Artigoaugusto
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SABERES NA AMAZÔNIA
APRESENTAÇÃO
Vanderlúcia da Silva Ponte
Érico Silva Muniz
Rômulo de Paula Andrade
Tânia Chaves_______________________________________________________________ 04
SEÇÃO LIVRE
APRESENTAÇÃO
Os organizadores
Tânia Chaves
MD, Ph.D, Médica Infectologista, Docente da FAMED/UFPA. Pesquisadora em Saúde
Pública/IEC/SVS/MS/Vice-Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em
Epidemiologia e Vigilância em Saúde do Instituto Evandro Chagas/SVS/MS. Membro e
Consultora das Sociedades Cientificas Brasileiras de Imunizações/ e de Infectologia.
Presidente da Sociedad Latino Americana del Viajero. E-mail: [email protected]
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RESUMO
A proposta deste artigo é fazer uma reflexão sobre a importância dos saberes tradicionais e práticas de
curas tradicionais entre os povos indígenas Tembé Tenethehar, Nordeste do estado do Pará, por meio
das narrativas biográficas de uma parteira, pajé e benzedeira da Aldeia Ytuaçu. A pesquisa de caráter
exploratória com utilização do método biográfico e história oral, teve os dados submetidos à análise
qualitativa, apontando para a importância que as mulheres assumem na comunidade e em particular a
parteira Francisca, cuja trajetória revela a tradição de uma medicina popular que nem sempre é
valorizada no contexto das políticas de atenção à saúde indígena que vêm sendo implementadas pelo
Estado no local, apontando, com isso, para os riscos de desenraizamentos de valores culturais
ancestrais essenciais à preservação das suas tradições e identidades.
ABSTRACT
The purpose of this article is to reflect on the importance of traditional knowledge and traditional
healing practices among the Tembé Tenethehar indigenous peoples, in the northeast of the state of
Pará, through the biographical narratives of a midwife, shaman and healer from Aldeia Ytuaçu. The
exploratory research using the biographical method and oral history, had the data submitted to
qualitative analysis, pointing to the importance that women assume in the community and in particular
the midwife Francisca, whose trajectory reveals, the tradition of popular medicine that it is not always
valued in the context of indigenous health care policies that have been implemented by the State and at
the local level, thereby pointing to the risks of uprooting ancestral cultural values essential to the
preservation of their traditions and identities.
INTRODUÇÃO
1
Doutora em Antropologia Social. Professora Adjunta IV de Antropologia Social na Universidade do Estado do
Pará, Centro de Ciências Sociais e Educação. Coordenadora do Programa de Pós-Graduação em Educação
Escolar Indígena – PPGEEI (UEPA/UFPA/UFOPA/UNIFESSPA). E-mail: [email protected].
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2
Precisamente, pela turma de História, do curso Intercultural Indígena, da Universidade do Estado do Pará
(UEPA), quando uma disciplina fora por mim ministrada. Agradeço, portanto, a turma, pela oportunidade de
conhecimento e aprendizado sobre as experiências e importância das mulheres na organização e fortalecimento
da identidade cultural do povo Tembé Tenetherar.
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3
Aproveito para registrar aqui a minha enorme gratidão para com a Dona Francisca Tembé, por sua gentileza e
generosidade em me receber em sua casa na aldeia e confiar a mim suas experiências em torno das práticas de
pajelança e como parteira e benzedeira tradicional de seu povo.
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Francisca dos Santos Soares Tembé nasceu – pelas mãos de uma parteira, a Senhora
Antonina dos Santos Farias, que era sua avó materna –, na aldeia Tembé Ytuaçu, na parte alta
do rio Guamá, em 25 de outubro de 1959 e, atualmente, está com 61 anos. Filha de Luiza
Agostinha Farias (que também era parteira) e Félix Sarmento dos Santos, que era “funcionário
braçal da FUNAI”, ou, como ele era conhecido pelo órgão, “amansador de índio”, ela é a
terceira filha do casal que teve um total de seis filhos, todos nascidos na mesma aldeia.
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Francisca casou-se aos 15 anos com Pedro Soares Tembé, que é raizeiro4 e caçador na mesma
aldeia. Junto com ele constituiu sua família, teve seu primeiro filho com 15 anos de idade,
logo após se casar. No mesmo local e ao longo de mais de 40 anos, viu sua família crescer a
partir do casamento de seus filhos, a formação de suas famílias e o nascimento de seus netos.
Ao lado de seu marido e com a expansão da sua família, ela criou a aldeia Ytuwaçu no
ano de 1984, onde vive atualmente. Esta aldeia é constituída principalmente pelos seus
descendentes, dentre estes, filhos, netos e, agora, bisnetos. Atualmente ela tem sete filhos, 25
netos e quatro bisnetos. Portanto, Francisca descende diretamente de uma família de mulheres
parteiras e pajés de povo Tembé Tenetehar. Tanto sua mãe quanto sua avó materna
partejavam e praticavam também a pajelança nas aldeias onde moravam.
Nesse ambiente de mulheres sábias, Francisca cresceu vendo sua mãe e sua avó
exercitarem essas práticas ancestrais. Pelo relato dela e de outras pessoas da aldeia, ficou
patente que o conhecimento em torno da prática de partejar foi sendo mantido e repassado às
mulheres de sua família, por várias gerações, tratando-se, portanto, de um saber ancestral
intergeracional. A sua mãe Luíza foi a parteira que “pegou” os seus sete filhos e por sua vez,
ela e seus irmãos foram “pegos” pela avó materna que se chamava Antonina dos Santos
Farias. São mulheres sábias pertencentes a várias gerações de uma mesma família de parteiras
que se sucederam ao longo do tempo no mesmo local. Tal como também acontece em outros
povos indígenas da Amazônia, entre os Tembé Tenetehar – a exemplo dos povos indígenas da
região do Baixo Amazonas, pesquisados por Vaz Filho (2016) – as mulheres são as principais
guardiãs dos saberes e práticas de cura tradicionais ligadas ao mundo cosmológico desses
povos.
Falar das práticas das mulheres parteiras, pajés e curandeiras no contexto amazônico é
situá-las, portanto, no âmbito de seus universos cosmológicos e como parte de um sistema
simbólico que possui lógicas culturais específicas. Nesse sentido, em uma conversa que tive
com Francisca em um fim de tarde no quintal de sua casa, ela ressaltou que, apesar de ter
convivido desde a infância com mulheres de sua família que atualizavam cotidianamente
práticas e saberes em torno da pajelança e do ofício de partejar, ela atribui seu conhecimento
em torno dessas práticas, a um dom, uma missão, pois compreende ter sido escolhida pelos
seres encantados da natureza (das matas ou dos rios) – conhecidos também por Caruanas5 –
para seguir a carreira de pajé e parteira. Sempre se referindo a tais seres com muito respeito,
ela ressaltou que foi deles que recebeu as orientações e conhecimentos em torno das mesmas
práticas. Ela conta que, embora nunca os tenha visto, desde criança sentia a presença dos
Caruanas que se comunicavam com ela e chegavam a “perturbá-la”, dada sua resistência em
atender aos seus chamados.
Assim, após muito relutar em atender aos chamados dos Caruanas, finalmente
começou a atuar como pajé já na sua fase adulta – aos 27 anos de idade – após muita
“perturbação” dos encantados acabou cedendo e conta que passou a exercer o dom
especialmente a partir de um episódio inusitado. Em seu relato, há referência de um certo dia,
quando sentiu um mal-estar no corpo seguido de desmaio, tendo permanecido desacordada
4
Raizeiro é o nome dado à pessoa (geralmente um homem) na aldeia que conhece a floresta e sabe onde estão as
raízes e vai apanhá-las quando as pessoas delas necessitam para tratamento de saúde.
5
Caruanas é o termo também conhecido, evocado e referido no contexto da pajelança cabocla amazônica para
designar os seres encantados da natureza. De acordo com Dona Zeneida Lima (1992, p. 165-166), “quem cura
são os Caruanas através do pajé. [...] e eles são seres encantados, donos dos mistérios do mundo (p. 135)”. Essa
autora, indígena e pajé da ilha de Marajó, no Pará, ressalta ainda sobre isso que: “Se não fosse pelos ataques, a
doença inexplicável e o rápido desenvolvimento do meu poder de cura, exercido desde cedo, eu não seria
diferente de tantas crianças em minha idade.”
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durante 20 dias. Nesse tempo, apenas dormiu e ficou sem comer e beber nada. Ela acredita
que os Caruanas a protegeram durante esse tempo, pois, do contrário, não teria sobrevivido
tantos dias sem comer e beber água. Ela tomou esse evento como um sinal de que deveria
seguir os seus ensinamentos e, desse modo, quando voltou a si, resolveu atender aos
chamados deles e começou a fazer os trabalhos de cura na aldeia.
Ao estudar a medicina popular na Amazônia rural e se detendo particularmente na
“pajelança cabocla”, Maués (1994) destaca que esta é uma prática secular na região, sendo
constituída por um conjunto de práticas de cura xamanística. Segundo este autor, tais rituais
guardam suas origens nas crenças e costumes dos indígenas Tupinambás antigos,
sincretizados após o contato com os brancos e negros a partir da segunda metade do século
XVIII. Dentre as crenças que sustentam e dão significado às mesmas práticas, está a crença
nos “encantados” – os Caruanas – que são seres invisíveis que se apresentam durante os
rituais de cura incorporados no pajé ou xamã.
Apesar da existência de outras medicinas nas áreas rurais amazônicas, o autor ressalta
que ainda é o pajé (eu diria, também, a pajé), que desempenha o papel de médico (ou médica)
popular mais importante nas comunidades. Esse (ou essa) especialista6 (mulher ou homem) é,
em geral, alguém que conhece profundamente os remédios da fauna e da flora e quase sempre
exerce também as funções de benzedor ou benzedeira e de parteira7. Segundo Maués (1994),
quando a parteira também é pajé, passa a ser muito solicitada por se tratar de uma “parteira de
dom”, ou seja, aquela que trabalha com a assistência dos “encantados” Caruanas, das florestas
ou dos rios.
De fato, tais aspectos, como se pode perceber, parecem mesmo ocupar parte
importante da história de vida de Francisca. O ofício de partejar ela iniciou aos 33 anos de
idade e, de acordo com seu relato, teria acontecido no contexto de uma emergência, em que
uma mulher grávida e em trabalho de parto, necessitou de alguém que “pegasse” o seu bebê.
Ou seja, na ausência de sua mãe que era a parteira conhecida e oficial da aldeia, ela teve que
fazer o parto tendo sido bem-sucedida na missão cuja orientação ela atribui aos Caruanas.
Ressalta ainda Francisca que apesar de ter exercido a profissão por pouco tempo – sete
anos – ela fez muitos partos na aldeia. Conta que “pegou” nesse tempo, mais de 58 crianças
em aldeias distintas entre os Tembé Tenetehar. E que só não “pegou” mais crianças porque as
mulheres da aldeia começaram a ir para o hospital na cidade e foram, aos poucos, perdendo a
confiança em seu conhecimento e em sua prática.
6
Que também pode ser uma mulher, como no caso de Francisca.
7
Quando se trata de uma mulher, como dito na nota anterior.
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De fato, com a imposição do sistema de saúde indígena na aldeia, Francisca foi levada a
abandonar suas práticas tradicionais do partejar, embora tenha sido incorporada ao mesmo
sistema como agente de saúde. Em seu trabalho nesta nova função, ela foi recomendada a não
fazer mais os partos sozinha – sem o acompanhamento de um médico – pois, se assim o
fizesse, estaria pondo em risco a vida das gestantes e das crianças.
De acordo com Del Priore (2009), as mulheres benzedeiras, pajés e parteiras, possuem
uma longa história na região amazônica. Desde o período colonial essas práticas eram
exercidas por mulheres que tratavam, principalmente, de outras mulheres em um contexto em
que praticamente não existiam médicos. Então as médicas eram elas que, por possuírem
conhecimentos específicos e diferenciados daquele defendido pela ciência médica, com
frequência, eram vistas e tratadas como suspeitas, acusadas de feitiçarias e sofriam
perseguições tanto pelos inquisidores do Tribunal do Santo Ofício da Igreja Católica,
instalado aqui no Brasil à época, como pelas autoridades civis que representavam o Estado
brasileiro.
É importante lembrar que, durante o século XVIII, o Pará (que à época era Província
do Grão Pará e Maranhão), foi palco de grandes embates entre agentes de cura que se
empenharam em resolver o problema das epidemias de cólera e lepra que se alastravam,
contexto em que as disputas de saberes (e poderes) entre a medicina científica e as práticas de
cura tradicionais foram bastante evidentes em todo o Brasil. Santos et al. (2012, p. 12),
ressaltam, por exemplo, que, durante muito tempo e até os dias atuais, a medicina científica
conviveu com outras práticas de cura de caráter popular, sempre tentando impor seu saber
como o único possível e com propriedade de explicar as causas e apontar a cura para as
doenças. E assim, de acordo com os mesmos autores, “médicos, intelectuais e cientistas
conviviam, muitas vezes de forma pouco harmoniosa com práticas populares dos pajés,
benzedeiras, homeopatas, boticários, feiticeiros (sic), barbeiros, sangradores, espíritas,
práticas estas consideradas como charlatanismo pelos médicos”. Ao que parece (e a narrativa
de Francisca confirma), esse embate entre o que Langdon e Wiik (2010) denominam de
“sistemas de saúde” diferenciados culturalmente, permanece nos tempos atuais, contexto em
que se observa a imposição do modelo biomédico sobre as práticas tradicionais de cura.
Como se sabe, foi na passagem do século XIX para o XX que a medicina social
passou a desenvolver o projeto de medicalização da sociedade como parte de uma política
mais ampla de higienização dos espaços sociais. Nestes termos e progressivamente, as
parteiras foram sendo afastadas do cenário público. Isso em face da valorização da prática
médica que acompanhou – e acompanha – o discurso higienista. A partir desse momento, elas
vão sendo substituídas pelos médicos. Enfim, como se depreende de Barroso (2009), o parto
se institucionaliza e o saber médico é legitimado em detrimento do saber da parteira que passa
ser considerada uma prática ultrapassada e de risco às mulheres e suas crianças.
Particularmente entre os povos indígenas, a prática das parteiras vem sofrendo
alterações a partir da instituição de políticas públicas voltadas para o projeto de atenção à
saúde indígena, atualizado nas últimas décadas. Ferreira (2013), aponta que foi na década
iniciada em 1970, que a Organização Mundial de Saúde (OMS) inseriu nas suas
recomendações, tal proposição. E isso em “[…] consonância com a nova ordem
internacional” (OMS, 1978, p. 3) e que o Estado Nacional integrasse as medicinas tradicionais
a seus sistemas de saúde, inclusive os saberes e as práticas das parteiras.
Entretanto, somente em 2002, com a publicação do documento “Estratégias da OMS
sobre a medicina tradicional, 2002-2005”, a OMS passou a estimular os Estados Nacionais a
regular, disciplinar e controlar as respectivas medicinas tradicionais (ORGANIZAÇÃO,
2002). Também, foram criadas diretrizes básicas para o estabelecimento das relações de
cooperação entre a ciência médica – sistema oficial de saúde – e as medicinas tradicionais.
Porém, esses processos todos têm sido difíceis de se efetivarem no âmbito da gestão pública.
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A PNASI – Política Nacional de Atenção à Saúde dos Povos Indígenas – foi elaborada pela FUNASA –
Fundação Nacional de Saúde – e aprovada pelo Ministério da Saúde, por meio da Portaria 254, de 31 de janeiro
de 2002 e publicada no Diário Oficial da União (DOU) número 26 – Seção 1, p.46 a 49, de 06 de fevereiro de
2002.
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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A percepção das práticas e histórias das benzedeiras, pajés e parteiras como Francisca
são reveladoras de uma tradição de medicina popular, cuja importância e eficácia nem sempre
são valorizadas no contexto das políticas de atenção à saúde indígena que vem sendo
implementadas pelo Estado, apontando para o risco de desenraizamento de valores culturais
ancestrais, essenciais à preservação de suas tradições e de suas identidades. A história de vida
de Francisca, particularmente sua experiência como parteira, pajé e benzedeira – e, mais
recentemente, como agente de saúde – na Aldeia Tembé, aponta as alterações que o sistema
de saúde impôs nos costumes relativos aos partos e nascimentos das crianças indígenas. Ao
assumir a função de agente de saúde, Francisca ao tempo em que foi proibida de partejar, viu-
se também obrigada a aprender técnicas na área da saúde, que são próprias da ciência médica.
Isso significa que, tal como há séculos ocorre, a medicina científica permanece impondo seu
saber e seu domínio e assim, não reconhece a validade e a importância dos conhecimentos e
práticas tradicionais de cura na comunidade.
No que diz respeito particularmente ao ofício de partejar, é nítida a insatisfação dela
diante da proibição imposta pelo sistema médico de saúde, associada a uma preocupação por
ela externada, de, sem poder exercitar seus saberes, vir a esquecer as técnicas e o
conhecimento herdados de sua mãe e avó, temendo que, com o passar do tempo, tal saber se
perca totalmente, já que não mais praticado na aldeia com a mesma frequência que fazia há
alguns anos. Faz-se assim, urgente, pensarmos propostas de intervenção face às políticas de
saúde das populações indígenas que de fato integrem os saberes tradicionais e diferenciados
desses povos, pois se trata também de salvaguardar um patrimônio imaterial que significa
muito para a história e para as suas identidades, particularmente para os Tembé Tenetherar.
REFERÊNCIAS
LANGDON, Esther Jean.; WIIK, Flávio Braune. Antropologia, Saúde e Doença: uma
introdução ao conceito de cultura aplicada às ciências da saúde. Revista Latino-Americana
de Enfermagem, v. 18, n. 3, 2010.
LIMA, Zenaida. O Mundo Místico dos Caruanas e a Revolta de sua Ave. Belém: Cejup,
1992.
NEVES, Ivânia dos Santos. S. As histórias de Murué Suruí e Kudã’í Tembé: traduções e
temporalidades. Revista Estudos de Literatura Brasileira Contemporânea. n. 53, Brasília,
2018.
PONTE, Vanderlúcia da Silva; TEISSERENC, Maria José Aquino. “Para ser mulher
verdadeira!” – os Tenetehara-Tembé: relações entre ritual, direitos e estratégias de afirmação
cultural em ações locais. Nuevo Mundo-Mundos Nuevos, v. 01, p. 1-24, 2013. Disponível
em: http://nuevomundo.revues.org/66051. Acesso em: 30 maio 2021.
SANTOS, Alessandra Carla Baia; SILVA, Andrei Ferreira; SAMPAIO, Danielle Leal;
SENA, Lidiane Xavier; GOMES, Valquíria Rodrigues; LIMA, Vera Lúcia de Azevedo.
Antropologia da saúde e da doença: contribuições para a construção de novas práticas em
saúde. Revista NUFEN, v. 4, n. 2, 2012.
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RESUMO
O artigo aborda as trajetórias de duas médicas paraenses, graduadas pela antiga Faculdade de Medicina
e Cirurgia do Pará – atualmente Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Pará, na segunda
metade da década de 1930, ambas figuras de destaque na especialidade de Cardiologia, que começava a
se firmar como tal: Maria do Carmo Sarmento Carvalho, a que primeiro utilizou o aparelho de
eletrocardiograma em Belém do Pará, tendo tido, também, grande atividade política pelo Partido
Comunista Brasileiro, mas que permanece esquecida em seu pioneirismo; e Bettina Ferro de Souza, que
firmou-se como figura destacada tanto na docência quanto na especialidade, tornando-se uma espécie
de padroeira da Cardiologia no Pará. As diferenças entre ambas as médicas e os possíveis motivos para
que as lembranças relacionadas a elas resultassem tão desiguais, com o apagamento da memória de uma
e a celebração da outra, são apresentadas e discutidas, procurando-se explicações para tal fato.
ABSTRACT
This article illustrates the trajectories of two female doctors from state of Pará-Brazil, graduated from
the former School of Medicine and Surgery of Pará, now, School of Medicine of Federal University of
Pará in the late 1930s, and who had important roles in Cardiology, which had only begun to establish
itself as a medicine specialty at the time: Maria do Carmo Sarmento Carvalho and Bettina Ferro de
Souza. The former, was the first to use electrocardiography in Belém-Pará, and, who was also a great
activist for the Brazilian Communist Party; her pioneering, however, seems to have been forgotten. The
latter, stood out both academically, by teaching at the School of Medicine and also, in the Cardiology
field, thus becoming some kind of patroness of this specialty in Belem-Pará. The differences between
these two women will be presented and discussed in order to try and find the possible reasons why one
is celebrated while the other was somewhat erased in the memory of people.
1
Médico, Doutor em Biologia de Agentes Infecciosos e Parasitários pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
Médico do Serviço de Cirurgia do Hospital Universitário João de Barros Barreto/UFPA. Sócio Efetivo do Instituto
Histórico e Geográfico do Pará. E-mail: [email protected].
2
Médico, Doutor em História pela UFPA. Professor de Patologia da Faculdade de Medicina da UFPA. Sócio
Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Pará. E-mail: [email protected].
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O tempo decorrido entre a “descoberta” do feito da médica Maria do Carmo pela professora Bettina e a
homenagem àquela pelo grupo da Cardiologia da Santa Casa do Pará deveu-se ao fato de já haver alguns nomes
relacionados para ser homenageados, e também à dificuldade em contatar familiares da médica, uma vez que ela
não estava morando em Belém, além de o seu estado de saúde não a permitir viajar (DAIBES, 2019).
5
Na mitologia grega, a personificação da Memória ou Lembrança. Filha do Céu e da Terra. Júpiter amou-a durante
nove noites e, ao fim de nove meses Mnemosine deu à luz as Musas. (Dicionário, 1976, p.124).
6
Segundo Tadeu Daibes os outros componentes eram os médicos Nelson Gama e Antônio Carlos Castelo Branco.
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Antônio Carlos de pouco saber sobre a médica mencionada foi seguida da informação que
“talvez o Daibes saiba um pouco mais” (BRANCO, 2019). Memória e esquecimento
coexistindo como unidade. Novamente vindo à tona as “memórias subterrâneas” que de
maneira quase imperceptível tendem a aflorar em determinados momentos entrando em disputa
com as “memórias oficiais” (POLLAK, 1989. p.4).
O contato seguinte, desta vez com o médico Tadeu Daibes, pode parecer à primeira vista
que pouco rendera, considerando este somente lembrar-se dos fatos acima narrados e que a
homenageada fora representada por uma sobrinha, talvez e que esta era estudante de medicina
no Rio de Janeiro. Entretanto, tais referências, aparentemente vagas, sustentam um dos
postulados da história oral, qual seja a importância do testemunho oral como núcleo de
investigação, jamais como acessório (MIKKA, 1988:132. Apud: AMADO; FERREIRA, 2006,
p.xiv).
Sem dispensar um tratamento crítico da fonte oral (VOLDMAN, 2006, p.249), aí é que
entra o olhar aguçado do pesquisador, nesse caso, os ouvidos! Na recepção e transformação das
duas informações em fato histórico: o reconhecimento do pioneirismo da Dra. Maria do Carmo,
evento referendado pela Dra. Bettina, considerada como um ícone da cardiologia paraense e,
por tudo isso, legitimada como fonte. Daí em diante “as soluções e explicações devem ser
buscadas onde sempre estiveram: na boa e antiga teoria da história” (AMADO; FERREIRA,
2006, p.xvi), desdobrando as informações, cotejando-as, confirmando-as ou não quando
possível, refazendo perguntas ou elaborando novas. E foi o que tentamos fazer: preencher
lacunas, a partir desses modestos testemunhos buscando a reconstituição do passado.
Os dados fornecidos por Daibes, constituídos pela vivência de fatos posteriormente
evocados, podem ser classificados como “arquivos provocados”, segundo Jacques Ozouf (Apud
BECKER, 2006, p.28), e pertencentes “à mesma categoria das recordações ou memórias”
(BECKER, 2006, p.28). Nesse caso específico uma “memória subterrânea” que provocada veio
à tona se contrapondo aquela memória coletiva organizada que resume a imagem que uma
sociedade majoritária deseja impor (POLLAK, 1989, p.8). Especificamente, neste estudo, a
sociedade médica e as memórias que esta deseja reter para si. Considerando que as
coletividades, em diferentes tamanhos (partidos, igrejas, famílias, nações) buscam no passado
referências para manter coesão dos grupos, definindo seu lugar respectivo, e fornecendo pontos
de referência, o que Pollak (1989, p.9) entende como uma “memória enquadrada”.
7
Naquele ano de 1937 formaram-se quatro mulheres (FMCP, 1945, mapa nº 5)
8
Até agora, no Pará, apenas um trabalho sobre Eletrocardiograma anterior a este é conhecido. Trata-se de um texto
de Pedro Borges intitulado “Noções de Electrocardiografia” apresentado na Revista Pará Médico de junho de 1939
26 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
(BORGES, 1939, p.10). Diferente do trabalho de Maria do Carmo, fruto de pesquisa com pacientes do Hospital
da Santa Casa de Misericórdia do Pará, o trabalho de Pedro Borges, em linhas gerais, é uma revisão teórica do
assunto.
9
Clóvis Olinto de Bastos Meira (1917-2002), paraense, médico formado em 8 de dezembro de 1940 pela então
Faculdade de Medicina e Cirurgia do Pará. Professor catedrático de Medicina Legal da Faculdade de Direito da
UFPA, destacou-se, também como cirurgião. Foi membro da Academia Paraense de Letras e do Instituto Histórico
e Geográfico do Pará. Dentre os vários livros de sua autoria destacam-se: “Médicos de outrora no Pará”; “Medicina
de outrora no Pará”, “E tempo passou”, todos tendo a Medicina paraense e seus personagens como foco central.
10
Um desses nomes foi Samuel Pessoa, professor de Parasitologia da Faculdade de Medicina da Universidade de
São Paulo, que também não conseguiu ser eleito. Por conta de suas posições políticas, Pessoa foi perseguido, desde
os anos da Guerra Fria, por sua postura anti-americanista, perseguição exacerbada nos anos da ditadura militar
pós-1964.Ver: PAIVA, Carlos Henrique Assunção. Samuel Pessoa: uma trajetória científica no contexto do
sanitarismo campanhista e desenvolvimentista no Brasil. Hist. cienc. saúde-Manguinhos, Rio de Janeiro , v. 13,
n. 4, p. 795-831, Dec. 2006.
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Vida e Liberdade, o Movil, organizado pelo médico Wilson da Motta Silveira e responsável
pela implantação dos Conselhos de Paz, nos bairros de Belém (OLIVEIRA, 2001, p.169).
Em 1955, em apoio a uma campanha pela Amazônia, eterna fornecedora de matérias-
prima, como borracha, castanha, essências e óleos vegetais, madeiras de lei, mas possuidora de
ricas jazidas de minérios, “e, ao que se estima, de um dos maiores lençóis petrolíferos do
mundo”, e que “está sob controle dos trustes internacionais”, juntamente com um grupo de
personalidades, Maria do Carmo, assinou o Manifesto de Convocação da Conferência Nacional
de Defesa da Amazônia, a ser realizada em Belém entre 13 a 17 de abril de 195511 (A
AMAZÔNIA, 1955).
Até 1962 participou de uma nova base de médicos do PCB, e embora mantendo suas
convicções ideológicas, afastou-se da militância partidária com o golpe militar de 1964
(OLIVEIRA, 2010, 518).
Além da Cardiologia da Santa Casa, aonde chegou à Chefia da Clínica Cardiológica
daquele hospital, Maria do Carmo exercia sua atividade profissional na Av. Presidente Vargas,
nº 145, no edifício Bern, salas 25 e 26 (A Dra. MARIA, 1947; CRM-PA).
Um exemplo do reconhecimento da sua atuação como profissional, acima de tendências
políticas, foi o fato de ter sido chamada a Macapá, em 1945, para assistir a esposa do então
capitão Janary Gentil Nunes, governador do recém-criado Território Federal do Amapá, vítima
de grave cardiopatia (MONTORIL, 2011).
Em consonância com os avanços da Cardiologia, em 1947 comunica “a seus colegas”,
pelo jornal, a instalação em seu consultório de um “eletro-esteto-esfigmografo Cambridge”,
colocando-o a disposição em terminados dias da semana (A Dra. MARIA, 1947)12. Se
considerarmos que a Cardiologia como especialidade estava se organizando, no Brasil, nos anos
de 1930, com a chamada “geração pioneira”, solidificando-se na década seguinte, tornando-se
“plenamente preparado para um progresso até certo ponto rápido” (REIS, 1986, p.376), Maria
do Carmo estava perfeitamente sintonizada com os avanços desenvolvidos nos grandes centros
do país.
Juntamente com um grupo de 16 médicos, em 16 de maio de 1957, fez parte da fundação
da Sociedade Brasileira de Cardiologia – Regional do Pará, mais tarde rebatizada de Sociedade
Paraense de Cardiologia (REZENDE, 2002 p.210).
Uma última informação sobre Maria do Carmo vem dos seus apontamentos junto ao
Conselho Regional de Medicina do Estado do Pará. Em sua ficha de dados financeiros no
referido órgão, consultada em 21 de março de 2003, consta como “aposentada”, com dados
“atualizados” em 03 de novembro de 1999 (CRM-PA). Se ainda viva naquele ano de 2003,
Maria do Carmo estaria com 95 anos, não se sabendo a data da sua morte. A partir desse registro
cessam as fontes conhecidas sobre Maria do Carmo Sarmento (como era mais conhecida
profissionalmente, com a supressão do sobrenome paterno).
Até onde pudemos apurar, a residência, enquanto viveu em Belém, foi na mesma na
avenida Presidente Vargas, no número 351/ 816, no edifício Palácio do Rádio, um dos primeiros
prédios modernos construídos naquele perímetro urbano central da cidade de Belém, figurando
entre os compradores iniciais do prédio (EDIFÍCIO, 1952).
3 INTERMEZZO: O ELETROCARDIÓGRAFO
11
Em pesquisa nos jornais de Belém, do período referido, não encontramos nenhuma notícia dando conta da
realização da mencionada conferência. (N.A.)
12
Supomos tratar-se de um modelo inicial, mais rudimentar àquele que seria mais tarde conhecido simplesmente
como eletrocardiógrafo. (N.A.)
28 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
13
Entre as inúmeras obras, citaríamos o trabalho de Burch e DePasquale – A history of electrocardiography, - por
nós aqui utilizado. (N.A.)
DOSSIÊ AMAZÔNIA 29
Para Meira:
[Bettina] Sempre foi muito estudiosa, aplicadíssima, aluna exemplar. Trazia essa aura
do Ginásio Paes de Carvalho. Quando o professor perguntava alguma coisa a alguém
14
Cronologicamente, Bettina Ferro de Souza foi a 9ª mulher a se formar pela então FMCP (Ver: MIRANDA;
ABREU JR., 2009).
30 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
e ninguém sabia, podia perguntar à Bettina. Vinha sempre a resposta, recordam seus
contemporâneos” (MEIRA, 1986a, p.227).
Professora por vocação sabia ensinar e prender a atenção dos alunos, ainda que
professando uma cadeira difícil de ser transmitida (...) [Bettina] é de uma acuidade
excepcional no uso dos sentidos. Tem um ouvido de ouro, dizem todos. Suas
possibilidades de diagnosticar podem ser tidas como de certeza, sempre confirmadas
pelos aparelhos eletrônicos sofisticados. Dedicada à Clínica e ao Ensino, tem vivido
para os pacientes e os alunos, sempre somando e fazendo crescer a aura de simpatia e
de cultura que orna seu espírito” (MEIRA, 1986a, p.228).
Bettina tem o seu lado “humano” representado pela fala de um dos seus vários ex-alunos
e discípulos. O médico Murilo de Souza Morhy é quem nos conta que quando a Faculdade de
Medicina precisou abrir outra turma de Propedêutica Médica, disciplina em que ela era a única
mulher professora, ela conseguiu reunir em torno dela somente professores mais jovens,
assumindo uma posição de liderança, sem atritos. E com o detalhe de, geralmente após as
reuniões deliberativas com seus assistentes, sempre rolava um uisquezinho, apreciado
prazerosamente pela mestra (MORHY, 2019). Ela era Ferro de Souza, mas não era de ferro!
Seria possível atribuir o silêncio sobre o papel da médica Maria do Carmo Sarmento no
desenvolvimento da Cardiologia paraense à figura da professora Bettina? Pensar num
apagamento de memória feminina ironicamente por outra mulher? Acreditamos que não; que
embora a memória da médica Bettina tenha permanecido, ela própria contribuiu para a
manutenção da memória da Maria do Carmo, ao reconhecer o papel desta nos primórdios da
cardiologia no Pará.
Se ambas podem ser consideradas precursoras em vários sentidos “a primeira
cardiologista”, “a primeira professora”, “a primeira Titular”, não podemos deixar de levar em
conta a época em que se formaram e iniciaram as suas atividades profissionais: as décadas de
1930-40, período em que as mudanças sociais se fizeram sentir, por meio de políticas sociais e
educacionais, possibilitando novas oportunidades profissionais para as mulheres, sobretudo às
pertencentes aos extratos superiores de uma sociedade que se urbanizava e se modernizava, à
mulher sendo atribuídos novos papeis (AZEVEDO; FERREIRA, 2006, p.241). Neste processo,
a educação exercendo um papel, ainda que a presença da mulher, particularmente na medicina,
fosse exceção. As palavras de Rezende (2001, p.49) sobre Bettina, guardadas as proporções,
fazem sentido, também para Maria do Carmo:
Se existem pontos em comum, como o fato de ambas terem iniciado sua profissão
praticamente ao mesmo tempo, no final dos anos de 1930 e início dos anos de 1940, quando
novas tecnologias começavam a ser utilizadas na medicina – neste caso, o eletrocardiograma,
grandes são as diferenças entre elas.
Bettina fez o modelo tradicional do que se esperava de uma mulher: comportada e
obediente; estudiosa e competente; religiosa e cumpridora de tarefas; o perfil idealizado para o
modelo de médico enquadrado no que pede/pedia a sociedade, ainda que, de certo modo, por
sua competência tenha sido uma precursora ao ponto de conseguir ocupar lugares
tradicionalmente reservados aos homens, como a docência no ensino superior e até cargos de
direção no ambiente acadêmico. Isso tudo lhe conferiu um quê de santidade nos arraiais da
medicina paraense, gerando seguidores e verdadeiros devotos, à semelhança do que aconteceu
com a memória de Camilo Salgado.
É possível fazer um paralelo com o proposto por Goffman (2001, p.17) quando o autor
estuda o que denomina “instituições totais” (manicômios, prisões e conventos), cujos
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AGRADECIMENTOS
Agradecemos aos médicos Tadeu Daibes, Antônio Carlos Castelo Branco, Murilo
Morhy e Jorge Ohana pelos depoimentos sobre as médicas Maria do Carmo e Bettina. Ao
professor Dr. Aldrin Moura de Figueiredo pela leitura e sugestões dos originais, e à professora
Dra. Maíra Maia pelas indicações de leituras para a fundamentação teórica deste trabalho.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 33
REFERÊNCIAS
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Med. Pará v.4 p.85-87, 1993.
RESUMO
ABSTRACT
The first years of the Republic in Manaus were busy due to significant changes in the city's landscape,
such as the construction and levelling of streets and the embankment of creeks. These events were
propitiated thanks to the accumulation of capital from the latex trade, to the point where the city became
known as the "Paris of the Tropics", given the cosmopolitanism that the city assumed with the rubber
economy. At the same time as it expanded as a city, Manaus also saw the expansion of diseases such as
malaria, which led to successive epidemics during the Belle Époque. In this article we will address how
the disease gained a different visibility in relation to the provincial period, highlighting the reports of
health authorities and rulers at the dawn of the Republic in Manaus. For that we will use the technique
of discourse analysis in order to verify the changes and permanences in the understanding about the
disease between 1898 and 1904. At the same time, we will verify how the recrudescence of the disease
in the city brings, in tow, new clashes between Amazonian physicians in relation to the etiology and
transmission of the disease, that is, from the idea of the mosquito as a vector in the early years of the
twentieth century.
1
Mestrando do Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Amazonas (PPGH-UFAM).
Professor-titular na Secretária de Educação do Estado do Amazonas (SEDUC). E-mail:
[email protected].
2
Professora do Curso de História da Universidade Federal do Amazonas e do Programa de Pós-Graduação em
História (PPGH-UFAM). Bacharel e Licenciada em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (2008).
Mestre em História pela Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (2010). Doutora em História das Ciências
e da Saúde pela Fundação Oswaldo Cruz- Fiocruz (2014).
38 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
INTRODUÇÃO
3
O conceito de Belle Époque cristalizado pela historiografia celebrativa amazonense diz respeito a um momento
histórico (que se iniciam em 1890 e finda nas primeiras décadas do século XX) em que as elites locais buscavam
seguir uma mentalidade burguesa e ostentavam as benesses dos melhoramentos urbanos realizados na área central
de Manaus patrocinados pela economia da borracha. Ver mais em DIAS, 1999.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 39
Procurando o factor que tem motivado o aumento das febres palustres, julgamos não
ser contrariados incriminando como causa determinante o começo da vasante do Rio
Negro. Bem sabemos que a proporção que o volume das aguas diminue, vae ficando
descoberto nas margens do rio citado e dos igarapés existente na cidade e
circunvisinhança. Em vários logares dos igarapés da Cachoeirinha, Cachoeira Grande,
Castelhana, Manaós e Bittencourt etc., os raios de sol não penetram até a superfície
do solo em virtude dos diagramas neles existentes, constituídos pelas grandes árvores,
não só em suas margens como nos próprios leitos: dahi a resultante assaz desfavorável
da existência de uma atmosfera pesada, excessivamente viciada, contendo em si todos
os miasmas, todos os princípios deletérios possíveis. (MATTA; PALHANO, 1898, p.
73).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 41
É perceptível como o discurso dos médicos sobre a doença vai se modificando a partir
da aparição de novos elementos. Se antes as ações humanas eram as responsáveis pelo aumento
das febres, temos agora o fenômeno da vazante do Rio Negro, que alimenta os igarapés que
entrecortam a cidade, como amplificador do processo. Segundo Cristiana Grobe (2014) , os
igarapés eram comumente depreciados no discurso dos médicos e governantes, uma vez que
eram vistos como obstáculos ao crescimento e desenvolvimento urbano, além de serem
elementos possuidores e proliferadores de doenças.
Outro médico que na época deu sua contribuição para o debate foi o Dr. Carlos Grey.
Ele afirmava que “as causas geradoras residem na grande quantidade de águas que nos vem das
chuvas e da cheia do rio e dos igarapés” (GREY, 1899, p. 74). Todavia, o discurso do médico
ressalta também que:
Vale ressaltar que Carlos Grey ainda faz sugestões para a melhoria da salubridade do
instituto e da cidade a partir de experiências realizadas em outras partes do país, a seguir
exposto:
A sugestão feita pelo médico em relação ao abastecimento da água mostra que havia
circulação de ideias entre os médicos em nível nacional com o local, isto a partir dos exemplos
de ações realizadas em outros estados brasileiros. No que diz respeito ao plano de arruamento,
percebemos que o modelo descrito pelo médico para o Instituto apresenta características mais
específicas:
Podemos observar mais uma vez o intuito de modificar os elementos que faziam parte
da paisagem urbana a partir de nivelamentos dos terrenos, isto com o objetivo hidráulico, ou
seja, sem permitir acúmulo de água estagnada. Desse modo, o discurso dos médicos-sanitaristas
não se punha necessariamente contra os aterramentos, mas sim ao modo de como eles eram
realizados.
Essa questão se manteria na pauta de discussão e estaria longe de ser consenso a partir
dos primeiros anos do século XX. Em 1900, a família dos Nery assume o poder na cidade e o
governador Silvério Nery se posiciona na sessão “Hygiene Pública” nos seguintes termos:
42 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
O mestre dos mestres, sobre o assumpto, Laveran, que tem estudado com abnegação
cientifica o paludismo com todas as suas evoluções e modalidades, declara que a terra
é indispensável a propagação do paludismo, declarando que a influencia do solo é
tornada manifesta e que os trabalhos de subbida e terraplanagem são particularmente
perigosos nos paizes palustres; estes trabalhos podem mesmo dar logar a epidemias
de febres palustres fora dos focos epidêmicos. (MATTA, 1901, p. 6-7).
Si folhearmos o trabalho de Laveran sobre a água veremos que ele cita de Raymond
que diz os habitantes de Landes Bordelezas e de muitos pontos do departamento de
Gironde, bebem a água pantanosa: ora aqueles que filtram essa agua em filtros de
carvão não contraem a febre palustre. Substitua-se as palavras Landes Bordelezas por
Manaós e Gironde por Amazonas e essa directoria declara corretamente que taes
DOSSIÊ AMAZÔNIA 43
proposições nos são aplicáveis de modo exacto, pois, é por demais importante o papel
da água sobre a pathogenia do paludismo. (Id., p. 15)
Tenho por seguro que a paralysação quase completa de movimentos de terras, que
tanto concorreu, para o poussées de febres de tempos que não vão longe, é o principal
factor d’esse descrescimento de porcentagem, descrescimo que ainda será maior se, a
respeito de todos os casos, os diagnósticos tiveram por base o exame seguro, o único
possível de bacteriologia. (NERY, 1902, p.12).
teoria do mosquito-vetor dentro do meio científico e ela não tardou a estimular debates devido
às novas perspectivas sobre as doenças tropicais, após a percepção do mosquito como
transmissor da febre amarela e da malária em Cuba, observado pela comissão estadunidense
chefiada por Reed e Carroll, e na Itália por Grassi, respectivamente (SCHWEICKARDT, 2009;
SILVA FILHO, 2013).
As observações tiveram ressonância na medicina brasileira, onde posteriormente se
detectou o Stegomyia fasciata como agente transmissor da febre amarela a partir das
experiências realizadas por Emílio Ribas, em São Paulo, e o Anopheles como transmissor da
malária a partir dos estudos de Adolpho Lutz nas linhas ferroviárias no vale paulistano
(BENCHIMOL, 2005; SILVA FILHO, 2013).
Desse modo, há uma ressignificação no que diz respeito ao entendimento das doenças
que antes eram entendidas unicamente sob as bases da teoria miasmática e começam a se
misturar como os pressupostos da medicina tropical que traz como fato novo a participação dos
parasitas que agem dentro do organismo nos seres humanos e os mosquitos infectados como
vetores conforme veremos adiante.
Segundo o médico, Dr. Alfredo da Matta:
Se tem seguido, dia após dia, a evolução do paludismo nos Anopheles que tinham se
alimentado de sangue palustre; se tem realizado a inoculação dessa moléstia em
indivíduos sãos; fora dos focos de infecção, fazendo-os serem picados pelos
Anopheles inficionados. Em todas as zonas palustres a existência desses culicidios
tem sido demonstrada e a nossa as possui em abundância; a sua destruição se impõe.
Os mosquitos necessitam de água estagnada para sua evolução; é na superfície delas
que as gêmeas depositam seus óvulos e em taes águas que as larvas e as nymphas
vivem até o momento de sua transformação em insetos perfeitos [...] (MATTA,
1902, p. 65).
para três moléstias que tinham o mosquito como vetor. Isso é uma questão importante porque
a espécie que transmite a febre amarela não é Anopheles, tampouco é este que transmite a
filariose, mas sim o mosquito Culex fatigans; conforme Patrick Manson atestou pela primeira
vez em 1877 quando trabalhava na Ásia.
Em suma, é compreensível que haja essa orientação, pois as discussões em torno do
mosquito-vetor estavam sendo assimiladas a pouco tempo pelos higienistas locais e havia
crença de que combatendo um mosquito, os outros poderiam ser eliminados. De resto, as
medidas citadas acima possuem um caráter defensivo, na qual o mosquito independente se
estivesse infectado ou não, deveria ser evitado, seja com mosquiteiros, uso de telas metálicas
etc.
Essas medidas não são necessariamente novas, pois já vinham sendo aplicadas em outras
partes do mundo, como nas colônias da África e Ásia pelas potências coloniais como Alemanha,
França e Inglaterra, mas a sua aparição na fala dos higienistas amazonenses constitui-se num
fato inédito na documentação.
Desse modo, são sugeridas como medidas para destruir os mosquitos os seguintes
procedimentos:
O foco principal nas medidas de ataque é justamente eliminar as larvas, segundo estágio
no ciclo de vida do Anopheles. O objetivo seria interromper a cadeia de transmissão homem-
mosquito antes do último chegar a sua fase adulta. Desse modo, podemos considerar o programa
apresentado por Alfredo da Matta como híbrido, pois apresenta uma mescla de ações verticais
e horizontais, uma vez que buscam agir de forma autoritária sobre a paisagem, principalmente
os igarapés e ao mesmo tempo consideram seus aspectos sociais numa perspectiva mais ampla.
Dessa forma, podemos perceber a importância social da doença e do mosquito Anopheles como
atores sociais, sendo igualmente fatores numa possível configuração e estruturação das
estruturas sociais na urbe.
Obviamente, não podemos perder de vista os interesses políticos e sociais em torno
dessas ações. Nesse sentido, convém retomarmos as lições de Sidney Chalhoub a respeito do
assunto, para ele na corte imperial buscou-se gerir a cidade e a política de acordo com critérios
puramente técnicos, de modo a escamotear a intencionalidade dos atores sociais presentes no
pensar dessas intervenções que visavam combater a febre amarela naquele momento
(CHALHOUB, 1996). Argumentamos que os médicos-sanitaristas amazonenses se valeram de
um discurso científico e da profilaxia de combate à malária para impor a sua visão de cidade
saneada e livre das doenças naquele momento.
