Anais II Cohep 2022
Anais II Cohep 2022
Revisão
Ana Paula Marinho de Lima
Daniella Lago Alves Batista de Oliveira Eustáquio
Elvira Fernandes de Araújo Oliveira
Francinaide de Lima Silva Nascimento
Francisca Leidiana de Souza
Joventina Firmina Rodrigues
Larissa Maia de Souza
Olívia Morais de Medeiros Neta
Sandra Maria de Assis
ISSN
CDU 37(091)(813.2)
©2022 Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional (PPGEP)
Comitê Científico
Azemar dos Santos Soares Júnior (Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN)
Francinaide de Lima Silva Nascimento (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
do Rio Grande do Norte/IFRN)
Francisco das Chagas Silva Souza (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do
Rio Grande do Norte/IFRN)
Jacques Gleyse (Universidade de Montpellier, França)
Joaquim Pintassilgo (Universidade de Lisboa, Portugal)
José António Martin Moreno Afonso (Universidade do Minho, Portugal)
José Geraldo Pedroza (Centro Federal de Educação Tecnológica/CEFET-MG)
Juan Carlo da Cruz Silva (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio
Grande do Norte/IFRN)
Leonardo Leonidas de Brito (Colégio Pedro II)
Luiz Antônio Cunha (Universidade Federal do Rio de Janeiro/UFRJ)
Maria Augusta Martiarena de Oliveira (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
do Rio Grande do Sul/IFRS)
Maria Ciavatta (Universidade Federal Fluminense)
Mário Lopes Amorim (Universidade Tecnológica Federal do Paraná/UTFPR)
Marlúcia Menezes de Paiva (Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN)
Natália Conceição Silva Barros Cavalcanti (Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Rio Grande do Norte/IFRN)
Olívia Morais de Medeiros Neta (Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN)
Prof. Doutor Raúl Humberto Velis Chávez (Universidad Francisco Gavidia, El Salvador)
Renato Marinho Brandão Santos (IFRN)
Rita Diana de Freitas Gurgel (Universidade Federal do Rio Grande do Norte/UFRN)
Rogério Cunha de Castro (Colégio Pedro II)
Tatiana da Silva Calsavara (Escola Sesi- Osasco SP)
Comissão Organizadora
Alanderson Maxson Ferreira do Nascimento
Alzenir Souza da Silva
Ana Cristina Batista
Ana Paula Marinho de Lima
Antonio Max Ferreira da Costa
Daniella Lago Alves Batista de Oliveira Eustáquio
Elvira Fernandes de Araújo Oliveira
Evanuzia Maria de Lucena
Francêsco de Araújo Lopes
Francinaide de Lima Silva Nascimento
Francisca Leidiana de Souza
Francisco das Chagas Silva Souza
Francisco Mateus Alexandre de Lima
Geovilda Soares de Oliveira Melo
Gilmara Catarine Dantas Costa
Ivana Lúcia da Silva
Jhefene Tayane Gonçalves de Souza
Joventina Firmina Rodrigues
Joyce Brenna da Silva Lima Rodrigues
Juan Carlo da Cruz Silva
Karoline Louise Silva da Costa
Larissa Maia de Souza
Leonardo Leonidas de Brito
Maria Adilina Freire Jerônimo de Andrade
Maria Carolina Xavier da Costa
Marlúcia Menezes de Paiva
Nara Lidiana Silva Dias Carlos
Natália Conceição Silva Barros Cavalcanti
Olívia Morais de Medeiros Neta
Priscila Tiziana Seabra Marques da Silva Aliança
Rafael Duarte Falcão
Rafaela Caroline Alves dos Santos
Renato Marinho Brandão Santos
Rita Diana de Freitas Gurgel
Sandra Maria de Assis
Comissão Técnica
Alanderson Maxson Ferreira do Nascimento
Felipe Xavier de Carvalho
Françoeide Batista de Souza Júnior
Marta Mariane Ferreira Gomes de Souza
Ramon Igor da Silveira Oliveira
Promoção
Programa de Pós-Graduação em Educação Profissional (PPGEP)
Apoio
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN)
Editora IFRN
Fundação de Apoio ao IFRN (FUNCERN)
Associação dos Servidores do IFRN (ASIF)
Sindicato Nacional dos Servidores Federais da Educação Básica, Profissional e Tecnológica -
Seção Natal (SINASEFE-Seção Natal)
Apresentação...................................................................................................07
O objetivo desta pesquisa é analisar a proposta do Governo Federal de formação para a classe
que vive do trabalho, que culminou na Reforma da Educação Profissional nos moldes
neoliberais, na década de 1990. Para tanto, realizamos uma pesquisa bibliográfica com base
na Lei nº 9.394 (LDBEN), Decreto nº 2.208/1997, Portaria MEC nº 1005/97 e o Projeto de Lei
nº 1.603/96. A redefinição da política educacional brasileira, nos anos 1990, não esteve voltada
para garantir uma melhoria na qualidade de vida dos trabalhadores, de maneira que estes
pudessem usufruir de uma formação integral, em que permitisse a formação técnica e
intelectual, mas formar estudantes para as demandas imediatas do mercado de trabalho, com
base numa formação instrumental de competências e habilidades para atender as necessidades
do discurso de expansão e lucratividade do capital. A consolidação do discurso neoliberal
ocorreu durante os governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2003), que ao ocupar a
presidência já havia se planejado junto aos organismos internacionais e estruturado projetos
que anteviam a privatização de estatais brasileiras e a descentralização do Estado (SOUZA;
LIMA, 2021). As discussões e a implementação das mudanças no campo da Educação
Profissional, advieram de forma que esta ficou desarticulada do sistema educacional, ou seja,
os cursos técnicos passaram a ter uma organização curricular própria e separada do ensino
médio. Concluímos, que a materialização da Reforma dada à Educação Profissional
estabeleceu a dualidade estrutural do sistema escolar do país, instituindo percursos distintos e
estabelecendo um retrocesso quanto às lutas empreendidas nos anos de 1980, período que se
buscou democratizar e ampliar os espaços de luta os quais a educação primava pela formação
integral. É fato que a década de 1990 registra um período de grandes transformações para a
rede de ensino profissional, somando-se as reformas macroeconômicas vindas do Estado e
dando a este a redefinição da concepção de administração pública. A educação, considerada
como uma área de impacto para essa transição de funções sociais, políticas e econômicas, teve
a devida atenção para implementar o modelo neoliberal adotado, trazendo um novo modelo
para as práticas educacionais adotadas à época.
Resumo
Resumo
Resumo
O presente trabalho tem como objeto, a historicidade da disciplina música, oferecida nos cursos
técnicos integrados no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do
Norte - IFRN. O objetivo principal é discutir e apresentar um breve panorama do contexto
histórico desta disciplina, que vem sendo oferecida desde a época da Escola de Aprendizes e
Artífices do Rio Grande do Norte. Sendo um recorte de uma pesquisa de doutorado, será
mostrada a localização histórica desta disciplina, a fim de valorizar o percurso que a Música
percorreu no IFRN, desde o início até a atualidade. Várias pesquisas anteriores, discutiram a
presença da Música em diversos contextos brasileiros onde Escolas de Aprendizes e Artífices
foram construídas (BEZERRA, 2017; COSTA, 2014; RIBEIRO, 2017; KANDLER, 2019;
FERREIRA, 2017; LOPES, 2018). Nestas investigações, a relevância dos contextos e a
localização destas escolas, à época de início da oferta da Arte e da Música – iniciadas em 1909
no governo Nilo Peçanha, onde estes espaços de ensino se encontravam muitas vezes com
precariedade e dificuldades de implantação de cursos, bem como da própria disciplina, são
discutidas criticamente, apresentando os decretos e demais textos legais que permitiram a
implantação destas escolas e diversos componentes curriculares naquele período, incluindo, a
Música. É apresentado nestas pesquisas sobre a importância e diferenças trazidas pela Arte e a
Música nestes contextos, embora, as questões sociais e políticas de implantação destas escolas
refletissem no aprendizado dos estudantes. A presente investigação, justifica-se perante a
pesquisa que está em andamento, que versa sobre as Representações Sociais da Música em um
Curso Técnico Integrado em Música, e que se propõe em discutir sobre a presença e
importância desta disciplina no contexto ofertado. Encontra-se em andamento e construção, a
metodologia de investigação deste trabalho, que é um levantamento bibliográfico do contexto
e localização histórica da disciplina Arte-Música no IFRN. É possível concluir que a oferta da
disciplina Música vem desempenhando uma importância social significativa para os estudantes
do IFRN, desde a implantação da Escola de Aprendizes e Artífices, embora, muitas
dificuldades tenham sido travadas, diante das ocorrências políticas e contextos dos diversos
momentos, mas, que se agregam muitas conquistas neste período, principalmente, na
ampliação da oferta da disciplina, atualmente denominada “Arte-Música”, em diversos Campi
do IFRN.
Resumo
A Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte (ETFRN) funcionou com essa identidade
institucional entre os anos de 1968 a 1998, sendo destaque a sua referência na oferta de
Educação Profissional. A delimitação deste estudo foi estabelecida através de fontes e acervos
que constroem a historicidade da identidade institucional (ETFRN), que durou por quase 30
anos. Metodologicamente, a pesquisa se sustenta pelo caráter bibliográfico, documental (coleta
de documentos em acervos institucionais e em repositório virtual, como a Hemeroteca Digital),
com abordagem qualitativa. Justifica-se a importância desse estudo pela ausência de pesquisas
que delimitam como objeto de estudo a ETFRN em perspectiva historiográfica. Objetiva-se
compreender a ETFRN no quadro da história da Educação Profissional no Brasil e, em
particular, no Rio Grande do Norte no período delimitado; perceber que período de transição
política no país, como o enfraquecimento da Ditadura Militar e a emergência da
redemocratização, repercutiu no contexto educacional. Os dados obtidos foram analisados à
luz de Maria Ciavatta (2015); Arilene Lucena de Medeiros (2011); Cunha (2005); Manfredi
(2002); Moura (2007), entre outro. Em nosso estudo, percebemos que o resultado desse
processo de redemocratização, juntamente com as políticas educacionais, passaram a priorizar
o aumento da oferta de ensino médio, dando-se especial atenção à área de ensino técnico. Isso
também possibilitou investimento na área, o que gerou aperfeiçoamento arquitetônico na
ETFRN (construção de piscina, auditório, estádio de futebol, biblioteca, sala de estudos,
laboratórios técnicos, Núcleo de Incubação Tecnológica, entre outros espaços). Essas
mudanças projetaram novas aspirações formativas com a oferta de novos cursos (Geologia,
Mecânica, Edificações e Eletrotécnica); práticas de ensino em laboratórios e práticas
profissionais, como visitas técnicas; criação da Associação de Servidores e a Criação do
Grêmio Estudantil. E, por fim, coadunando-se às políticas advindas do MEC, a ampliação
institucional e interiorização com a instalação da Unidade de Ensino Descentralizada (UNED),
em Mossoró-RN.
Resumo
Esse estudo parte do pressuposto que o jornal se constitui em significativa fonte de memória,
capaz de contribuir na geração de novos conhecimentos historiográficos pela possibilidade de
se encontrarem armazenados em suas páginas os mais variados registros, dentre estes citamos
decretos, legislações, representações de gênero, contextos e fatos sociais, atividades culturais,
esportes e muitos outros temas que possibilitam estudos e pesquisas. Entendemos que ao
utilizar o jornal como fonte privilegiada, corroboramos com discussões teóricas da Nova
História Cultural, oriundas da Terceira Geração do Annales, ainda da década 1970, quando o
jornal deixa de ser abarcado como um mero veículo de informações, e passa a ser
compreendido como instrumento capaz de registrar vida cotidiana em seus diversos aspectos,
permitindo-nos compreender como os nossos antepassados viveram, tanto os ilustres como os
anônimos. E, ainda sobre essa questão, Porpino e Machado (2020) indicam que também com
a “revolução documental”, sobretudo na Terceira Geração do Analles, ampliou-se ainda mais
a compreensão de documento para tudo aquilo que o ser humano produz no seu tempo, todo e
qualquer vestígio e marcas das relações existentes nas sociedades. Assim, como objetivo
propomos que o impresso seja analisado como objeto cultural que traz consigo as “marcas de
sua constituição e de seus usos” (CARVALHO, 2007). A lista de periódicos disponíveis para
pesquisa, afinal, é um convite aos pesquisadores. Por meio do acesso a notícias que circulam
através dos jornais, suscitamos reflexões acerca da profissão e profissionalização docente e das
representações tecidas e constituídas por meio destas produções. É preciso considerar os
fenômenos e as subjetividades que envolvem a memória e a história contidas nos jornais, sejam
conscientes ou inconscientes, o que justifica o estudo aqui empreendido. Representando um
rico registro histórico, os periódicos abarcam todo um conjunto de teorias e práticas educativas
presentes no exercício da docência, além de legislação, imagens, textos, contextos sociais e
documentos das mais variadas origens, oficiais e privados, que possibilitam descortinar as
inúmeras facetas dos atores sociais envolvidos com sua produção e “compreender a
multiplicidade de posições e disputas no campo” (CATANI; BASTOS, 1997, p. 5). Os jornais
constituem um “testemunho histórico”, um observatório de métodos, concepções, moralidades
e valores acionados por educadores para a constituição de sua profissionalização e no exercício
da profissão, bem como de autoridades e representantes sociais em diversos períodos.
Concluímos ressaltando a importância dos filtros durante a leitura, considerando que nenhum
documento é neutro, um documento sempre é fruto da ideologia de quem o produziu.
Resumo
O objetivo geral desta produção é refletir sobre a legislação educacional como fonte para a
história da educação profissional, tendo como recorte à análise e discussão o Decreto n.
7.566/1909. Elegemos questões orientadoras à reflexão nessa análise: Quais são e como são
apresentados os elementos jurídicos do decreto nº 7.566/1909? Quais determinações para o
ensino profissional são estabelecidas no Decreto? Que indícios de correlação de forças para o
ensino profissional podem ser identificados nesse documento? Quanto à metodologia, utilizar-
se-á análise documental que, de acordo com Godoy (1995), trata-se de um procedimento de
pesquisa que também pode ser aplicada, como uma técnica, quando empregada para
complementar outros procedimentos (entrevistas, questionários), com intuito de validar e
analisar dados obtidos, três aspectos são considerados à análise: a escolha dos documentos, o
acesso a eles e a sua análise. Nessa produção, a ênfase recai sobre o terceiro aspecto - a análise
do decreto nº 7.566/1909. Teoricamente, para explorar a legislação educacional como fonte
para a pesquisa histórica orienta-se a partir de Stamatto (2012) e Gonçalves (2012). No que
concerne a análise do decreto nº 7.566/1909 como fonte de pesquisa, evidencia-se de modo
geral, a política de ensino profissional implementada pelo decreto nº 7.566/1909 cuja criação
das Escolas de Aprendizes Artífices harmoniza-se à conjuntura do Brasil Republicano pelo
qual projeto de educação e sociedade buscava atender ao ideário dos processos de
industrialização e urbanização, sobretudo, preparar a classe proletária à adquirir o hábito do
trabalho, afastando-os da vida dos vícios e do crime, sendo o dever do Governo da República
formar cidadãos úteis à Nação. O documento em análise apresenta elementos constitutivos de
instrumento jurídicos relativos aos atos normativos do Decreto (número, ementa, autoria,
fundamento legal de autoridade, cláusulas legislativas a partir dos motivos empreendidos a
estabelecer as normativas, ordem de execução (Decreta:) e fechamento (Rio de Janeiro, 23 de
setembro de 1909, 88º da Independência e 21º da República. Nilo Peçanha A. Cândido
Rodrigues). Acerca do argumentário, o ensino profissional a partir da recorrência de termos
que podem caracterizar os interesses de uma cultura a ser implementada. Nessa análise, recai
sobre o termo oficinas (citado 14 vezes) o qual está relacionado ao formato do ensino, à
aprender um ofício, à curso, a formar contramestres e os mestres das oficinas. Assim, pode-se
inferir além do caráter instrumental do trabalho manual, mecânico, o contexto desse discurso
proferido pode sinalizar-se como estratégia de persuasão política cujos objetivos visam
concatenar opiniões e construir redes de posicionamentos hegemônicos.
Resumo
Os arquivos como lugares que guardam as memórias das instituições escolares é a principal
motivação dessa pesquisa que vem sendo desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-
Graduação em Educação Profissional (PPGEP) do Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), na linha de pesquisa: História, historiografia e
memória da educação profissional. Essa investigação historiográfica objetiva buscar nos
arquivos, seja eles digitais ou físicos, fontes documentais que tratam da memória e da cultura
escolar, tanto do Colégio das Fábricas como da Escola Estadual Professor Anísio Teixeira,
com fins a (re) construir um corpus documental, e desse modo (re) escrever a história dessas
duas instituições escolares. A primeira instituição teve sua gênese na cidade do Rio de Janeiro-
RJ, em 1º de abril de 1809, no reinado do Príncipe Regente Dom João. A segunda nominada
de Escola Estadual Professor Anísio Teixeira, antigo Centro de Ensino de 2º Grau Professor
Anísio Teixeira, fundada no ano de 1973 na cidade de Natal-RN, durante o Governo de José
Cortez Pereira de Araújo e do Secretário de Educação Dalton Melo de Andrade. Para o
desenvolvimento teórico-metodológico, utiliza-se teóricos da nova história, tais como: Julia
(2001), Viñao Frago (2006), Magalhães (2004), Le Goff (1996, 2003) e Ciavatta (2009, 2019).
Durante o processo de levantamento bibliográfico sobre o Colégio das Fábricas, Belchior
(1993) se refere ao Arquivo Nacional no Rio de Janeiro, advertindo conter fontes sobre a citada
escola, suscitando nesses pesquisadores o desejo de ir até lá antes da conclusão desse trabalho
de doutoramento. Quanto ao arquivo da Escola Estadual Professor Anísio Teixeira, teve-se
acesso as fichas dos estudantes, aos históricos, aos certificados, aos diários de classe e a alguns
álbuns de fotografias que vem sendo examinados à luz da historiografia. Esses documentos e
as bibliografias analisadas já evidenciam que ambas as instituições, mesmo estando em tempos
distintos (século XIX e XX) elas tinham a intenção de formar estudantes para o trabalho e
assim atender ao capital, materializando esse ideário nas legislações, nos discursos dos agente-
sujeitos e nas práticas pedagógicas.
Resumo
Resumo
Resumo
“Reflexos: culturas escolares do IFC Blumenau a partir da análise fotográfica” trata-se de uma
pesquisa em andamento, realizada no âmbito do mestrado profissional em Educação
Profissional e Tecnológica (ProfEPT), na área de Ensino, no IFC Blumenau, em Santa
Catarina. Metodologicamente é uma pesquisa documental e envolve o trabalho com imagens
de acervo institucional e de servidores feitas entre 2012 e 2021. As fotos serão analisadas para
identificar as culturas escolares das turmas de ensino médio integrado aos cursos técnicos do
Campus Blumenau e comporão uma exposição fotográfica presencial, organizada em parceria
com estudantes. A exposição tem como objetivo contribuir para a construção da narrativa
histórica e preservação da memória coletiva institucional, além de ampliar a percepção de
como a foto e a cultura escolar podem ser usadas como um método de ensino em diferentes
disciplinas do currículo. Esta pesquisa integra o projeto de pesquisa intitulado Leme -
Laboratório de espaços e Memórias da Educação Profissional e Tecnológica de Santa Catarina,
com fomento da Fundação de Amparo à Pesquisa e Inovação do Estado de Santa Catarina
(Fapesc). A justificativa pelo uso de fotografia como fonte documental está fundamentada nos
estudos de pesquisadores que abordam a confiabilidade das imagens como documento
histórico. Entre eles, Philippe Dubois (2012), Lucia Santaella e Winfried Nöth (2015), Peter
Burke (2017), Boris Kossoy (2020), Carla Pinsky e Tania Luca (2020). Também historiadores
que abordam os cuidados na definição dos documentos, como é o caso de Jacques Le Goff
(2013) e ainda Justino Magalhães (2004) que afirma que para compreender a história de uma
instituição é necessário ir além do sistema educativo. Nos conceitos sobre as culturas escolares,
a pesquisa se valerá das definições de António Viñao Frago (1995), André Chervel (2016) e
Diana Vidal (2005). A seleção desses e dos demais autores foi definida a partir de pesquisas
nas bases de dados do portal de Periódicos da Capes. A reincidência de citações e a
proximidade da perspectiva adotada por eles com o objetivo da pesquisa final foram
determinantes na seleção. Entre os primeiros resultados da pesquisa, a fundamentação teórica
possibilitou identificar que a fotografia pode ser um recurso utilizado para compreensão da
história de uma instituição escolar sob o escopo da cultura escolar, mas que ainda é pouco
utilizada. Assim como foi possível constatar a predominância de fotos digitais no acervo
institucional e de servidores. Ao final da pesquisa espera-se que os professores possam
explorar o formato da exposição fotográfica para trabalhar diferentes conceitos, inclusive para
atividades de interpretação da linguagem visual. Pretende-se também incentivar a discussão
sobre os aspectos que constroem a história de uma instituição escolar, despertar o interesse
pela preservação das fontes históricas e realçar a relevância da fotografia como fonte
historiográfica na educação.
Resumo
Resumo
Este trabalho é resultado das pesquisas realizadas no âmbito do projeto “Educação e Trabalho
no Século XIX: arquivos, fontes e historiografia da aprendizagem de ofícios e formação de
artífices” do Núcleo de Pesquisa em Educação (NUPED) na Linha de Pesquisa “História,
Memória e Historiografia da Educação Profissional” do Programa de Pós-Graduação em
Educação Profissional do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande
do Norte (PPGEP/IFRN). Selecionamos para as nossas pesquisas os arquivos do banco de
dados da Biblioteca Nacional Digital (BNDigital), especificamente os documentos referentes
à educação e ao trabalho no século XIX, o nosso marco temporal. Para este trabalho, utilizamos
a metodologia da Análise Textual Discursiva (ATD), assumindo três fases para a análise
documental, a saber: a unitarização, que consiste na desconstrução e na extração de
informações dos documentos; a categorização, que busca criar unidades de sentido para os
fragmentos selecionados; e a textualização das informações extraídas das fontes. Selecionamos
e inventariamos periódicos e livros como documentos de análise e de suporte para esta
investigação, em conformidade com o recorte temporal. Para este trabalho, destacamos os
seguintes: o periódico A Escola: Revista de Educação e Ensino, números publicados nos anos
de 1877 e 1878; o livro A instrução e o Império (subsídios para a história da educação no
Brasil) 1854-1889; e o livro Escola Brasileira ou Instrucção Útil a Todas as Classes Extrahida
a Sagrada Escriptura para Uso da Mocidade, de 1827. A priori, definimos as seguintes
categorias: trabalho; aprendizagem de ofícios; instrução e formação moral; trabalho e
educação. Como categoria emergente, destacamos a instrução popular. Tendo em vista que
esta não estava selecionada a priori, registramos a sua relevância dentro do contexto de análise
da instrução pública no Império, principalmente porque o nosso foco de análise é centrado nas
classes desfavorecidas. Através da busca por meio da utilização de descritores, identificamos:
educação, trabalho, ofícios e ensino profissional. Também através das leituras dos documentos
inventariados, percebemos como a educação destinada à instrução pública e voltada para as
classes populares no século XIX possuía nos seus discursos um direcionamento das práticas
de ensino focadas no trabalho e na moralidade. Dessa forma, percorremos os caminhos desta
pesquisa para entender os vínculos estreitos entre o ensino popular, o trabalho e a moralidade
presentes nos discursos sobre a instrução pública do século XIX.
INTRODUÇÃO
A existência desse nível de ensino público na cidade tem raízes na criação do Curso
Normal Regional, pela Lei Estadual n. 204, de 07 de dezembro de 1949, no Governo
de José Augusto Varela2. A nova instituição atendia orientações do Decreto-Lei
Estadual n. 684, de 1947, que adaptou a formação docente do Rio Grande do Norte,
sem alteração de qualquer natureza, ao Decreto-Lei Federal n. 8.530, de 02 de janeiro
de 1946, conhecido como Lei Orgânica do Ensino Normal, que criou e regulamentou
o Curso Normal Regional ou de 1º Ciclo para todo o Brasil. O objetivo da criação
dos Cursos Normais de 1º Ciclo era de ampliar os espaços de formação de professores
primários. Na situação específica do Rio Grande do Norte, tais espaços estavam, até
então, restritos às Escolas Normais de Natal e Mossoró. Apesar de a criação do Curso
Normal Regional no Rio Grande do Norte datar de 1949, a implantação efetiva
ocorreu somente a partir do final de 1951, no Governo de Sylvio Piza Pedrosa, em
municípios como Pau dos Ferros, Macau e Assu.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
No seio desta construção, destacamos uma importante categoria teórica que atravessa
as reflexões que predispomos sobre as fontes advindas do interior de uma instituição localizada
em um município do interior do Rio Grande do Norte. Entendemos que as análises que nos
dedicamos a realizar não seriam possíveis sem a devida compreensão teórica acerca da história
das instituições escolares, lugares produtores de memória consequente das atuações dos
homens e mulheres que ocuparam tais lugares com suas práticas, ideias e objetivos. Esses
fazeres desempenhados no interior das instituições relacionam-se com o seu entorno, com as
dimensões socioeconômicas, políticas e culturais que direcionam aos sujeitos a relação com
seus interesses (CHARTIER, 2002).
Outra discussão teórica que consideramos imprescindível para o trato com fontes
documentais escolares, dentre seus usos e possibilidades de investigação, é o entendimento
que estas são fruto de culturas escolares estabelecidas, sobre as quais Viñao Frago (2000, p.
09) destaca:
Las instituciones escolares cambian. Son una combinación – entre otras muchas
posibles – de tradición y cambio, consecuencia de decisiones relativamente limitadas
por factores externos, condicionantes tecnológicos y una serie de prácticas
sedimentadas en el tiempo que suelen agruparse bajo la denominación de cultura
escolar. Este término, de significado ambiguo y polisémico, comprende, en su
perspectiva histórica, como se dijo, un conjunto de modos de hacer y pensar, de
creencias y prácticas, de mentalidades y comportamientos compartidos en el seno de
las instituciones educativas, que se transmiten a los nuevos miembros de la
comunidad escolar, en especial a los profesores y a los alumnos, y que proporcionan
estrategias para integrarse en las mismas, interactuar y llevar a cabo, sobre todo en el
aula, las tareas cotidianas que de cada uno se esperan, así como, al mismo tiempo,
para hacer frente a las exigencias y limitaciones que implican o conllevan.
METODOLOGIA
É relevante destacar que nosso contato com o arquivo e os materiais que nele
encontram-se salvaguardados, deu-se graças ao desenvolvimento de uma atividade de parceria
entre a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte, por meio do Campus Avançado de
Assú, junto à Escola Estadual Juscelino Kubitschek. Nela, houve um intenso trabalho de
higienização, organização e catalogação do acervo que passou a ser disponibilizado em
formato digitalizado.
Este processo de disponibilização tornou mais fácil o acesso de estudantes e professores
pesquisadores aos documentos institucionais. Frisamos que, no fazer da pesquisa histórico-
documental, lidamos com as dificuldades de trabalho com materiais que, em geral, não
possuem as corretas condições de conservação e guarda, o que, além do desgaste físico
ocasionado pelo tempo decorrido, dificulta a aproximação com produtos de nosso passado e
que sobre os quais poderíamos construir diversas narrativas. Sobre este aspecto, nos apoiamos
nas discussões de Vasconcelos (2014, p. 35) ao refletir sobre a presença necessária de
pesquisadores em acervos e arquivos
Para tanto, faz-se necessário, cada vez mais, que aqueles que pesquisam a história da
educação, quer sejam historiadores ou educadores, se debrucem sobre acervos e
arquivos, preenchendo lacunas oriundas da negligência com os registros, descuido
com os documentos, ou simplesmente o descarte destes. Por outro lado, há um imenso
fluxo de informações sobre movimentos, processos educativos e lutas dos educadores
para a construção da educação, em diversos momentos, à espera de um olhar atento do
historiador ou do educador que se proponha aos desafios das investigações históricas.
Dentre os processos metodológicos que aqui nos cabe mencionar, assinalamos que foi
feita uma seleção inicial das fontes que poderiam contribuir para a problemática proposta, bem
como à resolução do problema definido pelas pesquisadoras. As implicações metodológicas
referem-se com os pressupostos teóricos que balizam este estudo, no entrelaçar de categorias
e referenciais selecionados para que melhor pudéssemos operar com as fontes e os
conhecimentos que construímos a partir delas.
ANÁLISE E DISCUSSÃO
Diante dos olhos dos pesquisadores, os considerados velhos documentos, por vezes
desgastados pela ação do tempo, transformam-se em valiosas fontes de investigação,
possibilitando aos historiadores o engendrar das mais variadas análises. Os vestígios
impregnados em tais materiais, permite ao historiador da educação, realizar interpretações
acerca de uma experiência histórica. Contudo vale salientar que em nenhuma hipótese o
passado pode ser reconstruído em sua totalidade, cabe a nós a perseguição dos indícios
encontrados, contrapondo-os entre si e com a realidade que os entorna.
Frente aos limites impostos pelo próprio escopo da proposta e suporte escrito que a
abriga, selecionamos 03 (três) documentos escolares datados entre os anos de 1966 e 1970,
com base no critério de transformações vivenciadas pela referida instituição escolar ao longo
de sua história. Buscamos observar como tais mudanças se expressam por meio da produção
documental escolar, bem como quais elementos emergem a partir das questões que
endereçamos aos respectivos materiais.
A primeira fonte utilizada refere-se às atas de registro de alunos que cursaram a 1ª e 3ª
séries no ano de 1966, conforme pode ser examinado na figura 01. Trata-se de um livro
manuscrito contendo o total de 46 folhas, preenchidas com quadros de notas de alunos,
respectivamente dois quadros por página, contendo registros sobre o desenvolvimento do(a)
aluno(a) no Curso Normal.
Analisando a figura 03, ficam evidentes as mudanças ocorridas nos textos descritivos
da Ata Geral de Exame de Admissão ao Curso Ginasial (1970). Confrontando a figura 02 com
a figura 03, observamos mudanças, tanto nas nomenclaturas das disciplinas, quanto nas formas
de avaliação. Na Ata Geral de Exame de Admissão (1966), a disciplina de Aritmética passa a
ser intitulada de Matemática e as provas orais e escritas referentes à disciplina de Língua
Portuguesa, passam a ser descritas como uma avaliação única, sem especificação das referidas
dimensões avaliativas. Essas evidências apontam as nuances das mudanças ocorridas nesse
momento de transição do Ginásio Normal do Assú para Ginásio Estadual do Assú.
CONCLUSÕES
REFERÊNCIAS
AMORIM, S. R. M. de; BARROS, M. C. de. Interpretações do “Álbum de Memórias” do
Grupo Escolar José Correia. Ensino em Perspectivas, [S. l.], v. 2, n. 3, p. 1–12, 2021.
Disponível em: https://revistas.uece.br/index.php/ensinoemperspectivas/article/view/5971.
Acesso em: 14 jun. 2022.
BARROS, José d’Assunção. Teoria e formação do historiador. TEIAS, Rio de Janeiro, v.11,
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FORMAÇÃO PROFISSIONAL AGRÍCOLA: ACERVO E POSSIBILIDADES DE
ESTUDO DA ESCOLA AGROTÉCNICA DE SANTA TERESA (ES)
Marcelo Lima
Doutor em Educação, Universidade Federal do Espírito Santo,
ORCID: orcid.org/0000-0002-7448-8366,
[email protected]
Resumo
O presente trabalho toma como objeto a trajetória da Escola Agrotécnica de Santa Teresa
(EAST) em seus anos iniciais de funcionamento. Fundada em 1940 pelo governo estadual
como Escola Prática de Agricultura, a longeva instituição foi a primeira do gênero no Espírito
Santo, passando por diversas fases antes de se tornar um campus integrante da rede do Instituto
Federal do Espírito Santo (Ifes). Ofertando formação técnica agropecuária até os dias atuais, a
EAST possui um passado ainda não abordado pela historiografia. Mais do que uma mera
novidade temática, acreditamos que tal estudo pode auxiliar no entendimento da história da
educação profissional no Brasil, sobretudo no que tange ao ensino agrícola. Enxergamos a
implantação da instituição em tela como parte de um processo maior, que inclui discussões
sobre o ensino agrícola em curso desde o início do século XX; interesses políticos; além de
demandas econômicas e sociais. Todos esses movimentos carregam determinadas
representações do meio rural e de sua população, as quais foram projetadas na configuração da
Escola. Faz-se necessário pontuar que as páginas a seguir estão intimamente ligadas a dois
projetos. O primeiro deles, iniciado em 2016, consiste na organização do acervo da Escola
Agrotécnica, o que resultou na produção do inventário do referido acervo. As fontes
organizadas motivaram a gênese da segunda iniciativa subsidiária deste trabalho: o projeto de
doutoramento junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação (PPGE) da Ufes, visando
investigar as práticas cotidianas da escola, incluindo sua organização, cursos, sua estrutura
física e as ações dos sujeitos envolvidos em seu funcionamento. Considerando o estágio inicial
da pesquisa, optamos aqui por trazer algumas impressões acerca do acervo em questão,
levantando possibilidades de abordagens tendo em vista as especificidades da escola em
contato com o contexto maior que lhe abriga. São relatórios, dados de matrículas,
levantamentos diversos, recortes de jornais etc., os quais permitem discorrer sobre um campo
que a historiografia tem chamado de História das Instituições Escolares. Estamos cientes que
o objeto escolhido aproxima o pesquisador daquilo que é local, potencializando as informações
disponíveis, mas gerando o risco de descolamento em relação ao fenômeno educacional em
sua totalidade. Nesse sentido, impõe-se o cuidado metodológico de observar a EAST de modo
que seu estudo auxilie no exame crítico da história da formação profissional agrícola no Brasil.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Este é um trabalho que se ocupa de uma temática inserida na chamada História das
Instituições Escolares, cuja abordagem é cada vez mais frequente. As próprias mudanças no
campo historiográfico, estimulando e privilegiando o estudo de objetos singulares e operando
1
Considerando que a instituição já possuiu diversos nomes antes de passar a integrar a rede do Ifes, optamos aqui
por utilizar o mais comum entre a população capixaba: Escola Agrotécnica de Santa Teresa (EAST).
novos conceitos, problematizações e abordagens, ensejaram tal incremento. Conforme aponta
Magalhães (2004, p. 71): “A história da educação é um campo em aberto, marcado pela
construção de novos campos e objetos de investigação, por uma associação investigação-ação,
por uma renovação conceitual e epistêmica de base interdisciplinar.”
Nosella e Buffa (2013), reforçando a viabilidade e a importância de se analisar a história
de instituições escolares, alertam a todo o momento para os riscos de se produzir um estudo
tão fragmentado a ponto de impedir a compreensão do fenômeno educacional em sua
totalidade. Considerando que o acervo da escola de Santa Teresa trata do específico, do
circunscrito, cumpre articular seus dados ao contexto maior que lhe abriga, notadamente no
que tange aos debates, políticas e concepções sobre o ensino agrícola no Brasil.
Ainda que a incorporação de novos temas e abordagens à pesquisa histórica tenha sido
notável no decorrer do século XX, o fato é que antes disso Karl Marx já tratava a história como
produção social da existência humana, elevando todos os atos da vida humana ao nível do
acontecimento (MARX; ENGELS, 1979). Mais do que trabalhar, é preciso compreender que
homens e mulheres também questionam, negociam, protestam, enfim, se movimentam em suas
respectivas realidades. O materialismo histórico não se incompatibiliza a isso, permitindo
enxergar a chamada “história a contrapelo” sem abrir mão da visão crítica sobre o passado
(BENJAMIN, 1987).
No esforço para compreender aspectos do ensino agrícola a partir do funcionamento de
uma instituição específica, estamos atentos à ressalva de Hobsbawm, segundo a qual: “[...] o
evento, o indivíduo e até a retomada de algum estilo ou modo de pensar o passado, não são
fins em si mesmo, mas meios de esclarecer alguma questão mais ampla, que ultrapassa em
muito o relato particular e seus personagens.” (1998, p. 202).
METODOLOGIA
A pesquisa que fundamenta este trabalho possui natureza qualitativa, resultando, dado
seu caráter inicial, nesta pequena mostra a fim de discutir alguns indícios, características e
possibilidades de aprofundamento a partir do acervo de uma instituição de ensino agrícola.
Para qualificar tal análise, recorremos também a fontes externas à instituição e à bibliografia
pertinente. Com base no trabalho de Santos e Vechia (2019, p.02), que analisaram grande
número de artigos de História das Instituições Escolares produzidos no Brasil, podemos dividir
as abordagens do campo em seis categorias principais:
[...] A categoria ‘espacial’, que se refere às abordagens do espaço geográfico em que
a escola se situa e aos aspectos arquitetônicos e materiais (como utensílios e
mobiliário). Também compusemos a categoria ‘temporal’, que abrange os
surgimentos, permanências e desaparecimentos na trajetória institucional. Outra
categoria constituída, a ‘intelectual’, diz respeito aos conteúdos, às ideias e práticas
pedagógicas e ao ensino e aprendizagem. Extraímos, ainda, a categoria ‘social’, que
inclui as atividades docentes, discentes, dos administradores e da comunidade,
ocupando-se das normas e regras, dos eventos e do relacionamento com o entorno.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
2
Para informações do projeto e acesso aos materiais, ver: <https://st.ifes.edu.br/index.php/nucleo-de-memoria>.
Agrotécnica de Santa Teresa (1956-1964); Colégio Agrícola de Santa Teresa (1964-1979);
Escola Agrotécnica Federal de Santa Teresa - Fase I (1979-1993); Escola Agrotécnica Federal
de Santa Teresa - Fase II (1993-2008); Instituto Federal do Espírito Santo campus Santa Teresa
(2008 até o presente); e Fundo Cooperativa Escola (1945-2006).
Cada um desses fundos abriga recibos, registros administrativos diversos, distribuição
de cargas horárias entre docentes, planos de ensino, índices de matrícula, recortes de leis e
decretos, entre outros. Há muitas descontinuidades, documentos com páginas faltantes e outras
incompletudes. Apesar de representar um grande desafio, isso não difere da realidade
normalmente vivenciada pela historiografia, sempre em busca de montar o “quebra-cabeça”
do passado sem possuir todas as peças. A seguir, considerando o contato com o acervo,
vislumbramos algumas possibilidades de estudo sobre a EAST.
A primeira dessas possibilidades diz respeito à própria trajetória da Escola em suas
diferentes fases. Seria o aspecto temporal, com foco nos “surgimentos, permanências e
desaparecimentos”. Os recortes de jornal, leis, decretos e portarias permitem observar a
legislação educacional, os diferentes órgãos gestores (Ministério da Agricultura, Ministério da
Educação, SEAV, DEM, COAGRI etc.) e suscitar questões sobre como a organização interna
dialogava ou distendia em relação a tais processos organizativos. Ainda que parte desse aparato
legal esteja disponível em sites de órgãos públicos, há aqueles que se encontram somente no
acervo inventariado, como é o caso do “Contrato entre o Governo da União e o Estado do
Espírito Santo para a manutenção de uma Escola Agrotécnica”, que estabeleceu os termos do
repasse da administração da Escola ao âmbito federal (NM-ST, 1977).3
Quanto ao aspecto político, cumpre avaliar as articulações locais que contribuíram para
a origem da escola, as disputas em torno de sua configuração e sua relação com os intensos
processos vividos pelo Estado Brasileiro ao longo desse tempo. A verdade é que desde
princípios do século XX a defesa do ensino agrícola como fator de superação do “atraso” do
campo, aumento da produtividade e impeditivo do êxodo rural ocupou as páginas da imprensa
capixaba. Arthur Torres Filho, agrônomo que atuou no Espírito Santo, ocupando
posteriormente postos de destaque em âmbito nacional, escreveu:
[...] nos cumpre encarar com firmeza inabalável a educação da atual geração de
agricultores, que é a que coopera presentemente com energia para nossa vida
econômica, ou pelo menos dando-lhes os meios de produzir mais
remuneradoramente. [...] É medida humanitária e dignificadora como de profunda
visão social ir despertando na inteligência da mocidade com noções de ciências
naturais e físicas o amor pelas coisas agrícolas, orientando-a para a vida independente
e utilitária. (1911, p.02).
3
No caso de fontes já inventariadas, usaremos o código gerado para o respectivo documento.
Em todo o Brasil, diversas instituições voltadas para o ensino agrícola foram criadas
durante as primeiras décadas do século XX. Carregando o discurso de qualificar mão de obra
visando à modernização das atividades agrícolas, tais espaços funcionaram, em sua maioria,
como centro de acolhimento a jovens órfãos, atendendo, portanto, a uma demanda social
urbana. Oscilando ou mesclando o caráter correcional ao assistencialista (Cf. LIMA, 2010), os
Patronatos e Aprendizados Agrícolas serviam como verdadeiros viveiros de mão de obra, com
fazendeiros recrutando trabalhadores para tarefas sazonais (MENDONÇA, 1999).
Além dos interesses dos proprietários de terras, é preciso considerar também processos
como o movimento dos agrônomos no sentido de se consolidarem como gestores da produção
agrícola, ensejando a formação de um agricultor moderno, racional (MENDONÇA, 2010a).
Carlos Duarte, estudante de agronomia, defendeu o ensino agrícola num periódico local: “[...]
é ao homem inteligente que cabe, empregando seus conhecimentos científicos, erguer a lavoura
da apatia em que profundamente ela dormita [...]. Não esperemos que o homem rústico reforme
e reerga a nossa agricultura; não, porque esse só emprega no trabalho sua força animal.” (1909,
p. 02). Além de expressar noções negativas sobre a população do campo, tal trecho aponta a
tarefa de aprimorar a produção agrícola brasileira como uma prerrogativa dos profissionais da
área agronômica.
Nesse sentido, pensava-se numa escola “diferente”, eminentemente prática, com uma
concepção e organização curricular pensada por profissionais da agronomia. No caso da EAST,
conforme indícios coletados nas fontes, coube aos agrônomos Lúcio Fernandes Ramos, José
Farah e Izidro Zarate, além de técnicos como Henrique Rímolo, José Rubem Uchoa e Máximo
Jacob desempenharem a tarefa. Acreditamos que o estudo das trajetórias desses indivíduos,
sua formação e seus escritos, podem ser úteis para desvendar os preceitos que nortearam a
empreitada, auxiliando a compreender o funcionamento da instituição.
Lúcio Ramos, primeiro diretor da EAST e que ocupou o cargo por vários anos, foi
professor da Escola Superior de Agricultura e Veterinária de Viçosa (ESAV) antes de assumir
a tarefa. Visitando o Espírito Santo esporadicamente para ministrar cursos, além de publicar
textos em jornais locais, Ramos se aproximou de Enrico Hidelbrando Aurélio Ruschi, prefeito
de Santa Teresa entre 1936 e 1939, e também agrônomo. Mais tarde, quando ocorreu a escolha
do local para implantação da Escola Prática de Agricultura, Ruschi ocupava o posto de diretor
do Departamento Geral de Agricultura do Espírito Santo (ESPÍRITO SANTO, 1940a). Diante
desses indícios, acreditamos que bons frutos podem se desdobrar do exame dessa relação entre
agronomia, poder e seus desdobramentos locais na configuração da EAST.
Cumpre ainda pensar a Escola em sua interface com o contexto da Guerra Fria, tempo
de vários os acordos entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos no campo educacional.
Ampliava-se a intervenção norte-americana na realidade rural brasileira sob o discurso de
combate à pobreza e promoção do desenvolvimento. Isso se materializou em ações voltadas
para a população rural adulta, via cursos rápidos em áreas como laticínios, mecanização, além
de eventos como Semana do Lavrador e Semana Ruralista Feminina (MENDONÇA, 2010b).
Entre 1947 e 1948, por sinal, a Comissão Brasileiro-Americana de Educação das
Populações Rurais (CBAR) foi responsável por gerir a EAST, reorganizando-a aos moldes da
Lei Orgânica do Ensino Agrícola de 1946 e das concepções estadunidenses sobre o tema.
Ocorreram visitas e destinação de recursos oriundos daquele país. José Farah, um dos
agrônomos da Escola, mencionou: “Destarte cumpre-nos, pois [...] ressaltar, dentre os seus
competentes técnicos que deram sua direta valiosa orientação à escola, honrando-nos com suas
visitas, os Drs. Shermom Oickinson, Louis Oder e W. C. Tucker – por parte do governo
americano [...]”. (1948, p. 01). A imagem a seguir ilustra tal movimento:
A dimensão política passa também pelo sentido que o Estado quis dar à escola, voltada
a formar um cidadão próprio ao mundo rural, interessado pelas coisas da terra e ao mesmo
tempo dotado da racionalidade considerada necessária ao aumento da produtividade e à
melhoria das condições materiais. A dimensão espacial, que envolve a arquitetura, o mobiliário
e a organização dos espaços, se integra a essa intencionalidade. Salas destinadas às aulas, salão
para eventos, refeitório, dormitórios, lavanderia, casas para funcionários, setores para
atividades práticas (laticínios, plantio, mecanização etc.), serviços de saúde, tipografia, entre
outros, compunham aquela estrutura robusta (NM-ST, 1971).
Do ponto de vista prático, minimizava-se a necessidade de sair dos limites da EAST,
pronta para receber estudantes, profissionais, agricultores e outros visitantes. Podemos pensar
ainda no papel simbólico que o caráter monumental de suas instalações desempenhava. No
pensamento educacional da época, incluindo o Estado Novo, “[...] a educação em si mesma
era vista como um veículo privilegiado no que se refere à introdução de novos valores e
modelagem de condutas.” (CAPELATO, 1998, p. 211). A Escola Agrotécnica pode ser vista,
portanto, como símbolo da crença do progresso do campo. Para os atores que elaboraram sua
organização, ela representaria o sofisticado frente ao rústico, a ciência frente ao senso comum.
Tal empreitada envolveu também um caráter intelectual, que diz respeito a aspectos
como a formação dos professores, os cursos e suas grades curriculares, a diminuição ou
ampliação da carga horária de disciplinas entre outras nuances. De início, em 1940, foram dois
os cursos existentes, ambos com um ano de duração: Administrador de fazenda (para aqueles
que já houvessem concluído o ensino primário ou fossem aprovados num exame aplicado pela
própria escola); e Prático rural (destinado a analfabetos ou candidatos com primário
incompleto). As aulas, ministradas por agrônomos e técnicos agrícolas, coadunavam com os
pressupostos de uma formação eminentemente prática: Agricultura; Zootecnia; Indústrias
Rurais; Oficinas (carpintaria, condução de veículos, selaria etc.); Administração; e Instrução
(Educação física, Higiene, Serviço militar) (ESPÍRITO SANTO 1940b).
Em sua concepção, a Escola Agrotécnica de Santa Teresa definiu como “clientela ideal”
o público masculino de origem rural: “[...] A principal finalidade da escola será a da formação,
em cursos rápidos, de homens com conhecimentos racionais e práticos de agricultura, pecuária
e indústrias correlatas.” (ESPÍRITO SANTO 1940c). Ensinamentos militares, noções de
higiene e exercícios físicos, por sua vez, associam-se aos planos de EAST de ofertar “[...] não
só a instrução profissional dos seus alunos, mas também o seu melhoramento ou
aperfeiçoamento moral, cívico e social [...]” (ESPÍRITO SANTO 1940b).
Seria interessante acompanhar o processo de complexificação da organização da
EAST. Em 1948, por exemplo, já eram quatro as subdivisões dos cursos: Prático rural;
Iniciação agrícola; Maestria agrícola; e Técnico agrícola. Dando um salto ainda maior, nota-se
na década de 1960 tanto o aumento do número de docentes quanto a aparição de disciplinas
como biologia, história e geografia, ou mesmo a inserção de novas matérias de caráter técnico,
como topografia e desenho técnico (NM-ST, 1967).
Por sua vez, a análise da EAST em seu papel social abre diversas possibilidades,
permitindo avaliar a Escola em sua relação com a sociedade, o que envolve normas, estatutos,
eventos, bem como os sujeitos envolvidos em suas práticas (discentes, docentes, comunidade,
administradores etc.). Logo de antemão, o breve exame das fontes revelou a completa ausência
feminina entre o alunado nos primeiros anos da escola. A primeira iniciativa concreta data de
1956: “Na vila de São João de Petrópolis, a 800 metros da Escola, [...] foi inaugurado o Curso
rápido de Extensão de Economia Rural Doméstica, principalmente dedicado às filhas e
senhoras de lavradores.” (CURSO..., 1956, p. 02).
Para esse público as aulas incluíam costura, bordado, trabalhos manuais, enfermagem,
Educação Moral e Cívica, culinária, jardinocultura entre outras. Nota-se a existência de uma
determinada concepção sobre o ensino que deveria ser ofertado às mulheres. Mais do que isso,
o fato das aulas ocorrerem fora dos limites da EAST, a despeito da grandiosidade de suas
instalações, atesta que o espaço interno da instituição era marcadamente masculino. Há que se
considerar ainda a preocupação com a ordem e os costumes, supostamente em risco com a
convivência entre gêneros no interior da escola. Vale ilustrar aqui com um trecho do Estatuto
interno, que considerava: “[...] falta grave, o escândalo, isto é, qualquer ato, traje, palestra,
porte de livros, escritos ou figuras inconvenientes que ofendam a moral, o sentimento religioso,
o culto à Pátria ou disseminem maus costumes [sic]”. (ESPÍRITO SANTO 1940b).
Chama atenção a busca da EAST por figurar como uma referência à população rural
como um todo, e não somente aos estudantes. Para isso possuía igreja, organizava reuniões de
agricultores, abrigava encontros da Associação Rural, além de constituir a rádio “A Voz da
Lavoura” e o jornal “O Cultivador”, que informavam sobre o cotidiano escolar, mas também
traziam novas técnicas, informações sobre saúde, culinária etc. Tal jornal, por sinal, constitui-
se numa fonte que pode desdobrar em múltiplas abordagens, evidenciando as representações
que os sujeitos ali presentes produziam sobre si próprios, seu público e a população do campo.
A edição de outubro de 1953, por exemplo, aponta: “Tratando-se de uma escola
agrícola, não deve ser confundida com orfanato, nem reformatório de meninos viciados ou
endiabrados.” (MATRÍCULAS..., 1953, p. 07). No ano seguinte, sobre as matrículas de jovens
da cidade, conclui: “E infelizmente quase nenhum vem por legítima vocação ruralista. Quase
todos vêm por alegação de orfandade, família numerosa ou necessidade de fugir aos vícios e
às más companhias da cidade.” (DEIXEM..., 1954, p. 15). Esses trechos evidenciam os
esforços da EAST para se diferenciar do caráter assistencialista das instituições de ensino
agrícola que se espalharam pelo Brasil durante a primeira metade daquele século. Ao mesmo
tempo, revela a repulsa em atender a uma demanda social que considerava de incumbência
urbana. Acrescenta-se a isso o descompasso entre a expectativa e a realidade, visto que as
queixas explicitam a presença de citadinos entre os discentes. Desse modo, urge investigar qual
público frequentou a escola em suas primeiras décadas, qual sua origem, faixa etária, como se
deu a inserção feminina, entre outros dados.
Como apontamos anteriormente, a EAST tem uma caracterização que se assenta em
projetos, articulações políticas e concepções elaboradas de antemão sobre o mundo rural e sua
população. Havia ainda problemas concretos, como o êxodo rural, que a escola se propunha a
evitar: “Não precisamos ir para lá [para a cidade]. Temos na zona rural, uma variedade grande
de atividades, que podemos explorar, digna e lucrativamente, com a vantagem indiscutível de
podermos ser reis, no que é nosso.” (ATIVIDADES..., 1953, p. 06) A questão é que essa
idealização do campo vinha acompanhada de simplificações, palavras pejorativas e
desconsideração dos saberes e potencialidades de seus habitantes:
Os nossos ex-alunos não precisam ir para as cidades com o fim de ganhar a vida. Na
cidade existe muita gente importante e muita que quer ser importante. A competição
é grande e nós, pouco ou nada conseguiremos. Vamos ser lá, quando muito, amarra-
cachorro dos importantes, uns joãos-ningúem [sic] naquela luta inglória pelo pão
nosso de cada dia. (idem).
São palavras duras, que expressam a reprovação de um movimento que a EAST não
conseguia estancar: o afluxo de ex-alunos para as cidades. Talvez a chave para entender esse
desencontro de expectativas esteja em questionar esse “mundo ideal” existente na zona rural.
Para muitos desses estudantes o campo poderia ser um lugar de dificuldades, de pobreza, de
desigualdade. Desse modo, a cidade representaria a esperança de mudança de vida. Poderíamos
acrescentar ainda o evidente erro de imaginar a carreira agrícola como o único caminho
vocacional possível para aqueles indivíduos, o que renderia outras tantas linhas.
CONCLUSÕES
A história de uma instituição escolar pode ser investigada de vários modos, enfocando
em aspectos definidos a partir dos recortes, dos referenciais e da disponibilidade de fontes. De
qualquer modo, deve prevalecer sempre a concepção processual dos processos históricos em
suas transformações, conflitos e mudanças. Devemos enxergar o passado das instituições
destinadas ao ensino como o contato, geralmente tenso, de diferentes atores, grupos e
instâncias. O Estado entra com seus projetos de cidadão e de sociedade, sua legislação e seus
interesses políticos. Os docentes carregam sua formação, suas concepções de educação, suas
individualidades, suas questões de classe. Os estudantes e suas famílias depositam na escola
suas esperanças de mudança de vida, de ascensão social e, no caso de Santa Teresa, de
afastamento do meio urbano. Poderíamos acrescentar ainda as representações que a sociedade
projeta sobre a escola, ou mesmo a atuação da equipe administrativa.
Conforme apontamos no início, procuramos neste trabalho apresentar alguns fios de
abordagem possíveis para a Escola Agrotécnica de Santa Teresa (EAST), auxiliando no debate
sobre a formação profissional agrícola no Brasil. A organização do acervo da instituição
possibilitou a oferta de informações valiosas para o exame de sua trajetória. Trata-se de um
caso específico, de uma instituição, mas que pode render constatações interessantes sobre o
fenômeno educacional, os projetos de sociedade então em curso, os debates e disputas
profissionais, que envolviam também os agrônomos, bem como as visões correntes sobre o
mundo rural e sua população.
Por sinal, a ideia de um mundo rural, de uma realidade apartada dos males e conflitos
típicos do cenário urbano, esteve entre as premissas que embasaram a organização da EAST
em sua origem. Nesse sentido, a Escola tomou para si a tarefa de levar ao campo um
conhecimento alinhado ao que havia de mais moderno em termos de produção agrícola. No
plano ideal, isso ampliaria a produtividade, levando ao crescimento do país e à consequente
melhoria da qualidade de vida daquela população, o que por sua vez estancaria o êxodo rural.
A continuidade da pesquisa e o aprofundamento junto às fontes servirão para relacionar esses
planos ambiciosos à realidade concreta.
De antemão, já há alguns indícios de descompassos. Um deles está na demanda urbana
em busca de matrículas na EAST. Há também a fragilidade de pressupor que a Escola, com
seu caráter imponente e sua organização, teria a capacidade, por si só, de incutir uma espécie
de “amor à terra” entre os habitantes do meio rural. Como apontamos anteriormente, uma
instituição escolar, ao reunir expectativas e interesses distintos, é um espaço de conflitos. No
caso de uma escola agrícola fundada em 1940, entretanto, deve-se acrescentar outra camada: a
dos conflitos inerentes à vida rural brasileira, que inclui questões como a má distribuição
fundiária, as baixas remunerações, as relações trabalhistas desassistidas, a precariedade dos
serviços públicos, as dificuldades de transporte e comunicação etc. Sem atacar esses pontos
críticos, não há amor à terra que resolva.
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“PRECISAMOS DE UMA FORTE E INTELIGENTE PROPAGANDA, SOBRETUDO
DEPOIS DOS DEPLORÁVEIS SUCESSOS DE 1910”: A HERANÇA DA REVOLTA
DA CHIBATA (1910) PARA A ESCOLA DE APRENDIZES MARINHEIROS DA
PARAÍBA NA SEGUNDA DÉCADA DO SÉCULO XX
Resumo
Este trabalho tem por objetivo analisar os impactos da Revolta da Chibata (1910) na formação
de marujos conduzida pela Escola de Aprendizes Marinheiros da Paraíba durante a segunda
década do século XX. A unidade fez parte de uma rede de instituições criadas ainda no Império
e encarregadas de recolher e instruir a juventude dita pobre e desvalida da Nação. Além disso,
tais redutos emergiram como parte do projeto de modernização da Marinha, posto em prática
desde meados do século XIX, mas duramente afetado pelos eventos de 1910, momento cujo
uma rebelião instaurada no seio da Armada expôs as enormes contradições em seu interior.
Diante disso, tomamos por base as fontes analisadas, isto é, o Livro Copiador de Ofício (1912-
1914), e nos aproximamos do conceito de disciplina, de Michel Foucault (2018), para
problematizarmos o modo como o projeto de sofisticação em curso operou até 1910 e as
consequências da dada revolta para a dinâmica das Escolas de Aprendizes Marinheiros, a partir
da experiência na unidade paraibana. Por fim, foi possível perceber que a revolta de
marinheiros, embora tenha sido rapidamente sufocada pelo governo republicano, obteve
profundo alcance, chegando comprometer aspectos sensíveis à educação empreendida pelas
escolas da marinha, reforçando, assim, desafios já existentes naquela formação.
INTRODUÇÃO
Já se passaram mais de um centenário dos eventos de 1910, ano em que uma revolta
de marinheiros eclodiu na capital federal, à época, a cidade do Rio de Janeiro, e trouxe a
público as contradições presentes no interior da Marinha. A essa altura, se sabe que a
historiografia nacional reservou um lugar particular para tais eventos, sem, no entanto, se
interessar pela educação de seus protagonistas. Uma investida nessa direção pode jogar luz
sobre as lacunas deixadas pelos estudos e, portanto, contribuir com novas perspectivas acerca
do tema.
Sendo assim, as próximas páginas têm por objetivo problematizar a formação oferecida
pela Marinha Nacional, através das chamadas Escolas de Aprendizes Marinheiros. Essa rede,
que foi fundada ainda no Império e se encarregou de recolher e instruir, elementar e
profissionalmente, a juventude dita pobre e marginalizada da sociedade, foi peça central no
projeto de modernização alçado pela armada em meados do oitocentos. As críticas a uma
Esquadra “mais interessada nas tecnologias navais do que na renovação de seus quadros”
fizeram com que tais redutos fossem elaborados com vistas a substituir os antigos modelos de
alistamento. Os estudos da historiadora Sílvia Almeida (2010), por exemplo, denunciaram que
as consequências do progresso técnico durante o século XIX já não toleravam o perfil de
marujo presente na Marinha. Havia uma forte crença de que, daqueles homens, recrutados
geralmente pela polícia e “adestrados” por uma disciplina rigorosa, que englobava diferentes
formas de castigos, produzia-se uma guarnição decadente e inadaptável as novas situações
criadas pela ampliação ou pela modernização técnica da vida brasileira.
Com os abalos impostos pela Revolta da Chibata, percebeu-se que as escolas de
marinheiros possuíram estreita ligação com o levante, ora por formarem seus protagonistas,
ora por sofrerem os desgastes vividos após 1910. É a partir disso que objetivamos compreender
os impactos dessa revolta na educação de marujos, a fim de analisar o modo como o projeto
de sofisticação em curso operou até aquele ano e quais seus efeitos sobre a dinâmica das
Escolas de Aprendizes Marinheiros, tomando por base a unidade paraibana, que foi fundada
em 1871 e fazia parte do seleto grupo de escolas formadoras de praças no início do século XX.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A investigação observa o modo como a disciplina atravessou a Marinha Nacional e
suas instituições formadoras ao decorrer do tempo. Do ponto de vista conceitual, por disciplina
compreende-se o que defendeu Michel Foucault (2018), como àquela que se exerce sobre os
sujeitos e implica em sua vigilância constante e contínua. Observando a formação do soldado
a partir do século XVIII, o autor se atentou para um quadro em que uma massa informe, isto
é, um corpo inapto, “fez-se uma máquina de que se precisa” (FOUCAULT, 2018, p. 133), se
dá contornos, se manipula e adestra, visto que homens desse perfil não poderiam deixar de lado
a agilidade e força tão exigidas pelo seu ofício. Foi nesse contexto que o corpo militar se
transformou em alvo do poder, capaz de ser submetido, utilizado, transformado e aperfeiçoado
(FOUCAULT, 2018, p. 134).
Por outro lado, a presença do “[…] corpo preso no interior de poderes muito apertados,
que lhe impõem limitações, proibições ou obrigações” (FOUCAULT, 2018, p. 134) não
significa necessariamente sujeição. Isso porque em locais onde sujeitos podem ser coagidos
pelo poder, como consequência direta dessa conquista “[…] emerge inevitavelmente a
reivindicação do próprio corpo contra o poder” (FOUCAULT, 1998, p. 146). Ou seja, Foucault
enxergou que não há relações de poder sem que haja, também, resistência. Desse modo,
levando em consideração que poder e resistência passam a coexistir, entre outros lugares, no
quadro da escola, do quartel ou da oficina, é essencial pensarmos os acontecimentos ligados à
Armada como o resultado direto desse conflito entre indivíduos que buscavam preservar sua
autonomia frente a ambientes altamente controladores.
METODOLOGIA
Para essa investigação, nos utilizamos de ferramentas de pesquisa do tipo qualitativas,
a fim de analisar criticamente as fontes contidas nos Livros de Copiador de Ofício (1912-1914),
documentos esses que integram o acervo do projeto de pesquisa “‘Marchando com muito
garbo e correcção’: disciplinarização dos corpos na Escola de Aprendizes Marinheiros do
Rio Grande do Norte e da Paraíba”. Com vistas a auxiliar o trabalho, a pesquisa se situa no
campo da História Cultural, que é pensado por Sandra Pesavento (2019) como aquele que
propõe apreender os sentidos que as sociedades e sujeitos conferem ao mundo que vivem,
manifestados por palavras, discursos, imagens e práticas. Já do ponto de vista metodológico,
nos aproximamos da análise do discurso, método formulado por Michel Foucault (2014), que
considera que ao historiador importa perceber as produções de sentido contidas nas fontes que
analisa, pois nelas existem discursos que possuem o que chamou de “vontade de verdade”, isto
é, narrativas desejosas de se tornarem legítimas e absolutas sobre os fatos. Assim, longe de
serem neutros, os registros históricos possuem conteúdos repletos de intencionalidades,
cabendo aos estudiosos compreendê-los enquanto construções suscetíveis de críticas e
inferências múltiplas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
4
Os decretos de números: 1.591, de 14 de abril de 1855; 6.582, de 1º de agosto de 1907; 9.386, de 28 de fevereiro
de 1912; e 11.479, de 10 de fevereiro de 1915, que são as legislações que compuseram o período trabalhado neste
artigo, estão disponíveis para consulta no Portal da Câmara dos Deputados.
se impusera ao ideal. Aconteceu de que boa parte dessas instituições não atenderam às
demandas exigidas no que tocante ao número de marujos para transferência, que deveria ser
anual, alimentando, assim, permanentemente o corpo de marinheiros. Isso se dava por vários
fatores, afinal a maioria das unidades sofria de problemas crônicos de falta de verbas, de
estruturas e de uma propaganda que pudesse demonstrar efetivamente as vantagens da vida
naval. Ao que se sabe, a maioria das famílias, segundo relatos dos comandos da época, nutriam
notória “[…] aversão a vida militar” (MARQUES; PANDINI, 2004, p. 93), preferindo, muitas
vezes, que seus filhos padecessem na miséria e abandono à entregar-lhes a carreira das armas.
