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Introdução às Ciências Políticas EaD

Este documento apresenta as autoras do livro "Ciências Políticas" e fornece informações sobre a Unicesumar. As autoras são a Professora Me. Mariane Helena Lopes e a Professora Esp. Ana Caroline Rodrigues. O documento também descreve a missão e os valores da Unicesumar no ensino a distância.
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Introdução às Ciências Políticas EaD

Este documento apresenta as autoras do livro "Ciências Políticas" e fornece informações sobre a Unicesumar. As autoras são a Professora Me. Mariane Helena Lopes e a Professora Esp. Ana Caroline Rodrigues. O documento também descreve a missão e os valores da Unicesumar no ensino a distância.
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CIÊNCIAS

POLÍTICAS

Professora Me. Mariane Helena Lopes


Professora Esp. Ana Caroline Rodrigues

GRADUAÇÃO

Unicesumar
Reitor
Wilson de Matos Silva
Vice-Reitor
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor Executivo de EAD
William Victor Kendrick de Matos Silva
Pró-Reitor de Ensino de EAD
Janes Fidélis Tomelin
Presidente da Mantenedora
Cláudio Ferdinandi

NEAD - Núcleo de Educação a Distância


Diretoria Executiva
Chrystiano Mincoff
James Prestes
Tiago Stachon
Diretoria de Graduação e Pós-graduação
Kátia Coelho
Diretoria de Permanência
Leonardo Spaine
Diretoria de Design Educacional
Débora Leite
Head de Produção de Conteúdos
Celso Luiz Braga de Souza Filho
Head de Curadoria e Inovação
Tania Cristiane Yoshie Fukushima
Gerência de Produção de Conteúdo
Diogo Ribeiro Garcia
Gerência de Projetos Especiais
Daniel Fuverki Hey
Gerência de Processos Acadêmicos
Taessa Penha Shiraishi Vieira
Supervisão de Produção de Conteúdo
Nádila Toledo
Coordenador de Conteúdo
Patricia Rodrigues da Silva
Designer Educacional
Nayara Valenciano
Projeto Gráfico
Jaime de Marchi Junior
José Jhonny Coelho
Arte Capa
C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Arthur Cantareli Silva
Distância; LOPES, Mariane Helena; RODRIGUES, Ana Caroline.
Ilustração Capa
Ciências Políticas. Mariane Helena Lopes; Ana Caroline Rodrigues. Bruno Pardinho
Maringá-Pr.: UniCesumar, 2018. Reimpresso em 2021. Editoração
160 p. Victor Augusto Thomazini
“Graduação - EaD”.
Qualidade Textual
1. Política. 2. Administração. 3. EaD. I. Título. Helen Braga do Prado

ISBN 978-85-459-1236-1
CDD - 22 ed. 320
CIP - NBR 12899 - AACR/2

Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário


João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828
Impresso por:
Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos
com princípios éticos e profissionalismo, não so-
mente para oferecer uma educação de qualidade,
mas, acima de tudo, para gerar uma conversão in-
tegral das pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos
em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e
espiritual.
Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos
de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de
100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil:
nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba,
Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos
EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e
pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros
e distribuímos mais de 500 mil exemplares por
ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma
instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos
consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos
educacionais do Brasil.
A rapidez do mundo moderno exige dos educa-
dores soluções inteligentes para as necessidades
de todos. Para continuar relevante, a instituição
de educação precisa ter pelo menos três virtudes:
inovação, coragem e compromisso com a quali-
dade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de
Engenharia, metodologias ativas, as quais visam
reunir o melhor do ensino presencial e a distância.
Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é
promover a educação de qualidade nas diferentes
áreas do conhecimento, formando profissionais
cidadãos que contribuam para o desenvolvimento
de uma sociedade justa e solidária.
Vamos juntos!
Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está
iniciando um processo de transformação, pois quando
investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou
profissional, nos transformamos e, consequentemente,
transformamos também a sociedade na qual estamos
inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportu-
nidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de
alcançar um nível de desenvolvimento compatível com
os desafios que surgem no mundo contemporâneo.
O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de
Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo
este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens
se educam juntos, na transformação do mundo”.
Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica
e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con-
tribuindo no processo educacional, complementando
sua formação profissional, desenvolvendo competên-
cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em
situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado
de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal
objetivo “provocar uma aproximação entre você e o
conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento
da autonomia em busca dos conhecimentos necessá-
rios para a sua formação pessoal e profissional.
Portanto, nossa distância nesse processo de cresci-
mento e construção do conhecimento deve ser apenas
geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos
que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita.
Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu
Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns
e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das dis-
cussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe
de professores e tutores que se encontra disponível para
sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de
aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui-
lidade e segurança sua trajetória acadêmica.
AUTORAS

Professora Me. Mariane Helena Lopes


Mestre em Ciências Jurídicas com ênfase em Direitos da Personalidade
pelo Centro Universitário de Maringá (UNICESUMAR), com pós-graduação
em Direito Aplicado pela Escola da Magistratura do Paraná. Graduada em
Direito pelo Centro Universitário de Maringá (UNICESUMAR). É docente no
Ensino à Distância do Unicesumar no curso de Administração, Gestão de
Cooperativas, Gestão Hospitalar, Gestão de Recursos Humanos, Processos
Gerenciais, Secretariado, Serviço Social e Segurança do Trabalho. Ainda, é
coordenadora e mediadora de curso de pós graduação em Direito no EAD
do Unicesumar. Por fim, foi membro do Colegiado do Curso de Gestão de
Recursos Humanos do Centro Universitário de Maringá. Foi docente no curso
de Administração, Comércio Exterior, Direito, Gestão de Recursos Humanos,
Jornalismo, Logística, Pilotagem de Aviões, Publicidade e Propaganda e
Turismo do Centro Universitário de Maringá.

Link: <[Link]

Professora Esp. Ana Caroline Rodrigues


Especialista em História e Sociedade pela Universidade Estadual de Maringá
(2010) e graduação em Filosofia pela mesma universidade (2008). Atualmente
é professora de Filosofia na Secretaria de Educação do Estado do Paraná,
atuando na área desde 2008.

Link: <[Link]
APRESENTAÇÃO

CIÊNCIAS POLÍTICAS

SEJA BEM-VINDO(A)!
Caro(a) acadêmico(a), é com grande satisfação que lhe apresento alguns apontamentos
sobre este livro, que tem como objetivo aproximá-lo do conteúdo e motivar sua reflexão
acerca dos temas propostos. Espero que esta leitura provoque novas perspectivas, diá-
logos e considerações diante desta disciplina tão importante na nossa formação, não só
profissional, mas também cidadã, as Ciências Políticas.
Atualmente, passamos por um momento político conturbado e os inúmeros casos de
denúncias, desvios de condutas e corrupção têm motivado crescente desesperança e
desinteresse com as questões políticas. Você, certamente, já ouviu alguns comentários
como “político é tudo ladrão”, “não me envolvo com política”, “política não se discute”, “os
políticos só pensam neles”, “o poder estraga as pessoas”, “esse país não tem mais jeito”.
Mas será que política se resume a isso? De acordo com a visão do senso comum, pode
ser que sim. Contudo, estamos aqui para extrapolar essa fase primitiva de conhecimen-
to, estamos aqui para ir além, buscando leituras e análises mais profundas para construir
um conhecimento mais seguro.
Muitos autores se dedicaram a ultrapassar este senso comum e pensar a política desde
suas raízes até seus frutos. Muitos seriam os teóricos que mereceriam destaque nesse
livro, como o tempo não nos permite, nos deteremos em alguns. Conheceremos então
um pouco desta produção intelectual que nos ajudará a compreender melhor este as-
sunto que diz respeito a todos nós.
O fazer política é produção humana e, desta forma, em cada momento ela corresponde
às características e necessidades daquele contexto. No entanto, o pensar político e as
ciências políticas exigem, de nós, um olhar que se volta também para o passado, bus-
cando a construção de um entendimento sobre o presente e criação de estratégias que
melhorem o futuro.
As mudanças ocorridas na sociedade no seu aspecto nominalmente político e, também,
no social, econômico e ético foram transformando o jeito de fazer e pensar a política.
Assim, procuramos oferecer a você, aluno(a), um material com informações que estimu-
le novas reflexões e possibilite a construção pensamento político consciente. Para isso,
organizamos em cinco unidades temas de grande relevância para as ciências políticas.
Na primeira unidade, entenderemos melhor como tiveram início as primeiras reflexões
políticas, como essas teorias foram se moldando ao longo da história de acordo com
os contextos em questão, buscando assim a compreensão do conceito de “política” en-
quanto necessidade humana.
Na Unidade II, você encontrará informações valiosíssimas para o entendimento dos ob-
jetivos e necessidades das organizações políticas, especialmente a partir da formação
do pensamento político moderno, as teorias liberais e socialistas, as bases que estrutu-
ram a democracia e os entraves que atrapalham sua efetividade plena.
Na terceira unidade, trataremos dos conceitos de mundialização e globalização, buscan-
do compreender seu contexto, bem como diferenciar a liberdade ideal da prevista pelo
Estado Moderno.
APRESENTAÇÃO

Na Unidade IV, trataremos das formas de governo e regimes políticos no mundo


contemporâneo, a partir de duas vertentes, a democrática e a autocrática.
Já, na quinta e última unidade, você conhecerá um pouco mais sobre a representa-
ção política e sistemas eleitorais. Você aprenderá, por exemplo, como são feitos os
cálculos de vagas de representação e coeficientes, informações que por não esta-
rem claras no nosso cotidiano, muitas vezes nos deixam confusos quando vemos
num resultado de eleição que um candidato com menos votos foi eleito enquanto
um com menor número de votos não conseguiu a vaga pretendida.
Aproveite sua leitura! Reflita e anote suas dúvidas. Realize os exercícios propostos e
enriqueça sua formação com os materiais indicados. Quaisquer que sejam as reser-
vas que possamos ter com relação à política atual, não é possível fugir dela. Escolher
não se envolver, não refletir, não participar é deixar para outro a responsabilidade
sobre nosso destino. Que as questões abordadas sejam proveitosas! Ótimos estudos
pra você!
09
SUMÁRIO

UNIDADE I

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS

17 Introdução

18 A Pólis Grega Como Invenção da Política

20 Platão e o Início das Reflexões Políticas

24 Aristóteles e a Política Como Necessária Para a Realização Humana

26 Filosofia Política na Idade Média

28 A Revolução de Maquiavel

30 Os Contratualistas 

34 Hannah Arendt

36 John Rawls

38 Considerações Finais

42 Referências

43 Gabarito
10
SUMÁRIO

UNIDADE II

POLÍTICA E DEMOCRACIA

47 Introdução

48 Qual a Finalidade da Política?

49 A Formação do Pensamento Político Moderno

51 O Pensamento Político Liberal

54 O Pensamento Político Socialista

56 As Grandes Revoluções e a Democracia Moderna

59 O que é Democracia – O Mundo Grego/Moderno

62 Considerações Finais

66 Referências

67 Gabarito
11
SUMÁRIO

UNIDADE III

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO

71 Introdução

72 Convergências, Divergências ou Paradoxos?

79 Os Grupos Sociais Excluídos

86 A Constituição do Estado Moderno: do Ideal de Liberdade Para o Princípio


da Dignidade da Pessoa Humana

87 A Relação Entre Produção e Liberdade na Civilização Clássica

89 O Estado Moderno e a Constituição: a Materialização do Homem

91 Considerações Finais

99 Referências

100 Gabarito
12
SUMÁRIO

UNIDADE IV

FORMAS DE GOVERNO E REGIMES POLÍTICOS NO MUNDO


CONTEMPORÂNEO

103 Introdução

104 Autocracia

109 Democracias

116 Democracia Liberal: Parlamentarismo ou Presidencialismo

119 Democracia Não-Liberal

121 Considerações Finais

126 Referências

127 Gabarito
13
SUMÁRIO

UNIDADE V

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO

131 Introdução

132 O Brasil: Representação e Sistema Partidário

132 A Representação Política

137 Sistemas Eleitorais

139 Cálculo do Número de Candidatos

147 Cálculo das Vagas Para Deputado (Federal e Estadual) e Vereador

152 Considerações Finais

156 Referências

158 Gabarito

160 CONCLUSÃO
Professora Esp. Ana Caroline Rodrigues

A POLÍTICA E OS

I
UNIDADE
PRINCIPAIS FILÓSOFOS

Objetivos de Aprendizagem
■■ Conhecer como se deu o início das reflexões políticas.
■■ Compreender como as teorias políticas foram se desenhando ao
longo da história.
■■ Contextualizar as teorias políticas em seus momentos históricos.
■■ Conceituar a política enquanto organização necessária para o
convívio humano.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ A pólis grega como invenção da política
■■ Platão e o início das reflexões políticas
■■ Aristóteles e a política como necessária para realização humana
■■ Filosofia política na Idade Média
■■ A revolução de Maquiavel
■■ Os contratualistas
■■ Hannah Arendt
■■ John Rawls
17

INTRODUÇÃO

Olá, seja bem-vindo(a)! Na primeira unidade, estudaremos as bases filosóficas


que fundamentam as teorias políticas. A política diz respeito ao modo como
organizamos nossas relações coletivas e, há muito tempo, o ser humano busca
compreender como se estruturam tais organizações.
Em cada contexto histórico, vemos as teorias e práticas se afetando mutu-
amente. Os gregos antigos deixaram um legado significativo para as teorias
políticas, Platão e Aristóteles são representantes que se destacam.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Com o advento do cristianismo, estabelece-se uma ligação entre ética, polí-


tica e religião, que predomina na pós-Antiguidade e também na Renascença.
Contudo, neste período as reflexões políticas não estão no centro dos grandes
questionamentos humanos, as maiores questões são as metafísicas, aquelas que
estão além da física, que dizem respeito à relação do ser humano com o que está
além do natural, a concepção de Deus, sobretudo.
A política volta a ser questão presente nas teorias a partir do século XIII e
tem um marco significativo com Nicolau Maquiavel que reformula o problema
político, rompendo com a antiga visão de mundo e mostra a necessidade da auto-
nomia do Estado em relação à religião, à natureza ou à própria razão, colocando
sua finalidade em si mesmo.
No mesmo clima de libertação das questões religiosas, continuam a partir
do século XVII ideias que criticam a teoria do direito divino, e mostram a neces-
sidade da política contratual para regular as relações humanas.
Surgem teorias liberais, socialistas, crises econômicas, guerras mundiais, e
percebemos ainda hoje que o problema político nunca se mostra resolvido, as
sociedades são dinâmicas, os problemas se transformam e a necessidade de ques-
tionar, refletir e modificar a realidade são sempre urgentes.
Nesta unidade, propomos uma viagem partindo do início das reflexões polí-
ticas na Grécia Antiga e acompanhando seu desenvolvimento e transformações
ao longo dos séculos de história. Estas bases teóricas são importantes para fun-
damentarmos nossos conceitos sobre política, assunto fundamental na vida de
todos nós. Vamos aos estudos! Boa leitura!

Introdução
18 UNIDADE I

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A PÓLIS GREGA COMO INVENÇÃO DA POLÍTICA

Etimologicamente, a palavra política vem do grego pólis, que significa cidade.


Existem muitas definições para política e teorias sobre a melhor forma de fazer
política. Comecemos, então, pelo momento no qual a ideia de política nasceu.
Precisamos considerar que o nascimento da política está diretamente ligado ao
nascimento da filosofia e vice-versa.
Afirma-se que a filosofia tenha se desenvolvido a partir de uma supera-
ção do pensamento mitológico, por meio de um processo gradual, iniciado no
século VII a.C. A preocupação dos primeiros pensadores foi explicar a própria
natureza, pois este era um dos assuntos predominantes na mitologia. Contudo,
rapidamente o direcionamento das questões abordadas muda de foco e surgem
as primeiras e grandes questões relacionadas ao ser e agir humano. É o início
da reflexão ética e política que permanecem entre as preocupações, discussões
e ações humanas.
É consensual afirmar que o nascimento da filosofia, enquanto pensamento
racional, ajudou a configurar a pólis grega. Bem como a pólis grega interferiu
nas configurações da filosofia nascente. É uma relação de influências mútuas.
A democratização da escrita, o calendário, o comércio e as trocas culturais
com outros povos foram fundamentais para o desenvolvimento da filosofia.
Chineses, babilônios e egípcios, por exemplo, não viviam na ignorância, como
se pode erroneamente supor, mas tinham muitos conhecimentos práticos, como
de astrologia e agrimensura.

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS


19

Você pode estar se questionando sobre o motivo dos gregos terem sido con-
siderados então os pais da filosofia. A resposta vem sustentada pela postura que
eles tiveram ao colocar o saber em um lugar central, ao debater sobre os termos
que os inquietam, dialogando francamente, compartilhando o saber, colocan-
do-o num lugar comum e iniciando a comunidade do conhecimento.
O conhecimento é uma construção e a filosofia se faz do diálogo (dia=dois;
logos=razão). O diálogo é o embate entre dois ou mais logos que se colocam
frente a frente, o melhor embate, no qual não há perdedores, apenas ganhado-
res. No método dialético, temos uma tese que fica frente a frente com a antítese
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

e, desse enfrentamento, surge a síntese, a conclusão, o saber constituído, a vitó-


ria comum. O logos não é um conteúdo fechado, uma verdade absoluta, mas a
capacidade humana, a predisposição para conhecer e exige humildade, a humil-
dade socrática de reconhecer a própria ignorância para se abrir à busca pelo
conhecimento verdadeiro.
O espaço público passa a ser racional, uma nova imagem de mundo é cons-
truída em substituição às genealogias míticas. As poleis, cidades, são centradas
na ágora (praça pública) onde nasce a razão no coletivo e surgem as leis. Ora, a
política, assim como a filosofia grega, se faz no diálogo, as decisões eram deli-
beradas em assembleias na ágora.
Então, se você estiver se perguntando, se antes dos gregos não havia rela-
ções de poder ou política, se as pessoas não se organizavam politicamente, a
resposta será sim e não. Sim,
existiam relações de poder,
existiram grandes impérios,
mas o poder era personifi-
cado, estava na esfera do
privado. Não, as pessoas não
se organizavam, elas eram
organizadas por outro, havia
o predomínio da heterono-
mia, a norma era dada e as
pessoas obedeciam ou eram
punidas. Figura 1 - Acrópole em Atenas, Grécia. Templo do Parthenon

A Pólis Grega Como Invenção da Política


20 UNIDADE I

O âmbito do político inaugurado com os gregos é o exercício da racionali-


dade, do diálogo público. Assim, fazer política é falar e um falar com exigências
próprias, a saber, a isonomia (igualdade de direitos) e a isegoria (igualdade de
direito à fala pública). Politizar é permitir, estimular e exercitar o debate, tem
um caráter público e impessoal, assegurando a autonomia do sujeito racional
que construirá em conjunto com seus pares as normas comuns.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Para os gregos antigos, a cidadania tinha uma dimensão especial. Uma das
piores desgraças que poderia acometer ao indivíduo era perder seus direi-
tos de cidadão, estabelecidos nas leis de cidadania.
Contudo, há que lembrar que, naquele contexto, as leis de cidadania eram
restritas e excludentes. Em Atenas, por exemplo, depois da lei da cidadania
promulgada por Péricles, só eram considerados cidadãos os homens que
tivessem pai e mãe atenienses. Ficavam excluídos da vida pública estrangei-
ros, escravos e mulheres. Ou seja, o número de cidadãos era muito inferior
ao número de habitantes da polis.

Esperamos que consiga perceber a relevância e a relação direta do nascimento


da política com o exercício da racionalidade e do diálogo. A política nasce não
como uma organização dada, mas como uma organização construída a partir dos
iguais que pensam a realidade e dialogam sobre ela na busca de um consenso.

PLATÃO E O INÍCIO DAS REFLEXÕES POLÍTICAS

Após abordarmos de forma sintética os aspectos que norteiam o nascimento da


reflexão política, vamos destacar alguns pontos relevantes na teoria de um dos
mais importantes filósofos gregos, Platão.

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS


21

Atribui-se a Sócrates, o início das


teorias sobre ética e política, sendo
seu pensamento registrado por
seu discípulo Platão em forma de
diálogos. Cabe lembrar que o pró-
prio Sócrates não deixou nenhuma
obra autoral, mas seu pensamento
aparece em obras de outros grandes
pensadores de seu tempo, sendo
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Platão o mais recorrente como


fonte.
Platão foi um filósofo grego Figura 2 - Dois filósofos gregos (imagem referente à Sócrates
segurando o cálice de cicuta, causa de sua morte, e Platão
que viveu entre os anos de 428 e apontando para cima como se fosse o mundo das ideias)
347 a.C., seu verdadeiro nome era Arístocles. Sua teoria se mistura à de Sócrates
nos primeiros escritos, mas ganha um caráter próprio nos escritos posteriores.
Para compreender a teoria platônica, qualquer que seja o assunto, precisa-
mos conhecer um pouco da estrutura que fundamenta todo o seu pensamento,
o dualismo. A concepção de Platão sobre a realidade é baseada em duas dimen-
sões distintas, a saber: um mundo concreto, sensível, imperfeito, onde nascemos,
crescemos, envelhecemos e morremos; e um mundo separado, inteligível, ideal,
perfeito.
Os seres humanos, assim como tudo o que existe, são explicados a partir
de um dualismo, no caso, corpo e alma, não uma alma no sentido religioso do
termo, mas uma alma no sentido inteligível.
Segundo o filósofo, o mundo sensível seria uma espécie de cópia imperfeita
do mundo inteligível. Para tudo o que existe no mundo sensível, há um conceito
perfeito, uma ideia perfeita, no mundo inteligível. A partir dessas duas dimen-
sões e da relação entre elas, Platão desenvolve suas teorias sobre o conhecimento,
a arte, a ética, a política etc.
A teoria política de Platão está concentrada em três grandes obras “A
República”, “A Política” e “As leis”. O filósofo desenvolve uma defesa de regime
aristocrático de poder. Contudo, tal aristocracia não se fazia pela riqueza, e sim
pela inteligência.

Platão e o Início das Reflexões Políticas


22 UNIDADE I

O poder, segundo ele, deveria estar nas mãos dos melhores, ou seja, dos sábios.
Esse modelo recebe o nome de sofocracia, (sofo=sabedoria + cracia=poder),
onde os homens comuns, de insuficiente conhecimento, deveriam ser governa-
dos pelos que se sobressaem pelo saber. O governante seria o Rei Filósofo. Para
justificar a organização social e política, o filósofo se utiliza do dualismo cor-
po-alma e faz uma classificação da população a partir das aptidões de sua alma.
Segundo Platão, uma cidade perfeita seria aquela onde o governo estivesse
sob a responsabilidade dos possuidores de almas de caráter racional, ou seja,
os praticantes da filosofia, os mais sábios, classificados por ele, como “almas de

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ouro”; aos detentores de uma alma de caráter irascível, colérico, caberia a tarefa
de proteção da cidade, por serem mais corajosos, são os classificados como “almas
de prata”, os guerreiros; já aqueles que tivessem uma alma de caráter concupis-
cível, ambicioso, caberia o sustento da cidade, a produção dos bens necessários
à sobrevivência, são considerados, então, dotados de “alma de bronze”, os traba-
lhadores braçais, seriam agricultores, artesãos, comerciantes, construtores etc.
Cada um, de acordo com seu caráter de alma, executaria sua atividade e vive-
ria feliz dentro da organização estabelecida segundo suas capacidades. Assim, as
classes sociais são estabelecidas não por uma classificação financeira, mas, pelas
características e aptidões dos indivíduos. A educação caberia à cidade, havendo
uma espécie de dissolução da família.
Ao falar do bom governo, sofocracia, Platão exemplifica também o que para
ele seriam formas ruins de governo, viciadas, inaceitáveis, injustas: a timocracia,
que é o governo dos ambiciosos; a oligarquia; que é o governo dos ricos; a demo-
cracia, que é o governo de massas populares despreparadas; e a tirania, que é o
governo de um déspota. Todas essas formas seriam contrárias ao governo ideal,
o governo do magistrado-filósofo.
A cidade só poderia ser boa se seguisse essa forma de organização na qual
cada grupo executasse a tarefa correspondente às características de sua alma, de
acordo com suas capacidades.
O idealismo, muito preponderante na República, abre espaço para outro tipo
de abordagem em “A Política” e “As Leis”, onde Platão considera os homens e os
governos como eles efetivamente são, desprovidos de toda perfeição da república ide-
alizada. Surge, então, a necessidade de uma legislação que sirva como instrumento

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS


23

educativo, cujo objetivo vai além de punir as transgressões, mas, sobretudo, de evi-
tá-las. O objetivo da legislação deveria contemplar a virtude em sua totalidade.
Entretanto, apesar olhar de forma mais realista o ser humano e a cidade,
Platão não abandona a ideia da cidade ideal como aquela governada pelo sábio,
filósofo, como se vê na passagem onde diz:
valha, portanto, esta fórmula como a expressão justa de nossa maneira
de pensar: que não devemos confiar a menor parcela de autoridade aos
cidadãos atingidos, a esse ponto, de ignorância, e que esta lhes deve ser,
até, lançada em rosto em que sejam todos eles raciocinadores habilido-
sos e afeitos às sutilezas que adornam o espírito e lhe conferem viva-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

cidade; enquanto os que revelam disposições contrárias a esses deno-


minaremos sábios, ainda mesmo, como se diz, que não saibam ler nem
nadar, e lhes conferiremos, como a entendidos, os cargos da república.
Pois onde não há harmonia, meus caros, como poderá haver prudên-
cia, por mínima que seja? Não é possível. Com todo direito, pode-se
afirmar que a mais bela e a maior harmonia é a sabedoria mais perfeita,
que só ocorre em quem vive segundo a razão (PLATÃO, 689 d.C.).

Nas Leis, Platão afirma que o legislador deve legislar a partir da virtude e visar
a paz e a harmonia entre os homens, extinguindo ou reduzindo à uma quanti-
dade insignificante os casos de injustiça. Segundo ele,
o objetivo primacial de nossas leis consistia em deixar os cidadãos tão
felizes quanto possível e amigos uns dos outros. Porém não pode ha-
ver amizade entre os cidadãos onde pululam os processos e são fatos
corriqueiros, as injustiças, mas apenas onde uns e outros são tão raros
quanto possível e de quase nenhuma relevância (PLATÃO. 743 d.C.).

Na teoria platônica, há uma base ide-


alista, que parte de uma definição
específica do que seja a realidade e,
a partir disto, são colocados os mol-
des da melhor forma de se fazer
política, segundo Platão. Os pontos
trazidos para a leitura têm a intenção
de estimular sua reflexão, que poderá
resultar na concordância ou discor-
Figura 3 - Atenas Grécia, Platão e Sócrates em frente ao
dância de alguns aspectos do filósofo. edifício neoclássico da universidade nacional

Platão e o Início das Reflexões Políticas


24 UNIDADE I

Até aqui, caro(a) aluno(a), você pôde perceber que a Grécia foi um lugar fértil
para o início dos debates acerca da política. A polis grega tem papel fundamental
neste contexto, a partir de Sócrates e Platão a preocupação deixa de ser principal-
mente cosmológica e passa a ser antropológica. Dentro deste enfoque, as questões
políticas ocupam lugar de destaque e continuarão a ser debatidas pelo suces-
sor de Platão, Aristóteles, mas a partir de uma perspectiva totalmente diferente.

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ARISTÓTELES E A POLÍTICA COMO NECESSÁRIA
PARA A REALIZAÇÃO HUMANA

Embora tendo estudado na Academia


de Platão, Aristóteles foi um daqueles
alunos que supera o mestre, analisando
e apresentando uma contrapartida para
a teoria daquele que fora seu professor.
Contrariamente ao idealismo platônico,
Aristóteles situa sua teoria na realidade,
tanto no que se relaciona ao conheci-
mento, quanto às questões políticas.
Em sua obra, “A Política”, Aristóteles
critica a teoria de Platão por classificá-la
impraticável e injusta, diz que a sofocra-
cia (governo do sábio) limita o poder,
hierarquiza, erradamente, a sociedade e
também discorda da dissolução da famí-
lia. O governo não caberia mais a um tipo
específico de alma, mas a todos os seres
humanos que por natureza são, segundo Figura 4 - Vista estátua do filósofo e cientista grego
antigo de Aristóteles, na Praça Aristotelous, na cidade
ele, zoon politikon, animal político. grega do norte de Tessalônica

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS


25

A razão pela qual o homem, mais do que uma abelha ou um animal


gregário, é um ser vivo político em sentido pleno, é óbvia. A natureza,
conforme dizemos, não faz nada ao desbarato, e só o homem, de entre
todos os seres vivos, possui a palavra. Assim, enquanto a voz indica
prazer ou sofrimento, e nesse sentido é também atributo de outros ani-
mais (cuja natureza também atinge sensações de dor e de prazer e é
capaz de as indicar) o discurso, por outro lado, serve para tornar claro e
útil e o prejudicial, e por conseguinte, o justo e o injusto. É que, perante
os outros seres vivos, o homem tem as suas peculiaridades: só ele sente
o bem e o mal, o justo e o injusto; é a comunidade destes sentimentos
que produz a família e a cidade (ARISTÓTELES, 1998, p. 55).
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O objetivo da vida humana é, para este filósofo, a felicidade e esta felicidade só


pode se realizar na polis, não existe uma separação entre ética, enquanto teoria
das ações humanas e política. A política faz parte da natureza humana.
É evidente que a cidade é, por natureza, anterior ao indivíduo, porque
se um indivíduo separado não é auto-suficiente, permanecerá em rela-
ção à cidade como as partes em relação ao todo. Quem for incapaz de
se associar ou que não sente essa necessidade por causa da sua auto-su-
ficiência, não faz parte de qualquer cidade, e será um bicho ou um deus
(ARISTÓTELES, 2001, p. 55).

Apesar de não considerar a democracia a melhor forma de governo, não há critica


com tanta ênfase como a de Platão. Para Aristóteles, o bom governo é aquele que
busca o bem comum, a felicidade de todos. Em sua obra há uma ligação neces-
sária entre ética e política, pois só é possível a construção de uma cidade feliz se
o indivíduo também for feliz, essa é a natureza humana, buscar o bem maior, a
felicidade e esta só é possível na relação com os outros.
Aristóteles classifica, então, as formas de governo em puras e impuras, boas
e más, justas e injustas, levando também em consideração o número como cri-
tério de distinção.
Cabe lembrar que a justiça só acontece quando prevalece a razão, não as pai-
xões. Segundo ele, as constituições justas seriam aquelas que trabalham para o
bem comum, entre elas está a monarquia, governo de um só cuidando pelo bem de
todos; a aristocracia, governo de um grupo cuidando pelo bem todos e república
ou politeia, governo da maioria, cuidando pelo bem de todos. Já, as formas injustas
são as aquelas que visam o bem dos governantes em detrimento do bem coletivo,
seriam elas, a tirania governo de um buscando o próprio interesse; a oligarquia,

Aristóteles e a Política Como Necessária Para a Realização Humana


26 UNIDADE I

governo de um grupo bus-


cando o interesse próprio e a
democracia, comando de uma
massa que suprime as diferen-
ças em nome da igualdade.
A partir dessa classifica-
ção, ele aceita a monarquia, a
aristocracia e a república como
Figura 5 - A Escola de Atenas, de Raphael, localizada no Museu do
formas boas, mas prefere a Vaticano

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última, pois acredita que ela seja a que melhor concilia as diferenças e conflitos
entre os grupos sociais. Para ele, a tirania seria a pior forma de governo, pois a polí-
tica deve ser o convívio de iguais, mediados pela linguagem, o bem viver juntos.
Precisamos, pois, junto com o amigo, perceber também que ele existe e
isso acontece no viver junto e no ter comunhão de palavras e de pensa-
mento. É nesse sentido que se diz que os seres humanos vivem juntos.
Não é a mesma coisa que se declara a respeito dos animais, quando se
afirma que eles pastam juntos no mesmo lugar (ARISTÓTELES, 2001,
p. 813).

A política faz parte da natureza humana, é uma necessidade humana, o homem


só é feliz plenamente no convívio com os demais, dessa forma, é necessário que
ele exerça seu papel político.

FILOSOFIA POLÍTICA NA IDADE MÉDIA

Na Antiguidade grega se iniciaram as reflexões sobre ética e política, houve uma


grande e significativa produção teórica sobre estes temas. Contudo, nos sécu-
los seguintes a reflexão filosófica do problema político pouco avançou. Durante
a Idade Média, o pensamento político se ocupou de questões relacionadas ao
poder temporal, aquele exercido por governos específicos, e poder espiritual,
exercido pela Igreja, deixando de lado a essência do político.