Conforme vamos avançando da documentação percebemos que a doença continuaria a
ser uma presença constante no discurso dos agentes do Estado nos anos seguintes. Segundo
Alfredo da Matta em Relatório (1903, p. 35) “ A malária voltaria a registrar o aumento em
número de óbitos com 776 vítimas, representando 49,9 % sobre a mortalidade geral” . O médico
não faz menção a razão do aumento de casos, todavia disserta sobre as principais modalidades
da doença que são “febre intermitente, febre remitente simples ou complicada; manifestações
larvadas; cachexia palustre, além da intercurrência do impaludismo em outras moléstias” (Id.,
p. 43).
Esse último ponto é importante, pois segundo Alfredo da Matta seria difícil sem o
46 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
auxílio do microscópio diferenciar a moléstia da tuberculose, outra doença que existia também
em Manaus.
A fim de asseverar tal interpretação, o médico recorre novamente às referências
estrangeiras, demonstrando seu conhecimento acerca das experiências médicas em nível
internacional. Segundo ele:
O que tanto nos impressiona, aqui no norte, taes as lesões que o impaludismo
determina em duas importantes vísceras, o baço e o fígado, tem perdido quase a sua
importância clássica perante a cabal experiência e peremptória demonstração que a
phymatose as produz também, como declaram Widal, Collet, Rendu e Gallavardin.
Podem ser hepatites tuberculosas, esplenomegalia [...] Não estamos, é bem verdade,
compreendidos na conclusão de Bernheim, na ação predisponente do impaludado
para nelle manifestar a phymatose. Jeannonpoulos tira também a mesma conclusão,
isto é, que os tuberculosos da Ásia Menor são aptos a se impaludar e vice- versa..
(MATTA, 1903, p. 43).
Assim, entendemos a importância do microscópio para o médico, pois com o uso desse
instrumento seria possível diferenciar a malária de quaisquer outras doenças. O problema do
diagnóstico é entendido como de suma importância. Pois implicaria na possibilidade de uma
melhor compreensão sobre a etiologia da doença que comumente confundia os médicos locais
devido aos seus sintomas.
Para tanto, em 1904, o governador Constantino Nery criou a Comissão de Saneamento
de Manaus. O objetivo dela seria estudar as condições do clima e natureza do solo amazônico,
de modo a propor medidas sanitárias que pudessem amenizar os impactos das doenças sobre a
população local, dentre elas a malária (SCHWEICKARDT, 2009).
Por conseguinte, o governador nomeou seu irmão, Dr. Márcio Nery como chefe da
referida comissão. Não pretendemos aqui falar dela e de sua composição4, mas sim verificar os
pontos que Márcio Nery considerou relevantes na discussão e entendimento do problema da
malária em Manaus.
Ao lado do homem, há uma flora microbiana e uma fauna de animalculação nocivas
e parasitas, que tiram benefício da temperatura e da humidade e de climas
intertropicais com o nosso. Muitos encontram o seu meio optimo e desenvolvem-se
com exuberância, constituindo-se como uma ameaça aos habitantes desse clima [...]
Todas as vezes que a temperatura se aproxima do corpo humano, esses seres
extremamente pequenos, adquirem uma recrudescência de sua virulência, tornando-
se extremamente perigosas para o homem. Em Manaós, encontram-se uma variedade
uma rica variedade de mosquitos, muitos dos quais se prestam a vehiculação de
agentes pathogenicos. (NÉRY, 1905, p. 122-123).
[...] em muitas ruas em que os aterros não concluídos deixam covões, nas depressões
das próprias ruas, nas margens dos igarapés de águas pouco correntes [...] a água da
chuva colecionando-se, pode tornar-se e efetivamente se torna viveiros de mosquitos
de todas as espécies [...] (Id., p. 124)
4
O historiador Júlio César Schweickardt fala sobre a constituição da Comissão de Saneamento de Manaós no
capítulo 3 de sua tese. Ver tópico 3.3: A comissão de saneamento em Manaus (1904-1906). (SCHWEICKARDT,
2009, pp. 150-184).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 47
Nesse momento, o dr. Márcio Nery ressalta a mesma crítica em relação aos aterros
realizada por muitos sanitaristas já citados, e segue então a mesma linha adotada por Alfredo
da Matta. Uma das características da comissão é a utilização de pesquisas sobre os mosquitos,
no qual são assinalados os seus locais de procriação e a parte do ano em sua aparição é mais
constante na cidade de Manaus.
Nesse sentido, o dr. Márcio Nery comenta que:
As águas da bacia do Rio Negro sobem em regra geral a começar na segunda quinzena
do mês de dezembro. Coincide, de ordinário, essa enchente com o período das chuvas
[...] as águas paradas ou lentamente correntes, oferecem um meio favorável para o
desenvolvimento de toda uma fauna de culicidios que em nuvens se levanta da agua
desde que o voulo sofreu a sua metamorfose. Foi o que observou esse ano no Igarapé
da Cachoeirinha, no Igarapé do Bittencourt e no Igarapé de Manaós. Os Anopheles,
que até então, dificilmente se encontravam, começaram a aparecer dentro dos
domicílios. Em Junho, começa a vazante dos rios que constituem a bacia do Rio
Negro. Em muitos pontos ficam aguas estagnadas, que pouco a pouco, se evaporam
sob a influência do sol na estação secca. Até certo ponto, repetem-se os mesmos
fenômenos que se observam no princípio das enchentes. (SCHWEICKARDT, 2009,
p. 177)
Para o médico, o regime das águas também apresenta sua parcela de responsabilidade,
pois cria condições favoráveis para a proliferação dos mosquitos; seja durante o período de
chuvas no início do ano, seja na vazante. Nessa condição, a quantidade de mosquitos na cidade
era renovada mais facilmente, contribuindo para a permanência da malária em Manaus durante
todo o ano.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
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Amazonas. Dirigido ao governador Silvério Nery. NÉRY, Silvério José. Mensagem lida
perante o Congresso do Amazonas em 10 de julho de 1903. Manaus: Tipografia Ferreira
Pena, 1903.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 49
NÉRY, Silvério José. Mensagem lida perante o Congresso dos representantes, por
ocasião da abertura da primeira sessão da quarta legislatura de 10 de julho de 1901 pelo
Dr. José Silvério Nery, governador do Estado. Manaus: Tipografia Ferreira Pena, 1901.
PINHEIRO, Maria Luiza Ugarte. A cidade sobre os ombros: trabalho e conflito no porto de
Manaus (1899-1925). 3ª Ed. Manaus: EDUA, 2015.
RESUMO
Expomos aqui este relato de experiência, fruto de uma viagem de cinco meses de pesquisa de campo na
aldeia Mapuera, onde vivem vários grupos indígenas denominado genericamente de “Etnia Wai Wai”,
na cidade de Oriximiná, no noroeste do Pará, por conta da fase final da tese de doutorado que está em
curso. Apresentamos aqui os momentos de angustias e inquietações vividos pelo autor desse relato e
indígenas nesse local, nas primeiras manifestações da pandemia da Covid-19, denominado aqui de “olho
do furacão”, em março de 2020.Tal experiência nos direcionou ao seguinte questionamento: como
antropólogo poderia contribuir em contexto de pandêmico em grupos indígenas, em especial, em
Mapuera? A partir dessa pergunta, articulações foram feitas envolvendo cacique geral, lideranças,
Conselho de Saúde da Mapuera, lideranças da igreja evangélica local, professores e profissionais da
saúde que prestam serviço no local pela Fundação Ovídio Machado, frente ao Distrito Sanitário Guamá
Tocantins- DSEI-GUATOC, incidido na elaboração de um projeto de isolamento social. Até a primeira
quinzena de junho de 2020, momento da saída de campo, o referido projeto não tinha sido usado, pois
nenhum caso de covid-19 acometera qualquer indígena no local, mas somente atingido alguns deles que
estavam fora desse espaço, como na cidade de Belém, Santarém e Oriximiná, inclusive com óbito.
Também notícias dão conta que, apesar de não adesão ao “projeto de Isolamento Social” pelo DSEI-
GUATOC, sua produção serviu de parâmetro para a feitura de um plano de proteção à equipe de saúde
e aos indígenas do local, revelando um dos objetivos dessa proposição, inspirar ações de políticas
públicas em tempos de pandemia para a proteção dos povos indígenas na Amazônia, independentemente
de quem quer que seja.
ABSTRACT
Here we expose this experience report, the result of a journey of five months of field research in the
village Mapuera, where several indigenous groups live, generically called “Wai Wai Ethnicity”, in the
city of Oriximiná, northwest of the state of Pará, because of the final phase of the doctoral thesis that is
underway. Here we present the moments of distress and concerns experienced by the author of this
report and native people in this place, in the first manifestations of the Covid-19 pandemic, here
denominated “eye of the hurricane”, in March 2020. This experience leads us to the following question:
How could an anthropologist help in the pandemic context that affects indigenous groups, especially in
Mapuera? From that question, articulations were made involving the cacique chief, leadership, Mapuera
Health Council, leaders of the local evangelical church, teachers and health professionals who provide
service on the scene by Ovídio Machado Foundation, in front of the Guamá Tocantins- DSEI-GUATOC
Sanitary District, focused on the development of a social isolation project. Until the first half of June
2020, moment of field departure, the referred project had not been used, since no case of Covid-19 had
1
Doutorando em Sociologia e Antropologia/PPGSA UFPA; Mestrado em Agricultura Familiar e
Desenvolvimento Sustentável. Graduado em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia. Já foi bolsista do
Museu Paraense Emilio Goeldi. É professor Efetivo da Universidade do Estado do Pará-UEPA, no Centro de
Ciências Sociais e da Educação. Realiza estudos sobre povos indígenas, especificamente a saúde/doença/cura e
participa de grupos de estudo credenciado pelo CNPQ e possui texto e orienta trabalhos sobre a temática
mencionada. E-mail: [email protected].
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affected any indigenous in the place, but only reached some of them who were outside that space, as in
the city of Belém, Santarém and Oriximiná, including death. Also news reports that, despite the non-
adherence to the “Social Isolation project” by the DSEI-GUATOC, its production served as a parameter
for the development of a protection plan for the health team and the native people of the place, revealing
one of the goals of this proposition: Inspire public policy actions in times of pandemic to protect
indigenous peoples in the Amazonia, regardless of whoever they are.
1 O LOCAL DA EXPERIÊNCIA
2
A denominação genérica de “Wai Wai” dos indígenas na aldeia Mapuera, se dá pelo processo histórico de
surgimento do local. Mas no decorrer dos deslocamentos, os intercasamentos e a busca constante por indígenas
isolados para serem convertidos ao evangelho protestante, outras etnias se somaram aos Wai Wai, mas o
predomínio étnico Wai Wai, tornou essa a língua mais falada nas aldeias. Além disso acordos internos fizeram
com que os indígenas da Mapuera fossem nominados de “Etnia Wai Wai” visando garantir direitos e políticas
públicas de saúde, educação de forma diferenciada.
3
Respeitando o tempo e os debates, percebe-se que ora falava-se em “Coronavirus”, ora em “Covid-19”. Isso se
deu pelas incertezas e familiaridade com categorias veiculadas pelos meios de comunicação sobre esse
vírus/doença, cuja a base de referência era a Organização Mundial de Saúde- OMS. “Covid-19”, diz respeito à
doença oriunda do vírus denominado de “Coronavirus” que surgiu primeiramente em 2002, na China e depois, em
2012, em alguns países Árabes. Dessa forma, Covid, somado ao número 19, diz respeito a demarcação do tempo
em que ele se apresenta, na contemporaneidade, o ano de 2019, em sua nova configuração. (Fonte:
https://coronavirus.saude.gov.br: consultado em 30 de março 2021).
4
Para ter acesso a aldeia Mapuera, inicia-se a viagem saindo de Belém, via aérea, para a cidade de Santarém, em
uma hora. Dessa cidade, via fluvial, por três horas e meia, chego até a cidade de Oriximiná. A partir de Oriximiná,
o deslocamento até Cachoeira Porteira, se efetiva por barco, por dezessete horas. De lá, sigo para a aldeia Mapuera,
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ocorrência somente na China. Passados dias, a pandemia se alastrava pela Itália, Espanha,
Inglaterra. Em seguida, chegava nos Estados Unidos da América. Final de fevereiro e início de
março, desse mesmo ano, a pandemia atinge a América Latina e o Brasil, até chegar no Estado
do Pará, na segunda quinzena de março do ano em tela.
Na Mapuera, nos encontrávamos imerso na pesquisa: registrando o cotidiano no diário
de campo; circulando pela aldeia; conversando informalmente com as pessoas, realizando
entrevistas e registrando imagens. Quando nos demos conta, já se faziam trinta e cinco dias no
local. Sempre procurávamos nos atualizar com notícias, via televisão e internet5. Nesse interim,
o diretor da Organização Mundial de Saúde - OMS Tedros Adhanom anunciava, em final de
fevereiro de 2020, que estávamos frente a uma Pandemia, já que a Covid-19 ultrapassava e
avançava em vários continentes, inclusive na América Latina.
A notícia sobre a chegada da Covid-19 no Brasil se espalhou, dando início a
contaminação no país, sendo a cidade de São Paulo a primeira capital a registrar uma
contaminação e, posteriormente, o óbito. Posteriormente, essa cidade tornou-se o epicentro da
pandemia no país, seguido pelo estado do Amazonas, acendendo o sinal de alertas, no Pará,
pela proximidade geográfica.
No Pará, em março de 2020, o primeiro caso de Covid-19 foi anunciado. As
preocupações nos rondavam em Mapuera, pois, na mesma força que corriam as notícias, o vírus
avançava na capital paraense, Belém, e no interior. As notícias davam conta que a Covid-19
estava em todos os lugares, nos levando a pensar que, sua chegada na aldeia, seria uma questão
de tempo. Além disso, os deslocamentos de indígenas Mapuera-Oriximiná e vice-versa, eram
constantes. Somado a isso, muitos desses indígenas estudavam em diversas cidades e
manifestavam o desejo de retornar para aldeia6, aumentado a preocupação de todos por conta
do cenário pandêmico que nos encontrávamos
Os trajetos pelo rio Mapuera, via canoa e barco, para acessar a aldeia de mesmo nome,
tornou-se limitado, consequência de casos de Covid-19 em Santarém, Óbidos e Oriximiná7.
Diante disso, o prefeito do município-sede - Oriximiná - decreta estado de emergência: aulas
foram suspensas e limitações de deslocamentos municipais e intermunicipais foram efetivadas8.
No entanto, uma medida não fora obedecida na aldeia, a realização dos cultos evangélicos9.
Com o passar dos dias, as restrições de acesso à Belém do Pará, onde residíamos, e
Mapuera, local de desempenho dessa pesquisa, foram se sedimentando. Portos e aeroportos
próximos a região, tem decretos publicados cujo conteúdo versava sobre a necessidade de tais
com dezoito horas com uma parada para descanso, geralmente, pela noite, retomando tal viagem no dia seguinte,
até o local desta pesquisa.
5
A partir de junho de 2018, foram realizadas instalações na aldeia Mapuera que possibilitaram a inserção na
internet no local, permitindo assim, acesso as noticias de forma geral. No momento da pesquisa de campo a notícia
que dominava os meios de comunicação em todo o mundo, era a pandemia do coronavirus.
6
É necessário esclarecer que o retorno dos indígenas de várias cidades como Belém, Santarém e Óbidos, tornava
a tensão em Mapuera mais presente entre profissionais de saúde, o autor do relato de experiência e os indígenas
que ali estavam antes da pandemia, já que as mencionadas cidades já apresentavam casos da covid-19, inclusive
números crescentes de mortes. Somado a esse contexto de insegurança, o cacique geral da aldeia estava em viagem
por vários estados e, possivelmente, retornaria a Mapuera pelos dias seguintes.
7
Essas cidades fazem parte do trajeto do transporte hidroviário na região, até a chegada na aldeia Mapuera.
8
Por conta da situação que se apresentava, a equipe de saúde na Mapuera começa a receber instruções de
permanência no local por mais dias para evitar contatos com outras pessoas fora da aldeia. Além disso, o método
era: Quando sair da aldeia, o profissional deveria ficar em quarentena, em Oriximiná, até seu retorno para Mapuera.
9
Há mais de 40 anos os indígenas da aldeia Mapuera foram evangelizados pela Igreja Protestante Batista. Desde
então, a base religiosa do local se pauta nas diretrizes desse protestantismo. Assim, os cultos ocorrem dias de
quarta e domingo, onde pode-se contar a presença de, aproximadamente, 200 pessoas em cada evento dessa
natureza, em especial, aos domingos. (QUEIROZ, 1999; WAI WAI AWPEYASA, André; WAI WAI KOYON,
Nelson; POTIGUAR JUNIOR, 2017).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 55
espaços serem fechados por quinze dias, no princípio de abril de 2020, evitando a circulação de
pessoas e contágio pelo coronavírus.
A instabilidade se fez presente no campo tanto para todos nós, equipe de saúde,
professores quanto para alguns indígenas. Notícias chegavam de que indígenas que desejavam
adentar a aldeia Mapuera, foram proibidos de fazê-lo, inclusive o cacique geral, por ser
desconhecido o estado de saúde deles. Após uma semana, com negociações frente ao Ministério
Público; medição da temperatura e uma quarentena de sete dias, na cidade de Oriximiná, os
indígenas e o cacique chegaram a Mapuera.
Diante do fato acima, decidimos ficar mais recolhidos e passando a entrevistar os
indígenas no local onde estávamos instalados10. A tática que adotamos em campo não diminuiria
a possibilidade de contrair o Covid-19, pois o contato com pessoas iria se fazer sem uma
garantia de que elas não tivessem se aproximado dos recém-chegados. Mas dez dias se passaram
e os ânimos se acalmaram, pois era o tempo suficiente para perceber a manifestação ou não da
doença no local, frente a situação ali vivida. Felizmente nada ocorrera.
As notícias chegavam de forma rápida e todo o cuidado, até a duração da quarentena
decretada inicialmente no país e no Pará, demonstrava que um inimigo oculto nos rondava. Isso
fez com que a pressão familiar, relativo ao nosso retorno à Belém, crescesse. Mas a decisão já
estava tomada: continuaríamos em Mapuera até meados de junho do corrente ano, que fora no
prazo planejado para a execução dos estudos. Seguimos realizando a pesquisa de campo,
tomando as precauções11.
Na Mapuera, por conta das restrições de deslocamentos, todos sabiam que nossa
alimentação se escasseava, sendo impossível navegar pelo rio visando realizar compras de
suprimentos alimentares na cidade sede. Receber ou enviar encomendas/alimentos, via avião,
estavam proibidas por medidas protetivas da equipe de saúde do DSEI-GUATOC, convocados
a ficar mais dias na aldeia. Com indígenas, trocas e doações foram acionadas: a cada carne de
caça recebida, doávamos sal, açúcar e arroz e assim os intercâmbios tornaram-se constantes.
Isso foi até o final de maio e início de junho de 202012.
Com a instalação da pandemia no Pará e nas regiões próximas a Mapuera, realizamos
palestras, rodas de conversas na escola local sobre a Covid-19, remédios caseiros e a
importância do uso de limão para possibilitar o aumento da imunidade13 das pessoas, via a
vitamina C que o mesmo possui.
10
Durante dias em campo, podemos perceber que o cacique geral da aldeia Mapuera, desde de sua chegada, se
colocou em quarentena, em sua casa, pelo menos dez dias. Quando de nossa saída da Mapuera, perguntamos ao
mesmo: “Quando o senhor vai a Belém cacique? “Ele respondeu “Como fiz aqui, só vou com tudo estiver passado
professô”.
11
No decorre desse contexto, surgem dois casos de malária na Mapuera, causando-nos incômodos, já que em
aldeias próximas já havia ocorrido um surto dessa doença, deixando ainda mais frágil os indígenas dessa região.
12
Para além da troca de alimento com os indígenas, ocorreram esses intercâmbios com a equipe de saúde. Nas
refeições diárias, doávamos arroz e eles complementavam com feijão e carne e vice-versa, tornando possível
nossos almoços e jantares.
13
A ideia em fazer esse debate na escola, se dava pelo limão está em abundancia na aldeia, nesse período, mas
pouco aproveitado, a ponto de perceber eles caídos no chão, até apodrecer. A partir dessa discussão, a adesão ao
uso desse fruto fora visível, mostrando que ações simples como essa, podem fazer efeito, desde que a explicações
e diálogos sejam numa linguagem acessível para compreensão de todos.
56 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Enpotopo kuupu tuuna oranci cîîxapu coronavirus Cewne kuupu tuuna oranci yiraconhîrî
kahsira ehtome Mapuera ewto pono. maki
Ewnaxku awahsira ehtome
Karpe apun yehtonr coronavirus awahsira
ehtome
Nesse evento, elaboramos um material que fora demonstrado na escola e na igreja local
e distribuído em grupos de Whatzaap na aldeia que chamava atenção para a importância de
tornar o suco de limão para auxiliar no aumento da imunidade. Além disso, “tomar” o sol pela
manhã, por conta da absorção de vitamina D, dentre outros cuidados eram ações simples e de
fácil adesão, mesmo que a longo prazo.
Após o evento acima, as aulas escolares, por decreto municipal, foram suspensas na
aldeia, fazendo as pessoas se recolherem ainda mais. A partir desse momento a preocupação de
todos era presente, pois a cada espirro e tosse ficávamos em alerta15.
Após anunciados casos de Covid-19 e óbitos, em Belém e Santarém16 e a determinação
da quarentena nesses e outros municípios do Pará, 45 estudantes universitários indígenas que
estudam nessas cidades, manifestaram retornar para Mapuera, instalando uma crise entre
lideranças e a equipe de saúde, aprovando e desaprovando, respectivamente, essa entrada no
local17.
14
Tradução para o português: Com um copo de água e meio limão, você evita a gripe e deixa seu corpo mais
resistente ao coronavirus. Se gostou dessa ideia, tome uma atitude, saia do WhatsApp e facebook e espalhe ela por
toda aldeia que tenha parentes. Assim você pode salvar a vida de um velho (pooco), velha (caaca), jovens
(karpamxan) e adultos (poritomo).
15
Para registro, é bom chamar atenção que Mapuera sofre com constantes quedas de temperatura, ora estava quente,
ora abafado ora frio, causando um desequilíbrio no organismo e alterações no corpo, possibilitando o surgimento
tosses e febres, tornando a imunidade de indígenas e a nossa, ainda mais frágil. Além disso esses sintomas eram
características da Covid-19, o que aumentava nossa insegurança.
16
Todos os dias, menos as terças feira, há uma linha de transporte que sai de Santarém para Oriximiná, deslocando
aproximadamente, de 100 a 200 pessoas em cada viagem, sendo que, 50% desses passageiros tem destino final a
cidade de Oriximiná.
17
Notei que um dos motivadores para o retorno dos indígenas à Mapuera, além da vontade de estar perto da família,
foi o anuncio de doação de cesta básicas pelo governo federal, desde que estivessem nas aldeias. Outra questão,
DOSSIÊ AMAZÔNIA 57
segundo as “fofocas”, era que um dos incentivadores da volta para aldeia, seria uma liderança contrário ao cacique
geral, instaurando uma briga política nesse cenário dentro da aldeia.
18
Após discussões, impedimentos e ações de movimentos contrários a essa entrada de indígenas na Mapuera, no
Ministério Público Estadual, houve autorização dessa inserção, desde que eles cumprissem uma semana de
quarentena em Oriximiná e, após esse contexto, se deslocassem para Mapuera.
19
Nesse processo sempre estávamos em contato com a orientadora e numa dessas conversas, que nos colocava a
par de toda a situação em Belém. No início, ela mencionava que o Covid-19 já estava “em todos os cantos” e que,
supostamente estaríamos mais protegidos na aldeia. Ainda mais, a necessidade de ficar em campo pela dificuldade
que teríamos em retornar, no futuro, já que a pandemia poderia durar muito tempo o que, de fato, alteraria todos
os calendários de pesquisa. As atividades em universidades, museus; voos domésticos pelo estado do Pará, também
foram cancelados a época. Estávamos “preso” ao campo e o campo a nós. A saída e permanecer na aldeia até
passar o período crítico da pandemia, segundo a orientadora do autor desse relato, seria o caminho a seguir. E
assim fora feito!
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Com uma equipe formada por indígenas e não indígenas, a proposta surgiu a partir da
experiência de seus componentes, seja morando, trabalhando ou pesquisando na aldeia
Mapuera. O propósito foi a orientação sobre o Covid-19 e a contextualização da prática do
isolamento social temporário dos indígenas recém-chegados no local.
Para equipe reunida, era clara as dificuldades de se materializar o distanciamento social
entre indígenas, em Mapuera, pela estrutura predial de suas casas, com um único
20
Até esse momento, março e abril 2020, percebemos poucas ações do Distrito Sanitário Guamá-Tocantins-DSEI
GUATOC, seja para a proteção da equipe de saúde e dos indígenas do local. Elas somente se fazem presente, pelos
idos de maio e junho deste ano.
21
Ao todo, ocorreram duas reuniões com a equipe de saúde e lideranças em Mapuera, cujo o tema era a Covid-19.
Uma participamos e outra não. Mas redigimos as atas das duas reuniões – a última com base nas anotações de
algumas lideranças - o que nos forneceu segurança para algumas afirmações aqui colocadas.
22
Dentre outras questões, o que incomodava os profissionais de saúde, era a falta de ação das lideranças no local,
apesar da preocupação de algumas. A principal inquietação desses profissionais era o não cancelamento dos cultos
na aldeia, um espaço de aglomeração de pessoas e potencial transmissor de qualquer doença, como o Covid-19.
Além disso, era notório, na maioria dos indígenas, em Mapuera, o apoio a vinda dos estudantes que estavam na
cidade de Belém, Santarém e Óbidos, e que para médicos, enfermeiros e técnicos em enfermagem não indígena,
era uma irresponsabilidade. Por outro lado, esse retorno dos alunos-indígenas, aliviava a saudade e as preocupações
de pais e avôs desses agentes sociais, em Mapuera. Daí o desanimo revelado no profissional de saúde.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 59
23
Esclarecemos que a recepção de indígenas que se deslocaram para Mapuera no período do “olho do furacão” o
Covid-19, todos, por recomendação do Ministério Público Estadual, cumpriram uma “quarentena” de uma semana
na cidade de Oriximiná para, em seguida, se deslocarem para Mapuera, segundo a informação do Responsável
Técnico - RT pela Casa de Saúde Indígena CASAI de Oriximiná. Daí a necessidade de mais uma semana de
isolamento na aldeia, para complementar esse ciclo. Pelo menos era essa a ideia central do projeto.
24
O custo zero considerava que os locais - escola, “Casa dos Professores” e dois alojamentos da Igreja evangélica,
em sua maioria, estavam estruturados. Além disso, a parceria com a prefeitura municipal e outros pormenores
ligados a ela, facilitavam o acesso a alimentos e materiais necessários para a manutenção e limpeza desses locais.
Isso ficará mais claro nos parágrafos seguintes.
25
É bom lembrar que a merenda escolar, por lei, já tinha sido prevista no orçamento anual das secretarias de
educação para as escolas dessa região, dentre elas, as que compõe as áreas indígenas. Desse modo, mesmo com a
suspensão das aulas, essa merenda, por lei, deveria ser oferecida para auxiliar familiares em tempos de pandemia,
revelando ônus zero para Secretaria Municipal de Educação de Oriximiná, na elaboração e execução do projeto de
isolamento já que, absolutamente nada, seria acrescido em seu orçamento anual. Isso era válido para possível
necessidade de ações de seus funcionários que, exerciam a função como cozinheiro e serviços gerais, poderiam
prestar serviços no período da quarentena.
26
Havia o entendimento que, isolando os recém chegados, além de protege-los, protegia também os indígenas
inseridos no grupo de riscos: idoso, diabéticos etc.
60 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Com 10 salas, o prédio poderia ser isolado e as salas compartimentadas, por divisórias
de madeiras, transformando-os em 2 espaços em cada sala. Com essa estratégia, a escola
acomodaria, num todo, 20 pessoas. Além disso, esse espaço possui uma cozinha que continha
DOSSIÊ AMAZÔNIA 61
pratos, colheres, panelas, fogão e gás, além de uma estrutura para atar rede nas salas. Possuía
moveis comuns como cadeiras e mesas que poderiam ser usados como suporte para todo
apetrecho que os ocupantes deste espaço possuíssem. O local continha luz, água, banheiro, um
freezer horizontal e wi-fi, o que impediria o isolamento total dos indígenas que para esse espaço
fossem encaminhados, em especial, os mais jovens27.
Em caso de isolamento, a pessoa ficaria por 10 dias nos locais, com visitas programadas
de parentes objetivando o fornecimento de alimentos (café, almoço e jantar). Após isso, se
programariam visitas da equipe de saúde em três períodos: pela manhã, pela tarde e uma pela
noite, visando o monitoramento dos indígenas como pressão, oxigenação e temperatura.
Outro local escolhido para servir de isolamento, fora a “Casa dos professores” que sem
uso, nesse momento da pandemia, abrigaria 3 indígenas, adotando as mesmas estratégias usadas
na escola local.
27
Destacamos que em julho de 2018, quando em campo, fora instalada a rede de Wi-fi na Mapuera, um dos pontos
principais de sua transmissão, estava a escola aqui mencionada e a residência do cacique geral no centro dessa
aldeia, próximo “Casa dos professores”.
62 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
“A casa do Professor” possui três quartos (figura 5), uma cozinha (figura 6), uma sala,
um banheiro e acesso à internet, fornecida pela proximidade da casa do cacique geral. Há uma
caixa d’água que serviria de apoio, com fornecimento de água. O procedimento de visitas iria
se realizar da mesma maneira a adotada na escola Wai Wai, seja da família e profissionais da
saúde.
Outros espaços pensados para recepção/isolamento dos indígenas que se dirigissem a
Mapuera, foram dois alojamentos construído por conta do VIII Congresso Nacional das
Lideranças Indígenas Evangélicas – VIII CONPLEI, em 2018, ao lado da igreja evangélica.
Sem uso, esses locais como demonstram nas figuras 7 e 8, foram alternativas para o
isolamento pretendido. Os mesmos exigiriam reparos urgentes por não possuírem água
encanada. Isso seria providenciado pelos Agente Indígenas de Saneamento – AISAN 28 ,
conforme acordado em reunião29.
As alternativas se apresentavam como forma de amenizar e tranquilizar os indígenas da
aldeia e, ao mesmo tempo monitorar, os “parentes” oriundos de vários lugares com direção à
Mapuera, evitando o surgimento e prevenção do Covid-19 e preservando a saúde mental e física
do que ali vivem, mesmo que opiniões diversas sobre esse contexto existissem no local.
Nos lugares destinados ao isolamento dos indígenas, seriam tão somente permitidas
visitas de familiares da forma que não expusessem esses visitantes, numa evidencia que o
isolamento não requer aproximação física de familiares, amigos, irmãos etc. Elas se dariam da
seguinte forma: 8:00-9:00 (Café); 12:00-13:00 (Almoço) e 19:00-20:00 (Janta) e seguindo
todos os protocolos organizado pela equipe de saúde, em especial, o distanciamento.
As visitas dos profissionais de saúde se dariam para monitoramento de forma que as
orientações médicas seriam realizadas por enfermeiros e AIS’s. Isso se daria, considerando que
as demandas cotidianas desses profissionais no PSI não seriam comprometidas. Nessa
estratégia adotada, não alterava a rotina deles, já que o horários de visitação e monitoramento
da equipe de saúde, sempre se dariam às 9:00-10:00; 15:00-16:00 e 18:00-19:00 hs, isto é, o
momento de menos pico de atendimento no PIS e o revezamento entre eles, era viável, segundo
fora planejado.30
Nesse projeto de isolamento, pensou-se em um mínimo de estrutura, que não alterasse
e onerasse qualquer uma das secretarias envolvidas nesse processo, sejam de saúde ou
educação, mas aproveitasse seus funcionários e serviços, sem desregular sua base salarial. Na
escola, os funcionários com funções de cozinheiros, copeiros e vigias, seriam aproveitados,
segundo negociações com a SEMED/Oriximiná, para que pudessem realizar seus serviços nesse
espaço. Para isso seriam providenciados os devidos cuidados com sua segurança e saúde como
o uso de máscaras, álcool em gel e distanciamento, foram pensados.
Já o DSEI –GUATOC como parceiro, entraria com a seguinte estrutura de pessoal: 01
médico; 01 enfermeira; 04 Agente de Saúde Indígena. Além disso, o da Secretaria Municipal
de Saúde – SEMSA, seria acionado para a doação de materiais necessário para esse contexto
visando a proteção dos profissionais de saúde e dos indígenas isolados.
Para garantir o processo de limpeza, atendimento, pensou-se em um mínimo de estrutura
de higiene. Para isso a parceria com a SEMED e a SEMSA, visava manter o local limpo e em
segurança no contexto do atendimento/monitoramento diário. Assim, a estrutura material foi
desenhada: Máscaras de proteção (200); Álcool Gel (60 litros); desinfetante Kboa (60 litros);
detergentes (60 litros); vassouras (04); rodos (04); luvas de proteção (20 pares); escapulas para
armar redes (30). Isso visava atender os momentos emergenciais desse isolamento.
De todo modo, o cuidado e a prevenção, foram caminhos para que, mesmo estando em
uma curva crescente da pandemia, necessário se fez ter prevenções, evitando aproximação,
contaminação e disseminação pelo “olho do furacão”, o Covid-19, na aldeia Mapuera, onde se
28
Alertamos que qualquer atividade de caráter emergencial, a mesma é acionada por meio de reunião com
lideranças, que convoca indígenas para a busca de madeira na mata ou de qualquer material para construção de
abrigos etc, o chamado mutirão. Percebemos que em pouco tempo, com esses mutirões, eles conseguem construir
determinados espaços e realizar diversas atividades, em tempo recorde.
29
A cisterna de fornecimento de água em Mapuera, está instalada a uns vinte metros desses alojamentos, o que
facilitava reparos e instalações urgentes referente ao fornecimento de água. Relativo a energia, essa seria uma
extensão da igreja evangélica, já que ela estava localizada ao lado desses alojamentos.
30
As visitas de familiares e da equipe de saúde para realização de monitoramento, foram pensadas de forma
diferente, para evitar acumular pessoas no local. Por isso o tempo uma hora para visita da família depois a entrada
da equipe de saúde, tornando-se forma mais adequada para esse contexto.
64 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
centrou essa proposição ora apresentada. Caso progredisse a pandemia e o isolamento, novas
formas estruturais deveriam ser pensadas junto aos parceiros e as equipes aqui mencionados,
pois a saída do autor da Mapuera e desse relato de experiência, seria iminente, como de fato
ocorreu.
REFERÊNCIAS
31
Disponível em: https://www.oriximina.pa.gov.br/. Acesso em: 15 de abr. de 2021.
32
Disponível em: https://www.oriximina.pa.gov.br/. Acesso em: 15 de abr. de 2021.
66 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
WAI WAI AWPEYASA, André; WAI WAI KOYON, Nelson; POTIGUAR JUNIOR,
Petronio Lauro Teixeira. Conhecimento e uso das plantas medicinais entre indígenas: uma
experiência educacional na Amazônia. In: A medicina tradicional popular amazônica
(MTPA) e temas afim. Organização Rosineide da Silva Bentes. Serie Vidas. Editora CRV.
Volume I. Curitiba, 2019.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 67
RESUMO
Este artigo traz o recorte de um estudo mais amplo da dissertação intitulada “Médicos cubanos e
comunidade bragantina: notas sobre o contato linguístico espanhol/português em terras brasileiras” que
teve como objetivo apresentar alguns aspectos da situação do contato linguístico que se estabeleceu
entre médicos cubanos e parte da comunidade bragantina no âmbito do Programa Mais Médicos, nos
anos de 2015 a 2017, no município de Bragança-PA. Neste recorte, apresentamos algumas questões de
natureza linguística que emergiram desse contato linguístico nas práticas de saúde entre os médicos
cubanos e pacientes bragantinos, em que ambos estavam interessados em entender e se fazerem
entendidos em seus relatos verbais. Dessa forma, a pesquisa consistiu em analisar os impasses impostos
pelas diferenças linguísticas dos dois grupos bem como sobre as estratégias desenvolvidas, por ambos,
para atingirem os propósitos prioritários das consultas médicas no contexto em que se encontravam.
Assim, os resultados evidenciaram que o esforço mútuo e a cooperação na aceitação das estratégias e
esforços de tradução propostos no contexto garantiram o sucesso das interpretações dos sintomas da
enfermidade e de seus diagnósticos, culminado em uma experiência integrativa entre saúde, língua e
humanização na Amazônia paraense. O caminho metodológico da pesquisa constituiu-se em uma
abordagem hermenêutica e, para isso, foram realizadas entrevistas, aplicação de questionários e
observações, bem como foram adotados princípios teóricos das áreas Línguas em Contato Weinreich
(1953) e Thomason (2001), da Sociolinguística Labov (2008) e Calvet (2004), Bortoni- Ricardo (2005)
e da Tradução cultural Jakobson (1995).
ABSTRACT
This article presents an excerpt from a broader study of the dissertation entitled “Cuban Doctors and the
Bragantine Community: Notes on Spanish / Portuguese Linguistic Contact in Brazilian Lands” which
aimed to present some aspects of the situation of linguistic contact that was established between Cuban
doctors and part of the bragantine community within the scope of the Mais Médicos Program, from 2015
to 2017, in the municipality of Bragança-PA. In this section, we present some linguistic issues that
emerged from this linguistic contact in health practices between Cuban doctors and Bragantine patients,
in which both were interested in understanding and making themselves understood in their verbal
reports. Thus, the research consisted of analyzing the impasses imposed by the linguistic differences of
the two groups as well as on the strategies developed, by both, to achieve the priority purposes of medical
consultations in the context in which they found themselves. Thus, the results showed that the mutual
effort and cooperation in accepting the strategies and translation efforts proposed in the context
guaranteed the success of the interpretations of the symptoms of the disease and their diagnoses,
culminating in an integrative experience between health, language and humanization in the Amazon.
1
Graduada em Letras e Pedagogia. Mestra em Linguagens e Saberes na Amazônia. E-mail: [email protected]
2
Discente na Universidade Federal do Pará. Mestra em Linguística – UFPA (2000). Doutora em Linguística –
UnB (2010). E-mail: [email protected].
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from Pará. The methodological path of the research consisted of a hermeneutic approach and, for this,
interviews, questionnaires and observations were carried out, as well as theoretical principles from the
Languages in Contact Weinreich (1953) and Thomason (2001), from Sociolinguistics Labov (2008) and
Calvet (2004), Bortoni- Ricardo (2005) and the Cultural Translation Jakobson (1995).
Keywords: Cuban doctors. Bragantine patients. Paraense Amazon. Linguistic contact. Humanization.
INTRODUÇÃO
Este trabalho constitui-se em uma breve reflexão sobre a estreita relação entre
linguagem e saúde nas práticas de interação entre os médicos cubanos e a comunidade
bragantina, na Amazônia paraense por ocasião da implantação e execução do Programa Mais
Médicos (PMM), no município de Bragança-PA.
O PMM foi organizado e implantado em 08 de julho de 2013, durante o governo de
Dilma Rousseff, por intermédio da Medida Provisória nº 621. Esta foi, em 22 de outubro do
mesmo ano, convertida na Lei nº 12.871 (BRASIL, 2013), com a finalidade de alcançar as ações
de aperfeiçoamento na área de Atenção Básica em Saúde em regiões prioritárias para o SUS3.
Segundo o Ministério da Saúde (2015), o problema da “falta de médicos” foi definido como
prioridade e o governo federal estudava desde 2011 modos de tentar enfrentá-lo.
Uma das principais parcerias do governo federal foi com o governo de Cuba. Ambos os
países estabeleceram acordos políticos e econômicos, desde o ano de 2013, a fim de interiorizar
políticas de saúde em várias regiões brasileiras como alternativas à defasagem de médicos,
apontada como o maior problema do SUS (IPEA, 2013), bem como para garantir atendimento
público à sociedade local.
A experiência da presença de médicos cubanos ao Brasil em um município da Amazônia
paraense, Bragança, criou uma oportunidade profícua para se refletir sobre a relação entre
saúde, língua e humanização em contextos de saúde em que a situação de contato entre línguas
diferentes e variedades de uma mesma língua era bastante evidente.
Neste contexto, o presente artigo privilegia um dos pontos de análise da dissertação de
mestrado “Médicos cubanos e comunidade bragantina: notas sobre o contato linguístico
espanhol/português em terras brasileiras” (SILVA, 2018). O foco da pesquisa maior foi a
situação de contato entre duas línguas que compartilhavam um espaço social comum, o da
saúde, e como se dava a relação desses sujeitos com as línguas diferentes em uma situação cuja
necessidade de interagir verbalmente era imperiosa e necessária.
O aspecto do estudo das línguas em contato aqui abordado centra-se no reconhecimento
de que os contextos de contato entre línguas criam situações que incidem fortemente na
qualidade e no sucesso das interações verbais, geram interferências de uma língua sobre outra
e até ocasionam mudanças linguísticas. Entendemos que os contextos de contato linguístico
devem ser considerados e reconhecidos a fim de que, a partir da identificação dos impasses de
comunicação neles gerados, possam ser dirimidos e, até, solucionados quando possível.
Por meio da observação do contexto de atuação dos profissionais de saúde cubanos no
PMM, houve a possibilidade de investigar a interação entre o português e o espanhol, a mescla
de culturas e identidades capazes de interagir e fazer emergir novos modos de comunicação
entre os grupos sociais envolvidos e a importância da interação verbal na área da saúde, pois é
um campo que deve ser fundado na conversa, na anamnese, na interação entre pessoas, de
3
SUS: Sistema Único de Saúde
DOSSIÊ AMAZÔNIA 69
estudado, às hipóteses levantadas que se queira confirmar, e ao tipo de informantes com que se
vai entrar em contato”.
As dificuldades linguísticas constituíram uma das principais dificuldades enfrentadas
por médicos cubanos e pacientes bragantinos, acentuadas pela questão da variação linguística,
visto que ambos colocaram-se em contato com estruturas e regras linguísticas de outra língua e
com indivíduos que traziam consigo suas bagagens culturais, étnicas, suas representações de
mundo e do outro, implicadas na língua além de uma variedade linguística característica da
Amazônia paraense.
A partir de esforços de compartilhamento e interação, Silva (2018) pôde observar
algumas das atividades tradutórias que possibilitaram o diálogo entre as duas culturas e uma
ressignificação de signos tradicionais, tanto da área médica quanto da dos saberes populares. O
recurso de formas espontâneas de tradução tornou-se, então, fundamental, vindo a se tornar,
assim, a própria prática de sobrevivência e manutenção da interação entre médicos e pacientes
bragantinos. No exercício e tentativa mútua de tradução linguística, os dois grupos adentraram
no repertório cultural um do outro.
Por um conjunto de ações de saúde, nos âmbitos individual e coletivo, que abrange a
promoção e a proteção da saúde, a prevenção de agravos, o diagnóstico, o tratamento,
a reabilitação, redução de danos e a manutenção da saúde com o objetivo de
desenvolver uma atenção integral que impacte na situação de saúde das coletividades.
Foi nesse processo, é importante frisar, que os médicos cubanos se encaixavam, fazendo
parte, não do todo do PMM, mas sim de um dos espectros de ações do Programa.
A contratação desses profissionais cubanos, entretanto, fez parte de um regime de
acordo diferenciado. Enquanto, venezuelanos, argentinos e espanhóis se inscreveram
voluntariamente no programa, os cubanos atuavam como prestadores de serviço de um pacote
oferecido pelo governo de Cuba ao Ministério da Saúde, sob intermediação da Organização
Pan-Americana da Saúde (OPAS) e da Organização Mundial de Saúde (OMS).
Advindos de Cuba, trouxeram a formação médica desse país. Cuba tem uma saúde
pública de caráter estatal e social com acessibilidade e gratuidade. A formação de seus
profissionais em saúde é voltada para a saúde da família, na qual médicos são clínicos gerais
mas têm conhecimento de pediatria, pequenas cirurgias e até de ginecologia e obstetrícia.
A implantação do PMM e a contratação de médicos cubanos causaram inúmeras
polêmicas em vários setores da sociedade brasileira. Associações médicas, organizações de
classe, políticos de oposição, estudantes de medicina e parte da mídia se posicionaram
antagonicamente, fazendo severas críticas à qualidade dos médicos e às formas de contrato
estabelecidas pelo PMM.
Conforme Silva (2018), o contato, a priori, entre os médicos cooperados cubanos e os
brasileiros ocorreu marcado por conflitos interculturais, expressos por uma acentuada
desconsideração ao médico estrangeiro, baseada na concepção de que este viria ocupar o lugar
do médico brasileiro, o que fez com que inúmeros brasileiros inferissem negativamente à
presença dos médicos cubanos.
A estranheza diante de si mesmo é uma experiência essencial, pois ela permite abrir-
se às outras culturas, e ao outro. [...] o que é essencial é partir da não compreensão, de
uma situação em que não compreendemos o estranho nem compreendemos a nós
mesmos. (MORIN; WULF, 2003, p. 36-8).
4
Sentimento de desconforto e estranhamento que resultam em uma sensação profunda de não pertencimento
ao seu ambiente de origem. (TEDESCO, 2013)
DOSSIÊ AMAZÔNIA 73
Na consulta médica o paciente e o médico precisam estar em uma forte conexão nas diversas
fases de suas interações, porque expressar ideias e sentimentos implica a necessidade de se fazer
ouvir, de se expressar e de entender.
Nesse contexto, a interação verbal não compreende apenas a interação face a face, mas
tudo que está envolvido no processo de comunicação verbal, inclusive os atos sociais de caráter
não verbal como os gestos e atos simbólicos, que estabelecem relações e significações entre o
verbal e os horizontes sociais de valor, segundo a teoria de Bakhtin (1999, p. 117).