Assim sendo, conforme Almeida (2010, p. 159), dois modelos disputavam território interno na
Marinha: um que sugeria a diminuição do número de escolas e priorização das que melhor
servissem a esquadra; e outro, que propunha a capilarização das unidades pelo país, oferecendo
à Marinha elementos de diversas origens geográficas.
Ao que se percebe, o que houve foi uma conciliação desses projetos, quando na década
de 1880, por meio do Decreto n. 9.371, de 14 de fevereiro de 1885, a Marinha passou por uma
reestruturação interna, abolindo pouco mais de 30% das escolas, deixando as demais
descentralizadas pelo Brasil. Isso demonstra que a instituição estava sendo constantemente
avaliada para melhor se sobressair aos interesses em jogo, que naquela ocasião priorizavam
aumentar a mão de obra com elementos moral e tecnicamente refinados. Como já dito, o que
houve no ano de 1910 foi resultado direto de um projeto de sofisticação que estava longe de
ser coeso e ideal. Suas falhas, que não foram poucas, como não romper com os abusos que
atravessavam a vida dos marinheiros, se tornaram a bucha de canhão para os insurgentes
levassem a capital do país ao estado de sítio. O que será visto mais a frente é que essa revolta,
por mais que contida com alguma rapidez, não deixou de abalar as estruturas da Marinha, que
passou a lidar com o aprofundamento de problemas internos a posteriori.
[…] tendo tido a honra de receber a visita do Ex. Sr. Presidente do estado, a
visita feita expressamente para assistir as aulas e sua Excia conhecer dos
methodos adptados, pude conseguir que juntamente com aquella autoridade
viessem o Director da Instrucção Publica, todos os seus auxiliares,
professores e adjuntos de escolas da Capital, além de outras pessoas
classificadas. O resultado foi o que se devia esperar. O bom nome da Escola
foi e está sendo proclamado exatamente pelas pessoas mais autorizadas e
insuspeitas e tendo sido ministrados à pessoas presentes e aos jornaes as
informações exactas da vida e do ensino na Escola e transmittidas para o
interior as impressões estamos certos que disso resultará um enorme
benefício para a Marinha (LIVRO DE COPIADOR DE OFFICIO, 1912-
1914).
CONCLUSÕES
Ao fim dessa pesquisa, foi possível verificar que o projeto de modernização em curso
na Marinha, responsável por oferecer um novo modelo educacional para os marujos, foi
duramente afetado pela revolta de marinheiros de 1910. Observou-se que as Escolas de
Aprendizes Marinheiros foram espaços estrategicamente pensados para substituírem os antigos
modelos de arregimentação da Armada. Mais ainda, a construção e expansão da rede obedeceu
a um projeto maior de sofisticação abraçado no correr do século XIX, o qual buscou unir
avanços tanto técnicos, quanto voltados à qualidade dos recursos humanos absorvidos pela
instituição.
Por outro lado, os abalos de 1910 atingiram as escolas de marinheiros, sobretudo, em
dois aspectos. O primeiro foi o aprofundamento da imagem negativa da Marinha frente a seu
público-alvo, o que exigiu que os redutos, como a unidade paraibana, discutissem propagandas
mais efetivas para atrair jovens para suas cadeiras. O segundo foi o comprometimento dos
serviços oferecidos pela Marinha, como efeito das execuções e expulsões causadas pelo
levante. O esvaziamento da tripulação fez com que faltassem profissionais de todas as ordens,
principalmente professores para o ensino profissional. Ainda que medidas tenham sido
tomadas, ficou evidente que essas não seriam capazes de solucionar os problemas de forma
definitiva.
Por fim, é possível continuar pesquisando. Percebeu-se que poucos trabalhos buscam
relacionar eventos ditos canônicos de nossa historiografia, por exemplo, as experiências locais
ou periféricas ao espaço onde esses acontecimentos ocorreram. É interessante que outras
investigações possam perseguir as heranças da Revolta da Chibata, por exemplo, para as
demais escolas de formação da Marinha, procurando observar variáveis que escaparam a este
trabalho. Tais esforços são muito importantes se desejamos construir uma historiografia
robusta sobre a formação de marinheiros, um tema que ainda carece de contribuições se
considerado seu potencial e importância para a histórica da educação profissional brasileira.
REFERÊNCIAS
ALMEIDA, Silvia. A modernização do material e do pessoal da Marinha nas vésperas da
revolta dos marujos de 1910: modelos e contradições. Estudos Históricos, vol. 23, nº 45, p.
147-169, jan.-jun. 2010.
ARIAS NETO, José Miguel. Em busca da cidadania: praças da Armada nacional 1867-1910.
Tese (Doutorado em História). Universidade de São Paulo, São Paulo, 2001.
FOUCAULT, Michel. A ordem do discurso. Rio de Janeiro: Forense, 2014.
FOUCAULT, Michel. Microfísica do poder. Rio de Janeiro: E. Graal, 1998.
FOUCAULT, Michel. Vigiar e Punir: nascimento da prisão. Petrópolis: Vozes, 2018.
LIVRO DE COPIADOR DE OFÍCIO. Arquivo da Marinha do Brasil. Rio de Janeiro, 1912-
1914.
MARQUES, Vera Regina Beltrão; PANDINI, Sílvia. Feios, sujos e malvados: Os aprendizes-
marinheiros no Paraná oitocentista. Revista brasileira de história da educação, v. 4, n. 2 [8],
p. 85-104, 2004.
MIRANDA, Itacyara Viana. Instrução, disciplina e civilização: uma perspectiva de leitura
acerca das aulas públicas e particulares na Parahyba do Norte (1860-1889). João Pessoa:
Universidade Federal da Paraíba. Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-
Graduação em História, Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2012.
PESAVENTO, Sandra. História e História Cultural. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
SOARES JÚNIOR, Azemar dos Santos; LIMA, Luiz Felipe Soares de. O alistamento de
menores e a disciplina de corpos na Escola de Aprendizes Marinheiros da Paraíba nas primeiras
décadas do século XX. Revista Brasileira da Educação Profissional e Tecnológica, v. 2, p.
2-16, 2021b.
A IMPORTÂNCIA DA GESTÃO DOCUMENTAL
PERANTE OS NOVOS FORMATOS DE DOCUMENTOS
Jefferson França
Licenciado em História, Universidade Potiguar
Resumo
Apresenta uma pesquisa exploratória sobre a gestão documental, bem como analisar as
possíveis transformações no estudo do arquivo contemporâneo. A metodologia utilizada para
a elaboração deste artigo foi uma pesquisa bibliográfica e revisão de literatura. Observar a
gestão documental como atividade essencial para o bom funcionamento de um arquivo e que
é de extrema importância a presença de um profissional qualificado como o Arquivista.
Conclui-se que é de extrema importância tratar, organizar, disseminar as informações contidas
nos suportes documentais corretamente, e que para resolver problemas como o excesso de
massa documental muito importante a implementação da TTD – Tabela de Temporalidade
Documental, como também o GED - Gerenciamento Eletrônico de Documentos.
INTRODUÇÃO
As entidades públicas são grandes produtoras de documentos, e esses dão o suporte à
administração, à cultura, e também, servem como elementos de prova e informação à
comunidade que atende. Está como dever do Poder Público a gestão documental e a proteção
especial a documentos de arquivos, como instrumento de apoio à administração, à cultura, ao
desenvolvimento científico e como elementos de prova e informação.
A finalidade do arquivo é guardar os documentos que circulam na instituição de forma
organizada e eficiente, e garantir a preservação e conservação destes documentos, colocando-
os em uma temperatura recomendada que consiga manter uma umidade adequada para que
assim possa garantir a não deterioração dos materiais informacionais, e atender de forma
prática e precisa as solicitações dos setores da instituição e dos usuários.
O objetivo desta pesquisa é mostrar a importância dos arquivos na recuperação da
informação institucional que é de muita importância. Ela tem como objetivo específico:
analisar o processo de organização e armazenamento de documentos como também analisar o
processo de transferência de arquivo físicos para os meios eletrônicos.
A metodologia utilizada para elaboração deste artigo foi a pesquisa de nível
exploratória e bibliográfica, sendo realizado consultas em bases de dados, sites, livros e
apostilhas. O trabalho seguiu os aspectos éticos da pesquisa, inclusive o autor se responsabiliza
pelas informações obtidas com o estudo. Os dados obtidos com a pesquisa foram adequados
para se chegar à conclusão, assim obtendo a validade interna.
ARQUIVO
O arquivo é um dos setores mais importante de uma entidade, pois é nele onde são
guardados os documentos produzidos e recebidos pela mesma porque é ele quem dar o suporte
documental para as necessidades das instituições, seja ela pública ou privada.
Segundo Camargo e Bellotto (1996, p. 5), Arquivo é um “conjunto de documentos que,
independentemente da natureza ou do suporte, são reunidos por acumulação ao longo das
atividades de pessoas físicas ou jurídicas, púbicas ou privadas”.
No âmbito da gestão documental, pode-se destacar que os documentos de arquivo
possuem uma característica chamada organicidade, que significa que o mesmo foi criado em
função de uma atividade realizada pela instituição, de forma que o mesmo servirá de prova das
transações realizadas pela organização.
Assim, ao se estudar os documentos de um arquivo pode-se ter uma ideia clara das
atividades realizadas por aquele órgão. Nesse sentido, todos têm direito a receber dos órgãos
públicos informações de seu interesse particular ou de interesse coletivo ou geral, contidas em
documentos de arquivos, que serão prestadas no prazo da lei, sob pena de responsabilidade,
ressalvadas aquelas cujos sigilo seja imprescindível à segurança da sociedade e do Estado, bem
como à inviolabilidade da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das pessoas.
Sabe-se que há pessoas por não entender a importância do trabalho arquivístico,
denomina o Arquivo principalmente o permanente de “Arquivo Morto”, mas é um grande
equívoco pois um arquivo é uma unidade viva, mas geralmente isso ocorre em organizações
onde não tem um profissional que mostre a importância do arquivo, muitas vezes quando a
entidade está totalmente defasada é que verifica-se a importância do arquivo e então começa
toda a gestão documental, as organizações que tem uma boa gestão documental sabem que os
arquivos não são mortos, mas “vivos”, mais do que isso, são conjuntos de informações que
podem representar um diferencial em períodos de escassez de recursos financeiros, materiais
e humanos.
Aqui no Brasil a definição segue o mesmo modelo das definições citados pelos autores
anteriormente, por exemplo, a definição dada pelo Dicionário de Terminologia Arquivística
que mostra o arquivo como sendo um:
Segundo a lei brasileira que trata sobre os arquivos Lei nº. 8159/91 que dispõe sobre a
Política Nacional de Arquivos Públicos e Privados e dá outras providências tem uma definição
concisa e ampla abrangendo os diversos tipos de arquivos:
GESTÃO DOCUMENTAL
Com a evolução da escrita e o grande efeito da imprensa de Gutemberg começou a
produção de informação em grande escala e posteriormente com advento das tecnologias da
informação, fenômeno esse que aconteceu posterior a Segunda Guerra Mundial, primeiro com
os militares de forma estratégica e logo em seguida com toda a sociedade.
O número de produção de documentos cresceu de forma exponencial e com isso, tem
surgido uma preocupação por parte dos profissionais da informação e documentação, o que e
como fazer, para garantir o armazenamento e a recuperação da informação de forma eficiente
e eficaz. A esse respeito, Paes (2007) afirma que:
A gestão documental surgiu com essa necessidade, para resolver um dos problemas que
é a gestão da grande produção de documentos, segundo a Lei nº. 8159/91 sobre a gestão
documental, define-se como sendo: “[...] conjunto de procedimentos e operações referentes à
produção, tramitação, uso, avaliação e arquivamento em fase corrente e intermediária, visando
a sua eliminação ou recolhimento para guarda permanente.” (BRASIL, 1991).
De acordo Jardim citando a legislação americana define gestão de documentos como:
O planejamento, o controle, a direção, a organização, a capacitação, a
promoção e outras atividades gerenciais relacionadas com a criação de
documentos, sua manutenção, uso e eliminação, incluindo o manejo de
correspondência, formulários, diretrizes, informes, documentos informáticos,
microformas, recuperação de informação, fichários, correios, documentos
vitais, equipamentos e materiais, maquinas reprográficas, técnicas de
automação e elaboração de dados, preservação de centros de arquivamentos
intermediários ou outras instalações para armazenagem. (LEGISLAÇÃO
NORTE AMERICANA apud JARDIM, 1987, p. 35).
PROPRIEDADES CARACTERÍSTICAS
INSTRUMENTOS OBJETIVO
Com a criação desses instrumentos a gestão documental tem ficado mais prática
precisando apenas de profissionais habilitados a realizarem as tarefas, o glossário ajuda na
identificação dos termos, a tabela de temporalidade documental a vida e destino final do
documento, o plano de classificação ajuda saber em qual classe de assunto pertence o
documento, as normas padronizam a gestão, os instrumentos de pesquisa servem para levantar
dados para poder implantar um planejamento estratégico, os dispositivos constitucionais para
dar o embasamento jurídico e os manuais técnicos ajudam na orientação de funcionamento do
sistema, tudo isso é o que compõe a gestão documental.
Uma faceta que surgiu com a gestão documental foi o GED - Gerenciamento Eletrônico
de Documentos que pode ser chamado de gestão documental no meio eletrônico, como já foi
citado antes a informação está crescendo de forma exponencial, isso devido ao advento das
TICs que são as tecnologias de informação e comunicação e principalmente ao advento da
internet e isso fez com que os profissionais se adequassem a esse novo formato de
armazenamento da informação que é o documento em formato digital, disposto em plataformas
conhecidas como repositórios.
CONCLUSÃO
Com o estudo ficou claro que o arquivo é de fundamental importância em uma instituição
e que é preciso mantê-lo organizado e com um bom plano de gestão documental para que possa
atender a demanda documental institucional, tanto interna como externa e que é de
fundamental importância que o arquivo tenha sua tabela de temporalidade documental não só
isso mas também a implementação do gerenciamento eletrônico de documentos, para assim
diminuir a massa documental e ganhar espaço, agilizar os processos, economizar tempo e
facilitar as tomadas de decisão.
A gestão documental é de extrema importância se tratando de arquivos atuais, formados
por documentos físicos e digitais é notória a necessidade de ter-se um plano de gestão
documental bem definido. O uso da TICs para facilitar o armazenamento e a disseminação do
acesso se torna cada vez mais uma necessidade e uma realidade. Juntamente com a
modernização das competências dos profissionais que lidam diretamente com os arquivos, um
novo horizonte de oportunidades e desafios se formam no cenário nacional da Arquivologia.
Compreender que para fazer uma boa gestão de documentos é imprescindível a presença
de um profissional da informação qualificado como o bibliotecário, em parceria com um
arquivista, que tenham o domínio da competência em informação e tem conhecimento
suficiente para realizar um trabalho de qualidade, que realmente atenda às necessidades
informacionais da instituição e de seus usuários.
REFERÊNCIAS
Resumo
INTRODUÇÃO
O presente trabalho faz parte de uma pesquisa maior, intitulada “História da Educação,
Educação Profissional e das relações Trabalho e Educação no Litoral Norte gaúcho (séculos
XIX, XX e XXI)” e que conta com bolsas PIBIC-CNPq e PROBIC-FAPERGS. O projeto, que
visa a localização, identificação e sistematização de possíveis fontes acerca das categorias
recém citadas, surgiu durante a pandemia da covid-19, ou seja, diante de um cenário que
impossibilitou a visita a acervos físicos. Esses fatores culminaram para a utilização de uma
nova perspectiva de investigação: os espaços digitais (CASTELLS, 2002, p. 108).
Utilizar a internet como um novo método de pesquisa, sem dúvida, evoca um desafio
“para os pesquisadores do século XXI” (OLIVEIRA, 2018, p. 193). Por isso, torna-se
necessário compreender melhor o que são os chamados “acervos digitais”, bem como elucidar
a E-História da Educação (VIDAL, 2021). Para isso, a fundamentação teórica deste trabalho
divide-se em duas partes.
Logo, percebe-se que, atualmente, negar os acervos digitais ou recusar a pesquisa
nesses espaços, é inviável. Porém, em esfera nacional, ainda existem poucos acervos e
repositórios disponíveis online. Assim, tem-se por objetivo refletir sobre possibilidades de
utilização de acervos virtuais e espera-se que as reflexões aqui propostas corroborem para que
cada vez mais as oportunidades trazidas pela tecnologia possam contribuir com perspectivas
mais amplas na pesquisa histórica. Ademais, tem-se o intuito de apresentar os resultados
obtidos através da pesquisa em sites, blogs e redes sociais, além de repositórios online, no
âmbito da localização de fontes acerca da Educação Profissional.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Para uma melhor compreensão do trabalho, a fundamentação teórica se divide em duas
partes: uma sobre acervos digitais e outra acerca da E-História da Educação.
METODOLOGIA
Conforme explicitado na introdução deste trabalho, será relatado acerca da pesquisa em
sites, blogs e redes sociais, bem como repositórios online, no âmbito da localização de fontes
acerca da Educação Profissional. Portanto, a metodologia dividiu-se em duas partes, uma
empregada pela bolsa PIBIC-CNPq e outra pela bolsa PROBIC-FAPERGS, respectivamente.
Como pode-se perceber, a planilha criada foi dividida em seis colunas. Na primeira
coluna, consta o nome de identificação do documento localizado. Essa identificação começa
pela abreviação do nome da cidade em foco, seguido do suporte de pesquisa (site, blog ou rede
social), mais um número único de identificação, podendo ser adicionadas letras em casos de
uma mesma publicação com mais de uma foto, exemplo: Capão da Canoa – CC_BLOG01 ou
CC_INSTA02.A.
A segunda coluna da planilha contém o nome da cidade em foco. A terceira coluna, o
nome da página, seja site, blog ou rede social, juntamente com o seu link de acesso inicial. Na
quarta coluna tem-se a especificação do tipo de documento encontrado, se fotografia ou vídeo,
mais o link da publicação. A quinta coluna traz informações sobre o documento, nela são
abordados o ano da postagem e os textos escritos nelas, bem como os comentários, se estes
existirem. Por fim, na sexta coluna são descritas as possíveis informações que se tenham sobre
os organizadores da página em questão.
Por fim, todas as fontes encontradas e catalogadas foram subdivididas em quatro
grandes grupos, sendo que alguns deles têm as suas próprias subdivisões: fontes de prédios
escolares (educação básica / educação profissional / educação superior), fontes de práticas
escolares (educação básica / educação profissional / educação superior), fontes de
trabalho/atividades profissionais (serviços ligados ao turismo / gerais), e fontes gerais.
Posteriormente, nos resultados, será apresentado o que foi localizado acerca da Educação
Profissional na cidade de Capão da Canoa/RS, que foi a primeira cidade investigada nesta
pesquisa.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Assim como a metodologia, os resultados deste trabalho serão divididos em duas partes,
a primeira acerca da pesquisa direcionada à bolsa PIBIC-CNPq e a segunda pela bolsa
PROBIC-FAPERGS.
Para finalizar, Oliveira (2018, p. 201) discorre sobre o fato de que as redes sociais e os
blogs oferecem aos pesquisadores um enorme e vasto material fotográfico para ser estudado,
sendo de grande potencial para a pesquisa. Afinal, conforme Castells (2002, p. 43), “a
tecnologia é a sociedade”, e ela está aí para que os indivíduos possam agir sobre a informação,
principalmente no que tange as fotografias, pois o autor pontua que a internet modificou o
fluxo delas (CASTELLS, 2002, p. 423).
CONCLUSÕES
Este trabalho teve por objetivo apresentar uma reflexão em relação à E-História da
Educação; suas características, desafios, oportunidades e contribuições. Além disso, foi
exposto, também, sobre os acervos digitais, particularmente, a experiência com o Repositório
Digital Tatu como fonte de pesquisa no contexto da E-História da Educação.
Reafirma-se que a utilização do cenário digital como fonte de pesquisa ampliou-se
pelas necessidades advindas do contexto de pandemia da covid-19. Os recursos
disponibilizados em acervos digitais são escassos (MARTINS; DIAS, 2019, p. 2), por isso,
assumir esta vertente foi de extrema importância. Isto é, evidenciar a tecnologia com um novo
olhar. Antes, como entretenimento e meio de comunicação. Hoje, também como ferramenta
de pesquisa, em outras palavras, uma extensão do físico para o digital.
O objetivo inicial foi ter como fonte de pesquisa o repositório digital Tatu a fim de
encontrar conteúdos relacionados ao projeto: "História da Educação, Educação Profissional
e das relações Trabalho e Educação no Litoral Norte gaúcho (séculos XIX, XX e XXI)". Porém,
ao entrar em contato com o acervo digital, percebeu-se que o número de arquivos era grande,
por exemplo, ao acessar o repositório, podemos acessar revistas de 1951 até 1994. O
lançamento era periódico: ora por trimestre, ora por semestre; a oscilação se deu devido ao
número de digitalização de materiais, não há 100% das revistas no acervo. Cada revista tem,
em média, 60 [sessenta] páginas. Os documentos foram bem catalogados, o download
[possibilidade de baixar o arquivo] é livre. Porém, no contexto de pesquisa científica, pequenos
detalhes podem atrasar o processo de obtenção de dados. Em outras palavras, os arquivos
foram digitalizados e transferidos [também conhecido como upload] para o site Repositório
Digital Tatu.
Ao utilizar as tecnologias como meio para realizar pesquisa, nos deparamos com os
níveis de arquivo que ora possibilitam, ora restringem quanto à obtenção de dados. Isto é, assim
como o programa utilizado otimizou tempo ao processar cerca de 43 anos de publicação de
revistas, antes, foi necessário navegar pelo desconhecido. Durante, foi crucial desenvolver
certa familiaridade ao operar ferramentas tecnológicas para o êxito da otimização. E, ao
desbravar tantos anos de revista, foi preciso mais contato com áreas de tecnologia do que
necessariamente com história da educação, o quê, juntando ambos, temos a E-História da
Educação.
Além disso, para finalizar, a pesquisa na internet, mais propriamente nas redes sociais,
ampliou também a perspectiva de investigação dos pesquisadores do século XXI, frente à
escassez e dificuldade de localização de documentos. Os espaços digitais contribuem na
democratização do acesso às fontes antes “perdidas”, e, por isso, são um método possível no
desbravamento da pesquisa em História da Educação.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, José Carlos Souza; NETO, Wenceslau Gonçalves; FILHO, Geraldo Inácio; GATTI
JÚNIOR, Décio. Educação, Imprensa e Sociedade no Triângulo Mineiro: A revista A Escola
(1920-1921). História da Educação. ASPHE/FaE/UFPel, Pelotas, v.2, n.3, jan./jun. 1998, p.
59-93.
CASTELLS, Manoel. A sociedade em rede. 6 ed. São Paulo: Paz e Terra, 2002.
DOMINGUES, Viviane Pedroso. Especificando a validade do estudo sobre memorialistas
através do uso da Teoria da Consciência Histórica. Anais do XXVI Simpósio Nacional de
História ANPUH, São Paulo, jul. 2011.
MARTINS, Dalton Lopes.; DIAS, Calíope Victor Spíndola de Miranda. Acervos Digitais:
perspectivas, desafios e oportunidades para as instituições de memória no Brasil. Cetic.
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https://cetic.br/media/docs/publicacoes/1/18151020190930-ano-xi-n-3-acervos-digitais.pdf.
Acesso em: 26 de Abril de 2022.
OLIVEIRA, Irabel Lago de. Etnografia digital: o uso das TIC na pesquisa social, novos
métodos de observar. Tabuleiro de Letras, Salvador, v. 12, n. 1, p. 190-203, jun. 2018.
Disponível em: https://www.revistas.uneb.br/index.php/tabuleirodeletras/article/view/4624.
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sociais no Facebook. Verso e Reverso, n. 68, p. 114-124, maio/ago. 2014. Disponível em:
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VASCONCELOS, Maria Celi Chaves. Pesquisa em História da Educação: Acervos, arquivos
e a utilização de fontes. FRONTEIRAS: Journal of Social, Technological and Environmental
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VIDAL, Diana. 2000. Fim do mundo do fim: avaliação, preservação e descarte documental.
In: Faria Filho LM. Arquivos, fontes e novas tecnologias: questões para a história da
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Palestra proferida no 26º encontro da ASPHE, Pelotas/RS, 03 nov. 2021. Disponível em:
https://www.youtube.com/watch?v=os1q9SoBI_s. Acesso em: 24 nov. 2021.
O ESPAÇO DO ACERVO PARA AS MUITAS HISTÓRIAS DA EDUCAÇÃO
PROFISSIONAL: UM DESAFIO ÀS INSTITUIÇÕES ESCOLARES
Resumo
O artigo trata do acervo em instituições escolares, em que o debate sobre o tema é pertinente,
por entendermos que o acervo nas escolas ainda é um espaço a ser constituído, na perspectiva
de preservação de arquivos, documentos e memória. Esta é uma problemática em muitas
instituições escolares, como as que ofertam a Educação Profissional, por que a organização
dos acervos à EPT ainda é um desafio nas instituições escolares? Deste modo, o objetivo deste
estudo é analisar as produções sobre os acervos escolares referente às muitas histórias na
Educação Profissional. Adotamos a abordagem qualitativa, pesquisa bibliográfica, com revisão
de literatura, buscando mapear a temática e discutir as questões a partir da identificação de dez
produções que têm relação com o objeto desta pesquisa, a partir da consulta ao connected
papers. Os resultados apontam as contribuições dos acervos escolares para a pesquisa, para a
recuperação da memória e da história das instituições escolares e seus atores. Concluímos que
a criação e a organização de acervos escolares ainda é um desafio nas instituições escolares
devido a cultura escolar ter como centralidade o ensino, entretanto, a inserção das Tecnologias
Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) no meio educacional vem ganhando campo nas
escolas e tornando cada vez mais difícil a constituição dos acervos escolares de forma física.
INTRODUÇÃO
A temática deste estudo, refere-se à necessidade do acervo em instituições escolares,
por se entender que a escola é o espaço de memória e, o lugar de resguardar a sua cultura,
experiências e as histórias. A temática vem sendo discutida por autores como Andrade e Assis
(2020), Zaia e Garcia (2014), Vieira, Ximenes e Ferreira (2019), Ferreira e Stringuetti (2013),
Lima e Costa (2017), Moraes et al (2013) dentre outros. Estas produções tratam de acervos
fotográficos, preservação documental, registro institucional, fontes para a história e memória
das instituições escolares no contexto brasileiro.
Tantas poderiam ser as contribuições sobre este debate, no entanto, devido ao limite
deste espaço, vamos delimitar nossas reflexões a compreensão do espaço escolar para além do
ensino, e pensar a cultura escolar como forma de combater o esquecimento a partir das
produções sobre os acervos escolares, ou seja, a intenção é ter acesso as discussões sobre a
temática e mapear as produções, observando o debate sobre as diversas questões referentes aos
acervos escolares, em especial sobre a história da Educação Profissional.
A problemática que envolve a temática, refere-se aos parcos acervos escolares, esta
situação coloca em discussão diversas questões em relação à escola do século XXI. Uma delas
trata-se da escola responder às novas demandas e atualizar as discussões sobre a cultura
escolar, devido aos novos elementos que vão sendo incorporados na realidade de uma
instituição de ensino, em especial a pesquisa, por exemplo. Um acervo, por mais que resguarde
a história, a memória, documentos e outras formas de produção, necessitam ser revisitados a
partir de outras mediações, para que possamos enquanto atores no espaço escolar contribuir
com a formação do aluno, a partir de um ensino colaborativo articulado à pesquisa. Entretanto,
a dificuldade de ter acesso a um acervo escolar ainda persiste devido a sua inexistência, falta
de organização e dos devidos cuidados com os arquivos existentes nas instituições, fato que se
soma aos percalços no caminho de um(a) pesquisador(a).
Mediante o exposto, a questão que norteará este estudo é: por que a organização dos
acervos à EPT ainda é um desafio nas instituições escolares? Apontaremos as seguintes
predições: pressupomos que historicamente a cultura escolar tem como centralidade o ensino
nas escolas e precisa atualizar suas demandas em relação ao seu patrimônio considerando a
história, a memória, o ensino e a pesquisa.
O objetivo deste artigo é analisar as produções sobre os acervos escolares referente às
muitas histórias na Educação Profissional e, os objetivos específicos são os seguintes:
identificar as discussões sobre acervos como combate ao esquecimento e, destacar as
contribuições dos acervos escolares no cenário atual.
O que nos motivou a este estudo foi a oportunidade de contribuir com este debate
colocando em pauta as produções que tratam das contribuições dos acervos escolares e os
desafios para se organizar os acervos, debate que tem relação com a nossa experiência de
pesquisadora e, os percalços que muitos pesquisadores passam e que nós passamos durante a
pesquisa do mestrado em 2011 e 2012, quando encontramos no lixo, parte do acervo da
instituição, com arquivos fotográfico e documental existentes até então no setor de patrimônio
do IFPA campus Belém.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Primeiro precisamos entender o que é acervo? Segundo o dicionário Oxford
Languagens (onlline), é um conjunto de bens que integram o patrimônio de um indivíduo, de
uma instituição, de uma nação. Nesse sentido, o acervo escolar tem a ver com a cultura material
de uma escola, podendo ser uma composição de múltiplas materialidades, “denominado
patrimônio cultural, histórico e educativo” (CUNHA, 2015, p. 1). Ele quando preservado e
utilizado, ganha uma dimensão cultural e o reconhecimento daqueles pesquisadores da História
da Educação em suas diversas modalidades, inclusive os pesquisadores da história da Educação
Profissional e Tecnológica, pois favorece um fazer historiográfico na perspectiva de combater
o esquecimento.
A partir do final da década de 1960, com a instituições dos cursos de pós-graduação no
Brasil, o interesse pela pesquisa foi ganhando espaço, motivados pela revolução dos métodos,
com sua riqueza e variedade, orientados por princípios metodológicos renovados e isso
favoreceu muitas histórias educativas, em que outros personagens passaram a ser protagonistas
de histórias no espaço escolar, assim como suas práticas.
Entretanto, historicamente, o ensino foi e ainda continua sendo a centralidade nas
escolas, sobre ele encontramos registros, planos e os guardiões da memória, com narrativas
sobre diversos eventos e aspectos, dando o testemunho do que presenciaram no espaço escolar.
Porém, outros elementos foram surgindo nas histórias das instituições escolares – como nas
universidades e institutos federais –, como o princípio da indissociabilidade entre ensino,
pesquisa e extensão, a partir do contexto da constituinte de 1987, uma adaptação do modelo
americano de escola superior agrícola (land grant colleges).
A partir de então, investimentos foram feitos nessa indissociabilidade e, a pesquisa
como princípio pedagógico foi ganhando campo nas instituições escolares e, para se fazer as
muitas histórias educativas, é necessário as fontes e arquivos, portanto, o acesso ao acervo é
uma das possibilidades à pesquisa. Nesse pensar, os arquivos escolares podem contribuir
significativamente para o ensino de várias disciplinas, “por sua acessibilidade, diversidade e
tipos de informações, [...] por sua utilização implicar na possibilidade de articulação entre
ensino, pesquisa e extensão na escola, [...] (GONÇALVES, 2010, p. 1). Contribuindo também
para diversos domínios no campo da história, como a História da Educação Profissional.
A existência de um acervo escolar não é determinado por um fator, existem vários
fatores que contribuem para sua organização ou não, mas é preciso ações para sua existência,
como por exemplo: a promoção do debate sobre a cultura material na perspectiva de superação
de práticas conservadoras, e a favor de práticas preservacionistas que promovam os lugares de
memórias, a apropriação, o uso, a criação de produtos e tecnologias, as produções de alunos e
professores que se perdem por falta de registro, ou seja; que favoreça a escola como espaço de
memória (CIAVATTA, 2005).
Se faz necessário pensar a cultura escolar ampliada, contribuindo com fomentos de
ação em relação ao acervo, na perspectiva de se criar espaços, organizar, preservar e propagar
a relevância de seu uso, porque “objetos e documentos frutos da cultura material da escola,
presentes nestes acervos escolares criam, preservam e salvaguardam lugares de memória [...]”.
(CUNHA, 2015, P. 2).
Entendemos que uma das questões que envolve o acervo escolar é seu uso, porque
pesquisar não é fácil, os desafios à prática da pesquisa, manusear documentos em arquivos
devem ser estimulados e orientados, porém temos de considerar os avanços neste sentido, como
os programas e editais de incentivo à pesquisa, os projetos aprovados contam com um
coordenador que geralmente é orientador da pesquisa. Entretanto, nesse caminho muitas vezes
se procura o acervo da escola, e este não existe. Ter acesso a um arquivo com documentos,
pode ser uma fonte preciosa em pesquisas, mas o espaço do acervo documental nas escolas
não recebe os cuidados que deveria para que fosse preservado; nas escolas, o ensino recebe
mais atenção, porque é o objeto do fenômeno educativo.
Destarte, organizar um acervo escolar ainda é um desafio nas instituições, deste modo,
o espaço do acervo, deve ser objeto de discussão, reflexão, para se tornar uma ação, ou seja;
uma ampliação na cultura escolar. No cenário atual, o princípio da indissociabilidade entre
ensino, pesquisa e extensão (e inovação), deve ganhar uma dimensão em todos os âmbitos da
escola e entre os atores que fazem a história da instituição, e isso nem sempre acontece!
METODOLOGIA
O estudo apresenta uma abordagem qualitativa, quanto aos procedimentos foi pesquisa
bibliográfica, fizemos uso da revisão literatura, no esforço de mapear a temática para favorecer
as possíveis discussões. As pesquisas que se dedicam ao desafio de mapear e de discutir certa
produção acadêmica em diferentes campos do conhecimento são denominadas “estado da arte”
ou “estado do conhecimento”, de acordo com Ferreira (2002, p. 258).
O estado da arte se desdobra em dois momentos, primeiro, que “é aquele em que ele (o
pesquisador) interage com a produção acadêmica através da quantificação e de identificação
de dados bibliográficos, com o objetivo de mapear essa produção num período delimitado,
[...]”, o segundo abrange o aspecto mais analítico em que se busca saber preferencialmente o
quê e o como dos trabalhos. (FERREIRA, 2002, p. 265). Este estudo buscou aproximar-se ao
primeiro momento, apresentando um mapeamento da produção que tem relação com o objeto
desta pesquisa, a partir da consulta ao connected papers.
Destarte, os resultados emergiram de uma consulta ao connected papers, uma
ferramenta gratuita que mostra rede de conexões bibliográficas e, é disponibilizado ao público.
Inserir os descritores “acervo escolar” e “acervo escolar Educação Profissional e Tecnológica”,
abriu a primeira página com dez produções, o procedimento é escolher um artigo para gerar
um grafo que mostra o contexto do artigo e suas interconexões, foi aí que encontrei uma
limitação, a produção estava disponível, mas os artigos que eram de interesse deste estudo não
formavam os grafos, por consequência nem o gráfico e quando formavam o gráfico, a
interconexão não eram entre as produções de acordo com os descritores, tinham a ver com as
palavras chaves das produções e, mostravam grafos com outras áreas temáticas, que não é o
interesse deste estudo.
Sem a análise dos grafos (as relações do campo de estudo), tivemos de consultar e ler
o resumo de cada produção, e percebemos que entre as dez primeiras produções da primeira
página e às dez da segunda página, algumas tratavam do acervo para a Educação Profissional,
outras tratavam do acervo escolar em outras modalidades.
Dentre as vinte produções mapeadas, apenas quatro tratavam da Educação Profissional.
Entretanto, por critério de relevância, apresentamos a descrição de dez produções,
considerando os seus propósitos, as discussões em relação às contribuições dos acervos
escolares e as diversas questões sobre a temática, dentre elas: a preservação, o uso e a potência
dos acervos escolares, estes resultados foram analisados e apresentados no quadro 01.
Em seguida, a análise interpretativa dos dados foi realizada de forma descritiva,
apresentando o número de ordem, título autor e ano, linha temática e resumo, e, base de dados.
Os dados extraídos dos artigos (2012 a 2022) selecionados no connected papers, contribuíram
nas discussões apresentadas em todas as seções, considerando a questão e objetivos deste
estudo.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O que apresentamos aqui como resultado, foi um esforço de mapear a temática para
favorecer as possíveis discussões a partir da consulta no connected papers, dentre as vinte
produções mapeadas, devido ao limite do espaço e por critério de relevância em relação à
temática apresentamos a descrição de dez artigos no quadro a seguir:
Quadro 01: Produção organizada por número de ordem, título autor e ano, linha temática e
base de dados
Nº TÍTULO/AUTOR/ANO LINHA TEMÁTICA- RESUMO BASE DE
ORD. DADOS
Os dez artigos apontam as contribuições dos acervos escolares, seja para o uso em
pesquisa, ou para a recuperação da memória e da história das instituições escolares e seus
atores. Compreendemos que não seja possível trazer o que já aconteceu, mas um acervo
potencializa a leitura de um cotidiano escolar, porque traz vestígios do acontecido, além de
favorecer a identidade de uma cultura escolar, “como um conjunto de normas que definem
conhecimentos a ensinar condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a
transmissão destes conhecimentos e a incorporação destes comportamentos”. (JULIA, 2001,
P. 10). Por exemplo: a existência e o uso de um acervo de materiais didáticos e pedagógicos,
poderá favorecer a prática do ensino da leitura e da escrita.
Soma-se a esta discussão, outra contribuição relevante do acervo escolar no campo da
história da Educação que emergiu dos dados, foi a recuperação de documentos, as condições
de guarda, sua preservação em relação ao livro ser um bem patrimonial (ANDREOTTI, 2012).
Para a história das instituições educacionais, o arquivo escolar é fonte essencial, porque
possibilita a reconstituição de trajetórias institucionais “da(s) memória(s) para o arquivo e do
arquivo para a memória” (MAGALHÃES,1998, p.61), não apenas pela reconstituição da
trajetória, mas pela riqueza do processo todo e a riqueza do material encontrado.
As vinte produções mapeadas apresentam discussões relevantes sobre o acervo escolar
e tratam de diversas temáticas, como o acervo de material fotográfico, técnicas de saneamento
no sentido de preservação, de intervenção para armazenamento de documento, do acervo
virtual do Museu do Índio, da gestão escolar em relação aos cuidados com o acervo escolar,
modelo de avaliação para melhorar os serviços de uma biblioteca aos usuários; preservação do
livro como acervo; a organização de acervo documental, iconográfico e fotográfico. As
produções apresentam em suas proposições discussões no sentido de preservar, organizar e
sobre o uso dos acervos como forma de combater o esquecimento (CUNHA, 2015).
No entanto, das vinte produções mapeadas, apenas quatro estavam articuladas à EPT,
pode ser que em outras bases de dados possam ter mais produção, mas ao consultar a base de
dados do Scopus não obtivemos sucesso. Percebemos pelas produções consultadas, que a
constituição de acervos nas escolas ainda é um desafio, assim como o debate sobre eles.
Este desafio que nos referimos, tem a ver com a cultura escolar e relação com a predição
que colocamos em vez da hipótese, porque pressupomos que historicamente a cultura escolar
teve e ainda tem como centralidade o ensino nas escolas, a parti de nossas observações de anos
como docente e pesquisadora, a cultura escolar dá mais atenção às demandas urgentes em
relação ao ensino e aprendizagem.
A experiência que tivemos quando procuramos o acervo da escola e o arquivo de
documentos quando da nossa pesquisa de mestrado foi difícil, foram diversas tentativas de
localizar a documentação da escola, soubemos que havia um arquivo morto no setor de
patrimônio, foram buscas em vão. Um determinado dia fomos informadas que esses
documentos antigos sobre a instituição estavam jogados atrás do Ginásio de esporte.
CONCLUSÕES
Concluímos que a criação e a organização de acervos escolares ainda é um desafio nas
instituições escolares. O referido desafio ainda permanece devido a cultura escolar ter como
centralidade o ensino, este, historicamente é o principal meio e fator da educação. No entanto,
não é o único, a inserção das Tecnologias Digitais da Informação e Comunicação (TDIC) no
meio educacional vem ganhando campo nas escolas.
O ambiente escolar precisa de um redirecionamento para a organização dos
documentos e acervos, esse redirecionamento deveria acontecer a partir de várias ações na
cultura escolar e, com proposições de capacitação para todos(as) sobre relevância do acervo
escolar, sua preservação e seu uso, porque a escola e sua realidade são dinâmicas, e sofrem
inferências de novas realidades sociais, como as reformas educacionais, as mudanças na gestão
e novas regulamentações [...]. Nesse cenário, outros elementos são incorporados, por exemplo:
na Educação Profissional e Tecnológica, o princípio da indissociabilidade entre ensino,
pesquisa, extensão e inovação.
Em relação aos objetivos, podemos indicar que o diálogo com a comunidade escolar
sobre a relação do acervo escolar e suas possíveis contribuições no ensino e na pesquisa, na
perspectiva de reconstituição histórica da própria instituição e de seus atores, assim como a
preservação da memória é possível, desde que seja um projeto colaborativo que envolva todos
e todas, de forma a impulsionar transformações para o conhecimento nas diversas áreas na
instituição escolar.
Além destas contribuições dos acervos escolares para as instituições, os resultados da
pesquisa expostos no quadro 01, apontam contribuições relevantes, dentre as quais, repisamos
as que nos foram mais significativas, como: a recuperação e preservação da história, memórias,
de livros e outras produções físicas e, a que consideramos fundamental é o uso e a potência
dos acervos, ou seja; o acesso e sua importância na relação ensino e pesquisa. Também
identificamos nas produções o esforço em debater a temática, a partir de questões referentes às
contribuições, preservação e reconstituição de trajetórias subsidiadas pelo acervo escolar
apresentadas no quadro 01, uma forma de resistência e combater o esquecimento.
Enfim, o debate sobre a temática está aberto, muitas questões precisam ser discutidas e
atualizadas, considerando que a realidade é dinâmica, a escola precisa responder às novas
demandas do ensino no cenário atual, como o uso das TDIC’s que vem impactando o meio
educativo e, diante da dificuldade de se criar, preservar e manusear um acervo físico, num
futuro próximo a forma digital poderá ser uma das possibilidades de acesso aos acervos
escolares.
REFERÊNCIAS
Alessandro Sathler
Mestre em Gestão e Avaliação da Educação Pública – CAED/UFJF,
Doutorando, PROPED – UERJ,
https://orcid.org/0000-0002-6417-6094,
[email protected]
Monique Málla
Mestranda, PPGEB – UERJ,
https://orcid.org/0000-0001-6088-9604,
[email protected]
Resumo
O presente artigo busca historicizar os processos de estruturação, organização e oferta do curso
técnico em enfermagem no Sistema de Ensino do Estado do Rio de Janeiro – SIEERJ, na
década de 2010. Com base nos estudos de Le Goff (1990), Ciavatta (2019) e Castanha (2019)
sobre o papel da documentação no processo histórico, especialmente o espaço da legislação
como meio de narrativa da história educacional, buscou-se a partir dos marcos normativos e
regulamentares emanados, respectivamente, do Conselho Estadual de Educação – CEE/RJ e
da Secretaria de Estado de Educação – SEEDUC/RJ, construir a trajetória dos parâmetros para
formação dos técnicos em enfermagem no SIEERJ. A pesquisa, por sua natureza e objetivos,
constitui-se como bibliográfica-documental exploratória de caráter qualitativo, baseada em
fontes primárias (deliberações, pareceres, resoluções, atos administrativos e notícias de
jornais) e secundárias (bibliografia específica). As fontes primárias foram levantadas junto ao
Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro – DOERJ, a biblioteca do CEE/RJ, os arquivos da
SEEDUC/RJ e acervos profissionais e pessoais dos autores. A discussão tem como fatos
fundantes o Parecer CEE n°036/2012, que tratou a má formação dos técnicos de enfermagem
como fonte de “fazedores de cadáveres” (RIO DE JANEIRO, 2012, p. 3) e, ainda, a notícia da
aplicação de café com leite na veia de uma idosa por uma estagiária do curso técnico em
enfermagem no mesmo ano. A análise dos posicionamentos legais e administrativos a partir
destes fatos, demonstrou um gradual aperfeiçoamento nas políticas de formação destes
profissionais, com envolvimento de atores sociais diversos, como o caso do Conselho Regional
de Enfermagem do Estado do Rio de Janeiro – COREN/RJ e da Associação Brasileira de
Enfermagem – Seção Rio de Janeiro – ABEM/RJ que, participando de audiências públicas
organizadas pelo CEE/RJ auxiliam na construção do documento que deu origem a Deliberação
CEE n°378/2020, a qual definiiu as Diretrizes Curriculares Estaduais para o curso técnico em
enfermagem no âmbito do Estado do Rio de Janeiro. A motivação para a pesquisa se deu pelo
fato dos autores, durante o período de pesquisa, serem os responsáveis pela gestão dos
processos de autorização, certificação (escolas em funcionamento e extintas),
acompanhamento e avaliação das instiuições integrantes do SIEERJ. Atuando na Diretoria de
Inspeção Escolar, Certificação e Acervo – DICA, foi possível acompanhar todas as etapas
envolvidas, desde a emissão da autorização de funcionamento, até a expedição de documentos
após a extinção do curso, passando pelos processos de inspeção regulares, com a constatação
de fragilidades das mais diversas.
INTRODUÇÃO
O presente artigo trata da análise dos marcos normativos e regulamentares referentes
ao curso técnico em enfermagem, entre os anos de 2010 e 2020, no âmbito do Sistema de
Ensino do Estado do Rio de Janeiro - SIEERJ, buscando historicizar as formas de organização
pedagógica, autorização, oferta e certificação deste curso.
O desenvolvimento metodológico deste trabalho se organizou em dois momentos
distintos: a) levantamento das normas, regulamentos, atos administrativos e notícias referentes
e; b) pesquisa bibliográfica buscando alinhavar os pressupostos teóricos referentes a
historicização de processos educacionais a partir de fontes primárias, sendo adotados para tanto
os estudos de Le Goff (1990), Castanha (2019) e Ciavatta (2019).
O estudo tem como problema de pesquisa historicizar os processos de oferta do curso
técnico em enfermagem no SIEERJ durante a década de 2010, considerando os diferentes
aspectos técnico-pedagógico envolvidos. A motivação para tanto surge da soma de fatores que
convergem e se complementam, primeiro deles é o fato de neste período atuamos como
gestores da Diretoria de Inspeção Escolar, Certificação e Acervo do Estado do Rio de Janeiro
– DICA, onde estávamos responsáveis pelos processos de autorização de funcionamento, de
emissão de documentos de escolas abertas e extintas e, de acompanhamento e avaliação de
instituições de ensino em funcionamento; o segundo foram as recorrentes denúncias e
processos ligados a falta de qualidade dos cursos, em especial às práticas de estágio
supervisionado, dos quais destacamos a aplicação de café com leite na veia da idosa Palmerina
Pires Ribeiro no Posto de Atendimento Médico – PAM, no município de São João de Meriti
no ano de 2012, vindo esta senhora a falecer no mesmo dia; terceiro a evolução dos marcos
regulamentares e processos de acompanhamento e evolução que ocorreram neste período, os
quais culminaram no ano de 2020 com a Deliberação CEE n° 378/2020, que define as diretrizes
para oferta do curso técnico em enfermagem no SIEERJ.
A pesquisa desenvolvida foi de natureza qualitativa e objetivos exploratórios, buscando
através da investigação documental em fontes primárias e bibliográfica em fontes secundárias,
buscando reconstruir o trajeto da formação do técnico em enfermagem fluminense.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Le Goff (1990) em Passado/Presente recorre a Santo Agostinho e seu sistema das três
visões temporais “o presente das coisas passadas, o presente das coisas presentes, o presente
das coisas futuras” (AGOSTINHO apud LE GOFF, 1990, p. 205), para destacar que sempre
vivemos no presente, e “[...] este presente tem várias dimensões” (LE GOFF, 1990, p. 205),
urgindo que o olhar histórico não “[...] transporte igenuamente o presente para o passado e que
não procure por outras vias um trajeto linear que seria tão ilusório como o sentido contrário.
Há rupturas e descontinuidades inultrapassáveis quer num sentido quer noutro.” (LE GOFF,
1990, p. 18). Historicizar uma trajetória exige a compreensão desta como um movimento,
mesmo na ruptura e descontinuidade, não existe, pois, um documento isento, ingênuo:
O documento não é qualquer coisa que fica por conta do passado, é um produto da
sociedade que o fabricou segundo as relações de forças que aí detinham o poder. Só
a análise do documento enquanto monumento permite à memória coletiva recuperá-
lo e ao historiador usá-lo cientificamente, isto é, com pleno conhecimento de causa.
(LE GOFF, 1990, p. 536).
Sobre a compreensão da história, Ciavatta (2019) destaca que esta é “[...] uma forma
elaborada de memória que vai além dos limites da vida individual. O passado é rememorado
em uma unidade de tempo que se abre para o futuro e permite aos sujeitos sociais uma
interpretação das mudanças” (CIAVATTA, 2019, p. 82). Historicizar a forma de existência de
uma modalidade de ensino, representa nas palavras de Jörn Rüsen (2009) uma oportunidade
para os sujeitos ajustarem “[...] os movimentos temporais de suas próprias vidas.” (RÜSEN,
apud CIAVATTA, 2019, p. 82), permitindo assim a revisão de modelos e adequação de
práticas ao contexto social contemporâneo.
METODOLOGIA
Tratou-se de uma pesquisa bibliográfica-documental exploratória de caráter
qualitativo, que buscou identificar em fontes primárias e secundárias a trajetória da oferta do
curso técnico em enfermagem no SIEERJ na década de 2010.
O recorte temporal justifica-se pelo fato de no ano de 2010, por meio da Deliberação
CEE n° 316/2010, o CEE/RJ ter revogado o conjunto normativo referente a organização e
oferta de Educação Profissional Técnica de Nível Médio presencial, limitando sua
regulamentação aos processos de autorização de funcionamento de Educação Básica, o que
representou uma descontinuidade nas políticas educacionais específica para a modalidade.
Para realização do trabalho foram levantados documentos internos, legislações,
processos administrativos e convênios do CEE/RJ e da SEEDUC/RJ que tratam da oferta do
referido curso, em especial seus atos regulamentares. Agregam-se ainda as fontes utilizadas
notícias veiculadas na imprensa local, bem como fontes secundárias que embasam a discussão.
Os dados foram coletados na imprensa oficial, na biblioteca do CEE/RJ, além de
arquivos profissionais e pessoais dos autores, permitindo a construção de uma linha do tempo
a partir dos marcos normativos.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Em 27 de março de 2012, por meio do Parecer CEE n° 036/2012, o Conselho Estadual
de Educação do Rio de Janeiro – CEE/RJ, ao encerrar de jure uma escola que ofertava o curso
técnico em enfermagem de maneira irregular, sem observar as condições mínimas de
qualidade, destacando que “[...] a má formação dos futuros profissionais, poderá refletir em
prejuízos danosos para eles e para a sociedade em geral, pois estaremos colocando no mercado
futuros ‘fazedores de cadáveres’” (RIO DE JANEIRO, 2012, p. 3).
Em 15 de outubro do mesmo ano, pouco mais de 06 meses depois, o portal de notícias
G1 trazia a seguinte notícia “Idosa morre após receber café com leite na veia e família acusa
estagiária” (SOARES, 2012, sp), onde era narrado o falecimento da senhora Palmerina Pires
Ribeiro, de 80 anos em um posto médico (PAM) do município de São João de Meriti na
Baixada Fluminense. Em entrevista sobre o caso o Delegado responsável destacou que a
estagiária afirmou que “[...] recebeu uma ordem de uma técnica de enfermagem do PAM, que
teria dito o seguinte: ‘Dá o leite para a paciente na sonda. Pega uma seringa naquele armário e
administra o leite’.”, o delegado ainda destacou que a estagiária havia iniciado as atividades
no PAM 03 dias antes.
Historicamente estes não são fatos isolados no contexto do Sistema de Ensino do
Estado do Rio de Janeiro – SISEERJ durante a década de 2010, tendo se repetido em diferentes
momentos, como narrado em Pareceres do CEE/RJ, audiências públicas, notícias e inquéritos
policiais.
Do ponto de vista normativo, o SIEERJ começa a segunda década do século XXI com
a vigência da Deliberação CEE n° 295/2005 e encerra com o início de um marco na educação
pública fluminense quanto a oferta do curso técnico em enfermagem, a publicação da
Deliberação CEE n° 378/2020. Considerando os atos normativos, regulamentares e
administrativos que tratam do objeto de estudo, temos a seguinte linha de evolução:
Figura 1 – Normatização do curso técnico em enfermagem
Art. 19. Para a oferta da Educação Profissional Técnica de Nível Médio, o material
didático e as instalações físicas devem ser compatíveis com o curso que se pretende
ministrar, observando-se acervo atualizado de publicações técnicas e livros,
laboratórios e equipamentos de informática, com linha de acesso à rede internacional
de informações, em espaço próprio. (RIO DE JANEIRO, 2020, p. 03)
A aludida norma apesar de seus objetivos, era silente quanto ao estágio profissional
supervisionado, o qual sequer era previsto pelo marco normativo.
Em 03 de fevereiro de 2014 é publicado no Diário Oficial do Estado do Rio de Janeiro
– DOERJ, a Deliberação CEE n° 337/2013 que, composta por 11 artigos preocupou-se em
tipificar os diferentes tipos de estágio, organizar aspectos administrativos para sua oferta e
estabelecer carga horária máxima obrigatória. Cumpre destacar que tal normativa estendia-se
a toda educação básica, incluindo a educação especial, de jovens e adultos e profissional
técnica de nível médio, não tendo foco específico nos processos de profissionalização.
Do ponto de vista dos controles pedagógico e de qualidade de ensino, a Deliberação
CEE n° 337/2013 resgata a figura do orientador e supervisor de estágio:
Art. 10 – A oferta de estágio implica que a instituição de ensino deva contar com
profissionais habilitados, e qualificados conforme a legislação em vigor para
docência do curso, responsáveis pela orientação e supervisão dos alunos estagiários,
com carga horária destinada para esse fim, compatível com o número de alunos
estagiários, não poderá ultrapassar de 20(vinte) por orientador. Parágrafo Único –
Compete a estes profissionais a constante orientação, discussão e avaliação, de forma
a promover a aprendizagem de conhecimentos inter e multidisciplinares nas
atividades realizadas pelos alunos estagiários, além do controle, registro e articulação
com as instituições nas quais os estágios se realizarão. (RIO DE JANEIRO, 2013, p.
3)
Art. 1° [...] § 5º - Fica vedada a realização de avaliação, nos termos desta Resolução,
para habilitações do Eixo Tecnológico Ambiente e Saúde que compreendam ações e
intervenções no processo saúde-doença desenvolvidas diretamente junto ao
cliente/paciente, em especial as habilitações de: a) Técnico em Cuidados de Idosos;
b) Técnico em Enfermagem; c) Técnico em Estética; d) Técnico em Hemoterapia; e)
Técnico em Imagem Pessoal; f) Técnico em Imobilizações Ortopédicas; g) Técnico
em Massoterapia; h) Técnico em Necropsia; i) Técnico em Nutrição e Dietética; j)
Técnico em Óptica; k) Técnico em Órteses e Próteses; l) Técnico em Podologia; m)
Técnico em Prótese Dentária; n) Técnico em Radiologia; o) Técnico em Reabilitação
de Dependentes Químicos; p) Técnico em Saúde Bucal. (RIO DE JANEIRO, 2014,
p. 12)
I Objetivo e Finalidade
Disposições
I
Preliminares
II Princípios Norteadores
I Formas de oferta
-----
Organização e II Do Projeto Pedagógico
II
Planejamento
Organização Curricular e Bases
III
Tecnológicas
IV Das Competências e Habilidades
I Da carga horária
I Da Avaliação
Da Avaliação, Aproveitamento e
VI II Do Aproveitamento
Certificação
III Da Certificação
Do Perfil Profissional de
VIII
Conclusão -----
Das disposições
III finais e -----
transitórias
CONCLUSÕES
A trajetória da Educação Profissional Técnica de Nível Médio, no contexto do SIEERJ,
iniciou na década de 2010 com a mudança no modelo de normatização desta modalidade. O
conjunto de diretrizes gerais de organização pedagógico-administrativa dava lugar a normas
destinadas aos ritos de autorização de funcionamento. Cisão esta que só seria reparada ao final
da década, através da ação conjunta de entes do Poder Público (CEE/RJ e SEEDUC/RJ) com
atos sociais (COREN/RJ e ABEN/RJ).
O conceito de presente de Le Goff (199) como movimento perene em constante diálogo
do que é, com o que foi e, o por vir, sinaliza para a importância da leitura crítica dos fatos,
evitando posturas ingênuas que desconsiderem a complexidade das relações. Esta visão, em
certa medida, justifica e alicerça a importância de conhecimento e análise da documentação,
dos documentos-monumentos, de modo a permitir o que Ciavatta (2019) classificou como
interpretação das mudanças e os decorrentes ajustes temporais das próprias vidas.
Como posto pelo CEE/RJ na Deliberação CEE n° 378/2020, foi necessário construir
coletivamente uma “história de protagonismo profissional” (RIO DE JANEIRO, 2020, p.17)
para romper com o silenciamento político de posturas generalistas do Poder Público, que em
maior ou menor grau, levaram a repetidas tragédias anunciadas, que poderiam ter sido evitadas
por meio de um processo integrado de formação profissional.
Conclui-se, assim, que a ausência de parâmetros de oferta específicos, construídos em
consonância com as demandas da área, colaboraram para que a visão fatalista do CEE/RJ
referente a eventuais “fazedores de cadáveres” (RIO DE JANEIRO, 2012, p.3), ganhou ares
por vezes premonitórios, alardeando para sociedade que educação e saúde, ao tratarem dos
processos de formação profissional, não podem andar em separado.
A construção de normativas, regulamentos e os atos administrativos decorrentes
necessitam, pela dinâmica própria da enfermagem, unir educadores e enfermeiros na
elaboração, gestão e avaliação do processo formativo, de forma integrada, evitando modelos
estáticos, fadados a se perderem entre pressupostos generalistas e ditames burocráticos sem
justificativa.
REFERÊNCIAS
Resumo
Resumo
O presente trabalho ouviu os sujeitos envolvidos com a implementação da disciplina de
sociologia em um Instituto Federal de Ensino. O recorte temporal contempla a implementação
da disciplina na instituição e está conectada com outra pesquisa que está sendo desenvolvida
em nível de mestrado e busca através da escuta mapear como a sociologia-disciplina foi
inserida nos componentes curriculares do atual Instituto Federal Sul-Rio-Grandense - Campus
Pelotas. A inquietação para essas questões surgiu considerando a ambiguidade legal
estabelecida pela LDBEN de 1996 (Art. 36) que orienta os conhecimentos de Sociologia e
Filosofia no currículo educacional brasileiro, não deixando claro a identidade de disciplina à
essas abordagens, abordando o “conhecimentos de Filosofia e de Sociologia necessários ao
exercício da cidadania”. Buscando compreender esse processo e como a sociologia-disciplina
se consolidou em uma Instituição especifica, foram entrevistados 5 sujeitos que participaram
da implementação desta na grade curricular, consegue-se identificar através da escuta que a
disciplina foi inserida antes da LDBEN, aparecendo no currículo da escola ainda em 1993.
As entrevistas foram realizadas, considerando um roteiro pré-estabelecido que pontuou a
inquietude dos pesquisadores. As entrevistas foram gravadas para uma possível análise
posterior, Alberti (2008, p. 156) salienta que essa estratégia se constitui ainda no século XX
após a invenção do gravador de fita e sua utilização como recurso metodológico no campo da
pesquisa, “o trabalho com a História oral se beneficia de ferramentas teóricas de diferentes
disciplinas das Ciências Humanas [...] para ampliar o conhecimento sobre experiências e
práticas desenvolvidas”. No momento que se utiliza das fontes orais como estratégia de
pesquisa conseguimos estabelecer novas conexões e muitas vezes podemos aprofundar
questões que não são pautadas, no que tange o ensino de sociologia, destaca-se que o Campus
Pelotas tenha implementado a disciplina de sociologia antes da LDBEN de 1996 o que nos
indica a presença de sujeitos que defendem esse componente curricular na instituição.
INTRODUÇÃO
Esta pesquisa tem por objetivo identificar representações acerca da função social da
educação presentes no periódico A Escola (1925). Publicada no município de Mossoró, sob a
direção de Eulina Coelho e corpo redacional de alunas e professores do “Curso de Commercio
Feminino”, constituiu-se como uma das iniciativas conectadas com a Liga Operária, citada em
O Mossoroense como uma sociedade com fins beneficentes e educativos, fundada em dia 10
de Abril de 1921.
Consideramos relevante destacar que se trata de uma investigação ainda em fase inicial
e que tem perscrutado ideias, concepções e visões de educação a partir do estudo da referida
revista, dos textos que nela são abrigados, bem como temos buscado conhecer aqueles e
aquelas que nela escreveram. Entendemos que as representações, construídas coletivamente,
possuem seus expoentes que “marcam de forma visível e perpetuada a existência do grupo, da
classe ou da comunidade”. (CHARTIER, 1990, p. 23).
Diante dos limites estabelecidos pelo escopo da escrita de um artigo, resolvemos tratar
de uma das publicações que constituiu o n.º 8 da edição de 1925. O texto é a transcrição de
uma conferência pronunciada pelo dr. Manoel Onofre de Andrade, orador oficial na solenidade
de comemoração pela fundação das escolas ligadas à Liga Operária.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
METODOLOGIA
Por outro lado, se as fontes históricas são sempre produções humanas não se podendo
falar em fontes naturais, é preciso distinguir entre as fontes que se constituem de
modo espontâneo, comportando-se como se fossem naturais e aquelas que
produzimos intencionalmente. E nessa última categoria cabe, ainda, diferenciar entre
aquelas que disponibilizamos intencionalmente tendo em vista possíveis estudos
futuros, independentemente de nossos interesses específicos de pesquisa e aquelas
que, não nos sendo dadas previamente, nós próprios, enquanto investigadores, as
instituímos, as criamos, por exigência do objeto que estamos estudando. (SAVIANI,
2006, p. 30).
