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Censo Psicologia Vol2

Enviado por

Tauily Taunay
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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VOLUME 2

CONDIÇÕES DE TRABALHO,
FAZERES PROFISSIONAIS E
ENGAJAMENTO SOCIAL

QUEM
FAZ A
PSICOLOGIA
BRASILEIRA?
Um olhar sobre o presente
para construir o futuro
Parceria:
VOLUME 2
CONDIÇÕES DE TRABALHO,
FAZERES PROFISSIONAIS E
ENGAJAMENTO SOCIAL

QUEM
FAZ A
PSICOLOGIA
BRASILEIRA?
Um olhar sobre o presente
para construir o futuro
Novembro de 2022
© 2022 Conselho Federal de Psicologia
É permitida a reprodução desta publicação, desde que sem alterações e citada a fonte.

Disponível também em: [Link]

ORGANIZAÇÃO:
Antonio Virgílio Bittencourt Bastos

Realização:
Conselho Federal de Psicologia

Parceria:
Associação Brasileira de Psicologia Organizacional e do Trabalho

CensoPsi: concepção e realização da pesquisa

GT 83 DA ANPEPP: configurações do trabalho na contemporaneidade


e a Psicologia Organizacional e do Trabalho

Coordenação Geral:
Antonio Virgílio Bittencourt Bastos

Coordenação Adjunta:
Hugo Sandall

PESQUISADORES: ESTAGIÁRIOS (apoio na coleta de dados): Projeto gráfico:


Antonio Virgílio Bittencourt Bastos Ana Vitoria de Avila Rigo Diego Soares da Silva
Adriano de Lemos Alves Peixoto Kamilla Vieira da Silva
Daiane Rose Cunha Bentivi Maria Rosa Cella dal Chiavon Diagramação:
Fabiana Queiroga Ítalo Costa da Silva Diego Soares da Silva e
Gardênia da Silva Abbad Helena Cristina de Souza Tatiany dos Santos Fonseca
Hugo Sandall Ícaro Nunes de Oliveira
Juliana Barreiros Porto Itenilde Bezerra de Lima Rêgo Revisão e normalização:
Katia Elizabeth Puente-Palacios Raquel Santos de Souza MC&G Design Editorial
Luciana Mourão Cerqueira e Silva
Maria Nivalda de Carvalho-Freitas

APOIO NA PREPARAÇÃO
E ORGANIZAÇÃO DO
BANCO DE DADOS
Débora Severo Sica Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
Flavia Noro de Lima
Icléia Santos Dorea Soares C755 Conselho Federal de Psicologia (Brasil) .
Letícia Duarte de Cerqueira Quem faz a psicologia brasileira? : um olhar sobre o presente
para construir o futuro : formação e inserção no mundo do trabalho : volume II :
Nana Caroline Cunha De Jesus condições de trabalho, fazeres profissionais e engajamento social / Conselho
Federal de Psicologia. — 1. ed.— Brasília : CFP , 2O22.
288 p. ; 23 cm.

Inclui bibliografia.
ISBN: 978-65-89369-24-0

1. Psicólogos – Formação. 2. Psicólogos – Treinamento. 3. Psicologia


aplicada. 4. Psicologia - Estudo e ensino. I. Título.

CDD22: 150.981

Bibliotecária: Priscila Pena Machado CRB-7/6971


CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE
PSICOLOGIA ORGANIZACIONAL
E DO TRABALHO (SBPOT)
Coordenação Geral Estratégica
Emanuelle Santos Silva Gestão 2022-2024

Coordenação Geral Executiva Presidente


Rafael Menegassi Taniguchi Juliana B. Porto

Gerência de Comunicação Vice-Presidente


Marília Mundim - Gerente Hugo Sandall

Equipe: 1ª Tesoureira
André Martins, Augusto Henriques, Priscilla Atalla, Raphael Gomes e Thais Ribeiro Juliana Camilo

2ª Tesoureira
XVIII Plenário – Gestão 2019/2022 Júlia Gonçalves

DIRETORIA 1ª Secretária
Silvia Amorim
Presidente
Ana Sandra Fernandes Arcoverde Nóbrega 2ª Secretária
Eveli F. de Vasconcelos
Vice-Presidente
Anna Carolina Lo Bianco Clementino
Gestão 2020-2022
Secretária
Losiley Alves Pinheiro - Presidentes:
(a partir de 20 de maio de 2022) Maria Nivalda de Carvalho-Freitas
Daiane Rose Cunha Bentivi
Tesoureira
Norma Celiane Cosmo 1ª Tesoureira
Melissa Machado de Moraes
CONSELHEIROS EFETIVOS
Robenilson Moura Barreto - Secretário Região Norte 2ª Tesoureira
Alessandra Santos De Almeida - Secretária Região Nordeste Sabrina Cavalcanti Barros
Marisa Helena Alves - Secretária Região Centro Oeste
Dalcira Pereira Ferrão (até 11 de setembro de 2021) - Secretária Região Sudeste 1ª Secretária
Neuza Maria De Fátima Guareschi - Secretária Região Sul Elisa Maria Barbosa de Amorim-Ribeiro
Antonio Virgílio Bittencourt Bastos - Conselheiro 1
Maria Juracy Filgueiras Toneli (até 11 de setembro de 2021) - Conselheiro 2 2º Secretário
Fabián Javier Marin Rueda (até 5 de fevereiro De 2021) - Secretário Raphael Henrique Castanho DiLascio
Izabel Augusta Hazin Pires (Secretária de 6 de fevereiro de 2021 até 19 de maio de 2022)

CONSELHEIROS SUPLENTES
Katya Luciane De Oliveira
Izabel Augusta Hazin Pires
Rodrigo Acioli Moura
Adinete Souza Da Costa Mezzalira - Região Norte
Maria De Jesus Moura - Região Nordeste
Tahina Khan Lima Vianey - Região Centro Oeste
Célia Zenaide Da Silva - Região Sudeste
Marina De Pol Poniwas - Região Sul
Ana Paula Soares Da Silva
Isabela Saraiva De Queiroz - (até 11 de setembro de 2021)
Índice
apresentação 06

I O QUE FAZEMOS

12 O Trabalho em Psicologia:
em que áreas de atuação nos inserimos?
Antonio Virgílio Bittencourt Bastos, Isabel Fernandes de Oliveira e Icléia Santos Dorea Soares
13

13 Os processos de trabalho em psicologia: uma nova


estratégia de descrever o nosso campo de atuação profissional 32
Antônio Virgílio Bittencourt Bastos, Haiana Maria de Carvalho Alves e Liberalina Santos de Souza Gondim

14 O Exercício profissional em Psicologia:


práticas e atividades que o caracterizam
Antônio Virgílio Bittencourt Bastos, Katia Puente-Palacios e Rayana Santedicola Andrade
50

15 A Psicologia e as práticas
integrativas e complementares 76
Alexandre Franca Barreto, Ana Cristina de Sá e Tahiná-Khan Lima Vianey

16 O QUE AS(OS) PSICÓLOGAS(OS) TÊM A DIZER SOBRE


SUAS PRÁTICAS DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA
Katya Luciane de Oliveira, Ana Cristina Resende, Ana Paula Porto Noronha, Caroline Tozzi Reppold,
90

Daniela Sacramento Zanini, Evandro Morais Peixoto, Josemberg Moura de Andrade, Lucila Moraes
Cardoso e Monalisa Muniz

17 Sobre teorias,
coerências, dispersão 104
Ana Maria Jacó-Vilela, Waldomiro J. Silva Filho e Maria Virgínia M. Dazzani

II CONDIÇÕES DE TRABALHO

18 CONDIÇÕES DE TRABALHO – INDICADORES DE


PRECARIZAÇÃO NO EXERCÍCIO DA PSICOLOGIA
Katia Puente-Palacios e Antônio Virgílio Bittencourt Bastos
117
19 Trabalho decente: reflexões a partir da
percepção de profissionais da Psicologia
Juliana B. Porto e Fabiana Queiroga
136

20 O impacto de novas tecnologiaS


na atuação profissional 150
Adriano de Lemos Alves Peixoto e Daiane Rose Cunha Bentivi

21 PSICÓLOGAS(OS) CLÍNICAS(OS) BRASILEIRAS(OS) EM


TRABALHO REMOTO:TECNOESTRESSE, DEMANDAS E RECURSOS 170
Marina Greghi Sticca, Mary Sandra Carlotto, Maria do Carmo Fernandes e Lilia Aparecida Kanan

22 Condições de trabalho de psicólogas e


psicólogos durante a pandemia de coronavírus 184
Evandro Morais Peixoto, Katya Luciane de Oliveira, Lucila Moraes Cardoso, Antônio Virgílio Bittencourt Bastos

III COMPROMISSO E ENGAJAMENTO SOCIAL

23 Engajamento em questões sociais


no exercício profissional da Psicologia
Amalia Raquel Pérez-Nebra e Maria Nivalda de Carvalho-Freitas
201

24 Direitos humanos e a
Psicologia no Brasil 214
Maria de Jesus Moura, Wanderson Vilton N. da Silva e Robenilson Moura Barreto

25 A Psicologia brasileira e a defesa da democracia:


cenários de práticas no Estado democrático de direito
Wanderson Vilton N. da Silva
232

IV AVALIAÇÃO E PERSPECTIVAS

26 Avaliação da profissão
e perspectivas futuras 253
Jairo Eduardo Borges-Andrade e Adriano de Lemos Alves Peixoto

27 CENSO DA PSICOLOGIA BRASILEIRA: BASE PARA POLÍTICAS


E AÇÕES DO SISTEMA CONSELHO DE PSICOLOGIA
XVIII Plenário do Conselho Federal de Psicologia
268
Apresentação

APRESENTAÇÃO

Censo da Psicologia Brasileira: Autoconhecimento como Motor de Transformação

A realização do CensoPsi foi um compromisso mais intensamente recursos tecnológicos que ga-
assumido pela atual gestão do XVIII Plenário, es- rantissem a continuidade dos serviços prestados à
tando prevista na plataforma da chapa e no nosso população. No entanto, para além de compreender
planejamento estratégico. Ele se insere nos marcos os impactos da conjuntura atual, o CensoPsi nasce
comemorativos dos 60 anos de regulamentação da com a proposta de ser um instrumento para acom-
nossa profissão e, assim, oferece mais do que simples panhar as transformações em curso na formação e
dados, reflexões cruciais para compreender a nossa no exercício profissional da Psicologia, de modo a
trajetória histórica, a nossa configuração presente disponibilizar informações relevantes para o sistema
como base para pensarmos o nosso futuro. Conselho, para o conjunto de entidades da áreas, para
Uma profissão é algo dinâmico e construído co- a comunidade acadêmica que possam contribuir na
tidianamente por uma comunidade de interessados luta história por termos uma categoria profissional
– docentes, pesquisadores, alunos, profissionais – e, sintonizada com as necessidades mais prementes da
portanto, algo que se altera com o tempo e com as nossa sociedade e, ao mesmo tempo, apoiada nos
transições econômicas, sociais e políticas por que avanços mais significativos que a ciência lhe oferece.
passa o nosso país. Ou seja, a nossa profissão mudou Podemos afirmar que estamos diante da maior
muito, se ampliou, se desenvolveu, se interiorizou pesquisa já realizada sobre a profissão, o maior le-
e ter uma caracterização de como ela se configura vantamento brasileiro, quiçá do mundo, tanto pela
no presente, como se relaciona com esse complexo amostra de mais de vinte mil psicólogas e psicólogos
entorno social é fundamental tanto para o Conselho, como pela extensão de aspectos relacionados ao seu
que é a autarquia que a orienta, acompanha e fiscaliza, exercício profissional que foram alvo de estudo.
como para a sociedade, que é a principal beneficiária Para tarefa com tamanha envergadura, o Conselho
do desenvolvimento da Psicologia. Federal de Psicologia contou com uma rede robus-
Realizar o CensoPsi, com a amplitude que o ta de parcerias. De início vale ressaltar a parceria
caracterizou – tanto em termos de abrangência da com a SBPOT (Associação Brasileira de Psicologia
categoria participante quanto da amplitude das ques- Organizacional e do Trabalho) e, de forma específica,
tões de abordou – foi um grande desafio em tempos com o GT83 da Anpepp – Configurações do trabalho
de uma crise econômica e sanitária sem precedentes na contemporaneidade e a Psicologia Organizacional
que vivemos nos últimos anos e da qual ainda não e do Trabalho.
nos livramos efetivamente. A pandemia alterou o O interesse em estudar as condições de trabalho
nosso modo de vida e de trabalho, afetou a saúde, de psicólogas e psicólogos, em avaliar em que medi-
ceifou vidas de milhares de pessoas, muitas(os) psi- da o processo de precarização do trabalho também
cólogas(os). Afetou, certamente, as nossas condições nos atinge, foi o alicerce que viabilizou o presente
de trabalho, jogou profissionais no desemprego e projeto. Contamos com um grupo de pesquisadores
subemprego e, ao mesmo tempo, o desafiou a usar com experiência prévia em estudos sobre a profissão

6
Apresentação

que foi fundamental na estruturação do instrumento que deles necessita. Esse segundo volume se estrutura
de coleta de dados, do processo de coleta e análise em quatro segmentos.
de dados. Precisamos destacar também que, inter- O primeiro segmento – O QUE FAZEMOS –
namente ao Conselho Federal de Psicologia, foram é composto por seis capítulos. O Capítulo 12 (O
unidos os esforços da CCAP (Comissão Consultiva trabalho em Psicologia: em que áreas de atuação
de Avaliação Psicológica) e da CDH (Comissão de nos inserimos?) inicia a caracterização do nosso
Direitos Humanos), que tinham projetos específicos exercício profissional a partir de um conceito clássico
de pesquisa que foram incorporados ao CensoPsi. e que nos é muito familiar: o de áreas de atuação.
Para além disso, contamos com o apoio da rede Partindo-se das especialidades definidas pelo CFP,
de Conselhos Regionais de Psicologia e a rede de o capítulo traça um detalhado quadro da distribui-
entidades nacionais da Psicologia que integram o ção das psicólogas e psicólogos pelas diversas áreas
FENPB (Fórum de Entidades Nacionais da Psicologia e como essas se combinam. Mais do que fronteiras
Brasileira). Todos se engajaram na divulgação da rígidas há um intenso hibridismo que se traduz nas
pesquisa nas suas redes, chamando todas(os) a parti- mais diversas combinações entre áreas. Para além
ciparem do censo. Sem esse esforço coletivo – e com do exame de como essas áreas são combinadas, o
o apoio que a área administrativa do CFP – seria capítulo avança em indicações do movimento entre
impossível, no curto espaço de tempo que tivemos, áreas, considerando a área de ingresso na profissão e
dar conta de tarefa tão complexa e de tamanho porte. a(s) área(s) atual(is). São, também, apontadas algumas
As informações geradas pelo CensoPsi são, neste condições de trabalho que se diferenciam entre áreas,
momento, apresentadas no presente livro que se es- como é o caso da remuneração.
trutura em dois volumes, pela amplitude de questões O Capítulo 13 (Os processos de trabalho em
abordadas e sobre as quais se pode construir reflexões Psicologia: uma nova estratégia de descrever o nosso
significativas sobre o que caracteriza o exercício campo de atuação profissional), por seu turno, traz
da psicologia no Brasil de hoje. Construir os 26 um novo conceito para examinar o nosso campo de
capítulos distribuídos nos dois volumes envolveu atuação – a noção de processos de trabalho, que foi
o esforço coletivo de um grupo bem mais extenso consagrada nas Diretrizes Curriculares para os Cursos
do que aquele que conduziu a pesquisa. Assim, de Graduação em Psicologia, como estratégia para
colegas foram convidados e aceitaram o desafio de pensar as ênfases curriculares não como especiali-
se debruçar sobre um conjunto específico de dados dades, mas como eixos transversais de aprofunda-
e deles extrair elementos que nos permitiram traçar mento da formação. Também aqui os processos são
esse amplo painel sobre o exercício da Psicologia. descritos, partindo-se das definições constantes no
Outros colegas trouxeram informações adicionais, citado marco legal na sua versão mais atual de 2009
não coletadas pelo CensoPsi, mas que caracterizam o já aprovada pelo Conselho Nacional de Educação,
contexto histórico e institucional em que a profissão quando novos processos foram incorporados ao rol
está inserida. inicialmente definido. Os resultados revelam, de
O segundo volume do livro – Condições de tra- forma ainda mais nítida como, no seu cotidiano de
balho, fazeres profissionais e engajamento social trabalho a(o) psicóloga(o) transita por diferentes
– dá continuidade à apresentação dos resultados do processos de trabalho, que se articulam em uma rede
CensoPsi, agora com um olhar mais interno às nossas bastante complexa de interações.
práticas, nossos fazeres, nossas formas de trabalhar e O Capítulo 14 (O exercício profissional em
nas condições de trabalho que nos são oferecidas para Psicologia: práticas e atividades que o caracterizam)
assegurar que nossos serviços cheguem à população aprofunda a análise no nível das atividades, práticas

7
Apresentação

ou fazeres implicados no exercício profissional. na garantia da qualidade com que cada profissional
Diferentemente de estudos anteriores, quando uma lida com instrumentos que são privativos de seu uso.
lista de atividades era oferecida ao participante para Encerra esse primeiro segmento do livro o Capítulo
escolher, no CensoPsi deu-se a oportunidade de a(o) 17 – Sobre teorias, coerências, dispersão – que discute
participante indicar até cinco atividades principais tema de grande relevância para a nossa área e que
desenvolvidas em cada um dos trabalhos desempe- fortemente se associa com a discussão sobre a nossa
nhados e que exigiam a formação em Psicologia. diversidade teórico-metodológica. Os referenciais
O enorme conjunto de descrições de atividades teóricos mais proeminentes foram oferecidos para
foram categorizadas, podendo-se identificar aquelas que a(o) participante escolhesse aquele(s) com os
mais frequentes, no geral e por área de atuação. quais se identificasse e fundamentasse o seu trabalho.
Há também uma análise de como tais atividades Deixou-se, também, a possibilidade de referenciais
se combinam, numa análise de redes, mostrando a não constantes da lista pudessem ser acrescentados.
complexa teia de associações entre práticas presentes Assim, o capítulo trata das diferentes abordagens
na categoria. mais citadas pelas psicólogas no CensoPsi, narrando
O Capítulo 15 (Psicologia e as Práticas Integrativas a história de sua apropriação e desenvolvimento no
e Complementares) se volta para uma questão delicada Brasil, entrelaçando-as com os autores mais referidos.
e que está exigindo pesquisa, estudo e reflexão pela Este capítulo apresenta a rica diversidade de referên-
área – as denominadas práticas integrativas com- cias teóricas no campo psi e o surpreendente diálogo
plementares, previstas no Sistema Único de Saúde das diferentes abordagens da prática das psicólogas e
e que são facultadas aos profissionais da Psicologia. psicólogos como inerente à constituição deste campo
O capítulo contextualiza as denominadas PICS no na nossa comunidade.
cenário nacional e global e a forma como o Sistema O Segmento 5 – CONDIÇÕES DE TRABALHO
Conselho vem tratando a questão em termos de – examina em profundidade as nossas condições
afinidades e distanciamentos. Em seguida, pela pri- de trabalho em dois principais eixos. O Primeiro,
meira vez, nos são oferecidos dados da extensão com envolvendo os capítulos 18 e 19, avalia em que me-
que esse conjunto de práticas é desenvolvido, além dida temos um trabalho precário ou um trabalho
de análises que nos permitem identificar contextos decente. Enquanto no Capítulo 18 (Condições de
e áreas em que elas aparecem com maior frequência. trabalho – Indicadores de precarização no exercício
Tais reflexões são base para aprimorar o processo de da Psicologia), partimos da noção de insegurança no
regulação da oferta de tais práticas à sociedade. trabalho que se associa às condições de renda, carga
O Capítulo 16 – O que as(os) psicólogas(os)têm horária e tipo de vínculo que fragilizam a condição de
a dizer sobre suas práticas de avaliação psicológica trabalhador. O quadro do segmento da categoria que
– teve como objetivo caracterizar a prática dos(as) possui condições precárias de trabalho é caracteriza-
psicólogos(as) que atuam na área da AP. Primeiramente do, mostrando como ela se apresenta em diferentes
exploraram-se dados para descrição do perfil dos parti- momentos da carreira, nas diferentes regiões do país
cipantes e, em seguida, foram abordadas informações e distintas áreas de atuação.
sobre as principais técnicas utilizadas no processo de O Capítulo 19 (Trabalho decente: reflexões a
AP, sobre as dificuldades encontradas pelos profissio- partir da percepção de profissionais da Psicologia)
nais na prática da AP e, por fim, sobre o conheci- toma o conceito de trabalho decente, entendido
mento e utilização do Satepsi. Especialmente sobre como aquele que assegura condições seguras tanto no
o SATEPSI, os dados se revelam de grande impor- ambiente físico como social, que garante equilíbrio
tância para potencializar o impacto desse dispositivo entre tempo livre e de descanso, adequado sistema de

8
Apresentação

compensação e proteção social, promoção da saúde impostas – no mundo social e do trabalho – em


e congruência com valores sociais e familiares. Trata- função da pandemia. O foco central consistiu no
se, aqui, de uma avaliação feita pela(o) psicóloga(o) exame das condições de trabalho da(o) psicóloga(o)
sobre a sua própria condição de trabalho. Lutar por brasileira(o) e nas consequências da pandemia para
trabalho digno e decente para todos os trabalhadores a sua prática profissional. Considerando que os im-
é um dos desafios do milênio. Esse estudo específico pactos da pandemia ainda estão em curso e podem
nos dá acesso a como essa avaliação varia entre os gerar mudanças duradouras em vários âmbitos da
diversos segmentos da nossa categoria e são revela- vida, consideramos relevante inserir os resultados desse
dores de desigualdades internas. estudo no presente livro, como elemento significativo
O segundo eixo desse segmento trata dos im- para compreender o contexto atual em que a nossa
pactos e das transformações em curso em função profissão está sendo caracterizada.
das inovações tecnológicas no exercício profissional. Trê s c a p í t u l o s i n t e g r a m o s e g m e n t o –
O Capítulo 20 (O impacto de novas tecnologias COMPROMISSO E ENGAJAMENTO SOCIAL.
na atuação profissional) discute como a tecnologia O Capítulo 23 – Engajamento em questões sociais
tem se inserido na atuação profissional de psicólogos. no exercício profissional da Psicologia, buscou res-
Para tanto, apresenta um panorama do uso de TICs ponder o quanto nós, psicólogas, estamos fazendo
na prática da psicologia, mostrando como a legisla- um trabalho engajado em bandeiras sociais, em par-
ção produzida pelo Conselho Federal de Psicologia ticular com questões de Gênero, Raça, LGBTQIA+ e
discutiu e regulamentou o uso. Por fim, apresenta os Deficiência. As autoras apresentaram um panorama
resultados descritivos acerca do uso e adoção da tec- do engajamento em questões sociais, das diferentes
nologia e a percepção dos profissionais de Psicologia áreas de atuação da profissão, da clientela atendida
acerca dos impactos, limitações e potencialidades pela psicologia e dos temas emergentes na mídia na
do uso das TICs. Por fim, traz uma discussão sobre conjuntura social do país. Localizaram seu referencial
possíveis desdobramentos dessa relação para um teórico sobre o compromisso e movimento social e
futuro próximo. como este compromisso resulta em ações sociais,
O Capítulo 21 (Psicólogas(os) clínicas(os) brasilei- discutem os resultados do censo a partir deste olhar.
ras(os) em trabalho remoto:tecnoestresse, demandas O Capítulo 24 – Direitos Humanos e a Psicologia
e recursos) se diferencia dos demais por apresentar no Brasil – demarca a centralidade que o tema de
dados de um estudo paralelo ao CensoPsi, realizado direitos humanos ganhou no sistema conselhos de
no interior do GT83 da Anpepp, que teve como psicologia depois que a comissão nacional foi criada
objetivo estudar o denominado tecnoestresse entre em caráter permanente, em 1997. E, aos poucos, se
psicólogos clínicos que realizam trabalho remoto ampliando nas comissões regionais, ganhando força
e de que forma ele impacta sua saúde e bem-estar. teórico-política nas articulações e na constituição
Completa esse segmento o Capítulo 22 (Condições das práticas profissionais. Neste capítulo, os dados
de trabalho de psicólogas e psicólogos durante a do Censo da Psicologia Brasileira de 2021 estão
pandemia de coronavírus), que também se baseia apresentados a partir de seu panorama local, mas
em um estudo específico, conduzido pelo Conselho em diálogo com a construção de problematizações
Federal de Psicologia sobre os impactos da pandemia em torno das questões que historicamente susten-
na vida de trabalho e pessoal da(o) profissional de taram o conhecimento e as práticas psicológicas,
Psicologia. Conduzido no primeiro ano da crise sa- especialmente a ideia de sujeito universal, centrada
nitária da Covid-19, o estudo buscou analisar como na concepção de indivíduo moderno tão cara à nossa
a categoria estava lidando com todas as alterações ciência e profissão. Ao final, são abordadas questões

9
Apresentação

que se direcionam aos temas da interseccionalida- ção de políticas e projetos para o Conselho Federal.
de nos direitos humanos e outros elementos que Constitui-se numa síntese inicial que cumpre a função
corroboram para o campo de problematizações dos de deslanchar, no âmbito da autarquia, os necessá-
Direitos Humanos e a psicologia no país. rios debates para ampliar os impactos que o retrato
Finalmente o Capítulo 25 – A psicologia brasileira traçado pelo CensoPsi nos apresenta nesse momento.
e a defesa da democracia: cenários de práticas no es- O CensoPsi foi pensado como uma grande bússola
tado democrático de direito – aborda a complexidade para o Sistema Conselho, no sentido de embasar suas
das inserções da profissão no campo democrático políticas a partir de um conhecimento mais profundo
durante os últimos anos, tendo-se analisado aspectos sobre as mudanças profissionais de uma maneira
de nossa inserção e apontado algumas possibilidades mais concreta. Afinal, nossa profissão é dinâmica,
e desafios para os próximos anos, compreendidos não é estática. Nossa produção científica também
em um projeto de psicologia comprometido com a está avançando e se consolidando como uma das
pluralidade de vidas e com a democracia brasileira mais expressivas do hemisfério sul. Fatores conjun-
em construção. Trata de apresentar os resultados turais e estruturais afetam a nossa empregabilidade
do Censo da Psicologia Brasileira de 2021 sobre o e as condições em que exercemos a nossa profissão;
engajamento democrático, central ao exercício pro- por outro lado, as ferramentas e os processos de
fissional de nossa profissão na contemporaneidade. trabalho também vão se alterando nesse movimento
O quinto segmento dessa obra – AVALIAÇÃO E contínuo de reconfiguração do mundo do trabalho,
PERSPECTIVAS – é integrada por dois capítulos. O cada vez mais impactado pelos avanços tecnológicos
Capítulo 26 – Avaliação da Profissão e Perspectivas e pela dinâmica do capitalismo no seu atual estágio
futuras – como seu título informa com precisão, histórico. Nesse sentido, o Censo dá uma atenção
se debruça sobre a avaliação que a(o) psicóloga(o) especial ao segmento recém ingresso na profissão e que
faz sobre a imagem da Psicologia como profissão, a dificuldades cercam esse momento inicial da carreira.
partir de um conjunto de afirmações que lhes foram Outro eixo fundamental para análise são as trans-
oferecidas. Essa avaliação, em grande medida, incluiu formações que estão ocorrendo na profissão com o
itens usados na primeira pesquisa dos anos 1980 e na avanço das tecnologias de informação e comunica-
pesquisa de 2010, de modo que podemos ter uma ção (TICs). Estamos aí, certamente, diante de duas
perspectiva das mudanças que ocorreram na imagem questões que exigem desde já a ação consistente do
que a categoria tem da própria profissão no Brasil. Conselho Federal de Psicologia. Por outro lado, temos
Esse quadro é analisado entre segmentos das(os) pela primeira vez um amplo conjunto de informações
participantes da pesquisa de modo a aprofundar sobre como a categoria estrutura sua concepção da
a compreensão de potenciais diferenças entre seus profissão, dos seus desafios gente a uma das socie-
segmentos. Para além da avaliação da imagem, o dades mais desiguais do mundo e, em decorrência,
capítulo também apresenta e discute os projetos de como se compromete e se engaja em ações em defesa
futuro que as(os) participantes apontam. da democracia e dos direitos humanos. Estamos aí
Finalmente o Capítulo 27 (Censo da Psicologia diante de dois valores centrais ou estruturantes da
Brasileira: base para políticas e ações do Sistema forma como a Psicologia se concebe como ciência e
Conselhos de Psicologia), escrito pela diretoria do prática profissional na atualidade.
Conselho Federal da Bahia, apresenta esforço inicial Assim, é, para nós, uma imensa satisfação pre-
de sistematizar o conjunto extremamente amplo de sentear não apenas psicólogas e psicólogos, mas toda
informações reveladas ao longo dos capítulos do a sociedade com este censo, precisamente no ano
livro, buscando extrair as implicações para a defini- em que comemoramos 60 anos da Psicologia como

10
Apresentação

ciência e profissão regulamentada. Fruto do trabalho


árduo de uma coletividade ampla, este censo mate-
rializa um esforço típico da nossa profissão: ouvir,
observar, refletir, ponderar, conhecer. Cabe, assim,
destacar o que mais se espera a partir do momento
em que os resultados são tornados públicos. Eles
devem estimular debates, reflexões, discussões que
possam nos ajudar a compreender em profundida-
de os desafios que nos cercam como profissão. Tal
compreensão, por seu turno, é fundamental para que
tanto as entidades profissionais, científicas quanto as
formadoras possam refletir sobre as forças que estão
moldando a nossa “cara” atual e em que direção
precisamos trabalhar doravante. n

Ana Sandra Fernandes Arcoverde Nóbrega


Presidenta do Conselho Federal de Psicologia

Antonio Virgílio Bittencourt Bastos


Coordenador Geral do CensoPsi

11
I

O QUE FAZEMOS
I. O Que Fazemos

12 O Trabalho em Psicologia:
em que áreas de atuação nos inserimos?
Antonio Virgílio Bittencourt Bastos1
Isabel Fernandes de Oliveira2
Icléia Santos Dorea Soares3

As áreas de atuação na Psicologia compõem um que acaba tornando sua compreensão mais complexa.
debate presente desde os primeiros estudos acerca da Tal complexidade nos conduz a dimensões diversas
profissão, mas, ainda não há um consenso sobre o que refletem tanto na prática profissional como nas
tema. Ao longo dos anos, várias foram as interpreta- pesquisas e definições de especialidades, razão pela
ções do que seria área e várias foram as classificações qual é importante avançarmos nesse debate.
utilizadas nos mais variados estudos conduzidos O presente capítulo se dedica a apresentar e dis-
tanto por entidades de representação, a exemplo do cutir os resultados relacionados às áreas de atuação
Conselho Federal de Psicologia (CFP) e regionais, das(os) profissionais de Psicologia, buscando evidên-
quanto por pesquisadoras(es) que debateram a con- cias de possíveis transformações ao longo do tempo
formação da profissão (Bastos, 1988; Botomé, 1979; que sinalizam, certamente, transformações na forma
Mello, 1975). Na verdade, a legislação que regulamen- como a profissão atende as demandas sociais. Ele se
ta a profissão estabelece “atividades” privativas das(os) estrutura em três partes. Na primeira, discute-se, com
psicólogas(os) e não áreas: diagnóstico psicológico, base na literatura, a própria noção de áreas de atuação,
orientação e seleção profissional, orientação psico- retomando a forma como as pesquisas trataram tal
pedagógica, e solução de problemas de ajustamento questão ao longo do tempo. Na segunda parte são
(Lei n. 4.119/1962). Apesar da Lei, a prática tem se apresentados os resultados obtidos no Censo; para
estruturado de forma ampliada sob áreas, mas seu além dos dados descritivos, analisa-se o movimento
conceito tem sido abordado sob diferentes ângulos, o entre áreas ao longo da carreira e a forma como as(os)

1 Psicólogo. Mestre em Educação (UFBA,1984). Doutor em Psicologia (UnB,1994). Prof. Titular aposentado Universidade Federal da
Bahia. Pesquisador I-A do CNPq. Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia/UFBA. Dedica-se a pesquisa no campo
da Psicologia Organizacional e do Trabalho, com ênfase no estudo dos vínculos do indivíduo com diversas facetas do seu mundo
de trabalho. Dedica-se, também, ao estudo sobre a formação e exercício profissional na Psicologia, tendo coordenado e conduzido
pesquisas de âmbito nacional sobre o trabalho da(o) psicóloga(o) no Brasil. Atualmente é membro do XVI Plenário do Conselho
Federal de Psicologia.

2 Professora Titular da Universidade Federal do Rio Grande do Norte. Mestre (2001) e Doutora (2005) em Psicologia Clínica pela
Universidade de São Paulo; graduada em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (1993). Membro da Diretoria
da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Psicologia – ANPEPP (2010-2012). Editora de Revista Estudos de Psicologia
(1999-2020). Coordenador do Grupo de Pesquisas Marxismo & Educação da UFRN (Diretório CNPq). Bolsista de Produtividade
CNPq.

3 Psicóloga e mestra em psicologia pela Universidade Federal da Bahia. Atua como consultora, facilitadora, palestrante e designer
educacional para formações corporativas. É professora da Escola SESI de Gestão em Saúde e Segurança do Trabalho, consultora do
Centro de Prevenção da Incapacidade para o Trabalho do SESI-BA e tutora pedagógica EAD do Instituto Federal do Espírito Santo.
Possui publicações na área e estuda temas como: fatores psicossociais do trabalho e cultura organizacional.

13
I. O Que Fazemos

profissionais combinam diferentes áreas de atuação. identificou grandes mudanças na conformação da


Nessa direção são apresentados os resultados da profissão, com destaque para a emergência de no-
análise de redes, como uma estratégia para melhor vos campos de atuação, novas práticas e áreas em
visualizar as combinações entre áreas. Finalmente, desenvolvimento, elementos que exigiam um debate
nas reflexões finais são tecidas considerações acerca sobre os desafios para a formação e para a atuação
dos significados dos resultados obtidos sobre como profissional. Bastos (1988), no primeiro estudo na-
a Psicologia se estrutura no presente momento. cional conduzido pelo CFP, aponta os problemas
da associação entre local de atuação e área em dois
Áreas de atuação: uma clássica níveis: o primeiro deles diz respeito à ampliação das
estratégia para descrever o atividades da Psicologia, muitas delas “escapando”
escopo da profissão aos limites dos locais de atuação, portanto, não se
De início, por volta dos anos de 1960/1970, enquadrando na associação local-área. O segundo
período inicial do desenvolvimento da Psicologia trata da hegemonia da clínica, presente em todos
como profissão regulamentada e momento em que os locais de atuação, o que romperia com a lógica
os espaços de atuação e variedades de práticas eram de que essa modalidade estaria circunscrita aos con-
mais restritos, a área estava associada a local de atua- sultórios, e mais, que várias atividades dentro do
ção. O mais conhecido estudo do período (Mello, escopo do que seria uma área eram desenvolvidas
1975) indicava a prática psicológica distribuída em em locais de atuação “pertencentes” a outras áreas.
quatro áreas, apesar de apontar certa fluidez em seus A fluidez apontada por Mello (1975), então, era
limites: Clínica, Industrial, Escolar e Docência. O bem mais amplificada. Assim, o autor conclui pela
critério à época foi tão somente o espaço laboral insuficiência do critério local de atuação para a defi-
dos alvos do estudo. Então, área e local de atuação nição de área, embora seja inevitável uma associação
eram sinônimos. Nessa mesma época, Carvalho (s/d) entre eles, e elenca outros aspectos que poderiam ser
afirmava que as(os) profissionais identificavam sua considerados nessa definição: objetivos do trabalho,
área de atuação não a partir do trabalho realizado, vínculo empregatício, tipo de demanda, procedi-
mas sim, do local onde era executado. Então, se ati- mentos utilizados, e público-alvo. Ainda assim, não
vidades clínicas eram realizadas numa escola, a área parece ser suficiente para a delimitação de área, até
de atuação seria Escolar e assim por diante. A autora porque esse debate nunca foi consensual, havendo,
também levantou uma questão importante que até inclusive, os defensores de uma única Psicologia,
o momento é alvo de preocupação: a dificuldade sem adjetivações. Isto posto, naquele momento a
das(os) profissionais identificarem um fazer ou área definição possível de área, ainda mantendo a premissa
da Psicologia se esse não está inserido dentro de um de sua necessidade e de ser esse o melhor caminho
modelo aprendido nas graduações. Considerando de análise dos desdobramentos profissionais, era de
a época em que tal discussão foi empreendida e o que se tratava de “espaços do campo profissional
quanto a Psicologia espraiou-se nas mais variadas cujos limites vão além das características técnicas da
atividades, locais, públicos e contextos, muito do que intervenção psicológica propriamente dita e englobam
se faz hoje não seria percebido (e algo ainda não é) um conjunto de relações sociais, valores e papéis,
como sendo parte do escopo da Psicologia, quanto dentro do ambiente de trabalho, que se traduzem em
mais de uma área da Psicologia. uma cultura própria” (Bastos, 1988, p.167). Nesse
Esses debates sobre a evolução da Psicologia como estudo já se apresentam variações em comparação à
ciência e profissão assumiram tamanha monta que, década de 1970. Além das mencionadas, aparecem
na década de 1980, o Conselho Federal de Psicologia a pesquisa e a Psicologia comunitária, mas também

14
I. O Que Fazemos

outras áreas que não tiveram tantas inserções e foram O primeiro deles diz respeito à manutenção de um
colocadas numa categoria não identificada. mesmo modelo de atuação disseminado pelas agên-
Witter, Bastos, Bonfim e Guedes (1992), ao rea- cias formadoras, o que conduz a práticas ofertadas a
lizarem um balanço sobre a ciência e a profissão na um mercado de trabalho que consistem em tarefas
obra do CFP publicada em 1992, mencionam áreas tradicionalmente destinadas às(aos) psicólogas(os),
de conhecimento e áreas de atuação profissional. quais sejam, as da Clínica. Portanto, antes de falar de
Apesar de separá-las, os autores apontam que elas se área, é preciso debater porque, independentemente de
interligam e dependem do evoluir do conhecimento qualquer definição de área, a Clínica permanece sendo
científico, das necessidades sociais e da apropriação referência em todas elas. O segundo deles refere-se
dos saberes pelas(os) profissionais que as(os) utilizam. ao fato de que é preciso considerar a dinamicidade
A Psicologia como profissão recente e cujo conhe- histórica da sociedade, que produz mudanças também
cimento científico ainda estava em consolidação no na Psicologia, com abertura de novos campos, moda-
Brasil sofria os efeitos dessa “instabilidade”, pois lidades, fazeres. Práticas se ajustam, se ampliam novos
suas bases científicas ainda estavam em formação. fundamentos e concepções sobre a atuação ganham
Nesse percurso, áreas de conhecimento surgiram e realce, novos públicos emergem. Então, qualquer
permaneceram como tal e outras se desenvolveram debate sobre área precisa abarcar tais mudanças, sob
como campos de exercício profissional. Algumas o risco de se criar uma profusão de especialidades
delas se fundiram e agregaram conhecimento e apli- e subespecialidades que perdem de vista o objetivo
cação. Os autores apontam, portanto, que as esferas prioritário das respectivas ações. É preciso considerar,
conhecimento e aplicação não são intrinsecamente então, que a diversidade da Psicologia não se esgota,
conectadas para se definir uma área a partir de um como afirmam Gondim, Bastos e Peixoto (2010),
referencial teórico, por exemplo. Essa dificuldade no conceito de área, qualquer que seja ele, e analisar
expressa-se mais claramente na estratégia metodo- os desdobramentos da profissão requer considerar a
lógica utilizada para coleta dos dados do estudo de multiplicidade teórico-metodológica que fundamenta
19924, a qual já delimitou como foco de análise sua prática de pesquisa e sua intervenção profissional.
três áreas tradicionais e mais a social. No estudo Possivelmente, uma solução para as questões que
do campo clínico, os pesquisadores usaram termos cercam a definição do que são e quais são as áreas de
como: atuação, prática, atividade, trabalho, mercado atuação na Psicologia, seja partir para um novo olhar
de trabalho, demanda do psicólogo, acompanhado sobre as variadas formas pelas quais a Psicologia se
ou não de um descritor referente à área em questão. apresenta. Barros (2011), ao propor a perspectiva dos
Embora não haja na produção mencionada uma campos disciplinares, lança luz ao debate acerca do
definição de área, ela parece estar subentendida a que caracterizaria (ou não) um novo campo do saber.
partir dos descritores apontados alhures, que não Seu debate parte da indagação acerca do significado
incluíram o local de trabalho. Esse é um exemplo atribuído a cada conjunto de práticas, concepções e
de que local não foi um definidor, pelo menos não objetos de estudo que emergem ao longo do tempo
da área Clínica, no estudo de 1992. como um campo específico de conhecimento. O
Diante desse debate aparentemente insolúvel, primeiro elemento destacado pelo autor diz respeito
Bastos e Achcar (1994) atentaram para elementos ao caráter histórico de um campo disciplinar. Ele
que parecem mais importantes na discussão de área. surge e desde então se mantém num perpétuo mo-

4 A pesquisa conduzida pelo CFP em 1992 relacionou-se ao tema “demanda social do psicólogo” e foi realizada a partir de um
levantamento bibliográfico de produções publicadas entre 1980-1992 sobre as tendências já consolidadas, em consolidação e
emergentes na profissão.

15
I. O Que Fazemos

vimento de mudança, de redefinição, de atualização, de trabalho utilizados por cada campo disciplinar.
percebendo-se de formas diferentes e se inserindo Em seguida emerge a Psicanálise, com um método
em âmbitos diversos do campo da produção de co- muito específico e, junto com a Psicologia e com a
nhecimento ou de práticas específicas. Cada campo Psiquiatria, compõe o tripé dos saberes “psi”, por
disciplinar tem seu próprio ritmo e processo, sendo meio de um processo de aproximação e afastamento.
alguns mais antigos, outros mais recentes, e alguns Por fim, um campo disciplinar em sua história
outros até mesmo já extintos. O sentido histórico a pode se ampliar e complexificar de tal forma que gera
ele atribuído diz respeito não só à sua trajetória de em seu interior novos desdobramentos “intradiscipli-
surgimento e evolução, mas também dos seus pro- nares”, diferentes campos de aplicação ou qualquer
cessos de modificação de práticas, objetos e objetivos outro tipo de organização interna que corresponda
no decorrer dessa evolução. mais ou menos a uma espécie de divisão do trabalho
Um campo disciplinar não raramente se forma a intelectual e prático. Essa tendência à especialização
partir de certos desdobramentos de um campo disci- é bastante frequente nos campos disciplinares na
plinar já existente, ou mesmo em consequência de um contemporaneidade, mas também impele a um mo-
apartamento do seu campo originário ou, ainda, de vimento de combate à hiperespecialização por meio
elementos agregados de vários outros campos, numa de movimentos interdisciplinares e transdisciplinares.
confluência ou conexão de saberes. É comum que Como análise que pode contribuir para um novo
as várias ciências compartilhem interesses, mas cada olhar sobre a Psicologia e seu embate entre áreas,
uma delas tem seu próprio nível de profundidade, um campo disciplinar deve necessariamente agregar
sua identidade própria, ou o que o autor denomina Teoria, Método e Discurso. Um campo disciplinar
de singularidade, não agrega somente uma orientação teórica ou me-
todológica, mas um repertório teórico-metodológico
aqui entendida como o conjunto dos seus parâ- de conhecimento, apropriação, avaliação e críticas
metros definidores, ou como aquilo que a torna de seus adeptos. Também desenvolve linguagem
realmente única, específica, e que justifica a sua própria compartilhada entre seus expoentes, estu-
existência – em poucas palavras: aquilo que diosos, praticantes e teóricos, implementando um
define a Disciplina em questão por oposição ou Discurso particular. Ainda, na definição de um campo
contraste em relação a outros campos disciplina- disciplinar, existe um critério daquilo que ele não é
res. Em um pólo oposto, será preciso entender ou o que não permite, mesmo considerando esses
o fenômeno inverso: embora cada campo de interditos também como parte de um processo his-
saber apresente certamente uma singularidade tórico, sendo, portanto, passíveis de transformação.
que o faz único e lhe dá identidade, não existe As modificações do campo clínico são um exemplo
na verdade um só campo disciplinar que não na Psicologia de interditos que se modificaram ao
seja construído e constantemente reconstruído longo do tempo.
por diálogos (e oposições) interdisciplinares. Diante do cenário apresentado é possível avaliar
(Barros, 2011, p. 256.) que o debate tradicional de área foi frutífero, mas in-
suficiente para “organizar” os movimentos de expansão
Ao mencionar a Psicologia, o autor relata seu pas- teórico-metodológica e prática da Psicologia, e todas as
sado de desprendimento, de um lado, da Filosofia, e classificações efetuadas ao longo de sua história aponta-
de outro, de aproximação da Psiquiatria, com a qual ram esses limites. Portanto, considerar a Psicologia como
passaria a compartilhar alguns de seus objetos de um ou vários campos disciplinares pode ser um caminho
investigação e prática, apesar dos diferentes processos para uma análise menos fragmentada ou baseada em

16
I. O Que Fazemos

outras dimensões que apreendam da melhor forma os que assumem uma linguagem, um discurso, concei-
movimentos históricos da ciência e da profissão. tos, modos de atuação particulares, mas que não se
Considerando os debates até aqui apresentados, desconectam dos campos originários, porque deles
entendemos que no campo da Psicologia, área não levam uma herança de fundação, mas que também
pode ser definida como referência a local (mas sem fazem fronteiras com outros campos, de dentro e de
desprezá-lo), ou referencial teórico, ou um único es- fora da Psicologia, de onde importam um arsenal
quema teórico-conceitual. Consideramos a Psicologia de contribuições para a sua constituição específica.
então como um campo disciplinar e, sendo assim, Considerando essa definição de campo disciplinar,
ela compartilha um passado com outros campos e o Censo ora apresentado utilizou as definições da
em seu presente deve ser concebida na diversidade de Resolução de Especialidades CFP 23/2022, docu-
seus chamados campos interdisciplinares. Isso implica mento mais avançado do debate acerca do tema e que
dizer que embora compartilhem uma base comum da é base para a atribuição dos títulos de Especialista. A
ciência e da profissão, a Psicologia alcançou um nível Figura 1 demonstra a divisão proposta pelo referido
de complexidade que gerou especializações teóricas, Conselho e é sob esse prisma que concebemos área
práticas e de aplicação, com desdobramentos internos para efeitos deste capítulo.

