Introdução às Ciências Políticas EaD
Introdução às Ciências Políticas EaD
POLÍTICAS
GRADUAÇÃO
Unicesumar
Reitor
Wilson de Matos Silva
Vice-Reitor
Wilson de Matos Silva Filho
Pró-Reitor Executivo de EAD
William Victor Kendrick de Matos Silva
Pró-Reitor de Ensino de EAD
Janes Fidélis Tomelin
Presidente da Mantenedora
Cláudio Ferdinandi
ISBN 978-85-459-1236-1
CDD - 22 ed. 320
CIP - NBR 12899 - AACR/2
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APRESENTAÇÃO
CIÊNCIAS POLÍTICAS
SEJA BEM-VINDO(A)!
Caro(a) acadêmico(a), é com grande satisfação que lhe apresento alguns apontamentos
sobre este livro, que tem como objetivo aproximá-lo do conteúdo e motivar sua reflexão
acerca dos temas propostos. Espero que esta leitura provoque novas perspectivas, diá-
logos e considerações diante desta disciplina tão importante na nossa formação, não só
profissional, mas também cidadã, as Ciências Políticas.
Atualmente, passamos por um momento político conturbado e os inúmeros casos de
denúncias, desvios de condutas e corrupção têm motivado crescente desesperança e
desinteresse com as questões políticas. Você, certamente, já ouviu alguns comentários
como “político é tudo ladrão”, “não me envolvo com política”, “política não se discute”, “os
políticos só pensam neles”, “o poder estraga as pessoas”, “esse país não tem mais jeito”.
Mas será que política se resume a isso? De acordo com a visão do senso comum, pode
ser que sim. Contudo, estamos aqui para extrapolar essa fase primitiva de conhecimen-
to, estamos aqui para ir além, buscando leituras e análises mais profundas para construir
um conhecimento mais seguro.
Muitos autores se dedicaram a ultrapassar este senso comum e pensar a política desde
suas raízes até seus frutos. Muitos seriam os teóricos que mereceriam destaque nesse
livro, como o tempo não nos permite, nos deteremos em alguns. Conheceremos então
um pouco desta produção intelectual que nos ajudará a compreender melhor este as-
sunto que diz respeito a todos nós.
O fazer política é produção humana e, desta forma, em cada momento ela corresponde
às características e necessidades daquele contexto. No entanto, o pensar político e as
ciências políticas exigem, de nós, um olhar que se volta também para o passado, bus-
cando a construção de um entendimento sobre o presente e criação de estratégias que
melhorem o futuro.
As mudanças ocorridas na sociedade no seu aspecto nominalmente político e, também,
no social, econômico e ético foram transformando o jeito de fazer e pensar a política.
Assim, procuramos oferecer a você, aluno(a), um material com informações que estimu-
le novas reflexões e possibilite a construção pensamento político consciente. Para isso,
organizamos em cinco unidades temas de grande relevância para as ciências políticas.
Na primeira unidade, entenderemos melhor como tiveram início as primeiras reflexões
políticas, como essas teorias foram se moldando ao longo da história de acordo com
os contextos em questão, buscando assim a compreensão do conceito de “política” en-
quanto necessidade humana.
Na Unidade II, você encontrará informações valiosíssimas para o entendimento dos ob-
jetivos e necessidades das organizações políticas, especialmente a partir da formação
do pensamento político moderno, as teorias liberais e socialistas, as bases que estrutu-
ram a democracia e os entraves que atrapalham sua efetividade plena.
Na terceira unidade, trataremos dos conceitos de mundialização e globalização, buscan-
do compreender seu contexto, bem como diferenciar a liberdade ideal da prevista pelo
Estado Moderno.
APRESENTAÇÃO
UNIDADE I
17 Introdução
28 A Revolução de Maquiavel
30 Os Contratualistas
34 Hannah Arendt
36 John Rawls
38 Considerações Finais
42 Referências
43 Gabarito
10
SUMÁRIO
UNIDADE II
POLÍTICA E DEMOCRACIA
47 Introdução
62 Considerações Finais
66 Referências
67 Gabarito
11
SUMÁRIO
UNIDADE III
MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
71 Introdução
91 Considerações Finais
99 Referências
100 Gabarito
12
SUMÁRIO
UNIDADE IV
103 Introdução
104 Autocracia
109 Democracias
126 Referências
127 Gabarito
13
SUMÁRIO
UNIDADE V
131 Introdução
156 Referências
158 Gabarito
160 CONCLUSÃO
Professora Esp. Ana Caroline Rodrigues
A POLÍTICA E OS
I
UNIDADE
PRINCIPAIS FILÓSOFOS
Objetivos de Aprendizagem
■■ Conhecer como se deu o início das reflexões políticas.
■■ Compreender como as teorias políticas foram se desenhando ao
longo da história.
■■ Contextualizar as teorias políticas em seus momentos históricos.
■■ Conceituar a política enquanto organização necessária para o
convívio humano.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ A pólis grega como invenção da política
■■ Platão e o início das reflexões políticas
■■ Aristóteles e a política como necessária para realização humana
■■ Filosofia política na Idade Média
■■ A revolução de Maquiavel
■■ Os contratualistas
■■ Hannah Arendt
■■ John Rawls
17
INTRODUÇÃO
Introdução
18 UNIDADE I
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A PÓLIS GREGA COMO INVENÇÃO DA POLÍTICA
Você pode estar se questionando sobre o motivo dos gregos terem sido con-
siderados então os pais da filosofia. A resposta vem sustentada pela postura que
eles tiveram ao colocar o saber em um lugar central, ao debater sobre os termos
que os inquietam, dialogando francamente, compartilhando o saber, colocan-
do-o num lugar comum e iniciando a comunidade do conhecimento.
O conhecimento é uma construção e a filosofia se faz do diálogo (dia=dois;
logos=razão). O diálogo é o embate entre dois ou mais logos que se colocam
frente a frente, o melhor embate, no qual não há perdedores, apenas ganhado-
res. No método dialético, temos uma tese que fica frente a frente com a antítese
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Para os gregos antigos, a cidadania tinha uma dimensão especial. Uma das
piores desgraças que poderia acometer ao indivíduo era perder seus direi-
tos de cidadão, estabelecidos nas leis de cidadania.
Contudo, há que lembrar que, naquele contexto, as leis de cidadania eram
restritas e excludentes. Em Atenas, por exemplo, depois da lei da cidadania
promulgada por Péricles, só eram considerados cidadãos os homens que
tivessem pai e mãe atenienses. Ficavam excluídos da vida pública estrangei-
ros, escravos e mulheres. Ou seja, o número de cidadãos era muito inferior
ao número de habitantes da polis.
O poder, segundo ele, deveria estar nas mãos dos melhores, ou seja, dos sábios.
Esse modelo recebe o nome de sofocracia, (sofo=sabedoria + cracia=poder),
onde os homens comuns, de insuficiente conhecimento, deveriam ser governa-
dos pelos que se sobressaem pelo saber. O governante seria o Rei Filósofo. Para
justificar a organização social e política, o filósofo se utiliza do dualismo cor-
po-alma e faz uma classificação da população a partir das aptidões de sua alma.
Segundo Platão, uma cidade perfeita seria aquela onde o governo estivesse
sob a responsabilidade dos possuidores de almas de caráter racional, ou seja,
os praticantes da filosofia, os mais sábios, classificados por ele, como “almas de
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ouro”; aos detentores de uma alma de caráter irascível, colérico, caberia a tarefa
de proteção da cidade, por serem mais corajosos, são os classificados como “almas
de prata”, os guerreiros; já aqueles que tivessem uma alma de caráter concupis-
cível, ambicioso, caberia o sustento da cidade, a produção dos bens necessários
à sobrevivência, são considerados, então, dotados de “alma de bronze”, os traba-
lhadores braçais, seriam agricultores, artesãos, comerciantes, construtores etc.
Cada um, de acordo com seu caráter de alma, executaria sua atividade e vive-
ria feliz dentro da organização estabelecida segundo suas capacidades. Assim, as
classes sociais são estabelecidas não por uma classificação financeira, mas, pelas
características e aptidões dos indivíduos. A educação caberia à cidade, havendo
uma espécie de dissolução da família.
Ao falar do bom governo, sofocracia, Platão exemplifica também o que para
ele seriam formas ruins de governo, viciadas, inaceitáveis, injustas: a timocracia,
que é o governo dos ambiciosos; a oligarquia; que é o governo dos ricos; a demo-
cracia, que é o governo de massas populares despreparadas; e a tirania, que é o
governo de um déspota. Todas essas formas seriam contrárias ao governo ideal,
o governo do magistrado-filósofo.
A cidade só poderia ser boa se seguisse essa forma de organização na qual
cada grupo executasse a tarefa correspondente às características de sua alma, de
acordo com suas capacidades.
O idealismo, muito preponderante na República, abre espaço para outro tipo
de abordagem em “A Política” e “As Leis”, onde Platão considera os homens e os
governos como eles efetivamente são, desprovidos de toda perfeição da república ide-
alizada. Surge, então, a necessidade de uma legislação que sirva como instrumento
educativo, cujo objetivo vai além de punir as transgressões, mas, sobretudo, de evi-
tá-las. O objetivo da legislação deveria contemplar a virtude em sua totalidade.
Entretanto, apesar olhar de forma mais realista o ser humano e a cidade,
Platão não abandona a ideia da cidade ideal como aquela governada pelo sábio,
filósofo, como se vê na passagem onde diz:
valha, portanto, esta fórmula como a expressão justa de nossa maneira
de pensar: que não devemos confiar a menor parcela de autoridade aos
cidadãos atingidos, a esse ponto, de ignorância, e que esta lhes deve ser,
até, lançada em rosto em que sejam todos eles raciocinadores habilido-
sos e afeitos às sutilezas que adornam o espírito e lhe conferem viva-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Nas Leis, Platão afirma que o legislador deve legislar a partir da virtude e visar
a paz e a harmonia entre os homens, extinguindo ou reduzindo à uma quanti-
dade insignificante os casos de injustiça. Segundo ele,
o objetivo primacial de nossas leis consistia em deixar os cidadãos tão
felizes quanto possível e amigos uns dos outros. Porém não pode ha-
ver amizade entre os cidadãos onde pululam os processos e são fatos
corriqueiros, as injustiças, mas apenas onde uns e outros são tão raros
quanto possível e de quase nenhuma relevância (PLATÃO. 743 d.C.).
Até aqui, caro(a) aluno(a), você pôde perceber que a Grécia foi um lugar fértil
para o início dos debates acerca da política. A polis grega tem papel fundamental
neste contexto, a partir de Sócrates e Platão a preocupação deixa de ser principal-
mente cosmológica e passa a ser antropológica. Dentro deste enfoque, as questões
políticas ocupam lugar de destaque e continuarão a ser debatidas pelo suces-
sor de Platão, Aristóteles, mas a partir de uma perspectiva totalmente diferente.
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ARISTÓTELES E A POLÍTICA COMO NECESSÁRIA
PARA A REALIZAÇÃO HUMANA
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última, pois acredita que ela seja a que melhor concilia as diferenças e conflitos
entre os grupos sociais. Para ele, a tirania seria a pior forma de governo, pois a polí-
tica deve ser o convívio de iguais, mediados pela linguagem, o bem viver juntos.
Precisamos, pois, junto com o amigo, perceber também que ele existe e
isso acontece no viver junto e no ter comunhão de palavras e de pensa-
mento. É nesse sentido que se diz que os seres humanos vivem juntos.
Não é a mesma coisa que se declara a respeito dos animais, quando se
afirma que eles pastam juntos no mesmo lugar (ARISTÓTELES, 2001,
p. 813).
Neste período, temos nomes como Santo Agostinho, que na obra “A cidade de
Deus”, descreve a cidade dos homens, com características negativas, como corrupção,
ambição e orgulho humano e a cidade de deus, fruto do amor divino, que deveria
servir de exemplo para as ações políticas; e São Tomás de Aquino que retoma e rea-
firma aspectos da teoria aristotélica do Estado como a natureza social do ser humano
e a união de muitos, buscando um interesse comum. O governante deveria ser vir-
tuoso para seguir de modelo de virtude ao povo que se tornaria virtuoso também.
Santo Agostinho nasceu no ano de 354 no norte da África, estudou em Cartago,
foi durante muito tempo pagão como seu pai, Patrício, mas se converteu sob grande
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influência da mãe, Mônica, que mais tarde foi considerada santa. Santo Agostinho
se dedicou à oração e ao estudo, escrevendo o número de 113 obras, sem contar as
cartas e sermões. Contudo, seu pensamento é construído a partir da ideia de que
a humanidade é decaída, deseja voltar para Deus e encontrar Deus seria encon-
trar a verdade, veritas.
Não havia, segundo ele, realização humana nas coisas terrenas, a verdadeira
realização se faria nas coisas transcendentais e não nas coisas temporais. Assim,
não havia sentido em viver um grande engajamento político, deixando em segundo
plano as coisas espirituais, pois a política trata das organizações temporais. Em sua
obra “Cidade de Deus”, “De civitate Dei”, faz a distinção entre a cidade de Deus, que
deve ser buscada, e a cidade dos homens que deveria se espelhar na cidade de Deus.
Durante a Idade Média, a Europa Ocidental foi marcada pelo poder da Igreja
Católica. Nesse momento, destacava-se o conceito de Cristandade, que na
falta de um poder político centralizador, determinava aos cristãos seguir as
regras e aos princípios da Igreja de Roma.
No século XV, alguns intelectuais, como Erasmo de Roterdã, criticaram as
deturpações cometidas pela Igreja e apontaram que era preciso que ela te-
nha se desvencilhado das questões materiais, como propunham os Evange-
lhos. A unidade católica sofre profundas transformações a partir da Reforma
Protestante iniciada por Martinho Lutero em 1517.