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O periódico A Escola possui em toda a sua construção conexões com o ideário religioso
católico, desde a sua capa, com uma poesia que faz alusão à morte de Jesus Cristo, até textos
que versam sobre a missa dos detentos, descrita por meio do texto “A lápis" com autoria
remetida à L. Hollanda. O texto, assim como os demais escritos da revista expressa a ideia de
remissão por meio do sacramento da eucaristia, àqueles que receberam a Jesus “[...]
sacramentado em seus corações [...] o consolador dos desgraçados, aquelle que não repelle o
ingrato mas o recebe se arrependido, em seus braços carinhosos como fez com o bom ladrão
no dia de sua morte.” (A ESCOLA, 1925, p. 03).
Além das características inicialmente citadas, é possível observar aspectos materiais e
informações quanto à cidade de produção, vinculação com o Curso Comercial, direção,
organização redacional e custo financeiro de reprodução do impresso e tipografia responsável
pela produção do referido material, conforme podemos visualizar em sua capa abaixo
reproduzida:
Educai, pois, operarios, os vossos queridos filhos. [...] A instrucção veio assim a
serviço do operario. [...] O notavel moralista britannico poderia ir mais longe: poderia
ter afirmado que os grandes homens têm sahido principalmente das modestas classes
trabalhadoras. (A ESCOLA, 1925, p. 12-13).
Nesse sentido a escola era considerada o meio pelo qual os sujeitos poderiam ter acesso
aos conhecimentos para mudança de suas condições sociais de vida “É ainda na escola que o
operariozinho, amanhã militando na sua arte, ao lado dos seus irmãos humildes, saberá ir à
praça publica, ou recorrer a um orgam da classe para reivindicar os seus mais sagrados direitos.
(A ESCOLA, 1925, p. 13). Na escola, os operários e seus filhos eram instruídos a reivindicar,
adquiriam criticidade para lutar por seus direitos, era nesse espaço onde eles conheciam seus
direitos. Sobre este aspecto, Souza (1998, p. 15) enfatiza a força do ideário republicano
presente no projeto de educação popular, afirmando que “os republicanos mitificaram o poder
da educação a tal ponto que depositaram nela não apenas a esperança de consolidação do novo
regime, mas a regeneração da Nação.
No discurso analisado percebemos, também, a ideia de consciência de classe
trabalhadora frente aos enfrentamentos necessários para a reivindicação de direitos. Nos
entornos dessa discussão, Bonin (2008, p. 92) sinaliza que a cidadania abarca desde a simples
definição de garantia dos direitos civis, à obediência em acordo com as leis nacionalmente
estabelecidas. Segundo o autor, é um conceito que pode confundir as pessoas “[...] não só pela
sua complexidade, como também em relação ao seu uso, principalmente em sociedades onde
as necessidades básicas, como o alimento, nem sempre são satisfeitas”.
A crença na eficiência do ensino na formação dos cidadãos repousa sobre a ideia de
que a origem de todos os males é a ignorância. A consciência dos direitos e deveres, seria,
portanto, atribuição destinada à formação em âmbito escolar. Desta maneira, seriam assim
forjadas as índoles dos indivíduos que encontrariam na escola uma extensão do lar ou, como
menciona o discurso do dr. Manoel Onofre de Andrade, um segundo lar.
É que elas encontraram um segundo lar. O lar, com concebemos todos, é a escola
dalma. Pois bem, meus senhores: seja então a escola o lar do espirito. O cidadão
futuro deve fazer a sua vida preparatória, por esta fórma, numa recta traçada do lar,
fórja do caracter, a escola, cadinho do espírito. (A ESCOLA, 1925, p. 12).
Era ainda o prorpio Guerra Junqueiro quem numa expressão forte, viva,
impressionista, sentenciava: “Quereis fechar as cadeias? Abri escolas”[...] A escola,
com effeito, começa por dissipar o amor ao futil que revelam as creanças. A escola é
assim o remedio social contra a vagabundagem, que é tirocinio preliminar do crime.
E o criminoso, regra geral, foi aquelle que vivia nas ruas por se lhe não impor o
interior de uma simples escola de letras elemnetares. Seu papel é, pois, repressor da
criminalidade. A cadeira é o castigo, mas a escola é o conselho, Aquella pretende
corrigir; esta, porem, previne, e, como sabeis, “mais vale prevenir do que remediar”.
(A ESCOLA, 1925, p. 12).
Com esta compreensão, a educação como instância social que está voltada para a
formação da personalidade dos indivíduos, para o desenvolvimento de suas
habilidades e para a veiculação dos valores éticos necessários à convivência social,
nada mais tem que fazer do que se estabelecer como redentora da sociedade,
integrando harmonicamente os indivíduos no todo social já existente. (LUCKESI,
1994, p. 38)
O futuro da nação seria, portanto, construído pelas mãos dos trabalhadores, onde estes
por meio da instrução obteriam resultados com esforços não apenas correspondentes ao
trabalho braçal, comumente destinado à população de camadas populares. Aos filhos dos
operários, por meio da educação, era possibilitado vislumbrar melhores condições de vida e
construir com base na formação recebida, uma trajetória digna.
Educai, pois, operarios, os vossos queridos filhos. [...] A instrucção veio assim a
serviço do operario. [...] O notavel moralista britannico poderia ir mais longe: poderia
ter afirmado que os grandes homens têm sahido principalmente das modestas classes
trabalhadoras. (A ESCOLA, 1925, p. 12-13).
Com esse estudo pudemos interpretar representações sobre a função social da educação
por meio do periódico A Escola (1925), refletindo teoricamente sobre as categorias de análise
construídas para subsidiá-lo. Percebemos visões de que entrelaçam concepções redentoras, de
formação cívico-patriótica condizentes com o ideário republicano, além de identificarmos
expressões referentes às relações entre educação e trabalho, bem como a instrução da infância
com vistas à formação cidadã consciente da justa defesa e conquista de direitos.
O discurso é permeado por visões de uma instrução moralizadora com finalidade de
preparo para a construção de um futuro diferente do presente que ora era vivenciado por aquele
grupo reunido na ocasião comemorativa. Com o horizonte de mobilidade social e de presença
dos filhos da classe operária na construção de uma realidade mais justa, era cimentada a certeza
de que as mazelas que conduzem à criminalidade seriam aniquiladas com a abertura de escolas.
REFERÊNCIAS
AMORIM, Sara Raphaela Machado de. Viagem como missão: intercâmbio pedagógico do
educador Nestor dos Santos Lima (1913-1923). 2017. 202 f. Tese (Doutorado em Educação) -
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2017.
BONIN, Luiz Fernando Rolim . Educação, consciência e cidadania. In: SILVEIRA, Andréa
F., et al., org. Cidadania e participação social [online]. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de
Pesquisas Sociais, 2008. pp. 92-104.
COSTA, Célio Juvenal. Fontes jesuíticas e a educação brasileira. In: COSTA, Célio Juvenal;
MELO, Joaquim José Pereira; HERMENEGILDO, Luiz. Fontes e métodos em história da
educação. Dourados: Ed. UFGD, 2010.
PIRES, Raquel Lopes; AMORIM, Sara Raphaela Machado de. História digital e o ofício do
historiador: modos de ser e fazer no repositório da revista pour l’ère nouvelle. Holos, [s. l.], v.
8, p. 1–16, 2021. Acesso em: 01 jul. 2022.
SAVIANI, Dermeval. Breves considerações sobre fontes para a história da educação. Revista
HISTEDBR On-line, Campinas, n. especial, p. 28-35, ago. 2006.
SOUZA, Rosa Fátima de. Templos de civilização: um estudo sobre a implantação dos grupos
escolares no estado de São Paulo (1890-1910). São Paulo: Editora UNESP, 1998.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Na fundamentação teórica, os autores devem fazer uma exposição e uma discussão das
teorias utilizadas para fundamentar o estudo, apresentando-as e relacionando-as com a dúvida
investigada. A fundamentação apresentada auxiliará na análise dos dados e discussão dos
resultados.
A História Cultural que ganhou espaço no fim do século XX e tornou-se mais precisa
e evidente (BARROS, 2004), reconstruiu uma História da Cultura que ampliava a noção de
cultura não se limitando apenas a artes e literatura, trazendo um aumento do uso de fontes, do
surgimento de objetos de estudo, das possibilidades de tratamento, nos métodos e interfaces
com outras dimensões historiográficas. Nessa concepção, Vainfas (2011) considera que essa
Nova História Cultural transforma em objeto de estudo as diversas formas de manifestações
culturais e não apenas as “oficiais”, como as artes, a literatura, etc.
Em meio as variantes da Nova História Cultural seguiremos a linha de pensamento
historiográfico de Roger Chartier, compreendendo a cultura como uma produção de um
processo entre duas categorias: práticas (modo como é feito) e representações (modo como é
visto).
Com a conexão entre a Nova História Cultural e a História da Educação, na França,
surge um novo campo específico a História das Disciplinas Escolares, tendo Anne-Marie,
André Chervel e Dominique Julia como pesquisadores notáveis. Esse artigo fundamenta-se no
campo da História das Disciplinas Escolares, pertencente à História da Educação que tem como
base a seguinte compreensão:
desde que se reconheça que uma disciplina escolar comporta não
somente as práticas docentes da aula, mas também as grandes
finalidades que presidiram sua constituição e o fenômeno de
aculturação de massa que ela determina, então a história das disciplinas
escolares pode desempenhar um papel importante não somente na
história da educação, mas na história cultural (CHERVEL, 1990,
p.184)
Apesar da ideia que perdurou por muito tempo de que o papel da escola na sociedade
era o de educar, foi pouco questionada a forma como ela realizava essa função. Dentro da
História das Disciplinas Escolares assumimos o pressuposto de que a escola não é um espaço
de reprodução de saberes ou de modificação de conhecimentos para facilitar a compreensão.
Pelo contrário, a escola, define uma cultura escolar, é um espaço de criação e as disciplinas
escolares são alguns dos objetos criados nesse espaço.
Entendemos como cultura escolar
como um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e
condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a
transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses
comportamentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que
podem variar segundo as épocas (finalidades religiosas, sociopolíticas
ou simplesmente de socialização. (JULIA, 2001, p. 10).
Portanto, a cultura escolar abrange as práticas de ensino escolares. Assim,
compreendemos Silva (2021, p. 42) ao afirmar que “são em tais práticas que temos a
transmissão do conhecimento e a incorporação dos comportamentos que se quer ensinar, bem
como, se observa os discursos pedagógicos de cada período”. Conforme Chervel (1990, p.
184), entendemos que “porque são criações espontâneas e originais do sistema escolar é que
as disciplinas merecem um interesse todo particular”.
Dessa forma, lançamos nosso olhar ao Desenho na Educação Profissional potiguar
partindo das práticas escolares que têm sua existência reconhecida na instituição e que podem
ser confirmadas a partir das fontes que tivemos acesso. Devido a escassez de fontes diretas, se
faz necessário uma análise dessas práticas partindo da interpretação das escolhas docentes,
como livro didático e outros materiais escolares. A cultura material escolar na pesquisa sobre
a cultura escolar delimita-se ao estudo dos objetos e instrumentos utilizados nas atividades de
ensino, bem como as estruturas de organização e funcionamento da instituição como mobiliário
e arquitetura.
Logo, o alvo de nossa detalhada observação analítica foram os conteúdos presentes na
disciplina Desenho no período temporal da Escola de Aprendizes Artífices do Rio Grande do
Norte, bem como a evolução do material bibliográfico selecionado pela instituição, nas suas
mais variadas versões e objetivos estabelecidos pelos exercícios propostos e resolvidos. O
estudo desses conteúdos beneficiou-se com a análise de materiais didáticos, com ênfase no
manual escolar, dos quais a realização da análise e descrição foi essencial para compreender
as modificações ocorridas na história das disciplinas (CHERVEL, 1990, p. 203).
METODOLOGIA
A produção deste artigo tem início a partir da seguinte pergunta histórica: “Partindo
das fontes materiais identificadas e disponíveis, quais as Práticas de Ensino de Desenho
existentes na Escola de Aprendizes Artífices do Rio Grande do Norte entre 1909 e 1926 e seus
significados para a construção de uma representação sobre o Desenho na Educação
Profissional da Primeira República?”
No decorrer do trabalho a intenção é apoiar-se metodologicamente do paradigma
indiciário de Carlo Ginzburg (2007). O paradigma indiciário é o marco conceitual e
procedimental para que seja possível analisar a cultura material escolar, como é destacado por
Abreu Júnior (2005). Para Ginzburg (2007, p. 152) a análise de um documento, que em nosso
caso será o manual didático, deve qualificar-se pela aptidão em reconstruir uma realidade
complexa apoiando-se em dados que aparentam ser indiferentes.
Entendemos, conforme Ciavatta (2015, p. 47), que “não há procedimentos de pesquisa
que não tenham conteúdos teóricos de uma visão da realidade, uma visão de mundo e uma
concepção de ser humano”, dessa forma, o roteiro teórico-prático da pesquisa foi elaborado de
acordo com o que foi apresentado pela autora, compreendendo contextualização,
historicização, comparação e conceituação (CIAVATTA, 2015, p. 47 -48). Baseando-se nesses
conceitos, tratamos nas noções-conceitos da obra de Chartier e das categorias apresentadas nos
estudos de Chervel sobre a História das Disciplinas Escolares, apresentadas anteriormente.
Sendo assim, por meio do paradigma indiciário seremos guiados por nossas fontes,
dando destaque ao manual didático utilizado na Escola de Aprendizes Artífices do Rio Grande
do Norte entre 1909 e 1926, que é reconhecido por Silva (2021) como a obra “Noções de
Geometria Prática” de Olavo Freire (FREIRE, 1910). Como nos é apresentado por Leme da
Silva (2018 p. 367; grifo nosso) em sua afirmação de que “o manual inovador de Freire,
primeiro a apresentar grande quantidade de problemas desconstruções geométricas com todos
os passos, seria a referência para o ensino de saberes geométricos no período de ampliação
do modelo dos grupos escolares.”, tal obra torna-se referência na qualidade de representante
de uma ideia e cultura de ensino de Desenho e Geometria de uma temporalidade da história da
educação matemática brasileira.
Partindo do estudo manualístico da obra de Freire (1910), analisaremos as propostas
para o uso dos objetos materiais identificados por Silva (2021) como instrumentos de ensino
de Desenho e das oficinas utilizados na EAA/RN, compreenderemos como essas propostas
para as práticas de ensino da disciplina podem implicar na formação dos artífices e no interior
do contexto sociohistórico e filosófico da Educação Matemática e da Educação Profissional
durante a Primeira República da historiografia brasileira.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Silva (2021), em sua tese de doutorado, identificou através o inventário da Escola de
Aprendizes Artífices do Rio Grande do Norte os materiais utilizados no curso de Desenho da
instituição. Dispomos os materiais encontrados no quadro a seguir.
Figura 2: Problema com mais de uma solução que utiliza instrumentos de medição
É interessante destacar também que além dessas questões voltadas para a parte mais
teórica e conceitual do conteúdo, há também algumas questões voltadas para a prática, como
é possível observar no exemplo dado. Esses exercícios que são voltados para a prática, no caso
do conteúdo de triângulos, observa-se questões para o desenho do triângulo em papel e até
mesmo o recorte de triângulos também em papel ou cartão, como pede Freire (1910, p. 94,
grifo nosso) “Corta em papel ou cartão um triângulo isósceles:” essa questão estende-se
também ao triângulo retângulo e equilátero.
Aqui, convém destacar que vemos a razão da historiografia da Educação Matemática
brasileira compreender a obra de Freire como um marco de rompimento da associação
tradicional entre Desenho e Geometria (LEME DA SILVA, 2018), sendo comumente tomado
aquele como prática deste. Freire rompe essa associação tradicional iniciando transitoriamente
uma representação que alia o Desenho aos Trabalhos Manuais; tal compreensão será
solidificada na educação profissional brasileira após 1926 com a atuação do Serviço de
Remodelação do Ensino Técnico Profissional, a emissão governamental da Portaria de
Consolidação dos Dispositivos concernentes às Escolas de Aprendizes Artífices e a produção
de manuais didáticos já com uma uniformização curricular e metodológica supervisionada
formalmente pela mesma comissão criadora destes manuais (SILVA, 2021).
CONCLUSÕES
O estudo da História das Disciplinas Escolares, por ser um campo de pesquisa recente,
implica na necessidade de desenvolver investigações e análises como a que foi realizada neste
artigo. Essas pesquisas são necessárias para entendermos, na área da Educação, como atuavam
os que seguiram a carreira de professor em suas respectivas épocas.
O estudo da cultura material escolar utilizado neste artigo contribuiu para o
entendimento de como se dava o ensino de Desenho na época em que era utilizado, bem como
a sua importância para o ensino profissional no Brasil, considerando que o país passava por
diversas mudanças, principalmente políticas, durante a Primeira República.
Através da revisão bibliográfica pudemos interpretar os objetos materiais existentes no
inventário da Escola de Aprendizes Artífices do Rio Grande do Norte e compreender que tais
objetos evidenciam a disputa de representações existentes acerca de como deveria ser a
inserção do método intuitivo no ensino de Desenho na Educação Profissional, bem como a
própria representação da disciplina construída no seio da cultura escolar institucional, um
Desenho que preparava o aprendiz às práticas das oficinas e se constituía como um saber para
a alfabetização gráfica e linguagem de comunicação entre o artífice e os demandantes de seus
trabalhos.
Por fim, a análise da 12º edição do manual didático Noções de Geometria Prática
(FREIRE, 1910) foi necessária para uma construção do conhecimento acerca do ensino de
Desenho em uma época repleta de mudanças, onde Freire buscava a construção de um texto
que alinhava o conhecimento teórico com a prática e com a vivência diária, criando assim, um
material de fácil compreensão que pudesse ser utilizado para auxiliar no aprendizado dos
jovens brasileiros.
O trabalho apresentado constitui-se nas primeiras conclusões de um projeto de
iniciação científica da instituição dos autores e, a partir deles, vem surgindo outras indagações
para pesquisas futuras que, enquanto pesquisadores, desejamos aprofundar em trabalhos
subsequentes a esse ora apresentado.
REFERÊNCIAS
Resumo
Rui Barbosa de Oliveira (1849-1923) foi um advogado, jornalista, jurista, diplomata, ensaísta,
orador e político brasileiro que apresentava um vasto conhecimento das mais variadas áreas,
sendo uma delas a educação. Por ser responsável pela produção de escritos que revelam os
avanços nas discussões educacionais no Brasil e no mundo nas últimas décadas oitocentistas,
é que o presente artigo se propõe, a partir dos escritos barbosianos, analisar como as influências
internacionais contribuíram na fundamentação do ensino de Desenho no Brasil. O propósito
da nossa pesquisa é identificar quais foram essas influências e como contribuíram para a
construção do currículo de Desenho. Elencamos como fontes para nossa pesquisa a Reforma
do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da Instrução Pública (1883), de
autoria do deputado baiano Rui Barbosa; e o seu discurso, O Desenho e a Arte Industrial,
proferido na inauguração do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de Janeiro, em 23 de novembro
de 1882. Fundamentamo-nos a partir da compreensão de André Chervel (1990) sobre a
História das Disciplinas Escolares, destacando o que o autor compreende como gênese e
função das disciplinas, como também na Nova História Cultural, que ganha espaço no final do
século XX e amplia a noção de cultura para além das artes e literaturas, abrindo a pesquisa
histórica para um novo o uso das fontes, dos objetos de estudos, nas possibilidades de
tratamento, nos métodos e na interface de outras dimensões historiográficas. A Nova História
Cultural tem como expoente o historiador francês Roger Chartier, que nos apresenta as noções
de representação (modo de ver), prática (modo de fazer), apropriação e circulação de ideias. A
metodologia utilizada segue os procedimentos do método histórico segundo Jörh Rüsen
(2015): a heurística, que determina a pergunta histórica guia da nossa pesquisa; a crítica, que
consiste na análise das qualidades das fontes com o intuito de responder o questionamento
levantado; e a interpretação, responsável por conectar os fatos obtidos pela crítica. Mediante
a aplicação da metodologia, da relação estabelecida entre a análise das fontes e a
fundamentação teórica entendemos que o parecer de Rui Barbosa constitui-se de uma rica e
diversificada fundamentação que é resultado da apropriação das ideias educacionais
internacionais e nacionais, catalisadas e sintetizadas por ele, objetivando a constituição do
currículo de Desenho brasileiro, mediante aos conteúdos e métodos internacionais,
justificando-se a partir da fundamental importância desse ensino para a formação do
trabalhador e enriquecimento da indústria e do país.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Nossa investigação alicerça-se na História das Disciplinas Escolares na vertente de
André Chervel que compreende que
desde que se reconheça que uma disciplina escolar comporta não somente as
práticas docentes da aula, mas também as grandes finalidades que presidiram
sua constituição e o fenômeno de aculturação de massa que ela determina,
então a história das disciplinas escolares pode desempenhar um papel
importante não somente na história da educação, mas na história cultural”
(CHERVEL, 1990, p. 184).
Com isso, entendemos que ao fazer uma análise de como as influências internacionais
tornam-se referenciais para o ensino de desenho no Brasil inserimo-nos diretamente na função
dela dentro do contexto escolar da época. Portanto, o estudo historiográfico será capaz de
construir um entendimento da gênese e da função da disciplina. Conforme Silva (2021,), a
gênese enquanto categoria nos leva a analisar a constituição e o processo de produção da
disciplina a se inserir num currículo. A função relaciona-se diretamente ao objetivo da
disciplina. Ambos os elementos são categorias de análise que são evidenciadas nas obras
analisadas.
Tais entendimentos construídos se inserem na Nova História Cultural, que tem como
um dos principais expoentes Roger Chartier, que em suas obras nos apresenta as noções de
representação, práticas, apropriação e circulação das ideias.
No final do século XX, onde a História Cultural ganha espaço no campo historiográfico,
ocorre a reelaboração de uma História da Cultura que amplia a noção de cultura para além das
artes e das literaturas. Dessa forma, há uma ampliação no uso de fontes, no surgimento de
novos objetos de estudos, nas possibilidades de tratamento, nos métodos e na interface de
outras dimensões historiográficas. Com isso seus interesses são voltados aos processos de
produção de cultura, pelos sujeitos que produzem e recebem, tornando-se múltipla, plural e
que favorece diferentes aproximações, sendo uma delas a que nos interessa, a História da
Educação.
Conforme o pensamento de Chartier, a cultura é produzida dado um processo entre duas
categorias: práticas (modo de fazer) e representações (modo de ver). Ao tratar de História
Cultural o autor afirma que “tem por principal objeto identificar o modo como em diferentes
lugares e momentos uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler”
(CHARTIER, 1990, p. 16-17). Logo, o trabalho historiográfico compõe-se de
tentativas feitas para decifrar diferentemente as sociedades, penetrando o
dédalo das relações e das tensões que as constituem a partir de um ponto de
entrada particular (um acontecimento, obscuro ou maior, o relato de uma
vida, uma rede de práticas específicas) e considerando não há prática ou
estrutura que não seja produzida pelas representações, contraditórias e
afrontadas, pelas quais os indivíduos e os grupos dão sentido ao seu mundo
(CHARTIER, 2002, p. 66).
Portanto, corroborando com Silva (2021, p. 36), entendemos que “o mundo é dado a
ler como representação através das práticas. Estas se estabelecem diante das apropriações,
enquanto usos e interpretações, das leituras das representações do mundo inscritas nas próprias
práticas que as produzem”. Dessa forma, os documentos com o qual analisaremos são vistos
como resultados de apropriações das representações existentes e que circulavam no fim dos
anos oitocentistas.
É de suma importância destacar que as apropriações objetivam a construção de uma
história social baseada nos usos e interpretações relacionadas às práticas específicas de quem
produz, conforme aponta Roger Chartier (2002). Logo, compreender uma determinada
realidade histórica carece de imparcialidade nos processos de apropriações das representações.
Conforme falamos do conceito de apropriação devemos levar em conta a circulação de
ideias. Segundo Chartier, as ideias e práticas culturais circulam e vão sendo apropriadas
conforme são construídas as representações. Assim, "essa circulação é imprescindível para a
compreensão da prevalência de uma representação sobre as demais, portanto não são neutras,
mas manifestam os interesses dos grupos sociais que forjam as representações” (SILVA, 2021,
p. 37).
Os meios mais comuns de circulação das ideias são os símbolos culturais clássicos,
como os escritos e às artes, porém não se limita a eles, há também aqueles que “têm por
objetivo anular-se enquanto discurso e produzir na prática comportamentos ou condutas tidos
por legítimos e úteis” (CHARTIER, 1990, p. 35), bem como os de circulação de
comportamento e condicionamento do que vêm a ser dominante na sociedade. Trata-se
justamente do meio de circulação das ideias advindas das representações que buscam
prevalecer. Sendo assim é de fundamental importância considerar também os cenários de
modelos de comportamento e condicionamento como meios de circulação de ideias.
METODOLOGIA
Nosso estudo segue os procedimentos do método histórico conforme descrito em Jörn
Rüsen (2015), a heurística, a crítica e a interpretação. Portanto, entendemos que
O método histórico é a soma de todas as regras que determinam o pensamento
histórico enquanto processo de pesquisa. Pesquisa guiada por regras que
confere ao conhecimento histórico justamente aquela capacidade de
fundamentar que o caracteriza como ciência (RÜSEN, 2015).
Dessa forma “o método histórico é a regulação desse processo cognitivo, que torna seus
procedimentos cognitivos (ou etapas reflexivas) particulares (distinguíveis artificialmente uns
dos outros) reconstituíveis, controláveis e, com isso, criticáveis.” (RÜSEN, 2015, p. 171)
Posto isso, na etapa heurística, determinamos como guia da nossa pesquisa a pergunta
histórica: de que forma as influências internacionais contribuíram na fundamentação do ensino
de desenho no Brasil?
Mediante a pergunta e seguindo para a etapa crítica, que consiste na análise das
qualidades das informações e das fontes para responder nosso questionamento, elencamos
como fontes a Reforma do Ensino Primário e Várias Instituições Complementares da
Instrução Pública (BARBOSA, 1883), com ênfase exclusiva no método e no programa de
desenho, e o discurso, O Desenho e a Arte Industrial, realizado por Rui Barbosa na
inauguração do Liceu de Artes e Ofícios, em 23 de novembro de 1882, que trata do desenho e
a arte industrial (BARBOSA, 1882).
E por fim, na etapa interpretação, que se trata de “uma operação da pesquisa histórica
que, de forma intersubjetivamente controlável, conecta os fatos do passado obtidos pela crítica
das fontes em sequências temporais, as quais são investidas de uma função explicativa”
(RUSEN, 2015, p. 184) tornando os fatos, pela ação do historiador, históricos. Sendo assim,
realizamos a interpretação dos documentos com vistas nas ideias centrais do intelectual Rui
Barbosa. Tal interpretação dedicou-se a compreender e evidenciar a gênese e a função da
disciplina, conforme veremos a seguir.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Os conteúdos de Desenho surgem oficialmente e disciplinarmente como parte da
formação do Ensino Primário no país na Reforma do Ensino Primário e Secundário da Corte,
de 1879. Porém em 1882, ao apresentar na Assembleia Legislativa Geral da Corte a Reforma
do Ensino Primário e as Várias instituições Complementares da instrução Pública, Rui
Barbosa reúne uma síntese das ideias internacionais circulantes em seu tempo; faz críticas ao
ensino mecânico vigente, privilegiando um ensino baseado na observação e experimentação;
propõe uma reconfiguração do programa escolar, apresentando as disciplinas, estabelecendo
os programas, o método e justificando-o. Dentre elas o desenho, ao qual atribui o ensino da
disciplina para um Desenho à Mão Livre, associado ao método intuitivo; além de dedicar-se
aos programas das escolas normais. Reconhecendo a grandeza do trabalho de Rui Barbosa,
destinamos nossa análise exclusivamente ao programa e método de Desenho.
Ao tratar da importância do Desenho, Barbosa afirma que
o valor do desenho como instrumento educativo, como princípio fecundante
do trabalho não tem cessado de crescer, assumindo as proporções, que hoje a
civilização lhe reconhece, de uma das bases primordiais da cultura escolar e
de um dos propulsores mais essenciais ao desenvolvimento econômico dos
Estados. (BARBOSA, 1883, p. 135).
Essa relevância atribuída ao Desenho dar-se-á aos pensamentos barbosianos antes
mesmo da produção do parecer, estando presente no núcleo das suas ideias educacionais.
Podemos perceber isso no discurso de inauguração do Liceu de Artes e Ofícios do Rio de
Janeiro que ao tratar do ensino popular de Desenho compreende como “a grande preocupação
dos nossos dias” (BARBOSA, 1882, p. 5).
Em seus pareceres o deputado baiano exibe através de diversos discursos de
professores, estudiosos, políticos e dos relatórios das exposições internacionais, a relação
existente entre trabalho, Desenho e desenvolvimento industrial na sua rica argumentação. É
através dessas exposições internacionais que Barbosa apresenta as relações do Desenho com
os avanços das nações civilizadas, como Alemanha, França, Áustria e Estados Unidos.
Dessa forma, Rui Barbosa defende que o desenho não deveria ser tratado como artigo
de luxo, utilizado como cultivo de classes sociais ou tratado como passa tempo de ociosos,
como vinha sendo tratado no Brasil, mas deveria ser universalizado pois devido a sua
simplicidade precede até mesmo à própria escrita visto que é “um meio de fixação,
representação e transmissão de ideias indispensável a todos os homens, e especialmente
indispensável as classes laboriosas” (BARBOSA, 1883, p. 135). Em seu discurso no Liceu de
Artes e Ofícios declara:
Que agente é esse, capaz de operar no mundo, sem a perda de uma gota de
sangue, essas transformações incalculáveis, prosperar ou empobrecer
Estados, vestir ou despir aos povos o manto da opulência comercial? O
desenho, senhores, unicamente, essa modesta e amável disciplina,
pacificadora, comunicativa e afetuosa entre todas: o desenho professado às
crianças e aos adultos (BARBOSA, 1882, p. 7).
Portanto, é evidente a defesa e existência da relação entre a educação profissional e o
ensino de Desenho por parte de Rui Barbosa em suas obras. Nota-se que essa compreensão
traz à tona a gênese do Desenho associado à profissionalização do trabalhador e a formação do
cidadão útil à nação em sua trilha ao desenvolvimento. Silva (2021) destaca que o alicerce
desta compreensão está na apropriação das ideias iluministas francesas durante os primeiros
anos do Brasil independente, período no qual ainda se buscava estruturar um sistema de ensino
no país. Corrobora com esse pensamento Trinchão (2016) que destaca a influência deste
pensamento iluminista em diversos intelectuais e legisladores brasileiros. Evidentemente que
compreendemos Rui Barbosa como um deles, pois ele foi formado sob tais concepções no
Brasil que nasce enquanto nação politicamente independente.
Também nos fragmentos supracitados temos evidente à função dada à disciplina
Desenho, apropriada e atribuída por Barbosa, a saber, o Desenho como princípio educativo
capaz de favorecer o desenvolvimento socioeconômico da nação e como um meio de
comunicação indispensável aos profissionais, tornando-se como uma linguagem para
representação e transmissão de ideias entre profissionais; poderíamos dizer, que até em
substituição ou complementação à escrita. Assim, para Barbosa, deveria ser uma competência
a ser ensinada aos trabalhadores brasileiros o Desenho para comunicarem-se e exporem suas
ideias de produtos antes mesmos de serem produzidos, tais quais artesãos que expõe aos
clientes o produto de seu trabalho para evidenciar a beleza e os detalhes do produto e confirmar
se o mesmo estaria de acordo com o desejo de quem lhe encomendava o trabalho. Trinchão
(2016) também destaca essa função de alfabetização gráfica nas compreensões luso-brasileiras
sobre o Desenho. Silva (2021, p. 63) destaca que “a autora ainda apresenta que ao Desenho,
enquanto conhecimento a ser disciplinarizado ao longo do Brasil Oitocentista, constituiu-se em um
método de alfabetização gráfica, no sentido de que as ideias do Desenho serviam de linguagem para a
arte e para a ciência.”
Mas, qual o tipo de Desenho defendido por Rui Barbosa? Tratando-se sobre essa
questão, o parecer orienta-se pelas seguintes questões (BARBOSA, 1883, p. 145):
(a) Que espécie de desenho é adotável ao ensino escolar?
(b) Qual a sua distribuição pelos vários estágios do currículo da escola?
(c) Que método a razão e a experiência impõe a esse ramo da instrução
primária?
(d) A que mestres incumbe naturalmente o ensino dessa disciplina?
(e) Quais os meios de formá-los?
Devido os três primeiros questionamentos possuírem caráter interdependente, prefere-
se respondê-los juntos. Ao tomar como referência Joaquim Vasconcellos, autor da Reforma do
Ensino de Desenho (1880) em Portugal, que condena o ensino de desenho linear geométrico
com o uso de régua e compasso, Barbosa opta pelo desenho à mão livre como forma
introdutória do ensino de Desenho a ser praticado nos jardins de infância. Para que
futuramente, com o propósito de aprimoramento da técnica, insira-se os instrumentos. Sendo
o principal deles a lousa quadriculada. Tudo isso concomitante ao ensino segundo o método
de Froebel utilizando-se dos instrumentos próprios desse método.
Para a escola primária, o deputado baiano fundamenta-se na síntese das propostas de
ensino da Inglaterra, Áustria e Estados Unidos, pois tratam-se dos “três Estados, onde ele [o
Desenho] tem recebido até hoje a solução mais sistemática, mais cabal, mais notável pela
excelência dos resultados” (BARBOSA, 1883, p. 146). Entretanto, Rui Barbosa optou por
nortear-se pelos métodos ingleses e austríacos, tendo em vista que o método norte americano
havia se inspirado no inglês, porém não haveria alcançado resultados claros, seguros e
definitivos. Dessa forma,
o ensino de desenho, pois, segundo o concebemos deve começar na escola
elementar, entre as crianças de 7 anos, pelo método inglês, que se estenderá
até a escola do segundo grau, a escola média, onde se principiará a professar,
pelo sistema austríaco, o desenho elementar graduado. (BARBOSA, 1883, p.
153).
Vejamos algumas características apontadas por Rui Barbosa nesses sistemas de ensino:
Os alunos que se encontram na classe preparatória devem seguir para classe geral
II
gradualmente.
III Não necessariamente há necessidade da criação de uma classe superior.
O mestre deverá construir um horário do ensino com o número de lições, data, assunto
VI
e notas.
O desenho de objetos e estampas devem ser feitos mediante três modos: memória,
VII
invenção e tempo fixo.
O mestre nunca deverá fazer correções no próprio desenho do aluno, mas as margens
X
ou em outra folha. Sem exigência de alto padrão de rigor e estética.
O mestre não deverá permitir que o aluno comece a desenhar sem ao menos ter
XI estudado a totalidade e as partes do objeto, bem como não deverá permitir que se trace
uma linha sem marcar previamente seus extremos.
O material a ser utilizado deverá ser crayon em lousa ou tábua e depois crayon e carvão,
XII
nunca lápis e papel branco.
XIII O ensino das cores pode ser ensinado aos alunos a partir dos 8 anos.
V A reprodução pura das formas deve preceder aos efeitos de luz e sombra.
CONCLUSÕES
Em conformidade ao que expusemos, é possível verificar que as influências
internacionais foram apropriadas por Rui Barbosa mediante uma tradução cultural, estrangeira
e nacional, a fim de constituir o que viria ser o currículo da disciplina Desenho no Brasil.
Porém, essa apropriação não se limita apenas ao conteúdo, ao currículo e aos métodos de
ensino, mas também a gênese e função dada à disciplina.
Conforme vai sendo construído seu parecer notamos através da rica e diversificada
fundamentação a evidenciação do ensino de desenho como substancial para a formação do
trabalhador, fonte enriquecedora da indústria e do país, instrumento de alfabetização gráfica
que se constituía como linguagem de comunicação entre os profissionais. Portanto, podemos
caracterizar o gênio Rui Barbosa como catalizador de ideias circulantes em sua época e a
Reforma do Ensino Primário e as Várias instituições Complementares da instrução Pública
como rica síntese delas.
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do Norte. Natal, RN, 2021.
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alfabetização gráfica à visibilidade dos fundamentos das Artes e das Ciências. Revista de
História da Educação Matemática, v. 2, n. 2, p. 6 – 38, 2016.
Resumo
O ensino profissional no Brasil vem de longa data, foi iniciado ainda no império pelo príncipe
Regente D. João VI fundando o Colégio das Fábricas, posteriormente seriam fundadas outras
instituições para a formação profissional. Porém o que seria a rede federal de educação
profissional foi criada pelo presidente Nilo Peçanha com a fundação das 19 escolas de artífices.
Na Bahia dois fatos distintos impulsionaram a formação profissional, a criação da Petrobrás
em 1954 e a criação do polo petroquímico em 1970, gerando uma alta demanda de técnicos no
mercado regional, foram períodos boom econômicos no país, que gerou uma alta demanda de
pessoas qualificadas. Houveram várias ampliações, criação de estruturas e denominações para
a rede federal de educação, porém estas continuam com o objetivo de formar jovens e adultos
com qualidade para o mercado de trabalho e para vida. Os Institutos Federais, atual
denominação das instituições federais de ensino profissional e superior, tem na formação
secundária e subsequente um importante papel de qualificar jovens e adultos para o mundo do
trabalho. Sabe-se que o mercado de trabalho está cada vez mais exigente, principalmente após
o advento da globalização, os jovens acabam tendo mais dificuldades de inserção no mercado
de trabalho devido à falta de experiência e baixa qualificação. Porém são raras as pesquisas
realizadas sobre a capacidade desses cursos de inserção dos estudantes no mundo do trabalho.
O presente trabalho analisou a trajetória dessas instituições, buscando identificar se o curso
técnico profissionalizante ainda viabiliza a inserção de jovens e adultos no mundo do trabalho,
mesmo durante a pandemia de covid. A pesquisa permitiu constatar que os estudantes dos
semestres iniciais do curso profissional exercem pouca influência. Porém nos últimos dois
semestres a realização do curso profissional foi relatada pelos estudantes como fator decisivo
para conseguir uma oportunidade de trabalho. Quase 60% dos estudantes do curso de técnico
de eletrônica relataram que este foi decisivo para inserção no mundo do trabalho através do
estágio. A pandemia de COVID, em 2020, gerou um desemprego generalizado em diversas
categorias e no país, porém teve efeito diferente em relação aos profissionais formados pelo
curso técnico de eletrônica. Estes relataram que tiveram sua carga horária e a quantidade de
dias trabalhados aumentada, não sendo afetados pelo desemprego causado pelo COVID. O
estudo serviu para consolidar que ainda hoje o curso técnico profissional tem seu espaço na
sociedade e é capaz de oferecer qualificação de curta duração e com qualidade aos jovens e
adultos que buscam inserção no mundo do trabalho
INTRODUÇÃO
O curso técnico-profissional tem uma longa história no Brasil, diante do aumento da
exigência de formação pelas empresas, é uma qualificação rápida e bem aceita no mercado. O
presente trabalho buscou investigar a trajetória da educação profissional no Brasil e na Bahia
e sua importância na inserção de jovens no mundo do trabalho mesmo em tempos de pandemia.
Os cursos profissionalizantes começaram ainda no Brasil Império. A chegada da
família real foi um importante passo para o desenvolvimento desses cursos, o Brasil passou a
ser sede do império, a presença da elite ampliou a necessidade de produtos no país. Foram
fundadas as primeiras escolas profissionais, sendo ampliadas no governo de Nilo Peçanha e
nos governos seguintes, hoje são várias centenas de instituições que formam a rede federal de
educação profissional (NASCIMENTO; CAVALCANTI; OSTERMANN, 2020).
O século XX fez surgir uma nova realidade socioeconômica, a sociedade global. A
globalização gerou mudanças estruturais que afetaram as políticas públicas de educação e
emprego (AMORIM, 2018). Os jovens quando iniciam uma carreira profissional enfrentam
maior dificuldade em encontrar emprego pela falta de experiência e qualificação (ALVES,
POÇAS, TOMÉ, 2013). A epidemia de SARSCOV-2, agravou a situação econômica, piorando
o fraco desempenho que a economia nacional já apresentava, causando um aumento geral nos
índices de desemprego da população (MATTEI; HEINEN, 2020).
O Brasil possui várias instituições de formação técnico-profissional (IFs, SENAI, e
SESC), o governo investe anualmente bilhões de reais nestas instituições, porém raras são as
pesquisas que investigam a inserção dos egressos destes cursos no mundo do trabalho. A
pesquisa buscou investigar se a formação técnica profissionalizante em eletrônica tem
contribuído para a qualificação e inserção do jovem no mundo do trabalho, inclusive durante
a epidemia de COVID em 2020.
A primeira seção do artigo analisaremos a história dos cursos técnicos
profissionalizantes no país e na Bahia, na segunda a relação entre qualificação e mundo do
trabalho, na terceira a metodologia, depois as discussões de resultados e análises dos dados
coletados e as considerações finais.
Fonte: Corseuil, Poloponsky, Franca (2020) com dados da PNAD contínua do IBGE
METODOLOGIA
Essa pesquisa pode ser classificada como exploratória, segundo Guimarães (2020) visa
fornecer informações do tema, acumular conhecimento para formulação hipóteses ao
pesquisador.
Inicialmente esta pesquisa estava voltada apenas para investigar a influência do curso
técnico de eletrônica do IFBA no ingresso de jovens e adultos no mundo de trabalho, esta fase
foi concluída em 2017. Com advento da pandemia, por meio de formulário online, entrevistou-
se os técnicos já formados para investigar os impactos desta no mercado de trabalho do técnico
em eletrônica em 2020.
Cabe destacar que a comissão de ética em pesquisa da instituição analisou o
questionário relativo à pesquisa, sendo o mesmo aprovado.
Na próxima seção serão analisados os dados obtidos na pesquisa.
RESULTADOS E DISCUSSÕES
Esse capítulo busca analisar se a formação técnica consegue influenciar a entrada dos
jovens e adultos no mundo do trabalho e os impactos da COVID no mercado de trabalho dos
técnicos de eletrônica do IFBA.
Foi aplicado aos estudantes essa primeira pergunta: 1) Você já teve alguma experiência
formal de trabalho de entrar no curso técnico de eletrônica do IFBA? Em seguida foi
apresentada a segunda pergunta: 2) Depois de sua entrada no curso, se conseguiu estágio, qual
a relação entre o estágio e o curso?
Gráfico 1 e 2. Mostram as respostas dos estudantes entrevistados na pesquisa
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NARRATIVAS DE UMA PROFESSORA – PESQUISADORA EM GESTÃO
AMBIENTAL: CAMINHOS DA AUTOFORMAÇÃO
SILVA, L, K. T,
Mestre, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRN),
[email protected]
CHAGAS, P, C. de, M,
Orientadora, Doutora, Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia (IFRN),
[email protected]
Resumo
Meu processo de autoformação perpassa por vivências acadêmicas e profissionais que
permitem-me revisitar experiências e, com isso, produzir ressignificações de minha trajetória
de vida, inclusive com novas interpretações no fazer docente e pesquisadora na área ambiental.
Nessa perspectiva, o presente artigo analisa o processo de autoformação de uma professora-
pesquisadora em Gestão Ambiental a partir da narrativa de si. Os rumos metodológicos desse
trabalho configuram-se em uma abordagem qualitativa, norteada pelo método autobiográfico,
que teve como principal meio de travessia as narrativas escritas para refletir acerca dos meus
saberes, fazeres e experiências formadoras. Para a análise do processo de autoformação foram
realizadas as seguintes etapas cronológicas de interpretação: 1. recordar; 2. selecionar; 3.
narrar/escrever; 4. refletir e 5. ressignificar (DELORY-MOMBERGER, 2006; JOSSO, 2010).
Para fundamentar e nortear minhas andanças pelos conteúdos narrativos baseei-me
especialmente em: Corrêa (2019); Ferreira e Mosquera (2010); Freire (2017); Imbernón
(2011), (2010); Josso (2004, 2010, 2020); Larrosa (2002, 2003, 2011); Nóvoa (1995); Passegi
e Gaspar (2013) e Pineau (2000, 2005, 2010). Constatei, durante os percalços rememorados de
formação, o quanto a graduação/mestrado por si só não me prepararam efetivamente para os
desafios diários do ser/tornar-se docente/profissional. Com relação às rotas de buscas dos meus
saberes experienciados, posso dizer que elas foram construídas no decorrer de toda minha vida,
no entanto, foram reconstruídas e reinterpretadas quando passei a narrar a minha história de
formação como professora-pesquisadora da área ambiental. Assim, entre passos
autoconscientes, fui/sou caminhante, assim como fui/sou o caminho; não houve
indissociabilidade entre ser/caminhar. Desse modo, não apenas compreendi, por meio de
minhas experiências formadoras, quem sou como professora-pesquisadora, mas também tomei
consciência do meu ser sujeito, encarei-me, valorizei-me; afinal, a memória forma. A maneira
como sou professora-pesquisadora é consequência das vivências e referências que tive, entre
elas minhas escolhas profissionais, meus encontros e desencontros, minhas lembranças e
deslembranças, minhas quietudes e inquietudes, minhas singularidades e pluralidades; tudo
isso me formou e me forma. Ao término desse trabalho reconheci a minha trajetória e exerci
uma releitura dos acontecimentos profissionais que, emolduravam-me, a ponto de constituir
quem estou me tornando como professora-pesquisadora em Gestão Ambiental.
INTRODUÇÃO
Conhecer o meu processo de autoformação é uma etapa fundamental para construir a
minha identidade profissional/docente. São as transformações da profissional “técnica” em
“docente” ou vice-versa que me transitam e ao mesmo tempo, encorajam-me, a ser e tornar-
me professora e pesquisadora em Gestão Ambiental.
Assim, os caminhos de minha autoformação perpassam pela narrativa de todo meu
trajeto acadêmico (Graduação em Tecnologia em Gestão Ambiental – IFRN e Mestrado em
Desenvolvimento e Meio Ambiente - PRODEMA-UFRN) e profissional (Professora na
Educação Profissional e Pós-Graduação; Educadora Ambiental e Pesquisadora na Secretaria
do Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos - SEMARH/RN), em um contexto complementar
a quem fui e a quem sou.
Minhas vivências acadêmicas e profissionais possuem um caráter eminentemente
subjetivo, visto que cada período vivido possui significados próprios que me permitem revisitar
experiências e, com isso, produzir ressignificações de minha trajetória de vida, inclusive com
novas interpretações no fazer-se docente e pesquisadora na área ambiental.
A minha primeira engatinhada no percurso narrativo na área de Gestão Ambiental
ocorreu após o ingresso no Curso Superior de Licenciatura em Formação Pedagógica para
Graduados não Licenciados, mais precisamente durante reflexões trilhadas inicialmente na
construção de um “Diário Didático” para a disciplina de Didática na Educação Profissional e
Tecnológica, no qual realizei exercícios de escrita sobre o conhecimento técnico, reflexão e
síntese de si, proporcionando a sistematização, o aprofundamento e a internalização dos
conteúdos apreendidos.
Já os meus primeiros passos foram dados durante a disciplina de Estágio
Supervisionado II, quando desenvolvi os “Caminhos para o Estágio Supervisionado II”. O
fichamento inicial tratava do “Eu-Professora: relatos do ontem e do hoje” seguido de um
segundo intitulado “Saberes necessários para a docência na Educação Profissional e
Tecnológica” e, por fim, o fichamento nomeado “Eu-Professora no devir: perspectivas para o
futuro/novos tempos de docência”.
Com o avanço por estes caminhos, adentrei pela estrada do Projeto de Pesquisa -
“Processos de autoformação docente: narrativas autobiográficas e reinvenção de Si no ensino
a distância” - como aluna-pesquisadora. No referido projeto, fui desafiada a narrar-me, a
conhecer-me e a revisitar-me; por meio da escrita narrativa e da rememoração passei a ser a
autora da minha história e a compreender os elementos constitutivos da minha
formação/profissão como professora-pesquisadora.
A partir destas vivências e inquietudes indaguei-me sobre o que propiciou a escolha
para a minha formação na área ambiental: Por que escolhi Gestão Ambiental? Como me tornei
professora-pesquisadora? Como minha experiência profissional/técnica contribui para o
exercício da docência e vice-versa?
Os questionamentos acima elencados constituíram as pistas investigativas para a
elaboração desse artigo, pois as discussões sobre o processo de formação, perfil profissional e
área de atuação de gestores ambientais apresentam-se embrionárias, o que demonstra uma
lacuna a ser estudada quanto aos caminhos percorridos por tecnólogos, pesquisadores e/ou
professores em Gestão Ambiental.
Partindo dessa perspectiva racional, intencional e reflexiva, o presente artigo tenciona
analisar o processo de autoformação de uma professora-pesquisadora em Gestão Ambiental a
partir da narrativa de si.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A construção deste artigo tem como cerne o meu próprio processo formativo, caminho
este que não fiz sozinha. Precisei me orientar com bússolas epistemológicas que me ajudaram
a dar sentido e significado ao trajeto de autocompreensão.
A primeira bússola norteadora foi a concepção de Pineau (2005) sobre a autoformação.
Ele a considera como um processo tripolar: si (autoformação), os outros (heteroformação) e o
meio (ecoformação). Segundo o autor, “entre a ação dos outros (heteroformação) e a do meio
(ecoformação), parece existir, ligada a estas últimas e dependentes, mas à sua maneira, uma
terceira força de formação, a do (eu) – autoformação” (PINEAU, 2010, p. 99).
Ainda por esse caminho, Pineau (2010, p. 116) acrescenta que “[...] para termos em
conta a formação permanente de decurso da vida devemos apoiar-nos em constituintes
elementares dessa vida – o eu, os outros, a natureza”. Logo, percebo que na minha caminhada
de autoformação sou desafiada por mim e pelos outros, em uma impermanência inacabada de
ser. Defronto-me, nessa passagem, com a orientação de Freire (2017) sobre o inacabamento, a
inconclusão e incompletude do ser humano e de nossas relações formativas consigo e com os
outros.
Em complemento, a bússola teórica de Josso (2004, p. 198) acompanha-me nesse
percurso reflexivo e me diz que “a impermanência parece-me ser a tomada de consciência mais
primitiva que o (eu) pode fazer na observação/exploração de si mesmo e do seu meio humano
e natura”. Compreendo que a impermanência, citada pela autora, impulsiona meu
deslocamento, a fim de caminhar ao encontro de mim mesma, ela fundamenta a pessoa que
sou, pensa e faz o que faz.
Ocorre-me que a legitimidade do processo de autoformação, diga-se social e humano,
de conhecer a si próprio é um grande desafio, assim como me indica Dosse (2009), um desafio
biográfico, em que o sujeito se encontra em constante auto interpretação; por meio da
reflexividade e da pluralidade das identidades que transcorrem por entre suas memórias,
emoções e experiências.
Nesse sentido, o roteiro para vencer o desafio biográfico parece-me mais definido
quando recorro aos conceitos norteadores das narrativas autobiográficas. Ricouer (1991)
discorre que o narrar de si – outra de mim – figura um par/dialético de si mesma, constitutivo
de identidades pessoais e alteridades, assim, narro-me com uma outra e uma outra com (eu)
mesma.
Ao escrever sobre mim, procuro dar sentido às minhas experiências e, nesse percurso,
construo outra representação de mim: reinvento-me. Conforme alerta Morais (2018, p. 143)
“arriscar escrever me expõe, visibiliza o que desejaria ocultar, deixa à vista traços, estilos,
restos, vazios, deslizamentos, fendas”.
Esses caminhos condutores relacionam-se com outro conceito norteador da
reflexividade crítica de Nóvoa (1995), no qual o sujeito adulto forma-se enquanto reconstrói e
atribui sentidos a sua vida. Nesse acesso à subjetividade, à reflexividade crítica e, sobretudo,
ao saber experiencial fundamentam-se a releitura do sujeito. O saber experiencial é, ao mesmo
tempo, subjetivo e social, pois a experiência é sempre subjetiva, de um modo único, singular,
particular, próprio (LARROSA, 2011).
Defronto-me, nesse trecho do percurso, com Larrosa (2011, p. 10), quando ele
especifica que a leitura da realidade de si permite dizer que:
(1) a experiência é uma relação com algo que não sou [...]; (2) [...] a experiência é
uma relação em que algo tem lugar em mim […] e [...] minha relação com o texto
[...] é de condição reflexiva, volta para dentro, subjetiva, que me implica no que sou,
que tem uma dimensão transformadora, que me faz outro do que sou e (3) a
experiência é algo que passa de mim a outro e de outro a mim. E nesse passa, tanto
eu como o outro, sofremos alguns efeitos, somos afetados.
METODOLOGIA
Na construção dos rumos metodológicos desse trabalho se configurou uma abordagem
qualitativa, norteada pelo método autobiográfico como mecanismo de pesquisa. Segundo
Costa e Holanda (2021) o método autobiográfico possui características peculiares no que tange
à liberdade de pensamentos, ideias e no desenvolvimento da autoformação e reflexividade
crítica.
Contudo, apesar dessa autonomia, Ferrarotti (2010, p. 36) afirma que “o método
biográfico pretende atribuir à subjetividade um valor de conhecimento”. Ao observar-me como
sujeito-objeto em meio aos elementos autobiográficos, atento-me ao processo de formação e,
em alguns casos, ao processo de conhecimento (JOSSO, 2010).
A abordagem qualitativa e o método autobiográfico me permitiu exercer a função de
autora de minha própria história de formação, em uma perspectiva retroativa (presente para o
passado) e de uma tomada de consciência reflexiva (presente), valorizando a minha
subjetividade, tornando-me o objeto da investigação e buscando analisar intencionalmente o
meu processo de autoformação, como bem esclarece Josso (2010, p. 78-79), “O ser em
formação só se torna sujeito no momento em que a sua intencionalidade é explicitada no ato
de aprender e em que é capaz de intervir no seu processo de formação para favorecê-lo e para
reorientá-lo”.
À vista disso, a minha travessia pelo método autobiográfico teve como principal meio
às narrativas escritas de si, as quais atendem a especificidades e exigências da pesquisa
qualitativa, oferecendo-me atalhos descritivos e reflexivos de autoformação. Logo, as
narrativas autobiográficas apresentaram-se neste estudo como trilhas de percurso
metodológico para compreender, ao evocar minha própria voz, acerca dos meus saberes,
fazeres e experiências formadoras.
Assim, subjetivando-me, percorri a minha própria formação com base numa
retrospectiva, calçada por uma reflexividade crítica e orientada por uma consciência de minhas
experiências formadoras. Em um pensamento atrelado a essa dinâmica, Josso (2004, p. 44)
expressa que “reconsiderar o que foi a experiência oferece a oportunidade de uma tomada de
consciência do caráter necessariamente subjetivo e intencional de todo e qualquer ato de
conhecimento [...]”.
Desse modo, sou objeto e sou sujeito da pesquisa, nessa caminhada sobreposta de si,
objetivo-me por meio das narrativas escritas, instrumentos que promoveram a minha
autorreflexão, portanto, “a narrativa tornar-se um trampolim, um ponto de apoio para o salto
do pensamento” (JOSSO, 2004, p. 214).
Nessa busca de autoconhecimento e de autoformação alguns guias transitaram como
dispositivos pedagógicos na trilha que percorri, nesse momento encontrei Larrosa (2002, p.
57) ao considerar como dispositivo pedagógico “qualquer lugar no qual se constitui ou se
transforma a experiência de si”.
Como guias pedagógicos de mediação biográfica utilizados pode-se citar a elaboração
do “Diário Didático” para a Disciplina de Didática na Educação Profissional e Tecnológica
(junho/2020) e do “Relatório de Estágio” para a Disciplina de Estágio Supervisionado II
(junho-julho/2021). De forma complementar também foram utilizados fragmentos das
narrativas escritas desenvolvidas durante a minha participação como aluna-pesquisadora nos
Ateliês Biográficos do Projeto de Pesquisa “Processos de autoformação docente: narrativas
autobiográficas e reinvenção de Si no ensino a distância” (novembro/2021).
Para o desenvolvimento de autoanálise do processo de autoformação, contido nos
textos narrativos, foram realizadas as seguintes etapas cronológicas de interpretação: 1.
recordar; 2. selecionar; 3. narrar/escrever; 4. refletir e 5. ressignificar (DELORY-
MOMBERGER, 2006; JOSSO, 2010). Para fundamentar e nortear minhas andanças pelos
conteúdos narrativos, baseei-me especialmente em: Corrêa (2019); Ferreira e Mosquera
(2010); Freire (2017); Imbernón (2011), (2010); Josso (2004, 2010, 2020); Larrosa (2002,
2003, 2011); Nóvoa (1995); Passegi e Gaspar (2013) e Pineau (2000, 2005, 2010).
Essa autoanálise foi descritiva, foi singular, foi plural e, por vezes, confusa e
descontínua. A mobilização das recordações, assim como a sua seleção e narração,
necessitaram de uma concentração, caracterizada pelo uso da capacidade de abstração do
objeto/sujeito da investigação - eu - em que se denota a indissociabilidade necessária para o
aprofundamento da análise do processo de autoformação, por meio da narrativa autobiográfica.
Destarte, os caminhos metodológicos aqui traçados não objetivaram apenas que eu me
narrasse, mas sim que os atos de relembrar, escrever e analisar fossem centrados numa
oportunidade para refletir sobre a minha história de formação, rememorando o passado,
revivendo o presente e esperançando o futuro, conforme a escrita sobre quem fui, quem sou e
quem pretendo ser como professora-pesquisadora.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para iniciar minhas trilhas reflexivas segui perguntas indutoras de minha reflexão,
denominadas de pistas investigativas: “Por que escolhi a formação em Gestão Ambiental?”;
“Como me tornei professora-pesquisadora?”; “Como minha experiência profissional/técnica
contribui para o exercício da docência e vice-versa?”
No ano de 2005 decidi iniciar minha trajetória acadêmica no curso Técnico em Controle
Ambiental, ainda no antigo Centro Federal de Educação Tecnológica do Rio Grande do Norte
(CEFET/RN), atualmente Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande
do Norte (IFRN). Após a conclusão do curso técnico subsequente e já encantada pela área
ambiental, prestei vestibular e ingressei novamente no IFRN, no ano de 2008, como aluna do
Curso Superior em Tecnologia em Gestão Ambiental.
No segundo semestre do curso de Tecnologia em Gestão Ambiental no IFRN trilhei um
caminho em busca de uma bolsa de iniciação científica e, após muita persistência, convenci o
coordenador de um projeto - o qual nem tinha sido meu professor ainda - a me deixar fazer
parte da equipe de graduandos do projeto de pesquisa intitulado “Avaliação Operacional e da
Eficiência de Lagoas de Estabilização no Estado do Rio Grande do Norte” - financiado pela
Fundação Nacional de Saúde (FUNASA/RN) – e vinculado ao Núcleo de Estudos em
Saneamento Básico (NESB).
Ao final da bolsa de iniciação científica consegui uma vaga de estágio não obrigatório
e remunerado. Assim, percorri uma nova trilha profissional e iniciei o estágio em uma empresa
privada da área de tecnologia em saneamento, lugar onde obtive novas experiências
formadoras - trabalhava com profissionais renomados - os quais me ensinaram muito do que
ainda reproduzo em sala de aula ou em pesquisas.
Em 2013 fui aprovada no mestrado do Programa de Pós-Graduação em Meio Ambiente
e Desenvolvimento (PRODEMA/UFRN). Durante o mestrado tive meu primeiro contato com
a sala de aula, na condição de docente e não mais apenas como discente, durante a disciplina
obrigatória de Estágio à Docência.
Concomitantemente às trilhas percorridas no mestrado, eu me enveredava pelos
trabalhos em consultoria ambiental e atuava como pesquisadora da Secretaria de Estado do
Meio Ambiente e dos Recursos Hídricos (SEMARH). Até hoje realizo serviços
técnicos/ambientais, a exemplo de planos municipais de saneamento básico; planos de
gerenciamento de resíduos sólidos; estudos ambientais; licenciamento ambiental; sistemas de
gestão ambiental e projetos ambientais.
Na SEMARH passei a “calçar as botas de campo” e a percorrer novos caminhos
no espaço profissional do Rio Grande do Norte. Fiz uma boa rede de trabalho, realizei
diagnósticos ambientais, participei de congressos e eventos dentro e fora do estado, elaborei
documentos técnicos e orientativos, planos e programas governamentais, além de pesquisas
nas áreas de: resíduos sólidos, reuso de águas, licenciamento ambiental, áreas de preservação
permanente e agenda ambiental na administração pública.
Mesmo trabalhando na área de meio ambiente e possuindo o título de mestra, ainda
sentia a necessidade de realizar atividades paralelas - é da minha natureza não se acomodar ou
permanecer apenas em um lugar - sou uma andarilha sondando locais que me proporcionem
novas experiências e aprendizados. Logo, saí à procura do que ainda me faltava no currículo:
vivenciar profissionalmente a docência.
Em 2019 fui chamada para assumir uma vaga do Processo Seletivo para cadastro
reserva e contratação temporária de professores para a Educação Profissional Estadual, no
curso de Meio Ambiente. Fiquei muito feliz, pois dessa vez teria a oportunidade de lecionar
para turmas de ensino médio técnico integrado. Atuei durante seis meses no Centro Estadual
de Educação Profissional João Faustino de Ferreira Neto.
De forma complementar, a minha vivência na SEMARH, sem dúvidas, contribuiu para
a formação da pesquisadora e professora que sou hoje, pois eu cheguei desnorteada e as pessoas
que lá encontrei foram como bússolas acompanhando-me pelas rotas escolhidas e traçadas.
Evoco, nesse ponto, Josso (2004, p. 95) quando ela afirma que “[...] a busca de si é inseparável
de uma relação com outrem, mesmo quando, durante um tempo, se privilegia uma exploração
de si[...]”.
Como pesquisadora de um órgão público consigo ressignificar a formação obtida em
Gestão Ambiental, visto que mesmo não estando em uma “sala de aula” propriamente dita,
desenvolvo atividades correlatas de planejamento, materiais de estudo, apresentações,
discussões e autoavaliações de forma constante.
Ao refletir, reconhecer e escrever sobre as experiências aqui relatadas, formo-me e, ao
formar-me, estruturo a minha identidade docente/profissional. A construção do meu decurso
de vida perpassa por momentos árduos e terrenos íngremes, por exemplo: atendimento às
demandas urgentes na SEMARH/sala de aula, representação do órgão público ou da
escola/universidade (tecnóloga e/ou professora), respostas a pautas de reuniões e/ou perguntas
de estudantes e produção de estudos técnicos e/ou aulas sem tanto planejamento e segurança.