Figura 1: Categorias de especialidades do Conselho Federal de Psicologia conforme Resolução CFP 23/2022

Referente à relação entre Referente à aplicação de técnicas


funções do sistema nervoso psicológicas em cuidados,
NEUROPSICOLOGIA SAÚDE
e o comportamento humano. promoção e manutenção da
saúde integral, bem como
Referente à influência do no diagnóstico, prevenção e
meio social em fenômenos tratamento de doenças.
SOCIAL
psicológicos e do modo como
dimensões psíquicas subjetivas Referente à avaliação
interferem socialmente. especializada em fenômenos
psicológicos de ordem cognitiva,
Referente à fenômenos afetiva, comportamental e social
AVALIAÇÃO
psicológicos ocorridos em mediante o uso de métodos,
HOSPITALAR PSICOLÓGICA
hospitalizações, adoecimentos, técnicas e instrumentos
recuperação, perdas, lutos. psicológicos validados para
obter informações fundamentais
Referente à integração de ÁREAS DE ou complementares.
conhecimentos teóricos e
métodos psicoterápicos
CLÍNICA ATUAÇÃO Referente à educação e ao
empregados para promover a processo de ensino-aprendizagem
autonomia, a qualidade de vida em todas as modalidades do
ESCOLAR/
e a saúde integral. sistema educacional e processos
EDUCACIONAL
formativos em espaços de
Referente à fenômenos e educação não formal.
processos psicológicos
ESPORTE
relacionados a esportes Referente à análise de
e atividades físicas. fenômenos psicológicos
concernentes às organizações, ao
ORGANIZACIONAL
âmbito do Sistema de Justiça desenvolvimento organizacional,
& TRABALHO
e em serviços que compõem o à gestão de pessoas, à prevenção
Sistema de Segurança Pública e e promoção da saúde e à relação
JURÍDICA
o Sistema de Garantia de Direitos do ser humano com o trabalho.
que executam sentenças judiciais,
como o Sistema Prisional e Referente à processos
o Sistema Socioeducativo. psicológicos, psicossociais e
TRÁFEGO
psicofísicos no contexto do
tráfego e da mobilidade humana.

17
I. O Que Fazemos

Áreas de atuação: o que nos se inserir profissionalmente, mas possuem um pro-


informa o CensoPSI jeto ou um desejo de inserção. A Clínica se destaca
No presente Censo, optou-se por oferecer às(aos) fortemente, sendo a área almejada por 68,7% das(os)
participantes um elenco de áreas de atuação, abrindo psicólogas(os) nessa condição. Há quatro áreas cujo
a possibilidade de acrescentarem novas áreas, caso as percentual de indicação supera os 20% dos partici-
alternativas oferecidas não abarcassem a forma como pantes – Saúde, Social, Hospitalar e Educacional.
a sua atuação é vista. Esses resultados são apresentados As demais áreas apresentam percentuais de escolha
em três segmentos: a) uma visão geral sobre as áreas de entre 11,2% (Neuropsicologia) e Docência (18,7%).
atuação mais frequentes e o quanto esse quadro varia por Em seguida, o terceiro grupo de profissionais,
região do país, estágio de carreira e nível de formação que saíram do exercício profissional. Essa saída pode
das(os) psicólogas(os); b) uma análise de mudança ao se dever a desemprego ou à desistência da profissão
longo da trajetória profissional, verificando-se a área por não encontrar retorno desejado ou pelo fato de
em que ingressou e a(s) área(s) em que está atualmente; ela não lhe assegurar condições de sobrevivência
e, c) uma análise de como cada profissional combina necessárias. Também aqui a área Clínica é a que
ou não sua atuação em mais de uma área. apresenta o maior contingente de perdas (61,6%). A
segunda área em termos de perda é a Organizacional
Áreas de atuação: o panorama geral e do Trabalho (34,2%). Social e Docência têm per-
A Figura 2 apresenta os resultados gerais sobre das em torno de 20%. Jurídica e Neuropsicologia
as áreas de atuação em três situações distintas de apresentam os menores percentuais entre as áreas
inserção no mercado de trabalho. que perderam profissionais.
No primeiro grupo, estão profissionais in- Em relação ao grupo no momento da coleta atuan-
seridas(os) no mercado e atuando no campo da do como psicóloga(o), verifica-se que a área Clínica
Psicologia. Esse constitui o maior grupo, com 85% se distancia de todas as demais de forma expressiva,
dos casos (ou 17.176 participantes do CensoPsi). por consistir em área de atuação para 73% de psicó-
O gráfico mostra o percentual de profissionais que logas(os) ativas(os) profissionalmente. Com índices
atuam em cada uma das áreas. O segundo grupo é bem distantes foi encontrado um bloco de três áreas:
o de profissionais que nunca trabalharam no campo Social (20,1%), Saúde (19,0%) e Docência (18,3%).
da Psicologia e que almejam nele se inserir (cons- Um segundo bloco, com patamares próximos,
tituem 8,2% ou 1.657 casos). O terceiro grupo é envolve as áreas Organização e Trabalho (12,1%),
de profissionais que já atuaram na Psicologia e dela Avaliação Psicológica (11,8%) e Escolar/Educacional
saíram (representam 3,7% ou 740 casos). Para esse (11,2%). Um terceiro bloco envolve mais três áreas,
terceiro grupo, o gráfico revela de que áreas elas(es) agora com quantitativos menos expressivos: Hospitalar
saíram, ao deixar o campo. Vale registrar que cada (6,2%), Neuropsicologia (5,7%) e Jurídica (5,7%).
respondente poderia indicar até três áreas em que Finalmente há um quarto bloco com mais três áreas
atua, gostaria de atuar ou já atuou. com quantitativos muito reduzidos: Tráfego (0,7%),
Como será dedicada maior atenção ao primeiro Esporte (0,5%) e Ambiental (0,1%).
grupo – aquele efetivamente inserido no mercado Os resultados não podem ser comparados um a
de trabalho no momento da pesquisa, comecemos um com estudos anteriores, porque a categorização das
pelo segundo grupo - aquele ainda não inserido no inserções diferiu em cada um dos estudos (algumas das
campo profissional. Trata-se, certamente, do grupo áreas atuais, inclusive, emergiram mais recentemente
de recém-formadas(os) ou daquelas(es) que, embora ou se constituíram como áreas mais específicas há
graduadas(os) há mais tempo, ainda não conseguiram pouco tempo). No entanto, o domínio da Clínica é

18
I. O Que Fazemos

Figura 2: Áreas de atuação das(os) psicólogas(os) brasileiras(os) brasileiros/as nas três condições de inserção profissional.

Clínica 68,7%
Clínica 73,1% Saúde 28,2%
Social 20,1% Social 27,2%
Hospitalar 23,7%
Saúde 19% Educacional 20,1%
Docência 18,3% (8,2%) Docência 18,7%
Aspiram Organizacional &Trabalho 16,9%
Organizacional &Trabalho 12,1% Avaliação Psicológica 15,9%
atuar na
Avaliação Psicológica 11,8% Jurídica 11,7%
Psicologia
Educacional 11,2% 1.657
Neuro 11,2%
Outras 2,2%
Hospitalar 6,2%
Jurídica 5,7% Clínica 61,6%
Neuro 5,7% Organizacional &Trabalho 34,2%
Outras 2,2% Docência 23,6%
Social 20,5%
Tráfego 0,7% (3,7%) Avaliação Psicológica 16,7%
Esporte 0,5% Atuaram na Educacional 15,2%
Saúde 14,4%
Ambiental 0,1% Psicologia Hospitalar 12,5%
(85%) Atuam na Psicologia 1.657 Jurídica 5,3%
Outras 1,5%
17.176 Neuro 1,1%

uma constante em todos os levantamentos feitos sobre 2006), não captou as mudanças ainda muito recentes
o exercício profissional, desde o primeiro e clássico em decorrência da implementação do Sistema Único
trabalho de Melo (1975), cujo número de áreas era de Assistência Social. Atualmente o SUAS está pre-
extremamente reduzido. Além de mudanças que de- sente em todo o território nacional e, de acordo com
correm da própria dinâmica da profissão (emergência o último Censo SUAS publicado em 2020, apenas
de novos campos, como é o caso da Saúde, impulsio- na proteção social básica havia 10.802 profissionais
nado com a criação do SUS ou a Social, incrementado de Psicologia. Por outro lado, vale destacar a parti-
vertiginosamente após a constituição do SUAS), o cipação bem mais reduzida da área organizacional e
fato de se ter tomado as especialidades previstas pelo do trabalho, algo que merece exame mais específico
Conselho Federal de Psicologia como áreas, implicou, (como visto, foi uma área com perda mais expressiva
por exemplo, que a Avaliação Psicológica deixasse de de profissionais), possivelmente pela crise que o país
ser considerada uma atividade transversal a todas as atravessa e seus índices elevados de desemprego.
áreas e assumisse a posição de uma área própria. Na Pode-se discutir o porquê de ser a Clínica uma
pesquisa imediatamente anterior (Bastos & Gondim, das mais concorridas, para além do fato de ser a ocu-
2010), considerando a estratégia de captação dos pação mais tradicional em Psicologia. Para tanto, é
dados que mesclou a identificação por parte da(o) importante considerar que os percentuais mostrados
profissional dos seus locais de trabalho e das atividades na Figura 2 não indicam atuação exclusiva, ou seja,
que desempenhava em cada um deles, a Avaliação é possível haver combinações entre atuações, como
Psicológica aparecia diretamente vinculada apenas à veremos mais adiante. O fato é que a dinâmica de
Clínica, mas quando analisadas as atividades das(os) funcionamento da prática Clínica, que permite uma
profissionais em seus mais diversos locais e campos certa flexibilidade de horários, bem como autono-
de atuação, a avaliação esteve presente em todos eles, mia na escolha das tarefas envolvidas no trabalho,
razão porque, agora, a Avaliação Psicológica emerja pode favorecer uma atuação dividida entre a Clínica
como área independente. Outro destaque importante e outras áreas. Em estudos anteriores (CFP, 1988),
é o amplo campo social, que no momento da coleta de as(os) profissionais que atuavam prioritariamente
dados da pesquisa publicada em 2010 (com coleta em na Clínica, relataram mais flexibilidade de tempo,

19
I. O Que Fazemos

embora tivessem uma carga horária de trabalho mais 61,8% dos casos, dado que a distância da Região
extensa. Então, a pretensa flexibilidade revela que a Sudeste, onde atinge 76,6% da categoria. As áreas
atratividade da Clínica de certa forma escamoteia sua Social, Saúde e Docência continuam como aquele
precarização. Tal consideração pode explicar também bloco com percentuais em torno de 20% em todas as
o fato de ela ser a área mais popular entre os 8,2% (N regiões. Vale registrar, contudo, que a Saúde apresenta
= 1657) que aspiram atuar e os 3,7% (N = 740) que percentuais mais elevados no Nordeste (20,2%) e no
atuaram em Psicologia. Norte (24,2%), sendo relativamente menos presente
Em que medida esse quadro geral da distribuição no Sudeste (17,7%). Outra diferença a registrar é a
por áreas varia nas regiões do país? Quando estreita- menor presença da área Organizacional e Trabalho
mos o olhar e segmentamos por região (Figura 3), no Nordeste (10,1%), sendo mais expressiva a sua
constatamos que não há profundas alterações, ou presença no Centro-Oeste (16,5%). A área Jurídica
seja, o perfil de distribuição das áreas de atuação não é mais presente no Norte (9,8%) e Sul (7,5%), em
parece ser afetado pelas diferenças sociais e econômi- contraposição ao Nordeste (4,7%) e Sudeste (4,8%).
cas das diferentes regiões do Brasil. Assim, a Clínica A Avaliação Psicológica é menos atuante no Nordeste
continua sendo, sempre, a área mais presente e com (9,7%), a Escolar no Sudeste (9,9%). A área Hospitalar
patamares bem distantes das demais áreas. Na Região é bem mais presente no Norte (13,9%) do que no
Norte é onde ela é menos presente, com patamar de Sudeste (5,3). Tais diferenças pontuais, no entanto,

Figura 3: Áreas de atuação por região do país

Avaliação Psicológica 12,6% Avaliação Psicológica 9,7%


Clínica 61,8% Clínica 72,6%
Docência e Ensino 18,3% Docência e Ensino 18,9%
Escolar/Educacional 13,2%
Escolar/Educacional 13,9%
Hospitalar 7,7%
Hospitalar 13,9% NORTE
Jurídica 4,7%
Jurídica 9,8% Organizacional e do Trabalho 10,1%
Organizacional e do Trabalho 12,9% Outras 3,3%
Outras 1,7% Saúde 20,2%
NORDESTE Social 22,8%
Saúde 24,2%
Social 25,8%

Avaliação Psicológica 14,3% CENTRO-OESTE Avaliação Psicológica 11,5%


Clínica 68,5% Clínica 76,6%
Docência e Ensino 18,5% SUDESTE Docência e Ensino 17,8%
Escolar/Educacional 11,3% Escolar/Educacional 9,9%
Hospitalar 6,5% Hospitalar 5,3%
Jurídica 6,2% SUDESTE Jurídica 4,9%
Organizacional e do Trabalho 16,5% Organizacional e do Trabalho 11,8%
Outras 2,8% Outras 3,7%
Saúde 19,4% Saúde 17,7%
Social 19,1% Avaliação Psicológica 14,3% Social 18,1%
Clínica 71,8%
Docência e Ensino 18,4%
Escolar/Educacional 10,2%
Hospitalar 3,4%
Jurídica 7,5%
Organizacional e do Trabalho 13,3%
Outras 4,4%
Saúde 18,4%
Social 20,2%

20
I. O Que Fazemos

não alteram de forma significativa a hierarquia com percentuais que variam de 51,8% (Escolar/Educacional)
que essas áreas se distribuem no país. a 63,7% (Avaliação Psicológica). Tal resultado indica um
Ainda traçando o quadro geral de atuação por forte investimento da categoria na sua formação após a
áreas, um dado relevante é o nível de formação as- conclusão da graduação, como já discutido no Capítulo
sociado ao exercício em cada uma dessas áreas. Os 6. Os percentuais de pós-graduação stricto sensu também
resultados obtidos encontram-se na Figura 4. são expressivos, quase sempre em patamares acima de
20% dos participantes. Aqui é importante informar
Figura 4: Nível de formação após a graduação por Áreas que docentes, no geral, indicam, além da Docência,
de Atuação. uma segunda área finalística de atuação; ou seja, o
professor de disciplinas de Psicologia Educacional ou
Avaliação 14,6% Organizacional ou da Saúde também se consideram
Psicológica 63,7%
21,7% inseridos nessas áreas (quer porque nelas atuam de fato
2,3% em combinação com o ensino, quer porque apesar
Docência 21,9%
75,8% de estarem na Docência desenvolvem pesquisas ou
5,7%
trabalhos de extensão naquele campo).
Neuropsicologia 66,8%
27,5%
O movimento ao longo da carreira
19,8%
Clínica 55,1% Dois conjuntos de dados nos permitem analisar
25,1% como se dá o movimento da(o) psicóloga(o) entre as
12,3% áreas, ao longo de sua carreira. O primeiro conjunto
Jurídica 56,7%
31% envolve o exame de como se distribuem as áreas nos
21,3% diferentes estágios de carreira, cujos dados podem ser
Social 54,5% vistos na Figura 5. De alguma forma, embora sem
24,3%
variações abruptas, são verificadas algumas diferenças
11%
Hospitalar 64,3% importantes na medida em que há mais maturação
24,6% profissional. Essas mudanças podem decorrer de
14,4% condições externas do mercado de trabalho (períodos
Saúde 56%
29,6% históricos onde houve maior ou menor oportuni-
15,6% dades de inserção nas diferentes áreas), assim como
Escolar/Educacional 51,8% pode decorrer de projetos mais pessoais, nos quais se
32,7%
busca concretizar um ideal de exercício profissional
Organizacional 12,7%
59,7% construído ao longo da vida. A Clínica, por ser o
&Trabalho 27,6% “cartão de visita” da Psicologia, alcança um percentual
alto (82,8%, N = 1967) entre as(os) recém-gradua-
Cursos livres de aperfeiçoamento das(os), que reduz progressivamente até alcançar
70% (N = 6.667) no estágio III de carreira. Ou seja,
Lato Sensu
a Clínica, área que, em tese, requer maior experiên-
Stricto Sensu
cia e formação, constitui a maior porta de entrada
na profissão hoje, o que pode dever-se, em parte, a
Com exceção da Docência, em todas as áreas predo- restrições de empregabilidade em outras áreas. Esse
mina o nível de formação pós-graduada lato sensu (cur- é o caso da saúde, que está absorvendo bem menos
sos de especialização ou residências profissionais), com novas(os) profissionais (14,1% no estágio I contra

21
I. O Que Fazemos

percentuais próximos a 20% nos demais estágios; ou Há trinta anos, nem todas as áreas aqui discuti-
ainda, com menor intensidade, o que acontece na das estavam consolidadas e ou ofereciam imediatas
área Organizacional e do Trabalho, com percentuais oportunidades de trabalho, o que pode explicar a
em torno de 9% nos dois primeiros estágios, quando relativa mais baixa participação da área Social no
chega a 14,4 no quarto estágio). estágio IV (mais de 26 anos), que apresenta 7,6% (N
= 371) quando comparada com o estágio I (21%, N =
Figura 5: Áreas de atuação por estágio de carreira 500). Nesse sentido, observando que outras atuações
requerem um tempo de formação e preparo maiores,
Estágio 1: até 2 anos a Docência é uma das áreas cujo maior percentual
Docência 5% encontra-se, justamente, entre profissionais mais
Clínica 82,8% maduras(os) (30%, N = 899), com uma diferença
Jurídica 2,5%
Organizacional & Trabalho 9,8% de 15% para o estágio I (5%, N = 119). Todas as
Social 21% demais áreas, ainda que com algumas flutuações,
Hospitalar 4,9% mantiveram-se com o mesmo percentual entre os
Saúde 14,1%
Escolar/Educacional 10,3% diferentes estágios, com exceção da área Social, que
reduziu em 7,6% (N = 371) a participação entre
Estágio 2: 3 a 5 anos as(os) psicólogas(os) do estágio IV, quando compa-
Docência 9,2% rada com o estágio I (21%, N = 500).
Clínica 78,6% Um segundo conjunto de dados envolve a com-
Jurídica 2,8%
Organizacional & Trabalho 9,1%
paração entre a área em que ingressou na profissão
Social 23,8% e a área atual. Esses dados encontram-se na Figura
Hospitalar 6,4% 6, que sistematiza um conjunto rico de informações
Saúde 18%
Escolar/Educacional 11,1% sobre as mudanças entre a primeira inserção e as
inserções atuais.
Estágio 3: 6 a 25 anos A Figura 6 apresenta os dados daquelas áreas com
Docência 20,1% contingente mais expressivo de casos que permitiram
Clínica 70% a análise de trajetória. Tais áreas estão ordenadas por
Jurídica 7,1% ordem de absorção de novos profissionais no início
Organizacional & Trabalho 12,7%
Social 21,5% de carreira. A Clínica é a primeira área de atuação
Hospitalar 6,3% para 43,9% dos casos, seguida da Social (14,7%)
Saúde 20,4% e Organizacional e do Trabalho (14,4%). Saúde e
Escolar/Educacional 11,8%
Escolar têm respectivamente 7,8 e 6,8%. Docência e
Estágio 4: 26 anos ou + Hospitalar ainda apresentam contingentes menores
Docência 30%
(4,2 e 3,9%) como primeiro trabalho. A partir desse
Clínica 71,8% patamar de ingresso, podemos observar diferenças
Jurídica 6% bem importantes na trajetória, algumas delas des-
Organizacional & Trabalho 14,4%
Social 12,4% tacadas a seguir.
Hospitalar 7,1% A impressionante porcentagem de 89,9% das(os)
Saúde 19% que ingressam na Clínica nela permanecem, e dentre
Escolar/Educacional 10%
essas(es) 49,5% acrescentam novas áreas. A Docência
e a Saúde são as duas áreas que mais são agregadas
à Clínica ao longo da carreira. O contingente de

22
I. O Que Fazemos

Figura 6: Permanência e migração nas áreas de atuação

INGRESSARAM
AREAS MOVIMENTO NA CARREIRA N % Exemplos N %
N %

Atuam exclusivamente na área 2005 40,0


Permanecem
Combinam com Clínica + Docência 273 5,4
2482 49,5
CLÍNICA 5016 43,9 outras atuações Clínica + Saúde 225 4,5
Social 97 1,9
Saíram da área 230 4.6
Deixaram Saúde 53 1,1
Deixaram a Psicologia 297 5,9
Atuam exclusivamente na área 324 19,2
Permanecem Combinam com Social + Clínica 177 10,5
560 33,3
outras atuações Clínica + Social + Saúde 70 4,2
SOCIAL 1684 14,7
Saíram da área Cínica 188 11,2
698 41,4
Deixaram Clínica + Saúde 76 4,5
Deixaram a Psicologia 102 6,1
Atuam exclusivamente na área 252 15,3
Permanecem Combinam com Clínica 146 8,9
512 31,2
outras atuações Clínica + Avaliação 60 3,7
ORGANIZACIONAL
1642 14,4
E TRABALHO Clínica 256 15,6
Saíram da área 742 45,2
Deixaram Clínica + Docência 48 2,9
Deixaram a Psicologia 136 8,3
Atuam exclusivamente na área 94 10,5
Permanecem Combinam com Clínica 113 12,6
379 42,3
outras atuações Clínica + Social 69 7,7
SAÚDE 895 7,8
Clínica 97 10,8
Saíram da área 374 41,8
Deixaram Social 43 4,8
Deixaram a Psicologia 48 5,4
Atuam exclusivamente na área 82 10,6
Permanecem Combinam com Clínica 75 9,7
249 32
outras atuações Clínica + Avaliação 21 2,7
ESCOLAR 776 6,8
Clínica 111 14,3
Saíram da área 397 51,2
Deixaram Social 32 4,1
Deixaram a Psicologia 48 6,2
Atuam exclusivamente na área 54 11,3
Permanecem Combinam com Clínica 58 12,1
218 45,4
outras atuações Clínica + Saúde 19 4,0
DOCÊNCIA 480 4,2
Clínica 65 13,5
Saíram da área 176 36,7
Deixaram Clínica + Social 13 2,7
Deixaram a Psicologia 32 6,7
Atuam exclusivamente na área 47 10,6
Permanecem Combinam com Clínica + Saúde 49 11,1
168 38
outras atuações Clínica 36 8,1
HOSPITALAR 442 3,9
Clínica 61 13,8
Saíram da área 187 42,3
Deixaram Clínica + Docência 13 2,9
Deixaram a Psicologia 40 9,1

23
I. O Que Fazemos

perda na área Clínica, portanto, é bem reduzido áreas do que a simples mudança de uma área para
(4,6% deixam a área, indo especialmente para a outra. A(o) psicóloga(o) inicia em uma área, mas
área Social e Saúde; e 5,9% deixam a Psicologia). vai acrescentando outras, quer por questões ligadas
As áreas da Docência, Saúde e Social apresentam às condições de trabalho (mais trabalhos para obter
um perfil similar, com índice de permanência ligei- rendimentos mais significativos), quer por buscar
ramente superior a 50%, o que revela uma distância realizar seu ideal de atuação profissional. Ou ambas
significativa em relação à Clínica, nesse particular. as coisas simultaneamente.
Embora 52,5% das(os) que ingressam na área Social
nela permaneçam, apenas 19,2% continuam atuando Como as áreas se combinam
exclusivamente nela (33,3% agregam novas áreas, no exercício da profissão
especialmente a Clínica e a Saúde). No caso da Saúde, Como visto no segmento anterior, a trajetória
52,8% permanecem, embora 42,3% agreguem novas de carreira, para a maioria das(os) que trabalham
áreas (sobretudo a Clínica). A Docência, que é uma na Psicologia, envolve o acréscimo de novas áreas
área que absorve menos profissionais no primeiro de atuação, fazendo com que, na situação atual, o
trabalho, apresenta 56,7% de permanência, sendo contingente das(os) que possuem mais de uma área
que 45,4% agregam novas áreas, sobretudo a Clínica. (59%) supere aquela(e) que atua em apenas uma
As três áreas restantes caracterizam-se por índices (41%). Esses dados, assim como a frequência das áreas
de perda maiores que os de permanência. Na área e suas combinações, podem ser vistos na Figura 7.
Organizacional e do Trabalho 46,7% permanecem, Houve uma significativa mudança no número
sendo que 31,2% agregam uma outra área (nova- de áreas de atuação por cada profissional quando
mente a Clínica é a mais frequente), 45,2% mudam se comparam as pesquisas disponíveis. No primeiro
de área ao longo da carreira, a maioria saindo para a estudo nacional, em 1988, 73% das(os) profissionais
Área Clínica (15,6%). Na área Escolar essa perda é atuavam em apenas uma área; 22% em duas áreas e
bem maior (57,4%), sendo que a Clínica é o destino apenas 5% em três áreas (Bastos, 1988). Na pesquisa
da maioria das(os) que a abandonam. Finalmente a de 2010 já se verificou alguma alteração, com a de-
área Hospitalar apresenta um índice de permanência dicação exclusiva a uma área caindo para 66%, 29%
de 48,6% contra 51,4% que deixam a área. Tanto com duas áreas e 4% com três áreas (Gondim, Bastos,
na Escolar quanto na Hospitalar, apenas algo em & Peixoto, 2010). Agora a mudança foi bem radical,
torno de 10% permanecem exclusivamente na área com a queda para 41% e o crescimento elevado de
em que ingressaram. quem atua em duas áreas (passou para 32%) e em três
Esses movimentos revelam o forte poder de atração áreas (passou para 27%). O crescimento expressivo
da Clínica que, além de ser a área que mais absorve da categoria na última década e, possivelmente, as
profissionais no momento da sua inserção no mer- condições mais adversas do mercado de trabalho,
cado, recebe mais profissionais de outras áreas (que podem ser hipóteses a serem verificadas para expli-
as abandonam ou que simplesmente as agregam), car tal mudança no perfil do exercício profissional
o que explica o percentual de aproximadamente em Psicologia.
73% das(os) psicólogas(os) com alguma inserção na Se tomarmos a atuação em uma única área como
Clínica. Na realidade, todas as áreas, com exceção da um indicador de dedicação exclusiva a um campo de
Organizacional e do Trabalho, recebem mais profis- atuação, vemos que a ordem das áreas varia bastante
sionais e ampliam a sua participação na distribuição quando se toma, como se fez no início do capítulo,
das áreas de atuação. Isso porque esse movimento ao o percentual de profissionais que atuam em cada
longo do tempo envolve muito mais o acréscimo de área. A Clínica continua sendo a primeira, só que

24
I. O Que Fazemos

Figura 7: Perfis de combinação de áreas de atuação

Três Áreas (N = 4613; 26,9%)


N % Área
396 2,3 Clínica - Social - Saúde
323 1,9 Clínica - Saúde - Docência e Ensino de Psicologia
260 1,5 Clínica - Avaliação Psicológica - Neuropsicologia
251 1,5 Clínica - Saúde - Hospitalar
227 1,3 Clínica - Social - Docência e Ensino de Psicologia
184 1,1 Clínica - Saúde - Avaliação Psicológica
172 1,0 Clínica - Organizacional e do Trabalho - Avaliação Psicológica
153 0,9 Clínica - Docência e Ensino de Psicologia - Avaliação Psicológica
151 0,9 Clínica - Social - Escolar/Educacional
147 0,9 Clínica - Docência e Ensino de Psicologia - Escolar/Educacional
128 0,7 Clínica - Avaliação Psicológica - Escolar/Educacional
125 0,7 Clínica - Docência e Ensino de Psicologia - Organizacional e do Trabalho
102 0,6 Clínica - Saúde - Escolar/Educacional

Uma área
Três áreas 41%
27% Uma Área (N = 7090; 41,3%)

N % Área
4314 25,1 Psicologia Clínica

808 4,7 Psicologia Social


477 2,8 Psicologia Organizacional e do Trabalho
Duas áreas
351 2,0 Psicologia da Saúde
32%
310 1,8 Psicologia Escolar/Educacional
309 1,8 Docência e Ensino de Psicologia
242 1,4 Psicologia Jurídica
Duas Áreas (N = 5461; 31,8%)
N % Área 147 0,9 Psicologia Hospitalar
839 4,9 Clínica - Social 58 0,3 Avaliação Psicológica
832 4,8 Clínica - Docência e Ensino de Psicologia 28 0,2 Neuropsicologia
788 4,6 Clínica - Psicologia da Saúde
472 2,7 Clínica - Organizacional e do Trabalho
460 2,7 Clínica - Escolar/Educacional
357 2,1 Clínica - Avaliação Psicológica
211 1,2 Clínica - Hospitalar
164 1,0 Psicologia Clínica - Neuropsicologia
148 0,9 Clínica - Jurídica
128 0,7 Social - Psicologia da Saúde

25
I. O Que Fazemos

em apenas 25% dos casos; essa dedicação exclusiva ria (N=158) é efetivada, o que significa dizer que
à área era de 64% em 1988 e já caíra para 50,8% na 87% das áreas de atuação existentes em Psicologia
pesquisa de 2010. Em seguida temos as áreas Social são ocupadas por profissionais que se dividem em
e Organizacional e do Trabalho, com percentuais diferentes atuações. Esse é o indicador de densida-
bem mais reduzidos. A área Social, embrionária de da rede, que também se caracteriza por não ter
nos anos 1980, tinha um percentual de dedicação nenhuma comunidade ou subgrupo que se destaca
exclusiva de apenas 16% em 2010 e hoje chega a por mais intensa interação.
4,7%. A área Organizacional e do Trabalho, que Um segundo ponto envolve o conceito de cen-
nos anos 1980 apresentava o mais elevado índice de tralidade dos atores (áreas) que compõem a rede.
dedicação exclusiva, de 75,5%, já caíra para 61,2% Neste caso, mede-se a partir do quanto um ator é
em 2010 e agora fica em apenas 2,8%. Embora seja capaz de se vincular aos demais, seu grau de atra-
a sexta área em termos de absorção de profissionais, tividade e popularidade. De longe, a Clínica foi a
a Avaliação Psicológica é, sobretudo, uma área que mais buscada como uma opção de área de atuação
complementa outras (o percentual cai de 11,8% para em combinação com outras. É possível imaginar
apenas 0,3%). A Docência também cai de 18,3% para que, além do fato de esta ser uma das áreas mais
apenas 1,8%. Ou seja, são áreas em que a atuação se tradicionais e mais fortemente vinculada à identi-
dá, na sua grande maioria, em conjunção com outras dade profissional em Psicologia, a flexibilidade de
áreas. Isso fica evidente quando se examinam quais tempo que ela oferece e a autonomia na condução
são os perfis de combinação de áreas mais frequentes das tarefas sejam facilitadoras de uma atuação
nos dois outros gráficos que integram a Figura 7. A combinada com outras áreas. Social/Comunitária,
Clínica é a área que mais aparece como segunda ou Docência e Ensino de Psicologia e Saúde ocupam,
terceira área nos mais diferentes arranjos possíveis, nesta ordem, as posições seguintes. Com níveis
seguida da Docência, Social e Saúde. de centralidade próximos e um pouco menores,
A visualização dessas múltiplas combinações é estão a Organizacional e do Trabalho e a Escolar/
mais perceptível quando se examina a rede de inte- Educacional. Já Psicologia do Tráfego, Ambiental
ração entre as áreas, cuja fotografia encontra-se na e do Esporte apresentam as menores centralidades,
Figura 8. Utilizando a ferramenta de Análise de Redes congruente com a sua presença bem mais reduzida
Sociais (ARS) e o software Ghefi, foi possível traçar entre as(os) profissionais. No mapa, a centralidade
a rede de interações entre as áreas (que aparecem de grau está destacada no tamanho dos atores,
como nós), e cuja espessura das raias ou laços que sendo que quanto maior for o ator, mais central
as unem expressa o quantitativo (que também pode em grau ele é.
ser visto na Figura 8) de profissionais que combinam Por fim, nota-se também na imagem uma dife-
as respectivas áreas. Três resultados dessa análise rença na largura das raias que conectam os atores.
merecem destaque. As mais grossas indicam relações mais fortes, mais
O primeiro é que temos uma rede bastante frequentes e representam o valor quantitativo que
integrada e articulada. Tanto a coesão quanto a também se vê na Figura 8. Nesse sentido, as combi-
interatividade entre os atores pode ser fácil e vi- nações de áreas mais comuns, considerando apenas
sualmente identificada no mapa da rede, visto que díades, são as entre Clínica e Social (n=1.714), Clínica
a Figura 8 é atravessada por muitas raias ou laços, e Docência (n=1.694) e Clínica e Saúde (n=1.616).
que interligam os nós ou áreas. Dos 182 possíveis Clínica e Organizacional e do Trabalho contam com
laços para o total de atores (considerando que uma 968 interações; Clínica e Escolar contam com 950
área não mantém relação consigo mesma), a maio- interações. Ainda merece destaque a combinação

26
I. O Que Fazemos

Figura 8: Rede de combinações entre as áreas de atuação

entre Clínica e Avaliação Psicológica, com 788 in- precauções com os anteriores. Na realidade, cada um
terações. Como se pode ver, o elevado contingente desses estudos foi realizado num determinado mo-
de profissionais que atua na Clínica o faz, na sua mento histórico, que exigiu definições específicas de
grande maioria, tendo uma ou mais áreas adicionais. área a partir do conhecimento acumulado até então
e do cenário de expansão das práticas em Psicologia.
Considerações Finais Isto posto, cada estudo partiu de um leque distinto de
Embora o conceito de área de atuação tenha áreas ou utilizou estratégias diferentes de classificação.
sido alvo de debate em inúmeras pesquisas sobre o Na maioria dos casos, foi oferecida uma lista de op-
exercício profissional da Psicologia, inclusive aque- ções consideradas pertinentes naquele momento para
las de abrangência nacional realizadas pelo e com o que a(o) psicóloga(o) identificasse em quais atuava.
apoio do Conselho Federal de Psicologia (Bastos & A evolução dos debates e da própria conformação
Gondim, 2010; CFP, 1988, 1992, 1994), os presentes da profissão provoca uma mudança metodológica
resultados não podem ser comparados sem as devidas no último estudo nacional, o de Bastos e Gondim

27
I. O Que Fazemos

(2010), que inovou ao não partir de uma classificação Verifica-se, agora, essa pulverização de áreas em
predeterminada de área e sim de uma organização termos do crescimento de profissionais que combi-
delas a partir da indicação de locais e atividades nam diferentes áreas. Tal mescla sempre existiu, mas
identificadas pelas(os) profissionais. Só isso já seria não de forma majoritária; agora, a inserção variada
suficiente para não se fazer uma comparação linear caracteriza o perfil de trabalho da maioria das(os)
da distribuição da Psicologia pelos seus respectivos psicólogas(os). Como assinalado anteriormente,
campos teóricos e de aplicação. esse fenômeno requer análises mais cuidadosas so-
Essa dificuldade não impede, entretanto, a per- bre o possível efeito do processo de precarização
cepção de alterações bem significativas na forma do exercício profissional, associado ao crescimento
como a profissão se estrutura em termos de área de vertiginoso do número de profissionais de Psicologia
atuação. Elas são apresentadas a seguir. que a cada ano ingressam ou buscam ingressar no
O predomínio da Clínica é indiscutível e aparece mercado de trabalho. No entanto, é possível que
em todos os estudos. É um traço de identidade da área. esse crescimento de áreas que se combinam deva-se
Essa predominância acentuou-se no presente Censo a esse movimento de Clínica Ampliada, que a fez
e o elevado contingente de psicólogas(os) que atuam sair do clássicos consultórios, fazendo com que mui-
na Clínica o fazem, cada vez mais, em associação a tos profissionais que atuam em Saúde, Social e até
inserções em outras áreas. É interessante apontar que o mesmo na área Organizacional na sua vertente de
crescimento das áreas de Saúde e Social, com as quais a saúde do trabalhador, vejam-se também atuando na
Clínica mais se combina, mostra alguma sobreposição área Clínica. Da mesma forma, a Neuropsicologia
em termos de atividades com psicoterapia, oficinas e a Hospitalar, que em pesquisas anteriores não
terapêuticas, entre outras, que pode levar a uma apareciam como áreas (e sim como atividades e/ou
identificação profissional com o campo da Clínica contextos na área da Saúde), também ganharam o
ou de uma Clínica Ampliada. Ou seja, no passado, status de área e ampliaram a sobreposição com a área
a Clínica estava fortemente associada ao trabalho Clínica. Outro fator que pode ter contribuído na
em consultório; hoje, muitos trabalhos acontecem mesma direção é o fato de se ter tratado como área
em contextos institucionais, os mais diversos, e até de atuação, em conformidade com a Resolução que
mesmo em contextos sociais abertos. estabelece as especialidades da Psicologia, a Avaliação
Quando se comparam com estudos anteriores, Psicológica. Ela deixou de ser tratada apenas como
outro resultado muito marcante é a consolidação da uma atividade transversal a todas as áreas, como foi
área Social. Ela praticamente não existia em termos feito nas pesquisas anteriores, e ganhou o status de
numéricos na primeira pesquisa. Na segunda ela área. Assim, ela é praticamente, na sua totalidade,
aparece ainda de forma bem tímida, por ter sido exercida em conjunto com outras áreas de atuação.
conduzida quando se davam os primeiros passos para Não é desprezível o fato de, mesmo com contin-
a implantação do SUAS. Agora ela aparece como a gente bem menor, já se ter hoje a presença das áreas
segunda área em termos de absorção de profissionais, Jurídica, Ambiental, Esporte e Tráfego aparecendo
superando inclusive a Saúde, cujo crescimento já em levantamentos gerais como esse. Tais áreas não
remonta à implantação do SUS na última década apareceram nas pesquisas anteriores. Isso significa
do século XX. A consolidação dessa área, apesar de que tais domínios estão em expansão e tendem a ser
limites ainda pouco nítidos em relação à própria fronteiras de crescimento da profissão.
Clínica e à Saúde, fica mais evidente quando se Finalmente, vale destacar a necessidade de que
examina o conjunto de atividades desempenhadas a profissão desenvolva estudos mais específicos que
(vide Capítulo 13). definam quais frações do seu campo de atuação ou do

28
I. O Que Fazemos

seu território podem ser consideradas áreas de atuação.


Esse não é um problema simples para a Psicologia,
nem no campo científico (as diversas classificações
de áreas e subáreas de conhecimento mostram a di-
ferença entre países na forma de estruturar a ciência
psicológica), nem no campo profissional. O fato
de se ter tomado, neste CensoPsi, as especialidades
reconhecidas pelo CFP como áreas de atuação, não
soluciona o problema conceitual envolvido e nem
estabelece limites suficientemente nítidos para o
conjunto de áreas com as quais se trabalhou. n

29
I. O Que Fazemos

Referências:

Barros, J. D´A. (2011). Uma “disciplina” – entendendo como funcionam os diversos campos
de saber a partir de uma reflexão sobre a história. ‘OPSIS, Catalão, 11(1), pp. 252-270.

Bastos, A. V. B. (1988). Áreas de atuação: em questão o nosso modelo de profissional. In Conselho


Federal de Psicologia [CFP]. (1988). Quem é o psicólogo brasileiro. (pp. 163-193). São Paulo: Edicon.

Bastos, A. V. B., & Achcar, R. (1994). Dinâmica profissional e formação do psicólogo: uma
perspectiva de integração. In Conselho Federal de Psicologia (Org.), Psicólogo Brasileiro: práticas
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Botomé, S. P. (1979). A quem nós, psicólogos, servimos de fato? Psicologia, 5 (pp. 1-15).

Carvalho, A. M. A. (s/d). “Atuação Psicológica": alguns elementos para uma reflexão sobre
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Conselho Federal de Psicologia [CFP]. (1992). Psicólogo brasileiro:


construção de novos espaços. Campinas: Átomo.

Conselho Federal de Psicologia [CFP]. (1994). Psicólogo Brasileiro: práticas


emergentes e desafios para a formação. São Paulo: Casa do Psicólogo.

Gondim, S. M. G., Bastos, A. V. B., & Peixoto, L. S. A. (2010). Áreas de atuação, atividades
e abordagens teóricas do psicólogo brasileiro. In A. V. B. Bastos & S. M. G. Gondim &
Cols. (Orgs.), O trabalho do psicólogo no Brasil (pp. 174-199). São Paulo: Artmed.

Lei n. 4.119, de 27 de Agosto de 1962. Dispõe sobre os cursos de formação em Psicologia e regulamenta
a profissão de psicólogo. Câmara dos Deputados. Centro de Documentação e Informação. Recuperado
de [Link]

Mello, S. L. (1975). Psicologia e Profissão em São Paulo. São Paulo: Ática.

Resolução nº 3, de 16 de março de 2022. Institui condições para concessão e registro de


psicóloga e psicólogo especialistas; reconhece as especialidades da Psicologia e revoga as
Resoluções CFP n. 13, de 14 de setembro de 2007, n. 3, de 5 de fevereiro de 2016, e n. 8,
de 25 de abril de 2019. Diário Oficial da União, edição 53, seção 1, de 18/03/2022.

30
I. O Que Fazemos

Witter, G. P., Bastos, A. V. B., Bonfim, E. M., & Guedes, M. C. (1992). Atuação do
Psicólogo: espaços e movimentos. In Conselho Federal de Psicologia [CFP] (Org.),
Psicólogo Brasileiro: construção de novos espaços (pp. 161-177). Campinas: Átomo.

31
I. O Que Fazemos

13 OS PROCESSOS DE TRABALHO EM PSICOLOGIA:


uma nova estratégia de descrever o
nosso campo de atuação profissional
Antonio Virgílio B. Bastos1
Haiana Maria de Carvalho Alves2
Liberalina Santos de Souza Gondim3

Historicamente o campo profissional da Psicologia desenvolvimento de equipes. Quem está em uma


se define ou é organizado a partir do conceito de escola, pode estar atendendo individualmente, crian-
áreas de atuação, cujos resultados obtidos no Censo ças, adolescentes com dificuldades emocionais que
da Psicologia foram apresentados no capítulo 1. afetam seu processo de aprendizagem; ou, quem está
Trata-se, sem dúvida, daquele conceito mais difun- em uma empresa, pode estar lidando com saúde da(o)
dido e mais utilizado, tanto no contexto acadêmico trabalhadora(or). Essa constatação, nos conduziu ao
como no profissional. Há, como sabemos, uma longo do tempo, a buscar um novo conceito para
forte sobreposição entre as definições das áreas e descrever as formas de atuação da(o) psicóloga(o)
os contextos ou locais de trabalho em que se atua. nos mais diversos contextos em que se insere.
O que é feito, especificamente, em cada um desses As Diretrizes curriculares para os cursos de
contextos têm, muitas vezes, pouco peso na definição Psicologia aprovadas em 2004, ao introduzir o con-
da área. Então, a área ‘Escolar’ reúne quem trabalha ceito de ênfases curriculares, as definiu a partir do
em escolas; ‘Organizacional’ quem atua em empresas; conceito de processos de trabalho em Psicologia. A
‘Hospitalar’ quem se insere em hospitais e assim por noção básica e a novidade que ela carregava consis-
diante. No entanto, quem está em um hospital pode tia exatamente em romper a noção de área como
estar lidando com gestão de pessoas, treinamento, local de atuação, centrando-se na própria atividade

1 Psicólogo. Mestre em Educação (UFBA,1984). Doutor em Psicologia (UnB,1994). Prof. Titular aposentado Universidade Federal da
Bahia. Pesquisador I-A do CNPq. Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia/UFBA. Dedica-se a pesquisa no campo
da Psicologia Organizacional e do Trabalho, com ênfase no estudo dos vínculos do indivíduo com diversas facetas do seu mundo
de trabalho. Dedica-se, também, ao estudo sobre a formação e exercício profissional na Psicologia, tendo coordenado e conduzido
pesquisas de âmbito nacional sobre o trabalho da(o) psicóloga(o) no Brasil. Atualmente é membro do XVI Plenário do Conselho
Federal de Psicologia.

