Direito Internacional Privado Sebenta
Direito Internacional Privado Sebenta
PRIVADO
Apontamentos baseados em:
• Preleções dos Profs. Doutor Afonso Patrão e Doutor Rui Dias;
• A. Ferrer Correia, Lições de Direito Internacional Privado I ;
• J. Baptista Machado, Lições de Direito Internacional Privado.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
Prof. Doutor Afonso Patrão
Direito Internacional Privado
Prof. Doutor Rui Dias
I – INTRODUÇÃO
Na reta final da formação jurídica essencial, é um passo importante abordar um determinado tipo de
problemas que exija ou pressuponha a generalidade dos conhecimentos adquiridos em disciplinas já lecionadas:
em Direito Internacional Privado, essa ideia é particularmente central, posto que são mobilizados conceitos,
esquemas e métodos já estudados e analisados em diversas unidades curriculares do grande ramo do Direito
Civil, avançando ainda com problemáticas e soluções específicas do curso; daí emerge a sua célebre dificuldade.
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3.º) A geração de uma acentuada insegurança jurídica (as partes não poderiam, as mais das
vezes, contar com as concretas diferenças ordenamentais que influiriam, diretamente, na sua
condição jurídica), na decorrência dos anteriores.
Ainda na definição de relação jurídica privada internacional, cabe identificar este objeto, atenta esta
classificação, num quadro de possíveis situações (no fundo, saber quais os casos que realmente carecem da
intervenção do DIP):
Situações Puramente Internas – apenas têm contacto com a lei do foro, com a lei do local onde o
problema é colocado (p.e., um casamento celebrado em Espanha, entre espanhóis, apreciado num tri-
bunal espanhol); por força do princípio da não transatividade, o problema resolve-se rapidamente:
apenas se aplicará a lei do foro.
Situações Relativamente Internacionais – o único contacto que estabelecem com um ordenamento
jurídico estrangeiro é o contacto com o foro, e aí apenas emergente do facto de ser aí que o problema
é avaliado, de ser aí que se aplicará uma determinada lei (p.e., um casamento celebrado em Espanha,
entre espanhóis, apreciado num tribunal francês); mais uma vez, por força do princípio da não transa-
tividade, aplicar-se-á a lei conexa com a situação.
Situações Absolutamente Internacionais – têm contactos relevantes com vários ordenamentos jurí-
dicos (p.e., um casamento celebrado em Espanha, entre um paquistanês e uma belga, apreciado num
tribunal francês); aqui, verdadeiramente, precisaremos do DIP.
Circunscritas as relações jurídicas de que se abeira o Direito Internacional Privado às situações absoluta-
mente internacionais, perguntamo-nos agora porque razão se limitará o mesmo às relações jurídicas interna-
cionais privadas ; na verdade, o DIP é, desde logo, guiado pela garantia de segurança jurídica e de estabilidade
de relações jurídicas (interesses, pois, particulares): será isso que implicará que se aceite, no foro, a aplicação
de lei estrangeira a situações privadas, às quais as sensibilidades inerentes ao exercício do ius imperium são
indiferentes; no Direito Público, todavia, questões de soberania e de fiscalidade, e não meros interesses parti-
culares, vêm tornar sensível o poder público à aplicação desta ou daquela lei.
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C) Posição Intermédia (portuguesa, britânica): o DIP trata, sobretudo, de dois/três problemas – o
do conflito de leis e o do conflito de jurisdições (onde podemos, portanto, identificar o conflito de
jurisdições em sentido próprio – o problema da competência internacional dos tribunais – e o do
reconhecimento de sentenças estrangeiras ), rejeitando a inclusão maximalista das questões de Direito
da nacionalidade e de Direito dos estrangeiros, pelos seguintes motivos:
a. Primeiramente, pode seguir-se o critério de que, em termos de Direito objetivo, o DIP é
um conjunto de normas secundárias, também ditas de segundo grau (seguindo a célebre estru-
tura de HART), normas sobre normas, que não resolvem o problema mas antes indicam a lei
que o resolverá; diferentemente, estes dois últimos ramos implicam normas primárias,
substantivas, que respondem materialmente às questões que se lhes colocam – convém, toda-
via, não ignorar que este argumento implica um certo “preconceito conflitual”, que assume
que o método adotado é em toda a linha o clássico, que veremos não ser bem o caso –.
b. Diferente será dizer, agora de forma mais pertinente, que o plano axiológico-discursivo
em que o Direito da nacionalidade e o Direito dos estrangeiros se situam é fundamentalmente
diverso do que vale para os demais temas que viemos incluir no DIP, posto que aqueles
perspetivam os seus problemas de uma forma unilateral e muito limitada – apenas definem os
seus nacionais e enquadram os que lhes são estrangeiros –;
c. Além disto, também não é errado tomar que, perante uma relação jurídica plurilocalizada
(ou absolutamente internacional), aqueles três problemas se colocam sempre, ao passo que os
restantes apenas se põem de forma eventual;
d. Finalmente, poderá dizer-se que, em bom rigor, as questões de Direito da nacionalidade
e da condição jurídica dos estrangeiros são, na realidade, problemas de Direito Internacional
Público – contudo, a relativa iliquidez na natureza do DIP faz pouco forte uma argumentação
assente neste ponto –.
Posto embora isto, convém não ignorar que os problemas que a posição que perfilhamos coloca fora do
Direito Internacional Privado permanecem particularmente próximos deste, pelo menos o suficiente para
merecerem uma abordagem, por breve que seja, em diversos manuais portugueses de DIP, a que o curso
não é exceção: quanto ao Direito da nacionalidade, como tal, caberá uma nota sobre o problema do conflito
de nacionalidades; no que toca ao Direito dos estrangeiros, proceder-se-á a uma breve enunciação dos seus
princípios centrais.
I. Problema do conflito de nacionalidades: surpreendemos, como na generalidade dos conflitos
internacionais, conflitos positivos de nacionalidade e conflitos negativos de nacionalidade
a. Conflito positivo de nacionalidades – para a resolução do problema da múltipla nacionali-
dade (dupla, tripla, etc.), convocamos dois artigos da Lei da Nacionalidade portuguesa (Lei
n.º 37/81, de 3 de outubro):
✓ O art. 27.º estabelece que quem tenha duas ou mais nacionalidades, sendo uma
delas a portuguesa, verá prevalecer no foro a nacionalidade portuguesa;
✓ O art. 28.º prevê que nenhuma das várias nacionalidades seja a portuguesa:
• Se o indivíduo residir no Estado de alguma das suas nacionalidades, con-
tará a nacionalidade correspondente;
• Se o indivíduo não residir no Estado de qualquer das suas nacionalidades,
contará a nacionalidade do Estado com o qual tenha “uma vinculação mais
estreita” – aqui, o legislador passou a responsabilidade da escolha ao julgador
(consagração judicial do princípio da proximidade), solução que, não obstante
possa suscitar problemas quanto à segurança jurídica, resolve o problema da
aplicação concreta de uma forma impossível a qualquer critério geral –.
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Aqui, convirá ter em atenção o célebre Acórdão Michelleti, relativo ao caso Mario
Vicente Micheletti vs. Delegación del Gobierno en Cantabria : Mario Micheletti,
italiano e argentino residente na Argentina, abriu em 1994 consultório dentário em
Espanha, ao abrigo da liberdade de estabelecimento que invocava, com fundamento
na sua nacionalidade espanhola e na cidadania europeia: ora, aplicando o art. 9.º da
Lei da Nacionalidade espanhola (bastante semelhante à solução portuguesa), a preva-
lência da nacionalidade do Estado da residência implicou a recusa, pela delegação
cantábrica do Governo espanhol, da pretensão de Micheletti. No famoso acórdão, o
TJUE dispôs que, se estiver em causa o exercício de um direito conferido pela cidada-
nia europeia, um Estado-Membro não pode ignorar essa nacionalidade, mesmo que
recaia sob a sua competência exclusiva a determinação dos critérios de Direito Inter-
nacional Privado.
b. Conflito negativo de nacionalidades – por outro lado, o art. 32.º CCivil tem que, para os
apátridas, a lei pessoal é a do lugar onde o mesmo tiver a sua residência habitual ou, sendo
menor ou interdito, o seu domicílio legal (art. 32.º/1), sendo que, não tendo residência habitu-
al, valerá o disposto no art. 82.º/2 – residência ocasional ou, se esta não puder ser determina-
da, no lugar onde se encontrar – (art. 32.º/2).
II. Princípios centrais do Direito dos estrangeiros: de forma breve, deveremos dar conta dos funda-
mentos essenciais do tratamento dos estrangeiros em Portugal, regendo tanto o art. 14.º CCivil.
• Princípio da equiparação (art. 14.º/1 CCivil) – prima facie, os estrangeiros gozam dos
mesmos direitos e estão sujeitos aos mesmos deveres que os nacionais (porém, encontramos
exceções a este princípio sempre que se coloquem por imposição constitucional ou por força
do princípio da reciprocidade, para além das disposições específicas referidas in fine ).
• Princípio da reciprocidade (art. 14.º/2) – não se reconhecem aos estrangeiros os direitos
que, sendo atribuídos pelo Estado respetivo aos seus nacionais, nele se não reconhecem aos
portugueses em igualdade de circunstâncias.
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Este princípio traduz, pois, a ideia de uma necessária uniformidade na determinação da lei
aplicável : ter-se-á harmonia jurídica internacional quando uma certa controvérsia, em contacto com
qualquer ordem jurídica, veja ser-lhe sempre aplicada a mesma lei, vindo ter o mesmo desfecho.
De outra forma, as partes procurariam sempre intentar a ação no Estado onde lhes fosse
mais favorável o regime aplicável por força da regra de conflitos aí vigente – a isto, celebre-
mente, a doutrina chamou o problema do forum shopping (assente em que, ao escolherem
o foro, as partes pretendem influenciar o conteúdo da decisão) –, o que se traduziria, inevita-
velmente, numa acentuação da conflitualidade –.
Como tal, muito diferentemente de haver um verdadeiro acordo nos regimes jurídicos substantivos
propriamente ditos (o que é praticamente impossível), deve procurar-se consenso nas regras de con-
flitos, que determinam a lei a aplicar a um determinado caso – ou seja, pelo princípio da harmonia
jurídica internacional impõe-se a concertação das soluções formais, não das soluções materiais –.
Assim, concretamente, tem-se que um Estado preferirá adotar, sempre que possível,
conexões suscetíveis de aceitação universal, suscetíveis de ser repetidas nas demais ordens
jurídicas, como via para o reforço da harmonia jurídica internacional.
O peso estruturalmente central do princípio da harmonia jurídica internacional deteta-se
ainda em muitos outros institutos (veremos, em sede de reenvio, o seu papel fundamental),
daí que se tome como raiz da “vocação ecuménica” que frequentemente se aponta ao DIP.
O valor desta pretensão de uniformidade nestas normas secundárias entre vários Estados se tem
firmado numa escala global, precisamente no sentido mais lato de “harmonia”; alguns destes fenóme-
nos temo-los:
➢ Na Conferência da Haia de Direito Internacional Privado (CHHC), organização internacio-
nal de que Portugal é membro fundador, com propósito específico de prossecução da harmonia
jurídica internacional na definição de regras de conflitos, por sucessivas convenções.
➢ Na União Europeia, em que a garantia de uma tal harmonização na regulação das relações
jurídicas internacionais privadas assume um papel destacadíssimo na estratégia delineada em
função do seu objetivo maior da liberdade plena de circulação de pessoas e bens; assim, a dita
“europeização do DIP”, de que já demos conta, traz consigo soluções uniformes nos Estados-
-Membros que garantem ao máximo, no seu espaço, a harmonia jurídica internacional.
i. Nomeadamente, os arts. 41.º e 42.º CCivil, no que toca a relações contratuais, encon-
tram-se substituídos pelo Regulamento (CE) 593/2008, do Parlamento Europeu e do Con-
selho, de 17 de junho de 2008, ou Regulamento Roma I (assim chamado por suceder à
velha Convenção de Roma), quanto a contratos celebrados desde 17 de dezembro de 2009;
ii. Também o art. 45.º CCivil, por sua vez atinente a questões de responsabilidade extra-
contratual, foi substituído pelo Regulamento (CE) 864/2007, do Parlamento Europeu e do
Conselho, de 11 de julho de 2007, ou Regulamento Roma II, quanto a factos ocorridos a
partir de 11 de janeiro de 2009;
iii. O Regulamento (UE) 1259/2010, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 20 de
dezembro de 2010 (ou Roma III – embora a Convenção de Roma não dispusesse sobre
tais matérias) substituiu o art. 55.º CCivil, quanto à separação judicial de pessoas e bens e
ao divórcio, nos processos instaurados a partir de 21 de junho de 2012;
iv. Finalmente, o art. 62.º CCivil – relativo a matéria sucessória – foi igualmente substitu-
ído, pelo Regulamento (UE) 650/2012, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 4 de
julho de 2012 (Regulamento Europeu das Sucessões ), para as sucessões das pessoas faleci-
das desde 17 de agosto de 2015.
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II) Princípio da Harmonia Material
Pelo emprego de regras de conflitos, o Direito Internacional Privado chamará leis diferentes a
matérias diferentes; deverá, pois, preocupar-se com a inexistência de contradições entre leis – nisto
consiste a ideia de harmonia material –. O princípio da harmonia material carrega, portanto, um
propósito de unidade do sistema jurídico (no fundo, a ideia de que, no seio de uma ordem jurídica,
não serão aceitáveis antinomias ou contradições normativas).
Rapidamente se depreende que este princípio, ao contrário do que sucede com os
demais, não é privativo do DIP, na medida em que expressa intenções comuns a vários
ramos e áreas do Direito; todavia, a probabilidade de tal tipo de contradições surgir no DIP
é substancialmente mais elevada, sobretudo pelo fenómeno de dépeçage – da “fragmen-
tação” das situações apreciadas, a implicar uma necessidade de especialização que, como
estudaremos adiante, permitirá fazer aplicar várias leis a diferentes aspetos de uma mesma
situação –.
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Diga-se, ainda, que na criação das regras de conflitos que lhe são próprias, o DIP atende igualmente a
interesses individuais e a interesses gerais ou coletivos.
1. Interesses individuais: qualquer pessoa terá interesse, à partida, em saber qual o seu estatuto noutro
país, em que venha a residir ou pelo qual passe – quanto ao reconhecimento da sua perso-
nalidade jurídica, quanto aos termos em que se lhe atribui capacidade de gozo, ou os
termos em que é apreciada a sua capacidade de exercício de direitos –;
Existe, indiscutivelmente, um interesse pessoal de cada um em estar seguro numa
lei pessoal (que regule um conjunto de matérias intimamente ligadas à pessoa – entre
nós, vejam-se os arts. 25.º e 31.º CCivil –), um interesse na fácil determinabilidade da
conexão relevante em matéria pessoal: daqui que, nomeadamente, o legislador
privilegie conexões fortes, como a nacionalidade ou a residência habitual, na
determinação de certas questões conflituais nucleares.
