Fortalecendo a Democracia e Anistia
Fortalecendo a Democracia e Anistia
ANTÔNIO FLORES NICOLATTI * ANA AFRANIO MARCILIANO AZEVEDO * ALANIR CARDOSO * ALDO SILVA ARANTES * ALÍPIO CRISTIANO DE FREITAS * AMARO ALEXANDRINO DA ROCHA * AMÉRICO ANTÔNIO FLORES NICOLATTI * ANA MARIA RIBAS BEZZE *
MARIA RIBAS BEZZE * ANA MARIA SANTOS ROCHA * ANA WILMA OLIVEIRA MORAES * ANGELA TELMA OLIVEIRA LUCENA * ANTONIA MARA VIEIRA LOGUERCIO * ANTONIO CARLOS FON * ANTONIO ANA MARIA SANTOS ROCHA * ANA WILMA OLIVEIRA MORAES * ANGELA TELMA OLIVEIRA LUCENA * ANTONIA MARA VIEIRA LOGUERCIO * ANTONIO CARLOS FON * ANTONIO CECHIN * ANTÔNIO JOSÉ MESSIAS * ANTÔNIO
CECHIN * ANTÔNIO JOSÉ MESSIAS * ANTÔNIO APOITIA NETTO * ANTONIO RIBEIRO PENNA * APARECIDA ALVES DOS SANTOS * APOLÔNIO DE CARVALHO * ARI CÂNDIDO FERNANDES * ARMANDO APOITIA NETTO * ANTONIO RIBEIRO PENNA * APARECIDA ALVES DOS SANTOS * APOLÔNIO DE CARVALHO * ARI CÂNDIDO FERNANDES * ARMANDO BORTOLO * ATON FON FILHO * AUGUSTO BOAL * AURÉLIO PERES *
BORTOLO * ATON FON FILHO * AUGUSTO BOAL * AURÉLIO PERES * BEATRIZ ARRUDA * BELARMINO BARBOSA SIQUEIRA * BENITO PEREIRA DAMASCENO * BERGSON GURJÃO FARIAS * BOLÍVAR BEATRIZ ARRUDA * BELARMINO BARBOSA SIQUEIRA * BENITO PEREIRA DAMASCENO * BERGSON GURJÃO FARIAS * BOLÍVAR NASCIMENTO PRESTES * CAIO BOUCINHAS * CARLOS AUGUSTO MARIGUELLA * CARLOS
NASCIMENTO PRESTES * CAIO BOUCINHAS * CARLOS AUGUSTO MARIGUELLA * CARLOS EUGÊNIO SARMENTO COÊLHO DA PAZ * CARLOS GUILHERME DE M. PENAFIEL * CARLOS LAMARCA * CARLOS EUGÊNIO SARMENTO COÊLHO DA PAZ * CARLOS GUILHERME DE M. PENAFIEL * CARLOS LAMARCA * CARLOS LICHTISZTEJN * CECÍLIA VIEIRA FERNANDES * CELESTE FON * CELSO ANTUNES HORTA * CHICO MENDES * CLARA
LICHTISZTEJN * CECÍLIA VIEIRA FERNANDES * CELESTE FON * CELSO ANTUNES HORTA * CHICO MENDES * CLARA CHARF * CLEY DE BARROS LOYOLA * CRISTINA MARIA BUARQUE * DANIEL AARÃO CHARF * CLEY DE BARROS LOYOLA * CRISTINA MARIA BUARQUE * DANIEL AARÃO REIS FILHO * DARCI GIL DE OLIVEIRA BOSCHIERO * DARCY RODRIGUES DE FREITAS * DAVID CAPISTRANO * DENISE FRAENKEL KOSE *
nº 9 * Janeiro/Junho 2013
REIS FILHO * DARCI GIL DE OLIVEIRA BOSCHIERO * DARCY RODRIGUES DE FREITAS * DAVID CAPISTRANO * DENISE FRAENKEL KOSE * DENISE OLIVEIRA LUCENA * DENIZE FONTELLA GOULART * DENISE OLIVEIRA LUCENA * DENIZE FONTELLA GOULART * DENIZE PERES CRISPIM * DEUSDANTE FERREIRA DE FREITAS * DIMAS FLORIANI * DINALVA OLIVEIRA TEIXEIRA * DOM MARCELO PINTO CARVALHEIRA * EDGARD
DENIZE PERES CRISPIM * DEUSDANTE FERREIRA DE FREITAS * DIMAS FLORIANI * DINALVA OLIVEIRA TEIXEIRA * DOM MARCELO PINTO CARVALHEIRA * EDGARD DE ALMEIDA MARTINS * EDSON DE ALMEIDA MARTINS * EDSON MENEZES DA SILVA * EDUARDA CRISPIM LEITE * EDUARDO DIAS CAMPOS SOBRINHO * ELIA MENEZES ROLA * ELIANA BELLINI ROLEMBERG * ELIESER VAZ COELHO * ELÍRIO BRANCO DE
MENEZES DA SILVA * EDUARDA CRISPIM LEITE * EDUARDO DIAS CAMPOS SOBRINHO * ELIA MENEZES ROLA * ELIANA BELLINI ROLEMBERG * ELIESER VAZ COELHO * ELÍRIO BRANCO DE CAMARGO CAMARGO * ELISEU GABRIEL DE PIERI * ELIZABETH TEIXEIRA * ELZA MONNERAT * EMÍLIO RUBENS CHASSEREUX * EPAMINONDAS JACOME RODRIGUES * ESTRELLA DALVA BOHADANA * EULER FERREIRA DA SILVA * EULER
* ELISEU GABRIEL DE PIERI * ELIZABETH TEIXEIRA * ELZA MONNERAT * EMÍLIO RUBENS CHASSEREUX * EPAMINONDAS JACOME RODRIGUES * ESTRELLA DALVA BOHADANA * EULER FERREIRA DA IVO VIEIRA * FÉLIX AUGUSTO DE ATHAYDE * FLÁVIO KOUTZII * FRANCISCO DE ASSIS LEMOS * FRANCISCO DERLI * FRANCISCO MARTINELLI * FRANCISCO PINTO MONTENEGRO * FRANCISCO ROBERTO DALLI'IGNA *
SILVA * EULER IVO VIEIRA * FÉLIX AUGUSTO DE ATHAYDE * FLÁVIO KOUTZII * FRANCISCO DE ASSIS LEMOS * FRANCISCO DERLI * FRANCISCO MARTINELLI * FRANCISCO PINTO MONTENEGRO * FREDERICK BIRTEN MORRIS * FREI FERNANDO * FREI JOÃO * GEORGE DE BARROS CABRAL * GERMANA CORREA LIMA * GILDO SCALCO * GILNEY AMORIM VIANA * GLAUCO AUGUSTO DUQUE PORTO * HALUE
FRANCISCO ROBERTO DALLI'IGNA * FREDERICK BIRTEN MORRIS * FREI FERNANDO * FREI JOÃO * GEORGE DE BARROS CABRAL * GERMANA CORREA LIMA * GILDO SCALCO * GILNEY YA MAGYTI * HAMILTON PEREIRA DA SILVA * HELDER SUAREZ BEDENDO * HELENA SOARES MELO * HELENA SUMIKO HIRATA * HELENITA
AMORIM VIANA * GLAUCO AUGUSTO DUQUE PORTO * HALUE YA MAGYTI * HAMILTON PEREIRA DA SILVA * HELDER SUAREZ BEDENDO * HELENA SOARES MELO * HELENA SUMIKO HIRATA * HELENITA MATOS SIPAHI * HONESTINO GUIMARÃES * HORÁCIO MARTINS DE CARVALHO * HUDSON CUNHA * IARA XAVIER * IDIBAL PIVETTA
MATOS SIPAHI * HONESTINO GUIMARÃES * HORÁCIO MARTINS DE CARVALHO * HUDSON CUNHA * IARA XAVIER * IDIBAL PIVETTA * IGOR GRABOIS OLIMPIO * ILTO VIEIRA * INÁ MEIRELES DE SOUZA * IGOR GRABOIS OLIMPIO * ILTO VIEIRA * INÁ MEIRELES DE SOUZA * INES ETIENNE ROMEU * IRLES COUTINHO DE CARVALHO * ISOUDE
* INES ETIENNE ROMEU * IRLES COUTINHO DE CARVALHO * ISOUDE SOMMER * IVAN DE SOUZA ALVES * IVAN SEIXAS * IZABEL MARQUES TAVARES DA CUNHA * JANE VASCONCELOS DANTAS * SOMMER * IVAN DE SOUZA ALVES * IVAN SEIXAS * IZABEL MARQUES TAVARES DA CUNHA * JANE VASCONCELOS DANTAS * JEAN
JEAN MARC VON DER WEID * JEOVÁ FERREIRA * JESUS PAREDES SOTO * JOANA D’ARC BIZOTTO LOPES * JOANA D’ARC VIEIRA NETO * JOÃO AMAZONAS * JOÃO ARTHUR VIEIRA * JOÃO BATISTA MARC VON DER WEID * JEOVÁ FERREIRA * JESUS PAREDES SOTO * JOANA D’ARC BIZOTTO LOPES * JOANA D’ARC VIEIRA NETO *
FRANCO DRUMOND * JOÃO BELCHIOR MARQUES GOULART * JOÃO CARLOS ALMEIDA GRABOIS * JOÃO CHILE * JOÃO LUIZ SILVA FERREIRA * JOÃO MAURO BOSCHIERO * JOÃO RICARDO BESSA JOÃO AMAZONAS * JOÃO ARTHUR VIEIRA * JOÃO BATISTA FRANCO DRUMOND * JOÃO BELCHIOR MARQUES GOULART * JOÃO
FREIRE * JOÃO VICENTE FONTELLA GOULART * JOELSON CRISPIM * JOILSON SANTOS DE CARVALHO * JORGE RAIMUNDO NARRAS * JORGE SALDANHA DE ARAUJO * JOSAIL GABRIEL DE SALES * CARLOS ALMEIDA GRABOIS * JOÃO CHILE * JOÃO LUIZ SILVA FERREIRA * JOÃO MAURO BOSCHIERO * JOÃO RICARDO BESSA FREIRE *
JOSÉ ABADIA BUENO TELES * JOSÉ BURLE DE AGUIAR * JOSÉ CALISTRATO CARDOSO FILHO * JOSÉ CARLOS NOVAIS DA MATTA MACHADO * JOSÉ CELSO MARTINEZ * JOSÉ DALTRO DA SILVA * JOSÉ JOÃO VICENTE FONTELLA GOULART * JOELSON CRISPIM * JOILSON SANTOS DE CARVALHO * JORGE RAIMUNDO NARRAS *
MACHADO * JOSÉ MIGUEL MARTINS VELOSO * JOSÉ NOLETO * JOSÉ PORFIRIO DE SOUZA * JOSÉ ROGÉRIO LICKS * JOSÉ SERRA * JOSÉ TADEU CARNEIRO CUNHA * JOSÉ VELOSO * JÚLIO PRATA * JORGE SALDANHA DE ARAUJO * JOSAIL GABRIEL DE SALES * JOSÉ ABADIA BUENO TELES * JOSÉ BURLE DE AGUIAR * JOSÉ
JURACI MENDES DE OLIVEIRA * JURANDIR BEZERRA DE OLIVEIRA * LANGSTEIN DE ALMEIDA AMORIM * LAURINDO MARTINS JUNQUEIRA FILHO * LENIRA MARIA DE CARVALHO * LEONEL BRIZOLA CALISTRATO CARDOSO FILHO * JOSÉ CARLOS NOVAIS DA MATTA MACHADO * JOSÉ CELSO MARTINEZ * JOSÉ DALTRO DA SILVA * JOSÉ MACHADO * JOSÉ MIGUEL MARTINS VELOSO * JOSÉ NOLETO * JOSÉ PORFIRIO DE
* LETA VIEIRA DE SOUZA * LINCOLN RAMOS VIANA * LUIS CARLOS PRESTES * LUIZ DE GONZAGA TRAVASSOS DA ROSA * LUIZ FELIPE RATTON MASCARENHAS * LUIZ GONZAGA TRAVASSOS DA SOUZA * JOSÉ ROGÉRIO LICKS * JOSÉ SERRA * JOSÉ TADEU CARNEIRO CUNHA * JOSÉ VELOSO * JÚLIO PRATA * JURACI MENDES DE OLIVEIRA * JURANDIR BEZERRA DE OLIVEIRA * LANGSTEIN DE ALMEIDA AMORIM *
ROSA * MAGNÓLIA DE FIGUEIREDO CAVALCANTI * MANOEL CYRILLO DE OLIVEIRA NETTO * MANOEL MOSART MACHADO * MANOEL SERAFIM DOS ANJOS * MARCOS JOSÉ BURLE DE AGUIAR * MARIA LAURINDO MARTINS JUNQUEIRA FILHO * LENIRA MARIA DE CARVALHO * LEONEL BRIZOLA * LETA VIEIRA DE SOUZA * LINCOLN RAMOS VIANA * LUIS CARLOS PRESTES * LUIZ DE GONZAGA TRAVASSOS DA ROSA * LUIZ
ALICE ALBUQUERQUE SABOYA * MARIA DALCE RICAS * MARIA DAS DORES DA SILVA * MARIA DE FÁTIMA MENDES DA ROCHA * MARIA DO PILAR COSTA SANTOS * MARIA DO SOCORRO DE FELIPE RATTON MASCARENHAS * LUIZ GONZAGA TRAVASSOS DA ROSA * MAGNÓLIA DE FIGUEIREDO CAVALCANTI * MANOEL CYRILLO DE OLIVEIRA NETTO * MANOEL MOSART MACHADO * MANOEL SERAFIM DOS ANJOS
MAGALHÃES * MARIA EMÍLIA LISBOA PACHECO * MARIA FAUSTINO DE ALMEIDA AMARAL * MARIA IGNES DA COSTA D. E. BASTOS * MARIA JOSÉ RIOS P. DA S. LINDOSO * MARIA REGINA P. DA * MARCOS JOSÉ BURLE DE AGUIAR * MARIA ALICE ALBUQUERQUE SABOYA * MARIA DALCE RICAS * MARIA DAS DORES DA SILVA * MARIA DE FÁTIMA MENDES DA ROCHA * MARIA DO PILAR COSTA SANTOS * MARIA DO
SENNA FIGUEIREDO * MARIA TERESA GOULART * MARIJANE VIEIRA LISBOA * MARILIA DE CARVALHO GUIMARÃES * MARINA VIEIRA * MARIO COVAS * MÁRIO MAGALHÃES LOBO VIANA * MARIO SOCORRO DE MAGALHÃES * MARIA EMÍLIA LISBOA PACHECO * MARIA FAUSTINO DE ALMEIDA AMARAL * MARIA IGNES DA COSTA D. E. BASTOS * MARIA JOSÉ RIOS P. DA S. LINDOSO * MARIA REGINA P. DA SENNA
MIRANDA DE ALBUQUERQUE * MARISTELA VILLAR * MAURICE POLITI * MIGUEL ARRAES * MIGUEL DARCY DE OLIVEIRA * MIGUEL PRESSBURGER * NANCY MANGABEIRA UNGER * NARCISA BEATRIZ FIGUEIREDO * MARIA TERESA GOULART * MARIJANE VIEIRA LISBOA * MARILIA DE CARVALHO GUIMARÃES * MARINA VIEIRA * MARIO COVAS * MÁRIO MAGALHÃES LOBO VIANA * MARIO MIRANDA DE ALBUQUERQUE *
WHITAKER VERRI * NASAIDY DE ARAUJO BARRET * NAZAREH ANTONIA OLIVEIRA * NELSON CORDEIRO * NELSON REMY GILLET * NELSON RODRIGUES * NESTOR PEREIRA DA MOTA * NILMÁRIO DE MARISTELA VILLAR * MAURICE POLITI * MIGUEL ARRAES * MIGUEL DARCY DE OLIVEIRA * MIGUEL PRESSBURGER * NANCY MANGABEIRA UNGER * NARCISA BEATRIZ WHITAKER VERRI * NASAIDY DE ARAUJO BARRET *
MIRANDA * NILSON NOBRE DE ALMEIDA * OCTÁVIO MALTA * OLIVIA RANGEL JOFFILY * ORLANDO MARETI SOBRINHO * OSCAVU JOSÉ COELHO * PAULO FRATESCHI * PAULO FREIRE * PAULO NAZAREH ANTONIA OLIVEIRA * NELSON CORDEIRO * NELSON REMY GILLET * NELSON RODRIGUES * NESTOR PEREIRA DA MOTA * NILMÁRIO DE MIRANDA * NILSON NOBRE DE ALMEIDA * OCTÁVIO MALTA * OLIVIA RANGEL
SARACENI * PAULO WRIGHT * PEDRO DE CAMARGO * PERCY VARGAS * PERI DE ARAÚJO COTTA * PERLY CIPRIANO * PETER JOHN MCCARTHY * RAUL JORGE ANGLADA PONT * REGENIS BADING JOFFILY * ORLANDO MARETI SOBRINHO * OSCAVU JOSÉ COELHO * PAULO FRATESCHI * PAULO FREIRE * PAULO SARACENI * PAULO WRIGHT * PEDRO DE CAMARGO * PERCY VARGAS * PERI DE ARAÚJO COTTA * PERLY
PROCHMANN * RENATA FERRAZ GUERRA DE ANDRADE * REYNALDO JARDIM SILVEIRA * RICARDO DE MORAES MONTEIRO * ROBERTO FARIA MENDES * ROGÉRIO LUSTOSA * RÔMULO DANIEL CIPRIANO * PETER JOHN MCCARTHY * RAUL JORGE ANGLADA PONT * REGENIS BADING PROCHMANN * RENATA FERRAZ GUERRA DE ANDRADE * REYNALDO JARDIM SILVEIRA * RICARDO DE MORAES MONTEIRO *
BARRETO DE FARIAS * ROSE MARIE MURARO * ROSEMARY NOGUEIRA * RUY FRASÃO SOARES * SEBASTIANA CORREIA BITTENCOURT * SELMA LAIZ VIANA MONTARROYOS * SÉRGIO DE MAGALHÃES ROBERTO FARIA MENDES * ROGÉRIO LUSTOSA * RÔMULO DANIEL BARRETO DE FARIAS * ROSE MARIE MURARO * ROSEMARY NOGUEIRA * RUY FRASÃO SOARES * SEBASTIANA CORREIA BITTENCOURT * SELMA LAIZ VIANA
GOMES JAGUARIBE * SILVIA LÚCIA VIANA MONTARROYOS * SINVAL DE ITACARAMBI LEÃO * SOLANGE LOURENÇO GOMES * SONIA HIPÓLITO * SONIA LINS * STUART ANGEL JONES * ULYSSES DE MONTARROYOS * SÉRGIO DE MAGALHÃES GOMES JAGUARIBE * SILVIA LÚCIA VIANA MONTARROYOS * SINVAL DE ITACARAMBI LEÃO * SOLANGE LOURENÇO GOMES * SONIA HIPÓLITO * SONIA LINS * STUART ANGEL JONES
MENEZES FREITAS * VICENTE CARLOS Y PLA TREVAS * VITOR BORGES DE MELO * VLADIMIR HERZOG * WALMIR ANDRA DE OLIVEIRA * ZIRALDO ALVES PINTO * ZULEIDE APARECIDA DO NASCIMENTO * ULYSSES DE MENEZES FREITAS * VICENTE CARLOS Y PLA TREVAS * VITOR BORGES DE MELO * VLADIMIR HERZOG * WALMIR ANDRA DE OLIVEIRA * ZIRALDO ALVES PINTO * ZULEIDE APARECIDA DO NASCIMENTO
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Governo Federal REVISTA ANISTIA POLÍTICA E JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO
Ministério da Justiça Presidente do Conselho
Paulo Abrão
Comissão de Anistia
Coordenador-Acadêmico
Marcelo D. Torelly
Presidente da República
Dilma Rousseff Coordenadora-Executiva
Elisabete Ferrarezi
Ministro da Justiça
José Eduardo Cardozo Estagiária
Bianca Dias de Oliveira
Secretário-Executivo
Marivaldo de Castro Pereira Organização do Dossiê:
Deisy de Freitas Lima Ventura
Presidente da Comissão de Anistia Kathia Martin-Chenut
Paulo Abrão
Vice-presidentes da Comissão de Anistia Conselho Editorial
Sueli Aparecida Bellato Antônio Emanuel Hespanha (Universidade Nova de Lisboa-
José Carlos Moreira da Silva Filho Portugal), BoaVentura de Souza Santos (Universidade de
Diretora da Comissão de Anistia Coimbra - Portugal), Bruna Peyrot (Consulado Geral- Itália),
Amarílis Busch Tavares Carlos Cárcova (Universidade de Buenos Aires - Argentina),
Cristiano Otávio Paixão Araújo Pinto (Universidade de Brasília),
Chefe de Gabinete Dani Rudinick (Universidade Ritter dos Reis), Daniel Araão
Larissa Nacif Fonseca Reis filho (Universidade Federal Fluminense), Deisy Freitas de
Lima Ventura (Universidade de São Paulo) Eduardo Carlos
Coordenadora Geral do Memorial da Anistia Bianca Bittar (Universidade de São Paulo), Edson Cláudio
Política do Brasil Pistori (Memorial da Anistia Política no Brasil), Enéa de Stutz e
Rosane Cavalheiro Cruz Almeida (Universidade de Brasília) Flávia Carlet (Projeto
Coordenadora do Centro de Documentação e Pesquisa Educativo Comissão de Anistia) Flávia Piovesan (Pontifícia
Elisabete Ferrarezi Universidade Católica de São Paulo), Jaime Antunes da Silva
(Arquivo Nacional), Jessie Jane Vieira de Souza (Universidade
Coordenador de Projetos e Políticas de Reparação Federal do Rio de Janeiro), Joaquin Herrera Flores (in
e Memória Histórica memorian), José Reinaldo de Lima Lopes (Universidade de
Eduardo Henrique Falcão Pires São Paulo) José Ribas Vieira (Pontifícia Universidade Católica
do Rio de Janeiro), Marcelo Dalmás Torelly (Coordenador
Coordenador de Articulação Social, Ações Educativas Acadêmico), Maria Aparecido Aquino (Universidade de São
e Museologia Paulo), Paulo Abrão Pires Junior (Editor), Phill Clark
Bruno Scalco Franke (Universidade de Oxford - Inglaterra), Ramon Alberch Fugueras
Coordenador Geral de Gestão Processual (Arquivo Geral da Cataluña - Espanha), Rodrigo Gonçalves dos
Muller Luiz Borges Santos (Comissão de Anistia), Sandro Alex Simões (Centro
Universitário do Estado do Pará), Sean O’Brien (Universidade
Coordenadora de Controle Processual, Julgamento de Notre Dame - Estados Unidos) Sueli Aparecida Bellato
e Finalização (Comissão de Anistia).
Natália Costa
Coordenação de Pré-Análise Conselho Técnico
Rodrigo Lentz Aline Sueli de Salles Santos, Ana Maria Guedes, Ana Maria Lima
Coordenadora de Análise e Informação Processual de Oliveira, André Amud Botelho, Carolina de Campos Melo,
Joicy Honorato De Souza Cristiano Paixão, Daniela Frantz, Egmar José de Oliveira, José
Carlos M. Silva Filho, Juvelino José Strozake, Kelen Meregali
As fotos que registram as atividades públicas promovidas pela Model Ferreira. Luciana Silva Garcia, Márcia Elaine Berbich de
Comissão de Anistia, no segundo semestre de 2013, são de Moraes, Márcio Gontijo, Marina SilvaSteinbruch, Mário Miranda
propriedade do Ministério da Justiça. de Albuquerque, Muller Luiz Borges, Narciso Fernandes Barbosa,
Nilmário Miranda, Paulo Abrão, Prudente José Silveira Mello, Rita
Exceto quando expresso em contrário, as traduções Maria de Miranda Sipahi, Roberta Camineiro Baggio, Roberta
foram realizadas pelo Ministério da Justiça e revisadas pelos Vieira Alvarenga, Rodrigo Gonçalves dos Santos, Vanderlei de
autores e organizadores da presente edição. A Revista agradece Oliveira, Virginius José Lianza da Franca, Vanda Davi Fernandes
aos colaboradores desta edição: Mayara Nunes, Paula Andrade, de Oliveira.
Vanessa Zanella e João Alberto Tomacheski.
Esta é uma publicação científica que objetiva a difusão de ideias Projeto Gráfico
plurais. As opiniões e dados nela inclusos são de Ribamar Fonseca
responsabilidade de seus autores, e não do Ministério da Justiça
ou do Governo Federal, exceto quando expresso o contrário. Revisão ortográfica
Carmen da Gama
Editoração eletrônica
Supernova Design
Capa inspirada no trabalho original de AeM’Hardy’Voltz
COMPOSIÇÃO ATUAL
PRESIDENTE:
Ana Maria Guedes
Conselheira desde 04 de fevereiro de 2009
Paulo Abrão Nascida em Recife/PE, em 19 de abril de 1947, é graduada
Conselheiro desde 04 de abril de 2007 em Serviço Social pela Universidade Católica de Salvador.
Nascido em Uberlândia/MG, em 11 de junho de 1975, é Atualmente é membro do Grupo Tortura Nunca Mais da
graduado em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia, Bahia e integrante da comissão organizadora do Memorial da
mestre em Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos Resistência Carlos Mariguella, em Salvador/BA.
e doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Católica do Rio
de Janeiro. É especialista em Direitos Humanos e Processos
de Democratização pela Universidade do Chile. Atualmente, é Carolina de Campos Melo
secretário Nacional de Justiça, presidente do Conselho Nacional Conselheira desde 02 de fevereiro de 2012
de Refugiados (Conare), professor licenciado do Curso de Nascida na cidade do Rio de Janeiro, em 22 de janeiro de
Direito da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul 1976, é graduada e mestre em Direito pela Pontifícia
e membro da diretoria da Coalizão Internacional de Sítios de Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e
Consciência. Integrou o grupo de trabalho que redigiu a lei de doutora em Direito pela Universidade do Estado do Rio de
criação da Comissão Nacional da Verdade. Janeiro (UERJ). É advogada da União desde setembro de
2003. É, também, professora do Departamento de Direito
da PUC-Rio e coordenadora acadêmica do Núcleo de
VICE-PRESIDENTES: Direitos Humanos.
6
Henrique de Almeida Cardoso Humanos da Presidência da República (SEDH – 2003/2005).
Conselheiro desde 31 de maio de 2007 Quando deputado federal, presidiu a Comissão Externa para
Nascido no Rio de Janeiro/RJ, em 23 de março de 1951, é Mortos e Desaparecidos Políticos. Foi autor do projeto que
o representante do Ministério da Defesa junto à Comissão criou a Comissão de Direitos Humanos na Câmara, a qual
de Anistia. Oficial de artilharia do Exército pela Academia presidiu em 1995 e em 1999. Representou, por sete anos, a
Militar das Agulhas Negras (Aman), é bacharel em Ciências Câmara dos Deputados na Comissão Especial dos Mortos e
Econômicas e em Ciências Jurídicas pela Universidade do Desaparecidos Políticos. É membro do Conselho Consultivo do
Estado do Rio de Janeiro. Centro de Referência das Lutas Políticas no Brasil, denominado
“Memórias Reveladas”. Atualmente, é presidente da Fundação
Perseu Abramo.
Juvelino José Strozake
Conselheiro desde 25 de maio de 2007
Nascido em Alpestre/RS, em 18 de fevereiro de 1968, é Prudente José Silveira Mello
advogado graduado pela Faculdade de Direito de Osasco Conselheiro desde 25 de maio de 2007
(Fieo), mestre e doutor em Direito pela Pontifícia Universidade Nascido em Curitiba/PR, em 13 de abril de 1959, é graduado em
Católica de São Paulo. É membro da Rede Nacional de Direito pela Universidade Católica do Paraná e doutorando em
Advogados Populares (Renap). Direito pela Universidade Pablo de Olavide (Espanha). Advogado
trabalhista de entidades sindicais de trabalhadores desde 1984,
atualmente leciona nos cursos de pós-graduação em Direitos
Luciana Silva Garcia Humanos e Direito do Trabalho do Complexo de Ensino Superior
Conselheira desde 25 de maio de 2007 de Santa Catarina (Cesusc).
Nascida em Salvador/BA, em 11 de maio de 1977, é
graduada em Direito pela Universidade Federal da Bahia e
mestre em Direito Público pela Universidade do Estado do Rita Maria de Miranda Sipahi
Rio de Janeiro. Atualmente, coordena a área de proteção Conselheira desde 22 de outubro de 2009
a testemunhas da Secretaria de Direitos Humanos da Nascida em Fortaleza/CE, em 23 de fevereiro de 1938, é
Presidência da República. graduada em Direito pela Faculdade de Direito da Universidade
do Recife. É servidora pública aposentada pela Prefeitura do
Município de São Paulo. Possui experiência em Planejamento
Márcia Elayne Berbich de Moraes Estratégico Situacional e já desenvolveu trabalhos na área de
Conselheira desde 23 de julho de 2008 gestão como supervisora geral de desenvolvimento de pessoal
Nascida em Cianorte/PR, em 17 de novembro de 1972, é da Secretaria do Bem-Estar Social da Prefeitura de São Paulo.
advogada graduada em Direito pela Pontifícia Universidade Participa do Núcleo de Preservação da Memória Política de São
Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). É especialista, Paulo/Coletivo de Mulheres.
mestre e doutoranda em Ciências Criminais, todos pela mesma
instituição. Foi integrante do Conselho Penitenciário
do Estado do Rio Grande do Sul entre 2002 e 2011 e Roberta Camineiro Baggio
professora da Faculdade de Direito de Porto Alegre (Fadipa). Conselheira desde 25 de maio de 2007
Nascida em Santos/SP, em 16 de dezembro de 1977, é graduada
em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia, mestre em
Márcio Gontijo Direito pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos e doutora em
Conselheiro desde 21 de agosto de 2001 Direito pela Universidade Federal de Santa Catarina. Atualmente,
Nascido em Belo Horizonte/ MG, em 02 de julho de 1951, é é professora na Faculdade de Direito da Universidade Federal do
advogado público de carreira e pertencente aos quadros da Rio Grande do Sul, em Porto Alegre/RS.
Consultoria Jurídica do Ministério da Justiça desde 1976. É
representante dos anistiados políticos na Comissão de Anistia.
Graduado em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais, Rodrigo Gonçalves dos Santos
é o decano da Comissão de Anistia, tendo, ainda, acompanhado Conselheiro desde 25 de maio de 2007
a criação da Comissão Especial de indenização dos familiares Nascido em Santa Maria/RS, em 11 de julho de 1975, é advogado
dos mortos e desaparecidos políticos. graduado e mestre em Direito Público pela Universidade do Vale
do Rio dos Sinos. Professor licenciado do Centro Universitário
Metodista Isabela Hendrix de Belo Horizonte. Atualmente, é
Marina da Silva Steinbruch consultor da Fundação Getulio Vargas (FGV).
Conselheira desde 25 de maio de 2007
Nascida em São Paulo/SP, em 12 de abril de 1954, é
graduada em Direito pela Faculdade de Direito de São Vanda Davi Fernandes de Oliveira
Bernardo do Campo/SP. Atuou como defensora pública da Conselheira desde 26 de fevereiro de 2008
União por 22 anos. Nascida em Estrela do Sul/MG, em 31 de junho de 1968, é
graduada em Direito pela Universidade Federal de Uberlândia e
doutoranda em Direito pela Universidad de Alicante (Espanha).
Mário Albuquerque É membro do Conselho Estadual de Política Ambiental do
Conselheiro desde 22 de outubro de 2009 Estado de Minas Gerais.
Nascido em Fortaleza/CE, em 21 de novembro de 1948,
é membro da Associação Anistia 64/68. Atualmente
preside a Comissão Especial de Anistia Wanda Sidou do Virginius José Lianza da Franca
Estado do Ceará. Conselheiro desde 1º de agosto de 2008
Nascido em João Pessoa/PB, em 15 de agosto de 1975, é
advogado graduado em Direito pela Universidade Federal da
Narciso Fernandes Barbosa Paraíba, especialista em Direito Empresarial e mestrando em
Conselheiro desde 25 de maio de 2007 Direito pela mesma instituição. Atualmente, é coordenador-
Nascido em Maceió/AL, em 17 de setembro de 1970, é geral do Conselho Nacional de Refugiados do Ministério da
graduado em Direito pela Universidade Federal de Alagoas e Justiça (Conare). Ex-diretor da Escola Superior da Advocacia da
possui especialização em Direitos Humanos pela Universidade Ordem dos Advogados – Seccional Paraíba. Ex-procurador do
Federal da Paraíba. É advogado militante nas áreas de Direitos Instituto de Terras e Planejamento Agrário (Interpa) do Estado
Humanos e Segurança Pública. da Paraíba. Igualmente, foi secretário-executivo do Conselho
Nacional de Combate à Pirataria (CNCP).