2 Doutoranda em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (UFBA/2020) na linha de pesquisa “Indivíduos e Processos Micro-
organizacionais”. Supervisora de estágio profissionalizante no Centro universitário Jorge Amado (UNIJORGE) e consultora de
empresas na área de Gestão de pessoas (Potencialize Pessoas - soluções em RH). Possui mestrado pelo Programa de Pós Graduação em
Psicologia da Saúde na linha de pesquisa “Processos Psicossociais do trabalho” na Universidade Metodista de São Paulo (2013-2015).
Graduada em Psicologia pela Universidade Federal do São Francisco (UNIVASF/ 2011). Docente em ensino superior desde 2015 e em
pós-graduação desde 2017. Possui interesse em estudos multidisciplinares sobre política, psicologia, sociologia e o mundo do trabalho.

3 Psicóloga Graduada pela Universidade Federal do Vale do São Francisco (UNIVASF). Mestra em Psicologia (UNIVASF), linha de
pesquisa em Processos Psicossociais. Doutoranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia da Universidade Federal da Bahia
(UFBA), linha de pesquisa Indivíduo e Trabalho: Processos Micro-Organizacionais. Especialista em Gestão em Saúde (UNIVASF) e
em Gestão de Pessoas com Ênfase em Gestão por Competências no Setor Público (UFBA).

32
I. O Que Fazemos

laborativa, ou seja, na natureza do processo de Depois de Marx, diferentes autores passaram a


intervenção que é realizada por parte da(o) profis- se interessar pelo estudo dos processos de trabalho
sional tendo em vista a diversidade de demandas (Gonçalves, 1992; Gonçalves, 2000; Peduzzi, 2002;
que geram objetivos também diferenciados. No Faria et al., 2009). Para Gonçalves (2000), por exem-
presente capítulo teremos a oportunidade de, pela plo, os processos de trabalho podem ser compreen-
primeira vez, mapear como a categoria descreve a didos como a forma pela qual organizam-se todos
sua atuação a partir do conceito de processos de os recursos necessários para se realizar determinado
trabalhos em Psicologia. Esse capítulo se estrutura trabalho. Já para Faria et al. (2009), o processo de
em quatro partes. A primeira discute o conceito trabalho pode ser definido como o modo pelo qual
de processo de trabalho, resgatando a sua história as pessoas realizam as suas atividades profissionais,
e como ele é conceitualizado na literatura. A se- envolvendo procedimentos efetivados por meios de
gunda parte apresenta os processos de trabalho já produção para a transformação de um objeto em
mapeados no campo da Psicologia e que constam um produto com utilidade. Porém, nem sempre o
na versão mais recente das Diretrizes Curriculares, trabalhador está consciente dos processos de trabalho
aprovada pelo Conselho Nacional de Educação envolvidos em sua atividade funcional, de modo que
(CNE) em 17 de fevereiro de 2022. A terceira a complexidade do processo de trabalho e o seu nível
parte faz uma apresentação dos dados obtidos no de sistematização podem interferir na capacidade de
Censo da Psicologia Brasileira sobre os processos reflexão sobre ele.
de trabalho. Finalmente, nas considerações finais, Além disso, Faria et al. (2009) destacam e de-
discute-se a importância dessa nova estratégia de finem aqueles que seriam os componentes de um
descrição do nosso campo profissional, considerando processo de trabalho: os seus objetivos ou finalida-
as tendências que marcam o desenvolvimento das des; os objetos; os meios e condições; e os agentes
ocupações no momento contemporâneo. ou sujeitos. A Figura 1 apresenta de forma sintética
tais componentes e sua definição.
O que são processos de trabalho? Em relação à finalidade ou objetivos, este fator
O conceito de processos de trabalho surge inicial- engloba os resultados almejados com a execução do
mente a partir das ideias de Karl Marx, compiladas trabalho – quais as necessidades e demandas dos
de maneira póstuma no livro “O Capital”, no qual sujeitos, coletividades sociais e/ou societais serão
o autor compreende processo de trabalho à parte de alcançadas dentro de um recorte cronológico e his-
qualquer estrutura social determinada, envolven- tórico – deve ser o balizador de todo o processo de
do como componentes a atividade adequada a um trabalho. Os objetos referem-se aos pontos/enfoque
fim, a matéria a que se aplica o trabalho e os seus de atuação; diz respeito às condições que serão trans-
meios, resultando na transformação da natureza e formadas, sejam elas de ordem material ou abstrata,
de si mesmo, de modo que “no fim do processo de na esfera real ou pessoal, de caráter individual ou
trabalho, obtém-se um resultado que já no início coletivo, entre outros.
deste existiu na imaginação do trabalhador, e por- Os meios e condições envolvem todos os instru-
tanto idealmente.” (Marx, 1983, pp. 149-150). Além mentos que viabilizem a execução do trabalho em
disso, o autor distingue o valor da força de trabalho questão, podendo ser de ordem material - como
do valor criado por essa mesma força no processo de máquinas, aparelhos, ferramentas e equipamentos,
trabalho, gerando excedentes (mais valia), ao qual o em geral - ou de ordem subjetiva, tais como as com-
trabalhador pode não ter acesso, pois ao vender sua petências, as habilidades, os conhecimentos do sujeito
força de trabalho, aliena o seu valor-de-uso. instrumentalizador do cuidado. Por fim, os agentes

33
I. O Que Fazemos

Figura 1: Componentes dos Processos de trabalho


Fonte: baseado em Farias et al., 2009 e CFP, 2020.

São resultados almejados que buscam atender necessidades e expectativas


de pessoas, grupos sociais, ou sociedades em um determinado momento
histórico. Tal finalidade orienta todo o processo de trabalho.

FINALIDADE
OU
OBJETIVOS

Uma(um) trabalhadora(or)
ou conjunto de Constituem a “matéria
trabalhadoras(es) que PROCESSO prima” a ser transformada,
AGENTES OU
definem objetivos e DE OBJETOS incluindo estados ou
SUJEITOS
estabelecem os meios TRABALHO condições pessoais e
necessários para sociais.
transformar os objetos.

MEIOS E
CONDIÇÕES

São os instrumentos de trabalho que podem ser máquinas,


ferramentas ou equipamentos em geral e, em uma visão mais
ampla, incluem conhecimentos, competências e habilidades.

ou sujeitos correspondem à equipe de trabalho ou a que os seus componentes estabelecem uma relação
pessoa trabalhadora que irá determinar os objetivos a recíproca entre si. Além disso, no campo da saúde
serem alcançados e escolher os artefatos indispensáveis existem instrumentos materiais e não-materiais nos
para transformar o objeto em questão. processos de trabalho, correspondendo os primeiros
Assim conceituado, os processos de trabalho não a equipamentos, medicamentos, instalações, entre
se restringem a transformação de um objeto em outros, e os segundos aos saberes que se articulam
produto, mas inclui também objetivos existenciais entre os agentes do trabalho (Gonçalves, 1992).
e sociais, ou seja, são atravessados por subjetividades Assim, os processos de trabalho em saúde envolvem
que se manifestam no exercício de capacidades, na incertezas e descontinuidades que impossibilitam a
realização pessoal e no desenvolvimento de relações completa normatização de funções técnicas e exi-
interpessoais, padrões de comportamento e valores ge variadas autonomias dos profissionais (Peduzzi,
compartilhados nos diferentes contextos de trabalho 2002). Ademais, os processos de trabalho em saúde
(Farias et al., 2009). são caracterizados por uma maior autonomia do tra-
Tomemos, apenas a título de exemplo, como balhador na condução do seu trabalho, o que implica
essa reflexão vem se desenvolvendo no campo da na necessidade de utilizar criatividade, experimentar
saúde, com o qual a nossa profissão tem forte rela- de soluções e integrar o usuário na produção de sua
ção. Nesse campo, os processos de trabalho precisam própria saúde, tornando-se esse contexto de trabalho
ser compreendidos de forma articulada, uma vez um lugar de micropolítica (Franco, 2015).

34
I. O Que Fazemos

Certamente a compreensão de processos de tra- de trabalho em Psicologia é preciso levar em consi-


balho acima apresentada se estende para quaisquer deração não apenas a diversidade dos contextos, dos
outros processos de trabalho em Psicologia. Assim, é processos e das atividades de trabalho, mas entendê-las
importante destacar que os processos de trabalho não nesse cenário de um campo não paradigmático e,
são estruturas estáticas, mas se transformam ao longo portanto, multifacetado.
do tempo, acompanhando as mudanças da própria Em relação aos contextos de trabalho, pode-se
sociedade e, de forma mais específica, em função do citar três grandes nichos de atuação: o setor públi-
avanço da ciência e das tecnologias por ela geradas. co, o setor privado e o terceiro setor. Em cada um
Daí a necessidade do constante estudo e avaliação deles, micro contextos específicos também devem
acerca da dinâmica dos processos de trabalhos, para ser considerados – um contexto hospitalar tem sin-
que se possa compreender de forma crítica os aspectos gularidades que o diferenciam de uma escola do
envolvidos no exercício profissional. ensino básico, de uma empresa industrial, de um
clube esportivo e assim por diante. Neste aspecto,
Os processos de engloba-se o aparelhamento para atuação de psicó-
trabalho em Psicologia logas(os) e em cada um destes deverá existir normas,
Os processos de trabalho em psicologia, cuja diretrizes institucionais e de conduta específicas para
primeira organização e definição surgiu nas Diretrizes execução do trabalho. Ou seja, um mesmo processo
Curriculares Nacionais (DCN) em 2004, como uma de trabalho pode ter feições distintas em função
estratégia de dar transversalidade às ênfases curricu- de culturas laborais locais. No que diz respeito aos
lares da graduação diferenciando-as da dedicação às processos de trabalho, estes devem englobar todos
áreas de atuação (CFP, 2020). Ao se examinarem os os artefatos possíveis, tais como conhecimentos,
processos de trabalho, no caso da Psicologia, descor- técnicas, ferramentas e práticas que, organizadas de
tina-se a possibilidade de se olhar, sob um ângulo forma intencional, orientam a execução do trabalho
novo, a diversidade e complexidade das intervenções de psicóloga(o) em diversos contextos laborais. No
conduzidas pelas(os) profissionais. Assim, sem se que tange às atividades de trabalho, estas podem ser
aprisionar ao contexto específico em que elas ocorrem, relacionadas aos processos de investigação científica,
essa noção permite captar a fluidez que faz com que aos contextos educativos, na gestão e desenvolvimento
os limites entre tais contextos não sejam tão nítidos de pessoas em contextos de trabalho, na prevenção
como frequentemente se afirma. e promoção da saúde e bem-estar, na clínica, na
A novidade e a relevância propostas neste capí- perspectiva da avaliação psicológica, na condução
tulo se referem ao crescimento e diversificação do de orientação e aconselhamento, na organização
fazer psicológico como também identificar como a dos coletivos sociais, na mediação de conflitos, na
categoria profissional observa e descreve a sua atua- proteção social e desenvolvimento e no ensino da
ção a partir do conceito de processos de trabalhos Psicologia (CFP, 2020).
nesta profissão. A análise dos processos é bastante Desta maneira, os processos de trabalho na
complexa, pois exige a reflexão crítica e contínua do Psicologia são multifacetados e englobam aspectos
que são os processos laborais, como estes se definem, que vão desde a ordem subjetiva e imaterial - como os
se dividem e se distribuem quando nem mesmo o processos psicológicos - até os componentes materiais
objeto de trabalho da Psicologia não é algo definido e táteis, como técnicas e ferramentas, que devem ser
de forma consensual e que as ferramentas conceituais organizados de forma estratégica, pois orientam e
se dispersam em uma gama de perspectivas ou escolas determinam a execução do trabalho da Psicologia
distintas. Assim sendo, para se investigar os campos em condições laborais diversas.

35
I. O Que Fazemos

Posto isto, os processos de trabalho em Psicologia nários adversos (CFP, 2020). Essas informações foram
devem perceber o indivíduo como um ser integral, estruturadas na Figura 2 para melhor compreensão
levando em consideração as dimensões biológica, do que foi exposto neste parágrafo.
social e psicológica correlacionando todas essas variá- Conforme apresentado na Figura 2, é possível
veis aos aparatos técnicos, instrumentais e relacionais observar que cada processo de trabalho pode estar
referentes a execução do seu trabalho - que serão associado a um ou mais contextos de atuação com
discriminadas a seguir. atividades distintas ou interrelacionadas, de modo
As Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para que a(o) psicóloga(o) que está inserido no contexto
os cursos de graduação em Psicologia, em sua versão de trabalho organizacional, por exemplo, pode estar
atualizada pela Resolução CNE/CES N. 05/2011, realizando em seu cotidiano de trabalho, além de
apresentam os processos de trabalho em Psicologia processos de gestão e desenvolvimento de pessoas no
como aspectos a serem considerados na definição das trabalho, também processos clínicos, de promoção
ênfases curriculares dos cursos de Psicologia. Além de saúde e bem-estar, de educação, de orientação e
disso, uma cartilha de recomendações para os estágios aconselhamento, entre outros. Desse modo, torna-
em Psicologia durante a pandemia, desenvolvida pelo -se imprescindível compreender a relação entre os
Conselho Federal de Psicologia (CFP) em parceria contextos e os processos de trabalho em Psicologia.
com a Associação Brasileira de Ensino em Psicologia A tabela 1, a seguir, sintetiza os processos de tra-
(ABEP) enfatiza a necessidade de pensar novas formas balho, suas definições e os contextos em que eles
de execução dos processos de trabalho, diante de ce- podem ocorrer.

Figura 2: Processos de trabalho em Psicologia


Fonte: adaptado de CFP, 2020.
Contexto 10
Contexto 11
Contexto 1

Contexto 2

Contexto 3

Contexto 4

Contexto 5

Contexto 6
Contexto 7

Contexto 8

Contexto 9

1 Processos de investigação científica


MACRO PROCESSOS DE TRABALHO

2 Processos de avaliação psicológica

3 Processos educativos

4 Processos de gestão e desenvolvimento de pessoas no trabalho


5 Processos de prevenção e promoção da saúde e bem-estar

6 Processos clínicos
7 Processos de orientação e aconselhamento
8 Processos organizativos de coletivos sociais

9 Processos de mediação de conflitos

10 Processos de proteção social e desenvolvimento

36
I. O Que Fazemos

Tabela 1: Definição dos processos de trabalho em Psicologia


Fonte: baseado em CFP, 2020.

PROCESSO DE TRABALHO FATORES GÊNERO ASSOCIADO

Consistem na concentração em
conhecimentos, habilidades e Base para as ações diagnósticas envolvidas
competências de pesquisa para nas intervenções profissionais em Psicologia.
INVESTIGAÇÃO
analisar criticamente diferentes Trata se de um processo de trabalho que
CIENTÍFICA
estratégias de pesquisa, conceber, corta transversalmente todos os campos,
conduzir e relatar investigações fenômenos e contextos da Psicologia.
científicas de distintas naturezas.

Ocorrem preferencialmente em contextos


Competências para diagnosticar educacionais - escolas públicas e privadas e no
necessidades, planejar condições e âmbito da administração pública municipal, estadual
realizar procedimentos que envolvam e federal. Podem ocorrer em contextos diversos
PROCESSOS EDUCATIVOS o processo de educação e de ensino tais como organizações de trabalho de diferentes
aprendizagem através do desenvolvimento segmentos produtivos, organizações de saúde,
de conhecimentos, habilidades, atitudes assim como na área do Trânsito, educação no
e valores de indivíduos e grupos. campo, clubes, agremiações, federações, projetos
sociais envolvendo esportes, entre outros.

Ocorrem preferencialmente no âmbito das


organizações de trabalho, de diferentes tipos
PROCESSOS DE GESTÃO Concentração em competências para o e segmentos produtivos. Empresas privadas,
E DESENVOLVIMENTO DE diagnóstico, planejamento, intervenções Empresas Públicas, Órgãos da administração
PESSOAS EM CONTEXTOS e avaliações de resultados na gestão de pública nos três níveis, Ongs, OSIPs,
DE TRABALHO pessoas, grupos, equipes e organizações. organizações sindicais, cooperativas. Podem
estar presentes no âmbito dos sistemas de
saúde, de educação e de assistência social.

Ocorrem predominantemente em unidades de


Concentração em competências que saúde, de diferentes níveis de complexidade,
garantam ações de caráter de promoção no âmbito dos sistemas públicos e privados
PROCESSOS DE e prevenção, em nível individual de saúde, a exemplo de: unidades de saúde da
PREVENÇÃO E PROMOÇÃO e coletivo, voltadas à capacitação família, CAPs, UPAs, Policlínicas, Hospitais gerais
DA SAÚDE E BEM-ESTAR de indivíduos, grupos, instituições e especializados. Podem ocorrer, também, no
e comunidades para protegerem e âmbito de organizações de trabalho, das diversas
promoverem a saúde e qualidade de vida. organizações esportivas, com ações voltadas para
suas equipes de trabalhadoras(es) e de atletas.

Ocorrem onde quer que haja necessidade de


escuta de sofrimento e de angústia que afetam os
Envolvem a concentração em
indivíduos nas várias esferas de sua vida amorosa,
competências para atuarem práticas
laboral, social, familiar, na doença e na morte, entre
e estratégias clínicas, frente a
PROCESSOS CLÍNICOS outras. Ocorrem em instituições públicas e privadas:
problemas de ordem psicológica
escolas, universidades, hospitais, clínicas, serviços
ou psicossocial apresentados por
de saúde e saúde mental, nas várias instâncias do
indivíduos, casais, famílias ou grupos.
judiciário, incluindo instituições penais. Podem
ocorrer também em consultórios privados.

Implicam a concentração em
competências referentes ao uso e
ao desenvolvimento de diferentes Base para as ações diagnósticas envolvidas
recursos, estratégias e instrumentos nas intervenções profissionais em Psicologia.
PROCESSOS DE
de observação e avaliação úteis para a Trata se de um processo de trabalho que
AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA
compreensão diagnóstica em diversos corta transversalmente todos os campos,
domínios e níveis de ação profissional fenômenos e contextos da Psicologia.
(avaliação individual, institucional,
social, educacional, por exemplo).

37
I. O Que Fazemos

PROCESSO DE TRABALHO FATORES GÊNERO ASSOCIADO

Envolvem intervenções que, embasadas


em diagnósticos específicos, ofereçam Está bem estabelecido no campo da Orientação
PROCESSOS DE
suporte a indivíduos e grupos para profissional e de carreira, de orientação a pais, a
ORIENTAÇÃO E
tomadas de decisões críticas para o docentes, a gestores e a trabalhadores. Ocorrem,
ACONSELHAMENTO
seu crescimento e desenvolvimento portanto, nos mais diversos contextos de trabalho.
pessoal ou profissional.

Abarcam a organização, mobilização,


desenvolvimento e avaliação de processos
São processos que ocorrem em espaços de controle
grupais para participação social,
e participação social vinculadas ao planejamento,
desenvolvimento comunitário e mudança
execução e fiscalização de políticas públicas, junto
PROCESSOS societal. Envolvem atividades grupais
aos movimentos sociais, associações comunitárias
ORGANIZATIVOS DE e comunitárias de autopreservação
e outras organizações de coletivos com diferentes
COLETIVOS SOCIAIS e autogestão, em distintos territórios
níveis de institucionalização. Podem se dar também
em que as formas de organização
em espaços institucionais diversos vinculados, por
enfrentam tensões, relações de poder,
exemplo, a atuação em conselhos e sindicatos.
conflitos, bem como as potencialidades
e soluções criativas e emancipadoras.

Ocorrem mais frequentemente no contexto da


Justiça, quando as disputas buscam solução no
São processos que requerem o âmbito do poder judiciário (especialmente disputas
aprofundamento em competências para por guarda de filhas(os), execução de penas ou
favorecer o diálogo entre partes, conduzir de cumprimento de medidas socioeducativas
PROCESSOS DE
procedimentos de mediação e outros em Conselhos tutelares, Centros de Referencias
MEDIAÇÃO DE CONFLITOS
meios consensuais e restaurativos entre Especializados em Ongs, dentre outros). Também
indivíduos, no interior de famílias, grupos são fundamentais em contextos de trabalho, quando
de trabalhos e instituições, entre outros. tensões interpessoais e entre equipes aparecem
como também nas negociações trabalhistas
(patrões e empregados ou empresas sindicatos).

Envolvem ações seja da esfera pública


Comumente são realizados no âmbito do Sistema
ou organizada (organizações não
Único de Assistência Social (SUAS) no atendimento
governamentais, institutos, dentre outros)
às demandas e questões dos grupos e comunidades
PROCESSOS DE de promoção e acesso a direitos como
às quais se destina a Política de Assistência Social.
PROTEÇÃO SOCIAL E saúde, educação, moradia, geração de
Expande se para todos os contextos de vulnerabilidade
DESENVOLVIMENTO renda, dentre outros, de modo a garantir
social, fragilidade de vínculos e violência, no
o desenvolvimento psíquico autônomo e
âmbito de famílias, escolas, organizações,
saudável a indivíduos ou grupos que estão
comunidades e sistemas de garantia de direitos.
em situação de vulnerabilidade social.

Processos de trabalho: o que no seu exercício profissional. Considerando que


nos informa o CensoPsi cada participante pode escolher vários processos e a
O CensoPsi investigou os 10 processos de trabalho maioria identificou sua atuação em quatro ou cinco
em Psicologia definidos nas Diretrizes Curriculares. processos, serão apresentados a seguir os resultados,
Tais processos, sem as suas definições, foram ofere- considerando o número percentual de profissionais
cidas aos participantes que poderiam escolher até que atuam em cada processo. Tais dados se encon-
cinco processos de trabalho em que se envolviam tram na Figura 3.

38
I. O Que Fazemos

Figura 3: Porcentagem de psicólogas(os) brasileiras(os) por da saúde que delimitam esse processo e que, ao não
processos de trabalho que executam serem considerados pelos respondentes, expande
a presença desse processo para além daquelas(es)
profissionais efetivamente envolvidos com esses dois
Proteção social e níveis básicos de intervenção na saúde.
29,1%
desenvolvimento O processo de orientação e aconselhamento é o
Mediação de 28,9%
conflitos terceiro mais desenvolvido, sendo relatado por 57,6%
Organizativos de das(os) participantes. Trata-se de uma intervenção
10,4%
coletivos sociais clássica da Psicologia e que corta transversalmente
Orientação e 57,6% diversas áreas e contextos de trabalho, pois abarca
aconselhamento
Avaliação o desenvolvimento humano como todo e pode ser
psicológica 30,7%
um processo empregado na clínica, na educação, no
Clínicos 72,4% trabalho, entre outros.
Promoção da
Um segundo bloco de processos se encontra com
saúde e bem-estar 73,0% percentuais de profissionais entre 20 e 42%: educati-
Gestão de pessoas em vos (41,9%), avaliação psicológica (30,7%), proces-
contextos de trabalho 17,7%
sos de proteção social e desenvolvimento (29,1%),
Educativos 41,9% os processos de mediação (28,9%) e investigação
Investigação 22,0%
científica (22%). Vale destacar a maior frequência
científica de engajamento em processos educativos que supera
a participação da área escolar educacional, mais uma
Congruente com o que se observou em termos de vez revela que tais processos extrapolam os limites
área de atuação, o processo de promoção da saúde e clássicos das áreas de atuação. O mesmo ocorre com
bem-estar e o processo clínico são aqueles desenvol- a avaliação psicológica. O processo de proteção social
vidos pela expressiva parcela de profissionais, com e desenvolvimento, por seu turno, encontra-se em
respectivamente 73% e 72,4%. O percentual dos que patamar bem próximo ao da participação da área
afirmam trabalhar processos clínicos é praticamente social, assim como o processo de investigação cien-
idêntico às(aos) que dizem atuar na área clínica; no tífica se aproxima bastante do percentual dos que se
entanto, em relação à promoção da saúde há um inserem na área da docência e pesquisa.
crescimento muito expressivo em relação aos que Os processos de gestão de pessoas (17,7%) são menos
afirmam atuar na área da saúde. Ou seja, o processo comuns, superando levemente a quantidade das(os)que
de promoção da saúde e bem-estar talvez esteja sendo indicam atuar na área organizacional. Segundo Gondim,
compreendido como um rótulo geral para a atuação Bastos & Peixoto (2010), a menor inserção das(os)
da(o) profissional de Psicologia, possivelmente pelo profissionais no campo da Gestão de Pessoas pode estar
objetivo que a define e que, de fato, nos torna agentes relacionada ao aumento das possibilidades de atuação em
de promoção da saúde nos mais diversos contex- outras áreas, as mudanças socioeconômicas e políticas
tos em que estejamos inseridos. Isso, no entanto, que têm incentivado a atuação das(os) psicólogas(os)
se distancia do escopo da definição desse processo como consultores organizacionais na forma de presta-
que, como apresentado na Tabela 1, o delimita com ção de serviço terceirizado e a pejotização. Finalmente
ações de caráter de prevenção e promoção e não de o processo menos relatado – organizativo de coletivos
remediação. Prevenção e promoção são dois con- sociais – envolve apenas 8,1%, que apesar de menos
ceitos centrais na estruturação das ações no campo expressivos, quando comparados aos demais processos,

39
I. O Que Fazemos

desempenha papel relevante na conscientização dos exceções a menor dedicação aos processos clínicos
grupos a partir, por exemplo, do empoderamento dos nas regiões Norte e Centro-Oeste (cai para 64,6%
indivíduos pertencentes aos movimentos sociais. e 67,4%, respectivamente). O terceiro processo, em
Em que medida esse quadro geral se modifica todas as regiões, continua sendo o de orientação e
nas diferentes regiões do país? A Figura 4 mostra os aconselhamento que chega a se aproximar do processo
percentuais de profissionais que atuam nos proces- clínico na Região Norte(62,5%).
sos de trabalho por cada região do Brasil. No geral, No grupo de processos de índices medianos de
pode-se afirmar que o quadro nacional não se alte- envolvimento de profissionais, vale destacar uma
ra de forma significativa quando se consideram as presença ligeiramente menor dos processos educativos
realidades regionais. A hierarquia entre os processos entre profissionais do Sudeste e Sul. Não há variações
mais presentes na atuação é praticamente mantida, importantes quando se olha a presença dos processos
com pequenas alterações nos índices percentuais. de investigação, de mediação, de proteção social e
Assim, os processos de promoção da saúde e clínico os processos organizativos de coletivos sociais. Os
se mantêm isoladamente como os mais presentes, processos de gestão, no entanto, são mais presentes
em patamares quase sempre superiores a 70%. São na Região Centro-Oeste, superando a média nacional.

Figura 4: Distribuição dos processos de trabalho em Psicologia no território nacional

NORTE NORDESTE
Proteção social e desenvolvimento 35,1% Proteção social e desenvolvimento 28,8%
Mediação de conflitos 32,2% Mediação de conflitos 30,3%
Organizativos de coletivos sociais 10,0% Organizativos de coletivos sociais 9,9%
Orientação e aconselhamento 62,5% Orientação e aconselhamento 57,8%
Avaliação 37,7% Avaliação 28,9%
Clínicos 64,6% Clínicos 72,7%
Promoção da saúde e bem estar 75,9% Promoção da saúde e bem estar 74,6%
Gestão de pessoas 19,9% Gestão de pessoas 16,0%
Educativos 44,2% Educativos 45,5%
Investigação científica 19,3% Investigação científica 19,2%

CENTRO-OESTE SUDESTE
Proteção social e desenvolvimento 29,5% Proteção social e desenvolvimento 28,1%
Mediação de conflitos 32,6% Mediação de conflitos 29,2%
Organizativos de coletivos sociais 10,4% Organizativos de coletivos sociais 9,9%
Orientação e aconselhamento 56,7% Orientação e aconselhamento 58,9%
Avaliação 34,5% Avaliação 32,8%
Clínicos 67,4% Clínicos 75,2%
Promoção da saúde e bem estar 72,5% Promoção da saúde e bem estar 72,2%
Gestão de pessoas 21,3% Gestão de pessoas 17,2%
Educativos 40,2% Educativos 37,8%
SUL
Investigação científica 19,2% Investigação científica 20,4%
Proteção social e desenvolvimento 30,5%
Mediação de conflitos 33,0%
Organizativos de coletivos sociais 9,3%
Orientação e aconselhamento 58,5%
Avaliação 33,0%
Clínicos 73,2%
Promoção da saúde e bem estar 74,3%
Gestão de pessoas 17,1%
Educativos 39,0%
Investigação científica 20,3%

40
I. O Que Fazemos

Quando se trata da distribuição dos processos de vale considerar que a clínica autônoma tem sido a
trabalho pelas regiões do país, o panorama é bastante principal porta de entrada no mercado de trabalho,
similar à quando se avalia as áreas de atuação. Ambos o que pode sugerir dificuldades para se inserir em
revelam um padrão bastante homogêneo de como outras áreas. Esse mesmo padrão, com maior pre-
a profissão se estrutura e se insere no mundo do sença em estágios iniciais da carreira, se encontra
trabalho, apesar das disparidades socioeconômicas nos processos de proteção social e de mediação de
entre as regiões brasileiras. A Psicologia se consolida conflitos. Nesse ponto, é possível ressaltar que a
fortemente como uma profissão da saúde, não só pelo política de assistência social também tem sido outra
maior peso dos processos intuitivamente mais ligados fonte de empregabilidade para jovens profissionais.
a essa missão de promover a saúde e a qualidade de
Figura 5: Relação entre os processos de trabalho e o
vida de pessoas, grupos e instituições. Trata-se de
estágio na carreira de psicólogas(os)
um campo que, para além da forte presença do tra-
balho clínico na condição de autônomo, se junta à 22,0%
Proteção 30,1%
inserção em uma política pública na qual se inseriu social e
desenvolvimento 33%
há mais tempo e na qual atua em uma capilaridade 30,9%
maior no país. A presença já mais expressiva tanto da 27,4%
Mediação de 31,7%
área social quanto dos processos de proteção social conflitos 29,8%
e desenvolvimento, algo bem menos expressivo em 30,8%

pesquisas anteriores, já é reflexo da inserção, essa mais Organizativos 9,9%


de coletivos 10,2%
recente na política de assistência social do Estado. 9,3%
sociais
Vale registrar, portanto, o papel das políticas sociais 9,0%

no Brasil, que contribuíram nas últimas décadas 58,4%


Orientação e 59,8%
para a interiorização do ensino superior, de modo a aconselhamento 58,3%
54,5%
formar psicólogas(os) que, por vezes, permanecem
33,7%
nas suas localidades e contribuem para expansão da Avaliação 34,6%
Psicológica 30,3%
Psicologia e para execução de processos de traba-
23,4%
lho alinhados com as necessidades locais (Borges-
71,3%
Andrade, Bastos, Andery, Guzzo & Trindade, 2015; Clínicos
70,6%
77,0%
Travassos & Mourão, 2018). 80,6%
Ainda buscando averiguar modificações no perfil 67,0%
Promoção 73,0%
nacional da distribuição dos processos de trabalho, da saúde e
bem estar 76,3%
foram examinados, também, a sua relação com os 80,8%
estágios de carreira da(o) profissional. A Figura 5 22,9%
Gestão
18,2%
apresenta os resultados, de onde se destacam alguns de pessoas
12,4%
em contextos
dados bem interessantes e que merecem reflexão. de trabalho 11,6%
Os dois processos mais presentes – clínicos e 42,8%
42,4%
promoção da saúde – são exercidos em maior pro- Educativos 37,5%
32,2%
porção por jovens profissionais, ainda no início de
27,9%
sua carreira. Ambos superam a marca de 80% en- Investigação 20,3%
tre aquelas(es) com até dois anos de formadas(os). científica 15,6%
12,4%
Assim, apesar desses processos estarem presentes em
diferentes áreas de atuação das(os) psicólogas(os), 26 anos ou mais 6 a 25 anos 3 a 5 anos até 2 anos

41
I. O Que Fazemos

Interessante verificar que essa ordem se inver- as(os) profissionais que atuam apenas com 2 (10,1%).
te quando se toma os processos de orientação e Por fim, apenas 6,6% atuam em um único processo.
aconselhamento, educativos, avaliação psicológica, Quem atua em apenas um processo, os processos
investigação científica e gestão de pessoas. Nesses clínicos continuam sendo o mais frequente. No entan-
quatro casos, eles são exercidos por profissionais to, os processos de gestão superam outros processos
em estágios mais avançados de suas carreiras, sendo mais frequentes na amostra geral. Quem combina
bem menos presentes no estágio inicial de até dois dois processos, verifica-se que os processos clínicos
anos de graduação. Essa realidade pode se dever a e de promoção da saúde estão entre as combinações
maiores restrições de oportunidades de inserção em mais frequentes e que absorvem mais profissionais.
trabalhos que assegurem tais tipos de intervenção Esse mesmo padrão se repete na combinação de 3, 4 e
para jovens profissionais. Pode também significar 5 processos. A presença da investigação científica em
que são processos que requerem, por serem exerci- várias combinações de processos se deve à presença
dos em empregos mais formais, maior experiência de um expressivo contingente de docentes do ensino
acumulada na sua carreira. superior, assim como de profissionais que estavam
realizando cursos de pós-graduação e, portanto,
Como se combinam esses desenvolvendo investigações científicas.
processos de intervenção no Essa multiplicidade de processos em que estão
trabalho da(o) psicóloga(o)? envolvidos na sua prática profissional pode decorrer
O interesse em conhecer o perfil da(o) psicólo- das múltiplas inserções profissionais (vide o capítulo
ga(o) brasileira(o) e as nuances de sua atuação é algo 9 que mostra a quantidade de trabalhos em média
presente no cenário brasileiro desde a formalização por profissionais). Assim, uma vez que muitos estão
da profissão no país, sempre considerando a reali- inseridos em mais de um contexto de trabalho, as
dade cultural e os diversos cenários emergentes no demandas laborais exigem habilidades e competências
Brasil (Piasson & Freitas, 2020). Até então, essas para o desenvolvimento de diferentes processos de
análises estavam restritas às áreas de atuação e que trabalho. Há, também, a hipótese de certa fluidez nos
coadunam com os dados obtidos nesta pesquisa limites que definem tais processos de trabalho, cujo
que mostram que cada profissional, em grande conceito ainda não está amplamente disseminado
parte, possui mais de um tipo/forma de vinculação sequer no meio acadêmico responsável pela forma-
profissional. Em relação aos processos de trabalho ção no nível de graduação. Isso fica muito evidente
também se verificou que eles são combinados pela quando se tomam os três processos mais frequentes:
maior parte das(o) profissionais brasileiras(o). O mesmo em uma atividade clínica individual, como
questionamento que se segue é qual o perfil da(o) a psicoterapia, a(o) profissional pode enxergar nesse
psicóloga(o) quando se comparam aquelas(es) psi- processo, a promoção da saúde ou mesmo o proces-
cólogas(os) que atuam em apenas um, ou dois, so de orientação e aconselhamento (em função da
ou três, quatro e até cinco distintos processos. Os diversidade de orientações teóricas com impactos na
resultados encontram-se na Figura 6. forma de atuação), ou ainda mediação de conflitos
Um primeiro dado significativo é que mais de (quando está lidando, por exemplo, com terapia
2/3 dos participantes do CensoPsi combinam 4 ou de casal, terapia familiar). Embora, como visto, na
5 distintos processos de trabalho. Mais precisamente, definição, o processo de promoção da saúde e bem-
40,6% atuam em cinco diferentes processos e 23,1% -estar está circunscrito a um nível de intervenção no
atuam em 4 processos. Além disso, 19,6% realizam 3 campo da saúde que não é o remediativo (Sícoli &
processos, e um menor percentual é identificado entre Nascimento, 2003).

42
I. O Que Fazemos

Figura 6: Combinação de processos de trabalho em Psicologia

N % N % Um Processo
Promoção da saúde e bem-estar - 483 3,4 Clínicos
Clínicos - Orientação e aconselhamento 441 3,1
- Educativos - Avaliação psicológica 101 0,7 Promoção da saúde e bem-estar
Promoção da saúde e bem-estar - Clínicos 98 0,7 Proteção social e desenvolvimento
- Orientação e aconselhamento - Avaliação 356 2,5
psicológica - Mediação de conflitos 97 0,7 Avaliação psicológica
Promoção da saúde e bem-estar - 70 0,5 Educativos
Clínicos - Orientação e aconselhamento 343 2,4
- Educativos - Mediação de conflitos 39 0,3 Gestão de pessoas em contextos
de trabalho
Promoção da saúde e bem-estar -
Clínicos - Orientação e aconselhamento 315 2,2
- Educativos - Proteção social N % Dois Processos
Promoção da saúde e bem-estar -
Promoção da saúde e
Clínicos - Orientação e aconselhamento 309 2,2 560 4,0
bem-estar - Clínicos
- Mediação de conflitos - Proteção social
Promoção da saúde e bem-estar - Clínicos - Orientação e
113 0,8
Clínicos - Orientação e aconselhamento 250 1,8 aconselhamento
- Educativos - Investigação científica
1 processo 98 0,7 Clínicos - Avaliação psicológica
Promoção da saúde e bem-estar - 940
Clínicos - Orientação e aconselhamento 214 1,5 79 0,6 Investigação científica - Educativos
- Avaliação psicológica - Proteção social
6,6%
2 processos
1423
10,1%
5 processos
5741
40,6%

3 processos
2780
19,6%

N % N % Três Processos
Promoção da saúde e bem-estar - Clínicos - 4 processos Promoção da saúde e bem-
332 2,3
Orientação e aconselhamento - Educativos 3273 655 4,6 estar - Clínicos - Orientação
Promoção da saúde e bem-estar - 23,1% e aconselhamento
Clínicos - Orientação e aconselhamento 298 2,1 Educativos - Promoção da
- Avaliação psicológica 207 1,5
saúde e bem-estar - Clínicos
Promoção da saúde e bem-estar -
Promoção da saúde e bem-estar
Clínicos - Orientação e aconselhamento 241 1,7 188 1,3
- Clínicos - Avaliação psicológica
- Mediação de conflitos
Promoção da saúde e bem-estar - Clínicos - Promoção da saúde e bem-
Orientação e aconselhamento - Educativos 157 1,1 138 1,0 estar - Clínicos - Proteção
- Proteção social e desenvolvimento social e desenvolvimento

Promoção da saúde e bem-estar - Clínicos


117 0,8
- Educativos - Investigação científica

43
I. O Que Fazemos

Uma segunda estratégia para se analisar a forma Observa-se que a rede de processos de trabalho em
como esses processos de trabalho são combinados Psicologia formou uma única comunidade. Isso quer
na prática profissional, envolveu uma análise de dizer que esses processos estão bastante integrados,
redes. Segundo Loiola et al. (2013) redes sociais pois na análise de redes sociais, uma comunidade
são vistas como conjuntos de atores que, inseridos diz respeito a um conjunto de vértices ou nós que
em um determinado contexto social, conectam-se estão altamente conectados. Essa integração da rede
entre si. No caso do presente estudo, cada processo pode estar relacionada ao fato de a maioria das(os)
de trabalho em Psicologia constitui um ator (nó) profissionais de Psicologia estarem envolvidos em 4
na rede, os quais estabelecem conexões com outros ou 5 processos de trabalho ao mesmo tempo, como
processos de trabalho, podendo ou não formar sub- foi apresentado na Figura 6. Além disso, é possível
grupos (comunidades). A Figura 7 representa a rede observar na rede que o número de conexões entre
de processos de trabalho em Psicologia. os atores demonstrou um maior peso entre as co-

Figura 7: Sociograma da rede de processos de trabalho em Psicologia

44
I. O Que Fazemos

nexões dos processos clínicos (CLI) e dos processos psicológica, com 192 relações. Interessante, também,
de promoção de saúde e bem-estar (PRO), havendo destacar que o processo de gestão de pessoas apresenta
10.276 conexões entre os dois processos. Vale ressaltar maior interação com o processo de promoção da
ainda a relação entre os processos clínicos (CLI) e saúde e bem-estar com 1.782 interações, mostrando
os processos de orientação e aconselhamento (ORI), a presença mais forte das atividades ligadas à saúde
com 7.106 conexões. São expressivas também as do trabalhador.
conexões entre os processos clínicos e de avaliação Em relação às estatísticas estruturais da rede, foi
psicológica (AVA), com 5.940 relações, e entre pro- possível evidenciar que todos os processos de traba-
moção de saúde e avaliação com 5.140 interações. lho se relacionam entre si e que o diâmetro da rede
São fortes também as conexões entre os processos aponta ser necessário apenas uma relação para que
educativos (EDU) com a clínica (7.106 interações); os processos de trabalho mais distantes possam se
com promoção da saúde (3.842 interações) e com relacionar, enfatizando a integração da rede. Ademais,
orientação e aconselhamento (2.708 interações). Por a rede representa uma alta densidade, retratando sua
outro lado as menores interações observadas na rede potencialidade de fluxo de informação. A Tabela 2
envolveram os processos organizativos de coletivos apresenta as estatísticas relacionadas à centralidade
sociais (ORG) e suas interações com os processos de dos atores na rede.
investigação científica (CIE), com apenas 118 cone- Observa-se que não houve diferenças nas cen-
xões, com os processos de gestão de pessoas (GEP), tralidades de grau, que indica o prestígio dos atores
com 174 interações, e com os processos de avaliação na rede, e a centralidade de intermediação, corres-

Tabela 1: Estatísticas estruturais da centralidade dos processos de trabalho em Psicologia

Centralidade Centralidade de Grau Grau


de Grau Intermediação médio ponderado
CIE 1.0 0 9 7248

EDU 1.0 0 9 15822

GEP 1.0 0 9 8192

PRO 1.0 0 9 33536

CLI 1.0 0 9 34518

AVA 1.0 0 9 22428

ORI 1.0 0 9 27138

ORG 1.0 0 9 2948

MED 1.0 0 9 10384

PRT 1.0 0 9 8382

45
I. O Que Fazemos

pondente a atores que intermediam caminhos na base, podemos identificar que muitas das mudanças
rede. Porém, no que diz respeito ao grau pondera- entre contextos e a decorrente interpretação de que
do, que considera o peso das arestas no cálculo da está se mudando de área, podem ser, na realida-
centralidade, foi possível observar que os processos de, continuidade na intervenção em determinados
clínicos (CLI) obtiveram maior grau ponderado, processos. Apenas um exemplo para ilustrar: quem
correspondente a 34.518, seguido dos processos de trabalha com processos educativos em uma instituição
promoção de saúde e bem-estar (PRO), com 33.536, educacional, ao ir trabalhar em uma empresa na área
e dos processos de orientação e aconselhamento, de treinamento e desenvolvimento de pessoas, muda
com 27.138. Esse dado é relevante, pois demonstra de contexto, muda de área, mas continua intervindo
o prestígio que esses processos têm, especialmente sobre o mesmo processo de trabalho.
os clínicos, na prática profissional das(os) psicólo- Nesse sentido, e considerando que o conceito de
gas(os), articulando de modo significativo com todos “processos de trabalho em Psicologia” não deve ser de
os demais processos de trabalho. amplo domínio da categoria, os resultados obtidos
no CensoPsi nos permite concluir:
Considerações finais
Este capítulo se propôs a descrever, pela pri- a. A quantidade de trabalhos que são desenvolvi-
meira vez, como os 10 processos de trabalho em dos simultaneamente por parte expressiva da
Psicologia identificados como centrais na formação categoria, leva à combinação de vários processos
em Psicologia estão sendo exercidos pelas(os) pro- de trabalho, assim como ocorre com as áreas e
fissionais. Estamos diante, portanto, de dados que com contextos de atuação. Isso se traduz em
são novos e que não nos permitem comparações um leque bastante abrangente de atividades ou
com estudos anteriores para capturar tendências fazeres profissionais (ver Capítulo 1). Como
de mudança ao longo do tempo. visto, o maior contingente de participantes da
A novidade introduzida pelas Diretrizes pesquisa aponta 4 ou 5 processos com os quais
Curriculares para os Cursos de Psicologia – ênfases trabalha. É bem verdade que entre alguns dos
definidas a partir de processos de trabalho que re- processos os limites são mais tênues e nada im-
querem um aprofundamento de uma formação que é pede que eles sejam combinados (por exemplo,
generalista, nos fornece um novo modelo para descre- promoção de saúde, clínica e orientação e acon-
ver a diversidade que caracteriza o campo de atuação selhamento). Por outro lado, a própria noção de
profissional na Psicologia. Isso nos coloca desafios e, processos de trabalho, ao romper com a noção
ao mesmo tempo, abre possibilidades de análises e, de área de atuação é exatamente para permitir
sobretudo, de qualificação para a atuação profissional. capturar como, em um mesmo contexto ou em
Embora nossos cursos de graduação nunca tenham uma mesma área, a(o) profissional pode estar
oferecido uma formação específica para atuar em intervindo em diferentes processos.
uma área da Psicologia, o que se observa ao longo
da história é que a(o) profissional transita por di- b. Como a noção de processos de trabalho veio
ferentes áreas e contextos de trabalho – ao mesmo para superar a noção que largamente associa
tempo ou ao longo da carreira. Certamente, ao fazer áreas de atuação a determinados contextos, não
tais transições busca complementar e aprofundar as se pode fazer essa equivalência com facilidade.
suas competências para desempenhar atividades que Um exemplo é o caso da área organizacional e
requerem conhecimentos e habilidades específicas. Ao do trabalho. O envolvimento em processos de
tomarmos a noção de “processos de trabalho” como gestão e desenvolvimento de pessoas é inferior ao

46
I. O Que Fazemos

contingente de quem atua na área. No entanto, e condição de planejamento de sua carreira. Isso
nessa área, pode-se estar atuando nos processos se reflete na necessidade de combinação de vários
de promoção da saúde e bem-estar, ou mesmo trabalhos, muitos deles precários (ver Capítulos
de mediação de conflitos e assim por diante. 7, 8 e 9) e termina demandando o envolvimento
com diferentes processos de trabalho, todos com
c. O número expressivo de profissionais envolvi- suas especificidades em termos de recursos pessoais,
dos nos processos de promoção da saúde assim habilidades e competências.
como na proteção social e desenvolvimento já Essa realidade decorrente, em grande parte, da
são reflexos da inserção da Psicologia nas polí- forma como o mercado de trabalho se estrutura,
ticas públicas de saúde e assistência social. Isso tem implicações sobre o processo de formação. Os
configura uma mudança expressiva em relação processos de trabalho foram concebidos como pos-
à primeira pesquisa realizada nos anos 1980 sibilidades de aprofundamento em um curso de
(CFP, 1988). graduação que é generalista. O que se vê, nos re-
sultados aqui apresentados sugerem a necessidade
d. A rede de processos de trabalho em Psicologia de estudos complementares que analisem como as
se apresenta integrada, destacando as interações ênfases curriculares estão sendo implementadas nos
entre os processos clínicos e os demais processos diversos cursos de graduação. Ou, em que medida a
de trabalho, especialmente os de promoção de lógica de processos de trabalho está sendo utilizada
saúde e bem-estar. Em contrapartida, os processos na estruturação dos currículos dos cursos. Nossa
organizativos de coletivos sociais foram os que suposição é que tal lógica ainda está muito distante
tiveram menor interação na rede, o que indica a de guiar o processo formativo, não só pela novidade
necessidade de maior articulação com os demais que ele representa na nossa história, como pelos li-
processos de trabalho. mites cada vez mais evidentes de precarização desse
processo de formação.
Ao tomar os processos de trabalho como objeto Assim, vale assinalar que a noção de processos de
de análise e olhando para os resultados obtidos, duas trabalho está apenas no seu início de utilização no
reflexões finais são relevantes. O primeiro diz respeito nosso campo e que há ainda demandas para que ele
à forma como o mundo do trabalho se encontra es- seja cada vez mais aprimorado, definido e socializado
truturado no atual estágio das sociedades capitalistas. no âmbito do exercício profissional. n
O segundo se relaciona com as implicações para o
processo de formação em Psicologia.
Os processos de trabalho se constituem em um
trajeto a percorrer junto com uma série de tarefas,
procedimentos que são interligados e envolvem in-
divíduos, equipamentos, tecnologias, entre outros
fatores, com o objetivo de realização de determinada
tarefa (Araújo, Ciampa & Melo, 2014). Vivemos
num período de fragilização do mundo do trabalho,
com perda de direitos e garantias e avanço de uma
lógica que permite a reprodução do capital com a
redução de custos associados a condições de trabalho
que deveriam garantir mais segurança, bem-estar

47
I. O Que Fazemos

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48
I. O Que Fazemos

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Reanálise do Parecer CNE/CES n. 1.071, de 4 de dezembro de 2019, que trata das Diretrizes
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na Visão dos Docentes. Psicologia: Ciência e Profissão [online], 38(2), pp. 233-248.