Além destes, um interesse particular clássico é o que subjaz à autonomia privada:
neste âmbito, o DIP assume, na feitura das regras de conflitos, o peso da vontade (v.g.,
o art. 3.º do Regulamento Roma I, tido por muitos, inclusive, como de inspiração neo-
liberal), na dimensão da autonomia conflitual, que estudaremos com detalhe na breve
incursão sobre a parte especial do DIP relativa a contratos; além disto, porém, é
notória a extensão da autonomia privada em sede de DIP, mesmo que contrabalança-
da pelos interesses afetos à segurança do comércio jurídico, infra expostos – a título
de exemplo, o Regulamento Europeu das Sucessões oferece uma conexão objetiva na
definição dos termos da sucessão (a residência habitual do de cujus ao tempo do
falecimento, nos termos do art. 21.º/1), sendo certo que, contudo, se o sujeito tiver
nacionalidade ou nacionalidades diversas do país da sua residência habitual poderá
escolher a lei pessoal como aplicável à sucessão, o que também sucede em matérias
de responsabilidade extracontratual –. Pode hoje dizer-se que tal liberdade de escolha,
embora ainda limitada, se vem colocando cada vez com mais frequência, de um modo
que, em décadas passadas, seria inconcebível.
2. Interesses gerais ou do comércio jurídico: tomando o exemplo típico dos direitos reais e demais
direitos absolutos, oponíveis a todos os outros sujeitos para lá do seu titular, temos a
produção de efeitos para lá de dois sujeitos; se assim é, a sensibilidade do DIP, na criação
de regras de conflitos, aos interesses do tráfego jurídico será muito maior: esses interesses,
bem como a segurança da generalidade das relações jurídicas, ocuparão um lugar priori-
tário em relação à liberdade dos particulares, pelo que o legislador escolhe uma conexão
relevante atendendo a interesses gerais, de modo a que não possam os particulares pertur-
bar esse equilíbrio.
2.ª) Pode o tribunal recusar a aplicação da lei estrangeira indicada pela regra de conflitos
com base na sua inconstitucionalidade à luz da Constituição da República Portuguesa?
Admitir a fiscalização de constitucionalidade de norma estrangeira coloca uma
dificuldade inultrapassável quanto a um princípio fundamental no DIP, já visto: o da
paridade de tratamento das ordens jurídicas (com efeito, aceitá-la sem mais seria, no
fundo, implicar que a ordem jurídica portuguesa, por superior, tivesse legitimidade para
sujeitar normas jurídicas estrangeiras ao seu crivo, ainda que constitucionais no
ordenamento de origem): isto se tem dito, maioritariamente, quanto a tal possibilidade.
Certo é, porém, que esta recusa não atende à possibilidade de, por sua força, se ver
aplicada uma lei que esbarre com os mais basilares fundamentos do sistema do foro:
ora, como estudaremos adiante, a figura da ordem pública internacional (tida no art.
22.º CCivil) funciona como uma válvula protetora, que contorna este problema sem
comprometer o princípio da paridade de tratamento – não se permitindo a fiscalização
da constitucionalidade de norma estrangeira, vem contudo admitir-se que esta possa
não ser aplicada, se o resultado dessa aplicação se revelar chocante com a ordem pública
internacional do Estado português –, na linha da doutrina tradicional.
3.ª) Pode o tribunal recusar a aplicação de lei estrangeira, indicada pela regra de conflitos,
com base na sua inconstitucionalidade à luz da Constituição do país de onde a lei provém?
Quanto à possibilidade de controlo concreto de constitucionalidade proprio sensu
da norma estrangeira em tribunal português, tem-se que, à luz do disposto no art. 23.º/1
CCivil, pareceria colocar-se sem dúvidas; porém, reparemos, tudo depende da situação
concreta, uma vez que se deverá sempre interpretar e aplicar a lei estrangeira tal como
ela seria interpretada e aplicada no sistema de que emerge:
Assim, apenas se nesse sistema se admitir o controlo de constitucionali-
dade por parte do juiz caberá tal solução (no respeito pelo princípio da harmo-
nia jurídica internacional, na senda de garantir a estabilidade das relações jurí-
dicas internacionais e a prossecução do mesmo resultado, qualquer que seja o
foro).
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1.1. O conceito-quadro
No conceito-quadro é definido o âmbito de aplicação da regra de conflitos, que se poderá considerar
como sendo “a hipótese da regra de conflitos”– estando para a regra de conflitos como a hipótese para a
norma material, determinando o objeto da sua “prescrição” (o elemento de conexão), com a fundamental
diferença de que, enquanto que as normas materiais preveem situações factuais, da vida, as regras de conflitos
partem de conceitos, figuras e institutos técnico-jurídicos.
Seguindo a estrutura clássica, portanto, teremos que, na regra bilateral “à matéria X aplica-se a lei Y”,
facilmente se identifica em X o conceito-quadro: recorrendo a este raciocínio, exercitemo-lo nos seguintes
exemplos do nosso Código Civil:
• Sistemas de conexão simples: cabe ter em conta que o esquema classicamente savigni-
ano estrutura um esquema de conexão única ou simples (do tipo “à matéria X aplica-se a
lei Y”);
• Sistemas de conexão múltipla: em todo o caso, os sistemas de DIP vieram, posterior-
mente, a assumir esquemas multipolares, chamados sistemas de conexão múltipla, configu-
ráveis em quatro moldes:
o Sistemas de conexão múltipla alternativa: chamam duas ou mais leis em relação
de alternatividade (v.g., o art. 11.º do Regulamento Roma I ).
▪ Estas regras de conflitos estabelecem uma certa finalidade, convocando
várias leis (sendo o juiz mandatado a escolher a que melhor cumpra esse
objetivo; por facilitarem a constituição de relações jurídicas válidas, temos que
por elas se consagra, com especial acuidade, o princípio do favor negotii (por
força do qual o DIP tenta acautelar a validade dos negócios celebrados com
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firmes e legítimas expectativas na sua validade, e que estudaremos melhor
adiante), chamando todas as leis que possam ter sido problematizadas na cons-
tituição das situações apreciadas.
o Sistemas de conexão múltipla cumulativa: chamam várias leis que deverão, todas
elas, aceitar a relação jurídica para que esta produza efeitos (v.g. o art. 60.º/4 CCivil).
▪ Diferentemente, estes sistemas de conexão múltipla dificultam o reconhe-
cimento de situações jurídicas, procurando evitar as situações jurídicas ditas
“claudicantes” ou “coxas”, em que duas leis igualmente próximas ao caso dis-
cordam na aceitação da situação apreciada.
▪ Curiosamente, BAPTISTA MACHADO considera que a conexão múltipla
cumulativa “promete mais do que aquilo que dá”, precisamente na medida em
que, caso uma das leis apontadas negue a validade da situação jurídica, apenas
ela verdadeiramente se aplica, por ser a mais exigente: daqui que conheçamos
pouquíssimas opções por esta estrutura peculiar.
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um caso fora desse âmbito de aplicação, o juiz olhará para as regras de conflitos estrangeiras, por forma a
encontrar alguma que reclame a aplicação da sua lei.
❖ Postas estas noções e sentidos, resultaria claramente preferível a regra bilateral, por dar sempre solução
ao conflito de leis presente; em todo o caso, certas vozes se vieram fazer ouvir no favorecimento do recurso
a regras de conflito unilaterais, cabendo destacar duas correntes:
o A corrente internacionalista do séc. XIX considerava que o legislador carece de legitimidade para
determinar a aplicação de lei estrangeira, atitude que seria intrusiva relativamente à soberania do Estado
estrangeiro – posição dos chamados autores soberanistas –; o curso vem refutar, facilmente, esta leitura:
▪ Primeiramente, esta posição parte de uma noção errada ou imprecisa de soberania, acen-
tuando a dimensão de mera prolação da lei, em relação à bem mais relevante dimensão de
aplicação da mesma.
▪ Além disto, pode apontar-se-lhe a crítica de não ter em linha de conta que os interesses
que o DIP pretende acautelar são puramente privados, e não públicos (sendo públicas as
questões de soberania).
▪ Por fim, esta perceção apenas faria sentido se nunca se aplicasse, no foro, lei estrangeira;
porém, embora o unilateralismo não escolha e determine aplicável lei estrangeira, ele admite
a aplicação de lei estrangeira (desde logo, nos casos não previstos pela regra de conflitos
nacional), concessão que faz os soberanistas perder a discussão.
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o De forma diversa à defendida pela Escola de Coimbra, a Escola de Lisboa parte da
compreensão das regras de conflitos como normas materiais de regulação indireta : para estes
autores, as regras de conflitos dão, efetivamente, solução ao caso, ainda que indiretamente
(indicando outra lei); como tal, facilmente propendem, na esteira de ZITELMANN, para a
mera mobilização do princípio da não retroatividade, tendo por convocada a regra de conflitos
vigente no momento da constituição da situação jurídica.
Deveremos, em todo o caso, reparar que nem sempre é líquido que a questão assente nu-
ma relação jurídica tida por duradoura ou por situada no passado – veja-se, nomeadamente,
o art. 46.º CCivil, que manda aplicar a lei da situação da coisa, podendo tanto admitir-se
relativo a uma situação jurídica duradoura (na generalidade dos casos) como estático, fixo no
passado (se, por exemplo, se discutir a validade de aquisição de um direito real) –; por força
disto, alguns autores, como LIMA PINHEIRO na Escola de Lisboa, seguem prima facie a
posição de FERRER CORREIA, com a leve nuance de recorrerem à fórmula de BAPTISTA
MACHADO, dúvidas se ponham quanto à regra de conflitos, naqueles termos.
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1.1. A Revolução Americana do Direito Internacional Privado e suas consequências
Na segunda metade do séc. XX o método tradicional ou savigniano veio a ser posto em causa, no âmbito
daquilo a que se veio chamar a Revolução Americana do DIP, movimento opositor ao método clássico euro-
peu para a resolução do conflito de leis, e que conheceu três momentos.
• 1.º argumento: “a regra de conflitos manda aplicar lei que considero material-
mente injusta, sem o tomar em consideração; como tal, se a regra de conflitos esco-
lhe lei sem se preocupar com a sua justiça, ela própria se revela injusta”.
• 2.º argumento: a regra de conflitos, orientada para a escolha da lei mais próxi-
ma, não o faz neste caso (a lei mais próxima é, claramente, a de Nova Iorque, e não
a do Canadá, onde os sujeitos passam apenas algumas horas), por ser formal, cega.
O precedente que esta decisão veio a dar origem provocou um descrédito das regras de conflitos,
levando à rejeição perentória do método conflitual (assente no elenco de regras de conflito, ou
Restatement of the Law, vigente nos EUA) nos tribunais americanos.
Ora, numa segunda fase, CAVERS veio debruçar-se cuidadosamente sobre estes comen-
tários. Apercebendo-se de e reconhecendo falhas na formulação inicial do seu raciocínio, o
autor introduziu uma ideia complementar: a de que o legislador deve consagrar princípios de
preferência, ao invés de regras de conflitos. Sucintamente, CAVERS aponta os princípios de
preferência como orientações providenciadas pelo legislador: ao julgador, que assim benefi-
ciará de um critério auxiliar para a aferição da justiça material, e às partes, que assim podem
contar com certo resultado (simultaneamente reforçando a asserção de que o método é orien-
tado por este padrão e superando o obstáculo da insegurança casuística).
Em especial para o caso Babcock vs. Jackson, deveria ter valido o princípio de
preferência em matéria de responsabilidade extracontratual – pelo qual o juiz deverá
escolher, como lei mais justa, aquela que proteger mais o lesado (ou seja, prever uma
maior indemnização) –.
Contudo, CAVERS não consegue refutar de forma tão sólida a crítica de que o seu modela
não contende com o princípio da paridade de tratamento: rigorosamente, a introdução dos
princípios de preferência agrava o problema, posto que quem vem providenciar um critério
de justiça material – por mais auxiliar – é a lex fori, assim a ordenar lei estrangeira pelo seu
conteúdo, de acordo com um crivo próprio.
Percurso diferente segue CURRIE, que entende na regra de conflitos um outro erro es-
sencial: o de se procurar a lei mais próxima sem levar em atenção as políticas legislativas dos
Estados. Para o autor, o método conflitual falha em desconsiderar as policies e os interests
subjacentes às diversas soluções materiais das leis conflituantes.
Como tal, a alternativa colocada reconduzir-se-ia a um método atinente a um elemento
político, teleológico: o método da análise do interesse governamental (governmental interests
analysis ), estruturado por sobre três momentos lógicos.
1.º passo – a identificação das leis em contacto com o caso (assimilada pela aplicação
do princípio da não transatividade)
No caso Babcock vs. Jackson, evidentemente, apenas as leis nova-iorquina
e canadiana se tinham por convocáveis.
2.º passo – a cognição da política legislativa de cada uma das leis conflituantes (com a
deteção de cada policy subjacente):
No mesmo caso histórico, o juiz tomaria pela ratio legis de cada solução:
claramente, a lei de Nova Iorque atende ao motivo clássico da indemnização
(perante o dano, procurar restabelecer a situação hipotética que, sem ele, se
teria, tornando o lesado indemne à custa do lesante); porém, a lei do Canadá
visaria, com o afastamento da responsabilidade do condutor por danos causa-
dos a passageiros em sede de transporte gratuito, incentivar este último, fomen-
tar as “boleias”, dentro do Canadá e entre canadianos.
3.º passo – a aferição, para ambos os Estados cujas leis se confrontam, do interesse
político-legislativo – governmental interest – em regular aquela situação concreta:
Ora no caso, por tudo quanto se viu, o Canadá não teria interesse político-
legislativo em aplicar a sua lei àquela situação entre Babcock e Jackson, ameri-
canos em visita ao país; já quanto à lei de Nova Iorque parece cumprir-se a
base sobre a qual assenta a sua ampla intenção. Assim, teria CURRIE, se
resolveria o problema conflitual concreto, aplicando esta última em detrimento
daquela, mas com um fundamento diverso do da proximidade, invocado pelas
pretensões político-legislativas que inervam as específicas soluções materiais.
Novamente, porém, se colocam dúvidas quanto à perfeição do modelo. Por um lado, o
modelo parece funcionar sem problemas quando uma lei, diferentemente das demais convo-
cadas, reclame interesse político-legislativo em ver-se aplicada no caso concreto; porém, as
mais das vezes isso não sucede:
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a. Quid juris se, pois, várias das leis convocadas tiverem interesse político-legislativo
em aplicar-se?
i. Se duas tiverem interesse político-legislativo, mas se uma delas for a do
foro, privilegia-se a do foro;
ii. Se nenhuma for a do foro, o juiz parece não poder escolher, não poder
dizer de um interesse político-legislativo de um país superior ao de outro, vindo
aplicar igualmente a lei do foro.
b. Quid juris se, diferentemente, nenhum país tiver interesse em regular a situação?
i. Bem, ter-se-á que, igualmente, se aplica a lei do foro.
Além disto, mesmo nos casos em que o modelo funcionaria bem, têm-se problemas:
a. Primeiramente, este método opera pela averiguação de um interesse político-
legislativo do Estado cuja lei é convocada; parte-se, pois, de uma analysis, em que se
tomam várias normas materiais, de vários países, e afere-se de tais interesses em cada
uma delas (perspetivando-se posteriormente o caso concreto à luz daquele que se
cumpra). Mas será sempre possível detetar, para cada norma, um interesse político-
legislativo?
Nomeadamente, qual o interesse político-legislativo em Portugal da nor-
ma que estabelece que certos parentes não podem casar (art. 1601.º CCivil)?
Parece inadequada a asserção de que sempre se desvela um campo de aplicação
material com base num certo interesse político-legislativo.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
com ela ligação; inevitavelmente, a aplicação da lex fori por todos os países redundaria
na desarmonia jurídica internacional.