Constatei, durante esses percalços, o quanto a prática é essencial para viabilizar a
maturação do conhecimento e de novos saberes, por isso, muitas vezes senti como se estivesse
subindo trilhas escorregadias e traiçoeiras e só com muito esforço e força de vontade eu
consegui chegar ao objetivo final, contudo, inacabado, de tornar-me um pouco de quem
gostaria de ser.
A formação tecnológica na área ambiental me proporcionou o conhecimento técnico
necessário para a resolução de problemas socioambientais e desenvolvimento de técnicas,
projetos e pesquisas relacionadas ao currículo integrado e à sua aplicabilidade na comunidade
externa, seja no âmbito público e/ou privado. No entanto, o desenvolvimento das práticas
pedagógicas, das metodologias e dos procedimentos para atuar como professora foi um
desafio, uma vez que não possuía graduação em licenciatura ou conhecimento pedagógico.
Assim, aos poucos, fui transformando meu “eu profissional/técnico” em meu “eu
docente”. Na concepção de Ferreira e Mosquera (2010), os profissionais técnicos somente
percebem-se professores enquanto relacionam a docência (fazer escolar) com o mundo (fazer
técnico) - são professores na ação - o fazer justifica seu ofício em sala de aula.
Então, sabendo da oferta do Curso Superior de Licenciatura em Formação Pedagógica
para Graduados não Licenciados no IFRN, decidi ingressar no ano de 2020 para obter uma
formação continuada mais direcionada ao ensino propriamente dito. Confesso que aprendi e
reaprendi sobre meu perfil profissional durante o curso de formação pedagógica e, ainda mais,
na produção desse trabalho autobiográfico, o qual reafirmou o meu desejo de continuar
lecionando, orientando e pesquisando na área ambiental.
Logo, minha identidade docente tem sido fundamentada por atividades como
pesquisadora e, de forma não menos importante, minha identidade profissional, por atribuições
em sala de aula. A minha atuação como docente/educadora e/ou tecnóloga contribui para a
minha realização pessoal, profissional e financeira, tornando-as atividades responsáveis pelo
meu processo identitário.
Dessa maneira, corroboro da opinião de Ferreira e Mosquera (2010) quando afirmam
que a identidade docente dos professores de educação profissional está ancorada também em
ambientes externos à sala de aula e em outras ações profissionais, quando não na docência; das
quais estes professores retiram energia emocional transferindo-a para o exercício de lecionar.
CONCLUSÃO
A conotação do termo “caminhar para si” foi desenvolvida reflexivamente ao longo do
texto no intuito de analisar o processo de autoformação de uma professora-pesquisadora em
Gestão Ambiental a partir da narrativa de si. Durante esse processo, elaborei questões
norteadoras que me ajudaram a refletir acerca da minha formação na área ambiental: Por que
escolhi Gestão Ambiental? Como me tornei professora-pesquisadora? Como minha
experiência profissional/técnica contribui para o exercício da docência e vice-versa?
Nessa autoanálise, entre passos autoconscientes, fui/sou caminhante, assim como
fui/sou o caminho; não houve indissociabilidade entre ser/caminhar. Pelo que foi exposto neste
artigo, pode-se afirmar que a narrativa escrita provoca mudanças no objeto/sujeito da
investigação - em mim - ao tomar distância de si mesma (abstrair-me) foi possível teorizar
minhas experiências formadoras; atribuindo-me uma nova compreensão.
Nesse caminho de autoconhecimento não apenas compreendi, por meio de minhas
experiências formadoras, quem sou como professora-pesquisadora, mas também tomei
consciência do meu ser sujeito, encarei-me, valorizei-me; afinal, a memória forma. A biografia,
por meio da rememoração e escrita, desencadeia uma autorreflexão, pois o ato de escrever
sobre si mesmo permite um retorno reflexivo sobre o seu trajeto, leia-se aqui, de vida e
formação.
Por esse decurso formativo, durante o curso de licenciatura em formação pedagógica,
meus caminhos cruzaram-se com outrem, a exemplo da oportunidade de dar aula nas
disciplinas de estágio supervisionado como estagiária à docência. Umas das lições do exercício
de lecionar que ficou para minha vida profissional e pessoal foi o processo de readaptação. Os
caminhos percorridos nessa situação de pandemia ou “o novo normal” me tornaram mais
dinâmica, proativa e estratégica no tocante ao exercício da docência na Educação Profissional
e Tecnológica. Às vezes, sair da “zona de conforto” nos ajuda a ter uma visão mais abrangente
dos desafios à nossa frente e de como podemos propor soluções e experimentar novas práticas,
mesmo que de forma virtual.
Os conhecimentos apreendidos juntamente com os momentos vividos durante o Curso
Superior de Licenciatura em Formação Pedagógica para Graduados não Licenciados
reforçaram a minha convicção de ser professora e/ou pesquisadora, pois tive a oportunidade
de teorizar, aprender e realizar práticas individuais e em grupo relacionadas ao ofício do
professor e, o melhor, adquirindo uma formação pedagógica, pois antes lecionava apenas com
meus conhecimentos técnicos; hoje sou capaz de planejar, executar e modificar uma aula, se
for preciso. Posso dizer que estou pronta como docente? Não. Essa é uma longa caminhada
que tive o prazer de reiniciar com o presente curso, mas que necessito continuar trilhando, pois
a nossa “inconclusão” como professores/alunos(as) e, antes de tudo, como humanos, permite
nos ressignificarmos continuamente.
Dessa maneira, percorri o Curso Superior de Licenciatura em Formação Pedagógica
para Graduados não Licenciados e, nesses instantes de docência e discente, me reafirmei como
mestra em meio ambiente, tecnóloga em gestão ambiental e pesquisadora e, ainda me firmei
como uma professora em construção. Isso foi possível devido à troca de experiências, às
reflexões, aos ensinamentos e à participação nas aulas, em partes como estagiária à docência
e, em outras, como apenas observadora.
Ao invocar-me por entre narrativas escritas, revisitei-me em um processo de descoberta
de novos significados que atribui aos fatos que vivi e, assim, fui reconstruindo a compreensão
que tenho de mim. Nesse contexto, saliento que as narrativas escritas foram como um exercício
de releitura dos acontecimentos pessoais e profissionais que, emolduravam-me, a ponto de
constituir quem fui/sou como professora-pesquisadora em Gestão Ambiental.
Ao término desse trabalho reconheci a minha trajetória e quem estou me tornando como
professora-pesquisadora. Na impermanência de ser e tornar-se, após várias trilhas reflexivas,
foi possível reconstruir a minha identidade docente/profissional. Assim, nesse processo
complexo e contínuo de autoformação, permaneço sendo/tornando-me técnica/docente,
complementando-me e, ao mesmo tempo, reafirmando-me como profissional em Gestão
Ambiental.
REFERÊNCIAS
Resumo
Este artigo objetiva fazer uma análise acerca da pedagogia histórico-crítica e da educação
profissional e tecnológica, considerando que a Educação Profissional e Tecnológica se
constitui na mais antiga tipologia de educação existente no Brasil e a Pedagogia Histórico-
Crítica, na mais importante, ainda que recente, teoria pedagógica do país. Criada no final da
década de 1970, mais especificamente em 1979, durante o período da ditadura civil-militar
(1984-1985), em 2022, completa 43 anos de existência. Assim sendo, seguindo a perspectiva
materialista histórica-dialética, partimos do mais imediato, buscamos suas determinações no
passado, e retornamos para elucidar o presente, no intuito de possibilitar um enfrentamento de
forma adequada. Desse modo, primeiramente, tratamos do atual contexto que envolve a
educação brasileira, quer dizer, traçamos um breve panorama do que tem ocorrido,
principalmente a partir do golpe empresarial, militar, jurídico, midiático e parlamentar, “com
o Supremo, com tudo”, protagonizado por uma fração da classe dominante interiorana
mancomunada com o grande capital internacional, mediado pela CIA estadunidense, que
atinge seu ápice em 2016, com a destituição da então Presidente Dilma Rousseff, condição
para que, após o qual, fossem desfechados inúmeros outros golpes contra a classe trabalhadora,
tanto em relação às questões trabalhistas, aos direitos sociais e à previdência, como contra à
educação e a cultura, sem mencionar o avanço da extrema direita e os ataques ao meio
ambiente. Na sequência, no intuito de compreender o atual momento, fazemos um recuo e
abordamos a trajetória da Educação Profissional e Tecnológica, cujo surgimento coincide com
a criação das primeiras faculdades de Medicina do Rio de Janeiro e da Bahia, em 1827, e as de
Direito em São Paulo e Olinda. Como contraponto, tratamos da trajetória da Pedagogia
Histórico-Crítica, que se constitui na principal teoria pedagógica contra hegemônica existente
na atualidade. Comprometida com os trabalhadores, defende a educação e a escola pública, a
importância do professor, a relevância dos conteúdos escolares, a socialização a todos dos
conhecimentos mais desenvolvidos existentes em cada momento histórico, a transformação
social, o desenvolvimento pleno do aluno e a emancipação humana. Por fim, discorremos não
somente acerca das possibilidades da articulação entre a pedagogia histórico-crítica e a
educação profissional e tecnológica, como sobre a importância e a necessidade de a Educação
Profissional e Tecnológica adotar a pedagogia histórico-crítica como teoria pedagógica.
INTRODUÇÃO
A educação escolar brasileira, em todas as suas modalidades e em todos os seus níveis,
tem sido submetida a grandes desafios, sobretudo a partir do golpe de 2016, que destituiu a
então Presidente Dilma Rousseff. Neste artigo, porém, nos ocupamos mais especificamente da
Pedagogia Histórico-Crítica (PHC) e da Educação Profissional e Tecnológica (EPT). Com base
em uma perspectiva histórico-sociológica, fazemos uma análise do atual contexto sócio-
educacional, passamos pela trajetória histórica percorrida pela EPT e pela PHC, apontamos as
especificidades e aproximações entre elas, e tratamos não só das possibilidades de articulação,
como da importância de a Educação Profissional e Tecnológica adotar a Pedagogia Histórico-
Crítica como sua teoria pedagógica.
Contudo, depois das primeiras faculdades, no início do século XX, em 1909, durante o
governo Nilo Peçanha, foram criadas 19 Escolas de Aprendizes e Artífices, que são
consideradas os embriões das futuras escolas técnicas, os CEFETS. Em função disso, Peçanha
ficou conhecido como o fundador do ensino profissional do Brasil. Nas palavras do próprio
presidente, essas escolas deveriam ser destinadas a
Três décadas depois, durante o governo de Getúlio Vargas, em 1942, por meio do
Decreto-Lei Nº 4.048, foi criado o SENAI – Serviço Nacional da Indústria, e em seguida, em
1946, por meio do Decreto-Lei Nº 9.403, foi criado o SENAC – Serviço Nacional de
Aprendizagem Comercial, destinados a fomentar a formação profissional dos trabalhadores.
Ou seja, tendo surgido durante o período colonial, sob a vigência do escravismo, e se
desenvolvido durante a Primeira República, num período de crescimento da massa de
trabalhadores, de intensa agitação social e de transição da sociedade agrária para a incipiente
sociedade urbano-industrial, a Educação Profissional – EP também carrega as marcas da
sociedade de classes.
Em função disso, se de um lado, a EP parecia ser resultado da preocupação com a oferta
de trabalho aos “desvalidos pela sorte”, por outro, cumpria o papel de conter os trabalhadores
no nível médio de escolarização, reservando o ensino superior a um reduzido número de
membros da classe detentora dos meios de produção, reproduzindo, reforçando e cristalizando
o caráter excludente da educação.
Como consequência, temos o ensino técnico e profissional destinado à classe
trabalhadora, utilizado como meio de contensão social, e o ensino superior, destinado a uma
fração da classe dominante para a formação de quadros políticos e profissionais para ocupar
os postos chaves de comando e domínio do país.
Entretanto, o dualismo educacional não ocorre apenas em relação à EP, está presente
na educação como um todo. Mesmo quando os trabalhadores conquistam o direito de acesso
ao ensino superior, algumas instituições ficam praticamente “reservadas” para os filhos dos
endinheirados detentores dos meios de produção, ao passo que, para os trabalhadores, sobram
as escolas menos prestigiadas, de instrução básica, garantindo apenas o acesso aos
conhecimentos elementares.
Posteriormente, em 1971, durante a ditadura militar, por meio da LDB 5692/71, é
instituído o ensino profissionalizante, supostamente destinado à preparação dos trabalhadores
para o mercado de trabalho. Na verdade, além de não garantir a formação profissional,
implantava uma educação tecnicista, a-crítica, moralista, pretensamente neutra e esvaziada de
conteúdo.
Durante o primeiro governo de FHC (1994-1998), após a aprovação do substitutivo
Darcy Ribeiro (1922-1997), que se transforma na LDB 9394/96, a EPT é organizada nos níveis
básico, técnico e tecnológico, as palavras “habilidades” e “competências” ganham força e
começam a ser utilizadas com frequência nos documentos educacionais, extingue-se a
possibilidade de formação técnica integrada, restando apenas a realizada nas formas
concomitante ou subsequente ao Ensino Médio, e se estabelece a possibilidade de certificação
por competências como forma de aproveitamento de saberes.
Nesse contexto, com o sucateamento das universidades e com o combate aos cursos
técnicos integrados de nível Ensino Médio, por um lado, esvaziam-se as possibilidades de
oferta de uma formação unitária e humanística, e, por outro, reduz-se a formação técnica ao
atendimento dos interesses do mercado de trabalho.
Depois de Lula assumir o governo, em 2003, retomam-se as discussões acerca da
educação profissional integrada numa perspectiva humanista, fundamentada no respeito à
diversidade e na inclusão social, sendo o trabalho entendido como princípio educativo. Porém,
a despeito disso, não abandonou a oferta da uma formação instrumental, direcionada ao rápido
ingresso do indivíduo no mercado de trabalho.
Atendendo às novas demandas, as nomenclaturas dos cursos e programas de Educação
Profissional também mudam. A Educação Profissional de nível básico, passou a se chamar
Formação Inicial e Continuada de Trabalhadores. A Educação Profissional de nível técnico
passou a ser denominada Educação Profissional Técnica de nível médio. E a Educação
Profissional de nível tecnológico passou a se chamar Educação Profissional Tecnológica, de
graduação e de pós-graduação. Com isso, redefinem-se os rumos da EPT no Brasil.
Desse modo, depois do apagão educacional ocorrido durante os governos de FHC, na
década de 1990, que apontava para o completo esvaziamento da responsabilidade do Estado
em relação à oferta da educação pública e, consequentemente, da EPT, no início do século
XXI, ao lado do crescimento dos cursos de Educação Profissional Técnica de nível médio, por
meio do Prouni e do Reuni, ocorre uma grande expansão do número de vagas no ensino
superior, inclusive de programas de pós-graduação profissionalizante.
Por fim, depois do golpe de 2016, com os governos Temer e Bolsonaro, todos sabemos
o que ocorreu. Porém, não custa lembrar que, voltado apenas para o setor empresarial, não só
o governo, como praticamente toda a classe dominante, não só impetrou um ataque frontal e
sem precedente à formação profissional e tecnológica integrada e às ciências humanas, mas à
escola como um todo, em todos os seus níveis e modalidades, revelando que nem se quer têm
prioridades, limitam-se a destruir tudo o que encontram pela frente. Esperar o que de um
presidente (Bolsonaro) que afirmou: “Temos de desconstruir muita coisa’, senão destruição,
terra arrasada. Inclusive, atacam e destroem aquilo que os beneficia, como é o caso dos cursos
técnicos, da formação especializada destinada à agroindústria, à produção, ao monitoramento
do clima etc. Nem mesmo o “Sistema S” escapou. “Tem que meter a faca no Sistema S”,
disparou o ministro da economia Paulo Guedes. Ou seja, a burguesia promove uma espécie de
haraquiri.
Os cortes de recursos e os ataques atingem toda a educação. Transformam até mesmo
as tais “competências” e “habilidades” propostas pela Base Nacional Comum Curricular, e a
“liberdade de escolha dos alunos”, propalada pela Reforma do Ensino Médio, em meras
fantasias. Logo, não consegue nem preparar e qualificar os trabalhadores para o mercado, e,
muito menos, garantir educação de qualidade para os alunos. Desse modo, resta apenas uma
formação aligeirada, alienada e adestrada, completamente esvaziada do sentido social e
humano.
Quer dizer, quando a ciência e a tecnologia se encontram extremamente desenvolvidas
e se constituem, mais do que nunca, na condição de resolução dos problemas sociais e
humanos, uma condição de vida e de desenvolvimento social, o governo e a classe dominante,
em sua ignorância e mesquinhez, seguem por caminhos completamente avessos, destroem as
possibilidades de conhecimento, de desenvolvimento da ciência e impedem a formação dos
trabalhadores.
Em consequência disso, no atual momento, nos encontramos em uma situação mais
catastrófica do que a que imperou durante o desastroso governo de FHC, de quem, Temer e
Bolsonaro, são a continuidade. Ao longo de todo esse período, nos três governos, não só não
foi criada nenhuma vaga em escola pública em todas as suas modalidades e em todos os níveis
de ensino, como desfecharam contra ela os mais duros ataques de sua história e reduziram
significativamente o número de bibliotecas, escolas e alunos.
Enfim, como se pode observar, ao longo do tempo, tanto a sociedade como a Educação
Profissional, têm passado por muitas mudanças. Contudo, a despeito das marcas positivistas e
das pressões para que a educação profissional atende exclusivamente o setor “produtivo”,
algumas instituições e alguns educadores resistem e se esmeram na defesa da superação do
dualismo estrutural entre o Ensino Médio e a educação profissional, na oferta de um ensino de
nível médio integrado ao profissional, e defendem uma formação humanística, a escola
unitária, a politecnia, o trabalho como princípio educativo e a formação integral do trabalhador.
E é com o intuito de superar o histórico dualismo pedagógico e de proporcionar uma
formação integral a todos os alunos, uma formação omnilateral, que foi criada a pedagogia
histórico-crítica, que se constitui numa teoria pedagógica de resistência e de luta pela
construção de uma nova educação e de uma nova sociedade.
Nesse sentido, cabe a ela orientar todo e qualquer tipo ou modalidade de educação, toda
e qualquer prática pedagógica comprometida com a transformação social. O diferencial da
PHC está justamente no fato de ser uma teoria pedagógica (transformadora) e não um tipo ou
modalidade educativa. Em função disso, pode ser utilizada como referência teórico-
metodológica por todas as práticas pedagógicas.
Então, como a PHC se constitui numa teoria pedagógica, isto é, numa forma de
conceber e organizar toda a educação, não há dúvida de que não só é possível se articular a
PHC e a EPT, como a EPT pode trabalhar de acordo com a concepção de educação preconizada
pela PHC.
Nada obstante, como a educação não é neutra, como o trabalho pedagógico carrega
implicações sociais, não basta optar por uma teoria pedagógica qualquer. É preciso adotar uma
teoria que possibilite “produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a
humanidade que é histórica e coletivamente produzida pelo conjunto dos homens” (SAVIANI,
1997, p. 13).
No caso da PHC, ela se constitui numa teoria pedagógica contra hegemônica,
revolucionária e transformadora, que, ao lado das categorias totalidade, contradição,
antagonismos sociais, classes, lutas de classes e modo de produção, tem na categoria trabalho
sua centralidade, e compreende que o homem se define e se produz como homem pelo trabalho.
Como dizem Marx e Engels em A Ideologia Alemã, o homem se define pelo que e como
produzem sua vida material. (MARX, 1981, p. 23). Nesse sentido, o trabalho assume a
condição simultânea de categoria ontológica e de princípio educativo.
Assim, do mesmo modo que a EPT, enquanto um tipo específico de educação, a PHC,
enquanto uma teoria pedagógica, também defende uma escola unitária, a formação politécnica
e a formação integral para todos os alunos, que permita o desenvolvimento de todas a suas
potencialidades, realize uma formação omnilateral e possibilite a emancipação humana.
Por fim, de forma sintética, elencamos algumas condições e exigências para se adotar
e se trabalhar com a pedagogia histórico-crítica e ser coerente com seus pressupostos. Dentre
elas, mencionamos a necessidade de: a) Domínio da Teoria, ou seja, é necessário dominar a
Pedagogia Histórico-Crítica. Afinal, pode-se saber determinados conteúdos, entretanto, se não
se domina a teoria que os fundamenta, não é possível trabalhá-los de acordo com sua
perspectiva; b) Domínio dos conteúdos com os quais se trabalha. Não há possibilidade de se
trabalhar determinados conteúdos numa determinada perspectiva se não se conhece e não se
domina esses conteúdos; c) Conhecimento do Método Materialista Histórico-Dialético.
Como a PHC se constitui numa teoria pedagógica contra hegemônica e transformadora, que
adota o método materialista histórico-dialético, não é possível se realizar uma prática
pedagógica efetivamente transformadora sem dominar esse método; d) Conhecimento acerca
do funcionamento da sociedade. Sendo a PHC uma teoria transformadora, o conhecimento
da organização e do funcionamento da sociedade é uma condição sine qua non. Afinal,
ninguém transforma o que não conhece. Por isso, a necessidade de conhecer a realidade para
além da imediatez e das aparências, conhecer suas multideterminações; e) Construção de um
Projeto de educação para um outro tipo de sociedade. A transformação social não ocorre
de modo aleatório, espontâneo e naturalmente. Daí a necessidade da construção de um projeto,
a articulação de ações, a definição de passos, o estabelecimento de estratégias, metas e um
plano de ação; f) por fim, o compromisso com a perspectiva revolucionária. A
especificidade da PHC está em seu caráter transformador. Como mencionamos, se esse caráter
for suprimido, ela se transforma em apenas mais uma teoria pedagógica qualquer. Como a
PHC se constitui numa teoria revolucionária e transformadora, sem o compromisso com a
transformação radical e profunda da sociedade, também não é possível trabalhar com a PHC.
(ORSO, 2016, p. 107-109).
Ou seja, falando de modo redundante, pode-se dizer que, se não quisermos transformar
a realidade, não vamos transformá-la. Aí podemos ensinar qualquer coisa e realizar a prática
pedagógica de qualquer jeito, amparada em qualquer teoria, ou até mesmo, trabalhar sem teoria
pedagógica alguma, sem um método adequado, sem um projeto e sem compromisso com nada
nem ninguém.
Contudo, não é esse o caso da EPT. Além do mais, a humanidade implora e exige a
transformação social. Daí a necessidade de uma teoria efetivamente comprometida com ela,
que articule e oriente a educação e as lutas nessa perspectiva.
CONCLUSÃO
Educação não combina com ausência de uma teoria pedagógica que articule e norteie
tanto a organização da escola, quanto o trabalho pedagógico. Por isso, como a EPT se constitui
numa tipicidade específica de educação, que tem no trabalho a sua centralidade e o adota como
princípio educativo, tal como defende a própria PHC, que se constitui numa teoria pedagógica,
não só é possível, importante e necessário a aproximação e articulação entre elas, como é
relevante que a EPT adote a PHC como sua teoria pedagógica, uma vez que estão
comprometidas com o desenvolvimento integral dos educandos e com a transformação social.
BIBLIOGRAFIA
Resumo
O presente trabalho é o resultado da disciplina de Estágio Curricular Supervisionado em
Gestão Escolar do curso de Licenciatura Plena em História - UEMA Campus Caxias. O
estágio supervisionado foi realizado na Unidade Integrada Municipal Paulo Marinho de
Caxias - MA, entre maio e junho de 2022. O processo de observação da rotina pedagógica da
escola, possibilitou a percepção de como se desenvolvem as atividades dentro de uma escola.
Foi possível perceber a execução de uma série de projetos voltados para a melhoria da
educação dos estudantes, tais como: o projeto ambiental e empreendedorismo; projeto de
leitura; reforço para a alfabetização etc. Para melhor compreensão do ambiente pedagógico e
de como funciona uma gestão escolar foi de vital importância os seguintes autores: Libâneo
(2004), Araújo (2022), Godoy, (1995).
INTRODUÇÃO
O presente trabalho é resultado das experiências possibilitadas durante a observação
na Unidade Integrada Municipal Paulo Marinho de Caxias - MA, entre maio e junho de 2022,
proporcionada através da disciplina Estágio Curricular Supervisionado em Gestão Escolar,
ofertada pelo curso de Licenciatura Plena em História do Centro de Estudos Superiores de
Caxias, Universidade Estadual do Maranhão - CESC-UEMA. Tal experiência vem atrelar-se
com a ementa da disciplina que dispõe do estágio em gestão como base para se compreender
a organização e funcionamento escolar, por meio da gestão pedagógica e administrativa.
Seguindo a lógica de Araújo e Martins (2020 p.197-198):
Acreditamos que o estágio, por sua natureza político-pedagógica, é um processo
contínuo de aprendizado. Quando se pensa nas disciplinas dos cursos de
licenciatura sobressai-se a unidade teoria e prática que atribui sentido e significado
à formação dos professores. Podemos pensar, assim, que o estágio é sempre uma
relação (teoria e prática) da universidade e Educação Básica e vice-versa, com
interação, participação, envolvimento e, sobretudo, (trans) formação. O estágio se
torna, portanto, relação e nela os estudantes vivem, no tempo histórico e espaço
social da universidade, articulado às escolas de Educação Básica, a complexidade
da formação e do exercício docente.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Pensar em gestão é pensar nas diferentes esferas que envolvem o processo
funcional de uma instituição de ensino, que vão desde a comunidade a qual ela está inserida,
bem como todos que compõem seu espaço interno, cujo objetivo pauta-se em formar
cidadãos capazes de conviver em sociedade e transformá-la a partir do processo de
democratização. Nesse sentido, para que o ensino alcance seu objetivo final é imprescindível
a presença de uma gestão que preza por um modelo que englobe o processo de
democratização participativa de todos os envolvidos de forma interna e externa. Diante
disso, a educação, atualmente, possui como principal objetivo “formar indivíduos cada vez
mais adaptados ao seu local de trabalho, porém capacitados a modificar seu comportamento
em função das mutações sociais" (TRAGTEMBERG, 2018, p. 184), e para alcançar tai
objetivos o processo de gestão torna-se fundamental.
Sabendo então, que cada escola possui suas particularidades sociais é necessário
que cada espaço educativo utilize meios pelos quais a participação de toda a comunidade
esteja relacionada com o objetivo do processo educacional, onde a figura do gestor possui
papel central para que tal gestão ocorra de maneira democrática a fim de garantir uma boa
qualidade relacionada aos processos administrativos e pedagógicos pautados em preceitos
de participação coletiva. A escola, nesse contexto, pode ser entendida como um espaço
sócio-cultural próprio que está em contínua construção pautada em dois ordenamentos,
sendo estes descritos por Dayrell (1996, p. 2) como:
[...] é importante ressaltar mais uma vez que a concepção de docência presente
nas diretrizes não se restringe às atividades pedagógicas de sala de aula. O docente
formado no curso deverá estar preparado para desenvolver todos os tipos de
trabalho de natureza educativa. (VIEIRA, 2011, p.148)
Dessa forma, diante das mudanças que a educação brasileira vem enfrentando,
existe a necessidade de os gestores promoverem uma administração capaz de focar no
desenvolvimento educacional nas amplas esferas pedagógica, administrativa e social.
Nesse sentido, o papel desenvolvido pelo gestor e coordenador pedagógico é
coordenar a execução das políticas educacionais para a melhoria dos índices escolares,
executando os recursos corretamente, buscando diálogos com os professores e com os pais
dos alunos para um melhor acompanhamento da formação dos estudantes. Logo, cada uma
das funções da comunidade escolar é composta por seres sociais, com pensamentos
divergentes e “detentores da vontade de vida”, vista pela ótica de Lopes (2013) como a força
motriz que alavanca os esforços para o funcionamento de uma gestão democrática e,
consequentemente, de uma educação de qualidade.
METODOLOGIA
RESULTADOS E DISCUSSÃO
REFERÊNCIAS
Resumo
A (re)construção do Projeto Político-Pedagógico – PPP do Instituto Federal de Educação,
Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte – IFRN, ocorrido no ano de 2009, estabeleceu
um novo movimento político-pedagógico na Instituição e trouxe, à tona, muitos desafios
políticos, filosóficos e pedagógicos. Transcorridos 13 anos de atuação com essa nova proposta
institucional, consideramos que seja importante dar voz aos sujeitos docentes que atuaram (e
ainda atuam) no processo de elaboração e implantação desse projeto pedagógico, a fim de
avaliar os aspectos que eles analisam como positivos e que constituem um avanço significativo
na formação do nosso alunado. Dessa forma, o presente estudo tem como objetivo fazer a
escuta de relatos narrativos docentes acerca de suas experiências e vivências pedagógicas,
buscando observar os aspectos que são acentuados por esses professores sobre as concepções
e os princípios que fundamentam o PPP. Para isso, recorremos a alguns autores que se
preocuparam em discutir a memória (BOSI, 1994; HALBWACHS, 1990), estabelecendo um
diálogo entre a memória pessoal (docente) e a memória coletiva (institucional). Além disso,
como toda nossa análise parte dos sentidos construídos a partir da materialidade linguística,
recorremos à Teoria Dialógica de Linguagem bakhtiniana (BAKHTIN, 2010; 2011), pois ela
discute noções como: alteridade, entonação, acento apreciativo, etc, que serão fundamentais
para análise e a interpretação dos discursos contidos nas narrativas dos docentes. Em sua
narrativa, o docente ao confrontar o seu fazer pedagógico no tempo-espaço presente com o
fazer de um tempo-espaço passado (institucionalidade anteriores), acentua a proposta do
currículo integrado como o grande diferencial da nova proposta pedagógica e destaca, que
mesmo sendo necessário ainda avançarmos muito nesta proposta, já é possível observarmos a
mudança no perfil de formação do aluno concluinte.
Palavras-chave: Projeto Político-Pedagógico. Docente. Memória narrativa.
INTRODUÇÃO
1. DO CONCEITO DE MEMÓRIA
5
M.Bakhtin, Estética da criação verbal, op.cit., 2011, p. 307-337.
6
M.Bakhtin, Estética da criação verbal, op.cit., 2011, p. 367-392
Para abordar um pensamento e/ou teoria devemos partir sempre de um processo
dialógico entre as coletividades sociais e a individualidade do sujeito, entre a materialidade
sócio-histórica e o indivíduo que participa da construção dessa história, entre o geral e o
particular, entre o prático e o teórico, entre outros diálogos que apontam para necessidade de
considerarmos sempre o mundo da vida, em relação ao mundo da cultura, entre o dado (os
fundamentos da natureza e a linguagem como sistema de signos) e o criado (sujeitos docentes
como objetos das Ciências Humanas). Destaca-se em Bakhtin (2011), a existência de duas
forças opostas básicas que se encontram sempre em atividade na existência: as forças
centrífugas que operam em favor da variação, da mudança, compelem ao movimento; e as
forças centrípetas que operam para manter a unificação, resistem ao devir. Dessa forma,
Bakhtin (2011), investe em buscar entender como o grande diálogo existente entre essas duas
forças díspares manifesta-se nas relações sócio-históricas das quais os sujeitos participam.
Portanto, optamos por adotar a Teoria Dialógica da Linguagem nessa pesquisa porque
entendemos que ela nos fornece os elementos necessários para compreendermos, a partir do
pensamento verbalizado na narrativa dos docentes, como ele participa desse diálogo social,
como, através das entonações e acentos apreciativos, ele se posiciona frente aos valores sociais.
A escolha do dispositivo dialógico, como método de análise do discurso docente, possibilita
uma reflexão sobre sua constituição enquanto docente, não apenas abordando teorias
generalizantes acerca dessa temática, mas confrontando a sua experiência subjetiva, em sua
unicidade, com as formas de conhecimento da experiência humana.
Em meio a todo esse contexto cultural saturado de significados e valores, o docente,
através de um ato responsável7, toma uma posição axiológica diante desse contexto. Essa
posição, única e insubstituível, é materializada verbalmente através de suas narrativas, no
texto. À medida que o docente vai posicionando-se frente às memórias, às experiências, aos
aspectos relativos à sua trajetória de construção na docência. Sob essa ótica, Morson e Emerson
(2008, p.122) enfatizam que
7
Para Bakhtin (2010), ato-responsável consiste numa ação irrepetível, em que o ser (agente do ato) do lugar
próprio e único que ocupa na existência, vê e reconhece um outro. No ato agrega-se o conteúdo (produto/sentido
do ato) à forma (processo de organização do conteúdo do ato); o sensível (o mundo dado) ao inteligível (a
apreensão do mundo).
O diálogo constitui-se, portanto, nesse processo de interação com o outro, o que nem
sempre é marcado por concordâncias, podendo haver, contrapalavras, discordâncias e
interrogações. Isso se justifica, porque a palavra transita por contextos e grupos diversos, e em
cada um desses contextos, adquire um novo sentido. A palavra é viva e, por natureza, dialógica,
portanto, será sempre ouvida, respondida e reapreciada. (BAKHTIN, 2011).
Os docentes participantes desse trabalho foram(estão) se constituindo enquanto
docentes, inseridos em um contexto (IFRN) que atravessa mudanças constantes. Numa
trajetória que contabiliza 113 anos de história, o IFRN passou por transformações marcantes
na sua organização institucional que afetou o seu perfil identitário, modificando as suas
concepções, seus princípios, fundamentos e suas práticas institucionais. Em meio a esse
processo, encontram-se os docentes aos quais se exige adequação a todas essas mudanças, bem
como à adesão aos novos princípios e concepções (ensino, trabalho, educação) como
norteadores de suas práticas docentes.
A partir dessas transformações, as palavras vão ganhando novos acentos apreciativos
pois, sendo a palavra um signo linguístico (portanto, signo ideológico), ela expressa a tomada
de posição determinada pela ideologia do contexto social a qual está atrelada e passa a
constituir a consciência dos sujeitos participantes desse contexto. Em Marxismo e filosofia da
linguagem (2013), assinado por Voloshinov, toma-se como ponto de partida, a relação entre o
estudo da ideologia e o estudo da linguagem, enfatizando-se que todo o signo representa a
realidade a partir de uma posição valorativa.
Neste sentido, partir dessa perspectiva de linguagem, parece-nos fundamental, pois,
coloca-nos frente à compreensão do próprio ato responsável e responsável do sujeito docente,
ou seja, de como este sujeito, a partir de uma perspectiva espaço-temporal, assume
posicionamentos axiológicos e, ao fazê-lo, cria suas narrativas. Assim sendo, o ato/ação
responsável referido por Bakhtin (2010) em Para uma filosofia do ato responsável – PFA,
pode então, ser exemplificado através da ação praticada pelo sujeito docente de rememorar e
materializar essa memória nas narrativas, pois essas atividades se constituem como ato de
pensamento e linguagem realizadas no mundo de fato vivido.
O docente do lugar único que ocupa em sua existência, realiza a ação produtiva e
responsável de rememorar, ele refaz, reconstrói, repensa as experiências do passado com o
material que tem a sua disposição no hoje. Todo esse trabalho de construir e disputar sentidos
se materializa no discurso das narrativas desses docentes. E nisso consiste toda uma atividade
dialógica entre o particular e o geral, entre o prático e o teórico, entre o agir concreto dos
sujeitos docentes com o pensar sobre o agir, entre o que é repetível e o que é irrepetível.
Face a essas questões, partimos para a análise da narrativa docente. Considerando a
natureza deste trabalho, somente nos foi possível analisar uma única narrativa. Contudo,
buscamos selecionar um texto que possibilitasse uma discussão bastante abrangente acerca do
estudo proposto.
METODOLOGIA
Nossa pesquisa teve como local o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
do Rio Grande do Norte, Campus Mossoró, pois esse Campus iniciou suas atividades quando
o Instituto ainda era Escola Técnica Federal do Rio Grande do Norte – ETFRN (surgida antes
do CEFET-RN). Quanto ao sujeito envolvido, contamos com a narrativa de um docente que
atua no IFRN, Campus Mossoró, desde a época de CEFET e que, portanto, acompanhou, todo
o processo de discussão e elaboração do PPP, bem como, a implantação dessa nova
institucionalidade.
Diante dessas considerações, optamos pela escolha da narrativa como instrumento
devido à sua pertinência face ao objeto de pesquisa e ao diálogo que mantém com a abordagem
teórico-metodológica adotada nesse estudo: o dialogismo e seu fundamento ético-filosófico –
o ato responsável. As narrativas possibilitam, pois, desencadear o ato responsável operado pela
memória dos docentes. Assim sendo, por meio dos enunciados e discursos contidos nessas
narrativas, poderemos interpretar os sentidos que os docentes mobilizam e constroem.
A abordagem teórico-metodológica bakhtiniana trouxe grandes contribuições para
explorar qualitativamente, via linguagem, formas de conhecimento de natureza social e cultural
de sujeitos históricos. Configura-se como uma proposta constituída de “conceitos, noções e
categorias que especificam a postura dialógica diante do corpus discursivo, da metodologia e
do pesquisador”. (BRAIT, 2008, p.29, grifo do autor)
RESULTADOS E DISCUSSÃO
3. NARRATIVAS DOCENTES
CONCLUSÕES
REFERÊNCIAS
Resumo
O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) criado em 22 de janeiro de 1942,
por meio do decreto-lei 4.048, na Era Vargas, foi originada com o intuito de atender à
necessidade das indústrias de base que visavam preparar mão-de-obra especializada para o
mercado de trabalho. O Ensino Industrial, por conseguinte, era uma preocupação evidenciada
pelos industriais no interior da Paraíba. Neste sentido, buscaram implementar o SENAI na
cidade de Rio Tinto-PB para que os filhos de operários e os seus indicados fossem engajados
no mercado de trabalho, instituindo-os nos anos iniciais de aprendizado profissional. Este
artigo, por sua vez, propõe-se mapear os trabalhos publicados sobre a Escola de Aprendizagem
Coronel Frederico Lundgren (EACFL), criada em 1944 na cidade de Rio Tinto-PB, em
consequência do acordo de Isenção entre o SENAI/Pernambuco e a Companhia de Tecidos
Rio Tinto, sendo considerada a primeira unidade do Sistema “S” na Paraíba. O decreto-lei que
criou o SENAI estabelecia que ficariam isentos da contribuição financeira mensal para a
instituição, as empresas que montassem e custeassem com recursos próprios a aprendizagem,
sendo nomeadas de “escolas de isenção”. De acordo com os documentos institucionais, a
Escola de Aprendizagem Coronel Frederico Lundgren permaneceu em regime de Isenção até
12 de julho de 1967, quando foi assinado entre a Companhia e o DR, um termo de
entendimento sobre a passagem da Escola para o SENAI, ato homologado pelo Conselho
Nacional do SENAI, na reunião de 28 de novembro de 1967, na cidade de Curitiba, no Paraná.
Buscando compreender essa narrativa, utilizou-se como caminho metodológico o Estado do
Conhecimento da produção acadêmica, a partir de uma revisão bibliográfica dos principais
autores que discutem e fundamentam a história e a memória da Educação Profissional: Ciavatta
(2015); Certeau (1982); Magalhães (2004), entre outros. Para rastrear esses estudos, optou-se
por pesquisar nos repositórios digitais da Universidade Federal da Paraíba da Universidade
Estadual da Paraíba, no Google Acadêmico e no Catálogo de Teses e Dissertações da
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). Ao término da
pesquisa foi notória a necessidade de novos estudos que discutam a construção e a
implementação da EACFL e a importância dessa instituição para o Ensino Profissional no
Estado da Paraíba, atentando para o debate teórico, político e social para a produção de
conhecimentos relacionados a História da Educação Profissional.
Palavras-chave: História da Educação Profissional. Ensino Industrial. Trabalho-Educação.
Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial.
INTRODUÇÃO
O ano de 1930 foi marcado por significativas mudanças na sociedade brasileira, por
tensões políticas e pela consolidação do capitalismo – o que influenciou as discussões sobre as
políticas públicas voltadas para a educação, tendo como finalidade receber o novo modelo
socioeconômico. Verifica-se, nesse período, o quadro crescente da industrialização que “[...]
alterou as aspirações sociais em relação à educação, uma vez que nele eram exigidas condições
mínimas para concorrer no mercado (ROMANELLI, 1987 apud LIBÂNEO, OLIVEIRA e
TOSCHI, 2012, p. 152)”. Todavia, a educação profissional foi impulsionada pelos interesses
dos capitalistas que viam nesses estabelecimentos de ensino, uma proposta pautada na
produtividade e na seleção dos mais “aptos” para o mercado de trabalho.
Inicia-se, por conseguinte, uma nova fase na história do Brasil uma vez que o governo
Vargas adota uma série de mudanças que, diretamente, impactaram na educação. Com a
crescente necessidade de mão-de-obra especializada o governo passou a se interessar pelas
questões educacionais voltadas para a profissionalização, sobretudo, por ser “[...] motivada
pela industrialização emergente e pelo fortalecimento do Estado-nação, [...] com a perspectiva
de organizar em plano nacional, a educação escolar” (ROMANELLI, 1987 apud LIBÂNEO et
al., 2012, p. 151).
A revolução ocorrida em 1930 descreveu a concretização do capitalismo industrial no
Brasil e foi decisiva para que novas exigências educacionais fossem empreendidas. Segundo
Morais (2011) o Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova (1932) traçou uma nova política
educacional propondo que o homem brasileiro estivesse apto para atender os desafios de uma
ordem econômica mundial intensificada pelo sistema de produção da indústria.
No período da ditadura de Getúlio Vargas (1937-1945) vigorou o Estado Novo,
identificado também como período centralizador da organização da educação. Por meio da
constituição de 1937, o debate sobre política educacional ficou restrito, tão somente, a
sociedade política; “As leis orgânicas editadas entre 1942 e 1946 – [...] reafirmavam a
centralização da década de 1930, com o estado desobrigando-se de manter e expandir o ensino
público” (LIBÂNEO et al., 2012, p. 155). Apesar disso, em 1942, é criado o Serviço Nacional
de Aprendizagem Industrial (SENAI), conferindo as classes populares a condição de usufruir
da escola pública através do ensino profissionalizante ao passo que reforçava o dualismo
educacional entre a elite e as camadas menos favorecidas.
Desse modo, resolvemos realizar a investigação sobre o primeiro estabelecimento de
ensino profissional (SENAI) do Estado da Paraíba, criado em 1944 por intermédio de um
acordo entre a Companhia de Tecidos Rio Tinto (CTRT) e o SENAI de Pernambuco (PE),
destinado ao ensino de ofícios. Diante dessas considerações, questiona-se: (I) Quais os
conhecimentos produzidos sobre o início do SENAI da Paraíba? E (II) quais conclusões trazem
esses estudos para fomentar a discussão da educação para o trabalho e a cidade fábrica?
O presente artigo, ansiando conhecer a existência de estudos e pesquisas que tratem do
SENAI na Paraíba e as questões educacionais voltadas para a profissionalização no Estado,
propõe-se mapear e analisar a produção do conhecimento constante no Repositório
Institucional da Universidade Federal da Paraíba, Biblioteca Digital da Universidade Estadual
da Paraíba, Google Acadêmico e Catálogo de Teses e Dissertações da CAPES. Trata-se de
uma análise cujo cerne é a educação profissional e sua relação com a formação para o trabalho,
contribuindo para o debate teórico, político e social, além de ser um caminho para produção
de conhecimentos relacionados a História da Educação Profissional paraibana.
Segundo Certeau (1982) toda pesquisa historiográfica se articula com um lugar de
produção socioeconômico, político e cultural (p. 56). Destarte, num primeiro momento, o
artigo traz notas prévias sobre o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial e a educação
para o trabalho e, posteriormente, aponta o caminho metodológico trilhado, avança
apresentando os resultados e as discussões e, por último, as considerações finais.
A cidade fabril de Rio Tinto - Paraíba começou sua história antes mesmo do município
ser emancipado (torna-se município pela Lei Estadual nº 1.622 de 06 dezembro de 1956), com
a chegada da família Lundgren em meados de 1917 ao “Engenho Preguiça”, à época distrito
de Mamanguape-PB. No ano de 1918 inicia-se o projeto para a criação do complexo industrial
que viria a ser estabelecido em 1924. Em 1933, Rio Tinto foi considerada o maior complexo
têxtil do Nordeste. Paralelo a construção deste poderio econômico, a família Lundgren buscou
independência para os seus negócios e obteve o consentimento do Governador Camilo de
Holanda (1916-1920) para a isenção do imposto estadual por vinte e cinco anos. Contudo, seria
responsabilidade dos industriais prover saúde, segurança e educação para os munícipes. Neste
cenário eram criados os mecanismos de formação profissional.
No Brasil, por meio do Decreto-Lei nº 4.048, de 22 de janeiro de 1942, cria-se o Serviço
Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI), que prevê, no art. 180 da Constituição que
Art. 2º Compete ao Serviço Nacional de Aprendizagem dos Industriários
organizar e administrar, em todo o país, escolas de aprendizagem para
industriários.
Art. 3º O Serviço Nacional de Aprendizagem dos Industriários será
organizado e dirigido pela Confederação Nacional da Indústria.
Art. 4º Serão os estabelecimentos industriais das modalidades de indústrias
enquadradas na Confederação Nacional da Indústria obrigados ao pagamento
de uma contribuição mensal para montagem e custeio das escolas de
aprendizagem.
Art. 5º Estarão isentos da contribuição referida no artigo anterior os
estabelecimentos que, por sua própria conta, mantiverem aprendizagem,
considerada, pelo Serviço Nacional de Aprendizagem dos Industriários, sob
o ponto de vista da montagem, da constituição do corpo docente e do regime
escolar, adequada aos seus fins (grifo nosso)
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Em 1944 o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial da Paraíba estava subordinado ao Departamento
Regional de Pernambuco (DR-PE), posto que a Federação das Indústrias do Estado da Paraíba (FIEP) só viera a
ser instalada em 17 de julho de 1949 e somente filiou-se à Confederação Nacional da Indústria (CNI) em 28 de
novembro de 1951.
9
De acordo com os documentos institucionais, a Escola de Aprendizagem Coronel Frederico Lundgren
permaneceu em regime de Isenção até 12 de julho de 1967, quando foi assinado entre a Companhia e o DR, um
termo de entendimento sobre a passagem da Escola para o SENAI, ato homologado pelo Conselho Nacional do
SENAI, na reunião de 28 de novembro de 1967, na cidade de Curitiba, no Paraná.
legislação do ensino, considera-se aprendiz o trabalhador menor de dezoito e maior de
quatorze anos, sujeito à formação profissional metódica do ofício em que se exerça o seu
trabalho” (grifo nosso).
Morais (2011) infere que os industriais aspiravam se apropriar do trabalho dos
alunos/operários da EACFL, tornando-os força de trabalho para a CTRT; essa escola se
localizava nas proximidades da fábrica de tecidos. Contudo, pautada pela disciplina,
impunham limites e regras para manter a ordem e o controle sobre os alunos e seus corpos “[...]
no intuito de tanto multiplicar suas forças, para que possam gerar riquezas, quanto diminuir
sua capacidade de resistência política” (GAMA, GAMA e PINHO, 2009, p. 1). Fica
evidenciado que os comportamentos ensinados aos aprendizes tinham por objetivo desenvolver
nos futuros operários uma cultura de fábrica centrada nas noções de tempo e disciplina no
trabalho, de modo que, alcançassem a alienação do trabalhador. Neste sentido, é importante
que venhamos a compreender a realidade histórica da instituição de modo a integrá-la no
quadro mais amplo do sistema educativo (MAGALHÃES, 2004, p. 133).
APORTES TEÓRICO-METODOLÓGICOS
0 MORAIS, José Jassuipe da Silva. Educação entre tornos, notas e salários: Escola de Aprendizagem
1 Coronel Frederico Lundgren Rio Tinto/PB (1944- 1967). 2011.156 f. Tese (Doutorado em Educação)
– Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2011. Disponível em:
https://repositorio.ufpb.br/jspui/handle/tede/4669 acesso em 22.ago.2021.
0 SILVA, Maria das Graças Miranda Ferreira da. A relação das categorias pluralismo e ecletismo
2 Epistemológico com a produção do conhecimento na história da educação. 2015. 393 f. Tese
(Doutorado em Educação) - Universidade Federal da Paraíba, João Pessoa, 2015.
O trabalho de doutorado de Morais (2011) - (Quadro 1, n. 01) teve como objetivo
analisar a experiência educacional dos operários da Companhia de Tecidos (CTRT) e
reconstruir a história do SENAI de Rio Tinto, no período compreendido entre 1944 e 1967.
Uma das questões de pesquisa do referido trabalho, buscou compreender como se promoveu a
educação profissional voltada aos interesses da produção por intermédio da Escola de
Aprendizagem (EACFL) sem considerar as relações de transmissão e remoção de cultura para
os operários da CTRT. Segundo Morais (2011) a EACFL era um lugar próprio para a educação
profissionalizante, pois tinha uma identidade própria para a formação de operários, dando-lhes
uma preparação técnica para o trabalho na fábrica.
Fernandes (2000, p. 122) ao se referir a Escola do SENAI em Rio Tinto ratifica o que
foi dito por Morais (2011), ao relatar que esta instituição não deixou de trazer algum proveito.
Todavia, a Fábrica de Tecidos por meio da CTRT não precisava de ensino mecânico, pois as
grandes oficinas da fábrica eram uma faculdade de ensino profissional de caráter abrangente.
E dentro da própria fábrica, existia uma grande sala destinada exclusivamente para o ensino e
o treino mecânico de meninos (filhos de operários) que tivessem a idade de 14 anos.
Morais (2011) conclui o seu trabalho inferindo que, a partir dos resultados
evidenciados, o desenvolvimento do ensino profissional mirava o aumento da produtividade
industrial e a valorização do capital. Diante disso, os industriais passaram a controlar o tempo
do operário, mantendo-o sob vigilância, adestrando-o para ser eficiente e disciplinado, visando
garantir a permanência da exploração do homem pelo capital.
Morais (2011) também evidencia que na realidade educacional da escola a educação
para o trabalho era praticada por meio da meritocracia na qual os mais aptos eram
recompensados financeiramente e garantem uma vaga nas oficinas da fábrica.
Em relação a meritocracia, o livro de Fernandes: “O Pai do Vento” relata que os alunos
que levavam a sério o aprendizado na EACFL eram recompensados, inclusive, com caneta
banhada a ouro. Além disso, após o tempo normal do aprendizado, esses alunos eram
encaminhados às grandes oficinas da fábrica de tecidos (MORAIS, 2011).
A tese de Silva (2015) – (Quadro 1, n. 02) apareceu em nosso descritor porque a autora
se propõe a analisar a produção do conhecimento da pós-graduação na UFPB, na linha de
pesquisa em História da Educação, dito isto, a autora analisa a tese de Morais (2011) a luz das
categorias Pluralismo e Ecletismo em suas dimensões epistemológicas.
Em um segundo momento, ao analisarmos o Catálogo de Teses e Dissertações da
CAPES identificamos apenas uma tese que já está referenciada e foi analisada por meio do
Quatro 1 (n. 01), Morais (2011).
Dando continuidade, realizamos buscas por bibliografias que remetesse a Educação
Profissional no município de Rio Tinto no banco de dados da Biblioteca Digital da
Universidade Estadual da Paraíba, foram utilizados os seguintes descritores: “SENAI Paraíba”;
“A educação em Rio Tinto”; e “Escola de Aprendizagem Coronel Frederico Lundgren”. Nesta
plataforma diversos trabalhos foram localizados mesmo fazendo uso das aspas, então optamos
por fazer o refinamento através dos títulos dos trabalhos. Em seguida, elegemos 5 pesquisas,
abrimos os PDFs e selecionamos no documento a opção de “localizar” na qual foram utilizados
os descritores: “SENAI”; “Rio Tinto”; e “1944”, ano que se refere a criação da instituição
investigada. Localizamos dois trabalhos, conforme apresentados no Quadro 2.
0 ANDRADE, J. M. V. de. Dos núcleos fabris ao poder local: um coronelismo industrial no interior
1 da Paraíba (1917-1949). 2019. 72f. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em História) -
Universidade Estadual da Paraíba, Guarabira, 2019.
0 LIMA, Carlos Alberto de. A evolução da educação em Rio Tinto no período de 1930 a 1950. 2014.
2 44f. Monografia (Especialização em Fundamentos de Educação: práticas pedagógicas interdisciplinares)
- Universidade Estadual da Paraíba, João Pessoa, 2014. Disponível em:
http://dspace.bc.uepb.edu.br/jspui/handle/123456789/5661 acesso em 22.ago.2021.
01 MORAIS, José Jassuipe da Silva. ESCOLA DO SENAI DE RIO TINTO - PB: representações da cultura
escolar para a fábrica e a profissionalização masculina. II Seminário Nacional de Gênero e Práticas Culturais
- Culturas, Leituras e Representações. 2009. Disponível em:
https://www.researchgate.net/publication/305496001_> acesso em 16.set.2021.
02 MORAIS, José Jassuipe da Silva. Histórias e Memórias da Educação Profissional contadas por Ex-
Operários da Companhia de Tecidos Rio Tinto – PB (1946-1988). 2008. Disponível em:
https://www.researchgate.net/publication/303987745_ acesso em 16.set.2021.
04 MORAIS, José Jassuipe da Silva; FERREIRA, António Gomes. COTIDIANO ESCOLAR NA ESCOLA DO
SENAI DE RIO TINTO (PARAÍBA): A memória de vozes operárias nas décadas de cinquenta e sessenta.
2016. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/303918371_ acesso em 16.set.2021.
05 SANTOS, Letícia de Carvalho. O trabalho tecendo memórias: cotidiano das mulheres na cidade-fábrica
de Rio Tinto (1948-2014). 2015. 184 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal de
Pernambuco, Recife, 2015. Disponível em: https://repositorio.ufpe.br/handle/123456789/16827 acesso em
19.out.2021.
06 SILVA, Ramsés Nunes e; MORAIS, José Jassuipe da Silva. A IMPRENSA E O PERIGO VERMELHO
QUE SE ESGUEIRA: instrução, proletariado e propostas pedagógicas católicas na Paraíba das décadas
de 1940-1950. Prensa Pedagógica y Patrimônio Histórico Educativo. 2013. Disponível em:
https://www.researchgate.net/publication/303460358_ acesso em 16.set.2021.
Mais importante, porém, que o preparo formal ou comum era o fato de que o
ofício proporcionava um vínculo diário entre a ciência e o trabalho, visto que
o profissional estava constantemente obrigado ao emprego de conhecimento
rudimentar científico [...]. Esses profissionais eram parte importante do
público científico de seu tempo, e via de regra demonstravam interesse pela
ciência e cultura além daquele relacionado diretamente com o seu trabalho.
(BRAVERMAN, 2011, p. 118-119)
No que tange a problemática apresentada por Morais e Ferreira, Lopes (2005) conta
que a experiência mostrou como muitos dos antigos alunos do SENAI tomaram gosto pelos
estudos, cursaram colégios, fizeram faculdades e se tornaram profissionais liberais ou
montaram seus próprios negócios, geralmente na indústria.
Enquanto o trabalho dissertativo de Santos (2015) – (Quadro 3, n. 05) buscou estudar
o cotidiano a partir da memória de idosos/as, operários/as da fábrica, no período de seu
funcionamento. A pesquisa se deu através da quase inexistência de trabalhos de cunho
historiográfico sobre a presença das mulheres na formação do operariado de Rio Tinto. Diante
desse cenário, a autora buscou consolidar o registro da vivência das trabalhadoras na fábrica e
como experimentavam o mundo do trabalho. De acordo com Santos (2015)
CONSIDERAÇÕES
REFERÊNCIAS
BRASIL. Constituição dos Estados Unidos do Brasil de 10 de nov. de 1937. Casa Civil -
Subchefia para assuntos jurídicos.
BRASIL. Decreto-Lei n 5.091, de 15 de dez. de 1942. Dispõe sobre o conceito de aprendiz,
para os efeitos da legislação do ensino. Diário Oficial da União: seção 1, p. 18276, 17 de dez.
1942.
BRASIL. Decreto-Lei nº 4.048, de 22 de janeiro de 1942. Cria o Serviço Nacional de
Aprendizagem dos Industriários (SENAI).
BRASIL. Decreto-Lei nº 4.073, de 30 de janeiro de 1942. Lei orgânica do Ensino Industrial.
Diário Oficial da União: seção 1, p. 1997, 09 de fev. 1942.
BRAVERMAN, Harry. Trabalho e gerência. In: BRAVERMAN, Harry. Trabalho e capital
monopolista: a degradação do trabalho no século XX. 3. ed. Trad. Nathanael C. Caixeiro.
Rio de Janeiro: LTC, 2011.
CARVALHO, S. H. Construindo o saber: metodologia científica – fundamentos e técnicas.
CERTEAU, Michel de. A Escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1982.
FERNANDES, João Batista. O Pai do Vento. 2000.
FRIGOTTO, Gaudêncio. Educação como capital humano: uma teoria mantenedora do senso
comum. In: A produtividade da escola improdutiva. São Paulo. Cortez. 4. ed.1993.
GAMA, Glaucio Oliveira; GAMA, Claudio Oliveira; PINHO, Luiz Celso. A noção de
disciplina nas análises genealógicas de Michel Foucalt. Revista Digital. Buenos Aires:
Argentina, ano 14, n. 139, dez. 2009.
LIBÂNEO, José Carlos; OLIVEIRA, João Ferreira de; TOSCHI, Mirza Seabra. Educação
Escolar: Políticas, Estrutura e Organização. 10 ed. São Paulo: Cortez, 2012.
LOPES, Stenio. Uma escola e algo mais. SENAI – Departamento Regional da Paraíba.
Campina Grande, 2005.
MAGALHÃES, Justino. Tecendo Nexos: História das Instituições Educativas. Bragança
Paulista: Editora Universitária São Francisco, 2004.
MÉSZÁROS, István. A educação para além do capital. São Paulo: Boitempo, 2008.
DISCURSOS E NARRATIVAS DA FORMAÇÃO PARA O TRABALHO NO
BRASIL: APAGAMENTO DA MEMÓRIA E PROCESSOS DE CONTINUIDADE
INTRODUÇÃO
A história da educação profissional brasileira foi/é narrada de forma cronológica,
como um discurso político e pedagógico, transmitindo um sentido unívoco, de unidade e sem
“brechas” para outras interpretações e/ou contestações. Entretanto, ao ser analisado de modo
mais crítico percebe-se que é um discurso lacunar e que no decorrer da análise existem muitas
desconstruções que indicam apagamento da memória da história do nosso país e processos de
continuidade com o pensamento colonial.
O marco legal da educação profissional no Brasil foi em 23 de setembro de 1909,
quando o presidente Nilo Peçanha assina o Decreto nº 7.566, criando, inicialmente em
diferentes unidades federativas, sob a jurisdição do Ministério dos Negócios da Agricultura,
Indústria e Comércio, dezenove Escolas de Aprendizes Artífices (EAA), destinadas ao ensino
profissional, primário e gratuito (BRASIL/MEC, 2010). A criação da EAA é considerada o
marco histórico-legal para o “início” da história da educação profissional, pois, a partir daí é
iniciada a narrativa política histórica no país. Entretanto, ao observar a história é percebido que
a educação profissional tem início muito antes dos marcos regulatórios estabelecidos pelas leis
e decretos, sendo assim, é preciso resgatar a memória da relação de trabalho no Brasil.
Assim, desde o início da colonização, as relações de trabalho já foram estabelecidas,
pois aos seres humanos escravizados eram destinados o trabalho de carpinteiros, ferreiros,
pedreiros, tecelões e outros trabalhos mais “pesados”, estes eram trabalhos normalmente
voltados à construção, lavoura, manufatura e artesanato. Como consequência disso, os
trabalhadores “livres” se afugentavam dessas atividades, pois queriam a todo custo se
diferenciar dos escravizados, para assim, não deixar dúvidas quanto a sua própria condição
(CUNHA, 2000). Percebe-se então, a base e/ou origem do preconceito contra o trabalho
manual brasileiro e as distinções do trabalho. Pois, o trabalho manual pesado e “sujo" era
destinado aos escravizados, mas havia, ao mesmo tempo, outras atividades manuais que não
possuíam a mesma classificação, esses trabalhos eram destinados aos “livres”.
Entende-se que a nossa sociedade estabeleceu, desde os tempos coloniais a
diferenciação entre os tipos de trabalhos, uma vez que, a partir das atividades desenvolvidas
poderia ser observado o grau de instrução, a classe social e o prestígio desse trabalhador.
Dessa forma, o objetivo desta pesquisa é analisar a história da educação profissional
brasileira desde o seu “surgimento”, a partir dos discursos e narrativas da formação para o
trabalho no país, da perspectiva cronológica narrada pelos documentos políticos e pedagógicos,
mas também, analisando esses discursos na busca de interpretações outras, de falhas e/ou
processos de continuidades com o imaginário de trabalho no Brasil estabelecidos desde o Brasil
Colônia. Desse modo, surgem alguns questionamentos, como: A educação profissional já tinha
um público pré-estabelecido? Se sim, a quem era predestinada? Este sujeito-aluno poderia
pensar na sua vocação ou já estava pré-estabelecida a partir da sua condição social? A educação
profissional possui como objetivo a emancipação do sujeito ou a continuação de novas
gerações para trabalhadores da indústria? Caso o objetivo fosse a manutenção das classes,
quem de fato, se beneficia com a educação profissional? A quem era destinada a educação
profissional, ao sujeito-aluno ou as indústrias? E, por fim, qual a relação entre o trabalho no
Brasil Colônia com a Educação profissional? houve rupturas ou continuidades?
Portanto, faz-se necessário a análise dos discursos e narrativas a partir da Análise do
Discurso (AD) Pechêutiana e do paradigma indiciário de Ginzburg para encontrar os
descurvareis, os implícitos e o não dito que está contido nas narrativas históricas e políticas. A
partir disso, será percebido que todo discurso é um discurso político conforme Pêcheux (1975)
e que possui a intenção de gerar uma única interpretação.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Nesta seção serão apresentadas, uma análise histórica das relações de trabalho no
Brasil a partir do período colonial com a divisões e demarcações de trabalhos – para homens
escravizados e para os livres – além disso, será apresentada a narrativa histórica e política, com
seus marcos legais e legislações descrevendo e discutindo como se deu a oferta para a
formação/qualificação dos estudantes/trabalhadores da educação profissional no país. O intuito
dessa exposição é ampliar o entendimento sobre o objetivo proposto por esse artigo e embasar
teoricamente a análise dos resultados.
