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Tutela de Personalidade em Lisboa

1) André Ventura usou uma fotografia de Marcelo Rebelo de Sousa com membros de uma família do Bairro da Jamaica durante um debate eleitoral para criticar o Presidente. 2) Ventura referiu-se aos membros da família na foto como "bandidos" e acusou Marcelo de se aliar à "bandidagem". 3) Marcelo respondeu defendendo uma direita social que não distingue os portugueses entre "bons e bandidos".

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Tutela de Personalidade em Lisboa

1) André Ventura usou uma fotografia de Marcelo Rebelo de Sousa com membros de uma família do Bairro da Jamaica durante um debate eleitoral para criticar o Presidente. 2) Ventura referiu-se aos membros da família na foto como "bandidos" e acusou Marcelo de se aliar à "bandidagem". 3) Marcelo respondeu defendendo uma direita social que não distingue os portugueses entre "bons e bandidos".

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Assinado em 21-05-2021, por

Francisca Maria Prazeres Martins Pires Preto, Juiz de Direito


Processo: 8777/21.3T8LSB
Referência: 405399723

Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa


Juízo Local Cível de Lisboa - Juiz 3
Palácio da Justiça, Rua Marquês de Fronteira 1098-001 Lisboa

Tutela Personalidade

Sentença

AURORA ZUCA LUVUNGA COXI, FERNANDO LUDY COXI, HIGINA JOIA


LUVUNGA COXI, HORTENCIO ALDINO LUVUNGA COXI, JAMES COXI VIEIRA E
LINDER, representado em juízo pelos seus pais, HIGINA JOIA LUVUNGA COXI e JOSÉ
PEDRO PALMA LEAL VIEIRA E LINDER, JULIETA JOIA LUVUNGA e VANUSA
MAISA AFONSO FERNANDES COXI vieram propor a presente acção declarativa especial
para tutela de personalidade contra ANDRÉ CLARO AMARAL VENTURA e PARTIDO
CHEGA pedindo ao Tribunal que:
1. Reconheça a ilicitude das ofensas ao direito à honra e ao direito de imagem dos
Autores descritas na presente ação, bem como o seu cariz discriminatório em função da cor da
sua pele e da sua situação socioeconómica;
2. Condene cada um dos Réus a emitir uma declaração, escrita ou oral, de retratação
pública, a ser publicada nos mesmos meios de comunicação social onde as respetivas
declarações e publicações ofensivas dos direitos de personalidade dos Autores foram
originalmente divulgadas (SIC, SIC Notícias, TVI e conta do Partido Chega no Twitter), no
prazo de 5 dias após o trânsito em julgado da sentença condenatória, com a sanção pecuniária
compulsória de € 750,00 (setecentos e cinquenta euros) por cada dia de atraso no seu
cumprimento.
3. Condene o Réu Partido Chega a eliminar a publicação do dia 22 de janeiro de 2021, às
19:49h, da sua conta oficial na rede social Twitter, que ofende o direito à honra e o direito à
imagem dos Autores, no prazo de 5 dias após o trânsito em julgado da sentença condenatória,
com a sanção pecuniária compulsória de € 750,00 (setecentos e cinquenta euros) por cada dia
de atraso no seu cumprimento.
4. Condene cada um dos Réus a abster-se de proferir ou divulgar, no futuro, declarações
ou publicações, escritas ou orais, de conteúdo idêntico às declarações ofensivas do bom nome
Processo: 8777/21.3T8LSB
Referência: 405399723

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dos Autores em causa na presente ação, com a sanção pecuniária compulsória de € 5.000,00
(cinco mil euros) por cada infração.
5. Condene os Réus a diligenciar pela publicação da sentença condenatória nos mesmos
meios de comunicação social onde as declarações ofensivas foram originalmente divulgadas
(SIC, SIC Notícias, TVI e conta do Partido Chega no Twitter), no prazo de 5 dias após o seu
trânsito em julgado, com a sanção pecuniária compulsória de € 750,00 (setecentos e cinquenta
euros) por cada dia de atraso no seu cumprimento.
Designada data para a realização da audiência de julgamento veio a mesma a ter lugar com
observância das formalidades legais, tendo os Réus apresentado contestação pedindo a sua
absolvição de todos os pedidos formulados.

Não há nulidades, excepções ou questões prévias que obstem à apreciação de mérito e de que
cumpra conhecer.

Factos provados:
1. Os Autores são membros da mesma família e residem no bairro de Vale de Chícharos,
popularmente conhecido como “Bairro da Jamaica”: um conjunto de prédios inacabados, onde
faltam condições básicas de segurança e de habitabilidade, na freguesia de Amora, Seixal,
conjuntamente com outras famílias
2. No dia 4 de fevereiro de 2019, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa,
visitou de surpresa e apenas durante breves momentos, o Bairro da Jamaica, onde foi
fotografado, entre outros, com os Autores da presente ação.
3. A fotografia foi, naquela altura, divulgada em alguns órgãos de comunicação social,
no contexto da notícia da “visita-relâmpago” do Presidente da República ao Bairro da
Jamaica, na sequência de um episódio mediático de confrontos violentos com a polícia,
naquele local, no dia 20 de janeiro de 2019
4. Os acontecimentos do dia 20 de janeiro de 2019 deram origem a um processo, no qual
estão constituídos arguidos e simultaneamente assistentes, entre outros, um agente da PSP e
três dos sete Autores da presente ação – Higina Coxi, Hortencio Coxi e Julieta Luvunga.
Processo: 8777/21.3T8LSB
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5. Atualmente, o processo encontra-se pendente e a correr os seus termos no Tribunal
Judicial da Comarca de Lisboa, Juízo Central Criminal de Almada – Juiz 1, com o número de
processo 61/19.9PBSXL.
6. Dois anos volvidos, por ocasião da candidatura de André Ventura à Presidência da
República nas eleições de 24 de janeiro de 2021, com o apoio declarado do Partido Chega, os
Réus exibiram a fotografia supra referida, para efeitos de campanha eleitoral.
7. André Ventura foi candidato às eleições presidenciais de 24 de janeiro de 2021, com o
apoio do Partido Chega, e participou, nessa qualidade, num debate contra o atual Presidente
da República, Marcelo Rebelo de Sousa, realizado em sinal aberto no canal SIC e em
simultâneo no canal SIC Notícias, no passado dia 6 de janeiro de 2021.
8. O debate iniciou-se às 21 horas do referido dia e logo nos primeiros minutos, entre as
horas 21:04 e 21:05, André Ventura precipita a seguinte intervenção: “…Mas eu, sobre a
questão da Direita social e securitária, gostava de mostrar ao candidato Marcelo Rebelo de
Sousa esta fotografia, vamos ver se ele se recorda disto…”
9. Com as câmaras focadas em si, André Ventura ergueu uma folha de tamanho A4, em
orientação horizontal, com a fotografia dos Autores com o Presidente da República.
10. Perguntou, então: “Gostava de perguntar se ele se recorda desta fotografia…”, ao que
Marcelo Rebelo de Sousa respondeu, “Sim.”
11. Continuando a apresentar a fotografia para o seu adversário de debate e para as
câmaras, André Ventura afirma, finalmente: “Ora, esta fotografia mostra tudo o que a minha
Direita não é. Nesta fotografia, o candidato Marcelo Rebelo de Sousa juntou-se com
bandidos, um deles é um bandido verdadeiramente, que tinham atacado uma esquadra policial
e quando o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa foi ao Bairro da Jamaica, foi visitar os
bandidos, não foi visitar as polícias. Eu represento a Direita, não a Direita que está de mãos
dadas com o Partido Socialista, mas a Direita que nunca vai deixar os polícias, as forças de
segurança, estarem sozinhas e esta fotografia não engana… Porque esta fotografia que está
aqui, eu creio que o candidato Marcelo Rebelo de Sousa reconhecerá a veracidade da
fotografia, não foi tirada depois na esquadra de polícia, foi tirada só, entre aspas e vão me
desculpar a linguagem, à bandidagem. E, portanto, talvez seja aqui uma diferença entre nós:
eu não tenho medo de ser politicamente incorreto, de lhes chamar os nomes que têm de ser
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chamados e dizer o que tem de ser dito. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e agora
candidato, gosta de se dizer de Direita, mas, na verdade, quer estar de mãos dadas com o
eleitorado do Bloco de Esquerda, do PCP, do PS e depois dá nisto… Dá em fotos como esta,
que eu acho que ninguém à Direita pode ficar feliz de a ver.”
12. Em resposta, Marcelo Rebelo de Sousa discursou: “Ora bom, a minha Direita é uma
direita social. É uma direita que não distingue os portugueses entre os bons e os bandidos: “e
com os bandidos não nos damos; e não vamos a bairros de bandidos; e todos os que vivem
nesses bairros são bandidos”. Isso é o contrato da inclusão, isso é o contrato do que deve ser
um candidato presidencial. Um candidato presidencial deve ser um integrador; o separar logo
os bons e os maus… Ainda ninguém foi condenado, ainda não há nenhuma decisão da
Justiça… E eu fui lá, e fui lá como fui a muitos outros bairros, para mostrar que o Presidente
da República não tem medo de ir a qualquer dos bairros, vai tão depressa a bairros de ciganos,
como vai de africanos, como vai daqueles que não o são, vai, de europeus, de europeus dos
mais variados e vai, vai e não discrimina. E eu fui lá e não disse uma palavra sobre o que se
tinha passado; fui falar, daquilo… Não é um caso de polícia. A Jamaica é um caso social. É
um caso social. É um caso de injustiça social. E é desse caso de injustiça social de que um
Presidente da República não pode divorciar-se. Não pode. Não pode… Eu tiro muitas
fotografias em esquadras de polícia.... Outras... Mas estive em esquadras de polícia. Agora,
ali, eu sei o que é Chefes de Estado com naturais seus, vivendo lá, porque havia cabo-
verdianos, angolanos e ciganos, o que é que eles me disseram, e o que é que se disse nesses
países, e o que se pensou sobre Portugal, e eu disse “Não! Nós não discriminamos. Nós
incluímos. Nós integramos” (…)”
13. Até que André Ventura interrompe: “E isso para si foi mais importante que os
portugueses…”
14. Seguiu-se a reação de Marcelo Rebelo de Sousa: “Não, não foi mais importante. Eles
são tão importantes porque são portugueses. Essa distinção diz tudo sobre si. Portugal é feito,
oh senhor deputado, Portugal é feito, desde sempre, de povos que vieram... de germânicos, de
África, vieram de todos os pontos do mundo, não há portugueses puros. Não há portugueses
puros e impuros. E um Presidente da República não pode distinguir entre portugueses puros e
impuros. Não pode. Não pode. Dá votos, mas não pode…”
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15. Por fim, André Ventura remata: “É que isso não é… Ser verdadeiramente Presidente
dos portugueses de bem. É a velha conversa do Presidente de todos os portugueses. Mas esta
foto, Senhor Presidente, e eu admito isso, sabe? Eu nunca vou ser Presidente dos traficantes
de droga, nunca vou ser Presidente dos pedófilos, nunca vou ser Presidente dos que vivem à
conta do Estado, com esquemas de sobrevivência paralelos, enquanto os portugueses de bem
pagam os seus impostos, todos os dias a levantar-se de manhã à tarde para os pagar e o que
fez aqui não tem nenhuma justificação…”
16. Continua André Ventura, enquanto volta a mostrar a fotografia dos Autores com o
Presidente da República para as câmaras: “…Com qualquer Chefe de Estado estrangeiro, nem
com o que se pense lá fora nem cá dentro, um Presidente da República, na minha perspetiva,
antes de mais, tem de dar um sinal a esses portugueses, porque foram esses portugueses, são
esses portugueses que sustentam a economia portuguesa, são esses que sustentam Portugal,
muitos destes indivíduos [apontando novamente para a fotografia dos Autores] vieram para
Portugal para beneficiar única e exclusivamente daquilo que é o Estado Social e daquilo que o
Estado lhes pode dar e o Senhor Presidente diz aqui que acha normal ir a um bairro destes
porque se não iam dizer… Que vivem lá ciganos, vivem lá afrodescendentes, etecetera, mas
não era capaz de dar um sinal à polícia que estava ao lado deles…”
17. Nenhum dos Autores foi prévia ou posteriormente contactado – por André Ventura ou
por qualquer outra pessoa – a fim de recolher o seu consentimento para a divulgação da sua
imagem no contexto deste debate.
18. André Ventura desconhece qualquer um dos Autores da presente ação.
19. Nunca se conheceram pessoalmente, nunca trocaram qualquer tipo de
correspondência, não têm amigos ou conhecidos em comum, nem frequentam os mesmos
espaços ou círculos sociais.
20. Os Autores desconhecem, tanto quanto sabem, qualquer militante ou dirigente do
Partido Chega e são totalmente alheios à sua organização.
21. Aurora Coxi, Fernando Coxi, James Linder e Vanusa Coxi têm nacionalidade
portuguesa.
22. Higina Coxi, Hortencio Coxi e Julieta Luvunga têm título de residência válido em
Portugal –– e cá residem há quase década e meia
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23. André Ventura prestou declarações ao Jornal Sol de 6 de fevereiro de 2021, em que
volta a usar as palavras “bandidos” e “bandidagem”, afirmando: “Vou exigir a todos os
candidatos autárquicos o registo criminal. Quero garantir que não há bandidagem no Chega”
24. Estas declarações foram divulgadas pelo Partido Chega na sua conta Oficial no
Twitter
25. Em 18 de Janeiro de 2021, os certificados do registo criminal de Aurora Coxi,
Fernando Coxi, Higina Coxi, Julieta Luvunga, e Vanusa Coxi não têm qualquer inscrição
26. O Autor Hortencio Coxi tem inscrições no seu registo criminal, tendo sido condenado
em três ocasiões, por crime de desobediência, tráfico de menor gravidade e condução sob
influência de álcool, praticados, respectivamente, em 01/08/2015, 20/10/2015 e 02/05/2019,
sem menções de reincidência, já tendo cumprido as penas aplicadas.
27. No processo pendente no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa, Juízo Central
Criminal de Almada, supra melhor identificado, onde são partes três dos sete Autores da
presente ação, está em causa um episódio de suposta violência policial que ocorreu no Bairro
da Jamaica, na sequência de uma intervenção policial no local para resolver desacatos entre
moradores, e que gerou posteriormente polémica devido à publicação de um vídeo no
YouTube com filmagens dos acontecimentos.
28. Os Autores não são acusados, no âmbito desse processo ou de qualquer outro, de ter
atacado uma esquadra policial.
29. Na sequência dos incidentes ocorridos que deram origem ao processo supra
mencionado, gerou-se uma onda de indignação popular que culminou em manifestações
contra o racismo e a violência policial, em Lisboa.
30. Após as manifestações, o Diário de Notícias relatou a ocorrência de ataques a uma
esquadra em Setúbal, no Bairro da Bela Vista: “Segundo a PSP, a esquadra da Bela Vista, em
Setúbal, também foi atingida por três daqueles engenhos incendiários. Registaram-se danos na
esquadra e numa viatura civil. Os responsáveis não foram detidos e a PSP está a investigar
ambas as ocorrências. Na segunda-feira quatro pessoas foram detidas após o lançamento de
pedras contra a PSP, numa manifestação em Lisboa de protesto contra atos de suposta
violência policial ocorridos domingo no Bairro da Jamaica, no Seixal.”
Processo: 8777/21.3T8LSB
Referência: 405399723