A interação entre os médicos cubanos e os pacientes bragantinos pressupunha, como em
todas as relações humanas, a presença de um contexto, que configuraria os limites e as
possibilidades de cada sujeito.
Tais interações observadas envolvem, de um lado, os médicos cubanos e, de outro, os
pacientes, ambos interessados em entender e se fazerem entendidos nos seus relatos verbais.
Assim, um dos lados quer se fazer entender no relato das doenças, sintomas e dor que lhes
acometem, bem como entender as orientações médicas dadas; o outro quer entender os relatos
dos pacientes e se fazer entendido nos diagnósticos e terapia que quer aplicar.
Assim, estamos diante de atitudes e de representações – como sistemas de interpretação,
que regem nossa relação com o mundo e com os outros, orientando e organizando as condutas
e as comunicações sociais. (JODELET, 2002, p. 5).
Na especialidade da clínica médica, os níveis de expressabilidade e de
compreensibilidade precisam ser bem cuidadosos, pois podem ter efeitos decisivos na vida dos
médicos e dos pacientes: equívocos no diagnóstico e nas formas de tratamento. Sem a mínima
condição de expressão e de compreensão, a vida de um e a carreira de outro poderiam ser
seriamente afetadas.
Nesse particular, em Bragança várias questões emergiram envolvendo o uso da língua
portuguesa nas interações médicas, tanto dos médicos cubanos – falantes de espanhol, mas
usuários do portunhol nas consultas – quanto dos pacientes bragantinos que, por sua vez, usam
uma variedade de português marcada pelo regionalismo da região.
Cada um desses grupos, na pesquisa, apresentam um ponto de vista sobre estas questões
de linguagem presentes nas situações de contato. E foi esse olhar específico o caminho
fundamental para que compreendêssemos o significado da situação linguística estudada.
Por meio da pesquisa de campo com indivíduos dos dois grupos foi possível detectar
alguns pontos de tensão e dificuldade na interação requerida na prática médica. A pesquisa
ressaltou dificuldades características do nosso sistema de saúde bem como encontrou
dificuldades de práticas de linguagem suscitadas no contexto da clínica médica em situações de
contato linguístico: a começar pelas diferenças entre as línguas até as diferenças culturais que
os dois grupos tiveram que enfrentar.
Assim, os impasses de comunicação acabaram se constituindo como dificuldade para os
médicos cooperados do PMM no início do contato pois, apesar de terem uma noção de fala e
escrita do português, foram apresentados às variantes linguísticas da região bragantina dotadas
de características marcantes da região. Os pacientes, por sua vez, também enfrentaram
dificuldades nas questões linguísticas de modo que os dois grupos precisaram fazer acordos que
permitissem o sucesso da interação.
Em se tratando de contextos de saúde, Pimenta e Texeira (1996, p. 473), ressaltam que
“a comunicação da experiência dolorosa pelos doentes aos profissionais de saúde que lhes
atendem é fundamental para a compreensão do quadro álgico, implementação de medidas
analgésicas e avaliação da eficácia terapêutica”. Desse modo, a importância de poder comunicar
a situação de enfermidade é a base para que haja um diagnóstico preciso. E a linguagem verbal
– a que utiliza a palavra – impõe-se como uma ferramenta com elevado nível de importância.
Como as línguas dos dois grupos a que estamos no referindo eram diferentes, a barreira de
expressão e compreensão surgiu.
74 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
O contato linguístico tem sido estudado sob abordagens e enfoques diversos, mas, no
meio dessa diversidade, estudiosos como Weinreich (1953), Labov (1980), Tarallo (1987),
Thomason (2001), Couto (2009) concordam com a ideia geral – excetuem-se as diferenças de
enfoque e abordagem – de que os contatos linguísticos carregam a ideia central de que
indivíduos ou comunidades inteiras entram em contato com línguas distintas ou dialetos
distintos cujos resultados trazem algum tipo de efeito para as línguas envolvidas.
Weinreich (1953), por exemplo, considera o contato de línguas como um aspecto do
contato entre culturas e a interferência exercida por um sistema linguístico sobre o outro, uma
faceta da difusão cultural e da aculturação decorrentes do contato entre comunidades
linguístico-culturais distintas. Dessa forma, para o autor, culturas em contato e,
consequentemente, línguas em contato, terminam por acarretar algum tipo de interferência entre
uma língua e outra.
Para Thomason (2001), os contatos linguísticos se reconhecem em comunidades de
todas as dimensões, desde as pequenas às grandes nações e apresentam consequências sociais
que podem ser favorecedoras e desfavorecedoras, ocasionando ou não interferências de uma
língua sobre outra. Assim, pensar em contato linguístico é ver uma relação entre duas ou mais
línguas e o que dessa comunhão resulta.
As situações de contato linguístico são tão relevantes para a história das línguas que
podem induzir mudanças nas línguas envolvidas. Conforme Thomason (2001, p. 62), “o
contato seria a causa de qualquer mudança linguística” já que, segundo a autora, certas
mudanças teriam menos probabilidade de ocorrer fora de uma situação de contato particular.
De acordo com Calvet (2002), a situação de plurilinguismo experimentada no globo
terrestre revela a inegável situação de contato a que os homens estão expostos.
Temos aqui dois casos típicos: pode ser uma pessoa que está de passagem (um turista,
por exemplo) que tentará então lançar mão de uma terceira língua que tanto ele e a
comunidade em que se encontra conheçam [...]. Mas pode se tratar também de uma
pessoa que tem a intenção de permanecer naquela comunidade, sendo-lhe, por isso,
necessário, para se assimilar, adquirir a língua da comunidade de acolhida. Esta é a
situação na qual se encontram os trabalhadores migrantes que chegam a seu país de
acolhida, sem conhecer ou sabendo bem pouco a língua (CALVET, 2002, p.40)
O segundo tipo de situação apresentada pelo autor aplica-se à dos médicos cubanos
chegados a Bragança que enfrentaram o desafio de necessitar adquirir a língua portuguesa para
garantir sua sobrevivência no novo espaço. O contato com a nova língua implicava algum tipo
DOSSIÊ AMAZÔNIA 75
de efeito para a sua língua de origem, bem como o natural surgimento de atitudes e
comportamentos diante da nova língua.
Assim como geram consequências para as línguas dos povos envolvidos, as situações
de contato linguístico acionam, também, determinados comportamentos e atitudes linguísticas.
A aceitação ou não de outra língua está diretamente relacionada com as crenças que os falantes
têm sobre essas outras línguas e que, consequentemente, podem influenciar na decisão de
afirmar se uma língua é bonita ou feia, fácil ou difícil de ser compreendida.
Considerando a situação de contato estabelecida entre médicos cubanos e sociedade
bragantina, não se pode negar que a imigração dos “médicos cubanos” para o Brasil, através do
PMM, tenha gerados vários questionamentos, dentre eles o preconceito, que pode ir além da
questão de raça e classe social: pode alcançar o linguístico, que é o que nos interessa aqui. E,
mais ainda, os comportamentos que esse certo modo de falar pode provocar. Calvet (2002, p.
69) chama a atenção para dois tipos de consequências sobre os comportamentos linguísticos:
“uns se referem ao modo como os falantes encaram sua própria fala, outros se referem às
reações dos falantes ao falar dos outros”.
Em Bragança no contexto a que vimos nos referindo, foi visível o quanto o espanhol e
a variedade do portunhol usada pelos médicos acionou atitudes e comportamentos dos falantes
bragantinos. Da mesma forma, a variedade de português usada pelos bragantinos também gerou
atitudes e comportamentos nos médicos cubanos uma vez que se depararam com uma variedade
de português que era uma espécie de contra expectativa em relação à variedade de português
que haviam aprendido em alguns cursos anteriores.
No contato linguístico estabelecido entre médicos cubanos e pacientes bragantinos foi
possível observar alguns impasses e dificuldades e, ao lado disso, estratégias e soluções para
dirimi-las e superá-las, as quais serão tratadas na seção seguinte.
Espinhela caída
Coluna vertebral Dor nos quartos
Dor no espinhaço
Dor na moleira
Cabeça
Moleira aberta/mole
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Dor no pé da barriga
Barriga Dor de veado
Barriga d’água
Como já é consenso na literatura linguística, nem a língua nem a fala são imutáveis. A
língua evolui, transformando-se, historicamente, como já tem sido largamente demonstrado por
meio da Linguística Histórica e da Sociolinguística. Fatores diversos influenciam a mudança
das línguas que ocorre de modo lento e gradual. A fala também se modifica conforme a história
pessoal de cada indivíduo, sua formação escolar e cultural, as influências que recebe do grupo
social onde está inserido e até as suas intenções.
A Sociolinguística, a partir dos anos 1960, por meio dos estudos de Labov (1980) deu
grande relevo à importância e ao lugar da variação linguística nos estudos linguísticos,
elucidando as regularidades por trás da aparência caótica da variação. A variação linguística,
chamada, também de variante, é definida, segundo Calvet (2002, p. 90) como: “variável é o
conjunto constituído pelos diferentes modos de realizar a mesma coisa (um fonema, um signo...)
e por variante, cada uma das formas de realizar a mesma coisa”.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 77
Assim, a concepção de língua adotada neste estudo é a que a toma como um elemento
heterogêneo, naturalmente variável e mutante cujas possibilidades de mudança e variação lhes
são inerentes (Labov, 2008; Calvet, 2002).
Concebemos, ainda, que as manifestações da língua estão intrinsecamente associadas a
fatores de natureza social, cultural, histórica, situacional, discursiva entre outros. Segundo
Jakobson (1995), a língua nunca é um mecanismo isolado, mas interage com outros sistemas
de signos geradores da linguagem. Disso decorre que a língua não se realiza efetivamente fora
das enunciações discursivas e dos contextos culturais, não sendo, viável, por tal razão,
dimensioná-la ou concebê-la fora destes.
Assim, consideramos neste trabalho tanto as importantes aquisições teóricas da
Sociolinguística Variacionista no tocante à estreita associação entre língua e sociedade e da
variação como uma ocorrência regular e normal nas línguas, quanto em concepções posteriores
que concebem a variação como marca de identidade social (LE PAGE, 1980).
A concepção de Le Page é a de que todo ato de fala é um ato de identidade e que a
linguagem seria um ato primordial para marcar a identidade, privilegiando, nesse processo,
algumas fontes de influência, conforme Bortoni-Ricardo (2005, p. 175) referindo-se à
concepção de Le Page, comenta:
A sociedade brasileira não está toda ela vivendo segundo tendências, crenças, ideias
e práticas iguais para todos os cidadãos. Em regiões mais afastadas dos grandes
centros urbanos é possível encontrar pessoas vivendo sem energia elétrica, sem água
encanada, sem rede de esgoto, sem televisão, sem acesso à internet. É bastante
previsível que ali as pessoas falem de um modo que se distancia grandemente das
variedades urbanas e que empreguem palavras e expressões antigas que já não são
empregadas pelos falantes urbanos, além de usarem também formas novas
desconhecidas das demais comunidades de fala.
5
“Algumas doenças (nomes) já que cada região do Brasil tem suas particularidades”. (M3)
DOSSIÊ AMAZÔNIA 79
PORTUGUÊS
ESPANHOL
(Variedade lexical empregada pelos
(Cuba)
bragantinos)
Curuba (feridas na pele) Curuba (fruta de fazer suco)
6
Todos os colaboradores receberam um código, visando preservar suas identidades, de acordo com os princípios
éticos da pesquisa científica e do contrato que rege a permanência dos médicos cooperados cubanos em nosso país.
Para definir o nome dos médicos cooperados cubanos tomou-se a letra inicial de suas profissões M, seguida do
número de informantes: 1, 2, 3, 4, 5. Em seguida consideramos a letra P para designar os pacientes participantes
da pesquisa, também seguidos das numerações.
80 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
dinâmicos que variam e sofrem modificações por conta de fatores históricos, culturais e sociais.
(SILVA, 2018).
A pesquisa mostrou que os médicos cooperados cubanos se comunicavam com os
pacientes bragantinos por meio de uma alternância entre as variedades linguísticas
significativas dentro de uma mesma interação: ora usavam termos da medicina cubana e/ou
universal e os termos da variedade linguística da região onde estavam inseridos. Os pacientes,
por sua vez, por meio da variedade linguística empregada buscaram esforço comunicativo e
revelaram traços de suas identidades. A esse respeito, Bortoni- Ricardo comenta (2005):
A variação linguística, que já foi vista na infância da ciência linguística, como uma
ruptura da unidade do sistema, é concebida hoje como um dos principais recursos
postos à disposição dos falantes para cumprir duas finalidades cruciais: a) ampliar a
eficácia de sua comunicação; b) marcar sua identidade social (BORTONI-RICARDO,
2005, p. 175).
coloridas também eram utilizadas para sinalizar detalhes nas recomendações escritas, enfatizar
determinados pormenores recomendados, focalizar aspectos de importância da receita e,
também, para conferir uma eficácia mais terapêutica à interação.
Para se fazer melhor compreendido, o médico também buscava a estratégia de falar
pausadamente, de pronunciar as palavras em um ritmo que desse condições ao paciente de
apreender o conteúdo do diálogo e a estratégia da repetição das orientações como forma de
garantir a eficácia daquela consulta.
Quando o médico sentia dificuldade com algum termo ou expressão usada pelo paciente
em que as demais estratégias eram ineficazes para a compreensão, o médico recorria a um
terceiro indivíduo para atuar como tradutor. Alguém que fizesse parte do quadro da equipe de
saúde presente no momento daquele impasse, geralmente era acionado para fazer a mediação
entre o médico e o paciente e assim resolver o impasse linguístico.
Os pacientes relataram que, em alguns momentos, se sentiram incomodados com a
língua espanhola, pois, muitas vezes não compreendiam o que o médico cooperado falava. Mas
a dificuldade na comunicação, em momento algum, foi empecilho para a realização das
consultas médicas, pois, naquele acordo tácito, aceitavam as estratégias sugeridas pelos
médicos para suprir as necessidades ali apresentadas.
Assim, reiteramos que o uso de linguagem não verbal, de fala mais pausada e repetida,
mímicas e auxílio de outros profissionais da saúde no consultório médico, foram as estratégias
mais usadas pelos pacientes bragantinos para comunicar e fazer entender os sintomas e dores
da sua realidade. A esse respeito, esclarece Queiroz (2014, p. 09);
Informações de qualquer natureza (verbais e não verbais) são fundamentais na medida
em que funcionam como pistas para o provedor de saúde, pois trazem detalhes que
indicam os estados físico e mental do paciente e, portanto, são informações
imprescindíveis para a realização de um diagnóstico apurado e um programa de
tratamento adequado.
O contato dos médicos cubanos com os pacientes bragantinos foi marcado por sutilezas,
novas linguagens, dando sentido e significado às suas interações e a cada novo contexto de onde
ambos os grupos faziam parte. Entendeu-se que o êxito e o sucesso de todo esse processo do
direito à saúde foram garantidos devido aos laços que foram marcados pela disposição para as
trocas linguísticas e culturais, de vivências e de histórias.
A ajuda ao próximo, o tratamento diferenciado, a capacidade de ouvir respeitando as
diferenças e o apoio quando necessário foi reconhecido pelos pacientes por nós consultados,
pois os médicos cubanos também faziam atendimentos domiciliares e fora de seus horários de
trabalho. De acordo com uma das pacientes: “[...] ela é boazinha... olha pra gente e vai em casa
na outra hora que não tá aqui no posto...Eu gostei. Porque antes, a gente vinha aqui no posto e
não tinha médico” (P2)7.
Esse cenário nos levou a pensar na forte atuação dos médicos cooperados cubanos nesse
atendimento humanizado, com foco nos determinantes sociais e ambientais visto que as
populações que eles serviam moram em lugares remotos, periferias de grandes cidades e
distritos indígenas, considerados os mais afetados pelos efeitos das desigualdades sociais que
afetam o Brasil. E, de fato, é importante ressaltar que a migração dos médicos cubanos ocorreu
de forma ordenada e sob condições humanitárias.
Assim, a experiência de pesquisa com médicos cubanos e pacientes bragantinos revelou
que um bom relacionamento entre médicos e pacientes em união com a qualidade técnica
possibilita um atendimento individualizado para os doentes por parte do médico, gerando
satisfação no paciente durante o tratamento e, concomitantemente, firmando um olhar
diferenciado e sensível para as questões humanas.
No tocante ao termo humanizar, Oliveira (2001, p.104) define:
Essa arte de saber olhar, ouvir e tocar constatada na relação do cotidiano entre médicos
cubanos e comunidade bragantina, ultrapassou as diferenças de fronteiras de língua e ampliou,
com o tempo, a percepção dos pacientes sobre o cuidado afetuoso, do sentimento de
importância, de um relacionamento mais humanizado conforme ilustra o excerto a seguir.
Esse tratamento humanizado, apresentado pelo médico acima, foi uma das
características bem visíveis e elogiadas por pacientes bragantinos, refletindo suas satisfações.
O modelo de comunicação “médico cooperado × paciente” pode ser uma proposta, uma pista
para se instituir a cultura do cuidado humanizado entre médicos brasileiros e seus pacientes.
Para os médicos cubanos, essa relação participativa e compreensiva do sentimento, da
dor do paciente bragantino é carregada de significações, de interpretações individuais e bastante
simbólicas por uma importante razão: cada comunidade transmite suas narrações, comunica-se
de forma diferente e, o contar da dor, também é um fato cultural, o que para os médicos
cooperados precisa ser altamente observado.
7
P2: Paciente 2 – abreviação utilizada para indicar os pacientes entrevistados.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 83
4 CONSIDERAÇOES FINAIS
REFERÊNCIAS
84 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
LE PAGE, R. B. Projection Focusing and Diffusion. York, Papers in Linguistics. Vol. 9, pp.
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Linguagens e Saberes na Amazônia). Universidade Federal do Pará. Bragança, 2019. 144 f.:
WEINREICH, Uriel. Languages in contact. New York: linguistic Circle of New York, 1953.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 87
RESUMO
O presente artigo tem por objetivo analisar as políticas públicas direcionadas para as cidades paraenses
de Breves e Santarém, durante o desenrolar da Segunda Guerra Mundial. Criado em 1942, o SESP –
Serviço Especial de Saúde Pública -, agência de iniciativa brasileira e norte-americana, iniciou um vasto
programa de saúde e saneamento na região amazônica, com a instalação de estruturas médico-
-hospitalares apresentadas como novos modelos de atenção à saúde da população local. Analisaram-se,
principalmente, como fontes documentais, jornais em circulação pelo país, relatórios e boletins
produzidos pelo Serviço. Essas fontes revelam o esforço em representar uma região carente de estrutura
médico-hospitalar e imersa à sua própria sorte, cuja redenção viria com as ações do SESP. Refletir de
forma crítica sobre essas questões nos permitiu investigar compreensões sobre o Pará daquele contexto,
os diferentes interesses políticos em jogo e a celebração da política de boa vizinhança entre Brasil e
Estados Unidos.
ABSTRACT
The purpose of this paper is to analyze public policies aimed to the Breves and Santarém cities in Pará,
during the course of the Second World War. Created in 1942, SESP — Special Service for Public Health
—, a Brazilian and North American initiative agency, started a vast health and sanitation program in the
Amazon region, with the installation of medical and hospital structures presented as new models of care
to the health of the local population. They were analyzed, mainly, as documentary sources, newspapers
in circulation throughout the country, reports and bulletins produced by the Service. These sources
reveal the effort to represent a region in need of a medical and hospital structure, and immersed in its
own fate, whose redemption would come with the actions of SESP. Reflecting critically on these issues
allowed us to investigate understandings about Pará in that context, the different political interests at
stake and the celebration of the good neighborly policy between Brazil and the United States.
INTRODUÇÃO
Nos idos de 1942, ocorreu, no Rio de Janeiro, a III Conferência dos Chanceleres.
Durante as reuniões, representantes do governo do Brasil e dos Estados Unidos firmaram uma
série de acordos e, entre eles, a criação do SESP - Serviço Especial de Saúde Pública. A nova
agência tinha como principal propósito atuar na área da saúde e saneamento da região
amazônica. Segundo Campos (2000, p. 201) “para os Estados Unidos, a adesão do Brasil à
1
Doutorando em História pela Universidade Federal do Pará (UFPA) e Professor de História da Escola de
Aplicação da Universidade Federal do Pará (EAUFPA). E-mail: [email protected].
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causa dos Aliados tornou-se imperativa, sendo o projeto de saúde e saneamento vital para os
interesses norte-americanos no Brasil”. A Amazônia voltava a ser destaque no cenário nacional
e internacional, tendo a borracha como figura central e o produto regional a ser explorado. Se
no final do século XIX e início do XX, capitais como Belém e Manaus experimentaram “a
riqueza criada pelo látex e a contribuição para uma reorganização do espaço urbano, sempre
em função do mercado especializado da borracha” (SARGES, 2010, p. 114), a década dos anos
40 do século XX vai assistir aos esforços de uma política pública voltada sobretudo para as
cidades do interior da Amazônia.
Nos anos iniciais do século XX, a questão da saúde pública ficou cada vez mais presente
na agenda política e diplomática dos países e se acentuou no decorrer da Segunda Guerra
Mundial, quando os Estados Unidos criaram agências de saúde com projeções internacionais.
Segundo Cueto (2015, p. 12) “durante a maior parte dos séculos XIX e XX, o termo saúde
internacional associou-se a acordos governamentais, disciplinas universitárias e programas
sanitários em países pobres”. Assim nasceria o SESP, uma agência bilateral, programada para
atuar nas regiões mais pobres do Brasil, a priori na Amazônia, depois se estendendo país afora.
Ainda na Conferência, ficou acordado que “a defesa do Hemisfério Ocidental requeria a
mobilização das forças vitais, humanas e materiais, das repúblicas americanas, isto é, em áreas
carentes de recursos médicos e sanitários, mas com potencial grande em recursos naturais”
(BRASIL, 1944, p. 7). Não apenas o Brasil tornou-se alvo da política externa norte-americana.
Como o interesse estava voltado também para a exploração dos recursos naturais, soava quase
que imperativo a influência na saúde pública dos países vizinhos. Nesse contexto, os Estados
Unidos se colocaram na dianteira na construção de uma agenda de saúde e saneamento para
esses países.
Em vista disso, o artigo busca analisar as ações do Programa da Amazônia proposto pelo
SESP nas cidades paraenses de Breves e Santarém, entre os anos de 1942 a 1945, momento de
instalação de arquiteturas de saúde em algumas cidades do interior do Pará. Afinal, quais os
limites e interesses de uma política pública de saúde, de iniciativa internacional em cooperação
com o governo brasileiro, voltada para a Amazônia paraense em pleno contexto da Segunda
Guerra Mundial? O que era Breves e Santarém nesse contexto? Quais as articulações entre os
governos locais e os representantes do SESP para a instalação de hospitais nessas cidades?
Como a imprensa e os meios informativos do Serviço se colocaram nesse debate? Que tipo de
reação as estruturas médicas geraram nas comunidades locais? Responder a essas questões nos
permite entender as políticas públicas direcionadas para a Amazônia em plena Guerra Mundial.
Visando a atingir os objetivos deste trabalho foi realizado levantamento, pesquisa e
análise de documentos oficiais produzidos pelo SESP, sobretudo das atividades desenvolvidas
na Amazônia paraense. Parte do acervo pesquisado se encontra nos arquivos e bibliotecas do
Instituto Evandro Chagas, em Ananindeua no Pará e na Casa de Oswaldo Cruz – Fiocruz, no
Rio de Janeiro. Tratam-se de fontes bastante dispersas pelo país e de certa maneira impõem
dificuldades de acesso ao pesquisador. Bacellar (2005) aponta para os problemas enfrentados,
de forma geral, aos serviços públicos: falta de pessoal, de instalações adequadas e de recursos.
[...]. Aventurar-se pelos arquivos é sempre um desafio, [...] mas um esforço que quase sempre
levará a alcançar resultados muito gratificantes. Também foram consultados jornais em
circulação pelo país, como o periódico carioca O Jornal. Nele, foi possível observar como os
noticiários estavam em sintonia com os discursos produzidos pelo SESP, com posicionamentos
alinhados quanto a atuação da agência na Amazônia. A parcialidade de periódicos é alertada
por Bacellar (2005, p. 63), para quem “documento algum é neutro, e sempre carrega consigo a
opinião da pessoa e/ou do órgão que o escreveu”. De posse da documentação, foi possível
problematizar e buscar o entendimento das ações do Serviço e as intencionalidades postas em
pauta. Conforme sugere Bloch (2001, p.79), “tudo o que o homem diz ou escreve, tudo que
fabrica e toca pode e deve informar sobre ele”. Em tempos de guerra, os meios de comunicações
DOSSIÊ AMAZÔNIA 89
como boletins e jornais não demostravam neutralidade e eram utilizados para legitimar os
projetos desenvolvidos pelo SESP a partir da parceria estabelecida entre Brasil e Estados
Unidos.
O final do século XVIII trouxe um novo olhar e novos sentidos para os hospitais. De
um espaço onde o personagem não era o doente que precisava de cura, mas o pobre que estava
morrendo e deveria receber os últimos cuidados e o último sacramento, se tornaria o lugar do
tratamento terapêutico, instrumento destinado a curar (FOUCAULT, 1995). “Nesse novo
quadro o hospital tradicional perdeu espaço. Foi preciso transformá-lo física e conceitualmente,
foi preciso que ele perdesse sua feição assistencial em benefício da terapêutica” (SANGLARD,
2006, p. 16).
Em meados do século XIX a história da saúde passa por importantes mudanças. Em
alguns países europeus e nos Estados Unidos, o campo da medicina social direcionou-se para
os problemas sanitários. É um período de novas descobertas que nortearam as bases teóricas da
medicina, como os estudos patológicos e a proposição de novos meios de intervenção visando
à contenção e à cura desse processo (SILVEIRA; FIGUEIREDO, 2011). As autoras advertem
que no Brasil tais mudanças ocorreram no início do século XX e com ritmos diferentes entre as
regiões. No Pará, a construção das primeiras arquiteturas hospitalares foi iniciativa das ações
filantrópicas, a exemplo do hospital D. Luiz I da Benemérita Sociedade Portuguesa Beneficente
do Pará, em 1877 e tinha como propósito dar assistência aos portugueses no combate às
epidemias que assolavam a capital paraense (FIGUEIREDO, 2018). Por longos anos, os
hospitais “tiveram um papel atrelado à ideia de caridade, espaço para receber doentes pobres
que por motivações diversas viam-se reféns das mais diversas doenças” (GOMES, 2019, p. 21).
Na segunda metade do século XIX outras arquiteturas hospitalares foram construídas
com o objetivo de dotar a cidade de melhores condições de higiene, baseando-se nas teorias
médicas e sanitárias vigentes, como o hospital Juliano Moreira e hospital Domingos Freire.
Nesse período, as epidemias de febre amarela e varíola geraram as primeiras medidas
saneadoras na cidade, com a proibição de enterramentos nas igrejas e com isso, a construção
dos cemitérios da Soledade e de Santa Isabel (MIRANDA, 2018). Ainda segundo Miranda
(2018, p. 81), sendo uma população muito pobre dependiam da “compaixão e caridade das
pessoas [...]. As irmandades, beneficências e misericórdias, instituições lusas de caridade eram
responsáveis por grande parte da história da saúde de Belém”. A Santa Casa de Misericórdia
está entre as instituições com atuação nas ações de saúde na capital do Pará surgida no seio das
irmandades. Fundada em 1650, funcionou como irmandade até 1890, quando passou a ser
Associação Civil de Caridade e transformou-se em Fundação em 1990, passando a ser
financiada pelo governo do estado (MIRANDA et al., 2015).
O processo de institucionalização da assistência à saúde no Pará ocorreu na virada do
século XIX para o XX. Na capital paraense, as inaugurações dos hospitais São Sebastião e
Domingues Freire, associados à medicina moderna, representaram o avanço na área da saúde
pública da cidade. Os hospitais impulsionaram uma nova fase das políticas públicas, onde
práticas ligadas à caridade, embora não desaparecessem, sediaram espaço à ciência médica na
estrutura hospitalar (RODRIGUES, 2021). Mesmo institucionalizado, o saber médico no Pará
concentrou suas atenções em Belém, em detrimento do interior do Estado. “Durante quase toda
a Primeira República, vale dizer, os moradores do interior raramente viram médico e
farmacêutico passarem por suas vilas e povoados” (RODRIGUES, 2021, p. 202). Em meados
da década de 1920, existiam alguns postos de saúde, espalhados por algumas cidades do
interior, tendo como base ações voltadas para a profilaxia ao paludismo e as verminoses, além
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A instalação do SESP a partir da celebração dos acordos bilaterais entre Brasil e Estados
Unidos era justificada pela necessidade de se estabelecerem esforços conjuntos na luta e
combate contra as doenças. Segundo o norte-americano George Dunham, os serviços
Cooperativos Interamericanos de Saúde Pública foram organizados para ajudar o
fortalecimento da “política de boa vizinhança, num momento em que a ameaça de conquista
alemã era mais séria e se tornava necessária todos os meios possíveis para combater a influência
do Eixo nas Américas” (BRASIL, 1944, p. 7). A prática de promoção de saúde a partir de laços
cooperativos possuía um alvo em comum, sendo, ao mesmo tempo, os países alinhados ao
“Eixo” e os mosquitos os grandes adversários a serem combatidos. Estratégia sanitária foi como
o jornal carioca Diário da Noite se referiu à criação do SESP. Para o periódico, a agência
“resultou de um dos acordos de Washington e trazia, na hora penosa da guerra, um instrumento
de boa vizinhança e por isso seu custeio resulta de contribuições de brasileiros e norte-
americanos” (ESTRATÉGIA, 1943, p. 1). Nesse ínterim, os Estados Unidos, além de se
colocarem na dianteira do processo como os responsáveis na condução das ações na luta contra
os inimigos, propagavam a ideia de que os países vizinhos eram dependentes de auxílio e
proteção contra os adversários.
O Brasil vivia os anos do chamado Estado Novo, período em que a administração de
Getúlio Vargas instituiu um governo ditatorial que, por meio de uma Constituição autoritária
possuía, como uma das orientações, o controle social através da presença de um Estado forte
DOSSIÊ AMAZÔNIA 91
Os edifícios inaugurados constituem, no dizer das placas de bronze que tem à entrada,
‘símbolos de uma sã política de boa vizinhança’. Entretanto, seu valor é muito mais
que simbólico, uma vez que eles se destinam a um papel de crescente importância na
vida da comunidade. (BOLETIM Nº 27, 1945, p.1).
boa vizinhança entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, e serviram para legitimar os
discursos das autoridades sobre as ações que o SESP estava realizando na região. Ao chegar à
cidade de Santarém para a inauguração da casa de saúde, a comitiva “via tremular as bandeiras
brasileira e americana e fez-se ouvir o hino nacional brasileiro e em seguida o hino americano,
entoados por uma banda de música” (FIOCRUZ, p. 23). Neste cenário, eivado de patriotismo,
“os representantes cercados pelo povo”, acompanharam os discursos das autoridades presentes.
Durante a cerimônia, o Coronel Harold C. Gotaas afirmava ter o hospital “valor intrínseco para
a população da cidade, sendo mais um passo para o desenvolvimento e progresso da saúde
pública no Brasil” (BRASIL, 1945, p. 1).
Com a inauguração da arquitetura médico-hospitalar, o coronel aproveitou para creditar
aos norte-americanos, a iniciativa e liderança na agenda da saúde global. Gotaas enfatizava na
cerimônia que o ato fazia “parte do programa de cooperação continental em matéria de saúde
pública e saneamento, de educação e de abastecimento alimentar, em que estamos todos tão
profundamente interessados” (BRASIL, 1945, p. 7). Concebido em cooperação internacional,
servia o hospital como ponto de referência para creditar a parceria estabelecida entre Brasil e
Estados Unidos e, a este último, legitimar suas ações junto aos países americanos. Segundo
Mauad (2005, p. 45), “havia declarado interesse, por parte do Departamento de Estado dos
EUA, em consolidar a presença na América Latina através de planos de cooperação
internacional e alianças políticas que garantissem a hegemonia dos EUA na região”.
Na cidade de Breves, os discursos seguiam a mesma toada. Durante a conferência de
inauguração do hospital o Dr. Christopherson, reforçava a importância de contar com
“habitantes saudáveis e fortes que trabalhem e produzem material estratégico e alimentos como
requisitos para ganhar a guerra” (BRASIL, 1945, p. 5). A fala do representante norte-americano
aliava saúde, vitória e guerra como estratégia dos EUA em estabelecer cooperação com o Brasil.
Eivada de intencionalidades, tais falas seguiam uma mesma linha de raciocínio e reforçavam a
importância da parceria entre os países, em prol do combate às doenças e, como consequência,
o progresso e o desenvolvimento locais, evidenciando, nesse processo, a colaboração dos
Estados Unidos. Desse modo, é dada, além de um protagonismo no que diz respeito ao
desenvolvimento do país, a ideia de que o Brasil ficasse devedor das ações norte-americanas
Conforme estabelecido nos decretos, a instalação das arquiteturas médicas pelo interior
da Amazônia contaria com a colaboração do SESP e a contrapartida das prefeituras locais. Os
vários discursos das autoridades buscavam justificar as construções como novos modelos de
atenção à saúde da população local, fruto da política de boa vizinhança, apontando, para isso, a
ação das políticas públicas nessas localidades.
que habitam próximos a leitos de reservatório de água, em áreas de inundações e atividades que
acontecem perto dos leitos de água, como a agricultura” (BOLEIRA et al., 2010, p. 282).
Medidas de combates a essas doenças estavam presentes na agenda das políticas públicas de
saúde no Brasil. Nos anos iniciais da República, debates sobre o saneamento rural e as várias
doenças que grassavam, sobretudo na zona rural, fomentaram a instalação dos primeiros postos
de saúde e a realização das primeiras obras de engenharia sanitária (HOCHMAN, 1998). Os
discursos de combates a essas doenças entraram também na agenda de atuação do SESP na
Amazônia, apontando em seus inquéritos como medidas importantes a serem tomadas, como
forma de uma intervenção e cuidados com as cidades e a população.
Sobre os recursos médicos em Santarém, o inquérito sanitário informava existir “três
consultórios médicos e três gabinetes dentários. No interior do município, existia os dois
hospitais Ford, localizados em Belterra e Fordlândia, respectivamente” (BRASIL, 1942-1945,
p. 171). Essa estrutura médica teria sido construída para atender os familiares e funcionários da
Ford no trabalho nos seringais (KLUSKA, 2017). Havia ainda, “o Hospital São José, mantido
pela Congregação da Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição, e subvencionado pelo
governo municipal. O governo do Estado mantinha um Posto de Saúde, em Santarém”
(BRASIL, 1942-1945, p. 171). Se a existência dessas casas de saúde indica a atuação de
entidades privadas e filantrópicas nos cuidados da população local, a construção de um hospital
sugere as ações de intervenção do Estado. Ao buscar dar publicidade, o SESP reforçava o
discurso de que sua construção era “importante por sua localização, e que o edifício serviria ao
mesmo tempo de hospital e Posto de Higiene”. A construção “iniciada em março de 1943 e
finalizada em dezembro de 1945” (BRASIL, 1942-1945, p. 171) era apresentada como uma das
maiores edificações e representava a atuação do poder público e a interiorização da saúde nessa
região.
localizada em Belém. [...] Dessa forma, o SESP acelerou a fabricação de muitas peças
necessárias à instalação dos prédios construídos no interior”.
O projeto acima previa como seria o hospital de Breves, cidade localizada na ilha do
Marajó. Para a construção, a prefeitura local teria doado o terreno com “área de 9.600 metros
quadrados, localizada no centro da cidade” (BRASIL, 1942-1945, p. 75). Tratava-se de um
edifício com 12 leitos e sua estrutura mantinha o modelo pavilhonar, padrão nas construções
do SESP. Símbolo da política de boa vizinhança, teria sido o primeiro edifício inaugurado e era
apresentado como a intervenção do poder público na área da saúde na Amazônia. Durante a
cerimônia de entrega, “a comitiva era esperada no trapiche por uma multidão que demonstrava
o seu entusiasmo pela obra do SESP e teria acompanhado os visitantes até o local de
inauguração, ouvindo atentamente os discursos e aplaudindo-os calorosamente” (BRASIL,
1945, p. 2). Realçar a presença dos moradores locais durante os festejos não deixava de ser uma
estratégia, pois poderia servir como visibilidade para políticos locais reafirmarem as medidas
sanitárias em curso na cidade e dar publicidade as ações desenvolvidas pelo Serviço na região.
Sobre as condições sanitárias, a maioria das doenças presentes na cidade eram as
mesmas encontradas em outros municípios amazônicos. Além da malária, apresentava índices
de “helmintoses, disenterias, lepra, tuberculose, bouba e úlcera tropical” (BRASIL, 1942-1945,
p. 56). Aliás, diversos esforços eram empregados no país, na organização de ações para o
enfrentamento da malária. Os anos de “1930 e 1940 foram marcadas pelo surgimento de
estruturas sanitárias e campanhas dedicadas ao combate à malária, levadas a cabo tanto pelo
governo brasileiro, [...] como pelos esforços da fundação Rockfeller”. (HOCHMAN; MELLO;
SANTOS, 2002, p. 235). Breves teria sido uma das primeiras cidades do país a receber do SESP
tratamentos para malária, a partir “da experiência de expurgo com o famoso DDT, um inseticida
que estava revolucionando os métodos de controle da malária” (BRASIL, 1945, p. 4). Para
Campos (2006, p. 130) “o sucesso desta nova técnica fez com que, cada vez mais, os
responsáveis pelas políticas sanitárias acreditassem que o DDT substituiria as tradicionais
formas de controle da malária”. A cidade de Breves “foi a escolhida por ser um dos lugares
mais assolados pela malária, em virtude de ser construída numa várzea, perto de pântanos, sobre
aterros de serragem” (BRASIL, 1945, p. 4). Tais ideias reproduzem justificativas da
necessidade de intervenções, sobretudo ao relacionar as más condições de moradia da cidade a
um lugar insalubre e propício a todas as moléstias.
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4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
DOSSIÊ AMAZÔNIA 99
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História Social da Amazônia. Universidade Federal do Pará. Belém – PA, 2016.
O presente artigo é o resultado do primeiro ano de pesquisa de campo desenvolvida para a tese de
doutorado intitulada: “A história da prostituição em áreas de barragens na Amazônia: O lado sombrio
do grande capital”, e das discussões gestas na disciplina “Sociobiodiversidade e trabalho”. No presente
artigo abordamos diversos aspectos como perfil das profissionais do sexo, perfil dos clientes, valor dos
programas, abordamos brevemente os motivos que levam essas pessoas a ingressarem no mercado do
sexo. Falaremos sobre metodologia de pesquisa de campo, os desafios de fazer pesquisa de campo
durante o período de pandemia, apresentamos a transcrição de diálogos que foram coletados ao longo
do ano de 2020 com cerca de 50 profissionais do sexo. As perguntas inicialmente eram abertas, mas tão
logo as entrevistadas se sentiam à vontade, as perguntas abertas davam espaço a narrativas de vida e
trajetórias que iam do histórico familiar até o momento que as levou a “escolha” do mercado da prestação
de serviços sexuais. Os dados coletados resultaram numa tabela que apresentamos as características
físicas, faixa etária, os tipos de programas e os cachês médios cobrados por programa.
SEX IS RESERVED FOR THOSE WHO CAN AFFORD IT: A DIALOGUE WITH
THE DAILY PROSTITUTION IN PARÁ
ABSTRACT
This article is the result of the first year of field research developed for the doctoral thesis entitled: “The
history of prostitution in dam areas in the Amazon: The dark side of great capital”, It is also the results
of the discussions conducted in the discipline “Sociobiodiversity and job". This paper, we discuss
several aspects such as the profile of sex workers, the profile of clients, the value of a pool, we briefly
discuss the reasons that lead these people to enter the sex market. We talk about the challenges of doing
field research during the pandemic period, we present the transcript of dialogues that were collected
throughout the year 2020 with a total of 50 sex workers. The questions were initially open, but as soon
as the interviewees felt at ease, the open questions turned into life narratives and trajectories that started
from family history to the moment that led them to “choose” the sex market. The data collected resulted
in a table that presents the physical characteristics, age group, types of pooling and the average fees
charged per pooling.
INTRODUÇÃO
aproximadamente, uma operária do sexo? Qual o perfil dos homens que buscam esse tipo de
companhia?
Guimarães Neto (2014, p. 28) explica que historiadores e estudiosos das ciências sociais
investigam, primordialmente, os momentos e contextos políticos, econômicos e culturais em
que as diversas práticas de trabalho emergem e se tornam corrente no dia a dia das sociedades.
O comércio de prestação de serviços sexuais é indubitavelmente uma prática de trabalho que se
fez e faz muito presente no cotidiano de nossa sociedade.
Outro fator deveras relevante é a questão psicológica que muitas vezes passa
despercebida no universo da prestação de serviços sexuais. Muitos relatos colhidos no presente
trabalho expressam fortemente questões como: abusos na infância, iniciação sexual precoce,
insegurança com o corpo e bullying sofrido ao longo da infância e adolescência. Thompson
(2002, p. 12) explica que:
1 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Alberti (2005, p.155-202) enfatiza alguns equívocos sobre a História oral que devem ser
descartados de imediato, como a consideração de que a História oral é a própria História; de
que a história vista “de baixo” é a democrática, em oposição à história das elites; e que a História
oral busca dar voz às minorias, o que apenas reforçaria as diferenças sociais. Para a autora, a
História oral deve ser compreendida como visões de mundo e experiências de vida. Logo, dar
voz aos relatos de vida de mulheres que estão à margem da sociedade, por meio de seus relatos
de vida, é comprimir com o papel não só de historiador, mas de partícipe de um grupo de
pessoas que buscam, por meio das ciências sociais, derrubar barreiras e, talvez, assim,
minimizar ao máximo as mazelas sociais que as meretrizes historicamente são submetidas.
Utilizar a História oral é trabalhar num campo movediço, onde questões, como a
veracidade dos depoimentos, devem ser consideradas como elemento válido dentro de uma
pesquisa acadêmica séria. Ou mesmo, por se tratar de uma questão mais voltada à memória
individual, não deva ser considerado como apenas um imaginário das entrevistadas, uma
DOSSIÊ AMAZÔNIA 107
tentativa de maquiar uma realidade dura e cruel no cotidiano que muitas vezes, é transformar
em um “conto de fadas, ou até mesmo o oposto”.
Neste caso, David (2013, p. 160) explica que a problemática da verdade não deve
subjugar o trabalho com a História oral. Sem questionar a busca contínua pelo como se deu
determinado fato ou evento histórico, mas devemos reconhecer a multiplicidade de narrativas,
buscar compreender que o depoimento oral é desencadeado pela construção de uma narrativa
ucrônica2 (PORTELLI, 1993, p. 41-58), inserida no campo da memória e que determina aquilo
que o personagem gostaria que tivesse ocorrido ou a sua representação do real.
David (2013, p. 160) complementa afirmando que não se trata de questionar a verdade
ou não do depoimento, mas apenas compreender que esse é construído socialmente pelo
entrevistado que, dando sentido à sua vida, arquiteta um ponto de vista, uma representação
sobre determinado momento relacionado à sua trajetória. E mesmo que essas lembranças
possam indicar a representação do indivíduo sobre determinado fato ou evento, elas estão
carregadas de densidade histórica e demonstram as múltiplas visões do passado, um ponto de
vista do indivíduo que demonstra muito de si e do grupo ao qual ele pertencia.
Para muito além disso, a História oral nos subsidia com elementos para melhor
compreender a possibilidade de múltiplas narrativas e que essas apontam que não há uma
verdade única e que, em decorrência da sociedade ser composta por diversos grupos sociais
participantes concomitantemente de um mesmo período ou evento histórico, cada grupo terá
uma visão de mundo, uma experiência de vida que compõe o todo. (DAVID 2013, p.160)
Thompson (2002, p. 16) deixa bem claro a importância do uso da História oral, uma vez que
todo homem e toda mulher têm uma história de vida para contar que é de interesse histórico e
social, e muito se pode compreender a partir dos poderosos e privilegiados, tais como
proprietários de terra, advogados, padres, empresários, banqueiros, etc.
Entretanto, a História oral tem um poder único de nos dar acesso às experiências
daqueles que vivem às margens do poder, e cujas vozes estão ocultas, pois as vidas dessas
pessoas são praticamente improváveis de serem documentadas nos arquivos. Thompson
enfatiza ainda que essas vozes ocultas são acima de tudo de mulheres, e é justamente por isso
que a História oral tem sido tão fundamental para a criação da História das mulheres.
No entanto, ao trabalhar com História oral é necessário, na hora da entrevista, o
pesquisador ter amplo conhecimento do assunto, pois este será constantemente sabatinado por
seus entrevistados. Um dos maiores entreves na hora de entrevistar é não estar devidamente
munido de informações básicas e demonstrar para o seu entrevistado o desconhecimento de
suas práticas e terminologias locais.
Quando o entrevistado reconhece que o pesquisador tem clareza ao tratar do métier do
entrevistado, o pesquisador conquistará confiança e respeito tendo a oportunidade de obter
ainda mais informações e detalhes, que são imprescindíveis para a sua pesquisa. Thompson
(1992, p. 255) explica que:
A menos que o informante seja, de algum modo, mais bem informado do que o
entrevistador. Este vem para aprender e, de fato, muitas vezes consegue que as pessoas
falem exatamente dentro desse espírito. Por exemplo, Roy Hay descobriu, em sua
pesquisa com construtores navais que Clydeside, que, muitas vezes, ‘nossa própria
ignorância’ pode tornar-se útil. Em muitas ocasiões, são trabalhadores mais velhos
recebiam minhas perguntas ingênuas com divertida tolerância e me diziam ‘Não, não,
garoto, não foi desse jeito’, ao que se seguia uma descrição clara e detalhada do que
verdadeiramente acontecera” (THOMPSON, 1992, p. 255).
