Papel da participação e envolvimento comunitário na prevenção e combate as
epidemias: caso de estudo da CONVID 19 em Moçambique 2020 - 2021.
Role of community participation and involvement in preventing and combating
epidemics: case study of CONVID 19 in Mozambique 2020 - 2021.
Autora: Maria Simão Tomás
1. Instituto Superior de Ciências e Educação a Distancia (ISCED)
Resumo
O presente artigo aborda sobre o papel da participação e envolvimento comunitário na prevenção e combate as
epidemias: Caso de Estudo da Convid-19 em Moçambique 2020 - 2021. Este tem como objectivo principal analisar o
papel da participação e envolvimento da comunidade na prevenção e combate da Convid-19. Portanto, no ano 2020 –
2021, em Moçambique registou-se maior número de casos e mortes da Convid-19, com isso a comunidade é chamada
a participar na promoção de acções locais sobre a saúde pública, daí a importância de seu envolvimento na prevenção
e combate as epidemias. Para a elaboração e alcance dos objectivos, recorreu-se a pesquisa qualitativa, quanto ao
objetivo é explicativo e descritivo e para a recolha de dados usou -se a revisão bibliográfica baseada nas referências
teóricas já analisadas e publicadas em diversos meios escritos ou eletrónicos, como artigos científicos e outros
documentos oficiais do MISAU e OMS. Da análise feita concluiu-se que, o envolvimento da comunidade é um
instrumento importante no sentido de promover a articulação entre os atores sociais, fortalecendo a coesão da
comunidade e melhorando a qualidade das decisões, tornando mais fácil alcançar objetivos de interesse comum.
Entretanto, a participação comunitária no combate a COVID-19 deve considerar os contextos emergencial, de
fortalecimento do sistema de saúde e de defesa do sistema de proteção social e da democracia.
Palavras-chaves: Participação e Envolvimento Comunitário, Convid-19.
Summary
This article addresses the role of community participation and involvement in preventing and combating epidemics:
Case Study of Invite-19 in Mozambique 2020 - 2021. Its main objective is to analyze the role of community
participation and involvement in preventing and combating from Invite-19. Therefore, in the year 2020 - 2021, in
Mozambique there was a greater number of cases and deaths of Convid-19, with this the community is called to
participate in the promotion of local actions on public health, hence the importance of its involvement in prevention.
and fight epidemics. For the elaboration and scope of the objectives, qualitative research was used, as the objective is
explanatory and descriptive and for the collection of data, the bibliographic review was used based on theoretical
references already analyzed and published in various written or electronic media, such as scientific articles and other
official documents from MISAU and WHO. From the analysis carried out, it was concluded that community
involvement is an important instrument in the sense of promoting articulation between social actors, strengthening
community cohesion and improving the quality of decisions, making it easier to achieve objectives of common
interest. However, community participation in the fight against COVID-19 must consider the emergency contexts,
the strengthening of the health system and the defense of the social protection system and democracy.
Keywords: Community Participation and Involvement, Invite-19
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1. INTRODUÇÃO
A participação comunitária é um instrumento necessário para melhorar a saúde da população e
aumentar a capacidade de intervenção nos determinantes de saúde. Portanto, a COVID-19 é
considerada o maior problema sanitário global deste século XXI e as autoridades científicas e
políticas são desafiadas a identificar as abordagens mais adequadas do ponto de vista clínico,
epidemiológico, econômico e social. É consenso entre os especialistas o insuficiente
conhecimento científico sobre o novo coronavírus variante 1,2,3. Nesse contexto, predominam
incertezas quanto às ações e políticas a serem utilizadas para conter e mitigar a evolução da
doença.
Duas principais estratégias têm sido adotadas no enfrentamento da pandemia da COVID-19. Uma
delas diz respeito à estruturação e ampliação da atenção hospitalar dos sistemas de saúde. Diante
das elevadas patogenicidade e virulência do SARS-CoV-2, os governos de diversos países
buscam ampliar os leitos clínicos e de unidades de terapia intensiva dedicados ao tratamento de
casos graves de COVID-19, e assim salvar as vidas daqueles que têm complicações decorrentes
da doença. A outra estratégia prioritária envolve a restrição do contato social.
De natureza mais abrangente, essa não envolve apenas o componente do sistema de saúde. Trata-
se de ação social de amplo espectro, que objetiva reduzir a circulação e o contato entre pessoas e,
consequentemente, refrear a incidência da doença e retardar a chegada ao platô da curva
epidêmica. Desse modo, diminui-se a demanda exponencial por cuidados de saúde e busca-se a
minimização da mortalidade por desassistência gerada pela sobrecarga dos sistemas sanitários.