49
I. O Que Fazemos

14 O Exercício profissional em Psicologia:


práticas e atividades que o caracterizam
Antonio Virgílio Bittencourt Bastos1
Katia Puente-Palacios2
Rayana Santedicola Andrade3

Introdução Em que medida as características desta segunda


Analisar e discutir as atividades que caracterizam o década do novo milênio se espelham em nosso fazer
fazer profissional da(o) psicóloga(o) no Brasil constitui profissional? No seio destas mudanças, que atividades
um grande desafio, tendo em vista a multiplicidade profissionais se mantêm, em comparação com os
de campos e formas de atuação. As edições anteriores marcos anteriores, e que outras são acrescentadas?
das pesquisas realizadas (Carvalho, 1988; Bastos, Que reflexos das reformas curriculares dos cursos de
Gondim e Peixoto, 2010) compõem um importante Psicologia (Brasil, 2004; Vieira-Santos, 2016), sedi-
esforço para analisar o fazer psicológico em momentos mentadas em uma formação generalista, já se fazem
específicos ao mapear e discutir tanto as tendências sentir nas novas atividades incorporadas à atuação
consolidadas quanto as emergentes, revelando mu- psicológica? E, ainda, como a natureza da atividade
danças significativas no fazer da(o) psicóloga(o) no (individual ou em equipe) introduz especificidades às
Brasil. Revisitar as formas de atuação da Psicologia já atividades desempenhadas? São questões como essas as
analisadas em dois momentos anteriores, somadas às que demarcam a preocupação central deste capítulo,
agora identificadas no Censo da Psicologia Brasileira em que buscamos caracterizar a atuação profissional,
2022 requer um olhar cuidadoso, não apenas dos no Brasil, no âmbito das atividades desempenhadas,
dados levantados das(os) participantes, mas também não apenas em cada área da Psicologia como também
da contextualização da situação da profissão no Brasil. no que se refere à natureza de suas atividades.

1 Psicólogo. Mestre em Educação (UFBA,1984). Doutor em Psicologia (UnB,1994). Prof. Titular aposentado Universidade Federal da
Bahia. Pesquisador I-A do CNPq. Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia/UFBA. Dedica-se a pesquisa no campo
da Psicologia Organizacional e do Trabalho, com ênfase no estudo dos vínculos do indivíduo com diversas facetas do seu mundo
de trabalho. Dedica-se, também, ao estudo sobre a formação e exercício profissional na Psicologia, tendo coordenado e conduzido
pesquisas de âmbito nacional sobre o trabalho da(o) psicóloga(o) no Brasil. Atualmente é membro do XVI Plenário do Conselho
Federal de Psicologia.

2 Mestrado e Doutorado em Psicologia cursados na Universidade de Brasília. Em 2009 realizou estágio pós doutoral na Universidade
de Valencia (Espanha). Contando com mais 70 trabalhos publicados, entre artigos científicos e capítulos de livros, possui como foco
central de interesse o estudo dos processos protagonizados por equipes de trabalho. Em relação a esses, busca investigar e elucidar
as transformações ocorridas nos atributos individuais, os quais dão lugar ao surgimento de fenômenos coletivos. Seus estudos atuais
abordam temas como aprendizagem de equipes, liderança, competências coletivas, entre outros. Atua como docente e pesquisadora no
programa de pós-graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações (PSTO) da Universidade de Brasília (UnB).

3 Professora Adjunta da Universidade Federal da Bahia. Psicóloga, Mestre e Doutora em Psicologia Organizacional e do Trabalho.
Coordenadora do Colegiado de Psicologia no Instituto Multidisciplinar em Saúde da UFBA desde 2018. Professora na área de POT
(Psicologia Organizacional e do Trabalho) desde 2003. Atualmente, interessa-se pela pesquisa e extensão principalmente com os
seguintes temas: voz e silêncio do trabalhador, psicologia positiva nas organizações, gestão do trabalho remoto, gestão de carreiras nas
organizações e no trabalho.

50
I. O Que Fazemos

A contextualização da atuação profissional neste está dividido em três grandes seções. Na primeira,
capítulo tem como referência delimitadora as áreas apresentamos uma breve descrição do quadro de
de atuação, abordadas em profundidade no Capítulo atuação profissional da Psicologia, apontando algu-
1 desta obra. Tal parâmetro tem se revelado útil mas das principais características de nossa atuação
para caracterizar a atuação profissional da Psicologia profissional, como a multiplicidade e complexidade
nas pesquisas anteriores, considerando-se não ape- das atividades, a identidade profissional, e o trabalho
nas os critérios técnicos, mas também sociológicos. em equipes uni e multiprofissionais. Em seguida,
Estas áreas são concebidas como verdadeiras culturas os resultados relacionados às atividades da(o) psi-
profissionais, sendo definidas por “um conjunto cóloga(o) levantados na atual edição do CensoPsi
de relações sociais, valores e papéis, dentro do am- 2022 são abordadas, trazendo à tona comparações
biente de trabalho, que se traduzem em cultura pertinentes entre o quadro atual da profissão e as
própria” (Bastos, 1988, p. 167). A título de análise, mudanças ocorridas nos últimos anos. Por fim, são
aqui, as áreas de atuação se constituem em campos tecidas ponderações e discutidos os achados em
demarcados no âmbito dos quais as atividades pro- relação à profissão, abordando aspectos centrais
fissionais são realizadas, estabelecendo as fronteiras que nos mostram o estado atual de atuação das(os)
para atividades que são exclusivas de algumas áreas psicólogas(os) brasileiras(os), buscando desenhar
(como, por exemplo, recrutamento e seleção na uma visão de futuro para a profissão que permita
POT e psicodiagnóstico na clínica), mas também identificar as demandas e desafios que precisam ser
possibilitando que se observem atividades que se enfrentados pelos profissionais.
mantém fora de quaisquer fronteiras, pois são eixos
estruturantes da identidade profissional da Psicologia O quadro das atividades
(como a testagem psicológica). profissionais da(o) psicóloga(o)
No âmbito das áreas de atuação, o capítulo traz à no Brasil: uma breve descrição
tona uma dimensão de análise das atividades realiza- O retrato da atuação profissional da Psicologia
das, na qual se investigam as tarefas desempenhadas no Brasil entre 1962 e 2010 caracteriza-se por duas
em cada área de atuação, e em que medida estas peculiaridades, sendo a primeira, a multiplicidade
atividades, ou tarefas, continuam sendo realizadas de áreas de atuação e abordagens teóricas que as
estritamente no nível individual, ou se elas se ampliam fundamentam e a segunda, a manutenção de um
para o nível das equipes de trabalho. O fato de uma núcleo central de atividades que são próprias da nossa
tarefa ser realizada individualmente ou em equipe profissão. As duas pesquisas anteriores mencionam
implica em tipos diversos de competências reque- estas características, sendo apontada, desde a primei-
ridas à(ao) profissional psicóloga(o), especialmente ra pesquisa, a diversidade de áreas e de atividades
na relação com outros profissionais. Quando tais realizadas por estas(es) profissionais (Bastos, 1988;
atividades se dão em nível de equipe multiprofissio- Carvalho, 1998). A ampliação do escopo de atividades
nal, requerem combinações de competências socioe- desenvolvidas pela(o) profissional continua sendo
mocionais de comunicação que podem introduzir constatada na segunda pesquisa, tendo em vista a
maior complexidade ao nosso exercício profissional multiplicidade de abordagens e perspectivas a partir
e, adicionalmente, requerer maior investimento na das quais os seus fazeres são realizados (Gondim,
formação profissional. Bastos e Peixoto, 2010). Paralelamente, atividades
Para abordar as questões antes apontadas, rela- como lidar com problemas tradicionalmente tidos
tivas às atividades da(o) profissional da Psicologia como psicológicos, a exemplo os que dependem de
e às especificidades da sua atuação, este capítulo aplicação de testes ou impliquem em um auxílio a

51
I. O Que Fazemos

pessoas com sofrimento mental, continuam presentes profissional que faz de tudo, uma vez que a profissão
nas duas edições e, provavelmente por este motivo, possui um escopo delimitado de atuações, ainda que
tendem a permanecer como núcleo de representações esse venha sendo ampliado paulatinamente.
de nossa categoria (Bastos, 1988; Carvalho, 1998; Nesse sentido, deve ser considerada a existência de
Gondim et al., 2010). atividades que somente podem ser desempenhadas
De maneira adicional à análise da ampliação pela(o) psicóloga(o), como é o caso da aplicação de
constante das atividades da psicóloga e do psicó- testes psicológicos ou ainda a avaliação psicológica.
logo, devemos refletir se a diversidade de atuações Assim, embora a multiplicidade de atividades possa
molda também de maneira diversa a identidade ser vista como atributo característico da profissão,
do profissional, como já manifestado por Malvezzi a exclusividade de desempenho de certas tarefas
(2010). A este respeito cabe apontar que a(o) pro- também constitui aspecto que deve ser destacado.
fissional se refaz a cada passo, mudando não so- Buscando exemplificar a relevância das atividades ex-
mente as áreas em que atua, mas também a forma clusivas da(o) psicóloga(o) no seu campo de atuação,
como ela(ele) se vê e como ela(ele) é vista(o) nos cabe apontar que na pesquisa de 2010, independente
cenários em que se insere. Focando nas exigências da área de atuação (clínica, escolar, organizacional,
que o contexto traz para a(o) psicóloga(o), Piasson saúde ou docência), existia uma porcentagem signi-
e Freitas (2020) destacam que, tendo em vista a ficativa (pelo menos 50%) de profissionais dedicados
complexidade da realidade social do Brasil, é natural à aplicação de testes psicológicos, excetuando as(os)
que sejam complexas também as demandas trazidas profissionais dedicadas(os)à docência, em cujo caso
para a(o) profissional, vistas muitas vezes na forma a porcentagem daquelas(es) que declararam desem-
de competências exigidas para o adequado exercício penhar essa atividade apenas supera o 12%. Logo, os
da sua profissão, mas ainda se consideramos que o dados levantados à época revelavam a centralidade
fazer da(o) psicóloga(o) é um fazer com pessoas e das atividades de desempenho exclusivo na atuação
para pessoas, seja de maneira individual ou coletiva. da(o) psicóloga(o).
Essa visão da diversidade de demandas que o campo Paralelamente, é importante analisar que o fato
impõe à(ao) profissional é descrita como aspecto a de existirem atividades exclusivas da(o) profissional
ser considerado desde a fase de formação, quando o não significa que trabalhem sozinhas(os), pois boa
domínio das competências necessárias deve buscar parte afirma trabalhar em equipes. A este respeito
contemplar, ao máximo, a gama de possibilidades cabe lembrar também que na pesquisa de 1988 foi
da Psicologia, conforme pontuam Bobato, Stock verificado que, salvo raras exceções representadas por
e Pinotti (2016). certos estados (Rio Grande do Sul e Santa Catarina),
O conjunto de aspectos ora mencionados torna na grande maioria das localidades o trabalho da(o)
pertinente defender que a profissão pode ser legitima- psicóloga(o) era desempenhado de maneira indivi-
mente descrita como complexa, pois é amplo o leque dual. Por outro lado, na pesquisa do ano 2006 foi
de atividades desempenhadas, que buscam responder verificado que mais de 50% daqueles que participa-
em certa medida a demandas psicossociais de uma ram do estudo relataram atuar em equipes, seja de
sociedade em constante transformação. Ainda assim, psicólogas(os) ou equipes multiprofissionais, sendo
constata-se que tanto na edição da pesquisa do ano esta última modalidade prioritariamente reportada
1988, como na de 2006 pode ser identificado um à época. Assim, no transcurso de aproximadamente
núcleo central que outorga à profissão identidade, 18 anos (1988 a 2006) houve uma clara mudança
centrado sobretudo no fazer clínico. Esse fato torna no modo de atuação profissional, em que o trabalho
pertinente afirmar que a(o) psicóloga(o) não é a(o) coletivo passou a ser destaque marcante da profissão.

52
I. O Que Fazemos

A partir dessas constatações, ao conjunto de ativi- desafios postos às(aos) profissionais. Contudo, pre-
dades que caracteriza a profissão e que engloba tanto cisamos ainda analisar como está a profissão nos dias
atividades privativas da(o) psicóloga(o) como outras de hoje. Para isso, a próxima seção traz um conjunto
de natureza mais ampla, deve-se acrescentar o atri- de achados extraídos dos dados levantados na edição
buto de serem executadas em equipes, especialmente 2022 do censo da profissão, com foco especificamente
multidisciplinares. A este respeito vale destacar que nas atividades e na natureza da atuação.
no trabalho desenvolvido por Bobato et al. (2016) é
defendido que a(o) futura(o) psicóloga(o) deve estar Atividades profissionais:
preparada(o) para atuar em equipes multidiscipli- o que nos revela o CensoPsi
nares. Assim, esse modo coletivo de atuação não se Para além de áreas, contextos e processos de trabalho
constitui em achado isolado, mas trata-se de aspecto desenvolvidos no exercício profissional, que tivemos
que deve ser considerado desde a formação, pois esse oportunidade de ver nos capítulos que antecedem o pre-
constitui um dos possíveis modos de trabalho. sente capítulo, uma dimensão crítica para se caracteriza
O fato de muitas(os) psicólogas(os) atuarem em tal exercício e analisar potenciais mudanças ocorridas
equipes, especialmente multidisciplinares, elicia refle- ao longo do tempo são as atividades desenvolvidas, as
xões relativas ao fato de ser outra fonte de demandas práticas efetivadas ou fazeres que configuram a identi-
profissionais que pode repercutir na ampliação do seu dade profissional nos mais diversos contextos em que
escopo de competências. Isso porque nesse arranjo é atua. Assim, o CensoPsi levantou uma descrição, feita
necessário, não apenas o domínio de saberes do pró- pela(o) própria(o) psicóloga(o) de quais eram as suas
prio campo, como também a compreensão, ainda que práticas em cada uma de suas inserções profissionais.
não na mesma profundidade, dos saberes dos outros Os resultados serão apresentados em três segmen-
integrantes. Nessas condições é necessário que o mem- tos: as atividades profissionais e suas frequências, na
bro possua a visão do todo, da meta compartilhada e amostra geral; as atividades e suas frequências, por
do objetivo pelo qual são corresponsáveis. Para tanto, áreas de atuação; e, por fim, a natureza individual
precisa ser capaz de articular as suas contribuições às ou em equipe que caracteriza o nosso exercício pro-
das(os) outras(os) participantes. Logo, a necessidade fissional. Vale registrar que a descrição das atividades
de compreensão do fazer do outro pode ser uma es- foi feita por cada participante do CensoPsi, de forma
pecificidade do trabalho que impulsiona a ampliação aberta, sem lhes serem oferecidas alternativas de res-
do escopo de competências da(o) psicóloga(o). postas pré categorizadas. Isso difere a atual medida
Essa suposição é suportada pelos achados da pesqui- das medidas anteriores quando uma lista de atividades
sa do ano 2010 quando foi reportado que aquelas(es) foi oferecida para escolha, sendo aberta a alternativa
que desempenhavam atividades em equipes uniprofis- outras. Para cada trabalho em Psicologia, a(o) partici-
sionais elencavam um conjunto menor de atividades, pante do Censo poderia descrever até três atividades
se comparado ao apresentado pelas(os) que afirmavam mais características. Esse limite não foi respeitado
trabalhar em equipes multiprofissionais (Martins & por todas(os), de modo que há casos com muito
Puente-Palacios, 2010). Assim, parece ser pertinente mais atividades do que outros. As respostas abertas
defender que a inserção em equipes está associada a foram categorizadas buscando-se respeitar ao máximo
maior diversidade de atividades do profissional. a forma como a(o) profissional descreveu, mesmo
O conjunto de informações ora recopiladas e os sabendo que se poderia avançar para categorias mais
dados visitados sobre o exercício da profissão iden- inclusivas. Ao todo se trabalhou com 110 categorias
tificado em estudos anteriores mostram a evolução de atividades, número considerado adequado para
vivenciada pelo campo, mas também mostram os descrever o conjunto das informações disponíveis.

53
I. O Que Fazemos

Tabela 1: Atividades mais frequentemente desenvolvidas pelas(os) psicólogas(os)

Acima de 10% Entre 5 e 9% Entre 2 e 4,8% De 1 a 1,9%


Psicoterapia 49,9% Escuta 9,9% Orientação psicológica 3,5% Psicodiagnóstico 1,9%
Psicoterapia Treinamento/formação/ Recrutamento de
12,6% Avaliação psicológica 9,4 3,3% 1,8%
individual educação/qualificação pessoas
Atividades de gestão/
Acolhimento
10,3 Pesquisa 7,8% Supervisão de estágios 2,9% gerências de unidades/ 1,6%
psicológico
órgãos/setores/equipes
Supervisão de colegas
Ensino 10,2% 7,1% Seleção de pessoal 2,9% Psicoterapia breve 1,5%
profissionais
Avaliação/atenção/
Produção documentos Avaliação/reabilitação
5,3% atendimento/intervenção 2,8% 1,5%
psicológicos neuropsicológica
psicossocial
Palestras/conferências/
5,2% Psicoeducação 2,7% Orientação acadêmica 1,4%
workshops/seminários)
Aplicação de testes e
Acompanhamento
outros instrumentos 5,0% 2,6% Psicanálise 1,3%
familiar
psicológicos
Acompanhamento
2,4% Gestão de pessoas/rh 1,1%
psicológico
Anaminese 2,3% Oficinas terapêuticas 1,1%
Acomselhamento/
Extensão 2,3% 1,0%
orientação psicológica
Articulações na rede de
Grupo de estudos/estudo
2,1% serviços assistência/ 1,0%
de casos
articulação intersetorial
Orientação profissional/ Clínica hospitalar em
2,1% 1,0%
vocacional enfermarias e uti
Intervenções no âmbito
2,1% Psicoterapia em grupo 1,0%
escolar

Triagem 1,0%

Preparação/registros
1,0%
prontuários
Trabalho com grupos/
1,0%
prevenção ou promoção
saúde/campanhas
1,0%
matriciamento

Atividades: perspectiva geral são realizadas por 5 a 9,9% das(os) profissionais; o


Para efeito de comunicação nesse capítulo, a par- bloco 3 contempla entre 2 e 4,7% das atividades de-
tir da frequência das categorias de atividades, foram sempenhadas e o bloco 4 abrange uma variedade de
criados quatro grandes blocos. No bloco 1 estão as atividades menos frequentes, mas ainda assim presentes
atividades que são realizadas por mais de 10% dos no rol da profissão, e compreendem, cada uma, entre
profissionais; o bloco 2 condensa as atividades que 1 e 1,9% do percentual total da amostra (Tabela 1).

54
I. O Que Fazemos

A atividade de longe mais frequente, que ocupa fortemente associada ao ensino aparece no segundo
o topo dos percentuais, e compõe quase metade das bloco com 7,8%, assim como aparece a extensão no
atividades desempenhadas, é a psicoterapia. 49,3% terceiro bloco (2,3%). Supervisão de colegas (7,1%),
das atividades desempenhadas por psicólogas(os) no conferências e palestras (5,2%) complementam o rol
Brasil, à qual deve ser agregado o percentual da se- das atividades mais ligadas à docência e formação
gunda mais frequente que é exatamente a psicoterapia que são transversais a todos os campos de atuação.
individual (12,6%). Na realidade, a psicoterapia ainda Há que se destacar, também, o peso das ativi-
aparece entre as mais frequentes quando qualificada dades no campo da avaliação psicológica que, com
por psicoterapia de grupo, psicoterapia breve. Há, denominações diferentes aparecem no segundo bloco
ainda, a psicoterapia de casal, de família. Tudo isso faz de atividades mais frequentes: avaliação psicológica
com que a psicoterapia seja a atividade que, de longe, (9,4%), produção de documentos psicológicos (5,3%)
absorve o maior contingente de profissionais. Esta e aplicação de testes (5,0%).
hegemonia das atividades relacionadas à Psicologia Finalmente, a partir do terceiro bloco, começam
Clínica merece destaque por ser um dado que vem a aparecer um conjunto de atividades mais ligadas
se repetindo em todas as pesquisas, sendo que, na a áreas específicas e clássicas de atuação. No caso
primeira delas, em 1988, as atividades em Clínica da área organizacional temos treinamento (3,3%),
representavam mais de 40% do total (Bastos, 1988). seleção (2,9%), orientação profissional (2,1%); na
A clínica, com sua hegemonia, se mantém como área educacional aparecem psicoeducação (2,7%)
atividade que contempla de forma mais plena o ideal e outras intervenções no contexto escolar (2,1%).
de atuação na Psicologia, o que é atribuído, dentre Um outro olhar possível sobre as atividades mais
outras coisas, à construção da formação profissional frequentes diz respeito às combinações entre as ati-
(Bastos, 1988; Gondim et al., 2010). vidades pelas(os) psicólogas(os). Aqui utilizou-se a
As atividades de acolhimento psicológico também análise de redes sociais que mostram as conexões
aparecem entre as mais frequentes (10,3%). Esta entre as atividades desenvolvidas, no conjunto de
atividade vem sendo primordialmente realizada no itens apontado por cada profissional. A Figura 1
âmbito das políticas públicas de saúde, de assistência é uma representação da extensa rede de conexões
social, nas clínicas-escola e, mais recentemente, de entre as atividades, em função do grande número
forma on-line, crescido em oferta na modalidade de categorias de atividades extraída do conjunto de
de plantão psicológico on-line, com o aumento descrições abertas feita pelas(os) respondentes.
da demanda psicossocial devida ao isolamento A rede de atividades em Psicologia é composta por
social imposto pela pandemia da Covid-19 (CFP, 110 nós, que representam cada uma das atividades
2020; Quadros, Cunha & Uziel, 2020; Pereira et desenvolvidas por psicólogas e psicólogos, e 2.846
al., 2021). Ela guarda relação com a denominada arestas, que representam as conexões entre todas
“escuta”, termo usado para descrever uma atividade as atividades. Em relação as estatísticas estruturais
por 9,9% das(os) participantes. da rede, observa-se uma densidade média, corres-
Neste primeiro bloco, o ensino também aparece pondendo a 0,475, em uma escala entre 0 e 1. O
como uma atividade frequente, demonstrando o diâmetro da rede, que diz respeito à maior distância
avanço de oportunidades de ensino, com o aumento entre dois atores (nós) na rede, correspondeu a 2,
do número de cursos de Psicologia no Brasil ocor- de modo que são necessárias 2 conexões para que
rido de forma mais intensa no início dos anos 2000 os atores mais distantes possam se relacionar. Assim,
(Macedo et al., 2018), mas que continua se amplian- o comprimento médio do caminho entre os atores
do e absorvendo novas(os) docentes. A pesquisa, na rede foi de 1,525. Além disso, vale destacar que

55
I. O Que Fazemos

Figura 1: Rede de conexões entre atividades desenvolvidas pelas(os) psicólogas(os)

se trata de uma rede integrada em um único com- de centralidade aparecem: supervisão de outras(os)
ponente conectado. A modularidade da rede foi profissionais (SUPCPROF), palestras, aconselha-
correspondente a 0,126, formando 3 comunidades mento e orientação psicológica (ACPSI), escuta e
que foram representadas no sociograma pelas cores produção de documentos psicológicos (DOCPSI).
roxo, verde e laranja. Vale destacar ainda que a Psicoterapia, a Avaliação
Em relação à centralidade de grau, que diz respeito Psicológica e a Psicoterapia Individual, fazem parte
ao quanto determinados atores se destacam na rede, da mesma comunidade na rede, ou seja, fazem parte
observou-se um grau médio correspondente a 51.745. de um conjunto de atividades que estão altamente
Ademais, foi possível identificar que a atividade conectadas e que envolve o maior número de atividades
Psicoterapia teve a maior centralidade de grau na (os nós representados na cor lilás). Essa comunidade
rede (grau 1), que corresponde a atividade com maior engloba atividades que se espalham pelas diversas áreas
prestígio na rede, seguido da Avaliação Psicológica de atuação. As duas outras comunidades que emergem,
(0.95), a psicoterapia individual (PSICIND, 0.94) e indicam alguma especificidade que as distinguem
o ensino (0.93). Ainda com níveis próximos a 0,90 daquela comunidade maior. A segunda comunidade

56
I. O Que Fazemos

tem na atividade de ENSINO o seu principal nó (estão Clínica


representadas em cor vermelha), conectando-se a ou- Um total de 12.568 respondentes (73,1% do
tras atividades como Pesquisa, Supervisão de Colegas total de participantes) afirmaram atuar em Clínica
Profissionais e Supervisão de Estágio, que também e, desses, cerca de ⅓, ou seja, 4.313 profissionais,
tem boas centralidades dentro da sua comunidade. afirmaram atuar exclusivamente na área. Ao nos
Poderíamos definir como o conjunto de atividades aproximarmos mais detidamente das atividades
voltadas para formação de novas(os) profissionais desta área, pode-se notar a centralidade da psi-
ou qualificação de profissionais já atuantes. Por fim, coterapia. Esta é, notavelmente, a atividade mais
destaca-se uma terceira comunidade que praticamente desempenhada por psicólogas(os) no âmbito da
agregam as atividades específicas da área de Psicologia área Clínica, podendo ser considerada o núcleo
Organizacional e do Trabalho (representadas na cor de identidade das competências profissionais da(o)
verde na Figura 1). Nela se destacaram atividades como psicóloga(o) clínica(o), pois é praticada em todas as
Treinamento, com centralidade de grau 0.81; Seleção abordagens teóricas e possui diversas modalidades.
de pessoal, com 0.79; Recrutamento de Pessoal, com Se considerarmos a psicoterapia individual, a escuta
0,73; e Gestão de Pessoas/Recursos Humanos, com e o acolhimento psicológico como atividades mais
0.71 de centralidade. Esse dado nos indica que as prá- similares à psicoterapia em si, elas poderiam ser
ticas dessa área talvez sejam as que mais se diferenciam englobadas em um mesmo rol. É importante des-
do conjunto geral, embora não deixem de pertencer à tacar, entretanto, a especificidade do acolhimento
mesma rede. Tais atividades se conectam fortemente psicológico e da escuta, que não necessariamente
com atividades tanto da comunidade 1 (a maior e implicam em um caráter interventivo.
que a Psicoterapia como seu principal nó) como a Em seguida viria, de forma mais específica, a ati-
comunidade 2 (que tem o Ensino nessa condição). vidade de “avaliação psicológica”, que compreende
10,3% das atividades referidas pelas(os) respondentes,
Atividades: caracterizando as diferentes e que possui uma inter-relação prática com a atividade
áreas de atuação em Psicologia de “aplicação de testes e instrumentos psicológicos”,
Após essa visão geral, nesse segmento vamos olhar que aparece na área clínica com 5,2% das atividades
mais de perto o conjunto de atividades mais frequen- e a “produção de documentos psicológicos”, com
tes por cada uma das áreas de atuação que contou 4,8%. Somadas, as atividades relacionadas à avalia-
com maior participação no CensoPsi4 e que, portanto, ção psicológica chegariam próximo de 20%. Estas
apresentou um leque mais diversificado de atividades já haviam aparecido com bastante força em pesquisa
desenvolvidas. Importante destacar de início que, anterior, no serviço público, divididas em aplicação
como é extremamente comum a combinação de duas de testes psicológicos (32,9%) e psicodiagnóstico
ou mais áreas de atuação, algumas das atividades (29,6%), com percentuais similares nas áreas pri-
apresentadas como sendo de uma área, pode ser de vada e do terceiro setor, sendo está a atividade mais
outra cujos limites são mais fluidos. Temos, ainda, os desempenhada nos três setores, à época (Macedo,
casos da área da Docência e da Avaliação Psicológica Helioani & Cassiolato, 2010).
que, por envolverem atividades transversais a todas as Interessante notar que na área Clínica aparece
demais áreas não foram aqui analisadas em separado. também a atividade de ensino, que aqui, reflete a

4 Para efeito de análise das atividades, excluímos as áreas cuja participação no CensoPsi forma bem residuais (Tráfego, Esporte e
Ambiental) todas com menos de 1% das(os) participantes da pesquisa. Também foi excluída a área de Avaliação Psicológica que
tem atividade em todas as demais áreas, não apresentando algo que a diferencie em termos de atividade para o reduzido número de
profissionais que afirmam atuar apenas nela.

57
I. O Que Fazemos

Figura 2: Atividades desempenhadas na área Clínica

Psicoterapia 55,0%
Psicoterapia individual 14,8%
Escuta 11,6%
Acolhimento psicológico 10,9%
Avaliação psicológica 10,3%
Ensino 9,0%
Supervisão de colegas profissionais 7,9%
Pesquisa 6,0%
Palestras/conferências/workshops/seminários 5,5%
Aplicação de testes e outros instrumentos psicológicos 5,2%
Produção de documentos psicológicos 4,8%
Orientação psicológica 3,6%
Psicoeducação 3,1%
Anamnese 2,7%
Psicodiagnóstico 2,5%
Orientação profissional/vocacional 2,5%
Supervisão de estágios 2,3%
Grupo de estudos/estudo de casos 2,3%
Acompanhamento psicológico 2,2%
Avaliação/atenção/atendimento/intervenção psicossocial 1,9%
Psicanálise 1,8%
Avaliação/reabilitação neuropsicológica 1,7%
Psicoterapia breve 1,7%
Psicoterapia de casal 1,3%
Trabalho/assistência/atendimento a idosos 1,1%
Aconselhamento/orientação psicológica 1,1%
Psicoterapia de família 1,1%
Psicoterapia em grupo 1,0%
Avaliação e preparação para cirurgias/acompanhamento pós cirúrgico 0,5%
Intervenções em luto 0,3%

inserção da(o) psicóloga(o) na docência superior Social


(graduação e pós-graduação stricto sensu), mas tam- Do total de respondentes, 3.463 atuam na área
bém em especializações lato-sensu, cursos de curta (20,1% do total de casos), das(os) quais 808 re-
duração e no âmbito de formações teóricas (Institutos ferem atuar nela com exclusividade. Nesta área,
e Formações Teóricas específicas). Na graduação, o as atividades mais frequentes são o acolhimento
ensino em Clínica engloba a supervisão de estágios psicológico (13,7%), a escuta (13%) e um con-
básicos e profissionalizantes, e possui desafios espe- junto de atividades englobadas como avaliação/
cíficos em seu desenvolvimento (Abdalla, Batista & atenção/atendimento/intervenção psicossocial, que
Batista, 2008). Tem-se que a formação em Clínica compõem 9,6% das respostas. Tais atividades são
também envolve a supervisão de casos de profissio- desempenhadas em um conjunto amplo de políticas
nais, que foram descritas(os) como uma categoria à públicas da área Social que vão desde a participação
parte nesta pesquisa, com 7,9%. nos dispositivos do SUAS, como os CRAS e CREAS

58
I. O Que Fazemos

(CFP, 2008), até as práticas sociais em instituições Aqui, o ensino e a pesquisa aparecem com 7,3%
do terceiro setor. O público atendido também é cada um. A presença destas atividades na área social
bastante diverso. Uma atividade específica descrita pode refletir tanto a presença de profissionais da área
é a do acompanhamento familiar (8,7%), o que social em IESs quanto a presença de docentes das IESs
compõe uma das possibilidades do que se discute nos dispositivos do SUAS. Já as atividades de avaliação
na literatura como “clínica ampliada” (Silva & psicológica e produção de documentos psicológicos
Bonatti, 2019). Tais fatores em conjunto chamam somam, cada uma, 5,4 e 5,5%, respectivamente. Estas
a atenção para esta diversidade de contextos, ins- atividades, que visavam inicialmente tão somente a
tituições e usuários dos serviços, indicando que o elaboração de pareceres e laudos psicológicos, vêm se
acolhimento, a escuta e a intervenção psicossocial ampliando, propondo intervenções com referenciais
podem compreender protocolos e processos de mais nítidos nas áreas sociais. Observa-se que este
trabalho diversificados. aumento pode ter se dado com o interesse pela área

Figura 3: Atividades desempenhadas na área Social

Acolhimento psicológico 13,7%


Escuta 13,0%
Avaliação/atenção/atendimento/intervenção psicossocial 9,6%
Acompanhamento familiar 8,7%
Pesquisa 7,3%
Ensino 7,3%
Supervisão de colegas profissionais 6,2%
Palestras/conferências/workshops/seminários 6,2%
Produção de documentos psicológicos 5,5%
Avaliação psicológica 5,4%
Acompanhamento psicológico 3,7%
Articulações na rede de serviços assistenciais/articulação intersetorial 3,4%
Orientação psicológica 3,1%
Supervisão de estágios 2,6%
Extensão 2,4%
Aplicação de testes e outros instrumentos psicológicos 2,4%
Atividades de gestão/gerência de unidades/orgãos/setores/equipes 2,3%
Oficinas terapêuticas 2,0%
Atendimento/acompanhamento/acolhimento socioassistencial 2,0%
Psicoeducação 1,9%
Atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade 1,9%
Elaboração/acompanhamento/avaliação de políticas públicas 1,7%
Trabalho com grupos/prevenção ou promoção saúde/campanhas 1,5%
Matriciamento 1,5%
Psicodiagnóstico 1,4%
Atendimento socioeducativo/acompanhamento medidas socioeducativas 1,3%
Acompanhamentos paif 1,3%
Rodas de conversa 1,2%
Dinâmica de grupo 1,2%
Atendimento a vítimas de violência 1,2%
Triagem 1,1%
Trabalho/assistência/atendimento a idosos 1,1%

59
I. O Que Fazemos

que vem se renovando, se expandindo para além da que afirmaram realizar psicoterapia individual, se
clínica e abrangendo novos constructos e fenômenos assemelhando bastante ao que foi encontrado na
psicológicos que se constituem não apenas em fer- análise da área Clínica. Essa estreita sobreposição
ramentas de avaliação e diagnóstico, como também com a área clínica em termos de atividades mais fre-
em subsídios para intervenção (Bastos, Gondim & quentes pode sinalizar: a) que essas duas áreas são de
Peixoto, 2010). fato estreitamente relacionadas já que, em contextos
de promoção da saúde, por exemplo, também estão
Saúde sendo desenvolvidas com elevada frequência práticas
As(os) psicólogas(os) que atuam na área de Saúde psicoterápicas; ou b) que expressivo contingente
totalizaram 3.261 (19% do total de participantes), de profissionais que atuam na clínica e, portanto,
sendo que apenas 351 profissionais referiram atuar com psicoterapia, também consideram-se atuando
nesta área de forma exclusiva. Isto é importante no campo da saúde, o que não deixa de ser uma
porque, dentre as atividades mais frequentes en- interpretação correta.
contra-se a atividade de psicoterapia, com 49,0% As atividades consideradas típicas da área de
das citações das(os) profissionais, seguida de 19,0% Saúde – aqui entendida como englobando sobretu-

Figura 4: Atividades desempenhadas na área da Saúde

Psicoterapia 49,0%
Psicoterapia individual 19,9%
Acolhimento psicológico 12,9%
Avaliação psicológica 9,9%
Ensino 8,8%
Escuta 8,3%
Pesquisa 7,8%
Supervisão de colegas profissionais 6,9%
Palestras/conferências/workshops/seminários 6,0%
Matriciamento 3,9%
Produção de documentos psicológicos 3,4%
Orientação psicológica 3,4%
Psicoterapia breve 3,1%
Psicoeducação 3,0%
Oficinas terapêuticas 3,0%
Acompanhamento psicológico 2,8%
Acompanhamento familiar 2,7%
Supervisão de estágios 2,6%
Avaliação/atenção/atendimento/intervenção psicossocial 2,6%
Psicoterapia em grupo 2,5%
Aplicação de testes e outros instrumentos psicológicos 2,5%
Grupo de estudos/estudo de casos 2,4%
Clínica hospitalar em enfermarias e UTI 2,2%
Extensão 2,1%
Articulações na rede de serviços assistenciais/articulação intersetorial 2,1%
Atividades de gestão/gerência de unidades/orgãos/setores/equipes 2,0%
Trabalho com grupos/prevenção ou promoção saúde/campanhas 1,8%
Psicodiagnóstico 1,8%
Anamnese 1,7%
Interconsulta/atendimento multiprofissional 1,6%
Atendimento ambulatorial 1,6%
Avaliação/reabilitação neuropsicológica 1,3%
Aconselhamento/orientação psicológica60
1,3%
Trabalho/assistência/atendimento a idosos 1,2%
Trabalho com equipes profissionais em contextos de saúde 1,2%
Atendimento pacientes terminais 0,9%
I. O Que Fazemos

do uma atuação nos níveis primário e secundário, das outras áreas. A atividade de seleção de pessoal
especialmente em contextos de instituições de saúde, se mantém como central nesta área desde a pesquisa
especialmente nas políticas públicas de saúde – en- de 1988 (Bastos, 1988). Trata-se, como se sabe, do
contram-se, entretanto, em percentuais muito baixos tripé mais clássico que define a área Organizacional
de citações. É o caso das atividades de matriciamento e do Trabalho.
(3,9%), psicoeducação (3,0%), oficinas terapêuticas As atividades, citadas pelas(os) profissionais, de
(3,0%), acompanhamento familiar (2,7%), avaliação/ aplicação de testes e outros instrumentos (11,3%) e
intervenção psicossocial (2,6%), psicoterapia em avaliação psicológica (11,1%) vêm em seguida, assim
grupo (2,5%), grupo de estudos/estudos de casos como a produção de documentos psicológicos (6,5%),
(2,4%) etc. em certa medida reforçando a atividade principal, de
Aqui, a atividade de avaliação psicológica se se- seleção, mas também podendo ser realizada em outras
gue às atividades mais frequentes com 9,9%, sendo atividades de gestão aqui citadas, como a avaliação de
considerada em conjunto com a aplicação de testes e desempenho, a orientação de carreira, o psicodiagnós-
outros instrumentos psicológicos (2,5%) e a produção tico e o diagnóstico/desenvolvimento organizacional.
de documentos psicológicos (3,4%). Observa-se, assim, que as atividades relacionadas à
De maneira semelhante às outras áreas de atua- aplicação de testes e outros instrumentos na área de
ção expostas até aqui, há um destaque para as áreas POT, se sobrepõem a outras atividades aqui citadas,
de ensino (8,8%), pesquisa (7,8%) , supervisão de pois são essenciais ao seu desenvolvimento.
colegas profissionais (6,9%) e palestras/conferências/ Outras atividades que se destacam com percentuais
workshops/seminários (6,0%). Juntas, estas atividades significativos são a pesquisa (9,7%) e o ensino (9,0%).
se aproximam de 30%. Conforme já comentado ante- Tais atividades se alinham com as atividades de pales-
riormente nas áreas Clínica e Social, há uma interface tras/conferências/workshops/seminários (6,4%) que
entre as atividades específicas das áreas de atuação e as se realizam em parte na área da pesquisa e ensino em
atividades de formação dos profissionais de Psicologia. parte nas próprias organizações de trabalho. Também,
No caso da área de Saúde, as interfaces são realizadas próximo à área de ensino está a atividade de supervisão
entre as IESs e os dispositivos do Ministério da Saúde, de colegas profissionais (4,8%). Juntas, estas atividades
e muitas vezes, as atividades de formação das IESs configuram os esforços de formação da(o) psicólo-
são realizadas no âmbito da rede de Saúde local em ga(o) em POT e nelas, incluem-se as(os) profissionais
diversos níveis (graduação, supervisão de estágios, que atuam no ensino em IESs Públicas e Privadas
residência, aprimoramento, pós-graduação stricto (graduação, supervisão de estágio, pós-graduação
sensu), dentre outras modalidades. stricto e lato sensu) e em pesquisa nas IESs Públicas,
configurando a área de docência e pesquisa em POT,
Psicologia Organizacional e do Trabalho (POT) que vem se desenvolvendo ao longo das décadas mais
Do total de profissionais participantes do CensoPsi, recentes após a implantação e consolidação das DCNs
2.078 afirmaram atuar em POT (12,1% dos casos de Psicologia, a partir das quais a formação passou a
participantes), das(os) quais apenas 477 atuando de ser generalista (MEC, 2004; 2011), e também após a
forma exclusiva na área. As atividades mais frequentes criação da SBPOT (Associação Brasileira de Psicologia
da área de POT são as atividades de seleção de pessoal Organizacional e do Trabalho).
(18,0%), treinamento, desenvolvimento e educação A atividade de gestão de pessoas e RH aparece com
(17,2%) e recrutamento de pessoas (12,5%). Isto 6,4% das citações, e as atividades de gerência e gestão
reforça a grande especificidade desta área, pois as de equipes com 3,3%, indicando tanto a inserção em
atividades mais frequentes são claramente distintas equipes quanto a ocupação, pelas(os) psicólogas(os),