2
Neste texto, o autor destaca que as narrativas se apresentam como sonhos de uma vida que poderia ter ocorrido
de maneira diversa, não se encontra na realidade, mas, sim, na possibilidade desejada, e a função do ucrônico seria
a de sustentar a esperança.
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entrevistado, para que o mesmo se sinta à vontade para falar ou até mesmo deixar de falar.
Assim, o ambiente deve ser escolhido ou aprovado pelo próprio entrevistado. Além disso, locais
relacionados ao período narrado ou à temática possibilitam a melhor rememoração do passado,
sendo ainda possível a utilização de fotos ou objetos que ajudem o entrevistado a se recordar
do tema proposto.
Saraiva (2009, p. 8-15) descreve em seu capítulo introdutório as dificuldades que teve
para fazer a coleta de dados em ambiente de meretrício. Este capítulo serviu como norte para
as minhas idas à campo. Cerca de 30% dos encontros presenciais foram realizados em quartos
de Hotéis/Motéis, apartamentos alugados por temporada, locais usualmente utilizados para o
atendimento de clientes, além destas, algumas poucas entrevistas foram realizadas nas próprias
casas das profissionais, que também eram utilizadas como espaço de trabalho. Ressaltamos que
máscaras, distanciamento social e álcool em gel foram medidas de prevenção e segurança
adotadas durante as entrevistas presenciais.
Fazer a entrevista no local de atendimento dessas mulheres, teve como intuito dar
subsídios para que elas pudessem acessar as camadas mais profundas de suas memórias.
Quando o pesquisador opta pela coleta de depoimento oral, ele precisa ter clareza que vai
adentrar em um campo delicado e íntimo da memória do entrevistado.
Saraiva (2009, p. 9) relata uma situação recorrente durante sua pesquisa de campo:
mesmo depois de os pesquisadores exporem os seus objetivos às trabalhadoras do sexo, muitas
delas acreditavam que pelo pesquisador ser homem ele ainda era um cliente em potencial.
Ser tratado como uma cliente em potencial, foi também uma experiência vivenciada por
mim em meu trabalho, mas tal situações foram sutilmente contornadas. Em muitos momentos
da pesquisa de campus, assim como Saraiva, tive de ouvir propostas que iam desde pagar para
fazer sexo e poder ouvir os relatos a simplesmente pagar para ouvir somente os relatos.
As garotas de programa relataram que, por conta da pandemia, houve uma drástica
redução no número de programas realizados diariamente. Alguns relatos de diminuição falam
de uma perda entre 40% e 55% da renda diária obtida com os programas. Algumas meretrizes
relataram que faziam entre 03 e 05 programas diários, antes da pandemia de Covid 19.
Algumas mulheres, encontraram formas alternativas de recuperarem parte dos ganhos,
e ao mesmo tempo diminuir o contato social com inúmeros parceiros. Uma alternativa um tanto
inusitada foi por meio de rifas. Toda a semana, um programa “completo” com uma trabalhadora
do sexo era rifado. Com o valor recebido das rifas, a mulher ganhava o suficiente para o seu
sustento por uma semana de trabalho, e o cliente que comprava a rifa por cerca de 15 ou 20
reais, dependendo da meretriz, ganhava um programa por um custo bastante inferior ao que
pagaria usualmente num programa regular com a profissional do sexo.
Outra queixa corriqueiramente ouvida, durante as entrevistas, por parte das profissionais
do sexo é que os programas são exaustivos, uma vez que os clientes demandavam delas um
grande esforço físico durante o ato sexual. Os clientes pagam e querem a melhor performance
possível, não levando em consideração se aquele é o terceiro ou mesmo o quinto programa do
dia daquela meretriz, mas com a pandemia as coisas mudaram e ficaram mais amenas pelo
número reduzido de programas.
Sob a ótica das profissionais do sexo, uma questão curiosa foi levantada por quase todas
elas, durante as entrevistas, ao que concerne a diminuição do número de programas realizados.
Para elas, o fato da diminuição do número de programas não ocorreu por conta do vírus, ou pela
proibição de circulação das pessoas, mas pelo simples fato delas atenderem um público,
majoritariamente, de mulheres e homens casados. Esses clientes teriam se sentido obrigados a
ficarem confinados em casa com seus cônjuges, durante o período de quarentena, tornando a
possibilidade de encontros extraconjugais praticamente inviáveis.
Muitas meretrizes também afirmam que, para elas, o motivo para o aumento da violência
doméstica, e o número considerável de casais que entraram com o processo de divórcio era
110 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
justamente por conta da rotina “aprisionada” dos cônjuges, já que esses estavam acostumados
a sair 01 ou 02 vezes por semana com outras mulheres. Vale ressaltar que essas conclusões
foram retiradas dos relatos das profissionais entrevistadas e, portanto, não devem ser
entendidas, nesse artigo, como conclusões científicas.
Contudo, se por um lado houve uma diminuição na quantidade de programas realizados
pelas profissionais do sexo, por outro, um auxílio, no valor de R$600, do Governo Federal
acabou mitigando as perdas financeiras, uma vez que praticamente todas receberam o auxílio
emergencial. Para muitas, esse valor não foi suficiente face ao valor perdido no número de
programas, uma vez que o valor médio de um programa gira em torno de R$100 e R$200.
Obviamente, estamos tratando, aqui, de média de valores. Temos clareza que dependendo das
habilidades e dotes da mulher, do público alvo, do fator étnico e da idade, os cachês podem
chegar próximo de R$800, ou, até mesmo R$2.000, fazendo com que algumas tenham sentido,
financeiramente, mais que outras.
Durante o período de entrevistas, foi possível ter contato direto com 50 mulheres que
trabalham diretamente com a prostituição. Essas mulheres têm entre 18 a 40 anos, mas por
questões de sigilo e segurança, as identidades dessas mulheres serão preservadas. Como
pseudônimos, ao narrarmos suas trajetórias de vida utilizaremos nomes de flores.
No momento em que as profissionais aceitavam participar da entrevista, elas eram
apresentadas às flores disponíveis, essas seriam as representações de suas identidades. As flores
já escolhidas eram automaticamente retiradas da lista. Dentre essas 50 mulheres, foram
escolhidas 05, que aqui terão suas narrativas trabalhadas por dois motivos deveras relevantes:
essas possuem mesma faixa etária, classe social e características étnicas e o fato delas não
estarem satisfeitas com suas aparências físicas.
2 DESENVOLVIMENTO
3 RESULTADOS E DISCUSSÕES
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Ires, de 18 anos de idade, relata que muitos sites escondem a presença do rufião.
Agenciadores que teclam com os clientes, marcam os encontros, acertam os valores dos
programas e o tipo de programa que o cliente deseja. Sites como FatalModel, Skokka,
NorteSexy, Paradise Girl, SexBooking, entre outros, que são muito difundidos na internet e
entre as garotas de programa. Logo depois de ver o portfólio da mulher no site, o cliente pode
entrar em contato diretamente com a garota de programa escolhida, por meio de aplicativos de
mensagem instantânea ou por telefone, para fechar o programa. Ires fez o seguinte relato:
Sabe Augusto, eu comecei a fazer programas quando eu tinha 15 anos. Eu tinha umas
colegas da minha sala que faziam programa e me colocaram nessa barca. Eu tentei me
cadastrar em 03 sites desse ai de programa. Um dos sites pediu minha identidade e
como eu sou de menor acabou não rolando. Eles ainda me deram o maior mijada. Mas
dois sites, eu me dei bem pra caralho. Só falei que tenho 18 anos e pronto [...]. Como
moro com a minha mãe e padrasto, eu não posso sair certos horários. Eu vivo
recebendo mensagem 24 horas dos caras. As vezes, faço uns 03 programas da hora
que eu vou para a aula. Essa porra de Pandemia fudeu com a minha vida, agora só
consigo fazer 01 programa por dia. O babado ficou tão foda pra mim, que eu tive de
pagar para o moderador marcar os programas pra mim [...] parte da grana, eu banco o
meu namorado. Ele é um frango, ele tem 19 anos e é barbeiro. Ele é liso o coitado
(risadas). Ele nem desconfia que eu saio com caras e ainda uso o dinheiro para pagar
as coisas pra ele. Eu amo aquele frangote.
Tanto Ires quanto outras garotas que foram entrevistadas durante a pesquisa de campo,
relatam que vivem relacionamentos amorosos, mas que seus companheiros desconhecem ou
em alguns casos já as questionaram, mas não sabem que suas namoradas, companheiras e
esposas trabalham no mercado da prestação de serviços sexuais. Muitas utilizam o dinheiro que
ganham para ajudar os seus cônjuges com despesas do lar, no caso das mulheres casadas ou que
vivem em regime de união estável, outras ajudam a custear os estudos, passeios, presentes e
negócios de seus noivos ou namorados.
Já as mulheres mais jovens, que ainda estão sob o jugo dos pais, e não têm parceiros
amorosos fixos, utilizam a maior parte do valor ganho nos programas para sustentar as
“vaidades” e comprar bens de consumo que estão muito além das possibilidades de seus pais.
Em entrevista com Lírio, de 19 anos de idade, ela revela que:
Eu não preciso fazer isso porque minha mãe e meu padrasto bancam os meus estudos
e tudo mais. Meu pai paga pensão. Só que eu quero comprar as coisas que eles não
podem me dá como esse Iphones aqui que eu uso, maquiagem, roupas de marca,
bolsas caras e sapatos. Eu sou cara! (risadas). Eu não faço com qualquer um aí. Eu
olho a lata do cara antes no Whats e peço até foto. Se eu não for com a cara do maluco,
eu não saio. Sabe Augusto, eu amo é o dinheiro e não dou de graça ainda mais para
pobre, feio e liso. Odeio homem liso. Tenho que aproveitar que tô nova e com tudo
durinho (risadas). Depois quando tudo cair, eu quero ter grana para fazer minhas
cirurgias plásticas e levantar tudo (risadas). Quem gosta de homem é veado, mulher
gosta é de grana! (risadas). Mulher é artigo de luxo. Então, sexo é só para quem tem
dinheiro para pagar.
Assim, os dados da tabela nos subsidiarão na busca por resposta acerca da dinâmica que
atrela maiores ganhos ou menores ganhos às características étnicas. Assim como subsidiar a
melhor compreensão do segundo motivo que nos levou a escolha do público-alvo da presente
pesquisa.
Padrão R$400-600
18-23 Completo R$600-800
Padrão R$250-350
24-29 Completo R$350-450
Branca, cabelos loiros ou ruivos,
estatura alta ou mediana, olhos
azuis ou verdes. Padrão R$200-250
30-35 Completo R$250-300
Padrão R$150-180
35-40 Completo R$180-220
R$300-400
Padrão
18-23 R$350-500
Completo
R$200-250
Padrão
24-29 R$250-300
Branca, cabelos pretos baixa ou Completo
mediana, olhos castanhos ou
R$130-180
pretos Padrão
30-35 R$150-200
Completo
R$100-120
Padrão
35-40 R$80-140
Completo
Completo R$90-110
R$120-150
Padrão
18-23 R$150-180
Completo
R$100-120
Padrão
24-29 R$120-150
Negra, cabelos negros, estatura Completo
variada, olhos negros ou
R$80-100
castanhos. Padrão
30-35 R$90-110
Completo
R$50-60
Padrão
35-40 R$60-80
Completo
Fonte: Elaborada pelos autores, com base em sites especializados e entrevista realizadas com 50
profissionais do sexo, ao longo do ano de 2020.
A tabela traz dados que relacionam o valor médio para cada programa. Conforme a
mulher vai se enquadrando nas categorias: aparência física, idade, tipo de programa, o valor
torna-se mais alto ou mais barato. Ao falar de cor da pele, nossa pesquisa constatou que ser
caucasiana agrega um valor mais elevado na hora de negociar o sexo. Em média, as mulheres
brancas e loiras ganham quase o dobro das pardas e quase três vezes mais que as negras. A
discussão, aqui, vai muito além do gênero. Banuth e Santos (2016, p. 765) afirmam que,
recentemente, críticas são tecidas aos limites da noção de gênero, e a tendência do debate
feminista atual é conceber que “mulher” não é uma categoria unitária.
Segundo Brah (2006), mulheres não existem simplesmente como mulheres, mas como
categorias diferenciadas, onde cada categoria se refere a uma condição social específica. A
categoria gênero mostra-se limitada para delimitar os eixos que tangenciam a construção do
próprio sistema de gênero, tais como classe, raça e política heterossexual (MAYORGA et al.,
2011).
Nesse sentido, no fim dos anos 1990, emergiram no debate internacional feminista,
categorias que, articuladas à de gênero, permeiam o social e se remetem à existência de
diferenciações entre as mulheres. São as categorias de articulação e/ou interseccionalidades
(PISCITELLI, 2008).
Uma categoria de articulação que consiste em forte marcador de diferença social é a
“raça”. Tal como Ferreira e Camargo (2011), consideramos que o conceito de “raça”, do ponto
de vista da genética, é pouco operacional e sem valor científico. Na atualidade, aceita-se que
raça é uma construção social que classifica e tipifica os indivíduos em função de suas
características fenotípicas perceptíveis.
A partir de práticas e discursos sociais, a categoria “raça” contribui para fomentar
processos de exclusão, discriminação e preconceito. O modelo eurocêntrico de beleza
influencia fortemente na escolha das profissionais do sexo por seus clientes
O segundo item mais importante na hora de determinar o valor do programa é a faixa
etária. Quanto mais jovem a mulher for, mais caro custará o sexo, o programa. Existe o fetiche
popular que vem de dogmas da igreja, que prega a questão da virgindade e pureza. Na pesquisa
realizada por Aquino, Nicolau e Pinheiro (2008, p. 15) as prostitutas consideram a idade um
fator de grande influência na concorrência pelo cliente, principalmente na negociação do
programa. Mulheres mais velhas podem ser vistas como mais experientes; em contrapartida,
mulheres jovens podem ser mais requisitadas por clientes menos interessados na experiência
sexual. Assim, notamos, em nosso estudo, a influência da idade da prostituta com o número de
clientes semanais: as mais velhas atraíam menos clientes.
DOSSIÊ AMAZÔNIA 115
que justificava os meios. Na presente pesquisa, notamos uma mudança de paradigmas por parte
das operárias do sexo.
Observamos nos relatos da presente pesquisa, uma preocupação maior com a questão
estética; motivações mais voltadas para a aquisição de bens materiais, viagens e entretenimento.
Mulheres que usam os valores obtidos com a venda de serviços sexuais na prostituição para
pagarem implantes de silicone nos seios e nos glúteos, lipoaspirações, abdominoplastias,
bichectomias, metoplastias, blefaroplastia, rinoplastias, aplicações de toxina botulínica,
tratamentos dentários com implantes e facetas, entre outros procedimentos estéticos. Bruns e
Guimarões (2010) explicam que:
Por outro lado, a prostituição pode ser uma maneira de ganhar muito dinheiro com
rapidez, mais do que se ganharia em qualquer outra profissão, fazendo com que a
mulher possa participar mais ativamente da sociedade de consumo. Nesse caso, a
questão financeira não seria fator relevante apenas para as prostitutas de classe social
baixa, pois existem profissionais do sexo da classe média e alta que buscam melhores
condições financeiras, e pela prostituição poderiam se dar ao luxo de possuir uma vida
mais confortável, que não apenas permitisse consumir-lhes, roupas de grife e
perfumes caros, mas também ter sonhos e desejos de estar inseridas num mundo
mágico, criado pela mídia e apresentado como lugar onde se é feliz (BRUNS e
GUIMARÃES, 2010).
Eu fui zoada muito tempo na rua de casa, na escola, pela geralzona. Eu chorava quase
todo o dia porque o meu apelido era nariz de bolota, porquinha, narizinho, nariz de
palhaça, bozo e o caralho a quatro. Ai depois aqueles filhos da puta começaram a me
chamar de peito pequeno, de machinho, de sem peito e de despeitada. Eu via as
molecas da minha rua e da minha sala com peitões, e eu era a fudida sem peito. Um
dia, eu vi a Ana, uma doida da minha sala saindo num carrão de um velho. Depois de
mais de uma hora ela voltou para a escola. Eu chamei ela e falei: Qual é a do velho?
Ele te banca? Quanto tú cobra? Foi quando ela me deu a letras na real e me colocou
dentro. Ele foi a minha cafetina. Arrumava as barcas pra mim, e eu tinha que dá uma
parte pra ela. Ela foi a primeira mulher que eu curti. O velho queria curtir com duas
meninas ao mesmo tempo. Então, Ana me chamou para a barca com ela. Depois que
curti com a Ana, eu comecei a sair também com mulher. Ai, depois que eu já sabia
fazer os paranauês, eu mandei ela tomar no cú [...]. Paguei 13 mil conto pelos peitos
e depois mais 10 mil conto para fazer o nariz. Levei 03 anos dando muito a pepeca e
engolindo muita porra para levantar essa mixaria toda. Agora, eu vou colocar bunda
e depois perna. Vou dominar o mundo! Ninguém me segura mais! (risadas).
DOSSIÊ AMAZÔNIA 117
Durante as entrevistas, foi observado que muitas jovens acabam entrando no mundo da
prostituição levadas por colegas de classe, primas e algumas por parentes mais velhas, como
tias e cunhadas. Existe dentro dessa dinâmica da prostituição, muitas vezes perversa, um toque
de curiosidade por parte dessas jovens, visando a questão financeira. Com esse objetivo
financeiro em mente é fácil cair nas mãos de rufiões experientes em convencer mulheres a
ingressarem de corpo e alma na carreira de prostituta.
Além, é claro, do cliente, que busca sempre a satisfação de seus desejos e impulsos
sexuais, com a iniciante na carreira, a qualquer custo, e faz com que um único cliente sempre
disposto a pagar pelo serviço seja visto iniciante como um dinheiro “fácil, seguro, rentável e
sedutor’’ para muitas mulheres a prostituição é um mundo mágico de ganhos “fáceis”. Bauman
(1998) afirma que este mundo mágico é um mundo criado, pois estamos diante de um mercado
voltado ao consumidor, como afirma vigorosamente, com a intenção de manter uma procura
infinitamente insatisfeita, ou seja, há sempre uma busca por novas experiências e sensações que
irão aparecer, acreditando-se estar em busca da felicidade.
Clientes que pagam para realizarem todos os seus desejos, não se importando com quem
eles estão usando para isso, entre esses relatos destacamos: clientes que pediam para que elas
fizessem as suas necessidades fisiológicas em cima deles ou vice-versa; homens que pediam
para que essas mulheres se vestissem como crianças; pedidos para que a mulher os chamassem
de pai, mãe, tio e tia; pedidos para que as profissionais fingissem que estavam dormindo para
que eles fingissem que estavam as estuprando; clientes que queriam introduzir nas partes
íntimas das garotas de programa os mais diversos objetos, tais como garrafas pet de 2 litros de
refrigerante; clientes que pediam para amarrar ou serem amarrados e açoitados; clientes que
levam os seus animais de estimação e pedem para as prostitutas manterem relação sexual com
eles e os seus animais.
São tão variados os relatos que essas mulheres fizeram, de situações que passaram a
sentir repulsa por esses clientes. Muitas se recusaram a satisfazer tais fetiches, que como elas
bem classificaram, são fetiches doentios. Entretanto, algumas delas acabaram se submetendo
pelo auto valor financeiro que esses clientes oferecem. Para Bauman (1998), a enorme sedução
do mercado acarreta uma grande divisão de águas: de um lado os que podem arcar com esses
desejos e do outro aqueles que não podem, caracterizando, assim, uma marca de sucesso e
fracasso.
Magnólia, de 26 anos de idade, detalhou em sua entrevista que aceitou fingir que estava
dormindo para que dois clientes, que pagaram cerca de um mil reais, para que ela fingisse um
suposto “falso” estupro. De acordo com o relato de Magnólia, essa já havia feito outros
programas com dois homens ao mesmo tempo. Logo, achava que a questão do “falso” estupro
era apenas um fetiche, e que ela teria total controle da situação. Ao chegar no sítio de um dos
clientes, na cidade de Tucuruí, eles a amarraram a cama, a amordaçaram e fizeram todo o tipo
de atrocidades durante quase uma hora.
Ela não os denunciou a polícia por medo, pois os clientes além de terem um alto poder
financeiro, tinham também a conversa no aplicativo de mensagem instantânea, onde eles
falavam do fetiche, e ela aceitou participar pela quantia oferecida. Magnólia relatou, durante a
sua entrevista, que jamais se recuperou do ocorrido, e que tem súbitos ataques de pânico durante
atos sexuais corriqueiros, seja com seu namorado ou com outros clientes.
Isto posto, quem são esses clientes que geralmente procuram a companhia de
profissionais do sexo por meio digital? De acordo com os dados levantados durante as
entrevistas, os clientes são, na maioria, homens, entre 28 e 50 anos de idade, casados, de classe
média e alta, de variadas profissões como comerciantes, bancários, médicos, advogados,
engenheiros, dentistas, Web designers, professores, entre outras. Homens que buscam viver
118 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
uma relação fora do casamento, com mulheres mais jovens que suas esposas, ou que buscam
realizar as suas fantasias sexuais que não conseguem realizar com seus cônjuges.
Russo (2007) explica que a procura por prostitutas é motivada pela busca de um tipo
específico de mulher, de prazer ou de fantasia sexual, por isso, que não se trata de um serviço
prestado por qualquer mulher ou homem, mas por uma profissional específica, que é a meretriz,
uma vez que essa está inserida em um contexto bastante particular, que proporciona sensações
próprias, e um leque de possibilidades e experiências bastante específicas.
Alguns clientes, aparentemente, pelos relatos, apresentam desvios de ordem sexual e
acabam encontrando nas profissionais do sexo a oportunidade de fazerem inversões de papeis
sem serem julgados, o que muito provavelmente ocorreria caso tentassem fazer o mesmo em
suas casas, com suas esposas. Outros apenas por pura compulsão sexual e apelo carnal. Existe
uma parcela menor de mulheres que são casadas, têm filhos e empregos estáveis, mas que
escondem de seus maridos e da sociedade, como um todo, a sua homossexualidade.
Ires relatou que muitas clientes casadas que, habitualmente saiam com ela, a
convidavam para fazer programas em suas casas com os seus maridos. Essas clientes usavam o
aniversário de seus maridos como pretexto para levá-la para as suas casas e a oferecer como
presente surpresa para os seus cônjuges. Ires narra, que praticamente todas as vezes, que foi
“dada” como presente de aniversário para os maridos de suas clientes, as esposas participavam
do ato sexual juntamente com os maridos. Ires detalhou um desses encontros a três:
Ela é advogada e tem uns 42 anos eu acho, montada na grana é casada e tem até filho.
Ela me disse que sempre gostou de curtir com mulher, mas a família dela não aceitaria,
e eles são da igreja e tal. Ai ela curte com as “prima” aqui como eu, ela curte com puta
e não é de hoje essa parada não mano. Ela mora numa casa do caralho. Eu fui lá um
dia porque ela me pagou para curtir com o marido dela, Porra, era para o pateta me
comer, mas quem mais me comeu foi ela. Se ele não se tocou que ela é sapato naquele
dia, ele deve ser cego. Ganhei quinhentão para curtir com os dois. Muita mais que ela
me paga pra curti comigo aquela mão de vaca do caralho. Tu acredita que ela paga
R$150 para sair comigo.
Todavia, existe o cliente que tem necessidade afetiva. Durante uma entrevista com
Lótus, ela mostrou fotos no aplicativo de mensagens que utiliza para manter contato com os
seus clientes. Falou dos mais assíduos e mais antigos homens que costuma atender. O relato
que ela fez de um dos clientes acabou chamando a atenção, não por ser um relato sexual na sua
essência, mas por ser um relato que demonstrou um enorme afeto pelo cliente e vice-versa.
Esse aqui é o Felipe, ele tem 38 anos, e é um dos meus melhores clientes. Ele é sempre
muito gentil e amoroso. Muitas vezes, ele traz presentinhos como bombons, flores,
perfumes e já até me deu um brinco de ouro. Ele é funcionário público da Polícia
Federal, ele é casado e tem duas filhas lindas. A esposa dele é médica e trabalha na
polícia federal também. Eu sempre o vejo as quarta-feira por causa da mulher dele
que tá sempre ocupada nos dias de quarta. As vezes, ele marca e vamos para um motel,
outras vezes para um hotel, e passamos duas horas só conversando mesmo. Eu nem
tiro a roupa. Ele só quer conversar mesmo. Fala dos problemas do trabalho, dos
problemas da casa dele e das filhas. Eu adoro a companhia dele. Mas não curto muito
transar com ele não. Ele é meio travado. Começamos a sair tem quase dois anos. Ele
diz que sou a namoradinha dele das quartas. Acho que ele é carente muito carente. Ele
precisa muito de alguém para conversar, e ele achou em mim uma pessoa pra ouvir
ele (risadas). Recebo sempre R$100 transando ou não transado com ele. É um dinheiro
muito fácil.
Questões de cunho afetivo estão muito presentes dentro das relações comerciais. No
artigo intitulado “Dinheiro, afeto, sexualidade: A relação de prostitutas com seus clientes”,
Burbulhan, Bruns e Guimarães (2012, p. 673) relatam que as profissionais do sexo, do estudo
DOSSIÊ AMAZÔNIA 119
realizados por elas, corroboraram que os clientes não as procuram exclusivamente para práticas
sexuais, muitas vezes desejam apenas conversar e desabafar as preocupações e problemas
relacionados à família, ao trabalho e à própria masculinidade. Burbulhan, Bruns e Guimarães
explicam, ainda, que nas falas das participantes de sua pesquisa foi possível perceber a grande
gama de motivações que levam os clientes a buscar as profissionais do sexo. Percebemos que
ambos se utilizam do dinheiro para suprir suas necessidades. Os clientes pagando e elas
recebendo.
Burbulhan, Bruns e Guimarães finalizando dizendo que assim, nessa díade, ambos estão
à procura de suprir suas carências, sejam elas econômicas, emocionais, psicológicas ou, ainda,
biológicas. Para o cliente, o dinheiro paga, além da satisfação de determinadas carências, pela
manutenção de uma sexualidade masculina herdada do modelo patriarcal de ser homem.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
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DOSSIÊ AMAZÔNIA 123
RESUMO
A Leishmaniose visceral (LV) é uma doença endêmica no Brasil que pode ocasionar óbito do
indivíduo em 95% dos casos não tratados, sendo considerada um problema de saúde pública. O
presente estudo teve como objetivo descrever o perfil epidemiológico da LV das diferentes regiões do
Brasil. Para isso, os dados analisados das regiões Norte, Nordeste, Sul, Sudeste e Centro-Oeste do
Brasil no período de 2014 a 2018 foram coletados do Sistema de Informação de Agravos de
Notificação, sendo analisada a incidência, letalidade, gênero, faixa etária, escolaridade, critério de
confirmação e evolução do caso empregando o teste de Qui-quadrado, teste G e regressão linear
simples. Durante o período do estudo ocorreram 19.053 casos de LV no Brasil, com maior incidência
nas regiões Norte e Nordeste. Ocorrência maior na faixa etária menor de 14 anos, baixa escolaridade,
gênero masculino, que obtiveram diagnóstico laboratorial e cura. Casos de LV ainda são recorrentes
no cenário atual, sendo necessário ações efetivas nos diferentes níveis de prevenção podem reduzir
significativamente os índices desta doença no Brasil.
ABSTRACT
Visceral Leishmaniasis (VL) is an endemic disease in Brazil and can cause death in 95% of untreated
cases, being considered a public health problem. The present study aimed to describe the
epidemiological profile of VL in different regions of Brazil. For this, the analyzed data from the North,
Northeast, South, Southeast and Midwest regions of Brazil in the period from 2014 to 2018 were
collected from the Notifiable Diseases Information System, analyzing the incidence, lethality, gender,
age group, schooling, confirmation criteria and case evolution using the Chi-square test, G test and
simple linear regression. During the study period, there were 19,053 cases of VL in Brazil, with a
higher incidence in the North and Northeast regions. Most occurrence in the age group under 14 years,
low education, male, who obtained laboratory diagnosis and cure. VL cases are still recurrent in the
current scenario, requiring effective actions at different levels of prevention can significantly reduce
the rates of this disease in Brazil.
1
Graduada no curso de Bacharelado em Biomedicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia
(UNIFAMAZ). E-mail: [email protected].
2
Graduada no curso de Bacharelado em Biomedicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia
(UNIFAMAZ). E-mail: [email protected].
3
Graduada no curso de Bacharelado em Biomedicina do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia
(UNIFAMAZ). E-mail: [email protected].
4
Doutora em Doenças Tropicais. Docente do Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ);
Pesquisadora colaboradora do Instituto Evandro Chagas (IEC). E-mail: [email protected].
5
Mestre em Saúde, Sociedade e Endemias na Amazônia pela Universidade Federal do Pará (UFPa). Docente do
Centro Universitário Metropolitano da Amazônia (UNIFAMAZ). E-mail: [email protected].
124 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
INTRODUÇÃO
1 MÉTODOS
Tabela 1- Categorização das variáveis independentes para o cálculo das razões de incidência
Critério de 1 Laboratorial
Confirmação 2 Clínico –
Epidemiológico
1 Cura da LV
Evolução do Caso 2 Abandono da LV
3 Óbito por LV
4 Óbito por outra
causa
5 Transferência
Fonte: Autoria Própria.
https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/9103-estimativas-de-populacao.
2 RESULTADOS
Com base nos dados coletados, estima-se que durante o período do estudo, o Brasil
tenha aproximadamente 19.053 casos em todas as suas regiões, demonstrando um percentual
de 19,05 % em relação ao número de habitantes.
Ao observar a incidência por região, conforme exposto na Figura 1, nota-se um maior
número de casos nas regiões Norte e Nordeste no período de 2014 a 2018.
b
Teste G
Fonte: Autoria Própria.
Norte 0.093 0.177 0.136 0.190 0.324 y = 0.05x + 0.04 R² = 0.74 0.0580
Nordeste 0.274 0.293 0.269 0.304 0.291 y = 0.004x + 0.27 R² = 0.23 0.6002
Sudeste 0.065 0.070 0.086 0.129 0.065 y = 0.01x + 0.06 R² = 0.12 0.5727
Centro Oeste 0.145 0.149 0.096 0.088 0.099 y = -0.02x + 0.16 R² = 0.68 0.0812
Sul 0.003 0.000 0.020 0.013 0.003 y = 0.001x + 0.004 R² = 0.06 0.6900
Fonte: Autoria Própria.
3 DISCUSSÃO
facilitando a entrada da Leishmaniose nos centros. Durante o estudo foram obtidos dados
referentes ao perfil epidemiológico de pacientes com LV nas diferentes regiões do Brasil.
A incidência média da LV nas regiões do Brasil oscilou durante o período estudado,
com maior detecção nas regiões Norte e Nordeste. Tais dados do Nordeste também foram
relatados em estudo conduzido por Lucena; Medeiros [15], analisando casos novos dos
diferentes estados da região Nordeste no período de 2010 a 2017, relataram variação da
incidência e declínio na região e, apesar da diminuição dos casos, o Nordeste apresenta uma
das maiores incidências média de LV do Brasil.
Segundo Barbosa; Guimarães; Luz [16], as populações mais vulneráveis estão nas áreas
periféricas, onde não possuem um saneamento básico, realidade observada na região Norte e
Nordeste, as quais apresentam as mais precárias condições sanitárias do Brasil [17].
A faixa etária mais acometida por LV foi < 14 anos, o que corrobora com dados
expostos em estudo conduzido por Farias et al [18] realizado na região Norte de Minas Gerais,
no período de 2011 a 2015 e por Barbosa [19] em Rio Grande do Norte, no período de 2007 a
2015. Possivelmente, tal fato é associado a imaturidade imunológica desta faixa etária [19, 20].
No presente estudo pode ser observado que o sexo masculino foi o mais acometido
pelo LV. Tal realidade também foi relatada em diferentes estudos tal como Barbosa [19], Farias
et al.[18], Rocha et al[21] e Ortiz; Anversa [22], estando possivelmente associado a uma maior
exposição ao vetor devido atividades laborais.
Comparando o presente estudo com o citado, conclui-se que, mesmo essas regiões
apresentando redução na taxa de incidência, ainda assim, a região Nordeste permanece sendo
a região com a maior prevalência da doença em relação as demais regiões do Brasil.
Em relação ao nível de escolaridade, a predominância dos casos se dá nas classes,
analfabeto e ensino fundamental em todas as regiões do Brasil, descritas, de acordo com
dados colhidos para o estudo em questão, sendo tais dados observados em estudo realizado
em Fortaleza [23] no período de 2007 a 2017 e Pernambuco entre os anos de 2003 e 2015[24].
Como afirmado por Almeida et al [23], a baixa escolaridade pode sugerir que estão mais
vulneráveis a doença pessoas com baixas condições socioeconômicas.
A maioria dos casos evoluiu a cura e obteve diagnóstico laboratorial, situação também
observada por Almeida et al [23] em Fortaleza, o que demonstra possivelmente que quando há
confirmação da doença logo o tratamento é implementado e a saúde dos acometidos
restaurada.
A taxa de mortalidade que apresentou tendência crescente foi a região Norte, a qual
apresentou uma das maiores incidências da doença, enquanto que a letalidade demonstrou não
variar no tempo estudado, com exceção da região sul que apresentou um pico no ano de 2016.
Tal região foi a última no Brasil a notificar casos de LV[25].
Desta forma, observa-se que a LV ainda é uma realidade no Brasil, acometendo
principalmente indivíduos com baixas condições socioeconômicas. Há programas de saúde
que desenvolvem ações de controle estando focados em detectar, diagnosticar e tratar os casos
notificados. No entanto, mesmo com um amplo programa de controle nas regiões, a LV ainda
é um problema de saúde pública e ações atuantes nos diferentes níveis de prevenção podem
reduzir significativamente os índices desta doença.
Para tanto, se faz necessário a busca incessante por estratégias que auxiliem no
planejamento de novas metodologias para ações voltadas ao combate de vetores e
reservatórios, com alternativas precisas de prevenção, diagnóstico, monitoramento,
tratamento, e cuidados da popopulação, bem como, políticas de saúde pública para serem
aplicadas nessas regiões, resultando na diminuição do número de casos e notificações nas
regiões do Brasil.
130 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
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1-18, set. 2016.
RESUMO
O objetivo geral é de compreender os desafios da inclusão dos saberes e práticas socioambientais locais
na coprodução do Plano de Manejo da Resex Caeté-Taperaçu. A questão central é quais os desafios da
inclusão das práticas socioambientais locais na coprodução do Plano de Manejo da Resex marinha
Caeté-Taperaçu? A partir de uma abordagem da Sociologia da Ação Pública (LASCOUMES e LE
GALÈS, 2012; TEISSERENC e TEISSERENC, 2014) vinculamos uma nova perspectiva de olhar
interdisciplinar sobre as políticas públicas, na qual o Estado tem sua centralidade contestada, com maior
participação de diferentes atores nas discussões com implementações e gerenciamentos, a partir de novas
dinâmicas e mobilizações locais. A base de dados analisados foi constituída a partir de informações
documentais e entrevistas de vinte pessoas envolvidas na coprodução. E o resultado principal evidencia
que em um processo tão rico em aprendizados e em conquistas socioambientais ainda não se conseguiu
romper com a hegemonia de interesses outros vinculados à uma racionalidade que não ambiental e nem
das populações locais. Mas não se pode deixar de reconhecer a capacidade de resistir, de inventar, de
aprender, de segmentos sociais como as populações tradicionais, em parceria com outros segmentos de
atores (Instituições de ensino e pesquisa, organismos do Estado), vem conseguindo se impor, enfrentar
forças políticas e econômicas que as negam, via adoção das referências da conservação ambiental.
ABSTRACT
The general objective is to understand the challenges of including local social and environmental
knowledge and practices in the co-production of the Resex Caeté-Taperaçu Management Plan. The
central question is what are the challenges of including local socioenvironmental practices in the co-
production of the Management Plan for the Caeté-Taperaçu marine resex? From an approach of the
Sociology of Public Action (LASCOUMES and LE GALÈS, 2012; TEISSERENC and TEISSERENC,
2014) we link a new perspective of interdisciplinary view on public policies, in which the State has its
centrality contested, with greater participation of different actors in discussions with implementations
and management, based on new dynamics and local mobilizations. The analyzed database was
constituted from documentary information and interviews of twenty people involved in the co-
production. And the main result shows that in a process so rich in learning and socioenvironmental
achievements, it has not yet been possible to break with the hegemony of other interests linked to a
rationality that is neither environmental nor local populations. However, the capacity to resist, to invent,
to learn, from social segments such as traditional populations, in partnership with other segments of
actors (teaching and research institutions, State bodies), has been able to impose itself, face political and
economic forces that deny them, through the adoption of environmental conservation references.
Keywords: Public Action. Management Plan. Resex. Socio-environmental knowledge and practices.
1
Doutor em Sociologia (PPGSA/UFPA). Técnico em Assuntos Educacionais na Universidade Federal do Pará.
E-mail: [email protected]
134 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
INTRODUÇÃO
As populações tradicionais locais que tem seu modo de vida diretamente vinculado com
o território da Resex Caeté-Taperaçu reproduzem atividades que se ligam à pesca, mais
especificamente à artesanal2. Seus saberes são construídos enquanto identidade e cultura desses
grupos sociais. O saber tradicional é a fonte das cosmovisões construídas por esses grupos pela
relação empírica com a natureza e com a sociedade, seus modos de vida, formas de organização
social e para a prática dessas atividades extrativistas e sentidos para as relações sociais
estabelecidas entre si e com os outros. Também esses saberes tradicionais locais influem nas
tecnologias e técnicas construídas e utilizadas nas atividades extrativistas que é o seu foco
(OLIVEIRA, 2018).
E há, nas quatro últimas décadas do século XX, aspectos que proporcionaram maior
pressão sobre o ecossistema de manguezal localizado na costa paraense, que abrange a citada
Resex. Essa pressão se dá relacionada à integração regional ocorrida com Belém, com o advento
da política desenvolvimentista dos governos militares brasileiros, via construção de malha
rodoviária, facilitando os deslocamentos populacionais e de produtos entre as regiões e à
construção de uma Rodovia estadual, a PA-458, que liga a sede do município de Bragança à
praia de Ajuruteua, tendo 36 km de extensão e cortando o manguezal localizado na península
bragantina. Também o fato da valorização dos produtos oriundos do manguezal pelo mercado,
acarreta no aumento da demanda, o que repercutiu na mobilidade de populações de pescadores,
principalmente vindas da região nordeste do Brasil, inserindo modelos diferentes de pesca,
tendencialmente caracterizados pela larga escala.
Concatenado com essas mudanças vivenciadas, Silva Junior (2013) destaca a ocorrência
de crescimento do setor pesqueiro e a tendência ao uso de lógicas mais vinculadas ao
capitalismo a partir da década de 90 do século XX com a intensificação da chegada de
imigrantes da região nordeste brasileira, principalmente, do Estado do Ceará. Para o autor, há
expansão da atividade pesqueira marítima, com a implantação de fábricas de beneficiamento
de pescado, e que repercute nas imigrações também à nível regional, se destacando a chegada
de pescadores de outros municípios próximos à Bragança e do nordeste brasileiro.
Assim, há um contexto social, político e econômico local dinâmico e de transformações
constantes acerca das atividades extrativistas e do território costeiro de Bragança. Esse
movimento dinâmico em direção ao aumento da escala produtiva e do consumo dos produtos
provenientes desse ecossistema específico produz pressões em territórios historicamente
vinculados ao modo de vida e reprodução de populações tradicionais locais, o que desencadeia
nas discussões em torno da conservação e do uso desses recursos naturais, na forma de Unidades
de Conservação.
Dessa forma, criou-se consentimentos, principalmente por representantes do Estado,
acerca do modelo de Reserva Extrativista (RESEX) para garantir os territórios e a reprodução
de um modo de vida específico, o das populações tradicionais. Esse formato de Unidade de
Conservação (UC), segundo Diegues (2005), é pautado no uso sustentável dos recursos por
populações que habitam e se relacionam com esses ecossistemas há séculos e décadas. A
criação de uma Unidade de Conservação nesses moldes atende a demandas históricas da região
2
De acordo com a lei Federal da Pesca, nº 11.959/09, a pesca se constitui “como toda operação, ação ou ato tendente
a extrair, colher, apanhar, apreender ou capturar recursos pesqueiros” (BRASIL, 2009, p. 76). O conceito de pesca
artesanal aqui utilizado é de Diegues (2005) e refere-se a pescadores que se concentram nas regiões litorâneas, rios
e lagos, possuindo um modo de vida baseado na pesca, mas exercendo atividades complementares, como o
extrativismo vegetal, o artesanato e a pequena agricultura. Especificamente, no nordeste paraense, destacam-se a
coleta de mexilhão, turu, cipós, plantas medicinais, lenha, madeira para carvão, entre outros (FURTADO et al.,
2006) como atividades complementares entre os pescadores artesanais.
SEÇÃO LIVRE 135
3
Plano de Manejo, segundo SNUC (2000), é um documento técnico mediante o qual, com fundamento nos
objetivos gerais de uma unidade de conservação, se estabelece o seu zoneamento e as normas para o uso da área e
o manejo dos recursos naturais.
4
Partimos da afirmação da inclusão desses saberes e práticas socioambientais na coprodução do PM da RESEX
Caeté-Taperaçu por ser um resultado “marginal” da tese do autor.
136 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Por fim, o artigo se divide em três seções: 1) Resex Caeté-Taperaçu, sua estrutura e
alguns desafios dessa institucionalidade, 2) Conselho Deliberativo e a relação entre atores e 3)
Desafios da inclusão dos saberes e práticas socioambientais no Plano de Manejo da Resex
Marinha Caeté-Taperaçu; além das considerações finais e referências.
[...] uma área utilizada por populações extrativistas tradicionais, cuja subsistência
baseia-se no extrativismo e, complementarmente, na agricultura de subsistência e na
criação de animais de pequeno porte, e tem como objetivos básicos proteger os meios
de vida e a cultura dessas populações, e assegurar o uso sustentável dos recursos
naturais da unidade (SNUC, 2000, p. 10).
A Resex Caeté-Taperaçu foi criada em 2005 e nesse início foi instituída a sua
Associação de Usuários (Assuremacata), ainda como única instituição com sede nesse contexto.
O Instituto Brasileiro de Meio Ambiente (Ibama) era o órgão vinculado à União que
acompanhava a implementação da Unidade de Conservação. Nesse início ainda não havia a
atual estrutura baseada no ICMBio, que será instalada em 2007.
Esse início será importante para a construção das duas principais perspectivas
exprimidas pelos interlocutores sobre o que é a Resex Marinha Caeté-Taperaçu: uma vinculada
ao seu objetivo institucional e outra vinculada às políticas públicas instituídas com a criação da
Reserva Extrativista. Não necessariamente essas duas maneiras de ver a Resex tem um caráter
dicotômico, de contraposição entre ambas.
A primeira baseia-se no arcabouço jurídico-legal de uma Reserva Extrativista,
tendencialmente, encontra-se nos discursos produzidos por atores representantes de instituições
públicas. A Reserva Extrativista implementada no município de Bragança, pelo menos
enquanto ideia e intenção, é formatada a partir da perspectiva contida na legislação e
regulamentos que embasam esse formato de UC.
Nessa perspectiva, os atores ressaltam a Resex Caeté-Taperaçu enquanto garantia para
conservação dos ecossistemas (territórios), como valor construído historicamente no contexto
brasileiro e que está colocado na legislação que normatiza as Unidades. Há a tendência de ser
um discurso mais dos atores das instituições públicas, mas que se apresenta entre alguns
associados e atores das populações tradicionais locais, pois há legitimidade social enquanto
perspectiva que se propõe a continuação de um modo de vida e de reprodução social bem
característico das comunidades dentro e no entorno do território dessa Unidade; ou que pelo
menos se busca aproximar.
Dentro dessa perspectiva jurídico-legal, há dificuldades na gestão desse território e na
inclusão dos saberes e práticas socioambientais, por mais paradoxal que possa parecer. E essa
questão é explicada por uma legislação descontextualizada das práticas históricas locais5.
Acerca da segunda perspectiva principal, ela se vincula à Associação dos Usuários e
Moradores da Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu (Assuremacata). Aqui a RESEX
é confundida com a Associação, assim como as políticas públicas em implementação. A partir
da criação da Unidade, ocorrem debates dentro e entre as comunidades e suas lideranças no
sentido de viabilizar a eleição da primeira presidência e equipe para o gerenciamento da
5
Essa discussão será realizada com mais elementos na segunda seção.
SEÇÃO LIVRE 137
Existem diversos critérios técnicos usados para a escolha dos beneficiários. O INCRA, uma das
instituições públicas participantes desse conjunto de ações, tem como função institucional
nesses processos de garantir o acesso à questão da terra no Brasil e seus benefícios, atuando
com grupos de sem-terras, quilombolas e outros.
Um dos desafios locais que se impõe, a partir da implementação dessas políticas
públicas, é estabelecer entre a Assuremacata e as populações tradicionais locais uma relação
pública, baseada em direitos e deveres, acerca dos benefícios e dos objetivos da Associação.
Historicamente em Bragança as populações locais, vinculadas às atividades extrativistas,
baseiam suas ações em relações de compadrio e parentesco, constituindo em alguns casos
enquanto sistema de dominação, como explicitado por Oliveira (2013) e Oliveira & Maneschy
(2014).