Haverá, portanto, que notar que tudo isto obstou à plena adoção da proposta de CURRIE;
ainda assim, as suas conclusões influenciaram igualmente o método moderno, chamando a
atenção para a falta de consideração das políticas legislativas estaduais no método clássico.
Ponto interessante a abordar é o de que de CURRIE se diz ser “um unilateralista selva-
gem”, reparo que deveremos analisar:
Na verdade, a sua tese metódica e a conceção da regra de conflitos unilateral apro-
ximam-se, posto que, como vimos, num sistema unilateralista, a regra dada pelo legisla-
dor apenas dispõe para os casos em que a lex fori é aplicável – se não o for, outra lei
estrangeira “quererá”, pela sua regra, ver-se aplicada, numa coerência de “vontade de
se aplicar”, como vimos enunciar QUADRI –. Ora, coisa semelhante achamos em
CURRIE, na medida em que também cabe analisar e compreender as “pretensões de
aplicabilidade” – aqui, os interesses político-legislativos – de cada Estado cuja lei é
chamada (no fundo, é também única função da regra estabelecer os casos a que se
quer aplicar). Haverá, portanto, pronunciados laivos de unilateralismo num tal enten-
dimento.
Quanto ao caráter “selvagem” deste “unilateralismo”, ele procede sobretudo de
uma diferença fundamental em relação às propostas unilateralistas propriamente ditas:
enquanto que naquelas, o sistema unilateralista motivava-se pelos objetivos sérios,
dignos e concretizados da promoção da harmonia jurídica internacional e da estabil-
idade internacional, este método não promove a estabilidade internacional, ao deixar
pela leitura dos interests e policies latentes uma grave insegurança na lei aplicável.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
➢ Por fim, das várias leis em contacto, o juiz escolherá a lei que, no caso, melhor
satisfaça a política legislativa do foro.
O desenho deste esquema assenta na asserção de EHRENZWEIG de que o juiz, como
“agente” do foro, se deve orientar também pelos interesses da lei do foro, aplicando a tais
casos, como tal, a lei que em maior concordância estiver com tais policies internos. Enquanto
que CURRIE, como vimos, atentava nos interesses político-legislativos da lei estrangeira, aqui
o raciocínio centrava-se na policy da lei interna.
Inevitavelmente, também esta postura mereceu duras críticas:
a. Desde logo, como é evidente, nem sempre se mostra possível determinar a polí-
tica legislativa das normas em mobilização.
b. Por recurso a este método violamos também o princípio da paridade de trata-
mento (por força de uma subordinação metodológica, em sede de conflito de leis, aos
interesses político-legislativos do foro).
c. Possibilita a não prossecução da harmonia jurídica internacional – posto que a
política legislativa de cada país seja diferente, os resultados jurídicos produzidos diferi-
rão conforme o local onde o problema se coloca –, quebrando-se a priori a uniformi-
dade da lei aplicável.
d. Metodologicamente, este procedimento carece de rigor e lógica racional: no fun-
do, o juiz do foro parte do objetivo de uma norma ou conjunto de normas internos,
subordinando a aplicação de norma estrangeira (por tal método, como que se cindem
normas, passando a ter-se na norma do foro o objetivo, e na norma estrangeira a
estatuição), numa intenção de rutura sistemática que, entendemos, não parece viável
por si.
Ainda assim, EHRENZWEIG tem na sua proposta metódica o mérito de demonstrar a
possibilidade de se conjugar o método conflitual com outros métodos, acentuando a tendência
absolutamente decisiva de um pluralismo metodológico cuja compreensão é, atualmente,
essencial num estudo como o nosso.
Da nossa parte, a influência destes autores é nítida no contexto do DIP dos ordenamentos jurídicos
europeus, mas não se mostrou decisiva para o abandono do método conflitual (em larga medida pelos
defeitos e imperfeições denotados); assim, nenhum dos métodos alternativos cuja análise expedimos – ou
qualquer outro – veio substituir o método tradicional, sendo seguro dizer, todavia, que o método conflitual
posterior à Revolução Americana do DIP está longe do método conflitual savigniano.
Com efeito, o marco desta histórica reforma impeliu a modernização do método conflitual, sobretudo
em três vetores de aproximação aos métodos americanos pós-Revolução: a flexibilização do método, a
materialização e a sua politização, que podemos analisar em várias figuras que daí emergem.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
➢ FLEXIBILIZAÇÃO DO MÉTODO CONFLITUAL:
o Open-ended rules – naquilo a que se chama a consagração judicial do princípio da proximidade,
a regra surge desprovida de um elemento de conexão em sentido próprio, pelo que a escolha da lei
aplicável recai, com grande liberdade, ao seu efetivo aplicador (tomem-se os exemplos dos arts. 28.º
da Lei da Nacionalidade e 52.º/2, in fine, do CCivil).
o Cláusulas de exceção – passa-se a permitir ao juiz não aplicar a lei indicada, abrindo a possi-
bilidade de se não seguir a regra de conflitos, muito embora ela se forneça; podemos subdividir
tipologicamente as cláusulas de exceção com base numa tripla nomenclatura:
▪ Cláusulas de exceção abertas (não estabelecem a lei que alternativamente se aplicará,
cabendo ao juiz apurá-la);
▪ Cláusulas de exceção fechadas (definem a lei que, alternativamente, se poderá apli-
car, num elenco mais ou menos vasto, mas sempre limitado).
▪ Cláusulas de exceção formais (permitem a não aplicação de uma lei por motivos de
justiça formal, de não cumprimento da proximidade que se exige à lei aplicável);
▪ Cláusulas de exceção materiais (admitem a desaplicação em nome da prossecução
de um certo resultado material).
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1.2. O fenómeno de jurisdicionalização: alusão ao método jurisdicional ou medieval
Anterior ao método conflitual expedido por SAVIGNY, o método jurisdicional ainda vigora em Ingla-
terra, para algumas matérias (nomeadamente, em sede de divórcio, direitos reais ou responsabilidade civil).
➢ No método conflitual, apreciamos primeiramente a competência internacional dos tribunais (pe-
las normas de competência internacional), apenas de seguida mobilizando a regra de conflitos para
escolher a lei aplicável; por aqui, pode já falar-se em semelhanças e diferenças entre as regras de
conflitos e as normas de competência internacional:
o Por um lado, ambas têm o seu estudo na mesma disciplina (DIP), por versarem sobre
relações jurídicas internacionais, e são ambas normas indiretas, que apontam a solução sem a
providenciarem por si;
o Por outro lado, elas diferem em certos aspetos: a norma de competência internacional
escolhe o tribunal, ao passo que a norma de competência internacional escolhe o tribunal; a
regra de conflitos é tendencialmente bilateral, enquanto que a norma de competência interna-
cional tende a assumir uma função unilateral; além disto, a norma de competência inter-
nacional procura escolher o tribunal mais próximo do caso, com base numa “proximidade”
prática (nomeadamente, para facilitar a propositura da ação e agilizar a produção de prova na
instrução do processo), enquanto que a regra de conflitos escolhe a lei mais próxima de
acordo, como vimos, com um critério de conexão forte.
➢ No método jurisdicional, diferentemente, a separação destes problemas não opera: cada tribunal
aplica apenas a lex fori, conquanto se assegure que o ordenamento jurídico é próximo ao caso para
que a ação seja aceita (ou seja, o problema é resolvido no momento jurisdicional, aqui destacado).
Alguns operadores da justiça apreciam particularmente esta alternativa metodológica (especialmente
os juízes), posto que cumpre de forma exemplar o princípio da boa administração da justiça,
diminuindo o número de casos relevantes que chegam ao foro; em todo o caso, identificamos dois
problemas que recusam veementemente o estatuto de alternativa a esta proposta.
1.º problema: o método jurisdicional não permite a consideração de finalidades, interesses ou
especificidades casuísticas na resolução da questão.
2.º problema: pelo método jurisdicional, facilmente se cai na desarmonia jurídica internacional
(na não uniformidade da lei aplicável), a menos que haja uma alargadíssima con-
certação entre Estados quanto aos critérios de competência internacional, o que
se mostra extremamente difícil, quase utópico – mesmo no plano do DUE, esta
concertação, conquanto exista, é limitada, nomeadamente ao Regulamento (UE)
n.º 650/2012, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 4 de julho de 2012
(também dito Regulamento Europeu das Sucessões ) e ao Regulamento (UE) n.º
2015/848, do Parlamento Europeu e do Conselho, de 20 de maio de 2015
(também dito Regulamento Europeu das Insolvências ), a tal ponto que, na prática,
assistiríamos a uma miríade de conflitos positivos de competência internacional,
a suscitar inúmeros problemas de forum shopping.
Este método, portanto, vem igualmente exercer a sua influência no método conflitual – naquilo a que e
chama uma tendência de jurisdicionalização, radicada na acentuação crescente do momento jurisdicional (na
aferição do tribunal internacionalmente competente) –; de certa forma, como que os conflitos de leis pressu-
põem a vinculação dos tribunais, o que nos força a dois comentários sobre os seus corolários:
✓ Uma criticável “lexforização” (a aplicação da lei do foro é desproporcionadamente maximizada,
proposta por aqueles autores para quem o ponto de partida metodológico é a aplicabilidade da lei do
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
foro), que, em nome da boa administração da justiça, desconsidera a paridade de tratamento e com-
promete a harmonia jurídica internacional.
✓ Um paralelismo entre a competência legislativa e a competência judiciária (reconduzível à corre-
lação entre forum e jus ) que, tendo vantagens em quase tudo coincidentes com a boa administração
da justiça e com a diminuição do erro judiciário, se critica pelas finalidades díspares numa e noutra
questões: ali, procura-se a lei melhor colocada para resolver a questão, ao passo que nestes casos
temos várias finalidades (a equidade processual, a defesa de certos interesses públicos ou constitucio-
nais, a promoção da iniciativa das partes), sendo certo que a possibilidade de competência concor-
rencial é muito comum, o que não sucede no conflito de leis. Na compreensão a tomar, haveremos
de atender a duas formas possíveis de configuração das figuras:
o Forum legis – a lei competente define, por si, a competência do tribunal da ordem a
que pertence; encontramos exemplos de destaque numa conhecida solução alemã para
certos processos de jurisdição voluntária e, mais relevantemente, no art. 22.º RES, que
permite ao sujeito escolher como aplicável a lei da sua nacionalidade, em articulação com
o art. 5.º do mesmo regulamento, que daquela possibilidade faz resultar a competência dos
tribunais da ordem jurídica respetiva.
o Lex fori – por consequência da determinação do tribunal competente, resulta escolhi-
da a lei aplicável, que é a lei do foro; convém aqui enfocar a Convenção da Haia de 1996,
relativa ao conflito de leis em matéria de responsabilidades parentais e proteção de crianças
(em que o art. 15.º determina que as autoridades dos Estados contratantes aplicarão sempre
a sua própria lei, quando sejam competentes), e também o Regulamento (UE) 2015/848
do Parlamento Europeu e do Conselho, de 20 de maio de 2015, ou Regulamento Europeu
das Insolvências (que problematiza claramente um grau ocasional de correspondência en-
tre forum e jus, na leitura dos arts. 3.º – onde, interessantemente, arvora como elemento
de conexão o “COMI”, centre of main interests, do devedor, critério que se abre a alguma
manipulação, num fenómeno de “COMI” shopping – e 7.º).
Curiosamente, PICONE veio eventualmente desenvolver um método intermédio, o método da referên-
cia ao ordenamento jurídico competente, que viria também a ter uma grande influência no sistema português
de reenvio, como veremos.
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1.4. O papel do Direito Internacional Privado uniforme
Cabe, por fim, uma reiteração da função levada a cabo pelo Direito Privado uniforme, que vimos como
distinto do DIP na medida em que a unificação das soluções de Direito Privado suprime, em vez de resolver,
o problema conflitual. Como se disse então, porém, FERRER CORREIA nota que a prossecução séria deste
propósito é utópica, operando apenas em campos ou matérias restritos (veja-se a Lei Uniforme de Letras e
Livranças e a Lei Uniforme dos Cheques), além de que, mesmo nestes, nem todos os países ratificam os
respetivos acordos, continuando a ser necessário, ainda que em menor escala, o recurso à regra de conflitos.
Como tal, o Direito Privado uniforme não poderá servir como “verdadeira alternativa” ao método confli-
tual, mas novamente como mero complemento.
2.1. O método tradicional da qualificação lege fori (ou “método da dupla qualificação”)
De acordo com o método da qualificação lege fori, é no foro que encontramos a resposta ao problema
da qualificação; com o decorrer dos estudos e debates, veio chamar-se-lhe também “dupla qualificação”, na
medida em que assentava em dois momentos de qualificação.
➢ Qualificação primária ou de competência (“qual a regra de conflitos a tomar?”): os factos são
qualificados à luz da lex fori, hipotetizando-se uma subsunção do caso concreto na norma interna,
como se se estivesse perante uma situação puramente interna;
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
▪ No caso em análise, tomaríamos pelo art. 1722.º CCivil, que assim veríamos como uma
questão de regime de bens – a regra de conflitos, como tal, seria a do art. 53.º CCivil, que
considera competente a lei portuguesa –.
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A operação de qualificação converte-se num círculo vicioso (é a lei competente que deter-
minará a regra de conflitos a utilizar, mas é também pela regra de conflitos que determinamos
a lei competente).
Este sistema faz com que o foro perca em grande medida o controlo sobre as suas opções
conflituais (quando cria a regra de conflitos, o legislador parte de uma determinada ideia das
figuras e institutos, ao desenhar o conceito-quadro – assim, pode suceder que o conceito na lei
dita competente seja diferente, pelo que o âmbito da regra de conflitos virá mostrar-se diferente
do que o legislador pretendera ao criá-la –).
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
De outra forma, convenhamos, certos institutos desconhecidos (p.e., o repúdio da
mulher e a kafala do Direito muçulmano, ou a limitation of action e o trust dos sistemas de
Common Law ) teriam que ficar de fora do escopo do DIP, sob risco de o sistema bloquear;
deveremos, pois, aceitar que uma certa figura se insira no conceito-quadro, sem que porém
corresponda em grande parte ao seu homónimo no Direito material português (metafo-
ricamente, FERRER CORREIA fala numa “zona periférica” que se admite não coincidente,
contanto que se preencha o “núcleo duro” do conceito apreendido pelo legislador conflitual).
A alusão à função político-legislativa das normas consideradas, por fim, não é novidade:
como suscitámos supra, o nosso sistema de qualificação mostra-se atualmente influenciado
pelas críticas e consequentes evoluções emergentes da Revolução Americana do DIP, sobre-
tudo latentes na “cegueira” da regra de conflitos, contra a qual CURRIE e EHRENZWEIG
procuraram reagir, estimulando, entre nós, o fenómeno de politização da regra de conflitos.
➢ Os conflitos de qualificações
Um dos impasses, contudo, que o método português de qualificação suscita – conquanto muito
raramente – é o do conflito de qualificações (sobretudo pelo recurso a uma qualificação lege causæ das
normas objeto da qualificação, em nome da paridade de tratamento e da harmonia jurídica internacional),
que se pode apresentar como conflito positivo ou negativo de qualificações.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
A) Conflitos positivos de qualificações
Retomemos o caso anteriormente exposto:
A, português, casou com B, argentina, tendo ambos fixado residência em Portugal;
C, tia de B, vem a falecer na Argentina, deixando todos os seus bens à sobrinha.
