F.
Araújo Farias
ANTONIO CONSELHEIRO & CANUDOS – Vida e Obra
2009
1
SUMÁRIO
Prefácio 3
1. Gênese....................................................................9
2. Educação Escolar e Religiosa.............................19
3. Morre o pai – O Comércio..................................29
4. O Casamento – O Magistério..............................39
5. Primeiras Peregrinações – Os Pobres..................44
6. Maciéis e Araújos: A verdade Histórica............. 54
7. O Clero: A Desilusão.........................................68
8. Os Miseráveis: A Resolução................................78
9. A Igreja e o Estado: As Perseguições..................93
10. Belo Monte – Um Povoado Fraterno..................130
11. A Consumação do Genocídio.............................166
12. Os Sertões: Análise Histórica...........................177
13. As Prédicas – Ideário Cristão.............................189
14. As Múltiplas “Visões” do “Simples”..................198
15. Breve Consideração............................................208
Bibliografia...............................................................210
2
PREFÁCIO
«Eles não podem imaginar que as coisas pelas
quais viveram poderiam desaparecer. Não
conseguem acreditar que (...) algo de essencial
pudesse desaparecer, que todo um reino espiritual
esteja ameaçado. Eles não acreditam em grandes
sublevações históricas que obliteram todos os
vestígios de gerações anteriores e transformam
inteiramente continentes. Eles não crêem que o que
lhes parece injusto seja possível. »
ANTOINEDE SAINT-EXUPÉRY.
Antes de começar propriamente dita esta prefação, gostaria de justificar
por que escolhi propositalmente a epígrafe que abre este texto. Eu a
selecionei em razão de, se mudarmos os verbos principais de suas
orações do tempo presente para o pretérito imperfeito, ela se tornará a
expressão acabada dos sentimentos e percepção que Antônio Vicente
Mendes Maciel, o Peregrino, e o Povo de Canudos devem ter tido da
criminosa tragédia que se abateu sobre eles: «Eles não podiam imaginar
que as coisas pelas quais viveram poderiam desaparecer. Não
conseguiam acreditar que (...) algo de essencial pudesse desaparecer,
que todo um reino espiritual estivesse ameaç[Link] não acreditavam
em grandes sublevações históricas que obliteram todos os vestígios de
gerações anteriores e transformam inteiramente continentes. Eles não
criam que o que lhes parecia injusto fosse possível. »
Mas passemos à tarefa de apresentar esta obra a que me dispus
desde o dia em que seu autor bateu à minha porta com tal solicitação,
mesmo sem nenhum conhecimento pessoal prévio entre nós e sem saber
por que eu fora o escolhido para tanto; mais ainda, em completo
desconhecimento de seu valor e conteúdo. E aceitei a incumbência com
alguma hesitação interior que nasce do espanto e da dúvida naturais.
Algo, porém, se conectou desde então e a curiosidade alimentou a
relação.
***
Eis uma obra de valor e nascida de uma paixão.
À obra de Fernando Araújo FARIAS. Antonio Conselheiro e Canudos - vida e obra,
2009. 3
Pode parecer estranho que um longo ensaio, por definição de estilo
e perfil argumentativo segundo exige a natureza de um trabalho
histórico, seja fruto de uma paixão. Quando penso, porém, no
prolongado tempo de esforço investigativo que consumiu o seu autor na
sua elaboração, sou tentado a indagar sobre o motivo que impulsionou
sua energia criativa;então, eu sou espontaneamente levado a evocar a
lúcida palavra de Max Weber – e note-se que este falava da ciência e da
vocação dos que a ela se dedicam, território supostamente infenso às
paixões, visto aí predominarem a razão e sua racionalidade quase sempre
instrumental – quando concluía:
«Pois nada tem valor, para o homem como tal, que ele não
possa fazer com paixão.» [Os grifos são do original].
Com efeito, o autor, que se ocupara anteriormente em pesquisas
para a elaboração de outros trabalhos historiográficos relativos a regiões
interioranas de nosso Estado, nos revela ao final do presente livro que
este nascera de um apelo que lhe veio em carta de nosso saudoso amigo
D. Antonio B. Fragoso – bispo da Diocese de Crateús desde sua fundação
até a sua renúncia por idade – na qual dizia:
«Crateús, 4 de abril de 1994.
Meu caro Fernando.
Por intermédio do Pe. Helênio, recebi o “História de
Tamboril”, 1994. Quero agradecer-lhe o presente significativo
e, especialmente, a paixão e o afeto com que se dedicou à
pesquisa das fontes primárias e escritas (livros, revistas, etc.)
para descobrir as Raízes da terra e da gente de Tamboril.
A leitura me ajudou a perceber a centralidade de
Tamboril, durante décadas, dentro de uma grande Região e a
importância da Matriz de São Gonçalo da Serra dos Cocos,
sobre estes Sertões e a Serra.
Se você tiver tempo, pesquise mais sobre Antônio
Conselheiro e o seu papel histórico para construir
uma Economia popular participativa e autogerada.
[Grifo de F. A. F.].
Um abraço pascal.
Seu velho irmão,
D. Fragoso. 4
De então data o aguilhão da embriaguês do saber a ferretear a
mente do empenhado pesquisador. Assim, arrimando-se sobre alentado
acervo das principais obras e textos (artigos, reportagens,
documentários, etc.) sobre a temática com que se envolvera desde aquele
chamado do amigo, saiu a percorrer arquivos e mais obras de referência
que lhe auxiliassem na reconstrução segura dos caminhos trilhados pela
errância missionária de Antônio Conselheiro, e do autêntico significado
de seus atos e obras.
De sua ampla experiência anterior, ele sabia dos riscos e deslizes
que corria ao empreender tal investigação, na sua tensão dialética entre a
heurística e a hermenêutica, e mais nesta que naquela, pois é tal a
maldição de Sísifo que caracteriza o trabalho do historiador, condenado a
reconstituir incessantemente a obra realizada sobre o passado. Era como
se o inspirasse nessa busca a advertência de Samuel Beckett: «Não há
como fugir do passado, porque o passado nos deforma ou foi
deformado por nós. » Sabia, por outro lado, que o tema enfrentado neste
estudo constitui um dos capítulos mais conspurcados de nossa História
por nossa historiografia tradicional e pelas ideologias dominantes,
inclusive de nossa tradição letrada.
Além disso, a principal armadilha epistemológica e de método que
persegue o historiador reside no grave erro do anacronismo. A saber, a
presunção de projetar sobre os fatos do passado, ocorridos noutras
circunstâncias e perspectivas culturais diversas, os horizontes mentais de
nosso tempo.
E algo semelhante se deu e se dá com Euclydes da Cunha. Que
mérito há em “descobrir” os erros e contradições de um autor morto há
um século e cujo livro, Os Sertões, foi publicado há mais de 100 anos?
Por maior que fosse sua erudição e era desmesurado o seu saber, ele era
filho de seu tempo e não podia fugir ao caráter transitório e provisório de
todo conhecimento científico. Além do que a última palavra em matéria
de ciência – como eram consideradas as teorias que nos vinham da
Europa ao final do século XIX – constituíam na sua maioria a consistente
ideologia do colonialismo, com suas “superioridades” de raça, de clima,
de posiçãogeográfica, justificadoras da ação dominadora de suas
metrópoles na subordinação econômica, política e cultural de nações
não-centrais. Euclydes da Cunha foi assim vítima do mesmo destino
histórico que buscou retratar com grandeza e arte. Portanto, para além
de todas suas falhas e equívocos,5seu grande mérito se situa no fato de
ter trazido à perenidade relativa de nossa consciência histórica o único
de nossos movimentos populares que não pode mais ser apagado pelo
esquecimento suspeitoso. O criminoso genocídio de Canudos, que
transformou nossas forças armadas em tropas mercenárias a serviço de
interesses espúrios de potentados rurais e disputas de poder das elites
políticas da novel República, permanece como uma ferida aberta na
arquitetura destorcida de nossa Nação. O escritor fluminense não o
prendeu numa gaiola de ouro, como afirmou meu saudoso amigo
Calasans. Ao contrário, arrombou as portas do esquecimento, abrindo
amplamente sua problemática à polêmica e à liberdade do pensamento
crítico.
Mesmo um Nelson Werneck Sodré, que submeteu a obra de
Euclydes a um exame crítico severo, reconheceu honestamente sua
dimensão mais alta ao nos lembrar da excelente páginana qual Gilberto
Freyre, em seu Perfil de Euclydes, pôde afirmar com acerto:
«Mas para o redimir dos erros de técnica, havia em
Euclydes da Cunha o poeta, o profeta, o artista cheio de
intuições geniais. O Euclydes que descobre na paisagem e no
homem dos sertões valores para além do certo e do errado da
gramática da ciência. (...).
Da História, como da Geografia, ele teve a visão mais
larga, que é a social, a humana. Seu mestre Carlyle não o
afastou do amor fraternal dos homens. Nos heróis como nos
jagunços ele nunca deixou de sentir homens; em Antônio
Conselheiro, não deixou de ver o brasileiro nem de sentir o
irmão. Nos documentos que estudou, que interpretou, que
esclareceu, foi sempre o que o interessou mais
profundamente: a nota humana, a expressão social, a
significação brasileira. »
***
Fernando de Araújo Farias, o autor, seguiu à risca a sugestão de
seu amigo D. Fragoso: pesquise mais sobre Antônio Conselheiro e seu
papel histórico na construção de uma economia popular e gerada pela
comuna.
De fato, posto não tenha deixado de se referir intensa e
lucidamente a fatos da guerra6contra Canudos e seu líder, este
conjunto de eventos demora à margem do núcleo de suas preocupações
de bom pesquisador no terreno da História. Ele se concentra na figura do
Peregrino, sua vida e sua obra, e na construção de uma nova
interpretação, distante das deformações da mentira e da fraude com que
compuseram o quadro negativo que desencadeou todo o processo contra
ele e sua gente.
Este ensaio historicossocial se compõe segundo a tessitura de dois
eixos que se confrontam numa forma agonística e que percorre toda a
obra. Porém que se articulam nesse contraponto habilidoso em que o
primeiro eixo realiza a desconstrução do quadro deformador que a
historiografia tradicional e dominante elabora, sobretudo de Antônio
Vicente Mendes Maciel, e o segundo, eixo da reconstrução de uma
interpretação inovadora e positiva dessa grande personagem cristã e
fraterna – que, ao lado do Padre Ibiapina e do Padre Cícero, constituiu a
tríade das maiores figuras humanas que instituíram, na segunda metade
do século XIX, a escuta mais realista das aflições do povo humilhado e
ofendido do imenso Mediterrâneo Semiárido. É natural, pois, que no
combate intelectual com que o pesquisador desenvolve sua tese
surgissem com toda evidência e ênfase, quase repetitiva, os protagonistas
principais da hedionda e perversa campanha de eliminação criminosa de
Antônio Conselheiro, de seu povo e da cidade de Belo Monte-Canudos: o
jornalista-cronista João Brígido dos Santos e os que lhe seguiram os
passos; Nina Rodrigues; a Igreja, em especial – acrescento eu – nas
figuras dos arcebispos D. Luís Antônio dos Santos (1879-1891) e D.
Jerônimo Tomé da Silva (1893-1924), e de Frei João Evangelista do
Monte Marciano; o Estado; o Exército etc. E, evidentemente, traz para
iluminar essa imensa fraude, a documentação que recolheu e
interpretou, incluindo, com a ajuda de teólogos, a análise da escrita
correta e da ortodoxia dos manuscritos de Antônio Conselheiro,
publicados em anos mais recentes, e que têm despertado o interesse
atento de pesquisadores dessa revisão histórica.
Para concluir esta sumária apresentação, gostaria de assinalar que
continua, no meu entender, sem a devida consideração dos estudiosos e
sem resposta significativa a indagação candente com que a lucidez de
Machado de Assis, como uma verruma, tentou suscitar a consciência
ética da Nação contra o que estava ocorrendo em Canudos. Com efeito,
na sua crônica de A Semana, de 31 de janeiro de 1897, Machado de Assis
abandona a atitude de observador simpático ou irônico que adotou nas
crônicas anteriores e assume uma7posição firme a respeito dos eventos:
«Protesto contra a perseguição que se está fazendo à gente
de Antônio Conselheiro... De Antônio Conselheiro
ignoramos..., se escreveu algum livro, nem sequer se sabe
escrever. Não se lhe conhecem discursos. Diz-se que tem
consigo milhares de fanáticos... Se na última batalha é certo
haverem morrido novecentos deles e o resto não se despega de
tal apóstolo, é que algum vínculo moral e fortíssimo os
prende até a morte. Que vínculo é esse?» [O grifo é meu].
Perdura, então, em aberto o círculo hermenêutico acerca de
Canudos e Antônio Conselheiro. Como, aliás, ocorre em geral nas
questões de interpretação1.
Fortaleza, 11 de março de 2009.
Dr. Eduardo Diatahy B. DE MENEZES.
Professor Emérito da Universidade Federal do Ceará.
Do Instituto do Ceará [Histórico, Geográfico e Antropológico],
da Academia Cearense de Letras eda Academia Cearense de Ciências.
1
Não gostaria de deixar passar algo que considero um viés de interpretação, quando o
autor se refere às pp. 196-197 a um ensaio do Dr. Ralph Della Cava [«Messianismo
brasileiro e Instituições Nacionais: uma reavaliação de Canudos e Juazeiro», cujo
original traduzi e publiquei na Rev. de C. Sociais (UFC), Fortaleza, Vol. VI, N o1 e 2, 1975:
121-139], para afirmar que ele “estabelece estranha e absurda similitude entre Canudos
e Juazeiro, e os situa sob a absurda ótica do messianismo”. A fonte de que se serve o
autor é uma revista da Bahia, que reproduziu o texto sem solicitação e sem autorização. É
possível que tenha feito desatenta leitura, visto que o referido ensaio, primeiro, não
propõe tal “similitude”, e, ao contrário, constitui uma das análises pioneiras ao inovar
pela retirada desses dois movimentos de seu isolamento e inseri-los numa perspectiva
histórica, cultural e econômica mais ampla. Quanto à atribuição de “messianismo”, trata-
se claramente de uma concessão à tese de Maria Isaura P. de Queiroz, em obra saída à
época (1965), e que ele, no entanto, sutilmente
8 critica ao longo do ensaio.
1.
GÊNESE
“São grandes homens porque quiseram
e cumpriram, não algo imaginário e
fictício, mas justo e necessário”.
HEGEL
Quem se propõe estudar as primitivas famílias que povoaram o Ceará,
tem como alcance principal e quase único as datas de sesmarias. A esta fonte
conjugue-se a pioneira, conhecida e mais importante obra genealógica Nordestina
– Nobiliarquia Pernambucana – de Antonio José Vitoriano Borges da Fonseca,
que governou o Ceará por longos 16 anos (1765-1781), no curso dos quais
escreveu grande parte do valioso e indispensável trabalho, empreendendo várias
viagens aos nossos sertões – como nele registra – onde estão abreviadamente
relatadas as principais progênies coloniais ali estabelecidas. Estudos posteriores e
atuais abrem ao pesquisador mais amplo horizonte e trazem importantes achegas,
complementando o conhecimento e extensão de muitas linhagens.
Fecundas e antigas indicações, contudo, nos dão mesmo as Datas
(Cartas) de Sesmarias, comprovando a razão do povoamento inicial que tinha
como base econômica a pecuária, impraticável no sáfaro litoral. A grande valia
desses velhos e pioneiros documentos da nossa história fundiária, é mostrar onde
e quando se localizaram nossos primeiros povoadores, cujas revelações,
associadas aos antigos registros paroquiais, remotos e melhor conservados –
portadores de indiscutível credibilidade – além dos encontrados nas primeiras
câmaras municipais, cartórios e alguns raros manuscritos da lavra de algum
curioso e esclarecido patriarca, constituem os mananciais únicos às pesquisas
genealógicas mais acuradas.
Motivam esta consideração as famílias Mendes e Maciel, donde procede
Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido na historiografia por Antonio
Conselheiro e assim tratado neste estudo, mas que se autodenominava de
Peregrino, a cuja personalidade, embora com alguma reparação recente, muitos
estudiosos que se ocuparam do trágico e inolvidável genocídio atribuíram
etiologias que teriam origens genéticas, ressaltando que a unanimidade deles
ignoravam sua ascendência. Descarece se afirmar que, a quem desconhece a
árvore certamente falecem condições de analisar o fruto.
Sequer na aparência física do Conselheiro houve um mínimo
9
consenso entre os que trataram dos sinistros acontecimentos de Canudos,
quiçá uma demonstração de desdém à pessoa daquele insignificante e humilde
beato, que se dedicou à defesa dos pobres e oprimidos, como mostra o professor
da Universidade do Colorado: “Um exemplo do caso leva-nos agora ao retrato de
Antonio Conselheiro, cujos dados físicos nunca estiveram ausentes nos esboços
biográficos que se fizeram do asceta, mas que foram usados e abusados. O
abuso e o exagero chegaram a tal ponto, nas descrições mais tendenciosas,
que a lenda foi-se formando ao redor de sua figura e com aquela as
contradições nos traços característicos do indivíduo”. (Destaquei). [Leopoldo
M. Bernucci, A Imitação dos Sentidos, SP: Edusp, 1995, pp. 76-77].
Não obstante a imensa bibliografia que se propôs historiar aquela
comunidade e os desdobramentos ali verificados, para que se tenha uma prova
recente do desconhecimento que até hoje paira sobre a pessoa do Conselheiro e
do arraial de Canudos, exemplifico uma recente edição da revista Veja,um dos
mais conceituado semanário e de maior circulação na América Latina, onde um
de seus principais colaboradores, o articulista Diogo Mainardi, versando o
episódio na irônica matéria Lula e “as elite”(sic), vai encontrar ainda em
Euclides da Cunha traços da personalidade de Antonio Conselheiro, tais como
“doente grave”, “um desequilibrado”, “um demente”, que reuniu em torno de si
uma “gente ínfima e suspeita, avessa ao trabalho, vezada à mandria e à rapina”, e
fundou com ela uma cidade “monstruosa”, feita de barro, onde proliferavam
“todas as crenças ingênuas, todas as tendências impulsivas das raças inferiores”,
numa “regressão ao estádio mental dos tipos ancestrais da espécie” (sic). [Veja,
edição 1772, 09.10.2002, p. 120].
Embora improcedente e oriunda de caducados conceitos, é uma
informação atual, infelizmente incutida e veiculada num forte instrumento de
otimizar opiniões. O editor especial da mesma revista, Roberto Pompeu de
Toledo, comentando o livro do historiador Marco Antonio Villa, Canudos –
História em Versos, num texto de página inteira sob o título, Canudos em Versos,
Até a Degola, no preâmbulo cita estes versos: “Manhoso, malvado era ele/ Com
capa de santo enganava/ Ao bom povo daquele sertão/ Com doçura a eles falava.
Adianto que o professor e historiador Marco Antonio Villa, também escreveu o
interessante ensaio Canudos – O Povo da Terra, Coleção Ensaios, SP:Ed. Ática,
1995, e nesse texto comentado pelo jornalista, recopilou os versos do poeta
popular sergipano/baiano Manoel Pedro das Dores Bombinhos, que foi professor
de música, delegado de polícia, escrivão do crime, assassino, rábula, político e
mascate. Trata-se de uma composição em estilo cordel de 5.984 versos da mais
pura maledicência e hipocrisia do cordelista Bombinhos. Embora seja mais uma
amostra da rica vitrine do10folclorenordestino que envolve o tema,
nada acrescenta à historicidade do genocídio. É exclusiva à restrita comunidade
dos estudiosos do gênero, trazendo uma imagem distorcida à juventude
acadêmica que ainda desconhece o assunto em sua contextura. [Veja, edição
1781, 11.12.2002, p. 158]. Aliás, foi este destacado jornalista, que a serviço da
mesma revista visitou o município baiano de Canudos, e escreveu a extensa e
bem elaborada reportagem O legado do Conselheiro, assunto de capa do mesmo
semanário que rememorava o centenário do genocídio, na qual contesta Euclides
da Cunha, dizendo que é “maldade considerá-lo (o Conselheiro) caso de
hospício. Foi para a História e nela cravou um marco profundo – um ferimento”.
[Veja, edição 1511, 03.09.1997, pp. 64-84]. Dentre as obras que foram publicadas
em comemoração ao centenário d´Os Sertões, esta excelente matéria de Roberto
Pompeu de Toledo foi transcrita no livro, O Clarim e a Oração – Cem anos de
"Os Sertões", SP: Geração Editorial, 2002, pp. 93-121, organizada pelo professor
e jornalista Rinaldo de Fernandes.
A condição de velho estudioso sertanejo, nascido, criado e vivido no
dia-a-dia do semi-árido, região onde também nasceu e iniciou seu peregrinar
Antonio Vicente, vivenciando os costumes e a cultura popular sertanejos: razões
suficientes que me autorizam uma “visão” mais “simples” e nada acadêmica do
Conselheiro, de nossa gente e nosso mundo sertanejo, na certeza de aclarar
muitas verdades, omitidas ou malsinadas. No propósito deste ensaio, que objetiva
tão-somente a vida e a obra missionária do fundador da fraterna comunidade de
Belo Monte-Canudos, não serão analisadas as operações e ações militares.
Entretanto, como todo texto oferece possibilidade de discussão, seja por que ótica
se analise, serão referidos os que interessam ao tema, especialmente os históricos,
literários, religiosos e outros que a ele se liguem ou se relacionem.
Findo o parêntese, prossigo. Mostram os documentos que as linhagens
Mendes e Maciel tiveram remota presença na Ribeira do rio Banabuiú, ao qual
conflui o rio Quixeramobim (Ibu dos nativos), pois mesmo os ascendentes
próximos de Antonio Vicente Mendes Maciel – avós – exercendo profissões
diversas e ditas mais modestas, como a vaqueirice, é certo que ancestrais destes
foram sesmeiros, latifundiários e abastados fazendeiros com descendências
empobrecidas.O que ocorreu com a quase totalidade das famílias sesmeiras.
Relata a história que o rico português, Capitão Antonio Dias Ferreira,
pouco antes de 1730, ano em que iniciou a construção de uma capela à qual
instituiu por orago Santo Antonio de Pádua/Lisboa, originando o povoado do
Boqueirão de Santo Antonio, comprara tais terras a Gil de Miranda e sua mulher
Ângela de Barros e ao Pe. Antonio Rodrigues Frazão. Assim, tornara-se
possuidor de 20 léguas de terras, que 11iniciavam no lugar Espírito Santo
(território do atual município de Monsenhor Tabosa) até a barra do rio Sitiá –
outro tributário do Banabuiú – o que se constitui no maior latifúndio individual
da história colonial do “Siará Grande” procedente de compra e num trato único
de terras. Tal informação não é verdadeira e é desfeita pela simples leitura das
concessões sesmeiras, e com melhor e maiores esclarecimentos no estudo de
minha autoria, Famílias Pioneiras na Colonização do Ceará, Fortaleza: Puchain
Ramos Gráfica e Editora, 2002.
Verdade é que 20 anos antes de comprar as terras onde construiu a
capela para Santo Antonio de Pádua/Lisboa, ao sul do rio Quixeramobim, mais
precisamente no riacho Salgado, que também deságua no Banabuiú, capitaneada
por Antonio Maciel de Andrade, tendo por companheiros o próprio Capitão
Antonio Dias Ferreira, Cosme Barbosa de Andrade, Constantino de Araújo
Ferreira e Antonio Gonçalves de Sousa, no dia 02.04.1710, o Capitão-mor do
Ceará, Gabriel da Silva Lago concedeu-lhes uma sesmaria com as dimensões de 3
x 1 léguas a cada concessionário, como se lê no Vol. 11 o., n. 25, fls. 42-42v. de
Datas de Sesmarias, Eugênio Gadelha & Filho, Fortaleza,1921.
Melhor comprovando, já com a designação de Comissário Geral,
Antonio Maciel de Andrade, no mesmo riacho Salgado recebeu outra sesmaria
com as dimensões de 3 x 1 léguas “pegando da testada do Cel. Antonio Dias
Ferreira, heréu juntamente com o suplicante na dita Data anterior (sic)”, como
está no Vol. 11o., n. 65, fls. 104-105, em data de 01.03.1723. Assim, a família
Maciel chegou às Ribeiras do Quixeramobim juntamente com o fundador da
capela do Boqueirão de Santo Antonio. Outra demonstração dos laços de amizade
que aproximavam o Capitão/Coronel Antonio Dias Ferreira aos primitivos
Maciéis está expressa na significativa distinção que emprestou a José Maciel de
Andrade – filho ou próximo parente do Comissário Antonio Maciel de Andrade –
a quem convidou para servir de testemunha no testamento que manuscreveu em
“Santo Antonio do Quixeramobim”, no dia 02.02.1753.
Precedendo os Maciéis, a família Mendes já tinha presença nos sertões
centrais, segundo confirma a sesmaria concedida nas Ribeiras do Banabuiú a
Gabriel Barbosa Mendes, como está no Vol. 3o., n. 144, em data de 19.08.1706.
No ano seguinte e na mesma região, é feita outra concessão a Gonçalo Mendes
Covas, com a extensão de 3 x 1 léguas, conforme está no Vol. 5o., n. 269, em data
de 11.11.1707. Na interessante entrevista que mantive com o lúcido nonagenário,
inteligente e curioso ancião José Mendes de Almeida, no meado da última década
do século pretérito – além doutras excelentes informações – adiantou-me que as
famílias Mendes e Maciel, já ligadas por consangüinidade, bem antes da querela
com os Araújos eVeras, de Tamboril,12tinham vínculos também em Baturité. A
intenção de entrevistá-lo teve como propósito obter esclarecimento sobre a
origem da numerosa família Mendes, presente no povoado da Lagoinha – hoje
distrito de Curatis – localizado no trajeto que leva de Tamboril à Boa Viagem e
Quixeramobim, e, se possível conhecer algum fato relacionado com a rixa
particularizada Veras & Maciéis, que à história indevidamente passou como:
Maciéis e Araújos.
Antes de ocupar-me da tal contenda, e por ser fato que se relaciona com
a formação da personalidade de Antonio Vicente Mendes Maciel, devo lembrar
que seu pai, Vicente Mendes Maciel, figura conhecida e de destaque social em
Quixeramobim, mesmo tendo seu genitor – Manoel Mendes Maciel, conhecido
por Manoel Carlos – assassinado por uma súcia de malfeitores sob as ordens de
Silvestre Rodrigues Veras (filho), do Cascavel, entre os lugares Convento
(fazenda que pertencia ao próprio comandante da chacina), e Araras no atual
município de Tamboril, no dia 09.06.1833, o mesmo acontecendo depois com o
irmão, Miguel Mendes Maciel, também chamado de Miguel Carlos, que mesmo
agonizante matou a Manuel de Araújo, cujos corpos foram encomendados pelo
vigário de Quixeramobim, Pe. Frutuoso Dias Ribeiro, no dia 01.07.1834, causa
perplexidade e indagação – insisto – o fato de haver permanecido Vicente
Mendes Maciel alheio a tais ocorrências, demonstrando comportamento de
absoluta apatia diante de tais acontecimentos.
As datas em destaque – 09.06.1833 e 01.07.1834 – visama esclarecer o
período de duração da discórdia. Também não se pode deslembrar que Vicente
(pai), à época da contenda, com apenas 26 anos já era comerciante estabelecido
em Quixeramobim, o que deixa estas inexplicáveis indagações: 1. Por que ficou
ele omisso no decurso desta rixa, em que pereceram seu pai e um irmão, sequer
sendo mencionado no processo criminal que apurou o assassinato de Luciano
Domingos de Araújo perpetrado por Estácio José da Gama, em 12.02.1834, a
mando de seu irmão Miguel Mendes Maciel? 2. Familiar próximo dos
assassinados, por que após a contenda não se evadiu de Quixeramobim, como
fizeram outros mais distantes parentes, que por receio de vindita se mudaram para
Baturité, onde ficaram sob a custódia doutros parentes, como os herdeiros de
Francisco de Andrade Maciel, citados judicialmente em 1848 para assistirem no
inventário do pai que corria no foro de Quixeramobim? Este comportamento
caracteriza uma atitude inusitada e incompreensível para uma pessoa “má e
perigosamente desconfiada, de índole irascível”, o que se traduz em
temperamento violento e agressivo, como o caracteriza o jornalista João Brígido
dos Santos em matéria adiante considerada.
13
Desacreditado pela comunidade de historiadores, mesmo de sua época
designada em nossa historiografia de memorialista, até mesmo o jornalista e
escritor Nertan Macedo, que recorria aos seus escritos o desmerece, quando
comenta a estranha omissão de Vicente Mendes Maciel no curso da querela,
escrevendo: “João Brígido, conquanto afirme que o colérico Vicente era de uma
valentia indômita, ostentando a igual bravura dos seus antepassados, não
parece encontrar apoio na verdade dos fatos”. (Destaquei). [Antonio
Conselheiro, RJ: Gráfica Record Editora, 1969, p. 35]. Esta particularidade,
aparentemente insignificante, mas de muita valia na compreensão das ações do
futuro Conselheiro, e que demonstra a índole pacífica do pai Vicente Mendes
Maciel, é uma histórica e contundente resposta àqueles que, com inépcia ou
apressadamente, sem nenhuma autoridade profissional, atribuíram a Antonio
Vicente Mendes Maciel etiologias congênitas psicopatológicas.
Findas estas indispensáveis considerações, sigo no tema do capítulo que
visa à gênese de Antonio Vicente. Foi Raimundo Girão, destacadamente um dos
mais devotados estudiosos de nossa gênese, além de encorajar, estimular e
difundir pesquisas genealógicas,desde o Instituto do Ceará (Histórico, Geográfico
e Antropológico) – IC. – onde foi, por décadas, atuante sócio efetivo, presidente e
Presidente de Honra, à Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, da qual foi
titular, sempre tratou do assunto com estremada dedicação, chegando a projetar
um arrojado e amplo estudo que intitulou de Genealogia Cearense. Talvez, em
vista dos inúmeros encargos e pela força dos anos, ou mesmo reconhecendo as
imensas dificuldades que o grande tema indicava, não chegou a consumar este
pioneiro e utilíssimo objetivo. Contudo, através da Revista do Instituto do Ceará
– RIC – publicou valiosos trabalhos, dentre eles «O Abraão do Jaguaribe»,RICs.
1972, pp. 112-134, e 1973, pp. 115-136, relatando a fecunda prole do açoriano
Luciano Dias Cardoso de Vargas, casado com Maria Maciel de Carvalho, que foi
companheiro de Simão Ferreira de Guerra e FranciscoGomes Landim na
concessão de uma sesmaria na “Ribeira do Jaguaribe”(sic), como mostra a obra
Datas de Sesmarias, Eugênio Gadelha & Filho, Fortaleza, 1921, Vol. 10o., n. 36,
em data de 25.06.1716.
Antes da enumeração e extensa descrição da copiosa descendência, que
se espalhou por toda a ribeira jaguaribana, sertão central e outras regiões
cearenses, o autor adverte que “o presente esboço genealógico mostra como
várias e destacadas famílias do Ceará se entrelaçaram no tronco comum e têm nas
veias o sangue deste Patriarca de nova espécie”, como de fato comprovou. E é
neste valioso ensaio que se encontra mais uma confirmação da presença da
linhagem Maciel em Baturité: “C –14Ana Maria Maciel (filha do sesmeiro
Luciano Dias Cardoso de Vargas e s.m. Maria Maciel de Carvalho), do Cabo, PE,
casada a primeira vez com o português Gaspar Pinto Lopes, e a segunda com o
Sarg.-mor André Joaquim Ribeiro, de Lisboa. F. 1 – José Pinto Lopes, f. em 1771
c.c. Leonarda Maciel Rocha (filha de João da RochaMaciel e Ana de Barros).
Origem dos Pintos de Baturité”. Op. cit. p. 120. Insisto em mostrar a presença da
linhagem Mendes Maciel em Baturité – já encontrada nas primeiras décadas do
século XVIII – no intuito de comprovar a veracidade das informações, a mim
prestadas no final do último decênio do século pretérito, repito, pelo perspicaz
nonagenário José Mendes de Almeida, respeitosamente chamado de tio
ZéMendes, quando me adiantou ser costume receber em sua casa a visita de
parentes procedentes daquela cidade.
Citado por Walnice Nogueira Galvão, escreveu João Brígido: “Em
Baturité, existem muitos homens dessa família com sofrível colocação, e pertence
a ela o Coronel Manuel Felício Maciel, vítima de atrocidades inauditas em
Antimary onde lhe incendiaram a casa, e deram saque geral pelas forças
expedidas contra ele pelo Governador Eduardo Pennador”. [No Calor da Hora,
3a. Ediçã[Link]: Editora Ática, 1994, p. 92]. E mais recente notícia encontra-se no
texto biográfico intitulado Dr. Tarciso Soriano Aderaldo – Um nome...Uma
Legenda, [Brasília: Eggcf, 1992], que me dedicou o autor e filho do biografado, o
historiador Dr. Manoel Soriano Neto, Cel. de Infantaria do Exército, sócio efetivo
do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Norte e sócio
correspondente do I.C., onde à p. 24, relatando sua ascendência materna,
escreveu: “Os Costa são originários de Redenção e Acarape e os Rodrigues
Maciel, de Baturité e Quixeramobim”. Assim, está evidente que a notícia do
velho tio Zé Mendes, da Lagoinha, tem absoluta credibilidade, sendo certo que a
progênie que habita aquele povoado é a mesma de Antonio Vicente Mendes
Maciel, embora não lhe tenha sido possível estabelecer e deslindar o liame.
Como ficou demonstrado, as progênies Mendes e Maciel tiveram
atuação colonizadora na região dos sertões centrais, além de Baturité, onde se
encontram famílias com os mesmos apelidos. No entanto, já que o alcance deste
capítulo é a ascendência paterna de Antonio Vicente Mendes Maciel,
preenchendo uma lacuna da qual não se ocupou a história, quando a quase
totalidade dos estudiosos desconhecia até mesmo a data do seu nascimento, como
o conspícuo Barão de Studart no seu Dicionário Biobibliográfico Cearense,
[Fortaleza: Typo-Lithographia A Vapor, Rua Barão do Rio Branco, 52, 1o. Vol.,
1910, p. 140], e mesmo o atento Abelardo Montenegro, como escreveu à p. 113
de Fanáticos e Cangaceiros, [Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1973],
informando que seu nascimento teria15ocorrido em 1828. Ao contrário de
inúmeras e irrefletidas notícias encontradas na vastíssima bibliografia acerca do
genocídio, Antonio Vicente tem antiga e conhecida ascendência, que procede de
destacadas figuras coloniais do Ceará, inclusive com a remota credencial de
pioneiros sesmeiros.
No ensaio genealógico «Famílias Cearenses – Estudo Genealógico dos
Bezerra de Menezes», de Murilo Bezerra de Sá, [RIC, 1946, pp. 215-225] – que
precede ao de Raimundo Girão – após relatar breves traços biográficos do Cel.
Antonio Bezerra de Menezes, prossegue: “Era casado (Antonio Bezerra de
Menezes) com D. Ana Maria da Costa, filha do português Domingos Antunes
da Costa e D. Maria de SousaMaciel. D. Ana Maria era tia avó de Antonio
Vicente Mendes Maciel (Antonio Conselheiro) n. em 1828, autor do grande
drama de Canudos. É natural de Quixeramobim – 6.10.1897. Da. Maria de
SousaMaciel (c.c. Domingos Antunes da Costa), é filha do português Bernardo
de Sousa Presa e D. Maria Pinheiro do Lago, filha do português Manuel Pinheiro
do Lago Landim e D. Maria Rosa Maciel, esta, filha do português Luciano Dias
Cardoso de Vargas e D. Maria Maciel de Carvalho”. (Destaquei).
Portanto, associando as informações das matérias é esta a ascendência
paterna de Antonio Vicente Mendes Maciel.
P. – Luciano Dias Cardoso de Vargas, c.c. Maria Maciel de Carvalho,
pais de
F. – Rosa Maria Maciel, c.c. o português Manuel Pinheiro do Lago
Landim, pais de
N. – Maria Pinheiro do Lago, c.c. Bernardo de Sousa Presa, pais de
Bn. – Maria de SousaMaciel, c.c. o português Domingos Antunes da
Costa, pais de
Tn. – Manuel Mendes Maciel, também chamado de Manuel Carlos, que
teve por companheira Maria Manoela do Sacramento, pais de
Qn. – Vicente Mendes Maciel, batizado como filho natural e casado “in
articulo mortis” com Maria Joaquina de Jesus, pais de
Pn. – Antonio Vicente Mendes Maciel, historicamente conhecido por
Antonio Conselheiro, mas que insistia em autodenominar-se de Peregrino c.c.
Brasilina Laurentina de Lima Maciel.
O destaque da família de Antonio Vicente em Quixeramobim, é
atualmente reconhecido e provado por seu ilustre parente, o historiador
quixeramobinense e sócio efetivo do I.C., Fernando Câmara, quando no ensejo da
comemoração do centenário da fundação de Canudos, na matéria «Antonio
Conselheiro e o Centenário de Canudos»,[RIC, 1993, p. 29], corroborando com a
descrição desenvolvida, assevera:16“Aliás, devo reconhecer que existe um
parentesco meu, embora distante, com a discutida personagem de Canudos:a
minha quarta avó materna, Ana Maria da Costa, que se casou na Matriz desta
cidade no dia 8 de janeiro de 1778 com o coronel Antonio Bezerra de Sousa
Menezes, o famoso revolucionário da Confederação do Equador, era tia-avó de
Antonio Conselheiro”. (Destaquei). Dessa forma e comprovadamente, Antonio
Vicente foi pentaneto paterno do português açoriano Luciano Dias Cardoso de
Vargas e sua mulher Maria Maciel de Carvalho – de quem traz o sobrenome da
família Maciel – sesmeiro e colonizador, conhecido na historiografia como
Abraão do Jaguaribe, de origem evidente e certamente mais distinta de muitos
que procuraram lhe deslustrar os antepassados.
É este o seu termo de batismo, com grafia atualizada, cuja celebração
ocorreu antes do casamento dos pais: “Aos vinte e dois de maio de mil
oitocentos e trinta, batizei e pus os Santos Óleos nesta Matriz de
Quixeramobim ao párvulo ANTONIO, nascido aos treze de março do
mesmo ano supra, filho natural de Maria Joaquina: foram padrinhos
Gonçalo Nunes Leitão e Maria Francisca de Paula: do que para constar, fiz
este termo em que assinei. O Vigário, Domingos Álvares Vieira". (Destaquei).
Livro de Batizados n. 11, p. 121v., da paróquia de Quixeramobim. [Fernando
Câmara, art. cit., p. 32]. Este documento traz a data correta do seu nascimento –
13.03.1830 – e não o ano de 1828.
De tal forma é descurado o conhecimento de sua gênese, que causa
admiração esta ignoração ao próprio Ataliba Nogueira, cuja obra Antonio
Conselheiro e Canudos [SP: Companhia Editora Nacional, 1a. Edição, 1974, 2a.
Edição, 1978, p. 4], que pioneiramente publicou as Prédicas do fundador do
arraial, considerada pela crítica como o marco histórico que divide em dois ciclos
sua historicidade, projetando na História a verdadeira personalidade de Antonio
Conselheiro e sua obra missionária, contrariando e desacreditando todos os
levianos conceitos sobre sua pessoa e o fruto de sua faina apostolar, que por
décadas exerceu pelos mais distantes e recônditos lugarejos dos sertões
nordestinos.
A escolha dos padrinhos bem mostra o conceito social que desfrutava o
pai em Quixeramobim, embora no curso de suas vidas tenham eles se envolvido
em graves enredos. O padrinho, Cap. Gonçalo Nunes Leitão, latifundiário e
fazendeiro de avultada fortuna, por longos anos homiziou a Joaquina Maria da
Conceição, condenada à forca pelo júri de Quixeramobim no dia 09.04.1856,
acusada de mandar assassinar o marido, o rico fazendeiro português José de
Azevedo, pelo amante e escravo Francisco, conhecido por Fuisset, enforcado no
Alto do Rosário, Quixeramobim, no17dia 30.03.1837.
Já a madrinha, Maria Francisca de Paula Lessa, também chamada
Marica Lessa, jovem à época do batismo, era trineta materna do mesmo
português, sesmeiro e colonizador Luciano Dias Cardoso de Vargas, pois filha da
bisneta Francisca Maria de Paula c.c. o Capitão-mor José de Paula dos Santos
Lessa, troncos da família Lessa. Era sobrinha materna do também bisneto, Cel.
Vicente Alves da Fonseca c.c. Antonia Geracina Isabel de Mesquita, estes, pais
de Francisca Maria Carolina c.c. Francisco de Paula Pessoa, o conhecido e
celebrado Senador Paula Pessoa, troncos desta família. Documentalmente,
portanto, Antonio Conselheiro tinha liames consangüíneos com todas estas
linhagens. Maria Francisca de Paula Lessa, conhecida como Marica Lessa, a
madrinha, por razões conhecidas é tristemente celebrizada no romance de
Oliveira Paiva, Dona Guidinha do Poço[São Paulo: Editora Ática, 1981].
18
2.
EDUCAÇÃO ESCOLAR E RELIGIOSA
“Identificava na pobreza do meio sertanejo,na
miséria das populações abandonadas,
ahumildade evangélica."
ABELARDO MONTENEGRO, [Fanáticos
e Cangaceiros, 1973, p. 120].
Não comporta este texto digressão descritiva do sertão central do Ceará,
em cujo contexto geográfico está a cidade de Quixeramobim, que por sua
localização geográfica é denominada de “Coração do Ceará”. Desse mister,
eruditos cronistas e renomados escritores e romancistas já se ocuparam, como
Oliveira Paiva com sua eximia eloqüência literária, embora com a melancolia de
um enfermo, narrando em minuciosas e belas dissertações a paisagem, a vida, os
costumes, a cultura popular e episódios típicos daquele deleitável sertão do nosso
semi-árido.
Às suas acuradas observações, com ênfase para os costumes e práticas
variadas da vida sertaneja por ele vivenciada recorreram vários cronistas, dentre
eles Euclides da Cunha, que certamente a elas teve acesso [por meio da
publicação, em folhetins, na Revista Brasileira (1892), sendo muito provável que
cópia dos originais haja chegado às suas mãos, pois doutras matérias inéditas de
cronistas cearenses fez uso, intermediadas pelo jornalista João Brígido dos
Santos, como das Memórias do Prof. Manoel Ximenes Aragão, cuja publicação
[RIC 1913] só ocorreria 11 anos após a 1a. edição de Os Sertões [1902], fato
considerado em capítulo próprio.
Foi também o célebre romancista e jornalista Oliveira Paiva, que nasceu
e viveu no litoral, um dos que, pioneiramente, tratou da existência sociocultural
dos tão discutidos “dois brasis”, onde se teriam desenvolvido civilizações
antagônicas, com o litoral habitado pelo “homem civilizado”, e o sertão com seu
“homem em rama”. Esta concepção deu azo a que deste último conceito
decorressem variadas teorias sociológicas, aplicadas aos tipos sertanejos
aparentemente “diferentes” e adequadas aos “homens em rama”. No entanto, é
esta translúcida realidade conhecida ab aeterno pelas distintas classes sociais que
o poder econômico separa, hoje situando a esmagadora maioria dos pobres no
conceito sociológico de excluídos sociais. Tão velha e conhecida distinção
impõe a que tais classes – ricos e 19pobres – tenham óbvios caminhos
culturais divergentes, o que se aplica aos habitantes do arraial de Canudos, a cuja
cristalina e “simples” evidência recorreram cientistas de vários matizes
filosóficos e ideológicos, chegando a transformar acontecimentos da mais
ingênua e transparente simplicidade e entendimento, em volumosos tratados com
invariáveis e longos discursos arrimados nos sufixos “logo” e “ismo”.
Mesmo as corriqueiras procissões de devocionistas, até hoje vistas
diuturnamente em todas as cidades, quando deparamos multidões de fiéis rezando
e cantando defronte de residências, bairros, ruas e avenidas ou proclamando
discursos piedosos, à vida religiosa em Canudos emprestaram tonalidades de
“fanatismo”.E às falas e sermões dos beatos que percorriam os ínvios caminhos
do sertão, também hoje ouvidas em carros de som nas praças públicas, igrejas e
templos evangé[Link] preces dos canudenses foram decompostas em
matéria prima às explicações de “messianismo”, “milenarismo”, “sebastianismo”,
inclusive com avanço no campo político e no econômico, como “socialismo”,
“comunismo” e outras designações com os mesmos eruditos sufixos. Todavia,
entenda-se de já que este ensaio não se propõe menoscabar escolas acadêmicas de
quaisquer ciências, e sequer tem a veleidade de se intitular histórico, eis que não
se assenta no entendimento da sapiente história científica.
Olhando e querendo ver o “simples”, toda esta extensa polêmica
sociorreligiosa é encontrada na religião popular ou cristianismo beato-
devocional sem o formalismo institucional da erudição canônica eclesiástica e
que se depara na cultura caboclo-sertaneja, manifesta e revelada na comunhão
da vizinhança quando se partilha o consumo de uma simples galinha; na singela
e espontânea ludicidade evangélica próxima do próximo; na intimidade
vivencial do compadrio e afilhadismo e no confidente aconchego diário dos
vizinhos, até hoje vigente nos sertões e primariamente mostrada no opúsculo
Formação Histórica da Religiosidade Popular no Nordeste, Dissertação de
Mestrado na Universidade de Louvain, Bélgica, de autoria do cearense sertanejo,
Frei Hermínio Bezerra de Oliveira [São Paulo: Edições Paulinas, 1985].
Considerandoespecificamente o Conselheiro e o povoado de Canudos, é
recentemente demonstrada no excelente estudo do teólogo e historiador Eduardo
Hoornaert [Os Anjos de Canudos – Uma revisão histórica. Petrópolis: Editora
Vozes, 1997].
A educação doméstica de Antonio Vicente, em vista de procederem de
uma única fonte historicamente duvidosa as escassas informações, deve ter
obedecido aos padrões costumeiros e habituais da época, como mostraram as
ações de sua vida. Os parcos relatosde sua infânciaa nós chegados têm origem
exclusiva nas ambíguas informações20do jornalista João Brígido, que foi por
breve tempo seu contemporâneo de estudo, mas que sequer soube distinguir a
idade que os separava, quando escreveu “que ele (Antonio Vicente) alguns anos
mais criança, aprendia a ler, enquanto eu começava o Latim, estudando na
Artezinha (sic)”. (Destaquei). [In Jader de Carvalho. Antologia de João
Brí[Link]: Editora Terra do Sol, 1969, p. 265]. Ora, João Brígido nasceu
no dia 03.12.1829 e Antonio Vicente em 13.03.1830, com a mínima diferença de
3 meses e 10 dias, tempo insignificante para se transformar em “alguns anos”. E
mais duvidosas se tornam, quando o mesmo João Brígido declara que se retirou
de Quixeramobim no ano de 1846, portanto já um rapaz de 17 anos. Demais, aos
escritos e crônicas de João Brígido – um dos pioneiros da chamada fase
memorialista de nossa historiografia – são feitas severas restrições pela
comunidade de críticos e historiadores, a começar pelo Barão de Studart,
expressão magna da historiografia cearense, considerado pelo historiador José
Honório Rodrigues como a “enciclopédia viva do Ceará” [conceito expendido à
p. 45 do Índice da Revista do Instituto do Ceará, Edição Instituto do Ceará,
Fortaleza, 2002]. Tratando do Resumo Cronológico, de João Brígido, logo no
Tomo II da RIC, 1888, p. 83, o eminente historiógrafo afirma que o mesmo “está
eivado de erros”(sic). Em conceito inferior – antecedendo ao Barão – o considera
outro sócio fundador do I.C., Paulino Nogueira, no Tomo I da RIC, 1887, p. 35,
onde o qualifica de “injusto e inexato”. Em época recente, Mozart Soriano
Aderaldo, historiador e igualmente sócio do I.C., ao comentar a obra do médico
franco-cearense, Dr. Pedro Théberge, Esboço Histórico Sobre a Província do
Ceará [Fortaleza: Editora Henriqueta Galeno, 1973], outro autor da dita fase
memorialista, à p. 145 afirma que João Brígido “fantasiava” a História. Mesmo
Jáder de Carvalho, seu incondicional admirador, assim o define: “O ódio pessoal,
as inimizades, os interesses partidários contrariados ou subestimados não lhe
concedem relevo como fonte de informação exata da história política do Ceará”
[Op. cit., p. 14].
Outros mais coligiram incontáveis fantasias e inverdades nos escritos e
crônicas de João Brígido, qualificando-os como fontes minimamente
tendenciosas e duvidosas. Não se compreenda este e outros comentários como
atitude verberativa, pois não findam aqui estas ponderações acerca do cronista,
eis que de sua pena procederam as notícias que favoreceram o massacre de
Canudos. Por ausência doutras fontes, muitos a ele recorreram, desde Manuel
Benício e Euclides da Cunha – que o projetou nacionalmente – e até mesmo em
época mais próxima Abelardo Montenegro, autor da resumida e única biografia
do Conselheiro, Antonio Conselheiro [Fortaleza: A. Batista Fontenele, 1954].
21
Sobre as fontes de que se valeu A. Montenegro, assim expressou uma
enaltecedora indagação referindo o cronista, o escritor e também jornalista Jader
de Carvalho: “Não se inclui João Brígido entre as fontes, talvez a mais farta e
cristalina, de Abelardo Montenegro?” (Destaquei). [Op. cit., p. 16]. Destarte,
depreende-se o imenso vazio histórico-documental sobre a vida de Antonio
Vicente, sendo de se considerar duvidosas e mesmo inacreditáveis todas que têm
origem na versão outradição oral, que só visaram denegrir-lhe a imagem.
Finda a digressão, volto ao tema do capítulo. Antonio Vicente conheceu
a orfandade materna na tenra idade de 4 anos, sabendo-se que o casamento de seu
pai com Maria Joaquina de Jesus foi celebrado “in articulo mortis” no dia
31.08.1834, o que confirma a brevidade de vida restante à enferma. No registro
eclesiástico do primeiro matrimônio consta serem os nubentes filhos naturais,
sendo conhecida a ascendência paterna de Vicente Mendes Maciel, como foi
descrita, e ignorada a de Maria Joaquina de Jesus. Decorrido o breve tempo de 17
meses e 11 dias, em data de 12.02.1836 Vicente contraiu novas núpcias com
Francisca Maria da Conceição, contando ele, à época deste segundo casamento
29 anos, pois falecido aos 48 no dia 05.04.1855, como está no seu registro de
óbito, tendo nascido em 1807. Francisca Maria da Conceição tinha tenros 15
anos, o que mostra seu atestado de óbito, pois faleceu com 39 no dia 19.03.1856
– 11 meses depois do marido – nascida em 1817, tendo 10 anos a separá-la da
idade do jovem cônjuge. Por ocasião deste segundo matrimônio de Vicente
Mendes Maciel com Francisca Maria da Conceição – 12.02.1836 – formavam
eles um casal bem moço, especialmente Francisca Maria, ainda na adolescência,
época em que o primogênito do primeiro leito, Antonio Vicente, estava próximo
de completar 6 anos.
Ditavam os costumes daquela sociedade patriarcal, que ao pai cabia a
obrigação da educação doméstica dos filhos varões, o que certamente aconteceu
com Antonio Vicente, pois além de primogênito era o único filho varão,
qualidades que mais o aproximavam da convivência paterna, relembrando que o
pai era um moço de 29 anos. Nada há que comprove, ou mesmo indique, que
fosse Antonio Vicente maltratado pela madrasta que, além de uma esposa
adolescente obviamente desfrutando um ardente romance com o caloroso e jovem
viúvo, estava também voltada às naturais obrigações e afazeres com as demais
enteadas, os trabalhos domésticos e a maternidade. Como escreveu em suas
Prédicas e bem mostraram suas ações, contrariando aleivosas insinuações,
Antonio Vicente jamais teve aversão ao sexo feminino, eis que convicto
partidário do marianismo e ardoroso devoto da Virgem Maria, sempre
enaltecendo e sublimando a22maternidade.
As primeiras letras e a alfabetização estiveram a cargo do pai do
Capitão Raimundo Francisco das Chagas, vindo este a contrair matrimônio com
uma sobrinha de sua madrasta Francisca Maria da Conceição Maciel, o que
mostra a interferência desta na educação escolar do enteado. Deste primeiro
mestre recebeu as lições iniciais de catecismo, despertando-lhe a inclinação à
religiosidade e à leitura, especialmente sacra. Cumprida esta fase preliminar, o
pai matricula Antonio Vicente na escola do versado e conhecido professor
Manuel Antonio Ferreira Nobre – homem distinto que militava no foro de
Quixeramobim, inclusive no futuro inventário do pai do pupilo – onde estudou
português, latim, francês, aritmética e geografia. Para uma época de generalizado
obscurantismo, o nível de escolaridade de Antonio Vicente foi de boa
qualificação para os padrões do tempo. Os escassos professores que naqueles
distantes idos rareavam pelo sertão, eram sempre pessoas de razoáveis letras que
praticavam uma pedagogia rígida e exigente, sob o severo controle e vigilância
patriarcal próprias da época. Confirmando o nível de escolaridade que recebeu
Antonio Vicente Mendes Maciel, da escola do professor Ferreira Nobre
emblematicamente saíram os alunos João Brígido dos Santos e Antonio Vicente
Mendes Maciel, que, curiosamente, foram rábulas – advogados ad hoc ou
provisionados – função que naquele tempo emprestava grande destaque
intelectual e social.
Na quase totalidade dos cronistas e historiadores dos acontecimentos de
Canudos, persiste a insinuação de que o pai de Antonio Vicente desejava
encaminhá-lo ao sacerdócio, suposição que as evidências mostram improcedente.
Ora, se tal aspiração existisse, não teria Vicente Maciel adiado seu casamento
com Maria Joaquina de Jesus, realizado na aflitiva situação “in articulo mortis”
quando Antonio Vicente já iria completar 5 anos, até então na incomoda condição
de bastardo, mácula que jamais um pai permitiria que um filho levasse ao
seminário. A verdade que ninguém quis ver e relatar, mesmo a tendo sob os
olhos, é que mesmo existindo entre eles – pai e filho – tal intenção, era ela
inviável diante das exigências do Direito Canônico então vigente,que requeria do
candidato um capital mínimo para ingressar no seminário: a avultada quantia de
500$000 (quinhentos mil reis), além de 25$000 de comprovada renda anual,
apreciável importância que não estava ao alcance do pai, como se demonstra. No
inventário de Vicente Mendes Maciel, a avaliação de todos os bens que
formavam o acervo somou 4.892$623, da qual excluído o passivo de 2.963$750
restou a partilhar o saldo de 1.928$873, e deste, deduzidos os impostos, custas,
taxas e demais emolumentos ficaram23apenas 1.865$872, cabendo à viúva a
quantia de 932$936, e aos demais herdeiros – dentre eles Antonio Vicente – a
ínfima importância de 223$934 (duzentos e vinte e três mil, novecentos e trinta e
quatro réis).O que comprova a inexequibilidade da suposta pretensão. Só com os
serviços religiosos para o sepultamento de Vicente Mendes Maciel, foi paga à
Igreja a elevada soma de 91$720.
Depois que Antonio Vicente foi transformado em figura de renome
nacional, oficialmente execrada pelos governantes, aristocracia, Igreja, imprensa,
escritores, historiadores e cronistas que se ocuparam da tragédia de Canudos,
logo ficou o humilde predicante estigmatizado como a figura emblemática do
mal, a raiz de um fanatismo infrene e ameaçador, sobre quem arrojaram as mais
variadas infâmias, injúrias e difamações. Orfandade materna precoce; maus tratos
da madrasta; sacerdócio frustrado; envolvimento de parentes em rixas de
famílias; alcoolismo paterno; insucesso no comércio; adultério da companheira;
falsas e imaginárias doenças psíquicas hereditárias e outras mais que, unificadas
ou de per si, serviriam para “esclarecer o conceito etiológico que o vitimou”,
como indevidamente asseverou Euclides da Cunha.
Até mesmo a bela paisagem das planuras do sertão-central, foi pretexto
para moldar-lhe um caráter doentio, taciturno, esquizóide, que se manifestaria às
margens do rio Vaza Barris. Por uns e outros que transformaram o “simples” em
complexas interpretações; que converteram o episódio em exclusividade de
erudição e longos tratados científicos destinados à chamada elite letrada com
intricados e abstrusos termos, contribuíram definitivamente para afastar a
compreensão do “simples”. Distante ficou a necessária percepção dos agora
alfabetizados, mas igualmente mal-aventurados, com a hipotética e malévola
persuasão de que haviam sido os supostos malogros a “gota d’água”, “o
desfecho” que teriam “obrigado” e “forçado” Antonio Vicente a assumir a
postura de beato predicante, e não sua deliberada vocação cristã em defesa dos
pobres, desclassificados e oprimidos.
Bem conhecidos são os costumes religiosos daquela época, introduzidos
pela ortodoxia do cristianismo católico romano que nos foi imposto pelo
colonialismo luso, no qual repontava a trindade divina, suprema e indiscutível,
respectivamente representada por Deus, S.M. o Imperador e o Vigário. Assim, a
Igreja Católica Romana e seus cânones eram a única fonte de inspiração
espiritual, que pontificava desde os ricos palacetes do litoral açucareiro às taperas
do sertão, inserta e decisivamente influente em todas as camadas sociais e no dia-
a-dia das pessoas, fossem elas quem fossem, desde o Pelo Sinal do acordar ao do
adormecer.
24
Antonio Vicente não escapou a essa influente ortodoxia. Contudo, sua
percepção e compreensão daqueles tempos e dos acontecimentos que vivenciava
teriam uma interpretação distinta, tendo-se em consideração algumas
peculiaridades exclusivas do lugar onde nasceu, associadas aos seus bons
conhecimentos e às suas convicções religiosas. Às claras, vejamos algumas.
Quixeramobim teve como fundador o Capitão Antonio Dias Ferreira, o padroeiro
é Santo Antonio, ele próprio Antonio Vicente, a rua onde nasceu e viveu se
chamava Santo Antonio, e mesmo seu segundo prenome, Vicente, derivado de
São Vicente de Paulo, exemplo das virtudes teológicas – fé, esperança e caridade
– fundador da Congregação das Irmãs de Caridade, em quem espelhou-se
Frederico Ozanam para fundar em 1883 a Sociedade de São Vicente de Paulo,
com a finalidade de socorrer a pobreza e a velhice desamparada, foram
evidências emblemáticas, além doutras, que não fugiram a sua argúcia de devoto
católico e pessoa letrada. A admiração e devoção por São Francisco de Assis e
Santo Antonio foram tão marcantes e constantes no curso de sua vida de asceta
predicante, que elegeu o último orago de Canudos.
Esta propensão pela leitura e a escrita, como bem mostrariam suas
futuras atividades, foi prática em todo o curso da sua existência, e sob esta ótica o
conceituam os que leram suas Prédicas, como o professor, historiador e membro
do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Edmundo Moniz: “Nas Prédicas,
constituídas de quatro partes, Antonio Conselheiro revela não só conhecimentos
do Antigo e Novo Testamento, cujos versículos ele cita em latim, como também
dos doutores da Igreja que desfrutam da maior autoridade teológica. Não são
apenas os autores sacros que Antonio Conselheiro menciona. Não fica somente
em São Jerônimo, São Basílio (que negava a legitimidade da riqueza), São
Crisóstomo (defensor ardente da volta ao comunismo primitivo da Igreja), Santo
Agostinho, São Boaventura, Santo Tomás de Aquino, Santo Inácio de Loiola e
outras sumidades da Igreja. Ocupa-se também da literatura profana. Cita o
“valoroso Enéas” que no incêndio de Tróia, “salvou nos ombros o seu pai...tendo
a seus pés o inimigo”. Isto mostra que conhecia Homero e Virgílio. Em seguida
cita Eurípedes: “ditosos os pais que têm filhos obedientes”. E para melhor
fundamentar o seu ponto de vista, apóia-se novamente num dos clássicos do
mundo antigo, Quintiliano, o mestre da eloqüência que dizia: “os filhos são as
esperanças dos pais quando obram bem e virtuosamente”. A tragédia grega não
era desconhecida de Antonio Conselheiro”. [Canudos: A Luta pela Terra, 8a.
Edição, SP: Global Editora, 1997, p. 50].
Já no curso de sua trajetória missionária, é relatada sua cultura em
assuntos religiosos: “A hostilidade 25aos maçons também era muito forte
nele, outro traço comum a Ibiapina e ao padre Agripino da Silva Borges, vigário
de Itapicuru, que, após desentendimentos iniciais, tornou-se amigo do
Conselheiro, com o qual entabulava conversas particulares sobre teologia”.
(Destaquei). [Robert M. Levine.O Sertão Prometido – O Massacre de Canudos.
SP: Edusp, 1995, p. 279]. Este é também o conceito doutra autoridade em
teologia, considerando textos do Conselheiro: “Deus é condescendência,
generosidade, ternura, perdão, afeto, misericórdia. O texto-chave é Rm. 5, 20:
“Onde avultou o pecado, a graça superabundou”. O comentário não insiste na
majestade de Deus, mas na sua capacidade negociadora com o “pecador”.