Dentre as medidas de restrição do contato social, as mais recomendadas são o distanciamento
social para a população em geral, o isolamento de casos confirmados e suspeitos, e a necessidade
de quarentena dos contatos dos acometidos como as medidas de restrição de contato dependem
muito mais da conscientização e envolvimento da população do que das intervenções
profissionais, é necessário recorrer à participação comunitária para o alcance efetivo das mesmas.
Com isso é importante que as comunidades possam compreender as vantagens do seu
envolvimento em actividades de promoção da saúde. De acordo com Chingotuane (2008), o
atributo de orientação para a comunidade impõe a necessidade do seu envolvimento e
participação nas decisões sobre a saúde coletiva.
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A concepção de atenção primária da Estratégia de Saúde da Família preconiza equipe de caráter
multiprofissional, que trabalhe com definição de território de abrangência e com
responsabilização pela população residente na área. Pretende-se que equipe e população
estabeleçam vínculos e possam identificar em conjunto os principais problemas de saúde e
elaborar estratégias para o enfrentamento dos determinantes do processo saúde/doença, para a
garantia da assistência integral às comunidades.
i. Objectivos
a. Geral
Analisar o papel da participação e envolvimento da comunidade na prevenção e combate
as epidemias com mais destaque na Convid-19 em Moçambique 2020 – 2021.
b. Específicos
Identificar o modelo de envolvimento comunitário implantado em Moçambique para a
prevenção e combate as epidemias com mais destaque a Convid-19;
Citar as vantagens e desvantagens do envolvimento comunitário no processo de prevenção
e promoção da saúde na comunidade.
ii. Metodologia
Os dados e informações que subsidiaram a investigação foram coletados por meio de análise
documental. Tendo em conta a natureza do tema em questão, a pesquisa feita foi descritiva –
exploratório com abordagem qualitativa, tendo como base a pesquisa documental e os dados
colectados no estudo de caso.
Quanto a Pesquisa Qualitativa, Gil (2008) considera como sendo a relação dinâmica entre o
mundo real e o sujeito isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objectivo e a subjetividade
do sujeito que não pode ser traduzida em números. A interpretação dos fenómenos e atribuição de
significados são básicas no processo de pesquisa qualitativa. Este método não requer os usos de
técnicas estatísticas. O ambiente natural é a fonte directa para a colecta de dados e o pesquisador
um instrumento chave.
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Para a recolha de dados recorreu-se a consulta bibliográfica e estudo de caso. Portanto, a pesquisa
bibliográfica e o estudo de caso foram escolhidos uma vez que trata-se de um tema amplo e
detalhado, sendo necessário um levantamento de dados que envolvem pessoas que estão
diariamente dentro das organizações, vivenciando acontecimentos que podem contribuir
significativamente para elaboração do presente trabalho. Temos como o Universo a população
residente em Moçambique e a amostra não foi quantificada.
2. REVISÃO DA LITERATURA
Comunidade - é um conjunto de pessoas vivendo numa área geográfica limitada, de forma
organizada e coesa, mantendo vínculos sociais entre elas. Do ponto de vista da sociologia, certos
lugares como as cadeias ou os quartéis também são comunidades, que podem ser descritas e
analisadas. Por outro lado, no mundo laboral, uma empresa também é uma comunidade, uma vez
que os seus integrantes partilham de objetivos comuns e de uma filosofia corporativa. (NISBET,
1978). Mas para Roszak (1972) comunidade é um conjunto de pessoas vivendo numa área
geográfica limitada, de forma organizada e coesa, mantendo vínculos sociais entre elas (Roszak,
1972).
Geralmente este conjunto de pessoas que vive numa área geográfica determinada compartilha
uma cultura comum e um modo de vida, são conscientes do fato de que compartilham certa
unidade e que pode atuar coletivamente em busca de um objetivo ou de uma meta.
Para definir uma comunidade é necessário que cada integrante faça parte de uma
história compartilhada, uns objetivos propostos em comum, um estabelecimento de metas, uma
identidade compartida e uns objetivos em função das necessidades comuns.
Quando tudo isso sucede podemos evidentemente assumir que realmente existe uma comunidade.
