos sujeitos, desde a primeira infância, na dinâmica
do grupo a que pertencem.
Pautado nos pressupostos preconizados por Fisheler (1995), considero que os gostos
alimentares são situacionalmente forjados, isto é, “[...] dependem estritamente dos costumes
alimentares [...]” (CONTRERAS 2011, p. 126), que estão em constante elaboração nos fluxos
e movimentos da dinâmica da vida (INGOLD, 2015).

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Por fim, parece que as experiências com a cozinha brasileira e paraense, vivificadas
pelos imigrantes no território catalão, são marcadas por certa dicotomia, pois, ao mesmo
tempo que adensam um antigo debate da Antropologia, particularmente da alimentação, a
qual afirma que entre as mudanças exigidas pela vida, talvez nenhuma seja tão resistente
quanto as inerentes aos gostos alimentares, também demonstram que poucos aspectos do fazer
humano são tão suscetíveis ao encontro do Outro quanto o desejo de experimentar o gosto da
cozinha alheia.
Parece que é nesse processo, de continuidade e descontinuidade, que a adaptação dos
imigrantes ao gosto do Outro, no contexto catalão, se faz na medida em que suas experiências
de comensalidade funcionam como recurso político que permite o encontro do Eu brasileiro e
paraense com o outro que come diferente de mim. Essa dinâmica parece ser lócus privilegiado
para a elaboração da diferença e evidenciado sentimento de pertença, funcionando como canal
de afirmação, de resistência e preservação de costumes alimentares frente aos contextos
globais que tendem a padronizar os aspectos da vida, inclusive os gostos alimentares.

REFERÊNCIAS

BOURDIEU, Pierre. La Distinción: critérios y bases sociales del gusto. Madrid. 1ª.
Ed.Taurus, 1988.

BRASIL. MINISTÉRIO DAS RELAÇÕES EXTERIORORES. (2015). Brasileirosno


mundo. Brasília. Disponível em: www.brasileirosnomundo.itamaraty.gov.br. Acesso em 25
mar.2018.

CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. São Paulo. 4ª. Ed.
GLOBAL. 2011.

CONTRERAS, Jesús. GRACIA, Mabel. Alimentação, sociedade e cultura. Rio de janeiro.


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SEÇÃO LIVRE 173

A BIBLIOTECA COMO ESPAÇO DE EDUCAÇÃO: O LETRAMENTO DE


JOVENS E ADULTOS – PROJETO “ALFABETIZAR PARA LIBERTAR”

Camila de Cássia Brito1


Karley dos Reis Ribeiro2
Joana D'Arc de Vasconcelos Neves3

RESUMO

O presente estudo se constrói numa realidade amazônica marajoara, partindo da realização do Projeto
de extensão “Alfabetizar para Libertar”, da Biblioteca Professor Ricardo Teixeira de Barros, do Campus
Universitário do Marajó – Soure (UFPA), que propôs desenvolver a leitura como ação alfabetizadora
para Jovens e Adultos afastados do cotidiano escolar. A leitura pode ser compreendida como técnica de
aperfeiçoamento da capacidade cognitiva do indivíduo, sendo trabalhada com base na cultura, cotidiano,
memórias e vivências e experiências individuais e coletivas. Teoricamente, este estudo se baseia nas
ideias de Freire (1987,1989,1996,1997); Schwartz (2010); Leal; Albuquerque e Morais (2010), Giubilei
(2005); Leite (2013) e Gadotti; Romao (2011). Por conseguinte, utilizam-se como técnicas de coleta de
dados o questionário e a observação caracterizando este estudo como pesquisa- ação. Os resultados
identificam que dos 27 participantes do projeto, 25 destes aperfeiçoaram seus conhecimentos de leitura
aliada a prática da escrita e 2 daqueles, aprenderam a ler e a escrever. Toda ação praticada em prol da
comunidade possui suma importância para o campo cientifico educacional como um todo e projetos de
extensão em espaços educativos diferenciados, são bem vindos como prática de integração da
Universidade com a comunidade acadêmica e externa proporcionando experiências significativas na
vida desses indivíduos.

Palavras-chave: Alfabetização. Jovens e adultos. Biblioteca – leitura. Projetos de extensão.

THE LIBRARY AS A SPACE FOR EDUCATION: THE LETTERING OF


YOUTH AND ADULTS - “LITERACY TO RELEASE” PROJECT

ABSTRACT

The current study was carried in the Marajoara Amazon, starting from the realization of the extension
project “Literate to free”, from the Professor Ricardo Teixeira de Barros Library, from Marajó
University Campus - Soure (UFPA), which proposed to develop reading as a literacy action for Young
people and adults away from school life. Reading can be understood as a technique for improving the
individual cognitive capacity, being worked based on culture, daily life, memories and experiences and
individual and collective experiences. Theoretically, this study is based on the ideas of Freire
(1987,1989,1996,1997); Schwartz (2010); Loyal; Albuquerque and Morais (2010), Giubilei (2005);
Leite (2013) and Gadotti; Romao (2011). Thus, questionnaire and observation were used as data
collection techniques. Study is characterized as action research. The results showed that of the 27
participants in the project, 25 of them improved the practice of reading combined with the practice of

1
Mestranda – PPLSA (UFPA - 2019). Especialista em Gestão de Unidades de Informação (IPGC – 2017).
Graduada em Biblioteconomia (UFPA – 2013). Bibliotecária – Documentalista (UFPA – Biblioteca Central) Help
Desk do Portal de Periódicos da Capes - Região Norte. E-mail: [email protected].
2
Mestrando – PPLSA (UFPA - 2019). Especialista em Tradução e interpretação do Inglês (FIBRA - 2015)
Graduado em Pedagogia (FAEL - 2019). Graduado em Letras (UFPA-2012). Professor de Língua inglesa da
Secretaria Municipal de Educação do Município de Salvaterra (Marajó – PA) e Coordenador do Curso de Idiomas
na Marajó English School (MES). E-mail: [email protected].
3
Doutora e Mestra em Educação pela Universidade Federal do Pará. Docente do Programa de Pós-Graduação
Linguagens e Saberes da Amazônia e professora Adjunta da Universidade Federal do Pará Campus de Bragança-
Pa. É membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Coordena o Grupo de Pesquisa
de Educação de Jovens e Adultos e Diversidade na Amazônia. E-mail:[email protected].
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writing and 2 of those, learned to read and write. Every action taken in favor of the community is
extremely important for the educational scientific field as a whole and extension projects in different
educational spaces are welcome as a practice of integration between the University and the academic
and external community, providing significant experiences in the lives of these individuals.

Keywords: Literacy. Youth and adults. Library - reading. Extension projects.

Data de submissão: 29.09.2020


Data de aprovação: 08.03.202

INTRODUÇÃO

Alfabetizar jovens e adultos não é apenas ensiná-los a escrever o seu próprio nome,
sobretudo é oportunizar uma educação de qualidade na qual permita diminuir os índices de
desigualdades no país. É o ato de formar leitores porosos, inquietos, críticos, perspicazes e
capazes de receber tudo que uma boa escrita e leitura podem lhe proporcionar. Como nos diz
Freire (1997, p. 20) “[...] o ato de estudar implica sempre o de ler mesmo que neste não se
esgote. De ler o mundo, de ler a palavra e assim ler a leitura do mundo anteriormente feita”.
Desta forma, alfabetizar “não deve ser puro entretenimento nem tampouco um exercício de
memorização mecânica de certos trechos do texto” (FREIRE, 1997, p. 20).
Entretanto, a complexidade do conceito de Educação, oferece diferentes embates no que
tange ser direito do cidadão e obrigatoriedade do Estado em servi-lo, diante de tantas
dificuldades do país e insucessos em sua implementação nas mais diversas formas que não
somente na Educação de Jovens e Adultos (EJA) (LEITE, 2013). Sendo assim, alfabetizar ainda
continua sendo um dos principais e mais fortes problemas que os países enfrentam, embora
apresente pequenos índices de queda passando de 6,8%, em 2018, para 6,6%, em 2019 (PNAD
2020), há de considerar para além do fato que ainda tem 11 milhões de analfabetos no Brasil,
essas taxas são ilusoriamente camufladas com índice dos alfabetizados funcionais4, ou seja,
aqueles que aprenderam a escrever seu nome, mas sem a compreensão de escrita e de leitura, o
que significa que esses números são bem maiores.
Gadotti; Romão (2011) abordam diferentes legislações (LDB’s, CCN’s Diretrizes de
Educação etc.), na intenção de compreender o papel e funcionamento da EJA e como o déficit
existente da mesma, trouxe aos mais diversos indivíduos, a negação da educação pelo próprio
Estado em situações diferentes de suas vidas, fazendo com que estes mesmos indivíduos
precisassem se evadir do ensino regular para que de certa maneira pudessem construir um futuro
por meio do trabalho. Considerando o déficit educacional brasileiro, ressalta-se que o próprio
sistema de levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - do
número de pessoas alfabetizados, ou seja, pessoas quem sabe ler e escrever, têm sido
questionados a relação aos métodos para avaliar a capacidade de compreensão de leitura e
escrita. Estudiosos como Sousa et al (2016), percebem e denunciam que apesar do acesso à
educação ter crescido no final do século passado e início deste século, e, que na Amazônia
Legal5 o analfabetismo tenha caído, o analfabetismo funcional continua elevado.

4
A ampla disseminação do termo analfabetismo funcional em âmbito mundial deveu-se basicamente à ação da
Unesco, que adotou o termo na definição de alfabetização que propôs, em 1978, visando padronizar as estatísticas
educacionais e influenciar as políticas educativas dos países-membros. Os indivíduos chamados de analfabetos
funcionais são aqueles que reconhecem as letras e os números, no entanto, não compreendem textos, não
conseguem captar as ideias centrais e explicar o conteúdo daquilo que foi lido, são também os indivíduos que não
conseguem realizar operações matemáticas, sejam elas mais simples ou elaboradas.
5
O conceito de Amazônia Legal foi instituído pelo governo brasileiro como forma de planejar e promover o
desenvolvimento social e econômico dos estados da região amazônica, que historicamente compartilham os
mesmos desafios econômicos, políticos e sociais.
SEÇÃO LIVRE 175

As desigualdades regionais na área da educação, marcadas pela falta de formação dos


professores da rede básica, de pouca estrutura escolar, falta ou má uso dos recursos para a
implementação de políticas públicas que viabilizem o acesso, infraestrutura e demais condições
para que a população receba educação, refletem os limites para superar os desafios que o País
e os Estados, em particular do nordeste e norte, enfrentaram e ainda enfrentam para alcançar as
metas de redução do analfabetismo durante o século XX e, agora nas duas décadas do séculos
XXI, como podemos observar no Infográfico 1 os estados da região nordeste e norte apresentam
os maiores índices de analfabetos do país:

Infográfico 1 – Taxa de analfabetismo nos Estados Brasileiros

Fonte: Gazeta do Povo, 2019.

Nesse cenário, é importante considerar que as dificuldades encontradas no


desenvolvimento educacional brasileiro refletem as adversidades das regiões em relação a
educação como o todo, refletido nos altos índices de analfabetismo das regiões Norte e
Nordeste. Os dados do IBGE (2019) revelam uma maior concentração de analfabetos entre
pessoas com 60 anos ou mais, 20,4% das pessoas, chegando a um impressionante número de 6
milhões de pessoas. Entretanto, os índices de analfabetismo nas outras faixas etárias, assim
como, diagnóstico que consideram como parâmetro a raça, cor e gênero revelam índices de
exclusão dispares, dentro destas, regiões.

Os resultados do módulo de Educação da Pesquisa Anual por Amostra de Domicílios


Contínua (PNAD-Contínua) revelam que houve melhora em praticamente todos os
indicadores educacionais do Brasil, entre 2016 e 2018, porém persistem as
desigualdades regionais, de gênero e de cor e raça: mulheres permaneciam mais
escolarizadas do que os homens, pessoas brancas tiveram indicadores educacionais
melhores que os das pessoas pretas ou pardas e, as regiões Nordeste e Norte
176 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

apresentaram uma taxa de analfabetismo bem mais alta e uma média de anos de estudo
inferior a das regiões do Centro-Sul do país. (IBGE, 2019).

Essa diferença em relação aos números de pessoas analfabetas e ou com baixa


escolaridade (alfabetizados funcionais) ocorre em maior densidade em comunidades que
apresentam altos índices de pobreza, de desemprego e dificuldades de acesso à escola.
Territórios reconhecidamente marcados por uma forte cultura da oralidade, naturalizando
segundo Pereira (2014) o analfabetismo assim como outros inúmeros processos de exclusão,

Esta gente analfabeta sabe muita história oral e não poucos têm viva memória e
sabedoria criativa. Contavam pelas portas do mercado, no bar do emérito, casa da
beira, no trapiche ou canoas à espera de maré, muitos casos do estúrdio apartheid que
"normaliza" tontas discriminações, dizendo -- em falso -- que deus fez o mundo deste
jeito desde os começos do tempo [...] (PEREIRA,2014).

Realidades de muitos territórios da Amazônia Paraense, em que os mais velhos repassam


seus conhecimentos a seus descendentes pelo falar. Curandeiros, benzedeiras, mestres de
carimbó, pajés, são alguns dessas personagens que em sua grande maioria já idosos não tiveram
oportunidade de estudar, e exatamente por isso se utilizam da oralidade para o repasse de
informações.
Segundo os dados apresentados no Relatório Diagnóstico Socioeconômico e Ambiental
da Região de Integração do Marajó (FAPESPA, 2019) a região do Marajó, apresenta os maiores
índices de vulnerabilidade social do Estado, ou seja, apenas 2% do PIB paraense, 2% dos
empregos formais, maior taxa de analfabetismo e pobreza do estado e 3ª maior taxa de
mortalidade infantil.

Figura 1 - Região Integrada do Marajó

Fonte: FAPESPA, 2019.


SEÇÃO LIVRE 177

O arquipélago do Marajó localizado no norte do Pará compõe importante o cenário


estratégico da região amazônica desde os tempos coloniais entre os europeus, sociedades
indígenas e africanas (PACHECO, 2009). A região marajoara possui uma área estimada em 50
mil km². No Marajó Oriental encontram-se os limites marítimos com as águas do oceano
Atlântico, dispondo de uma rica diversidade cultural e natural que envolve a vida da população
local formada por praias, manguezais, várzeas, campos, rios e florestas tanto no interior do
arquipélago quanto na parte próxima à aguas salgadas do oceano. Trata-se da região, como
visualizamos no iconográfico acima, com a maior taxa de analfabetismo no Estado do Pará,
com taxa de empregos formais e do PIB (Produto Interno Bruto) em torno de 2% considerando
as demais regiões do estado.
Diante deste contexto, a ideia de atrelar a leitura na aprendizagem de jovens e adultos,
passa a configurar como uma necessidade pulsante dentro da Universidade Federal do Pará –
UFPA6, Campus de Soure, localizado no arquipélago do Marajó, mais especificamente no
Município de Soure com distância da capital Belém, de 80 km, sendo acessível apenas por vias
áreas e marítimas e com população de aproximadamente 25 mil habitantes.
Neste cenário, e do compromisso social da UFPA7, maior Universidade da região norte,
em quantitativo de alunos e de projetos de ensino e extensão, o principal questionamento era:
como trazer essa população, uma comunidade externa, não alfabetizada ou de baixa
escolaridade com alfabetização funcional, para dentro da Universidade? Diante desse
questionamento nasce o Projeto “Alfabetizar para Libertar” fruto da necessidade da UFPA-
Campus Soure, em se aproximar da comunidade, por meio da Biblioteca. Um projeto que traz
em seu nome a concepção do nosso principal incentivador na construção dessa ação, Paulo
Freire que defende em seus construtos teóricos a Tese da educação como prática para liberdade.
Assim, a pesquisa em questão, trata da experiência vivida na biblioteca do Campus
Universitário do Marajó, sobre aquisição da leitura e mudanças ocorridas nas vidas dos adultos
que participaram do projeto de Alfabetizar para Libertar, assumindo desta forma, as
características básicas que definem os estudos da pesquisa ação: Identificação de um problema,
intervenções na tentativa de solucioná-lo e, ainda, envolvendo participantes e pesquisadores
num objetivo comum (THIOLLENT, 1985).
Desta forma, o presente artigo, tem o objetivo apresentar os resultados das experiências
de leitura de jovens e adultos promovido pelo campus do Marajó, evidenciando a Biblioteca
como um espaço diferenciado de educação e interação entre a Universidade e a Comunidade.
Para tanto, dividimos este artigo em seis seções, trazendo logo após a Introdução, na
segunda seção, apresentamos o Percurso Metodológico a partir do panorama educativo que a
Biblioteca possui; a terceira seção foi escolhida para que pudéssemos alcançar nossos objetivos

6
A UFPA, então, passou a desenvolver um modelo de Universidade Multicampi, que visasse um sistema de
cooperação e compromisso entre todos os campi, da capital e do interior, pautados pelo diálogo, pela discussão e
pelo princípio da universalidade. Hoje é a única universidade federal que se estrutura em 10 campi do interior
Abaetetuba, Altamira, Bragança, Breves, Cametá, Capanema, Castanhal, Marabá, Soure, Tucuruí – demonstrando
a importância de seu papel perante a região amazônica e sua capacidade de ser um agente de transformação social,
se configurando como a universidade com maior inserção social dentre todas as Instituições de Ensino Superior e
com o maior número de alunos de graduação.
7
Quando se trata do compromisso social da Universidade Nogueira (2000, p. 63 apud OLIVEIRA, 2004, p. 2)
ressalta que as Universidades devem “induzir programas e projetos que visem enfrentar os problemas específicos
produzidos pela situação da exclusão”. Partindo desse propósito, compreende-se que a Universidade,
especialmente a pública, tem a responsabilidade de aliar educação e cultura, e contribuir para o fortalecimento da
cidadania. Para Tavares (1997), a extensão universitária aparece para uma pequena fração da comunidade
acadêmica como a possibilidade de dar suporte a um novo paradigma de produção de conhecimento no âmbito da
Universidade, tendo uma relação próxima com a sociedade em um processo de troca e complementaridade,
constituindo um objeto catalisador das bases sociais.
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a partir do Projeto como cenário de estudo. A seguir, na quarta seção, delineamos o


desenvolvimento do projeto já fazendo a nossa análise do mesmo caminhando para nossa quinta
seção, apresentando uma discussão acerca do papel da Biblioteca como espaço singular de
educação através dos resultados do projeto estudado. Finalizando desta maneira, com nossas
considerações finais acerca desse estudo e suas discussões.

1 BIBLIOTECA: CONSTRUINDO LEITORES A PARTIR DE SUAS ESTANTES...

“Sempre imaginei que o paraíso fosse uma espécie de biblioteca”.


(Jorge Luís Borges)

A necessidade de projetos que visem a leitura se tornou cada vez mais importante no
Campus de Soure –UFPA. Assim, alfabetizar jovens e adultos se configurou um dos objetivos
da Biblioteca Professor Ricardo Teixeira de Barros, com o intuito de reafirmar o papel da UFPA
com a comunidade, mais também destacar a importância da biblioteca dentro da instituição
como um local de produção de conhecimentos, mais principalmente como um espaço
diferenciado de educação.

Como departamento detentor do conhecimento produzido nacionalmente, o que é


patrimônio da humanidade, enquanto setor, a biblioteca precisa dar continuidade a
exploração da curiosidade dos alunos, abrir-lhes uma janela para o conhecimento, para
o mundo de percepções, informações, opiniões (D’ACAMPORA, 2012, p. 4).

Desta forma, sendo a Universidade um ambiente peculiar de conhecimento e


aprendizado parte-se da compreensão de que a biblioteca do Campus de Soure poderia e deve
ampliar seus serviços alcançando públicos diversos que não somente como cita D’ Acampora,
seus docentes, discentes e pesquisadores, mas oportunizar o acesso à informação para a
comunidade ao seu redor. Sendo um espaço peculiar de aprendizagem, deve ser pensada como
um lócus estratégico de ações desenvolvidas no âmbito da Universidade, estendendo estas ações
à comunidade.
Nesta perspectiva a biblioteca se dispõe a ser o meio pelo qual a Universidade se
aproxima da Comunidade por meio de projetos extensionistas, que por si só, já possuem o papel
de fazer a comunidade não acadêmica a sentir-se parte da construção de conhecimento dentro
da academia. Ressalta-se que os projetos de extensão são aqueles que ampliam as ações
universitárias para além das salas de aulas, ou seja, fazem a articulação do ensino e da pesquisa
com as necessidades da comunidade onde a Universidade está inserida interagindo e tentando
transformar a realidade social possuindo caráter educativo e retornável à comunidade sendo
uma das funções sociais da Universidade como objetivo de promover o desenvolvimento social.
Não diferente da Universidade, a biblioteca também traz para si esse papel social
incorporando a capacidade de se solidarizar com os grupos socialmente excluídos, os
conhecimentos historicamente produzidos. Ela passa a ter uma função educativa, pois a
informação passou a ser um bem acumulável e valorável (MILANESI, 1983) assim segundo o
autor, “o homem que possuía informação valia por dois homens”. Desta forma, quando
apresentamos aqui a Biblioteca queremos salientar que não a compreendemos como um
depósito de livros, muito menos como um espaço “morto” onde se deve imperar o silêncio.
Assumimos a compreensão da biblioteca como espaço de construção, de desconstrução e de
encontro de conhecimentos, possuindo vida entre suas estantes e obras. E é nessa visão que
elucidamos o seu papel social à comunidade por meio de um projeto de extensão desenvolvido
com um público bem diferente do que já estava acostumado a atender e oferecer seus serviços.
Nessa perspectiva, trazemos autores que debatem as dimensões da leitura como
instrumento de aprendizagem e de formação de opinião. Podemos começar essa discussão com
SEÇÃO LIVRE 179

um maravilhoso trecho de Carlos Drummond de Andrade, da sua obra A Rosa do Povo8. (1943-
1945) em que ele escreve poesias acerca da época sombria que o país vivenciava, poetizando a
leitura desta forma: “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça,
a quase totalidade, não sente esta sede” (ANDRADE, 2012).
Dando seguimento, Freire (1989, p. 9) destaca que a compreensão crítica do ato de ler,
não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se
antecipa e se alonga na inteligência do mundo. Estabelecendo desta forma uma relação dinâmica
entre a linguagem e a realidade. Corroborando a importância da leitura e da escrita, Bamberger
(1995, p.9) explica que:
A pesquisa sobre a leitura [...] projetou uma luz sobre o seu significado, não só em
relação às necessidades da sociedade, mas também às do indivíduo. O direito de
ler significa igualmente o de desenvolver as potencialidades intelectuais e
espirituais, o de aprender e progredir.

Isto implica em dizer que a compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica
implica na percepção das relações entre o texto e o contexto, enquanto ato de conhecimento,
um ato criador, em que, ao ler o mundo, cobre de significações o universo do escrito, ampliando
as possibilidades de se construir outras relações com o mundo. Desta maneira, podemos
entender que a leitura favorece a remoção das barreiras sociais, concede oportunidades mais
justas de educação.
Ressalta-se que para Paulo Freire (1987) o analfabetismo é produto de estruturas sociais
desiguais e, portanto, efeito e não causa da pobreza. Neste sentido os processos educativos
operam no sentido de transformar a realidade, e consequentemente, a alfabetização é uma
ferramenta propícia ao exame crítico e à superação dos problemas que afetavam as pessoas e
comunidades. Para tanto, os processos educativos devem compreender as relações e posições
dos sujeitos na sociedade, no caso da educação e, a alfabetização deve superar processos
mecanizados de aquisição de letras e, se configurar em um espaço de trocas de experiências,
pensamentos, culturas etc.
Nesta direção Souza (2017, p. 10), destaca que quando se emprega a leitura como
instrumento de aprendizado, é possível que experiências e vivências sejam trocadas construindo
novos conhecimentos a partir das trocas como afirma Souza.

Assim sendo, é possível dizer que cada sujeito constrói sua experiência com a
leitura em uma via de mão dupla: um movimento de dentro para fora e de fora para
dentro guiado pela subjetividade – enlaçados pelo outro que lhe transmite não
apenas traços do ato de ler, mas aquilo que fundamenta o sentido do próprio ato.