Excelente texto, que no nosso entender caracteriza o Conselheiro como
teólogo”. (Destaquei). [Hoornaert, 1997, op. cit., p. 117]. Também escreveu
Ataliba Nogueira, que “o ilustre historiador José Calasans ouviu de Pedrão, um
dos principais auxiliares do Conselheiro na administração de Canudos, que “o
Conselheiro escrevia muito”. E que escrevia bem é indiscutível– acrescenta
Ataliba – segundo testemunhos referidos pelo mesmo professor Calasans, de
pessoas que compulsaram autos no foro do interior cearense, onde deixou
“escritos registrados que o promotor de Tamboril e outros apreciaram”. [op. cit.,
p. 26].
Mas um promotor que viu seus escritos jurídicos e com ele conviveu e
militou no foro do Ipu, foi o jurisconsulto, Dr. Luiz Francisco de Miranda, como
será esclarecido. Os que têm uma visão mais isenta do Conselheiro,
unanimemente reconhecem sua erudição, como o sociólogo e professor da UFC
João Arruda, ao afirmar que “uma análise acurada de suas prédicas nos deixa a
certeza de que era um profundo conhecedor dos textos bíblicos e da história do
cristianismo”. [Canudos – Messianismo e Conflito Social. Fortaleza: Edições
UFC/SECULT, 1993, p. 57].
Adianta Hoornaert: “Antes de ser construtor, Antonio Vicente é homem
de letras... A proximidade de Antonio Vicente com o livro caracteriza toda a
sua vida. Dos tempos em que estudava com seu mestre de latim e gramática em
Quixeramobim, guardou uma boa capacidade de escrever e traduzir frases
bíblicas, conforme se pode averiguar nos cadernos guardados. Toda esta
ambientação, que não era incomum no sertão do século XIX, fez dele um
homem de letras, e mais tarde um escritor. (Destaquei). [Op. cit., 1997, pp.
113-114].
Ataliba acrescenta: “Já não se duvida mais que seja sertanejo letrado,
capaz de exprimir-se correta e claramente na defesa de suas concepções políticas
e sociais e de suas crenças religiosas”. [Op. cit. p. 197]. Não se pretende aqui
qualificar Antonio Vicente como um26intelectual de nomeada, mas, para sua
época é impossível obscurecer sua relevante e variada instrução de um razoável
autodidata. Ora, no ambiente bucólico, calmo e tranqüilo da pequena
Quixeramobim, na função de ajudar o pai no comércio que tinha maior
movimentação na feira semanal, suas horas livres eram dedicadas à leitura de
livros sacros, como as biografias de Santo Antonio e São Francisco de Assis, o
Padroeiro dos Pobres, e “varava a noite lendo ou copiando as Meditações e os
Exemplos dos Santos” como afirmou a testemunha ocular Honório Vilanova.
[Nertan Macedo. Memorial de Vilanova. RJ: Edições O Cruzeiro, 1964, pp. 49-
50].
Antonio Vicente abriu os olhos vendo o triste quadro de total abandono
e absoluta miséria em que viviam os sertanejos – sem esquecer o nefando e
perverso sistema servil – o que frontalmente feria os exemplos de fraternidade,
caridade e generosidade evangélicas que encontrou nas vidas de São Francisco
de Assis e Santo Antonio. E foi diante destas concretas constatações percebidas e
entendidas graças à boa educação escolar, constante na leitura e meditação
religiosa, coincidentemente rodeado de inumeráveis pobres, famintos e
oprimidos, que lhe compeliram a conhecer estas santificadas e piedosas
biografias, que decisivamente influíram em seu ânimo, cuja inspiração mostraria
no exercício das ações que pública e concretamente praticaria no longo curso de
sua vida missionária. Os raros ensaios que tentaram biografá-lo, com destaque
para Abelardo Montenegro, ao tratar de sua vida em Quixeramobim, diz que ele
“revelou-se um rapaz muito religioso, morigerado e bom, respeitoso para com os
mais velhos, protegendo e acariciando as crianças. Era considerado a pérola
de Quixeramobim, por ser um moço sério, trabalhador, honesto e religioso,
dedicado à leitura de livros como o Lunário Perpétuo, a Princesa Magalona,
Carlos Magno e outros de fundo religioso”. (Destaquei). [Op. cit. p. 114].
Contudo, mais de um século decorreu para se reverter, embora
timidamente, sua modesta, mas incomensurável figura humanitária, assim
reconhecendo o catedrático Ataliba Nogueira: “Se é apenas a história que há de
recordar Antonio Vicente Mendes Maciel, importa imergir naquelas águas (do
açude Cocorobó, construído em 1969 no rio Vaza Barris, acrescento) todas as
falsidades e distorções espalhadas, sem o menor mérito crítico, durante um
século. A sua figura e a de todos os canudenses aparecerão em plena
autenticidade, como realmente foram, purificadas naquelas águas lustrais,
de todas as deformações propaladas pelos partidos políticos, pela meia-
ciência, pelos propósitos inconfessáveis, pela forma literária imaginosa e
sacrificadora da verdade”.(Destaquei). [Op. Cit., p. 1]. Finalmente, sem dúvida
foi serena e proveitosa a adolescência27de Antonio Vicente Mendes Maciel,
dedicando-se ao trabalho e à leitura, mas com a inquietante visão dos infortúnios
que afligiam a grande massa dos oprimidos, cujas humildes causas adiante
ardorosamente abraçaria, em defesa das quais sacrificaria a própria vida.
28
3.
MORRE O PAI – O COMÉRCIO
“Antonio Vicente Maciel foi sempre
de índole dócil, inteligente, trabalhador,
alheio a todos os prazeres.Não saia de casa,
ocupado exclusivamente do comércio do pai”.
A.A. DE OLIVEIRA CASTRO,
[In Walnice Nogueira Galvão, 1994, p.91].
Para que melhor se compreenda nossa quadra historiográfica, na fase
da vida de Antonio Vicente Mendes Maciel precedente ao genocídio, é mister que
se esclareça a obscuridade histórica que subsistia naqueles idos, época em que
tudo provinha da versão oral. Chamada fase memorialista, quando repontaram as
figuras do médico franco-cearense, Pedro Théberge, e do espírito-santense João
Brígido dos Santos, – repiso – aos quais assim considerou José Honório
Rodrigues: “São modestos pesquisadores, a colher pelo Interior, ainda vivas, as
vozes da consciência popular”. [A Historiografia Cearense na Revista do
Instituto do Ceará,op. cit., p. 35].
Certo é que nossa historiografia cresceu com a fundação do Instituto
do Ceará e tomou os rumos dos seus verdadeiros objetivos com o Barão de
Studart, que merecidamente recebeu esta designação: “É, sem favor, o Pai da
historiografia cearense”, como asseverou Guarino Alves de Araújo, no artigo
«Jubileu do Instituto do Ceará, no Transcurso do Primeiro Centenário de Sua
Fundação»[RIC, Tomo Especial, 1987, p. 447]. Com razão é de se indagar o
porquê da omissão de Guilherme Studart diante do episódio de Canudos. Ora, sua
erudição no âmbito da história sempre esteve voltada para as imensas achegas
documentais a cujo insano trabalho empregava quase inteiramente seu tempo, e
um estudioso tal não iria se eximir dos grandes temas para deter-se em episódios
paroquiais recentes, que o jornalismo coloria como obra de uma seita de néscios.
Doutra parte, há de se ter em conta que a instituição que mais promoveu e incitou
a insurgência das elites contra os desventurados de Canudos foi a Igreja Católica
Romana, a cujos cânones estavam atados os valores religiosos do grande
historiógrafo.
Na sua visão, aquele recente acontecimento exigia mais a pena de um
jornalista do que a análise de um historiador, como sucedeu aos correspondentes
Manoel Benício e Euclides da Cunha,29e com a publicação d´Os Sertões chegou
a imaginar que o tema ali se esgotara, quando escreveu: “Acerca da lucta de
Canudos lea-se o notável e nunca assás elogiado livro Os Sertões, saído da penna
do inolvidável e mallogrado Euclydes da Cunha”, quando biografou Antonio
Conselheiro no seu inestimável Dicionário Biobibliográfico Cearense, [1o. Vol.,
1910, op. cit. p. 143]. Contudo, no Ceará, pioneiramente publicou o auto de
exumação [op. cit. pp. 142/143], e com a isenta sisudez com que pautaram suas
análises históricas e na condição de um dos grandes humanistas do seu tempo,
tratando do genocídio, escreveu: “Para esse fim houve recurso aos meios mais
deshumanos, que não convem registar a bem dos nossos foros de nação
civilisada e cristã”(sic). (Destaquei). [Op. cit. p. 141]. Esta consideração
pretende mostrar e ao mesmo tempo alertar o leitor para o que adiante se relatará,
quando se verifica que as destacadas expressões da historiografia cearense se
mantiveram distantes do tema Canudos, só dele se ocupando, alguns, depois do
meado do século passado. Mesmo os números da Revista do Instituo do Ceará,
manancial único de nossa historiografia, até hoje poucas e resumidas matérias
foram ali publicadas sobre o episódio.
Isto posto, retorno ao tema que aborda o falecimento de Vicente
Mendes Maciel e as conseqüências que originou, culminando com a ascensão do
filho Antonio Vicente à frente da família e do comércio, e, se mesmo o passado
do filho no período aqui considerado continua quase na obscuridade, diferente
não poderia ocorrer com o pai. Assim, os que inicialmente se aplicaram à
investigação do massacre, não podendo prescindir de alguns conhecimentos –
embora duvidosos – do homem que fundara aquele trágico povoado, outra
escolha não restou senão recorrerem aos escritos de João Brígido dos Santos,
expoente da chamada corrente memorialista.
Assim, foram estes os conceitos que alinhou Brígido acerca da pessoa
de Vicente Mendes Maciel, em artigos no jornal República, Fortaleza, 1889, sob
o insinuante título «Crimes Célebre do Ceará – Maciéis e Araújos», matéria que
adiante comporia o livro de sua autoria, Ceará – Homens e Factos, RJ:
Typographia Bernard & Frères, 1919, pp. 272-273.: “Sobresahia (entre os
Maciéis) Vicente Mendes Maciel, de índole irascível, mas de excellente carater,
meio visionário e desconfiado, mas de tal capacidade, que, sendo analphabeto,
negociava largamente em fazenda, trazendo tudo perfeitamente contado e medido
de oitiva, sem mesmo ter escripta para os devedores” (sic). Isto é, não anotava os
fiados, esclareço. “Seu pae, um dos antigos Maciéis, cuja coragem tornou
lendário esse nome declinado na historia criminal do Ceará, era um homem
bonito, a tez ligeiramente morena, vigoroso e intelligente, mas retrahido, mao e
perigosamente desconfiado, bem que30muito cortez, obsequioso e honrado.
Tinha momentos terríveis de cólera, principalmente si tocava em álcool. Era
duma valentia indômita e meio surdo. Seus avós tinham sido vaqueiros. Em um
dos seus momentos, deu tantas facadas na mulher, que esteve sacramentada!
Abandonando o uso de bebidas, relacionou-se com ella, commerciou e chegou a
fazer uma fortuna soffrivel, edificando algumas boas casas na praça, que chamam
em Quixeramobim – Cotovelo. Nos últimos tempos, desmandou-se e parece ter
morrido arruinado. Era victima de uma demência intermittente. Voltava sempre.
Não sabia ler, mas contava admiravelmente de oitiva. Quando se dirigia ao
Aracaty para fazer suas compras, fixava previamente a somma dellas, e assim
que, apartando fazendas, attingia a sua meta, dizia aos caixeiros: basta. Sem
discrepar num real, havia apartado a somma que fixara”(sic). (Destaquei). [Op.
cit. pp. 272-274].
Noutra nota, narra João Brígido que num banho de poço, salvara de
afogamento a Antonio Vicente e outros companheiros, mas é esta a recente
versão que nos oferece o historiador quixeramobinense, da parentela de Antonio
Conselheiro: “O capitão Antero Aprígio de Albuquerque Lima, avô do ex-
tabelião Antero de Albuquerque, disse em certa ocasião ao meu pai, Miguel
Fenelon Câmara, que o acontecimento se verificara de maneira diferente: ele é
que salvara a vida de João Brígido, Antonio Conselheiro e os outros
companheiros.” [Fernando Câmara, «Antonio Conselheiro e o Centenário de
Canudos», RIC, 1993, p. 33].
Não bosquejo qualquer pretensão de defesa de Vicente Mendes
Maciel, mas, pelo visto, como as crônicas de João Brígido, invariavelmente são
carregadas de senões que robustecem as críticas que continuadamente
desacreditam suas matérias no campo historiográfico, a bem da lisura histórica
obrigo-me a tecer estas considerações. As incoerências em que incidem os textos
pretendem ridicularizar a mais elementar análise.
No caso em tela, na matéria do Unitário – 25/09/1917 – o considera
Brígido um “homem analfabeto, bonita figura, negociante, cavalheiro e
generoso”, e com um único sinal de pontuação aplica uma conjunção e
prossegue, “porém jogador infrene, com intermitências de loucura feroz, por
amor de alcoolização – fragilidade em que caía de tempos a tempos”. Isto é,
Vicente Mendes Maciel era um homem de bem, educado e dadivoso, como
qualquer outro se divertia jogando seu baralho, tomava suas cachaças, e igual a
muitos bêbados tirava ares de valentia, evidenciando nítidas contradições. Causa
estranheza e indagação as notas de Brígido acerca da família Maciel,
especialmente Vicente Maciel eo filho Antonio Vicente, pois, mesmo tendo
conhecido este quando menino –31segundo asseverou – e havendo passado
vários anos em Quixeramobim donde se retirou em 1846, já com 17 anos e
portanto em pleno entendimento, não se compreende, repito, como haja recorrido
ao Ten. Antonio Augusto de Oliveira Castro, solicitando informações sobre
Vicente Maciel eo filho Antonio Vicente. É o próprio Brígido quem declara, em
matéria publicada no Jornal do Brasil, RJ, em 22.02.1897, afirmando ser
reprodução da que publicou no jornal República, de Fortaleza, edição de
28.06.1893, conforme Walnice Nogueira Galvão [No Calor da Hora, op. cit., p.
89]. Aliás, como se verá adiante, este Antonio Augusto de Oliveira Castro foi
depositário em juízo dos bens móveis de Antonio Vicente, no dia 02.10.1871, na
ação cível de cobrança que lhe moveu o Comendador José Nogueira de Amorim
Garcia.
Tratando da iconografia de Antonio Vicente, menciono esta evidência.
Mesmo diante de achegas reveladoras de pesquisas recentes, não foi possível até
hoje desfazer aquela simbolização de nítida aparência de alucinação demoníaca
de Antonio Conselheiro para contornos mais humanos, pois até sumidades como
o renomado artista plástico Aldemir Martins, o apresentam – com seus laureados
pincéis – sob o tenebroso aspecto de uma figura monstruosa e deformada, a
própria besta-fera, o Anti-Cristo do Apocalipse, como se vê na Revista USP –
Dossiê Canudos, No. 20, dez./jan./fev. 1993-1994, Publicação da Coordenadoria
de Comunicação Social, SP, pp. 17, 21, 63 e outras. Curiosamente, a editoria dá
esta informação na página pós-capa: “As ilustrações de capa e do dossiê
Canudos, desta edição da Revista USP, foram reproduzidos com autorização da
Livraria Francisco Alves Editora e de seu autor, o artista plástico Aldemir
Martins, da 27a. edição d´Os Sertões, lançada em 1968”.
O véu de opróbrios que contribuiu para deformar a iconografia do
Conselheiro, poderia ter sido, mesmo tenuemente amenizado, a partir de 1947
quando o jornalista Theófilo de Andrade, através de matéria na conhecia revista
O Cruzeiro, informa ter visto num sebo manuscritos de autoria de Antonio
Conselheiro. Em 1953, o também jornalista Luciano Carneiro, em reportagem na
mesma revista, diz que leu as Prédicas – datadas de 12 de janeiro de 1897 – já
em poder do poeta Aristeu Seixas, onde divulga algumas passagens do
manuscrito. Em 1973, estas chegam às mãos do jurista e acadêmico Ataliba
Nogueira, que no ano seguinte publica a excelente obra Antonio Conselheiro e
Canudos, onde as transcreve integralmente, mas nada mudou a monstruosa
deturpação iconográfica que até hoje persiste, exibindo a figura de um ancião
barbudo, cabelos revoltos e desgrenhados, olhos esbugalhados e braços em
atitude aflitiva, claros gestos de um alucinado possesso, e velha imagem ainda
reproduzida das letras euclidianas. 32
Digressões como a que segue serão freqüentes no curso deste ensaio,
que não pautará por uma rígida narrativa seqüencial dos fatos, intercalados que
serão por ilustrativas informações no único e útil intuito de esclarecer o seu
contexto. Assim, abordando a descaracterizada aparência iconográfica de
Antonio Conselheiro, diz José Calasans que apenas duas pessoas, dentre as que
com ele estiveram, descreveram seu aspecto anatômico. Inicia por Durval Vieira
de Aguiar – desafeto do missionário – coronel da polícia baiana que publicou um
estudo em 1888, do qual se valeu Euclides da Cunha, que o descreve como “um
sujeito baixo, moreno, acaboclado, barbas e cabelos pretos e crescidos, vestido
de camisolão azul, morando sozinho numa desmobiliada casa.” O então
acadêmico de direito, depois juiz Genes Martins Fontes, nomeado para Monte
Santo por indicação de Cícero Dantas Martins (Barão de Jeremoabo), ferrenho
inimigo do apostolado de Antonio Conselheiro que o encontrou por duas vezes,
assim o descreve no primeiro encontro, segundo palavras de Calasans,
“debuxando o perfil físico do Conselheiro, um homem muito magro, de cabelos
compridos e maltratados, onde pululavam os piolhos, mãos sujas, porém
portador de um olhar que lhe dava tom à fisionomia.” Na segunda oportunidade
escreveu que “a última vez que o avistei, em 1881, o seu prestígio era estupendo.
Sentia que lidava com um profeta, com um dominador de multidões. O seu olhar
já não tinha a mesma abstração antiga”.[José Calasans. «Canudos Não
Euclidiano, Fase anterior ao início da Guerra do Conselheiro»,in Canudos,
Subsídios para sua reavaliação história, Jerusa Gonçalves de Araújo,
[Link]: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986, pp. 8, 11 e 12].
José Calasans, escrevendo a Apresentação do «Relatório de Frei João
Evangelista», na Revista USP – op. cit. à p. 26, no subtítulo Breve Cronologia da
Vida de Antonio Vicente Mendes Maciel, referindo Durval Vieira de Aguiar e
Martins Fontes, escreveu: “Quando por ali passamos achava-se na povoação um
célebre Conselheiro, sujeito baixo, moreno acaboclado, de barbas e cabelos
pretos crescidos, vestido de camisolão azul, morando sozinho numa
desmobiliada casa, onde se apinhavam as beatas e afluíam os presentes, com os
quais se alimentava.”(Durval Vieira de Aguiar – 1888). “Pálido e magro – de
magreza esquelética – alto, com os cabelos compridíssimos, enfiado em uma
túnica azul, a cuja cinta estava atado um cordão de frade franciscano, do qual
pendia um crucifixo.[Genes Fontes, 1879]. Embora mínimas, mas se observam
modificações.
No entanto, as características anatômicas e iconográficas que
escultores, desenhistas, pintores e a totalidade dos artistas plásticos continuam a
conceber, são as mesmas descritas por33Euclides da Cunha que nunca o
conheceu: “Era truanesco e era pavoroso. Imagine-se um bufão arrebatado
numa visão do Apocalipse...”. (Destaquei). [Os Sertões, RJ: Ediouro, 1992, p.
90].
E é assim que o imaginam estudantes, universitários e estudiosos mal
informados e – o que é mais grave – a esmagadora totalidade dos sertanejos.
Demonstro. Opúsculos e brochuras impressos para serem distribuídos
exclusivamente no meio rural – assentamentos do INCRA, MST e comunidades
afins – tais como Noventa Anos Depois...Canudos de Novo – Salvador: Impressão
EMQ – Gráfica e Editora, 1987, capa e pp. 14, 18 e 22; Canudos – Uma História
de Luta e Resistência – Instituto Popular – Memorial Canudos, Editora Fonte
Viva, Paulo Afonso, Bahia, 1993, pp. 10 e 32, e, Canudos Não Se Rendeu – 100
Anos de Luta Pela Terra – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra –
MST – Secretaria Nacional – Rua Ministro Godoy, 1484, São Paulo, SP, 1993, p.
5, além de referirem a obra de Euclides da Cunha, nela se inspiraram para
retratarem o Conselheiro com a aparência desproporcionada de um alucinado.
É curiosa a deformidade quase unânime, que o apresenta com uma
cabeçorra disforme, uma figura visivelmente assombrosa, um verdadeiro
lobisomem. Quando nada, deveriam se espelhar na fotografia colhida pela lente
do fotógrafo oficial Flávio de Barros, acompanhante da 4 a. Expedição que
ultimou o massacre, embora obtida em avançada decomposição, mas com a
nitidez possível para o momento, vista – dentre outras produções – no suplemento
de atividades escolares, Canudos, Antonio Carlos Olivieri, Editora Ática, SP,
1994, p. 37.
Quem melhor levanta a falsidade iconográfica do Conselheiro é
Ataliba Nogueira: “É bem diversa a figura realmente histórica de Antonio
Conselheiro da que se criou à revelia dos documentos e demais fontes
indispensáveis ao juízo crítico. Até a própria iconografia se encarrega de
deturpar-lhe a imagem. A única representação gráfica do grande brasileiro é
a fotografia tirada após sua exumação. E esta pouco nos revela a seu respeito.
Entretanto, em vida e depois de morto, artistas tão imaginosos quanto os
escritores idealizaram o seu retrato que só desfeia o peregrino para assim
apresentá-lo à aversão de quantos queiram conhecê-lo”(Destaquei)[Op. cit. p.
210]. Avaliação similar faz o professor e historiador Leopoldo M. Bernucci,
como está em capítulo precedente. Já um pesquisador norte-americano,
inconformado escreveu: “De certa forma, o retrato do Conselheiro pintado
por Euclides transformou-o numa espécie de figura demoníaca objeto de
cultuação, alguém maior do que a própria vida, pessoa tão sinistra e
malevolente, quase um Rasputin34brasileiro”(Destaquei) [Robert
Levine.O Sertão Prometido,op. cit., p. 343]. No centenário do sinistro – 1997 –
considerando o tema escreveu Hoornaert: “Impressionou tão poderosamente o
imaginário brasileiro que até hoje a iconografia do Conselheiro – mesmo a que é
simpática ao Beato – não conseguiu ainda criar um Conselheiro “normal”.Ele
permanece extravagante: assim Caribé, ilustrando o livro de Odorico Tavares
(edição de 1993), desenha um Conselheiro com oito mãos em posição de
desespero” (Destaquei) [1997, op. cit. p. 84].
O lúcido cineasta Ipojuca Pontes, no clímax da quartelada de 1964 e
mesmo usando no roteiro/argumento triviais chavões como “fanático” e
“jagunço”, em 1976 teve a brilhante idéia de realizar o único e sério audiovisual –
Documentário – Canudos – Ipojuca Pontes Produções Cinematográficas Ltda.,
colhendo depoimentos inestimáveis de testemunhas oculares do massacre, dentre
elas a sobrevivente, nonagenária e maltrapilha dona Alvina, habitante duma
mísera tapera na região de Canudos, que se recusou e nada respondeu sobre os
ataques do extermínio, dizendo apenas sobre a figura do Conselheiro: “Num era
grosso nem fino. Era simples. Era um homem bonito, com as barbas e os
cabelos pretos”. Adianto que este Documentário representou o Brasil nos
festivais de Cannes (França) e San Sebastian (Espanha), em 1978. Pela original
procedência, indiscutivelmente é a única que merece credibilidade, uma vez que a
fonte de inspiração que o deturpa e assombra – Euclides da Cunha – jamais o
avistou mesmo a distância.
Finda a oportuna e necessária consideração que, alheia ao tema do
capítulo visou à deformidade iconográfica do Conselheiro, retorno à pessoa do
pai, Vicente Mendes Maciel. Os únicos documentos que registram sua existência
em Quixeramobim, além dos autos de inventário, são eclesiásticos e consistem
nos termos dos seus dois casamentos e do óbito.
Termo do primeiro casamento, “in articulo mortis”.
“Aos trinta e hum de Agosto de mil oitocentos e trinta e quatro, pelas
cinco horas da tarde em casa de morada do contrahente Vicente Mendes Maciel,
omitidas as diligencias do costume por ser o casamento – in articulo mortis –
assisti ao recebimento dos Contrahentes Vicente Mendes Maciel, filho natural
de Maria Manoela do Sacramento, já falecida, com Maria Joaquina de Jesus,
filha natural de Feliciana Maria Francisca, em presença das testemunhas José
Antonio de Barros e José Raimundo Façanha, casados; os nubentes naturais, e
moradores desta Freguezia de Santo Antonio de Quixeramobim e logo receberão
as Bênçãos Nupciais: do que para constar fiz este assento que assino. O vigário
Fructuoso Dias Ribeiro.” [in Ismael Pordeus, Revista USP, op. cit. p. 24].
Termo do segundo35casamento.
“Aos dois dias do mês de Fevereiro de mil oitocentos e trinta e seis,
pelas oito horas da noite na Matriz desta Freguezia, ometidas as Denunciações
do estilo, de licença minha o Reverendo Fructuoso Dias Ribeiro casou e deo as
Bênçãos Nupciais a Vicente Mendes Maciel, viúvo por falecimento de sua
mulher Maria Joaquina de Jesus, com Francisca Maria da Conceição, filha
legitima de Inocêncio Alves Freire e Joana Maria Conceição, já falecidos; forão
testemunhas Francisco das Chagas Pinto e José de Sousa Nogueira, casado;
todos moradores nesta Freguezia, do que para constar, do assento que me foi
remettido, fiz o presente termo que assigno. O Vigário Pinto de Mendonça”. [in
Ismael Pordeus, ibid.]
Termo do óbito de Vicente Mendes Maciel.
“Aos cinco dias do mês de abril de mil oitocentos e cinqüenta e cinco,
faleceu de uma constipação nesta Vila com todos os Sacramentos o adulto
Vicente Mendes Maciel de idade quarenta e oito anos casado com Francisca
Maria Maciel, e foi solenemente sepultado na Capela do Senhor do Bonfim de
grades assima em volto em hábito preto, sendo o ato presidido por mim do que
para constar mandei fazer este assento, que assino. O Vigr. Antonio José Jacinto
de Menezes” [in Abelardo Montenegro, Fanáticos e Cangaceiros, op. cit. p.
162].
A Antonio Vicente restou, como único varão, a obrigação de
administrar o que remanesceu do espólio paterno, além de inexperiente arrimo de
um lar que não construiu. Não tinha propensão para o comércio, e mesmo sua
tarefa em ajudar o pai não lhe despertou inclinação para tal mister. Sua dedicação
maior eram a religião e a leitura – o que na época não se via com bons olhos – e a
este último propósito se dedicava com entusiasmado ânimo, como às escrituras
sagradas, manuais, escritos de sábios cristãos e biografias de vidas santificadas.
Decididamente, os bens materiais não eram objeto de sua aspiração,
seu anseio terreno. Os conhecimentos que já acumulara, conjugados ao desprezo
inato pelos bens mundanos lhe permitiam observar e concluir que os pobres e
desventurados viviam abandonados e ignorados, à margem de tudo e de todos.
Como ninguém, percebia e reconhecia Antonio Vicente como os ricos
comerciantes, os grandes latifundiários senhores de escravos e donos de
incontáveis boiadas, os próprios padres, igualmente nesta imprópria, censurável e
inversa atividade, humilhavam e exploravam aqueles miseráveis e
desclassificados sertanejos, figuras que ele encontrava na pessoa daquele
lazarento que o Pobre de Assis abraçou e chamou de Meu Irmão, expressão como
designaria, indistintamente, os Pobres de Cristo que no futuro o seguiriam.
36
Sua experiência, concretamente vivenciada na comunhão diuturna
com os oprimidos, mais e mais lhe convenciam de que àqueles ricos senhores
apegados à matéria se aplicava a sentença evangélica, clara como o sol que
abrasava o tórrido sertão: “Porque onde estiver vosso tesouro, aí também estará
vosso coração”. Estas concretas percepções bem discernia Antonio Vicente, e
mais se intensificava em seu espírito a determinação de que alguma coisa teria
que fazer para minimizar os sofrimentos daqueles desprezados e desventurados.
Esta era sua aflição, sua tormenta, sua agonia.
No entanto, sendo a única fonte de recursos para manter a família, não
lhe restava outra escolha senão prosseguir no negócio, com loja já instalada e
conhecida freguesia, numa casa que servia de moradia e comércio, assim
mencionada por seu contemporâneo Oliveira Castro: “Era uma das melhores
desta cidade e pertencente agora a um dos herdeiros do Coronel Silva Souza”.
(Destaquei). [in Walnice Nogueira Galvão, No Calor da Hora, op. cit., p. 89].
Demais, além dos cuidados que lhe inspirava a madrasta, portadora de psicopatia,
como afirma no requerimento que redigiu para o início do inventário, sob sua
guarda e responsabilidade ficaram as irmãs.
Tratando da experiência de Antonio Vicente na atividade comercial,
escreveu o historiador: “Caixeiro do estabelecimento comercial de seu pai, com a
morte deste, requeria Antonio o inventário, no qual se habilitavam como credores
o Padre Visitador Antonio Pinto de Mendonça com o crédito de 400$000, e
Manuel Francisco da Cunha com o crédito de 1.249$450, ambos os créditos
comprovados por meio de promissórias assinadas por Antonio a rogo do pai. O
espólio elevava-se a 2.031$373. Antonio tornava-se comerciante graças à
confiança que nele depositavam os negociantes de Aracati, de onde eram
importadas as mercadorias. Começava Antonio a negociar com 223$934
correspondente a seu quinhão hereditário, e mais 2.963$750 em mercadorias
velhas (e todas fiadas na praça de Aracati, esclareço). A 19 de março de 1856,
faleceu, na Vila de Quixeramobim, com 39 anos de idade, a madrasta de Antonio
– Francisca Maria Maciel – sendo sepultada na Capela do Senhor do Bonfim.
Morria sofrendo das faculdades mentais. Antonio não tinha vocação para o
comércio. Os negócios não aumentavam e as dívidas cresciam. Assim é que, a 3
de junho de 1856 dava em hipoteca uma casa a Rua Santo Antonio, na vila, para
garantia da dívida de dois contos de reis contraída com o negociante Manuel
Francisco da Cunha, o mesmo que se habilitara como credor no inventário de
Vicente. A 3 de setembro de 1857, Antonio e Brasilina (agora casados), vendiam
ao cel. Antonio Rodrigues da Silva a casa de morada sita à rua Santo Antonio,
com cinco portas de frente e com 37armação de loja e balcão, herança do pai
e sogro, pela quantia de 2.223$000. Assinalava a escritura, a rogo de Brasilina,
por ser analfabeta, Joaquim Manoel de Lima. A casa vendida já estava hipotecada
ao credor Manuel Francisco da Cunha” [in Abelardo Montenegro, op. cit., pp.
114-115].
À primeira vista, fica a impressão de que Antonio Vicente, vendendo
a casa em 03.09.1857 e “a casa vendida já estava hipotecada ao credor Manuel
Francisco da Cunha”, teria, por esta transação praticado um ato ilegal e
desonesto. Ocorre que a hipoteca foi feita por escritura pública de 03.06.1856, no
cartório do tabelião José Homero Câmara, no livro de notas n. 35, fls. 34-34v., na
qual está dito “cuja quantia pagará (Antonio Vicente) em quatro iguais
pagamentos que se vencerão sucessivamente desta data a um, dois, três e quatro
anos como constará das respectivas letras”, vencendo a última prestação no
distante dia 03.06.1860, esclareço [in José Aurélio Câmara, Um Documento do
Conselheiro, O Povo, Fortaleza, edição de 19.02.1963].
O objetivo da venda efetuada em 03.09.1857, mais de um ano após a
hipoteca, teve como finalidade única saldar a dívida hipotecária e liquidar
legalmente o estabelecimento comercial, como, dentre outros informa o professor
e historiador: “Com o objetivo de pagar dívidas deixadas por seu genitor, vende,
a 3 de setembro de 1857, o prédio que servia, ao mesmo tempo, de casa de
comércio e morada. Trata-se de uma construção sólida e ampla, situada na atual
Rua Cônego Aureliano Mota, n. 210, próxima à Praça Dias Ferreira (conhecida
como Praça N.S. de Fátima). O comprador do imóvel foi o comerciante do
Aracati, Cel. Antonio Rodrigues da Silva e Sousa, que pagou a importância de
2.223$000. Uma vez vendido o prédio, foram pagas as dívidas e o restante
rateado entre os herdeiros.” [Marum Simão, Quixeramobim – Recompondo a
História. Fortaleza: Multigraf Editora Ltda., 1996, p. 218]. Chegava ao fim a
atividade comercial de Antonio Vicente, cuja obrigação desempenhou com
esmero e responsabilidade.
38
4.
O CASAMENTO – O MAGISTÉRIO
“Das palavras desta testemunha, concluí que
Antonio Maciel, ainda moço, já impressionava
vivamente a imaginação dos sertanejos”.
EUCLIDESDA CUNHA, [Os Sertões, 1992, p. 86].
Honestidade e retidão, são os termos que definem o êxito das
obrigações assumidas por Antonio Vicente após o óbito do pai, quer como arrimo
ou comerciante. No amparo à família, é de se conhecer que suas irmãs Maria
Francisca, nascida 09.06.1831; Francisca Maria, em 08.06.1833; Dorotéia, no dia
08.02.1837, e Rufina, cuja data de nascimento é desconhecida, mas dela se tem
esta notícia: “Por ocasião do inventário de Vicente (Mendes Maciel), em 1856,
figuravam como legítimos herdeiros os três filhos do primeiro casamento e uma
do segundo – a menor Rufina que se casara, em 7 de novembro de 1855, com
Marcos Antonio de Almeida, no sítio Riacho do Meio da paróquia de
Quixeramobim”. [Abelardo Montenegro, op. cit., p. 163]. Ao liquidar,
legalmente, o estabelecimento comercial a 03.09.1857, já decorriam quase dois
anos do casamento da irmã caçula do 2 o leito paterno, assim mesmo repartindo
com todas o saldo remanescente da prestação de contas, desobrigando-se de
qualquer responsabilidade na condução da vida das irmãs.
Dessa forma, no desempenho do encargo de negociante longe esteve
de ser considerado um fracasso, pois mesmo assumindo a direção de um
comércio decadente, sem sobressaltos nele permaneceu por mais de dois anos, e
quando decidiu concluí-lo quitou todas as dívidas herdadas e contraídas,
honestamente repartindo o saldo com as irmãs, todas já casadas. Prova de que não
era um malogrado, é haver contraído mais despesas e obrigações antes mesmo de
encerrar a atividade comercial, quando, no início de 1857, se enamorou e se
casou com Brasilina Laurentina de Lima, sendo este o assento de seu casamento:
“Aos sete do mês de janeiro de mil oitocentos e cinquenta e sete, nesta
matriz de Quixeramobim, pelas oito horas da noite, depois de preenchidas as
formalidades de direito, assisti a receberem-se em matrimônio e dei as bênçãos
aos meus paroquianos Antonio Vicente Mendes Maciel e Brasilina Laurentina de
Lima, naturais e moradores desta freguesia de Quixeramobim, esta filha natural
de Francisca Tereza de Lima, e aquele filho legítimo de Vicente Mendes Maciel e
de Maria Joaquina do Nascimento,39ambos falecidos, sendo dispensados do
impedimento do terceiro grau atinente ao segundo de consangüinidade lateral de
sinal; foram testemunhas José Raimundo Façanha e Pedro José de Matos; do
que para constar mandei fazer este termo que assino. O vigário interino: José
Jacinto Bezerra”. [apud Fernando Câmara,op. cit. Livro de Casamentos n. 5, fls.
327v.-328].
No termo de casamento consta que foram os nubentes “dispensados
do impedimento do terceiro grau atinente ao segundo de consangüinidade”, e esta
redação dúbia e imprecisa suscitou entre os estudiosos a incerteza de que entre
eles houvesse parentesco. Truncada e duvidosa, a única nota que se conhece
sobre o fato vem da notícia do Jornal do Brasil, RJ., edição de 22.02.1897,
coligida por Walnice Nogueira Galvão, derivada doutra, remota, que publicou o
jornal ARepública, Fortaleza, edição de 28.06.1893, da lavra do jornalista João
Brígido, que por sua vez a houve de uma carta que de Quixeramobim lhe remeteu
Antonio Augusto de Oliveira Castro, que diz: “Era este, (Vicente Maciel) filho
bastardo de Miguel Maciel, pai de Helena Maciel e de Francisca Maciel, com
cuja filha casou Antonio Vicente Maciel (Conselheiro)”. [Walnice N. Galvão, op.
cit. p. 90]. Há um evidente engano, pois Vicente Mendes Maciel era irmão de
Miguel Mendes Maciel, conhecido por Miguel Carlos, filhos de Manuel Mendes
Maciel, conhecido por Manuel Carlos. Se verdadeira a informação de Oliveira
Castro, Brasilina seria prima paterna de Antonio Vicente que, definitivamente,
não foi feliz nos parcos e dúbios relatos de sua vida conjugal.
Ainda tratando de matérias jornalísticas, tem esta interessante achega
doutro profissional da notícia: “Brazilina aparentando ter 18 annos, alta, magra,
côr branca, cabellos pretos, rosto oval, nariz afilado, olhos grandes, prestos e
vivos, era uma mulher bonita e muito prasenteira”. [Manuel Benício, op. cit. p.
38]. Estes ricos detalhes, Benício obteve de João Brígido – certamente por carta –
a quem atribuiu estes calorosos encômios na Prenoção de seu livro: “A
monographia dos Maciéis foi escripta sob informações do illustre chronólogo
cearense ehomem de lettras, o coronel João Brigido, que poderia assignar a
primeira parte da obra, tantos foram os recursos historicos e morais que
dispendeu para a contextura della”(sic) (Destaquei). [1899, p. 7].
Prosseguindo o parêntese que, como outros, repito, se propõe coligir
maiores subsídios ao entendimento desta modesta pesquisa, a exclusiva fonte
séria, honesta e acreditada dos rezam as tradições que Brígido insinua nos seus
escritos, e também a única pessoa de que se tem real conhecimento de haver
privado com Antonio Vicente e Brasilina nas suas estadas no centro-oeste foi o
jurista Luiz Francisco de Miranda, promotor no Ipu, colega de Antonio Vicente
na militância forense e compadres.40Embora omitindo o fato em suas
crônicas, Brígido dividiu com Luiz de Miranda um escritório de advocacia em
Fortaleza, o que comprova uma procuração que lhes outorgou minha bisavó
materna, Maria Gonçalves Chaves, em 03.06.1898, apensa aos autos de
inventário de seu marido Anastácio de Araújo Costa Sales, processado no foro de
Tamboril, cuja cópia autêntica demora em meu arquivo e foi transcrita no livro de
minha autoria, O Solar da Caiçara[Crateús: Gráfica Aquarela, 1996, p. 100].
Assim, o jurisconsulto Luiz Francisco de Miranda, de origem
modesta, generoso, desprendido e culto, motivo de admiração e consideração do
eminente historiador Barão de Studart, certamente foi a fonte oral de que se
utilizou o jornalista nas suas crônicas, acrescidas de sensacionalismo. E através
da mesma procedência tomou conhecimento dos passos de Antonio Vicente,
desde sua chegada a Tamboril em 1858, até sua retirada do centro-oeste em ano
indeterminado, aproximadamente 1866/1867. A exclusiva referência que Brígido
faz ao jurista Luiz de Miranda, é esta: “Não há notícia de um filho de Antonio
Vicente havido desse casamento fatal; criança, da qual, foi padrinho o Dr. Luiz
de Miranda, seu protetor no Ipu” [Apud Walnice Nogueira Galvão, op. cit., p.
91]. Mesmo assim esta notícia não procede, eis que Luiz de Miranda não foi
padrinho do único filho de Antonio Vicente com Brasilina, mas, de Joaquim
Aprígio, havido com Joana Batista de Lima, artesã, conhecida por Joana
Imaginária e moradora em Santa Quitéria.
Manuel Benício, fundamentado unicamente em João Brígido, repiso,
alude à desconhecida figura de João Mendonça Justos, em Campo Grande (hoje
Guaraciaba do Norte), suposto compadre de Antonio Vicente, e que seria “o autor
de uma monographia do Conselheiro”(sic) [op. cit. p. 38].O que, se verdade, tal
nota chegaria a Brígido por meio do jurista Luiz de Miranda, eis que Brígido
jamais esteve no Ipu, Campo Grande (Guaraciaba do Norte), Santa Quitéria ou
Tamboril – lugares visitados por Antonio Vicente – e quando saiu de
Quixeramobim em 1846, desconhecia Brasilina, e só voltaria a ter contato com o
Conselheiro em 1876, quando este veio preso da Bahia. Segundo Brígido, teria
ele voltado à Fortaleza no ano de 1887, versão desacreditada por Calasans em
nota de rodapé: “Possivelmente engano. Pelo que sabemos, Antonio Conselheiro
não voltou ao Ceará depois de 1876”. [«Canudos Não Euclidiano – Fase anterior
ao início da Guerra do Conselheiro», inCanudos – Subsídios para sua
reavaliação história, Jerusa Gonçalves de Araújo, Coordenadora, op. cit. p. 14].
Desvalida totalmente tal notícia, o testemunho pessoal do coronel da
polícia baiana Durval Vieira de Aguiar, que no ano de 1887 avistou-se
pessoalmente com o Conselheiro no povoado do Cumbe, Bahia, onde este se
41
achava “encarregado da construção de igrejas no local”. [In Canudos, Subsídios
para sua reavaliação história, op. cit., p. 265].
Como mostrou seu termo de casamento, só aos 27 anos Antonio
Vicente tomou a decisão de matrimoniar-se, procedimento insólito para a época e
se visto sob a ótica da isenção, demonstra e comprova seu acurado senso de
responsabilidade, bem distante do comportamento de um fracassado. Até mesmo
Euclides da Cunha, que deslustrou e maculou ad litterama imagem e a missão
apostólica do Conselheiro, teve a hombridade de se render à realidade: “O certo é
que falecendo aquele (Vicente Maciel) em 1855, vinte anos depois dos trágicos
sucessos que rememoramos, Antonio Maciel prosseguiu na mesma vida
corretíssima e calma. Arrostando a tarefa de velar por três irmãs solteiras revelou
abnegação rara”. [Os Sertões, op. cit., p. 85]. Procedendo de Euclides, esta nota
suscita que se indague porquê, já aos 27 anos e defrontando problemas tais, não
haja Antonio Vicente manifestado a psicopatia, que ele e muitos que o sucederam
lhe atribuíram!?
Cumpridas as obrigações que as circunstâncias lhe impuseram, acha-
se Antonio Vicente capaz de abraçar sua verdadeira e irreversível vocação
apostólica, há muito idealizada e fundada nas virtudes teológicas – Fé, Esperança
e Caridade – especialmente a prática explícita da última, em defesa dos
oprimidos. No seu espírito, há muito mentalizara as primeiras palavras que Cristo
proferiu no Sermão da Montanha, que firmemente exercitará no curso de sua
vida, como igualmente o fizeram seus modelos e exemplos das virtudes – Fé,
Humildade, Pobreza e Caridade – Santo Antonio e São Francisco de Assis:
“Felizes os pobres, porque deles é o reino de Deus”. [Lc. 6,20].
Por anuência do proprietário ou a seu convite – o que é mais aceitável
à conjuntura da época – se transfere para a fazenda Tigre, oito léguas – 48 km –
distante de Quixeramobim, e ali passa a alfabetizar crianças. Naquele tempo –
1857 – numa distante fazenda, é inconcebível e inacreditável que houvesse
pessoas capacitadas a receber lições de Português, Aritmética e Geografia, fato
que no sertão sequer ocorria no meado do século XIX. O que faziam os
fazendeiros mais abastados, costume por mim testemunhado, era procurarem um
hábil professor a quem reservavam uma casa previamente destinada onde
instalavam o mestre-escola, só ou acompanhado de familiares. Era uma pessoa
que gozava de distintos privilégios e desfrutava da amizade do proprietário e de
sua família, quase sempre tornando-se íntimo e confidente deste e dos seus, pois
o tinham em alta consideração. Alfabetizados e julgados capazes, os mandavam
para uma escola pública ou particular na cidade sede do município, onde
cursavam o primário, após o que,42aqueles mais afortunados os
encaminhavam para a capital. Ler soletrando e aprender a contar – privilégio de
poucos – eram os fundamentos básicos da educação nos sertões, e outra não foi a
atividade de Antonio Vicente na fazenda Tigre, aliás, por reduzido tempo.
43
5.
PRIMEIRAS PEREGRINAÇÕES – OS POBRES
“Seguindo um caminho novo,
mostrando a luz da verdade,
incutia entre o seu povo
amor e fraternidade”.
PATATIVADO ASSARÉ. [EdiçõesUFC, 1999, p. 140].
É uma tese da mais transparente ingenuidade, fantasiosa, senão
leviana, imaginar-se que Antonio Vicente saísse dos sertões de Quixeramobim
para lugares distantes e desconhecidos, deambulando a esmo sem um objetivo
lógico e preconcebido. E foi em harmonia com prévias reflexões que projetou o
roteiro de sua destinação. Como extremado cristão e católico praticante, idealizou
conhecer outra antiga e distante freguesia, rumando da Nova Vila do Campo
Maior de Quixeramobim, instituída pelo bispo de Pernambuco, D. Francisco
Xavier Aranha, em 15.11.1755, em busca da Vila Nova d´El Rei, conhecida por
Campo Grande (hoje Guaraciaba do Norte), componente da prisca freguesia de
São Gonçalo do Amarante da Serra dos Cocos, criada pelo mesmo bispo em
30.08.1757, dois anos depois da de Santo Antonio do Boqueirão de
Quixeramobim. Eram os primeiros passos de uma extensa série de peregrinações
que faria por várias regiões do Nordeste, buscando conhecer e avaliar as aflições
dos desventurados, dos Pobres de Cristo. Tomaria contato, conheceria e
conviveria com outros desvalidos, desventurados e desamparados da distante
Serra Grande, da cordilheira da Ibiapaba.
Seguia aqueles caminhos do semi-árido um jovem prático e
observador, inquieto com o amanhã do próximo, dos humildes, infelizes e
desqualificados, aos quais desejava alentar, tendo em mente a máxima de Cristo:
“Felizes os que choram, porque serão consolados”[Mt., 5,4]. Este, realmente, era
o homem que percorria aquele chão ensolarado, abrasador, ardente como seu
desejo de ajudar os mal-aventurados. E ninguém quis vê-lo assim,
“simplesmente” assim.
Ao entrar no território do povoado de Tamboril, primeiramente
deparou com a aldeola denominada Lagoinha, onde manteve contato com
parentes seguindo para a povoação, seu objetivo. Contudo, no seu trajeto
obrigatoriamente teria que passar no terreiro da casa-sede da fazenda Serrote,
onde morava o Ten. Cel. Joaquim 44José de Castro, pernambucano, que
iniciava sua vida pública e se tornaria a figura mais importante de toda a história
política de Tamboril até os dias presentes, inclusive presidindo a instalação do
município. Acrescento, que na cangalha de um jumento no meado da década de
50 do século passado, vindo do dito vilarejo Lagoinha – hoje Curatis – e fazendo
o mesmo percurso, onde minha mãe era professora pública, inúmeras vezes
passei no mesmo terreiro da casa velha do Serrote, primitiva morada do Capitão
Francisco Xavier de Sales Araújo, conhecido por Capitão Sales, do Serrote, com
uma neta de quem se casaria o Ten. Cel. Castro e ali passaria a morar. Eram já
escombros de uma casa que fora construída quase totalmente de pedras, e até hoje
lá existem claros vestígios. Como os caminhos da vida são revoltos e imprevistos,
jamais suporia Antonio Vicente que naquele vetusto casarão, anos antes, um
mestre-escola que despretensiosamente manuscrevia suas reminiscências,
testemunhara um acontecimento que decisivamente contribuiria para a
monstruosa destruição de Belo Monte-Canudos.
À época da chegada de Antonio Vicente – 1858 – envidava esforços o
Ten. Cel. Castro para instituir as condições exigidas pela lei n. 664, de
04.10.1854 que elevou o povoado à condição de vila, o que só ocorreria a
25.06.1863, quando conclusas as ordenações da dita lei. Identificado e
conhecidas as qualificações do viajante, o Ten. Cel. Castro que ansiava
demonstrar zelo na atividade púbica, o convida e convence a permanecer no
povoado como professor de alfabetização. Assim, instala-se Antonio Vicente
numa ampla casa, que dá frente para o lado leste do quadro do mercado público, a
mim indicada por várias pessoas idosas e letradas, dentre elas o Pe. José Helenio
Oliveira Pereira – dedicado estudioso da história – e José Edson Pontes –
componente duma irmandade de homens estudiosos e cultos – bem antes de
interessar-me e pouco conhecer acerca da atividade de Antonio Vicente e dos
acontecimentos de Canudos. Lá morava e tinha uma padaria, no início da década
de 50 do século pretérito o padeiro e pedreiro José da Silva Cedro, conhecido por
Dezinho. Mais por atenção a boa acolhida que lhe dispensara o prestimoso e
generoso Ten. Cel. Castro, pois seu destino era a cordilheira ibiapabana, Campo
Grande, Antonio Vicente demora-se no povoado o ano de 1858.
Embora objeto de capítulo oportuno, antecipo estas observações,
insisto, com a finalidade de aclarar a compreensão de futuras e importantes
informações na compreensão do contexto. Assim, adianto que foi da fazenda
Serrote, que no dia 09.06.1833 saíram aprisionados o avô paterno de Antonio
Vicente, Manuel Mendes Maciel, conhecido por Manuel Carlos, um irmão deste,
Antonio Mendes Maciel e Miguel Mendes Maciel, chamado Miguel Carlos, filho
do primeiro e tio paterno de Antonio45Vicente. Dali partiram, custodiados por
Silvestre Rodrigues Veras (filho), da fazenda Cascavel, acompanhado de seus
filhos e genros, com destaque para Pedro Martins de Araújo Veras, genro, que se
propunham levá-los para a cadeia de Sobral. Entretanto, entre as fazendas Araras
e Convento, esta pertencente a Silvestre, próximas do Serrote e no território oeste
do povoado de Tamboril, sob as ordens de Silvestre ali foram os dois anciãos
barbaramente chacinados, escapando miraculosamente Miguel Mendes Maciel –
Miguel Carlos – que fugiu para a freguesia de Quixeramobim.
O Ten. Cel. Joaquim José de Castro era casado com Maria Genebra de
Vasconcelos, neta paterna do Capitão Francisco Xavier de Sales Araújo, dos
Araújo Costa, de Sobral, conhecido por Capitão Sales, do Serrote. Segundo o
prof. Ximenes Aragão, o Capitão Sales revoltou-se e condenou veementemente
os autores da brutal carnificina, sob o mando, insisto, de Silvestre Rodrigues
Veras (filho). Era o Capitão Sales casado com Francisca Alves Feitosa, prima em
3o. grau paterno do mandante dos assassinatos. Assim, 25 anos depois um neto de
Manuel Mendes Maciel – Manuel Carlos – abrigava-se sob o mesmo alpendre
donde partira seu avô para tão bárbaro assassinato. Reconhecendo a idoneidade e
desenvoltura do jovem professor, que desejava conhecer a Ibiapaba, Campo
Grande, o Ten. Cel. Castro redige uma carta de recomendação ao também
influente político e comerciante daquela vila, Major Domingos Carlos deSabóia.
Dando seguimento ao preestabelecido, Antonio Vicente subia as
íngremes e desconhecidas ladeiras da célebre Cordilheira da Ibiapaba – Serra
Grande – aquela distante cinta azul que seus olhos divisaram no horizonte poente,
logo que entrou no território do povoado de Tamboril. Não imaginava que tipo de
atividade ali o esperava, pois efetivamente pretendia conhecer, entrar em contato
com os desventurados daquela distante e antiga freguesia. O que logo deparou,
foi uma massa quase embrutecida, testemunha de recentes e hediondos crimes,
rixas políticas e de família, como décadas adiante registraria um historiador que
por ali passou: “O Ipu e S. Gonçalo da Serra dos Cocos foram desde seus
princípios teatro de grandes conflitos armados entre os que se revezavam no
poder, sendo o último em 1846 por ocasião de um assalto à vila (Ipu), quando
exercia as funções de delegado Manoel Ribeiro Melo, que entre outros foi
assassinado com dois filhos”. [Antonio Bezerra,Notas de Viagem, Fortaleza:
Imprensa da Universidade do Ceará, 2a. Edição, 1965, pp. 204-205]. E o que de
mais deprimente comprovaria Antonio Vicente, foi que o vigário da freguesia,
figura política proeminente dos episódios descritos por Antonio Bezerra, era um
fazendeiro, rico proprietário de engenhos de cana-de-açúcar produtores de
rapadura e cachaça e, a exemplo de muitos, politiqueiro, devasso e alcoólatra.
46
Recebido pelo Major Domingos Carlos deSabóia, foi Antonio Vicente
empregado em sua loja na função de caixeiro, que no tempo consistia em
vendedor e caixa, concomitantemente. Por motivos particulares, pouco tempo
depois decide o Major Domingos encerrar a atividade. A chegada de Antonio
Vicente ao Campo Grande deve ter ocorrido no início de 1859, pois já no dia
06.03.1859, com a mulher Brasilina apadrinham a criança Raimunda, como
mostra este assento:
“Raimunda, filha natural de Cândida Clementina da Silva, nasceu a 2
de fevereiro de 1859, foi batizada na capela de N. S. dos Prazeres, pelo Pe. João
Rodrigues Álvares de Mendonça a 6 de março do mesmo ano. Padrinhos.
Antonio Vicente Mendes Maciel e Brasilina Laurentina de Lima Maciel. O
Vigário- Francisco Correia de Carvalho e Silva”. [A grafia foi atualizada. Livro
n. 19 de Assentamentos de Batismo – Matriz de São Gonçalo do Amarante da
Serra dos Cocos – Arquivo da Secretaria da Diocese de Crateús, fotocopiado pelo
autor].
Este documento atesta seu imediato contato com a pobreza do
povoado, pois uma mãe solteira naquele recuado tempo tinha o conceito social de
“mulher da rua”, vítima de severa discriminação. O pouco tempo que durou sua
permanência na loja do Major Domingos, foi suficiente para torná-lo conhecido
na vila do Campo Grande, à época o maior empório comercial do centro-oeste
cearense e primeira vila criada naquele extenso território. Tais relacionamentos
propiciaram-lhe que fosse convidado a militar no foro local, em vista da ausência
de profissionais habilitados, na função inicial de escrivão do juiz de paz, depois
solicitador ou advogado provisionado. Tal atividade exercia especialmente em
defesa dos pobres, dos quais nada cobrava, adiantando o sociólogo e professor da
UFC: “Já nesse período, era visível sua preocupação com os mais carentes,
fazendo de graça todo o acompanhamento do processo”. [João Arruda. Canudos
– Messianismo e Conflito Social,op. cit. p. 53].
No resumo cronológico de seu livro assim registra outro eminente
historiador, sócio efetivo do Instituto do Ceará, a presença de Antonio Vicente na
Serra Grande: “1859 – Antonio Vicente Mendes Maciel e sua mulher Brasilina
Laurentina vêm residir em Campo Grande, onde nasceram dois de seus filhos.
Antonio Vicente é o célebre Antonio Conselheiro, chefe dos beatos de Canudos.
Em Campo Grande foi caixeiro do comerciante Domingos Carlos de Sabóia
e escrivão do juiz de paz. Tornou-se defensor da causa dos pobres. Em 1861
muda-se para o Ipu, onde sua mulher lhe foi infiel, razão por que tomou a vida
nômade. Brasilina morreu em Sobral, como prostituta, vivendo da caridade
pública”. (Destaquei.) [Cônego Dr. F.47Sadoc de Araújo, História Religiosa de
Guaraciaba do Norte, Fortaleza: IOCE, 1988, p. 113]. Esta comunicação –
defesa e preocupação com os pobres – é unanimidade entre os poucos que com
isenção referem suas ações, e estas citações bibliográficas objetivam também
mostrar sua boa qualificação escolar e funcional.
Em razão de sua boa escolaridade para aquela época, e por
experiências anteriores, além de escrivão, Antonio Vicente por certo empregava
parte do seu tempo no magistério, pois se ali inexistiam pessoas qualificadas para
tratar de assuntos forenses, fica óbvio que o mesmo sucedia com o ensino
primário. Recebendo pagamento dos que podiam – como até bem pouco tempo
era costume no sertão – dos constituintes e alunos pobres aceitava as dádivas
costumeiras que ajudavam em seu sustento, como caças, galinhas, capotes, ovos,
rapaduras, batidas, mel de engenho e silvestre, frutas, legumes e produtos outros
da agricultura familiar. É uma insinuação descabida e mesmo maledicente, a
notícia de que Antonio Vicente haja sofrido aperturas de extrema miséria, e nada
mais evidente para torná-las falsas e incríveis comprovam não só seus
conhecimentos de pessoa letrada, como as funções que desempenhara. Mesmo
nos dias presentes, longe está uma pessoa com tais qualificações de sofrer
vexames de sobrevivência, especialmente no sertão.
Os anos de 1859-1860 Antonio Vicente permaneceu em Campo
Grande, mas por conveniências pessoais se transfere para o Ipu, no sopé oriental
da Ibiapaba, como informa destacado historiador: “Dali passou para Ipu, e, sob a
proteção do advogado Luiz de Miranda, padrinho de seu filho, tornou-se
solicitador ou requerente do foro. Nesta cidade, agravou-se o drama familiar,
quando a mulher o abandonou por João da Mata, furriel da Força Pública”.
[Edmundo Moniz, Canudos – A Luta pela Terra, op. cit., p. 24]. Antes do
adultério de Brasilina, em 1861 nasce-lhe um filho homônimo, batizado na capela
da vila de Campo Grande e cujo termo é o seguinte:
“Antonio, filho legítimo de Antonio Vicente Mendes Maciel e
Brasilina Laurentina de Lima Maciel, nasceu a treze de abril de mil oitocentos e
sessenta e um, e foi batizado a quatorze de julho do mesmo ano na Capela de
Nossa Senhora dos Prazeres, de minha licença pelo Reverendo João Rodrigues
Álvares de Mendonça, e foram padrinhos Joaquim Cesário do Espírito Santo e
Isabel Carolina da Silva, e para constar mandei fazer este termo que assino”. [A
grafia foi atualizada. Como muitos outros, o vigário Francisco Correia de
Carvalho e Silva não subscreveu o termo. Livro n. 19 de Assentamentos de
Batismo da Matriz de São Gonçalo do Amarante da Serra dos Cocos, Arquivo da
Secretaria da Diocese de Crateús, fotocopiado e guardado no arquivo do autor].
48
À época do nascimento do filho – 13.04.1861 – Antonio Vicente já se
encontrava morando no Ipu, mas, por razões particulares ou motivo de ordem
religiosa, efetuou o batizado em Campo Grande. No Ipu, a só alusão ao nome de
Luiz Francisco de Miranda, com quem se relacionou e passou a conviver nas
atividades forenses, dispensa maiores considerações. Foi naquele ano – 1861 –
com a jovem idade de 23 anos que Luiz de Miranda assumiu a função de
promotor público em Ipu. Pessoa de origem modesta, ex-ferreiro, monarquista,
católico praticante, de caráter humilde e generoso, similitudes que o
aproximavam do rábula Antonio Vicente. Ao biografá-lo extensamente, o Barão
de Studart o enalteceu com dilatados encômios e virtudes, inclusive como autor
de vários trabalhos jurídicos, e aqui destaco alguns trechos: “Luiz Francisco de
Miranda – Nasceu em Sobral a 10 de outubro de 1838. Filho de paes pobres e
orphão desde a edade de 3 annos, aos 12 entrou na vida como aprendiz de
ferreiro, profissão que exerceu até 1861 quando foi nomeado Promotor Público
do Ipu na administração Duarte de Azevedo por indicação do Dr. Domingos
Jaguaribe, que se lhe affeiçoara desde o tempo em que fôra Juiz de Direito da
Comarca de Sobral. Faleceu a 15 de maio de 1905, victima de lesão cardiaca, e
tal fora o seu desprendimento que os amigos e admiradores se cotisaram
para lhe fazer o enterro. Do seu valor como advogado e dos seus grandes
sentimentos como homem disse assim auctorizado orgam da imprensa de
Fortaleza, em conceitos tanto mais para serem apreciados, quando sempre esteve
em desaccordo com as ideias politicas de Luiz de Miranda: “Aos 67 annos de
idade cerrou hoje os olhos à visão da terra, que engrandeceu pelo coração e pelo
talento, esse que foi na sua voluntaria obscuridade e na sua extrema pobreza
o patrono de todos os que tinham sêde de justiça. O homem popular cuja
banca se achou sempre rodeada de discipulos, de pleiteantes e de amigos, com os
quais elle partia a mancheias as moedas da sua generosidade e do seu conselho,
teve o leito mortuario velado pela família e por innumeras dedicações (sic)”.
(Destaquei). [Dicionário Biobibliográfico Cearense, op. cit., II Vol., 1913, pp.