Essa necessidade de estabelecimento de uma relação pública torna-se evidente pelo uso
de recursos públicos envolvidos na distribuição dos benefícios e das políticas públicas, pelas
quais a Associação é a responsável. O critério do compadrio e do parentesco desvirtua o caráter
público e justeza na aplicação dos recursos. Essa questão também pode ser relacionada
historicamente na relação entre essas comunidades e o Estado. A centralidade do Estado na
implementação das políticas públicas em Bragança e a exclusão de grande parte dessas
populações desses direitos é primordial para compreender as perspectivas e discursos
construídos em torno dos benefícios, não como direitos, mas sim como “ajuda”. Ressalta-se, de
que esses benefícios distribuídos possam ter sido a primeira relação dessas comunidades com
o Estado. Portanto, essa instituição se faz presente de uma forma nunca antes vista entre essas
comunidades. Porém, juntamente com esses benefícios, constroem-se as lógicas de “favor”, não
de direito, não de promoção da cidadania, não de direitos constitucionais, criando uma relação
de favorecimento, de dívida, de relação patrimonialista, de dominação e não de políticas
públicas, numa acepção ideal. É algo “dado”. Dessa forma, se constrói o imaginário das relações
locais em uma política nacional.
Há distorções criadas entre os objetivos dos benefícios e os discursos produzidos e
reproduzidos pelas populações tradicionais locais, vinculando os benefícios a grupos políticos
e políticos específicos, principalmente. Os objetivos preceituados nos benefícios não são
reproduzidos entre as populações locais, não atingindo suas finalidades, em virtude de
interesses políticos, econômicos e sociais privados de grupos e indivíduos inseridos na
implementação dessas políticas e sem um debate democrático e participativo. Nesse sentido,
conflitos internos entre as comunidades abrangidas por essas políticas públicas se evidenciam
a partir de (des)informações baseadas em interesses privados de grupos dentro da Associação e
da atuação do poder local6 dentro e entre esses grupos. Ressalta-se que algumas comunidades
historicamente já possuíam rivalidades vinculadas às atividades extrativistas de pesca e coleta
de Caranguejo. A partir da distribuição dos benefícios ocorre o acirramento entre algumas
comunidades e novos conflitos entre outras, colaborando para um processo de individualização
nessa distribuição.
As lideranças buscam se fortalecer internamente e entre as populações tradicionais
locais, e algumas estratégias utilizadas buscam desinformar os extrativistas acerca dos
potenciais beneficiários e comunidades e de quem não preenche os critérios para ser
contemplado por essa política pública. Também foi indicado que há disputas internas entre
indivíduos dentro de uma mesma comunidade e que a forma como se procedeu essa distribuição
afastou da Associação os beneficiários que garantiram o acesso às casas, que delimitaram na
conquista desse bem sua relação com a Assuremacata. Uma das lideranças comunitárias e
6
Teisserenc (2016) coloca que o Poder local na Amazônia trata-se de um poder com origens no sistema de
dominação do “período colonial” baseado no aviamento realizado no contexto do “Ciclo da Borracha”. Tal sistema
de poder local se concretiza nos comportamentos individuais de dependência por parte dos cidadãos locais, e que
se reproduzem em todos os domínios da sua vida cotidiana e através das estratégias de ação.
SEÇÃO LIVRE 139
usuário afirma que “a Resex veio pra fazer a diferença. Os sócios [da Assuremacata] não estão
dando valor pra ela, principalmente os que foram beneficiados por ela, deixaram de comparecer
aqui, deixaram de pagar sua mensalidade”.
Assim, os desafios que se apresentam são: de descontruir e construir discursos acerca
do benefícios enquanto política pública, com direitos e deveres das populações tradicionais
locais; de quem tem direito e dos limites da política; da probidade e lisura no gerenciamento
desses recursos pela Associação; de buscar o afastamento de relações patrimonialistas e de
compadrio no acesso a esses recursos; de cumprimento dos critérios7, a serem utilizados e de
consensos nas práticas dentro da Associação (OLIVEIRA, 2018).
Nesse contexto de políticas públicas implementadas, principalmente nos dez primeiros
anos de criação da Resex, os atores entrevistados, tanto técnicos quanto “usuários/associados”,
acerca da Assuremacata e seus problemas, levantam questões relacionadas com disputas de
poder interno na associação que perpassam pelos principais conflitos e desafios aqui analisados.
Existem dois principais grupos interessados em gerenciar a Associação e com indivíduos
vinculados e apoiados por Partidos Políticos, sendo um microcosmo da disputa local, isso
durante à época de coprodução do PM, pois são os partidos que disputaram a eleição municipal
de 2012, com a existência de pressões externas no gerenciamento dos benefícios e fomentos.
Em virtude dessa disputa, há uma perspectiva entre os entrevistados de que a maioria
das populações tradicionais locais desconhece a Unidade, seus limites territoriais, seus
objetivos e sua natureza institucional. Esses entrevistados relacionam à Resex em Bragança à
distribuição de benefícios materiais. Portanto, um dos desdobramentos da distribuição desses
benefícios é a produção e reprodução de discursos, seja por interesses de gerenciamento e de
quem se beneficia da política, que confundem a instituição/instrumento Reserva Extrativista e
a instituição Associação dos usuários. Uma das possibilidades de explicação desse fenômeno
são os interesses e pressões externas de agentes do poder local de Bragança, sejam Partidos
Políticos e empresas, coadunados com interesses dos gerenciadores da Associação.
O interesse do poder local se vinculou ao montante de dinheiro disponibilizado para a
Unidade e os objetivos para a aplicação desses recursos. Houve disputas entre empresários
exteriores ao município e os locais. Essa escolha era feita via licitação e grande parte das
escolhas iniciais eram empresas de fora, com maior experiência, expertise e preparo para esses
processos. A partir de lobby dos grupos de empresários locais em relação à Associação e de
interesses internos de membros da Associação, em acordos informais de apoio à algumas
lideranças para a disputa de cargos eletivos, abriu-se a possibilidade de outros processos
licitatórios para a construção de casas e venda de materiais como geladeira, fogão e redes de
pesca. Empresas locais sem experiência nesses processos realizaram sua legalização para a
concorrência nesses processos.
Assim, culmina-se na eleição de 2013 para a Associação, quando houve discursos
produzidos principalmente em torno de sua legitimidade e de não existir chapa vencedora;
assim, a eleição estaria “sub judice”. Contudo, nas entrevistas realizadas, outros atores
reafirmam a legitimidade do atual presidente, inclusive com documentos judiciais
comprovando. Além disso, há a legitimidade da atual gestão da Associação por parte da atual
gestora do ICMBio na Resex estudada, observada nas discussões sobre o novo acordo de gestão
de pesca nessa Unidade e na reunião que participamos sobre a produção de sugestões para
atualização da legislação das atividades extrativista do caranguejo. Contudo, o discurso da não
legitimidade é persistente, engloba vários “usuários” e instituições públicas, provavelmente
pela diminuição das reuniões do CD, pois ainda pode se observar um período de transição entre
a antiga e atual gestão do ICMBio, e pela dificuldade de atração das populações tradicionais
locais que estão dispersas e retorno à normalidade das ações da Associação.
7
Idealmente seria necessário que esses critérios também contivessem elementos a partir da observação da realidade
local, o que não se dá nesse caso.
140 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
enquanto garantidores dos recursos naturais necessários para o seu modo de vida e a
continuação de sua reprodução.
A análise do CD da Reserva Extrativista Marinha de Caeté-Taperaçu, a partir da
perspectiva de instrumento de participação e poder é o tema compreendido por Silva Junior
(2013), centrando sua análise na contribuição desse instrumento para a mudança nas relações
de poder entre atores técnicos e a população tradicional. De acordo com o autor, o CD da Resex
Marinha Caeté-Taperaçu se caracteriza enquanto espaço ao debate e proposições, possibilitando
a participação das populações tradicionais em processos decisórios e na democratização das
relações entre diferentes atores do Estado, sociedade local e comunidades de usuários dos
recursos naturais, permeadas por assimetrias, conflitos políticos, sociais e ambientais, disputas
entre vários conselheiros e divergências entre as instituições participantes.
O CD da Resex Caeté-Taperaçu é criado via Portaria de número 17, de 24/09/2007, do
Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Dentro dos instrumentos
que são inerentes à Resex, o objetivo do CD, numa perspectiva do Estado, é “contribuir com
ações voltadas à efetiva implantação e implementação do Plano de Manejo dessa Unidade e ao
cumprimento dos objetivos de sua criação”. O Conselho se estrutura a partir da premissa do
compartilhamento da deliberação e de poder e participação dos mais diversos grupos,
instituições e atores, não se focando somente na representação estatal, mas em uma gestão
compartilhada.
A perspectiva de gerenciamento da Reserva Extrativista Marinha Caeté-Taperaçu
possibilita a produção de deliberações e demandas entre diferentes atores de variadas
perspectivas. Traz a possibilidade de inserção de saberes teóricos e experienciações, vinculadas
aos seus modos de vida e formação, que devem ser evidenciadas nesses processos para
compreensão de consensos, dissensos, acordos e desacordos no âmbito das Unidades de
Conservação em relação ao território. Este se constitui, dessa forma, um território da
participação, pautado em múltiplas perspectivas que se friccionam e promovem sua
dinamização, do ponto de vista de seu gerenciamento e da criação de regras de uso desses
recursos naturais. Contudo, hegemonicamente, o território da Resex Caeté-Taperaçu é
vislumbrado a partir do léxico e perspectiva do Estado, via a utilização do arcabouço jurídico-
legal que institucionaliza o instrumento Resex nos discursos produzidos por esses atores,
principalmente vinculados a instituições públicas, mas também incorporados por algumas
lideranças comunitárias.
A concretização do compartilhamento da gestão e da caracterização da ação pública na
UC estudada se dá efetivamente com a vinda do ICMBio e da criação do CD, respectivamente
em 2007 e 2008. Nesse momento começa-se a romper com a lógica da gestão centrada na
Assuremacata, o que repercute em tensionamentos entre os atores colocados. Por outro lado,
internamente na Associação afloram interesses distintos, em parte pela pressão feita pelo poder
local (principalmente partidos e lideranças políticas locais) entre grupos diferentes começam a
se materializar, provocando tensionamentos no território abarcado pela Unidade de
Conservação e fragilização do papel institucional dessa Associação.
Apesar da divisão interna na Associação em grupos vinculados a lideranças políticas e
partidos políticos que levam à disputas de poder e à fragmentar sua atuação, há centralidade de
informações na Associação, o que se desdobra na desmobilização das comunidades e em
disputas entre o representantes dos Polos e lideranças das comunidades. Nas discussões sobre
a questão do defeso do caranguejo, alguns conselheiros percebiam essa centralidade de
informação em algumas pessoas e pequenos grupos vinculados à Assuremacata, indicando a
existência de interesses pessoais, de comunidades específicas e interesses de comerciantes,
patrões e atravessadores, evidenciando disputas e conflitos internos e fragmentação em diversos
grupos de interesse no âmbito da Associação.
142 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
A partir dessa centralidade nas informações, uma das estratégias adotadas por
determinados representantes de polo ou comunidade dentro do Conselho era a desarticulação
de reuniões marcadas em comunidades pelo CD. De acordo com um conselheiro representante
de polo, “quando o ICMBio marcava uma reunião dentro de um polo existiam pessoas dentro
da Associação que iam desarticulando as reuniões que tinham o objetivo de socializar as
informações do conselho”. Esse discurso evidencia o distanciamento entre a participação nas
reuniões do Conselho e o distanciamento dos conselheiros em relação às populações
tradicionais locais.
A dificuldade de socialização das decisões do CD também afeta os representantes de
instituições públicas. Porém, a partir de contextos diferentes que se desdobram nessa
dificuldade. “A gente comenta com um mais próximo ou se demanda alguma situação aí você
chega no coordenador e diz que ta acontecendo isso, que vai precisar disso, ou se precisar tomar
alguma decisão, mas no dia a dia fica mais com a pessoa”, afirma uma conselheira representante
de instituição pública estadual. Ou seja, a socialização acontece junto as chefias de forma
pontual e não contínua. A procura pela chefia ocorre mais em casos de demandas que fujam da
responsabilidade institucional do servidor público.
Para alguns atores, essa flexibilidade na inserção de demandas nos debates realizados
não necessariamente garante que essas deliberações democraticamente aceitas sejam levadas
em conta nas definições posteriores, pois há o não cumprimento das decisões do conselho e
diferenças entre o decidido e o implementado. Uma das conselheiras (MT, entrevistada em
2016), representante de polo, coloca que uma das demandas nacionais da Conferência de
Reserva em Áreas de Marinha (CONFRE), vinculada à assistência técnica (ATER) dessas
Unidades de Conservação, em sua forma final se diferencia da forma como os debates se deram
no Conselho Deliberativo. Uma das explicações possíveis para esse fenômeno é levantada pelo
segundo presidente da Assuremacata, acerca das decisões tomadas sobre o defeso do
caranguejo. Trata-se da existência de diferentes níveis de decisão para as demandas
apresentadas. Há nível de decisão no âmbito do CD, cuja demanda aprovada em uma
determinada reunião é encaminhada para a análise de outras instituições públicas, que além de
responsáveis pela fiscalização e cumprimento da legislação vigente, há também interesses
políticos, econômicos e estratégicos.
Nas entrevistas realizadas é citada a participação limitada de algumas dessas instituições
que compõem o CD, ocorrendo muitas ausências de algumas ou outras que nunca participaram
de nenhuma reunião deliberativa e na tese de Silva Junior (2013) é indicado o dado de que 19
das 23 instituições com direito à participação frequentaram as reuniões do Conselho no período
de 2010 a 2012. Esse instrumento possibilita a participação de diferentes atores, incluindo as
populações tradicionais locais e a Associação, numa arena permeada por relações de poder,
pontos destacados por Silva Junior (2013) em sua análise sobre o CD enquanto espaço de
participação e poder na Resex Caeté-Taperaçu.
Um desses desafios se refere ao posicionamento dos atores participantes do CD. A partir
da forma como o gestor da Resex, vinculado ao ICMBio, os diferentes atores se posicionam,
enquanto possibilidade de participar, demandar e decidir democraticamente, fato corroborado
por grande parte dos atores entrevistados, o que não descarta também imposições e decisões
diferentes das tomadas no Conselho (OLIVEIRA, 2018).
É ressaltada a atuação da Associação, além de sua representação em torno dos interesses
das populações tradicionais locais, enquanto instituição com poder de comunicação junto às
comunidades das decisões tomadas do ponto de vista gerencial e das políticas públicas
implementadas na Unidade. Contudo, a partir das questões já levantadas acerca dos conflitos
internos e da influência do poder local sobre a Associação ocorrem problemas legais com a
instituição, no que tange sua representação e representatividade diante das populações
tradicionais locais e demais atores envolvidos nos processos da Resex. Muitos entrevistados
SEÇÃO LIVRE 143
em confrontos no campo dos saberes, com a acusação dos atores locais sobre a marginalização
de seus saberes e práticas; marginalização num sentido de verticalização valorativa.
De acordo com Létourneau (2014), há possibilidades de existência de problemas,
tensões e conflitos de comunicação entre os atores participantes devido a tendência ao não
compartilhamento de linguagens e a não compreensão da multiplicidade entre os níveis de
intervenção. Nesse sentido, o autor evidencia a importância dos saberes contextualizados e
práticos ligados ao conhecimento empírico que contrastam com o prestígio dos saberes
especializados, evidenciando nas relações entre experts e saberes comuns possibilidades de
compreensão das situações, não somente enquanto espaço de confrontação e colaboração, mas
também ocasião da estratégia de tradução mútua dos saberes, de preferência com maior
consciência dos limites disciplinares por todos os atores.
Há verticalização no uso dos saberes inseridos no documento. Há uma valorização da
produção científica, de conceitos, análises, metodologias, coleta de dados a partir de um
referencial científico/técnico. Contudo, o fato de uma tendência há verticalização e hegemonia
de um conhecimento sobre o outro não exclui a participação dos atores e a incorporação e
reconhecimento de seus saberes tradicionais na legislação. O movimento que se dá é de
tradução para uma linguagem técnica e apropriação no léxico científico utilizado pelo Estado.
Por exemplo, acerca do período da “andada” conhecido entre os tiradores de caranguejo, a
Portaria Ibama 034/2003 traduz enquanto período reprodutivo dos caranguejos, onde machos e
fêmeas saem de suas galerias para acasalamento e liberação de larvas. Esse processo onde os
caranguejos estão “andando” no manguezal ocorre nos períodos de lua nova e cheia, durante os
meses de dezembro a abril (ABDALA et al., 2012, p. 68).
Outra questão central na relação entre saberes, e que influencia na inclusão dos saberes
tradicionais, é levantada por um dos representantes de Instituições Públicas, no caso a
Universidade, é a distância entre a lógica de assembleia, de direito a voto, instituída no âmbito
do CD e na coprodução do PM da Resex, com as práticas decisórias dos atores e comunidades
tradicionais locais. Um dos atores técnicos entrevistados, e representante da Universidade,
ressalta a falta de preparação e capacitação desses atores tradicionais locais em se apropriar
desses instrumentos do Estado para demandar suas necessidades em políticas públicas, de certos
benefícios, como seguro defeso, e como garantia de manutenção da Reserva. Não se trata de
uma questão de incapacidade desses atores e sim de necessidade de formação para sua atuação
nesses espaços e com esses instrumentos, que para a grande maioria são novidades.
Ainda acerca das metodologias aplicadas na coprodução do PM, havia a tentativa de
possibilitar entre os atores a produção do discurso oral. Contudo, essa metodologia não era
espontânea, ou não havia sido motivo de debate em relação a sua escolha. Uma das técnicas
representantes do Estado diz que “foi uma metodologia que a gente foi jogando para que as
pessoas falassem. É uma metodologia que ajuda a captar as coisas, mas ela não é espontânea”.
Era uma metodologia colocada via Estado, e possivelmente escolhida a partir da característica
do uso da linguagem oral em seu cotidiano pelas populações tradicionais locais abarcadas pela
Reserva. Contudo, o espaço do CD é diferente das práticas e realidades nas comunidades. Ele
pressupõe formação, preparo e domínio sobre signos que não são os dessas populações, e sim
do Estado e do conhecimento científico. Assim, um dos atores, representante do Estado, afirma
que “existiam dificuldades, mas a grande dificuldade é eles quererem falar: ‘será que isso é
importante, ah isso não serve não, vou ficar calado’”.
Ressalta-se que esses problemas e dificuldades de comunicação entre atores também
ocorrem no âmbito do Conselho, com o uso de diversas estratégias na perspectiva de solução
das tensões criadas. Há dificuldades, postas no discurso seguinte, em estabelecer a relação entre
os instrumentos e as discussões colocadas com o contexto local da Resex e dessa forma há
estratégias vinculadas à tradução entre esses saberes e a maior aproximação de conselheiros
SEÇÃO LIVRE 147
com perfil mais técnico com as comunidades locais, com o intuito de diminuir possíveis
problemas nas decisões deliberadas dentro do Conselho.
Outros atores participantes no CD também colocam essa estratégia de tradução entre
saberes como forma encontrada de facilitar o entendimento e o diálogo entre os atores. Percebe-
se que a dificuldade é sempre observada entre os atores representantes das populações
tradicionais locais da Resex, possivelmente pela tendência do predomínio de uma linguagem
técnica e científica nessas discussões, e da escrita materializada nos documentos (atas,
relatórios) produzidos. Dessa forma, é representada nos discursos a dificuldade de alguns
Conselheiros com o texto escrito, fato historicamente documentado e diretamente ligado à baixa
escolarização formal entre os pescadores artesanais e que, nesse sentido, impõe o desafio de
reforçar tentativas de outras formas que possibilitem maior participação desses atores ou que
esses processos tenham maior sentido educativo, independentemente do tipo de conhecimento.
No sentido dessa dificuldade de compreensão dos temas debatidos durante a coprodução
do PM da Resex, os atores do CD, juntamente com a empresa responsável por esse processo,
institui a estratégia de tradução dos saberes colocados em discussão, para possibilitar o
entendimento de conceitos, referências teóricas e metodologias operacionalizadas em pesquisas
utilizadas. Soma-se a isso, a relação histórica com o Estado centralizador em relação as políticas
públicas que não permitia maior manejo dessas populações em relação a esses instrumentos
estatais de gerenciamento do território, portanto há dificuldades de compreensão e uso dos
instrumentos, concepções e normatização jurídico-legal impostas pelo Estado. Um dos atores
representantes (NC, entrevistado em 01.06.2016) das comunidades e que trabalhou parte
significativa de sua vida como pescador, e também presidiu a Associação dos Usuários, afirma
que “muitas vezes nós não fomos educados a discutir, nós pescadores, somos muito
acomodados a concordar com tudo, que venha tudo par ter facilidade e não trabalho”. A
estratégia de tradução era concretizada na leitura de trechos debatidos onde se percebia
dificuldade de compreensão entre os atores.
Havia a tendência de não corresponder os objetivos e planejamento realizado com as
demandas discutidas nos debates, pois centrou-se o debate em torno dos direitos ligados à
habitação e os bens duráveis, o que é compreensível visto a dificuldade histórica na região de
acessos dessas populações tradicionais à políticas públicas de habitação e fomento de suas
atividades extrativistas. Porém, o debate ultrapassou os espaços institucionais delimitados no
âmbito do CD e, de acordo com alguns atores entrevistados, criou dificuldades no andamento
da coprodução do PM dessa Resex (OLIVEIRA, 2018).
Desse modo, se tentava traduzir os termos técnicos para a linguagem cotidiana e
utilizada empiricamente em suas atividades por essas populações. Os atores argumentam que
essa estratégia visava a participação e socialização entre os diferentes atores dos assuntos
inerentes ao processo de coprodução. E os seus desdobramentos foram observados por alguns
atores enquanto inserção de práticas e questões empíricas ligadas ao conhecimento tradicional
local nas discussões e no documento final do Plano. Contudo, a partir das expectativas criadas
por atores, principalmente alguns representantes das comunidades, o segundo presidente da
Associação afirma que “muitas coisas foram colocadas, outras não. Até mesmo a interpretação,
eles colocavam palavras que o caboclo não entendia, e colocavam palavras que deixava em
aberto”. Com isso, possibilitava-se diversas interpretações acerca do PM e limitava-se a
participação dos representantes das comunidades locais.
Dentro da coprodução do PM da Resex Marinha Caeté-Taperaçu, ressurgem questões
diretamente ligadas ao contexto local e importantes, ao nosso ver, enquanto norte de construção
do instrumento. Há conflitos, entre comunidades próximas, Vila dos Pescadores e Vila do
Bonifácio, que, na verdade, são sobre as formas diferentes de pesca acerca das escalas,
tecnologias, mobilidade dos pescadores e técnicas. Nesse sentido, o PM é limitado pela
delimitação do território, englobando somente grupos de pescadores que atuam nesse território.
148 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
foram realizados a partir do reconhecimento desses mesmos atores acerca da degradação que o
uso dessa malha provocava nos pesqueiros. Por fim, houve consenso em torno da malha, pelo
menos no nível do CD. Mas esse fato evidencia o quanto a legislação que serviu de norte para
as discussões das demandas e problemas a serem colocadas no PM, não espelham os interesses
dessas populações e são descontextualizados da realidade a ser interpretada na coprodução
desse instrumento de gerenciamento do território.
Sobre o método de pesca denominado “curral”8, as discussões tenderam a ser
conflituosas e tensas em relação à quantidade de madeira necessária para a construção dessa
tecnologia de pesca, o que é, proporcionalmente, direto ao tamanho repercutindo em menores
currais ou na divisão entre pescadores de um curral e, consequentemente, de um pesqueiro ou
território de pesca. Um dos atores das populações tradicionais representa esses debates
enquanto “bate boca” entre os representantes dos pescadores, que utilizam esse método e os
atores técnicos, especificamente do ICMBio. Os atores das populações tradicionais em sua
prática e conhecimento da pesca local relacionam o tamanho de um curral com a quantidade de
peixes a ser coletada. Assim, na experiência dos pescadores locais, quanto menor o curral menor
a possibilidade de produção. O Estado propusera sessenta moirões, madeira que sustenta o
curral, de acordo com Araújo e Pereira (2015), e os atores consideraram pouco pela escassez
de peixe afirmada por eles. Então a discussão ficava entre sessenta, oitenta e cento e vinte
mourões e ninguém aceitava a quantidade de madeira a ser usada na construção proposta pelo
Estado.
Portanto, em algumas questões específicas se percebe a existência de acordos entre os
mais diferentes atores no sentido de construir consensos em torno de determinadas regras a
serem incluídas no PM. Porém, o maior desafio em relação a esse tema é a implementação
dessas novas regras entre os pescadores locais.
Em conclusão, essas relações entre os saberes e práticas acionados na coprodução do
PM da Unidade de Conservação aqui tratada podem ser vislumbradas enquanto desdobramentos
dos conflitos de poder existentes localmente. Como já evidenciado, há diferentes campos de
poder onde as disputas e conflitos se materializam: o poder entre os pescadores mesmo, da
Associação, e pontuados por um discurso com elementos tradicionais; o discurso do ICMBIo,
que se vincula com a ideia de sustentabilidade e dos ambientalistas, de um modo geral que
relaciona com o discurso pós-moderno; o discurso de uma oficialidade governamental, de
Estado, que não obrigatoriamente é o do ICMBIo, e sim da prefeitura, das Secretarias de Ciência
e Tecnologia e Meio Ambiente, ligado à modernidade. E, nesse sentido, se inserem fricções
entre os grupos de poder ali presentes a uma legalidade escrita, e o caso das comunidades
tradicionais que não se vinculam diretamente com essas perspectivas, excludente de parte
significativa dos “usuários”.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
8
“O curral é uma armadilha fixa, em forma de cerca feita de varas de madeira, armadas em beiras de praias ou
bancos de areia, no meio dos rios ou do mar, com aproximadamente 20 a 30 metros de extensão. Possui uma
abertura por onde os peixes penetram durante a maré cheia e, com a baixa-mar, ficam aprisionados, quando então
os pescadores procedem à despesca” (MORAES, 2007, p. 56).
150 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
mais claro e efetivo, como preceituado do ponto de vista jurídico-legal no SNUC. Porém não
significa dizer que, durante todo o processo de coprodução desse Plano, não tenha havido
tentativas nesse sentido, porém há grande assimetria no uso dos saberes aqui analisados para a
construção da escrita do documento final.
Dessa forma, em um processo tão rico em aprendizados e em conquistas
socioambientais ainda não conseguiu até hoje romper com a hegemonia de interesses outros
vinculados à uma racionalidade que não é a ambiental. Racionalidade presente nas instituições
públicas, sobretudo no nível do poder local, onde as ideias de sustentabilidade, de direitos
sociais, normalmente, não encontram eco. Um dos fatores que explica esse fenômeno é o
processo de fragilização do papel institucional da Associação dos Usuários, ocorrendo desvios
em seus objetivos e a fragmentação em diferentes grupos de interesse, com vínculos partidários
com diferentes partidos políticos, o que acarretou na não inclusão dos saberes e práticas
socioambientais de forma efetiva na coprodução do Plano de Manejo.
Mas, não se pode deixar de reconhecer a capacidade de resistir, de inventar, de aprender,
de segmentos sociais como as populações tradicionais, em parceria com outros segmentos de
atores (ONG, Instituições de ensino e pesquisa, organismos do Estado), vem conseguindo se
impor, enfrentar forças políticas e econômicas que as negam, via adoção das referências da
conservação ambiental. Há diversidade nos interesses que os atores das populações tradicionais
locais afirmam representar, principalmente no âmbito do CD, alguns se referem aos direitos das
populações locais em relação à educação formal, saúde, juventude, renda, fomentos, habitação
e bolsas em períodos de defeso.
AGRADECIMENTOS
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, Antônia Gabriela Pereira de; PEREIRA, Bruno Gonçalves. Mar de Vaqueiros:
conhecimentos tradicionais da pesca de curral e os direitos territoriais dos pescadores
artesanais da praia de Bitupitá, Ceará. Tessituras, Pelotas, v. 3, n. 1, jan./jun. 2015.
BOURDIEU, Pierre. Curso de 7 de fevereiro de 1991 In: Sobre o Estado. 1º ed. São Paulo,
Companhia das Letras, 2014.
CÂMARA, João Batista Drummond. Governança ambiental no brasil: ecos do passado. Rev.
Sociol. Polít., Curitiba, v. 21, n. 46, jun. 2013.
SEÇÃO LIVRE 151
LITTLE, Paul. Territórios Sociais e Povos Tradicionais no Brasil: Por uma antropologia da
territorialidade. Brasília: Série Antropologia, n. 322, Ed. UNB, 2002.
MORAES, Sergio Cardoso de. Uma arqueologia dos saberes da pesca: Amazônia e
Nordeste. Belém: EDUFPA, 2007.
TEISSERENC, Pierre e TEISSERENC, Maria José da Silva Aquino. Território de ação local
e de desenvolvimento sustentável: efeitos da reivindicação socioambiental nas ciências
sociais. Sociologia & Antropologia, v. 4, 2014.
RESUMO
ABSTRACT
This article is of an ethnographic nature and falls under the scope of my Post-doctorate in
Anthropology of Food, an instance carried out from July 2018 to January 2019, at the Observatory of
Food, at the University of Barcelona, whose objective is describe and analyze, through textual and
imagery narratives, the experiences of commensalities enlivened by Brazilians, in particular by
paraenses, who live in Barcelona. Through field observation, conversations and interviews, it can be
noted that the eating behaviors of immigrants living in Barcelona constitute political resources of
resistance and affirmation in relation to other food contexts.
INTRODUÇÃO
1
É Doutor em Ciências e Pós-doutor em Antropologia da Alimentação, na linha de pesquisa Patrimônio
Alimentar e Turismo, pelo Observatorio de la Alimentación, na Universidad de Barcelona. É pesquisador
colaborador do Observatorio de la Alimentación (Odela/Universidad de Barcelona), pesquisador membro do
Laboratório de Políticas Culturais e Ambientais do Brasil (LApCAB/UNISINOS) e pesquisador membro do
Alere, Grupo de Pesquisa em História da Alimentação e Abastecimento na Amazônia/CNPq. Desenvolve
pesquisas nos campos da Antropologia Visual e da Antropologia da Alimentação, em particular da comida como
patrimônio alimentar do nordeste paraense. E-mail: [email protected].
154 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Inicio esta seção pontuando que faz tempo que a cozinha brasileira e a paraense
transpuseram o Atlântico e se presentificaram no mercado Catalão, povoando ora as
prateleiras dos supermercados, das tabernas, dos sites, dos açougues, dos restaurantes e ora as
mesas dos mais de 37.691 imigrantes brasileiros que habitam em Catalunha, pois, conforme
dados do Ministério das Relações Exteriores (2015), a Espanha é o sexto país com maior
concentração de imigrantes brasileiros. O mais amplo contingente reside nas cidades de
Madri, com 49 mil imigrantes, totalizando 86.691 brasileiros vivendo legalmente naquele
país, afora aqueles que ali habitam informalmente.
Estes últimos, assim como os outros, atravessaram meu fazer antropológico durante
esta empreitada – suas vozes estão registradas em algum lugar das páginas deste artigo – que
teve início no ano de 2017, quando estive no Observatorio de la Alimentacíón, para uma
SEÇÃO LIVRE 155
instância doutoral, no âmbito do PDSE, cuja continuidade se deu no segundo semestre do ano
de 2018, desta vez, no âmbito do meu Pós-doutorado.
Minhas incursões em campo no ano de 2017 me permitiram notar, dentre outras
coisas, que os alimentos brasileiros estão dispostos nos mercados de Barcelona de modo
diversificado, por exemplo, arroz e feijão (mesmo não sendo de origem brasileira) são
facilmente encontrados nas grandes redes de supermercado, o mesmo ocorrendo com a
mandioca. Já outros são dispostos nas prateleiras dos açougues, das tabernas e das lojas afro-
latinas, que são facilmente encontradas pelo território catalão, inclusive elas se fazem notar
em lugares centrais de Barcelona, como a Avenida Via Laietana, considerada zona turística da
cidade, conforme mostra a imagem 1.
Nessas lojas são encontrados inúmeros produtos alimentícios de origem brasileira, tais
como: arroz, feijão, café, temperos, condimentos, enlatados, embutidos, etc.
Dentre eles, estão alguns que dizem muito da cozinha paraense, a saber, a mandioca e
seus derivados, tais como goma para tapioca, farinha de tapioca, macaxeira in natura, farofa,
carimã e farinha de mesa. “Esta última é disposta em sacas e vendida a granel, assim como
fazem os paraenses em suas barracas de farinhas nas feiras das cidades do estado do Pará. [...].
(PICANÇO, 2017, p. 214), conforme mostra a imagem 2.
156 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Além das lojas físicas, os imigrantes também contam com a venda dos já citados e de
outros produtos alimentícios brasileiros, como, por exemplo, as verduras e legumes, como
couve, quiabo, etc., além das pamonhas, conforme me relatou Larysse Farias, que é paraense
e vive em Barcelona faz 15 anos.
Às vezes eu compro nas lojas dos paquistaneses e dos marroquinos, que vendem
muita comida do Brasil. Outras coisas eu compro pela internet. Por exemplo, tem
uma página no facebook que é de uma horta brasileira e eles vendem uma infinidade
de coisas do Brasil. Por exemplo, eu sempre compro dessa horta pamonha, couve,
quiabo e outras coisas. A gente pede e chega rapidinho (Entrevista concedida em 25
de outubro de 2018).
Imagem 3 - La Boqueria
Nos lugares até aqui mencionados, os brasileiros e paraenses podem acessar produtos
alimentícios para fazerem suas comidas, porém existem outros lugares em Catalunha onde os
alimentos já lhes esperam prontos para serem degustados.
Falo dos restaurantes brasileiros que povoam aquele território, dentre os quais cito o
Brasa Rio, situado em Santa Coloma de Gramenet. No cardápio, além da feijoada, os clientes
também podem degustar, dentre outros sabores, o churrasco de picanha com arroz e feijão à
brasileira com farofa e de sobremesa as tão apreciadas coxinhas. Além disso, para os
brasileiros paraenses, o restaurante disponibiliza apetitosos sucos de cupuaçu (imagens 5, 6 e
7).
Ademais, o churrasco brasileiro pode ser degustado em outros lugares especializados
no assunto, como na Churrascaria Brasileira, que está localizada no shopping Splauem em
Cornellà de Llobregat. A demanda pelo churrasco brasileiro é tanta, que os brasileiros, os
catalães e outros aguardam em filas, conforme imagens 8, 9 e 10, para degustá-lo. De fato,
essa churrascaria é uma franquia da marca Churrascaria Brasayleña e povoa outros shoppings
de Barcelona.
SEÇÃO LIVRE 159
Importa ressaltar que tanto o Brasa Rio quanto a Churrascaria Brasayleña, são espaços
gastronômicos situados à margem da rota turística de Barcelona, diferentemente daqueles que
estão sediados no “coração” daquela cidade, como é o caso do La Carioca, conforme mostra a
imagem 11, localizado exatamente na zona turística do lugar.
O La Carioca encontra-se situado na Plaça de Pau Vila, centro de Barcelona. É um
lugar requintado, com práticas alinhadas à indústria turística com discursos que enfatizam que
ali se tem a melhor, a mais tradicional comida brasileira. No cardápio, uma variedade de
pratos, dentre os quais: a feijoada, o feijão, o arroz, o churrasco e bebidas, como a caipirinha.
Além desses, no referido restaurante, se pode também degustar a tapioca e o açaí. Pelo
que observei, estas duas últimas comidas são os pratos considerados os “carros-chefe” do La
Carioca, ao menos era o que indicava nos banners de propagandas dispostas em frente ao
restaurante, cujos destaques eram para a tapioca e suas benesses, como a sua suposta ausência
de glúten, assim como para o açaí, que, segundo o encarte, é rico em proteínas, nutrientes e
antioxidantes, conforme indica a imagem 12.
160 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Imagem 11 - La Carioca
quanto o outro, em termos de Brasil, estão mais para comidas regionais (Norte e Nordeste) do
que para comida nacional.
O açaí, por exemplo, é uma das mais importantes comidas da mesa dos paraenses, de
norte a sul daquele estado. Na capital Belém, o fruto constitui-se em alimento diário, em prato
principal da mesa daquela gente. Com a tapioca não é diferente, lá ela também se manifesta
como comida do dia a dia seja no café da manhã, ou no café da tarde. A iguaria pronta para o
consumo pode ser encontrada com facilidade pelas barracas espalhadas pelas ruas de Belém,
assim como pelos tabuleiros dos tapioqueiros que as vendem todas as tardes, pelas ruas da
capital paraense.
Portanto, parece que a tapioca e o açaí são dois pratos considerados comidas
tradicionais do Pará e de outros estados do Norte e do Nordeste brasileiro e, por serem assim,
não povoam com regularidade as mesas dos cariocas. Assim, não seria descabido apontar que
estamos diante de um processo que tenta nacionalizar os patrimônios alimentares que
historicamente têm funcionado como marcadores das identidades coletivas do Norte e quiçá
do Nordeste do Brasil.
Segundo Picanço (2018), a tentativa de nacionalizar a tapioca se deu quando
nutricionistas descobriram nela a ausência de glúten. Isso teria então provocado o
deslocamento do seu consumo do eixo norte-nordeste para as demais regiões brasileiras. Caso
parecido ocorreu com o açaí, que, por ser provido de propriedades energéticas, passou a nutrir
esportistas ou não em todas as partes do Brasil, onde é consumido como bebida energética,
enquanto que no Pará ele continua sendo comida.
Ademais, as tapiocas do La Carioca, - que são mais de dez modalidades recheadas de
carne seca, picanha, queijo, carne de frango, mortadela, etc. - são incorporados elementos que
normalmente não estão presentes nas tapiocas comidas no dia a dia dos belenenses, pois lá,
elas são tradicionalmente feitas de duas maneiras: as enxutas e/ou salgadas, que depois de
prontas são levemente encharcadas com margarina ou manteiga, e as molhadas e/ou doces,
que são encharcadas com leite de coco e leite condensado e recheadas com coco ralado. Tanto
uma quanto a outra são, quase sempre, degustadas acompanhadas de café.
Afora isso, no La Carioca, outros elementos são agregados à iguaria, tais como o
cesto, a bandeira brasileira e o encarte com a imagem do Cristo Redentor, conforme mostrado
na imagem 13. O conjunto dessas incorporações ao mesmo tempo em que torna a iguaria
gourmetizada, funciona como recurso a memória que potencializa uma das competências
inerentes à comida, a saber, a capacidade de aguçar as memórias afetivas e gustativas das
pessoas, no caso aqui tratado, dos imigrantes brasileiros e paraenses, pois tais detalhes
remetem a lembranças do lugar de origem, da casa, da família.
162 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
As comidas vendidas nesses lugares não têm o mesmo gosto da comida brasileira.
Por mais que eles ponham temperos e se esforcem, não adianta, fica parecido, mas
não é a mesma coisa (Fernanda Calandrini, entrevista em 15 de dezembro de 2018).
Desta última vez, entre os convidados, estavam brasileiros de quase todas as regiões
do país, além de espanhóis, salvadorenhos e José, que é de origem boliviana com
nacionalidade francesa e é casado há nove anos com Isis, a qual é do Mato Grosso e vive em
Barcelona faz 14 anos.
Isis me relatou que, apesar de estar acostumada com a cozinha catalã, em sua casa não
falta comida brasileira, especialmente feijão e arroz, além da pimenta malagueta na salga ao
óleo e da farofa de farinha de mandioca com ovos. Em algumas ocasiões especiais, ou nos
finais de semana, Isis costuma fazer feijoada, churrasco de picanha e vinagrete. Suas
experiências culinárias têm sido provadas e aprovadas por seu esposo José: “Me encanta la
comida brasileña, me gusta mucho de la barbacoa de picanha, me encanta la farofa de harina
de mandioca con huevo, la vinagreta y la pimienta malagueta” (José, em entrevista concedida
em 1º de dezembro de 2018).
Próximas às práticas comensais levadas a cabo por Cynara são as empreendidas por
Maria Clara, de 33 anos, brasileira de São Paulo, que vive entre França e Barcelona faz 11
anos. Atualmente é professora associada do Campus de La Alimentación, da Universidad de
Barcelona, onde ministra a disciplina Antropologia da Alimentação. Maria Clara se diz
adaptada à cozinha catalã, mas, mesmo assim, o arroz povoa sua mesa ao menos duas vezes
na semana. “Tem alguns produtos brasileiros que eu como, ou quando bate a saudade de casa,
como o pão de queijo, a coxinha, o brigadeiro, a feijoada, a moqueca, o camarão na moranga,
a tapioca.” (Maria Clara, em entrevista em 5 de dezembro de 2018). Afora isso, em ocasiões
especiais ela convida os amigos brasileiros e estrangeiros para comer em sua casa. Também
costuma preparar comidas brasileiras para oferecer ao namorado.
Às vezes eu chamo amigos brasileiros e outros daqui pra comer em casa, aí eu faço
algo brasileiro pra que eles conheçam. Alguns deles já conhecem, então, quando eu
os convido, eles me pedem para fazer aquele prato. [...] Isso geralmente acontece em
momentos especiais e festivos, como, por exemplo, há dois anos atrás, no
166 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
aniversário do meu namorado, que é francês, eu fiz caldinho de feijão e era inverno.
Todo mundo adorou, não conheciam. Sempre que tenho oportunidade, faço alguma
comida brasileira para a família dele [...] eles adoram [...] (Maria Clara, em
entrevista em 5 de dezembro de 2018).
Quase todos os alimentos utilizados por Maria Clara para a feitura dos pratos
brasileiros são facilmente encontrados por ela nos supermercados e lojas afro-latinas, sediadas
em Barcelona, como aquelas supramencionadas anteriormente, outros nem tanto, como é o
caso da couve, que “[...] aqui é muito difícil de encontrar, assim como a mandioquinha. No
Brasil, eu comia muito, na casa da minha mãe sempre tinha cozida, ou sopa, ou purê de
mandioquinha. Sinto muita saudade da couve e da mandioquinha”. (Maria Clara em entrevista
em 5 de dezembro de 2018). Outros alimentos são trazidos por ela do Brasil: “eu congelo o
catupiry e trago congelado em bolsinha térmica, embaixo, na mala. Já trouxe cachaça
também, chocolate bis, paçoca e café [...]”. (Maria Clara em entrevista em 5 de dezembro,
2018).
Outra imigrante brasileira que vive há 12 anos em território catalão é Elza Ortiz, que é
natural de Porto Velho/ Rondônia e tem 45 anos. Como as demais, se diz adaptada ao lugar e
aprecia a cozinha catalã, mas, apesar disso, segue comendo à moda brasileira, em especial o
arroz e o feijão. “Eu mesma faço minha comida porque o sabor dos alimentos daqui é
diferente e, para tentar deixar a comida o mais próximo possível do sabor do Brasil, eu me
aproprio de alguns temperos brasileiros que são vendidos nas lojas afro-latinas.” (Elza Ortiz,
em entrevista concedida em 18 de dezembro de 2018).
Sendo assim, parece que foi na tentativa de continuar com o gosto de sua comida de
origem que, no dia 10 de dezembro de 2018, ao retornar do Brasil, onde esteve por 30 dias de
férias, Elza trouxe em sua mala duas iguarias que, segundo ela, não são encontradas na
Catalunha, a saber, 1 quilo de charque e 1 quilo de calabresa. Com esta última, Elza fez um
risoto, já o charque ajudou na composição de uma feijoada preparada e oferecida por ela, no
dia 18 de novembro de 2018, para a qual fui convidado. Afora o charque, todos os demais
ingredientes, particularmente aqueles derivados de porco, foram facilmente adquiridos nos
mercados de Barcelona, conforme mostra a imagem 24.
No Pará, em particular nas comunidades rurais desse estado, a reima é uma categoria
advinda da sabedoria popular com significativas implicações no comportamento alimentar
daquele povo. Além da carne de porco, a carne de pato, o caranguejo, o camarão, os peixes de
pele, os ovos, dentre outros, são proibidos em determinados estados patológicos dos
comensais paraenses, sob pena de serem acometidos por agravações inflamatórias de
ulcerações e feridas cirúrgicas, potencializando o processo de supuração da área suturada no
corpo, que podem ser seguidas de reações alérgicas.
Dito isso, reporto-me agora à última experiência por mim testemunhada durante este
tempo de pesquisa, ocorrida no dia 8 de dezembro de 2018, e foi protagonizada por Maria
Clara e seus alunos, do curso de Nutrição e Tecnologia de Alimentos, do Campus de La
Alimentación, da Universidad de Barcelona.
Durante o primeiro semestre de 2018, Maria Clara ministrou a disciplina Antropologia
da Alimentação e como parte do processo avaliativo, os referidos alunos empreenderam um
trabalho de campo, onde entrevistaram imigrantes das mais variadas nacionalidades, inclusive
brasileiros que vivem em Barcelona. O referido trabalho tinha por objetivo investigar os
aspectos socioantropológicos e nutricionais do comportamento alimentar dos imigrantes
entrevistados. Os resultados da investigação foram socializados pelos estudantes, na
modalidade seminário, no último dia letivo, em 18 de dezembro de 2018.
Ao final dos seminários, as classes foram contempladas com uma mostra gustativa
oferecida pela Maria Clara. No cardápio, brigadeiros e farofa, conforme mostrado nas
imagens de 28 a 30. As manifestações e reações dos alunos frente às iguarias foram, a
princípio, de curiosidade, seguidas de estranhamento - já que, para quase todos, aquele era o
primeiro contato com aqueles alimentos – e, por fim, de satisfação manifestada em expressões
como: “que rica, muy buena, boníssima, que buena.”
Disse que a comida brasileira parecia estranha a quase, mas não a todos, isso porque
entre os estudantes estava Maiellen Oro Bozzini, que tem 25 anos, de nacionalidade
Argentina, mas vive em Barcelona desde a infância, a quem a cozinha brasileira parece
familiar, “me encanta la comida brasileña. Ya comi tapioca, coxinhas, pan de queso, la
feijoada, frijoles negros con arroz, barbacoa de picanha, pastel, brigadeiros.” (Maiellen em
entrevista, em 5 de dezembro de 2018).