Assim, saber ler e escrever representa um acontecimento social importante na vida de


um indivíduo, pois este, ao utilizar a leitura e da escrita, acessa os direitos estabelecidos em lei,
inclusive a própria educação. “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o
trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à
infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição” (BRASIL, 1988, p. 4).
A educação é a forma pela qual o homem acredita fazer parte da sociedade em que vive
e serve para libertar e não aprisionar através da convivência e do diálogo. Freire (1989, p. 9)
enaltece que “Alfabetizar é conscientizar. [...] Alfabetizar-se é aprender a ler essa palavra escrita

8
A Rosa do Povo é um livro de poesias, brasileiro, escrito pelo modernista Carlos Drummond de
Andrade entre 1943 e 1945, possuindo novas edições ao longo dos anos. É a mais extensa obra do autor sendo
composta por 55 poemas, também sendo a primeira obra madura e a de maior expressão do lirismo social e
modernista. A obra é considerada como uma tradução de uma época sombria, que reflete um tempo, não só
individual, mas coletivo no país e no mundo onde o autor capta o sentimento, as dores, e a agonia de seu tempo.
No título A Rosa do Povo, a rosa representa a poesia (expressão), das pessoas daquela época.
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em que a cultura se diz, e dizendo-se criticamente, deixa de ser repetição intemporal do que
passou [...]”. O processo de alfabetização ocorre de forma diferente em cada indivíduo e cada
um alcança determinado nível de acordo com a sua capacidade cognitiva de aprendizagem.
Sobre essa perspectiva, Jolibert (1994, p. 12) salienta que:

É na medida em que se vive num meio sobre o qual é possível agir, no qual é
possível, com os outros, discutir, decidir, realizar, avaliar, que são criadas as
condições mais favoráveis ao aprendizado. Todos os aprendizados, não só o da
leitura. E isso vale para todos, inclusive para os adultos.

Aprender vai além dos exercícios de decorar textos, ou de apenas realizar provas e ouvir
a fala do professor. Mas discutir, relacionar o cotidiano com o seu aprendizado, inserir sua
cultura como forma de representação de educação, (re) significar suas experiências e costumes
para compor um aprendizado com novas abordagens que instiguem aos alunos a curiosidade e
a vontade de aprender gradativamente fazendo parte de um coletivo.
É diante desse contexto educacional aqui exposto que trazemos a Biblioteca como um
espaço diferenciado de aprendizado para adultos, utilizando da sua maior ferramenta: a leitura.
Por meio das ideias de Giubilei (2005), podemos considerar a Biblioteca como um espaço de
afetividade e de construção de conhecimento por meio da prática pedagógica que atravessa a
sala de aula e transporta a seus alunos novos meios de aprendizagem, com a intenção de fazer
aparecer outros aspectos de uma biblioteca que não somente local como “deposito de livros”.
Partindo desse princípio, a criação do projeto “Alfabetizar para Libertar” surgiu como respostas
tanto para trazer a comunidade do entorno à Universidade, quanto estimulá-la a usufruir do
acervo da biblioteca. Basicamente foi uma relação de interação e de troca conjunta. Enquanto
os alunos aprendiam por meio da leitura, o acervo estava sendo utilizado; a biblioteca estava
sempre cheia de visitantes e a Universidade cumpria um dos seus principais papeis: disseminar
de conhecimento através da extensão, levando em consideração as ideias de Mendonça e Silva
(2002), quando trazem a importância de projetos de extensão, afirmando que:

[...] poucos são os que têm acesso direto aos conhecimentos gerados na universidade
pública e que a extensão universitária é imprescindível para a democratização do
acesso a esses conhecimentos, assim como para o redimensionamento da função
social da própria universidade, principalmente se for pública. Ressaltam que uma das
principais funções sociais da Universidade é a de contribuir na busca de soluções para
os graves problemas sociais da população, formulando políticas públicas
participativas e emancipadoras.

Desta forma, o próprio projeto de extensão uma ação da Universidade Federal do Pará,
campus de Soure, articula a pesquisa ao ensino processo de alfabetização a comunidade que
fica ao entorno da própria Universidade, atuando como formadora de cidadãos também do lado
de fora de seus muros. Freire (1996, p. 15), finaliza este pensar à extensão em conjunto, quando
nos diz que “[...] nas condições de verdadeira aprendizagem os educandos vão se transformando
em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador,
igualmente sujeito do processo”.

2 O PROJETO ALFABETIZAR PARA LIBERTAR

Para selecionarmos nosso grupo participante não somente do projeto em si mas desta
pesquisa, construímos um questionário estruturado com perguntas simples e diretas tomando
como base principal o nível educacional de cada entrevistado, construído a partir de perguntas
simples como por exemplo, idade, profissão, tempo que estava afastado dos estudos em escola
regular etc. O foco do questionário foi perguntar se havia interesse de retornar aos estudos tendo
SEÇÃO LIVRE 181

como base a leitura e no caso de afirmação, informávamos como funcionava o projeto e quais
objetivos do mesmo e fazíamos assim o convite. A princípio, estipulamos uma idade mínima
de 18 anos como delimitação, considerando a juventude que abandona a escola cedo em prol
de trabalho como auxílio financeiro familiar.
Aliamos a entrevista direta (questionário) com a pesquisa de campo, já que o projeto
teve de ir ao encontro dos possíveis participantes, nas comunidades próximas à Universidade,
com vulnerabilidade socioeconômica. Saímos em campo durante uma semana nas redondezas
da Universidade Campus Soure, fortalecendo a ideia de extensão às comunidades do entorno
do Campus.
Adiante, podemos visualizar no Infográfico 1 as informações gerais dos participantes
nessa pesquisa, apresentando a diversidade de faixa etária e sexo dos mesmos.

Infográfico 2- Faixa etária X Profissão dos participantes

HOMENS
23 – 47
ANOS

VENDEDOR

02

ENTREGADOR

Mulheres 01
25 – 59
anos PESCADOR

03

FEIRANTE

Marisqueira 01

SERVENTE

01
01
MARISQUEIRO

01

RABETEIRO
Dona de casa
02

AUTÔNOMO

10
05

Fonte: Autores, 2020.

Para análise seleção dos participantes, utilizamos como base as entrevistas individuais
realizadas na pesquisa de campo, onde foi possível identificar, o nível de escolaridade e o nível
de leitura e escrita dos participantes. Esse processo nos possibilitou selecionar 27 participantes.
Podemos perceber a partir do Gráfico 1 que a maioria dos participantes possuem o Ensino
Fundamental Incompleto, considerando também que a maioria são homens.

Gráfico 1 – Escolaridade
182 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Homens
N.E.
E.F.I.
E.F.C.
Mulheres

0 2 4 6 8 10 12 14 16

Fonte: Autores, 2020. N.E. Nunca Estudou. E.F.I. Ensino Fundamental Incompleto. E.F.C. Ensino
Fundamental Completo.

Destes, 25 já se consideravam alfabetizados (sabiam ler e escrever), porém estavam a


muitos anos fora do contexto escolar. E, 2 participantes eram totalmente analfabetos (não
sabiam ler e nem escrever).
Apesar das diferenças, de idade, gênero e experiências, os participantes desse projeto,
trouxeram na bagagem estudantil dificuldades de aprendizado na leitura e na escrita muito
parecidas, pois como justificaram: a) não conseguiram aprender no período de vida escolar; b)
estava muito tempo afastado da escola, ou ainda, c) não tiveram a oportunidade de estudar.
Para dar conta dessa demanda de pessoas que se propuseram a participar desta
empreitada, formamos uma equipe de trabalho composta de oito pessoas, entre coordenação,
bolsistas e voluntários. Fizemos crachás e camisas de identificação para que os participantes
pudessem confiar na equipe e assim, nos aproximarmos mais confiança. Dividimos abaixo no
Quadro 2, a equipe de trabalho para demonstrar que foi uma ideia coletiva que contou com
diversas pessoas para que pudéssemos colocar em prática esta ação.

Quadro 2 – Perfil da Equipe de trabalho

CATEGORIA IDADE CURSO MATRICULADO


Funcionária 29 ---------
20
19
19 Letras – Língua Inglesa
Discente – voluntário 21
22
23
20
Discente – bolsista 20
Coordenação 27 ----------

Fonte: Autores, 2020.

Vale ressaltar que a funcionária em questão, participou como voluntária, com o objetivo
de adquirir experiência docente, já que cursava na época a graduação de Pedagogia, na
Universidade do Estado do Pará (UEPA) localizada no município vizinho, Salvaterra. Os
demais foram escolhidos com base no curso de Letras – Língua Inglesa pertencente ao Campus
da UFPA, o qual se mostrava mais próximo das práticas educativas que queríamos desenvolver.
O projeto contou com o auxílio de 1 (uma) bolsa no valor de R$ 400,00 custeada pela
Pró Reitoria de Extensão da UFPA (PROEX). Considera-se importante ressaltar que além da
bolsa de extensão, não havia nenhum outro tipo de financiamento por parte da Universidade
para realização do Projeto. Este, contou apenas com a doação de materiais e uso de alguns já
existentes do próprio Campus que foram cedidos pela Coordenação Geral do mesmo para nossa
utilização, como por exemplo, equipamentos como data show, notebook etc.
SEÇÃO LIVRE 183

3 DESENVOLVIMENTO DO PROJETO – EXECUÇÃO

Este projeto iniciou no dia 01 de agosto de 2017 e concluiu-se em 31 de julho de 2018


(12 meses). Os encontros ocorreram no turno da noite nos dias de terças, quartas e quintas -
feira no horário de 19h às 21h. Como objetivo geral, o projeto visou à formação de leitores por
meio do acervo disponível na Biblioteca com a intenção de aperfeiçoar a cognição crítica dos
participantes e construir novos pensamentos de mundo por meio da leitura. Especificamente,
também consideramos mostrar o valor que a leitura tem na sociedade auxiliando os
participantes no desenvolvimento cognitivo salientando a importância do retorno a escola;
possibilitamos o resgate da auto-estima do indivíduo a partir do momento em que ele é visto
com habilidades para desenvolver a sua aprendizagem; consideramos opiniões diversas e
valorizamos as diferentes formas de cultura e de pensamento; não mais, atendemos as demandas
sociais da Comunidade externa à Universidade contribuindo para a sua formação social e
profissional; contribuímos para a formação acadêmica e profissional dos discentes da
Universidade em questão dando a oportunidade de adquirir técnicas de didática e prepará-los
para a pratica docente a partir da atuação destes como voluntários e por fim, evidenciamos o
papel social da Biblioteca, na promoção da educação através de projetos de extensão que
motivem a criação de semelhantes.
Vale ressaltar que as metodologias de ensino escolhidas, foram selecionadas pela equipe
em conjunto, pretendendo valorizar as pessoas, experiências e vivencias cotidianas, assim,
tomando por base o que Freire (1996, p. 63) diz a respeito dessa valorização quando elucida
que:

A resistência do professor, por exemplo, em respeitar a “leitura de mundo” com que o


educando chega à escola, obviamente condicionada por sua cultura de classe e
revelada em sua linguagem, também de classe, se constitui em um obstáculo à sua
experiência de conhecimento.

O autor fala sobre respeitar a leitura de mundo de cada indivíduo, para que assim se
possa delinear o ponto de partida. Desta maneira, para o desenvolvimento das aulas de leitura
e outras atividades, nos baseamos em autores da área de ensino-aprendizagem de jovens e
adultos como Schwartz (2010), Leal; Albuquerque; Morais (2010) que afirmam em diferentes
colocações que a alfabetização consiste na ação de alfabetizar, de ensinar crianças, jovens ou
adultos a ler e escrever.
No decorrer da realização dos encontros e atividades laborais de ensino-aprendizagem,
investigamos como de fato os indivíduos conseguiam adquirir o conhecimento repassado. E
para conseguir analisar essa dinâmica, utilizamos a observação participante, que é a tentativa
de colocar o observador e o observado do mesmo lado, tornando-se o observador um membro
do grupo de molde a vivenciar o que eles vivenciam e trabalhar dentro do sistema de referência
deles (MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 194). Desta maneira, conseguimos compreender como
o alfabetismo e o letramento contribuíram para a transformação social dos cidadãos
participantes do projeto dentro do contexto educacional da Biblioteca.
Para a execução dos encontros e atividades complementares, se construiu um roteiro de
ensino para que os professores / voluntários pudessem seguir de acordo com os objetivos do
projeto. Podemos perceber no Quadro 3, que as atividades escolhidas tiveram caráter disciplinar
de natureza simples para que facilitasse o entendimento de todos, considerando que alguns
estavam fora da escola num período mínimo de 10 anos, enquanto outros nem sequer haviam
tido a oportunidade de estudar. Para estes, as atividades foram aplicadas individualmente num
sistema de monitoria individual já que não conseguiam acompanhar os demais no mesmo ritmo.
184 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Quadro 3 – Roteiro de ensino

ATIVIDADES DESCRIÇÃO

Rodas de conversas Nesta fase o alfabetizador conhece o seu público alvo


através de uma conversa onde o mesmo irá identificar a
regionalidade dos alunos identificando quais frases,
palavras, ditos ou expressões, os alunos mais utilizam
para que assim se use destes meios para realizar outras
atividades que integrem a cultura dos alunos.

Exercícios de Silabação Realização da separação tradicional das silabas das


palavras, mostrando a família de cada silaba para
formação de outras palavras.

Criação de palavras novas Formação de palavras novas a partir do conhecimento da


família das silabas.

Reconhecimento Entender as palavras novas e conscientizar o jovem e o


adulto dos problemas cotidianos e conhecimento da
realidade social.

Alfabetização por meio do conto Leitura e escrita dentro da regionalidade utilizando- se a


cultura local.

Atividades práticas Leitura e escrita através do ditado.

Exercícios de fixação Conhecendo a pronuncia das palavras através de


exercício de escrita e oralidade.

Fonte: Autores, 2020.

4 DISCUSSÃO E RESULTADOS

Abordamos aqui, que muitos dos nossos participantes tinham os mesmos discursos
quando perguntado o motivo pelo qual abandonaram os estudos ou nunca foram a escola. E
como não era de se espantar, no caso dos homens, estes tiveram que escolher entre o trabalho e
a escola devido a situação financeira da família, optando pelo primeiro, e desta maneira
perdendo a vontade de retornar à escola já que pensava que não havia necessidade.
Já no caso das mulheres, a maioria casou-se muito cedo, também por questões
financeiras e algumas justificaram que não poderiam participar do projeto por conta dos
cuidados com a família (marido e filhos) e dos afazeres domésticos. Fatores recorrentes na nas
diversas regiões do país em diferentes proporções, segundo o Jornal online O Globo (2019) que
se baseia em dados de pesquisa nacional do IBGE, reiterando essa questão da seguinte forma:

[...] 23% dos jovens de 15 a 29 anos não estudam e nem trabalham. Percentual é maior
entre as mulheres, que apontam afazeres domésticos como principal motivo para
deixar o sistema educacional.
SEÇÃO LIVRE 185

Toda essa discussão esclarece o porquê da região Norte do país compor o pior índice de
educação, segundo o Jornal Acritica. Com (Online, 24/05/2020):

O levantamento revela que a Amazônia brasileira tem um dos piores indicadores do


país em educação [...]. Segundo a análise, todos os estados da região Norte encontram-
se abaixo da nota média do país no Índice de Desenvolvimento da Educação Básica
(IDEB), da primeira etapa do ensino fundamental (da 1ª a 4ª série).

Foi com base nessas questões que procuramos contribuir de uma forma pequena, mas
engrandecedora para a comunidade que nos propusemos a desenvolver este Projeto e apresenta-
lo nesta pesquisa, percebendo que a maioria já possuía um aprendizado básico, mas devido o
tempo fora da escola, não lembravam o que haviam aprendido, pois disseram achar difícil e
perderam o interesse visando o Projeto como uma oportunidade de recomeçar. Tinham como
intenção relembrar o que já sabiam podendo corrigir erros de escrita e aprimorar a leitura por
meio da prática. Para os que nunca foram a escola, foi uma oportunidade única que como alguns
disseram, “nem imaginavam que com idade avançada seria tão maravilhoso aprender a escrever
e a ler seu próprio nome” (Relato pessoal)9.
Nas primeiras aulas os participantes estavam vergonhosos e logo que conseguimos a
confiança deles e se sentiram à vontade, conseguimos fazer com que participassem das aulas
oralizando suas dúvidas e contribuindo nas discussões. Inicialmente os conhecemos, soubemos
quais as expectativas e quais seus sonhos. A partir da segunda semana de encontros, começamos
de fato as atividades onde escolhíamos uma obra da Biblioteca da área de Literatura,
principalmente relacionadas ao contexto amazônico, como a obra Marajó de Dalcídio Jurandir
que possui um “palavriado” conhecido de nossos participantes. Utilizamos também livros que
retratavam as lendas da região e fazíamos atividades de reconstrução da história, já que cada
participante conhecia uma versão diferente da mesma.
O Projeto passou por algumas dificuldades em relação a material que foram sanadas
pela própria equipe a ponto de custear impressões, materiais como lápis, caneta etc. Mesmo
com tudo isso, o incentivo era grande quando os participantes chegavam e nos contavam que
haviam entendido um comercial de televisão ou que estavam a discutir sobre qualquer assunto
em casa. Ainda mais quando se sentiam bem-vindos dentro da Universidade recebendo
tratamento igual aos nossos acadêmicos. Essas questões nos mostraram que estávamos no
caminho certo. Desta maneira, podemos afirmar que a Biblioteca Professor Ricardo Teixeira de
Barros do Campus Universitário de Soure – UFPA, enquanto gestora do conhecimento
trabalhou em prol da sua comunidade acadêmica e principalmente, a não acadêmica visando a
formação de profissionais habilitados e capacitados para desenvolver trabalhos voltados para o
bem-estar social da comunidade em que está inserida e formara leitores através do seu acervo
evidenciando sua cultura local.
Entendemos, portanto, que o conhecimento deve ser universal e igualitário, na
pluralidade de pensamento visando resultados contínuos através da educação adquirida a partir
de suas interações na sociedade. Neste contexto, o Projeto fez com que o processo de
alfabetização e letramento ocorresse de forma diferente em cada indivíduo, considerando suas
experiências e conhecimentos trazidos em suas bagagens, para que assim pudéssemos
contribuir com o alcance de determinado nível de conhecimento de acordo com a capacidade
cognitiva de aprendizagem de cada um.

4.1 RESULTADOS

9
Atividade oral em que a aluna de 59 anos, a qual nunca estudou, relatou a sua felicidade em aprender a escrever
seu nome através das atividades do projeto.
186 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

A análise dos resultados se deu a partir da observação participante que ocorreu


cotidianamente às aulas captando a evolução dos participantes. As duas pessoas que não sabiam
ler e nem escrever, concluíram as atividades alfabetizadas. Talvez nem tanto quanto
gostaríamos, mas pelo menos sabiam escrever mais do que apenas seu nome e conseguiam
interpretar o que estavam lendo e para os que já tinham conhecimento de leitura e escrita
conseguiram desenvolver habilidades de concentração, interpretação e critica.
No decorrer do Projeto conseguimos perceber as lembranças trazidas pelos
participantes referentes ao tempo que estavam na escola, quando diziam: “Eu vi isso na escola,
mas não aprendi!”. (Relato pessoal). Além destes, outros discursos foram significantes em
torno do Projeto, como a fala do participante de 45 anos que sonhava em estudar medicina e
que se sentia muito feliz em estar dentro da Universidade. Ou da senhora de 28 anos que nos
agradecia por poder levar a filha de 6 anos para as aulas pois não tinha com quem deixa-la e
pela paciência que era lhe dada ao aprender a escrever e a ler.
O Projeto finalizou com 27 participantes alfabetizados. Claro que não foi possível
realizar uma abordagem maior educacional comparado ao trabalho que as escolas desenvolvem,
mas a intenção de incentivar o retorno aos estudos e apresentar a importância desse fator para
a vida dos participantes a foi o principal objetivo alcançado.
Ao final do projeto, apresentamos os participantes à Universidade onde estes
expuseram as suas histórias de vida antes e depois do Projeto e quais eram suas vontades a partir
dali. Também, foi apresentado o papel social que a Biblioteca construiu nessa trajetória e como
uma pequena ação podia transformar pessoas.
O projeto ficou conhecido na região e foi apresentado em eventos Nacionais de grande
porte com a intenção de promover a ideia e apresentar o quanto a região do Marajó necessita
de mais visibilidade em suas questões sociais, econômicas etc
A alfabetização por meio da leitura, contribui para a formação do indivíduo como uma
atitude positiva, de compreensão, de interpretação e de descoberta e novos caminhos de
aprendizagem, edificando um tripé: alfabetização – leitura - cidadania em que se
complementam no mesmo objetivo de formar cidadãos.

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Este Projeto nos permitiu analisar como a Biblioteca pode e deve ser utilizada como
espaço educativo e social. Observamos que ainda há muito a se fazer em prol da Alfabetização
de Jovens e Adultos no Brasil, muito mais quando se toma como cenário o Marajó.
Observamos que não basta apenas ir à escola. A escola e os professores têm que oferecer
qualidade de ensino e instrumentos capazes de ensinar e não apenas informar. Como bem
sabemos, a informação só se transforma em conhecimento quando é transferida e interpretada
da maneira correta. De nada adianta palavras se não sabemos formar frases. Saber ler e escrever
bem é um direito garantido por lei, mas que na maioria das vezes não se cumpri em regra e é
nosso dever enquanto cidadãos de bem e papel da Biblioteca, trazer à tona este conhecimento
através de ações voltadas para a comunidade. Ler é importante. Aprender é essencial, mas
interpretar é fundamental. A leitura transforma. Liberta. Supri a necessidade do homem em se
comunicar e fazer isso bem. Ela é uma das peças fundamentais no processo de alfabetização.
Conhecimento jamais será excesso, ao contrário, é poder, sendo fundamental na
construção do senso crítico, ao modo de como nos comportamos na sociedade em que vivemos
e como a queremos transformá-la.
Tenhamos em mente que é possível oferecer educação de qualidade em diferentes
contextos em diferenciados espaços que tenham consigo um cunho educativo. Aqui, mostramos
que a Biblioteca vai além de um “depósito de livros” e muito mais que isso escancarou uma
SEÇÃO LIVRE 187

realidade educacional, que infelizmente muito se discute, entretanto, pouco é feito em prol de
melhorias.
Deixamos a reflexão de que independente de público e do contexto, a educação por si
só, não é um problema educacional, mas social, político e econômico e que para resolvê-la é
obrigação do Estado olhar para todos os lados, a fim de prover condições necessárias para que
se possa desenvolver uma educação de qualidade e de direito de todos.

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SEÇÃO LIVRE 191

CANTOS E GRITOS DA TERRA: CAMPESINOS E PROPRIETÁRIOS


RURAIS NOS PROCESSOS DE REFORMA E CONTRARREFORMA AGRÁRIA DO
CHILE (1958-1990)

Vanderlei Vazelesk Ribeiro1

RESUMO

Neste trabalho discute-se o processo de reforma e contrarreforma agrária, ocorrido no Chile entre as
décadas de 1960 e 1990. Reflete-se, inicialmente, a respeito do processo de reforma agrária
desenvolvido durante as presidências de Jorge Alessandri (1958-1964), Eduardo Frei (1964-1970) e
Salvador Allende (1970-1973). Posteriormente, avalia-se o esforço de reversão do processo executado
durante o regime liderado pelo general Augusto Pinochet entre 1973 e 1990. Entende-se estes
processos como resultado da interação entre a burocracia de Estado e os diversos grupos sociais. Deste
modo, analisa-se “a atuação tanto de organizações representativas dos proprietários de terra como dos
movimentos campesinos.” Procuraremos perceber estes movimentos não como todos homogêneos,
mas observando suas divergências internas, que levam, às vezes, a fraturas intraorganizacionais.
Quando possível realiza-se a comparação do desenvolvimento da reforma e da contrarreforma,
cotejando seu desenrolar no Chile central e na Região Sul, marcada pelos conflitos entre os
terratenentes e as populações mapuches, na luta pela posse da terra. Deste modo, compreende-se o
peso do tema indígena nesta região, que teria reflexos no contexto nacional.

Palavras-chave: Estado. Movimentos campesinos. Representação terratenente.

CHANTING AND SHOUTING FROM THE LAND: PEASANTS AND LAND


OWNERS IN CHILIAN AGRARIAN REFORM AND COUNTER REFORMS
PROCESS (1958-1990)

ABSTRACT

In this work is discussed the process of agrarian reform and counter agrarian reform occurred in Chile
between 1960 and 1990. Initially there is a reflection about the agrarian reform process developed
during the government of Jorge Alessandri (1958-1964), Eduardo Frei (1964-1970) and Salvador
Allende (1970-1973). In sequence, there is an evaluation on the effort for reversion of the executed
process during the regime led by general Augusto Pinochet between 1973 and 1990. The aim is not to
comprehend the movements as homogeneous, but to observe their internal divergences which
sometimes lead to interorganizational breaks. On occasion, there will be compared the agrarian reform
and counter reform development in central and south Chile, among the conflicts between landowners
and mapuche population in the struggle for land ownership. In this way we are able to weight the
indigenous theme in this region, which would lead to consequences in the national landscape.

Keywords: State. Peasant movements. Landowner representation.