Fonte: a autora.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
pois considera esta a mais perfeita por buscar não apenas o bem coletivo natu-
ral, mas o bem sobrenatural, o sagrado.
A política, da mesma forma que as demais ciências, deveria estar subor-
dinada à Teologia. Segundo ele, é na cidade que o cristão vai desenvolver suas
virtudes e tais virtudes se desenvolvem na relação com os outros. O exercício da
virtude demanda uma vida social.
A REVOLUÇÃO DE MAQUIAVEL
Nicolau Maquiavel rompe com a visão de mundo sob um viés religioso predo-
minante nos séculos anteriores e traz uma nova formulação sobre o problema do
Estado. Ele representa uma mudança expressiva, um marco nas teorias políticas,
atribuindo a finalidade do Estado a ele mesmo, desvinculando todo e qualquer
fundamento exterior ao próprio Estado, como Deus ou a natureza, por exemplo.
Maquiavel viveu entre 1468 e 1527, foi um diplomata e conselheiro do governo
de Florença, Itália e sua grande obra “O Príncipe”, foi escrita para Lorenzo de
Médici. O livro era uma espécie de manual do bom governo para ajudar o prín-
cipe quanto à conquista e manutenção do poder. A intenção de Maquiavel era
ver a unificação da Itália que estava fragmentada em diversos ducados em um
contexto de profunda instabilidade política e ameaças de guerras.
que o mesmo é fruto da experiência e de muito estudo e avisa que não usará orna-
mentos ou floreios, irá direto ao que interessa sem se preocupar em ser agradável,
senão por ele mesmo. Durante a obra, são citados vários exemplos, de bons e de
maus governos. Maquiavel diz o que se deve e o que não se deve fazer para che-
gar ao poder e para torná-lo estável.
De maneira geral, as teorias políticas que antecedem Maquiavel tinham um
cunho idealista, projetando a sociedade como ela deveria ser. Em sua teoria,
contracorrente das filosofias políticas idealistas, o filósofo joga luz sobre as con-
dições reais da sociedade, suas limitações, divergências e conflitos.
A sociedade é mostrada como realidade dividida por desejos opostos, lutas
internas. O Estado é visto como uma instância superior e forte que lhe dá iden-
tidade, unidade, e gerenciará as vontades e desejos diversos. Para ele, o objetivo
maior da política não é a felicidade comum, mas a tomada e manutenção do
poder que permitirá, em certa medida, um bem comum.
Segundo ele, os homens não são naturalmente bons, mas, ao contrário, em
sua maioria seguem seus interesses próprios e paixões, sendo necessário assim
que o Estado leve essa realidade em consideração e, se necessário, utilize de vio-
lência para responder à violência, por exemplo.
Diferente de Aristóteles, Maquiavel desvincula a ética e política, no sentido em
que, segundo ele, a política tem uma moral própria a ela mesma. A virtú de Maquiavel,
A Revolução de Maquiavel
30 UNIDADE I
virtude política e cívica, não pode ser associada ao termo conhecido por todos como
virtude. Há uma grande diferença entre esses termos. A virtú busca o êxito na vida
política e não mede as consequências dos atos que podem levar a tal êxito. Já a vir-
tude, por sua vez, almeja o bem para o homem, ou seja, a ajuda ao próximo.
A boa política não deve ignorar os conflitos como se a vida social fosse har-
moniosa, mas, preservar o bem comum enfrentando os conflitos existentes. Para
tanto, a ação de governar não pode se limitar à ação moral, mas visar a resolução
de conflitos.
Os valores políticos não estariam preestabelecidos, mas dependeriam das cir-
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cunstâncias, tanto que a virtú - característica necessária ao governante - exige saber
bem agir diante das adversidades da fortuna, usando, se necessário, a força - princi-
pal elemento constitutivo do poder - que garante a unidade da sociedade. Assim, o
governante, príncipe, para se manter, deve aprender a ser duro segundo a necessidade.
Aquele que governa com virtú sabe que, mesmo em tempos de paz, é neces-
sário que seu exército esteja formado, para que, se necessário, ele possa resistir.
Para Maquiavel, o que importa ao governante não é ser amado pelo povo, mas
evitar ser odiado.
Maquiavel não admite a ideia de um Estado regulado por fundamentos, sejam
racionais ou religiosos, que transcendam as necessidades sociais concretas. Sua
defesa é, então, a autonomia da esfera política em relação à todas as outras, espe-
cialmente em relação à uma moral constituída e à religião predominante até então.
OS CONTRATUALISTAS
THOMAS HOBBES
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Os Contratualistas
32 UNIDADE I
Pois graças a essa autoridade que lhe é dada pelos indivíduos no Esta-
do, é conferido a ele o uso de tamanho poder e força que o terror assim
inspirado o torna capaz de conformar as vontades de todos eles, no
sentido da paz em seu próprio país e da ajuda mútua contra os inimigos
(HOBBES, 2005, p. 106).
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garantir o bom funcionamento da vida social.
JOHN LOCKE
não cumpre suas funções, a sociedade tem o direito de se revoltar contra ele.
JEAN-JACQUES ROUSSEAU
Os Contratualistas
34 UNIDADE I
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
(ROUSSEAU, 1999. p. 87).
A soberania é legitimada pela vontade geral, pela vontade do povo. As leis devem
ser garantia da vontade do povo que precisa se reunir regularmente para se fazer
ouvir, exercendo, assim, sua virtude cívica.
No instante em que o povo está legitimamente reunido em corpo so-
berano, cessa toda e qualquer jurisdição do governo, o poder executivo
fica suspenso, e a pessoa do último dos cidadãos é tão sagrada e in-
violável quanto a do primeiro magistrado, porque onde se encontra o
representado deixa de haver o representante (ROUSSEAU, 1999. p. 91).
HANNAH ARENDT
Voltar à Hannah Arendt é sempre muito bom, especialmente nos dias que temos
vivido como brasileiros, pois diante de tantos casos como dos nossos represen-
tantes que têm feito política nesse país, não devemos abandonar a reflexão sobre o
exercício da política. Ao contrário, é preciso enxergar além dos seus descaminhos,
é preciso se informar e questionar as informações que nos chegam pela televisão,
rádio ou pela internet, é preciso resgatar o caráter verdadeiro da política.
Mas, se se entender por ‘político’ o âmbito mundial no qual os homens
se apresentam sobretudo como atuantes, conferindo aos assuntos mun-
danos uma durabilidade que em geral não lhes é característica, então
essa esperança não nos se torna nem um pouco utópica. Na história,
conseguiu-se frequentemente varrer do mapa o homem enquanto ser
atuante, mas não em escala mundial(...) ( ARENDT, 2011, p. 26).
Hannah Arendt
36 UNIDADE I
JOHN RAWLS
John Rawls foi um renomado filósofo político estadunidense que viveu entre os
anos de 1921 e 2002. Rawls trabalhou o conceito de justiça conectando-a com
a moral, a política e a economia. Um dos pontos por ele tratado é a equidade,
assunto tomado a partir de uma perspectiva contratualista contemporânea.
A questão fundamental na obra de Rawls é responder o que seria uma socie-
dade justa. Para tanto, Rawls considera que não podemos tentar responder tal
questão a partir da perspectiva em que estamos, pois mesmo que busquemos, o
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ser humano sempre tem uma preferência para si.
Um dos desafios colocados por ele é como gerenciar as múltiplas noções que
temos sobre o que seja o bem ou o justo, por exemplo, procurando uma defini-
ção que atenda a coletividade sem anular os indivíduos.
Cada pessoa possui uma inviolabilidade fundada na justiça que nem
o bem-estar de toda a sociedade pode desconsiderar. Por isso, a justi-
ça nega que a perda da liberdade de alguns se justifique por um bem
maior desfrutado por outros. Não permite que os sacrifícios impostos
a poucos sejam contrabalançados pelo número maior de vantagens de
que desfrutam muitos. Por conseguinte, na sociedade justa as liberda-
des da cidadania igual são consideradas irrevogáveis; os direitos ga-
rantidos pela justiça não estão sujeitos a negociações políticas nem ao
cálculo de interesses sociais (RAWLS, 2008, p. 4).
O trabalho de Rawls é feito sob influência dos contratualistas, mas, o que ele sugere
é um contrato hipotético para a definição de quais seriam os valores coletivos que
devem substanciar as relações humanas. Para tanto, como já foi dito, as condições
pessoais não devem ser suprimidas, mas também não podem interferir na escolha dos
valores, juízos e princípios que serão adotados pela coletividade como necessários.
Desta forma, Rawls apresenta o conceito de posição originária, que seria compará-
vel ao estado de natureza dos contratualistas, com diferenças expressivas, contudo.
Na justiça como equidade a situação original de igualdade correspon-
de ao estado de natureza da teoria tradicional do contrato social. Essa
situação original não é naturalmente tida como situação histórica real,
muito menos como situação primitiva da cultura. É entendida como
situação puramente hipotética, assim caracterizada para levar a deter-
minada concepção de justiça (RAWLS, 2008, p. 14).
John Rawls
38 UNIDADE I
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Aristóteles, mesmo tendo sido aluno de Platão, discordou do mestre e apresen-
tou uma teoria bastante diversa.
Pudemos perceber que, durante um longo período da história, as reflexões
acerca da política ficaram fora das principais preocupações humanas, que sob a
influência da Igreja Católica se direcionaram às questões metafísicas.
Depois disso vimos que o contexto histórico do Renascimento e do Iluminismo
trouxeram novas teorias políticas que contestaram duramente a atuação polí-
tica a Igreja e o direito divino dos reis, devolvendo, ao ser humano, o poder de
legitimar a soberania dos governos. Conhecemos, então, um pouco das teorias
contratualistas de filósofos como Hobbes, Locke e Rousseau.
Também conhecemos o posicionamento da filósofa Hannah Arendt e sua
preocupação com o esvaziamento do campo do político. Sua preocupação com
os perigos que podem vir com os preconceitos acerca da política e o esqueci-
mento da essência do político.
Para finalizar, concluímos a discussão trazendo o nome de um filósofo do
nosso tempo, John Rawls, que propõe um modelo de política baseado em uma
justiça equitativa.
Esperamos que esses conhecimentos tenham despertado seu interesse pelas
teorias políticas, tão importantes para compreender esse assunto que faz parte
da vida de todos nós, uma vez que não vivemos isolados, estamos sempre cons-
truindo nossas histórias nas relações. Até a próxima Unidade!
Filosofia Política
José Antonio Martins
Editora: Martins Fontes
Sinopse: “Neste volume, José Antônio Martins apresenta momentos
centrais da história da reflexão filosófica sobre a Política, iniciando pelo
surgimento conjunto da Filosofia e da Política, na Grécia Antiga, passando
pelas contribuições medievais e as transformações modernas, até chegar à
contemporaneidade”. O exercício do pensamento é algo muito prazeroso,
e é com essa convicção que o convidamos a viajar conosco pelas reflexões
de cada um dos volumes da coleção Filosofias: o prazer do pensar. Ela se
destina tanto àqueles que desejam iniciar-se nos caminhos das diferentes filosofias, como àqueles
que já estão habituados a eles e querem continuar o exercício da reflexão. Também se destina
a professores e estudantes, pois está inteiramente de acordo com as orientações curriculares
do Ministério da Educação para o Ensino Médio e com as expectativas dos cursos básicos das
faculdades brasileiras. E falamos de “filosofias”, no plural, pois não há apenas uma forma de
pensamento; há um caleidoscópio de cores filosóficas muito diferentes e intensas.
Comentário: para que amplie a compreensão sobre as teorias políticas, recomendamos a leitura
da obra Filosofia Política que aborda as características fundamentais dessa construção ao longo
da história.
Material Complementar
REFERÊNCIAS
2. A teoria política de Platão partia de uma base idealista e dividia a sociedade por
aptidões, deixando a responsabilidade política para um grupo específico, aque-
les que se dedicavam ao exercício intelectual. Aristóteles, mesmo tendo sido alu-
no de Platão, discorda do mestre e diz que a política está na natureza de todos os
seres humanos e que seu exercício efetivo é necessário para que eles se realizem
plenamente enquanto tal.
II
UNIDADE
POLÍTICA E DEMOCRACIA
Objetivos de Aprendizagem
■■ Compreender qual o objetivo e necessidade das organizações
políticas.
■■ Entender como se deu a formação do pensamento político moderno.
■■ Conhecer qual a finalidade do Estado moderno a partir de
concepções políticas liberais e socialistas.
■■ Compreender qual a relação entre as revoluções e a construção da
democracia moderna.
■■ Identificar quais os obstáculos para a efetivação da democracia em
nossos dias.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Qual a finalidade da política?
■■ A formação do pensamento político moderno
■■ O pensamento político liberal
■■ O pensamento político socialista
■■ As grandes revoluções e a democracia moderna
■■ O que é democracia – o mundo grego/mundo moderno
47
INTRODUÇÃO
Olá, caro(a) aluno(a), vamos continuar os estudos! Você já deve ter presenciado
conversas sobre política e muitas delas desacreditadas, devido ao contexto que
vivemos, cercado de corrupção e impunidade. Contudo, é comum que nesses
diálogos, desacreditados ou otimistas, que se julgue a democracia ainda como a
melhor forma de governo, pois é a única forma que considera as divergências e
os conflitos legítimos e legais, permitindo que sejam trabalhados politicamente
para que as relações sociais sejam justas e igualitárias.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Introdução
48 UNIDADE II
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Você já deve, em algum momento, ter pensado nesta questão. Qual será a finali-
dade da política? No contexto atual é preciso escapar do senso comum que afirma
que política, assim como religião e futebol, não se discute. De forma geral, a insa-
tisfação com o contexto político leva muitos indivíduos a classificarem a política
como algo desinteressante, aquém de seu alcance e sempre imerso em corrupção.