284/285]. Estes emblemáticos informes biográficos, bem mostram que entre o
rábula e o promotor prevaleciam grandes similitudes.
Foi este o promotor de quem Antonio Vicente se tornou parceiro no
foro e próximo amigo, que, por seus caracteres biográficos e funções que juntos
desempenharam naquela vila, dá evidente certeza de que entre eles prevaleceram
laços de estreita amizade. Mais próximos se tornariam, quando Luiz de Miranda
apadrinha Joaquim Aprígio, nascido do efêmero relacionamento de Antonio
Vicente com Joana Batista de Lima, chamada Joana Imaginária, artesã, natural de
Santa Quitéria. Tal convívio decorreu 49de que, por volta do meado de 1862,
descobriu Antonio Vicente que Brasilina desenvolvia um romance com o
sargento João da Mata, comandante da força policial do Ipu, o que determinou a
separação do casal. Pairava uma dúvida acerca do lugar onde permanecera Joana
Batista, após sua separação do breve relacionamento com Antonio Vicente, agora
elucidado. Por indicação de uma professora da UVA – Universidade Estadual do
Vale do Acaraú - Liduina Fernandes, uma equipe do caderno vida &arte do
jornal O Povo, Fortaleza, edição de 05.10.1995, encarte editado pela jornalista
Eleuda de Carvalho, que encontrou em Guaraciaba do Norte, ex-Campo Grande,
o ancião Joaquim Aprígio Neto – neto do Conselheiro – já senil, “com a cabeça
ruim”, como declarou à jornalista, revelando que seu pai – Joaquim Aprígio –
chegara a Campo Grande ainda criancinha.
Do único filho homônimo havido de Antonio Vicente com Brasilina
não existe notícia, enquanto de Joaquim Aprígio, Edmundo Moniz adianta esta
nota: “Nesta época (1894), Antonio Conselheiro recebeu a visita de seu filho
Joaquim Aprígio, com mais de vinte anos. Este lhe trouxe de presente, como
lembrança de sua mãe, um Santo Antonio de cedro, pintado de cores vivas, que
foi colocado no santuário”. [Op. cit. p. 61]. Ainda em 1862, cientificado da
vindado Pe. Ibiapina à Sobral em pregação de missões, desloca-se àquela cidade
onde é visto no dia 21.09.1862, com o engano – certamente da fonte informativa
– de que Antonio Vicente não trabalhou no comércio de Sobral, e Brasilina era
natural de Quixeramobim, como está em seu termo de casamento: “Destas
missões participou Antonio Vicente Mendes Maciel, futuro Antonio Conselheiro,
que na época era caixeiro em Sobral e tinha casado com uma sobralense”. [Côn.
Dr. F. Sadoc de Araújo, Padre Ibiapina – Peregrino da Caridade, Fortaleza:
Gráfica Tribuna do Ceará, 1995, p. 139].
Separando-se de Joana Batista e tornando-se inconveniente sua
permanência no Ipu, em vista do mau comportamento da mulher, passa a exercer
o magistério na fazenda Santo Amaro, antigo território de Tamboril, hoje
Hidrolândia, em casa do Major José Gonçalves Veras, pai da numerosa prole de
14 filhos e falecido em 07.06.1886, como mostra a cópia de seu inventário em
meu arquivo, e que recebeu esta menção de ilustre historiador, quando de sua
passagem por Tamboril: “Foi o lugar onde vi pessoas de maior idade, ostentando
nos hábitos robustez admirável. Informaram-me que o finado Major José
Gonçalves Veras, que servira nas guerras da Bahia, com 80 anos tomava parte
nas vaquejadas, e corria no mato como o vaqueiro mais adestrado. O Capitão
Jerônimo Rodrigues Veras Ló, que ainda vive em avançada idade, não é menos
forte nem menos ativo que seu irmão”. [Antonio Bezerra,Notas de Viagem, op.
cit. p. 273]. 50
O Major José Gonçalves Veras era pessoa influente na vila de
Tamboril, irmão do Capitão Jerônimo Rodrigues Veras Ló, vereador que assinou
a ata da sessão de instalação do município presidida pelo Ten. Cel. Joaquim José
de Castro no dia 25.06.1863, solenidade certamente presenciada por Antonio
Vicente, pois já morava na fazenda Santo Amaro. A título de ilustração,
acrescento que a fazenda Santo Amaro era limítrofe da fazenda Cascavel,
pertencente a Silvestre Rodrigues Veras (filho), de quem o Major José Gonçalves
Veras era sobrinho materno, e primo de Pedro Martins de Araújo Veras, genro de
Silvestre, autores da chacina ocorrida no dia 09.06.1833, quando foram mortos,
repiso, Manuel Mendes Maciel, conhecido por Manuel Carlos, e seu irmão
Antonio Mendes Maciel, respectivamente avô e tio avô paterno de Antonio
Vicente, antes referidos. A dedicação do então jovem professor pelo magistério
foi uma constante em sua vida, mostrada mesmo quando já missionava no sertão
baiano: “O Conselheiro, a certa altura da sua vida, havia se dedicado a educar
crianças, construiu escolas em Bom Jesus, Bom Conselho e Canudos”. [Levine,
op. cit., p.243].
Não existe informação documental que comprove o tempo de
permanência de Antonio Vicente no centro-oeste, sendo certo que no curso deste
tempo e por sua boa escolaridade, relacionou-se com pessoas de destaque em
todas as localidades onde demorou. Em Tamboril, lugar que primeiramente
visitou, teve conhecimento com o Ten. Cel. Joaquim José de Castro, homem de
maior destaque daquela localidade e donde se tornaria a mais importante figura
de toda a história política do município, inclusive fundador. Em Campo Grande,
igualmente ligou-se ao Major Domingos Carlos deSabóia, homem de maior
representação social e política da vila. No Ipu, conviveu e trabalhou com o
jurisconsulto Luiz Francisco de Miranda, de quem se tornaria amigo e compadre,
enfim, foi hóspede e professor na fazenda Santo Amaro, na casa do Major José
Gonçalves Veras. Pela notabilidade social, política e moral destas personalidades,
é inadmissível e inacreditável que se relacionassem com um desconhecido
qualquer, uma figura estranha, insignificante e sem qualificação, e especialmente
que denotasse algum traço de anomalia psíquica.
Por sua ascendência modesta, seu caráter humilde e de terna piedade
cristã, para a época sua insólita conduta em se aproximar dos pobres e oprimidos,
foram motivos para, após o cruel genocídio de Canudos e as negras cores com
que a imprensa falseou e coloriu o massacre, mais fragilizada e vulnerável ficasse
sua imagem, transformada em tema para as mais variadas abjeções, vilipêndios e
infâmias. Merecem consideração estes fatos que a crônica lhe imputa e ao pai,
procedentes da pena de João Brígido. 51Ao pai, aponta como autor de várias
facadas desferidas na própria mulher, que chegou a receber o sacramento da
extrema-unção. Noutro controvertido e improvado acontecimento, Antonio
Vicente teria ferido o cunhado. Abelardo Montenegro escreveu, esteado em
Brígido, que “de Campo Grande, Antonio seguia para o Crato, de onde rumava
para Paus de Ferros, do município de Quixeramobim, onde morava a sua irmã
Francisca, casada com Lourenço Correia Lima. Aí, num acesso de fúria, feria o
cunhado que tentava contê-lo”. [op. cit.. p. 117]. Neste texto, o fato teria
acontecido antes de 1869. Outra recente notícia dá o historiador Marum Simão,
esteado num manuscrito autobiográfico do Cel. João Paulino de Barros Leal,
onde consta que o episódio teria ocorrido em 1876, quando da Bahia veio preso
Antonio Vicente. [op. cit. p. 219]. Assim, as versões ficam distanciadas por
longos 7 anos, tornando inverossímil o suposto episódio.
Ora, descendente de família que a crônica estigmatizou como genetriz
de cangaceiros insanos, causa espécie e incredulidade a ausência de registro
policial, especialmente tendo em vista a então recente acusação de duplo
assassinato que recaíra sobre Antonio Vicente. Mais improváveis se tornam estas
fantasiosas insinuações, quando o historiador Eusébio de Sousa, pernambucano
que aqui exerceu a função de juiz, jornalista e sócio efetivo I.C., credenciais que
lhe abriram as portas dos cartórios de Quixeramobim no início do século passado,
nos quais rebuscou subsídios para matéria que pretendia considerar a pessoa de
Antonio Conselheiro, neles encontrou apenas uma ação cível de cobrança de uma
dívida.
Certo é que no meado de 1869 está Antonio Vicente na fazenda
Várzea da Pedra, bem distante da cidade de Quixeramobim – sete léguas ou 42
km – onde esteve até 1871, não se sabendo ao certo em casa de quem ali
permaneceu, nem qual profissão exerceu – suposta e absurdamente a vaqueirice –
deixando crer, por suas antecedentes atividades, haja sido o magistério. O
historiador Eusébio de Sousa, em extensa matéria que resultou de sua pesquisa,
transcreveu as peças essenciais da ação cível movida pelo Comendador José
Nogueira de Amorim Garcia contra Antonio Vicente, no intuito de se ressarcir da
insignificante dívida de 168$268, cuja origem a matéria não elucida. Finalizou
por ficarem os bens penhorados em mãos de Antonio Augusto de Oliveira Castro,
o mesmo que remeteu uma extensa carta a João Brígido e transcrita por Walnice
Nogueira Galvão [op. cit., pp. 89-91], onde omite o missivista esta ação judicial.
A dívida, compreendendo juros, emolumentos e custas judiciais orçou em
177$068, e os bens penhorados e leiloados em 270$000, isto, em 14.10.1871,
adiantando o historiador que “avaliados os bens, apregoados e postos em praça, e
finalmente arrematados, teve a causa52a sua solução, passando o autor quitação
ao arrematante, consequentemente satisfeito na exigência requerida”.
(Destaquei). [RIC, 1912, pp. 291/301].
Quitado o compromisso, com saldo a seu favor, sequer reclamou
Antonio Vicente o que lhe restou, na importância de 92$932. O juiz que presidiu
a ação, Dr. Antonio Pinto de Mendonça, era filho e homônimo do Revmo. Pe.
Côn. e Visitador Antonio Pinto de Mendonça, que foi vigário de Quixeramobim,
o mesmo que se habilitou no inventário do pai de Antonio Vicente como credor
da quantia de 400$000, resultante de dinheiro que a juros emprestou ao
inventariado, e representado por uma promissória assinada, a rogo, por Antonio
Vicente. A experiência forense lhe convencera de que a justiça dos homens não é
feita para os pobres, pois mesmo citado judicialmente e com suficiente condição
de solver o débito, desconsiderou o chamamento. Assim disserta seu ilustrado
parente o conceito de Antonio Vicente sobre ações judiciais: “Decepciona-se com
a falta de imparcialidade de certos magistrados e mais tarde, em uma de suas
prédicas, faz o seguinte desabafo: "O que mais estranho e tomara que se
emendasse, é o que hoje vejo tão praticado no mundo, vem a ser: uns certos
juizes com capa de virtude, os quais muitas vezes tiram a justiça a quem a tem,
para darem a quem não tem. Ação digna de um grande castigo e repreensão,
tanto pela ofensa a Deus como ao próximo”[Fernando Câmara, op. cit. p. 35].
Abro um parêntese para esta rápida consideração. De sua decapitação
resulta uma ironia histórica, pois quando seu crânio se achava guardado na
Faculdade de Medicina da Bahia ali grassou um incêndio em 1905, sendo
incinerado para sempre, poupando às futuras gerações depararem com a macabra
prova do tresloucado genocídio que se transformou numa das mais negras
páginas de nossa História. Finalmente, no intento de obscurecer a mácula
indelével que sempre afligirá a consciência nacional, o DNOCS construiu uma
barragem – Cocorobó – no rio Vaza Barris, exatamente no local onde existiu o
povoado de Canudos exterminado a ferro e fogo, agora submerso desde os idos
de 1969.
6.
MACIÉIS E ARAÚJOS:A VERDADE HISTÓRICA
“A história é assim mesmo que se faz e apura.
Longos anos são narrados os fatos desta ou
daquela forma, até que do pó dos arquivos se
desentranha umdocumento que,merecedor de fé,
bem interpretado,dá aos indivíduos e aos seus
53
atos uma feição diferente com que até então
haviam sido encarados e julgados”.
BARÃODE STUDART, [RIC, 1903, p.77].
A inserção deste texto, pode parecer alheio ao objetivo deste ensaio.
Contudo, tem estreita e íntima relação com o lúgubre genocídio que anos adiante
se consumaria. Dissertemo-lo, com base única na documentação histórica, antes
identificando local, datas e personagens vinculados aos acontecimentos. Ei-lo.
Foi sob o senhoril alpendre da casa-grande da fazenda Serrote, nas proximidades
do povoado de Tamboril e propriedade do Capitão Francisco Xavier de Sales
Araújo, historicamente conhecido por Capitão Sales, do Serrote, que um jovem
mestre-escola de 25 anos, nascido em 07.10.1807, inteligente, arguto e perspicaz,
despretensiosamente foi manuscrevendo e registrando imagens e falas no
princípio de junho de 1833, jamais presumindo que daquelas modestas notas se
originariam motivações que inspirariam e incitariam a futura hecatombe de
Canudos, como foi antes registrado. As experiências de sofrimentos precedentes
talvez hajam contribuído para lhe estimular o uso da escrita como uma forma de
vingar-se do padrasto destino, registrando zelosamente os mais insignificantes
acontecimentos que vivenciava, memorizando episódios, nomes, datas e tudo
mais que lhe chegava aos olhos e aos ouvidos.
A mãe, Raimunda Francisca Xavier de Matos casada com o primo José
Francisco Ximenes Aragão, era a irmã caçula do Pe. Gonçalo Inácio de
Albuquerque Melo, que à história passaria com o cognome de Pe. Mororó,
sempre acompanhava o irmão em suas atividades sacerdotais, o que fez em 1810
quando o Pe. Gonçalo deixou a freguesia de São Gonçalo da Serra dos Cocos,
para assumir a capelania no pequeno povoado de Boa Viagem. Em 1814
acompanhou o irmão para a mesma função na povoação de Tamboril, e, no ano
seguinte, com ele se deslocou com toda a família para Quixeramobim. Nesta
cidade, com o Pe. Gonçalo Mororó ficariam até 1825, quando o irmão – agora
revolucionário – foi arcabuzado noCampo da Pólvora, [depois, Praça dos
Mártires e hoje Passeio Público], em Fortaleza, como um dos cabeças cearenses
da Confederação do Equador, na manhã do dia 30.04.1825. Historicamente, o Pe.
Mororó foi diretor e redator do primeiro jornal a circular no Ceará – Diário do
Governo do Ceará – no dia 01.04.1824, e coube-lhe a glória de manuscrever a ata
do chamado Grande Conselho que no dia 26.08.1824 proclamou a República do
Ceará.
Com o martírio do cunhado e primo patriota, teve início o infortúnio do
lar de José Francisco Ximenes Aragão. Na condição de cunhado do
revolucionário, e por exercer a função54de tabelião e escrivão de Quixeramobim,
a tudo aliando-se a indiscriminada perseguição que se movia aos que se
supunham “republicanos”, sem recursos financeiros a pobre família do já
adolescente Manoel Ximenes Aragão teve de enfrentar uma seqüência de
indescritíveis aflições. Depois de vários lugares onde procuraram refúgio, desde
as matas de Boa Viagem onde inicialmente se esconderam, passando ao distante
Riacho do Guimarães – hoje Groairas - e à Serra da Meruoca, defrontando
doenças, secas, epidemias e até mesmo fome, foram se estabelecer em 1828 em
Vila Nova d´El Rei – Campo Grande, hoje Guaraciaba do Norte – onde, em 1830,
o pai assume a função de tabelião e escrivão, exercendo-a por mais de sete anos,
tendo como auxiliar o filho Manuel Ximenes de Aragão, que aqui, como em
Quixeramobim, já desempenhara o magistério primário.
Conta o memorialista que a instâncias do Capitão Sales, do Serrote,
“parente e amigo de meu pai a quem não se podia faltar”, no final de 1832 segue
para aquela fazenda, bem próxima do povoado de Tamboril, onde pela terceira
vez vai exercer a função de mestre-escola como professor dos netos do velho
parente. Ali chegou no dia 07.12.1832, e logo à meia-noite do dia 08.01.1833 é
acordado por intenso tiroteio entre um grupo da família Mourão e o
pernambucano José Joaquim de Menezes. Este, de passagem para Pernambuco,
achava-se hospedado numa casa da fazenda trazendo do Piauí um suposto e
fugitivo escravo de seu pai, mas que os Mourões, a pedido do Comendador
Severino Dias Carneiro, de Caxias, Maranhão, vinham libertar por não ser o
pretendido escravo que imaginava Menezes.
Depois de três dias de cerco, foi posto em liberdade o presumido
escravo Francisco Pereira, e logo partiu Menezes para Fortaleza em busca de
auxílio para recapturá-lo. Este extenso e expressivo episódio, que não comporta
aqui relatar, está pormenorizado por Nertan Macedo no livro O Bacamarte dos
Mourões, 2a. Edição, Editora Renes, RJ, 1980, e DaSenzala Para Os Salões
(Coletânea), Secretaria da Cultura, Turismo e Desporto do Ceará, Fortaleza,
1988. Para melhor entendimento, foram estas as preliminares informações
narradas pelo memorialista Manoel Ximenes Aragão.
A NOTÍCIA – O despretensioso relato que o professor historiou, mas
que no futuro inspiraria outras interpretações às atividades missionárias de
Antonio Conselheiro, resultando no genocídio que tristemente ampliaria as
páginas de nossa história, como já ficou registrado, é insignificante até no
limitado conteúdo da narrativa que a seguir transcrevo, atualizando a grafia:
“Tendo falado a respeito de Menezes no Serrote, por esquecimento
deixei de tratar de certa empresa, por ele feita no termo de Quixeramobim, a
55
pedido de outros, e entendendo não dever passar por alto um caso de tanta
importância, vou relatá-lo como segue”.
“Em um dos anos precedentes ao que estou tratando (1833), tiveram
lugar dois roubos feitos, um a Silvestre Rodrigues Veras, e outro a Antonio de
Araújo Costa, aquele morador no termo de Vila Nova (Campo Grande), e este no
de Quixeramobim, ambos ricos e bem aparentados”.
“Não faltou quem dissesse que os autores desses delitos foram uns
homens pertencentes a uma família denominada – Carlos”.
“Em conseqüência alguns dos filhos e genros de Silvestre Rodrigues
trataram de perseguir aos tais roubadores, sem exceção de qualquer pessoa da
família, ignoro se por meios judiciais, ou voluntariamente que é o mais certo,
porque a justiça nesse tempo era nula, reinando unicamente o bacamarte, com
que eram decididas todas as questões, fosse qual fosse sua natureza”.
“Ajuntaram gente, e puseram-se em seguimento de alguns dos tais
Carlos, que sendo acossados do termo de Vila Nova [leia-se Campo Grande] iam
procurar asilo no meio de seus parentes em Quixeramobim, onde tinham por
conseguinte de se acharem mais seguros, e fortes para repelir a força de seus
perseguidores, o que de fato assim aconteceu, porque chegando os ditos filhos e
genros de Silvestre Rodrigues no lugar onde os alcançaram, por achá-los bem
fortificados e conter entre eles homens bastante valentes, e não menos dispostos a
morrer antes do que se entregarem, temendo serem mortos depois de presos, o
que certamente podia acontecer, cuja barbaridade estava em uso nesse tempo".
“Este acontecimento teve lugar propriamente no tempo da vinda de
Menezes do Ceará [leia-se Fortaleza] com a gente de que já tratei para a captura
de seu pretendido escravo, e por isso lembraram-se de mandar ao Serrote
convidá-lo para ajudá-los na dita empresa; mas Menezes recusou-se inteiramente
em se prestar; porém conhecendo eles que seus esforços eram inteiramente
malogrados, se o número de suas forças não fosse aumentado, mandaram
novamente ao Serrote empenhar-se com os amigos de Menezes, para que o
persuadisse a prestar-se a eles, e tendo ele resistido fortemente as persuasões que
lhe faziam, dizendo – eu não posso me constituir inimigo, nem perseguidor de
quem nunca recebi ofensa, nem devo demorar minha viagem para satisfazer
paixões alheias – veio por último se render a essas persuasões, e partiu com sua
gente ao lugar da contenda".
"Chegado que fosse ali, propôs aos Carlos que se quisessem render-se
sem usar das armas lhes prometia debaixo de palavra de honra serem garantidas
suas vidas, que seriam bem tratados em sua prisão. Confiados nesta palavra de
Menezes, entregaram-se sem fazer a56menor resistência, e foram de fato bem
tratados até o Serrote, onde Menezes os entregou à mercê de seus adversários, e
seguiu sua viagem para o Piauí no dia seguinte. No fim de 2, ou 3 dias
algemaram-nos e botaram-nos com toda segurança a titulo de irem presos às
cadeias do Ceará [leia-se Fortaleza] ou de Sobral. Mas coitados! Bem longe
estavam eles de que se abusava da boa fé de Menezes! Apenas haviam
caminhado menos de um dia, seus condutores fingindo que pessoas suas os iam
tomar, mandaram dar alguns tiros de dentro do mato, para os poder matar;
fizeram-lhes fogo, matando a todos, a exceção de dois; um não sei porque
escapou, e outro chamado Miguel Carlos, por se evadir no conflito, embora a
segurança com que o levavam, pois, além de algemado e amarradas as suas
pernas por baixo da barriga do cavalo, ia o mesmo cavalo puxado pelo cabresto
por um dos da tropa; não escapando desta carnificina dois miseráveis velhos, pais
de família, Antonio Maciel e Manuel Carlos, pessoas de quem nunca se disse
mal, e que se excluíam do número dos perpetradores dos roubos, embora, como
se dizia, fossem seus próprios filhos que os fizessem, cuja decisão ainda dependia
de muita dúvida”.
“Logo que chegou ao Serrote a notícia da barbaridade praticada com os
presos, observei em todos um sentimento geral, acompanhado de muitas
imprecações dirigidas aos autores dessa crueldade, principalmente da parte das
pessoas que se tinham empenhado com Menezes para prestar seu auxílio à prisão
daqueles infelizes, tanto mais pela compaixão que os dois velhos mereciam por
sua idade, quanto pela inocência com que eram julgados, em presença de suas
ações presentes e passadas. O caso é que os autores destas atrocidades nunca
foram punidos, nem também elas findaram aqui, como adiante se verá”.
“Miguel Carlos, tendo escapado de ser vítima com seu pai e parentes,
por ter se evadido, na forma já referida, foi surgir em Quixeramobim no lugar
Passagem; e aí estava em casa de seus parentes, e quando menos esperava viu-se
cercado por uma grande escolta, dirigida por Pedro Martins, genro de Silvestre
Rodrigues, que apenas cercou a casa fez fogo em uma moça que estava na sala,
cravando-lhe uma bala no peito, de que ela caiu morta imediatamente e não se
pode admitir desculpa de haver engano nesta ação, por ser praticada as 8 ou 9
horas do dia, segundo se conta, Miguel Carlos, que se havia ocultado para o
interior da casa, saiu e fez fogo, matando um dos da escolta, e cravando uma
porção de chumbo na barriga de Pedro Martins. Tocaram fogo na casa que era de
palha, e Miguel Carlos molhando a roupa passou por entre as chamas, com seu
clavinote na mão, à vista de todos, sem que um só se atrevesse a segui-lo,
evadindo-se assim por entre um número considerável de gente. Depois de
passados alguns meses sem que ele57sofresse mais incômodo, em
conseqüência de se ter ido meter na Vila de Quixeramobim, talvez protegido de
alguma autoridade policial, segundo se dizia, matou um moço, sobrinho de
Antonio de Araújo Costa, chamado Luciano”.
“Este moço tinha ajustado casar-se em uma família, moradora a
algumas léguas abaixo da Vila [Vila Nova do Campo Maior de Quixeramobim],
por onde ele tinha de passar. Chegado o tempo aprazado, saiu com seu
acompanhamento, na forma de costume, vindo justamente passar na Vila, o que
sendo sabido por Miguel Carlos, aproveitou-se da ocasião para matá-lo e tirar-lhe
a satisfação de gozar da moça, porque este moço era um dos seus inimigos por
ocasião do roubo de seu tio Antonio de Araújo, foi se pôr de emboscada no
caminho, derribando ramos de árvores para obstruir a passagem, e quando o
noivo passava matou-o com um tiro. Voltaram seus companheiros, e trataram
seus parentes de perseguir a Miguel Carlos, criminoso do roubo já dito e do
assassino do noivo, razões ponderosas para que houvesse contra ele uma
conspiração total da parte dos ofendidos”.
“Um dia bem cedo em que Miguel Carlos vinha do banho, eles com
seus sequazes de detrás do quintal em que estavam emboscados lhe fizeram fogo,
de que o feriram mortalmente, assim mesmo ele tentou passar por um buraco do
quintal, e na ocasião de mergulhar pelo dito buraco, Manuel de Araújo, um dos
seus perseguidores e irmão do noivo assassinado, puxou-o por uma perna para o
acabar de matar; nesta ocasião voltou-se Miguel Carlos a ele, e cravou-o com um
punhal, morrendo ambos no mesmo instante. Eis aqui como se diz – o homem era
tão valente, que depois de morto ainda matou outro”. [Manoel Ximenes Aragão –
Memórias – RIC – 1913, pp. 104-108]. “Nota de Pé de Página. – Graças ao Cel.
João Brígido dos Santos não se perderam estas Memórias; elle as houve do
próprio autor, pobre professor primário, velho e cego. O original, condusido
para o Rio de Janeiro por Capistrano de Abreu, está nos archivos do
Instituto Histórico Brasileiro ou da Biblioteca Nacional (sic)”. (Destaquei).
[Op. cit. p. 157]. Para a comprovação que adiante se fará, esclareço que esta
narrativa, ipsis litteris extraída das Memórias, inicia e encerra todo o episódio.
A título de ilustração histórica, adianto estas informações. O Silvestre
Rodrigues Veras (filho) mencionado nos acontecimentos e autor da chacina, era
filho de pai homônimo, português, casado com Cosma de Araújo Chaves, filha do
Capitão-mor José de Araújo Chaves, das Ipueiras, e de Luzia de Matos
Vasconcelos. Era irmão do Sargento-mor Manoel Martins Veras, do Morcego,
grande latifundiário, que deixou descendência bastarda no lugar Varzinha, estes,
sim, compuseram os anais criminais de Tamboril, conforme documentos em meu
arquivo. Morreu Silvestre (filho) no58ano de 1855, segundo inventário
procedido no Ipu e cópia em meu arquivo, pai de 9 filhos, arruinado pelo jogo e o
álcool e sem um teto para morar, deixando a partilhar unicamente 6 escravos.
Embora este litígio tenha se iniciado com as chacinas de Antonio e
Manuel Mendes Maciel – Manuel Carlos – no dia 09.06.1833, e finalizado com
os sepultamentos de Miguel Mendes Maciel – Miguel Carlos – e Manoel de
Araújo Costa, em Quixeramobim, no dia 01.07.1834, mortos em desforço pessoal
pela vindita ao assassinato de Luciano Domingos de Araújo, segundo Abelardo
Montenegro, [op. cit., pp. 111-112] fatos ocorridos no curso de um ano e 21
dias, jamais comportaria a designação de luta clânica, quando apenas alguns
membros dessas progênies se desavieram, como ficou narrado por quem
testemunhou. Contudo, a versão que falsamente lhe infundiria a maledicência, foi
bem diversa.
A PUBLICIDADE DETURPADA – Por volta do meado da década de
1880, o velho, cego, pobre e quase octogenário prof. Manuel Ximenes Aragão,
encontra-se com o celebrado jornalista João Brígido dos Santos a quem submete
o conhecimento do manuscrito. Convergindo sob o olhar crítico e farejador do
jornalista a visão de tantos episódios que, devidamente especulados fariam
projetar sua imagem na provinciana imprensa cearense e aumentar a vendagem
de qualquer periódico, adquire as reminiscências do quase mendigo ancião, como
antes se leu na Nota de Pé de Página.
Em 1889, quando Antonio Conselheiro era figura nacionalmente
conhecida e já abominada pela burguesia, Estado e Igreja, o esperto e cronista
João Brígido, então ícone da imprensa cearense e que utilizava sua fama e
prestígio para confundir liberdade de expressão com injúria e difamação, através
do jornal República inicia uma série de artigos revestidos do mais contundente
sensacionalismo, distorcendo inteiramente o texto do memorialista e encimados
pelo sugestivo título – Crimes Célebres do Ceará – Araújos e Maciéis, que anos
depois comporiam seu livro Ceará – Homens e Fatos, Tip. Bernard & Frères, RJ,
1919, pp. 264-268, do qual destaco o trecho que encetava a primeira matéria do
periódico: “MACIÉIS E ARAÚJOS - I – Os Maciéis, que formavam, nos sertões
entre Quixeramobim e Tamboril, uma família numerosa, de homens validos,
ageis, intelligentes e bravos, vivendo de vaqueirice e pequena criação, pela lei
fatal dos tempos vieram a fazer parte grande dos fastos criminaes do Ceará, n
´uma guerra de família. Seus emulos foram os Araújos, familia rica e filiada a
outras das mais antigas do norte do Ceará, a qual vivia na mesma região, tendo
como sede principal a povoação de Boa Viagem, que demóra cerca de dez leguas
de Quixeramobim. Foi uma das lutas mais sangrentas, a que se feriu entre estes
dous grupos de homens desiguaes59pela fortuna, pela posição official e
esforço, si é possivel; ambos numerosos e embravecidos na pratica das
violencias. Boa Viagem, pequena povoação, estava em grande affinidade de
interesses, pela industria pastoril, com S. Quitéria e Tamboril, cujos valentões
tinham muita fama por esses tempos e influiram grandemente na luta.
Eram do número delles o celebreJosé Joaquim de Menezes, valente até a
temeridade: o afamado Vicente Lopes,os Mourões, João da Costa Alecrim etc.
(sic)” [Op. cit., pp. 264-265 - foi mantida a grafia e destaquei].
Sua repercussão e credibilidade foram instantâneas no seio da classe
letrada, como sempre gerenciando o poder político, e logo no mesmo ano – 1889
– à versão recorreu um destacado historiador: “Por isso vimos familias inteiras
armarem-se contra outras, perpetuando nos annaes da criminalidade sertaneja
lutas sanguinarias, quasi batalhas, como aconteceo com Araújos e Maciéis, em
Quixeramobim... (sic)”. [Paulino Nogueira, Presidentes do Ceará – Durante a
[Link]: Typografia Studart, 1889, p. 89]. Para não tornar extensa a
narrativa tomamos este trecho que impõe estas considerações, iniciadas pelo final
do último parágrafo e que mostram as inverdades a seguir comprovadas.
A) José Joaquim de Menezes jamais habitou ou foi valentão nos
povoados de Boa Viagem, Santa Quitéria e Tamboril, pois era um pernambucano
em trânsito pela fazenda Serrote, o que está bem explicado nas Memórias, op.
cit., p. 95, e, dentre outras, na obra Da Senzala Para os Salões, Secretaria de
Cultura, Turismo e Desporto, Fortaleza, 1988, pp. 63-64.
B) Vicente Lopes Vidal de Negreiros, conhecido por Vicente da
Caminhadeira, cognome que trazia de sua fazenda localizada no território de
Aracatiaçú, o que comprova sua biografia publicada pela RIC, 1918, pp. 275-307,
além de inimigo jurado dos Mourões não habitava no território de Tamboril.
C) Os Mourões, pelo assalto que fizeram à fazenda Serrote e
mencionado no início deste capítulo, ocasião em que quase assassinaram a José
Joaquim de Menezes, além de sequer mencionados no episódio moravam e
tinham atividade agropastoril na fazenda Jardim, do termo do Príncipe Imperial
(Crateús), e Canabrava, do termo do Campo Grande (Guaraciaba do Norte),
como mostra Nertan Macedo no livro O Bacamarte dos Mourões, Editora do
Instituto do Ceará, Fortaleza, 1966.
D) O Ten.-Cel. João da Costa Alecrim, igualmente omisso na
pendência e que jamais morou em Tamboril ou Boa Viagem, é assim referido
pelo insigne e saudoso homem de letras, fundador da Universidade Federal do
Ceará e sócio efetivo do I.C., Prof. Dr. Antonio Martins Filho: “Ligeiras Notas
sobre João da Costa Alecrim – Nas minhas investigações sôbre fatos da história
do Ceará, notadamente os60desenrolados no período que vai de 1821
a 1830, poucas referência tenho encontrado sôbre o tenente coronel João da Costa
Alecrim. Elucidei, todavia, que este valoroso soldado da causa da independência
não era cearense, segundo se deduz das afirmações de Abdias Neves, em Guerra
do Fidié. Com efeito, é fora de dúvida que Alecrim nascera em Pedras de Fogo,
da então Capitania de Pernambuco. Dali transportara-se para o Ceará, no ano de
1810, em companhia do seu tio, o Pe. Manuel Pacheco Pimentel, vigário da
Freguesia de São Gonçalo da Serra dos Cocos. Fixando residência na Vila Nova
d´El Rei, hoje Guaraciaba, João da Costa Alecrim foi granjeando incontestável
prestígio, principalmente a partir de 1821. Daí em diante o seu nome passou a
projetar-se, com evidência, no cenário político da tumultuada província do
Ceará”. [RIC, 1944, p. 191]. Diante das evidências encontradas no desconhecido
manuscrito do Prof. Manuel Ximenes Aragão, obviamente à versão do jornalista
emprestou-se foros de inconteste veracidade.
Para melhor depreensão do que comprovarei, vejo-me forçado a
entediar o leitor com este breve parêntese que versa assuntos genealógicos.
Quando pela primeira vez li Os Sertões, ainda aluno do ginásio, fiquei bastante
surpreso e admirado ao encontrar na obra sucessivas menções à cidade de
Tamboril, donde sou natural, e à família Araújo, da qual descendo pela linhagem
materna, dita como poderosa e valente, atributos que me eram desconhecidos. Ao
interessar-me por assuntos Históricos e Genealógicos, logo deparei a mesma
menção nas Memórias, do prof. Ximenes Aragão, que ao referir Silvestre
Rodrigues Veras (filho) e Antonio de Araújo Costa, os identifica como “ricos e
bem aparentados”. Indaguei de minha tia materna, Anastácia de Araújo Sales,
curiosa e interessada em assuntos de famílias e que morreu octogenária na década
de 70 do século passado, que simplesmente adiantou-me que sua bisavó materna
– minha trisavó pelo mesmo liame – Ana do Nascimento Vidal, tinha parentes em
Boa Viagem. Esta curiosidade se acentuou quando li a Parte II do Tratado
Genealógico da Família Feitosa, 2a. Edição, IOCE, Fortaleza, 1985, de autoria
de Leonardo Feitosa, emque trata exclusivamente da linhagem Araújo,
disseminada no centro-oeste cearense sequer mencionando um único casal que
haja habitado em Boa Viagem.
Desde quando me dediquei ao estudo da Genealogia e tornei-me
freqüentador de sebos, num deles encontrei a obrade autoria de Francisco Ferreira
Lima,Genealogia das Famílias Fernandes Vieira e Ferreira Lima, Editora
Edibrás, RJ., 1972; em seguida,de Mileno Torres Bandeira, a Genealogia das
Famílias Carcará e Ferreira Lima no Nordeste, Secretaria da Cultura, Esporte e
Turismo da Paraíba, João Pessoa, 1986; e, por último,do mesmo Mileno Torres
Bandeira, Memórias de Um Passado,61Gráfica ABC, Fortaleza, 1996; sendo
estes dois últimos trabalhos – exceto os naturais acréscimos – reproduções ipsis
litteris do primitivo estudo de Francisco Ferreira Lima.
Neles está revelado que os ARAÚJO COSTA, de Boa Viagem, não têm
qualquer laço original consangüíneo com os ARAÚJO do centro-oeste tratados por
Leonardo Feitosa, pois procedem os primeiros do casamento do cristão-novo
português, alferes Antonio Domingos Alves com Agostinha Sanches de
Carvalho, filha do também português Manuel da Rocha Franco e Maria Sanches
de Carvalho, que por óbvias razões desautorizavam o enlace. Assim, os
enamorados resolveram fugir, indo se casar no Marvão, Piauí. De volta ao Ceará,
viram-se perseguidos por uma tropa a mando do pai da raptada, quando, se
sentindo vencidos e tendo a morte por certeza, no exato lugar em que se ergue a
cidade de Boa Viagem fizeram uma promessa à Virgem Santíssima, consistindo
em que, caso se salvassem, ali edificariam uma capela em homenagem a Nossa
Senhora da Boa Viagem, o que ocorreu.
O judeu português, alferes Antonio Domingos Alves, tornou-se
sesmeiro na região, constituiu razoável progenitura donde procedem os A RAÚJO
COSTA de Boa Viagem. Silvestre Rodrigues Veras (filho), que chefiou a chacina
em sua fazenda Convento, território de Tamboril, não tinha qualquer parentesco
com Antonio de Araújo Costa, que, na condição de suposto prejudicado pelo
roubo e perseguidor dos Maciéis, estranhamente não participou dos assassinatos,
como está no texto das Memórias antes transcrito. O que motivou o perspicaz
memorialista a usar o termo “bem aparentados”, é que o viúvo de uma filha do
alferes Antonio Domingos Alves, Cel. Antonio Ribeiro Campos, contraiu 2as.
núpcias com Beatriz Francisca de Vasconcelos, filha do Capitão Sales, do
Serrote, como está no trabalho de minha autoria, O Solar da Caiçara, op. cit., pp.
17-18. Assim, a expressão do prof. Ximenes Aragão de certa forma prevalece,
pois Antonio de Araújo Costa era próximo parente de Ana do Nascimento Vidal,
1a. consorte do Cel. Antonio Ribeiro Campos. Portanto, entre Antonio de Araújo
Costa e a família do Capitão Francisco Xavier de Sales Araújo, do Serrote,
persistiam laços de parentesco por afinidade.
Comprovação primária e irrefutável está na sesmaria concedida ao
Cel. Antonio Ribeiro Campos, no riacho Vaca Brava tributário do rio
Quixeramobim, encontrada no volume 9o. das Datas de Sesmarias, op. cit.,n. 706,
em 20.10.1813, em cujo requerimento o concessionário declara ser genro,
herdeiro e confinante do sogro Antonio Domingos Alves no lugar Espírito Santo,
cabeceiras do rio Quixeramobim, onde o dito sogro era sesmeiro. Com maiores e
melhores esclarecimentos, estes fatos são narrados no livro Gênese da Paróquia
de Monsenhor Tabosa, Marques62Saraiva Gráficos e Editores Ltda., RJ,
1994, pp. 23-27, de autoria do historiador, Pe. Geraldo Oliveira Lima. Igualmente
tenho arquivadas as respectivas certidões dos inventários processados no foro de
Quixeramobim, de Ana do Nascimento Vidal (1825) e Antonio Ribeiro
Campos(1829), da lavra do então 2o. Tabelião e Escrivão daquela comarca,
Antero de Albuquerque Lima.
Curioso é que a primitiva notícia foi registrada no longínquo ano de
1810 pela fina agudeza do atento memorialista, prof. Ximenes Aragão, bastante
detalhada como se lê às pp. 53-54, op. cit., porém impossibilitando a
identificação da progênie pela omissão de nomes imprescindíveis à sua absoluta
compreensão, mas, ao concluí-la assinala esta significativa indicação à p. 54:
“Este homem (Antonio Domingos Alves) foi progenitor de um povo numeroso,
que hoje habita pelas freguesias de Quixeramobim, Cratiús e Serra dos Cocos
(sic)”. Por Serra dos Cocos entenda-se também o povoado de Tamboril, onde até
hoje existem descendentes do cristão-novo Antonio Domingos Alves e Agostinha
Sanches de Carvalho, como se lê no estudo O Solar da Caiçara, op. cit..pp. 17-
18.
À guisa de melhor instruir as notícias genealógicas já extensamente
tratadas, e ilustrando o necessário e indispensável entendimento do leitor à
compreensão deste texto, adianto que publicações recentes comunicam que nos
sertões do centro-oeste e centro do Ceará – Crateús, Ipu, Ipueiras, Nova Russas,
Hidrolândia, Tamboril, Monsenhor Tabosa, Boa Viagem, Quixeramobim e outras
localidades da região – se desenvolveram três linhagens com o apelido A RAÚJO,
o que resumidamente esclareço.
Em Boa Viagem, “conforme os apontamentos do chefe político de
Saboeiro, Sinfrônio de Oliveira Braga, bisneto de uma das sete irmãs, escrito em
setembro de 1938, aos 67 e mais as informações do senhor Luiz Alves Bezerra,
Iguatu, em 1940, em idade avançada”, segundo Mileno Torres
Bandeira[Genealogia das Famílias Carcará e Ferreira Lima no Nordeste, op.
cit., p. 30], surgiram os ARAÚJO COSTA de Boa Viagem, do enlace do alferes
Antonio Domingos Alves com Agostinha Sanches de Carvalho, de quem era
bisneto o noivo Luciano Domingos de Araújo, assassinado no dia 12.02.1834.
[Memórias, op. cit., p. 35]. Embora originada de uma versão oral, tem a remota
confirmação do cuidadoso prof. Ximenes Aragão, como ficou esclarecido.
Versando esta progênie, há um interessante e atual artigo de autoria de Aroldo
Mota, advogado e sócio efetivo do I.C. [RIC, 2002, pp. 97-102], onde está bem
esclarecida a linhagem ARAÚJO, de Boa Viagem, e que finaliza com esta
observação: “A família ARAÚJO exerceu forte liderança política e comercial no
município de Boa Viagem, desde sua63fundação até 1963”. Por oportuno,
adianto que o autor desta resenha é pentaneto materno do alferes Antonio
Domingos Alves e Agostinha Sanches de Carvalho.
Já a família ARAÚJO, assim designada e relatada por Leonardo
Feitosa, [op. cit., pp. 131 e ss.] e que povoou o centro-oeste e se entrelaçou com a
progênie VERAS, é até hoje encontrada em todos os municípios da região.
Finalmente, a estirpe ARAÚJO COSTA, especificamente disseminada no município
de Tamboril, e que não tem qualquer laço originário consangüíneo com as
precedentes e que descende do português-sobralense, Capitão José de Araújo
Costa e Brites de Vasconcelos (5a. das Sete Irmãs), pais do Capitão Francisco
Xavier de Sales Araújo – Capitão Sales, do Serrote – casado com Francisca Alves
Feitosa é extensamente descrita, desde suas remotas origens pelo Côn. Dr. F.
Sadoc de Araújo no livro Raízes Portuguesas do Vale do Acaraú, [Gráfica
Editorial Cearense Ltda., Fortaleza, 1991, pp. 143-159].
***
Conclusa esta extensa consideração, documentalmente dirimidas e
esclarecidas as dúvidas genealógicas dos personagens citados no episódio, volto
ao tema da inexata matéria. Aquela que teria sido “uma das lutas mais
sangrentas dos fastos criminaes do Ceará (sic)” e que não se encontrou “na
tradição e nos documentos do tempo o número de victimas, mas ellas foram
muitas (sic)”[op. cit., p. 267], teve início, insisto, com os assassinatos ocorridos
no dia 09.06.1833 e finalizada com a briga em que sucumbiram Miguel Mendes
Maciel – Miguel Carlos – e Manuel de Araújo Costa, sepultados em
Quixeramobim no dia 01.07.1834, perdurando – repiso – a contenda, um ano e
21 dias, no curso da qual morreram 7 pessoas, sendo 4 da família Maciel, 2 da
família Araújo, de Boa Viagem, e um Teotônio de Tal, do grupo dos últimos,
ficando bem e comprovadamente esclarecidas as notícias do cronista João
Brígido, como também elucida Abelardo Montenegro [op. cit., pp. 111-112].
O artigo publicado no jornal República, Fortaleza, 1889, quando
Antonio Conselheiro já inquietava as classes dominantes, Igreja e Estado,
questionando com seu cristianismo atípico os fundamentos tradicionalistas do
clero elitista, esta notícia foi um prato feito, a gota d’água que iria acelerar as
perseguições que já lhe moviam. Pregando e praticando uma doutrina que
propunha igualdade, amor e fraternidade; que repartia com os desprovidos os
vinténs que lhe ofereciam; que caminhava, trabalhava, rezava, cantava, morava e
comia com os pobres; que dizia que a terra era um bem comum; que chamava a
todos, indistintamente de meus irmãos; que estimulava a prática das virtudes; que
praticava e predicava o desprendimento dos bens materiais e a austeridade moral;
que orientava e dava bons conselhos64na aflição e na dor; que aceitava e
acolhia a todos que o procuravam; que pregava o que os desventurados queriam
ouvir, e praticava o que todos queriam ver, definitivamente era uma voz
dissonante de tudo que até então se tinha visto e ouvido, e que inquietava,
incomodava e alarmava as elites predominantes.
A matéria é logo conhecida da elite letrada, onde se abrigavam as
poderosas e influentes classes dominantes, e, procedente da pena de um cronista
que se dizia conhecedor da família Maciel, converteu-se em matéria única e
inconteste de identificação da progênie, apresentada como “parte grande dos
fastos criminais do Ceará (sic)”. Inacreditavelmente, como até hoje persiste,
não houve o mínimo questionamento e restou a falsa certeza: o Conselheiro era
um louco, portador de antigas e terríveis taras assassinas genéticas.
Assim, transformou-se a informação em fonte futura a que recorreram
Raimundo Nina Rodrigues no meado de 1890, Manuel Benício em1899, Euclides
da Cunha em1902, e a estes numerosos estudos posteriores que se ocuparam da
robusta temática de Canudos. Doutra parte, há que se observar que não foi por
acaso que as Memórias só seriam publicadas 14 anos depois do livro de Manuel
Benício, e 11 anos após o de Euclides da Cunha, nos quais Antonio Conselheiro é
conceituado como descendente deste “bastardo (Vicente Mendes Maciel)
portador de um nome legendário na história criminal do Ceará” [O Rei dos
Jagunços, op. cit., p. 15], ou que “a mulher foi a sobrecarga adicionada à
tremenda tara hereditária”[Os Sertões, op. cit., p. 85], depois de extensamente
relatarem a superestimada querela Maciéis e Araújos.
Inexplicavelmente, nenhum estudioso do genocídio ateve-se à
curiosidade de confrontar as matérias de João Brígido com a fonte que as
originou, embora o cronista expressamente as cite como matriz de inspiração [op.
cit.,p. 265], ou seja, as Memórias do prof. Ximenes Aragão, eis que nas
bibliografias de todos os estudos até aqui publicados é omisso este texto, à
exceção de Abelardo Montenegro [op. cit., p. 177], ainda que não se encontre em
seus estudos citações mais expressas desta primitiva e inspiradora matéria. Até
mesmo um dos mais extensos e completos levantamentos bibliográficos sobre
Antonio Conselheiro e o massacre que até hoje me chegou ao conhecimento,
[Jerusa Gonçalves de Araújo (Coord.). Canudos– Subsídios para sua reavaliação
histó[Link]: Fundação Casa de Rui Barbosa, 1986, 549 pp.], onde estão referidas
618 publicações, olvida inteiramente o manuscrito do prof. Ximenes Aragão de
transcendente importância para a compreensão da gênese da psique do homem
que durante 24 anos missionou nos sertões – notadamente o nordeste da Bahia –
onde fundou o arraial de Belo Monte-Canudos. A simples leitura, repito, desta
velha e primeva nota histórica,65decisivamente modificaria todos os
conceitos até aqui emitidos e perpetuados por muitos estudiosos, acerca da
indefesa pessoa de Antonio Conselheiro.
Demonstro a desimportância que mesmo a memória popularrelegou
ao plano do olvido a insignificância da querela Maciéis e Araújos.
Coincidentemente, morando em Quixeramobim naquele mesmo ano – 1889 –, o
escritor Manuel de Oliveira Paiva concluía seu romance Dona Guidinha do Poço,
[Editora Ática, SP, 1981], onde colheu subsídios que retrataram a vida, usos,
costumes e acontecimentos ali ocorridos, e, ao tratar de rixas familiares –
ordinariamente encontradas no sertão – cita as progênies “Feitosas e Moirões
(sic)”, [op. cit. p. 41], provando que sequer a lembrança vulgar recordou o fato
impropriamente sobrestimado por Brígido. É tarefa do historiador a busca da
verdade histórica, e outro não é o propósito desta pesquisa.
Finalmente, projetando especificamente a figura de Antonio
Conselheiro, mostro as conseqüências da perpetuação da falsidade até nossos
dias. Eduardo Hoornaert conceitua a obra de Levine como “talvez a mais
completa até hoje elaborada”, [op. cit.,1997, p. 103], na qual se encontram
contradições e corrupções histórias deste jaez. Revelo-as. À p. 220 escreveu:
“Em seus escritos (do Conselheiro) não há nada que sugira um
comportamento maníaco ou desequilibrado”, enquanto que na p. 119, portanto
bem anterior, expende este esdrúxulo e contraditório juízo: “A verdade é que
poucos se juntaram ao Conselheiro por capricho ou pela sedução exercida
por aquele mágico louco”. [Destaquei]. Já referindo a querela Araújos e
Maciéis, adulterando e superestimando a já infundada matéria de Brígido, a quem
recorreu como assevera em nota de rodapé, escreveu: “Essa luta sangrenta
passou a envolver um número cada vez maior de membros das duas famílias,
até engolfar todos os familiares de ambos os clãs, por mais de uma geração”.
(Destaquei), [op. cit. p. 183]. É incrível que um pesquisador de tamanha
notoriedade, publique numa obra tão conceituada tantas incoerências. Evidencio.
Segundo o próprio Hoornaert, [1997, op. cit., p. 108], Robert Levine desconhecia
as Prédicas publicadas por Ataliba Nogueira, portanto nada poderia adiantar
sobre “seus escritos”. A verdade está com Hoornaert, pois se as tivesse estudado
é improvável que o qualificasse de “mágico louco”.
Já amplificando e falseando a matéria de João Brígido, o desacordo
chega ao absurdo quando afirma “até engolfar todos os familiares de ambos os
clãs, por mais de uma geração”, do que resultariam centenas de mortos, pois
numerosa era e é a descendência de ambas. Que as pesquisas de Levine, noutros
aspectos, sejam de excelente valia, não há dúvida. Contudo, estas absurdas
divergências e incongruências turvam66o caminho da História, prestando-se a
eternizar corrompidos conceitos que infamam a imagem do beato de Belo Monte-
Canudos.
7.
O CLERO: A DESILUSÃO
“O povo estava esfomeado do pasto espiritual, e muitas
igrejas se achavam acéfalas por falta de pároco...
Se os costumes do clero estavam derrancados, a sua
instrução eclesiástica era quase nula. O padre
naquele tempo era como uma espécie de ofício,
e não uma vocação. Os padres eram como
capitães ou baxás dos lugares, e acobertados pela
sua influência política, menosprezavam e até
zombavam dadisciplina e da autoridade diocesana”.
RAPOSODE ALMEIDA, [inHistória da Igreja no Brasil, tomo 2,
Petrópolis: Vozes, 1977, p.189].
É fato que a clerezia da Igreja Romana no Brasil colonial tinha
inclinação elitista. Mesmo nos atos litúrgicos, até bem pouco tempo nas Igrejas
existiam os lugares destinados à classe burguesa, mais próxima do celebrante e
do altar-mor, enquanto os ditos desclassificados se espalhavam pelas
laterais e adro. O dobrar dos sinos a67finados identificava a classe
socioeconômica do falecido: se o sinal fosse dobrado, quando o sacristão fazia
soarem os dois sinos da torre, o morto era um rico; se badalava um só,
espaçadamente, o falecido era um pobre. Em Fortaleza, depois de intensas
discussões, só em 1848 o governo provincial decidiu construir um cemitério
público. Até então os mortos eram enterrados “grades acima”, os de destaque
econômico e social, e “grades abaixo”, no adro, eram sepultados os pobres. Esta
constatação está em capítulo precedente, quando transcrevi o termo do óbito de
Vicente Mendes Maciel, ocorrido em Quixeramobim no dia 05.04.1855,
sepultado “grades assima” (sic).
E esta discriminação envolvendo até nossa cultura e civilização é
encontrada em data não distante – 1964 – como se lê numa matéria que trata dos
acontecimentos cronológicos da Província Franciscana do Recife, inseridos na
revista Santo Antonio, Recife, Abril de 1964, p.78: “Fr. Martinho Limpar
aproveitou o 2o. semestre do ano para rever os parentes da Alemanha e tomar um
banho cultural”, infeliz expressão duma pena franciscana, com depreciativa
essência de nos distinguir culturalmente em pleno século XX, insinuando que
vivêssemos em franca catequese dos nativos, no período colonial.
No tocante à formação religiosa dos clérigos daquela época, assim
define o teólogo e historiador Eduardo Hoornaert sua instrução intelectual: “O
primeiro aspecto que marca o clérigo no período colonial é seu caráter de
funcionário eclesiástico. Recebendo a côngrua do governo, o padre passa a ser
considerado como um funcionário público incumbido de exercer as funções
litúrgicas próprias do catolicismo, que era a religião oficial da sociedade colonial.
Em geral, a formação teológica dos clérigos era bastante limitada. No sertão,
numerosos clérigos apenas sabiam o essencial para a administração dos ritos da
fé católica”. [Eduardo Hoornaert, História da Igreja no Brasil, Tomo 2 – História
da Igreja na América [Link]ópolis: Editora Vozes, 1977, p. 183]. Acentua o
autor, que “mesmo os que tinham formação mais acurada nos colégios dos
jesuítas não tinham posteriormente oportunidade de se atualizar”. [Op. cit., id.].
Fato que se agravou com a expulsão daqueles educadores em 1759, chegando ao
absurdo de serem ordenados até mesmo soldados, como escreveu o mesmo autor
fundamentado em Capistrano de Abreu: “Desde a nomeação do bispo de
Mariana, Dom Joaquim Borges de Figueroa (1782), se tem conferido ordem a um
sem-número de sujeitos, sem necessidade e sem escolha. Tem-se visto alguns
que, tendo aprendido ofícios mecânicos e servindo de soldados pedestres, se
acham hoje feitos sacerdotes”. [Op. cit., p. 100].
Até hoje é de conhecimento geral que as antigas e abastadas famílias
tinham por costume encaminhar um68filho ao sacerdócio, visando unicamente
prestígio e destaque social, além de uma carreira segura e rentável, pois
invariavelmente entravam na política e tornavam-se abastados latifundiários. No
Nordeste, particularmente, é este o triste panorama que nos oferece o mesmo
teólogo e historiador, citando o perspicaz Raimundo Girão: “Bastante sombrio é
o quadro do clero cearense apresentado pelo historiador Raimundo Girão:
“Recebendo côngruas irrisórias, eram os padres forçados a procurar profissões
mais lucrativas metendo-se às vezes até demasiadamente nas competições
políticas e tornando-se, na realidade, donos de fazendas. Decaídos na maioria da
dignidade e correção do sacerdócio, esqueciam as suas obrigações e os interesses
de suas paróquias, e para tanto concorria sua formação intelectual e moral,
mandados muitos deles ao seminário por imposição dos pais, vaidosos de terem
um “filho padre”. Freqüentando cursos aligeirados, para os quais faltava a
verdadeira vocação, faziam por fazer os votos sagrados, nem sempre respeitavam
o da castidade, quantos deles constituindo famílias com concubinas teúdas e
manteúdas. Legitimavam geralmente os filhos, e sabe-se como inúmeros destes
vieram a ser homens ilustres na vida pública e nas letras”. [Hoornaert, op. cit., p.
189].
Ilustrando o que acima foi visto, para se ter uma real idéia do poder
econômico-fundiário do clero cearense, na Revista Aspecto, 4, publicação da
Secretaria de Cultura, Desporto e Promoção Social do Ceará, Fortaleza, 1972, às
pp. 125-130, o pesquisador Laudomiro de Sousa Pereira publicou uma matéria
sobre as sesmarias dos padres no Ceará, onde situa e enumera nada menos que 74
concessões. Sabendo-se que cada concessão, em média, tinha 3 léguas de
comprimento por 1 de largura – meia para cada lado do rio ou riacho – detinham
estes concessionários 222 léguas de extensão, ou seja, inacreditáveis 1.332 km ao
longo de nossas bacias hídricas.
Não objetiva este exame resguardar ou renegar o celibato, mas
mostrar o caráter – moral e ético – daqueles que, espontânea e solenemente
fizeram um juramento a seu Deus, recebendo sagrado sacramento que a seguir
renunciariam, usando a sotaina para abrigar interesses profanos.
Tratando do Ceará, nossos clérigos não foram apenas elitistas e
despreparados eclesiasticamente e intelectualmente. O que sempre destinguiu o
padre do leigo, a diferença maior que o entronizava como exemplo de virtudes e
representante de Cristo entre os homens – com ênfase àquela distante quadra – foi
o sagrado voto da castidade, o celibato. No entanto, o desleixo generalizado na
observação deste sacro preceito caracterizou a quase totalidade dos vigários do
Ceará, escandalizando vilas, povoados, cidades e regiões inteiras, mesmo quando
não publicamente debochado. Dos69raros que se omitiram desta sacrílega e
espúria prática de desregramento clerical, foram extraordinários exemplos o Pe.
Ibiapina e o Pe. Cícero, do Juazeiro, que hoje encorajam proposições às suas
santificações.
Quando da instalação da 1a Diocese do Ceará, desmembrada da de
Olinda, o escândalo tocou as raias do grosseiro, do inacreditável, senão mesmo
do ridículo. Vejamos como se processou a criação e instalação da nossa diocese:
“O Ceará ascendeu à categoria de sede episcopal sob o pontificado de Pio IX. Até
então a Província estivera subordinada à tradicional Diocese de Olinda. Criada
pela Lei Geral n. 963, de 1.8.1853, confirmada pela Bula PreAnimarumSalute, de
6.6.1854, a nova Diocese só foi praticamente inaugurada sete anos depois,
exatamente no dia 29 de setembro de 1861, data em que o seu titular, sob
esmerada pompa litúrgica, penetrou os umbrais da Catedral, antiga Matriz de São
José da Fortaleza. Este primeiro Bispo do Ceará era D. Luís Antonio dos Santos,
nomeado pelo Decreto Imperial de 31.1.1859, referendado pela Santa Sé em 27
de setembro do ano seguinte, cuja posse se realizara em 16 de junho de 1861, por
procuração passada ao Cônego Antonio Pinto de Mendonça”. (Destaquei).
[Otacílio Anselmo, Padre Cícero – Mito e [Link] de Janeiro: Civilização
Brasileira, 1968, p. 27].
O inacreditável é que este Pe. Côn. Antonio Pinto de Mendonça era
pai de 3 filhos e vivia em pública concubinagem na sua freguesia,
Quixeramobim, e, na visão doutro historiador, de fato e interinamente dirige a l a
Diocese do Ceará, confirmando o que foi escrito linhas antes: “Assumiu, por
procuração de D. Luiz Antonio dos Santos, 1 o bispo do Ceará, o governo da
Igreja Cearense em 16 de julho de 1861, e até a chegada do novo antístite no dia
26 de setembro do mesmo ano, exerceu o importante cargo, o que bem revela o
seu grande prestígio”. [Fernando Câmara. «O Cônego Antonio Pinto de
Mendonça – O Sacerdote e o Político», RIC, 1972, p. 219]. Comprovando a
distinção social de um dos filhos, esclarece esta nota: “ANTONIO PINTO DE
MENDONÇA, filho do cônego Antonio Pinto de Mendonça, nasceu a 3 de dez.
de 1839 e faleceu a 31 de maio de 1900, na Capital da República, onde
residia...Foi, como vistes, em traços rápidos, por ser-lhe escassa a biografia, um
quixeramobinense que elevou bem alto o nome da terra que lhe foi berço”.
(Destaquei). [João Saraiva Leão, «Homens Insignes de Quixeramobim», RIC,
1956, p. 143].
Portanto, bem identificados ficaram o Côn. Antonio Pinto de
Mendonça e o filho homônimo, sendo o pai o primeiro administrador eclesiástico
da Diocese do Ceará. Conforme se verá, curiosa e estranhamente estes três
personagens, o bispo D. Luís Antonio70dos Santos, que seria nomeado depois
Arcebispo Primaz da Bahia, o Con. Antonio Pinto de Mendonça que passou a
vida na vigararia de Quixeramobim e foi, inacreditavelmente, Visitador
Eclesiástico da Freguesia Geral do Ceará (antes do bispado), juntamente com o
filho homônimo, de forma nefasta cruzariam o caminho de Antonio Conselheiro.
Assim sendo, a sacrílega vida sacerdotal de manifesta libertinagem do Côn.
Antonio Pinto de Mendonça, como vários e renomados coetâneos, foram
exemplos que instruíram o licencioso clero cearense.