Nilmário Miranda
Conselheiro desde 1º de fevereiro de 2012
Nascido em Belo Horizonte/ MG, em 11 de agosto de 1947,
é jornalista e mestre em Ciências Sociais pela Universidade
Federal de Minas Gerais (UFMG). Foi deputado estadual,
deputado federal e ministro da Secretaria Especial de Direitos
7
SUMÁRIO
11 APRESENTAÇÃO
FORTALECER A DEMOCRACIA NOS 50 ANOS DO GOLPE
PAULO ABRÃO, AMARILIS TAVARES & MARCELO TORELLY
17 ENTREVISTAS
DEBATE: MIREILLE DELMAS-MARTY, LOUIS JOINET
E EMMANUEL DECAUX
NON À L’IMPUNITÉ, OUI À LA JUSTICE” APÓS DUAS DÉCADAS
34 PAUL BOUCHET
40 DALMO DE ABREU DALLARI
49 ARTIGOS ACADÊMICOS
139 DOSSIÊ:
DIREITO À VERDADE E À JUSTIÇA NOS PAÍSES DO CONE SUL
140 INTRODUÇÃO
KATHIA MARTIN-CHENUT & DEISY VENTURA
8
258 PROCESSO DE JUSTIÇA POR CRIMES CONTRA A HUMANIDADE
NA ARGENTINA
DAIANA FUSCA
400 ESPECIAL
CINEMA PELA VERDADE
417 DOCUMENTOS
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APRESENTAÇÃO
PAULO ABRÃO, AMARILIS TAVARES &
MARCELO D. TORELLY
11
APRESENTAÇÃO
FORTALECER A
DEMOCRACIA NOS 50
ANOS DO GOLPE
Temos a alegria de apresentar a nona edição da
Revista Anistia Política e Justiça de Transição. Na
antevéspera do aniversário de 50 anos do Golpe
Militar de 1964, o presente volume de nosso periódico
científico apresenta os resultados do Colóquio Direito
à Verdade e Justiça de Transição nos Países do Cone
Sul, realizado em dezembro de 2011 na Universidade de
São Paulo. A reflexão comparada nos permite, a um só
tempo, identificar características comuns, mas também
peculiaridades dos processos transicionais da região.
Neste processo, podemos traduzir informação em
conhecimento e aprendizado, explorando o que há de
melhor em cada contexto nacional para percebermos
o que podemos aprimorar em nossas respostas
domésticas ao legado autoritário.
Boa leitura!
Paulo Abrão
Secretário Nacional de Justiça
Presidente da Comissão de Anistia
Amarilis Tavares
Diretora da Comissão de Anistia
Marcelo Torelly
Coordenador Acadêmico da Revista
15
PRODUTOS DO PROJETO MEMÓRIAS DA RESISTÊNCIA E DA SOLIDARIEDADE
REALIZADO EM PARCERIA COM A ASSOCIAÇÃO ARQUIVISTAS SEM FRONTEIRAS
DO BRASIL, PORTO ALEGRE, EM 24 DE ABRIL DE 2013.
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ENTREVISTAS
LOUIS JOINET
EMMANUEL DECAUX
DALMO DALLARI
PAUL BOUCHET
17
ENTREVISTAS
OS ESPECIALISTAS
FRANCESES NA ONU E OS
REGIMES AUTORITÁRIOS
LATINO-AMERICANOS*
DEBATE COM LOUIS JOINET
E EMMANUEL DECAUX, SOB A
COORDENAÇÃO DE MIREILLE
DELMAS-MARTY – COLLÈGE DE
FRANCE, PARIS, 24 DE NOVEMBRO
DE 2011.
Louis Joinet e Emmanuel Decaux foram especialistas independentes junto à Subcomissão
de Direitos Humanos da ONU e participaram do desenvolvimento de diversos trabalhos
relativos ao impacto dos regimes de exceção na proteção dos direitos humanos; às leis de
anistia e à luta contra a impunidade das graves violações a direitos humanos; ao direito à
reparação ou ao exercício da justiça por tribunaismilitares e de exceção.
Mireille Delmas-Marty – Nós estamos reunidos hoje para falar do direito à verdade e
da justiça de transição nos países do Cone Sul da América Latina, isto é, na Argentina,
no Brasil, no Chile, no Paraguai e no Uruguai. Devo recordar que o presente debate dá
continuidade a uma pesquisa sobre as “Figuras da internacionalização do direito” nos
países já citados, que se desenvolve há alguns anos no âmbito da cátedra “Estudos
jurídicos comparados e internacionalização do direito” do Collège de France. Eu
coordenei, juntamente com Kathia Martin-Chenut, esta pesquisa, que será publicada
em breve. Como seguimento de tal pesquisa, Kathia Martin-Chenut organiza, em São
Paulo, com a Universidade de São Paulo e o Ministério da Justiça do Brasil, um colóquio
precisamente sobre o direito à verdade e a justiça de transição nos países do Cone Sul.
* Concepção, organização e coordenação de Kathia Martin-Chenut. Transcrição e livre tradução do francês de Deisy Ventura. Entre col-
chetes encontram-se as notas da tradutora.Vídeo original disponível em <http://www.college-de-france.fr/site/mireille-delmas-marty/24_18
novembre_2011_.htm#|p=../mireille-delmas-marty/24_novembre_2011_.htm|>.
18
LOUIS EMMANUEL
JOINET DECAUX
vê, porque tudo está vazio. Era um lugar tempo, eles não haviam sido julgados...
de trânsito para a desaparição forçada e se E se dizia haver uma certa frustração
tornou um museu. das vítimas em relação àqueles que não
haviam reconhecido a própria culpa, mas,
MDM – Isto se alia à ideia do direito de tampouco, foram julgados. Então, agora,
saber e de conhecer sua história também. eles foram julgados...
LJ – O que implica em certo ED – Houve julgamentos.
reconhecimento pelo Estado, da sua
responsabilidade. MDM – Reparações como a construção de
um museu, por exemplo, não suscitam a
ED – Na África do Sul, vê-se museus questão da aproximação entre o direito e
do apartheid; lá, também, são muito a história? A justiça e a memória?
impressionantes. LJ – Sim, de certo modo é este o objetivo.
Você tem, por exemplo, na Argentina,
MDM – O que vai além da reparação às uma ONG que faz um trabalho notável,
vitimas, é ao mesmo tempo... que se chama Memoria Abierta, que
LJ – O símbolo; são monumentos... grava – como estamos fazendo agora –
centenas e centenas de depoimentos.
ED – Quando há um sistema que, por si Eles me entrevistaram durante quatro
só, é perverso, como o apartheid, há dois horas sobre as missões das quais eu
níveis de responsabilidade. Há as pessoas havia participado na época da ditadura.
que fazem funcionar o sistema e há as que Aqui, há uma memória... Porque é preciso
são cúmplices do sistema. Então, além da compreender bem que, um dia, os juízes
existência de um apartheid, que já é um deverão dar lugar aos historiadores. Isto é
crime, dentro deste sistema há pessoas muito importante. No meu relatório sobre
que cometem brutalidades, assassinatos, a impunidade, eu pondero que é muito
execuções forçadas, e que possuem uma importante.
responsabilidade individual suplementar.
Logo, é muito duro distinguir estes dois MDM – É um ponto muito sensível,
níveis e a Comissão Desmond Tutu tinha especialmente quando visto sob o prisma
esta vocação. Contrariamente ao que se dos historiadores...
pensa, as pessoas que não colaboravam LD – É preciso que eles tenham a
com a comissão, ou que tinham cometido matéria-prima. Então, há toda uma
crimes demasiado graves, eram cultura da memória no Cone Sul
encaminhadas à Justiça. que se desenvolveu com as ONGs
especializadas, o que é verdadeiramente
MDM – Então, eles foram julgados na muito importante. Mas, sobre as
África do Sul? Porque, durante um certo comissões de verdade e de reconciliação 27
– e isto corresponde a uma questão o autor, as práticas... Mas esta parte eu
de memória – há um relatório que é ignoro em outros relatórios, além daquele
muito interessante, o da comissão do Chile. É interessante.
do Chile [Comisión Nacional de
Verdad y Reconciliación, conhecida MDM – Isto colocaria, como pano de
como Comissão Rettig]. Porque a fundo, a questão dos arquivos?
primeira parte, eu creio, não é de LJ – O problema dos arquivos foi
inquéritos sobre as violações etc. É sobre descoberto, de modo relativamente
como se comportou a sociedade chilena recente. Desculpe-me por repetir-me, mas
sob a ditadura [trata-se da segunda parte aqui também o Cone Sul desempenhou
do relatório]. Então, há capítulos sobre um papel histórico. Um dos meus
os sindicatos, as igrejas, os intelectuais, colegas e amigos, [Martín] Almada,
as ONGs, os jornalistas, e é apaixonante que é um jurista paraguaio, descobriu,
ler isto. Porque há um começo de abandonados numa delegacia de polícia
autocrítica. Não há somente os “militares do Sul de Assunção, os arquivos da
maus”, todo mundo estava envolvido Operação Condor. O que é a Operação
neste processo. Condor? Era uma espécie de INTERPOL
[ICPO, International Criminal Police
MDM – O relatório, então, vai além da Organization] da ditadura. Cinco ou
investigação puramente judiciária... seis países, inclusive o Brasil – além
LJ – Sim, esta comissão, o seu relatório, da Argentina, do Paraguai, do Chile
é, para mim, exemplar, em relação a este etc. –, reuniram-se para exterminar os
aspecto. Quanto ao resto, houve lacunas... opositores, fisicamente. Então havia uma
Mas isto é muito importante. Imaginem, coordenação, pois muita gente partia em
por exemplo, na França à época da exílio ou se refugiava na clandestinidade
libertação, que nos puséssemos a fazer para poder estar em seu país. Havia,
um exame de consciência sobre como, especialmente na fronteira do Paraguai,
sob o governo de Pétain, comportaram-se uma unidade especializada – porque
os intelectuais etc. Isto é inconcebível na muitos passavam pelo Paraguai para
França! No Chile, isto foi feito. chegar ao Chile e à Argentina – e tudo isto
foi coordenado pela Operação Condor.
MDM – Atualmente, isto é admissível em Eles não tiveram a ideia ou o tempo...
outras partes do mundo... Porque é preciso saber que destruir
LJ – Eu não sei... Há duas dezenas de arquivos é muito difícil...
comissões, eu não conheço todas. Mas
no relatório sobre a Argentina não há MDM – Por que é difícil?
este aspecto; ele vai mais longe quanto à LJ – Por exemplo, quando da libertação
28 investigação, sobre as violações, o tipo, da França, o Quai d’Orsay [Ministério
APRESENTAÇÃO ENTREVISTAS ARTIGOS DOSSIÊ ESPECIAL DOCUMENTOS
ACADÊMICOS
Então, é complicado demais. Não se vai foram massacradas. É este tipo de coisa
pedir às pessoas para que façam um ato que a Comissão da Verdade do Brasil
de contrição... Num primeiro momento, encontrará.
é preciso fazer com que as pessoas
dialoguem, reescrevam sua história, MDM – Voltamos ao Brasil para desejar
entendam o porquê de terem chegado pleno êxito à comissão...
até lá. Quando eu digo que o opressor LJ – E eu aproveito para saudar todos
e o oprimido não podem ser postos no os meus amigos brasileiros, porque eu
mesmo plano, isto não significa que eu conheci muitos, ao longo de vinte anos.
quero encorajar as pessoas a cometerem
atentados, mas o terrorismo de Estado MDM – Eles ficarão felizes ao revê-lo, ao
e o terrorismo militante, se assim posso menos na tela. Muito obrigada.
dizer, estão ligados a um período da
história em que alguém se revolta contra
a opressão.
32
33
ENTREVISTAS
Ele evocou os trabalhos preparatórios deste evento, que foram uma ilustração das relações entre
o nacional e o internacional. Podemos debater, em teoria, longamente, a interação entre nacional
e internacional, que passa pelo Estado, pelo poder público; que passa pela sociedade civil, pelas
minorias ativas; que passa pelos espíritos esclarecidos, proféticos; que passa pelo sofrimento
das vítimas, que não podem aceitar o esquecimento.
Tudo isto se refletiu nos anos de 1991 e 1992, nesta iniciativa cujo ponto de partida eu recordarei
rapidamente, assim como o seu ponto de chegada. Foi uma iniciativa conjunta de um órgão
nacional, a Comissão Nacional Consultiva de Direitos Humanos francesa, que eu presidia à época,
e da Comissão Internacional de Juristas. Uma comissão nacional e um grupo internacional que
tomaram uma iniciativa conjunta, o que era por si só excepcional. Encontramo-nos em Genebra.
Para mim, não era longe. Para você, Dalmo, foi um pouco mais longe, mas não demais. Foi
interessante porque a Comissão Consultiva francesa era – e, se pode até dizer que isto era uma
34 1 Livre tradução do francês para o português da fala de Paul Bouchet, realizada por Deisy Ventura.
de suas riquezas – muito ambígua. Ela foi a sucessora, após uma reforma nos anos 1990, da
comissão constituída por René Cassin – um dos redatores da Declaração Universal dos Direitos
Humanos, como vocês bem sabem – que foi criada precisamente a fim de preparar a contribuição
francesa à declaração universal. Então, após uma longa sucessão, eu havia herdado a presidência
desta comissão consultiva, que compreendia mais de 70 membros, cuja originalidade é a de ser
composta por representantes do Estado, enquanto tais, e da sociedade civil. O Presidente, aliás,
foi nomeado pelo Primeiro Ministro depois de uma difícil escolha, pois ele não queria nomear
um funcionário do Estado, mas ao mesmo tempo buscava um representante da sociedade civil
que tivesse uma certa compreensão – o que nem sempre é o caso – um discernimento sobre
o que corresponde ao Estado e o que corresponde à sociedade civil. Modestamente, e espero
que construtivamente, eu correspondia a este perfil, porque fui por 40 anos advogado trabalhista.
Jovem resistente, ao final da Segunda Guerra Mundial, tornei-me advogado de sindicatos. Nestes
40 anos, fui igualmente um dos raros advogados a tornar-me membro do Conselho de Estado
[jurisdição administrativa máxima da França], ou seja, membro de um organismo de Estado.
Então, a escolha foi, por si só, muito simbólica. Mas havia também representantes das grandes
organizações não governamentais nacionais, e, de algumas, eu havia participado como ativista. E
havia representantes da nossa diplomacia. Esta era a Comissão Consultiva de Direitos Humanos
francesa, que se aliou nesta iniciativa à Comissão Internacional de Juristas, dotada de status
consultivo junto às Nações Unidas.
Decidimos conjuntamente sobre a reunião que ocorreu em Genebra durante quatro dias,
numa iniciativa totalmente singular, sob a égide das Nações Unidas. Havia 60 especialistas,
dos quais a maioria, como lembrou Louis Joinet, vinha efetivamente do Cone Sul. Mas havia,
também, numerosos representantes da África; da Ásia, menos, essencialmente, um indiano;
da Europa, claro; e, então, diferentes sensibilidades podiam ser encontradas, inclusive entre os
especialistas. Os representantes dos Estados estavam lá: eram 38 representantes diplomáticos
acreditados junto às Nações Unidas. E, depois, havia uma lista de 28 representantes das grandes
organizações não governamentais.
Ora, a reunião era efetivamente uma espécie de melting pot. Alguns apostavam que cada
um falaria de si, que ouviríamos gente diferente e cada um contaria seus próprios danos. Mas
não foi isto que ocorreu! É preciso que saibam: depois de quatro dias, todos esses membros,
aparentemente tão diferentes, do nacional ao internacional, alguns especialistas, outros dirigentes
de Estado ou de organizações sociais, fizeram um chamado! Um chamado! Louis Joinet já nos
explicou as complicações da denominação de uma comunicação, mas fez-se um chamado! Para
um francês, vocês sabem, um chamado é o chamado de 18 de junho de 1940, quando o General
[de Gaulle] se levanta e diz à Nação: é preciso continuar a guerra, não escutemos mais o governo
em exercício. Um chamado! 35
É muito interessante reler este chamado. Ele foi adotado por unanimidade, depois que ouvimos
os especialistas. Falo em especialistas, tenho 20 minutos, preciso acelerar um pouco, mas há
um deles que reencontro aqui, e não está longe de mim [Dalmo Dallari]. Então eu leio com
emoção, mas, sobretudo, com um interesse intelectual considerável, o que ele disse na época,
o ponto de partida, e depois referirei o ponto de chegada.
Ele começou com prudência, em pontos muito articulados, não é uma conversa qualquer.
Começou por dizer que a esperada proteção dos direitos humanos pelos tribunais internacionais
era um ideal cuja plena realização ainda era distante. Vocês verão que nós ganhamos tempo, mas
esta era a ótica da época: “ainda distante”. É preciso, então, dizia ele, aperfeiçoar os sistemas
judiciários nacionais e esta tarefa pode ser realizada por meios que tragam resultados imediatos:
trata-se de não deixar arrefecer a vigilância, o que faria nascer não mais do que uma ilusão de
justiça. Eis aí alguém que não prometia absurdos.
Seu trabalho dividia-se em duas partes. A primeira tinha diversos pontos que tiveram resultado,
que nos interessam mais aqui. Interrogava-se: será que a busca da realização de uma justiça
internacional pode retardar a necessidade de acelerar o que pode ser feito no plano nacional?
Havia aqui uma crítica aos juízes que compartilho inteiramente, juízes franceses ou não, os que
viveram esta época. Antes de perguntar aos juízes nacionais qual era o estatuto das normas
internacionais, especialmente as de direitos humanos, é preciso passar em revista as dificuldades
existentes. Juízes incompetentes. Juízes parciais. Juízes demasiadamente formalistas. Tudo isto
era claro, não se queria esperar o internacional que parecia distante; ao mesmo tempo, se queria
agir nacionalmente de imediato, mas com juízes que não estavam preparados, e que, de resto,
como todo juiz, tinham problemas, seja de estatuto, seja de estado de espírito. Então, vejam
este momento crucial. Havia uma disposição específica sobre a situação brasileira, referente aos
tribunais de exceção e os tribunais militares. Na França, havíamos restrito estes tribunais. Mas
tínhamos em comum, depois desta análise tão bem feita e tão útil, um ponto de chegada – vocês
verão em que termos, pois aqui também havia o otimismo da vontade, enquanto a inteligência
dizia que talvez fosse uma ilusão.
Os especialistas participantes, entre os quais meu vizinho de mesa aqui, lançaram um chamado
contra a impunidade, direcionado às ONGs, aos Estados, às organizações internacionais que
estavam lá. Primeiramente, um chamado para que a iniciativa tomada pelo Conselho de
Segurança de criar uma comissão imparcial de especialistas não esperasse demais, para
que, a partir de reuniões, as experiências vivenciadas até então fossem disponibilizadas
para a instauração, o mais rápido possível – estávamos com pressa – de um tribunal penal
internacional, mais do que nunca indispensável. Em segundo lugar, um chamado para que
36 fosse proposta, no âmbito da Conferência Mundial de Direitos Humanos – que deveria reunir-
APRESENTAÇÃO ENTREVISTAS ARTIGOS DOSSIÊ ESPECIAL DOCUMENTOS
ACADÊMICOS
Todos nós desejávamos isto e estávamos apressados. Dizia-se: “no prazo mais rápido possível”.
Como dizia Joinet, o tempo da ONU é cinco vezes mais longo do que o do Estado. Mas, desta vez,
tudo foi feito com muita rapidez. Nós fomos escutados. É quase glorioso que tenhamos sido tão
rapidamente escutados. Para evitar engano, eu retomo as datas. [A reunião de] Genebra, foi em
1992. Quando a ex-Iugoslávia exigia um debate imediato, era 1993. O Tribunal Penal Internacional
para a ex-Iugoslávia foi constituído. A França desempenhou um papel importante, novamente, e
nós estávamos contentes por fazer isto. Tivemos 15 dias. Uma comissão de oito membros. Havia
Louis Joinet, que vocês acabam de ver [no filme]; Mireille Delmas-Marty, que está aqui, e eu.
Vocês têm aqui três dos oito personagens que tiveram 15 dias para fazer um projeto francês, que
passou à dimensão internacional nos dias que se seguiram. Chegou-se então à Resolução do
Conselho de Segurança [n° 808], de fevereiro de 1993, com uma rapidez extraordinária, que criou
o tribunal penal para a ex-Iugoslávia. Um projeto de tribunal ad hoc, que foi muito combatido,
pois muitas ONGs, sonhando com o melhor, o que é normal, diziam: “é preciso um tribunal penal
internacional de imediato, e a criação de tribunais ad hoc traz o risco de atrasar o processo, pois
os tribunais ad hoc se sucederão”. E, efetivamente, isto ocorreu em alguns casos, mas não se
retardou a criação do Tribunal Penal Internacional, pois vocês sabem que em 1998 criou-se o TPI.
E o fato de que os tribunais ad hoc o tenham precedido, por um lado, resolveu problemas que,
sem eles, não teriam sido resolvidos; por outro lado, amadureceu as consciências e, em minha
opinião, iluminou o caminho.
Assim, as iniciativas, de onde quer que partam, quando se coordenam, superando as querelas
doutrinárias – porque doutrinariamente existiam muitas opiniões divergentes – chegam a um
resultado num prazo determinado. Nosso chamado foi ouvido, tanto pela criação quase imediata
do tribunal ad hoc para a ex-Iugoslávia, como pelo TPI, cinco anos depois. Apesar das vicissitudes
extremas que perturbam nossa vontade de agir mais rápido, há mais do que ilusões. Há os
resultados que podem ser obtidos de uma vontade coordenada, nacional e internacional, de
ONGs, Estados, organismos intermediários e especialistas. Tudo isso pode ser coordenado em
prol de ações eficazes. Eis minha mensagem do dia.
RESUMO: O grande jurista francês Paul Bouchet evoca a reunião da Comissão Internacional
de Juristas, de novembro de 1992, na qual sessenta especialistas, em sua maioria vindos
do Cone Sul, entre eles Dalmo Dallari, juntaram-se a representantes de Estados e de
organizações, internacionais e intergovernamentais. O resultado unânime desta reunião foi
um chamado contra a impunidade dos crimes contra a humanidade e outras graves violações 37
de direitos humanos, e pela instalação, o mais rápido possível, de uma jurisdição penal
internacional.
À ESQUERDA, PAUL BOCHET, À DIREITA, DALMO DE ABREU DALLARI, EM MESA PRESIDIDA POR
ANDRÉ DE CARVALHO RAMOS (CENTRO) DURANTE O COLÓQUIO INTERNACIONAL DIREITO À VERDADE
E À JUSTIÇA NOS PAÍSES DO CONE SUL, SÃO PAULO, DEZEMBRO DE 2011.
38
APRESENTAÇÃO ENTREVISTAS ARTIGOS DOSSIÊ ESPECIAL DOCUMENTOS
ACADÊMICOS
39
ENTREVISTAS
Nos anos 80, quando fui preso e sequestrado, minha família foi denunciar o fato à CIJ.
O representante brasileiro da CIJ era José Nabuco, um advogado tradicional do Rio de
Janeiro que não tinha nada de progressista e defenderia o governo se fosse defender
alguém. Digo isso para ressaltar que a CIJ só se tornou mais atuante e mais avançada à
medida que contratou secretariados independentes e progressistas, todos muito jovens.
Destaco o Reed Brody, estadunidense; o Alejandro Artúcio, uruguaio que participou da
reunião em Genebra em 1992, sendo o secretário geral da CIJ na época; e o Adama Dieng,
senegalês que fazia o secretariado para a África. Nos anos 1980, quem conseguia obter
recursos financeiros para contratar funcionários a fim de atuar na defesa de direitos era a
CIJ, que acabou contratando esses nomes e então se fez a mudança: esses jovens fizeram a
revolução na CIJ. Um dado expressivo é que a CIJ ganhou um grande prêmio internacional
Eu era da AIJD e vim integrar a CIJ graças à minha atuação na Comissão de Justiça e Paz,
a qual fez com que Reed Brody e Alejandro Artúcio me convidassem e me convencessem
a participar. Participei das duas associações, ao mesmo tempo, paralelamente. Afinal,
tínhamos muito pouca gente no Brasil que falava em direitos humanos, era um risco,
praticamente, um crime.
Dom Paulo tinha um bom relacionamento com o Papa Paulo VI – que foi quem criou,
no Vaticano, a Comissão Justiça e Paz – e conseguiu que se criasse, no Brasil também,
uma CJP. A partir disso, as coisas não ocorrem muito tranquilamente, porque, como o
Rio de Janeiro ainda preservava uma tradição de Capital da República, foi criada uma
CJP com sede lá, sendo designado presidente o Professor Cândido Mendes de Almeida,
que era muito conservador e se opunha às denúncias de violências e arbitrariedades do 41
APRESENTAÇÃO TEATRAL DURANTE A 71ª CARAVANA DA ANISTIA EM IBIÚNA – SP, REALIZADA EM 15 DE JUNHO DE 2013.
governo. E Cândido Mendes exigia que a CJP do Rio de Janeiro fosse reconhecida como
Comissão Nacional de Justiça e Paz. Dom Paulo, então, inconformado com isso, pediu – e
o Vaticano abriu essa exceção – que se criasse uma segunda comissão no país, em São
Paulo. Isso ocorreu em 1972, quando Dom Paulo me convidou para ser o presidente da
CJP. O convite veio porque eu já vinha atuando pelos direitos humanos como professor
da Universidade de São Paulo, como livre-docente, numa posição que se contrastava:
pouca gente se atrevia a denunciar a violência e a tortura. Anos depois, Dom Paulo me
disse que eu fui o quinto a quem ele fez o convite: os quatro primeiros não aceitaram
porque o risco era muito grande. Eu aceitei, assumi e parti para a briga.
Tivemos algumas dificuldades com o Rio de Janeiro porque eles consideravam que nós
42 estávamos desvirtuando a CJP. Sempre mantive um bom relacionamento com o Cândido
APRESENTAÇÃO ENTREVISTAS ARTIGOS DOSSIÊ ESPECIAL DOCUMENTOS
ACADÊMICOS
Mendes, mas houve uma reunião muito difícil no Rio de Janeiro, na qual ele nos acusava
do desvirtuamento, dizendo: “Nós estamos em bom entendimento com os militares, nós
estamos dialogando e vocês tomam uma atitude aberta contra”. Ele dizia que a CJP do
Rio de Janeiro era a Comissão Nacional e que nós éramos seus subordinados. Nós não
aceitamos isso, afirmamos a absoluta autonomia e independência da CJP de São Paulo e
partimos para a defesa dos perseguidos políticos, em atrito com o Rio de Janeiro.
A Comissão foi crescendo tanto que Dom Paulo nos deu uma sala no prédio principal
da Curia Metropolitana. E, nesse momento, há uma figura com papel extremamente
importante, a secretária da CJP, Margarida Genevois. Ela era uma pessoa excepcional,
absolutamente aberta, corajosa e, de certo modo, se contrapondo à posição
ultraconservadora do marido, um francês do meio industrial. Ela dava expediente quase
que por todo o dia e recebia as famílias dos presos e desaparecidos, reportando tudo e
passando para nós – eu era o presidente e Hélio Bicudo o vice. Começamos a trabalhar o
quanto antes, mas com muitas restrições. Nesse contexto, a CIJ também foi importante:
eu criei, em São Paulo, ao lado da CJP, uma seção da CIJ – a CJP era muito marcada.
Algo que foi absolutamente falso, afirmado pelo então Ministro do Supremo Tribunal
Federal, Eros Graus, na decisão da ADPF 153, foi que a anistia tinha sido negociada, em
todos os seus termos. Negociada é conversa-fiada: ela foi o máximo que conseguimos
em favor dos perseguidos. A anistia aceita pelos que detinham ainda o poder político
estava longe do ideal, mas, com ela, muitos presos seriam soltos, muitos exilados
poderiam voltar. E, nós pagamos o preço. Ainda mais, os militares que já estavam a
ponto de cair do poder disseram que dariam a anistia de forma ampla geral e irrestrita,
anistiando também os torturadores. E, naquele momento, foi conveniente não discutir
esse ponto, para trazer de volta os exilados e libertar os presos.
Eu tive reuniões com os presos políticos nos presídios Tiradentes e do Barro Branco,
tentando convencê-los, porque alguns não queriam ser anistiados. Muitos não queriam
porque os torturadores seriam anistiados também. Além disso, a proposta era conceder
anistia a todos, menos aos crimes contra a vida – e muitos tinham participado de ações
que resultaram em morte de alguém. Era uma situação muito tensa. Lembro-me, eu
fazendo seminários dentro do presídio, já era um avanço conseguir me reunir com
os presos. Um ponto importante é que todas as minhas propostas eram de soluções
por via institucional e via jurídica. Nunca apoiei uma luta armada, uma ação violenta;
sempre foi defendida a reivindicação pelos caminhos jurídicos. E sofri muitas restrições
por isso.
Isso é muito importante porque não será fácil mudar a Lei de Anistia: haverá pressão
empresarial, pressão de quem financiou a tortura e hoje financia deputados e senadores.
5. ALIANÇA MILITAR-EMPRESARIAL
Por que razão existe tanta resistência à apuração dos fatos e das violências, apuração
das verdades? Maliciosamente, está sendo dito que é uma acusação aos militares. O
dado fundamental é que houve uma aliança óbvia e muito importante entre militares
e empresários. O financiamento da ação militar, da tortura, pelos empresários, foi
extremamente importante. Recomendo uma pesquisa nos noticiários e atas de reuniões
da Federação de Indústrias de São Paulo. Eu fui, várias vezes, como membro do povo,
às reuniões abertas. Eu estava lá, sentado, vendo o general, o almirante, o brigadeiro na
mesa da solenidade da Federação das Indústrias, falando da necessidade da repressão
e pregando a violência. Estavam absolutamente juntos. E isso faz parte, inclusive, de
uma tremenda corrupção. Muitos desses chefes militares viraram empresários. Eu assisti
a isso: no começo, se apresentavam como almirante fulano, brigadeiro, etc.; depois
o mesmo personagem aparecia como engenheiro, da engenharia militar, que então
passava a integrar o conselho das empresas.
Houve uma união muito íntima dos empresários com os militares, e, hoje, eles estão
preservados e vendem essa ideia de que é um absurdo essa denúncia dos militares, essa
“briga civil-militar”, como se a denúncia de tortura se limitasse aos militares, somente.
O avanço nacional não tem o mesmo ritmo do avanço internacional ou de outros países
porque há aspectos nacionais que estão sendo escondidos, principalmente a aliança
empresarial-militar. Isso é muito importante para nós, principalmente, para caracterizar
o Golpe de 1964 como uma ação anticomunista, contra o aumento do sindicalismo. E,
naturalmente, envolvendo outros setores, como setores da Igreja Católica: por isso a
pregação que se fazia de que os comunistas fechariam as igrejas. Houve uma aliança
militar-empresarial, mas com apoio considerável da Igreja Católica.
6. AVANÇOS E OBSTÁCULOS NO
BRASIL
Um problema que tínhamos, em âmbito nacional, era o fato de que os processos por
violações de direitos humanos eram de competência da justiça estadual e, em muitos 45
estados, a justiça estadual era dominada pelos grandes senhores regionais, apelidados
“coronéis”, pelos oligarcas. Então, quem, no Nordeste, lutava pelos direitos humanos,
era rotulado de comunista e o judiciário achava normal combatê-los. O judiciário era um
apêndice das oligarquias, então, nós queríamos diminuir isso com a federalização dos
crimes contra os direitos humanos. Falo sobre isso no meu livro sobre o federalismo
brasileiro.2
Depois de 1992, ano da reunião de Genebra, a evolução foi muito grande. Um dos
avanços, relativamente recentes, foi a transferência da competência para a Justiça
federal quando caracterizados crimes contra a pessoa humana, com a Emenda
constitucional n° 45 de 2004. Antes, a competência era estadual, o que sistematicamente
resultava na absolvição dos acusados. Isso teve importância, principalmente, no
Nordeste. Também nos anos 1990, trabalhávamos muito para restringir a competência
da Justiça Militar. Eu propunha exatamente que os crimes contra os direitos humanos
saíssem da competência desta e passassem para a justiça penal comum. Mas a restrição
da competência, que veio em 1996, limitou-se aos crimes dolosos contra a vida, não
atingindo a tortura.
Creio que o maior obstáculo é, ainda, eliminar a ideia de que é preciso mudar a lei da
anistia. Porque isso deixa subentendido que anistia é válida para torturadores. Isso é uma
falsidade, é uma tática para manter a impunidade. Mesmo com essa lei, o torturador não
está anistiado. Então, que se puna já! Sempre haverá interesses poderosos bloqueando
a mudança da lei, isso dependente do Congresso Nacional, o qual está extremamente
dependente de grupos empresariais, em decorrência do sistema de financiamento de
campanha. E os financiadores não querem a apuração da verdade.
A Comissão da Verdade é um bom ponto de partida, mas depende muito de como ela
atua. Se ela ficar colocando panos quentes, e ficar evitando atritos, não vai levar a nada.
É preciso levantar dados, o máximo possível, para depois passar para a punição. A
mudança do atestado de óbito de Herzog em março desse ano – o fato de ter-se admitido,
por uma decisão judicial, que o atestado estava errado, era falso – é importante. Corrigiu-
se, e, agora, vamos ver quem torturou, quem matou, ou quem mandou matar. É um dado
positivo, sinal de que caminhamos num sentido de mais verdade.
47
EXPOSIÇÃO DE FOTOS NO SAGUÃO DO CONGRESSO
INTERNACIONAL JUSTIÇA DE TRANSIÇÃO NOS 25 ANOS DA
CONSTITUIÇÃO DE 1988, REALIZADO DURANTE A 69ª CARAVANA
DA ANISTIA, EM BELO HORIZONTE, EM 24 DE MAIO DE 2013.