61
I. O Que Fazemos

Figura 5: Atividades desempenhadas na área Organizacional e do Trabalho

Seleção de pessoal 18,0%


Treinamento/formação/educação/qualificação no trabalho 17,2%
Recrutamento de pessoas 12,5%
Aplicação de testes e outros instrumentos psicológicos 11,3%
Avaliação psicológica 11,1%
Pesquisa 9,7%
Ensino 9,0%
Produção de documentos psicológicos 6,5%
Palestras/conferências/workshops/seminários 6,4%
Gestão de pessoas/RH 6,4%
Supervisão de colegas profissionais 4,8%
Orientação profissional/vocacional 4,1%
Desenvolvimento/treinamento/formação/orientação de lideranças 3,7%
Supervisão de estágios 3,5%
Desenvolvimento/orientação de carreiras 3,3%
Atividades de gestão/gerência de unidades/orgãos/setores/equipes 3,3%
Orientação psicológica 3,2%
Saúde e trabalho/saúde do trabalhador/saúde ocupacional 3,0%
Avaliação de desempenho 3,0%
Consultoria 2,6%
Psicodiagnóstico 1,8%
Mapeamento/desenvolvimento de competências 1,8%
Dinâmica de grupo 1,8%
Mediação 1,6%
Desenvolvimento de grupos e equipes 1,6%
Diagnóstico/desenvovimento organizacional 1,3%
Elaboração/planejamento e execução de projetos 1,2%
Trabalho com grupos/prevenção ou promoção 1,1%
Análise de cargos e salários 1,1%
Assessoria técnica/apoio técnico 0,9%
Mentoria 0,8%
Segurança e higiene no trabalho 0,6%
Insersção/reinserção/recolocação no mercado de trabalho 0,6%
Criação publicitária/marketing/pesquisa de mercado/vendas 0,6%
Clínica do trabalho 0,5%
Administração de pessoal 0,5%
Coaching 0,4%

de cargos de gestão em organizações de trabalho. desenvolvendo de maneira mais recente, não tendo
Observa-se que, embora significativa, esta atividade aparecido nas pesquisas anteriores, mesmo quando
ainda é tímida. Analisando de forma conjunta com as havia esta opção de resposta (Bastos et al., 2010).
demais atividades, observa-se que a(o) psicóloga(o), Embora tenham sido citadas aqui, sugerem um de-
na área de POT, ainda desempenha atividades consi- senvolvimento bastante inicial, que podem estar se
deradas em um nível mais técnico do que estratégico dando tanto no interior de algumas organizações de
(Zanelli, Borges-Andrade & Bastos, 2014). trabalho quanto em dispositivos das PNSST (Política
Atividades menos frequentes sugerem aqui o Nacional de Saúde e Segurança do Trabalhador e
despontar de novas atuações na área, como a saú- da Trabalhadora) que objetivam promover a saúde
de do trabalho, a segurança e higiene do trabalho, e qualidade de vida do trabalhador, assim como
que juntas totalizam 3,6%. Estas atividades vêm se prevenir acidentes de trabalho e passaram a inserir

62
I. O Que Fazemos

em suas equipes, em nível municipal, profissionais Educação. São docentes que podem, certamente,
de Psicologia. para além do ensino e da produção de conhecimento
na área, se envolver com trabalhos de extensão e ou
Escolar/Educacional intervenção no campo educacional.
Os dados levantados das(os) participantes do A análise dos resultados mostra exatamente a pre-
CensoPsi 2022 revelam que 1.920 (11,2% dos casos valência de um primeiro conjunto de atividades no
participantes) declaram atuar na área de Psicologia qual sobressaem as descritas como sendo de ensino
Educacional e, dessas(es), 310 afirmam trabalhar (14%), seguidas em porcentagens similares pelas de
exclusivamente nessa área. Uma característica desse acolhimento psicológico (13,1%) e intervenções no
conjunto de participantes que se disseram atuando âmbito escolar (12,6%). Um segundo conjunto,
na área Escolar/Educacional é a forte presença de condensando concentrações de ao redor de 10%,
docentes que lecionam no campo da Psicologia da engloba atividades voltadas para pesquisa (10,1%),

Figura 6: Atividades desempenhadas na área Educacional

Ensino 14,6%
Acolhimento psicológico 13,1%
Intervenções no âmbito escolar 12,6%
Pesquisa 10,1%
Avaliação psicológica 9,8%
Escuta 9,7%
Palestras/conferências/workshops/seminários 9,6%
Orientação psicológica 6,5%
Psicoeducação 5,7%
Supervisão de colegas profissionais 5,3%
Orientação profissional/vocacional 4,9%
Aplicação de testes e outros instrumentos psicológicos 3,9%
Produção de documentos psicológicos 3,5%
Acompanhamento psicológico 3,4%
Treinamento/formação/educação/qualificação no trabalho 3,0%
Extensão 2,8%
Anamnese 2,7%
Supervisão de estágios 2,6%
Orientação a pais 2,5%
Acompanhamento familiar 2,3%
Psicodiagnóstico 2,1%
Avaliação/atenção/atendimento/intervenção psicossocial 2,0%
Atendimento a crianças com dificuldades de aprendizagem 2,0%
Trabalho com grupos/prevenção ou promoção saúde/campanhas 1,8%
Rodas de conversa 1,8%
Orientação acadêmica 1,8%
Elaboração/planejameanto e execução de projetos 1,6%
Dinâmica de grupo 1,6%
Assessoria técnica/apoio técnico 1,6%
Avaliação/reabilitação neuropsicológica 1,4%
Atividades de gestão/gerência de unidades/orgãos/setores/equipes 1,4%
Psicopedagogia/psicomotricidade/educação/reeducação motora/neuropsicopedagogia 1,0%
Intervenções no sistema educacional 0,5%

63
I. O Que Fazemos

avaliação psicológica (9,8%), escuta (9,7%) e oferta Hospitalar


de palestras, conferências e similares (9,6%). Por O conjunto de profissionais participantes do
fim, um terceiro conjunto mostra que as(os) profis- CensoPsi 2022 que declara estar inserido na área
sionais da Psicologia que se declaram inseridas(os) hospitalar inclui um total de 1.074 psicólogas(os)
na área Educacional, realizam atividades relativas (6,2% dos casos participantes), dos quais apenas 174
a: orientação psicológica (6,5%), psicoeducação manifestam atuar exclusivamente na área. Repetindo
(5,7%), supervisão de colegas profissionais (5,3%) a análise realizada com as outras áreas, nesta também
e orientação profissional/vocacional (4,9%). Ainda foi investigada a concentração das atividades desempe-
que estas atividades não sejam as únicas realizadas, nhadas por este grupo e o resultado revela a presença
constituem as que concentram as maiores por- de dois conjuntos claramente diferenciáveis a partir
centagens, pois as demais atingem porcentagens das porcentagens com que aparecem. O primeiro, e
menos expressivas. mais saliente, engloba atividades como acolhimento

Figura 7: Atividades desempenhadas na área Hospitalar

Acolhimento psicológico 15,0%


Clínica hospitalar em enfermarias e UTI 12,2%
Avaliação psicológica 12,2%
Escuta 8,7%
Supervisão de colegas profissionais 7,9%
Ensino 7,3%
Atendimento ambulatorial 4,5%
Interconsulta/atendimento multiprofissional 4,3%
Pesquisa 4,2%
Acompanhamento psicológico 4,1%
Treinamento/formação/educação/qualificação no trabalho 3,9%
Produção de documentos psicológicos 3,8%
Orientação psicológica 3,8%
Atendimento pacientes terminais 3,5%
Aplicação de testes e outros instrumentos psicológicos 3,1%
Supervisão de estágios 2,9%
Psicoeducação 2,9%
Assistência materno-infantil 2,6%
Grupo de estudos/estudo de casos 2,4%
Avaliação/atenção/atendimento/intervenção psicossocial 2,2%
Trabalho/assistência/atendimento a idosos 2,1%
Acompanhamento familiar 2,1%
Trabalho com equipes profissionais em contextos de saúde 1,9%
Avaliação/reabilitação neuropsicológica 1,9%
Psicodiagnóstico 1,5%
Intervenções em luto 1,4%
Avaliação e preparação para cirurgias/acompanhamento pós-cirúrgico 1,3%

64
I. O Que Fazemos

psicológico (15,0%), clínica hospitalar em enfermaria Jurídica


e UTI (12,2%) e avaliação psicológica (12,2%). Em A análise das atividades realizadas pelas(os) profis-
porcentagens inferiores aparece um segundo conjunto sionais que declaram estar inseridos na área Jurídica
que engloba um conjunto também restrito de ativida- mostra, também, diferentes padrões de concentração.
des relatadas, sendo elas: escuta (8,7%), supervisão de Este grupo está composto por 976 psicólogas(os)
colegas profissionais (7,9%) e ensino (7,3%). As outras (5,7% dos casos participantes) , dos quais 242 ma-
atividades relatadas aparecem em baixas concentrações, nifestam atuar exclusivamente na área da Psicologia
como mostra a figura que segue. jurídica. Inicialmente cabe destacar a presença de um

Figura 8: Atividades desempenhadas na área Jurídica

Produção de documentos psicológicos 25,5%


Avaliação psicológica 22,8%
Ensino 8,2%
Acolhimento psicológico 8,2%
Escuta 7,1%
Aplicação de testes e outros instrumentos psicológicos 7,0%
Supervisão de colegas profissionais 6,1%
Perícias 6,1%
Pesquisa 5,4%
Palestras/conferências/workshops/seminários 5,2%
Avaliação/atenção/atendimento/intervenção psicossocial 4,4%
Acompanhamento e intervenção em processos de adoção e guarda 3,7%
Orientação psicológica 3,4%
Acompanhamento familiar 3,0%
Anamnese 2,9%
Supervisão de estágios 2,8%
Grupo de estudos/estudo de casos 2,8%
Acompanhamento psicológico 2,8%
Avaliação e laudos para o sistema judiciário 2,7%
Participação em audiência 2,2%
Atendimento a vítimas de violência 2,2%
Assessoria técnica/apoio técnico 2,2%
Mediação 2,0%
Articulações na rede de serviços assistenciais/articulação intersetorial 2,0%
Atendimento/acompanhamento/acolhimento socioassistencial 1,8%
Atividades de gestão/gerência de unidades/orgãos/setores/equipes 1,6%
Atendimento a pessoas em situação de vulnerabilidade 1,6%
Extensão 1,5%
Assessoria a entidades do sistema judiciário 1,5%
Articulações em rede de proteção 1,5%
Psicodiagnóstico 1,4%

65
I. O Que Fazemos

conjunto que condensando duas atividades atinge os colegas (6,1%), perícias (6,1%), pesquisas (5,4%), e
maiores valores. São elas de produção de documentos palestras e seminários (5,2%). As demais atividades
psicológicos (25,5%), seguida pela de avaliação psi- aparecem em porcentagens inferiores, razão pela qual
cológica (22,8%); a esse conjunto deve se agregar a não são descritas individualmente, mas constam na
aplicação de testes e outros instrumentos, citada por figura a seguir.
7,0% dos que atuam na área. Esse dado pode nos
levar a caracterizar que a inserção da Psicologia na Neuropsicologia
área se dá, sobretudo, pela tarefa de avaliar e redigir Por fim, uma última área a ser analisada corres-
documentos para subsidiar decisões da justiça. O ponde à de Neuropsicologia em que se congregam
segundo conjunto de atividades deste grupo apresenta 979 profissionais (5,7% do total de participantes) que
porcentagens inferiores, não chegando a 10%. Fazem participaram do CensoPsi 2022 e, dessas(es), apenas
parte dele atividades como ensino (8,2%), acolhimen- 28 manifestam atuar exclusivamente nela. A respeito
to psicológico (8,2%) escuta (7,1%), supervisão de das(os) profissionais que declaram atuar nesta área,

Figura 9: Atividades desempenhadas na área da Neuropsicologia

Psicoterapia 49,8%
Avaliação/reabilitação neuropsicológica 22,6%
Aplicação de testes e outros instrumentos psicológicos 14,7%
Avaliação psicológica 13,2%
Ensino 9,7%
Produção de documentos psicológicos 8,9%
Psicoterapia individual 7,8%
Supervisão de colegas profissionais 7,3%
Pesquisa 7,0%
Anamnese 6,4%
Acolhimento psicológico 6,4%
Escuta 6,1%
Orientação psicológica 5,2%
Palestras/conferências/workshops/seminários 4,6%
Psicoeducação 4,2%
Orientação profissional/vocacional 2,9%
Trabalho/assistência/atendimento a idosos 2,6%
Psicodiagnóstico 2,3%
Atendimento a crianças com dificuldades de aprendizagem 2,1%
Acompanhamento familiar 2,1%
Orientações a pais 2,0%
Extensão 2,0%
Supervisão de estágios 1,7%
Orientação acadêmica 1,7%
Psicoterapia breve 1,6%
Acompanhamento psicológico 1,5%
Intervenções no âmbito escolar 1,3%

66
I. O Que Fazemos

cabe destacar o escasso quantitativo, pois o grupo concentração bastante inferior, mas ainda relevante,
não atinge sequer as(os) mil profissionais. Assim, é aparece a avaliação/reabilitação neuropsicológica
importante atentar para este fato, pois é pouco pro- (22,6%), seguida à certa distância pela aplicação de
vável ter uma representação acurada das atividades testes (14,7%) e pela avaliação psicológica (13,2). Por
desempenhadas pelas(os) psicólogas(os) dessa área. último aparece um conjunto de diversas atividades
Com relação às informações levantadas, a diferen- que aparecem em porcentagens bastante similares,
ça do visto nas áreas anteriores, as declaradas pelos razão pela qual são relatadas em conjunto. São elas
psicólogos se concentram majoritariamente em uma relativa a: ensino (9,7%), produção de documentos
específica, qual seja a relativa à psicoterapia (49,8%) e psicológicos (8,9%), supervisão de colegas profissio-
psicoterapia individual (7,8%) e, conforme os dados nais (7,3%), pesquisas (7,0%), anamnese (6,4%),
revelam, ela faz parte das atividades declaradas pela acolhimento psicológico (6,4%), escuta (6,1%) e
metade das(os) participantes deste estudo inseridos orientação psicológica (5,2%). Este conjunto de
na área da Neuropsicologia (em parte por ser muito dados, assim como os relativos às atividades que
elevado o compartilhamento das área clínica e neu- apareceram em concentrações inferiores estão re-
ropsicologia). Em segundo lugar, e mostrando uma presentados na figura a seguir.

Figura 10: Atividades transversalmente presentes em mais áreas de atuação em Psicologia

ORGANIZACIONAL ESCOLAR/
ATIVIDADES CLÍNICA SOCIAL SAÚDE JURÍDICA HOSPITALAR NEURO
E TRABALHO EDUCAIONAL

Psicoterapia
Escuta
Acolhimento psicológico

Avaliação psicológica
Aplicação de testes e outros instrumentos
Anamnese
Psicodiagnóstico
Produção de documentos psicológicos

Aconselhamento/Orientação psicológica
Acompanhamento pscicológico

Ensino
Pesquisa
Palestras/conferências/workshops/seminários
Supervisão de estágios

Supervisão de colegas profissionais


Gestão de unidades/órgão etc.

Sim>10%
Sim - >5% a <10%
Sim - >3% a <5%
Sim - >1% a <3%
0 a menos de 1%

67
I. O Que Fazemos

Para concluir essa apresentação descritiva do con- contextos em que ocorre. Anamnese teve frequência
junto de atividades que estão mais presentes nas insignificantes nas áreas Social e Organizacional e
principais áreas de atuação em Psicologia, a Figura 10 psicodiagnóstico apenas na área Social.
sintetiza num quadro aquela atividades que estão de O terceiro bloco são as atividades de docência,
forma mais frequentemente incluídas nas diferentes também tratada como uma área própria pelo fato da
áreas, podendo se constituir num grupo básico que formação e produção de conhecimento serem pro-
assegura a identidade profissional nos diferentes cessos específicos e se darem em contextos próprios
contextos ou áreas em que se insere. Para tal análise (instituições de ensino). No entanto, a docência
resolvemos identificar tais atividades a partir de sua (como já se viu no Capítulo 12) é uma área que se
presença em percentuais, discriminando algumas vincula a todas as demais. Ou seja, as áreas incor-
faixas que mostram a força de cada atividade em poram as atividades dos profissionais assim como
cada uma das áreas selecionadas. as atividades relacionadas ao campo da formação e
Essas atividades, na Figura 10, compõem cinco produção científica. Ou seja, a comunidade acadê-
pequenos blocos, que serão comentados um a um. mica também se descreve como atuando em áreas
O primeiro bloco reúne três atividades que são bas- profissionais a partir do campo de conhecimento em
tante fortes na identidade da atuação em clínica e que se inserem. E, de fato, tal inserção pode ocorrer
saúde: psicoterapia, escuta, acolhimento psicológico. via trabalhos de extensão e prestação de serviços.
Apenas a psicoterapia (em todas as formas como Finalmente duas últimas atividades são também
foram descritas) não aparece como central nas áreas transversais a todas as áreas. A primeira é a supervi-
Organizacional, Escolar/Educacional e Jurídica. Isso são de colegas profissionais. Há uma forte tradição
não significa, como vimos, que profissionais que de que profissionais mais experientes atuam como
atuam nessas três áreas não tenham, também, conco- mentores ou supervisores de profissionais mais jovens.
mitantemente, inserção em áreas em que desenvolvem E isso ocorre em todas as áreas, sendo menos forte
atendimentos clínicos. Assim, escuta e acolhimento na área Organizacional e do Trabalho. A segunda é
psicológico constituem um eixo que identifica a(o) o desempenho de tarefas gerenciais ao assumirem
profissional em todas as suas inserções e se reportam postos de comando de unidades, órgãos, setores nos
mais à postura básica que orienta o contato da(o) mais diversos espaços de inserção. Tal fato coloca a
psicóloga(o), com a demanda que lhe chega. necessidade de que nossas(os) profissionais possam
Um segundo bloco se refere ao conjunto de ativi- ter uma formação que lhes permita atuar de forma
dades no campo da avaliação psicológica com as dife- adequada como gestores.
rentes denominações recebidas: avaliação psicológica,
aplicação de testes e outros instrumentos, anamnese, A natureza das atividades:
psicodiagnóstico e produção de documentos psico- individuais ou em equipes?
lógicos. A larga presença dessas atividades em quase Após a análise das áreas de inserção da(o) psicó-
todas as áreas, mostra o quanto essa competência básica loga(o), associada às atividades majoritariamente
em avaliação é algo central na definição dos fazeres desempenhadas pelas(os) participantes do CensoPsi
profissionais em Psicologia, o que guarda relação com 2022, a seguir são abordadas as questões relativas
o fato de ser a sua única atividade privativa. Assim, a ao fato da(o) psicóloga(o) atuar ou não inserido em
Avaliação Psicológica é, de fato, uma especialização equipes de trabalho.
(pelo que requer de formação específica e experiência), A este respeito, os dados levantados evidenciaram
mas não seria talvez pertinente tratá-la como uma uma distribuição equitativa, em termos de porcen-
área de atuação, pela multiplicidade de objetivos e tagens daqueles que declaram trabalhar em equipes

68
I. O Que Fazemos

(49,5%) ou de maneira individualizada (50,5%), compostas apenas por psicólogas(os), mas, destaca-se
não sendo possível falar, assim, em uma tendência a necessidade de cuidado com essa apreciação, pois na
que caracterize toda a profissão. Esse mesmo dado pesquisa do ano 2010 as análises desses aspectos foram
também mostra estabilidade em relação ao dado le- executadas com um total de 640 respondentes, o que
vantado em edição anterior deste estudo (Martins & demanda prudência na generalização dos achados.
Puente-Palacios, 2010) quando 54% manifestaram
trabalhar em equipes. Portanto, os dados permitem Figura 12: Configuração das equipes em que a(o)
afirmar que a inserção em equipes é atributo presente psicóloga(o) trabalha
nos profissionais da Psicologia.
Equipe de
Figura 11: Inserção da(o) psicóloga(o) em equipes de trabalho psicólogas(os)
25,8%

Individual
50,5%

Equipe
multiprofissional
74,2%
Equipe
49,5%
Um terceiro aspecto investigado quanto a atuação
das(os) psicólogas(os) em equipes refere-se à natureza
Ainda a respeito da atuação profissional em equi- das atividades que desempenham. Especificamente
pes de trabalho, foi levantada informação das(os) foram inquiridos quanto ao fato de realizarem ati-
participantes a respeito dessas equipes serem multi- vidades restritas à(ao) psicóloga(o). O conjunto de
profissionais ou estarem compostas exclusivamente respostas fornecido demonstra que a esmagadora
por psicólogas(os). As respostas dadas revelam que a maioria das(os) participantes do CensoPsi 2022
maior parte dessas equipes condensam profissionais (87,9%) afirmou que o trabalho que desempenha
de diversas áreas e, desse modo, podem ser descritas nessas equipes é exclusivo das(os) psicólogas(os) e
como multiprofissionais (74,2%) enquanto apenas não poderia ser executado por pessoas com outras
uma parcela menor atua em equipes compostas exclu- formações. A porcentagem de profissionais que des-
sivamente por psicólogas(os) (25,8%). Ao comparar creveram o seu trabalho como não sendo restrito
estes dados com a edição anterior do estudo com os às(aos) profissionais da Psicologia atingiu 12,1%.
profissionais da Psicologia, visando desenhar uma linha Esses dados são mostrados na figura que segue.
histórica de evolução do trabalho da(o) psicóloga(o), O conjunto de achados relativos à atuação das(os)
constata-se que naquela edição a porcentagem dos psicólogas(os) em equipes, à natureza dessas equipes
que trabalhavam em arranjos uni disciplinares era e a especificidade do trabalho, oferece dados que
de 12% (Martins & Puente-Palacios, 2010). Esse permitem caracterizar o trabalho das(os) psicólo-
valor pode aparentemente mostrar um incremento gas(os) e descrevê-lo como profissão desempenhada
da quantidade de profissionais inseridos em equipes em equipes por uma boa parte dos participantes do

69
I. O Que Fazemos

estudo; apontar que essas equipes são prioritariamente do Trabalho em que foram observadas porcentagens
multiprofissionais e destacar que, nelas, o trabalho do de 50,8% e 48,2% para inserção em equipes e tra-
psicólogo é restrito à sua área de formação, de sorte balho individual, respectivamente. Situação similar
que não poderia ser desempenhado por profissional pode ser vista na área de Docência e ensino em
com outra formação. que as porcentagens também são bastante próximas
(Equipes - 54,7%; Individual 45,3%).
Figura 13: Natureza do trabalho das(os) psicólogas(os) Dando continuidade à análise das áreas de in-
inseridos em equipes serção da(o) psicóloga(o) destacam-se a seguir os
dados observados ao realizar comparações a partir
Não exclusivo da natureza das equipes em que as(os) profissionais
12,1% atuam, sendo essas formadas exclusivamente por
psicólogas(os) ou equipes multiprofissionais.
Os resultados obtidos revelam que existem di-
ferenças acentuadas, tendo em vista que em todos
os casos, maiores porcentagens são encontradas nas
equipes multiprofissionais. As mais salientes ocorrem
em Social/Comunitária, Saúde e Forense/Jurídica
Exclusivo em que as concentrações para essa modalidade de
87,9% trabalho superam 80%. Em quase todos os casos, a
diferença de porcentagem chega a ser até o dobro
Além da caracterização ora apresentada, os dados ao comparar o trabalho feito em equipes só de psi-
levantados também permitiram analisar de maneira cólogas(os) versus o realizado em equipes compostas
mais detalhada as áreas em que a(o) profissional por pessoas com diferentes formações. Exceções à
atua. Assim, em primeira instância, o foco de inte- afirmação antes realizada estão presentes nas áreas de
resse recai na comparação deste aspecto entre as(os) Trânsito e na Docência, em que as diferenças, ainda
profissionais que trabalham em equipes e os que que presentes, são menos severas. Esses achados estão
atuam de maneira individual. Conforme a Figura apresentados na Figura14.
13 mostra, são claras as diferenças entre os grupos Por fim, foram realizadas comparações de natureza
que laboram em cada modalidade. Concentrações similar com relação às tarefas executadas nas equipes.
maiores, em termos percentuais, podem ser vistos O aspecto efetivamente indagado foi relativo ao fato de
entre as(os) profissionais que atuam em equipes, em as(os) profissionais da Psicologia inseridos em equipes
áreas como Psicologia Ambiental (63,6%), Social/ multiprofissionais desempenharem atividades exclusivas
Comunitária (62,7%) ou, ainda, Hospitalar (60,4). da(o) psicóloga(o) ou se essas poderiam ser realizadas
Já para o grupo que trabalha de maneira individual, por outras(os) profissionais. Os resultados mostram a
as maiores frequências de áreas de atuação ocorrem presença de diferenças ainda mais salientes, e comparadas
na Psicologia do Trânsito (64,4%), Neuropsicologia às do tópico anterior, uma vez que foram observadas
(60,2%) ou Avaliação Psicológica (59,2%). Logo, a grandes concentrações de respostas relativas ao desem-
inserção em equipes mostra-se relacionada a certas penho de tarefas que são atribuições exclusivas das(os)
áreas de atuação. Entretanto, também foram identifi- psicólogas(os) e essas respostas, na maioria dos casos,
cadas algumas em que a participação em equipes ou superam os 80%. Destaca-se em especial as áreas de
individual não mostra discrepâncias tão acentuadas, Trânsito (93,5%), Hospitalar (93,5%), Esporte (92,1%)
como ocorre no caso de Psicologia Organizacional e e Neuropsicologia (91,0%). No extremo oposto, portan-

70
I. O Que Fazemos

Figura 14: Natureza do Trabalho (individual ou em equipe) por Áreas de Atuação

43,4%
Esporte 56,6%
64,4%
Trânsito
35,6%
36,4%
Ambiental 63,6%
43,3%
Forense/Jurídica 56,7%
Neuropsicologia 39,8% 60,2%
39,8%
39,6%
Hospitalar 60,4%
Escolar/Educacional 43,8%
56,2%
Avaliação Psicológica 59,2%
40,8%
Organizacional e do Trabalho 49,2%
50,8%
Docência e Ensino de Psicologia 45,3%
54,7%
40,0%
Saúde 60,0%
37,3%
Social/comunitária 62,7%
Clínica 57,2%
42,8%

Natureza trabalho: individual Natureza trabalho: equipe

Figura 15: Natureza da equipe, multi ou uniprofissionais por áreas de atuação

Esporte 67,9%
32,1%
Trânsito 54,7%
45,3%
Ambiental 76,2%
23,8%
Forense/Jurídica 80,5%
19,5%
Neuropsicologia 72,6%
27,4%
Hospitalar 75,7%
24,3%
Escolar/Educacional 80,2%
19,8%
Avaliação Psicológica 68,2%
31,8%
Organizacional e do Trabalho 72,8%
27,2%
Docência e Ensino de Psicologia 60,8%
39,2%
Saúde 81,3%
18,7%
84,2%
Social/comunitária 15,8%
71,2%
Clínica 28,8%

Natureza da tarefa em equipe: multiprofissional Natureza da tarefa em equipe: psicólogas

71
I. O Que Fazemos

to, mostrando as menores concentrações, estão as áreas profissionais da Psicologia que atuam inseridos em
Ambiental (69,2%) e Organizações e Trabalho (79,1%), equipes de trabalho tendem a desempenhar atividades
ainda que em ambas seja observada uma porcentagem que podem ser descritas como atribuições restritas à(ao)
elevada para a categoria de trabalho exclusivo das(os) profissional da Psicologia. A figura a seguir mostra esses
psicólogas(os). Esse conjunto de dados revela que os dados de maneira condensada.

Figura 16: Natureza da Tarefa por áreas de atuação

Esporte 7,9%
92,1%
Trânsito 6,5%
93,5%
Ambiental 30,8%
69,2%
11,3%
Forense/Jurídica
88,7%
9,0%
Neuropsicologia 91,0%
Hospitalar 6,5%
93,5%
14,3%
Escolar/Educacional 85,7%
10,4%
Avaliação Psicológica
89,6%
20,9%
Organizacional e do Trabalho 79,1%
13,9%
Docência e Ensino de Psicologia 86,1%
11,1%
Saúde 88,9%
13,5%
Social/comunitária 86,5%
10,6%
Clínica 89,4%

Natureza da tarefa em equipe: Não Exclusiva Natureza da tarefa em equipe: Exclusiva da Psicologia

Considerações finais um primeiro aspecto a ser considerado é que análises


A análise do trabalho em Psicologia no nível das posteriores podem tomar as diferentes categorias e
atividades desempenhadas complementa a análise buscar precisá-las melhor. Fica evidente que nomes
sobre as áreas de atuação e processos de trabalho de diferentes podem estar sendo atribuídos a coisas
modo a oferecer uma visão abrangente do escopo da muito similares. Assim como, fica evidente que as
nossa profissão, em termos dos serviços que presta- atividades guardam níveis distintos de complexidade
mos à sociedade. (algumas poderiam ser subatividades ou componentes
Como destacado anteriormente nessa versão do de atividades mais complexas).
CensoPsi, partiu-se da livre descrição feita pelas(os) Embora essa nova estratégia para descrever ativi-
suas(seus) participantes das atividades realizadas em dades nos permita uma visão ampla da diversidade
cada um dos trabalhos em Psicologia. Do amplo que caracteriza o nosso exercício profissional, ela
conjunto de unidades informadas, foi composto nos coloca limites quando se trata de comparar com
um sistema de 110 categorias, buscando respeitar ao estudos anteriores, quando listas de atividades foram
máximo a própria descrição oferecida. Nesse sentido, oferecidas para escolha das(os) participantes. Apesar

72
I. O Que Fazemos

disso, três conclusões podem ser apontadas do quadro Em síntese, quando comparamos o quadro aqui
descrito em detalhes ao longo do presente capítulo. descrito com estudos anteriores, naquilo que é pos-
Temos um campo amplo, diversificado que se sível comparar, pode-se concluir que a expansão do
mostra muito distinto daquele descrito há vinte ou exercício profissional da Psicologia, visível em termos
trinta anos. O tripé – clínica/escolar/trabalho apoiado de contextos de trabalho, de áreas de atuação, de
na avaliação psicológica como base para as interven- processos de trabalho também se revela no tocante
ções – se alterou profundamente pela expansão dos às atividades ou serviços prestados. Evidente que
contextos e áreas, pela diversificação da clientela ou tal expansão não se dá pela diminuição ou desapa-
usuárias(os) da Psicologia. Isso pode ser visto nas recimento de atividades que são clássicas, que nos
atividades que definem a área social e a área jurídi- acompanham desde o nascimento da profissão e
ca, por exemplo. Mas também aparece nas áreas da que, por certo, são definidoras da nossa identidade
saúde, da neuropsicologia e hospitalar. Apesar dessa profissional. Esse núcleo básico de atividades que são
mudança evidente, não se pode desconsiderar que o tão centrais e que cortam transversalmente as mais
núcleo central que define a nossa profissão desde a diversificadas formas e contextos de inserção, como
sua regulamentação, continua com bastante força, vimos anteriormente, constituem um núcleo ao
como é o caso da avaliação psicológica. qual se agregam muitas outras atividades formando
O peso da Psicoterapia é outro dado que merece a complexa rede também descrita anteriormente.
destaque. Nas diferentes formas ou modalidades com Embora o CensoPsi concentre os seus esforços
que é descrita essa atividade, vemos que ela se transfor- em caracterizar aquilo que é dominante no exercício
mou na grande fonte de identidade profissional. Essa profissional, é possível se lançar luz sobre aquilo que
ampliação em relação a pesquisas anteriores também aparece de forma reduzida ou pouco frequente. Tais
se associa, possivelmente, ao processo de ampliação casos podem apontar para novidades, inovações,
da atuação clínica, naquilo que se chama de “clínica coisas emergentes que podem ir reconfigurando o
ampliada”. Rompe-se os muros dos consultórios e exercício profissional no futuro.
a terapia se espraia por diferentes contextos que lhe Por fim, vale destacar a possibilidade de que aná-
exige adequações, mas sem mudar a atividade na sua lises futuras venham a explorar como uma mesma
essência (objetivo e resultados almejados). atividade pode se configurar em práticas distintas,
Somos uma profissão dividida em termos do quando se consideram os contextos em que são de-
trabalho individual e o trabalho em equipe. Aquela senvolvidas e, também, o referencial teórico que as
imagem da(o) psicóloga(o) isolada(o) no seu próprio embasam. Certamente, levar esses dois elementos em
consultório certamente não corresponde, hoje, ao consideração nos fornecerá um quadro ainda mais di-
exercício profissional para grande parte da categoria, versificado dos serviços que prestamos à sociedade. n
mesmo tendo a psicoterapia como a atividade mais
largamente desempenhada. Mais significativo é ainda,
o fato de que essa inserção se dá, majoritariamente,
em equipe multiprofissional. Nessas equipes, como se
viu, as tarefas são vistas como exclusivas da Psicologia.
Todavia, o trabalho passa a exigir uma complexa
habilidade para trabalhar em conjunto com outras
culturas profissionais. Esse quadro, com diferenças
de intensidade, não se altera nas diversas áreas de
atuação em Psicologia.

73
I. O Que Fazemos

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75
I. O Que Fazemos

15 A PSICOLOGIA E AS PRÁTICAS
INTEGRATIVAS E COMPLEMENTARES
Alexandre Franca Barreto1
Ana Cristina de Sá2
Tahiná-Khan Lima Vianey3

Introdução como a Psicologia, mais em particular o Sistema


Este capítulo tem por objetivo apresentar reflexão Conselhos de Psicologia, vem abordando esta temática
sobre o exercício profissional da Psicologia e sua rela- em sua relação com a profissão. Por fim, apontamos
ção com as Práticas Integrativas e Complementares reflexões e desafios à Psicologia, com vistas à melhor
(PICS), a partir dos dados obtidos pelo Censo da regulação da oferta profissional que nossa categoria
Psicologia Brasileira. O exercício das PICS pela leva à sociedade.
profissional da Psicologia tensiona para um diálogo
em dimensões epistemológicas, éticas e normativas. As Práticas Integrativas e
Antes de nos dedicarmos a esses aspectos, pretende- Complementares – um breve
mos contextualizar as PICS no cenário nacional e panorama global e nacional
global. Em seguida, apresentamos dados do último Em termos globais, a existência das PICS e seu
CensoPsi 2022. Na sequência, procuramos analisar uso na atenção à saúde surge, de acordo com Luz

1 Psicólogo, Especialista em Psicologia Clínica com formação Internacional em Análise Bioenergética, Mestre em Antropologia, Doutor
em Educação. Professor Adjunto do Colegiado de Psicologia da Universidade Federal do Vale do São Francisco e docente do Programa
de Residência Multiprofissional em Saúde da Família UNIVASF/SESAB.

2 Ana Cristina de Sá possui graduação em Enfermagem e Obstetrícia pela Universidade de São Paulo (1981), graduação em Psicologia
pela Universidade Paulistana (1995), graduação em Pedagogia pela Faculdade Campos Salles (1989), Doutorado em Enfermagem pela
Universidade de São Paulo (2001) e Mestrado em Enfermagem Fundamental pela Universidade de São Paulo (1995). Atualmente é
Psicanalista de linha Junguiana . Integrou o GT PICS da Secretaria Estadual de Saúde de SP (SES-SP) e CES-SP (Conselho Estadual
de Saúde de São Paulo), para implantação de Políticas Públicas (SUS) no Estado de SP. Coordenou o GT de PICS do COREN-SP. É
membro da CPICS COFEN (Comissão Nacional de PICS do Conselho Federal de Enfermagem) e da CTAPICS-MS (Câmara Técnica
de PICS do Ministério da Saúde). Atuou como docente de cursos da área da Saúde (Enfermagem, Medicina, Nutrição, Fisioterapia,
Farmácia, Psicologia, Pedagogia) e de Bioética nos níveis de Graduação, Pós Graduação Lato e Stricto Senso por 20 anos. No campo
prático reúne 26 anos de experiência nas áreas de Enfermagem e Psicologia. Ênfase de pesquisa: aspectos emocionais do trabalhador
da área da Saúde , enfermagem, bioética, humanização , Práticas Integrativas e Complementares em Saúde, em especial na modalidade
Imposição de Mãos com o Toque Terapêutico pelo Método Krieger-Kunz (formação nos EUA e Canadá), no qual é referência sul
americana. Vice-Líder do GEPHUS (Grupo de Estudo e Pesquisa em Humanização em Saúde - CNPq), pesquisadora do Grupo de
Estudos em Terapias Complementares do CNPq EEUSP; autora de livros e artigos na área da Saúde, dentre os quais, o best seller “O
Cuidado do Emocional na Saúde”, em sua 4a edição (Nova Práxis Editorial) e “O Toque Terapêutico: harmonização energética através
da imposição de mãos”, [Link]. Foi conteudista em PICS do Ministério da Saúde. Conteudista do Conselho Federal de Psicologia do
livro, no prelo, Censo de Psicologia. ID Lattes: [Link]

3 Possui graduação em Psicologia pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC Goiás - 2008), mestrado em Psicologia Social
pela Universidade de Brasília (UnB - 2013) e está concluindo especialização lato sensu em Avaliação Neuropsicológica pelo Núcleo
de Ensino e Pesquisa em Neuropsicologia (NEPNEURO). Atua como Professora Assistente na PUC Goiás na Escola de Ciências
Sociais e da Saúde desta Universidade. É integrante do Grupo de Pesquisa e Estudos em Saúde Mental (Mentalize - PUC Goiás). Está
conselheira no Conselho Federal de Psicologia (CFP).

76
I. O Que Fazemos

(2005), em decorrência de uma grave deficiência “desenvolvidos” como uma escolha pessoal de parte
na área da saúde, ocasionada também por aumento significativa da população que busca itinerários tera-
das desigualdades sociais e suas consequências ao pêuticos diferentes, com base em suas necessidades
agravamento das condições de saúde. A Organização de saúde (OMS, 2002, 2014).
Mundial da Saúde (OMS) identificou a incapacidade Dados demonstram que, no início do século XXI,
da “medicina convencional”, pautada no modelo em países de África, 80% da população adotava as
biomédico, em prestar atendimento de saúde para MTCI nos cuidados para satisfazer suas necessidades
toda a população, o que resultou no incentivo aos sanitárias (OMS, 2002). Na China, as MTCI conta-
países membros da OMS a utilizarem recursos cul- bilizavam aproximadamente 40% de todo o cuidado
turais de cuidado, de forma a atender à demanda da em saúde, ou seja, cerca de 200 milhões de pacientes,
população mais ampla e economicamente vulnerável, anualmente, faziam uso desses recursos. Na América
com suas práticas terapêuticas tradicionais (LUZ, Latina, dados revelam que 71% da população do
1997). Estimulou, ainda, a realização de pesquisas Chile e 40% da população da Colômbia utilizam
com o intuito de conferir credibilidade e segurança tais recursos de saúde (OMS, 2002). Na América do
às(aos) profissionais/terapeutas e à população no Norte, Europa e Oceania, a população que usa ou
emprego dessas terapias (Brasil, 2015). usou pelo menos uma vez os recursos das medicinas
Desde a década de 1970, a OMS criou o Departamento tradicionais e complementares também apresenta
de Medicina Tradicional e Complementar, que reco- dados bastante expressivos: 71% no Canadá, 49%
nhece a importância destas medicinas para o cuidado na França, 48% na Austrália, 42% no Reino Unido
global da saúde. Nos últimos anos, este Departamento e 31% na Bélgica (OMS, 2002).
reformulou seu nome para Departamento de Medicinas A OMS incentiva e fortalece a inserção, reco-
Tradicionais, Complementares e Integrativas (MTCI). nhecimento e regulamentação destas práticas, de
O seu trabalho, ao longo destas décadas, tem sido, por produtos e de seus praticantes nos Sistemas Nacionais
um lado, incentivar iniciativas de trabalho integrado e de Saúde. Neste sentido, atualizou as suas diretrizes
complementar entre a biomedicina e as práticas tradi- a partir do documento “Estratégia da OMS sobre
cionais (modelo integrativo e interdisciplinar como, por Medicinas Tradicionais para 2014-2023” (OMS,
exemplo, integrar o cuidado de gestantes com parteiras, 2014). Adicionalmente, a OMS observou uma grande
enfermeiras obstétricas e médicos ginecologistas e o expansão nos últimos 20 anos de políticas e regu-
olhar do indivíduo como um todo) e, por outro lado, lações dessas diferentes práticas. No ano de 1995,
estimular os Estados signatários da OMS para que havia apenas 25 Estados-membros com Políticas
possam formular políticas, legislações e normas que Nacionais que regulavam o exercício das MTCI. Já
garantam a segurança, a regulação e o uso racional no em 2018, este número era de 98 Estados, dos quais
cuidado com diferentes práticas de saúde. o Brasil é um deles (OMS, 2019).
Por meio de diferentes documentos produzidos ao A Política Nacional de Práticas Integrativas e
longo dos anos, a OMS construiu dados que mostram Complementares (PNPIC) surge no Brasil em 2006,
a significativa presença das MTCI no mundo. Sua tanto por esta recomendação internacional da OMS,
presença compreende parte importante da demanda como por uma reivindicação dos movimentos sociais
de cuidado em saúde em países nos quais o acesso ao da saúde, presentes desde a 8ª Conferência Nacional
cuidado com olhar pautado no modelo biomédico é de Saúde que estabelece as bases para o Sistema Único
limitado (como único modo de cuidado para parte de Saúde. Nos relatórios desta Conferência, já existe
expressiva da população, como no caso de países do recomendação para incluir práticas de cuidado que
continente africano, por exemplo), e em países ditos adotem racionalidades médicas diversas do modelo

77
I. O Que Fazemos

biomédico como referencial teórico-prático. O Brasil, cionais que já vinham ocorrendo no SUS em diver-
sob o aspecto de estado signatário da OMS, com base sos municípios e estados e instituiu as práticas de
nas recomendações internacionais e reivindicações Medicina Tradicional Chinesa/Acupuntura, Medicina
nacionais, deve promover orientações políticas e Antroposófica, Fitoterapia e Crenoterapia. Informações
mecanismos de regulação que favoreçam o bom uso oriundas do Programa Nacional de Melhoria do Acesso
das PICS, de forma racional e segura. e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ-AB) e dados
O que na OMS é denominado por MTCI, no do Sistema de Cadastro Nacional de Estabelecimentos
Brasil e no Ministério da Saúde recebe o nome de de Saúde (SCNE) mostraram a multiplicidade de PICS
Práticas Integrativas e Complementares (PICS) e ofertadas pelos municípios brasileiros, o que resultou,
são definidas como: em 27 de março de 2017, na publicação da Portaria
nº 849 pelo Ministério da Saúde (Brasil, 2017), re-
[…] sistemas e recursos que envolvem abor- conhecendo mais 14 modalidades de PICS como
dagens que buscam estimular os mecanismos pertencentes à PNPIC. Estas práticas são: Arteterapia,
naturais de prevenção de agravos e recuperação Ayurveda, Biodança, Dança Circular, Meditação,
da saúde por meio de tecnologias eficazes e Musicoterapia, Naturopatia, Osteopatia, Quiropraxia,
seguras, com ênfase na escuta acolhedora, no Reflexoterapia, Reiki, Shantala, Terapia Comunitária
desenvolvimento do vínculo terapêutico e na Integrativa e Yoga.
integração do ser humano com o meio ambiente No ano de 2018, a nova Portaria nº 702 (21 de março,
e a sociedade. Outros pontos compartilhados pe- 2018; Ministério da Saúde) ampliou a PNPIC com mais
las diversas abordagens abrangidas nesse campo 10 (dez) modalidades, a saber: Aromaterapia, Apiterapia,
são a visão ampliada do processo saúde-doença Bioenergética (Análise Bioenergética), Constelação
e a promoção global do cuidado humano, espe- familiar, Cromoterapia, Geoterapia, Hipnoterapia,
cialmente do autocuidado. (Brasil, 2015 p. 13) Imposição de mãos, Medicina Antroposófica/antro-
posofia aplicada à saúde, Ozonioterapia, Terapia de
No Brasil, ao mesmo tempo que são alvo de polê- florais e Termalismo social/crenoterapia.
micas, as PICS estão aos poucos sendo reconhecidas A PNPIC define, no âmbito nacional, responsa-
pelo poder público e vêm conquistando a credibili- bilidades institucionais para a implantação e imple-
dade entre órgãos governamentais pelos resultados mentação das PICS e orienta estados, distrito federal
positivos na melhoria da qualidade de vida das(os) e municípios a instituírem suas próprias normativas,
usuárias(os), no uso racional de medicamentos e na trazendo para o SUS práticas que atendam às necessi-
manutenção da saúde nos diversos níveis de atenção dades regionais com o desenvolvimento das Políticas
(Andrade, & Costa, 2010, Barros, Siegel, & Simoni, Públicas Estaduais (PEPIC) de PICS.
2007, Ischkanian, & Pelicioni, 2012, Freitag, & Estados em diferentes regiões do país e o distrito
Badke, 2019). O Ministério da Saúde, pela Portaria federal já têm políticas estaduais de PICS, a exemplo
nº 971/GM/MS, de 3 de maio de 2006, publicada da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco,
no Diário Oficial da União nº 84, de 4 de maio de Rio Grande do Sul; e inúmeros municípios já têm
2006, Seção 1, p. 20, instituiu a PNPIC a fim de suas políticas municipais, como por exemplo, São
apoiar e orientar a implementação das PICS no SUS Paulo, Rio de Janeiro, Recife, João Pessoa e Natal.
em âmbito nacional. Cada um desses municípios apresenta terminologias
A PNPIC (Brasil, 2015), com vistas a solidificar específicas e modalidades de PICS que abrangem,
ações de promoção da saúde e a integralidade da por vezes, uma diversidade ampliada em relação às
assistência, legitimou algumas práticas não conven- dispostas pela PNPIC e que abarcam, pelo caráter