Não ficam aqui os desmandos lúbricos que maculavam a clerezia
cearense, não sendo por acaso que D. Luís Antonio dos Santos recorreu ao
virtuoso lazarista francês, Pe. Pedro Augusto Chevalier, a quem praticamente
entregou os destinos da diocese e do seminário, inaugurado pelo Pe. Chevalier
em 1863. Por seu exemplar desempenho e qualidades, foi biografado pelo Barão
de Studart na RIC[1918, pp. 210-211]. Na visão de um perplexo cronista, assim
encontrou D. Luís sua diocese: “Tal era a situação quando chegou ao Ceará o seu
primeiro bispo, Dom Luís Antonio dos Santos. O santo homem, ao ser
empossado, logo ficou sabendo que, dos trinta e três reverendos da diocese,
vinte e um eram chefes-de-família. E, a um, que havia simulado matrimônio,
em que o seu próprio sacristão servia de procurador, chamou à sua presença,
instando com ele a abandonar a concubina. O vigário concordou, após um retiro
obrigatório de quinze dias, a que se submeteu. Mas contam que, à saída do
palácio, com ar de súplica, se voltou para o severo Dom Luís, perguntando-lhe,
aflito:
- Senhor bispo, mas nem uma vezinha “pro-salute”?”. (Destaquei).
[Nertan Macedo. O Padre e a Beta – Saga Sertaneja, 2a [Link] de Janeiro:
Editora Renes / INL, 1981, p. 39].
Prossegue Macedo: “Assim era no tempo: os vaqueiros pastoreavam o
gado, os fazendeiros pastoreavam o povo e os padres pastoreavam as almas.
Tempo em que os reverendos do sertão tinham teúdas e manteúdas, com prole
numerosa, e os ricos eram sepultados na capela-mor do Crato “grades acima”,
enquanto os pobres eram enterrados no adro “grades abaixo”. A mancebia dos
vigários, todavia, não diminuiu a fé do povo em Nosso Senhor Jesus Cristo.
A ordenação dos padres era feita em Olinda, viagem das mais penosas. A
autoridade diocesana se achava a dezenas de léguas e não podia controlar a
paixão dos clérigos distantes. Daí a fornicação dos párocos, quase todos vivendo
maritalmente, o que de maneira alguma constrangia a pregação terrificante dos
frades missionários, aterrorizando o sertão com cascos, rabos e espetos de
demônios. Dessa forma, para ordenar alguém naquele tempo a Igreja exigia
patrimônio canônico, garantidor do71padre na hipótese de indigência. Na
verdade, os vigários da época eram simples instrumentos de cerimônia e
administração de sacramentos, coletores sagrados e notários eclesiásticos.”
“Alguns deles foram filhos de outros sacerdotes. Nessa hipótese está
incluído o senador Alencar, nascido dos amores de Dona Bárbara (de cujo
marido, José Gonçalves dos Santos, eram sabidas as omissões conjugais), com o
segundo colado do Crato, o reverendo Miguel Carlos da Silva Saldanha, também
revolucionário de 17”.
“No seu testamento, feito em nome da Santíssima Trindade, “em que
eu, Miguel Carlos da Silva Saldanha, firmemente creio e em cuja fé protesto
viver e morrer” – deixou o padre quatrocentos mil réis para as obras da Matriz do
Crato, vinte e cinco mil réis para o azeite da lâmpada do Santíssimo Sacramento e
igual quantia para os pobres de porta que acompanhassem o enterro. Todavia,
legou a sua fortuna aos filhos de Dona Ana Josefina de Alencar, filha do falecido
Leonel Pereira de Alencar (irmão de Dona Bárbara) e que eram José, Leonel, Ana
e Tristão. Essa mesma Dona Josefina faria vida conjugal com o primo, o senador
e padre Alencar. O Padre Miguel Carlos deixou tudo, pois, aos netos, entre eles
José de Alencar, romancista e Ministro do Império”.
“O Padre Pedro Antunes de Alencar Rodovalho foi outro reverendo
chefe de clã numeroso naqueles sertões. O mesmo aconteceu com o terceiro
colado do Crato, o reverendo Manuel Joaquim Aires do Nascimento, patriarca
dos Aires do Cariri. Outro notório patriarca era o reverendo Joaquim Ferreira
Lima Verde, de quem descende a família Lima Verde. E também o Padre José
Gonçalves da Costa, deputado provincial e pai de muitos filhos. Este último
raptou a filha de outro reverendo, o Padre Manuel da Silva e Sousa, professor
público”. [Nertan Macedo.O Padre e a Beata, op. cit. pp. 37-39].
De tão extensa, não comporta este trabalho recorrência à vasta
bibliografia sobre os atos de cabritismo lúbrico do clero Nordestino daquela
época. Inclusive por Manuel Benício é relatado parte do extenso “Itinerário das
Visitas feitas na Diocese” pelo Bispo de Pernambuco, D. João da Purificação
Marques Perdigão, no que toca as freguesias daquela Província, onde ocorriam
fatos semelhantes. [Op. cit., pp. 49-51]. Este cuidadoso e virtuoso antístite,
naquele longo período de1833 a 1840, penosamente, em lombo de alimárias e a
pé, sob chuva e sol, doente, também esteve no Ceará, demorando-se em Fortaleza
do dia 14 a 29 de agosto de 1839, onde encontrou o próprio vigário da freguesia
da capital, Frei Jacinto de Santa Anna “concubinado publicamente e com filhos”,
conforme registra o saudoso historiador e Secretário da Cultura e Desporto do
Ceará, Joaryvar Macedo, adiantando: “Acresça-se a bem da verdade: ao passo
que uns prevaricavam com certa72reserva, outros padres comportavam-se
com a maior sem-cerimônia, deles, inclusive, com um lar bem organizado, e
propiciando modelar educação à prole".
"Quanto aos últimos, além daqueles sempre em evidência dos Padres
e Senadores José Martiniano de Alencar e Tomás Pompeu de Sousa Brasil, mais
alguns exemplos corroborativos poder-se-ia ao acaso avocar. Do Padre José
Bevilácqua, vigário de Viçosa do Ceará, sabe-se que dizia missa, acolitado pelo
próprio filho Clóvis, o qual viria a ser a mais acentuada expressão da
Jurisprudência na América Latina”. [Joaryvar Macedo. «Decadência Clerical de
Outrora e o Caso de Lavras da Mangabeira», RIC, 1989, pp. 50-60]. Assim,
desses sacrílegos, escusos e espúrios concubinatos descendem, dentre outros, o
celebrado romancista brasileiro e Ministro do Império, José de Alencar, além do
mais notável jurisconsulto brasileiro de todos os tempos, Clóvis Bevilácqua.
Quando Antonio Vicente Mendes Maciel já passara do uso da razão e
bem discernia o que lhe ocorria em volta, o sagaz político, endinheirado e
afamilhado Padre e Senador José Martiniano de Alencar, por Carta Imperial de
10.09.1840, pela 2a vez assumia a presidência da província do Ceará, não lhe
sendo desconhecida a perseguição que movera ao P e. Ibiapina, quando juiz de
direito daquela comarca. Sob suas vistas, era esta a condição dos chamados
Ministros do Sagrado, representantes da Igreja Romana, inspirada em Jesus
Cristo, notadamente em sua Quixeramobim: “Desde 1755 que se sucediam no
povoado do Quixeramobim os curas de almas. O primeiro deles (1755-1764) fôra
o padre João Paes Maciel de Carvalho. Seguiram-se outros, na sua maioria
amancebados, com suas vigárias e proles, no melhor costume da época, como o
padre Manoel Ribeiro Bessa de Holanda Cavalcante, o padre João Rodrigues
Leite, o padre Antonio Pinto de Mendonça (que paroquiou Quixeramobim de
29.11.1834 a 15.04.1872, ou sejam 38 anos, acrescento) e o padre Manoel
Severino Duarte”.
“O mais importante destes reverendos-patriarcas foi Antonio
Pinto de Mendonça, que sempre residiu e morreu no Quixeramobim, cônego
do Cabido de Olinda, Visitador Eclesiástico da Freguesia-Geral do Ceará (antes
da criação do Bispado), deputado provincial e deputado-geral do Império (dentre
outros títulos, adianto, detinha também os de Cavalheiro da Ordem de Cristo,
Cônego Honorário e Pregador da Capela Imperial do Rio de Janeiro).
Emprestava dinheiro a juros e foi credor habilitado na partilha do finado
Vicente, pai de Antonio Vicente”.
“Deixou o cônego Antonio filhos importantes, como o deputado e
bacharel Antonio Pinto de Mendonça, o também deputado e bacharel João Pinto
de Mendonça, e o bacharel 73magistrado João Damasceno Pinto de
Mendonça”. [Nertan Macedo. Antonio Conselheiro, op. cit. pp. 64-65]. (Os
parênteses e destaques são meus).
Antes que o cronista fizesse estes registros, a figura patriarcal do
Cônego Antonio Pinto de Mendonça, nos idos de 1888-1889, era personificada
no celebrado romance de Oliveira Paiva – ao qual muito recorreu Nertan Macedo
– ali designado de “reverendo visitador”, como se lê às pp. 102-103 e 124-125 da
já citada obra Dona Guidinha do Poço. A ingerência laica na atividade clerical
foi outro motivo que o decepcionou e o distanciou do clero institucional,
incitando-lhe um apostolado voltado à causa dos oprimidos e Pobres de Cristo,
pois, até a indicação dos vigários era atribuição dos poderosos locais: “Além
disso, também havia o problema das alianças locais entre os padres sertanejos e
os proprietários rurais da região. Ao longo de toda a segunda metade do século
XIX foi comum a intervenção dos políticos sertanejos, especialmente os
pertencentes às comarcas mais importantes, na escolha dos padres para as
paróquias”. [Levine, op. cit. p. 280].
A humilde vida apostolar do Conselheiro – antes e no curso da curta
existência do povoado de Belo Monte-Canudos – e que pouco foi examinada e
analisada com isenção, até hoje se prestou como o maior e mais discutido
“laboratório acadêmico” de “análises”, “interpretações” e “conclusões”
sociorreligiosas e sociopolíticas das Américas e doutros continentes. Raros
estudiosos o viram sob o prisma de um cristão autêntico, cultor de virtudes e
defensor dos pobres e oprimidos de toda ordem. Se demorar-se e aprofundar-se o
pesquisador atento ao conhecimento das ações e práticas na vida “simples” do
missionário, como concretamente mostraram suas ações e revelam parcos textos
de alguns isentos pesquisadores, e, razoavelmente já consideradas neste trabalho,
é impossível nelas não reconhecer a coerente e explícita manifestação de um
cristianismo pautado no exercício e observância das virtudes teológicas, e a
disposição firme e constante para o cometimento do bem.
Ora, de quem assim pensa e pratica, é absolutamente incorreto se
imaginar que não fiquem abalados seus princípios religiosos, morais e éticos em
ter sob seus olhos, desde tenra idade, a mais escandalosa e explícita violação
destes valores por quem deveria representar a figura terrena de Jesus Cristo: seu
Ministro, o Padre.
No Campo Grande – Guaraciaba do Norte – capela da freguesia de
São Gonçalo do Amarante da Serra dos Cocos, não seria diferente. Já residindo
no Ipu desde 1844, onde tratava de política rixenta, assuntos comerciais,
mancebia e alcoolismo, ali predominava a não menos licenciosa figura do Pe.
Francisco Correia de Carvalho e Silva74que paroquiou a freguesia de 11.01.1843
a 13.06.1881 –38 anos – curiosamente o mesmo período do Côn. Antonio Pinto
de Mendonça, e igualmente Cavalheiro da Ordem de Cristo e Deputado
Provincial. O Pe. Correia, como era chamado, deixou extensa prole até hoje
encontrada naquela cidade, e foi tristemente biografado pelo Senador Joaquim
Catunda, em monografia publicada em 1871 pela tipografia do Cearense,
integralmente transcrita por Nertan Macedo, [O Bacamarte dos Mourões, 2aed.
Rio de Janeiro: Renes, 1980, pp. 172-201].
Quando presidente da Assembléia Provincial, o padre e deputado
Correia entrou em desentendimento com o também deputado João Brígido [Ibid.,
p. 198] e, por interferência do futuro jurisconsulto Luís Francisco de Miranda, à
época escrivão no Ipu, compadre de Antonio Conselheiro e referido neste texto,
evitou que partidários do padre Correia invadissem a casa do juiz daquela cidade.
[Ibid., pp. 200-201]. Causa revolta e até pavor ler tal biografia, que assim
finaliza: “Eis aí o Vigário do Ipu. Homem extremamente corrompido, partidário,
violento, e traidor, padre sem religião, consciência apodrecida no vício e no
crime”[Ibid., p. 201].
Voltando à terra natal em 1869, quando se demorou no lugar Várzea
da Pedra, em Quixeramobim, encontrou alçado na função de juiz, a mais
poderosa autoridade municipal, ninguém menos que o filho homônimo do Pe.
Côn. Antonio Pinto de Mendonça. Toda a cidade sabia – especialmente o próprio
Antonio Vicente – que a custosa educação e formação intelectual daquela
influente autoridade fora financiada com o dinheiro do povo, particularmente
pelos vinténs arrancados de seu próprio pai pela agiotagem infrene do devasso
patriarca, inclusive com os altos custos para sepultar Vicente Mendes Maciel
“grades assima” (sic). No entendimento de qualquer quixeramobinense cristão e
razoavelmente letrado – notadamente de um rábula – aquela autoridade judiciária
tinha origem de espúrio sacrilégio e, por certo de sua negra toga gotejaria o
espoliado sangue dos oprimidos.
Presidiria aquele juiz a ação cível de cobrança judicial, movida contra
Antonio Vicente pelo influente político daquela cidade, Comendador José
Nogueira de Amorim Garcia. Sua revolta foi tão manifesta, pois mesmo que suas
condições financeiras lhe permitissem a quitação da dívida, com saldo, o que
realmente ocorreu, relegou à ação o mais absoluto desprezo e silêncio, inusitada
atitude que a todos causou perplexidade. Surpreso e admirado ficou o ex-juiz e
historiador Eusébio de Sousa com este comportamento de Antonio Vicente no
curso da ação, quando perplexo expressou: “E o Conselheiro conhecedor até
das tricas forenses, pela vida que havia experimentado como solicitador de
causas, nem ao menos usou do75expediente comum na rabulice,
desviando a marcha normal da ação...” (Destaquei). [Eusébio de
Sousa.«Antonio Conselheiro em Juízo(Um episódio de sua vida)», RIC, 1912, pp.
291-301].
É neste contexto que se tem de situar a figura de um esclarecido e
intransigente praticante do cristianismo, o beato Antonio Vicente. É impossível
obscurecer que, num espírito de tão arraigados princípios, conhecedor dos
preceitos evangélicos e severo defensor dos oprimidos e pobres de porta e que
vivenciasse tais episódios, não suscitasse profunda desolação que motivassem
intensas reflexões, as quais, forçosamente se converteriam numa atitude resoluta
que incitariam uma postura de inconformação e decepção.
A atitude assumida pelo beato Antonio Vicente a partir daquele ano –
1871 –, bem ao modo dos ascetas ermitães e peregrinos missionários, cujas
condutas e ações bem conhecia, não teve outra razão senão os sombrios e
deprimentes fatos que ao longo da vida presenciara. Unicamente,
verdadeiramente nestas concretas evidências se encontram a “gota d’água” ou o
“desfecho” euclidiano, impropriamente desviados na “Obra Monumento” como
razões inaceitáveis historicamente, como se há mostrado nestas análises, mas, até
hoje, inexplicavelmente omissas na história do martirizado Defensor dos
Oprimidos Pobres de Cristo.
76
8.
OS MISERÁVEIS: A RESOLUÇÃO
“Estabelecendo a relação entre o vigário e
o peregrino, a massa sertaneja verificava
que este levava a verdadeira vida de
enviadode Deus. As suas virtudes
constituíam motivo de admiração”.
ABELARDO MONTENEGRO[1973: 125].
Antonio Vicente de muito perto conheceu a extrema pobreza que
vitimava a população sertaneja, inclusive as perseguições políticas, policiais e
judiciais que lhes moviam os potentados e latifundiários, passo que vivenciou no
seu dia-a-dia e nas suas atividades de mestre-escola, escrivão de paz e advogado
ad hoc. Comprovou a parceria dos vigários dissolutos com ricos fazendeiros,
muitos nas rédeas do poder municipal e igualmente proprietários de opulentos
latifúndios, ele próprio vítima de um deles. Diante desta comprovada e absoluta
realidade, decidiu que alguém tinha que interceder para minimizar o sofrimento
daqueles infelizes desamparados, e, com seu conhecimento das práticas religiosas
procedentes dos ensinamentos evangélicos e outras leituras sacras, concebeu na
oração e no exercício prático das virtudes evangélicas, uma forma possível de
amenizar a vida daqueles míseros desvalidos.
Compreendendo que aquela massa acéfala, abandonada pelos que se
diziam “representantes terrenos de Jesus Cristo” estava mais próxima do Mal – o
Inferno – e distanciada do Bem – Deus –, e conceituando que a correta práxis da
religião seria uma alavanca para fortificar a espiritualidade em extinção,
aproximando os pobres desamparados, organizando as famílias, suavizando
atritos e desilusões, enfim, propiciando transformações sociais, por ele
concebidas sob a ótica dos evangelhos, como liberdade, trabalho e confiança, e,
acima de tudo,a solidariedade e a fraternidade, tomou a irrevogável resolução de
encaminhá-los e defendê-los nesses propósitos. Por onde caminhara fora-lhe
evidente a falência das virtudes, cuja prática contribui para repelir confrontos,
intolerâncias, malefícios e desesperanças, pois, para o ardoroso beato, Deus,
Jesus Cristo, os Santos eos cânones da Santa Madre Igreja Católica, Apostólica
Romana definiam o Mundo e eram o caminho único para a Salvação Eterna.
No seu entendimento, a só redução do pecado permitiria uma
existência mais digna e, associando esta simplificação à prática das virtudes,
as vidas cristãmente se77transformariam. Meditou e transfigurou-
se. Rompeu radicalmente com o mundo materiale, segundo o que lera nas
biografias sacras que primavam pelo cristianismo autêntico, definitivamente
optou pelos miseráveis e oprimidos, seguindo cabal e rigorosamente o exemplo
franciscano. “Francisco trilhou um caminho original na conquista de seu próprio
coração: fez da própria dimensão de sombra senda para Deus com grande
simplicidade e humildade. Por isso canta tanto a vida e o amor quanto as
enfermidades e a morte; são integrados como irmãos e irmãs na grande família
de Deus”. Adianta o eminente teólogo o ideal franciscano: “É uma grande
vergonha para nós outros servos de Deus, terem os santos praticado tais obras e
nós querermos receber honra e glória somente por contar e pregar o que eles
fizeram.” (Admoestações, 6)”. [Leonardo Boff. São Francisco – Ternura e Vigor.
Petrópolis: Vozes, 1981, pp. 14-15].
Daí em diante, praticando esta sábia e cristã admoestação do Fratello
e Poverello de Assis, em futuro não distante estabeleceria uma comunidade
matuta aos moldes do cristianismo primitivo, espelhada na fraternidade e
fundamentada nos Atos dos Apóstolos, ação que, um século depois faria eruditos
teólogos idealizarem a Teologia da Libertação, da qual Leonardo Boff seria um
dos principais ideólogos, com a revolucionária Igreja dos Pobres, também
chamada de Igreja-do-Povo-de-Deus, Igreja Libertadora, além doutros
designativos.
Sabia que era inimaginável conciliar a riqueza com a pobreza, e as
evidências lhe mostravam que a corda sempre rebenta do lado mais fraco. Via a
desmedida ambição dos poderosos, que visavam tão-somente explorar ad
infinitum os desfavorecidos, que perversamente recebiam tratamento inferior ao
dos chamados “animais de carga”. A distância social, e especialmente econômica,
entre ricos e pobres era tamanha que o próprio Jesus Cristo era visto por ângulos
diversos: “Jesus é aristocrático, pertence ao mundo da “casa grande”.
"No Museu de Arte Sacra da Bahia assim como em diversos museus
de arte colonial espalhados pelo Brasil, Jesus nasce em berço de ouro, tem olhos
azuis (marca evidentemente aristocrática do mundo patriarcal brasileiro), brinca
com brinquedo de menino “de família”, veste a camisola das crianças mimadas
da “casa grande”, tem “voltas de ouro” em torno do pescoço, não nasce num
presépio, mas sim num berço de ouro, ele não pertence à senzala mas sim à casa
grande. Nos crucifixos ele representa a dor, dramatiza a dor, mas não se
solidariza com a dor concreta sofrida pelos pobres: eis a interpretação que os
homens da instituição fizeram da imagem de Jesus Cristo no Brasil. Em contraste
flagrante com a imagem branca, heróica e aristocrática que os poderosos
fizeram de Jesus Cristo, o povo criou78a imagem de um Jesus sofredor e
sobretudo mendigo, mas então um mendigo estranho, sábio, poderoso e
perturbador.
Quando Jesus andou no mundo
Disse a São Pedro assim:
Quem não quer pobre em sua porta
Também não quer a Mim.
“A tradição de Jesus mendigo que percorre o mundo em companhia de
São Pedro parece ter sido a tradição “cristológica” mais tipicamente popular em
toda a América Latina. Lévi-Strauss pretende ter encontrado esta tradição nos
lugares mais diversos do continente. Uma pessoa do Nordeste brasileiro
comentou esta tradição da maneira seguinte: Disse que um dia Jesus pedia
esmola na casa de um pobre, e esse só tinha um pouco de farinha para fazer a
papa da criança pequena e um pouco de carne. Assim mesmo ele deu. Quando o
velho saiu, a mulher encontrou a vasilha transbordante de farinha e também a de
carne. Jesus foi pedir na casa de um rico, e a mulher disse: “Pode ir embora seu
fedorento, que não tenho esmola”. A rica foi logo se tornando pobre e a pobre
rica”. [Eduardo Hoornaert. História da Igreja na América Latina – Tomo II –
História da Igreja no [Link]ópolis: Vozes, 1977, pp. 345-346].
Consciente dessas realidades, cujas conseqüências adiante sentiu na
própria pele, sem alarde nem participação, optou pela vida de virtuoso peregrino,
tendo por objetivo único de sua atenção – repito – os Pobres de Cristo, os
desventurados de toda ordem, aqueles mesmos que a escala social distingue e
distancia como ricos, pobres, mais pobres, miseráveis e desclassificados hoje
designados como abaixo da linha da pobreza ou excluídos. Estes que nos dias
atuais se propala estejam assistidos por vários programas sociais, como educação,
saúde, auxílio alimentação, e, coisa impensável há menos de três décadas, a
aposentadoria rural independente de contribuição previdenciária, embora que
alguns destes projetos hajam se prestado à mais infrene corrupção.
Não precisa recuar muito no tempo para se saber da célebre rapinagem
que ficou conhecida por “indústria das secas” que, à custa da fome dos flagelados
e retirantes, enriqueceu inúmeras “celebridades” da vida pública nordestina,
muitas até hoje no Poder. No curso da nefasta ditadura militar, nas secas de 1970
e 1976, e mesmo na grande estiagem de 1983, quem viajava pelo sertão
invariavelmente se deparava com as latadas levantadas com estacas de jurema,
marmeleiro ou sabiá e cobertas por galhos de malva seca, rama de mufumbo ou
79
oiticica, erguidas às margens das piçarrentas rodovias para abrigar os pobres
alistados das chamadas “frentes de serviço”.
Mesmo diante destas recentes e tristes realidades, é inimaginável a
percepção do que ocorria nos rincões do sertão na segunda metade do século
XIX, conhecimento que só chegou às elites urbanas com o advento da literatura
Modernista e as obras dos grandes romancistas nordestinos, hoje figuras
internacionais, Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, dentre
outros.
Surgiria o austero asceta pelo sertão trajando um camisolão azul, a
cintura atada por uma corda de croá donde pendia um crucifixo, cabelos e barba
crescidos, nos pés as conhecidas apragatas de currulepe, protegendo-se do
abrasante sol do semi-árido com um chapéu de palha de carnaúba, sustido num
bastão de jucá. A tiracolo, uma pequena mochila de pano contendo papel, lápis e
livros. Inicia o indulgente predicante a deambular pelos pequenos vilarejos e
taperas do sertão, jamais se sabendo de sua presença à sombra de ricos alpendres,
concitando o povo a ouvir a leitura dos evangelhos, pregando o amor, a
fraternidade, a solidariedade e a liberdade, rezando as orações ordinárias da
Igreja, tirando rosários, terços, novenas e predicando os evangelhos e outros
costumes da religião, e, acima de tudo habitando, vivendo, convivendo e se
alimentando como que fosse comum a todos, como mostrou sua vida.
A primeira notícia de suapresença com tal aparência – 1873 – procede
do depoimento de Honório Francisco da Assunção – chamado Honório Vilanova
– prestado ao jornalista e escritor Nertan Macedo, dele resultando o livro
Memorial de Vilanova[Rio de Janeiro: Ediç. O Cruzeiro, 1964], bastante referido
neste texto. À página 37, o nonagenário ancião declarou: “Conheci o Peregrino,
quando eu era menino, no Urucu (atual município de Assaré, extremo sul
cearense, adianto). Se bem me recordo, foi em 1873, antes da grande seca. Ele
chegou, um dia, na fazenda pedindo esmolas para distribuir com os pobres,
como era seu costume. Era manso de palavra e bom de coração. Só
aconselhava para o bem”. (Destaquei).
Daquela fazenda, seguiu o beato para os sertões de Pernambuco e
Sergipe, e por seu comportamento de austeridade, lendo os evangelhos sobre os
quais missionava, rezando com o povo e sobrevivendo da caridade, insisto, logo
causou admiração e reverência, sendo bem recebido e acatado por todos,
notadamente a classe dos desfavorecidos. As sobras das esmolas que recebia
eram compartilhadas com os pobres, a quem acolhia com especial desvelo.
Desde os primórdios de sua vida missionária tinha por preocupação o
combate à vadiagem e, com o que lhe 80sobrava das esmolas maiores e da ajuda
de pessoas piedosas e mais abastadas, passou a reconstruir e construir muros de
cemitérios, capelinhas, igrejas, cacimbões e até pequenos açudes. No ano
seguinte – 1874 – é visto nas províncias da Bahia e Sergipe, e nesta, pela primeira
vez torna-se notícia na imprensa, referido pelo folhetim O Rabudo(22.11.1874),
semanário que circulava na cidade sergipana de Estância. Localizada na zona da
mata onde enfraqueciam os já decadentes engenhos de açúcar movidos pela mão
escrava, é certo que além do conhecimento da árdua vida servil nas fazendas, ali
também o Peregrino visitou as senzalas. Prova de sua passagem pelo litoral está
no seu primeiro cognome – Antonio dos Mares – como se lê no “periodico
critico, chistoso, anedotico e noticioso (sic)” como se intitulava o folhetim
estanciano, onde foi assim evidenciado pelo editor Manuel Lopes de Sousa Silva:
“Este misterioso personagem, trajando uma enorme camisa azul que lhe serve de
hábito a forma do de sacerdotes, pessimamente suja, cabelos mui espessos e
sebosos entre os quais se vê claramente uma espantosa multidão de bichos
(piolhos)”.
“Distingui-se ele pelo olhar misterioso, olhos baços, tez desbotada e
de pés nus; o que tudo concorre para o tornar a figura mais degradante do
mundo”. (Grafia atualizada). [Página fac-similada. Rinaldo de Fernandes (org.).O
Clarim e a Oração – Cem anos de Os Sertões.S. Paulo: Geração Editorial, 2002,
p. 584]. Causa perplexidade e incredulidade, que uma pessoa trajando tão imunda
indumentária, com os cabelos cobertos de piolhos visíveis a pequena distância e
denotando a “figura mais degradante do mundo”, fosse ouvida, admirada,
respeitada e seguida pelo povo. Indiscutivelmente, é uma notícia tendenciosa e
falsa, pois ninguém, em sã consciência se aproximaria de tão terrível figura.
No seu irrevogável desígnio de unir-se aos oprimidos, incansável
segue peregrinando, e, aonde chega, repito, leva a palavra sagrada, predica, reza
terços e rosários, tira tríduos, novenas e trezenas, além dos costumeiros trabalhos.
Acima de tudo distribui conselhos a todos que o procuram, dirimindo conflitos,
minimizando aflições, agregando famílias, unindo inimigos, alentando
desesperados e doentes, e nos seus sermões, invariavelmente, destacando e
estimulando a prática das virtudes teológicas – Fé, Esperança eCaridade – além
de abordar assuntos do cotidiano, como casamento, família, trabalho, filhos e
moralidade cristã, confrontando-os com temas dos Santos Evangelhos.
Inicialmente conhecido por Antonio dos Mares, Irmão Antonio, Santo
Antonio dos Mares, Antonio Aparecido e Bom Jesus Conselheiro, sua forma de
dar conselhos ao modo de um confidente, no meado da década de 1870 ensejou a
que ficasse conhecido apenas por Antonio Conselheiro. Assim conceitua o
historiador este designativo: “Este81último título (Conselheiro) demonstra
que ele era considerado, mais que um beato, um sábio conselheiro, título
religioso oitocentista que poucos sertanejos chegaram a receber. Enquanto os
beatos, assim consagrados pelos vigários paroquianos, pediam pela alma dos
pobres, os conselheiros pregavam e davam instruções não só a respeito de
problemas espirituais como também terrenos, como, por exemplo, casamentos
problemáticos ou crianças desobedientes”. [Levine, op. cit., p. 186].
Calasans, que entrevistou o sobrevivente Honório Vilanova, dele
ouviu esta definição de Conselheiro: “Honório Vilanova, comerciante em
Canudos, disse-nos que conhecera, por volta de 1873, no Ceará, o beato Antonio,
que iria encontrar, depois, na Bahia, como conselheiro. Explicou que conselheiro
era mais que beato. Ao beato cabia a missão de tirar rezas, cantar ladainhas, pedir
esmolas para obras da igreja. O Conselheiro ia além, porque, melhor preparado
sobre os temas religiosos, pregava, dava conselhos. Um conselheiro pode ter,
debaixo de suas ordens, um ou vários beatos. Foi o caso de Antonio Conselheiro
ao qual estavam subordinados alguns beatos, como o beato Paulo, José Beatinho,
Antonio Beatinho, além de outros que não nos foi possível identificar”. [Revista
USP, «Dossiê Canudos», No 20, 93-94,p. 25].
Sua postura, trajes e apetrechos lembravam os antigos missionários
capuchinhos, nos quais o livro simbolizava a sabedoria e o bastão o peregrinar.
Lembrando o aparecimento do beato nos sertões baianos, escreveu o teólogo e
historiador: “Num lindo texto, escrito em 1953, o escritor baiano José Aras
descreve como o povo da região contava a maneira como Antonio Vicente
apareceu pela primeira vez na Bahia, em 1875. Correu a notícia de que estava na
redondeza “um mendigo, procedente do norte..., embaixo do braço um livro
volumoso que lia nas fazendas. Não carregava matalotagem, e aonde chegava
dava ‘bons conselhos’. Os cristãos davam-lhe algum alimento, pois comia muito
pouco...Chegando na fazenda Tanque da Nação, saúda os proprietários com o
clássico “Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo”, e a simples declaração:
“Venho do Ceará. Vim conhecer a Bahia”. Pede hospedagem por uns dias e vai
logo “encostar-se, e, abrindo um grande livro, começa a folheá-lo, lendo-o
continuamente”. “No dia seguinte, já reúne os trabalhadores para as rezas”.
[Hoornaert, 1997, p. 113]
De fazenda em fazenda, de arraial em arraial, de vila em vila surge o
indulgente missionário de comportamento singelo e humilde, um mendigo
penitente que pratica o que predica: Fé, Esperança e Caridade. Dissertando sobre
a pessoa do beato, acrescenta o mesmo autor: “Espalha-se por entre serras e vales
a notícia: Apareceu entre nós um “santo homem”. Vale a pena viajar para
encontrar-se com ele e tomar seus82conselhos”. (Destaquei). [Hoornaert,
1997, p. 17]. A forma serena e franca de se comunicar com os devotos a quem
chamava de Meu Irmão, a maneira de convencer pelo exemplo de austeridade, e
suas ações de caridade e explícita demonstração de amor ao próximo, inspiravam
irrestrita confiança a todos que o conheciam, passando a ser chamado de Meu Pai
Conselheiro, como seria carinhosamente designado por todos até o fim dos seus
dias.
Seu peregrinar é assim descrito por outro estudioso, sociólogo e
professor da UFC: “Várias são as cidades e povoados visitados por ele. Suas
prédicas, que desde o início atraiam centenas de pessoas, tratavam
invariavelmente do amor ao próximo, da solidariedade humana, das injustiças
sociais, das expiações dos pecados, da observância dos mandamentos da Igreja e
da ira de Deus para com os pecadores. Condenava sistematicamente a riqueza
e propunha como alternativa ao mundo de desesperança o retorno à pobreza
evangélica. Para ele, a riqueza, o luxo e oapego aos bens materiais eram
incompatíveis com a moral e a ética cristãs”. (Destaquei). João Arruda,
[Canudos–Messianismo e Conflito [Link]: Edições UFC/SECULT,
1993, p.58].
Em 1876 já o seguem alguns voluntários, dentre eles o beato Paulo
José da Rosa que carregava um pequeno oratório que lhe acompanharia até sua
instalação em Canudos, o qual continha um crucifixo e minúsculas esculturas
artesanais em madeira de São Francisco, Santo Antonio e Nossa Senhora das
Dores, a Sofredora Mãe dos pobres. O beato Paulo foi a pessoa que por mais
tempo acompanhou e esteve ao lado do Conselheiro, inclusive quando foram
presos, morrendo ancião no povoado de Canudos. A ação de peregrinar,
trabalhar, se alimentar, predicar, rezar e cantar, enfim, a convivência diuturna
com os pobres de porta, ensejou e decisivamente contribuiu para que os unissem
fortes laços de afetividade.
A extraordinária influência que os atos e o singular comportamento
público do asceta predicante passaram a exercer sobre o povo prestou-se para
alertar os principais e influente setores das opulentas classes do Poder:
latifundiários, Estado e Igreja. Causava espanto e perplexidade o fato de, em
tempo algum, haver um leigo missionário revolucionado as passivas e submissas
mentes dos pobres, escravos e oprimidos, usando como instrumentos de
persuasão o seu exemplo de vida intocável e virtuosa, e suas simples prédicas
sobre temas evangélicos, rezando e exortando o exercício e a prática do bem.
Incomodados, Estado, Igreja e latifundiários promoveram uma aliança tácita. A
segunda, molestada pelos apelos do beato à moralidade familiar cristã,
exprobrando o sacrílego concubinato83dos vigários, enquanto praticava atos
piedosos de humildade e benevolência. Enquanto os ricos proprietários rurais
representados pelo poder público, dia após dia viam seus até então resignados
escravos, criados e “agregados“ deixarem suas taperas para o ouvirem censurar o
mandonismo arbitrário, a riqueza, o luxo, a ostentação, as humilhações aos
desamparados, as injustas perseguições aos desfavorecidos, esteado nas bem-
aventuranças do Sermão da Montanha e outras passagens evangélicas.
Em 1976, por ocasião das filmagens do Documentário CANUDOS, o
cineasta-repórter Ipojuca Pontes viajou pela vasta região de Canudos, e, na cidade
de Euclides da Cunha – antiga Cumbe – visitou a residência do ancião José Aras,
autodidata e estudioso de Canudos que residia numa típica casa de arquitetura
sertaneja, e num mal cercado quintal, vestindo um surrado paletó branco, um
bastante usado e amassado chapéu de massa, sentado numa velha cadeira coberta
de sola prestou seu depoimento acerca de Antonio Conselheiro, declarando,
dentre outras coisas: “Nos seus sermões, o Conselheiro dizia muito ao povo:’A
terra não é de ninguém. A terra é de todos’ (sic)”. Uma verdade tal, ouvida
pela imensa massa de oprimidos, reclamava dos latifundiários urgente
providência.
À medida que os vigários se articulavam com seus superiores, os ricos
latifundiários açulavam as autoridades civis, inclusive utilizando a imprensa para
alertar a chamada “intelectualidade civilizada do litoral”, natural parceira da
burguesia do poder público. Estas quatro forças – a casta latifundiária, Igreja,
Estado e Imprensa – se moveriam contra o incauto missionário, que fiel aos
princípios de Cristo sempre ofereceu a outra face, jamais esboçando o mínimo
gesto de defesa, comportamento que praticaria em toda sua trajetória apostolar,
inclusive no curso do genocídio, quando raramente era visto no povoado,
rezando, jejuando e fazendo penitência no seu humilde quarto de taipa, chamado
de Santuário.
Dentre a “fidalguia” rural sobressaiu como seu tenaz inimigo o
advogado Cícero Dantas Martins, depois Barão de Jeremoabo, o mais influente e
poderoso político e latifundiário do nordeste baiano. Numa carta escrita e
publicada pela imprensa de Salvador em março de 1897, o missivista registra que
já em 1874-1876 era inequívoco o enorme prestígio que o humilde asceta
desfrutava no meio da classe dos oprimidos. Declara que a exceção de sua
família, nenhuma outra da região deixava de comparecer às pregações. Dentre
outros, destacam-se trechos nos quais o arrogante e arbitrário Barão, clara e
abertamente sugere o extermínio dos indefesos devotos. Eis alguns fragmentos
que demonstram a urdidura da hecatombe: “Refiro-me à magna questão da
atualidade – negócios de Canudos –84que, dia a dia vai assumindo medonhas
proporções que, em tempo, seriam evitadas com grande facilidade, sem gastos
de rios de dinheiro e perda de centenares de vidas. Se o governo não é a
Providência, é a Previdência. A história está cheia de úteis ensinamentos
contra o fanatismo”. (Destaquei). [Eduardo Diatahy B. de Menezes e João
Arruda (orgs.). Apêndices – Canudos Na Fala de Um Aristocrata. [Canudos – As
falas e os olhares. Fortaleza: Edições UFC, 1995, pp. 113-114].
A PRISÃO – Urgiam e reclamavam providências urgentes para calar e
expulsar daquelas paragens o incômodo e estranho apóstolo, e logo sob a falsa
acusação de matricida e uxoricida prepararam e consumaram sua prisão, ocorrida
no dia 06.06.1876: “Em inícios de 1876, as autoridades, incluindo os clérigos da
arquidiocese de Salvador, pareciam dispostas a permitir o prosseguimento das
atividades do Conselheiro, não tendo agido no sentido de detê-lo, mesmo quando
isso lhes foi requisitado em nível local. Porém, em fins de maio daquele ano,
quando os pedidos de ação contra o Conselheiro se tornaram mais freqüentes, o
chefe da polícia baiana, Dr. João Bernardo de Magalhães, escreveu ao bispo
prometendo que “tomaria as medidas necessárias para prender Antonio
Conselheiro”. O chefe de polícia dizia estar convicto de que o missionário, além
de causar problemas entre o clero rural, também estava desestabilizando a região.
Em 6 de junho, Antonio Maciel foi preso em Itapicuru sob a acusação absurda de
ter matado sua mãe e sua esposa alguns anos atrás no Ceará. Ele não ofereceu
resistência, aconselhando seus seguidores a não interferirem”.
“O Conselheiro e Paulo José da Rosa, um de seus discípulos mais
chegados, foram colocados na prisão local à espera de um contingente de
cinqüenta policiais encarregados de escoltá-los até Salvador. O promotor público
pediu a transferência do Conselheiro, incluindo na carta de extradição um
comentário a respeito da má influência que o acusado exercia sobre “a gente
ignorante” de Itapicuru e de seu desacato ao vigário da cidade. Mesmo que não
fosse julgado culpado, concluía o documento, seria recomendável não tirar “de
sobre ele suas vistas, para que ele não volte a esta província”, já que “sua volta
trará certamente resultados desagradáveis, pela exaltação em que ficaram os
espíritos dos fanáticos com a prisão de seu ídolo”.
“O missionário foi forçado a ir a pé, com correntes nos tornozelos e
nos pulsos, até Alagoinhas, tendo sido inclusive espancado pelos soldados; a
partir desse trecho, a viagem foi feita de trem. Quando chegaram a Salvador os
dois homens passaram três dias na cadeia até serem transferidos, com um grupo
maior de prisioneiros, para outras dependências, e tudo a pé, sob o olhar dos
curiosos. O Conselheiro foi então algemado e levado para o vapor Pernambuco
na companhia de dois guardas. Uma85semana depois, chegava a
Quixeramobim. Logo se comprovou que sua mãe havia morrido quando ele era
criança e que sua desafeiçoada esposa ainda vivia. Nem uma só pessoa se
prestou para depor contra ele. As acusações foram retiradas, mas, mesmo
assim, os soldados que o trouxeram da Bahia ao Ceará lhe deram uma última
surra. Livre, fez um discurso amargo para todos os presentes, mas se recusou a
dar queixa formal contra o tratamento que lhe fora dispensado, dizendo que
“Cristo tinha sofrido mais”. (Destaquei). [Levine, op. cit., pp. 203-204].
Assim, três anos após assumir sua resoluta postura em prol dos
desventurados tinha início o martírio do homem que pregava, com seu exemplo –
a Fé, a Esperança, a Caridade, a Solidariedade e a Fraternidade. Os principais
órgãos da imprensa baiana emprestaram destaque à sua prisão: Diário da Bahia,
de 27 de junho e 7 de julho de 1876; Correio da Bahia, 08.06.1876; Jornal da
Bahia, 08.07.1876, e Diário de Notícias, 6-7 de julho de 1876. No início do ano
seguinte – 1877 – fazendo um resumo das notícias, é apresentado à capital do
Império através do influente calendário anual FolhinhaLaemmert.
Portanto, embora recolhido ao mais longínquo sertão e unicamente se
relacionando com os Pobres de Cristo ficou amplamente conhecido,
especialmente pela Igreja, a classe latifundiária e a intelectualidade da chamada
“visão do litoral”, inicialmente apresentado como “aventureiro santarrão,
mysterioso personagem, a figura mais degradante do mundo (sic)”. [Apud O
Clarim e a Oração, p. 584], culminando por matricida e uxoricida, um cruel
assassino. Porém, sob ótica bem diversa era visto, acolhido, aceito e admirado
pela população humilde, aqueles a quem, como o Poverello de Assis,
carinhosamente chamava de Meus Irmãos.
Chega a surpreender que até hoje nenhum sobrevivente, pesquisador
ou estudioso haja mencionado qualquer ação, comportamento ou atitude
extraordinária – inclusive e especialmente sermonários – que expliquem e
esclareçam o fascínio que o missionário exercia junto à grande massa de
desvalidos. Nada além do que simples prédicas alertando para o exercício da Fé,
da Esperança, da Caridade e da Fraternidade, além do exemplo de vida humilde
e austera.
A VOLTA – Inocentado das falsas imputações, na obscuridade –
como sempre viveu – mais uma vez empreende o incansável predicante sua
caminhada pelo sertão, demorando nas latadas das taperas e casebres, praticando
o que adotara como meta missionária: lendo os evangelhos, predicando e
exortando a prática de virtudes, rezando, cantando benditos, louvando a Deus,
mas sempre ao lado dos humildes. Sua saída de Quixeramobim – agosto/1876 –
ocorreu precisamente no início do86semestre que o nordestino chama de
seca, quando se prenunciava a Grande Seca – 1877-1880 – a maior calamidade
que se abateu sobre os nordestinos no curso do século XIX.
Para se formar idéia da devastadora dimensão do sinistro,
enfaticamente causado à pobreza, só em Fortaleza morreram 67.267 pessoas,
representando 10% da população da província do Ceará à época; eis que somente
em 1881 somaria 750.000 habitantes. A fome assumiu tais proporções, que, além
dos milhares que morriam impotentes em suas próprias moradias, outros
pereciam fugindo pelos caminhos e insepultos eram devorados pelos urubus.
Dantescas e terríveis cenas de antropofagia foram registradas, como assevera o
insuspeito médico, humanista e historiador, Barão de Studart: “Morria-se de
fome, puramente de fome nas ruas das cidades, pelas estradas: Depois de
alimentar-se de raízes silvestres (especialmente da mucunã), de algumas espécies
de cactus (chique-chique, mandacaru) e bromelias (coroatá, macambira) do
palmito da carnauba e de outras palmeiras, das amendoas e entrecasca dos cocos,
o faminto passara a comer as carnes mais repugnantes, como a dos cães, a
dos abutres e corvos, e a dos repteis. Si bem que raros deram-se casos de
antropophagia; e por cumulo de horror, ainda houve não sei si diga um
perverso, si um infeliz que procurou no município de Lavras vender, ou
trocar por farinha, um resto de carne humana de que se alimentava. Alguns
cadaveres foram encontrados que conservavam nos membros semi-
devorados os signaes do extremo desespero das victimas da fome” (sic).
(Relatório do presidente José Julio). (Destaquei). [Climatologia, Epidemias e
Endemias do Ceará.Fortaleza: Typ. Minerva, 1909, pp. 39-40].
Em época não distante, o historiador e sócio efetivo do Instituto do
Ceará, Paulo Aírton Araújo, na condição de Secretário de Educação do Estado do
Ceará, viajou aos Estados Unidos da América em 1971, onde visitou a San Diego
University, na Califórnia. Ali encontrou o prof. Dr. Roger L. Cunniff, do
Departamento de História, que estivera no Ceará nos anos de 1965-1966
preparando sua tese de doutoramento que versou sobre a Grande Seca de 1877-
1880, aqui realizando extensa pesquisa que resultou na publicação de The Great
Drought: Northeast Brazil [Link] Araújo "rico em conteúdo em suas
347 páginas". O historiador conclui a pesquisa com este triste juízo sobre o
lúgubre acontecimento: “foi a pior calamidade da História do mundo
ocidental”. (Destaquei). [A seca de 1877 vista por um norte-americano, RIC,
1977, pp. 353-355].
Embora transformado – involuntariamente – em personagem de
evidente notoriedade, Antonio Conselheiro sempre foi silente sobre os piedosos
objetivos cristãos de suas ações, como87igualmente abominava qualquer
manifestação de ostentação, particularmente envolvendo sua pessoa. Não há –
historicamente – comprovação da data exata de seu regresso aos sertões baianos.
Sequer o dedicado estudioso do genocídio, o prof. José Calasans, conseguiu tal
ilação: “Posto em liberdade, Antonio Vicente voltou à Bahia, passando a viver
em terras do município de Itapicuru, daí saindo, freqüentemente, para dar
conselhos e realizar obras, construção de capelas e levantamento de muros de
cemitérios, em diversos pontos da Bahia e de Sergipe. Teria retornado, consoante
a tradição, exatamente no tempo por ele anunciado. Estava de volta, num
momento angustiado dos sertões nordestinos. Nos dias terríveis da seca de
77, quando, dominados pelo flagelo, os sertanejos esperavam as soluções
milagrosas. Faltam-nos dados para avaliar o papel do “Bom Jesus
Conselheiro” na conjuntura. Teria construído alguns pequenos açudes,
ouvimos alhures”. (Destaquei). José Calasans, [«Canudos Não Euclidiano – Fase
anterior ao início da Guerra do Conselheiro», InJerusa Gonçalves de Araújo
(Coord.). Canudos – Subsídios para sua reavaliação histórica,op. cit., p. 5].
Contudo, como se depreende das letras do historiador, foi no cenário
da grande tragédia climática que a figura do piedoso missionário mais se afirmou
e se consolidou no meio sertanejo, pois retornou ostentando o simpático halo
popular da inocência e um exemplo vivo da injustiça policial infrene, corporação
grandemente composta de celerados que a sociedade brasileira nunca viu com
bons olhos. Entre alguns perceptivos e clarividentes pequenos proprietários
rurais, seu comportamento exemplar, bondoso e caritativo passou a ser visto sob
ótica diversa. A vida andeja possibilitou-lhe o conhecimento da extensão do
sinistro, e, como já era prática, cristãmente associou ao tema da espiritualidade as
imediatas necessidades da vidamaterial, incrementando e desenvolvendo as
construções de muros de cemitérios, reformas de capelas e igrejas, pequenos
açudes e cacimbões, minimizando o sofrimento das vítimas do flagelo.
No império do desastre climático, mais uma vez é solicitado pelo
clero e comerciantes das vilas e cidades: “Quando volta do Ceará, certos vigários
do sertão baiano mudam de tática e o convidam para abrilhantar festas de
padroeiro e pregar ao povo, encabeçar obras paroquiais que eles mesmos
não têm condições de executar, como a construção de capelas ou cemitérios,
dizendo que o Conselheiro lhes traz “ouro”. Os comerciantes também
gostam da presença do Beato”. (Destaquei). [Hoornaert, 1997, p. 46].
Se um quadro de tão indescritíveis horrores acontecia numa cidade do
porte de Fortaleza, é de se indagar o que ocorria no tórrido semi-árido baiano,
pois, além da fome disseminada, milhares de vidas eram dizimadas pelas
epidemias de varíola, sarampo,88catapora e cólera. Conceituado por sua
severa honestidade, por onde passava o humilde missionário recebia esmolas de
pessoas caridosas, como foi antes dito, que tinham certeza da boa destinação dos
seus óbolos. Praticando a caridade franciscana que sempre orientou suas ações,
prosseguiu na faina de socorrer os desvalidos, e, nos lugares mais povoados,
vilarejos e pequenas cidades, administrava os devotos nas costumeiras
reconstruções e construções.
É antiga e ainda corrente a velha máxima, quando se diz que alguém
vai mal financeiramente: “Não tem um couro pra cair morto em cima”, ou seja,
não tem sequer onde ser sepultado. Com o elevado número de óbitos dos
flagelados e retirantes, sua preocupação maior voltou-se para os cemitérios: “De
todas as atividades do Conselheiro, o reparo e a construção de cemitérios foi a
que causou maior impacto junto aos moradores locais e ao clero paroquiano. O
enterro era um rito extremamente importante para a sociedade sertaneja; algumas
vezes as famílias chegavam a vender quase todos os seus pertences só para pagar
o enterro de um ente querido, ou para comprar uma sepultura em local de maior
prestígio. Outra razão era a alta taxa de mortalidade, especialmente entre as
crianças, causada principalmente pelas secas severas que afligiam a região”.
[Levine, op. cit. pp. 187-188].
Enquanto o flagelo impiedosamente fustigava o Nordeste, devastando
as vidas secas de multidões famintas e as boiadas dos latifundiários, gozou o
apóstolo de certo período de calmaria, esquecido da igreja e da elite aristocrática
rural voltados à salvação dos seus bens materiais. Neste ínterim agiganta-se seu
conceito, e por onde passa suscita admiração o que faz crescer o número de
flagelados, retirantes e devotos que se abrigam sob sua proteção e vão
executando trabalhos e obras pias com dois objetivos: não morrer de fome e ouvir
os sermões e rezas reconfortantes daquele homem virtuoso, que ajudava e acolhia
a todos, indiscriminadamente.
Muitas capelas e igrejas se apresentavam em ruínas, e várias paróquias
estavam carentes de vigários e mesmo os que ainda permaneciam, eram
patriarcas afamilhados e repudiados pelos devotos: “As massas sertanejas, não
hesitavam entre o missionário secular sóbrio, casto e macerado, e a parte do clero
“preocupado unicamente em política, rixoso, amancebado publicamente, não
procurando o engrandecimento de suas paróquias nem da cultura religiosa de suas
ovelhas”. Antonio pregava contra a mancebia. As mancebas, apavoradas,
abandonavam os párocos e vinham, contritas, pedir perdão a Antonio”. [Abelardo
Montenegro, op. cit., p. 127].
As prédicas do Conselheiro sempre foram veementes apelos à
preservação e revigoramento da Fé,89das Virtudes, da Moralidade e da
Família, costumes sãos que estavam sendo minados e destruídos por quem mais
deveria preservá-los. Como pessoa letrada, não lhe era desconhecido que até
mesmo os frades franciscanos eram latifundiários e escravocratas: “A santidade
dos claustros foi conspurcada pela torpe ganância, e os próprios filhos do
Seráfico Poverello de Assis eram donos de fazendas e de grandes escravaturas de
índios”, di-lo o insuspeito bispo do Maranhão, Dom Francisco de Paula e Silva,
em seus interessantes comentários ou “Apontamentos para a História Eclesiástica
do Maranhão”. [Apud Nertan Macedo. Memorial de Vilanova, p. 89].
Exclusivamente nos preceitos da doutrina da Igreja, insisto, missionava o asceta:
“Vieira de Aguiar viu o Conselheiro dando conselhos e pronunciando homilias e
sermões. A população local se juntava para ouvi-lo, escutando-o extasiada. O
coronel (Vieira de Aguiar) observou que os vigários locais ganhavam com
batismos, casamentos, grandes festejos, novenas e todos os outros serviços
prestados pela igreja, ao contrário do Conselheiro que “não ganhava nada”.
(Destaquei). [Levine, op. cit., p. 206].
Dos seus 24 anos de ininterrupta atividade – 1873-1897 – foi esta a
impressão que legou à história: “Ao contrário do que contam as lendas que se
formaram a respeito do Conselheiro, elenão falava de milagres em seus
sermões, apenas de fé e trabalho árduo. Não usurpava funções sacerdotais, não
agia como curandeiro, e também não receitava medicamentos. Alguns de
seus seguidores chamavam-no “Bom Jesus Conselheiro”, enfatizando
justamente o aspecto sofredor de Cristo, apesar de não se saber se ele chegou a
encorajar a utilização de tal designativo. O Conselheiro nunca disse ter sido
enviado por Deus ou admitiu ser um profeta: ele permanecia dentro dos
limites do catolicismo romano formal ao se colocar como um simples pregador
leigo e um beato. Suas obras eram feitas em nome da Igreja e a serviço dos
párocos locais”. (Destaquei). [Levine, op. cit., p. 205].
90
9.
A IGREJA E O ESTADO:
AS PERSEGUIÇÕES
“Canudos é, entre outras coisas,um fenômeno de imprensa”.
ROBERTO POMPEUDE TOLEDO,
[Veja, edição 1511, 03/09/1997, p. 84].
Na História de Canudos, na imensurável bibliografia que analisa sua
ampla temática, há uma unanimidade: o beato Antonio Vicente Mendes Maciel
sempre buscou a obscuridade, jamais foi visto em diálogo com qualquer
autoridade ou pessoa pública eminente; nunca protestou nem esboçou qualquer
defesa por ofensas, maltratos, agressões, calúnias ou injúrias à sua pessoa; suas
ações – invariavelmente – revestiam-se da mais nítida sobriedade. Mesmo seu
pensamento e ideais religiosos, só 77 anos após sua morte foram divulgados.
Quando preso e interrogado em Salvador, respondeu a uma única pergunta:
“Minha ocupação é apanhar pedras pelos caminhos para construir igrejas”.
Com este propósito de evitar contatos com autoridades e pessoas de destaque, e,
em vista de suas prédicas voltadas à defesa dos pobres e oprimidos, certamente
pretendia o Conselheiro evitar desinteligência com as classes dominantes.
Nesta nota, o historiador resume suas ignoradas ações no decênio de
1880: “Na década de 1880, cresceu o prestígio de Antonio Conselheiro e se
agravaram suas relações com os padres (Igreja), as autoridades policiais e os
proprietários rurais (Estado). O relacionamento Igreja Católica–Antonio
Conselheiro, no decorrer dos anos oitenta, antes da Abolição e da República, é
muito pouco conhecido. Sua história ainda não foi levantada. As cartas que
vimos, no Arquivo da Arquidiocese, sobretudo escritas entre os anos de 1882 e
1886, quando devidamente anotadas e divulgadas, vão contribuir de modo
significativo para a história do movimento liderado por Antonio Conselheiro nos
sertões da Bahia. As missivas dos sacerdotes são endereçadas ao Arcebispo ou ao
Vigário Capitular e contam os sucedidos em suas respectivas freguesias quando
por elas passava, sempre com numeroso séquito, o “Santo Conselheiro”.
"Sente-se, na maioria dos casos, a insegurança dos missivistas. O
Conselheiro era mais poderoso do que eles. O povo preferia ouvi-lo, nenhum
efeito produzindo as palavras dos sacerdotes, nem mesmo as ameaças de
excomunhão (...). Enquanto isto, o cônego Agripino Silva Borges, de
Itapicuru, e o vigário colado de91Inhambupe, Antonio Porfírio Ramos,
recebiam, cordialmente, o “Bom Jesus Conselheiro”, desobedecendo às ordens
do Arcebispo Primaz. D. Luís (...). Ao lado do epistolário eclesiástico, os
pronunciamentos oficiais do Primaz, condenando as atividades do Conselheiro e
exigindo do clero medidas enérgicas para fazer cessar os considerados maléficos
efeitos das desrespeitosas atitudes conselheiristas. Embora o clero se dividisse, o
Arcebispo era bem claro no seu pronunciamento condenatório do “inculcado
missionário”. (Destaquei). [José Calasans. «Canudos Não Euclidiano – Fase
anterior ao início da Guerra do Conselheiro»,inJerusa Gonçalves de Araújo
(Coord.). Canudos – Subsídios para sua reavaliação histórica.1986, pp. 6-7].
A IGREJA – I
“Estabelecendo a comparação entre o vigário e o peregrino,
a massa sertaneja verificavaque este levava a verdadeira vida de
enviado de Deus. As suas virtudes constituíammotivo de admiração”.
ABELARDO MONTENEGRO. [1973: 125].
Esclarecendo e evidenciando alguns acontecimentos, até aqui não
devidamente considerados e sua causalidade histórica, tomamos do texto de
Calasans a figura de Dom Luís Antonio dos Santos. Foi Dom Luís empossado
primeiro Bispo do Ceará em 29.09.1861 – onde permaneceu por mais de 20 anos
– assumindo a honorífica função de Arcebispo daBahia e Primaz do Brasil em
20.10.1881. No curso das décadas em que permaneceu em Fortaleza, o que era
inerente ao seu cargo, relacionou-se com todas as classes e as mais variadas
profissões, dentre elas e naturalmente a incipiente imprensa cearense, quando
travou conhecimento com o jornalista João Brígido dos Santos.
Em 1876, passados 15 anos de sua presença na cidade, suscitando
admiração e espanto à rarefeita população de Fortaleza, preso, algemado,
torturado, cabelos e barbas raspados e procedente de Salvador, desce do vapor
Pernambuco o “assassino” Antonio Vicente Mendes Maciel, que nos sertões
baianos levava as populações “ao ponto de um fanatismo perigoso”, como dizia o
ofício que o acompanhava, sendo acusado de matricida e uxoricida, episódio
amplamente divulgado pela imprensa baiana. Ao bem informado, escrupuloso,
severo e ortodoxo bispo do Ceará, tal episódio não poderia ficar desconhecido,
particularmente por se tratar de assunto relacionado com a Igreja. Assim, seria
óbvio que procurasse inteirar-se e outra não foi sua fonte de informação senão
João Brígido, já despontando como ícone da incipiente imprensa cearense, que à
92
atividade de publicista aliava o fato de haver estudado com o maltrapilho
“assassino”.
Ficou o rigoroso antístite cientificado – pelo que anos adiante seria
notícia de maior repercussão na imprensa – de que o “perigoso” prisioneiro
descendia da família Maciel que fizera “parte grande dos fastos criminaes do
Ceará (sic)”, envolvendo-se numa rixa de famílias “das lutas mais sangrentas”;
que dita progênie “soffria de affeção mental (sic)” e que o pai fora um homem
“retrahido, taciturno, mao e perigosamente desconfiado (sic)”; que “tinha
momentos terriveis de colera (sic); que “o filho é uma completa emanação do
pae, está nas mesmas condições pathologicas e podera ser estudado, como
specimen entre doentes mentaes. Dava bem para uma bonita pagina de
Lombroso. É um fanatico com quem a autoridade se deve haver com extrema
prudencia nas suas allucinações (sic)”, imagens e conceitos que João Brígido
sempre preservou de Antonio Vicente, e que seriam por ele divulgadas em 1889
através do jornal República, de Fortaleza. Dessa forma, com certa antecipação foi
elaborado o pavoroso libelo biográfico da família Maciel, do falecido Vicente
Mendes Maciel e do filho, “fanático”, “louco” e “alucinado” Antonio Vicente
Mendes Maciel, bem e suficientemente memorizado pelo bispo, de cujos
conceitos se utilizaria quando brevemente fosse investido Arcebispo Primaz da
Bahia, como mostraram as imediatas medidas que adotaria.
No precedente capítulo Maciéis e Araújos – A Verdade Histórica,
com provas documentais, revelei as fantasias de João Brígido contidas no artigo
ali considerado, reeditado no livro de sua autoria, Ceará (Homens e Factos) [Rio
de Janeiro: Typ. Besnard & Frères, 1919, pp. 264-273]. Agora, impelido pela
exatidão que a História exige e no intuito de estabelecer a verdade sobre a
indefesa figura de Antonio Conselheiro, evidencio alguns conceitos – como
outros anteriores – ideados pela pena de historiadores cearenses, quando, no
âmbito da historiografia avaliaram matérias de João Brígido, única voz que aqui
se ouviu conceituando a progenitura do beato missionário.
1. Barão de Studart, Notas para a História do Ceará, [Lisboa:
Typographia do Recreio, 1892, p. 220], “A proposito desse facto importante de
nossa historia João Brígido commete, como de costume, tres graves erros. (sic)”.