Faz um ano e meio que Maiellen conheceu Beatriz, que é brasileira, e sua amiga, a
qual vive em Barcelona com a família. Foi Beatriz quem lhe apresentou o paladar brasileiro e
desde então, ao menos três vezes ao mês, sua dieta é povoada pela comida brasileira, ora
degustada na casa de Beatriz, principalmente aos domingos, ora em sua própria casa, “Mi
madre me prepara frijoles negros con arroz” (Maiellen em entrevista, em 5 de dezembro de
2018), ora no restaurante La Carioca, onde ela vai com Beatriz para comer tapioca.
A título de finalização, torna-se necessário frisar que o gosto da e pela comida
brasileira e paraense parece ser o vetor das experiências de comensalidades empreendidas por
Cynara, Elza, Maria Clara, e tantos outros imigrantes brasileiros e paraenses em Catalunha,
que assim fazem pelo desejo de “[...] matar a saudade de casa, sentir-se em casa sem estar
nela. É mais pra ter um contato, manter essa relação e sentir o gostinho do Brasil.” (Maria
Clara em entrevista em 5 de dezembro de 2018). Assim, um diálogo com os pressupostos
socioantropológicos (BOURDIEU, 1988, FISHLER, 1995 e CONTRERAS; GRACIA, 2011)
sobre o gosto ajudaria no entendimento das experiências comensais de meus interlocutores.
SEÇÃO LIVRE 169
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Por fim, parece que as experiências com a cozinha brasileira e paraense, vivificadas
pelos imigrantes no território catalão, são marcadas por certa dicotomia, pois, ao mesmo
tempo que adensam um antigo debate da Antropologia, particularmente da alimentação, a
qual afirma que entre as mudanças exigidas pela vida, talvez nenhuma seja tão resistente
quanto as inerentes aos gostos alimentares, também demonstram que poucos aspectos do fazer
humano são tão suscetíveis ao encontro do Outro quanto o desejo de experimentar o gosto da
cozinha alheia.
Parece que é nesse processo, de continuidade e descontinuidade, que a adaptação dos
imigrantes ao gosto do Outro, no contexto catalão, se faz na medida em que suas experiências
de comensalidade funcionam como recurso político que permite o encontro do Eu brasileiro e
paraense com o outro que come diferente de mim. Essa dinâmica parece ser lócus privilegiado
para a elaboração da diferença e evidenciado sentimento de pertença, funcionando como canal
de afirmação, de resistência e preservação de costumes alimentares frente aos contextos
globais que tendem a padronizar os aspectos da vida, inclusive os gostos alimentares.
REFERÊNCIAS
BOURDIEU, Pierre. La Distinción: critérios y bases sociales del gusto. Madrid. 1ª.
Ed.Taurus, 1988.
CASCUDO, Luís da Câmara. História da alimentação no Brasil. São Paulo. 4ª. Ed.
GLOBAL. 2011.
PICANÇO, Miguel. Na roça, na mesa, na vida: uma viagem pelas trajetórias da mandioca,
no e além do nordeste paraense. Belém. 1ª. Ed. Paka-Tatu. 2018.
SEÇÃO LIVRE 171
PICANÇO, Miguel De Nazaré Brito. Comida, consumo e identidade: Notas etnográficas por
entre os processos migratórios da mandioca; do contexto brasileiro e paraense ao contexto
europeu. Revista Mosaico, Rio de Janeiro, v. 8, n.13, p. 204 – 221, 2017. Disponível em:
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ROCHA, Carla Pires vieir da; RIAL, Carmem Silva. Migração, Consumo Alimentar e
Globalização: Fluxos entre Brasil e Europa. VII Encontro Nacional de Estudos do Consumo,
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Estudos do Consumo. Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (Puc-Rio). p, 1-
11, 2014. Disponível em: www.estudosdoconsumo.com.br. Acesso em: 12 jul.2017.
SERRA, Joan Ribas. Vi, Política i Espectacle: Procés de patrimonialització de la Cultura del
Vi a la denominación D’origen Alella. Barcelona/Es, 1ª. ed. UOC. 2014.
SILVA, Andréa Leme da. Comida de gente: preferências e tabus alimentares entre os
ribeirinhos do Médio Rio Negro (Amazonas, Brasil). Revista de Antropologia, São Paulo,
USP, V. 50 Nº 1, p. 127- 179, 2007. Disponível em:
http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S003477012007000100004. Acesso
em: 08 de jul. 2018.
RESUMO
O presente estudo se constrói numa realidade amazônica marajoara, partindo da realização do Projeto
de extensão “Alfabetizar para Libertar”, da Biblioteca Professor Ricardo Teixeira de Barros, do Campus
Universitário do Marajó – Soure (UFPA), que propôs desenvolver a leitura como ação alfabetizadora
para Jovens e Adultos afastados do cotidiano escolar. A leitura pode ser compreendida como técnica de
aperfeiçoamento da capacidade cognitiva do indivíduo, sendo trabalhada com base na cultura, cotidiano,
memórias e vivências e experiências individuais e coletivas. Teoricamente, este estudo se baseia nas
ideias de Freire (1987,1989,1996,1997); Schwartz (2010); Leal; Albuquerque e Morais (2010), Giubilei
(2005); Leite (2013) e Gadotti; Romao (2011). Por conseguinte, utilizam-se como técnicas de coleta de
dados o questionário e a observação caracterizando este estudo como pesquisa- ação. Os resultados
identificam que dos 27 participantes do projeto, 25 destes aperfeiçoaram seus conhecimentos de leitura
aliada a prática da escrita e 2 daqueles, aprenderam a ler e a escrever. Toda ação praticada em prol da
comunidade possui suma importância para o campo cientifico educacional como um todo e projetos de
extensão em espaços educativos diferenciados, são bem vindos como prática de integração da
Universidade com a comunidade acadêmica e externa proporcionando experiências significativas na
vida desses indivíduos.
ABSTRACT
The current study was carried in the Marajoara Amazon, starting from the realization of the extension
project “Literate to free”, from the Professor Ricardo Teixeira de Barros Library, from Marajó
University Campus - Soure (UFPA), which proposed to develop reading as a literacy action for Young
people and adults away from school life. Reading can be understood as a technique for improving the
individual cognitive capacity, being worked based on culture, daily life, memories and experiences and
individual and collective experiences. Theoretically, this study is based on the ideas of Freire
(1987,1989,1996,1997); Schwartz (2010); Loyal; Albuquerque and Morais (2010), Giubilei (2005);
Leite (2013) and Gadotti; Romao (2011). Thus, questionnaire and observation were used as data
collection techniques. Study is characterized as action research. The results showed that of the 27
participants in the project, 25 of them improved the practice of reading combined with the practice of
1
Mestranda – PPLSA (UFPA - 2019). Especialista em Gestão de Unidades de Informação (IPGC – 2017).
Graduada em Biblioteconomia (UFPA – 2013). Bibliotecária – Documentalista (UFPA – Biblioteca Central) Help
Desk do Portal de Periódicos da Capes - Região Norte. E-mail: [email protected].
2
Mestrando – PPLSA (UFPA - 2019). Especialista em Tradução e interpretação do Inglês (FIBRA - 2015)
Graduado em Pedagogia (FAEL - 2019). Graduado em Letras (UFPA-2012). Professor de Língua inglesa da
Secretaria Municipal de Educação do Município de Salvaterra (Marajó – PA) e Coordenador do Curso de Idiomas
na Marajó English School (MES). E-mail: [email protected].
3
Doutora e Mestra em Educação pela Universidade Federal do Pará. Docente do Programa de Pós-Graduação
Linguagens e Saberes da Amazônia e professora Adjunta da Universidade Federal do Pará Campus de Bragança-
Pa. É membro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Educação. Coordena o Grupo de Pesquisa
de Educação de Jovens e Adultos e Diversidade na Amazônia. E-mail:[email protected].
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writing and 2 of those, learned to read and write. Every action taken in favor of the community is
extremely important for the educational scientific field as a whole and extension projects in different
educational spaces are welcome as a practice of integration between the University and the academic
and external community, providing significant experiences in the lives of these individuals.
INTRODUÇÃO
Alfabetizar jovens e adultos não é apenas ensiná-los a escrever o seu próprio nome,
sobretudo é oportunizar uma educação de qualidade na qual permita diminuir os índices de
desigualdades no país. É o ato de formar leitores porosos, inquietos, críticos, perspicazes e
capazes de receber tudo que uma boa escrita e leitura podem lhe proporcionar. Como nos diz
Freire (1997, p. 20) “[...] o ato de estudar implica sempre o de ler mesmo que neste não se
esgote. De ler o mundo, de ler a palavra e assim ler a leitura do mundo anteriormente feita”.
Desta forma, alfabetizar “não deve ser puro entretenimento nem tampouco um exercício de
memorização mecânica de certos trechos do texto” (FREIRE, 1997, p. 20).
Entretanto, a complexidade do conceito de Educação, oferece diferentes embates no que
tange ser direito do cidadão e obrigatoriedade do Estado em servi-lo, diante de tantas
dificuldades do país e insucessos em sua implementação nas mais diversas formas que não
somente na Educação de Jovens e Adultos (EJA) (LEITE, 2013). Sendo assim, alfabetizar ainda
continua sendo um dos principais e mais fortes problemas que os países enfrentam, embora
apresente pequenos índices de queda passando de 6,8%, em 2018, para 6,6%, em 2019 (PNAD
2020), há de considerar para além do fato que ainda tem 11 milhões de analfabetos no Brasil,
essas taxas são ilusoriamente camufladas com índice dos alfabetizados funcionais4, ou seja,
aqueles que aprenderam a escrever seu nome, mas sem a compreensão de escrita e de leitura, o
que significa que esses números são bem maiores.
Gadotti; Romão (2011) abordam diferentes legislações (LDB’s, CCN’s Diretrizes de
Educação etc.), na intenção de compreender o papel e funcionamento da EJA e como o déficit
existente da mesma, trouxe aos mais diversos indivíduos, a negação da educação pelo próprio
Estado em situações diferentes de suas vidas, fazendo com que estes mesmos indivíduos
precisassem se evadir do ensino regular para que de certa maneira pudessem construir um futuro
por meio do trabalho. Considerando o déficit educacional brasileiro, ressalta-se que o próprio
sistema de levantamento realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - do
número de pessoas alfabetizados, ou seja, pessoas quem sabe ler e escrever, têm sido
questionados a relação aos métodos para avaliar a capacidade de compreensão de leitura e
escrita. Estudiosos como Sousa et al (2016), percebem e denunciam que apesar do acesso à
educação ter crescido no final do século passado e início deste século, e, que na Amazônia
Legal5 o analfabetismo tenha caído, o analfabetismo funcional continua elevado.
4
A ampla disseminação do termo analfabetismo funcional em âmbito mundial deveu-se basicamente à ação da
Unesco, que adotou o termo na definição de alfabetização que propôs, em 1978, visando padronizar as estatísticas
educacionais e influenciar as políticas educativas dos países-membros. Os indivíduos chamados de analfabetos
funcionais são aqueles que reconhecem as letras e os números, no entanto, não compreendem textos, não
conseguem captar as ideias centrais e explicar o conteúdo daquilo que foi lido, são também os indivíduos que não
conseguem realizar operações matemáticas, sejam elas mais simples ou elaboradas.
5
O conceito de Amazônia Legal foi instituído pelo governo brasileiro como forma de planejar e promover o
desenvolvimento social e econômico dos estados da região amazônica, que historicamente compartilham os
mesmos desafios econômicos, políticos e sociais.
SEÇÃO LIVRE 175
apresentaram uma taxa de analfabetismo bem mais alta e uma média de anos de estudo
inferior a das regiões do Centro-Sul do país. (IBGE, 2019).
Esta gente analfabeta sabe muita história oral e não poucos têm viva memória e
sabedoria criativa. Contavam pelas portas do mercado, no bar do emérito, casa da
beira, no trapiche ou canoas à espera de maré, muitos casos do estúrdio apartheid que
"normaliza" tontas discriminações, dizendo -- em falso -- que deus fez o mundo deste
jeito desde os começos do tempo [...] (PEREIRA,2014).
6
A UFPA, então, passou a desenvolver um modelo de Universidade Multicampi, que visasse um sistema de
cooperação e compromisso entre todos os campi, da capital e do interior, pautados pelo diálogo, pela discussão e
pelo princípio da universalidade. Hoje é a única universidade federal que se estrutura em 10 campi do interior
Abaetetuba, Altamira, Bragança, Breves, Cametá, Capanema, Castanhal, Marabá, Soure, Tucuruí – demonstrando
a importância de seu papel perante a região amazônica e sua capacidade de ser um agente de transformação social,
se configurando como a universidade com maior inserção social dentre todas as Instituições de Ensino Superior e
com o maior número de alunos de graduação.
7
Quando se trata do compromisso social da Universidade Nogueira (2000, p. 63 apud OLIVEIRA, 2004, p. 2)
ressalta que as Universidades devem “induzir programas e projetos que visem enfrentar os problemas específicos
produzidos pela situação da exclusão”. Partindo desse propósito, compreende-se que a Universidade,
especialmente a pública, tem a responsabilidade de aliar educação e cultura, e contribuir para o fortalecimento da
cidadania. Para Tavares (1997), a extensão universitária aparece para uma pequena fração da comunidade
acadêmica como a possibilidade de dar suporte a um novo paradigma de produção de conhecimento no âmbito da
Universidade, tendo uma relação próxima com a sociedade em um processo de troca e complementaridade,
constituindo um objeto catalisador das bases sociais.
178 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
A necessidade de projetos que visem a leitura se tornou cada vez mais importante no
Campus de Soure –UFPA. Assim, alfabetizar jovens e adultos se configurou um dos objetivos
da Biblioteca Professor Ricardo Teixeira de Barros, com o intuito de reafirmar o papel da UFPA
com a comunidade, mais também destacar a importância da biblioteca dentro da instituição
como um local de produção de conhecimentos, mais principalmente como um espaço
diferenciado de educação.
um maravilhoso trecho de Carlos Drummond de Andrade, da sua obra A Rosa do Povo8. (1943-
1945) em que ele escreve poesias acerca da época sombria que o país vivenciava, poetizando a
leitura desta forma: “A leitura é uma fonte inesgotável de prazer, mas por incrível que pareça,
a quase totalidade, não sente esta sede” (ANDRADE, 2012).
Dando seguimento, Freire (1989, p. 9) destaca que a compreensão crítica do ato de ler,
não se esgota na decodificação pura da palavra escrita ou da linguagem escrita, mas que se
antecipa e se alonga na inteligência do mundo. Estabelecendo desta forma uma relação dinâmica
entre a linguagem e a realidade. Corroborando a importância da leitura e da escrita, Bamberger
(1995, p.9) explica que:
A pesquisa sobre a leitura [...] projetou uma luz sobre o seu significado, não só em
relação às necessidades da sociedade, mas também às do indivíduo. O direito de
ler significa igualmente o de desenvolver as potencialidades intelectuais e
espirituais, o de aprender e progredir.
Isto implica em dizer que a compreensão do texto a ser alcançada por sua leitura crítica
implica na percepção das relações entre o texto e o contexto, enquanto ato de conhecimento,
um ato criador, em que, ao ler o mundo, cobre de significações o universo do escrito, ampliando
as possibilidades de se construir outras relações com o mundo. Desta maneira, podemos
entender que a leitura favorece a remoção das barreiras sociais, concede oportunidades mais
justas de educação.
Ressalta-se que para Paulo Freire (1987) o analfabetismo é produto de estruturas sociais
desiguais e, portanto, efeito e não causa da pobreza. Neste sentido os processos educativos
operam no sentido de transformar a realidade, e consequentemente, a alfabetização é uma
ferramenta propícia ao exame crítico e à superação dos problemas que afetavam as pessoas e
comunidades. Para tanto, os processos educativos devem compreender as relações e posições
dos sujeitos na sociedade, no caso da educação e, a alfabetização deve superar processos
mecanizados de aquisição de letras e, se configurar em um espaço de trocas de experiências,
pensamentos, culturas etc.
Nesta direção Souza (2017, p. 10), destaca que quando se emprega a leitura como
instrumento de aprendizado, é possível que experiências e vivências sejam trocadas construindo
novos conhecimentos a partir das trocas como afirma Souza.
Assim sendo, é possível dizer que cada sujeito constrói sua experiência com a
leitura em uma via de mão dupla: um movimento de dentro para fora e de fora para
dentro guiado pela subjetividade – enlaçados pelo outro que lhe transmite não
apenas traços do ato de ler, mas aquilo que fundamenta o sentido do próprio ato.
8
A Rosa do Povo é um livro de poesias, brasileiro, escrito pelo modernista Carlos Drummond de
Andrade entre 1943 e 1945, possuindo novas edições ao longo dos anos. É a mais extensa obra do autor sendo
composta por 55 poemas, também sendo a primeira obra madura e a de maior expressão do lirismo social e
modernista. A obra é considerada como uma tradução de uma época sombria, que reflete um tempo, não só
individual, mas coletivo no país e no mundo onde o autor capta o sentimento, as dores, e a agonia de seu tempo.
No título A Rosa do Povo, a rosa representa a poesia (expressão), das pessoas daquela época.
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em que a cultura se diz, e dizendo-se criticamente, deixa de ser repetição intemporal do que
passou [...]”. O processo de alfabetização ocorre de forma diferente em cada indivíduo e cada
um alcança determinado nível de acordo com a sua capacidade cognitiva de aprendizagem.
Sobre essa perspectiva, Jolibert (1994, p. 12) salienta que:
É na medida em que se vive num meio sobre o qual é possível agir, no qual é
possível, com os outros, discutir, decidir, realizar, avaliar, que são criadas as
condições mais favoráveis ao aprendizado. Todos os aprendizados, não só o da
leitura. E isso vale para todos, inclusive para os adultos.
Aprender vai além dos exercícios de decorar textos, ou de apenas realizar provas e ouvir
a fala do professor. Mas discutir, relacionar o cotidiano com o seu aprendizado, inserir sua
cultura como forma de representação de educação, (re) significar suas experiências e costumes
para compor um aprendizado com novas abordagens que instiguem aos alunos a curiosidade e
a vontade de aprender gradativamente fazendo parte de um coletivo.
É diante desse contexto educacional aqui exposto que trazemos a Biblioteca como um
espaço diferenciado de aprendizado para adultos, utilizando da sua maior ferramenta: a leitura.
Por meio das ideias de Giubilei (2005), podemos considerar a Biblioteca como um espaço de
afetividade e de construção de conhecimento por meio da prática pedagógica que atravessa a
sala de aula e transporta a seus alunos novos meios de aprendizagem, com a intenção de fazer
aparecer outros aspectos de uma biblioteca que não somente local como “deposito de livros”.
Partindo desse princípio, a criação do projeto “Alfabetizar para Libertar” surgiu como respostas
tanto para trazer a comunidade do entorno à Universidade, quanto estimulá-la a usufruir do
acervo da biblioteca. Basicamente foi uma relação de interação e de troca conjunta. Enquanto
os alunos aprendiam por meio da leitura, o acervo estava sendo utilizado; a biblioteca estava
sempre cheia de visitantes e a Universidade cumpria um dos seus principais papeis: disseminar
de conhecimento através da extensão, levando em consideração as ideias de Mendonça e Silva
(2002), quando trazem a importância de projetos de extensão, afirmando que:
[...] poucos são os que têm acesso direto aos conhecimentos gerados na universidade
pública e que a extensão universitária é imprescindível para a democratização do
acesso a esses conhecimentos, assim como para o redimensionamento da função
social da própria universidade, principalmente se for pública. Ressaltam que uma das
principais funções sociais da Universidade é a de contribuir na busca de soluções para
os graves problemas sociais da população, formulando políticas públicas
participativas e emancipadoras.
Desta forma, o próprio projeto de extensão uma ação da Universidade Federal do Pará,
campus de Soure, articula a pesquisa ao ensino processo de alfabetização a comunidade que
fica ao entorno da própria Universidade, atuando como formadora de cidadãos também do lado
de fora de seus muros. Freire (1996, p. 15), finaliza este pensar à extensão em conjunto, quando
nos diz que “[...] nas condições de verdadeira aprendizagem os educandos vão se transformando
em reais sujeitos da construção e da reconstrução do saber ensinado, ao lado do educador,
igualmente sujeito do processo”.
Para selecionarmos nosso grupo participante não somente do projeto em si mas desta
pesquisa, construímos um questionário estruturado com perguntas simples e diretas tomando
como base principal o nível educacional de cada entrevistado, construído a partir de perguntas
simples como por exemplo, idade, profissão, tempo que estava afastado dos estudos em escola
regular etc. O foco do questionário foi perguntar se havia interesse de retornar aos estudos tendo
SEÇÃO LIVRE 181
como base a leitura e no caso de afirmação, informávamos como funcionava o projeto e quais
objetivos do mesmo e fazíamos assim o convite. A princípio, estipulamos uma idade mínima
de 18 anos como delimitação, considerando a juventude que abandona a escola cedo em prol
de trabalho como auxílio financeiro familiar.
Aliamos a entrevista direta (questionário) com a pesquisa de campo, já que o projeto
teve de ir ao encontro dos possíveis participantes, nas comunidades próximas à Universidade,
com vulnerabilidade socioeconômica. Saímos em campo durante uma semana nas redondezas
da Universidade Campus Soure, fortalecendo a ideia de extensão às comunidades do entorno
do Campus.
Adiante, podemos visualizar no Infográfico 1 as informações gerais dos participantes
nessa pesquisa, apresentando a diversidade de faixa etária e sexo dos mesmos.
HOMENS
23 – 47
ANOS
VENDEDOR
02
ENTREGADOR
Mulheres 01
25 – 59
anos PESCADOR
03
FEIRANTE
Marisqueira 01
SERVENTE
01
01
MARISQUEIRO
01
RABETEIRO
Dona de casa
02
AUTÔNOMO
10
05
Para análise seleção dos participantes, utilizamos como base as entrevistas individuais
realizadas na pesquisa de campo, onde foi possível identificar, o nível de escolaridade e o nível
de leitura e escrita dos participantes. Esse processo nos possibilitou selecionar 27 participantes.
Podemos perceber a partir do Gráfico 1 que a maioria dos participantes possuem o Ensino
Fundamental Incompleto, considerando também que a maioria são homens.
Gráfico 1 – Escolaridade
182 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Homens
N.E.
E.F.I.
E.F.C.
Mulheres
0 2 4 6 8 10 12 14 16
Fonte: Autores, 2020. N.E. Nunca Estudou. E.F.I. Ensino Fundamental Incompleto. E.F.C. Ensino
Fundamental Completo.
Vale ressaltar que a funcionária em questão, participou como voluntária, com o objetivo
de adquirir experiência docente, já que cursava na época a graduação de Pedagogia, na
Universidade do Estado do Pará (UEPA) localizada no município vizinho, Salvaterra. Os
demais foram escolhidos com base no curso de Letras – Língua Inglesa pertencente ao Campus
da UFPA, o qual se mostrava mais próximo das práticas educativas que queríamos desenvolver.
O projeto contou com o auxílio de 1 (uma) bolsa no valor de R$ 400,00 custeada pela
Pró Reitoria de Extensão da UFPA (PROEX). Considera-se importante ressaltar que além da
bolsa de extensão, não havia nenhum outro tipo de financiamento por parte da Universidade
para realização do Projeto. Este, contou apenas com a doação de materiais e uso de alguns já
existentes do próprio Campus que foram cedidos pela Coordenação Geral do mesmo para nossa
utilização, como por exemplo, equipamentos como data show, notebook etc.
SEÇÃO LIVRE 183
O autor fala sobre respeitar a leitura de mundo de cada indivíduo, para que assim se
possa delinear o ponto de partida. Desta maneira, para o desenvolvimento das aulas de leitura
e outras atividades, nos baseamos em autores da área de ensino-aprendizagem de jovens e
adultos como Schwartz (2010), Leal; Albuquerque; Morais (2010) que afirmam em diferentes
colocações que a alfabetização consiste na ação de alfabetizar, de ensinar crianças, jovens ou
adultos a ler e escrever.
No decorrer da realização dos encontros e atividades laborais de ensino-aprendizagem,
investigamos como de fato os indivíduos conseguiam adquirir o conhecimento repassado. E
para conseguir analisar essa dinâmica, utilizamos a observação participante, que é a tentativa
de colocar o observador e o observado do mesmo lado, tornando-se o observador um membro
do grupo de molde a vivenciar o que eles vivenciam e trabalhar dentro do sistema de referência
deles (MARCONI; LAKATOS, 2003, p. 194). Desta maneira, conseguimos compreender como
o alfabetismo e o letramento contribuíram para a transformação social dos cidadãos
participantes do projeto dentro do contexto educacional da Biblioteca.
Para a execução dos encontros e atividades complementares, se construiu um roteiro de
ensino para que os professores / voluntários pudessem seguir de acordo com os objetivos do
projeto. Podemos perceber no Quadro 3, que as atividades escolhidas tiveram caráter disciplinar
de natureza simples para que facilitasse o entendimento de todos, considerando que alguns
estavam fora da escola num período mínimo de 10 anos, enquanto outros nem sequer haviam
tido a oportunidade de estudar. Para estes, as atividades foram aplicadas individualmente num
sistema de monitoria individual já que não conseguiam acompanhar os demais no mesmo ritmo.
184 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
ATIVIDADES DESCRIÇÃO
4 DISCUSSÃO E RESULTADOS
Abordamos aqui, que muitos dos nossos participantes tinham os mesmos discursos
quando perguntado o motivo pelo qual abandonaram os estudos ou nunca foram a escola. E
como não era de se espantar, no caso dos homens, estes tiveram que escolher entre o trabalho e
a escola devido a situação financeira da família, optando pelo primeiro, e desta maneira
perdendo a vontade de retornar à escola já que pensava que não havia necessidade.
Já no caso das mulheres, a maioria casou-se muito cedo, também por questões
financeiras e algumas justificaram que não poderiam participar do projeto por conta dos
cuidados com a família (marido e filhos) e dos afazeres domésticos. Fatores recorrentes na nas
diversas regiões do país em diferentes proporções, segundo o Jornal online O Globo (2019) que
se baseia em dados de pesquisa nacional do IBGE, reiterando essa questão da seguinte forma:
[...] 23% dos jovens de 15 a 29 anos não estudam e nem trabalham. Percentual é maior
entre as mulheres, que apontam afazeres domésticos como principal motivo para
deixar o sistema educacional.
SEÇÃO LIVRE 185
Toda essa discussão esclarece o porquê da região Norte do país compor o pior índice de
educação, segundo o Jornal Acritica. Com (Online, 24/05/2020):
Foi com base nessas questões que procuramos contribuir de uma forma pequena, mas
engrandecedora para a comunidade que nos propusemos a desenvolver este Projeto e apresenta-
lo nesta pesquisa, percebendo que a maioria já possuía um aprendizado básico, mas devido o
tempo fora da escola, não lembravam o que haviam aprendido, pois disseram achar difícil e
perderam o interesse visando o Projeto como uma oportunidade de recomeçar. Tinham como
intenção relembrar o que já sabiam podendo corrigir erros de escrita e aprimorar a leitura por
meio da prática. Para os que nunca foram a escola, foi uma oportunidade única que como alguns
disseram, “nem imaginavam que com idade avançada seria tão maravilhoso aprender a escrever
e a ler seu próprio nome” (Relato pessoal)9.
Nas primeiras aulas os participantes estavam vergonhosos e logo que conseguimos a
confiança deles e se sentiram à vontade, conseguimos fazer com que participassem das aulas
oralizando suas dúvidas e contribuindo nas discussões. Inicialmente os conhecemos, soubemos
quais as expectativas e quais seus sonhos. A partir da segunda semana de encontros, começamos
de fato as atividades onde escolhíamos uma obra da Biblioteca da área de Literatura,
principalmente relacionadas ao contexto amazônico, como a obra Marajó de Dalcídio Jurandir
que possui um “palavriado” conhecido de nossos participantes. Utilizamos também livros que
retratavam as lendas da região e fazíamos atividades de reconstrução da história, já que cada
participante conhecia uma versão diferente da mesma.
O Projeto passou por algumas dificuldades em relação a material que foram sanadas
pela própria equipe a ponto de custear impressões, materiais como lápis, caneta etc. Mesmo
com tudo isso, o incentivo era grande quando os participantes chegavam e nos contavam que
haviam entendido um comercial de televisão ou que estavam a discutir sobre qualquer assunto
em casa. Ainda mais quando se sentiam bem-vindos dentro da Universidade recebendo
tratamento igual aos nossos acadêmicos. Essas questões nos mostraram que estávamos no
caminho certo. Desta maneira, podemos afirmar que a Biblioteca Professor Ricardo Teixeira de
Barros do Campus Universitário de Soure – UFPA, enquanto gestora do conhecimento
trabalhou em prol da sua comunidade acadêmica e principalmente, a não acadêmica visando a
formação de profissionais habilitados e capacitados para desenvolver trabalhos voltados para o
bem-estar social da comunidade em que está inserida e formara leitores através do seu acervo
evidenciando sua cultura local.
Entendemos, portanto, que o conhecimento deve ser universal e igualitário, na
pluralidade de pensamento visando resultados contínuos através da educação adquirida a partir
de suas interações na sociedade. Neste contexto, o Projeto fez com que o processo de
alfabetização e letramento ocorresse de forma diferente em cada indivíduo, considerando suas
experiências e conhecimentos trazidos em suas bagagens, para que assim pudéssemos
contribuir com o alcance de determinado nível de conhecimento de acordo com a capacidade
cognitiva de aprendizagem de cada um.
4.1 RESULTADOS
9
Atividade oral em que a aluna de 59 anos, a qual nunca estudou, relatou a sua felicidade em aprender a escrever
seu nome através das atividades do projeto.
186 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este Projeto nos permitiu analisar como a Biblioteca pode e deve ser utilizada como
espaço educativo e social. Observamos que ainda há muito a se fazer em prol da Alfabetização
de Jovens e Adultos no Brasil, muito mais quando se toma como cenário o Marajó.
Observamos que não basta apenas ir à escola. A escola e os professores têm que oferecer
qualidade de ensino e instrumentos capazes de ensinar e não apenas informar. Como bem
sabemos, a informação só se transforma em conhecimento quando é transferida e interpretada
da maneira correta. De nada adianta palavras se não sabemos formar frases. Saber ler e escrever
bem é um direito garantido por lei, mas que na maioria das vezes não se cumpri em regra e é
nosso dever enquanto cidadãos de bem e papel da Biblioteca, trazer à tona este conhecimento
através de ações voltadas para a comunidade. Ler é importante. Aprender é essencial, mas
interpretar é fundamental. A leitura transforma. Liberta. Supri a necessidade do homem em se
comunicar e fazer isso bem. Ela é uma das peças fundamentais no processo de alfabetização.
Conhecimento jamais será excesso, ao contrário, é poder, sendo fundamental na
construção do senso crítico, ao modo de como nos comportamos na sociedade em que vivemos
e como a queremos transformá-la.
Tenhamos em mente que é possível oferecer educação de qualidade em diferentes
contextos em diferenciados espaços que tenham consigo um cunho educativo. Aqui, mostramos
que a Biblioteca vai além de um “depósito de livros” e muito mais que isso escancarou uma
SEÇÃO LIVRE 187
realidade educacional, que infelizmente muito se discute, entretanto, pouco é feito em prol de
melhorias.
Deixamos a reflexão de que independente de público e do contexto, a educação por si
só, não é um problema educacional, mas social, político e econômico e que para resolvê-la é
obrigação do Estado olhar para todos os lados, a fim de prover condições necessárias para que
se possa desenvolver uma educação de qualidade e de direito de todos.
REFERÊNCIAS
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IDEB. Disponível em: https:www.acritica.com/channels/cotidiano/news/estados-da-regiao-
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1995.
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FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 17. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
FREIRE, Paulo. Professora sim, tia não: cartas a quem ousar ensinar. São Paulo: Olho
Dágua, 1997.
188 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
JOLIBERT, Josette. Formando crianças leitoras. Porto Alegre: Artes Médicas, 1994.
JORNAL O GLOBO. IBGE: 23% dos jovens de 15 a 29 anos não estudam e nem trabalham.
Por Paula Ferreira, 19/06/2019. Disponível em:
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nem-trabalham-23748808. Acesso em: 23 maio 2020.
LEAL, Telma Ferraz; ALBUQUERQUE, Eliana Borges Correia; MORAIS, Arthur Gomes.
(Org). Alfabetizar letrando na EJA: Fundamentos teóricos e propostas didáticas. Belo
Horizonte. Autêntica Editora, 2010.
MENDONÇA, S. G. L.; SILVA, P.S. Extensão Universitária: Uma nova relação com a
administração pública. Extensão Universitária: ação comunitária em universidades brasileiras.
São Paulo, v. 3, p. 29-44, 2002.
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Acesso em: 30 jan 2021.
THIOLLENT, Michel. Metodologia da pesquisa-Ação. 18. ed. São Paulo: Cortez, 2011.
SEÇÃO LIVRE 191
RESUMO
Neste trabalho discute-se o processo de reforma e contrarreforma agrária, ocorrido no Chile entre as
décadas de 1960 e 1990. Reflete-se, inicialmente, a respeito do processo de reforma agrária
desenvolvido durante as presidências de Jorge Alessandri (1958-1964), Eduardo Frei (1964-1970) e
Salvador Allende (1970-1973). Posteriormente, avalia-se o esforço de reversão do processo executado
durante o regime liderado pelo general Augusto Pinochet entre 1973 e 1990. Entende-se estes
processos como resultado da interação entre a burocracia de Estado e os diversos grupos sociais. Deste
modo, analisa-se “a atuação tanto de organizações representativas dos proprietários de terra como dos
movimentos campesinos.” Procuraremos perceber estes movimentos não como todos homogêneos,
mas observando suas divergências internas, que levam, às vezes, a fraturas intraorganizacionais.
Quando possível realiza-se a comparação do desenvolvimento da reforma e da contrarreforma,
cotejando seu desenrolar no Chile central e na Região Sul, marcada pelos conflitos entre os
terratenentes e as populações mapuches, na luta pela posse da terra. Deste modo, compreende-se o
peso do tema indígena nesta região, que teria reflexos no contexto nacional.
ABSTRACT
In this work is discussed the process of agrarian reform and counter agrarian reform occurred in Chile
between 1960 and 1990. Initially there is a reflection about the agrarian reform process developed
during the government of Jorge Alessandri (1958-1964), Eduardo Frei (1964-1970) and Salvador
Allende (1970-1973). In sequence, there is an evaluation on the effort for reversion of the executed
process during the regime led by general Augusto Pinochet between 1973 and 1990. The aim is not to
comprehend the movements as homogeneous, but to observe their internal divergences which
sometimes lead to interorganizational breaks. On occasion, there will be compared the agrarian reform
and counter reform development in central and south Chile, among the conflicts between landowners
and mapuche population in the struggle for land ownership. In this way we are able to weight the
indigenous theme in this region, which would lead to consequences in the national landscape.
INTRODUÇÃO
1
Doutor em História pela Universidadde Federal Flumense. Professor de História da América Latina da
Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio). E-mail: [email protected]
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haviam sido expropriadas, em 1972. Embora as tivesse oferecido para expropriação a fim de
receber a indenização a que teria direito mais rapidamente, alegava ter sido expropriado à
força pelos comunistas do governo deposto. A argumentação de Victor Bárbaro coincidia com
páginas da Revista El Campesino, órgão da Sociedad Nacional de Agricultura (SNA) –
entidade representativa dos proprietários rurais chilenos – que afirmara que os fazendeiros
sofriam tal pressão do governo. Victor Bárbaro, de fato, recebeu a terra e a indenização.
Em setembro de 1975, Robinson Moira Boaventura e Irenio Nuñes Leiva pediram à
CORA a devolução das terras que lhes haviam sido expropriadas em 1966, ainda no governo
do democrata-cristão Eduardo Frei. Usaram o mesmo argumento de Victor Bárbaro, ao
afirmar que estavam sendo pressionados ao tempo da expropriação e que, recuperando suas
terras, trabalhariam para apoiar a reconstrução de seu país, que fora “resgatado” pelos
militares, das mãos comunistas. Teriam, contudo, de aguardar melhores dias. As terras que
compraram em Rancagua eram parte de uma extensa propriedade pertencente a Dom
Eleodoro Callos, que a dividira com a mulher, Josefina Prado, a filha do casal, Maria Josefina
Prado, e o genro, Eduardo Varela. Posteriormente todos vendiam parcelas, como as que os
missivistas haviam comprado. O problema é que justamente em abril de 1966, quando eles
fizeram essa compra, foi publicada uma lei que proibia o parcelamento de terras sem
autorização da CORA2. Esses dois exemplos nos mostram a complexidade do processo de
reforma agrária ocorrido no Chile durante o período em análise.
Aparentemente, o golpe empresarial-militar, que derrocou a experiência democrático-
socialista, teve um caráter fulminante no processo de revisão da reforma agrária. Entretanto, o
que observaremos é que apesar da vigorosa repressão, as avaliações foram feitas quase caso a
caso, como lembrou Pablo Baraona, um ex-expropriado, que se tornou ministro da economia
de Augusto Pinochet (OVALLE, 2013, p. 215). Neste trabalho avaliaremos o processo de
reforma agrária chilena em dois momentos: o primeiro entre a aprovação da lei 15.020 até o
golpe de Estado liderado pelo general Augusto Pinochet, em 1973; e o segundo durante o
regime empresarial-militar, que se estendeu até 1990. Evidentemente, para introduzir o tema
será necessária uma discussão acerca do período anterior à aprovação da referida lei, uma vez
que os temas da reforma agrária e das relações sociais campesinas no Chile estavam presentes
na agenda política do país pelo menos desde a década de 1930. Buscaremos perceber a
variedade dos processos que se desenvolveram por todo este período. Observaremos a
emergência dos movimentos campesinos que contaram com apoio dos setores vinculados aos
partidos Democrata Cristão, Socialista e Comunista, bem como com a articulação dos
terratenentes3, organizados não só em suas entidades de classe, como por meio da SNA e do
Consorcio de Sociedades Agrícolas del Sur (CAS) e também com o apoio dos partidos
Conservador e Liberal, mais tarde fundidos no Partido Nacional. Além disso, sempre que
possível, estabeleceremos as distinções entre o Chile central, berço da conquista espanhola, e
o sul do país, onde a presença mapuche se fez sentir na ampliação da luta pela terra, quando
os autóctones buscaram reconquistar as áreas perdidas, sendo também palco de vivíssima
repressão pela parceria público-privada que envolveu militares das forças armadas, corpo de
carabineiros (polícia militar chilena) e terratenentes locais. Deste modo, o leitor viajará pelo
“País da Geografia Louca”, avaliando os esforços por realizar uma reforma agrária, bem como
as tentativas de evitá-la ou revertê-la.
2
O Processo de Victor Bárbaro Campos pode ser Encontrado em Servicio Agrícola y Ganadero, Concepción
carpeta 1748. Quanto ao de Eusebio e Irenio pode ser revisado em: Servicio Agrícola y Ganadero, Rancagua,
Carpeta 1354. Neste arquivo, localizado em Santiago do Chile, encontram-se os processos de expropriação das
terras durante a reforma agrária e de parcelamento dos lotes após o golpe de 1973.
3
Utilizamos a expressão terratenentes mais comum na língua espanhola, por entendermos que a mesma
representa bem o sentido da concentração de terras em toda América Latina.
SEÇÃO LIVRE 193
O ano era 1958 e o Chile tinha previsto eleições presidenciais. As elites políticas
orgulhavam-se, pois há um quarto de século o país era governado por presidentes eleitos e o
parlamento funcionava. Aquela eleição, entretanto, seria diferente, tendo em vista as
mudanças que a marcariam: primeiramente, o Partido Comunista (PC), que fora posto na
ilegalidade dez anos antes, por meio da chamada “Lei Permanente de Defesa da Democracia”,
voltava à cena eleitoral, compondo com os socialistas a Frente Revolucionaria de Acción
Popular (FRAP), apoiando o já experiente senador Salvador Allende; além disso, a entrega
das cédulas eleitorais só seria feita no momento da votação (AVENDAÑO, 2017, p. 136).
Todas essas mudanças tiveram impacto decisivo no meio rural. Desde seu nascimento, em
1921, o PC levantava as bandeiras da reforma agrária, da restituição das terras aos mapuches
– que desde o fim do século XIX eram expropriados, por meios legais ou não – e o
estabelecimento de condições adequadas de trabalho no campo. O fato de a cédula ser
entregue no local da votação não impedia, mas dificultava as fraudes eleitorais comuns no
Chile profundo (OSZLAK, 2016, p. 156).
Deste modo, os temas ligados ao mundo rural retornaram fortemente ao cenário
político, ainda que Jorge Alessandri, candidato oligárquico, tenha vencido por trinta mil votos
o candidato esquerdista. Utiliza-se o verbo retornar pois desde os anos vinte o setor
proprietário rural chileno, embora controlasse o parlamento e mantivesse firme aliança com
setores do comércio e da Indústria – através da Confederación de la Producción y comercio
(CPC), vinha sendo questionado por causa das duras condições sociais dos trabalhadores do
Chile central e do Sul4, tendo em vista o problema mapuche. Entre 1866 e 1884, num longo
processo de “pacificação” paralelo à “conquista del Desierto”, realizada pela oligarquia
argentina, militares e terratenentes chilenos subjugaram os mapuche, que desfrutavam de
autonomia desde os dias da conquista, tendo estabelecido um tratado com os espanhóis em
1641, renovando-o com o Estado chileno, em 1825. Entretanto, a ideia de que havia um
“vazio demográfico” a explorar – similar ao que se pensava da Amazônia em países como o
Brasil ou Peru – ganhou corpo em meados do século XIX; ali estaria uma terra vazia, onde o
que havia eram índios “preguiçosos”.
Completado o processo de conquista, a ampla densidade populacional obrigou o
Estado a reconhecer a existência de populações e a necessidade de radicá-las em comunidades
tituladas em nome de um cacique local, ainda que em áreas diminutas. Entretanto, muitas
vezes a terra era titulada em favor de gente vinda do Chile Central ou até mesmo de outros
países, como Alemanha, França e Suíça. Em vários casos, os títulos se sobrepunham a áreas
anteriormente destinadas aos indígenas e estes eram expulsos violentamente. Em outras
situações eram levados a assinar falsos contratos de arrendamentos por noventa e nove anos,
depois registrados como compras nos cartórios locais. Deste modo, os confrontos entre
colonos e mapuches tornaram-se comuns (CORRÉA, 2005, p. 121; BENGOA, 2014, p. 67-
85).
A questão da produtividade agrícola também deve ser levada em conta, uma vez que
os tempos em que a agricultura chilena conseguia abastecer também o Peru – durante a época
colonial – e que o trigo chileno alimentava também mineiros na Califórnia e na Austrália, em
meados do século XIX, haviam há muito terminado. Existiam esforços por parte dos
dirigentes da SNA, no início do século XX, no sentido de aperfeiçoar a produtividade
4
Dona Alicia Muñoz, atual dirigente da Asociación Nacional de Mujeres Rurales e Indígenas (ANAMURI),
nascida no Fundo Agua Fría, em Maule, centro-sul do país, contou-me, em entrevista, que trabalhava como
doméstica dos patrões e que recorda até hoje da péssima qualidade dos biscoitos e do macarrão oferecidos por
eles aos campesinos. Entrevista inédita ao autor realizada em 10 de julho de 2017, na sede da ANAMURI em
Santiago do Chile.
194 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
agrícola, mas o fato é que a agricultura chilena não exportava nem alimentava o crescente
mercado urbano interno, uma vez que sofria a concorrência do trigo e do vinho argentinos,
levando o Chile a ser um importador de alimentos (ULLOA, 2006, p. 57).
Todos esses temas ganharam relevância na cena política a partir da crise de 1929, uma
vez que o país havia perdido o mercado salitreiro para seu similar sintético desenvolvido
pelos alemães, e o cobre, explorado desde o século XVIII, teria de esperar a eclosão da
Segunda Guerra Mundial para retornar à projeção anterior. Os resultados da crise não se
fizeram esperar: o ditador Carlos Ibañes, que chegou ao poder em 1927, foi destituído em
1931, acarretando um período de intensa instabilidade que durou dezoito meses e que incluiu
a proclamação de uma República Socialista de duas semanas de vigência, sob a liderança do
Major Marmaduke Grove. A situação política se reequilibraria a partir do retorno do
presidente Arturo Alessandri, em 1932 (ele governara o país entre 1920 e 1924 e entre março
e outubro de 1925) (BENGOA, 2014, p. 65; OLIVARES, 2019, p. 235).
Enquanto os representantes da SNA brigavam no parlamento contra as medidas
trabalhistas e se queixavam da baixa remuneração para seus produtos, os comunistas e
socialistas iam ao meio agrário tentar organizar sindicatos e sofriam a viva resistência
patronal. Os socialistas chegaram a criar a Liga Nacional de Defesa dos Campesinos Pobres
em 1935, com eco maior em Santiago, e os comunistas procuravam organizar sindicatos,
também na região metropolitana, explorando a experiência de atuação sindical dos mineiros
do Norte (ROJAS, 2015, p. 23).