Nas comunidades, as normas de convivência e de conduta de seus membros estão interligadas à
tradição, religião, consenso e respeito mútuo. Na sociedade, é totalmente diferente. Não há o
estabelecimento de relações pessoais e na maioria das vezes, não há tamanha preocupação com o
outro indivíduo, fato que marca a comunidade. Por isso, é fundamental haver um aparato de leis e
normas para regular a conduta dos indivíduos que vivem em sociedade, tendo no Estado, um forte
aparato burocrático, decisor e central nesse sentido.
Tomando em consideração que uma das características indiscutíveis da comunidade, é a forma de
viver em sociedades, isto é, uns próximos dos outros, de modo íntimo, privado e exclusivo.
(ROSZAK, 1972).
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É a forma de se estabelecer relações de troca, necessárias para o ser humano, de uma maneira
mais íntima e marcada por contatos primários; podemos encontrar várias situações em que o ser
humano esta submetido a estas condições (NISBET, 1978:93):
-Religiosos (comunidade religiosa podendo ser cristão, muçulmana, etc),
- Estudantes (comunidade estudantil), trabalhadores, entre outros.
Fazendo uma análise mais minuciosas da comunidade, viremos que elas são constituídas por
indivíduos e estes compõe as famílias ou grupos ainda maiores dependendo do contexto em
análise. Tanto nas famílias assim como a nível dos bairros / povoados / localidades / Distritos
existem líderes para guiar e ordenar o grupo.
A nível das comunidades temos as autoridades comunitárias-segundo o Decreto n° 15/2000, são
autoridades comunitárias os chefes tradicionais, os secretários de bairros e de aldeias e outros
líderes legitimados como tais pelas respetivas comunidades locais e reconhecidas pelo
competente representante do Estado. (MISAU, 2011).
Liderança é a habilidade de motivar e influenciar os liderados, de forma ética e positiva, para que
contribuam voluntariamente e com entusiasmo para alcançarem os objetivos da equipe e da
organização. (MISAU, 2011).
Para implementação de qualquer programa ou acção direcionada a desenvolvimento das
comunidades, é indispensável o envolvimento activo do alvo a quem se direcionam essas acções.
Por outro lado, o sucesso em saúde não se alcança por uma simples disposição de recursos
humanos qualificados, tecnologias e rede de unidades sanitárias mais abrangente, este, requer um
papel activo das pessoas que se beneficiam destas intervenções.
O envolvimento comunitário tem sido relatado não só no contesto de saúde, mas também nas
outras áreas como agropecuária, pesca, indústria do minério, a proteção florestal, etc…como
sendo o pilar para o alcance dos objectivos das instituições. (SOUTO-MAIOR, 1994).
Envolvimento Comunitário: Significa participação activa de pessoas de todos os extratos sociais,
(homens, mulheres, jovens, crianças e velhos) que vivem juntas, de forma organizada e coesa, na
planificação e implementação dos Cuidados de Saúde Primários, usando recursos locais,
nacionais ou outros. (SOUTO-MAIOR, 1994).
Mobilização Comunitária: É uma expressão que implica um processo activo, por parte das
autoridades de Saúde e outras para suscitar o «Envolvimento Comunitário» e criar um ambiente
que lhe seja favorável à Saúde. (SOUTO-MAIOR, 1994). Segundo o Decreto n° 15/2000, são
autoridades comunitárias os chefes tradicionais, os secretários de bairros e de aldeias e outros
líderes legitimados como tais pelas respectivas comunidades locais e reconhecidas pelo
competente representante do Estado. Designam-se os conselhos de líderes comunitários ou
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comités de saúde comunitário, composta por homens e mulheres, membros influentes de uma
comunidade, os quais foram escolhidos ou eleitos por essa comunidade.
O Conselho de Líderes Comunitários é uma estrutura sócio-comunitária composta por homens e
mulheres, membros de uma comunidade, os quais são escolhidos ou eleitos por essa comunidade,
para a "representar" em todas as ocasiões em que é preciso tomar decisões como uma
comunidade. Essas pessoas tem a particularidade de serem na comunidade líderes formais ou
informais, podendo ser: líderes religiosos, régulos, professores, secretários de bairros,
comerciantes, representantes de grupos de mulheres, de jovens, de profissionais, Agentes
Comunitários de Saúde e outros.
