Secularização e Cristianismo Irônico
Secularização e Cristianismo Irônico
Belo Horizonte
2011
2
BELO HORIZONTE
2011
FICHA CATALOGRÁFICA
Elaborada pela Biblioteca da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
CDU: 211.5
3
____________________________________________________
Prof. Dr. Lindomar Rocha Mota (Orientador) – PUC Minas
____________________________________________________
Prof. Dr. Frederico Pieper Pires – UFJF
____________________________________________________
Prof. Dr. José Carlos Aguiar de Souza – PUC Minas
AGRADECIMENTOS
Ao meu orientador, Dr. Lindomar Rocha, cuja paciência e atenção ajudaram a tornar possível
esse trabalho. Ao Dr. Frederico Pires pela inspiração. E à Igreja Batista Nova Jerusalém pelo
incentivo acadêmico.
6
“Ele tinha a natureza de Deus, mas não tentou ficar igual a Deus. Pelo
contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo,
tornando-se assim igual aos seres humanos. E, vivendo a vida comum de um ser
humano, ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte - morte de cruz. Por isso
Deus deu a Jesus a mais alta honra e pôs nele o nome que é mais importante do
que todos os outros nomes, para que, em homenagem ao nome de Jesus, todas
as criaturas no céu, na terra e no mundo dos mortos, caiam de joelhos e
declarem abertamente que Jesus Cristo é o Senhor, para a glória de Deus, o
Pai.”
Filipenses 2,6-11
7
RESUMO
ABSTRACT
This thesis conducted a literature search on the concept of secularization of the philosopher
Gianni Vattimo. The aim was to show that the secularization does not represent a threat to
christianism, but achieves its own message. Two, as well, were the conclusions drawn: The
first is that secularize itself is typical of the occident. The second one indicates that the idea of
secularization replaces and at the same time expands the concept of weak ontology that
largely has been used to express the framework of the "Vattimian philosophy".
SUMÁRIO
1. INTRODUÇÃO........................................................................................................... 10
5. CONCLUSÃO ......................................................................................................... 92
REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 96
10
1. INTRODUÇÃO
Com a idéia de superação, Vattimo pavimenta o caminho que ele mesmo percorrerá
para chegar a lugares diversos de seu arcabouço filosófico. Superação, conforme ele concebe,
significa continuidade, permanência irônica e distorcida de algo que se presumia acabado,
descartado ou simplesmente deixado para trás. A presença do termo “superação” ou da idéia
nele contida, aparece freqüentemente nos escritos de Vattimo. Via de regra, o termo está
associado outros conceitos igualmente importantes de seu pensamento e, por conseqüência, a
intérpretes dos quais Vattimo é devedor. Alguns exemplos de termos vinculados à idéia de
superação podem ser notados nas idéias vattimianas de metafísica, metafísica da presença,
Deus, morte de Deus e violência. O termo metafísica, em geral, designa a crença em uma
ordem objetiva do mundo reguladora das escolhas e da moral. A metafísica da presença, por
sua vez, é toda aquela estrutura de pensamento que identifica o signo com o conceito ao qual
se reporta, ou simplesmente, a verdade como correspondência do enunciado à coisa. A
concepção de Deus, por outro lado, designa a verdade objetiva e o sentido último, tornando-
se, por conseguinte, no núcleo regulador sagrado e na unidade de medida por excelência.
Nesse caso, em Vattimo, essa noção de Deus acaba se tornando fonte de violência, uma vez
que, como centro regulador final, e como verdade objetiva, anula-se o diálogo e toda pergunta
posterior perde o sentido. Em outras palavras, a violência é o fim da troca de interpretações e
respostas resultante da apropriação da verdade definitiva. Deus, enfim, é sinônimo de
violência.
Esse conjunto de definições pode ser aglomerado sob aquilo que Vattimo chama de
“dureza do real” ou “peremptoriedade do dado real”. Trata-se de toda uma estrutura de pensar
baseada na crença de que é possível conhecer e expressar o mundo e a realidade
objetivamente. É o pensamento forte. Daí Vattimo propor, seguindo a linha iniciada por
Nietzsche e Heidegger, que pensar o ser e a realidade só pode ser de uma forma fraca, ou seja,
deixando para trás a necessidade de uma verdade fundamento e assumindo que todo postulado
é, ao cabo, um discurso social e historicamente condicionado. Enfraquecimento e superação,
11
Finalmente, o último capítulo visa retomar um tema que aparece de forma breve e
superficial nos dois primeiros capítulos, a saber, a morte de Deus. Como já mostrado, a idéia
de Deus para Vattimo está relacionada a toda uma forma rígida de pensar. Por conseguinte, a
morte de Deus assume várias formas relacionadas a essa estrutura de pensamento. A morte de
Deus, portanto, aponta para o superar da metafísica (aliás, Vattimo equivale uma coisa a
outra), para o fim da verdade objetiva e, conseqüentemente, para a redução da violência
configurada em toda forma de discurso totalizante. E esse Deus que morre não é outro senão o
Deus moral. Entretanto, o Deus que morre desempenhou um importante papel na construção
do mundo ocidental. Foi o submeter-se a esse Deus absoluto que tornou possível o advento do
mundo técnico com a conseqüente exploração da natureza. Foi igualmente em torno da idéia
de um Deus supremo que a modernidade encontrou as condições de se estabelecer.
A idéia de um Deus supremo e fundamento último esteve na base da formação
ocidental, e foi ela também que, de certa forma, preparou as condições para a morte desse
Deus. Nesse capítulo, a idéia guia é que a morte de Deus preparou o caminho para o retorno
da religião. Durante a modernidade a religião perdeu força e espaço para os avanços
científicos. Os desmandos das duas guerras mundiais do início do século XX também
contribuíram para esvanecer o sentimento religioso. E no plano filosófico, os positivismos e
os historicismos ajudaram a fundamentar o ateísmo. Tudo isso levou à morte de Deus.
Contudo, em fins da modernidade, paradoxalmente, foi justamente com a morte de Deus que
se abriram as condições para o renascimento do religioso. Com a morte de Deus morrem
também as bases do ateísmo filosófico. Paralelamente, as novas condições sociais também
favoreceram o renascimento do religioso. Morte de Deus e volta do religioso andam juntas no
pensamento de Vattimo, assim como, para ele, morte de Deus e secularização são
equivalentes. A nova era em que a religião retorna (naturalmente de uma forma distorcida e
transformada) é uma era caracterizada pela liberdade e pela consciência da historicidade de
toda verdade. A violência do Deus absoluto dá lugar à caridade e Joaquim da Fiore é tomado
como modelo na medida em que Vattimo identifica a pós-modernidade com a era do espírito.
É nesse enredo de morte e renascimento que a secularização é posta como possibilidade
religiosa e é com essa idéia que se encerra o terceiro e último capítulo.
13
Com esse título, pretende-se tratar acerca daquilo que Vattimo chama de pensiero
debole, termo que nas traduções portuguesas aparece como pensamento débil ou fraco. Assim
sendo, é necessário um posicionamento com respeito ao uso dessas terminologias. A maioria
das obras de Vattimo traduzidas para o português do Brasil usa a expressão “pensamento
fraco”. É o caso, por exemplo, de A tentação do realismo (2001a), Depois da cristandade
(2004) e também dos artigos Não há mais uma única verdade para toda a humanidade
(2008b); e O que está vivo e o que está morto no pensamento fraco (2008a). Algumas obras,
como O fim da modernidade, não trata diretamente acerca do pensamento fraco, mas evoca
uma “existência resgatada e reintegrada; em sentido fraco” (VATTIMO, 2007a, p. 45), “um
ser fraco, declinante, que se desdobra no desvanecer” (VATTIMO, 2007a, p. 119) e ainda
“um caráter fraco, de ‘pano de fundo’, que não se deixa tanto teorizar” (VATTIMO, 2007a, p.
140). De modo semelhante na obra Para além da interpretação, Vattimo se refere a um
“racionalismo fraco” (VATTIMO, 1999a, p. 140) do qual é acusada a hermenêutica na
contemporaneidade. E num artigo intitulado A filosofia e o declínio do Ocidente, Vattimo
(2003a, p. 60) trata da “inevitável ocidentalização do mundo em termos, digamos, leves,
fracos, soft”.
Já nas traduções de Portugal a expressão comumente usada é “pensamento débil”.
Exemplos são as obras Acreditar em acreditar (1998), na qual o termo “débil” várias vezes; e
As aventuras da diferença (1988). Essa última, embora não cite a expressão “pensamento
débil”, alude a “uma moralidade mais débil em relação à verdade” (VATTIMO, 1988, p. 99) e
a um horizonte no qual “o ser se experimenta como temporalidade ‘débil’” (VATTIMO,
1988, p. 185).
Entre os intérpretes de Vattimo a dúvida está em utilizar a tradução corrente das
editoras brasileiras, ou seja, “pensamento fraco”, ou manter a expressão na forma original
italiana, a saber, “pensiero debole”. Pires (2007, p. 15), Scopinho (2004, p. 110), Frangiotti
(2001, p. 71) e Rocha (2008, p. 1) usam a expressão “pensamento fraco”.1 Já Rossano (2008,
p. 387) e Paiva (2007, p. 2) preferem a expressão não traduzida. Teixeira (2005, p. 113), por
sua vez, usa a expressão “pensiero debole” nos títulos e subtítulos, preferindo a expressão
“pensamento débil” no corpo de texto.
1
Embora, no caso de Pires (2007), ocorram várias menções à debilidade, seja da religião (p. 14), do pensamento
(p. 68, 112), ou de Deus (p. 181, 215).
15
Feitas essas identificações, cabe, ainda, uma breve análise do sentido desses termos e
expressões. O termo “débil”, presente nas traduções de Portugal, tem o sentido de “pouca
força ou energia; fraco, franzino, pouco distinto, quase imperceptível, insignificante,
diminuto”; sendo que “forte” e “vigoroso” são seus antônimos.2 Por outro lado o termo
“fraco” significa “que não tem força, débil, frouxo, medíocre, que não é sólido, que soa mal,
covarde, de pouco valor, pouco sabedor, lado moral por onde uma pessoa oferece menos
resistência.”3 O conceito de “força” indica “capacidade de produzir movimento, violência,
autoridade, poder, necessidade, virtude, qualidade de transmitir intensamente impressões pela
vivacidade ou lógica da expressão e energia moral.” E o antônimo de “força” é “debilidade,
fraqueza ou tendência.”4 Finalmente, o termo italiano “debole” denota “fraqueza, ponto fraco,
propensão, débil.”5
Como se vê, o sentido de fraco, débil ou debole são próximos, o que torna a escolha
por qualquer um deles, relativamente difícil. Em português parece não haver muita diferença
em dizer “fraco” (Brasil) ou “débil” (Portugal). Na presente pesquisa se utilizará uma forma
alternativa, preferindo-se referir ao pensamento de Vattimo como “pensamento
enfraquecido”. Apenas nas citações diretas manter-se-ão as expressões usadas pelos autores
citados.
Feitas essas abordagens, pode-se passar para a fase seguinte que é entender o seria
esse “pensamento enfraquecido”. De acordo com Vattimo (2008a; Tb. VATTIMO, 2008b, p.
92.), o pensamento enfraquecido é uma filosofia tipicamente italiana que se alinha com
formas de engajamento teórico e civil do tipo visto em pensadores como Maquiavel,
Gianbattista Vico, Sanctis, Croce, Gransci e, é claro, Nietzsche, Heidegger e Gadamer. A
expressão foi usada pela primeira vez por Vattimo no ensaio Dialética, diferença e
pensamento débil, escrito no início dos anos oitenta e que se tornou o texto de abertura de
uma coletânea organizada por Pier Aldo Rovatti cujo título foi exatamente O pensamento
débil (1998).6 Posteriormente essa designação, que foi inspirada na leitura que Vattimo fez de
uma obra de Carlo Augusto Viano,7 passou a ser “o rótulo de uma corrente, se não de uma
escola, de fronteiras ainda incertas e, sobretudo, de modo nenhum unida em torno de um
2
MICHAELIS, 2009a.
3
MICHAELIS, 2009a.
4
MICHAELIS, 2009a.
5
MICHAELIS, 2009b.
6
Essa obra, cujo título original é Il pensiero debole, foi publicada em 1983.
7
A obra de Viano é La ragione, I’abbondanza e Ia credenza, no volume organizado por A. G. Gargani, Crisi
della ragione, Einaudi, Turim, 1979.
16
núcleo de teses características” (VATTIMO, 1998, p. 24).8 Não obstante a essas palavras, já
na Advertência preliminar dessa mesma coletânea, Vattimo e Rovatti advertem para o risco
de se pontuar o pensamento enfraquecido dentro de uma categoria ou escola filosófica.9
Assim escreveram:
Vattimo define o pensamento enfraquecido como sendo uma forma de pensar “mais
consciente de seus limites, que abandona as pretensões das grandes visões metafísicas
globalizantes” (VATTIMO, p. 1998, p. 25).11 Mas, ainda mais significativa do que essa
definição, é a que o aponta como “uma teoria do debilitamento como traço constitutivo do ser
na época do fim da metafísica” (VATTIMO, p. 1998, p. 25). O pensamento enfraquecido tem
também um cunho essencialmente hermenêutico. Percebe-se isso na medida em que ele
pretende ser “uma atitude de liberdade [...] que abre caminho para toda enunciação teórica,
enquanto escuta autenticamente as interpretações que são propostas e as responde com outra
interpretação” (VATTIMO, 2008a, p. 15; Tb. VATTIMO, 1990b, p. 19). Essa base
hermenêutica, porém, está calcada em outra mais fundamental, a saber, a mensagem cristã da
kenosis de Jesus. Os escritos mais recentes de Vattimo (2008a) estão voltados para o vínculo
existente entre o pensamento enfraquecido e o cristianismo.12 A encarnação, segundo ele,
liberta a humanidade da tirania da “verdade” que ao longo dos séculos produziu uma série de
violências.13 A verdade do pensamento enfraquecido, de acordo com Vattimo (2008a, p. 14),
é Jesus Cristo encarnado enquanto modelo de relação pessoal com o outro e também como
indicativo de abandono dos ídolos, sobretudo os ídolos da razão e seus fundamentos.
8
Dos debolistas, Pier Aldo Rovatti talvez seja o último, embora outros pensadores, como Richard Rorty tenha,
por vezes, adotado essa designação. “Debolistas” ou “fraquistas” são formas com que Vattimo se refere aos
adeptos do pensamento enfraquecido.
9
Frangiotti (2001) parece desconhecer essa advertência.
10
Texto original: “Por tanto, la expresión “pensamiento débil” constituye, sin ninguna duda, una metáfora y una
cierta paradoja. Pero en ningún caso podrá transformarse en la sigla emblemática de una nueva filosofía. Se trata
de una manera de hablar provisional, e incluso, tal vez, contradictoria, pero que señala un camino, una dirección
posible: un sendero que se separa del que sigue la razón-dominio -traducida y camuflada de mil modos diversos-,
pero sabiendo al mismo tiempo que un adiós definitivo a esa razón es absolutamente imposible.”
11
De acordo com Frangiotti (2001, p. 71), o pensamento enfraquecido surgiu no contexto das tentativas de
explicar uma categoria mais ampla, a saber, a pós-modernidade.
12
Insere-se também aí a questão política, como se verá mais adiante.
13
Como as várias guerras religiosas, inquisições e perseguições de toda ordem.
17
14
Nas traduções portuguesas, tanto no Brasil como em Portugal, por vezes, o termo “amor”, quando associado
ao próximo ou quando se refere à atitude que se deve ter ante a pluralidade do mundo contemporâneo e ao jogo
de interpretações nele presente, apresenta-se como substituto ou como um sinônimo de “caridade”. Quando
Vattimo os utiliza nessas circunstâncias, portanto, eles significam a mesma coisa.
18
15
Tratar de evolução história pode parecer paradoxal nesse contexto. No entanto, Vattimo fala de “uma filosofia
da história guiada pela idéia de enfraquecimento” (2004, p. 33). Essa perspectiva parece ser uma adaptação da
idéia de progresso baseada na noção de Providência.
16
De acordo com Vattimo (2008b, p. 93), essa situação tanto gera crise como liberta o homem para a
projetualidade efetiva. Por “projetualidade” Vattimo está tentando apontar para a necessidade de a filosofia
estabelecer uma relação direta com a vida concreta das pessoas. Sem esse caráter a filosofia, na opinião dele,
deixa de ser filosofia.
19
tanto a maneira do pensar a verdade como também as estruturas sociais que ancoravam-se
nessas verdades. Se não há mais um centro regulador, o que se pode obter do mundo são
apenas interpretações múltiplas e distintas. Em outros termos, não existe mais um mundo
único e objetivo, mas um conjunto de diversos mundos construídos à luz da leitura histórica.
E, segundo Vattimo (2008b), é daí que Heidegger pensou o ser não como objeto, mas como
evento.