S
25 ANO TIA,
O NOS
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ARTIGOS ACADÊMICOS
“O VERDADEIRO SENTIDO DO
SOFRIMENTO PADECIDO PELAS
VÍTIMAS DA VIOLÊNCIA PERMANECE
NA IMPOSSIBILIDADE DE DIZER.
A PALAVRA NUNCA PODERÁ DIZER A
TOTALIDADE DO SOFRIMENTO DAS
VÍTIMAS. O TESTEMUNHO SEMPRE
ESCONDE UMA ZONA OCULTA
DE SENTIDO EM QUE A VÍTIMA
TESTEMUNHA PELO PURO SILÊNCIO.
A VÍTIMA DA TORTURA COEXISTE
COM A INCAPACIDADE DE DIZER A
TOTALIDADE DO SOFRIMENTO QUE A
ATINGIU. ELA SE TORNA VERDADEIRA
TESTEMUNHA PRECISAMENTE PORQUE
NÃO É CAPAZ DE TESTEMUNHAR A
TOTALIDADE DA VIOLÊNCIA SOFRIDA.”
49
ARTIGOS
ACADÊMICOS
ESTATUTO EPISTÊMICO DO
TESTEMUNHO DAS VÍTIMAS:
O DESAPARECIDO,
PARADIGMA DO
TESTEMUNHO INDIZÍVEL
INTRODUÇÃO
1. O objetivo deste texto é analisar a especificidade do testemunho da vítima como narrativa que
contém uma epistemologia da verdade essencial para a justiça, já que o estatuto de verdade do
testemunho escapa aos modelos empírico-racionalistas dominantes. Propomos neste ensaio elucidar
qual o estatuto epistemológico do testemunho, em particular o testemunho das vítimas, e sua
relevância para uma teoria da justiça a partir das vítimas, a que denominamos de justiça anamnética.
Tomando como referência inicial a obra de Giorgio Agamben, O que resta de Auschwitz. O
arquivo e a testemunha1, destacamos a tese de que a vítima é (assim como pode não ser; é
sua potência do não...) também uma testemunha. Enquanto testemunha ela constrói a verdade
a partir de uma narrativa, esta por sua vez se torna um acontecimento. Sua narrativa revela a
injustiça sofrida a partir da perspectiva daquele que foi vítima. O estatuto epistêmico de sua
narrativa expõe uma verdade que só ela, enquanto vítima que testemunha, poderá narrar. Ela
fala desde um lugar epistêmico singular, só ela pode narrar o que aconteceu (na sua pessoa), ao
sofrer o ato de violência. As outras narrativas externas, como inquéritos policiais ou testemunhos
de observadores, narrarão percepções externas que nada mais são do que a periferia do
acontecimento. A experiência da violência como verdade vivida e sofrida desde dentro do
50 1 AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz. O arquivo e a testemunha. Homo sacer III. São Paulo: Boitempo, 2008.
acontecimento, é uma posição epistêmica e política que só a vítima poderá narrar. Seu dizer
será um dizer único. A vítima, enquanto testemunha, tem a potencialidade de criar uma narrativa
da injustiça desde uma perspectiva singular. Seu lugar epistêmico é único, por isso o sentido
da verdade do seu testemunho também é diferente, único. Esta distinção epistêmica entre o
testemunho da vítima, e o testemunho dos observadores e outras provas externas, demarca
também uma distinção qualitativa entre o tipo de verdade narrada pela testemunha e a verdade
aferida pelas provas. São dois tipos de verdades, dois estatutos da verdade que se implicam de
forma diferente nas práticas de justiça.
Uma primeira tese a desenvolver é que a vítima, além de sua condição objetiva de pessoa
injustiçada, contém a potencialidade do testemunho. O testemunho da vítima possui uma
perspectiva epistemológica singular para repensar uma nova compreensão da justiça. A
vítima que se torna testemunha se constitui concomitantemente num acontecimento novo
que demarca uma nova potencialidade política. O testemunho das vítimas apresenta uma
perspectiva de validação de uma verdade sobre violência que só o sofrimento pode expressar.
A verdade do seu testemunho é concomitante com a veracidade da testemunha. A veracidade
de sua verdade pertence ao foro interno do discurso e da pessoa, já que a testemunha narra
como ela viveu o sofrimento, independentemente de como os outros observadores externos
perceberam o que ocorreu.
A narrativa da testemunha requer a veracidade interna do seu dizer, porém seu dizer verdadeiro
é autorreferencial, uma vez que ela fala a verdade de si. Neste ponto ela se constitui num
parresiasta2. A parresia é a verdade daquele que testemunha com coerência. É o dizer franco
e veraz. A verdade da testemunha se valida pela sua condição de dizer veraz e verdadeiro
(parresia), independentemente de que outros observadores externos ou provas venham a
dizer algo diferente. O que ela diz é o que ela viveu. O que ela viveu pertence ao campo de
sua experiência. A experiência só pode ser dita na forma de testemunho e este acontece,
geralmente, como narrativa. A verdade do testemunho pertence ao dizer parresiástico, dizer
veraz, daquele que testemunha. A validade de sua verdade é inerente à veracidade daquele
que testemunha, independentemente de como os outros observadores tenham percebido o
acontecido. É uma verdade singular porque revela o acontecido na vítima, acontecimento que
só ela pode narrar.
A narrativa da verdade vivida pela vítima sempre será imperfeita, não porque não consiga
dizer a verdade de si, senão porque que o seu sofrimento, qualquer sofrimento, não pode ser
plenamente narrado. A experiência humana, em especial a experiência do sofrimento brutal, não
2 O tema da parresia foi central nas últimas pesquisas e cursos de Michel Foucault. Cf. FOUCAULT, Michel. O governo de si e dos
outros. São Paulo: Martin Fontes, 2010; FOUCAULT, Michel. A coragem da verdade. São Paulo: Martin Fontes, 2011. 51
cabe na narrativa. A narrativa do sofrimento sempre deixa de fora o essencial da experiência da
vítima que é a experiência direta de sua dor. Interessa-nos mostrar a estreita relação que existe
entre o testemunho das vítimas e a (in)justiça, a fim de perceber como ambas estão conectadas
por atos de memória. A implicação entre testemunho e justiça torna a memória uma dimensão
imprescindível da própria justiça. A memória é o modo como as vítimas conseguem validar sua
verdade para demandar justiça.
A TESTEMUNHA E O CAMPO
2. A narrativa da testemunha expõe algo que só ela viveu e só ela pode dizer como o viveu.
Ao testemunhar o sofrimento da injustiça a própria narrativa se torna insuficiente para dizer o
todo do sofrimento. Há que ler nas entrelinhas do dito para poder captar a verdade indizível do
sofrimento. A condição trágica desta tensão entre o dito e o indizível do sofrimento transparece
de forma peculiar nos testemunhos dos torturados. Há um indizível no dito do testemunho. Esse
indizível se torna mais do que uma experiência moral subjetiva, uma questão política de justiça
por ser feita. O indizível da vítima responsabiliza:
3 VIOLA, SOLON,e PIRES, Thiago Viera. “Nilce Azevedo Cardoso: relembrar é preciso”. In: Relatório Azul 2011 da Comissão de Direitos
Humanos e cidadania da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Complemento. Porto Alegre, Assembleia Legislativa do RS, 2013,
52 p. 157.
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ACADÊMICOS
o testemunho das vítimas pode contribuir para construir uma justiça efetiva, uma justiça das
vítimas, que será sempre uma justiça anamnética?
O campo é uma figura jurídico-política conexa ao estado de exceção. O campo pode ser definido
como o espaço onde o estado de exceção se torna a norma. No campo vigora o estado de
exceção, cuja principal característica é a suspensão dos direitos fundamentais das pessoas que
nele se encontram. No campo, a vida encontra-se privada do direito, cercada numa zona de
indistinção jurídica onde a arbitrariedade da vontade soberana se torna lei. Essa zona é o campo.
O campo é muito mais que um espaço físico. É uma figura jurídico-política utilizada como técnica
de governo e controle de populações consideradas perigosas para a ordem social.
Seguindo a tese de Agamben, podemos entender o campo como todo espaço geográfico ou
demográfico em que a exceção vigora como norma. O campo se instala concomitantemente
com a suspensão dos direitos, já que no campo a vida humana se encontra desprovida de direitos
e exposta a toda vulnerabilidade. A suspensão dos direitos reduz a vida das pessoas à mera vida
natural, ou pura vida nua4. O que identifica a existência de um campo é a suspensão dos direitos
que faz surgir, no lugar do direito, a arbitrariedade de uma vontade soberana. No campo, o direito
é abolido, vigorando o arbítrio de um soberano qualquer. Esta caracterização do campo permite-
nos estender a sua realidade para além dos muros físicos do nazismo e compreendê-lo como
figura jurídico-política ativa e polimorfa nas diversas formas de autoritarismo.
4 Agamben utiliza a categoria vida nua como similar ao Homo sacer. Essa simbiose mostra a influência do pensamento de Benjamin
em Agamben, já que o conceito de vida nua tem origem no ensaio de Walter Benjamin, “Por uma crítica da violência”. “O sangue é o símbo-
lo da vida nua. O desencadeamento do poder jurídico remonta – o que não pode se mostrar aqui de maneira mais detalhada – ao processo
de culpa da vida pura e natural, o qual entrega o ser humano inocente e infeliz à penitência, com a qual expia sua culpa – e também absolve
o culpado não de uma culpa, mas do direito”. BENJAMIN, Walter. 1986. Documentos de cultura, documentos de barbárie. São Paulo, Cultrix,
1986, p, 173.
5 É interessante destacar a observação de Elio Gaspari sobre a nomeação dos espaços de tortura, já que o nome indicaria a real 53
A sombra ameaçadora através das quais se pretendia dar
do campo e do estado prioridade hierárquica aos agentes da
de exceção não está repressão sobre os colegas de patentes
As formas do campo se refazem por todos os lados do planeta. Há vários exemplos atuais de
como o campo é uma figura jurídico-política de plena atualidade. Atualmente, a figura do campo
alcança seu paroxismo em espaços “fora de todo direito”, como Guantánamo, os cárceres
secretos da OTAN para presuntos terroristas, os campos de interrogatório de prisioneiros da
OTAN no Iraque, Afeganistão, Síria, etc. Estes campos repetem, mimeticamente, a exceção
jurídica como tecnologia biopolítica de perseguição e, até, de extermínio de opositores.
condição de campo a que são destinados: “Seria muita ingenuidade acreditar que os generais Emilio Medici e Orlando Geisel criaram os
DOIs (Destacamentos de Operações de Informações) sem terem percebido que a sigla se confundia com a terceira pessoa do singular do
54 presente do indicativo do verbo doer” GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo, Cia das Letras, 2002, p. 178.
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ACADÊMICOS
clara, e qualquer habitante do campo está exposto à violência com impunidade porque está
desprotegido do direito. Um exemplo atual do campo são os espaços de “limbo jurídico”, onde
são confinados os milhões de migrantes “ilegais” que, para sobreviver à miséria, atrevem-se
a atravessar o limiar sagrado das fronteiras nacionais à procura de um trabalho. Atualmente,
mesmo na crise econômica, os migrantes massivos são caracterizados como populações
ameaçadoras da ordem social dos países ricos. Para controlar estas novas ameaças vitais,
implementam-se novas formas biopolíticas de controle na forma de exceção e campo. Ainda
pode mencionar-se a condição assimilada ao campo em que se encontra o povo palestino,
confinado em territórios, cercado militarmente, suspenso dos direitos fundamentais. Nesses
espaços cercados, as populações encontram-se controladas por um Estado estrangeiro, neste
caso, Israel, cujo objetivo político evidente é se apropriar e anexar-se o máximo possível aos
territórios palestinos, ainda que para isso tenha que expulsar e, até, exterminar, a população
ali residente.
3. O estado de exceção, assim como o campo, não pode considerar-se atos pontuais de ditadores
neuróticos. Tal análise implicaria desconhecer a racionalidade instrumental e estratégica que
legitimou a implantação dessas realidades. A sombra ameaçadora do campo e do estado
de exceção não está nas personalidades dos ditadores responsáveis, mas na racionalidade
instrumental que os legitimou socialmente como técnicas plausíveis, e, até, necessárias, para
preservar a ordem estabelecida, ou dar segurança à população amedrontada6. Não se trata de
definir ou compreender a realidade do campo a partir da empiria pontual dos eventos acontecidos,
eles não são uma anomalia da racionalidade do Estado, mas a consequência mais perversa de
uma determinada lógica instrumental levada ao paroxismo. Não se trata de compreender o campo
como aberração, senão de captar nele a lógica instrumental que o legitima como necessário
para preservar uma determinada concepção de ordem. Temos que inverter a lógica de análise
do campo e compreendê-lo como aquilo que é: uma figura jurídico-política que reaparece cada
vez que a exceção se torna norma e a vida humana se encontra exposta e vulnerável à vontade
arbitrária de um soberano.
Um outro aspecto que devemos analisar no estado de exceção e no campo é sua condição
de técnica biopolítica de governo. No contexto da racionalidade instrumental do Estado,
ambas figuras, exceção e campo, se legitimam como necessárias, em condições precisas,
para preservar a ordem estabelecida. Leia-se no lugar de ordem estabelecida interesses
dominantes de grupos, elites e classes que os disfarçam de ordem legal. A exceção e o
campo foram idealizados como técnicas biopolíticas que permitem obter um controle quase
6 “O que aconteceu nos campos supera de tal modo o conceito de crime, que amiúde tem-se deixado simplesmente de considerar a
específica estrutura jurídico-política na qual aqueles eventos se produziram.” AGAMBEN, Giorgio. O Homo sacer. O poder soberano e a
vida nua. Belo Horizonte: UFMG, 2003, p. 173. 55
absoluto das vidas humanas consideradas perigosas. Esta condição instrumental da exceção
e do campo torna sua realidade uma sombra sempre potencial. Elas são técnicas de governo,
cuja característica principal é desencadear uma forma de violência estrutural que coloca a
vida humana sob o arbítrio de uma vontade soberana. O campo e a exceção são técnicas
biopolíticas de controle social.
O paradoxal das técnicas de governo é que elas encontram sempre argumentos de legitimação
para determinados grupos. Parecem ser opções políticas diferentes que devem ser respeitadas
em virtude dos valores exaltados como defesa da ordem, pátria, lei, etc. Porém a violência
biopolítica tem um anverso que sempre pretende ocultar e esquecer. O lado oculto e perverso
destas técnicas de governo é o sofrimento das vítimas. O sucesso das estratégias biopolíticas
depende da capacidade de ocultação do sofrimento e da invisibilização das vítimas. No anverso
das estratégias de esquecimento, resiste a vítima como testemunha. Por isso o testemunho
das vítimas ressurge como figura política de primeira ordem para desmascarar as presumidas
legitimidades destas técnicas biopolíticas. A voz da testemunha revela a verdade não dita nos
discursos da exceção e no campo. O testemunho da vítima revela, no seu sofrimento, a verdade
não dita que deslegitima a validez da exceção e do campo. Nada pode legitimar a tortura,
ninguém pode deslegitimar a racionalidade instrumental de forma tão precisa como a narrativa
da testemunha.
7 VIOLA, SOLON, e PIRES, Thiago Viera. “Nilce Azevedo Cardoso: relembrar é preciso”. In: Relatório Azul 2011 da Comissão de Direitos
Humanos e cidadania da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Complemento. Complemento. Porto Alegre, Assembleia Legislativa
56 do RS, 2013, p. 22.
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ACADÊMICOS
A POTÊNCIA POLÍTICO-JURÍDICA
DA NARRATIVA E DA TESTEMUNHA
4. A testemunha, habitualmente, é considerada uma mera peça do processo judicial. O
testemunho se torna uma parte da formalidade do processo jurídico. Devido à hegemonia da
epistemologia empírico-racionalista, se confere maior validade àquele testemunho que oferece
mais dados objetivos comprováveis sobre a particularidade dos fatos. A validação hierárquica
dos testemunhos é proporcional à quantidade de provas objetivas, empíricas, que aportam.
Daí se deduz que os testemunhos subjetivos das vítimas, por narrarem a realidade do seu
sofrimento e o impacto existencial sofrido, têm um caráter moral importante, mas tecnicamente
inferior às provas empíricas arroladas por fatos comprováveis. Neste paradigma epistêmico, a
verdade do testemunho da vítima é respeitável moralmente, mas secundária a respeito das
técnicas jurídico-policiais que elucidam a verdade dos fatos acontecidos. A verdade revelada
pelo testemunho das vítimas é uma verdade inferior à verdade aferida pelas provas objetivas.
8 Um exemplo da prioridade que a modernidade outorga ao espectador sobre a testemunha no aferimento da verdade encontra-se
na valorização que Kant faz da figura do espectador como critério moral que pode julgar uma época. Ele seria um observador neutro e
imparcial dos acontecimentos históricos, o que confere à sua observação uma credibilidade maior do que a daqueles que se encontram
implicados nos acontecimentos, as testemunhas. Cf. KANT, Imanuel. Ideas para una historia universal en clave cosmopolita y otros escritos
sobre filosofía de la historia. Madrid, Tecnos, 1987, p. 88 ss. 57
MANIFESTAÇÃO POR MEMÓRIA, VERDADE E JUSTIÇA QUANTO AS MORTES E DESAPARECIMENTOS DA DITADURA, 70ª CARAVANA DA ANISTIA
DURANTE O 53º CONGRESSO DA UNIÃO NACIONAL DO ESTUDANTES (UNE), GOIÂNIA, 08 DE JUNHO DE 2013.
Walter Benjamin já alertou que as ações da experiência estão em baixa, em parte porque
estamos perdendo a nossa capacidade de narrar a própria experiência (Erfahrung) 9. Mas,
podemos acrescentar, o valor epistêmico da experiência se dilui na hegemonia da verdade
aferida pelo experimento. A diferença entre experiência e experimento se traduz nos dois
modelos de verdade que ambos produzem. No contexto hegemônico das racionalidades
empíricas, a experiência tende a diluir-se no experimento. Só tem estatuto de verdade autêntica
aquela verdade que pode passar pelo filtro do experimento. Ou seja, a verdade que pode ser
contrastada com provas empíricas externas que comprovem a veracidade dos enunciados. A
experiência, por definição, é constitutiva do sujeito que a experimenta e sua verdade se traduz
em narrativa. Isso quer dizer que a experiência da vítima que testemunha não se encaixa no
padrão de verdade experimental. A narrativa da experiência traduz uma verdade não empírica,
mas experiencial. A experiência contém uma verdade que não é traduzível em experimento.
A técnica experimental como metodologia comprobatória da verdade é impotente para captar
a verdade da experiência. Este é o campo de tensão em que se encontra posicionado o
testemunho da vítima, uma vez que ele é uma experiência não traduzível em experimento e
que só é transmissível como narrativa.
A tese deste ensaio é que a violência tem um lado oculto que só o testemunho pode narrar,
sendo a testemunha a única que pode narrar a verdade oculta no sofrimento vivido. Só ela pode
dizer a verdade do que sofreu, tornando o seu sofrimento um fato político jurídico relevante para
repensar o tipo de justiça a ser implementada. Sua narrativa instaura a validade de uma verdade
não percebida pela observação externa. A testemunha tem uma perspectiva da verdade que só
ela poderá dizer na forma de testemunho.
9 BENJAMIN, Walter. “O Narrador”. In. Id. Mágia, arte e técnica. São Paulo: Brasiliense, 1996, p. 198.
10 “No campo, uma das razões que podem impelir um deportado a sobreviver consiste em tornar-se uma testemunha” AGAMBEN,
Giorgio. O que resta de Auschwitz. O arquivo e a testemunha. Homo sacer III. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 25. 59
O primeiro termo, testis, do qual deriva o termo português “testemunha”, tem também o
significado de colocar-se no lugar do outro, de um terceiro. Em latim, terceiro é terstis. É aquele
que se coloca como intermediário entre dois contendores de um litígio11. Ele designa uma espécie
de observador neutral dos fatos. É o modelo de observador imparcial, cuja verdade é privilegiada
pelo modelo judicial e a ciência moderna. A testemunha externa (testis) narra fatos acontecidos
fora dela como um espetáculo objetivo a que assistiu. Seu testemunho exibe a objetividade
da distância como prova de sua verdade. Ela se distancia para ser objetiva, e a objetividade
distante é aferida pelo direito como um elemento que prova a verdade de seu testemunho.
Esse testemunho tem o estatuto da objetividade empírica e se regula pela epistemologia da
empiria. Qualquer um pode ser testemunha de um fato externo. Seu testemunho só reconstrói
a exterioridade do acontecimento pela comprovação empírica dos fatos.
Os testemunhos das vítimas não narram o acontecido de forma abstrata; suas narrativas
carregam uma significação que foge ao observador externo. Por isso, elas se tornam parte do
acontecimento, um prolongamento do fato, um fato novo12.
A TESTEMUNHA E O TESTEMUNHO
SE TORNAM UM ACONTECIMENTO
6. A análise proposta por Agamben nos possibilita pensar a testemunha e o testemunho sob a
forma de acontecimento político. A noção de acontecimento diz respeito à possibilidade, ou não,
de algo acontecer. O acontecimento é imprevisível, tem a potência de inovação, traz consigo a
perspectiva histórica de algo que ainda não tinha sido colocado. O acontecimento inova a história,
cria realidade. Há uma diferença ontológica entre acontecimento e experimento. O experimento
só comprova o que já existe, o acontecimento faz existir. O acontecimento produz uma novidade
histórica que antes não existia e, a partir da qual, é possível e necessário compreender a realidade.
Em todos estes sentidos, a testemunha e o testemunho são um acontecimento.
A vítima que testemunha, ao narrar a violência desde dentro, revela uma dimensão do fato que
permanecia desconhecida para os observadores imparciais. Sua narrativa do sofrimento padecido
revela uma nova realidade que se traduz na forma de um novo acontecimento. A narrativa faz
existir algo que não existia, nem sequer para a testemunha externa que testemunhou o fato
de forma imparcial e objetiva. O testemunho da vítima traz para a luz algo que permanecia
oculto ao observador externo. A verdade da testemunha que sobreviveu à violência, superstes,
revela uma zona obscura da verdade que só existia na interioridade da vítima e só poderá
existir como acontecimento político se for testemunhada. O testemunho traz para a história o
sofrimento da vítima, fazendo da sua narrativa de testemunha um novo acontecimento político.
Este acontecimento só pode ser construído pela vítima que testemunha a verdade oculta da
violência sofrida. O estatuto de sua verdade é singular e só ele pode fazer do seu testemunho
um acontecimento. A verdade epistêmica do testemunho da vítima é a única que, ao proferir-
se, produz de forma performativa um acontecimento. A verdade dos testemunhos externos e
as verdades empíricas dos inquéritos só aduzem provas de algo que já existiu e, por isso, elas
não produzem nada novo, só comprovam o que já foi. O testemunho da vítima produz uma
verdade nova, sua narrativa é, em si mesma, uma verdade que se constitui performativamente
em acontecimento. Se ela não for proferida pela testemunha, haverá uma dimensão do real que
12 Agamben, valorando o registo do testemunho do superstes comenta o paradoxo de que “o testemunho vale essencialmente por
aquilo que nele falta; contém em seu centro algo intestemunhável, que destitui a autoridade dos sobreviventes” AGAMBEN, Giorgio.
Op. Cit. p. 43. 61
não existiu. A realidade criada pelo testemunho traduz sua verdade em acontecimento na forma
de narrativa. Só seu testemunho tem o poder performativo de criar esse novo acontecimento
que faz aparecer como realidade a experiência por ela vivida.
62 13 VIOLA, SOLON,e PIRES, Thiago Viera. “Nilce Azevedo Cardoso: relembrar é preciso”. Op. Cit. p. 12.
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narrada pelo observador cai facilmente na banalidade. A abstração tende a banalizar a violência
como se fosse um evento entre outros. O testemunho da vítima desconstrói todas as formas de
banalização da violência, mostrando a perversidade que se oculta nas formas de racionalidade
estratégica. A verdade oculta da violência aparece, ainda que sempre de forma fragmentária, na
narrativa do sofrimento experimentado como verdade singular por aqueles que foram vítimas.
O seu testemunho revela a percepção singular que a vítima tinha do acontecimento. A narrativa
traduz essa percepção em novo acontecimento que passa a ser referência de verdade, a ser
considerada na construção de justiça.
Fiquei na frente daquele povo, era um horror. Até hoje quando eu sonho – e continuo
sonhando até hoje – sinto o horror de estar ali nua na frente de todas aquelas caras
horrorosas, ouvindo os xingamentos e as ofensas. Xingamentos de nomes que eu
nunca tinha ouvido falar: “Sua isso, sua aquilo,... Comunista filha disso, filha daquilo”.
Fiquei ouvindo. Então, tiraram o capuz – e eu fiquei vendo as caras deles ainda por
cima –, seguraram os meus cabelos e começaram a me soquear. E era soco para
tudo que era lado. Meu corpo, da cabeça aos pés, recebeu socos e pontapés. Até
hoje não sei como um ser humano aguenta tudo aquilo. Não aguenta! Eles foram
educados para isso, alguns tinham convicção de que aqueles comunistas precisavam
ser destruídos.14
14 VIOLA, SOLON,e PIRES, Thiago Viera. “Nilce Azevedo Cardoso: relembrar é preciso”. Op. Cit. p. 13. 63
insuficientes para compreender o lado obscuro da violência. O testemunho da vítima coloca sob
a luz da história uma nova realidade que só sua palavra pode produzir. A testemunha violentada
fala do interior do acontecimento, instaurando com sua narrativa um novo acontecimento. Seu
testemunho cria uma nova perspectiva para o fato, algo que só a vítima poderá realizar. A narrativa
é um acontecimento que ressignifica o fato além da mera objetividade formal do observador
externo, revelando a verdade interna da violência que escapa a qualquer observação.
Foi durante as sessões de choque que decidi que não falaria nada. Eu sabia o que
eles sabiam que eu sabia. E sabia que se não falasse seria morta, não tinha outra
saída. Porque eu já tinha feito a minha opção firme lá atrás, muito lá atrás. Então eu já
sabia que estava sendo condenada à morte, pois não falaria. Era desta maneira que
eles estavam recebendo aquela negativa vindo de um corpo cada vez mais torturado,
ensanguentado. Um corpo que respingava sangue por todos os lados. Fui ficando
inchada de tanto apanhar.15
A narrativa faz existir para a história algo que só o testemunho da vítima podia produzir; ela
desvela o lado velado de uma violência que só a testemunha pode revelar. Esta singularidade
torna o seu testemunho um acontecimento e a narrativa, um fato político novo. A narrativa
testemunhal da vítima contém uma potencialidade política própria, que advém da singularidade
da sua verdade, uma verdade que só a vítima pode produzir porque pertence à sua experiência da
violência. A validade de sua verdade está além das verdades procedimentais das testemunhas
do direito. O testemunho da vítima valida-se por si mesmo, enquanto revela o sentir e o viver
oculto que só ele poderia narrar. Ele excede os critérios de verdade ou mentira, de falsidade ou
incoerência, utilizados pela epistemologia da ciência moderna. O testemunho da vítima, quando é
sincero, valida-se por si mesmo. Ele coloca os critérios de validação para os outros observadores
64 15 VIOLA, SOLON,e PIRES, Thiago Viera. “Nilce Azevedo Cardoso: relembrar é preciso”. Op. Cit. p. 15.
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externos. Sua relação com a violência é singular e sua narrativa a respeito da sua experiência do
acontecimento violento lhe confere uma potencialidade política especial.
Um outro aspecto da singularidade do testemunho da vítima é que ela possui a memória imediata
da barbárie16. A memória da barbárie torna a narrativa uma técnica política para desconstruir a
banalização da violência e desarmar o seu pretenso naturalismo biopolítico.
Minha noção do tempo foi-se perdendo. Contava através das trocas de equipe que
saíam para almoçar, jantar, mudar o turno. [...]. No segundo almoço, o tempo de 24
horas tinha passado. Mudaram e falaram em pau-de-arara: “Vamos no pau-de-arara”
porque não tem jeito! Botaram no pau-de-arara. Ainda vai ter que ser estudado isso.
Porque o que faz ao ser humano um pau-de-arara é algo inacreditável. A pessoa
fica de cabeça para baixo, e lúcida, porque o sangue fica circulando. Lúcida? Fica
enlouquecida. Fica enlouquecidamente lúcida!17
9. Agamben, tomando como referência a condição dos campos nazistas, observa que, segundo
o dizer de muitas testemunhas, resta sempre uma lacuna em todo testemunho18. O paradoxo
atravessa o testemunho e torna a testemunha um sobrevivente paradoxal. As lacunas paradoxais
podem ser de diversos tipos e por diversas circunstâncias. Um primeiro paradoxo, talvez o
principal, manifesta-se na impossibilidade de dizer toda a vivência. A lacuna é um resto do indizível
que fica por dizer em todo testemunho. O testemunho, ao dizer, deixa por dizer o essencial do
sofrimento vivido, um resto. A lacuna que resta é o indizível de todo testemunho. O paradoxo da
narrativa da testemunha é que o essencial do seu dizer não pode ser dito pela linguagem. O que
resta por dizer, o resto, é o essencial do testemunho, que, por ser um resto impossível de dizer
em palavras, é o indizível. O indizível do testemunho não depende só da vontade de dizer ou não
dizer da testemunha, mas da impossibilidade ontológica de traduzir em palavras a experiência da
violência sofrida. Este é um primeiro paradoxo do testemunho da vítima.
16 GUINZBURG, J 2010. Escritas da tortura. In: E. TELES; V. SAFLATLE (orgs.), O que resta da ditadura. São Paulo, Boitempo, p. 133-150.
17 VIOLA, SOLON,e PIRES, Thiago Viera. “Nilce Azevedo Cardoso: relembrar é preciso”. Op. Cit. p. 15.
18 AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz. O arquivo e a testemunha. Homo sacer III. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 42. 65
A indizibilizade de todo testemunho remete ao paradoxo de uma verdade que ainda permanece
por dizer aquém da narrativa dita. A densidade do sofrimento vivido é inversamente proporcional
à possibilidade de narrá-lo. Há algo de indizível no próprio testemunho da vítima. Mesmo com
a utilização de todos os recursos narrativos, nunca se poderá dizer plenamente o sofrimento da
violência. A narrativa da tortura não consegue dizer toda a vivência do torturado, nem esgota os
significados da experiência que a tortura provocou nas testemunhas. A zona de indizibilizade da
violência é a lacuna mais dolorosa da testemunha, uma lacuna indizível em que a palavra se torna
muda e o silêncio se transforma no seu maior testemunho. Nela, a testemunha vive o paradoxo
de ter que sofrer, sem poder expor a totalidade da experiência, porque a linguagem é insuficiente
para tornar-se um pleno acontecimento.
Aí de novo choque por todo corpo, e meu corpo enfraquecendo, a vida sumindo. Aí de
repente eles viram que eu estava morrendo. Tiravam dali, massageavam. Eu já tinha
perdido o movimento dos pés e das pernas. Eles me seguravam me arrastavam.
Quando eu me “recuperava”, começava tudo de novo. Nesse meio tempo chegou
mais um almoço. Eles sentaram ao lado e almoçaram. Lembro de dizer: “Bom
apetite!” Nessa altura veio mais um almoço e mais um. E eu dizia: “Bom apetite!”19
10. Agamben propõe como paradigma da testemunha dos campos nazistas a figura do
muçulmano. Denominavam-se muçulmanos aqueles prisioneiros dos campos cujas funções
vitais chegavam a um extremo mínimo da sobrevivência. Nesse estado liminar, o humano
ficava reduzido à mera vida biológica que reproduzia as funções vitais mínimas sem noção
de sua existência. Eles, que haviam perdido a consciência de si, perambulavam em estado
cataléptico, ficando a maioria do tempo numa posição instintiva de cócoras por impossibilidade
de maiores movimentos. Essa posição lhes valeu o nome de muçulmanos. O muçulmano era o
estado que testemunhava, pela impossibilidade de dizer, o indizível do sofrimento nos campos.
O muçulmano se tornou a testemunha que assombrava a todos os moradores do campo que
sabiam ser esse seu futuro inexorável, se a ele chegassem. A impossibilidade de testemunhar
do muçulmano reduzido à mera vida biológica era a plenitude de um testemunho que era
indizível pelas palavras daqueles que sobreviveram20.
19 VIOLA, SOLON,e PIRES, Thiago Viera. “Nilce Azevedo Cardoso: relembrar é preciso”. Op. Cit. p. 15-16.
66 20 AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz. O arquivo e a testemunha. Homo sacer III. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 49-92.
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paradoxal, cujo vazio é ocupado pelo testemunho impossível de ser dito, sua ausência se
tornou o verdadeiro testemunho. A ausência dos desaparecidos testemunha contra a barbárie
como o mais puro testemunho. Ela cria o acontecimento puro da linguagem indizível. A
ausência indizível do desaparecido se torna o testemunho mais puro, porque, nela, a ausência
de palavras foi transformada em presença do ausente. A presença ausente do desaparecido
testemunha como realidade que não pode ser traduzida em palavras, embora transpareça
como pura realidade. O testemunho do desaparecido é o paradoxo do testemunho que torna
sua ausência puro acontecimento.