METODOLOGIA
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Considerando que o texto possui marcas e pistas que acionam a memória discursiva
remetendo ao “já dito”, o artigo acima faz funcionar o imaginário que foi construído ao longo
do tempo no Brasil e reforça as marcas já estipuladas das relações do trabalho no país. Assim,
conforme os pressupostos pechêutianos, percebe-se nos enunciados grifados acima, no
primeiro grifo, uma evidência de identidade desse sujeito-aluno que impõe uma marca
ideológica: o sujeito-aluno que é de classe menos favorecida é o sujeito da educação
profissional. O termo usado “pré-vocacional” indica que encontrar uma vocação e trabalhar
nela não é possível para esses indivíduos, pois para estes não é destinado o direito de ter e/ou
exercer uma vocação, essa análise remete-se ao período colonial e imperial no Brasil, pois
cabia ao governo decidir como seriam estabelecidas as divisões de trabalho, cabendo sempre
aos negros, órfãos e aos pobres os ofícios duros e pesados.
A análise segue com o destaque para “destinado às classes menos favorecidas”, nesta
frase percebe-se que a educação profissional é para uma parcela sociedade, a parcela pobre.
Desse modo, é analisado no segundo grifo é apresentado como “dever das indústrias e
dos sindicatos econômicos criar, na esfera de sua especialidade, escolas de aprendizes,
destinadas aos filhos de seus operários ou de seus associados”; assim, é retomada a ideia do
“pré-vocacional”, uma vez que as escolas serão criadas a partir das especialidades das
organizações citadas, é percebido, de forma implícita o interesse do Estado em manter a
dominação, pois a intenção é de que ocorra manutenção da classe operária a partir das gerações,
uma vez que, essa educação é “destinada aos filhos de seus operários”. Sendo assim, emergem
alguns questionamentos, como: Qual o interesse do Estado em investir em uma educação que
não emancipa o sujeito-aluno? Por que é relevante ao Estado manter as futuras gerações de
operários como operários? Será que ocorre a reflexão da universalização de dominação?
Portanto, pode-se problematizar neste primeiro momento que o sujeito-aluno da
educação profissional são os desfavorecidos de fortuna, que existe uma educação destinada
especificamente para eles e que é do interesse do Estado regular e manter as divisões de classe
e de trabalho. Pois, para Silva Sobrinho (2014, p. 54) A manutenção da posição ideológica
predominante, dos interesses das classes dominantes e no poder do estado “produzem
efeito/trabalho no fazer científico, fazendo a ciência ser ‘fomentada’, ou ainda, ‘apropriada’
pela propriedade privada e direcionada, cada vez mais estreitamente, aos interesses do capital”.
Para concluir a análise do R1 e ponderar sobre as questões que foram levantadas,
percebe-se que no discurso analisado da CF de 1937 o aluno da educação profissional já tinha
um “destino”, pois o lugar e as condições que ele vivia já pré-determinavam o seu futuro. Com
a diferenciação dos ensinos oferecidos é intuído que existem lugares diferentes, o lugar dos
desafortunados e o lugar dos favorecidos e que a educação profissional é destinada a esses.
Em 1971 a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira - LDB, nº. 5.692 torna
técnico-profissional todo currículo do segundo grau, essa reestruturação substitui o caráter
acadêmico pela formação profissional já no2º grau. Também é percebido nesta lei que a
formação técnica ofertada pela escola precisa estar em consonância com as necessidades das
empresas para o desenvolvimento local, como consta no Recorte 2 deste trabalho, nos Artº. 5
e Artº. 6:
R-2 Art.º 5, § 2º A parte de formação especial de currículo:
Dessa forma, uma nova configuração da relação entre educação e trabalho passa a
vigorar, em que a escola responde pela formação profissional de todos os alunos do 2º grau,
independente da sua classe social. Assim, os sentidos de uma educação para suprir as demandas
das empresas permanecem, posto que as necessidades do mundo de trabalho serão sempre (re)
avaliadas para que a educação sempre acompanhe essas mudanças e se “renove”. Outro indício
bem evidente da formação exclusiva para o trabalho está no art. 6 quando se registra a
“cooperação” das empresas na modalidade de estágio e a desobrigação dela com os direitos
trabalhistas destes estudantes, uma vez que a lei de estágio que vigorava na época não
assegurava ao estagiário nem uma carga-horária mínima e nenhuma forma de
responsabilização das empresas para com estes estudantes.
Conforme Colombo e Balão (2014, p.175):
É válido ressaltar que a Lei nº 5.692/71 (LDB), que fixou as diretrizes e
bases da educação, impôs a profissionalização a toda escola secundária
nacional, evidenciando a necessidade do estágio como elemento
complementar à formação do educando. Mas, tudo de forma
antidemocrática, burocratizada, sem o protagonismo da escola e menos
ainda da comunidade escolar (pais, trabalhadores e empresários). A LDB
permitia a improvisação para o cumprimento legal desta complementação
de formação, resultando em trabalho precário, pois o foco da oferta
competia “à unidade interessada no estágio, em articulação” com as
instituições educacionais. O foco continuava a ser o do interesse do setor
produtivo (empresas).
Para Nunes (2009) após a implementação da Lei 5.692/71, o que ocorreu na prática
foi que pouca coisa – ou nada – mudou. As condições desiguais de acesso à escola, a falta
de vontade política, a falta de professores, as dificuldades metodológicas de articulação entre
teoria e prática, o desinteresse do capital em ampliar e regulamentar as carreiras de nível
técnico permaneceram. Assim, continuaram a existir vários tipos de escola de 2º grau, com
distintos níveis de qualidade. As escolas da burguesia escondiam seu caráter propedêutico,
sob uma falsa proposta profissionalizante (NUNES, 2009).
Entretanto foi percebido que o mercado de trabalho não tinha condições e tampouco
necessidade de tanta mão-de-obra de nível médio, muitos técnicos formados passaram a
formar os bolsões da pobreza. Dessa forma, o MEC percebe a limitação concreta não prevista
pela legislação, e decreta o Parecer 76/75 do Conselho Federal de Educação que visava à
recolocação teórica do sentido da escolarização em nível de 2ºgrau, deslocando-o do
dualismo entre educação geral e formação especial e reafirmando o seu caráter complementar
(NUNES, 2009).
E para finalizar a análise do R2 é importante observar que ao desobrigar o ensino
médio do oferecimento de uma formação profissional, coube a educação profissional a
responsabilidade, de articular e monitorar as tendências econômicas e tecnológicas para
determinar a oferta de cursos e definir seus currículos. Dessa forma, é evidenciado a
continuação de uma ruptura outrora estabelecida com a dimensão humana do educando,
posto que ele, enquanto sujeito em formação, continua sem o direito de conduzir sua
formação profissional de acordo com seus desejos e aspirações pessoais, mas continua sujeito
aos ditames do mercado produtivo. E conforme Nunes (2009), o estudante da educação
profissional não define a profissão que quer exercer, esta escolha continua a cargo do setor
produtivo.
CONCLUSÕES
O presente artigo teve por objetivo, analisar a história da educação profissional
brasileira desde o seu “surgimento”, a partir dos discursos narrados pelos documentos políticos
e pedagógicos, mas também, analisando esses discursos na busca de interpretações outras, de
falhas e/ou processos de continuidades com o imaginário de trabalho no Brasil estabelecidos
desde o Brasil Colônia. Para tal, foi escolhida a Análise do Discurso (AD) de Pêchex, buscando
o não-dito e os descuráveis em cada recorte apresentado, analisando os discursos que foram
transmitidos. Para AD todo discurso é um discurso político, dessa forma, os discursos e
narrativas produzidos pela história brasileira atua de forma a produzir um sentido unívoco e
linear da educação profissional e busca silenciar e/ou apagar os preconceitos determinados pela
história do país.
Baseado no que já foi abordado, entende-se que os recortes supracitados evidenciam a
existência de duas educações no país, a dos ricos e abastados que possuem o direito de escolha
e a educação do pobre que já é determinada pelas demandas do mercado, esta é a educação
profissional.
Por este modo, o objetivo proposto, foi alcançado. Assim, esta pesquisa sinaliza que
existiu a legalização das diferenças da educação ao longo da história do país. Para a AD essas
falhas indicam uma conservação de sentido da educação técnico-profissional, pois o sujeito
não é “dono” do seu dizer, indicando a manutenção e reprodução de outros discursos dentro
destes recortes. Além disso, percebe-se uma tentativa de apagamento da história de
diferenciação da educação a partir da equiparação dos curriculares, tornando todos
profissionalizantes, entretanto foram encontradas as falhas e apagamentos nos discursos
oficiais/legais.
REFERÊNCIAS
Resumo
Este artigo é resultante da produção de conhecimento construído na disciplina de Legislação e
Direito ambiental, do programa de Pós-graduação em Educação ambiental e Geografia do
Semiárido IFRN. Apresenta uma análise da ocupação irregular do solo em área de manguezal
especificamente em 2 bairros no município de Macaíba-RN. Os bairros analisados foram o
Centro e o Tavares de Lira. Neles analisou-se como ocorreu esse processo de ocupação do solo
em áreas de manguezais, identificando-se os impactos socioambientais inerentes a esse
contexto, além de inferir sobre a legislação ambiental acerca do tema. Para isso, foram
realizadas pesquisas e visitas na área, de forma a possibilitar a identificação da irregularidade.
Com base nos dados obtidos é possível afirmar que o uso e ocupações irregulares em áreas de
mangue em Macaíba, estão relacionados à falta de um planejamento urbano adequado e de
uma gestão territorial que possibilite condições básicas de qualidade de vida aos agentes desse
espaço, e ao mesmo tempo estimule a manutenção do ecossistema costeiro; bem como devido
a especulação imobiliária existente no município, além disso percebemos que não existe um
conhecimento sobre a importância da educação ambiental, o que torna a necessária a
qualificação dos profissionais do ensino em relação às questões ambientais.
INTRODUÇÃO
Este artigo é resultado da disciplina de Legislação e Direito Ambiental do Programa de
Pós Graduação em Educação Ambiental e Geografia do Semiárido. O Plano de Curso (2018)
prevê como atividade complementar a produção de artigos científicos (2018, p 11). Dessa
forma, para a finalização da disciplina optamos por falar da ocupação irregular em áreas de
manguezais no Município de Macaíba – RN.
A urbanização é um fenômeno recente e ao mesmo tempo crescente, ocorrendo em
escala mundial. Essa urbanização crescente é devido aos agentes formadores do espaço urbano,
segundo Roberto Lobato Corrêa (1996 p 11), “a ação destes agentes é complexa e derivando
da dinâmica de acumulação de capital, das necessidades mutáveis de reprodução das relações
de produção, e dos conflitos de classes que dela emergem”.
Todos os agentes formadores do espaço urbano atuam no município de Macaíba, no
entanto o agente Promotor imobiliário atua de forma bastante presente uma vez que são
responsáveis pela incorporação, financiamento, estudo técnico, construção ou produção e
comercialização dos imóveis. Dessa forma, “a atuação desse agente dentro do espaço urbano
se faz de forma desigual, criando e fortalecendo a segregação residencial que caracteriza a
sociedade capitalista” (CORRÊA 1996, p 12).
Portanto, essa desigualdade promovida pelo agente formador do espaço ocasiona a
ocupação irregular do solo no município estudado. Segundo Pinto (2003) “a ocupação irregular
do solo urbano é uma forma de obtenção de renda utilizada por pessoas de todas as classes
sociais” (p.3), assim, toda a sociedade atua de forma irregular no que diz respeito à ocupação
do solo urbano
Conforme Alfonsin et al. (2002), as irregularidades são conhecidas em três dimensões.
A primeira inclui as condições reais, quando estão muito abaixo dos padrões estabelecidos pela
legislação. A segunda área é a legislação urbanística e ambiental, que dificulta o parcelamento
do solo. O terceiro aspecto, por sua vez, tem a ver com a posse e registro de lotes, pois para
iniciar qualquer processo de loteamento ou aprovação de loteamento, o imóvel deve ser
regularizado.
O Brasil é o país que apresenta a maior área de mangues do mundo, de acordo com e
BOTELHO e VALLEJO (2006 p 4) “encontrada nas zonas tropicais e subtropicais entre 32º
20’N e 38º 45’S tanto nas Américas como na África, Ásia e Oceania, dominando cerca de 25%
das linhas costeiras do planeta e cerca de 75% das zonas intertropicais”. Diante disso, os
manguezais são um dos ecossistemas mais produtivos do planeta, e sua importância para a
manutenção de bens e serviços é enorme. Além disso, os manguezais são importantes
sequestradores e estocadores de carbono na biomassa e no solo. O processo de sequestro de
carbono por área de florestas de mangue é da mesma ordem de grandeza do observado em
outras florestas tropicais úmidas.
Mesmo com sua importância, esse ecossistema vem sendo desmatado ao longo dos
anos devido a ação antrópica, que para atender as demandas do crescimento populacional
ocupam essas áreas. Essa situação é reflexo da falta de um planejamento urbano que dê ao
povo o que é seu por direito, sem deixar que ecossistema seja explorado e destruído.
Para Afonso (2006), as dificuldades de ocupação formal e diversas leis e restrições
fizeram com que a ocupação ilegal de áreas de mangue próximas às grandes cidades começasse
a ocorrer de forma cada vez mais imprudente e sem restrições. Isso porque as populações de
baixa renda, impossibilitadas de obter suas próprias casas formais por dificuldades financeiras,
passaram a ocupar áreas de mangue e construir casas de forma adaptativa.
A Lei Federal nº 12.651/2012 - atual Código Florestal Brasileiro (BRASIL, 2012a) -
em seu artigo 4º, inciso VI, estabelece áreas de descanso, âncoras de dunas ou estabilizadores
de manguezais como Áreas de Proteção Permanente (APP), que entendem que a vegetação
associada é protegida, mas outras características naturais presente nos ecossistemas de mangue
não são explicitamente protegidas.
No entanto, no parágrafo seguinte do artigo citado, “manguezais, em todas as suas
extensões” são considerados APPs. Conceitualmente, a referida lei trata os manguezais como
um recurso distinto da salinização e do apicum, inclusive, conforme proposto em capítulo
acrescentado após a promulgação da Medida Provisória nº 571, de 25 de maio de 2012, e pelo
nº 2012b), este capítulo é chamado Uso ecologicamente sustentável de apicuns e salgados nas
atividades de camarão e salinização. O apicum de acordo com MMA (2010 p 105) “são
definidos como um ecótono, uma zona de transição, de solo geralmente arenoso, desprovida
de cobertura vegetal ou abrigando uma vegetação herbácea”
Portanto, os regulamentos florestais atuais tratam os manguezais como recursos
separados dos salgados e dos apicuns e para vegetação de mangue, como APP e outros
recursos, incluindo "uso ecologicamente sustentável".
Diante do exposto, este trabalho tem como objetivo analisar como ocorre esse processo
de ocupação do solo em áreas de manguezais identificando-se os impactos socioambientais
inerentes a esse contexto, além disso buscamos inferir acerca das legislações ambientais sobre
a temática. Para isso, foram realizadas pesquisas e visitas na área, de forma a possibilitar a
identificação da irregularidade.
METODOLOGIA
Para a construção deste trabalho, realizamos uma pesquisa bibliográfica que segundo
Gil uma vez que a pesquisa bibliográfica “é desenvolvida a partir de material já elaborado,
constituído principalmente de livros e artigos científicos” (GIL, 2014 p 50). Além disso,
Marconi e Lakatos (2010) dizem que “sua finalidade é colocar o pesquisador em contato direto
com tudo o que foi escrito” (p 183), desse modo, buscamos livros, teses, dissertações,
monografias, artigos científicos disponíveis na rede de internet ou não que tratam do contexto
da pesquisa.
Além disso, foi feita uma visita na área estudada para a obtenção de dados, para isso
fizemos um estudo do meio que segundo Gonçalves (2001 p 63) “o pesquisador precisa ir ao
espaço onde o fenômeno ocorre, ou ocorreu e reunir um conjunto de informações a serem
documentadas”. A partir desse estudo iremos elaborar mapas mostrando os danos ocasionados
pela ocupação irregular do solo.
Nosso recorte espacial é o município de Macaíba RN (figura 01), que possui
aproximadamente 83 mil habitantes (IBGE, 2021). O município está a uma, distância de
aproximadamente 22 Km de Natal, capital do Estado do Rio Grande do Norte, fazendo também
fronteira com mais 8 municípios: Boa Saúde, Parnamirim, São Gonçalo do Amarante, Ielmo
Marinho, São Pedro, Bom Jesus, Vera Cruz, São José de Mipibu (IDEMA, 2013)
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Conceitualmente, segundo Christopherson (2012), um ecossistema é uma associação
autossustentável entre plantas, animais e as partes abióticas de seus ambientes físicos. Partindo
desse conceito, fica evidenciada a necessidade de tratar o mesmo de maneira inter-relacionada.
Pois, segundo Christopherson (2012), ecossistema é um complexo de muitas variáveis, todas
funcionando independentemente, mas ao mesmo tempo interligadas, com complicados fluxos
de energia e matéria. Dessa forma, o atual código florestal caracteriza a vegetação de mangue
como APP e as demais feições, inclusive, como sendo passíveis de um “uso ecologicamente
sustentável”.
A lei Federal nº 12.651/2012 (BRASIL, 2012a) sancionada em maio de 2012:
Dispõe sobre a proteção da vegetação nativa; altera as Leis nos 6.938, de 31
de agosto de 1981, 9.393, de 19 de dezembro de 1996, e 11.428, de 22 de
dezembro de 2006; revoga as Leis nos 4.771, de 15 de setembro de 1965, e
7.754, de 14 de abril de 1989, e a Medida Provisória nº 2.166- 67, de 24 de
agosto de 2001; e dá outras providências.
De acordo com a referida lei no artigo 4° são classificados como Áreas de Preservação
Permanente
VI - As restingas como fixadoras de dunas ou estabilizadoras de manguezais;
[...]VII- os manguezais, em toda a sua extensão. (BRASIL, 2021a)
A outra área de estudo é o bairro de Tavares Lira (figura 05), que possui uma extensão
de 66,09 ha. Além de possuir 736 edificações residenciais, 130 comércios/serviços e 46
edificações institucionais. Em sua maioria as ruas são pavimentadas com paralelepípedo.
Segundo o Plano Diretor (2019), o bairro não possui uma homogeneidade nas
construções, na parte sul contempla as edificações com um padrão regular. No entanto, na parte
norte do bairro, localizado na área do manguezal, as construções são precárias, com padrão
construtivo baixo. Além disso, algumas casas possuem a presença de edificações com 2 pisos,
sendo o térreo destinado às bodegas, pequenas mercadorias relacionadas ao trabalho familiar.
Assim, percebemos nesse bairro que, diferente do bairro do Centro, a população é mais
carente e a ocupação da área se deu de forma recente, ademais, percebe-se que não existe
nenhuma forma de ordenamento na ocupação dessa área.
A Legislação Municipal, presente no Plano Diretor da cidade afirma no capítulo VI
afirma no artigo
173 - Todos têm direitos ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso
comum do povo é essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público
Municipal e à coletividade o dever de defendê-lo, reservá-lo para as presentes e
futuras gerações (PREFEITURA DE MACAÍBA,2019).
Dessa forma, a ocupação irregular nas áreas dos manguezais, é extremamente nociva
não apenas ao ecossistema mas a saúde das pessoas que se utilizam dos mangues para se
alimentar e até mesmo consumir essas águas. A Educação ambiental, se faz necessária para a
mudança de pensamento dentro da sociedade, possibilitando pensar, não apenas, no micro,
mas no macro também.
No entanto, a Educação ambiental só será possível se as universidades estiverem
preparadas para formar seus profissionais, já que diversos cursos não abordam a área
ambiental nos seus currículos (GUIMARÃES E INFORSATO, 2012). Assim, uma educação
profissional preocupada com a Educação ambiental, possibilita um novo ponto de vista acerca
da compreensão da natureza ultrapassando a visão naturalista, para que não se limite apenas
a teoria, mas que esteja presente, também, em sua prática (PEREIRA, DO CARMO
NOVISKI e SAHEB, 2022). E para tanto, o educador também precisa aprender, sempre em
formação, já que “a aprendizagem é sempre um ato criador, mediante o qual se produzem
novos sentidos culturais e a autocompreensão do sujeito” (CARVALHO, 2012, p. 78-79).
CONCLUSÕES
Percebe-se que a existência de ocupações irregulares está diretamente relacionada à
forte especulação imobiliária, decorrente da expansão territorial da malha urbana, geralmente
caracterizada pela carência de infraestrutura e qualidade de vida, materializando-se assim a
periferização do espaço urbano. Observa-se que algumas construções são de imóveis
comerciais, caracterizando que as ocupações não são somente para moradias. Aos poucos essas
construções vão se expandindo e cada vez mais ocupando a área do mangue; além do
desmatamento e aterramento para realizar as construções, ainda pode acontecer em alguns
estabelecimentos comerciais a contaminação do mangue.
Entre essas construções, existe uma lava jato, que provavelmente libere a água sem
devido tratamento. A ausência de ações públicas que viabilizem o acesso à moradia, propiciam
a ocupação dessas áreas, bem como a ausência de fiscalização para coibir essas ocupações e o
aumento da devastação crescente desse ecossistema. Não podemos esquecer como
consequência de toda essa situação, a ausência da educação das pessoas em preservar o
ambiente, além disso, se faz necessário a inserção da educação ambiental nos currículos em
todos níveis e modalidade da educação, principalmente na educação profissional, haja vista
que ela se preocupa com o saber e o fazer. O homem precisa se integrar ao meio ambiente,
entender que suas ações terão consequências e muitas vezes irreversíveis.
Cabe ressaltar, ainda, que esse problema no município de Macaíba, não apresenta
pesquisas que sirvam como orientações para trabalhos, de forma a possibilitar um estudo mais
amplo das problemáticas envolvidas. Invasão em áreas de manguezal configura crime
ambiental, o ecossistema é uma área de proteção permanente (APP), o qual é amparada por lei,
porém, a lei não contempla todo o ecossistema, deixando também a responsabilidade aos
municípios e seus planos diretor. O plano diretor no município de Macaíba não é cumprido,
deixando de ser eficiente e eficaz.
REFERÊNCIAS
INTRODUÇÃO
O presente artigo é resultado de um projeto de pesquisa desenvolvido pelo Núcleo de
Estudos em Humanidades e Linguagens (NEHUL), do IFPB-Campus Picuí, entre maio de
2020 e setembro de 2021, no âmbito do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação
Científica, Ensino Médio (PIBIC-EM), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico
e Tecnológico (CNPq). Com o título: A história da memória – constituição de um acervo
de fontes históricas com ex-alunos do Instituto Federal da Paraíba/campus Picuí,
ingressos em 2011, realizamos entrevistas individuais com ex-estudantes dos cursos Integrado
de Edificações, Integrado de Manutenção e Suporte em Informática, Subsequente em
Mineração, Superior de Agroecologia, que ingressaram no ano da instalação do campus em
sua sede definitiva. Nosso objetivo foi qualificar a percepção que os ex-estudantes
do campus Picuí, especificamente os que iniciaram seus cursos no ano de 2011 e os
integralizaram, tinham, em 2021, sobre suas trajetórias de vida e do impacto causado pela
passagem pelo IFPB-campus Picuí.
Portanto, ouvimos aquela parcela de estudantes que tiveram sucesso na passagem
acadêmica pelo IFPB-campus Picuí, e como eles e elas percebiam e avaliavam em 2021, a
partir de suas origens sociais, sua relação com a nossa instituição; como qualificavam a
importância da presença de um campus do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
da Paraíba, na região do Seridó-Curimataú, para a vida de quem nela vive; como
experimentaram a passagem de uma vivência acadêmica em escolas municipais e estaduais de
Ensino Fundamental e de Ensino Médio, para uma Instituição Federal, de Ensino Profissional
e Tecnológico; como as suas vivências discentes no IFPB-campus Picuí afetaram e
atravessaram suas trajetórias pessoais e profissionais.
A realização da pesquisa implicou o trabalho de coleta e sistematização de um tipo de
fonte documental que, dado o fato de a vida humana ser efêmera, corre-se sempre o risco, na
ausência de cuidado, do desaparecimento e silenciamento daqueles e daquelas que foram
protagonistas do IFPB–campus Picuí em seu início, que vivenciaram sua constituição e
estruturação, e os impactos que ele trouxe não só para a vida de cada um, mas para a vida da
cidade e região.
É fato que a criação do campus alterou significativamente o modo de viver da cidade,
não só dinamizando os negócios, impulsionando e valorizando um bairro afastado do Centro,
atraindo estudantes das cidades vizinhas da região do Seridó-Curimataú; ela operou uma
transformação na própria percepção que seus habitantes tinham do seu lugar. Esse é um aspecto
presente nas narrativas das pessoas entrevistadas. Também patente a forma como reconstroem
hoje, a representação que fazem de si próprios como estudantes que tiveram em sua formação
a passagem pelo campus Picuí – “divisor de águas” – e como essa representação é projetada
socialmente, enquanto uma das identidades com a qual se vestem em determinadas ocasiões
Trabalhar com o conceito de representações sociais10 resulta entender os
comportamentos coletivos no espaço e no tempo em que são produzidos. No caso, de
estudantes egressos do campus Picuí, que aqui narram suas memórias, narrativas todas
estruturadas em três tempos e alguns espaços. O tempo do contexto sócio-histórico-cultural,
próprio a toda representação social, do qual cada um e cada uma procedia quando da chegada
ao espaço social do IFPB-campus Picuí. O tempo acadêmico no nosso campus, tempo em que
a autorrepresentação de estudantes do IFPB-campus Picuí é construída e projetada
socialmente. E o tempo do depois, do domínio da constituição de uma memória individual do
tempo passado no campus, a partir da visão do lugar de hoje de cada um e de cada uma.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
As palavras memória e história evocam o mesmo tempo – o passado. Contudo, apesar
da matéria-prima comum, a compreensão mais difundida entre os especialistas é que memória
e história não se confundem. Na primeira metade do século passado, o sociólogo Maurice
10
MOSCOVICI, S. Representações Sociais - Investigações em Psicologia Social. Petrópolis: Vozes, 2003.
Halbwachs, no livro “A memória coletiva”, de 1940, já procurava sublinhar a diferença entre
as duas palavras. Para ele, a história começa justamente onde a memória acaba e a memória
acaba quando não tem mais como suporte um grupo. Em outras palavras, a memória é sempre
vivida, física ou afetivamente. No instante em que o grupo desaparece, a única forma de salvar
as lembranças, que para os grupos existentes são exteriores, “é fixá-las por inscrito em uma
narrativa seguida uma vez que as palavras e os pensamentos morrem, mas os escritos
permanecem.” (HALBWACHS, 2013, p.111) A condição necessária para que exista memória
é o sentimento de continuidade presente naquele que se lembra. A memória não faz corte ou
ruptura entre passado e presente porque retém “do passado somente aquilo que ainda está vivo
ou capaz de viver na consciência do grupo que a mantém. Por definição, ela não ultrapassa os
limites deste grupo.” (HALBWACHS, 2013, p.82)
Pierre Nora, em suas reflexões desenvolvidas a partir dos anos 1980, afirma que no
Ocidente, um sentimento de ruptura com o passado começa a se expressar com a
mundialização, que o autor exemplifica, evocando a mutilação sem volta que representou o
fim dos camponeses, esta coletividade-memória por excelência, ancorada na oralidade, que
desaparece com o auge do crescimento industrial. A forma histórica como estes fenômenos
foram percebidos pelo autor permitiu a elaboração da noção de “lugares de memória”, que
possibilitariam uma certa vivência do que éramos, num quadro rural-local, e o que somos, num
quadro metropolitano-universal. Ao fazer esta referência, o autor coloca em pauta de discussão
a questão da identidade e a ameaça de sua perda. O conceito de identidade, visualizada por
Nora, é entendido como situação de existência coletiva evidenciada em diversos momentos
históricos e que se expressa por um sentimento de referência e identificação grupal.
Os lugares de memória são o que resta e que se perpetua de um outro tempo. Pode
tratar-se de um documento, de uma personagem, de um museu, de arquivos, bem como de um
símbolo, de um evento ou de uma instituição, mas nem tudo se caracteriza como lugar de
memória; para isso o documento, o evento, o monumento etc., deve possuir uma vontade de
memória, deve ter na sua origem uma intenção memorialista que garante sua identidade.
Os lugares de memória nascem e vivem do sentimento que não existe memória
espontânea, que é preciso criar arquivos, que é preciso manter os aniversários,
organizar as celebrações, pronunciar as honras fúnebres, fazer atas, porque estas
operações não são naturais [...]. Se vivêssemos verdadeiramente as lembranças que
eles envolvem, eles seriam inúteis. E se em compensação, a história não se
apoderasse deles para deformá-los, transformá-los, sová-los e petrificá-los eles não
se tornariam lugares de memória. (NORA 1993, p. 13)
O lugar de memória existe onde o simples registro acaba. Ele é o registro e aquilo que
o transcende, é o sentido simbólico inscrito no próprio registro. Esses lugares são os espaços
onde a memória se fixou e servem como uma nova forma de apreender a memória que não nos
é natural, pois não vivemos mais o que eles representam e que são apropriados pela história
como fonte. São, portanto, locais materiais e imateriais onde se cristalizaram a memória de
uma sociedade, de uma nação, de uma instituição, locais onde grupos, povos ou comunidades
se identificam ou se reconhecem, possibilitando existir um sentimento de formação da
identidade e de pertencimento.
Ao nos propormos a iniciar a constituição de um Centro de Memória do IFPB – campus
Picuí, utilizando do instrumental metodológico da história oral, começando seu acervo pelo
registro dos depoimentos dos primeiros estudantes da sua sede definitiva, visamos apreender
as representações sociais que foram gestadas pelos diferentes sujeitos que integralizaram seus
cursos – nas modalidades Integrado, Subsequente e Superior –, as interferências que essas
representações tiveram na equipagem cultural e subjetiva que traziam, e as repercussões que
tiveram em suas vidas, posteriores à passagem pelo IFPB-campus Picuí.
Em 1895, Émile Durkheim publica o livro “As regras do método sociológico”.
Parafraseando o criador do método sociológico, o que importa saber não é tanto a maneira pela
qual tal entrevistado concebe individualmente o IFPB – campus Picuí, mas sim a concepção
que dele formula o grupo, no caso, o grupo dos que tiveram sucesso na passagem acadêmica
pelo campus no seu início. Para Durkheim, “somente esta concepção é socialmente eficaz”
(DURKHEIM, 1987, p. XXIV, apud HOROCHOVSKI, p.94).
Partindo da consideração que a sociedade não pode ser explicada através das
consciências individuais (objeto da psicologia), Durkheim (1987, p. XXVI) introduz o conceito
de “representação coletiva”. Segundo ele,
o que as representações coletivas traduzem é a maneira pela qual o grupo se enxerga
a si mesmo nas relações com os objetos que o afetam. Ora, o grupo está constituído
de maneira diferente do indivíduo, e as coisas que o afetam são de outra natureza.
Representações que não exprimem nem os mesmos sujeitos, nem os mesmos objetos,
não poderiam depender das mesmas causas (apud HOROCHOVSKI, p.94).
É preciso, então, considerar a natureza social e não a individual e atentar para o fato de
que o mundo todo é feito de representações. Durkheim sempre trabalhou com os conceitos de
“fatos sociais” e “representações coletivas”. É com Moscovici, da psicologia social, que ganha
evidência o conceito de “representação social”. Para ele, enquanto nas sociedades míticas,
observa-se uma visão homogênea de mundo, reflexo do pensar e agir social,
nas sociedades modernas a representação não é a, mas uma das formas de apreender
a realidade. Nestas sociedades, a representação coexiste com o pensamento filosófico
e técnico-científico, podendo ser influenciada ou, contrariamente, opor-se a essas
concepções. A psicologia social percebe as representações como fenômeno, que
possui mobilidade e circularidade, diferente da estaticidade presente em Durkheim
que, no dizer de Moscovici, trabalha as representações de forma genérica, como um
conceito que envolve a ciência, o mito, a religião, entre outros. A substituição de
coletiva por social é, dessa forma, uma maneira de acentuar essa diferença: ela deixa
de ser um conceito que explica o conhecimento e crenças de um grupo para se tornar
um fenômeno que exige explicação e que produz conhecimento. As representações
são então, uma maneira de interpretar e comunicar, mas também de produzir e
elaborar conhecimentos (HOROCHOVSKI, p. 99).
METODOLOGIA
A História Oral é um campo da pesquisa histórica relativamente novo, cuja
metodologia de pesquisa consiste em realizar entrevistas gravadas com pessoas que podem
testemunhar sobre acontecimentos, conjunturas, instituições, modos de vida e outros aspectos
da história contemporânea. Começou a ser utilizada nos anos de 1950, após a invenção do
gravador, nos Estados Unidos, na Europa e no México, e desde então difundiu-se bastante.
(FGV/CPDOC, 2010)
É um recurso moderno usado para elaboração, arquivamento e estudos de documentos
referentes à vida social de pessoas. Portanto, é o registro da história de vida de indivíduos ou
da participação deles na dinâmica de determinado acontecimento. Para realizar a entrevista de
História Oral é preciso registrar os depoimentos em fitas ou equipamentos digitais, imagem e
som, ou seja, captar as experiências vividas pelos sujeitos sociais em determinado tempo e
espaço social, através da memória deles.
Segundo Meihy (1996), existem três modalidades de história oral: história de vida,
história temática e a tradição oral. No presente caso, foi o registro da história de vida de
indivíduos que, ao focalizar suas memórias pessoais, constrói também uma visão mais concreta
da dinâmica de funcionamento da trajetória do grupo social ao qual pertencem.
Esse método, denominado “história oral de vida” caracteriza-se principalmente por
seu forte componente subjetivo: “trata-se da narrativa do conjunto da experiência de
vida de uma pessoa” (MEIHY, 1991), através de sua escuta e do registro de suas
lembranças. Nela, cabe ao entrevistador dar espaço para que o depoente possa
encadear sua narrativa da forma como desejar. Segundo Meihy, “nessa direção, a
verdade está na versão oferecida pelo narrador, que é soberano para revelar ou ocultar
casos, situações e pessoas”. Assim, o critério de verdade pertence somente ao
depoente, não cabendo ao entrevistador analisar as fontes orais através de parâmetros
como “verdade e mentira” (no sentido factual). (BORGES, 2006, p.101)
Nas perguntas a serem dirigidas aos entrevistados, não houve intenção de obter a
verdade sobre o significado de pertencimento ao IFPB-campus Picuí, mas sim, ativar narrativas
dos sujeitos protagonistas que possam contribuir para a compreensão das dinâmicas
institucionais e informais, e dos componentes conceituais e simbólicos que concretizaram e
embasaram um significado exitoso daquele pertencimento.
Existe um procedimento básico no trabalho de história oral, que se refere à relação do
pesquisador com o entrevistado. Primeiro, faz-se necessária, por parte do
pesquisador/entrevistador, a atitude da máxima objetividade possível, no sentido de deixar suas
opiniões em um cabide do lado de fora do lugar da entrevista. Assim, é mais correto falar em
pesquisador/ouvinte, interessado na história que os depoentes têm para contar. A verdade
sempre está com o entrevistado ou entrevistada, na narração. Jamais devem ser questionados,
inquiridos. Não cabe polêmica na escuta. A escuta não deve esperar depoimentos que revelem
a verdade, o que realmente aconteceu. Mas sim, estar atenta ao modo como os depoentes
constroem hoje, a partir de seus lugares no presente, suas memórias do impacto da passagem
pelo campus em suas vidas. A memória se constrói também com esquecimentos.
Mas, importante salientar: se a memória é uma construção psíquica e intelectual, que
acarreta de fato uma representação seletiva do passado, também ela nunca é somente aquela
do indivíduo, mas de um indivíduo inserido num contexto social. A memória sempre emerge
de um grupo que ela une. Há tantas memórias quantos grupos existem (HAWBACHS, 2013,
p.84).
O pesquisador/ouvinte precisa estar ciente de que seus interesses são diferentes dos
interesses do narrador/depoente. Ao narrador/depoente, interessa aquilo que no presente da
narrativa lhe é significativo e que, por isso, deve ser dito para ficar registrado. Ao
pesquisador/ouvinte interessa na narrativa do depoente aqueles elementos que a conectam com
as outras narrativas ouvidas.
As entrevistas foram semiestruturadas, ou seja, as perguntas foram elaboradas de modo
a permitir/estimular o depoente a dar suas respostas como alguém que conta a história do que
viveu – “Fale-nos sobre como foi sua infância, as brincadeiras, a escola, o que gostava de
fazer.” –, formuladas a partir de um roteiro guia estruturado em três blocos de assuntos tendo
o acontecimento (estudante do IFPB-campus Picuí) como marco: o primeiro bloco com
questões sobre a vida familiar, escolar e de convívio social de antes do IFPB-campus Picuí. O
segundo bloco sobre a vivência de estudante do IFPB-campus Picuí. E o terceiro bloco com
perguntas sobre os caminhos profissionais e acadêmicos percorridos até o momento da
entrevista. As entrevistas, dado o contexto da pandemia, foram realizadas através do Google
Meet, nos meses de março e de abril de 2021, e tiveram uma duração média de 80 minutos.
Esses depoimentos estão registrados sob a forma de vídeos: um conjunto de treze vídeos
na íntegra, sem qualquer edição; um conjunto de treze vídeos editados exclusivamente com as
falas dos estudantes – as perguntas, comentários e interferências dos entrevistadores foram
eliminados; um vídeo editado com trechos dos treze depoimentos para ser apresentado à
comunidade escolar e de divulgação da pesquisa.
Os depoimentos também estão registrados na forma escrita; um conjunto de treze
transcrições literais dos áudios dos depoimentos, sem as perguntas. Um conjunto de treze
transcriações, em que elementos típicos da oralidade, presentes nas transcrições literais, foram
eliminados: interjeições como “né”, repetições, introduções a respostas como “então”, “assim”,
pequenos ajustes de sentido quando este só se mostra na fala, mas perde-se quando transcrito,
ou ajustes para o padrão formal do Português, sem que isso levasse a uma alteração dos termos
usados: não transformamos “a gente foi” para “nós fomos”. Houve um extremo cuidado em
não se alterar nenhuma palavra do entrevistado.
Tanto nas edições dos vídeos, como nas transcrições e nas transcriações, nosso intuito
foi o de dar publicidade às histórias contadas por pessoas que estudaram em nossa instituição,
que construíram no momento da entrevista memórias do vivido até ali, memórias vestidas com
a identidade de estudante egresso ou de estudante egressa, em meados da década de 2010, do
IFPB-campus Picuí. O registro dessas narrativas faz parte da passagem e da transformação
daquelas memórias em História.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
No documentário, “O Fim e o Princípio”, de Eduardo Coutinho, encontramos em uma
comunidade rural, do sertão da Paraíba, lugares e representações sedimentadas: a parteira, a
benzedeira, o letrado, o cachaceiro. No curta-metragem “Vida Maria”, de Márcio Ramos, as
mulheres repetem a mesma sina de suas mães. Assim, a filha será sempre o que a mãe foi.
Também a filha da filha terá o mesmo destino. São as “Marias” e com elas o não direito ao
estudo. Diferentemente, a passagem pelo IFPB-Campus Picuí, opera uma transformação ao
abrir “um mundo de possibilidades”, como bem assim relatam Joelma e Rayane.
Os alunos e alunas entrevistados trazem representações que são
confrontadas/ressignificadas na passagem pelo IF; outras ali construídas, algumas
abandonadas, e encontram em outros lugares, depois do IF, outras representações, descartam
algumas, ressignificam outras, mantêm inalteradas umas poucas e vida que segue. Esses alunos
e alunas vêm de diferentes origens – rural /urbana, filhos e filhas de agricultores, de garçons,
de auxiliares de serviços gerais em escolas, de professoras, de caminhoneiros, de comerciantes,
de trabalhadoras domésticas, de pequenos comerciantes, de pedreiros, de funcionárias
públicas, de músicos, de marceneiros. Todos egressos, em sua maioria, de escolas públicas –,
com uma marca social que pressiona, muitas vezes, para a “Vida Maria”. Ouçamos Antônio
de Pádua: “[...] aquilo foi passando um filme, de muitas vezes ouvir gente dizer: ‘você não
consegue não; vai ser garçom como seu pai; não vai conseguir, quem já viu pobre conseguir
alguma coisa? Filho de pobre nasceu para trabalhar’ e tal e mesmo assim eu não desisti”.
Mas um ponto importante presente em quase todos os depoimentos,11 é o gosto pelo
estudo desde a mais tenra infância, seja pelo incentivo dos pais: “meus pais sempre me
incentivaram a estudar, então, assim, eu sempre fui muito estudiosa, sempre gostei de me
dedicar aos estudos” (Ana Térsia), seja pelo ambiente da infância: “[...] minha mãe é auxiliar
de serviços gerais da escola lá do bairro Monte, a Escola Municipal Cônego Ambrósio Silva,
e lá na escola foi onde eu cresci” (Joelma Rayane,), ou construído como algo inato, fruto de
11
Exceção de Paulo Sales, cujo interesse pelos estudos foi despertado na vivência do IFPB-Picuí, e de Pedro
Leandro, nos dois anos na Escola Agrícola de Jundiai, Macaíba, RN.
uma curiosidade natural: “Eu era um garoto um pouco tímido, que era bastante curioso, tinha
fome de conhecimento” (Marcus Paulo).
Apesar de todas essas influências, faz-se ausente, nas narrativas, a referência à
influência de uma pessoa letrada na infância desses ex-alunos e alunas – pobres ou de classe
média –, seja dos pais, seja de um tio, de uma tia, de um amigo da família etc. Também há
ausência de referência à existência de uma biblioteca ou livros em casa. Mas havia a presença
do “incentivo” de professores do Ensino Fundamental e do Ensino Médio. O amor aos estudos
foi outro fator importante, pois o “amar estudar” vincula-se a uma “perspectiva de futuro”
individual (Maria Maysa), ou familiar: “sempre amei muito estudar e eu acho que o que me
motivava era a tentativa de mudar a situação da minha família” (Joelma Rayane). Já a decisão
por fazer o exame de seleção para o ingresso no IFPB-campus Picuí, seja por influência da
família, seja por decisão própria, baseava-se em dois pontos principais: proximidade do
campus à casa da família – a maioria não tinha condições financeiras de arcar com estudos em
Campina Grande – e, particularmente, pelo fato de o Instituto trazer no nome o peso de ser
uma Instituição Federal: “[...] com a chegada de uma Instituição Federal, numa cidade
pequena, esse nome pesava [...], esse nome fazia com que nós víssemos a Instituição como
uma coisa mais séria, que estava mais ligada para o futuro da formação da pessoa.” (Paulo
Vitor).
Nas falas dos entrevistados, fica evidente que a percepção e o pensamento que os/as
adolescentes tinham acerca do IFPB-campus Picuí, antes de ingressar na instituição, era de
uma escola extremamente qualificada, por ser Federal, sendo este termo “Federal” identificado
com se fosse uma instituição de Ensino Superior, nos sentidos literal e formal: “[...] equivalente
quase ou é equiparável mesmo a um ensino de Universidade. Você já sai meio que preparado
para a Universidade” (Marcus Paulo). O elemento simbólico “Federal” apresenta-se como
mediador entre a posição social e a visão de “um mundo de possibilidades”, de abertura de
“oportunidades”, quase sempre vinculadas ao ingresso na Universidade, ou no acesso a um
melhor emprego, sendo este um dispositivo fundamental no predispor o estudante a ingressar
no IFPB-campus Picuí.
A escolha do curso esteve, por vezes, vinculada à influência de familiares: “Meu irmão,
Marcos Sales, ele conseguiu ingressar no IFPB, no ano de 2009, para fazer exatamente o curso
de Mineração. [...] Então, foi através dele que eu vi uma possibilidade de ingressar no IF.”
(Paulo Sales).
Em outros depoimentos, essa escolha vem atrelada a uma predisposição, desde a
infância, a um gosto por determinada prática, que é viabilizada pelo ter acesso a ela,
rememorada como predisposição inata: “Sempre tive uma afinidade com a construção civil,
porque desde criança já começava a fazer meus esboços de casa de construções, já percebia
que gostava dessa área” (José Ginetom).
A vivência no IFPB-Campus Picuí agregou muito ao montante de saberes e de fazeres
dos estudantes entrevistadas. Todos ressaltam o “nível de qualificação dos professores”, os
equipamentos, a estrutura: “era uma coisa de outro mundo: várias salas, laboratórios, um
instituto gigante, era outra realidade” (Marcus Paulo). Também tinha a importância das Visitas
Técnicas, dos Projetos de Pesquisa e de Extensão, que propiciaram um significativo
amadurecimento acadêmico. “O IF ensina você a saber como fazer um projeto, a ter
consciência do que é ciência, do que é tecnologia, do que são esses conhecimentos
incorporados dentro da comunidade acadêmica, dentro da comunidade geral, entre as pessoas”
(Elton Luiz)
Assim, com a vivência no Instituto, o “Superior” adquire concretude e “supera” o
esperado; deixa de ser uma projeção para mais das vivências escolares até então tidas – além
da excelência do ensino pela qualificação dos docentes presentes nas salas de aula e espaços
alternativos de ensino-aprendizagem, como laboratórios, visitas técnicas –, por apresentar aos
estudantes o universo da Extensão e da Pesquisa, por familiarizar o estudante com a
apresentação de seminários e o saber elaborar projetos, por fazê-lo conviver com um nível de
cobrança elevado.
Lado a lado com as habilidades que
a gente chama hard skills, que são aquelas que você tem que ralar”, existem
as “habilidades interpessoais, comunicação e tudo mais”, as quais a vivência
no IF melhorou “bastante [...] em questão de apresentação de seminário, você
saber como lidar, como suportar, saber como apresentar, saber dialogar,
debates no IF, como gerir conflitos (Marcus Paulo).
CONCLUSÕES
É patente em todos os depoimentos, que professores e professoras do IFPB-Campus
Picuí, através do incentivo, do estímulo, da relação pessoal, da excelência profissional, da
infraestrutura de que dispunham, estimularam o compromisso e o gosto de suas alunas e de
seus alunos para o estudo; incutiram o senso da importância da participação em Projetos de
Pesquisa para a inserção delas e deles na comunidade científica, pois que ela resulta em
produção de artigos, apresentação em eventos acadêmicos; desenvolveram o compromisso
com a responsabilidade social através dos Projetos de Extensão, que possibilitam a conexão do
conhecimento adquirido com as demandas da comunidade da qual fazem parte; trabalharam o
saber fazer através das atividades em laboratórios muito bem equipados, visitas técnicas,
atividades práticas.
No pós IFPB-campus Picuí e ingresso em universidades, estes aprendizados são vistos
como fatores de adaptabilidade ao ambiente universitário, “mais exigente”, mas “não
diferente”. Também os conhecimentos técnicos adquiridos são enfatizados como facilitadores
do desempenho acadêmico nos anos iniciais dos Cursos Superiores, quando afins ao Curso
Técnico estudado no IFPB-campus Picuí. Das treze pessoas entrevistadas, apenas três
mudaram de área em relação ao Curso Técnico ou Superior concluído no IFPB-campus Picuí.12
Nas trajetórias e nas falas fica evidente que o ingresso/vivência no campus Picuí criou hábitos
12
Maria Maysa cursou Edificações e hoje é advogada. Joelma Rayane cursou Edificações e hoje é advogada.
Elton Luiz cursou Manutenção e Suporte em Informática e hoje é médico.
acadêmicos que reforçaram ou despertaram projetos pessoais no imediato pós-IF, vinculados
à continuidade dos estudos: dos Cursos Técnicos, para o ingresso em Cursos Superiores; do
Curso de Agroecologia, para ingresso nos Cursos de Pós-Graduação.13
Mais, esses dados nos informam que a maioria de nossos entrevistados e de nossas
entrevistadas, sete dos nove, não procuraram o IFPB-campus Picuí interessada(o)s no diploma
de técnica(o), que lhes habilitasse a ingressar no mercado de trabalho, imediatamente após a
conclusão do curso escolhido. Mas sim, buscaram nos Cursos Técnicos uma capacitação que
lhes fosse útil e vantajosa em uma desejada carreira acadêmica Superior. Ou seja, encontrar no
IFPB-campus Picuí um Ensino Médio de qualidade que os favorecesse no Enem e na aquisição
de habilidades e domínio de conhecimentos que lhes habilitasse a obter destaque nas
disciplinas do Curso Superior. Outro ponto apresentado pelos entrevistados e entrevistadas, foi
que ser egresso de um curso técnico do IFPB despertou a atenção dos professores na
Universidade, o que trouxe a abertura de uma gama maior de possibilidades em suas formações
acadêmicas e, consequentemente, melhores perspectivas profissionais.
Não há como duvidar, o IFPB-campus Picuí representou para essas pessoas de condição
social precária ou de classe média baixa, a possibilidade de ascender socialmente:
A palavra-chave é uma oportunidade, uma oportunidade que muitos dos meus amigos
e colegas de infância não tiveram, que é ter uma educação de qualidade, gratuita, que
me proporcionou ter uma formação técnico-científica. Mas, acima de tudo, uma
formação humana e um crescimento como cidadão. Não só um crescimento, na
verdade, uma formação de cidadão, muito importante, uma formação cidadã. Eu acho
que o IF é hoje a melhor forma que um aluno de escola pública tem de ascender
socialmente e alterar seu padrão, no sentido de qualificação profissional e de status
dentro da sociedade, no sentido de classe social, digamos assim. A única forma que
a gente tem é através da educação. Nenhuma outra forma é melhor e mais aceita para
a ascensão social do que a educação. E não tem outra instituição melhor para um
aluno de escola pública do que o IF (Elton Luiz).
13
Das 9 pessoas entrevistadas que fizeram Edificações, MSI e Mineração, todas de Edificações e de MSI (7)
ingressaram na Universidade; as duas de Mineração ingressaram no mercado de trabalho, mas têm como meta
imediata a continuidade dos estudos. Das quatro pessoas formadas em Agroecologia todas fizeram Especialização
e uma delas o Mestrado.
REFERÊNCIAS
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oral com os pacientes-moradores do Hospital Colônia Itapuã. Disponível
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DIAGNÓSTICO DAS CONDIÇÕES DE USO DE AGROTÓXICOS NA
AGRICULTURA FAMILIAR DOS MUNICÍPIOS DE JARDIM DO SERIDÓ E
CAICÓ/RN
Resumo
A região do Seridó do Rio Grande do Norte, é repleta de originalidades, possui um povo
acolhedor e singelo. Historicamente, suas bases econômicas são a pecuária e a agricultura
familiar, possuindo relevância e importância social, gerando assim, renda para as famílias.
Entretanto, a região permanece envolvida no histórico de exclusão de desenvolvimento aliada
a escassez hídrica, que ainda gera, paralisações das atividades agrícolas familiares. Além
disso, nosso País é um dos maiores consumidores de agrotóxicos no mundo. Esse consumo,
torna-se particularmente preocupante se considerarmos o impacto que gera na saúde individual
e coletiva, amplamente descrito na literatura. Consequentemente, os riscos de intoxicação
humana acontecem. Contudo, não existem dados estatísticos, que mensuram o quantitativo e
qualitativo dos agrotóxicos utilizados na produção familiar seridoense. Nesse contexto, o
presente artigo tem por objetivo fazer um mapeamento da utilização do uso dos agrotóxicos na
região do Seridó (RN)", referente ao Edital nº 08/2022 – PROPI/RE/IFRN Projetos de Pesquisa
e Inovação com Mulheres Jovens Cientistas. Com o intuito de compreender como os
agricultores familiares fazem uso desses produtos na produção de alimentos. Com base nesse
mapeamento, ora em desenvolvimento, pretende-se realizar intervenções visando uma
educação ampla sobre os prejuízos que estas substâncias trazem para a saúde humana e para o
meio ambiente. Contribuindo assim, para História e Narrativas da Formação para o Trabalho.
A estratégia metodológica consiste dentro de uma abordagem qualitativa (aplicação de
questionários, entrevistas e revisão de literatura), combinados com a coleta e análise de dados
secundários quantitativos (dados do uso de agrotóxicos na produção da agricultura familiar).
A pesquisa de campo abrange a observação direta, isto é, realização de entrevistas semi
estruturadas com lideranças locais (Prefeitos, Secretários, membros de sindicatos e
associações) e realização de entrevistas semiestruturadas com os agricultores familiares dos
dois municípios. Tornando-se assim, essencial identificar esse fator que influencia diretamente
a produção agrícola seridoense. A mesma contribuirá para a segurança alimentar da população,
mesmo que seja em tempos adversos.
INTRODUÇÃO
Segundo o Ministério de Agricultura e Abastecimento (MAPA), a agricultura familiar
é a principal responsável pela produção dos alimentos que são disponibilizados para o consumo
da população brasileira. É constituída de pequenos produtores rurais, povos e comunidades
tradicionais, assentados da reforma agrária, silvicultores, aquicultores, extrativistas e
pescadores. O setor se destaca pela produção de milho, raiz de mandioca, pecuária leiteira,
gado de corte, ovinos, caprinos, olerícolas, feijão, cana, arroz, suínos, aves, café, trigo,
mamona, fruticulturas e hortaliças.
Na agricultura familiar a gestão da propriedade é compartilhada pela família e a
atividade produtiva agropecuária é a principal fonte geradora de renda. Além disso, o agricultor
familiar tem uma relação particular com a terra, seu local de trabalho e moradia. A diversidade
produtiva também é uma característica marcante desse setor, pois muitas vezes alia a produção
de subsistência a uma produção destinada ao mercado (BRASIL, 2019).
No Brasil, a agricultura familiar ainda possui uma relevante importância social, através
da absorção de empregos e da produção de alimentos, principalmente para o autoconsumo das
famílias e para o mercado interno, além de responder por grande parcela da produção (38% do
valor bruto da produção agropecuária) apesar de sua menor produtividade e incorporação
tecnológica (GUILHOTO, 2007). Segundo o Censo Agropecuário de 2017 – 2018, realizado
pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que 76,8% dos 5,073
milhões de estabelecimentos rurais do Brasil foram caracterizados como pertencentes
à agricultura familiar, conforme estabelecido pelo Decreto 9.064, de 31 de maio de 2017.
Observa-se que enquanto a área média dos estabelecimentos não-familiares é
indiscutivelmente maior em hectares, demostra-se que ainda há uma grande concentração de
terras nas mãos de uma grande maioria (IBGE, 2017).
Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e estatística, Seridó abrange uma área de
9.186,7 km² é representado por 23 municípios (Caicó, Acari, Jardim do Seridó, Serra Negra
do Norte, Currais Novos, Florânia, Parelhas, Jucurutu, Jardim de Piranhas, São João do Sabugi,
Ouro Branco, Cruzeta, Carnaúba dos Dantas, Cerro Corá, São Vicente, São Fernando,
Equador, Santana do Seridó, São José do Seridó, Timbaúba dos Batistas, Lagoa Nova, Ipueira
e Tenente Laurentino Cruz) (MEDEIROS, 2004).
Essa região é composta por originalidades; apresentando uma vegetação exótica,
repleto de belezas, essa região tem um povo acolhedor e singelo. Seu desenvolvimento está
ligado às atividades de agricultura e agropecuária, herança deixada pelos povos indígenas e
portugueses que habitavam a região. Até os dias atuais, grande parte da economia, baseia-se
na agricultura como também no agronegócio do leite. Entretanto, a região permanece
envolvida no histórico de exclusão da agricultura familiar de desenvolvimento, pois não
existem dados estatísticos que mensurem o quantitativo e qualitativo de defensivos químicos
utilizados nessa produção (MEDEIROS, 2016).
Além do mais, existe uma problemática na região, como por exemplo: falta de
informação dos trabalhadores quanto aos riscos causados à saúde e ao meio ambiente, a venda
indiscriminada e sem assistência técnica responsável, o não uso dos equipamentos de proteção,
a falta de condições de armazenamento e manipulação de agrotóxicos, entre vários outros
agraves estão intimamente relacionados com a educação e conscientização do povo, o que
torna inevitável o surgimento de danos, os quais podem ser vistos desde a exposição
ocupacional as dimensões ambientais e de saúde pública, na medida em que podem atingir a
população local através da contaminação dos alimentos (GEREMIA, 2011).
Diante dessa necessidade, de se compreender como os agricultores familiares lidam
com a problemática do uso de agrotóxico correlacionado a contaminação alimentar, este
trabalho em andamento tem como objetivo diagnosticar o uso de agrotóxicos na agricultura
familiar das cidades de Caicó e Jardim do Seridó no Seridó Potiguar.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Agricultura familiar é o cultivo da terra realizado por pequenos proprietários rurais,
tendo como mão de obra, essencialmente, o núcleo familiar em contraste com a agricultura
convencional, que utiliza trabalhadores contratados, fixos ou temporários, em propriedades
médias e grandes a agricultura familiar, vem quebrando paradigmas, pois recentemente obteve
nos meios acadêmicos, novas significações (ALTAFIN, 2007).
De acordo com Wanderley (2003), mais que focalizar a atividade agrícola, entendida
apenas como um setor econômico, o que se privilegia é a própria família de agricultores, em
suas complexas relações com a natureza e a sociedade que moldam as formas particulares de
produção e de sua vida social. Ou seja, é nesse espaço que se concentra grande parte dos
recursos essenciais para a existência humana e cuja definição não é exclusivamente territorial.
Manifestando-se para além da legitimidade, a agricultura familiar é um dos componentes que
confere autenticidade às classes que não poderiam ser enquadradas como pequenos
agricultores ou pequenos proprietários de terra (SCHNEIDER, 2003).
Estes são concebidos como principais protagonistas na construção de um projeto mais
sustentável para o meio rural. Tais atributos estão ligados às formas de organização do trabalho
nas unidades produtivas familiares que vêm se flexibilizando para se adaptar as inúmeras
situações econômicas, políticas, sociais e ambientais (ROZENDO, 2017).
Existem várias políticas públicas atuais de apoio à agricultura familiar na região Seridó
potiguar, destaca-se O Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE) tem o objetivo de
contribuir para o crescimento e o desenvolvimento biopsicossocial, a aprendizagem, o
rendimento escolar e a formação de hábitos alimentares saudáveis dos alunos, através de ações
de educação alimentar e nutricional e da oferta de refeições que cubram as suas necessidades
nutricionais durante o período em que permanecem na escola (MEC, 2015).
O Rio Grande do Norte (RN) destaca-se nacionalmente como um dos maiores
produtores e exportadores de frutas tropicais do Brasil, tendo como carro-chefe a cultura do
melão (PENHA; ALVES, 2019; TRIBUNA DO NORTE, 2020a, 2020b).
A competitiva fruticultura estadual tem como base um seleto grupo de médios e grandes
produtores patronais, que usam trabalho assalariado e técnicas modernas de irrigação.
Entretanto, o Estado também conta com um setor familiar muito representativo do ponto de
vista econômico e social, embora sua participação relativa em nível regional seja reduzida. É
pertinente ressaltar que o reconhecimento da agricultura familiar potiguar foi reforçado em
2019, com a criação da Secretaria de Estado do Desenvolvimento Rural e da Agricultura
Familiar (Sedraf), à qual ficou vinculado o Instituto de Assistência Técnica e Extensão Rural
do Rio Grande do Norte (Emater).
Tal mudança representa um fato novo no âmbito da trajetória do setor público estadual,
com a ampliação do escopo das ações de fomento e de assistência técnica direcionadas ao
desenvolvimento rural com a diretriz de “[...] fortalecer a agricultura familiar, priorizando a
adoção de sistemas sustentáveis de produção, o acesso à terra, agregação de valor e inserção
nos mercados [...]”, conforme as competências e atribuições legais da Sedraf e explicitado em
programas e objetivos do recém aprovado Plano Plurianual do Governo Estadual para 2020-
2023.2
Com efeito, apesar do avanço administrativo registrado, não se tem até o momento um
diagnóstico da situação dos agricultores familiares norte-rio-grandenses. Na verdade, os
trabalhos mais abrangentes sobre o tema usaram como referência informações estatísticas
extraídas do penúltimo recenseamento do IBGE realizado em 2006/2007, ou seja, há mais de
uma década (AQUINO; FREIRE; CARVALHO, 2017; AQUINO; LACERDA, 2014;
CASTRO, 2012; COÊLHO, 2010; BRASIL, 2009). Além disso, não se sabe como ficou o
quadro do setor após a Grande Seca que atingiu o Estado no período de 2012-2017.
Vale evidenciar que o RN, conforme já foi mencionado, enfrentou uma Grande Seca
entre os anos de 2012 a 2017. Como consequência, o nível dos reservatórios caiu e quase todos
os municípios do Estado decretaram situação de emergência devido à falta de água, o que
contribuiu para agravar o desaquecimento vivenciado pela economia estadual no período
(AQUINO; NUNES, 2019; EMPARN, 2017; FRANÇA; MORENO, 2017 apud ANDRADE
2013). O fato é que os anos seguidos de estiagem provocaram reflexos negativos e
desestruturaram cadeias produtivas, com decréscimo nos rebanhos pecuários, perdas nas
culturas permanentes e frustração, quase por completo, das safras de grãos, tubérculos e demais
culturas de subsistência, bem como na produção de forragem animal, constituindo-se em sério
gargalo para manutenção dos rebanhos (SOUZA; AQUINO, 2018.
A escassez hídrica também repercutiu negativamente nos cultivos irrigados com a
redução na disponibilidade da oferta de água nos mananciais de superfície e do subsolo
principalmente na região Seridó, onde várias cidades entraram em colapso hídrico, gerando
uma paralisação nas atividades agrícolas. (ANA, 2017).
Segundo o IBGE 2015, a região Seridó possui cerca de 300 mil habitantes, 11% da
população estadual, e está dividida em duas microrregiões: Ocidental e Oriental, compostas
por vinte e oito municípios. Essa área do Rio Grande do Norte é caracterizada pelo bioma
caatinga e chuvas escassas. Porém, no período de chuvas essa região modifica-se, originando
belíssimas paisagens, renovando assim a esperança no coração do Sertanejo (BEZERRA et al.,
2007).
O Seridó potiguar encontra-se inserido na região semiárida do nordeste brasileiro,
caracterizada pela aridez do clima, pela deficiência hídrica e pela imprevisibilidade das chuvas.
Além disso, conta com o agravante de estar localizado em uma área considerada um dos
núcleos de desertificação do Brasil (BRASIL, 2015, SILVA, 2006).
Nessa região, as condições climáticas naturalmente rigorosas, pecuária extensiva,
agricultura com culturas e técnicas inadequadas, indústria extrativista da cerâmica e
mineração, resultam em áreas extremamente degradadas, reduzem a capacidade adaptativa dos
agricultores às mudanças climáticas futuras aumentando a sua vulnerabilidade (AZEVEDO,
2007). Todos esses fatores afetam negativamente a produção agrícola familiar já fragilizada
do Seridó.