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31. Vários artigos de notícias em órgãos de comunicação social relacionaram o ataque à
esquadra no Bairro da Bela Vista, em Setúbal, como podendo ter sido “retaliação aos
incidentes ocorridos no bairro da Jamaica, no Seixal” – como escreveu a Revista Sábado.
32. A Autora Vanusa Coxi e o Autor James Linder (hoje com 6 anos) nasceram em
Portugal
33. Por outro lado, quando “vieram para Portugal” as Autoras Aurora Coxi e Higina Coxi
tinham 16 e 13 anos, respetivamente, tendo imigrado por decisão dos seus pais e não por
motivação própria.
34. Os Autores Fernando Coxi e Julieta Luvunga, e seu filho maior, o Autor Hortencio
Coxi, à época com 21 anos decidiram vir para Portugal.
35. Atualmente, Fernando Coxi tem 65 anos e com o 9.º ano de escolaridade trabalha
como segurança para a PRESTIBEL – Empresa de Segurança, S.A. desde 2017, estando
alocado à portaria do Centro de Saúde de Corroios, onde tem ajudado nas logísticas do
combate à pandemia COVID- 19 e do processamento de doentes não-covid.
36. Julieta Luvunga tem hoje 55 anos e com o 5.º ano de escolaridade trabalha como
técnica da limpeza para a empresa INTERLIMPE – Facility Services, S.A., continuando a
trabalhar presencialmente mesmo durante a pandemia da COVID-19.
37. Nem Fernando Coxi nem Julieta Luvunga beneficiam de qualquer prestação de apoio
social por parte do Estado português, nem a título individual nem dos seus filhos dependentes.
38. A Autora Higina Coxi, o seu filho menor, também Autor, James Linder, e o Autor
Hortencio Coxi, também não recebem qualquer apoio por parte do Estado português.
39. A Autora Vanusa Coxi, é operadora de call center na empresa Randstad Recursos
Humanos, Empresa de Trabalho Temporário, S.A, desde 2011, e apenas recebe, desde 2020,
um subsídio por doença profissional, indexado ao seu salário, por estar incapacitada de
trabalhar até à realização da cirurgia que aguarda desde 2018 –.
40. Recebe também uma prestação de abono de família de crianças e jovens, em nome dos
seus sete filhos.
41. As prestações têm os valores mensais de € 37,46 por cada um dos cinco filhos mais
velhos e de € 224,77 por cada um dos dois filhos mais novos, a que acresce o valor de € 63,01
pela deficiência de uma das suas filhas.
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42. A Autora Aurora Coxi recebe o Rendimento Social de Inserção (€ 276,33 por mês),
recebendo adicionalmente uma prestação de abono para crianças e jovens em nome dos seus
dois filhos menores (€ 97,42 por mês por ambos).
43. A Autora Aurora Coxi está inscrita no Centro de Emprego do Seixal e ativamente à
procura de emprego, após ter ficado desempregada na sequência das restrições à atividade
económica do sector da restauração no âmbito do combate à pandemia COVID-19.
44. Existe uma fotografia do mesmo dia de Marcelo Rebelo de Sousa apenas com o Autor
Hortencio Coxi.
45. André Ventura tem formação académica, tendo terminado a sua Licenciatura em
Direito com 19 valores na Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa, onde
posteriormente lecionou, e é doutorado em Direito Público pela National University of Ireland
desde 2011;
46. Tem um percurso na política nacional associado ao Partido Social Democrata, tendo
sido vereador na Câmara Municipal de Loures entre 2017 e 2018; foi consultor num dos
principais escritórios de advocacia do país, a “Caiado Guerreiro”; foi colonista habitual do
jornal diário mais lido do país, o Correio da Manhã; foi comentador desportivo entre 2014 e
2020 na CMTV; é atualmente um líder partidário com um foco de atenção na comunicação
social de tal ordem que permitiu o “Media Lab” da Universidade ISCTE qualificá-lo como
uma “celebridade mediática”.
47. Na manhã do dia seguinte ao debate, no Semanário Expresso escrevia que o debate
entre Marcelo Rebelo de Sousa e André Ventura “bateu os recordes de audiência dos
anteriores debates presidenciais, atingindo números invulgares e geralmente só obtidos por
grandes jogos de futebol”.
48. Segundo um estudo da GFK27, perto de 1,7 milhões de espectadores acompanharam o
debate em direto no canal SIC
49. Adicionalmente e de acordo com o mesmo estudo, através da SIC Notícias estiveram
mais 145 mil pessoas a assistir ao debate.
50. De acordo com outra agência de sondagens, a Universal McCann29 do grupo IPG
Mediabrands, o frente-a-frente entre André Ventura e Marcelo Rebelo de Sousa transmitido
pelo canal SIC foi visto por 1,834 milhões de telespetadores.
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51. A Universal McCann estima também que o debate transmitido através da SIC Notícias
contou com uma audiência média adicional de 247.300 espectadores.
52. Imediatamente após debate, o Diário de Notícias escrevia: “(…) André Ventura
respondeu com uma fotografia da visita de Marcelo Rebelo de Sousa ao bairro da Jamaica,
onde, acusou o líder do Chega, "Marcelo foi visitar os bandidos, não foi visitar os polícias".
"Não foi tirar depois a foto na esquadra de polícia, foi só tirar com a bandidagem", "Diz que é
de direita, mas depois quer andar de mãos dadas com o Bloco de Esquerda, com o PS e com
todos" (…) Antes, a foto de Marcelo Rebelo de Sousa no bairro da Jamaica tinha servido a
Ventura para afirmar: "Nunca vou ser Presidente dos traficantes de droga ou de pedófilos.
Isso não é ser verdadeiramente Presidente dos portugueses de bem. O que fez aqui não tem
qualquer justificação."
53. No JN, pode ler-se: “O tom cordato inicial - Ventura elogiou o seu oponente por ter
dito que não ilegalizaria o seu partido, ao contrário das candidatas Marisa Matias e Ana
Gomes - não demorou muito a ficar para trás quando o presidente do Chega confrontou
Rebelo de Sousa com uma fotografia sua no Bairro da Jamaica, ao lado de alguns moradores
que viriam a ser posteriormente condenados, apelidados de "bandidos" pelo candidato. "Eu
represento a direita que não deixa as pessoas de bem sozinhas. Gosta de se dizer da direita,
mas está sempre de braço dado com o Bloco e os outros partidos de esquerda", reforçou.”
54. No site da TSF consta: “André Ventura acusou, esta noite, Marcelo Rebelo de Sousa
de "se juntar com bandidos" e de quando foi o Bairro da Jamaica não ter visitado os polícias.”.
55. Na TVI24, noticiou-se: “VENTURA MOSTRA FOTOGRAFIA DE MARCELO NO
BAIRRO DA JAMAICA COM "BANDIDOS” e “De seguida, Ventura prossegue em mostrar
uma fotografia de Marcelo Rebelo de Sousa no Bairro da Jamaica, acusando-o de estar com
"bandidos". "Esta fotografia mostra tudo o que a minha direita não é ", destacou o candidato
de extrema- direita.”
56. Também o jornal Sol noticiou: “Marcelo acusa Ventura de demagogia e líder do
Chega cola Presidente a “bandidos”: “Para o recandidato presidencial "não há portugueses
puros e impuros." A frase surgiu depois de André Ventura ter mostrado uma foto de Marcelo
Rebelo de Sousa com várias pessoas no Bairro da Jamaica. O episódio ocorreu depois de uma
intervenção policial muito polémica. Ventura perguntou a Marcelo porque não foi visitar
Processo: 8777/21.3T8LSB
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também a esquadra da polícia visada neste processo. A pergunta vinha com um propósito:
André Ventura quis dizer que Marcelo juntou-se a "bandidos" ou a bandidagem.”
57. Também a Visão fez referência a este episódio, no seu website, qualificando-o como
“tema quente” do debate, a par da SIC Notícias e do Correio da Manhã.
58. Notícias de conteúdo semelhante foram posteriormente reproduzidas na imprensa
escrita desse dia e dessa semana, das quais se destacam as edições diárias do jornal Público e
do jornal Correio de Manhã de 7 de janeiro de 2021.
59. A divulgação das declarações em causa foi também feita através das redes sociais.
60. Na conta oficial do Partido Chega na rede social Twitter – que conta com mais de 23
mil seguidores – foi feita uma publicação, no dia 6 de janeiro de 2021, acompanhada por
vídeo com um excerto do debate, onde André Ventura mostra a fotografia dos Autores com o
Presidente da República, divulgando uma passagem da intervenção de André Ventura:
“Marcelo Rebelo de Sousa esteve ao lado dos bandidos no Bairro da Jamaica…”
61. No website Youtube podem encontrar-se vários vídeos onde são reproduzidas e
comentadas aquelas declarações de André Ventura a respeito dos Autores, somando, até à
presente data, milhares de visualizações.
62. As declarações de André Ventura foram também alvo de algumas reações de
indignação.
63. Assim, no Observador foi noticiada a reação do jogador de futebol Rafael Leão na sua
conta de Twitter, onde pode ler-se: “Mas nem isso fez com que Rafael Leão, que antes de
chegar ao AC Milan jogou nos franceses do Lille em 2018/19 após ter feito toda a formação
no Sporting, condenasse aquilo que considera ser a injustiça das palavras de André Ventura.
“Por ser um bairro social não quer dizer que toda gente seja um bandido, antes de ser bandido
são pessoas, são humanos independentemente da cor!!”, escreveu o jovem avançado na sua
conta oficial no Twitter, acompanhado do vídeo onde o líder do Chega aponta o dedo à
“bandidagem” do bairro onde cresceu.”
64. A mesma notícia foi publicada no site Mais Futebol
65. No jornal Público, Paulo Pisco escreve um artigo publicado a 8 de janeiro de 2021: “É
totalmente inaceitável que no debate com Marcelo Rebelo de Sousa tenha mais uma vez
violado a Constituição ao usar de forma abusiva uma foto de um grupo de sete pessoas do
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Bairro da Jamaica, sem nenhum respeito pelos homens, mulheres e até uma criança que
estavam com o Presidente, que as visitou na sequência de acontecimentos de violência
policial. (…) Ao mostrar a fotografia, disse com toda a impunidade que se tratava de uma foto
com “a bandidagem”. Dizer isto de pessoas que não se conhece, tenham ou não cadastro, e
que certamente não será o caso da criança, é uma vergonha para quem quer ser Presidente da
República e tem um cargo eletivo no Parlamento. É inaceitável que o candidato André
Ventura faça uma demonstração tão abusivamente xenófoba e racista através da televisão, que
inclui nesses comentários infelizes uma criança, violando de forma grosseira a Constituição
da República em muitos dos seus artigos. (…) Quem o autorizou a utilizar a foto com todas
aquelas pessoas para lhes chamar bandidos? Que autoridade tem para destruir o bom nome e
reputação de todas aquelas pessoas, incluindo de uma criança? Quem o autorizou a destruir a
reserva de intimidade privada e familiar das pessoas na foto, mostrada para centenas de
milhares de pessoas em todo o país?”
66. Na Rádio Renascença, no programa “Extremamente Desagradável” do dia 11 de
janeiro de 2021, é reproduzida o excerto do programa “Goucha” infra transcrito, seguindo dos
seguintes comentários: “Aqui se prova mais uma vez que para Ventura as pessoas negras são
todas iguais, não é? Só um deles é que foi condenado por um crime, mas Ventura acha que
são todos, não consegue distinguir, pronto, é um problema…”
67. No dia seguinte ao debate com o Presidente da República, a 7 de janeiro de 2020,
André Ventura participou no programa “Goucha”, com o apresentador Manuel Luís Goucha,
transmitido em direto a partir das 16:10 horas, em canal aberto, desta vez no canal TVI.
68. A meio da entrevista, Manuel Luís Goucha confronta André Ventura com a fotografia
dos Autores com o Presidente da República e questiona-o: “Ontem não foi injusto quando
apresentou esta fotografia ao Presidente Marcelo, eu ouvi a palavra “bandidos” … Eu vejo
aqui quatro mulheres, vejo um homem que possivelmente tem a minha idade, vejo uma
criança e vejo um jovem. Bandidos?”
69. Ao que André Ventura respondeu: “Olhe, este individuo já tinha sido condenado, por
crimes, que está aqui no meio, abraçado ao Presidente e isto é na zona, provavelmente com
relações variadas com as pessoas…”
Processo: 8777/21.3T8LSB
Referência: 405399723