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS


27

Neste período, temos nomes como Santo Agostinho, que na obra “A cidade de
Deus”, descreve a cidade dos homens, com características negativas, como corrupção,
ambição e orgulho humano e a cidade de deus, fruto do amor divino, que deveria
servir de exemplo para as ações políticas; e São Tomás de Aquino que retoma e rea-
firma aspectos da teoria aristotélica do Estado como a natureza social do ser humano
e a união de muitos, buscando um interesse comum. O governante deveria ser vir-
tuoso para seguir de modelo de virtude ao povo que se tornaria virtuoso também.
Santo Agostinho nasceu no ano de 354 no norte da África, estudou em Cartago,
foi durante muito tempo pagão como seu pai, Patrício, mas se converteu sob grande
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influência da mãe, Mônica, que mais tarde foi considerada santa. Santo Agostinho
se dedicou à oração e ao estudo, escrevendo o número de 113 obras, sem contar as
cartas e sermões. Contudo, seu pensamento é construído a partir da ideia de que
a humanidade é decaída, deseja voltar para Deus e encontrar Deus seria encon-
trar a verdade, veritas.
Não havia, segundo ele, realização humana nas coisas terrenas, a verdadeira
realização se faria nas coisas transcendentais e não nas coisas temporais. Assim,
não havia sentido em viver um grande engajamento político, deixando em segundo
plano as coisas espirituais, pois a política trata das organizações temporais. Em sua
obra “Cidade de Deus”, “De civitate Dei”, faz a distinção entre a cidade de Deus, que
deve ser buscada, e a cidade dos homens que deveria se espelhar na cidade de Deus.

Durante a Idade Média, a Europa Ocidental foi marcada pelo poder da Igreja
Católica. Nesse momento, destacava-se o conceito de Cristandade, que na
falta de um poder político centralizador, determinava aos cristãos seguir as
regras e aos princípios da Igreja de Roma.
No século XV, alguns intelectuais, como Erasmo de Roterdã, criticaram as
deturpações cometidas pela Igreja e apontaram que era preciso que ela te-
nha se desvencilhado das questões materiais, como propunham os Evange-
lhos. A unidade católica sofre profundas transformações a partir da Reforma
Protestante iniciada por Martinho Lutero em 1517.
Fonte: a autora.

Filosofia Política na Idade Média


28 UNIDADE I

A teoria agostiniana coloca as origens da política, não na natureza humana,


como víamos na teoria aristotélica, mas na ideia de pecado. Tomás de Aquino,
por outro lado, vem fazer uma releitura de Aristóteles reconhecendo a necessi-
dade natural do ser humano em se organizar em sociedade.
Tomás de Aquino viveu entre os anos de 1225 e 1274, foi um filósofo e frade
italiano de grande destaque na Escolástica. Procurava responder suas questões
recorrendo à Platão e Aristóteles, mas sempre partindo de uma perspectiva cristã.
A teoria política de Tomás de Aquino, apesar de reconhecer Estado como
detentor de meios para realizar seus objetivos, o coloca subordinado à Igreja,

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pois considera esta a mais perfeita por buscar não apenas o bem coletivo natu-
ral, mas o bem sobrenatural, o sagrado.
A política, da mesma forma que as demais ciências, deveria estar subor-
dinada à Teologia. Segundo ele, é na cidade que o cristão vai desenvolver suas
virtudes e tais virtudes se desenvolvem na relação com os outros. O exercício da
virtude demanda uma vida social.

A REVOLUÇÃO DE MAQUIAVEL

Nicolau Maquiavel rompe com a visão de mundo sob um viés religioso predo-
minante nos séculos anteriores e traz uma nova formulação sobre o problema do
Estado. Ele representa uma mudança expressiva, um marco nas teorias políticas,
atribuindo a finalidade do Estado a ele mesmo, desvinculando todo e qualquer
fundamento exterior ao próprio Estado, como Deus ou a natureza, por exemplo.
Maquiavel viveu entre 1468 e 1527, foi um diplomata e conselheiro do governo
de Florença, Itália e sua grande obra “O Príncipe”, foi escrita para Lorenzo de
Médici. O livro era uma espécie de manual do bom governo para ajudar o prín-
cipe quanto à conquista e manutenção do poder. A intenção de Maquiavel era
ver a unificação da Itália que estava fragmentada em diversos ducados em um
contexto de profunda instabilidade política e ameaças de guerras.

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS


29

Você pode imaginar que Maquiavel iria


defender um modelo monárquico de poder,
pois escreve ao príncipe, para lhe dar orienta-
ções políticas. Entretanto, a figura do príncipe
não é simplesmente o filho do rei, mas aquele
que principia o primeiro cidadão. Maquiavel
parte da ideia de uma sociedade corrompida e
aposta na ação de um líder político e irá restau-
rar a dinâmica da esfera pública. O principado
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seria, assim, um momento intermediário entre


o caos político e a nova república.
Já, na carta dedicatória, Maquiavel com-
Figura 6 - Estátua de Nicolau Maquiavel fora
para seus escritos a um presente raro, destaca da Galeria Uffizi em Florença, Itália

que o mesmo é fruto da experiência e de muito estudo e avisa que não usará orna-
mentos ou floreios, irá direto ao que interessa sem se preocupar em ser agradável,
senão por ele mesmo. Durante a obra, são citados vários exemplos, de bons e de
maus governos. Maquiavel diz o que se deve e o que não se deve fazer para che-
gar ao poder e para torná-lo estável.
De maneira geral, as teorias políticas que antecedem Maquiavel tinham um
cunho idealista, projetando a sociedade como ela deveria ser. Em sua teoria,
contracorrente das filosofias políticas idealistas, o filósofo joga luz sobre as con-
dições reais da sociedade, suas limitações, divergências e conflitos.
A sociedade é mostrada como realidade dividida por desejos opostos, lutas
internas. O Estado é visto como uma instância superior e forte que lhe dá iden-
tidade, unidade, e gerenciará as vontades e desejos diversos. Para ele, o objetivo
maior da política não é a felicidade comum, mas a tomada e manutenção do
poder que permitirá, em certa medida, um bem comum.
Segundo ele, os homens não são naturalmente bons, mas, ao contrário, em
sua maioria seguem seus interesses próprios e paixões, sendo necessário assim
que o Estado leve essa realidade em consideração e, se necessário, utilize de vio-
lência para responder à violência, por exemplo.
Diferente de Aristóteles, Maquiavel desvincula a ética e política, no sentido em
que, segundo ele, a política tem uma moral própria a ela mesma. A virtú de Maquiavel,

A Revolução de Maquiavel
30 UNIDADE I

virtude política e cívica, não pode ser associada ao termo conhecido por todos como
virtude. Há uma grande diferença entre esses termos. A virtú busca o êxito na vida
política e não mede as consequências dos atos que podem levar a tal êxito. Já a vir-
tude, por sua vez, almeja o bem para o homem, ou seja, a ajuda ao próximo.
A boa política não deve ignorar os conflitos como se a vida social fosse har-
moniosa, mas, preservar o bem comum enfrentando os conflitos existentes. Para
tanto, a ação de governar não pode se limitar à ação moral, mas visar a resolução
de conflitos.
Os valores políticos não estariam preestabelecidos, mas dependeriam das cir-

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cunstâncias, tanto que a virtú - característica necessária ao governante - exige saber
bem agir diante das adversidades da fortuna, usando, se necessário, a força - princi-
pal elemento constitutivo do poder - que garante a unidade da sociedade. Assim, o
governante, príncipe, para se manter, deve aprender a ser duro segundo a necessidade.
Aquele que governa com virtú sabe que, mesmo em tempos de paz, é neces-
sário que seu exército esteja formado, para que, se necessário, ele possa resistir.
Para Maquiavel, o que importa ao governante não é ser amado pelo povo, mas
evitar ser odiado.
Maquiavel não admite a ideia de um Estado regulado por fundamentos, sejam
racionais ou religiosos, que transcendam as necessidades sociais concretas. Sua
defesa é, então, a autonomia da esfera política em relação à todas as outras, espe-
cialmente em relação à uma moral constituída e à religião predominante até então.

OS CONTRATUALISTAS

Durante o Renascimento, séculos XV e XVI, intelectuais e artistas colocam o


ser humano no centro de suas preocupações. No século seguinte, os pensadores
reafirmam e ampliam essas questões. O contexto histórico do século XVII, na
Europa, foi marcado por movimentos significativos que fizeram pensar e repen-
sar as questões políticas.

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS


31

Uma grande preocupação foi compreender a origem do Estado, sua razão de


ser, sua validade e fundamento teórico. Destacam-se então nomes como Thomas
Hobbes, John Locke e Jean-Jacques Rousseau que analisam o caminho que parte
do homem em estado de natureza, antes de qualquer sociabilidade e chega na
sociedade civil, a partir de contratos estabelecidos.

THOMAS HOBBES
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Thomas Hobbes foi um filósofo e matemá-


tico inglês que viveu entre os anos de 1588
e 1679, mesmo sendo de família pobre, con-
viveu com a nobreza e pode ter contato com
grandes nomes como Descartes e Galileu, é
um dos fundadores do empirismo e da teo-
ria moderna sobre o Estado.
Sua obra política mais célebre é o Leviatã,
onde ele parte da ideia que: no estado de
natureza, o ser humano é um perigo para
ele mesmo, mas o que for para se preservar
e se tornar inimigo dos demais, “o homem é
lobo do homem” e nesse estado as disputas
geram uma “guerra de todos contra todos”.
Assim, neste estado, os seres humanos são Figura 7 - Thomas Hobbes (1588-1679)

largados a si próprios e vivem em um ambiente de insegurança e medo, por


seguirem apenas sua constituição física e instintiva.
Para ele, a solução necessária é o contrato para regulamentar essa con-
dição instituindo a ordem. A sociabilidade seria uma condição pós-natureza
necessária para a manutenção da própria vida. Os homens deveriam, então,
abrir mão de sua liberdade total, transferindo poder a um soberano que por
meio do pacto social, feito por todos, estaria legitimado para tomar decisões,
evitando a guerra de todos contra todos, se necessário fazendo também uso
da força para isso.

Os Contratualistas
32 UNIDADE I

Pois graças a essa autoridade que lhe é dada pelos indivíduos no Esta-
do, é conferido a ele o uso de tamanho poder e força que o terror assim
inspirado o torna capaz de conformar as vontades de todos eles, no
sentido da paz em seu próprio país e da ajuda mútua contra os inimigos
(HOBBES, 2005, p. 106).

A representação do Estado é associada ao Leviatã (um monstro, uma figura que


causa medo), na medida em que o Estado é visto como uma instância que pode
usar da força para evitar a guerra de todos contra todos. A autoridade, soberania
do Estado é legitimada pelo contrato acordado, onde os indivíduos abdicaram
de sua liberdade total e transferiram seu poder a essa instância, responsável por

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garantir o bom funcionamento da vida social.

JOHN LOCKE

John Locke foi um filósofo inglês que viveu entre


os anos de 1632 e 1704. Um dos principais repre-
sentantes do empirismo, também se dedicou
à reflexões políticas e suas concepções nessa
área ajudaram a derrubar o Absolutismo na
Inglaterra e a questionar o direito divino dos reis.
Como Hobbes, John Locke parte da ideia
do estado de natureza, mas discorda que, neste
estado, o homem esteja em uma guerra de todos
contra todos. Segundo ele, no estado de natu-
reza, os homens não se matavam gratuitamente,
mas para impor sua vontade, defender ou tomar Figura 8 - John Locke (1632-1704).
a propriedade de alguém.
De acordo com o filósofo, os seres humanos já nascem com a propriedade
de seu corpo e capacidade de trabalho. Assim, tudo aquilo que ele pudesse reti-
rar da natureza, por meio do seu trabalho, seria considerado propriedade sua.
Porém, no estado de natureza, acabam surgindo disputas e a garantia de suas
propriedades básicas não é efetiva, então, os indivíduos se reuniram com comu-
nidade para preservar o direito de propriedade.

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS


33

Assim, a necessidade da criação do contrato da sociedade civil é a instabili-


dade pela qual o direito é exercido no estado de natureza, sendo, cada um, juíz de
sua própria causa. O contrato social visaria, então, a garantia dos direitos naturais.
Para Locke, a criação do contrato institui, a partir do consentimento dos
indivíduos, uma autoridade responsável por garantir o direito de todos à vida,
à liberdade, à propriedade. Após a instituição da sociedade, seriam definidas as
formas de governo, onde o povo escolheria aqueles que assumiriam as funções
administrativas e de governo, mas não abdicariam de seu poder. Assim como a
legitimidade do Estado é dada pelos homens e não por Deus, quando o Estado
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

não cumpre suas funções, a sociedade tem o direito de se revoltar contra ele.

JEAN-JACQUES ROUSSEAU

Jean-Jacques Rousseau viveu entre os anos


de 1712 e 1778, nascido em Genebra, viveu e
passou parte da sua vida em Paris. Suas obras
de maior expressão são Discurso sobre a ori-
gem e os fundamentos da desigualdade entre
os homens e Do Contrato Social.
Ele parte da afirmação de que no estado
de natureza os homens são bons, a ideia do
bom selvagem, e que a sociedade trouxe
escravidão e miséria, por meio de um falso
contrato, sendo necessária, então, a criação
de um contrato verdadeiro e legítimo, que Figura 9 - Jean-Jacques Rousseau (1712-1778).
garanta, sem reserva, todos os direitos.
Sua teoria política não tem a pretensão de trazer um modelo ideal de polí-
tica que deva ser seguido, mas destacar a necessidade que cada comunidade tem
de discutir as questões políticas.
Quando então se pergunta qual é o melhor governo, propõe-se uma
questão insolúvel e indeterminada; ou ,se se quiser, que possui tantas
boas soluções quantas combinações possíveis nas posições absolutas, e
relativas dos povos (ROUSSEAU, 1999. p. 83).

Os Contratualistas
34 UNIDADE I

Segundo Rousseau (1999), o corpo político é comparável ao corpo do homem,


estando os dois predestinados a morrer, mas podendo um e outro, pelas escolhas
das ações humanas, serem conservados por um longo tempo. O corpo necessita
de escolhas saudáveis de alimentação e atividades físicas, por exemplo; o Estado
necessita da melhor constituição possível.
O princípio da vida política está na autoridade soberana. O poder le-
gislativo é o coração do Estado; o poder executivo é o cérebro que põe
em movimento todas as partes. O cérebro pode ser atingido pela para-
lisia e o indivíduo continuar vivo ainda. O homem torna-se imbecil e
vive ainda; mas tão logo o coração deixe de funcionar, o animal perece

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
(ROUSSEAU, 1999. p. 87).

A soberania é legitimada pela vontade geral, pela vontade do povo. As leis devem
ser garantia da vontade do povo que precisa se reunir regularmente para se fazer
ouvir, exercendo, assim, sua virtude cívica.
No instante em que o povo está legitimamente reunido em corpo so-
berano, cessa toda e qualquer jurisdição do governo, o poder executivo
fica suspenso, e a pessoa do último dos cidadãos é tão sagrada e in-
violável quanto a do primeiro magistrado, porque onde se encontra o
representado deixa de haver o representante (ROUSSEAU, 1999. p. 91).

HANNAH ARENDT

Hannah Arendt foi uma filósofa alemã, de família judaica, contemporânea de


Heiddeger e Jaspers. Durante a segunda guerra mundial, refugiou-se nos Estados
Unidos onde se dedicou aos estudos políticos, lecionou e produziu obras como:
Entre o passado e o futuro; A condição humana; Sobre a revolução; As origens do
totalitarismo; e O que é política?
Sua produção teórica é de grande importância e uma questão focalizada por
Hannah Arendt é a discrepância entre os preconceitos que temos acerca da polí-
tica e a política de fato. Em sua obra O que é Política?, a filósofa escreve sobre
a necessidade de avaliar os preconceitos que construímos em meio a partir de

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS


35

uma perspectiva alienada tanto em caráter local, quanto em caráter mundial.


Não devemos, segundo ela, reduzir a política à interesses particulares e à exem-
plos de corrupção.
O perigo é a coisa política desaparecer do mundo. Mas os preconceitos
se antecipam; ‘jogam fora a criança junto com a água do banho’, confun-
dem aquilo que seria o fim da política com a política em si, e apresentam
aquilo que seria uma catástrofe como inerente à própria natureza da
política e sendo, por conseguinte, inevitável (ARENDT, 2011, p. 25).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O modo equivocado como se faz política, em muitas sociedades, tem levado


os indivíduos modernos a um distanciamento da ação política. Contudo, ao
se abster de seu papel político, o indivíduo permite que o outro faça a má-
quina pública trabalhar em prol de interesses privados.

Voltar à Hannah Arendt é sempre muito bom, especialmente nos dias que temos
vivido como brasileiros, pois diante de tantos casos como dos nossos represen-
tantes que têm feito política nesse país, não devemos abandonar a reflexão sobre o
exercício da política. Ao contrário, é preciso enxergar além dos seus descaminhos,
é preciso se informar e questionar as informações que nos chegam pela televisão,
rádio ou pela internet, é preciso resgatar o caráter verdadeiro da política.
Mas, se se entender por ‘político’ o âmbito mundial no qual os homens
se apresentam sobretudo como atuantes, conferindo aos assuntos mun-
danos uma durabilidade que em geral não lhes é característica, então
essa esperança não nos se torna nem um pouco utópica. Na história,
conseguiu-se frequentemente varrer do mapa o homem enquanto ser
atuante, mas não em escala mundial(...) ( ARENDT, 2011, p. 26).

A construção do preconceito contra a política é um projeto de grupos que dese-


jam que a população abra mão se seu lugar de participação. É preciso olhar com
rigor para os fatos que nos são apresentados, analisando a forma como nos são
apresentados. Abandonar nosso lugar de protagonismo na coisa pública não nos
inocenta de responsabilidade diante do caos estabelecido. É preciso assumir nos-
sas responsabilidades e nosso papel enquanto cidadãos.

Hannah Arendt
36 UNIDADE I

JOHN RAWLS

John Rawls foi um renomado filósofo político estadunidense que viveu entre os
anos de 1921 e 2002. Rawls trabalhou o conceito de justiça conectando-a com
a moral, a política e a economia. Um dos pontos por ele tratado é a equidade,
assunto tomado a partir de uma perspectiva contratualista contemporânea.
A questão fundamental na obra de Rawls é responder o que seria uma socie-
dade justa. Para tanto, Rawls considera que não podemos tentar responder tal
questão a partir da perspectiva em que estamos, pois mesmo que busquemos, o

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ser humano sempre tem uma preferência para si.
Um dos desafios colocados por ele é como gerenciar as múltiplas noções que
temos sobre o que seja o bem ou o justo, por exemplo, procurando uma defini-
ção que atenda a coletividade sem anular os indivíduos.
Cada pessoa possui uma inviolabilidade fundada na justiça que nem
o bem-estar de toda a sociedade pode desconsiderar. Por isso, a justi-
ça nega que a perda da liberdade de alguns se justifique por um bem
maior desfrutado por outros. Não permite que os sacrifícios impostos
a poucos sejam contrabalançados pelo número maior de vantagens de
que desfrutam muitos. Por conseguinte, na sociedade justa as liberda-
des da cidadania igual são consideradas irrevogáveis; os direitos ga-
rantidos pela justiça não estão sujeitos a negociações políticas nem ao
cálculo de interesses sociais (RAWLS, 2008, p. 4).

O trabalho de Rawls é feito sob influência dos contratualistas, mas, o que ele sugere
é um contrato hipotético para a definição de quais seriam os valores coletivos que
devem substanciar as relações humanas. Para tanto, como já foi dito, as condições
pessoais não devem ser suprimidas, mas também não podem interferir na escolha dos
valores, juízos e princípios que serão adotados pela coletividade como necessários.
Desta forma, Rawls apresenta o conceito de posição originária, que seria compará-
vel ao estado de natureza dos contratualistas, com diferenças expressivas, contudo.
Na justiça como equidade a situação original de igualdade correspon-
de ao estado de natureza da teoria tradicional do contrato social. Essa
situação original não é naturalmente tida como situação histórica real,
muito menos como situação primitiva da cultura. É entendida como
situação puramente hipotética, assim caracterizada para levar a deter-
minada concepção de justiça (RAWLS, 2008, p. 14).

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS


37

A posição originária, segundo ele, seria a libertação dos preconceitos e influências


para uma escolha sincera e limpa dos princípios. Nessa posição, os indivíduos
não saberiam que papel ou que lugar social ocupariam, na sociedade, o que dei-
xaria sua escolha imparcial, uma vez que, se ele não soubesse se seria colocado
na sociedade como homem ou mulher, pobre ou rico, por exemplo, não esco-
lheria os valores buscando condições que o beneficiassem.
Entre as características essenciais dessa situação está o fato de que
ninguém conhece seu lugar na sociedade, sua classe ou seu status
social; e ninguém conhece sua sorte na distribuição dos recursos e
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das habilidades naturais, sua inteligência, fora e coisas do gênero.


Presumirei até mesmo que as partes não conhecem suas concepções
do bem nem suas propensões psicológicas especiais os princípios de
justiça são escolhidos por trás de um véu de ignorância. Isso garante
que ninguém seja favorecido ou desfavorecido na escolha dos princí-
pios pelo resultado do acaso ou pela contingência de circunstâncias
sociais. Já que todos estão em situação semelhante e ninguém pode
propor princípios que favoreçam sua própria situação, os princípios
de justiça são resultantes de um acordo ou pacto justo (RAWLS, 2008
p. 15).

A partir dessa condição, seriam então escolhidos, via racionalidade mutuamente


desinteressada, os valores basilares da sociedade justa, garantindo igualdade de
liberdades básicas para todos. Rawls consente, então, garantidas as condições
básicas de igualdade de oportunidade a todos, que existam desigualdades eco-
nômicas que recompensem habilidades e trabalhos pelo seu valor relativo. O
que devem ser garantidos são os direitos fundamentais de dignidade humana
para todas as pessoas, a partir disso, elas podem concorrer e ter suas diferenças.
O que ele busca não é uma sociedade padronizada, mas que os homens tenham
uma igual dignidade expressa na situação contratual inicial. “Sendo semelhan-
tes nesse aspecto, devem ser tratados segundo as exigências dos princípios de
justiça. Mas nada disso implica que suas atividades e realizações tenham igual
excelência” (RAWLS, 2008, p. 409).
Dessa forma, em sua teoria, John Rawls, filósofo liberal, se preocupa com as
condições fundamentais da vida humana, defende que sejam garantidas as con-
dições necessárias à dignidade humana, sendo a sociedade entendida como um
empreendimento cooperativo para o benefício de todos.

John Rawls
38 UNIDADE I

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Parabéns! Você finalizou a primeira Unidade! Vamos recapitular os conheci-


mentos adquiridos? Primeiro começamos apresentando o contexto da criação
das reflexões políticas relacionando-o à criação da filosofia como modo crítico
de pensar e o desenvolvimento das poleis gregas.
A abordagem específica de autores como Platão e Aristóteles pode nos
dimensionar como a teoria política começou a ser desenhada e nos mostrou
as divergências na forma de pensar já nos primeiros teóricos. Uma vez que,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Aristóteles, mesmo tendo sido aluno de Platão, discordou do mestre e apresen-
tou uma teoria bastante diversa.
Pudemos perceber que, durante um longo período da história, as reflexões
acerca da política ficaram fora das principais preocupações humanas, que sob a
influência da Igreja Católica se direcionaram às questões metafísicas.
Depois disso vimos que o contexto histórico do Renascimento e do Iluminismo
trouxeram novas teorias políticas que contestaram duramente a atuação polí-
tica a Igreja e o direito divino dos reis, devolvendo, ao ser humano, o poder de
legitimar a soberania dos governos. Conhecemos, então, um pouco das teorias
contratualistas de filósofos como Hobbes, Locke e Rousseau.
Também conhecemos o posicionamento da filósofa Hannah Arendt e sua
preocupação com o esvaziamento do campo do político. Sua preocupação com
os perigos que podem vir com os preconceitos acerca da política e o esqueci-
mento da essência do político.
Para finalizar, concluímos a discussão trazendo o nome de um filósofo do
nosso tempo, John Rawls, que propõe um modelo de política baseado em uma
justiça equitativa.
Esperamos que esses conhecimentos tenham despertado seu interesse pelas
teorias políticas, tão importantes para compreender esse assunto que faz parte
da vida de todos nós, uma vez que não vivemos isolados, estamos sempre cons-
truindo nossas histórias nas relações. Até a próxima Unidade!

A POLÍTICA E OS PRINCIPAIS FILÓSOFOS


39

1. Depois de conhecer um pouco do pensamento político ao longo da história,


diga qual a relação entre o surgimento da filosofia e da política.

2. Aponte a diferença entre o pensamento político de Aristóteles e de seu mestre


Platão.

3. De que forma Maquiavel modificou o pensamento político?

4. Relacione algumas semelhanças e diferenças no pensamento político contra-


tualista de Hobbes, Locke e Rousseau.

5. Em que medida a preocupação de Hannah Arendt a respeito do pensar a polí-


tica pode ser relacionada ao contexto político brasileiro atual?

6. John Rawls apresenta uma teoria contratualista contemporânea. Qual o ponto


de partida e intenção da organização política segundo ele?
40

As mulheres no âmbito político


Ao falar sobre a questão política, é importante destacar que a maioria das sociedades
é marcada pela desigualdade entre homens e mulheres. Tal desigualdade remonta aos
tempos da Grécia Antiga e ao conceito de cidadão nas pólis gregas, muitas vezes justifi-
cada pela falácia da diferença natural.
Ora, se a política nasce como o debate público entre os indivíduos dotados de razão em
prol da organização coletiva, não havia justificativa válida para a exclusão das mulheres
deste espaço, mas elas foram, durante mais de dois mil anos, proibidas de participar
legitimamente das decisões públicas e até hoje não ocuparam efetivamente seu lugar
de direito.
No mundo ocidental as diferenças entre mulheres e homens começaram a ser questio-
nadas mais efetivamente no final do século XVIII e início do século XIX. Grandes nomes
da filosofia política anterior, como Rousseau, excluía as mulheres do ideal de liberdade,
censurando seu acesso ao espaço público, atribuindo a elas apenas a esfera privada.
Mesmo marginalizado, o debate sobre o direito político das mulheres aos poucos foi
ganhando força. Uma das primeiras obras sobre esse assunto foi Uma reivindicação dos
direitos da mulher publicada em 1792, com autoria de Mary Wollstonecraft.
As primeiras reivindicações tinham como centro a educação das mulheres, direito ao
voto e igualdade de direitos no casamento. O movimento pelos direitos das mulheres
avança pelos séculos seguintes. Sendo o direito ao voto conquistado apenas no século
XX. Contudo, mesmo tendo conquistado o direito ao voto, a presença das mulheres nas
esferas de poder político ainda hoje é muito pequena.
Nas últimas décadas, o debate sobre as demandas feministas têm sido intensificado na
busca por uma sociedade onde mulheres e homens tenham chances equivalentes em
todos os setores sociais. No entanto, ainda assim, estamos longe deste ideal. O Brasil,
especificamente, está ainda mais longe, sendo um dos últimos colocados no ranking
internacional.
Fonte: a autora.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Filosofia Política
José Antonio Martins
Editora: Martins Fontes
Sinopse: “Neste volume, José Antônio Martins apresenta momentos
centrais da história da reflexão filosófica sobre a Política, iniciando pelo
surgimento conjunto da Filosofia e da Política, na Grécia Antiga, passando
pelas contribuições medievais e as transformações modernas, até chegar à
contemporaneidade”. O exercício do pensamento é algo muito prazeroso,
e é com essa convicção que o convidamos a viajar conosco pelas reflexões
de cada um dos volumes da coleção Filosofias: o prazer do pensar. Ela se
destina tanto àqueles que desejam iniciar-se nos caminhos das diferentes filosofias, como àqueles
que já estão habituados a eles e querem continuar o exercício da reflexão. Também se destina
a professores e estudantes, pois está inteiramente de acordo com as orientações curriculares
do Ministério da Educação para o Ensino Médio e com as expectativas dos cursos básicos das
faculdades brasileiras. E falamos de “filosofias”, no plural, pois não há apenas uma forma de
pensamento; há um caleidoscópio de cores filosóficas muito diferentes e intensas.
Comentário: para que amplie a compreensão sobre as teorias políticas, recomendamos a leitura
da obra Filosofia Política que aborda as características fundamentais dessa construção ao longo
da história.

O ser humano é um ser social


Marilena Chauí
Editora: Martins Fontes
Sinopse: neste volume, Marilena Chaui aborda filosoficamente um tema que
parece familiar e natural: a vida em sociedade. O ser humano é ou não um
ser social, gregário? Poderia ele viver isoladamente, sem a interdependência
de seus semelhantes? Este livro é mais do que uma tentativa de resposta; é
também uma investigação dos pressupostos desse tipo de questão.

Material Complementar
REFERÊNCIAS

ARENDT, H. O que é política? Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 1998.


ARISTÓTELES. Política. [edição bilíngüe] Trad. Antônio C. Amaral e Carlos C. Gomes.
Lisboa: Vega, 1998.
ARISTÓTELES. Ética a Nicômacos. Brasília: Editora UNB, 2001.
HOBBES, T. Leviatã, ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil.
São Paulo: Martin Claret, 2005.
LOCKE, J. Segundo tratado sobre o governo. São Paulo: Martin Claret, 2004.
MAQUIAVEL, N. O príncipe. São Paulo: Nova Cultural, 1999. Coleção “Os Pensado-
res”: Maquiavel.
PLATÃO. A República. 3. ed. Belém do Pará: UFPA, 2000.
PLATÃO. Leis e Epinômis. Belém do Pará: UFPA, 1980.
RAWLS, J. Uma teoria da justiça. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
REALE, G. Aristóteles. História da filosofia grega e romana. São Paulo: Loyola, 2007.
ROUSSEAU, J-J. Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade en-
tre os homens. São Paulo: Nova Cultural, 1999.
ROUSSEAU, J-J. Do Contrato Social. São Paulo: Nova Cultural, 1987.
43
GABARITO

1. A filosofia é uma análise crítica da realidade, o exercício do pensamento que


pensa as coisas e pensa a si mesmo. Seu objetivo é reconhecer os limites e pos-
sibilidades da faculdade humana de conhecer e explorá-la ao máximo para com-
preender o ser humano, sua relação com ele mesmo, com os outros e com o
mundo. Nessa perspectiva, ao pensar suas relações, o ser humano inicia a política
enquanto teoria e ação crítica, buscando se perceber e se fazer como sujeito au-
tônomo, capaz de pensar e determinar as regras necessárias para o bom convívio.

2. A teoria política de Platão partia de uma base idealista e dividia a sociedade por
aptidões, deixando a responsabilidade política para um grupo específico, aque-
les que se dedicavam ao exercício intelectual. Aristóteles, mesmo tendo sido alu-
no de Platão, discorda do mestre e diz que a política está na natureza de todos os
seres humanos e que seu exercício efetivo é necessário para que eles se realizem
plenamente enquanto tal.

3. Enquanto o pensamento político antigo se preocupava em dizer como a política


deveria ser, Maquiavel parte da realidade como ela é. Ele considera uma comuni-
dade política corrompida e apresenta conselhos de como governar para restituir
a dinâmica da esfera pública com vistas a um governo republicano.

4. Os teóricos Hobbes, Locke e Rousseau desenvolveram suas políticas partindo da


ideia de um estado natural e estabeleceram o contrato social como a resolução
para os problemas de convivência identificados. Entretanto, as características
do estado de natureza e mesmo as finalidades específicas do contrato são di-
ferentes nos três pensadores. Para Hobbes, no estado de natureza o homem é
lobo do homem e vive em um estado de guerra de todos contra todos, sendo o
contrato necessário para garantir a paz entre as pessoas. Locke, por sua vez, não
vê no estado de natureza uma guerra de todos contra todos, mas uma situação
de insegurança para os direitos fundamentais, o contrato seria necessário para
garantir os direitos como vida, liberdade e propriedade privada. Já Rousseau,
dizia que no estado de natureza o homem era bom, mas tendo a sociedade o
corrompido, seria necessária a criação de um contrato legítimo que devolvesse a
paz e garantisse um bom convívio entre as pessoas.
GABARITO

5. A preocupação de Hannah Arendt estava no fato das pessoas deixarem de par-


ticipar da política devido a um preconceito criado, desconsiderando a essência
e a necessidade da mesma. Vemos, no Brasil, atualmente, um modo totalmente
equivocado de fazer política, onde o público é colocado à serviço do privado. Tal
contexto de crise política e institucional pode gerar duas situações, o descrédito
e abandono dos cidadãos no que se refere a vida política ou a tomada de decisão
e resgate do papel político para transformar o caos instaurado.