Segundo Andrade (2013), esse padrão de modernização da agricultura no Semiárido se
expressa devido à constituição de grandes obras hídricas, voltadas a atender o setor
agroexportador e à expansão dos sistemas pecuários. Essas ignoram o enorme potencial
forrageiro da caatinga, destroem a cobertura vegetal nativa para a formação de pastagens e
colocam a maioria da população à margem dos processos de desenvolvimento implementados
na região. Dessa forma, com propriedades cada vez mais fragmentadas, as famílias agricultoras
foram levadas a intensificar o uso do solo e da vegetação natural, induzindo processos
degradativos dos ecossistemas.
Frente a essa problemática, percebe-se uma imagem muito forte da realidade física,
social, cultural e econômica da região, oferecendo assim atrativos para a produção agrícola,
pois, desde o início do século XXI, o Seridó destaca-se na produção e comercialização do
queijo artesanal viabilizando cada vez mais esse processo, de resgate e atualização da
agricultura familiar (VASCONCELOS, 2015). Ao longo das últimas décadas, a agricultura de
base ecológica tem se mostrado a melhor opção para reestruturar os atuais sistemas
agroalimentares.
Agrotóxicos são produtos químicos sintéticos usados para matar insetos, larvas, fungos,
carrapatos sob a justificativa de controlar as doenças provocadas por esses vetores e de regular
o crescimento da vegetação, tanto no ambiente rural quanto urbano (INCA, 2021). Estes
produtos têm seu uso tanto em atividades agrícolas como não agrícolas. As agrícolas são
relacionadas ao setor de produção, seja na limpeza do terreno e preparação do solo, na etapa
de acompanhamento da lavoura, no deposito e no beneficiamento de produtos agrícolas, nas
pastagens e nas florestas plantadas. O uso não agrícola é feito em florestas nativas ou outros
ecossistemas.
O Brasil está entre os maiores consumidores mundiais de agrotóxicos (ANVISA,
2007). A utilização maciça de insumos químicos vem trazendo, há várias décadas,
incalculáveis prejuízos ao ambiente e ao homem. Estudos sobre o controle de agrotóxicos no
Brasil colocam em pauta um importante problema de saúde pública no país, decorrente dos
contextos social, político e econômico em que está inserido.
Segundo Frota; Siqueira (2021) desde 2008 o Brasil é o maior consumidor de
agrotóxicos no mundo. Refém de um sistema de produção agrária de alimentos totalmente
dependente do uso desses produtos, estima-se que o brasileiro consome, em média, 7kg de
agrotóxicos por ano. Esse consumo torna-se particularmente preocupante se considerarmos o
impacto que gera na saúde individual e coletiva, amplamente descrito na literatura.
Consequentemente, os riscos de intoxicação humana acontecem.
Em certas áreas agrícolas, o simples fato de “respirar” pode se tornar uma fonte de
exposição, tendo em vista que, durante a atividade de pulverização, existe a dispersão destes
produtos no ambiente (GARCIA, 2009).
Surgem frequentemente, novos agrotóxicos no mercado sem que existam estudos
suficientes sobre os danos crônicos relacionados. Se for ainda considerado que o agricultor, na
sua prática, se expõe não somente a um produto, mas a muitos deles (MOREIRA et al., 2002;
FARIA et al., 2005; GUIVANT, 1994), torna-se ainda mais complexa uma tentativa de
avaliação dos danos à saúde que tais combinações podem causar. Apesar deste triste cenário,
o que se observa é uma realidade de produção e comercialização nacional intensa (LOPES;
FIRPO, 2012), aliada ao uso indiscriminado dessas substâncias nas áreas de lavoura do país,
seja em pequenas, médias ou grandes propriedades rurais.
Cabe ressaltar, a importância do papel do Estado como mediador entre os interesses
privados e a saúde da população, em defesa dos direitos coletivos. Esse papel regulador é
desempenhado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), a quem cabe, entre
outras atribuições, o controle sanitário e a responsabilidade de fiscalizar e alertar sobre os
riscos associados à aplicação desses produtos.
METODOLOGIA
Para a compreensão dessas relações entre o homem e o ambiente, Whyte (1977)
considera a percepção ambiental fundamental e o ponto de partida para a realização de
pesquisas. Para a obtenção dos dados empíricos, a estratégia metodológica consistirá em dentro
de uma abordagem qualitativa (aplicação de questionários, entrevistas e revisão de literatura),
combinados com a coleta e análise de dados secundários quantitativos (dados do uso de
agrotóxicos na produção da agricultura familiar). A pesquisa de campo abrange a observação
direta; realização de entrevistas semiestruturadas com lideranças locais (Prefeitos, Secretários,
membros de sindicatos e associações) e aplicação de questionários com os agricultores
familiares dos dois municípios da região do Seridó Potiguar, Caicó e Jardim do Seridó. Para a
seleção de uma amostra representativa, busca-se atender aos seguintes critérios: A distribuição
geográfica no território e número de famílias por comunidade; O nível de acesso a políticas
públicas; Se agricultores utilizam os pesticidas nas plantações; Se sim a marca comercial;
Número de produtos citados; Tempo (anos) de exposição ocupacional; Período decorrido
desde o último contato; Se existe orientação técnica para a aquisição dos produtos; Tipo de
equipamento utilizado para aplicação; Utilização de EPI, o hábito de leitura do rótulo das
embalagens e a observância do tempo estabelecido no rótulo e/ou no receituário agronômico
para reentrada na lavoura e tempo de carência para a reaplicação ou colheita dos alimentos
após aplicação.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A pesquisa está em andamento na terceira fase do cronograma, obteve-se dados parciais
do uso dos defensivos, foram aplicados até o momento 30 questionários no município de
Jardim do Seridó, constata-se previamente que os agricultores utilizam o defensivo agrícola na
produção e que eles não possuem assistência técnica necessária para o uso deste. pretende-se
diagnosticar o uso de agrotóxico, entre agricultores familiares residentes nos municípios de
Caicó, situada na Região Seridó Norte Rio Grandense, além de publicá-los em revistas
nacionais contribuindo com a pesquisa científica. Esses dados que estão sendo obtidos, através
dessa pesquisa, são de suma importância, pois até o momento não existem dados a respeito. A
mesma, contribuirá com fortalecimento da agricultura familiar, consequentemente irá
colaborar para a segurança alimentar da população seridoense, mesmo que seja em tempos
adversos.
CONCLUSÕES
De acordo com os resultados parciais, conclui-se que o uso dos agrotóxicos é muito
utilizado na agricultura familiar do município de Jardim do Seridó RN e que a falta de
conhecimento sobre a utilização segura do defensivo agrícola poderá implicar em impactos à
saúde humana e ao meio ambiente.
O Brasil tornou-se o principal consumidor de agrotóxicos do mundo, o que acende o
sinal de alerta para que a política nacional de saúde pública, em especial nas áreas de promoção
da saúde, saúde dos trabalhadores e saúde ambiental, se articulem intersetorialmente com
outras políticas no sentido de contribuir para uma transição agroecológica e uma maior
produção de alimentos livres desses insumos.
REFERÊNCIAS
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relatório pleno. Brasília: ANA, 2017. Disponível em: http://www.snirh.gov.br/portal/
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de fevereiro de 2022.
Resumo
O presente estudo visa pensar as possibilidades de formação profissional para a educação e
para o trabalho científico e tecnológico no Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia
do Maranhão (IFMA). Partimos de uma narrativa memorialista (ABRAHÃO, 2011;
DOURADO, 2013), que resulta da rememoração com análise sobre aquilo que se lembra
mediante uma narrativa de vida, para urdir uma trama escrita de fatos a partir dos aspectos
sócio-históricos da educação profissional, técnica e tecnológica, partindo da trajetória de vida
de uma estudante/trabalhadora, entre 2017 e 2022, do campus Buriticupu. É uma narrativa
cujos componentes indispensáveis são: enredo com sentido e intencionalidade, compreensão
da própria formação e experiência ressignificada. Tratamos, especificamente, da história e
memória (BOSI, 1994) de trajetória em educação e trabalho, que é um exercício de lembrar,
esquecer e silenciar, de palavras, sujeitos, processos e instrumentos que registraram a travessia
de um ideário de formação a serviço do “mercado de trabalho” para “educação integral,
politecnia e Omnilateral” (CIAVATTA, 2014; KUENZER, 2016; MÉSZÁROS, 2018). Para
tanto, partimos de duas questões centrais: quais as possibilidades de formação profissional para
o trabalho na perspectiva científico-tecnológica do IFMA? Que lugar as meninas ocupam no
projeto de futuro científico-tecnológico nesta instituição? Neste contexto, narramos a trajetória
de iniciação científica e tecnológica no contexto da educação profissional no Maranhão. Para
concluir, predomina uma visão de educação profissional de caráter tecnicista (DELLA
FONTE, 2018). Em se tratando da formação para ciência e tecnologia, ainda é recorrente
vincular aos interesses do mercado e da acumulação flexível. Ainda é pouco respeitada o
processo próprio de cada estudante no campo da formação educacional e profissional em
ciência e tecnologia; a formação para o trabalho é alijado da construção reflexiva e da
perspectiva solidária do conhecimento; a inserção de meninas na ciência e tecnológica não é
um projeto institucional, as iniciativas são pontuais e muitas delas sem continuidade, o que tem
contribuído para oportunidades de formação profissional desiguais e superficialização do
processo educativo e para o trabalho.
INTRODUÇÃO
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
"O narrador conta o que ele extrai da experiência - sua própria ou aquela contada
por outros. E, de volta, ele a torna experiência daqueles que ouvem a sua história"
Walter Benjamin
Esse trabalho está em torno de algumas temáticas que serão discutidas através dos
autores que se debruçam sobre Memória e trabalho, História e narrativa, iniciação
científica e atividade profissional e divulgação científica, são categorias fundamentais que
costuram e ao mesmo esgarçam o tecido em que essas tramas que se entrelaçam e formam uma
estrutura robusta de difícil desmembramento.
Para tanto, é preciso compreender os caminhos e os descaminhos da educação
profissional no Brasil. Neste aspecto, engendramos oportunidades teóricas com experiências
metodológicas de pesquisadores, educadores e cientistas no campo da educação profissional.
Notadamente, educadoras como Marise Nogueira RAMOS (2014), Acácia KUENZER (2016),
Sandra DELLA FONTE (2018) e Maria CIAVATTA (2014) são indispensáveis para pensar
educação e trabalho, que é um campo de tensão e disputa constante entre setores
empresáriais/produtivos e a classe trabalhadora.
Em síntese, ao longo de três décadas, muitas foram as derrotas sofridas em
face das políticas sociais, econômicas, educacionais do neoliberalismo nos
anos 1990 e 2000. Mas preservou-se, no âmbito do convencimento e da luta
política, o denso significado da “educação politécnica” como educação
omnilateral ou formação em todos os aspectos da vida humana – física,
intelectual, estética, moral e para o trabalho, integrando a formação geral e a
educação profissional. Além do fato historicamente comum de disputa de
significados, mesmo dentro da “esquerda”, ocorre que essa concepção
alargada de educação foi pensada para uma sociedade socialista, cujo valor
da vida humana e do seu desenvolvimento tem significado diverso da
educação nos países capitalistas (CIAVATTA, 2014, p. 190-191).
Para Marise Ramos (2014), novas perspectivas sobre educação profissional foram
traçadas e houve a retomada do projeto de desenvolvimento nacional, no contexto do segundo
mandato do presidente Lula. Uma das medidas foi a integração entre educação profissional e
ensino médio, cuja perspectiva de educação tecnológica perpassa a compreensão dos
fundamentos científicos e sociais do trabalho e educação tecnológica.
Finalmente, analisamos novas perspectivas traçadas para a educação
profissional no Brasil com a retomada do projeto de desenvolvimento
nacional, especialmente a partir da segunda metade do segundo mandato do
presidente Lula. Nesse período destacam-se medidas que contemplam a
integração entre a educação profissional e o ensino médio, perspectiva essa
que pode ser coerente com a construção teórico-prática de uma educação
tecnológica que correponda à preparação das pessoas para a compreensão dos
fundamentos científico-tecnológicos, sócio-históricos e culturais da produção
moderna. Dentre essas medidas assinalamos a incorporação do conteúdo do
decreto 5.154/2004 na LDB, a implantação do PROEJA, a expansão da rede
federal, o apoio aos sistemas estaduais por meio do Programa Brasil
Profissionalizado. Essas ações se articulam no plano de uma política pública
de educação tecnológica com as seguintes características: a) implicam,
respectivamente, as redes estaduais e a federal, atingindo, então, a totalidade
do sistema público que atua na educação profissional; b) apresentam metas
físicas e financeiras claras; c) particularmente no primeiro caso, vêm
acompanhados de um documento básico que dispõe sobre princípios e
diretrizes fundamentais para as ações políticas e pedagógicas realizadas sob
a sua égide (RAMOS, 2014, p. 67).
Como podemos analisar, algumas mudanças profundas ocorreram nas últimas décadas.
Refletir sobre elas é indispensável para pensar a educação profissional no Brasil. Por outro
lado, para pensar a iniciação científica recorreremos aos autores Vitiello (2019) que traz em
sua dissertação os caminhos da iniciação científica de forma remota e os benefícios aos
profissionais que participam de tais atividades como projeto de futuro; a Ecléa Bosi (1994)
com o exercício de História e memória, que nos debruçamos sobre as perspectivas da iniciação
científica na pandemia, no exercício de resgatar as memórias como instrumento de capacitação
e inovação, ainda o advento da divulgação científica por meio de Carlos Vogt, entender como
a divulgação científica alcança a formação profissional do jovem pesquisador, são premissas
que serão abordadas à luz dos autores descritos.
Para Vitello (2019), a pesquisa científica tem suas diretrizes marcada pela produção do
saber científico, o conhecimento científico é desenvolvido a partir da atuação como
pesquisador, estudando autores sobre a temática a seu projeto e atividade de pesquisa,
desenvolvendo apresentações, buscando novas fontes de pesquisa, dentre outras atividades que
são desenvolvidas pelo pesquisador que consequentemente constrói uma nova identidade, no
que diz respeito ao pensamento crítico e capacidade de analisar o contexto em que vive, a
sociedade.
No entanto, a atividade de pesquisa não deve ser algo isolado ao ensino, ainda existe
um imaginário de que pesquisa científica e ensino são atividades que devem ser desenvolvidas
separadamente, porém a prática do ensino associada a pesquisa forma pessoas capacitadas,
críticas e analíticas, com formação profissional, completa e com novos horizontes a serem
trilhados. Segundo Vitiello: “IC é um diferencial na formação do estudante de graduação, pois
sua realização proporciona ao acadêmico a intensa experiência de busca, de produção e de
ampliação do conhecimento” (2019, p. 22). A prática da Iniciação Científica é importante ao
jovem desde do ensino médio, no entanto muitos estudantes só passam a ter acesso a pesquisa
científica na graduação, mas, que proporciona ao discente uma vasta fonte de informação que
instiga o pesquisador na busca de repostas, entender fatores que antes não tinham a
sensibilidade de perceber na sociedade, a “relevância da IC se justifica, tendo em vista que,
por meio dela, consolida-se o processo de formação de pesquisadores que se destacam em
Grupos de Pesquisa que se apresentam como importantes fontes de produção e disseminação
de conhecimentos” (VITIELLO. 2019, p. 23). A Iniciação Científica forma profissionais e
pesquisadores que podem proporcionar a sociedade frutos como produções e publicações
científicas, disseminação do saber, criações tecnológicas que beneficiem a sociedade ou um
determinado nicho, essas atividades são desenvolvidas na sua maioria em grupos de pesquisa,
pois, mantém o pesquisador em atividade contínua e norteia-o na produção de conhecimento,
além disso, os coletivos são observatórios que articulam e norteiam os meios para a educação
profissional, podendo exercer nesses espaços distintos papéis, escritores, design, teatro, a
interligação de ciências como arte e política, arte e ciência, a multidisciplinaridade formando
um jovem com criatividade e autonomia com senso de organização e senso de oportunidades.
Os coletivos são grandes oficinas de conhecimento que prepara, lapidar, da formação
ao profissional futuro que o pesquisador se tornara, são ambientes que ensina além da pesquisa
científica, meios como a leitura de editais muito importante não apenas para seletivos nas
universidades como os que querem as carreiras públicas, percebe-se que a sociedade tem um
grande déficit em compreender documentos oficiais, seja pela linguagem ou pela falta de
orientação em leitura, os requisitos essenciais para qualquer tipo de seletivo/concurso. Além
disso, os grupos criam uma rotina de estudo e trabalho, pois, exercer a atividade de pesquisador
assina-se em tipo de contrato e termo de compromisso, que explicita as horas que devem ser
disponibilizadas para o seguimento do cronograma que além do conhecimento alguns têm o
privilégio de exercer tais papéis com o auxílio de uma bolsa de pesquisa, a remuneração é
ocasionada pela o contrato de exclusividade, ou seja, quando o estudante não participa de
nenhum tipo de atividade remunerada fora da universidade.
Diante disso, recorro à memória para narrar as possibilidades de formação para o
trabalho que o IFMA, proporciona a jovem pesquisadoras, afinal, “quanto mais a memória
revive o trabalho que se fez com paixão, tanto mais se empenha o memorialista em transmitir
ao confidente os segredos do ofício" (BOSI, 1994 p.480), e quando a memória é do narrador
são aspectos da história, memória e autobiografia, são percepções e vivências que aconteceram
dentro do Instituto Federal do Maranhão-IFMA, no trabalho de formação científica e
tecnológica ao mercado profissional, a formação direcionada através da ciência na perspectiva
de gênero.
Afinal, a formação científica nesse intuito, proporciona a meninas dentro dos coletivos
de estudos e pesquisa a se descobrirem, se aprimorarem, a se experimentarem, em diversas
áreas, inclusive nas exatas, campo que ainda as meninas são desacreditadas, no entanto,
proporcionar a experiência de experimentar e de acreditar que tais espaços são plurais e que as
meninas tem direito de exercer a sua vontade, é impagável, ajuda-las a construir sua história e
memória e para além disso, carreiras científicas, acadêmicas e profissionais é o objetivos do
coletivo. Nesse intuito o coletivo Meninas na Ciência IFMA, surge em 2020, durante a
pandemia, com o intuito da formação em divulgação científica principalmente para meninas e
mulheres, que a ciência tenha rosto de mulheres e meninas ocupando espaços da tecnologia,
das exatas e afins, com isso as atividades de divulgação passa por estágios que são primordiais
para alcance da cultura científica, que ainda estamos a passos largos de alcançá-las e só é
possível por meio da alfabetização científica, ou seja, através da formação na iniciação
científica e tecnológica.
Para tanto, o modelo proposto por Carlos Vogt para compreender como a cultura
científica é constituída da divulgação científica, se diferencia dos demais por sua forma, em
modelo do plano cartesiano ele é traçado em quatros quadrantes perpassando os grupos que
com sua evolução desenvolveria a cultura científica sólida, não retilíneo mais em espiral. Pode-
se pensar nesse espiral na perspectiva da iniciação científica, onde o I quadrante seria a criação
de um projeto de pesquisa que seria divulgado a outros cientistas/professores; o II quadrante
corresponderia a alocação da jovem pesquisadora a temática do projeto, informações para
contribuir com a sua formação científica inicial; o III quadrante seria os professores e estudante
destinando as informações e saberes a outros jovens e jovens cientistas; e o IV a divulgação
científica evidenciando os resultados da pesquisa, informações, para uma população em geral.
Dessa forma, acredita-se que ciência e cultura andariam lado a lado de forma evolutiva, pois,
estaria aplicando esse modelo na falta viabilizando a educação científica de grupos distintos.
Convém notar como, na visão de Vogt, a cultura científica é crítica e evolutiva.
As pessoas com tal formação, ou que incorporaram seus valores e
perspectivas, saberiam reconhecer as limitações da ciência e não se deixaram
iludir sobre as mitificações que envolvem sua publicidade”
(FONSECA;OLIVEIRA, 2015, p. 456).
Com isso, com a aplicação do modelo de Vogt, frente aos negacionistas, teriam um
grande obstáculo para difundir notícias falsas, por exemplo.
METODOLOGIA
Esta narrativa assume o caráter memorialista e descritivo, procura fazer o exercício de
memória, o que equivale lembrar e esquecer e silenciar, ao mesmo tempo é uma narrativa
simultaneamente histórica, reflexiva e crítica, em que urdimos a trajetória acadêmico-
profissional, intelectual e artística em carreira técnica e tecnológica no IFMA. Na intenção de
recuperar lembranças e fatos pertinentes à formação acadêmica, a partir de recortes específicos
e oportunidades profissionais, sem entremear, necessariamente, a origem social e familiar,
embora ela seja indelevelmente marcada por elas uma vez que nos debruçamos sobre a
trajetória de vida para recuperar a formação em ciência e tecnologia.
Neste aspecto, a “pesquisa exploratória” buscamos nos familiarizar com sujeitos,
constituindo uma teia de entrevistados, os lugares da pesquisa explorando e teorizando cada
passo. Ainda sobre a pesquisa exploratória, ela favorece a interação do pesquisador,
preocupando-se sobre como se dá o fenômeno analisado. Nesta fase, a internet e os métodos
informatizados proporcionam o contato com os sujeitos da pesquisa e contribui com aplicação
de questionários online.
A “pesquisa empírica” será realizada de maneira online, utilizando as redes sociais dos
IFs. A investigação preliminar do campo empírico é necessária através de estudos
exploratórios: documentos e contatos direitos, “são realizados com pessoas que podem
fornecer dados ou sugerir possíveis fontes de informações úteis” (LAKATO; MARCONI,
2016, p. 143).
Também iremos usar a “pesquisa do estado da arte” (FERREIRA, 2002), onde é
possível inventariar, sistematizar, descrever e analisar as dissertações sobre xadrez escolar,
este estudo não estaria completo sem a “pesquisa teórica”, baseada no levantamento
bibliográfico, no estudo preliminar de autores, análise de determinadas teorias. A pesquisa
teórica não mantém uma dependência clara com a empiria. A Pesquisa bibliográfica é o
apanhado dos principais trabalhos já realizados (...), por serem capazes de fornecer dados atuais
e relevantes relacionados a tema” (MARCONI; LAKATOS, 2016, p. 142).
No campo empírico não é necessário um lugar concreto (escola, universidade,
biblioteca, arquivo, casa dos entrevistados). Com a pandemia, ainda devemos considerar o
campo virtual para a observação, participação e o trabalho de campo. Neste contexto, ganhou
força o campo virtual da pesquisa, relacionado aos usos eletrônicos de equipamentos, tais como
celular, tablet e computador, programas e softwares, contatos estabelecidos pelo meet e pelo
grupo whatsapp) e também o campo empírico diz respeito à memória (dialética do lembrar e
esquecer) que atravessam as narrativas.
Estas narrativas da educação profissional se apresentam como possibilidade de
formação para o trabalho em carreiras científico-tecnológicas. Neste percurso, perpassam os
cursos técnico em Administração (subsequente) e Gestão Pública (tecnólogo), no recorte de
2017 a 2022; cuja travessia também para pelas experiências em programas de bolsas de
desenvolvimento institucional (2017-2018), programa voluntário de iniciação científica e
tecnológica (2018-2019), programa de iniciação tecnológica (2019-2020), programa de
iniciação científica (2021-2022), programa Interação com ciência (2022-2023), do Instituto
Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão. Além disso, é pertinente destacar os
projetos de ensino e extensão, como o projeto Esculpindo Projeto de Pesquisa (2017-201),
Esculpindo Jovens Pesquisadores (2020-2021) e Meninas na ciência IFMA (2021-2022), para
pensar a formação profissional para o mundo do trabalho em ciência e tecnologia, destacando
as oportunidades, os sucessos, os desafios, os obstáculos e os preconceitos que atravessam a
trajetória profissional de jovens pesquisadoras.
Neste contexto, as seleções e processos que envolvem os referidos programas
institucionais são completos e inacessíveis para muitos jovens. Assim, essas experiências
compartilhadas de informações e saberes e memórias são possibilidades epistemológicas,
políticas e educacionais para formação profissional. Por isso, antes da pandemia, encontro para
explicar editais, elaborar e corrigir projetos de pesquisas, oficinas para explicar usos de
aplicativos, plataformas podem viabilizar aos estudantes espaços de manobra e negociação
institucional e familiar.
Com a pandemia de Covid-19, as atividades curriculares foram suspensas no IFMA em
março de 2020; passados dois anos, nós retomamos as atividades presenciais. Contudo,
enquanto o retorno presencial não era possível, o mundo virtual e as mídias digitais se
apresentavam como espaço de grandes e diferentes oportunidades. Assim, pensar a formação
para o trabalho perpassa o mundo virtual, implicando epistemologias, sujeitos, processos,
instrumentos e tempos diferenciados.
Neste contexto, no intuito de manter conectadas o coletivo Esculpindo Jovens
Pesquisadores, criamos o instagram “@meninas_na_ciencia_ifma” em 2020. Foi desafiador, a
essa experiência tateante foi ganhando forma à medida que buscamos bibliografia pertinente
às fontes e arquivos digitais; pensamos as imbricações a iniciação científica e tecnológica a
partir do recorte de gênero, raça e classe e também para mídias digitais.
Assim, buscamos espaços online para reuniões do grupo de estudos, para orientações
de iniciação científica e tecnológica; nos aperfeiçoamos nos aplicativos e nas plataformas e
nas linguagens digitais; produzimos material para mídias sociais/digitais e transformamos
nosso olhar sobre divulgação científica nas mídias sociais para meninas e mulheres,
notadamente, na área de STEM.
Pensar metodológica e teoricamente estes espaços transmigrados do campo tradicional
da pesquisa para o virtual da divulgação científica foi um grande passo dado durante a
pandemia.
Neste contexto, a formação de meninas para divulgação científica, campo com grande
potencial de formação profissional, ganhou fôlego durante a pandemia, especialmente porque
a ciência e os cientistas brasileiros tiveram que reafirmar para sociedade valores científicos
frente ao negacionismo e obscurantismo em voga; a vencedora do Prêmio Nobel de Química,
em 2020, Emmanuelle Charpentier, deu uma entrevista para o Jornal Folha de São Paulo em
novembro de 2021, onde afirmou algo bastante sintomático dos nossos tempos: “A Negação
da Ciência é uma outra pandemia" (2021, s/p).
Diante do cenário preocupante destacado pela Emmanuelle Charpentier, a divulgação
científica, como espaço epistemológico e político de combate às fake News, ganhou espaço nas
mídias sociais, para isso, cientistas necessitaram ocupar esse espaço como uma batalha que
tinha como adversários os grupos de informações falsas e que desacreditava o valor da ciência
com falácias meticulosamente elaboradas.
Com isso, apropriando-se das mídias digitais, projetos de iniciação científica,
tecnológica e interação com ciência realinharam os olhares para pensar formas interativas,
interessantes de participação do mundo virtual. Nesse sentido, pensar as plataformas digitais
de instituições brasileiras também é um pertinente para fazer o trabalho de organização deste
percurso metodológico, uma vez que vários cursos foram disponibilizados sobre ciência e
educação, tecnologia e informação, divulgação científica e popularização da ciência. Essas
formações e capacitações de meninas para atuação em divulgação científica fizeram parte da
formação para o trabalho para mídias digitais, por exemplo, o curso online “Introdução à
Divulgação Científica (MOOC)”, realizado pela Fundação Oswaldo Cruz-FIOCRUZ (2021).
Nesses espaços de formação para o trabalho em plataformas, os cursos online das
Universidade Federais e Instituto Federais possibilitam capacitação de meninas, é
especialmente interessante porque deles provocamos debates de ideias, através de bibliografia
atualizada disponibilizadas; extraímos estratégias, formas e regras de divulgação, para atuar
nas mídias sociais de maneira profissional e ética, entendendo os mecanismos de como
divulgar cientificamente e produzir post´s e informações que contribuam com conhecimento
científico sobretudo local/regional, além de publicar e divulgar eventos científicos e participar
deles.
Além disso, os usos de compartilhamento coletivo e virtual de informações, de
elaboração coletiva de textos/documentos, o uso de ferramentas de trabalho como o Canva,
são aspectos que direcionam as estudantes ramo do marketing digital, com criações de
logotipos e designs para divulgação no instagram @meninas_na_ciencia_ifma, no qual é
administrado por meninas e para meninas.
Assim, nesses espaços movimentamos digitalmente a formação profissional para
ciência e tecnologia. Pensar esses deslocamentos é necessário para entender o digital na
formação profissional de jovens cientistas.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Para fins de análise dos resultados deste trabalho, retomamos o objeto desta
investigação, qual seja a formação profissional para o trabalho científico e tecnológico no
IFMA. Neste sentido, fazendo o trabalho de memória sobre a trajetória científica-tecnológica,
observamos que a pandemia forçou a exploração dos espaços virtuais, remotos e online como
possibilidade de fazer ciência, de aprimorar a educação tecnológica sob o viés do trabalho
como horizonte técnico-científico.
No contexto da pandemia, com a suspensão das aulas presenciais no IFMA, em março
de 2020, devido a pandemia da Covid-19, as estratégias de formação em ciência tiveram que
mudar. Em um contexto de contornos dramáticos, haja vista o estado de coisas quanto ao
acesso dos estudantes à comunicação, à informação, à tecnologia, à internet e aparelhos e
equipamentos. Apesar desse estado de coisas, que é o reflexo de uma política de sociedade
pautada na exclusão digital e tecnológica, inclusive como projeto de nação, vimos que os
espaços de marginalização, exclusão e subalternização ampliaram consideravelmente, mas, por
outro lado, revelou o quanto era profícuo a formação para o trabalho científico e tecnológico
nas mídias sociais, revelando-se como desafiador, interessante e cheios de oportunidades.
Assim, organizamos o projeto de Divulgação Científica nas mídias digitais, surgindo,
assim, o instagram @meninas_na_ciência_ifma, que foi resultado de um Projeto de Ensino,
Pesquisa e Extensão do Campus Buriticupu, que possibilitou a realização de atividades de
divulgação científica e participação em eventos científicos e tecnológicos durante pandemia,
como, inclusive, manter as atividades de pesquisa e o incentivo a permanência na escola
durante a suspensão das aulas presenciais. Além disso, é uma plataforma que proporciona
exercer a prática dos conhecimentos adquiridos através de cursos online e aplicá-los, ainda é
possível nessa plataforma virtual popularizar os trabalhos desenvolvidos e proporcionar acesso
aos estudantes de educação básica e comunidade em geral a informação de qualidade de cunho
científico.
Figura 01: Evolução do perfil do Instagram @meninas_na_ciencia_ifma
A padronização das interfaces digitais, é cada vez mais utilizado como ferramenta de
marketing digital, na ciência não é diferente, o desafio da divulgação científica é agradar aos
olhos dos seguidores tanto de conteúdo como de design, afinal, que perspectivas a divulgação
científica no IFMA prepara meninas com formação para o trabalho? Nesse caso, do meninas
na ciência, entender e aprimorar essas interfaces e criação de conteúdo é possível carreiras em
marketing digital, design, com diversas criações, além das experimentações que os
observatórios de estudos e pesquisas possibilita a meninas conhecerem sobre inúmeras
profissões e iniciar sua formação para o mercado de trabalho, em robótica, engenharias,
tecnologia, dentre outros campos experimentais que as meninas transitam na iniciação
científica e tecnológica. Conforme ilustra a figura 3 a seguir.
Figura 03: Criações de logotipos Instagram @meninas_na_ciencia_ifma
CONSIDERAÇÕES FINAIS
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AS CONTRIBUIÇÕES DAS AÇÕES EMERGENCIAIS REALIZADAS NA
PANDEMIA PARA A HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL DO IFRN
Resumo
Falar dos impactos sofridos pela educação no Brasil ao longo da história, é algo que
levaria a remeter a variados eventos que de alguma forma serviram como marcos teóricos para
o crescimento da educação profissional. Visto que a partir de situações dificultosas que
necessitam do desenvolvimento de ações estratégicas para o enfrentamento da ocasião, de
alguma forma leva a um crescimento e aprendizado, que traz evolução para as modalidades de
ensino, não apenas nas práticas pedagógicas e docentes, mas de uma forma em geral até mesmo
nos documentos e normativas exigidas e construídas com estes aprendizados.
Desta mesma forma ocorre nos momentos pandêmicos, que se faz necessário a
realização de ações emergenciais para o atendimento de demandas urgentes para todos os
stakeholders, nas mais diversas instituições de ensino e em toda a população, não apenas de
um país, mas de todo o mundo. Não diferente ocorre na educação profissional, a qual é pautada
por diversos momentos históricos, e que após a pandemia do Covid-19, terá mais um grande
momento marcante a ser relembrado e mencionado como um processo de grande aprendizado
e evolução das metodologias didáticas e pedagógicas nas áreas de ensino.
Desde a sua colonização, o Brasil sofre com doenças e epidemias responsáveis por
dizimar suas populações. De acordo com os estudos sobre Pandemias de Influenza dos
pesquisadores Costa e Merchan-Hamann 2016, o Brasil possui um histórico de epidemias de
influenza e de gripe, oriundas de outras partes do mundo, que datam dos séculos XVIII e XIX.
Entre os anos de 1889 e 1890, a gripe vinda da Europa, Morbus maximus epidemicus (vírus
Influenza A, subtipo H2 ou H3), teria chegado ao Brasil, no porto de Salvador, em um navio
vindo de Hamburgo, na Alemanha, e se espalhou pelo País. Mais adiante, em setembro de
1918, a epidemia de Gripe Espanhola (vírus da influenza do tipo A (H1N1)), chegou ao Brasil
nos navios vindos da Europa, que atracavam nos portos brasileiros de Recife, Salvador e Rio
de Janeiro.
A virose se espalhou rapidamente pelo país, atingindo aproximadamente 65% da
população e matando cerca de 300 mil pessoas, sem contar as mortes não notificadas às
autoridades sanitárias, na época. No ano de 1957, o Brasil foi acometido pela Gripe Asiática
(vírus Influenza A/Cingapura/1/57(H2N2)), que apresentou casos em diferentes capitais do
país até o ano seguinte. Já em janeiro de 1969, foi identificado e isolado o vírus A/Hong
Kong/1/6, conhecido por Gripe de Hong Kong. O vírus Influenza do tipo A (H1N1) de origem
suína, conhecido como Gripe Russa, se espalhou pelo mundo no ano de 1978.
A Gripe Aviária (vírus Influenza A (H5N1)), que é transmitido de aves para humanos,
foi identificado em diferentes estados do Brasil nos anos de 2004 a 2007 pelo Ministério da
Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). Em maio de 2009, O vírus Influenza do tipo
A (H1N1) pdm09 foi identificado pela primeira vez no Brasil, pelo IAL/SP, com 44.544 casos
confirmados e 2.051 mortes. E a mais recente pandemia que atingiu o Brasil, foi a da Covid
19 (vírus Sars-Cov-2), que já dizimou a vida de mais de 600 mil brasileiros, até a publicação
deste artigo.
A pandemia da Covid 19, chegou ao Brasil ao final de 2019 e se espalhou pelo país
em 2020, afetando a vida de toda a população e interferindo em vários setores, dentre esses, a
educação. Em março desse mesmo ano, escolas e instituições de ensino de todo o país foram
forçadas a fechar suas portas e a adotarem medidas emergenciais para que as aulas
continuassem e os alunos não fossem prejudicados. As escolas privadas de todo o país optaram
pelo ensino remoto e conseguiram dar continuidade ao cumprimento do ano letivo, enquanto
as escolas públicas pararam suas atividades em diferentes lugares do país e cada estado e
município seguiu os protocolos e diretrizes de suas respectivas secretarias.
De forma geral, muitos alunos, principalmente os de escolas públicas ficaram sem aulas
durante meses seguidos, sendo prejudicados e até excluídos da educação, muitos desses por
falta de acesso aos meios tecnológicos para assistir às aulas remotas, entre outros fatores como,
saúde e financeiro, visto que esses setores também foram diretamente atingidos pela pandemia.
Os Institutos Federais de educação do país são públicos e possuem muitos alunos nessas
condições de exclusão, diante desse quadro é importante saber quais foram as ações
emergenciais para os alunos do ensino Médio Profissionalizante criadas nos campi do IFRN
durante a pandemia da Covid 19?
Diante desse contexto, o objetivo geral deste artigo se baseia em diagnosticar quais as
ações emergenciais o IFRN adotou para a educação profissional durante a pandemia da Covid
19, enquanto que os objetivos específicos são: verificar quais foram as informações publicadas
sobre as ações emergenciais na educação profissional e investigar se além das ações publicadas
ocorreram outras atividades.
Esta pesquisa tem uma abordagem qualitativa, devido se propor a realizar uma análise
das ações que o IFRN fez e sua relevância para a instituição e a sociedade em geral. Ela também
se caracteriza como uma pesquisa básica, bibliográfica, de revisão de literatura do tipo
documental, com uma abordagem compreensiva.
Dentre as fontes pesquisadas para embasar este artigo, podemos citar Moraes (2016),
que trata das Políticas Públicas de Educação, Santos (2021), que aborda sobre as Políticas de
Assistência Estudantil e permanência de estudantes na pandemia, Costa e Merchan-Hamann
(2016), que apresentam um breve histórico e caracterização dos cenários pandêmicos e a
estrutura sanitária brasileira, além das consultas às páginas do sítio da instituição IFRN, mais
especificamente, o endereço https://portal.ifrn.edu.br/institucional/covid19, que apresenta
todas as informações atualizadas sobre as ações dos campi do IFRN de enfrentamento a Covid-
19.
O artigo está dividido nas seguintes seções: 1. Introdução, que apresenta um breve
histórico das doenças e epidemias ocorridas no Brasil, desde a sua colonização até os dias de
hoje; 2. Ações emergenciais na área de educação, que traz uma breve explanação sobre as
atividades da saúde pública no enfrentamento a estas doenças e pandemias, assim como os
desafios e mudanças trazidos pela pandemia de Covid 19 para o país, mais especificamente
para a educação, e os esforços realizados em prol da continuidade dos estudos, como forma de
garantir o direito à educação a comunidade estudantil brasileira; 3. Metodologia, que aponta
os principais autores que embasam esse trabalho; 4. Resultados da pesquisa, que aborda as
medidas emergenciais de enfrentamento ao COVID-19 adotadas pelo IFRN e continuidade das
aulas em seus Campis; 5. Considerações finais, que retoma brevemente do conteúdo do artigo
e apresenta uma opinião sobre a relevância deste para a comunidade acadêmica; Referências,
que apresentam as referências citadas ao longo do artigo.
O Brasil tem sofrido com doenças e epidemias desde a sua colonização, trazidas por
pessoas contaminadas em outras partes do mundo e responsáveis por dizimar suas populações
ao longo dos anos, de acordo com a literatura médica. É fato que o sistema de saúde do país
evoluiu muito ao longo de todos esses anos, através de novas técnicas de diagnóstico, de um
maior conhecimento das características virais, de novas ferramentas epidemiológicas ágeis
para estudo da distribuição da doença e suas tendências, além da importância da doença no
cenário econômico, político e social, como mostram os estudos de Costa e Merchan-Hamann
(2016).
A princípio, as atividades de saúde pública no país eram de caráter emergencial e
temporário, enquanto que entidades filantrópicas, eram responsáveis pela assistência primária
à saúde sem responsabilidade do setor público. Na época, o controle de epidemias era feito
com quarentenas, isolamento, extermínio de animais portadores ou vetores e restrição à
liberdade de movimento, mas com o passar dos anos, muita coisa mudou, visto que novas
técnicas para diagnóstico foram implantadas, se ampliou o conhecimento das características
virais, novas ferramentas epidemiológicas ágeis para estudo da distribuição da doença e suas
tendências foram criadas, o acompanhamento é realizado em tempo real, além da importância
da doença no cenário econômico, político e social.
Segundo Costa e Merchan-Hamann (2016), “É preciso reforçar aspectos referentes à
qualidade da coleta de dados, sua consolidação e divulgação da informação para a população
e servidores da saúde, uma vez que informação favorece conscientização e gera ação”.
Entre as incertezas que a pandemia de Covid 19, que atingiu o Brasil no final do ano
de 2019, trouxe às nossas vidas em relação ao futuro, está a realização e continuação das nossas
atividades diárias, visto que todos fomos pegos de surpresa e despreparados para prosseguir,
sendo levados a improvisar, a tentar novas formas de fazer aquilo que já estávamos
acostumados a fazer de outro jeito, a nos adaptarmos ao novo e a nos reinventarmos. E
educação foi uma das áreas atingidas diretamente pela pandemia e suas incertezas, a saber:
O início da pandemia foi desafiador para todos e no campo da educação não foi
diferente, como mencionado anteriormente, com a suspensão das aulas presenciais, muitos
alunos não puderam dar continuidade aos estudos imediatamente, mesmo sabendo que a
educação é um direito e que o acesso a ela precisa ser garantido, como diz Moraes (2016, p.
96), a saber:
[...] pode-se assumir que a condição de direito à educação – defendida desde 1948 na
Declaração de Direitos Humanos como direito humano fundamental – é um princípio
que norteia e põe no eixo próprio toda e qualquer política de educação. Nas escolas,
portanto, o direito à educação precisa se traduzir pelo acesso, a oferta de vagas, o que
não basta. O direito só se faz se garantida a permanência e o sucesso da
aprendizagem, ou seja, pela ideia de que não basta garantir a matrícula, a vaga,
oferecendo um currículo que espante e afaste crianças, adolescentes, jovens e adultos
do gosto pelo conhecimento e pelo saber.
Um dos desafios que a quarentena trouxe foi a questão do acesso, a internet, as novas
tecnologias e ao ensino, que atingiu diretamente o ensino público, mais especificamente, os
alunos mais carentes e aqueles que residem em localidades mais distantes. E essa falta de
acesso contribui diretamente para a exclusão, fazendo com que muitos alunos fiquem sem
estudar e abandonem os estudos. Dessa forma, a questão da falta de acesso é um desafio a luta
por direitos, a igualdade e a equidade na educação e, por consequência, na sociedade. Contudo,
as Secretarias de Educação dos Estados tentaram amenizar essa falta de acesso de diferentes
formas, entre elas:
Aulas online ao vivo ou gravadas (vídeo aulas) transmitidas via TV aberta, rádio,
redes sociais (Facebook, Instagram, Whatsapp, Youtube), páginas/portais eletrônicos
das secretarias de educação, ambientes virtuais de aprendizagem ou plataformas
digitais/on-line, como o Google Classroom e o Google Meet, além de aplicativos;
disponibilização de materiais digitais e atividades variadas em redes (CUNHA, p. 29,
2020).
Mas para se ter acesso, às vezes é preciso mais, é necessário ter recursos, sejam estes
materiais, tecnológicos e/ou monetários, de acordo com cada necessidade, como forma de
tentar garantir a equidade, a permanência desses alunos na escola e o direito à educação.
A fim de permitir com que as pessoas criem e usem novos conhecimentos em seus
respectivos contextos pessoais ou profissionais é fazer uso efetivo e ético das informações, de
acordo com o autor.
O direito à educação, de que trata a legislação brasileira em vigor, só pode ser cumprida,
tomando-se medidas necessárias e cabíveis em cada cenário vivido, agindo de forma ética e
transparente, buscando soluções que diminuam a exclusão e que garanta a qualidade da
educação ofertada a toda comunidade estudantil.
METODOLOGIA
Esta pesquisa tem uma abordagem qualitativa, devido se propor a realizar uma análise
das ações que o IFRN fez e sua relevância para a instituição e a sociedade em geral. Ela também
se caracteriza como uma pesquisa básica, bibliográfica, de revisão de literatura do tipo
documental, com uma abordagem compreensiva. Kripka (2015, p. 61) diz que, “No contexto
da pesquisa qualitativa, a análise documental constitui um método importante seja
complementando informações obtidas por outras técnicas, seja desvelando aspectos novos de
um tema ou problema” (Alves-Mazzotti, 1998; Lüdke & André, 1986). E de acordo com a
definição a seguir:
RESULTADOS DA PESQUISA
Essa medida surgiu como uma solução no combate à exclusão e evasão escolar, pois,
através desse auxílio, o IFRN oportuniza a continuidade dos estudos a muitos alunos em
situação de vulnerabilidade durante a pandemia e garante o direito fundamental à educação.
Mas, de acordo com os estudos de Santos (2021), dentre outros aspectos que ocorreram, os
recursos disponíveis na instituição foram insuficientes para atender a todos esses estudantes, a
saber:
Segundo a Resolução, a volta gradual das aulas presenciais será realizada por meio
do ensino misto provisório, isto é, pela simultaneidade entre o ensino remoto
emergencial e a progressiva ampliação do ensino presencial, tendo início em 8 de
novembro deste ano. O documento é pautado em orientações dos órgãos de saúde do
Ministério da Educação (MEC) e do Comitê de Enfrentamento à Covid-19 do IFRN
(IFRN, 2021).
Além das medidas descritas acima, algumas outras ações foram tomadas pelo IFRN em
seus diversos campi, ao longo do ano de 2020, para o enfrentamento à pandemia e para a
diminuição de seus impactos na vida da população acadêmica e das comunidades em torno de
seus campi, como a criação de campanhas de arrecadação de alimentos, entrega de cestas
básicas, distribuição de sabão líquido e em barras, além de frascos de álcool em gel, produção
de máscaras de proteção facial e capotes hospitalares para doação.
Agora no final de 2021, com a previsão de retorno das aulas presenciais, o
prosseguimento ao ano letivo ocorrerá com as adaptações necessárias, os impactos da
14
08 de Novembro de 2021.
pandemia na educação poderão ser mensurados e a volta à normalidade acontecerá de forma
gradual.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
REFERÊNCIAS
CUNHA, Leonardo Ferreira Farias da; SILVA, Alcineia de Souza; SILVA, Aurênio Pereira
da. O ensino remoto no Brasil em tempos de pandemia: diálogos acerca da qualidade e do
direito e acesso à educação. Revista Com Censo: Estudos Educacionais do Distrito Federal,
[S.l.], v. 7, n. 3, p. 27-37, ago. 2020. ISSN 2359-2494. Disponível em:
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GIL, Antonio Carlos. Como elaborar projetos de pesquisa. 2. ed. São Paulo: Atlas, 1991.
Disponível em:
https://files.cercomp.ufg.br/weby/up/150/o/Anexo_C1_como_elaborar_projeto_de_pesquisa_
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IFRN. ALCÂNTARA, Cíntia Gouveia Costa de. [et. al.] Plano de contingência do Instituto
Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte para enfrentamento
ao novo coronavírus. Ministério da Educação Secretaria de Educação Profissional
Tecnológica Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte
Comitê de enfrentamento a covid-19 do IFRN. 2020. Disponível em:
https://portal.ifrn.edu.br/ifrn/institucional/covid19/lateral/portarias-e-notas-tecnicas-1/plano-
de-contingencia-do-ifrn-para-enfrentamento-ao-novo-coronavirus Acesso em 09 de out. de
2021.
LAKATOS, Eva; Marconi, Marina. Metodologia do Trabalho Científico. São Paulo: Atlas,
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content/uploads/wpforo/default_attachments/1553321464-Metodologia-do-trabalho-
cientfico-Eva-M-Lakatos-e-Marina-de-A-Marconi.pdf Acesso em: 27 de Nov. 2021.
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Públicas de Educação. Rio de Janeiro, RJ: Universidade Federal Fluminense, 2016.
Disponível em:
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ersaodigital_1ed.pdf Acesso em 17 de abr. de 2022.
RUIZ, João Álvaro. Metodologia Científica: guia para eficiência nos estudos. 4. ed. São
Paulo: Atlas, 1996. Disponível em: http://paginapessoal.utfpr.edu.br/lcpereira/esta-e-uma-
pasta/ma73d/JRuiz_CapV.pdf Acesso em: 27 de Nov. 2021.
Resumo
Pretendemos analisar como referências ao continente Europeu, com destaque para países como
Inglaterra, França, Bélgica, Suíça e Itália, apareceram em discursos sobre a Educação
Profissional no Brasil, nas primeiras décadas do século XX. Referimo-nos a um contexto em
que se implementava no Brasil, pelos idos de 1909, a primeira rede de instituições de ensino
profissional no país, as Escolas de Aprendizes Artífices, em um cenário marcado por incertezas
quanto ao sucesso dessa empreitada, associado a uma série de expectativas que tais Escolas
traziam, especialmente ligadas a um ideal de regeneração social desejado pelos grupos
dirigentes republicanos. Para tanto, utilizaremos como fontes, entre outras, os relatórios de
governo, matérias de periódicos e os livros Impressões da Europa (Suíça, Itália e Espanha) e
Política, Economia e Finanças, ambos de Nilo Procópio Peçanha, tomado como patrono da
Educação Profissional no Brasil por ter sido o responsável pela elaboração do decreto nº
7.566/1909, de criação das Escolas de Aprendizes Artífices. Quanto à metodologia,
consideramos importante fazermos uma ressalva: apesar do uso do termo discurso no título,
não nos filiamos a nenhuma linha específica de análise de discurso. Podemos dizer, de qualquer
modo, que o discurso é marcado por símbolos e expressões que refletem as marcas de um
indivíduo, ao expressar sua “maneira de pensar”, de agir e de ser; mas também traz as marcas
de um coletivo, posto que quem discursa o faz para alguém, para outros, para um grupo pelo
qual anseia ver seu pensamento ser acolhido. É formado por argumentos que embasam a defesa
de uma ideia e, igualmente, por gestos que dão sentido e força a esses argumentos. A partir de
Jacques Le Goff, analisamos nossas fontes de pesquisa como documentos/monumentos. Diante
disso, reconhecemos que o documento não é algo inócuo, objetivo, não guarda a verdade em
si dos fatos, como bem lembra o historiador francês. O documento/monumento é produto das
relações de força que marcam e formam uma sociedade, devendo ser entendido nesse contexto
de disputas e tensões. Após devassar as fontes anteriormente citadas, podemos concluir que as
referências ao continente europeu em discussões sobre a Educação Profissional vão muito além
desse campo e refletem a concepção desse continente como um modelo de civilização a ser
seguido, em acordo com a ideia de ordem social/racial que as elites dirigentes defendiam para
o país no contexto de transição do século XIX para o XX.
Resumo
Este trabalho tem por objetivo analisar a cultura da construção de corpo saudável instituída na
Escola de Aprendizes Marinheiros da Paraíba durante o início do século XX. A cultura do
corpo saudável dos aprendizes marinheiros, teve início ao menos na legislação já em 1885,
quando o regimento da época excluiu formalmente o menor com alguma imperfeição no seu
biotipo. Essas escolas tem por objetivo formar bons marinheiros para os múltiplos serviços
navais com enfoque na formação física, intelectual e profissional. O interesse estava na
utilidade do corpo e para fabricá-lo foi necessário adotar em seus programas de ensino as
disciplinas de Higiene e Educação Física identificadas na década de 1910 na escola de
formação de marinheiros (Cf.: SOARES JÚNIOR, 2019). Os médicos, ao que tudo indica,
queriam unir a medicina com a pedagogia e assim, difundir seus discursos sobre a prevenção
de doenças e a importância de exercícios físicos que contribuíram para a formação do corpo
forte e saudável em suas guarnições. Desse modo, “[...] a escola passou a ser o lugar onde a
higiene e a educação física ganharam espaço não apenas no programa de ensino, mas na forma
de educar corpos e mentes, modos de olhar e desejar” (SOARES JÚNIOR, 2019, p. 48)
Tornou-se um espaço de adestrar corpos. Nesse sentido, dialogamos com o conceito de
disciplina postulado por Michel Foucault (2014), que colabora para a reflexão desses novos
interesses sob o corpo. Tratando-se da Escola de Aprendizes Marinheiros da Paraíba que
treinava soldados para guerrear, assim como as demais corporações militares, para obter um
“aparelho eficiente” ou uma “máquina” como aponta Foucault (2014), era fundamental voltar
a atenção ao treinamento físico desses menores. Salientamos que, era feito em meio a um
terreno sujo, inóspito e sem materiais básicos para treinar. Buscando entender esse corpo
saudável, que utilizamos como fontes históricas o Decreto n. 6.582, de 1° de agosto de 1907 e
o Decreto n. 11.479, de fevereiro de 1915 na tentativa de compreender os critérios admissionais
regidos por essa instituição, sobretudo, a harmonia de se ter “traços physionomicos e geraes
que constituem a belleza physica”. Metodologicamente, nos apropriamos da análise do
discurso de Michel Foucault (2014), no intuito de interpretar os discursos de quem detinha
poder sob a instituição e sob os menores. Concluímos que os discursos higienistas contribuiu
para validar a aptidão física dos aprendizes, como também para orientar sobre as condições
higiênicas dos prédios que a Escola da Paraíba habitou.
Resumo
O presente resumo faz parte de uma pesquisa de doutorado em andamento desenvolvida com
fomento da CAPES no Programa de Pós-graduação em Educação Profissional do Instituto
Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (PPGEP/IFRN). A
investigação se insere no projeto de pesquisa Gestão das experiências de sofrimento na
Educação Profissional: estudo comparativo entre Brasil, França e Argentina, financiado pelo
edital universal do CNPq. Nesse estudo, objetiva-se analisar brevemente a institucionalidade
da Escola de Auxiliares de Enfermagem de Natal (EAEN), espaço pioneiro na Educação
Profissional em Saúde (EPS) no Rio Grande do Norte. Além disso, considerando-se que a
Enfermagem ao longo dos tempos foi tornando-se uma profissão predominantemente
feminina, destacamos as possíveis interfaces entre as questões de gênero, à luz dos estudos de
Heleieth Saffioti, Daniele Kergoat, Silvia Federeci, Michelle Perrot, e a formação para o
trabalho experimentada nessa área. Para tanto, consideramos as categorias Gênero e Educação
Profissional em Saúde. É uma pesquisa de cunho historiográfico e considera que os
documentos são feitos de camadas de sentido e significados, na qual sua própria história de
constituição interfere nos sentidos que esses documentos possam oferecer. A Escola de
Auxiliares em Enfermagem de Natal tinha o objetivo inicial atender conjunturas emergenciais
de saúde e preencher a demanda profissional nesse setor. A Portaria Ministerial nº 381/1955,
de 7 de dezembro, autorizou o funcionamento da Escola, que passou a atuar no Pavilhão Santa
Izabel do Hospital Miguel Couto, hoje Hospital Universitário Onofre Lopes. Sua manutenção
financeira era de responsabilidade do Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), da Campanha
Nacional de Tuberculose (CNT) e da própria Sociedade de Assistência Hospitalar (SAH). A
EAEN ofertava o curso de Auxiliar em Enfermagem na forma de internato e externato, com
duração de dezoito meses, com o ingresso apenas a mulheres de 18 a 30 anos, tornando-se,
assim como a Escola Normal do Rio Grande do Norte, um lugar generificado, ou seja, um
espaço constituído e constituinte dos gêneros. Além disso, a criação da EAEN ocorre na
transição da enfermagem religiosa, gratuita e caritativa para a enfermagem diplomada e
remunerada. O principal objetivo era a substituição das religiosas por uma mão de obra
qualificada e treinada pelo modelo de assistência nightingaliano a ser desenvolvido pela
Escola. Essa remodelação, no entanto, não foi um processo fácil, especialmente em relação à
valorização financeira e profissional da enfermagem. Nesse processo, misturam-se códigos
sociais nutridos pela lógica caritativa do cristianismo, à emergência da profissionalização da
enfermagem. Desloca-se para as enfermeiras diplomadas, paulatinamente, o discurso do amor
ao próximo, da abnegação, a sujeição aos superiores, a obediência incondicional e a
valorização de um suposto feminino presente em todos esses aspectos. Esse pensamento
discursivo mantém, porém, o ideal regulatório de naturalizar, em torno das mulheres, a
destinação ao trabalho do cuidado.
Resumo
Resumo
O presente trabalho tem por objetivo analisar os processos educativo e disciplinar dentro das
Escolas de Aprendizes Marinheiros, que tinham como principal finalidade a sujeição dos
corpos infantis e juvenis com a proposição de formar para além de bons cidadãos, bons
marinheiros, que pudessem servir na Armada nacional. As Escolas de Aprendizes
Marinheiros nasceram como uma instituição que tinha como escopo, moldar/transformar, por
meio da educação e da disciplina, os corpos e as mentes de crianças e adolescentes. Para que
este objetivo pudesse ser alcançado, esta instituição da Marinha do Brasil, idealizada na
primeira metade do século XIX, não mediu os esforços necessários para que os corpos e as
mentes dessas crianças e adolescentes, pudessem ser forjados, mesmo que para isso fosse
imprescindível o uso da disciplina e do castigo enquanto forma de moldá-los. A priori, na
história da instituição, o ensino elementar de primeiras letras e as aprendizagens básicas a
respeito do maquinário dos navios e do funcionamento das armas, eram os assuntos
introduzidos no ensino dos menores. Com a evolução desse maquinário bem como das armas
a bordo das grandes embarcações, fez- se necessário uma grande atualização no currículo das
Escolas de Aprendizes, onde estas foram divididas em duas grandes categorias: Escolas
Primárias e Escolas Modelos. As Escolas primárias era responsável pela educação e pelo
preparo do pessoal para cursar nas Escolas Modelo, enquanto a segunda fora responsável pelo
aprofundamento do ensino primário e os elementos do ensino técnico-profissional. Temos
percebido durante nossos estudos que o núcleo central que estabelece os fundamentos para o
funcionamento dessa instituição, perpassa pelos processos disciplinares. Entendemos por
processos disciplinares, todo e qualquer recurso utilizado com a intencionalidade de incutir
nas mentes e corpos dos aprendizes, regras e normas estabelecidas pela Marinha, que
definiram o perfil profissional desejado para compor a armada nacional. Para melhor
compreensão do tema, dialogamos com os conceitos de disciplina postulados por Michel
Foucault (2020), de cultura escolar proposto por Dominique Julia (2010), além de trabalhos
relevantes na área, como os escritos por Rozenilda Castro (2013; 2017), Vera Regina Beltrão
Marques e Silvia Pandini (2004), dentre outros. As fontes históricas problematizadas são os
Relatórios de Ministro da Marinha, periódicos em circulação à época, e das Leis e Decretos
emitidos pelo governo.
Resumo
Resumo
Esta pesquisa tem como lócus o IFPA no período entre 1999 a 2008, quando era denominada
como CEFET-PA. Tem como contexto histórico uma reforma educacional atravessada pelas
determinações da política internacional que propagava a necessidade de uma formação que
adaptasse o sujeito às transformações do mercado globalizado (LIMA FILHO, 2002). A
questão que norteia este estudo questiona, se é possível compreender a organização e a
historicidade do CEFET-PA a partir das memórias dos servidores e servidoras da instituição?
A pesquisa foi desenvolvida a partir do envio de um formulário com dez perguntas aos
servidores e servidoras sobre a historicidade, a memória e a organização do Centro Federal de
Educação, Ciência e Tecnológica do Pará (1999-2008). Obteve-se dezessete respondentes,
dentre eles ex-discentes, docentes, técnicos administrativos e servidores e servidoras. Para dar
suporte a discussão utilizou-se como fundamentação teórica, as contribuições de Le Goff
(2013) sobre a memória enquanto um elemento importante na percepção da constituição do
sujeito, a relação entre memória e história no âmbito da educação profissional a partir de
Ciavatta (2015), a construção das fontes históricas e o lugar que elas ocupam na historiografia
(BARROS, 2019) e a utilização dos conceitos comunidades de destino, colônia e redes (SEBE
e SEAWRIGHT, 2021), que serviram como base na compreensão dos dados coletados a partir
da análise textual discursiva (GALIAZZI e SOUZA, 2019). Nesse sentido, destacamos a rede
(1) sendo os “discentes que posteriormente tornaram-se funcionários e funcionárias” refere-se
a uma característica interessante do IFPA, onde egressos posteriormente através de concurso
público tornaram-se servidores. A rede (2) é composta pelos “docentes” estes, ao responderem
porque fazem parte da história do CEFET-PA exaltam as suas contribuições para a instituição
através do desenvolvimento das atividades de ensino, pesquisa, extensão, coordenação e
gestão. A rede (3) agrupa servidoras e servidores da gestão e coordenação que atuaram
diretamente na gestão e coordenação, e percebeu-se que possuem um olhar diferenciado da
institucionalidade do CEFET-PA. A rede (4) elenca as professoras e demais servidoras
aposentadas, que diante do distanciamento da instituição que vivenciam atualmente, percebe-
se que as lembranças envolvem questões diferentes de quem ainda atua na instituição. Os dados
coletados no formulário demonstram que a comunidade interna (professores, coordenadores,
gestores e técnicos) compartilham sentimentos de pertencimento e gratidão ao IFPA pela
trajetória educacional e profissional construídas no decorrer dos anos. O sentimento de
pertencimento à instituição advém, em grande parte, das atividades exercidas no IFPA, sendo
o ensino, a pesquisa e a extensão elencadas pelos docentes como o elo que os coloca como
partícipes na história da instituição.
Resumo
Resumo
O Livro do Aprendiz Marinheiro é datado de 1889, possuindo dois volumes, sendo o primeiro
dedicado às matérias do ensino elementar e o segundo dedicado aos conteúdos do ensino
profissional. Acreditamos que esse livro era usado pelos aprendizes marinheiros entre 1889 até
1906. Pensamos isso por dois motivos, o primeiro porque o conteúdo ali presente está de
acordo com o Decreto n. 9371 de 14 de fevereiro de 1885 que vigorou até 1906. O segundo,
porque achamos notícias nos jornais da época que foram impressos 6.000 exemplares do
referido material e no ano de 1906, conforme os jornais, foi solicitada uma nova edição. Assim,
o objetivo deste trabalho é analisar O Livro do Aprendiz Marinheiro Volume II, buscando
compreender a forma como o ensino profissional era proposto para os menores desvalidos que
entravam na referida instituição. Além do livro mencionado, encontramos algumas
características referentes ao ensino profissional através do decreto que regia as normas dessas
instituições. Para construirmos, portanto, essa história utilizamos como referencial teórico as
considerações de Kazumi Munakata (2016) acerca dos livros didáticos, principalmente no que
se refere às suas definições. Além disso, fez-se necessário uma discussão sobre o conceito de
disciplina por André Chervel (1990), visto que o referido livro traz consigo diversas disciplinas
e conteúdo do ensino profissional para os menores aprendizes marinheiros. Fez-se necessário
as discussões acerca da legislação escolar a partir de Luciano Mendes Faria Filho (1998), já
que o Livro do Aprendiz Marinheiro está de acordo com a legislação escolar dessa escola
vigente da época. Por estudarmos um material didático, fizemos uso do conceito de cultura
material, expressão provocada pela Nova História Cultural. No tocante a este ponto, utilizamos
principalmente as considerações de Rosa Fátima de Souza (2007). Essa autora acredita que a
principal questão para quem se propõe em pesquisar a cultura material de determinada
instituição escolar, é saber o papel desempenhado por aquele objeto no processo educacional.
