Canto III - Inês de Castro
Canto III - Inês de Castro
D. Inês de Castro era uma fidalga galega, que fez parte da comitiva da infanta D. Constança
de Castela, quando esta, em 1340, se deslocou a Portugal para casar com o príncipe D. Pedro.
A beleza singular de D. Inês despertou desde logo a atenção do príncipe, que veio a
apaixonar-se profundamente por ela. Desta paixão nasceu entre D. Pedro e D. Inês uma ligação
amorosa que provocou escândalo na Corte portuguesa, motivo por que o rei resolveu intervir,
expulsando do reino Inês de Castro, que veio a instalar-se no Castelo de Albuquerque, na
fronteira de Espanha. D. Constança morre de parto em 1345 e a ligação amorosa entre D. Pedro
e D. Inês estreita-se ainda mais: contra a determinação do rei, D. Pedro manda que D. Inês
regresse a Portugal e instala-a na sua própria casa, onde passam a viver uma vida de marido e
mulher, de que nascem quatro filhos.
Os conselheiros do rei chamaram a atenção de D. Afonso IV para os perigos que poderiam
advir dessa circunstância, uma vez que seria natural antever a possibilidade de vir a criar-se uma
influência dominante de Castela sobre a política portuguesa. E persuadiram o rei de que esse
perigo poderia afastar-se definitivamente; para isso, seria necessário matar D. Inês.
Quando D. Inês soube desta resolução, foi ter com o rei, rodeada dos filhos, para implorar
misericórdia, uma vez que ela se considerava isenta de qualquer culpa. Mesmo assim, a
execução de D. Inês efetuou-se a 7 de janeiro de 1355, que, segundo o ritual e as práticas
daquele tempo, foi decapitada. Anos depois, em 1360, D. Pedro I, já então rei de Portugal,
jurou, perante a sua corte, que havia casado clandestinamente com D. Inês um ano antes da sua
morte e coroou-a rainha. Os seus túmulos estão, lado a lado, no Mosteiro de Alcobaça.
1
Partes Est. Resumo Recursos Expressivos
Inês tem, em Coimbra, uma vida tranquila, feliz e Personificação: «Aos montes
despreocupada. Apenas as saudades do seu príncipe lhe insinando e às ervinhas» (120)
causam alguma perturbação. Esta descrição introduz uma
Perífrase: «O nome que no peito
nota trágica, pois o narrador afirma “Que a Fortuna não
120 deixa durar muito”, o que significa que o destino não escrito tinhas» = D. Pedro (120)
2ª - deixa os homens serem felizes por muito tempo. Antítese: «De noite, em doces
121 sonhos que mentiam/ De dia, em
pensamentos que voavam» (121)
120 – Atmosfera de tranquilidade
Apresentação de algumas razões que levaram D. Afonso Apóstrofe: «tu, puro amor,
IV a ordenar a morte de Inês: o murmurar do povo, que desprezas,» (122)
se opunha à união de Inês e D. Pedro; o infante D. Pedro
recusa casar-se com outras princesas. (122)
122 Eufemismo/ hipérbato: «Tirar Inês
Assim, D. Afonso IV convence-se que só a morte de Inês
3ª - ao mundo determina» = matar (123)
apagará «o fogo aceso» do amor. (123, vv. 1-4)
123
Indignação do poeta diante daquela decisão tão cruel,
pelo facto de o rei usar contra Inês de Castro, uma
donzela indefesa e inocente, a mesma força que usou
contra os Mouros. (123, vv. 5-8)
O rei sente piedade de Inês, mas o povo não o deixa Hipálage/ dupla adjetivação: «Com
124 mudar a sua decisão de mandar matá-la. Inês é descrita tristes e piedosas vozes» (124)
4ª - num quadro de tristeza: ela é trazida pelos algozes
125 (carrascos), olha para os filhos e, com uma voz piedosa e
triste, prepara-se para falar ao rei.
2
Num discurso comovente, Inês tenta convencer D.
Afonso IV a não a matar. O seu discurso divide-se em
quatro partes:
130 Inês é assassinada pelos algozes. Este ato é condenado Pergunta retórica: «Contra hua
vv. pelo poeta («Contra uma dama, ó peitos carniceiros, / feros dama, ó peitos carniceiros, / Feros
5-8 vos amostrais e cavaleiros?» 130 vv. 7-8) e é comparado à vos amostrais e cavaleiros?» (130)
7ª morte de Policena (filha de Príamo, rei de Troia, foi
- sacrificada por Pirro, filho de Aquiles, sobre o túmulo
132 deste último). Comparação: «Qual … Tais …» (131-2)
3
nome de D. Pedro – e as lágrimas choradas pelas ninfas aquele dia» (133)
do Mondego transformaram-se na Fonte dos Amores, em
Comparação: «Assi como a bonina
Coimbra. Descrição emotiva do corpo de Inês morta: é
comparada a uma flor campestre, a bonina, que, antes de […] Da minina que a trouxe na
capela,» (134)
ser cortada, é pura e bela; depois de cortada, fica sem
cheiro e sem cor. Metáfora: «Que lágrimas são a
água» (135)
Nota que:
Apesar de ser também responsável pela morte de Inês, D. Afonso IV nem sempre é
descrito, neste episódio, como um terrível vilão. O poeta tenta, em vários momentos,
desculpar a atitude do rei:
● «Traziam-na os horríficos algozes / Ante o Rei, já movido a piedade; / Mas o povo,
com falsas e ferozes / Razões, à morte crua o persuade» (124);
● «Queria perdoar-lhe o Rei benino, / Movido das palavras que o magoam; / Mas o
pertinaz povo e o seu destino / (Que desta sorte o quis) lhe não perdoam» (130).
4
Questão do Exame
TEXTO C
122
De outras belas senhoras e Princesas
Os desejados talamos1 enjeita,
Que tudo, em fim, tu, puro amor, desprezas
Quando um gesto suave te sujeita.
Vendo estas namoradas estranhezas,
O velho pai, sesudo, que respeita
O murmurar do povo, e a fantasia
Do filho, que casar-se não queria,
123
Tirar Inês ao mundo determina,
Por lhe tirar o filho que tem preso,
Crendo c’o sangue só da morte indina
Matar do firme amor o fogo aceso.
Que furor consentiu que a espada fina,
Que pode sustentar o grande peso
Do furor Mauro, fosse alevantada
Contra ũa fraca dama delicada?