O resultado dessas análises é que, deixar de pensar objetivamente e assumir que toda
verdade é resultado de interpretações ocorridas dentro de determinado momento histórico
implica não apenas numa mudança de mentalidade, mas também de situação concreta, ou
seja, trata-se também de uma mudança na vida prática das pessoas. O esgotamento das
pretensões totalizantes da razão, no entender de Vattimo (1999b), abriu vários caminhos para
novos valores, escolhas e juízos. Como coloca, “tais transformações não ocorrem apenas na
mente, mas no conjunto do pensamento humano e do mundo ao qual ele responde”
(VATTIMO, 2008b, p. 98). Deve-se considerar, contudo, que o pensamento enfraquecido não
escapa às pretensões de busca de fundamentos. Ele é também uma terceira via 17 frente aos
programas fortes da metafísica, configurando-se também como “um procedimento de corte
‘empirista’, mas desprovido de qualquer intenção de iniciar-se com certa experiência pura ou
purificada de qualquer condicionamento histórico-cultural” (VATTIMO, 1990b, p. 19).18 Tal
busca pelos fundamentos ou princípios, na forma débil, se dá por meio da experiência
cotidiana. É dela, com toda sua carga historicamente qualificada e culturalmente densa, que
parte o raciocínio do pensamento enfraquecido.
Teixeira (2005, p. 113) sintetizou de forma bem perspicaz essas observações de
Vattimo no que ele chamou de “uma metamorfose na idéia de racionalidade ‘forte’ para uma
racionalidade ‘débil’”. Segundo ele, Vattimo parte da hermenêutica, como língua comum da
filosofia na atualidade, para fazer uma leitura do vínculo entre ser e linguagem. A existência
nesse contexto está estreitamente relacionada com o mundo e é sempre mediada pela
linguagem cujo caráter é essencialmente histórico. Ora, dessa leitura Teixeira conclui que
ocorre um ofuscamento da idéia de verdade, a partir do qual se dá a passagem do pensamento
“forte” para o pensamento “fraco”. A verdade e a evidência enfraqueceram-se. Ambas,
17
Embora Vattimo (1990b, p. 31) afirme que na Verwindung ocorre a superação das últimas grandes dialéticas
metafísicas, ou seja, as de Hegel e Marx, é possível que seja aí que o pensamento enfraquecido se insira como a
“terceira via”, principalmente quando se leva em conta a sua intenção de mostrar que, em alguma medida, o
pensamento enfraquecido não é divorciado da tradição que vem desses pensadores.
18
Texto original: “un procedimiento de corte “empirista”, pero desprovisto de cualquier intento de iniciarse con
una cierta experiencia pura o purificada de todo condicionamiento histórico-cultural.”
20
Em outras palavras, a fundação, o início, o projeto inicial de nossas idéias não pode
ser apenas a fundamentação hermenêutica. Também a lógica que conduz o nosso
pensamento – uma vez que existe uma lógica e o desenvolvimento de nosso
pensamento não é arbitrário – se encontra na situação e está entrelaçada com os
procedimentos de controle que surgem em cada caso. (VATTIMO, 1990b, p. 19-
20).19
O enfraquecimento torna-se, então, pensamento dos fracos e dos pobres, pois todos
os detentores de poder de outrora – as autoridades em geral: o Papa, os chefes de
governo, os sindicalistas – têm sua força reduzida no processo [...] O pensamento
absoluto é sempre o pensamento da autoridade. (VATTIMO, 2008b, p. 98).
Esse tom um tanto quanto marxista de Vattimo se explica. As estruturas fortes, que são
também fontes de violência, foram estratificadas nos modelos sociais. Daí o enfraquecimento
dessas estruturas ser também uma forma de libertação social, mais ou menos nos moldes de
Marx (VATTIMO, 2001a). Recentemente, Vattimo (2008b) tem afirmado que sua experiência
atual no Parlamento europeu o levou a maturar o pensamento enfraquecido. Embora essa
19 Texto original: “En otras palabras, el fundamento, el principio, el proyecto inicial de nuestras reflexiones no
puede ser sino la fundarrientación hermenéutica. También la lógica que dirige nuestro pensamiento - puesto que
existe una lógica, y el desarrollo de nuestro razonar no es arbitrario - se encuentra inscrita en la situación; está
trenzada con procedimientos de control que se originan en cada caso”.
21
maturidade não seja ainda muito clara, ele afirma que “conhecendo de perto a máquina do
poder, tornei-me fanaticamente comunista” (VATTIMO, 2008b, p. 99). Esse posicionamento
tem a ver mais uma vez com suas leituras de Heidegger a partir das quais ele entendeu que é
sempre necessário lembrar que o ser está além dos entes e que deve-se sempre perguntar
acerca do “que é esse horizonte dentro do qual os entes aparecem” (VATTIMO, 2008b, p.
99). Semelhantemente, o pensamento marxista, segundo ele, ensina que “enxergamos as
coisas com os olhos de uma determinada classe social, para a qual uma ideologia não pode ser
vista como sendo efetivamente a única possível, como verdade objetiva” (VATTIMO, 2008b,
p. 99). Completando essa maturação, Vattimo recorre ao pensamento de Walter Benjamim
para quem
o pensamento fraco está em contra das razões da força só porque se acha entre os
fracos, entre os perdedores da história que Benjamim fala [...] Em algum sentido é,
pois, justo dizer que o pensamento fraco é o pensamento dos fracos, dos vencidos da
história que, porém, não orientam a busca da própria libertação só na vida eterna. O
‘não dito’ que a metafísica tem obscurecido desde sempre [...] é a palavra inaudita
dos vencidos da história que a filosofia tem a tarefa de fazer-nos capazes de escutar.
(VATTIMO, 2007, p. 2).
20
Já existem, inclusive, trabalhos relacionando Vattimo a alguns teólogos da libertação. Veja, por exemplo, o
trabalho de Mónica Giardina, da Universidade de Buenos Aires: Elementos para pensar el retorno de lo
religioso. Acerca de Gianni Vattimo e Leonardo Boff. In. A parte rei – Revista de filosofia. N. 54,
novembro/2007. Disponível em < [Link] Acesso em 07/09/10.
22
21
Publicado em 1984 com o título La filosofia Del matutino. Foi traduzido para o português como o último
capítulo da obra O fim da modernidade (2007a, p. 169-190).
22
Nesse seu trabalho, Vattimo parece interessado em esboçar o que significa a filosofia da manhã de Nietzsche e
como sua compreensão pode lançar luz sobre a noção de pós-modernidade. Nesse sentido, o termo Verwindung
serve como meio para explicar o que Nietzsche pretende com o nome filosofia da manhã que, para ele, “constitui
a essência da pós-modernidade filosófica” (VATTIMO, 2007a, p. 179).
23
23
E esse distanciamento, segundo Vattimo (2010, p. 90), pode ser “uma reminiscência da imagem de Deus visto
por Moisés só de costas, enquanto se afastava dali”.
24
O texto a que Vattimo se refere é Ueberwindung der Metaphysik (VATTIMO, 1988, p. 122). A complexidade
em torno da relação Ueberwindung e Verwindung é notada por Vattimo. Segundo ele (1988), a compreensão de
um só se dá em aproximação com o outro.
24
Ueberwindung, por sua vez, supõe um conceito de superar-se no qual aquilo o superado é
descartado como algo com que não mais se mantém vínculo algum. À luz dessa idéia, a
Verwindung vattimiana (1999a) apresenta-se como uma tese que mantém um laço com a
Ueberwindug25 na medida em que também significa superação, mas nos termos de uma
convalescença de uma doença, do resignar-se com alguma coisa cujos traços são mantidos,
porém, (dis) torcidos:26 “Trata-se de um termo que indica uma espécie de Ueberwindung
imprópria, de uma superação que não o é no sentido usual da palavra, nem no sentido da
Aufhebung27 dialética” (VATTIMO, 2007a, p. 178).
A exemplo do que ocorre com o pensamento enfraquecido, Vattimo entende que o
discurso sobre o pós-moderno deve ser guiado a partir da reflexão acerca vínculo da
Ueberwindug com a Verwindung. Segundo ele (2007a), é na diferença entre esses dois termos
que se estabelece o discurso acerca do pós-moderno.28 Talvez seja por conta dessas
considerações que Vattimo (2007a) afirme que a Verwindung define a posição de Heidegger
quanto à tarefa do pensamento na época do fim da filosofia em sua forma metafísica. As
filosofias modernas da história, diz Vattimo (1991), são momentos essenciais da metafísica
que Heidegger afirma ultrapassar somente em termos de Verwindung, a retomada-aceitação-
distorção.
Quando se fala do superar a metafísica em termos de uma Verwindung, não se pensa,
portanto, em uma ruptura em que a metafísica é descartada ou deixada para trás
(Ueberwindung) e nem em termos de corrigir um erro através de uma leitura mais
objetivamente correta (Aufhebung). Trata-se, antes, segundo Vattimo (2007a), de algo que
fora torcido e alterado, mas que continua ativo e presente. Como ele sugere “a ligação
Ueberwindung-Verwindung é assumida como expressão do facto de que a metafísica jamais
se pode superar, nem nesta nem noutra eventual época do ser”, porque “a ‘metafísica, uma
vez ultrapassada, não desaparece. Regressa sob outra forma e mantém o seu domínio como
25
De acordo com Vattimo (1990b; tb. TEIXEIRA, 2005), a Ueberwindung é a forma de superação característica
da dialética de cunho hegeliana.
26
De acordo com PECORAO (2007b; Tb. VATTIMO, 2007a), a Verwindung só pode ser compreendida dentro
de uma visão fraca do que significa pensar, a que Vattimo, segundo ele, soma o termo italiano remettersi que
significa remeter-se, restabelecer-se, curar-se de doença, estar convalescente, e, em certo sentido, resignar-se.
27
De acordo com Guareschi (2003), “Aufhebung significa três coisas diferentes e as três dimensões devem ser
tomadas conjuntamente, sem privilegiar uma ou outra, em detrimento das demais. Assim, aufhebung, em um
primeiro sentido, significa conservar: algo permanece do fenômeno. Em segundo lugar, aufhebung significa
negar: nega-se, retira-se algo do fenômeno. Finalmente, aufhebung significa também elevar a uma posição
superior, ou se quisermos, mudar, transformar: o fenômeno deixa de ser o que era, para assumir novo status.É
possível que Vattimo se refira a esse terceiro sentido mencionado por Guareschi.
28
Há quem considere que essa discussão deva ser levada a efeito em torno da Aufhebung dialética de Hegel.
Confira Baudelaire, Bataille e Sartre, disponível em [Link]/rccs/includes/[Link]?id=928. Acesso
em 13/09/10.
25
29
Segundo Vattimo (1990b), na noção e na prática da Verwindung está a herança dialética e, por isso, a
metafísica, que persiste na forma do pensamento da diferença (1990b, p. 31). E esse “pensamento da diferença”
encontra sua expressão mais radical em Heidegger. Se for considerar, como diz Vattimo, que a Verwindung é a
via pela qual a diferença se torna pensamento fraco, então necessariamente tem que se acolher no seu interior a
sua herança dialética.
30
De acordo com Teixeira (2005, p. 79), “o An-denken pensa o ser como diferença. É o pensamento que deixa
ser o possível, tirando-lhe a máscara de necessidade que a metafísica lhe impôs, e que impõe ao máximo na
identificação final do ser com a objetividade. O An-denken – distinto da memória como pura faculdade de
‘presentificação’ – é o pensamento regresso ao infinito”.
31
Texto original: “sinónimo de An-denken, el otro término - más corriente - con el que Heidegger, en sus obras
tardías, designa el pensamiento ultrametafísico, el pensamiento que rememora al ser, pero que, por esto mismo,
jamás lo hace presente, sino que siempre lo recuerda como algo ya ‘ido’”
26
Por meio do An-denken32 (memória, lembrança), só se é possível pensar o ser como aquilo “de
que já sempre nos despedimos” (VATTIMO, 2007a, p. 182). Ora, ao se compreender as teses
da metafísica como Ge-schick, envio, transmissão histórico-destinal, as pretensões metafísicas
perdem força. O resultado é uma espécie de relativismo historicista no qual não há Gründ,
fundamento, nem verdade última, apenas aberturas históricas que, segundo Vattimo (2007a),
constituem o próprio ser. “O ser acontece de tempos em tempos, nas aberturas histórico-
destinais” (VATTIMO, 2010, p. 90). O que se espera é que se deixe de pensar o ser como
fundamento,33 uma vez que ele não acontece por meio da presença, mas pela via da
recordação e se defini como aquilo que se transmite. O ser, diz Vattimo (1990b) é projeção,
destino. Esse tipo de perspectiva, de acordo com ele (2007a), só é possível com um apelo à
pietas, palavra que descreve a atitude para com as mensagens enviadas-transmitidas do
passado, ou melhor dizendo, com o An-denken.
A pietas anuncia uma atitude, uma disposição. Ela quer ater-se à mortalidade e à
finitude. Estas, por sua vez, são as características fundamentais do programa do pensamento
enfraquecido e aquilo que, segundo Vattimo, são as “crises que dão peso ao anúncio da morte
de Deus” (VATTIMO, 1990b, p. 34).34 Com a pietas Vattimo (1990b) quer tocar no assunto
da relevância do mundo sensível. Quer valorizar esse sentimento como meio pelo qual é
possível ouvir o outro e, ao fazê-lo, desfazer a rigidez da verdade totalizante que anula o
diálogo e a alteridade.35 Relações pessoais, liberdade e objetos diferentes são o alvo da pietas.
É nesse contexto que ela estabelece as bases para uma ética em que os maiores valores
“seriam as formações simbólicas, monumentos, vestígios da vida, tudo isto é que é oferecido e
que incentiva o desempenho: uma ética de ‘bens’, ao invés de ‘imperativo’” (VATTIMO,
1990b, p. 39).36 Pietas, portanto, para além de um sentimento, é uma atitude positiva frente à
transitoriedade da vida e às mensagens que essa vida envia e remete. É, de acordo com
Vattimo (1991), aceitar de que todo valor é um produto da vida e, como tal, não pode passar
de um monumento, de uma mensagem transmitida.
Assim sendo, o An-denken pode ser entendido apenas em temos de pietas, visto que
“se deve notar que é a dissolução da metafísica, que nos liberta para a pietas” (VATTIMO,
32
Com esse termo Vattimo (2010, p. 90) define também a maneira pela qual Heidegger compreende “um
pensamento não metafísico”.
33
Ou, como Vattimo fez parafraseando Heidegger, “um pensamento não metafísico deve ‘permitir, como
fundamento, que o Ser ande’ (VATTIMO, 2010, p. 90).
34
Texto original: “se trata de las convulsiones que dan peso al anuncio de la muerte de Dios”
35
Essa mesma definição vale também para a caridade. Confira VATTIMO, 2008a, p. 15.
36
Texto original: “serían las formaciones simbólicas, los monumentos, las huellas de lo vivo; es decir, todo
aquello que se ofrece y que estimula la interpretación: una ética de «bienes», antes que de ‘imperativos’”.
27
1991, p. 31).37 Logo, se a violência é o termo sob o qual foi regida a metafísica da presença,
pietas é o termo oposto que designa a atitude na época pós-metafísica (VATTIMO, 1991, p.
31). An-denken e Verwindung, portanto, representam a experiência piedosa de recepção e
resposta das transmissões históricas: “o ser nada mais é que a transmissão das aberturas
histórico-destinais que constituem, para cada humanidade histórica, [...] a sua específica
possibilidade de acesso ao mundo” (VATTIMO, 2007a, p. 184).38 O conteúdo do An-denken,
continua Vattimo (2007a), são as errâncias da metafísica rememoradas numa atitude de
Verwindung, ou seja, nem de superação crítica, como sugere a Ueberwindug, e nem de
aperfeiçoamento, como aponta a Aufhebung dialética . An-denkem e Verwindung são, de certo
modo ou por um momento, a mesma coisa, ou seja, “um retorno que exclui as pretensões de
absolutos, típicos dos arcai metafísicos” (VATTIMO, 1991, p. 25).39 É uma “filosofia da
história guiada pela idéia do enfraquecimento” (VATTIMO, 2004, p. 33). Esta atitude
rememorativa com o passado pode, segundo Vattimo (1991), ser resumida nos termos
heideggerianos de An-denken e Verwindung. Mas nesse vínculo, Vattimo enxerga uma
dificuldade. Segundo ele é necessário promover uma Verwindung no conceito heideggeriano
de An-denken:
[Ao] remontar através das errâncias da metafísica, Heidegger parece ter sempre em
vista um objetivo que não se identifica simplesmente com essas mesmas errâncias,
como se o remontar devesse, em vez disso, conduzir-nos a algum lugar além delas.
(VATTIMO, 2007a, p. 185).
37
Texto original: “Y se debe notar que es la disolución de la metafísica lo que nos libera para la pietas.”
38
Essas aberturas histórico-destinais, segundo Vattimo (2010), podem ser comparadas aos paradigmas de
Thomas Khun.
39
Texto original: “un retomar que excluye la pretensión de absoluto correspondiente a los archai metafísicos”
28
experiência do mundo, ao mesmo tempo em que despreza qualquer busca por fundamentos
últimos. Assim, o An-denken torna-se emancipador na medida em que liberta o pensamento da
prisão da verdade, do fundamento.
Daí, tendo na pietas o termo que define essa atitude, é possível falar de uma ética
alternativa à ética moderna baseada na idéia de “desenvolvimento”, “crescimento” e “novo”
(2007a, p. 185). Em lugar da verdade, a pietas, que Vattimo acabará substituindo pelo
conceito de caridade.