Sucede que, no Código Civil argentino, em matéria sucessória, os bens hão de ser
entregues a ambos os cônjuges, ao passo que o art. 1722.º do Código Civil
português classifica aqueles bens como sendo bens próprios de B.
✓ O Direito argentino vem tomar este problema como uma
questão de Direito das Sucessões;
✓ O Direito português, porém, vê nele um dilema de regime
de bens (Direito da Família).
Esquematicamente, procuremos resolvê-lo, detetando o problema em jogo e compreendendo
o seu alcance.
Regras de Conflitos:
➢ art. 53.º CCivil (quanto ao regime de bens) – é aplicável a lei da residência co-
mum dos cônjuges:
▪ Será aplicável, pois, a lei portuguesa.
➢ art. 21.º RES (quanto a sucessões) – é aplicável a lei da residência do de cujus
ao tempo do falecimento:
▪ Será aplicável, pois, a lei argentina.
Normas Materiais:
Opera um chamamento circunscrito (art. 15.º CCivil), atentas as normas mate-
riais implicadas:
➢ art. 1722.º/1/b) CCivil – os bens são bens próprios de B.
o Pelos seus conteúdo e função (como resultam do enunciado), caracteri-
zaríamos a norma como que versando sobre regime de bens : pela regra de
conflitos do art. 53.º CCivil, esta norma, por se inserir no conceito-quadro
e pertencer à lei competente, aplica-se.
➢ (preceito sucessório da lei argentina) – os bens deixados a um dos cônjuges, em
sede sucessória, serão entregues a ambos, pelo que serão bens comuns de A e B.
o Pelos seus conteúdo e função, caracterizaríamos a norma como de Di-
reito das sucessões, pelo que, nos termos do art. 21.º RES, o facto de se
inserir no conceito-quadro e pertencer à lei competente faz dela aplicável.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
a. Se a aplicação é suscitada em momentos diferentes (maior parte
dos casos), prevalecerá o estatuto matrimonial, por ser a lei aplicável
em primeiro lugar;
Tomando um caso em que a questão relativa a regime de bens
decorre do facto jurídico da celebração do casamento, ao passo
que a questão sucessória se coloca pela morte de um cônjuge,
então prevalece necessariamente a lei aplicável relativa àquela, na
medida em que o primeiro facto gerador é esse casamento.
b. Contudo, se deverem as leis aplicar-se no mesmo momento (o da
morte), prevalece a solução da lei relativa à sucessão.
Nos casos em que o regime de bens é desencadeado mortis
causa, diferentemente, KEGEL entende que os direitos do cônjuge
sobrevivo se devem reger unicamente pelo estatuto sucessório; res-
ponde-se aqui ao “caso sueco”, em que o facto gerador da convo-
cação das duas regras de conflitos é o mesmo, convindo notar que
a tutela do cônjuge sobrevivo no momento da morte do outro con-
verte mesmo esta questão, a ver do curso, numa questão suces-
sória: FERRER CORREIA sublinha que não repugna aceitar o côn-
juge escolher a tutela que o deve abranger (isto vale para os casos
em que não há escolha alguma, e que se justifica evitar a dupla tu-
tela dos seus interesses pela índole não cumulável das proteções).
Quid juris, todavia, se o conflito de qualificações em concreto não revestir nenhuma das três
situações acima descritas? A estes casos – de raridade acrescida – em que falham todos aqueles
critérios-regras de “desempate” qualificativo, FERRER CORREIA responde com a necessidade de
optar inevitavelmente entre normas materiais (como a convocar já, se bem que em sentido muito
amplo, aquilo a que se poderia chamar uma adaptação, atenta a fins, interesses e lógica específicos).
Tanto, porém, nos levaria novamente a indagar sobre qual o critério a mobilizar nessa escolha:
✓ Para FERRER CORREIA, as normas devem ficcionar-se enquadradas no mesmo ordena-
mento, fazendo operar-se princípios gerais de Direito (a determinar, por exemplo, a prevalên-
cia de norma especial perante norma geral).
✓ MAGALHÃES COLLAÇO e LIMA PINHEIRO, por outro lado, atentam nos próprios
elementos de conexão escolhidos para certas regras de conflitos, que se podem mostrar revela-
dores de certas preferências (a escolha de elementos de conexão como a nacionalidade ou a
residência, fortemente próximos ao caso, por exemplo).
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
✓ O art. 21.º RES manda aplicar a lei da última residência do de
cujus a matéria sucessória (no caso, lei inglesa);
✓ O art. 46.º CCivil determina que, em sede de direitos reais, é
competente a lei da situação dos bens (no caso, lei portuguesa).
Sucede que a lei inglesa consagra, quando alguém morre sem
família, um direito quase-real de ocupação da Coroa britânica quanto
aos bens, o right of escheat ;
A lei portuguesa, diferentemente, considera para tal caso ser o
Estado Português quem tem direito sobre os bens – por ser chamado
como herdeiro –, no caso de tais situações (as chamadas heranças
vagas), pelos arts. 2152.º e 2153.º CCivil.
Recorramos agora, novamente, ao breve esquema de resolução que já expedimos anterior-
mente.
Regras de Conflitos:
➢ art. 21.º RES (quanto a sucessões) – é aplicável a lei da residência do de cujus
ao tempo do falecimento:
▪ Será aplicável, pois, a lei inglesa.
➢ art. 46.º CCivil (quanto a direitos reais) – é aplicável a lei da situação dos bens,
ou lex rei sitæ :
▪ Será aplicável, pois, a lei portuguesa.
Normas Materiais:
Opera um chamamento circunscrito (art. 15.º CCivil), atentas as normas mate-
riais implicadas:
➢ (preceito da lei inglesa) – a coisa pertence à Coroa britânica, que sobre ela tem
right of escheat.
o Pelos seus conteúdo e função (como resultam do enunciado), caracteri-
zaríamos a norma como que versando sobre direitos reais : ora, pela regra
de conflitos do art. 46.º CCivil, esta norma, inserindo-se no conceito-quadro,
não pertence à lei competente, pelo que não se aplica.
➢ arts. 2152.º e 2153.º CCivil – a coisa pertence ao Estado Português, por ser o
único herdeiro de A.
o Pelos seus conteúdo e função, conclui-se que a norma é uma norma su-
cessória : ora, pela regra de conflitos do art. 21.º RES, em cujo conceito-qua-
dro (à luz de uma sua interpretação autónoma e teleológica) a inserimos, ela
não se aplica, uma vez que não pertence à lei competente.
Conclui-se que, ao chamarmos várias leis em matérias diferentes, nenhuma das leis competen-
tes tem norma material aplicável ao problema aos títulos a que foram chamadas.
Mais uma vez, é suscitado pelo nosso método de qualificação um conflito de qualificações, ago-
ra enquanto conflito negativo de qualificações (igualmente raro, eventual, mas possível): diga-se que
este problema implica que, por força de uma verdadeira lacuna, tenha operado um bloqueio do
sistema tal que critérios hierarquizantes adicionais alguns, como tomámos em sede de conflitos posi-
tivos, conseguirão sozinhos resolver (aqui, com efeito, nenhuma das leis chamadas tem normas apli-
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
cáveis à matéria em causa que estejam a ser simultânea e incompativelmente mobilizadas pelas
regras de conflitos, pelo que não caberá um qualquer raciocínio de “desempate”).
Este problema resolver-se-á, portanto, através de uma outra solução: quanto a isto, é unânime
na doutrina uma primeira conclusão – a de que o aplicador não pode ter por um non liquet, deven-
do proceder a uma resolução, através do instituto da adaptação, de caráter excecional –; já, em todo
o caso, quanto aos específicos termos em que a adaptação cumpre ser feita, esgrimem-se várias com-
preensões: cingir-nos-emos, em todo o caso, ao entendimento mais consensual, tido por FERRER
CORREIA e BAPTISTA MACHADO, e seguido pela jurisprudência:
✓ O julgador deverá criar, através do instituto da adaptação, uma solução normativa que
responda ao caso, não podendo, contudo, fazê-lo livremente, mas antes no espírito do sistema:
é relevante que a escolha entre a conformidade com uma e outra leis convoca novamente
aqueles três critérios analisados em sede do conflito positivo de qualificações, embora agora
apenas como base do nosso raciocínio (posto que, como dissemos, eles não conseguem, aqui,
valer por si):
o Tomando em consideração o caso apresentado supra, lembramos o 2.º critério
considerado naquele propósito, que faz prevalecer o estatuto real por sobre o estatuto
pessoal (por motivos de efetividade e proximidade): ora, o julgador terá então que des-
bloquear o sistema, através do instituto de adaptação, procurando criar uma solução
material que, à luz dessa regra de conflitos prevalecente (de acordo com aquele critério
hierarquizante), seja verdadeiramente aplicável.
o No caso, prevalece a regra de conflitos presente no art. 46.º CCivil, que considera
competente a lei portuguesa; porém, como se viu, a lei portuguesa nada dispunha
sobre a questão em sede de direitos reais, mas tão só em matéria sucessória; conse-
quentemente, a adaptação – tal como é tomada por FERRER CORREIA e BAPTISTA
MACHADO – servirá ao julgador para criar uma norma exatamente idêntica à vertida
nos arts. 2152.º e 2153.º CCivil, mas caracterizada como norma jurídico-real, que se
possa então aplicar, por já se ver inserida no conceito-quadro daquela regra de confli-
tos; no nosso caso, como tal, a coisa pertenceria ao Estado Português por força de um
«art. 2152.º’», criado por via da adaptação.
Este raciocínio, atenta o curso, aparece hoje assente numa esquemática metodológica
moderna, de uma dita cognissance, a implicar tendências novas de enriquecimento do método
do DIP, particularmente nesta matéria.
✓ Por certo que outras perspetivas, como aludimos, se foram propondo: nomeadamente,
de forma sucinta, MAGALHÃES COLLAÇO entendia que a adaptação deveria incidir sobre
a regra de conflitos propriamente dita, moldando-a de forma a que se possa ler, na linha do
que o conceito-quadro impõe, sem que se implique um conflito negativo de qualificações;
noutro âmbito, MARQUES DOS SANTOS trouxe consigo uma visão interessante, tomando a
adaptação da norma preexistente para se enquadrar no conceito-quadro sem comprometer,
por uma criação normativa ex novo, o sistema de DIP.
Não devemos, porém, deixar de atender ao reparo de BAPTISTA MACHADO, que sempre
teve na adaptação um “instituto difícil e perigoso”, por permitir de uma forma ou de outra a manipu-
lação do sistema de DIP pelo julgador ou aplicador do Direito; não surpreende, portanto, que seja
um dos problemas mais difíceis no nosso estudo, conquanto a sua raridade sirva a tal de contrapeso.
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3) Os problemas do elemento de conexão
3.1. Os conflitos de sistemas de Direito Internacional Privado
Vimos, na qualificação, um problema essencialmente suscitado pelo conceito-quadro da regra de confli-
tos; diferentemente, em sede do seu elemento de conexão, outra questão se levanta: na verdade, até aqui,
não se problematizou a hipótese de a lei determinada competente pela regra de conflitos do foro não se
considerar competente à luz da sua própria lex formalis fori.
Desde logo, nota prévia cabe a saber do verdadeiro relevo do problema: diga-se que a determinação de
lei aplicável se dirige a dois tipos de situações: a situações a constituir, e a situações (já constituídas) a reco-
nhecer; avançámos, aliás, quanto ao âmbito do DIP, que o reconhecimento de sentenças estrangeiras é um
problema que também lhe cabe abordar. Ora, como veremos e desenvolveremos adiante, em Portugal, bem
como em grande parte dos sistemas de reconhecimento, reconhecer-se-ão situações constituídas no estran-
geiro contanto que sejam válidas à luz da lei competente (da lex causæ tida pela regra de conflitos do foro),
exigindo-se, nomeadamente, que esta também se considere competente.
Desta asserção se compreenderá o problema: com efeito, no caso de não se considerar competente a lei
apontada pela regra de conflitos do foro (i.e., os elementos de conexão desta e da regra de conflitos da lei
aplicável diferem), que se dirá?
Vejamos o seguinte exemplo:
A, cidadão de nacionalidade brasileira, residente em Portugal, pretende perfilhar uma criança,
dirigindo-se para o efeito a uma conservatória do registo civil; aí, o conservador toma pelo art. 56.º
CCivil, que considera competente a lei da nacionalidade do perfilhante, e aplica lei brasileira.
Chegado ao Brasil, A dirige-se também à conservatória competente para que a perfilhação seja
reconhecida; contudo, valendo no Brasil um sistema de reconhecimento semelhante ao português,
o conservador brasileiro dirige-se à regra de conflitos brasileira, para aferir se a lei do país se
considera competente, e esta toma como aplicável a lei do domicílio do perfilhante (no caso, lei
portuguesa). Quid juris?
Aqui, encontramos um problema, então, radicado na diversidade dos elementos de conexão, a que se
chama conflito de sistemas de DIP, em que os juízos conflituais num e noutro sistemas convocados pela
questão divergem.
Mais uma vez, os conflitos poderão ser positivos (mais do que um sistema se considera competente) ou
negativos (nenhum dos sistemas se considera competente, vendo noutra lei, que não na sua, a lei aplicável),
residindo nestes segundos a hipótese mais relevante.
O principal fundamento comprometido pelo conflito de sistemas de DIP é, claramente, a harmo-
nia jurídica internacional: como é evidente, determinada condição jurídica, considerada à luz de
uma certa lei competente, ficará posta em causa no momento em que, transposta uma fronteira, a
solução conflitual seja outra, e aquela passe a não reconhecida, ou inválida.
Em todo o caso, não deixemos de recordar e sublinhar, o problema da não uniformidade da lei
aplicável tem tendência a desparecer, sobretudo no contexto da europeização do DIP, à luz dos
regulamentos da UE que já referimos: pela harmonização das soluções conflituais, com efeito, o
conflito de sistemas é suprimido, deixando de ser necessária uma qualquer solução. Ainda assim,
ela será precisa de momento.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
A) Conflitos negativos de DIP: o instituto do reenvio
A solução, entre nós, para o problema do conflito negativo de sistemas de DIP assenta essen-
cialmente no instituto do reenvio, que perante tal dilema propõe deixar de aplicar a lei considerada
competente pela regra de conflitos do foro para vir atender antes à lei considerada competente pela
regra de conflitos da lei aplicável.
Antes de nos abeirarmos, porém, do sistema português de reenvio, haveremos que analisar
dois pontos: em primeiro lugar, cabe conhecer os vários tipos de conflitos negativos de sistemas que
se podem colocar (o que, veremos, releva na solução dada pelo sistema português); seguidamente,
cumprirá também conhecer as várias posições dogmáticas adotadas quanto à admissibilidade de
reenvio nos diversos sistemas de DIP.
Lei 1 Lei 2
ii. Retorno indireto: a lei considerada competente remete, pela sua regra de conflitos,
para uma terceira ou quarta lei, que, por sua vez, não se considera competente, tendo
por aplicável a lei do foro.
ii. Transmissão de competências em cadeia: a lei para que remete a nossa regra de
conflitos não se considera competente, remetendo para uma outra que, porém, toma
uma quarta lei (ou até quinta, sendo certo que a partir daqui expediremos raciocínios de
interesse teórico, posto que, pela escassez de elementos de conexão possíveis, tal será
raro), que aceita a sua competência.