6. O ponto de partida de John Rawls é a hipotética posição originária onde os indi-


víduos estariam sob o véu da ignorância e não sabendo que posição ocupariam
posteriormente na sociedade, poderiam fazer uma escolha das normas sociais
de forma mais justa. A intenção de John Rawls é que os princípios da justiça
garantam uma base de direitos de igualdade, liberdade e dignidade para todos.
Professora Esp. Ana Caroline Rodrigues

II
UNIDADE
POLÍTICA E DEMOCRACIA

Objetivos de Aprendizagem
■■ Compreender qual o objetivo e necessidade das organizações
políticas.
■■ Entender como se deu a formação do pensamento político moderno.
■■ Conhecer qual a finalidade do Estado moderno a partir de
concepções políticas liberais e socialistas.
■■ Compreender qual a relação entre as revoluções e a construção da
democracia moderna.
■■ Identificar quais os obstáculos para a efetivação da democracia em
nossos dias.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Qual a finalidade da política?
■■ A formação do pensamento político moderno
■■ O pensamento político liberal
■■ O pensamento político socialista
■■ As grandes revoluções e a democracia moderna
■■ O que é democracia – o mundo grego/mundo moderno
47

INTRODUÇÃO

Olá, caro(a) aluno(a), vamos continuar os estudos! Você já deve ter presenciado
conversas sobre política e muitas delas desacreditadas, devido ao contexto que
vivemos, cercado de corrupção e impunidade. Contudo, é comum que nesses
diálogos, desacreditados ou otimistas, que se julgue a democracia ainda como a
melhor forma de governo, pois é a única forma que considera as divergências e
os conflitos legítimos e legais, permitindo que sejam trabalhados politicamente
para que as relações sociais sejam justas e igualitárias.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Desde seu início, na Grécia Antiga, a democracia institui como direitos


fundamentais: a igualdade, a liberdade e a participação política, que devem ser
garantidos pela lei. Contudo, a regulamentação jurídica formal, por si só não
garante a efetividade desses direitos civis. Se o Estado não trabalha para garanti-
-los, é necessário que os cidadãos lutem por eles e exijam que sejam cumpridos.
A história nos mostra as sociedades, sempre, divididas em grupos. Quem
detém o poder quer se manter no poder, em seu lugar de privilégios, assim, os
direitos são, sempre, frutos de lutas populares. Por meio dessas lutas, por exem-
plo, é que se criou o sufrágio universal, ou seja, o direito de todos os indivíduos
serem eleitores e eleitos, independente de serem homens ou mulheres, jovens,
negros, trabalhadores, indígenas etc.
A essência da democracia consiste não apenas na criação dos direitos, mas
na sua garantia. Se esta não parte do Estado, cabe aos cidadãos pressioná-lo para
que exerça seu papel. Em sociedades com estruturas não democráticas, é mais
difícil a criação e efetivação de direitos universais, pois estes se opõem aos pri-
vilégios possuídos por grupos específicos em detrimento de outros.
Mesmo nas sociedades legalmente democráticas, a efetividade do exercício
da democracia não acontece de forma plena, pois encontra como obstáculos o
conflito de interesses característicos do capitalismo e suas consequências. Assim,
as lutas populares, sejam em circunstâncias menores ou nas grandes revoluções,
têm um papel fundamental para ampliar e efetivar tais direitos, para efetivar uma
política democrática.

Introdução
48 UNIDADE II

QUAL A FINALIDADE DA POLÍTICA?

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Você já deve, em algum momento, ter pensado nesta questão. Qual será a finali-
dade da política? No contexto atual é preciso escapar do senso comum que afirma
que política, assim como religião e futebol, não se discute. De forma geral, a insa-
tisfação com o contexto político leva muitos indivíduos a classificarem a política
como algo desinteressante, aquém de seu alcance e sempre imerso em corrupção.
Entretanto, a política não pode ser vista por este viés reducionista, não podemos
deixá-la nas mãos de terceiros, pois ela é parte fundamental da vida de todos.
Em todas as sociedades há uma pluralidade de sujeitos e grupos sociais com
anseios diferentes e até contraditórios. A política surge como tentativa de nego-
ciar o que deve ou não prevalecer. Tal negociação deve ser feita pelo diálogo
entre os sujeitos dotados de razão e linguagem. Por meio da política, as pessoas
discutem ideias, expõem argumentos e decidem racionalmente o que colocar
em prática para o bem geral da comunidade. Aristóteles dizia que faz parte da
natureza humana a política e o ser humano só se realiza completamente, quando
participa, ou exerce seu papel político, cidadão. Segundo Aristóteles, o homem
é um animal político (ARISTÓTELES,1998).
Durante os séculos, as teorias políticas se apresentaram como leitura e crí-
tica da realidade em questão. Muito se foi pensado, dito e feito. Várias teorias
interpretaram de maneira diferente à realidade e apostaram em formas diferen-
tes de governo como a ideal. Contudo, quando pensamos em política, hoje, é
consensual a busca por um modelo que, ao menos em tese, contemple todos os
cidadãos. As teorias contemporâneas buscam pelo ideal democrático de parti-
cipação e legitimam o poder pela vontade do povo.

POLÍTICA E DEMOCRACIA
49

Mesmo com suas raízes na Grécia Antiga, a democracia, ainda hoje, não é
plena, embora seja considerada, pela maioria, como a melhor forma de governo.
Em tese, a democracia é o poder nas mãos do povo, mas na prática ela tem colo-
cado o poder nas mãos de quem se organiza. Desta forma, as pessoas precisam
se ver como sujeitos políticos para buscarem conhecer e bem executar seu papel
social. Abrindo mão de seu papel protagonista, as pessoas autorizam os outros a
decidirem em seu lugar, correndo grande risco de não terem suas necessidades
atendidas. A política diz respeito à todos os indivíduos e se eles não tomam pra
si o seu papel protagonista enquanto cidadãos, não terão suas garantias indivi-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

duais asseguradas nas relações coletivas e diversas.

A FORMAÇÃO DO PENSAMENTO POLÍTICO MODERNO

O pensamento político moderno e a nova ideia de Estado surgem da desinte-


gração do mundo feudal e da necessidade de reorganizar as relações políticas
até então dominantes na Europa. O modelo de organização que prevalecia ante-
riormente colocando o poder nas mãos dos senhores feudais, foi, pouco a pouco,
sendo desmontado pelas revoltas sociais que começam aparecer e pelo cresci-
mento das cidades e do comércio.
O Estado Absolutista surge no contexto de expansão do mercantilismo e
assume o controle num momento em que se chocavam os interesses dos senhores
feudais e da burguesia que ascendia. Em oposição ao Estado Absolutista, surge,
posteriormente, o Estado Liberal que o contrapõe, enfocando valores primor-
diais, como individualismo, liberdade e propriedade privada.
Durante o período chamado de Renascimento, percebemos um retorno ao
ideal humano dos gregos, uma libertação do espírito crítico, a substituição da
visão teocêntrica de mundo por uma visão antropocêntrica que recolocava o
homem no centro das questões filosóficas e artísticas. Politicamente falando, o
sistema feudal perde força e emergem movimentos que dão força aos monarcas.

A Formação do Pensamento Político Moderno


50 UNIDADE II

Nesse contexto, temos nomes como Nicolau Maquiavel, que já estudamos na uni-
dade anterior, Jean Bodin, Thomas Morus e Tomás Campanella.
Jean Bodin é um jurista e cientista político, deste período, que se pergunta
sobre a finalidade da República bem ordenada e acredita que os governos não
devam se apoiar nas armas, mas na legitimidade do poder soberano. Em sua teo-
ria, defende o conceito do soberano perpétuo e absoluto representante da imagem
de Deus na Terra, a chamada teoria do direito divino dos reis. Ele acreditava ser
a monarquia a melhor e mais adequada forma de governo, mas considerava pos-
sível um bom governo democrático ou aristocrático.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Thomas Morus e o Campanella são considerados utopistas, por criticarem
a sociedade contemporânea e idealizarem um modelo que não existia concre-
tamente em nenhum lugar. Thomas Morus faz uma grande crítica à monarquia
e à sociedade privada e descreve um Estado imaginário, sem propriedade pri-
vada, lançando as bases do socialismo econômico. Campanella, por sua vez,
propõe, em sua obra “Cidade do Sol”, uma cidade ideal, sem hierarquias, onde
cada um trabalharia a partir de uma divisão adequada das funções, sem as ins-
tituições que, segundo ele, alimentariam o egoísmo. Muitos traços da teoria de
Campanella lembram a cidade idealizada por Platão na República.
Em um momento de várias lutas entre católicos e protestantes, o reflexo disto
se dava também na política, pois ainda existia a ideia de que a religião do rei
era a religião do Estado. Nesse contexto, autores
como Hobbes, por exemplo, vão propor o abso-
lutismo. A partir da ideia do estado de natureza
e do contrato social, que vimos na unidade ante-
rior, Hobbes apresenta um contratualismo em
favor do poder absoluto do rei (HOBBES, 2005).
Já, no Iluminismo, temos outros grandes nomes
que trouxeram colaborações importantes para teoria
política. Entre eles, Montesquieu, Rousseau, que já
conhecemos na unidade anterior, e Immanuel Kant.
Pensador de grande importância, Montesquieu,
propõe a monarquia constitucional como melhor
forma de governo, condenado a monarquia absoluta Figura 1 - Charles Montesquieu

POLÍTICA E DEMOCRACIA
51

e a democracia, considerando-as regimes despóticos. Além disso, dá ênfase e amplia


a ideia da tripartição dos poderes, iniciada por John Locke, um século antes. Para
ele, em todo Estado deve existir os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, que
trabalhem de forma articulada, equilibrando-se e limitando-se mutuamente, o que
não corresponde à separação e independência de poderes que veremos depois.
Kant, por sua vez, em sua obra de 1796, “A doutrina do Direito”, se questiona
sobre os fundamentos do direito, da justiça e da legalidade. Ele entende que é
necessário uma análise do a priori lógico do sistema jurídico, não sendo reco-
mendável que as leis sejam válidas simplesmente porque foram promulgadas por
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

um órgão dotado de poder. Sua teoria coloca o indivíduo como ser capaz de sair
da condição de menoridade, alcançando a maioridade da razão, onde se torna
consciente da força e autonomia de sua inteligência. Refletindo sobre questões
fundamentais, como o que podemos conhecer e como devemos agir, o indiví-
duo se liberta das crenças, tradições e opiniões alheias, condição fundamental
para o ser e agir político.
As transformações sociais em curso caminhavam para uma nova ordem,
onde o feudalismo já não se apresentava como a estrutura de organização social,
a burguesia, como classe emergente, buscava meios para encontrar o apoio que
não tinha. Era necessário derrubar de vez a velha ordem e efetivar a liberdade,
as teorias têm papel importante nesse sentido.

O PENSAMENTO POLÍTICO LIBERAL

Quando falamos em liberalismo, ou em socialismo, como veremos mais à frente,


estamos pensando em linhas de pensamento que tentam responder para que se
desenvolveu o Estado e qual sua função na sociedade. Veremos que a resposta
liberal para estas questões coloca o Estado como mediador dos conflitos inevi-
táveis entre os indivíduos, responsável por amenizar as divergências, garantindo
a harmonia entre os grupos sociais.

O Pensamento Político Liberal


52 UNIDADE II

Os ideias atribuídos à teoria liberal se mostram de forma prática na Revolução


Gloriosa na Inglaterra, na Independência Norte Americana e, de forma geral,
na Europa a partir da Revolução Francesa, colaborando, de forma intensa, para
a derrubada do Antigo Regime e para a colocada da tríplice função do Estado.
O Antigo Regime que estava em decadência era, ainda, marcado pela teo-
cracia, pelo absolutismo e feudalismo. O novo Estado, que estava se desenhando,
apresentava características como a liberdade de pensamento e crença, demo-
cracia e liberdade econômica.
John Locke, filósofo, do qual já falamos na unidade anterior, é considerado

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
o pai do individualismo liberal, por colocar como objetivo maior do estado
civil a garantia dos direitos naturais inalienáveis à vida, liberdade e aos meios
necessários para conservar ambas. Para ele, a finalidade maior do governo é a
conservação da propriedade e a partir do momento em que os indivíduos, por
meio do consentimento, entram no estado civil, cabe a maioria escolher o poder
legislativo que terá controle dos demais, sendo considerado, assim, o poder
supremo (LOCKE, 2004).
De forma geral, no liberalismo, delineiam-se os três poderes, executivo,
legislativo e judiciário; as formas de representação política, como monarquia
parlamentar, república e democracia representativas. A teoria liberal afirma a
separação entre o Estado, instância impessoal que estabelece e aplica as leis,
garante a ordem e regula os conflitos; e a sociedade civil, como o conjunto das
diversas classes e grupos.
O Estado liberal se apresenta como representante de toda sociedade, não
deveria intervir na individualidade das pessoas, mas manter a ordem para que
todos pudessem desenvolver livremente suas atividades. Quanto à política, o
Estado liberal é fundamentado na soberania popular. Quanto à economia, o
Estado liberal não deve intervir nas atividades econômicas, pois estas seriam
reguladas pelo próprio mercado e sua “mão invisível”, como colocou Adam
Smith (1776).
Considerado o principal teórico do liberalismo econômico, o economista e
filósofo escocês, Adam Smith critica a intervenção e regulamentação do Estado
na vida econômica. Segundo ele, a economia deve ser regulada pelo próprio
jogo de oferta e procura de mercado (SMITH, 1996).

POLÍTICA E DEMOCRACIA
53

As ideias de Adam Smith representam o trabalho como fonte de riqueza


para as nações, devendo ser conduzido pela livre iniciativa. Suas ideias foram
alimentadas também pelo espírito geral iluminista que relacionavam os valo-
res fundamentais de igualdade, tolerância, liberdade e propriedade privada, às
atividades comerciais.
No final do século XIX, as concepções do pensamento liberal começam a
entrar em crise e a situação piora com a Primeira Guerra Mundial e vemos sur-
gir duas novas formas de organização, o Estado fascista e o Estado soviético, que
confrontaram suas forças durante a Segunda Guerra Mundial, expressando de
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

um lado um projeto político capitalista e de outro um projeto político socialista.


Terminada a guerra, o bloco dos países capitalistas tentou uma nova forma
de organização econômica, o Estado de bem-estar social, cujas bases teóricas
foram apresentadas pelos economista inglês John Keynes em 1930. Seu obje-
tivo principal era permitir a intervenção do Estado na economia visando o bem
estar da maioria da população.
A partir de 1970, o capitalismo enfrentou vários problemas, como crise do
petróleo, desemprego, greves e endividamento dos países em desenvolvimento.
Especialistas colocaram entre os motivos da crise os gastos com políticas sociais,
então, o bem-estar dos cidadãos passou a ser entendido como responsabilidade
deles próprios. Defende-se o Estado mínimo, a privatização dos serviços que
seriam pagos apenas por quem utilizasse. Era a nova roupagem do liberalismo
que defendia o mínimo de intervenção do Estado na vida das pessoas, passando
ser chamado de Estado Neoliberal.
Você pode perceber que o liberalismo foi inspirado em princípios do
Iluminismo e Revolução francesa, se apresentando como uma ideologia que
atendia aos anseios da burguesia industrial, opondo-se ao absolutismo monár-
quico e à intervenção do Estado na economia. Buscava a garantia dos direitos
civis e às liberdades individuais, apostando na liberdade de mercado e não inter-
ferência do Estado na vida econômica da sociedade.

O Pensamento Político Liberal


54 UNIDADE II

O PENSAMENTO POLÍTICO SOCIALISTA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Voltando a pergunta sobre as motivações para o desenvolvimento do Estado e
sua função na sociedade, o socialismo traz outras respostas, apresentando-se
como linha de pensamento que enxerga o Estado além do papel de mero media-
dor de grupos rivais. Vejamos.
O socialismo se apresenta como uma corrente formada majoritariamente
por trabalhadores urbanos insatisfeitos com a condição de trabalho à que eram
submetidos e buscavam por igualdade social por meio de mudanças radicais na
economia e política.
Contrariamente à onda liberalista que vinha se estabelecendo, o socialismo
surge como crítica ferrenha ao Estado liberal, considerando este como cúmplice
ou responsável pelas desigualdades sociais. Destacam-se três correntes, socia-
lismo utópico, anarquismo e socialismo científico.
O Socialismo Utópico se apresenta como um caminho em busca de uma
sociedade sem propriedade privada, exploração ou desigualdades. Por ideali-
zarem essa cidade perfeita e feliz é que pensadores como Sain-Simon Fourier,
Proudhon e Owen, ficaram conhecidos por utópicos, sonhadores. Na sociedade
idealizada, as atividades funcionariam em espécies de grandes cooperativas
administradas pelos trabalhadores. Todos teriam seus direitos garantidos e a
vida seria tranquila e feliz.
Entre os anarquistas, destacam-se nomes como o russo Bakunin, Tolstói e
George Orwell. Anarquistas são aqueles que criticam a sociedade capitalista e acre-
ditam na liberdade natural do ser humano. Eles defendem a vida em comunidades
geridas sem autoridade a partir dos princípios de liberdade e responsabilidade,

POLÍTICA E DEMOCRACIA
55

numa democracia direta, ou seja, sem cargos representativos. O que os anar-


quistas desprezam são as formas de autoridade e a figura do Estado como fonte
de opressão humana. Nas palavras de Bakunin: “o Estado absolutamente não é
a sociedade, é apenas uma forma histórica tão brutal, quanto abstrata. Nasceu
historicamente, em todos os países, do casamento da violência, da rapina e do
saque” (BAKUNIN, 1983. p. 33). Se, a partir dos contratualistas, a existência do
Estado era justificada pela necessidade de gerir conflitos entre os indivíduos, os
anarquistas acreditavam que em uma sociedade justa e igualitária o Estado não
seria necessário e que sua existência limitaria as liberdades individuais. Ainda
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

segundo Bakunin,
só sou verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me
cercam, homens e mulheres, são igualmente livres. A liberdade do ou-
tro, longe de ser um limite ou a negação da minha liberdade, é, ao con-
trário, sua condição necessária e sua confirmação (...) Minha liberdade
pessoal assim confirmada pela liberdade de todos se estende ao infinito
(BAKUNIN,1983. p.32-33).

O Socialismo Científico, por sua vez, foi proposto pelos filósofos alemães Karl
Marx e Friedrich Engels que defendem a abolição da propriedade privada e a
instalação do comunismo, ou seja, um modelo no qual os meios de produção
seriam comuns a todos, partindo de uma revolução feita pelos trabalhadores que
tomariam o poder da burguesia. A partir do momento em que não houvesse a
propriedade privada dos meios de produção, não haveria classes e conflitos de
classes e o Estado como o regulador de conflitos seria desnecessário.
Marx estudou as estruturas sociais capitalistas e planejou estratégias de
ação política que pudessem transformar a sociedade a partir da organização em
associações e partidos que ajudassem os trabalhadores a ganharem força. No
Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848 juntamente com Engels,
exortam “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” (MARX, ENGELS, 2012).
Na sociedade capitalista, o Estado seria instrumento de dominação, por
meio da revolução proletária, os trabalhadores saídos da condição de alienação
produzida pelo sistema, tomariam conta de si se emancipando contra as estru-
turas exploradoras. Ao tomarem o Estado rumo a um modelo democrático, as
propriedades privadas seriam passadas a este Estado. Essa fase foi chamada por
Marx de socialismo.

O Pensamento Político Socialista


56 UNIDADE II

A partir do fim da sociedade privada, a sociedade se transformaria em uma


sociedade sem classes e nesse contexto o Estado já não seria mais necessário,
todos seriam livres e iguais entre si, teríamos uma sociedade comunista.
O liberalismo trazia consigo a ideia de liberdade de trabalho e oportunidade
para todos, a não interferência do Estado e a lei da oferta e da procura sendo a
mão invisível que, como dizia Adam Smith, regularia o mercado. Contudo, as
inovações maquinárias fizeram com que os trabalhadores, que perdiam espaço
para as máquinas a vapor e teares, por exemplo, fossem obrigados a aceitar pés-
simas condições de trabalho para sobreviver. Neste contexto, as manifestações

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de operários ganharam força e deram origem aos movimentos socialistas, prin-
cipalmente na Alemanha e Itália.
A crítica dos socialistas ao Estado se dava, sobretudo, pois a igualdade era
garantida pela lei, mas não se efetivava na prática. De um lado, o avanço técnico
e a ideia de progresso e avanços; de outro lado a exploração da classe operária
submetida à condições desumanas de trabalho.

AS GRANDES REVOLUÇÕES E A DEMOCRACIA


MODERNA

Quando pensamos em revolução, normalmente, nos vêm em mente grandes


mudanças que alteram substancialmente a realidade em questão. Socialmente
falando, referimo-nos a superação de um sistema por outro, a partir de um con-
texto onde uma classe social não se via satisfeita e se organiza para derrubar a
antiga organização.
A Revolução Inglesa, iniciada em 1642, tinha como objetivo limitar o poder
absoluto do rei. Após muitos conflitos, a monarquia foi derrubada em 1649 e
proclamaram a República. Apesar de ter sido restaurada em 1660, a monarquia
não teve mais os mesmos poderes, tendo que dividi-los com o Parlamento.

POLÍTICA E DEMOCRACIA
57

Contudo, nessa mesma Inglaterra que limitou os poderes do rei instituindo


o parlamento, logo após a Revolução Gloriosa em 1688, apenas 2% da população
tinha direito ao voto. Depois de uma reforma eleitoral, em 1832, esse número
passou para 5% e apenas em 1928 as mulheres conquistaram o direito ao sufrá-
gio (GOHN, 2002).
Vejamos outro contexto, a Revolução Americana. Diferente do que aconte-
cia na Europa, não se preocupava em transformar as relações sociais, trabalho
escravo ou propriedade privada, mas, dedicava-se principalmente à libertação
da relação colonial.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

O movimento de independência da América do norte teve influência dos


ideários liberais das revoluções inglesas, sendo trazidos pelos imigrantes dispos-
tos a fundar um Novo Mundo na América e com sentimento de desligamento
em relação à cidadania inglesa, diversamente do que acontece no Brasil-colônia
onde os habitantes se consideravam portugueses.

Tendo consciência desta realidade colonial, a ligação com a Inglaterra se fa-


zia estritamente pela dependência econômica, o que possibilitou o desen-
volvimento de uma liberdade religiosa, administrativa e cultural.

Conscientes do que se passava na Europa, as colônias norte-americanas pretende-


ram realizar, na prática, o ideal que vinha sendo desenhado nas teorias políticas
dos filósofos europeus. As treze colônias inglesas na América do Norte se uniram
contra a Inglaterra declarando sua independência em 4 de Julho de 1776. Teve
início, então, a Guerra da Independência e os ingleses foram derrotados apenas
em 1781 na batalha de Yorktown. Em 1788, foi promulgada a Constituição que
vigora até hoje, com emendas. Apesar de estabelecer igualdade entre todos os
cidadãos, é importante ressaltar que a Constituição estadunidense manteve em
vigência a escravidão até 1865, e que a extinção das leis segregacionistas só acon-
teceu em 1960 e que, ainda hoje, a igualdade entre negros e brancos não é plena.

As Grandes Revoluções e a Democracia Moderna


58 UNIDADE II

Nas décadas seguintes à independência norte-americana, foi visto um gran-


de contingente de pessoas emigrando para os Estados Unidos em momen-
to de conflitos em suas pátrias. Pessoas de vários lugares do mundo, crian-
do um novo modo de fazer democracia que interessou a muitos, inclusive
a Alexis de Tocqueville que no início do século XIX viajou para os Estados
Unidos e muito interessado pelo modelo que encontrou escreveu o livro A
Democracia na América, publicado em 1835, muito vendida na Europa.
Fonte: Tomazi (2010).

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A Revolução Francesa
(1789), por sua vez, foi
referência para muitos movi-
mentos posteriores, pois
tinha importantes ideários
que contemplavam, de forma
geral, a realidade de muitos
povos, entre eles, a luta con-
tra regimes absolutistas e
monárquicos, reorganiza-
ção da propriedade rural e
busca por direitos em nome Figura 2 - La liberté guidant le peuple

de todos os cidadãos. Nesse contexto, os direitos baseados nos princípios da liber-


dade e igualdade foram declarados universais. Contudo, tais direitos expressos
na Declaração de Direitos do Homem e do Cidadão aprovada pela Assembleia
Nacional Francesa não contemplava as mulheres.
Em meio a efervescência da Revolução Francesa, o movimento feminista
começou a se desenvolver na luta contra a discriminação da mulher. Olympe
de Gouges, encaminhou à Assembleia Nacional da França uma Declaração dos
Direitos da Mulher e da Cidadã em 1791. Nesse e em outros textos, clamava pelos
direitos da mulher. Seu posicionamento político acabou levando-a a guilhotina em
1793. Outras mulheres, muitas líderes operárias, continuaram as reivindicações

POLÍTICA E DEMOCRACIA
59

pela igualdade de direitos, especialmente pelo direito de votar, que aconteceu


primeiro nos Estados Unidos em 1920. No Brasil, o sufrágio feminino foi ado-
tado por decreto no ano de 1932, no qual o eleitor passou a ser entendido como
maior de 21 anos, independente do sexo. (MIGUEL; BIROLI, 2014).
Percebemos que os ideários das grandes revoluções reivindicam a ideia de
liberdade e igualdade de direitos, colaborando, assim, para a busca para a realiza-
ção de uma organização política democrática. Contudo, esse ideais democráticos
não se instalam de pronto, mas pouco a pouco por meio de revoluções dentro e
após as grandes revoluções. A democracia moderna, ainda traz os entraves da
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

democracia nascente, o problema de não estender os direitos cidadãs a toda a


população. Não se pode, por exemplo, conceber uma democracia na qual não
haja igualdade efetiva entre homens e mulheres, bem como, entre os diversos
grupos que compõem o todo social.

O QUE É DEMOCRACIA – O MUNDO GREGO/MODERNO

Sempre falamos em democracia. Entretanto, pra você, aluno(a), este conceito já


está claro? Conhece as características que fundamentam esse modelo político?
Consegue analisar os contextos, destacando os entraves que impedem que ela
se efetive de forma plena? Vamos falar mais um pouco deste assunto que deve-
ria estar no centro de nossas preocupações enquanto seres políticos.
Quando falamos em democracia, é preciso distinguir democracia direta e demo-
cracia representativa. Costuma-se dizer que a democracia surgiu em Atenas de
forma mais expressiva no século V a.C. Uma das características que diferencia a
democracia ateniense e as democracias contemporâneas é que na primeira inexistia
o Estado, ou seja, os atenienses praticavam a democracia direita, as decisões eram
tomadas após debates e assembleias em praça pública, onde todos os cidadãos deve-
riam partir, partindo dos preceitos de isonomia (igualdade de direitos perante a lei)
e isegoria (igualdade de direito à fala pública) (VERNANT, 2006). As democracias

O que é Democracia – O Mundo Grego/Moderno


60 UNIDADE II

contemporâneas, por sua vez, são efetivadas a partir da representação, onde o Estado
é entendido como a instituição que representa os interesses coletivos. Nos modelos
representativistas, o povo exerce sua soberania a partir da eleição de representantes.
Em sociedades numerosas, como as que temos, é impensável uma democracia
direta, onde todos participem de todas as decisões, por isto a representatividade
se tornou necessária. Tal necessidade não era presente na Atenas do século V a.C.,
porque as cidades eram menores e o número de pessoas com direitos políticos
também era menor. Há que se destacar que, mesmo no seu auge, a democracia ate-
niense não foi plena, pois estavam excluídos da vida política mulheres, crianças,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
escravos e estrangeiros, ou seja, a democracia acontecia entre os cidadãos, mas os
cidadãos correspondiam a um pequeno grupo dentro do número geral de habitan-
tes da polis (REALE, 2007).
No contexto atual causa estranhamento pensar em uma democracia que aconteça
simultaneamente com regime escravocrata, por exemplo, ou que exclua mulhe-
res. Os tempos são outros, e muito evoluímos nos conceitos de cidadania mundo
afora nos últimos séculos, mas esta evolução foi lenta e penosa. Quando voltamos
ao conceito de cidadãos para os gregos antigos, percebemos a limitação dessa ideia
naquele contexto. Contudo, muitas vezes, esquecemos que a ideia do cidadão per-
maneceu excludente por séculos. O sufrágio feminino, por exemplo, só aconteceu
no século XX.
Embora, atualmente, a cidadania formal, ou seja, a definição de cidadão dada
pela lei, o conjunto de deveres e direitos políticos, civis e sociais instituídos legal-
mente, seja muito mais abrangente, a cidadania substantiva ou real, ou seja, aquela
vivida na prática, continua excludente. Tomando, novamente, o voto feminino
como exemplo, mesmo ele tendo sido obtido pelas mulheres, em geral, na primeira
metade do século XX, a ocupação dos cargos representativos por mulheres ainda
é muito pequena. No Brasil, por exemplo, a passagem de uma mulher pela presi-
dência da República foi um exemplo simbólico apenas, pois a efetivação de uma
agenda que atendesse as necessidades da realidade da mulher no Brasil não aconte-
ceu. Isso pode ser explicado porque quem desenvolve as leis e políticas que afetam
as mulheres ainda são os homens, dado que na Câmara de Vereadores e Deputados
ou nas prefeituras, por exemplo, a presença das mulheres não chega a 15% mesmo
elas sendo pouco mais de 50% da população (MIGUEL; BIROLI, 2014).

POLÍTICA E DEMOCRACIA
61

Você pode notar que características essenciais da democracia grega são ainda
basilares para os modelos democráticos atuais. O igual direito de todos os cidadãos
nos âmbitos legal, político e social. Contudo, as diferenças entre a democracia ate-
niense e a moderna se destacam quanto à inclusão e exclusão de sujeitos no conceito
de cidadania e também quanto à forma de participação dos sujeitos políticos, sendo
na Antiguidade de forma direta e atualmente de forma indireta nas representações.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A igualdade política defendida por nomes como Benjamin Constant (1787-


1874), Immanuel Kant (1724-1804) e Edmund Burke (1729-1797) era bastante
excludente, e cada qual justifica de maneira diferente tal exclusão. Para Benja-
min Constant, por exemplo as pessoas das classes menos beneficiadas, subme-
tidas à jornadas exaustivas de trabalho, não tinham condições de exercer o direi-
to político por não terem conhecimentos necessários. Immanuel Kant também
classificava crianças, mulheres e operários desqualificados para o exercerem a ci-
dadania. Não muito diferente, Edmund Burke, acreditava que caberia a elite de-
vido à sua melhor capacidade analítica, compreender as necessidades políticas.
Fonte: Tomazi (2010).

Como vimos, apesar do ideal democrático ter sido iniciado na Grécia Antiga, as
transformações sociais levaram as sociedades à uma adequação destes ideais de
acordo com as novas realidades. Para tornar possível o ideal democrático, a demo-
cracia direta se transforma em democracia indireta, mas ainda assim existem muitos
empecilhos para sua efetividade, diversos nichos sociais ainda não se veem repre-
sentados, tampouco têm suas necessidades sociais atendidas. Embora as teorias
políticas tenham uma importância inegável nesse processo de transformação do
ideal democrático, cabe lembrar que elas nem sempre fazem o recorte das particula-
ridades sociais, como gênero e raça, tão necessário para a discussão da democracia
real. E mesmo quando as teorias são contemplativas, cabe lembrar que não são
suficientes para garantir a implementação dos ideais que reivindica, sendo então
necessárias às organizações dos movimentos sociais. Ao final da unidade, convi-
damos você para refletir mais sobre o assunto e conhecer os materiais indicados.

O que é Democracia – O Mundo Grego/Moderno


62 UNIDADE II

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para concluir, vamos relembrar os principais aspectos discutidos na Unidade II.


Começamos procurando compreender qual a finalidade da política e seu obje-
tivo maior. Foi possível notar que o pensar e agir político são uma necessidade
humana, que permite gerenciar a vida do ser humano na coletividade.
É importante compreender como o pensamento político se desenvolveu,
então procuramos apresentar, de forma clara, como aconteceu a formação do
pensamento político moderno, que ainda é a base para as formas contemporâ-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
neas de organização política. A partir da compreensão da formação do Estado
moderno, pudemos conhecer um pouco sobre duas linhas de pensamento dife-
rentes quanto às atribuições cabíveis a este Estado, o pensamento político liberal
e o pensamento político socialista. Pudemos ver que o antagonismo entre os
caminhos que um e outro sugerem para alcançarmos o ideal político está dire-
tamente ligado aos contextos em que se desenvolveram.
Para ilustrar o que vimos nas teorias, apresentamos o contexto das grandes
revoluções e sua importância para o desenvolvimento da democracia moderna.
Com o intuito de bem conhecer as características fundamentais do modelo
democrático, vimos as principais semelhanças e diferenças da democracia grega
nascente e a democracia moderna.
Esperamos que, com as discussões propostas nesta unidade, tenhamos
colaborado para sua reflexão acerca do pensamento político democrático e da
importância da participação política de todos nós enquanto cidadãos, uma vez
que a democracia tem bases capazes de promover a justiça, mas a lei por si só não
garante a efetividade de políticas justas. É preciso ter consciência da importância
da cidadania enquanto atividade constante de acompanhamento e cobrança para
que o Estado e os representantes democraticamente eleitos cumpram seu papel.
Continue firme na jornada e bons estudos!

POLÍTICA E DEMOCRACIA
63

1. Com relação à política enquanto atividade humana, diga qual a importância


de nos livrarmos dos preconceitos e nos tornarmos mais ativos politicamente.

2. Diga em qual contexto acontece a formação do Estado moderno.

3. Qual questão fundamental é respondida de forma antagônica por socialistas


e liberais?