(Sublinhei). 2. Antonio Bezerra,Algumas Origens do Ceará [Fortaleza:
Typographia Minerva, 1918, p. 9], analisando o livro de Brígido, Ephemérides do
Ceará: “Encontram-se ainda nelas (matérias de João Brígido) factos não
confirmados com o critério que exige a crítica histórica, tomei a mim a pesada
tarefa de contestá-los à medida de minha capacidade, garantindo que só tive em
mente o amor à verdade e o interesse93que tomo pelas cousas da terra do meu
berço”. 3. Renato Braga, [RIC, 1944, p. 249]: “Daí porque, de seu agitado labor
de meio século, só permaneceram os gilvazes, as facécias, as mofinas com que
ferreteava e pungia os desafetos”. 4. Raimundo Girão, [RIC, 1948, p. 9]: “Foi
João Brígido, que não era tão bom historiador como foi excelente na crônica
histórica e no jornalismo, quem os desnorteou aceitando e transmitindo à
posteridade a lenda do povoamento originário do Cariri” (Destaquei). 5. José
Aurélio Câmara, [RIC, 1965, p. 321]: “Como historiador, apelava menos para os
documentos que para as opiniões próprias ou as tradições correntes, o que muito
comprometia seu depoimento”. 6. Antonio Gomes de Freitas, [RIC, 1966, p.
281]. “Porque, na verdade, há dois equívocos do renomado João Brígido, em
relação a fatos expressivos de nossa história”. 7. Guarino Alves de Oliveira,
[RIC, 1987, Tomo Especial, p. 448], tratando dos estudos históricos do Barão de
Studart, escreveu: “Levou toda sua existência nesse mister, corrigindo
absurdidades trazidas a lume por historiadores mais ou menos inconseqüentes, e,
sobretudo, mostrando, com documentos sob os olhos, os incontáveis enganos
cometidos pelo Cel. João Brígido dos Santos nessas esferas”. (Destaquei). 8.
Leonardo Mota, [Cabeças Chatas, Casa do Ceará em Brasília, 1993, p. 69]:
“Pode afirmar-se não existir, no Ceará, uma só família em que não se conte uma
vítima da agressividade jornalística do panfletário temível”. 9. José Alves de
Paula, [Monte Arraes, Vida e Obra, Rio de Janeiro: s/e., 1997, p. 25]: “Mesmo
nos artigos de combate político, nunca chegou à violência de João Brígido”. 10.
No Índice Anotado da Revista do Instituto do Ceará, [Edição Instituto do Ceará,
2a Edição, 2002, p. 35], José Honório Rodrigues, considerando matérias do
franco-cearense Pedro Thèberge e João Brígido, escreveu: “São modestos
pesquisadores, a colher pelo Interior, ainda vivas, as vozes da consciência
popular”. 11. Num prefácio apologético, abundante de encômios e
enaltecimentos, escreveu o preludiante: “Por tudo isso, não devemos procurar na
obra do jornalista político, do panfletário, o documento, o dado certo, o conceito
duradouro, a definição exata em relação a pessoas e facções”. (Destaquei).
[Jader de Carvalho,op. cit., p. 16]. 12. Enfim, eis a inconteste avaliação de uma
brilhante inteligência cearense e brasileira, membro da Academia Brasileira de
Letras, Gustavo Barroso, que de perto conheceu, conviveu e trabalhou com o
publicista: “Espírito afeito às lutas, João Brígido dispunha de absoluta falta
de escrúpulos no tocante aos seus ataques pessoais. É dele a máxima: em
quem não tem rabo de palha prega-se. Sua pena cruel nunca poupou a
ninguém senão enquanto lhe convinha. Espalhou em volta de si a falta de
respeito pelas cousas mais sérias. Foi um acanalhado de talento. Não o
respeitavam, temiam-no. Estudava94a genealogia das famílias em evidência
e, quando preciso, interpretava os fatos a seu talante e achava nos
documentos não o que neles em verdade se continha, porém o que desejava
que contivessem. Não perdoava as menores cousas a seus inimigos e
prevalecia-se sem a menor piedade de suas fraquezas. Revolvia as próprias
cinzas dos mortos e atirava-as à face de seus desafetos”. (Destaquei).
[InRaimundo Girã[Link] e a Crônica Histórica, 2a edição. Fortaleza: UFC,
1997, pp. 15-16]. 13. Pra não ir além, em data atual, o historiador Abelardo
Montenegro, tido como um dos maiores estudiosos cearenses do Conselheiro, no
subtítulo João Brígido e a História Cearense, escreveu: “No primeiro lustro de
1930, trabalhava o autor deste artigo no Escritório de Representações de seu
padrinho José de Oliveira Rolla, que explorava venda de caldo de cana nos
chamados brocoiós”.
“Freqüentava o Escritório Felino Barroso, a quem oferecia, sempre, a
gostosa garapa. Havia eu assistido a uma conferência de Leonardo Mota, no
Clube Iracema, sobre João Brígido. Comentando com Felino Barroso, disse-me
ele que havia comparecido ao enterro do inesquecível jornalista. E acrescentou
que de toda a massa humana que acompanhava o féretro apenas duas
criaturas haviam escapado da crítica brigidiana. Curioso, perguntei-lhe
quais eram e ele respondeu-me: “Os dois burros que puxavam o carro
mortuário”. (Destaquei). [In Maria Adelaide Flexa Daltro [Link]ão Brígido
e sua descendência. Fortaleza: Impressora do Ceará Ltda., 2005, p. 204].
São juízos e entendimentos de personalidades eminentes da
inteligência cearense e brasileira, confirmando a duvidosa atividade de João
Brígido no campo historiográfico. Assim, com tais procedências, as
considerações expendidas identificam o autor das matérias adiante consideradas.
Poucos meses após sua chegada à capital baiana, e em vista dos
conhecimentos que coligira no Ceará sobre o Conselheiro e sua gênese, o
arcebispo alia-se à sobressaltada classe fundiária, e no dia 16.02.1882 divulga
uma Circular aos párocos da arquidiocese assim finalizada: “Outrossim, se apezar
das advertencias de V. Revma., continuar o individuo em questão a praticar os
mesmos abusos, haja V. Revma. de immediatamente comunicar-nos afim de nos
entendermos com o Exmo. Sr. Dr. Chefe de policia, no sentido de tomar-se
contra o mesmo as providencias que se julgarem necessárias (sic)”.
(Destaquei). [Apud Benício, op. cit., p. 55].
Com clareza o arcebispo insinua a prisão do missionário e configura o
início das perseguições ao Conselheiro, que alarmava os poderosos afirmando
que “a terra não é de ninguém; a terra é de todos”. Considerando o expediente,
que evidentemente fazia o jogo das95elites sustidas no poderoso braço
político do Estado, hoje interroga e exclama o teólogo e historiador: “Pode-se
perguntar, em sã consciência, que direito o arcebispo da Bahia tem sobre um
cidadão que divulga suas idéias religiosas. Só um excêntrico e exacerbado
eclesiocentrismo pode explicar a atitude do arcebispo”. (Destaquei).
[Hoornaert, 1997, p. 44].
Contudo, prosseguiu Antonio Vicente suas peregrinações, havendo
notícias de que haja se passado às províncias de Sergipe e Alagoas, quiçá no
intuito de evitar qualquer ação drástica à sua pessoa e aos seus obstinados
acompanhantes. Nada, nenhum registro existia que comprometesse suas ações
missionárias expresso na mínima transgressão aos ditames da Igreja Romana,
como se comprovou mesmo após o massacre.
Antes da destruição da humilde tapera de barro de mão que lhe servia
de morada, foi efetuada pelos autores da carnificina minuciosa busca na presença
de pessoas letradas e sérias, dentre elas o ilustre acadêmico de medicina, João de
Sousa Pondé: “Submetido ao testemunho de muitos conselheiristas, este livro foi
reconhecido ser o mesmo que, em vida, acompanhava nos últimos dias a Antonio
Maciel, o “Conselheiro”. Bahia, março de 1898, João Pondé”. [Apud Ataliba
Nogueira, op. cit. p. 22]. (Refere-se Pondé ao caderno manuscrito das Prédicas,
datado de 12.01.1897).
Outro conjunto de cadernos manuscritos e bem costurados com 250
páginas, sob o título Apontamentos dos Preceitos da Divina Lei de Nosso Senhor
Jesus Cristo Para a Salvação dos Homens, datado de Belo Monte, 24.05.1895,
apenso aos Santos Evangelhos de Nosso Senhor Jesus Cristo, os Atos dos
Apóstolos e a Epístola de São Paulo Apóstolo aos Romanos igualmente copiados
à mão, em 1972 chegou às mãos de José Calasans, que o doou em 1983 ao Centro
de Estudos Baianos da UFBA. Em 1992, com apresentação de Walnice Nogueira
Galvão e Fernando da Rocha Pires, o mesmo Centro publicou o manuscrito sob o
título Breviário de Antonio Conselheiro. Entretanto, certo é que outros livros de
uso pessoal do missionário existiam, subtraídos por algum devoto ou destruídos
pelos agressores, ou quiçá pelo próprio missionário, pois as crônicas, dentre
outros, referem: Missão Abreviada – Pe. Manuel José Gonçalves Couto, 11a
edição, Porto, 1878, e Novas Horas Marianas ou Officio Menor da SS. Virgem
Maria, Nossa [Link]: Livreiros de Suas Majestades o Imperador do Brasil
e El-Rei de Portugal, 1856, publicações autorizadas pela Igreja com o exigido
imprimatur da autoridade eclesiástica competente.
Esses livros são amplamente discutidos e questionados em muitos
estudos que tratam das atividades missionárias do Conselheiro, e quase sempre
ditos como obras de infundir96“mistificação” e “fanatismo”. No caso,
ninguém melhor que um teólogo de notoriedade internacional para emitir
indiscutível juízo: “Pensamos que, nesse ponto, estudiosos como Nina Rodrigues,
Manuel Benício, Macedo Soares e Abelardo Montenegro têm exagerado o
impacto da literatura repressiva da Missão Abreviada sobre a vida em Canudos.
Era costume, entre os pregadores populares, anotar e decorar textos já traduzidos
do italiano pelos próprios capuchinhos. Ainda assim trabalhou até bem pouco
tempo atrás Frei Damião de Bozzano. É bem possível, pois, que o Conselheiro
tenha usado os referidos livros, como faziam aliás as pessoas em geral, como
livros de cânticos e ladainhas, não como leitura espiritual”. [Hoornaert, 1997, pp.
116-117].
Enfim, eis outra ironia histórica. Tanta era a valia que os padres e
frades missionários atribuíam à Missão Abreviada, que a ela recorreu em suas
prédicas em Canudos 4 anos após a morte do Conselheiro, ninguém menos que o
reitor do seminário de Fortaleza,como esclarece o cronista comentando a austera
rigidez apostólica daquele seminário: “Deste rigorismo, que tinha na Missão
Abreviada um dos seus sustentáculos, foram imagens vivas os padres da casa.
Um deles, o holandês Guilherme Waessen, primeiro provincial lazarista,
reitor e professor, além de missionário nos sertões nordestinos durante
quarenta anos. O Padre Waessen, que passou em Canudos quatro anos
depois de 97, nonagenário lúcido e venerando, inspirava-se para os seus
sermões na Missão Abreviada, livro que considerava ainda de salutares
efeitos para as almas dos crentes”. (Destaquei). [Nertan Macedo. Memorial de
Vilanova, op. cit., pp. 92-93].
Jamais desejou ou imaginou o sóbrio missionário, repiso, embora
procurando a obscuridade, que sua notoriedade atingisse o clímax que alcançou.
No mesmo ano da Circular do arcebispo – 1882 – dá uma demonstração de sua fé
cristã e submissão à Igreja, construindo uma capela em Mucambo, hoje Olindina,
e outra no Cumbe, atual Euclides da Cunha. Qualquer manifestação que afetasse
os princípios da igreja era por ele desestimulada: “Como que o povo via no
cearense de Quixeramobim a figura de Cristo. Antonio Conselheiro, aliás,
sentindo a impressão que causava, procurava desfazê-la, impedindo que os fiéis
se ajoelhassem diante dele quando lhe pediam a benção. “Deus é outra pessoa”,
costumava dizer, segundo Pedrão e Manuel Ciríaco informaram ao infortunado
repórter Luciano Carneiro. Preferia ser Conselheiro: “sou Maciel no nome e
Conselheiro no coração”, exclamava, às vezes, recolheu o romancista Paulo
Dantas, bom conhecedor da vida de Canudos”. [Calasans. Notícias de Antonio
[Link]: Centro de Estudos Baianos, 1969, p. 4].
97
O exemplar comportamento do asceta calou clérigos e arcebispado,
prosseguindo ele sua faina de defensor dos oprimidos, e, em 1885 construiu mais
uma capela em Chorrochó, em homenagem ao Senhor do Bonfim, padroeiro da
Bahia. Contudo, um insignificante desentendimento com o vigário de Inhambupe
serviu de pretexto para que o poderoso Barão de Jeremoabo – Cícero Dantas
Martins – que tinha uma de sua bases eleitoreiras em Itapicuru, determinasse ao
delegado de polícia daquela cidade, seu preposto, Luís Gonzaga de Macedo, que
oficiasse ao chefe de polícia em Salvador, sob a caluniosa acusação de que o
Conselheiro e seus seguidores iriam assassinar o dito vigário, injuriosa delação
que logo foi desacreditada. O longo expediente do faccioso delegado, datado de
10.11.1886,está integralmente transcrito por Manuel Benício, [op. cit. pp. 55-58].
Diz que o Conselheiro estava “no arraial do Bom Jesus” – p. 55 – “construindo
uma capela a expensas do povo” – p. 56, dando a certeza de que a igreja do Bom
Jesus foi efetivamente edificada no ano de 1886, cujo arraial se transformaria na
cidade de Crisópolis.
Em 1997, o jornalista e Editor Especial da revista VEJA, Roberto
Pompeu de Toledo, empreendeu uma viagem por todo o nordeste baiano,
pesquisando e estudando toda a área de Canudos com o objetivo de redigir a
excelente reportagem de capa – O Legado do Conselheiro – que ilustrou a edição
1511 de 03.09.1997, rememorativa do centenário do genocídio. Referindo
Crisópolis, escreveu: “Algumas de suas obras subsistem. A cidade que hoje leva
o nome de Crisópolis, fundada por ele próprio, na década de 1880, com o
nome de Bom Jesus, para ali acomodar alguns de seus seguidores, tem em sua
praça central uma igreja de sua lavra. A igreja que Euclides da Cunha considerou
“belíssima”, está pintada de novo e bem conservada. Do séquito do Conselheiro
faziam parte pelo menos dois mestres-de-obras, Manuel Faustino e Manuel
Feitosa. A igreja de Crisópolis obedece a um desenho de Manuel Faustino, sendo
dele também a talha do altar. Numa das paredes internas, pendura-se um
medalhão com a inscrição “Só Deus é grande”, dístico favorito do Conselheiro.
A praça que se estende à frente da igreja, remodelada recentemente, chama-se
“Antonio Conselheiro”. A cotação de Maciel nunca andou tão alta, no sertão e
fora dele”. (Destaquei). [Op. cit., p. 66].
Neste e noutros textos, há uma curiosa e importante informação até
hoje não devidamente considerada, mas que esclarece acerca das intenções do
missionário: pretendia ele instalar e acomodar seus devotos, como também
insistia a que retornassem às suas casas. Um dos mais cuidadosos pesquisadores,
tratando do acontecimento de Bom Jesus – Crisópolis – escreveu: “Eles (devotos)
98
começaram a plantar, criar cabras e galinhas, cavaram uma cisterna e levantaram
uma igreja”. (O parêntese é meu). [Levine, op. cit., p. 195].
Confirmando esta aspiração, logo após o incidente de Masseté –
26.05.1893 – duas pessoas que diretamente travaram conversação com o
Conselheiro – Durval Vieira de Aguiar, que o abominava, e Maximiano José
Ribeiro – escreveram e tiveram suas cartas publicadas pelo Jornal de Notícias,
Salvador, edições de 13 e 16 de junho de 1893, ambas intercedendo e defendendo
o missionário. Acerca do último missivista – Maximiano – que estivera com ele
em Bom Jesus, Crisópolis, adianta o historiador: “Na opinião do segundo
missivista, o Conselheiro era um homem honrado e aconselhava seus
acompanhantes a retornarem aos próprios lares. O povo, todavia,
recalcitrava em obedecê-lo”. (Destaquei). [José Calasans. «Canudos Não
Euclidiano – Fase anterior ao início da Guerra do Conselheiro», inCanudos,
Subsídios para sua reavaliação histórica, 1986, op. cit. p. 9].
Da manifesta intenção se conclui: 1. O missionário reconhecia a
inconveniência de ser acompanhado por grande préstito de admiradores. 2. Dessa
forma, na companhia de um número reduzido, esperava melhor exercer seu
apostolado itinerante, enquanto aplacava arestas com a cúpula eclesiástica,
política e os potentados rurais. 3. Doutro lado, é correto também concluir-se que
tal idéia ia frontalmente de encontro a seus propósitos, feria seu espírito caritativo
levando-o a profundas reflexões, pois aqueles miseráveis que relutavam em
abandoná-lo, na verdade eram famintos físicos e espirituais, mas que também
buscavam libertar-se da dependência dos prepotentes, da submissão ao patrão ou
capataz, enquanto outros fugiam das injustas perseguições políticas e policiais.
Assim, nada obstaria a determinação dos infelizes que nele reconheciam a
paternal figura do Meu Pai Conselheiro, como mais tarde diria ao Comitê
Patriótico baiano uma sobrevivente da gravata vermelha, quando ouvia suas
prédicas: “Parece inté que a gente tava em riba das nuve (voando pro céu)”.
Palavras da sobrevivente dona Evangelina. Manuel Funchal Garcia, [Do Litoral
ao Sertã[Link] de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1965, p. 172].
As autoridades de Salvador, em vista da gritante parcialidade,
alarmantes inverdades e conflitantes incongruências que insinuavam o longo
expediente do delegado de Itapicuru, onde transpareciam os interesses fundiários
e políticos do Barão de Jeremoabo, não adotaram qualquer providência. No
entanto, poucos meses depois e diante da improcedência do tendencioso ofício, o
insatisfeito Barão colheu alguns falsos expedientes de vigários que seguiam sua
orientação política, condicionando motivos para avocar os valiosos préstimos do
Primaz Dom Luís. No dia 11.06.188799enviou o arcebispo ao Presidente da
Província o seguinte ofício: “N. 1. Cópia. Palacio Archiepiscopal da Bahia, 11
de junhode 1887. Ilm. e Exm. Sr. Chegando ao meu conhecimento, pela
representação de alguns Rvdos. Parochos desta Archidiocese, que o individuo de
nome Antonio Vicente Mendes Maciel, conhecido nas populações pelo nome de
Antonio Conselheiro, tem pregado doutrinas subversivas, fazendo um grande
mal à religião e ao estado, distrahindo o povo de suas occupações e arrastando-o
após si, procurando convencerde que é o Espírito Santo, insurgindo-se
contra as autoridades constituidas, as quaes não obedece e manda
desobedecer, apresso-me em dar de tudo isto sciencia a S. Exa. para que se digne
providenciar da fórma que melhor entender. Reitero a V. Exa. os meus protestos
de alta estima e consideração. III. e Exm. Sr. Conselheiro João Capistrano
Bandeira de Mello, M. D. presidente da província. (Assignado) – Luiz, arcebispo
da Bahia”. (Destaquei). [Apud Benício, op. cit., pp. 48-49].
Ciente de que os atos do Conselheiro não requeriam repressão
policial, como ficou provado pelo indeferimento do ofício do delegado, mas, no
intuito de atender ao alto dignitário eclesiástico e por sugerir o ofício a prática de
monomania religiosa, o presidente provincial tomou o caminho desta última
sugestão e por ofício dirige-se ao Barão de Mamoré, Ministro de Estado dos
Negócios do Império: “N. 3. – Cópia – Palacio da Presidencia da Provincia da
Bahia, em 15 de junho de 1887. 1a. Secção N. 119. – Ilmo. e Exmo. Sr. –
Conforme V. Ex. se dignará de ver no officio junto, por cópia, do Rvmo. Sr
Arcebispo desta Diocese, o individuo de nome Antonio Vicente Mendes Maciel,
conhecido vulgarmente pelo nome de Antonio Conselheiro, está, há algum
tempo, sob dominio de monomania religiosa, que o impele a pregar doutrinas
subversivas entre as populações que percorre, fazendo com isto grande mal à
religião e ao estado, a ponto de distrahir a muitos de suas occupações,
arrastando-os após si e pregando-lhes a desobediencia às autoridades
constituidas, o que é uma constante ameaça à ordem e a tranquilidade publica,
nos sertões desta provincia, infelizmente ainda muito incultos. Nesta emergencia,
já depois de terem sido esgotados pelo Rvm. Sr. Arcebispo todos os meios da
predica contra as idéas subversivas daquelle individuo, venho rogar a V. Exa. que
se digne obter do Exm. Sr Provedor da Santa Casa de Misericordia dessa Côrte a
admissão do infeliz monomaniaco no Hospicio de Alienados, concorrendo
assim V. Exa. para que cesse o estado de perturbação moral e material em que se
acha grande parte do povo do interior desta Provincia. Instando na minha
rogativa, espero que V. Ex., attendendo ao que lhe foi exposto, dignar-se-ha
satisfazel-a com a brevidade que o caso urge. Deus guarde a V. Ex. – Illmo. e
Exm. Sr. Conselheiro Barão de100Mamoré, ministro e secretario de
Estado dos Negocios do Imperio. – João Capistrano Bandeira de Mello (sic)”.
(Destaquei). [Apud Benício, op. cit., pp. 52-53]. Em data de 06.07.1887, pelo
ofício n. 2.808, o Ministro Barão de Mamoré diz não existir vaga no Hospício
Pedro II.
A IMPRENSA
“Com sua mordacidade habitual, Paulo Francis me disse um dia que,
em matéria de exatidão da imprensa, nemao menos na data
dos jornaisse podeacreditar, sendo útil e oportuno confirmá-la
sempre com o calendáriomais próximo”.
ÊNIO SILVEIRA, Ética e Jornalismo,
Jornalismo de Investigação, 1993.
1889-1893 – Embora pareça uma desimportante ponderação, não deve
ser considerada um desmerecimento à inteligência da classe letrada coetânea, mas
objetiva admoestar os leitores nela não situados, a quem também pretende
alcançar esta simples pesquisa. É primário o conhecimento de que os meios de
comunicação, em todos os tempos, sempre tiveram o extraordinário poder de
transformar um grão de areia numa galáxia. Se nos países ditos civilizados e
cultos do primeiro mundosão conceituados como o Quarto Poder – para muitos o
Primeiro – nos de cultura retardada é de se avaliar a excepcional importância que
a informação desempenha junto à opinião pública. É de tal dimensão, que chega a
pasmar e alarmar àqueles que detêm competência para ver, analisar e mensurar
os incríveis efeitos que a notícia exerce sobre a psique dos crédulos ignaros.
De momento, regridamos ao século XIX e nos situemos num Brasil
predominantemente analfabeto, cujas únicas fontes de informação – hoje ciência
acadêmica – eram a oral e a imprensa escrita, o jornal, que chegava à minoritária
elite letrada que detinha o poder político e econômico que comandam e instruem
os destinos da sociedade. Até os presentes dias, é corriqueiro ouvir-se dos mais
simples estas expressões: deu no jornal, ouvi no rádio, passou na televisão, e, a
tais informações emprestam foros de indiscutível credibilidade. No século XIX,
insisto, a grande massa recebia a notícia de fonte oral da elite econômica
dominante, que por seu lado era instruída pelos jornais, origem única da
inquestionável informação.
Durante os anos de 1888 e 1889 o País assistia a tumultuada cena
política do agonizante Império,101vivendo as campanhas abolicionistas e
a derrocada da Monarquia, com o advento repentino duma mal planejada
República que levaria a Nação aos rudimentares alicerces de um Estado agro-
burguês e pré-industrial. As grandes instituições – Igreja, Estado, Imprensa –
envolvidas diretamente no contexto dos surpreendentes, ponderosos e inusitados
acontecimentos que revolviam a frágil estrutura política da vida nacional, não
incomodaram o missionário no restante de 1887 e no curso de 1888 e 1889. Para
tanto, muito contribuiu sua aversão ao novo regime, compartilhada com a igreja:
“A presença de Antonio Mendes Maciel era muito incômoda – menos do que sua
teologia, é claro – mas como sempre fora avesso à idéia de República, pregando
freqüentemente contra esta, a Igreja acabava fechando os olhos para ele,
conquanto o fizesse de má vontade”. [Levine, op. cit., p. 62].
Para esse período de esquecimento e tranqüilidade, contribuiu a infeliz
enfermidade do Arcebispo Primaz Dom Luís, que veio tratar-se em Fortaleza:
“Pouco tempo depois, foi acometido de paralisia, indo tratar-se no Ceará, onde
acabou ficando quase dois anos antes de retornar à Bahia. Nesse meio tempo,
monsenhor Manuel dos Santos Pereira, seu assistente, cuidou dos assuntos
administrativos cotidianos. O outro assistente de Dom Luís, um padre italiano
recém-chegado, não sabia praticamente nada sobre o Brasil, e assim monsenhor
Santos Pereira conduziu a arquidiocese livremente até 1890, quando Dom Luís
morreu”. [Levine, op. cit., p. 63].
1889 – Já militante político e há muito destacado jornalista, na figura
do Conselheiro encontrou João Brígido o tema para um furo sensacionalista.
Coincidentemente, no ano que precedeu o passamento do Primaz Dom Luís, que
se achava doente em Fortaleza – 1889 – sob o sugestivo título «Crimes Célebres
do Ceará – Araújos e Maciéis», no jornal República, de Fortaleza,
insistentemente referido neste [Link] partidário do sensacionalismo,
sugestão que despertava a inerte burguesia letrada que tinha sob os pés a Igreja e
o Estado, disserta e maximiza o jornalista o enganoso incidente, tingindo de
colorido sanguinoso uma querela particularizada – como até hoje muitas ocorrem
– numa fantasiosa, cruel e rumorosa luta de famílias. Mesmo enfermo em
Fortaleza, do completo conhecimento de D. Luís foi todo o teor da matéria, como
certamente ficou a informação compondo os anais da Arquidiocese da Bahia, eis
que além de envolver a pessoa do seu conhecido monomaníaco aditava sérias e
graves notícias sobre sua gênese, embora já fosse delas ciente o antístite desde a
prisão do missionário em 1876. Tal matéria, em parte foi transcrita e comentada
neste estudo, no precedente capítulo.
1893 – Até o ataque de Masseté – 26.05.1893 – que deve ser
considerado como o marco inicial da102urdidura cruenta, quando o governo
baiano enviou no encalço do missionário uma força policial composta de 30
soldados sob o comando do Ten. Virgílio de Almeida, a imprensa baiana ansiava
por esclarecedora notícia sobre a pessoa de Antonio Conselheiro: “Até 1893, ano
do choque de Masseté, falava-se de Antonio Conselheiro, o peregrino que
impressionava vivamente os sertanejos. Como vimos até aqui, além da
“lenda arrepiadora”, pouco se conhecia a respeito de Antonio Vicente
Mendes Maciel. As informações a seu respeito foram divulgadas por um
cronista do Ceará, que fora condiscípulo de Antonio Vicente, na vila de
Santo Antonio de Quixeramobim, sertão cearense. O informante precioso foi
João Brígido dos Santos (1829-1921), jornalista, advogado e político”.
(Destaquei). [Calasans. «Canudos Não Euclidiano – Fase anterior ao início da
Guerra do Conselheiro»,in Canudos – Subsídios para sua reavaliação histórica,
op. cit., p. 13].
A anelada informação não tardou, e no dia 28 de junho 1893, um mês
após a agressão de Masseté, nas páginas do jornal República, de Fortaleza, João
Brígido publicou a anelada matéria. Mas, é no seu avultado livro – 528 pp. –
Ceará(Homens e Factos), op. cit., onde condensa os artigos na PARTE XII, sob o
título Lutas de Famílias, e nos subtítulos I a IV, pp. 264-284, que sobrepuja os
demais, versou unicamente episódios envolvendo as progênies Maciel e Araújo,
e, no que especificamente trata a figura do beato – pp. 273-275 – discorreu:
“IV”
"Muitos anos depois, escrevemos ainda sobre a família Maciel,
occupando-nos principalmente do chefe da heroica resistencia de Canudos –
Antonio Vicente Mendes Maciel – conhecido na historia por Antonio
Conselheiro. No jornal Republica,28 de junho de 1893, externamos os seguintes
conceitos, que Antonio Vicente assellou com sua conducta, combatendo até
sucumbir:"
"ANTONIO CONSELHEIRO".
"A imprensa da Bahia tem-se occupado largamente dum personagem
deste nome, que nos sertões daquelle Estado, faz o papel de fakir, arrastando após
si a população rude, a quem doutrina um cristianismo abstruso e à feição do
vulgo, quasi fetichista, dos nossos sertões, o qual tem de Deus o sentimento
mais torpe (sic)”.
“Antonio Conselheiro é do Ceará. Não se chama Antonio Vicente da
Cunha Maciel, como disse um jornal dali; mas Antonio Vicente Mendes Maciel.
Seu pae, Vicente Mendes Maciel, era há meio século, negociante em
Quixeramobim, onde nasceu o propheta que amotina aquella região, pondo
103
em fermentação as consciências em que tóca, por isso que é má a qualidade
dellas e poderosa a sua força suggestiva (sic)”.
“Conselheiro é maior de 60 annos, de familia que soffria de affeção
mental propria para produzir os phenomenos que se observam nelle. Seu
pae, um dos antigos Maciéis, cuja coragem tornou lendário esse nome
declinado na historia criminal do Ceará, era um homem bonito, a tez
ligeiramente morena, vigoroso e inteligente, mas retrahido, taciturno, máo e
perigosamente desconfiado, bem que muito cortez, obsequioso e honrado. Tinha
momentos terriveis de colera, principalmente si tocava em álcool. Era duma
valentia indomita e meio surdo. Seus avós haviam sido vaqueiros (sic)”.
“Em um dos momentos, deu tantas facadas na mulher, que esteve
sacramentada (sic)”.
“Abandonando o uso de bebidas, relacionou-se com ella, commerciou
e chegou a fazer uma fortuna soffrivel, edificando algumas boas casas na praça,
que chamam em Quixeramobim – Cotovelo (sic)”.
“Nos últimos tempos, desmandou-se e parece ter morrido arruinado.
Era victima de uma demencia intermittente. Voltava sempre. Não sabia ler, mas
contava admiravelmente de oitiva (sic)”.
“Quando se dirigia ao Aracaty para fazer suas compras, fixava
previamente a somma dellas, e assim que, apartando fazendas, attingia a sua
méta, dizia aos caixeiros: basta. Sem discrepar num real, havia apartado a somma
que fixara (sic)”.
“O filho é uma completa emanação do pae, está nas mesmas
condições pathologicas e podéra ser estudado, como specimen entre doentes
mentaes. Dava bem para uma bonita pagina de Lombroso (sic)”.
“Antonio Vicente, assim conhecido em Quixeramobim, quando
menino teve certa cultura e começou estudos de latim. Depois de se ter feito
célebre nos sertões da Bahia, amotinando os espiritos, no seu papel de
santão, de pregador umas vezes, outras de ermitão recolhendo-se à vida
contemplativa, veio preso para o Ceará e esteve nesta Capital. Dirigindo-se
para Pentecostes, Canindé e alhures, isto há cerca de dez annos, não mais
appareceu nesta capital (sic)”. Neste trecho o jornalista conflita e contradiz
datas. A presente notícia é de 1893, enquanto a prisão do beato ocorreu em 1876.
Se tivesse ocorrido “há cerca de dez annos”, como afirma, teria acontecido em
1883, o que não procede.
“Na sua fé de estar no desempenho de uma missão divina, é um
fanatico com quem a autoridade se deve haver com extrema prudencia, nas
suas allucinações (sic)”. 104
“São boas suas intenções, vesgas somente as noções que tem das
verdades eternas. É um doente, como todo mundo, salvo o exaggero. Traz
affetada uma bossa das mais delicadas, cujo funcionamento regular mais importa
na vida (sic)”.
“Todo espírito caxinga ou tem as suas manqueiras, os mais felizes são
os que tropeçam para o lado, onde há menos espinhos (sic). (Foi mantida a grafia
original e destaquei). [João Brígido dos Santos. Ceará – (Homens e Factos),Rio
de Janeiro: Typ. Besnard & Frères, 1919, pp. 273-275].Confirmando:a matéria e
data da publicação(28.06.1893), acrescida de correspondência recebida de A. A.
de Oliveira Castro, de Quixeramobim, João Brígido escreveu longa carta ao
Jornal do Brasil, Rio de Janeiro,22.02.1897, integralmente transcrita por Walnice
Nogueira Galvão. [op. cit., pp. 89-92].
O objetivo da informação fora alcançado: impor violência e
psicopatia à ancestralidade do beato e a ele próprio, estigma
que,incrivelmente, até hoje persiste na historiografia. Não alongando o tema, a
continuada insinuação de insanidade psíquica do missionário, chegou a irritar
estudioso do porte de E. Hoornaert: “Ainda em1963, o escritor Waldemar
Valente, do Instituto Joaquim Nabuco de Estudos Sociais, em Recife, consegue a
façanha de, numa só página, acumular os seguintes epítetos acerca de Antonio
Conselheiro: psicose, neurose, personalidade mórbida, delírio, carisma junto
à “turba fanatizada”, “mania”. (Destaquei). [Hoornaert, 1997, op. cit., p. 86].
Embora que na isenta análise histórica e cientificamente há muito
desacreditados estejam tais conceitos, causa estranheza que em época recente –
1995 – quase uma centúria após o genocídio, o psiquiatra cearense Valton de
Miranda Leitão, no capítulo «O Mito do Conselheiro», haja escrito: “O menino
de Quixeramobim, descendente de uma família envolvida em constante luta, onde
o assassinato tornara-se trivial, órfão aos seis anos, tem a vida precocemente
marcada pela frustração”. (Destaquei).[Canudos – As falas e os olhares, [Link].,
p. 60].
Antecedendo Miranda Leitão, outro estudioso cearense assim releva e
salienta a balela: “Sua família, os Maciéis, tinha sido quase totalmente
exterminada, resultado de um longo período de luta com os poderosos
Araújos, clã de grande poder econômico e político em todo o sertão central do
Ceará”. (Destaquei). [João Arruda. Canudos – Messianismo e Conflito Social,
[Link]., p. 52].
No ano do centenário da hecatombe – 1997 – a jornalista Eleuda de
Carvalho, editora do caderno vida &arte do jornal O Povo, diário de maior
circulação no Ceará, depois de uma105longa viagem a Canudos, teve como
primeira parada a cidade de Quixeramobim onde entrevistou pessoas modestas da
progênie Maciel. Numa página inteira, sob o título A Peleja dos Araújo contra os
Maciel (sic), dissertou: “Uma guerra no sertão (e não era ainda a de Canudos):
entre muitas outras pelejas perdidas nas sesmarias hostis do agreste (sic), houve,
no início do século passado, uma disputa entre as famílias Maciel, também
conhecida por Carlos, e Araújo-Veras (sic)”. (Destaquei). O Povo, 05.10.1997,
p. 2-G]. Curiosamente, um século depois não se deparou a jornalista com nenhum
“alienado” ou “fanático” da progenitura do peregrino.
Definitivamente – ad infinitum – a falsa e pérfida mácula de
homicidas atávicos persiste indelevelmente imposta à progenitura Maciel, e por
extensão a Antonio Vicente Mendes Maciel. Assusta e pasma, repiso, saber-se
dos incontáveis estudos que consideram o medonho genocídio, e, em nenhum
deles, nem um só autor foi às fontes, indagou das origens de tão importantes
informações de que se valeu Brígido para veicular tais versões acerca da
linhagem Maciel e por extensão a Antonio Conselheiro, embora ele as mencione,
como faz à p. 265 do seu livro.
Como um dos objetivos deste estudo é resgatar – documentalmente –
esta secular e imperdoável omissão, e que se consumou pela simples transcrição
da matéria – Memórias do Prof. Manuel Ximenes Aragão – antes amplamente
utilizadas pelo cronista João Brígido, Manuel Benício, Euclides da Cunha e Nina
Rodrigues, mas que – estranhamente – só teriam publicidade na RIC de 1913, pp.
47-157. Se nos dias presentes persistem tais conceitos, não fica difícil deduzir o
que concluíram as autoridades, a elite civilizada do litoral dos “dois brasis”, o
clero, o Estado e a classe latifundiária que, irmanadas, unicamente ansiavam pelo
extermínio do “fanático” Antonio Conselheiro e seu séquito de desvalidos!
A REPÚLICA E O CONSELHEIRO
“A República acabou trazendo ainda mais insegurança para
o Nordeste, provocando novas alianças, que em nível local
sempre acabavam em novas intimidações e violências ”.
ROBERTLEVINE, O Sertão Prometido, 1995, p. 247.
A coerência do Conselheiro em suas inflexíveis e inabaláveis
convicções precede a sua vida missionária, e, mesmo sua manifesta predileção
pela monarquia não impediu sua intransigente defesa dos desvalidos, pois, nos
sucessos da Questão Religiosa em 1870, quando o Império pretendeu
reduzir o poder eclesiástico dos 106 bispos, posicionou-se contrário a
pretensão. Nos anos de 1874-1875, no curso do movimento conhecido por
Quebra-Quilos, quando a monarquia tentou instituir pesos e medidas-padrão para
facilitar o sistema de cobrança de impostos e evitar supostas sonegações, atitude
que provocou protestos no interior das províncias de Pernambuco, Rio Grande do
Norte, Paraíba e Alagoas, colocou-se ao lado dos descontentes que viam na
medida uma forma de aumentar a arrecadação tributária, ou seja, contra a
Monarquia e ao lado dos espoliados. Com a promulgação da Constituição de
1891 os municípios ganharam autonomia para legislar sobre tributos, e, como não
poderia ser diferente, os efeitos negativos recaíam sobre a camada mais pobre.
Pelo meado de maio de 1893 achava-se o Conselheiro numa feira na
localidade de Bom Conselho. Profundo conhecedor da politicagem que
predominava no sertão, onde os próprios agentes municipais isentavam a
aristocracia rural de qualquer tributação, testemunhando a injustiça que se
praticava contra os feirantes que ali negociavam sua produção familiar, rebelou-
se e incitou seus devotos – que foram seguidos por populares – a queimarem as
tabuletas onde estavam afixados os editais que estabeleciam os encargos, nada
além de um incidente numa feira de uma insignificante cidade do interior: “O
protesto de 1893 em Bom Conselho, no qual o Conselheiro teria supostamente
capitaneado a queima dos editais de cobrança na praça da cidade, foi considerado
um ponto crucial por representar uma quebra na ordem republicana”. [Levine, op.
cit., p. 212].
Sobremodo é de se considerar, que, mesmo antes de 1893 incontáveis
atos de rebelião sacudiram o estado da Bahia: “Em inícios da década de 1890
houve inúmeras pilhagens de lojas, assaltos a trens e terríveis espancamentos de
inimigos políticos praticados por criminosos contratados. Facções rivais se
digladiavam na Câmara, na imprensa e por todo o Estado. A República acabou
trazendo mais insegurança para o Nordeste, provocando novas alianças, que em
nível local sempre acabavam em novas intimidações e violências. O clima de
ansiedade nacional foi se tornando pior com o passar do tempo, mergulhando o
sertão na instabilidade”. [Levine, op. cit., p.247].
Tratando da cobrança de impostos, o descontentamento generalizou-
se: “Em Bom Conselho, Soure e Amparo, as tabuletas da municipalidade
com os impostos e as despesas orçamentárias são despedaçadas na hora da
feira, num impulso que se generaliza por todos os sertões”. (Destaquei).
[Hoornaert, 1997, op. cit., pp.67-68]. Portanto, a atitude do Conselheiro, longe
ficou de configurar um caso isolado e, sobretudo, uma “quebra na ordem
republicana”.
107
Embora cientes e conhecedoras de tantas e mais graves transgressões,
visaram as autoridades unicamente apenar e brutalmente reprimir o Conselheiro e
seus acompanhantes: “As autoridades locais, entre as quais se via Arlindo Leone,
Juiz de Direito, mais tarde removido para Juazeiro, não tiveram forças para
reprimir esta forma de protesto, que consideravam sediciosa, e Antonio
Conselheiro, sem constrangimento, pode sair de Bom Conselho para Monte
Santo. Por ordem de Rodrigues Lima,Presidente do Estado, um contingente
policial, comandado pelo tenente Virgílio de Almeida, foi enviado para capturar
Antonio Conselheiro e dissolver o seu bando, nesta época calculado em duzentos
homens. Em Masseté, entre Cumbe e Tucano, trinta e cinco soldados atacaram-
no, certos de que iriam prendê-lo ou matá-lo. Eram soldados bem treinados e
armados. Mas o imprevisto aconteceu. O contingente policial foi rapidamente
derrotado. Os soldados, diante da resistência inesperada e corajosa dos sertanejos,
puseram-se todos em fuga, inclusive o comandante". [Edmundo [Link]:
A Guerra Social, 2a ediçã[Link] de Janeiro: Elo Editora e Distribuidora Ltda.,
1987, pp. 39-40]. Esclareço, no intuito de situar cronologicamente os fatos, que
esse assalto de Masseté ocorreu no dia 26.05.1893.
Ficou registrada a primeira repressão que as forças do Estado
moveram ao missionário, não configurando a queima dos editais, obviamente, o
contexto ideológico de sua revolta ao sistema republicano, insatisfação que se
expressa por outros motivos: a maneira abrupta como a Igreja foi separada do
Estado, união que perdurava há quase quatro séculos e arraigada à psique de
incontáveis gerações; unida ao Estado, a figura do Imperador era tão ou mais
importante do que a do próprio Papa; a transformação do batistério – até então o
único documento de identificação – em certidão de nascimento; a legalização do
casamento civil; a instituição do atestado de óbito e a extinção das côngruas, para
não ir além, foram bruscas transformações que abalaram seculares costumes,
especialmente a percepção e os conceitos religiosos do católico Antonio
Conselheiro e da própria Igreja.
Assim, foram estas as principais mudanças que desagradaram também
ao clero e a quase totalidade do povo, e sobre as quais o missionário assentou sua
insatisfação. Apresentando a obra de Levine, escreveu Nélida Piñon, da
Academia Brasileira de Letras: “Na visão do historiador, o conflito de Canudos
tem como origem imediata a República recém-implantada sem a participação
popular. O novo sistema político, além de privar o povo da presença do
Imperador, impunha-lhe um vocabulário social permeado de uma modernidade
que ameaçava desestabilizar a realidade conhecida e agravar ainda mais a
situação de penúria há muito 108estabelecida no país”. [O Sertão
Prometido,op. cit., p. 12]. Na verdade, a República foi imposta por um Golpe de
Estado.
À página seguinte, fazendo uma analogia dos chamados “dois brasis”,
constituídos do “litoral civilizado” e do sertanejo com sua “civilização em rama”,
discorreu a talentosa apresentadora: “Para estes brasileiros modernos, ciosos
da condição urbana, despreocupados com um país que mal compreendiam, a
religião, tão genuína no homem do Nordeste, representava o cumprimento
de mera formalidade social. Instalados nas influentes lojas maçônicas e nos
salões elegantes, debatem ali o humanismo secular e a modernidade”.
(Destaquei). [Ibid., p. 13].
Em 1899, dois anos após o genocídio e dez da instalação da
República, é publicado o segundo livro considerando Canudos. O primeiro – Os
Jagunços – romance de autoria do eminente Afonso Arinos, publicado em livro
no ano anterior – 1898 – resultado do compêndio de artigos por ele escritos para
o jornal O Comércio de São Paulo, de que era editor, sob o título Novelas
Sertanejas. O autor do segundo romance foi Manuel Benício Fontenele, major
honorário do exército e correspondente do Jornal do Commercio, Rio de Janeiro,
no curso da 4a expedição.
Fundamentado em João Brígido, como está registrado em letras
precedentes, Manuel Benício narra o ilusório regresso do Conselheiro ao sertão
baiano – 1887 – que hipoteticamente partindo de Fortaleza teria passado por
Canindé, Quixadá, Riachuelo, Icó, Missão Velha, Milagres e Cariris Velhos,
entrando na província da Paraíba “rodeado de todo seu prestígio e numeroso
bando” [op. cit., p. 70].O que é uma imaginosa balela, uma vez que se tal
viagem houvesse ocorrido, os admiradores do beato haviam ficado no
distante sertão baiano. Aliás, Calasans vai adiante escrevendo: “Manuel Benício
e Euclides da Cunha, entre outros comentadores da Campanha de Canudos,
conheceram e citaram as crônicas de João Brígido dos Santos”. [«Canudos Não
Euclidiano – Fase anterior ao início da Guerra do Conselheiro»,in Canudos,
Subsídios para sua reavaliação histórica, 1986, p. 14], e sobre a fantasiosa vinda
do Conselheiro ao Ceará no ano de 1887, em nota de pé de página enfatiza:
“Possivelmente engano. Pelo que sabemos, Antonio Conselheiro não voltou ao
Ceará depois de 1876”. [Ibid.].
O que existe de valia no livro de Benício é a transcrição de alguns
documentos oficiais. Doutra parte, com sua inegável autoridade de homem
letrado e nascido no Nordeste (em Pernambuco), contemporâneo dos
acontecimentos, portanto, conhecedor da gente e costumes de então, é de
109
importância que, sob sua óptica sejam conhecidas as reações do Povo, da Igreja e
do Conselheiro diante do novo regime republicano.
“Quem conhece o espirito conservador dos camponezes e a
prevenção que têm por toda a reforma – em que descobrem um plano para
augmento e creação de impostos novos – conclue com verdade que o novo
regimen foi mal aceito pela maioria e com desconfiança pela minoria”.
“O clero, porém, maximé os parochos sertanejos, recebeo o novo
regime a ponta de faca”.
“Maciel foi então bem acolhido pelos seus mais fervorosos
inimigos de outrora, que o estumavam a alevantar o grito missionário contra
os principios da Republica heretica (sic)”.
“Não é ex-abrupto que se modificam habitos, religiões e leis em
que um povo em sua maioria está sendo educado (sic)”.
“O que então o Conselheiro fez, faziam e fazem ainda hoje os
sacerdotes dentro das cathedraes das principais cidades do Brasil: -
profligam a Republica – e não se enviaram deligencias nem expedições para
arrolhal-os ou degolal-os e aos seus ouvintes (sic)”.
“Com o apoio do clero, Maciel conseguiu maior porção de fama
do que nunca” (sic). A grafia foi mantida e destaquei. [Op. cit., pp. 156-158].
O Conselheiro, que sempre manteve distância da politicagem,
antirepublicano por convicção e não por conveniências ou interesses, na condição
de autodidata, ex-militante dos foros onde lidara com processos, códigos e
demais estatutos legais, tinha pleno conhecimento de que o direito que competia
aos republicanos de defenderem suas idéias políticas, era correspondente aos
monarquistas. Dois anos após o trucidamento, um ardoroso republicano e uma
das maiores inteligências da Bahia na época, escreveu: “Antonio Conselheiro
porém confessava-se monarchista. Era seu direito, direito sagrado, que ninguém
podia contestar em um regimen republicano democrático. Não há acto algum
por sua parte ou dos seus que fizesse ao menos presumir que elle tentasse
contra o governo da Republica”. (sic). César Zama (Wolsey). [Libelo
Republicano Acompanhado de Comentários Sobre a Guerra de Canudos. Typ. e
Encadernação do Diário da Bahia, 1899, p. 24].
Os exaltados e radicais adeptos da República, na ânsia de
consolidarem o regime difundiram a alarmante idéia do anti-reformismo,
descrevendo como subversivos, insurgentes e antipatriotas aqueles em quem
viam supostos traços anti-republicanos, considerados mesmo como criminosos de
lesa-pátria. Foi deflagrada grande campanha pela imprensa numa autêntica caça
110
às bruxas, não sendo admitida a mais insignificante demonstração anti-
republicana. Houve depredações de jornais monarquistas e até assassinatos.
Reconhecendo a consolidação do regime e precavendo-se, a Igreja
institucional resolveu voltar atrás e afastar-se do Conselheiro: “A intervenção da
policia para garantir as reformas republicanas esfriou o clero, que abandonou
Conselheiro à sorte. O campeão religioso e libertador do povo que a Republica
tentava escravizar de novo, viu-se novamente cercado unicamente de seus
adeptos. Os parochos foram accusados, todavia, de terem estimulado Maciel
para pregar contra a Republica. Havia verdade na denuncia e esta verdade
compromettia-os (sic)”.
“O modo de fazer esquecer esta cumplicidade era voltar ao velho
sistema: “Accusar Maciel como subversivo contra a Religião à ordem
publica e o novo regimen (sic)”. (Destaquei). [Benício, op. cit., pp. 159-160].
Nada valeria a si e aos que o seguiam, mesmo que seu comportamento
fosse reconhecidamente contrário a hostilidades: “Todas as outras alegações a
respeito da oposição ativa do Conselheiro à República, ao menos do ponto de
vista da desobediência civil, baseavam-se em boatos e eram, provavelmente,
falsas”. (Destaquei). [Levine, op. cit., p. 213].
No aparente intuito de “salvar” a República e vingar interesses
eleitoreiros não alcançados de políticos desonestos, apregoaram dar um “grande
exemplo” à nação, decretando assim a imolação de Antonio Conselheiro,
“fanático e louco”, e o extermínio da “seita que manifestamente sofria de loucura
epidêmica”, segundo o infeliz e desastroso diagnóstico do médico baiano,
Raimundo Nina Rodrigues, dado ao público no exato mês do brutal trucidamento
– outubro de 1897. Inacreditavelmente firmado nas matérias de João Brígido, em
obsoletas teorias antropológicas e no hoje ultrapassado conceito do
criminologista italiano Cesare Lombroso.[Raimundo Nina Rodrigues. Revista
Brasileira,2o Vol., Salvador, outubro de 1897].
Irônica e curiosamente, decorrido quase um século do pavoroso
genocídio e da brutal degolamento do cadáver de Antonio Vicente Mendes
Maciel, a vigente Constituição brasileira promulgada no dia 05.10.1988, no art. 2o
das Disposições Transitórias instituiu um plebiscito nacional para definir a forma
de governo – República ou Monarquia Constitucional – emblematicamente
realizado no dia 07.09.1993, ano do centenário de fundação do povoado de Belo
Monte-Canudos.
A IGREJA – II 111
“As massas sertanejas não hesitavam entre omissionário secular
sóbrio, e parte do clero“preocupado unicamente em política, rixoso,
amancebado publicamente, não procurando oengrandecimento de
suas paróquias nem da cultura religiosa de suas ovelhas”. Antonio
pregava contra a mancebia. As mancebas, apavoradas, abandonavam
os párocos e vinham,contritas, pedir perdão a Antonio”.
ABELARDO MONTENEGRO,
Fanáticos e Cangaceiros, 1973, p. 127.
Em 1895, a já inquieta e assustada classe latifundiária aliada à
burguesia, ambas, como sempre, sustidas no onipotente braço repressivo do
Estado, urdiam uma forma de legitimar e maquiar a eliminação do “fanático” e
“demente” predicante e seu séquito. Embora já detivessem documento que
identificava e qualificavaoficiosamente o Conselheiro de “specimen entre doentes
mentaes (sic)”, a sofrer de “affeção mental (sic)”, “fanático” e “alucinado”,
liderando uma comunidade “fanatizada”, emprestando as notícias de jornais um
caráter da mais absoluta credibilidade quanto qualquer documento legal e oficial.
Mas, faltava o outro lado da moeda para legalizar o monstruoso crime e
resolveram avocar o insuspeito testemunho oficial da Igreja.
Ninguém desconhece que os utilíssimos arquivos eclesiásticos, em sua
maioria bem cuidados, zelados e preservados com requintes de minudências, até
hoje conservam sob sua guarda importantes e indispensáveis documentos à
compreensão de nossa história. Pela notoriedade atribuída ao Conselheiro, é
quase certo se afirmar que nos seculares armários da arquidiocese baiana estava
arquivado um bem organizado e cuidado Dossiê Conselheiro.
Numa ação claramente ardilosa, naquele ano – 1895 – o outrora
moderado e agora resoluto presidente da Bahia,Rodrigues Lima, incitou o
arcebispo Dom Jerônimo Thomé da Silva, empossado dois anos antes, a mandar
uma delegação pastoral a Canudos, com a finalidade de “por sob o controle da
igreja o Conselheiro e seus devotos”. Na solicitação, o governo baiano sugere a
ida do velho capuchinho italiano frei Venâncio de Ferrara, que se disse, pela
idade, impossibilitado de empreender tão longa viagem. Em seu lugar, manda
outros dois capuchinhos igualmente italianos sob a chefia do frade João
Evangelista do Monte Marciano (1843-1921), assim considerado pelo historiador:
“É que o frade capuchinho conhecia mal o nosso povo e pior ainda os nossos
políticos, pois havia chegado ao Brasil em 1892, [Link], de três anos da
missão a ele confiada”. [Ataliba Nogueira, op. cit., p. 45]. Monte
Marciano se fez acompanhar doutro112frade também italiano, frei Caetano de
São Leo, chegado em julho do ano anterior. Completando a comitiva os
acompanhou o Pe. Vicente Sabino dos Santos, conhecido por Pe. Sabino, vigário
do Cumbe que fazia desobrigas quinzenais no arraial, onde tinha casa exclusiva e
na qual ficaram hospedados.
Embora a finalidade da “missão” fosse bem diversa, lá não encontrou
o frade João Evangelista um séquito de devotos matutos, que se intimidassem
com os apocalípticos sermões doutros frades que deambulavam pelos sertões
anunciando aos “pecadores o próximo fim do mundo”, com terrificantes cascos,
rabos, chifres e espetos de demônios, falando num linguajar propositadamente
lúgubre e cavernoso – como até bem pouco se ouvia nos patamares das igrejas do
sertão – e assim os capuchinhos foram surpreendidos: “Além disso, os
missionários percebem como o Conselheiro está unido ao povo, respeitado e
sobretudo seguido nos seus ensinamentos, e não se sentem bem em
Canudos”. (Destaquei). [Hoornaert, 1997, p. 26].
É necessário que se conheça o redator do tal documento, pois da boa
redação logo se depreende que ao frade italiano faleciam conhecimentos do
idioma para escrevê-lo, além de percepções étnicas, climáticas, geográficas e de
costumes populares que lhe autorizassem narrá-las: “Disse-nos, certa feita, frei
Inocêncio, capuchinho, que conhecera pessoalmente frei João Evangelista, com
quem morara no Convento da Piedade, haver sido o conhecido Relatório redigido
pelo Monsenhor Basílio Pereira, personalidade de relevo no clero baiano”.
[Calasans.«Canudos Não Euclidiano – Fase anterior ao início da Guerra do
Conselheiro» in Canudos, Subsídios, op. cit., p. 16]. Pelas inverdades e calúnias
nele encontradas, dá a quase certeza de que tenha sido redigido a serviço dos
escusos interesses do Estado, a quem a Igreja estava atrelada.
Sendo do conhecimento dos leitores a quem interessa este contexto o
inteiro teor do Relatório, prescinde de sua integral transcrição e está o mesmo, na
íntegra, transcrito – dentre outras obras – na RevistaUSP.«Dossiê Canudos», pp.
14-20. Todavia, por representar um documento básico, que, como as precedentes
matérias jornalísticas, constituíram os textos relevantes que motivaram fatais
conseqüências à vida do Conselheiro e aos habitantes de Canudos, representando
tais informações as bases que fundamentaram e materializaram a bárbara
carnificina, a seguir faremos algumas considerações sobre o Relatório. É bom
lembrar que, por razões óbvias, logo após manuscrito pelo Mons. Basílio Pereira,
foi incontinênti publicado pelo Diário Oficial do governo baiano, e, em seguida
pela Typographia do Correio de Notícias, Bahia, 1895. Eis alguns segmentos,
que exigem isenta análise à luz da verdade histórica hoje conhecida.
113
1 – “Três léguas antes de chegar ao Cumbe avistamos um numeroso
grupo de homens, mulheres e meninos quase nus, aglomerados em torno de
fogueiras, e, acercando-nos deles, os saudamos, perguntando-lhe eu – se era
aquela a estrada que conduzia ao Cumbe. Seu primeiro movimento foi lançar
mãos de espingardas e facões que tinham de lado, e juntaram-se todos em atitude
agressiva. Pensamos acalmá-los, disse-lhes que éramos dois missionários que se
tinham perdido na estrada e queriam saber se era longe a freguesia.
Responderam: “não sabemos, perguntem ali”, e apontaram uma casa vizinha. Era
uma guarda avançada do Antonio Conselheiro essa gente que havíamos
encontrado”.
FALSO – Enquanto não se iniciara o extermínio do povoado, nenhum
visitante que haja ido a Canudos – e foram milhares – ou qualquer notícia
histórica acreditada registra a existência de “guarda avançada” nas suas
imediações. A real intenção do redator é o início da formação e otimização de
juízos, acerca do “fanático” e da “seita”.
2 – “Passando o rio, logo se encontram essas casinholas toscas,
construídas de barro e cobertas de palhas, de porta, sem janela, e não arruadas. O
interior é imundo, e os moradores, que, quase nus, saíram fora a olhar-nos,
atestavam no aspecto esquálido e quase cadavérico as privações de toda espécie,
que curtiam”.
FALSO – Pelo comportamento do frade e a desprezível repulsa, que
indistamente manifestou a todos os habitantes do arraial, como expressa no
Relatório, jamais penetraria ele o interior da casa de algum habitante. Quanto a
andarem “quase nus”, o fotógrafo oficial Flávio de Barros, que acompanhou as
tropas do extermínio, mostra uma multidão de mulheres aprisionadas com vestes
decentes, como estampa uma foto encontrada no final do livro O Clarim e a
Oração[Rinaldo de Fernandes (org.), 2002, p. s/n., e ampliada e com mais nitidez
na revista Veja, edição 1511, 03.09.1997, p. 67], sobre cujo trabalho fotográfico o
editor Roberto Pompeu de Toledo expende esta consideração: “Foram
selecionadas principalmente as que mostram aspectos do arraial do Conselheiro –
uma minoria, dentro de um conjunto em que a ênfase do fotógrafo foi os
militares. Se constituem um documento precioso, dos mais importantes da
história da fotografia no Brasil, as fotos de Flávio de Barros apresentam também
uma das mais lamentadas lacunas dessa mesma história: por força da censura,
ou das obrigações que o prendiam ao Exército, ou ambas as coisas, ele
deixou de documentar a selvageria e as atrocidades que caracterizaram o
fim do conflito”.
114
Mencionar pessoas “esquálidas” e “cadavéricas” passando fome, é
uma cínica maledicência, pois do bacalhau, ao charuto e à rapadura ali se
encontrava fartamente e barato, como afirmou o sobrevivente Honório Vilanova,
que foi comerciante no povoado. Nertan Macedo. [Memorial, op. cit., p. 39].
Aliás, é o próprio Exército que, em data mais próxima – 1966 – assegura a
fartura de alimentos no arraial: “Em trabalho sucinto, a Escola de Comando e
Estado-Maior do Exército estuda em 1966, em trinta e cinco páginas, a guerra de
Canudos. Menciona-se ali que “se estabelecera comércio interno de gêneros
essenciais. Nas vizinhanças do burgo havia regulares culturas de mandioca,
milho, feijão, batatas e criação de vacas, cabras e carneiros”. (Destaquei).
[Ataliba Nogueira. Op. cit., 2a edição, 1978, p. 200].
3 – “Alojamo-nos numa casa de propriedade do Revmo. Vigário do
Cumbe, que nos acompanhava e ali não havia voltado desde que há cerca de um
ano sofrera grande desacato.”
FALSO – O Pe. Sabino estava proibido de desobrigar no povoado por
ordem expressa da autoridade eclesiástica [Levine, op. cit., p. 218] não existindo
nenhuma notícia de que haja sofrido agressão. Quem pretendeu assassiná-lo foi o
cel. Moreira César, como afirma o sobrevivente Honório Vilanova. [Nertan
Macedo. Memorial, op. cit., pp. 37-38].
4 – “(...) passaram a enterrar oito cadáveres, conduzidos por homens
armados, sem o mínimo sinal religioso. Ouvi também que este é um espetáculo
de todos os dias e que nunca a mortalidade é inferior, devido às moléstias
contraídas pela extrema falta de asseio e penúria de meios de vida, que dá lugar
até a morrerem de fome”.
FALSO – Inúmeras pessoas visitavam Canudos diariamente e
nenhuma delas – como igualmente nenhum sobrevivente ou historiador –
registrou epidemias naquela época no arraial, especialmente mortes provocadas
por fome, como ficou provado nas considerações anteriores.
5 – “Chegados ao coro, aproveitei a ocasião de estarmos quase sós, e
disse-lhe que o fim a que eu ia era todo de paz, e que assim muito estranhava só
enxergar ali homens armados e não podia deixar de condenar que se reunissem
num lugar tão pobre tantas famílias, entregues à ociosidade e num abandono e
miséria tais, que diariamente se davam de 8 a 9 óbitos. Por isso, de ordem e em
nome do Sr. Arcebispo, ia abrir uma santa missão, aconselhar o povo a
dispersar-se e a voltar aos seus lares e ao trabalho, no interesse de cada um e
para o bem geral”. (Destaquei).
FALSO – Esta é a mais evidente expressão de crueldade e hipocrisia:
aconselhar a dispersão de famílias115trabalhadoras a abandonarem suas
casas, lavouras, criações e trabalhos outros de sobrevivência, pois ali já se
achavam pela óbvia razão de não terem onde morar. Ociosidade e miséria são
termos absolutamente incompatíveis com a vida em Belo Monte-Canudos, e, até
hoje nenhuma notícia histórica existe que autorize tal veleidade. Quanto a
andarem os homens armados, é um costume até hoje vigente no sertão, sequer
surpreendendo a estrangeiros, como escreveu o historiador norte-americano
Robert Levine [Op. cit., p. 218].