Como conclusão primária pode-se dizer que Vattimo (2007),41 apesar de reconhecer
que o termo Verwindung ocorre apenas raramente nos escritos de Heidegger e ainda que se
trate de uma idéia problemática (2003a), ele (1992) continua a atribuir-lhe um caráter central
em toda filosofia heideggeriana. A partir daí é possível traçar um elo entre a Verwindung e a
secularização em Vattimo (Tb. VATTIMO, 2004):
Esse afastamento não pode ser visto, no entanto, “como processos de distanciamento
da matriz religiosa, e sim como processos de interpretação [...] enriquecedora, daquela matriz”
(VATTIMO, 2004, p. 84). É por esse motivo que o vínculo que Vattimo (1992) propõe entre
secularização e cristianismo, colocando aquela como produto natural desse, remete-o, uma
vez mais, para a Verwindung heideggeriana. Note-se, por exemplo, essa fala: “A
secularização do espírito europeu da idade moderna não é apenas a descoberta e a
desmitificação dos erros da religião, mas também a sobrevivência, em formas diversas e, num
certo sentido, degradadas, daqueles ‘erros’” (VATTIMO, 1992, p. 47). Ou ainda:
40
A expressão que a noção de pietas substitui nessa citação é “historicismo relativista”.
41
Nessa mesma referência Vattimo cita as obras em que o termo aparece, embora ele (1998, p. 122) cite também
um outro texto de Heidegger intitulado Ueberwindung der Metaphysik.
29
Uma cultura secularizada não é uma cultura que tenha simplesmente atirado para
trás das costas os conteúdos religiosos da tradição, mas que continua a vivê-los
como vestígios, modelos ocultos e deturpados, mas profundamente presentes.
(VATTIMO, 1992, p. 47).
Não tanto em Löwith, mas decerto em Weber [...] o processo através do qual a
modernidade [...] se separa das suas matrizes religiosas originais surge como uma
amálgama inseparável de conquista e perda: a modernização não acontece através do
abandono da tradição, mas através de uma espécie de interpretação irônica desta,
uma «distorção» (Heidegger fala, num sentido não muito distante, de Verwindung),
que a conserva mas também, em parte, a esvazia. (VATTIMO, 1992, p. 47-48).
42
De acordo com Pires (2007a, p. 210), por conta da influência de Weber, “Em Vattimo, é possível encontrar o
sentido de secularização como progressiva racionalização”.
30
É esse intercâmbio que lhe permite falar desses termos como “filosofias” de fundo
kenótico, “apropriação filosófica da verdade da religião” (VATTIMO, 1999a, p. 80), ou ainda
“a transcrição da doutrina cristã da encarnação do filho de Deus” (VATTIMO, 1998, p. 26). A
kenosis, assim, é o ponto de partida usado por parte para falar da dissolução da verdade
metafísica relacionando-a ao fim da modernidade e toda filosofia de cunho heideggeriano:
De acordo com Vattimo (1998; Tb. RORTY, 2006), a dissolução das estruturas fortes
e uma perspectiva menos rígida acerca da leitura da Bíblia45 e dos dogmas são atitudes de
enfraquecimento processadas pela secularização que, ao invés de diminuir ou destruir o
cristianismo, opera sua “verdade” central que é justamente a kenosis. Nesse sentido, uma vez
43
Encarnação e kenosis em Vattimo (VATTIMO, 1999a) são a mesma coisa.
44
Ao menos no tocante à relação vital entre Verwindung e morte de Deus, Teixeira (2005, p. 114) parece
concordar com essa vinculação.
45
Que Vattimo chamará de leitura espiritual.
31
que o secularizar-se em Vattimo (1998) carrega em si a idéia de fraqueza, ele tanto realiza a
kenosis como pode ser interpretado como uma de suas conseqüências ou ainda como um
equivalente: “a Kenosis acontece como encarnação de Deus e, por último, como secularização
e enfraquecimento do ser e de suas estruturas fortes” (VATTIMO, 1999a, p. 80-81). Essa
equivalência pode ser notada no princípio que regula ambos os conceitos: primeiramente
Vattimo se refere à kenosis “como dirigida e, portanto, também limitada e provida de sentido,
pelo amor de Deus” (VATTIMO, 1998, p. 59); em seguida ele fala da “secularização como
deriva indefinida, limitada apenas pelo princípio da caridade” (VATTIMO, 1998, p. 61).46
Finalmente Vattimo (1998; Tb. 1999a) identifica a kenosis como o secularizar-se e atribui a
este um caráter kenótico. Nesse plano, a salvação de que fala a Escritura, especialmente o
Novo Testamento, é o efetivar-se da kenosis nos termos de enfraquecimento do sagrado
enquanto estrutura rígida que concebe Deus “como absoluto, omnipotente, transcendente”
(VATTIMO, 1998, p. 42-43, 56). Em outras palavras, a kenosis é “renúncia de Deus a própria
soberana transcendência” (RORTY, 2006, p. 72).
Essa perspectiva de Vattimo é usada para mostrar que a fé cristã precisa se identificar
com a humanidade, pois essa é a mensagem da kenosis, ou seja, Deus esvaziou-se de suas
características misteriosas e transcendentais para tornar-se acessível e compreensível ao ser
humano. Desse ponto de vista a kenosis se torna um escândalo para os proponentes do “salto
na fé”, para os quais Deus é transcendente, bem como para os adeptos da teologia dialética,
que interpretam Deus como o “totalmente outro”.47 Essa última, no entender de Vattimo
(1998), apesar de abordar o tema da secularização de forma positiva, a usa para acentuar a
total transcendência de Deus no tocante ao homem:
a secularização não tem como consequência revelar de uma forma cada vez mais
plena a transcendência de Deus [...] É, pelo contrário, um modo em que a kenosis
[...] continua a realizar-se em termos cada vez mais claros. (VATTIMO, 1998, p.
41).
46
Apesar da diferença terminológica, amor e caridade nesse caso tem o mesmo significado.
47
Ao longo do século XX, na opinião de Vattimo (1998), foi produzida uma vasta reflexão teológica que aponta
para o sentido purificador da secularização para a fé cristã. Entretanto, segundo ele, essas teologias acabaram por
acentuar a transcendência de Deus, o que, no final das contas, implicava num retorno ao deus metafísico e
violento da religião natural.
32
associar Barth e Bonhöeffer a teólogos como Cox, Altizer, Hamilton e van Buren. 48 Isso ele
faz, talvez, para no final afirmar que, embora o tema da secularização esteja neles presente,
em nenhum momento fica claro a “morte do Deus metafísico como lugar de afirmação
positiva da divindade por meio da idéia da encarnação” (VATTIMO, 2004, p. 51).
Vattimo situa Bonhöeffer no mesmo plano que Barth, mas com a diferença de que
para aquele, o cristianismo sem religião seria “capaz de prescindir, finalmente, da imagem do
Deus ‘tapa-buracos’, isto é, de uma verdade de Deus que só é provada através da irremediável
insuficiência do homem” (VATTIMO, 2004, p. 51). Bonhöeffer está muito mais próximo, diz
Vattimo (2004; Tb. 1998, p. 13 e 97), de uma leitura positiva da secularização do que Barth, e
isso se dá na medida em que o “Deus tapa-buracos” de Bonhöeffer é identificado com o Deus
metafísico. No fundo, ainda que seja possível notar a presença do conceito nietzschiano da
morte de Deus nesses pensadores, a total transcendência de Deus com respeito ao mundo é a
idéia comum, residindo aí, portanto, uma, ou talvez, a principal diferença entre esses teólogos
e Vattimo:
48
O pensamento de Vattimo tem afinidades com a Teologia da Morte de Deus ou com a Teologia da
Secularização, muito embora ele admita isso bem menos do que deveria.
49
Embora Vattimo, bem ao estilo Marcião, tenha certo receio quanto ao Antigo Testamento, ele reconhece que
“a kenosis começa com a própria criação e com o Antigo Testamento” (VATTIMO, 1998, p. 62), mais ou menos
nos termos de Cox em sua clássica obra A cidade do homem (1971, p. 32-48).
33
50
Especialmente herdeira do pensamento de Nietzsche, Heidegger e Gadamer.
51
Confira a obra de Girard é O Bode Expiatório. São Paulo: Paulus, 2004.
34
morte.52 Desse modo, o motivo da presença dessa idéia sacrifical na teologia cristã seria o
resíduo da religião natural que nela foi conservado.
Com isso Girard teria mostrado que “se existe uma verdade ‘divina’ no cristianismo,
esta consiste precisamente no desvendar-se dos mecanismos violentos do qual nasce o sacro
da religiosidade natural, ou seja, o sacro que é característico do Deus da metafísica”
(VATTIMO, 2004, p. 54). Assumindo como ponto de partida essas leituras de Girard,
Vattimo afirmará que a kenosis representa o fim da religiosidade natural: “Aquilo que me
parece decisivo nestas teses de Girard [...] é a idéia da encarnação como dissolução do
sagrado enquanto violento” (VATTIMO, 1998, p. 29). Finalmente, Vattimo (1998, p. 29-30)
identifica o deus violento de Girard com o deus da metafísica ou da teologia cristã tradicional:
“O Deus violento de Girard é, em suma, nesta perspectiva, o Deus da metafísica [...] A
dissolução da metafísica é também o fim desta imagem de Deus, a morte de Deus de que
falou Nietzsche.”
Com a perspectiva do enfraquecimento Vattimo estabelece também um elo de
Nietzsche e Heidegger com a kenosis donde, por conseguinte, vem a base de seu conceito de
secularização. Na verdade, é da doutrina bíblica da kenosis que veio a concepção filosófica do
enfraquecimento:
a verdade é que, a certa altura, dei por mim a pensar que a leitura débil de Heidegger
e a idéia de que a história do ser tivesse como fio condutor o debilitamento das
estruturas fortes [...], não eram senão a transcrição da doutrina cristã da encarnação
do filho de Deus. (VATTIMO, 1998, p. 26).
52
Hamilton parece enxergar, ainda que sob um prisma diferente, a relação de denúncia presente na encarnação
no que se refere ao que ele chama de religiões antigas. Segundo ele, em um sentido religioso mais amplo “Deus
está sempre morrendo, pelo dom ‘contínuo’ de Si mesmo ao mundo e aos homens”, e de uma forma mais
específica, para o cristianismo, a Encarnação significa uma espécie de morte de Deus. Hamilton entende que a
que a vinda de Jesus é o princípio da morte de Deus e que o motivo desta vinda foi eliminar a necessidade
humana dos deuses, no sentido das antigas religiões. A idéia básica da morte de Jesus conforme descrita no
Novo Testamento talvez seja “quem ama permanece em Deus” (HAMILTON, 1970, p. 205). Em outros termos,
a Encarnação substitui a religiosidade tradicional pelo princípio do amor ao próximo.
53
Trata-se do texto bíblico de Filipenses 2,5-11.
35
que, para Vattimo (1998), aparecem os vestígios e os traços de um Deus que renasce com a
mesma vocação para o enfraquecimento de que fala a filosofia de cunho heideggeriano.
Evidentemente, essa leitura segue “os resultados da crítica filosófica à mentalidade
metafísica”, na qual a kenosis “é o próprio significado da história da salvação.”54 (VATTIMO,
1998, p. 62). Na era pós-metafísica “o ser não se dá de forma definitiva na presença, mas
acontece como anúncio [...] sendo, também, um ser orientado [...] para a kenosis”
(VATTIMO, 2004, p. 87-89). Nesse texto de Vattimo o normal seria ele utilizar, ao final dela,
o termo “enfraquecimento”, como, inclusive, já fizera em outras ocasiões. Entretanto, ele
evoca a “kenosis” exatamente com o objetivo de afirmar que existe um elo direto entre a
ontologia fraca55 e a mensagem cristã kenótica. Em outras palavras, para Vattimo, a filosofia
de Heidegger tem como marca a idéia de enfraquecimento e esse conceito veio da kenosis:
“Devo dizer que onde penso que a inspiração cristã mais se faz sentir na minha leitura do
pensamento heideggeriano é na sua caracterização em sentido ‘débil’” (VATTIMO, 1998, p.
24). Em outro momento ele já afirmara que “Deus encarna, isto é, revela-se num primeiro
momento, na anunciação bíblica que, no final ‘dá lugar’ ao pensamento pós-metafísico da
eventualidade do ser” (VATTIMO, 2000, p. 106).
É daí que Vattimo irá situar o vínculo da kenosis com ontologia fraca no quadro geral
da secularização: “A relação da filosofia — desta filosofia — com a teologia cristã é
reconhecida no quadro de uma concepção da secularização que, de algum modo, prevê
precisamente uma ‘transcrição’ filosófica da mensagem bíblica deste tipo” (VATTIMO, 1998,
p. 59).56 A kenosis, diz Vattimo (2004, p. 86), é “acima de tudo, um fato arquétipo de
secularização.”. Em outras palavras, é na narrativa da Kenosis que o secularizar-se se inspira,
sendo efetivado e levado a termo durante a modernidade. Logo, a ontologia fraca seria uma
leitura legítima da kenosis bíblica.
Ora, ao se tratar sobre uma “leitura legítima” cabe uma breve análise acerca da
hermenêutica e seu vínculo com a kenosis e com a secularização. A hermenêutica, que tem
54
Pires coloca ainda que, desse ponto de vista, “a história do ser, que é a história da metafísica, identifica-se com
a história da salvação” (2007, p. 223).
55
Por ontologia fraca pretende-se referir a toda aquela filosofia que pressupõe a rejeição de toda noção rígida de
verdade com base em um Grund. Obviamente pensa-se aí principalmente em Heidegger e Nietzsche, mas
também em Lyotard e Gadamer.
56
Embora Vattimo (2000, 102) pareça não querer identificar o discurso filosófico como uma variante
secularizada do discurso teológico, ele acaba por fazê-lo. Ao reconhecer “o parentesco ou a verdadeira
dependência da ontologia débil em relação à mensagem cristã” (VATTIMO, 1998, p. 59), Vattimo transforma o
discurso filosófico em teologia disfarçada.
36
Conscientes como estamos - pelo menos desde Nietzsche e Heidegger - de que cada
nossa relação com o mundo é "mediada" [...] por esquemas culturais, por
paradigmas históricos que constituem os verdadeiros apriorismos de qualquer
conhecimento, não podemos mais nos iludir (ou, pior, nos deixarmos iludir) de que
aquilo que dizemos e que nos é dito sejam descrições "objetivas" de uma realidade
dada externamente. (VATTIMO, 2004, p. 65).
A realidade dentro desse contexto é enfraquecida porque nele tudo não passa de um
“jogo de interpretações” e a razão tomou consciência de que a verdade não pode ser
concebida como “presença estável de coisas definidas em si mesmas que a mente tem por
tarefa simplesmente espelhar objetivamente” (VATTIMO, 2004, p. 65)
Ora, a cultura ocidental está calcada na interpretação da Escritura e modernidade surge
como a tradição religiosa na sua forma secularizada. É aí que, segundo Vattimo, a
hermenêutica se insere como causa e conseqüência desse processo, ou “como retomada,
prosseguimento, ‘aplicação’, interpretação dos conteúdos da revelação cristã da encarnação de
Deus” (VATTIMO, 1999a, p. 80). É conseqüência porque é no solo da metafísica que ela
adquire concretude; e causa porque foi por causa dela que a unidade católica da Europa foi
desfeita, sobretudo por conta do princípio luterano da Sola Scriptura e da exegese racionalista
de Spinoza.
57
Essa koiné filosófica que se tornou a hermenêutica teve seu início, segundo Vattimo (1991), na obra Verdade e
Método, de Gadamer (1960) na qual são desenvolvidas as implicações da ontologia de Heidegger. Outros nomes
são destacados por Vattimo na trilha de Gadamer, entre os quais estão Habermas, Apel e Ricoeur. Contudo, será
em conexão com o pensamento de Richard Rorty, especialmente por meio da obra The Philosophy and the
Mirror of Nature (1979), que Vattimo apresentará a hermenêutica como a koiné filosófica.
37
58
A forma com que Vattimo anuncia a centralidade e a radicalidade da noção de enfraquecimento em seus
escritos e a forte vinculação que ele faz desse com a kenosis e a caridade, chega à beira do kerigma cristão, da
proclamação do evangelho, conforme presente no relato bíblico. Talvez Vattimo fuja da idéia de kerigma porque
essa sugere o anúncio da verdade que, certamente, não é o que ele pretende.
38
Em seus textos Vattimo se refere a várias “histórias”: história do ser (1989, p. 61),
história da salvação (2004, p. 35) e história da metafísica (1988, p. 76), são as mais
recorrentes. Mas ele fala ainda de história da arte (2007a, p. 46), história da interpretação
(2004, p. 76), história do pensamento (1989, p. 64), história da linguagem (1988, p. 35)
41
história da civilização ocidental (1988, p. 34)59, história dos erros (2007, p. 182)60 e até
história das coisas (1988, p. 170), para citar apenas alguns exemplos.
Mas, apesar de tantas histórias, e algumas delas serem essencialmente relevantes no
arcabouço do pensamento de vattimiano, como a história do ser, por exemplo, é à luz da idéia
de fim da história ou de fim da unidade histórica que todas as demais adquirem sentido.
Existe, naturalmente, um encadeamento cíclico no processo, de modo que é possível afirmar
que todas essas histórias propiciaram o fim da história, como também que foi o fim da história
que criou o ambiente necessário para que todas essas histórias se dessem.