O acontecimento, sendo linguagem, não pode ser reduzido à linguagem. Nós só temos acesso
ao acontecimento pela linguagem; só temos acesso ao sofrimento do torturado através de seu
enunciado. Todavia, há uma sombra do acontecimento que escapa à linguagem e que foge de
nossa possibilidade de compreender. O sofrimento da violência destaca no torturado um tipo
de testemunho em que o paradoxo humano de não poder dizer tudo o que foi vivido se conjuga
com a potência de dizer o vivido como possibilidade de registro histórico. De alguma forma, o
testemunho do torturado reflete o paradoxo da condição humana do sujeito que tem a potência
de dizer embutida na impotência de dizer-se totalmente.
21 “As ‘verdadeiras’ testemunhas, as ‘testemunhas integrais’, são as que não testemunharam, nem teriam podido fazê-lo. São os mu-
çulmanos, os submersos. Os sobreviventes, como pseudotestemunhas, falam em seu lugar, por delegação: testemunham um testemunho
68 que falta” AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz. O arquivo e a testemunha. Homo sacer III. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 43.
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Há muito de indizível na inumanidade a que se encontram reduzidos aqueles que, por violência
política ou econômica, sobrevivem no limiar da mera vida biológica. O testemunho situa-se como
potência de dizer ou não, que, no caso das vidas desumanizadas, revela-se como cisão trágica do
ser vivente que, tendo o poder da palavra, não poder dizer a totalidade do seu sofrimento. Quando
se nega a possibilidade do testemunho ao torturado ou qualquer violentado, apaga-se da história
sua condição de sujeito social e, com isso, se nega a possibilidade do acontecimento do seu
testemunho. A vida desumanizada contém uma experiência inenarrável que o testemunho não
pode dizer em sua totalidade, mas que só o testemunho pode dizer como acontecimento real.
Há uma impotência de dizer a totalidade do acontecimento da condição inumana, assim como há
uma potência de traduzir em acontecimento a narrativa possível do testemunho. O testemunho
manifesta-se de forma paradoxal como impotência de dizer a totalidade do acontecimento e
potência de dizer como acontecimento a narrativa da vítima.
22 VIOLA, SOLON,e PIRES, Thiago Viera. “Nilce Azevedo Cardoso: relembrar é preciso”. Op. Cit. p. 16-17.
23 “Contudo, é precisamente essa impossibilidade de unir o ser vivo e a linguagem, a phonê e o logos, o não-humano e o humano
– ao invés de autorizar que a significação acabe diferida infinitamente – que permite o testemunho” AGAMBEN, Giorgio. O que resta de
Auschwitz. O arquivo e a testemunha. Homo sacer III. São Paulo: Boitempo, 2008, p. 132-133. 69
CONCLUSÃO
12. A validade da verdade da testemunha sobrevivente e da vida desumanizada não decorre
da mera verificabilidade dos fatos, que qualquer observador externo poderia fazer. A vida do
torturado não pode dizer o inenarrável do acontecimento inumano, mas tal impossibilidade
torna seu testemunho, no que pode dizer, mais incisivo. A impotência do torturado de dizer a
totalidade de seu sofrimento torna seu testemunho mais potente. A verdade do testemunho
dos que foram violentados transcende a empiria dos fatos para penetrar na condição indizível
da experiência vivida.
Aí foi indo, aquele choque cada vez mais intenso, a perda de sangue, a condição
humana se perdendo. Aí de repente o ser humano se esfacela! Parece que aquela
unidade que a gente tem, não existe mais. Parece que o corpo fica despedaçado,
como se quisessem o corpo da alma24.
24 VIOLA, Solon,e PIRES, Thiago Viera. “Nilce Azevedo Cardoso: relembrar é preciso”. Op. Cit. p. 17.
25 Utilizamos o termo latino auctor no sentido analisado por Agamben, que remete. à origem etimológica o termo auctor, o qual in-
dica alguém que é testemunha e responsável daquilo que é auctor. “O testemunho sempre é, pois, um ator de ‘autor”, implicando sempre
uma dualidade essencial, em que são integradas e passam a valer a insuficiência ou a incapacidade” AGAMBEN, Giorgio. O que resta de
70 Auschwitz. O arquivo e a testemunha. Homo sacer III. São Paulo: Boitempo, 2008, p. p. 150.
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Os testemunhos dos sobreviventes e o vazio dos desaparecidos denotam aquilo de não dito
que permanece em suas próprias palavras e no silêncio. A linguagem não é suficiente para
expressar o testemunho. O acontecimento que os tornou torturados ou desaparecidos não
pode ser objetivado em linguagem. A linguagem, sendo o modo de ser do humano, é incapaz
de expressar todo o humano de uma vítima da violência. Só as vítimas da violência podem
revelar uma verdade que é essencial para efetivar uma justiça histórica.
O testemunho das vítimas coloca em questão muitos métodos usuais na justiça procedimental.
Em primeiro lugar, a condição das vítimas interpela o sentido da justiça de modo que o
objetivo desta deve ser, primeiramente, restaurar na medida do possível a injustiça sofrida
pelas vítimas. Em segundo lugar, a perspectiva das vítimas denota que a justiça existe
em relação aos injustiçados, as vítimas, e não para a mera preservação da lei e a ordem
estabelecidas. Em terceiro lugar, para aferir as formas de justiça restauradora da injustiça
cometida deverá recorrer à memória das vítimas como meio para reconhecer a verdade
presente na experiência dos injustiçados; só quem recorre à memória da injustiça poderá
implementar uma justiça restauradora eficiente. O testemunho das vítimas ultrapassa a
função de peça processual e se torna critério ético de uma justiça histórica, que, por ter
como referência a alteridade negada das vítimas, será uma justiça das vítimas e, por se valer
da memória, será uma justiça anamnética.
71
REFERÊNCIAS
AGAMBEN, Giorgio. O Homo sacer. O poder soberano e a vida nua. Belo Horizonte: UFMG, 2003.
AGAMBEN, Giorgio. O que resta de Auschwitz. O arquivo e a testemunha. Homo sacer III. São
Paulo: Boitempo, 2008.
BENJAMIN, Walter. 1986. Documentos de cultura, documentos de barbárie. São Paulo, Cultrix,
1986.
FOUCAULT, Michel. O governo de si e dos outros. São Paulo: Martin Fontes, 2010.
GASPARI, Elio. A ditadura escancarada. São Paulo, Cia das Letras, 2002.
GUINZBURG, J .Escritas da tortura. In: E. TELES; V. SAFLATLE (orgs.), O que resta da ditadura. São
Paulo, Boitempo, p. 133-150. 2010.
KANT, Imanuel. Ideas para una historia universal en clave cosmopolita y otros escritos sobre filosofía
de la historia. Madrid, Tecnos, 1987.
VIOLA, SOLON,e PIRES, Thiago Viera. “Nilce Azevedo Cardoso: relembrar é preciso”. In: Relatório
Azul 2011 da Comissão de Direitos Humanos e cidadania da Assembleia Legislativa do Rio Grande
do Sul. Complemento. Porto Alegre, Assembleia Legislativa do RS, 2013, p. 157.
7
73
70ª CARAVANA DA ANISTIA DURANTE
O 53º CONGRESSO DA UNIÃO NACIONAL
DO ESTUDANTES (UNE), GOIÂNIA,
08 DE JUNHO DE 2013.
74
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ACADÊMICOS
75
ARTIGOS
ACADÊMICOS
O DIREITO À VERDADE:
O CASO ARGENTINO1
Sévane Garibian
Doutora em Direito, professora-pesquisadora nas Universidades de Genebra e de
Neuchâtel (Suíça).
Negação, ocultação, distorção. Palavras que traduzem o (mal)trato dos seres e dos fatos, no
centro de todo fenômeno de violência de massa organizada pelo Estado, fora de um contexto
de conflito armado internacional. Palavras que fazem eco a uma invisibilização generalizada,
consubstancial à criminalidade do Estado: esta invisibilização, este buraco deixado na História, é
um sintoma constatado, conhecido, estudado. O mesmo é produzido em dois níveis.
Durante o processo criminal, trata-se de apagar toda pista como potencial prova da política
exterminadora – prova por letra, por imagem, pela palavra, pelo corpo. Ao “erradicar o mal”
trata-se, em primeiro lugar, de fazer calar aquele ou aquilo que pode testemunhar, relatar,
fazer existir, mostrar para ver, dar a entender. Como se isso não houvesse acontecido. As
palavras dos criminosos são elas mesmas portadoras do projeto. Sua clareza é surpreendente.
Pensemos, por exemplo, nas de Talaat Pashá, principal organizador do Genocídio Armênio,
quando ordena, em um telegrama fechado no dia 29 de setembro de 1915: “Há de se colocar
um fim à sua existência (…). Que sejam deportadas todas as crianças com idade de que
possam se lembrar”. Pensemos também nas de Jorge Videla, ditador argentino, quando declara
publicamente, no dia 14 de dezembro de 1979: “o que é um desaparecido? Enquanto esteja
como tal, o desaparecido é uma incógnita (…), não há entidade, não está nem morto nem vivo,
1 Este texto foi inicialmente publicado em espanhol em S. RIPOL CARULLA e C. VILLAN DURAN dir., Justicia de transición. El caso
de España, Institut Catala Internacional per la Pau (ICIP), coll. Resultats de Recerca, Barcelona, 2012, pp. 51-63 (acessável em: www.
gencat.cat/icip).
Este mecanismo de obstrução por anistia, ainda que repetido ao longo da História depois
de situações de crimes de massa, não é, contudo, infalível. Os anos 90 viram a presença,
na América Latina, de uma nova ferramenta jurídica que permitiu às vítimas de violações
graves dos direitos humanos cometidas pelo seu próprio Estado, exigir o acesso ao juiz penal
apesar das anistias: o direito à verdade, criado por via pretoriana graças a uma interpretação
jurisdicional criativa do direito internacional preexistente, e que confronta o Estado com uma
forma de “retorno do reprimido”.
Propomos aqui uma apresentação do direito à verdade, sobre a base da experiência argentina
na matéria, absolutamente exemplar. Vários fatores decisivos justificam a eleição da Argentina
como caso paradigmático.
Logo de seu ascenso à presidência com eleições livres, após sete anos de ditadura (1976-1983),
Raúl Alfonsín, iniciador da transição democrática, institui a CONADEP (ou “Comissão Sábato”)3
3 A Comissão, criada por decreto 187 de 15 de dezembro de 1983, é dirigida pelo escritor argentino Ernesto Sábato. 77
encarregada de investigar os desaparecimentos forçados perpetrados pelo regime militar.4 No
mesmo ano, o Congresso anula a lei de autoanistia previamente promulgada sob o governo do
general Bignone em nome da pacificação do país e da reconciliação social5 (anulação cuja validez
constitucional a Suprema Corte confirmará posteriormente)6; e o presidente Alfonsín autoriza os
processos penais contra os generais das três primeiras juntas militares.7 Em 1985, a CONADEP
publica seu célebre relatório Nunca Mais, oferecendo um primeiro panorama dos crimes da
ditadura.8 No dia 22 de abril de 1985, começa, em Buenos Aires, o julgamento histórico das
juntas, a fim de julgar os principais atores da ditadura (anúncio do veredito no dia 9 de dezembro
de 1985).9 Em 1986 e 1987, diante da pressão dos militares e dos movimentos das forças armadas,
Alfonsín promulga duas leis de anistia,10 sendo a constitucionalidade da segunda rapidamente
confirmada em uma decisão muito controversa da Suprema Corte.11 A partir de dezembro de
1990, o novo presidente Menem assina os primeiros decretos e outorga o indulto a todos os
condenados de 1985.12 Atualmente, a Argentina assiste à reabertura dos processos penais após
a revolução jurídica que constitui a anulação das leis de anistia de 1986-87 pelo Congresso, em
2003,13 e a declaração da sua inconstitucionalidade pela Suprema Corte, em 2005.14
4 Deve-se destacar a existência de um relatório prévio redigido pela Comissão Interamericana dos direitos humanos (Informe sobre la
Situación de los Derechos Humanos en Argentina, Organização dos Estados Americanos, Comissão Interamericana dos direitos humanos,
OEA/Ser. L/V/11.49, doc. 19, 11 de abril de 1980), que constitui o primeiro relatório oficial onde esta Comissão alude ao que considera ser
um “plano criminal para combater o terrorismo na Argentina”.
5 Lei de facto 22.924 de 23 de março de 1983, cujo objetivo é impedir todo julgamento dos militares e membros das forças de segu-
rança pelos atos cometidos durante o “combate contra o terrorismo e a subversão” (atos tanto comuns e militares). A lei que anula esta
autoanistia é a lei 23.040 de 22 de dezembro de 1983.
6 Decisões 309:1689 de 30 de dezembro de 1986, “Causa originariamente instruída pelo Conselho Supremo das Forças Armadas em
cumprimento do decreto 158/1983 do Poder Executivo Nacional”.
8 Informe de la Comisión Nacional sobre la Desaparición de Personas (Nunca Mais), CONADEP, Eudeba, Buenos Aires, 8e ed. 2006
(1985). Para um estudo sobre o trabalho da Comissão e seu impacto: E. CRENZEL, “Argentina’s National Commission on the Disappearance
of Persons: Contributions to Transitional Justice”, International Journal of Transitional Justice, 2008, n° 2, pp. 173-191 y, do mesmo autor, La
historia política del Nunca Mais. La memoria de las desapariciones en la Argentina, Siglo Veintiuno Editores, Buenos Aires, 2008.
9 Sobre o julgamento, ver M. SANCINETTI, Derechos humanos en la Argentina postdictatorial, Lerner Editores Associados, Buenos
Aires, 1988.
10 Respectivamente: lei 23.492 de Ponto Final (promulgada dia 24 de dezembro de 1986), e lei 23.521 de Obediência Devida (promulga-
da dia 8 de junho de 1987). A primeira põe fim, em um lapso de 60 dias, às demandas das vítimas da “guerra suja” contra os membros do
exército e da polícia suspeitos de violações aos direitos humanos. A segunda garante a impunidade a todos os militares de patente inferior
à de coronel, sobre a base de uma presunção incontestável segundo a qual tinham obedecido as ordens de oficiais superiores sem haver
podido se opor ou evitar cumpri-las.
12 Sobre todo este período transicional, cf. S. M. AGEITOS, Historia de la impunidad. De las actas de Videla a los indultos de Menem,
Ed. Adriana Hidalgo, Buenos Aires, 2002.
14 Decisões 328:2056 de 14 de junho de 2005, “Simón, Julio Héctor e outros”. Para uma análise crítica do contexto político-jurídico da
retomada dos processos de vara penal, ver G. MAURINO, “A la búsqueda de un pasado en la democracia Argentina”,, en R. GARGARELLA
coord., Teoría y Critica del Derecho Constitucional, Abeledo-Perrot, Buenos Aires, 2008, tomo II, pp. 1031-1059. Ver também L. FILIPPINI y C.
VARSKY, “Desarrollos recientes de las instituciones de la justicia de transición en Argentina”,em V. ABRAMOVICH, A. BOVINO e C. COURTIS
comp., La aplicación de los tratados sobre derechos humanos en el ámbito local. La experiencia de una década, Editores do Porto, Buenos
78 Aires, 2007, pp. 447-472.
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Em terceiro lugar, é por iniciativa deste mesmo país que, em 20 de abril de 2005, adota-se
a primeira resolução da Comissão de direitos humanos das Nações Unidas sobre o Direito à
Verdade.16 A Argentina é também um dos Estados que mais contribuiu para a adoção da Convenção
Internacional para a proteção de todas as pessoas contra os desaparecimentos forçados de 20
de dezembro de 2006, e é um dos primeiros a ratificá-la, em 14 de dezembro de 2007. Agora,
a Convenção de 2006 afirma, em seu Prefácio e em seu artigo 24.2, o direito de conhecer
a verdade sobre as circunstâncias do desaparecimento forçado, a evolução e resultados da
investigação e o destino da pessoa desaparecida; e estabelece que “cada Estado Parte tomará
as medidas adequadas a este respeito”. Atualmente considera-se este texto como a consagração
convencional do direito à verdade. Finalmente, em abril de 2008, a Argentina se compromete
perante o Conselho de direitos humanos das Nações Unidas a impulsionar a preparação de uma
Declaração Internacional sobre o direito à verdade e à memória, com vistas à elaboração de um
futuro tratado de alcance universal sobre o tema.17
15 Cf. R. C. BARRA, “Declaraciones, tratados y convenciones internacionales”, na Reforma de la Constitución explicada por miembros
de la Comisión de redacción, Rubinzal-Culzoni Editores, Buenos Aires, 1994, pp. 167 ss.; G. J. BIDART CAMPOS, “El artículo 75, inciso 22,
de la Constitución y los derechos humanos”, em M. ABREGU y C. COURTIS comp., La aplicación de los tratados sobre derechos humanos
por los tribunales locales, Editores do Porto, Buenos Aires, 2° ed. 2004, pp. 77-88.
17 Cf. L. DESPOUY, “Origines, virtudes y peripecias del derecho a la verdad”, em K. DERGHOUGASSIAN comp., El derrumbe del nega-
cionismo, Planeta, Buenos Aires, 2009, pp. 201-245. 79
O particular exame dos julgamentos pela verdade dos anos 90 na Argentina permite compreender
melhor a passagem do que, em princípio, foi um tipo de “imperativo de ordem moral”,18 ao que se
transforma em um direito subjetivo à verdade, produto de uma criação pretoriana no campo dos
direitos humanos. Mas, sobretudo, esta passagem põe em evidência outra mudança: atualmente
já não é tanto a questão da existência e da efetividade deste direito que se encontra na ordem do
dia, mas aquela, mais sutil, de sua utilidade – ou seja, de sua função sob a luz dos contextos de
sua explicação e dos usos que fazem deles os atores jurídicos.
O direito à verdade, nascido, em seu princípio, da coerção criada pela existência de leis de anistia
que bloqueavam todo acesso ao juiz, produz, por seu turno, uma coerção que dá lugar à invalidação
destas leis.19 Dito de outra maneira, a garantia do direito à verdade pode ser considerada não só
como um fim – ou seja, a abertura da investigação judicial para o conhecimento dos fatos apesar
da existência das leis de anistia – mas também, em definitivo, como um meio que leva a por em
dúvida a validade destas mesmas leis.
A GARANTIA DO DIREITO À
VERDADE COMO UM FIM OU A
OBRIGAÇÃO DO ESTADO DE
INVESTIGAR
Em 3 de março de 1995, o ex-capitão argentino Adolfo Scilingo confessa publicamente seus
crimes cometidos durante a ditadura e sua participação nos “voos da morte”:20 este choque
comove a sociedade civil e motiva aos familiares dos desaparecidos, acompanhados de ONG,
a tentar ações judiciais na Argentina que vão exigir ao Estado a abertura das investigações para
acessar o conhecimento existente sobre o destino das vítimas ainda não encontradas.
A configuração jurídica geral é, então, a seguinte. Primeiro, as leis nacionais de anistia de 1986-
87, sempre em vigor, impedem todo acesso ao juiz penal. Segundo, a reforma constitucional
18 L. BURGORGUE-LARSEN e A. UBEDA DE TORRES, Les grandes décisions de la Cour Interaméricaine des droits de l’homme,
Bruylant, Bruxelles, 2008, p. 740.
19 O termo “coerção” é utilizado aqui no seguinte sentido: consiste em uma situação de fato na qual um ator jurídico é conduzido a
adotar certa solução ou comportamento ao invés de outros, em razão da configuração do sistema jurídico que ele põe em andamento (no
caso do legislador) ou no que ele opera (no caso dos juízes); e se distingue de uma obrigação suscetível de ser transgredida (M. TROPER,
V. CHAMPEIL-DESPLATS e C. GRZEGORCZYK dir., Théorie des contraintes juridiques, LGDJ, Bruylant, Paris, Bruxelles, 2005, pp. 12-13).
20 A confissão, recolhida pelo jornalista argentino Horacio Verbitsky, situa-se no coração do seu, desde então, célebre livro publicado
em 1995: H. VERBITSKY, El vuelo, Planeta, Buenos Aires, 1995. Adolfo Scilingo se apresentará, voluntariamente, na Espanha para dar teste-
munho destes fatos. Será acusado pelo juiz Garzón, e condenado, em 19 de abril de 2005, a 640 anos de prisão. Sua pena será aumentada
80 para 1084 anos pela Suprema Corte espanhola em 7 de julho de 2007.
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de 1994 oferece um lugar privilegiado ao direito internacional dos direitos humanos, integrado
ao bloco de constitucionalidade e de aplicação direta pelo juiz argentino. Por fim, no campo
internacional, precisamente, a jurisprudência da Corte Interamericana dos direitos humanos (a
Corte de San José, “pioneira, na medida em que ela foi a primeira a legislar em seu estatuto
sobre os casos de desaparecimentos forçados”)21 se encontra em uma mudança importante
neste começo dos anos 90.
Fortemente marcada por uma política mundial de luta contra a impunidade (que conduz, em
1998, à adoção do Estatuto da Corte Penal Internacional), a Corte de San José contribui com duas
inovações decisivas, já desde seu primeiro caso contencioso:22 por um lado, afirma a obrigação
do Estado de investigar e processar os autores de graves violações dos direitos humanos –
obrigação que não está expressamente prevista nem na Declaração Americana dos Direitos e
Deveres do Homem (DADH), nem na Convenção Americana sobre direitos humanos (CADH),
mas que emana de uma interpretação ampla do artigo 1.1 da CADH;23 por outro lado, reconhece
o direito dos familiares das pessoas desaparecidas a conhecer o destino das vítimas. A partir de
1988, a Corte de San José expressa uma ideia forte que fundará posteriormente o novo direito à
verdade, não consagrado como tal, na CADH:
Esta jurisprudência marca uma virada: afirma a posição central ocupada pela Corte Interamericana
para o esclarecimento dos fatos e para a busca da verdade, paralelamente à formulação jurídica
22 Caso Velásquez Rodríguez vs. Honduras. Fundo. Sentença de 29 de julho de 1988. Série C No. 4, §§ 162 ss.
23 Artigo 1.1 da CADH: “Os Estados que fazem parte nesta Convenção se comprometem a respeitar os direitos e liberdades reconheci-
dos nela e a garantir seu livre e pleno exercício a toda pessoa que esteja sujeita a sua jurisdição, sem discriminação alguma por motivos de
raça, cor, sexo, idioma, religião, opiniões políticas ou de qualquer outra índole, origem nacional ou social, posição econômica, nascimento
ou qualquer outra condição social”. Destacamos a precisão da Corte segundo a qual “(…) a responsabilidade existe com independência das
mudanças do governo ao passar do tempo e, concretamente, entre o momento em que se comete o fato ilícito que gera a responsabilidade
e aquele em que ela é declarada. O anterior é válido também no campo dos direitos humanos ainda que, desde um ponto de vista ético
ou político, a atitude do novo governo seja muito mais respeitosa desses direitos que a que tinha o governo na época em que as violações
se produziram” (Caso Velásquez Rodríguez vs. Honduras citado, § 184). Ver o interessante debate Orentlicher / Nino sobre o tema: D. F.
ORENTLICHER, “Settling Accounts: The Duty To Prosecute Human Rights Violations of a Prior Regime”, The Yale Law Journal, n° 100, 1991,
pp. 2537-2615; C. S. NINO, “The Duty to Punish Past Abuses of Human Rights Put Into Context: The Case of Argentina”, Ibid., n° 100, 1991,
pp. 2619-2640 ; D. F. ORENTLICHER, “A Reply to Professor Nino”, Ibid., n° 100, 1991, pp. 2641-2643.
É nesta configuração que, em 1995, iniciam-se na Argentina os dois primeiros casos que dão
origem aos julgamentos pela verdade, perante a Câmara Criminal e Correcional Federal de
Buenos Aires27 (casos Mônica Mignone e Alejandra Lapacó).28 O objetivo principal é o de esquivar
o bloqueio judicial operado pelas leis de anistia; mais exatamente, propor uma conciliação entre
duas exigências a priori inconciliáveis: por um lado, o respeito às anistias previstas por leis
adotadas pelo Estado democrático no contexto de suas prerrogativas soberanas, e cuja validade
foi confirmada pela Suprema Corte; por outro, o respeito do direito do juiz, garantidor da missão
da justiça (em particular o juiz penal, cujo papel é percebido pelos familiares das vítimas e das
ONGs como simbolicamente muito mais importante que o do juiz civil ou administrativo).29
A estratégia de conciliação adotada consiste, então, em criar a demanda sobre um novo direito
subjetivo, o direito à verdade – emergente da jurisprudência da Corte de San José, indefinido e
ausente no direito argentino. Com este fim, os solicitantes remetem-se ao direito internacional
dos direitos humanos, cujos principais instrumentos (aqui a CADH) formam parte do bloco de
constitucionalidade desde 1994; e também a Constituição Nacional como marco institucional em
que o Poder Judicial deve intervir para proteger os direitos das pessoas. Especificam, ademais,
25 Cfr. detalhes em L. HENNEBEL, La Convention américaine des droits de l’homme. Mécanismes de protection et étendue des droits
et des libertés, Bruylant, Bruxelles, 2007, pp. 532-533.
26 Ver J. E. MENDEZ, “The Right to Truth”, em C. C. JOYNER dir., Reining in Impunity for International Crimes and Serious Violations of
Fundamental Human Rights: Proceedings of the Siracusa Conference 17-21 September 1998, Erès, St. Agnes, 1998, pp. 255-278; “Derecho a
la verdad frente a las graves violaciones a los derechos humanos”, em M. ABREGU e C. COURTIS comp., La aplicación de los tratados sobre
derechos humanos…, Op. cit., pp. 517-540; “The Human Right to Truth: Lessons Learned from Latin America Experiences”, em T. A. BORER
eds, Telling the Truths : Truth Telling and Peace Building in Post-conflict Societies, University of Notre-Dame Press, Notre-Dame, 2006, pp.
115-151. Para este autor, a “reparação integral” implica: a indenização, o esclarecimento dos fatos com vistas ao conhecimento da verdade
sobre as vítimas, e o processo de persecução dos responsáveis. Este conceito de “reparação integral” está associado, neste contexto, a
quatro obrigações do Estado (obrigações interdependentes): investigar e fazer conhecida a verdade, processar e julgar aos responsáveis,
reparar os danos morais e materiais, e eliminar das forças de segurança do Estado as pessoas que houvessem cometido, ordenado ou
tolerado todas estas graves violações.
27 Trata-se da jurisdição perante a qual houve lugar ao julgamento das juntas de 1985, como outros casos relacionados com violações
dos direitos humanos cometidas durante a ditadura militar. Cf. infra, nota 28.
28 A primeira é a filha desaparecida de Emilio F. Mignone, Presidente do CELS (Centro de Estudos Legais e Sociais, Organização Não
Governamental que trabalha desde 1979 na promoção e proteção dos direitos humanos e o fortalecimento do sistema democrático na
Argentina), causa n° 761. A segunda, filha desaparecida de Carmen Aguiar de Lapacó, Mãe da Praça de Mayo e membro da Comissão Di-
retora do CELS, causa n° 450. Sobre a eleição estratégica desses dois “casos testemunhas” e para uma síntese dos fatos: cf. M. ABREGU,
“La tutela judicial del derecho a la verdad en la Argentina”, Revista IIDH, vol. 24, 1996, pp. 16 ss.
82 29 Sobre a eleição do tribunal e o “peso político” de tal eleição: M. ABREGU, Ibid., pp. 24 ss.
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ACADÊMICOS
que o direito à verdade está implícito na forma republicana de governo, reconhecido pelo artigo
33 da Carta Magna.30
O objetivo é duplo: em primeiro lugar, obter a proteção judicial do direito à verdade apresentado,
com direito ao dolo, como um direito humano inalienável; em segundo lugar, assegurar e
garantir o estabelecimento de provas que permitam demonstrar e compreender a organização
burocrática do terrorismo do Estado.31 A justificativa desta tarefa consiste em dizer que o direito
à verdade permitiria conciliar anistia e acesso ao juiz penal, dado que o mesmo situa-se no centro
do processo judicial cujo objeto é diferente do julgamento de processo jurídico clássico. A função
do juiz penal, no contexto dos denominados julgamentos da verdade, não seria a de julgar os
responsáveis pelos crimes, mas averiguar a verdade, não como antecedente necessário da pena,
mas como um objeto em si.32
É precisamente este último ponto – a averiguação da verdade como objetivo possível e imediato,
em si, do processo penal – que prevê a maior quantidade de problemas e dá lugar a uma posição
“ziguezagueante” por parte dos juízes.34 A Câmara aceita o processo dos requerentes nos dois
casos, antes de realizar uma mudança brusca após a recusa do Estado Maior do Exército de
transmitir informação sobre o destino das pessoas detidas-desaparecidas:35 em 1995, “os passos
30 Cf. M. ABREGU, Ibid., pp. 18-19. Artigo 33 da Constituição Argentina: “As declarações, direitos e garantias que enumeram a Consti-
tuição, não serão entendidos como negação de outros direitos e garantias não enumeradas; mas que nascem do princípio da soberania
do povo e da forma republicana de governo”.
32 Ibid., p. 25.
33 Sobre este tema, cf. os artigos de M. PINTO, L. G. FILIPPINI, M. ABREGU e O. ESPINOZA no capítulo II (sobre “valor e eficacia das
decisiões dos órgãos internacionais de proteção”) de V. ABRAMOVICH, A. BOVINO e C. COURTIS comp., La aplicación de los tratados sobre
derechos humanos en el ámbito local…, Op. cit., pp. 119-214.
34 A. OLIVEIRA e M. J. GUEMBE, “La verdad, derecho de la sociedad”, em M. ABREGU e C. COURTIS comp., La aplicación de los tra-
tados sobre derechos humanos…, Op. cit., p. 556. Para uma síntese das posições dos juízes da Câmara nos dois casos: M. ABREGU, “La
tutela judicial del derecho a la verdad en la Argentina”, Op. cit., pp. 30 ss.
35 Segundo as Forças Armadas: 1. não existe modo de reconstruir os arquivos pedidos; 2. ademais, a justiça não tem jurisdição nem
competência para solicitar essa informação; 3. e as Forças Armadas somente têm obrigação de informar ao Presidente da República ou,
no caso, a algum organismo dependente daquele. 83
de avanço e retrocesso são, entretanto, a característica mais marcada destes processos”.36
Carmen Aguiar de Lapacó interpõe recurso extraordinário, o qual é recusado pela maioria da
Suprema Corte, em 13 de agosto de 1998.37
36 M. ABREGU, “Derecho a la verdad vs impunidad”, Revista IIDH, vol. 27, 1998, p. 119.
37 Decisões 321:2031 de 13 de agosto de 1998, “Suárez Mason, Carlos Guillermo”: “(…) dado que as diligências de investigação têm
por finalidade comprovar a existência de um fato punível e descobrir os autores (…), não resulta admissível sua realização no estado atual
da presente causa, ao se haver esgotado seu objeto processual. A realização das medidas requeridas implicaria a reabertura do processo
e o consequente exercício de atividade jurisdicional contra aqueles que foram definitivamente demitidos por condutas que deram lugar à
formação da presente causa, pelo que não se adverte o objeto da diligência solicitada, dado que careceria de toda virtualidade a acumula-
ção de prova de cargo sem um sujeito passivo contra o qual pudesse fazer valer”. Cf. as dissidências dos juízes Petracchi e Bossert, do juiz
Fayt, e do juiz Boggiano. No que concerne ao caso Mignone, a Câmara adota, em 18 de julho de 1995, uma confusa resolução que significa
a virtual clausura da investigação que se havia reativado.
38 As decisões do tribunal máximo somente alcançam o caso sub-examine. Recordamos que, paralelamente, outros familiares optam
por apresentar uma ação de habeas data, ainda que não existisse uma lei que regulamentasse o exercício deste direito constitucional
para obter informação. Dois meses depois da decisão de Lapacó, a Suprema Corte suaviza sua postura no caso Urteaga (Julgamentos da
verdades 321:2767 de 15 de outubro de 1998, “Urteaga, Facundo Raúl”): deixa de lado a possibilidade de recorrer a justiça, por meio do
habeas data, para solicitar informação sobre os fatos ocorridos durante a última ditadura. No entanto, esta via de reclamação apresenta
sérias limitações para estes casos. Cf. M. ABREGU, “Derecho a la verdad vs. Impunidad”, Op. cit., pp. 117-119.
39 Relatório n° 21/00 da Comissão interamericana, caso 12.059, 29 de fevereiro de 2000 (onde se reproduz o texto do acordo). A nor-
mativa que alude o acordo não foi ditada. A Comissão interamericana teve uma posição militante no que se refere ao reconhecimento do
direito à verdade desde sua escrita de alegações finais no caso Ernesto Rafael Castillo Páez (30 de junho de 1997): cf. L. HENNEBEL, Op.
cit., p. 533, e L. BURGORGUE-LARSEN e A. UBEDA DE TORRES, Op. cit., p. 745.
40 Para mais informações, ver o site na internet de l’Asamblea Permanente pelos direitos humanos (APDH) de “La Plata”: http://
apdhlaplata.org.ar/v1/category/juicio-por-la-verdad. Finalmente, este tipo de procedimento será validado tanto pela Câmara Nacional de
Cassação Penal (cf. as decisões adotadas pela Sala IV nos casos “Corres, Julián Oscar s/ recurso de queja” de 13 de setembro de 2000, e
“Rivarola, Ricardo Horacio s/ recurso” de 21 de outubro de 2002) como pela Suprema Corte, mas somente tangencialmente (por exemplo,
84 no caso Rivarola de 27 de maio de 2004).