4. Qual a relação entre a democracia e as grandes revoluções?

5. Qual a diferença entre a cidadania formal e a cidadania real?


64

Muitos pensadores, na história do pensamento político, defenderam a ideia de que os


seres humanos nascem livres e iguais, contudo, desenvolveram cada qual sua teoria a
partir de interpretações diversas.
Para Thomas Hobbes os seres humanos são, naturalmente, iguais e sua liberdade levava
ao conflito, necessitando assim de um contrato através do qual os indivíduos renuncia-
riam à liberdade irrestrita, passando ao Estado o direito de agir em seu nome. John Locke,
por outro lado, dizia que os homens são livres e iguais na medida em que têm proprieda-
des a zelar, e caberia ao Estado a garantia de proteção dessas propriedades. Jean-Jacques
Rousseau, por sua vez, defendia que a igualdade deveria ser jurídica, ou seja, a lei deveria
estabelecer que todos fossem iguais perante ela; contudo, o filósofo excluía do âmbito
político as mulheres, que, segundo ele, são naturalmente destinadas à esfera doméstica.
As discussões sobre cidadania pela liberdade e igualdade de direitos começaram a ser
fomentadas a partir da Revolução Francesa, mas de forma sutil. A Declaração de Direitos
do Homem e do Cidadão aprovada pela Assembleia Nacional francesa, por exemplo,
não contemplava as mulheres, seguindo a ideia de Rousseau. Nesse contexto, surgia,
ainda marginalmente, a luta das mulheres pelos direitos políticos, na custa de muitos
sacrifícios, como a condenação Olympe de Gouges à guilhotina, por propor uma Decla-
ração dos Direitos da Mulher e da Cidadã. Tais reivindicações começam a estourar em
outros lugares da Europa, como na Inglaterra, por exemplo, onde Mary Wollstonecraft,
considerada, por muitos, a fundadora do feminismo, escreve Uma Vindicação dos Direi-
tos da Mulher, publicada em 1792.
Do final do século XVIII e, principalmente, no século XIX, a sociedade se estruturava na
desigualdade entre as classes. A liberdade tão reivindicada pela burguesia não chegava
à classe operária que fica à margem da sociedade e não desfrutava dos direitos sociais.
No século XX e XXI, mesmo após a formalização da liberdade e igualdade social enquan-
to direitos políticos, a realidade mostrava e ainda mostra que tais direitos não se concre-
tizam para o coletivo social, mas apenas para grupos que mantém privilégios sociais. Da
mesma forma, os direitos sociais como educação básica, assistência à saúde, programas
habitacionais, transporte coletivo, sistema previdenciário etc, mesmo instituídos não se
concretizam para toda a comunidade.
É necessário, então, sempre pensar o conceito de cidadania além de um status atribuído
aos membros de uma comunidade, uma lista de direitos e deveres, entendendo-a como
um processo de organização, participação e intervenção social para que os direitos se-
jam escritos e, uma vez escritos, não fiquem só no papel. A cidadania não se apresenta,
então, como um título, mas como um exercício que precisa ser contínuo para a saúde
do todo social. Exercer a cidadania é lutar pelos direitos, pelo exercício da democracia,
cotidianamente. Essa é a luta dos grupos sociais que têm se organizado para diminuir
a diferença entre a cidadania formal e real no que se refere, por exemplo, ao lugar no
negro, da mulher, da comunidade lgbt, dos quilombolas e dos indígenas no Brasil.
Fonte: a autora.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Em busca da política
Zygmunt Bauman
Editora: Zahar
Sinopse: o argumento central desse livro reside na ideia de que a liberdade
individual só pode ser produto do trabalho coletivo, ou seja, só pode ser
garantida coletivamente. Entretanto, como mostra Zygmunt Bauman,
hoje rumamos para a privatização dos meios de assegurar esta liberdade
- projeto que, se pretende ser um tratamento contra os males atuais,
está fadado aos mais funestos resultados. Em mais um brilhante ensaio,
Bauman busca tornar, novamente, possível a arte de traduzir os problemas
pessoais em questões de ordem pública - imperativo vital e urgente para a renovação da política.
Uma verdadeira investigação sobre a relação entre a estrutura do mundo atual e a maneira como
nele vivemos.

V de vingança
Ano: 2006
Sinopse: em uma Inglaterra do futuro, onde está em vigor um regime
totalitário, vive Evey Hammond (Natalie Portman). Ela é salva de uma
situação de vida ou morte por um homem mascarado, conhecido apenas
pelo codinome V (Hugo Weaving), que é extremamente carismático
e habilidoso na arte do combate e da destruição. Ao convocar seus
compatriotas a se rebelar contra a tirania e a opressão do governo inglês, V
provoca uma verdadeira revolução. Enquanto Evey tenta saber mais sobre
o passado de V, ela termina por descobrir quem é e seu papel no plano de
seu salvador para trazer liberdade e justiça ao país.

Material Complementar
REFERÊNCIAS

ARISTÓTELES. Política. [edição bilíngüe] Trad. Antônio C. Amaral e Carlos C. Gomes.


Lisboa: Vega, 1998.
BAKUNIN, M. Textos Escolhidos. Porto Alegre: L&PM, 1983.
GOHN, .da G. Teoria dos movimentos sociais: paradigmas clássicos e contemporâ-
neos. São Paulo: Loyola, 2002.
HOBBES, T. Leviatã, ou matéria, forma e poder de um Estado eclesiástico e civil.
São Paulo: Martin Claret, 2005.
LOCKE, J. Segundo tratado sobre o governo. São Paulo: Martin Claret, 2004.
MARX, K.; ENGELS, F. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Cia das Letras/
Penguin, 2012.
MARX, K.; ENGELS, F. O capital. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.
MIGUEL, L. F.; BIROLI. F. Feminismo e Política. São Paulo: Editora BoiTempo, 2014.
REALE, G. Aristóteles. História da filosofia grega e romana. Tradução de Henrique
C. L. Vaz e Marcelo Perine. São Paulo: Loyola, 2007.
SMITH, A. A riqueza das nações: investigação sobre sua natureza e suas causas. São
Paulo: Nova Cultural, 1996.
VERNANT, J-P. As origens do pensamento grego. Tradução de Ísis Borges B. da Fon-
seca. 16. ed. Rio de Janeiro: DIFEL, 2006.
TOMAZI, N. D. Sociologia para o ensino médio. São Paulo: Editora Saraiva, 2010.
67
GABARITO

1. A política enquanto atividade humana é necessária para gerenciar as relações


por meio do diálogo, das negociações, com vistas ao bem comum. O ser huma-
no vive sempre na coletividade, se as relações não se fazem através da política,
através de organizações democráticas, elas se fazem pela força, pela repressão,
pela violência. É recorrente ver no senso comum um menosprezo pelos assun-
tos políticos, muitos gerados pelo modo inadequado como se portam os repre-
sentantes políticos atualmente, mas é preciso falar sobre política, pensar sobre
política e agir politicamente para construirmos uma política que sirva verdadei-
ramente aos interesses da coletividade.

2. A formação do Estado moderno acontece no contexto de declínio da organi-


zação feudal e desenvolvimento de uma nova classe que ascende socialmen-
te a burguesia, se fazendo necessária a substituição Estado Absolutista por um
Estado que possibilitasse o desenvolvimento de valores como individualismo,
liberdade e propriedade privada.

3. Socialistas e liberais respondem de forma antagônica qual deve ser o papel e


função do Estado. Socialistas defendem um Estado máximo, detentor dos meios
de produção e eliminação da propriedade privada destes meios. Liberais, por
sua vez, defendem um Estado mínimo, que não interfira no mercado, que deve-
ria ser regulado pela lei de oferta e procura.

4. As grandes revoluções têm papel fundamental para a construção da democracia


moderna, pois reivindicaram os ideais de liberdade e igualdade de direitos, ne-
cessários para a efetivação de uma organização política democrática.

5. Cidadania formal corresponde aos direitos legais do cidadão, aquilo que está
formalizado e legitimado pela lei. Já a cidadania real corresponde à situação real
em que vivem os cidadãos. Muitas vezes, as leis são satisfatórias, mas não se
efetivam na prática, situação onde se faz necessária a organização social para a
reivindicação da garantia dos direitos.
Professora Me. Mariane Helena Lopes

MUNDIALIZAÇÃO E

III
UNIDADE
GLOBALIZAÇÃO

Objetivos de Aprendizagem
■■ Compreender o contexto da mundialização e da globalização.
■■ Conhecer os grupos sociais excluídos.
■■ Analisar como se desenvolveu a Constituição do Estado Moderno.
■■ Observar a relação entre liberdade na civilização básica.
■■ Demonstrar como foi materializado o Estado Moderno e a
Constituição.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Convergências, Divergências ou Paradoxos?
■■ Os grupos sociais excluídos
■■ A Constituição do Estado Moderno: do ideal de liberdade para o
princípio da dignidade da pessoa humana
■■ A relação entre produção e liberdade na civilização clássica
■■ O Estado Moderno e a Constituição: a materialização do homem
71

INTRODUÇÃO

Nesta unidade, iremos analisar como ocorreu a mundialização, a globalização e


a importância da mesma para o Estado enquanto um todo.
A partir do século XX, esse tema passou a ter uma importância significativa,
visto que, em qualquer outra área do conhecimento e da experiência humana,
não há como fugirmos dessa evolução, que nos atinge diretamente, em situações
simples do nosso cotidiano, como comprar uma capinha de celular, por exemplo.
Com essas mudanças em sociedade, grupos fundamentalistas religiosos se
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

pegaram em armas, com o intuito de se rebelar e não aceitar as mudanças geradas


pela globalização, como, por exemplo, a imposição do modo de vida ocidental,
passando a constituir um foco preocupante de violência, causando vários pro-
blemas, principalmente no Oriente Médio e em alguns países da África. Por essa
razão, faz-se necessário um estudo com relação aos temas, visto que as duas termi-
nologias têm se tornado de uso corrente, na maioria das áreas do conhecimento.
Todavia, os termos globalização e mundialização têm se tornado de uso
corrente na maioria das áreas do conhecimento. No entanto, uma questão pare-
ce-nos ser necessária levantar: o que vem a ser mundialização ou globalização e
qual a conotação que as mesmas recebem, em algumas áreas do saber humano,
embora o nosso trabalho tenha uma convergência específica para a área das ciên-
cias humanas e sociais aplicadas? Podemos realmente fazer uma distinção entre
os termos? Ou eles se complementam?
De fato, são questões como essas que devemos responder ao longo do nosso
estudo, buscando mostrar que a globalização tem sua importância para a ordem
mundial, uma vez que as mudanças acontecem independente da vontade do
Estado, já que nas relações internacionais e na criação do próprio Estado existe
a necessidade de se relacionar com os outros, objetivando assim uma evolução
da sociedade.

Introdução
72 UNIDADE III

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
CONVERGÊNCIAS, DIVERGÊNCIAS OU PARADOXOS?

Tema que assume já, a partir do século XX, uma importância significativa é o
da globalização ou mundialização, pois como qualquer outra área do conhe-
cimento e da própria experiência humana, não há como fugir deste processo,
pode-se oferecer uma resistência inicial, mas, de qualquer forma, mais cedo ou
mais tarde, ele existirá.
Mais recentemente, grupos fundamentalistas religiosos pegaram em armas,
para se rebelar e não aceitar a globalização e a importação e imposição do modo
de vida ocidental, notoriamente europeu, constituindo-se num foco preocupante
de violência e acentuamento de vários problemas, principalmente no Oriente
Médio e em alguns países da mãe África.
O termo globalização e mundialização tem se tornado de uso corrente na
maioria das áreas do conhecimento. No entanto, uma questão parece-nos ser
necessária levantar: o que vem a ser mundialização ou globalização e qual a cono-
tação que as mesmas recebem em algumas áreas do saber humano, embora o
nosso trabalho tenha uma convergência específica para a área das ciências huma-
nas e sociais aplicadas? Podemos realmente fazer uma distinção entre os termos?
Há certa unanimidade quanto à similitude dos termos, pois, segundo Benko,
“a mundialização, ou ainda, em termos anglo-saxões, a globalização, muito em
voga nos países da América Latina, constitui, nos anos 1990, uma das preocu-
pações prediletas dos intelectuais de todas as tendências [...]” (BENKO, 2002,
p. 45-54). Os americanos preferem chamar de globalização, que significa “bola,
esfera, multidão” (HOUAIS, 2001, p. 58).

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
73

Quando se fala do seu aspecto econômico e político, acaba assumindo a


conotação de “integração cada vez maior das empresas transnacionais,
num contexto mundial de livre-comércio e de diminuição da presença
do Estado, em que empresas podem operar simultaneamente em mui-
tos países diferentes e explorar em vantagem própria as variações nas
condições locais (HOUAIS, 2001, p. 58).

Já, os franceses, optaram pelo termo mundialização, parece-nos neste momento,


que a utilização de um ou outro termo, é meramente uma questão político-cul-
tural entre as duas nações.
Historicamente, podemos dizer que os romanos, ao introduzirem nas colô-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

nias conquistadas os primórdios da federalização e permitir o livre trânsito de


mercadorias entre as mesmas, desde que os impostos fossem pagos a Roma, já
estabeleceram a proto-mundialização dos mercados. No entanto, é no fim da
idade média e início da modernidade, mais especificamente, com o fim do feu-
dalismo e o surgimento do mercantilismo, ou seja, quando a França, Portugal,
Inglaterra e Espanha resolveram iniciar a disputa marítima para a conquista de
novas terras e busca de novos mercados, é que temos o surgimento da mundia-
lização da economia, da história, dos aspectos culturais, filosóficos, geográficos,
e outros que serão determinantes na história ocidental. Fato não menos impor-
tante foi a descoberta da imprensa por Gutemberg (1448), que gerou um processo
facilitador de todas as áreas do conhecimento, para a disseminação de ideias,
protestos e outras formas de manifestação.
A importância da imprensa como elemento de difusão, ocorre na literatura
com mais intensidade e, segundo Rouanet (2000, p. 59), “tanto Goethe quanto
Marx usam a expressão `Weltliteratur´, literatura mundial, e nos dois casos a
literatura funciona como alusão metonímica à cultura como um todo”. O pro-
cesso já fora iniciado a um século e meio atrás e não pode mais ser contido, é a
afirmação contundente do intelectual brasileiro e a sua infiltração na cultura se
deu de modo tão intenso que
cada vez mais os valores, símbolos e produtos culturais extravasam as
fronteiras nacionais, e cada vez menos eles podem ser reduzidos à soma
das culturas locais, ou a extroversão imperialista de uma cultura nacio-
nal hegemônica (ROUANET, 2000, p. 59).

Convergências, Divergências ou Paradoxos?


74 UNIDADE III

Em outras palavras, até que ponto podemos dizer, nos dias atuais, mesmo nos
rincões mais distante deste país, que temos uma cultura puramente nacional?
Nesta mesma linha de raciocínio, será que podemos dizer que determina-
das culturas indígenas são autênticas, quando observados os mesmos realizando
os seus rituais, danças e afazeres cotidianos, utilizando instrumentos, roupas e
outros acessórios resultantes do mundo capitalista e globalizado? E mais ainda,
até que ponto ainda podem ser nominadas como cultura indígena, se vêm as cida-
des comercializar seus produtos e adquirir bens e serviços próprios da cultura do
homem ocidental? Ainda pode ser tratada como uma cultura indígena, ou como

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
uma cultura para um processo de transição, notoriamente de vertente capitalista?
Para Navarro (2005, p. 89), “globalização não é palavra nova, pois o famoso
dicionário editado pela Universidade de Oxford já identificou o aparecimento em
Inglês do termo ‘global’ há, pelo menos, 400 anos”. Quanto ao termo no contexto
atual, temos algumas divergências, pois, para Benko (2002, p. 45-54), o termo
surge “nos anos de 1990” e, para Fausto (2005), este fenômeno já está presente a
partir de 1980. No entanto, um fato parece ser comum a todos: é de que a agili-
dade nas comunicações, principalmente, com o surgimento e disseminação da
internet, é o elemento principal e facilitador para o crescimento da globalização
e, também, dos transportes em larga escala, que, por meio de aviões de grande
porte, navios e trens, levam pessoas e mercadorias ao outro extremo do planeta,
em questão de horas.
Aliás, foram, notoriamente, a velocidade dos meios de transporte de animais
e pessoas, principalmente, os chamados continentais, que também globalizou as
pestes e doenças, podendo provocar, em questão de horas grandes catástrofes,
como, por exemplo, o ebola, gripe aviária e outros, além do que, as chamadas
guerras químicas, possibilidade aumentada depois do ataque de 11 de setembro
às Torres Gêmeas nos Estados Unidos da América.
Exposta às questões, inicialmente apresentadas, é preciso definir o que vem
a ser este fenômeno, seja ele nominado como globalização ou mundialização.
Para Benko (2002, p. 48),
a mundialização designa a crescente integração das diferentes partes do
mundo, sob o efeito da aceleração das trocas, do impulso das novas tec-
nologias da informação e da comunicação, dos meios de transportes etc.

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
75

Sendo assim, o termo está ligado diretamente à produção, distribuição e con-


sumo de modo rápido e faz parte, intrinsecamente, da ótica capitalista. Uma
outra linha de visada nos é apresentada por Fausto, quando diz que “trata-se de
uma interpenetração de relações econômicas e financeiras, com dimensão pla-
netária, em que os Estados Unidos figuram como pólo dominante”(FAUSTO,
2005,p. 50). Parece-nos que as duas definições se completam, pois enquanto a
primeira aponta de forma mais precisa o movimento interno do termo, a segunda
nos apresenta o principal agente de suas intenções.
Embora a crítica tenha seu foco central nos Estados Unidos, é necessário
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dizer que a China, além de ser um país socialista, é um componente forte deste
mercado globalizado, principalmente, porque consegue produzir em larga escala,
com baixos custos de produção, além da prática legalizada da pirataria existente
nos seus setores de produção.
A globalização pode ser estudada sob os mais diversos pontos de influên-
cias, mas como ela se reflete mais especificamente na geografia? O Professor
Benko apresenta a globalização sob as mais diversas óticas, e quanto ao econo-
mista diz que:
[...] é a globalização financeira ou, em outras palavras, a integração dos
mercados e das bolsas como consequência das políticas de liberaliza-
ção e do desenvolvimento das novas tecnologias da informação e da
comunicação; é também a intensificação dos fluxos de investimento e
de capital na escala planetária (BENKO, 2005, p. 49).

Não é um fenômeno pontual, isolado, mas necessariamente estabelece uma liga-


ção entre o espaço geográfico e o setor produtivo resultante de sua exploração,
assim como a influência que este mesmo espaço recebe dos setores produtivos
e consumidores externos ao seu meio natural. Pois
em geografia, a noção de globalização é uma maneira de sublinhar a
persistência de um registro espacial de fenômenos econômicos – a lo-
calização dos locais de produção de uma empresa multinacional nos
territórios (BENKO, 2005, p. 49).

Podemos dizer que a instalação de um setor produtivo internacional, ou como a


globalização chama de “empresas transnacionais”, temos naquele espaço geográ-
fico a implantação de tentáculo capitalista, cujos objetivos estão intrinsecamente

Convergências, Divergências ou Paradoxos?


76 UNIDADE III

condicionados aos objetivos da matriz da empresa. Ora, tal fato não fere de modo
direto a soberania do país que, por direito, pertence aquele espaço?
Tecendo comentários acerca da obra “Por uma globalização – do pensa-
mento único à consciência universal” (SANTOS, 2000, p. 25). Navarro diz que a
globalização,
trata-se meramente de um conjunto de mudanças através do qual di-
minuem os constrangimentos geográficos (e seus vetores de tempo e
de espaço) sobre os processos sociais, econômicos, políticos e culturais,
redução esta sobre a qual os indivíduos cada vez são mais conscientes
(NAVARRO, 2005, p. 20).

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Neste sentido, temos vários exemplos de movimentos que se dizem contra o
processo capitalista e de globalização imposta pelos americanos, mas sacam
de seus bolsos, Ipad, Iphone e outros produtos típicos da indústria americana.
Incoerência ou necessidade?
Sob o âmbito da análise geográfica o Professor Milton Santos nos apresenta
a possibilidade de uma outra globalização e, na obra supra citada, “toma para a
análise a realidade relacional do ser humano, e a esta realidade relacional per-
versa atribui os males revelados pelo território” (MENDES, 2001, p. 90). O espaço
geográfico pode ser “perverso” não somente pela escassez de recursos, mas tam-
bém pelo excesso, ou porque o resultado de sua exploração pode ser um produto
ambicionado e necessário às nações, como é o caso das regiões onde o petróleo
é explorado (com exceção da exploração em alto mar), as demais regiões afas-
tam o cidadão que, mesmo tendo direito à terra, não pode explorá-la, seja por
questões legais (como no Brasil), por falta de recursos tecnológicos, ou ainda,
porque, de longa data, já perderam a posse de suas terras, pela astúcia maléfica
do capitalismo em detectar potencial de exploração e forçar o êxodo destas áreas,
em troca de recursos insignificantes.
O que podemos inferir quanto aos aspectos positivos ou negativos da globa-
lização? Aqui também temos pontos convergentes e divergentes, dependendo da
leitura que se realiza quanto aos aspectos interiores da globalização. Para Fausto,
o aspecto positivo é que “o intercâmbio comercial e cultural entre as nações é em
si mesmo um fator desejável – e riscos reais” (FAUSTO, 2005, p. 79).

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
77

A civilização ocidental tem a sua construção fundamentada na cultura grega (e


também romana), onde Aristóteles na obra “A Política”, já afirmava que o homem
se realiza na “polis” (cidade), pois o homem é um animal político e esta não se faz
sem antes inseri-lo na sociedade. É preciso que o homem se relacione com o mundo,
o conceito de autonomia não pode ser compreendido sob a ótica do isolamento,
mas sim daquele que, mesmo não tendo, tem em si a possibilidade de escolha.
Segundo Fausto, o aspecto negativo é que se “não houver medidas no sentido
de limitá-la ou regulamentá-la, ela tende a acentuar a desigualdade entre países
ricos e pobres” (FAUSTO, 2005, p. 82). Com o advento da internet e a consequente
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virtualização do capital, com o surgimento das chamadas empresas transnacio-


nais, o capital circula de modo rápido e anônimo em questão de segundos.
É possível que um grande investidor americano, do escritório de sua residên-
cia, faça de modo instantâneo uma retirada vultuosa de capitais de uma bolsa de
valores e, imediatamente, aplique este mesmo capital em outro lugar do mundo,
provocando uma queda acentuada nas ações da bolsa de valores.
O mercado virtual está desregulamentado. O Estado já não mais controla
a economia. A sua própria dívida interna é vítima e ao mesmo tempo algoz da
globalização.
Mas qual o fenômeno que levou a esta desregulamentação? Segundo Kurz, o
colapso da União Soviética e a queda do Muro de Berlim fez com que o mundo
perdesse a possibilidade de ter um outro “referencial conceptual”. Anterior a
estes fatos, embora existisse a chamada Guerra Fria, ainda tínhamos um possível
referencial, mas segundo Kurz, a falta de criatividade da esquerda, em apresen-
tar uma alternativa real contra o capitalismo, permitiu a queda do socialismo
real (logicamente desvirtuado daquele apresentado por Karl Marx) e apresenta
o capitalismo como vitorioso nesta luta incauta. Contudo, “o que parecia ser a
‘vitória’ do capitalismo ocidental foi-se revelando, ao longo dos anos noventa,
como uma derrocada socioeconômica irreversível, desde já, de extensas partes
da periferia do mercado mundial” (KURZ, 2017).
Na visão de Kurz, a globalização cria pólos de produção de alta tecnologia e
alta produtividade, competitividade e baixa necessidade de mão de obra e torna
outras regiões meramente consumidoras e sem possibilidade de ascensão a esta
tecnologia. A virtualização do capital, juntamente com a tecnologia, produziu

Convergências, Divergências ou Paradoxos?


78 UNIDADE III

o “desacoplamento dos mercados financeiros da economia real”, pois agora a


maioria dos rendimentos das empresas transnacionais, são resultantes de espe-
culação financeira quase que instantânea para os diversos mercados no mundo,
que lhes apresente condições mais favoráveis de lucro. A saída apontada por Kurz
é a mesma apresentada por Fausto, ou seja, a necessidade de regulamentação do
mercado, mas no caso do sociólogo alemão, isto só poderia ser feito mediante
uma revolução, que seria resultante da implosão do capitalismo.
Qual seria o resultado imediato da globalização? Para Fausto (2005, p. 89),
“com o novo quadro das relações sociais advindo da globalização, mostrou-se

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necessário unir países, às vezes até abrindo mão de certos aspectos da soberania
nacional”, no tocante à América Latina, temos o surgimento do Mercosul e da Alca.
A globalização acentuou a necessidade do aumento da produtividade, e da redu-
ção de custos e padronização de consumo. O que representa sociologicamente estes
fatores? Para Santos (2000 apud MENDES, 2005, p. 22) “a competitividade é ausên-
cia de compaixão. Tem a guerra como norma, e privilegia sempre os mais fortes em
detrimento dos mais fracos. Busca fôlego na economia e despreza os que pensam
mais para além”. É preciso produzir mais, não importa as relações que se estabelecem
com os outros e nem com a condição de exploração irracional do espaço geográfico.
Contudo, não foi apenas no campo econômico que a globalização exerceu
influência, no próprio campo da política, para muitos assuntos e enfrentamento
de crises e problemas, se fala, nos dias de hoje, em política global ou mundial,
como, por exemplo, para enfrentar o narcotráfico, o contrabando de armas, o
contrabando de pessoas, o contrabando de tecnologia para ser utilizada de modo
a produzir armas de destruição e outros.
Não se pode negar, que medidas econômicas e políticas, tomada por países
desenvolvidos e com forte participação nos mercados de uma forma geral, não
afetem o mundo globalmente. Diariamente, o mercado está atento às ações toma-
das pelo Banco Federal Americano, ou ainda, pelo seu equivalente na China. O
pronunciamento do governo Chinês com relação à mudança no campo político
de seu país se torna um fato de interesse global, pois poderá afetar, de forma signi-
ficativa, as nações que têm laços econômicos e tecnológicos com aquele governo.
Enfim, vivemos num mundo global e as teorias e ações tomadas por gru-
pos que podem representar interesses ao mundo, podem perfeitamente refletir

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
79

numa nova tomada de ação política, contra ou a favor de determinado país.


Nota-se nos últimos tempos, mudanças de ordem política em alguns países da
América Latina, no sentido de fazer restrições ao capital estrangeiro e portanto,
transnacional nas suas economias, o que faz com, como numa ação conjunta,
quase global, países que têm capital a investir, estabeleçam de imediato, vigilân-
cia e requeiram informações detalhadas, por meio de agências que contam com
Cientistas Políticos especialistas em análises políticas e também, de economistas
que entendem de política. As teorias estão postas, resta que as pessoas dotadas
de capacidade crítica e de relacionamento, as interpretem e possam fazer previ-
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sões de acordo com os seus interesses.

OS GRUPOS SOCIAIS EXCLUÍDOS

A Ciência Política não pode mais se limitar somente a tratar de questões per-
tinentes às teorias políticas, e se desvincular das análises dos reflexos ou não,
destas mesmas na sociedade como um todo. Principalmente numa democra-
cia, a existência de problemas de ordem social, estão intrinsecamente associados
com a relação entre teoria e prática, em outras palavras, não é simplesmente a
existência de um documento político-jurídico, como é a constituição, quem irá
dizer se determinado país tem características meramente liberal, capitalista ou
mesmo socialista, mas sim, como estas teorias políticas são ou não aplicadas no
campo social.
Os grupos sociais bem definidos podem, perfeitamente, nos revelar aspectos
positivos ou negativos da política interna de um país, e também, como este faz
para enfrentar estes problemas e qual o comportamento jurídico deste país, para
tratar a possível manifestação dos interesses destes grupos, em outras palavras,
bem sabemos, que a República Islâmica do Irã não permite que grupos relaciona-
dos direta ou indiretamente pela defesa dos homossexuais, possam se manifestar
em público ou ainda, de forma reservada mas lícita, de acordo com suas leis.

Os Grupos Sociais Excluídos


80 UNIDADE III

A forma como determinado país enfrentam problemas pertinentes a estes


grupos sociais e outros, permite à Ciência Política realizar projeções e mesmo, for-
necer subsídios para o tratamento e enfrentamento destes problemas. A Ciência
Política contemporânea já rompeu com a velha tradição de estudar apenas as
teorias políticas e suas relações com o Estado, da mesma forma que a geogra-
fia, rompeu com a tradição de se preocupar apenas com questões pertinentes
ao espaço físico-geográfico e passa a analisar a geografia a partir de uma nova
visão, a geografia humana.
Sendo assim, a própria Ciência Política reconhece, e como realmente é, que

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pode ser considerada como uma ciência autônoma, no sentido de definir o seu
objeto de estudo e o método, mas não pode se refutar a procurar subsídios em
outras ciências, que possuem um conhecimento mais profundo sobre determi-
nados temas e assim, trazer os mesmos para o estudo no âmbito de sua ciência.
É o que será tratado a seguir.
As diferenças sociais também podem ser verificadas pelas condições de
acesso da população a bens e serviços que o Estado constitucionalmente deveria
garantir à população. A não existência destes, entre os quais o direito à mora-
dia digna, produz um fator que colabora para a exclusão social, e esta, conduz a
outros elementos que acentuam ainda mais as diferenças, tais como “a subnutri-
ção, as doenças, o baixo nível de escolaridade, o desemprego ou o subemprego”
(CORRÊA, 1994, p. 29).
Ao serem incluídos nos grupos não qualificados e, assim o sendo, poucas
são as oportunidades de emprego formal, estes terminam por se integrarem
àqueles que vivem na economia informal (DICKENSON, 1983, p. 225), o que
contribui por piorar a sua situação, pois não tendo rendimentos formais, por-
tanto, comprovados, também não podem solicitar crédito para a aquisição de
moradia, nos raros, e diga-se de passagem, caros programas de financiamento
governamental, ou privado, para a compra de imóveis residenciais, com finan-
ciamentos a longo prazo.
No entanto, dentro da realidade brasileira atual, podemos verificar uma mudança
de postura do Estado brasileiro, com a instituição de programas habitacionais
que possibilitaram diminuir estes custos, mas que ainda não conseguem suprir a
demanda reprimida por um período muito longo de escassez deste tipo de ação.

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
81

Não tendo meios de reagir ao sistema, os excluídos terminam por procu-


rar abrigos nos cortiços, favelas e mesmo como moradores de rua, vivendo ao
relento, ou, ainda, utilizando de forma precária, os aparelhos públicos, tais como
viadutos, prédios públicos e privados abandonados, terrenos insalubres e impró-
prios para a construção de moradias e, também, vivendo à margem de rodovias
com um tráfego de veículos elevado, estando sujeitos a toda sorte de infortúnios.
Enquanto permanecerem nesta condição, ou seja, se não fixação de um local
para moradia e sem possibilidade de organização social para defender os seus
interesses, esses grupos não podem ser chamados de “agentes modeladores”
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(CORRÊA, 1994, p. 30), e continuam na sua posição inicial, mas ao assumi-


rem a intenção de construir as suas moradias, mesmo que irregulares, em locais
impróprios, e ali fixarem residência e passam a constituir grupos sociais que rei-
vindicam seus direitos constitucionais, mesmo de princípios fundamentais da
dignidade da pessoa humana, passam a criar um corpo uníssono de resistência
ao sistema e a defender o seu direito de reintegração social.
É a resistência que se associa com a necessidade de sobrevivência (CORRÊA,
1994, p. 30), de uma massa de trabalhadores, em sua maioria originários de
áreas rurais, que desejam adentrar a cidade e, ali, conquistar os seus direitos de
cidadão. É a necessidade de junção da moradia, com a proximidade do local de
trabalho dos grandes centros urbanos, associado à baixa qualificação da mão de
obra, falta de oportunidade e condições de qualificação, que termina por cons-
tituir as causas principais da formação das favelas no Brasil e outros países do
“Terceiro Mundo”. Neste contexto, segundo Corrêa, podemos dizer a criação da
favela possui uma lógica interna, associando trabalho-proximidade de moradia,
aliado a inexistência de possibilidades de obtenção de um local para habitação,
dentro das normas legais do Estado.
Outro aspecto a ser levado em consideração às favelas, ou outras formas de
aglomeração social, é que, como reflexo do alto custo do solo urbano, no qual
influencia de forma significativa o seu uso para especulação imobiliária, as mes-
mas passam a redefinir espaços físicos inimagináveis pelos urbanistas, com formas
inimagináveis pela técnica, mas que aparente, resolvem os seus problemas. Nos
referimos, por exemplo, a moradias que ocupam um espaço físico de pouco mais
de 25 metros quadrados em que se constroem dois ou três pavimentos.