Objectivos do Envolvimento Comunitário:
Satisfazer um direito e um dever - todo o ser humano tem o direito e o dever de participar
individual ou colectivamente na planificação e na implementação dos cuidados de saúde que lhe
são destinados. O envolvimento das comunidades num processo de satisfação dos seus direitos
conduz a que essas comunidades possam reivindicar esses direitos. (MISAU, 2011); Promover a
auto-responsabilidade da colectividade e dos indivíduos - os programas de saúde com uma forte
componente de envolvimento comunitário conduzem a auto-responsabilização da comunidade
para promover o desenvolvimento comunitário e melhorar as condições de vida da população,
para além de constituir uma aprendizagem; (MISAU, 2012);Melhorar as taxas de cobertura dos
cuidados de saúde - As Direcções Provinciais de Saúde têm experiência de aumento das taxas de
coberturas vacinais e de outros programas através da realização de Campanhas de Vacinação e de
Brigadas Móveis, bem como dos Dias Mensais de Saúde. Isto tem sido possível em grande
medida graças ao envolvimento da comunidade através das autoridades comunitárias. (MISAU,
2017); Melhorar a qualidade dos serviços prestados – quando as comunidades ganham o poder de
identificar e priorizar os seus problemas e de tomar decisões sobre as formas de os resolver,
desenvolvem a sua capacidade de análise crítica e ganham consciência dos seus direitos, pelo que
se tornam mais exigentes, mas igualmente, mais construtivas nas suas reivindicações; Melhorar o
funcionamento das Unidades Sanitárias – envolvendo as comunidades na gestão das unidades
sanitárias, podem apoiar o estabelecimento de um horário e de outras condições para o
desenvolvimento dos programas compatíveis com as suas actividades, tornar o funcionamento das
unidades sanitárias mais amigável e conveniente para eles, e evitar-se a perda de oportunidades.
(MISAU, 2014); Abrir largas perspectivas para priorizar acções de promoção da Saúde e de
prevenção da doença - é muito mais fácil o envolvimento das comunidades em acções de
promoção de higiene e saneamento, educação para a saúde do que na prestação de cuidados em
regime de hospitalização que são sempre mais onorosos; (MISAU, 2016); Aumentar a eficácia e a
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eficiência do sistema – um sistema de saúde sob a supervisão e controlo directos das
comunidades, istoé, dos beneficiários, será de certo melhor gerido, o que aumentará a sua eficácia
(grau de cumprimento dos objectivos pré-determinados e das metas fixadas) e igualmente de
eficiência, através de uma melhoria da utilização dos recursos (expressão da relação entre os
resultados obtidos e os esforços despendidos, em termos de recursos humanos, materiais,
financeiros e infraestruturais, de tecnologia e de tempo); (MISAU, 2011);Reforçar a coesão e a
auto-suficiência da comunidade – O envolvimento comunitário para a saúde facilita a troca de
informações e experiências entre os membros da comunidade de que resultaria reforço da
colaboração e coesão. Para além disso, este processo conduz a uma maior democratização da vida
da comunidade, atenuando tendências autocráticas das autoridades comunitárias. (MISAU,
2011).
Princípios do Envolvimento Comunitário: Desenvolvimento na comunidade do sentido de
apropriação, "poder/ ownership", de ser ela a dona de todas as acções realizadas no seu seio, e de
responsabilidade pelo seu próprio bem-estar, através do envolvimento de "pessoas de recurso" da
comunidade e de outros membros influentes na identificação dos problemas de saúde e
desenvolvimento, e tomada de decisões sobre os mesmos, utilizando técnicas apropriadas de
mobilização comunitária, envolvendo parceiros mais convenientes para este tipo de acção.
(SILVA, 1997). Estabelecimento ou reforço de estruturas existentes a nível comunitário, com
base em parcerias, para assegurar a sustentabilidade das actividades. O envolvimento,
coordenação e convergência de outros programas baseados na comunidade que podem ser
parceiros chaves na implementação; Complementaridade entre a saúde e a comunidade na
implementação das actividades com particular enfase nos recursos da comunidade, especialmente,
os recursos humanos e materiais na implementação das actividades são importantes para o
sucesso da estratégia(SILVA, 1997:260); Entendimento claro dos conhecimento locais, práticas,
comportamentos e percepções das famílias e comunidades no âmbito de saúde; Equidade de
género a nível da comunidade, encorajando-se a participação das mulheres nas reuniões
comunitárias e nas iniciativas que diminuam a iniquidade de género, assim como a participação
dos homens nos cuidados de saúde da família e da comunidade; Transparência na definição de
prioridades e planos de acção em particular na utilização dos meios materiais e financeiros;
Existência de um sistema de informação comunitário (SIC) estabelecida com a própria
comunidade, que sirva para uma tomada de decisões a nível local, isto é de simples leitura e
compreensão pela comunidade para que esta possa, com base nele, tomar decisões;
Característica da participação:
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O envolvimento da comunidade deve ser entendida como acto e efeito de um processo em que a
sociedade civil, a sociedade política e a sociedade econômica tenham tomado uma decisão em
conjunto. Klausmeyer & Ramalho (1995) entendem que ela acontece quando há acesso efetivo
dos envolvidos no planeamento das ações, na execução das atividades e em seu acompanhamento
e avaliação.