Assim, este trabalho é pautado no viés da História Cultural, em que a temática das instituições
escolares e aquilo que as cerca tanto possuem como também são geradoras de cultura. Para
isso, empregamos os escritos da historiadora Sandra Pesavento (2019), por questionar-se sobre
como trabalhar com os traços do passado. Dessa forma, concluímos que o conteúdo presente
no referido livro visava as técnicas e o ofício de um Aprendiz de Marinheiro.
Resumo
Este trabalho é resultado da pesquisa em andamento no Mestrado em Educação Profissional e
Tecnológica (ProfEPT) do Colégio Pedro II. A centralidade do debate recai sobre a análise das
ideologias identificadas nos discursos de agentes do campo escolar sobre a adoção do sorteio
público na seleção de estudantes para acesso aos cursos de ensino médio integrado do Centro
Federal de Educação Tecnológica Celso Suckow da Fonseca (Cefet/RJ). O corpus utilizado
como fonte empírica constitui-se da gravação e da ata da reunião do Conselho Diretor, órgão
máximo da administração da instituição, na qual se deliberou sobre esse formato de seleção
(CEFET, 2021). Historicamente, esse acesso vem sendo condicionado à classificação em
provas, privilegiando-se o capital simbólico cultural (BOURDIEU, 2014, 2003) e o percurso
escolar dos candidatos. O sorteio público ocorreu excepcionalmente nos anos de 2021 e 2022,
em decorrência da pandemia da Covid-19, suscitando controvérsias entre agentes do campo
escolar. Os discursos discordantes tinham como fulcro a ideia de que a entrada de estudantes
sem o concurso das provas colocaria em risco a qualidade do ensino ofertado e impactaria a
metodologia do trabalho pedagógico tido como consolidado. Por sua vez, as vozes favoráveis
celebraram o potencial do sorteio como expressão de um posicionamento ético-político
contrário à meritocracia e adepto à abertura da instituição à sociedade, absorvendo suas
diferenças e desigualdades. Situa-se, assim, essa antinomia no âmbito da disputa por
hegemonia político-cultural da classe trabalhadora (GRAMSCI, 1999). Toma-se a língua como
fenômeno social imantado às demais dimensões que estruturam a sociedade de classes.
Destaca-se a ideologia como categoria conformadora de uma dada consciência (BAKHTIN,
2014) e sua presença inequívoca nas diferentes compreensões e discursos acerca da realidade.
Parte-se do pressuposto de que toda consciência é socialmente edificada e abriga
concepções de mundo conformadas e mediadas pelas contradições da totalidade social, as quais
costumam evidenciar-se em cenários de disputa, semelhante à observada na situação apreciada.
Em que pese a relativa autonomia de cada campo no tocante às variadas questões que regem
outros campos (BOURDIEU, 2014), a instituição escolar e seus diferentes agentes não
escapam àquelas contradições, das quais destacamos o embate discursivo entre concepções
progressistas e conservadoras sobre o direito de acesso à escola pública.
Resumo
Resumo
Resumo
Este estudo apresenta um breve histórico da criação da Escola Normal Rural de Juazeiro do
Norte, Ceará, em 1934, a primeira do Brasil, considerando a memória e a trajetória dessa
instituição que, na época de sua criação, tinha como foco a Educação Profissional no interior
do Ceará. O questionamento central da pesquisa é: como se deu a instalação e o funcionamento
dessa instituição de ensino nos seus primeiros anos de existência? Assim, o objetivo desta
pesquisa é conhecer o contexto histórico da criação da ENRJN e o seu funcionamento logo
após a sua inauguração. A pesquisa se encontra no campo da história das instituições escolares,
em específico daquelas voltadas para a formação para o trabalho. Tem natureza qualitativa e
documental, uma vez que são utilizadas variadas fontes históricas, a saber: fotografias, jornais
e outros documentos que relatam a história da criação da Escola Normal Rural de Juazeiro do
Norte, sua trajetória formativa e a tendência pedagógica adotada pela escola quando da sua
criação. Os dados obtidos na pesquisa, após serem selecionados e categorizados, deram
subsídios para entender a importância da criação da primeira ENRJN, bem como a relevância
da preservação da história e das memórias desta instituição. As reflexões sobre a história da
instituição educacional em estudo, sobre o seu cotidiano escolar e sua trajetória formativa,
motivou-nos buscar suas memórias, os registros fotográficos bem como narrativas, registradas
em documentos, que evocassem lembranças sobre um determinado tempo histórico.
Ressaltamos que a análise da história de uma instituição escolar não se resume a relatar fatos
ou apresentar dados, mas na reconstituição da história. Assim, no processo de análise de uma
instituição educativa, há que se atentar para a necessidade de reinterpretar o passado, mediante
a reconstituição histórica da instituição pesquisada, de seu contexto histórico imediato e geral.
Faz-se necessário perceber que as instituições educativas guardam em seu cerne, produtos da
sociedade que as configuraram segundo as relações de força e de poder.
INTRODUÇÃO
É relevante destacar que no ano de 1971, durante o governo ditatorial militar (1964-
1985), foi instituída a Reforma do Ensino de 1º e 2º Graus, depois de tramitação sumária no
Congresso. A Lei n.º 5.692 de 11 de agosto de 1971, mudou a organização do ensino no Brasil,
destinando o objetivo profissionalizante como sendo o principal a ser alcançado. Os
profissionais seriam certificados de acordo com as habilitações cursadas e, tais ofertas
poderiam ser oportunizadas a partir das realidades e condições específicas dos governos
estaduais em seus respectivos municípios.
O Curso Normal Regional no Rio Grande do Norte foi implantado nos municípios do
interior do estado por meio da ação das Escolas Normais de Natal e de Mossoró, quando se
estabeleceu a compreensão da deficiência sistêmica causada pela ausência de espaços de
formação de magistrados nesses interiores, onde não havia possibilidade de implantação de
Escolas Normais. Ambas propostas, das Escolas Normais e Cursos Normais Regionais,
surgiram diante das necessidades socioeconômicas e políticas do país em épocas distintas,
servindo ao mesmo objetivo de formação de profissionais que pudessem atuar nos cargos de
professores nas escolas primárias do país. Nos anos iniciais do século XX, a formação oficial
de professores primários no Rio Grande do Norte, dava-se, principalmente, através dos cursos
oferecidos pelas Escolas Normais de Natal e de Mossoró, o que nos permite observar como a
profissionalização do magistério em cidades do interior do estado se deu de forma mais lenta
e gradual.
Desse modo, no presente estudo nos detivemos à analisar a presença do Curso Normal
Regional na cidade de Pendências-RN, destacando suas implicações para o processo de
profissionalização do Magistério, diante das baixas possibilidades de trabalho na cidade em
questão. Cientes dessa realidade, nos questionamos então sobre como funcionava o Curso
Normal, quais as possibilidades profissionais o Curso Normal Regional oferecia, bem como,
sobre os possíveis impactos que tais possibilidades profissionais causavam na realidade do
aludido município.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Este estudo situa-se no diálogo entre os campos da Nova História Cultural e da História
da Educação, com foco na discussão de formação profissional do professorado, a partir do
trabalho com fontes documentais históricas provenientes de um arquivo escolar. Tais registros
históricos são convertidos em possibilidades de pesquisa para os historiadores da educação,
possibilitando acesso a informações e dados sobre instituições escolares e suas atuações nas
mais distintas localidades. Nessa perspectiva teórico-metodológica empreendemos nossa
pesquisa e, sobre a localização específica de fontes documentais escolares, dialogamos com
Mogarro (2006, p. 74), ao destacar necessária atenção à geografia documental da escola em
sua diversa e vasta produção composta por:
A escola passou a ser vista mais como uma instituição que deveria estar em busca de
eficiência e eficácia, voltada ao mercado de trabalho. Deste modo, a
profissionalização do ensino encontrou espaço, com a criação e o desenvolvimento
de um modelo de currículo, mais adequado às inovações, mais ágil, mais prático,
reduzindo alguns dos conteúdos teóricos considerados, a partir de então, dispensáveis
ao novo profissional, inserindo as descobertas científicas mais recentes e métodos
para soluções de problemas em qualquer área, além de enfatizarem a necessidade de
tornar os indivíduos mais autônomos e independentes. (POPKEWITZ, 1997 apud
MIMESSE, 2007, p. 106).
Percebemos a dialética de alterações em espaços e suas propostas de formação, não
sendo possível assim, nos furtamos da reflexão sobre a historicidade da formação profissional
docente que nas mais diferentes épocas foi atravessada por aspectos do cenário mais amplo e
da formação dos cidadãos que se almejava empreender nos diferentes recortes temporais sobre
os quais poderíamos lançar luz. Nos apoiamos em Nóvoa (1995), que nos alerta para a ciência
relacionada ao empreendimento histórico de preparo dos mestres e, como a partir desse
conhecimento, nos é possível a aproximação com as problemáticas próprias ao campo da
profissão docente nos dias atuais.
Olhar tal fenômeno em perspectiva histórica nos implica no trânsito entre os
acontecimentos que nos trouxeram até o atual momento e, como vivenciamos reformas e
mudanças que são apresentadas à sociedade como algo novo, mas que na realidade, derivam
de iniciativas já anteriormente ensejadas. O debate sobre as perspectivas de atuação e função
da formação profissional docente é fulcral para percebermos como são conectadas as propostas
de preparo técnico, com as expectativas construídas para determinadas camadas sociais em
específicos períodos e contextos que constituíram os projetos para a educação nacional.
METODOLOGIA
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Atualmente na cidade de Pendências, grande número dos jovens que alcançam o grau
de ensino superior, atuam como docentes na educação básica. Se hoje esta profissão se torna
comum para a população, em outras épocas não acontecia exatamente dessa forma. O déficit
de profissionais que assumissem os cargos de docentes nas escolas primárias, conduziram na
criação das Escolas Normais no Rio Grande do Norte e posteriormente, pelo mesmo aparente
motivo, a formação profissionalizante das Escolas Normais foram utilizadas para a criação do
Curso Normal Regional nos interiores do Rio Grande do Norte (NASCIMENTO, 2022).
Pereira (2018) nos revela que somente em 1947 através do Decreto-lei estadual n.º 684
de 11 de fevereiro que seguia as disposições do decreto-lei federal n.º 8.530, de 02 de janeiro
de 1946 que organizou o Ensino Normal, é que a estrutura profissionalizante do Curso Normal
Regional foi estabelecida efetivamente no Rio Grande do Norte. A autora assevera que:
Quanto a esse período, Pimenta (1992, p. 42) critica a forma como as disciplinas eram
ofertadas neste curso profissionalizante, pois não interagiam entre si, por ser um ensino
pensado somente para o futuro profissional que beneficiaria o setor econômico da sociedade.
A autora argumenta que não havia “[...] qualquer articulação didática e de conteúdo entre as
disciplinas do Núcleo Comum e as da parte profissionalizante”.
Em contato com o acervo disponível no arquivo da Escola Estadual Monsenhor
Honório, podemos averiguar que a referida instituição, ofertava somente o Curso Normal com
o modelo de período formativo de 03 anos.
Como elucida a figura 01, 1980 foi o ano de conclusão da primeira turma do curso de
formação no Magistério concluiu o curso. Isso nos leva a considerar, que o Curso Normal
Regional para habilitação no Magistério iniciou-se em Pendências a partir do ano de 1978. A
fonte documental apresentada mostra a conclusão da primeira turma com um total de 12 (doze)
estudantes, todas mulheres.
Quando prosseguimos analisando as décadas posteriores, compreendemos que o ápice
das possibilidades que o Magistério poderia ofertar para uma cidade onde maior parte de sua
população se encontra em um quadro de baixa renda, veio somente após o período da Ditadura
Militar (1964-1985), especificamente no período do governo de José Sarney (31º Presidente
do Brasil 1985-1990) com as promessas declaradas que previam piso salarial, plano de carreira
e investimento nos cursos de formação do Magistério que, supostamente, beneficiariam os
profissionais docentes.
Nascimento (2022) salienta que com o lançamento do programa “Educação para todos”
(1985), as promessas de uma educação de qualidade para todos os cidadãos, se imbricavam
fortemente com a melhoria na qualidade das condições de trabalho dos profissionais da
educação:
Com isso, entendemos que se pela sua acessibilidade inicial o Curso Normal Regional
já impactava uma localidade interiorana, por ofertar à população a oportunidade de uma
formação e carreira profissional. Após as reformas às quais foi submetido o Curso Normal,
consideramos que este passou a ser fonte de procura e depósito de expectativas de pessoas que
outrora não tinham outras oportunidades no horizonte. Levando-os à realidade de filhos da
terra de Pendências que prosseguiram na profissão docente, e alcançaram após o Curso
Normal, inclusive o grau de ensino superior em áreas de licenciatura.
CONCLUSÕES
Com esta pesquisa compreendemos os impactos do Curso Normal Regional para uma
cidade como Pendências, no que se refere às perspectivas possibilitadas à população em termos
de inserção no mercado de trabalho, considerando as restritas oportunidades às quais tinham
acesso. Percebemos a diferença no desenvolvimento do curso desde sua fundação até as
reformas realizadas durante e após a Ditadura Militar, sobretudo pelo intuito de preparar o
trabalhador para o setor econômico, em detrimento de uma formação profissional em outros
níveis para o exercício do trabalho docente.
Tornou-se perceptível no decorrer dos estudos e análises, a importância de investir em
estudos históricos sobre os impactos da educação nas mais distintas localidades, sejam estas
mais ou menos favorecidas, pois, esse movimento investigativo nos permite a construção de
uma compreensão mais complexa não só sobre o campo da educação e da história de formação
profissional, mas, de como tais mudanças influenciaram, ainda, nos campos social, econômico
e político das pessoas que residem nessas localidades e que são alvo desses distintos projetos
formativos.
REFERÊNCIAS
ARAÚJO, Marta Maria. Regulamento do Ensino Primário e Normal do Estado do Rio Grande
do Norte. Revista Educação em Questão, Natal, v. 52, n. 38, p. 269-283, maio/ago. 2015.
BRASIL. Lei Nº 5.692, De 11 De Agosto De 1971. Fixa Diretrizes e Bases para o ensino de
1° e 2º graus, e dá outras providências. Brasília/DF: Senado Federal, 1971. Disponível em:
https://www2.camara.leg.br/legin/fed/lei/1970-1979/lei-5692-11-agosto-1971-357752-
norma-pl.html. Acesso em: 03 abr. 2022.
GIL, Antonio Carlos. Métodos e Técnicas de Pesquisa Social. 6. ed. São Paulo: Editora Atlas
S. A., 2008.
NÓVOA, António. (Org.) Profissão professor. Porto: Porto Editora, Colecção Ciências da
Educação, 1995.
Resumo
A partir do golpe de 10 de novembro de 1937 e da instituição do Estado Novo, liderado pelo
então Presidente Getúlio Vargas, o país passou por mudanças significativas que incluíram o
projeto do industrialismo e da modernização capitalista. Nos marcos da Constituição de 1937
e do conjunto de leis orgânicas educacionais, conhecidas como Reforma Capanema, o sistema
de educação profissional foi reestruturado. O Estado brasileiro passou a organizar um novo
modelo de formação profissional, em consonância com as exigências da indústria por uma
formação técnica dos trabalhadores, mas que seguiu orientada pelas desigualdades
educacionais, reconfigurando o modelo dual da estrutura educacional. Este artigo tem por
objetivo analisar as principais influências do Estado Novo na organização da educação
profissional no Brasil e suas consequências na reorganização da dualidade estrutural.
Buscamos identificar o período tomando a contribuição da teoria da dualidade estrutural,
definição elaborada pelos autores franceses Roger Establet e Christian Baudelot. Compreende-
se a mudança do modelo de educação profissional a partir das articulações entre educação,
trabalho, Estado e sociedade, situando o Estado Novo no marco da transição do modelo
socioeconômico agro-exportador para o de substituição de importações e desenvolvimento da
indústria nacional, como expressão do projeto da burguesia industrial brasileira. Analisamos o
período a partir das elaborações teóricas de Cunha (2005) e Freitag (2005) sobre a constituição
da educação profissional articulado ao projeto estadonovista, procurando identificar como o
estabelecimento de uma nova institucionalidade reconfigurou o sistema educacional de
formação de trabalhadores, organizado pelo Estado em colaboração com a iniciativa privada a
partir da constituição do Sistema S, em particular do Sistema Nacional de Aprendizagem
Industrial (SENAI). Também procuramos analisar as relações entre a mudança no processo de
substituição de importações que impulsionou a industrialização do país a partir da década de
1930 e a necessidade de formação técnica de um operariado fabril de caráter nacional, um dos
objetivos do regime autoritário. A pesquisa utiliza da abordagem qualitativa e consiste na
revisão bibliográfica e na análise de alguns aspectos da legislação educacional estadonovista.
Como resultados identificamos que o projeto de educação profissional do período foi a
expressão do projeto burguês industrial para o país e das pressões da classe trabalhadora por
direitos sociais, na transição do modelo agro-exportador para a sociedade industrial,
correspondendo a uma modificação estrutural na organização desta etapa de ensino,
introduzindo uma política educacional que contemplou o uma nova oferta de ensino
profissionalizante, e que reorganizou as bases da dualidade estrutural no sistema educacional.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
A obra A escola capitalista na França, publicada pela primeira vez em 1971 pelos
sociólogos franceses Roger Establet e Christian Baudelot (1987) foi um marco na elaboração
da teoria da dualidade estrutural. Os autores analisaram o sistema educacional da França na
década de 1960, procurando demonstrar como a escola reproduzia as divisões de classe, com
a oferta de diferentes itinerários formativos conforme a classe social, preparando os filhos das
elites para postos de comando na sociedade, e os filhos dos trabalhadores para atividades
manuais. Eles realizaram um amplo estudo empírico, sobre o sistema educacional francês,
buscando estabelecer uma crítica ao discurso liberal que defendia a escola pública como espaço
de desenvolvimento individual, de mobilidade social e de inclusão dos subalternos.
A teoria sustenta-se na concepção epistemológica que compreende a educação na
sociedade capitalista em relação com a divisão social do trabalho e a luta de classes. Neste
sentido, o sistema de ensino reproduz as divisões de classe, com o objetivo de manter a
dominação burguesa. Com base neste referencial a educação é pensada a partir dos dois polos
antagônicos e contraditórios entre capital e trabalho, que repercutem na formação das
principais classes sociais na sociedade capitalista, a burguesia e o proletariado.
Categorias que articulam a construção da teoria da dualidade estrutural, remetem as
divisões estabelecidas entre trabalho manual e intelectual; entre educação unilateral e
omnilateral; entre trabalhadores e não trabalhadores. Tais categorias desdobram-se na análise
da educação na sociedade capitalista através da dicotomia entre a educação de cultura geral
que prepara para a formação acadêmica das elites e uma educação técnica, voltada para o
aprendizado profissional15.
Fruto de uma concepção epistemológica marxista, assentada no materialismo histórico
e dialético, a teoria de dualidade estrutural estabelece leituras da realidade educacional a partir
das implicações da divisão do trabalho, da divisão das classes e do processo de apropriação do
conhecimento pelas diferentes classes sociais na sociedade capitalista.
A teoria contribui para a compreensão da estruturação da educação profissional no
Brasil, em particular a que ocorreu durante o regime do Estado Novo e que estabeleceu uma
transição importante de um modelo de educação antes pautado pela profissionalização dos
“desvalidos da sorte”, atendendo a demandas sociais, para um modelo que passou a ser
orientado para “as classes menos favorecidas”, direcionado às demandas do crescente processo
de industrialização no país (CUNHA, 2005).
No dia 10 de novembro de 1937 Getúlio Vargas apresentou uma nova Constituição
para o país, escrita por Francisco Campos e referendada pelas Forças Armadas, que inaugurou
o Estado Novo, um regime que centralizou os poderes no Executivo, com o fechamento da
Câmara e do Senado, a proibição de partidos políticos e a retirada do poder dos estados,
decretando o fim da Constituição liberal de 1934.
15
Aqui compreende-se que a formação acadêmica também é profissional, pois prepara para uma atividade
específica, que também atendem demandas do mercado de trabalho. A referência a educação profissional para as
classes subalternas remete a educação técnica ligada a educação básica, que visa a inserção precoce ao trabalho.
O fechamento do regime justificado pela ameaça comunista, elaborada no falso Plano
Cohen, representou nos dizeres do próprio Getúlio uma “exigência do momento histórico”. Era
preciso acelerar o processo de modernização capitalista do país, o que, segundo o Presidente,
estava sendo atrasado pela lentidão dos processos legislativos. Na concepção dos idealizadores
do novo regime, o projeto modernizador e industrializador não podia mais esperar: “Getúlio
afirmou que era preciso elevar o Brasil à categoria de país civilizado, por meio da instalação
de uma grande indústria siderúrgica, obra a ser viabilizada a partir de um ousado plano de
colaboração com o capital estrangeiro.” (NETO, 2013, p. 311). Para Santos (2021), o 10 de
novembro representou a vitória da burguesia industrial brasileira e do seu projeto de
modernização capitalista do país.
O novo regime culminou na organização de uma política populista de forte caráter
nacionalista, que se expressou, por exemplo, na criação da Consolidação das Leis do Trabalho
(CLT), na nacionalização de bancos e de setores como estradas e energia, que estavam nas
mãos do capital internacional, principalmente inglês, e, também, na criação de polos
siderúrgicos no país.
A estagnação econômica, acentuada pela grave crise decorrente da quebra da Bolsa de
Valores de Nova Iorque no ano de 1929, e que afetou diretamente o Brasil enquanto economia
dependente foi superada por um crescimento econômico nos primeiros anos da década de 1940,
devido ao aumento nas exportações de matéria-prima e de alguns produtos manufaturados para
os países aliados que estavam mergulhados nos conflitos da Segunda Guerra Mundial.
O país viveu uma profunda transformação na sua economia, diversificando-a e
alterando a sua estrutura de produção. Nos primeiros anos da década de 1940, o processo de
substituição de importações se intensificou, com a criação de fábricas de papel, cimento e
mármore, material ferroviário, alumínio, máquinas de costura e a constituição da Usina
Siderúrgica de Volta Redonda e da Companhia Vale do Rio Doce. O aumento da migração
para grandes centros como Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, consequência do
processo de urbanização e industrialização, fez com que essas cidades crescessem até três
vezes mais em população do que a média nacional. (CARONE, 1977).
Tais fatores, aliados ao crescimento populacional, conduziram a sociedade brasileira a
uma maior complexidade. O ingresso do Brasil em uma fase mais moderna de seu
desenvolvimento, se deu em um contexto de forte intervenção estatal.
As mudanças no caráter socioeconômico do país conformaram também um divisor de
águas no que diz respeito aos rumos da educação brasileira. Fruto de um crescente processo de
industrialização, de uma economia que se organizava em torno da substituição de importações,
de uma reconfiguração na estrutura da sociedade de classes, com a ascensão de uma burguesia
industrial como classe hegemônica e de uma classe operária que passava a pressionar
paulatinamente o sistema por direitos e melhores condições de vida. As conquistas de direitos
dos trabalhadores no Estado Novo, como a consolidação das leis do trabalho, foram fruto de
muita luta social e política do operariado, que Vargas tratou de atender, buscando apresentá-
las como dádivas de um Estado bem-feitor (ANTUNES, 2011).
Segundo Braga (2012), a modernização das relações capitalistas de produção ensejou
um modelo de transição brasileira que avançou do taylorismo primitivo para o fordismo
periférico. O que não correu de forma apassivada pela classe trabalhadora que “resistindo nas
fábricas, organizando greves, mobilizando-se nos bairros pressionando suas lideranças
sindicais, participando das eleições etc., o operariado fordista brasileiro veio à luz municiado
com seus próprios projetos políticos” (BRAGA, 2012, p. 87). Neste contexto, situou-se a
preocupação do Estado em organizar nacionalmente as diferentes modalidades de ensino, em
especial a educação profissional que ganhou relevância no cenário de industrialização
crescente e de pressões sociais do crescente operariado urbano.
Segundo Cunha (2005), até 1941 a organização do ensino industrial era confusa e
fragmentada no país, no qual cada rede (federal, estadual, privada e as instituições ligadas as
Forças Armadas) ofertava cursos a partir de critérios e diretrizes próprias. O que sofreu
profunda alteração no marco da ditadura Estadonovista e teve suas repercussões na educação
nacional, representando uma mudança significativa na organização e concepção da educação
profissional que passou a ser compreendida como uma obrigação do Poder
Público, contando com a colaboração de setores industriais e sindicais.
Esta orientação adotada no Estado Novo refletiu-se no surgimento do chamado sistema
S, uma tentativa de colaboração entre o Estado e as indústrias da época em formar
trabalhadores, visando a integração dos mesmos ao mundo do trabalho que passava por fortes
mudanças estruturais. Em 1942 foi criado o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
(SENAI).
No início da década de 1940, também surgiram as Leis Orgânicas da Educação
Nacional, que organizaram, através de uma série de Decretos, o ensino primário, secundário,
industrial, comercial, agrícola e normal. Outras mudanças importantes do período foram a
extinção das Escolas de Aprendizes e Artífices, transformadas em Escolas Técnicas Federais;
a definição do conceito de menor aprendiz junto à legislação trabalhista e a organização da
Rede Federal de Estabelecimentos de Ensino Industrial (BRASIL, 1999).
A recomposição da educação profissional e do sistema de ensino como um todo
atualizou um modelo de formação que separava de forma clara as possibilidades de trajetórias
educacionais conforme a origem de classe. Um sistema, que segundo Freitag (2005), teve por
objetivo produzir e reproduzir a força de trabalho para atender o processo produtivo,
reproduzindo a sociedade de classes, contudo a partir de uma nova configuração social que
vinha sendo redesenhada no país com o processo de industrialização.
As mudanças na educação profissional no Estado Novo aceleraram uma transição que
já vinha ocorrendo durante a década de 1930 nesta área de ensino. Em 1934 através do Decreto
24.558, de 3 de julho, foi criada a Superintendência do Ensino Industrial, em substituição à
Inspetoria do Ensino Profissional Técnico, vinculado ao Ministério da Educação e Saúde, que
passou a administrar as escolas técnicas federais. O Decreto projetava a demanda por uma
formação industrial de novo tipo, que se adequasse às transformações na organização do
trabalho no país, o que as tradicionais escolas de aprendizes e artífices já não conseguiam mais
atender. No começo do ano de 1937, a promulgação da Lei nº 378 reorganizou o sistema de
educação profissional, com a criação da Divisão do Ensino Industrial em substituição a
Superintendência, e com a extinção das escolas de aprendizes e artífices, que ganharam a nova
nomenclatura de Liceus Industriais. (SILVA; CANDIDO; JUCÁ, 2019)
Mas foi no marco do Estado Novo, no processo da chamada Reforma Capanema, que
a educação profissional passou por mudanças significativas. Em 1942 os Liceus Industriais
foram substituídos pelas Escolas Industriais e Técnicas. Esta transformação, combinada com a
Lei Orgânica do Ensino Industrial e a criação do SENAI tornaram o ano emblemático no
processo de transição da educação profissional do país para um nova etapa.
O Estado Novo assumiu a industrialização como meta, e é provável que essa opção
tenha determinado (ou, pelo menos, reforçado) a sua preocupação com a qualificação
da força de trabalho, manifesta na Constituição outorgado de 1937). Era fácil
deduzir-se que a política projetada de substituição de importações iria necessitar, a
curto prazo, de contingentes adicionais de trabalhadores qualificados, que não
estavam disponíveis (CUNHA, 2005, p. 27).
METODOLOGIA
A pesquisa foi realizada a partir de uma abordagem qualitativa que busca através do
método histórico-dialético compreender a organização da educação profissional no marco do
Estado Novo, a partir da análise das contradições e conflitos presentes no período.
Como procedimentos de pesquisa utilizamos a pesquisa bibliográfica e a pesquisa
documental. A primeira foi realizada a partir da revisão de literatura sobre o tema e a utilização
da pesquisa de artigos nas plataformas Google Acadêmico e Scielo. Os documentos analisados
foram a Constituição Federal de 1937 e os Decretos-Leis n. 4.073, de 30 de janeiro de 1942,
que organizou o ensino industrial; n. 4.048, de 22 de janeiro de 1942, que instituiu o SENAI.
Como técnica de análise de dados utilizamos a análise de conteúdo, a partir de sua
modalidade de análise temática, procurando identificar as relações entre os significados
presentes na legislação com a categoria de dualidade estrutural.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A lógica da dualidade estrutural estabelecida pelo Estado Novo revelou-se quando da
outorgação da Constituição que organizou o regime, em 10 de novembro de 1937. Ficava claro
qual era o papel destinado para a educação profissional no país:
O Poder Público deveria atender crianças e adolescentes que não tinham os recursos
suficientes para acessar o ensino privado, ofertando uma educação adequada às suas aptidões,
faculdades e “vocações”. A educação profissional ficava, portanto, destinada aos estudantes
oriundos das “classes menos favorecidas”. Ou seja, a trajetória e formação educacional deste
setor da população vinculava-se diretamente ao mundo do trabalho.
As leis orgânicas produzidas em 1942 estabeleceram mudanças importantes na
educação profissional, reorganizando as possibilidades dos estudantes deste nível de ensino e
reconfigurando a dualidade estrutural na educação brasileira. Alguns elementos são
importantes de serem destacar neste processo, em especial a normatização e regulação prevista
no Decreto-lei 4.073/1942 que instituiu a lei orgânica do ensino industrial:
CONCLUSÕES
O Estado Novo enquanto período de aprofundamento da agenda política ligada aos
interesses da burguesia industrial brasileira representou uma tentativa de modernizar o
capitalismo no país a partir da iniciativa centralizadora estatal. Mudanças na estrutura
produtiva do país, principalmente no início da década de 1940, com a criação da CSN e da
Vale do Rio Doce, além do incremento de indústrias que atendessem a demanda interna,
através da política de substituição de importações de base industrial, tinham por objetivo
aumentar a eficiência e a produtividade dos trabalhadores.
Concomitantemente, a classe operária urbana pressionava o Estado em busca de
direitos e da integração pelo trabalho, o que culminou com o atendimento de maiores garantias
aos trabalhadores no arranjo regulatório expresso, por exemplo, na Consolidação das Leis do
Trabalho (CLT), publicado maio de 1943.
A educação profissional, neste contexto histórico, foi reformada pelo Estado no sentido
de atender por um lado as empresas, em suas demandas por “adequada mão de obra”, dos
trabalhadores por preparação “profissional e formação humana” e da nação, para promover a
mobilização de “eficientes construtores" das bases econômicas e culturais do país.
A nova institucionalidade da educação profissional incorporou princípios de uma
indústria fordista no país, ao mesmo tempo que articulou-se ao ensino secundário e rompeu
com o processo de seleção dos estudantes pelo critério da pobreza, selecionando os “melhores”
alunos oriundos da classe operária por meio do vestibular, e passou a possibilitar, ainda que de
forma muito limitada a continuidade dos estudos dos diplomados nesta modalidade de ensino,
renovando, sem romper com os princípios da dualidade estrutural presente no sistema
educacional brasileiro.
REFERÊNCIAS
Resumo
Este estudo tem como objetivo fazer um levantamento histórico dos marcos políticos/legais de
formação de servidores públicos da educação no Brasil, iniciando com a Lei de 15 de outubro
de 1827, passando pelo Decreto nº 981, de 8 de Novembro de 1890, que instituiu o Pedagogium
no período Imperial até a fundação das Escolas de Aprendizes Artífices em 1909. Trata-se de
uma pesquisa bibliográfica e documental na qual interpreta-se os marcos legais por meio de
uma abordagem histórico-crítica. Optou-se por fazer o mapeamento nas Bibliotecas Digitais
do Congresso Nacional (do Senado e da Câmara dos Deputados), consultada como repositório
de acervo digital utilizando-se buscadores genéricos, sendo, dessa forma, a investigação
enquadrada na categoria de pesquisa na internet. Tem-se a expectativa de que o trabalho
resultante dessa pesquisa possibilitará acesso fácil a quem busca por dados históricos acerca
de políticas de formação de servidores públicos no Brasil, no sentido de que esses dados estarão
agregados em um recurso digital o que facilita a visualização, e colabora para promover
estudos que tenham como objeto o referido tema.
INTRODUÇÃO
Esse estudo faz parte de uma pesquisa desenvolvida no âmbito do Programa de Pós-
graduação em Educação Profissional (PPGEP) do Instituto Federal de Educação Profissional,
Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Norte (IFRN), que busca a origem de criação e
materialidade das políticas de formação de servidores públicos federais, com ênfase no Plano
de Formação Continuada dos Servidores da Rede Federal de Educação Profissional, Científica
e Tecnológica (PLAFOR) e se propõe a analisar sua visibilidade através da divulgação de suas
ações nos meios digitais oficiais dos órgãos gestores e executores dessa política. Os
fundamentos dessa pesquisa encontram-se em autores que discutem políticas públicas em
educação, e em Machado (2008) dentre outros que tratam de formação de professores para
Educação Profissional e Tecnológica (EPT). Pondera-se que, os servidores federais, sobretudo,
os docentes da Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica (RFEPCT)
assumem além da docência, cargos de gestão, e que esses necessitam de formação permanente
para estar em sintonia com a nova institucionalidade em vigor desde 2008, cuja proposta traz
a formação humana integral como eixo integrador de suas ações. Considera-se ainda, a
atualidade da visão de sociedade e uso de tecnologias digitais, observando-se que, o PLAFOR
como política de formação continuada tem papel relevante para a capacitação dos servidores
sendo, assim, crucial para a qualidade dos serviços ofertados pela RFEPCT à sociedade.
Esse trabalho se justifica por sua contribuição para a pesquisa em desenvolvimento
sobre o PLAFOR, por meio da recapitulação histórica das políticas de formação dos servidores
públicos federais da educação, desnudando sua origem na cronologia das políticas de formação
dos servidores federais da educação profissional até à lei de criação das Escolas de Aprendizes
Artífices (EAAs), no momento imediatamente posterior ao período imperial, que deu base à
política que originou a RFEPCT locus de execução do PLAFOR.
Desse modo, objetiva-se fazer um levantamento histórico dos marcos políticos/legais
de formação de servidores públicos da educação no Brasil, iniciado com a Lei de 15 de outubro
de 1827, passando pelo Decreto nº 981, de 8 de Novembro de 1890, que instituiu o Pedagogium
no período Imperial, até a fundação das EAAs. Tem-se, assim, a pesquisa bibliográfica e
documental como suporte metodológico para a concretização do referido levantamento.
Sendo assim, contextualiza-se o tema em seu percurso e espaço histórico-social e
educacional, tendo como referentes os marcos legais que regulamentam as mudanças
ocorridas, bem como as origens legais da formação dos servidores federais da educação
profissional do Brasil do Império até à criação da EAA, em 1909. Dessa forma, esse trabalho
apresenta, além dessa introdução, 4 tópicos: o primeiro traz a fundamentação teórica; o
segundo demonstra a metodologia do trabalho; o terceiro expõe os dados levantados e as
discussões teóricas realizadas; e o quarto apresenta as conclusões.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Trazemos como problematização teórica, o alerta de Machado (2008) sobre a formação
de professores da EPT, qual seja, aquela que é
Observa-se, assim, que reflexões acerca do tema em termos históricos em busca de suas
origens, possa auxiliar para o reconhecimento de erros estruturais que são comentidos ainda
no século XXI na expectativa do rompimento das limitações imposta pela lógica capitalista.
METODOLOGIA
Trata-se de uma pesquisa bibliográfica e documental na qual interpreta-se os marcos
legais por meio de uma abordagem histórico-crítica. Optou-se por fazer levantamento em um
repositório de acervo digital utilizando buscadores genéricos, sendo, dessa forma, a
investigação enquadrada na categoria de pesquisa na internet, posto que é usuária dessse
espaço da internet como local de busca, conforme Fragoso et al (2013)
O levantamento documental dos instrumentos legais que poderiam trazer informações
sobre políticas e normas para a formação de servidores federais foi realizado nas Bibliotecas
Digitais do Congresso Nacional (do Senado e da Câmara dos Deputados) e confirmados no
portal do Palácio do Planalto, com o intuito de identificar os arcabouços legais da formação de
servidores federais da educação.
Como referencial bibliográfico para sedimentar a análise dos marcos legais dialoga-se
com autores para além dos citados na fundamentação teórica, tais como: Saviani (2008; 2009),
Machado (2008), Ferreira (2015) e Santos et al (2022).
Sinaliza-se que, no processo metodológico dessa pesquisa tratamos o objeto de estudo
considerando o método de procedimento histórico (MARCONI; LAKATOS, 2001), por meio
de análise temática e interpretativa (SEVERINO, 2000) dos achados bibliográficos,
documentais e legais.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
A legislação levantada para discussão neste trabalho se encontra elencada no Quadro
01 que está configurado com a primeira coluna contendo a legislação selecionada, na segunda
coluna um breve resumo das características estudadas na pesquisa e na terceira a informação
se sua efetividade era nacional ou local.
Quadro 01 – Legislação sobre formação de servidores públicos da educação profissional no Brasil (1822-1909)
Nº Legislação Característica analisada na pesquisa Abrangência
O método de ensino adotado através do decreto era o ensino mútuo, também conhecido
16
Algumas leis no período do Império do Brasil não recebiam numeração sequencial, sendo conhecidas pela
data de promulgação.
como lancasteriano, que se baseava no ensino primeiramente dos alunos mais aptos que
repassavam o que tinham aprendido aos demais (INÁCIO, s.d.).
A admissão para o cargo de mestres(as) se dava através de exames que comprovariam
a proficiência nos requisitos exigidos no art. 6º da Lei de 15 de outubro de 1827, sendo que as
mestras, era acrescido os requisitos de ensinar economia doméstica e ter reconhecida
honestidade para serem admitidas. Contudo, o art. 12 dessa mesma lei prevê que, dos requisitos
exigidos às mestras, excluíam-se as “[...] noções de geometria e limitado à instrução de
aritmética só as suas quatro operações [...]” (BRASIL, 1827).
Ainda na Lei de 15 de outubro de 1827, é dito que os ordenados dos professores são de
competência das províncias, e que os professores que não eram providos da instrução
necessária para o ofício deveriam buscar adquirir a devida formação em curto prazo,
custeando-a com os valores de seu ordenado. Assim sendo, a formação dos servidores da
educação não era encarada como dever do Estado, que se encontrava em disputa entre os
liberais que desejavam a descentralização de poder e os conservadores que acreditavam que
um poder centralizado poderia fortalecer o desenvolvimento da nação (BRASIL, 1827).
Através do Ato Adicional Lei nº 16/1834, entre outras coisas, foi atribuída às
províncias, por meio das assembleias legislativas, a função de organizar a educação básica
(primária e secundária), ficando sob responsabilidade do governo central apenas o ensino
superior.
Nesse contexto, é criada, através do Decreto nº 10/1835, a Escola Normal, no município
da Corte, com a finalidade de habilitar pessoas para o magistério de instrução primária. Para
Saviani,
[...] A primeira delas foi instalada, em 1835, em Niterói, apenas um ano após o Ato
Adicional à Constituição do Império ter colocado o ensino elementar sob a
responsabilidade das províncias que, em consequência, também deviam cuidar do
preparo de seus professores. Ao longo do século XIX foram surgindo escolas normais
nas várias províncias que constituíam o Império brasileiro, num processo
intermitente em que essas instituições eram criadas, em seguida fechadas e depois
reabertas (SAVIANI, 2008, p. 7).
Para a matrícula na Escola Normal era necessário ser cidadão brasileiro, maior de
dezoito anos, de boa educação, além de saber ler e escrever. A instrução fornecida pelas
Escolas Normais era pouco mais que o ensino primário, acrescentando Pedagogia e Métodos
de Ensino, sendo inferior ao ensino secundário. Além disso, a profissão não era prestigiada, o
que tornava o magistério pouco atraente. Ademais, prevendo essa possibilidade, o Decreto de
criação previa um incentivo financeiro aos interessados em se habilitar, de acordo com o
Artigo 7º. Senão concorrer numero suficiente para poder abrir-se a Escola, o
Presidente da Província poderá mandar abonar a quantia de vinte mil réis mensaes,
às pessoas que pretenderem habilitar-se para exercer o magistério de instrução
primaria, e não poderem freqüentar a Escola por falta de meios: não podendo exceder
de dez o numero dos Pensionistas (BRASIL, 1835).
Art. 76. Os professores publicos se reunirão duas vezes annualmente, nas ferias da
Paschoa e nas do mez de Dezembro, em lugar que lhes será designado pelo Inspector
Geral e sob sua presidencia, a fim de conferenciarem entre si sobre todos os pontos
que interessão o regimen interno das escolas, methodo do ensino, systemas de
recompensas e punições para os alumnos, expondo as observações que hajão colhido
de sua pratica e da leitura das obras que hajão consultado (BRASIL, 1854).
[...] Após ser nomeado Secretário do Interior, encaminha uma carta ao então
governador paulista prometendo criar a seguinte estrutura de ensino primário: Jardim
de Infância para crianças de 4 a 6 anos de idade, Escola de 1º grau para crianças de
7 a 10 anos de idade, Escola de 2º grau para pré-adolescentes de 11 a 14 anos de
idade e Escola de 3º grau para adolescentes de 15 a 18 anos de idade. Na mesma
carta, prometeu que elaboraria um plano de reformas com dois grandes objetivos: a
reforma do ensino normal e da escola primária, sendo que, para este tipo de ensino
mandaria construir um novo tipo de prédio (FERREIRA, 2015, p.140-141).
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considera-se que, no Brasil, a garantia de instrução primária da Constituição de 1824
e a criação das Escolas de Primeiras Letras pela de Lei de 15 de outubro de 1827, foram cruciais
para a ampliação da oferta de ensino primário em âmbito nacional, contudo, ambas tinham
regulamentação escassa, sobretudo, em relação ao tema de formação dos mestres e mestras,
portanto, dos principais servidores que atuariam no processo de ensino. No entanto, considera-
se, nesse estudo, que as origens da formação de servidores públicos federais no Brasil estão
nesses marcos legais do período imperial.
A Lei de 1827 indicava apenas que a instrução necessária para investidura no cargo de
mestre deveria diferenciar alguns requisitos entre mulheres e homens, e no tocante a instrução
dos professores já investidos de cargos que não tinham a instrução mínima necessária prevista,
era informado que cada um deveria custear a busca da devida formação em curto espaço de
tempo, também não especificava qual o prazo para tal formação.
Com a criação da primeira Escola Normal do município da Corte pelo Decreto nº
10/1835, que tinha a finalidade de habilitar pessoas para o magistério de instrução primária,
foi obtida a primeira política que abordava a formação de professores, prevendo inclusive
fonte, quantia e limites de incentivos financeiros aos que se propusessem a se capacitar para o
magistério.
Considera-se, por fim, que a regulamentação de políticas de abrangência local bem
sucedidas, a exemplo das reuniões pedagógicas do CPII; as reformas do ensino primário e
secundário, e da Escola Normal do município da Corte (Rio de Janeiro); a reforma da instrução
pública do estado de São Paulo; e o Pedagogium, estão na origem, e também influenciaram as
regulamentações posteriores para formação de professores e servidores públicos federais no
Brasil.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Lei de 15 de outubro de 1827. Manda crear escolas de primeiras letras em todas
as cidades, vilas e lugares mais populosos do Império. Rio de Janeiro, RJ, 19827
Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/lim/LIM..-15-10-1827.htm>
Acesso em: 27 set. 2021.
Resumo
As Escolas de Aprendizes Artífices foram criadas a partir do Decreto n. 7.566, de 23 de
setembro de 1909. Ao longo de sua história o seu ensino passou por uma reformulação que
resultou na elaboração do Documento de Consolidação Concernentes às Escolas de
Aprendizes Artífices. Esse documento estabeleceu uma estrutura curricular que foi
implementada em todas as escolas, a partir de sua promulgação em 1926. Essa reforma instituiu
uma nova organização dos saberes aritméticos prescritos para o ensino das Escolas de
Aprendizes Artífices, alterando o status e finalidades desses saberes na formação profissional
técnica. Diante disso, este trabalho tem por objetivo caracterizar, a partir da estruturação dos
conteúdos aritméticos, as disciplinas Contas e Arithmetica propostas para ensino profissional
técnico nas Escolas de Aprendizes Artífices. Trata-se de um estudo na perspectiva da História
da Cultura, mais especificamente da Cultura Escolar. Posto isto, mobiliza-se como ferramenta
teórico-metodológico a concepção de saberes a ensinar, entendido como um conjunto de
saberes objetivados, para analisar e interpretar o sentido que se estabelece com a reorganização
dos conteúdos aritméticos em cada disciplina. Foram inventariados diários das Escolas de
Aprendizes Artífices de Minas Gerais, de onde foi possível captar os conteúdos ensinados em
cada ano nas disciplinas de Contas e Arithmetica. Parte dessa documentação foi transcrita neste
trabalho, com finalidade de servir como suporte para a análise. Como resultado, a “nova”
estruturação dos conteúdos aritméticos, na disciplina de Contas, está fundamentada no ensino
dos números inteiros e nas quatro operações. Já a disciplina de Arithmetica aborda Frações,
Sistema Métrico, Regra de Três, Números Complexos, Regra de Juros e Radiciação. Tais
disciplinas podem ser concebidas como saberes a ensinar, ou seja, objetos do trabalho docente,
que se caracterizam em uma finalidade interna, institucional, e outra externa, com finalidade
social. Contas tem o propósito social de oferecer instrução aos jovens, ou em outras palavras,
alfabetizá-los. A disciplina de Arithmetica, no âmbito social, visa estabelecer uma formação
profissional racional e sistematizada, auxiliando, ainda que indiretamente, no desenvolvimento
científico de algumas práticas de ofícios. Ambas as disciplinas possuem finalidades
propedêuticas no âmbito institucional e interno.
17
Mato Grosso, Piauí, Goiás, Rio Grande do Norte, Paraíba, Maranhão, Paraná, Alagoas, Campos (RJ),
Pernambuco, Espírito Santo, São Paulo, Sergipe, Ceará, Bahia, Pará, Santa Catarina, Minas Gerais e Amazonas.
mais significativa e que impactou na estruturação do ensino das EAAs foi o Documento de
Consolidação dos Dispositivos Concernentes às Escolas de Aprendizes Artífices18,
promulgada em 1926 pelo Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio, a qual as escolas
estavam subordinadas.
O Documento de Consolidação foi resultado do trabalho realizado pela comissão
denominada Serviço de Remodelação do Ensino Profissional Técnico, coordenada pelo
engenheiro João Lüderitz19, que foi contratado em 1920. Entre as mudanças prescritas há a
ampliação no tempo da formação profissional, de quatro anos para seis anos. O ensino fica
dividido em dois níveis: elementar e complementar. O elementar, com duração de quatro anos,
o aluno seria alfabetizado nos dois primeiros anos e teria acesso às disciplinas de formação
geral. Paralelo a isso, ele teria a aprendizagem de Trabalhos Manuais, como uma preparação
para as práticas dos ofícios, que estavam divididas em seções correlatas, organizadas a partir
de práticas comuns de diversos ofícios. No ensino complementar o aluno se especializa em um
determinado ofício.
Com a promulgação do Documento de Consolidação todas as EAAs deveriam adaptar-
se e adotar a “nova” proposta. Barbaresco e Costa (2022) após uma análise estrutural do texto
prescrito, apontam para a morfologia de caráter curricular do Documento de Consolidação e
sua finalidade de homogeneizar o percurso formativo das EAAs. Além disso, outros estudos
mostram uma alteração no status dos saberes propostos dessas escolas. Para Barbaresco
(2019), antes do Documento de Consolidação os saberes estavam estruturados na forma de
matéria escolar, que de acordo com Valente (2015) carateriza-se “como um conjunto de
conteúdos interligados ao processo de ensino que envolve a tríade ler-escrever-contar" (p. 358).
Com a promulgação do documento, esses saberes ficaram estruturados na forma de disciplinas
escolares, que de acordo com Chervel (1990) podem ser compreendidas como uma
estratificação criada pela própria escola para atender seus objetivos e finalidades. Nessa
alteração, verifica-se que os saberes aritméticos, por exemplo, ficaram estruturados em duas
disciplinas: Contas e Arithmetica, que de acordo com Barbaresco (2019) tinham finalidades
distintas.
Poucos são os trabalhos que buscam olhar para as dinâmicas do ensino propostas para
18
Esse documento encontra-se disponível na sua íntegra no Relatório do Ministério da Agricultura, Indústria e
Comércio do ano de 1926. Disponível em: https://repositorio.ufsc.br/xmlui/handle/123456789/182544
19
Para saber mais consultar o artigo A expertise de João Lüderitz: a organização do ensino de aritmética nas
Escolas de Aprendizes Artífices (1920-1926). Disponível em:
https://www.rematec.net.br/index.php/rematec/article/view/262. Também, consultar o verbete João Lüderitz do
Dicionário de experts. Disponível em: https://www.ghemat.com.br/itens/jo%C3%A3o-l%C3%BCderitz
essas escolas, mais especificamente para os saberes que se institucionalizaram nas EAAs. De
acordo com Forquin (1992), as escolas são “um local [...] de gestão e de transmissão de saberes
de símbolos” (p. 28). Ou seja, compreende-se que as escolas, isso inclui as EAAs, são espaços
em que os saberes são organizados de acordo com as especificidades e finalidades das
instituições de ensino. Desta forma, este trabalho tem por objetivo compreender e analisar
como os saberes aritméticos se organizavam nas disciplinas de Contas e Arithmética, a partir
dos diários da Escola de Aprendizes Artífices de Minas Gerais, a fim de atingir as finalidades
e propostas desta instituição. Esse objetivo vai possibilitar responder ao seguinte
questionamento: Como se caracterizam os saberes aritméticos a partir da estruturação
dos conteúdos nas disciplinas de Contas e Arithmetica?
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-METODOLÓGICA
Esse trabalho situa-se no domínio da História Cultural, que tem por objetivo
“identificar o modo como os diferentes lugares e momentos uma determinada realidade social
é construída, pensada e dada a ler” (CHARTIER, 1990, p. 16-17). Todavia, Barros (2004)
chama atenção para a polissemia do termo Cultura e dos diferentes enfoques que pode ter a
História Cultural. Como se busca examinar objetos e discursos relacionados à Escola de
Aprendizes Artífices, entende-se que este trabalho se alinha ao contexto da Cultura Escolar.
A concepção de Cultura Escolar aparece pela primeira vez no estudo de Chervel (1990)
sobre a história das disciplinas escolares. Depois disso, outros autores foram contribuindo com
outros entendimentos sobre Cultura Escolar. A concepção adotada nesse estudo é a de
Dominique Julia (2001), que se inspirou nos trabalhos de Chervel e concebeu a Cultura
Escolar como:
[...] um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a
inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses
conhecimentos e a incorporação desses comportamentos; normas e práticas
coordenadas que podem variar segundo épocas (finalidades religiosas, sociopolíticas
ou simplesmente de socialização) (JULIA, 2001, p. 10).
A concepção proposta por Julia levanta interrogações a respeito das práticas escolares
e sobre o funcionamento interno das escolas. De acordo Vincent, Lahire e Thin (2001), a escola
é um lugar em que sua existência está ligada a saberes objetivados entendidos como:
[...] realidades com estatuto de representações [...] dando lugar a enunciados
proposicionais e sendo objeto de uma valorização social sancionada por uma
atividade de transmissão-comunicação. Elas, essas representações, têm
consequentemente uma existência distinta daqueles que as anunciam ou daqueles que
delas se apropriam. São conserváveis, acumuláveis, apropriáveis (BARBIER, 1996,
p. 9 apud HOFSTETTER et al, 2017, p. 131).
Quadro 1 – Diários das disciplinas Contas e Arithmética das Escolas de Aprendizes Artífices de Minas
Gerais analisados.
Disciplina Ano Professor que assina o diário
Pelas limitações de páginas neste trabalho não será possível descrever informações
desses professores. Mas, registra-se aqui a importância de conhecer quem são os agentes que
estão submetidos às normas e práticas determinadas pelo Documento de Consolidação e como
eles trabalharam em prol do seu funcionamento.
Os documentos estão datados em 1940, 1941 e 1942. Sabe-se que na década de 40 as
Escolas de Aprendizes Artífices tinham a denominação de Liceus. No entanto, as escolas ainda
mantiveram suas estruturas de ensino. Por esse motivo, podemos considerar tais documentos
como materialidade de como estava estruturado o ensino de aritmética a partir do Documento
de Consolidação.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Quadro 2 – Transcrição dos Diários das Profas Maria José Ferreira, Maria Luizia P. Buffalo e Dulce
Bossois Ribeiro
Disciplina Turma Conteúdos Registrados
Contas 1º ano – Turma A Ideia de dobro e triplo; Ideia de quadruplo; Subtração de
números simples; Soma de Números simples; Formação
das tábuas de somar e subtrair; Conhecimento da dezena;
Exercícios variados; Emprego do zero; Ideia de Milhar;
Formação da centena pelo agrupamento das dezenas;
Problemas; Soma de números compostos; Indicação de
cálculo em horizontal; Conhecimento dos dados da soma;
Problemas; Subtração de Números Compostos;
Problemas sobre as 2 operações; Ideia de terço, quarto
etc; Completar igualdades; Exercícios variados; Conceito
intuitivo da multiplicação; Multiplicação de números
simples; Problemas; Ideia do dobro, triplo e quadrulo;
Multiplicação de 10, 100 e 1000; Problemas e exercícios
variados sobre a multiplicação e soma; Multiplicação de
números compostos; Indicação do cálculo; Problemas;
Problemas sobre as 3 operações: soma, subtração e
multiplicação.
20
O Conjunto de Números naturais como ser representado como: N={0, 1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11…}.
reduzida apenas aos conteúdos e suas finalidades. É preciso superar esse reducionismo e ir
adiante, analisar o que fundamenta a disciplina, a fim de trazer um sentido e uma caracterização
para ela.
Os assuntos que fundamentam a disciplinas de Contas são os números inteiros e as
quatro operações (adição, subtração, multiplicação e divisão), que são ensinadas de modo
concomitante. Ainda que se possam fazer algumas aproximações do ensino dessa disciplina
com o desenvolvimento das práticas dos ofícios, como é o caso das multiplicações da potência
de 10, ela ainda é muito elementar, ficando mais próxima de um ensino teórico do que prático,
levando em consideração o espaço de formação profissional. Na norma imposta pelo
Documento de Consolidação à disciplina de Contas, ela antecede a disciplina de Arithmetica,
o que aponta o seu papel propedêutico. Sendo assim, Contas se caracteriza por ser uma unidade
de ensino com dois papéis: um interno, de caráter propedêutico, e outro externo, mais social,
que é alfabetizar os jovens, que ingressam nas escolas analfabetos.
No terceiro ano verifica-se que o foco está no ensino de frações e as operações
associadas a essas representações. A partir da transcrição no Quadro 2 identifica-se uma
sequência: Frações Decimais, Frações Ordinárias e Sistemas Métricos. Dos estudos de Morais,
Bertini e Valente (2022) foi possível identificar duas sequências para o ensino de frações:
Frações Ordinárias seguidas de Frações Decimais, predominante no período do ensino intuitivo
ou, Frações Decimais seguidas de Frações Ordinárias, predominante no movimento
pedagógico da Escola Nova. Os diários analisados datam de 1940, 1941 e 1942, período da
Escola Nova. Sob esse movimento pedagógico, a sequência do ensino de frações deveria ser
Frações Decimais para depois Frações Ordinárias. Então, se verifica que a EAA-MG estava de
acordo com essas orientações. A justificativa se dá pelas relações com a vida cotidiana e
também a facilidade em se operar e comparar as frações decimais (BERTINI, MORAIS,
VALENTE, 2022). Diante disso, não se pode descartar as influências de movimentos
pedagógicos nas escolas. No entanto, o propósito é identificar as particularidades que
possibilitem identificar um saber próprio para essas escolas.
No quarto ano é ensinado números decimais, números complexos, Regra de Três, Regra
de Juros e Sistema Métrico Decimal. Verifica-se que os conteúdos se aproximam das práticas
dos ofícios. Inicia-se com os números complexos21. Regra de Três, Sistema Métrico Decimal
21
Número complexos são formas numéricas de quantidades com diferentes unidades e que não são representados
na forma decimal. Por exemplo, 3 horas e 30 minutos, ao invés de representarmos como 3,5 horas, essa quantidade
é representada como 3h30, em que o primeiro dígito representa as horas e os dois últimos os minutos e não há
uma relação decimal entre essas duas grandezas nessa representação.
e Regra de Juros são os conteúdos que ajudariam no desenvolvimento de algumas práticas. Por
exemplo, a Regra de Três e Sistema Métrico Decimal podem associar-se ao desenvolvimento
da prática de medição presente em diferentes ofícios como: carpintaria, alfaiataria, sapataria,
etc. Já a Regra de Juros pode ser associada à outra unidade de aprendizagem que é
“Escripturação de oficinas e correspondencia”, que ensina a escrever os livros de contas e
comércio. Ou seja, a Regra de Juros poderia ajudar a desenvolver práticas comerciais e
administrativas. Sendo assim, pensando nos saberes aos quais formar, os conteúdos ensinados
na disciplina de Arithmetica se aproximam mais de saberes práticos e afastam-se da finalidade
de instruir o aluno.
Ao analisar a disciplina Arithmetica verifica-se que ela se constitui de conteúdos, que
no contexto do ensino profissional, podem ser mobilizados e ajudam no desenvolvimento de
algumas práticas (medição, práticas administrativas e comerciais etc). Sendo assim, a
disciplina Arihmetica perde o caráter instrutivo, nessa divisão, e adquire um status que permite
uma aprendizagem progressiva de um ofício. Dessa forma a disciplina Arithmetica possui
características propedêuticas como sua função interna. Já sua função social, nessa divisão,
afasta-se da finalidade instrutiva e aproxima-se da formação profissional. Representa um
conjunto de conhecimentos técnicos necessários para a aprendizagem sistemática e racional
das práticas do ofício.
CONCLUSÕES
A criação das Escolas de Aprendizes Artífices é um marco importante para a História
do Ensino Profissional Técnico do Brasil. As EAA’s representam a gênese de uma rede de
ensino profissional técnico, mantida pelo governo federal. No decorrer da história dessas
escolas se observa um movimento “reformista” com a intenção de melhorar a qualidade do
ensino profissional técnico oferecido por elas. Esse movimento ganhou corpo técnico em 1920
com a contração de João Lüderitz, que criou o Serviço de Remodelação do Ensino Profissional
Técnico. Como resultado do trabalho liderado por Lüderitz e uma comissão, elabora-se o
Documento de Consolidação Concernentes às Escolas de Aprendizes Artífices, que traz uma
proposta de percurso formativo com caráter curricular.
O Documento de Consolidação aponta uma alteração na estrutura curricular do ensino
de aritmética, antes pensada na forma de matéria escolar e depois na forma de disciplina
escolar. Com a implementação da proposta do documento, o ensino de aritmética dividiu-se
em duas disciplinas: Contas e Aritmética. A primeira fundamenta-se no ensino de números
inteiros e as quatro operações (adição, subtração, multiplicação e divisão). Já a disciplina de
Arithmetica, no terceiro ano, está centrada no ensino de frações, cuja sequência segue uma
lógica de transmissão do movimento pedagógico vigente na época, a Escola Nova. No quarto
ano, verifica-se a presença de vários conteúdos que podem ser mobilizados na aprendizagem
do ofício, no desenvolvimento de algumas práticas como, por exemplo, medição e escrituração
comercial.
Diante do que foi exposto, entende-se que Contas e Arithmetica são objetos do trabalho
docente, ou ainda, saberes a ensinar. Tais saberes se caracterizam pelo seu papel social e
institucional. No aspecto institucional, ambas as disciplinas possuem um papel propedêutico.
A disciplina de Contas prepara o aluno com aspectos teóricos da aritmética que lhe permite
cursar a próxima disciplina Arithmetica; enquanto esta última viabiliza cursar disciplinas como
“Escripturação de officinas e correspondencia”. A respeito da função social, Contas busca
instruir o jovem, que ingressa na escola analfabeto; já Arithmetica busca contribuir no
desenvolvimento sistematizado e refinado de algumas práticas de ofícios.
REFERÊNCIAS
Resumo
O presente trabalho teve como objetivo analisar os principais dados históricos sobre o
funcionamento da Assistência Estudantil (AE) na Educação Profissional (EP) encontrados nos
documentos legais das Escolas de Artes e Ofícios, bem como na rede de EPCT e no IFRN.
Para isso, utilizamos a metodologia qualitativa de avaliação de políticas públicas, em especial,
o Ciclo das Políticas, de Ball (1994;2009), com recorte de análise do Contexto da Produção de
Textos. Fundamentamos nosso estudo, de acordo com as análises sobre a política pública social
brasileira de Azevedo (2001) e Behring e Boschetti (2008). Como resultados, destacamos que,
a Assistência Estudantil pode ter como primórdios as Caixas de Mutualidade, descritas no
Decreto nº 9.070/1911, além do regime de internato e serviços articulados a esse. Em função
da formação social do Estado da época, sabemos que os objetivos e concepções dessa
assistência eram arraigados ao dualismo educacional da época, mas, garantiu, minimamente, a
permanência e êxito escolar dos estudantes que mais necessitavam. Nesse sentido, muitas
décadas se passaram, a EP passou por muitas transformações, bem como as instituições da rede
mas, a AE somente se efetiva como política nacional e institucional para a EP em 2007, com a
criação do PNAES, através do Decreto n. 7.234/2010. No IFRN, a AE também é explicitada
como política em documento próprio primeiramente no ano de 2010 e, posteriormente no
Projeto Político Pedagógico em 2012, assumindo a concepção de direito e exercício de
cidadania, articulada aos princípios constitucionais da educação e à própria identidade
institucional de EP, numa perspectiva de formação integral. Portanto, consideramos que o
PNAES fortaleceu a organização dos serviços que já eram oferecidos nos IFs, inclusive através
de apoio financeiro. Esperamos que a política de AE persista nos seus objetivos da
democratização do direito à educação e se amplie, em estrutura e condições de atendimento a
todos os estudantes que necessitarem. Ao lado disso, a rede de EPCT também se ampliou num
movimento de democratização do acesso, inclusive através da política de cotas instituída pela
lei n. 12.711/2012, aproximando-se mais do princípio da igualdade de condições para acesso e
permanência na escola preconizado pela Constituição Federal (CF) de 1988, art. 206, inciso I,
para a Educação Nacional. Se faz necessário uma determinação explícita em percentuais do
orçamento institucional para a garantia dos investimentos permanentes em tais ações ou corre-
se o risco de extinguir-se o atendimento, a qualquer momento, em virtude da redução ou cortes
dos recursos totais da instituição.