Data de submissão: 25.04.2021


Data de aprovação: 24.05.2021

INTRODUÇÃO

Em março de 1974, escrevendo desde Tomé, província de Concepción, Victor Bárbaro


Campos solicitou à Corporación de Reforma Agraria (CORA) a devolução de suas terras, que

1
Doutor em História pela Universidadde Federal Flumense. Professor de História da América Latina da
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). E-mail: [email protected]
192 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

haviam sido expropriadas, em 1972. Embora as tivesse oferecido para expropriação a fim de
receber a indenização a que teria direito mais rapidamente, alegava ter sido expropriado à
força pelos comunistas do governo deposto. A argumentação de Victor Bárbaro coincidia com
páginas da Revista El Campesino, órgão da Sociedad Nacional de Agricultura (SNA) –
entidade representativa dos proprietários rurais chilenos – que afirmara que os fazendeiros
sofriam tal pressão do governo. Victor Bárbaro, de fato, recebeu a terra e a indenização.
Em setembro de 1975, Robinson Moira Boaventura e Irenio Nuñes Leiva pediram à
CORA a devolução das terras que lhes haviam sido expropriadas em 1966, ainda no governo
do democrata-cristão Eduardo Frei. Usaram o mesmo argumento de Victor Bárbaro, ao
afirmar que estavam sendo pressionados ao tempo da expropriação e que, recuperando suas
terras, trabalhariam para apoiar a reconstrução de seu país, que fora “resgatado” pelos
militares, das mãos comunistas. Teriam, contudo, de aguardar melhores dias. As terras que
compraram em Rancagua eram parte de uma extensa propriedade pertencente a Dom
Eleodoro Callos, que a dividira com a mulher, Josefina Prado, a filha do casal, Maria Josefina
Prado, e o genro, Eduardo Varela. Posteriormente todos vendiam parcelas, como as que os
missivistas haviam comprado. O problema é que justamente em abril de 1966, quando eles
fizeram essa compra, foi publicada uma lei que proibia o parcelamento de terras sem
autorização da CORA2. Esses dois exemplos nos mostram a complexidade do processo de
reforma agrária ocorrido no Chile durante o período em análise.
Aparentemente, o golpe empresarial-militar, que derrocou a experiência democrático-
socialista, teve um caráter fulminante no processo de revisão da reforma agrária. Entretanto, o
que observaremos é que apesar da vigorosa repressão, as avaliações foram feitas quase caso a
caso, como lembrou Pablo Baraona, um ex-expropriado, que se tornou ministro da economia
de Augusto Pinochet (OVALLE, 2013, p. 215). Neste trabalho avaliaremos o processo de
reforma agrária chilena em dois momentos: o primeiro entre a aprovação da lei 15.020 até o
golpe de Estado liderado pelo general Augusto Pinochet, em 1973; e o segundo durante o
regime empresarial-militar, que se estendeu até 1990. Evidentemente, para introduzir o tema
será necessária uma discussão acerca do período anterior à aprovação da referida lei, uma vez
que os temas da reforma agrária e das relações sociais campesinas no Chile estavam presentes
na agenda política do país pelo menos desde a década de 1930. Buscaremos perceber a
variedade dos processos que se desenvolveram por todo este período. Observaremos a
emergência dos movimentos campesinos que contaram com apoio dos setores vinculados aos
partidos Democrata Cristão, Socialista e Comunista, bem como com a articulação dos
terratenentes3, organizados não só em suas entidades de classe, como por meio da SNA e do
Consorcio de Sociedades Agrícolas del Sur (CAS) e também com o apoio dos partidos
Conservador e Liberal, mais tarde fundidos no Partido Nacional. Além disso, sempre que
possível, estabeleceremos as distinções entre o Chile central, berço da conquista espanhola, e
o sul do país, onde a presença mapuche se fez sentir na ampliação da luta pela terra, quando
os autóctones buscaram reconquistar as áreas perdidas, sendo também palco de vivíssima
repressão pela parceria público-privada que envolveu militares das forças armadas, corpo de
carabineiros (polícia militar chilena) e terratenentes locais. Deste modo, o leitor viajará pelo
“País da Geografia Louca”, avaliando os esforços por realizar uma reforma agrária, bem como
as tentativas de evitá-la ou revertê-la.

2
O Processo de Victor Bárbaro Campos pode ser Encontrado em Servicio Agrícola y Ganadero, Concepción
carpeta 1748. Quanto ao de Eusebio e Irenio pode ser revisado em: Servicio Agrícola y Ganadero, Rancagua,
Carpeta 1354. Neste arquivo, localizado em Santiago do Chile, encontram-se os processos de expropriação das
terras durante a reforma agrária e de parcelamento dos lotes após o golpe de 1973.
3
Utilizamos a expressão terratenentes mais comum na língua espanhola, por entendermos que a mesma
representa bem o sentido da concentração de terras em toda América Latina.
SEÇÃO LIVRE 193

1 REFORMA AGRÁRIA (1958-1973)

O ano era 1958 e o Chile tinha previsto eleições presidenciais. As elites políticas
orgulhavam-se, pois há um quarto de século o país era governado por presidentes eleitos e o
parlamento funcionava. Aquela eleição, entretanto, seria diferente, tendo em vista as
mudanças que a marcariam: primeiramente, o Partido Comunista (PC), que fora posto na
ilegalidade dez anos antes, por meio da chamada “Lei Permanente de Defesa da Democracia”,
voltava à cena eleitoral, compondo com os socialistas a Frente Revolucionaria de Acción
Popular (FRAP), apoiando o já experiente senador Salvador Allende; além disso, a entrega
das cédulas eleitorais só seria feita no momento da votação (AVENDAÑO, 2017, p. 136).
Todas essas mudanças tiveram impacto decisivo no meio rural. Desde seu nascimento, em
1921, o PC levantava as bandeiras da reforma agrária, da restituição das terras aos mapuches
– que desde o fim do século XIX eram expropriados, por meios legais ou não – e o
estabelecimento de condições adequadas de trabalho no campo. O fato de a cédula ser
entregue no local da votação não impedia, mas dificultava as fraudes eleitorais comuns no
Chile profundo (OSZLAK, 2016, p. 156).
Deste modo, os temas ligados ao mundo rural retornaram fortemente ao cenário
político, ainda que Jorge Alessandri, candidato oligárquico, tenha vencido por trinta mil votos
o candidato esquerdista. Utiliza-se o verbo retornar pois desde os anos vinte o setor
proprietário rural chileno, embora controlasse o parlamento e mantivesse firme aliança com
setores do comércio e da Indústria – através da Confederación de la Producción y comercio
(CPC), vinha sendo questionado por causa das duras condições sociais dos trabalhadores do
Chile central e do Sul4, tendo em vista o problema mapuche. Entre 1866 e 1884, num longo
processo de “pacificação” paralelo à “conquista del Desierto”, realizada pela oligarquia
argentina, militares e terratenentes chilenos subjugaram os mapuche, que desfrutavam de
autonomia desde os dias da conquista, tendo estabelecido um tratado com os espanhóis em
1641, renovando-o com o Estado chileno, em 1825. Entretanto, a ideia de que havia um
“vazio demográfico” a explorar – similar ao que se pensava da Amazônia em países como o
Brasil ou Peru – ganhou corpo em meados do século XIX; ali estaria uma terra vazia, onde o
que havia eram índios “preguiçosos”.
Completado o processo de conquista, a ampla densidade populacional obrigou o
Estado a reconhecer a existência de populações e a necessidade de radicá-las em comunidades
tituladas em nome de um cacique local, ainda que em áreas diminutas. Entretanto, muitas
vezes a terra era titulada em favor de gente vinda do Chile Central ou até mesmo de outros
países, como Alemanha, França e Suíça. Em vários casos, os títulos se sobrepunham a áreas
anteriormente destinadas aos indígenas e estes eram expulsos violentamente. Em outras
situações eram levados a assinar falsos contratos de arrendamentos por noventa e nove anos,
depois registrados como compras nos cartórios locais. Deste modo, os confrontos entre
colonos e mapuches tornaram-se comuns (CORRÉA, 2005, p. 121; BENGOA, 2014, p. 67-
85).
A questão da produtividade agrícola também deve ser levada em conta, uma vez que
os tempos em que a agricultura chilena conseguia abastecer também o Peru – durante a época
colonial – e que o trigo chileno alimentava também mineiros na Califórnia e na Austrália, em
meados do século XIX, haviam há muito terminado. Existiam esforços por parte dos
dirigentes da SNA, no início do século XX, no sentido de aperfeiçoar a produtividade

4
Dona Alicia Muñoz, atual dirigente da Asociación Nacional de Mujeres Rurales e Indígenas (ANAMURI),
nascida no Fundo Agua Fría, em Maule, centro-sul do país, contou-me, em entrevista, que trabalhava como
doméstica dos patrões e que recorda até hoje da péssima qualidade dos biscoitos e do macarrão oferecidos por
eles aos campesinos. Entrevista inédita ao autor realizada em 10 de julho de 2017, na sede da ANAMURI em
Santiago do Chile.
194 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

agrícola, mas o fato é que a agricultura chilena não exportava nem alimentava o crescente
mercado urbano interno, uma vez que sofria a concorrência do trigo e do vinho argentinos,
levando o Chile a ser um importador de alimentos (ULLOA, 2006, p. 57).
Todos esses temas ganharam relevância na cena política a partir da crise de 1929, uma
vez que o país havia perdido o mercado salitreiro para seu similar sintético desenvolvido
pelos alemães, e o cobre, explorado desde o século XVIII, teria de esperar a eclosão da
Segunda Guerra Mundial para retornar à projeção anterior. Os resultados da crise não se
fizeram esperar: o ditador Carlos Ibañes, que chegou ao poder em 1927, foi destituído em
1931, acarretando um período de intensa instabilidade que durou dezoito meses e que incluiu
a proclamação de uma República Socialista de duas semanas de vigência, sob a liderança do
Major Marmaduke Grove. A situação política se reequilibraria a partir do retorno do
presidente Arturo Alessandri, em 1932 (ele governara o país entre 1920 e 1924 e entre março
e outubro de 1925) (BENGOA, 2014, p. 65; OLIVARES, 2019, p. 235).
Enquanto os representantes da SNA brigavam no parlamento contra as medidas
trabalhistas e se queixavam da baixa remuneração para seus produtos, os comunistas e
socialistas iam ao meio agrário tentar organizar sindicatos e sofriam a viva resistência
patronal. Os socialistas chegaram a criar a Liga Nacional de Defesa dos Campesinos Pobres
em 1935, com eco maior em Santiago, e os comunistas procuravam organizar sindicatos,
também na região metropolitana, explorando a experiência de atuação sindical dos mineiros
do Norte (ROJAS, 2015, p. 23).
Do ponto de vista dos setores terratenentes, a situação agravou-se em 1938 face à
vitória de Pedro Aguirre Cerda, que liderava uma coligação que unia os partidos Radical,
Socialista e Comunista. A sindicalização rural, permitida, mas não regulamentada, ganhava
seu maior impulso desde a implantação do código do trabalho, em 1931, em virtude da
atuação dos comunistas e, em menor medida, dos socialistas. A resposta terratenente foi
sentida de todas as formas: desde a expulsão de camponeses sindicalizados ou que tivessem
votado na candidatura radical, com um irônico, “vá pedir trabalho a Aguirre Cerda”, até o
sequestro de inspetores do trabalho, agora mais atuantes, apoiando sindicalistas que, por sua
vez, levantavam pautas reivindicatórias. Por outro lado, em maio de 1939 os terratenentes
organizaram um congresso de agricultores5, no qual solicitavam ao presidente a suspensão da
sindicalização dos camponeses até que uma nova lei fosse editada, pedido que foi atendido.
De acordo com Loveman (1976, p. 23), havia, ao final de 1939, 219 sindicatos
organizados na zona metropolitana de Santiago. A proibição, entretanto, não pôde afetar os
sindicatos já organizados legalmente, valendo o princípio de que a lei não pode retroagir para
cassar direitos, embora os proprietários se esforçassem vigorosamente para impedir a atuação
dos sindicalistas no campo. Jaime Larraín e outros dirigentes da SNA afirmavam que a
existência de um sindicato na fazenda representaria, literalmente, um contrapoder na casa do
patrão. Não percebendo o camponês como um cidadão titular de direitos, mas sim como uma
eterna criança a ser governada, perguntavam-se a quem o trabalhador obedeceria, se ao patrão
ou ao sindicato (OLIVARES, 2019, p. 321).
Como alternativa, os dirigentes da SNA ofereciam uma espécie de bondade patronal,
pela qual os patrões fossem generosos, atendessem os camponeses no que fosse possível,
combatessem o alcoolismo e a tuberculose e realizassem festas domingueiras. Essa ideia de
uma sociedade rural harmônica, tão presente nos discursos das sociedades rurais argentina e
brasileira, bem como na nossa música caipira6, seria reiterada ao longo de décadas pelos
dirigentes da Sociedade Nacional de Agricultura. O campo seria um lugar de paz e esta paz só

5
No Chile, os fazendeiros autodenominam-se agricultores.
6
“Este pedacinho de chão encantado foi abençoado por nosso Senhor! Que nunca nos deixa faltar no sertão:
saúde, união, a paz e o amor!” Tião Carreiro, canção “Encantos da natureza”.
SEÇÃO LIVRE 195

poderia ser quebrada por agentes externos: comunistas, inspetores do Ministério do Trabalho
e socialistas.
Com a morte de Pedro Aguirre Cerda antes de completar seu mandato e sem atender
ao pedido dos dirigentes da SNA no sentido de proibir até mesmo os sindicatos já existentes,
assume a presidência, após ser eleito, o também radical Juan Antonio Rios. Durante seu
governo (1941-1945), o panorama não se alterou. No Chile central, os comunistas
esforçavam-se para mobilizar os camponeses por direitos trabalhistas, criando a Federación
Nacional de Trabajadores Agrícolas, além da Asociación Nacional de Pequeños Agricultores
(OLIVARES, 2019, p. 432). Ao Sul, os mapuches, que em sua maioria haviam votado em
Pedro Aguirre Cerda e criado a Frente Popular Araucana, como um reflexo da Frente Popular
que o levara ao poder, continuavam sofrendo a espoliação de suas terras. Sob a liderança de
Venancio Corioepán, que se elegeu deputado em 1942, (já havia deputados mapuches desde a
década de 1920), criou-se a Corporación Araucana, emulando a Corporación de Fomento,
que era fundamental no processo de industrialização. Esta entidade buscava, entre outras
melhorias, abrir estradas que conectassem as comunidades às cidades próximas, visto que os
proprietários muitas vezes não lhes permitiam passar por suas terras (BENGOA, 2014, p.
168).
Por sua vez, a já centenária SNA (fora criada em 1838) passou a enfrentar
concorrência. Ainda que contasse com a Rádio Agricultura, fundada em 1936, e que foi ao
longo das décadas replicada pelo país e embora tenha mudado o nome de sua revista de El
Agricultor para El Campesino, sua atuação era percebida por seus pares como extremamente
favorável apenas aos tradicionais cerealistas do Chile central e pouco atenciosa aos modernos
fruticultores e principalmente aos pecuaristas do Sul. Assim, em 1944, foi criado em Temuco
o Consorcio de Sociedades Agrícolas del Sur, que sem necessariamente desconectar-se de
Santiago, buscava uma atuação mais autônoma face à SNA (OSZLAK, 2016, p. 132).
Quanto à sua atuação, a SNA continuava lutando para bloquear a sindicalização rural e
se queixava do protecionismo que era estruturado em favor da indústria, enquanto a
agricultura sofria o tabelamento de seus preços ao mesmo tempo em que pagava caro pelos
insumos necessários à sua produção. De acordo com Ulloa (2006, p. 44), a exclusão dos
camponeses do direito à sindicalização seria um acordo que possibilitaria o processo de
industrialização por substituição de importações, já que, sendo o setor agrário penalizado face
aos baixos preços dos produtos agrícolas, os fazendeiros descarregariam seus prejuízos sobre
seus trabalhadores, pagando-lhes ínfimas remunerações. Este acordo teria contado, inclusive,
com o apoio dos comunistas, que aceitaram a exclusão dos rurais em troca de benefícios aos
trabalhadores urbanos. Entretanto, ao avaliarmos o trabalho bem documentado de Maria
Angélica Olivares, percebe-se que a militância do PC manteve, bem mais do que o Partido
Socialista (PS), um empenho no sentido de incluir os rurais na legislação trabalhista e lutar
pela reforma agrária durante o período 1938-1948, quando foram excluídos “legalmente” do
sistema político. Isso pode ser melhor observado em 1946, quando, devido ao falecimento do
presidente Juán Antonio Ríos, uma aliança entre radicais e comunistas leva ao poder Gabriel
González Videla que, por sua vez, nomeou comunistas para Ministérios, inclusive para o
Ministério da Agricultura. Neste período, o PC visou derrubar na prática a proibição à
sindicalização, enquanto no governo, homens como o mapuche Juán Chacon Corona,
buscavam liberar a importação do trigo argentino para competir com o trigo nacional
açambarcado pelos terratenentes. A reação destes, que ampliavam a SNA criando o Comitê de
Relacionamento de Entidades Agrícolas, repetia o padrão de expulsão dos sindicalizados e de
firmar uma parceria público-privada com carabineiros e com os inspetores do trabalho,
barrando a atuação de sindicalistas, além de fazer uma vigorosa campanha anticomunista nos
meios de comunicação.
196 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

No parlamento, a aprovação de uma lei de sindicalização rural, que impediu os


analfabetos de se sindicalizarem, manteve os sindicatos limitados às fazendas, proibindo a
formação de federações e confederações. Determinou ainda que o proprietário da fazenda
fosse também o tesoureiro do sindicato, que era necessário que os sindicalizados já estivessem
trabalhando na fazenda há pelo menos um ano – algo difícil quando a inquilinaje7 já se
reduzia – e praticamente proibiu as greves. O complemento desta medida foi tomado em julho
de 1947, em votação pelo parlamento, na qual os partidos Conservador e Liberal, firmemente
ligados aos proprietários, excluíram os comunistas da cena política decretando a ilegalidade
do Partido, que tanto batalhava pela sindicalização rural (OLIVARES, 2019, p. 523).
O período compreendido entre 1948 e 1952 pareceu de paz para os terratenentes, pois
dedicaram-se ao questionamento dos baixos preços de seus produtos e aprovaram uma lei de
privatização das águas de rios que passassem por suas propriedades, transformando-os, em
1951, também em aguatenentes. Porém, logo o tema agrário retornaria à cena, uma vez que
nas eleições de 1952, o ex-ditador Carlos Ibánez voltou ao poder, prometendo a reforma
agrária, com apoio dos ilegalizados comunistas.
O projeto de reforma agrária foi facilmente derrotado no parlamento, mas os
comunistas organizaram clandestinamente, em 1953, uma conferência de trabalhadores
agrícolas, na qual foi reivindicada a devolução das terras aos mapuches, além da reforma
agrária e da criação de uma legislação trabalhista (PERALTA, 2006, p. 17). Entretanto, para
os terratenentes, o pior ainda estava por vir: no fim dos anos de 1930, a Igreja Católica tentou
organizar sindicatos, mas a pressão direta da SNA sobre os bispos tornou sua atuação
inviável. No início dos anos 1950, a Arquidiocese de Santiago criou a Fundación de
Educación Sindical e a Acción Sindical y Económica chilena, que buscavam apoiar a
sindicalização dos trabalhadores rurais. Deste modo, a Igreja Católica foi ao campo disputar
espaço com os comunistas, assim como fazia no Brasil nessa mesma época. Para tanto era
preciso apoiar reivindicações e, na zona de La Molina, em 1953, ocorreu uma greve que uniu
católicos progressistas e comunistas. A ameaça, feita pelo arcebispo metropolitano de
Santiago, de promover uma coleta em todas as missas de domingo em favor dos grevistas
acuou o governo que, por sua vez, pressionou os proprietários rurais. O governo ameaçou
retirar os carabineiros de La Molina, enquadrar os fazendeiros, utilizando contra eles a Lei de
Defesa da Democracia e, pior que tudo, sobretaxar o vinho exportado. Deste modo, não foi
possível utilizar as velhas estratégias contra os grevistas. Os terratenentes sofriam sua
primeira derrota simbólica.
O período entre 1954 e 1958 marcou o crescimento, na sociedade chilena, da noção de
que a agricultura era o nervo exposto da economia, uma vez que não exportava e que não
alimentava a sociedade, cada vez mais urbana. O cobre, portanto, continuaria como a
principal fonte de divisas do país. Assim, mudanças eram urgentes. Os proprietários se
defendiam afirmando que os problemas estavam na falta de crédito e de estradas, alegando
que se produzissem tudo o que podiam, a maior parte apodreceria no campo (AVENDAñO,
2017, p. 87).
De acordo com Ulloa (2006, p. 35) e Ovalle (2013, p. 25), as críticas ao setor agrário
não vinham apenas da esquerda, mas também de setores da indústria e até mesmo dos
conservadores. A noção de que agricultura tinha de mudar e que essa mudança teria de passar
pelo tema da propriedade da terra, ganhava corações e mentes antes mesmo das eleições de
1958.
Jorge Alessandri assumiu o poder com uma plataforma liberal, pedindo aos industriais
que aceitassem perder a proteção alfandegária da qual desfrutavam havia duas décadas. Na

7
O sistema de inquilinaje chileno era similar a tantos sistemas de trabalho na América Latina: o camponês
trabalhava tantos dias de graça para o patrão e, em troca, tinha direito, dependendo sempre de sua vontade, ao
cultivo de um pedaço de terra e pastos para seus animais.
SEÇÃO LIVRE 197

realidade, os proprietários rurais, embora criticassem a proteção à indústria, desejavam-na


para si, pois “a agricultura não está abandonada, mas desamparada!”, afirmavam os dirigentes
da SNA (OSZLAK, 2016, p. 143). Entretanto, uma série de fatores externos e internos
entrecruzaram-se, acelerando o início do processo de reforma agrária. Externamente, a
Revolução Cubana, de 1959, e sua radical reforma agrária, que criou milhares de pequenos
proprietários8, significou a esperança para a esquerda e o pânico entre setores de direita. Nos
Estados Unidos, as duras condições de trabalho no campo chileno eram criticadas,
especialmente quanto à quase total impossibilidade de sindicalização. Para complicar a
situação dos terratenentes, em 1961, após um mega terremoto atingir a cidade de Valdivia, o
governo de Jorge Alessandri pediu ajuda aos EUA que, sob a administração Kennedy – a qual
patrocinava a chamada Aliança para o Progresso – condicionou o empréstimo à aprovação de
uma lei de reforma agrária9. Além disso, a vitória dos radicais nas eleições parlamentares de
março de 1961 levou o presidente a convidá-los a participar do governo. Entretanto, os
radicais também condicionaram sua participação à elaboração de uma lei de reforma agrária.
Os proprietários, dividiram-se entre os do Sul, que recusavam qualquer ideia de reforma que
significasse a alteração na estrutura de propriedade privada, e os do Chile central, que em
parte tendiam a aceitar algum tipo de mudança na tenência da terra. Numa tensa reunião da
SNA era aprovada, por um voto de diferença, a não oposição à reforma.
Ainda em 1961, enquanto os comunistas mantinham o esforço para sindicalizar os
camponeses, os mapuches continuavam batalhando na justiça para reaver suas terras, porém
sem obter êxito. Mais recursos eram aprovados para que a Caja de Colonización pudesse
subdividir as terras públicas e nelas instalar mais colonos, além de prorrogar, mais uma vez, a
proibição de vendas de terras das comunidades indígenas radicadas, em sua maioria, no Sul
do país10.
Finalmente, a lei 15.020, que permitia a realização de uma reforma agrária, foi
aprovada no parlamento, em 1962. Como no Brasil – com a elaboração do Estatuto da Terra
em 1964 – no Chile dois órgãos foram criados: a CORA e o Instituto de Desarrollo
Agropecuario (INDAP). Aquela se encarregaria da divisão das terras e da instalação dos
parceleiros, priorizando os que lá estavam. Este buscaria atuar de forma a trazer tecnologia
para o meio agrário, bem como difundir a sindicalização no campo.
Em 1963, a constituição chilena foi emendada no sentido de que fosse permitido o
pagamento de indenização para os expropriados em dez cotas anuais. A reforma de Jorge
Alessandri, expressa na lei 15.020 de 1962, criticada como de macetero11 (insuficiente) pela
esquerda, de fato não estabeleceu um limite para o tamanho da propriedade rural, mas fixou o
princípio de que uma propriedade mal explorada poderia ser expropriada. Se no governo de
Jorge Alessandri poucas famílias foram beneficiadas pela ação da CORA, a situação mudaria
dramaticamente no governo de Eduardo Frei (OSZLAK, 2016, p. 216). Um ator não
convidado entrou em cena neste mesmo ano. No Chile central, o movimento camponês ainda