Na opinião de Cornely (1978), participação significa estar presente activamente no designar e no
escolher alternativas, caminhos e em ter possibilidades reais de utilizar toda e qualquer
alternativa, bem como combiná-las. Ela gera a possibilidade de superação da injustiça social.
Quando se faz referência à participação da sociedade, se está levando em consideração a
definição de Ávila (1991), segundo a qual toda sociedade pode ser concebida como um sistema
integrado de quatro subsistemas: o político, o social, o econômico e o cultural. Assim, sua
estrutura consiste na relação mais ou menos estável destes quatro subsistemas.
Os métodos de Envolvimento da comunidade possuem alguns princípios comuns e fundamentais
(FLECK, 1998):
Flexibilidade - Os resultados são produzidos pelo grupo que participa.
Transparência - Transforma a inteligência individual em coletiva, não induz nem manipula os
participantes.
Multidisciplinaridade - Envolve profissionais de várias áreas de conhecimento.
Comunicação nas duas direções - Técnicos e comunidades aprendem.
Quantidade e Qualidade – A avaliação é realizada levando em consideração os dois métodos. •
Orientação segundo o grupo - Deslocamento do poder de decisão para o grupo.
Parcela do poder - Envolve o aumento do poder de encaminhamento e decisão por parte do grupo.
Presença local - Projetos construídos localmente e com a participação comunitária.
Documentação - Registro de todas as etapas do processo participativo.
Importância do envolvimento da comunidade:
Na medida em que um cidadão em uma comunidade não possui suas necessidades satisfeitas,
sobram-lhe duas opções de ação: a primeira é reunir os amigos e os vizinhos e discutir o
problema, uma equipe começa a funcionar para tratar da sua resolução; a segunda é esperar que o
governo venha a suprir essa necessidade.
As políticas públicas devem ser diferenciadas para os setores mais empobrecidos do campo e
voltados para a ampliação da capacidade de produção dos agricultores familiares. O envolvimento
da comunidade torna os processos de desenvolvimento local democráticos e direcionados aos
objetivos que a sociedade deseja.
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O modelo de envolvimento comunitário em Saúde, em Moçambique
O termo participação também tem múltiplos sentidos e pode refletir diversas perspectivas de
abordagens. O envolvimento dos cidadãos nos sistemas de saúde tem sido amplamente estudado.
As literaturas nacional e internacional dispõem de diversas tipologias e modelos que ilustram e
fundamentam possibilidades e níveis de participação. Esses quadros teóricos apresentam
abordagens hierárquicas, com níveis de envolvimento desde a participação passiva até o
empoderamento da população e o compartilhamento de poder. A seguir serão apresentados quatro
importantes quadros teóricos que fundamentam a participação comunitária nos sistemas de saúde
ao redor do mundo, e que foram utilizados neste ensaio para analisar a participação da
comunidade no enfrentamento da COVID-19. Embora existam outros importantes e referenciados
modelos participativos usados em diversos contextos, nós selecionamos esses quatro por melhor
fundamentar as possibilidades e abordagens da participação no cenário da atual pandemia. O
precursor e mais citado modelo de participação foi publicado por Arnstein na década de 1960. A
autora ilustra oito tipos de participação num formato de escada, com os tipos mais avançados
correspondendo aos degraus mais elevados. A escada de Arnstein é dividida em três níveis que
englobam os oito tipos de participação. O nível mais baixo de “não participação” inclui a
manipulação e a terapia. O nível intermediário corresponde à participação figurativa, composta
pelos tipos: disponibilização de informação, consulta e conciliação. Já o nível mais avançado, o
poder cidadão, envolve a participação como parceria, poder delegado e controle cidadão. Dentre
outros aspectos, o modelo da escada de Arnstein se destaca por colocar o compartilhamento de
poder como o nível mais avançado e desejado de participação. Outro importante e citado modelo
é denominado continuum da participação comunitária. Nesse modelo, são sistematizadas três
maneiras pelas quais as comunidades participam das ações de saúde: mobilização comunitária,
colaboração e empoderamento comunitário. Para analisar a profundidade da participação da
comunidade, os níveis de participação foram relacionados ao escopo de influência, ao conceito de
saúde e à relação estabelecida entre comunidades e profissionais. Nesse sentido, práticas de
mobilização comunitária mostram-se apenas com o propósito de curar ou evitar o aparecimento