78
I. O Que Fazemos

transversal das PICS, a Saúde Mental e o acolhimento da população que busca as PICS no Brasil. Uma
dos usuários. Esses aspectos estão diretamente ligados amostra populacional complexa, com mais de 94
a um cenário que coloca a profissional psicóloga em mil pessoas, demonstrou que o perfil predominante
destaque pela natureza de sua profissão. de usuárias das PICS são de mulheres brancas, com
Nos 16 anos de PNPIC, apesar da falta de recurso escolaridade elevada (graduação ou pós-graduação),
específico para a implementação de suas metas, é com renda per capita elevada (acima de 2 salários
visível a ampliação e a capilarização das PICS no mínimos) e possuem plano de saúde privado. Este
âmbito do SUS. De acordo com dados colhidos no perfil sugere que são pessoas que têm mais facilidade
SCNES em junho de 2015, 4.936 estabelecimentos de acesso aos serviços que ofertam PICS e que, apesar
de saúde do SUS, distribuídos em 906 municípios dos avanços, ainda há limitado acesso a estes serviços
brasileiros, ofertavam alguma modalidade de PICS no SUS. Outro fator significativo do estudo é a alta
nos cuidados à saúde. Já os dados obtidos no segundo prevalência de busca por PICS relacionada ao campo
ciclo do PMAq-AB, no mesmo ano de 2015, havia da saúde mental, especificamente por sintomas e
mais de 5.666 equipes de saúde, distribuídas em 1.230 queixas depressivas (Faisal-Cury; Rodrigues, 2022).
municípios que ofertavam PICS na atenção primária Um debate recorrente diz respeito ao mérito
à saúde no SUS, representando cerca de 20% dos científico das PICS, que pode envolver tanto ar-
serviços de atenção primária do território nacional. gumentos epistemológicos quanto argumentos re-
Dados mais atuais do Relatório da Coordenação lativos à gama de evidências científicas que se tem
Nacional de PICS do Ministério da Saúde, apresen- disponível. É possível observar, atualmente, uma
tados em julho de 2020, evidenciaram que as PICS tentativa de captura da ideia de saúde e cuidado
estavam presentes em 17.335 serviços de saúde do de qualidade estar associada exclusivamente a um
SUS; destes, 15.603 (90%) são serviços da Atenção tipo de conhecimento produzido pelos modelos de
Primária à Saúde (APS). As PICS estavam presentes “saúde baseada em evidência”. Esta vertente que tem
em 4.296 municípios (77% do total de municípios se afirmado no mainstream acadêmico das ciências
do território nacional) em todos os níveis de atenção da saúde nas últimas cinco décadas, disputa espaço
à saúde. As PICS também estiveram presentes em com modelos epistemológicos divergentes, dos quais
todas as capitais do país. Foram ofertados, ao longo inclusive muitas abordagens clássicas da Psicologia
de 2019, 693.650 atendimentos individuais em melhor afinam.
PICS, 104.531 atividades coletivas; com o total de Quanto às evidências científicas disponíveis, um dos
942.970 participantes e 628.239 procedimentos. trabalhos que a Organização Panamericana de Saúde
Com demanda tão grande destes atendimentos, (OPAS) tem feito é de desenvolver uma biblioteca vir-
as dificuldades de regulação das práticas, em especial tual de saúde exclusivamente de MTCI com milhares
na formação de profissionais que as usam, é algo que de publicações acadêmicas do campo (BVS-MTCI;
precisa ser discutido, visto que pode haver impacto Biblioteca Virtual de Saúde – MTCI). Neste site, existe
na qualidade da assistência e na segurança de sua um link específico que trata de mapas de evidência de
oferta à população. Por este motivo, estamos falan- diferentes PICS para diversas problemáticas de saú-
do de um campo emergente na saúde com diversos de, nas quais podemos ver resultado de estudos com
dilemas que demandam atenção. métodos da saúde baseada em evidência. A OPAS,
Independentemente do avanço das PICS no SUS, com a Coordenação de PICS do Ministério da Saúde
um estudo desenvolvido com base nos dados da e pela Secretaria de Atenção Primária à Saúde, desde
Política Nacional de Saúde de 2019 (Faisal-Cury, & 2022, vem desenvolvendo projetos como as oficinas
Rodrigues, 2022) procurou analisar o perfil prevalente do Laboratório de Inovação em Saúde sobre PICS

79
I. O Que Fazemos

(LIS-PICS) e as Oficinas de Prioridade em Pesquisa científico com base em um paradigma positivista, ou


em PICS com o objetivo de delinear e inserir Linhas ainda do que pode ou não ser ofertado como serviço
de Pesquisa Nacionais de PICS no Brasil. legítimo de saúde. Neste cenário de “tecnociência”,
No meio acadêmico, é recorrente encontrar pu- o “mercado” da saúde muitas vezes acaba por ditar
blicações técnicas e com metodologias adequadas o que é científico ou não é científico – porque es-
aos modelos epistemológicos das diferentes escolas. tamos falando também de uma ciência que mostra
Contudo, pesquisadoras(es) do campo advogam com uma valiosa publicidade para a adesão de protocolos
regularidade a falta de financiamento para pesquisas assistenciais rentáveis (Sheldrake, 2014).
em suas áreas, o que também limita estudos que
possam ter metodologias mais robustas e longitudi- A profissional de Psicologia
nais, o que estimulou a OPAS e a Coordenação de e o uso das PICS
PICS do Ministério da Saúde a realizar as oficinas No CensoPsi 2022, foi possível construir um olhar
anteriormente citadas. para o perfil sociodemográfico das(os) profissionais
Por fim, a despeito de critérios científicos, po- de Psicologia respondentes que adotam as PICS. De
deremos ter dogmas cientificistas que não tratam um universo de pouco mais de 14 mil respondentes,
necessariamente de uma busca pelo conhecimento 15% (2.105 participantes) afirmaram utilizar uma
e pelo importante objetivo das pesquisas na área ou mais PICS. Vejamos alguns dados deste grupo.
da Saúde que é a melhoria da qualidade de vida, Os dados apresentados oferecem análises de aspec-
mas de um controle do que pode se nomear ou não tos importantes. As regiões com maior percentual de

Figura 1: Percentual de psicólogas(os) que adotam ao menos uma PICS por região do País

Norte
18% Nordeste
(N=164) 18%
(N=616)

Centro-Oeste
13%
Sudeste
(N=167)
14%
Sul (N=889)
Brasil
15% 12%
(N=2.100) (N=264)

80
I. O Que Fazemos

profissionais de Psicologia que adotam as PICS são o Figura 3: Distribuição de psicólogas(os) que adotam PICS por
Norte e o Nordeste do Brasil (18% em cada região). identidade de gênero e orientação sexual
No que diz respeito à análise por raça/cor, é impor-
Identidade de Gênero
tante explicitar que as porcentagens são apresentadas
em relação ao total de respondentes da mesma raça/
Feminino 15%
cor. Por exemplo, do total de respondentes que eram
indígenas, 24% relataram utilizar PICS. O mesmo Masculino 15%
pode ser dito em relação à identidade de gênero. Foi
possível observar que existe adesão percentual maior Não-Binário 19%
em não brancos (24% indígenas, 18% amarelos,
17% pardos e 15% pretos), pessoas com identidade Orientação Sexual
de gênero não-binária (19%) e bi/pansexuais (17%).
Estes dados parecem sinalizar maior uso das PICS Heterossexuais 14%
por grupos sociais e em territórios nos quais há pre-
servação de culturas e identidades não hegemônicas, Homossexuais 13%
resistências decoloniais e menor incidência política
e econômica da medicina convencional. Entretanto, Bi-Pansexuais 17%
as diferenças são pequenas entre categorias socio-
demográficas, o que pode sugerir, por sua vez, que, No que se refere ao estágio de carreira, observamos
de forma análoga à institucionalização das PICS no que em números absolutos a maioria tem experiência
SUS, essas vêm se expandindo em toda a extensão profissional de no mínimo 6 a 25 anos.
territorial e envolvendo profissionais com diferen-
tes características sociodemográficas. Em números Figura 4: Distribuição de psicólogas(os) que adotam PICS por
absolutos, observamos que a maioria das pessoas estágio de carreira
que usam PICS são mulheres cisgênero, brancas,
situadas na Região Sudeste, talvez em decorrência de
características gerais da própria categoria profissional. Até 2 anos 13%

Figura 2: Distribuição de psicólogas(os) que adotam PICS 3 a 5 anos 16%


por raça/cor
6 a 25 anos 14%

Indígena 24% 26 anos ou mais 16%

Amarela 18%
Brasil 15%
Parda 17%

Preta 15% Outro dado relevante que não foi exposto nas tabelas
refere-se ao percentual de profissionais com deficiência que
Branca 14% (N=264)
(N=889)
(N=167)
(N=616)
(N=164)
adotam as PICS. Nessa população, 20% (132) utilizam
Brasil 15% PICS, apontando para uma adesão mais ampla por parte
desses profissionais, em comparação com outros grupos.

81
I. O Que Fazemos

Não foi possível, em decorrência da grande ex- Figura 5: Percentual de psicólogas(os) por PICS que adotam na
tensão do questionário, incluir questões relativas às sua prática profissional.
motivações que levam tais profissionais a adotar uma
ou mais PICS como recurso da oferta de cuidados Arteterapia 34,6%
integrativos ou complementares à prática profissio-
nal. Publicações sugerem que este tipo de adoção Meditação/Mindfulness 22,7%
pode estar relacionado à necessidade de respostas
às demandas em seu território de trabalho, como Musicoterapia 21,3%
por exemplo, as PICS responderem bem a diversas
Yoga 6,7%
demandas de cuidado à saúde no contexto público
do SUS (Luz, 2005, Barreto, 2018). Acupuntura 5,8%
Ao todo foram apresentadas 37 diferentes modali-
dades de PICS adotadas pela categoria e algumas(uns) Auriculoterapia 5%
profissionais relatam utilizar até 6 diferentes tipos de
Exercícios de
PICS. Podemos observar que a polissemia de sentidos relaxamento 4,7%
e definições sobre as PICS parece também permear a
Aromaterapia 4,3%
comunidade profissional de Psicologia que, em um
universo de cerca de 2.105 praticantes, observamos Reiki/Imposição das
4,1%
mãos
uma diversidade enorme de práticas, algumas delas
que extrapolam o próprio escopo da PNPIC. As Constelação Sistêmica 3,5%
PICS mais utilizadas estão dispostas na Figura 5.
Detalhar cada uma destas PICS não cabe no escopo Terapia com Florais 3,1%
deste capítulo, mas vale destacar que algumas dessas
Hipnose 3%
práticas apresentam ou já tiveram regulações específicas
no âmbito do Sistema Conselhos de Psicologia para Exercícios respiratórios 2,7%
o seu exercício, a exemplo da Hipnose e Acupuntura.
Outras se vinculam a especialidades clínicas a exemplo Exercícios físicos 2,2%
da Arteterapia e Análise Bioenergética com debates
sobre serem especialidades privativas ou não de de- Técnicas de massagens 2,1%
terminadas categorias. A meditação parece ter um
Análise Bioenergética 2%
destaque específico, uma vez que ela passou a ser ado-
tada na atualidade por abordagens ditas “psicologias Terapia Comunitária
1,6%
Integrativa
científicas”, mas vale frisar que, apesar de permear com
certa marginalidade, a prática da meditação ocorre de
forma pioneira em abordagens transpessoais desde a adotam o recurso de imposição das mãos, trabalhos
década de 1970 (Pereira Simão, 2010). corporais (como Yoga, exercícios respiratórios e fí-
As PICS são transdisciplinares, portanto com- sicos), o uso de manipulação e manobras corporais
plexas para enquadrá-las a um campo de saber pelas massagens, terapias prescritivas com florais e
específico da saúde e, neste aspecto, extrapolam o óleos essenciais (aromaterapia) são alguns destes
âmbito “convencional” da prática psicológica. As exemplos que sinalizam o largo horizonte das PICS.
terapias energéticas como o toque terapêutico, o Sobre a Terapia Comunitária Integrativa, vale
reiki e uma diversidade de “escolas formativas” que mencionar que é uma abordagem criada pelo psiquia-

82
I. O Que Fazemos

tra cearense Adalberto de Paula Barreto (2008), que as PICS como recurso de cuidado no seu trabalho, ou
já foi difundida como tecnologia social para diversos seja, 15% do total de profissionais que responderam
outros países no mundo, contudo sem ter reconhe- ao censo. O CFP ter incluído no censo profissional
cimento ainda no âmbito da Psicologia brasileira, perguntas relativas às PICS é um passo importante
impedindo a criação de um espaço importante de para se investigar a presença destas práticas de saúde
participação direta de psicólogas no desenvolvimento no exercício da profissão atual, entendendo que estes
dessa e de outras práticas integrativas. recursos são utilizados de forma complementar ou
O caso da Constelação Familiar tem sido bastante integrativa à atuação profissional. A existência deste
controverso e questionado por parte da categoria, capítulo no Censo da Psicologia é de extrema im-
em especial no âmbito jurídico. Em nosso país, portância para efetivar e promover o debate sobre as
esta prática ganhou uma diversidade de usos por regulamentações das práticas e das suas formações.
distintos atores profissionais, antes mesmo de ter É importante mencionar que toda e qualquer
critérios únicos e mínimos para sua formação. Sua prática profissional no âmbito da Psicologia, seja
difusão na sociedade é visível, mas sabemos por PICS ou não, deve seguir os preceitos éticos contidos
meio dos veículos de comunicação publicitária e no Código de Ética Profissional do Psicólogo (CEPP,
pelas redes sociais que existem consteladores que CFP, 2005), bem como as resoluções já publicadas
oferecem cursos de curtíssima duração, já outros pelo CFP. Vale mencionar que, antes da profissional
apresentam extensa carga horária. Este cenário da Psicologia utilizar alguma prática, esta deverá se
complexo também é evidente nas inúmeras críticas atentar para os princípios fundamentais do CEPP,
que têm despontado na grande mídia sobre o uso a começar pelo princípio I: “O psicólogo baseará
inadequado e avesso aos direitos humanos e a saúde o seu trabalho no respeito e na promoção da liber-
mental no âmbito do Judiciário. Este aspecto chama dade, da dignidade, da igualdade e da integridade
a atenção para a necessidade urgente de se debater do ser humano, apoiado nos valores que embasam
a formação e o uso desta e de outras práticas. a Declaração Universal dos Direitos Humanos.”,
Vale destacar que, neste capítulo, as PICS são ou seja, cabe à profissional da Psicologia analisar
consideradas como um recurso integrativo e com- em cada caso se uma prática fere ou não Direitos
plementar da atuação da Psicologia, como o próprio Humanos da pessoa que está sendo cuidada, e não
nome sugere, uma vez que muitas destas práticas realizá-la, caso julgue que a prática fere algum di-
não têm reconhecimento da categoria como prática reito. O princípio II também trata desta temática
psicológica, não têm normativa específica da profissão relatando que a profissional deve atuar no sentido
e seu universo inter e transdisciplinar envolve a arena de eliminar de sua atuação quaisquer práticas que
ampla da saúde. Parece-nos válida nesse sentido a caracterizem violência, crueldade e opressão. Além
reflexão de como podemos, como categoria, apontar de analisar a prática em si que será escolhida, deve-se
critérios e regulações que construam nossa prática também analisar se o contexto em que será aplicada
profissional de forma inclusiva, politicamente com- e se a demanda da pessoa que está sendo cuidada é
prometida, eticamente alinhada ao cuidado humano adequada para tal prática.
e às necessidades atuais. Ainda nesse contexto, um outro aspecto especi-
ficado do CEPP que é interessante ser mencionado
Sistema Conselhos de é o art. 1º, que versa sobre os deveres fundamentais
Psicologia e as PICS dos profissionais de Psicologia, em especial alínea
O CensoPsi 2022 indica que uma parcela signifi- “c”, que diz que é dever fundamental das psicólogas:
cativa de profissionais da Psicologia tem incorporado “prestar serviços psicológicos de qualidade, em con-

83
I. O Que Fazemos

dições de trabalho dignas e apropriadas à natureza como questões envolvendo as práticas populares e
destes serviços, utilizando princípios, conhecimentos tradicionais de cuidado e o exercício da profissão.
e técnicas reconhecidamente fundamentadas na As resoluções que parecem nortear a regulação do
ciência psicológica, na ética e na legislação profis- exercício profissional de psicologia com as PIC são:
sional”, ou seja, independentemente de a prática a a Resolução do CFP n° 13/2000, que regulamenta
ser empregada, a profissional deverá buscar estudos a hipnose como recurso auxiliar do profissional de
que demonstrem a sua validade, deverá atuar em psicologia; a Resolução do CFP n° 13/2007, que traz a
coerência com as bases epistemológicas e pesquisar Arteterapia como uma subespecialidade da Psicologia
produções técnicas e científicas que subsidiem tal Clínica; e a Resolução do CFP n° 05/2002, que regu-
prática. Também é fundamental certificar-se de que lamenta a Acupuntura como recurso complementar
está apta para executar tal prática e que esteja bem ao exercício profissional da(o) psicóloga(o), mas que
treinada e qualificada para tanto. sofreu revogação pelo Supremo Tribunal Federal em
É importante reconhecer que há limitada quan- 2013 pelo entendimento de que o CFP não pode
tidade de debates sistematizados no interior da regular o exercício da Acupuntura, contudo seu efeito
Psicologia acerca das PICS e isso se reflete em termos não impede que profissionais da Psicologia exerçam
de dificuldades de se regulamentar o exercício profis- a Acupuntura enquanto não há legislação específica
sional das PICS como atividade complementar e/ou para regular a profissão de Acupunturista.
integrativa da(o) psicóloga(o). Parte da dificuldade É importante mencionar que há regulamentações
em se regulamentar o exercício profissional das PICS específicas para as PICS em 9 (nove) das 14 (qua-
está na falta de consenso dentro da própria categoria. torze) profissões de nível superior de saúde em seus
Os debates acerca da regulamentação podem au- respectivos Conselhos Federais, a saber: Enfermagem,
xiliar na fiscalização de formações e oferta de serviços Farmácia, Fisioterapia e Terapia Ocupacional,
por parte da categoria que atendam de forma mais Nutrição, Odontologia, Biologia, Fonoaudiologia
adequada à sociedade em suas múltiplas demandas por e Assistência Social, o que confere segurança e limites
cuidado, além de contribuir para instaurar no âmbito aos profissionais e à população no uso das PICS.
da própria Psicologia um debate mais qualificado e Algumas gestões do CFP, até o momento presente
aprofundado sobre diferentes PICS e seu próprio (2022), participaram da Comissão Intersetorial
campo político e epistêmico. Há ainda um grande de Promoção, Proteção e Práticas Integrativas
desconhecimento sobre essas práticas por parte da e Complementares em Saúde (CIPPSPICS) do
comunidade profissional e limitado ou nulo espaço Conselho Nacional de Saúde (CNS). Além disso,
em seu processo de formação generalista, apesar de tem participado de reuniões com o Ministério da
muitos as utilizarem. Saúde desde o final de 2021 para discutir legislação,
É importante fazer uma autoanálise histórica do regulamentação e formação em PICS, discussões
Sistema Conselhos em relação às PICS. O último estas ainda incipientes.
evento público que aconteceu, antes da pandemia O Sistema Conselhos de Psicologia tem o papel
da Covid-19, específico para debater a questão das de verificar se a psicóloga está desenvolvendo sua
PICS e sua interface com o exercício da Psicologia função conforme determina a legislação profissional,
ocorreu no ano de 2011. Este evento procurou dis- independentemente da teoria adotada no trabalho de
cutir alguns pontos importantes como as aproxima- cada profissional. Quando uma técnica é desenvolvida
ções e distanciamentos entre as PICS e a Psicologia, pela ciência (seja de qual epistemologia for, seja PICs
à luz de conceitos fundamentais no campo como ou não) e esta passa a compor o repertório profis-
o de “racionalidades médicas” (Luz, 2005), bem sional das psicólogas, ela passa também a ser objeto

84
I. O Que Fazemos

de orientação e fiscalização do Sistema Conselhos tos da OMS também demonstram presença expressiva
de Psicologia. Com o objetivo de se avaliar práticas das PICS no campo da saúde global. Mesmo sendo
psicológicas no âmbito do exercício profissional, o questionada quanto ao mérito científico de inúme-
CFP criou no segundo semestre de 2022 o Sistema ras de suas práticas, em um cenário em que não há
de Avaliação de Práticas Psicológicas Aluízio Lopes recurso indutor para implementação de políticas e
de Brito (SAPP). Este sistema abre possibilidade para de pesquisas de PICS, os dados sugerem que uma
a análise de práticas psicológicas e para o reconhe- quantidade expressiva de profissionais da Psicologia
cimento científico destas práticas, sejam elas novas tem adotado as práticas no seu trabalho.
ou utilizadas há bastante tempo. A presença das PICS no CensoPsi 2022 é um
É importante ressaltar que o conceito de “novas importante avanço para investigar sua presença no
práticas” psicológicas não é exatamente sinônimo interior da comunidade da Psicologia. A adoção de
de PICS. Pode haver PICS que são novas práticas PICS no cotidiano da atuação da psicóloga, apesar
psicológicas, mas nem todas são. Novas práticas de contra hegemônica, parece ser uma realidade,
são aquelas advindas da experiência profissional embora acredite-se que ainda não haja consenso den-
da(o) psicóloga(o). tro da categoria acerca do seu uso. As características
Alguns dos critérios que deverão ser apresentados sociodemográficas destas(es) profissionais afirmam
nas propostas enviadas ao SAPP são: 1) apresentação uma pluralidade de novas identidades étnicas, raciais,
da concepção de desenvolvimento humano em que se sexuais, de gênero e de pessoas com deficiência. Os
baseia a prática; 2) apresentação da fundamentação dados encontrados no Censo indicam a importância
epistemológica em termos dos processos psicológicos do debate acerca das possibilidades de regulamentação
envolvidos no uso da prática; 3) apresentação das destas práticas na qualidade de integrativas e com-
relações entre os problemas relativos ao fenômeno plementares, em especial em termos de formação. n
psicológico e psicossocial alvo e as estratégias de
intervenção envolvidas na prática e outras (vide
Resolução nº 18/2022). As pareceristas que farão
as avaliações serão escolhidas por meio de edital,
entre pesquisadoras e psicólogas de notório saber,
a partir do exame de seus currículos e que possam
contribuir com as seguintes temáticas: fundamentos
filosóficos e epistemológicos em geral e da Psicologia
em especial, entre outros.
Faz-se importante pontuar que, quanto menos
reguladas e pesquisadas, mais a sociedade pode sofrer
com o uso inadequado de determinadas práticas,
bem como estas práticas se tornarem apenas um
produto de consumo para uma determinada parcela
da população (Luz, 2005).

Considerações finais
Os dados que o Ministério da Saúde tem divulgado
não deixam dúvidas sobre a evolução do campo das
PICS, bem como os dados obtidos pelos levantamen-

85
I. O Que Fazemos

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88
I. O Que Fazemos

89
I. O Que Fazemos

16 O QUE AS(OS) PSICÓLOGAS(OS) TÊM A DIZER


SOBRE SUAS PRÁTICAS DE AVALIAÇÃO PSICOLÓGICA
Katya Luciane de Oliveira1
Ana Cristina Resende2
Ana Paula Porto Noronha3
Caroline Tozzi Reppold4
Daniela Sacramento Zanini5
Evandro Morais Peixoto6
Josemberg Moura de Andrade7
Lucila Moraes Cardoso8
Monalisa Muniz9

1 Professora Associada do Programa de Mestrado em Psicologia e do Programa de Mestrado e Doutorado em Educação da Universidade Estadual de Londrina. Conselheira
Federal Coordenadora da Comissão Consultiva em Avaliação Psicológica, Presidenta eleita do Instituto Brasileiro de Avaliação Psicológica. Coordenadora do GT da
ANPEPP Pesquisa em Avaliação Psicológica. Bolsista Produtividade em pesquisa 2/CNPq.

2 Doutora em Psicologia pela PUC do Rio Grande do Sul, Estágio de doutorado pela California School of Professional Psychology (AIU), em San Diego, Califórnia, Pós-
doutorado pela Universidade Federal de São Paulo, Docente do Programa de Pós-graduação Stricto Sensu em Psicologia da PUC Goiás. Presidente da Associação Brasileira de
Rorschach (ASBRo) de 2018-2022. Pesquisadora em avaliação psicológica com ênfase em métodos projetivos. Membro da Comissão Consultiva em Avaliação Psicológica do
Conselho Federal de Psicologia.

3 Psicóloga (1990), Mestre em Psicologia Escolar (1995) e Doutora em Psicologia (1999) pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas. Tem o título de especialidade
em Avaliação Psicológica pelo Conselho Federal de Psicologia. É editora associada da Psico-USF e da Psicologia Ciência e Profissão. Foi presidente do Instituto Brasileiro de
Avaliação Psicológica e da Associação Brasileira de Editores Científicos da Psicologia. É bolsista produtividade em pesquisa 1A do CNPq.

4 Psicóloga (2000), mestre (2002) e doutora (2006) em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, com pós-doutorado em Psicologia (UFRGS), em
avaliação Psicológica (USF) e em Psicologia da Educação (Un. do Minho/Portugal). Tem o título de especialista em avaliação psicológica pelo CFP. Professora Associada
IV da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre. Coordenadora do Laboratório de Pesquisa em Avaliação Psicológica/UFCSPA. Membro do Conselho
Deliberativo do IBAP e da ABP+ (Associação Brasileira de Psicologia Positiva). Vice-coordenadora do GT Avaliação em Psicologia Positiva e Criatividade da ANPEPP.
Membro da Comissão Consultiva de Avaliação Psicológica do Conselho Federal de Psicologia (CCAP/SATEPSI) (2010-2013; 2017-2022). Bolsista Produtividade em
Pesquisa do CNPq – 1D.

5 Psicóloga. Doutrora em Psicologia em Psicologia Clínica e da Saúde pela universidad de Barcelona (Espanha), pós doutorado pela mesma universidade (2008) e pela
Universidade do Porto (2020). Professora da Pontifícia Universidade Catolica de Goiás. Presidente do Instituto brasileiro de Avaliação Psicóloga (Ibap), membro da
Comissão Consultiva de Avaliação Psicológica (CCAP) do Conselho Federal de Psicologia. Membro do grupo de trabalho em psicologia positiva e criatividade da. ANPEPP.
Bolsista produtividade do CNPq.

6 Docente do Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu em Psicologia da Universidade São Francisco USF. Mestre e Doutor em Psicologia como Profissão e Ciência pela
Pontifícia Universidade Católica de Campinas (2012/2016), com estágio doutoral PDSE desenvolvido na Université du Québec à Trois-Rivières - Canadá. Estágio Pós-
Doutoral desenvolvido na USF. Membro da CCAP (gestão atual) e do grupo de trabalho Avaliação Psicológica em Psicologia Positiva e Criatividade na ANPEPP. É bolsista
produtividade em pesquisa 2 do CNPq. Possui experiência na área de Psicologia, atuando principalmente nos seguintes temas: Avaliação Psicológica, Psicometria, Psicologia
do Esporte.

7 Possui formação em Psicologia pela Universidade Federal da Paraíba (2002) e os títulos de mestre (2005) e de doutor (2008) em Psicologia Social e do Trabalho na área
de Avaliação e Medida pela Universidade de Brasília (UnB). É especialista em avaliação psicológica pelo CFP. Atualmente é professor Associado III do Departamento de
Psicologia Social e do Trabalho (PST) e professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações (PSTO) - nível mestrado
e doutorado - ambos na UnB. É membro da Comissão Assessora de Especialistas em Avaliação de Políticas Educacionais do INEP/MEC e membro da CCAP do CFP
(Gestão 2017-2019; gestão atual).

8 Psicóloga (2003), mestre (2007) e doutora (2012) em Psicologia, ênfase em Avaliação Psicológica, pela Universidade São Francisco. É especialista em avaliação psicológica
pelo CFP. Professora do curso de Psicologia e no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Estadual do Ceará (UECE) e no Programa de Pós-Graduação em
Psicologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Membro da diretoria da Associação Brasileira de Rorschach e Métodos Projetivos (ASBRo) por quatro gestões (2014-
2022). Membro da Comissão Consultiva de Avaliação Psicológica (CCAP/SATEPSI) por duas gestões (2017-2022). É bolsista produtividade em pesquisa 2 do CNPq.

9 Psicóloga (2004), Mestre (2006) e Doutora (2008) em Psicologia, ênfase em Avaliação Psicológica, pela Universidade São Francisco. Professora do Departamento de
Psicologia da Universidade Federal de São Carlos-UFSCar, atuando na graduação e no Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Membro da gestão do Instituto Brasileiro
de Avaliação Psicológica-IBAP (2009-2011; 2011-2013; 2013-2015; 2015-2017; 2017-2019/Presidente; 2019-2021; 2021-2023/Conselho Deliberativo) e do GT Pesquisa
em Avaliação Psicológica da ANPEPP. Foi conselheira titular do Conselho Regional de Psicologia da região 06-Estado de São Paulo- na gestão 2016-2019. Membro da
Comissão Consultiva de Avaliação Psicológica (CCAP/SATEPSI) na gestão 2020-2022.

90
I. O Que Fazemos

A formação da Avaliação nos psicológicos de ordem cognitiva, afetiva,


Psicológica no Brasil comportamental e social, mediante o uso de
A Avaliação Psicológica (AP) é considerada uma métodos, técnicas e instrumentos psicológicos
prática do exercício da(o) psicóloga(o) que faz interface validados para obter informações fundamentais
com outros campos profissionais e que tem conheci- ou complementares”.
mento científico específico, com postulados teóricos,
procedimentos técnicos e fazeres que a caracterizam. Ainda, conforme tal Resolução, o exercício pro-
Na função de uma prática inerente às demais áreas fissional que compete a esta área se desdobra em um
da Psicologia, a AP inclui o desenvolvimento de um conjunto de práticas que caracterizam as competências
raciocínio científico, com vistas a conhecer a pessoa, e habilidades envolvidas na AP.
grupo ou instituição a ser avaliada, definir a demanda Embora a Resolução CFP nº 13/2007, referente
a ser trabalhada e as decisões a serem tomadas com ao título de especialista, que antecedeu à Resolução
base nas informações obtidas (Muniz et al., 2021). CFP nº 03/2022, frisasse que o título de especialista
Seja qual for o contexto de atuação de um em Psicologia é uma referência à dedicação profissio-
uma(um) psicóloga(o), seu trabalho necessariamente nal, e não uma condição para o exercício profissional
envolve obter e analisar informações que orientarão da(o) psicóloga(o), o registro no Sistema Conselhos
o planejamento, a realização e o monitoramento de do título de especialista em AP era um pleito anti-
suas práticas profissionais. Isto se dá pela necessária go de pesquisadores e entidades científicas da área
observação sistemática do fenômeno estudado, do que buscavam incentivar a qualificação profissional
levantamento de hipóteses acerca do caso, da esco- (Reppold et al., 2021). Isso porque reconhecer a
lha do melhor procedimento para verificação das expertise de psicólogas(os) que demonstrem habili-
hipóteses, da busca de evidências que direcionem as dades e competências profissionais exigidas para boa
decisões a serem adotadas no exercício profissional, prática da AP é reconhecer o fato de que ela é um
da implementação de intervenções consideradas processo complexo, que requer formação continuada
adequadas a cada caso e o acompanhamento de tais (Reppold et al., 2019).
práticas, com o objetivo de verificar se cumprem os De fato, a compreensão de que a AP é uma prática
propósitos iniciais ou se devem ser reformuladas à profissional com diretrizes específicas, mais amplas do
medida que as circunstâncias assim indicam como que uma testagem psicológica, é expressa no art. 1º
mais adequado (Reppold et al., 2019). da Resolução CFP nº 09/2018, que a define como”:
Compreender os seres humanos quanto ao seu
desenvolvimento e sua interação com o mundo (como um processo estruturado de investigação de
age, porque o faz de tal modo e o que interfere nesse fenômenos psicológicos, composto de méto-
agir), considerando seus determinantes históricos, dos, técnicas e instrumentos, com o objetivo
sociais e contextuais é o que embasa qualquer prática de prover informações à tomada de decisão,
profissional de uma(um) psicóloga(o) (CFP, 2018). no âmbito individual, grupal ou institucio-
Nesse sentido, no reconhecimento da AP como uma nal, com base em demandas, condições e
especialidade da Psicologia, por meio da Resolução finalidades específicas”.
CFP nº 18/2019 (alterada em 2022 pela Resolução
CFP nº 03/2022), foi explicitado que a AP é:” Esta resolução também determina que as(os)
psicólogas(os) têm a prerrogativa de escolher quais
a área de atuação profissional da Psicologia procedimentos serão empregados em um processo de
referente à avaliação especializada em fenôme- AP, desde que os métodos, técnicas e instrumentos

91
I. O Que Fazemos

sejam devidamente fundamentados na literatura Entre as competências, merecem destaque aquelas


científica psicológica e nas normativas vigentes do relacionadas à compreensão da natureza abrangente e
Conselho Federal de Psicologia (CFP). ética da AP, e ao conhecimento aprofundado de todos
Nesta perspectiva, o art. 2º ressalta que, no os recursos de avaliação, entre os quais: o teste e a
exercício da AP, as(os) psicólogas(os) “devem basear especificidade de sua construção. São inúmeras com-
sua decisão, obrigatoriamente, em métodos e/ou petências a serem desenvolvidas no âmbito do exercício
técnicas e/ou instrumentos psicológicos reconheci- profissional relacionado à AP e a formação restrita à
dos cientificamente para uso na prática profissional graduação limita a possibilidade de as(os) psicólogas(os)
(fontes fundamentais de informação), podendo, a desenvolverem as habilidades necessárias para realização
depender do contexto, recorrer a procedimentos de um processo avaliativo com destreza e qualidade.
e recursos auxiliares (fontes complementares de Pesquisas realizadas apontam para o fato de, no Brasil,
informação)”. Assim, a Resolução CFP nº 9/2018 a matriz curricular dos cursos de Psicologia ter, em
deixa elucidado que os testes psicológicos “têm por média, quatro disciplinas semestrais relacionadas à
objetivo identificar, descrever, qualificar e mensurar formação em AP durante toda a graduação, em algumas
características psicológicas, por meio de procedi- instituições é restrita a uma única disciplina (Ambiel
mentos sistemáticos de observação e descrição do et al., 2019, Finelli et al., 2015). Além disso, é preciso
comportamento humano, nas suas diversas formas considerar que diversas outras disciplinas poderiam
de expressão” e se constituem como uma das pos- abordar conteúdos de AP, integrando conhecimentos,
sibilidades de recursos a serem utilizados em um mas isso nem sempre ocorre. Mais informações podem
processo de AP. Outras fontes fundamentais de ser encontradas em Henklain e Muniz (2022).
informação são as entrevistas psicológicas e anam- Apesar de a AP ser um procedimento complexo
neses, e os protocolos ou registros de observação. que envolve o emprego de múltiplas ferramentas, os
Diante deste panorama, a formação em AP foi testes psicológicos ocupam uma certa centralidade. A
temática central de recentes produções científicas pesquisa de Reppold et al. (2020) ilustra que cerca de
(Bandeira et al., 2021, Noronha & Santos, 2021, 93% das(os) psicólogas(os) fazem uso de testes em AP.
Oliveira et al., 2021) que apresentam um mapea- Os autores discutem que tal feito traduz a confiança
mento das publicações acadêmicas sobre o assun- que o novo cenário da AP brasileira acarretou, com
to, bem como estratégias para contribuir com o instrumentos comprovadamente qualificados, fruto
aprimoramento da formação. Em especial, a obra de uma iniciativa criada pelo Sistema Conselhos para
organizada por Oliveira et al. (2021) teve o objetivo apoiar a seleção desses instrumentos.
de propor modelos de planos de ensino e estratégias
didáticas para o desenvolvimento de habilidades e Sistema de Avaliação dos Testes
competências básicas para a formação da(o) profissio- Psicológicos – Satepsi
nal psicóloga(o). A preocupação em definir diretrizes O Satepsi foi criado em 2003 com o objetivo de
para o ensino em AP também havia sido destaque dar suporte às críticas e ações judiciais que as(os) psi-
na publicação de Nunes et al. (2012). Neste texto cólogas(os) brasileiras(os) vinham sofrendo, fruto de
clássico da área de ensino em AP, os autores sugerem processos inconsistentes de AP, do uso inadequado de
um modelo de organização curricular (focado em testes (Reppold & Noronha, 2018). Trata-se de um
disciplinas da área), no qual indicam os recursos sistema contínuo de avaliação dos testes psicológicos
necessários para a aprendizagem de métodos e téc- que envolve: a) a regulamentação da área; b) a análise
nicas, e listam 27 competências a serem trabalhadas dos requisitos mínimos que um teste psicológico precisa
no período da graduação. apresentar; c) a elaboração de listas dos testes conside-

92
I. O Que Fazemos

rados favoráveis ou desfavoráveis para uso profissional ciso ter novos conhecimentos e desenvolver novas
e; d) a divulgação dessas informações à comunidade. competências para lidar com o processo de AP e a
A construção dos critérios mínimos para que testes pessoa atendida nesse novo ambiente.
psicológicos pudessem ser utilizados em processos Diante do exposto, o presente capítulo objeti-
avaliativos impõe um rigor ao processo de construção va caracterizar a prática dos(as) psicólogos(as) que
dos testes. Em alguma medida, quanto mais rigoro- atuam na área da AP. Primeiramente serão expostos
sos os critérios, mais pesquisas científicas precisam dados para descrição do perfil das(os) participantes
ser realizadas. Com o aumento das pesquisas sobre e, em seguida, serão abordadas informações sobre
os testes e, consequentemente, com o aumento do as principais técnicas utilizadas no processo de AP,
número de publicações, mais chances as(os) psicólo- sobre as dificuldades encontradas pelos profissionais
gas(os) tiveram de ficar bem-informados e realizarem na prática da AP e, por fim, sobre o conhecimento
avaliações mais qualificadas. e utilização do Satepsi.
No entanto, em que pese o fato de que a AP do
século XXI ser mais qualificada que a do século XX, Perfil das(os) respondentes
muito avanço ainda se faz necessário. Especialmente A partir do Censo da Psicologia Brasileira
dois pontos serão destacados. O primeiro se refere (CensoPsi 2022), realizado pelo CFP em 2021, foi
ao aprimoramento teórico e metodológico da prática possível acessar dados sobre a trajetória de forma-
de avaliação, que resultou na atualização de novos ção e a prática das(os) psicólogas(os) em relação a
instrumentos e na ampliação dos contextos nos área de AP. Ao responder no formulário on-line a
quais a(o) psicóloga(o) se insere. O segundo ponto pergunta: “Em que áreas da Psicologia você atua?”,
diz respeito aos avanços urgentes da AP que a crise caso fosse assinalada a opção Avaliação Psicológica,
sanitária impôs a partir de 2020. Essa crise revelou a(o) profissional era direcionada(o) às questões da
que os recursos avaliativos não estavam em confor- avaliação. Neste caso, das(os) 20.207 respondentes,
midade com as exigências das novas configurações 2.344 (11,6%) indicaram atuar em AP.
de trabalho. Um novo cenário foi apresentado à No sentido de compreender o contexto de atuação
Psicologia como um todo e a AP não se furtou aos das(os) respondentes que declararam trabalhar com
seus efeitos. É imprescindível olhar para as novas AP, optou-se por identificar a distribuição das(os)
tecnologias e poder elucidar seus benefícios nos participantes conforme região geográfica do país,
processos de avaliação, assim como as limitações. Por tipo de Instituição de Ensino Superior (IES) onde
exemplo, os instrumentos de avaliação psicológica estudou e ano de conclusão da graduação. Os dados
devem ser pesquisados, em suas diferentes formas podem ser visualizados na Tabela 1.
de aplicação e devem ser aprimorados quanto a Conforme Tabela 1, a maioria das(os) responden-
opções que atendem públicos diferentes (Zanini tes atua na Região Sudeste (41,9%), seguido pelas
et al., 2021). regiões Nordeste (22,0%) e Sul (17,4%). Ao somar
Em síntese, o que se pode afirmar é que a AP os respondentes do eixo Sul-Sudeste, observamos
tem que ser aprimorada, de modo que instrumentos que a maioria (59,30%) das(os) respondentes está
mais qualificados, que tenham formas diferentes nessas duas regiões. Outro dado que chama a atenção
de aplicação e que atendam públicos variados, são é a contribuição das Instituições de Ensino Superior
metas para as novas investigações. Quanto às demais (IES) do tipo privadas para a oferta de profissionais da
técnicas e métodos em AP, também é necessário que Psicologia no mercado de trabalho. Como podemos
a(o) psicóloga(o) entenda que não é simplesmente observar, 73,4% das(os) respondentes do Censo de
mudar do formato presencial para o on-line, é pre- Psicologia foram formadas(os) nessas instituições.

93
I. O Que Fazemos

Tabela 1: Frequência e porcentagem da distribuição das(os) ao período de criação do Satepsi, que conforme já
respondentes segundo região do país, tipo de IES onde realizou a dito, contribuiu para avanços importantes na área.
graduação e ano de conclusão da graduação Adicionalmente, a década de maior percentual de
psicólogas(os) formadas(os) foi a de 2010 a 2019
Variável Frequência Porcentagem com 39,4%, seguida da década de 2000 e 2009 com
Regiões do País
26,8% das(os) psicólogas(os) formadas(os).
Por fim, destacam-se os investimentos de formação
Sudeste 982 41,9
complementar realizados pelas(os) profissionais da
Nordeste 516 22,0
Psicologia que fazem uso da AP, uma vez que 59,6%
Sul 409 17,4 declararam ter realizado curso de especialização ou
Centro-oeste 260 11,1 MBA, 17,3% cursos livres de aperfeiçoamento, 13%
Norte 167 7,1 mestrado, 2,5% doutorado e 1,1 residência profissio-
Fora do país 10 0,4 nal. Embora tais cursos não tenham sido realizados
especificamente na área da AP, é esperado que méto-
Tipo de IES
dos e técnicas de acesso aos fenômenos psicológicos
Privadas 1.721 73,4
tenham sido explorados nesses cursos como base
Públicas 420 17,9 para planejamento de intervenções e monitoração
Combinadas 203 8,7 das consequências destas intervenções.
Ano de conclusão
da graduação Como a(o) psicóloga(o)
2020 e após 191 8,1 percebe e realiza a AP
2010 a 2019 923 39,4 Ao abordar as perguntas específicas contidas no
2000 a 2009 629 26,8 CensoPsi 2022, foi questionado quais técnicas os(as)
psicólogos(as) utilizam no processo de AP. Na Tabela
1990 a 1999 313 13,4
2 são apresentadas a frequência e porcentagem de pro-
1980 a 1989 225 9,6
fissionais que declararam usar cada uma das técnicas
até 1979 63 2,7 em sua prática profissional. Destacamos que as(os) psi-
Formação cólogas(os) poderiam indicar mais de uma técnica.
complementar
Conforme consta na Tabela 2, 98% dos(as) psicó-
Especialização logos(as) que responderam indicaram utilizar a técnica
1.256 59,6
ou MBA
da entrevista psicológica. A observação (78,7%) e os
Cursos livres de
393 17,3 testes psicológicos (72,5%) foram indicadas por uma
aperfeiçoamento
porcentagem elevada de profissionais. O checklist
Mestrado 303 13,3
(21,4%) e a dinâmica de grupo (16,4%) também
Doutorado 142 6,2 foram técnicas recorrentemente indicadas na prática
Pós-Doutorado 57 2,5 da AP pelos respondentes. Mas chama a atenção tam-
Residência bém a porcentagem de profissionais que indicaram
24 1,1
multiprofissional usar técnicas não exclusivas da Psicologia (22,1%).
No CensoPsi 2022 também foram abordadas
Ainda, a Tabela 1 aponta para o fato de que a as dificuldades que as(os) psicólogas(os) enfrentam
maioria das(os) respondentes (74,3%) concluiu a na prática de AP. Os resultados são apresentados na
graduação a partir dos anos 2000, o que corresponde Tabela 3.

94
I. O Que Fazemos

Tabela 2: Frequência e porcentagem de uso das Técnicas de Tabela 3: Frequência e porcentagem das dificuldades com a
Avaliação Psicológica. Avaliação Psicológica.