6 – “Com certa reputação de austeridade de costumes, envolvem-no
também, e concorrem para alimentar a curiosidade de que é alvo e o prestígio que
exerce, umas vagas, mas insistentes suposições da expiação rigorosa de um
crime, cometido, aliás, em circunstâncias atenuantes”.
FALSO – Insinuação evidentemente enganosa e que exprime a
iniqüidade de caráter do frade, ou doutro redator. Já vindo preso, algemado,
seviciado e torturado para o Ceará, onde foi comprovada sua inocência, a
perversa sugestão objetiva denegrir a figura do beato, aqui sugestivamente
qualificado de assassino “em circunstâncias atenuantes”.
7 – “Antonio Conselheiro, inculcando zelo religioso, disciplina e
ortodoxia católica, não tem nada disso; pois contesta o ensino, transgride as leis e
desconhece as autoridades eclesiásticas, sempre que de algum modo lhe
contrariam as idéias, ou os caprichos; e arrastando por esse caminho os infelizes
sequazes, consente ainda que eles lhe prestem homenagens que importam um
culto, e propalem em seu nome doutrinas subversivas da ordem, da moral e da fé”
FALSO – É um diabólico embuste. Jamais alguém – inclusive as
autoridades eclesiásticas – sequer sugeriram que fosse o Conselheiro um cristão
dissimulado. Em Canudos existia escola para ambos os sexos, coisa impensável à
época, [Levine, op. cit., pp. 243-244]. Nenhuma notícia há de que os devotos
deambulassem na região “propalando doutrina subversiva”, nem o Conselheiro
nunca estimulou sua deificação, como já foi visto páginas antes e jamais
encontrado em qualquer registro histórico.
8 – “Entre essa turba desorientada há vários criminosos, segundo me
afirmaram, citando-se até os nomes, alguns dos quais eu retive, como o de João
Abade, que ali é chamado o chefe do povo, natural do Tucano, e réu de dois
homicídios, e o de José Venâncio, a quem atribuem dezoito mortes”.
FALSO – Em Canudos inexistiam criminosos com processos em
andamento nos foros da região, nem qualquer pessoa tinha mácula em sua vida
pregressa, como dois anos após o massacre – 1899 – registra um exaltado
republicano, brilhante homem de letras e humanista baiano: “Contra elles não se
havia instaurado processo algum.116Nos cartórios do Estado nenhum d
´elles tinha o seu nome no rol dos culpados.” (Destaquei). [César Zama, op.
cit., p. 23].
9 – “Espalharam que eu era emissário do governo e que, de
inteligência com este, ia abrir caminho à tropa que viria de surpresa prender o
Conselheiro e exterminar a todos eles”.
VERDADEIRO – A clarividência premonitória dos canudenses foi ao
extremo. Como a história amplamente comprovou, outro não foi o objetivo da
“missão” do frade italiano.
10 – “Roguei a Deus que amparasse minha fraqueza, e, sem me
afastar da calma e da moderação, como deve falar um missionário católico, em
um dos dias seguintes ocupei-me do homicídio, e, depois de considerar a malícia
enorme e a irreparabilidade deste crime, entrei a mostrar que não eram
homicidas só os que se serviam do ferro ou do veneno para de emboscada e
de frente, arrancar a vida aos seus semelhantes; que também o eram, até
certo ponto, aqueles que arrastavam outros a acompanhá-los em seus erros e
desatinos, deixando-os depois morrer dizimados pelas moléstias, à mingua de
recursos e até de pão, como acontecia ali mesmo; e, então perguntei-lhes
quem eram os responsáveis pela morte e o fim miserável de velhos, mulheres
e crianças que diariamente pereciam naquele povoado em extrema penúria e
abandono. Saiu dentre a multidão uma voz lamuriosa dizendo assim: “É o
Bom Jesus que os manda para o céu”. (Destaquei).
FALSO – Neste texto o frade atinge a sublimação da iniqüidade.
Primeiramente, como está provado linhas antes, em Canudos não existiam
homicidas processados nem condenados, e, quando era descoberto algum – como
certo “negro Marcos” – era imediatamente entregue às autoridades. [Levine, op.
cit.,p. 244]. Mas, o que de fato pretendeu o infamante emissário, foi caracterizar
as ações do missionário como atos criminosos imputáveis perante o Estado, a
polícia e a opinião letrada. Ali não existiam epidemias, nem “penúria e
abandono” como afirma o sobrevivente Honório Vilanova [Nertan Macedo,
Memorial, op. cit., p. 70], e confirma Hoornaert, [1997, p. 64].
11 – “Haviam-se feitos já, quando encerrei de chofre os trabalhos
da missão, 55 casamentos de amancebados, 102 batismos e mais de 400
confissões”. (Destaquei).
VERDADEIRO – A expressão “quando encerei de chofre” embora
pareça uma sub-repção involuntária, na verdade, insinua e quer afirmar que o
frade sofreu hostilidade por parte dos devotos e do Conselheiro, o que é infâmia,
117
pois a razão que justificou o término da “missão” tem uma versão diferente,
como testemunharam os sobreviventes Manuel Ciríaco e Honório Vilanova.
12 – “Desconheceste os emissários da verdade e da paz, repeliste a
visita da salvação; mas aí vêm tempos em que as forças irresistíveis te
sitiarão, braço poderoso te derrubará, e arrastando as tuas trincheiras,
desarmando os teus esbirros, dissolverá a seita impostora e maligna que te
reduziu ao seu jugo odioso e aviltante”. (Destaquei).
VERDADEIRO – Sem a omissão dum só vocábulo, com minúcias, o
emissário da Igreja-Estado previamente descreveu o macabro extermínio.
Dirigida a inofensivos e pacatos habitantes de um longínquo povoado, e
procedendo dum franciscano, que, supostamente deveria seguir os passos do
Pobrezinho de Assis, deixa a impressão de provirem duma maldição satânica. Já
que primava no arraial a tônica da fraternidade – como hoje é largamente
conhecida – registro esta ilustrativa passagem da vida de São Francisco de Assis.
O franciscano italiano Carlos Carreto, em 1910 escreveu: Eu,
Francisco, São Paulo: Edições Paulinas, 1981. Na obra, dissertada em monólogo,
às pp. 40-41, escreveu Frei Carreto: “Devo confessar que meu caráter não era
afeito a acomodar as coisas, ao passo que meu pai era muito orgulhoso para
aceitar também a dúvida de que seu filho se tivesse tornado maluco”.
“Sim, o meu comportamento havia insinuado em muitos a idéia de
que eu me tornara maluco”.
“Era isto que exasperava meu pai. Mais do que a avareza ferida por
minha generosidade, o que deixava sem ação o sorriso dos vizinhos, que
começavam a insinuar que Francisco, filho de Pietro di Bernadone, se tornara
maluco”. Não só insinuavam como também acreditavam nisso! Se alguém se
põe a seguir seriamente Cristo e o Evangelho, as pessoas, especialmente
aquelas que freqüentam as igrejas e já resolveram todos os problemas de
consciência ao se colocarem em igual distância entre o céu e a terra, entre
“gozar o mundo aqui de baixo” e garantir o “mundo lá de cima”, passa a
considerá-lo um louco, tão logo esse alguém começa a se afastar do seu modo
de vida”.
“E, como ainda por cima, arrebatado pelo meu ardor, vestia-me mal e
comprazia-me em me cobrir com farrapos, logo eu me tornava objeto de pilhérias
e até mesmo de pedras, como se eu estivesse fugindo do bom senso e caminhasse
no sentido de ser expulso da comunidade das pessoas “sérias”. Sim, se meu pai
chegou ao ponto de denunciar-me ao bispo, não foi pelo dinheiro, mas sim pela
figura que tinha medo de fazer junto ao povo de Assis, com o qual tanto se
importava”. Assim, por se despojar118dos bens materiais e abraçar a defesa
dos oprimidos e Pobres de Cristo, Francisco de Assis passou a ser designado de
“maluco (sic)”.
13 – ‘Naquela infeliz localidade, portanto, não tem império a lei, e
as liberdades públicas estão grosseiramente coarctadas. O desagravo da
religião, o bem social e a dignidade do poder civil pedem uma providência
que restabeleçam no povoado dos Canudos o prestígio da lei, as garantias do
culto católico e os nossos foros de povo civilizado. Aquela situação deplorável
de fanatismo e anarquia deve cessar para a honra do povo brasileiro para o
qual é triste e humilhante que, ainda na mais inculta nesga da terra pátria, o
sentimento religioso desça a tais aberrações e o partidarismo político
desvaire em tão estulta e baixa reação”. (Destaquei; a grafia foi atualizada).
Relatório ao Arcebispo da Bahia – Frei João Evangelista do Monte Marciano.
[InRevista USP,«Dossiê Canudos»,n. 20,1993-1994, pp. 14-21].
VERDADEIRO – Com esta perversa e malvada proclamação, isenta
do mais elementar espírito cristão, o emissário do Estado-Igreja oferece numa
imensa bandeja as milhares de cabeças daqueles pobres e ignorantes sertanejos,
que seriam decepadas num medonho e impune massacre que se consumaria
pouco tempo depois, até agora denegrindo a honra da nação como o mais cruel e
hediondo genocídio, perpetrado sob a chancela de um Estado na História das
Américas.
À inteligência de historiadores e estudiosos da hecatombe de Belo
Monte-Canudos, submeto o exame do contexto do Relatório no domínio da
historiografia.
1 – Edmundo Moniz: “Frei João apresentou Antonio Conselheiro como
um monarquista intransigente que se recusava a reconhecer a República e a
obedecer às leis. Desviou o problema da esfera religiosa para a esfera política.
Antonio Conselheiro não era perigoso porque negava obediência aos ditames
da Igreja, e sim porque reagia contra a República. O deputado Érico Coelho,
analisando o relatório de frei João Evangelista, em discurso no Congresso
Nacional, mostrou-se desconfiado “com as expressões amorosas com que ele
prodigalizava a República”, pondo em dúvida o interesse do missionário pelas
instituições republicanas. Aliás, como se depreende da opinião de Melo Morais
(pai), frei João Evangelista não gozava de boa reputação moral e intelectual
na Bahia”. (Destaquei). [Canudos – A Guerra [Link] de Janeiro: Elo Editora
e Distribuidora Ltda. 2aEd., 1987, p. 56].
2 – Ataliba Nogueira: “As missões foram pregadas a mais de seis mil
pessoas (e em maior parte de gente de fora). Interrupções breves de alguns da
assistência mostram que havia119pessoas inteligentes e aptas a criticar
com procedência a doutrina do frade.... Em seu referido relatório usa
expressões injuriosas contra [Link] obtido bom resultado se a missão
fosse apenas espiritual e as suas palavras de missionário moldadas nas do
santo fundador da sua ordem, o humilde e doce São Francisco de Assis. É
político num sentido e pouco político noutro. Erra redondamente na escolha
dos temas finais e apresenta-se inflexível e sem amor, do primeiro ao último
dia”. (Destaquei). [Op. cit., p. 15].
3 – Eduardo Hoornaert: “O relatório contém contradições: de um lado
pinta o quadro de uma organização autoritária que teria controlado as entradas,
mas informa que a “mor parte” dos cerca de quatro mil pessoas que assistem à
missão são “gente de fora”. Portanto, há franquia no ir-e-vir em Canudos, e
não aquele acampamento imaginado por Maria Isaura P. de Queiroz e
outros que escreveram sobre Canudos. Outra contradição: Canudos seria
um aglomerado de miseráveis. Contudo, Frei João Evangelista menciona um
negociante de Bonfim que vem se estabelecer aí, o que denota certo bem
estar. A impressão geral é que o Frei pretende argumentar que Canudos é
um lugar ameaçador. Pinta um quadro surrealista de uma pretensa
“Companhia de Jesus”, com sistema de alistamento, reunindo uma “legião”
de mil companheiros “decididos”, entre os quais oitocentos armados,
apoiados por uma reserva de mulheres e crianças”. (Destaquei). [Op. cit., p.
27].
4 – Rui Facó: “Para tirar-lhe a importância social, caracterizaram-
na desde logo como um surto de banditismo ou fanatismo religioso, e nada
mais”. (Destaquei). [Cangaceiros e Fanáticos,9a edição. Rio de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1991, p. 85].
5 – Robert M. Levine: “Em se considerando o tom usado pelos
visitantes e a rigidez de suas exigências, sua missão, essencialmente um
ultimatum, estava fadada ao fracasso. Apesar da frieza, se não mesmo
hostilidade, que reinava entre os dois poderes desde 1889, não nos parece
estranho o fato de a Igreja ter mandado a missão a pedido de autoridades
estaduais, pois, no final das contas, os lideres religiosos e políticos
partilhavam os mesmos objetivos”. (Destaquei). [Op. cit., pp. 217-218].
6 – Manuel Ciríaco, sobrevivente, entrevistado por Odorico Tavares:
“Em 1895 vieram para cá uns frades e falaram com o Bom Jesus. Este os recebeu
com brandura. Pois não é que os homens pagaram a hospitalidade indo pregar ao
povo contra o Conselheiro? Aí o povo danou-se, e se não fosse o Conselheiro a
coisa tinha pegado fogo. Os padres foram expulsos e quase não voltam à terra
deles, donde vieram para mexer120com quem estava quieto”.
(Destaquei). [Odorico Tavares. Canudos, Cinqüenta Anos Depois. Salvador:
Conselho Estadual de Cultura, 1993, p. 43].
7 – Honório Vilanova, sobrevivente: “Vi, com estes olhos que a terra
vai comer, a chegada dos frades a Canudos, para dar conselhos ao povo. Ora,
aconteceu que no sexto dia de pregação o frade pediu ao Peregrino que botasse o
povo na rua. Mas logo correu pelo arraial que Frei João queria “contar o
povo para dizer ao governo” e por isso mesmo ninguém quis mais ouvi-lo,
desconfiado. Nessa tarde, não houve missão na porta do Santuário. Porque o
frade, vendo que o povo não aparecia, chamou a todos de amaldiçoados,
dizendo que só ouviria em confissão aquele que prometesse abandonar
Canudos e não voltar mais ao lugar”. (Destaquei). [Nertan Macedo. Memorial
de Vilanova, op. cit.,p. 127].
8 – César Zama: “Ninguém ignora que tipo de vida levavam os
canudenses: plantavam, colhiam, creavam, edificavam e rezavam”.
(Destaquei). [Op. cit., pp. 23-24].
9 – Eduardo Diatahy B. de Menezes: “O documento seguinte, o
célebre relatório ao Arcebispado da Bahia, elaborado pelo missionário
capuchinho Frei João Evangelista de Monte Marciano e publicado no diário
oficial, impressiona hoje por seu odor bolorento de velha retórica eclesiástica e
por seu discurso autoritário, presunçoso e totalmente insensível à real situação
dos canudenses no contexto em que os encontrou. Assumindo claramente a
posição da ordem repressiva, Frei João Evangelista produziuum dos
documentos cruciais para o suporte ideológico que justificaria o massacre de
Canudos”. (Destaquei). [Introdução inCanudos, As falas e os olhares, op. cit., p.
16].
10 – José Calasans: “Falava de maneira desabrida, misturando a
língua materna com o idioma da terra de adoção. Suas pregações, segundo a
tradição corrente, eram repletas de ameaças anunciadoras de tremendos
castigos celestiais. Frustrada a louvável iniciativa pacificadora, restou, como
dissemos, o Relatório informativo, embora, evidentemente parcial, apaixonado
mesmo em alguns pontos”. (Destaquei). [«Canudos Não Euclidiano – Fase
anterior ao início da Guerra do Conselheiro», inJerusa Gonçalves de Araújo
(coord.). Canudos – Subsídios para sua reavaliação histórica,op. cit. pp. 16-17].
11 – João Arruda: “Não só Frei João Evangelista, com seu
relatório, estimulou a intervenção armada, como ele próprio fez o croqui da
cidade para facilitar a operação”. (Destaquei). [Canudos – Messianismo e
Conflito Social, op. cit., p. 101].
121
12 – Abelardo Montenegro: “As prédicas dos frades não agradaram
aos conselheiristas que acabaram por identificá-los comoemissários do
Governo, e que, de acordo com este, visavam a “abrir caminho à tropa que
viria de surpresa prender o Conselheiro e exterminar a todos eles”. Sentindo
a hostilidade no olhar da massa conselheirista, os frades fugiam de Canudos.
Tinham tempo, porém, de levantar a planta do povoado”. (Destaquei).
[Fanáticos e Cangaceiros, op. cit., p. 137].
13 – José Aras: “Começaram a caluniar e mandaram uns padres
pregar uma missão; e eles (canudenses) não atenderam muito aos padres e
daí começou a desavença, pois já vinham escoltados das fazendas e das
perseguições que faziam os barões do litoral”. [Entrevista ao cineasta Ipojuca
Pontes – Canudos – Documentário, 1976].
Ante o juízo de estudiosos e sobreviventes da “gravata vermelha” e
suas avaliações do Relatório, que politicamente fundamentou, legalizou
elegitimou as sucessivas expedições exterminadoras, a totalidade dos
historiadores jamais considerou e menos confrontou a importância das
insignificantes notas de João de Brígido com as do frade João Evangelista, na
contextura histórica de que resultou a hecatombe, ambos instrumentos básicos,
não à real compreensão do arraial e do missionário – o que busca o presente texto
– mas a sua destruição.
Antes da devastação do arraial o esculápio Raimundo Nina Rodrigues,
com a autoridade de único e mais conceituado médico baiano no gênero,
professor de medicina legal e forense da conceituada Faculdade de Medicina da
Bahia, embora jamais tenha avistado o Conselheiro, já emitira prematuro
diagnóstico psiquiátrico dos seus caracteres, impropriamente fundamentado nas
informações de João Brígido, segundo Levine [op. cit., p. 293], conforme matéria
publicada na Revista Brazileira, vol. 2, Salvador, outubro de 1897, sob o título A
Loucura Epidêmica de Canudos].
A primeira publicação considerando Antonio Conselheiro e Canudos,
foi editada meses após o massacre – Os Jagunços, 1898 – de autoria de Afonso
Arinos, já referidaantes. No artigo «Canudos: formas de composição», Revista
USP – «Dossiê Canudos», p. 67, Adilson Odair Citelli, professor da ECA-USP,
assim a conceitua: “Entre os vários escritos sobre Canudos, Os Sertões é o mais
célebre. No entanto, em livro de 1898, Os Jagunços, de Afonso Arinos, alguns
meses após o fim da guerra sertaneja, também iria apresentar uma visão dos
acontecimentos, não coincidente com a elaborada por Euclides da Cunha.
Infelizmente, os cem exemplares da primeira edição de Os Jagunços, em parte
dados como brinde aos assinantes do122jornal O Comércio de São Paulo, do
qual Arinos era editor, não repercutiram. Afora algumas críticas favoráveis em
jornais do Rio de Janeiro e São Paulo, a obra se viu entregueao esquecimento.
Isto parece, contudo, resultar menos da fragilidade estrutural do texto e
mais do fato de ele aderir claramente a Canudos e Antonio Conselheiro. O
momento era ainda o das comemorações pela vitória da República e do
projeto liberal”. (Destaquei).
Com alcance temático seguiram-se Manuel Benício, 1899, e Euclides
da Cunha em 1902, acerca do que adianta Calasans: “A contribuição de João
Brígido foi aproveitada por Euclides da Cunha, Manuel Benício, Aristides
Milton e outros que escreveram a respeito do Bom Jesus Conselheiro”.
[Destaquei. No Tempo de Antonio Conselheiro, Salvador: Livr. Progresso
Editora, 1959, p. 90].
Todavia, à medida que o livro de Benício pouco interesse despertou à
classe letrada, Os Sertões, de Euclides da Cunha, incontinênti se transformou em
“Obra Monumento” e “Bíblia da Nacionalidade”, provocando uma inusitada
exaltação à classe letrada. Deste conceito pode-se avaliar o valor histórico
atribuído às matérias de Brígido, quando, como documento
básico,fundamentaram o médico baiano: “Nina Rodrigues chegou ao cúmulo
de verificar no crânio vazio do Conselheiro algum traço que denunciasse o
criminoso, e Euclides pondera quase filosoficamente, ao falar do motivo por
que a cabeça do Conselheiro foi enviada para Salvador: “Ali estavam, no
relevo de circunvoluções expressivas, as linhas essenciais do crime e da
loucura”. (Destaquei). [Hoornaert, 1997, op. cit., p. 85].
Antes de adotar a vida andeja de asceta predicante, já era conhecido o
insólito silêncio de Antonio Vicente, não esboçando – insisto – qualquer defesa
em momento algum de sua vida. Mesmo dotado de conhecimentos de prática
processual forense, causou estranheza ao ex-juiz e historiador Eusébio de Sousa,
sua determinação em deixar correr a sua revelia uma ação de cobrança judicial
que lhe foi movida no foro de Quixeramobim em 1871, não se podendo esquecer
que sua situação financeira oferecia sobejas condições de quitá-la, com saldo,
como ocorreu.
Às ofensas e injúrias que lhe assacaram fez ouvidos de mercador,
nenhuma considerou e sequer comentou.O que propicia indagação aos que
estudam sua vida missionária. Também, ninguém tomou sua defesa, e, mesmo no
curso dos ataques a Canudos, o eminente Machado de Assis, que da distante
capital da República pugnava contra qualquer violência ao Conselheiro e ao
arraial, quedou-se: “Ninguém tem condições de chamar a nação para um
raciocínio tanto quanto ponderado.123Machado de Assis, que entre 1892 e
fevereiro de 1897 fez – na sua crônica semanal do Diário(sic) de Notícias do Rio
de Janeiro – os mais lúcidos comentários sobre a improcedência de uma
campanha contra Canudos, resolveu, meses antes do desfecho, calar-se e abrir ala
para a turba agitada em plena caça”. (Destaquei). [Hoornaert, op. cit., p. 85].
Já o sórdido documento do frade se afirmara como verdade inconteste,
contra o qual nenhuma ação competente e necessária foi interposta em qualquer
instância, que objetivasse auxiliar aqueles isolados e pacatos sertanejos que
buscavam a paz, o trabalho e a oração.
O ultimato, que minimamente exigiria confirmação com a
indispensável ida doutros religiosos ou leigos com o fim de considerarem tão
graves acusações, nenhuma providência ensejou, e, a exemplo das matérias de
João Brígido, igualmente consolidou-se como fonte de análise histórica
acreditada. Infelizmente a elas recorreriam renomados estudiosos, sem uma
análise das fontes que as instruíssem e fundamentassem.
Finalmente, um estudioso que tem sobre Canudos uma “visão”
coerente com o “simples” que ali se evidenciou, considerando o livro de Maria
Isaura Pereira de Queiroz, [O Messianismo no Brasil e no mundo.S. Paulo:
Dominus, 1965], acerca da balela da “Santa Companhia” e demais designações,
expende este juízo: “Daí uma imagem estranha, agressiva, antipática e
extemporânea do Conselheiro e seu “séquito”. Apoiada em Macedo Soares, a
autora fala de uma “Santa Companhia” ou “Conselho de Messias” de
oitocentas pessoas que teriam controlado tudo em Canudos (sic)”.
(Destaquei). [Hoornaert, 1997, op. cit., p. 109].
A presença de devotos e devotas para servi-lo, era uma imposição da
longa e exaustiva vida andeja e da própria idade. Para resguardar seu velho e
cansado líder espiritual num heterogêneo povoado de 20.000 (sic) habitantes,
número registrado pela pena de César Zama dois anos após o massacre [op. cit. p.
29] e outros, era uma natural preocupação das pessoas que lhe eram mais
próximas, embora suas ocupações fossem restritas às atividades dos ofícios
religiosos e a fiscalização dos trabalhos da igreja nova. Assim, são levianas as
notícias de “alistamento obrigatório”, “Santa Companhia”, “Guarda Católica” e
outras denominações, e no impossível e inacreditável número de “um quadro de
oitocentos milicianos”.
Enfim, não sou crítico histórico e muito longe estou de arrogar-me
qualificações intelectuais para avaliar conceitos de estudiosos ditos eminentes.
Como aplicado leitor, modestamente entendo que os documentos, textos e obras
históricas devem submeter-se ao crivo de um exame isento para lhes escoimar,
aclarar e corrigir defeitos e erros. São 124as avaliações e critérios amplamente
divulgados, e não cuidadosamente analisados e confrontados que deformaram,
desfiguraram e, acima de tudo, até hoje impedem – com raríssimas exceções – a
correta compreensão da obra eminentemente cristã que pautou o apostolado de
Antonio Conselheiro, o que aspira mostrar esta pesquisa.
A INTERVENÇÃO DO ESTADO
“Observadores e defensores da República justificavam adestruição do
povoado com base na mentira de que Canudos abrigava o crime e a
loucura. Além disso, suas conclusões revelam o pensamento da elite
quanto ao estado mental não só do Conselheiro, como também da própria
população sertaneja”.
LEVINE, [1995, p. 292].
Quando do ataque de Masseté, na noite de 26.05.1893, que
configuraria a intenção do extermínio, ao Estado carecia informação de fonte
acreditada, para atacar e eliminar centenas de devotos que seguiam o beato
missionário, ausência que configuraria absurdos e brutais assassinatos de
inocentes. Todavia, com as notícias veiculadas nas matérias de João Brígido –
1889-1893 – agora associadas ao libelo do frade capuchinho João Evangelista –
1895 – evidentemente redigido sob a orientação do Estado, estava este
suficientemente munido de ponderosos motivos para satisfazer os anseios dos
opulentos “brasileiros modernos” do litoral, proprietários de imensuráveis
latifúndios e vigas mestras que sustinham o Estado, agora com a parceria oficial
da Igreja, decidiu-se por em prática o macabro desígnio.
Como a perfídia sempre se fez presente em tudo que envolveu a vida
do missionário e seus devotos, idealizaram o primeiro plano da matança. Para
tanto, difundiram a falsa notícia de que os adeptos do beato invadiriam a distante
cidade de Juazeiro, Bahia, no absurdo intento de reaver o pagamento antecipado
de uma madeira encomendada para a Igreja Nova. À difusão do embuste,
avocaram a “insuspeita” intervenção de um agente do Estado, o juiz de Juazeiro,
Arlindo Leone, que se prestou ao nefando papel de telegrafar ao Governador
solicitando providências e pedindo a presença de tropa militar para garantir a
população.
É uma atitude, que ao mais primário bom senso suscita indagar: que
proveito adviria ao Conselheiro e sua gente a consumação de tamanho desatino,
invadindo uma cidade? Tendo em mãos um documento oficial que pedia
providência armada, mas sendo o 125 Conselheiro conhecido e estimado por
todo o sertão, previamente foi avisado da carnificina que pretendia extinguir a si,
sua gente e o próprio arraial, e seus devotos se anteciparam. Portando bandeiras
do Divino, espingardas passarinheiras, foices, machados, enxadas e outros
utensílios sertanejos, foram ao encontro da tropa agressora, resultando na
debandada da soldadesca e seu comandante, no dia 21.11.1896.
A derrota foi o estopim para legitimar oficialmente o urgente envio de
sucessivas expedições militares, agora sob a chancela do Presidente da
República. Sentenciou um dos mais conceituados historiadores do país, o Barão
de Studart: “A pesquisa histórica é a continuidade diuturna do artesão paciente,
medindo tudo para que a peça resulte perfeita”. Assim, haveria a História de, um
dia, encontrar alguém que explicasse o que a inteligência imaginava inexplicável.
E coube à incansável pesquisadora Walnice Nogueira Galvão,
professora da USP, a tarefa de exumar a verdade, há um século envolta na poeira
do tempo. Na figura do sóbrio, isento e culto Afonso Arinos, nos trouxe a
pesquisadora estas incontestadas verdades. “Na normalidade da aceitação dos
métodos de extermínio empregados para acabar com a Guerra de Canudos, e que
salta aos olhos na leitura dos jornais, registra-se contudo uma exceção. É
Afonso Arinos, que, redator-chefe da folha monarquista O Comércio de São
Paulo, publica a 9 de outubro o editorial intitulado O Epílogo da Guerra”.
Noutro editorial datado de 22.12.1897, interroga e denuncia:
“Porque razão começou a guerra?”
“Até hoje não consta que se originasse de crimes ou assaltos
praticados pelos jagunços. Por motivo religioso, não foi, porque a
Constituição federal garante a liberdade religiosa; por motivos de sedição ou
revolução, também não foi, porque os jagunços não tinham saído de
Canudos para deporem nenhuma autoridade”.
“O motivo não confessado, mas verdadeiro, parece ter sido este:
Conselheiro, a cuja influência mais de uma vez recorreram os Srs. José
Gonçalves, RodriguesLima e Luiz Viana por ocasião de eleições, recusou-se
uma vez a atender o último, e daí veio a guerra”.
Referindo a postura da imprensa e da intelectualidade brasileira no
curso da hecatombe, num editorial precedente e no mesmo periódico –
14.10.1897 – corajosamente afirma: “Infelizmente, no Brasil, a maioria da
imprensa está dividida em duas classes: a primeira goza direta ou
indiretamente dos benefícios do Tesouro, a segunda pretende gozar [Link]í
vem que não houve um protesto contra cenas daquelas, em que o Exército
vitorioso macula o triunfo, trucidando cruelmente criancinhas de seio e mães
126
desamparadas”. (Destaquei). [Walnice Nogueira Galvão, op. cit., pp. 99, 101 e
104].
127
10.
BELO MONTE – UM POVOADO FRATERNO
“Grande era a Canudos do meu tempo:quem tinha roça tratava da roça
na beira do rio; quem tinha gado tratava do gado; quem tinha mulher e
filhos,tratava da mulher e dos filhos; quemgostava de rezar ia rezar;
de tudo setratava porque a nenhum pertencia eera de todos, pequenos
e grandes, na regra ensinada pelo Peregrino”.
HONÓRIO VILANOVA, [ApudNertan Macedo, 1964, p. 67].
Ponderáveis e inequívocas circunstâncias obrigaram Antonio
Conselheiro a se estabelecer às margens do rio Vaza Barris, significativamente na
data de 13.06.1893, dia dedicado ao santo do seu nome e devoção – Santo
Antonio – a quem erigiria como orago do longínquo arraial que rebatizou de Belo
Monte. Inicialmente, a óbvia certeza, que lhe impunha a idade,de que não poderia
continuar missionando pelas veredas e caminhos íngremes na caatinga, em
fazendas, povoados, vilas e cidades acompanhado por um cortejo de
desventurados, a isto associando a presciência de que de suas companhias não
poderia mais separar-se em vista da obstinação em não retornarem à antiga e
mísera vida de moradores e agregados dos desumanos e gananciosos
latifundiários.
Ao ataque que lhe fizera a polícia baiana em Masseté no dia 26 de
maio de 1893, aliou a clareza meridiana, certamente antes reconhecida, da
inconveniência de uma já longa vida missionária andeja, agora afligido por
assaltos e hostilidades policiais, a séria agravante da fadiga natural à atividade
andeja, e o conhecimento de que um distante e recôndito lugar seria a melhor
forma de findar seus dias em paz.
Quem analisar as ocorrências climatológicas e pluviométricas do
Nordeste chega à conclusão de que só tais razões persistiam para levá-lo a tomar
tal decisão. Explico a inconveniência e inoportunidade. De acordo com um
levantamento feito por cientistas do CTA – Centro Técnico Aeroespacial – de
São José dos Campos, SP, que compreendeu o clima de 1850 a 1983 – 133 anos –
demonstrado num gráfico na revista Veja, edição n. 751 de 26.01.1983, pp. 60-
61, mostra que naquele ano – 1893 – houve uma grande estiagem com um índice
pluviométrico insignificante no Nordeste, donde se conclui que tal ocorrência
deveria proporcionar sérias dificuldades ao grupo.
A propósito, aos estudiosos persiste certa dúvida de
como sobreviviam o missionário e128seus seguidores, nas severas condições
adversas e de pobreza do semi-árido. Afora o que conjeturou e fantasiou Manuel
Benício [op. cit., pp. 67 e ss.], tem-se notícia de que na caatinga existiam
rebanhos de cabras bravias, e a certeza da rica fauna do semi-árido naquela
época, composta de tatus, pebas, nambus, seriemas, preás, mocós e muitos outros,
enquanto doutra parte chega-nos a veraz informação de uma testemunha que
nasceu, viveu e morreu no sertão daquela região, José Aras. Autodidata e pobre,
foi um dos primeiros estudiosos do Conselheiro e Canudos que a expensas
próprias teve a meritória iniciativa de fundar o pioneiro Museu Histórico de
Canudos. Falecido quase centenário e nascido numa fazenda no antigo Cumbe,
hoje Euclides da Cunha, declarou: “E daí já vinha a perseguição dos barões,
porque naquele tempo o povo ganhava o salário de uma pataca e vinha
morrendo de fome, sem direito nem de trabalhar.E pegaram a acompanhar
o Conselheiro, porque ele arranjava com os fazendeiros alguns recursos pra
eles irem vivendo e assim se arrimidiavam. No inverno trabalhavam pra eles
(fazendeiros) e no verão iam fazer as obras com o Conselheiro”. (Destaquei).
[Entrevista ao cineasta Ipojuca Pontes – Canudos– Documentário, 1976].
Entende-se que o número de pessoas que acompanhava o Conselheiro,
e que inicialmente se estabeleceu em Canudos não era, nem poderia ser
numeroso. Em estudo analítico abordando o tema – «As Origens do Povo do
Bom Jesus Conselheiro» – [Revista USP- «Dossiê Canudos», op. cit. pp. 90-91],
a Prof. Yara Dulce Bandeira de Ataíde, da Universidade da Bahia, supõe que
“devido às evidentes dificuldades decorrentes do nomadismo do grupo
conselheirista, na primeira fase ele não era numeroso. Representava o grupo
pioneiro que ia constituir-se na célula geradora da comunidade de Belo Monte, ao
lado dos primitivos moradores”. Já visado pelos agentes do Estado, da Igreja e
dos latifundiários, é de se concluir que estes acompanhantes não chegassem ao
número de 100, pois se numeroso surgiriam inevitáveis complicações, que não
escapariam à atenta imprensa açulada pela insatisfeita elite dominante.
A abandonada fazenda Canudos – anteriormente conhecida por
Fazenda Velha – pertencente a uma sobrinha do advogado e latifundiário Cícero
Dantas Martins, o Barão de Jeremoabo, cuja propriedade jamais foi
historicamente documentada e o assentamento contestado judicialmente, embora
fosse o Barão implacável inimigo do Conselheiro. Estava situada na região mais
seca do Nordeste, na área chamada de Raso da Catarina, que, de tão recôndita,
anos depois seria usada como esconderijo por Lampião e seu bando. Era rodeada
de serrotes, de cujas encostas descia, na época chuvosa, grande massa de adubos
vegetais resultantes do sistemático desfolhamento da vegetação no período seco,
tornando férteis as margens do129temporário rio Vaza Barris que a
cortava de Oeste a Leste. Proliferava às suas margens a taboca, planta que ao
arguto conhecedor do sertão prova a fertilidade do solo, donde procede o
topônimo Canudos, pois é do caule da taboca que até hoje o sertanejo faz o
canudo do cachimbo de barro.
A propósito, em 1876 padres lazaristas europeus visitaram Canudos
em companhia do vigário de Cumbe, após o que um deles enviou expediente à
Cúria Metropolitana de Salvador, informando que os habitantes de Canudos –
certamente poucos – “viviam armados até os dentes, cuja única ocupação era
tomar bebidas alcoólicas e fumar estranhos cachimbos com uma jarda de
comprimento”. [Levine, op. cit., p. 216]. Causa incredulidade tal notícia, pois é
inaceitável que as poucas pessoas que ali habitavam vivessem constantemente
armadas num lugar tão ermo, em expectativa de ataque ou defesa sem justificados
motivos.
Para a região, poder-se-ia afirmar que o Vaza Barris tivesse utilidade
similar a do egípcio rio Nilo, pois o húmus de suas margens propiciava a
semeadura de várias culturas, como milho, feijão, mandioca, batata, jerimum,
macaxeira e outros gêneros de primeira necessidade. Por outro lado, a serroteira
que circunda o vale, presta-se admiravelmente à criação de bodes, lá encontrados
em rebanhos brabos, jamais chiqueirados. Existia em grande quantidade o xique-
xique e o mandacaru, rações a que até hoje recorre o sertanejo nas grandes secas
para salvar seus rebanhos. Sabendo-se do vasto conhecimento do Conselheiro,
acumulado não só na sua longa vida andeja, mas por ser natural do semi-árido
cearense, chega-se à certeza da correta escolha, sendo falsa a insinuação de que a
preferência seria uma estratégia de defesa a futuros ataques de forças armadas.
Sexagenário e após quase quatro décadas caminhando a pé por várias
províncias do Nordeste, imaginava o missionário que naquele distante e ermo
lugar pudesse pacificamente dar continuidade ao seu mister: lendo, escrevendo,
rezando e convivendo com aqueles desventurados, que, obstinada e fielmente o
admiravam, e carinhosamente chamavam de Meu Pai. Encontrou taperas
arruinadas e abandonadas, a velha casa-grande quase em escombros, mas, para
seu gáudio e dentro de sua perspectiva religiosa lá estava, ainda com as paredes
em pé, uma capela de dimensões razoáveis que foi objeto de sua preocupação
inicial. Embora o fotógrafo Flávio de Barros, que nas palavras de Roberto
Pompeu de Toledo “seguiu para Canudos, comissionado pelos militares para
cobrir a Quarta Expedição”, e que, “por força da censura deixou de documentar a
selvageria e as atrocidades” [op. cit. p. 67] mesmo no intuito de mostrar o
povoado destruído, deixou uma foto desta original capela, conhecida por Igreja
Velha [op. cit., p. 80] embora já130parcialmente destruída. A frente era
ampla, com uma grande porta de entrada, bem ao estilo de muitas que até hoje se
vêem, e defronte ao patamar um pedestal de média altura encimado por um
imponente cruzeiro – sem dúvida de aroeira – circundado por um coreto de
alvenaria, com acesso frontal de degraus e rodeado por colunas separadas por
gradeado de madeira aparelhada.
Por sua visível utilidade e mesmo sem qualquer alusão histórica, pelo
óbvio se prestava aos sermões e demais práticas religiosas do missionário
substituindo a latada, exceto em horário ensolarado ou chuvoso. Reparada e posta
em condições de culto, foi reconsagrada pelo Pe. Sabino, vigário do Cumbe, a
cuja freguesia era subordinada a fazenda. Ao lado da Igreja Velha, havia uma
casa de taipa que à história passou como Santuário em que morava o Conselheiro.
Era extremado o fervor religioso do missionário. Nas suas Prédicas
está um longo sermão intitulado “Sobre o recebimento da chave da Igreja de
Santo Antonio, Padroeiro do Belo Monte”, do qual transcrevo este trecho:
“Impossível seria, fiéis, eu fazer a Igreja de Santo Antonio se o Bom Jesus
deixasse de prestar-me o seu poderoso auxílio. Aqueles, porém, que concorreram
com as suas esmolas e com os seus braços, podem estar certos que o Bom Jesus
os recompensará generosamente; eles devem ficar plenamente satisfeitos por
terem concorrido para a construção da Igreja do servo do Senhor, na doce
esperança de um dia serem participantes da sua glória, à vista do seu testemunho
que demonstra o zelo religioso que tanto os caracteriza. O dia de hoje, fiéis, nos
vem comemorar tão belo acontecimento para a nossa religião santa, quando se
trata da realização de um templo tão útil, tão aceitável e agradável a Deus”.
[Prédicas,in Ataliba Nogueira, op. cit., p. 170].
Pelas densas pesquisas e inumeráveis estudos versando Canudos, se
conclui que o próprio Conselheiro não avaliava devidamente seu incomensurável
carisma, exceto o reconhecimento e a alta estima que lhe dispensava a massa de
desvalidos. Órfã da Fé, da Esperança, da Caridade e da Fraternidade, aquela
gente encontrou no simples e humilde predicante, que se impôs pelo exemplo,
pela maneira coloquial e meiga de transmitir suas mensagens religiosas e seus
sábios e práticos conselhos, a figura amorosa do Meu Pai. O respeito e o amor
por aquele santo homem, para quem “os ensinamentos dele era uma felicidade
ouvir, pois só pregava para o bem”, como declarou ao jornalista, em 1947, a
sobrevivente Maria Guilhermina de Jesus. [Odorico Tavares. Canudos,
Cinqüenta Anos Depois, Salvador: Conselho Estadual de Cultura, 1993, p. 50], a
quem, na mesma oportunidade acrescentou o centenário e igualmente
sobrevivente Mariano: “Só podia ser um santo homem. Não mandava matar, não
131
mandava mentir, não mandava furtar. Só levava para o bem. Quem quiser se
desgraçar, se desgraçou”. [Ib. p. 51].
Fundamentalmente por estas razões, aquele lugar isolado que
escolhera como último e ilusório refúgio para si e os seus obstinados
acompanhantes, em pouco tempo se transformaria num “formigueiro de gente,
zelosa e ordeira nos seus bons costumes, onde não havia uma só mulher
prostituta. Do balcão eu via a quietude e a paz em que findavam os dias. Reinava
o Peregrino. A sua palavra era ouro de lei. A sua mão suave. O bastão era
apenas para apoiar o corpo moído de tantos sacrifícios e rezas. Isto. Mais
nada”, segundo palavras do sobrevivente Honório Vilanova.(Destaquei). [Nertan
Macedo, Memorial, op. cit., p. 67].
Aquele velho da “palavra de ouro” e de “mão suave”, foi acolhendo a
todos que ali chegavam, especialmente as vítimas da politicagem infrene,
roubados pelo fisco, despojados dos latifúndios e injustamente perseguidos pela
polícia e a justiça a soldo dos poderosos. Aliás, o conceito que até hoje os pobres
fazem da polícia percebe-se pelos habitantes das periferias do Rio de Janeiro e do
Brasil inteiro, quando dizem preferir a presença dos traficantes de drogas à dos
policiais. O mesmo acontecia no sertão nos séculos XIX e XX, quando, entre o
policial e o cangaceiro, o sertanejo dava preferência ao último. Assim define o
jurista e historiador o povo que construiu o arraial: “Aquela gente havia
encontrado a reparação ao seu passado sofredor: Roubadas as suas propriedades,
expulsos das suas terras pelo fisco, pelos policiais desalmados, pelas autoridades
ou seus agentes arbitrários e maus, pelos políticos sem sentimentos humanos.
Vítimas da brutalidade e do egoísmo encontraram a terra de Canaã, guiados pelo
chefe, cuja palavra até então fora sempre um bom conselho”. [Ataliba Nogueira,
op. cit., p. 12].
1 – A ORGANIZAÇÃO FORMAL – Nenhuma informação existe –
documental ou oral – sobre o procedimento adotado pelo Conselheiro e seus
acompanhantes para ordenarem a excelente organização do arraial. Certamente
conhecendo as aptidões dos que lhe eram mais próximos, e através destes e
doutros, inclusive as aptidões físicas e psicológicas, de forma consensual hajam
sido distribuídas as tarefas na forma adaptada às necessidades e conveniências,
procedimento que jamais suscitou reparo, reordenamento ou crítica. Nenhum
visitante que ali compareceu, pois era diária a ida e vinda, pessoas que por lá
transitaram, sobreviventes ouvidos ou pesquisadores registraram o mínimo
desmando em qualquer das áreas de atividades do arraial.
132
O respeito, a admiração e a confiança, que por suas ações impunha o
velho e austero missionário, era força ponderável que naturalmente fazia
prevalecer a normalidade. Por outro lado, a quase totalidade dos primitivos
habitantes, era composta de famílias – a maioria numerosa – de pessoas
trabalhadoras, ordeiras, de bons costumes e naturalmente dotadas da conhecida
honestidade sertaneja. Enfim, a estrutura administrativa do arraial que se
transformaria num imenso povoado, também e especialmente, fundou-se no bom
senso e no senso moral que a visão da bem-aventurança do moderado e sábio
Meu Pai Conselheiro a todos intuía.
2 – AS EDIFICAÇÕES – Frondosos oiticicais e juazeiros, comuns às
margens dos rios e riachos do semi-árido, até hoje abrigam viandantes em suas
longas travessias pelo sertão, e outra não foi a acomodação inicial, antes de
recuperadas e reconstruídas as primeiras casas e taperas abandonadas. Várias e
contraditórias são as descrições e imagens das construções de Canudos. Uma
fotografia de Flávio de Barros, estrategicamente mandada colher pelo comando
do massacre, obtida quando as tropas do extermínio já ocupavam e haviam
destruído a quase totalidade do povoado [Veja, op. cit., pp. 64-65], em primeiro
plano se observa a alta fumaceira que evolve das chamas e encobre grande parte
do povoado, mas, claramente à direita se vê a imponência de uma das igrejas, e
ao fundo alguns arruados simétricos de casas de regulares proporções. Um
desenho da 4a expedição [Antonio Carlos Olivieri – Canudos, São Paulo: Ática,
1994, p. 14] mostra boas edificações. Baseado no testemunho ocular do estudante
de medicina Alvim Martins Horcades, que esteve em Canudos até a decapitação
do Conselheiro, é assim descrita a urbanização do povoado: “Na verdade,
Canudos pode ter ostentado mais refinamentos urbanos do que a maioria dos seus
vizinhos: apesar de as casas da cidade do Conselheiro serem construídas de taipa
cobertas por sólidos telhados, como em qualquer outro lugar, a maioria era
pintada – uma raridade no sertão – e muitas eram caiadas. Três bairros eram
pintados de cinza e dois de vermelho”. [Levine, op. cit., p. 237].
3 – A LIBERDADE E AS COMUNICAÇÕES – Era uma aspiração
comum e um dos motivos que justificavam a pertinácia daquela gente em seguir o
beato missionário; dentro dos padrões e limites habituais, o poder de ação, o ir-e-
vir em Canudos era franco. Considerando a gente do povoado, assim conclui a
lúcida historiadora: “Como quase nada possuíam em seus locais de origem,
facilmente encontravam em Canudos liberdade, integração, motivações
religiosas e sociaissuficientes para133retê-los e estimulá-los a resistir e
lutar contra qualquer tipo de dominação externa”. (Destaquei). Yara Dulce
Bandeira de Ataíde, [Revista USP, «Dossiê Canudos», op. cit., p. 95].
O arraial crescia em ritmo acelerado: casas, habitantes, agricultura,
miunças, comércio, relações de intercâmbio com outras localidades e demais
atividades inerentes a qualquer povoado do sertão. As ações eram espontâneas e
desimpedidas em todos os ramos de atividades: “A verdade é que, nem
Tacaratu, nem Simão Dias, nem Geremoabo, nem Monte Santo, nenhuma
das cidadezinhas do sertão, ao norte, ao sul, à beira do São Francisco, era
tão movimentada, tão trabalhadora e tão morigerada como Belo Monte, que
o povo de fora chama Canudos (...)”. (Destaquei). [Adilson Odair Citelli.
Revista USP, op. cit., p. 68].
A faculdade de ação e a comunicação com os povoados vizinhos e
distantes eram francas, florescendo até mesmo a compra e venda de imóveis:
“Fávila Nunes reproduz em seu opúsculo Guerra de Canudos – Narrativa
Histórica uma carta de certo morador do arraial na qual afirma: “venha para
comprar 3 casas minhas que estou a sua espera...”. Isso denota claramente que
havia em Canudos o comércio de casas, e, portanto, deveria haver certo número
de casas disponíveis para serem vendidas, alugadas ou cedidas a retirantes ou
pessoas que permaneciam na localidade por certo tempo”. (Destaquei). Yara
Dulce Bandeira de Ataíde. [Revista USP, op. cit., p. 93]. Igualmente referindo
correspondências recebidas pelos habitantes do povoado, conclui outro
pesquisador: “Praticamente todas essas cartas se referem a trocas de
correspondências anteriores, sugerindo portanto que o serviço postal
funcionava dentro e fora de Canudos”. (Destaquei). [Levine, op. cit., p. 246].
Inconformado com as perversas injustiças que recaíram sobre a pessoa
do Conselheiro e seus Pobres de Cristo cruelmente chacinados, faço esta pequena
digressão. É que a infâmia e a insídia que se abateram sobre aquele pobre beato e
sua mísera e indefesa gente, lhes impingiu um imensurável e cruel estigma, uma
marca indelével de tais proporções que transcende e resiste até mesmo à
evidência da verdade histórica, resultando num sentimento popular a quem
desconhece a verdade, levando a crer que algo diabólico e assustador envolveu a
todos: missionário, habitantes e até mesmo os escombros do povoado. O pavor
popular era de tal monta que a simples menção a qualquer cousa que envolvesse a
tragédia fazia desconfiar, assustar e infundir medo aos ignorantes moradores da
região. Esse conceito difundiu-se por todo o Nordeste, embora hoje esteja
moderadamente contido. Enquanto naquela época emudeciam, hoje criam
imagens, presumem e “estoriam” passagens e fatos fantasiosos, exigindo cuidado
ao pesquisador. 134
Evidencio. Quando se realizavam as filmagens do Documentário –
Canudos – 1976, pelo cineasta Ipojuca Pontes, era visível a mescla de
constrangimento e temor estampado nos semblantes dos entrevistados. À exceção
de Umberto Peregrino e Gilberto Mitchell, que discorreram sobre as ações
militares, os demais falaram com transparente timidez e acanhamento, como se
referissem algo ilícito, proibido, criminoso, inclusive o próprio Prof. José
Calasans. Cito enfaticamente dona Alvina, filha de canudenses, uma pobre
velhinha mirrada, com molambos cobrindo a cabeça, sentada num toco defronte
duma tapera, rodeada por um porco magro, algumas galinhas e um cachorro que
lambia um prato no terreiro. Indagada pelo cineasta-repórter sobre a “guerra”,
meneou negativamente a cabeça e respondeu:
- Num sei nadinha de nada!
Após cessar parcialmente o manifesto receio, perguntada sobre a vida em
Canudos, disse:
- Ia lá fazer a feira. Vivia de passeio por lá. Ia pra festa boa...pra
procissão da Santa Cruz...
No final da década de 70, viajou à região o escritor Mario Vargas
Llosa no intuito de colher dados para seu romance A Guerra do Fim do Mundo,
[Rio de Janeiro: Francisco Alves Editora, 1990], quando muitos sertanejos se
mostraram temerosos de falarem sobre o Conselheiro. No entanto, Canudos hoje,
no âmbito sociorreligioso da Igreja é uma comunidade conhecida como exemplo
da Igreja dos Pobres, difundida pela Teologia da Libertação, que naqueles
distantes idos, concreta e praticamente foi vivenciada pelo missionário Antonio
Conselheiro e a gente de Belo Monte-Canudos.
Isso posto, volto ao tema analisado. Inacreditavelmente, sequer para
os atos religiosos existia obrigatoriedade, o que prova o exercício amplo das
franquias de direitos, conforme testemunhou Honório Vilanova: “O Peregrino
jamais obrigou alguém a freqüentar devoções. Não permitia, isto sim,
desordens, mancebias, depravações, bebedeira, pagode dentro do arraial. Às
orações da latada iam as mulheres, e os homens mais tocados de espírito
religioso. O resto cuidasse dos seus afazeres, deveres e obrigações, sem
malquerença a ninguém”. Acrescenta Nertan: “Canudos era uma vila como
outra qualquer, levando uma existência normal, com sua comunidade e
organização próprias, onde coabitavam a fé em Deus e os mistérios simples e
humanos. O Peregrino era um bom e inofensivo beato, que vivia para
apontar os caminhos da salvação eterna”. (Destaquei). [Nertan Macedo,
Memorial, op. cit., p. 31].
135
4 – A JUSTIÇA – AS LEIS – Como ex-militante do foro – cível e
criminal – mais ainda por sua vida de austero asceta voltada às atividades
religiosas, naturalmente o missionário impunha respeito à ordem e obediência às
leis e aos bons costumes. Há notícia de que existia no povoado uma cadeia, onde
eram provisoriamente recolhidos os infratores que seriam logo entregues às
autoridades competentes. Um sobrevivente entrevistado relatou a Abelardo
Montenegro que “os ladrões eram presos e enviados às autoridades baianas. As
meretrizes eram deportadas. Não se permitia o uso de cachaça. Os que viviam em
concubinato eram casados por ocasião das visitas do Padre Sabino, vigário de
Cumbe, que tinha casa em Canudos...Combatia o roubo, a mentira, o
homicídio...Não tolerava o amor livre”. [Op. cit.,pp. 132-133]. Acrescenta outro
autor: “Quando um assassino fugitivo, “o negro Marcos”, apareceu na cidade, a
milícia conselheirista o prendeu e o entregou à polícia de Monte Santo, onde foi
julgado e condenado a cumprir pena em Salvador”. [Levine, op. cit., p. 244].
Finalmente, apenas dois anos após o morticínio, dando um testemunho inconteste
da ausência de infratores entre os habitantes, escreveu César Zama: “A justiça
estadual não se occupava dos habitantes d´aquele arraial. Contra eles não se havia
instaurado processo algum. Nos Cartórios do Estado nenhum d´elles tinha o seu
nome no rol dos culpados”. [Op. cit., p. 23].
5 – A EDUCAÇÃO – É prolixidade acrescentar esta conhecida
atividade praticada no povoado, até porque é amplamente sabido que Antonio
Conselheiro foi um homem razoavelmente letrado e estudioso. Quando moço, em
várias oportunidades exercera o magistério como mestre-escola em diversas
localidades, além de escrivão de paz e advogado provisionado: “Homens e
mulheres que não haviam se juntado ao séquito do Conselheiro também podiam
viver livremente na comunidade. O Conselheiro que, a certa altura da vida, havia
se dedicado a educar crianças, construiu escolas em Bom Jesus, Bom Conselho e
Canudos. A primeira não durou muito: o professor contratado a mando do
Conselheiro acabou se revelando um alcoólatra e foi despedido. O Conselheiro
dirigiu pessoalmente a escola de Canudos, trazendo de Soure um professor de
nome Moreira, que morreu pouco antes do início da guerra. O Conselheiro
contratou então uma Maria Francisca de Vasconcelos, também de Soure e com
apenas 22 anos. Ela havia estudado na Escola Normal de Salvador, mas quando
sua família a proibiu de casar com um trabalhador de classe baixa, os dois
fugiram para Soure e acabaram indo morar na Belo Monte do Conselheiro. Pouco
tempo depois seu marido a abandonou”.
136
“Meninos e meninas iam juntos diariamente à escola, fato que
teria chocado os tradicionalistas caso esta informação tivesse vazado (é
interessante pensar que isto contradiz a imagem do Conselheiro como um
homem que abominava práticas modernas). Cada criança pagava uma taxa
anual de 2.000 réis. Havia inúmeros professores e professoras, sendo que uma
delas escapou à batalha final e fugiu para Salvador, onde morreu em 1944.
Fanáticos ou não, os seguidores do Conselheiro eram encorajados a proporcionar
aos filhos uma educação formal, privilégio que nenhum deles teria em suas
cidades e vilas natais ”. (Destaquei). [Levine, op. cit., pp.243-244]. A Prof. Yara
Dulce Bandeira de Ataíde identifica, dentre 41 habitantes de Canudos estes
professores: “18 – Maria Francisca de Vasconcelos, professora, morena, Soure.
19 – Marta Figueira, professora. 34 – Moreira, professor, branco, Soure”. [«As
Origens do Povo do Bom Jesus Conselheiro», Revista USP, Dossiê Canudos, op.
cit., p. 98].
Confirma integralmente o que foi escrito, o depoimento publicado
pela imprensa de Salvador de autoria da Comissão Especial do Comitê Patriótico
Baiano, instituído para proteger as mulheres e crianças sobreviventes. Este
irrefutável, veraz e básico documento, mostra a realidade dos costumes da gente
do povoado, não só na educação doméstica e escolar – que tem seus reflexos nos
hábitos e condutas – mas no amplo contexto da vida dos habitantes, seus
comportamentos e características familiares, morais e sociais, com evidente
comprovação de probidade, honradez, dignidade, decoro e fraternidade: “24 dez.
1897. O que muito é honroso para as desventuradas jagunças e nos não é
dado calar, em nosso relatório, como informações que devemos ao Comitê
Patriótico, é o fato de havermos verificado que nenhuma, dentre todas as
prisioneiras, era mulher de má reputação ou de conduta irregular, notando-
se-lhes bons costumes, hábitos de trabalho e depois, osentimento da honra e
esse recato, que são o apanágio e a maior riqueza da família sertaneja”.
“Pudicas, forçando posições para esconder com andrajos a nudez
da pele, vimos raparigas e mulheres ocultando envergonhadas o rosto entre
as mãos"
“Mesmo dentre as crianças, não conseguimos observar gestos nem
palavras reprovadoras, assim como modos grosseiros nem coisa alguma que
lhes desabonasse a educação doméstica. Era digno de vê-las, partilhando os
sofrimentos umas das outras, e socorrendo-se mutuamente, dividir o que se
lhes dava sem a menor sugestão”. (Destaquei).[In Walnice Nogueira Galvão,
op. cit., pp. 502-503]. Diante deste insuspeito testemunho, nada resta a aditar
sobre a vida, hábitos, costumes e137educação formal da gente de Canudos.
6 – ATIVIDADES ECONÔMICAS – Não há registro histórico,
repito, de como se processou e organizou a instalação do arraial, pois, como já foi
dito, o ano de 1893 registrou a ocorrência de forte seca em todo o Nordeste.
Contudo, o depoimento de José Aras esclareceu o bom relacionamento do
missionário com os poucos e devotos fazendeiros da região, além dos auxílios
naturais à alimentação e encontrados na região, tais como cabras e caças que
abundavam na caatinga. Comprova a informação de Aras a carta que o
Conselheiro enviou ao fazendeiro Felisberto de Morais, datada de 26.04.1893,
escrita um mês antes ao atentado de Masseté, na qual roga-lhe: “faça-me a
caridade de mandar uma rês de que tenho precisão”.
Nos dias atuais, embora em acelerada extinção, muitos sertanejos
complementam a alimentação familiar com as conhecidas “misturas” de tatus,
pebas, preás, mocós, nambus, pombas em tingis, juritis, seriemas e outros animais
e aves nativas do semi-árido. Por outro lado, como foi antes escrito, é unânime a
notícia de que na região de Canudos proliferavam na caatinga numerosos
rebanhos de cabras brabas, excelente fonte nutricional, dos quais se valeram os
primeiros habitantes. A pele – que adiante se tornaria matéria prima de
exportação – inicialmente perfurada de chumbo e imprópria para o comércio,
prestava-se às mais variadas utilidades que iam desde as alpercatas, gibões,
perneiras, chapéus de couro, patuás, cobertura de cadeiras, trançados de camas de
varas e outras utilidades domésticas.
Às prédicas e exercícios religiosos do missionário compareciam os
moradores circunvizinhos, como declarou dona Alvina a Ipojuca Pontes em
depoimento referido páginas acima, mas a afluência dos que pretendiam se
estabelecer no arraial era constituída de famílias, na sua quase totalidade carentes,
com filhos de idades variadas, trabalhadoras, honestas, experientes e habituadas
ao trabalho árduo do sertão, possibilitando a que em pouco tempo houvesse certa
abundância de gêneros de necessidades básicas.
Não tardou para florescerem roçados às margens do rio Vaza Barris,
onde prosperavam lavouras de milho, feijão, mandioca, macaxeira, jerimum,
batata, cana-de-açúcar e outras. Com a palavra os insuspeitos sobreviventes.
Sentado numa tora de madeira sob uma árvore não identificada, rosto enrugado e
sisudo, pés disformes e rústicos calçados com velhas apragatas de cabresto,
camisão de algodãozinho de mangas compridas, calças atadas à cintura por
cordão de algodão e um surrado chapéu de couro, era esta a figura do velho
sobrevivente João Francisco da Costa, ouvido por Ipojuca Pontes em 1976. Com
a mão direita trêmula manuseando uma quicé, abrindo na madeira a parte
côncava duma colher-de-pau, com138voz entrecortada respondeu:
- P. O povo gostava do Conselheiro?
- R. Muitos gostava, outros não...
- P. O Conselheiro mandava convidar o povo pra morar em
Canudos?
- R. Não mandava buscá gente não. Nunca mandou chamá
ninguém! O pessoá era quem desemcabeçava o pessoá de fora...
- P.O que o senhor fazia em Canudos?
- R. Trabaiva de inxada e tinha tudo na roça. Tudo era mais in
conta. Cum quarqué dinheirinho a gente fazia uma feirinha. Tinha
muito leite e o queijo a gente vendia. Tinha muita criação pra
gente se arrimidiá cum uma. Tinha cinco jumentos de carga. Hoje
ando a pé e vivo esperando por esmola...
- P.E agora, o que o senhor faz?
- R. Faço cuié de pau e corda de croá...
Honório Vilanova foi entrevistado por Abelardo Montenegro, José
Calasans e Nertan Macedo, a todos assegurando a abastança que predominava no
arraial. Deles, o depoimento mais extenso prestou a Nertan, que de Fortaleza foi à
casa do sobrevivente no extremo sul do Ceará, declarando-lhe Honório: “As
coisas do tempo eram baratas. O açúcar branco, vindo do Sergipe, custava seis
mil-réis a arroba. Quatro, o mascavo, arroba de quinze quilos. Cinco mil-réis, o
quilo do bacalhau. A carga de rapadura de Geremoabo não ia além de vinte mil-
réis. Cada uma delas a quatro vinténs, tínhamos um lucro de cem por cento.