Entretanto, a política não pode ser vista por este viés reducionista, não podemos
deixá-la nas mãos de terceiros, pois ela é parte fundamental da vida de todos.
Em todas as sociedades há uma pluralidade de sujeitos e grupos sociais com
anseios diferentes e até contraditórios. A política surge como tentativa de nego-
ciar o que deve ou não prevalecer. Tal negociação deve ser feita pelo diálogo
entre os sujeitos dotados de razão e linguagem. Por meio da política, as pessoas
discutem ideias, expõem argumentos e decidem racionalmente o que colocar
em prática para o bem geral da comunidade. Aristóteles dizia que faz parte da
natureza humana a política e o ser humano só se realiza completamente, quando
participa, ou exerce seu papel político, cidadão. Segundo Aristóteles, o homem
é um animal político (ARISTÓTELES,1998).
Durante os séculos, as teorias políticas se apresentaram como leitura e crí-
tica da realidade em questão. Muito se foi pensado, dito e feito. Várias teorias
interpretaram de maneira diferente à realidade e apostaram em formas diferen-
tes de governo como a ideal. Contudo, quando pensamos em política, hoje, é
consensual a busca por um modelo que, ao menos em tese, contemple todos os
cidadãos. As teorias contemporâneas buscam pelo ideal democrático de parti-
cipação e legitimam o poder pela vontade do povo.
POLÍTICA E DEMOCRACIA
49
Mesmo com suas raízes na Grécia Antiga, a democracia, ainda hoje, não é
plena, embora seja considerada, pela maioria, como a melhor forma de governo.
Em tese, a democracia é o poder nas mãos do povo, mas na prática ela tem colo-
cado o poder nas mãos de quem se organiza. Desta forma, as pessoas precisam
se ver como sujeitos políticos para buscarem conhecer e bem executar seu papel
social. Abrindo mão de seu papel protagonista, as pessoas autorizam os outros a
decidirem em seu lugar, correndo grande risco de não terem suas necessidades
atendidas. A política diz respeito à todos os indivíduos e se eles não tomam pra
si o seu papel protagonista enquanto cidadãos, não terão suas garantias indivi-
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Nesse contexto, temos nomes como Nicolau Maquiavel, que já estudamos na uni-
dade anterior, Jean Bodin, Thomas Morus e Tomás Campanella.
Jean Bodin é um jurista e cientista político, deste período, que se pergunta
sobre a finalidade da República bem ordenada e acredita que os governos não
devam se apoiar nas armas, mas na legitimidade do poder soberano. Em sua teo-
ria, defende o conceito do soberano perpétuo e absoluto representante da imagem
de Deus na Terra, a chamada teoria do direito divino dos reis. Ele acreditava ser
a monarquia a melhor e mais adequada forma de governo, mas considerava pos-
sível um bom governo democrático ou aristocrático.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Thomas Morus e o Campanella são considerados utopistas, por criticarem
a sociedade contemporânea e idealizarem um modelo que não existia concre-
tamente em nenhum lugar. Thomas Morus faz uma grande crítica à monarquia
e à sociedade privada e descreve um Estado imaginário, sem propriedade pri-
vada, lançando as bases do socialismo econômico. Campanella, por sua vez,
propõe, em sua obra “Cidade do Sol”, uma cidade ideal, sem hierarquias, onde
cada um trabalharia a partir de uma divisão adequada das funções, sem as ins-
tituições que, segundo ele, alimentariam o egoísmo. Muitos traços da teoria de
Campanella lembram a cidade idealizada por Platão na República.
Em um momento de várias lutas entre católicos e protestantes, o reflexo disto
se dava também na política, pois ainda existia a ideia de que a religião do rei
era a religião do Estado. Nesse contexto, autores
como Hobbes, por exemplo, vão propor o abso-
lutismo. A partir da ideia do estado de natureza
e do contrato social, que vimos na unidade ante-
rior, Hobbes apresenta um contratualismo em
favor do poder absoluto do rei (HOBBES, 2005).
Já, no Iluminismo, temos outros grandes nomes
que trouxeram colaborações importantes para teoria
política. Entre eles, Montesquieu, Rousseau, que já
conhecemos na unidade anterior, e Immanuel Kant.
Pensador de grande importância, Montesquieu,
propõe a monarquia constitucional como melhor
forma de governo, condenado a monarquia absoluta Figura 1 - Charles Montesquieu
POLÍTICA E DEMOCRACIA
51
um órgão dotado de poder. Sua teoria coloca o indivíduo como ser capaz de sair
da condição de menoridade, alcançando a maioridade da razão, onde se torna
consciente da força e autonomia de sua inteligência. Refletindo sobre questões
fundamentais, como o que podemos conhecer e como devemos agir, o indiví-
duo se liberta das crenças, tradições e opiniões alheias, condição fundamental
para o ser e agir político.
As transformações sociais em curso caminhavam para uma nova ordem,
onde o feudalismo já não se apresentava como a estrutura de organização social,
a burguesia, como classe emergente, buscava meios para encontrar o apoio que
não tinha. Era necessário derrubar de vez a velha ordem e efetivar a liberdade,
as teorias têm papel importante nesse sentido.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
o pai do individualismo liberal, por colocar como objetivo maior do estado
civil a garantia dos direitos naturais inalienáveis à vida, liberdade e aos meios
necessários para conservar ambas. Para ele, a finalidade maior do governo é a
conservação da propriedade e a partir do momento em que os indivíduos, por
meio do consentimento, entram no estado civil, cabe a maioria escolher o poder
legislativo que terá controle dos demais, sendo considerado, assim, o poder
supremo (LOCKE, 2004).
De forma geral, no liberalismo, delineiam-se os três poderes, executivo,
legislativo e judiciário; as formas de representação política, como monarquia
parlamentar, república e democracia representativas. A teoria liberal afirma a
separação entre o Estado, instância impessoal que estabelece e aplica as leis,
garante a ordem e regula os conflitos; e a sociedade civil, como o conjunto das
diversas classes e grupos.
O Estado liberal se apresenta como representante de toda sociedade, não
deveria intervir na individualidade das pessoas, mas manter a ordem para que
todos pudessem desenvolver livremente suas atividades. Quanto à política, o
Estado liberal é fundamentado na soberania popular. Quanto à economia, o
Estado liberal não deve intervir nas atividades econômicas, pois estas seriam
reguladas pelo próprio mercado e sua “mão invisível”, como colocou Adam
Smith (1776).
Considerado o principal teórico do liberalismo econômico, o economista e
filósofo escocês, Adam Smith critica a intervenção e regulamentação do Estado
na vida econômica. Segundo ele, a economia deve ser regulada pelo próprio
jogo de oferta e procura de mercado (SMITH, 1996).
POLÍTICA E DEMOCRACIA
53
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Voltando a pergunta sobre as motivações para o desenvolvimento do Estado e
sua função na sociedade, o socialismo traz outras respostas, apresentando-se
como linha de pensamento que enxerga o Estado além do papel de mero media-
dor de grupos rivais. Vejamos.
O socialismo se apresenta como uma corrente formada majoritariamente
por trabalhadores urbanos insatisfeitos com a condição de trabalho à que eram
submetidos e buscavam por igualdade social por meio de mudanças radicais na
economia e política.
Contrariamente à onda liberalista que vinha se estabelecendo, o socialismo
surge como crítica ferrenha ao Estado liberal, considerando este como cúmplice
ou responsável pelas desigualdades sociais. Destacam-se três correntes, socia-
lismo utópico, anarquismo e socialismo científico.
O Socialismo Utópico se apresenta como um caminho em busca de uma
sociedade sem propriedade privada, exploração ou desigualdades. Por ideali-
zarem essa cidade perfeita e feliz é que pensadores como Sain-Simon Fourier,
Proudhon e Owen, ficaram conhecidos por utópicos, sonhadores. Na sociedade
idealizada, as atividades funcionariam em espécies de grandes cooperativas
administradas pelos trabalhadores. Todos teriam seus direitos garantidos e a
vida seria tranquila e feliz.
Entre os anarquistas, destacam-se nomes como o russo Bakunin, Tolstói e
George Orwell. Anarquistas são aqueles que criticam a sociedade capitalista e acre-
ditam na liberdade natural do ser humano. Eles defendem a vida em comunidades
geridas sem autoridade a partir dos princípios de liberdade e responsabilidade,
POLÍTICA E DEMOCRACIA
55
segundo Bakunin,
só sou verdadeiramente livre quando todos os seres humanos que me
cercam, homens e mulheres, são igualmente livres. A liberdade do ou-
tro, longe de ser um limite ou a negação da minha liberdade, é, ao con-
trário, sua condição necessária e sua confirmação (...) Minha liberdade
pessoal assim confirmada pela liberdade de todos se estende ao infinito
(BAKUNIN,1983. p.32-33).
O Socialismo Científico, por sua vez, foi proposto pelos filósofos alemães Karl
Marx e Friedrich Engels que defendem a abolição da propriedade privada e a
instalação do comunismo, ou seja, um modelo no qual os meios de produção
seriam comuns a todos, partindo de uma revolução feita pelos trabalhadores que
tomariam o poder da burguesia. A partir do momento em que não houvesse a
propriedade privada dos meios de produção, não haveria classes e conflitos de
classes e o Estado como o regulador de conflitos seria desnecessário.
Marx estudou as estruturas sociais capitalistas e planejou estratégias de
ação política que pudessem transformar a sociedade a partir da organização em
associações e partidos que ajudassem os trabalhadores a ganharem força. No
Manifesto do Partido Comunista, publicado em 1848 juntamente com Engels,
exortam “Proletários de todo o mundo, uni-vos!” (MARX, ENGELS, 2012).
Na sociedade capitalista, o Estado seria instrumento de dominação, por
meio da revolução proletária, os trabalhadores saídos da condição de alienação
produzida pelo sistema, tomariam conta de si se emancipando contra as estru-
turas exploradoras. Ao tomarem o Estado rumo a um modelo democrático, as
propriedades privadas seriam passadas a este Estado. Essa fase foi chamada por
Marx de socialismo.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
de operários ganharam força e deram origem aos movimentos socialistas, prin-
cipalmente na Alemanha e Itália.
A crítica dos socialistas ao Estado se dava, sobretudo, pois a igualdade era
garantida pela lei, mas não se efetivava na prática. De um lado, o avanço técnico
e a ideia de progresso e avanços; de outro lado a exploração da classe operária
submetida à condições desumanas de trabalho.
POLÍTICA E DEMOCRACIA
57
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
A Revolução Francesa
(1789), por sua vez, foi
referência para muitos movi-
mentos posteriores, pois
tinha importantes ideários
que contemplavam, de forma
geral, a realidade de muitos
povos, entre eles, a luta con-
tra regimes absolutistas e
monárquicos, reorganiza-
ção da propriedade rural e
busca por direitos em nome Figura 2 - La liberté guidant le peuple
POLÍTICA E DEMOCRACIA
59
contemporâneas, por sua vez, são efetivadas a partir da representação, onde o Estado
é entendido como a instituição que representa os interesses coletivos. Nos modelos
representativistas, o povo exerce sua soberania a partir da eleição de representantes.
Em sociedades numerosas, como as que temos, é impensável uma democracia
direta, onde todos participem de todas as decisões, por isto a representatividade
se tornou necessária. Tal necessidade não era presente na Atenas do século V a.C.,
porque as cidades eram menores e o número de pessoas com direitos políticos
também era menor. Há que se destacar que, mesmo no seu auge, a democracia ate-
niense não foi plena, pois estavam excluídos da vida política mulheres, crianças,
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
escravos e estrangeiros, ou seja, a democracia acontecia entre os cidadãos, mas os
cidadãos correspondiam a um pequeno grupo dentro do número geral de habitan-
tes da polis (REALE, 2007).
No contexto atual causa estranhamento pensar em uma democracia que aconteça
simultaneamente com regime escravocrata, por exemplo, ou que exclua mulhe-
res. Os tempos são outros, e muito evoluímos nos conceitos de cidadania mundo
afora nos últimos séculos, mas esta evolução foi lenta e penosa. Quando voltamos
ao conceito de cidadãos para os gregos antigos, percebemos a limitação dessa ideia
naquele contexto. Contudo, muitas vezes, esquecemos que a ideia do cidadão per-
maneceu excludente por séculos. O sufrágio feminino, por exemplo, só aconteceu
no século XX.
Embora, atualmente, a cidadania formal, ou seja, a definição de cidadão dada
pela lei, o conjunto de deveres e direitos políticos, civis e sociais instituídos legal-
mente, seja muito mais abrangente, a cidadania substantiva ou real, ou seja, aquela
vivida na prática, continua excludente. Tomando, novamente, o voto feminino
como exemplo, mesmo ele tendo sido obtido pelas mulheres, em geral, na primeira
metade do século XX, a ocupação dos cargos representativos por mulheres ainda
é muito pequena. No Brasil, por exemplo, a passagem de uma mulher pela presi-
dência da República foi um exemplo simbólico apenas, pois a efetivação de uma
agenda que atendesse as necessidades da realidade da mulher no Brasil não aconte-
ceu. Isso pode ser explicado porque quem desenvolve as leis e políticas que afetam
as mulheres ainda são os homens, dado que na Câmara de Vereadores e Deputados
ou nas prefeituras, por exemplo, a presença das mulheres não chega a 15% mesmo
elas sendo pouco mais de 50% da população (MIGUEL; BIROLI, 2014).