Os Grupos Sociais Excluídos


82 UNIDADE III

Qual a solução encontrada por estes excluídos sociais? Antes de respon-


der a esta questão, entendemos ser necessário explicar quando e onde surge
o termo “exclusão social”. Para Matias (2004, p. 179), “o termo exclusão social
conceitualmente surgiu na Europa em 1990 com o crescimento dos sem-te-
tos, pobreza humana, desemprego dos imigrantes jovens e outras minorias”,
mas, efetivamente, este termo existe na história do Brasil, desde o seu descobri-
mento, quando o colonizador português trouxe para o nosso país, os apenados
em Portugal, portanto, excluídos daquela sociedade e, também, excluiu o índio
da participação das ações de colonização, tomando-o apenas como escravo da

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
colonização, depois como inimigo a ser enfrentado, pois resistia ao seu domínio
e, finalmente, com os jesuítas, um elemento humano, cuja conversão ao catoli-
cismo interessava à Igreja Católica.
Retomando à nossa questão inicial, segundo Dickenson (1983, p. 225), a
forma encontrada é o estabelecimento dos chamados assentamentos urbanos ile-
gais, que já existiam antes da segunda guerra mundial em 1945, mas, somente,
depois desta data, estes passam a ser um aspecto significativo da urbanização.
Este tipo de ação dos excluídos é repudiada pelo Estado e pela sociedade num
primeiro momento, mas terminam por ser tolerados, em função da própria ine-
ficiência do Estado para encontrar meios de resolver na sua origem o problema.
Se, num primeiro momento, o Estado e a própria sociedade repudia a existên-
cia destas favelas, a sua persistência, juntamente com soma do esforço de manter
a moradia, passada de pai para filho e os efetivos progressos obtidos na melhoria
das mesmas, termina num futuro próximo, por obrigar o Estado a reconhecer a
legalidade destes espaços urbanos e, mesmo que precariamente, fornecer a estes,
os aparelhos estatais necessários à existência da cidadania e, diga-se de passagem,
garantidos pela Constituição Federal, artigo 6º, quando diz que “são direitos sociais
a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência
social, a proteção à maternidade e a infância, a assistência aos desamparados [...]”,
todos eles relacionados diretamente à existência de um local digno de moradia.
Quando da ocorrência destes reconhecimentos, mesmo que precários e res-
tritos, estes espaços urbanos passam a ser valorizados e se integram aos espaços
urbanos da classe média, ou mesmo classe média alta, que se situam, normal-
mente, entre estas regiões e o núcleo da cidade.

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
83

Mas e o governo e a classe média, num primeiro momento refutam este


tipo de ação, porque o aceitam num outro momento? O governo, pressionado
e apoiado pela classe média alta, entende que este tipo de financiamento é one-
roso aos cofres públicos, que a receita do Estado é insuficiente para fazê-lo, e a
classe dominante também não aceita a hipótese de reduzir os seus lucros, sendo
assim, o próprio Estado apresenta uma solução, é o incentivo a autoconstrução
ilegal (DICKENSON, 1983, p. 227). É o poder estatal reconhecendo a sua ine-
ficiência e também aceitando a ingerência liberal nas suas relações para com os
cidadãos mais fracos na relação, que permite a continuidade desta ilegalidade,
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para que estes não apontem de forma veemente, esta sua incapacidade. No enten-
dimento dos liberais contemporâneos, este tipo de comportamento por parte do
Estado, permite que o cidadão desenvolva o seu potencial de “empreendedo-
rismo”, quando na realidade, o que temos, é a tentativa de sobrevivência abaixo
do mínimo necessário.
Se num primeiro momento, este reconhecimento é justo e benéfico, ele
também produz uma outra exclusão, ou melhor dizendo, continua a produzir
a exclusão social, pois aqueles moradores, que por motivos diversos, não tive-
ram condições de realizar melhorias nas suas moradias, e mesmo aumentar o
seu poder aquisitivo, não poderão arcar com os custos necessários desta nova
fase, tais como IPTU, água, luz elétrica pública e outras formas de impostos e
taxas, que passam a ser legalmente justificadas, no momento em que o Estado
os reconhece e passa a prestar os chamados serviços públicos e o resultado desta
valorização é que ela irá gerar a exclusão deste grupo social e o seu deslocamento
para uma outra região periférica da cidade (DICKENSON, 1983, p. 231).
Esta exclusão dará início a um novo processo, pois o capitalismo vive e
sobrevive de suas próprias crises. Estas zonas residenciais, ou melhor dizendo,
inicialmente de moradias provisionais e sem a mínima condição de saúde e
higiene, em outras épocas, eram chamadas de “câncer urbano”, mas, nos dias de
hoje, assumem a função de “zonas residenciais de imigrantes, que se adaptam à
vida urbana” (DICKENSON, 1983, p. 228) e mesmo à cultura, e modus vivendi
daquela cidade e se convertem assim em zonas de recepção deste cidadão que
adentra à cidade desconhecida, na esperança de encontrar condições melhores
de salário e de qualidade de vida.

Os Grupos Sociais Excluídos


84 UNIDADE III

Mas como será a composição social destes excluídos? Segundo Dickenson


(1983), ao contrário do que poderíamos pensar, este grupo social é composto
de várias classes sociais, religiosas, com o fenômeno da globalização, asso-
ciado com a facilidade de transporte e comunicação, temos até a existência de
diversos povos, situados no mesmo espaço social de exclusão, fenômeno este,
muito comum nos Estado Unidos da América, onde temos as comunidades
hispânicas, sul-americanas, africanas, asiáticas e outras, tentando sobreviver
na ilegalidade, mas de pleno direito na sua condição de ser humano.
Um fato social importante, segundo Dickenson (1983), surge nos países

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da América Latina, mais precisamente nas favelas do Rio de Janeiro e São
Paulo, quando surge nestes aglomeramentos humanos, organizações, asso-
ciações, que irão defender os interesses desta classe de excluídos, assumindo
voz ativa, e em alguns casos, até determinante, nas decisões políticas, com
ações cuja finalidade é produzir uma amenização do problema social, que é
resultante, no caso desta região, do enorme abismo social entre a classe baixa
e a média alta. Para Matias (2004, p. 183), analisando o caso brasileiro,
a partir de 1978 se expande à emergência de movimentos populares
urbanos que apresentam, como eixo determinante de suas reivindi-
cações, o processo crescente de exclusão dos benefícios da urbani-
zação.

Estas organizações sociais se transformam, também, em organizações de rei-


vindicações de ordem política e econômica, constituindo-se num importante
colégio eleitoral, capaz de eleger representantes na classe política, nicho este,
já detectado pelo narcotráfico que tem, nas últimas eleições, possivelmente,
patrocinado a eleição destes representantes. É inegável a preocupação do
Estado com o aumento da influência e participação destas pessoas.
Especificamente, no caso da América Latina, a maioria da população tem
baixo salário, condições precárias de trabalho, pouca perspectiva de ascensão
no trabalho, ineficiência da ação do Estado e, mais recentemente, o domínio
do narcotráfico que assumiu o vazio deixado por aquele que, constitucional-
mente, deveria dar aos cidadãos o mínimo de dignidade. Diante de tal força
social, e mesmo da violência, o governo não consegue conter os assenta-
mentos ilegais e, também, não cria condições financeiras para resolver estes

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
85

problemas. Estes assentamentos produzem o aumento expressivo da densi-


dade populacional da cidade e traz consigo o crescimento da informalidade.
Para Dickenson (1983), todos esses fatores terminam por produzir uma mar-
ginalidade, que é o distintivo da urbanização dos países do chamado “Terceiro
Mundo” e que traz consigo o emprego informal, a existência de moradias pre-
cárias e, também, mais recentemente, moradores ilegais, ou seja, de imigrantes
originários de países mais pobres para regiões de alta concentração de necessi-
dade de mão de obra não qualificada.
Segundo Matias (2004, p. 179), “o que parece é que sempre continuará exis-
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tindo segregação sócio-espacial, apropriação irregular do território, ampliação da


periferia urbana, ruptura da solidariedade, dialética entre integrados e os excluídos
e daqueles excluídos dentro dos países integrados” num cenário realista, mas um
tanto catastrófico, inserido dentro da própria crise do capitalismo, com reflexos
diretos na ocupação do espaço geográfico e na restrita possibilidade de aquisição
deste, ou seja, com a crescente valorização imobiliária de áreas com condições
de habitação e a restrição de consumo imposta à classe baixa, devido aos salários
defasados e a falta administrativa dos problemas sociais pelo Estado, caminha-
mos para um conflito caótico, entre o direito à propriedade, defendido com todo
o vigor pelas normas jurídicas e o direito à dignidade humana, exposto apenas
como uma forma política de esperança àqueles que perderam todos os seus direi-
tos, inclusive um dos mais elementares, o de ter direito a uma moradia digna.
Finalizando, todo problema de ordem social é, antes de tudo, um problema
de ordem política, se é de ordem política é preciso analisar; primeiro, se as teorias
políticas não contemplaram a análise destes problemas; segundo, se contem-
plaram e não se aprofundaram nestes problemas; terceiro, se contemplaram, se
aprofundaram no enfrentamento deste problema, onde ocorreram os desvios,
que não permitiram apresentar soluções, ainda que transitórias, para os mesmos.
Nos dias atuais, entre estes grupos excluídos e que tiveram uma forte ascen-
são de ordem social e mesmo política, podemos citar o MST (Movimento dos
Trabalhadores Sem Terra), o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto),
os Movimentos Sindicais, entre os quais, se destaca mais recentemente, a con-
quista dos direitos trabalhistas das empregadas domésticas, que estavam e, em
parte, continuam inseridas dentro dos chamados grupos sociais excluídos.

Os Grupos Sociais Excluídos


86 UNIDADE III

A CONSTITUIÇÃO DO ESTADO MODERNO: DO IDEAL


DE LIBERDADE PARA O PRINCÍPIO DA DIGNIDADE
DA PESSOA HUMANA

É inegável que a relação entre a Ciência Política e o Direito Constitucional é intrín-


seca, sendo assim, vários de seus temas são comuns e precisam ser tratados sob
a perspectiva das teorias políticas e aquelas plasmada na Constituição. Não se
pode mais separar Estado, cidadão, dignidade humana, liberdade, como temas
isolados e que requerem soluções particulares, sendo assim, o tema proposta é

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procurar justificar o porquê desta aproximação e seu reflexo numa construção
crítica acerca destas relações.
Diferente de outros momentos em nosso Curso, aqui dividimos o tratamento
dos temas, de modo a dar uma definição clara de que o mesmo se propõe a ana-
lisar o tema e propor uma forma de enfrentamento do mesmo e não, como o
fora em outros momentos, o tratamento de teorias específicas que representa-
vam o pensamento de autores consagrados, sendo assim, é sob esta perspectiva
que se deve ler o presente tópico. Pode-se se dizer que é uma síntese crítica de
tudo que estudamos até o presente momento.
Ao mesmo tempo que o Estado Moderno possibilitou avanços no mundo
da ciência e das relações entre os Estados, acabou trazendo, também, uma série
de problemas sociais, que foram resultado da sua estrutura interna.
Quando se fala na formação do Estado Moderno, tal qual entendemos nos
dias atuais, tem a sua origem no século XVI. Ao menos na França e na Inglaterra,
a Constituição é um dos elementos jurídicos que irão definir a estrutura do
Estado como um todo, apresentando, assim, fundamentos para sua legitimi-
dade (SKINNER, 1996, p. 10).
De acordo com Canotilho (2003, p. 52), a Constituição Moderna é “um
documento escrito no qual se declaram às liberdades e os direitos e se fixam os
limites do poder político”.
Para que possamos compreender a formação do Estado Moderno, faz-se
necessária uma análise sobre a passagem da medievalidade para a modernidade,
tendo, assim, o Renascimento Italiano como um período de transição, que con-
tribuiu para o estabelecimento do mundo jurídico, como temos nos dias atuais.

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
87

Para Skinner (1996), foi a necessidade da liberdade de se autogovernar que impe-


liu as cidades no norte da Itália.
Ao analisarmos a história da liberdade, acabamos associando com as condições
de produção e consumo, ou seja, o homem é livre enquanto tem possibilidades
de se tornar um agente de consumo. Todavia, no que diz respeito a produção,
pode ter um alto grau de liberdade quando se encontra no ápice da hierarquia
produtiva, ou seja, quando possuía posse da propriedade, visto que é um meio
material necessário à produção.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

A RELAÇÃO ENTRE PRODUÇÃO E LIBERDADE NA


CIVILIZAÇÃO CLÁSSICA

Aparentemente, na Grécia clássica, não há uma teoria específica sobre o conceito de


liberdade, visto que se entendia que essa parte das categorias essenciais que cons-
tituem o homem se realiza na vida em sociedade, ou seja, o movimento acontece
não pela discussão da liberdade, mas pelas fundamentações que são apresentadas.
A liberdade, nesse período, estava inserida no campo da política, com toda a
característica desta atividade humana, sendo nessa civilização que encontramos
os fundamentos que, até hoje, regem o mundo ocidental, de forma mais especí-
fica, os países que vivem num Estado Democrático de Direito.
Nas obras clássicas, A República de Platão (1999) e Política de Aristóteles
(1998), a liberdade não era uma categoria a ser explorada e muito menos tan-
genciada, já que a primeira obra buscava a construção de uma pólis bela, onde
a coesão social era garantida por uma epistemologia da justiça e o Rei-Filósofo
era aquele de posse de algum conhecimento ontológico, onde o homem era ins-
truído pela paidéia, sendo conduzido à pólis.
Os conceitos buscados, tanto de justiça quanto de conhecimento, encontram-
-se no mundo das ideias, podendo ser concretizados dentro das necessidades
do homem.

A Relação Entre Produção e Liberdade na Civilização Clássica


88 UNIDADE III

Ao buscar a cidade ideal, Platão, em sua obra A República, seguiu as caracte-


rísticas próprias de sua dialética (ou resultantes da influência socrática), iniciando
a definição conceitual do que vem a ser justiça, passando pela necessidade da
paidéia, até chegar à pólis. Todavia, Aristóteles tem uma posição diferente em
sua obra Política, iniciando a busca pela construção de suas ideias, procurando,
assim, definir o que vem a ser a pólis, conceituando inicialmente como “con-
junto de uma comunidade de cidadãos” (ARISTÓTELES, 1988, p. 49), sendo
resultado das relações entre o casal, depois a família, a aldeia e, por fim, a pólis
propriamente dita.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Na ideia de Aristóteles (1998), a pólis existe para proporcionar ao homem
uma vida boa, feliz, que será o resultado de uma ação coletiva, já que a felicidade
é um ideal individual e se realiza somente quando passa a ser autossuficiente no
campo político.
A polis era formada pelo conjunto de famílias, que existiam em função de
uma relação de propriedade, de uma necessidade de produção e administração
dos resultados da transformação do trabalho. Sem a propriedade, inclusive a dos
escravos, “só não pode se viver como não se pode viver bem” (ARISTÓTELES,
1998, p. 59), estabelecendo um vínculo forte entre a necessidade de produção e
a realização da felicidade contingente.
Para Platão e Aristóteles, não se pode tratar a liberdade como um elemento
isolado, nem como um constitutivo imperioso a ser conquistado antes dos demais.
As relações entre a necessidade de produção e o homem não são prima-
zias nem de Platão e de Aristóteles, mas já foi construída pela cultura grega. O
que se deve deixar claro é que, a partir desse estudo, percebe-se que o homem
pode consumir o resultado do seu esforço, visto que, em momentos de dificul-
dade, toma do outro, devendo devolver o mais urgente possível e na medida
igual ou superior à tomada, procedendo, assim, que este homem é justo e hon-
rado. Os excessos devem ser punidos pela justiça e o equilíbrio acaba sendo
restabelecido.
Enquanto no mundo grego existia a predominância do pensamento mítico,
o homem ainda tinha esperanças de que o ideal de liberdade fosse obtido junto
aos deuses, visto que não havia intermediários nas suas relações. Com a pas-
sagem desse pensamento, a tarefa de conduzir e gerenciar as relações entre as

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
89

diversas fontes de discórdias, próprias da vida em sociedade, iniciando assim o


esboço da ideia de Estado, ainda que seja limitado pelas contingências da época.
No período clássico, não havia liberdade individual, sendo, inclusive, que a
valentia era um determinante da lei.
Com o fim do Império Romano e o início da Idade Média, houveram mudan-
ças significativas em praticamente todas as relações sociais e produtivas que
compõe a história. Era um período marcado por uma cumplicadade suspeita
entre a classe dominante e a elite religiosa cristã, cuja arma de controle era o
pecado e o terror era a forma de contenção dos supostos excessos ocorridos.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Deve-se evidenciar que não há mais uma civilização unida pela cultura, pela
língua e pela origem mítica, como acontecia no caso do mundo grego. A Europa
passou a ser fragmentada em pequenas extensões de terra, formando assim feu-
dos, que eram unidos pela figura de um monarca, a qual os senhores feudais
deviam parte de sua obediência (ECO, 1980).

O ESTADO MODERNO E A CONSTITUIÇÃO: A


MATERIALIZAÇÃO DO HOMEM

A Revolução Francesa de 1789 serviu como um modelo ideal de revolução para


outras regiões da Europa e do mundo, visto que marcou a diluição dos poderes
da nobreza e do clero, com o surgimento do chamado Terceiro Estado (MAGEE,
1999, p. 123), que passou a exigir um voto igualitário, sendo, assim, capaz de
garantir os desejos e anseios da maioria, que até então eram desprezados. Até
aqui temos uma convivência pacífica entre o liberalismo e o autoritarismo, em
que o primeiro criava as fundamentações filosóficas e políticas para a defesa da
propriedade e da existência de um soberano, com o intuito de dirigir as forças
dos homens comuns, enquanto o segundo usava uma suposta legalidade e tam-
bém uma legitimidade infundada, com o intuito de justificar o uso da força bruta
como forma de conformar o povo com a sua condição.

O Estado Moderno e a Constituição: a Materialização do Homem


90 UNIDADE III

A Revolução Francesa foi uma revolução arquitetada pela burguesia, mas


que, na prática, foi realizada pelo povo. Em verdade, a burguesia buscou ampliar
seus direitos e a garantia de sua propriedade, que passou por um choque com
uma nobreza decadente e endividada e que se recusava a sair de sua categoria
(ECO, 1999).
Sieyes (2001, p. 3) fundamentou a existência e importância do chamado
Terceiro Estado nominando como “um homem forte e robusto que está com um
braço preso” e que seria a nação constituída de homens de todas as classes que
vivem sob a mesma lei, não podendo dar privilégios a alguns.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Um conceito de Constituição seria que ela representa uma vontade geral,
seja resultado de uma Assembléia constituída especificamente para este fim, ter
em seu corpo constituinte representantes dos mais diversos segmentos da socie-
dade, onde o resultado da constituição não deve ser a expressão de uma vontade
particular, mas sim a vontade soberana de uma nação, ou seja, a unidade polí-
tica (DUSO, 2005).
Assim, uma das características do Estado Moderno é possuir um ordena-
mento jurídico, em que a Constituição seja a lei maior e de onde deverá derivar
as demais normas. Canotilho (2003) tem por objetivo garantir a liberdade dos
cidadãos, o acesso aos direitos, mais individuais do que coletivos, limitando o
poder político, por meio de um sistema de contrapeso entre os poderes.

MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
91

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta unidade buscamos compreender o que vem a ser a mundialização e a glo-


balização. Atualmente, tanto o termo globalização quanto mundialização têm se
tornado de uso corrente, em grande parte das áreas do conhecimento, mostrando
que todos os países, ainda que indiretamente, possuem uma ligação.
Todavia, faz-se necessário esclarecer o que vem a ser essas duas expressões
que, em verdade possuem similitude no significado, quando analisamos que a
mundialização é para os anglo-saxões e a globalização acaba sendo utilizada nos
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

países da América Latina.


Feita essas considerações, passamos a analisar os grupos sociais excluídos.
Como visto, a Ciência Política não pode mais se ater a tratar de questões perti-
nentes às teorias políticas, desvinculando-se das análises e reflexos ou não destas
mesmas na sociedade como um todo.
Como bem sabemos, ainda que estejamos em uma democracia, a existência
de problemas de ordem social está intrinsecamente associada com a relação entre
a teoria e a prática, ou seja, não podendo se limitar a um simples documento.
Os grupos sociais, uma vez que estão bem definidos, podem nos revelar
aspectos positivos ou negativos da política interna de um país, como este faz para
enfrentar seus problemas, qual o comportamento jurídico do mesmo, buscando
tratar dos interesses destes grupos. Sendo assim, a forma como determinado país
enfrenta problemas pertinentes a estes grupos sociais e outros acaba possibili-
tando que a Ciência Política realize projeções, fornecendo, assim, subsídios para
o tratamento e enfrentamento destes problemas.

Considerações Finais
92

1. A globalização ou mundialização é um tema que assume uma importância


significativa a partir do século XX. Em qualquer área do conhecimento e da
própria experiência humana, não há como fugir deste processo. Sobre o surgi-
mento desse fenômeno social, assinale a alternativa correta:
a) Caso o Estado não tenha interesse ele consegue abrir mão desse fenômeno
que é a globalização ou mundialização.
b) Mundialmente, não se tem notícias de nenhum movimento social contra a
globalização.
c) O termo globalização e mundialização, ainda no século XXI, não é muito
falado em grande parte das civilizações.
d) Ao se falar na globalização ou mundialização, em seu aspecto econômico
e político, assume-se uma conotação de integração cada vez maior com as
empresas transnacionais, num contexto mundial de livre-comércio e de di-
minuição da presença do Estado, de uma forma que permite que as empre-
sas operem simultaneamente em muitos países.
e) Nenhuma alternativa está correta.

2. O termo mundialização está diretamente ligado à produção, distribuição e


consumo de modo rápido, fazendo parte da ótica capitalista. Uma outra de-
finição para esse termo é que ele se trata de uma interpenetração de relações
econômicas e financeiras, com uma dimensão planetária, em que os Estados
Unidos figuram como o pólo dominante. Sobre essas duas definições de glo-
balização analise as assertivas abaixo:
I. Essas duas definições não se completam, visto que a primeira aponta de
forma mais superficial o movimento interno do termo.
II. As duas definições apresentadas se completam, pois enquanto a primeira
aponta de forma mais precisa o movimento interno do termo, a segunda
nos apresenta o principal agente de suas intenções.
III. O Japão é o país mais forte desse mercado globalizado, visto que consegue
produzir em larga escala, com baixos custos de produção, além da prática
legalizada da pirataria existente nos seus setores de produção.
Assinale a alternativa em que as assertivas corretas são:
a) I e II, apenas.
b) II, apenas.
c) III, apenas.
d) I e III, apenas.
e) I, II e III.
93

3. A globalização sob o ponto de vista geográfico, não é um fenômeno isolado,


mas estabelece uma ligação entre o espaço geográfico e o setor produtivo re-
sultante de sua exploração. A noção da globalização é uma maneira de subli-
nhar a persistência de um registro espacial de fenômenos econômicos. Sendo
assim, no que diz respeito a globalização no aspecto geográfico, assinale a al-
ternativa correta:
a) A instalação de “empresas transnacionais” diz respeito a implantação de um
tentáculo capitalista, onde os objetivos estão intrinsecamente condiciona-
dos aos objetivos da matriz da empresa.
b) A globalização trata de um conjunto de alterações que aumentam os cons-
trangimentos geográficos.
c) O espaço geográfico pode ser pesado para a sociedade no que diz respeito
aos recursos disponíveis na sociedade.
d) Um aspecto negativo sobre a globalização geográfica é o intercâmbio co-
mercial e cultural entre as nações.
e) Nenhuma das alternativas anteriores está correta.

4. Ainda que se fale em uma globalização, devemos ressaltar que o mercado vir-
tual está desregulamentado.O Estado já não controla mais a economia, o que
faz com que a sua própria dívida interna seja vítima da globalização. Sobre o
assunto, analise as assertivas abaixo:
I. Foi o colapso da União Soviética e a queda do Muro de Berlim que fizeram
com que o mundo perdesse a possibilidade de ter um outro “referencial
conceptual”.
II. A globalização criou pólos de produção de baixa tecnologia e baixa produ-
tividade, competitividade e baixa necessidade de mão de obra.
III. A virtualização do capital, junto com a tecnologia, produziu o desacopla-
mento dos mercados financeiros de economia real.
Assinale a alternativa em que as assertivas corretas são:
a) I e III, apenas.
b) I e II, apenas.
c) II, apenas.
d) II e III, apenas.
e) I, II e III.
94

5. Como resultado imediato da globalização, temos “o novo quadro das relações


sociais advindo da globalização, mostrando-se necessário unir países, às vezes
até abrindo mão de certos aspectos da soberania nacional” (FAUSTO, 2005, p.
89), que fez com que surgisse o Mercosul e a Alca, no que diz respeito a Améri-
ca Latina. Sobre os resultados gerados pela globalização, analise as assertivas
abaixo:
I. A globalização acentuou a necessidade do aumento da produtividade e da
redução de custos e a padronização de consumo.
II. Fez-se necessário um aumento da produção, não importando as relações
que se estabelecem com os outros e nem com a condição de exploração
irracional do espaço geográfico.
III. A globalização não promoveu nenhum tipo de influência na política, seja
ela global ou mundial.
Assinale a alternativa em que as assertivas corretas são:
a) I e II, apenas.
b) II e III, apenas.
c) I e III, apenas.
d) I, apenas.
e) I, II e III, apenas.
95

O Que é a Mundialização do Capital


[...]
Uma série de indicadores macroeconômico da década de 90 apontam que a economia
mundial ainda mantém-se ainda no interior do que Mészáros salientou como sendo um
continuum depresso (uma longa depressão permeada por momentos de desaceleração,
recessão e crescimento não-sustentado das economias capitalistas). É a partir daí que
Chesnais irá concluir que estamos diante de um novo regime mundial de acumulação
do capital, que alterou, de modo específico, o funcionamento do capitalismo. Ele irá
denominar a nova etapa do capitalismo mundial, na falta de uma denominação melhor,
de “regime de acumulação predominantemente financeira”, que caracteriza a “mundia-
lização do capital”. Ela é, segundo ele, “algo mais – ou mesmo outra coisa – do que uma
simples fase a mais no processo de internacionalização do capital iniciado há mais de
um século” (CHESNAIS, 1997).
Quais os traços marcantes da macroeconomia do capitalismo mundial na década de
90 que, segundo Chesnais, caracterizam o novo regime de acumulação predominante-
mente financeira, denominado de mundialização do capital?
1. Taxas de crescimento do PIB muito baixas, inclusive em países (como o Japão) que
desempenharam tradicionalmente o papel de “locomotiva” junto ao resto da economia
mundial.
2. Deflação rastejante.
3. Conjuntura mundial extremamente instável, marcada por constantes sobressaltos
monetários e financeiros.
4. Alto nível de desemprego estrutural
5. Marginalização de regiões inteiras em relação ao sistema de trocas
6. Concorrência internacional cada vez mais intensa, geradora de sérios conflitos comer-
ciais entre as grandes potências da “Tríade” (Estados Unidos, Europa Ocidental e Japão).
[...]
96

A característica predominante do novo regime mundial de acumulação capitalista é ser


rentista e parasitário, isto é, está, de modo crescente, subordinado às necessidades pró-
prias das novas formas de centralização do capital-dinheiro, em particular os fundos
mútuos de investimento (mutual investments funds) e os fundos de pensão (as caracte-
rísticas rentistas dizem respeito também ao capital produtivo). O poder, se não a própria
existência, deste capital-dinheiro é sustentado pelas instituições financeiras internacio-
nais, tais como FMI e Banco Mundial, e pelos Estados mais poderosos do planeta a qual-
quer que seja o custo.
[...]
É a partir daí que a ideologia da “globalização” – subjacente às políticas neoliberais – é
posta como a nova orientação capitalista, considerada como saída para a crise de 1974-
1975. Ao mesmo tempo, se desenvolve a ideologia do “progresso técnico”, que cultua
as novas tecnologias que serão utilizadas pelas corporações transnacionais, através do
novo complexo de reestruturação produtiva, para modificar suas relações com os traba-
lhadores e as organizações sindicais.
Portanto, o complexo de reestruturação produtiva e, principalmente, as políticas neoli-
berais, que se desenvolvem a partir dos anos 80, possuíam como objetivo claro destruir
as organizações sindicais, ou melhor, todas as instituições e relações sociais que colo-
cavam obstáculos à lógica da valorização do capital, instauradas a partir do primeiro
mandato de F. Roosevelt nos Estados Unidos e da vitória sobre o nazismo, na Europa
Ocidental:
Essas instituições e essas relações frearam a liberdade de ação do capital, garantindo
aos assalariados elementos de defesa contra seus empregadores e, graças ao pleno em-
prego, uma assistência social para a grande maioria da população em, pelo menos, três
pólos dos países industrializados. (CHESNAIS, 1997:24)
O triunfo atual do ‘mercado’ não teria sido possível sem as intervenções políticas repeti-
das de instâncias políticas dos Estados capitalistas mais poderosos (em primeiro lugar os
membros do G7). Por meio de uma articulação estreita entre o político e o econômico é
que as condições para a emergência dos mecanismos e das configurações dominantes
desse regime foram criadas.(CHESNAIS, 1997:23-24).
[...]
97

2.4 O capital financeiro


O conceito de “capital financeiro” utilizado por François Chesnais não é o mesmo utiliza-
do por Rudolf Hilferding em seu livro “O capital financeiro”, de 1910 (Rudolf Hilferding ,
economista social-democrata dos primórdios do século XX, foi um dos principais teóri-
cos do capitalismo financeiro que analisou a fusão clássica entre as finanças e a indús-
tria, isto é, a interconexão entre os bancos e a indústria). Na verdade, Chesnais incorpora
(e amplia) com novas determinações o conceito de “capital financeiro” (a única forma
de capital que não foi teorizada por Marx, apesar dele ter apresentado interessantes – e
atuais – considerações sobre o “capital-dinheiro” ou “capital monetário”)
O capital financeiro que predomina sob a mundialização do capital não consiste apenas
da integração entre o capital de financiamento, nas mãos dos bancos, com o capital
industrial, das corporações transnacionais. As instituições financeiras, que centralizam
massas importantes de capital-dinheiro e que cresceram em número e dimensão, por-
tanto, de maneira qualitativa, a partir dos anos 80, são as seguintes:
(1) grandes fundos de pensão por capitalização e fundos de aposentadoria anglo-sa-
xões e japoneses;
(2) os grandes fundos de aplicação coletiva privados e de gestão de carteiras de títulos
(os Fundos Mútuos de Investimento);
(3) os grupos de seguros, especialmente os engajados na “indústria” de pensões priva-
das e de aposentadorias complementares;
(4) os enormes bancos multinacionais, embora sua posição tenha baixado na hierarquia
mundial do capital.
[...]
Fonte: adaptado RIACHÃO (2008, on-line)1.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Ciência Política
Paulo Bonavides
Editora: Malheiros
Sinopse: um clássico da nossa literatura, alargando o conceito da Teoria Geral
do Estado, este livro é uma extraordinária explanação da matéria. Daí sua
excepcional acolhida, que se reflete nas sucessivas edições e tiragens de obra
destinada aos estudantes e aos estudiosos.
99
REFERÊNCIAS

BENKO, G. Mundialização da Economia, Metropolização do Mundo. São Paulo, Revis-


ta do Departamento de Geografia, n. 15, p. 45-54, 2002.
CANOTILHO, J. J. G. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7. ed. Coimbra,
Portugal: Livraria Almedina, 2003.
CORRÊAS, R. L. O Espaço Urbano. São Paulo: Ática, 1999.
DICKENSON, J. P. et all. Geografia del Tercer Mundo. Barcelona: Ediciones Omega,
1983.
DUSO, G. (org.). O poder: História da Filosofia Política Moderna. Trad. Andréa Ciacchi,
Líssia da Cruz e Silva e Giuseppe Tosi. Petrópolis, RJ: Vozes, 2005.
ECO, U. O nome da Rosa. São Paulo: Record, 1980.
FAUSTO, B. Entrevista. Programa: “Redemocratização”. Disponível em <[Link].
[Link]/seed/tvescola/historia/entrevista_7b.asp>. Acesso em: 25 out. 2017.
KURZ, R. A crise do sistema mundial e o novo vazio conceitual. Introdução do li-
vro Weltoednungskrieg. Tradução de Lumir Nahodil. Disponível em: <[Link].
[Link]/textos/krisis/rkurz/tx_rkurz_030.htm>. Acessado em: 25 out. 2017.
MAGEE, B. História da Filosofia. Trad. Marcos Bagno. São Paulo: Edições Loyola, 1999.
MATIAS, V. R. da S. Exclusão Social e Pobreza no Espaço urbano – O Pa-pel do Estado
na Sociedade Capitalista Brasileira: Contribuições para um Debate. In: Caminhos de
Geografia – Revista on-line do Instituto de Geografia da Universidade Federal de
Uberlândia – Programa de Pós-Graduação em Geografia. Vol. 13. Out/2004. Dispo-
nível em: <[Link]/caminhos_de_geografia.html>. Acesso em: 27 ago. 2018.
MENDES, D. Milton Santos: por uma globalização – A de todos. Brasília: Revista Política
Democrática, a. 1, n. 2, p. 191-197, 2001.
NAVARRO, Z. Globalização: do despotismo à emancipação?. Especial para “Gramsci e
o Brasil”. Disponível em: <[Link]/gramsci/[Link]>. Acesso em:
25 out. 2017.
ROUANET, S. P. As duas vias da mundialização. São Paulo: Folha de São Paulo, 30 jul.
2000.
SANTOS, M. Por uma globalização – do pensamento único à consciência universal. São
Paulo: Record, 2000.
SIEYÈS, E. J. A Constituinte Burguesa. Trad. Norma Azevedo. Rio de Janeiro: Editora
Lúmen Júris, 2001.