Recordando o caso que apresentámos como exemplo, tomaríamos a lei do foro – a lei portu-
guesa –, como Lei 1; tendo vindo a considerar-se competente a lei brasileira, assim Lei 2, concluiu-
se que esta remetia para a lei portuguesa a competência: encontramo-nos perante um retorno direto,
portanto.
Só aqui chegados, lidaremos então com o problema da aceitação do reenvio.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
As diferentes posições quanto à admissibilidade ou aceitação do reenvio
Rigorosamente, a questão da admissibilidade do reenvio reconduz-se a uma problemática
interpretativa sobre a regra de conflitos – rectius, sobre o elemento de conexão –; no fundo, per-
gunta-se sobre como interpretar a remissão a que procede a regra de conflitos, qual o objeto des-
sa remissão: se apenas as normas materiais da lex causæ, ou se além dessas, igualmente, as suas
regras de conflitos.
Conhecemos quanto a isto duas grandes posições dogmáticas:
➢ Tese da Referência Material: a remissão feita pelo elemento de conexão para cer-
ta lei dirige-se imediata e diretamente às suas normas materiais; como tal, haverá que
desconsiderar as regras de conflito desse sistema. Esta opção dogmática vigora nos
sistemas do Brasil e da Argentina, nomeadamente.
Temos aqui, claramente, uma posição hostil ao reenvio, que, desconsiderando as
soluções conflituais, resolve o conflito de sistemas de DIP afastando-o, sem o assumir;
o caso é perspetivado apenas entre a regra de conflitos e a lex causæ, sem atender à
solução conflitual de outro sistema. A resposta limita-se, graficamente, ao seguinte
modelo:
Solução a dar:
(RM)
Lei 1 Lei 2 Tribunal 1 (foro, aqui o
único relevante): Lei 2
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
➢ Tese da Referência Global: numa outra perspetiva, o reenvio é entendido como
princípio interpretativo da regra de conflitos, na medida em que se considera que a
remissão feita pela regra de conflitos do foro haverá de ser tida como que feita, também,
para o sistema de Direito Internacional Privado da lex causæ.
Diferentemente, temos aqui uma posição de princípio que se mostra favorável ao
reenvio, que arvora sobre este tomando-o como assunção de base.
Embora não isenta de críticas – como já veremos, em especial, nas suas diversas
formulações –, a referência global é uma opção com particularidades positivas, compa-
rativamente à referência material.
De entre os argumentos a favor desta posição, destacamos:
a. Argumento da verdadeira aplicabilidade da lex causæ : em bom rigor, o
problema do conflito de sistemas coloca-se na medida em que a lex causæ
não se considera competente; como tal, não será irrelevante notar que ao
rejeitarmos o reenvio, forçando a aplicação da lei que o foro considera com-
petente, não estaremos a perspetivar que essa lei, no sistema de que provém,
não se considere tal, não aceite a sua competência; por isto, os defensores da
tese da referência global tendem a enfocar que insistir na aplicação da lex
causæ, na verdade, implica não a respeitar – e não a “aplicar verdadeira-
mente” –.
b. Argumento da promoção da harmonia jurídica internacional: a refe-
rência global atende ao valor preponderante da harmonia jurídica interna-
cional – da uniformidade da lei aplicável nos vários sistemas conflituantes –;
para lá de um ponto de vista dogmático do estrito cumprimento da harmonia
jurídica internacional, aliás, o garantir desta coordenada promove o próprio
reconhecimento das decisões (que, assim, serão consensuais).
c. Argumento da incindibilidade do sistema jurídico: em defesa da referên-
cia global, ainda, diz-se ser ilegítima uma separação entre o Direito substan-
tivo e o Direito conflitual para efeitos de interpretação da remissão tida no
elemento de conexão: de facto, parecerá estranho pretender considerar par-
cialmente um determinado sistema, que se tem por incindível, assente
também em determinados nexos entre as normas materiais e as opções
conflituais – se bem que, denotemos, isto não é absoluto (na prática, esta
asserção de uma “unidade substancial indivisível” entre umas e outras impli-
caria que a alteração daquelas interferisse nestas, e vice-versa, o que não
sucede), mas ainda essencialmente correto –.
A partir disto, tal admissibilidade do reenvio vem desdobrar-se em três teses dog-
máticas particulares:
Como tal o problema resolve-se com respeito pela harmonia jurídica interna-
cional, posto que a regra de conflitos da Lei 2 determina a aplicação da Lei 1, e a
consagração da teoria da devolução simples no sistema de que esta provém leva a
que tenhamos em conta, na remissão feita, àqueloutra regra de conflitos, aplicando-
se a Lei 1, que ambas admitem aplicar.
Também em sede de uma transmissão de competências simples, mostra-se útil
à harmonia jurídica internacional a tomada de tal postura no foro, independente-
mente da opção tomada nesta sede pelos demais sistemas envolvidos:
Lei aplicável:
(DS)
Lei 1 Lei 2 Lei 3 [C.C] Tribunal 3: Lei 3
Tribunal 2: Lei 3
Tribunal 1: Lei 3
Lei aplicável:
(DS) (DS)
Lei 1 Lei 2 Lei 3 Tribunal 3: Lei 1
Tribunal 2: Lei 1
(RM)
Tribunal 1: Lei 3
Também aqui nos deparamos com essa insuficiência da solução dada pela teo-
ria da devolução simples à prossecução da harmonia jurídica internacional.
Lei aplicável:
(DD) (DS) (RM)
Lei 1 Lei 2 Lei 3 Lei 4 [C.C.] Tribunal 4: Lei 4
Tribunal 3: Lei 4
Tribunal 2: Lei 4
Tribunal 1: Lei 4
Lei aplicável:
(DD) (DS)
Lei 1 Lei 2 Lei 3 Tribunal 3: Lei 1
Tribunal 2: Lei 1
(RM)
Tribunal 1: Lei 1
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
Em todo o caso, esta posição, ao fazer depender a sua resposta daquela que
seja dada no sistema da lex causæ, também implica pela sua base um outro proble-
ma, que surpreendemos exemplarmente no seguinte exemplo de retorno direto, em
que ambas as leis prevejam a foreign court theory como posição dogmática em sede
de reenvio:
Com efeito, mais do que não respeitar a harmonia jurídica internacional (o que
sucedia num caso semelhante com a teoria da devolução simples, como vimos), o
sistema bloqueia, verdadeiramente, chegando a um impasse intransponível sem re-
gras adicionais; a esta situação, FERRER CORREIA e BAPTISTA MACHADO refe-
rem-se metaforicamente como um “jogo de ténis interminável” ou “batalha infin-
dável”.
O art. 17.º toma para os conflitos de transmissão de competências (“reenvio para a lei de
um terceiro Estado”):
Nos casos de transmissão de competências simples, previstos expressamente no art.
17.º/1, o requisito fundamental para que se tenha um tal tipo de conflito é o de que a lei
última (a lei de um terceiro Estado) se considere competente, como vimos: no fundo,
tanto valerá para os casos em que a lei indicada pela regra de conflitos portuguesa aponte
para aquela outra por referência material, devolução simples ou dupla devolução – em
todos estes, a aceitação do reenvio convém à harmonia jurídica internacional –.
✓ Quanto à transmissão de competências em cadeia, diferentemente, exigir-se-á
que a postura em sede de reenvio tomada pela lex causæ seja favorável, necessa-
riamente; mais uma vez, contudo, a lei nada tem expressamente para estes casos,
pelo que convirá proceder a uma interpretação corretiva do preceito, tido como
“se, porém, o direito internacional privado da lei referida pela norma de conflitos
portuguesa remeter, direta ou indiretamente, para outra legislação e esta se consi-
derar competente para regular o caso, é o direito interno desta legislação que deve
ser aplicado”.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
Tenhamos em atenção, apenas para efeitos práticos, que a “lei última” na transmissão
de competências poderá considerar-se competente de forma imediata ou mediata: tome-
mos, por exemplo, uma transmissão de competências simples; na formulação clássica do
conflito, tem-se que a Lei 3 se considera competente, assumindo que a sua regra de confli-
tos a toma por diretamente aplicável:
Lei 1 Lei 2 Lei 3 [C.C.]
Porém, também num caso em que a regra de conflitos da Lei 3 não aceite a sua compe-
tência, mas venha admitir o reenvio de forma a que se considere mediatamente aplicável,
teremos uma transmissão de competências simples que suscita a aplicação do art. 17.º/1;
vejamos:
(RM)
Lei 1 Lei 2 Lei 3
(DS/DD)
Sucederá igualmente numa aparente transmissão de competências em cadeia, que por
força da aceitação do reenvio é, na realidade, uma transmissão de competências simples,
em que a Lei 3 vem aceitar a sua competência:
(DS/DD)
Lei 1 Lei 2 Lei 3 Lei 4
(RM)
Também aqui se lembre que um dos problemas apontados à tese da dupla devolução ou
do reenvio total, como se disse, radica no bloqueio do sistema em sede de retorno direto, motiva-
do por uma foreign court theory que depende da solução dada noutra lei, se ambas as leis
devolverem reciprocamente a competência com essa “aceitação dependente” do reenvio. O
mesmo, convenhamos, pode suceder aqui, posto que a nossa postura pragmática reforça que
consideremos a resposta dada nos sistemas conflituantes para, aferindo da utilidade à harmonia
jurídica internacional que isso possa configurar, admitir ou não o reenvio: dando o exemplo,
suponhamos um conflito de retorno direto possível entre a lei portuguesa (Lei 1) e a lei inglesa
(Lei 2), que prevê a tese do reenvio total.
Lei 1 Lei 2
(DD)
Ora, com base neste esquema, torna-se então relevante a leitura que se faça da estrutura
do sistema de reenvio português e da sua configuração no nosso sistema de DIP, convindo
retomar um ponto a que já aludimos:
FERRER CORREIA, disse-se, encontra no art. 16.º CCivil uma regra geral, à qual
os arts. 17.º e 18.º se contrapõem como exceções; assim, e tendo em conta que a exce-
ção – de aceitar o reenvio – se funda no propósito da harmonia jurídica internacional,
uma tal lógica dá-nos que se deve aplicar a lex causæ, insistindo na lei que o foro teve
por mais próxima, uma vez que a harmonia jurídica internacional se cumpre e que as
nossas opções conflituais hão de ser tidas em consideração.
BAPTISTA MACHADO, diversamente, considera um sistema de lógica mais
complexa, a conjugar o princípio geral do art. 16.º CCivil com os desvios tidos pelos
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
arts. 17.º e 18.º; o autor vê que a hipótese não é prevista por nenhum dos desvios
contidos nestes artigos, compreendendo estar em jogo uma lacuna, cuja solução residirá,
pois, nos princípios de DIP que se conhecem, e que já vimos: nessa lógica, o princípio
preponderante em sede de reenvio, o da harmonia jurídica internacional, já se cumpre,
pelo que teremos que enquadrar, particularmente, um princípio que dissemos vincular
secundariamente – o da boa administração da justiça –, entendendo preferível a aplica-
ção da lex fori ; com efeito, se não vem comprometida a harmonia jurídica internacional,
e a paridade de tratamento não resulta ferida neste caso particular, nada obsta a que se
favoreça a aplicação da lei que o juiz melhor conhece (este raciocínio apraz aos
realizadores do Direito, pelo que tem sido prosseguido na jurisprudência portuguesa,
inclusive no STJ).
Resulta evidente que, muito embora resulte da aceitação do reenvio a consecução estrita
da harmonia jurídica internacional, dela não se consegue a harmonia jurídica qualificada, pelo
que o reenvio não poderá operar.
Compreendido o alcance da harmonia jurídica qualificada, encaremos como procede o
legislador à sua consagração: cabe notar que a formulação tida pelos arts. 17.º/2 e 18.º/2 CCivil
não traduz expressa e diretamente aquele raciocínio de consenso entre a lei da nacionalidade e
a lei da residência ou domicílio, apresentando-se antes numa estrutura mais indireta e concreta.
O art. 17.º/2, para os casos de transmissão de competências, tem que, para matérias
de estatuto pessoal, o reenvio cessa (estamos, pois, perante causas de cessação do reenvio,
de forma particular) quando se verificar um dos seguintes:
1) O interessado reside em Portugal;
2) O interessado reside em país cujas normas de conflitos consideram competente
o direito interno do Estado da sua nacionalidade.
Já o art. 18.º/2, para os casos de retorno, prevê uma exigência motivada pela harmo-
nia jurídica qualificada, mas no sentido de apor requisitos adicionais à admissibilidade do
reenvio, e já não causas de cessação do mesmo, pelo que se tem que o reenvio apenas se
manterá se se tiver um dos seguintes casos:
1) O interessado reside em Portugal;
2) O interessado reside em país cujas normas de conflitos consideram competente
o direito interno português.
Além do que até aqui se disse, convém ainda estudar outros princípios essenciais em sede
do instituto do reenvio, de que se destacam o princípio da maior proximidade e o princípio do
favor negotii.
Quanto à questão de se saber em que medida este princípio vem plasmado no nosso
sistema de DIP, FERRER CORREIA ensina-nos que:
• A aceção restrita não vigora em sentido próprio, mas de forma implícita (aplica-
se, de certa forma, por estar latente em determinadas soluções de DIP vigentes entre
nós): vejamos, especificamente, o art. 1682.º-A CCivil, bem como outras soluções
especiais que implicitamente convocam a sua aplicabilidade (FERRER CORREIA,
inclusive, vê-as como normas de aplicação necessária e imediata).
• A aceção ampla não vigora em Portugal, tendo que sob ela o princípio da maior
proximidade resulta não ser necessário nem suficiente à efetividade da decisão:
▪ Não é suficiente, porque alguns ordenamentos, em matéria de imóveis,
pura e simplesmente nunca reconhecem sentenças estrangeiras, independen-
temente da lei que nelas seja aplicada (p.e., o brasileiro, no qual a matéria é da
competência jurisdicional exclusiva dos seus tribunais);
▪ Pode não ser necessário, na medida em que vigore no país da situação da
coisa a teoria do reconhecimento de direitos adquiridos (como sucede em
França, por exemplo), caso em que o cumprimento da lex rei sitæ não é peren-
toriamente exigido como condição de efetividade da decisão.
Ainda assim, reparemos, o princípio da maior proximidade conhece dois aflora-
mentos na sua aceção ampla (sobretudo graças a FERRER CORREIA, que previra
inicialmente no seu Anteprojeto desta parte do Código Civil a consagração corrigida
desta aceção, tendo tal acabado por ser rejeitado):
- Um afloramento direto temo-lo no art. 47.º CCivil, nos termos do qual,
em sede de capacidade para constituir ou transmitir direitos reais sobre
coisas imóveis, é aplicável a lex rei sitæ, contanto que “essa lei assim o
determine” (isto é, se considere competente).
- Temos ainda um afloramento indireto no art. 17.º/3 CCivil, pelo qual se
reativa o reenvio feito cessar pelo número anterior, sempre que, estando
em causa uma das matérias nele previstas (tutela e curatela, relações patri-
moniais entre cônjuges, responsabilidades parentais, relações entre
adotante e adotado e sucessão por morte), a lei da nacionalidade conside-
rar aplicável a lex rei sitæ dos bens imóveis e esta aceitar a competência.