POLÍTICA E DEMOCRACIA
61
Você pode notar que características essenciais da democracia grega são ainda
basilares para os modelos democráticos atuais. O igual direito de todos os cidadãos
nos âmbitos legal, político e social. Contudo, as diferenças entre a democracia ate-
niense e a moderna se destacam quanto à inclusão e exclusão de sujeitos no conceito
de cidadania e também quanto à forma de participação dos sujeitos políticos, sendo
na Antiguidade de forma direta e atualmente de forma indireta nas representações.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Como vimos, apesar do ideal democrático ter sido iniciado na Grécia Antiga, as
transformações sociais levaram as sociedades à uma adequação destes ideais de
acordo com as novas realidades. Para tornar possível o ideal democrático, a demo-
cracia direta se transforma em democracia indireta, mas ainda assim existem muitos
empecilhos para sua efetividade, diversos nichos sociais ainda não se veem repre-
sentados, tampouco têm suas necessidades sociais atendidas. Embora as teorias
políticas tenham uma importância inegável nesse processo de transformação do
ideal democrático, cabe lembrar que elas nem sempre fazem o recorte das particula-
ridades sociais, como gênero e raça, tão necessário para a discussão da democracia
real. E mesmo quando as teorias são contemplativas, cabe lembrar que não são
suficientes para garantir a implementação dos ideais que reivindica, sendo então
necessárias às organizações dos movimentos sociais. Ao final da unidade, convi-
damos você para refletir mais sobre o assunto e conhecer os materiais indicados.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
neas de organização política. A partir da compreensão da formação do Estado
moderno, pudemos conhecer um pouco sobre duas linhas de pensamento dife-
rentes quanto às atribuições cabíveis a este Estado, o pensamento político liberal
e o pensamento político socialista. Pudemos ver que o antagonismo entre os
caminhos que um e outro sugerem para alcançarmos o ideal político está dire-
tamente ligado aos contextos em que se desenvolveram.
Para ilustrar o que vimos nas teorias, apresentamos o contexto das grandes
revoluções e sua importância para o desenvolvimento da democracia moderna.
Com o intuito de bem conhecer as características fundamentais do modelo
democrático, vimos as principais semelhanças e diferenças da democracia grega
nascente e a democracia moderna.
Esperamos que, com as discussões propostas nesta unidade, tenhamos
colaborado para sua reflexão acerca do pensamento político democrático e da
importância da participação política de todos nós enquanto cidadãos, uma vez
que a democracia tem bases capazes de promover a justiça, mas a lei por si só não
garante a efetividade de políticas justas. É preciso ter consciência da importância
da cidadania enquanto atividade constante de acompanhamento e cobrança para
que o Estado e os representantes democraticamente eleitos cumpram seu papel.
Continue firme na jornada e bons estudos!
POLÍTICA E DEMOCRACIA
63
Em busca da política
Zygmunt Bauman
Editora: Zahar
Sinopse: o argumento central desse livro reside na ideia de que a liberdade
individual só pode ser produto do trabalho coletivo, ou seja, só pode ser
garantida coletivamente. Entretanto, como mostra Zygmunt Bauman,
hoje rumamos para a privatização dos meios de assegurar esta liberdade
- projeto que, se pretende ser um tratamento contra os males atuais,
está fadado aos mais funestos resultados. Em mais um brilhante ensaio,
Bauman busca tornar, novamente, possível a arte de traduzir os problemas
pessoais em questões de ordem pública - imperativo vital e urgente para a renovação da política.
Uma verdadeira investigação sobre a relação entre a estrutura do mundo atual e a maneira como
nele vivemos.
V de vingança
Ano: 2006
Sinopse: em uma Inglaterra do futuro, onde está em vigor um regime
totalitário, vive Evey Hammond (Natalie Portman). Ela é salva de uma
situação de vida ou morte por um homem mascarado, conhecido apenas
pelo codinome V (Hugo Weaving), que é extremamente carismático
e habilidoso na arte do combate e da destruição. Ao convocar seus
compatriotas a se rebelar contra a tirania e a opressão do governo inglês, V
provoca uma verdadeira revolução. Enquanto Evey tenta saber mais sobre
o passado de V, ela termina por descobrir quem é e seu papel no plano de
seu salvador para trazer liberdade e justiça ao país.
Material Complementar
REFERÊNCIAS
5. Cidadania formal corresponde aos direitos legais do cidadão, aquilo que está
formalizado e legitimado pela lei. Já a cidadania real corresponde à situação real
em que vivem os cidadãos. Muitas vezes, as leis são satisfatórias, mas não se
efetivam na prática, situação onde se faz necessária a organização social para a
reivindicação da garantia dos direitos.
Professora Me. Mariane Helena Lopes
MUNDIALIZAÇÃO E
III
UNIDADE
GLOBALIZAÇÃO
Objetivos de Aprendizagem
■■ Compreender o contexto da mundialização e da globalização.
■■ Conhecer os grupos sociais excluídos.
■■ Analisar como se desenvolveu a Constituição do Estado Moderno.
■■ Observar a relação entre liberdade na civilização básica.
■■ Demonstrar como foi materializado o Estado Moderno e a
Constituição.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Convergências, Divergências ou Paradoxos?
■■ Os grupos sociais excluídos
■■ A Constituição do Estado Moderno: do ideal de liberdade para o
princípio da dignidade da pessoa humana
■■ A relação entre produção e liberdade na civilização clássica
■■ O Estado Moderno e a Constituição: a materialização do homem
71
INTRODUÇÃO
Introdução
72 UNIDADE III
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
CONVERGÊNCIAS, DIVERGÊNCIAS OU PARADOXOS?
Tema que assume já, a partir do século XX, uma importância significativa é o
da globalização ou mundialização, pois como qualquer outra área do conhe-
cimento e da própria experiência humana, não há como fugir deste processo,
pode-se oferecer uma resistência inicial, mas, de qualquer forma, mais cedo ou
mais tarde, ele existirá.
Mais recentemente, grupos fundamentalistas religiosos pegaram em armas,
para se rebelar e não aceitar a globalização e a importação e imposição do modo
de vida ocidental, notoriamente europeu, constituindo-se num foco preocupante
de violência e acentuamento de vários problemas, principalmente no Oriente
Médio e em alguns países da mãe África.
O termo globalização e mundialização tem se tornado de uso corrente na
maioria das áreas do conhecimento. No entanto, uma questão parece-nos ser
necessária levantar: o que vem a ser mundialização ou globalização e qual a cono-
tação que as mesmas recebem em algumas áreas do saber humano, embora o
nosso trabalho tenha uma convergência específica para a área das ciências huma-
nas e sociais aplicadas? Podemos realmente fazer uma distinção entre os termos?
Há certa unanimidade quanto à similitude dos termos, pois, segundo Benko,
“a mundialização, ou ainda, em termos anglo-saxões, a globalização, muito em
voga nos países da América Latina, constitui, nos anos 1990, uma das preocu-
pações prediletas dos intelectuais de todas as tendências [...]” (BENKO, 2002,
p. 45-54). Os americanos preferem chamar de globalização, que significa “bola,
esfera, multidão” (HOUAIS, 2001, p. 58).
MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
73
Em outras palavras, até que ponto podemos dizer, nos dias atuais, mesmo nos
rincões mais distante deste país, que temos uma cultura puramente nacional?
Nesta mesma linha de raciocínio, será que podemos dizer que determina-
das culturas indígenas são autênticas, quando observados os mesmos realizando
os seus rituais, danças e afazeres cotidianos, utilizando instrumentos, roupas e
outros acessórios resultantes do mundo capitalista e globalizado? E mais ainda,
até que ponto ainda podem ser nominadas como cultura indígena, se vêm as cida-
des comercializar seus produtos e adquirir bens e serviços próprios da cultura do
homem ocidental? Ainda pode ser tratada como uma cultura indígena, ou como
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
uma cultura para um processo de transição, notoriamente de vertente capitalista?
Para Navarro (2005, p. 89), “globalização não é palavra nova, pois o famoso
dicionário editado pela Universidade de Oxford já identificou o aparecimento em
Inglês do termo ‘global’ há, pelo menos, 400 anos”. Quanto ao termo no contexto
atual, temos algumas divergências, pois, para Benko (2002, p. 45-54), o termo
surge “nos anos de 1990” e, para Fausto (2005), este fenômeno já está presente a
partir de 1980. No entanto, um fato parece ser comum a todos: é de que a agili-
dade nas comunicações, principalmente, com o surgimento e disseminação da
internet, é o elemento principal e facilitador para o crescimento da globalização
e, também, dos transportes em larga escala, que, por meio de aviões de grande
porte, navios e trens, levam pessoas e mercadorias ao outro extremo do planeta,
em questão de horas.
Aliás, foram, notoriamente, a velocidade dos meios de transporte de animais
e pessoas, principalmente, os chamados continentais, que também globalizou as
pestes e doenças, podendo provocar, em questão de horas grandes catástrofes,
como, por exemplo, o ebola, gripe aviária e outros, além do que, as chamadas
guerras químicas, possibilidade aumentada depois do ataque de 11 de setembro
às Torres Gêmeas nos Estados Unidos da América.
Exposta às questões, inicialmente apresentadas, é preciso definir o que vem
a ser este fenômeno, seja ele nominado como globalização ou mundialização.
Para Benko (2002, p. 48),
a mundialização designa a crescente integração das diferentes partes do
mundo, sob o efeito da aceleração das trocas, do impulso das novas tec-
nologias da informação e da comunicação, dos meios de transportes etc.
MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
75
dizer que a China, além de ser um país socialista, é um componente forte deste
mercado globalizado, principalmente, porque consegue produzir em larga escala,
com baixos custos de produção, além da prática legalizada da pirataria existente
nos seus setores de produção.
A globalização pode ser estudada sob os mais diversos pontos de influên-
cias, mas como ela se reflete mais especificamente na geografia? O Professor
Benko apresenta a globalização sob as mais diversas óticas, e quanto ao econo-
mista diz que:
[...] é a globalização financeira ou, em outras palavras, a integração dos
mercados e das bolsas como consequência das políticas de liberaliza-
ção e do desenvolvimento das novas tecnologias da informação e da
comunicação; é também a intensificação dos fluxos de investimento e
de capital na escala planetária (BENKO, 2005, p. 49).
condicionados aos objetivos da matriz da empresa. Ora, tal fato não fere de modo
direto a soberania do país que, por direito, pertence aquele espaço?
Tecendo comentários acerca da obra “Por uma globalização – do pensa-
mento único à consciência universal” (SANTOS, 2000, p. 25). Navarro diz que a
globalização,
trata-se meramente de um conjunto de mudanças através do qual di-
minuem os constrangimentos geográficos (e seus vetores de tempo e
de espaço) sobre os processos sociais, econômicos, políticos e culturais,
redução esta sobre a qual os indivíduos cada vez são mais conscientes
(NAVARRO, 2005, p. 20).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Neste sentido, temos vários exemplos de movimentos que se dizem contra o
processo capitalista e de globalização imposta pelos americanos, mas sacam
de seus bolsos, Ipad, Iphone e outros produtos típicos da indústria americana.
Incoerência ou necessidade?
Sob o âmbito da análise geográfica o Professor Milton Santos nos apresenta
a possibilidade de uma outra globalização e, na obra supra citada, “toma para a
análise a realidade relacional do ser humano, e a esta realidade relacional per-
versa atribui os males revelados pelo território” (MENDES, 2001, p. 90). O espaço
geográfico pode ser “perverso” não somente pela escassez de recursos, mas tam-
bém pelo excesso, ou porque o resultado de sua exploração pode ser um produto
ambicionado e necessário às nações, como é o caso das regiões onde o petróleo
é explorado (com exceção da exploração em alto mar), as demais regiões afas-
tam o cidadão que, mesmo tendo direito à terra, não pode explorá-la, seja por
questões legais (como no Brasil), por falta de recursos tecnológicos, ou ainda,
porque, de longa data, já perderam a posse de suas terras, pela astúcia maléfica
do capitalismo em detectar potencial de exploração e forçar o êxodo destas áreas,
em troca de recursos insignificantes.
O que podemos inferir quanto aos aspectos positivos ou negativos da globa-
lização? Aqui também temos pontos convergentes e divergentes, dependendo da
leitura que se realiza quanto aos aspectos interiores da globalização. Para Fausto,
o aspecto positivo é que “o intercâmbio comercial e cultural entre as nações é em
si mesmo um fator desejável – e riscos reais” (FAUSTO, 2005, p. 79).
MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
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Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
necessário unir países, às vezes até abrindo mão de certos aspectos da soberania
nacional”, no tocante à América Latina, temos o surgimento do Mercosul e da Alca.
A globalização acentuou a necessidade do aumento da produtividade, e da redu-
ção de custos e padronização de consumo. O que representa sociologicamente estes
fatores? Para Santos (2000 apud MENDES, 2005, p. 22) “a competitividade é ausên-
cia de compaixão. Tem a guerra como norma, e privilegia sempre os mais fortes em
detrimento dos mais fracos. Busca fôlego na economia e despreza os que pensam
mais para além”. É preciso produzir mais, não importa as relações que se estabelecem
com os outros e nem com a condição de exploração irracional do espaço geográfico.
Contudo, não foi apenas no campo econômico que a globalização exerceu
influência, no próprio campo da política, para muitos assuntos e enfrentamento
de crises e problemas, se fala, nos dias de hoje, em política global ou mundial,
como, por exemplo, para enfrentar o narcotráfico, o contrabando de armas, o
contrabando de pessoas, o contrabando de tecnologia para ser utilizada de modo
a produzir armas de destruição e outros.
Não se pode negar, que medidas econômicas e políticas, tomada por países
desenvolvidos e com forte participação nos mercados de uma forma geral, não
afetem o mundo globalmente. Diariamente, o mercado está atento às ações toma-
das pelo Banco Federal Americano, ou ainda, pelo seu equivalente na China. O
pronunciamento do governo Chinês com relação à mudança no campo político
de seu país se torna um fato de interesse global, pois poderá afetar, de forma signi-
ficativa, as nações que têm laços econômicos e tecnológicos com aquele governo.