de doenças, e a participação da população se restringe a seguir as orientações profissionais. A
abordagem da colaboração enfatiza o melhor desempenho dos sistemas de saúde e a participação
da comunidade é desempenhada com o desenvolvimento de ações ou prestações de serviços pelos
membros da comunidade. Por sua vez, o empoderamento comunitário objetiva promover o
desenvolvimento da comunidade para a transformação das condições de vida com o
compartilhamento de poder entre sistemas de saúde e população. O modelo da teoria da mudança
foi desenvolvido por Popay e fundamenta as práticas de participação do sistema nacional de
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saúde do Reino Unido. No modelo proposto, a participação, diferenciada por seus objetivos, é
composta por quatro abordagens: o fornecimento de informações; consulta; coprodução; e
controle comunitário. Conforme ilustrado na Figura 1, o diagrama de Popay sinaliza que os níveis
mais basais de participação, como disponibilizar informação ou realizar escuta, apenas
conseguem promover resultados em termos assistenciais. Resultados sociais mais amplos são
alcançados com base na coprodução e no controle comunitário. Na perspectiva da autora, a
prática participativa deve avançar no sentido de que as comunidades tenham maior controle sobre
as decisões que afetam suas vidas, no intuito de melhorar a saúde e reduzir as desigualdades. O
quarto modelo de participação foi desenvolvido por Brunton et al., baseando-se em estudo de
revisão sistemática das matrizes de participação comunitária. Os autores sistematizaram um
quadro teórico com duas metanarrativas da participação comunitária nos sistemas de saúde: a
utilitarista e a da justiça social. A perspectiva utilitarista busca o envolvimento da população, com
o propósito específico de controle de doenças ou implementação de programas. Trata-se de um
tipo de participação instrumental, direcionada a melhorar a eficácia de intervenções e com frágil
capacidade para impactar sobre as condições de vida. Por sua vez, a perspectiva da justiça social
constitui uma abordagem ampliada da participação com foco no empoderamento e no
desenvolvimento da comunidade. Mudanças sociais e estruturais estão no centro das
preocupações da justiça social. O modelo pressupõe que as comunidades se mobilizem e sejam
apoiadas a participar, negociar, influenciar, controlar as decisões e ações de saúde.
Vantagens e desvantagens do envolvimento comunitário no processo de prevenção e
promoção da saúde na comunidade.
Melhorar a qualidade dos serviços prestados – quando as comunidades ganham o poder de
identificar e priorizar os seus problemas e de tomar decisões sobre as formas de os resolver,
desenvolvem a sua capacidade de análise crítica e ganham consciência dos seus direitos, pelo que
se tornam mais exigentes.
Apresentação dos resultados e discussão
Durante a pesquisa foram analisados vários artigos científicos, documentos disponíveis do
Ministério de Saúde e dos Serviços Distrital de Saúde, Mulher e Acção Social de Báruè e foram
observados alguns locais de aglomeração de pessoas, como mercados, escolas, transportes semi-
colectivos, Centros de saúde, igrejas. Mesquitas entre outros. Portanto, a falta da observância do
protocolo da prevenção e combate da convid-19 no Distrito de Báruè, Província de Manica tornou
se uma inquietação e preocupação ao Governo Local. Sendo assim quanto ao espaço físico a
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pesquisa foi realizada nas três (3) unidades sanitárias do distrito de Báruè o objectivo era de obter
dados sobre o número de casos registados no período em estudo. Por outro lado, quanto ao tempo
a pesquisa foi orientada no período do ano 2020 a 2021, por ser um período em que se verificou
maior incidência de casos da Convid-19 no País. Por exemplo, em 2020, o distrito de Báruè
registou mais de 660 casos da Convid-19 e em 2021, 6541 mil casos, (SDSMAS, 2022). Vide a
tabela abaixo:
Tabela 1: Número de casos da Convid-19 no ano 2020 e 2021 no distrito de Báruè.
Ano/Evolução Total
2020 660 casos
2021 6541 casos
Evolução -5881 casos
Fonte: SDSMAS, 2022.
A Tabela 1 apresenta um resumo de incidência de casos da Convid-19 no período de um ano
(2020 a 2021). É perceptível que em 2020 o número de casos era baixo comparativamente ao ano
2021. Portanto, acredita-se que o número de casos da Convid-19 foi provocado pela fraca
observância do protocolo da prevenção do coronavírus. Constatou-se também, que a maior parte
da população não tem participado nas acções do governo no que concerne a participação e
envolvimento a prevenção da Convid-19.