REFERÊNCIA ONLINE

Em: <[Link] Acesso em: 31 jan. 2018.


1
GABARITO

1. D.

2. B.

3. A.

4. A.

5. A.
Professora Me. Mariane Helena Lopes

IV
FORMAS DE GOVERNO E

UNIDADE
REGIMES POLÍTICOS NO
MUNDO CONTEMPORÂNEO

Objetivos de Aprendizagem
■■ Conhecer a Autocracia.
■■ Entender a democracia.
■■ Compreender a democracia liberal.
■■ Analisar a democracia não-liberal.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Autocracia
■■ Democracias
■■ Democracia liberal: parlamentarismo ou presidencialismo
■■ Democracia não-liberal
103

INTRODUÇÃO

Nesta unidade, passaremos a tratar sobre as formas de governo e os regimes


políticos no mundo contemporâneo. Para tanto, precisamos fazer uma análise
minuciosa do que vem a ser cada um deles.
Inicialmente, trataremos da autocracia. Como veremos, essa forma de governo
é chamada, também, de ditadura. Ela proporciona um governo absoluto, possi-
bilitando um poder ilimitado sobre os súditos. Ela tem como objetivo dar mais
agilidade e poder de decisão em momentos cruciais, durante a existência de um
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

povo. Assim, pode-se dizer que o povo romano era um povo que tinha como
essência serem guerreiros.
Já, a democracia foi uma invenção do povo grego, que queria controlar o
poder dado aos governantes e, ao mesmo tempo, exigir uma participação do
próprio povo, nas decisões de ordem coletiva.
Aqui, devemos tomar cuidado para não confundir a Democracia com a
República. A primeira é uma forma de governo, que permitiu que a sociedade
tivesse mais liberdade do que nas autocracias e que seus governantes fossem
escolhidos pela mesma. Enquanto República quer dizer coisa pública, ou seja,
que pertence a todos mas não é de ninguém.
Feita essa diferenciação, analisaremos as características da Democracia, bem
como suas classificações, diferenciando-as umas das outras.
Lembrando que, aqui, o nosso foco é exclusivamente científico, sem o obje-
tivo de uma discussão política a respeito do tema.

Introdução
104 UNIDADE IV

AUTOCRACIA

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Ditadura ou autocracia, segundo Norberto Bobbion (1998b, p. 48), assumem,
ao longo da história, o mesmo significado, pois uma autocracia
[...] uma autocracia é sempre um Governo absoluto, no sentido de que
detém um poder ilimitado sobre os súditos. Além disso, a autocracia
permite que o chefe do Governo seja de fato independente, não somen-
te dos seus súditos, mas também de outros governantes que lhe estejam
rigorosamente submetidos.

Norberto Bobbio (1998b, p. 48), no seu Dicionário de Política, nos apresenta


que Autocracia e Ditadura têm o mesmo significado e faz uma extensa defini-
ção sobre o tema, partindo do termo ditadura no Império Romano, chegando
até os dias atuais. Este dicionário nos ensina que o termo ditadura, “[...] tem sua
origem na dictatura romana. O significado moderno da palavra é, porém, com-
pletamente diferente da instituição que o termo designava na Roma republicana”,
portanto, o conceito sofre mutações até chegar aos nossos dias.
Para Norberto Bobbio (1998b, p. 48),
[...] a Ditadura romana era um órgão extraordinário que poderia ser
ativado conforme processos e dentro de limites constitucionalmente
definidos, para fazer frente a uma situação de emergência. O ditador
era nomeado por um ou por ambos os cônsules, em consequência de
uma proposta do Senado, ao qual cabia julgar se a situação de perigo
fazia realmente necessário o recurso à Ditadura.

O objetivo principal era dar maior agilidade e poder de decisão em momentos


cruciais durante a existência de um povo, que se caracteriza notoriamente pela
sua belicosidade. Neste sentido, pode-se dizer que o povo romano era um povo

FORMAS DE GOVERNO E REGIMES POLÍTICOS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO


105

naturalmente guerreiro. A guerra se constituía na forma de Roma que demons-


tra seu poder aos seus vizinhos e outros povos, sendo mais preparados para a
guerra do que para a paz. Aliás, os períodos de paz tiveram muita turbulência
externa, normalmente provocada pelos soldados que jamais se ambientavam, na
sociedade, de forma pacífica.
A ditadura possui nuances próprias de uma forma de governo, onde, na
maioria das vezes, idolatra-se a figura de uma pessoa, que traz junto de si um ar
messiânico, de salvador, de alguém que irá retirar o povo da condição em que
se encontra para conduzi-los ao governo perfeito, ideal; às vezes, essa figura
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

messiânica surge a partir de instituições do próprio Estado, como foi o caso do


período da ditadura militar no Brasil. Aqui, já de distinguir duas formas dife-
rentes de ditadura, a saber, a civil e a militar, o que caracteriza uma ou outra é
a presença de um civil ou de um corpo militar no comando do Estado, mas, de
qualquer forma, pode-se afirmar, com bastante precisão, que toda e qualquer
ditadura precisará, sempre, de um grande apoio militar. A razão é que, normal-
mente, os primeiros momentos destas mudanças, implicam em romper a ordem
estabelecida e a partir dos supostos ideais que moveram a ditadura, seja criada
uma nova ordem.
Segundo Bobbio (1998a, p. 371), “[...] a Ditadura apresenta, preferivel-
mente, uma ruptura da tradição. Instala-se utilizando a mobilização política de
uma grande parte da sociedade, ao mesmo tempo que subjuga com a violência
uma outra parte”. Não se faz mudanças radicais no Estado, senão com apoio de
parcela significativa da sociedade, ainda que, segundo nos ensina Marx, quem
espera que uma revolução faça milagres logo após a sua realização, estará fadado
a entrar em depressão, logo após a mesma, como acabou por acontecer, na his-
tória da Comuna de Paris. Continuando a linha de pensamento desenvolvida
por Norberto Bobbio (1998, p. 67), uma outra característica resultante do esta-
belecimento de uma ditadura é que a mesma,
[...] não pode garantir sua continuidade, de modo ordenado e regular,
nem com o processo democrático, de que é a negação, nem com o prin-
cípio hereditário, que contrasta com as condições políticas objetivas e
com sua pretensão de representar os interesses do povo. Daí o caráter
precário das regras de sucessão no poder.

Autocracia
106 UNIDADE IV

Sendo assim, o que a persegue durante todo o seu tempo é a instabilidade e


inexistência de regras claras sobre a sucessão do poder, acaba por gerar sem-
pre a expectativa de quem assumirá o mesmo, após a morte inevitável de seus
idealizadores.
A preocupação com as regras de sucessão e a continuidade do poder, levou
inúmeras ditaduras ao seu fim, num curto espaço de tempo, enquanto que outras,
utilizando-se um pouco mais perspicácia política, tomaram as medidas neces-
sárias, preparando o seu sucessor, como é o caso de Cuba, onde Fidel Castro, de
longa data, prepara seu irmão Raul Castro para sucedê-lo no poder.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Outro exemplo, nesta mesma linha de pensamento, é a China, que não perso-
nalizou o poder depois de Mao Tse Tung, mas estabeleceu regras para a sucessão
do poder, o que permite a continuidade da mesma, dentro de uma certa tranqui-
lidade, embora, para a Ciência Política, a China tenha que ser melhor estudada
e com outras perspectivas e modelos, diferentes daqueles predominantes nos
dias atuais.
Depois de realizar uma construção histórica das nuances e significados que
a ditadura assume, ao longo da história da humanidade, Bobbio (1998b, p. 73)
afirma que na modernidade,
Com a palavra Ditadura, tende-se a designar toda classe dos regimes
não-democráticos especificamente modernos, isto é, dos regimes não-
-democráticos existentes nos países modernos ou em vias de moder-
nização (com que se podem assemelhar também as tiranias gregas dos
séculos VII e VI a.C. e alguns outros Governos surgidos na história
do Ocidente)” Sendo assim, o que ocorreu foi uma polarização entre
regimes democráticos e regimes não-democráticos, nominados como
ditadura, ou ainda, autocracias.

De forma histórica e assumindo o conceito que se introduz na modernidade, é pos-


sível verificar que, na realidade, a humanidade tem uma experiência democrática
muito recente, pois o que prevaleceu, de forma mais intensa, foram os governos
exercidos nos moldes da ditadura, a própria história da Grécia Antiga nos faz
constatar essa observação. Mesmo no Brasil, de forma muito precária, a demo-
cracia se instala com a Proclamação da República em 15 de novembro de 1889,
sendo assim, em 514 de história, vivemos, voltamos a insistir, de forma precária,
temos apenas 125 anos de vida democrática, pouco mais de 20% de nossa história.

FORMAS DE GOVERNO E REGIMES POLÍTICOS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO


107

Como contradição da própria democracia, numa ditadura, a escolha de


quem irá governar e as suas condições de governo não estarão disponíveis para
a escolha dos governados, mas, normalmente, impostas pelas forças que compõe
o poder, embora, em alguns casos, governos tentam dar um certo ar de demo-
cracia ao seu país, instituindo eleições com cartas marcadas e impossibilitando,
ou tornando impossível o surgindo de candidatos de oposição, é que se costuma
chamar na Ciência Política de “falsa democracia”.
Seguindo a linha de raciocínio desenvolvida por Coelho (2010, p. 88), “as
autocracias, ou ditaduras se dividem em: Regimes Autocráticos Totalitários,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Regimes Autocráticos Autoritários, Regimes Autocráticos Liberais”. A diferença


entre um e outro se caracteriza, necessariamente, pelo maior ou menor grau de
liberdade política, civil e mesmo econômica, que o povo possa ou não ter.
Com relação à Ditadura Totalitária, ou Regimes Autocráticos Totalitários,
segundo Bobbio (1998b, p. 82), “emprega, além dos meios coercitivos tra-
dicionais, o instrumento peculiar do partido único de massa, tendo assim
condições de controlar completamente a educação e os meios de comunicação
e também as instituições econômicas”, deixando o espaço para o exercício da
liberdade, praticamente restrito ao ambiente familiar, ressalvando casos histori-
camente conhecidos, principalmente na extinta União das Repúblicas Socialistas
Soviéticas. Mais recentemente na Coréia do Norte e mesmo em Cuba, a infil-
tração de espiões da chamada “polícia secreta”, ou nome equivalente, em meios
familiares, inclusive com a cooptação de pais e filhos, estabelecendo, pratica-
mente, um regime de terror, em que não existe confiança, nem no ambiente
familiar.
Já a Ditatura Autoritária, ou Regime Autocrático Autoritário, também cha-
mada de Ditadura Simples,
[...] baseia-se nos meios tradicionais do poder coercitivo (exército, po-
lícia, burocracia, magistratura), possuindo, por isso, escassa capacidade
de propaganda e penetração direta nas instituições e nos grupos so-
ciais, conseguindo apenas reprimir a oposição aberta e contentando-se
com uma massa apolítica e com uma classe dirigente disposta a colabo-
rar (BOBBIO, 1998, p. 79).

A ditadura é mais branda e ainda permite um pequeno grau de liberdade às pes-


soas, como foi o caso do período da ditadura militar no Brasil.

Autocracia
108 UNIDADE IV

Na visão de Coelho (2010, p. 102), quando trata do chamado Regime


Autocrático Liberal tem o seu surgimento, depois de um longo período de
luta contra as monarquias absolutistas, com a diminuição e delimitação do
poder do rei, instituindo, assim, as chamadas Monarquias Liberais, que, na
realidade, precederam as democracias modernas. Apresenta-nos, então, algu-
mas características destas Monarquias Liberais, entre os quais se destacam
por terem regras básicas de organização do Estado; direitos civis; e direitos
políticos. Admitem a existência do que Max Weber chamaria de uma buro-
cracia estatal, capaz de dar o suporte técnico necessário e os cargos não mais

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
seriam concedidos aos amigos dos reis, que não fossem aptos ao exercício dos
mesmos. Incorporam, do Direito Romano, questões fundamentais de direitos
civis, reconhecendo, por exemplo, questões pertinentes ao direito de família
e o estabelecimento de sucessão para os bens dos homens. Das ideias advin-
das, principalmente, de John Locke, incorporam alguns direitos políticos,
como, por exemplo, na Inglaterra, a possibilidade de participar da eleição da
Baixa Câmara.
O segundo aspecto é que se caracteriza por ser o “império da lei; e divi-
são de poderes” (COELHO, 2010, p. 102). Em outras palavras, o rei pode, mas
não pode tudo, estabelecido inicialmente, na Inglaterra, pela Magna Carta de
João Sem-Terra - que impôs limites ao poder do rei, desfigurando a persona-
lidade do poder absoluto do rei. Quanto à divisão dos poderes, na maioria das
vezes, ocorrerá apenas de forma simbólica, como, por exemplo, na maioria des-
tas Monarquias Liberais, embora existisse o Parlamento, ele tinha muito mais
caráter consultivo do que poder para realmente propor as leis e exigir o seu
cumprimento por parte dos reis. O próprio Brasil Monárquico passou por esta
experiência e, embora, o Parlamento pudesse elaborar leis, a sua aprovação final
é um poder discricionário do Imperador.
Já no tocante aos direitos civis, os mesmos estavam inseridos no seguinte
rol: “liberdade de expressão; liberdade de reunião; liberdade de religião; liber-
dade de ir e vir; e direito à propriedade” (COELHO, 2010, p. 102), experiência
essa vivenciada, principalmente, pela Inglaterra de longa data. Talvez este seja
o fato de as teorias de John Stuart Mill ao defender estas prerrogativas, tenham
causado muito mais furor e preocupação em outras regiões da Europa do que na

FORMAS DE GOVERNO E REGIMES POLÍTICOS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO


109

própria Inglaterra. No século XIV e posterior, a própria Holanda já vivenciava


estes tipos de liberdades, em consequência disto, transformou-se no refúgio de
vários filósofos, cientistas e mesmos líderes religiosos da Europa.
E, finalmente, os chamados direitos políticos, assim elencados: “direito à
representação política; direito a voto limitado aos homens instruídos e proprie-
tários de bens; e direito das minorias” (COELHO, 2010, p. 102). Pressupostos
estes já defendidos também, por John Locke, John Stuart Mill e, portanto, não
nos apresenta nada como novidade.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

DEMOCRACIAS

Quando se trata do tema democracia, é preciso lembrar que a mesma foi uma
invenção do povo grego, como forma de controlar o poder dos governantes e,
ao mesmo tempo, exigir a participação do povo nas decisões de ordem coletiva.
Bobbio (1998a) faz uma descrição detalhada das supostas três fases do desen-
volvimento do conceito, passando pelo mundo clássico, medieval e chegando ao
moderno, distinções estas, que, neste momento, não entendemos ser necessário
para o desenvolvimento de nosso estudo. A questão proposta e desenvolvida pelo
referido autor é quanto a confusão aparente entre Democracia e República, princi-
palmente, advindo dos conhecimentos político de Maquiavel, já na modernidade.
Enquanto a democracia é a forma de governo em que as liberdades existem
em um grau muito superior às autocracias, uma outra característica fundamental
é aquela em que os governados, efetivamente, podem escolher os seus gover-
nantes e mesmo, participar de forma ativa das diversas estruturas que compõe o
Estado, além das questões pertinentes às divisões dos poderes. Já o conceito de
República, vem do latim res publica, que na realidade significa a coisa pública,
que pertence a todos mas não é de ninguém. Ao qual Cícero acresce o conceito
de cidadania, que se trata do exercício e participação da vida pública, de acordo
com os ideais do Império Romano.

Democracias
110 UNIDADE IV

Destarte, as discussões de cunho filosófico político sobre o assunto, na moder-


nidade, por meio das teorias política contemporâneas, é possível, mais uma vez,
segundo Bobbio (1998a), identificar pontos de concordância praticamente uni-
versal, que passaremos a tratar a partir deste momento.
O primeiro, trata-se da efetividade e existência de um poder político, ou
seja, a existência de um “órgão político máximo, a quem é assinalada a função
legislativa, deve ser composto de membros direta ou indiretamente eleitos pelo
povo, em eleições de primeiro ou de segundo grau” (BOBBIO, 1998b, p. 99), em
outras palavras, fica clara a lição de que o poder pertence ao povo, que pode ou

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
não delegar a outras pessoas o seu exercício.
O segundo, refere-se à estrutura derivativas do poder político e necessárias
à própria organização interna do Estado, sendo assim, “junto do supremo órgão
legislativo deverá haver outras instituições com dirigentes eleitos, como os órgãos
da administração local ou o chefe de Estado (tal como acontece nas repúbli-
cas)” (BOBBIO, 1998b, p. 99), trata-se de um problema já resolvido pela Teoria
Federalista, que reconhece a figura política-jurídica dos Estados e Municípios e
sua independência para estabelecer a estrutura legislativa semelhante à da União.
O terceiro aspecto estabelece as condições para participação nas decisões
referentes ao Estado, tomando as eleições como forma de participação, portanto,
“todos os cidadãos que tenham atingido a maioridade, sem distinção de raça, de
religião, de censo e possivelmente de sexo, devem ser eleitores” (BOBBIO, 1998b,
p. 100), neste aspecto, o Brasil ampliou, ainda mais, este universo, quando per-
mitiu aos jovens, com mais de 16 anos, serem eleitores.
O quarto, trata-se de ampliar a igualdade e o peso do voto, evitando, assim, a
existência de votos com peso maior do que outros. A parcela de poder que cada um
tem, deve ser exatamente a mesma, conforme já defendia Jean Jacques Rousseau.
O quinto, trata-se da liberdade de opinião, sendo assim, “todos os eleitores
devem ser livres em votar segundo a própria opinião formada o mais livremente
possível, isto é, numa disputa livre de partidos políticos que lutam pela forma-
ção de uma representação nacional” (BOBBIO, 1998b, p. 101), caracterizando
assim, a prática da liberdade de opinião e mesmo expressão.
O sexto, preocupa-se em defender não apenas a liberdade de votar, mas a
liberdade para ser colocada outras possibilidades à sua disposição, sendo assim,

FORMAS DE GOVERNO E REGIMES POLÍTICOS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO


111

“devem ser livres também no sentido em que devem ser postos em condição de
ter reais alternativas (o que exclui como democrática qualquer eleição de lista
única ou bloqueada)” (BOBBIO, 1998b, p. 102 ). Não faz sentido uma democra-
cia, por pressões de ordem política e outras, que não tenha a possibilidade de ter
outros candidatos e que defenda opiniões diferentes.
O sétimo, traz como preocupação, a máxima de que constitui a democracia ori-
ginária do mundo grego, em que o que se deve levar em consideração é o desejo da
maioria numérica e não a suposta importâncias discriminatórias do voto, portanto,
[...] tanto para as eleições dos representantes como para as decisões do
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

órgão político supremo vale o princípio da maioria numérica, se bem


que podem ser estabelecidas várias formas de maioria segundo crité-
rios de oportunidade não definidos de uma vez para sempre” (BOB-
BIO, 1998a, p. 103 ).

Deixando claro, que numa democracia, deve-se preservar a possibilidade de


mudanças.
O oitavo ponto é uma preocupação de vários liberais que conheceram o
modelo de democracia americana, principalmente, Alexis de Tocqueville, em
que, “nenhuma decisão tomada por maioria deve limitar os direitos da minoria,
de um modo especial o direito de tornar-se maioria, em paridade de condições”
(BOBBIO, 1998b, p. 104), evitando-se, assim, que a vontade da maioria venha
a exterminar a existência das chamadas minorias. Esta preocupação também já
estava expressa no pensamento liberal de John Stuart Mill, que esperava, como
o voto seletivo, ou seja, somente as pessoas educadas e preparadas poderiam
votar, enfrentar este tipo de problema.
E, finalmente, o nono ponto destacado por Norberto Bobbio (1998b), que
trata da credibilidade que as instituições públicas, notoriamente aquelas de cará-
ter político, deve ter junto às demais instituições e ao povo. Nesse sentido, se
o voto é um elemento importante para a democracia, a sensação de confiança
também contribui para o bom desenvolvimento de suas atividades, no entanto,
conforme nos alerta Alexis de Tocqueville, este grau de confiança não poder ser
tão elevado, a ponto de despertar nas pessoas um sensação de segurança sufi-
ciente para que a participação na política seja diminuída e, assim, ocorrer uma
diminuição e desinteresse por estas questões.

Democracias
112 UNIDADE IV

DEMOCRACIAS: DIRETA OU INDIRETA

Com relação à participação do povo propriamente dita, democracia pode ser direta
ou indireta, também conhecida como representativa. A democracia direta é aquela
em que o povo não delega a um terceiro, a possibilidade de tomar as decisões,
participando diretamente tanto da administração quanto da tomada de decisões.
É o modelo de democracia defendido por Rousseau e também por outros libe-
rais e que, nos momentos em que a Grécia usufrui desta forma de governo, foi o
praticado pelos gregos, principalmente na cidade de Atenas. O problema é que

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
este tipo de democracia exige uma participação intensa do povo e que, pratica-
mente, no modelo quantitativo, torna impossível a sua existência em sociedades
mais numerosas, principalmente num mundo moderno, caracterizado pelo modo
de produção capitalismo, em que as pessoas teriam que deixar os seus afazeres,
para se reunirem em locais específicos e discutir os assuntos de interesse geral e
depois aprovar ou não os mesmos. Defendendo este tipo de democracia, Rousseau
defende a ideia de que os homens não podem delegar aos outros, a responsabili-
dade de continuar defendendo as suas liberdades e outros direitos.
Quanto à democracia indireta ou representativa, é aquela que vivemos no
Brasil, ou seja, dependendo das divisões políticas administrativas internas, o
povo elege os vereadores para representá-los no legislativo municipal, deputa-
dos estaduais junto ao legislativo estadual e deputados federais e senadores junto
ao Congresso Nacional, além de prefeito, governador e presidente, que são car-
gos executivos. Sendo assim, delegamos a outras pessoas a possibilidade de nos
representar neste modelo de democracia.
Contudo, experiências mais recentes, principalmente na América Latina, têm
criado possibilidades de incremento para participação direta do povo nas deci-
sões do governo, como aquele, embora ainda polêmico, projeto da criação dos
Conselhos Populares pelo atual governo do Partido dos Trabalhadores. Uma espé-
cie de órgão consultivo junto ao poder executivo, que, representando determinados
segmentos da sociedade, pudesse, de forma direta, fornecer subsídios para que o
governo fosse mais ágil e preciso nas suas decisões. O que se alega, por contrarie-
dade, é que se isto acontecesse, estaríamos diminuindo a importância do poder
legislativo, pois estaria sendo criado um canal direto entre o povo e o governo.

FORMAS DE GOVERNO E REGIMES POLÍTICOS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO


113

DEMOCRACIAS LIBERAIS

O assunto ainda é polêmico, mas o Professor Ricardo Corrêa Coelho assume a


sua defesa e nos apresenta observações importantes sobre essa forma de demo-
cracia. De forma geral, pensamos que toda democracia assume, sempre, o tom
de ser liberal, em outras palavras, o conceito comumente aceito é que
democracias liberais são aqueles regimes em que o governo resulta da
escolha da maioria por meio de eleições periódicas, livres e justas e
que, ao mesmo tempo, conservam todas as características dos regimes
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

liberais quanto às regras básicas de organização do Estado e os direitos


civis e políticos dos seus cidadãos (COELHO, 2010, p. 113).

Já vimos que os governos liberais surgem antes dos governos democráticos e,


em alguns casos, criaram as primeiras referências para estes últimos, no entanto,
naquelas formas iniciais de governos liberais, caracterizados, normalmente, como
Monarquias Liberais, a participação e a importância do voto estava muito redu-
zida e quando acontecia, na esfera prática, os seus representantes tinham muito o
caráter de expressar o órgão que representava, como voz consultiva e não delibe-
rativa. Por mais de 200 anos, o Parlamento Inglês era apenas um órgão consultivo
e não poderia deliberar, porque a palavra final era sempre do rei.
Para Bobbio (1998b, p. 115) a democracia liberal “caracteriza-se pela divi-
são de fato e de direito do poder e pela transmissão da autoridade política de
baixo para cima”, em outras palavras, o poder sempre pertence ao povo e não
ao governante e o povo, por meio do voto, transfere ao governante, apenas o
dever de governar a todos, de forma a manter a sociedade coesa e administrar
os problemas oriundos desta vida em sociedade. Nesse sentido, a liberdade de
expressão, de opinião e de pensamento, caracteriza-se como instrumentos impor-
tantes para que o povo revele ao governo no que ele concorda ou não com suas
ações e forma de ser, como se, a todo momento, o povo tivesse a intenção de
corrigir os rumos do governo e, também, para lembrá-lo de que o poder per-
tence ao povo.
Seguindo esta corrente de pensamento, em uma democracia que seja liberal ou
não-liberal, os homens estão a ocupar os cargos sempre de passagem, o que perma-
nece e também não lhes pertence, são as instituições que eles momentaneamente

Democracias
114 UNIDADE IV

representam. É neste sentido que, em determinados casos, se não concordamos


com o pensamento dos homens, devemos, ao menos, respeitar as instituições
que eles representam.
Outra característica importante, principalmente nas democracias moder-
nas, é que normalmente os poderes estão tão bem distribuídos entre as
diversas instituições que compõem o Estado que, praticamente, nenhum
homem detém poder maior do que aquele que necessita para exercer a sua
função, é, na realidade, mais do que a simples teoria da tripartição de poderes
de Montesquieu. Conforme nos ensina Coelho (2010), em tempos recentes,

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quem tem tratado este assunto de forma mais específica é o americano Robert
Dahl (2008, p. 170), quando, na obra Poliarquia (1971), cria o conceito que é o
próprio título da obra, dizendo que “a democracia é um governo responsável
para todos os seus cidadãos, tendo a igualdade política como seu pré-requisito
básico. Esta condição implica o direito de todos terem poderes para formular,
expressar e ter preferências igualmente consideradas na conduta do governo”
(ABU-EL-HAJ, 2008, p. 169). Sendo assim, conforme destaca o cientista polí-
tico americano, mais do que direito, a democracia precisa de responsabilidade
por parte das pessoas e deve influenciar de forma contínua nas próprias deci-
sões do governo.
A obra de Robert Dahl (1915-2014) é um referencial para uma leitura de
uma democracia sobre uma outra perspectiva e, até certo ponto, inovadora, com
a criação do que ele chama de poliarquia, ou ainda, uma democracia poliárquica,
que seria o novo modelo de democracia. A democracia poliárquica é um sistema
político dotado de seis instituições democráticas, que passaremos a analisar a
seguir. Contudo, podemos afirmar que é diferente da democracia representativa,
em que ainda existiam os sufrágios seletivos (no modelo de John Stuart Mill), e
também das democracias que comumente conhecemos.
Segundo Robert Dahl (2008), é mais importante você construir uma demo-
cracia em pequena escala, ou seja, em países com menor número de habitantes,
do que realizar o mesmo processo, em um país com grande espaço territorial e
populacionalmente mais denso, como seria o caso do Brasil. Para este tipo de
país, a democracia exige algumas instituições com características bem específi-
cas e que vamos analisar a seguir.

FORMAS DE GOVERNO E REGIMES POLÍTICOS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO


115

A primeira instituição política é que os funcionários sejam eleitos, a razão


é que “o controle das decisões do governo sobre a política é investido constitu-
cionalmente a funcionários eleitos pelos cidadãos” (DAHL, 2009, p. 99). Não
se trata apenas de meritocracia, pois as condições para as existências do mérito
podem advir de circunstâncias justas para uns e injustas para outros, portanto,
alia a meritocracia com a escolha pela população para exercer os cargos públicos.
A segunda instituição política e eleições livres, justas e frequentes, o que
daria as condições para que a primeira instituição fosse constantemente reno-
vada, pois “funcionários eleitos são escolhidos em eleições frequentes e justas
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

em que a coerção é relativamente incomum” (DAHL, 2009, p. 99).


A terceira instituição política é a liberdade de expressão, pensamento já
constante na obra dos primeiros defensores do liberalismo político, como John
Stuart Mill, fato este que se verifica em função de que “os cidadãos têm o direito
de se expressar sem o risco de sérias punições em questões políticas ampla-
mente definidas, incluindo a crítica aos funcionários, o governo, o regime, a
ordem socioeconômica e a ideologia prevalecente” (DAHL, 2009, p. 99-100).
A quarta instituição política é a fonte de informação diversificadas, que
desencadearia, por consequência, o próprio fortalecimento da liberdade de
expressão, pois, como defende o autor Dahl (2009, p. 100), as pessoas têm o
direito de buscar informações em todos os meios disponíveis, o que lhe per-
mitiria, formar a sua própria opinião acerca da democracia e, também, tomar
contato com o que outras pessoas falam sobre a mesma.
A quinta instituição política é a autonomia para as associações, que se
caracteriza pela possibilidade dos cidadãos se organizarem, com a finalidade
de pode “obter seus vários direitos, até mesmo os necessários para o funciona-
mento eficaz das instituições democráticas” (DAHL, 2009, p. 100). A finalidade
é permitir a existência de grupos e associações, que possam fazer reivindica-
ções, ganhando peso e força junto ao Estado. Neste sentido, é óbvio que tem
muito mais peso e também legitimidade, quando uma reivindicação vem de um
Diretório Central dos Estudantes (DCE), do que de um acadêmico de forma
isolada, ou ainda, de um pequeno grupo de acadêmicos. Onde não se iden-
tifica unidade de poder, não se identifica força como consequência pelo não
acatamento das ideias.

Democracias
116 UNIDADE IV

A sexta e última instituição política defendida por Robert Dahl (2009, p.


100), é a cidadania inclusiva, em outras palavras, “a nenhum adulto com residên-
cia permanente no país e sujeito a leis podem ser negadas os direitos disponíveis
para os outros e necessários às cinco instituições política anteriormente lista-
das”. Em uma democracia, dadas algumas condições básicas de participação,
como pertencer a uma nação, não se pode restringir os exercícios das ações
necessárias, não só para a realização da democracia, como para o próprio for-
talecimento das mesmas.

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DEMOCRACIA LIBERAL: PARLAMENTARISMO OU
PRESIDENCIALISMO

Nas democracias liberais, em que a clássica divisão de Montesquieu ainda é pre-


dominante, existe ainda uma zona de relacionamento bastante complexa, que é
a relação entre os poderes executivo e legislativo.
Segundo Bobbio (1998b, p. 131),
[...] a bipartição clássica distingue a Forma de Governo parlamentar e
a Forma de Governo presidencial. É preferível manter estas expressões
a usar, em vez delas, a distinção entre república parlamentar e repúbli-
ca presidencial, uma vez que, enquanto o presidencialismo é apenas
típico de um sistema republicano, a Forma de Governo parlamentar
se encontra tanto no âmbito dos sistemas monárquicos quanto no dos
sistemas republicanos.

Para Bobbio (1998b, p. 133), “[...] a Forma de Governo presidencial é caracte-


rizada, em seu estado puro, pela acumulação, num único cargo, dos poderes de
chefe do Estado e de chefe do Governo. O presidente é eleito pelo sufrágio univer-
sal do eleitorado, subdividido ou não em colégios”. Na figura de Chefe de Estado,
é ele que nos representa junto aos demais governos e o grande responsável direto
pelas nossas relações institucionais internacionais, por outro lado, enquanto
Chefe de Governo, atua na figura de representante maior do poder executivo.

FORMAS DE GOVERNO E REGIMES POLÍTICOS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO


117

No sistema presidencialista, existe uma nítida separação de poderes entre


o representante do executivo, que é o presidente e o poder legislativo. Destarte,
algumas variações no papel do presidente, com maior ou menor poder, este se
caracteriza por ter sua eleição independente do parlamento. Geralmente, a sua
eleição vem por meio do voto direto do povo e se as eleições são realizadas no
mesmo período do poder legislativo ou não, é opção e variações possíveis e que,
nem por isso, modificam suas características.
Segundo Coelho (2010, p. 115),
[...]presidencialismo e parlamentarismo são as duas principais formas
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

de organização dos governos nos regimes democráticos liberais. Suas


diferenças principais dizem respeito às relações entre Executivo e Le-
gislativo e à duração dos mandatos dos parlamentares e governantes.