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70. Seguindo-se um curto diálogo entre ambos: MLG: “Estas mulheres são bandidas?”
AV: “Bom, eu disse nesta zona, os bandidos e estava-me a referir a…” MLG: “Mais uma vez
está a tomar a nuvem por Juno… “ AV: “Não, estava-me a referir a este indivíduo que aqui
está, de camisola vermelha, já tinha sido condenado e isso aliás até foi notícia depois…
Manuel, não podemos ter um Presidente, que uma esquadra é atacada e que vai ter com a
bandidagem em vez de ir ter com os polícias. É um péssimo sinal à democracia.”
71. A emissão do programa “Goucha” de 7 de janeiro de 2021 registou 4,9% de rating,
18,6% de share e cerca de 460 mil telespectadores em direto.
72. Na antevéspera das eleições presidenciais, a 22 de janeiro de 2021, às 19:49h – mais
de duas semanas volvidas desde o debate com o Presidente da República e da participação de
André Ventura programa “Goucha” – o Partido Chega publicou, na sua conta na rede social
Twitter, a fotografia dos Autores com Marcelo Rebelo Sousa a que se referem os presentes
autos, incluída numa montagem original de campanha para a candidatura de André Ventura
que procura ilustrar a diferença entre os candidatos: Marcelo Rebelo de Sousa está ao lado dos
Autores que são pessoas negras enquanto André Ventura está ao lado de homens brancos,
membros do “Movimento Zero” na manifestação em frente à Assembleia da República no dia
22 de novembro de 2019; a separar na horizontal as duas imagens está a frase: “Eu prefiro os
portugueses de bem”, constando na margem inferior da montagem os dizeres “Vota André
Ventura”
73. No Diário de Noticias on-line (consulta em [Link]/pais/detido-do-bairrro-da-
jamaica-sai- [Link]), de 21 de Janeiro de 2019 publica a notícia com o
seguinte título “Detido do bairro da Jamaica sai em Liberdade”, identificando o Autor
Hortencio Coxi como o único detido na sequência do episódio de violência entre agentes da
PSP do Seixal e moradores do Bairro da Jamaica.
74. O envolvimento do Autor Hortencio Coxi nos desacatos ocorridos no Bairro da
Jamaica no dia 20 de Janeiro de 2019 e a sua detenção foram publicitados e noticiados, assim
como foi largamente difundida a sua imagem através de vídeos e fotografias, pelos meios de
comunicação social, nomeadamente no telejornal da CMTV do dia de 20 de janeiro de 2019
das 13:00 horas e Sic Noticias, telejornal das 13:00 horas do dia 20 de janeiro de 2019.
Processo: 8777/21.3T8LSB
Referência: 405399723

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75. O jornal Expresso de 5 de Fevereiro de 2019 publica artigo com o seguinte título
“Selfies de Marcelo no bairro da Jamaica indignam agentes da PSP”
76. Nesta notícia publicada no Expresso é possível ler-se que “Fontes da PSP garantem
que Hortêncio Coxi já foi detido várias vezes, por tráfico de heroína, tentativa de roubo ou por
participação num motim contra a polícia, em 2009. Existe ainda um vasto rol de crimes
anteriores não referenciados nesta lista que ainda hoje se arrastam em diligências
processuais”, confidencia um responsável.”.
77. O conhecido registo criminal do Autor Hortencio Coxi, foi amplamente divulgado nos
órgãos de comunicação social nessa altura (em fevereiro e seguintes meses do ano de 2019);
78. O Autor Hortencio Coxi foi novamente motivo de notícias a 3 de Maio de 2019, por
conta de mais uma detenção policial motivada por condução em estado de embriaguez.
79. O motivo pelo qual o Réu abordou o tema durante o debate de dia 6 de Janeiro de
2021 – a defesa dos direitos das forças policiais – que é uma das grandes referências da sua
candidatura e de grande debate politico, conforme resulta das 70 medidas propostas pelo
partido Chega.
80. André Ventura escolheu levar para o debate a fotografia dos Autores para abordar o
tema dos problemas relacionados com o Bairro do Jamaica e os problemas relacionados com
os órgãos de polícia criminal.
81. A publicação do dia 22 de Janeiro de 2021, às 19:49h, da conta oficial do Partido
Chega na rede social Twitter, com o conteúdo a que se refere o ponto 74 supra, já não existe.

