José Saramago
“Memorial de convento”
Rafael Jesus 3ºGei
Índice
Contextualização literária;
Biobibliografia do autor;
Título e as linhas de ação;
Caracterização das personagens.
Relação entre elas;
O tempo histórico e o tempo da narrativa;
Visão crítica;
Dimensão simbólica;
Linguagem, estilo e estrutura.
Contextualização literária
A contextualização literária do memorial do convento retrata a história portuguesa do
reinado de D. João V (século XVIII). Procura estabelecer, em simultâneo, com as
circunstâncias da atualidade. Relata essa época luxuosa e de grandeza da corte de Portugal
que procura imitar a corte francesa de Luís XIV.
Biobibliografia
José Saramago nasceu em Azinhaga de Ribatejo no dia 16 de novembro de 1922 e morreu
em Tías, Lanzarote, a 18 de junho de 2010.
Foi um escritor português de grande importância. Destacou-se como romancista,
teatrólogo, poeta e contista e ainda recebeu o Prêmio Nobel de Literatura, o Prêmio
Camões.
José Saramago estudou numa escola técnica onde concluiu o curso de serralheiro mecânico.
Trabalhou como serralheiro, foi funcionário público na área da saúde e da Previdência
Social.
José Saramago estreou-se na literatura com o romance “Terra do Pecado” em 1947.
Foi ainda diretor literário de uma editora, jornalista e tradutor. Colaborou com vários jornais
e revistas, entre eles, o Diário de Lisboa, A Capital e a Seara Nova, onde exerceu a função de
cronista.
Como romancista, José Saramago recebeu o “Prêmio Cidade de Lisboa” com “Levantando
do Chão” (1980), que se tornou melhor vendedor internacional.
José Saramago desenvolveu uma espécie de historicismo fantástico onde sua imaginação,
junta a um sem fim amor à vida, em cada pormenor da verdade humana ao longo do tempo,
reelabora fatos da história de sua terra, como nas obras: Memorial do Convento (1982), O
Ano da Morte de Ricardo Reis (1984), A Jangada de Pedra (1988) e História do Cerco de
Lisboa (1989).
Título e as linhas de ação
1ª linha de ação: A do rei D. João V
Engloba todas as personagens da família real e relaciona-se com a segunda linha de ação,
sendo que a promessa do rei é que vai conceder a construção do convento. Esta linha tem
como espaço principal a corte e, depois, o convento, na altura da sua inauguração, no dia de
aniversário do rei.
2ª linha de ação: A dos construtores do convento
Esta segunda linha de ação vai ganhando relevo e une a primeira à terceira: se o convento é
obra e promessa do rei, é ao sacrifício dos homens aqui representados por Baltasar e
Blimunda, que ela se deve. Glorificam-se aqui os homens que se sacrificam, que passam por
dificuldades e que depois as vencem.
3ª linha de ação: A de Baltasar e Blimunda
Nesta linha de ação relata-se uma história de amor e o modo de vida do povo português.
Baltasar e Blimunda são quem constroem a passarola e Baltasar é também depois o
construtor do convento. Constituindo-se paradigma da força que faz mover Portugal: a força
do povo.
4ª linha de ação: A de Bartolomeu Lourenço
Esta linha relaciona-se com o sonho e o desejo de construir uma máquina voadora. Articula-
se com a primeira e segunda linhas de ação, porque o padre é o mediador entre a corte e o
povo. Também se enquadra na terceira linha, dado que a construção da passarola resulta da
força das vontades que Blimunda tem de recolher para que a passarola voe e a força física
necessária pela parte de Baltasar.
Pela análise das sequências narrativas da obra, verifica-se a existência de um plano ficcional
que se cruza com a História, uma vez que a construção da passarola, evento a que a História
se refere, acaba por ser ficcionada quando se afirma que se moverá pela força das vontades
que Blimunda recolhe.
Caracterização das personagens
D. João V
Representa o poder real absolutista que condena uma nação a servir a sua religiosidade
fanática e a sua vaidade. Amante dos prazeres humanos, a figura real é construída através
do olhar crítico do narrador, de forma multifacetada:
É o devoto fanático que submete um país inteiro ao cumprimento de uma promessa
pessoal (a construção do convento, de modo a garantir a sucessão) e que assiste aos
autos-de-fé;
É o marido que não evidencia qualquer sentimento amoroso pela rainha,
apresentando nesta relação uma faceta quase animalesca, enfatizado pela utilização
de vocábulos que remetem para esta ideia;
É o megalómano que desvia as riquezas nacionais para manter uma corte dominada
pelo luxo, pela corrupção e pelo excesso;
É o rei vaidoso que se equipara o Deus nas suas relações com as religiosas; é o
curioso que se interessa pelas invenções do padre Bartolomeu de Gusmão;
É o esteta que convida Domenico Scarlatti a permanecer em Portugal;
É o homem que teme a morte e que antecipa a sua imortalidade, através da
sagração do convento no dia do seu quadragésimo primeiro aniversário.
Relação entre as personagens
O tempo histórico e o tempo da narrativa
Tempo histórico
Início do século XVIII, reinado de D. João V, época caracterizada pelo absolutismo político e
pela ação repressiva da Inquisição.
Tempo da narrativa
A ação decorre entre 1711 e 1739, ao longo de 28 anos há um aparente desprezo pelo
tempo cronológico, dado que para o autor história é ficção.