8
No período entre 1959 e 1963, a reforma agrária cubana dividiu terras em propriedades individuais para
pequenos cultivadores, criando cerca de cem mil parceleiros. Rapidamente, entretanto, para aproveitar
especialmente a estrutura das plantações de cana-de-açúcar organizaram-se grandes áreas em cooperativas
controladas pelo Estado (VASCONCELOS, 2017, p. 243).
9
Tanto no Peru como no Chile, os proprietários rurais têm amargas memórias e queixas do período Kennedy.
Para eles, os democratas americanos não aceitariam a concorrência de seus produtos no mercado estadunidense
e por isso favoreciam reformas no continente (OTERO, 2007, p. 145; OVALLE, 2013, p. 216).
10
O tema das terras indígenas era espinhoso ao Sul: eram, como vimos, cedidas em lotes a um cacique, mas os
comuneros tinham usufruto. Em 1927, aprovou-se a subdivisão das comunidades e, em vários decretos a partir
desta data, proibiu-se a venda destas terras até a ditadura de Pinochet finalmente regularizar as propriedades
individuais ao fim dos anos 1970 (BENGOA, 2014, p. 376).
11
Traduzindo do espanhol, a palavra macetero significa vaso de planta. A reforma era chamada de “macetero”
pois acreditava-se que seu impacto seria limitado como o de plantas em vasos.
198 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

não havia ganhado força apesar dos temores dos proprietários de terras. Ao Sul, com a bênção
da machi (médium), os mapuches de Arauco realizavam, em 1962, suas primeiras ocupações
de terras. O lema de “terra para quem nela trabalha” deixou muitos de fora, especialmente os
mapuches (BENGOA, 2014, p. 235).
Em 1964, uma derrota para o socialista Oscar Naranjo nas eleições complementares
para uma vaga de deputado, na província de Curicó, assustou os setores terratenentes, que
pressentiram o perigo da vitória de Salvador Allende, novamente candidato à presidência da
república pela FRAP. Por isso, abandonaram o radical Pedro Dum e canalizaram seus votos e
de seus camponeses para Eduardo Frei. Entretanto, o candidato da Democracia Cristã
disputava espaço não com a direita, mas com a esquerda. A revolução socialista opunha sua
Revolução em Liberdade defendida pela Democracia Cristã e a um sistema coletivista,
propunha assentamentos, que mais tarde, se converteriam em propriedades individuais.
A reforma agrária no Chile, como a peruana de Velasco Alvarado e a brasileira dos
primeiros meses do governo Castello Branco, parecia ser a melhor vacina contra a revolução
no estilo cubano. Desse modo, o governo chileno atuou de forma vigorosa, acelerando a
expropriação de terras – dentro dos limites da lei de Jorge Alessandri –, derrubando, na
prática, a lei de sindicalização rural, por meio dos promotores da Democracia Cristã, indo
especialmente a zonas do Chile central para dinamizar a formação de sindicatos. Os
proprietários estavam divididos, pois os do Sul inicialmente apoiaram Eduardo Frei, já que
seu discurso de modernização os convenceu de que não seriam expropriados. Os do Centro,
entretanto, entenderam que era necessário atuar mais fortemente contra a ação estatal, mas
não encontraram apoio em outros setores proprietários, agindo então de forma mais defensiva,
decidindo, por exemplo, pelo parcelamento de suas fazendas. Em 1966, uma lei proibiu tal
prática, pois exigia prévia autorização da CORA. Enquanto isso, especialmente no Chile
central, as greves começavam a ganhar magnitude.
Em 1967, três mudanças afetaram muito o meio agrário: em janeiro, a reforma
constitucional, que aumentou para trinta anos o prazo de pagamento pela terra expropriada,
ampliando as possiblidades do Estado para realizar este ato; em abril, foi aprovada a
sindicalização campesina (os comunistas desejavam um sindicato único, mas a maioria
democrata-cristã, que controlava o parlamento, impôs a pluralidade sindical, redundando na
formação de múltiplas federações e confederações); e em julho, veio a lei 16.640, da reforma
agrária. Pela referida lei, foi estabelecida uma área máxima de 80 hectares para a propriedade,
que contasse com irrigação básica o que significava um apenas hectare físico em Santiago,
mas que poderia chegar a quatro ou mais hectares no Sul, conforme o tipo de solo, se
precisava ou não de irrigação etc. As áreas inferiores a este tamanho poderiam ser
expropriadas, se mal exploradas ou abandonadas. As propriedades divididas entre 4 de
novembro de 1964 e a data de publicação da referida lei e que não estivessem sendo
cultivadas poderiam ser desapropriadas em até três anos. Tal fato desencadeou, em 1970, uma
intensificação das expropriações, o que irritou os dirigentes da SNA. Arrendamentos eram
permitidos, mas irregularidades nos contratos poderiam dar causa à expropriação
(AVENDAÑO, 2017, p. 235; OSZLAK, 2016, p. 265).
Estas mudanças causaram profundas transformações em ambos os setores em análise.
Do ponto de vista dos proprietários, seu mundo virara de cabeça para baixo, pois não
agradava o fato de terem que negociar com aqueles que consideravam inferiores, ou seja, os
camponeses; além de terem que aceitar inspetores do trabalho em suas terras. Ainda, relevar a
perda de sua propriedade era extremamente difícil para eles. Não era só uma questão
econômica, mas também a sensação de um mundo que conheciam que se desagregava. Os
campesinos também viram seu mundo ser transformado, porém tais mudanças ocorreram em
sentido oposto àquelas experimentadas pelos terratenentes. Podiam agora participar de greves,
recorrer ao inspetor do trabalho e, quem sabe, até ter a propriedade da terra. Tais mudanças,
SEÇÃO LIVRE 199

contudo, beneficiavam mais os homens que as mulheres, já que, como nos recorda Eidi
Tinsman, elas eram vistas apenas como mães e cuidadoras do lar. De todo modo, em 1968, os
movimentos começaram a surgir.
Na fazenda Santa Marta, no Vale de Longotoma, região de Val Paraíso, uma greve,
que durou meses, transformou-se em ocupação de terras. Os fazendeiros conseguiram
organizar sua retomada prometendo dinheiro e mesmo um pedaço de terra aos camponeses
aliados. Ao final, a terra acabou mesmo expropriada (SEGUEL, 2012, p. 45). Em San
Estevan, província de Los Andes, mesma região de Val Paraíso, ainda em 1968, uma greve
desdobrou-se em uma ocupação de terra dinamizada por militantes radicalizados do
socialismo. Cristian Pérez, provavelmente, supervaloriza a ocupação da fazenda San Miguel,
classificando-a como uma protoguerrilha chilena, mas o fato é que, efetivamente, houve
jovens dirigentes socialistas que, impactados pelo mito da Revolução Cubana, imaginavam a
possibilidade da luta armada a partir do campo (PÉREZ, 2000, p. 198).
O movimento campesino crescia e se diversificava. Os comunistas, por exemplo, que
em 1961 haviam criado a Federación Campesina e Indígena, agora a batizavam Ranquil,
compondo-a com os socialistas, evocando o massacre sofrido por campesinos chilenos e
mapuches em 1934, na cidade sulista que dava nome à organização. Os democratas-cristãos
estavam na Triunfo Campesino enquanto a Igreja Católica investia na Confederación
Libertad. Uma cisão da Democracia-Cristã – o Movimiento de Acción Popular Unitario –
criou a Unión Obrera-Campesina, tendo a direita fundado a Provincias Agrarias Unidas. O
Movimiento de Izquerda Revoluncionaria (MIR) apostou no campo como foco da
insurgência, conformando o Movimento Campesino Revolucionário, que deslocaria a maior
parte de seus elementos para a zona mapuche (TINSMAN, 2009, p. 157).
Quanto aos movimentos dos proprietários, as mudanças também foram rápidas. Sob a
direção de Manuel Valdes, foi criada a Confederação de Empregadores Agrícolas. A SNA
trocou o desgastado Luiz Marín pelo ex-deputado Hugo Zepeda Barrios, que passou a investir
pesado em propaganda e que buscava uma aproximação com os sulistas tendo em vista que
todos eram igualmente proprietários e que agora sentiam o peso das greves, das ocupações de
terras, dos baixos preços para seus produtos, dos altos custos para gerá-los e das
desapropriações (OSZLAK, 2016, p. 278).
Nas eleições de 1965, a Democracia Cristã conquistara maioria absoluta no
parlamento, deixando as forças de direita em terceiro lugar. Aglutinadas no Partido Nacional,
essas forças vieram a crescer sobremodo nas eleições legislativas de 1969, podendo alimentar
esperanças para as eleições presidenciais de 1970. Do ponto de vista da direita, seria mesmo
necessário um retorno ao Palácio de La Moneda. Certamente, a atuação do governo de
Eduardo Frei não se limitou à reforma agrária e à sindicalização rural, promovendo também
um forte investimento na plantação de frutas, que seria colhido durante o pinochetismo. Em
agosto de 1969, quando os democratas-cristãos lançaram Radomiro Tomic para presidente,
ficou claro para a SNA e para o CAS – este sob a direção de Domingo Durán – que os votos
buscados por eles, teriam de ser disputados com a esquerda e não com a direita. Ocorre,
portanto, uma aceleração das expropriações de terra em 1970. A reação proprietária tornou-se
então mais radical, expressando-se pelo assassinato, na província de Linares, de Hernán Mery
Fuenzalida, funcionário da CORA, que havia ido tomar posse material de uma fazenda
expropriada. O assassinato foi louvado no parlamento pelo deputado do Partido Nacional,
Victor Carmini, que exclamou: “é apenas o primeiro morto!” (AVENDAñO, 2017, p. 254).
Após quatro milhões de hectares expropriados e um movimento campesino crescente,
em setembro de 1970, foi realizada a eleição presidencial. Salvador Allende venceu por
margem mínima e teve a vitória confirmada no Congresso Nacional após um acordo com a
Democracia Cristã. Para os proprietários, essa situação representava defender-se de um ataque
final: num primeiro momento procuraram conversar com Allende e o presidente da SNA,
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Benjamin Matte, foi a Cuba tentar vender produtos chilenos para o novíssimo parceiro
comercial, já que o novo governo restabelecia o comércio com a ilha socialista. Mas a
resposta do novo Ministro da Agricultura, Jacques Chonchol, a uma consulta feita pela SNA
não poderia ser mais clara: o governo apoiaria cooperativas mas não sociedades anônimas
disfarçadas de cooperativas, a pequena e média propriedade estariam garantidas desde que
estivessem em conformidade com as necessidades nacionais e, finalmente, os agricultores
poderiam ter voz, todavia as políticas públicas seriam decididas pelos conselhos comunais
campesinos, organizados a partir de janeiro de 1971. Deste modo, aquele não apenas não era o
seu governo, era o governo contra seus interesses, não havendo espaço para negociação.
Quanto aos movimentos camponeses, antes mesmo do governo de Salvador Allende
ser eleito, militantes do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR) chegavam à
província de Cautín para mobilizar os mapuches e, em seus termos “levar consciência a eles”,
embora não houvesse necessidade de explicar-lhes que deviam lutar por suas terras, pois
faziam isso desde que as haviam perdido. Nos primeiros meses do governo de Salvador
Allende, multiplicaram-se as corridas de cerco, ou seja, retiravam as cercas que reduziam as
comunidades indígenas. Allende enviou Chonchol ao Sul e muito do que foi feito pelos
mapuches foi aceito oficialmente. Além dos oficiais conselhos comunais campesinos criados
pelo governo, os “miristas” organizaram os conselhos comunais campesinos pela base,
buscando incorporar um maior número de militantes mapuche e controlar o processo de
reforma agrária em nível local, a fim de desenvolvê-lo autonomamente face ao Estado e
reforçando o que pensavam ser o poder popular contra o poder burguês (HERNÁNDEZ,
2016, p. 98).
O governo Allende buscou incorporar os não assentados no processo de reforma
agrária, a qual havia sido pensada para aqueles que, mal ou bem, já tinham acesso à terra.
Desse modo, buscou-se a criação dos Centros de Reforma Agrária, que agregaria o trabalho
coletivo dos que estavam participando do processo. Entretanto, é preciso recordar que os
campesinos ligados à Democracia Cristã acreditavam na necessidade de terem sua parcela
individual de terra. Logo buscaram reivindicar a concessão de lotes nesta modalidade. Isso
permitiu, a médio prazo, que os terratenentes da Sociedade Nacional de Agricultura
ampliassem suas bases, uma vez que não apenas os fazendeiros expropriados ficaram sem
direito à reserva de terra12, mas também o pequeno e o médio cultivadores, que temiam perdê-
la. Também, o beneficiário da reforma temia o “patrão-estado”, e até mesmo o engenheiro
agrônomo ou florestal que, descontentes, reclamavam do salário pago pelo Estado.
O crescimento das ocupações de terra multiplicava os confrontos. Os irmãos Baraona,
por exemplo, sequestraram o motorista do deputado Joel Marambio, do Partido Socialista, e
foram presos. Poucas semanas depois, suas terras foram expropriadas e o patriarca Jorge
Baraona enfartou, morrendo durante a ação estatal. Incidentes como estes catalisavam a
mobilização terratenente, que se apresentava como defensora da legalidade (OSZLAK, 2016,
p. 257; OVALLE, 2013, p. 213-235).
No que tange ao funcionamento do setor reformado, como lembra Bengoa (2015, p.
234), a imagem de que as áreas reformadas não produziam e que ficou gravada na memória da
maioria da população chilena, precisava ser redimensionada uma vez que, de acordo com as
estatísticas, percebia-se uma disponibilidade de alimentos para o mercado interno maior
naqueles anos, apesar da presença de uma relativa escassez de produtos resultante da
ampliação da demanda decorrente do aumento dos salários. De todo modo, as memórias
elaboradas pelos proprietários depois de 1973 reafirmam a todo tempo a impossibilidade de
uma reforma agrária, pela incapacidade campesina (OVALLE, 2013, p. 215).

12
A reserva era prevista na lei de reforma agrária e o proprietário poderia escolher um pedaço de terra para
manter. Na prática, muitas vezes, isso não ocorreu.
SEÇÃO LIVRE 201

A polarização social no Chile crescia a cada expropriação, que atingia, muitas vezes,
médias propriedades. Em dezembro de 1971, começaram os panelaços, explorando a presença
do líder cubano Fidel Castro no país e a SNA lançou a Frente Nacional da Empresa Privada
(FRENAP). Em maio, época da semeadura, foi lançada uma discreta campanha para que os
grãos não fossem semeados. Em setembro, a Rádio Agricultura, da SNA, foi suspensa por se
recusar a participar de uma transmissão em cadeia nacional, decisão, por sinal, impensável em
tempos de Pinochet, mas defendida pela SNA como liberdade de expressão contra o governo
de Allende. Em outubro, explode a greve dos caminhoneiros, que paralisou o país enquanto
grupos como o MIR, o Partido Comunista Revolucionário e setores socialistas pediam o
aprofundamento da revolução. A partir de então, o governo passa a lutar por sua
sobrevivência. A SNA coordenou o apoio à greve dos caminhoneiros que acabou se
convertendo num lockout patronal (OSZLAK, 2016, p. 314). Enquanto isso, ao sul do país, o
movimento Patria e Libertad promovia atentados à bomba, incêndios e assassinatos de
lideranças de esquerda. Nos meses seguintes, armas vindas do Brasil abasteciam a luta
armada, numa espécie de paraguerrilha (ÓRDENES, 2018, p. 224).
A partir do impasse representado pela eleição de março de 1973, na qual nem o
governo conseguiu maioria do Congresso, nem tampouco a oposição obteve os dois terços
necessários ao Impeachment, a oposição passa a defender abertamente um golpe militar. Não
é nosso objetivo discutir os antecedentes imediatos ao golpe empresarial-militar de 11 de
setembro de 1973. Para os limites deste trabalho basta dizer que em agosto, em regiões como
Cautín, camponeses mapuches já eram torturados sob pretexto de busca de guerrilheiros.
Quando o Palácio de La Moneda foi bombardeado, o aparato repressivo, portanto, já estava
funcionando.

2 CAMPESINOS E TERRATENENTES FACE A AUGUSTO PINOCHET (1973-1990)

Além da vigorosa repressão que se abateu sobre o campo nas primeiras horas do golpe
de Estado liderado pelo general Pinochet, os líderes do movimento não tinham clareza a
respeito do que fariam com seu país a partir do dia 12 de setembro. Supervalorizando a
capacidade do adversário – como um século antes o exército fizera com os araucanos –, a
vitória fulminante do golpe pode ter surpreendido até os vencedores. No campo era fácil pisar
com coturnos em camponeses para que denunciassem supostos guerrilheiros, tal qual no
Fundo Agua Fría, província de Maule, como me contou dona Alicia Muñoz. As torturas e
desaparecimentos eram logo denunciados no exterior, embora houvesse camponeses
aglutinados na Democracia Cristã, prontos a dar declarações favoráveis ao novo regime
(SILVA, 1987, p. 32).
As mudanças no setor agrário tinham sido longas demais. A reforma durou onze anos
e ainda era popular, apesar do problema do desabastecimento. Assim, num primeiro
momento, o objetivo foi ceder em pequenos lotes aos cultivadores, que já as ocupavam, terras
das áreas reformadas que não tivessem sido devolvidas aos antigos proprietários, nem
redistribuídas a grupos econômicos ligados à nova ordem13. Atendia-se a uma reivindicação
de parcela expressiva do campesinato e, ao mesmo tempo, quebrava-se a noção de
cooperativismo: “não seremos uma nação de proletários, mas de proprietários” (SILVA, 1987,
p. 45). Essa mesma noção seria estendida às terras mapuches, a partir de 1978. O governo
militar procurou demarcar as fronteiras de cada pequeno lote e cedê-lo individualmente.

13
Vale salientar que cerca de um terço das terras foi devolvido aos proprietários antigos. Houve terras cedidas,
por exemplo, a empresas florestais ao Sul. De acordo com Ulloa, cerca de 45 por cento dos beneficiários
permaneceram com as terras, mas a maioria acabaria perdendo-as face à falta de apoio técnico-financeiro após
o desmonte das estruturas estatais previstas para apoiar o processo reformista (ULLOA, 2006, p. 265).
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Embora houvesse fortes protestos, essa demarcação foi encarada, por muitos mapuches, como
algo positivo, afinal agora a terra era deles (BENGOA, 2014, p. 254).
Entretanto, é preciso lembrar que a terra só era cedida em lotes individuais a quem
fosse bem visto pelo regime. Além disso, o crédito do Banco do Chile e sua função de
importação de fertilizantes que regulava os preços desses produtos e a Empresa Comercial
Agrícola, cujo objetivo era garantir um preço mínimo para o produto vendido pelo camponês
e regulá-lo ao consumidor, não mais existiam.
De acordo com Patricio Silva, três setores disputaram a preeminência no Ministério da
Agricultura durante os primeiros meses do regime: aqueles vinculados ao presidente Jorge
Alessandri, que defendiam algum apoio aos parceleiros; os gremialistas, sob influência dos
carabineiros, que buscavam algum sistema cooperativista; e, finalmente, os neoliberais. Estes
últimos acabaram triunfando não só no Ministério da Agricultura, mas em todo processo,
transformando o Chile em uma espécie de laboratório de experiências que seriam
desenvolvidas em todo continente nas décadas seguintes (SILVA, 1987, p. 65).
Num primeiro momento ainda havia alguma proteção aos gêneros agrícolas, mas
rapidamente a concorrência de bens estrangeiros reduziu o preço para o produtor nacional. Os
produtores de leite do Sul, por exemplo, liderados por Domingo Durán, protestaram em 1977
contra os baixos preços do leite e contaram com o apoio da indústria leiteira, diferentemente
dos que plantavam arroz e beterraba, que não tiveram nenhum auxílio de outros grupos
sociais. Até mesmo a produção frutífera, que se tornaria importantíssima, perdeu, num
primeiro momento, um de seus principais importadores, o Brasil, que passara a produzir
maçãs (SILVA, 1987, p. 98.)
Embora tradicionalmente representasse os produtores do Chile central, a construção da
unidade com os demais setores proprietários, durante o governo de Allende, levou os líderes
da SNA a buscar a representação de todos os demais setores rurais. Desta forma, tentaram
agregar os diversos ramos empresariais no apoio a Pinochet, já que não mais sofriam
expropriação de suas terras nem ocupação pelos camponeses e as greves deixaram de
acontecer. Desse modo, em 1980, apoiaram a constituição imposta pelo regime, via plebiscito.
Entretanto, o ano de 1982 trouxe uma nova crise no mercado mundial e o anúncio de
que o México não mais pagaria sua dívida externa acarretou graves problemas, levando ao
risco de falência de muitas fazendas. Um articulista do Jornal El Mercúrio, em tom irônico,
perguntou se os proprietários estavam com saudades da reforma agrária. Domingo Durán,
dirigente da Confederación de Productores Agricolas, entidade de proprietários rurais do Sul
do país, chamava de reforma agrária aquelas visitas de agentes de bancos para cobrar dívidas.
O governo militar passou então a desenvolver uma política de apoio aos setores em
crise, abandonando o fundamentalismo neoliberal, uma vez que era necessário garantir a
aliança, que desde o começo sustentou o regime. Assim, em 1978, Alfonso Márquez de La
Plata, presidente da SNA à época do golpe, foi o primeiro ministro civil da Agricultura (nos
primeiros anos do regime a maioria dos Ministérios era ocupada por militares).
Nos anos após a crise, o setor proprietário manteve-se alinhado a Pinochet e, em 1987,
quando da campanha em favor do não como resposta ao novo plebiscito previsto na
constituição14, foi realizado um seminário sobre reforma agrária e todos os fantasmas do
passado foram trazidos à tona. Falar em reforma agrária nos moldes dos anos 1960 seria um
contrassenso, pois era preciso manter a segurança pinochetista. Após a derrota eleitoral do
regime, os líderes da SNA buscaram manter-se fiéis ao que entendiam ser seu principal
legado: ordem, baixa mobilização sindical e paz para produzir (AVENDAÑO; ESCUDERO,

14
A constituição de 1980 dava mais dez anos de mandato a Pinochet, que terminariam em março de 1990. Em
1988, haveria um plebiscito que perguntaria se o povo queria dar mais oito anos de mandato ao ditador. Mesmo
que perdesse, Augusto Pinochet ficaria mais oito anos como comandante do exército e, depois de 1998, teria
uma senatoria sem precisar disputar eleições.
SEÇÃO LIVRE 203

