Capítulo 4
A intermodalidade e a tradução na língua de sinais
Prof.Ms. Viviane Barbosa Caldeira Damacena
Viviane Barbosa Caldeira Damacena é graduada em Letras Português/Inglês pela Universidade
de Uberaba, pós-graduada em Educação Especial pela mesma instituição. Mestre em Letras
pelo programa Profletras pela Universidade Federal do Triângulo Mineiro - UFTM, e
atualmente é doutoranda pelo programa Estudos Linguísticos da Universidade de Uberlândia -
UFU. É professora de língua portuguesa, intérprete de Libras e professora de língua portuguesa
como L2 para surdos, tendo experiência ministrando cursos de capacitação para professores,
sobre língua portuguesa, aquisição de língua materna e língua não materna, além de ter
experiência em produção de materiais didáticos.
A intermodalidade na tradução da língua de sinais
A tradução, como já visto anteriormente, pode ser realizada abordando
diversas teorias e, quando considera-se a tradução de língua oral para a língua de
sinais, trabalha-se de forma diferenciada, considerando, além das abordagens de
línguas orais, abordagens específicas para traduções que envolvem línguas de
modalidades diferentes.
Neste caso, refere-se à tradução intermodal. Como já visto anteriormente,
Segala e Quadros (2015) afirmam que Jakobson (1959) propõe três tipos de tradução:
“1. Tradução intralingual ou reformulação, a interpretação da
língua para a mesma língua (por exemplo, o texto de adulto para
texto infantil).
2. Tradução interlingual ou tradução propriamente dita, que é
definida como a interpretação de uma língua para outra; ou seja,
uma interpretação de signos verbais de uma língua para outra
língua.
3. Tradução intersemiótica ou transmutação que é definida como
a interpretação de um sistema de código para outro por meio de
signos de sistemas não-verbais.” (p. 358)
Percebe-se que, na distinção elaborada por Jakobson sobre os tipos de
tradução, não está inclusa a tradução intermodal, porém, em sua dissertação de
mestrado, afirma que, embora o termo “tradução intermodal” seja equivalente à
“tradução interlingual”, porém, apenas esta definição não demonstra ser o suficiente
ao lidar com a língua de sinais, pois, conforme afirma, “na tradução de Língua
Portuguesa para Libras, a tradução interlingual não traduz a especificidade envolvida,
pois estamos diante de línguas em diferentes modalidades, portanto Intermodal.”
(SEGALA, 2010, p. 28) .
A Tradução Intermodal, então, é proposta por se tratar de uma tradução
envolvendo línguas de modalidades distintas, porém, "esse termo é uma expressão
que pode definir esse tipo de tradução relacionando uma língua oral-auditiva a uma
língua cinésico/visual ou visual/espacial” (SEGALA, 2010, p. 28)
Quadros e Segala (2015) definem a Tradução Intermodal, ainda, como “uma
tradução que envolve línguas, ou seja, sistemas verbais (tradução interlingual) e
outros sistemas não-verbais (tradução intersemiótica).” (p. 359)
Tendo essas definições, precisa-se entender, também, que a tradução
envolvendo a língua de sinais não pode ser rotulada apenas como intermodal, visto
que envolve, também, o uso de diferentes signos, como o uso de imagens e vídeos,
e, assim, é necessário considerar, também, a tradução intersemiótica.
Ainda considera-se as definições propostas por Quadros e Segala (2015), que
propõe duas características principais em relação à Tradução Intermodal,
considerando como
“a) a ideia de que os sistemas de tradução intermodal
acompanham, em linhas gerais, os princípios, abordagens e
técnicas já desenvolvidas para os sistemas intramodais (de uma
língua oral-auditiva para outra língua oral-auditiva); b) a ideia de
que os sistemas de tradução intermodal se subdividem, na
verdade, em dois subsistemas: (1) o de tradução de uma língua
oral-auditiva para um sistema de escrita da língua visual-
espacial; e (2) o de síntese de sinais (visual-espacial) a partir
desse sistema de escrita, que envolve a ideia de que a
complexidade da tarefa está evidentemente relacionada ao
sistema de escrita da língua visual-espacial adotado.” (p. 360).