Visão crítica
Tendo como pretexto a construção do convento de Mafra, Saramago, adotando a
perspetiva de um narrador distanciado do tempo da diegese, apresenta uma visão crítica da
sociedade portuguesa da primeira metade do século XVIII. É neste sentido que Memorial do
Convento transpõe a classificação de romance histórico, uma vez que não se trata de uma
mera reconstituição de um acontecimento histórico, mas é antes um testemunho
intemporal e universal do sofrimento de um povo sujeito à tirania de uma sociedade em que
só as vontades do rei prevalecem o resto é nada (XXII).
Logo desde o início do romance é visível o tom irónico e, até mesmo, sarcástico do narrador
relativamente à hipotética esterilidade da rainha e à infidelidades do rei. Esta atitude irónica
do narrador mantém-se ao longo da obra, denunciando o comportamento leviano do rei, a
sua vaidade desmedida e as promessas exageradas de que resulta o sofrimento extremo de
homens que não fizeram filho nenhum à rainha e eles é que pagam o voto, que se lixam
(XIX).
O clero, que exerce o seu poder sobre o povo ignorante através da instauração de um
regime repressivo entre os seus seguidores e que constantemente quebra o voto de
castidade, também não escapa ao olhar crítico e sarcástico do narrador. A atuação da
Inquisição que, à luz da fé cristã, manipula os mais fracos é de igual modo criticada ao longo
do romance, nomeadamente, através da apresentação de diversos autos-de-fé e uma crítica
às pessoas que dançam em volta das fogueiras onde se queimaram os condenados.
Assim, é sobretudo as personagens de estatuto social mais privilegiado que são o alvo de
maiores críticas por parte do narrador que denuncia as injustiças sociais, a omnipotência
dos poderosos e a exploração do povo – evidenciada nas más condições de trabalho dos
operários do convento de Mafra; ao mesmo tempo que mostra empatia face aos mais
desfavorecidos, cujo esforço elogia e enaltece.
A crítica estende-se, ainda: à Justiça portuguesa que castiga os pobres e não penaliza os
ricos, ao facto de se desprezar os artífices e os produtos nacionais em defesa dos
estrangeiros, bem como ao adultério e à corrupção generalizados.
Em suma, Memorial do Convento constitui acima de tudo uma reflexão crítica ao
problematizar temas perfeitamente adaptáveis à época contemporânea do autor,
conducente a uma releitura do passado e à correção da visão que se tem da História.
Dimensão simbólica
Esta obra está repleta de simbologia. Tudo nela são elementos simbólicos, desde as ações,
as personagens, os espaços, os números e elementos como o Sol, a Lua, o sangue, o fogo, a
passarola… Até mesmo o título da obra é uma simbologia!
“Memorial do Convento” remete para as memórias da construção do convento e tudo o que
aconteceu dessa construção. Por exemplo, o Convento de Mafra, mandado construir por D.
João V, simboliza a ostentação régia, a opressão e a vaidade dos poderosos. Representa o
sacrifício dos operários que construíram o monumento, a exploração e miséria do povo que
nele trabalhou. A personagens de Blimunda, com o seu poder de visão, compreende as
coisas sobre a vida, a morte, o pecado e o amor, e simboliza, na obra, olhar da “História”
que o narrador exercita, denunciando a moral duvidosa, os excessos da corte, o
materialismo, hipocrisia do clero, as injustiças da Inquisição, o terror, o obscurantismo de
uma época, a miséria e as diferenças sociais.
O número sete, que muitas vezes aparece em Memorial do Convento, também carrega
alguma simbologia. Sete são as vezes que Blimunda passou em Lisboa, em demanda de
Baltasar. Este número regula os ciclos da vida e da morte na Terra e pode ligar-se à ideia de
felicidade, de ordem moral e espiritual.
O Sol, associado a Baltasar e ao povo, sugere a ideia de vida, de renovação de energias (o
povo trabalha até à exaustão no convento, Baltasar constrói uma máquina). Como o Sol,
que todos os dias tem de vencer os guardiães da noite, também Baltasar vence as forças
complicadas da ignorância e da intolerância ao voar.
A Lua, símbolo do ritmo biológico da Terra, traduz a força vital que é representada pelas
vontades recolhidas por Blimunda para fazer voar a passarola. A passarola traduz a
harmonia entre o sonho e a sua realização. Graças ao sonho, foi possível juntar a ciência, o
trabalho artesanal, a magia e a arte, para fazer a passarola voar. Representa todo o
progresso, a liberdade, a alternativa a um espaço de repressão, intolerância e violência.
Linguagem e estilo
•Ultrapassa o simples estatuto de omnisciente característico do romance histórico;
•Conduz a história a seu bel-prazer;
•Empenhado na crítica social, ligando o passado com o presente;
•Intertextualidade com outras obras e autores, com referências a : Padre A. Vieira; Pessoa e
Camões;
•Mudança repentina do discurso de 3ªpessoa para o de 1ªpessoa (proximidade com as
personagens, embora não seja uma);
•Antimonárquico;
•Juízos pessoais irónicos, mas também simpáticos;
Estrutura da obra
A análise de Memorial do Convento permite constatar a existência de duas narrativas
simultâneas: uma de carácter histórico – a construção do convento de Mafra – e outra
ficcionada – a construção da passarola que engloba a história de amor entre Baltasar e
Blimunda.
A ação principal diz respeito à concretização do plano de D. João V – a edificação do
convento. Mas nesta encaixam-se outras ações, constituindo diferentes linhas de ação que
se articulam com a primeira.
Estrutura Interna
A estrutura interna desta obra é composta por 25 capítulos, estes não estão numerados ou
titulados.
Estrutura externa
A intriga situa-se na 1º metade do século XVIII e desenvolve-se várias linhas de ação.