2016, p. 42)15. Se entidades como a SNA normalmente apoiavam o regime, o que dizer dos
movimentos camponeses? Aqueles que foram favoráveis a Allende sofreram o peso da
repressão. Dona Alicia Muñoz conta que, de fato, não sabiam o que os maridos estavam
fazendo nas ocupações de terra, posto que eles não lhes contavam, face ao machismo reinante
na sociedade. Entretanto, o impacto dos desaparecimentos dos homens foi sentido nas
primeiras horas. Para Tamara Carrasco e René Moreno, o objetivo fundamental da repressão
feita pelos terratenentes, em parceria com carabineiros e membros das forças armadas, não era
apenas político, mas principalmente social, tendo em vista que queriam mostrar ao camponês
que ele simplesmente não tinha o direito de falar de igual para igual com o seu patrão. Por
isso, e para mostrar quem mandava, o treinamento da Escola Militar no verão daquele ano foi
feito em áreas predominantemente mapuches (CARRASCO, 2012, p. 53; MORENO, 2009, p.
65; BENGOA, 2014, p. 254).
Um dos principais apoios recebidos pelos camponeses foi o da ala progressista da
Igreja Católica. O bispo de Santiago, Dom Raúl Silva Enriques, organizou, nas primeiras
horas do golpe, a Comisión Pro Paz e, mais tarde, o Vicariato de la Solidariedad, criando,
desse modo, um departamento campesino. Dona Alicia, na citada entrevista, me conta que a
primeira atividade pública foi organizar, em 1977, o Festival do Canto Campesino por meio
da Rádio Chilena, pertencente à Igreja Católica. Entretanto, a partir de 1978, várias
confederações, inclusive a Ranquil, tornaram-se ilegais. A repressão ainda se fazia vigorosa e
o novo ministro do trabalho, Sérgio Fernández, chegou a decretar a exclusão de todos os
sindicalistas e a convocação para eleições sindicais, em três dias. No exterior, protestos
serviram para conter um pouco a força da repressão, uma vez que houve uma ameaça de
bloqueio nos transportes aéreos e marítimos para o Chile. A nova lei sindical, porém, não era
muito melhor tendo em vista que os sindicatos deveriam ser formados por empresa e as greves
seriam praticamente proibidas. Alicia diz também que cada reunião sindical precisava contar
com a autorização do prefeito local, mediante a apresentação de uma pauta, além de ser
necessário entregar a ata da reunião posteriormente. Evidentemente, nem pauta nem ata eram
verdadeiras.
Eidi Tinsman observa a feminização do trabalho rural especialmente no setor frutícola
e as duras condições de vida que passavam as mulheres. Como consequência desses
processos, os incipientes sindicatos também tiveram maior presença feminina, ampliando as
possibilidades para discussão de temas como o cuidado das crianças e reivindicações por
creches, embora, como lembra Alicia, os dirigentes homens dos sindicatos tivessem pouca
sensibilidade para o tema.
Entre 1979 e 1982, a Igreja Católica organizou a Comisión Nacional Campesina, que
depois dividiu-se. As velhas confederações buscaram rearticular-se: Ranquil (inicialmente
Surco), vinculada aos comunistas, Newen (socialista) e as velhas entidades ligadas à
Democracia Cristã, que mesmo não sendo proibidas tinham pouca presença no movimento
camponês (GÓMES, 1985, p. 27; MEDEL, 2014, p. 21).
As organizações rurais não participaram vivamente dos protestos contra a ditadura que
marcaram o país entre 1983 e 1986. Os panelaços, os combates de rua e pequenas ações de
guerrilha urbana estiveram longe do meio agrário. No campo, além da repressão, a
precarização das relações de trabalho, com a possibilidade da perda do emprego a qualquer
momento, era um poderoso instrumento de contenção social. Foi possível juntar-se às forças
opositoras para tentar garantir a vitória contra o regime por meio do plebiscito em 1988, após
o frustrado ataque armado contra Pinochet em 1986. Apesar da vitória do NÃO, não se
poderia dizer que o modelo econômico e político pinochetista tivesse hipóteses de se
desagregar.
15
O plebiscito realizado no Chile em 1980 não teve supervisão internacional e a oposição pôde realizar apenas
um ato de campanha em um teatro fechado.
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Refletindo sobre o plebiscito de 1988, é importante retornarmos ao tema mapuche,


tendo em vista que o decreto-lei que anunciava a desagregação de suas comunidades
provocou viva reação nas áreas onde sua presença era expressiva. Criaram-se, em 1979, os
centros culturais mapuche, mais tarde chamados Asociación Gremial de Campesinos y
Artesanos Mapuche. ntretanto, não foi possível impedir a divisão destas comunidades, que
acabaram desagregadas. Os mapuche tinham tentado, de acordo com Bengoa (2014, p. 259),
unir-se aos campesinos no início dos anos 1970 para recuperar sua terra. Bem ou mal, agora
tinham uma garantia da propriedade, ainda que persista a luta em nossos dias, pois muitos
ficaram excluídos do acesso à terra. Por outro lado, o regime militar, à moda neoliberal,
desenvolveu políticas de subsídio a camponeses, em áreas como Cautín, por meio de
aposentadorias, pensões para viúvas e programas comunais agrícolas.
A Araucanea, que agrega províncias como Cautín, foi a única região onde Augusto
Pinochet venceu, obtendo mais de oitenta por cento em certas comunidades. Na eleição
seguinte, os candidatos de direita, que enfrentaram a oposição liderada por Patrício Aylwin,
obtiveram cerca de setenta por cento dos votos. O pinochetismo conseguia construir uma base
social, além das elites e dos setores médios urbanos (BENGOA, 2014, p. 245).
Deste modo, o ciclo pinochetista na presidência (não podemos dizer no poder, pois as
forças armadas continuavam desemprenhando importante papel na vida política do país),
terminava com um campo bastante modificado. O sindicalismo, que foi praticamente abortado
nos anos quarenta e que floresceu a partir da ascensão de Eduardo Frei, encontrava-se
desagregado. O velho latifúndio com relações paternalistas também não mais existia. O
camponês ou a camponesa moravam agora nos vilorios, pequenas cidades, de onde partiam
para o trabalho. Quase um século depois, a agricultura voltou a exportar, nos moldes
neoliberais, produtos florestais (a partir de áreas do Sul, concedidas às vezes a favoritos do
regime) e frutas frescas para a contra estação no Hemisfério Norte, porém o cobre continuava
a ser o “soldo do Chile”, na feliz expressão do presidente Salvador Allende. A década de
1990, contudo, se iniciaria sob o signo de uma democracia liberal, sob tutela militar.

3 CONCLUSÃO

Como em toda a América Latina, a Revolução Cubana despertou as mais profundas


esperanças e os mais apavorantes temores em amplas camadas sociais do Chile. Para os
setores de esquerda, muitas vezes originários da classe média, ela era a vitória possível, de
acordo com o mito de que uma dezena de guerrilheiros derrubaria um exército. Para os setores
moderados das elites políticas, a reforma agrária, seguindo a receita de policy makers
estadunidenses, era a vacina para evitar o desastre. Para as elites proprietárias, que eram o
alvo destes processos, a reforma era a tradução de tudo o que não precisavam. Desde a crise
de 1929, acreditavam pagar o preço da industrialização. Na verdade, muitos destes
proprietários, em especial os do Chile central, apareciam pouco em suas fazendas, mas agora
começavam a valorizá-las. No Sul, inicialmente compraram o discurso da modernização,
acreditando na lenda de que eles mesmos tinham construído aquela região e de que antes deles
nada existia a não ser índios iletrados. Mas os índios iletrados em questão mantinham a
memória de muita luta e, nas palavras de José Bengoa, os “caciques ricos” cultivavam suas
terras e quando as razias promovidas pelo exército, a partir de 1866 tornaram-se mais agudas,
passaram a criar gado. Seus descendentes lembravam muito bem onde se localizava a terra
que os colonos haviam cercado. A reforma agrária não foi pensada para eles, mas sentiram
que poderiam agarrar o seu momento. O camponês do Chile central, visto por seu patrão
como “índio”, no pior sentido da palavra, também sonhou que poderia ser o proprietário de
sua terra. Talvez não quisesse ser o grande patrão, mas um “patrón en chiquito”, tendo em
SEÇÃO LIVRE 205

vista que muitos contrataram gente para trabalhar nos assentamentos organizados no governo
de Frei, como lembra Bengoa (BENGOA, 2015, p. 287).
Sonhos para uns, pesadelos para outros, o processo começou a se desenvolver em
1962. Thompson nos mostra que a lei é, antes de tudo, o espaço em disputa e a vitória não
está garantida (THOMPSON, 1997, p. 231). Se os planejadores do governo de Jorge
Alessandri pensaram aprovar uma lei de reforma, só por “saludo a la bandera”, estavam
completamente equivocados. A partir do governo de Eduardo Frei, o processo acelerou-se. A
reforma era quase um consenso, mas a questão era como fazê-la. Diferentemente do Brasil,
onde isso era discurso, já que os interessados em sua não realização se encastelaram na
burocracia do governo Castello Branco, no caso chileno a reforma foi acelerada por Eduardo
Frei e disparou no governo Allende. Em menos de três anos houve mais expropriações do que
em seis anos do governo de Frei. Como vimos, ficou a memória da disfuncionalidade, mas
provavelmente uma análise mais acurada poderá levar a outros resultados.
Quando sobreveio o golpe empresarial-militar de 1973, não houve como simplesmente
voltar a 1962, tendo em vista que as mudanças tinham sido grandes demais, no sentido de que
fazendeiros se exilaram e terras divididas passaram a outras mãos. O trabalho iniciado no
governo Frei e mantido no de Salvador Allende, no tocante à plantação de frutas, continuaria
a ser desenvolvido e colhido por Pinochet. Como em todo continente, o êxodo rural seguia,
mas não mais para fábricas. O Chile se desindustrializou.
A receita neoliberal era clara e o país de Violeta Parra inseriu-se no mercado
internacional rapidamente, mas ficou exposto a crises econômicas, como a de 1982. Passada a
era pinochetista, as elites empresariais articuladas na SNA e em outras organizações
continuaram defendendo o legado do regime. Quando o Mercosul pôde finalmente tecer
acordos comerciais com o Chile, as elites, evidentemente, resistiram, mas aquilo que para eles
era um legado de segurança deixado pelo regime militar deveria ser mantido. Daí os protestos
mapuche, na luta pela recuperação de suas terras, serem interpretados como “terrorismo”
pelos dirigentes da SNA.
Quanto aos movimentos campesinos, a luta continuaria nos anos noventa. Para Alícia
Muñoz, as diversas confederações têm uma atitude exageradamente moderada e são pouco
sensíveis aos temas femininos. Daí a criação da Associación de Mujeres Rurales, mais tarde
indígenas. Tais confederações continuam sustentando a bandeira de uma nova reforma
agrária, porém não mais calcada no produtivismo dos anos 1960, mas na produção de
alimentos saudáveis e gerados localmente. De sua capacidade de mostrar a outros setores que
esse objetivo não se limita ao campesinato, depende a possibilidade de efetivar tais resultados.
Por enquanto os terratenentes continuam demonstrando que os objetivos válidos para toda
sociedade são os seus. A memória camponesa é a da perda de milhares de vidas humanas nos
incontáveis massacres enquanto a memória terratenente ainda lamenta a perda de
propriedades. São memórias que combatem pela hegemonia na sociedade chilena.

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A CONSTITUIÇÃO DA IDENTIDADE LINGUÍSTICA SURDA:


A NARRATIVIZAÇÃO AVALIATIVA SURDA SOBRE LÍNGUA PORTUGUESA E
LIBRAS

Marília do Socorro Oliveira Araújo1


Elenilce Reis Farias Peixoto2
Rosângela do Socorro Nogueira de Sousa3

RESUMO

Este trabalho é um recorte de pesquisa cuja base teórica abarca a Análise de Discurso Crítica (ADC) e
os Estudos Surdos. Objetiva-se, de modo geral, analisar como são avaliados alguns aspectos do mundo
(relação com a Língua Portuguesa e a Libras) por uma aluna surda. Especificamente, busca-se identificar
como a estudante surda narrativiza sua experiência e, por conseguinte, compreender as implicações
dessas avaliações para seu processo de identificação. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa
qualitativa, de base etnográfica. O objeto são respostas obtidas a partir de uma entrevista com uma
estudante surda sobre a sua experiência com a Língua Portuguesa. A análise de dados foi conduzida a
partir da ADC e da Linguística Sistêmico Funcional (LSF). A função discursiva pontuada aqui é a
identificacional, a partir da análise da categoria avaliação. Os resultados apontam para uma construção
negativa sobre a Língua Portuguesa e seu ensino e positiva sobre a Libras, constituindo uma identidade
que se afasta da perspectiva ouvintista sobre a surdez assim como da relação entre o surdo e o ensino da
Língua Portuguesa como sua segunda língua.

Palavras-chave: Identidade surda. Discurso. Lingua Portuguesa. Libras.

THE CONSTITUTION OF DEAF LINGUISTIC IDENTITY:


THE DEAF EVALUATIVE NARRATIVIZATION ABOUT PORTUGUESE
LANGUAGE AND LIBRAS

ABSTRACT

This work is an excerpt of research whose theoretical basis encompasses Critical Discourse Analysis
(ADC) and Deaf Studies. The objective is, in general, to analyze how some aspects of the world
(relationship with the Portuguese language and Libras) are assessed by a deaf student. Specifically, it
seeks to identify how the deaf student narrates her experience and, therefore, to understand the
implications of these assessments for her identification process. Methodologically, this is a qualitative,
ethnographic research. The object is answers obtained from a short interview with a deaf student about
her experience with the Portuguese language. The data analysis was conducted from the ADC and
Functional Systemic Linguistics (LSF). The discursive function punctuated here is the identification,
from the analysis of the evaluation category, seeking to identify how the deaf student narrativizes their
experience, constituting their identity. The results point to a negative construction about the Portuguese
Language and its teaching and positive about Libras (Brazilian Sign Language), constituting an identity

1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Cidades, Territórios e Identidades (PPGCITI), da Universidade
Federal do Pará (UFPA). Bolsista FAPESPA. E-mail: [email protected]
2
Mestre em Cidades, Territórios e Identidades (PPGCITI) pela Universidade Federal do Pará. Professora da
Universidade Federal Rural da Amazônia. E-mail: [email protected].
3
Doutora em Linguística pela Universidade Federal do Ceará. Professora Adjunto I da Universidade Federal do
Pará (Campus Universitário de Abaetetuba). Professora do Programa de Pós-graduação PPGCITI (UFPA/Campus
de Abaetetuba e da Faculdade de Ciências da Linguagem-FACL E-mail: [email protected]
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that departs from the listener’s perspective about deafness as well as the relationship between the deaf
and the teaching of Portuguese language as their second language.

Keywords: Deaf Identity. Discourse. Portuguese Language. Libras.


Data de submissão: 25.04.2021
Data de aprovação: 23.05.2021

INTRODUÇÃO

O presente artigo tem como tema a constituição da identidade linguística surda, a partir
da narrativização avaliativa surda sobre Língua Portuguesa e Libras. Objetiva-se analisar como
são avaliados alguns aspectos do mundo, neste caso a relação com a Língua Portuguesa e a
Libras, por uma aluna surda. Especificamente busca-se identificar como a estudante surda
narrativiza sua experiência de ser surda falante de Libras como sua primeira língua e tendo a
Língua Portuguesa como sua segunda língua, neste caso ensinada a ela na modalidade escrita
no ambiente escolar, e assim, compreender as implicações das avaliações feitas pela aluna para
seu processo de identificação. Assim, temos como pergunta de pesquisa: como a aluna surda
avalia discursivamente a Língua Portuguesa e a Libras no contexto de sala de aula?
Nosso interesse nessa questão é justificado pela teoria que baseia este estudo, a Análise
Crítica do Discurso (ADC), de vertente britânica, tendo como principal representante Norman
Fairclough. A ADC, em um sentido amplo, refere-se a um conjunto de abordagens científicas
interdisciplinares para estudos críticos da linguagem como prática social, e define-se pela
motivação de “investigar criticamente como a desigualdade social é expressa, sinalizada,
constituída, legitimada pelo uso do discurso” (WODAK, 2004, p. 225).
Desse modo, partimos da hipótese de que a aluna surda ao narrativizar sua experiência
acerca das línguas em questão tem a possibilidade de afirmar discursivamente sua identidade
linguística e desmistificar olhares pejorativos atribuídos à Libras e a surdez. Essa condição é
representada discursivamente e a perspectiva da linguagem como parte irredutível da vida social
pressupõe relação interna e dialética entre linguagem e sociedade, uma vez que questões sociais
são, pelo menos parcialmente, também questões discursivas e vice-versa. Assim, além de ser
um modo de representar o mundo e de interagir nele, a linguagem como discurso também é um
modo de identificar a si mesmo/a e a outrem.
A Língua Portuguesa e a Libras são as línguas que transitam o cotidiano das pessoas
surdas no Brasil. A educação de surdos está respaldada pela Lei 10.436/2002, pelo Decreto
5.626/2005 e pela Lei 13.005/2014, o qual estabelece o Plano Nacional de Educação para o
período de 2014-2024. Essa legislação apoia a educação bilíngue, ou seja, reconhece que as
duas línguas em questão devem estar presentes na formação do aluno surdo, sendo uma língua
de instrução (língua usada na interação) e língua de ensino (língua que faz parte do currículo
para ser ensinada). A Libras é reconhecida como primeira língua das pessoas surdas e a Língua
Portuguesa como segunda, na sua modalidade escrita. O bilinguismo constitui um ponto de
partida para uma discussão política sobre as questões de identidades surdas, relações de poder
e conhecimento entre surdos e ouvintes (QUADROS, 2019). É neste campo de discussão que
situamos esta pesquisa, pois a realidade da educação de surdos comporta ainda muitas barreiras,
preconceitos históricos que dificultam a convivência pacífica entre surdos e ouvintes no que diz
respeito ao processo comunicacional. Este estudo conta ainda com os estudos de Perlin (2013)
e Strobel (2009), ambas escritoras surdas que discutem acerca da identidade surda e as lutas da
comunidade para a garantia do que consideram como seus direitos.
O conceito de narrativização utilizado neste trabalho advém de Thompson (2011), o
qual concebe a narrativização como uma estratégia de operação da ideologia. Esse conceito
pontua que as “exigências [da legitimação] estão inseridas em histórias que contam o passado
SEÇÃO LIVRE 211

e tratam o presente como parte de uma tradição eterna e aceitável” (THOMPSON, 2011, p. 83).
Nesse sentido, diante da ação de narrativizar experiências sobre determinados aspectos do
mundo, possíveis relações de dominação podem ser sustentadas. Outrossim, a narrativização
pode servir como superação dessas relações de dominação. Nesse contexto, a operacionalização
desse conceito subsidia a discussão acerca de como uma aluna surda se posiciona quando se
expressa acerca da Libras e da Língua Portuguesa em seu contexto de vivência.
No que diz respeito ao termo identificação, nos apoiamos principalmente em Fairclough
(2003) que utiliza o termo identificação para destacar o processo contínuo em que as pessoas
se identificam e são identificadas. A identificação refere-se ao processo de construção das
identidades, um processo nunca completo, nunca fechado, e sim, fluido e dinâmico (HALL,
2014).
O caminho metodológico percorrido foi a partir da abordagem qualitativa. A
metodologia de coleta de dados se deu a partir da etnografia, cuja realização ocorreu em uma
escola de ensino regular, localizada no município de Abaetetuba, no estado do Pará.
Apresentamos uma transcrição, em glosa4, de um texto proferido por uma aluna surda. A análise
de dados se deu a partir da categoria Avaliação e descrição léxico-gramatical da Linguística
Sistêmico Funcional (LSF). Trata-se de um estudo piloto que abarca um projeto maior acerca
das identidades surdas. No caso desta pesquisa, a função discursiva a qual nos deteremos é
identificacional e volta-se para a formação de identidade pessoal, particular e transformadora.
A afirmação identitária é essencial para apoiar as lutas de grupos que, inseridos em um
contexto de desigualdade, sofrem com a exclusão em diferentes aspectos. As pessoas surdas
possuem identidade cultural e linguística específica e essa especificidade é conflituosa no
convívio social, pois a sociedade está estruturada de modo que não os contempla com condições
iguais de acesso e oportunidades. Assim, a luta da comunidade surda pelo reconhecimento e
apoio de sua identidade linguístico cultural é progressiva.

1 PESSOAS SURDAS: UMA MINORIA LINGUÍSTICA

A relação de poder existente entre povos sempre foi marca profunda no processo de
construção de uma identidade própria, devido a dominância de um impor ao outro sua
identidade e cultura. Desde tempos remotos, povos são subjugados e forçados a adquirirem uma
cultura alheia a si. Isso acontece ainda hoje com o povo surdo que há muito tempo vem lutando
contra a hegemonia ouvintista que subjuga a capacidade de relação surda, rechaçando-a como
se não houvesse espaço para uma identidade própria:

[...] apesar de esmagados pela hegemonia ouvinte que tenta anular a sua forma de
comunicação (a língua de sinais), procurando assemelhá-los cultural e
linguisticamente aos ouvintes, resistem a essa imposição, reivindicando seus direitos
linguísticos e de cidadania. (SILVA, 2006, p. 15-16).

Essa minoria durante muito tempo não foi vista sob um olhar de diferença linguística,
mas sim com um olhar de exclusão, o qual tenta abafar a constituição da sua identidade e
cultura. Hoje, os surdos lutam “pelo direito de ser surdo” (PERLIN, 2013, p. 51) em meio a
uma sociedade ouvinte majoritária. Isso não necessariamente reflete o querer estar no mesmo
espaço físico que os ouvintes, pois estar no mesmo espaço não necessariamente garante a

4
McCleary; Viotti e Leite (2010) definem glosa como uma ferramenta necessária para constituir e aproximar
visualmente os textos da língua fonte, a Libras, e da língua alvo, o Português, com o intuito de realizar análise e
comparação dos enunciados. A glosa se constitui em palavra grafada em maiúsculo, que representa o sinal com
sentido equivalente.
212 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

inclusão, tendo em vista que a inclusão deve pressupor, no mínimo, a autonomia de


interlocução. Sobre o discurso de inclusão:

É importante compreender que esses discursos inclusivos, da maneira como são


construídos e difundidos, acabam por reduzir o conceito de diferença, fazendo com
que ele seja entendido como mera diversidade ou como simplesmente o oposto de
igualdade. (RODRIGUES; BEER, 2016, p. 664).

Dessa maneira, a classificação dos surdos como “deficientes”, denominação fortemente


negada pela comunidade surda, é a materialização da exclusão dada pela separação entre a
normalidade pregada pela cultura ouvintista e a anormalidade baseada no (não)
desenvolvimento da língua oral. De toda maneira, os surdos dispõem de uma língua natural,
com a qual agem socialmente e apresentam sua percepção de mundo a partir da modalidade
viso motora e não oral auditiva. Desse modo, não há neles a falta de, mas a existência de uma
língua que lhe é suficiente para virtualizar o mundo. Desta feita, não há motivo, a não ser a
discriminação, para que os surdos sejam nomeados como “deficientes”. Perlin afirma que:

A violência contra a cultura surda foi marcada através da história. Constatamos, na


história, a eliminação vital dos surdos, a proibição do uso de língua de sinais, a
ridicularização da língua, a imposição do oralismo, a inclusão dos surdos entre os
deficientes, a inclusão dos surdos entre os ouvintes. (PERLIN, 2004, p. 79).

Todas essas ações resultam em “trucidamento da identidade surda” (PERLIN, 2004, p.


79), em função de um modelo de identidade ouvinte que os julga incapazes. Para Perlin, essa
subjugação constitui o “surdicídio”, pois muitos sofrem por aceitar a menos valia social
imposta, que, segundo a autora, “é como uma violência silenciosa que continua agindo” (2004,
p. 80). É importante considerar que as diferenças não são um dado, a priori, mas:

[...] se constroem histórica, social e politicamente; não podem caracterizar-se como


totalidades fixas, essenciais e inalteráveis; as diferenças são sempre diferenças; não
devem ser entendidas como um estado não desejável, impróprio, de algo que cedo ou
tarde voltará a normalidade; as diferenças dentro de uma cultura devem ser definidas
como diferenças políticas – e não simplesmente como diferenças formais, textuais ou
linguísticas[...]. (SKLIAR, 1999, p. 22-23).

A perspectiva ouvintista sobre a surdez se aproxima da perspectiva médica e se afasta


da perspectiva antropológica quando designa o estudo do surdo do ponto de vista da deficiência,
da clinicalização e da necessidade de normalização. A ideia de ouvinte presume uma noção que
identifica a “nós ouvintes” em contraste com “aqueles surdos” (PERLIN, 2013, p. 59), noção
que compreende a diferença como desigualdade, colocando como hegemonia que pauta a
relação do sujeito surdo com o sujeito ouvinte e a relação daquele com o mundo. Além disso,
cabe dizer que o ouvintismo não é ligado ao preconceito e não é o mesmo que oralismo, mas
uma perspectiva ideológica dominante.

O ouvintismo deriva de uma proximidade particular que se dá entre ouvintes e surdos,


no qual o ouvinte sempre está em posição de superioridade [...] em sua forma
oposicional ao surdo, o ouvinte estabelece uma relação de poder, de dominação em
graus variados, em que predomina a hegemonia por meio do discurso e do saber.
(PERLIN, 2013, p. 59).

Nesse sentido, Quadros (2005) considera problemático o discurso de inclusão,


notadamente, segundo o modelo da escola inclusiva brasileira, na medida em que este impõe o
bilinguismo. Chamamos a atenção para a exigência do bilinguismo como uma determinação
SEÇÃO LIVRE 213

restrita ao surdo. Em “O ‘Bi’ do bilinguismo na educação de surdos” (2005, p. 26), Quadros


identifica que ao surdo na escola é prescrita a condição bi-partida, em que a Libras é um meio
de ensino da Língua Portuguesa. A “inclusão” da Libras não faz dessa língua o meio de acesso
ao conhecimento.
O bilinguismo e o biculturalismo denotam uma exigência da diversidade imposta pela
sociedade anfitriã ao surdo, uma definição sujeita ainda a manter cambaleante a comunidade
surda. São, assim, uma forma de etnocentrismo: bilinguismo e biculturalismo mascaram
normas, pois mantém a diferença cultural surda como se ela fosse incômoda (PERLIN, 2004,
p. 56). Esse processo produz uma interferência na constituição do grupo surdo, portanto, da
identidade surda e, assim, no desejo do discurso surdo: a vontade de constituir a própria voz e
admiti-la no espaço social mais amplo.
Entendemos a cultura surda como diferença, o mundo de experiência surda como,
sobretudo, visual e não ouvinte. Os discursos hegemônicos narram a condição de surdo e impõe
ao surdo a condição de não ouvinte como marca de afetação. Ao combater a perspectiva
ouvintista da condição de ser surdo, é importante considerar o que Skliar defende quando afirma
que:

Dar lugar às narrações surdas sobre a surdez constitui, dessa forma, um processo de
desouvintização. O processo de desouvintização mencionado supõe, entre outras
coisas, uma denúncia acerca das práticas colonialistas dos ouvintes sobre os surdos e,
ao mesmo tempo, uma desmistificação das narrativas ouvintes hegemônicas sobre a
língua de sinais, a comunidade e as produções culturais dos surdos (SKLIAR, 1999,
p. 24).