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ACADÊMICOS
A GARANTIA DO DIREITO À
VERDADE COMO UM MEIO, OU
A OBRIGAÇÃO DO ESTADO DE
SANCIONAR
Pouco depois do acordo concluído entre a Comissão Interamericana e o governo
argentino, e paralelamente ao desenvolvimento da jurisprudência nacional na matéria,
a Corte de San José, por sua vez, reconhece expressamente e pela primeira vez, o
direito à verdade no caso Bámaca Velásquez, no ano 2000.
Esta jurisprudência confere uma nova dimensão ao direito à verdade. Mas, contrariamente a
opinião da Comissão Interamericana desde 1997, e ao espírito do relatório Joinet preparado para a
Comissão de direitos humanos da ONU do mesmo ano, a Corte de San José somente reconhece
a dimensão individual, não coletiva, do direito à verdade (direito que apenas as vítimas e / ou seus
familiares podem fazer valer).42
Por outra parte, a mesma não admite o caráter autônomo deste direito, que está definido aqui
como um direito “subsumido” das garantias judiciais e da proteção judicial (artigos 8 e 25 da
CADH).43 De fato, admitir sua autonomia seria como criar um novo direito não previsto pela
41 Caso Bámaca Velásquez vs. Guatemala. Fundo. Sentença de 25 de novembro de 2000. Serie C No. 70, §§ 201-202. Sobre esta juris-
prudência, ver os comentários de L. BURGORGUE-LARSEN e A. UBEDA DE TORRES, Op. cit., pp. 737-763.
42 Ao contrário, “a Comissão afirmou que o direito à verdade tem caráter coletivo, que implica no direito da sociedade a ‘ter acesso
à informação essencial para o desenvolvimento dos sistemas democráticos’, e um caráter particular, como o direito dos familiares das
vítimas a conhecer o sucedido com seu ente querido, o que permite uma forma de reparação” (Caso Bámaca Velásquez vs. Guatemala ci-
tado, § 197). No mesmo sentido, cf. o voto fundamentado do juiz A. A. Cançado Trindade (§ 30), e o voto fundamentado do juíz concorrente
Hernán Salgado Pesantes. Ver tambem Question of the impunity of perpetrators of human rights violations (civil and political), Relatório
Louis Joinet para a Comissão dos direitos humanos, UN Doc. E/CN.4/Sub.2/1997/20/Rev.1, 2 de outubro de 1997. Sobre o conceito do direito
à verdade nos textos jurídicos internacionais: Y. NAQVI, “The right to the truth in international law: fact or fiction?”, International Review of
the Red Cross, 2006, n° 862, pp. 254 ss.
43 A Comissão interamericana considera que o direito à verdade “surge como princípio emergente do direito internacional sob a
interpretação dinâmica dos tratados de direitos humanos e, especificamente, dos artigos 1.1, 8, 25 e 13 da Convenção Americana” (Caso 85
CADH, e trair, de alguma maneira, a energia soberana dos Estados-partes – a própria Corte havia
afirmado previamente, no marco do caso Castillo Paez, em 1997, que o que a Comissão chama
de “direito à verdade” é “um direito não existente na Convenção Americana, mesmo que possa
corresponder a um conceito ainda em desenvolvimento doutrinal e jurisprudencial”.44 Para os
juízes interamericanos, trata-se, então, de ampliar o conteúdo dos direitos preexistentes pela
via de uma interpretação dinâmica, sem parecer proceder, no entanto, na forma, a uma revisão
jurisdicional da CADH. Este mecanismo nos faz pensar naquele, muito similar, utilizado pelos
juízes da Corte Europeia dos direitos humanos quando recorrem à teoria da inerência para a
determinação jurisdicional das obrigações positivas do Estado.45
(…) à luz das obrigações gerais consagradas nos artigos 1.1 e 2 da Convenção
Americana, os Estados Partes têm o dever de tomar as providências de toda índole
para que ninguém seja subtraído da proteção judicial e do exercício do direito a um
simples recurso e eficaz, nos termos dos artigos 8 e 25 da Convenção. (…) As leis de
auto-anistia conduzem à falta de defesa das vítimas e à perpetuação da impunidade,
Bámaca Velásquez vs. Guatemala citado, § 197). O artigo 13 da CADH prevê a liberdade de pensamento e de expressão. Ver também o
voto fundamentado do juiz A. A. Cançado Trindade, que fala, da “prevalência do direito à verdade”: “a prevalência do direito à verdade se
configura como uma conditio sine qua non para fazer cumprir o direito às garantias judiciais (artigo 8 da Convenção Americana) e o direito
à proteção judicial (artigo 25 da Convenção)” (§ 30); o direito à verdade “constitui (…) o pressuposto para o próprio acesso efetivo a justiça
– a níveis nacional e internacional” (§ 32). E acrescenta: “(…) Estamos perante um legítimo exercício hermenêutico, em perfeita conformi-
dade com as regras gerais de interpretação dos tratados, mediante o qual se busca assegurar o próprio efeito (effet utile) da Convenção
Americana sobre os direitos humanos no direito interno dos Estados-Partes, maximizando a garantia dos direitos por esta protegidos.
A própria jurisprudência internacional em matéria de direitos humanos deu amostras de seu entendimento de tal exercício legítimo de
interpretação, estendendo a proteção a situações novas a partir dos direitos preexistentes” (§§ 33-34).
44 Caso Castillo Páez vs. Perú. Fundo. Sentença de 3 de novembro de 1997. Serie C No. 34, § 86.
45 Cf. F. SUDRE, “Les ‘obligations positives’ dans la jurisprudence européenne des droits de l’homme”, Revue trimestrielle des droits de
86 l’homme, 1995, pp. 363-384. Ver também os detalhes de L. BURGORGUE-LARSEN e A. UBEDA DE TORRES, Op. cit., pp. 749 ss.
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ACADÊMICOS
A Corte de San José confirmará, regularmente: 1. o laço intrínseco entre direito à verdade e
acesso à justiça, e 2. a incompatibilidade entre estes e as leis de anistia.47 Ademais, estabelecerá
que “a ‘verdade histórica’ contida nos relatórios das [Comissões Nacionais da Verdade] não pode
substituir a obrigação do Estado de obter a verdade através dos processos judiciais. Nesse
sentido, os artigos 1.1, 8 e 25 da Convenção protegem a verdade em seu conjunto (…)”:48
46 Caso Barrios Altos vs. Peru. Fundo. Sentença de 14 de março de 2001. Série C No. 75, §§ 41, 43, 44. Os juízes também recordam (no
§ 48) a definição do direito à verdade contido no § 201 da sentença Bámaca Velásquez vs. Guatemala (supra, nota 40). Em seu voto concor-
rente, o juiz A. A. Cançado Trindade precisa: as “ponderações da Corte Interamericana constituem um novo e grande salto qualitativo em
sua jurisprudência, no sentido de buscar superar um obstáculo que os órgãos internacionais de supervisão dos direitos humanos ainda
não conseguiram transpor: a impunidade, com a consequente erosão da confiança da população nas instituições públicas” (§ 4 de seu
voto); e enfatiza que “as chamadas auto-anistias são, em suma, uma afronta inadmissível ao direito à verdade e ao direito à justiça (come-
çando pelo próprio acesso à justiça)” (§ 5 de seu voto). Ver os comentários de F. GUARIGLIA, “Los límites de la impunidad: la sentencia de
la Corte interamericana de derechos humanos en el caso ‘Barrios Altos’”, Nueva Doctrina Penal, 2001/A, pp. 209-230.
47 Cfr. em particular os casos: Almonacid Arellano e outros vs. Chile. Exceções Preliminares, Fundo, Reparações e Custos. Sentença
de 26 de setembro de 2006. Série C No. 154; A Cantuta vs. Perú. Fundo, Reparações e Custos. Sentença de 29 de novembro de 2006. Série
C No. 162; e o mais recente caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia) vs. Brasil. Exceções Preliminares, Fundo, Reparações e
Custos. Sentença de 24 de novembro de 2010. Série C No. 219. Para a confirmação explícita da inexistência do direito autônomo à verdade:
cf. caso Blanco Romero e outros vs. Venezuela. Fundo, Reparações e Custos. Sentença de 28 de novembro de 2005. Série C No. 138, § 62,
e o caso do Massacre do Povo Bello vs. Colombia. Fundo, Reparações e Custos. Sentença de 31 de janeiro de 2006. Série C No. 140, § 219.
É a grande novidade na Argentina: os julgamentos da verdade, prática judicial sui generis situada
entre Comissão da Verdade (reparação simbólica) e julgamento de ação penal (retribuição),
inicialmente e inteiramente fabricada para conciliar anistia e o acesso ao juiz, não conseguem
operar a conciliação pretendida. Esquecimento fictício do Estado, por via de anistia e missão
de justiça, são declarados fundamentalmente incompatíveis. Nesta nova configuração jurídica,
a garantia do direito à verdade, se transforma em uma espécie de antecâmara da ação penal
clássica, possível de agora em diante. De fato, a anulação das leis de 1986-1987 e a reabertura
oficial das causas penais na Argentina não encerram, entretanto, os julgamentos da verdade.
Esta prática híbrida não só continua em La Plata, paralelamente aos processos penais nacionais,
mas também oferece material de investigação e importantes testemunhos, ou seja, um trabalho
de reconstrução dos fatos utilizado para a preparação dos julgamentos penais.
50 Decisões 328:2056 de 14 de junho de 2005, “Simón, Julio Héctor y otros”. Para um enfoque crítico, neste contexto, sobre o valor da
jurisprudência interamericana na ordem jurídica interna e sua autoridade democrática: L. FILIPPINI, “Alguns problemas na aplicação do
direito internacional dos direitos humanos na sentença Simón da Corte Suprema Argentina”, em M. REED HURTADO ed., Judicialización
de Crímenes de Sistema – Estudios de caso y análisis comparado, Centro Internacional para la Justicia Transicional, Bogotá, 2008, pp. 467-
511; G. MAURINO, Op. cit., pp. 1057 ss. ; M. F. VALLE, “Corte suprema, dictadura militar y un fallo para pensar”, en R. GARGARELLA coord.,
Teoría y Critica del Derecho Constitucional, Op. cit., p. 1070. Ver também o debate Rosenkrantz / Filippini: C. F. ROSENKRANTZ, “En contra
de los ‘Préstamos’ y de otros usos ‘no autoritativos’ del derecho extranjero”, Revista Jurídica de la Universidad de Palermo, ano 6, n° 1,
outubro 2005, acessível na página web da Universidade de Palermo; L. FILIPPINI, “El derecho internacional de los derechos humanos no es
un préstamo. Reflexiones sobre la critica a los prestamos de Carlos F. Rosenkrantz”, Ibid., ano 8, n° 1, setembro 2007; C. F. ROSENKRANTZ,
“Advertencias a un internacionalista (o los problemas de Simón y Mazzeo)”, Idem.
51 Veja-se, sobretudo, a dissidência do juiz Fayt, em particular §§ 11 ss., 43, e 79 de seu voto. Para desenvolvimentos: C. A. E. BAKKER,
“A Full Stop to Amnesty in Argentina. The Simón Case”, Journal of International Criminal Justice, 2005, n° 3, pp. 1106-1120; H. L. FOLGUEI-
RO, “Inconstitucionalidad de la Leyes de Punto Final y Obediencia Debida. Notas al fallo ‘Simón’ de la Corte Suprema de Justicia de la
Nación”, em Derecho a la Identidad y Persecución de Crímenes de Lesa Humanidad, Abuelas de Plaza de Mayo, Buenos Aires, 2006, pp. 98
ss. Note-se, de passagem, as importantes críticas formais às que esta decisão foi submetida: excessivamente longa, fragmentada e mal
estruturada. É, em efeito, de acesso muito difícil, inclusive para os profissionais do direito.
88 52 Cf. em particular os votos dos juízes Boggiano (§ 25), Maqueda (§ 29) e Argibay (§ 14).
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ACADÊMICOS
MANIFESTAÇÃO DE ESTUDANTES DURANTE 71ª CARAVANA DA ANISTIA EM IBIÚNA – SP, REALIZADA EM 15 DE JUNHO DE 2013.
Duas outras questões são levantadas. Primeiro, no plano interno (argentino), quais são os
contornos e os limites exatos da colaboração e do “diálogo entre juízes” que parecem nascer,
nestes últimos anos, da coexistência, única em seu gênero, entre julgamentos da verdade e
julgamentos penais – em particular, desde o ponto de vista do respeito dos direitos dos acusados?
Em seguida, no plano internacional, podemos nos perguntar se o vínculo estabelecido pela Corte
de San José entre o direito à verdade e os artigos 8 e 25 da CADH é imutável53: de fato, como
compreender, especialmente, a recente consagração convencional do direito à verdade como
direito subjetivo autônomo na Convenção Internacional para a proteção de todas as pessoas
contra os desaparecimentos forçados, de 20 de dezembro de 2006?54 Sobretudo, que sentido e
que consequências pode ter tal consagração para um Estado que, como a Espanha, ratifica esta
Convenção em 2009, no momento em que seu próprio passado ditatorial, sob a anistia desde
1977, vem com força à tona através de novas reivindicações dos familiares de desaparecidos do
franquismo, dando lugar a uma atualidade tempestuosa?
53 Veja, por ejemplo, a critica de L. BURGORGUE-LARSEN y A. UBEDA DE TORRES, Op. cit., pp. 750-751.
“The Human Right to Truth: Lessons Learned from Latin America Experiences”, en T. A. BORER
eds, Telling the Truths : Truth Telling and Peace Building in Post-conflict Societies, University of
Notre-Dame Press, Notre-Dame, 2006, pp. 115-151
ABREGU, M. “Derecho a la verdad vs impunidad”, Revista IIDH, vol. 27, 1998, p. 119.
AGEITOS, S. M. Historia de la impunidad. De las actas de Videla a los indultos de Menem, Ed.
Adriana Hidalgo, Buenos Aires, 2002.
BIDART CAMPOS, G. J. “El artículo 75, inciso 22, de la Constitución y los derechos humanos”, en
M. ABREGU y C. COURTIS comp., La aplicación de los tratados sobre derechos humanos por los
tribunales locales, Editores del Puerto, Buenos Aires, 2° ed. 2004, pp. 77-88.
FILIPPINI, L. “Algunos problemas en la aplicación del derecho internacional de los derechos humanos
en el fallo Simón de la Corte Suprema Argentina”, en REED HURTADO, M. ed., Judicialización de
Crímenes de Sistema – Estudios de caso y análisis comparado, Centro Internacional para la Justicia
90 Transicional, Bogotá, 2008, pp. 467-511;
APRESENTAÇÃO ENTREVISTAS ARTIGOS DOSSIÊ ESPECIAL DOCUMENTOS
ACADÊMICOS
MENDEZ, J. E. “The Right to Truth”, en C. C. JOYNER dir., Reining in Impunity for International Crimes
and Serious Violations of Fundamental Human Rights: Proceedings of the Siracusa Conference 17-
21 September 1998, Erès, St. Agnes, 1998, pp. 255-278
NINO, C. S. “The Duty to Punish Past Abuses of Human Rights Put Into Context: The Case of
Argentina”, Ibid., n° 100, 1991.
ORENTLICHER, D. F. “Settling Accounts: The Duty To Prosecute Human Rights Violations of a Prior
Regime”, The Yale Law Journal, n° 100, 1991, pp. 2537-2615
91
SUDRE, F. “Les ‘obligations positives’ dans la jurisprudence européenne des droits de l’homme”,
Revue trimestrielle des droits de l’homme, 1995
SÉVANE GARIBIAN
Doutora em Direito, professora-pesquisadora nas Universidades de Genebra e de Neuchâtel
(Suiça). Trabalha sobre as formas e funções do direito em relação à criminalidade do
Estado, assim como as relações entre direito, história, memória e verdade no tratamento
dos crimes de massa. É autora de numerosas publicações em francês, inglês e espanhol.
É autora especialmente de Le crime contre l’humanité au regard des principes fondateurs de
l’Etat moderne. Naissance et consécration d’un concept (Schulthess/Bruylant/LGDJ, 2009) e,
junto a Alberto Puppo, de Normas, valores, poderes. Ensayos sobre Positivismo y Derecho
internacional (Fontamara, 2010). Recentemente apareceu (co-direção com Elisabeth Anstett
e Jean-Marc Dreyfus): Cadáveres impensables, cadáveres impensados. El tratamiento de
los cuerpos en las violencias de masa y los genocidios (Mino y Dávila, 2013).
Página profissional e publicações completas: http://www2.unine.ch/sevane.garibian
RESUMO: O mecanismo de obstrução por anistia, ainda que repetido ao longo da História, depois
de situações de crimes de massa e de transição política não é, contudo, infalível. Os anos 90
viram a presença, na América Latina, de uma nova ferramenta jurídica que possibilitou às vítimas
de violações graves dos direitos humanos, cometidas por seu próprio Estado, exigir o acesso
ao juiz penal apesar das anistias: o direito à verdade, criado por via pretoriana graças a uma
interpretação jurisdicional criativa do direito internacional preexistente, e que confronta o Estado
com uma forma de “retorno do reprimido”. O exame particular dos julgamentos por verdade dos
anos 90, na Argentina, permite compreender melhor a passagem do que, no princípio, foi um tipo
de “imperativo de ordem moral”, ao que se transforma em um novo direito. Mas, sobretudo, esta
passagem põe em evidência outra mudança: atualmente já não é tanto a questão da existência
e da efetividade deste direito que se encontra na ordem do dia, mas aquela, mais sutil, de sua
utilidade – melhor dizendo, de sua função à luz dos contextos do seu discurso e dos usos que os
atores jurídicos fazem deles.
92
APRESENTAÇÃO ENTREVISTAS ARTIGOS DOSSIÊ ESPECIAL DOCUMENTOS
ACADÊMICOS
ABSTRACT: The obstruction mechanism for amnesty, even if repeated throughout history, after
situations of mass crimes in contexts of political transition, it is not an infallible mechanism. The
90s saw the emergence in Latin America of a new legal tool that allowed the victims of grave
violations of human rights committed by their own state to require access to criminal court,
despite the amnesties: the right to truth created by Praetorian’s means, thanks to a creative
jurisdictional interpretation of the preexisting international law that faces the state with a kind of
“return of the repressed”. The particular examination of truth trials in Argentina during the 90’s
provides a better understanding of that process of transition from what, at first, was regarded as
a sort of “moral imperative” into something that have become a new kind of law. But above all,
that transformation reveals another change: today is not so much the matter of the existence and
effectiveness of this right which is in the agenda, but something more subtle: its utility, that’s to
say, its role on the contexts of its utterance and applications made by the legal actors.
93
ARTIGOS
ACADÊMICOS
CRIMES DA DITADURA
MILITAR BRASILEIRA:
POSSIBILIDADES JURÍDICAS
DE SANÇÃO
Ivan Marx
Procurador da República. Coordenador do GT Justiça de Transição da 2ª CCR,
Doutor em Direito e Ciências Sociais pela Universidad del Museo Social (Argentina)
1. INTRODUÇÃO
No tema da justiça transicional são estudadas as medidas necessárias que devem ser levadas
a cabo por parte dos Estados, em seus processos de redemocratização (ou mesmo de
democratização1), após um período ditatorial ou de uma guerra civil.
Entre estas medidas existe certo consenso a respeito da necessidade de desenvolver ações
para garantir o respeito aos direitos à verdade, à reparação e à justiça. Além disso, cabe destacar
também a necessidade de depuração das instituições democráticas.
Nesse contexto, o Brasil vem se destacando, há tempos, em seu importante programa reparatório
desenvolvido pela Comissão de Anistia. Os direitos à justiça e à verdade, no entanto, apenas
recentemente vêm recebendo os maiores esforços estatais, levados a efeito pelo Ministério
Público Federal (justiça e verdade) e pela Comissão Nacional da Verdade, aliada às comissões
estaduais.
Após iniciar investigações, no ano de 2008, por crimes cometidos por agentes do Estado durante
a última ditadura militar2 no Brasil, o Ministério Público Federal já ingressou com sete ações
penais (quatro no ano de 2012 e três no ano de 2013) por crimes de sequestro e ocultação de
1 Como nos casos de El Salvador (onde não havia previamente uma ordem democrática) e África do Sul (onde a precedente ordem
democrática era limitada a uma classe de pessoas).
94 2 Em que pese o mais correto fosse falar em ditadura cívico-militar, utilizaremos, em geral, o termo “ditadura militar”.
cadáver. Também estão em andamento em torno de 200 investigações por crimes de sequestro,
ocultação de cadáver, homicídio e tortura.
No presente trabalho, pretendemos fazer uma análise sobre as possibilidades jurídicas de sanção
desse crimes. Primeiro, mediante uma análise das teses utilizadas na doutrina internacional e
na jurisprudência dos países que vêm enfrentando o tema, verificando quais se adaptam a um
controle de convencionalidade que respeite nosso direito interno, para logo depois especificar
a diferente amplitude dos critérios adotados com relação ao tipo de crimes e aos eventuais
agentes passíveis de responsabilização.
Embora a condenação do Estado brasileiro pela Corte IDH no caso Gomes Lund e outros vs.
Brasil3 resulte motivo suficiente para que os referidos crimes sejam investigados e julgados,
entende-se que esse controle de convencionalidade deve ser exercido internamente de acordo
com os critérios abaixo citados. Isso se dá em razão de o controle de convencionalidade poder
ser exercido com base em mecanismos jurídicos diferentes, a depender do sistema jurídico do
país que o implementa.
Conforme referem Kristicevic e Affonso4 “O sistema interamericano não impõe modelos rígidos
de cumprimento das sentenças, existindo, portanto, diversos caminhos para que os direitos
sejam garantidos com o alcance dado pela Corte Interamericana.” Desse modo, ainda de acordo
com tais autoras5, são diferentes as soluções nacionais tomadas de boa fé para cumprir as
decisões da Corte, de maneira que é possível “um controle de convencionalidade que não é
uniforme, mas que pode dialogar mais facilmente com a normativa, jurisprudência e doutrina
nacionais”.
3 Corte IDH. Caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia) vs. Brasil. Exceções preliminares, Fundo, Reparações e Custas. Sen-
tença de 24 de novembro de 2010. Serie C, Nº 219.
Sendo assim, analisaremos essas duas possibilidades no plano do direito interno brasileiro.
A esse respeito, inicialmente, cabe destacar a atual inexistência, no Brasil, de tipos penais que
venham a tipificar os crimes previstos no Estatuto do Tribunal Penal Internacional (ETPI)7, no que
pese o fato de o país ter ratificado tal instrumento.
Entretanto, há um crime que foi tipificado no Brasil só muito posteriormente aos fatos ocorridos
durante a última ditadura militar e que pode, de acordo com as circunstâncias em que foi
perpetrado, ser considerado um crime contra a humanidade. Trata-se do crime de tortura8,
tipificado no Brasil somente em 1997, por meio da lei 9.455/979.
Assim, além da aplicação retroativa do delito de tortura, os argumentos que serão expostos
também se referem à possibilidade de aplicação retroativa de outros crimes internacionais
que venham a ser tipificados10. Favoráveis a tal possibilidade estão Kristicevic e Affonso11, para
quem a exigência da Corte IDH (no caso ‘Gomes Lund’), de que o Brasil tipifique o crime de
desaparecimento forçado, objetiva justamente proporcionar sua utilização para a sanção dos
6 Aqui, utilizamos o termo “crime internacional” para nos referir aos crimes mais graves, segundo o Estatuto de Roma: crimes contra
a humanidade, de guerra e de genocídio.
7 Dos crimes previstos em tal Estatuto, no entanto, cabe referir a prévia existência no direito pátrio do crime de genocídio, previsto na
lei 2.889, de 1º de outubro de 1956, que define e pune tal crime.
8 A Convenção contra a Tortura e outros Tratamentos ou Penas Cruéis, Desumanos ou Degradantes, de 1984, foi ratificada pelo Brasil
em 28 de setembro de 1989.
I – constranger alguém com emprego de violência ou grave ameaça, causando-lhe sofrimento físico ou mental:
II – submeter alguém, sob sua guarda, poder ou autoridade, com emprego de violência ou grave amjáça, a intenso sofrimento
físico ou mental, como forma de aplicar castigo pessoal ou medida de caráter preventivo.
10 A respeito, há que se referir que se encontram em trâmite legislativo os projetos de lei nº 4.038/08, cujo artigo 33 define o crime
contra a humanidade de desaparecimento forçado, e nº 301/07, cujo artigo 11 também tipifica o desaparecimento forçado.
Aqui, cabe recordar que os crimes – seja a tortura, o desaparecimento forçado ou outros crimes
contra a humanidade previstos no art. 7º do ETPI – cometidos no momento em que já eram
assim considerados segundo os princípios gerais do direito reconhecidos pela comunidade
internacional, são puníveis, em tese, pela aplicação do art. 15.2 do Pacto Internacional dos
Direitos Civis e Políticos (PIDCP).
Artigo 15
1. ninguém poderá ser condenado por atos ou omissões que não constituam delito
de acordo com o direito nacional ou internacional, no momento em que foram
cometidos. Tampouco poder-se-á impor pena mais grave do que a aplicável no
momento da ocorrência do delito. Se, depois de perpetrado o delito, a lei estipular a
imposição de pena mais leve, o delinquente deverá dela beneficiar-se.
Por isso, o congresso argentino, ao ratificar o PIDCP, fez reserva a essa disposição, segundo o
art. 4º da lei 23.313 (publicada em 13 de maio de 1986): “El gobierno argentino manifiesta que la
aplicación del apartado segundo del art. 15 de Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos,
deberá estar sujeta al principio establecido en el art. 1814 de nuestra Constitución Nacional”.
12 Aqui, cabe ressaltar que não vemos maiores problemas na aplicação do crime de desaparecimento forçado, após tipificado, aos atos
de sequestro mantidos posteriormente à entrada em vigor do novo tipo penal. Isso, em razão do caráter permanente desse crime. Sobre
o assunto, veja-se, abaixo, item 2.3.1.
13 Disposições no mesmo sentido encontram-se na Convenção Europeia de Direitos Humanos (CEDH, art. 7.2) e na Declaração Univer-
sal de Direitos Humanos (DUDH, art. 11.2), sendo exceção a Declaração Americana de Direitos Humanos (CADH, art. 9).
14 “Art. 18. – nenhum habitante da Nação pode ser penalizado sem juízo prévio fundado em lei anterior ao fato do processo, [...]” (tra-
dução do autor) 97
LANÇAMENTO DOS PRODUTOS DO PROJETO RESGATE DA MEMÓRIA VIVA DA REPRESSÃO MILITAR EM GOIÁS, REALIZADO EM
PARCERIA COM A ASSOCIAÇÃO DE ANISTIADOS, PELA CIDADANIA E DIREITOS HUMANOS DO ESTADO DE GOIÁS, GOIÂNIA, 5 DE MARÇO DE 2013.
Com isso buscou garantir, com base no princípio de legalidade, a necessidade de tipificação dos
delitos por uma lei prévia.
A reserva introduzida pelo art. 4º, lei 23.313, passou a ter, desde 1994, hierarquia
constitucional, já que de acordo com o art. 75, inc. 22, a hierarquia constitucional dos
tratados é “nas condições de sua vigência”, é dizer, tal como foram aprovados em
seu momento pelo governo argentino. Cabe concluir, portanto, que, de acordo com
o Constituinte de 1994, ainda em matéria de delitos sujeitos ao direito internacional,
a lei penal deve ser prévia, escrita e certa, para estar de acordo com a garantia do art.
18, CN. Portanto, no direito constitucional argentino, não é suficiente para superar
a barreira que significa mencionada garantia o estabelecimento e configuração
desses delitos mediante os princípios gerais do direito ou o costume internacional.
(Tradução do autor).
15 SABELLI, Héctor E Tiempo, Constitución y Ley Penal. Héctor E. Sabelli y Alfono Santiago. 1ª de. – Buenos Aires: Abeledo-Perrot.
98 (2008). p. 30-31.
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O Brasil, ao contrário da Argentina, ao ratificar o PIDCP, não fez nenhuma reserva à cláusula
prevista em seu artigo 15.222. De modo que, em princípio, a intenção do Estado brasileiro foi a
de aceitar a retroatividade penal a fatos que, em que pese a norma tipificadora seja posterior,
17 Atualmente (desde a Reforma Constitucional de 1994) art. 118, com a seguinte redação: Todos los juicios criminales ordinarios, que
no se deriven del derecho de acusación concedido a la Cámara de Diputados se terminarán por jurados, luego que se establezca en la
República esta institución. La actuación de estos juicios se hará en la misma provincia donde se hubiere cometido el delito; pero cuando
éste se cometa fuera de los límites de la Nación, contra el derecho de gentes, el Congreso determinará por una ley especial el lugar en que
haya de seguirse el juicio.
18 Em que pese sem enfrentar a questão da reserva feita pela Argentina ao art. 15.2 do PICP, o Ministro Maqueda, em seus consideran-
dos no fallo ‘Arancibia Clavel’ (CSJN, “Arancibia Clavel, Enrique L.”, sentencia de 24 de agosto de 2004), afirmou sua aplicação aos crimes
referidos:
“71) Que la vigencia de ese orden internacional imperativo con anterioridad a la comisión de los delitos investigados en la causa
pone en evidencia que resulta plenamente aplicable al caso lo dispuesto por el Pacto Internacional de Derechos Civiles y Políticos establece
en su art. 15.2 que el principio de irretroactividad no se opone al juicio ni a la condena de una persona por actos u omisiones que, en el
momento de cometerse, fueran delictivos según los principios del derecho reconocidos por la comunidad internacional”.
19 A esse respeito, também, importante a crítica do Ministro Fayt, no considerando 43 de seu voto dissidente no fallo “Simón” (CSJN,
“Simón, Julio H. y otros s/privación ilegítima de la libertad”, S. 1767 XXXVIII, sentencia de 14 de junio de 2005), baseada na falta de com-
provação do caráter jus cogens do artigo 15.2 do PIDCP.
21 Tal aplicação retroativa de um tipo penal ocorreu na Colômbia (Corte Suprema de Justicia. Sala de Casación Penal. Caso Cézar Pérez
García, 33118, 13 de mayo de 2010), onde se investigaram crimes ocorridos em 11 de novembro de 1988 na população de Segovia com base
no delito de genocídio, tipificado naquele país em data posterior à comissão dos fatos (Lei 589 de 2000). No caso, ademais, não obstante
Colômbia não tenha feito nenhuma reserva ao parágrafo 2º do art. 15 do PIDCP, a decisão pela retroatividade se baseou no disposto no
parágrafo 1º do mesmo dispositivo – “1. Ninguém poderá ser condenado por atos omissões que não constituam delito de acordo com o
direito nacional ou internacional”. Seguindo essa linha de entendimento, a reserva argentina ao parágrafo 2º não impediria a aplicabilidade
da retroatividade com base no parágrafo 1º, sobre o qual não houve reservas.
22 Conforme Decreto 592/92, “Art. 1º O Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos, apenso por cópia ao presente decreto, será
executado e cumprido tão inteiramente como nele se contém”. 99
na época em que cometidos já fossem considerados delitivos segundo os princípios gerais do
direito reconhecidos pela comunidade internacional.
Em verdade, para o direito penal internacional, a previsão do art. 15.2 do PIDCP sequer deduz
uma aplicação retroativa. De fato, cabe recordar que, para esse direito, o costume também
serve como fonte de direito, não sendo exigível uma lei em sentido formal23. Dessa maneira,
o que resulta proibido no direito penal internacional é a aplicação retroativa de um tipo penal
a um fato que, ao momento em que cometido, não fosse considerado crime segundo as leis
internas ou internacionais, ou mesmo segundo o costume internacional24 (nullum crime sine
praevia iure)25.
Entretanto, tal questão se demonstra mais complicada quando se objetiva penalizar os fatos com
base no direito interno, onde os princípios de direito penal liberal costumam defender de maneira
inapelável o princípio nullun crime sine praevia lege.
De fato, a aplicação retroativa de novas figuras penais ao tipificar crimes internacionais violaria
o disposto na CF brasileira, artigo 5º, incisos XXXIX “não há crime sem lei anterior que o defina,
nem pena sem prévia cominação legal” e XL “a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o
réu”. Essas normas, em princípio, colidem com o art. 15.2 do PIDCP (com alcance constitucional
no Brasil, de acordo com o art. 5º § 2º da CF).
1. A Corte, cuja função seja decidir conforme o direito internacional as controvérsias que sejam submetidas, deverá aplicar;
a. as convenções internacionais, sejam gerais ou particulares, que estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos
Estados litigantes;
b. o costume internacional como prova de uma prática geralmente aceita como direito;
d. as decisões judiciais e as doutrinas dos publicitários de maior competência das diversas nações, como meio auxiliar para a
determinação das regras de direito, sem prejuízo do disposto no Artigo 59. (Grifos nossos).
24 Como refere AMBOS (2008, p. 122), “a referência ao direito internacional vigente e aos princípios gerais do direito, assim como aos
delitos de direito comum, põe em claro que não é necessário que se trate de normas de proibição escritas; assim, o direito consuetudinário
internacional não escrito e os princípios gerais de direito satisfazem o princípio de proibição de retroatividade”.