Diz-se ter aqui um afloramento indireto precisamente por não ser o foro,
mas a lei da nacionalidade a querer chamar à aplicação a lex rei sitæ,
entendendo-se que o relevo da lei da nacionalidade em sede de estatuto
pessoal é suficiente para readmitir o reenvio, antes feito cessar.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
❖ O princípio do favor negotii
Tomando uma situação negocial, pode também suceder que a aceitação do reenvio venha
determinar a invalidade do negócio, ao passo que a lei indicada pela nossa regra de conflitos o
tinha por válido: que dizer, pois, quanto à possibilidade de invocar expectativas legítimas na apli-
cação da regra de conflitos para fazer cessar o reenvio?
Entre nós, pois, cabe ainda convocar em contexto de reenvio um quarto princípio, assim
acrescentado à harmonia jurídica internacional, à harmonia jurídica qualificada e à maior proxi-
midade: o princípio do favor negotii, tido na esteira da materialização do DIP que vimos inspirar-
se em CAVERS, por atento ao resultado material resultante da aplicação da regra de conflitos (no
caso, a invalidade ou validade do negócio), que surpreendemos no art. 19.º CCivil.
No art. 19.º CCivil, encontramos o reafastamento do reenvio admitido nos arts. 17.º ou
18.º, e o consequente regresso à regra ou princípio geral do art. 16.º - a referência material –,
desde que se preencham certos requisitos:
Vemos, com tudo isto, que o princípio do favor negotii se concebe como limite ao reenvio;
porém, tal como se estudou acerca do princípio da harmonia jurídica qualificada, ele poderá
também assumir o papel de fundamento autónomo ao reenvio, convindo considerar os arts.
65.º/1, in fine, e 36.º/2 CCivil: com efeito, ao assumir, em sistemas de conexão múltipla alterna-
tiva, o respeito pela lei apontada no DIP local como bastante à validade do negócio, o legislador
assume o reenvio como possibilidade aberta pelas exigências do favor negotii.
Ainda no plano das considerações essenciais sobre o sistema de reenvio português, nota-
mos que certos elementos de conexão, quando escolhidos, vêm afastar a priori a possibilidade
de reenvio (pelo que dizemos delas serem “conexões inimigas do reenvio”); nomeadamente, po-
demos tomar os seguintes exemplos:
❖ O art. 41.º CCivil prevê como elemento de conexão a escolha das partes; o nosso
legislador, pois, entende como expectativa legítima a confiança das partes na aplicação
daquela lei (de forma próxima, conquanto distinta, do que se disse em sede do princípio
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
do favor negotii ), pelo que a aceitação do reenvio parece comprometer esse equilíbrio
de interesses.
❖ FERRER CORREIA vê, ainda, a conexão do local da celebração – que torna apli-
cável a lex loci actus – também como conexão inimiga do reenvio: considera o autor
que o objetivo da previsão de uma tal conexão se direciona à validade do contrato, fim
que, de outra forma, se perderá necessariamente.
Diga-se, novamente, que este sistema de reenvio só se aplica quanto às regras de conflitos de fonte
interna, e já não para as de fonte europeia ou presentes em convenção internacional de unificação do
DIP: com efeito, todos os regulamentos europeus (exceto o RES, que opta por um sistema idêntico ao
português no seu art. 34.º) e todas as convenções internacionais (exceto uma) perfilham a posição da
referência material, posto que a unificação do critério em vários países, como vimos, suprime o conflito
de sistemas nos ordenamentos abrangidos pelo âmbito dessas soluções conflituais, pelo que, a manter
solução ao problema, será esta.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
o 4 requisitos literais:
1) Matéria de estatuto pessoal: o artigo 31.º/2 aplica-se, como resulta da
epígrafe, às matérias de estatuto pessoal, sendo um preceito de aplicação material-
mente limitada, tendo já procedido acima à consideração dos motivos que a tal
conduzem – no fundo, é aqui e apenas aqui que se justifica este desvio, por força
da existência de um binómio de leis próximas ao indivíduo (residência e
nacionalidade) e atenta a sensibilidade das matérias implicadas –.
2) Situações criadas por negócios jurídicos: só se permite este reconhecimento
excecional às situações criadas por força de negócio jurídico e não ex lege.
Surpreende-se aqui o verdadeiro fundamento sistemático do reconhecimento
destas situações: o princípio do favor negotii, orientado pela proteção e salvaguar-
da de expectativas legítimas das partes na validade do negócio que celebraram,
situações necessariamente já constituídas, por só aí encontrarmos (dissemo-lo a
propósito de um reparo doutrinal quanto ao art. 19.º CCivil, e aqui resulta
expresso) verdadeiras expectativas a proteger.
3) Celebração do negócio no país da residência: a sedimentação das expectativas
consideradas obedece, evidentemente, a que o negócio haja sido celebrado no
país cuja lei se discute vir a possivelmente aplicar.
4) Conformidade do negócio com a lex domicilii, desde que esta se considere
competente: em linha com o requisito anterior, e com a finalidade da solução, o
negócio há de ser válido à luz da lei da residência, e esta haverá de se considerar
competente; na senda de assegurar a validade do negócio, como que se tem aqui
uma quase conexão múltipla alternativa, a depender, em todo o caso, da aceitação
da competência por parte da lex domicilii, posto que apenas aqui se entende que
as partes verdadeiramente contariam com a aplicação dessa lei.
o 3 requisitos doutrinais:
5) Situação jurídica já consolidada: apenas se considera existirem expectativas
legítimas das partes se o negócio jurídico em causa houver sido celebrado há
algum tempo, se tiver decorrido um período bastante para se considerar que a
situação se tem consolidada.
6) Inexistência de sentença estrangeira sobre a situação: havendo já sentença
proveniente de outro foro sobre o assunto em particular, estaremos perante um
problema de reconhecimento de sentenças estrangeiras, e não perante o proble-
ma conflitual (em cujo estudo, lembremos, ainda nos encontramos).
7) Suscitação da questão a título principal, e não como questão prévia: sabendo
que não é possível agora abeirarmo-nos dos problemas da questão prévia e do
reenvio oculto, fica claro que não poderá a questão ser tomada neste âmbito, por
ser suscitada a título incidental, mas ao instituto próprio da questão prévia em
DIP.
Tendo em conta estas condições legais e doutrinais, convém dar conta de que a doutrina tem
vindo a considerar alguns reparos corretivos à interpretação do art. 31.º/2 CCivil, por força da teleologia
que o inerva, destacando sobretudo três questões.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
A extensão teleológica motivada a propósito do 3.º requisito literal:
Suponhamos um caso em que o negócio é celebrado de acordo com a lei da residência,
mas noutro ordenamento jurídico que não o da lex domicilii : fará sentido vedar o acesso ao
reconhecimento da situação jurídica, cumpridos todos os requisitos e concluindo pela
existência de legítimas expectativas na sua validade, tão somente por não se ter celebrado o
negócio no país da residência do interessado?
Por esta razão a doutrina e jurisprudência propõem unanimemente, em nome da
finalidade do art. 31.º/2 e de uma sua necessária flexibilização, que se proceda a uma extensão
teleológica na interpretação que implica desconsiderarmos o 3.º requisito, abdicando da sua
rigidez quando o negócio seja válido à luz da lex domicilii.
Assim, a cumulatividade dos requisitos em ordem ao reconhecimento de direitos
adquiridos não obsta a que possa o negócio jurídico implicado não ter sido celebrado no país
da residência.
A extensão teleológica motivada a propósito do 4.º requisito literal:
Também de forma unânime, em nome da teleologia inerente ao art. 31.º/2 CCivil, a
doutrina e a jurisprudência têm atentado em que a formulação do 4.º requisito literal (“[esteja
o negócio] em conformidade com a lei desse país [da residência habitual], desde que esta se
considere competente”) também se mostra rígida quanto aos casos em que, muito embora a
lex domicilii não se considere competente ou o negócio não lhe obedeça, a situação é
considerada válida no sistema dessa lei – em bom rigor, também aqui as expectativas geradas
se devem ter por fortes e legítimas –.
Assim sendo, cumpre, de igual modo, fazer uma interpretação corretiva no sentido da
extensão do preceito, que assuma o reconhecimento da situação jurídica constituída por
negócio jurídico celebrado no estrangeiro desde que o sistema da lei da residência habitual o
considere válido (de forma genérica, que as autoridades do país da residência considerem essa
situação válida), relevando apenas esse aspeto – e não um rígido seguimento da lex domicilii
considerada competente – para tal efeito.
A interpretação analógica de FERRER CORREIA:
Sabendo que o esforço de alargamento do âmbito do preceito pela totalidade da doutrina
comunga naqueles reparos, tem-se que a Escola de Lisboa se queda por eles, não
considerando admissível o reconhecimento, se tudo aquilo falhar; porém, a Escola de
Coimbra avança ainda uma última hipótese teórica, em que cumpriria alargar de forma
peculiar o instituto do reconhecimento de direitos adquiridos consagrado no art. 31.º/2
CCivil.
Tomemos o seguinte caso prático:
A e B, nova-iorquinos residentes em Itália, contraem casamento no Canadá, à luz de
cuja lei se concluiu não existir, em sede de capacidade nupcial, qualquer impedimento
matrimonial; porém, A e B encontram-se ligados entre si por laços de parentesco que,
quer nos termos do Direito material italiano, quer nos termos do Direito material nova-
iorquino, redundariam na nulidade do casamento.
Supondo que o casamento produziu efeitos nos Estados Unidos da América e
considerando que:
✓ O Direito italiano remete para a lei nacional dos nubentes,
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
✓ O Direito de Nova Iorque e o Direito canadiano referem-se,
para o efeito, à lei do local da celebração, e
✓ Os três ordenamentos são hostis ao reenvio,
como resolverá o problema, hoje, um tribunal português chamado a apreciar a questão?
Considerando os sistemas português (lex fori ), nova-iorquino (lex patriæ ), canadiano (lex
loci actus ) e italiano (lex domicilii ), respetivamente, como Lei 1, Lei 2, Lei 3 e Lei 4, teríamos
que:
Claramente, não se cumpre a harmonia jurídica qualificada, muito embora haja harmonia
jurídica internacional, pelo que não poderá caber o reenvio – em termos legais, teríamos a
situação descrita no art. 17.º/1, 2 CCivil, fazendo-se cessar esse mecanismo. Porém, atento o
que já vimos, poderíamos hipotetizar o reconhecimento de direitos ad-quiridos, uma vez que
está em jogo matéria de estatuto pessoal e convocam-se, sem dúvida, legítimas expectativas na
validade do negócio, pelo que nos dirigiríamos aos vários requisitos que estudámos, com os
reparos a que procedemos:
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
Tendo em conta tudo isto, parece que, por força do 4.º requisito, não poderemos
reconhecer o casamento celebrado entre A e B, posto que o art. 31.º/2 CCivil no-lo nega,
ainda que considerada a interpretação corretiva a que procedem a doutrina e a jurisprudência.
Todavia, FERRER CORREIA atenta que a lei da nacionalidade, neste caso a lei nova-
iorquina (Lei 2), considera aplicável a lex loci actus, no caso a lei canadiana (Lei 3), e esta,
que assume a competência, toma o casamento por válido; por outras palavras, o sistema da
lei da nacionalidade reconhecerá a validade do casamento, muito embora o seu estrito Direito
material o não faça: ora, na linha do raciocínio que se expede em prol da interpretação
corretiva do 4.º requisito literal quanto à lei da residência habitual, FERRER CORREIA opta
por uma interpretação enunciativa – também podendo ser dita analógica –, pela qual, por
maioria de razão, a admissibilidade do reconhecimento motivada pelo facto de o sistema da
lex domicilii considerar válido o negócio obriga, igualmente, à admissibilidade do reconheci-
mento motivada pelo facto de o sistema da lex patriæ considerar válido o negócio, sempre
orientada pelo peso do favor negotii.
Reparemos que, interessantemente, esta leitura implica readmitir o reenvio que o art.
17.º/2 CCivil levou a rejeitar, pelo que se poderá dizer que a uma tal interpretação analógica
do art. 31.º/2 corresponderá uma interpretação restritiva do art. 17.º/2; tendo em conta que,
como sabemos, a Escola de Lisboa não a perfilha, esta conclusão implica discussão doutrinal:
• Por um lado, os autores desta Escola (destacadamente LIMA PINHEIRO) acham
ilegítima tal compreensão, tendo, sobretudo, por fundamento que à harmonia jurídica
qualificada – cujo relevo assim se compromete – subjazem interesses gerais do tráfego
jurídico, ao passo que o favor negotii exprime interesses de caráter particular; como
tal, entendem, admitir o reenvio em contrariedade do disposto no art. 17.º/2 não colhe
um fundamento verdadeiramente viável, e não se deve ter por possível.
• Em resposta a esta objeção, contudo, FERRER CORREIA e a Escola de Coimbra
consideram improcedentes tais críticas, retorquem no sentido de que é o próprio legis-
lador quem se mostra aberto a este raciocínio, uma vez que o art. 19.º CCivil mais não
é do que a derrogação – legítima – do art. 17.º/2 e da harmonia jurídica qualificada aí
implicada em nome do favor negotii.
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O art. 20.º/1 dá-nos a remissão para o Direito interterritorial ou interlocal do sistema plu-
rilegislativo, concebendo-se a solução, já estudámos, como que assente no corpo jurídico in-
terno que resolva o conflito de leis dentro de um Estado com esta particularidade (veja-se,
nomeadamente, o Direito interregional previsto no art. 14.º do Código Civil espanhol).
Pode, em todo o caso, suceder que o ordenamento plurilegislativo da lex causæ não pre-
veja qualquer Direito interno interterritorial geral (é o que sucede, nomeadamente, nos EUA);
a tanto, responde o art. 20.º/2 dispondo que a solução se extrai através do recurso às regras
de DIP do Estado plurilegislativo em causa.
o Ainda assim, pode sempre suceder que cada ordenamento jurídico vigente no Esta-
do conheça o seu próprio DIP – em específico, nos EUA cada Estado federado tem um
DIP próprio –; FERRER CORREIA nota que, concordando na opção conflitual os vários
ordenamentos, não se colocam problemas, devendo esta ser seguida como única. Já
quanto à possibilidade de as soluções diferirem de um para outro, o art. 20.º/2, in fine
considera lei pessoal a lei da residência. Quanto o sentido desta solução, contudo, a dou-
trina divide-se: estaremos a precisar o elemento de conexão da nacionalidade dentro do
sistema como determinável através da residência, ou estaremos a abdicar dessa tarefa, e
de aplicar a lex patriæ, passando a ter na residência um outro elemento de conexão?
FERRER CORREIA, quanto a isto, considera a lei da residência como – a par da lex
patriæ – lei extremamente querida pelo legislador conflitual enquanto próxima do interes-
sado (as opções conflituais dos vários Estados quanto à definição da lei pessoal assentam
neste binómio, precisamente), o que já fomos surpreendendo em vários pontos do nosso
sistema de DIP:
▪ Em sede de reconhecimento de direitos adquiridos (art. 31.º/2 CCivil);
▪ Como base de aferição de harmonia jurídica qualificada, no instituto do reenvio
(arts. 17.º/2 e 18.º/2 CCivil);
▪ Como conexão subsidiária frequente em várias regras de conflitos;
▪ Apontada como lei pessoal dos apátridas (art. 32.º/1 CCivil).
o Já MAGALHÃES COLLAÇO entende que o art. 20.º/1, 2 CCivil servirá sempre para
definir o elemento de conexão da nacionalidade dentro da especificidade de um sistema
plurilegislativo, sendo certo que apenas dentro do sistema da lex causæ o art. 20.º/2, in
fine será operativo. Como tal, suscita-se o problema de saber da lei aplicável nos casos
em que o interessado não resida no Estado da sua nacionalidade: aí, diversamente, a
autora invoca a concretização judicial do princípio da proximidade – figura que já nos é
conhecida como decorrente do fenómeno de flexibilização do DIP motivado por
CAVERS –, pelo que recairá sobre o juiz a tarefa de identificar a lei mais próxima.