Ao estabelecer esse protagonismo começamos a abrir os espaços de luta por políticas


públicas que se encontram regulamentadas na legislação brasileira como discurso de direitos.
Na lei que regulamenta a Libras, de 2002, há o reconhecimento da língua. A emergência dessa
lei favoreceu a profissionalização do intérprete e despertou uma proliferação de pesquisas da
questão surda nos seus diversos aspectos. A Lei nº. 10.436, em seu artigo 1º institui:

É reconhecido como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de


Sinais – Libras e outros recursos de expressão a ela associados. Parágrafo único –
Entende-se como Língua Brasileira de Sinais Libras – a forma de comunicação e
expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura
gramatical própria, constituem um sistema linguístico de transmissão de ideias e fatos,
oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil. (BRASIL, 2002).

O reconhecimento legal da Libras como uma língua natural abre o espaço para a
discussão da necessidade dessa língua ser inserida como objeto de ensino na escola. No entanto,
ainda não presenciamos ações efetivas que retirem a Libras de língua de instrução e a coloque
como língua ensinada no sistema escolar brasileiro. Outro documento que cria uma
representação institucionalizada sobre a surdez é o Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de
2005, Art. 2º, que define a pessoa surda:

Para fins deste Decreto, considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva,
compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando
sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras. Parágrafo
único. Considera-se deficiência auditiva a perda bilateral, parcial ou total, de quarenta
e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500Hz,
1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz. (BRASIL, 2005).

Nessa definição, vê-se a refração do ser surdo e a assunção da surdez a partir da noção
ainda de deficiência, denominada deficiência auditiva. Perlin (2013) define a surdez como
214 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

diferença surda, portanto, aborda a surdez na perspectiva da igualdade de direitos, assim admite
a forma de resistência surda, como um elemento partícipe na constituição da territorialidade
destes sujeitos. Dessa forma, as comunidades surdas mundialmente vêm se organizando sócio
politicamente contra essa exclusão que os priva de um convívio social de bem-estar comum.
Nessa perspectiva, atentamos ao campo discursivo como constituinte/parte das práticas
sociais capaz de formar olhares acerca da surdez, seja do ponto de vista ouvinte, seja do surdo,
pois “questões sociais são, em parte, questões de discurso”, e vice-versa (CHOULIARAKI;
FAIRCLOUGH, 1999, p. 15). Como exemplo, retomamos de Skliar (1997) as considerações
sobre o binarismo latentes no campo da surdez para quem o binarismo atrela ao primeiro termo
à adequação à norma cultural e o segundo como existente apenas em oposição à norma e
inevitavelmente nela. Esses binarismos:

[...] estão atrelados à produção de uma oposição entre audição e visão: ouvinte/surdo;
maioria/minoria; oralismo/bilinguismo; ouvintismo/gestualismo; língua oral/língua
de sinais; cultura dos ouvintes/cultura dos surdos; ou, até mesmo, à oposição entre
diferença/deficiência. (RODRIGUES; BEER, 2016, p. 666).

Dado que esses binarismos são, a prioristicamente construções discursivas, sua adoção
na narrativização da condição da surdez como fato social pode impactar diretamente nas
práticas sociais das comunidades surdas e, mais ainda, na relação que se estabelece entre surdos
e ouvintes. Em vista disso, consideramos a pertinência de se ancorar em uma perspectiva de
estudo que se coloque como ciência engajada, a ADC, que assumimos como aporte teórico
metodológico deste trabalho a fim de compreender os discursos da aluna surda como um
momento das práticas sociais.

2 ANÁLISE DE DISCURSO CRÍTICA: UM MODELO TEÓRICO METODOLÓGICO


INTERDISCIPLINAR

Dada a perspectiva de que a ADC é uma abordagem interdisciplinar para estudos críticos
da linguagem como prática social, e que se propõe a subsidiar abordagens sociodiscursivas, que
buscam desvelar questões de poder e ideologia subjacente ao discurso (RAMALHO;
RESENDE, 2016, p. 14), ela se coloca como perspectiva pertinente para tratar dos discursos
sobre a surdez a partir da narrativização do surdo.

É habitual, definir a comunidade de surdos, como uma minoria linguística. Essa


descrição está baseada no fato de que a língua de sinais é utilizada por um grupo
restrito de pessoas as quais em uma definição tradicional deveriam viver uma situação
de desvantagem social, de desigualdade e participar de uma forma limitada na vida da
sociedade majoritária. (SKLIAR, 1999, p. 87).

Dada essa condição, a ADC aponta o caminho para a análise porque “teoriza em
particular a mediação entre o social e o linguístico” (SILVA, 2010, p. 110). Para a ADC, a
linguagem perpassa todos os níveis da vida social: estruturas (fixas), práticas (intermediária) e
eventos (flexíveis). Em linhas gerais, segundo Ramalho e Resende (2016, p. 17) constitui a
estrutura, o sistema linguístico; a prática social, a ordem do discurso e o evento, o texto. “O
conceito de prática social refere-se a uma entidade intermediária, que se situa entre as estruturas
sociais mais fixas e as ações individuais mais flexíveis” (RAMALHO; RESENDE, 2016, p.
16). A linguagem, neste caso, é entendida como “prática social e como instrumento de poder”
(RAMALHO; RESENDE, 2016, p. 13), manifestando-se nas relações sociais através dos
discursos individuais e coletivos.
Embora a ADC apregoe a existência de dois significados de discurso, cabe dizer que
discurso, aqui, refere-se a uma maneira mais particular de representar experiências vivenciadas
SEÇÃO LIVRE 215

no mundo (RAMALHO; RESENDE, 2016, p. 19). Tendo isso em mente, a análise se dará sobre
a forma como um sujeito surdo discursiviza sua experiência no/com o mundo.
Ainda sobre a posição do discurso em ADC, esse é determinado pelas estruturas sociais,
mas, ao mesmo tempo, tem efeito sobre a sociedade ao reproduzir ou transformar tais estruturas.
Assim, o discurso configura-se como a maneira de agir sobre o mundo e as/os outras/os e a
maneira de representar a realidade, o que pressupõe a manutenção de relações de poder e modos
de operação de ideologias, bem como transforma, constitui relações sociais e identidades
(FAIRCLOUGH, 2003).
Segundo Ramalho e Resende (2016), a ADC toma a linguagem como discurso,
entendido como um momento, uma parte, de toda prática social, como uma parte irredutível do
modo como agimos e interagimos, representamos e identificamos a nós mesmos, aos outros e
a aspectos do mundo por meio da linguagem. Os modos (agir, interagir, representar e
identificar) como o discurso se figura nas práticas sociais estão correlacionados com os três
principais significados do discurso, que são: significado acional, representacional e
identificacional. Estes significados estão ligados aos elementos de ordem do discurso que são
gêneros, discursos e estilos. Assim, tal como os elementos de ordens do discurso, os
significados do discurso exercem uma relação dialética e são internalizados uns pelos outros.
Para realizar a análise de discurso crítica é fundamental compreender a LSF, pois ela é,
de acordo Fairclough (2003), uma teoria que é voltada para a compreensão da relação entre a
linguagem e outros elementos constituinte da vida social, haja vista que o sistema social
representa e relaciona-se com as manifestações linguísticas implícitas e explícitas da prática
social. “Ela é voltada para a descrição da linguagem como uso em determinado contexto, pois
se entende que é o uso da linguagem que molda o sistema” (SILVA, 2010, p. 112). Ademais, é
a LSF que dará base para a descrição linguística e ADC através de categorias analíticas.
A LSF caracteriza-se como teoria semiótica preocupada com todas as manifestações e
usos da linguagem, buscando sempre desvendar como, onde, por que e para que o homem usa
a língua, assim sua grande preocupação é o significado e não a forma sendo, portanto, uma
teoria da comunicação humana, ainda assim, o significado é determinador da forma, pois
conforme a necessidade do falante em contextos específicos, as escolhas do uso da forma
expressam significado desejado (BARBARA, 2009).
Dessa forma, não se pode considerar o texto isolado do contexto, sua constituição
abrange os dois aspectos para a realização de análises pautando-se na metafuncionalidade.
Segundo Silva (2010), metafunções são denominadas ideacional, interpessoal e textual. Dentro
da LSF, a metafunção ideacional se constitui por uma transitividade que abrange processos,
participantes e circunstâncias, sendo processos os elementos lexicais; os participantes são
elementos que se associam a processos e as circunstâncias que exprimem modo, tempo etc. Já
os processos se dividem em material, relacional e mental, havendo ainda relação com instâncias
de experiências, que são ação e eventos, estado e relações abstratas com o mundo real e registros
mentais de nossas experiências anteriores5.
Os conceitos da LSF foram rearticulados por Fairclough a fim de subsidiar
linguisticamente a ADC. Assim, a LSF orientará a ADC na aplicação das categorias analíticas
que são provenientes de cada significado do discurso (acional, representacional e
identificacional). O significado identificiacional em ADC é um dos significados do discurso
(Fairclough, 2003) que estabelece relação dialética com outros significados: acional e
representacional. Segundo Ramalho e Resende (2016), o significado acional/relacional do
discurso é relativo a modos de (inter)agir discursivamente, a gêneros, os quais estão para além
de gêneros textuais, são antes gêneros discursivos “tipos de linguagem ligados a uma atividade
social particular” (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999, p. 63). O Significado

5
Para um estudo mais aprofundado, consultar Halliday (2004); Fuzer e Cabral (2014).
216 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

representacional está ligado a maneiras particulares de representar aspectos do mundo. É


associado a discursos considerados como “tipo de linguagem usado para construir algum
aspecto da realidade de uma perspectiva particular”.
Por sua vez, o significado identificacional é relativo à maneira de identificar(-se) e
associa-se a estilos. Chouliaraki e Fairclough (1999, p. 63), refere-se a estilo como o “tipo de
linguagem usado por uma categoria particular de pessoas e relacionado com sua identidade”,
corroborando a isso, Ramalho e Resende (2016, p. 52-53), afirma que estilos são maneiras de
identificar a si e a outros, o que pressupõe identidades sociais e individuais. Essas identidades
são modos de representar o mundo e interagir nele, a linguagem como discurso também é um
modo de identificar a si mesmo/a e a outrem.
Esse discurso de identificar a si mesmo e ao outro posiciona-se através de afirmações e
negações que ocorrem no campo discursivo e se manifestam nas relações e práticas sociais, pois
o tipo de linguagem usado em uma categoria particular de pessoas, “expressa, de alguma forma,
como essas pessoas se identificam e como identificam os outros” (RAMALHO; RESENDE,
2016, p. 67).
Segundo Fairclough (2003), a identificação é um processo complexo, devido haver
diferença entre aspectos pessoais e sociais, entre identidade social e personalidade. O autor
afirma que “a identidade não pode ser reduzida à identidade social, que parte significa que a
identificação não é um processo puramente textual, não somente uma questão de língua.” (p.
179). A comunidade surda possui identidade coletiva enquanto grupo de resistência que luta
contra a exclusão social, ainda assim, as identidades individuais são várias, pois abrangem a
diferença surda. Essas são, ainda, da ordem do gênero, da sexualidade, da classe social; entre o
surdo de família ouvinte e o surdo de família surda; entre o “surdo implantado” (uso de aparelho
auditivo) e “surdo não-implantado”. Portanto, a identidade surda é híbrida. Perlin (2013),
classifica as identidades surdas em identidade política, híbrida, flutuante, embaçada, de
transição, entre outras.
Para executar uma análise acerca das formas de identificação, a ADC estabelece
categorias de análise, entre elas: Avaliação, Coesão, Estrutura Genérica, Identificação
Relacional, Intertextualidade etc. Para proceder este estudo, faremos uso da categoria analítica
Avaliação. Conforme Ramalho e Resende (2016), essa categoria é moldada por estilos, no que
se refere a apreciações ou perspectivas do locutor, mais ou menos explícita, refletindo sobre
aspectos do mundo, avaliando em bom ou ruim, desejável ou não e assim sucessivamente. Essas
avaliações refletem a relação que o sujeito tem com o mundo do ponto de vista da atribuição de
valor, indicando que “o modo como as pessoas se expressam nos textos é uma parte importante
da maneira como elas se identificam, ou seja, a estruturação de identidades.” (FAIRCLOUGH,
2003).
A categoria avaliação pode ser materializada em quatro (4) traços textuais: declarações
com juízo de valor; declarações com modalidades deônticas; declarações com verbos de
processos mentais afetivos e pressuposições de valor.
Declarações com juízo de valor são, segundo Fairclough (2003), declarações que
exprimem o que se deseja ou não, o que é bom e o que é ruim. Em casos mais óbvios, elas se
apresentam sobre forma de processo relacional, onde o atributo (que pode ser um adjetivo ou
sintagma nominal, ou até mesmo o verbo) concentra o juízo de valor.
Antes de adentrar na questão dos dados, é importante mencionar que este estudo é de
natureza qualitativa. Esse tipo de pesquisa lança mão de diversos materiais empíricos, e em se
tratando de pesquisa em ADC, os textos são utilizados como principal material empírico
(RAMALHO; RESENDE, 2016, p. 75). Esse estudo faz parte de um projeto maior, vinculado
ao nosso grupo de pesquisa, que se debruça diante de estudos de grupos minoritários e seus
direitos, à luz da ADC. A comunidade surda, representa então o grupo de minoria linguística
ao qual investigamos. Assim, esse projeto maior que deu origem a esse trabalho, investiga os
SEÇÃO LIVRE 217

processos de escolarização, inclusão e identidades de pessoas surdas em escolas públicas do


munícipio.
Para isso, faz-se necessária a articulação entre a ADC e Etnografia. A etnografia tem
por objetivo, conforme Geertz (1989, p. 10), “o alargamento do universo do discurso humano”.
Magalhães, Martins e Resende (2017), pontuam sobre a importância de seguir uma abordagem
etnográfico-discursiva para o estudo do discurso. Pontuam também que é de suma importância
relacionar o texto ao contexto social e seus participantes para a compreensão textual. Isso
implica não perder de vista o papel do discurso na compreensão dos momentos da prática social.
Portanto, a ADC e a Etnografia podem assim, segundo Magalhães, Martins e Resende (2017),
ser complementárias para a coleta e a análise de dados. Essa relação de complementaridade é
articulada para a análise das práticas sociais de que os textos são parte.
O lócus da pesquisa para esse estudo foi uma escola de ensino regular, localizada no
município de Abaetetuba, no estado do Pará. Esta escola recebe pessoas surdas para estudarem
nas diversas turmas ofertadas regularmente. A pesquisa foi realizada em 2019 com 1 aluna
surda do 1° ano do ensino médio. A participante tem 19 anos, nasceu surda com perda bilateral
profunda, utilizou aparelho auditivo em algumas etapas de sua vida e aprendeu Libras como
sua língua materna quando era criança, língua que utiliza para sua comunicação e expressão.
Após o contato e apresentação da pesquisa, procedeu-se com a assinatura do termo de
consentimento livre e esclarecido, o qual foi aderido pela participante antes de iniciar a
entrevista.
A entrevista é utilizada aqui como ferramenta de coleta de dados. Após conseguir
agendar a entrevista individual, essa ocorreu em uma sala de aula da escola supracitada. Como
forma de registro, utilizou-se a gravação de vídeo. A entrevista ocorreu de forma tranquila, foi
conduzida totalmente em Libras entre participante e pesquisadora (usuária de Libras) com base
em um roteiro de perguntas. Na condução da entrevista, a estudante foi convidada a falar um
pouco sobre questões que perpassam a sua escolarização e convivência com as duas línguas.
Algumas das perguntas que direcionaram a análise foram: “Você conversa em Libras com
colegas e professores no espaço escolar? Explique como é a sua convivência”. “Fale um pouco
sobre como você aprende os conteúdos de Língua Portuguesa e sobre possíveis dificuldades”.
“Me fale um pouco sobre sua relação com a Língua Portuguesa, sobre o que você acha dela?”
Após a etapa da entrevista, fizemos a tradução de Libras para a Língua Portuguesa
escrita, a fim de compor o corpus. Assim, esse corpus da pesquisa é um texto escrito, exemplo
de prática discursiva e faz parte de uma prática social. Ademais, com base no texto gerado a
partir da tradução, extraímos algumas glosas, para fins de análise.
O modelo de análise a ser utilizado será o proposto pela Análise de Discurso Crítica.
Serão analisadas as categorias de análise textual proposta por Fairclough (2003), de acordo com
os significados do discurso (acional, representacional e identificacional). Desse modo, a
categoria analítica, Avaliação da ADC, e as descrições léxico-gramaticais da LSF nos darão
apoio para a análise de dados enquanto descrição linguística. Para Fairclough (2003), o discurso
conforma-se como um dos elementos da prática social, concebido como forma de
representação, ação e identificação. Assim sendo, investigar como a aluna surda avalia
discursivamente a Língua Portuguesa e a Libras no contexto de sala de aula, se torna
imprescindível.

3 VIVÊNCIAS SURDAS DO ENSINO DE LÍNGUA PORTUGUESA: A AVALIAÇÃO


EM PERSPECTIVA SURDA

Essa seção aborda a análise de dados que se referem às avaliações presentes nas
respostas advindas das perguntas sobre a relação da aluna surda com o ensino de Língua
Portuguesa. Essas avaliações nos permitem perspectivar a experiência do surdo a partir de sua
218 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

narrativização, tirando do centro a narrativa ouvintista dessa relação. Uma das perguntas
dirigidas a aluna foi: “Me fale um pouco sobre sua relação com a Língua Portuguesa, sobre o
que você acha dela?”. Em sua resposta, a aluna comentou sobre sua vivência em sala de aula,
relatando sua rotina. Apresentamos o excerto a ser analisado: (1) “Mais ou menos. Professor
oraliza, fala, fala, fala, eu olhar, fácil-não, difícil.”

Glosa em Libras
Fácil-não

Tabela 1 – Tradução para a Língua Portuguesa:

(Língua Portuguesa) não É Fácil

Portador Processo relacional Atributo

Fonte: Elaborada pelas autoras

O elemento avaliativo está no atributo “fácil”, que, na língua de sinais, como mostra a
glosa, é sinalizado “fácil-não”, assim é possível identificar o juízo de valor que a aluna atribui
à Língua Portuguesa, avaliando-o negativamente.
No mesmo excerto, temos uma outra declaração explícita, com juízo de valor: (2) “Mais
ou menos. Professor oraliza, fala, fala, fala, eu olhar, fácil-não, difícil.”

Glosa
Difícil
Atributo

Tabela 2 – Tradução

Língua Portuguesa É Difícil

Portador Processo relacional Atributo

Fonte: Elaborada pelas autoras

Novamente há um atributo (difícil) explícito que se aplica como um elemento avaliador


do portador (Língua Portuguesa), ratificando o juízo de valor atribuído à Língua Portuguesa.
Do ponto de vista da aluna surda, a Língua Portuguesa se apresenta como uma realidade
intangível e a oralização como algo incômodo e difícil dado que sua experiência com a aula de
Língua Portuguesa ocorre como uma violência simbólica a sua primeira língua, a Libras. Como
afirma Silva (2016), os discursos são resultados das diferentes perspectivas de mundo que cada
um possui, em vista do “lugar” em que se posicionam, ou são posicionadas, em seus contextos
sociais. São também resultados das relações sociais que são estabelecidas.
Isso pode ser percebido na avaliação que a aluna faz da Libras, quando a avalia em
termos de apreciação estética, indicando o prazer que é poder interagir por meio da Libras. (3)
“Ouvinte aprender desejar o que? Libras, muito linda, verdade.”

Glosa
LIBRAS, MUITO LINDA
SEÇÃO LIVRE 219

Tabela 3 – Tradução

Libras É Muito linda

Portador Processo relacional Atributo

Fonte: Elaborada pelas autoras

Aqui, temos uma afirmação feita pela aluna, agora a respeito da Libras. A declaração
foi feita em um contexto no qual ela expressava que fica feliz quando há interação e ajuda mútua
entre surdos e ouvintes e, desse modo, ouvintes sentem vontade de aprender a língua de sinais.
Nessa declaração, o atributo manifesta-se pelo adjetivo linda, fortalecida pelo advérbio muito.
Vale ressaltar que, na língua de sinais, são as expressões faciais que tem valor semântico
equivalente aos advérbios da língua oral. Constata-se, como afirma Fairclough (2003), que as
declarações com juízo de valor referem-se a algo que é desejado ou não, neste caso o desejo é
explícito nos sinais utilizados e estão relacionados à importância que se dá à Libras.
Para Fairclough (2003, p. 178), estilos refere-se ao aspecto discursivo das formas de ser,
das identidades. Quem somos parte de uma questão de como falamos, como escrevemos, assim
como é uma questão de incorporação. O processo de identificação envolve efeitos constitutivos
do discurso, ele deve ser visto como um processo dialético no qual discursos são inculcados em
identidades.
Logo as avaliações expressas pela aluna são baseadas nas suas percepções como pessoa
surda, tomando como parâmetro o modo como se identifica e como identifica determinados
aspectos do mundo, como a Libras, sendo possível compreender pelo discurso a afirmação
identitária que se desvela, pois as identidades se constituem discursivamente.
Para além das avaliações em termos de dificuldade e estética, outro tipo de avaliação
também presente no discurso da estudante se dá a partir de declarações com modalidade
deôntica, como mostra a seguir: (4) “Sim, achar. Mas, pessoa olhar, o que? Nome Língua
Portuguesa, como? Perguntar-responder. Chama surdo ouvinte, precisar ajuda-mútua,
interagir.”
De acordo com Ramalho e Resende (2016), as declarações com modalidade deôntica
são declarações ligadas a juízo de valor e podem avaliar aspectos do mundo em termos de
obrigatoriedade ou necessidade, como algo bom a ser feito. O excerto acima é referente à
resposta ao pedido da opinião da estudante sobre a importância ou não da Língua Portuguesa
para o convívio social do surdo. A tradução que se faz em Língua Portuguesa escrita, referente
à glosa acima é a seguinte: “[...]sim, eu acho. Mas, as pessoas surdas têm dúvidas sobre as
palavras em Língua Portuguesa, assim como ouvintes têm dúvidas em relação aos sinais, então
se chama um ao outro e se questiona sobre. É preciso que haja ajuda mútua, interação”.
Nesse sentido, a aluna avalia que precisa haver trocas, reciprocidade entre surdos e
ouvintes, marcando assim sua posição quanto ao aspecto do mundo (neste caso, a Língua
Portuguesa na relação social entre surdos e ouvintes) em termos de necessidade, corroborando
que o discurso de inclusão, baseado apenas na co-presença, não corresponde aos anseios por
espaço de atuação e interação do sujeito surdo.
Sobre a experiência subjetivo-afetiva, pode-se dizer que ela se manifesta, em grande
medida, a partir de declarações com verbos de processos mentais afetivos. Esse tipo de
declaração envolve processos mentais afetivos ligados a avaliações de caráter pessoal. Envolve
eventos psicológicos, indicam sentimentos, percepções, desejos e afeições (FUZER; CABRAL,
2004, p. 54). Nesse tipo de declaração, os participantes são tipicamente humanos ou coletivos
humanos que sentem, pensam, percebem, desejam. Por isso, a função léxico-gramatical que
desempenham na oração é denominada Experienciador. O complemento do processo que se
220 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

refere ao que é sentido, pensado, percebido ou desejado denomina-se Fenômeno (FUZER;


CABRAL, 2004, p. 54-55).
Nós seres humanos, fazemos relações entre traços de nossa experiência, ora por
identificação, ora por caracterização. Nesse sentido, a LSF, por meio da análise dos aspectos
léxico-gramaticais de enunciados, oferece uma contribuição importante para a compreensão da
constituição das identidades, das emoções e características sobre determinado aspecto do
mundo. Assim, na análise linguística do corpus, quando a aluna surda expressa a sua
experiência com a Língua Portuguesa, nota-se que os processos relacionais são fundamentais
para essa compreensão. Esses processos têm contribuição importante para identificar,
caracterizar, qualificar pessoas, coisas, bem como situações. Do mesmo modo, também são
importantes para atribuir pertencimento a determinados grupos sociais e posse. A observação
desse tipo de processo pode auxiliar na compreensão da constituição de identidades. E os
processos mentais contribuem para veicular emoções, pensamentos e desejos diante da
experiência com a Língua Portuguesa e a Libras.
O excerto abaixo é parte da fala da entrevistada e nele encontramos a ocorrência da
declaração com verbos de processos mentais afetivos. Vale ressaltar que a aluna surda já teve
contato com os sons ambientes através do uso de aparelho auditivo. (5) “Eu surda, não-gostar
ouvir, barulho, parar, não-ouvir, calma, bom, paz sentir.”