Factos não provados:


1. Durante a intervenção policial de 20 de Janeiro de 2019 no Bairro da Jamaica, Seixal,
ocorreram desacatos por parte de alguns moradores que, nomeadamente, terão arremessado
objetos contra os elementos da PSP.
2. Na sequência destes confrontos foram detidas quatro pessoas.
3. O facto do Presidente da República ter tirado fotografias com o Autor Hortêncio e
com a sua família foi noticiado simplesmente porque o Autor, Hortencio Coxi, na data da
visita já tinha sido detido na sequência dos acontecimentos do dia 20 de janeiro de 2019, ter
sido constituído arguido em processo-crime e estar a aguardar julgamento.
Processo: 8777/21.3T8LSB
Referência: 405399723

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Motivação da convicção do Tribunal:


A convicção do Tribunal sobre os factos provados relacionados com os
acontecimentos de 20 de Janeiro de 2019, formou-se com base na visualização do video
publicado no youtube sobre parte desses acontecimentos.
Os factos relacionados com o conteúdo do debate de 6 de Fevereiro de 2020 em causa
na presente acção foram confirmados com base na visualização do ficheiro de video
respeitante à parte do debate em causa, junto com a petição inicial, assim como os factos
relacionados com o programa Goucha do dia seguinte foram confirmados com base na
visualização do respectivo ficheiro de video junto com a petição inicial.
Os factos provados relacionados com as noticias publicadas sobre os temas tratados na
presente acção e alegados nas peças processuais de Autores e Réus, foram confirmados com
base no seguimento dos links e leitura da cópias de tais notícias que foram juntos aos autos.
Os factos relacionados com as condições pessoais, profissionais, sociais e económicas dos
Autores e ainda sobre o seu cadastro criminal, foram confirmados com base nas certidões do
SEF respeitantes aos Autores Higina Coxi, Hortêncio Coxi, Julieta Coxi, na certidão de
nascimento do Autor James Linder, nos recibos de vencimento dos Autores Fernando Coxi,
Julieta Luvunga e Vanusa Coxi, nas declarações emitidas pela Segurança Social que atestam
que os Autores Fernando, Julieta, Higina, James e Hortêncio não recebem qualquer prestação
social e que atestam quais as prestações sociais recebidas pelas Autoras Vanusa e Aurora,
assim como que esta última se encontra inscrita no centro de emprego na situação de
desempregada e à procura de novo emprego desde 03/02/2021 e nos certificados do Registo
Criminal dos Autores que atestam que os mesmos não têm quaisquer inscrições do
condenação, com excepção do Autor Hortêncio Coxi, de cujo boletim resultam os factos
relacionados com as respectivas condenações a que foi sujeito.
Foram ainda tidas em conta as declarações da testemunha Anabela Trindade Soares,
Assistente Social, que declarou conhecer os Autores, tendo tido contactos com a família desde
há mais de dez anos por força do exercício da sua profissão e do seu trabalho na área da
habitação social, classificando-os como pessoas íntegras e integradas.
Processo: 8777/21.3T8LSB
Referência: 405399723

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As declarações de parte da Autora Vanusa Coxi foram ponderadas para compreensão dos
efeitos que a situação em causa teve para esta Autora e como as declarações sobre si a sua
família a atingiram.
Sobre os factos relacionados com os temas da campanha às presidenciais de André
Ventura e forma de tratamento desses temas, baseou-se o Tribunal nas suas declarações de
parte prestadas em julgamento, tendo este explicado a importância da exibição da fotografia
dos Autores para atingir os seus objectivos de defesa das forças policiais.
Baseou-se também o Tribunal no certificado do Cartório Notarial da Notária Sofia
Henriques que atesta ter acedido ao tweet do dia 22 de Janeiro de 2021 na conta oficial do
Twitter do Partido Chega e ter visualizado a imagem que consta do documento junto aos
autos com o nº 29, o que determinou que o Tribunal desse como provado o facto 74.
Foram tidas em consideração as declarações da testemunha Luc Mombito que se
identificou como responsável pelas redes sociais do Partido Chega, assumindo ter publicado
na conta desse partido na rede social Twitter a imagem a que se refere o ponto 74 dos facto
provados.
Por fim, foram igualmente ponderadas as declarações de parte do legal representante
do Partido Chega que embora tenha tentado demarcar o seu partido da conta em que foi
publicada a imagem de campanha a que se refere o ponto 74 dos factos provados, acaba por
admitir que tal conta poderia ser por si controlada e que na sequência da presente acção e
porque não pretende que o partido seja prejudicado com questões do tipo das que aqui se
discutem, retirou a imagem da referida conta.
O Tribunal confirmou que a publicação referida em 74 e 83 dos factos provados já não se
encontra disponível para visualização, através do link para a conta mencionada no ponto 74
dos factos provados.
Nem André Ventura, nem o representante legal do Partido Chega mostraram qualquer
arrependimento pela forma como trataram os Autores na campanha eleitoral para as eleições
presidenciais, entendendo o Réu André Ventura que não praticou qualquer ofensa contra os
mesmos e admitindo que voltaria a repetir os factos que lhe são imputados nos autos.
Não foram apresentados meios de prova quanto aos factos declarados não provados, não
permitindo os existentes concluir pela sua verificação.
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O Direito:
São essencialmente duas as questões a decidir na presente acção:
A primeira consiste em saber se o comportamento dos Réus ofende ilicitamente os direitos de
personalidade dos Autores;
A segunda prende-se com a adequação das medidas requeridas para atenuar os efeitos da
eventual ofensa cometida.

1. O processo especial de tutela de personalidade


Comecemos por tentar compreender o âmbito e objectivos do processo especial de tutela de
personalidade.
Logo no art. 1º da Constituição da República Portuguesa declara-se “Portugal é uma
República soberana, baseada na dignidade da pessoa humana e na vontade popular e
empenhada na construção de uma sociedade livre, justa e solidária.”
Prossegue o art. 2º Lei Fundamental Portuguesa onde se lê “A República Portuguesa é um
Estado de direito democrático, baseado na soberania popular, no pluralismo de expressão e
organização política democráticas, no respeito e na garantia de efetivação dos direitos e
liberdades fundamentais e na separação e interdependência de poderes, visando a realização
da democracia económica, social e cultural e o aprofundamento da democracia participativa.”
Estabelece o art. 20º, nº 5 que, para defesa dos direitos, liberdades e garantias pessoais, a lei
deva assegurar aos cidadãos procedimentos judiciais caracterizados pela celeridade e
prioridade, de modo a obter tutela efetiva e em tempo útil contra ameaças ou violações desses
direitos.
No capítulo dedicado aos direitos, liberdades e garantias pessoais dispõe a Constituição da
República Portuguesa que a integridade moral e física das pessoas é inviolável (nº1 do artigo
25º); a todos são reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da
personalidade, à capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à
Processo: 8777/21.3T8LSB
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palavra, à reserva da intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra
quaisquer formas de discriminação (nº1 do art. 26º);
Por sua vez, o artigo 70º do Código Civil dispõe que a lei protege os indivíduos contra
qualquer ofensa ou ameaça de ofensa à sua personalidade física ou moral (nº1) e que,
independentemente da responsabilidade civil a que haja lugar, a pessoa ameaçada ou ofendida
pode requerer as providências adequadas às circunstâncias do caso, com o fim de evitar a
consumação da ameaça ou atenuar os efeitos da ofensa já cometida (nº2).
Na lei adjectiva prevê o art. 878º CPC: Pode ser requerido o decretamento das providências
concretamente adequadas a evitar a consumação de qualquer ameaça ilícita e direta à
personalidade física ou moral de ser humano ou a atenuar, ou a fazer cessar, os efeitos de
ofensa já cometida.
A acção prevista na disposição legal referida, a primeira do Livro relativo aos processos
especiais, para onde transitou com a reforma do Código de Processo Civil de 2013 (antes
encontrava-se enquadrada no capítulo reservado aos processos de jurisdição voluntária – art.s
1474º e 1475º CPC), destina-se a conferir tutela processual aos direitos de personalidade a
que se referem os já citados artigos da Constituição e da lei civil.
Não obstante a mudança de sede, continua o art. 879º, nº4 CPC a impor ao Tribunal, se o
pedido for julgado procedente, que determine o comportamento concreto a que o requerido
fica sujeito e, sendo caso disso, o prazo para o cumprimento, bem como a sanção pecuniária
compulsória por cada dia de atraso no cumprimento ou por cada infração, conforme for mais
conveniente às circunstâncias do caso.
No entanto, ao fazer transitar a acção de tutela de personalidade para os processos especiais, o
legislador sublinhou o carácter contencioso deste tipo de processo, que confere à decisão
judicial a natureza de resposta imparcial à pretensão que lhe é apresentada pelo lesado, o que
é substancialmente diverso da decisão proferida no âmbito jurisdição voluntária, com pendor
mais inquisitório e tem reflexos no regime de recursos.
Da sua tramitação destaca-se o carácter célere e prioritário cujo objectivo é a concessão de
tutela efectiva e em tempo útil contra ameaças ou violações de direitos, liberdades e garantias
pessoais.
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Tal carácter célere retira-se do disposto nos art.s 879º e 880º CPC que preveem que, logo que
seja apresentado o requerimento inicial, o tribunal designe imediatamente dia e hora para a
audiência, a realizar num dos 20 dias subsequentes, devendo, necessariamente, salvaguardar-
se o direito de defesa da contraparte; que a contestação seja apresentada na própria audiência;
que realizada a produção de prova, o Tribunal deva proferir, de seguida, salvaguardada
igualmente a necessidade de ponderação, decisão sucintamente fundamentada; que os
recursos sejam processados como urgentes.
Na acção de tutela de personalidade, as providências podem ter lugar antes ou depois da
consumação da lesão.
As providências podem, assim, ser preventivas ou atenuantes, consoante ainda for possível
evitar a lesão ou esta estiver em curso ou já tiver sido perpetrada.
As providências atenuantes, como aquelas que são requeridas nos presentes autos, destinam-
se a neutralizar ou reduzir ao mínimo os efeitos produzidos pela lesão.
Na origem do decretamento de qualquer providência deve estar um facto voluntário e ilícito
de que resulte ou possa resultar a lesão de um direito de personalidade, mas não se exige a
culpa do lesante ou a produção de danos – vd R. Capelo de Sousa, in O Direito Geral de
Personalidade, pág. 473 e seguintes.