INTRODUÇÃO
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Situamos nossa fundamentação teórica no campo da avaliação de políticas públicas, de
perspectiva crítico-dialética. Para isso, buscamos considerar as análises sobre o surgimento da
política pública social no Brasil, conforme Behring e Boschetti (2008), da área do Serviço
Social. Segundo as autoras, o contexto de surgimento da política pública brasileira foi,
logicamente, marcado pelas peculiaridades da formação do Estado nacional e somente a partir
da proclamação da República, em 1889, algumas medidas de políticas sociais foram instituídas
legalmente no país, ressalvando-se, contudo, a efetividade da prática dessas ações – “distância
entre intenção e gesto” (BEHRING; BOSCHETTI, 2008, p. 80).
Nesse contexto, a criação das primeiras escolas de educação profissional no Brasil foi
instituída através de decreto federal n. 7566 de 23 de setembro de 1909, assinado pelo então
presidente Nilo Peçanha. As instituições ficaram vinculadas ao Ministério da Agricultura,
Indústria e Comércio, criado em 1909, pois não havia Ministério de Educação. Entre os anos
de 1909 e 1910, 14 escolas de Aprendizes e Artífices passaram a funcionar em várias capitais
brasileiras, incluindo na região Nordeste, as escolas em Natal, João Pessoa, Fortaleza, Salvador
e Teresina.
A criação dessas escolas foi justificada, na época, em função da necessidade de
formação profissional para os jovens pobres e filhos de operários – os “desfavorecidos da
fortuna” - como forma de contenção para evitar ociosidade, vícios e crimes (BRASIL, Decreto
nº 7.566/1909). Contudo, essa concepção (proveniente das elites) é mais antiga do que a criação
dessas instituições. Azevedo (2001), em sua análise histórica sobre a formação do setor
educacional no Brasil, verificou que no estabelecimento do Império (pós 1822), os valores
oligárquicos e escravagistas do país, misturados ao ideário liberal, influenciaram a educação,
fomentando um sistema dual de ensino. Segundo a autora, dois tipos de ensino se organizaram
nessa época, o que determinava o futuro ocupacional de quem os frequentava, o que era de
acordo com a classe social a que se pertencia. Nas palavras da autora (2001, p. 20):
Seus produtos finais eram, principalmente, os bacharéis e letrados, habilitados para
exercer os cargos públicos na burocracia e outras atividades liberais. Nesse padrão
educativo foram formadas as elites que conduziram os destinos do país até a Primeira
República. [...] O outro sistema deveria encarregar-se da educação do povo. No
contexto social em que foi criado, destinava-se, portanto, à população livre e pobre.
De responsabilidade das províncias e, mais tarde, dos estados, esse sistema, origem
da futura rede de ensino pública e gratuita, compreendia o que se concebia na época
como ensino primário e o ensino secundário eminentemente vocacional. Aos homens
reservava-se o aprendizado de ofícios manuais e às mulheres, o treinamento nas
prendas do lar, ensino que seria paulatinamente transformado em preparação para o
exercício do magistério primário.
Assim como avalia Azevedo (2001), consideramos que tais pronunciamentos oficiais
do governo imperial, em articulação com a conjuntura socioeconômica da época, explicitam o
sistema de valores e normas que emoldurou a educação das classes populares nessa época. Já
no início do século XX, com certo avanço da industrialização do país, a classe operária
começava a constituir-se e, o debate sobre a educação como questão nacional ganhava impulso.
Como salienta a mesma autora, o capitalismo moderno, em geral, requeria a universalização
da educação básica como atendimento das demandas do capital e do trabalho - qualificação da
força de trabalho e formação de mercado consumidor. Mas, o caso brasileiro prescindiu dessa
medida, tendo em vista que "as iniciativas da Primeira República nessa área foram modestas",
além da desqualificação da oferta ter dificultado a permanência escolar da maior parte da
população. Segundo Azevedo (2001), o país não adotou, nessa época, o avanço técnico
científico como fator chave de modernização e manteve os padrões arcaicos no sistema de
ensino em expansão. No caso das Escolas de Aprendizes Artífices, nessa época, a
industrialização também exerceu sua influência, bem como o desenvolvimento das instituições
foi requerendo algumas inovações.
Segundo Soares (1982), em 1926, Miguel Calmon Du Pin e Almeida, Ministro da
Agricultura, promulgou a portaria de Consolidação dos Dispositivos Concernentes à essas
Escolas. De acordo com Soares (1982, p. 70-72), tal portaria estabelecia um currículo
padronizado e a "industrialização" das escolas, sendo essa última defendida como uma
"motivação para a aprendizagem" e, a "solução, ao lado da instituição da merenda escolar
(portaria de 26 de setembro de 1922), do grande problema da evasão de aprendizes". Isso
porque a "industrialização" das escolas tratava-se da permissão para as instituições "aceitarem
encomendas das repartições públicas, ou dos particulares" e pagar as horas de trabalho dos
alunos referente a produção dessas encomendas. Nesse sentido, João Luderitz, um encarregado
do Serviço de Remodelação, entendia que essa "industrialização" das escolas tinha uma
função: [...] de ordem econômica, por não se pode exigir nas atuais condições de dificuldade
de vida, que tem de enfrentar o pobre e mesmo o remediado, não se poder, dizia-se, exigir que
os pais consintam aos filhos permanecerem na escola além dos 12 anos; com esta idade não
se tendo a felicidade de fazer do filho um doutor, mandando-o para os cursos secundários, de
humanidades, exige-se dele que comece a ganhar a vida, empregando-se, alguns mesmo em
misteres subalternos. [Assim] se se quiser ter alunos nas Escolas de Aprendizes Artífices, será
preciso que possam ganhar alguma coisa, salários ou pagamentos por tarefa, isto é, porém, de
acordo com as suas capacidades produtivas e nunca por diárias, as quais outro efeito não teriam
senão viciar o aluno na vida de funcionários, com vencimentos certos (SOARES, 1982, p.71).
Nesse sentido, observamos que a AE, constituída aí como auxílio financeiro/pagamento
por trabalhos realizados na escola, era percebida como importante estratégia para a
permanência escolar dos estudantes. Assim, parece ter sido desenvolvida nessas instituições,
articulando o atendimento das necessidades dos estudantes e os interesses da administração
das escolas e dos processos de industrialização das cidades.
De todo modo, cabe destacar que, o acesso a essas ações era muito escasso diante da grande
parcela da população que vivia em situação de pobreza. Portanto, a própria percepção sobre os direitos
sociais numa perspectiva de democratização e garantia de dignidade na vida das pessoas ainda era
distante. Como explica Oliveira (2005, p. 32):
As políticas sociais no Brasil foram desenvolvidas em um contexto de muita
contradição, marcado pela desigualdade no acesso e na extensão. Tais políticas, em
especial aquelas de cobertura ampla, universal, tiveram um desenvolvimento tardio,
se comparado ao da maioria dos países de mesmo porte econômico. O processo de
industrialização que ocorreu no Brasil, com maior veemência a partir dos anos 1930,
resultou em uma gama de políticas regulamentadoras restritas a setores da classe
trabalhadora urbana e industrial. [...] Por mais de três décadas os trabalhadores rurais
brasileiros não puderam gozar das mesmas prerrogativas e direitos conferidos aos
trabalhadores urbanos.
Portanto, no Brasil os anos 1990 e 2000 foi importante período de focalização das
políticas sociais para atendimento dos mais vulneráveis. Nesse contexto, em 2007 foi criado o
Programa Nacional de Assistência Estudantil - PNAES através de Portaria Normativa do
Ministério da Educação (MEC) n. 39, pelo então ministro Fernando Haddad, como uma das
ações do Plano de Desenvolvimento da Educação – PDE e regulamentado através do Decreto
nº 7.234/2010 sobre o PNAES, abrangendo os estudantes dos Institutos Federais (IFs). O
decreto estabeleceu dez áreas de ações da AE, quais sejam: moradia estudantil; alimentação;
transporte; atenção à saúde; inclusão digital; cultura; esporte; creche; apoio pedagógico; e
acesso, participação e aprendizagem de estudantes com deficiência, transtornos globais do
desenvolvimento e altas habilidades e superdotação. O PNAES foi um forte indutor para a
reorganização da AE nos IFs. Portanto, analisamos nos tópicos que se seguem essa inter-
relação com os documentos institucionais do IFRN.
METODOLOGIA
Nesse sentido, Ball (2009) entende que os contextos são espaços em que podemos
analisar/apreender como as políticas se movem, ou seja, como as lutas se dão em cada contexto.
Cada contexto apresenta arenas (espaços de luta, de debate e disputas) e grupos de interesses
(sujeitos e/ou instituições que desejam influenciar as políticas e participam delas nas suas
dinâmicas). Os contextos podem ser divididos em dois grupos. Mainardes e Marcondes (2009)
verificam que as pesquisas costumam avaliar um ou outro grupo de contextos. Porém, é
importante compreendê-los também como intrínsecos entre si, quais sejam: a) Contexto
primário: de influência; da produção de texto; e, contexto da prática; b) Contexto secundário:
contexto dos resultados (efeitos) e; contexto da estratégia política; Cada contexto pode ser
entendido como um ciclo interno da política em questão, além de influenciar-se por outras
políticas também em realização. Nessa pesquisa, destacamos o contexto da produção de textos
para analisar mais detidamente os documentos legais e institucionais da política de AE.
Segundo Mainardes (2018, p.13)
No espaço deste artigo, não é possível contemplar todos esses aspectos de todos os
textos selecionados para análise, mas, destacamos os principais elementos implicados mais
diretamente na política de AE, articulada com a política educacional.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Art. 20. Constituirão renda da escola o producto dos artefactos que sahirem de suas
officinas e o das obras e concertos por ellas realizados. § 1º Esta renda será arrecadada
pelo director da escola, que com ella adquirirá os 30 materiaes ecessarios para os
trabalhos das officinas. § 2º No fim do anno, a renda liquida será recolhida á Delegacia
Fiscal do Thesouro Nacional depois de reduzida a importancia correspondente a 15 %,
sendo 10 % para serem distribuidos por todos os alumnos das officinas, em premios,
conforme o gráo de aproveitamento obtido e respectiva aptidão, e 5 % para a Caixa de
Mutualidade. [...] Art. 28. Os directores promoverão a organização de associações
cooperativas e de mutualidade entre os aprendizes, elaborando para esse fim as
necessarias instrucções, que submetterão á approvação do ministro, dentro do prazo
de 90 dias da publicação deste regulamento. § 1º Os alumnos do 1º e 2º annos
perceberão, respectivamente, as diarias de 100 e 200 réis, destinadas exclusivamente
á sua contribuição á Caixa de Mutualidade. § 2º Os do 3º e 4º annos perceberão,
respectivamente, as diarias de 600 e 800 réis, sendo-lhes facultado contribuir ou não
para a Caixa de Mutualidade. § 3º Os que não concorrerem ou deixarem de o fazer nos
prazos e com as quantias que forem estipuladas nas instrucções perderão seus direitos
em favor da mesma caixa.
Como vemos, tal texto estabelece o provimento de uma AE abrangendo a área da saúde
e auxílio financeiro na forma de bolsas, considerando critérios conforme o mérito e necessidade
do estudante a ser avaliado por docentes. Tal discurso situa-se entre a perspectiva da caridade
e a própria noção “direito” a tal providência com base na “justiça” pelo mérito. Portanto, a AE
no Ensino Superior estabeleceu-se de forma mais estruturada e contou com a seguridade legal
também na Constituição Federal de 1934. A AE foi contemplada no art n. 157, § 2º com a
aplicação de parte dos recursos dos fundos de educação “em auxílios a alunos necessitados,
mediante fornecimento gratuito de material escolar, bolsas de estudo, assistência alimentar,
dentária e médica”.
No tocante ao IFRN, verificamos registro sobre a implantação oficial de ações do
âmbito da AE, a partir de 1962 com o setor de Serviço Social Escolar. Nessa época, a
instituição era nomeada como Escola Industrial do Rio Grande do Norte (IFRN, 2010). Não tivemos
acesso a outros documentos com mais dados e informações detalhadas sobre o funcionamento desse
serviço. Mas, servidores mais antigos relatam ações também da área da saúde, alimentação, fardamento,
apoio financeiro no transporte escolar, etc. Nesse sentido, destacamos aqui o principal documento que
formaliza o funcionamento da AE no IFRN, qual seja: Plano de Assistência Estudantil do IFRN,
aprovado pelo Conselho Superior da instituição no ano de 2010. Esse documento estabeleceu as
bases do novo funcionamento institucional, uma vez que, vivenciava-se uma significativa
expansão da rede com a criação de campi em todo o interior do estado. Novos servidores
concursados foram conhecendo a diversidade do público atendido e organizando as estratégias
e ações para alcançar os objetivos traçados. Para isso, vimos que a criação do PNAES, como
já citado, também foi basilar para a AE do IFRN, uma vez que o programa orientava que: “As
ações de assistência estudantil devem considerar a necessidade de viabilizar a igualdade de
oportunidades, contribuir para a melhoria do desempenho acadêmico e agir, preventivamente,
nas situações de retenção e evasão decorrentes da insuficiência de condições financeiras”.
(BRASIL, 2007, 1º Parágrafo único). Nesse sentido, o Plano de AE do IFRN estabeleceu 14
modalidades de ações, conforme contempladas no próprio Decreto do PNAES e já implantadas
na instituição.
Já no texto do PPP (IFRN, 2012), a AE está contemplada como uma das políticas
institucionais, assumindo a concepção de direito social, prática de cidadania e parte do
processo educativo. Assume também princípios, diretrizes e indicadores metodológicos
articulados a essa concepção e a toda a identidade institucional e da EP brasileira. Portanto,
responde a mobilização sóciohistórica do próprio setor, consolidando as práticas já realizadas
e, atendendo as necessidades prementes do atual público estudantil. De toda forma, como bem
dito no texto do PPP ainda carece de maior segurança orçamentária para a concretização das
ações, uma vez que: “Precisam, portanto, ser consideradas, no plano institucional-orçamentário
do IFRN, como uma questão de investimento, a fim de que se garantam recursos para a
execução” (IFRN, 2012, p. 193). Essa é uma das principais fragilidades das políticas
educacionais mais específicas, sobretudo, quando criadas através de programas de governo. Se
faz necessário uma determinação explícita em percentuais do orçamento institucional para a
garantia dos investimentos permanentes em tais ações ou corre-se o risco de extinguir-se o
atendimento, a qualquer momento, em virtude da redução dos recursos totais da instituição.
CONCLUSÕES
Consideramos que a política de AE é importante elemento para análise e melhorias das
condições para a permanência escolar com êxito dos estudantes brasileiros. Aprofundar a
análise a partir dos indícios de seus primórdios na EP, contribui com a reflexão sobre o longo
caminho de lutas e resistência das instituições e seus atores sociais. A história da AE também
se faz importante pela percepção da mudança de concepção e objetivos, conforme o movimento
do contexto sócio-político mais amplo, como já indicava Ball (2009) sobre as trajetórias das
políticas. A AE é uma política educacional que demorou a formalizar-se e ainda corre risco de
desaparecer, uma vez que depende de recursos financeiros ainda não delimitados claramente
na letra lei. Como vimos, foi através de um programa de governo, criado através de decreto -
o PNAES que se fortaleceu a organização dos serviços que já eram oferecidos nos IFs e
garantiu a ampliação do atendimento, através de apoio financeiro desse programa. Ao lado
disso, a rede de EPCT também se ampliou num movimento de democratização do acesso,
inclusive através da política de cotas instituída pela lei n. 12.711/2012, aproximando-se mais
do princípio da igualdade de condições para acesso e permanência na escola preconizado pela
Constituição Federal (CF) de 1988, art. 206, inciso I, para a Educação Nacional.
De todo modo, reforçamos a importância da garantia do financiamento público das
referidas instituições, na forma plena, sem cortes, nem bloqueios orçamentários. Os governos
que atacam a política pública educacional através da redução dos investimentos e inconstância
na disponibilidade do uso dos recursos financeiros deixam marcas na história de vida de cada
estudante que tiveram reduzidas a oportunidades de melhores condições de estudo.
Diante disso, consideramos que a política de AE tem se complexificado mais nos
últimos anos e, portanto, requer maior aprofundamento das investigações a respeito,
considerando mais detidamente a participação dos atores sociais, mobilização estudantil e
trabalhadores da educação que historicamente efetuaram as transformações das práticas,
potencializando os efeitos alcançados. Esperamos que a política de AE persista nos seus
objetivos da democratização do direito à educação e se amplie, em estrutura e condições de
atendimento a todos os estudantes que necessitarem.
REFERÊNCIAS
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e política educacional. In: MAINARDES, Jefferson e MARCONDES, M.I. Entrevista com
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PIVA, Maqueli Elizabete. Educação profissional brasileira e assistência estudantil nos cursos
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A CARTEIRA ESCOLAR E A INFLUÊNCIA HIGIENISTA NOS GRUPOS
ESCOLARES DO RIO GRANDE DO NORTE NO INÍCIO DO SÉCULO XX
Resumo
O objetivo deste trabalho é colaborar para as reflexões sobre o mobiliário escolar, sobretudo
a carteira, tendo como parâmetros as contribuições do movimento sanitarista no início do
século XX, utilizando-se das obras do médico e professor Alfredo Lyra, no Rio Grande do
Norte, como higienista atuante neste estado, além de estudos que discutem o referido assunto
relacionado à cultura material da escola. A perspectiva higienista abordada tem o intuito de
mostrar na prática a inserção da criança no meio escolar a partir de preceitos higienistas
nacionais voltados para um projeto civilizatório do país, nos primeiros anos do regime
republicano.
Mediante a implantação e a difusão dos grupos escolares no país, iniciando pela cidade
de São Paulo, como modelo de escola primária republicana. Esse modelo de organização
escolar se configurou como projeto de educação voltado para a saúde, sendo considerado o
pilar da regeneração da população brasileira. Tal organização do período republicano vivencia
o movimento higienista, no qual buscava-se, além de divulgar noções de saúde pública,
imprimir o espírito de cordialidade, combater a apatia, a morosidade e os diversos tipos de
vícios, epidemias e doenças que afligia a população. Desse modo, a educação escolarizada era
encarada pelos dirigentes como um veículo de mudança comportamental, sendo assim, a escola
seria o lugar onde, além de se ensinar os conhecimentos eruditos, se ensinava, também, os
modos urbanos e higiênicos de viver, imprescindíveis ao homem moderno.
Nesse intuito, Bertucci (2017) ressalta a importância da parceria do médico com o
professor foi repetidamente atrelada às discussões nacionalistas e motivou ações educativas.
No entanto, os médicos também, destacavam-se na docência, em especial assumindo a
cadeira de higiene em instituições de ensino, prevalentemente em instituições de formação
de professores nas capitais brasileiras. Dentre eles inclui-se o médico e professor Alfredo
Lyra, na Escola Normal de Natal, capital no Rio Grande do Norte, com destaque no campo
da medicina, em campanhas de divulgação de novos saberes em prol da higienização da
população, principalmente a saúde que para Bertucci (2013), saúde possível com os novos
conhecimentos médicos e científicos e com a educação dos indivíduos. Em seus escritos Lyra
demonstra a preocupação principalmente com a educação escolar, no nosso trabalho
destacamos a carteira escolar como um dos assuntos relevantes em seus escritos, pois trata
da saúde do corpo do aluno ainda em formação, ou seja, o corpo infantil.
Para Taborda de Oliveira (2006), ao longo da história, têm sido várias as formas de se
educar o corpo, como diferentes também têm sido as razões para isso. Esse fenômeno vem
associado a transformações não só na cultura e na sociedade brasileira, mas, também, em toda
a modernidade ocidental. Sem dúvida, uma das mais instigantes e, ao mesmo tempo,
desafiadoras investigações históricas é aquela que se baseia na educação do corpo como objeto
de pesquisa. Isso porque, na esteira do que propõem Taborda de Oliveira e Vaz (2004, p. 17):
Já se observou que são possíveis apenas aproximações daquilo que ocorreria nas
escolas, no que se refere às medidas utilizadas pela higiene para a educação do corpo do
aluno, como o intuito de formá-lo segundo uma sociedade “civilizada” que se pretendia
saudável, higienizada e ordenada, como fez Pykosz (2007). No entanto, as formas de
desenvolvimento das prescrições de novos hábitos e costumes podem, com frequência, ser
identificadas pelos discursos dos relatórios de Instrução Pública e Saúde Pública do Estado
do Rio Grande do Norte, bem como pelas teses apresentadas nos congressos ligados à
educação e à higiene.
A higiene constituía-se como parte do programa escolar apresentando em seus
conteúdos saberes que incidiam diretamente sobre a educação do corpo do educando,
incluindo- se como parte de um grupo de disciplinas com o mesmo objetivo, tais como:
Trabalhos Manuais, Prendas Domésticas, Ginástica, Exercícios Militares e Canto Orfeônico.
Entretanto, além de aparecerem associados a algumas dessas disciplinas, os saberes da
higiene também estavam associados a outras disciplinas que não teriam, em princípio, a
educação do corpo como finalidade última. Além disso, ocorriam também em tempos e
lugares não necessariamente disciplinares.
A intenção dos formuladores de diferentes ideias sobre a importância de uma
educação do corpo pela via da higiene era, sobretudo, romper com os costumes ditos
impróprios, vindos de casa. Ou seja: que a criança levasse os bons hábitos para o convívio
de seus familiares, assumindo, também, o papel de educadora.
É pertinente lembrar que as décadas iniciais do século XX foram de grandes
alterações na cena societária brasileira e norte-rio-grandense. Acreditava-se que era mais
difícil ensinar novos hábitos de vida aos adultos, sendo importante educar primeiramente a
criança matriculada nos grupos escolares, por meio das disciplinas escolares e relacionado
aos preceitos higiênicos, considerando essas normas voltadas tanto para o aluno como para
o professor. Em todo o país os estudiosos discutiam a implantação nos grupos escolares da
regulamentação de saberes médico-higiênicos para todos os estados do país, e dentre eles, no
Rio Grande do Norte, em cumprimento ao artigo 204 da lei n.º 405, de 29 de novembro de
1916, que trata da Reforma de Ensino no Estado do Rio Grande, foi criado o Serviço de
Inspeção Médico-Escolar, em 1923, cuja finalidade e as especificidades da educação
sanitária é legalizada e abrange:
Capítulo I
Art. 2º A inspeção abrangerá todos os estabelecimentos estaduais, municipais e
particulares de ensino primário, normal, profissional e secundário de todo o Estado.
Art. 16º A educação sanitária dos alunos e professores consistirá na divulgação de
preceitos e conhecimentos de higiene escolar:
Tendo em vista esses cuidados, identificamos uma nova escola a ser estruturada. A
intenção era que a instituição de ensino se localizasse fora da área do centro da cidade para
que os educandos não sofressem influências perniciosas. Esse espaço era visto como uma
pequena cidade onde os indivíduos são inexperientes e ainda ignorantes. Por isso, a
importância de a escola ser higienizada e, através dela, o corpo.
Nesse sentido, a Instrução Pública voltava-se para a formação do novo cidadão
moderno, que se construía também por meio da organização escolar à qual estava submetido.
A preocupação com o homem brasileiro saudável estava relacionada às ameaças que se
apresentavam na sociedade, como as chamadas degenerações sociais, o alcoolismo, os
distúrbios mentais, a tuberculose e as doenças venéreas. No intuito de formar as novas
gerações, seria necessária uma intervenção tanto no espaço público da escola como no
espaço privado da casa. “Pais e mestres constituem-se, portanto, nos principais destinatários
das prescrições médicas quando se trata da educação” (GONDRA, 2003, p. 525).
Com relação a essa intervenção, Alfredo Lyra defende:
O exame médico individual, visando indistintamente a todos os alunos, o registra
das aptidões do estado physico e, de par com a pedagogia, prevê o
desenvolvimento da saúde physica pela capacidade de percepção (LYRA, 1922, p.
11).
Portanto, observa-se a proposição pelo próprio Alfredo Lyra por meio de dois
formulários denominados de Ficha Sanitária (Figura 1) e Ficha Exames Ulteriores (Figura
2), como parte da Inspeção Médico Escolar efetivada em registro de informações pessoais,
familiares, relacionadas à saúde dos alunos e das alunas matriculados nos grupos escolares
do Estado.
Desse modo, busca-se acentuar o papel do higienista enquanto sujeito histórico, tendo
em vista sua condição como profissional, seja esse professor ou médico na formação da
sociedade republicana. Na República, evidencia-se o ambiente escolar como melhor terreno
para a formação de hábitos sadios. Nesse contexto, apresenta-se em destaque duas obras do
médico Alfredo Lyra, escritas em nos anos de 1922 e 1925 respectivamente. Em ambas obras
o autor ressalta a importância de as escolas tomarem conhecimento de um assunto que abrange
a criança em período escolar que é a escoliose e a miopia, em destaque neste trabalho, a carteira
escolar que atendendo também um dos requisitos do regulamento da Inspeção Médico –
Escolar:
Art. 6º Nas visitas, que a autoridade competente fizer as escolas, terá em consideração
especial:
II Com relação ao mobiliário e material:
a) que sejam construídos de acordo com o que preceitua a higiene escolar;
b) que o mobiliário seja adequado ao tamanho do escolar.
Posição em pé
Nesta posição viciosa, a bacia inclina-se do lado do membro em resolução; a linha
vertebral orienta-se para cima e para o lado do membro não contrahido; em
conclusão, para manter o equilíbrio vertical, o rachis descreve uma curva lateral,
de convexidade do membro contrahido. Sendo o membro inferior direito o mais
vigoroso, nos destros, é ele o de sustentação (portant), originando-se da
constancia uma escoliose de convexidade direita.
Posição assentada
É sobretudo na posição assentada que o imobiliário intervem na origem e no
desenvolvimento da escoliose. Ainda que correctamente assentada a creança, em
carteira construída de modo que se adapte ao tamanho do escolar e com um bom
ponto de apoio dorso-lombar, a quase totalidade do corpo é suportada pelos dois
ischions.
[...]
A nova posição é unischiatica esquerda ou direita, accentuadamente esquerda,
devido á inclinação do caderno, na escripta. O resultado é uma torsão do corpo e
a coluna vertebral descreve uma curvatura de convexidade esquerda. (LYRA,
1925.p 12-13)
FIGURA 5 – A IMAGEM ILUSTRA O MODELO DE UMA CADEIRA COM ENCOSTO COM A MESA A
SUA FRENTE PARA ATIVIDADE
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Dessa maneira a obra de Lyra reúne um conjunto de prescrições higiênicas que visam
organizar a escola, a partir do corpo do aluno, para moldá-lo na escola como prevenção e
correção das deformidades. Os desvios posturas do aluno ganham visibilidade, por meio de
gravuras onde se destaca o corpo infantil e sua relação com o mobiliário escolar que Lyra
afirma que:
O mobiliário escolar concorre com a elevada porcentagem, para o coefficiente
de escolióticos. Quando no banco carteira, a diferença é exagerada, o escolar
é obrigado a afastar os cotovelos [ ] ... ao contrário a diferença é mínima,
acarreta para o alunno uma curvatura posterior – cyphose. (Lyra 1922 p. 96-
97).
E por fim, como afirma Rocha (2009, p. 124), que é no rol das prescrições que se
articulam no processo de fabricação do corpo do escolar emerge a afirmação da possibilidade
de “endireitamento” do corpo, como resultado da ação de um meio formador e conformador,
inserido nas práticas escolares .Assim, por meio da educação, as práticas higienistas
destacadas, no uso da carteira escolar pelo aluno, evitaria doenças com o objetivo de criar na
criança hábitos saudáveis, e cabe a escola esse papel de disseminação de bons hábitos
higiênicos.
REFERÊNCIAS
ELIAS, Norbert. O Processo Civilizador: uma história dos costumes. Tradução: Ruy Jungmann
Rio de Janeiro :Zahar,1994.
KULMANN JR, Moysés. Educando a infância brasileira. In: LOPES, Elaine Marta Teixeira;
FARIA FILHO, Luciano Mendes; VEIGA, Cyntia Greive Veiga. 500 anos de educação no
Brasil. 2. ed. Belo Horizonte - MG: Autêntica, 2003.
MAGALDI, Ana Maria de Mello Bandeira. Cera a modelar ou riqueza a preservar: a infância
nos debates educacionais Brasileiros (anos1920-30). In: GONDRA, José (org.). História,
infância e escolarização. Rio de Janeiro: 7Letras, 2002. p. 59-79.
Resumo
Resumo
Resumo
Este trabalho pretende discutir a psicologia aplicada ao trabalho a partir da atuação do educador
russo Léon Walther em missão pedagógica no Brasil no ano de 1929. No contexto das reformas
educativas realizadas no Brasil nas primeiras décadas do século XX, o Governo de Minas
Gerais, por iniciativa de Francisco Campos, organizou a contratação de um grupo de
professores para atuar na Escola de Aperfeiçoamento de Belo Horizonte. Entre os contratados,
estavam Louise Artus Perrelet, Hélene Antipoff e Léon Walther, ligados ao Instituto Jean
Jacques Rousseau de Genebra, Suíça. Nesse instituto, Léon Walther foi responsável pelo curso
de tecnopsicologia e orientação profissional em 1922. Adotamos, como fontes principais, os
jornais e as revistas disponibilizados na Hemeroteca Digital Brasileira. Recorremos ainda a
historiografia da educação brasileira que versa sobre a temática da psicologia aplicada ao
trabalho. Seguindo os rastros na imprensa Brasileira, identificamos as ações do professor
durante o período que esteve no país. O educador russo proferiu uma série de conferências no
Rio de Janeiro e em São Paulo, incluindo um curso realizado a convite da Associação
Comercial de São Paulo sobre “Psycotechnica industrial”.
Resumo
Anderson Boanafina
Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz
[email protected]
Lilian Boanafina
Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro - IFRJ,
[email protected]
Resumo
Resumo
INTRODUÇÃO
A educação, direito social estabelecido na Constituição da República Federativa do
Brasil de 1988, artigo 6º, constitui peça fundamental para o desenvolvimento de um país e para
a emancipação de seu povo. Conforme a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional
(LDB), artigo 2º, “a educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de
liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento
do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”
(BRASIL, 1996). Nesse sentido, a efetivação de uma educação de qualidade requer, além de
planejamento orçamentário e curricular por parte do Estado e órgãos competentes, boas
práticas de ensino que estejam fundamentadas em teorias científicas de aprendizagem. Ainda
de acordo com a LDB (1996), artigo 3º, e com a resolução nº 6 de 20 de setembro de 2012,
artigo 6º, da Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação, que define
Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional Técnica de Nível Médio, o
ensino no Brasil está pautado em alguns princípios, dentre os quais pode-se destacar a
“liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar a cultura, o pensamento, a arte e o saber”;
a “vinculação entre a educação escolar, o trabalho e as práticas sociais”; bem como, o
“pluralismo de idéias e de concepções pedagógicas” e a “valorização da experiência extra-
curricular” (BRASIL, 1996; 2012). Diante do exposto, a atuação docente não está restrita a
uma única concepção pedagógica. Porém, percebe-se que em termos de legislação educacional
e de pressupostos teóricos e filosóficos, há, em determinados contextos, a prevalência de
aspectos orientadores da prática docente. As abordagens cognitivistas fazem parte desse rol de
influências diretas ou indiretas no desencadeamento de ações pedagógicas relacionadas ao
ensino e aprendizagem. No que tange à educação profissional, mais especificamente aos cursos
técnicos integrados, a atuação docente deve estar baseada no pluralismo de ideias e concepções
pedagógicas e deve intentar garantir a formação humana integral, o que envolve a liberdade de
ensinar e aprender, divulgar a cultura, o pensamento, as artes e o saber socialmente construídos,
bem como, vincular a educação escolar ao mundo do trabalho e às práticas sociais.
Este artigo tem como objetivo investigar e discutir algumas aproximações entre teorias
cognitivistas e a concepção de formação humana integral objetivada pelo Ensino Médio
Integrado (EMI), e está estruturado da seguinte forma: inicialmente, apresenta-se a origem do
cognitivismo e seus princípios gerais; em seguida, os pressupostos de alguns de seus teóricos,
Piaget e Ausubel, com foco nos processos de ensino e aprendizagem. Posteriormente, será
caracterizado o ensino médio integrado à educação profissional, em que serão apresentados
objetivos, fundamentos e princípios norteadores dessa modalidade de ensino à luz do
pensamento de alguns autores, como Ramos, Ciavatta, Frigotto e Moura. Por fim, serão
discutidas as possíveis relações entre as teorias cognitivas e os objetivos do ensino médio
integrado, com foco na formação humana integral.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
O Cognitivismo
Historicamente, percebe-se que as teorias behavioristas e cognitivas exerceram e
exercem influência nas concepções de ensino-aprendizagem que permeiam a prática
pedagógica moderna. Apesar de surgirem no campo da psicologia, essas teorias tiveram suas
ideias transportadas para a educação, balizando o entendimento de como se dão os processos
de ensino e aprendizagem, assim como a relação professor-aluno-objeto de conhecimento.
O cognitivismo surge no início do século XX como “uma reação ao behaviorismo
clássico” (MOREIRA, 1999, p. 35), e consiste em investigar a formação das estruturas mentais
superiores, a exemplo da percepção, análise, resolução de problemas, entre outras, aspectos
que exigem mais do que uma simples relação estímulo-resposta, exige-se cognição. Nesse
sentido, as “[...] teorias de aprendizagem nessa linha são chamadas de cognitivistas ou
centralistas, em contraposição às behavioristas, que são ditas periferalistas” (MOREIRA, 1999,
p. 35-36).
Para uma compreensão mais ampla do cognitivismo e sua relação com os processos de
ensino-aprendizagem, faz-se necessário investigar o pensamento de alguns teóricos pioneiros
do cognitivismo, dentre os quais pode-se destacar: o psicólogo suíço Jean Piaget (1896-1980)
e o norte-americano David Ausubel (1918-2008).
Jean William Fritz Piaget (1896-1980) foi um dos mais influentes pensadores do século
XX. Desenvolveu estudos no campo das ciências naturais e nas áreas da psicologia e
epistemologia genética. Apesar de não ter desenvolvido uma proposta pedagógica, seus
estudos sobre o desenvolvimento da inteligência e formação de estruturas cognitivas
(estruturas de conhecimento) influenciaram e influenciam a prática educativa formal em muitas
instituições de ensino mundo afora. Para compreendermos como Piaget concebe o
desenvolvimento cognitivo, se faz necessário apropriar-se de alguns conceitos inerentes a sua
teoria, quais sejam os conceitos de assimilação, acomodação e equilibração.
Por assimilação, conceito fundado na biologia, Piaget compreende que na relação
sujeito/objeto de conhecimento o indivíduo extrai/assimila desse objeto informações
relevantes, as quais serão possivelmente úteis para a execução de uma ação específica. As
informações retidas serão organizadas na mente do indivíduo a partir de estruturas cognitivas
pré-existentes (PÁDUA, 2009, p. 24). Nesse sentido, “a assimilação não se reduz (...) a uma
simples acomodação se pode sem mais reconhecer a correspondência prática daquilo que serão
mais tarde a dedução e a experiência: a atividade da mente e a pressão da realidade" (PIAGET,
1941, p. 42 apud PÁDUA, 2009, p. 25). Piaget considera que para ocorrer um “salto
cognitivo”, ou seja, uma ampliação das capacidades cognitivas, os indivíduos precisam
modificar/alterar suas estruturas mentais para acomodar as novas informações extraídas do
objeto de investigação, para, a partir daí, construírem novos conhecimentos. A esse processo
de equilíbrio-desequilíbrio-reequilíbrio Piaget denomina equilibração, pois, a produção do
conhecimento pelos sujeitos cognoscentes é dinâmica, portanto, não estável. Segundo Piaget
(1976), a equilibração é de fundamental importância para que os indivíduos possam
desenvolver a maturação, conciliando-a com as experiências sociais e dos objetos.
Esses conceitos basilares da Teoria da Equilibração são importantes para compreender
como ocorre o desenvolvimento da cognição nos indivíduos ao longo da vida, processo este
que é composto de quatro estágios de maturação cognitiva definidos por Piaget em sua Teoria
da Epistemologia Genética, a saber: sensório-motor, pré-operatório, operatório concreto e
operatório formal. Nesse sentido, “todos os indivíduos passam por todos esses estágios ou
períodos, nessa sequência, mas o início e o término de cada um deles depende das
características biológicas do ser humano e de fatores sociais e educacionais” (SILVA; VIANA;
CARNEIRO, 2013, p. 7-8).
Portanto, observando a construção teórico-científica de Piaget, compreendemos que o
desenvolvimento do pensamento e da aprendizagem ocorrem de maneira lenta e gradual, desde
o nascimento e por toda a vida, na medida em que os indivíduos interagem com o ambiente à
sua volta e a partir de experiências com outros sujeitos e seu meio sociocultural. É nesse
processo de interação com o mundo que os indivíduos assimilam, acomodam e equilibram nas
estruturas mentais novas informações e conhecimentos, evoluindo cognitivamente.
RESULTADOS E DISCUSSÃO
Nos tópicos anteriores deste trabalho foram realizadas análises acerca dos pressupostos
teóricos centrais do cognitivismo com foco nos processos de ensino, aprendizagem e
desenvolvimento da cognição (inteligência), tomando como norte o surgimento das teorias
cognitivas e seu desenvolvimento ao longo do tempo. Para esse estudo, foram consideradas as
contribuições de autores pioneiros da filosofia cognitivista. Buscou-se, também, compreender
as concepções que norteiam o Ensino Médio Integrado, abordando alguns dos seus objetivos e
princípios, sempre à luz da legislação educacional e do pensamento de teóricos que se
dedicaram e dedicam ao estudo dessa modalidade de ensino, a exemplo de Moura e Ramos.
Nesta seção, procurar-se-á estabelecer possíveis relações entre os postulados gerais do
cognitivismo, a partir dos autores considerados anteriormente, e o EMI, visando uma
compreensão mais ampla acerca da formação humana omnilateral.
Conforme exposto, os cursos técnicos integrados ao ensino médio se fundamentam na
ideia de formação humana integral, politécnica e/ou omnilateral, considerando a categoria
trabalho como um princípio educativo. Destarte, conforme nos alerta Ramos (2003), além de
uma integração curricular entre os componentes da formação básica e da formação técnica, se
faz necessário uma prática pedagógica integradora, que não fragmente os saberes socialmente
construídos e que coloque o educando e sua realidade sociocultural como centro do processo
educativo formal. Nesse sentido, acredita-se que os postulados gerais do cognitivismo,
formulados historicamente por teóricos a exemplo Piaget e Ausubel, dialogam com algumas
concepções acerca da formação integral, e podem nortear a prática pedagógica docente.
O cognitivismo, conforme já salientado, corresponde a um conjunto de ideias/teorias
que esclarecem a respeito da origem e desenvolvimento do conhecimento na mente humana.
Para isso, as teorias cognitivistas consideram que os seres humanos, além da capacidade de
reagirem a estímulos externos (estímulos provenientes do meio ambiente), utilizam a
consciência para direcionarem suas ações, ou seja, pensam para resolver problemas
(MOREIRA, 1999), colocam os indivíduos como protagonistas no processo de ensino-
aprendizagem. Nesse sentido, os cognitivistas baseiam-se nos processos mentais superiores
(processamento de informações, percepções, resolução de problemas etc.) para explicar como
os indivíduos aprendem e evoluem cognitivamente,
Ao contrário dos behavioristas, os cognitivistas, a exemplo de Piaget, não concebiam o
conhecimento como algo predeterminado. Para este teórico, independentemente do estágio de
desenvolvimento, a aprendizagem acontece por meio da relação sujeito/objeto em um processo
que ocorre ao longo da vida, pois para a construção de novos conhecimentos faz-se necessário
um repertório anterior. A essa estrutura cognitiva prévia Ausubel chamou de subsunçor,
conhecimento já adquirido que ancora os novos, transformando-os em aprendizagem
significativa. Para esta ocorrer, o conteúdo a ser aprendido deve ligar-se a algo que o aluno já
sabe (conhecimentos prévios) e ao seu contexto sociocultural (AUSUBEL, 1968).
Em consonância com o pensamento de Ausubel, Moura (2007) enfatiza que, para tornar
a aprendizagem significativa, é necessário relacionar o conteúdo escolar com as experiências
passadas dos estudantes, evidenciando, desse modo, o princípio da contextualização presente
na concepção de EMI. A contextualização, portanto, seria a conexão entre a realidade dos
estudantes, ou seja, o mundo já conhecido por eles, e os conhecimentos escolares, ou seja, o
mundo a ser conhecido/aprendido.
Percebe-se, assim, uma nítida correlação entre o pensamento de Piaget sobre o
desenvolvimento da inteligência e aprendizagem, presente na sua teoria da epistemologia
genética; os subsunçores e a aprendizagem significativa de Ausubel; e a contextualização e
interdisciplinaridade, princípios basilares do ensino médio integrado defendidos por autores
como Ciavatta, Frigotto, Moura e Ramos, ainda que as matrizes teórico-epistemológicas sejam
distintas.
Corroborando com a reflexão, Ausubel diz que, nesse processo de interação e
construção do conhecimento, a participação ativa do estudante é requerida. Vê-se também que
para atingir os objetivos do EMI, como por exemplo, conhecimento da totalidade social,
humanização, transformação social e formação humana integral, faz-se necessário um sujeito
reflexivo, autônomo e ativo no processo de ensino e aprendizagem, como defende Davini
(1983). Aráujo e Frigotto (2015) também apontam essa necessidade ao destacarem que o
indivíduo não é apenas produto da história, mas também sujeito.
Conforme os autores estudados e as análises até aqui realizadas, percebe-se que a
intervenção educativa formal para a efetivação da educação omnilateral necessita de uma
mudança de ótica e prática substancial, a qual deve estar fundamentada em princípios como
contextualização, interdisciplinaridade, articulação entre teoria e prática, entre tantos outros,
com o intuito de tornar a aprendizagem sempre prazerosa, significativa e útil na vida do
educando.
CONCLUSÕES
REFERÊNCIAS
AUSUBEL, D.P. Educational psychology. A cognitive view. 2. ed. New York: Holt, Rinehart
& Wiston, 1968.
MÉSZÁROS, István. A educação para além do capital. 2. Ed. São Paulo: Boitempo, 2008.
PÁDUA, Gelson Luiz Daldegan de. A epistemologia genética de Jean Piaget. Revista
FACEVV| 1º Semestre de, n. 2, p. 22-35, 2009.
Resumo
Essa comunicação apresentará uma revisão bibliográfica da produção acadêmica relacionada
a três políticas públicas voltadas à Educação Profissional (EP): o Plano Nacional de Formação
Profissional (PLANFOR), lançado em 1995, no governo Fernando Henrique Cardoso; o
Programa Nacional de Qualificação Social e Profissional (PNQ), lançado em 2003, no governo
Luís Inácio Lula da Silva e o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e ao Emprego
(PRONATEC), lançado em 2011, no governo Dilma Rousseff. Tomando essas três políticas,
devido a sua abrangência e impacto, como exemplos do conjunto de ações realizadas no
período, busco apresentar as principais abordagens de estudos precedentes sobre elas, visando
a realizar um balanço exploratório dos conhecimentos sobre as políticas públicas
contemporâneas para a Educação Profissional no país.
INTRODUÇÃO
22
Adaptado do Evento Simpósio On-line de Educação, do IFRN-Campus Ipanguaçu. Agradecemos a Comissão
Organizadora pela cessão.
Durante a década de 1990, ainda na esteira da redemocratização do país, intensificaram-
se os debates acerca dos projetos de sociedade e, consequentemente, de Educação Profissional.
Uma das mais abrangentes ações da época é o Plano Nacional de Formação Profissional –
PLANFOR, lançado em 1995, no governo FHC. O PLANFOR foi desenvolvido em articulação
entre o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e o Ministério da Educação (MEC) e com
recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador – FAT, incluindo também sindicatos,
organizações governamentais e não governamentais. Estabeleceu uma rede de Centros de
Educação Profissional voltada a pessoas com inserção precária no mercado de trabalho.
Em 2003, já no governo Lula, ocorreu lançamento do Programa Nacional de
Qualificação Social e Profissional – PNQ. Este preservou a posição, já constante no
PLANFOR, de se estabelecer uma população-alvo prioritária, composta de segmentos
inseridos de forma precária no mercado de trabalho. Dentre esses segmentos, o PNQ
estabeleceu preferencialmente pessoas mais vulneráveis economicamente e socialmente:
trabalhadores com baixas renda e escolaridade e populações mais sujeitas às diversas formas
de discriminação social. O PNQ manteve ainda a proposta de participação de setores
governamentais e da sociedade civil na definição das ações de qualificação a serem
desenvolvidas.
E, em 2011, no governo Dilma, foi instituído o Programa Nacional de Acesso ao Ensino
Técnico e ao Emprego (PRONATEC), com a finalidade de ampliar a oferta de cursos de
Educação Profissional e Tecnológica (EPT), tendo como objetivos específicos a expansão das
redes federal e estaduais de EPT; a ampliação da oferta de cursos a distância; a ampliação do
acesso gratuito a cursos de EPT em instituições públicas e privadas; a ampliação das
oportunidades de capacitação para trabalhadores de forma articulada com as políticas de
geração de trabalho, emprego e renda e a difusão de recursos pedagógicos para a EPT. Esse
Programa tem como público os estudantes do ensino médio da rede pública, inclusive da
educação de jovens e adultos; os trabalhadores e os beneficiários dos programas federais de
transferência de renda.
Como mencionado, a comunicação apresentará uma revisão bibliográfica da produção
acadêmica relacionada a essas três políticas públicas voltadas à Educação Profissional (EP).
Tomando-as como exemplos do conjunto de ações realizadas no período, busco apresentar as
principais abordagens de estudos precedentes sobre elas, visando a realizar um balanço
exploratório dos conhecimentos sobre a Educação Profissional contemporânea no país.
FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
Na comunicação pretendo, portanto, entender aspectos da consolidação de um novo
campo de conhecimentos no interior do campo acadêmico. Essa noção será aqui pensada a
partir da definição clássica de Pierre Bourdieu, para quem o campo acadêmico seria
relativamente autônomo, dotado de uma história própria a qual define um universo de
problemas, de referências, de marcas intelectuais. Segundo o autor “o campo é estruturado
pelas relações objetivas entre as posições ocupadas pelos agentes e instituições, que
determinam a forma de suas interações; o que configura um campo são as posições, as lutas
concorrenciais e os interesses”.
Logo, para ele
É no horizonte particular dessas relações de força específicas, e de lutas que têm por
objetivo conservá-las ou transformá-las, que se engendram as estratégias dos
produtores, a forma de arte que defendem, as alianças que estabelecem, as escolas
que fundam e isso por meio dos interesses específicos que aí são determinados
(BOURDIEU, 1996, p. 61).
METODOLOGIA
A investigação compreende um levantamento exploratório de trabalhos acadêmicos
relacionados às políticas acima mencionadas. Os dois principais critérios orientadores da
seleção foram que os estudos, independente da área de produção, tratassem de algum aspecto
das políticas individual ou comparativamente e que estivessem disponíveis on-line. Como
procedimento de busca, estabeleci que as respectivas neomenclaturas das políticas e/ou suas
siglas seriam utilizadas como buscadores e que estas deveriam constar nos títulos ou nas
palavras-chave dos trabalhos selecionados. Tal decisão visou identificar estudos que as
tivessem como objeto direto de análise.
No Google Scholar, busquei artigos em periódicos, apresentações em eventos, livros,
coletâneas e outros materiais on-line. No caso dos artigos, a utilização desse buscador se deveu
a abrangência de seu alcance, uma vez que ele permite encontrar tanto os textos de periódicos
consolidados e indexados em bases de dados restritas como Scopus, Scielo e Redalyc, bem
como aqueles publicados em periódicos que ainda não reúnem as condições necessárias para
esse tipo de indexação. Na Biblioteca Digital Brasileira de Teses e Dissertações (BDTD), do
Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (IBICT), busquei os trabalhos
defendidos nesses dois níveis acadêmicos e ainda não publicados por poutros meios. Cabe
explicitar ainda que se trata de uma seleção limitada, que pretende possibilitar uma
aproximação exploratória inicial ao tema. Para melhor visualização do que foi selecionado,
apresento os quadros abaixo.
Quadro 1 – Total de trabalhos selecionados
PLANFOR 3 2 1 6
PNQ 3 2 1 5
PRONATEC 9 2 1 12
Total geral 23
BULHÕES, Maria da Graça Artigo - Plano Nacional de Qualificação do São Paulo em 2004
Trabalhador-Planfor: acertos, limites e Perspectiva
desafios vistos do extremo sul
FRANZOI Naira Lisboa Artigo – Da “profissão de fé” ao “mercado Educação e Cultura 2006
em constante mutação”: Contemporânea
trajetórias e profissionalização de
desempregados
CÊA, Georgia Sobreira dos Santos Capítulo - A qualificação profissional como EdUnioeste 2007
instrumento de regulação social: do
PLANFOR ao PNQ
Nesse quadro são elencados seis estudos compreendendo o período de 2000 a 2008.
Quatro deles direcionados especificamente ao PLANFOR e dois deles comparando PLANFOR
e PNQ. Dois dos títulos pertencem à mesma autora, Franzoi (2003 e 2006), sendo que o
segundo se trata de artigo, desdobramento da tese anteriormente defendida. Observa-se ainda
a dissertação de Peixoto (2008). Tanto a tese quanto a dissertação foram realizadas em IES
públicas da região Sudeste do país.
MORAES, Eunice Léa de; Nota Técnica - A transversalização das Ipea - Instituto de 2004
GASSEN, Gladis Vera questões de gênero e raça nas ações de Pesquisa Econômica
qualificação social e profissional Aplicada
LESSA, Simone Eliza do Artigo - A formação via PNQ e inserção Revista Serviço Social 2011
Carmo produtiva dos CRAS: a reposição & Sociedade
empobrecida e emergencial da
qualificação de trabalhadores
No quadro acima optei por não reapresentar os estudos comparativos entre PLANFOR
e PNQ, já mencionados no anterior. Assim, foram elencados cinco estudos, realizados entre
2004 e 20217: três artigos, uma nota técnica e uma tese, também defendida em instituição
pública da região Sudeste do país.
CASSIOLATO, Maria Martha; Texto para Discussão - PRONATEC: Ipea - Instituto de 2014
GARCIA, Ronaldo Coutinho múltiplos arranjos e ações para ampliar Pesquisa Econômica
o acesso à educação profissional Aplicada.
DEITOS, Roberto Antonio; Artigo - Política de educação Revista Educação & 2015
LARA, Angela Mara de Barros; profissional no Brasil: aspectos Sociedade
ZANARDINI, Isaura Monica socioeconômicos e ideológicos para a
Souza implantação do Pronatec
MELO, T. G. S. de; MOURA, D. Artigo - Programa Nacional de Acesso Revista HOLOS 2016
H. ao Ensino Técnico e Emprego
(pronatec): expansão e privatização da
educação profissional
SILVA, D.; MOURA, D. H.; Artigo - a trajetória do PRONATEC e a Revista Trabalho 2018
DE SOUZA, L. M. reforma do ensino médio: algumas Necessário
relações com a política de educação
profissional mundial
LIMA, M.; Artigo - PRONATEC: para que e para Revista HOLOS 2018
MACIEL, S. L.; quem?
FERREIRA, A. P. R.;
DOS SANTOS, J. R..
RESULTADOS E DISCUSSÃO
O primeiro estudo encontrado, Fidalgo e Machado (2000), discute, com base nas
justificativas apresentadas pelos formuladores do PLANFOR, as limitações do que foi
apresentado como um novo conceito de EP para o país. Aponta as principais dificuldades para
a concretização das propostas formuladas e defende a necessidade de mudanças de padrão de
desenvolvimento social, o que seria o principal elemento de constituição de um paradigma
realmente novo de EP.
Tendo como ênfase o desenvolvimento do PLANFOR no Rio Grande do Sul, os dois
estudos seguintes, Franzoi (2003) e Bulhões (2004) avaliam, a partir de diferentes perspectivas,
o Plano Estadual de Qualificação do RS (PEQRS). O primeiro estudo é uma tese cuja pesquisa
envolveu trinta e quatro beneficiários do Plano, tendo como perspectiva de análise suas
trajetórias ocupacionais e formativas. A autora conclui que os alunos se beneficiaram do Plano
de acordo com os recursos anteriormente acumulados em suas trajetórias profissionais.
Segundo ela, o Plano foi incapaz de atender aqueles que estavam desempregados e que
dependiam da constituição de uma rede que articulasse formação e inserção no mercado de
trabalho. Revelando, assim, pouca eficácia para a profissionalização daqueles que seriam sua
população prioritária. Em artigo publicado na revista Educação e Cultura Contemporânea a
autora apresenta sinteticamente os resultados desse estudo, em Franzoi (2006).
Bulhões (2004), também no âmbito do PEQ/RS, analisa os três principais objetivos do
Plano: a democratização do acesso à qualificação profissional; a busca de um modelo de
desenvolvimento sustentado e uma nova forma de atuação do Estado. Para a autora, no que diz
respeito à democratização do acesso e à reformulação da atuação do Estado, o Plano pode ser
considerado bem sucedido. Suas fragilidades estariam ligadas ao objetivo mais amplo,
falhando em estabelecer um modelo de desenvolvimento sustentado. Segundo ela, tais
dificuldades fazem parte de um quadro de problemas que extrapolam o âmbito nacional e
expressam a crise econômica internacional iniciada com a reestruturação da economia
mundial, a partir dos anos 1970.
Em relação aos trabalhos que tratam do Plano Nacional de Qualificação – PNQ,
instituído pelo Governo Lula, em 2003, trato inicialmente de uma nota técnica, produzida por
Moraes e Gassen (2004), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – Ipea. O texto aborda
as categorias de gênero e raça na qualificação social e profissional, do PNQ. Os autores
apontam que sua relevância no Plano está diretamente associada ao trabalho desenvolvido pela
Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (Seppir) e pela Secretaria
Especial de Políticas para a Mulher (SPM), ambas criadas em 2003. Entre as inovações
propostas no PNQ, os autores destacam o fato de que nele a qualificação profissional é definida
como uma construção social que expressa os conflitos inerentes ao mundo do trabalho.
Imprimindo, assim, um caráter social e participativo ao modelo de desenvolvimento.
Toledo e Rummert (2009), buscam discutir as ações de qualificação profissional,
oferecidas aos trabalhadores por meio do PNQ, contextualizado com base nas transformações
no mundo do trabalho brasileiro, estabelecidas desde a década de 1990. Os autores também
buscam situar o PNQ em suas relações com a reorganização internacional do capitalismo.
Analisam como a disseminação da premissa de que não haveria falta de empregos e sim falta
de pessoas qualificadas às vagas existentes, impactaria a formulação de programas e cursos de
qualificação em massa de trabalhadores, incutindo-lhes a auto responsabilização na inserção
no mercado de trabalho. No encerramento, apresentam dados do PlanTeQ, de Minas Gerais,
exemplificando o funcionamento do PNQ naquela unidade federativa.
Lessa (2011), aborda as fragilidades do processo de inserção produtiva, executada nos
Centros de Referência da Assistência Social (Cras), vinculados ao Ministério do
Desenvolvimento Social e do Combate à Fome. A autora aponta para as contradições da
qualificação de trabalhadores em ambos os programas, uma vez que, segundo o estudo, tanto
no PNQ quanto nos Cras, a capacidade de inserção ao mercado de trabalho formal é mínima.
Porceli (2012), em sua tese, analisa as correlações entre o PNQ e as políticas públicas
de incentivo à economia solidária em nível nacional, tendo como foco empírico o caso da Rede
Abelha, do Rio Grande do Norte. Os resultados apontam que, apesar de as metodologias de
ensino apresentarem inovações, estas não estariam associadas a um processo de formação
permanente, não conseguindo fomentar, por exemplo, a ampliação da escolaridade dos
participantes ou o caráter autogestionário dos empreendimentos.
O artigo de Ferraz, Oliveira e Crócomo (2017) analisou o impacto do PNQ sobre a
renda dos trabalhadores da cidade de Piracicaba/SP. Comparando a renda de um grupo de
trabalhadores qualificados com outro que não frequentou o Programa o estudo comprovou que
os primeiros foram beneficiados por melhores empregos, permaneceram por mais tempo no
mercado de trabalho e aumentaram a renda frente a indivíduos com características idênticas.
Nesse levantamento também encontrei dois estudos tratando de ambas as políticas,
PLANFOR e PNQ: o artigo de Cêa (2007) e a dissertação de Peixoto (2008). No primeiro caso,
a autora discute a qualificação profissional como instrumento de regulação social e as
diferenciações e continuidades em ambos os programas. Conclui que a transição do PLANFOR
para o PNQ mantém inalterado o sentido da qualificação profissional como uma política de
Estado, vinculada às relações entre capital e trabalho, aprofundado a EP como instrumento de
legitimação do financiamento público da reprodução ampliada do capital. No segundo caso,
Peixoto (2008) buscou analisar os nexos existentes entre os determinantes político-ideológicos
e a formulação dessas políticas. Esse estudo também chega a uma conclusão semelhante ao
anterior, de que a qualificação profissional proporcionada por ambas as políticas se desenvolve
dentro de um processo contraditório entre capital e trabalho, em que a própria lógica do sistema
impõe dificuldades e limitações ao seu alcance.
Em relação ao PRONATEC observei uma ampliação do número de trabalhos, mas a
continuidade de certas opções analíticas já percebidas nos estudos do PLANFOR E DO PNQ.
A principal delas é a crítica relacionada às contradições da política no interior das relações de
trabalho capitalistas e as implicações do neoliberalismo nas limitações no âmbito de atuação
do Estado. Assim, os estudos de Lima (2012) e Castioni (2013) estudam esse Programa no
contexto das políticas do Governo Dilma. O primeiro trata das diretivas contidas no
PRONATEC, PNE e novas DCNEMs, apontando que a expansão da rede federal de EP e o
acesso ao EM como direito social está ameaçado por uma estratégia privatizante de
atendimento às demandas econômicas e pressões sociais por mais vagas no Ensino Técnico. O
segundo estudo, problematiza a multiplicação de ações voltadas à EP que apresentam frágil
coordenação no âmbito do governo federal, dificultando assim o melhor aproveitamento em
relação a elas por parte dos trabalhadores.
Publicados em 2014 encontrei dois estudos sobre o tema: o texto de discussão elaborado
por Cassiolato e Gracia, para o Ipea e a dissertação de Ramos. O primeiro analisa os arranjos
de implementação do PRONATEC no âmbito do Estado e seus efeitos sobre os resultados
observados. O segundo também discute esse Programa como política social de Estado,
buscando apontar tanto para sua historicidade quanto para suas contradições contemporâneas.
A dissertação de Santiago (2015) busca analisar as proposições e o alcance da
qualificação profissional no âmbito do Programa, concluindo que, assim como outras políticas,
o PRONATEC não garante a inserção do trabalhador em postos de trabalho socialmente
protegidos, responsabilizando os trabalhadores pelo desemprego ou por subempregos em
situações precarizadas. O artigo de Deitos, Lara e Zanardani (2015) aborda os argumentos
socioeconômicos, político-educacionais e ideológicos que embasam a implantação do
Programa, apontando para a produção de discursos de que levam os trabalhadores a internalizar
como condição individualizada sua qualificação, que se constitui como uma condição
unilateral para o seu ingresso e permanência no processo produtivo.
O artigo de Melo e Moura (2016) enfatiza a permanência, no âmbito do PRONATEC,
do processo de expansão e de privatização da EP devido à elevada oferta, por meio de parcerias
público privadas, de cursos de curta duração, com pouca complexidade. O que contribui para
a baixa qualidade da formação oferecida à população pouco escolarizada.
O artigo de Silva, Moura e Souza (2018) trata das relações entre a trajetória do
PRONATEC e a reforma do ensino médio. Para os autores, essa relação se estabelece em
consonância com as políticas de EP a nível mundial, as quais consolidam a dualidade estrutural
da educação. No mesmo ano, o artigo de Lima, Maciel, Ferreira e Santos (2018) interroga:
PRONATEC: para que e para quem? Concluindo que o Programa promoveu a oferta de
trabalho simples com repasse de recursos para instituições privadas e sistema S, contribuindo,
assim, para a redução do modelo integrado na rede federal e para a ocupação de postos
informais.
O artigo de Santos, Pereira, Negreiros et all (2020) é o único desse levantamento que
trata do PRONATEC CAMPO, abordando possibilidades e desafios a partir da prática do
psicólogo educacional na Educação Profissional e Tecnológica. Trata-se de um estudo sobre o
curso de auxiliar técnico em agropecuária, no Campus Araguatins, em Tocantins (IFTO).
Apontou para o grande desafio dos psicólogos, seja por sua formação inicial ou continuada,
em estabelecer um diálogo com as populações campesinas.
Finalizando esse levantamento, o artigo de Silva e Moura (2022) investigou o
cumprimento dos objetivos do PRONATEC bem como as implicações de sua implementação,
avaliando o processo com dados de 2011 a 2017. Constatou que, de 2011 a 2014, ocorreu
significativa ampliação da oferta dos cursos de formação inicial e continuada de trabalhadores
– FIC; entre 2015 e 2016, observou o declínio na oferta do Programa; e, a partir de 2017,
constatou que a ênfase foi dada aos cursos técnicos como base para a implementação da
Reforma do Ensino médio. Conclui que o em sua trajetória atual, o Programa tem contribuído
para o acirramento da dualidade estrutural da educação brasileira.
CONCLUSÕES
Com base nessa aproximação aos textos, percebo algumas recorrências. Em síntese: as
análises destacam que essas políticas se inserem no contexto de reorganização internacional
do capitalismo; os programas e cursos de qualificação em massa de trabalhadores contribuem
para a transferência de recursos públicos à iniciativa privada e ao Sistema S, ampliando a noção
mercadológica da EP. Os dados indicam ainda uma predominância de cursos rápidos,
contribuindo para a inserção precarizada no trabalho informal, dificultando a expansão da EP
integrada ao ensino médio e aprofundando ainda mais o dualismo estrutural historicamente
presente na educação brasileira. Dentre as questões ideológicas observei a difusão do discurso
de responsabilização dos trabalhadores por sua formação e empregabilidade. Quanto às
inovações e possibilidades relacionadas às metodologias notei, especialmente em relação ao
PNQ e ao PRONATEC, as concepções de qualificação profissional como construção social
que não se restringem a um processo educativo técnico e sim como um direito de cidadania.
A partir desses aportes, penso que novos estudos sobre essas políticas poderiam
aprofundar questões conceituais discutindo, por exemplo, empreendedorismo e auto
empresariamento, em seus nexos com a racionalidade neoliberal. Também seria possível
propor aprofundamentos sobre disputas em torno do Estado e seus desdobramentos na
elaboração, implantação e desenvolvimento de políticas. Mas, em todos os casos, acredito que
abordagens que priorizem a historicidade poderiam contribuir para a superação de visões
idealizadas e permitir maior aprofundamento sobre os avanços, possibilidades, tensões e
contradições micro e macrológicas ligadas à EP e às suas políticas.
REFERÊNCIAS
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