Enfim, vivemos num mundo global e as teorias e ações tomadas por gru-
pos que podem representar interesses ao mundo, podem perfeitamente refletir
MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
79
A Ciência Política não pode mais se limitar somente a tratar de questões per-
tinentes às teorias políticas, e se desvincular das análises dos reflexos ou não,
destas mesmas na sociedade como um todo. Principalmente numa democra-
cia, a existência de problemas de ordem social, estão intrinsecamente associados
com a relação entre teoria e prática, em outras palavras, não é simplesmente a
existência de um documento político-jurídico, como é a constituição, quem irá
dizer se determinado país tem características meramente liberal, capitalista ou
mesmo socialista, mas sim, como estas teorias políticas são ou não aplicadas no
campo social.
Os grupos sociais bem definidos podem, perfeitamente, nos revelar aspectos
positivos ou negativos da política interna de um país, e também, como este faz
para enfrentar estes problemas e qual o comportamento jurídico deste país, para
tratar a possível manifestação dos interesses destes grupos, em outras palavras,
bem sabemos, que a República Islâmica do Irã não permite que grupos relaciona-
dos direta ou indiretamente pela defesa dos homossexuais, possam se manifestar
em público ou ainda, de forma reservada mas lícita, de acordo com suas leis.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
pode ser considerada como uma ciência autônoma, no sentido de definir o seu
objeto de estudo e o método, mas não pode se refutar a procurar subsídios em
outras ciências, que possuem um conhecimento mais profundo sobre determi-
nados temas e assim, trazer os mesmos para o estudo no âmbito de sua ciência.
É o que será tratado a seguir.
As diferenças sociais também podem ser verificadas pelas condições de
acesso da população a bens e serviços que o Estado constitucionalmente deveria
garantir à população. A não existência destes, entre os quais o direito à mora-
dia digna, produz um fator que colabora para a exclusão social, e esta, conduz a
outros elementos que acentuam ainda mais as diferenças, tais como “a subnutri-
ção, as doenças, o baixo nível de escolaridade, o desemprego ou o subemprego”
(CORRÊA, 1994, p. 29).
Ao serem incluídos nos grupos não qualificados e, assim o sendo, poucas
são as oportunidades de emprego formal, estes terminam por se integrarem
àqueles que vivem na economia informal (DICKENSON, 1983, p. 225), o que
contribui por piorar a sua situação, pois não tendo rendimentos formais, por-
tanto, comprovados, também não podem solicitar crédito para a aquisição de
moradia, nos raros, e diga-se de passagem, caros programas de financiamento
governamental, ou privado, para a compra de imóveis residenciais, com finan-
ciamentos a longo prazo.
No entanto, dentro da realidade brasileira atual, podemos verificar uma mudança
de postura do Estado brasileiro, com a instituição de programas habitacionais
que possibilitaram diminuir estes custos, mas que ainda não conseguem suprir a
demanda reprimida por um período muito longo de escassez deste tipo de ação.
MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
81
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
colonização, depois como inimigo a ser enfrentado, pois resistia ao seu domínio
e, finalmente, com os jesuítas, um elemento humano, cuja conversão ao catoli-
cismo interessava à Igreja Católica.
Retomando à nossa questão inicial, segundo Dickenson (1983, p. 225), a
forma encontrada é o estabelecimento dos chamados assentamentos urbanos ile-
gais, que já existiam antes da segunda guerra mundial em 1945, mas, somente,
depois desta data, estes passam a ser um aspecto significativo da urbanização.
Este tipo de ação dos excluídos é repudiada pelo Estado e pela sociedade num
primeiro momento, mas terminam por ser tolerados, em função da própria ine-
ficiência do Estado para encontrar meios de resolver na sua origem o problema.
Se, num primeiro momento, o Estado e a própria sociedade repudia a existên-
cia destas favelas, a sua persistência, juntamente com soma do esforço de manter
a moradia, passada de pai para filho e os efetivos progressos obtidos na melhoria
das mesmas, termina num futuro próximo, por obrigar o Estado a reconhecer a
legalidade destes espaços urbanos e, mesmo que precariamente, fornecer a estes,
os aparelhos estatais necessários à existência da cidadania e, diga-se de passagem,
garantidos pela Constituição Federal, artigo 6º, quando diz que “são direitos sociais
a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência
social, a proteção à maternidade e a infância, a assistência aos desamparados [...]”,
todos eles relacionados diretamente à existência de um local digno de moradia.
Quando da ocorrência destes reconhecimentos, mesmo que precários e res-
tritos, estes espaços urbanos passam a ser valorizados e se integram aos espaços
urbanos da classe média, ou mesmo classe média alta, que se situam, normal-
mente, entre estas regiões e o núcleo da cidade.
MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
83
para que estes não apontem de forma veemente, esta sua incapacidade. No enten-
dimento dos liberais contemporâneos, este tipo de comportamento por parte do
Estado, permite que o cidadão desenvolva o seu potencial de “empreendedo-
rismo”, quando na realidade, o que temos, é a tentativa de sobrevivência abaixo
do mínimo necessário.
Se num primeiro momento, este reconhecimento é justo e benéfico, ele
também produz uma outra exclusão, ou melhor dizendo, continua a produzir
a exclusão social, pois aqueles moradores, que por motivos diversos, não tive-
ram condições de realizar melhorias nas suas moradias, e mesmo aumentar o
seu poder aquisitivo, não poderão arcar com os custos necessários desta nova
fase, tais como IPTU, água, luz elétrica pública e outras formas de impostos e
taxas, que passam a ser legalmente justificadas, no momento em que o Estado
os reconhece e passa a prestar os chamados serviços públicos e o resultado desta
valorização é que ela irá gerar a exclusão deste grupo social e o seu deslocamento
para uma outra região periférica da cidade (DICKENSON, 1983, p. 231).
Esta exclusão dará início a um novo processo, pois o capitalismo vive e
sobrevive de suas próprias crises. Estas zonas residenciais, ou melhor dizendo,
inicialmente de moradias provisionais e sem a mínima condição de saúde e
higiene, em outras épocas, eram chamadas de “câncer urbano”, mas, nos dias de
hoje, assumem a função de “zonas residenciais de imigrantes, que se adaptam à
vida urbana” (DICKENSON, 1983, p. 228) e mesmo à cultura, e modus vivendi
daquela cidade e se convertem assim em zonas de recepção deste cidadão que
adentra à cidade desconhecida, na esperança de encontrar condições melhores
de salário e de qualidade de vida.
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
da América Latina, mais precisamente nas favelas do Rio de Janeiro e São
Paulo, quando surge nestes aglomeramentos humanos, organizações, asso-
ciações, que irão defender os interesses desta classe de excluídos, assumindo
voz ativa, e em alguns casos, até determinante, nas decisões políticas, com
ações cuja finalidade é produzir uma amenização do problema social, que é
resultante, no caso desta região, do enorme abismo social entre a classe baixa
e a média alta. Para Matias (2004, p. 183), analisando o caso brasileiro,
a partir de 1978 se expande à emergência de movimentos populares
urbanos que apresentam, como eixo determinante de suas reivindi-
cações, o processo crescente de exclusão dos benefícios da urbani-
zação.
MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
85
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
procurar justificar o porquê desta aproximação e seu reflexo numa construção
crítica acerca destas relações.
Diferente de outros momentos em nosso Curso, aqui dividimos o tratamento
dos temas, de modo a dar uma definição clara de que o mesmo se propõe a ana-
lisar o tema e propor uma forma de enfrentamento do mesmo e não, como o
fora em outros momentos, o tratamento de teorias específicas que representa-
vam o pensamento de autores consagrados, sendo assim, é sob esta perspectiva
que se deve ler o presente tópico. Pode-se se dizer que é uma síntese crítica de
tudo que estudamos até o presente momento.
Ao mesmo tempo que o Estado Moderno possibilitou avanços no mundo
da ciência e das relações entre os Estados, acabou trazendo, também, uma série
de problemas sociais, que foram resultado da sua estrutura interna.
Quando se fala na formação do Estado Moderno, tal qual entendemos nos
dias atuais, tem a sua origem no século XVI. Ao menos na França e na Inglaterra,
a Constituição é um dos elementos jurídicos que irão definir a estrutura do
Estado como um todo, apresentando, assim, fundamentos para sua legitimi-
dade (SKINNER, 1996, p. 10).
De acordo com Canotilho (2003, p. 52), a Constituição Moderna é “um
documento escrito no qual se declaram às liberdades e os direitos e se fixam os
limites do poder político”.
Para que possamos compreender a formação do Estado Moderno, faz-se
necessária uma análise sobre a passagem da medievalidade para a modernidade,
tendo, assim, o Renascimento Italiano como um período de transição, que con-
tribuiu para o estabelecimento do mundo jurídico, como temos nos dias atuais.
MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
87
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Na ideia de Aristóteles (1998), a pólis existe para proporcionar ao homem
uma vida boa, feliz, que será o resultado de uma ação coletiva, já que a felicidade
é um ideal individual e se realiza somente quando passa a ser autossuficiente no
campo político.
A polis era formada pelo conjunto de famílias, que existiam em função de
uma relação de propriedade, de uma necessidade de produção e administração
dos resultados da transformação do trabalho. Sem a propriedade, inclusive a dos
escravos, “só não pode se viver como não se pode viver bem” (ARISTÓTELES,
1998, p. 59), estabelecendo um vínculo forte entre a necessidade de produção e
a realização da felicidade contingente.
Para Platão e Aristóteles, não se pode tratar a liberdade como um elemento
isolado, nem como um constitutivo imperioso a ser conquistado antes dos demais.
As relações entre a necessidade de produção e o homem não são prima-
zias nem de Platão e de Aristóteles, mas já foi construída pela cultura grega. O
que se deve deixar claro é que, a partir desse estudo, percebe-se que o homem
pode consumir o resultado do seu esforço, visto que, em momentos de dificul-
dade, toma do outro, devendo devolver o mais urgente possível e na medida
igual ou superior à tomada, procedendo, assim, que este homem é justo e hon-
rado. Os excessos devem ser punidos pela justiça e o equilíbrio acaba sendo
restabelecido.
Enquanto no mundo grego existia a predominância do pensamento mítico,
o homem ainda tinha esperanças de que o ideal de liberdade fosse obtido junto
aos deuses, visto que não havia intermediários nas suas relações. Com a pas-
sagem desse pensamento, a tarefa de conduzir e gerenciar as relações entre as
MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
89
Deve-se evidenciar que não há mais uma civilização unida pela cultura, pela
língua e pela origem mítica, como acontecia no caso do mundo grego. A Europa
passou a ser fragmentada em pequenas extensões de terra, formando assim feu-
dos, que eram unidos pela figura de um monarca, a qual os senhores feudais
deviam parte de sua obediência (ECO, 1980).
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Um conceito de Constituição seria que ela representa uma vontade geral,
seja resultado de uma Assembléia constituída especificamente para este fim, ter
em seu corpo constituinte representantes dos mais diversos segmentos da socie-
dade, onde o resultado da constituição não deve ser a expressão de uma vontade
particular, mas sim a vontade soberana de uma nação, ou seja, a unidade polí-
tica (DUSO, 2005).
Assim, uma das características do Estado Moderno é possuir um ordena-
mento jurídico, em que a Constituição seja a lei maior e de onde deverá derivar
as demais normas. Canotilho (2003) tem por objetivo garantir a liberdade dos
cidadãos, o acesso aos direitos, mais individuais do que coletivos, limitando o
poder político, por meio de um sistema de contrapeso entre os poderes.
MUNDIALIZAÇÃO E GLOBALIZAÇÃO
91
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerações Finais
92
4. Ainda que se fale em uma globalização, devemos ressaltar que o mercado vir-
tual está desregulamentado.O Estado já não controla mais a economia, o que
faz com que a sua própria dívida interna seja vítima da globalização. Sobre o
assunto, analise as assertivas abaixo:
I. Foi o colapso da União Soviética e a queda do Muro de Berlim que fizeram
com que o mundo perdesse a possibilidade de ter um outro “referencial
conceptual”.
II. A globalização criou pólos de produção de baixa tecnologia e baixa produ-
tividade, competitividade e baixa necessidade de mão de obra.
III. A virtualização do capital, junto com a tecnologia, produziu o desacopla-
mento dos mercados financeiros de economia real.
Assinale a alternativa em que as assertivas corretas são:
a) I e III, apenas.
b) I e II, apenas.
c) II, apenas.
d) II e III, apenas.
e) I, II e III.
94
Ciência Política
Paulo Bonavides
Editora: Malheiros
Sinopse: um clássico da nossa literatura, alargando o conceito da Teoria Geral
do Estado, este livro é uma extraordinária explanação da matéria. Daí sua
excepcional acolhida, que se reflete nas sucessivas edições e tiragens de obra
destinada aos estudantes e aos estudiosos.
99
REFERÊNCIAS
REFERÊNCIA ONLINE
1. D.
2. B.
3. A.
4. A.
5. A.
Professora Me. Mariane Helena Lopes
IV
FORMAS DE GOVERNO E
UNIDADE
REGIMES POLÍTICOS NO
MUNDO CONTEMPORÂNEO
Objetivos de Aprendizagem
■■ Conhecer a Autocracia.
■■ Entender a democracia.
■■ Compreender a democracia liberal.
■■ Analisar a democracia não-liberal.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ Autocracia
■■ Democracias
■■ Democracia liberal: parlamentarismo ou presidencialismo
■■ Democracia não-liberal
103
INTRODUÇÃO
povo. Assim, pode-se dizer que o povo romano era um povo que tinha como
essência serem guerreiros.