25 Nesse sentido também CARAMUTTI, Carlos Em Delitos de lesa humanidad: reflexiones acerca de la jurisprudencia de la CSJN /
100 coordinado por Rodolfo L. Vigo – 1º ed. – Buenos Aires: Ediar, p. 23
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Também há que se observar que a retroatividade se aplica a todas aquelas condutas que, de
acordo com o direito internacional (convencional ou consuetudinário), já se consideravam crimes
ao momento dos fatos, não cabendo aqui a limitação aos crimes contra a humanidade (como
ocorre no caso da aplicação da imprescritibilidade).
No entanto, ainda que se aceitando a aplicabilidade retroativa dos crimes internacionais com
base no art. 15.2 do PIDCP27 (limitada a 06 de julho de 1992, data do Decreto 592, que promulgou
a referida Convenção no Brasil28), isso somente deveria ocorrer – assim cremos – naqueles casos
em que o fato não resultava anteriormente condenável no direito interno sob nenhum aspecto.
Assim, se o fato – e pese a que não com todas as características previstas no direito internacional
– já era considerado um crime no direito interno, e por isso lhe fossem aplicáveis sanções com
um mínimo grau de razoabilidade, não seria razoável a aplicação da retroatividade do novo tipo
penal em prejuízo do princípio de legalidade.
Assim, o efetivo afastamento do princípio de legalidade29 deve ocorrer com extrema cautela,
somente quando a não aplicação da retroatividade do crime reconhecido pela comunidade
internacional, posteriormente tipificado no plano interno, possa gerar impunidade ou grave
desproporcionalidade sancionatória.
No caso do crime de desaparecimento forçado, por exemplo, caso venha a ser tipificado no
Brasil, não seria necessário aplicá-lo retroativamente até o ano de 1992, ocasião em que o
Brasil aderiu ao PIDCP, em razão da existência prévia no Código Penal brasileiro de tipificação
para o delito de sequestro30 (inclusive qualificado quando resulta à vítima, em razão de
maus-tratos ou da natureza da detenção, grave sofrimento físico ou moral).
26 Utilizamos o termo ‘crimes reconhecidos pela comunidade internacional’ para referir aos crimes considerados como tais no direito
costumeiro, não se confundindo com ‘crimes internacionais’, os quais são referidos no presente trabalho como sendo os crimes de guerra,
crimes contra a humanidade e genocídio.
27 Ou mesmo do art. 15.1, conforme entendimento da Corte Suprema de Justicia de Colombia, acima referido.
28 A respeito do caso referido de Colômbia (nota de rodapé nº 23, acima), essa limitação resultou respeitada já que houve uma aplica-
ção retroativa da lei que tipificou o tipo de genocídio a fatos ocorridos em 1988, data posterior à entrada em vigor do PIDCP naquele país
(23 de março de 1976).
29 Aqui também cabe referir os princípios da confiança e da segurança jurídica. A respeito, veja-se mais no item 2.2.1, abaixo.
30 É verdade que o tipo do crime de sequestro não abarca suficientemente a complexidade do crime de desaparecimento forçado.
Entretanto, presente no caso a possibilidade de sanção, seu menor peso parece ser o preço a pagar pela segurança jurídica. 101
Ao decidir sobre a Sendo assim, na eventualidade de que surgissem,
aplicabilidade do de maneira nova, no âmbito interno, tipificações
crime de tortura para crimes reconhecidos pela comunidade
previsto no artigo internacional (entre os quais claramente se
233 da lei 8.069/90, encontram os ‘crimes contra a humanidade’), estes
De fato, essa aplicação somente seria possível considerando-se que o art. 15.2 do PIDCP teria caráter
costumeiro e jus cogens31 desde a época de seu surgimento (1966), ou mesmo anteriormente,
algo que, por exemplo, entendemos plenamente aplicável à Convenção sobre a Imprescritibilidade
dos Crimes de Guerra e dos Crimes contra a Humanidade (CICGLH) de 196832, 33.
A esse respeito, resultaria necessário um estudo para verificar se e desde quando o art. 15.2 do
PIDCP faz parte do direito costumeiro internacional34 bem como se o faz em caráter jus cogens35,
o que não é objeto do presente trabalho36.
31 De acordo com o entendimento já exposto do juiz argentino Schfrin no fallo “Schwammberger” (considerando 36).
A CICGeLH determina a aplicação da imprescritibilidade, algo já aceito desde Nuremberg e que não fere diretamente o princípio de
legalidade (atingindo somente um de seus aspectos ou inclusive nenhum – considerando-se que atinge somente a interpretação, inaplicá-
vel ao direito internacional, de que a prescrição integra o princípio de irretroatividade da lei penal). Já o PIDCP, em seu artigo 15.2, segue
mais longe, determinando a aplicação retroativa de tipos penais.
34 Interpretação que teria a seu favor o fato de que disposições no mesmo sentido se encontram na Convenção Europeia de Direitos
Humanos (CEDH, art. 7.2) e na Declaração Universal de Direitos Humanos (DUDH, art. 11.2), em que pese o mesmo não tenha ocorrido na
Declaração Americana de Direitos Humanos (CADH, art. 9).
35 Características que entendemos comprovadas, por exemplo, para a imprescritibilidade e insuscetibilidade de anistia para os crimes
contra a humanidade. Com o que lhe seriam aplicáveis os artigos 53 e 64 da Convenção de Viena, excetuando-se as normas dos artigos 4
e 28 da mesma Convenção.
36 De fato, em que pese a utilização da figura típica da tortura bem como de uma eventual futura figura típica no Brasil do desapa-
recimento forçado de pessoas pudesse ser útil ao julgamento dos crimes cometidos pelos agentes do Estado durante a última ditadura
militar (caso se entenda aplicável a retroatividade com base no caráter jus cogens do disposto no art. 15.2 do PIDCP e não se considere
a limitação, por nós defendida, de que tal norma deva ser aplicada somente nos casos em que, de outra maneira, ocorresse impunidade
102 pela falta de tipificação interna que abarque os atos criminosos), tal questão não representa o verdadeiro problema a respeito da possível
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Portanto – desconsiderando o argumento de seu caráter jus cogens – tal norma somente
poderia ser aplicada, no plano interno, posteriormente à sua internalização (1992) e, mesmo
assim, unicamente nos casos em que isso resulte necessário em razão de não haver tipificação
prévia que de alguma maneira possibilite sancionar os crimes cometidos com um grau mínimo
de razoabilidade.
Dessa forma, a aplicação retroativa de novos tipos penais não pode ser a resposta para
possibilitar a sanção dos crimes cometidos pelos agentes do Estado durante a última ditadura
militar no Brasil.
Segundo o critério da dupla subsunção, os crimes são sancionados de acordo com os tipos
penais existentes na lei interna no momento em que cometidos (em respeito ao princípio
de irretroatividade da lei penal), aplicando-lhes consequências especiais provenientes das
leis internacionais, como a imprescritibilidade e a não anistiabilidade previstas no direito
consuetudinário internacional para os crimes contra a humanidade.
Ao decidir sobre a aplicabilidade do crime de tortura previsto no artigo 233 da lei 8.069/90
(Estatuto da Criança e do Adolescente), que não trazia nenhuma definição sobre seu conteúdo, o
STF37 decidiu (por 6 votos a 5) que tal situação não violava o princípio constitucional da tipicidade
dos delitos.
Em seu voto, o Ministro Carlos Velloso defendeu (p. 79-80 do julgado) que:
Na verdade, é de sabença comum que a lei deve definir a conduta criminosa, vale dizer, deve
definir o fato delituoso (Constituição Federal, art. 5º, inciso XXXIX). Assim é, em princípio.
sanção de tais crimes. De fato, os obstáculos representados pela anistia, a prescrição e a coisa julgada são os verdadeiros temas a serem
enfrentados no Brasil, motivo pelo qual são o objeto de interesse do presente artigo.
37 STF – Pleno – HC n. 70.389-5-São Paulo – 23.7.1994 – v.u. – rel. p/ o acórdão Min. Celso de Mello. 103
15 de fevereiro de 1991. Ou seja, temos, no direito positivo brasileiro, a definição do fato
delituoso que faz nascer o crime de tortura.
Como se observa, e pese a não ter sido feita uma referência direta ao termo ‘dupla subsunção’
(talvez inclusive desconhecido à época do julgado), na verdade foi sua aplicação o que restou
decidido no caso: uma dupla subsunção onde o termo ‘tortura’ foi retirado da norma penal ao
passo que o conceito do termo ‘tortura’ restou extraído do tratado internacional.
Algo similar a isso também ocorre com a aplicação da Lei nº 8.072/90 (Lei dos crimes hediondos)
que classifica alguns crimes, já tipificados no Código Penal, como sendo hediondos, imprimindo-
lhes consequências especiais, tais como a insuscetibilidade de anistia, graça ou indulto38.
Sendo assim, analisaremos quais são as possíveis situações em que o critério da dupla subsunção
pode tornar aplicável a imprescritibilidade aos crimes contra a humanidade cometidos pelos
agentes do Estado no Brasil durante a última ditadura militar.
38 Entretanto, é verdade que em tal caso se aplica uma lei que atribui consequências a crimes tipificados em outra lei, diferentemente
da situação aqui estudada, onde se aplica o direito internacional, com base em um costume ou na aplicação retroativa de novas normas
ou de tratados ratificados posteriormente, para atribuir consequências a crimes tipificados pela lei interna. Ademais, a lei dos crimes
hediondos, por ter efeitos materiais, não restou aplicada retroativamente. Mas, aceita a tese de que as consequências jurídicas (impres-
critibilidade, não anistiabilidade, etc) do direito internacional decorram de seu caráter consuetudinário (e não da aplicação retroativa de
novas normas ou de tratados ratificados posteriormente), conforme defendido no item 2.2.4 abaixo, não há que se falar em retroatividade,
104 de maneira que o critério da dupla subsunção se aplicaria sem qualquer desrespeito ao princípio de legalidade.
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Nesse sentido, o STF39 referiu que “Ademais, a Constituição Federal se limita, no art. 5º, XLII
e XLIV, a excluir os crimes que enumera da incidência material das regras da prescrição, sem
proibir, em tese, que a legislação ordinária criasse outras hipóteses”. Na mesma direção está
Fávero40, para quem ‘a prescrição não é uma garantia constitucional para o criminoso e é matéria
afeta à legislação infraconstitucional’.
A importância do art. 5º, inc. XLIV da CF – juntamente com seu art. 5º § 2º42 – a possibilitar
a aplicabilidade da imprescritibilidade aos crimes contra a humanidade no direito brasileiro é
também defendida por Gomes43. De acordo com esse autor, ambos artigos dariam assento
expresso na Constituição brasileira a tal imprescritibilidade, ademais de essa também receber
seu fundamento do jus cogens, dos tratados e da jurisprudência internacional44.
39 STF, RE 460971 / RS, Relator: Min. Sepúlveda Pertence, Primeira Turma, julgado em 13/02/2007.
40 FÁVERO, Eugênia Augusta Gonzaga (2009). “Crimes da ditadura: iniciativas do Ministério Público Federal em São Paulo”. Em: SOA-
RES, Inês Virgínia Prado; KISH, Sandra Akemi Shimada (coord.). Memória e verdade: a justiça de transição no Estado Democrático Brasi-
leiro. Belo Horizonte: Fórum, 2009, p 218.
41 Art. 5º, inc. XLIV – constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem consti-
tucional e o Estado Democrático.
42 Art. 5º, § 2º – Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por
ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte.
43 GOMES, Luiz Flávio, Crimes contra a Humanidade: Conceito e Imprescritibilidade (Parte I). Disponível em http://www.lfg.com.br, 04
de agosto de 2009. p.2.
44 Para GOMES (2009a), a possibilidade de se prever crimes imprescritíveis foi limitada pela CF/88. Assim, para o autor, ademais dos
crimes contra a humanidade, somente seriam imprescritíveis a ação de grupos armados contra a ordem constitucional – art. 5º, inc. XLIV –
e o racismo – art. 5º, inc. XLII. Entretanto, não há que se concordar com essa limitação, já que, não tendo a Constituição garantido o direito
à prescritibilidade, seria permitido ao legislador ordinário definir novos casos de imprescritibilidade. 105
Dessa forma, a primeira questão que se põe em dúvida é o alcance da garantia da irretroatividade
da lei penal, centrada em determinar se tal garantia somente compreenderia a tipificação dos
delitos ou se também os demais pressupostos da pena.
No entanto, cabe observar que nenhuma das soluções oferecidas no presente item 2.2 (que fala
do critério da dupla subsunção) fere o princípio de irretroatividade no que se refere à tipificação
e penalização dos delitos, já que são utilizados os tipos e penas existentes ao tempo dos fatos.
De modo que o que importa aqui, de fato, é determinar se as modificações nos critérios de
prescrição ferem o princípio de irretroatividade da lei penal.
Isso claramente decorre dos princípios de legalidade e anterioridade da lei penal, previstos no
art. 5º, inc. XXXIX da CF/88 “não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia
cominação legal”.
Tal previsão se assemelha ao previsto na CN argentina: “Art. 18. – nenhum habitante da Nação
pode ser penalizado sem juízo prévio fundado em lei anterior ao fato do processo, [...]” (tradução
do autor). Com base nesse dispositivo a SCJN havia estabelecido, no fallo ‘Mirás’46, que a
prescrição cabe no conceito de ‘lei penal’ para fins de aplicação do princípio de irretroatividade47.
Mas, além disso, o princípio de irretroatividade da lei penal se vê reforçado uma vez mais no Brasil
com sua direta previsão constitucional, ressalvando-se somente a retroatividade da ‘novatio legis
in mellius’ (CF, art. 5º, inc. XL – a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu).
De maneira que, sendo considerado que a prescrição tem conteúdo material (sendo objeto da lei
penal48), não haveria como se desconsiderar a proibição constitucional de retroatividade contida
na expressão ‘a lei penal não retroagirá’.
45 STF, HC 74695, Relator(a): Min. Carlos Vissoso, Segunda Turma, julgado em 11 de março de 1997, DJ 09-05-1997.
46 CSJN, “S.A. Guillermo Mirás C.I.F. c. Administración Nacional de Aduanas”, Fallos 287:76 (1973).
47 Entretanto, no fallo ‘Arancibia Clavel’ essa Corte afirmou que o fundamento do instituto da prescrição não se aplicaria aos crimes
contra a humanidade.
48 Inclusive, foi justamente por se entender que a prescrição tem caráter misto (com conteúdo material e processual), que não foi
aceita a aplicação retroativa da alteração legislativa (por meio da lei 9.271/96) do art. 366 do Código de Processo Penal que veio a prever a
suspensão da prescrição: “Art. 366. Se o acusado, citado por edital, não comparecer, nem constituir advogado, ficarão suspensos o proces-
so e o curso do prazo prescricional, podendo o juiz determinar a produção antecipada das provas consideradas urgentes e, se for o caso,
106 decretar prisão preventiva, nos termos do disposto no art. 312.”
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ACADÊMICOS
MANIFESTAÇÃO DE ESTUDANTES REALIZADA NA 70ª CARAVANA DA ANISTIA DURANTE O 53° CONGRESSO DA UNIÃO NACIONAL DOS ESTUDANTES (UNE),
GOIÂNIA, 8 DE JUNHO DE 2013.
Segundo Carrió49, essa interpretação ampla do princípio de legalidade (com base na irretroatividade)
representaria uma autolimitação generosa por parte do Estado. Para o autor, a referência à
anterioridade da lei penal serve somente para possibilitar ao cidadão adequar suas condutas
aos mandados do legislador, o que não incluiria normas sobre prescrição já que “uma coisa é
dizer que quem delinque o faz sabendo que sua conduta será reprimida como delito, e por isso o
reproche, e outra é que o delinquente tenha, além disso, um direito a que a ação penal derivada
de seu delito prescreva em determinado momento”50 (tradução do autor).
49 CARRIÓ, Alejandro “Principio de legalidad y crímenes aberrantes: uma justificación alternativa a su imprescritibilidad”, LL 2004 – E –
122. p. 127-128.
Primeiro, a própria prescritibilidade dos crimes. Segundo, a irretroatividade de qualquer lei que
pretenda fazer mudanças nos períodos prescricionais ou declarar um ato como sendo imprescritível.
retroatividade recebe
um tratamento Esse entendimento colide com a opinião de
Nino52, para quem a modificação com efeitos
diferente do recebido retroativos nos critérios de prescrição não viola
no Brasil e na o princípio que proíbe a legislação retroativa. Para
Argentina. o autor, a proibição de retroatividade tem que ver
com a necessidade de consentimento de cada
um em assumir a responsabilidade do castigo, o que se limita às circunstâncias da legalidade do
ato, não abarcando outras condições como a prescrição.
52 NINO, Carlos (2006). Juicio al mal absoluto. – 1ª ed. – Buenos Aires: Ariel. traducido por: Martín F. Böhmer, p. 255.
Nesse ponto, cabe referir também a teoria de Carrió54, baseada na ideia de reciprocidade de Lon
Fuller, de que nos crimes cometidos com base no apoio de um Estado subvertido não cabem as
mesmas autolimitações estatais e o princípio de legalidade restaria mitigado – não abarcaria o
direito a que a ação prescreva no momento determinado pela lei da época do crime55.
Não obstante, nenhuma das soluções apontadas (nem sequer a mais estreita proposta por Carrió,
a limitar a desconsideração da irretroatividade somente aos casos de crimes praticados com o
apoio de um Estado subvertido) parece se adaptar ao disposto na CF brasileira, onde claramente
se proíbe qualquer aplicação retroativa em prejuízo do acusado.
Nesse sentido, ao falar sobre ‘novatio legis in pejus’ cuja retroatividade restaria proibida, Jesus56
refere os seguintes casos:
10º) A lei nova mantém causas de extinção da punibilidade, mas dificulta a sua ocorrência.
Ex.: a lei nova amplia o prazo prescricional.
De maneira que a única exceção possível – no que se refere à aplicação retroativa da ‘lei penal’ –
seria marcada justamente pelos ‘crimes reconhecidos pela comunidade internacional’ (novamente
o art. 15.2 do PIDCP). Isso, considerando-se que, sendo possível a aplicação retroativa de tipos
penais, claramente também o seria a aplicação de prazos prescricionais mais gravosos (sendo
aplicável o mais, também o seria o menos).
55 Com isso parece concordar a CSJN no fallo ‘Mazzeo’ (CSJN, “Mazzeo, Julio Lilo y otros s/casación e inconstitucionalidad”, sentencia
de 13 de julio de 2007):
16. Que es posible señalar que existía, a la fecha de comisión de los actos precisados, un orden normativo formado por tales
convenciones y por la práctica consuetudinaria internacional, que consideraba inadmisible la comisión de delitos de lesa hu-
manidad ejecutados por funcionarios del Estado y que tales hechos debían ser castigados por un sistema represivo que no ne-
cesariamente se adecuara a los principios tradicionales de los estados nacionales para evitar la reiteración de tales aberrantes
crímenes (considerando 57 del voto del juez Maqueda in re: “Arancibia Clavel” – Fallos: 327:3312 -). (Grifos nossos).
56 JESUS, Damásio E. de (1995). Direito Penal. Vol. 1, Parte Geral, 19ª ed. rev. e atual. – São Paulo: Saraiva, p. 73. 109
No entanto, ao se analisar a aplicabilidade retroativa de modificações no regime prescricional,
com base no art. 15.2 do PIDCP, há que diferenciar dois casos.
O primeiro refere-se aos casos de novos tipos penais, aceitos de acordo com a comunidade
internacional, que, em razão da falta de tipificação prévia no plano interno que possibilitasse
a sanção dos fatos (com um mínimo grau de razoabilidade), no momento em que cometidos,
devem ser aplicados retroativamente. Nesse caso, não havendo como se sancionar o crime
no momento dos fatos, tampouco se poderia falar no curso do prazo prescricional que não
começara em razão da falta da necessária contingência da punição (a respeito, veja-se mais
abaixo, item 2.3.2). De modo que, nesses casos, sequer se aplicam as modificações na
prescrição de maneira retroativa, já que o prazo prescricional somente começa com a tipificação
do crime em momento posterior.
O segundo caso refere-se àquelas situações em que, mesmo vindo a ser tipificado posteriormente
um crime reconhecido pela comunidade internacional, já houvesse internamente, no momento
dos fatos, um tipo penal com características suficientes para possibilitar a sanção do crime
com um mínimo grau de razoabilidade. Em tais situações, conforme já referido, entendemos
que o novo tipo não deve retroagir, por ser desnecessária e desproporcional essa violação
à segurança jurídica. No entanto, não obstante não possa retroagir o tipo penal, nos parece
que as modificações no prazo prescricional, por não confrontar tão diretamente o princípio
de legalidade, possam perfeitamente retroagir e aplicar-se, respeitado o tipo penal vigente ao
momento dos fatos.
Assim, utilizando-se como exemplo o caso do desaparecimento forçado de pessoas, caso venha
a ser tipificado no Brasil, suas especificidades (ampliação de prazo, ou, inclusive, declaração de
imprescritibilidade), no que se refere ao prazo prescricional, poderiam retroagir e se aplicar aos
crimes de desaparecimento forçado ocorridos com posteridade a 6 de julho de 1992, não obstante
deva ser mantida a tipificação do crime de sequestro para os fatos57.
Nesses casos, caberia discutir se tal aplicação retroativa concerne somente às situações em
que o prazo prescricional não se tenha esgotado antes da promulgação interna das referidas
Convenções que preveem a imprescritibilidade ou a ampliação dos prazos.
Para tanto, se demonstra interessante buscar respostas no direito alemão, onde o princípio de
retroatividade recebe um tratamento diferente do recebido no Brasil e na Argentina. Nesse país,
57 Sem olvidar que, estando ainda em permanência o desaparecimento forçado, a nova lei (incluindo tipo e prazo prescricional) aplica-
-se diretamente aos atos consumativos posteriores a sua entrada em vigor. De modo que o raciocínio exposto acima se refere aos crimes
110 de desaparecimento forçado cessados com anterioridade à futura tipificação interna desse crime.
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ACADÊMICOS
os tribunais solucionaram o problema das leis que iam prorrogando os prazos de prescrição dos
crimes contra a humanidade – ocorridos na Segunda Guerra Mundial – afirmando que o princípio
de legalidade se referiria somente ao desde quando se vai perseguir alguém por algum fato. Com
relação ao até quando, isso seria uma questão de perseguibilidade, e não de punibilidade. De
acordo com Mañalich58, o Tribunal Constitucional Federal alemão (1969, BverfGE 25, 269 ss.), em
que pese fazer a diferenciação entre condições de punibilidade e de perseguibilidade (na qual se
enquadraria a prescrição), em respeito à proteção da confiança e à segurança jurídica, aceitou
a aplicação de modificações aos prazos prescricionais somente nos casos em que os prazos
não se encontravam vencidos (retroatividade imprópria), ressalvando os casos em que esses já
haviam decorrido totalmente (retroatividade própria).
De fato, as situações são díspares: no primeiro caso, quando não vencidos os prazos prescricionais,
se desconsidera uma mera expectativa de direito do criminoso, ao passo que, no segundo, se
violaria um direito já alcançado por ele, violando a previsão constitucional da proteção ao ato
jurídico perfeito (CF brasileira, art. 5º, inc. XXXVI59).
A única exceção ao caso (ou seja, aplicação das modificações nos critérios de prescrição mesmo
nos casos em que já esgotado o prazo de acordo com o tipo existente no momento dos fatos) seria
a consideração de que a imprescritibilidade62, ou mesmo a necessidade de prazos mais largos de
58 MAÑALICH, Juan Pablo (2010). Terror, pena y amnistía. El derecho penal ante el terrorismo de Estado. Editorial Flandes Indiano,
Santiago, p. 219-220 e 229.
59 XXXVI – a lei não prejudicará o direito adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada; (grifos nossos).
60 Sua aplicação a períodos anteriores somente seria possível a partir da consideração de que a norma do art. 15.2 do PIDCP faz parte
do jus cogens. Entretanto, conforme já referido, a confirmação de tal hipótese, bem como a definição sobre desde quando tal norma faria
parte do jus cogens não é objeto do presente estudo.
61 Como referido, no caso de não existir na época dos fatos tipo penal que possibilite sancionar de maneira minimamente razoável o
crime reconhecido pela comunidade internacional, o novo tipo se aplica retroativamente, juntamente com suas normas prescricionais (não
obstante, em verdade, não se possa falar em aplicação retroativa no caso das disposições sobre prescrição já que, ausente a contingência
da punição, o prazo prescricional sequer havia começado a correr).
62 Desse modo, persiste a diferente hipótese de aplicação da imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade, defendida no pre-
sente trabalho, a períodos muito anteriores a 1992 (não baseadas no art. 15.2 do PIDCP, mas sim no direito consuetudinário internacional
com caráter jus cogens), a ser analisada no item 2.2.4, abaixo. 111
prescrição63, já existia no momento dos fatos, de acordo com o direito internacional, em caráter
jus cogens. No entanto, com isso, necessariamente se cai no direito consuetudinário (critério
analisado no item 2.2.4, abaixo), e não na aplicação retroativa de convenções internacionais,
objeto do presente item.
De modo que, considerando-se os tratados referidos, ETPI (já ratificado pelo Brasil) bem como
CICGeLH, CIDFP e CDF (ainda pendentes de ratificação), se vislumbra que, por se tratarem de
crimes reconhecidos pela comunidade internacional64, o art. 15.2 claramente possibilitaria, em tese, a
aplicação retroativa no Brasil de suas previsões sobre prescrição a todos os fatos posteriores a 06 de
julho de 1992 (caso o prazo prescricional do tipo previsto à época dos fatos não tenha se esgotado).
Mas, conforme o observado, tal critério não serve para possibilitar a sanção (de acordo com o critério
da dupla subsunção) dos crimes contra a humanidade cometidos no Brasil durante a última ditadura
militar. De modo que a única possibilidade volta a ser a da comprovação da existência de um costume
internacional com caráter jus cogens nesse sentido vigente já no momento dos fatos (conforme
analisado abaixo, item 2.2.4), e não a aplicação retroativa de alguma Convenção internacional.
Na verdade, nesse item, não se está tratando de um caso de dupla subsunção com base no
direito internacional, já que a imprescritibilidade estaria prevista na própria Constituição nacional.
63 Assim, como um indício de tal costume, se pode referir a Convenção Interamericana sobre Desaparecimento Forçado de Pessoas
(1994) ao prever:
“Artigo 7º
A ação penal decorrente do desaparecimento forçado de pessoas e a pena que for imposta judicialmente ao responsável por
ela não estarão sujeitas a prescrição. No entanto, quando existir uma norma de caráter fundamental que impeça a aplicação
do estipulado no parágrafo anterior, o prazo da prescrição deverá ser igual ao do delito mais grave na legislação interna do
respectivo Estado Membro”. (Grifos nossos).
A situação, entretanto, é hipotética, dado que o Brasil ainda não ratificou a Convenção Interamericana acima referida. Ademais,
caso isso venha a ocorrer, cabe referir que no Brasil não há uma norma fundamental que proíba a imprescritibilidade, de modo
que essa seria a regra aplicável e não a exigência de aplicação de um período largo de prescrição.
Da mesma maneira, na Convenção Internacional para a Proteção de todas as Pessoas contra o Desaparecimento Forçado (2002):
“Artigo 8
1. O Estado Parte que aplicar um regime de prescrição ao desaparecimento forçado tomará as medidas necessárias para asse
gurar que o prazo da prescrição da ação penal:
a) Seja de longa duração e proporcional à extrema seriedade desse crime” (grifos nossos).
64 Nos casos de crimes comuns, a norma que venha a prever sua imprescritibilidade não teria aplicação retroativa nenhuma.
65 Art. 5º, inc. XLIV – constitui crime inafiançável e imprescritível a ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem consti-
112 tucional e o Estado Democrático.
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Por isso a colocamos de maneira apartada do item anterior, embora sua possibilidade de aplicação
também sofra a mesma dificuldade lá apontada, no que se refere aos fatos anteriores à CF/88.
Primeiro, cabe referir que a norma se aplica perfeitamente a golpes de Estado, como o ocorrido
no Brasil em 1964.
Sobre isso, parece claro que, se a lei maior prevê a não aplicabilidade da prescrição aos crimes
daqueles que tentam mudar o regime legal vigente, com maior razão, esta regra também deve
permanecer, caso tal grupo saia vitorioso e logre usurpar o poder estatal, cometendo crimes
contra a humanidade e contra os opositores políticos66.
Se não fosse assim, a norma constitucional somente teria aplicação caso o grupo criminoso
fosse derrotado. É verdade que, em caso de vitória, o usurpador pode mudar o sistema legal e
esquivar-se da sanção. Entretanto, a validade da Constituição permanece67, sendo uma perene
ameaça para o grupo, caso venha a perder futuramente o poder.
Mesmo assim, não há como desconsiderar que tal norma somente pode aplicar-se para o futuro,
não abarcando os crimes cometidos pelos agentes do Estado na última ditadura no Brasil68.
66 A respeito da similaridade entre tal norma e o conceito de crime contra a humanidade, observam GOMES e MAZZUOLI (2011, p. 95)
que:
“A rigor, não se pode afastar a relação (bastante íntima) entre a imprescritibilidade contemplada no art. 5º, LIV, da Carta de 1988
(ação de grupo armado contra o Estado Democrático), e a definição de crime contra a humanidade. Se se prestar bem atenção, ver-se-á
que apenas faltou a Constituição brasileira mencionar as notas da generalidade ou sistematicidade e dos ataques contra a população civil.
De resto, tudo da definição de crime contra a humanidade está no texto constitucional brasileiro”.
67 Ademais, aqui se encontra a importância do direito internacional ao determinar a imprescritibilidade ou mesmo ao reforçar a
imprescritibilidade de normas como a do art. 5º, inc. LIV da CF, que podem necessitar aplicação justamente em contextos onde o direito
interno costuma ser desconsiderado por um poder de fato.
68 A única exceção seriam os crimes permanentes cuja consumação se prolongara até período posterior à CF/88. A respeito, veja-se
nota de rodapé nº 68, abaixo.
O tema se demonstra interessante considerando que, além dos fatos criminosos dos agentes do
Estado serem anteriores à ratificação da CADH por parte do Brasil, também a lei de anistia o foi.
Sobre isso, se pode entender que a Corte IDH, órgão com atribuição para interpretar a CADH, se
baseie nesse diploma normativo. Entretanto, dos argumentos expostos em suas decisões, se
observa que, mais que em uma aplicação retroativa da CADH, a Corte IDH se baseia no caráter
70 Caso de investigação a respeito da vítima Flávio Carvalho Molina, em que o Juiz Ali Mazloum (da 7ª Vara Federal Criminal Federal
de São Paulo, Proc. 2009.61.81.013046-8) não aceitou o requerimento de arquivamento proposto pelo Ministério Público Federal, argumen-
tando que, ademais do crime de ocultação de cadáver ser permanente, sobre os atos posteriores à CF/1988 pairava a consequência da
imprescritibilidade em razão do art. 5º, inc. XLIV daquela Carta.
71 Inicialmente, cabe referir que seria uma aplicação retroativa em razão de que a Convenção, mesmo sendo de 22 de setembro de
1969, somente ingressou em vigor em 18 de julho de 1978, posteriormente, portanto, à maioria dos crimes cometidos durante a ditadura
militar no Brasil.
Além disso, o Brasil ratificou a Convenção em 25 de setembro de 1992 e a aprovou pelo Decreto nº 678, de 6 de novembro de 1992.
Dessa maneira, em que pese o Brasil possa ser responsabilizado internacionalmente por continuar aplicando normas contrarias à CADH
posteriormente a sua ratificação, a aplicabilidade interna de seus dispositivos, influindo nos direitos dos cidadãos, não pode ocorrer por
meio de uma aplicação retroativa.
114 73 Argumento baseado na interpretação que faz a Corte IDH sobre o dever de garantia previsto no artigo 1.1 da CADH.
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costumeiro internacional, existente no momento dos fatos, que proibia a prática dos crimes
referidos e os consideravam imprescritíveis.
Assim, no âmbito interno, o que deve possibilitar a utilização da imprescritibilidade pelas justiças
locais é o direito costumeiro e não a aplicação retroativa da CADH, o que claramente violaria a
proibição de retroatividade.
É justamente por isso que corresponde referir o equívoco em que ocorre a Corte IDH – e também
os autores acima referidos – ao estender o efeito de imprescritibilidade agregando, além dos
crimes contra a humanidade, também as “graves violações aos direitos humanos”.
Para aprofundar a discussão, cabe citar outra passagem do texto de Méndez e Covelli74:
75 Entre esses, os autores incluem “os atos de sequestro, homicídio, falsidade ideológica e ocultação de cadáver” (ob. cit., p. 409). Ade-
mais, como sendo ‘graves violações aos direitos humanos’, os autores referem as execuções extrajudiciais, a tortura e o desaparecimento
forçado de pessoas. Para nós, ao contrário, são crimes contra a humanidade o sequestro, o homicídio (execução extrajudicial), a ocultação
de cadáver, a tortura e a associação ilícita para cometer tais crimes (‘quadrilha ou bando’ no Brasil).