Antes, porém, de tratar acerca do fim da história, deve-se recordar ainda, dois “fins”
que estão vitalmente associados a ela: o fim da metafísica (e também das metanarrativas), já
tratado no primeiro capítulo no debate acerca da Verwindung; e o fim do colonialismo
europeu (ou do eurocentrismo). É a partir deles que Vattimo cunha seu conceito de fim da
história e desenvolve todo um discurso acerca do fim da modernidade e do início da pós-
modernidade.
Existe um movimento na forma como Vattimo interpreta a mudança da modernidade
para a pós-modernidade. Com o advento do cristianismo, a perspectiva cíclica grega foi
substituída por uma perspectiva linear progressiva da história.61 Vattimo (2007a, p. VIII)
coloca que “uma das mais difundidas e confiáveis visões da modernidade é a que a caracteriza
como a “época da história”, em oposição à mentalidade antiga, dominada por uma leitura
naturalista e cíclica do curso do mundo.” Essa leitura, não obstante ser uma herança do
judaísmo, segundo Vattimo (2004), já está amplamente difundida na Idade Média por conta
dos ensinamentos de Agostinho. Nela a história é vista como sendo guiada por uma força
externa que conduz o curso dos eventos rumo a um desfecho glorioso, diferente de todo
evento já ocorrido no tempo. Essa força chama-se Providência e esse tipo de esperança é
escatológica. O cristianismo operou uma mudança nessa perspectiva judaica ao fazer do
evento Cristo uma antecipação do fim da história, ou seja, ao trazer o fim para o meio, e ao
tornar esse evento o guia da história. Oscar Cullmann62 é um dos proponentes dessa
perspectiva cristã do tempo. Para ele o tempo presente inaugurado por Jesus, não só confere
sentido ao passado e ao presente, como constitui, na história, o efetivar antecipado do Reino
de Deus, que só se tornará pleno a partir da parusia. Para Labrunie, na leitura de Cullmann:
59
Ou da cultura ocidental (1999a, p. 72).
60
Ou “histórias da errâncias” (2007, p. 181),
61
Boa parte dos estudos atuais fala, baseando-se em Agostinho, de uma temporalidade circular pagã em contra
posição a uma temporalidade linear judaico-cristã. A temporalidade pagã consistiria na doutrina do Eterno
Retorno, e a judaico-cristã numa linha sucessiva que no cristianismo tem como referência a Parusia. A
temporalidade judaico-cristã confere um sentido à história ao passo que na temporalidade pagã a história não
tem um significado, uma vez que tudo retorna integralmente.
62
A obra de referência de Cullmann nesse aspecto é Cristo e o tempo (2003).
42
Cada um desses aspectos assumiu uma faceta imanente, mundana e histórica: o curso da
história estava no próprio homem que, por meio do uso da razão, passou a ser o guia de seu
próprio destino. Com essa mudança de eixo, passa-se da Idade Média para a modernidade,
processo, uma vez mais, efetivado pela via secularizante: “a modernidade se caracteriza como
a época da Diesseitigkeit,64 do abandono da visão sagrada da existência e da afirmação de
esferas de valor profanas, isto é, em suma, da secularização” (VATTIMO, 2007a, p. 98).
63
Embora, em muitos sentidos, a autonomia da razão iluminista possa ser entendida como uma versão
secularizada da noção de “luz interior” proposta na terceira idade de Joaquim de Fiore (TILLICH, 2004).
64
Pierucci (1998) oferece uma tradução desse termo. Segundo ele “A tradução exata do substantivo Diesseits é
"o aquém". A tradução literal de Diesseitgkeit seria, portanto, algo como "aquendidade". É bem verdade que
existe em português o adjetivo citerior, que significa "do lado de cá", de modo que uma boa tradução poderia ser
"citerioridade".
43
65
Texto original: “Probablemente una de las caracterizaciones más ampliamente aceptadas de la posmodemidad
sea aquella que la presenta como el fin de la historia”.
44
pensamento como uma “iluminação” progressiva, que se desenvolve com base na apropriação
e na reapropriação cada vez mais plena dos ‘fundamentos’”. Reside nessa análise, segundo ele
(2007a), a tentativa de uma superação crítica que, por meio do reapropriar-se constante, se
chegaria, finalmente, a um fundamento originário que seria a base de todo pensamento. Outra
característica que delineia a modernidade, e talvez aquela que lhe seja fundamental, é o
império da categoria do novo. O progresso e o avanço científico têm como atividade principal
produzir a novidade e cada novidade deve ser melhor, mais avançada e aperfeiçoada do que a
anterior: “a fé no progresso, entendida como fé no processo histórico cada vez mais despojada
de referências providenciais e meta-históricas, se identifica pura e simplesmente com a fé no
valor do novo” (VATTIMO, 2007a, p. 97). Ou ainda: a “secularização da perspectiva
providencialista da história equivale simplesmente a afirmar o novo como valor, e como valor
fundamental” (VATTIMO, 2007a, p. 99). E, na medida em que se avança na “qualidade” do
novo aproxima-se ainda mais do novo originário, do novo por excelência.
Entretanto, Vattimo coloca que é no seio da modernidade, que postula um
desdobramento histórico linear, dependente crucialmente da idéia de novidade, que ocorreu
algo que atingiu vitalmente toda a sua estrutura, a saber, o fim da categoria do novo. É aí que
o discurso sobre a pós-modernidade começa a se esboçar, pois se a modernidade estava
ancorada no valor do novo e se este já não existe mais, logo, essa modernidade igualmente se
esvaiu. Desse modo, a mudança da modernidade para a pós-modernidade não se deu na linha
de superação crítica. Se assim fosse, ainda se estaria na modernidade. Vattimo (2007a)
entende que ocorreram mudanças que possibilitaram essa virada, mas não numa linha
sucessiva de eventos. O que houve foi que a base da idéia de modernidade, ou seja, o novo
como valor, se dissolveu impedindo que se sustentasse a idéia da modernidade como época
contemporânea. Desse modo, pode-se afirmar que, se a quebra da idéia de história unitária
marcou a virada da modernidade para a pós-modernidade, o fim do novo como valor indicou
como essa quebra se deu. Em suma, a pós-modernidade é o fim da unidade histórica e esta é o
fim da supremacia do novo enquanto valor fundamental da modernidade.
Mas, de que maneira a modernidade acabou criando as condições que diluíram as
categorias que lhe conferiam legitimidade, a saber, da idéia de história unitária e da idéia do
novo como valor? Vattimo oferece, ao menos, duas possíveis respostas para essa pergunta. A
primeira, que tem a ver com o diluir da categoria do novo, sugere que o progresso, entendido
como “o coração” da modernidade, se tornou rotina. De acordo com ele:
45
O progresso, desse modo, se torna rotina e o conceito do novo como valor se dissolve.
Mas a rotina do progresso se deu também por conta da secularização do próprio ideal de
progresso. Segundo Vattimo (2007a), ao longo da modernidade desenvolveu-se um
determinado tipo de raciocínio que esvaziou a idéia de progresso. De acordo com esse
raciocínio, o ideal do progresso é vazio porque seu valor final está nele mesmo, ou seja, em
criar condições para suas renovadas formas. A rigidez em afirmar o novo como valor
fundamental fez com que o novo se tornasse rotina e consequentemente, deixasse de ser novo.
Em outras palavras, a radicalização dos princípios fundamentais da modernidade preparou o
campo para seu auto-aniquilamento e para o estabelecimento de uma era multifacetada e
plural na qual toda rigidez de sentido e valores são vistos com desconfiança.
O ideal de progresso iniciou-se com o telos de um paraíso na terra, mas culminou sem
telos nenhum ao descobrir que suas ações visavam unicamente mantê-lo vigente: “o progresso
se caracteriza cada vez mais como um valor em si; o progresso é progresso quando caminha
na direção de um estado de coisas em que um progresso ulterior é possível, e nada mais”
(2007a, p. 99). Esse processo de enfraquecimento ou de aniquilamento do telos ou, como
Vattimo (2007a, p. XIII) prefere, do “para onde” do progresso, foi resultante da secularização
que é a característica própria da modernidade.
A segunda resposta tem a ver com a quebra da idéia de unidade da história. Segundo
Vattimo (2004, p. 11), “não existe um único curso da história (que culminaria na civilização
ocidental), e sim culturas e histórias diversas.”. As análises feitas sobre a historiografia
mostraram que
Em outras palavras, “a imagem da história que nós temos é toda ela condicionada
pelas regras de um gênero literário; em suma, que a história é muito mais uma “estória”, um
relato, do que geralmente se está disposto a admitir” (VATTIMO, 2007, p. XV). Como já
46
visto, a idéia de uma história unitária só se mantém por força daqueles que dela se beneficiam.
A história narrada é a história dos vencedores. Logo, os vencidos não tem história porque
“seus fatos e suas lutas são violentamente eliminados da memória coletiva. Quem administra
a história são os vencedores, que conservam apenas o que se coaduna com a imagem que dela
fazem para legitimar seu poder” (VATTIMO, 2007a, p. XIV-XV). Em Vattimo, esses
“vencedores” são outro nome para designar a hegemonia da cultura européia. Ao se tratar,
portanto, do fim da unidade da história e, com ela, do fim da legitimidade do domínio dos
vencedores, Vattimo está querendo falar sobre a queda daquilo que ele chama de
eurocentrismo (2004, p. 28), colonialismo europeu (2004, p. 64) ou imperialismo ocidental:66
Assim sendo, desde que teve fim o eurocentrismo, o imperialismo ocidental etc., não
mais é possível falarmos em uma história universal que sirva de base para as
histórias mais específicas: portanto, no fundo, não "existe" algo tal como a História.
(VATTIMO, 2004, p. 99).
Se não existe mais uma história universal e unitária, as outras histórias, antes
reprimidas e sufocadas, ganharam sobrevida. O fim da história enquanto unidade produziu o
revigoramento das múltiplas histórias.67 Ou, talvez, foi o inverso, a exposição das múltiplas
histórias que pôs fim à idéia de história como unidade. Seja como for sabe-se que a aceitar a
validade das várias formas de história na sociedade contemporânea desabona qualquer
perspectiva totalitária da história.
Touraine (1994) considera duas implicações decisivas na leitura de pós-modernidade
em Vattimo. A primeira é, como já visto, o fim da unidade da história ocasionada pelo fim da
hegemonia cultural européia, e a segunda é o desenvolvimento das mídias de massa que deu
voz à culturas minoritárias. Vattimo confirma Touraine ao colocar que:
66
Que em outro lugar ele chamou de “imperialismo moderno” (VATTIMO, 2004, p. 124).
67
O fim dessa noção de história, para Vattimo (2007a), acabou com a possibilidade de da construção de uma
filosofia da história.
47
chega-se à dissolução da ideia de história como curso unitário; não há uma história
única, há imagens do passado propostas por pontos de vista diversos, e é ilusório
pensar que existe um ponto de vista supremo, global, capaz de unificar todos os
outros. (VATTIMO, 1992, p. 9).
Ora, juntamente com a crise da idéia de unidade da história entra em crise também a
idéia de progresso, pois se não há um curso unitário dos eventos não se pode sustentar que
eles caminham para um fim emancipatório. Também essa idéia de história emancipatória era
um ideal pensado de determinado lugar, ancorado em filosofias como as de Hegel, Marx e dos
positivistas de um modo geral que, segundo Vattimo, “pensavam todos mais ou menos da
mesma forma que o sentido da história era a realização da civilização, isto é, da forma do
homem europeu moderno” (VATTIMO, 1992, p. 10). Em outros termos, o modelo de homem
da modernidade, é o europeu. Desfeita, pois, a hegemonia do Ocidente em termos de
civilização-modelo, os povos ditos primitivos, com toda sua carga cultural, renascem e o
mundo se torna uma babel cultural e racial, desabonando qualquer proposta ideológica que
pretenda ser unitária ou centralizadora.
Além do fim do colonialismo europeu, outro forte motivo para o fim da idéia de
unidade da história foi o advento do mundo da comunicação. De acordo com Vattimo (1992,
p. 10) “a impossibilidade de pensar a história como um curso unitário [...] não surge apenas da
crise do colonialismo e do imperialismo europeu; é também, e talvez mais, o resultado do
nascimento dos meios de comunicação de massa.”. Por conta da diversidade de formas de se
ver e interpretar a realidade, propiciadas pelas mídias de massa, chegou ao fim aquilo que
Lyotard chamou de metanarrativas. Assim, a dureza da unidade e da linearidade do progresso
se dissolve abrindo campo para a pluralidade das visões do mundo. Como já visto, todo esse
enfraquecimento da realidade é também, em Vattimo, uma forma de secularização. Em suma,
a crise da idéia da unidade da história levou à crise do ideal de progresso que, por sua vez,
trouxe o fim da modernidade.
idéia de que o sucesso dos atos humanos era um sinal da eleição divina. Desse modo o
protestantismo teria propiciado as condições necessárias para a independência do homem
frente suas origens religiosas. Com isso, o processo secularizatório tomou força e, segundo a
proposta weberiana, desencantou e dessacralizou68 o mundo e fez com que o progresso
substituísse a magia no processo de salvação.69 Esse desencanto do mundo, de acordo com
Mota (OLIVEIRA, 2009), abriu caminho para a técnica moderna que ampliou o
conhecimento humano acerca da natureza, ao mesmo tempo em que, pautada numa proposta
salvífica, colocou a humanidade diante da possibilidade do seu fim.
O cristianismo, especialmente o catolicismo, condenou objetivamente a secularização.
Para este, o afastamento da sociedade ocidental do cristianismo seria devido ao racionalismo e
à maneira protestante de conceber as relações do homem com Deus. De todo modo, essa
perspectiva (que aparece no Concílio Vaticano I), não é uma posição comum no seio católico
(LACOSTE, 2004). Existem também aqueles que enxergam nessa leitura uma incapacidade
de notar as condições de possibilidades para a fé que residem nesse novo contexto secular.
De um ponto de vista bíblico-teológico a desencanto do mundo tem vínculo com a
denúncia da idolatria protagonizada pelos antigos profetas de Israel. Ao adorar as obras de
suas mãos, os homens divinizam o mundo e consequentemente se afastam de Deus. O
judaísmo, ao distinguir a criação do Criador sem, contudo, eliminar o vínculo entre eles,
ofereceu elementos inéditos para compreender o mundo ao mesmo tempo a partir de si
mesmo e em relação ao Criador: o mundo não é Deus mas fala daquele que o fez, proclama
sua glória (Sl 19,1). Se for assim, encerrar o mundo em si mesmo, portanto, consiste em uma
modalidade de idolatria, pois não reconhece que a autonomia mundana é uma autonomia
criada e conferida.70 No plano cristão a encarnação de Jesus é vista como forma que confere
dignidade ao mundo ao mesmo tempo em que acentua a sua diferença para com Deus. A
secularização seria o contínuo acentuar dessa diferença e dessa dignidade. Ora, o cristianismo
e o judaísmo, entendidos como religiões que conferem ao mundo um alto grau de autonomia e
atribuem ao homem a responsabilidade de conhecê-lo na sua forma objetiva, se configuraram
na “religião da saída da religião” (GAUCHET apud LACOSTE, 2004, p. 1630).
Dessa leitura surgem abordagens positivas acerca da secularização situando-a como
resultante de uma lógica interna ao próprio cristianismo. Ao assumir a dessacralidade e a
68
A idéia de dessacralização do mundo é comumente associada à Max Weber, embora alguns, como Marramao
(1946, p. 32), considerem esse vínculo “apressado”.
69
A noção de secularização como desencanto do mundo, intimamente vinculada à racionalização é tão central
em Weber que, segundo Marramao (1946, p. 33), ela reúne “todos os estudos de sociologia religiosa”.
70
Mais uma vez vale reportar a Cox (1971, p. 32-48).
51
humanidade que se volta pra Deus por meio de atitudes religiosas. Existe, portanto, um
vínculo dialético que precisa ser considerado: a secularização interroga e revela aquilo que, na
fé, consiste em abstrair e negar o mundo. Por outro lado, a fé, inclusive, ou, sobretudo, em sua
faceta religiosa, denuncia e interroga a secularização em sua tendência de reduzir,
idolatramente, o mundo a si mesmo e de desaguar no ateísmo. Se, por um lado, a fé pode errar
ao negar o mundo em favor de uma realidade transcendente; a secularização, por sua vez,
pode errar ao negar Deus como possibilidade. Como sugere Lacoste (2004), a fé não permite
que a secularização perca Deus de vista e esta mantém o mundo sempre ao alcance da fé.
A idéia de idade moderna, como época histórica, foi criada em oposição à idéia de
Idade Média, período esse pejorativamente associado a uma época de obscurantismo
intelectual e artístico. O período moderno seria, então, o “iluminado”, ao passo que o período
medieval seria a “idade das trevas” (TILLICH, 2000, p. 145). A modernidade teria início com
o Renascimento cuja principal característica era um retorno às fontes antigas das artes e da
filosofia, causado principalmente pelo contato com eruditos vindos do império bizantino
depois da queda de Constantinopla em 1453. Com o tempo, porém, esse guiar-se nos
pensadores e textos antigos foi perdendo espaço para uma nova orientação baseada nos
pensadores e na cultura moderna. O pressuposto passou a ser que os intelectuais modernos
eram superiores aos seus modelos antigos em muitos aspectos.