Técnica Frequência Porcentagem Dificuldades Frequência %


Entrevista 2.399 98,0 Escassez de instrumentos
psicológicos nas minhas 870 36,4
Observação 1.927 78,7
necessidades
Teste Psicológico 1.775 72,5
Recursos materiais insuficientes 721 30,1
Técnicas não exclusivas
542 22,1 Elaboração de laudos e pareceres 654 27,3
da Psicologia
Ambientes inadequados para
Checklist 525 21,4  543 22,7
aplicação dos instrumentos
Dinâmica de grupo 401 16,4
Escolhas dos instrumentos
479 20,0
Atividades lúdicas 13 0,5 conforme o caso
Questionário 11 0,4 Regulamentação e normativas
417 17,4
de difícil compreensão
Escalas 10 0,4
Interpretação dos dados
376 15,7
*Nota: As(Os) psicólogas(os) poderiam indicar após aplicação
mais de uma dificuldade. Por isso, o número
Integração de diferentes
de respostas é maior que o de respondentes, 360 15,1
técnicas e instrumentos
assim como as respectivas porcentagens
Devolutiva de resultados 272 11,4
De acordo com os dados da Tabela 3, tem-se Conhecimento insuficiente 249 10,4
que a dificuldade “Escassez de instrumentos psi- Instruções insuficientes ou vagas 205 8,6
cológicos nas minhas necessidades” foi assinalada Custos envolvidos na avaliação 48 2,0
por 36,4% das(os) psicólogas(os), seguida das di-
Questões relacionadas ao
ficuldades “Recursos materiais insuficientes” com 10 0,4
processo de validação
30,1%, “Elaboração de laudos e pareceres” com Interferências institucionais 8 0,3
27,3%, “Ambientes inadequados para aplicação
A relação com o paciente antes,
dos instrumentos” com 22,7%, e “Escolhas dos 8 0,3
durante e depois da avaliação
instrumentos conforme o caso” com 20% das in-
Desvalorização e falta de
dicações. Tais resultados sugerem que, embora o 7 0,3
reconhecimento de sua importância
número de instrumentos disponíveis às(aos) psicó- Lidar com prazos curtos 6 0,3
logas(os) brasileiras(os) para uso profissional tenha
Interface com outros psicólogos 5 0,2
aumentado nos últimos anos, mais especificamente
Disseminação dos Testes no
a partir das ações do Satepsi, investimentos ainda senso comum/Internet
4 0,2
são necessários a fim de que todas as especialidades
Interface com a equipe
da Psicologia sejam contempladas quanto a instru- 4 0,2
multidisciplinar
mentos disponibilizados, e que diferentes construtos
Falta de normas adequadas
psicológicos dentro dessas especialidades também 3 0,1
ao contexto
sejam contemplados.
*Nota: As(Os) psicólogas(os) poderiam indicar
Em sequência, merecem destaque as dificuldades
mais de uma dificuldade. Por isso, o número
enfrentadas pelas(os) profissionais na escolha do de respostas é maior que o de respondentes,
instrumento a ser utilizado em casos específicos e assim como as respectivas porcentagens

95
I. O Que Fazemos

na elaboração de documentos oriundos do processo Tabela 4: Frequência e porcentagem das respostas relacionadas
de AP. Essa informação denuncia uma questão de ao Satepsi
caráter mais complexo, como a compreensão da
AP como um processo, composto por diferentes F %
procedimentos e instrumentos que, ao terem seus Sobre o Satepsi…
resultados integrados, darão base às(aos) profissionais Conheço e consulto o sistema
730 31,5
quando preciso
para responder suas hipóteses diagnósticas.
Já ouvi falar, mas não me aprofundei 112 4,8
As(Os) respondentes poderiam ainda mencionar
Tive conhecimento durante
outras dificuldades vivenciadas na prática profissional. 65 2,8
a minha formação
Entre essas, destacam-se: a dificuldade de acesso aos É a primeira vez que ouço falar 58 2,5
materiais e à formação continuada em função da Não responderam 1.379 58,8
localização geográfica da cidade onde a profissional Conheci o Satepsi…
mora; tomar conhecimento de profissionais que Na graduação 46 2.0
atuam em desacordo com as orientações técnicas e Em cursos de complemento à formação 11 0,5

éticas da profissão; bem como a cobrança de hono- Na pós-graduação 5 0,2

rários inferiores ao indicado. Não responderam 2.282 97,4

Por fim, foi perguntado sobre o conhecimento Uso para consultar os pareceres
dos testes psicológicos…
das(os) psicólogas(os) em relação ao Satepsi, bem
Sim 428 18,3
como sobre sua utilização para embasar a prática da
Não 295 12,6
AP. Os resultados podem ser observados na Tabela 4. Não responderam 1.621 69,2
Conforme a Tabela 4, nota-se que as(os) par- Uso para consultar a situação dos testes
ticipantes desse censo tiveram dificuldade de res- Sim 680 29,0
ponder a questões sobre o Satepsi, visto que uma Não 43 1,8
porcentagem alta de psicólogas(os) abstiveram-se Não responderam 1.621 69,2
de responder aos itens sobre o tema (entre 58,8% Uso para leitura das fontes técnicas
a 97,4%). Considerando aquelas(es) que responde- sobre avaliação psicológica
Sim 524 22,4
ram, observou-se que a maioria das(os) profissionais
Não 199 8,5
reconhecem a importância do Satepsi para consultar
Não responderam 1.621 69,2
a situação dos testes psicológicos, isto é, se os testes
Uso para leitura das fichas-síntese
são favoráveis ou desfavoráveis para uso profissional. dos testes psicológicos
Entretanto, uma menor porcentagem de respondentes Sim 504 21,5
usam o site para ter acesso a outras informações sobre Não 219 9,3
a AP, tais como as fontes técnicas sobre a AP, materiais Não responderam 1.621 69,2
produzidos pelo CFP à orientação da categoria pro- Uso para consultar as dúvidas frequentes
fissional e dúvidas frequentes que as(os) profissionais Sim 529 22,6
podem ter. Neste sentido, destaca-se que o Satepsi, Não 194 8,3

para além de divulgar a lista dos testes psicológicos Não responderam 1.621 69,2

com parecer favorável ou desfavorável, também é útil Uso para leitura dos materiais
produzidos pelo CFP sobre o tema
para a(o) profissional da área ao centralizar todas as
resoluções relacionadas a AP na aba legislação do Sim 428 18,3
Não 295 12,6
site, bem como publicizar todas as ações orientativas
sobre a área pelo CFP desde 2018. Não responderam 1.621 69,2

96
I. O Que Fazemos

Reflexões finais normativas discutidas com as entidades profissionais,


A AP é uma das contribuições mais importan- pesquisadoras(es) e capitaneada pelo Sistema Conselhos
tes das ciências cognitivas e comportamentais para pelas(os) profissionais que representam a área.
a sociedade atual, pois proporciona importantes No entanto, é na integração das informações
fontes de informações sobre pessoas e os grupos ou provenientes de multimétodos, como por exemplo,
instituições que fazem parte. Existe grande evidência dados de entrevistas somados aos dados de observa-
documentando a utilidade de métodos, técnicas e ções do comportamento e resultados de diferentes
testes psicológicos quando são construídos e utili- testes, que se encontram um dos principais desafios
zados de forma adequada. Testes bem elaborados e enfrentado pelas(os) profissionais envolvidos com a
que apresentem parâmetros psicométricos adequados AP. Por um lado é evidente a contribuição do Satepsi
para os propósitos pretendidos têm o potencial de ao disponibilizar às(aos) profissionais diretrizes para
fornecer benefícios significativos para todas as partes a escolha de instrumentos e procedimentos a serem
envolvidas no processo de AP. O uso adequado desses empregados durante o processo de AP. Por outro lado,
instrumentos no processo de AP poderá resultar em apenas uma formação robusta pode dar subsídios a
melhores decisões para os indivíduos e grupos do que essas(es) profissionais que durante esse processo serão
resultaria sem seu uso (AERA et al., 2014). exigidos quanto a capacidade de fazer inferências a
Embora esteja entre as técnicas mais populares respeito dos construtos psicológicos de interesse. É a
na prática da AP, o teste psicológico deve ter os seus formação que poderá dar suporte para se aprofundar
resultados combinados com informações advindas de no conhecimento das teorias psicológicas a respeito
outras técnicas e procedimentos (fontes de informa- dos construtos e da maneira como eles se expressam
ção) como, por exemplo, a observação e a entrevista. comportamentalmente, e também dos procedimentos
Observou-se que a entrevista, seguida da observação e técnicas psicométricas empregadas no processo de
do comportamento e os testes psicológicos foram os construção dos instrumentos disponíveis para ava-
instrumentos mais utilizados pelas(os) respondentes liação desses construtos (Primi, 2018). Como dito,
que trabalham com AP. Esses dados correspondem é de responsabilidade da(o) profissional a escolha e
ao que é encontrado na literatura especializada, uma o manuseio dessas fontes de informação.
vez que a entrevista é o procedimento que possibi- A criação do Satepsi contribuiu de forma signi-
lita as primeiras interações com paciente/cliente ou ficativa para o avanço da área da AP no Brasil. Tal
grupo de trabalho. sistema é reconhecido internacionalmente (Evers,
A partir dessa interação verbal e observação com- 2012) e avançou na definição de parâmetros psico-
portamental, as primeiras hipóteses diagnósticas são métricos mais criteriosos que os testes psicológicos
estabelecidas e novos procedimentos/técnicas são devem possuir (Andrade & Valentini, 2018). Não
empregados para coleta de informação sobre os in- menos importante, o Satepsi alinhou-se a entidades
divíduos, grupos ou instituições que possibilitem internacionais na imprescindível e urgente discussão
confirmação ou refutação dessas hipóteses (Hutz, sobre justiça e proteção dos direitos humanos na AP
2015). Adicionalmente, destaca-se a alta porcentagem (AERA et al., 2014, CFP, 2018).
de profissionais que fazem uso dos testes psicológicos Apesar de tais avanços, os resultados do presente
como fonte de acesso às características dos avaliados. censo indicam a necessidade de aprimoramentos. Os
Assim, observa-se que os procedimentos/instrumentos caminhos podem não ser lineares e até mesmo ser
mais utilizados pelas(os) profissionais correspondem tortuosos, mas precisam ser percorridos com deter-
exatamente às fontes principais definidas pelo CFP minação. As dificuldades indicadas pelas(os) psicólo-
(2018) em resolução, o que sugere uma apropriação das gas(os) para realização da prática de AP de “Escassez

97
I. O Que Fazemos

de instrumentos psicológicos”, “Recursos materiais disponibilidade de literatura, ainda são necessários


insuficientes”, “Elaboração de laudos e pareceres” esforços para que estes avanços alcancem os cursos
e “Ambientes inadequados para aplicação dos ins- de graduação em todo o território nacional. Um
trumentos” requerem ações conjuntas de múltiplos importante exemplo dessas necessidades foi apre-
atores nas esferas individuais e coletivas, bem como sentado na pesquisa realizada por Zaia et al. (2018),
públicas e privadas. Entre tais ações podemos indicar que analisaram os processos éticos publicados no
a sempre presente discussão sobre formação e con- Jornal do Conselho Federal de Psicologia no período
tínua capacitação da(o) psicóloga(o) na área de AP. de 2004 a 2016. Foram verificados os três últimos
No Brasil, os cursos de graduação possuem forma- números da revista e encontrou-se que 60% dos
ção generalista e, assim, a(o) psicóloga(o) não conse- processos estavam relacionados a má-conduta da
gue desenvolver no curso de graduação as múltiplas AP, com destaques às denúncias de má-elaboração
competências necessárias para a prática da AP. Uma de laudos psicológicos e utilização inadequada dos
formação continuada é imprescindível para uma testes psicológicos. Diante dessas observações, fica
prática amparada em princípios técnicos e éticos. evidente a necessidade de maiores investimentos
Ratificamos a importância da especialização em AP na formação da(o) psicóloga(o) em relação à AP,
enquanto ação formativa continuada da(o) psicó- tendo em vista os efeitos negativos desta imperícia
loga(o). A dificuldade com elaboração de laudos e profissional para as pessoas submetidas ao processo
pareceres indicada no CensoPsi 2022 é reflexo de uma de AP, o que resultaria em falta ética profissional por
formação de graduação ainda deficiente e que anseia parte dessas(es) profissionais (Hutz, 2015).
por aprimoramentos. Unido a isso, os laboratórios Essa discussão pode se estender a maior compreen-
de pesquisa devem fazer esforços conjuntos para a são do papel da AP na atuação das(os) profissionais das
elaboração de novos instrumentos psicológicos que diferentes especialidades que compõem a Psicologia.
atentem, inclusive, para o contexto de restrições que Embora seja difundido o caráter benéfico da AP para
se reverbera em resposta ao momento pandêmico a compreensão de características pessoais, de funcio-
que ainda estamos vivenciando. namento de grupos ou de instituições e os ganhos
Cabe ressaltar que a dificuldade sobre os “Recursos no planejamento de intervenções a serem realizadas,
materiais insuficientes” pode ter sido impulsionada observa-se que, no geral, as(os) psicólogas(os) não
pela crise sanitária, haja visto que diverso(a)s pro- se reconhecem como profissionais que fazem uso
fissionais precisaram aderir ao trabalho remoto e a dessas potencialidades. Haja vista que apenas 11,6%
categoria profissional se deparou com um número do universo de profissionais que responderam ao
restrito de testes psicológicos disponíveis para aplica- CensoPsi 2022 indicaram atuar em AP.
ção no formato remoto. Destaca-se que em março de Por fim, os resultados observados a respeito da dis-
2020, quando foi decretado a pandemia da Covid-19, tribuição geográfica das(os) profissionais que utilizam
havia quatro testes psicológicos passíveis de uso no a AP e o tipo de instituição nas quais essas(es) profis-
modo remoto e, 17 meses depois, em agosto de 2022 sionais se formaram, sendo em sua maioria alocados
esse número havia quadruplicado passando a ter 16 no eixo Sul-Sudeste e provenientes de universidades
testes disponíveis para uso. privadas, dão algumas pistas para o enfrentamento
Nessa direção, encontram-se os desafios futu- dos desafios futuros. Estes dados se assemelham à
ros a serem enfrentados pelas(os) profissionais que proporção de distribuição dos laboratórios de AP nas
pesquisam e atuam com a AP no Brasil. Embora os cinco regiões geográficas do Brasil (Silva-Filho et al.,
avanços promovidos sejam evidentes nos níveis de 2021). Desta forma, esforços devem ser feitos a fim
pós-graduação, nas pesquisas realizadas na área e na promover o fortalecimento do ensino, elaboração

98
I. O Que Fazemos

de pesquisa por meio de laboratórios especializados,


possibilidade de educação continuado com cursos
de pós-graduação nos níveis lato e stricto sensu nas
regiões Norte, Centro-Oeste e Nordeste do país.
Esse tema torna-se mais relevante quando pensada
a proliferação dos cursos de graduação em Psicologia
nas universidades privadas nos últimos anos e as
iminentes ameaças de criação de cursos de graduação
no formato on-line.
Apesar dos percalços, os resultados aqui apresen-
tados e discutidos não deixam de ser promissores.
Apenas 0,3% das(os) respondentes indicaram a difi-
culdade de “desvalorização e falta de reconhecimento
da importância da AP”, 0,2% indicaram a dificuldade
de “interface com outras(os) psicólogas(os)”, 0,2%
indicaram a dificuldade de “interface com a equipe
multidisciplinar” e, por fim, apenas 0,1% indicaram
a dificuldade de “falta de normas adequadas ao con-
texto”. Este último aspecto revela as ações positivas de
normatização da área realizadas pelo Satepsi/CPF ao
longo dos últimos anos. Ainda, a pouca dificuldade
de interface com outras(os) psicólogas(os) e equipes
multidisciplinares não só indica a capacidade cola-
borativa e união das(os) psicólogas(os) que atuam
na AP como sugere valorização da AP pela categoria
e demais áreas que dialogam com a Psicologia. n

99
I. O Que Fazemos

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102
I. O Que Fazemos

103
I. O Que Fazemos

17 Sobre teorias,
coerências, dispersão
Ana Maria Jacó-Vilela1
Waldomiro J. Silva Filho2
Maria Virgínia M. Dazzani3

Neste capítulo iremos discutir o mosaico de re- Backhouse & Fontaine, 2010), a Psicologia, sem-
ferências e teorias encontradas no CensoPsi 2022, pre esteve associada a um debate sobre seu status de
realizado pelo Conselho Federal de Psicologia em cientificidade. A própria psicanálise que traçou uma
2021 – aquele referente às abordagens e autoras(es) história fora das instituições universitárias e recusa o
citados pelas respondentes como representando sua modelo da ciência, nasceu reivindicando e desafiando
orientação teórica e/ou sua prática profissional. o modelo científico do século XIX (Garcia-Roza,
Antes de qualquer coisa, é importante destacar 1991). Além disso, do fato de que há uma tensão
que a Psicologia é, possivelmente, o campo disci- essencial sobre o estatuto científico da Psicologia,
plinar que melhor expressa as tensões e disputas também há claramente a ausência de uma unidade
teóricas na universidade e na ciência contemporâ- conceitual e metodológica tanto na prática da inves-
neas. Diferentemente das ciências categoricamente tigação em Psicologia quanto na prática profissional.
sociais, como antropologia, economia e sociologia, Porém, como muito bem declarou Luiz Alfredo
que estabelecem cânones e princípios epistêmicos Garcia-Roza (1977) em um breve texto que se tornou
autônomos em relação às ciências categoricamente um clássico, “Psicologia: um espaço de dispersão do
naturais (Delanty, 1997; Kuper & Kuper, 2009; saber”, há uma gravíssima confusão entre discutir a

1 Psicóloga, doutora em Psicologia (USP) com pós-doutorado em História e Historiografia da Psicologia (Universidad Autònoma de
Barcelona). Pesquisadora 1D do CNPq. Professora titular da Uerj, onde coordena o Laboratório de História e Memória da Psicologia
– Clio-Psyché e atualmente é Diretora do Instituto de Psicologia. Dedica-se à investigação, ensino e extensão em história da Psicologia
no Brasil, tema sobre o qual tem inúmeras publicações. Foi membro do XI Plenário do Conselho Federal de Psicologia; membro
da Comissão de Avaliação da Capes; presidente da Abrapso, da Anpepp e da Divisão 18 (History of Psychology) da International
Association of Applied Psychology. Ocupou vários cargos na Sociedade Interamericana de Psicologia, da qual recebeu o Premio
Interamericano Rogelio Díaz-Guerrero. Recebeu também o Premio Internacional da Sociedad Chilena de Historia de la Psicología.

2 Natural de Camacã, Bahia, é Professor Titular do Departamento de Filosofia da UFBA. Foi visiting scholar na Harvard University
(2009-201), no MIT (2015-2016) e na Universität zu Köln (2017-2018, 2019). Atualmente é Pesquisador do CNPq e guest
researcher do Cologne Center for Contemporary Epistemology and the Kantian Tradition (Alemanha). Seus campos de interesse são
epistemologia, psicologia moral e filosofia das ciências. Publicou, entre outros, As Consequências do Ceticismo (com Plínio Smith,
2012), Sem Ideias Claras e Distintas (2013), Thinking about Oneself (com Luca Tateo, 2019), Tolerância Intolerante, de Mal a
Pior (com Lilia Schwarcz e Ailton Krenak, 2020), Porque a Filosofia Interessa à Democracia (2020, segundo colocado no Prêmio da
Associação Brasileira de Editoras Universitárias), Procurando Razões (2022) e A Calamidade (2022).

3 Possui graduação em Psicologia pela Universidade Federal da Bahia (1994), mestrado e doutorado em Educação pela Universidade Federal
da Bahia (2000 e 2004). Realizou estágio de pesquisa com bolsa sanduíche (Capes) na Purdue University (Indiana, Estados Unidos) e
pós-doutorado na Clark University, Estados Unidos, com bolsa Capes em 2009-2010 e com bolsa CNPq em 2015-2016. É professora
e pesquisadora dos Programas de Pós-Graduação em Psicologia e em Educação (UFBA). Desenvolve pesquisas na interface das áreas da
Psicologia Cultural, da Psicologia Escolar/Educacional e Psicologia do Desenvolvimento. Atualmente é professora visitante na Università
Degli Studi di Salerno (Itália) através do Capes-PRINT e coordenadora do grupo de pesquisa e extensão intitulado Investigações em
Psicologia Cultural: Cultura, Linguagem, Transições e Trajetórias Desenvolvimentais (CULTS). Email: dazzani@[Link]

104
I. O Que Fazemos

cientificidade da Psicologia à luz do ideal das ciências Tabela 1: Abordagens de acordo com as regiões do país
naturais e discutir a relevância da Psicologia como
campo disciplinar e de produção de conhecimento.  
Br N NE SE S CO
Em geral, a primeira parte da confusão (se a Psicologia  
atende o ideal das ciências naturais) está associada a Psicanalítica 37% 30% 30% 42% 38% 31%
uma perspectiva reducionista em ciência, qual seja, Comportamental 25% 36% 25% 24% 26% 26%
que um conjunto de eventos e leis descritos por uma
Fenomenológica/
teoria podem ser reduzidos e explicados com base em 24% 24% 29% 22% 18% 25%
Humanista
eventos e leis de uma teoria mais básica (algo como leis Existencialista 8% 7% 8% 9% 6% 7%
psicofísicas onde um evento psicológico é explicado de
Cognitivista 23% 27% 25% 20% 23% 22%
acordo com um vocabulário fisicalista (Davidson, 1970;
1974). A segunda parte (a relevância da Psicologia como Sócio-histórica 16% 16% 15% 15% 18% 19%

campo de produção de conhecimento e de justificação Outras 4% 3% 2% 3% 8% 4%


para ações, como práticas clínicas e institucionais) diz  Total 100% 6% 24% 44% 16% 9%
respeito ao fato de que a nossa época produz inúmeros
discursos sobre a experiência humana, sobre a vida Assim, se podemos dizer que o saber psicológico
psíquica e sua relação com a dinâmica da natureza e da sempre esteve presente em terras brasileiras a partir
sociedade. Esse segundo aspecto é o que nos interessa da compreensão indígena sobre o ser humano, a dita
neste capítulo: a diversidade e dispersão, para usar uma “psicologia científica” começou a ser apropriada entre
expressão de Garcia-Roza, de referências conceituais nós no ambiente médico, nas Faculdades de Medicina
e teóricas na Psicologia praticada no Brasil não é a do Rio de Janeiro e na Bahia, em cujas teses de dou-
expressão de uma debilidade ou não-cientificidade, toramento estão presentes muito dos sistemas psico-
mas a eloquente expressão de uma riqueza que precisa lógicos em desenvolvimento na Europa e nos Estados
ser compreendida e explorada. Unidos no século XIX. Wilhelm Wundt (1832-1920),
Por essa razão, seguimos uma vez mais, Garcia- Théodule Ribot (1839-1916), Pierre Janet (1859-
Roza (1977, p. 6): “Quando afirmamos que a História 1947), William James (1842-1910) são citados em
da Psicologia não é a história de uma coisa única – a diferentes trabalhos (cf. Seabra, 1895; Fajardo, 1889,
Psicologia – o que desejamos enfatizar é este aspecto Ribeiro, 1886). A tese de Henrique Roxo (1877-1969),
de dispersão e de descontinuidade dos discursos por “Duração psíquica dos atos elementares nos alienados”,
ela abrangidos”. é profusa em elogios a Wundt, além de ser conside-
Aqui está o ponto. Ao nos aproximarmos dos rada o primeiro trabalho em Psicologia experimental
dados do CensoPsi 2022 referente às abordagens e registrado no país (Roxo, 1901).
autoras(es) que representariam as orientações teó- As(Os) médicas(os) continuaram a manifestar
ricas e ações da prática profissional de psicólogas seu interesse pela Psicologia no século XX, tanto por
e psicólogos no Brasil, nos deparamos com uma meio do uso dos testes psicológicos, considerados
gritante diversidade. A Tabela 1, a seguir, sintetiza um importante instrumento na avaliação diagnós-
este resultado, dividido pelas regiões do país. tica (Facchinetti & Jacó-Vilela, 2019) quanto pela
Ao visualizarmos esta tabela, verificamos que as apropriação da Psicanálise. Nas duas primeiras dé-
diferentes abordagens estão presentes em todo o ter- cadas do século, na Faculdade de Medicina do Rio
ritório nacional, com nuances pequenas em termos de Janeiro, Genserico Pinto (1888-1958) defendeu
de percentual. Isto nos levou a refletir sobre como a primeira tese sobre a psicanálise (Pinto, 1914) e,
ocorreu esta dispersão territorial através da história. em São Paulo, Franco da Rocha (1864-1933) pu-

105
I. O Que Fazemos

blicou o primeiro livro com este tema alguns anos sociedades psicanalíticas (Sociedade Psicanalítica do
depois (Franco da Rocha, 1920). No Rio Grande do Rio de Janeiro e Sociedade Brasileira de Psicanálise
Sul, Martim Gomes publicou em 1930 “A Criação do Rio de Janeiro) que existiam na cidade.
Estética e a Psicanálise”, onde relata e interpreta Mas, sem dúvida, o interesse das psicólogas(os)
seus sonhos a partir da psicanálise (Mokrejs, 1993). foi incrementado pela chegada ao Rio de Janeiro e
A primeira Sociedade de psicanálise foi criada em a São Paulo de psicanalistas argentinos do grupo
1927 por Durval Marcondes (1899-1981), em São Plataforma, autoexilados da ditadura em seu país.
Paulo, e teve Juliano Moreira (1873-1933), do Rio A presença de Gregorio Baremblit (1960-2021)
de Janeiro, como seu presidente, mas teve pequena e outros possibilitou o forte desenvolvimento do
duração (Russo, 2002). movimento institucionalista no país. Neste êxodo,
Ou seja, os psiquiatras, a par de suas perspectivas Emilio Rodrigué (1923-2008) se fixou na Bahia,
teóricas embasadas nos grandes nomes do século XIX contribuindo intensamente para o crescimento da
e começo do XX, como Phillippe Pinel (1745-1826) abordagem naquele estado. Mas também houve um
Jean-Étienne Esquirol (1772-1840) ou, ainda, Emil outro grupo, de formação lacaniana, que se radicou
Kraepelin (1856-1926), também se utilizavam da no Rio Grande do Sul.
psicanálise e, como uma das poucas profissões reco- Por outro lado, a abordagem de Jacques Lacan
nhecidas na primeira metade do século XX, facilmente (1901-1981) permitiu um florescer de novas so-
mantiveram o controle sobre sua transmissão e sua ciedades psicanalíticas nos anos 1980, fundadas e
prática, sendo que esta última começou a ocorrer na compostas, principalmente, por psicólogas(os). Esta
Liga Brasileira de Higiene Mental (Russo, 2002), expansão levou também à criação de Programas de
no Rio de Janeiro, mas também em São Paulo. Este Pós-graduação em Psicanálise, tanto estrito senso
cenário só começou a mudar entre as décadas de quanto profissionais, todas(os) elas(eles) vinculados
1970 e 1980 quando, por um lado, há um retorno a Departamentos ou Institutos de Psicologia de suas
da hegemonia organicista no âmbito médico e, por instituições, quais sejam, UERJ, UFRJ, UFRGS e a
outro, um interesse cada vez maior de psicólogas(os), Universidade Veiga de Almeida.
pertencentes a uma profissão recém regulamentada, Do Sudeste (Rio de Janeiro, São Paulo e Minas
pela abordagem psicanalítica. Este interesse variou, Gerais), além do Sul (Rio Grande do Sul), aos poucos, a
temporalmente, nas diferentes regiões do país, até psicanálise se espraiou para as outras regiões, tanto por
porque os cursos de Psicologia ainda eram recentes e migração de psicanalistas, principalmente sudestinos,
não estavam amplamente distribuídos. Assim, havia quanto pela criação de cursos de Psicologia nas demais
maior demanda no Rio de Janeiro – supomos que regiões. Já no final do século XX a psicanálise estava
em decorrência do primeiro curso de Psicologia, presente no Nordeste, seguindo para o Centro-Oeste
criado em 1953 na PUC-Rio, apresentar a psicanálise e, finalmente, chegando ao Norte. Esta penetração
em sua grade curricular, graças aos esforços de seu está bem representada nos dados do Censo, no qual
coordenador, Pe. Antonius Benkö (1920-2013). Isto é a abordagem mais citada no cômputo geral (37%),
favoreceu também que, já em 1971, Yonne Caldas bem como nas diferentes regiões (com exceção da
(1942-2006), aluna da terceira turma da PUC-Rio, Região Norte, como veremos mais adiante).
criasse, junto com outros, uma associação destinada Correspondendo a esta grande presença na orien-
a oferecer formação psicanalítica para psicólogas(os), tação teórica das respondentes, há uma alta concen-
a Sociedade de Psicologia Clínica da Cidade do Rio tração na citação de autores – 57% das referências a
de Janeiro. Esta iniciativa ocorreu em função de não autores são a nomes da Psicanálise, como podemos
ser permitido o ingresso de psicólogas(os) nas duas ver na Tabela 2, a seguir. Freud, o mais citado no

106
I. O Que Fazemos

cômputo geral (28%), é seguido por Lacan (11%), se estendeu a outros fins, como seleção de pessoal
Jung (8%), Winnicott (7%), e Melanie Klein (3%).4 (Instituto de Organização Racional do Trabalho –
Idort, Instituto de Seleção e Orientação Profissional
Tabela 2: Autores de referência – Isop), psicodiagnóstico em manicômios judiciários
e, mesmo, a clínicas de orientação infanto-juvenil.
Tabela 2 – Autores de referência N % Neste processo, a abordagem Fenomenológica-
Freud 3745 28%
Humanista se apresentou entre nós. No CensoPsi
2022 estão englobadas sob esta roupagem diferentes
Aaron Beck 1941 14%
autores e tendências, perfazendo 24% das citações,
Lacan 1546 11%
não sendo possível, por isso, determinar se há predo-
Carl Rogers 1170 9% mínio de alguma tendência em alguma região especí-
Skinner 1097 8% fica. Há uma distribuição razoavelmente equilibrada
Jung 1019 8% nas diferentes regiões, embora esteja mais presente
Winnicott 953 7% no Nordeste (29%) e menos no Sul (18%). Por
outro lado, os autores pertencentes a esta abordagem
Judith Beck 821 6%
recebem um total de 21% das citações, conforme
Friedrich Pearls 772 6%
discriminamos melhor adiante.
Vygotsky 733 5% Foi nas clínicas de orientação infanto-juvenil e
Melanie Klein 354 3% nos diferentes cursos de Psicologia que emergiu a
Martin Heidegger 319 2% proposta de Carl Rogers (1902-1987) da Abordagem
Foucault 317 2% Centrada na Pessoa (ACP). As fontes são unânimes
Jeffrey Young 310 2%
em reconhecer suas múltiplas recepções por meio
de personagens diversos: Pe. Antônio Benkö e Ruth
Viktor Frankl 284 2%
Scheeffer (1923-2008) na PUC-Rio e esta também
Jacob Moreno 260 2%
na UFRJ; Irmão Justo (1922 - …), na PUC-RS;
Steven Hayes 233 2% Mariana Alvim (1909-2001), tanto na Clínica de
Silvia Lane 226 2% Orientação Juvenil (COJ), criada em 1946, quanto
Robert Leahy 225 2% no ISOP, criado em 1947, ambos no Rio de Janeiro
Jorge Ponciano Ribeiro 212 2% (Jacó-Vilela et al., 2017); Rachel Rosenberg (1931-
1987) e Oswaldo de Barros Santos (1918-1998) no
Sartre 205 2%
Serviço de Aconselhamento Psicológico (SAP) do
Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo
Entretanto, a prática psicológica que já existia (IPUSP), criado em 1969 (Morato, 2008). Nos anos
em alguns estados desde o final dos anos 1920 – Rio seguintes, a ACP ocupou um território fértil nos
de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande cursos de Psicologia que então iam sendo criados.
do Sul, Pernambuco, Bahia – era, principalmente, Parecia, neste período, que a clínica psicológica era,
relacionada ao uso de testes para avaliação da inteli- basicamente, rogeriana, atuando na perspectiva do
gência de escolares e de internos em hospícios. Aos Aconselhamento Psicológico que, inclusive, fazia
poucos, entre as décadas de 1940 e 1950, esta prática parte dos currículos de inúmeros cursos como dis-

4 É importante sinalizar aqui que no CensoPsi 2022 são citados 1.695 autores. Fazemos referência neste texto somente àqueles que
obtiveram pelo menos 2% das citações, o que representou 21 autores.

107
I. O Que Fazemos

ciplina específica. Rogers esteve no Brasil na década especializadas, ela figura hoje entre as abordagens
de 1970, contribuindo ainda mais para o prestígio de maior penetração no país.
da abordagem (Tassinari & Portela, 2002). Hoje em Outro autor com 2% de citações no campo da
dia, embora a ACP não tenha mais uma participação abordagem Fenomenológica-Humanista é Jacob
tão proeminente nos currículos dos cursos, continua Moreno (1889-1974), conhecido como o criador
sendo bem expressiva, como podemos observar pelo do psicodrama. Sua recepção entre nós ocorreu de
quantitativo de citação a Rogers no CensoPsi 2022 maneira completamente distinta, pois foi fora da
- 9% das/dos respondentes o referenciam, o que Psicologia. Alberto Guerreiro Ramos (1915-1982),
faz com que ocupe o quarto lugar entre os autores sociólogo, negro, criador do Teatro Experimental do
mais citados. Negro (TEN), “apresentou as ideias morenianas, criou
Dentro ainda da abordagem Fenomenológica- possibilidades novas, deu cursos sobre psicodrama e
Humanista, encontramos 8% de citação a auto- sociodrama, escreveu artigos, ensinou psicodrama”
res considerados como pertencentes ao campo da (Motta, 2010), projeto que foi interrompido com seu
Gestalt-terapia: Friedrich Perls (1893-1970), com exílio após o advento da ditadura militar em 1964.
6% e Jorge Ponciano Ribeiro (1933 - …), com Mas o psicodrama ocupou também outro lugar,
2%, perfazendo, portanto, um número de citações com Pierre Weil (1924-2008), francês que atuava,
próximo ao de Rogers. Cabe destaque aqui o ín- desde 1958, no Departamento de Orientação e
dice de citações a Jorge Ponciano Ribeiro, um dos Treinamento do Banco da Lavoura, em Minas Gerais,
únicos dois autores brasileiros que aparecem na experiência que depois levou ao curso de Psicologia
listagem dos 21 autores mais citados no CensoPsi da Universidade Federal de Minas Gerais. É dele
2022. Este índice sugere uma forte penetração da também o primeiro livro sobre Psicodrama publicado
Gestalt-terapia na prática profissional, embora sua no Brasil (Weil, 1967). Entretanto, apesar de seu
presença nos cursos de graduação seja limitada, prestígio, e da realização de um importante congresso
estando diluída no conteúdo de disciplinas como em 1970 (Motta, 2010), o psicodrama ocupa hoje
Teorias e Técnicas Psicoterápicas. um lugar secundário nos cursos de psicologia e na
A primeira publicação sobre Gestalt-terapia no prática profissional.
Brasil data de 1972, um artigo de Thérèse Amelie Ainda dentro da abordagem Fenomenológica-
Tellegen publicado no Boletim de Psicologia de Humanista outro autor com 2% de citações é o
São Paulo (Esch & Jacó-Vilela, 2019). Therezinha filósofo Martin Heidegger (1889-1976). Segundo
Melo da Silveira e Eleonôra Prestêlo descrevem sua Gomes, Holanda e Gauer (2004), a apropriação da
recepção no Rio de Janeiro, por meio da presença de proposta fenomenológica pela Psicologia foi realizada
chilenos (Adriana Schnacke e Francisco Huneuus) por Giorgi e seus colegas da Duquesne University
e de uma assistente de Rogers, Maureen Miller na década de 1970, sendo estes trabalhos traduzidos
(Silveira & Prestrelo, 2009). Seu caráter libertário, no Brasil por Riva Schwartzman, em 1978. Outros
sua ênfase na dimensão sensível da experiência, bem trabalhos se seguiram no Rio de Janeiro, em São
como suas técnicas, em um momento de predo- Paulo, no Rio Grande do Sul, no Ceará e no Rio
mínio de ortodoxia psicanalítica e de fechamento Grande do Norte. Com a expansão da pós-graduação
do regime político brasileiro, representou, sem em Psicologia e a criação da Associação Nacional de
dúvida, condições férteis para sua receptividade Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia (Anpepp),
entre nós. Sua expansão decorreu da realização de hoje existem 3 (três) Grupos de Trabalho (GTs) nesta
encontros e workshops; com a criação de revistas associação referidos à fenomenologia.

108
I. O Que Fazemos

Distinta, mas próxima da abordagem Fenomenológica- seu livro “Introdução ao Estudo da Escola Nova”
Humanista, encontra-se a Existencialista. É a menos (Lourenço Filho, 2004) –, o behaviorismo radical
referida pelas respondentes do CensoPsi 2022 – somente teve sua recepção oficial no país por meio da estada de
8% a listam como sua abordagem. Em termos de distri- Fred Simmons Keller (1899-1996) na Universidade
buição regional, este percentual se mantém, variando de de São Paulo, em 1961. Seus alunos, dentre eles os
9% no Sudeste a 6% no Sul. Entre os autores citados, professores Carolina Bori e Rodolpho Azzi, deram
somente dois, cada um com 2% de citações: Viktor continuidade ao seu legado, seja na própria USP,
Frankl (1905-1997) e Jean-Paul Sartre (1905-1980). seja na recém-criada Universidade de Brasília, para
Isto possivelmente se relaciona com a imprecisão do que onde Bori e Azzi foram cedidos. Lá, planejaram
seja especificamente existencialismo, ou melhor, o que o curso de Psicologia, que implicaria no uso do
é o existencialismo estadunidense – que se aproximou, Sistema Personalizado de Ensino, “uma metodologia
via Rollo May (1909-1994), do humanismo – em con- de ensino idealizada pelos professores Fred Keller,
traposição ao existencialismo de marca europeia, que se Carolina Martuscelli Bori, John Gilmour Sherman
origina em Sartre, com influência decisiva de Heidegger e Rodolpho Azzi” (Todorov & Moreira, 2009). A
(Sá, 2013). Sua apropriação no campo Psi, de forma crise na UnB em 1965, com a demissão de profes-
sistemática, também é mais recente, possivelmente a soras(es) consideradas(os) “subversivas(os)” durante
partir da década de 1980. intervenção militar na instituição, dentre eles Azzi, e
Em síntese, Humanismo, Fenomenologia, o consequente pedido de demissão de outras(os) 200
Existencialismo são correntes que, quando apro- professoras(es), fez com que esta experiência – que
priadas pela Psicologia, muitas vezes se entrelaçam, havia ocorrido em somente um semestre – tivesse
não havendo uma clara linha demarcatória entre as seu fim (Todorov & Hanna, 2010).
diversas abordagens, apesar de autores brasileiros Destes dois espaços iniciais e em função da
de linhagem fenomenológica se posicionarem con- formação de novas(os) pesquisadoras(es), a análise
trários à aproximação com o Humanismo (Feijoo experimental do comportamento seguiu para o
& Mattar, 2016). Pará, de onde se expandiu para outros lugares do
Optamos aqui por analisar estas abordagens logo Nordeste e, aos poucos, do Norte. Da USP, seguiu
após a psicanálise por serem as mais antigas no meio também para o interior de São Paulo, para Minas
da Psicologia. Entretanto, em termos quantitativos Gerais e para o Paraná, mostrando-se, hoje, presente
a abordagem comportamental está mais presente: em todo o território nacional, apesar de pouquís-
é reportada pelas respondentes em segundo lugar, sima penetração em alguns lugares, como o Rio
logo após a psicanálise, representando 25% das afi- de Janeiro. Atualmente, além da forte presença na
liações. Os percentuais se mantêm nas diferentes pós-graduação (UFPA, PUC-SP, UEL), a análise
regiões, variando de 24 a 26%, com a exceção da experimental do comportamento tem associações,
Região Norte, onde sobe para 36%. Isto se deve, sem realiza congressos e publica revistas bem-conceitua-
dúvida, ao Programa de Pós-graduação em Teoria e das. Na USP, tanto na pós-graduação em Psicologia
Pesquisa do Comportamento da Universidade Federal Experimental na cidade de São Paulo, quanto na
do Pará (UFPA). Burrhus Skinner (1904-1990) é o pós-graduação em Psicobiologia de Ribeirão Preto,
único autor citado, com 8% das citações, indicando o comportamentalismo não é exclusivo, mas parte
a fidelidade dos comportamentalistas ao seu legado. importante das linhas de pesquisa, participando
Se bem a perspectiva comportamental já fosse co- também de linhas de pesquisa em outros Programas.
nhecida no Brasil desde os anos de 1930 – Lourenço A abordagem cognitivista refere-se à perspectiva
Filho (1930) cita John Watson (1878-1958) em em Psicologia que cuida do tratamento de informa-

109
I. O Que Fazemos

ções, desde sua recepção (a percepção), passando Uma outra abordagem citada é a sócio-histórica,
por sua elaboração, armazenamento, utilização. Ela referida por 16% das respondentes. Sua dispersão
pressupõe uma mudança no enfoque do que era até regional é mais equilibrada, embora se destaque no
então denominado Psicologia Experimental: não Sul e Centro-Oeste (18 e 19%), com menor presença
mais no método, mas na compreensão do que seria no Nordeste e no Sudeste (15%). Esperávamos que
a natureza das atividades mentais. Soares (2009) a maior citação fosse no Sudeste, tendo em vista
nomeia alguns grupos que considera “significativos sua origem estar bem demarcada, na PUC-SP, via
e expressivos” no desenvolvimento da área, localiza- o trabalho de Silvia Lane (1933-2006). Supomos
dos na UFRGS, UFPE, UNICAMP, UNESP, UFF que a pouca presença no Rio de Janeiro e em Minas
e UFRJ. Entretanto, nos últimos dez anos a área se Gerais deve ter contribuído para esta diminuição na
expandiu. Se, no CensoPsi 2022, ela é citada por 23% Região Sudeste. Espraiar-se para o Sul e Centro-Oeste
das respondentes (com variação entre 20% no Sudeste mostra o poder de disseminação desta abordagem
e 27% no Norte), observamos que não há nenhum a partir de um único núcleo inicial. Neste sentido,
autor referido pertencente a esta abordagem. Por também pode ser verificada a fidelidade das(os)
outro lado, autores considerados como pertencentes à seguidoras(es) da abordagem às fontes de seu pensa-
Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC) têm um mento via as citações a Lev Vigotsky (1896-1934),
nível elevado de citações: Aaron Beck (1921-2021) cujo pensamento se tornou mais conhecido no Brasil
é citado por 14% das respondentes, sendo o segun- por sua apropriação e divulgação por Silvia Lane. O
do autor mais referido, situando-se logo abaixo de pensamento sócio-histórico recebe 7% da citação
Freud; Judith Beck (1954 - …) tem 6% das citações de autores, sendo 5% das citações a Vigotsky e 2%
enquanto Jeffrey Young (1950 - …), Steven Hayes a Lane. É relevante apontar que Silvia Lane é uma
(1948 - …) e Robert Leahy (1946 - …) recebem, das duas únicas personagens brasileiras citadas neste
cada um, 2% das citações. Observe que todos são quesito de autoria.
autores mais novos, da segunda metade do século Por último, chegamos às “outras abordagens”, si-
XX. Em nosso caso, a TCC totaliza 26% das citações, tuação em que são enquadrados, pelo CensoPsi 2022,
sendo a segunda abordagem mais citada, embora na 4% das abordagens citadas pelos respondentes, com
nomenclatura utilizada no CensoPsi 2022 não esteja grande variação regional: 2% no Nordeste e 8% no
caracterizada como uma abordagem específica. Sul. Seria interessante conhecer esta multiplicidade
A forte presença da TCC talvez explique um dado de abordagens que, mesmo com poucas(os) seguido-
paralelo encontrado no CensoPsi 2022: o fato de res- ras(es) (neste momento; quem sabe dentro de alguns
pondentes que indicam sua abordagem como sendo a anos?) indicam a grande dispersão da Psicologia que
Comportamental também indicarem a Cognitivista, mencionamos ao início do texto. Talvez um futuro
e vice-versa. Rangé, Falcone & Sardinha (2007) trabalho do CFP possa mapear melhor esta diversi-
explicam esta mescla ao apontarem que as(os) psi- dade. De qualquer forma, é possível citar um autor
cólogas(os) que posteriormente se dedicaram ao como fazendo parte destas “outras abordagens”:
movimento cognitivo-comportamental iniciaram seus Michel Foucault (1926-1984) recebe 2% das cita-
trabalhos na abordagem comportamental. Foi com o ções. Não é possível enquadrá-lo em uma abordagem
interesse no estudo dos transtornos de ansiedade na específica, pois seu trabalho é apropriado no Brasil
década de 1980 que este grupo consolidou a TCC em diferentes espaços, o que justifica estar incluído
entre nós, a partir do Rio de Janeiro e de São Paulo. neste quesito no Censo. Este conseguiu captar sua
É importante sinalizar esta altíssima expansão em presença, que para alguns de nós parece muito forte,
tão pouco tempo, basicamente 40 anos. no fazer teórico-prático de nossa Psicologia.