Tabela 4 – Tradução

Eu surda Não gostar Ouvir, barulho

Experienciador Processo mental Fenômeno

Fonte: Elaborada pelas autoras

A tradução da glosa corresponde a: “eu não gosto de ouvir barulho”. Ela expressa uma
avaliação de caráter pessoal e que diz respeito ao fenômeno “barulho”, “ouvir”, que são
avaliados negativamente. Deste modo, é possível compreender que o ato de “parar” corresponde
a retirada do aparelho auditivo, situação que permite à aluna sentir-se calma. Esse tipo de
avaliação deixa entrever que a surdez não é representada como um problema para o surdo,
mostrando que a construção da surdez como um “defeito”, “a falta de” é uma construção sócio-
histórica e cultural baseada apenas na cultura ouvintista, que estabelece, a partir da sua
hegemonia, parâmetros de normalidade que ferem o conceito de diferença que subjaz a
formação social coletiva.
Dar condições para que o surdo narrativize sua condição de ser/estar no mundo como
surdo permite entrever na linguagem aspectos da cultura surda que, discursivamente, opõem-se
a perspectiva ouvintista da surdez como deficiência ou falta de algum sentindo, que o torna
estranho ou problemático. Na perspectiva da aluna surda, o binarismo (surdo x ouvinte-normal
x anormal) perde o sentido e a hegemonia, de modo que o surdo não passa a existir a partir do
ouvinte, mas sim na possibilidade de convivência em cooperação, na construção da interação
entre esses dois sujeitos sociais.
As declarações feitas pela aluna surda sobre a sua relação com a Língua Portuguesa, a
aula de Língua Portuguesa e a convivência com sujeitos ouvintes estão relacionadas com a sua
identidade surda, que, de alguma forma, expressa positivamente ou negativamente avaliações
acerca de sua experiência sobre algum aspecto do mundo, neste caso, a sua experiência com a
Língua Portuguesa, tendo como parâmetro a língua de sinais que constitui sua identidade
linguística, pois a Libras se constitui como artefato cultural de afirmação identitária da
comunidade surda.
SEÇÃO LIVRE 221

4 CONSIDERAÇÕES FINAIS

A discussão que propomos neste trabalho serviu para mostrar como discursos são
inculcados em identidades na medida em que são avaliados aspectos do mundo, pois avaliá-los
permite desvelar identidades discursivamente constituídas. A análise dos dados demonstrou que
há construção negativa sobre a Língua Portuguesa e seu ensino e positiva sobre a Libras,
baseada na experiência da aluna surda em questão. Nesse contexto, a identidade que se desvela
se constitui a partir do reconhecimento de que a Libras é o artefato principal que caracteriza a
identidade cultural surda, por meio de uma afirmação linguística baseada na experiência visual
da aluna. Portanto, se afasta da perspectiva ouvintista sobre a surdez e da relação entre o surdo
e o ensino da Língua Portuguesa como sua segunda língua.
O processo de escolarização das pessoas surdas, no que se refere ao ensino da Língua
Portuguesa como segunda língua, necessita contemplar a identidade cultural do aluno surdo, de
modo a garantir o direito linguístico no espaço escolar, pois a Libras é sua língua de instrução.
A discussão mostrou como é importante a afirmação linguística identitária da pessoa surda para
assegurar melhores condições de acessibilidade na educação e demais aspectos da vida social.

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SEÇÃO LIVRE 225

PEDAGOGIA MATERIALISTA HISTÓRICO-CRÍTICA:


O CONTO LITERÁRIO COMO PROPOSTA DE ENSINO-APRENDIZAGEM DE
LÍNGUA MATERNA

Valdeci Batista de Melo Oliveira1


Francisco Pereira Smith Júnior2
André Boniatti3
Edina Boniatti4

RESUMO

O presente artigo intenciona discutir e trazer à tona ideias para o desenvolvimento de uma pedagogia
materialista histórico-crítica no âmbito das aulas de Língua Portuguesa, enfatizando questionamentos e
atividades a ser desenvolvidos no Ensino Fundamental II principalmente, mas que podem ainda ser
aplicados com variações em outras séries. Os textos escolhidos para análise e desenvolvimento de
sequência didática foram A festa no céu, conto tradicional do Brasil narrado por Luís Câmara Cascudo
e A raposa e as uvas, uma das fábulas de Esopo. Pensamos assim contribuir com o ensino de língua
portuguesa no Brasil e com o trabalho a partir de textos literários na América Latina, repercutindo as
vozes de uma pedagogia voltada à humanização, ao pensamento crítico e à reflexão acerca da
realidade que nos cerca. Para este estudo foram utilizados aportes teóricos de Labov (1997), Barthes
(1976) e Fiorin (2008).

Palavras-chave: Ensino de Língua Portuguesa. Literatura. Ensino Fundamental.

CRITICAL HISTORICAL MATERIALIST PEDAGOGY:


THE SHORT STORY AS A TEACHING-LEARNING PROPOSAL FOR THE
MOTHER TONGUE

ABSTRACT

1
Doutora em Letras (Literatura Portuguesa) pela Universidade de São Paulo (2007). Docente da categoria
associado professora associada do Curso de Letras da UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná -
campus de Cascavel. Docente do Programa Profletras - Mestrado Profissional em Letras e do Programa de Pós-
Graduação em Letras (PPGL) da Unioeste - Campus Cascavel - nível Mestrado e Doutorado.E-mail:
[email protected] Orcid: orcid.org/0000-0002-7623-4087.
2
Doutor em Ciências pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/UFPA) e realizando pós-doutoramento
em Estudos Comparados (UNIOESTE). Professor associado I da Universidade Federal do Pará, UFPA.
Professor do curso de Licenciatura integrada em Ciências, Matemática e Linguagens da Faculdade de Educação
Matemática e Científica do Instituto de Educação Matemática e Científica (FEMCI/IEMCI) e do Programa de
Pós-Graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia (PPLSA/ UFPA). Coordenador do Grupo de pesquisa de
Estudos de Letramento Literário e Formação Interdisciplinar (GELLIFI /UFPA). Coordenador do Grupo de
Estudos de Literatura Comparada do Nordeste Paraense (GELCONPE/UFPA). [email protected]. Orcid: 0000-
0002-6336-9249
3
Mestre em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2016). Doutorando na área de Letras –
Linguagem e Sociedade – com enfoque em Estudos Literários pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná –
Programa de Pós-Graduação em letras (PPGL) - (2018-2022). Professor colaborador do Curso de Letras
UNIOESTE-Cascavel. Doutorando do Programa de Pós-Graduação Institucional em Letras da UNIOESTE-
Cascavel, dramaturgo, escritor, desenhista. E-mail: [email protected]. Orcid: orcid.org/0000-0003-2227-
1613.
4
Mestre em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2007). Doutoranda na área de Letras –
Linguagem e Sociedade – com enfoque em Estudos Literários pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná –
Programa de Pós-Graduação em letras (PPGL) - (2020-2024). Professora Quadro Próprio do Magistério do
Estado do Paraná. E-mail: [email protected]. Orcid: orcid.org/0000-0003-3681-2951.
226 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

This article intends to discuss and bring up ideas for the development of a historical-critical materialist
pedagogy within the Portuguese language classes, emphasizing questions and activities to be
developed in Elementary School, but which can be applied with variations in other grades too. The
texts chosen for analysis and development of the didactic sequence were A Festa no Céu (The party in
the Sky), a traditional Brazilian tale narrated by Luís Câmara Cascudo andThe fox and the grapes, one
of Aesop's fables. Thus we intend to contribute to the teaching of Portuguese language in Brazil and
with the literature`s teaching in Latin American`s Elementary School, reflecting the voices of a
pedagogy focused on humanization, critical thinking and reflection on the reality that surrounds us.
For this study, we used the theoretical contributions of Labov (1997), Barthes (1976) e Fiorin (2008).

Keywords: Portuguese language teaching. Literature. Elementary School.

Data de submissão: 04.05.2021


Data de aprovação: 16.05.2021

INTRODUÇÃO

Um acontecimento ou uma situação vivida pelo entrevistado não pode ser


transmitido a outrem sem que seja narrado. Isso significa que ele se constitui (no
sentido de tornar-se algo) no momento mesmo da entrevista. Ao contar suas
experiências, o entrevistado transforma aquilo que foi vivenciado em linguagem,
selecionando e organizando os acontecimentos de acordo com determinado sentido.
Esse trabalho da linguagem em cristalizar imagens que remetem a, e que significam
novamente, a experiência é comum a todas as narrativas […] (ALBERTI, 2003, p.1)

Ensinar e aprender a contar, a ler e a escrever textos narrativos no ensino fundamental


pode ser atividade gratificante tanto para quem ensina, quanto para quem aprende. O elemento
primordial que não pode faltar na consecução dessa atividade é a profunda relação havida
entre a vida narrada no texto a ser lido e a vida factual vivida pelo aluno e pelo professor, pois
narrar é viver duas vezes (uma no plano da realidade e outra no plano da interpretação da
realidade, de sua memória, ou fantasia etc., enfim, no plano da contação, da narrativa). E
todos nós humanos precisamos de mais vida, já que segundo Paulo Freire “a vocação
ontológica do ser humano é ser mais”, e não menos (FREIRE, 2014, p. 19). Acrescente-se que
todas as formas de vida neste planeta enfrentam muitos limites, percalços e lutas. A respeito
disso, o poeta russo Maiakóvski lamenta a condição humana ao dizer de forma poética:
E sinto que
"eu"
pra mim é pouco.
alguém foge de mim como um louco (MAIAKÓVSKI, 1956, n.p).5

Outro poeta, o português Fernando Pessoa (2019), afirma: “A literatura, assim como a
arte, é uma confissão de que a vida não basta.” (PESSOA, 2019)6 Para o humano que vive ou
já viveu neste planeta, a vida basta ou já bastou? Na história da humanidade, desde os tempos
das figuras nas cavernas rupestres, que podem ser lidas como uma confissão do desejo de
continuidade e de ir, por meio da arte, além de si, percebemos que a vida – mesmo a desses
homens primários – não basta, seja para o humano mais afortunado, para reis e rainhas, seja
para os mais desgraçados.

5
MAIAKOVSKI, Vladímir. Maiakovski. Antologia Poética. Trad. E. Carrera Guerra. Max Limonad, 1956.
6
PESSOA, Fernando. Impermanence. In: Arquivo Pessoa. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/3582.
Acesso em: 03 out. 2019.
SEÇÃO LIVRE 227

Acerca disso, o poeta francês Alphonse de Lamartine, por sua parte, expressa no
poema “L’Homme”7 as suas angústias a respeito da condição humana dizendo que:

Infinito em seus desejos, limitado em sua condição


O homem é um deus tombado que sonha com os céus:
Ou, deserdado de sua glória antiga,
De seus destinos perdidos, ele guarda a memória;
Ou por seus desejos a imensa profundidade
Anuncia de longe sua futura grandeza,
Imperfeito ou caído, o homem é o grande mistério (LAMARTINE, 1860, n.p)8.

Nesse sentido, a narrativa é uma forma vicária de vida em cujo périplo os humanos
dilatam o tempo de sua existência no mundo, vivendo – mediante ao relato das experiências
das personagens – mais vidas, buscando “seus destinos perdidos”, anunciando “sua futura
grandeza”, elaborando, por fim, projeções que tornem menos nebuloso o “grande mistério”
que envolve a existência. Desse modo, a narração nos leva a viver ações e interações da vida
mais de uma vez, pois segundo Fiorin (2008) “a narrativa é um simulacro da ação do homem
no mundo”, (FIORIN, 2008, p. 248). E se agimos no mundo, as mais das vezes, agimos em
busca de algo que nos falta ou para proteger algo ou alguém valioso para nós, ou para nos
livrarmos de algo que nos incomoda, ou de algum obstáculo que impede a realização da nossa
vocação ontológica de ser mais. Tanto o contador/narrador quanto o ouvinte/leitor, ao
ouvirem/lerem uma narrativa, tomam posse da ação praticada por outrem e ganham uma
experiência a mais em suas vidas.
Levando isso em consideração, neste artigo, os objetivos se voltam para a elaboração
de propostas metodológicas que visem a aplicabilidade de uma pedagogia materialista
histórico-crítica no âmbito das aulas de Língua Portuguesa e coloque em destaque elementos e
categorias estruturais que compõem o texto narrativo. Entre os teóricos da ciência da
narratologia que auxiliarão as discussões aqui presentes estão Labov (1997), Barthes (1976),
Barros (2005), Fiorin (2008). A ênfase recai sobre questionamentos e atividades cujo
desenvolvimento objetiva o trabalho pedagógico no Ensino Fundamental II principalmente,
porém nada impede que sejam aplicados em outras séries com as alterações necessárias.
Tendo como motivação atividades lúdicas e prazerosas, os textos escolhidos, para análise e
desenvolvimento da sequência didática, foram A festa no céu (2019), conto tradicional do
Brasil narrado por Luís Câmara Cascudo e A raposa e as uvas (1848), uma das fábulas de
Esopo. Obviamente que são diversos os entraves à consecução satisfatória da atividade
pedagógica sobre o ensino de narrativas. Logo, este estudo pretende apontar como superar
alguns deles a partir do trabalho com textos narrativos da América Latina, repercutindo as
vozes de uma pedagogia voltada à humanização, ao pensamento crítico e à reflexão acerca da
realidade que nos cerca.

1 BURLAR O IMPOSSÍVEL, NARRATOLOGIA E ASPECTOS TEÓRICOS

7
Alphonse de Lamartine “ L’Homme” Œuvrescomplètes de Lamartine, Chez l’auteur, 1860, 1 (p. 77-86).
file:///C:/Users/valdeci.oliveira/Downloads/%C5%92uvres_compl%C3%A8tes_de_Lamartine_(1860)_Tome_1_
L%E2%80%99Homme.pdf)
8
Bornédanssanature, infinidanssesvœux,
L’homme est undieutombéqui se souvientdescieux.
Soit que, déshérité de sonantiquegloire,
De sesdestinsperdusilgardelamémoire;
Soit que de sesdésirsl’immenseprofondeur
Lui présage de loinsa future grandeur,
Imparfaitoudéchu, l’hommeest le grand mystère.
228 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Tentar burlar a incapacidade própria ou o impossível, eis um motor que move os


corações humanos e que os leva à descoberta, à emancipação e ao progresso em diversos
sentidos. Tal é o que impulsiona o alfaiate Franz Reichelt, como mostra as imagens abaixo, a
aventurar-se da Torre Eiffel, a 04 de fevereiro de 1912, com uma roupa que acreditava fazê-lo
capaz de voar, cumprindo queda livre até seu trágico desfecho.
A necessidade de irmos além do que a vida nos possibilita, ou seu revestimento em
face de possibilidades ainda não concretizadas, acompanha o ser humano desde a priscas eras.
Basta olhar os desenhos encontrados em cavernas para vermos neles acenos de narrativas,
mediante representações abstratas, ou interpretações artísticas referentes ao sonho de dilatar o
vivido em registros de imagens que permanecem no tempo e nas memórias. Assim, ao dilatar
o vivido no ato de narrar ressignificamos nosso passado, damos sentido ao nosso presente e
protejamos o nosso futuro, voltando-nos para nós mesmos e para a nossa trajetória no mundo.
Ao discorrer sobre tragédia, Aristóteles (1998) fala em “entrecho”, como “mythos”,
“trama”, “enredo”, “conflito” “entrecho” no sentido de composição das ações dos elementos
participantes da narrativa trágica, mas que podem ser estendidos a toda tipologia narrativa
como uma forma de composição e de articulação dos elementos participantes que compõem o
desenrolar da ação narrativa, tais como: sujeito do desejo; objeto do desejo; ágon;
protagonista e antagonista; peripécias; tempo; espaço; personagens secundários; narrador e
focalizador; clímax, desfecho/desenlace que entram na composição da ação, conforme
Aristóteles, e são necessários à consecução do discurso narrativo. Alargando as proposições
de Aristóteles, Barros (2005) afirma que as narrativas contêm uma sintaxe própria: “a sintaxe
narrativa deve ser pensada como um espetáculo que simula o fazer do homem que transforma
o mundo” (BARROS, 2005, p. 20). Para que o ouvinte ou leitor possa atribuir sentidos a esse
espetáculo e, por meio desses sentidos, construa um avatar na sua mente, encenando-o, é
preciso descrevê-lo e essa descrição deve ir para além de determinar seus participantes e o
papel que eles representam. Barros fala em duas concepções de narrativa que se
complementam.

Narrativa como mudança de estados, operada pelo fazer transformador de um sujeito


que age no e sobre o mundo em busca de valores investidos nos objetos; narrativa
como sucessão de estabelecimentos e de rupturas de contratos entre um destinador e
um destinatário, de que decorrem a comunicação e os conflitos entre sujeitos e a
circulação de objetos (BARROS, 2005, p. 20).

Vemos então que no discurso narrativo há uma busca em torno do objeto, de modo que
o sujeito do desejo direciona seu olhar movido pela procura de um valor e nessa procura ele
revela os contratos que estabeleceu ou com que rompeu ao interagir com os outros que vivem
a vida social em comum. Segundo Barthes (1976),
“[...] inumeráveis são as narrativas do mundo. Há em primeiro lugar uma variedade
prodigiosa de gêneros, distribuídos entre substâncias diferentes como se toda
matéria fosse boa para que o homem lhe confiasse suas narrativas: a narrativa pode
ser sustentada pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem fixa ou
móvel, pelo gesto ou pela mistura ordenada de todas estas substancias; está presente
no mito, na lenda, na fabula, no conto, na novela, na epopeia, na história, na
tragédia, no drama, na comédia, na pantomima, na pintura, no vitral, no cinema, nas
histórias em quadrinhos [...]. Além disto, sob estas formas quase infinitas, a
narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as
sociedades; a narrativa começa com a própria história da humanidade; não há em
parte algum povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os grupos têm suas
narrativas” (BARTHES, 1976, p.19-20).

E Barthes continua dando destaque à narrativa quando afirma.


SEÇÃO LIVRE 229

...a narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as


sociedades; a narrativa começa com a própria história da humanidade; não há, nunca
houve em lugar nenhum povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os grupos
humanos têm as suas narrativas, muitas vezes essas narrativas são apreciadas em
comum por homens de culturas diferentes, até mesmo opostas: a narrativa zomba da
boa e da má literatura: internacional, trans-histórica, transcultural, a narrativa está
sempre presente, como a vida (BARTHES, 1976, p. 103-104).

Mas se narrativa é tudo isso – e muito mais que isso – há que se ter sempre o cuidado
para que, na escola, o trabalho com ela não se torne uma atividade enfadonha, sem graça, sem
vida, distante do aluno, já que constitui um gênero discursivo essencial a ser trabalhado em
âmbito escolar, especialmente no Ensino Fundamental. Se aos professores de Língua
Portuguesa do Ensino Fundamental I e II cabe parte da tarefa de ensinar os alunos a contar, a
ler e a escrever textos narrativos, é, pois, necessário zelar para que essa atividade não se
esvazie de sentidos.
Assim, ao começarmos a apresentação das propostas metodológicas, é importante nos
lembrarmos de que, conforme Labov (1997), não há narrativa sem reportabilidade, ou seja, é
próprio do discurso narrativo, do ato de narrar alguma ação ou alguma situação à remissão
direta a uma reportagem, no sentido de que o narrar traz inevitavelmente para a cena um
acontecimento que merece ser contado porque foge do habitual. Há inúmeros fatos que não
são contados por que são por demais comezinhos, ou porque eles não encontraram um
narrador que notasse neles algum grau de reportabilidade. E o que é digno de reportagem para
os humanos? Tudo aquilo que envolve luta, conflito, demanda, necessidade, carência. Isso
porque nas narrativas é que sentimos viver a passagem do tempo, o antes e o depois, a partir
da estaticidade da situação inicial, em que o protagonista, como sujeito do desejo, apresenta o
seu objeto do desejo, que se constitui numa demanda/necessidade/carência; ou seja, aquilo
que falta para se ser o que se quer ser ou aquilo que se precisa para tornar-se ou para continuar
a ser o que se é. E, a partir desse ponto estático, dá-se início ao movimento, à dinamicidade do
ir-se buscar o que falta. Literalmente, do grego, o termo protagonista quer dizer “aquele que
carrega o seu ágon (luta/conflito/jogo). Logo, para entrar em conjunção com o objeto do seu
desejo – que pode ser, por exemplo, uma sombra, ou um copo de água para alguém morrendo
escaldado e sedento num deserto – o protagonista precisa ir à luta. Nesse sentido, se fosse o
caso de alguém estar com sede e dispor imediatamente de um copo d’água para tomar, não
teríamos narrativa, e sim um simples relato, porque não há conflito, luta, ágon; enfim,
reportabilidade.
De tal forma, a narrativa intercala estaticidade e dinamicidade. Na situação inicial,
temos a estaticidade, a apresentação do contexto, do cenário onde se desenrolará a história, as
situações de estado do protagonista e das pessoas que ali atuarão. Para haver
movimento/dinamicidade/cinesia, é preciso que o protagonista/sujeito do desejo assuma seu
ágon e vá à luta para obter o objeto do desejo com o qual precisa entrar em conjunção para
superar sua necessidade/carência e ser. Esse movimento rompe a estaticidade e instaura a ação
responsável por modificar a situação inicial. Geralmente, nas narrativas infanto-juvenis, essa
passagem pode vir marcada por uma das diversas conjunções adversativas. Assim se coloca a
questão de junção. O protagonista precisa entrar em conjunção, ou seja, comunhão com aquilo
de que precisa ou entrar em disjunção, ou seja, se ver livre daquilo que o impede de ser o que
ele deseja, pois nem sempre conseguimos aquilo de que precisamos para sermos mais do que
somos ou para continuarmos a ser o que somos.

2 PROPOSTAS DE APLICAÇÃO
230 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Iniciamos pelo conto A festa no céu, cuja situação inicial é a de pássaros fazendo
grande propaganda e alvoroço porque foram convidados para ir a uma festa que ocorrerá no
céu (Figura 1).

Figura 1 – Giz pastel macio sobre papel Canson tamanho A2

Fonte: Arte criada por André Boniatti.

Entre todas as aves, espalhou-se a notícia de uma festa no Céu.


Todas as aves compareceriam e começaram a fazer inveja aos animais e outros
bichos da terra incapazes de voo. Imaginem quem foi dizer que ia também à festa...
O Sapo! Logo ele, pesadão e nem sabendo dar uma carreira, seria capaz de aparecer
naquelas alturas.
Pois o Sapo disse que tinha sido convidado e que ia sem dúvida nenhuma.
Os bichos só faltaram morrer de rir. Os pássaros, então, nem se fala!
O Sapo tinha seu plano. Na véspera, procurou o Urubu e deu uma prosa boa,
divertindo muito o dono da casa. Depois disse:
- Bem, camarada Urubu, quem é coxo parte cedo e eu vou indo, porque o caminho é
comprido. O Urubu respondeu:
- Você vai mesmo?
- Se vou? Até lá, sem falta!
Em vez de sair, o Sapo deu uma volta, entrou na camarinha do Urubu e, vendo a
viola em cima da cama, meteu-se dentro, encolhendo-se todo.
O Urubu, mais tarde, pegou na viola, amarrou-a a tiracolo e bateu asas para o céu,
rru-rru-rru...
Chegando ao céu, o Urubu arriou a viola num canto e foi procurar as outras aves.
O Sapo botou um olho de fora e, vendo que estava sozinho, deu um pulo e ganhou a
rua, todo satisfeito.
Nem queiram saber o espanto que as aves tiveram, vendo o Sapo pulando no céu!
Perguntaram, perguntaram, mas o Sapo só fazia conversa mole.
SEÇÃO LIVRE 231

A festa começou e o Sapo tomou parte de grande.