2. Os direitos em confronto – direito à honra vs liberdade de expressão:


Estão em causa nos presentes autos, de acordo com os argumentos expendidos ao longo da
petição inicial, o direito à honra e à imagem dos Autores pela exposição da foto em que
aparecem ao lado do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, no debate televisivo
incluído na campanha eleitoral para a presidência da República, entre os candidatos Marcelo
Rebelo de Sousa e André Ventura.
Como já vimos, consignou o legislador Constitucional, no art. 26º, nº 1, que «A todos são
reconhecidos os direitos à identidade pessoal, ao desenvolvimento da personalidade, à
capacidade civil, à cidadania, ao bom nome e reputação, à imagem, à palavra, à reserva da
intimidade da vida privada e familiar e à protecção legal contra quaisquer formas de
discriminação.»
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Os direitos de personalidade têm igualmente protecção no Direito Internacional,
designadamente na Declaração Universal dos Direitos do Homem e na Convenção Europeia
dos Direitos do Homem, partes integrantes do nosso sistema jurídico, por virtude do art. 8º da
Constituição da República Portuguesa.
Para a lei ordinária a personalidade moral, o bom-nome e consideração social das pessoas, são
valores tutelados, conforme resulta dos artigos 70º e 484º do Código Civil além de
constituírem bens jurídicos protegidos pela Lei Penal que tipifica como crime a sua ofensa.
No art.º 70º, do Código Civil, a lei protege os indivíduos contra qualquer ofensa ilícita ou
ameaça de ofensa à sua personalidade física ou moral. E independentemente da
responsabilidade civil a que haja lugar, a pessoa ameaçada ou ofendida pode requerer as
providências adequadas às circunstâncias do caso, com o fim de evitar a consumação da
ameaça ou atenuar os efeitos da ofensa já cometida.
No art. 484º, do Código Civil, estatuiu-se que quem afirmar ou difundir um facto capaz de
prejudicar o crédito ou o bom-nome de qualquer pessoa, singular ou colectiva, responde pelos
danos causados.
Os direitos de personalidade surgem como direitos absolutos de exclusão a que corresponde
um dever de respeito universal e só uma tutela efectiva destes direitos por parte da Ordem
Jurídica pode conseguir a concretização do primado da Dignidade Humana que a Constituição
elege como primeiro valor da República (vd art. 1º da Constituição da República Portuguesa).
Entre estes direitos, encontra-se o direito à honra.
Escreve Filipe Miguel Matos, Responsabilidade Civil por ofensa ao crédito e ao bom nome,
Almedina, pág. 120 e seguintes, a propósito do conceito de honra, que este se baseia, no
pensamento juscivilistico, em contributos facultados pela dogmática penal que o concebe
como uma espécie de fenómeno sociopsicológico (concepção fáctica) com uma dimensão
antropológica ao serviço da qual o direito se encontra (concepção normativa).
Podemos ainda distinguir entre honra subjectiva em que está em causa uma ideia de auto-
estima e honra objectiva que corresponde à ideia formulada pelos outros em relação à pessoa.
Sufraga Filipe Miguel Matos uma noção ampla de honra onde encontram guarida uma
multiplicidade de elementos indispensáveis à afirmação da personalidade, como o bom nome
e a reputação, sendo a honra o direito matricial com eficácia erga omnes.
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Neste sentido lato, a honra abrange o bom nome e reputação, enquanto síntese do apreço
social pelas qualidades determinantes da unicidade de cada indivíduo e pelos demais valores
pessoais adquiridos pelo indivíduo no plano moral, intelectual, sexual, familiar, profissional
ou político, engloba o simples decoro, como projecção dos valores comportamentais do
indivíduo no que se prende ao trato social, e envolve o crédito pessoal, como projecção social
das aptidões e capacidades económicas desenvolvidas por cada homem.
Por conseguinte, pode dizer-se que o direito à honra, enquanto bem jurídico a proteger, é uma
das mais importantes concretizações da tutela dos direitos de personalidade.
A honra tem uma dimensão interna ou subjectiva, resultante do auto-reconhecimento e da
auto-avaliação, em que o homem se coloca perante si mesmo como objecto de percepção e
valoração.
Nesta dimensão, a honra é um elemento determinante para a concretização das
potencialidades de cada um e para a prosperidade do individuo enquanto ser bio-psico-social.
A personalidade e com ela a honra, acabam por criar no homem uma certa e determinada
imagem, a qual se reflecte perante os outros homens e perante a sociedade em geral.
A esta dimensão da honra, chamamos externa ou objectiva e traduz-se no respeito e
consideração que cada pessoa merece ou de que goza na comunidade a que pertence.
A tutela civil da honra de um individuo é mais abrangente que a tutela penal que esse bem
jurídico igualmente recebe, prescindindo-se ali do animus injuriandi do agressor e sendo
passíveis de ser classificadas como violadoras de tal bem jurídico um conjunto não taxativo
de comportamentos, como decorre do já referido art. 484º CC.
Tendo em conta o contexto em que tiveram lugar os comportamentos que são referidos nos
autos como ofensivos do direito dos Autores à sua honra, temos ainda que ponderar a
existência de um outro direito que merece igualmente protecção constitucional e legal, sendo
também reconhecido pelo Direito Internacional.
Referimo-nos ao direito de expressão e de informação cuja protecção Constitucional, a nível
interno, encontramos no art. 37º, nº1 CRP, onde se pode ler: “todos têm o direito de exprimir
e divulgar livremente o seu pensamento pela palavra, pela imagem ou por qualquer outro
meio, bem como o direito de informar, de se informar e de ser informado, sem impedimento
nem discriminações”.
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Também a Convenção Europeia dos Direitos do Homem consagra o direito à liberdade de
expressão, limitando as suas restrições às situações constantes do seu art. 10º, n.º 2, ou seja,
desde que tais restrições constituam providências necessárias, numa sociedade democrática,
para a segurança nacional, a integridade territorial ou segurança pública, a defesa da ordem e
a prevenção do crime, a proteção da saúde ou da moral, a proteção da honra ou dos direitos de
outrem, para impedir a divulgação de informações confidenciais, ou para garantir a autoridade
e imparcialidade do poder judicial.
Torna-se incontornável a associação entre liberdade de expressão e liberdade de pensamento,
o que realça a importância deste direito nas sociedades pluralistas e democráticas onde existe
o reconhecimento de que cada individuo é livre de exprimir por palavras, por imagens pela
escrita ou por qualquer outro meio as suas concepções ou pensamentos.
Socorrendo-nos, mais uma vez dos ensinamentos de Filipe Miguel Matos, ob cit. pág.s 35 e
seguintes, diz-nos este que para a delimitação do âmbito da liberdade de expressão concorre o
seu duplo sentido negativo e positivo.
Escreve este autor: “Por um lado, não pode afirmar-se a liberdade em análise quando
simultaneamente se aceitem e legitimem mecanismos exteriores de constrangimento
susceptíveis de influenciar ou mesmo determinar o seu conteúdo. Divulgar ou não
determinados juízos de valor ou informações e, antes disso orientar o pensamento de acordo
com determinada perspectiva ou sentido valorativo, constituem claras manifestações de
exercício do poder de autodeterminação de cada indivíduo.” De igual modo, impõe-se aqui
uma referência aos concretos modos faciendi que podem assumir os tipos de divulgação ou
transmissão (…): a palavra, a escrita, a imagem, a arte. Optar por qualquer um dos tipos de
divulgação e por alguma das formas acabadas de indicar resulta de um processo de escolha
individual. Assim sendo, a delimitação do objecto e conteúdo das informações transmitidas
deriva do poder de autodeterminação do emissor. Salvo, obviamente, quando esteja em causa
a transmissão de factos, porquanto a realidade funciona aí como limite e critério das
informações divulgadas.”
Podemos daqui concluir que a afirmação ou divulgação de factos falsos não é consentida nem
cabe no âmbito da liberdade de expressão e igualmente que esta se encontra integrada no
universo dos direitos de personalidade, participando das suas características e impondo um
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dever de respeito universal e a adopção de comportamentos positivos destinados a assegurar o
seu efectivo e integral gozo.
Torna-se, desde logo, aparente, que certos comportamentos através dos quais se realiza um
direito especial de personalidade de certa pessoa pode entrar em colisão com um modo de
realização de outro direito de personalidade de outra pessoa.
Mais uma vez citando Filipe Miguel Matos, ob cit, pág. 87, “a propósito do conflito entre
liberdade de expressão e o bom nome e o crédito de outrem, não podemos falar de uma
autêntica colisão de direitos quando estiver em causa a divulgação de factos manifestamente
falsos que diminuem a reputação social das pessoas visadas com as declarações. Porém, já é
possível configurar uma situação de conflito nas hipóteses de transmissão de factos
verdadeiros ou não demonstravelmente verdadeiros, mas desproporcionados e, como tais,
susceptíveis de atingir o bem nome e o crédito de quem nestas declarações é referenciado.
Em caso de conflito entre dois direitos constitucionais, há-de o julgador tentar encontrar,
numa ponderação concreta e casuística, o justo equilíbrio, sendo certo que só poderá existir
conflito se os direitos em confronto forem exercidos dentro dos seus limites.
Segundo este critério da ponderação de bens, estando em causa a colisão do exercício de dois
direitos constitucionais, a solução de tal litígio deve resultar de um juízo de ponderação em
que se procure, em face da situação concreta, encontrar e justificar a solução mais conforme
ao conjunto dos valores constitucionais.
Um dos limites imediatos ao direito de expressão e informação é, desde logo, o direito ao bom
nome e à honra de outrém, o que significa que o exercício do direito de expressão e
informação deve conseguir justificar-se em função da finalidade que prossegue de formação
pluralista da opinião publica em matérias de relevo politico, social, económico e cultural,
sempre que esse exercício possa por em causa o bom nome e a honra das pessoas.
Daqui pode, desde logo, inferir-se que, em contexto de campanha eleitoral, em função da
finalidade do direito de expressão e informação nesse contexto, a saber, difundir e defender
uma determinada linha de pensamento politico que se pretende seja adoptada ou reconhecida
por um número tanto maior de pessoas, quanto possível, esta liberdade alarga a sua amplitude.
Tem sido da maior importância na concretização dos limites à liberdade de expressão neste
domínio a CEDH e a jurisprudência do TEDH, como pode ler-se no Acórdão da Relação de
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Évora de 07/03/2017, em que foi relator Alberto Borges: “Na falta de qualquer hierarquia, e
quando em colisão - escrevem Gomes Canotilho e Vital Moreira, in Constituição da
República Portuguesa Anotada, I, 4.ª edição, 466 - “devem considerar-se como princípios
suscetíveis de ponderação ou balanceamento nos casos concretos, afastando-se qualquer ideia
de supra ou infra-valoração abstrata”, ou seja, haverá que encontrar, em face das
circunstâncias concretas do caso, a solução justa, que melhor salvaguarde os interesses em
confronto, solução que não pode ser encontrada na Constituição (que não estabelece qualquer
critério), mas antes na Convenção Europeia dos Direitos do Homem, que vigora na ordem
interna, no ordenamento penal português e na jurisprudência que se tem debruçado sobre a
questão. A este propósito, Henriques Gaspar, in A influência da CEDH no diálogo
interjurisdicional, Julgar, n.º 7, 2009, pág. 39 e 40, escreve que “os juízes nacionais estão
vinculados à CEDH e em diálogo e cooperação com o TEDH… porque, sobretudo em sistema
monista, como é o português (artigo 8.º da Constituição), a CEDH, ratificada e publicada,
constitui direito interno que deve, como tal, ser interpretada e aplicada, primando, nos termos
constitucionais, sobre a lei interna. E… também porque, ao interpretarem e aplicarem a
CEDH como primeiros juízes convencionais, devem considerar as referências metodológicas
e interpretativas e a jurisprudência do TEDH, enquanto instância própria de regulação
convencional… Os tribunais nacionais… são os órgãos de ajustamento do direito nacional à
CEDH, tal como interpretada pelo TEDH; as decisões do TEDH têm, pois, e deve ser-lhes
reconhecida uma autoridade interpretativa” (veja-se que essa relevância resulta até do art.º
696 al.ª f) do CPC, quando prevê a revisão de decisão transitada em julgado quando seja
inconciliável com uma decisão definitiva de uma instância internacional de recurso
vinculativa para o Estado Português).
Ora, o TEDH - como nos dá conta Henriques Gaspar, in Liberdade de Expressão: artigo 10 da
Convenção Europeia dos Direitos do Homem. Uma leitura da Jurisprudência do Tribunal
Europeu dos Direitos do Homem, Estudos em Homenagem ao Prof. Doutror Jorge de
Figueiredo Dias, 698 - “enunciou o seguinte princípio fundador: os limites da crítica
admissível são mais amplos em relação a personalidades públicas visadas nessa qualidade do
que em relação a um simples particular. Diferentemente destes, aqueles expõem-se, inevitável
Processo: 8777/21.3T8LSB
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e conscientemente, a um controlo apertado dos seus comportamentos e opiniões… devendo,
por isso, demonstrar muito maior tolerância…”.
No mesmo sentido se pode ver o acórdão do STJ de 14.10.2003, in [Link], Proc.
03A2249: “… os cidadãos que exercem cargos públicos, nomeadamente políticos… estão
sujeitos à crítica, quer das colectividades… quer dos titulares de entidades que tutelam
interesses conflituantes, do ponto de vista da sua própria perspetiva de satisfação do bem
comum… as pessoas que ocupam lugares de relevância política ou cargos na administração
pública estão sujeitos a figurar como alvos de mais e de mais intensas críticas que os demais
cidadãos, provenham elas dos seus pares ou não.
Em democracia a tutela da honra pessoal e reputação dos políticos é, por isso, também menos
intensa que a dos cidadãos em geral”.”
Tendo por base esta visão das coisas que se nos afigura correcta, podemos daqui igualmente
inferir que quando o sujeito da crítica, ainda que em contexto de campanha política, é um
cidadão comum não envolvido nessa campanha, os limites dessa liberdade de expressão
voltam a ser mais estreitos.