110
I. O Que Fazemos

Esta ampla fotografia que analisamos acima nos 2014). No desacordo epistêmico, a pessoa deve estar
diz muito sobre a história das ideias em Psicologia numa posição de reconhecer o lugar das razões para
no Brasil, mas também revela um importante traço si próprio e para o seu par e, por causa disso, deve
que caracteriza a prática da Psicologia contempo- ter a disposição de examinar com apuro as posições
rânea. A comunidade de psicólogas(os) entre nós é e razões do seu par e, consequentemente, de rever as
formada por um corpo plural de ideias e referências suas próprias posições e razões. Ao fazer isso, deve
que se reflete na vida universitária, na pesquisa, nas avaliar a confiabilidade do seu trabalho intelectual
instituições, nas políticas públicas e na clínica. Isto e do trabalho intelectual do seu par, deve rever as
está muito longe de ser um aspecto intrinsecamente realizações epistêmicas de ambos, deve saber apresen-
negativo ou de denotar uma debilidade da Psicologia. tar melhores argumentos ou renunciar aos próprios
A epistemologia e filosofia das ciências contempo- argumentos, deve ser capaz de refletir sobre o que
râneas (Goldman, 1986; Battaly, 2008; Elgin, 2017; ambos fazem. Isso tudo envolve um tipo especial de
Grimm, Baumberger & Ammon, 2017; Grimm, competência epistêmica chamada de autonomia epis-
2018) protagonizaram uma guinada radical na re- têmica ou autonomia intelectual (Korsgaard, 1996).
flexão sobre o conhecimento em geral e sobre o A autonomia epistêmica não é um tipo de exercício
conhecimento científico. Enquanto a análise clás- de plena liberdade e total autodeterminação; ela tem
sica do conhecimento esteve centrada na natureza relação com uma capacidade ou competência ou
da crença e no critério de demarcação entre o que disposição que uma pessoa pode ter e que lhe torna
é conhecimento e o que não é conhecimento, a apta a ser um interlocutor competente em contextos
epistemologia contemporânea passou a ficar cen- de desacordo epistêmico.
trada nas habilidades, competências e no caráter do Nós elogiamos as(os) pesquisadoras(es), cientis-
agente (Battaly, 2008). Com isso, o conhecimento tas, intelectuais, profissionais dos diferentes cam-
deveria deixar de ser analisado em termos de repre- pos disciplinares que são competentes no uso das
sentação e de crença verdadeira justificada e passar informações, técnicas e métodos e que produzem
a ser interpretado como uma forma de performance bons resultados do seu trabalho. Mas também nós
bem-sucedida. E performance significa algum tipo as(os) elogiamos em virtude de outros valores para
de ação que visa um fim – e no caso da atividade além dessa competência técnica. Como sabemos,
epistêmica, esse fim não poderia ser outro senão o pelo menos no campo da ciência, não é apenas a
conhecimento. O que realmente importa é o modo verdade que importa – ela importa, mas não ape-
como as pessoas, epistemicamente virtuosas, são nas ela. Que alguém tenha a capacidade de rever
capazes de avaliar criticamente seus pressupostos criticamente uma teoria ou um procedimento, que
conceituais, enfrentar os inescapáveis desacordos alguém procure soluções inovadoras para velhos
com seus pares, conduzir um pensamento aberto, problemas, que alguém tenha a capacidade de re-
não vicioso (vícios que incluiriam a arrogância, a fletir sobre o próprio trabalho, que alguém esteja
precipitação e a ignorância de posições contrárias) disposta(o) a se confrontar com críticas ao seu
e lidar com o natural pluralismo epistêmico (Coliva trabalho, que alguém enxergue em outra pessoa um
& Pedersen, 2017). par epistêmico, isso não envolve necessariamente a
Sobre esse último aspecto, o pluralismo epistêmi- verdade, mas outros objetivos epistêmicos, como
co não significa o relativismo que aceita que todas a curiosidade, manter-se com a mente aberta, ser
as versões são igualmente verdadeiras. Significa, tolerante e bem-informada(o), empenhar-se em
outrossim, que devemos estar abertos à pluralidade formar um amplo panorama do que já se sabe e
de abordagens e ao desacordo intelectual (Frances, assim por diante. Por isso, nós também elogiamos

111
I. O Que Fazemos

os membros da nossa pequena comunidade porque


sabem dialogar, sabem defender suas posições com
argumentos, sabem manter a mente aberta, sabem
mudar de opinião. E nos sentimos decepcionados
quando elas(eles) não estão dispostos a fazer isso.
O pluralismo que encontramos no CensoPsi 2022,
referente às abordagens e autores que representam as
orientações teóricas e ações da prática profissional,
nos aponta para uma comunidade diversificada, que
digere e elabora uma tradição intelectual recente, so-
bretudo na história da vida universitária, e, principal-
mente, indica a ausência de um cânone dogmático.n

112
I. O Que Fazemos

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115
II
Condições
de trabalho
II. Condições de Trabalho

18 CONDIÇÕES DE TRABALHO – INDICADORES DE


PRECARIZAÇÃO NO EXERCÍCIO DA PSICOLOGIA
Katia Puente-Palacios1
Antonio Virgílio Bittencourt Bastos2

A extensão da precariedade do trabalho constitui Ainda cabe destacar que o trabalho precário não en-
um tema que tem chamado mais a atenção nas últi- volve, apenas, formas flexíveis de contratação. Engloba
mas décadas, em diversas latitudes geográficas, ainda concepções do que seja o trabalho e as bases em que
que essa não seja uma nova realidade. Isso explica a se sustentam as relações de trabalho. Assim, ao falar
presença de estudos sobre esse fenômeno oriundos de trabalho precário está se focando na presença de
de países como Espanha (Juià et al., 2017), Estados condições de instabilidade para a(o) trabalhadora(or),
Unidos (Oddo et al., 2021), Canadá (Rose, 2020), pelo exercício de atividades temporárias. Também in-
ou em regiões como América Latina (Vives-Vergana clui escassas recompensas materiais, tanto na forma de
et al., 2017), e Asia (Chin, 2019). ganhos salariais como de benefícios. A fragilização dos
A precarização do trabalho se expande como direitos sociais e de organização coletiva das(os) traba-
resultado de diversas variáveis contextuais, mas des- lhadoras(es) são atributos presentes naquilo descrito
taca-se a mudança no mundo do trabalho, em que como trabalho precário, do que deriva a usurpação do
modos mais flexíveis de arranjos entre empregado- poder de barganha e de contestação perante aqueles
ras(es) e empregadas(os) são adotados, na busca de que as(os) submetem a essas condições. Por fim, deve
maximizar as vantagens financeiras, especialmente ser acrescentado o fato de o trabalho precário colocar
das(os) primeiras(os). Contudo, as consequências a(o) trabalhadoras(or) em condições de insegurança e
esperadas por uns vieram acompanhadas de uma incerteza. Assim, trata-se de fenômeno complexo que
severa deterioração das condições de trabalho para se estende para além de modo de contratação ou de
outros, as quais se tornaram mais visíveis para as(os) temporalidade dos empregos.
trabalhadoras(es), tanto pelo modo e condições nas Para analisar adequadamente as implicações de-
quais as suas atividades devem ser desempenhadas, rivadas de trabalhar nessas condições, é importante
como pelas consequências danosas que geram. relembrar o caráter estruturante do trabalho na vida

1 Mestrado e Doutorado em Psicologia cursados na Universidade de Brasília. Em 2009 realizou estágio pós doutoral na Universidade
de Valencia (Espanha). Contando com mais 70 trabalhos publicados, entre artigos científicos e capítulos de livros, possui como foco
central de interesse o estudo dos processos protagonizados por equipes de trabalho. Em relação a esses, busca investigar e elucidar
as transformações ocorridas nos atributos individuais, os quais dão lugar ao surgimento de fenômenos coletivos. Seus estudos atuais
abordam temas como aprendizagem de equipes, liderança, competências coletivas, entre outros. Atua como docente e pesquisadora no
programa de pós-graduação em Psicologia Social, do Trabalho e das Organizações (PSTO) da Universidade de Brasília (UnB).

2 Psicólogo. Mestre em Educação (UFBA,1984). Doutor em Psicologia (UnB,1994). Prof. Titular aposentado Universidade Federal da
Bahia. Pesquisador I-A do CNPq. Professor do Programa de Pós-Graduação em Psicologia/UFBA. Dedica-se a pesquisa no campo
da Psicologia Organizacional e do Trabalho, com ênfase no estudo dos vínculos do indivíduo com diversas facetas do seu mundo
de trabalho. Dedica-se, também, ao estudo sobre a formação e exercício profissional na Psicologia, tendo coordenado e conduzido
pesquisas de âmbito nacional sobre o trabalho da(o) psicóloga(o) no Brasil. Atualmente é membro do XVI Plenário do Conselho
Federal de Psicologia.

117
II. Condições de Trabalho

das pessoas e das sociedades. A presença do trabalho tipicamente feminina, como evidenciado no capítulo
precário afeta não apenas o indivíduo ou o grupo 2 desta obra, em que pode ser constatado que cerca
mais atingido mas também impacta de maneira ge- de 80% das(os) participantes do CensoPsi 2022
neralizada a sociedade. Assim, nada mais verdadeiro são do sexo feminino e esse perfil representa ade-
do que a afirmação “trabalho precário, vida precária, quadamente a profissão caracterizada pela presença
sociedade precária” (ILO, 2011, p. 13). A respeito esmagadora de pessoas desse sexo (CFP, 2022). Desse
da centralidade do trabalho na vida das pessoas, modo, discutir a presença do trabalho precário entre
também deve ser enfatizado que ele não gera apenas profissionais da Psicologia pode ser considerado não
um valor financeiro que pode oportunizar o acesso apenas adequado como também necessário.
a diversos bens, mas, em um sentido mais amplo, o Qualquer discussão dessa natureza deve ser prece-
trabalho está associado à própria dignidade humana, dida da clara conceituação do fenômeno em questão.
à percepção que o sujeito e o seu entorno constroem Contudo, em relação ao trabalho precário, essa parece
sobre ele. E, desse modo, impacta na qualidade de não ser uma tarefa muito simples. Isso porque, embora
vida e na forma como se experiencia a vida (Seubert diversos estudos e relatórios abordem essa temática,
et al., 2021). constata-se que reiteradamente as publicações descre-
Embora a presença de trabalhos precários seja vem as condições que o caracterizam, sem explicitar
mais comumente vista como atributo da atividade um conceito (Kreshpaj et al., 2020). A este respeito,
laboral de certos grupos, como mulheres, pessoas ainda cabe destacar que o conceito de trabalho precário
de nível educacional mais baixo, jovens e migran- é visto como vago e multifacetado, e a razão por trás
tes (Julià et al., 2017), pesquisadores deste campo disso é a existência de variáveis contextuais que fazem
mostram o seu incremento de modo generalizado com que certos modos de trabalho sejam interpretados
(Oddo et al., 2021). Assim, é pertinente defender como usuais em umas localidades, já em outras sejam
que a precarização do trabalho tem se estendido e vistos como evidências de precariedade (ILO, 2011).
alcançado diversos segmentos ocupacionais, trazendo De maneira adicional, autores da área defendem que,
à cena as suas consequências deletérias. Um exem- por ser um tema com claros contornos políticos,
plo claro dessa ampliação pode ser visto no relato econômicos e sociológicos e uma visível vinculação
de precarização do trabalho das(os) professoras(es) a movimentos sociais, a ausência de uma definição
universitárias(os), como resultado de um proces- consensual pode ser esperada (Betti, 2019).
so descrito como “corporatização” (tradução livre Buscando delimitar os atributos teóricos do fenô-
de corporatization) das universidades canadenses meno, recorremos à definição dada pela Organização
(Rose, 2020). A este respeito, Betti (2018) afirma Internacional do Trabalho (2011), que descreve o
que a precarização do trabalho, no século XXI, pode trabalho precário como atividade laboral que envolve
atingir tanto a(o) profissional como a(o) sem teto, baixo salário, contratos temporários de curta duração,
nas grandes cidades cuja economia é regida pelo presença de intermediários nos processos de contra-
modelo capitalista, por exemplo Nova York, Detroit tação (subcontratação) e escassez de proteção legal e
ou Milão, bem como nas comunidades pobres na laboral para a(o) trabalhadora(or). Complementando
África ou América Latina. Assim, o trabalho precário o anterior, o trabalho precário também pode ser
não é apenas um atributo de certos pequenos grupos caracterizado pela incerteza, instabilidade e insegu-
periféricos mas também uma característica cada vez rança, no qual as(os) trabalhadoras(es) estão sujeitos
mais presente no mundo do trabalho. a riscos, ao mesmo tempo em que recebem escassos
A respeito da relação entre a Psicologia e o trabalho benefícios e limitada proteção social e legal, como
precário, é importante relembrar que essa profissão é defendido por Rose (2020). Ainda é enfatizado que

118
II. Condições de Trabalho

trabalhadoras(es) atuando sob essas condições são específicas contra certas práticas como assédio moral
colocadas(os) em situação econômica de insegu- ou sexual, trabalhadoras(es) que laboram em condições
rança e em situação social de marginalidade (Chin, precárias podem ser mais facilmente vítimas desses
2019). Desse modo, embora uma única conceituação abusos. Por fim, uma quinta especificidade aponta-
amplamente aceita não esteja disponível, parece ser da diz respeito à exposição da(o) trabalhadora(or) a
clara a compreensão do que seja o trabalho precário. condições insalubres, tanto físicas como psicológicas.
Visitando a literatura da área, também é possível As definições antes visitadas, assim como os atri-
encontrar a descrição de um conjunto de atributos butos referidos, descritos na forma de dimensões e
considerados dimensões constitutivas. Essas fazem de características diferenciais, ajudam a estabelecer
referência a aspectos como salários, temporalidade de maneira mais clara as especificidades a partir das
do trabalho, relações contratuais e direitos, todos os quais o trabalho precário pode ser identificado. Desse
quais são aderentes aos elementos contidos na defini- modo, constituem-se em elementos de sustentação
ção antes reportada. Ainda podem ser identificadas teórica do aspecto central focado neste capítulo.
segmentações em facetas específicas, mas, em geral, Também esse conjunto de atributos evidenciam
os aspectos mencionados englobam boa parte daquilo que o trabalho precário é, em si, uma contraposição
que parece ser central na estruturação do fenômeno. ao chamado trabalho decente já reconhecido como
A adequada compreensão do que seja o trabalho destaque na agenda da ILO desde os anos 1990. Isso
precário também pode se beneficiar da descrição das porque a sua prática corrói os direitos básicos das(os)
suas diferenças se comparado com um trabalho não trabalhadoras(es) como: proteção legal, acesso ao
precário, como apresentado por Allen et al. (2021). emprego, proteção social, aceso à saúde e à aposen-
Uma delas diz respeito à temporalidade dos contratos tadoria, e os coloca em condições de vulnerabilida-
ou vínculos de trabalho estabelecidos, associada à in- de, instabilidade e incerteza laboral (Edralin, 2014).
certeza de continuidade. Essa especificidade pode ser Estudiosos da área apontam que o déficit do trabalho
vista em arranjos descritos como flexíveis, contingentes decente desencadeia reflexos negativos para a(o) tra-
(por demanda), trabalho intermitente e similares. Um balhadora(or) que se vê obrigado, por necessidade e
segundo atributo que diferencia o trabalho precário por um contexto propício, a laborar em condições
é a insegurança econômica dele derivada, tendo em de insegurança física e psicológica e de elevada vul-
vista o baixo salário resultante do seu exercício, como nerabilidade, o que é condizente com a descrição de
também a falta de acesso da(o) trabalhadora(or) a be- trabalho precário (Santilli et al., 2021). Ao ser levado
nefícios que trazem vantagens de natureza financeira a atuar sob essas condições, abrem-se as portas para
(plano ou seguro de saúde, por exemplo). a erosão do bem-estar físico e psicológico do indiví-
Um terceiro ponto abordado para marcar as dife- duo, o que torna ainda mais saliente o lado nocivo
renças do trabalho precário diz respeito ao limitado da ocorrência do trabalho precário no mundo do
poder e controle da(o) trabalhadora(or), usualmente trabalho e na sociedade. A(O) leitora(or) interessado
derivado da ausência de vinculação coletiva entre em adentar em uma discussão mais detalhada sobre
das(os) trabalhadoras(es) que lhes permita barganhar o trabalho decente e o exercício da Psicologia deve
melhores condições de trabalho. Por outro lado, pode fazer a leitura do Capítulo 18 desta obra, em que esse
se manifestar na inviabilização de acesso do trabalha- aspecto é abordado.
dor a centros ou canais de proteção ou denúncia, ainda Com relação à avaliação ou mensuração do traba-
dentro da organização. Em quarto lugar, os autores lho precário, essa pode abordar dimensões objetivas
apontam a falta de proteção e de preservação dos di- que mostram se tratar de uma atuação em condições
reitos da(o) trabalhadora(or). Ainda que existam leis aderentes às descritas, como ocorre, por exemplo, ao

119
II. Condições de Trabalho

se constatar a presença de um trabalho temporário de Figura 1: Eixos que estruturam a discussão sobre
curta duração, que se renova periodicamente, mas que trabalho precário
não dá à(ao) trabalhadora(or) acesso aos benefícios de
uma contratação sem tempo definido. Por outro lado,
estão as condições subjetivas que também podem ser
acessadas. Para tanto, a(o) trabalhadora(or) é chamado
a opinar e descrever a sua experiência pessoal de tra-
Sindicalização Rendimentos
balhar nas condições descritas como precárias (Allen
et al., 2021). O aspecto enfatizado nesta abordagem
é a vivência da(o) trabalhadora(or). Isso não significa Número de
Trabalhos fora vínculos de
que sejam as condições objetivas ou as subjetivas mais da Psicologia trabalhos e
ou menos importantes, mas aponta-se a pertinên- carga horária
cia de atentar tanto para os atributos concretos do
trabalho, como dar espaço para o relato da vivência
única e particular da(o) trabalhadora(or) submetido
a essas condições. Auto percepção de precariedade do trabalho
Em capítulos anteriores (principalmente os
Capítulos 9, 10 e 11), tivemos a oportunidade de Rendimentos obtidos com o trabalho
analisar diversos aspectos da inserção da(o) psicólo- No Capítulo 9 tivemos o acesso aos dados sobre
ga(o) no mercado de trabalho (emprego, desemprego, rendimentos obtidos, oportunidade em que consta-
rendimentos, número de vínculos de trabalho, carga tamos que parte importante da categoria combina
horária, trabalhos dentro e fora da Psicologia). No vários trabalhos, dentro e fora da Psicologia, o que
presente capítulo, vamos retomar tais informações faz com que o rendimento total seja ampliado. Em
para identificarmos em que nível o processo de pre- síntese, os dados sobre renda estão resumidos na
carização de trabalho que atinge todas(os) as(os) Figura 2.
trabalhadoras(es), também se manifesta no exercício Os dados expressos na Figura 2 mostram que
profissional da Psicologia. quase 60% da categoria recebem dos seus trabalhos
Assim, a partir das descrições teóricas e contextuais em Psicologia entre 1 e 6 salários mínimos, entre os
antes apontadas, a Figura 1 sintetiza os principais quais 26,8% não ultrapassam três salários mínimos.
eixos de análises que serão retomadas em segmentos Também não é desprezível o percentual de 7,4% que
específicos desse capítulo para desenhar um mapa que recebe até um salário mínimo. Em parte, isso explica
revele em que nível a precariedade faz parte ou não da que trabalhos fora da Psicologia são buscados como
realidade de trabalho das(os) profissionais da Psicologia. estratégia para complementação de renda. Tais traba-
São, assim, retomados os dados sobre emprego/ lhos, como se vê na Figura 1, na sua maioria (51%)
desemprego, rendimentos, número de trabalhos propiciam rendimentos até três salários mínimos, o
dentro e fora da Psicologia e dados sobre o processo que faz, proporcionalmente, diminuir o número de
de sindicalização. Além de tais dados, o CensoPsi in- profissionais cuja renda total se situa nos estratos
vestigou como a(o) psicóloga(o) avalia a sua condição mais baixos da distribuição de renda. É verdade que
de trabalho em termos de alguns indicadores que trabalhos fora da Psicologia são exercidos também
o caracterizariam como precário. É o que estamos, por profissionais com rendimentos superiores, o que
na Figura 1, denominando de “autopercepção de também implica a ampliação da renda naqueles estra-
precariedade do trabalho”. tos mais elevados (complementando as duas rendas,

120
II. Condições de Trabalho

Figura 2: Percentual de profissionais de Psicologia por faixas de rendimentos e trabalho na Psicologia ou fora do campo

De De De De
Até Mais que
R$1101,00 a R$3301,00 e R$6601,00 a R$9901,00 a
R$1100,00 R$13200,00
R$3300,00 R$6600,00 R$9900,00 R$13200,00
(Até 1sm) (>12sm)
(1 a 3sm) (3-6 sm) (6 - 9 sm) (9-12 sm)
Renda de trabalhos em
7,4% 26,8% 32,5% 15,2% 9,8% 8,3%
Psicologia (n-13.037)
Renda de trabalhos fora
20,9% 34,2% 24,7% 9,7% 6,3% 4,2%
da Psicologia (N=4.137)
Renda total (n-16.070) 5,3% 26,3% 33,6% 15,9% 10,1% 8,9%

19% das(os) profissionais ganham acima de nove profissionais, têm rendimentos elevados (menos
salários mínimos por mês). Outro aspecto importante de 8% nas duas faixas mais elevadas de renda).
a registrar é que há um conjunto de profissionais cuja A combinação de trabalhos em Psicologia e fora
renda fora da Psicologia é a única renda que possui, dela diminui o contingente de profissionais nas
já que não atuam como psicóloga(o). duas faixas mais baixas e aumenta nas duas faixas
Nesse sentido é importante examinarmos os resul- mais elevadas, mostrando que nesses casos o tra-
tados que mostram os rendimentos por condição de balho fora é certamente uma complementação de
inserção ou não no campo profissional da Psicologia. renda. Assim, pode-se afirmar que estar fora da
Os dados encontram-se na Figura 3. Psicologia e combinar Psicologia com atuações
Os dados apontam que a maioria das(os) que, fora dela podem ser tomados como indicador de
embora graduadas(os) em Psicologia e inscritas(os) condições mais precárias do exercício profissional.
no sistema Conselho (o que as(os) habilita para o Por outro lado, aqueles que atuam exclusivamente
exercício profissional), estão com trabalhos fora do na Psicologia apresentam percentual maior nas
nosso campo profissional possuem rendimentos faixas mais altas, podendo indicar que não há
bem baixos (2/3 com renda até 3 salários míni- necessidade de complementação fora da área e que
mos). É reduzido o percentual daquelas(es) que, essa inserção ocorre como forma de complementar
atuando fora da Psicologia, em outros campos o rendimento.

Figura 3: Percentual de profissionais de Psicologia por faixas de rendimentos e condição de trabalho

Até De R$1101,00 De R$3301,00 De R$6601,00 De R$9901,00 Mais que


R$1100,00 a R$3300,00 e R$6600,00 a R$9900,00 a R$13200,00 R$13200,00
(Até 1sm) (1 a 3sm) (3-6 sm) (6 - 9 sm) (9-12 sm) (>12sm)
Trabalha fora da
26,5% 36,1% 21,9% 7,7% 3,9% 3,9%
Psicologia (n-155)
Trabalha em
Psicologia e 16,1% 33,7% 26,4% 10,9% 7,1% 5,6%
fora (n=2.658)
Trabalha apenas
em Psicologia 4,9% 24,9% 34,3% 16,4% 10,5% 9,0%
[n=10.224)

121
II. Condições de Trabalho

Todavia, para tomar a dimensão rendimento complementação da renda. Isso seria compreensível
como base para a análise da precarização do trabalho apenas nos casos em que há o exercício simultâ-
em Psicologia, resolvemos dividir as(os) partici- neo de duas profissões, como se verifica em parte
pantes do CensoPsi entre os que recebem menos e desse grupo.
mais do que o piso salarial que está sendo proposto Praticamente a metade das(os) nossas(os) pro-
pelo Projeto de Lei nº 2.079/2019, que tramita no fissionais estão recebendo abaixo do piso, ou seja,
Congresso Nacional e que estabelece um piso salarial menos do que 4,23 salários mínimos. Quem são e
de R$ 4.650,00. Em termos do salário mínimo vi- onde se encontram as(os) psicólogas(os) inseridos
gente em 2021 (quando os dados do CensoPsi foram nesse grupo e que poderíamos, na dimensão de rendi-
coletados), isso equivale a 4,23 salários mínimos.3 mentos, afirmar que vivenciam condições precárias de
A Figura 4 apresenta o percentual de profissio- trabalho? Para traçarmos esse perfil, vamos trabalhar
nais que estão acima e abaixo do piso, considerando com três faixas de rendimento: a primeira reunindo
os rendimentos que advêm da Psicologia e a sua as duas faixas de rendimento mais baixas que atinge
renda total. até 3 salários mínimos; a segunda, mantendo a faixa
entre 3 a 6 salários mínimos que significa valores
Figura 4: Distribuição do percentual de psicólogas(os) com em torno do piso salarial desejado; e finalmente a
rendimentos abaixo e acima do piso salarial proposto pelo PL terceira, com as três faixas de renda mais elevadas
nº 2.070/2019 (acima de 6 salários mínimos).
A Figura 5 apresenta o perfil desses três estratos
de renda da categoria, apontando que segmentos se
diferenciam e cada um deles.
40,1%
50,5% O que os dados evidenciam: quase metade (40,8%)
das profissionais nordestinas encontram-se numa fai-
xa de trabalho precário (até três salários mínimos).
Nessa faixa estão, também, aquelas(es) nos estágios
59,9% iniciais de carreira; temos aí mais autônomas(os) do
49,5% que assalariadas(os), mais quem trabalha no terceiro
setor ou na iniciativa privada do que no setor públi-
co. Proporcionalmente atuam em maior proporção
Renda: Psicologia (%) Renda Total (%) na clínica e na social. Em oposição, temos quatro
áreas em que a maior proporção de profissionais
Abaixo do Piso proposto(R$4.650.00)
está nas faixas mais elevadas de renda (esses são
Acima do Piso proposto (R$4.650.00) maioria entre as(os) que atuam na docência e na
área jurídica). Estágios mais avançados de carreira
Vamos tomar para reflexão apenas a renda que também colocam a(o) profissional na condição de
advém dos trabalhos em Psicologia, já que não seria um trabalho digno em termos de remuneração. Tais
esperado que grande contingente de psicólogas(os) profissionais se encontram em maior proporção nas
tivesse que buscar trabalhos fora com o objetivo de regiões Centro-Oeste e Sudeste.

3 No Congresso Nacional tramitam dois Projetos de Lei que fixam piso salarial para profissionais de Psicologia. O PL nº 2.079/2019,
de autoria do Mauro Nazif – PSB/RO, fixa o valor mais elevado de R$ 4.650,00, aqui tomado como referência para a nossa análise.
O segundo é o PL nº 1.015/2015, de autoria do Dr. Jorge Silva (PROS-ES), que altera a Lei nº 4.119, de 27 de agosto de 1962, e fixa
um piso salarial de R$ 3.600,00.

122
II. Condições de Trabalho

Figura 5: Quadro síntese dos cruzamentos entre rendimentos em relação ao


piso salarial proposto pelo PL nº 2.070/2019, por segmentos da categoria

Abaixo do piso (até 3 s.M) Na faixa do piso (de 3 a 6 s.M) Acima do piso (mais de 6 s.M)
Centro-Oeste (39,5%)
Região do país Nordeste (40,8%) Sul (36,7%)
Sudeste (36,2%)
Até 2 anos (71,2%) De 6 a 25 anos (38,5%)
Estágios de carreira De 6 a 25 anos (36,3%)
De 3 a 5 anos (53.2%) Mais de 25 anos (55,8%)
Instituição da Privadas (37.1%) Privadas (32,5%) Públicas (40,9%)
formação Públicas (26.6%) públicas (32.5%) privadas (30.3%)
Assalariados (23,7%) Assalariados (36,6%) Assalariados (39,6%)
Vinculo de trabalho
autônomos (36,1%) autônomos (31.3%) autônomos (32,6%)
Serviço público (26,8%) Servico público (37.0%) Serviço público (36,1%)
Setor de inserção inciativa privada (33,9%) Inciativa privada (31,6%) inciativa privada (34,5%)
terceiro setor (37,6%) terceiro setor (35,2%) terceiro setor (27.2%)
Número médio
2,36 2,53 2,85
de trabalhos
Docência (57,9%) jurídica
Social (41,1%) hospitalar
(55,2%) neuropsicologia
Áreas de atuação Clínica (36,9%) social (35,4%) (40,5%) saúde (38,6%)
(46,4%) organizacional
escolar (38,4%)
&trabalho (41,5%)

Esse quadro traçado a partir apenas dos rendi- Carga horária e indícios de precarização
mentos auferidos como psicóloga(o) nos mostra A Figura 6 sintetiza os dados da carga horária
uma categoria profissional que se diversifica entre de trabalho, incluindo aquelas(es) que combinam
um contingente maior de pessoas que obtém re- trabalhos em Psicologia e fora da Psicologia e sua
muneração digna e compatível com o seu nível de relação com rendimentos obtidos e número de tra-
formação (mesmo considerando a desvalorização do balhos que desenvolve.
fator trabalho na nossa sociedade) e um contingente, Dois segmentos são aqui destacados para discussão.
não desprezível, de psicólogas(os) que vivem situação Aquele contingente de 15,7% de profissionais que
de precariedade do trabalho. têm carga horária reduzida (até no máximo 20 horas
Também, para compreender as condições pro- semanais) que pode significar um subaproveitamento
fissionais da(o) psicóloga(o), em relação à renda, é da capacidade laborativa de muitos delas(es) em que
importante destacar que, na pesquisa realizada em esse nível de dedicação não é uma escolha pessoal
2010, foi constatado que 60% das(os) profissionais em termos de demandas de outras esferas da vida.
recebiam até 9 salários mínimos (Heloani et al., O que se verifica é que, em média esse grupo precisa
2010). Fazendo uma comparação desses dados com ter até 1,9 trabalhos para receber uma renda total
os da edição atual da pesquisa, observa-se que porcen- de pouco menos de 3 salários mínimos. Por outro
tagem similar corresponde ao grupo que recebe até lado, temos o grupo de 18% de profissionais que
6 salários mínimos (veja figura 6). Assim, os dados dedicam ao trabalho uma carga horária semanal su-
evidenciam que em pouco mais de dez anos houve perior a 50 horas, numa clara evidência de sobrecarga
recuo nos ganhos salariais da profissão. que pode implicar um reduzido equilíbrio entre as

123
II. Condições de Trabalho

Figura 6: Dados sobre carga horária e perfil da categoria por número de trabalhos e rendimentos

Número médio de Trabalhos: 2,24


Renda média de Trabalhos da Psicologia: R$5.633,86
Renda média de trabalhos fora Psicologia: R$4.041,62
Renda Total: R$5.781.07

Número médio de Trabalhos: 3,37


Renda média de Trabalhos da Psicologia: R$7.187,38
mais de 50h Renda média de trabalhos fora Psicologia: R$4.040,35
18,0% Renda Total: R$7.715.64

Número médio de Trabalhos: 1,9


Renda média de Trabalhos da Psicologia: R$3.024,51
36 a 50h 21 a 35h 21 a 35h Renda média de trabalhos fora Psicologia: R$2.740,31
Renda Total: R$3.154,96
41,5% 24,8% 24,8%

Número médio de Trabalhos: 2.4


Renda média de Trabalhos da Psicologia: R$6.575,62
Renda média de trabalhos fora Psicologia: R$4.765,31
Renda Total: R$6.814,81

diferentes esferas da vida pessoal. Esse grupo, com entre as(os) autônomas(os) a carga horária semanal
essa elevada carga de trabalho, tem em média 3,37 média era de 14 horas (Macedo et al., 2010). Assim,
trabalhos para obter uma renda total de sete salários diversidade de quadros podia ser vista, contudo
mínimos em média. menos horas não evidenciavam melhores condições
A necessidade de ampliar o número de trabalhos de trabalho. Portanto, os achados obtidos na edição
para obter uma renda mais elevada fica também evi- atual da pesquisa mostram que em termos de carga
dente quando se consideram os casos que estão nas horária, a situação pode ser confortável para um
faixas intermediárias de tempo semanal de trabalho. grupo profissional, mas essa não é a realidade que
Os dois extremos destacados sinalizam, portanto, caracteriza a profissão como um todo.
condições de trabalho que são adversas e indicadoras
de precariedade. Trabalhos fora da Psicologia como
A respeito da carga horaria, edição anterior da dimensão de precarização do trabalho
pesquisa revelava que ao redor de 35% de profissio- A terceira vertente para a busca de possíveis in-
nais do setor púbico e privado trabalhavam 40 horas dícios de precarização do trabalho em Psicologia
semanais. Contudo diferenças relevantes apareciam ao concentra-se na combinação de trabalhos que não
comparar as porcentagens daqueles que trabalhavam exigem a graduação em Psicologia, ou seja, apesar do
30 horas (30,7% – serviço público; 17,7% – setor diploma e da inscrição no sistema Conselho, há um
privado). Também nessa edição uma elevada porcen- contingente de profissionais que mantém trabalhos
tagem de profissionais relatou ter uma carga de até 20 fora do campo. Parte deles se deve ao fato de ter uma
horas semanais (terceiro setor) e já era apontado que segunda ou até terceira graduação e, portanto, ter
o estudo da profissão feito em 1988 sinalizava que outro curso de nível superior (que pode, inclusive,

124
II. Condições de Trabalho

anteceder a formação em Psicologia). Outra parte, O quarto grupo, com 85 citações, merece destaque
no entanto, se deve a ter inserções em atividades de por ser atividades de gestão de recursos humanos ou
trabalho que não requerem formação universitária. administração de pessoal. Embora seja uma área clás-
Os resultados podem ser vistos na Figura 7. sica de atuação da(o) psicóloga(o), chama a atenção
Como visto na Figura 7, 17,5% das(os) respon- esse número de citações como um trabalho fora da
dentes do CensoPsi combinam algum trabalho em Psicologia. Em seguida vêm as citações de ocupar
Psicologia com outro ou outros por elas(es) conside- cargos de gerência ou direção de unidades, depar-
rado como fora da Psicologia. Temos, ainda, 5,3% tamentos, setores que não envolvem a prestação de
de respondentes que só atuam fora da Psicologia. Os serviços em Psicologia. Foram diretorias financeiras,
resultados do exame dos trabalhos descritos como administrativas, de projetos, de unidades escolares que
fora da Psicologia estão sumarizados na nuvem de totalizaram 84 citações. Com números bem próximos,
palavra em que alguns grupos de trabalho se destacam. aparecem um conjunto de trabalhos técnicos que exi-
O grupo mais numeroso foi o de trabalhos “admi- gem apenas o ensino médio (83 citações, tais como:
nistrativos” (auxiliares administrativos, funcionários técnico em contabilidade, técnico em enfermagem,
públicos, almoxarife, auxiliar de escritórios etc.), técnico em saúde, entre outros) e outras profissões de
totalizando 250 citações. Consistem de atividades nível superior (82 citações, incluindo administração,
correlatas o grupo que atua como recepcionistas ou engenharia de segurança, pedagogo, sanitarista, advo-
como secretárias, que aparecem com citações menos gado). Vale também incluir nesse grupo, os trabalhos
frequentes, respectivamente 18 e 26. de assessoria, citados por 15 profissionais.
Em seguida, vêm as atividades docentes ou de en- Em um campo distinto, encontramos 43 cita-
sino, com 146 citações incluindo: bancas, ensino no ções de trabalhos artísticos (poeta, atriz, escritores)
primeiro e segundo grau e alguns casos de ensino em ou de trabalhos como artesãos. De alguma forma
outros cursos que não de Psicologia. O terceiro grupo ligados a um tipo de artesanato, há um conjunto
mais numeroso, com 117 citações, envolve atividades de 22 trabalhos incluídos na categoria “culinária”
de venda, comércio, atendimentos, aí incluídos caixas, (cozinheira, trabalho em cafés, confeitaria, fábrica
vendedoras de lojas, balconistas, atendentes em geral. de doces e bolos).

Figura 7: Trabalhos fora da Psicologia (nuvem de palavras) para as(os) psicólogas(os) que
trabalham fora ou combinam trabalhos fora e em Psicologia

01/10/2022 22:12 Word Art 355

Trabalha na
Psicologia e em
outros campos
17,5%
da Psicologia 5,3%
Trabalha fora

Trabalha apenas na Psicologia Não trabalha


64,9% atualmente
12,3%

125
II. Condições de Trabalho

Há, embora com frequência mais reduzida, a cita- por regiões do país. Quando se examinam os estágios
ção de vários trabalhos que mostram uma diversidade de carreira, as(os) psicólogas(os) em início de carreira
de inserções ocupacionais, muitas das quais podem apresentam os menores índices de sindicalização
ser consideradas precárias considerando o nível de (em torno de 95% não é sindicalizado). Outro dado
formação superior obtido na Psicologia. Além de importante é a pulverização dos sindicatos a que se
auxiliares de cozinha, temos motoristas de aplicativos vinculam. As(Os) docentes parecem ser as(os) mais
e taxi (10 citações), trabalhos categorizados como sindicalizadas(os), assim como aquelas(es) que atuam
“beleza” (cabelereira, consultora de beleza, consultora no serviço público nas mais diferentes esferas. O
da Natura, instrutora de manicure etc.) que totali- quantitativo de profissionais vinculados a sindicatos
zaram 20 citações. Há também trabalhos incluídos de Psicologia é significativamente menor quando
na categoria “cuidador/a” (cuidar de idosos e babá comparado com a grande quantidade de sindicatos
predominam nessa categoria que teve 25 citações). que são citados.
Finalmente existem 16 citações de trabalho classi- Em relação à sindicalização, buscou-se verificar
ficados como de “baixa qualificação”, que incluem: a associação com a carga horária e com a renda ob-
encadernação, faxineiro, mensageiros, pedreiro, ope- tida. Quanto à renda, os resultados apresentados na
rador de fotocopiadora, trabalho braçal, entre outros. Figura 8 se referem aos rendimentos obtidos com o
São casos residuais, mas que indicam dificuldades trabalho em Psicologia.
de inserção no campo da Psicologia, o que leva tais Os achados representados na Figura 8 mostram que,
profissionais a se manterem nessas atividades. apesar do reduzido percentual de profissionais sindi-
Em síntese, o exame das atividades fora da calizadas(os), esse percentual é bem mais expressivo (e
Psicologia revela uma quantidade de casos que, em- superior à média na amostra total de 17,8%) nas faixas
bora não seja expressivo no conjunto da amostra, de renda mais elevadas, que tingem 28,9% na faixa que
têm inserção muito precária no campo da Psicologia. vai de 9 a 12 salários mínimos. Nas duas outras faixas
mais elevadas, esse percentual se mantém próximo e
Sindicalização: o poder para reivindicar superior a 25%. Por outro lado, é bem mais reduzida
melhoria nas condições de trabalho a sindicalização entre aqueles que se encontram nas
Um quarto aspecto focado nas análises realizadas duas faixas mais baixas de rendimento (apenas 8,1%
diz respeito à filiação sindical, pois, desde uma pers- entre quem ganha até 1 salário mínimo e 10,1% entre
pectiva teórica, a ausência da possibilidade de exercí- os que ganham entre 1 e 3 salários mínimos).
cio desse direito se constitui em uma das evidências Como destacado, esses estratos mais elevados de
de condições precárias de trabalho. Todavia, cabe renda se encontram entre profissionais da Psicologia
relembrar que a filiação sindical, no Brasil, constitui inseridas(os) na gestão pública, especialmente na
um ato voluntário. Essa análise foi operacionalizada condição de docentes de instituições universitárias
indagando às(aos) participantes do censo quanto à ou em funções nos poderes Legislativo e Judiciário.
sua vinculação sindical. Há também um expressivo contingente de quem
Os resultados desse questionamento mostram que atua na clínica como autônomas(os), mas que não
a grande maioria das(os) respondentes afirma não são sindicalizadas(os).
manter vinculação sindical, pois 16.892 (83,6%) de A análise de natureza similar foi realizada com
um total de 20.307 participantes declarou não estar relação à quantidade de horas semanais trabalha-
filiado a nenhuma entidade sindical, apenas 15,7% das. Novamente os achados mostram presença de
revelaram manter esse tipo de vinculação. Esse percen- diferenças estatisticamente significativas, as quais
tual de sindicalização não se altera significativamente relevam maior quantidade de horas semanais de

126
II. Condições de Trabalho

Figura 8: Comparação de faixas salariais entre trabalho para o grupo com filiação sindical (Média
sindicalizadas(os) e não sindicalizadas(os) 41,73 horas; dp = 14,41), se comparado ao grupo
sem essa filiação (Média 37,36 horas; dp = 16,36).
Também nesta comparação, podem ser observadas
Até discrepâncias relevantes em cada grupo, razão pela
R$1.100,00 8,1% 91,9% qual uma análise segmentada é necessária, uma vez
(Até 1sm)
que ela contribui à melhor compreensão da distri-
buição desses dados, como mostra a figura que segue.
De
R$1.101,00 Figura 9: Comparação de carga horária entre
a 10,1% 89,9% sindicalizadas(os) e não sindicalizadas(os)
R$3300.00
(1 a 3sm)
8,5%
15,1% 17,4%
De 20,9% 20,5%
R$3.301,00
e 17% 83%
R$6.600,00
(3-6 sm)

De
R$6.601,00
a 25,4% 74,6%
R$9.900,00 91,5% 84,9% 79,1% 79,5% 82,6%
(6 -9 sm) Até 21 a 36 a Mais Total
20h 35h 50h de 50h

De Abaixo do Piso proposto(R$4.650.00)


R$9.901,00
a 28,9% 71,1% Acima do Piso proposto (R$4.650.00)
R$13200.00
(9-12 sm)
Quando se comparam as faixas em que a carga
horária semanal de trabalho foi categorizada, verifi-
Mais que ca-se que os percentuais de sindicalização são bem
R$13.200,00 27,7% 72,3%
(>12sm) mais expressivos, superando a média da amostra
total, entre aquelas(es) das duas faixas mais elevadas
(entre 36 e 50 horas semanais atinge 20,9% e 20,5%
entre os que trabalham mais de 50 horas semanais).
Em oposição, a sindicalização envolve apenas 8,5%
TOTAL 17,8% 82,2%
daqueles que trabalham até 20 horas.
Em síntese, os dados sobre rendimentos e cargas
Não Sindicalizado Sindicalizado horárias semanais de trabalho mostram que o seg-
mento da profissão que é sindicalizado encontra-se
em uma situação de empregabilidade mais satisfatória
– quer por ter uma carga horária completa quer por
auferir rendimentos mais elevados. Há, portanto,

127
II. Condições de Trabalho

um contingente muito expressivo de profissionais da Figura 10: Percentual de profissionais por níveis em que se
Psicologia que, por sua condição de trabalho ou pelo sentem inseguras(os) frente a cada dimensão de insegurança
tipo de vínculo de trabalho, não encontra o suporte no trabalho
oferecido pelos sindicatos profissionais.

6,6%
Autopercepção da precariedade
do trabalho em psicologia Manutenção de 15,2%
Dando continuidade à análise do trabalho da(o) meu vínculo de
trabalho/clientes 55,4%
psicóloga(o), foi abordada, de maneira específica,
a percepção das(os) profissionais quanto ao grau 22,7%
de precariedade do seu trabalho. Para tanto, as(os)
participantes do CensoPsi 2022 responderam a
um conjunto de quatro perguntas em que foram
Minhas 5,4%
questionados a respeito do quanto o trabalho que condições de
desempenham as(os) faz sentir-se inseguras(os). Os exercício 13,8%
aspectos focados foram relativos à insegurança sobre profissional
(riscos de 50,4%
manutenção do vínculo de trabalho (ou manutenção acidente e/ou
dos clientes), riscos de acidentes, possibilidade de adoecimento) 30,4%
defesa dos direitos como trabalhadoras(es), e exercí-
cio das habilidades e aplicação dos conhecimentos.
As respostas foram dadas em uma escala de quatro
16,9%
pontos que ia de sempre (1) a nunca (4). Assim, Possibilidade de
quanto maior o valor relatado, menor a percepção defesa de meus 24,8%
direitos como
de precariedade. Os resultados obtidos frente a esses categoria 41,3%
quatro itens podem ser vistos na Figura 10. profissional
Nos quatro indicadores utilizados para se avaliar 17%
a percepção de insegurança no trabalho, pode-se
perceber que a maioria das(os) psicólogas(os) se
sentem apenas algumas vezes insegura(o) ou nunca
2,1%
se sentem insegura(o). Os percentuais nessas duas Possibilidade de
exercer minhas
categorias que indicam menores níveis de insegurança 7,4%
habilidades e
se aproximam ou superam os 80%, com exceção aplicar meus
conhecimentos 46,6%
do item que avalia o quanto se sente insegura para profissionais
defender seus interesses como categoria profissional. 43,9%
Frente a esse item, é bem maior o percentual dos que
se sentem sempre inseguras(os) (16%), assim como Sempre inseguros/as/es Muitas vezes inseguros/as/es

também é o mais elevado percentual entre os quatro Algumas vezes inseguros/as/es Nunca inseguros/as/es

itens daquelas que se sentem muitas vezes inseguras.


A possibilidade de exercer suas habilidades e aplicar tegoria, possivelmente pelo fato de se sentir isolada(o)
seus conhecimentos é a dimensão que gera menor in- ou em pequeno número nos seus locais de trabalho;
segurança. Em oposição o que gera maior sentimento