76 O mesmo ocorre no que se refere à anistia brasileira, que deve ser considerada inaplicável – ademais de outros fundamentos legais
de caráter interno, conforme MARX (2013, Capítulo IV, item IV.4) – em razão de violar o direito costumeiro internacional. Considerando que
a aplicação retroativa da CADH resulta proibida por violar a irretroatividade da lei penal, sua aplicação posterior – a obrigar o Estado a su-
primir a lei de anistia – somente traz efeitos para a condenação internacional do Estado, não sendo suficiente para retirar a ultra-atividade
benéfica de tal norma no que se refere aos perpetradores dos crimes. 115
Essa extensão, não baseada, por falta de comprovação, no caráter costumeiro, deveria se basear
necessariamente na aplicação retroativa da CADH – conforme o dever de garantia previsto em
seu art. 1.1 – o que não resultaria admissível por violar a proibição de retroatividade.
Em verdade, como se observa, a CADH não pode ser aplicada retroativamente em nenhum
caso. Quando isso aparentemente ocorre, na verdade está sendo aplicado o direito costumeiro
internacional (analisado no item que segue).
Ademais, cabe referir o argumento utilizado na Argentina pelo Procurador General de la Nación
no fallo ‘Simón’78, no sentido de que a exigência de lei escrita, baseada no critério democrático-
representativo no âmbito nacional, claramente não poderia ser aplicada ao direito internacional,
marcado pela ausência de um centralizado órgão legislativo (motivo pelo qual se aplica ao direito
internacional a máxima nullun crime sine eure e não o nullun crime sine lege)79.
79 No mesmo sentido, o argumento defendido pelo Juiz Schfrin no fallo “Schwammberger”, de que o princípio de legalidade teria a
finalidade de garantir a divisão de poderes no campo penal, e não a de estabelecer a prévia calculabilidade dos crimes. De modo que,
inexistindo tal divisão de poderes na ordem internacional, o nullum crime, nulla poena sine lege “jugaría en ese plano internacional un rol
116 contrario al que es su finalidad, ayudando a la opresión en lugar de preservar de ella” (consid. 32).
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dos Crimes de Guerra aceita por cinco dos Ministros, sendo que, desses,
somente dois (Petracchi e Boggiano) aceitaram
e dos Crimes de a aplicação retroativa da CICGeLH. De fato, o
Lesa-Humanidade. fundamento que mais apoio recebeu dos Ministros
daquela Corte Suprema (recebendo quatro votos
– Zaffaroni, Higthon, Maqueda e Boggiano80) foi o
da aplicação da imprescritibilidade com base no costume internacional, que já reconhecia tais
crimes como imprescritíveis no momento em que cometidos.
Com base nesse raciocínio, se entende que a imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade
ocorre dentro do direito costumeiro internacional, em caráter jus cogens, não resultando
imprescindível a ratificação da CICGeLH.
Dessa maneira, a falta de ratificação da CICGeLH por parte do Brasil não representaria um
problema, já que o que mais importa a respeito dessa Convenção é o fato de representar um
forte indício da existência da imprescritibilidade dos crimes contra a humanidade – como costume
internacional com caráter jus cogens – na época em que eles ocorreram nesse país81.
Nesse sentido, o voto do Juiz ad hoc Roberto de Figueiredo Caldas no caso Gomes Lund vs. Brasil:
27. Por outro lado, 42 anos após a sua adoção no âmbito internacional, o Brasil
permanece sem a devida ratificação da Convenção sobre Imprescritibilidade dos
Crimes de Guerra e dos Crimes de Lesa Humanidade, não obstante tê-la assinado.
Essa omissão certamente foi fruto de pressão política daquele grupo de militares que
praticou as atrocidades descritas neste processo. Entretanto, essa falta de ratificação
é superada, pois, como já entendeu esta Corte, a sua observância obrigatória decorre
do costume internacional e não do ato de ratificação. A imprescritibilidade desses
81 Sobre o caráter costumeiro e jus cogens da imprescritibilidade, bem como a respeito de seu surgimento no tempo, veja-se MARX
(2013, Capítulo II). 117
crimes surge como categoria de norma de Direito Internacional geral, que não nasce
com a dita Convenção, mas sim é nela reconhecido (Caso Almonacid, parágrafos 152 e
153). (Grifos nossos).
Ademais, sobre a não ratificação da CIGGeLH por parte do Brasil, importa observar a jurisprudência
da Corte Suprema do Chile (SCS), país que também não a ratificou.
No caso “Molco”82 83, foram os delitos praticados pelos agentes do Estado, contra os opositores
políticos, declarados pela Corte Suprema do Chile (SCS) como sendo contra a humanidade, e
portanto imprescritíveis. Para tanto, em que pese o Chile não houvesse ratificado a CICGeLH84, a
SCS lançou mão do direito consuetudinário, considerando que a imprescritibilidade já fazia parte
deste antes mesmo de sua incorporação à CIGGeLH.85
Inclusive, importa referir que a Suprema Corte do Chile fez essa consideração sem a necessidade
de se basear em qualquer norma constitucional que fundamentasse a aplicação interna do direito
internacional.
De fato, no caso argentino (fallo ‘Aranciia Clavel’ acima referido), a aplicação do costume
internacional no plano interno, a possibilitar o entendimento hoje predominante em sua
jurisprudência, vem fundada na aplicação do artigo 118 da CN que, conforme interpretado,
determinaria a aplicação interna do direito de gentes86.
82 S.C.S., 13.12.2006, Rol n. 559-04 (homicidios de Hugo Vásquez Martínez y Mario Superby Jeldres).
83 Esse foi o primeiro caso onde se abandona a doutrina do conflito armado não internacional passando-se a entender que os crimes
cometidos durante o período militar chileno configuravam crimes contra a humanidade e por tal razão seriam imprescritíveis e não anis-
tiáveis. No Chile, os primeiros processos em que se desconsiderou a anistia ocorreram a partir do ano de 1998. Nessa primeira etapa, a
Corte Suprema passou a entender que o Decreto lei de anistia violava as Convenções de Genebra ratificadas pelo Chile (pode-se citar o
fallo S.C.S., 09.09.1998, rol n. 469-98 – desaparecimento de Pedro Poblete Córdova). Tal interpretação se baseou no entendimento de que
os fatos ocorreram em um tempo em que o Chile se encontrava em um ‘estado o tempo de guerra’ (ou seja, um conflito armado não inter-
nacional – CANI), conforme declarado pelo próprio governo militar no Decreto lei nº 5 (de 12-09-1973) onde, interpretando o artigo 418 do
Código de Justiça Militar, afirmava que o estado de sítio (imposto no dia anterior pelo Decreto lei nº 3, com base no estado de ‘conmoción
interna’) agora se baseava no ‘estado o tiempo de guerra’.
84 Aqui houve uma mudança de opinião já que, anteriormente, no caso “Rioseco Montoya” (S.C.S, 04.08.2005, Rol Nº 457-05) a Corte
Suprema sustentou ser impossível recorrer-se à CIGGeLH, ou mesmo ao Estatuto da Corte Penal Internacional, instrumentos não ratifica-
dos e internalizados no direito chileno. Sendo assim, os crimes cometidos pelos agentes do Estado durante a ditadura não seriam classi-
ficados como sendo crimes contra a humanidade. No caso, não foi considerado o fundamento de imprescritibilidade com base no direito
consuetudinário.
85 No mesmo sentido, a decisão da Corte IDH no caso “Almonacid Arellano vs. Chile”, parágrafo 153, fine.
86 A respeito, se entende que, no que se refere aos crimes de direito internacional, o artigo 118 representaria uma abertura constitucio-
nal a regras que lhe são próprias, como a aceitação do costume, sem que, com isso, resultasse violado o princípio de legalidade previsto
118 no artigo 18.
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Entretanto, isso não parece necessário, tal como o demonstra o caso chileno, toda vez que
a adoção do direito internacional decorre claramente da necessária integração do país na
comunidade internacional, tal como do disposto na Convenção de Viena sobre o direito cogente
internacional.
Ademais, cabe referir que o Brasil reconheceu os princípios do ‘Direito de Gentes’ ao ratificar (em
04 de fevereiro de 1914, por meio do Decreto Nº 10719) o Convênio IV da Haia relativo às Leis e
Costumes da Guerra Terrestre (de 18 de outubro de 1907)8788.
Também o fez, ao ratificar (em 15 de abril de 1952, sendo promulgada em 6 de maio de 1952, por
meio do Decreto Nº 30.822) a Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Genocídio
(de 11 de dezembro de 1948), cujo art. 1º prevê que “As partes contratantes confirmam que o
genocídio, seja cometido em tempo de paz ou em tempo de guerra, é um crime do direito dos
povos, que desde já se comprometem a prevenir e a punir” (grifos nossos).
Por fim, cabe referir a ratificação por parte do Brasil do PIDCP, cujo art. 15.2 fala dos crimes
reconhecidos pela comunidade internacional (independentemente de se aceitar a aplicação
direta no direito brasileiro de sua retroatividade), abrindo caminho para a integração do costume
internacional ao direito interno desse país (assim como o fez o art. 118 da CF argentina)89.
Sendo assim, essa abertura (proporcionada pelos tratados referidos90) às normas convencionais
no Brasil abarcaria a possibilidade de se aplicar a norma consuetudinária internacional que
contém a previsão, com caráter jus cogens, da imprescritibilidade dos crimes contra a
humanidade.
88 Conforme referido pelos Procuradores da República que assinam a inicial da “Ação Civil Pública” nº 2008.61.00.0011414-5 contra a
União Federal e os militares Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir Santos Maciel pelos fatos ocorridos no cemitério clandestino de “Perus”,
em São Paulo, onde foram encontradas várias ossadas de dissidentes políticos.
89 Ou seja, mesmo que não se aceite que o art. 15.2 fosse suficiente para justificar uma violação frontal ao princípio de irretroatividade
da lei penal, poderia aceitar-se sua aptidão para dar amparo à aplicação no direito interno de outras normas costumeiras internacionais.
90 A respeito, importa observar que mesmo o entendimento – a nosso ver equivocado – sobre a hierarquia meramente supralegal de
referidos tratados não impede essa abertura ao direito internacional. De fato, os impedimentos legais que costumam ser desconsiderados
com base no direito costumeiro internacional imperativo (tais como anistia e prescrição), tampouco possuem hierarquia constitucional no
Brasil, sendo fruto de leis ordinárias. 119
ACIMA REFERIDOS
No Brasil, a iluminar o horizonte do possível juízo a tais crimes, com base em seu caráter
permanente, se deve destacar o importante precedente jurisprudencial ocorrido no Processo
de Extradição nº 974, no qual foi determinada a extradição para a Argentina do tenente-coronel
uruguaio Manuel Juan Cordero Piacentini92, acusado de vários crimes, incluindo o desaparecimento
forçado de pessoas, durante o regime militar uruguaio.
Neste caso, o Supremo Tribunal Federal brasileiro, por maioria, entendeu que o crime de
sequestro, por seu caráter permanente, excluiria a incidência da prescrição e da anistia.
A respeito, cabe referir que no julgamento da ADPF nº 15393, em 2010, alertava o Min. Marco Aurélio
(fl. 154) que, ao declarar-se válida a lei de anistia brasileira, talvez fosse outro o entendimento no
Processo de Extradição nº 974 acima referido (ou seja, a extradição não teria sido deferida em
razão de que os fatos, no Brasil, resultariam anistiados94).
91 Cabe observar que, no Brasil, o termo mais adequado seria crime permanente e não continuado (que teria que ver com a prática de
vários crimes de maneira continuada nos quais, cumpridos determinados critérios, por ficção legal se considera que os demais crimes são
a continuação do primeiro, aplicando-se a pena deste ou a do crime mais grave seguida de um aumento).
92 STF. Ext 974, Relator: Min. Marco Aurélio, Relator p/ Acordão: Min. Ricardo Lewandowski, Tribunal Pleno, julgado em 06/08/2009.
93 STF. ADPF 153. Relator Min. Eros Grau, julgamento em 29 de abril de 2010, DJE nº 83, divulgado em 10/05/2010.
94 Obviamente, cabe aqui uma crítica a respeito da eventual utilização de uma anistia interna como critério para indeferir extradição
120 por crimes cometidos no estrangeiro.
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ACADÊMICOS
Da mesma forma, em setembro de 2012, a Segunda Turma do STF deferiu a extradição de Claudio
Valejos para a República Argentina, em razão de crimes cometidos durante a ditadura militar
naquele país.
A extradição foi deferida de maneira parcial, não abarcando os crimes de tortura e homicídio, os
quais, de acordo com a Suprema Corte, se encontrariam prescritos.
Sendo assim, o pedido foi deferido somente no que se refere ao crime de desaparecimento
forçado de pessoas – aceita a dupla tipicidade com base no crime de sequestro previsto no
ordenamento brasileiro – em razão de seu caráter permanente. De acordo com o STF:
121
Extradição instrutória. 2. Crimes de tortura, homicídio, sequestro qualificado e desaparecimento
forçado de pessoas. 3. Atendimento dos requisitos formais. 4. Dupla tipicidade. Desaparecimento
forçado de pessoas. Análise da dupla tipicidade com base no delito de sequestro. Entendimento
adotado na EXT 974/Argentina. 5. Prescrição dos crimes de tortura e homicídio, segundo o
ordenamento jurídico brasileiro. 6. Pedido de extradição deferido sob a condição de que o Estado
requerente assuma, em caráter formal, o compromisso de comutar eventual pena de prisão
perpétua em pena privativa de liberdade, com o prazo máximo de 30 anos. [..]. 9. Pedido de
extradição deferido parcialmente (somente em relação aos crimes de sequestro). (Ext 1274 –
REPÚBLICA ARGENTINA. Relator: Min. GILMAR MENDES. Julgamento: 18/09/2012. Órgão
Julgador: 2ª Turma, DJE 04.10.2012).
Essa interpretação, de fato, decorre do previsto no art. 111, inc. III, do Código Penal brasileiro,
segundo o qual a prescrição começa a correr “nos crimes permanentes, do dia em que cessou
a permanência”95.
Entretanto, a posse pessoal de documentos sigilosos não divulgados, bem como as ameaças
a possíveis testemunhas (elementos presentes no Brasil, principalmente no caso referente à
‘Guerrilha do Araguaia’) demonstram que o domínio sobre o fato, pelo menos no que se refere à
95 A respeito, importa observar que, ao tempo dos fatos ocorridos na última ditadura no Brasil, isso também resultava aplicável,
segundo a antiga redação do mesmo artigo da parte geral do Código Penal (antes da reforma de 1984): “Art. 111. A prescrição, antes de
transitar em julgado a sentença final, começa a correr: ( ) c) nos crimes permanentes ou continuados, do dia em que cessou a permanência
ou a continuação”. Devo tal observação ao amigo e colega Procurador da República Andrey Borges de Mendonça.
ocultação sobre o que ocorreu, bem como sobre o paradeiro das vítimas ou de eventuais restos
mortais, permanece até os dias de hoje.
Além disso, não se pode desconsiderar que, para fins de sanção pelo crime de homicídio, se
faz necessário o corpo de delito (mesmo que indireto, com meios suficientes para esclarecer as
circunstâncias da morte), não bastando para tanto presumir o óbito.
Tampouco a previsão do art. 1º da Lei nº 9140/9597, que reconhece como mortas as pessoas
desaparecidas em tal contexto pode infirmar o acima referido. Tal norma foi criada com o fim de
beneficiar os familiares das vítimas, lhes possibilitando receber indenizações e facilitando atos
da vida civil, como questões de família e sucessões – algo inclusive já previsto no art. 6º da lei
de anistia98. Desse modo, de acordo com uma necessária interpretação teleológica, não se pode
admitir que uma previsão legal, criada para beneficiar os familiares das vítimas, agora venha a ser
interpretada de maneira a lhes restringir o exercício de um direito – no caso, o direito ao acesso
à justiça. Isso, sem dúvida, seria uma desvirtuada e odiosa interpretação da norma.
Ademais, resulta claro que uma pessoa não pode morrer em razão de uma lei.
Inclusive pelo fato da própria lei (que pode ter efeitos unicamente civis) não haver criado uma
presunção absoluta de morte. De fato, o art. 3º, parágrafo único, da lei refere que “em caso de
dúvida, será admitida justificação judicial”.
De modo que, resultando impossível julgar os fatos como sendo crimes de homicídio, caso fosse
desconsiderado também o delito de sequestro, os fatos resultariam impunes, algo claramente
inaceitável.
97 Art. 1º. São reconhecidos como mortas, para todos os efeitos legais, as pessoas que tenham participado, ou tenham sido acusadas
de participação, em atividades políticas, no período de 2 de setembro de 1961 a 5 de outubro de 1988, e que, por este motivo, tenham sido
detidas por agentes públicos, achando-se, deste então, desaparecidas, sem que delas haja notícias.
98 Art. 6º. O cônjuge, qualquer parente, ou afim, na linha reta, ou na colateral, ou o Ministro Público, poderá requerer a declaração de
ausência de pessoa que, envolvida em atividades políticas, esteja, até a data de vigência desta Lei, desaparecida do seu domicílio, sem
que dela haja notícias por mais de 1 (um) ano.
§ 1º – Na petição, o requerente, exibindo a prova de sua legitimidade, oferecerá rol de, no mínimo, 3 (três) testemunhas e os
documentos relativos ao desaparecimento, se existentes.
§ 2º – O juiz designará audiência, que, na presença do órgão do Ministério Público, será realizada nos 10 (dez) dias seguintes
ao da apresentação do requerente e proferirá, tanto que concluída a instrução, no prazo máximo de 5 (cinco) dias, sentença, da
qual, se concessiva do pedido, não caberá recurso.
§ 3º – Se os documentos apresentados pelo requerente constituírem prova suficiente do desaparecimento, o juiz, ouvido o Mi-
nistério Público em 24 (vinte e quatro) horas, proferirá, no prazo de 5 (cinco) dias e independentemente de audiência, sentença,
da qual, se concessiva, não caberá recurso.
§ 4º – Depois de averbada no registro civil, a sentença que declarar a ausência gera a presunção de morte do desaparecido, para
os fins de dissolução do casamento e de abertura de sucessão definitiva. 123
Assim sendo, até que reste esclarecido o
O prazo prescricional paradeiro das vítimas ou de seus corpos,
corre em razão da falta os fatos necessariamente devem ser
de atuação estatal frente processados como sendo crimes de
a um fato punível. Tal sequestro.
circunstância claramente
não se faz presente nos Por fim, não se pode desconsiderar que
Outra maneira de se possibilitar a persecução dos crimes cometidos pelos agentes do Estado
durante a última ditadura militar brasileira seria a desconsideração do instituto da prescrição pelo
tempo em que as investigações restaram impossibilitadas.
99 Conforme, inclusive, a decisão proferida pelo Juiz Federal Ali Mazloum no Processo nº 2009.61.81.013046-8 (7ª Vara Federal Criminal
Federal de São Paulo), acima referido na nota de rodapé nº 68.
100 A respeito, e com base no acima afirmado, cabe referir ainda que, vindo a ser tipificado o crime de desaparecimento forçado de
pessoas no direito interno (com base nas Convenções internacional e americana sobre o tema), ou mesmo outro crime permanente, se
124 poderia admitir a aplicação imediata dessas novas disposições aos crimes ainda em consumação.
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ACADÊMICOS
Nino101, que “as regras jurídicas que suspendem o sistema de prescrições quando as persecuções
são impossíveis resultam atrativas, o que pode ser logrado extendendo retroativamente os
términos ou declarando-os suspensos durante a ditadura” (tradução do autor).
Com tal intenção, o legislador argentino, por meio da lei 25.188 de 1999 (Lei de ética da função
pública), modificou o art. 67 do Código Penal102, incorporando uma cláusula suspensiva da
prescrição ‘até o restabelecimento da ordem constitucional’ em casos de atentados contra a
ordem constitucional ou o sistema democrático de governo referidos nos artigos 226 e 227 bis
do Código Penal.
Essa norma na Argentina objetivou prevenir situações futuras, sem nenhuma intenção de
retroatividade103.
No Brasil, não existe nenhuma norma legal que suspenda a aplicação da prescrição, seja
estendendo retroativamente os términos prescricionais, seja declarando suspensa a prescrição
durante o tempo em que não resultara possível a punição.
De qualquer maneira, a solução do problema por meio de alguma lei que trouxesse algum desses
artifícios confrontaria claramente a proibição de retroatividade da norma penal.
Desse modo, a única solução possível passaria pela inaplicabilidade judicial da prescrição baseada
justamente na razão de ser do instituto. De fato, o prazo prescricional corre em razão da falta de
atuação estatal frente a um fato punível. Tal circunstância claramente não se faz presente nos
casos em que o próprio Estado, responsável pela persecução penal, não persegue os crimes
nem permite sua persecução, em razão de ser ao mesmo tempo (na pessoa de seus agentes)
o objeto da aplicação da sanção. Desta maneira, frente a tal fato, a aplicação do instituto da
prescrição perde claramente sua razão de ser104.
102 ARTICULO 29. – Sustitúyese el artículo 67 del Código Penal por el siguiente:
Artículo 67: La prescripción se suspende en los casos de los delitos para cuyo juzgamiento sea necesaria la resolución de cuestiones
previas o prejudiciales, que deban ser resueltas en otro juicio. Terminada la causa de la suspensión, la prescripción sigue su curso.
[...]
El curso de la prescripción de la acción penal correspondiente a los delitos previstos en los artículos 226 y 227 bis, se suspenderá
hasta el restablecimiento del orden constitucional.
103 Conforme resultou demonstrado ao longo desse trabalho, a solução argentina passou pela consideração de que os crimes cometi-
dos pelos agentes do Estado durante a última ditadura configuraram crimes contra a humanidade imprescritíveis e não sujeitos a anistia
de acordo com o direito internacional com caráter jus cogens desde a época dos fatos. Desse modo, não resultou necessária a adoção
de nenhuma das soluções aqui apontadas por Nino (extensão retroativa do término das prescrições ou sua suspensão durante o período
ditatorial).
104 Nas palavras de MAÑALICH (ob. cit., p. 213), ‘no parece haber razón alguna por la cual la extinción del derecho punitivo respectivo
no pueda entenderse sujeta a la condición inmanente de que el ejercicio de la acción penal haya sido, desde el principio, institucionalmen-
te posible’. 125
Assim, resulta perfeitamente plausível aceitar-se a inaplicabilidade da prescrição ao caso brasileiro
em razão de que, por meio de uma plantada impossibilidade institucional, nunca houve, em
verdade, a necessária ‘contingência da punição’ a possibilitar o início do prazo prescricional105.
De fato, tal razoamento hermenêutico resulta perfeitamente aplicável ao caso brasileiro onde a
lei de anistia representou uma verdadeira supressão institucional da contingência da punição dos
crimes cometidos pelos agentes do Estado no período da última ditadura militar brasileira.
Ademais, cabe referir que a falta da contingência da punição não resulta limitada ao período de
aplicação da lei de anistia. Mesmo antes do surgimento de tal lei, a autoproteção concedida pelo
Estado aos agentes que em seu nome cometiam crimes claramente configura uma situação em
que a possibilidade de punição se encontrava bloqueada.
Nesse sentido, a construção feita pela jurisprudência federal alemã (BGH 40, 48, 113, 118) a
respeito de um cessar fático da prescrição pelo período de 11 de outubro de 1949 a 2 de outubro
de 1990 (com o fim de evitar que os fatos restassem prescritos antes da reunificação das
105 Conforme ainda MÃNALICH (ob. cit., p. 215): ‘De cara a la institución de la prescripción, esto quiere decir lo siguiente: primero, que
la prescripción de la acción penal es la institución que provee la demarcación de la extensión temporal de la contingencia (institucional)
de la punición; y segundo, que la institución de la prescripción de la acción penal no puede reclamar aplicación allí donde la punición no
ha sido (institucionalmente) contingente’.
126 106 Corte Suprema de Chile. S.C.S, 10.05.2007, Rol nº. 3452-06, “caso Londres 38”, considerando septuagésimo cuarto.
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Alemanhas Oriental e Ocidental), para os casos em que a persecução houvesse restado omitida
em razão da explícita vontade da condução estatal e do partido, fosse por motivos políticos ou
outras causas violatórias dos princípios vigentes em um Estado de Direito107.
No caso brasileiro, o tempo da prescrição passou justamente por culpa, primeiro, da falta de
interesse do Estado ditatorial em processar seus próprios crimes, e segundo, em razão de uma
errônea aplicação da, desde sempre ‘inconstitucional’108, lei de anistia.
Ou seja, um obstáculo ilegal (a anistia) levou à ocorrência de outro obstáculo (prescrição) que, se
não desconsiderado, levaria à conclusão de que o primeiro obstáculo ilegal alcançou total eficácia.
Sendo assim, não se pode aplicar a prescrição da mesma maneira para crimes comuns, onde
se contesta a ordem estatal – que detém o poder de sancionar – e para crimes cometidos
com o apoio do Estado110, onde justamente se utiliza o poder estatal para cometer crimes e ao
mesmo tempo manter-se impune (inicialmente por sua própria inércia e depois com base em
108 Tanto se analisada com base na CF/46, quanto na CF/88. Inclusive com base na autoritária Constituição Federal de 1967 o resultado
seria o mesmo. Entretanto, no julgamento da ADPF, o STF considerou constitucional tal lei.
110 Abarcados aqui os crimes contra a humanidade e inclusive o conceito mais amplo, utilizado pela Corte IDH, de ‘graves violações aos
direitos humanos’. 127
autoanistias, medidas que, somadas, levam a que o prazo normal de prescrição transcorra sem
nenhum risco de sanção).
No mesmo sentido Bruera111, com referência aos crimes contra a humanidade, para quem:
Estes delitos nunca deixam de ser vivenciais para a sociedade (são delitos contra
a humanidade), mas, fundamentalmente não pode olvidar-se que estes crimes são
geralmente praticados pelas mesmas agências punitivas, fora de controle estatal,
pelo contrário perpetradas através do Estado, ou organizações vinculadas ao Estado,
e um dos aspectos mais sobressalentes é que se organiza a impunidade desde
o próprio Estado no momento em que se cometem, e inclusive se perpetua a
mesma nos governos posteriores apelando a anistias e perdões contrários à
normativa de gentes, e finalmente, logo após haver impedido que se fizessem os
juízos no tempo devido, se invocam prescrições. (Tradução e grifos do autor).
Além disso, a autora conclui sua argumentação afirmando112 que para esses crimes não seria
razoável a extinção da ação penal pelo passar do tempo, já que “O contrário significaria uma
violação do princípio de igualdade, que ademais está ínsito em todas as garantias constitucionais,
já que os únicos delitos que não seriam perseguíveis seriam os delitos contra a humanidade, e
reforçaria a seletividade deslegitimante do sistema penal” (tradução do autor).
De modo que a prescrição poderia ter começado a correr no Brasil somente no caso de uma
decisão favorável à ADPF nº 153, que declarasse sua inaplicabilidade aos crimes praticados pelos
agentes do Estado. Entretanto, como isso não ocorreu (o STF julgou a ação improcedente), o
prazo prescricional ainda permaneceria suspenso.
111 BRUERA ,Matilde (2009). Em Delitos de lesa humanidad: reflexiones acerca de la jurisprudencia de la CSJN / coordinado por Rodolfo
L. Vigo – 1º ed. – Buenos Aires: Ediar, 2009, p. 12
113 Por entendê-la inaplicável ao caso brasileiro – com o que obviamente discordamos – ou nos casos de graves violações aos direitos
humanos que não se possam enquadrar no conceito de crimes contra a humanidade.
114 No mesmo sentido MAÑALICH (ob. cit., p. 232-233) com relação ao caso chileno, onde a lei de anistia (Decreto lei 2191) também
impediu as persecuções penais, refere que ‘la determinación del momento en que el plazo de prescripción tendría que empezar (o volver)
a correr en estos casos necesitaría hacerse depender, por lo mismo, de un reconocimiento institucional concluyente de la invalidez relativa
128 del DL 2191’.
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Com o julgamento, em 24/11/2010, do caso Gomes Lund vs. Brasil, por parte da Corte IDH, se
poderia considerar que o prazo, finalmente, teria começado.
Outra visão aceitável (e que nos parece a mais correta116) seria considerar-se que o prazo
prescricional das graves violações de direitos humanos referidas começara a correr no Brasil
em 14 de dezembro de 2010 (data em que o país foi notificado da decisão da Corte IDH no caso
Gomes Lund vs. Brasil), sendo que, no eventual caso do judiciário brasileiro não aceitar a aplicação
interna da decisão da Corte IDH (deferindo habeas corpus aos processados ou rejeitando as
denúncias) o prazo prescricional estaria sujeito a uma causa suspensiva. Assim, o prazo somente
retomaria seu curso depois de resolvida a questão, excluindo-se definitivamente a aplicação da
lei de anistia.
3. AS DIFERENTES AMPLITUDES
DOS CRITÉRIOS ADOTÁVEIS
Conforme o exposto, nem todos os critérios referidos pela doutrina ou mesmo aplicados em
outros países resultam aplicáveis no Brasil.
Nesse sentido, não resultam aplicáveis para a sanção dos crimes ocorridos durante a última
ditadura militar no Brasil os critérios da aplicação retroativa de tipos penais e o da ‘dupla
subsunção’ baseado na imprescritibilidade ou aplicação de prazos mais largos de prescrição, em
razão da aplicação retroativa de convenções internacionais que assim prevejam (ETPI, CICGLH,
CDF e CIDFP), do art, 5º, inc. XLIV da CF ou mesmo da CADH (conforme a interpretação dada
pela Corte IDH para a obrigação de garantia prevista em seu art. 1.1).
115 Para tanto, basta observar que as únicas ações penais instauradas no Brasil a respeito de crimes cometidos pelos agentes do Estado
na última ditadura militar não enfrentam necessariamente a anistia por tratar do crime permanente de sequestro. E, mesmo assim, os
juízes que rejeitaram essas denúncias utilizaram a anistia como um dos seus argumentos. Ou seja, a anistia continua impedindo a contin-
gência da punição no Brasil, não havendo que se falar no início da contagem da prescrição.
Dessa maneira, apresentados os critérios por meio dos quais seria possível a persecução dos
crimes cometidos durante a última ditadura militar brasileira, cabe também referir suas diferentes
amplitudes no que se refere aos tipos de crimes cometidos.
Por fim, pelo critério dos “crimes permanentes” (item 2.3.1), todos os crimes que ostentem
essas características (exemplo: sequestro e ocultação de cadáver), poderiam ser perseguidos
independentemente de configurarem crimes contra a humanidade e de serem cometidos pelos
agentes do Estado ou pelos opositores do regime.
117 Para maior esclarecimento sobre o conceito de crimes contra a humanidade e sua aplicabilidade a agentes do Estado e a seus opo-
sitores, veja-se MARX (2013, capítulo II).
118 O que na prática não ocorreu no que se refere à lei de anistia brasileira, que fazia restrição somente a alguns crimes pelos quais
já houvesse condenação – por óbvio de dissidentes do regime (lei 6683/79, art. 1º, § 2º – Excetuam-se dos benefícios da anistia os que
foram condenados pela prática de crimes de terrorismo, assalto, sequestro e atentado pessoal) – e teve uma aplicação ampla no que
se refere aos crimes cometidos pelos agentes do Estado. No entanto, em tese, principalmente no que se refere ao período anterior à
anistia, restaria a possibilidade de se comprovar que alguns crimes cometidos por esses agentes não costumavam receber o apoio
estatal, sendo normalmente processados (o que somente não teria ocorrido, então, por um lapso estatal que justificara a aplicação da
130 prescrição ao caso).
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4. CONCLUSÃO
Os critérios acima apresentados resumem, conforme entendemos, as possibilidades jurídicas de
sanção dos crimes cometidos durante a última ditadura militar no Brasil, bem como suas diferentes
extensões no que se refere aos tipos de crimes e de agentes a serem responsabilizados.
De modo que as investigações levadas a efeito atualmente pelo Ministério Público Federal
encontram em nosso sistema jurídico – cotejadas com o direito internacional aplicável –
mecanismos que possibilitam o processamento e a devida sanção desses crimes.
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________. STF. Ext 1274 – REPÚBLICA ARGENTINA. Relator: Min. GILMAR MENDES. Julgamento:
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____________. Caso Gomes Lund e outros (Guerrilha do Araguaia) vs. Brasil. Exceções preliminares,
Fundo, Reparações e Custas. Sentença de 24 de novembro de 2010. Serie C, Nº 219.
RESUMO: O presente artigo tem como objetivo analisar as possibilidades jurídicas de sanção
criminal aos crimes cometidos durante a última ditadura militar no Brasil. Nesse sentido, são
apresentados os meios disponíveis para o exercício de um controle de convencionalidade
adequado ao nosso sistema jurídico interno e identificadas as diferentes amplitudes dos critérios
adotados com relação aos tipos de crimes e aos eventuais agentes passíveis de responsabilização.
ABSTRACT: The purpose of this article is to analyze the legal possibilities of criminal sanction
for the crimes committed during the last military dictatorship in Brazil. In this sense, the possible
available means for the exercise of conventionality control in accordance to our domestic legal 135
system are presented and the different amplitude of adopted criteria concerning the types of
crimes and agents that might be held accountable is identified.
KEY-WORDS: Crimes against Humanity; Criminal Law; International Law; Transitional Justice;
Brazil.
136
APRESENTAÇÃO ENTREVISTAS ARTIGOS DOSSIÊ ESPECIAL DOCUMENTOS
ACADÊMICOS
137
FOTOS: COLÓQUIO INTERNACIONAL DIREITO À VERDADE E À JUSTIÇA
NOS PAÍSES DO CONE SUL, SÃO PAULO, DEZEMBRO DE 2011.