Com isso impregnou-se na consciência comum o que já se observara nas ciências
naturais, nas artes e na filosofia do século XVII, a saber, o voltar-se para o novo, para além
dos moldes antigos. Foi a partir de então que, de acordo com Pannenberg (2008) a chamada
Era Moderna começou a fazer ouvir sua voz.71 Muito embora Jacob Burckhard (apud
PANNENBERG, 2008) tenha sugerido que o Renascimento significou uma ruptura com o
cristianismo e tal idéia tenha sido popularizada por Nietzsche, existem boas razões, segundo
Pannenberg (2008), para se pensar nos desdobramentos do Renascimento como interiores ao
próprio cristianismo. Um verdadeiro divórcio entre cristianismo e cultura moderna começa a
se observar, de forma mais aguda, somente a partir do século XVII. De todo modo, tanto o
Renascimento com a volta às origens como a modernidade com seu apelo ao novo,
constituem, em seu conjunto, processos de secularização.72
71
Higuet (2005, p. 9) coloca que a modernidade “se desenvolveu na Europa ocidental a partir do século XVI,
com o Humanismo renascentista e a Reforma Protestante e encontrou seus fundamentos filosóficos e políticos
nos séculos XVII e XVIII, com o pensamento empirista, racionalista e iluminista”.
72
O que aí se atribui à secularização, Touraine (1994, p. 18) confere à modernidade: “A idéia de modernidade
substitui Deus no centro da sociedade pela ciência, deixando as crenças religiosas para a vida privada”.
53
Deve-se acrescentar, ainda, a mudança no conceito de Estado que deixa de ser baseado
no direito divino e se posta sobre a natureza do ser humano. Como colocou Carl Schmitt
“Todos os conceitos expressivos da moderna teoria do Estado são conceitos teológicos
secularizados" (SCHMITT Apud PANNENBERG, 2008, p. 123). Muitas idéias democráticas,
cunhadas no novo Estado, surgiram como respostas à idéia de soberania (que, de certo modo,
esteve associada à doutrina do poder papal e ao absolutismo político) ou como desdobramento
de certos aspectos da doutrina protestante do sacerdócio de todos os crentes. Em certo sentido
a teocracia transmutou-se em democracia e a soberania de Deus deu lugar à soberania popular
estatal.
No plano da economia, Max Weber fez uma leitura semelhante. Para ele (1967), a
doutrina calvinista da predestinação traz em seu bojo a necessidade de evidenciar a eleição
divina por meio do acento moral e profissional do indivíduo na sociedade. Biéler (1990, p.
538-539) coloca que Calvino conferiu ao trabalho humano “dignidade e valor espirituais que
jamais teve na Escolástica, nem, por mais forte razão, na antiguidade. Este fato terá grande s
repercussões no desenvolvimento econômico das sociedades calvinistas”. Maia (2007, p. 157)
sugere que tanto Lutero quanto Calvino “concordavam quanto a responsabilidade do homem
de cumprir sua vocação por meio do trabalho. Não há lugar para a ociosidade”. Em sua obra A
verdadeira vida cristã, Calvino (2000, p. 77) afirma: “Se seguirmos fielmente nosso
chamamento divino, receberemos o consolo de saber que não há trabalho insignificante ou
nojento que não seja verdadeiramente respeitado e importante ante aos olhos de Deus”.
Todas essas perspectivas acabam por conferir uma odem religiosa e racional
necessárias para o desenvolvimento da economia capitalista (GOUVEIA, 1990). Com o
tempo, porém, o aspecto racional desse organismo econômico se autonomizou, ao passo que
as bases religiosas do ethos profissional se enfraqueceram. A ênfase da autonomia humana e
do enfraquecimento da religião seriam aspectos progressivos e inevitáveis da modernidade.
Ao lado de Weber, Karl Löwith (1991) cunhou uma importante teoria acerca do
processo emancipatório da cultura moderna no tocante ao cristianismo. Segundo ele, a
moderna filosofia da história é uma releitura da teologia cristã da história. Essa releitura se dá
com a troca da idéia de Providência pela de Progresso, como regulador do curso da história.
Comentando um texto de J. B. Bury, Löwith (1991, p. 67-68) afirma que “A crença num
progresso imanente e indefinido substitui cada vez mais a crença na providência
transcendente de Deus”, de modo que “a própria doutrina do progresso acabou por ter de
assumir a função de providência, ou seja, de prever e prover o futuro”. Marramao (1946)
propõe algo semelhante. Para ele a própria confiança no progresso se nutre da fé cristã na
54
O cogito cartesiano representa o início de uma nova era: a idade da razão. Isso
implica uma reivindicação ímpar e radical, por parte dos pensadores modernos, de
ruptura com a tradição anterior do pensar, ao mesmo tempo em que a modernidade
introduz o conceito de “época”. De fato, a idade moderna foi a primeira a e única a
entender a si mesmo como época, e essa autocompreensão cria, simultaneamente,
por assim dizer, as outras épocas. (SOUZA, 2005, p. 65).
Pannenberg (2008) coloca que o pano de fundo da idéia de progresso para Blumenberg
é o desenvolvimento no âmbito das ciências. A idade moderna surge como uma resposta ao
absolutismo teológico da idade medieval, como uma auto-afirmação humana diante do
cristianismo. O contínuo anúncio de salvação e perdição juntamente com a idéia da
onipotência de Deus deixou o ser humano privado de um sentido positivo no mundo.
55
Conseqüentemente, só lhe restou uma saída: rebelar-se contra esse Deus. Assim sendo, para
Blumenberg, a idade moderna tem legitimidade como uma era distinta e desconexa da era
medieval e, consequentemente, com o cristianismo. Marramao (1946) critica Blumenberg ao
sugerir que a idéia de dissolução dos valores medievais não é estranha à categoria da
secularização, mas, antes, representa uma de suas variantes. Pannenberg (2008, p. 127-128)
afirmou que “O voluntarismo teológico da Idade Média tardia estava muito distante da
tendência anti-humana que lhe foi imputada por Blumenberg”. Ademais, continua ele (2008,
p. 128) “Blumenberg deixou totalmente de lado a fé cristã na encarnação e seu alcance para a
autocompreensão do ser humano nos termos de uma, como avaliaria Hegel com razão,
afirmação infinita da liberdade humana”.
De acordo com Marramao (1946), para Blumenberg a idéia se secularização, como
categoria analítica da modernidade, traz em si todo um vínculo de dependência com a época
anterior e, para contrapô-la, ele interpreta a modernidade a partir da categoria da legitimidade
que, segundo ele, confere à modernidade certa independência de suas raízes medievais e
religiosas. A proposta de Löwith, segundo a qual a escatologia cristã criou o ambiente de
orientação no futuro cujo conteúdo foi desenvolvido posteriormente pelo iluminismo através
da idéia geral de progresso, no entanto, não é nova. De acordo com Pannenberg (2008, p.
126), Ernst Troeltsch já havia sugerido que havia um núcleo cristão no seio da modernidade e
que a expectativa de um avanço da humanidade foi retirada da esfera do milagre e da
transcendência e transposta para a esfera da explicação natural e imanente na forma de fé
histórico-filosófica no progresso.
Todas essas idéias têm em comum a perspectiva de uma virada de época caracterizada
pela emancipação (ou pelo menos a busca dela) do ser humano com respeito a Deus e ao
cristianismo.73 Mas, o que teria ocasionado essa virada epocal? Para alguns essas mudanças se
deram ao nível do intelecto e do espírito humano. Entretanto, é bem provável, como sugeriu
Dilthey, que essas mudanças na primeira fase da era moderna tenham como base as
experiências das guerras da Reforma e Contra-Reforma. Essas guerras teriam forçado uma
mudança nos fundamentos do sistema social no plano estatal, jurídico e moral, preservando-os
das divergências religiosas: a teoria do Estado passou a ser baseada no direito natural e a ética
e doutrina religiosa foram baseadas na natureza do ser humano (PANNENBERG, 2008). Com
isso o ser humano passou a ocupar o lugar central no sistema do mundo moderno. Mas ainda
73
Alguns, como Romano Gardini, sugerem que tal virada ocorreu no século XVIII. Nos séculos anteriores (XVI
e XVII) houve várias tentativas de conciliar a fé cristã com as mutações que estavam ocorrendo no mundo. A
partir do século XVIII, no entanto, essa busca de conciliação foi abandonada em prol de uma ruptura completa
(PANNENBERG, 2008).
56
Desta feita continuamos a viver na Idade Média e a história não é senão uma
teologia disfarçada: exatamente como veneração, com a qual o leitor sem instrução
trata a casta científica, é uma veneração herdada do clero. O que se entregava
outrora para a igreja concede-se agora, mesmo que parcimoniosamente, à ciência.
(NIETZSCHE, 2003, p. 69).
57
O que Vattimo (2004) está tentando fazer é conceber uma forma diferente para dizer
aquilo que também já fora dito por Löwith, a saber, que a identidade cultural do Ocidente ou o
seu elemento unificador é o cristianismo na forma secularizada. A palavra “unificador”,
embora apareça frequentemente, talvez não exprima bem o que Vattimo pretende afirmar. Em
outro lugar ele disse:
Diante da ambigüidade com que Vattimo se apropria desse termo, cabem dois
esclarecimentos: o primeiro é que “unificação” não significa reduzir as diferenças culturais e
religiosas tendo por base o cristianismo. Considerando que a idéia de unidade em Vattimo
está associada a formas de controle e domínio, como já mostrado, o seu uso deve ser mais
cauteloso. É verdade que a expressão “identidade cultural” também traz em si certa idéia de
unidade, mas nesse caso ela também ajuda a firmar aquilo que Vattimo pretende dizer, a
saber, que o Ocidente, no contexto de fins da unidade histórica, com toda a sua carga cultural,
política e religiosa multifacetada, tem no cristianismo uma origem comum. Identidade cultural
pode ser entendida como identificação cultural, como se verá mais adiante. O segundo ponto
importante a ser esclarecido é que a única forma de cristianismo que pode, na atualidade,
conferir tal identidade ao Ocidente, é o cristianismo secularizado:
Depois da queda dos conceitos de unidade e, juntamente com elas, o fim da idéia da
Europa como modelo cultural, o Ocidente passou a buscar o que seria aquilo que novamente
poderia lhe conferir algum tipo de identidade no novo mundo da pluralidade cultural. Nesse
momento ele se depara novamente com a sua tradição religiosa completamente modificada
pela secularização. Assim, a partir do momento em que o Ocidente descobre que não é mais o
centro do mundo e que não serve mais como alternativa ou referência para os assim chamados
povos em desenvolvimento, primitivos ou bárbaros, ele encontra “sua origem cristã sob a
forma de uma herança, certamente transformada e ‘à deriva’, e que, no entanto, é ainda tal a
poder constituir o seu único elemento de identificação” (VATTIMO, 2004, p. 94). Ou ainda:
58
74
Esse, aliás, é o título de um artigo de Vattimo (2008b).
75
Vattimo (2003a) chama a atenção, no entanto, para o fato que a questão da pluralidade das visões do mundo,
da fragmentação da realidade e da infinidade de sentidos no contexto da pós-modernidade, podem levar à guerra
por novas formas de identidades, uma vez que cada nova proposta de sentido quer, no fundo, legitimar-se ainda
sob o modelo metafísico, a saber, enquanto fundamento, presença e pertença. Sobre a questão da fragmentação
da realidade, em especial através das mídias de massa, confira VATTIMO, 1992, pp. 7-19.
76
Que não pode ser confundida com a ocidentalização ligada ao colonialismo e imperialismo europeu e
americano, agudamente atacados por Vattimo (2004, p. 121; Tb. 2007a, p. 155-156). O espírito “missionário” de
Vattimo revela-se ainda mais forte quando ele pensa o cristianismo em termos de religião universal: “Talvez
somente levando a sério esta utopia, o cristianismo se torne capaz de realizar no mundo pós-moderno a sua
vocação de religião universal” (VATTIMO, 2004, p. 16).
60
Embora Vattimo considere que o vínculo do Ocidente com o cristianismo seja mais
intuitivo do que lógico, ao se apropriar do título de uma obra de Benedetto Croce: Porque
não podemos não nos dizer cristãos, ele mostra que esse vínculo vai para além da intuição ao
sugerir que o título ficaria melhor se fosse “porque não podemos não nos dizer ocidentais”
(VATTIMO, 2003a, p. 56). Esse relacionamento terá, ao menos, duas implicações: a primeira
faz do cristianismo a característica fundamental, e, por conseguinte, o único elemento capaz
de conferir identidade cultural ao Ocidente; a segunda, transforma a volta da religião em uma
experiência de redescoberta do próprio Ocidente (VATTIMO, 2004).
Uma vez processado o elo sinonímico entre Ocidente e cristianismo, outros
encadeamentos viriam como conseqüência. A história ocidental torna-se, para Vattimo
(1998), também a história da salvação e ambas tem o mesmo destino: a secularização. Como
para ele (1998) a história do Ocidente é a história da metafísica, surgem outros intercâmbios
possíveis: a história salvífica é também a história da metafísica. De outro modo: a história da
metafísica é a história da salvação cujo traço constitutivo é a secularização (2004). Ou ainda:
o Ocidente é cristão na medida em que sua história revela-se como enfraquecimento da
objetividade operada pela modernidade e seus processos técnicos (2004). O secularizar-se,
portanto, é um evento tipicamente cristão (2004) e o Ocidente, como a terra do cristianismo,
torna-se, por consequência, igualmente, a terra da secularização (VATTIMO, 1998).
77
Que, no final da modernidade, surge como aquilo que Vattimo entende como sendo a mutação da tecnologia
do motor para a tecnologia da informação.
62
do progresso78 e com o fim do eurocentrismo, vem abaixo também a idéia de história como
progresso unitário. Uma vez que esses aspectos79 se mostram como insustentáveis em face das
novas condições de fins da modernidade, se tem aí, no entender de Vattimo, uma virada
epocal e o início de uma era pós-moderna.
Evidentemente o conceito de virada epocal se torna bem dificultoso quando associada
a Vattimo. Mas ele, como se notou, usa essa idéia para dar validade à sua teoria de uma época
pós-moderna. Naturalmente ele tem o cuidado de não situar essa virada na forma de superação
crítica típica da modernidade. Para ele, uma vez que não existem mais as condições que antes
mantinham válido um ideal de modernidade, também não se pode falar modernidade.
Em suma, para Vattimo, o mesmo processo secularizatório que dissolveu a história da
redenção culminando na fé no progresso, dissolveu também a própria idéia de progresso.
Assim, com o esvaziamento da fé no progresso, rui-se também o império do novo como valor
e “é essa dissolução [...] o evento que nos põe em condição de distanciar-nos do mecanismo
da modernidade” (VATTIMO, 2007a, p. 103). Tem-se, a partir de então, um novo conjunto de
eventos que marcam as condições de vida no Ocidente. Eventos esses que podem justificar a
teoria de Vattimo acerca da legitimidade da idéia de uma idade pós-moderna. E todo esse
movimento que resultou no estabelecimento dessa idade, uma vez mais pode ser colocado
como produto daquele atuar secularizante proveniente da herança cristã no Ocidente. Em
outras palavras, a modernidade científica baseada no conceito de história unitária, configurou-
se ou dissolveu-se numa pós-modernidade multicultural, somente porque ela se deu no solo
judaico-cristão. Daí vem a sentença na qual Vattimo aglutina as idéias de cristianismo,
Ocidente e secularização, a saber, que o Ocidente é cristianismo secularizado.
Feitas esses apontamentos, é importante chamar se ater em alguns aspectos
conflitantes do pensamento de Vattimo. Segundo ele, uma das razões da mudança da
modernidade para a pós-modernidade foi a quebra da unidade histórica. Essa idéia está
perfeitamente atrelada ao conceito de fim da verdade absoluta e à pluralidade de sentidos.
Contudo, em alguns momentos ele parece sobrepor esses conceitos. Exemplo disso pode ser
notado quando sugere que o cristianismo é o único elemento capaz de conferir certa
78
Que se deu, especialmente, pela rotinização do “novo”.
79
Que são os componentes em que se baseia a modernidade.
63
identidade ao Ocidente. Também quando ele fala do debolismo como a única forma possível
de cristianismo ou mesmo quando ele se refere à secularização como o realizar da mensagem
cristã. Pode-se acrescer ainda a idéia da Verwindung como a única forma de superação da
metafísica. Mas o aspecto principal do sobrepor de idéias em Vattimo tem a ver com a
centralidade da idéia de enfraquecimento. Segundo ele, o conceito de enfraquecimento atua
como fio condutor da história. Inspirado na kenosis, o enfraquecimento das estruturas fortes,
expresso na forma de secularização, conduz a história do Ocidente rumo à debilidade cujos
traços evidenciam-se em fins da modernidade e na pós-modernidade. Como conciliar essa
idéia com o conceito de fim da unidade histórica? O conceito de enfraquecimento, como guia
da história, não traz no seu bojo certa concepção de unidade? Ora, se Vattimo, como
demonstrado, ataca a univocidade da metafísica e seu reflexo perverso na prática social, ao
fazer esses apontamentos, ele não estaria também retomando o que crítica? Se for o caso, o
pensamento enfraquecido de Vattimo não seria uma vertente do pensamento forte da
metafísica e, portanto, igualmente violento?
Como o próprio Vattimo já reconhecera, o pensamento enfraquecido se tornou notório
mais pelos debates que gerava do que pela consistência de suas idéias. E, ao que parece, quase
trinta anos depois do seu famoso Dialética, diferença e pensamento débil, sua linha filosófica
continua a popularizar-se pela viela da controvérsia.