Do ponto de vista dos setores terratenentes, a situação agravou-se em 1938 face à
vitória de Pedro Aguirre Cerda, que liderava uma coligação que unia os partidos Radical,
Socialista e Comunista. A sindicalização rural, permitida, mas não regulamentada, ganhava
seu maior impulso desde a implantação do código do trabalho, em 1931, em virtude da
atuação dos comunistas e, em menor medida, dos socialistas. A resposta terratenente foi
sentida de todas as formas: desde a expulsão de camponeses sindicalizados ou que tivessem
votado na candidatura radical, com um irônico, “vá pedir trabalho a Aguirre Cerda”, até o
sequestro de inspetores do trabalho, agora mais atuantes, apoiando sindicalistas que, por sua
vez, levantavam pautas reivindicatórias. Por outro lado, em maio de 1939 os terratenentes
organizaram um congresso de agricultores5, no qual solicitavam ao presidente a suspensão da
sindicalização dos camponeses até que uma nova lei fosse editada, pedido que foi atendido.
De acordo com Loveman (1976, p. 23), havia, ao final de 1939, 219 sindicatos
organizados na zona metropolitana de Santiago. A proibição, entretanto, não pôde afetar os
sindicatos já organizados legalmente, valendo o princípio de que a lei não pode retroagir para
cassar direitos, embora os proprietários se esforçassem vigorosamente para impedir a atuação
dos sindicalistas no campo. Jaime Larraín e outros dirigentes da SNA afirmavam que a
existência de um sindicato na fazenda representaria, literalmente, um contrapoder na casa do
patrão. Não percebendo o camponês como um cidadão titular de direitos, mas sim como uma
eterna criança a ser governada, perguntavam-se a quem o trabalhador obedeceria, se ao patrão
ou ao sindicato (OLIVARES, 2019, p. 321).
Como alternativa, os dirigentes da SNA ofereciam uma espécie de bondade patronal,
pela qual os patrões fossem generosos, atendessem os camponeses no que fosse possível,
combatessem o alcoolismo e a tuberculose e realizassem festas domingueiras. Essa ideia de
uma sociedade rural harmônica, tão presente nos discursos das sociedades rurais argentina e
brasileira, bem como na nossa música caipira6, seria reiterada ao longo de décadas pelos
dirigentes da Sociedade Nacional de Agricultura. O campo seria um lugar de paz e esta paz só
5
No Chile, os fazendeiros autodenominam-se agricultores.
6
“Este pedacinho de chão encantado foi abençoado por nosso Senhor! Que nunca nos deixa faltar no sertão:
saúde, união, a paz e o amor!” Tião Carreiro, canção “Encantos da natureza”.
SEÇÃO LIVRE 195
poderia ser quebrada por agentes externos: comunistas, inspetores do Ministério do Trabalho
e socialistas.
Com a morte de Pedro Aguirre Cerda antes de completar seu mandato e sem atender
ao pedido dos dirigentes da SNA no sentido de proibir até mesmo os sindicatos já existentes,
assume a presidência, após ser eleito, o também radical Juan Antonio Rios. Durante seu
governo (1941-1945), o panorama não se alterou. No Chile central, os comunistas
esforçavam-se para mobilizar os camponeses por direitos trabalhistas, criando a Federación
Nacional de Trabajadores Agrícolas, além da Asociación Nacional de Pequeños Agricultores
(OLIVARES, 2019, p. 432). Ao Sul, os mapuches, que em sua maioria haviam votado em
Pedro Aguirre Cerda e criado a Frente Popular Araucana, como um reflexo da Frente Popular
que o levara ao poder, continuavam sofrendo a espoliação de suas terras. Sob a liderança de
Venancio Corioepán, que se elegeu deputado em 1942, (já havia deputados mapuches desde a
década de 1920), criou-se a Corporación Araucana, emulando a Corporación de Fomento,
que era fundamental no processo de industrialização. Esta entidade buscava, entre outras
melhorias, abrir estradas que conectassem as comunidades às cidades próximas, visto que os
proprietários muitas vezes não lhes permitiam passar por suas terras (BENGOA, 2014, p.
168).
Por sua vez, a já centenária SNA (fora criada em 1838) passou a enfrentar
concorrência. Ainda que contasse com a Rádio Agricultura, fundada em 1936, e que foi ao
longo das décadas replicada pelo país e embora tenha mudado o nome de sua revista de El
Agricultor para El Campesino, sua atuação era percebida por seus pares como extremamente
favorável apenas aos tradicionais cerealistas do Chile central e pouco atenciosa aos modernos
fruticultores e principalmente aos pecuaristas do Sul. Assim, em 1944, foi criado em Temuco
o Consorcio de Sociedades Agrícolas del Sur, que sem necessariamente desconectar-se de
Santiago, buscava uma atuação mais autônoma face à SNA (OSZLAK, 2016, p. 132).
Quanto à sua atuação, a SNA continuava lutando para bloquear a sindicalização rural e
se queixava do protecionismo que era estruturado em favor da indústria, enquanto a
agricultura sofria o tabelamento de seus preços ao mesmo tempo em que pagava caro pelos
insumos necessários à sua produção. De acordo com Ulloa (2006, p. 44), a exclusão dos
camponeses do direito à sindicalização seria um acordo que possibilitaria o processo de
industrialização por substituição de importações, já que, sendo o setor agrário penalizado face
aos baixos preços dos produtos agrícolas, os fazendeiros descarregariam seus prejuízos sobre
seus trabalhadores, pagando-lhes ínfimas remunerações. Este acordo teria contado, inclusive,
com o apoio dos comunistas, que aceitaram a exclusão dos rurais em troca de benefícios aos
trabalhadores urbanos. Entretanto, ao avaliarmos o trabalho bem documentado de Maria
Angélica Olivares, percebe-se que a militância do PC manteve, bem mais do que o Partido
Socialista (PS), um empenho no sentido de incluir os rurais na legislação trabalhista e lutar
pela reforma agrária durante o período 1938-1948, quando foram excluídos “legalmente” do
sistema político. Isso pode ser melhor observado em 1946, quando, devido ao falecimento do
presidente Juán Antonio Ríos, uma aliança entre radicais e comunistas leva ao poder Gabriel
González Videla que, por sua vez, nomeou comunistas para Ministérios, inclusive para o
Ministério da Agricultura. Neste período, o PC visou derrubar na prática a proibição à
sindicalização, enquanto no governo, homens como o mapuche Juán Chacon Corona,
buscavam liberar a importação do trigo argentino para competir com o trigo nacional
açambarcado pelos terratenentes. A reação destes, que ampliavam a SNA criando o Comitê de
Relacionamento de Entidades Agrícolas, repetia o padrão de expulsão dos sindicalizados e de
firmar uma parceria público-privada com carabineiros e com os inspetores do trabalho,
barrando a atuação de sindicalistas, além de fazer uma vigorosa campanha anticomunista nos
meios de comunicação.
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7
O sistema de inquilinaje chileno era similar a tantos sistemas de trabalho na América Latina: o camponês
trabalhava tantos dias de graça para o patrão e, em troca, tinha direito, dependendo sempre de sua vontade, ao
cultivo de um pedaço de terra e pastos para seus animais.
SEÇÃO LIVRE 197
8
No período entre 1959 e 1963, a reforma agrária cubana dividiu terras em propriedades individuais para
pequenos cultivadores, criando cerca de cem mil parceleiros. Rapidamente, entretanto, para aproveitar
especialmente a estrutura das plantações de cana-de-açúcar organizaram-se grandes áreas em cooperativas
controladas pelo Estado (VASCONCELOS, 2017, p. 243).
9
Tanto no Peru como no Chile, os proprietários rurais têm amargas memórias e queixas do período Kennedy.
Para eles, os democratas americanos não aceitariam a concorrência de seus produtos no mercado estadunidense
e por isso favoreciam reformas no continente (OTERO, 2007, p. 145; OVALLE, 2013, p. 216).
10
O tema das terras indígenas era espinhoso ao Sul: eram, como vimos, cedidas em lotes a um cacique, mas os
comuneros tinham usufruto. Em 1927, aprovou-se a subdivisão das comunidades e, em vários decretos a partir
desta data, proibiu-se a venda destas terras até a ditadura de Pinochet finalmente regularizar as propriedades
individuais ao fim dos anos 1970 (BENGOA, 2014, p. 376).
11
Traduzindo do espanhol, a palavra macetero significa vaso de planta. A reforma era chamada de “macetero”
pois acreditava-se que seu impacto seria limitado como o de plantas em vasos.
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não havia ganhado força apesar dos temores dos proprietários de terras. Ao Sul, com a bênção
da machi (médium), os mapuches de Arauco realizavam, em 1962, suas primeiras ocupações
de terras. O lema de “terra para quem nela trabalha” deixou muitos de fora, especialmente os
mapuches (BENGOA, 2014, p. 235).
Em 1964, uma derrota para o socialista Oscar Naranjo nas eleições complementares
para uma vaga de deputado, na província de Curicó, assustou os setores terratenentes, que
pressentiram o perigo da vitória de Salvador Allende, novamente candidato à presidência da
república pela FRAP. Por isso, abandonaram o radical Pedro Dum e canalizaram seus votos e
de seus camponeses para Eduardo Frei. Entretanto, o candidato da Democracia Cristã
disputava espaço não com a direita, mas com a esquerda. A revolução socialista opunha sua
Revolução em Liberdade defendida pela Democracia Cristã e a um sistema coletivista,
propunha assentamentos, que mais tarde, se converteriam em propriedades individuais.
A reforma agrária no Chile, como a peruana de Velasco Alvarado e a brasileira dos
primeiros meses do governo Castello Branco, parecia ser a melhor vacina contra a revolução
no estilo cubano. Desse modo, o governo chileno atuou de forma vigorosa, acelerando a
expropriação de terras – dentro dos limites da lei de Jorge Alessandri –, derrubando, na
prática, a lei de sindicalização rural, por meio dos promotores da Democracia Cristã, indo
especialmente a zonas do Chile central para dinamizar a formação de sindicatos. Os
proprietários estavam divididos, pois os do Sul inicialmente apoiaram Eduardo Frei, já que
seu discurso de modernização os convenceu de que não seriam expropriados. Os do Centro,
entretanto, entenderam que era necessário atuar mais fortemente contra a ação estatal, mas
não encontraram apoio em outros setores proprietários, agindo então de forma mais defensiva,
decidindo, por exemplo, pelo parcelamento de suas fazendas. Em 1966, uma lei proibiu tal
prática, pois exigia prévia autorização da CORA. Enquanto isso, especialmente no Chile
central, as greves começavam a ganhar magnitude.
Em 1967, três mudanças afetaram muito o meio agrário: em janeiro, a reforma
constitucional, que aumentou para trinta anos o prazo de pagamento pela terra expropriada,
ampliando as possiblidades do Estado para realizar este ato; em abril, foi aprovada a
sindicalização campesina (os comunistas desejavam um sindicato único, mas a maioria
democrata-cristã, que controlava o parlamento, impôs a pluralidade sindical, redundando na
formação de múltiplas federações e confederações); e em julho, veio a lei 16.640, da reforma
agrária. Pela referida lei, foi estabelecida uma área máxima de 80 hectares para a propriedade,
que contasse com irrigação básica o que significava um apenas hectare físico em Santiago,
mas que poderia chegar a quatro ou mais hectares no Sul, conforme o tipo de solo, se
precisava ou não de irrigação etc. As áreas inferiores a este tamanho poderiam ser
expropriadas, se mal exploradas ou abandonadas. As propriedades divididas entre 4 de
novembro de 1964 e a data de publicação da referida lei e que não estivessem sendo
cultivadas poderiam ser desapropriadas em até três anos. Tal fato desencadeou, em 1970, uma
intensificação das expropriações, o que irritou os dirigentes da SNA. Arrendamentos eram
permitidos, mas irregularidades nos contratos poderiam dar causa à expropriação
(AVENDAÑO, 2017, p. 235; OSZLAK, 2016, p. 265).
Estas mudanças causaram profundas transformações em ambos os setores em análise.
Do ponto de vista dos proprietários, seu mundo virara de cabeça para baixo, pois não
agradava o fato de terem que negociar com aqueles que consideravam inferiores, ou seja, os
camponeses; além de terem que aceitar inspetores do trabalho em suas terras. Ainda, relevar a
perda de sua propriedade era extremamente difícil para eles. Não era só uma questão
econômica, mas também a sensação de um mundo que conheciam que se desagregava. Os
campesinos também viram seu mundo ser transformado, porém tais mudanças ocorreram em
sentido oposto àquelas experimentadas pelos terratenentes. Podiam agora participar de greves,
recorrer ao inspetor do trabalho e, quem sabe, até ter a propriedade da terra. Tais mudanças,
SEÇÃO LIVRE 199
contudo, beneficiavam mais os homens que as mulheres, já que, como nos recorda Eidi
Tinsman, elas eram vistas apenas como mães e cuidadoras do lar. De todo modo, em 1968, os
movimentos começaram a surgir.
Na fazenda Santa Marta, no Vale de Longotoma, região de Val Paraíso, uma greve,
que durou meses, transformou-se em ocupação de terras. Os fazendeiros conseguiram
organizar sua retomada prometendo dinheiro e mesmo um pedaço de terra aos camponeses
aliados. Ao final, a terra acabou mesmo expropriada (SEGUEL, 2012, p. 45). Em San
Estevan, província de Los Andes, mesma região de Val Paraíso, ainda em 1968, uma greve
desdobrou-se em uma ocupação de terra dinamizada por militantes radicalizados do
socialismo. Cristian Pérez, provavelmente, supervaloriza a ocupação da fazenda San Miguel,
classificando-a como uma protoguerrilha chilena, mas o fato é que, efetivamente, houve
jovens dirigentes socialistas que, impactados pelo mito da Revolução Cubana, imaginavam a
possibilidade da luta armada a partir do campo (PÉREZ, 2000, p. 198).
O movimento campesino crescia e se diversificava. Os comunistas, por exemplo, que
em 1961 haviam criado a Federación Campesina e Indígena, agora a batizavam Ranquil,
compondo-a com os socialistas, evocando o massacre sofrido por campesinos chilenos e
mapuches em 1934, na cidade sulista que dava nome à organização. Os democratas-cristãos
estavam na Triunfo Campesino enquanto a Igreja Católica investia na Confederación
Libertad. Uma cisão da Democracia-Cristã – o Movimiento de Acción Popular Unitario –
criou a Unión Obrera-Campesina, tendo a direita fundado a Provincias Agrarias Unidas. O
Movimiento de Izquerda Revoluncionaria (MIR) apostou no campo como foco da
insurgência, conformando o Movimento Campesino Revolucionário, que deslocaria a maior
parte de seus elementos para a zona mapuche (TINSMAN, 2009, p. 157).
Quanto aos movimentos dos proprietários, as mudanças também foram rápidas. Sob a
direção de Manuel Valdes, foi criada a Confederação de Empregadores Agrícolas. A SNA
trocou o desgastado Luiz Marín pelo ex-deputado Hugo Zepeda Barrios, que passou a investir
pesado em propaganda e que buscava uma aproximação com os sulistas tendo em vista que
todos eram igualmente proprietários e que agora sentiam o peso das greves, das ocupações de
terras, dos baixos preços para seus produtos, dos altos custos para gerá-los e das
desapropriações (OSZLAK, 2016, p. 278).
Nas eleições de 1965, a Democracia Cristã conquistara maioria absoluta no
parlamento, deixando as forças de direita em terceiro lugar. Aglutinadas no Partido Nacional,
essas forças vieram a crescer sobremodo nas eleições legislativas de 1969, podendo alimentar
esperanças para as eleições presidenciais de 1970. Do ponto de vista da direita, seria mesmo
necessário um retorno ao Palácio de La Moneda. Certamente, a atuação do governo de
Eduardo Frei não se limitou à reforma agrária e à sindicalização rural, promovendo também
um forte investimento na plantação de frutas, que seria colhido durante o pinochetismo. Em
agosto de 1969, quando os democratas-cristãos lançaram Radomiro Tomic para presidente,
ficou claro para a SNA e para o CAS – este sob a direção de Domingo Durán – que os votos
buscados por eles, teriam de ser disputados com a esquerda e não com a direita. Ocorre,
portanto, uma aceleração das expropriações de terra em 1970. A reação proprietária tornou-se
então mais radical, expressando-se pelo assassinato, na província de Linares, de Hernán Mery
Fuenzalida, funcionário da CORA, que havia ido tomar posse material de uma fazenda
expropriada. O assassinato foi louvado no parlamento pelo deputado do Partido Nacional,
Victor Carmini, que exclamou: “é apenas o primeiro morto!” (AVENDAñO, 2017, p. 254).
Após quatro milhões de hectares expropriados e um movimento campesino crescente,
em setembro de 1970, foi realizada a eleição presidencial. Salvador Allende venceu por
margem mínima e teve a vitória confirmada no Congresso Nacional após um acordo com a
Democracia Cristã. Para os proprietários, essa situação representava defender-se de um ataque
final: num primeiro momento procuraram conversar com Allende e o presidente da SNA,
200 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Benjamin Matte, foi a Cuba tentar vender produtos chilenos para o novíssimo parceiro
comercial, já que o novo governo restabelecia o comércio com a ilha socialista. Mas a
resposta do novo Ministro da Agricultura, Jacques Chonchol, a uma consulta feita pela SNA
não poderia ser mais clara: o governo apoiaria cooperativas mas não sociedades anônimas
disfarçadas de cooperativas, a pequena e média propriedade estariam garantidas desde que
estivessem em conformidade com as necessidades nacionais e, finalmente, os agricultores
poderiam ter voz, todavia as políticas públicas seriam decididas pelos conselhos comunais
campesinos, organizados a partir de janeiro de 1971. Deste modo, aquele não apenas não era o
seu governo, era o governo contra seus interesses, não havendo espaço para negociação.
Quanto aos movimentos camponeses, antes mesmo do governo de Salvador Allende
ser eleito, militantes do Movimiento de Izquierda Revolucionaria (MIR) chegavam à
província de Cautín para mobilizar os mapuches e, em seus termos “levar consciência a eles”,
embora não houvesse necessidade de explicar-lhes que deviam lutar por suas terras, pois
faziam isso desde que as haviam perdido. Nos primeiros meses do governo de Salvador
Allende, multiplicaram-se as corridas de cerco, ou seja, retiravam as cercas que reduziam as
comunidades indígenas. Allende enviou Chonchol ao Sul e muito do que foi feito pelos
mapuches foi aceito oficialmente. Além dos oficiais conselhos comunais campesinos criados
pelo governo, os “miristas” organizaram os conselhos comunais campesinos pela base,
buscando incorporar um maior número de militantes mapuche e controlar o processo de
reforma agrária em nível local, a fim de desenvolvê-lo autonomamente face ao Estado e
reforçando o que pensavam ser o poder popular contra o poder burguês (HERNÁNDEZ,
2016, p. 98).
O governo Allende buscou incorporar os não assentados no processo de reforma
agrária, a qual havia sido pensada para aqueles que, mal ou bem, já tinham acesso à terra.
Desse modo, buscou-se a criação dos Centros de Reforma Agrária, que agregaria o trabalho
coletivo dos que estavam participando do processo. Entretanto, é preciso recordar que os
campesinos ligados à Democracia Cristã acreditavam na necessidade de terem sua parcela
individual de terra. Logo buscaram reivindicar a concessão de lotes nesta modalidade. Isso
permitiu, a médio prazo, que os terratenentes da Sociedade Nacional de Agricultura
ampliassem suas bases, uma vez que não apenas os fazendeiros expropriados ficaram sem
direito à reserva de terra12, mas também o pequeno e o médio cultivadores, que temiam perdê-
la. Também, o beneficiário da reforma temia o “patrão-estado”, e até mesmo o engenheiro
agrônomo ou florestal que, descontentes, reclamavam do salário pago pelo Estado.
O crescimento das ocupações de terra multiplicava os confrontos. Os irmãos Baraona,
por exemplo, sequestraram o motorista do deputado Joel Marambio, do Partido Socialista, e
foram presos. Poucas semanas depois, suas terras foram expropriadas e o patriarca Jorge
Baraona enfartou, morrendo durante a ação estatal. Incidentes como estes catalisavam a
mobilização terratenente, que se apresentava como defensora da legalidade (OSZLAK, 2016,
p. 257; OVALLE, 2013, p. 213-235).
No que tange ao funcionamento do setor reformado, como lembra Bengoa (2015, p.
234), a imagem de que as áreas reformadas não produziam e que ficou gravada na memória da
maioria da população chilena, precisava ser redimensionada uma vez que, de acordo com as
estatísticas, percebia-se uma disponibilidade de alimentos para o mercado interno maior
naqueles anos, apesar da presença de uma relativa escassez de produtos resultante da
ampliação da demanda decorrente do aumento dos salários. De todo modo, as memórias
elaboradas pelos proprietários depois de 1973 reafirmam a todo tempo a impossibilidade de
uma reforma agrária, pela incapacidade campesina (OVALLE, 2013, p. 215).
12
A reserva era prevista na lei de reforma agrária e o proprietário poderia escolher um pedaço de terra para
manter. Na prática, muitas vezes, isso não ocorreu.
SEÇÃO LIVRE 201
A polarização social no Chile crescia a cada expropriação, que atingia, muitas vezes,
médias propriedades. Em dezembro de 1971, começaram os panelaços, explorando a presença
do líder cubano Fidel Castro no país e a SNA lançou a Frente Nacional da Empresa Privada
(FRENAP). Em maio, época da semeadura, foi lançada uma discreta campanha para que os
grãos não fossem semeados. Em setembro, a Rádio Agricultura, da SNA, foi suspensa por se
recusar a participar de uma transmissão em cadeia nacional, decisão, por sinal, impensável em
tempos de Pinochet, mas defendida pela SNA como liberdade de expressão contra o governo
de Allende. Em outubro, explode a greve dos caminhoneiros, que paralisou o país enquanto
grupos como o MIR, o Partido Comunista Revolucionário e setores socialistas pediam o
aprofundamento da revolução. A partir de então, o governo passa a lutar por sua
sobrevivência. A SNA coordenou o apoio à greve dos caminhoneiros que acabou se
convertendo num lockout patronal (OSZLAK, 2016, p. 314). Enquanto isso, ao sul do país, o
movimento Patria e Libertad promovia atentados à bomba, incêndios e assassinatos de
lideranças de esquerda. Nos meses seguintes, armas vindas do Brasil abasteciam a luta
armada, numa espécie de paraguerrilha (ÓRDENES, 2018, p. 224).
A partir do impasse representado pela eleição de março de 1973, na qual nem o
governo conseguiu maioria do Congresso, nem tampouco a oposição obteve os dois terços
necessários ao Impeachment, a oposição passa a defender abertamente um golpe militar. Não
é nosso objetivo discutir os antecedentes imediatos ao golpe empresarial-militar de 11 de
setembro de 1973. Para os limites deste trabalho basta dizer que em agosto, em regiões como
Cautín, camponeses mapuches já eram torturados sob pretexto de busca de guerrilheiros.
Quando o Palácio de La Moneda foi bombardeado, o aparato repressivo, portanto, já estava
funcionando.
Além da vigorosa repressão que se abateu sobre o campo nas primeiras horas do golpe
de Estado liderado pelo general Pinochet, os líderes do movimento não tinham clareza a
respeito do que fariam com seu país a partir do dia 12 de setembro. Supervalorizando a
capacidade do adversário – como um século antes o exército fizera com os araucanos –, a
vitória fulminante do golpe pode ter surpreendido até os vencedores. No campo era fácil pisar
com coturnos em camponeses para que denunciassem supostos guerrilheiros, tal qual no
Fundo Agua Fría, província de Maule, como me contou dona Alicia Muñoz. As torturas e
desaparecimentos eram logo denunciados no exterior, embora houvesse camponeses
aglutinados na Democracia Cristã, prontos a dar declarações favoráveis ao novo regime
(SILVA, 1987, p. 32).
As mudanças no setor agrário tinham sido longas demais. A reforma durou onze anos
e ainda era popular, apesar do problema do desabastecimento. Assim, num primeiro
momento, o objetivo foi ceder em pequenos lotes aos cultivadores, que já as ocupavam, terras
das áreas reformadas que não tivessem sido devolvidas aos antigos proprietários, nem
redistribuídas a grupos econômicos ligados à nova ordem13. Atendia-se a uma reivindicação
de parcela expressiva do campesinato e, ao mesmo tempo, quebrava-se a noção de
cooperativismo: “não seremos uma nação de proletários, mas de proprietários” (SILVA, 1987,
p. 45). Essa mesma noção seria estendida às terras mapuches, a partir de 1978. O governo
militar procurou demarcar as fronteiras de cada pequeno lote e cedê-lo individualmente.
13
Vale salientar que cerca de um terço das terras foi devolvido aos proprietários antigos. Houve terras cedidas,
por exemplo, a empresas florestais ao Sul. De acordo com Ulloa, cerca de 45 por cento dos beneficiários
permaneceram com as terras, mas a maioria acabaria perdendo-as face à falta de apoio técnico-financeiro após
o desmonte das estruturas estatais previstas para apoiar o processo reformista (ULLOA, 2006, p. 265).
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Embora houvesse fortes protestos, essa demarcação foi encarada, por muitos mapuches, como
algo positivo, afinal agora a terra era deles (BENGOA, 2014, p. 254).
Entretanto, é preciso lembrar que a terra só era cedida em lotes individuais a quem
fosse bem visto pelo regime. Além disso, o crédito do Banco do Chile e sua função de
importação de fertilizantes que regulava os preços desses produtos e a Empresa Comercial
Agrícola, cujo objetivo era garantir um preço mínimo para o produto vendido pelo camponês
e regulá-lo ao consumidor, não mais existiam.
De acordo com Patricio Silva, três setores disputaram a preeminência no Ministério da
Agricultura durante os primeiros meses do regime: aqueles vinculados ao presidente Jorge
Alessandri, que defendiam algum apoio aos parceleiros; os gremialistas, sob influência dos
carabineiros, que buscavam algum sistema cooperativista; e, finalmente, os neoliberais. Estes
últimos acabaram triunfando não só no Ministério da Agricultura, mas em todo processo,
transformando o Chile em uma espécie de laboratório de experiências que seriam
desenvolvidas em todo continente nas décadas seguintes (SILVA, 1987, p. 65).
Num primeiro momento ainda havia alguma proteção aos gêneros agrícolas, mas
rapidamente a concorrência de bens estrangeiros reduziu o preço para o produtor nacional. Os
produtores de leite do Sul, por exemplo, liderados por Domingo Durán, protestaram em 1977
contra os baixos preços do leite e contaram com o apoio da indústria leiteira, diferentemente
dos que plantavam arroz e beterraba, que não tiveram nenhum auxílio de outros grupos
sociais. Até mesmo a produção frutífera, que se tornaria importantíssima, perdeu, num
primeiro momento, um de seus principais importadores, o Brasil, que passara a produzir
maçãs (SILVA, 1987, p. 98.)
Embora tradicionalmente representasse os produtores do Chile central, a construção da
unidade com os demais setores proprietários, durante o governo de Allende, levou os líderes
da SNA a buscar a representação de todos os demais setores rurais. Desta forma, tentaram
agregar os diversos ramos empresariais no apoio a Pinochet, já que não mais sofriam
expropriação de suas terras nem ocupação pelos camponeses e as greves deixaram de
acontecer. Desse modo, em 1980, apoiaram a constituição imposta pelo regime, via plebiscito.
Entretanto, o ano de 1982 trouxe uma nova crise no mercado mundial e o anúncio de
que o México não mais pagaria sua dívida externa acarretou graves problemas, levando ao
risco de falência de muitas fazendas. Um articulista do Jornal El Mercúrio, em tom irônico,
perguntou se os proprietários estavam com saudades da reforma agrária. Domingo Durán,
dirigente da Confederación de Productores Agricolas, entidade de proprietários rurais do Sul
do país, chamava de reforma agrária aquelas visitas de agentes de bancos para cobrar dívidas.
O governo militar passou então a desenvolver uma política de apoio aos setores em
crise, abandonando o fundamentalismo neoliberal, uma vez que era necessário garantir a
aliança, que desde o começo sustentou o regime. Assim, em 1978, Alfonso Márquez de La
Plata, presidente da SNA à época do golpe, foi o primeiro ministro civil da Agricultura (nos
primeiros anos do regime a maioria dos Ministérios era ocupada por militares).
Nos anos após a crise, o setor proprietário manteve-se alinhado a Pinochet e, em 1987,
quando da campanha em favor do não como resposta ao novo plebiscito previsto na
constituição14, foi realizado um seminário sobre reforma agrária e todos os fantasmas do
passado foram trazidos à tona. Falar em reforma agrária nos moldes dos anos 1960 seria um
contrassenso, pois era preciso manter a segurança pinochetista. Após a derrota eleitoral do
regime, os líderes da SNA buscaram manter-se fiéis ao que entendiam ser seu principal
legado: ordem, baixa mobilização sindical e paz para produzir (AVENDAÑO; ESCUDERO,
14
A constituição de 1980 dava mais dez anos de mandato a Pinochet, que terminariam em março de 1990. Em
1988, haveria um plebiscito que perguntaria se o povo queria dar mais oito anos de mandato ao ditador. Mesmo
que perdesse, Augusto Pinochet ficaria mais oito anos como comandante do exército e, depois de 1998, teria
uma senatoria sem precisar disputar eleições.
SEÇÃO LIVRE 203
2016, p. 42)15. Se entidades como a SNA normalmente apoiavam o regime, o que dizer dos
movimentos camponeses? Aqueles que foram favoráveis a Allende sofreram o peso da
repressão. Dona Alicia Muñoz conta que, de fato, não sabiam o que os maridos estavam
fazendo nas ocupações de terra, posto que eles não lhes contavam, face ao machismo reinante
na sociedade. Entretanto, o impacto dos desaparecimentos dos homens foi sentido nas
primeiras horas. Para Tamara Carrasco e René Moreno, o objetivo fundamental da repressão
feita pelos terratenentes, em parceria com carabineiros e membros das forças armadas, não era
apenas político, mas principalmente social, tendo em vista que queriam mostrar ao camponês
que ele simplesmente não tinha o direito de falar de igual para igual com o seu patrão. Por
isso, e para mostrar quem mandava, o treinamento da Escola Militar no verão daquele ano foi
feito em áreas predominantemente mapuches (CARRASCO, 2012, p. 53; MORENO, 2009, p.
65; BENGOA, 2014, p. 254).
Um dos principais apoios recebidos pelos camponeses foi o da ala progressista da
Igreja Católica. O bispo de Santiago, Dom Raúl Silva Enriques, organizou, nas primeiras
horas do golpe, a Comisión Pro Paz e, mais tarde, o Vicariato de la Solidariedad, criando,
desse modo, um departamento campesino. Dona Alicia, na citada entrevista, me conta que a
primeira atividade pública foi organizar, em 1977, o Festival do Canto Campesino por meio
da Rádio Chilena, pertencente à Igreja Católica. Entretanto, a partir de 1978, várias
confederações, inclusive a Ranquil, tornaram-se ilegais. A repressão ainda se fazia vigorosa e
o novo ministro do trabalho, Sérgio Fernández, chegou a decretar a exclusão de todos os
sindicalistas e a convocação para eleições sindicais, em três dias. No exterior, protestos
serviram para conter um pouco a força da repressão, uma vez que houve uma ameaça de
bloqueio nos transportes aéreos e marítimos para o Chile. A nova lei sindical, porém, não era
muito melhor tendo em vista que os sindicatos deveriam ser formados por empresa e as greves
seriam praticamente proibidas. Alicia diz também que cada reunião sindical precisava contar
com a autorização do prefeito local, mediante a apresentação de uma pauta, além de ser
necessário entregar a ata da reunião posteriormente. Evidentemente, nem pauta nem ata eram
verdadeiras.
Eidi Tinsman observa a feminização do trabalho rural especialmente no setor frutícola
e as duras condições de vida que passavam as mulheres. Como consequência desses
processos, os incipientes sindicatos também tiveram maior presença feminina, ampliando as
possibilidades para discussão de temas como o cuidado das crianças e reivindicações por
creches, embora, como lembra Alicia, os dirigentes homens dos sindicatos tivessem pouca
sensibilidade para o tema.
Entre 1979 e 1982, a Igreja Católica organizou a Comisión Nacional Campesina, que
depois dividiu-se. As velhas confederações buscaram rearticular-se: Ranquil (inicialmente
Surco), vinculada aos comunistas, Newen (socialista) e as velhas entidades ligadas à
Democracia Cristã, que mesmo não sendo proibidas tinham pouca presença no movimento
camponês (GÓMES, 1985, p. 27; MEDEL, 2014, p. 21).
As organizações rurais não participaram vivamente dos protestos contra a ditadura que
marcaram o país entre 1983 e 1986. Os panelaços, os combates de rua e pequenas ações de
guerrilha urbana estiveram longe do meio agrário. No campo, além da repressão, a
precarização das relações de trabalho, com a possibilidade da perda do emprego a qualquer
momento, era um poderoso instrumento de contenção social. Foi possível juntar-se às forças
opositoras para tentar garantir a vitória contra o regime por meio do plebiscito em 1988, após
o frustrado ataque armado contra Pinochet em 1986. Apesar da vitória do NÃO, não se
poderia dizer que o modelo econômico e político pinochetista tivesse hipóteses de se
desagregar.
15
O plebiscito realizado no Chile em 1980 não teve supervisão internacional e a oposição pôde realizar apenas
um ato de campanha em um teatro fechado.
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3 CONCLUSÃO
vista que muitos contrataram gente para trabalhar nos assentamentos organizados no governo
de Frei, como lembra Bengoa (BENGOA, 2015, p. 287).
Sonhos para uns, pesadelos para outros, o processo começou a se desenvolver em
1962. Thompson nos mostra que a lei é, antes de tudo, o espaço em disputa e a vitória não
está garantida (THOMPSON, 1997, p. 231). Se os planejadores do governo de Jorge
Alessandri pensaram aprovar uma lei de reforma, só por “saludo a la bandera”, estavam
completamente equivocados. A partir do governo de Eduardo Frei, o processo acelerou-se. A
reforma era quase um consenso, mas a questão era como fazê-la. Diferentemente do Brasil,
onde isso era discurso, já que os interessados em sua não realização se encastelaram na
burocracia do governo Castello Branco, no caso chileno a reforma foi acelerada por Eduardo
Frei e disparou no governo Allende. Em menos de três anos houve mais expropriações do que
em seis anos do governo de Frei. Como vimos, ficou a memória da disfuncionalidade, mas
provavelmente uma análise mais acurada poderá levar a outros resultados.
Quando sobreveio o golpe empresarial-militar de 1973, não houve como simplesmente
voltar a 1962, tendo em vista que as mudanças tinham sido grandes demais, no sentido de que
fazendeiros se exilaram e terras divididas passaram a outras mãos. O trabalho iniciado no
governo Frei e mantido no de Salvador Allende, no tocante à plantação de frutas, continuaria
a ser desenvolvido e colhido por Pinochet. Como em todo continente, o êxodo rural seguia,
mas não mais para fábricas. O Chile se desindustrializou.
A receita neoliberal era clara e o país de Violeta Parra inseriu-se no mercado
internacional rapidamente, mas ficou exposto a crises econômicas, como a de 1982. Passada a
era pinochetista, as elites empresariais articuladas na SNA e em outras organizações
continuaram defendendo o legado do regime. Quando o Mercosul pôde finalmente tecer
acordos comerciais com o Chile, as elites, evidentemente, resistiram, mas aquilo que para eles
era um legado de segurança deixado pelo regime militar deveria ser mantido. Daí os protestos
mapuche, na luta pela recuperação de suas terras, serem interpretados como “terrorismo”
pelos dirigentes da SNA.
Quanto aos movimentos campesinos, a luta continuaria nos anos noventa. Para Alícia
Muñoz, as diversas confederações têm uma atitude exageradamente moderada e são pouco
sensíveis aos temas femininos. Daí a criação da Associación de Mujeres Rurales, mais tarde
indígenas. Tais confederações continuam sustentando a bandeira de uma nova reforma
agrária, porém não mais calcada no produtivismo dos anos 1960, mas na produção de
alimentos saudáveis e gerados localmente. De sua capacidade de mostrar a outros setores que
esse objetivo não se limita ao campesinato, depende a possibilidade de efetivar tais resultados.
Por enquanto os terratenentes continuam demonstrando que os objetivos válidos para toda
sociedade são os seus. A memória camponesa é a da perda de milhares de vidas humanas nos
incontáveis massacres enquanto a memória terratenente ainda lamenta a perda de
propriedades. São memórias que combatem pela hegemonia na sociedade chilena.
REFERÊNCIAS
BENGOA, José. Historia Rural de Chile Central. Santiago. Lom Editores, Tomo 2, 2015.
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CORRÉA, Martín. La Reforma Agraria em las Tierras Mapuches. Santiago: Lom, 2005.
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de la Violencia y el terrorismo de Estado em Paine. Santiago, tesis de Licenciatura en
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1939. Maldivia: Instituto de Historia y Ciencias Sociales, Tesis de Licenciatura, 2015.
SEÇÃO LIVRE 207
THOMPSON, Edward Palmer. Senhores e Caçadores. São Paulo: Companhia das Letras,
1997.
RESUMO
Este trabalho é um recorte de pesquisa cuja base teórica abarca a Análise de Discurso Crítica (ADC) e
os Estudos Surdos. Objetiva-se, de modo geral, analisar como são avaliados alguns aspectos do mundo
(relação com a Língua Portuguesa e a Libras) por uma aluna surda. Especificamente, busca-se identificar
como a estudante surda narrativiza sua experiência e, por conseguinte, compreender as implicações
dessas avaliações para seu processo de identificação. Metodologicamente, trata-se de uma pesquisa
qualitativa, de base etnográfica. O objeto são respostas obtidas a partir de uma entrevista com uma
estudante surda sobre a sua experiência com a Língua Portuguesa. A análise de dados foi conduzida a
partir da ADC e da Linguística Sistêmico Funcional (LSF). A função discursiva pontuada aqui é a
identificacional, a partir da análise da categoria avaliação. Os resultados apontam para uma construção
negativa sobre a Língua Portuguesa e seu ensino e positiva sobre a Libras, constituindo uma identidade
que se afasta da perspectiva ouvintista sobre a surdez assim como da relação entre o surdo e o ensino da
Língua Portuguesa como sua segunda língua.
ABSTRACT
This work is an excerpt of research whose theoretical basis encompasses Critical Discourse Analysis
(ADC) and Deaf Studies. The objective is, in general, to analyze how some aspects of the world
(relationship with the Portuguese language and Libras) are assessed by a deaf student. Specifically, it
seeks to identify how the deaf student narrates her experience and, therefore, to understand the
implications of these assessments for her identification process. Methodologically, this is a qualitative,
ethnographic research. The object is answers obtained from a short interview with a deaf student about
her experience with the Portuguese language. The data analysis was conducted from the ADC and
Functional Systemic Linguistics (LSF). The discursive function punctuated here is the identification,
from the analysis of the evaluation category, seeking to identify how the deaf student narrativizes their
experience, constituting their identity. The results point to a negative construction about the Portuguese
Language and its teaching and positive about Libras (Brazilian Sign Language), constituting an identity
1
Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Cidades, Territórios e Identidades (PPGCITI), da Universidade
Federal do Pará (UFPA). Bolsista FAPESPA. E-mail: [email protected]
2
Mestre em Cidades, Territórios e Identidades (PPGCITI) pela Universidade Federal do Pará. Professora da
Universidade Federal Rural da Amazônia. E-mail: [email protected].
3
Doutora em Linguística pela Universidade Federal do Ceará. Professora Adjunto I da Universidade Federal do
Pará (Campus Universitário de Abaetetuba). Professora do Programa de Pós-graduação PPGCITI (UFPA/Campus
de Abaetetuba e da Faculdade de Ciências da Linguagem-FACL E-mail: [email protected]
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that departs from the listener’s perspective about deafness as well as the relationship between the deaf
and the teaching of Portuguese language as their second language.
INTRODUÇÃO
O presente artigo tem como tema a constituição da identidade linguística surda, a partir
da narrativização avaliativa surda sobre Língua Portuguesa e Libras. Objetiva-se analisar como
são avaliados alguns aspectos do mundo, neste caso a relação com a Língua Portuguesa e a
Libras, por uma aluna surda. Especificamente busca-se identificar como a estudante surda
narrativiza sua experiência de ser surda falante de Libras como sua primeira língua e tendo a
Língua Portuguesa como sua segunda língua, neste caso ensinada a ela na modalidade escrita
no ambiente escolar, e assim, compreender as implicações das avaliações feitas pela aluna para
seu processo de identificação. Assim, temos como pergunta de pesquisa: como a aluna surda
avalia discursivamente a Língua Portuguesa e a Libras no contexto de sala de aula?
Nosso interesse nessa questão é justificado pela teoria que baseia este estudo, a Análise
Crítica do Discurso (ADC), de vertente britânica, tendo como principal representante Norman
Fairclough. A ADC, em um sentido amplo, refere-se a um conjunto de abordagens científicas
interdisciplinares para estudos críticos da linguagem como prática social, e define-se pela
motivação de “investigar criticamente como a desigualdade social é expressa, sinalizada,
constituída, legitimada pelo uso do discurso” (WODAK, 2004, p. 225).
Desse modo, partimos da hipótese de que a aluna surda ao narrativizar sua experiência
acerca das línguas em questão tem a possibilidade de afirmar discursivamente sua identidade
linguística e desmistificar olhares pejorativos atribuídos à Libras e a surdez. Essa condição é
representada discursivamente e a perspectiva da linguagem como parte irredutível da vida social
pressupõe relação interna e dialética entre linguagem e sociedade, uma vez que questões sociais
são, pelo menos parcialmente, também questões discursivas e vice-versa. Assim, além de ser
um modo de representar o mundo e de interagir nele, a linguagem como discurso também é um
modo de identificar a si mesmo/a e a outrem.
A Língua Portuguesa e a Libras são as línguas que transitam o cotidiano das pessoas
surdas no Brasil. A educação de surdos está respaldada pela Lei 10.436/2002, pelo Decreto
5.626/2005 e pela Lei 13.005/2014, o qual estabelece o Plano Nacional de Educação para o
período de 2014-2024. Essa legislação apoia a educação bilíngue, ou seja, reconhece que as
duas línguas em questão devem estar presentes na formação do aluno surdo, sendo uma língua
de instrução (língua usada na interação) e língua de ensino (língua que faz parte do currículo
para ser ensinada). A Libras é reconhecida como primeira língua das pessoas surdas e a Língua
Portuguesa como segunda, na sua modalidade escrita. O bilinguismo constitui um ponto de
partida para uma discussão política sobre as questões de identidades surdas, relações de poder
e conhecimento entre surdos e ouvintes (QUADROS, 2019). É neste campo de discussão que
situamos esta pesquisa, pois a realidade da educação de surdos comporta ainda muitas barreiras,
preconceitos históricos que dificultam a convivência pacífica entre surdos e ouvintes no que diz
respeito ao processo comunicacional. Este estudo conta ainda com os estudos de Perlin (2013)
e Strobel (2009), ambas escritoras surdas que discutem acerca da identidade surda e as lutas da
comunidade para a garantia do que consideram como seus direitos.
O conceito de narrativização utilizado neste trabalho advém de Thompson (2011), o
qual concebe a narrativização como uma estratégia de operação da ideologia. Esse conceito
pontua que as “exigências [da legitimação] estão inseridas em histórias que contam o passado
SEÇÃO LIVRE 211
e tratam o presente como parte de uma tradição eterna e aceitável” (THOMPSON, 2011, p. 83).
Nesse sentido, diante da ação de narrativizar experiências sobre determinados aspectos do
mundo, possíveis relações de dominação podem ser sustentadas. Outrossim, a narrativização
pode servir como superação dessas relações de dominação. Nesse contexto, a operacionalização
desse conceito subsidia a discussão acerca de como uma aluna surda se posiciona quando se
expressa acerca da Libras e da Língua Portuguesa em seu contexto de vivência.
No que diz respeito ao termo identificação, nos apoiamos principalmente em Fairclough
(2003) que utiliza o termo identificação para destacar o processo contínuo em que as pessoas
se identificam e são identificadas. A identificação refere-se ao processo de construção das
identidades, um processo nunca completo, nunca fechado, e sim, fluido e dinâmico (HALL,
2014).
O caminho metodológico percorrido foi a partir da abordagem qualitativa. A
metodologia de coleta de dados se deu a partir da etnografia, cuja realização ocorreu em uma
escola de ensino regular, localizada no município de Abaetetuba, no estado do Pará.
Apresentamos uma transcrição, em glosa4, de um texto proferido por uma aluna surda. A análise
de dados se deu a partir da categoria Avaliação e descrição léxico-gramatical da Linguística
Sistêmico Funcional (LSF). Trata-se de um estudo piloto que abarca um projeto maior acerca
das identidades surdas. No caso desta pesquisa, a função discursiva a qual nos deteremos é
identificacional e volta-se para a formação de identidade pessoal, particular e transformadora.
A afirmação identitária é essencial para apoiar as lutas de grupos que, inseridos em um
contexto de desigualdade, sofrem com a exclusão em diferentes aspectos. As pessoas surdas
possuem identidade cultural e linguística específica e essa especificidade é conflituosa no
convívio social, pois a sociedade está estruturada de modo que não os contempla com condições
iguais de acesso e oportunidades. Assim, a luta da comunidade surda pelo reconhecimento e
apoio de sua identidade linguístico cultural é progressiva.
A relação de poder existente entre povos sempre foi marca profunda no processo de
construção de uma identidade própria, devido a dominância de um impor ao outro sua
identidade e cultura. Desde tempos remotos, povos são subjugados e forçados a adquirirem uma
cultura alheia a si. Isso acontece ainda hoje com o povo surdo que há muito tempo vem lutando
contra a hegemonia ouvintista que subjuga a capacidade de relação surda, rechaçando-a como
se não houvesse espaço para uma identidade própria:
[...] apesar de esmagados pela hegemonia ouvinte que tenta anular a sua forma de
comunicação (a língua de sinais), procurando assemelhá-los cultural e
linguisticamente aos ouvintes, resistem a essa imposição, reivindicando seus direitos
linguísticos e de cidadania. (SILVA, 2006, p. 15-16).