No distrito em estudo tem se verificado a frequências das reuniões realizadas pelos conselhos
locais de saúde (CLS), conforme as faixas percentuais de reuniões previstas. Como devem ocorrer
reuniões ordinárias uma vez por mês, são previstas 17 reuniões para o período estudado. Na
análise dos percentuais, observa-se baixa frequência de realização das reuniões. Das consultas
feitas a comunidade, apenas no ano 2020 realizaram mais do que 75% das reuniões previstas para
o período e 2021 realizaram apenas 50%. A maior parte dos conselhos, 15 do total, realizou entre
50% e 74,9% das reuniões. Seis Conselhos locais de saúde realizaram entre 25% e 49,9%, e em
três conselhos foram realizadas menos de 25% das reuniões que deveriam ocorrer.
Percepções dos atores, o desempenho dos conselhos locais de saúde é percebido pelos
entrevistados como ainda incipiente. Existe um consenso nas falas sobre a importância dos CLS
para o aprimoramento da assistência à saúde e para melhoria das condições de vida das
comunidades; todavia, tanto trabalhadores quanto usuários destacam que os conselhos não
exercem suas atribuições de maneira plena. Também emerge de maneira consensual que os
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principais fatores de influência para o baixo desempenho dos CLS são a fraca participação e o
pouco envolvimento comunitário. Parece prevalecer nas comunidades estudadas um misto de
individualismo e imediatismo. As pessoas demonstrariam interesse em se envolver apenas em
questões que lhes trouxessem benefícios pessoais diretos e imediatos. A população não dá muita
importância pro conselho, só quando é interesse próprio. Se não for, não dá. Se você colocar um
tema, por exemplo, sobre a recepção de subsídios para o combate a convid-19, enche o posto. Se
colocar sobre a prevenção, vêm no máximo 15.
Muitos informantes destacam que a participação de alguns usuários nos conselhos locais é
motivada por interesses individuais relativos a facilitar o acesso aos serviços de saúde. É
destacado que muitas pessoas participam com intuito de se aproximarem e tornarem-se
conhecidos dos profissionais da unidade, e, com isso, conseguirem marcar consultas e exames
com maior facilidade. Os entrevistados relataram existir dificuldade de acesso para o atendimento
nos serviços especializados, especialmente em consultas médicas e odontológicas. Com isso,
alguns indivíduos projetam a participação nos CLS como caminho para viabilizar as demandas
por assistência. Ao perceberem que a participação no conselho não agiliza o agendamento de suas
consultas e exames, os usuários afastam-se e desenvolvem sentimentos de frustração e descrédito
para com o conselho. O baixo desempenho do CLS é também relacionado pelos entrevistados às
questões de representatividade e à fragilidade das organizações comunitárias. As falas revelam
que as escolhas dos conselheiros representantes dos usuários ocorrem, na maioria das vezes, entre
aqueles que mais frequentam a unidade de saúde. Esse processo é apontado como gerador de
distorções dos interesses defendidos nas reuniões. Em decorrência da ausência de espaços de
discussão coletiva e da inexistência ou debilidade de organizações comunitárias, os representantes
mantêm frágeis vínculos com os diversos segmentos e grupos que compõem a comunidade. Não
raro, omitem-se ou mantêm posturas no conselho não correspondentes com os interesses e
necessidades da população representada. Por outro lado, os entrevistados também apontam que o
desinteresse das comunidades e a ausência de instituições de representação coletiva geram um
processo de isolamento e ausência de apoio aos representantes. As falas evidenciam não existir
discussão entre representantes e representados sobre os temas tratados nas reuniões. Diante do
desinteresse das comunidades, a responsabilidade pelo bom desempenho do conselho e do próprio
PSF é atribuída exclusivamente ao representante. A questão do voluntariado na atividade de
conselheiro de saúde é também apontada pelos entrevistados como motivo do desinteresse de boa
parte das pessoas. Diante disso, um grupo dos entrevistados revela que uma parcela importante da
população não se sente estimulada em participar por não receber pagamento pela função
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desenvolvida. Muitos destacam que as atribuições de um conselheiro de saúde são trabalhosas e
demandam tempo e dedicação, sendo poucos os que se dispõem a abrir mão dos seus afazeres
pessoais para desempenhá-las voluntariamente em benefício do interesse coletivo. A maioria das
pessoas não gosta de ser voluntário em nada, muito menos no conselho. Porque acha que tudo
tem que ser pago, que uma informação que sai da boca tem que ser pago. Houve também
convergência de opiniões sobre a importância das capacitações e treinamentos para um bom
desempenho dos conselhos. Os entrevistados revelaram que um grupo de conselheiros já
participou de cursos oferecidos pelo vereador da área de Saúde, ao passo que outros não
realizaram qualquer treinamento ou formação para o exercício da função. Isso é apontado como
um fator limitante e que compromete as atividades e desempenho dos CLS.