2.ª) A lei estrangeira para que remete a regra de conflitos é de conhecimento oficioso?
A questão aqui colocada, naturalmente, pode ser também formulada de outro modo: pergunta-
se se teremos na regra de conflitos uma questão de facto (cuja prova incumbe às partes) ou uma
questão de direito (a ser provada pelo juiz).
❖ Também por forma a evitar a desarmonia jurídica internacional, o legislador dá-nos que
não deverá ficar a cargo das partes a prova do Direito estrangeiro:
o Com efeito, o art. 348.º/1 CCivil, parecendo apontar ab initio no sentido contrário
(“àquele que invocar direito consuetudinário, local ou estrangeiro, compete fazer a
prova da sua existência e conteúdo”), oferece tão somente um dever de colaboração
das partes, que não afasta o caráter oficioso do seu conhecimento (“mas o tribunal
deve procurar, oficiosamente, obter o respetivo conhecimento”).
o Neste sentido aponta, ainda, o art. 694.º CPC, que toma a má aplicação do Direito
estrangeiro como suscetível de recurso de revista (pelo que resulta considerar-se esta
uma matéria de direito).
Para operacionalizar tal solução, existe, junto da Procuradoria-Geral da República, o Gabinete
de Documentação e do Direito Comparado, plataforma de apoio aos tribunais portugueses no
conhecimento da lei estrangeira e de contacto com as congéneres noutros ordenamentos, por forma
a manter-se atualizada e assegurar a eficiência da justiça neste plano. Precisemos, contudo, que o
conhecimento oficioso se estende, para além do Direito material, às regras de conflitos – uma vez
que se põe, à luz do nosso sistema de reenvio, a possibilidade de admitir esse instituto em certos
conflitos de sistemas, como estudámos –.
Mesmo neste contexto, pode perguntar-se quanto aos casos em que não seja possível ao tribunal
conhecer a lei estrangeira aplicável: aqui, embora exista um critério legal, a doutrina avança com
uma solução anterior:
FERRER CORREIA considera, de um modo geral, que o juiz deveria aplicar a “lei
provavelmente aplicável”, numa perspetiva puramente doutrinária: nomeadamente, não
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conhecendo a lei em vigor mas sim a lei anteriormente vigente, aplicar esta; também no caso
de conseguir inserir o sistema da lex causæ numa família de sistemas mas não conseguir apurar
o conteúdo da sua lei, aplicar a lei de um dos ordenamentos próximos. Em todo o caso, por
puramente doutrinal, esta consideração não basta, nem se mostra consensual na doutrina.
o O critério legal a que nos referimos reside nos arts. 23.º/2 e 348.º/3 CCivil:
▪ Em primeiro lugar, o art. 23.º/2 determina que, não sendo possível averiguar o
conteúdo de lei estrangeira, se aplicará a lei subsidiariamente competente;
▪ Seguidamente, entende-se que em matérias do estatuto pessoal se nos permite
aplicar a lex domicilii, uma vez que, como vimos, o entendimento global do sistema
revela-se ser o de atender à sua relevância neste âmbito (em sede do reconhecimento
de direitos adquiridos, por força do favor negotii ; na aferição da harmonia jurídica
qualificada, no instituto do reenvio; pela sua previsão recorrente em sistemas de
conexão múltipla subsidiária; na tutela dos apátridas, tida como sua lei pessoal; na
solução do art. 20.º/2 CCivil, quanto ao problema da aferição da lei pessoal perante
sistemas plurilegislativos de base territorial);
▪ Não estando em matéria de estatuto pessoal e não valendo um sistema de conexão
múltipla subsidiária, o art. 348.º/3 CCivil remete o problema para “as regras do direito
comum português”; a ver do curso, somos chamados, neste problema eventualíssimo
a convocar o princípio da boa administração da justiça, pelo qual será aplicável a lex
fori, por ser a que o aplicador melhor conhece.
3.ª) Quid juris quando não seja possível concretizar a regra de conflitos?
Nos casos em que não consigamos concretizar a regra de conflitos, por não ser possível materi-
alizar o elemento de conexão, tem a doutrina que nos deparamos com um problema também moti-
vado pela falha da regra de conflitos, nos mesmos termos considerados acima; como tal, entende-
se valer igualmente a solução do art. 23.º/2, articulada com a especificidade do estatuto pessoal e o
disposto no art. 348.º/3.
Por força da formulação do art. 348.º CCivil, discutiu-se sobre se este regime deveria valer para todos e
quaisquer aplicadores do Direito, ou se tão somente para os juízes – dúvida que decorria da mera referência do
preceito ao “tribunal” –: sendo esta a única regra conhecida na matéria, entendemos que vale analogicamente
para as conservatórias, cartórios notariais e para a Administração Pública, salvo, claro está, se preveja regra
especial; como regra especial temos, nomeadamente:
• O art. 85.º/2 do Código Notarial, nos termos do qual, se o notário não conseguir conhecer o
conteúdo da lei competente, pedirá aos interessados a prova do Direito estrangeiro;
• O art. 83.º-A do Código do Registo Predial, a valer para os conservadores do registo predial, do
registo automóvel e do registo comercial, que dispõe igualmente que, se não se conseguir determinar
o conteúdo da lex causæ, se exige ao interessado a prova do conteúdo do Direito estrangeiro.
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5) O instituto da fraude à lei: breve alusão
O instituto da fraude à lei visa impedir que as partes modifiquem a lei aplicável por forma a conseguir
certos resultados, assegurando assim que a lei imperativa nunca saia defraudada: sendo este um problema que,
pela sua natureza, apenas se coloca em sede de regras de conflitos com sistemas de conexão móvel, este artifício
jurídico encontra-se em franca decadência, em uso e relevo, com a tendência crescente das soluções conflituais
assumirem a autonomia conflitual (como se surpreende nos arts. 41.º CCivil e nos diversos regulamentos
europeus).
De forma muito breve, entre nós, a fraude à lei vem prevista no art. 21.º CCivil, e assenta em quatro pres-
supostos elementares:
A) Intenção fraudatória ou intuito fraudulento: há de demonstrar-se a vontade das partes de evitar
a aplicabilidade da lei outrossim competente;
B) Atividade fraudatória: o instituto da fraude apenas intervém se a atividade das partes houver
tido influência efetiva na modificação da concretização da regra de conflitos;
C) Norma defraudada ou norma-objeto: aqui temos a norma que se pretendeu defraudar, a lei que
“seria competente” e cuja aplicação, assim, se quis ver afastada;
D) Norma-instrumento: por outro lado, aqui vemos a regra de conflitos de que as partes se
serviram para, através da sua manipulação, evitar a aplicação da norma defraudada.
Na tradicional conceção, que é seguida por FERRER CORREIA, vale o disposto hoje no art. 21.º, por
força do qual se desconsidera a modificação operada pelas partes; inquire-se, porém, sobre qual será o efeito
de tal “desconsideração”; porém:
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Cabe distinguir a ordem pública internacional da ordem pública interna (art. 280.º CCivil): enquanto
que esta se configura enquanto conjunto intransponível de normas imperativas internas, a ordem pública
internacional é um mecanismo de evicção da lei estrangeira, por motivos e em casos fundamentalmente
diversos (quando, desde logo, o resultado da sua aplicação seja manifestamente chocante com os prin-
cípios fundamentais vigentes no foro, seja intolerável), assente em fundamentos estruturantes do nosso
sistema, essenciais no ordenamento jurídico português.
Apontam-se, classicamente, quatro características à ordem pública internacional:
I) Excecionalidade
A ordem pública internacional apenas funciona em casos contadíssimos; além disto, a
sua convocação é aposteriorística, por sobre a consequência de todos os outros expedientes
de DIP, sendo mobilizada muito raramente.
II) Atualidade
A ordem pública internacional depende, na sua invocação, dos princípios na sua aceção
vigente, ou seja, na sua compreensão axiológica atual no sistema português.
III) Nacionalidade
A ordem pública internacional apenas tem sentido entendendo-se por uma necessidade
de tutela dos valores e princípios estruturantes nacionais (o que não proíbe que esses valores,
em todo o caso, sejam comuns em mais do que uma ordem jurídica).
IV) Imprecisão
Sabendo da mutabilidade do sentido dos valores e dos princípios, convém notar que, se
o que se pretende contrariar através da ordem pública internacional é a aplicação material da
lei, a perspetiva do caso concreto se afigura indispensável; como tal, será o juiz que, tomando
a controvérsia, aferirá da invocabilidade da ordem pública internacional à situação em
específico.
Pelo caráter excludente da ordem pública internacional, poderia isto suscitar problemas
do ponto de vista da segurança jurídica, pelo que a doutrina avança alguns critérios atentos à
relatividade da figura; assim, o grau de exigência nesta sede variará em função:
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Cabe ainda uma referência ao efeito atenuado da ordem pública internacional: é possível, note-se, que
esta seja mobilizada para efeitos de não aplicação da lex causæ, mas apenas quanto a certos efeitos, deixando
intactos outros, por força da sensibilidade do DIP à justiça material (veja-se o célebre exemplo de um casamento
bígamo por força de cujo não reconhecimento operaria a perda de direitos sucessórios e a extinção de uma
obrigação de alimentos, com base no qual, precisamente, a teoria do efeito atenuado da ordem pública interna-
cional se firmou).
Porém, sublinhemos que não se desistirá, à partida, da lei competente: assim, o aplicador procurará nela
uma outra regra ou norma material aplicável que não redunde num resultado semelhantemente inadmissível
(por exemplo, uma norma geral, ao invés da norma especial), só em última análise recusando a aplicação de lei
estrangeira em favor do recurso à lex fori – isto resulta da natureza e dinâmica da figura –.
A ordem pública internacional, por fim, assume duas possíveis funções:
Por um lado, poderá ter uma função proibitiva, ou impeditiva, se por sua força a situação em
consideração deixar de ser admitida (isto é, por negar o reconhecimento desta, ao vedar a aplicação
da lei estrangeira tida competente pela regra de conflitos) – será, nota o curso, sempre o seu efeito
direto –;
Poderá, de igual modo, ter-se nela uma função permissiva, ou positiva, se por sua força a situação
em análise passar a ser reconhecida (ou seja, por admitir uma situação que a lei estrangeira determi-
nada aplicável, se aplicada, rejeitaria).
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a lei aplicada no processo de que resulta a decisão a reconhecer é a lei que, para tal matéria,
o foro considera competente.
ii. Sistema de controlo formal, ou da delibação – não se chega a controlar o conteúdo da
sentença, mas apenas a formalidade do processo (isto é, atende-se ao processo proprio sensu,
inquirindo do cumprimento de princípios processuais, da verificação de todos os pressupôs-
tos, mormente a competência jurisdicional, etc.).
De forma genérica, estes regulamentos preveem, pois, o reconhecimento automático como sistema apli-
cável a quase todos os efeitos das sentenças, não valendo tal para o efeito da força executiva.
No específico ordenamento jurídico interno, dispõe o art. 978.º CPC sobre o sistema português
de reconhecimento de sentenças, de que cabe referir, previamente, tratar-se de um método subsidiário,
a que apenas se recorre na impossibilidade de recurso a um outro (assim, como considera a primeira
parte do art. 978.º/1, apenas não se conhecendo tratados ou convenções internacionais que Portugal
tenha celebrado e ratificado, regulamentos europeus, ou leis especiais – veja-se a Lei da Arbitragem,
ou o Código da Insolvência e da Recuperação de Empresas, que regulam também estas questões em
especial – deverá o juiz recorrer-lhe).
Nos termos do preceito em análise, o método vigente entre nós é um método de controlo prévio,
a que a lei se refere enquanto “revisão”: nos termos do art. 978.º/1 CPC, “nenhuma decisão sobre
direitos privados, proferida por tribunal estrangeiro, tem eficácia em Portugal, seja qual for a naciona-
lidade das partes, sem estar revista e confirmada”, sendo certa a limitação do regime às relações jurí-
dicas internacionais privadas (nomeadamente, destaca-se a possibilidade de se reconhecer sentença
penal no respeitante à fixação de uma indemnização, na medida em que esse aspeto trata de direitos
privados, para tal efeito).
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Tem o art. 978.º/2 que “não é necessária a revisão quando a decisão seja invocada em processo pendente
nos tribunais portugueses, como simples meio de prova sujeito à apreciação de quem haja de julgar a causa”,
pelo que, podemos dizer, se dispõe na conformidade de apenas se colocar o problema em sede daqueles efeitos
que vimos.
A competência jurisdicional para proceder a este controlo ou “revisão” recai sobre os Tribunais da Rela-
ção, conforme o art. 979.º CPC.
d) Não cabimento da exceção de litispendência ou de caso julgado em Portugal – também aqui sur-
preendemos uma questão formal.
e) Que o réu tenha sido regularmente citado e se hajam observado os princípios do contraditório e
da igualdade das partes – novamente, uma preocupação com aspetos processuais formais.
Por tudo isto, poderemos concluir, o sistema português convoca todas as características de um sistema
de controlo prévio, na modalidade de controlo formal ou delibação; contudo, esta conclusão não vale em toda
a linha, na medida em que se conjugam ainda três passagens específicas que sensibilizam o mecanismo ao
conteúdo das decisões estrangeiras a reconhecer.
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Desde logo, a última alínea do art. 980.º CPC, a alínea f), abre exceção para as decisões cujo reconhe-
cimento conduza a resultado manifestamente incompatível com princípios da ordem pública internacional do
Estado: a figura da ordem publica internacional, que acabámos de estudar, desempenha necessariamente o seu
papel no âmbito do exequatur de sentenças estrangeiras, além de no problema conflitual. Vale, pois, o que se
disse quanto à ordem pública internacional supra, sabendo ter-se aqui uma – limitada – referência ao mérito da
decisão.
Além disto, há que notar que este processo especial não finda pela simples aplicação dos requisitos do
art. 980.º, cabendo considerar também o art. 983.º CPC, em que se preveem os fundamentos da impugnação
do pedido de reconhecimento, ainda que os requisito analisados se preencham.
art. 983.º/1: Casos de recurso de revisão – nos casos deste recurso extraordinário, geralmente motivado
por se colocar em causa o mérito da decisão do tribunal (aqui, em especial, os casos das alíneas a),
c) e d) do art. 696.º CPC), admite-se a impugnação do pedido de reconhecimento de sentença.
art. 983.º/2: Privilégio da nacionalidade – quando a sentença tiver sido proferida contra pessoa singular
ou coletiva de nacionalidade portuguesa, caberá igualmente impugnação do pedido de reconheci-
mento, contanto que se faça prova de que:
a. Segundo as regras de conflitos portuguesas, a lei competente é a lei portuguesa;
b. O resultado da aplicação da lei portuguesa teria sido mais favorável ao réu.