64
(1) Pode significar que Deus não existe e que jamais existiu. Trata-se de um ponto
de vista ateu;
(2) Pode significar que, em outros tempos, existiu um Deus merecedor de ser
louvado e adorado, mas que hoje não existe mais. [...]. Por ‘morte’ entendemos
um desaparecimento definitivo, sem esperança de retorno, e por ‘Deus’
entendemos o Deus cristão;
(3) Pode significar que os deuses estão sendo redescobertos [como representações
íntimas mais conformes a realidade do homem moderno];
(4) Pode significar que a realidade indicada pela palavra “Deus” permanece, o que
era, mas a palavra “Deus” não indica, adequadamente, esta realidade;
(5) Pode significar que determinados elementos da doutrina clássica com relação a
Deus devem ser eliminados, e necessariamente será eliminado o mais importante
de todos, que é a onipotência absoluta, a que resolve os problemas e provê as
necessidades;
(6) Pode significar, como parece o caso de alguns trechos das cartas que Bonhöeffer
escreveu no cárcere, que Deus nos ensina a viver sem ele; que o nosso tempo é o
tempo da ausência, do silêncio de Deus. (HAMILTON, 1970, p. 204-205).
Mas, se Deus está morto, o que é posto em seu lugar? Duas respostas são apresentadas
por Hamilton. A primeira é a sociedade humana (1970). Nesse caso, tudo aquilo que antes foi
atribuído a Deus, ou seja, perdão, segurança e consolo, devem ser transferidos para a
sociedade humana que deve ser modificada de tal maneira que seja capaz de realizar tais
ideais. Nesse sentido os utopismos, como o de Marx, por exemplo, são vistos como
possibilidades. Em outros termos, “as qualidades de Deus devem ser convertidas em valores
humanos concretos” (HAMILTON, 1970, p. 206). A segunda resposta segue nessa mesma
linha de transferência. Se Deus sempre foi adorado como aquele a quem se devia obediência,
confiança e fidelidade, essa fé e esperança agora passam a ser devotadas unicamente a Jesus
que se torna, ao mesmo tempo, modelo e paradigma dessa nova sociedade deificada. Mas para
ocorrer a mudança do mundo de Deus para a sociedade humana centrada na pessoa de Jesus, é
necessário, segundo Hamilton, um preparo espiritual guiado pelo fio condutor do amor:
mais” (VATTIMO, 2004, p. 9). Esse posicionamento frente à idéia de fundamento aponta
também para a morte de Deus como “uma tese que não se distingue de um enunciado de
‘crítica da cultura’”. (VATTIMO, 1990a, p. 57). E é na cultura ocidental e na modernidade,
que Deus se torna desnecessário, agoniza e finalmente morre:80
A complexidade hermenêutica de tudo isto consiste no fato de que Deus não é mais
necessário, revela-se como uma mentira supérflua (mentira exatamente só enquanto
supérflua) por causa das transformações que, na nossa existência individual e social,
foram induzidas exatamente pela crença nele. (VATTIMO, 1999a, p. 19).
Vattimo (2004) aborda esse assunto com dois propósitos aparentemente claros, a saber,
equivaler a morte de Deus ao fim da metafísica (1998)81 e colocar o retorno da religião como
uma de suas conseqüências imediatas.
Na medida em que a verdade das ciências modernas (que antes era parte das idéias
platônicas) se cristalizou em objetividade, a metafísica desmentiu a si própria porque a ordem
real com a qual ela sempre esteve identificada, nada mais era do que a ordem real do mundo
racionalizado. Vattimo (2004) conclui, então, que nesse contexto a própria existência, pensada
nos termos da racionalidade científica, passou a ser coisificada e o próprio ser humano foi
transformado em objeto. É isso que, segundo ele (2004, p. 23), Heidegger define como sendo
“‘esquecimento do ser’ em benefício do ente”. A multiplicidade das culturas e das
especializações científicas “fizeram, de fato, com que se tornasse impensável uma ordem
unitária do mundo” (VATTIMO, 2004, p. 24). Com isso, caem as metanarrativas82 que
pretendiam representar a estrutura estável do ser.
É nesse conjunto que consiste o fim da metafísica, e não apenas no afirmar filosófico
da não objetividade do ser. Como Vattimo coloca “trata-se de um conjunto de eventos que
transformaram a nossa existência e sobre os quais a filosofia pós-metafísica se esforça em
fornecer uma interpretação [...] e não uma descrição objetiva” (VATTIMO, 2004, p. 24).
Assim sendo, é esse mundo fragmentado e plural que, segundo Vattimo (2004, p. 24), confere
“legitimidade” ao anúncio nietzscheano da morte de Deus e ao fim da metafísica proposto por
Heidegger.
80
Hamilton (1970, p. 205), embora não fale nesses termos, já havia concebido essa relação da morte de Deus
com a modernidade ao afirmar que “Se Jesus fez da morte de Deus uma experiência possível, para o homem, o
século XIX vive nesta realidade, e nos propõe viver semelhantemente. No século XIX toda uma série de temas
se refere mais ou menos diretamente à falência de Deus no mundo e até a morte de Deus”.
81
Vattimo (2004), no entanto, reconhece que essa equivalência da morte de Deus com a fim da metafísica não é
reconhecida por Heidegger.
82
Para Vattimo (2004, p. 110), o fim das metanarrativas e a morte de Deus são a mesma coisa.
68
Este é o mundo no qual Deus foi enterrado. E com sua morte, abriu-se caminho para
uma renovada vitalidade da religião. Isso significa que junto com todo um sistema filosófico
que se via capaz de representar objetivamente as estruturas estáveis do ser, veio abaixo
também “toda e qualquer possibilidade de se negar filosoficamente a existência de Deus”
(VATTIMO, 2004, p. 25). Ou ainda:
83
De todo modo Vattimo (2003a, p. 59) sugere uma filosofia universalista, mas em termos secularizados: “Uma
filosofia universalista, secularizada e fraca argumenta, discute, ‘provoca distúrbio’, em nome mesmo dos
critérios de frouxidão e de secularização”.
69
Tudo isso sugere que não deve existir mais a diferença entre linguagem metafórica e
linguagem própria. Onde essa diferença persiste existe uma “distribuição desigual do poder
social” (VATTIMO, 2004, p. 26). Em outras palavras, qualquer regra estabelecida de forma
definitiva se torna uma mentira, um instrumento de poder. Embora na filosofia e nos vários
gêneros da escrita, seja evidente a queda das instâncias de controle sobre a metáfora, na
prática, segundo Vattimo, “ainda estamos longe de ver realizada uma perfeita igualdade entre
as formas de vida (culturas diversas, grupos, minorias, etc., de vários tipos) expressas pelos
diferentes sistemas de metáforas” (VATTIMO, 2004, p. 26).
Uma vez liberada a metáfora, pode-se dizer que “o fim da metafísica e a morte do
Deus moral liquidaram as bases filosóficas do ateísmo” (VATTIMO, 2004, p. 27). Com isso
Vattimo (2004, p. 108) sugere que, dado à falta de maior empenho na análise do anúncio da
morte de Deus, muitos filósofos ainda não compreenderam que o Deus que morre em
Nietzsche é o Deus moral, “o Deus fundamento, o Deus ato puro de Aristóteles, o Deus
supremo arquiteto da racionalidade iluminista” (VATTIMO, 2004, p. 110). Ele é contundente
quando se refere ao ateísmo filosófico ao afirmar que “Os filósofos hoje parecem ser, em sua
maioria, irreligiosos ou anti-religiosos somente por inércia e não em face de fortes razões
teóricas” (VATTIMO, 2004, p. 27). As estruturas sobre as quais repousavam as razões
filosóficas para o ateísmo ruíram e, por conseguinte, não faz sentido uma forma atéia de
filosofia ou uma filosofia que se recusa a pensar acerca de Deus e da fé:
O fato é que, com o crepúsculo das grandes metanarrativas [...] também perderam o
valor todas as razões fortes para um ateísmo filosófico. Se não é mais válida a
metanarrativa do positivismo, não se pode mais pensar que Deus não existe porque
este não é um fato demonstrável cientificamente. Se não é mais válida a
metanarrativa do historicismo hegeliano ou marxista, não se pode mais pensar que
Deus não existe porque a fé nele corresponde a uma fase superada da história da
evolução humana, ou é uma representação ideológica funcional ao domínio.
(VATTIMO, 2004, p. 109).
Senra (2007, p. 53) coloca que essa atitude filosófica antireligiosa frente ao anúncio
nietzschiano “rendeu ao filósofo, durante anos, o título de ateu, e fez com que Nietzsche fosse
mal compreendido e recebido por diversas escolas filosóficas e teológicas como um inimigo
da fé e da filosofia”.
Na modernidade Deus era negado porque não era verificável cientificamente ou
porque era reconhecido como uma fase superada da razão iluminada. Com a queda da
metanarrativas que sustentavam esses discursos, veio abaixo também as razões para um
ateísmo explícito. Assim, tem-se um renascimento do religioso na sociedade industrial
70
avançada. Pode-se dizer que as mesmas condições históricas que contribuíram para o fim da
metafísica e da morte de Deus são as mesmas que possibilitaram o retorno da religião, a saber,
o fim da referência à Europa e ao Ocidente como modelos culturais. E essa quebra de
referência, segundo Vattimo (2004) se dá em dois planos: (1) histórico-social com a queda do
colonialismo europeu; e (2) teórico com a dissolução das metanarrativas. As outras culturas
foram liberadas para manifestarem legitimamente suas formas de ver e interpretar o mundo,
inclusive no que se refere às suas expressões religiosas.
Naturalmente, esse revigoramento da religião implica também em um retorno às
formas metafísicas de religiosidade. Uma das razões principais para isso é certo desespero
frente à gravidade dos problemas colocados pelo desenvolvimento das ciências, especialmente
no tocante ao futuro do planeta. Vattimo entende que o desapontamento provocado pela
falência da estabilidade do pensamento técnico-científico abriu uma lacuna na qual a religião
achou sua oportunidade de retorno.84 Havia a expectativa de que os avanços científicos e
tecnológicos levariam o homem moderno a um tipo de maturidade na qual a religião seria
vista como algo pertencente à sua infância intelectual. As questões relativas à “salvação da
alma” seriam, na perspectiva tecno-científica, gradualmente ignoradas até tornarem-se
plenamente abolidas. Entretanto, “os limites a que chegou hoje a ciência experimental em
muitos terrenos parecem desmentir esta profecia: justamente os cientistas se encontram,
atualmente, com frequência, confrontados com as questões últimas” (VATTIMO, 2004, p.
107). Posto doutra forma, a desconfiança na estabilidade das verdades do mundo da técnica
chamou de volta as propostas de sentido da religião. Isso forçou uma busca de verdades mais
fundamentais e essenciais, o que, segundo Vattimo (2004, p. 29), exclui precisamente aquele
“pluralismo das visões do mundo que, em princípio, parece ser a condição da sua
possibilidade”. Esse paradoxo, segundo ele (1988), talvez se explique como sendo a sombra
do Deus morto de que Nietzsche falou. Todavia, salienta Vattimo (2004), o fim da metafísica
não implica na legitimidade do relativismo 85 no qual a idéia de pluralismo e tolerância torna-
se, ela mesma, uma ideologia reguladora.86
De qualquer modo, para Vattimo, o regresso da religião depende vitalmente do fim da
metafísica e da liberação da metáfora, pois é
84
Nesse aspecto Vattimo se distancia dos proponentes da teologia radical ou da morte de Deus, para os quais a
modernidade científica significava um forte instrumento de construção da sociedade humana perfeita. Confira
HAMILTON, 1970, p. 209-210.
85
Hamilton pensa que é justamente o relativismo típico do mundo pós-guerra que torna possível se falar de
morte de Deus sem ser arrogante. Confira HAMILTON, 1970, p. 202.
86
Essa legitimação do relativismo baseado na tolerância é o que Vattimo (2004, p. 29) chama de versão
democrática do fundamentalismo, ou simplesmente “comunitarismo”.
71
a liberação da metáfora que torna novamente possível aos filósofos falar de Deus, de
anjos, de salvação etc., e é, sobretudo, o pluralismo característico das sociedades da
tarda modernidade que permite que as religiões venham de novo à tona.
(VATTIMO, 2004, p. 28).
Por outro lado Vattimo sugere também que não foi somente o fim da metafísica e a
liberação da metáfora que possibilitaram o regresso da religião. Ocorreu aí uma
circularidade87 ou seja, foi exatamente no solo da religiosidade ocidental que a metafísica
encontrou os meios para conceber o ser como evento. O fato, portanto, da filosofia pós-
metafísica ser compelida a pensar em termos de enfraquecimento só foi possível por causa de
sua pertinência a essa tradição (VATTIMO, 2004). Posto de uma forma mais radicalizada,
poderia ter sido “a renovada sensibilidade religiosa quem matou a metafísica” (VATTIMO,
2004, p. 38).88
Partindo dessas leituras é possível afirmar que “é o cristianismo que supera a
metafísica” (PIRES, 2007, p. 180). Este reconhecimento abre caminho para o debate
filosófico acerca do fim da metafísica, como também oferece um parâmetro crítico para
avaliar o retorno do religioso.
Em outras palavras, aquilo que a filosofia identifica como o enfraquecimento
característico da história do ser pode ser resumido no termo secularização, que é, ao mesmo
tempo, “todas as formas de dissolução do sacro que caracterizam o processo de civilização
moderno” (VATTIMO, 2004, p. 35). Ora, se a religiosidade do Ocidente aponta para o
enfraquecimento, então a filosofia tem aí um parâmetro crítico a partir do qual ela pode
avaliar a si mesma, bem como o regresso da religião, sempre que esse regresso implicar em
trair sua “própria constitutiva inspiração antimetafísica” (VATTIMO, 2004, p. 34).
Partindo de uma análise tipológica, Fiore (2002) entendeu que cada figura e
acontecimento do Antigo Testamento anunciavam uma figura e acontecimento
correspondente no Novo Testamento. Tomando por base o Apocalipse de são João, Fiore
87
Que Vattimo (2004, p. 34) chama de “parentesco”.
88
Baseando-se em Dilthey, Vattimo afirma também que “o cristianismo pode ser considerado como o ponto de
partida para a dissolução moderna da metafísica” (VATTIMO, 2004, p. 136).
72
afirma ter recebido a revelação do “Evangelho Eterno”89, nome que, posteriormente, sua
doutrina viria a ser conhecida (LÖWITH, 1991). Ele assim descreve a sua experiência:
Löwith (1991, p. 149) afirma que “o que Joaquim viu ser-lhe revelado foi
simultaneamente o significado histórico e místico dos símbolos e figuras do Antigo e Novo
Testamentos, convergindo numa imagem total da história da salvação.” Essa história, como
descrita por Fiore, se dá em três estágios, seguindo o esquema da trindade, ou seja: o primeiro
estágio é o do Pai, o segundo do Filho e o terceiro é o do Espírito Santo. A primeira época vai
de Adão a Cristo e baseia-se na Lei, sendo regida pelo medo, pelo esforço e pelo trabalho. A
segunda época baseia-se no Evangelho e se estende do rei Uzias até uma era ainda não
claramente definida, sendo guiada pela fé, humildade, aprendizagem e pela disciplina. A
terceira, iniciada por São Bento e baseada no Espírito, vai até o reaparecimento de Elias no
fim do mundo e guia-se pela contemplação, amor e pela alegria (LÖWITH, 1991). Essa
terceira idade seria uma época de homens livres e capazes de, sem nenhum tipo de
mediadores,90 servirem a Deus em obediência e santidade. Mas, que tipo de liberdade seria
essa? Löwith (1991, p. 151) coloca que, segundo o Novo Testamento (especialmente a partir
dos textos de II Cor. 3, 17; Rom. 8,11; Gál. 4), liberdade é certa condição conferida ao
homem pelo Espírito (pneuma) tornando-o capaz de ser obediente a Deus. Essa libertação
(eleutheria) é, sobretudo, a libertação da morte e do pecado, processada no homem espiritual
por meio da obediência voluntária. 91 Tillich, embora não fale em termos de obediência,
ressalta que a liberdade é o aspecto principal deste período e aponta o amor como uma espécie
de centro regulador. Fiore se refere à caridade como sendo “a plenitude dos mandamentos”
(FIORE, 2002, p. 471). Do ponto de vista da prática religiosa, isso significa que “não há mais
submissão ao estado nem às autoridades eclesiásticas. A contemplação passa a ser
considerada a atitude correta em vez das obras, e o amor, em lugar da lei” (TILLICH, p. 184).
A terceira época será o último desvelar do desígnio de Deus na Terra e no tempo. Com
ela o pontificado e a hierarquia clerical, ou seja, a igreja existente, devem “dar lugar à
89
Expressão que se encontra em Apocalipse 14,6.
90
Inclusive ou, sobretudo, da mediação da igreja.
91
A idéia de liberdade, portanto, não exclui a obediência. O que precisa ser ressaltado é qual obediência e qual
autoridade de fato libertam. No caso de Fiore, essa autoridade é a presença comum do Espírito que produz
naturalmente essa mesma obediência.