Já, a democracia foi uma invenção do povo grego, que queria controlar o
poder dado aos governantes e, ao mesmo tempo, exigir uma participação do
próprio povo, nas decisões de ordem coletiva.
Aqui, devemos tomar cuidado para não confundir a Democracia com a
República. A primeira é uma forma de governo, que permitiu que a sociedade
tivesse mais liberdade do que nas autocracias e que seus governantes fossem
escolhidos pela mesma. Enquanto República quer dizer coisa pública, ou seja,
que pertence a todos mas não é de ninguém.
Feita essa diferenciação, analisaremos as características da Democracia, bem
como suas classificações, diferenciando-as umas das outras.
Lembrando que, aqui, o nosso foco é exclusivamente científico, sem o obje-
tivo de uma discussão política a respeito do tema.
Introdução
104 UNIDADE IV
AUTOCRACIA
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Ditadura ou autocracia, segundo Norberto Bobbion (1998b, p. 48), assumem,
ao longo da história, o mesmo significado, pois uma autocracia
[...] uma autocracia é sempre um Governo absoluto, no sentido de que
detém um poder ilimitado sobre os súditos. Além disso, a autocracia
permite que o chefe do Governo seja de fato independente, não somen-
te dos seus súditos, mas também de outros governantes que lhe estejam
rigorosamente submetidos.
Autocracia
106 UNIDADE IV
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Outro exemplo, nesta mesma linha de pensamento, é a China, que não perso-
nalizou o poder depois de Mao Tse Tung, mas estabeleceu regras para a sucessão
do poder, o que permite a continuidade da mesma, dentro de uma certa tranqui-
lidade, embora, para a Ciência Política, a China tenha que ser melhor estudada
e com outras perspectivas e modelos, diferentes daqueles predominantes nos
dias atuais.
Depois de realizar uma construção histórica das nuances e significados que
a ditadura assume, ao longo da história da humanidade, Bobbio (1998b, p. 73)
afirma que na modernidade,
Com a palavra Ditadura, tende-se a designar toda classe dos regimes
não-democráticos especificamente modernos, isto é, dos regimes não-
-democráticos existentes nos países modernos ou em vias de moder-
nização (com que se podem assemelhar também as tiranias gregas dos
séculos VII e VI a.C. e alguns outros Governos surgidos na história
do Ocidente)” Sendo assim, o que ocorreu foi uma polarização entre
regimes democráticos e regimes não-democráticos, nominados como
ditadura, ou ainda, autocracias.
Autocracia
108 UNIDADE IV
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
seriam concedidos aos amigos dos reis, que não fossem aptos ao exercício dos
mesmos. Incorporam, do Direito Romano, questões fundamentais de direitos
civis, reconhecendo, por exemplo, questões pertinentes ao direito de família
e o estabelecimento de sucessão para os bens dos homens. Das ideias advin-
das, principalmente, de John Locke, incorporam alguns direitos políticos,
como, por exemplo, na Inglaterra, a possibilidade de participar da eleição da
Baixa Câmara.
O segundo aspecto é que se caracteriza por ser o “império da lei; e divi-
são de poderes” (COELHO, 2010, p. 102). Em outras palavras, o rei pode, mas
não pode tudo, estabelecido inicialmente, na Inglaterra, pela Magna Carta de
João Sem-Terra - que impôs limites ao poder do rei, desfigurando a persona-
lidade do poder absoluto do rei. Quanto à divisão dos poderes, na maioria das
vezes, ocorrerá apenas de forma simbólica, como, por exemplo, na maioria des-
tas Monarquias Liberais, embora existisse o Parlamento, ele tinha muito mais
caráter consultivo do que poder para realmente propor as leis e exigir o seu
cumprimento por parte dos reis. O próprio Brasil Monárquico passou por esta
experiência e, embora, o Parlamento pudesse elaborar leis, a sua aprovação final
é um poder discricionário do Imperador.
Já no tocante aos direitos civis, os mesmos estavam inseridos no seguinte
rol: “liberdade de expressão; liberdade de reunião; liberdade de religião; liber-
dade de ir e vir; e direito à propriedade” (COELHO, 2010, p. 102), experiência
essa vivenciada, principalmente, pela Inglaterra de longa data. Talvez este seja
o fato de as teorias de John Stuart Mill ao defender estas prerrogativas, tenham
causado muito mais furor e preocupação em outras regiões da Europa do que na
DEMOCRACIAS
Quando se trata do tema democracia, é preciso lembrar que a mesma foi uma
invenção do povo grego, como forma de controlar o poder dos governantes e,
ao mesmo tempo, exigir a participação do povo nas decisões de ordem coletiva.
Bobbio (1998a) faz uma descrição detalhada das supostas três fases do desen-
volvimento do conceito, passando pelo mundo clássico, medieval e chegando ao
moderno, distinções estas, que, neste momento, não entendemos ser necessário
para o desenvolvimento de nosso estudo. A questão proposta e desenvolvida pelo
referido autor é quanto a confusão aparente entre Democracia e República, princi-
palmente, advindo dos conhecimentos político de Maquiavel, já na modernidade.
Enquanto a democracia é a forma de governo em que as liberdades existem
em um grau muito superior às autocracias, uma outra característica fundamental
é aquela em que os governados, efetivamente, podem escolher os seus gover-
nantes e mesmo, participar de forma ativa das diversas estruturas que compõe o
Estado, além das questões pertinentes às divisões dos poderes. Já o conceito de
República, vem do latim res publica, que na realidade significa a coisa pública,
que pertence a todos mas não é de ninguém. Ao qual Cícero acresce o conceito
de cidadania, que se trata do exercício e participação da vida pública, de acordo
com os ideais do Império Romano.
Democracias
110 UNIDADE IV
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
não delegar a outras pessoas o seu exercício.
O segundo, refere-se à estrutura derivativas do poder político e necessárias
à própria organização interna do Estado, sendo assim, “junto do supremo órgão
legislativo deverá haver outras instituições com dirigentes eleitos, como os órgãos
da administração local ou o chefe de Estado (tal como acontece nas repúbli-
cas)” (BOBBIO, 1998b, p. 99), trata-se de um problema já resolvido pela Teoria
Federalista, que reconhece a figura política-jurídica dos Estados e Municípios e
sua independência para estabelecer a estrutura legislativa semelhante à da União.
O terceiro aspecto estabelece as condições para participação nas decisões
referentes ao Estado, tomando as eleições como forma de participação, portanto,
“todos os cidadãos que tenham atingido a maioridade, sem distinção de raça, de
religião, de censo e possivelmente de sexo, devem ser eleitores” (BOBBIO, 1998b,
p. 100), neste aspecto, o Brasil ampliou, ainda mais, este universo, quando per-
mitiu aos jovens, com mais de 16 anos, serem eleitores.
O quarto, trata-se de ampliar a igualdade e o peso do voto, evitando, assim, a
existência de votos com peso maior do que outros. A parcela de poder que cada um
tem, deve ser exatamente a mesma, conforme já defendia Jean Jacques Rousseau.
O quinto, trata-se da liberdade de opinião, sendo assim, “todos os eleitores
devem ser livres em votar segundo a própria opinião formada o mais livremente
possível, isto é, numa disputa livre de partidos políticos que lutam pela forma-
ção de uma representação nacional” (BOBBIO, 1998b, p. 101), caracterizando
assim, a prática da liberdade de opinião e mesmo expressão.
O sexto, preocupa-se em defender não apenas a liberdade de votar, mas a
liberdade para ser colocada outras possibilidades à sua disposição, sendo assim,
“devem ser livres também no sentido em que devem ser postos em condição de
ter reais alternativas (o que exclui como democrática qualquer eleição de lista
única ou bloqueada)” (BOBBIO, 1998b, p. 102 ). Não faz sentido uma democra-
cia, por pressões de ordem política e outras, que não tenha a possibilidade de ter
outros candidatos e que defenda opiniões diferentes.
O sétimo, traz como preocupação, a máxima de que constitui a democracia ori-
ginária do mundo grego, em que o que se deve levar em consideração é o desejo da
maioria numérica e não a suposta importâncias discriminatórias do voto, portanto,
[...] tanto para as eleições dos representantes como para as decisões do
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Democracias
112 UNIDADE IV
Com relação à participação do povo propriamente dita, democracia pode ser direta
ou indireta, também conhecida como representativa. A democracia direta é aquela
em que o povo não delega a um terceiro, a possibilidade de tomar as decisões,
participando diretamente tanto da administração quanto da tomada de decisões.
É o modelo de democracia defendido por Rousseau e também por outros libe-
rais e que, nos momentos em que a Grécia usufrui desta forma de governo, foi o
praticado pelos gregos, principalmente na cidade de Atenas. O problema é que
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
este tipo de democracia exige uma participação intensa do povo e que, pratica-
mente, no modelo quantitativo, torna impossível a sua existência em sociedades
mais numerosas, principalmente num mundo moderno, caracterizado pelo modo
de produção capitalismo, em que as pessoas teriam que deixar os seus afazeres,
para se reunirem em locais específicos e discutir os assuntos de interesse geral e
depois aprovar ou não os mesmos. Defendendo este tipo de democracia, Rousseau
defende a ideia de que os homens não podem delegar aos outros, a responsabili-
dade de continuar defendendo as suas liberdades e outros direitos.
Quanto à democracia indireta ou representativa, é aquela que vivemos no
Brasil, ou seja, dependendo das divisões políticas administrativas internas, o
povo elege os vereadores para representá-los no legislativo municipal, deputa-
dos estaduais junto ao legislativo estadual e deputados federais e senadores junto
ao Congresso Nacional, além de prefeito, governador e presidente, que são car-
gos executivos. Sendo assim, delegamos a outras pessoas a possibilidade de nos
representar neste modelo de democracia.
Contudo, experiências mais recentes, principalmente na América Latina, têm
criado possibilidades de incremento para participação direta do povo nas deci-
sões do governo, como aquele, embora ainda polêmico, projeto da criação dos
Conselhos Populares pelo atual governo do Partido dos Trabalhadores. Uma espé-
cie de órgão consultivo junto ao poder executivo, que, representando determinados
segmentos da sociedade, pudesse, de forma direta, fornecer subsídios para que o
governo fosse mais ágil e preciso nas suas decisões. O que se alega, por contrarie-
dade, é que se isto acontecesse, estaríamos diminuindo a importância do poder
legislativo, pois estaria sendo criado um canal direto entre o povo e o governo.
DEMOCRACIAS LIBERAIS
Democracias
114 UNIDADE IV
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
quem tem tratado este assunto de forma mais específica é o americano Robert
Dahl (2008, p. 170), quando, na obra Poliarquia (1971), cria o conceito que é o
próprio título da obra, dizendo que “a democracia é um governo responsável
para todos os seus cidadãos, tendo a igualdade política como seu pré-requisito
básico. Esta condição implica o direito de todos terem poderes para formular,
expressar e ter preferências igualmente consideradas na conduta do governo”
(ABU-EL-HAJ, 2008, p. 169). Sendo assim, conforme destaca o cientista polí-
tico americano, mais do que direito, a democracia precisa de responsabilidade
por parte das pessoas e deve influenciar de forma contínua nas próprias deci-
sões do governo.
A obra de Robert Dahl (1915-2014) é um referencial para uma leitura de
uma democracia sobre uma outra perspectiva e, até certo ponto, inovadora, com
a criação do que ele chama de poliarquia, ou ainda, uma democracia poliárquica,
que seria o novo modelo de democracia. A democracia poliárquica é um sistema
político dotado de seis instituições democráticas, que passaremos a analisar a
seguir. Contudo, podemos afirmar que é diferente da democracia representativa,
em que ainda existiam os sufrágios seletivos (no modelo de John Stuart Mill), e
também das democracias que comumente conhecemos.
Segundo Robert Dahl (2008), é mais importante você construir uma demo-
cracia em pequena escala, ou seja, em países com menor número de habitantes,
do que realizar o mesmo processo, em um país com grande espaço territorial e
populacionalmente mais denso, como seria o caso do Brasil. Para este tipo de
país, a democracia exige algumas instituições com características bem específi-
cas e que vamos analisar a seguir.
Democracias
116 UNIDADE IV
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
DEMOCRACIA LIBERAL: PARLAMENTARISMO OU
PRESIDENCIALISMO
vida fácil, ao contrário, ele tem de forma intensa fiscalização de suas ações, sendo
realizadas, diretamente, pelos parlamentares, que, ao perceber qualquer deslize,
ou descumprimento de metas ou outros, pode, em reunião específica, votar uma
“monção de repúdio ou descrédito” de suas ações, o que pode levar à sua subs-
tituição por um outro parlamentar. No entanto, o mandato do parlamentar tem
tempo definido e rígido, se é possível reeleição ou não, são mera características
culturais e política de cada país.
No entanto, existe uma característica de ordem jurídica-política que dife-
rencia o presidencialismo do parlamentarismo, é que o primeiro é eleito por um
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
mandato fixo para o exercício do poder, que é determinado pela constituição de
cada país, no nosso caso, é de quatro anos. Já o Primeiro-Ministro, o Chefe de
Governo do Sistema Parlamentarista, o exercício do seu cargo não é definido, ou
seja, a qualquer momento, utilizando instrumentos democráticos e jurídicos, o
parlamento pode pedir, gentilmente, a renúncia do mesmo, ou o fazer por meio de
uma votação com prazo normalmente, quase que de imediato. Tudo depende das
circunstâncias e conveniências política e da força de seu partido no Parlamento.
Contudo, é preciso ressaltar que, segundo Coelho (2010, p. 116):
[...] seria errôneo imaginar que sob o presidencialismo o governo é
mais forte do que sob o parlamentarismo. O simples fato de o governo
presidencial ser eleito diretamente pelo povo e o governo parlamentar
ser eleito pelo parlamento, nada diz a respeito da força de um governo.