No modelo presidencialista, conforme já apresentado, o presidente exerce a fun-


ção de Chefe de Estado e Chefe de Governo ao mesmo tempo, ao passo que, nos
sistemas parlamentaristas, o que diferencia a pessoa do Chefe de Estado e Chefe
de Governo é a forma de governo. Sendo assim, nas Monarquias Parlamentaristas
Constitucionalistas, a figura do Chefe de Estado pertence ao rei ou rainha e o de
Chefe de Governo ao Primeiro Ministro, eleito pelo parlamento, portanto, per-
tence, necessariamente, a um dos seus pares e normalmente é a bancada com
maior número de cadeiras, auxiliadas pelas coalizões, é quem acaba indicando
o Chefe de Governo.
Segundo Soares (2008, p. 344), “o sistema político parlamentarista trata-se
de uma forma de regime representativo dentro do qual a direção dos negócios
públicos pertence ao parlamento e ao Chefe de Estado, por intermédio de um
gabinete responsável perante a representação nacional”. Sendo assim, a eleição
para o parlamento dispara, necessariamente, as condições para que, o partido
com maior número de cadeiras e capacidade de coalisão, possa, automatica-
mente, disparar a eleição do Chefe de Governo, na figura do Primeiro-Ministro.
O que é preciso esclarecer é que “dentre as características do parlamenta-
rismo, verifica-se, portanto, uma separação atenuada entre os poderes, dada a
íntima e constante colaboração entre o parlamento e o gabinete, o qual divide
com o Chefe de Estado a direção dos negócios públicos” (SOARES, 2008, p. 344),
o que não significa, de forma alguma, que a vida do Primeiro-Ministro seja uma

Democracia Liberal: Parlamentarismo ou Presidencialismo


118 UNIDADE IV

vida fácil, ao contrário, ele tem de forma intensa fiscalização de suas ações, sendo
realizadas, diretamente, pelos parlamentares, que, ao perceber qualquer deslize,
ou descumprimento de metas ou outros, pode, em reunião específica, votar uma
“monção de repúdio ou descrédito” de suas ações, o que pode levar à sua subs-
tituição por um outro parlamentar. No entanto, o mandato do parlamentar tem
tempo definido e rígido, se é possível reeleição ou não, são mera características
culturais e política de cada país.
No entanto, existe uma característica de ordem jurídica-política que dife-
rencia o presidencialismo do parlamentarismo, é que o primeiro é eleito por um

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
mandato fixo para o exercício do poder, que é determinado pela constituição de
cada país, no nosso caso, é de quatro anos. Já o Primeiro-Ministro, o Chefe de
Governo do Sistema Parlamentarista, o exercício do seu cargo não é definido, ou
seja, a qualquer momento, utilizando instrumentos democráticos e jurídicos, o
parlamento pode pedir, gentilmente, a renúncia do mesmo, ou o fazer por meio de
uma votação com prazo normalmente, quase que de imediato. Tudo depende das
circunstâncias e conveniências política e da força de seu partido no Parlamento.
Contudo, é preciso ressaltar que, segundo Coelho (2010, p. 116):
[...] seria errôneo imaginar que sob o presidencialismo o governo é
mais forte do que sob o parlamentarismo. O simples fato de o governo
presidencial ser eleito diretamente pelo povo e o governo parlamentar
ser eleito pelo parlamento, nada diz a respeito da força de um governo.

A força política se constitui a partir da força oriunda da representatividade numé-


rica e da confiança que o povo pode ou não depositar no parlamento. Consiste
na habilidade dos arranjos políticos necessários e inevitáveis, principalmente,
quando se tem um número muito grande de partidos políticos.
Outro aspecto a ser analisado é que o parlamentarismo exige a existência de
partidos fortes e bem estruturados, pois caso contrário, o sistema pode não funcio-
nar de forma adequada, como, por exemplo, já ocorreu em países subdesenvolvidos,
gerando, assim, instabilidade política, com reflexos nas demais áreas do Estado.
Além do que, confiança e credibilidade política entre os partidos que com-
põem o parlamento, principalmente, com relação ao Primeiro-Ministro, porque,
“na gestão deste sistema, ocorre uma série de votações de confiança que tem
como resultado outorgar ou retirar a referida confiança (em relação ao Chefe

FORMAS DE GOVERNO E REGIMES POLÍTICOS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO


119

de Governo)” (SOARES, 2008, p. 344). E a retirada da confiança pode ser um


pedido diplomático, para que o Primeiro-Ministro renuncie e abra espaço para
nova composição de governo.
No próximo capítulo, apresentaremos maiores detalhes sobre o sistema pre-
sidencialista, que é o sistema atualmente em vigor em nosso país.
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DEMOCRACIA NÃO-LIBERAL

Este é um assunto quem tem provocado discussões ainda iniciais, principal-


mente na América Latina. De forma geral, são democracias que possuem apenas
algumas características dos regimes democráticos, como o voto popular, mas,
normalmente, não apresentam a divisão de poderes, ou, quando apresentam, o
Presidente passa a exercer uma posição de decisão final sobre os assuntos.
Como apenas a perspectiva de lançar uma reflexão, recorremos a Coelho que
assim nos ensina: o cientista político argentino, Gillermo O’Donnell (2010, p.
121) criou o termo “democracia delegativa” para dar conta dessa nova forma de
regime democrático que surgiu no mundo nos anos 1990, em que todo o poder
é delegado aos presidentes. Argentina e Peru – e mais recentemente, Venezuela,
Equador e Bolívia –, são casos típicos de democracias delegativas, nas quais o
governante é, inquestionavelmente, eleito por procedimentos democráticos, mas
exerce o poder sem limites claramente definidos. Brasil e Chile, contrariamente,
são exemplos de democracias liberais bem consolidadas na América Latina.
Na realidade, o Presidente passa a concentrar uma grande carga de poder, não
porque imprimiu um golpe de estado, mas sim, porque foi eleito por meio de uma
Constituição que já previa estes poderes e, em alguns casos, mudanças constitucio-
nais foram sendo provocadas e realizadas ao longo do caminho. A característica
mais forte destas democracias e o que leva, entre outros, a serem questionadas
realmente como democracias, é uma forte intervenção do Estado no campo eco-
nômico e o Estado atuando de forma direta e constante na distribuição de riqueza.

Democracia Não-Liberal
120 UNIDADE IV

No entanto, o que se tem observado, principalmente no caso da Bolívia e da


Venezuela, a utilização do termo democracia, para, de forma lenta, instituir o que
se chama de república socialista bolivariana, tomando na figura de Simon Bolivar,
como o grande libertados da América. O que se oferece, na maioria destes casos,
é um discurso com fundamento no combate ao imperialismo americano e uma
aproximação com os resquícios dos últimos grandes países socialistas e, agora,
no rol do capitalista, mas de oposição declarada aos americanos.
Nestes encontros e desencontros, o que se observa, é que vários destes paí-
ses que tentam estabelecer nuances na forma democrática, é o de que esperavam

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
um apoio incondicional da China, na condição de superpotência mundial, o que
acabou não acontecendo, porque a China faz o jogo que lhe é mais conveniente
no mercado e pouco se mostra preocupada com a expansão ou não do socia-
lismo e mesmo de países de menor expressão e que possam somar forças para
fazer frente ao poderio americano e europeu. A China joga o seu jogo e este não
é ideológico, mas sim econômico.

FORMAS DE GOVERNO E REGIMES POLÍTICOS NO MUNDO CONTEMPORÂNEO


121

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta unidade analisamos as formas de governo e os regimes de governo. O pri-


meiro diz respeito a uma categoria pura, tendo como objeto o filósofo político,
sendo afastada da realidade. Já os regimes de governo é a realidade da socie-
dade regida pela institucionalização das normas, isto é, a Constituição Federal.
Ou seja, a distinção entre eles é simples: a forma é a abstração que inspira as
normas do sistema e este regula a realidade estatal como regime.
Na sequência, iniciamos falando sobre a autocracia. Como vimos, ela é um
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

governo absoluto, no sentido de que detém um poder limitado sobre os súditos.


Isso porque, nesse modelo, o chefe de Governo acaba sendo independente dos
demais governantes como também dos seus súditos.
Já a democracia foi uma invenção do próprio povo grego, com o intuito de
controlar o poder dos governantes e ao mesmo tempo, exigir a participação do
povo nas decisões de ordem coletiva.
Ela pode ser: direta ou indireta; liberal ou não liberal. Coube entendermos
a forma como cada uma delas funciona e como influenciam na estrutura da
sociedade, uma vez que esta depende de toda a sua organização para funcionar.
Como dito anteriormente, não tivemos como objeto demonstrar nossa opi-
nião sobre o assunto, tão pouco esgotá-lo, mas apenas fomentá-lo.

Considerações Finais
122

1. O que é autocracia?

2. Como surgiu a democracia?

3. Diferencie parlamentarismo de presidencialismo.

4. O que seria a democracia não liberal?

5. Ao se falar em democracia, precisamos considerar que várias foram as discus-


sões de cunho filosófico político a respeito do tema. A partir dessa ideia, foram
identificados pontos de concordância praticamente universal sobre o tema. No
que diz respeito à esses pontos de concordância, analise as assertivas abaixo:
I. Um dos pontos é a efetividade e existência de um poder político, ou seja, a
existência de um órgão político máximo.
II. Outro ponto são as condições para participação nas decisões referentes ao
Estado, onde temos as eleições como uma forma de participação da socie-
dade.
III. Ainda tem-se também a liberdade de opinião, que acaba sendo uma falsa
liberdade, visto que não há nenhuma forma de expressar sua opinião pes-
soal em sociedade.
É correto o que se afirma em:
a) I e II apenas.
b) I e III apenas.
c) III apenas.
d) II e III apenas.
e) I apenas.
123

A Disfunção Estrutural do Estado Contemporâneo


[...]
A segurança interna da sociedade greco-romana era fundada na preservação dos costu-
mes ancestrais e nas tradições religiosas. O Estado antigo sempre teve os olhos voltados
para o passado. Era esse apego visceral à herança sagrada recebida dos avoengos que
constituía, para os homens daquele tempo, o verdadeiro estado de liberdade. O inimigo
externo representava, pois, um perigo manifesto, não apenas militar, mas também cul-
tural, dado que nenhum estrangeiro timbrava em desrespeitar os usos e costumes dos
povos subjugados.
Foi claramente em razão disso que Platão sustentou, no modelo de justiça política descrito
em A República, que se deveria confiar o poder supremo (to kyrion) aos cidadãos especial-
mente treinados em questões de segurança, por ele denominados guardiães (phylaxes).
Desaparecido o império romano no Ocidente, abriu-se em toda a Europa um período
de vida política esfacelada, sem concentração do poder em uma só pessoa ou em uma
organização permanente e institucionalizada. O que deu origem ao Estado moderno
na Baixa Idade Média, como bem salientou Joseph R. Strayer em obra já clássica, foi
a instituição do monopólio da Justiça em mãos do monarca.[1] Ou seja, prevaleceram
novamente as funções de segurança interna e proteção das populações locais, desta vez
contra o poder arbitrário dos barões e bispos.
O problema maior, entretanto, é que o Estado a ser reconstruído já não tinha como repro-
duzir as estruturas políticas do mundo greco-romano. Parafraseando o Poeta Maior da nos-
sa língua, “mudaram-se os tempos, mudaram-se as vontades”. Era preciso encontrar novos
modelos e construir outras instituições. A palavra foi dada, então, aos pensadores políticos.
Numa era de mudanças, desordens e instabilidades, era natural que eles se voltassem,
uma vez mais, ao ideal supremo da segurança.
Assim foi com Maquiavel, como sabido. Se a expressão ragion di stato não aparece uma
só vez sob a sua pena, tendo sido cunhada, ao que parece, pelo seu amigo Francesco
Guicciardini, autor da primeira História da Itália, a verdade é que ela resume excelen-
temente o pensamento central do famoso secretário florentino. À independência e à
estabilidade da sociedade política tudo deve ser sacrificado, pois elas constituem o bem
supremo da vida humana.
A irrupção da Reforma Protestante, logo no início do século XVI, representou o maior
desafio à consolidação das novas monarquias européias. Os conflitos religiosos desde
cedo multiplicaram-se, pondo as Ilhas Britânicas e todo o continente a ferro e a fogo.
A característica própria desse estado de guerra civil generalizada é que às autoridades
políticas não bastava assegurar o respeito à ordem material para legitimar o seu poder.
O essencial consistia em pacificar os espíritos, a fim de que cada indivíduo passasse a
obedecer, com confiança, às ordens daquele supremo governante investido no poder
que Jean Bodin denominou soberania.
124

Duas respostas contraditórias foram, então, sucessivamente dadas.


Thomas Hobbes principiou por separar, contra a velha tradição greco-latina, a esfera
da vida política (por ele chamada pública) da esfera da vida privada. Usando de um ar-
gumento que seria, nos séculos seguintes, o fundamento de toda a moral burguesa,
sustentou que o cuidado em proteger o interesse privado promove o interesse público
e não o contrário.[2] Tudo o que diz respeito à vida política deve ser abandonado pelos
súditos em mãos do soberano, pois “as Leis não têm poder algum para proteger [os sú-
ditos], sem a Espada nas mãos do homem, ou dos homens, encarregados de executar as
leis”. Portanto, “a Liberdade de um súdito existe somente naquelas matérias, cujas ações
ficam predeterminadas pelo Soberano: tal como a Liberdade de comprar e vender, e
todos os outros contratos de uns com outros; de escolher a sua moradia, seu próprio
regime alimentar, seu estilo de vida, e assim também de educar seus filhos como bem
entender”.
No campo da alimentação e da procriação, prosseguiu, a liberdade de comércio é fun-
damental. Os bens naturais, graças ao esforço humano, tornam-se mercadorias, isto é,
artigos intercambiáveis no mercado, nacional ou estrangeiro. Até mesmo o trabalho hu-
mano transforma-se em mercadoria negociável em vista de um lucro (“for a mans Labour
also, is a commodity exchangeable for benefit, as well as any other thing”).[3]
Como se vê, Adam Smith e seus sequazes nada inventaram nesse particular.
[...]
Fonte: Escola (2016, on-line)1.
MATERIAL COMPLEMENTAR

Indicamos como uma literatura valiosa para compreender melhor as questões pertinentes à formação
do Estado, o artigo do Professor Luiz Carlos Bresser-Pereira.
Web: <[Link]

Material Complementar
REFERÊNCIAS

ABU-EL-HAJ, J. Robert Dahl e o dilema da igualdade na democracia moderna. In: Re-


vista Análise Social, v. XLIII n. 1, 2008, 159-180. Universidade Federal do Ceará. Dis-
ponível em: <[Link]
[Link]>.Acesso em: 22 maio 2018.
BOBBIO, N. Locke e o Direito Natural. 2. ed. Brasília: Editora na UnB, 1998a.
BOBBIO, N. Dicionário de Política. v. 2. 11. ed. Brasília: Editora UnB, 1998b.
COELHO, R. C. Ciência Política. Florianópolis : Departamento de Ciências da Admi-
nistração / UFSC; [Brasília] : CAPES : UAB, 2010.
DAHL, R. Sobre a Democracia. Trad. Beatriz Sidou. Brasília. Editora da UnB, 2009.
SOARES, M. L. Q. Teoria do Estado – Novos Paradigmas em Face da Globalização.
São Paulo: Atlas, 2008.
O’DONNELL, G. Dissonances: Democratic Critiques of Democracy. University of No-
tre Dame Press, 2010.

REFERÊNCIA ONLINE

1
Em: <[Link]
do-contemporaneo>. Acesso em: 22 maio 2018.
127
GABARITO

1. Autocracia ou ditadura é um governo absoluto, no sentido de que detém um


poder ilimitado sobre os súditos, ela permite que o chefe de Governo seja de
fato independente, não somente dos seus súditos, mas também de governantes
que lhe estejam, rigorosamente, submetidos.

2. A democracia surgiu com o povo grego, como uma forma de controlar o poder
dos governantes e, ao mesmo tempo, exigir a participação do povo nas decisões
de ordem coletiva.

3. No sistema do presidencialismo há a cumulação, num único cargo, dos poderes


de chefe do Estado e de chefe do Governo. O presidente é eleito pelo sufrágio
universal do eleitorado, subdividido ou não em colégios. Já no parlamentarismo,
o que diferencia a pessoa do chefe de Estado e chefe de Governo é a forma de
governo. Ou seja, neste último, trata de um regime representativo dentro do
qual a direção dos negócios públicos pertencem ao parlamento e ao chefe de
Estado, por intermédio de um gabinete responsável perante a representação
nacional.

4. A democracia não liberal é aquela que possui algumas características dos re-
gimes democráticos, como o voto popular, mas, normalmente, não apresenta
a divisão de poderes, ou quando apresenta, o presidente passa a exercer uma
posição de decisão final sobre os assuntos.

5. I e II apenas.
Professora Me. Mariane Helena Lopes

V
A REPRESENTAÇÃO E O

UNIDADE
SISTEMA PARTIDÁRIO
BRASILEIRO

Objetivos de Aprendizagem
■■ Conhecer como funciona a representatividade no Brasil.
■■ Analisar a representação política.
■■ Demonstrar os sistemas eleitorais.
■■ Compreender o cálculo do número de candidatos.
■■ Compreender como se dá o processo de escolha para os senadores.
■■ Calcular as vagas para deputado (federal e estadual) e vereador.

Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ O Brasil: representação e sistema partidário
■■ Representação política
■■ Sistemas eleitorais
■■ Cálculo do número de candidatos
■■ Senadores
■■ Cálculo das vagas para deputado (Federal e Estadual) e vereador
131

INTRODUÇÃO

Nesta última unidade, iniciaremos nossos estudos falando sobre a representa-


ção e sistema partidário no Brasil.
Assim como na maioria dos países democráticos, o Brasil funciona com a
representatividade, ou seja, o povo que elege as pessoas para representá-los, por
meio das eleições realizadas de 4 em 4 anos. Essa representação política é con-
cretizada por meio do voto, sendo confirmada pela Constituição Federal de 1988.
Temos que ter em mente que nem todas as pessoas exercem seu direito de
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

voto, como é o caso daquelas pessoas que estão presas.


Um outro aspecto importante a ser estudado e que possui algumas variações
no que diz respeito a sua estrutura, são os sistemas eleitorais. A finalidade desse
sistema, como iremos estudar mais adiante, é revelar como, nas mais diversas
esferas legislativas e executivas, se dará a forma de eleição, quanto à representação
ser majoritária ou proporcional. Esse ponto se torna mais complexo ao se falar
em federação, pois existem os interesses da União, dos Estados e dos Municípios.
Por fim, compreenderemos como funciona o cálculo do número de candi-
datos, visto que para alguns cargos a eleição é proporcional.
A partir dessa análise, buscaremos entender melhor como funciona a elei-
ção dentro do nosso país.

Introdução
132 UNIDADE V

O BRASIL: REPRESENTAÇÃO E SISTEMA PARTIDÁRIO

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Tocqueville ao escrever a sua obra A Democracia na América, apontava ser a
democracia uma forma de governo difícil de ser implantada em um país com
grandes dimensões territoriais e populacional. Robert Dahl, cientista político
americano, na obra Sobre a Democracia, também nos ensina que é mais fácil
instituir e fazer funcionar uma democracia num pequeno país, do que em um
país de grandes dimensões.
Os americanos enfrentaram este problema bem antes da Europa e assim,
puderam servir como espelho para os demais países, no entanto, na América
do Norte, existiram condições de ordem cultural, política e religiosa, diferentes
daquelas que ocorreram aqui no Brasil. Sendo assim, o Brasil teve que construir
o seu caminho, praticamente sozinho, ora tomando por modelo os americanos,
ora sendo influenciado pelas democracias europeias.

A REPRESENTAÇÃO POLÍTICA

O Brasil, assim como a maioria das democracias contemporâneas, é uma democracia


representativa, isso quer dizer que - em alguns espaços desta democracia - elege-
mos pessoas para nos representar, por meio de eleições realizadas de 4 em 4 anos.
Segundo Norberto Bobbio (1998b, p. 124),

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO


133

[...]os regimes representativos são aqueles regimes que recebem da re-


presentação urna caracterização decisiva. A representação, por sua vez,
é um fenômeno complexo cujo núcleo Consiste num processo de es-
colha dos governantes e de controle sobre sua ação através de eleições
competitivas.

O jusfilósofo italiano afirma que a ideia de representação é bastante complexa e,


mesmo nos dias atuais, ainda desperta muitas discussões a seu respeito, sendo
assim, nos apresenta uma proposta, para que “em vez de representação, se deveria
falar de seleção das lideranças de delegação de soberania popular, de legitimação,
de controle político, de participação indireta e de transmissão de questionamento
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

político. Usar-se-iam, assim, conceitos mais simples e suscetíveis de uma inter-


pretação mais unívoca” (BOBBIO, 1998b, p. 124).
E, ainda, ao trabalhar sobre o tema representação, afirma que deve existir
nesta relação representante-representado uma forte relação moral e ética, pois
só podemos ser representados, porque realmente tem afinidades com as nossas
ideias e defende as mesmas, sendo que, no máximo, faz adaptações em função
de que, a paixão dos homens, às vezes, fala mais alto do que a própria razão.
A representação política se concretiza por meio do voto, sendo assim, a
Constituição Federal de 1988, assim determina: “Art. 14. A soberania popular
será exercida pelo sufrágio universal e pelo voto direto e secreto, com valor igual
para todos, e, nos termos da lei [...]”.
Quanto ao sufrágio universal, Paulo Bonavides (1986, p. 275) nos ensina
que
[...] a rigor todo sufrágio é restrito. Não há sufrágio completamente
universal. Relativa pois é a distinção que se estabelece entre o sufrágio
universal e o sufrágio restrito. Ambos comportam restrições: o sufrágio
restrito em grau maior; o sufrágio universal em grau menor.

Portanto, o que ocorre em uma democracia é que existem leis que estabelecem
parâmetros mínimos para que as pessoas possam participar da construção polí-
tica, por meio de seu voto, o que em nada diminui a expressão da democracia,
porque estas leis são criadas dentro dos princípios democráticos de proposição,
discussão pública sobre seus efeitos e benefícios, amadurecimento das ideias e,
finalmente, a votação, sanção e publicação das mesmas.

A Representação Política
134 UNIDADE V

Sendo assim, “define-se o sufrágio universal como aquele em que a faculdade


de participação não fica adstrita às condições de riqueza, instrução, nascimento,
raça e sexo” (BONAVIDES, 1986, p. 275). E a participação se insere não somente
no poder votar, mas também, atendidas condições que por meio das leis se impõe
a todos, possa também propor o seu nome à votação.
No entanto, conforme já afirmado que o sufrágio universal não significa
que todos podem votar, existem casos específicos e definidos por lei, em que
algumas pessoas terão restrições aos seus direitos políticos e, como o voto
pertence ao rol destes direitos, não podem votar. Uma delas se referem ao

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
pequeno grupo de portadores de necessidades especiais, ou, de forma mais
comumente expressada, embora seja conveniente a mudança de nosso voca-
bulário, as pessoas com deficiência física ou mental, a razão é que “a exigência
de que o eleitor tenha consciência da significação do ato de votar exclui, desde
logo, os deficientes mentais” (DALLARI, 2012, p. 187). Essas pessoas, tutela-
das pelo Estado, por parentes ou outras pessoas nomeadas juridicamente para
tal, estão desprovidas de condições mentais para o exercício deste e outros
direitos políticos, contudo, jamais perdem a sua condição de serem reconhe-
cidos como cidadãos.
Outrora, em nosso país, os analfabetos e os cegos também estavam excluídos
deste processo, fato este que sofreu mudanças significativas após a Constituição
Federal de 1988. Antes desta mesma condição, quando ainda não discutíamos
a acessibilidade e mobilidade como direitos intrínsecos aos da cidadania, algu-
mas pessoas que apresentavam deficiência ou dificuldade de mobilidade, como,
por exemplo, cadeirantes e pessoas que se deslocam com auxílio de aparelhos,
por questão de falta de estrutura também ficavam excluídas da possibilidade do
voto. No entanto, com a mudança do acesso aos equipamentos urbanos, onde
acontece a votação e ao direito que estas pessoas têm de ter o acesso facilitado,
incorporou-se um contingente significativo, quantitativa e qualitativamente
falando, de eleitores que podem exercer uma das condições para o exercício da
cidadania, neste sentido, nos ensina Dallari (2012, p. 188), que “é uma exigência
democrática a redução das restrições, para que o maior número possível parti-
cipe das escolhas”.

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO


135

Outro assunto que ainda gera polêmica é se o preso, ou seja, aquele que por
ordem ou decisão judicial, tem restrição de liberdade, pode ou não votar. Para
compreender melhor esta questão é preciso recorrer ao artigo 15 da Constituição
Federal cuja redação é a seguinte: “vedada a cassação de direitos políticos, cuja
perda ou suspensão só se dará nos casos de: ... III - condenação criminal transi-
tada em julgado, enquanto durarem seus efeitos” (BRASIL, 2018, on-line), sendo
assim, os presos que ainda não foram julgados, também chamado de regime
transitório, ou ainda, aqueles que aguardam resultados de investigação, têm,
constitucionalmente, direito a votar.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Mas porque não votam? Em determinadas situações o que ocorre, é a impossi-


bilidade de mobilização de seções eleitorais aos estabelecimentos penais e outros,
onde se encontram reclusos esses presos. No entanto, conforme determina o
artigo 15, inciso III, tão logo sejam condenados, tem todos os seus direitos polí-
ticos suspensos, até o cumprimento final de sua pena.
Outra restrição para o exercício do voto é com relação aos jovens que cum-
prem o alistamento militar, conforme previsto no artigo 14, parágrafo 2º da
Constituição Federal, mas que espera-se ser resolvida esta questão, com a aprova-
ção da PEC 252/2013, assunto que será superado com esta emenda constitucional
que altera o referido parágrafo.
Com relação ao voto direto, é quando “os eleitores, sem intermediários fazem,
de modo pessoal e imediato, a designação de representantes ou governantes”
(BONAVIDES, 1986, p. 287). A referência ao voto direto é porque, em alguns
modelos democráticos, existe a prática do voto indireto, que é quando “recai a
escolha sobre delegados ou intermediários, incumbidos de proceder à eleição
definitiva” (idem). Alguns autores entendem ser o voto indireto uma prática não
muito condizente com a democracia, no entanto, é muito mais uma caracterís-
tica quanto ao modelo adotado, e as formas e participação do povo, do que uma
questão de restrição de prática democrática. Nos Estados Unidos da América,
ainda existe esta prática e a democracia não apresenta problemas de declínio.
A questão não nos parece ser o sufrágio direto ou indireto, questão de ampliação
ou redução do espaço de participação democrática, mas sim que o voto expresse uma
decisão qualitativa, neste sentido, “a possibilidade de exercer o direito de votar, que

A Representação Política
136 UNIDADE V

é o direito político fundamental, implica séria responsabilidade, pois a experiência


já tem demonstrado amplamente que uma escolha inadequada pode ser desastrosa
para o Estado e, em última análise, para o próprio povo” (DALLARI, 2012, p. 184).
Quanto à questão do voto secreto, é imprescindível que o eleitor tenha pro-
tegido o direito de não ser identificado o seu voto, para que nenhuma pressão de
ordem externa possa interferir no seu voto, sendo o que bem demonstra a his-
tória do Brasil a conhecida história do voto de curral - voto de cabresto e outras
denominações - onde o eleitor era conduzido e obrigado a preencher a cédula
eleitoral, quando já não a recebia preenchida, mantendo assim, o nefasto cur-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ral eleitoral dos coronéis.
O voto igual para todos, traduz a ideia de “uma cabeça, um voto”, ou seja,
parte-se do pressuposto em que, numa democracia, os cidadãos não tenham e
nem possam ter diferença quantitativa do seu voto, o que poderia discriminar,
ainda mais, direitos de minorias e outros, por motivos diversos. No entanto, exis-
tem teóricos que defendem a diferença do peso do voto, como a teoria de John
Stuart Mill, como forma de dar um maior peso ao voto das pessoas “mais edu-
cadas e preparadas” para participar das decisões do Estado. Contudo, no Brasil,
ainda existem instituições públicas, como universidades, nas quais a eleição
para o cargo de Reitor ocorre mediante voto diferenciado, como, por exemplo:
o voto dos professores que vale 70, dos funcionários que vale 15 e dos alunos 15.
Embora se discuta questões de ordem democrática, existem razões internas aos
problemas das instituições que deliberam sobre este assunto.
Para os cargos de Presidente da República, Governador do Estado e Prefeitos
(para cidades com mais de 200 mil eleitores), existe a previsão da legislação elei-
toral para a realização de segundo turno, sendo assim,
o segundo turno poderá ocorrer apenas nas eleições para presidente
e vice-presidente da República, governadores e vice-governadores dos
estados e do Distrito Federal e para prefeitos e vice-prefeitos de muni-
cípios com mais de 200 mil eleitores. Logo, são eleitos em uma única
votação os senadores, deputados federais, deputados estaduais e verea-
dores, assim como prefeitos e vice-prefeitos de municípios com menos
de 200 mil eleitores (TSE, [2018], s.p.).

Se nenhum dos candidatos obtiver 50% mais um de todos os votos válidos, os


dois candidatos mais votados irão para o segundo turno.

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO


137
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SISTEMAS ELEITORAIS

Outro aspecto importante e com algumas variações na sua estrutura é quanto ao


sistema eleitoral. Paulo Bonavides (1986, p. 293), ao tratar deste assunto, afirma
que “o sistema eleitoral adotado num país pode exercer – e em verdade exerce
– considerável influxo sobre a forma de governo, a organização partidária e a
estrutura parlamentar, refletindo até certo ponto a índole das instituições e a
orientação política do regime”. Sendo assim, a finalidade de um sistema eleito-
ral é revelar como, nas mais diversas esferas legislativas e executivas, se dará a
forma de eleição, quanto à representação ser majoritária ou proporcional. Fato
este, que torna-se ainda mais complexo, quando se trata de uma federação, n
aqual existem os interesses da União, dos Estados e dos Municípios.

Sistemas Eleitorais
138 UNIDADE V

No sistema de representação majoritária, “como o próprio nome sugere, só


o grupo majoritário é que elege representantes. Não importa o número de par-
tidos, não importa também a amplitude da superioridade eleitoral. Desde que
determinado grupo obtenha a maioria, ainda que de um único voto conquista o
cargo de governo objeto da disputa eleitoral” (DALLARI, 2012, p. 190).
No Brasil, são eleitos pelo sistema majoritário o Presidente da República,
o Governador dos Estados e os Prefeitos Municipais, além dos Senadores. Para
estes cargos, a justificativa, segundo Dallari (2012, p. 191) é que este sistema per-
mite identificar e definir “as responsabilidades pela política adotada”, permitindo,

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
assim, uma relação de cobrança direta entre o povo e candidato eleito, porque não
permite artimanhas políticas para carreamento de voto, o que pode ser possível,
para os cargos em que existe representação proporcional e que será vista a seguir.
No sistema majoritário, cada partido pode lançar somente um candidato e
não o fazendo, o máximo que pode fazer, é estabelecer uma aliança com outro
partido, para ampliar o tempo de participação na mídia. Com exceção deste
detalhe de tempo na mídia, pode-se dizer que essas alianças são muito mais de
ordem subjetiva, do que objetiva, em outras palavras, não se tem certeza quanto
a transferência de voto de um partido para outro. Trata-se muito mais de um
suposto apoio “logístico e moral”, do que efetivo, uma vez que, no Brasil, nem
sempre o candidato, que o eleito vota para Presidente da República, tem o mesmo
partido do candidato que ele vota para governador ou prefeito. Não existe vin-
culação direta.
O sistema de representação proporcional surge como forma de garantir a
representação política das minorias, pois “neste sistema, todos os partidos têm
direito a representação, estabelecendo-se uma proporção entre o número dos
votos recebidos pelo partido e o número de cargos que ele obtém” (DALLARI,
2012, p. 192). Este sistema se aplica para os cargos políticos em que o exercício do
poder se encontra diluído entre várias pessoas, pela própria natureza do poder,
ou seja, de permitir um espectro maior de participação da sociedade nas deci-
sões referentes ao Estado. Segundo Dallari (2012, p. 192), “os defensores desse
sistema de representação consideram que ele resolve perfeitamente o problema
das minorias, pois assegura também aos grupos minoritários a possibilidade de
participação no governo”.

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO


139

CÁLCULO DO NÚMERO DE CANDIDATOS

Uma questão que intriga a todos, mas de fácil resposta, é quanto ao número de
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

candidatos que determinado partido pode lançar aos cargos de eleição propor-
cional, neste sentido, a Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997, que estabelece
normas para as eleições, assim determina:
Art. 10. Cada partido poderá registrar candidatos para a Câmara dos De-
putados, Câmara Legislativa, Assembleias Legislativas e Câmaras Muni-
cipais, até cento e cinquenta por cento do número de lugares a preencher.
§ 1º No caso de coligação para as eleições proporcionais, independente-
mente do número de partidos que a integrem, poderão ser registrados
candidatos até o dobro do número de lugares a preencher.

§ 2º Nas unidades da Federação em que o número de lugares a preencher


para a Câmara dos Deputados não exceder de vinte, cada partido poderá
registrar candidatos a Deputado Federal e a Deputado Estadual ou Dis-
trital até o dobro das respectivas vagas; havendo coligação, estes números
poderão ser acrescidos de até mais cinquenta por cento (BRASIL, 1997).