73
próxima Igreja do Espírito”, na qual a história da salvação terá alcançado a sua plenitude. Para
Löwith (1991, p. 153), “esta última transição implica também a eliminação da pregação e dos
sacramentos, cujo poder de mediação se torna obsoleto quando se concretizar a ordem
espiritual que possui o conhecimento de Deus pela visão directa e pela contemplação”. Apesar
dessas abordagens serem de Fiore, Löwith coloca que as consequências revolucionárias
dessas idéias não foram levadas a cabo por ele, mas pelos seus seguidores:
As conclusões revolucionárias foram extraídas mais tarde por homens dos séculos
XIII e XIV, pelos espirituais franciscanos, que reconheceram em Joaquim o novo
São João Baptista, anunciando a chegada de São Francisco como o novus dux da
última idade, inclusivamente até o «novo Cristo». Para eles, a Igreja clerical estava,
na verdade, a chegar ao fim. Rejeitando a ténue distinção entre preceitos religiosos e
conselhos flexíveis, fizeram a tentativa radical de viver uma vida cristã em pobreza e
humildade incondicionais e de transformar a Igreja numa comunidade do Espírito
Santo, sem papa, hierarquia clerical, sacramentos, Sagrada Escritura e teologia.
(LÖWITH, 1991, p. 154).
O maná significa na verdade as palavras espirituais que desceram do céu [...] Ainda
foi prescrito de maneira justa que a cada dia fosse consumido inteiramente apenas
um gômor (Cf. Ex. 16,19s), para que nada restasse ao amanhecer, já que aquelas
escrituras que indicam a obra divina a cumprir-se no tempo, sem dúvida alguma
cumprem-se uma depois da outra ao seu devido tempo. E o maná que foi conservado
até o amanhecer e acabou podre, que outra coisa pode significar senão que toda a
escritura se realiza no seu tempo, e que, para aquele que espera além do sinal dado, o
que virá será para o juízo e não para a justiça? (Cf. Mt. 12,39; 16,4; Lc. 11,29).
(FIORE, 2002, p. 460-461).
74
Como sugere Tillich, na filosofia da história de Fiore “a verdade não é absoluta, mas
válida na sua época - bonum et necessarium in suo tempore - boa e necessária no seu tempo.
Nesse conceito dinâmico, a verdade se modifica de acordo com a situação” (TILLICH, 2000,
p. 184). Ainda segundo Tillich, a igreja primitiva aplicava esse preceito à sua análise do
Antigo Testamento:
passado, ou seja, no evento Cristo, ao passo que a terceira idade de Fiore pauta-se na futura
presença do Espírito em todo ser humano. A Igreja vê a si mesmo como a última etapa da
história da salvação. Fiore entende que existe ainda uma última etapa que a supera, a do
Espírito: a verdade do Espírito é superior à verdade da Igreja que é relativa.
Com um olhar também historicista, Löwith situa o pensamento de Fiore dentro de um
esquema de correção do cristianismo. Segundo ele, os elementos originais da fé cristã como a
vinda do Reino de Deus, a segunda vinda de Cristo, o arrependimento e o renascimento, via
de regra, “são ofuscados por uma enorme quantidade de direitos adquiridos e interesses
seculares” (LÖWITH, 1991, p. 158). É aí que o joaquinismo entra como um desses elementos
corretivos:
Quase não se pode negar que o Cristianismo sempre conseguiu resistir, mesmo nos
momentos em que ultrapassava uma situação crítica e discriminatória, quando era
atacado e tinha que se defender: primeiro dos judeus e dos pagãos (São Paulo),
depois das heresias (Tertuliano e Santo Agostinho), depois do averroismo (São
Tomás), a seguir da Igreja Clerical (Joaquim) e do aristotelismo escolástico
(Lutero), e ainda do racionalismo cartesiano (Pascal) e mais tarde do seu próprio
«insucesso» histórico através da secularização (Kierkegaard). (LÖWITH, 1991, p.
159).
Joaquim, assim como mais tarde Lutero93, não imaginou que seu intento religioso
original, ou seja, a historicização pensamento escatológico a respeito das últimas coisas com
vistas “a dessecularização da Igreja e reposição do seu fervor espiritual”, seria invertido e
passaria a legitimar a secularização do profano:
Tillich tem uma perspectiva parecida a de Löwith. Segundo ele (2000, p. 185), os
filósofos do iluminismo também dependeram das idéias de Fiore “ao acreditarem num
terceiro período da história em que todos haveriam de ser ensinados diretamente pela luz
interior, a luz da razão.” Também o movimento socialista, ao sugerir uma sociedade sem
classes na qual todos seriam diretamente responsáveis perante os princípios fundamentais,
baseia-se nas mesmas idéias. Daí ele concluir, não obstante esses pensadores não tivessem
93
De certo modo, porém, a reforma na intenção de Joaquim foi uma ruptura muito mais radical com a Igreja
oficial do que a reforma de Lutero, pois este nunca contestou a «letra» do Antigo e do Novo Testamento, mas
tornou ainda mais literal a sua importância.
76
conhecido Joaquim e suas idéias diretamente, “que havia uma tradição de pensamento
revolucionário, na Europa ocidental, devedora em muitos aspectos ao pensamento de
Joaquim” (TILLICH, 2000, p. 185)
Vattimo, certamente, se insere na linha desse “sacerdócio filosófico” a que se referiu
Löwith. Ao abordar o pensamento de Joaquim de Fiore, Vattimo se propõe a analisar suas
implicações para o retorno da religião na contemporaneidade, visando mostrar também a
“idéia da secularização como aspecto constitutivo da história do ser e, isto é, da história da
salvação” (VATTIMO, 2004, 38). Como se viu, o esquema de Fiore é uma teologia da
história ou uma história da salvação. Mas, em que consiste essa história? Salvação para Fiore
(2004, p. 71), além do sentido de “emancipação”, significa, antes de tudo, “uma suavização e
um enfraquecimento das estruturas ‘pesadas’ em meio às quais o ser se ‘deu’ no passado da
civilização humana” (VATTIMO, 2004, p. 69). Ele não nega explicitamente o caráter
transcendental e pós-morte da salvação, uma vez que admite que a filosofia não dipõe de
“instrumentos para decidir a questão da imortalidade” (VATTIMO, 2004, p. 69). Por outro
lado, afirma também que não existe nenhum suporte filosófico que permita falar em
sobrenatural. Desse modo, o tema da salvação da alma no além é algo de que não se pode
falar com “certeza” ou não se deve falar de modo algum. A salvação, diz Vattimo:
A leitura que Vattimo faz da história da salvação em sua forma tripartida, baseada no
pensamento de Fiore, é a mesma daquela proposta por Löwith e Tillich, ou seja, em referência
às pessoas da Trindade, a história tem três idades, estágios ou ondas: na primeira idade, a do
Pai, se vivia sob o regime da lei e da escravidão, tendo no temor o fio condutor do período e
no flagelo a palavra que resume a idade. Já na segunda idade, correspondente à era do Filho, a
vida estava sob o domínio da graça e da servidão filial que eram regidas sob a insígnia da fé.
A palavra de ordem dessa fase é a “ação”. Na terceira e última idade, a do Espírito, a ordem é
a liberdade, o guia é a caridade e a palavra chave é a contemplação. No primeiro período têm-
se os escravos, no segundo os filhos e no terceiro os amigos. O Antigo Testamento pertence
ao Pai, o Novo ao Filho e a capacidade ou a liberdade de lê-los e interpretá-los
espiritualmente é própria do Espírito. Isso faz com que a terceira idade, que Vattimo também
77
Vattimo identifica, portanto, a história tripartida de Fiore com a história do ser presente no
pensamento pós-moderno: “Em termos muito sumários o que ocorre na filosofia com o fim da
metafísica é parte da história da salvação tal como a formula Gioacchino” (VATTIMO, 2004,
p. 59). A idade do espírito, assim, equivale ao período do fim da metafísica, à morte de Deus
ou à pós-modernidade, embora ele reconheça que “Os sinais da aproximação da terceira
idade, que hoje chamamos de época do fim da metafísica, obviamente não são para nós os
mesmos de que falava Giaocchino” (VATTIMO, 2004, p. 45). Mas, ainda assim, Vattimo
acredita que “o longo processo de secularização que nos separa da época histórica do abade
78
Para que fosse possível compreender que o enfraquecimento do ser, ao qual se refere
o pensamento pós-metafísico, é um fenómeno de "espiritualização" do sentido da
Escritura, já evoquei a secularização que caracteriza o mundo moderno.
(VATTIMO, 2004, p. 59).
ele está especialmente pensando na estrutura parmenidiana que dominou a tradição filosófica
européia, segundo a qual “acredita que se possa extrair um fundamento último da realidade
sob a forma de uma estrutura objetiva que se dá fora do tempo, como uma essência ou uma
verdade matemática” (VATTIMO, 2004, p. 10). Nessa estrutura o Ser é concebido como
unidade e imobilidade e o mundo sensível como uma ilusão.94 Heidegger (2002, p. 251) se
refere a essa filosofia como filosofia “grega tardia”. O fato do cristianismo ter adotado as
categorias fortes da metafísica, portanto, foi mais por causa da influência grega do que da
mensagem evangélica (PIRES, 2008, p. 169).
Vattimo destaca, porém, que ao lado da interpretação literal que se verificou no
Ocidente desde o início do cristianismo, aplicada com fins objetivistas, corria paralelamente
um viés contrário, agrupado sob a tarja de joaquinismo, que teria sido marginalizado pela “a
aliança entre o rigor iluminista do racionalismo anti-religioso e o rigor disciplinar das igrejas”
(VATTIMO, 1999a, p. 76).
Mas o que viria a ser, enfim, essa leitura espiritual ou secularizada da Bíblia? Embora
Vattimo (1998) não apresente uma proposta clara, é possível delinear dois aspectos daquilo
que pode ser uma possível resposta. Primeiramente a interpretação da Bíblia é livre e pessoal.
Isso, porém, não equivale à aceitar de qualquer análise porque, para Vattimo “não existe
experiência da verdade senão como experiência de participação em uma comunidade”
(RORTY, 2006, p. 71). Daí chega-se ao segundo aspecto, ou seja, a leitura da Escritura deve
processar-se na “comunidade viva dos crentes” ou no ambiente da comunidade da igreja que
não é, necessariamente, a autoridade eclesiástica (VATTIMO, 1998, p. 55-56). Vattimo
(1998) não identifica a igreja com a hierarquia católica. A igreja para ele (2004, p. 16) é a
“comunidade de crentes que, na caridade, ouvem e interpretam livremente [...] o sentido da
mensagem cristã.” O Espírito Santo que Jesus enviou no Pentecostes, diz ele (1998, p. 98), é
aquele “que assiste à Igreja na interpretação secularizante das Escrituras”. Colocado de outra
forma, Vattimo está sugerindo que o controle antes exercido pela igreja na leitura da
Escritura, é assumido e aplicado, na terceira idade de Fiore, pelo Espírito. Isso não significa,
porém, que se deva desconsiderar o legado da igreja. Mesmo “as definições do papa e dos
concílios penso deverem também ser levados em conta” (VATTIMO, 1998, p. 85).
94
É claro que a forma aristótelica do primeiro motor e a platônica do mundo das idéias, enquanto formas de
arcai, também estão presentes no que Vattimo entende como filosofia grega, uma vez que, como ocorre em
Parmênides, reside nelas uma necessidade de fundamentos estáveis. Em Cristianismo e relativismo, Vattimo
(2010, p. 86) associa a violência metafísica e igualmente o mecanismo violento vitimário citado por Girard à
estrutura racional, rígida e totalizante presente também no logos heraclidiano.
80
A leitura espiritual proposta por Vattimo, portanto, envolve dois aspectos: leitura
pessoal (que não significa individual) e ausência da norma eclesiástica. Ora, mas o que é,
afinal, essa “comunidade da igreja” a que Vattimo se refere já que ela não é a autoridade
eclesiástica? Ele não explica claramente, mas se refere a ela como sendo a comunidade de
intérpretes (VATTIMO, 2004, p. 65-66) ou a “comunidade daqueles que acreditam em Jesus
Cristo” (VATTIMO, 1998, p. 93). Estes seriam os instrumentais do Espírito a partir dos quais
a leitura espiritual se basearia. Embora haja lacunas nas respostas de Vattimo, a
espiritualização da Escritura, para ele, pode ser resumida no enfraquecimento e secularização
da leitura literal da Bíblia:
95
E, a exemplo do que o corre na secularização, cujo limite é a caridade (VATTIMO, 1998), esta se apresenta
também como o limite da leitura espiritual da Bíblia (VATTIMO, 2004) e, por extensão, torna-se a principal
característica da era do espírito.
81
significa, para Vattimo, “ler os sinais dos tempos segundo o esquema de Gioacchino da Fiore”
(VATTIMO, 2004, p. 50). Em outras palavras, o processo de secularização do Ocidente,
identificado também com a morte de Deus e com a superação da metafísica, desembocou na
idade do Espírito profetizada por Fiore que é, também, o último estágio da história da
salvação. Vattimo considera a experiência religiosa ocidental como “uma longa “matança” de
Deus como se fosse uma tarefa na qual se resume o próprio sentido da religião” (VATTIMO,
1998, p. 39); e Fiore é tomado como “emblema deste modo de conceber e viver a experiência
religiosa” (VATTIMO, 1998, p. 39).
96
Vattimo divaga no que se refere a conferir um valor totalizante à sua noção de caridade. Embora ele tente não
ultimizar o amor, ele acaba por fazê-lo de qualquer modo. Sem meias palavras, ele se refere a esse princípio
como sendo a “descoberta da verdade última” (VATTIMO, 1998, p. 77), ou como “um mandamento ‘formal’,
quase como o imperativo categórico kantiano” (VATTIMO, 1998, p. 62).
82
ultimizada, uma vez que isso traria de volta a violência 97 implícita em todo discurso
totalizante e silenciaria qualquer pergunta posterior.
Pode-se iniciar o debate acerca da caridade em Vattimo, fazendo posicionando-se no
tocante ao uso de termos. Nas suas obras em português (tanto no Brasil quanto em Portugal),
na maior parte das vezes, o termo caridade aparece como tradução de caritas, que, por sua
vez, é a forma latina do termo grego ágape. É possível notar, entretanto, a presença de
caridade e caritas numa mesma obra. Em Acreditar em acreditar (1998), por exemplo,
traduzida para o português de Portugal, o vocábulo caritas aparece três vezes ao lado das
vinte e seis vezes da palavra caridade. Semelhantemente, a obra Depois da Cristandade
(2004), traduzida para o português do Brasil, apresenta caritas três vezes contra dezoito do
termo caridade. Outro termo, também muito comum nas traduções da palavra latina é amor,
que igualmente disputa um lugar ao lado de caridade, nas obras de Vattimo. Desse modo tem-
se caritas, caridade e amor como termos possíveis para expressar um aspecto importante do
pensamento de Vattimo. Qual, porém, é o mais adequado? A exemplo do que ocorreu no
estudo acerca do pensamento enfraquecido, em que se optou pelo uso do termo “fraco”, ao
invés de “débil” ou “debole”, baseado, sobretudo, na maior freqüência do termo nas traduções
brasileiras, segue doravante, a escolha pelo termo caridade, pelas mesmas razões.98
Vattimo utiliza o conceito de caridade bem livremente, sem se ater aos pormenores
semânticos do termo. Para ele caritas, eros e ágape são relativamente a mesma coisa ou estão
estreitamente relacionados:99 “não estou absolutamente convencido de que se possa sustentar
que este amor, eros, não tem a ver com a caritas, com a ágape, que é pregada pelo
Evangelho” (VATTIMO, 1998, p. 69). Tal atitude é compreensível, ao menos, por dois
motivos. O primeiro está ligado à leitura não metafísica, que Vattimo tem, acerca da idéia de
caritas, o que o impediria de conferir ao termo qualquer sentido rígido.100 A segunda tem a
ver com a própria história da interpretação desses termos que não encontra uniformidade entre
seus intérpretes.
De acordo com Brown (2000), aquilo que se tem traduzido ou aquilo que se conhece
como sendo “amor” se diferencia em grego com várias expressões. Phileo é a palavra que
mais comumente se emprega e indica uma atração geral para com uma pessoa ou coisa. Em
97
Aliás, para Vattimo (1998, p. 60, nota 16) “o silenciar de qualquer pergunta ulterior com a peremptoriedade
autoritária do primeiro princípio, [é..] a única definição filosófica possível da violência”.
98
Embora, ao contrário das expressões “débil” (Portugal) e “fraco” (Brasil), o termo “caridade” apareça tanto
nas traduções brasileiras como portuguesas.
99
A pietas também poderia ser acrescentada nessa tríade. Confira as páginas 19-21 dessa dissertação. Pires,
inclusive, ao acentuar o aspecto ético da idéia de caritas, a analisa em consonância com a noção de pietas que,
segundo ele, em Vattimo, significam a mesma coisa. Confira PIRES, 2007, p. 231.
100
Essa é, inclusive, a opinião de Pires (2007, p. 228).
83
primeiro plano fica o significado de amor para com os parentes e amigos, mas a área inteira
da afeição inclui também deuses, homens e coisas como objetos possíveis. Philia, por
conseguinte, denota “amizade”, “favor”; e philos é um “parente” ou “amigo”. Com sentido
oposto aparece o eros, ou seja, o “amor” que deseja ter ou tomar posse. Agapao, que
originalmente significava “honrar” ou “dar boas-vindas”, é, no grego clássico, a palavra que
tem menos sentido específico; freqüentemente se emprega como sinônimo de phileo, sem
haver qualquer diferença necessariamente nítida quanto ao significado. No novo testamento,
porém, o verbo agapao e o substantivo agapê assumiram um significado especial, sendo
empregados para falar do amor de Deus ou o modo de vida que nele se baseia.