DEMOCRACIA NÃO-LIBERAL
Democracia Não-Liberal
120 UNIDADE IV
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
um apoio incondicional da China, na condição de superpotência mundial, o que
acabou não acontecendo, porque a China faz o jogo que lhe é mais conveniente
no mercado e pouco se mostra preocupada com a expansão ou não do socia-
lismo e mesmo de países de menor expressão e que possam somar forças para
fazer frente ao poderio americano e europeu. A China joga o seu jogo e este não
é ideológico, mas sim econômico.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Considerações Finais
122
1. O que é autocracia?
Indicamos como uma literatura valiosa para compreender melhor as questões pertinentes à formação
do Estado, o artigo do Professor Luiz Carlos Bresser-Pereira.
Web: <[Link]
Material Complementar
REFERÊNCIAS
REFERÊNCIA ONLINE
1
Em: <[Link]
do-contemporaneo>. Acesso em: 22 maio 2018.
127
GABARITO
2. A democracia surgiu com o povo grego, como uma forma de controlar o poder
dos governantes e, ao mesmo tempo, exigir a participação do povo nas decisões
de ordem coletiva.
4. A democracia não liberal é aquela que possui algumas características dos re-
gimes democráticos, como o voto popular, mas, normalmente, não apresenta
a divisão de poderes, ou quando apresenta, o presidente passa a exercer uma
posição de decisão final sobre os assuntos.
5. I e II apenas.
Professora Me. Mariane Helena Lopes
V
A REPRESENTAÇÃO E O
UNIDADE
SISTEMA PARTIDÁRIO
BRASILEIRO
Objetivos de Aprendizagem
■■ Conhecer como funciona a representatividade no Brasil.
■■ Analisar a representação política.
■■ Demonstrar os sistemas eleitorais.
■■ Compreender o cálculo do número de candidatos.
■■ Compreender como se dá o processo de escolha para os senadores.
■■ Calcular as vagas para deputado (federal e estadual) e vereador.
Plano de Estudo
A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade:
■■ O Brasil: representação e sistema partidário
■■ Representação política
■■ Sistemas eleitorais
■■ Cálculo do número de candidatos
■■ Senadores
■■ Cálculo das vagas para deputado (Federal e Estadual) e vereador
131
INTRODUÇÃO
Introdução
132 UNIDADE V
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
Tocqueville ao escrever a sua obra A Democracia na América, apontava ser a
democracia uma forma de governo difícil de ser implantada em um país com
grandes dimensões territoriais e populacional. Robert Dahl, cientista político
americano, na obra Sobre a Democracia, também nos ensina que é mais fácil
instituir e fazer funcionar uma democracia num pequeno país, do que em um
país de grandes dimensões.
Os americanos enfrentaram este problema bem antes da Europa e assim,
puderam servir como espelho para os demais países, no entanto, na América
do Norte, existiram condições de ordem cultural, política e religiosa, diferentes
daquelas que ocorreram aqui no Brasil. Sendo assim, o Brasil teve que construir
o seu caminho, praticamente sozinho, ora tomando por modelo os americanos,
ora sendo influenciado pelas democracias europeias.
A REPRESENTAÇÃO POLÍTICA
Portanto, o que ocorre em uma democracia é que existem leis que estabelecem
parâmetros mínimos para que as pessoas possam participar da construção polí-
tica, por meio de seu voto, o que em nada diminui a expressão da democracia,
porque estas leis são criadas dentro dos princípios democráticos de proposição,
discussão pública sobre seus efeitos e benefícios, amadurecimento das ideias e,
finalmente, a votação, sanção e publicação das mesmas.
A Representação Política
134 UNIDADE V
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pequeno grupo de portadores de necessidades especiais, ou, de forma mais
comumente expressada, embora seja conveniente a mudança de nosso voca-
bulário, as pessoas com deficiência física ou mental, a razão é que “a exigência
de que o eleitor tenha consciência da significação do ato de votar exclui, desde
logo, os deficientes mentais” (DALLARI, 2012, p. 187). Essas pessoas, tutela-
das pelo Estado, por parentes ou outras pessoas nomeadas juridicamente para
tal, estão desprovidas de condições mentais para o exercício deste e outros
direitos políticos, contudo, jamais perdem a sua condição de serem reconhe-
cidos como cidadãos.
Outrora, em nosso país, os analfabetos e os cegos também estavam excluídos
deste processo, fato este que sofreu mudanças significativas após a Constituição
Federal de 1988. Antes desta mesma condição, quando ainda não discutíamos
a acessibilidade e mobilidade como direitos intrínsecos aos da cidadania, algu-
mas pessoas que apresentavam deficiência ou dificuldade de mobilidade, como,
por exemplo, cadeirantes e pessoas que se deslocam com auxílio de aparelhos,
por questão de falta de estrutura também ficavam excluídas da possibilidade do
voto. No entanto, com a mudança do acesso aos equipamentos urbanos, onde
acontece a votação e ao direito que estas pessoas têm de ter o acesso facilitado,
incorporou-se um contingente significativo, quantitativa e qualitativamente
falando, de eleitores que podem exercer uma das condições para o exercício da
cidadania, neste sentido, nos ensina Dallari (2012, p. 188), que “é uma exigência
democrática a redução das restrições, para que o maior número possível parti-
cipe das escolhas”.
Outro assunto que ainda gera polêmica é se o preso, ou seja, aquele que por
ordem ou decisão judicial, tem restrição de liberdade, pode ou não votar. Para
compreender melhor esta questão é preciso recorrer ao artigo 15 da Constituição
Federal cuja redação é a seguinte: “vedada a cassação de direitos políticos, cuja
perda ou suspensão só se dará nos casos de: ... III - condenação criminal transi-
tada em julgado, enquanto durarem seus efeitos” (BRASIL, 2018, on-line), sendo
assim, os presos que ainda não foram julgados, também chamado de regime
transitório, ou ainda, aqueles que aguardam resultados de investigação, têm,
constitucionalmente, direito a votar.
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A Representação Política
136 UNIDADE V
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ral eleitoral dos coronéis.
O voto igual para todos, traduz a ideia de “uma cabeça, um voto”, ou seja,
parte-se do pressuposto em que, numa democracia, os cidadãos não tenham e
nem possam ter diferença quantitativa do seu voto, o que poderia discriminar,
ainda mais, direitos de minorias e outros, por motivos diversos. No entanto, exis-
tem teóricos que defendem a diferença do peso do voto, como a teoria de John
Stuart Mill, como forma de dar um maior peso ao voto das pessoas “mais edu-
cadas e preparadas” para participar das decisões do Estado. Contudo, no Brasil,
ainda existem instituições públicas, como universidades, nas quais a eleição
para o cargo de Reitor ocorre mediante voto diferenciado, como, por exemplo:
o voto dos professores que vale 70, dos funcionários que vale 15 e dos alunos 15.
Embora se discuta questões de ordem democrática, existem razões internas aos
problemas das instituições que deliberam sobre este assunto.
Para os cargos de Presidente da República, Governador do Estado e Prefeitos
(para cidades com mais de 200 mil eleitores), existe a previsão da legislação elei-
toral para a realização de segundo turno, sendo assim,
o segundo turno poderá ocorrer apenas nas eleições para presidente
e vice-presidente da República, governadores e vice-governadores dos
estados e do Distrito Federal e para prefeitos e vice-prefeitos de muni-
cípios com mais de 200 mil eleitores. Logo, são eleitos em uma única
votação os senadores, deputados federais, deputados estaduais e verea-
dores, assim como prefeitos e vice-prefeitos de municípios com menos
de 200 mil eleitores (TSE, [2018], s.p.).
SISTEMAS ELEITORAIS
Sistemas Eleitorais
138 UNIDADE V
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assim, uma relação de cobrança direta entre o povo e candidato eleito, porque não
permite artimanhas políticas para carreamento de voto, o que pode ser possível,
para os cargos em que existe representação proporcional e que será vista a seguir.
No sistema majoritário, cada partido pode lançar somente um candidato e
não o fazendo, o máximo que pode fazer, é estabelecer uma aliança com outro
partido, para ampliar o tempo de participação na mídia. Com exceção deste
detalhe de tempo na mídia, pode-se dizer que essas alianças são muito mais de
ordem subjetiva, do que objetiva, em outras palavras, não se tem certeza quanto
a transferência de voto de um partido para outro. Trata-se muito mais de um
suposto apoio “logístico e moral”, do que efetivo, uma vez que, no Brasil, nem
sempre o candidato, que o eleito vota para Presidente da República, tem o mesmo
partido do candidato que ele vota para governador ou prefeito. Não existe vin-
culação direta.
O sistema de representação proporcional surge como forma de garantir a
representação política das minorias, pois “neste sistema, todos os partidos têm
direito a representação, estabelecendo-se uma proporção entre o número dos
votos recebidos pelo partido e o número de cargos que ele obtém” (DALLARI,
2012, p. 192). Este sistema se aplica para os cargos políticos em que o exercício do
poder se encontra diluído entre várias pessoas, pela própria natureza do poder,
ou seja, de permitir um espectro maior de participação da sociedade nas deci-
sões referentes ao Estado. Segundo Dallari (2012, p. 192), “os defensores desse
sistema de representação consideram que ele resolve perfeitamente o problema
das minorias, pois assegura também aos grupos minoritários a possibilidade de
participação no governo”.
Uma questão que intriga a todos, mas de fácil resposta, é quanto ao número de
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candidatos que determinado partido pode lançar aos cargos de eleição propor-
cional, neste sentido, a Lei nº 9.504, de 30 de setembro de 1997, que estabelece
normas para as eleições, assim determina:
Art. 10. Cada partido poderá registrar candidatos para a Câmara dos De-
putados, Câmara Legislativa, Assembleias Legislativas e Câmaras Muni-
cipais, até cento e cinquenta por cento do número de lugares a preencher.
§ 1º No caso de coligação para as eleições proporcionais, independente-
mente do número de partidos que a integrem, poderão ser registrados
candidatos até o dobro do número de lugares a preencher.
Neste sentido, por exemplo, se determina cidade o número de cadeiras para vere-
ador for de 10, cada partido poderá lançar no máximo 15 (que é 150% de 10),
no entanto, se este partido de coligar com um ou mais partidos, este número
será de 20 (o dobro de 10).
Este mesmo cálculo vale para Deputado Estadual, tomando, por exemplo,
o Estado do Paraná, que tem 54 cadeiras de deputados, cada partido pode apre-
sentar, um total de 81 candidatos (54 + 50% que é 27). Caso faça coligação com
outro partido, a coligação poderá lançar 108 candidatos (54 + 54).
Sendo assim, a quantidade de candidatos para os cargos de Deputado Federal,
Estadual e Vereadores, depende do número de cadeiras para cada uma das esfe-
ras políticas, também determinada por lei.
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que o Estado mais populoso terá 70 Deputados Federais, neste caso específico,
o Estado de São Paulo, o que, segundo aquele Estado, trata-se de uma injustiça,
porque, proporcionalmente, tem um número maior de habitantes, mas isso não
se reflete no cômputo do cálculo para os Deputados Federais, em função da cláu-
sula limitadora.
Segundo a Câmara Federal ([2018], on-line), a atual composição é a seguinte:
Quadro 1 - Número de deputados por Estado
Acre 8 Paraíba 12
Alagoas 9 Pernambuco 25
Amazonas 8 Piauí 10
Amapá 8 Paraná 30
Bahia 39 Rio de Janeiro 46
Ceará 22 Rio Grande do Norte 8
Distrito Federal 8 Rondônia 8
Espírito Santo 10 Roraima 8
Goiás 17 Rio Grande do Sul 31
Maranhão 18 Santa Catarina 16
Minas Gerais 53 Sergipe 8
Mato Grosso do Sul 8 São Paulo 70
Mato Grosso 8 Tocantins 8
Pará 17
Fonte: Brasil ([2018], on-line).
RK UF QUANT. RK UF QUANT.
Rio Grande
1º São Paulo 28.037.734 15º 2.101.144
do Norte
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Rio de
3º 10.891.293 17º Mato Grosso 1.940.270
Janeiro
Rio Grande
5º 7.750.583 19º Amazonas 1.781.316
do Sul
Distrito
6º Paraná 7.121.257 20º 1.655.050
Federal
Mato Grosso
7º Pernambuco 5.834.512 21º 1.561.181
do Sul
Santa
9º 4.168.495 23º Rondônia 988.631
Catarina
Espírito
14º 2.336.133
Santo
Fonte: Congresso em foco (2006, on-line)1.
Os dados desta tabela refletem bem a reivindicação dos Estados mais numero-
sos, pois, na média, um Deputado Federal por São Paulo precisaria de 450.778
votos para ser eleito, enquanto que um Deputado Federal pelo Acre precisaria
de 63.710, ou seja, os votos de um único Deputado por São Paulo, elegeria 7 no
Acre; a questão se torna mais desproporcional ainda, quando tomamos por refe-
rência o Estado de Roraima, em que um Deputado por São Paulo, precisaria da
quantidade de votos para eleger 12 candidatos por Roraima.
É importante ressaltar que os Deputados Federais são eleitos por quatro
anos, não tendo limite para a reeleição. Essas questões referentes a possíveis
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correções no índice de representatividade e outras, precisam ser enfrentadas
de forma democrática, numa reforma política profunda que o Brasil precisa
passar o mais urgente possível, até em função de outras distorções que vere-
mos a seguir.