Neste sentido, por exemplo, se determina cidade o número de cadeiras para vere-
ador for de 10, cada partido poderá lançar no máximo 15 (que é 150% de 10),
no entanto, se este partido de coligar com um ou mais partidos, este número
será de 20 (o dobro de 10).
Este mesmo cálculo vale para Deputado Estadual, tomando, por exemplo,
o Estado do Paraná, que tem 54 cadeiras de deputados, cada partido pode apre-
sentar, um total de 81 candidatos (54 + 50% que é 27). Caso faça coligação com
outro partido, a coligação poderá lançar 108 candidatos (54 + 54).
Sendo assim, a quantidade de candidatos para os cargos de Deputado Federal,
Estadual e Vereadores, depende do número de cadeiras para cada uma das esfe-
ras políticas, também determinada por lei.

Cálculo do Número de Candidatos


140 UNIDADE V

CÁLCULO DO NÚMERO DE DEPUTADOS FEDERAIS

O cálculo do número de Deputados Federais de cada Estado é determinado pela


Lei complementar nº 78, de 30 de dezembro de 1993, que disciplina a fixação
do número de Deputados, nos termos do art. 45, § 1º, da Constituição Federal
determinando que o número máximo de Deputados Federais será de 513, e tam-
bém, que o número de Deputado de cada Estado será determinado pelo cálculo
estatístico elaborado pelo IBGE, sempre um ano antes das eleições (BRASIL,
1993). No entanto, nenhum Estado terá menos de 8 Deputados Federais, sendo

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
que o Estado mais populoso terá 70 Deputados Federais, neste caso específico,
o Estado de São Paulo, o que, segundo aquele Estado, trata-se de uma injustiça,
porque, proporcionalmente, tem um número maior de habitantes, mas isso não
se reflete no cômputo do cálculo para os Deputados Federais, em função da cláu-
sula limitadora.
Segundo a Câmara Federal ([2018], on-line), a atual composição é a seguinte:
Quadro 1 - Número de deputados por Estado

Acre 8 Paraíba 12
Alagoas 9 Pernambuco 25
Amazonas 8 Piauí 10
Amapá 8 Paraná 30
Bahia 39 Rio de Janeiro 46
Ceará 22 Rio Grande do Norte 8
Distrito Federal 8 Rondônia 8
Espírito Santo 10 Roraima 8
Goiás 17 Rio Grande do Sul 31
Maranhão 18 Santa Catarina 16
Minas Gerais 53 Sergipe 8
Mato Grosso do Sul 8 São Paulo 70
Mato Grosso 8 Tocantins 8
Pará 17
Fonte: Brasil ([2018], on-line).

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO


141

O que se levanta como bandeira da injustiça na representação proporcional, é


quanto a relação entre os Estados mais populosos e os menos numerosos. Vamos
analisar os dados a seguir, todos retirados do site do Tribunal Superior Eleitoral,
que assim se apresenta, de forma resumida:
Quadro 2 - Número de eleitores por Estado

RK UF QUANT. RK UF QUANT.
Rio Grande
1º São Paulo 28.037.734 15º 2.101.144
do Norte
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

2º Minas Gerais 13.679.738 16º Piauí 2.073.504

Rio de
3º 10.891.293 17º Mato Grosso 1.940.270
Janeiro

4º Bahia 9.109.353 18º Alagoas 1.859.487

Rio Grande
5º 7.750.583 19º Amazonas 1.781.316
do Sul
Distrito
6º Paraná 7.121.257 20º 1.655.050
Federal
Mato Grosso
7º Pernambuco 5.834.512 21º 1.561.181
do Sul

8º Ceará 5.361.581 22º Sergipe 1.299.785

Santa
9º 4.168.495 23º Rondônia 988.631
Catarina

10º Pará 4.157.735 24º Tocantins 882.728

11º Maranhão 3.920.608 25º Acre 412.840

12º Goiás 3.734.185 26º Amapá 360.614

13º Paraíba 2.573.766 27º Roraima 233.596

Espírito
14º 2.336.133
Santo
Fonte: Congresso em foco (2006, on-line)1.

Cálculo do Número de Candidatos


142 UNIDADE V

Os dados desta tabela refletem bem a reivindicação dos Estados mais numero-
sos, pois, na média, um Deputado Federal por São Paulo precisaria de 450.778
votos para ser eleito, enquanto que um Deputado Federal pelo Acre precisaria
de 63.710, ou seja, os votos de um único Deputado por São Paulo, elegeria 7 no
Acre; a questão se torna mais desproporcional ainda, quando tomamos por refe-
rência o Estado de Roraima, em que um Deputado por São Paulo, precisaria da
quantidade de votos para eleger 12 candidatos por Roraima.
É importante ressaltar que os Deputados Federais são eleitos por quatro
anos, não tendo limite para a reeleição. Essas questões referentes a possíveis

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
correções no índice de representatividade e outras, precisam ser enfrentadas
de forma democrática, numa reforma política profunda que o Brasil precisa
passar o mais urgente possível, até em função de outras distorções que vere-
mos a seguir.

CÁLCULO DO NÚMERO DE DEPUTADOS ESTADUAIS

O número de Deputados Estaduais está, por lei, vinculado ao número de


Deputados Federais, conforme assim expressa a Constituição Federal de 1988:
“Art. 27. O número de Deputados à Assembleia Legislativa corresponderá ao
triplo da representação do Estado na Câmara dos Deputados e, atingido o
número de trinta e seis, será acrescido de tantos quantos forem os Deputados
Federais acima de doze”. A interpretação da lei pode ser um pouco trabalhosa,
mas o TSE criou uma regra simples para isso, para os Estados com mais de
12 Deputados Federais, acrescenta-se o número 24 e se tem o resultado final.
Para os Estados com menos de 12 Deputados Federais, o número de Deputado
Estadual será o triplo de 12, ou seja, 36. Sendo assim, e consultando a Tabela
anterior com os últimos números de Deputado Federal de cada Estado, basta
somar o número 24 para aqueles que tem mais de 12 Deputados Federais.
Sendo assim, veja a seguinte tabela:

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO


143

Tabela 1 - Número de Deputados por Estado e Coeficiente

ESTADO DEP. FEDERAIS COEFICIENTE DEPUTADOS ESTADUAIS

Acre 8 24
Alagoas 9 24
Amazonas 8 24
Amapá 8 24
Bahia 39 24 63
Ceará 22 24 46
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

Distrito Federal 8 24
Espírito Santo 10 24 34
Goiás 17 24 41
Maranhão 18 24 42
Minas Gerais 53 24 77
Mato Grosso do Sul 8 24
Mato Grosso 8 24
Pará 17 24 41
Paraíba 12 36
Pernambuco 25 24 49
Piauí 10 36
Paraná 30 24 54
Rio de Janeiro 46 24 70
Rio Grande do Norte 8 24
Rondônia 8 24
Roraima 8 24
Rio Grande do Sul 31 24 55
Santa Catarina 16 24 40
Sergipe 8 24
São Paulo 70 24 94
Tocantins 8 24
Fonte: a autora.

Cálculo do Número de Candidatos


144 UNIDADE V

Vimos, neste tópico, a relação entre coeficiente e números de deputados, tanto


federais quanto estaduais e a forma de somar e obter a quantidade exata de depu-
tados por estado, conforme se vê na Tabela 1.

CÁLCULO DO NÚMERO DE VEREADORES

O número de Vereadores depende do número de habitantes de cada cidade e


quem determina esta faixa de números é a Emenda Constitucional nº 58, de 23 de

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
setembro de 2009. Esta lei determina as faixas de população e o número de vagas.
Os Vereadores são eleitos para mandatos de 4 anos, não tendo limites para
a sua reeleição.

SENADORES

Como os Senadores representam os Estados juntos à União, dentro do pacto


federativo, o número de Senadores é fixo, ou seja, é de 3 Senadores por Estado,
sendo que os mesmos são eleitos por 8 anos e cada quatro anos se renova uma
parte dos mesmos.
A renovação se dá que num período renova-se apenas um terço, ou seja,
cada Estado irá eleger ou reeleger somente um Senador e no pleito, serão elei-
tos ou reeleitos 2 Senadores.

SISTEMAS DE PARTIDO

Numa democracia indireta ou representativa, é evidente que os cidadãos precisam


delegar o poder de representá-los a determinadas pessoas que, necessariamente,
numa democracia, precisa ser eleita, seja pelo Sistema Majoritário ou Proporcional
e, também, na esfera Federal, Estadual e Municipal.
Desde Roma aos nossos dias, a história da humanidade desenvolveu for-
mas próprias de agregar interesses e grupos sociais e isso também se refletiu

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO


145

no campo da política. E das representações de interesses de pequenos grupos,


sejam eles sociais, profissionais e outros, se desponta a partir do século XVIII
a ideia de Partido Político, Dallari (2012, p. 164), nos ensina que este definia o
partido como “um corpo de homens que se unem, para colocar seus esforços
comuns a serviço do interesse nacional, sobre a base de um princípio ao qual
todos aderem”. O que não deixa de ser uma ideia muito próxima daquela que se
predomina nos dias atuais.
Bobbio (1998b, p. 157) nos ensina que “segundo a famosa definição de Weber,
o partido político é:
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

[...] uma associação (...) que visa a um fim deliberado, seja ele ‘objetivo’
como a realização de um plano com intuitos materiais ou ideais, seja
‘pessoal’, isto é, destinado a obter benefícios, poder e, consequentemen-
te, glória para os chefes e sequazes, ou então voltado para todos esses
objetivos conjuntamente.

O que não deixa de ser uma definição adequada na nossa realidade, na qual as
lideranças de partidos políticos procuram construir projetos de vida, tendo como
instrumento o partido político, principalmente, porque cada partido político que
tem um mínimo de representação política, de acordo com a lei, também tem
tempos nos meios de comunicação de massa em épocas de campanha.
Bobbio (1998), depois de discorrer de forma profunda sobre os partidos
políticos, conclui a sua exposição, nos dizendo que,
[...] partido político se apresenta de modo muito diferente pelo que,
para captar sua especificidade e a relevância atual num dado sistema
político, é necessário vê-lo inserido na estrutura econômico-social e
política do demos afirmar que se o fenômeno “partido” como configu-
ração organizativa e como conjunto de funções por ele desenvolvidas
mostra, em termos gerais, uma tipicidade própria, do ponto de vista
concreto e analise um determinado país, num bem definido momento
histórico.

Em outras palavras, o partido político precisa estar envolvido com questões


presentes na vida cotidiana de um povo, procurando construir uma identi-
dade com os problemas e apresentar proposta ideológica, capaz de cooptar
partidários, dispostos a participarem de forma ativa na construção e realiza-
ção de seus ideais.

Cálculo do Número de Candidatos


146 UNIDADE V

A existência de Partidos Políticos apresenta aspectos positivos e negati-


vos, como é normal acontecer, em qualquer coisa criada pela natureza humana,
sendo assim, “a favor dos partidos argumenta-se com a necessidade e as vanta-
gens do agrupamento das opiniões convergentes, criando-se uma força grupal
capaz de superar obstáculos e de conquistar o poder político, fazendo prevalecer
no Estado a vontade social preponderante” (DALLARI, 2012, p. 168). Seria uma
zona comum, onde as pessoas se sentiriam confortáveis e seguras, criando até
laços de amizades, constituindo-se num grupo sociais com características afins.
De certa forma, outro aspecto positivo é que as pessoas acabam associando a

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
ideologia do partido com a sua própria ideologia de vida, criando uma identifi-
cação mais forte e fiel ao partido e seus ideais.
No entanto, “contra a representação política, argumenta-se que o povo, mesmo
quando o nível geral de cultura é razoavelmente elevado, não tem condições para
se orientar em função de ideias e não se sensibiliza em torno de opções abstratas”
(DALLARI, 2012, p. 168). O que Dallari relata é um fenômeno da própria moder-
nidade, principalmente, a brasileira, aonde as pessoas já estão reduzindo o seu
campo de associatividade, com se trata de questões de ordem política, fato este
também discutido pelo Marco Aurélio Nogueira, na obra Em Defesa da Política.
Outro aspecto que tem chamado a atenção da Ciência Política e da Sociologia, e
também se constitui em problema de todos, é a constatação, em alguns casos, e casos
cada vez mais evidente e comuns, de que “os partidos são acusados de ter se conver-
tido em meros instrumentos para a conquista do poder, uma vez que raramente a
atuação de seus membros condiz fielmente com os ideais enunciados nos programas
partidários” (DALLARI, 2012, p. 168). Combina-se, a este fator, o movimento de lide-
ranças políticas aparentemente importantes, transitando de um partido para outro,
como se troca de roupa, ou seja, se determinado partido não lhe oferece vantagens,
normalmente de ordem pessoal, imediatamente procura filiação em outro partido.
Quanto ao número de partidos políticos, o Sistema pode ser bipartidário,
quando existem apenas dois partidos políticos e pluripartidário, aonde o número
de partidos podem tanto quanto se julgar necessário, obedecida algumas condi-
ções previstas em lei. O Brasil, depois do retorno à democracia, e, principalmente,
com a mudança da legislação eleitoral em função da Constituição Federal de
1988, aderiu ao Sistema Pluripartidário.

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO


147

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, o Brasil tem, em 2014, simplesmente


32 partidos devidamente registrados, constituindo-se numa salada de partidos,
em que a própria população não consegue descrever e precariamente conhecer
mais do que 4 ou 5 partidos. Se no âmbito da democracia isso pode significar
um número bom, pois em tese, e apenas em tese, e com muita boa vontade,
entende-se que assim representa um espectro maior da sociedade brasileira,
por outro lado, dilui de uma tal maneira a disposição da sociedade em procurar
uma identidade com estes partidos, que acabam se transformando, na maioria
das vezes, em balcões de negócios, procurando obter vantagens provenientes da
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

legislação eleitoral.
Finalizando, a história partidária brasileira, principalmente, após a
Constituição Federal de 1988, não é uma história de perpetuação de partidos
fortes, com ideologias e programas partidários que realmente possam represen-
tar os anseios e necessidades da sociedade brasileira, mas sim um instrumento
de poder e troca de favores, para simplesmente, na maioria das vezes, coloca-
rem as pessoas no topo do poder. Muito ainda precisa ser feito!

CÁLCULO DAS VAGAS PARA DEPUTADO (FEDERAL E


ESTADUAL) E VEREADOR

Para os cargos de Deputado Federal e Estadual e Vereador, é possível o que


se chama de Voto de Legenda, ou seja, que o eleitor pode optar por votar
em um candidato específico, ou votar na legenda, que nada mais é o partido
ou uma coligação de partido. Como a eleição para estes cargos é no Sistema
Proporcional, o cálculo destas vagas não é tão simples quanto no Sistema
Majoritário.
Sendo assim, e para não gerar confusão de ordem alguma, passaremos a
expor, agora, o modelo deste cálculo, apresentado de forma muito didática,
pelo Tribunal Regional Eleitoral de Santa Catarina.

Cálculo das Vagas Para Deputado (Federal e Estadual) e Vereador


148 UNIDADE V

Para se calcular as vagas de cada Estado e Município para deputados e


vereadores, respectivamente, precisamos fazer o quociente eleitoral. Vamos com-
preendê-lo, a seguir.

QUOCIENTE ELEITORAL

Define quais partidos e/ou coligações que têm direito a ocupar as vagas que são
disputadas nas eleições proporcionais, sejam elas para deputado federal, depu-

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
tado estadual e vereador.
O quociente eleitoral é determinado da seguinte forma: divide-se o número
de votos válidos apurados pelo de lugares a preencher em cada circunscrição
eleitoral, sendo desprezada a fração se igual ou inferior a meio, equivalente a
um, se superior (art. 106, Código Eleitoral).
Nas eleições proporcionais, conta-se como válidos apenas os votos dados a
candidatos que são regularmente inscritos e às legendas partidárias (art. 5º da
Lei nº 9.504/97). A fórmula, então, será:

QUOCIENTE ELEITORAL (QE) = Número de votos válidos


Vagas
Vamos ao exemplo:
Quadro 3 – Quociente Eleitoral

PARTIDO/COLIGAÇÃO VOTOS NOMINAIS+VOTOS DE LEGENDA


Partido A 1.900
Partido B 1.350
Partido C 550
Coligação D 2.250
Votos em branco 300
Votos nulos 250
Vagas a preencher 9
Total de votos válidos de acordo com a Lei 6.050
QE = 6.050 /9 = 672,222222222... QE = 672
Fonte: a autora.

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO


149

Logo, apenas os partidos A e B e a coligação D conseguiram atingir o quociente


eleitoral e terão direito a preencher as vagas disponíveis, já que o partido C não
atingiu o quociente eleitoral.

QUOCIENTE PARTIDÁRIO

Ele define o número inicial de vagas que caberá a cada partido ou coligação
que tenha alcançado o quociente eleitoral. Cada partido ou coligação terá o seu
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

quociente partidário, sendo dividido pelo quociente eleitoral o número de votos


válidos dados sob a mesma legenda ou coligação de legendas, sendo desprezada
a fração (art. 107 do Código Eleitoral).
Dessa forma, estarão eleitos, entre os candidatos registrados por um par-
tido ou coligação que tenham obtido votos em número igual ou superior a 10%
do quociente eleitoral, tantos quantos o respectivo quociente partidário indicar,
na ordem da votação nominal que cada um tenha recebido (art. 108, Código
Eleitoral).
Fórmula:

Quociente partidário (QP) = Número de votos válidos do partido ou coligação


Quociente eleitoral
Vamos ao exemplo:
Quadro 4 – Quociente Partidário

QUOCIENTE
PARTIDO/COLIGAÇÃO CÁLCULO
PARTIDÁRIO
Partido A QPA = 1.900/672 = 2.8273809 2
Partido B QPB = 1.350/672 = 2,0089285 2
Coligação D QPD = 2.250/672 = 3.3482142 2
Total de vagas preenchidas
7
por quociente partidário (QP)
Fonte: a autora.

Logo, as vagas disponíveis são 7 para serem preenchidas pelo quociente partidário.

Cálculo das Vagas Para Deputado (Federal e Estadual) e Vereador


150 UNIDADE V

CÁLCULO DA MÉDIA

Ela também é denominada de distribuição das sobras de vagas. É o método pelo


qual será feita a distribuição das vagas que não foram preenchidas pela aferição
do quociente partidário dos partidos ou coligações.
Os lugares que não são preenchidos com a aplicação dos quocientes parti-
dários e a exigência de votação nominal mínima serão distribuídos mediante
observância das regras a seguir:

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
1º) O número de votos válidos atribuídos a cada partido político ou coliga-
ção será dividido pelo número de lugares por eles obtidos pelo cálculo
do quociente partidário mais um, cabendo ao partido político ou à
coligação que apresentar a maior média um dos lugares a serem preen-
chidos, desde que tenha candidato que atenda à exigência de votação
nominal mínima.

2º) Será repetida a operação para a distribuição de cada um dos lugares.

3º) Quando não houver mais partidos ou coligações com candidatos que
atendam às duas exigências da primeira possibilidade, as cadeiras serão
distribuídas aos partidos que apresentem as maiores médias.
Nesse caso as fórmulas que devem ser usadas são:

A) Distribuição da 1ª vaga remanescente (1ª média):

Número de votos válidos do partido ou coligação


vagas obtidas via quociente partidário + 1

B) Distribuição das demais vagas remanescentes (Médias):

Número de votos válidos do partido ou coligação


vagas obtidas via quociente partidário +
vagas remanescentes obtidas pelo partido + 1

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO


151

Vamos ao exemplo:

1ª Média:
PARTIDO/COLIGAÇÃO CÁLCULO MÉDIA
Partido A MA= 1.900/ (2+0+1) 633,33333333
Partido B MB= 1.350/ (2+0+1) 450
Coligação D MD= 2.250/ (3+0+1) 562,5
Partido ou coligação que
Partido A
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.

atingiu a maior média (1ª)

2ª Média:
PARTIDO/COLIGAÇÃO CÁLCULO MÉDIA
Partido A MA= 1.900/ (2+0+1) 633,33333333
Partido B MB= 1.350/ (2+0+1) 450
Coligação D MD= 2.250/ (3+0+1) 562,5
Partido ou coligação que Coligação D
atingiu a maior média (2ª)

Resumo das vagas obtidas por partido ou coligação


PARTIDO PELO QP PELA MÉDIA TOTAL
Partido A 2 1 (1ª Média) 3
Partido B 2 0 2
Partido C 0 0 0
Coligação D 3 1 (2ª Média) 4
7 2 9

Assim, apenas o Partido A e a Coligação D conseguirão obter vagas pela média.

Cálculo das Vagas Para Deputado (Federal e Estadual) e Vereador


152 UNIDADE V

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Nesta unidade, estudamos como funciona a representação e o sistema partidá-


rio brasileiro. Tal análise é de suma importância, uma vez que esse assunto nos
mostra como deve ser entendido o sistema eleitoral brasileiro.
Vimos que exercemos o nosso direito político por meio do voto ou sufrágio,
que pode ser direto ou indireto. No Brasil, temos o voto direto, que é quando os
eleitores fazem uso de modo pessoal e imediato à designação de representan-
tes e governantes. Cabe ao povo, então, escolher quem irá ocupar cada cargo.

Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
É por essa razão que os cientistas políticos sempre frisam a importância de
se observar quem está se candidatando, conhecer sua vida pública, saber como
ele trabalhava e/ou trabalha, objetivando que, caso seja eleito, cumpra seu man-
dato corretamente, proporcionando melhorias para a população.
Outro aspecto estudado e de suma importância é o sistema eleitoral. Aquele
que é adotado num país pode exercer considerável influxo sobre a forma de
governo, a organização partidária e a estrutura parlamentar, refletindo, assim,
até certo ponto, a índole das instituições e a orientação política de regime. Assim
o sistema eleitoral tem como finalidade revelar como se dará a forma de eleição,
quanto à representação majoritária ou proporcional.
Na sequência, compreendemos como deve ser feito o cálculo do número
de candidatos que determinado partido pode lançar aos cargos de eleição pro-
porcional. E, por fim, analisamos o funcionamento do quociente eleitoral, ou
seja, de que forma os partidos e/ou coligações terão direito a ocupar as vagas
que serão disputadas nas eleições proporcionais, sejam para deputado federal,
deputado estadual e vereador.
Lembrando que o objetivo da disciplina não foi esgotar o assunto, mas pro-
porcionar uma maior compreensão.

A REPRESENTAÇÃO E O SISTEMA PARTIDÁRIO BRASILEIRO


153

1. De que forma se concretiza a representação política?

2. Com a Constituição Federal de 1988, podemos falar que os cegos podem par-
ticipar do sistema eleitoral?

3. Discorra sobre por qual razão o voto é secreto e igual para todos.

4. Diferencie o sistema majoritário do sistema de representação proporcional.

5. Como funciona o mandato dos deputados federais?


154

TSE pode rever brecha na Lei da Ficha Limpa, diz ministro Por Letícia Casado
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luiz Fux, disse, nesta quinta-
-feira, que é possível que a corte volte a examinar a possibilidade de um político “ficha
suja” registrar candidatura para concorrer à eleição. O presidente do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), ministro Luiz Fux, disse nesta quinta-feira que é possível que a corte volte
a examinar a possibilidade de um político “ficha suja” registrar candidatura para concor-
rer à eleição. O tema ganhou relevância em razão da possibilidade de o ex-presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concorrer em 2018. A Lei da Ficha Limpa impede que candi-
datos condenados por órgão colegiados (formados por grupos) sejam candidatos, mas
um de seus artigos deixa uma abertura. De acordo com a lei, em meio à campanha o réu
pode conseguir uma liminar junto aos tribunais superiores para suspender a inelegibili-
dade de candidatos já condenados na Justiça. Em conversa com jornalistas, Fux afirmou
que vai discutir o assunto com os colegas do TSE. O ministro não falou sobre nenhum
caso específico. “Vou avaliar com colegas do tribunal se essa praxe das liminares vai ser
entendida sob esse ângulo”, afirmou. “Em princípio, quem já está com a situação defi-
nida de inelegibilidade evidentemente não não pode se registrar”, disse Fux. “Outros
acham que tem que requerer [o registro de candidatura, que pode ser impugnado]. Isso
é algo que tem que passar pelo colegiado”, acrescentou. Recursos Lula foi condenado na
Lava Jato pelo juiz Sergio Moro, do Paraná, e pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região
(TRF-4). Os desembargadores mantiveram a condenação e aumentaram a pena, de nove
anos e seis meses para 12 anos e um mês de prisão em regime fechado por lavagem de
dinheiro e corrupção passiva no caso do tríplex do Guarujá (SP). Agora, a defesa de Lula
tenta uma liminar nos tribunais superiores para derrubar a decisão do TRF-4, a fim de
evitar sua prisão e a declaração de inelegibilidade.
Fonte: Casado, L. ([2018], on-line).
MATERIAL COMPLEMENTAR

Ciência Política
Paulo Bonavides
Editora: Malheiros
Sinopse: a obra é um clássico da literatura jurídica, alargando o conceito da
Teoria Geral do Estado. Ele é uma extraordinária explanação da matéria. Daí sua
excepcional acolhida, que se reflete nas sucessivas edições e tiragens de obra
destinada aos estudantes e estudiosos do tema.

Material Complementar
REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997. Estabelece normas para as elei-


ções. Disponível em: <[Link] Aces-
so em: 23 maio 2018.
STF. Supremo Tribunal Federal. Quando, afinal, há segundo turno em uma elei-
ção? Brasília, [2018]. Disponível em: <[Link]
ria-eleitoral/publicacoes/revistas-da-eje/artigos/revista-eletronica-eje-n.-6-ano-3/
quando-afinal-ha-segundo-turno-em-uma-eleicao>. Acesso em: 22 maio 2018.
BRASIL. Lei complementar nº 78, de 30 de dezembro de 1993. Disciplina a fixa-
ção de número de Deputados, nos termos do art. 45, § 1º, da Constituição Federal.
Disponível em: [Link] Acesso
em: 14 Fev. 2018.
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, 1988.
Disponível em: <[Link]
htm>. Acesso em: 23 maio. 2018.
BRASIL. Lei complementar nº 78, de 30 de dezembro de 1993. Disponível em
<[Link] Acesso em: 14 Fev.
2018.
BRASIL. Câmara dos Deputados - Palácio do congresso Nacional. Quantos são e de
que forma é definido o número de Deputados. Brasília, [2018]. Disponível em:
<[Link]
-definido-o-numero-de-deputados>. Acesso em: 23 maio 2018.
BOBBIO, N. Locke e o Direito Natural. 2. ed. Brasília: Editora na UnB, 1998.
BOBBIO, N. Dicionário de Política. v. 2. 11. ed. Brasília: Editora UnB, 1998b.
BONAVIDES, P. Ciência Política. 6. ed. Rio de Janeiro: Forense, 1986.
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DALLARI, D. de A. Elementos de Teoria Geral do Estado. 31. ed. São Paulo: Saraiva,
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MILL, John Stuar. Utilitarismo. In: MORRIS, Clarence (org.). Os Grandes Filósofos do
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MILL, John Stuart. A Liberdade. In: MORRIS, Clarence (org.). Os Grandes Filósofos
do Direito. Trad. Reinaldo Guarany. São Paulo: Martins Fontes, 2002b.
157
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-eleicao>. Acesso em: 23 maio. 2018.

REFERÊNCIA ONLINE

Em: <[Link]
1

Acesso em: 23 maio 2018.


GABARITO

1. A representação política se concretiza por meio do voto, onde a Constituição


Federal de 1988 determina que a soberania popular deve ser exercida pelo su-
frágio universal, e pelo voto direto e secreto, tendo valor igual para todos. Assim
no sistema democrático existem leis que estabelecem parâmetros mínimos para
que as pessoas possam participar da construção política, por meio do voto, visto
que as leis são criadas dentro dos princípios democráticos de proposição, dis-
cussão pública sobre seus efeitos e benefícios, amadurecimento das ideias e a
votação, sanção e publicação das mesmas.

2. Antes da Constituição Federal de 1988 os cegos estavam excluídos desse proces-


so. Com a mudança do acesso aos equipamentos urbanos, onde acontece a vo-
tação, e a direito que estas pessoas têm de terem o acesso facilitado, foi incorpo-
rado um contingente significativo, quantitativa e qualitativamente falando, de
eleitores que podem exercer uma das condições para o exercício da cidadania.

3. [1] Quanto à questão do voto secreto, é imprescindível que o eleitor tenha pro-
tegido o direito de não ser identificado o seu voto, para que nenhuma pressão
de ordem externa possa interferir no seu voto, sendo quem, bem demonstra
a história do Brasil a conhecida história do voto de curral, voto de cabresto e
outras denominações, aonde o eleitor era conduzido e obrigado a preencher a
célula eleitoral, quando já não a recebia preenchida, mantendo assim, o nefasto
curral eleitoral dos coronéis.
O voto igual para todos, traduz a ideia de “uma cabeça, um voto”, ou seja, parte-
-se do pressuposto em que, numa democracia, os cidadãos não tenham e nem
pode ter, diferença quantitativa do seu voto, o que poderia discriminar ainda
mais, direitos de minorias e outros, por motivos diversos. No entanto, existem te-
óricos que defendem a diferença do peso do voto, como a teoria de John Stuart
Mill, como forma de dar um maior peso ao voto das pessoas “mais educadas e
preparadas” para participar das decisões do Estado. No entanto, no Brasil ainda
existem instituições públicas, como universidades, aonde a eleição para o car-
go de Reitor ocorre mediante voto diferenciado, como por exemplo: o voto dos
professores vale 70, dos funcionários vale 15 e dos alunos 15. Embora se discuta
questões de ordem democrática, existem razões internas aos problemas das ins-
tituições que deliberam sobre este assunto.
159
GABARITO

4. [2] No sistema majoritário, cada partido pode lançar somente um candidato e


não o fazendo, o máximo que pode fazer, é estabelecer uma aliança com outro
partido, para ampliar o tempo de participação na mídia. Com exceção deste de-
talhe de tempo na mídia, pode-se dizer que essas alianças são muito mais de
ordem subjetiva, do que objetiva, em outras palavras, não se tem certeza quanto
a transferência de voto de um partido para outro. Trata-se muito mais de um
suposto apoio “logístico e moral”, do que efetivo, uma vez que, no Brasil, nem
sempre o candidato que o eleito vota para Presidente da República, tem o mes-
mo partido do candidato que ele vota para governador ou prefeito. Não existe
vinculação direta.
O sistema de representação proporcional surge como forma de garantir a repre-
sentação política das minorias, pois neste sistema, todos os partidos têm direito
a representação, estabelecendo-se uma proporção entre o número dos votos
recebidos pelo partido e o número de cargos que ele obtém.

5. Os deputados federais são eleitos por quatro anos, não tendo limite para reelei-
ção. Tais questões são referentes a possíveis correções no índice de representati-
vidade e outras, precisam ser enfrentadas de forma democrática, numa reforma
política profunda que o Brasil precisa passar o mais urgente possível, até em fun-
ção de outras distorções.
CONCLUSÃO

Durante esta disciplina, objetivamos fomentar o conhecimento e a reflexão sobre


assuntos do nosso cotidiano, presentes em nossas vidas, independente da nossa
vontade. Procuramos mostrar a você, acadêmico(a), novas perspectivas, diálogos e
considerações diante de um conteúdo tão importante, como as Ciências Políticas,
e que precisamos compreender melhor para exigir aquilo que é previsto na Consti-
tuição Federal de 1988.
Passamos por um momento conturbado e com inúmeras denúncias, descasos, des-
vios de condutas, corrupção e que acaba desmotivando a população, fazendo com
que esta deixe de acreditar na política do futuro como uma forma de melhorar a
situação pela qual estamos tramitando.
Contudo, as Ciências Políticas não se resumem somente a esses pontos citados. Vi-
mos como as primeiras reflexões políticas surgiram e a importância histórica que
tiveram, principalmente na formação do conceito de “política” como uma necessi-
dade humana de organização da sociedade.
Na sequência, apresentamos informações a respeito da necessidade das organiza-
ções políticas, considerando a formação do pensamento político moderno, as teo-
rias liberais e socialistas, as bases que estruturam a democracia e os entraves que
atrapalham sua efetividade por completo.
Seguindo nesse pensamento, tratamos a conceituação do que vem a ser a mun-
dialização e a globalização, que pode diferenciar dependendo do ponto de vista
da sociedade que a conceitua, mas também pode ter o mesmo significado e que
não temos como escapar, nos isolando desse movimento mundial, que atingiu o
mundo como um todo. Caso a sociedade não “queira” fazer parte desse movimento,
por mais que tente se isolar, acaba apresentando conflitos de interesses do poder
político com a população.
Por fim, para compreendermos o sistema de governo, analisamos o democrático e
autocrático e vimos a representação política e os sistemas eleitorais, onde compre-
endemos como é feito o cálculo para dividir a representação de cada Estado nos
órgãos de cúpula do governo.
Esperamos que você tenha aproveitado o conteúdo e que sua curiosidade tenha
sido despertada para discutir melhorias e acontecimentos da sociedade.

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