Pela madrugada, sabendo que só podia voltar do mesmo jeito da vinda, mestre Sapo
foi-se esgueirando e correu para onde o Urubu se havia hospedado.
Procurou a viola e acomodou-se, como da outra feita.
O sol saindo, acabou-se a festa e os convidados foram voando, cada um no seu
destino.
O Urubu agarrou a viola e tocou-se para a Terra, rru-rru-rru...
Ia pelo meio do caminho, quando, numa curva, o Sapo mexeu-se e o Urubu,
espiando para dentro do instrumento, viu o bicho lá no escuro, todo curvado, feito
uma bola.
- Ah! camarada Sapo! É assim que você vai à festa no Céu? Deixe de ser confiado...!
E, naquelas lonjuras, emborcou a viola. O Sapo despencou-se para baixo que vinha
zunindo. E dizia, na queda:
- Béu-Béu! Se desta eu escapar, nunca mais bodas no céu!...
E vendo as serras lá embaixo:
- Arreda pedra, senão eu te rebento!
Bateu em cima das pedras como um genipapo, espapaçando-se todo. Ficou em
pedaços.
Nossa Senhora, com pena do Sapo, juntou todos os pedaços e o Sapo voltou à vida
de novo.
Por isso o Sapo tem o couro todo cheio de remendos (CASCUDO, 2019, n.p).9

Como apenas eles (os pássaros) podem voar, a divulgação da festa visa mesmo causar
despeito; inveja; ressentimento e indiferença nos bichos que não poderão ir, por não poderem
voar. Eis aí um belo exemplar de “tentação do impossível”. Mas um sapo “sabido”, ao saber
da festa no céu, deseja dela participar. Temos aqui na figura do sapo o actante sujeito do
desejo e, na festa no céu, o actante objeto do desejo, e, além do mais, no fato de que ele – por
ser um sapo – não dispõe do poder de voar, temos o oponente do desejo, ou antagonista, que
se opõe à realização do desejo do protagonista o sapo. Assim, o animal tem o querer, mas não
tem o saber. E se não tem o saber, não tem o poder; portanto, não pode fazer, nem ser, pois
não tem conjunção com aquilo que deseja.
Mas o sapo começa a alardear que também irá à festa no céu. E, como ele era um sapo
sabido, sabe encontrar na esperteza uma saída: enganar o urubu, então se esconder no espaço
que há dentro da viola é a solução. Com essa estratégia, ele ganha o poder de ir até à festa no
céu. Logo, vemos que nessa narrativa, assim como em outras, temos duas forças contrárias: O
protagonista e o antagonista. Numa narrativa, esse embate entre protagonista e antagonista
pode ter um round apenas ou diversos rounds, dependendo das forças dos combatentes. Um
exemplo bem banal: se for alguém tentando fazer regime, pode ser que a gula vença alguns
rounds e a necessidade de emagrecer vença outros. Se a pessoa consegue emagrecer é porque
ela venceu seu antagonista que era a gula. Essa luta vale para o etilismo, drogadição e outras
dependências das quais o protagonista precisa entrar em disjunção, pois elas se constituem
naquilo que o impede de ser. Como se nele mesmo morassem o protagonista e o antagonista,
abraçados na luta perpetua que Sá de Miranda efabulou no belíssimo poema narrativo,
chamado “Comigo me desavim”10. Do embate entre essas forças sairá um vencedor e um
perdedor.
9
CASCUDO, Luís Câmara. A festa no céu (1848) In: Portal do professor. Acesso em:
http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=27371. Acesso em: 03 out. 2019.
10
Cantiga “Comigo me desavim”, de Sá de Miranda:
Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia,
Antes que esta assicrecesse:
Agora já fugiria
232 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Entretanto, por que o sapo queria também ir à festa no céu? Podemos interrogar por
vários motivos: Sedução? Complexo de inferioridade em relação às aves? Curiosidade e
vontade de conhecer o céu? Gulodice, já que em festa há muita comida, o sapo poderia sonhar
com encher a barriga de quitutes, matar a fome, interagir, se exibir? No caso do sapo, parece
que todos esses motivos são motor da ação. Na verdade, são questões postas à descoberta da
interpretação do leitor, algumas implícitas, que ficam abertas até o fim e podem ser
preenchidas pela recepção. E aqui está um ponto importante para o trabalho com o texto
narrativo em sala de aula, fazer com que o aluno participe desse conflito, compreenda-o com
seus olhos, produza texto acerca do que se lhe apresenta aos olhos, e como fazer isso?
Levando-o a se colocar no lugar do sapo, ou em situações análogas.
Sobre o período que conclui o parágrafo acima, vale voltarmos a dois aspectos.
Barthes (1976) salienta que obra (no caso um texto fonte de discussões, elevado de uma
maneira ou outra – pela própria persistência no tempo talvez) é aquela que produz texto. Ou
seja, uma obra literária – agora centremo-nos na literatura – produz discussão, produz
resposta, reportabilidade, como em Labov, produz outras obras. Ela repercute, por isso não
morre. E o problema em ela ser bem recebida em sala de aula, no caso de nossa preocupação
neste artigo, é o de que os alunos possam, ou mais, sintam-se instigados a produzir texto
acerca dela. E para isso é necessário que eles sejam capazes de visualizá-la (que ela se
apresente aos seus olhos, visual e sensivelmente). Se o texto descreve e narra em face de
produzir imagens, ou mesmo de resgatá-las ao passado, é necessário que quem entre em
contato com narrativas seja capaz de percebê-las em sua imaginação, ou não haverá
compreensão, muito menos prazer estético. Para tanto, faz-se necessário que o professor, ao
assumir o papel de “ensinar” narrativas, primeiramente goste de lê-las e sinta desejo de
compartilhá-las. Pelos olhos do professor, assim, os alunos serão capazes de ver. Ou melhor,
não é papel do professor mostrar, mas fazer ver. Como? Lendo antes diversas vezes, até
conseguir dar a entonação necessária à história. Muita gente lê tão sem graça, como se fosse
um “ford velho” numa subida monótona e enfadonha. Leitura é vida e ela começa pelos
professores. Os professores devem primeiro eles mesmos lerem em voz alta as histórias para
os alunos. Uma, duas, três vezes ou mais. Ler contando com entusiasmo, compreensão e
entonação. Gesticulando e, se possível, imitando vozes, convidando a imitar – os alunos –
animais, a participar da festa. Apenas com visada lúdica, de uma maneira lúdica. Na
brincadeira se pode fazer muita coisa séria. As propostas feitas aqui estarão mortas, sem essa
leitura engajada do professor. Na sequência das atividades, os alunos começam a ler diversas
vezes em silêncio e em voz alta.
Depois que os alunos se apoderaram da narrativa, seria muito bom ativar a imaginação
(recurso mnemônico) dos alunos para a plasticidade da imagem, propondo a criação de
cartazes, recontagem em quadrinhos, pôsteres, desenhos diversos. Evitando, algumas vezes,
de mostrar-lhes ilustrações, para ativarem a capacidade de eles mesmos representarem as
histórias, cenários e personagens. Perceba-se que algumas histórias estão abertas à
diversidade. Por exemplo, qual a cor ou a espécie dos pássaros (afora o que esteja indicado no
texto)? De que espécime de sapo se está falando? O próprio instrumento musical, como é ele?
Depende do espaço geográfico e cultural em que a criança, ou adulto, vive, esta fará suas
escolhas (pré-determinadas, contudo). Por isso é que se faz necessário também deixar com
que os alunos pensem por si, narrem suas próprias histórias da vida cotidiana, porque é assim
que passará a compreender a narrativa como um processo estético e próprio da diversidade.

De mim, se de mim pudesse.


Que meo espero ou que fim
Do vão trabalho que sigo,
Pois que trago a mim comigo
Tamanho imigo de mim?
SEÇÃO LIVRE 233

Assim, no esforço de eles mesmos contarem e, subsequentemente, no esforço em ouvir o


outro contar, compreenderão o processo inato de decodificação da narrativa em imagens,
próprio da condição e capacidade humanas, a partir do interesse sobre o outro e da tentativa
de fazer-se entender.
Vemos então que o texto narrativo, após decodificado, suscita muitas reflexões. A
primeira foi acima exposta e, claro, pode ser proposta ao debate pelo próprio professor, que
não limitará as respostas, a não ser ao nível da verossimilhança necessário ao entrecho. E
poderíamos ainda perguntar: Por que os outros animais riram do sapo? Esse sapo era um sapo
metido e gabola? Ou ele gostava de festa e essa festa tivera muita divulgação? Você já riu de
alguém que não pode fazer alguma coisa, embora quisesse? E você: já quis fazer alguma coisa
e não pode? Como essas questões entramos na vida, no querer dos alunos e os ajudamos a
perceber quantas vezes foram sapos querendo ir às festas no céu. Conseguiram? Não
conseguiram? Por quê? O que ganharam e o que perderam nesse querer? Ou apenas
quiseram, sonharam e ficaram querendo, sem pensar em modos de efetivar, de lutar para
realizar seus desejos? E se quisermos ir além: que sentimentos resultam dessa ação de querer,
mas não empreender luta para se tomar posse do que se quer? É possível para algum ser
humano realizar todos os seus desejos e tomar posse de tudo que se quer?
É claro que a interação do professor com os alunos deve esquivar-se ao máximo de
inculcar nestes os seus valores morais. O texto não serve à moralidade, senão para pôr a
mesma em debate, para suscitar reflexões subjetivas. Os alunos devem ser livres para pensar,
sempre em face da verossimilhança e da coerência, elementos a serem questionados pelo
professor. Contudo, conduzir a uma interpretação única porque nela se crê é vezo
indefensável. Deve ser levado em conta o capital cultural do aluno, quais são seus
conhecimentos de mundo. Lembremos de que o texto não pode ser pretexto para uma
didática moral, ou moralizante. É por tal motivo que, antes de qualquer questionamento, o
aluno deve ser conduzido a fruir a diversão que o texto propõe, o prazer do ouvir, do ler, do
conhecer, o prazer plástico do ver e do sentir e de viver a experiência de outrem como se lhe
fosse própria. Depois, deve ser orientado a buscar dentro de si e de sua realidade uma
interpretação para os problemas suscitados pelo ágon vivido pelo sapo. Pôr em debate a
interpretação entre pares de idade e escolaridade similar é frutificante, mas impor conceitos
por preceitos nossos seria o mesmo que destruir a fruição do texto para esse aluno, que
perderá o desejo de ler a obra, pois foi incapaz de produzir, a partir dela, um texto.
Depois, mesmo interdisciplinarmente, podemos propor outras inferências, instigando
os discentes a estabelecer relações e a desenvolver novos conteúdos: se não tem o poder para
voar, como o sapo encontra a saída? Faz uso de um saber, esperteza, técnica, ou de uma
prótese (a viola e as asas do urubu) para chegar até os céus? Nós humanos também não
voamos, iguais ao sapo? O que fizemos para voar? Porque sentimos inveja mesmo de um
pequeno pardalzinho, por ser ele capaz de voar? Imagine-se, antes do avião, quantas pessoas
sonharam voar. Quais os custos da realização desse sonho?
Podemos avançar ainda aos campos da pesquisa: como ir para os céus já foi muito
perigoso, é possível propor pesquisar, por exemplo, o que acontecia com os aviadores quando
os aviões não tinham cabine pressurizada? Ou se os discentes conhecem a história da cachorra
russa Laika, que foi para o céu numa espaçonave? Lançando para a ordem pessoal, as
questões podem percorrem o seguinte caminho: como você faz para conseguir alguma coisa
que quer e não pode? Desiste e faz como a raposa da fábula A raposa e as uvas, que será
apresentada na sequência? Não desiste e enfrenta os maiores obstáculos para conseguir o que
quer? Mas e se o que você quer estiver muito além das suas forças de atuação no mundo?
Em A raposa e as uvas, o ágon resolve-se, diversamente de n’A festa do céu, por meio
da desistência, visto a incapacidade (o não saber) que a raposa demonstra em persistir no
problema. A fábula, escrita por Esopo, é a seguinte (Figura 2):
234 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

Figura 2 – Giz pastel seco e lápis de cor aquarelável sobre papel Canson tamanho A4

Fonte: Arte criada por Marianna Bernartt.

Uma Raposa, aproximando-se de uma parreira, viu que ela estava carregada de uvas
maduras e apetitosas. Com água na boca, desejou-as comer e, para tanto, começou a
fazer esforços para subir até elas. Porém, como estivessem as uvas muito altas e
fosse muito difícil a subida, a Raposa tentou mas não conseguiu alcançá-las. Disse
então:
- Estas uvas estão muito azedas e podem desbotar os meus dentes; não quero colhê-
las agora porque não gosto de uvas que não estão maduras.
E dito isso, se foi (ESOPO, 1848, n.p).11

A desculpa que a raposa encontra, como que para convencer-se a si mesma, é


demonstrativo de pessoas que pouco se dedicam, preguiçosas ou desleixadas, que preferem as
coisas fáceis e desistem sem hesitar do que possa exigir delas um tempo maior de dedicação.
Sua recusa às uvas encontra-se com a recusa dos seres humanos em aprender, aprimorar suas
capacidades mediante a reflexão e o teste, a aplicação. É uma boa deixa para preocuparmo-
nos, junto aos discentes, em refletir sobre a prática dos próprios alunos.
No âmbito do plano didático em sala de aula, hoje não há mais a hesitação em
entendermos a aprendizagem – e todo o seu processo – como um projeto espiralado. Quando
pensamos em PPCs e planos docentes, temos de levar em conta que os conteúdos não se
resolvem por si, isoladamente. Eles formam um conjunto. E se é método pedagógico pensar a
interdisciplinaridade (como apontado nos questionamentos acima, na análise de A festa do

11
As Fábulas de Esopo. Adaptação: Joseph Shafan Baseado na edição em língua portuguesa: "Fabulas de
Esopo - com aplicações moraes a cada fabula" - 1848 - Paris, Typographia de Pillet Fils
Ainé.http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ea000378.pdf.
SEÇÃO LIVRE 235

céu, questionando-se elementos exofóricos, implícitos no texto, que adjungem a outros


campos de conhecimento), é de suma relevância ainda atentarmo-nos para o fato de que o
conteúdo proposto em currículo deve ser inter-relacional. Ou seja, não trabalhamos com
elementos indispostos uns em relação aos outros, mas com quebra-cabeças, que, quando bem
dispostas as peças, complementam-se de maneira acessível e facilitadora para o aprendizado.
Por isso, criou-se a noção de sequência didática.
A sequência didática pressupõe em si a aquisição de conteúdo como um movimento
em espiral, em idas e voltas. O problema da escola, explícito em seu sistema e
incompreendido pelos, ou mal explicado aos, docentes, em grande monta, está em se querer
resolver os conteúdos como se fossem momentos distintos da aprendizagem, separados em
caixas, empacotados, cozidos, servidos e lançados ao léu logo após, como exigência de um
sistema burocrático em que conta conteúdo ensinado, não assimilado. Os conteúdos devem,
no entanto, circular pela sala de aula durante os anos, em idas e voltas. É óbvio que devem ser
elencados conforme a maturidade dos alunos, mas seu avanço deve ser previsto em
sequências de acréscimo. É como se as sementes fossem lançadas já mediante a previsão do
tratamento das plantas em face da colheita, ou da finalidade máxima: o domínio do saber.
Nesse sentido, o conto A festa do céu pode apresentar-se como ponto de partida para
uma sequência didática que agora suscitasse o gênero fábula em A raposa e as uvas, ou vice-
versa. Em comparação, nós temos ágones que clamam o “desejo do impossível”, entretanto
com resoluções, ou desfechos, bastante diferentes. Qual das duas personagens, o sapo e a
raposa, agiu com maior sabedoria?
Lembrando-se que na estrutura da fábula temos um elemento primordial, que é a
sanção, ou a moral da história, é interessante refletir-se qual essa moral? O que o autor, em
sua época, queria aludir com essa história? Vejamos que, em relação ao conto de Luís Câmara
Cascudo, há elementos dissonantes, já que se trata de conto. O final, por exemplo, em que se
insere um fundo de religiosidade, trazendo o aspecto do maravilhoso à narrativa, faz com que
nos sosseguemos e enchamos os olhos de amor pelo sapinho, que, por fim, mereceu a bênção
dos céus. Já na fábula, por pressupor um eixo didático-moral, o final abre ao leitor uma
reflexão interior, que não se resolve no maravilhoso, contudo em sua própria existência, em
seu dia a dia. Logo, na fábula, tal elemento conclusivo é ponto-chave à exploração em sala de
aula. E uma forma de provocar nos discentes do ensino fundamental o vislumbre desse
propósito, deixando-lhes a cargo sua interpretação, é o trabalho com o teatro.
O teatro é essencial à vida humana, tanto quanto a narrativa, pois é uma forma de
imitar com o próprio corpo, os gestos, a fala, a ação das personagens, a narração. Aristóteles
(1998) enfatiza o quanto a dramaturgia volta-se à ação, aquela que organiza os caracteres, as
personagens e seus modos de agir, atuar. Observemos que a palavra atuar refere-se à raiz ato,
que em si sugere ação. Atuando como outrem, imitando, o ator incorpora realidades diversas
compreendendo-se compassivamente com elas, mesmo que em âmbito de jogo, de
brincadeira, lúdico. A proposta não é desenvolver cenários e figurinos, mas que as crianças
possam incorporar personalidades diversas das delas; assim, mesmo que inocentes disso,
discutindo as atitudes dessas personagens, comparando-as com as suas próprias.
Contudo, pairarmos na imitação como simples fator didático de apreensão moral. Já
discutimos isso, não é propósito do ensino de gêneros literários ou discursivos, nem de
nenhum conteúdo disciplinar escolar. Logo, trazemos à tona uma expansão desse ato didático-
teatrológico a partir de dois de entre os vários e excelentes exercícios propostos por Augusto
Boal, um contido em sua obra Teatro do oprimido e outras poéticas políticas (2013) e o outro
em Jogos para atores e não atores (2012). Boal expande as técnicas de Bertold Brecht12

12
Um dos escritores fundamentais deste século: revolucionou a teoria e a prática da dramaturgia e da encenação,
mudou completamente a função e o sentido social do teatro, usando-o como arma de conscientização e
politização in https://portaldosatores.com/2017/08/14/vida-e-obra-bertolt-brecht/
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numa acepção centrada na realidade latino-americana, o que o faz teatrólogo de suma


importância em todo o mundo. Seus exercícios propõem a ressignificação dos valores
vivenciados no cotidiano concreto de pessoas comuns. Ao lecionar sobre o Teatro do
Oprimido13, no uso do teatro enquanto discurso, ele propõe um exercício a que intitula
“dramaturgia simultânea”, que consiste no seguinte, em suas próprias palavras:

A cena deve ser representada até o ponto em que se apresente o problema central,
que necessite uma solução. Neste ponto, os atores param de interpretar e pedem ao
público que ofereçam soluções possíveis, para que as interpretem, para que as
analisem. Em seguida, improvisando, interpretam todas as soluções propostas, pelo
público, uma a uma, sendo que todos os espectadores têm o direito de intervir,
corrigindo ações ou falas inventadas pelos atores, que são obrigados a retroceder e a
interpretar outra vez as mesmas cenas ou dizer as novas palavras propostas pelos
espectadores. (BOAL, 2013, p. 136).

Tal exercício em relação à fábula – embora em sala de aula pudesse limitar o número
de representações, talvez buscando uma apenas em que o grupo de espectadores acordasse –
faria com que os discentes pudessem a mais que julgar a atitude da raposa, empenhar-se em
outra atitude para sentirem-se dentro do problema e solucioná-lo. Em relação à fábula A
raposa e as uvas, o ponto em que se apresenta o problema é justamente o ponto em que a
raposa resolve desistir, ao tentar e não alcançar. Nesse momento, a turma seria convidada a
discutir soluções analisando sempre a coerência destas. Por exemplo, alguém pudera supor
pegar uma escada. Contudo, a raposa seria capaz? Que verossimilhança no entrecho poderia
fazer isso possível? Ela está próxima a uma escada, ou a um local em que haja uma escada?
Ao fim, as melhores soluções seriam improvisadas. Conquanto em meio à representação
improvisada, mediante a ação, pudessem ser vislumbrados novos problemas, não refletidos ou
mentalizados pelos alunos anteriormente ao ato. Por isso a importância em representar,
visualizar ações, atitudes, reações que fazem parte do caráter de cada um.
O Teatro Fórum é outra alternativa que põe em debate o caráter das personagens e a
resolução de problemas. Nesse exercício, monta-se um fórum em sala, para julgar o enredo e
apontar as falhas de caráter nas atitudes e falas das personagens. Assim, propõe-se também a
ressignificação e a improvisação de um novo enredo a partir do debate. Ambos valiosos
exercícios sem grande complexidade, desde que o professor entenda que tudo deve dar-se em
forma de brincadeira séria, de processo de reorganização moral em discussão, de reflexão e
jogo, de ludo. Materialismo histórico-dialético em prática.

3 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Os professores e os pais sabem que a vida humana é insegura e que não nos oferece
nenhuma garantia e, talvez porque já tenhamos enfrentado muitos e muitos obstáculos,
queremos aplainar as caminhadas de nossos alunos e filhos. Não estamos errados em fazê-lo,
mas como nos lembra Walter Benjamin banimos da vida das crianças, adolescentes e jovens
(alunos e filhos) o conhecimento necessário sobre as lutas agônicas que travamos, incluindo

13
Para fazer frente à censura e à repressão desencadeada pelo AI-5, Boal incrementa sua aproximação com as
propostas de Bertolt Brecht (1898-1956). Inspirado na peça didática, monta Teatro Jornal, 1971, com o Núcleo 2
do Teatro de Arena. A encenação, aberta ao improviso, utiliza notícias do dia, comentadas pelos atores sob
diversos modos. Outros textos também são utilizados para polemizar, extrair contradições e pontos de vista
divergentes contidos num mesmo relato. Chega, desse modo, a uma crítica global das formas narrativas
tradicionais, exposta no texto O Sistema Trágico Coercitivo de Aristóteles, no qual tece as bases de sua proposta
e faz críticas à Poética in https://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo616/teatro-do-oprimido.
SEÇÃO LIVRE 237

nesse banimento a visão dos hospitais e da morte14. Desse mundo sem óbices, porém, pode
resultar a “aversão cada vez maior ao trabalho prolongado”.
As duas narrativas aqui trabalhadas são clássicas no sentido de que expressam duas
formas diferentes de se lidar com as “tentações do impossível”. São chamadas de fábulas,
com suas devidas variações, porque os animais que as protagonizam são antropomorfizados
para serem exemplos dos obstáculos e lutas que os humanos enfrentam, em prol de serem
aquilo que precisam ou que querem ser. Elas figuram saídas e formas de ação, atuação de
como os humanos podem lutar e se arranjar na vida social, como se fossem um repositório de
banco de dados de lutas/problemas, ágones, e das saídas e resoluções encontradas como meios
de ultrapassá-los para realizar sua vocação ontológica: a de manter a vida e de estendê-la um
pouquinho mais.

REFERÊNCIAS

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João Pessoa: ANPUH-PB, s/p. 2003.

ARISTÓTELES. Poética. Tradução e comentários de Eudoro de Souza. Brasília: Imprensa


Nacional/ Casa da Moeda, 1998.

BARROS, Diana Luz de. Teoria semiótica do texto. 4. ed. São Paulo: Editora Parma, 2005.

BARTHES, Roland. A análise estrutural da narrativa. Seleção de ensaios da revista


Communications. Rio de Janeiro: Editora Vozes Ltda.1976.

BARTHES, Roland. Da obra ao texto. In: O rumor da língua. Trad. Mário Laranjeira. 2ª ed.
São Paulo: Martins Fontes, 1976.

BENJAMIN, Walter. “O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: Magia
e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense,
1994, p. 197-221.

14
“No decorrer dos últimos séculos, observamos que a ideia da morte vem perdendo, na consciência coletiva,
sua onipresença e sua força de evocação. Esse processo se acelera em suas últimas etapas. Durante o século XIX,
a sociedade burguesa produziu, com as instituições higiênicas e sociais, privadas e públicas, um efeito colateral
que inconscientemente talvez tivesse sido seu objetivo principal: permitir aos homens evitarem o espetáculo da
morte. Morrer era antes um episódio público na vida do indivíduo, e seu caráter era altamente exemplar:
recordem-se as imagens da Idade Média, nas quais o leito de morte se transforma num trono em direção ao qual
se precipita o povo, através das portas escancaradas. Hoje, a morte é cada vez mais expulsa do universo dos
vivos. Antes não havia uma só casa e quase nenhum quarto em que não tivesse morrido alguém. (A Idade Média
conhecia a contrapartida espacial daquele sentimento temporal expresso num relógio solar de Ibiza: ultima
multis). Hoje, os burgueses vivem em espaços depurados de qualquer morte e, quando chegar sua hora, serão
depositados por seus herdeiros em sanatórios e hospitais. Ora, é no momento da morte que o saber e a sabedoria
do homem e, sobretudo sua existência vivida – e é dessa substância que são feitas as histórias – assumem pela
primeira vez uma forma transmissível. Assim como no interior do agonizante desfilam inúmeras imagens –
visões de si mesmo, nas quais ele se havia encontrado sem se dar conta disso -, assim o inesquecível aflora de
repente em seus gestos e olhares, conferindo a tudo o que lhe diz respeito aquela autoridade que mesmo um
pobre-diabo possui ao morrer, para os vivos em seu redor. Na origem da narrativa está essa autoridade. A morte
é a sanção de tudo o que o narrador pode contar. É da morte que ele deriva sua autoridade. Em outras palavras:
suas histórias remetem à história natural”. BENJAMIN, Walter. “O Narrador: considerações sobre a obra de
Nikolai Leskov”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo:
Brasiliense, 1994, p. 197-221.
238 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346

BOAL, Augusto. Jogos para atores e não atores. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2012.

BOAL, Augusto. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. São Paulo: Cosac Naify,
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