Acre 8 24
Alagoas 9 24
Amazonas 8 24
Amapá 8 24
Bahia 39 24 63
Ceará 22 24 46
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Distrito Federal 8 24
Espírito Santo 10 24 34
Goiás 17 24 41
Maranhão 18 24 42
Minas Gerais 53 24 77
Mato Grosso do Sul 8 24
Mato Grosso 8 24
Pará 17 24 41
Paraíba 12 36
Pernambuco 25 24 49
Piauí 10 36
Paraná 30 24 54
Rio de Janeiro 46 24 70
Rio Grande do Norte 8 24
Rondônia 8 24
Roraima 8 24
Rio Grande do Sul 31 24 55
Santa Catarina 16 24 40
Sergipe 8 24
São Paulo 70 24 94
Tocantins 8 24
Fonte: a autora.
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setembro de 2009. Esta lei determina as faixas de população e o número de vagas.
Os Vereadores são eleitos para mandatos de 4 anos, não tendo limites para
a sua reeleição.
SENADORES
SISTEMAS DE PARTIDO
[...] uma associação (...) que visa a um fim deliberado, seja ele ‘objetivo’
como a realização de um plano com intuitos materiais ou ideais, seja
‘pessoal’, isto é, destinado a obter benefícios, poder e, consequentemen-
te, glória para os chefes e sequazes, ou então voltado para todos esses
objetivos conjuntamente.
O que não deixa de ser uma definição adequada na nossa realidade, na qual as
lideranças de partidos políticos procuram construir projetos de vida, tendo como
instrumento o partido político, principalmente, porque cada partido político que
tem um mínimo de representação política, de acordo com a lei, também tem
tempos nos meios de comunicação de massa em épocas de campanha.
Bobbio (1998), depois de discorrer de forma profunda sobre os partidos
políticos, conclui a sua exposição, nos dizendo que,
[...] partido político se apresenta de modo muito diferente pelo que,
para captar sua especificidade e a relevância atual num dado sistema
político, é necessário vê-lo inserido na estrutura econômico-social e
política do demos afirmar que se o fenômeno “partido” como configu-
ração organizativa e como conjunto de funções por ele desenvolvidas
mostra, em termos gerais, uma tipicidade própria, do ponto de vista
concreto e analise um determinado país, num bem definido momento
histórico.
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ideologia do partido com a sua própria ideologia de vida, criando uma identifi-
cação mais forte e fiel ao partido e seus ideais.
No entanto, “contra a representação política, argumenta-se que o povo, mesmo
quando o nível geral de cultura é razoavelmente elevado, não tem condições para
se orientar em função de ideias e não se sensibiliza em torno de opções abstratas”
(DALLARI, 2012, p. 168). O que Dallari relata é um fenômeno da própria moder-
nidade, principalmente, a brasileira, aonde as pessoas já estão reduzindo o seu
campo de associatividade, com se trata de questões de ordem política, fato este
também discutido pelo Marco Aurélio Nogueira, na obra Em Defesa da Política.
Outro aspecto que tem chamado a atenção da Ciência Política e da Sociologia, e
também se constitui em problema de todos, é a constatação, em alguns casos, e casos
cada vez mais evidente e comuns, de que “os partidos são acusados de ter se conver-
tido em meros instrumentos para a conquista do poder, uma vez que raramente a
atuação de seus membros condiz fielmente com os ideais enunciados nos programas
partidários” (DALLARI, 2012, p. 168). Combina-se, a este fator, o movimento de lide-
ranças políticas aparentemente importantes, transitando de um partido para outro,
como se troca de roupa, ou seja, se determinado partido não lhe oferece vantagens,
normalmente de ordem pessoal, imediatamente procura filiação em outro partido.
Quanto ao número de partidos políticos, o Sistema pode ser bipartidário,
quando existem apenas dois partidos políticos e pluripartidário, aonde o número
de partidos podem tanto quanto se julgar necessário, obedecida algumas condi-
ções previstas em lei. O Brasil, depois do retorno à democracia, e, principalmente,
com a mudança da legislação eleitoral em função da Constituição Federal de
1988, aderiu ao Sistema Pluripartidário.
legislação eleitoral.
Finalizando, a história partidária brasileira, principalmente, após a
Constituição Federal de 1988, não é uma história de perpetuação de partidos
fortes, com ideologias e programas partidários que realmente possam represen-
tar os anseios e necessidades da sociedade brasileira, mas sim um instrumento
de poder e troca de favores, para simplesmente, na maioria das vezes, coloca-
rem as pessoas no topo do poder. Muito ainda precisa ser feito!
QUOCIENTE ELEITORAL
Define quais partidos e/ou coligações que têm direito a ocupar as vagas que são
disputadas nas eleições proporcionais, sejam elas para deputado federal, depu-
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tado estadual e vereador.
O quociente eleitoral é determinado da seguinte forma: divide-se o número
de votos válidos apurados pelo de lugares a preencher em cada circunscrição
eleitoral, sendo desprezada a fração se igual ou inferior a meio, equivalente a
um, se superior (art. 106, Código Eleitoral).
Nas eleições proporcionais, conta-se como válidos apenas os votos dados a
candidatos que são regularmente inscritos e às legendas partidárias (art. 5º da
Lei nº 9.504/97). A fórmula, então, será:
QUOCIENTE PARTIDÁRIO
Ele define o número inicial de vagas que caberá a cada partido ou coligação
que tenha alcançado o quociente eleitoral. Cada partido ou coligação terá o seu
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QUOCIENTE
PARTIDO/COLIGAÇÃO CÁLCULO
PARTIDÁRIO
Partido A QPA = 1.900/672 = 2.8273809 2
Partido B QPB = 1.350/672 = 2,0089285 2
Coligação D QPD = 2.250/672 = 3.3482142 2
Total de vagas preenchidas
7
por quociente partidário (QP)
Fonte: a autora.
Logo, as vagas disponíveis são 7 para serem preenchidas pelo quociente partidário.
CÁLCULO DA MÉDIA
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
1º) O número de votos válidos atribuídos a cada partido político ou coliga-
ção será dividido pelo número de lugares por eles obtidos pelo cálculo
do quociente partidário mais um, cabendo ao partido político ou à
coligação que apresentar a maior média um dos lugares a serem preen-
chidos, desde que tenha candidato que atenda à exigência de votação
nominal mínima.
3º) Quando não houver mais partidos ou coligações com candidatos que
atendam às duas exigências da primeira possibilidade, as cadeiras serão
distribuídas aos partidos que apresentem as maiores médias.
Nesse caso as fórmulas que devem ser usadas são:
Vamos ao exemplo:
1ª Média:
PARTIDO/COLIGAÇÃO CÁLCULO MÉDIA
Partido A MA= 1.900/ (2+0+1) 633,33333333
Partido B MB= 1.350/ (2+0+1) 450
Coligação D MD= 2.250/ (3+0+1) 562,5
Partido ou coligação que
Partido A
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2ª Média:
PARTIDO/COLIGAÇÃO CÁLCULO MÉDIA
Partido A MA= 1.900/ (2+0+1) 633,33333333
Partido B MB= 1.350/ (2+0+1) 450
Coligação D MD= 2.250/ (3+0+1) 562,5
Partido ou coligação que Coligação D
atingiu a maior média (2ª)
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Reprodução proibida. Art. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998.
É por essa razão que os cientistas políticos sempre frisam a importância de
se observar quem está se candidatando, conhecer sua vida pública, saber como
ele trabalhava e/ou trabalha, objetivando que, caso seja eleito, cumpra seu man-
dato corretamente, proporcionando melhorias para a população.
Outro aspecto estudado e de suma importância é o sistema eleitoral. Aquele
que é adotado num país pode exercer considerável influxo sobre a forma de
governo, a organização partidária e a estrutura parlamentar, refletindo, assim,
até certo ponto, a índole das instituições e a orientação política de regime. Assim
o sistema eleitoral tem como finalidade revelar como se dará a forma de eleição,
quanto à representação majoritária ou proporcional.
Na sequência, compreendemos como deve ser feito o cálculo do número
de candidatos que determinado partido pode lançar aos cargos de eleição pro-
porcional. E, por fim, analisamos o funcionamento do quociente eleitoral, ou
seja, de que forma os partidos e/ou coligações terão direito a ocupar as vagas
que serão disputadas nas eleições proporcionais, sejam para deputado federal,
deputado estadual e vereador.
Lembrando que o objetivo da disciplina não foi esgotar o assunto, mas pro-
porcionar uma maior compreensão.
2. Com a Constituição Federal de 1988, podemos falar que os cegos podem par-
ticipar do sistema eleitoral?
3. Discorra sobre por qual razão o voto é secreto e igual para todos.
TSE pode rever brecha na Lei da Ficha Limpa, diz ministro Por Letícia Casado
O presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Luiz Fux, disse, nesta quinta-
-feira, que é possível que a corte volte a examinar a possibilidade de um político “ficha
suja” registrar candidatura para concorrer à eleição. O presidente do Tribunal Superior
Eleitoral (TSE), ministro Luiz Fux, disse nesta quinta-feira que é possível que a corte volte
a examinar a possibilidade de um político “ficha suja” registrar candidatura para concor-
rer à eleição. O tema ganhou relevância em razão da possibilidade de o ex-presidente
Luiz Inácio Lula da Silva (PT) concorrer em 2018. A Lei da Ficha Limpa impede que candi-
datos condenados por órgão colegiados (formados por grupos) sejam candidatos, mas
um de seus artigos deixa uma abertura. De acordo com a lei, em meio à campanha o réu
pode conseguir uma liminar junto aos tribunais superiores para suspender a inelegibili-
dade de candidatos já condenados na Justiça. Em conversa com jornalistas, Fux afirmou
que vai discutir o assunto com os colegas do TSE. O ministro não falou sobre nenhum
caso específico. “Vou avaliar com colegas do tribunal se essa praxe das liminares vai ser
entendida sob esse ângulo”, afirmou. “Em princípio, quem já está com a situação defi-
nida de inelegibilidade evidentemente não não pode se registrar”, disse Fux. “Outros
acham que tem que requerer [o registro de candidatura, que pode ser impugnado]. Isso
é algo que tem que passar pelo colegiado”, acrescentou. Recursos Lula foi condenado na
Lava Jato pelo juiz Sergio Moro, do Paraná, e pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região
(TRF-4). Os desembargadores mantiveram a condenação e aumentaram a pena, de nove
anos e seis meses para 12 anos e um mês de prisão em regime fechado por lavagem de
dinheiro e corrupção passiva no caso do tríplex do Guarujá (SP). Agora, a defesa de Lula
tenta uma liminar nos tribunais superiores para derrubar a decisão do TRF-4, a fim de
evitar sua prisão e a declaração de inelegibilidade.
Fonte: Casado, L. ([2018], on-line).
MATERIAL COMPLEMENTAR
Ciência Política
Paulo Bonavides
Editora: Malheiros
Sinopse: a obra é um clássico da literatura jurídica, alargando o conceito da
Teoria Geral do Estado. Ele é uma extraordinária explanação da matéria. Daí sua
excepcional acolhida, que se reflete nas sucessivas edições e tiragens de obra
destinada aos estudantes e estudiosos do tema.
Material Complementar
REFERÊNCIAS
NOGUEIRA, Marco Aurélio. Em Defesa da Política. 2ª ed. São Paulo: Senac, 2004.
STF. Supremo Tribunal Federal. Condenação Criminal Recorrível - Inelegibilidade-
lei da ficha limpa. Brasília, 2018.
SOARES, M. L. Q. Teoria do Estado – Novos Paradigmas em Face da Globalização.
São Paulo: Atlas, 2008.
TOTAL, dos eleitores por estado do estado. Congresso em foco. Disponível em:
<[Link]
Acesso em: 15 fev. 2018.
TOCQUEVILLE, A. A democracia na américa: leis e costumes. Trad. Eduardo Bran-
dão. São Paulo: Martins Fontes, 2005.
TSJ. Quando afinal, há segundo turno em uma eleição? Disponível em: <http://
[Link]/o-tse/escola-judiciaria-eleitoral/publicacoes/revistas-da-eje/arti-
gos/revista-eletronica-eje-n.-6-ano-3/quando-afinal-ha-segundo-turno-em-uma-
-eleicao>. Acesso em: 23 maio. 2018.
REFERÊNCIA ONLINE
Em: <[Link]
1
3. [1] Quanto à questão do voto secreto, é imprescindível que o eleitor tenha pro-
tegido o direito de não ser identificado o seu voto, para que nenhuma pressão
de ordem externa possa interferir no seu voto, sendo quem, bem demonstra
a história do Brasil a conhecida história do voto de curral, voto de cabresto e
outras denominações, aonde o eleitor era conduzido e obrigado a preencher a
célula eleitoral, quando já não a recebia preenchida, mantendo assim, o nefasto
curral eleitoral dos coronéis.
O voto igual para todos, traduz a ideia de “uma cabeça, um voto”, ou seja, parte-
-se do pressuposto em que, numa democracia, os cidadãos não tenham e nem
pode ter, diferença quantitativa do seu voto, o que poderia discriminar ainda
mais, direitos de minorias e outros, por motivos diversos. No entanto, existem te-
óricos que defendem a diferença do peso do voto, como a teoria de John Stuart
Mill, como forma de dar um maior peso ao voto das pessoas “mais educadas e
preparadas” para participar das decisões do Estado. No entanto, no Brasil ainda
existem instituições públicas, como universidades, aonde a eleição para o car-
go de Reitor ocorre mediante voto diferenciado, como por exemplo: o voto dos
professores vale 70, dos funcionários vale 15 e dos alunos 15. Embora se discuta
questões de ordem democrática, existem razões internas aos problemas das ins-
tituições que deliberam sobre este assunto.
159
GABARITO
5. Os deputados federais são eleitos por quatro anos, não tendo limite para reelei-
ção. Tais questões são referentes a possíveis correções no índice de representati-
vidade e outras, precisam ser enfrentadas de forma democrática, numa reforma
política profunda que o Brasil precisa passar o mais urgente possível, até em fun-
ção de outras distorções.
CONCLUSÃO