3. O caso dos autos - Análise dos Comportamentos dos Réus para aferição da sua
eventual ilicitude e análise dos argumentos da defesa.
Apreciemos, pois, o caso dos autos para aferir se o comportamento dos Réus é apto a ofender
os direitos de personalidade dos Autores à honra e consideração e se esse comportamento
deve ser classificado como ilícito.
A situação de facto base, em apreciação, consiste numa intervenção do Réu André Ventura no
debate televisivo, em sinal aberto, da campanha para as eleições presidenciais, com Marcelo
Rebelo de Sousa.
Nesse debate, o Réu André Ventura, exibe a fotografia do presidente da República Marcelo
Rebelo de Sousa, ao lado dos Autores, tirada dois anos antes, durante uma visita do Presidente
ao Bairro da Jamaica, Seixal, na sequência de uma intervenção policial nesse bairro, filmada
por populares e publicada no youtube.
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Nessa fotografia podem ver-se, além do presidente, dois homens, quatro mulheres, uma delas
grávida e outra com uma criança de cerca de dois anos ao colo, pessoas que correspondem aos
Autores
Profere o Réu, nesse contexto, as seguintes declarações:
- “…Mas eu, sobre a questão da Direita social e securitária, gostava de mostrar ao candidato
Marcelo Rebelo de Sousa esta fotografia, vamos ver se ele se recorda disto…”
- Com as câmaras focadas em si, André Ventura ergueu uma folha de tamanho A4, em
orientação horizontal, com a fotografia dos Autores com o Presidente da República, acima
mencionada.
- Perguntou, então: “Gostava de perguntar se ele se recorda desta fotografia…”, ao que
Marcelo Rebelo de Sousa respondeu, “Sim.”
- Continuando a apresentar a fotografia para o seu adversário de debate e para as câmaras,
André Ventura afirma: “Ora, esta fotografia mostra tudo o que a minha Direita não é. Nesta
fotografia, o candidato Marcelo Rebelo de Sousa juntou-se com bandidos, um deles é um
bandido verdadeiramente, que tinham atacado uma esquadra policial e quando o Presidente
Marcelo Rebelo de Sousa foi ao Bairro da Jamaica, foi visitar os bandidos, não foi visitar as
polícias. Eu represento a Direita, não a Direita que está de mãos dadas com o Partido
Socialista, mas a Direita que nunca vai deixar os polícias, as forças de segurança, estarem
sozinhas e esta fotografia não engana… Porque esta fotografia que está aqui, eu creio que o
candidato Marcelo Rebelo de Sousa reconhecerá a veracidade da fotografia, não foi tirada
depois na esquadra de polícia, foi tirada só, entre aspas e vão me desculpar a linguagem, à
bandidagem. E, portanto, talvez seja aqui uma diferença entre nós: eu não tenho medo de ser
politicamente incorreto, de lhes chamar os nomes que têm de ser chamados e dizer o que tem
de ser dito. O Presidente Marcelo Rebelo de Sousa e agora candidato, gosta de se dizer de
Direita, mas, na verdade, quer estar de mãos dadas com o eleitorado do Bloco de Esquerda, do
PCP, do PS e depois dá nisto… Dá em fotos como esta, que eu acho que ninguém à Direita
pode ficar feliz de a ver.”
- Em resposta, Marcelo Rebelo de Sousa discursou: “Ora bom, a minha Direita é uma direita
social. É uma direita que não distingue os portugueses entre os bons e os bandidos: “e com os
bandidos não nos damos; e não vamos a bairros de bandidos; e todos os que vivem nesses
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bairros são bandidos”. Isso é o contrato da inclusão, isso é o contrato do que deve ser um
candidato presidencial. Um candidato presidencial deve ser um integrador; o separar logo os
bons e os maus… Ainda ninguém foi condenado, ainda não há nenhuma decisão da Justiça…
E eu fui lá, e fui lá como fui a muitos outros bairros, para mostrar que o Presidente da
República não tem medo de ir a qualquer dos bairros, vai tão depressa a bairros de ciganos,
como vai de africanos, como vai daqueles que não o são, vai, de europeus, de europeus dos
mais variados e vai, vai e não discrimina. E eu fui lá e não disse uma palavra sobre o que se
tinha passado; fui falar, daquilo… Não é um caso de polícia. A Jamaica é um caso social. É
um caso social. É um caso de injustiça social. E é desse caso de injustiça social de que um
Presidente da República não pode divorciar-se. Não pode. Não pode… Eu tiro muitas
fotografias em esquadras de polícia.... Outras... Mas estive em esquadras de polícia. Agora,
ali, eu sei o que é Chefes de Estado com naturais seus, vivendo lá, porque havia cabo-
verdianos, angolanos e ciganos, o que é que eles me disseram, e o que é que se disse nesses
países, e o que se pensou sobre Portugal, e eu disse “Não! Nós não discriminamos. Nós
incluímos. Nós integramos” (…)”
- André Ventura interrompe: “E isso para si foi mais importante que os portugueses…”
- Seguiu-se a reação de Marcelo Rebelo de Sousa: “Não, não foi mais importante. Eles são tão
importantes porque são portugueses. Essa distinção diz tudo sobre si. Portugal é feito, oh
senhor deputado, Portugal é feito, desde sempre, de povos que vieram... de germânicos, de
África, vieram de todos os pontos do mundo, não há portugueses puros. Não há portugueses
puros e impuros. E um Presidente da República não pode distinguir entre portugueses puros e
impuros. Não pode. Não pode. Dá votos, mas não pode…”
- Diz, de seguida, André Ventura: “É que isso não é… Ser verdadeiramente Presidente dos
portugueses de bem. É a velha conversa do Presidente de todos os portugueses. Mas esta foto,
Senhor Presidente, e eu admito isso, sabe? Eu nunca vou ser Presidente dos traficantes de
droga, nunca vou ser Presidente dos pedófilos, nunca vou ser Presidente dos que vivem à
conta do Estado, com esquemas de sobrevivência paralelos, enquanto os portugueses de bem
pagam os seus impostos, todos os dias a levantar-se de manhã à tarde para os pagar e o que
fez aqui não tem nenhuma justificação…”
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- Continua André Ventura, enquanto volta a mostrar a fotografia dos Autores com o
Presidente da República para as câmaras: “…Com qualquer Chefe de Estado estrangeiro, nem
com o que se pense lá fora nem cá dentro, um Presidente da República, na minha perspetiva,
antes de mais, tem de dar um sinal a esses portugueses, porque foram esses portugueses, são
esses portugueses que sustentam a economia portuguesa, são esses que sustentam Portugal,
muitos destes indivíduos [apontando novamente para a fotografia dos Autores] vieram para
Portugal para beneficiar única e exclusivamente daquilo que é o Estado Social e daquilo que o
Estado lhes pode dar e o Senhor Presidente diz aqui que acha normal ir a um bairro destes
porque se não iam dizer… Que vivem lá ciganos, vivem lá afrodescendentes, etecetera, mas
não era capaz de dar um sinal à polícia que estava ao lado deles…”
Temos ainda a montagem de um cartaz usado na campanha eleitoral do primeiro Réu, e a que
se refere o facto provado nº 74, cuja Autoria é reconhecidamente sua e da sua campanha, na
qual foi incluída a mesma foto dos Autores e que foi publicado na rede social Twitter, na
conta do segundo Réu.
E a participação do Réu no dia 7 de Janeiro de 2020 no programa “Goucha”, com o
apresentador Manuel Luís Goucha, transmitido em direto a partir das 16:10 horas, em canal
aberto, desta vez no canal TVI em que a meio da entrevista, Manuel Luís Goucha confronta
André Ventura com a fotografia dos Autores com o Presidente da República e questiona-o:
“Ontem não foi injusto quando apresentou esta fotografia ao Presidente Marcelo, eu ouvi a
palavra “bandidos” … Eu vejo aqui quatro mulheres, vejo um homem que possivelmente tem
a minha idade, vejo uma criança e vejo um jovem. Bandidos?”
André Ventura respondeu: “Olhe, este individuo já tinha sido condenado, por crimes, que está
aqui no meio, abraçado ao Presidente e isto é na zona, provavelmente com relações variadas
com as pessoas…”
Seguindo-se um curto diálogo entre ambos: MLG: “Estas mulheres são bandidas?” AV:
“Bom, eu disse nesta zona, os bandidos e estava-me a referir a…” MLG: “Mais uma vez está
a tomar a nuvem por Juno… “ AV: “Não, estava-me a referir a este indivíduo que aqui está,
de camisola vermelha, já tinha sido condenado e isso aliás até foi notícia depois… Manuel,
não podemos ter um Presidente, que uma esquadra é atacada e que vai ter com a bandidagem
em vez de ir ter com os polícias. É um péssimo sinal à democracia.”
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Em análise podemos dizer que o acto de exibição da fotografia que se sabe não ter sido tirada
pelo Réu e que já havia sido exibida em ocasiões anteriores, só se torna relevante através da
palavra falada na qual o Réu diz quem é e anuncia o seu propósito.
O Réu utiliza a fotografia dos Autores para se distinguir do seu adversário político e ganhar
votos através dessa distinção.
Nesse processo e através desse discurso, o Réu faz afirmações de facto e emite juízos de valor
sobre os Autores, chamando-lhes “bandidos”, “bandidagem” a quem o Presidente da
República se juntou em vez de ficar do lado da polícia. E conclui dizendo “É que isso não é…
Ser verdadeiramente Presidente dos portugueses de bem. É a velha conversa do Presidente de
todos os portugueses. Mas esta foto, Senhor Presidente, e eu admito isso, sabe? Eu nunca vou
ser Presidente dos traficantes de droga, nunca vou ser Presidente dos pedófilos, nunca vou ser
Presidente dos que vivem à conta do Estado, com esquemas de sobrevivência paralelos,
enquanto os portugueses de bem pagam os seus impostos, todos os dias a levantar-se de
manhã à tarde para os pagar e o que fez aqui não tem nenhuma justificação…”
Embora algumas vezes precise que um dos Autores, pelo menos, é verdadeiramente bandido,
por já ter sido condenado pela prática de crimes, referindo-se a Hortêncio Coxi, pessoa com
inscrições no seu registo criminal de condenações pela prática de crimes, logo a seguir volta a
usar o plural tendo como ilustração a referida fotografia dos Autores.
Enfim, o que se retira deste quadro é que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa se deixou
fotografar ao lado de bandidos.
Não se concebe que o Réu desconheça o poder da imagem, (tanto mais que afirmou em
julgamento ser a exibição da fotografia necessária aos seus objectivos políticos que não
seriam atingidos da mesma forma sem tal exibição) e não saiba que a sua utilização desta
forma corresponde a uma instrumentalização da imagem dos Autores para representar tudo
aquilo a que diz opor-se, utilizando para o descrever uma linguagem depreciativa, em que
atribui a uma categoria de indivíduos ou a um grupo com características físicas e sociais
determinadas, decalcadas nas características dos Autores que são vistos ao mesmo tempo que
são proferidas as palavras, factos que sabe serem eticamente reprováveis, usando essa
linguagem indistintamente, salvo quando esparsamente se refere em especial ao Autor
Hortêncio Coxi, tendo como pano de fundo, homens, mulheres e uma criança.
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A imagem dos Autores dá força às palavras do Réu, como este bem sabe, passando aqueles a
ser a representação do oposto dos portugueses de bem, o oposto dos portugueses que pagam
impostos e trabalham para que aqueles vivam do crime, de esquemas de sobrevivência
paralelos e à custa do dinheiro do Estado, aqueles a quem o Réu não quer representar
enquanto presidente.
Ora, sabendo-se que todas as pessoas humanas partilham a mesma humanidade, que cada uma
dessas pessoas tem em si mesma a capacidade para o bem e para o mal, devendo a censura
social ser dirigida aos actos praticados e não às pessoas, esta diferenciação redutora entre bons
e maus, entre pessoas de bens e bandidos, não reflecte a natureza humana, nem pacifica as
comunidades humanas.
Por outro lado, está demonstrado que os Autores, com excepção do Autor Hortêncio Coxi,
não têm quaisquer inscrições de condenações no seu registo criminal pelo que, poderiam,
inclusivamente, ser aceites como membros do partido de André Ventura.
Não consta que algum dos Autores tenha estado envolvido no ataque à esquadra da Bela
Vista, em Setúbal, nem foram os mesmos acusados por tal facto.
Os Autores Julieta, Fernando, Aurora e Vanusa trabalham ou já trabalharam.
Em relação aos Autores Fernando, Aurora e Vanusa, assim como ao menor, James, não pode
haver dúvidas de que os factos divulgados e juízos de valor emitidos pelo Réu são falsos e,
por isso, não gozam da protecção que lhes caberia ao abrigo da liberdade de expressão de que
o Réu é titular.
No que respeita aos restantes e sobretudo, ao Autor Hortêncio Coxi, estando os primeiros
acusados no âmbito do processo crime aberto na sequência dos desacatos e intervenção
policial ocorridos há cerca de dois anos e o segundo tendo registo de condenações criminais, o
que dizer?
Em primeiro lugar, cabe destacar que existe uma diferença fundamental entre a divulgação de
factos e a emissão de juízos de valor, a divulgação de factos, se estes forem verdadeiros,
exprime uma realidade incontornável; os juízos de valor expressam uma determinada
apreciação valorativa dos factos em causa que depende das concepções axiológicas do
emissor desse juízo.
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No caso, chamar aos Autores bandidos e referir-se a eles como bandidagem, não constitui
apenas uma liberdade de linguagem através da qual se expressa uma realidade comprovada ou
comprovável, trata-se da emissão, quanto a tais pessoas enquanto pessoas, de um juízo de
valor que as diminui e marginaliza.
As expressões utilizadas – bandidos, bandidagem - são claramente expressões comummente
usadas para ofender e são aptas a ofender o direito à honra dos Autores.
O mesmo se diga relativamente ao uso da imagem dos Autores no cartaz de campanha em que
o Réu é representado com a frase “Eu prefiro os portugueses de bem” e a imagem dos Autores
é utilizada para representar o oposto dos portugueses de bem, os bandidos – o meio escolhido
é outro, o resultado é semelhante.
Mas, mesmo a divulgação de factos verdadeiros pode ofender os direitos de personalidade de
outrem, nomeadamente, o direito à honra, só não sendo considerados ilícita a divulgação se
estiver justificada e for proporcional aos fins por aquela prosseguidos.
As declarações do Réu em relação aos Autores são especialmente graves, pelo meio usado
para as divulgar, um canal aberto de televisão, potencialmente acessível a milhões de
telespectadores em directo ou em diferido, com uma eficácia irradiadora enorme dada a
facilidade com que chegam a grande número de pessoas, como o demonstram as análises de
audiência e as repercussões nos dias seguintes em que é repetido o discurso em conexão com
a imagem dos Autores em diversos meios de comunicação também eles de grande repercussão
pública e com potencial para chegar a milhões de pessoas.
É também especialmente grave o facto das declarações do Réu terem sido proferidas quase
sempre indistintamente perante e em simultâneo com a exibição da imagem duma criança ou
de ter sido utilizada uma foto onde se encontram representados homens, mulheres e crianças
de um grupo de pessoas moradoras de um bairro degradado e de modesta condição social, na
sua maioria vindas de países Africanos, a cuja imagem o Réu cola toda uma panóplia de
menções depreciativas.