Assim, ao considerar a Tradução Intermodal em relação à Libras/Língua
Portuguesa, é necessário considerar alguns pontos específicos, percebendo as
singularidades e particularidades das línguas de sinais. Assim, percebe-se que, ao se
tratar de uma Tradução Intermodal, o tradutor, diferentemente de um momento
interpretativo, dispõe de um tempo para que possa realizar a tradução do texto fonte,
isto é, o profissional recebe o texto escrito em língua portuguesa podendo estudá-lo
antes de realizar a tradução. Porém, mesmo tendo estudado o texto anteriormente,
no momento da gravação em si, percebe-se que há marcas bem específicas da
tradução, pois, por mais que o texto seja “subscrito” em língua de sinais anteriormente,
o ato tradutório oral acontece com características interpretativas.
Vale citar, também, que a tradução é feita de forma visual, através de
gravações de vídeos e, assim, a imagem e o papel do tradutor fica evidente no
processo de tradução, demonstrando, assim, a autoria da tradução, pois o profissional
fica aparente no momento da tradução, dando visibilidade à sua pessoa e sua
imagem. Desta forma, torna-se essencial, também, que o tradutor tome parte de forma
ativa e performática, sendo responsável de forma direta.
Assumindo esse papel ativo, o tradutor, para que sua atuação realmente seja
completa, o profissional precisa ser desenvolto, performático, e, principalmente, ter
afinidade com a câmera e com gravações, para que, assim, a sinalização seja mais
natural e clara naquele momento.
Além da tradução em formato de gravação em vídeo, um outro tipo de tradução
que envolve a língua de sinais é a tradução em SignWritting que é a escrita específica
da língua de sinais. Esse tipo de tradução não é muito utilizada quando percebe-se
que o surdo apresenta fluência maior na língua de sinais oral do que na língua de
sinais escrita.
A Tradução Intersemiótica
Ao considerar a Tradução Intersemiótica, Segala (2010) afirma que
“Para que se realize uma tradução intersemiótica — entre
diferentes sistemas de signos — torna-se relevante observar as
relações existentes entre os sentidos, os meios e os códigos
envolvidos no processo. A tradução de pensamentos em signos
necessita de canais e linguagens que viabilizem socializar esses
pensamentos, permitindo o intercâmbio de mensagens entre o
homem e o mundo à sua volta. Cada sistema de signos constitui-
se de acordo com sua especialidade característica,
que possibilita sua articulação em conjunto com os órgãos
emissores-receptores (sentidos humanos). Estes produzem as
mensagens que reproduzem os sentidos. É pelos sentidos que
os homens se comunicam entre si.” (p. 29)
Assim, ao trabalhar com a Tradução Intersemiótica, o profissional trabalha com
signos distintos, porém, apenas a fluência nas duas línguas não é o suficiente para
que a tradução seja bem realizada.
O tradutor intermodal e intersemiótico precisa, também, de ter um
conhecimento cultural tanto na língua alvo quanto na língua fonte. A multiculturalidade
do tradutor é essencial para que ele possa transitar nas duas línguas, reconhecendo
a variedade de signos e realizar as melhores escolhas para a tradução do texto escrito
em língua portuguesa.
Desta forma, a formação e o papel do tradutor torna-se essencial no momento
tradutório, tanto em relação à sua imagem quanto em relação à mensagem do texto
fonte. Esse papel será analisado posteriormente, em um capítulo específico para tal.
Referência Bibliográfica
SEGALA, R.R.; QUADROS, R. M. Tradução intermodal, intersemiótica e
interlinguística de textos escritos em português para a libras oral. Cad. Trad. v, 35, nº
especial 2, Florianópolis, jul-dez 2015, p. 354-386
SEGALA, Rimar. Tradução intermodal e intersemiótica/interlinguística: português
escrito para a língua de sinais. Dissertação (Mestrado em Estudos da Tradução)
Universidade Federal de Santa Catarina. 2010.