Miudeza era a tostão. Uma travessa, pente de cocó, custava cinco réis. O quilo da
pimenta do reino, dez tostões. O charuto, um tostão. A arroba de fumo, sete mil
réis. É de quanto me lembro, nesta minha velhice”. [Memorial, op. cit., p. 39].À
p. 70 adiantou: “Não havia precisão de roubar em Canudos porque tudo
existia em abundância, gado e roçado, provisões não faltavam. Se o Peregrino
ditava contra a República é porque a República era contra a religião”. Um Cel.
reformado do Exército, Fávila Nunes, gaúcho e conhecedor da opulência agrícola
dos pampas e correspondente da Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, cujas
informações poderiam conter suspeição, escreveu: “Canudos teve a vantagem, a
conveniência de revelar isto: Antonio Conselheiro era simplesmente um
fanatizador e viveu com seus fanatizados, única e simplesmente, exclusivamente
de seus próprios recursos”. [Walnice N. Galvão, op. cit. p. 223].
Criava-se gado e miunças, e as famílias que dispunham de maior mão-
de-obra tinham sua vaca de leite das primitivas e rústicas raças conhecidas como
gado comum, pé-duro ou caracu, segundo estudo de Teodoro Sampaio, de
extrema resistência às estiagens.139Embora com tal poder de subsistir, nas
secas prolongadas eram raçoadas com palha de milho e de feijão, mandacaru e
xique-xique sapecados em coivaras. Abandonando considerações de estudiosos e
passando à visão insuspeita do então Ministério do Exército, no opúsculo
Guerras Insurrecionais do Brasil (Canudos e Contestado), Escola de Comando e
Estado Maior do Exército, Departamento de Imprensa Nacional, Rio, 1968, lê-se
que em Canudos “se estabelecera comércio interno de gêneros essenciais. Nas
vizinhanças do burgo havia regulares culturas de mandioca, milho, feijão, batatas
e criação de vacas, cabras e carneiros”.
Entretanto, a mais importante e lucrativa atividade econômica do
povoado, foi a criação de caprinos. A criação extensiva de rebanhos de bodes no
sertão é uma atividade primitiva e até hoje praticada no semi-árido, excelente
habitat desses animais desde sua aclimatação no Nordeste, quando o colonizador
trazendo da África aqui soltou as primeiras sementes. Analisando o desempenho
da cabra no desenvolvimento econômico do arraial, faço esta ilustrativa
digressão. Os leitores, estudiosos e pesquisadores da tragédia de Canudos já
constataram contradições, conflitos, incongruências e até improváveis e irreais
acontecimentos descritos por bom número de historiadores e encontrados em
volumosos e elogiados estudos.
Primeiramente, é de se dispensar atenção e interpretação às
declarações dos habitantes da área de Canudos a partir dos anos 90 do século
pretérito, época em que se iniciou uma verdadeira peregrinação de pesquisadores,
historiadores, jornalistas, repórteres, fotógrafos e até mesmo acentuado número
de simples curiosos à região, na ânsia de obterem subsídios às mais diversas
matérias. Como já foi registrado, antes da queda da ditadura militar e da ausência
de censura a temas que envolvessem o Exército, eram visíveis o medo, a timidez,
o constrangimento e, em muitos casos o absoluto silêncio daquela gente acerca do
medonho episódio. Com a vigência da Constituição de 1988 e a sucessiva
chegada de pessoas notáveis, os naturais da região, no entusiasmo de
sobressaírem, criam imagens, inventam personagens e estórias fantasiosas no
evidente intuito de fanfarria, o que é próprio do matuto ignorante diante de
pessoas estranhas e letradas. Crê-los, contribui para a divulgação de inverdades
que tomam ares de historicidade.
Enfatizo o artigo da Professora Adjunta de Antropologia da UFRJ e da
UERJ, Luitgarde O. Cavalcanti Barros,«Crença e Parentesco na Guerra de
Canudos», que compõe a obraCanudos – As falas e os olhares, op. cit.,pp. 74-89.
À p. 79 a autora desenvolve esta notícia: “Além disso, naquele tempo, as
propriedades não tinham cerca e o povo plantava em qualquer pedaço de
terra que desse lavoura,140principalmente nas baixas”.
Esclarece a leitura que o agricultor, por falta de cercas, usava de forma indistinta
as terras agricultáveis, principalmente as baixas. Ora, onde prospera a criação
extensiva de bodes, a primeira preocupação do agricultor é proteger seu roçado,
pois este animal é conhecido no sertão como o maior “ladrão” e predador de
lavouras, e, outra não foi a preocupação primeira dos lavradores senão o imediato
levantamento de cercas de faxina, certamente usando o resistente sabiá. Como o
desconhecimento induz ao erro – como é o caso da professora que, embora
alagoana, desconhece o semi-árido – são expressões tais, saídas da pena de
estudiosos, que inspiram futuros enganos.
Confrontando e analisando os depoimentos de poucos sobreviventes e
inúmeras pessoas da região e circunvizinhança, onde por muitos anos correu o
absurdo, mas crível boato de que tropas do Exército voltariam para exterminar os
descendentes dos habitantes do povoado, conclui-se que muito pouco pode ser
creditado como verdadeiro. O que remanesce é uma profusão de fábulas e
gabolices. Se o fato de residirem nas imediações do massacre intimidou e
constrangeu os declarantes – como afirma a quase totalidade – por morar muito
distante da região e nada ter a temer e por sua extensão, certamente o mais
acreditado – embora com certas reservas e senões – deve ser o testemunho de
Honório Vilanova.
Findo o parêntese, volto ao tema. Quanto à venda de queijos referida
no depoimento de João Francisco da Costa, em grande parte provinha do leite das
cabras, muito saboroso e hoje raro e caro, pois é multissecular a certeza de que “a
cabra é a vaca do pobre”. Tratadas, as peles tomavam o destino de Juazeiro,
como expõe o historiador considerando as exportações de Canudos: “A pele da
cabra do Nordeste do Brasil é das melhores do mundo. Nos dois mercados de
peles de cabra do mundo, o americano e o alemão, os tipos preferidos de peles
caprinas são justamente denominados Uauá e Curaçá, provenientes daquelas
cidades baianas, na região de Canudos. Concorrem para tanto o sol, o calor, a luz
e a liberdade pela ausência de cercas de arame farpado, que por vezes furam a
pele do animal, tornando-a imperfeita. É grande a sua exportação para o
estrangeiro. A indústria européia e a norte-americana com a pele da cabra prepara
couro finíssimo como o chagrin, o marroquim, a camurça, o conhecido couro da
Rússia e o pergaminho. A cabra, diz Silva Melo “refugiou-se nas paragens mais
incultas para viver à lei da natureza”. Não requer cuidados especiais; as
plantações e roças e roupas é que delas devem ser protegidas”.
“O destino só pode ser Juazeiro, o empório do sertão do São
Francisco, como o denomina Teodoro Sampaio. É a capital do comércio de toda a
zona e onde está a estação de141embarque por estrada de ferro para o
porto de Salvador (sic)”. [Ataliba Nogueira, op. cit., 2a ed., 1978, pp. 202-205]. É
interessante registrar que decorridos séculos, persiste a presença das cabras livres
naquelas paragens semi-áridas, chocalhando pelas ruas de povoados e pequenas
cidades como testemunhou o jornalista em setembro de 1997: “Quem vaga pelo
sertão terá sempre a persegui-lo um duplo acompanhamento sonoro: o chocalho
das cabras e a Rede Globo de Televisão. O chocalho das cabras está lá desde
sempre”. (Destaquei). [Roberto Pompeu de Toledo, op. cit., p. 81].
7 – A SAÚDE – Os sertanejos com sua civilização “em rama”,
ironicamente foram os precursores da medicina natural, hoje entronizada nos
laboratórios das universidades do planeta em substituição a muitas drogas de
elaboração sintética. É preocupação recente de nossos cientistas o contrabando
internacional de sementes e espécies de nossa flora e fauna, que, desenvolvidas
em modernos laboratórios são transformadas em importantes e caros
medicamentos, e, o que é mais grave, patenteados pelos trustes do bilionário
mercado farmacológico internacional.
Agora são amplamente conhecidas e saudáveis as posologias e
resultados medicinais de plantas nativas da caatinga, tais como aroeira, alecrim,
babosa, batata-de-purga, cajazeira, capim-santo, chá-de-calçada, colônia, cidreira,
boldo, piquí, goiabeira, juazeiro, marmeleiro, malva, macela, mastruz, catinga-
de-bode, mororó, pau-d´arco, quebra-pedra, vassourinha e outras. Em todas as
localidades existiam e existem, pessoas idosas que ensinam o manuseio,
aplicação e posologia, o que passam às gerações seguintes. Outra não foi a prática
medicinal usada pelos moradores em socorro de seus males. No Ceará, por meio
das Secretarias de Saúde do Estado e dos Municípios, há tempos estão
propagadas as chamadas Farmácias Vivas. Cultivadas em pequenos cercados ao
lado de cacimbões, poços ou baixas de rios e riachos no sertão, enquanto na zona
urbana encontram-se em colégios, creches e pequenos canteiros nos quintais das
residências. Tal iniciativa procede de percucientes estudos experimentais e
laboratoriais do saudoso Prof. Dr. Francisco José de Abreu Matos, Doutor em
Farmácia, Professor titular de Farmacognosia e Professor Emérito da UFC, autor
do livro Farmácias Vivas, UFC, 3a ed., Fortaleza, 1998 – obra de inestimável
valia e por mim consultada.
Como até hoje acontece, existiam as parteiras que os civilizados do
litoral, pejorativamente designavam de cachimbeiras, mas nós, que fomos
meigamente recebidos em seus braços chamávamos de Mãe – Mãe Nêga, Mãe
Chiquinha, Mãe Zefa etc. – estreitando e disseminando laços de afetividade,
sendo a Mãe, por toda a comunidade142prezada, respeitada e prestigiada, o
mesmo ocorrendo com a Mãe de Leite. Há uma vaga e improvada notícia de que
no povoado teria demorado um médico, como registra Levine numa entrevista
mantida com Calasans [op. cit., p. 244], mas, de certo é sabida a presença de duas
parteiras – Benta e Caridade – naturais de Itapicuru, como está na matéria da
Prof. Yara Dulce B. de Ataíde, [Revista USP, op. cit., p. 98], o que, pelo número
de habitantes deixa crer que existissem inúmeras outras que a pesquisadora não
alcançou.
8 – O COMÉRCIO – São consensuais as notícias de que o comércio
transcorria normalmente, tendo intercâmbio com todos os lugarejos, vilas e
cidades da região, como ficou demonstrado em intertítulo precedente. Havia
feiras semanais como em qualquer outro povoado ou cidade, como asseguraram
as testemunhas presenciais – d. Alvina e Honório Vilanova – acontecendo
provavelmente aos domingos. O Prof. Adilson Odair Citelli, no artigo «Canudos:
formas de composição», [Revista USP, Dossiê Canudos, op. cit., 67-73],
ponderando Os Jagunços e Os Sertões, e, examinando as atividades comerciais
no povoado, destacou: “Alguns autores querem mesmo considerar Belo Monte
como um nucleamento com razoável fluxo de mercadorias – pelo menos até o
início das hostilidades – que mantinha relações comerciais com outras cidades,
em particular com Juazeiro da Bahia, e que explorava atividades agropastoris,
vendendo couro “especialmente de bode e carneiro que abundam como peste
pelas caatingas”.
“A gente da redondeza comerciava francamente com Belo Monte,
sem o mínimo receio. Lá entravam diariamente cargueiros carregados,
vindos das fazendas mais próximas. Os fazendeiros já mandavam de longe
para lá suas tropas carregadas de mantimentos. Muita gente vinha para aí
como para uma peregrinação”. A explicativa “sem o mínimo receio” parece
querer sinalizar para a imagem de uma Canudos operosa e pacífica, vivendo
um cotidiano muito parecido com o de outras cidades sertanejas, tendo sua
escola, sua cadeia, casas melhores e piores, mas sendo, basicamente, um
lugar onde “reinavam a abastança filha do trabalho”, e as pessoas
desconheciam o que era roubo ou luxo”. “Não fosse assim, Canudos, por
exemplo, deixaria de ser disputada pelos padres Sabino, vigário do Cumbe, e
Ricarde, do Pombal, visto que na origem do desentendimento entre os clérigos
estava o fato de as visitas ao território do Conselheiro permitirem ganhos
razoáveis com a celebração dos ofícios religiosos”. (Destaquei).
O diligente e sistemático propósito de muitos cronistas em macularem
e infamarem o Conselheiro e os143habitantes de Belo Monte-Canudos,
chega às raias do ridículo ao ponto de afirmarem que, num tão próspero comércio
não circulava dinheiro da República. Contudo – além do que disse Honório
Vilanova – mesmo após o massacre os humanitários e isentos membros do
Comitê Patriótico da Bahia, no seu Relatório dão esta notícia: “Testemunhamos
a nobreza de algumas mulheres distribuir pequenas quantias, que traziam
escondidas consigo, no sentido de melhorar o rancho às mais indigentes:
quase todas que tinham maior cópia de recursos assim procediam, como
podemos afirmar,frisando o nome da prisioneira Maria Leandra dos Santos
que, trazendo de Canudos perto de um conto e quinhentos mil-réis,gastou
quase metade desta quantia, procurando minorar a condição às suas
companheiras de infelicidade, até Alagoinhas”. (Destaquei). Walnice N.
Galvão. [No Calor da Hora, op. cit., p. 503].
A Prof. Yara Dulce B. de Ataíde [op. cit., p. 98] enumera Honório
Vilanova, Pedro Vilanova e Leão de Natuba como “ajudantes de comércio”, e
Norberto das Baixas, Antonio Vilanova e Antonio da Mota como “negociantes”.
Aliás, Pedro Vilanova não é sequer mencionado por Honório Vilanova, enquanto
Leão de Natuba é por ele citado como escrevente do Conselheiro. [Memorial, op.
cit. p. 69].
A respeito de Antonio da Mota, e por oportuno ao tema examinado, é
imperativo este esclarecimento. José Edson Pontes, componente duma
descendência ilustrada intelectualmente, autodidata e cuidadoso observador da
vida do Conselheiro, especialmente sua demora em Tamboril, adiantou-me que
ouvira de seus antepassados e doutras pessoas idosas a seguinte informação.
Segundo tais fontes, quando Antonio Vicente demorou em Tamboril na função de
mestre-escola, tivera como seu companheiro e inseparável auxiliar certo
Chiquinho Mota, homem diligente e natural da fazenda Pinheiro, hoje o
progressista distrito de Sucesso. Dentre outras tantas, conceituei como mais uma
participação improvada, freqüente na enevoada vida andeja de Antonio Vicente.
Como professor de história e estudioso da matéria, ao longo de
décadas de leituras percebi que na classe dos pesquisadores é saudável o
entusiasmo em deparar e levar novos subsídios no intuito de enriquecer suas
matérias. Contudo, nesta vaidade vários historiadores, particularmente os que
estudam episódios cruentos e notórios e que se adéquam à matéria de feição
jornalística, persiste a propensão de maximizar as informações, com ênfase às
que se prestem à notoriedade, embora muitas resultem em equívocos.
Estabelecendo a verdade hoje conhecida, ponderemos e confrontemos
sob os ângulos versados esta curiosa informação da atenta Prof. Yara Dulce B. de
Ataíde. 144
1. MANUEL BENÍCIO FONTENELE –Como escrevi linhas antes, da
obra de Benício, a parte que merece crédito histórico é a segunda, que trata das
incursões das tropas. A que precede é órfã de fontes documentais acreditadas,
portanto desenvolvida na fantasia. Dissertou o autor: “Os sectarios do
Conselheiro retornaram a Canudos, indignados contra a familia do velho
octagenario Antonio da Motta, negociante, composta de Joaquim da Motta, mais
outro filho, o genro Pedro Rola e mulher e mais dois filhos, a quem se attribuiam
falsidades contra os canudenses e a qualidade de espionagem...Em consequencia
disto a casa do velho Motta foi assaltada uma noite. A familia resistiu, porem
teve de morrer toda, salvo um filho moço, fuzilada por entre as chammas do
fogo que atacaram á casa (sic)”. (Destaquei). [Op. cit., p. 176].
a) Atente o leitor, que o assalto à casa dos Motas aconteceu durante
noite, e a notícia esclarece que escapou apenas um filho jovem.
2 – ROBERT M. LEVINE – Inspirado numa carta que Marcelino
Pereira da Silva enviou ao Barão de Jeremoabo, inimigo e perseguidor do
missionário e seus acompanhantes – 27.09.1896 – que compõe o Arquivo
Jeremoabo na fazenda Camuciatá, Itapicuru, escreveu: “Um deles, Antonio da
Mota, não teve final feliz. Graças ao seu próspero negócio de peles de cabra, era
o cidadão mais influente de Canudos antes da vinda do Conselheiro, que assim o
convidou a permanecer. No entanto, após a Primeira Expedição Militar em
novembro de 1896, recebeu uma acusação anônima de que teria passado
informações para a polícia estadual. Condenado sem julgamento, ele e seu filho
mais velho foram fuzilados em plena luz do dia, supostamente na frente do
Conselheiro. A mulher e os outros filhos de Mota conseguiram escapar,
refugiando-se na casa de outro comerciante da cidade e, posteriormente,
embrenhando-se sertão adentro. Seus bens foram confiscados e sua loja pilhada”.
(Destaquei). [Op. cit., pp. 241-242]. Bem antes, à p. 22, escreveu: “Em 1893,
Conselheiro liderou um grupo de discípulos pios até Canudos e, num inacessível
vale montanhoso do sertão da Bahia, num rancho abandonado, fundou uma
comunidade”. (Destaquei).
b) Nestoutra, que ocorreu à luz do dia , foram mortos apenas o pai e
um filho, cena “supostamente” presenciada pelo Conselheiro, enquanto na última
fica evidente que Canudos era um lugar abandonado, e, como tal ali não poderia
existir comércio florescente. Já a credibilidade da fonte inspiradora – a carta
datada de 27.09.1896 – é falsa,pois o choque de Uauá ocorreu no dia 21.11.1896,
quase dois meses após a correspondência. Doutra parte, a certeza de que
Canudos era um lugar abandonado e escassamente povoado é unanimidade nas
crônicas. Ei-las. Informa Euclides da145Cunha: “Estava, porém, em plena
decadência quando lá chegou aquele em 1893: tijupares em abandono; vazios os
pousos; e, no alto de um esporão da Favela, destelhada, reduzida às paredes
exteriores, a antiga vivenda senhoril, em ruínas...”. (Destaquei). [Os Sertões, op.
cit., p. 96]. Ataliba Nogueira: “Escolhe para isto Canudos, antiga fazenda de
criação, às margens do Vaza Barris, abandonada completamente, sem viva alma.
Além da sede, havia umas poucas casas”. (Destaquei). [Op. cit.,p. 9]. Fica
comprovado, que em lugar com tais condições, não poderia prosperar
significativo comércio.
À p. 290, sem identificar a fonte, adianta Levine: “A traição aos seus
princípios era punida com a morte – como já vimos no caso da execução do
comerciante Antônio da Mota e de seus filhos”. (Destaquei).
c) É incorreto desconhecer a valia histórica das pesquisas de Levine.
Entretanto, sem arrimo em qualquer fonte – sequer oral – asseverar que Antonio
Conselheiro fosse um tirânico assassino, com o sádico e invulgar costume de
presenciar sumárias execuções, torna contraditória e desacreditada boa parte de
seus conceitos sobre as ações do missionário e a gente do povoado. É uma
informação absurdamente injuriosa e contrária à realidade.
3 – LUITGARDE O. CAVALCANTI BARROS – Relembro a
advertência feita linhas antes, acerca da fanfarrice de muitos dos atuais habitantes
da região de Canudos. Em junho de 1992 e julho de 1993, a epigrafada esteve na
cidade de Canudos, onde entrevistou descendentes remotíssimos dos primitivos
habitantes. Dentre outros, conversou com “seuPaulo Monteiro”, que se disse neto
de Joaquim Lourenço Martins, alcunhado no povoado por Quinquim de Coqui, de
quem ouviu esta versão sobre os Motas: “Seu Paulo Monteiro se refere aos
Vilanova como ambiciosos, valentões, encrenqueiros e assassinos. Afirma que,
segundo sua mãe, eles apanharam uns cavalos de seu avô Quinquim e nunca os
devolveram. Conta que os Vilanova mataram, dentro da cidade, “nas barbas do
Conselheiro”, Antonio da Mota e os dois filhos. Como o Conselheiro não admitia
em Canudos a presença da polícia ou juizes, por não reconhecer a autoridade da
República, os crimes ficaram impunes, desencadeando grande revolta na
população". (Sublinhei). [In Canudos – As falas e os olhares, op. cit., p. 84].
d) Neste texto os assassinos são identificados – os irmãos Vilanova –
e foram mortos o pai e dois filhos “nas barbas do Conselheiro”, estando omissos
a mulher, o genro Pedro Rola e mulher, além doutros dois filhos, contrariando a
original notícia de Manuel Benício.
DEDUÇÃO DA VERDADE
I – MANUEL BENÍCIO – Jamais se avistou com Antonio
Conselheiro, embora haja estado na146região. Dela se retirou logo após o dia
24.07.1897 quando foi “convidado a se retirar por dar informações julgadas
inconvenientes” pelos comandantes da carnificina. [Walnice N. Galvão. No Calor
da Hora, op. cit., p. 113].
II – ROBERT LEVINE – Já identificado como pesquisador e
professor norte-americano, que, às expensas dos valorizados dólares das
Universidades daquele país aqui demorou bastante tempo em intensas e caras
pesquisas, resultando na obra que detém rica e substanciosa bibliografia,
tornando-a básica e valiosa ao estudo do massacre. Doutra parte, pecou pela ânsia
de notoriedade – que conseguiu – inclusive recorrendo em excesso à grande
influência de autores de língua inglesa [pp. 358-367]. Fundamenta sua primeira
informação numa carta dirigida ao Barão de Jeremoabo, com data anterior ao
confronto de Uauá – 21.11.1896 – que por si já torna falsa a informação. Demais,
mesmo tomando-a como verdadeira, jamais dormiria nas gavetas da escrivaninha
do Barão, reconhecidamente um dos pregoeiros do extermínio e que tinha como
deleite de incitação escrever missivas e artigos para os jornais de Salvador
detratando o Conselheiro. No mínimo, se transformaria em manchete de jornais,
ou motivo de queixa-crime junto à polícia ou justiça. De extrema gravidade é a
notícia seguinte, onde o autor, sem qualquer fonte que a justifique, atribui ao
Conselheiro uma hedionda calúnia sequer levantada pelos arautos do genocídio.
Doutra parte, incide o professor em séria contradição que desmerece
totalmente a informação precedente. Inicialmente, remeto o leitor ao que está no
final do Capítulo 8 deste livro – OS MISERÁVEIS – A RESOLUÇÃO, que cita a
p. 205 da obra de Levine, e, definitivamente confirmando seu incoerente juízo,
mesmo antes, expendeu: “Outros desinteressados ou predispostos a vê-lo de
maneira mais positiva, admiravam sua bondade e preocupação com as
vítimas de injustiças políticas ou arbitrariedades policiais. Alguns diziam
que ele parecia um “santo” ou “profeta”. Ocasionalmente juntavam-se a ele
missionários europeus enviados pela Igreja. Algumas vezes pregavam
conjuntamente, outras, ficavam somente ouvindo”. [Levine. Op. cit., p. 194].
É impossível, portanto, a uma pessoa com tais comportamentos e tão louváveis
qualificações, prestar-se a determinar e presenciar fuzilamentos.
III – LUITGARDE O. CAVALCANTI BARROS – Traz a notícia
duma fonte da terceira geração dos primeiros habitantes do povoado,
conceituando os Vilanova como assassinos e ladrões, crimes desconhecidos pela
unanimidade dos historiadores e omissos nos testemunhos de todos os
sobreviventes.
IV – EUCLIDES DA CUNHA – Apesar dessas falseadas, conflitantes
e graves imputações, a verdade147provém de Euclides da Cunha, pois
seria absolutamente improvável que tão monstruoso acontecido lhe fosse
desconhecido. Curiosamente, embora com prenomes diferentes – como quase
tudo no episódio é turvo, questionável – enumerando as pessoas de destaque do
povoado, oautor menciona os Motas, vivos, sadios e lutando em defesa de suas
famílias, de seus “tijupares”, de suas roças, suas cabras e de seu povoado
agredido no exato ano de 1897, portanto, bastante tempo depois do confronto de
Uauá, ocorrido em 21.11.1896: “Chiquinho e João da Mota, dous irmãos aos
quais estava entregue o comando dos piquetes vigilantes nas estradas de
Cocorobó e Uauá, aparecem unidos, desfiando, crédulos, as contas do mesmo
rosário”. (Destaquei). [Os Sertões, Rio de Janeiro: Ediouro, 1992, p. 106].
V – OS MOTAS DO PINHEIRO – Até hoje existe na antiga fazenda
Pinheiro, agora o maior e mais desenvolvido distrito de Tamboril com o
topônimo de Sucesso, a distinta, honrada e prestimosa família MOTA que tem
como patriarca, lúcido, forte e perspicaz meu velho e octogenário amigo Antonio
Mota. Homem sabidamente honesto, católico fervoroso, foi comerciante,
vereador em inúmeras legislaturas, e por várias vezes eleito vice-prefeito, a
primeira delas na eleição de 1958, quando seu nome sufraguei pela primeira vez.
Progenitor de família ilustrada é pai do atual prefeito de Tamboril, Jeová Souto
Mota, igual e curiosamente bem sucedido comerciante, empresário e político.
Examina este capítulo o comércio no povoado, e esta extensa
consideração se justifica pela ocasião de analisar e desacreditar – escritas por
penas notáveis – as injuriosas versões duma monstruosa, hedionda e sumária
execução, criminosamente insinuada como “nas barbas do Conselheiro (sic)”.
Não pretendemos questionar os Motas. Sejam eles quais forem, tenham ou não
existido, mas conjeturar e infamar levianamente, não são critérios da História.
Até quando, isto sim, devem indagar as consciências sãs, a figura de
Antonio Conselheiro será difamada, denegrida, desonrada e moralmente violada,
mesmo que à vista de claras e contemporâneas achegas históricas se comprove o
contrário!? É cruel, desumano, perverso, vergonhoso e antiético que
“consagradas” celebridades, com pomposos títulos acadêmicos, e acerca das
ações nitidamente humanitárias e cristãs de um laico predicante, no intuito de
promoção pessoal, lucro e notoriedade, sob o patrocínio de editoras milionárias,
publiquem volumosos e enganosos tratados com requintes de cientificismo
inócuo e inútil que fantasiam e mascaram a real compreensão histórica. Pelo
visto, está distante a restauração da verdade... Que temática suculenta!
9 – ATIVIDADES E PRÁTICAS DO CONSELHEIRO
148
Precedendo ao exame dos atos e costumes do Conselheiro no
povoado, é indispensável uma reflexão que melhor se imporia noutro espaço
deste trabalho. Dentre os aplicados investigadores dos deploráveis
acontecimentos de Canudos, é consenso a ausência do Estado à compreensão do
rápido progresso demográfico e econômico daquele povoado, se fazendo omisso,
desconhecedor e alheio às aspirações daquela urbe de milhares de pobres que se
uniam em torno daquele asceta e austero missionário.
Mesmo que renegasse o novo sistema de governo republicano, direito
que lhe assegurava a Constituição, não só pela separação da Igreja do Estado,
mas igualmente pela atribuição tributária dos municípios apenando os mais
pobres, não seriam motivos que justificassem ao poder público fechar os olhos
diante daquela evidência que impunha a presença do Estado, tornando o povoado
um município livre no âmbito administrativo. Ora, quebrar simples tabuletas
onde se afixavam editais instituindo novos impostos é infinitamente menos grave
do que roubá-los dos cofres públicos, às escâncaras, como até hoje ocorre Brasil
afora.
Diante dos preceitos constitucionais falecia à Igreja autoridade para
negociar com a comunidade suas aspirações, obrigação exclusivas do poder
público, o Estado. Constituía-se numa obrigação exclusiva dos agentes públicos,
e jamais uma delegação ou sequer um só deputado – a quem a lei delega a
representação popular – esteve em Canudos. Sequer um prefeito ou vereador da
região lá compareceu, quando era plenamente conhecido o vertiginoso
crescimento do povoado que se constituiu no segundo maior aglomerado urbano
da Bahia [apud César Zama, op. cit.,p. 53], chegando a suscitar discórdias entre
os vigários de paróquias vizinhas e comerciantes de cidades adjacentes.
Enigmaticamente as autoridades baianas e o governo federal marginalizaram o
povoado, desconheceram aquela população ordeira e trabalhadora de 20.000
patrícios, número que noticiam César Zama [op. cit., p. 53] e Ataliba Nogueira
[op. cit., p. 11], que cruentamente seria exterminada.
É uma ingênua e fantasiosa suposição imaginar-se que homens de
bem, num diálogo sereno e justo e com as necessárias concessões mútuas fossem
hostilizados pelo Conselheiro. Se tivesse havido a mínima boa vontade e bom
senso da parte da civilizada visão do litoral e do Estado, aquele povoado – como
muitos outros – mesmo com sua civilização em rama, naturalmente teria sua
inclusão no quadro político da Bahia. Sugestões de pessoas eminentes, sérias e
politicamente isentas não faltaram, e, sendo o Conselheiro um homem de
razoáveis letras, a quem as Leis e o Direito não eram desconhecidos, a história
daqueles sertanejos seria narrada de149forma diferente...
Cito um único e emblemático exemplo. Um dos mais notáveis e
respeitados intelectuais brasileiros da época, Machado de Assis, fez uso de sua
pena em defesa do Conselheiro e da gente do povoado, especialmente em
crônicas na seção Semana do jornal carioca Gazeta de Notícias, no longo período
que se estendeu de 24.04.1892 a 28.02.1897, quando, já irreversíveis as
determinações governamentais para a consumação do genocídio, quiçá razão de
sua decepção, que, diante do fato consumado resultou em mutismo. Numa
delas escreveu: “Crede-me, esse Conselheiro que está lá em Canudos com os
seus dous mil homens, não é o que dizem telegramas e papeis públicos”.
(Destaquei). No dia de 13.09.1893, quando o ataque de Uauá – passo inicial do
massacre – só ocorreria no dia 21.11.1896, indagava e vigilante alertava: “Ora,
pergunto eu: a liberdade de profetar não é igual a de escrever, imprimir,
orar, gravar? Ninguém contesta à imprensa o direito de pregar uma nova
doutrina política ou econômica?(...) Quantos falsos profetas por um
verdadeiro! Mas a escolha cabe ao tempo, não à polícia. A regra é que as
doutrinas e a cadeia não se conheçam”. No dia 31.01.1897, quando a luta já se
intensificara, indignado proclama: “Protesto contra a perseguição que se está
fazendo à gente de Antonio Conselheiro...Se na última batalha é certo
haverem morrido novecentos deles e o resto não se despega de tal apóstolo, é
que algum vínculo moral e fortíssimo os prende até a morte. Que vínculo é
esse?”. (Destaquei). [Citado por E. Diatahy B. de Menezes.«Canudos e a
Literatura», inCanudos, as falas e os olhares, op. cit., p. 52].
Procedendo tais censuras e advertências de Machado de Assis, um dos
mais conceituados intelectuais do país àquela época, desligado e imune às
paixões político-partidárias, não só chamava ao bom senso as autoridades
públicas, como alertava a consciência nacional para o que pudesse provir da
histeria provocada pela imprensa a serviço de interesses escusos.
Confirmando tudo o que linhas antes foi considerado, dois anos após a
carnificina ecoou a inconformação do perspicaz homem de letras baiano, César
Zama: “O governo da União não se deu ao trabalho de inquirir de coisa
alguma, esquecendo até o que devia à humanidade e às luzes do século”.
“Antonio Conselheiro, porém, confessava-se monarquista. Era seu direito, direito
sagrado, que ninguém poderia contestar num regime republicano democrático.
Não há ato algum por sua parte ou dos seus que fizesse ao menos presumir
que ele tentasse contra o governo da república”. “Monstruoso atentado que a
posteridade registrará como o mais negro borrão da nossa história”.
(Destaquei). [Op. cit., pp. 29, 52 e 53]. Não sou analista e menos ainda estudioso
do jornalismo, ou crítico de ciência 150política ou quaisquer outras, e sequer
compulsei nenhuma obra que versasse tal assunto, como também não é objeto
deste estudo tão longas considerações, embora as imagine indispensáveis à sua
melhor compreensão. Por tais razões, volto à vida do missionário no dia-a-dia do
povoado.
Décadas de tormentosa e fatigante itinerância, peregrinando a pé sob o
sol abrasador do semi-árido; a obstinada comiseração com os infortúnios dos
desventurados; a sede e a fome que por imprevistas ocasiões lhe afligiram; a
constante penitência e jejuns; a preocupação e o zelo pelos assuntos religiosos do
arraial; os injustos atentados de que fora vítima; a responsável distribuição de
tarefas entre os seguidores; a reconstrução da Igreja Velha e de um indispensável
cemitério para o nascente arraial; os trabalhos na construção da Igreja Nova; a
preparação dos ofícios religiosos diários e das prédicas; o estudo de obras sacras
e o velho hábito de ler e escrever, eram temas mais que suficientes para
assoberbarem os seus dias. Suas necessidades pessoais e a preparação do
ambiente para os ofícios religiosos diários, entregou à responsabilidade das
piedosas beatas.
Uma vez estabelecido na paz daquele longínquo sertão, contudo, sua
preocupação primeira foi a construção da Igreja Nova à qual passou a dedicar
grande parte de suas horas disponíveis. A Igreja Velha, mesmo reedificada era
insuficiente para a reunião dos fieis por ocasião das orações, rezas, e da prédica
ao anoitecer e demais atividades sacras. Dos costumes enumerados no dia-a-dia
do missionário, e que o acompanhava desde a infância e se transformou numa
constante em sua vida, era a pertinácia pela leitura e a escrita. Sua vida de
absoluta sobriedade e parca de palavrório vão, prudente, recatada e meditativa,
foi de tal obstinação pelo anonimato que apenas deixou como únicos testemunhos
documentais que estimulassem o conhecimento de suas atividades, os dois
manuscritos antes mencionados. Contudo, lia e escrevia bastante, como
testemunhou o sobrevivente Honório Vilanova: “...e varava o dia e a noite lendo
e copiando as Meditações e os Exemplos dos Santos. Quando a mão do
Peregrino estava cansada, escrevia por ele Leão de Natuba, que tinha boa
caligrafia e era muito devoto” [Nertan Macedo. Memorial, op. cit., p. 49]. Aos
atos religiosos ninguém era obrigado a comparecer, afirma o mesmo
sobrevivente: “O Peregrino jamais obrigou alguém a freqüentar
devoções...Às orações da latada iam as mulheres, em maior número, e os
homens tocados de espírito religioso. O resto cuidasse dos seus haveres,
deveres e obrigações, sem malquerença a ninguém”[op. cit., p. 31].
É inegável que de todos os sobreviventes ouvidos, foi Honório quem
prestou o mais longo, denso e151objetivo depoimento, especialmente
pela vasta e prática habilidade que unia o experiente repórter ao jornalista,
ocorrido no já distante dia 16.10.1962 e que o perspicaz Nertan Macedo
transformou em livro básico e indispensável à compreensão de boa parte das
atividades do Conselheiro e do dia-a-dia no povoado, mesmo com algumas
informações duvidosas e vários senões, em vista da quase centenária idade do
informante de 97 anos. Com a palavra a testemunha ocular Honório Vilanova
[Memorial, op. cit., pp. 68-70 e 40].
“Assim era a vida”.
“As beatas rezavam o dia inteiro. Estavam sempre ajoelhadas no
oratório, desfiando os rosários, cantando as ladainhas. Até mesmo de madrugada.
De manhã era o ofício. As novenas de Santo Antonio. Cantavam-se benditos. Não
aprendi nenhum porque só uma vez ou outra aparecia pela igreja. Não gostava
muito de reza”.
“Compadre Antonio, sim, ia sempre. À boca da noite começava o
terço na latada. Diante das muitas imagens de santos trazidas pelo povo: Nossa
Senhora, Santo Antonio, São Pedro, São João, os Apóstolos. Rezava-se pela
madrugada adentro o ofício de Nossa Senhora da Conceição”.
“O Peregrino estava sempre presente e sempre pronto a repetir os
mandamentos da Lei de Deus e aconselhar o povo. Tudo o que ele proferiu antes
da guerra nós vimos. Não era homem para acreditar em bruxarias. Lia a Missão
Abreviada. Tinha uma letra fina, botava a folha de papel na mão e escrevia sem
parar, até quando o vento dobrava. Páginas e páginas de profecias e orações”.
“Quando não escrevia por ele, ditava a Leão de Natuba. Morava num
quartinho escuro bem junto do santuário. Dormia numa cama de vara, com
uma esteira e um pedaço de flanela. O rosto era lazarino, barba e cabelos
cerrados, pretos e lisos, eram aparados nos dias de sábado. Conversava pouco,
falava quase nada. Só quando tinha conselhos a dar e pregar nos mandamentos
da Lei de Deus”.
“De vez em quando aparecia o Padre Sabino, vigário do Cumbe,
que vinha celebrar, batizar e casar na igreja do Peregrino. O reverendo
gostava de Canudos e ali ficava mais de um dia e era bem recebido. Depois ia
embora, com a bolsa regalada”.
“Quando o Peregrino caminhava pelo povoado, coisa rara, ia sempre
acompanhado de um carneirinho, como o do Menino Jesus”.
“E seguia vagaroso, pelas vielas com seu cajado, sua batina de azulão,
suas alpercatas de couro, ouvindo e abençoando os crentes em Deus Nosso
Senhor”.
152
“Não era doido e ninguém nunca soube de fatos que lhe
desabonassem a conduta. Santos e justos eram os seus conselhos a todos,
homens e mulheres”.
“Ah, não pegava em dinheiro da República! Mas não pegava em
dinheiro de qualquer espécie, nem mesmo o de Pedro II!”
“Não dormia com um tostão de um dia para o outro. Se recebia
esmolas logo as passava a quem se achasse junto dele. Ou mandava comprar
panos para vestir os necessitados”.
“Era assim o Peregrino”. (Destaquei).
10 – AS FAMÍLIAS – Canudos era um povoado normal e igual a
qualquer outro do sertão, naturalmente habitado por pessoas das mais variadas
etnias, com a predominância de pardos, cabras, pretos e brancos. Inexiste sequer
indicação histórica de que o Conselheiro, desde os primeiros anos de sua
peregrinação, jamais haja convidado, ou sequer sugerido a qualquer pessoa que o
acompanhasse. Desde o início, era o arraial habitado por pessoas humílimas,
pobres, os deserdados filhos das grandes secas conhecidos por retirantes e
flagelados, além dos que padeciam os maus tratos dos potentados rurais, a
maioria de analfabetos.
Estudando a temática de Canudos, informações ditas “oficiais” e que
procedem de delegacias policiais, secretarias paroquiais e mesmo arquidiocesanas
e de autoridades judiciárias além de notícias de jornais, devem ser analisadas com
acuidade, pois são fontes historicamente duvidosas. Quase sempre tendenciosas
ou falsas, visavam unicamente macular o predicante e a vida dos habitantes do
arraial a mando das elites opressoras e dominantes. À Vida e Obra do peregrino
visa este ensaio.
De origem modesta e de poucas letras, mas com a forte credencial de
haver nascido, vivido e morrido na região de Canudos, estudioso do Conselheiro
e sua gente, José Aras é esquecido e descuidado por grande parte do cientismo,
que tem suas “visões” estranhas e chamadas eruditas daquele normal povoado e
seus simples habitantes. No entanto, do muito que viu e do pouco que escreveu,
nos chegaram excelentes e verazes notícias, inclusive a ele recorreu Hoornaert
[op. cit.,p. 113], como autor de "lindo texto escrito em 1953", no livro Sangue de
Irmãos, Salvador: Museu do Bendegó, 1953, portanto um dos precursores do
tema.
Diante das fortes luzes dos refletores do cinegrafista Ipojuca Pontes,
com a postura desenvolta e de insuspeito testemunho e já bem referido neste
estudo, assim definiu os153acompanhantes do missionário quando
mais numerosos, e, pela definição de suas origens, pode se concluir sua etnia:
“Conheci o povo do Conselheiro que vinha atacado dasfazendas dos barões e
do litoral (...) porque naquele tempo não havia cemitério em 10 a 20 léguas
de distância, e o morto tinha que ser carregado nas costas pra ser
apresentado ao padre nas vilas, onde tinha o cemitério pra ser encomendado
e enterrado.E como este povo abandonou mais as fazendas dos barões (de
maior etnia cabocla) e do litoral da Bahia e do Sergipe (engenhos de açúcar,
negros e mulatos), começaram logo a perseguir o Conselheiro”. (Os parênteses
são meus). Dessa forma, confirmam-se as iniciais e principais etnias: caboclos,
mulatos e negros – estes em menor quantidade – embora a elas se agregasse
razoável número de brancos.
Ressalto mais uma vez que dos originais seguidores do Conselheiro, o
único que esteve ao seu lado desde o início e morreu velhinho em Canudos, foi o
beato Paulo José da Rosa, preso com o Conselheiro em 1876 e solto em Salvador,
assim definido por Honório Vilanova: “Tinha o beato Paulo, bem velhinho,
também de Natuba, que morreu e foi enterrado na frente da igreja e não brigava –
só servia mesmo pra morrer”. [Memorial, op. cit., p. 67]. Outros poucos e
próximos, como Antonio Beatinho e Leão de Natuba, apareceram depois. Entre
as mulheres, destacava-se unicamente Benta, beata, parteira, e cozinheira do
Conselheiro que, como Paulo José da Rosa o acompanhava desde 1876.
Portanto, à exceção duma minoria, até o estabelecimento na fazenda
Velha de Canudos a gente que seguia o missionário, no inverno trabalhava em
atividades agropastoris nas fazendas dos proprietários da região, quando
cuidavam também de suas pequenas lavouras de subsistência e complementavam
suas necessidades com dias de serviços no traquejo do gado de curral e demais
animais e atividades rurais. No verão, segundo afirmou Aras, iam cuidar dos
trabalhos do Conselheiro, especialmente a reconstrução e construção de muros de
cemitérios, capelas, igrejas e demais obras pias: “No inverno trabalhavam nas
fazendas, e no verão iam fazer as obras do Conselheiro”, concluiu Aras.
Portanto, o missionário nunca teve a segui-lo, continuamente, número avultado
de acompanhantes como insinuam alguns cronistas.
Com a obsequiosa permissão da Secretaria da Diocese de Crateús, na
pessoa de seu Vigário Geral de então, Pe. José Helênio Oliveira Pereira, conservo
em meu arquivo fotocópias dalguns dos livros que restaram da velha freguesia de
São Gonçalo do Amarante da Serra dos Cocos, pioneira do centro-oeste cearense,
instituída em 30.08.1757 e onde morou Antonio Vicente Mendes Maciel; tais
fotocópias abrangem as décadas de 1820 a 1870, em cujos termos batismais
constata-se a predominância das154etnias branca, preta, cabra e parda.
Portanto, as mesmas da gente do povoado, objeto de tantas especulações, e que
hoje habita fazendas, vilarejos, vilas, cidades e metrópoles brasileiras.
Entretanto, com a franca liberdade de ir e vir, a chegada de numerosas
famílias que vinham pra ficar fomentando o já crescente comércio, naturalmente
foi se estabelecendo uma população de etnia heterogênea. Em vista das grandes
secas que dizimavam seus pequenos rebanhos e que impossibilitavam até mesmo
a lavoura de subsistência de suas numerosas proles – o que era comum no sertão
– a cobrança de exorbitantes impostos e as perseguições que padeciam com a
conivência de cartórios e juizes inescrupulosos que determinavam a invasão e
anexação de suas modestas posses para elastecer latifúndios – fatos que
testemunhei como escrivão do cível – pequenos e até médios proprietários
vendiam tudo e rumavam para Canudos. A notícia de que estas e outras famílias
passavam às mãos do Conselheiro o produto de vendas, é mais uma leviandade
que objetiva difamar a imagem do missionário, tingindo-a com o colorido bem ao
gosto do que pretendiam o Estado, a Igreja e sua aliada aristocracia rural.
Um povoado ordeiro e imune à prostituição – apurado cuidado que o
sertanejo dispensa à sua prole feminina – ao homicídio, ao alcoolismo, ao roubo,
ao banditismo, sem conflitos com os proprietários vizinhos, voltada para o
trabalho produtivo, ordeiro e honesto, um comércio em franco desenvolvimento,
e, sob os auspícios espirituais de um “santo homem que só pregava o bem”, eram
atrativos consideráveis e jamais experimentados, estimulando a vinda de muitas
famílias que transformaram sua feição demográfica.
Ao contrário do que avaliam cientistas sociais, compreende Hoornaert
que a fraternidade cristã praticada no povoado, não impediu a “classificação” da
gente do povoado: “Basta dizer que nem todos se dedicam diretamente à
produção de alimentos, há os(as) criadores(as) de bode, cabra e boi, os artesãos
(ferreiros, mestres-de-obras, entalhadores), os tratadores e curandeiros, os poetas
de violas e de desafios (os intelectuais do sertão) e, sobretudo, os comerciantes de
couro de bode e cabra, que trazem riqueza para o povoado. A comida provém da
própria produção: cuscuz, beiju, mingau, aipim, abóbora, banana, carnes de bode
e boi, rapadura”. Estes “classificados” são assim qualificados pelo autor: “Nada
em Canudos sugere uma sociedade igualitária e socialista. Cada um vai se
“classificando” na medida em que chega e constrói algo pelo trabalho: os
comerciantes de “couro e balcão” como os Mota, os Macambira e os irmãos
Vilanova, os destinados a fornecer esmolas e mais privilegiados, vão morar numa
das “doze casas de telha”, das quais fala Frei João Evangelista, enquanto mais
afastadas do centro, existem as “taperas” cobertas de palha, ou seja, “a rua treze
155
de maio (dos negros) e a rua dos caboclos”, onde moram os trabalhadores
braçais”. [Op. cit., pp. 64-65].
Embora predominando as etnias mencionadas, o povoamento foi
miscigenado, inclusive com a presença do branco: “Diversos autores e
testemunhos da época afirmaram que havia em Canudos pessoas de “boa família”
e “famílias de recursos” que se desfizeram de tudo para morar lá”. Yara Dulce B.
de Ataíde, [Revista USP op. cit. p. 93]. Mesmo na certeza de que jamais Euclides
da Cunha presenciou qualquer ato do dia-a-dia do povoado, pois à região chegou
no dia 16.09.1897 e retirou-se no dia 03.10.1897, demorando-se apenas 17dias
nos momentos finais do extermínio, nessa imaginária cena expõe seu preconceito
étnico: “Aqui, ali, extremando-se a relanços naqueles acervos de trapos, um ou
outro rosto formosíssimo, em que ressurgiam, suplantando impressionadoramente
a miséria e o sombreado das outras faces rebarbativas, as linhas dessa beleza
imortal que o tipo judaico conserva imutável através dos séculos”.
(Destaquei). [Os Sertões, op. cit., p. 105].
Pela obstinação do Conselheiro em manter-se alheio e distante de tudo
que não fosse a Religião e os Pobres; pelo anonimato que sempre impôs à sua
vida, e, sobretudo pela aversão que dispensava às classes dominantes, foram
ponderáveis motivos que sombrearam e obscureceram muitas passagens de sua
vida e do povoado, e, o que remanesceu maculou sua biografia e quase
inteiramente a história do povoado. A perspicaz estudiosa, Prof. Yara Dulce B. de
Ataíde no artigo «As Origens do Povo do Bom Jesus Conselheiro», escreveu:
“Ilustrando mais o assunto, a Tabela V apresenta um levantamento mais
detalhado das características de 40 pessoas que formaram o séquito do
Conselheiro e desempenharam atividades de maior relevância em Canudos.
Nesse grupo predominam os brancos, especialmente do Ceará, numa média de
25%. Levando-se em conta todos os mestiços, como os denominados morenos,
caboclos, escuros bronze, e mulatos, registram-se outros 25% do grupo, enquanto
37,9% eram de pessoas com etnias não declaradas. Os negros, neste
levantamento, eram em número bem reduzido, somente 2 pessoas, ou seja, 5%”.
[Revista USP, Dossiê Canudos, op. cit., p. 95].
Examinando a etnia branca, supostamente menos densa e que leva à
presunção de que lá existissem quase exclusivamente os “curibocas” euclidianos,
e comprovando que o produto dos bens de quem ali chegava não passava às mãos
do Conselheiro, o Relatório do Comitê Patriótico, emblematicamente presidido
por um protestante alemão, Franz Wagner, após encontrar na cadeia de
Alagoinhas “cento e muitas mulheres e crianças”, acrescenta: “Em sua grande
parte, pertencem essas mulheres,156assim como as crianças, a famílias de
boa condição, pelos recursos honestos de vida e trabalho, assim como pela
independência e conceitos de que gozam”.
“Algumas têm vivos seus maridos, que não tomaram parte nas lutas, e
parentes, como irmãos, tios, avós e até filhos, mais ou menos abastados, sendo
que uns são negociantes e outros, criadores, lavradores e pessoas bem colocadas
em algumas casas comerciais do centro, como verificamos, mesmo em
Alagoinhas”.
“Não foram poucas as mulheres que voltaram de Canudos
trazendo objetos relativamente de valor e somas quantiosas, não obstante o
rigor da guerra”. (Destaquei). [Walnice N. Galvão. No Calor da Hora, op. cit.,
pp. 502-503].
11 – A RELIGIÃO – “E um deles, Doutor da Lei, perguntou para
experimentá-lo: - Mestre, qual é o maior mandamento da Lei? Ele lhe disse:
Amarás o Senhor teu Deus, com todo teu coração, com toda tua alma e com toda
tua mente. Este é o maior e o primeiro mandamento. Mas o seguinte é
semelhante a este. Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Destes dois
mandamentos depende toda a Lei e os Profetas”. [Mt. 22, 35-40]. Nessa máxima
de Cristo, com fundamentos sociais, morais e éticos assentaram-se os códigos que
orientaram e regularam a vida no povoado.
Mesmo de forma oficiosa, eclesiasticamente, Canudos era uma capela
da freguesia de Cumbe, onde o Pe. Sabino comparecia regularmente para celebrar
missas e administrar sacramentos. Era tal o lucro provindo destas visitas que
chegou a despertar inveja ao Pe. Ricarte, vigário da freguesia de Pombal, que
imaginou a divisão da freguesia do Cumbe para que Canudos ficasse em território
eclesiástico de Pombal. Não só o Pe. Sabino, como os missionários que
percorriam o sertão também visitavam Canudos onde pregavam as santas
missões, segundo Abelardo Montenegro [op. cit., p. 132], realizando os ofícios
religiosos na capela reconstruída pelos devotos e reconsagrada pelo Pe. Sabino.
O Amor e o Temor a Deus, invariavelmente ouvido e devidamente
desenvolvido nos sermões do Conselheiro, com exemplos e comparações práticas
do cotidiano, é uma convicção persuadida na psique do sertanejo desde a mais
tenra idade. Por outro lado, a Fé, primeira e fundamental das Virtudes Teológicas,
que determina a Confiança em Deus, naturalmente estabeleceu em Canudos –
pela prática de vida ali exercida – a Confiança de cada um em si mesmo e no
próximo, instruindo coletivamente o que hoje se chama conscientização, ou seja,
todos se reconheceram como pessoas úteis e hábeis, em nada diferentes do
próximo. Generalizou-se a certeza de157que qualquer um era apto e capaz de
exercer sua atividade, independente do patrão ou seu feitor. Todos se
reconheceram iguais e capazes, enfim gente. Assim, aliados às prédicas, tais
sentimentos eram definitivamente infundidos na consciência coletiva dos
habitantes. Dessa forma referiu Honório Vilanova o simples tratamento no dia-a-
dia do povoado: “Quando chegava ou saía do povoado alguém de fora,
perguntando “como vai?”ou dizendo “adeus!”, o Peregrino chamava com
delicadeza e ensinava:
-Aqui não se fala assim. A única saudação nesta terra é: “Louvado
seja Nosso Senhor Jesus Cristo”. [Memorial, op. cit., p. 39]. Com esta simples
sugestão de ordem religiosa, o Conselheiro nivelava a todos diante de Deus e de
si próprios.
A religião católica romana praticada no sertão recebeu o designativo
de religiosidade popular cujo significado assim define Frei Hermínio Bezerra de
Oliveira, nascido e criado no semi-árido: “Derivada do latim “popularis”, do
povo, dos cidadãos, esta palavra é freqüentemente empregada como
sinônimo de bizarro, curioso, grosseiro, vulgar, visionário, estranho,
ridículo, supersticioso e trivial”. [Formação Histórica da Religiosidade
Popular no Nordeste. São Paulo: Paulinas, 1985, p. 16]. Linhas adiante
acrescenta: “Quando falamos de religiosidade popular, lembramo-nos de uma
série de atividades religiosas, tais como romarias, promessas, votos, rezas fortes,
novenas, festas de santos padroeiros, devoções especiais às almas do purgatório,
bênçãos e muitas outras, conforme a região”. [id.,p. 22]. Adianta que “a
religiosidade popular, muitas vezes tida como comportamento supersticioso,
como fanatismo, tem dado frutos admiráveis de dignidade humana e cristã,
de coragem, de esperança, dignos de toda admiração”. (Destaquei). [Id., p.
11].
Assim, a religiosidade popular contrapõe-se à chamada “civilização
do litoral” com sua religião dita “oficial” ou “erudita”, com uma liturgia bem
definida. Os professos do “litoral civilizado”, ou “brasileiros modernos”, na
concepção de Nélida Piñon, em sua totalidade componentes das opulentas classe
média e alta da sociedade urbana, que ainda costumam freqüentar suas missas
dominicais aos moldes farisaicos, distribuindo óbolos aos pobres nos patamares e
nos cofres das bem cuidadas matrizes, sempre enxergaram os populares do sertão
como praticantes de uma religião de conotação fetichista. Hoje amplamente
aceita e difundida com a designação de Igreja dos Pobres, filha da sábia e até
contestada Teologia da Libertação, foi a que adotou e, distante de cânones
teológicos eruditos, cristãmente missionou Antonio Conselheiro.
158
Enquanto não foram agredidos e cruelmente chacinados, as elites
usaram de todos os meios e artifícios para humilhá-los, desacreditá-los e
debochá-los. Como iniludível exemplo, vejamos dois termos que aviltavam,
discriminavam e designavam os moradores de Canudos:
1 – JAGUNÇO – Transcorridos apenas dois anos da hecatombe –
1899 – insatisfeito exclama César Zama: “O termo vulgar jagunços serviu para
designar em geral os moradores de Canudos: elles nada tinham d’essas
entidades, que assim são denominadas nos nossos sertões (sic)”. (Destaquei).
[Op. cit., p. 55]. Outra estudiosa define: “Pessoa de confiança de chefe político
(geralmente abonado proprietário rural), que, vivendo sob seu amparo,
prestava serviços a ele ou a terceiros, a seu mando, normalmente em grupos,
para manter a propriedade e o prestígio do protetor. Eram os “soldados”
dos “coronéis”. Os sertanejos de Canudos foram chamados pejorativamente
jagunços do mesmo modo que lá os militares e tropas eram conhecidos por
fraqueza do governo”. (Destaquei). Jerusa Gonçalves de Araújo. [Canudos –
Subsídios para sua reavaliação histórica, op. cit., p. 517]. Um brasilianista
dissertou: “Poucos puderam entender, que até fins do século XIX, antes do
conflito de Canudos e das acusações absurdas que surgiram contra ele, o termo
jagunço se remetia de forma neutra aos sertanejos rústicos ocupados com a
pecuária ou com a agricultura, e não, como diz Ronald Daus, a uma mistura de
“vaqueiros e bandidos”. O tempo não abrandou a prática da exacerbação”.
(Destaquei). [Levine, op. cit., p. 295].
2 – FANÁTICO – “Se o termo cangaceiro é usado comumente nos
sertões para designar os participantes dos bandos insubmissos que pegam em
armas para viver de assaltos, e os próprios componentes desses bandos se
identificam como cangaceiros, o mesmo já não ocorre com o termofanático.
Este veio de fora, dos meios cultos para os sertões, designando os pobres
insubmissos que acompanhavam os conselheiros, monges ou beatos surgidos
no interior, como imitações dos sacerdotes católicos ou missionários do
passado. É um termo impróprio, inadequado, sobre ser pejorativo”.
(Destaquei). [Rui Facó. Cangaceiros e Fanáticos, 9a [Link] de Janeiro: Bertrand
Brasil, 1991, p. 9].
Deliberada e intencionalmente essas designações, cunhadas de
absoluto menosprezo, discriminação e depreciação, até hoje lidas nas páginas de
obras qualificadas de eruditas, honesta e corretamente, jamais poderiam aplicar-
se a uma população de pessoas ordeiras, honestas e trabalhadoras, certamente
com predicados que iam além de quem lhes insinuou tais designativos. Nada mais
foram e são do que depreciativas159humilhações, que, bem ao gosto das
elites poderosas contribuíram para mascarar a verdade histórica. Até mesmo
Calasans, indistintamente, usa os termos “jagunço” e “fanático” em todos os seus
estudos, e é assim definido na historiografia de Canudos pelo editor-executivo da
Revista USP,Dossiê Canudos,1993-1994, p. 7, Francisco Costa, na
Apresentação: “É preciso dizer também que José Calasans é um homem da velha
guarda no melhor sentido, tanto na forma de escrever, quando na maneira de
tratar o objeto de seu mais profundo estudo. O rigor é indiscutível bem como o
bom senso. Aventurou-se a mexer com o tema “Canudos” há mais de
cinqüenta anos, época em que a palavra de Euclides em Os Sertões soava
como a trombeta final”. (Destaquei). Portanto, se um pesquisador de tal
conceito e que corajosamente descerrou o véu que obscurecia verdades assim
procedeu, o uso de tais termos tornou-se comum a muitos estudiosos.
Dentre os sete sacramentos da Igreja, o primeiro e mais importante é o
batismo, que determina a cristianização do batizando e sua inserção no
cristianismo. À exceção do 5o – a Ordem – que atribui ao padre funções eclesiais,
os demais eram administrados em Canudos pelo ministério eclesiástico do Pe.
Sabino, vigário do Cumbe, especialmente o batismo, matrimônio e a penitência.
Alvim Martins Horcades, acadêmico de medicina que voluntariamente
acompanhou a 4a expedição, dois anos após a hecatombe publicou Descrição de
Uma Viagem a Canudos, [Bahia: Litho-Typ. Tourinho, 1899], na qual, à p. 70,
expende este insuspeito testemunho: “Cientifiquei-me de que quase todos,
senão todos os habitantes de Canudos eram casados”. (Destaquei).
Dos casamentos nasciam os filhos, que recebiam o sacramento do
batismo, e é costume até hoje no sertão a extremada ligação que aproxima e
aprofunda os laços de afetividade e solidariedade, na verdade irmanando
compadres, comadres e afilhados. Mesmo chamado de Meu Pai, tratamento que
o tornava a figura paternal do povoado, os vínculos que o prendiam aos
habitantes estavam também estreitamente ligados ao compadrio: “Os registros
de batismo demonstram que sertanejos de todas as camadas sociais
aceitavam sem hesitação a bênção do Conselheiro. Somente em Itapicuru de
Cima, entre os anos de 1880 e 1892, o Conselheiro foi padrinho de 92 batizados.
Em quase metade desses casos a madrinha foi “Nossa Senhora” (a Virgem
Maria)”. [Levine. Op. cit., p. 202].
Se numa só freguesia tal aconteceu, é de se concluir que o mesmo
sucedeu em inúmeras outras. Também é de se considerar que bom número de
famílias que afluíram a Canudos tinha filhos ditos pagãos, e, com os que ali iam
nascendo e sendo batizados, natural e obrigatoriamente difundiu-se no povoado o
costume da compadrice,160aproximando-os intensos vínculos de
amizade e parentesco afetivo, por afinidade familiar: compadres, comadres,
afilhados e afilhadas de batismo, crisma, casamento e fogueiras – Santo Antonio,
São João e São Pedro – cujos liames em nada diferiam dos sacramentos
eclesiásticos, unificaram o povoado numa única, fraternal e solidária família.
Entre os afilhados, que tinham nas figuras dos padrinhos e madrinhas
as de um quase pai ou mãe por afetividade, instituía-se a reverência, o
respeitoàobediência e àsolidariedade, recebendo diariamente o respeitoso “Deus
te abençoe”. Tratando da fraternidade solidária em Canudos, Hoornaert assim
expressa sua compreensão: “Por estranho que pareça, o fato de o Conselheiro
viver tão recluso não impede que todos o tratem de pai. Mais: ele é a imagem
perfeita do pai. É o “abade” de Canudos. Como já dissemos, o Conselheiro
chama a todos de irmãos e por todos é chamado de “meu pai Conselheiro”. Os
habitantes de Canudos são filhos do Conselheiro, irmãos entre si, anjos-da-guarda
do querido pai. O celibatário marca e identifica o sangüíneo: eis a originalidade.