Os conselhos locais estudados apresentam, de maneira geral, pouca efetividade na realização das
reuniões, embora os resultados mostrem que o nível de organização e funcionamento dos CLS
não é uniforme. Alguns conselhos possuem organização incipiente e dificuldades de reunir-se
ordinariamente, enquanto outros mantêm uma frequência mediana na realização das reuniões. Em
todos os conselhos, em diversas ocasiões, não houve reunião por falta de quórum, especialmente
por ausência das representações dos usuários. A dificuldade para manter frequência regular nas
reuniões dos conselhos é uma característica comum em muitas localidades, sobretudo em
contextos locais e conselhos municipais de cidades de pequeno porte. Em estudo avaliativo da
atenção primária no distrito de Barué, verificou-se ser pouco frequente a realização de reuniões
dos CLS. Na Localidade de Honde, a pesquisa realizada constatou-se que, para um período de 1
ano, ocorreram apenas poucas reuniões. Realidade semelhante foi também observada na Vila
Municipal de Catandica, com número de reuniões realizadas inferior a 50% do previsto para o
período observado. Em todos os casos, a irregularidade na realização das reuniões guarda relação
próxima com os níveis incipientes de envolvimento comunitário também observados em Vitória
da Conquista. Sobre os temas abordados nas reuniões, observa-se que o principal assunto é a
dificuldade de acesso aos serviços assistenciais. Importante destacar as recorrentes discussões
relacionadas às limitações de acesso aos próprios serviços prestados. Os problemas de
agendamento para consultas na atenção primária e também nos níveis secundários e terciários são
observados em várias localidades do país. No município estudado, o conteúdo da agenda de
compromisso, a análise das atas e as próprias falas dos conselheiros demonstram que o principal
entrave para o pleno desempenho dos conselhos locais é o baixo nível de interesse e de
participação da população. Nesse sentido, evidencia-se que a institucionalização de um espaço
participativo, mesmo com apoio e incentivo da gestão municipal, não é condição suficiente para
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promover a mobilização social e o envolvimento comunitário. É Importante destacar também que
a criação de fóruns de participação potencializa as expectativas da população sobre o desempenho
dos serviços. A mobilização de pessoas e o debate sobre as condições de vida e saúde, como
proposto pelos conselhos locais, levam naturalmente ao aumento da demanda dos serviços. Nesse
sentido, conforme destaca Avritzer (2007), aos governos cabe desempenhar uma administração
efetiva no atendimento das carências demandadas. O não atendimento das necessidades
identificadas nos espaços participativos pode converter-se em um catalisador do descrédito, da
frustração e do abandono. Assim, a criação e, sobretudo, a manutenção de entidades participativas
estão condicionadas à capacidade do Estado de proporcionar respostas adequadas às deliberações
das entidades, bem como de organizar as demandas emergente.
Conclusões
Em função dos objectivos traçados durante a pesquisa, bem como das análises dos resultados e
dos métodos e técnicas utilizadas concluiu-se que , o envolvimento da comunidade é um
instrumento importante no sentido de promover a articulação entre os atores sociais, fortalecendo
a coesão da comunidade e melhorando a qualidade das decisões, tornando mais fácil alcançar
objetivos de interesse comum. Portanto, a participação comunitária no combate a COVID-19 deve
considerar os contextos emergencial, de fortalecimento do sistema de saúde e de defesa do
sistema de proteção social e da democracia. Entretanto, a participação comunitária no contexto da
COVID-19 deve considerar três contextos interconectados. Assim sendo, o primeiro é o emergencial, em
que se deve buscar o controle do agravo, a garantia de assistência adequada aos casos e a garantia
econômica para que as famílias possam atravessar o período de crise. O segundo diz respeito à necessidade
de valorização e fortalecimento do SUS, a fim de que se possa avançar para a consolidação de um sistema
público, universal e integral de saúde. O terceiro e maior desafio da participação da comunidade é a
atuação para a mudança da matriz econômica e política do país, com a retomada do sistema de proteção
social e do projeto democrático de sociedade.
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