Essa minoria durante muito tempo não foi vista sob um olhar de diferença linguística,
mas sim com um olhar de exclusão, o qual tenta abafar a constituição da sua identidade e
cultura. Hoje, os surdos lutam “pelo direito de ser surdo” (PERLIN, 2013, p. 51) em meio a
uma sociedade ouvinte majoritária. Isso não necessariamente reflete o querer estar no mesmo
espaço físico que os ouvintes, pois estar no mesmo espaço não necessariamente garante a
4
McCleary; Viotti e Leite (2010) definem glosa como uma ferramenta necessária para constituir e aproximar
visualmente os textos da língua fonte, a Libras, e da língua alvo, o Português, com o intuito de realizar análise e
comparação dos enunciados. A glosa se constitui em palavra grafada em maiúsculo, que representa o sinal com
sentido equivalente.
212 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Dar lugar às narrações surdas sobre a surdez constitui, dessa forma, um processo de
desouvintização. O processo de desouvintização mencionado supõe, entre outras
coisas, uma denúncia acerca das práticas colonialistas dos ouvintes sobre os surdos e,
ao mesmo tempo, uma desmistificação das narrativas ouvintes hegemônicas sobre a
língua de sinais, a comunidade e as produções culturais dos surdos (SKLIAR, 1999,
p. 24).
O reconhecimento legal da Libras como uma língua natural abre o espaço para a
discussão da necessidade dessa língua ser inserida como objeto de ensino na escola. No entanto,
ainda não presenciamos ações efetivas que retirem a Libras de língua de instrução e a coloque
como língua ensinada no sistema escolar brasileiro. Outro documento que cria uma
representação institucionalizada sobre a surdez é o Decreto nº 5.626, de 22 de dezembro de
2005, Art. 2º, que define a pessoa surda:
Para fins deste Decreto, considera-se pessoa surda aquela que, por ter perda auditiva,
compreende e interage com o mundo por meio de experiências visuais, manifestando
sua cultura principalmente pelo uso da Língua Brasileira de Sinais – Libras. Parágrafo
único. Considera-se deficiência auditiva a perda bilateral, parcial ou total, de quarenta
e um decibéis (dB) ou mais, aferida por audiograma nas frequências de 500Hz,
1.000Hz, 2.000Hz e 3.000Hz. (BRASIL, 2005).
Nessa definição, vê-se a refração do ser surdo e a assunção da surdez a partir da noção
ainda de deficiência, denominada deficiência auditiva. Perlin (2013) define a surdez como
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diferença surda, portanto, aborda a surdez na perspectiva da igualdade de direitos, assim admite
a forma de resistência surda, como um elemento partícipe na constituição da territorialidade
destes sujeitos. Dessa forma, as comunidades surdas mundialmente vêm se organizando sócio
politicamente contra essa exclusão que os priva de um convívio social de bem-estar comum.
Nessa perspectiva, atentamos ao campo discursivo como constituinte/parte das práticas
sociais capaz de formar olhares acerca da surdez, seja do ponto de vista ouvinte, seja do surdo,
pois “questões sociais são, em parte, questões de discurso”, e vice-versa (CHOULIARAKI;
FAIRCLOUGH, 1999, p. 15). Como exemplo, retomamos de Skliar (1997) as considerações
sobre o binarismo latentes no campo da surdez para quem o binarismo atrela ao primeiro termo
à adequação à norma cultural e o segundo como existente apenas em oposição à norma e
inevitavelmente nela. Esses binarismos:
[...] estão atrelados à produção de uma oposição entre audição e visão: ouvinte/surdo;
maioria/minoria; oralismo/bilinguismo; ouvintismo/gestualismo; língua oral/língua
de sinais; cultura dos ouvintes/cultura dos surdos; ou, até mesmo, à oposição entre
diferença/deficiência. (RODRIGUES; BEER, 2016, p. 666).
Dado que esses binarismos são, a prioristicamente construções discursivas, sua adoção
na narrativização da condição da surdez como fato social pode impactar diretamente nas
práticas sociais das comunidades surdas e, mais ainda, na relação que se estabelece entre surdos
e ouvintes. Em vista disso, consideramos a pertinência de se ancorar em uma perspectiva de
estudo que se coloque como ciência engajada, a ADC, que assumimos como aporte teórico
metodológico deste trabalho a fim de compreender os discursos da aluna surda como um
momento das práticas sociais.
Dada a perspectiva de que a ADC é uma abordagem interdisciplinar para estudos críticos
da linguagem como prática social, e que se propõe a subsidiar abordagens sociodiscursivas, que
buscam desvelar questões de poder e ideologia subjacente ao discurso (RAMALHO;
RESENDE, 2016, p. 14), ela se coloca como perspectiva pertinente para tratar dos discursos
sobre a surdez a partir da narrativização do surdo.
Dada essa condição, a ADC aponta o caminho para a análise porque “teoriza em
particular a mediação entre o social e o linguístico” (SILVA, 2010, p. 110). Para a ADC, a
linguagem perpassa todos os níveis da vida social: estruturas (fixas), práticas (intermediária) e
eventos (flexíveis). Em linhas gerais, segundo Ramalho e Resende (2016, p. 17) constitui a
estrutura, o sistema linguístico; a prática social, a ordem do discurso e o evento, o texto. “O
conceito de prática social refere-se a uma entidade intermediária, que se situa entre as estruturas
sociais mais fixas e as ações individuais mais flexíveis” (RAMALHO; RESENDE, 2016, p.
16). A linguagem, neste caso, é entendida como “prática social e como instrumento de poder”
(RAMALHO; RESENDE, 2016, p. 13), manifestando-se nas relações sociais através dos
discursos individuais e coletivos.
Embora a ADC apregoe a existência de dois significados de discurso, cabe dizer que
discurso, aqui, refere-se a uma maneira mais particular de representar experiências vivenciadas
SEÇÃO LIVRE 215
no mundo (RAMALHO; RESENDE, 2016, p. 19). Tendo isso em mente, a análise se dará sobre
a forma como um sujeito surdo discursiviza sua experiência no/com o mundo.
Ainda sobre a posição do discurso em ADC, esse é determinado pelas estruturas sociais,
mas, ao mesmo tempo, tem efeito sobre a sociedade ao reproduzir ou transformar tais estruturas.
Assim, o discurso configura-se como a maneira de agir sobre o mundo e as/os outras/os e a
maneira de representar a realidade, o que pressupõe a manutenção de relações de poder e modos
de operação de ideologias, bem como transforma, constitui relações sociais e identidades
(FAIRCLOUGH, 2003).
Segundo Ramalho e Resende (2016), a ADC toma a linguagem como discurso,
entendido como um momento, uma parte, de toda prática social, como uma parte irredutível do
modo como agimos e interagimos, representamos e identificamos a nós mesmos, aos outros e
a aspectos do mundo por meio da linguagem. Os modos (agir, interagir, representar e
identificar) como o discurso se figura nas práticas sociais estão correlacionados com os três
principais significados do discurso, que são: significado acional, representacional e
identificacional. Estes significados estão ligados aos elementos de ordem do discurso que são
gêneros, discursos e estilos. Assim, tal como os elementos de ordens do discurso, os
significados do discurso exercem uma relação dialética e são internalizados uns pelos outros.
Para realizar a análise de discurso crítica é fundamental compreender a LSF, pois ela é,
de acordo Fairclough (2003), uma teoria que é voltada para a compreensão da relação entre a
linguagem e outros elementos constituinte da vida social, haja vista que o sistema social
representa e relaciona-se com as manifestações linguísticas implícitas e explícitas da prática
social. “Ela é voltada para a descrição da linguagem como uso em determinado contexto, pois
se entende que é o uso da linguagem que molda o sistema” (SILVA, 2010, p. 112). Ademais, é
a LSF que dará base para a descrição linguística e ADC através de categorias analíticas.
A LSF caracteriza-se como teoria semiótica preocupada com todas as manifestações e
usos da linguagem, buscando sempre desvendar como, onde, por que e para que o homem usa
a língua, assim sua grande preocupação é o significado e não a forma sendo, portanto, uma
teoria da comunicação humana, ainda assim, o significado é determinador da forma, pois
conforme a necessidade do falante em contextos específicos, as escolhas do uso da forma
expressam significado desejado (BARBARA, 2009).
Dessa forma, não se pode considerar o texto isolado do contexto, sua constituição
abrange os dois aspectos para a realização de análises pautando-se na metafuncionalidade.
Segundo Silva (2010), metafunções são denominadas ideacional, interpessoal e textual. Dentro
da LSF, a metafunção ideacional se constitui por uma transitividade que abrange processos,
participantes e circunstâncias, sendo processos os elementos lexicais; os participantes são
elementos que se associam a processos e as circunstâncias que exprimem modo, tempo etc. Já
os processos se dividem em material, relacional e mental, havendo ainda relação com instâncias
de experiências, que são ação e eventos, estado e relações abstratas com o mundo real e registros
mentais de nossas experiências anteriores5.
Os conceitos da LSF foram rearticulados por Fairclough a fim de subsidiar
linguisticamente a ADC. Assim, a LSF orientará a ADC na aplicação das categorias analíticas
que são provenientes de cada significado do discurso (acional, representacional e
identificacional). O significado identificiacional em ADC é um dos significados do discurso
(Fairclough, 2003) que estabelece relação dialética com outros significados: acional e
representacional. Segundo Ramalho e Resende (2016), o significado acional/relacional do
discurso é relativo a modos de (inter)agir discursivamente, a gêneros, os quais estão para além
de gêneros textuais, são antes gêneros discursivos “tipos de linguagem ligados a uma atividade
social particular” (CHOULIARAKI; FAIRCLOUGH, 1999, p. 63). O Significado
5
Para um estudo mais aprofundado, consultar Halliday (2004); Fuzer e Cabral (2014).
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Essa seção aborda a análise de dados que se referem às avaliações presentes nas
respostas advindas das perguntas sobre a relação da aluna surda com o ensino de Língua
Portuguesa. Essas avaliações nos permitem perspectivar a experiência do surdo a partir de sua
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narrativização, tirando do centro a narrativa ouvintista dessa relação. Uma das perguntas
dirigidas a aluna foi: “Me fale um pouco sobre sua relação com a Língua Portuguesa, sobre o
que você acha dela?”. Em sua resposta, a aluna comentou sobre sua vivência em sala de aula,
relatando sua rotina. Apresentamos o excerto a ser analisado: (1) “Mais ou menos. Professor
oraliza, fala, fala, fala, eu olhar, fácil-não, difícil.”
Glosa em Libras
Fácil-não
O elemento avaliativo está no atributo “fácil”, que, na língua de sinais, como mostra a
glosa, é sinalizado “fácil-não”, assim é possível identificar o juízo de valor que a aluna atribui
à Língua Portuguesa, avaliando-o negativamente.
No mesmo excerto, temos uma outra declaração explícita, com juízo de valor: (2) “Mais
ou menos. Professor oraliza, fala, fala, fala, eu olhar, fácil-não, difícil.”
Glosa
Difícil
Atributo
Tabela 2 – Tradução
Glosa
LIBRAS, MUITO LINDA
SEÇÃO LIVRE 219
Tabela 3 – Tradução
Aqui, temos uma afirmação feita pela aluna, agora a respeito da Libras. A declaração
foi feita em um contexto no qual ela expressava que fica feliz quando há interação e ajuda mútua
entre surdos e ouvintes e, desse modo, ouvintes sentem vontade de aprender a língua de sinais.
Nessa declaração, o atributo manifesta-se pelo adjetivo linda, fortalecida pelo advérbio muito.
Vale ressaltar que, na língua de sinais, são as expressões faciais que tem valor semântico
equivalente aos advérbios da língua oral. Constata-se, como afirma Fairclough (2003), que as
declarações com juízo de valor referem-se a algo que é desejado ou não, neste caso o desejo é
explícito nos sinais utilizados e estão relacionados à importância que se dá à Libras.
Para Fairclough (2003, p. 178), estilos refere-se ao aspecto discursivo das formas de ser,
das identidades. Quem somos parte de uma questão de como falamos, como escrevemos, assim
como é uma questão de incorporação. O processo de identificação envolve efeitos constitutivos
do discurso, ele deve ser visto como um processo dialético no qual discursos são inculcados em
identidades.
Logo as avaliações expressas pela aluna são baseadas nas suas percepções como pessoa
surda, tomando como parâmetro o modo como se identifica e como identifica determinados
aspectos do mundo, como a Libras, sendo possível compreender pelo discurso a afirmação
identitária que se desvela, pois as identidades se constituem discursivamente.
Para além das avaliações em termos de dificuldade e estética, outro tipo de avaliação
também presente no discurso da estudante se dá a partir de declarações com modalidade
deôntica, como mostra a seguir: (4) “Sim, achar. Mas, pessoa olhar, o que? Nome Língua
Portuguesa, como? Perguntar-responder. Chama surdo ouvinte, precisar ajuda-mútua,
interagir.”
De acordo com Ramalho e Resende (2016), as declarações com modalidade deôntica
são declarações ligadas a juízo de valor e podem avaliar aspectos do mundo em termos de
obrigatoriedade ou necessidade, como algo bom a ser feito. O excerto acima é referente à
resposta ao pedido da opinião da estudante sobre a importância ou não da Língua Portuguesa
para o convívio social do surdo. A tradução que se faz em Língua Portuguesa escrita, referente
à glosa acima é a seguinte: “[...]sim, eu acho. Mas, as pessoas surdas têm dúvidas sobre as
palavras em Língua Portuguesa, assim como ouvintes têm dúvidas em relação aos sinais, então
se chama um ao outro e se questiona sobre. É preciso que haja ajuda mútua, interação”.
Nesse sentido, a aluna avalia que precisa haver trocas, reciprocidade entre surdos e
ouvintes, marcando assim sua posição quanto ao aspecto do mundo (neste caso, a Língua
Portuguesa na relação social entre surdos e ouvintes) em termos de necessidade, corroborando
que o discurso de inclusão, baseado apenas na co-presença, não corresponde aos anseios por
espaço de atuação e interação do sujeito surdo.
Sobre a experiência subjetivo-afetiva, pode-se dizer que ela se manifesta, em grande
medida, a partir de declarações com verbos de processos mentais afetivos. Esse tipo de
declaração envolve processos mentais afetivos ligados a avaliações de caráter pessoal. Envolve
eventos psicológicos, indicam sentimentos, percepções, desejos e afeições (FUZER; CABRAL,
2004, p. 54). Nesse tipo de declaração, os participantes são tipicamente humanos ou coletivos
humanos que sentem, pensam, percebem, desejam. Por isso, a função léxico-gramatical que
desempenham na oração é denominada Experienciador. O complemento do processo que se
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Tabela 4 – Tradução
A tradução da glosa corresponde a: “eu não gosto de ouvir barulho”. Ela expressa uma
avaliação de caráter pessoal e que diz respeito ao fenômeno “barulho”, “ouvir”, que são
avaliados negativamente. Deste modo, é possível compreender que o ato de “parar” corresponde
a retirada do aparelho auditivo, situação que permite à aluna sentir-se calma. Esse tipo de
avaliação deixa entrever que a surdez não é representada como um problema para o surdo,
mostrando que a construção da surdez como um “defeito”, “a falta de” é uma construção sócio-
histórica e cultural baseada apenas na cultura ouvintista, que estabelece, a partir da sua
hegemonia, parâmetros de normalidade que ferem o conceito de diferença que subjaz a
formação social coletiva.
Dar condições para que o surdo narrativize sua condição de ser/estar no mundo como
surdo permite entrever na linguagem aspectos da cultura surda que, discursivamente, opõem-se
a perspectiva ouvintista da surdez como deficiência ou falta de algum sentindo, que o torna
estranho ou problemático. Na perspectiva da aluna surda, o binarismo (surdo x ouvinte-normal
x anormal) perde o sentido e a hegemonia, de modo que o surdo não passa a existir a partir do
ouvinte, mas sim na possibilidade de convivência em cooperação, na construção da interação
entre esses dois sujeitos sociais.
As declarações feitas pela aluna surda sobre a sua relação com a Língua Portuguesa, a
aula de Língua Portuguesa e a convivência com sujeitos ouvintes estão relacionadas com a sua
identidade surda, que, de alguma forma, expressa positivamente ou negativamente avaliações
acerca de sua experiência sobre algum aspecto do mundo, neste caso, a sua experiência com a
Língua Portuguesa, tendo como parâmetro a língua de sinais que constitui sua identidade
linguística, pois a Libras se constitui como artefato cultural de afirmação identitária da
comunidade surda.
SEÇÃO LIVRE 221
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
A discussão que propomos neste trabalho serviu para mostrar como discursos são
inculcados em identidades na medida em que são avaliados aspectos do mundo, pois avaliá-los
permite desvelar identidades discursivamente constituídas. A análise dos dados demonstrou que
há construção negativa sobre a Língua Portuguesa e seu ensino e positiva sobre a Libras,
baseada na experiência da aluna surda em questão. Nesse contexto, a identidade que se desvela
se constitui a partir do reconhecimento de que a Libras é o artefato principal que caracteriza a
identidade cultural surda, por meio de uma afirmação linguística baseada na experiência visual
da aluna. Portanto, se afasta da perspectiva ouvintista sobre a surdez e da relação entre o surdo
e o ensino da Língua Portuguesa como sua segunda língua.
O processo de escolarização das pessoas surdas, no que se refere ao ensino da Língua
Portuguesa como segunda língua, necessita contemplar a identidade cultural do aluno surdo, de
modo a garantir o direito linguístico no espaço escolar, pois a Libras é sua língua de instrução.
A discussão mostrou como é importante a afirmação linguística identitária da pessoa surda para
assegurar melhores condições de acessibilidade na educação e demais aspectos da vida social.
REFERÊNCIAS
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SEÇÃO LIVRE 223
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SEÇÃO LIVRE 225
RESUMO
O presente artigo intenciona discutir e trazer à tona ideias para o desenvolvimento de uma pedagogia
materialista histórico-crítica no âmbito das aulas de Língua Portuguesa, enfatizando questionamentos e
atividades a ser desenvolvidos no Ensino Fundamental II principalmente, mas que podem ainda ser
aplicados com variações em outras séries. Os textos escolhidos para análise e desenvolvimento de
sequência didática foram A festa no céu, conto tradicional do Brasil narrado por Luís Câmara Cascudo
e A raposa e as uvas, uma das fábulas de Esopo. Pensamos assim contribuir com o ensino de língua
portuguesa no Brasil e com o trabalho a partir de textos literários na América Latina, repercutindo as
vozes de uma pedagogia voltada à humanização, ao pensamento crítico e à reflexão acerca da
realidade que nos cerca. Para este estudo foram utilizados aportes teóricos de Labov (1997), Barthes
(1976) e Fiorin (2008).
ABSTRACT
1
Doutora em Letras (Literatura Portuguesa) pela Universidade de São Paulo (2007). Docente da categoria
associado professora associada do Curso de Letras da UNIOESTE - Universidade Estadual do Oeste do Paraná -
campus de Cascavel. Docente do Programa Profletras - Mestrado Profissional em Letras e do Programa de Pós-
Graduação em Letras (PPGL) da Unioeste - Campus Cascavel - nível Mestrado e Doutorado.E-mail:
[email protected] Orcid: orcid.org/0000-0002-7623-4087.
2
Doutor em Ciências pelo Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA/UFPA) e realizando pós-doutoramento
em Estudos Comparados (UNIOESTE). Professor associado I da Universidade Federal do Pará, UFPA.
Professor do curso de Licenciatura integrada em Ciências, Matemática e Linguagens da Faculdade de Educação
Matemática e Científica do Instituto de Educação Matemática e Científica (FEMCI/IEMCI) e do Programa de
Pós-Graduação em Linguagens e Saberes na Amazônia (PPLSA/ UFPA). Coordenador do Grupo de pesquisa de
Estudos de Letramento Literário e Formação Interdisciplinar (GELLIFI /UFPA). Coordenador do Grupo de
Estudos de Literatura Comparada do Nordeste Paraense (GELCONPE/UFPA). [email protected]. Orcid: 0000-
0002-6336-9249
3
Mestre em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2016). Doutorando na área de Letras –
Linguagem e Sociedade – com enfoque em Estudos Literários pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná –
Programa de Pós-Graduação em letras (PPGL) - (2018-2022). Professor colaborador do Curso de Letras
UNIOESTE-Cascavel. Doutorando do Programa de Pós-Graduação Institucional em Letras da UNIOESTE-
Cascavel, dramaturgo, escritor, desenhista. E-mail: [email protected]. Orcid: orcid.org/0000-0003-2227-
1613.
4
Mestre em Letras pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná (2007). Doutoranda na área de Letras –
Linguagem e Sociedade – com enfoque em Estudos Literários pela Universidade Estadual do Oeste do Paraná –
Programa de Pós-Graduação em letras (PPGL) - (2020-2024). Professora Quadro Próprio do Magistério do
Estado do Paraná. E-mail: [email protected]. Orcid: orcid.org/0000-0003-3681-2951.
226 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
This article intends to discuss and bring up ideas for the development of a historical-critical materialist
pedagogy within the Portuguese language classes, emphasizing questions and activities to be
developed in Elementary School, but which can be applied with variations in other grades too. The
texts chosen for analysis and development of the didactic sequence were A Festa no Céu (The party in
the Sky), a traditional Brazilian tale narrated by Luís Câmara Cascudo andThe fox and the grapes, one
of Aesop's fables. Thus we intend to contribute to the teaching of Portuguese language in Brazil and
with the literature`s teaching in Latin American`s Elementary School, reflecting the voices of a
pedagogy focused on humanization, critical thinking and reflection on the reality that surrounds us.
For this study, we used the theoretical contributions of Labov (1997), Barthes (1976) e Fiorin (2008).
INTRODUÇÃO
Outro poeta, o português Fernando Pessoa (2019), afirma: “A literatura, assim como a
arte, é uma confissão de que a vida não basta.” (PESSOA, 2019)6 Para o humano que vive ou
já viveu neste planeta, a vida basta ou já bastou? Na história da humanidade, desde os tempos
das figuras nas cavernas rupestres, que podem ser lidas como uma confissão do desejo de
continuidade e de ir, por meio da arte, além de si, percebemos que a vida – mesmo a desses
homens primários – não basta, seja para o humano mais afortunado, para reis e rainhas, seja
para os mais desgraçados.
5
MAIAKOVSKI, Vladímir. Maiakovski. Antologia Poética. Trad. E. Carrera Guerra. Max Limonad, 1956.
6
PESSOA, Fernando. Impermanence. In: Arquivo Pessoa. Disponível em: http://arquivopessoa.net/textos/3582.
Acesso em: 03 out. 2019.
SEÇÃO LIVRE 227
Acerca disso, o poeta francês Alphonse de Lamartine, por sua parte, expressa no
poema “L’Homme”7 as suas angústias a respeito da condição humana dizendo que:
Nesse sentido, a narrativa é uma forma vicária de vida em cujo périplo os humanos
dilatam o tempo de sua existência no mundo, vivendo – mediante ao relato das experiências
das personagens – mais vidas, buscando “seus destinos perdidos”, anunciando “sua futura
grandeza”, elaborando, por fim, projeções que tornem menos nebuloso o “grande mistério”
que envolve a existência. Desse modo, a narração nos leva a viver ações e interações da vida
mais de uma vez, pois segundo Fiorin (2008) “a narrativa é um simulacro da ação do homem
no mundo”, (FIORIN, 2008, p. 248). E se agimos no mundo, as mais das vezes, agimos em
busca de algo que nos falta ou para proteger algo ou alguém valioso para nós, ou para nos
livrarmos de algo que nos incomoda, ou de algum obstáculo que impede a realização da nossa
vocação ontológica de ser mais. Tanto o contador/narrador quanto o ouvinte/leitor, ao
ouvirem/lerem uma narrativa, tomam posse da ação praticada por outrem e ganham uma
experiência a mais em suas vidas.
Levando isso em consideração, neste artigo, os objetivos se voltam para a elaboração
de propostas metodológicas que visem a aplicabilidade de uma pedagogia materialista
histórico-crítica no âmbito das aulas de Língua Portuguesa e coloque em destaque elementos e
categorias estruturais que compõem o texto narrativo. Entre os teóricos da ciência da
narratologia que auxiliarão as discussões aqui presentes estão Labov (1997), Barthes (1976),
Barros (2005), Fiorin (2008). A ênfase recai sobre questionamentos e atividades cujo
desenvolvimento objetiva o trabalho pedagógico no Ensino Fundamental II principalmente,
porém nada impede que sejam aplicados em outras séries com as alterações necessárias.
Tendo como motivação atividades lúdicas e prazerosas, os textos escolhidos, para análise e
desenvolvimento da sequência didática, foram A festa no céu (2019), conto tradicional do
Brasil narrado por Luís Câmara Cascudo e A raposa e as uvas (1848), uma das fábulas de
Esopo. Obviamente que são diversos os entraves à consecução satisfatória da atividade
pedagógica sobre o ensino de narrativas. Logo, este estudo pretende apontar como superar
alguns deles a partir do trabalho com textos narrativos da América Latina, repercutindo as
vozes de uma pedagogia voltada à humanização, ao pensamento crítico e à reflexão acerca da
realidade que nos cerca.
7
Alphonse de Lamartine “ L’Homme” Œuvrescomplètes de Lamartine, Chez l’auteur, 1860, 1 (p. 77-86).
file:///C:/Users/valdeci.oliveira/Downloads/%C5%92uvres_compl%C3%A8tes_de_Lamartine_(1860)_Tome_1_
L%E2%80%99Homme.pdf)
8
Bornédanssanature, infinidanssesvœux,
L’homme est undieutombéqui se souvientdescieux.
Soit que, déshérité de sonantiquegloire,
De sesdestinsperdusilgardelamémoire;
Soit que de sesdésirsl’immenseprofondeur
Lui présage de loinsa future grandeur,
Imparfaitoudéchu, l’hommeest le grand mystère.
228 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Vemos então que no discurso narrativo há uma busca em torno do objeto, de modo que
o sujeito do desejo direciona seu olhar movido pela procura de um valor e nessa procura ele
revela os contratos que estabeleceu ou com que rompeu ao interagir com os outros que vivem
a vida social em comum. Segundo Barthes (1976),
“[...] inumeráveis são as narrativas do mundo. Há em primeiro lugar uma variedade
prodigiosa de gêneros, distribuídos entre substâncias diferentes como se toda
matéria fosse boa para que o homem lhe confiasse suas narrativas: a narrativa pode
ser sustentada pela linguagem articulada, oral ou escrita, pela imagem fixa ou
móvel, pelo gesto ou pela mistura ordenada de todas estas substancias; está presente
no mito, na lenda, na fabula, no conto, na novela, na epopeia, na história, na
tragédia, no drama, na comédia, na pantomima, na pintura, no vitral, no cinema, nas
histórias em quadrinhos [...]. Além disto, sob estas formas quase infinitas, a
narrativa está presente em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as
sociedades; a narrativa começa com a própria história da humanidade; não há em
parte algum povo algum sem narrativa; todas as classes, todos os grupos têm suas
narrativas” (BARTHES, 1976, p.19-20).
Mas se narrativa é tudo isso – e muito mais que isso – há que se ter sempre o cuidado
para que, na escola, o trabalho com ela não se torne uma atividade enfadonha, sem graça, sem
vida, distante do aluno, já que constitui um gênero discursivo essencial a ser trabalhado em
âmbito escolar, especialmente no Ensino Fundamental. Se aos professores de Língua
Portuguesa do Ensino Fundamental I e II cabe parte da tarefa de ensinar os alunos a contar, a
ler e a escrever textos narrativos, é, pois, necessário zelar para que essa atividade não se
esvazie de sentidos.
Assim, ao começarmos a apresentação das propostas metodológicas, é importante nos
lembrarmos de que, conforme Labov (1997), não há narrativa sem reportabilidade, ou seja, é
próprio do discurso narrativo, do ato de narrar alguma ação ou alguma situação à remissão
direta a uma reportagem, no sentido de que o narrar traz inevitavelmente para a cena um
acontecimento que merece ser contado porque foge do habitual. Há inúmeros fatos que não
são contados por que são por demais comezinhos, ou porque eles não encontraram um
narrador que notasse neles algum grau de reportabilidade. E o que é digno de reportagem para
os humanos? Tudo aquilo que envolve luta, conflito, demanda, necessidade, carência. Isso
porque nas narrativas é que sentimos viver a passagem do tempo, o antes e o depois, a partir
da estaticidade da situação inicial, em que o protagonista, como sujeito do desejo, apresenta o
seu objeto do desejo, que se constitui numa demanda/necessidade/carência; ou seja, aquilo
que falta para se ser o que se quer ser ou aquilo que se precisa para tornar-se ou para continuar
a ser o que se é. E, a partir desse ponto estático, dá-se início ao movimento, à dinamicidade do
ir-se buscar o que falta. Literalmente, do grego, o termo protagonista quer dizer “aquele que
carrega o seu ágon (luta/conflito/jogo). Logo, para entrar em conjunção com o objeto do seu
desejo – que pode ser, por exemplo, uma sombra, ou um copo de água para alguém morrendo
escaldado e sedento num deserto – o protagonista precisa ir à luta. Nesse sentido, se fosse o
caso de alguém estar com sede e dispor imediatamente de um copo d’água para tomar, não
teríamos narrativa, e sim um simples relato, porque não há conflito, luta, ágon; enfim,
reportabilidade.
De tal forma, a narrativa intercala estaticidade e dinamicidade. Na situação inicial,
temos a estaticidade, a apresentação do contexto, do cenário onde se desenrolará a história, as
situações de estado do protagonista e das pessoas que ali atuarão. Para haver
movimento/dinamicidade/cinesia, é preciso que o protagonista/sujeito do desejo assuma seu
ágon e vá à luta para obter o objeto do desejo com o qual precisa entrar em conjunção para
superar sua necessidade/carência e ser. Esse movimento rompe a estaticidade e instaura a ação
responsável por modificar a situação inicial. Geralmente, nas narrativas infanto-juvenis, essa
passagem pode vir marcada por uma das diversas conjunções adversativas. Assim se coloca a
questão de junção. O protagonista precisa entrar em conjunção, ou seja, comunhão com aquilo
de que precisa ou entrar em disjunção, ou seja, se ver livre daquilo que o impede de ser o que
ele deseja, pois nem sempre conseguimos aquilo de que precisamos para sermos mais do que
somos ou para continuarmos a ser o que somos.
2 PROPOSTAS DE APLICAÇÃO
230 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Iniciamos pelo conto A festa no céu, cuja situação inicial é a de pássaros fazendo
grande propaganda e alvoroço porque foram convidados para ir a uma festa que ocorrerá no
céu (Figura 1).
Como apenas eles (os pássaros) podem voar, a divulgação da festa visa mesmo causar
despeito; inveja; ressentimento e indiferença nos bichos que não poderão ir, por não poderem
voar. Eis aí um belo exemplar de “tentação do impossível”. Mas um sapo “sabido”, ao saber
da festa no céu, deseja dela participar. Temos aqui na figura do sapo o actante sujeito do
desejo e, na festa no céu, o actante objeto do desejo, e, além do mais, no fato de que ele – por
ser um sapo – não dispõe do poder de voar, temos o oponente do desejo, ou antagonista, que
se opõe à realização do desejo do protagonista o sapo. Assim, o animal tem o querer, mas não
tem o saber. E se não tem o saber, não tem o poder; portanto, não pode fazer, nem ser, pois
não tem conjunção com aquilo que deseja.
Mas o sapo começa a alardear que também irá à festa no céu. E, como ele era um sapo
sabido, sabe encontrar na esperteza uma saída: enganar o urubu, então se esconder no espaço
que há dentro da viola é a solução. Com essa estratégia, ele ganha o poder de ir até à festa no
céu. Logo, vemos que nessa narrativa, assim como em outras, temos duas forças contrárias: O
protagonista e o antagonista. Numa narrativa, esse embate entre protagonista e antagonista
pode ter um round apenas ou diversos rounds, dependendo das forças dos combatentes. Um
exemplo bem banal: se for alguém tentando fazer regime, pode ser que a gula vença alguns
rounds e a necessidade de emagrecer vença outros. Se a pessoa consegue emagrecer é porque
ela venceu seu antagonista que era a gula. Essa luta vale para o etilismo, drogadição e outras
dependências das quais o protagonista precisa entrar em disjunção, pois elas se constituem
naquilo que o impede de ser. Como se nele mesmo morassem o protagonista e o antagonista,
abraçados na luta perpetua que Sá de Miranda efabulou no belíssimo poema narrativo,
chamado “Comigo me desavim”10. Do embate entre essas forças sairá um vencedor e um
perdedor.
9
CASCUDO, Luís Câmara. A festa no céu (1848) In: Portal do professor. Acesso em:
http://portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.html?aula=27371. Acesso em: 03 out. 2019.
10
Cantiga “Comigo me desavim”, de Sá de Miranda:
Comigo me desavim,
Sou posto em todo perigo;
Não posso viver comigo
Nem posso fugir de mim.
Com dor da gente fugia,
Antes que esta assicrecesse:
Agora já fugiria
232 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
Entretanto, por que o sapo queria também ir à festa no céu? Podemos interrogar por
vários motivos: Sedução? Complexo de inferioridade em relação às aves? Curiosidade e
vontade de conhecer o céu? Gulodice, já que em festa há muita comida, o sapo poderia sonhar
com encher a barriga de quitutes, matar a fome, interagir, se exibir? No caso do sapo, parece
que todos esses motivos são motor da ação. Na verdade, são questões postas à descoberta da
interpretação do leitor, algumas implícitas, que ficam abertas até o fim e podem ser
preenchidas pela recepção. E aqui está um ponto importante para o trabalho com o texto
narrativo em sala de aula, fazer com que o aluno participe desse conflito, compreenda-o com
seus olhos, produza texto acerca do que se lhe apresenta aos olhos, e como fazer isso?
Levando-o a se colocar no lugar do sapo, ou em situações análogas.
Sobre o período que conclui o parágrafo acima, vale voltarmos a dois aspectos.
Barthes (1976) salienta que obra (no caso um texto fonte de discussões, elevado de uma
maneira ou outra – pela própria persistência no tempo talvez) é aquela que produz texto. Ou
seja, uma obra literária – agora centremo-nos na literatura – produz discussão, produz
resposta, reportabilidade, como em Labov, produz outras obras. Ela repercute, por isso não
morre. E o problema em ela ser bem recebida em sala de aula, no caso de nossa preocupação
neste artigo, é o de que os alunos possam, ou mais, sintam-se instigados a produzir texto
acerca dela. E para isso é necessário que eles sejam capazes de visualizá-la (que ela se
apresente aos seus olhos, visual e sensivelmente). Se o texto descreve e narra em face de
produzir imagens, ou mesmo de resgatá-las ao passado, é necessário que quem entre em
contato com narrativas seja capaz de percebê-las em sua imaginação, ou não haverá
compreensão, muito menos prazer estético. Para tanto, faz-se necessário que o professor, ao
assumir o papel de “ensinar” narrativas, primeiramente goste de lê-las e sinta desejo de
compartilhá-las. Pelos olhos do professor, assim, os alunos serão capazes de ver. Ou melhor,
não é papel do professor mostrar, mas fazer ver. Como? Lendo antes diversas vezes, até
conseguir dar a entonação necessária à história. Muita gente lê tão sem graça, como se fosse
um “ford velho” numa subida monótona e enfadonha. Leitura é vida e ela começa pelos
professores. Os professores devem primeiro eles mesmos lerem em voz alta as histórias para
os alunos. Uma, duas, três vezes ou mais. Ler contando com entusiasmo, compreensão e
entonação. Gesticulando e, se possível, imitando vozes, convidando a imitar – os alunos –
animais, a participar da festa. Apenas com visada lúdica, de uma maneira lúdica. Na
brincadeira se pode fazer muita coisa séria. As propostas feitas aqui estarão mortas, sem essa
leitura engajada do professor. Na sequência das atividades, os alunos começam a ler diversas
vezes em silêncio e em voz alta.
Depois que os alunos se apoderaram da narrativa, seria muito bom ativar a imaginação
(recurso mnemônico) dos alunos para a plasticidade da imagem, propondo a criação de
cartazes, recontagem em quadrinhos, pôsteres, desenhos diversos. Evitando, algumas vezes,
de mostrar-lhes ilustrações, para ativarem a capacidade de eles mesmos representarem as
histórias, cenários e personagens. Perceba-se que algumas histórias estão abertas à
diversidade. Por exemplo, qual a cor ou a espécie dos pássaros (afora o que esteja indicado no
texto)? De que espécime de sapo se está falando? O próprio instrumento musical, como é ele?
Depende do espaço geográfico e cultural em que a criança, ou adulto, vive, esta fará suas
escolhas (pré-determinadas, contudo). Por isso é que se faz necessário também deixar com
que os alunos pensem por si, narrem suas próprias histórias da vida cotidiana, porque é assim
que passará a compreender a narrativa como um processo estético e próprio da diversidade.
Figura 2 – Giz pastel seco e lápis de cor aquarelável sobre papel Canson tamanho A4
Uma Raposa, aproximando-se de uma parreira, viu que ela estava carregada de uvas
maduras e apetitosas. Com água na boca, desejou-as comer e, para tanto, começou a
fazer esforços para subir até elas. Porém, como estivessem as uvas muito altas e
fosse muito difícil a subida, a Raposa tentou mas não conseguiu alcançá-las. Disse
então:
- Estas uvas estão muito azedas e podem desbotar os meus dentes; não quero colhê-
las agora porque não gosto de uvas que não estão maduras.
E dito isso, se foi (ESOPO, 1848, n.p).11
11
As Fábulas de Esopo. Adaptação: Joseph Shafan Baseado na edição em língua portuguesa: "Fabulas de
Esopo - com aplicações moraes a cada fabula" - 1848 - Paris, Typographia de Pillet Fils
Ainé.http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/ea000378.pdf.
SEÇÃO LIVRE 235
12
Um dos escritores fundamentais deste século: revolucionou a teoria e a prática da dramaturgia e da encenação,
mudou completamente a função e o sentido social do teatro, usando-o como arma de conscientização e
politização in https://portaldosatores.com/2017/08/14/vida-e-obra-bertolt-brecht/
236 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
A cena deve ser representada até o ponto em que se apresente o problema central,
que necessite uma solução. Neste ponto, os atores param de interpretar e pedem ao
público que ofereçam soluções possíveis, para que as interpretem, para que as
analisem. Em seguida, improvisando, interpretam todas as soluções propostas, pelo
público, uma a uma, sendo que todos os espectadores têm o direito de intervir,
corrigindo ações ou falas inventadas pelos atores, que são obrigados a retroceder e a
interpretar outra vez as mesmas cenas ou dizer as novas palavras propostas pelos
espectadores. (BOAL, 2013, p. 136).
Tal exercício em relação à fábula – embora em sala de aula pudesse limitar o número
de representações, talvez buscando uma apenas em que o grupo de espectadores acordasse –
faria com que os discentes pudessem a mais que julgar a atitude da raposa, empenhar-se em
outra atitude para sentirem-se dentro do problema e solucioná-lo. Em relação à fábula A
raposa e as uvas, o ponto em que se apresenta o problema é justamente o ponto em que a
raposa resolve desistir, ao tentar e não alcançar. Nesse momento, a turma seria convidada a
discutir soluções analisando sempre a coerência destas. Por exemplo, alguém pudera supor
pegar uma escada. Contudo, a raposa seria capaz? Que verossimilhança no entrecho poderia
fazer isso possível? Ela está próxima a uma escada, ou a um local em que haja uma escada?
Ao fim, as melhores soluções seriam improvisadas. Conquanto em meio à representação
improvisada, mediante a ação, pudessem ser vislumbrados novos problemas, não refletidos ou
mentalizados pelos alunos anteriormente ao ato. Por isso a importância em representar,
visualizar ações, atitudes, reações que fazem parte do caráter de cada um.
O Teatro Fórum é outra alternativa que põe em debate o caráter das personagens e a
resolução de problemas. Nesse exercício, monta-se um fórum em sala, para julgar o enredo e
apontar as falhas de caráter nas atitudes e falas das personagens. Assim, propõe-se também a
ressignificação e a improvisação de um novo enredo a partir do debate. Ambos valiosos
exercícios sem grande complexidade, desde que o professor entenda que tudo deve dar-se em
forma de brincadeira séria, de processo de reorganização moral em discussão, de reflexão e
jogo, de ludo. Materialismo histórico-dialético em prática.
3 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Os professores e os pais sabem que a vida humana é insegura e que não nos oferece
nenhuma garantia e, talvez porque já tenhamos enfrentado muitos e muitos obstáculos,
queremos aplainar as caminhadas de nossos alunos e filhos. Não estamos errados em fazê-lo,
mas como nos lembra Walter Benjamin banimos da vida das crianças, adolescentes e jovens
(alunos e filhos) o conhecimento necessário sobre as lutas agônicas que travamos, incluindo
13
Para fazer frente à censura e à repressão desencadeada pelo AI-5, Boal incrementa sua aproximação com as
propostas de Bertolt Brecht (1898-1956). Inspirado na peça didática, monta Teatro Jornal, 1971, com o Núcleo 2
do Teatro de Arena. A encenação, aberta ao improviso, utiliza notícias do dia, comentadas pelos atores sob
diversos modos. Outros textos também são utilizados para polemizar, extrair contradições e pontos de vista
divergentes contidos num mesmo relato. Chega, desse modo, a uma crítica global das formas narrativas
tradicionais, exposta no texto O Sistema Trágico Coercitivo de Aristóteles, no qual tece as bases de sua proposta
e faz críticas à Poética in https://enciclopedia.itaucultural.org.br/termo616/teatro-do-oprimido.
SEÇÃO LIVRE 237
nesse banimento a visão dos hospitais e da morte14. Desse mundo sem óbices, porém, pode
resultar a “aversão cada vez maior ao trabalho prolongado”.
As duas narrativas aqui trabalhadas são clássicas no sentido de que expressam duas
formas diferentes de se lidar com as “tentações do impossível”. São chamadas de fábulas,
com suas devidas variações, porque os animais que as protagonizam são antropomorfizados
para serem exemplos dos obstáculos e lutas que os humanos enfrentam, em prol de serem
aquilo que precisam ou que querem ser. Elas figuram saídas e formas de ação, atuação de
como os humanos podem lutar e se arranjar na vida social, como se fossem um repositório de
banco de dados de lutas/problemas, ágones, e das saídas e resoluções encontradas como meios
de ultrapassá-los para realizar sua vocação ontológica: a de manter a vida e de estendê-la um
pouquinho mais.
REFERÊNCIAS
BARROS, Diana Luz de. Teoria semiótica do texto. 4. ed. São Paulo: Editora Parma, 2005.
BARTHES, Roland. Da obra ao texto. In: O rumor da língua. Trad. Mário Laranjeira. 2ª ed.
São Paulo: Martins Fontes, 1976.
BENJAMIN, Walter. “O Narrador: considerações sobre a obra de Nikolai Leskov”. In: Magia
e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo: Brasiliense,
1994, p. 197-221.
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“No decorrer dos últimos séculos, observamos que a ideia da morte vem perdendo, na consciência coletiva,
sua onipresença e sua força de evocação. Esse processo se acelera em suas últimas etapas. Durante o século XIX,
a sociedade burguesa produziu, com as instituições higiênicas e sociais, privadas e públicas, um efeito colateral
que inconscientemente talvez tivesse sido seu objetivo principal: permitir aos homens evitarem o espetáculo da
morte. Morrer era antes um episódio público na vida do indivíduo, e seu caráter era altamente exemplar:
recordem-se as imagens da Idade Média, nas quais o leito de morte se transforma num trono em direção ao qual
se precipita o povo, através das portas escancaradas. Hoje, a morte é cada vez mais expulsa do universo dos
vivos. Antes não havia uma só casa e quase nenhum quarto em que não tivesse morrido alguém. (A Idade Média
conhecia a contrapartida espacial daquele sentimento temporal expresso num relógio solar de Ibiza: ultima
multis). Hoje, os burgueses vivem em espaços depurados de qualquer morte e, quando chegar sua hora, serão
depositados por seus herdeiros em sanatórios e hospitais. Ora, é no momento da morte que o saber e a sabedoria
do homem e, sobretudo sua existência vivida – e é dessa substância que são feitas as histórias – assumem pela
primeira vez uma forma transmissível. Assim como no interior do agonizante desfilam inúmeras imagens –
visões de si mesmo, nas quais ele se havia encontrado sem se dar conta disso -, assim o inesquecível aflora de
repente em seus gestos e olhares, conferindo a tudo o que lhe diz respeito aquela autoridade que mesmo um
pobre-diabo possui ao morrer, para os vivos em seu redor. Na origem da narrativa está essa autoridade. A morte
é a sanção de tudo o que o narrador pode contar. É da morte que ele deriva sua autoridade. Em outras palavras:
suas histórias remetem à história natural”. BENJAMIN, Walter. “O Narrador: considerações sobre a obra de
Nikolai Leskov”. In: Magia e técnica, arte e política: ensaios sobre literatura e história da cultura. São Paulo:
Brasiliense, 1994, p. 197-221.
238 NOVA REVISTA AMAZÔNICA - VOLUME IX - Nº 02 - JUNHO 2021 - ISSN: 2318-1346
BOAL, Augusto. Jogos para atores e não atores. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,
2012.
BOAL, Augusto. Teatro do oprimido e outras poéticas políticas. São Paulo: Cosac Naify,
2013.
CASCUDO, Luís Câmara. A festa no céu (1848) In: Portal do professor. Disponível em:
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LABOV, William. Some Further Steps in Narrative Analysis. In: Bamberg, M. (ed.). Oral
versions of personal experience. Three decades of narrative analysis. A special issue of
The Journal of Narrative and Life History, 1997.