138
DOSSIÊ:
DIREITO À VERDADE
E À JUSTIÇA NOS PAÍSES
DO CONE SUL
ORGANIZADORAS:
DEISY DE FREITAS LIMA VENTURA
KATHIA MARTIN-CHENUT
139
DOSSIÊ
INTRODUÇÃO
O balanço das violações de direitos humanos cometidas durante os regimes militares que afligiram
a América Latina na segunda metade do século XX é severo, mas ainda está inacabado. Quando
as transições dos regimes autoritários para a democracia tiveram início, elas privilegiaram uma
política de perdão e esquecimento, por meio das leis de anistia. Porém, num segundo momento,
os processos de consolidação do Estado de Direito ensejaram o questionamento de tais leis.
Também emergiu, nos países do Cone Sul, a preocupação de construir uma memória nacional
coletiva, e de reconhecimento da responsabilidade do Estado nas graves violações cometidas
durante este período.
O Colóquio Direito à verdade e justiça de transição nos países do Cone Sul, ocorrido em São Paulo,
nos dias 1° e 2 de dezembro de 2011, debruçou-se sobre a realidade de cinco países da América
do Sul – Argentina, Brasil, Chile, Paraguai e Uruguai – outrora submetidos a regimes autoritários,
hoje em plena etapa de consolidação de suas jovens democracias. Tais Estados são, ademais,
integrados ao Mercosul (o Chile como país associado), conformando um espaço de intercâmbio
econômico e de harmonização do direito em que a cooperação internacional em matéria penal
é favorecida. Os Estados em questão também foram palco da Operação Condor, vasto plano de
repressão que reuniu as forças de segurança e os serviços secretos latino-americanos, com o
objetivo de combater, ou mesmo eliminar, os opositores políticos às ditaduras vigentes na região.
No entanto, com o tempo, este “esquecimento”, útil quando do processo de transição, mostrou-
se prejudicial à consolidação do Estado de Direito. As concepções “contrarrevolucionárias” e
as técnicas de segurança utilizadas durante os regimes militares sobreviveram nas culturas
nacionais, alimentando uma espécie de espiral de violência nessas sociedades. Paralelamente,
testemunhou-se uma importante evolução do direito internacional em matéria de luta contra a
impunidade das graves violações de direitos humanos e de reparação às vítimas. No seio deste
movimento, veio à luz um novo direito: o direito à verdade. O objetivo principal deste evento
foi, então, o de debater as consequências jurisdicionais e extrajurisdicionais da afirmação deste
direito nos planos internacional e nacional, que evoca a bela fórmula de Louis Joinet: “para poder
140 virar a página, é preciso tê-la lido”.
O dossiê que o leitor encontra neste número da Revista da Comissão de Anistia é, portanto, uma
contribuição para que se compreenda como tal “leitura” das páginas de nossa história ocorreu
nos países escolhidos, que papel o direito internacional desempenhou em tal “leitura”, mas,
igualmente, no sentido oposto, como a resposta aos regimes militares, em sua “leitura” latino-
americana, influenciou a evolução do próprio direito internacional.
Na abertura oficial dos trabalhos, foi destacado que este seminário dá continuidade a vários
projetos desenvolvidos na França em colaboração com universitários brasileiros. Na Unidade
Mista de Pesquisas (em francês, UMR) de direito comparado de Paris, criada por Mireille
Delmas-Marty (hoje Professora Emérita do Collège de France), desenvolveram-se quatro projetos
coletivos ligados direta, ou indiretamente, ao tema deste seminário.
Um primeiro projeto coletivo de pesquisa foi desenvolvido, entre 1999 e 2000, e intitulado Direito
comum e direito comparado1. Entre os temas nele tratados, encontrava-se a tipificação do crime
de genocídio, em direito internacional e em direito comparado – inclusive no direito comparado
latino-americano. Naquele momento, já foi possível perceber algumas especificidades latino-
americanas, além das tentativas de nacionalizar uma infração cuja tipificação é fruto do direito
internacional, por meio da previsão de um genocídio político ou cultural.
A seguir, entre 2003 e 2005, desenvolveu-se um projeto sobre anistia, prescrição, indulto e graça
em direito internacional e em direito comparado europeu. Foi uma valiosa oportunidade para
estudar a evolução da previsão e da aplicação destes institutos em face da emergência da luta
contra a impunidade de autores de crimes internacionais.
1 MARTIN, K. e PROPHETTE, A.,« Le crime de génocide en Amérique Latine » In DELMAS-MARTY, M. (Org.), Criminalité économique
et atteintes à la dignité de la personne, VII, Les processus d’internationalisation, Paris : MSH, 2001, pp. 271-286. 141
Os resultados desta pesquisa foram divulgados na França por intermédio de um artigo publicado na
revista Archives de politique criminelle2 e de um livro La Clémence saisie par le droit3. Ambos foram
traduzidos e publicados no Brasil – o artigo em 20084, e o livro em 2011, sob o título Clemência e
Direito, com o inestimável auxílio da Associação Nacional de Procuradores da República5. O trabalho
foi igualmente apresentado no primeiro encontro do Grupo de Estudos sobre Internacionalização
do Direito e Justiça de Transição (IDEJUST), ocorrido em São Paulo, em 2009.
Entre 2004 e 2006, um outro projeto coletivo sobre jurisdições militares e de exceção, em
face das exigências do direito internacional dos direitos humanos, foi desenvolvido na UMR
de direito comparado de Paris. Roberto Garreton, palestrante e autor de um dos artigos deste
número especial da Revista da Anistia, participou também deste projeto realizado na França.
Nele, comparou-se as mutações das jurisdições militares de uma quinzena de países, diante
das exigências do Direito Internacional dos Direitos Humanos em matéria de exercício da
justiça por jurisdições militares. Dentre os diversos resultados deste projeto, sublinha-se o
vínculo entre a ampla competência das jurisdições militares em certos países da América
Latina, inclusive para o julgamento de civis, e o seu passado autoritário6.
Ainda na UMR de direito comparado de Paris (2006-2010), foi levado a cabo um projeto sobre
reparações de graves violações de direitos humanos, no qual foi empreendida uma comparação
entre as jurisprudências das cortes regionais de proteção dos direitos humanos. Este trabalho
mostra quão pioneira e audaciosa é a jurisprudência interamericana de proteção dos direitos
humanos, quando comparada à jurisprudência africana, ainda embrionária, e à europeia, que foi
inicialmente fonte de inspiração para a jurisprudência interamericana, mas da qual a segunda
marca crescentemente sua autonomia7.
2 DELLA MORTE, G., LAMBERT-ABDELGAWAD, E., MARTIN-CHENUT, K., RUIZ-FABRI, H., « Les institutions de clémence (amnistie, grâce,
prescription) en droit international et droit constitutionnel comparé », Archives de politique criminelle, n° 28, outubro de 2006, pp. 237-253.
3 DELLA MORTE, G., LAMBERT-ABDELGAWAD, E., MARTIN-CHENUT, K., RUIZ-FABRI, H., La clémence saisie par le droit. Amnistie, grâce,
prescription en droit international et comparé, Paris : Société de Législation comparée, Coll. de l’UMR de droit comparé, vol. 14, 2007.
5 DELLA MORTE, G., LAMBERT-ABDELGAWAD, E., MARTIN-CHENUT, K., RUIZ-FABRI, H., Clemência e direito, Rio de Janeiro: Lumen
Juris, 2011.
6 Veja os diversos trabalhos reunidos no livro: LAMBERT-ABDELGAWAD, Elisabeth (Org.), Tribunaux militaires et juridictions
d’exception en mutation: perspectives comparées et internationales, Coédition AUF/éd. des Archives contemporaines, Collection «Actuali-
té scientifique», 2007.
7 LAMBERT-ABDELGAWAD, E., MARTIN-CHENUT, K. (org.), Les réparations des victimes de violations graves et massives des droits de
l’homme: la Cour interaméricaine, pionnière et modèle?, Paris: Société de Législation Comparée, Coll. de l’UMR de droit comparé, vol 20, 2010.
8 DELMAS-MARTY, M., MARTIN-CHENUT, K. (org.), Figures de l’internationalisation du droit – Amérique latine, Paris: Société de Lé-
142 gislation Comparée, no prelo.
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ACADÊMICOS
da internacionalização da justiça penal nos países do Cone Sul. O colóquio de fechamento deste
projeto integrou as atividades oficiais do Ano da França no Brasil.
O que marcou todos estes projetos foi não somente o interesse direto ou indireto pela América
Latina e pelo tema deste seminário, mas também a participação de universitários brasileiros.
O evento foi estruturado em duas partes. Enquanto a primeira consagrou-se ao papel dos regimes
autoritários latino-americanos na evolução do direito internacional, a segunda debruçou-se sobre
as experiências nacionais de transição em face das exigências do direito internacional.
Quanto à evolução do direito internacional, é imensa a contribuição para esta temática dos
especialistas franceses (experts indépendants) junto à antiga Comissão de Direitos Humanos
da ONU (hoje substituída pelo Conselho de Direitos Humanos). O primeiro trabalho marcante
foi o da francesa Nicole Questiaux. Este trabalho precursor teve como objetivo analisar em
que medida a instauração de estados de exceção compromete a eficácia dos mecanismos de
proteção dos direitos humanos, estabelecendo requisitos e condições de um estado de exceção
respeitoso dos direitos humanos e das formas democráticas de governo. Conhecido como
Relatório Questiaux, divulgado em 19829, foi complementado pelo estudo do argentino Leandro
Despouy durante os anos 9010. Estes dois trabalhos são textos de referência para a compreensão
da diversidade dos estados de exceção e dos riscos que eles podem representar para a proteção
dos direitos humanos, assim como dos limites que lhes são impostos pelo direito internacional11.
9 ONU, Nicolle QUESTIAUX. «Etude sur les conséquences pour les droits de l’homme des développements récents concernant les
situations dites d’Etat de siège ou d’exception», E/ CN 4/Sub. 2/1982/15.
10 ONU, “Informe del relator especial Leandro Despouy sobre les derechos humanos y los estados de excepción”, E/CN.4/Sub.2/1997/19,
23 de junho de 1997.
11 Para uma análise sobre estes limites e o sistema penal de exceção instaurado durante o regime autoritário brasileiro, V. MARTIN-
-CHENUT, K., “O sistema penal de exceção instaurado durante a ditadura militar brasileira confrontado com as exigências do direito in-
ternacional dos direitos humanos”, In MacDOWELL SANTOS, Cecília, ALMEIDA TELES, Edson Luís de et ALMEIDA TELES, Janaína de (dir.)
Desarquivando a ditadura : memória a justiça no Brasil, São Paulo : Ucitec, 2009, pp. 265-298 143
Em seguida, tivemos os trabalhos de Louis Joinet: o Estudo sobre a legislação de anistia e
sobre o seu papel na proteção e na promoção dos direitos humanos (Rapport Joinet 1985)12,
e o Conjunto de princípios para a proteção e promoção dos direito humanos pela luta contra a
impunidade (Rapport Joinet 1997)13.
A riqueza da contribuição francesa à evolução do direito nesta área e o papel que teve a
América Latina no desenvolvimento destes trabalhos, como inspiradora e incitadora, explica que
comecemos este seminário com dois debates. Um entre Louis Joinet et Emmanuel Decaux,
outro entre Paul Bouchet e Dalmo de Abreu Dallari.
É interessante notar que entre os dois trabalhos de Louis Joinet (relatórios de 1985 e de 1997)
houve uma transformação importante: da defesa da anistia, quando em favor dos dissidentes
políticos perseguidos, passou-se à rejeição da anistia, numa tentativa de limitar os abusos
no emprego deste instrumento jurídico que, a depender de sua utilização, poderia garantir a
impunidade de ditadores pelos crimes graves cometidos durante os regimes autoritários. Foi
nesta segunda fase dos trabalhos de Louis Joinet que organizou-se, em Genebra, uma reunião
com significativo título: Non à l’impunité, Oui à la justice (Não à impunidade, Sim à justiça)15.
Tratava-se de uma reunião organizada pela Comissão Nacional Consultiva de Direitos Humanos
da França, pela Comissão Internacional de Juristas e pelo Alto Comissariado de Direitos Humanos
da ONU. Dentre as pessoas que se reuniram em Genebra, quatro delas aceitaram testemunhar
sobre esta experiência e analisar o caminho percorrido desde então.
Nosso seminário teve início, então, com a projeção de um valioso documento: o debate intitulado
Os especialistas franceses na ONU e os regimes autoritários latino-americanos: os relatórios
sobre os regimes de exceção e sobre a luta contra a impunidade. Coordenado por Mireille Delmas-
Marty, o debate contou com a participação dos já citados Louis Joinet e de Emmanuel Decaux, e
12 E/CN.4/Sub.2/1985/16/Rev.1.
13 E/CN.4/Sub.2/1997/20/Rev.1.
14 ONU, Emanuel Decaux. «Principes sur l’administration de la justice par les tribunaux militaires présentés à la Sous–commission de
la promotion et de la protection des droits de l’homme», E/CN.4/2006/58, 13 janvier 2006.
15 Commission Nationale Consultative des Droits de l’Homme (CNCDH), Commission Internationale de Juristes (CIJ), Non à l’impunité
144 Oui à la justice, Genève, 1993.
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foi transcrito e traduzido para publicação nesta revista. A seguir, promovemos o reencontro entre
Paul Bouchet, Conseiller d’État honoraire, que foi Presidente da Comissão Nacional Consultiva
de Direitos Humanos e membro do Comitê de Reflexão sobre a criação de uma jurisdição penal
internacional; e Dalmo de Abreu Dallari, Professor Emérito da Universidade de São Paulo, que foi
membro da Comissão Internacional de Juristas.
Bouchet e Dallari compuseram a primeira mesa, intitulada Emergência do direito à verdade, luta
contra a impunidade das graves violações de direitos humanos, efetividade das reparações, que
foi presidida por André de Carvalho Ramos (Professor de Direito Internacional da Faculdade de
Direito da USP), e abordou as seguintes questões: que caminho foi percorrido? Quais evoluções?
Os regimes autoritários sul-americanos e as violações cometidas contribuíram para a evolução
do Direito Internacional dos Direitos Humanos, do Direito Internacional Humanitário e do
Direito Internacional Penal? Existe um particularismo sul-americano? Qual o impacto do Direito
Internacional nos países do Cone Sul?
Gostaríamos de agradecer sinceramente aos convidados por sua participação, que permitiu
a reunião, duas décadas depois, de tão importantes atores do movimento de luta contra a
impunidade e de reparação de graves violações de direitos humanos.
A seguir, a contribuição da justiça penal internacional foi tratada por Tarciso Dal Maso, Consultor
Legislativo do Senado Federal e Doutorando da Universidade de Paris X (Nanterre), que
participou dos trabalhos de adoção do Tratado de Roma que cria o Tribunal Penal Internacional,
assim como da conferência de reforma em Kampala, Uganda. Kathia Martin-Chenut abordou
o Direito à verdade e justiça de transição: a contribuição do sistema interamericano de
proteção dos direitos humanos. A contribuição do Mercosul para a consolidação do Direito
à verdade foi tratada por Gilles Gomes, Coordenador da Comissão Especial sobre Mortos
e Desaparecidos da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República. A mesa
teve como debatedora Flavia Piovesan, Professora de Direito Internacional da Pontifícia
Universidade Católica de São Paulo.
A segunda mesa do dia contou com a Presidência de Pedro Bohomoletz de Abreu Dallari
(Professor de Direito Internacional do IRI e da Faculdade de Direito da USP), a fim de promover
a Análise comparativa e transdisciplinar dos diferentes regimes autoritários e das transições
nacionais, a partir de duas interrogações: em que medida as diferenças entre os regimes
autoritários instaurados condicionam diferentes experiências de transição? Em que medida as
diferentes situações geo-políticas e econômicas dos países estudados favorecem maior abertura,
ou, ao contrário, o hermetismo às evoluções do Direito Internacional em matéria de luta contra a
impunidade e reparações de graves violações dos direitos humanos? 145
Palestraram nesta ocasião Cath Collins, Professora de Ciência Política da Universidade Diego Portales,
Chile; e Glenda Mezarobba, Pesquisadora da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP),
especialista junto ao Grupo de Trabalho que elaborou o projeto de lei que criou a Comissão da Verdade
no Brasil; Roberta Baggio, Conselheira da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça e Professora
da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, tendo como debatedora Ana
Lucia Pastore Schritzmeyer, Professora de Antropologia Jurídica da USP.
No dia seguinte, teve lugar a segunda parte do evento, focada nas experiências nacionais de
transição à luz das exigências do direito internacional.
A primeira mesa do dia, sobre experiências extrajudiciais, teve como Presidente o Professor Salem
Nasser, da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas de São Paulo. Em tela, estavam as questões:
qual a tipologia das experiências (comissões de indenização, comissões de verdade, tribunais
populares, etc.)? Foram precursoras, contemporâneas ou sucessivas às ações judiciais? Por quê?
Quais obstáculos? Foram palestrantes: Álvaro Rico, Diretor da Investigación histórica Detenidos
Desaparecidos da Presidência da República do Uruguai, Professor da Universidade da República;
Mario Melanio Medina Salinas, Presidente da Comissão da Verdade do Paraguai; Ludmila Catela,
Pesquisadora do CONICET e do Museu de Antropologia-UNC, Professora da Universidade Nacional
de Córdoba, Argentina; e Marcelo Torelly, da Comissão de Anistia do Ministério da Justiça do Brasil,
Professor da Universidade Católica de Brasília. Como debatedor, contamos com Guilherme de
Almeida, Professor do Departamento de Filosofia e Teoria do Direito da USP.
A segunda mesa versou sobre as experiências judiciais, sob a batuta de Alberto do Amaral,
Professor de Direito Internacional da Faculdade de Direito da USP. Formulou-se as seguintes
interrogações: qual a tipologia das experiências (ações civis, penais, administrativas, etc.)?
Que papel desempenharam as comissões de verdade na implementação efetiva das ações
judiciais? Qual foi a influência do direito internacional? Qual foi a influência do direito comparado
(especialmente o latino-americano e a influência dos países vizinhos)? Os expositores foram
Daiana Fusca, do Centro de Estudos Legais e Sociais (CELS), Argentina; Marlon Weichert,
Procurador da República, Brasil; Roberto Garretón, Membro do Conselho do Instituto Nacional de
Direitos Humanos do Chile, membro do grupo de trabalho da ONU sobre detenções arbitrárias;
e Juan Errandonea, Advogado junto à Corte Suprema do Uruguai, em particular do Caso
Sabalsagaray. Tivemos, como debatedores, Marcos Alexandre Coelho Zilli, Professor de Direito
Processual Penal da USP, e Jânia Maria Lopes Saldanha, Professora de Direito Processual Civil da
Universidade Federal de Santa Maria (UFSM).
O evento foi encerrado com a conferência de Mireille Delmas-Marty sobre o dilema Punir e/
146 ou perdoar: a aposta em uma justiça restauradora e instauradora, que se desenrolou sob a
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ACADÊMICOS
Entre os participantes do evento, destacaram-se os membros do IDEJUST, rede que reúne mais
de uma centena de pesquisadores, e vem fomentando a produção acadêmica sobre a justiça de
transição em nossa região.
Os leitores encontrarão, nesta edição, as contribuições dos participantes que enviaram seus
textos às organizadoras. Manifestamos nosso sincero agradecimento aos autores, assim como
aos editores da Revista da Comissão de Anistia.
Um evento deste porte não seria possível sem o auxílio substancial de um número significativo
de atores, a quem prestamos nosso sincero agradecimento. Algumas menções específicas são,
porém, imprescindíveis: à Comissão de Anistia pela parceria, em especial o engajamento de seu
Presidente, Paulo Abrão Pires Júnior, e de seu assessor Marcelo Torelly; a Mireille Delmas-Marty,
pelo conjunto de sua obra, pelo seu aporte à parceria franco-brasileira e por sua presença que
representou para o evento um inestimável ganho de transcendência; ao Consulado da França,
por seu decisivo apoio; à Faculdade de Direito, por nos ter acolhido; a Renan Quinalha e a Pedro
Charbel pelo trabalho incansável.
Por fim, registramos que o colóquio foi uma ocasião ímpar para discussão de novos projetos, dando
seguimento à cooperação franco-brasileira nesta temática. Um deles deve focar-se no exemplo
da luta contra a impunidade e pelas reparações de graves violações de direitos humanos, eis que
a América Latina pode, muito bem, tornar-se um laboratório para outros países, ou até regiões,
em processo de transição. Mas a cooperação consubstanciada neste evento deve estender-se
a outros campos. Oxalá esta edição da Revista da Comissão da Anistia possa contribuir para o
sucesso desta empreitada.
KATHIA MARTIN-CHENUT
DEISY VENTURA
147
148
PRESIDENTE DA COMISSÃO DE ANISTIA E REPRESENTANTE DO BRASIL JUNTO À ONU
HOMENAGEIAM ATIVISTAS DE DIREITOS HUMANOS QUE LUTARAM CONTRA A DITADURA
BRASILEIRA DESDE OS ESTADOS UNIDOS, SCHOOL OF INTERNATIONAL AND PUBLIC AFFAIRS,
COLUMBIA UNIVERSITY, NOVA IORQUE (ESTADOS UNIDOS), 11 DE OUTUBRO DE 2013.
A CONTRIBUIÇÃO DA
JUSTIÇA INTERNACIONAL
PENAL: FORMAÇÃO DE
PARADIGMAS
SEÇÃO I – PARADIGMA
HUMANITÁRIO – A GÊNESE DOS
CRIMES DE GUERRA COMO PONTO
DE PARTIDA
Os tribunais internacionais de Nuremberg e de Tóquio, criados após a Segunda Guerra Mundial,
são considerados, com frequência, como a origem da justiça internacional penal, o que ignora
longo desenvolvimento doutrinário sobre o assunto, algumas experiências frustradas, a anterior
construção jurídica do que se compreende como crime internacional e a formação dos paradigmas
do atual quadro de jurisdições penais internacionais ou internacionalizadas.
Como elemento de partida, importa destacar que os crimes internacionais foram sendo
identificados apesar da ausência de correlato mecanismo que ordenasse a responsabilidade
internacional penal. Em outros termos, as mais graves violações do direito internacional
foram consideradas potencialmente como crime antes da constituição efetiva de um regime
internacional penal. Posteriormente, quando as consequências penais dessas violações foram
melhor aclaradas, a tarefa de investigação e da punição dos possíveis responsáveis foram
atribuídas aos tribunais nacionais e às instituições internacionais, ainda com restrições1.
1 Há muitas e variadas jurisdições internacionais penais atualmente, mas elas ainda mantêm limites indesejados de jurisdição,
150 como os provocados pela não ratificação do Estatuto de Roma por certas potências, o que contribui para a visão do direito internacional
Igualmente notório é o fato de, entre todos os tipos penais internacionais que fazem parte das
atuais jurisdições internacionais, os crimes de guerra são os mais antigos.
A história dos crimes de guerra perpassa o curso das sociedades e sua repressão possui
contornos consuetudinários inegáveis. Contudo, considerado o objeto aqui proposto, teceremos
considerações sobre dois momentos importantes para a construção da responsabilidade
internacional penal, segundo um olhar contemporâneo. Primeiro, o julgamento do cavaleiro Pierre
de Hagenbach por crimes de guerra, considerado equivocadamente por alguns autores como
exemplo pioneiro da justiça internacional penal. Segundo, o início da codificação dos crimes
de guerra, a partir da Convenção de Genebra de 1864 e o debate em torno da possibilidade de
criação de uma jurisdição internacional penal para julgar seus violadores.
O julgamento internacional mais antigo de índole penal referido pela doutrina atual é o ocorrido
contra Pierre de Hagenbach, em 9 de maio de 1474. Essa hipótese de jurisdição foi propagada por
Schwarzenberger com seu artigo no Manchester Guardian, de 28 setembro de 1946, intitulado «A
Forerunner of Nuremberg: the Breisach war crimes of 1474»2, e que rapidamente se transformou
em referência para o direito internacional penal3.
O cavaleiro Hagenbach foi acusado de ter cometido assassinatos, pilhagens, detenções arbitrárias,
agressões e violações sexuais, invadir casas para alojar combatentes, cobrar impostos abusivos,
entre outras acusações4. Esses crimes teriam sido cometidos durante os quatro anos em que
administrava os territórios de Ferrette e da alta Alsácia, repassados pelo duque Sigismundo da
Áustria a Carlos I, o Temerário, duque da Borgonha, em decorrência do tratado de Saint-Omer
penal como um ramo do direito com aspectos rudimentares. CASSESE Antonio, International Criminal Law, Oxford University Press,
New York, 2003, p. 17.
2 SCHWARZENBERG Georg, «A Forerunner of Nuremberg: the Breisach War Crimes of 1474», in Manchester Guardian, 28th Septem-
ber, 1946, section 9, p. 4. Ver também SCHWARZENBERGER Georg, International Law as Applied by International Courts and Tribunals: The
Law of Conflict, v. II, Stevens & Sons Ltd., Londres, 1968, p. 466.
3 FINCH George A., “The Nuremberg Trial and International Law”, in The American Journal of International Law, V. 41, N°. 1 (Jan., 1947),
pp. 20-37; Estados Unidos c. von Leeb, Case n°. 72, The German High Command Trial, Trial of Wilhelm von Leeb and thirteen others, United
States Military Tribunal, Nuremberg, 30th December, 1947 – 28th October, 1948, in United Nations war Crimes Commission (selected and
prepared by), Law Reports of Trials of War Criminals, His Majesty’s Stationery Office, London, 1949, v. XII, p. 61; WOETZEL Robert K., The
Nuremberg Trials in International Law, Stevens & Sons Ltd., London / Praeger Inc., New York, 1960, pp. 20-1; BASSIOUNI Cherif, Internatio-
nal Criminal Law: A Draft International Criminal Code, Sijthoff & Noordhoff Publishers, Alphen aan den Rijn, 1980, p. 8.
4 BARANTE M. de, Histoire des Ducs de Bourgogne de la Maison de Valois (1364-1477), Tome Dixième – Charles le Téméraire, quatriè-
me édition, Paris, Librairie Ladvocat, 1826, pp.190-1. 151
(1469). Hagenbach, em grande medida apoiado pelo duque da Borgonha, não respeitou o ato de
juramento em questão e teria violado as leis de Deus e dos homens, segundo a acusação do
procurador Henry Iselin5.
Os crimes foram descritos como violação da base contratual (tratado de Saint-Omer) e do direito
natural. Entretanto, segundo Schwarzenberger6, esses crimes seriam similares aos crimes contra
a humanidade previstos no art. 6, c7, do Estatuto do Tribunal internacional militar de Nuremberg.
Alternativamente, eles poderiam ser considerados como crimes de guerra8 em sentido amplo,
se a situação fosse definida como atos de hostilidade em território austríaco sob a ocupação
borgonhesa. Justamente essa última hipótese justifica o subtítulo do artigo de Schwarzenberger
no Manchester Guardian em 1947: «the Breisach war crimes of 1474». Na realidade, apesar
de podermos, nesse caso, buscar raízes europeias dos dois tipos de crimes internacionais, a
posição de Schwarzenberger não tem precisão científica e deve ser incluída como um suporte
argumentativo ao tribunal de Nuremberg9. Nesse sentido, reconhece o tribunal militar americano
no caso Estados Unidos c. von Leeb:
6 SCHWARZENBERG Georg, «A Forerunner of Nuremberg: the Breisach War Crimes of 1474», loc. cit.
7 Art. 6, c, do Estatuto do Tribunal de Nuremberg: “(c) Dos Crimes contra a humanidade: homicídio, extermínio, escravidão, deporta-
ção e outros atos desumanos cometidos contra qualquer população civil, antes ou durante a guerra, ou perseguições por motivos políti-
cos, raciais ou religiosos, quando tais atos ou perseguições, constituindo ou não violação de direito interno do país onde foram cometidos,
foram cometidos como parte de qualquer crime sujeito à jurisdição do Tribunal, ou em conexão com este crime”.
8 Art. 6, b, do Estatuto do Tribunal de Nuremberg: “(b) Crimes de guerra: as violações de leis e costumes da guerra. Estas violações in-
cluem, entre outros, maus-tratos e deportação para trabalhos forçados, ou para qualquer outra finalidade, da população civil em território
ocupado; homicídio ou maus-tratos de prisioneiros de guerra ou pessoas no mar; execução de reféns; pilhagem de propriedade pública
ou privada; destruição arbitrária de cidades e aldeias, ou devastação não justificada por necessidade militar”.
9 DESCHÊNES Jules, “Toward international criminal justice”, in CLARK Roger S.; SANN Madeleine (ed.), The Prosecution of Internatio-
nal Crimes: A Critical Study of the International Tribunal for the Former Yugoslavia, Transaction Publishers, New Brunswick, 1996, p 32.
10 “We also refer to an article from the Manchester Guardian of 28th September, 1946, containing a description of the trial of Sir Peter
of Hagenbach held at Breisach in 1474. The charges against him were analogous to ‘Crimes against Humanity’ in modern concept. He was
convicted. However, these citations are of academic interest only, merely given to show the soundness of the Judgment of the IMT. We
think it may be said the basic law before mentioned simply declared, developed, and implemented International Common Law”. Caso Es-
152 tados Unidos c. von Leeb, loc. cit., p. 61
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ACADÊMICOS
De outro lado, o direito aplicado fazia parte de normas aceitas pelas cidades e pela nobreza suíça
e do Sacro Império Romano. Costumeiramente, elas eram ligadas às regras da cavalaria e dos
códigos de conduta dos exércitos, oriundas do direito natural ou do direito imperial. Entretanto,
o direito penal costumeiro dos membros do Sacro Império Romano não estava harmonizado no
momento do caso Hagenbach. As tentativas de reformas unificadoras do direito penal medieval do
Sacro Império Romano, a partir da recepção do direito romano, obtiveram os primeiros resultados
significativos com as ordonnances de Bamberg (1507) e de Brandebourg (1516), que anunciaram
um código penal do imperador14. Assim, não havia um direito comum entre as cidades participantes
do julgamento de Hagenbach a justificar um direito penal com motivação “humanista”.
11 O duque da Borgonha considerava essa cláusula do tratado como uma simples formalidade, pois conhecia a prodigalidade de Si-
gismundo e não acreditava que ele reunisse dinheiro para « readquirir » essas terras. CLAERR STAMM Gabrielle, Pierre de Hagenbach : le
destin tragique d’un chevalier sundgauvien au service de Charles le Téméraire, Société d’Histoire du Sundgau, Strasbourg, 2004, p. 69.
12 Breisach era uma fortaleza que comandava a rota da Alsácia ao leste. CLAERR STAMM Gabrielle, op. cit., pp. 69 e 74.
13 GREPPI Edoardo, « The evolution of individual criminal responsibility under international law », in Revue internationale de la Croix-
-Rouge, n. 835, 1999, pp. 531-553; LEONARD Eric K., The Onset of Globlal Governance: International Relations Theory and the International
Criminal Court, Ashgate Publishing Limited, Aldershot, 2005, p. 18.
14 CARTUYVELS Yves, D’où vient le code pénal ? Une approche généalogique des premiers codes pénaux absolutistes au XVIIIe siècle,
Les Presses de l’Université de Montréal, les Presses de l’Université d’Ottawa, De Boeck Université (Bruxelles), 1996, p. 28. 153
O internacionalismo do direito, nesse caso, é reduzido ao direito natural emergente, que teria
importância fundamental na formulação do direito internacional humanitário e dos direitos
humanos, mas com autores posteriores ao julgamento de Hagenbach, especialmente os da
Escola de Salamanca e Hugo Grotius, nos séculos XVI e XVII. De qualquer forma, o direito
aplicado no caso em análise não é o direito internacional em sentido moderno15.
Conforme exposto, não podemos afirmar que Hagenbach foi julgado por crimes internacionais no
sentido estrito, tampouco que seu julgamento fazia parte de uma jurisdição internacional penal.
Por iniciativa do arquiduque da Áustria, uma jurisdição intercomunal com fundamento no direito
da cavalaria e no direito natural foi criado, como demonstra essa narrativa de Barante:
“Cada cidade tinha uma queixa contra ele, e exigia sua punição. De modo que fosse
assegurada a todos uma boa justiça, o arquiduque resolveu que ele teria como
juízes homens sérios e sábios, indicados pelas cidades de Estrasburgo, Colmar,
Schelestadt, Friburgo em Brisgóvia, Breisach e Basiléia. Seriam também indicados
dezesseis cavaleiros pela nobreza. Berna e Solothurn, embora sejam cidades
suíças, também enviaram seus indicados para participarem do julgamento.”16
Após doze horas de julgamento, Gaspard Hurter, arauto do imperador, anuncia que Hagenbach
fora condenado à morte e, por requisição de dezesseis juízes cavaleiros, ele é destituído de sua
dignidade de cavaleiro e de todas as suas honrarias17.
O fato de que o Sacro Império Romano não se caracterizasse pela unidade e de as cidades suíças
envolvidas fossem fortemente independentes são fatores considerados por alguns autores
como suficientes para afirmar que a jurisdição exercida era internacional18. Contrariamente, o
caráter internacional de julgamento em uma época anterior ao direito internacional moderno é
duramente contestável, apesar desse exemplo nos oferecer indicativos histó