Análise dos argumentos da defesa:


- O consentimento presumido dos Autores para a divulgação da sua fotografia
- A não referência do Réu aos Autores em concreto
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- A defesa dos direitos das forças policiais como uma das grandes referências da candidatura
do Réu e de grande debate político.

Temos por certo, analisando as declarações do Réu, que este não se dirigiu apenas aos
Autores mas, exibindo a sua fotografia, em conjunto com o discurso proferido, transformou-
os na representação de todos aqueles a quem se queria referir ao usar tal discurso.
Este comportamento corresponde a uma instrumentalização da imagem que, como já
dissemos, confere uma força diferente e maior ao discurso.
A exibição da fotografia mostra a quem se refere o discurso e os receptores da mensagem,
criticando ou apoiando o discurso do Réu, integram subliminarmente e entendem
expressamente as suas referências como demonstram as subsequentes publicações
jornalísticas e os subsequentes comentários.
Não podemos concordar que se defenda a existência de consentimento presumido dos Autores
nos termos do art. 340º CC, nestas circunstâncias.
Com efeito, ter a sua fotografia, tirada ao lado do Presidente da República, exibida na
comunicação social na sequência da visita daquele ao bairro onde moram os Autores não tem
o mesmo significado, nem o mesmo resultado que a exibição daquela foto no contexto que
apreciamos nos autos.
Na primeira situação, a fotografia eleva a autoestima dos Autores pelo destaque que lhes foi
dado pelo Presidente da República que se deixa fotografar ao seu lado. A fotografia revela,
nesse contexto, que os Autores merecem esse destaque enquanto cidadãos iguais aos outros
cidadãos.
As condições em que habitam e os seus antecedentes pessoais não os diferenciam, nessa
fotografia, pela negativa e é a sua dignidade como pessoas humanas que é realçada.
Pelo contrário, na situação que apreciamos nos autos, a sua autoestima é diminuída, são
apresentados como o oposto dos portugueses de bem, colados a um discurso em que se fala
deles e das pessoas como eles de forma depreciativa – são referidos como “a bandidagem”.
Não cremos, assim, que se possa presumir que os Autores dariam o seu consentimento para a
exibição da sua fotografia neste contexto, em que são apelidados de bandidos e em que lhes é
colada toda uma panóplia de características negativas.
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Por outro lado, a fotografia, inserido no contexto do debate em que foi exibida, não pode
enquadrar-se no disposto no art. 79º, nº2 do Código Civil que dispõe: "”Não é necessário o
consentimento da pessoa retratada quando assim o justifiquem a notoriedade, o cargo que
desempenhe, exigências de polícia ou de justiça, finalidades cientificas, didacticas ou
culturais, ou quando a reprodução da imagem vier enquadrada na de lugares públicos ou na de
factos de interesse público ou que hajam decorrido publicamente.”
Ora, o facto de interesse público ou que haja decorrido publicamente em que vem enquadrada
a fotografia e que dispensa o consentimento dos Autores, nos termos deste artigo, é a
referência à visita do Presidente da República ao Bairro da Jamaica, na sequência do episódio
de 20 de Janeiro de 2019 e não a estratégia de campanha do Réu ou a campanha eleitoral do
Réu.
Por fim, não concebemos igualmente que o objectivo de defender as forças policiais enquanto
referência da campanha do candidato André Ventura à Presidência da República, em
contraponto com a atitude do seu adversário de visitar o bairro em que os Autores residem na
sequência do episódio de 20 de Janeiro de 2019, a que já nos referimos, fazendo-se fotografar
com aqueles e não ter visitado, no mesmo passo, a esquadra de polícia da zona, possa excluir
a ilicitude da conduta do Réu para com os Autores.
Compreendemos que do ponto de vista da estratégia da campanha eleitoral do Réu, o
uso da fotografia é fundamental para alcançar os objectivos dessa campanha, como o próprio
Réu assume.
No entanto, os direitos de personalidade dos Autores atingidos por tal estratégia não
podem ser assumidos como danos colaterais aceitáveis pela nossa Ordem Jurídica que tem
como primado a defesa da Dignidade Humana.
Nem se diga que a posição que assumimos aqui atinge, por sua vez, o direito de
personalidade do Réu à livre expressão do seu pensamento.
Como já referimos, numa sociedade pluralista e democrática como a nossa, o emissor
duma mensagem é livre de escolher os meios e as palavras que entende para divulgar o seu
pensamento e as suas concepções políticas ou outras mas, essa sua liberdade tem limites.
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Nenhuma expressão de ideias políticas pode agredir a honra das pessoas visadas nessa
expressão, máxime, se estas não forem actores políticos, nem estiverem no mesmo palco,
como é o caso dos aqui Autores.
Quem o fizer fica sujeito à reparação da lesão.
Na situação que se aprecia, entendemos que o Réu ultrapassou os limites da sua
liberdade de expressão.
Assim, de acordo com tudo o que supra vem exposto, reconhecemos que o comportamento do
Réu e o seu discurso se mostram aptos a atingir a honra e consideração dos Autores e têm
carácter ilícito.

A acção atribuída ao segundo Réu:


Atribui-se ao segundo Réu a divulgação na sua conta na rede social twitter da imagem do
cartaz de campanha de André Ventura que se descreve no ponto 74 dos factos provados e que
inclui na sua montagem a fotografia dos Autores.
Diz o segundo Réu não ser o Autor da imagem ou do conteúdo e apenas ter partilhado tal
imagem no contexto da campanha.
Defende assim, não ter praticado qualquer facto que possa ter relevância no âmbito dos
presentes autos, considerando-se parte ilegítima na acção.
Diz ainda que tal publicação já não existe por ter sido retirada.

Só podemos conceber que o segundo Réu se esteja a referir à sua legitimidade substantiva
posto que a passiva está assegurada por lhe ter sido imputada, na versão dos Autores, uma
conduta lesiva da sua honra – art. 30º CPC.
No entanto, ficou provado que o segundo Réu publicou essa imagem na sua conta do Twitter.
Assim, de acordo com a apreciação que fizemos supra da referida imagem e da aptidão da
mesma para ofender a honra dos Autores, a sua divulgação, por qualquer meio, é um acto
ilícito.
Com efeito, a tutela civil dos direitos de personalidade equipara a afirmação de factos ou
juízos de valor ofensivos à sua divulgação por qualquer meio, como se extrai do teor do art.
484º CC.
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Tendo ficado também demonstrado que a referida imagem já foi retirada da conta de Twitter
em que tinha sido publicada, verifica-se que, neste particular, foi já atingido este objectivo dos
Autores, devendo concluir-se, neste ponto, pela existência de inutilidade superveniente da lide
– art. 277º, e) CPC.