Tem-se, quanto a este privilégio, discutido se não se comprometerá a proibição da discrimina-
ção em razão da nacionalidade, motivada, no contexto da União Europeia, pela liberdade de circula-
ção de indivíduos; embora sendo dúbio, não nos parece ser o caso, na medida em que nenhuma
ação de incumprimento veio ser intentada contra Portugal sobre o assunto.
Nos casos dos arts. 980.º/f) e 983.º/1, 2 CPC já não teremos, portanto, uma delibação, mas sim um con-
trolo de mérito, ainda que circunscrito a certos casos: como tal, fala-se num sistema de controlo prévio tenden-
cialmente formal para o reconhecimento de sentenças estrangeiras, com referências ocasionais ao mérito da
decisão.
Perante tal pluralidade de instrumentos, perguntar-se-á das específicas regras a convocar quando esteja em
causa a lei aplicável a um contrato internacional, valendo para o efeito três critérios de ordenação constantes do
Regulamento Roma I, tendo que nos orientamos pela fonte mais recente:
Critério material, ou do conceito-quadro – como se disse, haverá que estar em causa um contrato, ou
negócio jurídico bilateral, como consta do art. 1.º/1 Regulamento Roma I.
Critério temporal – atenta a norma transitória do art. 28.º do Regulamento Roma I, este só será aplicável
aos contratos celebrados a partir de dia 17 de dezembro de 2009 (de acordo com a retificação no Jornal
Oficial da União Europeia, L 177, 4/7/2008). Quanto aos anteriores a essa data, convirá ter em conta
que a Convenção de Roma, por materialmente idêntica, ainda se aplicará postos os demais critérios,
desde que a celebração do contrato seja posterior a 1 de janeiro de 1994, inclusive; se anterior a 1994,
aplicar-se-á o Código Civil.
Critério da exclusão expressa – para a aplicação do Regulamento Roma I, não poderemos estar perante
matéria expressamente excluída pelo mesmo; para o efeito, o diploma exclui uma série de matérias no
art. 1.º/2, na linha do disposto na Convenção de Roma (pelo que, estando em causa uma delas, nos
dirigiremos necessariamente ao Código Civil):
«a) O estado e a capacidade das pessoas singulares, sem prejuízo do art. 13.º;”
«b) As obrigações que decorrem de relações de família ou de relações que a lei que lhes é aplicável
considera produzirem efeitos equiparados, incluindo as obrigações de alimentos;»
«c) As obrigações que decorrem de regimes de bens no casamento, de regimes de bens no âmbito
de relações que a lei que lhes é aplicável considera produzirem efeitos equiparados ao
casamento, e as sucessões;»
«d) As obrigações que decorrem de letras, cheques e livranças, bem como de outros títulos
negociáveis, na medida em que as obrigações decorrentes desses outros títulos resultem do seu
carácter negociável;»
«e) As convenções de arbitragem e de eleição do foro;»
«f) As questões reguladas pelo direito das sociedades e pelo direito aplicável a outras entidades
dotadas ou não de personalidade jurídica, tais como a constituição, através de registo ou por
outro meio, a capacidade jurídica, o funcionamento interno e a dissolução de sociedades e de
outras entidades dotadas ou não de personalidade jurídica, bem como a responsabilidade pessoal
dos sócios e dos titulares dos órgãos que agem nessa qualidade relativamente às obrigações da
sociedade ou entidade;»
«g) A questão de saber se um agente pode vincular, em relação a terceiros, a pessoa por conta da
qual pretende agir ou se um órgão de uma sociedade ou de outra entidade dotada ou não de
personalidade jurídica pode vincular essa sociedade ou entidade perante terceiros;»
«h) A constituição de trusts e as relações que criam entre os constituintes, os trustees e os
beneficiários;»
«i) As obrigações decorrentes de negociações realizadas antes da celebração do contrato;»
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«j) Os contratos de seguro decorrentes de atividades levadas a efeito por organismos que não as
empresas referidas no artigo 2.º da Diretiva 2002/83/CE do Parlamento Europeu e do Conselho,
de 5 de novembro de 2002, relativa aos seguros de vida cujo objetivo consista em fornecer
prestações a assalariados ou a trabalhadores não assalariado que façam parte de uma empresa
ou grupo de empresas, a um ramo comercial ou grupo comercial, em caso de morte ou
sobrevivência, de cessação ou redução de atividades, em caso de doença profissional ou de
acidente de trabalho.»
Posto isto, o art. 2.º do Regulamento Roma I prevê para si um âmbito universal, posto que “a lei [por ele]
designada (…) é aplicável mesmo que não seja a lei de um Estado-Membro”: assim, desde que o contrato interna-
cional tenha contacto relevante com o ordenamento de um Estado-Membro, as regras de conflitos aqui previstas
valerão independentemente de a lex causæ ser, no caso, a lei do Estado-Membro em questão.
Antes de nos abeirarmos propriamente do disposto quanto à lei aplicável aos contratos, cabe referir que:
➢ O art. 20.º rejeita o reenvio, prevendo um sistema de referência material;
➢ O art. 21.º viabiliza o funcionamento do expediente da ordem pública internacional;
➢ O art. 9.º, como já estudámos, admite no seu número 2 as normas de aplicação necessária e
imediata do foro, bem como algumas estrangeiras, nos termos do art. 9.º/3.
Uma vez determinada a lei aplicável ao contrato, teremos que por ela se virão reger, segundo o art. 12.º:
«a) A interpretação ;»
«b) O cumprimento das obrigações dele decorrentes;»
«c) Nos limites dos poderes atribuídos ao tribunal pela respetiva lei de processo, as consequências
do incumprimento total ou parcial dessas obrigações, incluindo a avaliação do dano, na medida
em que esta avaliação seja regulada pela lei;»
«d) As diversas causas de extinção das obrigações, bem como a prescrição e a caducidade ;»
«e) As consequências da invalidade do contrato.»
Art. 3.º/1 Reg. Roma I – “o contrato rege-se pela lei escolhida pelas partes”;
Art. 41.º/1 CCivil – “as obrigações provenientes de negócio jurídico, assim como a própria
substância dele, são reguladas pela lei que os respetivos sujeitos tiverem designado ou houverem
tido em vista”.
Daqui resulta, de forma notória, a consagração de um princípio a que temos aludido, mas que caberá
agora desenvolver, pelo seu enorme peso no DIP especial: o princípio da autonomia privada conflitual.
O princípio da autonomia conflitual não é recente, conhecendo-se mesmo desde os estatutários do século
XVI (na altura, especificamente, em sede de regime matrimonial), e considera-se hoje absolutamente primordial
no DIP, tendo vindo a conhecer grande incremento nas opções conflituais mais recentes.
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FDUC – 2018/2019 Joaquim Nolasco Gil
❖ Haverá, aqui, que distinguir autonomia conflitual de autonomia material: como sabemos pelo
estudo da teoria geral do Direito Civil, pela autonomia privada material, tida no seu corolário princi-
pal da liberdade contratual, as partes poderão escolher celebrar ou não celebrar negócios jurídicos (a
Abschlussfreiheit do direito germânico), bem como modelar livremente o conteúdo do contrato, den-
tro de certas disposições imperativas (Gestaltungsfrieheit ), pelo que se poderá já dizer que a escolha
da lei aplicável influenciará, necessariamente, o regime dentro do qual as partes virão exercer a sua
autonomia material.
o O legislador europeu opta pela conexão da escolha das partes, sem dúvida, como projeção
necessária do princípio da autonomia privada, havendo também causa na segurança jurídica e
na previsibilidade do regime.
Com efeito, o princípio da autonomia conflitual é quase que ecuménico, na medida em que apenas pou-
quíssimos Estados o rejeitam (nomeadamente, o Brasil) nas suas soluções em sede de contratos, e as vantagens
que se lhe associam na estabilidade das relações jurídicas têm provocado a previsão deste elemento de conexão,
também, quanto à responsabilidade extracontratual, ao regime de bens do casamento, ao divórcio e à separação
judicial de pessoas e bens, e ainda às sucessões.
Ainda assim, convirá notar que a autonomia conflitual, por vezes, se faz sentir gradada, mais ou menos
generosa consoante o específico caso em apreciação: a este propósito, convém suscitar cinco questões, a que
cabe dar resposta à luz do Regulamento Roma I, do Código Civil e das respetivas considerações teóricas:
I) A escolha das partes deverá ser expressa, ou admite-se uma escolha tácita?
art. 3.º/1 Reg. Roma I – admitem-se ambas;
art. 41.º/1 CCivil – admitem-se ambas.
Isto, convenhamos, gera o problema de, no caso de não haver escolha expressa, aferir da
existência ou inexistência de escolha tácita; temos que o julgador, quanto a isto, inquirirá da
escolha ou da sua falta através de certos indícios, nomeadamente:
Referências a normas materiais de um ordenamento jurídico;
Escolha do tribunal competente;
Menção de um instituto específico de certo ordenamento jurídico.
II) A autonomia conflitual é livre, ou estarão as partes necessariamente limitadas a certas leis possíveis?
art. 41.º/2 CCivil – as partes só poderão escolher lei cuja aplicabilidade corresponda a um
interesse sério dos declarantes ou esteja em conexão com algum dos elementos do negócio
atendíveis no domínio do DIP (assim, prevê-se uma autonomia conflitual limitada);
art. 3.º Reg. Roma I – a autonomia conflitual é livre.
A diferença entre as soluções prende-se com a antiguidade do nosso Código Civil, compa-
rada com a do Regulamento Roma I – claramente, a sensibilidade ao peso da autonomia conflitu-
al é diferente.
Pergunta-se, em todo o caso, se a admissibilidade de uma livre e plena autonomia conflitual
não esbarra no princípio da não transatividade: o curso, assim como a generalidade da doutrina,
entende que não, na medida em que a ligação com o caso da lei aplicável se basta com a verifica-
ção da vontade das partes nesse sentido (em bom rigor, a vontade das partes é o verdadeiro
objeto da conexão, pelo que respeitá-la é respeitar a proximidade da lei ao caso que se exige),
no domínio contratual; evidentemente, nos outros domínios em que se tem desenvolvido a
autonomia conflitual, não valerá esta autonomia ilimitada.
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Nas situações puramente internas, por força do art. 1.º Reg. Roma I, esta escolha não cabe;
poderá, contudo, suceder que as partes escolham lei estrangeira: nestes casos, o art. 3.º/3 deter-
mina que as normas materiais imperativas do foro continuam a vincular as partes, sem que,
porém se invalide a cláusula que escolhe a lei aplicável – esta solução releva, particularmente, na
medida em que o Regulamento Roma I entende esta escolha em específico como exercício da
autonomia privada material, e já não da autonomia conflitual –.
III) Poderão as partes, supervenientemente, alterar a lei aplicável que designaram inicialmente?
art. 3.º/2 Reg. Roma I – as partes podem, a qualquer momento, alterar a lei escolhida;
Código Civil – nada se diz, pelo que a doutrina tem discutido sobre a possibilidade: resulta
maioritário o entendimento de que não é possível fazê-lo.
IV) Poderão as partes proceder à dépeçage, escolhendo várias leis para diversos aspetos do contrato?
art. 3.º/1, in fine, Reg. Roma I – dispondo que as partes escolherão a lei aplicável “à totalida-
de ou apenas a parte do contrato”, o Regulamento Roma I admite-o, embora a doutrina te-
nha vindo a entender que a separação deve ser objetiva e não subjetiva (como tal, não se
admite diferentes leis aplicáveis a cada contraente).
Código Civil – não o permite, dispondo sempre sobre “a lei escolhida pelas partes”.
V) Poderão as partes escolher lei que não vigore em qualquer país, ou não escolher lei alguma?
Reg. Roma I – não se admite esta solução, comummente designada por autonomia universal,
resultando do diploma uma constante referência à “lei do país” (ainda que, reparemos, tal
constasse do projeto inicial do regulamento);
Código Civil – pelos mesmos motivos, não é possível fazê-lo.
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3.2. O regime do Regulamento Roma I
O Regulamento Roma I, diferentemente, dá-nos a consagração de uma série de expedientes trazidos
das mais recentes evoluções do método de DIP, por força sobretudo das propostas norte-americanas que
estudámos a esse propósito:
No art. 4.º, encontramos a regra supletiva principal, que vale apenas para alguns contratos – aqueles
em que não se tenha uma parte considerada fraca, ou em posição de desvantagem ou subordinação peran-
te a contraparte; como tal, os contratos de transporte (art. 5.º), de consumo (art. 6.º), de seguro (art. 7.º)
e de trabalho (art. 8.º) conhecerão, todos eles, regimes especiais: aqui, uma das dimensões mais relevantes
da especialização do DIP ou dépeçage está claramente subjacente.
Resta-nos, pois, analisar brevemente o regime geral, bem como ainda os regimes especiais de deter-
minação da lei aplicável quanto aos contratos de trabalho e quanto aos contratos de consumo.
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➢ Regime especial dos contratos de consumo (art. 6.º)
Também os contratos de consumo conhecem, à luz do Regulamento Roma I, um regime
especial, justificado pelo desequilíbrio ou disparidade nas posições contratuais contrapostas:
aqui, tendo em conta o amplo recurso a cláusulas contratuais gerais, será normal que o consumi-
dor assinta na escolha da lei aplicável ao contrato sem que o conceba, pelo que caberá também
uma legítima restrição à autonomia conflitual, desta feita tendo por base a verificação de três
requisitos, emergentes do art. 6.º/1, 4 Reg. Roma I.
Requisito do âmbito pessoal: deveremos estar perante um contrato celebrado por uma
pessoa singular tida enquanto “consumidor” (por celebrar o contrato com
um finalidade estranha à sua atividade comercial ou profissional) com outra
pessoa coletiva ou singular que, diversamente, seja “profissional” (isto é, aja
no quadro da sua atividade comercial ou profissional); teremos, pois, uma
relação business to consumer (ou B2C), que abordamos no estudo do Di-
reito do Consumo e que, aliás, é figura conhecida pela nossa legislação
precisamente por força do Direito da União Europeia quanto à matéria.
Requisito da atividade dirigida: o profissional terá dirigido a sua atividade para o país
da residência do consumidor (art. 6.º/1, in fine e als. a) e b)); esta solução
decorre de não poder o profissional ser confrontado com a aplicação da lei
de um país em que não exerce a sua atividade, sobretudo porque o consu-
midor – cujas expectativas por aqui se tutelam – não poderia contar legitima-
mente com a sua aplicação.
Requisito da não exclusão: o art. 6.º/4, por fim, procede à exclusão de certos contratos
em particular, atentas certas especificidades que obstam à aplicação deste
regime especial (nomeadamente, a alínea c) – “contratos que tenham por
objeto um direito real sobre um bem imóvel ou o arrendamento de um
bem imóvel, diferentes dos contratos que têm por objeto um direito de
utilização de bens imóveis a tempo parcial” – sustenta-se na assunção de um
ónus reforçado da determinação do estatuto da compra e venda).
No que toca à solução propriamente avançada, considera o art. 6.º/1 Reg. Roma I que é
aplicável a lei da residência habitual do consumidor (em cuja aplicação o consumidor confia,
com a qual conta legitimamente), afastando-se a priori a própria solução da autonomia conflitual
tida no art. 3.º: o legislador, em todo o caso, atende às vantagens de previsão de uma autonomia
conflitual limitada pela salvaguarda do consumidor, na linha do que vimos no art. 8.º, admitindo
secundariamente tal possibilidade, no art. 6.º/2.
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