Segundo a New Word Encyclopedia (2010), no novo testamento, ágape significa,
sobretudo, o amor de Deus para com a humanidade, o que confere ao termo um caráter de
amor incondicional, voluntário, auto-sacrificante e gratuito. Veja-se, por exemplo, os textos:
“Pois Deus amou tanto o mundo que entregou seu Filho único” (João 3,16)101; “Mas Deus
demonstra seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós quando éramos
ainda pecadores” (Romanos 5,8), “Aquele que não ama não conheceu a Deus, porque Deus é
amor” (1 João 4,8). Esse amor também pode ser vivido nas relações interpessoais, de um ser
humano para o outro: “Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22,39), “Amai-vos
uns aos outros como eu vos amei” (João 15,12), “A caridade não pratica o mal contra o
próximo. Logo, a caridade é a plenitude da lei” (Romanos 13,10).102 Como também pode ser
uma forma do amor do homem para com Deus: “Amarás o Senhor teu Deus com todo o teu
coração, de toda tua alma e de todo o teu entendimento” (Mateus 22,37). No entanto, o verbo
agapao é também usado em um sentido negativo, conservando seu significado mais geral de
“carinho” ao invés de amor incondicional, ou divino. Tais exemplos incluem: “pois Demas
me abandonou por amor do mundo presente. Ele partiu para Tessalônica” (2 Timóteo 4,10);
“pois amaram mais a glória dos homens do que a de Deus” (João 12,43), e “a luz veio ao
mundo, mas os homens preferiram as trevas à luz, porque suas obras eram más” (João 3,19).
Para Tillich (2000), - que, como Vattimo, se baseia em Santo Agostinho - caridade103,
é uma mescla de ágape e eros. Segundo afirma, o ágape é Deus descendo ao homem através
da humilhação de Cristo para elevar toda a humanidade. O eros, por sua vez, é um movimento
de baixo para cima, é um desejo de plenitude provocado pelo maior no menor. “O Logos que
se faz carne é ágape.”, diz Tillich, “Mas toda a carne (toda a realidade natural e histórica)
101
As traduções citadas nesse tópico são todas da Bíblia de Jerusalém (1980).
102
Percebe-se que, por vezes, a Bíblia de Jerusalém também traduz ágape por caridade.
103
Tillich (2000, p. 128) não usa a expressão “caridade” por considerar que ela está “degenerada”. Ele prefere a
expressão latina caritas.
84
deseja Deus; isso é eros.”, conclui. Se é assim, logo “não se pode falar de amor para com
Deus se eliminarmos eros. Trata-se do amor para com o mais alto poder de ser que existe, no
qual nos realizamos” (TILLICH, 2000, p. 128). Pode-se dizer, portanto, com base no que fora
posto, que tratar o conceito de ágape de forma geral para designar diferentes formas de amor,
como o faz Vattimo, não é novidade na história da interpretação desse termo grego.
Reportando-se a Agostinho, Vattimo (1999a, p. 79; Tb. 2004) toma a idéia de “ama e
faze o que quiseres” (Dilige, et quod vis fac) para afirmar que a caridade é “o único critério na
base do qual se deve encarar a secularização” (VATTIMO, 1998, p. 59). Mas a caridade, para
Vattimo (1999a) não é apenas o limite da secularização é também o seu fim. É o que sobra
depois do desmascaramento da verdade objetiva. Não se trata, entretanto, de uma verdade
purificada de suas representações, mas de uma modalidade de verdade dialogal definida em
termos de caridade:
Nesse sentido a secularização significa uma “deriva indefinida, limitada apenas pelo
princípio da caridade” (VATTIMO, 1998, p. 61). Esse princípio, enquanto tal, somente terá
validade se não for expresso de maneira concreta na realidade das pessoas. Logo, o contexto
histórico em que se vive, o “aqui e agora” (VATTIMO, 1998, p. 38), é o ambiente apropriado
para o exercício do princípio regulador da secularização e também o guia na leitura e
interpretação do texto bíblico.104 O que Vattimo (1998) pretende é fazer um paralelo com
Jesus, ou seja, assim como nos evangelhos Jesus é descrito reduzindo a Lei e os Profetas ao
princípio do amor,105 a secularização ou o movimento da kenosis igualmente reduziu os
conteúdos da fé cristã, reencontrados através da ontologia débil, ao princípio da caridade. Ou,
em termos mais radicais, o princípio da caridade é o “único conteúdo decisivo da mensagem
evangélica” (VATTIMO, 1999a, p. 79).
A única verdade que as Escrituras nos revelam, aquela que não pode, no curso do
tempo, sofrer nenhuma desmistificação106 - visto que não é um enunciado
experimental, lógico metafísico, mas sim um apelo prático - é a verdade do amor, da
caritas. (RORTY, 2006, p. 71).
104
Pires (2007, p. 228) fala da caritas como “princípio hermenêutico para o diálogo”.
105
Vattimo, provavelmente, pensa nas passagens evangélicas de Mateus 22,34-40 e Marcos 12,28-31.
106
É provável que o termo correto nessa frase seja “desmitificação”, como aparece em outros textos de Vattimo.
Possivelmente trata-se de erro ortográfico.
85
Essa redução, para Vattimo, significa “interpretar a palavra evangélica como o próprio
Jesus a ensinou, traduzindo a letra muitas vezes violenta dos preceitos e profecias em termos
mais conformes ao mandamento supremo da caridade” (VATTIMO, 1998, p. 73). Essa “letra
violenta” a que Vattimo se refere é outra forma dele se referir ao conceito de verdade
metafísica. A caridade surge, assim sendo, como oposto ou como uma alternativa a essa
verdade: “Aplicar o princípio de caridade em lugar do princípio de verdade exige que se
preste atenção ao outro, também e sobretudo reduzindo o peso dos próprios preconceitos”
(VATTIMO, 2003b, p. 21). De acordo com Vattimo (2004; Tb. PIRES, 2008), o pensamento
ocidental - por força da influência grega que concebe a realidade em termos objetivos - se
impos à mensagem cristã originária que lhe era contrária, ou seja, que apontava para o
enfraquecimento das estruturas rígidas sobre as quais a sociedade grega estava posta. Este elo
com o modelo grego de pensar levou os pais da igreja e depois todo o pensamento medieval, a
identificar Cristo com a verdade. Com isso surge a idéia de uma verdade básica a partir da
qual o pensar só se dava em termos descritivos e objetivos. Consequentemente, o discurso
católico passou a sustentar que “não há liberdade sem a verdade, não há caridade sem a
verdade” (VATTIMO, 2006, p. 80).
Essa luta entre o “resíduo objetivo” da metafísica grega e a novidade representada pelo
movimento inaugural da mensagem cristã é, segundo Vattimo, uma tentativa de estabelecer a
verdade em vez amizade. Amizade essa que conseguiu algumas vitórias em Kant, Nietzsche e
Heidegger. Contudo, segundo Vattimo, mesmo estes dois últimos não levaram a cabo, de
forma radical, a proposta da mensagem cristã paradigmatizada na kenosis: “Nietzsche e
Heidegger [...] permanecem, eles também, prisioneiros do objetivismo grego e se recusam a
levar até as últimas consequências as implicações da revolução antimetafísica cristã”
(VATTIMO, 2004, p. 138). Implicações estas que “não podem ser plenamente desenvolvidas
sem o recurso à caridade” (VATTIMO, 2004, p. 138). Em outras palavras, é na caridade que
se abre o horizonte no qual se configurará um “valor” de consenso e é a partir daí que se pode
falar que a verdade é uma “emersão da caridade no lugar do próprio valor tradicional do
verdadeiro” (VATTIMO, 2004, p. 66).107
Com a morte do Deus moral se abriu o caminho para a verdade do cristianismo
orginário, ou seja, para a verdade que não se constrói na obediência, mas na amizade. Essa
107
A experiência pós-moderna da verdade apresenta-se como experiência estética, o que, todavia, “nada tem a ver
com a redução da experiência da verdade a emoções e sentimentos ‘subjetivos’, mas, antes, leva a reconhecer o
vínculo da verdade com [...] a ‘substancialidade’ da transmissão histórica” (VATTIMO, 2007, p. XIX). É por
isso que para Vattimo (2007, p. XVII) a pós-modernidade representa “uma possibilidade de existência diferente
para o homem”.
86
morte significa que não existe nenhuma verdade objetiva e que toda expectativa de verdade
não pode ser nada mais é do que “a expressão de uma amizade, ou de uma vontade de
potência, de uma ligação subjetiva” (VATTIMO, 2004, p. 131).
Ora, assim como o pensamento religioso, ao diminuir o peso da letra e ao aceitar a
verdade da outras religiões, acabou descobrindo o princípio da caridade; também o pensameto
filosófico, ao perceber a que a história do ser, na época do fim da metafísica, é um destino de
enfraquecimento, se conscientizou de que esse destino era sua única referência em termos de
interpretação e escolhas morais. Sendo assim, é possível estabelecer um elo entre o princípio
da caridade e a idéia de enfraquecimento: ambos significam a redução da violência. De acordo
com Vattimo, a redução da violência presente na dureza do pensar filosófico, resultantes de
uma leitura da história do ser como evento, é “um sinônimo do que a linguagem religiosa
chama de caridade atestando, mais uma vez, não apenas uma analogia e sim um verdadeiro
parentesco, como proveniência, entre a filosofia pós-metafísica e a herança cristã”
(VATTIMO, 2004, p. 67). Talvez seja por conta disso que, para Vattimo, “Verdade como
caritas e ser como Ereignis, evento, são dois aspectos estreitamente interligados”
(VATTIMO, 2004, p. 140).
Deus; e é daí que ele entende que a “caridade toma o lugar da disciplina” (VATTIMO, 1999a,
p. 76). A caridade, portanto, como entende Vattimo, não é utilizada para suplantar o conceito
de justiça divina, como sua oposta, mas para contrapor a idéia de sagrado natural violento
que, por sua vez, está intimamente ligada ao ensinamento acerca da justiça de Deus. Desse
modo, a “afronta” que Vattimo faz à justiça de Deus é somente por extensão, não havendo no
seu pensamento nenhuma forma de oposição explícita. Vattimo, na verdade, se refere à
caridade e à justiça de Deus como “os dois rostos de Deus”, representando, cada um deles,
“momentos diversos da história da salvação” (VATTIMO, 1998, p. 89).
O princípio da caridade deve se prestar a tornar o cristianismo mais leve e menos
punitivo, e é com esse pensamento que Vattimo (1998) se volta para os dogmas da igreja. Seu
objetivo é mostrar que o princípio da caridade não anula os dogmas, mas os suaviza. Para
tanto ele recorre, novamente, ao conceito de secularização, tratado-o, porém, em termos de
desmitificação. Uma vez que a secularização esvazia o cristianismo de seus aspectos rígidos e,
mais do que isso, desabona qualquer leitura totalitária e definitiva das Escrituras, os dogmas
da igreja também devem a ser tratados de maneira menos rigorosa. É a partir daí que Vattimo
utiliza o termo desmitificação como um substituto de secularização. Não há nenhum interesse
em se evitar o termo secularização. Isso é feito, talvez, porque Vattimo não pretende sucumbir
os dogmas, mas relê-los.
Segundo ele (1998), toda gama de relatos míticos da Bíblia devem ser vistos como
recursos pedagógicos usados para conduzir a humanidade ao aprendizado da caridade como
princípio básico de Jesus. Nos mitos da Escritura está “escondido” o princípio da caridade.
Por isso, essa carga mítica precisa ser removida. E é aí que a secularização apresenta-se como
um processo de desmitificação e racionalização108 que abre campo para uma espécie de
maturidade religiosa.109 Essa desmitificação, entretanto, nunca ocorre plenamente
(VATTIMO, 1998, p. 54) e a secularização será sempre um ato inacabado:
108
Vattimo (1998) contrapõe certo tipo de racionalidade teológica que, em face das desgraças do mundo
aparente, projeta todo o bem para outro mundo. De igual modo ele rejeita a racionalidade moderna que, baseada
no historicismo e no desenvolvimento da ciência, apregoa o ateísmo e o fim da religião. Racionalizar em
Vattimo, portanto, tem o sentido de tornar compreensível à mente humana, sem nenhuma pretensão de se chegar
à verdade derradeira.
109
Vattimo não usa o termo maturidade religiosa de forma direta. Isso se dá, talvez, porque o termo é muito
presente nos teólogos da morte de Deus e da secularização e também está vinculado a certa noção moderna de
progresso que Vattimo (1999a) pretende superar.
88
110
O princípio da caridade, aliás, torna-se, em Vattimo (1999a), no ponto de convergência entre a hermenêutica
niilista e a tradição religiosa do Ocidente. A ética do mundo pós-moderno ou pós-metafísico, que Vattimo
também chama de ética hermenêutica, é também baseada na caridade.
111
Vattimo se refere a esse tipo de dogmatismo como “superstições metafísicas” (VATTIMO, 1998, p. 73).
112
Como é sabido, Vattimo é homossexual e, além do estudo da filosofia, a questão da moral sexual foi outra
razão que o levou a “sair” da igreja (VATTIMO, 1998, p. 70).
89
Vattimo (2001a; Tb. VATTIMO, 2001a) engloba tanto a morte de Deus como o fim da
metafísica, sob a categoria do niilismo que, para ele, significa “o fim da crença em uma ordem
objetiva do mundo” (VATTIMO, 2004, p. 132).113 Em outro momento Vattimo afirmou que
Nietzsche não enxergou que o niilismo não é somente efeito do anúncio da morte de Deus
proferida por ele, mas é, igualmente, da morte de Deus em Jesus descrita nos evangelhos:
113
De modo circular Vattimo (2007a) também resume todo o processo do niilismo na morte de Deus.
90
“Não é tão absurdo sustentar que a morte de Deus anunciada por Nietzsche é, em muitos
sentidos, a morte de Cristo na cruz narrada pelos evangelhos” (VATTIMO, 2007a, p. 66).
Ora, uma vez sustentado esse “absurdo”, não fica difícil para Vattimo afirmar que “os
herdeiros mais radicais do princípio antimetafísico, introduzido no mundo por Cristo são o
Nietzsche da morte de Deus e o Heidegger doutrina da Ereignis” (VATTIMO, 2004, p. 137).
A morte de Deus em Nietzsche, ou a superação do Deus moral, definida no
pensamento contemporâneo como o fim da metafísica, não implica, segundo Vattimo (2004),
no término da experiência religiosa. Antes, “justamente porque este Deus-fundamento último,
que é a estrutura metafísica do real, não é mais sustentável, torna-se novamente possível uma
crença em Deus” (VATTIMO, 2004, p. 12). Teixeira coloca que a morte de Deus significa “o
fim da estrutura estável do ser, e também qualquer possibilidade de enunciar que Deus existe
ou não existe” (TEIXEIRA, 2005, p. 114-115). Rocha (2008), por sua vez, afirma que o Deus
que morreu em Nietzsche foi aquele que nasceu da religião cristã e do platonismo cujo legado
foi um dualismo intransponível entre o mundo do ser e o mundo do devir.
Vattimo, em vários aspectos, segue a proposta de Hamilton, especialmente no tocante
à centralidade da kenosis de Jesus e do princípio do amor ao próximo como as únicas formas
de se viver num mundo para o qual Deus está morto. O elo entre encarnação e o fim da
religiosidade cristã tradicional também pode ser visto como um paralelo da kenosis e a
religião natural citados por Girard. O deus cristão que morre na teologia de Hamilton, por sua
vez, pode ser lido como o deus metafísico de Vattimo. Finalmente, o realizar da esperança
cristã no contexto da sociedade humana como sendo a única forma de cristianismo possível
fecha a lista de aspectos comuns entre Vattimo e o teólogo radical. Mas Hamilton não foi
tomado para se estabelecer as semelhanças entre seu pensamento e o de Vattimo. Suas
considerações foram abordadas porque elas resumem, ao menos em parte, a leitura que se tem
feito acerca da idéia nietzschiana da morte de Deus.
O conceito de secularização como processo que cumpre a história da salvação, sempre
guiada pela idéia da morte de Deus e da kensosis, se inspira, segundo Vattimo (VATTIMO,
1998), além de em Heidegger e Girard, também Fiore. A idade do espírito tem a marca da
idéia que Vattimo tem do termo espírito. Trata-se de uma época que não se baseia em uma
perspectiva rígida da realidade, especialmente no tocante à leitura da Bíblia e dos dogmas da
igreja. A etapa final da história da salvação, identificada com a terceira idade de Fiore e com a
pós-modernidade, é dominada pelo caráter secundário, ornamental e estético que toma o lugar
da verdade objetiva da época metafísica:
91
o próprio termo “espírito”, “pneuma” significa, em origem, sopro, vento, hálito; algo
essencialmente volátil, fugaz, do qual o pensamento já perdeu a memória quando
começou a concebê-lo como finalidade evidente e incontestável da autoconsciência.
(VATTIMO, 2004, p. 68).
5. CONCLUSÃO
114
Vattimo faz referência a essa idéia em diversas ocasiões (2004; 1998; 2000).
95
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