4. As medidas de tutela da personalidade adequadas:


Já vimos que quem ofender ilicitamente os direitos de personalidade de outra pessoa, deve
ficar sujeito, no caso de lesão já consumada, a medidas aptas a atenuar os efeitos dessa lesão.
Essas medidas devem actuar sobre o próprio ilícito neutralizando-o ou reduzindo ao mínimo
possível os seus efeitos.
O art. 70º CC refere-se a estas medidas através duma cláusula geral, enquanto “providências
adequadas às circunstâncias do caso”, tratando-se portanto de uma multiplicidade de medidas
atípicas cujo único requisito se encontra na sua adequação aos objectivos prosseguidos de
evitar a consumação da ameaça ou atenuar os efeitos da ofensa já cometida.
Pedem os Autores a este Tribunal que:
1. Reconheça a ilicitude das ofensas ao direito à honra e ao direito de imagem dos
Autores descritas na presente ação, bem como o seu cariz discriminatório em função da cor da
sua pele e da sua situação socioeconómica;
2. Condene cada um dos Réus a emitir uma declaração, escrita ou oral, de retratação
pública, a ser publicada nos mesmos meios de comunicação social onde as respetivas
declarações e publicações ofensivas dos direitos de personalidade dos Autores foram
originalmente divulgadas (SIC, SIC Notícias, TVI e conta do Partido Chega no Twitter), no
prazo de 5 dias após o trânsito em julgado da sentença condenatória, com a sanção pecuniária
compulsória de € 750,00 (setecentos e cinquenta euros) por cada dia de atraso no seu
cumprimento.
3. Condene o Réu Partido Chega a eliminar a publicação do dia 22 de janeiro de 2021, às
19:49h, da sua conta oficial na rede social Twitter, que ofende o direito à honra e o direito à
imagem dos Autores, no prazo de 5 dias após o trânsito em julgado da sentença condenatória,
com a sanção pecuniária compulsória de € 750,00 (setecentos e cinquenta euros) por cada dia
de atraso no seu cumprimento.
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4. Condene cada um dos Réus a abster-se de proferir ou divulgar, no futuro, declarações
ou publicações, escritas ou orais, de conteúdo idêntico às declarações ofensivas do bom nome
dos Autores em causa na presente ação, com a sanção pecuniária compulsória de € 5.000,00
(cinco mil euros) por cada infração.
5. Condene os Réus a diligenciar pela publicação da sentença condenatória nos mesmos
meios de comunicação social onde as declarações ofensivas foram originalmente divulgadas
(SIC, SIC Notícias, TVI e conta do Partido Chega no Twitter), no prazo de 5 dias após o seu
trânsito em julgado, com a sanção pecuniária compulsória de € 750,00 (setecentos e cinquenta
euros) por cada dia de atraso no seu cumprimento.

Tendo presente os princípios da necessidade e da proporcionalidade na aplicação das


medidas de tutela dos direitos de personalidade dos Autores ofendidos pelas acções dos Réus
aqui analisadas, não temos dúvidas em considerar eficaz para o efeito pretendido no art. 70º
CC, o reconhecimento do carácter ilícito de tais acções conjugado com a obrigação de
publicação da sentença em que é feito tal reconhecimento pelos agressores.
É sabido que uma sentença provém dum órgão de soberania do Estado com especial
autoridade, sendo o juiz que a profere um terceiro imparcial que analisa os factos e aplica o
direito tendo como único objectivo a realização da justiça e essas circunstâncias suscitam no
público um efeito de confiança com potencial para neutralizar o que em contrário tiver sido
declarado pelos lesantes.
Dito isto, entendemos, tendo por base o conteúdo dos autos que o cariz discriminatório
das declarações não é o aspecto mais relevante do processo, nem resulta dos autos que tal
discriminação seja necessariamente determinada pela cor da pele ou pela condição
socioeconómica dos visados, embora esses elementos ressaltem de imediato aos olhos dos
receptores da mensagem.
O que é essencial é o carácter ilícito das declarações com referência à fotografia dos
Autores que foi exibida e a ofensa aos direitos de personalidade destes e é isso que importa
reconhecer.
De igual modo, também a retratação, ou seja, a declaração rectificadora emitida pelo
lesante que confesse que agiu mal ao produzir as anteriores declarações juridicamente
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Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa


Juízo Local Cível de Lisboa - Juiz 3
Palácio da Justiça, Rua Marquês de Fronteira 1098-001 Lisboa

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censuráveis e que manifeste arrependimento, tem igualmente potencial reparador da lesão
cometida.
Temos consciência que a emissão duma tal declaração depende da colaboração do
lesante que pode ou não cumprir a decisão que lhe imponha uma tal conduta.
No entanto, não é indiferente que a ordem jurídica reconheça a existência de um
direito de crédito dos lesados a uma retratação e sua publicação, mesmo que esta medida não
venha a ser cumprida, posto que a dívida criada na esfera jurídica do lesante a favor do lesado
se mantém até ao cumprimento.
A medida de abstenção de comportamentos semelhantes por parte dos Réus, já tem
uma eficácia preventiva de lesões futuras e justifica-se se for previsível que a conduta lesiva
pode ser repetida, o que no caso em apreciação se verifica, não tendo qualquer um dos Réus
reconhecido a ilicitude das suas condutas.
Resta apreciar a pretensão que consiste na condenação dos Réus numa sanção
pecuniária compulsória, por cada dia de incumprimento das medidas decretadas.
A sanção pecuniária compulsória vem prevista no artigo 829º-A do Código Civil, que
determina que, nas obrigações de prestação de facto infungível, positivo ou negativo, o
tribunal deve, a requerimento do credor, condenar o devedor ao pagamento de uma quantia
pecuniária por cada dia de atraso no cumprimento.
Trata-se um meio de coerção indirecta do cumprimento que pode constituir um poderoso meio
de persuasão do devedor dirigido ao cumprimento das medidas de tutela decretadas.
A sua aplicação depende de um requisito material – estarmos perante obrigações de prestação
de facto infungível positivo ou negativo – e de um requisito formal – apresentação de
requerimento nesse sentido pelo credor.
A infungibilidade da prestação de facto decorre da impossibilidade de ter lugar o
cumprimento por terceiro, em função do interesse concreto do credor.
Na sua fixação deve o julgador usar de um critério de razoabilidade sem deixar de levar em
conta o efeito pretendido – a compulsão a que se destina a fixação duma tal sanção.
No caso que apreciamos, estamos perante obrigações positivas, no que se refere quer à
medida de retratação e publicação da declaração respectiva e da sentença e negativas, no que
se refere à abstenção de comportamentos semelhantes no futuro, sendo esta, enquanto
Processo: 8777/21.3T8LSB
Referência: 405399723

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obrigação de non facere o campo de aplicação por excelência da sanção pecuniária
compulsória, dada a sua infungibilidade natural.
Já não vemos que possa ser sustentada a possibilidade de aplicação da sanção pecuniária
compulsória no que respeita à medida de publicação da sentença condenatória do devedor, a
cargo deste, a não ser que esta dependa exclusivamente da sua vontade, como a publicação em
conta do Twitter.
Se o que se impõe, em última instância, ao devedor é a obrigação de pagamento dos custos de
publicação o que já consiste numa prestação fungível, não se justifica a aplicação da sanção.
Por esta razão, quanto à medida de publicação da sentença nos meios de comunicação social
entendemos não ser adequado fixar a sanção pecuniária compulsória requerida.
O artigo 829º-A, nºs 1 e 2 do CC prevê que a sanção pecuniária compulsória deve ser
decretada em função das circunstâncias do caso e segundo critérios de razoabilidade ou de
equidade, para que a mesma se revele adequada e eficaz, apta a pressionar e intimidar o
devedor, levando-o a respeitar a injunção judicial e a cumprir a obrigação a que está adstrito.
Na fixação do seu quantum, deve ser tomada em consideração, por um lado, a capacidade
económica e financeira do obrigado e, por outro, a pressão psicológica que a expectativa da
aplicação da sanção é susceptível de exercer.
É, por isso desejável que do processo resultem dados factuais que habilitem o julgador a
arbitrar um determinado montante adequado a dissuadir o devedor do incumprimento da
obrigação em causa.
No caso em apreciação, tendo em conta os elementos de que dispomos em relação aos Réus,
entendemos ser de aplicar a sanção pecuniária compulsória de 500,00 euros por cada dia em
que a obrigação de retratação e de publicação não for cumprida e de 5.000,00 euros por cada
violação futura dos direitos de personalidade dos Autores.

Assim, julgamos adequadas à situação dos autos as medidas requeridas, ainda que seja
exíguo o prazo de 5 dias, por não depender apenas dos Réus a execução das medidas, razão
pela qual se substitui por um prazo de 30 que se tem por mais razoável
Não será aplicada a medida referida no ponto 3 que se mostra desnecessária por já ter sido
retirada a imagem em causa da conta do segundo Réu no Twitter.
Processo: 8777/21.3T8LSB
Referência: 405399723

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Juízo Local Cível de Lisboa - Juiz 3
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Decisão:
Pelo exposto, julgo extinta a instância por inutilidade superveniente da lide quando à medida
de tutela de personalidade requerida em 3. e referente ao segundo Réu.
Quanto ao mais, julgo a acção procedente e, em consequência:
Reconheço a ilicitude das ofensas ao direito à honra e ao direito de imagem dos Autores
descritas na presente ação.
Condeno cada um dos Réus a emitir uma declaração, escrita ou oral, de retratação pública,
quanto aos factos praticados por cada um deles, a ser publicada nos mesmos meios de
comunicação social onde as respectivas declarações e publicações ofensivas dos direitos de
personalidade dos Autores foram originalmente divulgadas (SIC, SIC Notícias, TVI e conta
do Partido Chega no Twitter), no prazo de 30 dias após o trânsito em julgado da sentença
condenatória, com a sanção pecuniária compulsória de € 500,00 (quinhentos euros) por cada
dia de atraso no seu cumprimento.
Condeno cada um dos Réus a abster-se de proferir ou divulgar, no futuro, declarações ou
publicações, escritas ou orais, ofensivas do bom nome dos Autores, com a sanção pecuniária
compulsória de € 5.000,00 (cinco mil euros) por cada infração.
Condeno os Réus a diligenciar pela publicação da presente sentença, a expensas suas, nos
mesmos meios de comunicação social onde as declarações ofensivas foram originalmente
divulgadas (SIC, SIC Notícias, TVI e conta do Partido Chega no Twitter), no prazo de 30 dias
após o trânsito em julgado da decisão.
No que diz respeito à publicação da sentença na conta do partido Chega no Twitter, fixa-se
ainda a sanção pecuniária compulsória de € 500,00 (quinhentos euros) por cada dia de atraso
no seu cumprimento.
Custas pelos Réus – art. 527º CPC.
Valor da acção: 30.000,01 euros.
Registe e Notifique.

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