O parentesco de sangue é subordinado a um apreciado e respeitado
parentesco espiritual. A partir desse parâmetro, o mundo vira uma família”.
(Destaquei). [1997, Op. cit., p. 49].
Leonardo Boff, reconhecidamente um dos mais conceituados teólogos
da atualidade, num singelo texto esclarece o sentido de fraternidade,
solidariedade e afetividade –como subsistiam em Canudos: “Quanto mais
profundamente o homem se relaciona com o mundo e com as coisas do seu
mundo, mais aparece a sacramentalidade. Então surge a pátria que é mais do que
a extensão geográfica do país; então aparece a terrinha que nos viu nascer que é
mais do que o pedaço de terra do Estado; então emerge a cidade natal que é mais
do que a soma de suas casas e seus habitantes; então se mostra a casa paterna que
é mais do que um edifício de pedras. Em tudo isso, habitam valores, moram
espíritos bons e maus e delineia-se a paisagem humana. O pensar sacramental
faz com que os caminhos que andamos, as montanhas que vemos, os rios que
banham nossas terras, as casas que habitam nossas vizinhanças, as pessoas
que criam nosso convívio não sejam simplesmente pessoas, casas, rios,
montanhas e caminhos como outros do mundo inteiro. Eles são únicos e
inigualáveis. São uma parte de nós mesmos. Por isso, alegramo-nos e
sofremos com seu destino. Lamentamos a derrubada da enorme maria-mole da
praça. Choramos a demolição do velho barracão. Com eles, morre algo de nós
mesmos. É porque eles não são mais coisas. São sacramentos de nossa vida
abençoada ou maldita”. [Os Sacramentos da Vida e a Vida dos Sacramentos.
Petrópolis: Vozes, 1975, pp. 23-24].
161
Nessa verdade e no contexto das virtudes teológicas – Fé, Esperança e
Caridade –, únicas fontes do Amor, da Fraternidade e da Solidariedade, os
sacramentos do Conselheiro eram os Pobres de Cristo; cada habitante tinha no
próximo seu sacramento, enquanto Canudos, na sua integralidade se constituiu no
sacramentoabsoluto e coletivizado da comunidade. Enfim, eis a plena resposta à
indagação que impressionava a fértil imaginação do desconfiado Machado de
Assis: “Que vínculo é esse?” Se com tal interrogação o escritor e jornalista
pretendia – e ninguém pode assim ajuizar – pungir a consciência nacional, fato é
que do ponto de vista religioso, às explicações do teólogo se ajusta como uma
luva ao que se verificava no dia-a-dia do povoado de Belo Monte-Canudos.
Aliás, nas crônicasA Semana, insertas no jornal Gazeta de Notícias, do
Rio de Janeiro, entre 24.04.1892, encerrada no dia 28.02.1897, portanto oito
meses antes do massacre, conceituando-as, assim se expressa um atento
estudioso, historiador e teólogo, autor do mais sério ensaio publicado no
centenário do extermínio. "Ninguém tem condições de chamar a nação para
um raciocínio tanto quanto ponderado. Machado de Assis, que entre 1892 e
1897 fez (...) os mais lúcidos comentários sobre a improcedência de uma
campanha, resolveu meses antes do desfecho, calar-se e abrir ala à turba
agitada em plena caça". (O parêntese e destaque são meus). [Hoornaert, 1997,
p. 85].
Doutra parte, o também perspicaz estudioso da hecatombe, o Prof. Dr.
Eduardo Diatahy B. de Menezes, tratando das mesmas crônicas machadianas A
Semana, insertas no dito jornal Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, nos dias 31
de janeiro e 14 de fevereiro de 1897, no artigo Canudos e a Literatura, em nota
de pé rodapé, expendeu: “Como Machado de Assis evitava de hábito
confrontar-se diretamente com as questões de seu tempo, importa assinalar
sua estranha opinião na parte grifada por mim: duas semanas antes, ele
formulara um protesto veemente contra as perseguições de que padecia
Antonio Vicente Maciel e sua gente; agora, emite essa opinião leviana ou no
mínimo esquiva”. (Destaquei). [In:Canudos – As falas e os olhares, op. cit.,p.
53]
162
11
A CONSUMAÇÃO DO GENOCÍDIO
“A história dirá mais tardecom a imparcialidade ejustiça
que são o seu apanágio, quaisos bandidos – se os degoladores,
ou osdegolados; se os incendiários ou os incendiados”.
CÉSAR ZAMA, 1899, p. 55.
CONSIDERAÇÕES – Noutras passagens deste ensaio, registrou-se
que não é propósito considerar as ações das expedições militares. Examino tão-
somente, a participação dos agentes civis que projetaram e efetivaram o
crudelíssimo extermínio do humilde e operoso povoado de oprimidos. Embora já
no ano precedente – 1896 – por todos os meios difundissem os pregoeiros do
crime suas sinistras intenções, os moradores de Belo Monte-Canudos, mesmo já
atacados, ingênuos e ignorantes, não acreditavam e menos compreendiam tal
propósito. “A população de Canudos não podia compreender os motivos por
que era guerreado o [Link] anos vivera sob sua proteção e só
lhe conhecera a prática do [Link] suas inteligências rudimentares, a
guerra de Canudos “só podia provir da impiedade e da heresia contra a
religião e a fé”. (Destaquei). [Abelardo Montenegro, op. cit., p. 139].
Até pessoas chegadas doutras cidades e distantes regiões, ditas
viajadas e que desfrutavam certo destaque no povoado, nas suas rudimentares
concepções indicavam razões diversas. À mesma página adianta Montenegro:
“Os irmãos Vilanova (Antonio e Honório), que dirigiam próspero
estabelecimento comercial em Canudos, entretanto, atribuíam a guerra às intrigas
fomentadas por comerciantes e fazendeiros dos sertões baianos que, impelidos
pela inveja dos comerciantes de Canudos, ofereciam constantemente denúncias às
autoridades contra os conselheiristas”.
Mesmo o Conselheiro jamais imaginou que tamanha e hedionda
absurdidade se consumasse. Disse Honório, em seu depoimento: “João Abade era
o comandante arteiro. Quando ele e seus homens chegaram a Uauá os soldados
dormiam. O combate durou quatro horas e João Abade saiu ferido numa perna. O
Peregrino era de boa paz. Nunca acreditou que os soldados viessem matar os
homens e esbandalhar as mulheres. Muita gente dizia, mas ele teimava em
não acreditar. Era pacífico”. (Destaquei). [Nertan Macedo. Memorial, op. cit.,
p. 68].
Jamais deveria prevalecer a malvada e ilusória insinuação
propalada pelas elites influentes, de 163 que os canudenses pretendessem
destituir o regime republicano. Nenhuma pessoa, definitivamente ninguém em sã
consciência, poderia imaginar que do pobre semi-árido do nordeste baiano, no
recôndito sertão do Raso da Catarina, um resumido número de sertanejos
analfabetos, moradores num povoado de taperas assentadas num vale longínquo e
rodeado de serras, empunhando foices, machados, enxadas, facas e espingardas
artesanais passarinheiras; conduzindo a tiracolo rústicos patuás de couro de bode,
contendo punhados de farinha e quartos de rapadura; a quem a simples visão do
mar causaria assombro; andando a pés milhares de quilômetros, chegassem à
cidade do Rio de Janeiro e depusessem um presidente da República, em seu lugar
reentronizando o já distante e fugitivo D. Pedro II, ou um certo e qualquer fidalgo
da Casa de Bragança, com o pomposo título de Pedro III, Imperador e Defensor
Perpétuo do Brasil! Só a iniqüidade responde tal absurdo.
Contudo a carnificina consumou-se, foram cruelmente chacinados os
habitantes do povoado e este exterminado a ferro e fogo; enlutou as raras
consciências incólumes; tingiu de sangue as já não edificantes páginas de nossa
história e teve – incrivelmente – a chancela do poder público, a incitação da
classe letrada e a instigação coletiva da chamada grande imprensa. Nenhum
critério justificou-se para legitimar o massacre, político ou religioso. Não houve
sequer uma avaliação da monstruosa agressão destruidora, mas tão-somente uma
execrável decisão unilateral. Escreveu a sensata pesquisadora e professora da
USP: “Literatos ou cientistas, monarquistas ou republicanos, liberais
declarados ou indiferentes, na verdade estas distinções são superficiais:
todos os intelectuais estavam atrelados ao carro do poder, empenhados na
grande parada da consolidação nacional. Para fazê-la foi preciso usar ferro e
fogo, o que repugnou a alguns”. [Walnice N. Galvão. No Calor da Hora, op.
cit., p. 107].
Depois que a poeira sentou e a insensata ilusão da ignorância coletiva
produzida pelas elites silenciou, a insignificante parte sã da nacionalidade se deu
conta de que a pouca água do Vaza Barris estava tinta de sangue; que milhares e
milhares de cadáveres degolados pelo uso nefando da “gravata vermelha”
estavam insepultos, devorados por cães famintos e urubus; que o piedoso e
humanitário fazendeiro Ângelo Reis – curiosamente quase ignorado na
historiografia – viajasse de sua distante fazenda Formosa em companhia doutras
pessoas caridosas, e, num trabalho doloroso diante da insuportável fetidez,
abrissem imensos valados para inumarem os que “prestavam”. Contudo...era
tarde. Tudo estava consumado!
Como este trabalho não se reserva apenas à pequena comunidade de
pesquisadores e historiadores da164tragédia, propondo-se igualmente às
classes estudantis coevas, faço mais esta digressão no intuito de considerar o uso
enganoso do vocábulo guerra na historiografia de Canudos, dissimulado e
disfarçado pela história oficial e por força da tradição. Para se ter idéia do uso
indiscriminado de tal substantivo, até mesmo o aplicado estudioso do episódio, o
saudoso Prof. Dr. José Calasans da Silva, no interessante trabalho bastante
referido neste ensaio e publicado em Canudos – Subsídios para sua reavaliação
histórica,[op. cit. pp. 1-21]sob o título «Canudos Não Euclidiano – Fase anterior
ao início da Guerra do Conselheiro»(sic), incide neste incrível deslize, deixando
o entendimento de que o beato haja sido o promotor da cruenta ação. Este termo
– guerra – corretamente considerado, etimologicamente significa uma situação
beligerante entre nações, com um indispensável ultimatum que dá ao destinatário
conhecer das exigências do remetente. Tal não aconteceu com Canudos. Poder-
se-ia empregar guerra de extermínio, aquela em que um contendor – ou ambos –
se empenha(m) em exterminar os adversários, sucesso ali acontecido, pois a
ordem maior dos comandantes era arrasá-lo, pulverizá-lo do mapa político sem
deixar o mínimo vestígio, sequer uma estaca de cercado que denotasse a
existência duma só moradia, o que foi meticulosamente executado.
Contudo, o termo genocídio, raramente empregado, traduz a
expressão exata do que ali se cometeu, e, a titulo ilustrativo, transcrevo seu literal
significado: “Crime contra a humanidade, que consiste em, com o intuito de
destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso,
cometer contra ele qualquer dos seguintes atos: matar membros seus; causar-
lhes grave lesão à integridade física ou mental; submeter o grupo a condições de
vida capazes de o destruir fisicamente, no todo ou em parte; adotar medidas que
visem a evitar nascimentos no seio do grupo; realizar a transferência forçada de
crianças dum grupo para outro (sic)”. DICIONÁRIO AURÉLIO ELETRÔNICO
– Século XXI – Editora Nova Fronteira. Indiscutivelmente, é impróprio o
emprego do vocábulo guerra para designar a perpetração do monstruoso
trucidamento, que certamente assinalou um claro e indisfarçável genocídio.
Outro vocábulo difusamente encontrado e absurdamente impróprio é
insurreição. Quem do povoado rebelou-se, revoltou-se ou sublevou-se? Contra
quem e o quê? Como escreveu Arinos, ninguém dali tinha saído para depor
nenhuma autoridade! Até mesmo Calasans, quando comenta a ida do frade João
Evangelista a designa como “frustrada a louvável iniciativa pacificadora (sic)”.
(Destaquei). [Ibid., inCanudos – Subsídios para sua reavaliação histórica, op.
cit., p. 16]. Provindo de Calasans é de se considerar tal expressão como uma
cincada gráfica ou engano de impressão, pois tal “iniciativa” nada teve de
“louvável” – como mostra a história –165e menos ainda de “pacificadora”.
Indaga-se: pacificar quem? O quê? A gente de Canudos estava pacificamente
no arraial “plantando, colhendo, criando, edificando e rezando”, como
afirmou César Zama. A única e correta verdade, é que a história do Conselheiro e
do povoado foi historicamente escamoteada, e o Relatório do frade capuchinho
prestou-se, como documento básico, não ao entendimento das reais ações do
missionário e dos habitantes do povoado, mas, básico e fundamental aos
nefandos propósitos do extermínio.
Todavia, para que principiassem as agressões patrocinadas pelo
governador Luiz Viana, que governou a Bahia de maio de 1896 a1900 e
entregues ao Exército Brasileiro – como afirmou Afonso Arinos – e a título de
melhor compreensão dos acontecimentos, regridamos um pouco no tempo. É
plenamente sabido que em sua infausta missão, o frade João Evangelista teve
como um dos principais objetivos fazer um minucioso levantamento topográfico
do povoado, mencionado páginas antes e aqui rememorado: “Sentindo a
hostilidade no olhar da massa conselheirista, os frades fugiam de Canudos.
Tinham tempo, porém, de levantar a planta do povoado”. (Destaque).
[Abelardo Montenegro. Op. cit., p. 137]. Confirma outro estudioso “Não só Frei
João Evangelista, com seu relatório estimulou a intervenção armada, como
ele próprio fez o croqui da cidade para facilitar a operação”. (Destaquei).
[João Arruda. Canudos – Messianismo e Conflito Social, op. cit., p. 101].
Já os projetistas da hecatombe para melhor executarem seu macabro
desígnio, imunes ao mínimo resquício de consciência humanitária e cristã, teriam
que se fundamentar em argumento de maior solidez e que melhor o justificasse
perante a ignara opinião pública. Ora, nos arquivos palacianos – arquidiocesanos
e governamentais – já tinham arquivados:1. A imposição de violência à
ancestralidade do Conselheiro, “de familia que soffria de affecção mental”,
“specimen entre doentes mentaes”, “fanatico (sic)”, ou seja, indiscutivelmente
um louco fanático. 2. O falso e perverso Relatório do frade, recheado de
falsidades e sugerindo o extermínio.
Contudo, faltava o “atestado da ciência” e incontinênti recorreram à
maior autoridade baiana no assunto, o professor de Medicina Legal e Forense da
velha e conceituada Faculdade de Medicina da Bahia, o médico Raimundo Nina
Rodrigues, que, “para detalhes sobre o começo da vida do Conselheiro, Nina
Rodrigues se baseou nos relatos de João Brígido”. (Destaquei). [Levine, op.
cit., p. 293]. Incisivo, na mesma página acrescenta: “Foi a fé inabalável de Nina
Rodrigues no determinismo biológico que lhe permitiu, apesar de suas
próprias origens (era mulato, adianto), atacar a miscigenação,e desta forma
conseguiu um argumento que166racionalizava para as elites a
destruição”.(Destaquei). Foi além o incompetente “cientista”, “atestando” que
em Canudos grassava uma "epidemia vesânica".
Cientificamente, tais e caducos conceitos são agora explicados e
desconsiderados por atualizadas matérias. A revista Série Ciências da Saúde n. 3,
UFC, 2002, traz o artigo A Ciência do Estresse, do Prof. Dr. Josué de Castro,
Docente Livre de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da UFC, prefaciado pelo
Prof. Dr. Antonio Borges Campos, da mesma UFC, que escreveu: “A Medicina,
até então (séc. XIX) uma prática eminentemente clínica, tendo como objetos
exclusivos de investigação o discurso do paciente e o que se apresentava ao olhar
médico através de sua superfície corporal, transforma-se numa prática Anátomo-
Patológica. Volta seu olhar para as profundezas do corpo e passa a dirigir sua
escuta na busca de lesões que justifiquem, localizem e situem, objetivamente, o
que, através de seu discurso, outrora, o doente lhe transmitia suas dores. Para a
Medicina que se instituía então (séc. XIX), o discurso do paciente já não tem a
mesma importância, o corpo mudo da Anatomia passa a falar por si”.
(Destaquei). [Op. cit., p. 11]. Ilustrando, devo relembrar, que Nina Rodrigues
jamais se avistou ou conheceu Antonio Conselheiro.
Finalmente, os “diagnósticos” do médico Nina Rodrigues que
“racionalizaram” a crueldade, foram cabal e definitivamente fulminados da cena
historiográfica atual, no artigo do estudioso e sócio efetivo do Instituto do Ceará,
sob o título – «Nota Preliminar Sobre a Religião do Povo de Canudos» – da lavra
do Prof. Dr. Eduardo Diatahy B. Menezes: “Todavia, é mister assinalar quanto é
estranho imaginar que um pesquisador inteligente admita esse tipo de convicção
“científica” segundo a qual, em mais de 10.000 habitantes de Canudos, cidadãos
comuns do sertão, humildes lavradores etc., fossem todos vesânicos e aderissem
ao Peregrino Antonio Conselheiro por alienação mental coletiva.É lícito pois
indagar: quem é o fanático no caso, o povo ou o cientista?!” (Destaquei).
[RIC, 1997, p. 87].
Curiosamente, comentando os desatinados “diagnósticos”, Capistrano
de Abreu, na já distante data de 26.04.1906, em carta ao seu amigo, o Barão de
Studart, escreveu: “Não achei nada de interessante no trabalho de Nina Rodrigues
sobre Palmares; em geral não posso tolerá-lo depois que profanou o crânio do
Conselheiro, felizmente desagravado pelo incêndio, e afirmou que nosso patrício
queria passar por novo Messias”. [ApudAtaliba Nogueira, op. cit., 2a ed., 1978, p.
211].
NOTAS FINAIS – Sequer do número das casas destruídas foi possível
que se conhecesse um levantamento aproximado, como assinala o Prof. Adilson
Odair Citelli: “Em 1895, o frei João167Evangelista do Monte Marciano
consigna em seu célebre Relatório ao Arcebispado da Bahia sobre Antonio
Conselheiro e seu Séquito no Arraial de Canudos: “(...)e contam-se em taes
condições, para mais de 800 homens e 200 mulheres no séquito do conhecido
fanático”, ainda que para os ofícios da missão aparecessem 4.000, o frade chegará
a falar em 6.000 sertanejos. [Anexo ao livro de J. da Costa PALMEIRA: A
Campanha do Conselheiro. Rio de Janeiro: Calvino Filho, 1934]. Ao ver
Canudos pela primeira vez, o que segundo Olímpio de Souza Andrade ocorreu no
dia 16 ou 17 de setembro de 1897, Euclides da Cunha registra, na Caderneta de
Campo, a existência de mais de 2.000 casas. Na página final de Os Sertões o
número salta para 5.200 moradias. Macedo Soares, na página 47 de A Guerra de
Canudos [Rio de Janeiro: Typographia Altina, 1902], fala na existência de 6.500
habitações e 30.000 moradores”. [Revista USP- Dossiê Canudos, op. cit., p. 68].
Da mesma forma são conflitantes as informações dos correspondentes
sobre o efetivo das tropas militares. Lélis Piedade, Jornal de Notícias, Bahia
[inWalnice, op. cit., 392],5.000; Fávila Nunes, Gazeta de Notícias, Rio de
Janeiro, no dia 03.10.1897, 5.871 – [Idem, op. cit., p. 199]; enquanto Manuel
Benício, do Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, no dia 17.07.1897 [Idem, op.
cit., p. 283],8.951. Dirime estas contradições a meticulosa pesquisa da Fundação
Casa de Rui Barbosa, Rio de Janeiro, 1986, coordenada pela Prof. Jerusa
Gonçalves de Araújo, também Diretora do Centro de Documentação da dita
Fundação, que compõe a extensa bibliografia do livro – Canudos, Subsídios para
sua reavaliação histórica – com fundamento em dados do arquivo do antigo
Ministério do Exército, sabe-se que a 4a Expedição foi composta por uma força
absoluta de "mas de 10.000 militares" [op. cit., p. 46] e, segundo o Quadro Geral
dos Mortos, apresentado ao Presidente da República pelo Gen. de Div. João
Tomás Cantuária, Ministro de Estado dos Negócios da Guerra, em maio de 1898,
morreram 83 oficiais e 827 praças, perfazendo um total de 910 baixas [Ibid., p.
75]. Diante destas últimas e mais verazes informações, tomando-se como média
demográfica que em Canudos houvessem 20.000 habitantes, e, num excesso de
otimismo que destes 3.000 tenham escapado, as baixas militares representaram
menos de 4% dos 17.000 que foram trucidados.
O sítio final aos sobreviventes tem esta insuspeita notícia: “De 7 de
setembro a 5 de outubro (término do conflito) foi-se progressivamente
estrangulando o cerco até os jagunços ficarem impossibilitados de se abastecerem
d’água durante o dia; muitos morriam de inanição e cansaço, sedentos, junto ao
leito do Vaza Barris quase seco. Quando a guerra terminou e o fogo cessou, o
chão das casas de Canudos estavam coalhados de cadáveres”. (Destaquei).
[Jerusa Gonçalves de Araújo.168InCanudos. Subsídios..., op. cit., p.
541]. E estes incontáveis cadáveres que se amontoavam no interior das casas
seriam barbaramente incinerados, como afirma o jovem diácono franciscano
alemão presente ao teatro do genocídio: “Canudos está completamente
arrasado; as ruínas, assim nos contam, foram regadas com querosene e
queimadas. Os prisioneiros, deque falei acima, tiveram uma morte trágica.
Foram todos degolados. Uma testemunha da execução mo contou”.
(Destaquei). «Diário Inédito de Um Frade»por Frei Pedro Sinzig [In: Canudos –
As falas e os olhares, op. cit., 166].
Pelo que se conhece dos soldados que compunham o grosso das
tropas, sabe-se que “os criminosos reais ficaram impunes e os jornais da terra
noticiaram que muitos deles foram incluídos no 5o corpo de policia, que se
organizara para a campanha de Canudos. Só nestes tempos calamitosos e sob
um governo de tal jaez se arrancam das cadeias públicas criminosos para
fazê-los envergar a farda de mantenedores da ordem e defensores das
instituições”. (Destaquei). [César Zama, op. cit., p. 22]. Em trabalho recente, lê-
se: “As Forças Armadas mostravam-se desaparelhadas e ineficientes, como
inclusive ficara evidente nos insucessos da campanha que, ao final, resultaria no
genocídio de Canudos, em 1897, no interior baiano. As tropas governistas, na
ocasião, chegaram a mobilizar cerca de 10.000 soldados. Mas haviam amargado
três fragorosas derrotas antes de conseguir arrasar Belo Monte, a cidadela de
taipa defendida com unhas e dentes pelos seguidores do beato Antonio
Conselheiro. Na base da corporação, os bisonhos soldados, enviados a
combate sem o mínimo preparo, eram arregimentados entre analfabetos e
miseráveis, homens rudes, muitas vezes perseguidos e capturados a laço pela
polícia, depois alistados à força”. (Destaquei). [Lira Neto. Castelo – A marcha
para a ditadura. São Paulo: Ed. Contexto, 2004, p. 40]. Com antecedentes tais,
preados, mal comandados, famintos, envergando os mais variados e inadequados
uniformes, havendo deserções em massa, saqueando o que tinham pela frente e
pondo em fuga os aterrorizados habitantes da região, como se lê em Walnice N.
Galvão. [No Carlos da Hora, op. cit.,pp. 310, 326, 327, 408 e 409] não exigia dos
defensores qualquer conhecimento de arte bélica, ou mesmo o mínimo
adestramento militar, especialmente quando lhes prevalecia a certeza de
defenderem as invasões de suas humildes e invioláveis taperas, suas lavouras,
seus lares, suas famílias.
O Exército Brasileiro, do meado ao final do século XIX em diante,
tornou-se experto em genocídios, “gravata vermelha” e extermínio em massa.
Comentando o livro de Júlio José Chiavenatto [Genocídio Americano: A Guerra
do Paraguai, Brasiliense, 1977], o169crítico Jorge Escosteguy escreveu: “A
indignação sem dúvida é justa, pois durante os cinco anos da guerra do Paraguai
(1864-1870) cometeram-se atrocidades inimagináveis contra o povo paraguaio –
crimes que, zelosamente, a história oficial dos vencedores encarregou-se de
ocultar. Sobre o Paraguai, a história oficial tem não só escamoteado o genocídio
cometido pela Tríplice Aliança sob o patrocínio do colonialismo inglês, como
minimizado ou mesmo ignorado a gênese da primeira república independente da
América Latina. Era uma república florescente, sem analfabetismo e dominação
colonial. O desenvolvimento anterior à guerra explica a inacreditável resistência
oferecida por um pequeno país à aliança de seus três vizinhos. E o extermínio
promovido pela Tríplice Aliança explica e justifica o Paraguai de hoje”.
(Destaquei). [VEJA, edição n. 563, 20.06.1977, p. 126].
É conveniente ressaltar, que grande número dos oficiais que
comandaram as tropas invasoras de Canudos, tiveram ativa participação naquela
guerra. Preludiando Canudos, mas em proporções inferiores, estes mesmos
oficiais perpetraram em nosso solo outro genocídio, segundo palavras do
professor, historiador e Diretor da Fundação Casa de Rui Barbosa: “A guerra de
Canudos foi um equívoco brutal nos anos iniciais da República, logo após outra
carnificina, ocorrida no Sul, que conflagrou, nos anos de 1893-1894, os
Estados do Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Paraná”. (Destaquei). [Francisco
de Assis Barbosa. Apresentação in Canudos – Subsídios para sua reavaliação
histórica, op. cit., p. XI].
A MORTE – Reconhecendo o inevitável, desastroso e trágico fim
daquele efêmero e fraterno povoado, vendo o extermínio brutal de seus
inofensivos irmãos que obstinadamente relutaram em abandoná-lo e eram
brutalmente incinerados em seus próprios casebres, com a alma em aflição e o
coração dilacerado, o inofensivo “santo homem”, “manso de palavras e bom de
coração”, que durante a vida se alimentara frugalmente, fraco e debilitado entrou
para seu Santuário, iniciando um isolamento de orações e jejuns, vindo a fenecer
de forte disenteria – “caminheira” – provocada por intensa desidratação, no dia
22.09.1897, conforme assevera o historiador, transcrevendo a seguir o auto de
exumação: “Antonio Conselheiro sucumbiu à disenteria que grassava em
Canudos, e a 6 de outubro de 1897 procedeu-se à exumação do seu cadáver sendo
este trabalho feito por uma comissão médica, composta pelos Drs. Major José
Curio, Capitães Mourão e Gouveia Freire, Tenente José Gaioso e pelo sextanista
João Pondé”.
“É este o respectivo auto: “Aos seis dias do mês de outubro de 1897,
os abaixo assinados examinaram, por ordem superior, os escombros da casa
denominada Santuário, residência de170Antonio Vicente Mendes Maciel, o
Conselheiro, onde se presumia existirem os despojos mortais, dando como
resultado o exame que se limitou à situação e hábito externo, o seguinte”:
“Na encosta da parede interna, numa das três seções em que divide a
referida parede, encontrou-se uma sepultura guardando um cadáver com os
seguintes caracteres: braços cruzados no peito, deitado sobre uma esteira de
carnaúba e envolto num lençol branco. Vestia longa túnica de pano azul
costurado na fímbria; a cintura abotoada daí até a gola, por baixo dessa túnica
uma camisa e ceroula de algodão nacional. Calçava alpercatas de sola”.
“O cadáver media um metro e sessenta de comprimento, era de cor
morena e idade presumível de sessenta ou cinqüenta e cinco anos. Estava em
começo de putrefação e apresentava cabelos negros, longos e bastos, fronte
estreita, rosto largo e magro de maças salientes, guarnecido de barbas longas,
nariz destruído na porção musculosa, a maxila inferior, como a superior,
desprovida de dentes; mãos descarnadas e pés pequenos”.
“Concluído o exame, que não pode ser levado adiante por falta de
meios, reconhecemos pelos sinais descritos e pelo testemunho de muitos
prisioneiros e várias pessoas presentes, entre as quais o membro presente da
comissão acadêmica, João Pondé, ser o corpo de Antonio Vicente Mendes
Maciel, conhecido por Antonio Conselheiro, que aí residia como chefe de um
núcleo de fanáticos e aventureiros da povoação de Canudos, no sertão da Bahia.
Seguem-se as assinaturas”. A grafia foi atualizada. [(In Barão de Studart.
Dicionário Biobibliográfico Cearense, Vol. 1, 1910, op. cit., pp. 142-143].
Embora constitua prolixidade, mas, tendo origem da pena do mais ilustrado
historiador do Ceará, referindo à monstruosa “gravata vermelha” e o crudelíssimo
extermínio do povoado, inconformado escreveu: “Para este fim houve recurso
aos meios mais desumanos, que não convém registar a bem dos nossos foros
de nação civilizada e cristã”. [Op. cit., p 101].
AS CAUSAS – A pressa em difundir os lutuosos sucessos que
envolveram o missionário e os habitantes do povoado, induziram pesquisadores a
incríveis enganos que, se não devidamente analisados enleiam os leitores a
interpretações errôneas, distantes da verdade histórica. Vejamos alguns poucos,
em ordem cronológica. Em1919, reproduzindo matéria anterior [Ceará (Homens
e Factos), op. cit.,p. 273], referindo à morte do Conselheiro, João Brígido
escreveu que ocorreu “combatendo até succumbir (sic). Já em 1986, o qualifica
Calasans como o “mais famoso condutor de homens nos sertões brasileiros do
século XIX”. [«Canudos Não Euclidiano – Fase anterior ao início da Guerra do
Conselheiro»inCanudos – Subsídios para sua reavaliação histórica, op. cit.,p.
19]. Enquanto em época próxima –1711997 – o atento Hoornaert, informa que
o missionário morreu “imobilizado pelo ferimento que finalmente precipita sua
morte”. [1997, op. cit.,p. 76]. Vejamos.
1. Antonio Conselheiro, pelo que se conhece de escritos de
pesquisadores e historiadores e pelas palavras de sobreviventes, jamais foi visto
ou mencionado como “combatendo até a morte”, cujos motivos, pelo óbvio,
dispensam comentários.
2. Doutra parte, nunca foi “condutor de homens”, eis que sequer
sugeriu ou convidou quem quer que fosse a permanecer em Belo Monte-
Canudos, segundo asseverou ao cineasta-repórter Ipojuca Pontes o sobrevivente
João Francisco da Costa, como está em letras precedentes.
3. Está evidente que o perspicaz Hoornaert desconhece a verdadeira
causa da morte do Conselheiro, veiculada desde 1910 pelo Barão de Studart
[Dicionário Biobibliográfico, Vol. 1, 1910, p. 143], realçada por Abelardo
Montenegro [1973, op. cit.,p. 143], quando, entrevistando Honório Vilanova, dele
ouviu: “Honório Vilanova informou ao Autor que Conselheiro não recebeu
ferimento resultante de explosão de granada. Conselheiro estava acamado
desde junho, vítima de disenteria (...). Conselheiro faleceu em conseqüência da
disenteria e seu corpo não apresentava ferimento de qualquer espécie”.
(Destaquei).
Quando o ferro e o fogo ainda faziam sua parte, no dia 13 de outubro
o diácono franciscano alemão Pedro Sinzig, que compunha o Comitê Patriótico,
insuspeita testemunha, relata esta crudelíssima cena protagonizada pelo
Comandante-em-Chefe da 4a expedição, Gen. Artur Oscar de Andrade
Guimarães: “13 de outubro – No momento acabou o sepultamento do jagunço
que morreu ontem aqui; e o de uma criança. Aurino conta que os soldados
pegam as crianças pelas pernas, rodam com elas e esmigalham o crânio
batendo contra as á[Link] jagunços se têm jogado no fogo, outros são
empurrados para dentro ouentão são-lhes esquartejados os membros, um
depois do outro, as costelas amputadas se não gritam “viva a
República!”.Artur Oscar degolou mulheres pela mesma razão”. (Destaquei).
Frei Pedro Sinzig. [In Canudos. As falas e os olhares, op. cit., p. 161].
Como recorda o jornalista, o uso da degola não foi exclusividade da
garganta do Conselheiro: “O caso do Conselheiro é apenas um entre muitos na
História do Brasil, em que se adota a prática de cortar cabeças. Zumbi dos
Palmares teve a cabeça cortada depois de morto, assim como Tiradentes e o líder
da Revolução Federalista no Rio Grande do Sul, Gumercindo Silva. Idem, o
cangaceiro Lampião; idem, os crentes da comunidade do Caldeirão, um
fenômeno parecido com o de172Canudos, ocorrido no Ceará nos anos
30 do século. De certa forma, a galeria dos vencedores da História do Brasil
confunde-se com uma galeria de astros da degola”. (Destaquei). [Roberto
Pompeu de Toledo. VEJA, op. cit., p. 87].
173
12.
OS SERTÕES: ANÁLISE HISTÓRICA
“Os Sertõesé um livro articulado em torno daconstrução da
civilização atravésda violência e da destruição. O livro
consegue esconder que num convívio cultural tão polarizado
como o brasileiro aparece nos poros do corpo social uma
agressividade, continuamente relegada na lixeira do inconsciente,
que em momentos de tensão dirige-se contra todos. Em todas
as regiões do Brasil – e não apenas no sertão (como dizem os
adeptos da teoria dos “dois brasis”) – “há suspeitos”. O livro de
Euclides, contudo, concentra a suspeita no sertão, em Canudos,
e, mais precisamente, na figura do Conselheiro”. (Destaquei).
HOORNAERT, [1997: 82]
O livro de Euclides da Cunha teve o indiscutível mérito de resgatar do
plano da obscura historiografia oficial a tragédia de Belo Monte-Canudos,
enquanto no plano literário e historiográfico transformou-se numa obra intocável
e acrítica, até hoje dificultando explicações corretas derivadas de subsídios
contemporâneos, essenciais ao real conhecimento e entendimento do Conselheiro
e sua obra apostólico-missionária.E, enfaticamente na área historiográfica, ali
falsamente tratada. Seu súbito e extraordinário sucesso foi de tal monta que
Joaquim Nabuco a elegeu como “Bíblia da Nacionalidade Brasileira” e outro a
qualificou de “Obra Monumento”, favorecendo a que, pelas mãos de Machado de
Assis, no dia 10.09.1903, menos de um ano após a publicação, fosse o autor
eleito para a ABL e, noutra ocasião para o Instituto Histórico e Geográfico
Brasileiro. Para a literatura brasileira, ficaram perpetuados e celebrizados ad
infinitum o autor e sua obra.
Doutra parte, devo salientar que, mesmo decorrido mais de um século
de sua publicação, e fossem quais fossem os preceitos filosóficos e científicos do
autor, vindos de que “matriz” viessem – o que não postula esta análise – mas e
tão-somente a ardilosa simulação que fabulou e fantasiou, e no livro expendeu
acerca da figura de Antonio Conselheiro e a gente de Belo Monte-Canudos. O
Prof. Dr. Jorge Coli, do Departamento de História da Unicamp, no artigo A
Palavra Pensante, versando a obra de Euclides, escreveu: "Do paroxismo ao
delírio há um passo apenas. Um dos críticos franceses que se debruçaram sobre
a recente tradução de Os Sertões para o francês, J. M. de Montremy, não hesita:
"O soberbo relato da guerra de174Canudos conta também o
afrontamento de duas loucuras: a loucura erudita de Euclides se deixa tomar
por sua loucura poética". [Revista USP – Dossiê Canudos, op. cit.,p. 63]. No
entanto, a História não comporta análises em que se incluam "loucura erudita" e
menos "loucura poética".
Na mesma Revista USP – Dossiê Canudos, n. 20, 1993-1994,
insistentemente referida neste estudo e dedicada às comemorações do centenário
da fundação do arraial de Belo Monte-Canudos, o editor-executivo Francisco
Costa, considerando textos de José Calasans, diz que ele “aventurou-se a mexer
com o tema “Canudos”, há mais de cinqüenta anos, época em que a palavra de
Euclides em Os Sertões soava como a trombeta final”. (Destaquei). [Ibid., p.
7]. Já o Prof. Renato Ferraz, igualmente referindo Calasans, escreveu:
“Analogamente, assim como Capistrano liberta a nossa história das peias da
historiografia oficial varnhageniana, por meio da crítica competente e lúcida que
faz do saber histórico da sua época, o professor Calasans é o responsável pela
libertação dos estudos canudenses, então aprisionados na “gaiola de ouro” de
Os Sertões”. (Destaquei). [Op. cit.,p. 85]. Em que pese a inestimável valia do
que buscou o diligente e dedicado estudioso, as portas da tal "gaiola de ouro",
que na consideração a seguir bem comporta o designativo de “gaiola da insídia”,
até hoje não foram abertas para o Conselheiro e a gente de Belo Monte-Canudos,
e, se não os detraísse, tal livro aqui seria descuidado.
Contudo, a magnificência literária – o que também não postula a
análise, persisto – chega ao absurdo de afastá-la do entendimento de pessoas ditas
letradas. Comprovo. Em época recente, o Prof. Caio Lóssio Botelho, membro
efetivo do seleto Instituto Histórico do Ceará, no artigo «Centenário de
Publicação de "Os Sertões" de Euclides da Cunha»[RIC, 2002, pp. 289-293],
sugere o indispensável uso de um dicionário que possibilite sua compreensão:
“Lamentamos que no período da nossa adolescência, quando da primeira leitura
de Os Sertões, não dispúnhamos de um trabalho de envergadura como o
Dicionáriode VerbosdeOs Sertões, de SalomãoPinheiro MAIA, por isto, éramos
obrigados a compulsar dezenas e dezenas de dicionários para o entendimento
desta respeitável obra. Hoje, a mocidade dispõe desse Dicionário, que é de uma
importância transcendental, para a melhor compreensão do monumento
literário de Euclides da Cunha (sic)”. A seguir, ressalta “dois momentos (sic)”.
“1. quando não existia o Dicionário (...). 2. Com a presença do Dicionário (...),
chegando à estranha concepção de que Euclides é o "verdadeiro fundador da
chamada língua "brasileira". (sic). (Destaquei). [Ibid., pp. 292/293]. Portanto,
na concepção deste destacado articulista, sócio efetivo do Instituto Histórico,
relembro, o livro de Euclides persiste 175como a “trombeta final”, “gaiola de
ouro”, "Obra Monumento" e “Bíblia da Nacionalidade Brasileira”, tendo a
singular necessidade do uso de um dicionário exclusivo para sua depreensão.
No entanto, por mais que a celebrize e ornamente o preciosismo
literário, e seja o autor um excepcional artesão na imaginação vernacular, mas,
como a História não se estrutura em levianas informações, como se verá, não a
exime – como a nenhuma outra – de que sejam considerados pequenos trechos,
especialmente os que relatam e comprometem a figura central que originou a
composição da “Obra Monumento” e "Bíblia da Nacionalidade" – Antonio
Vicente Mendes Maciel, o Conselheiro – e por extensão a gente do povoado. Ou
seja: a análise a seguir investiga textos sob o ângulo da historicidade, onde, até
hoje e por falta duma análise objetiva, persistem acantoados na gaiola da
perfídia, ouvindo os terrificantes sons da "trombeta final", insisto, o humilde
predicante e seus pobres seguidores.
Doutra parte, o exame se insere nesta assertiva: “Devemos ser
honestos com os adversários ocasionais de nossas idéias. Temos que aprender a
saber discordar, nada se afirmando ou negando, sem qualquer prova boa ou má. E
isso, infelizmente é o que pouco se faz. É mesmo comum se atribuir a certas
pessoas pensamentos, idéias e juízos que nunca tiveram, constituindo, tal
fato, a meu ver, grosseira e imperdoável deturpação”. (Destaquei). [Luiz
Teixeira de Barros.«Complexidade dos Fatos Históricos»,RIC, 1987, pp.226-
235]. E é unicamente sob esse ângulo, persisto, no intuito de restaurar a verdade,
que se fundamentam estas evidentes análises. Para tanto, as citações foram
extratadas ipsis litteris de uma edição dita popular de Os Sertões, comemorativa
do 90o aniversário da 1a edição [Rio de Janeiro: Ediouro, 1992], já mencionada
em trechos precedentes deste estudo. Ei-las:
Pp. 80-81 – “Por isto o infeliz destinado à solicitude dos médicos,
veio, impelido por uma potência superior, bater de encontro a uma
civilização, indo para a história como poderia ter ido para o hospício”.
“Todas as crenças ingênuas, do fetichismo bárbaro às aberrações
católicas, todas as tendências das raças inferiores, livremente exercitadas na
indisciplina sertaneja, se condensavam no seu misticismo feroz e
extravagante. (...) O temperamento mais impressionável apenas fê-lo
absorver as crenças ambientes, a princípio numa quase passividade pela
própria receptividade mórbida do espírito torturado de reveses, e elas
refluíram, depois, mais fortemente sobre o próprio meio de onde haviam
partido, partindo da sua consciência delirante”.
“Doente grave, só lhe pode ser aplicado o conceito da paranóia, de
Tanzi e Riva. Foi um documento176raro de atavismo”. (Destaquei).
FALSO – Jamais Euclides da Cunha avistou, mesmo a distância,
Antonio Conselheiro, sequer depois de morto. Dessa forma, o simples
desconhecimento pessoal para qualifica-lo próprio “à solicitude dos médicos”,
faz leviana a indicação de que “poderia ter ido para o hospício”. E como “doente
grave, só lhe poderia ser aplicado o conceito de paranóia” é outra colocação
inverídica, carecendo-lhe absoluta qualificação à tão grave diagnóstico,
atribuição exclusiva de um profissional que na época inexistia. Em Canudos o ir e
vir era franco, e ninguém que o conheceu e com ele relacionou-se, e nenhum
testemunho de sobrevivente ou alguém que lá andou – e foram milhares – relatou
haver observado no Conselheiro sintomas psicopáticos.
P. 82 – “A regressão ideativa que patenteou, caracterizando-lhe o
temperamento vesânico, é, certo, que caso notável de degenerescência
intelectual, mas não o isolou – incompreendido, desequilibrado, retrógrado,
rebelde – no meio em que agiu”.
“A sua biografia compendia e resume a existência da sociedade
sertaneja. Esclarece o conceito etiológico da doença que o vitimou”.
Destaquei.
FALSO E INJURIOSO – No texto de Euclides, se a biografia do
Conselheiro “compendia e resume a existência da sociedade sertaneja”,
genericamente sua totalidade seria composta de “doentes graves de paranóia,
vesanos e loucos”. Em nenhuma ocasião, em décadas de sua peregrinação
missionária – como está historicamente provado – o Conselheiro deu
demonstrações de “regressão ideativa”, a não ser que, na condição de ateu,
Euclides desconhecesse e/ou desconsiderasse as práticas cristãs, compreendendo
o exercício da caridade e da fraternidade como regressão ideativa.
A persistência de Euclides em qualificar o Conselheiro como “louco”,
é tônica em todas as passagens que o menciona, como insiste em assegurar –
“caracterizando-lhe o temperamento vesânico” – enganosa e pérfida colocação
jamais provada.
A população sertaneja, em qualquer quadra histórica, jamais foi
manancial ou matriz de fanáticos, insensatos ou vesanos. Ao contrário, era no
litoral civilizado que ocorriam cenas como esta: “O italiano Frei Serafim,
falando mal o português, pregava, à noite, em Fortaleza, no ano de 1864,
enquanto ao redor dele as mulheres malhavam como enorme bando de
ovelhas”. (Destaque meu). Abelardo Montenegro. [1973, op. cit., p. 15].
Quanto ao “conceito etiológico que o vitimou”, fica implícita a
leviana sugestão de insânia hereditária dos Maciés, “familia que soffria de
affecção mental (sic)”, e no parágrafo 177seguinte inicia a narrativa da
desconsiderada matéria de João Brígido, exaustivamente examinada em capítulos
anteriores, à qual faz menção antecipada em nota de rodapé na mesma página,
como se lê.
P. 83 – Nota de rodapé. “(1) Manuel Ximenes falando em suas
memórias destes dous infelizes, diz que nunca tinham dito mal deles, nem os
próprios inimigos, que acusaram a seus filhos; e põe em dúvida mesmo a
participação destes nos roubos aludidos”. “(2) Manuel Ximenes, Memórias” (sic).
ENIGMÁTICA MENÇÃO – Causa indagação e surpresa estas
referências às Memórias do prof. Manuel Ximenes Aragão. Indiscutivelmente, foi
pelas mãos de Brígido que cópias chegaram a Euclides, e é de se perguntar o
emblemático motivo de só haverem sido publicadas em extensa matéria na RIC,
1913, pp. 47-157, quando foram a exclusiva fonte à que recorreu o próprio
Brígido para escrever e falsamente maximizar, ainda em 1889, a desacreditada e
trágica nota «Crimes Célebres do Ceará – os Araújos e Maciéis», nas páginas do
jornal República, Fortaleza. Portanto, enquanto as Memórias de Manuel Ximenes
só seriam publicadas em 1913, há 24 anos ou mais já se encontravam em poder
do jornalista, que não as divulgou, mesmo na condição de ícone da primária
imprensa cearense. A resposta é simples e clara: a tardia divulgação visava
ocultar as verdades nelas contidas e jamais consideradas e confrontadas com as
reais atividades do Conselheiro, as quais, quando devidamente conhecidas e
cotejadas com as matérias as desacreditariam, como invalidaria o que escreveram
Manuel Benício, Euclides da Cunha e outros, cujas obras – inspiradas no
jornalista – até hoje são historicamente fonte de inspiração a muitos historiadores,
cujos trabalhos deslustram e infamam injuriosamente a imagem e as atividades do
Conselheiro.
P. 85 – “A sugestão das narrativas (a contenda entre alguns
membros das progênies Maciel e Veras), porém, tinha o corretivo enérgico da
ríspida sisudez do velho Mendes Maciel (o pai, Vicente Mendes Maciel) e não
abalava o ânimo do rapaz. Talvez ficasse latente, pronta a seexpandir em
condições mais favoráveis. [...] Data daí a sua existência dramática. A
mulher foi a sobrecarga adicionada à tremenda tara hereditária, que
desequilibraria uma vida iniciada sob os melhores auspícios”. (Os parêntesis
e destaques são meus).
FALSO – Persiste a insinuação de insânia. Na mesma página lê-se
nova nota de rodapé citando João Brígido, a quem recorreu o autor para impor
violência à progênie do Conselheiro, “pronta a se expandir em condições mais
favoráveis”. Evidencia-se o falso diagnóstico apontado por sua inaptidão, cuja
leitura empresta à obra tonalidades de178pura ficção, entremeada de
reconhecidas e provadas inexatidões. Aliás, ao receber em 1982, na Academia
Sueca, o Prêmio Nobel de Literatura, em seu discurso, o laureado escritor Gabriel
García Márquez, faz esta indagação: “Quem dá de beber ao “realismo
fantástico” da literatura latino-americana: a ficção ou a própria realidade?”
[Revista Senhor, edição de 02.02.1983, p. 10].
Já os trechos sugerindo que “data daí sua existência dramática” e
que a “mulher foi a sobrecarga adicionada à tremenda tara hereditária”,
além de carecer ao escritor qualquer qualificação profissional para atribuir tais
etiologias ao Conselheiro, tais expressões são inexatas. Verdade é que, após
separar-se de Brasilina, o Conselheiro teve efêmero envolvimento sentimental
com Joana Batista de Lima – Joana Imaginária – com quem teve um filho
chamado Joaquim Aprígio, nascido no Ipu e apadrinhado por seu amigo, o
jurisconsulto Luís Francisco de Miranda, e nada lhe ocorreu de dramático, como
narram as crônicas.
Pp. 86/87 – “De repente, surge-lhe revés violento. O plano
inclinado daquela vida em declive termina, de golpe, em queda formidável.
Foge-lhe a mulher, em Ipu, raptada por um policial. Foi o desfecho”.
“...E surgia na Bahia, o anacoreta sombrio, cabelos crescidos até
os ombros, barba inculta e longa; face escaveirada; olhar fulgurante;
monstruoso, dentro de um hábito azul de brim americano; abordoado ao
clássico bastão, em que se apóia o passo tardo dos peregrinos...”.
“Assim pervagou largo tempo, até aparecer nos sertões, ao norte
da Bahia. Ia-lhe crescendo o prestígio. Já não seguia só. Encalçavam-no na
rota desnorteada os primeiros fieis. Não os chamara. Chegavam-lhe
espontâneos, felizes por atravessarem com ele os mesmos dias de provações e
misérias. Eram, no geral, gente ínfima e suspeita, avessa ao trabalho,
farândola de vencidos da vida, vezada à mandria e à rapina”. (Destaquei).
FALSO – Jamais o Conselheiro teve na vida “plano inclinado”, como
ficou demonstrado, e, como está linhas antes, o adultério de Brasilina não
significou “desfecho” em sua trajetória missionária. É uma obsessão doentia, a
forma como Euclides dispensa persistente tratamento preconceituoso,
discriminativo, depreciativo e degradante ao Conselheiro, desabonado de
qualquer fundamento que o conferisse autoridade para tal, eis que alicerçado
unicamente em matérias de Brígido, valorando-as e maximizando-as, como antes
fizera Manuel Benício. Versando o adultério e a fuga de Brasilina, escreveu
Edmundo Moniz: “Curioso é que Euclides da Cunha e Antonio Conselheiro,
de certa forma, tiveram um destino parecido. Ambos foram traídos e
179
abandonados pelas mulheres. Mas Euclides da Cunha não se conformou com
a traição”. [Canudos: A Luta pela Terra, op. cit., pp. 25-26].
Antonio Conselheiro nunca procedeu como anacoreta – viver na
solidão – como igualmente não tinha postura sombria – melancólica e ríspida.
Pela seqüência das narrativas, dá a entender que o autor tenha sofrido um lapso
de obnubilação, pois é absolutamente incrível que uma “farândola de vencidos
da vida, vezada à mandria e à rapina (sic)”, pudessem resistir e subsistir a
seguidos e devastadores ataques e cercos de tropas militares fortemente armadas.
P. 88 – “A imaginação popular, como se vê, começava a
romancear-lhe a vida, com um traço vigoroso de originalidade trágica”.
(Destaquei).
FALSO – Se na época já se praticassem os métodos psicanalíticos
freudianos, certamente o autor estaria indicado ao divã de um analista, pois é
constante seu propósito em projetar no Conselheiro seus conhecidos conflitos
psíquicos, referidos pela unanimidade dos raros que se propuseram biografá-lo. À
tragédia que impôs à vida do missionário foram projetadas por vários cronistas,
tal como Nertan Macedo [Antonio Conselheiro, com o emblemático subtítulo (A
Morte em Vida do Beato de Canudos).Rio de Janeiro: Record, 1969]. Uma psique
atormentada pela tragédia, jamais olharia o próximo com ânimo de fé, caridade,
fraternidade e esperança, estabelecendo uma comunidade próspera em pleno
semi-árido, onde nada faltava.
P. 89-92 – “Era truanesco e era pavoroso.”
“Imagine-se um bufão arrebatado numa visão do Apocalipse...”
“Parco de gestos, falava largo tempo, olhos em terra, sem encarar
a multidão abatida sob a algaravia, que derivava demoradamente, ao
arrepio do bom senso, em melopéia fatigante”.
“Tinha, entretanto, ao que parece, a preocupação do efeito
produzido por uma outra frase mais incisiva. Enunciava-a e emudecia:
alevantava a cabeça, descerrava de golpe as pálpebras; viam-se-lhe então os
olhos extremamente negros e vivos, - uma cintilação ofuscante... Ninguém
ousava contemplá-lo. A multidão sucumbida abaixava, por sua vez, as vistas,
fascinada, sob o estranho hipnotismo daquela insânia formidável”.
“E o grande desventurado realizava, nesta ocasião, o seu único
milagre: não se tornar ridículo”.
“Nestas prédicas, em que fazia vitoriosa concorrência aos
capuchinhos vagabundos das missões, estadeava o sistema religioso
incongruente e vago. Ora, quem as ouviu não se forra a aproximações
históricas sugestivas. Relendo as180páginas memoráveis em que Renan
faz ressurgir, pelo galvanismo do seu belo estilo, os adoudados chefes de seita
dos primeiros séculos, nota-se a revivescência integral de suas aberrações
extintas (...).Insurge-se contra a Igreja romana, e vibra-lhe objurgatórias,
estadeando o mesmo argumento que aquele: ela perdeu a sua glória e
obedece a Satanás. Esboça uma moral que é a tradução justalinear da de
Montano: a castidade exagerada ao máximo horror pela mulher,
contrastando com a licença absoluta para o amor livre, atingindo quase a
extinção do casamento”.
“A beleza era-lhe a face tentadora de Satã. O Conselheiro
extremou-se mesmo no mostrar por ela invencível horror. Nunca mais olhou
para uma mulher. Falava de costas, mesmo às beatas velhas, feitas para
amansarem sátiros”. (Destaquei).
FALSO E LEVIANO – Consideremos este texto com ponderação e
acuidade, para melhor comprovarmos sua ignominiosa e infamante inexatidão,
revelando a verdade hoje conhecida.
A) Euclides, repito, jamais conheceu Antonio Conselheiro, pois
chegou à Monte Santo no dia 06.09.1897, isto é, quando o massacre e o
extermínio do povoado aproximavam-se do fim, avistando Belo Monte-Canudos
somente no dia 16.09.1897, época em que já se encontrava quase completamente
arrasado. Se não conheceu o Conselheiro, fica óbvio que jamais poderia –
honestamente – fazer extensas e minudentes descrições de reuniões dos
habitantes em atos religiosos que jamais assistiu. Mesmo sabendo-se que a
História trabalha com um objeto ausente: o passado, e sendo certo que Euclides
jamais assistiu atos religiosos em Canudos, quando nada não floreasse a história,
e, no mínimo, indicasse a fonte, pois a História não se faz com "imaginação
criativa" – e era-lhe fertilíssima – notadamente quando tal "imaginação" se presta
a satanizar inocente desconhecido.
B) Como ateu, Euclides desgostava da religião praticada pelos
sertanejos que qualificava de “fanatismo supersticioso”, segundo – dentre outros
– assevera Walnice Nogueira Galvão, [Canudos – As falas e os olhares, op. cit.,
p. 28], chegando às raias da indignidade ao afirmar que o Conselheiro “insurge-
se contra a Igreja Romana, e vibra-lhe objurgatórias”, o que nem mesmo o
frade João Evangelista registrou no seu nefando Relatório ao qual recorreu
Euclides, como registra em nota de rodapé à p. 105, quando o frade ali confirma a
realização de 55 casamentos, 102 batizados e 400 confissões, sabendo-se que ao
povoado ia freqüentemente o Pe. Sabino, do Cumbe, com as mesmas finalidades
e onde tinha casa própria.
181
Doutra parte, também recorreu Euclides a um conhecido desafeto do
Conselheiro, o policial baiano Durval Vieira de Aguiar – autor de Descrições
Práticas da Província da Bahia, conforme registra em nota de rodapé à p. 92,de
onde transcreveu o trecho em que se lê que “o povo costuma afluir em massa aos
atos do Conselheiro, a cujo aceno cegamente obedece e resistirá ainda mesmo a
qualquer ordem legal, por cuja razão os vigários o deixam impunemente passar
por santo tanto mais quando ele nada ganha e ao contrário, promove os batizados,
casamentos, desobrigas, festas, novenas, tudo mais em que consistem os vastos
rendimentos da Igreja”. Na mesma p. 92, antes da transcrição supra, levianamente
escreveu: “Os vigários toleravam com boa sombra os despropósitos do Santo
endemoninhado que ao menos lhes acrescia a côngrua reduzida” [destaquei]
o que, mais uma vez, faz ressurgir a indignação que Euclides dispensa ao
Conselheiro, quando, com expressões levianas e adulterando a verdade, o
denomina de possesso e diabólico, desfigurando-o e satanizando-o, com claro e
expresso propósito de maledicência e difamação.
C) Reincidindo em calunioso testemunho, dá a falsa certeza de
presenciar “a multidão sucumbida sob o estranho hipnotismo daquelainsânia
formidável (sic)”.
D) O Conselheiro nunca mostrou atitudes de exagerada castidade, que
contrastasse com licenciosidade ao amor livre. Enfim, diante de tantas e
exageradas inverdades, perplexo, indago: qual era o propósito de Euclides da
Cunha, ao exprimir tamanho ódio a uma pessoa simples, um homem do povo
que sequer avistara, o qual igualmente desconhecia quem fosse o afamado
literato?Estas letras não foram escritas ao vento...
P. 94 – “O Conselheiro continuou sem tropeços na sua missão
pervertedora, avultando na imaginação popular”. Destaquei.
FALSO – É uma infâmia apontar o Conselheiro como apóstolo da
depravação e da corrupção, quando são unânimes os testemunhos dos
sobreviventes ao apresentá-lo como um “santo homem, que só ensinava e
praticava o bem”, o que também mostram suas Prédicas, as quais, embora sob
sua guarda, Euclides delas não tomou conhecimento. Aliás, enquanto se
considera o genocídio sob ângulos do cientismo, quase nenhum estudioso de
Canudos teve o cuidado de examinar e considerar a desonesta deformação
histórica que Euclides da Cunha fez da imagem de Antonio Conselheiro.
Escreveu eminente Edmundo Moniz: “Faltava a Euclides da Cunha a isenção
precisa para aquilatar a personalidade de Antonio Conselheiro”.(Destaquei).
[Canudos: A Luta pela Terra, op. cit., p. 25].
182
Pelo que está comprovado no curso deste modesto ensaio e nas
sumárias considerações, os textos que a crítica conceitua como históricos em Os
Sertões, são incontestáveis falsidades. A exemplo do que foi adequado às
matérias de João Brígido e do frade João Evangelista, submeto ao juízo de
historiadores e estudiosos da tragédia de Belo Monte-Canudos, no contexto
histórico, repiso, a obra de Euclides da Cunha.
1 – AFRANIO COUTINHO. “E como tal, como obra de arte literária, e
não de ciência ou história, é que persistirá”. (Destaquei). [Apud Ataliba
Nogueira, 1978, op. cit., p. 42].
2 – EDUARDO DIATAHY B. DE MENEZES. “Impressiona e custa crer
que, depois de tantos anos de esforços interpretativos, essa obra continue a
ser objeto da mesma liturgia que confunde a análise e perpetua os modelos”.
(Destaquei). [«Canudos e a Literatura», InCanudos – As falas e os olhares, op.
cit., p. 46].
3 – EDUARDO HOORNAERT. “Os Sertões é um livro articulado em
torno da civilização através da violência e da destruição. O livro consegue
esconder que num convívio cultural tão polarizado como o brasileiro aparece nos
poros do corpo social uma agressividade, continuamente relegada na lixeira do
inconsciente, que em momentos de tensão dirige-se contra todos. Em todas as
regiões do Brasil – e não apenas no sertão (como dizem os adeptos da teoria
dos “dois brasis”) – há “suspeitos”. O livro de Euclides, contudo, concentra a
suspeita no sertão, em Canudos e, mais precisamente, na figura do
Conselheiro”. (Destaquei). [1997, op. cit., p. 82].
4 – WALNICE NOGUEIRA GALVÃO. “Ele possuía cartas que lhe
permitiam modificar tudo isso nas outras edições, que corrigiu sem parar até
morrer. Corrigiu Os Sertões incessantemente. As versões são todas diferentes.
Nunca corrigiu, porém, tais informações. Nunca deu a mínima confiança para
esse tipo de coisa pequena, de “dados”...E é a força dessa visão trágica – que eu
chamaria até diabólica, mais do que trágica – que ele passa para nós”.
(Destaquei). [«Os Sertões: uma análise literária», InCanudos – As falas e os
olhares, op. cit., p. 24].
5 – JOÃO ARRUDA. “Felizmente, ainda que algumas de suas
afirmações continuem tendo força de “lei”, a mística infalível da “ciência” de
Canudos foi quebrada e quase todos os seus pressupostos negados. Restou quase
que só a grande obra literária”. (Destaquei). [Canudos – Messianismo e
Conflito Social, op. cit., p. 120].
6 – RUI FACÓ. “Se Euclides da Cunha, estudioso honesto da realidade
brasileira, mas com profundos183preconceitos e falsas concepções
estreitamente antropológicas e geográficas, não percebeu a essência da luta dos
habitantes de Canudos, vendo unicamente seu fundo religioso, de fanatismo, não
se justifica que este ponto de vista errôneo prevaleça na historiografia do
Brasil”. (Destaquei). [Op. cit., p. 77].
7 – ROBERT M. LEVINE. “Euclides da Cunha narra os pormenores
numa prosa descritiva tão brilhante que os acontecimentos tornam-se quase
inacreditáveis. Muitos deles realmente se passaram em Canudos, mas admite-se
que ele tenha inserido incidentes ocorridos em outros lugares. Afinal,
Euclides esteve lá apenas no final da guerra, e brevemente". (Destaquei). [Op.
cit., p. 45].
8 – ATALIBA NOGUEIRA. “Vê-se nitidamente que buscou sempre
encaixar protagonistas, atos e acontecimentos nos moldes apresentados nos
livros europeus.A preocupação é o símile. E até o vocabulário estranho é
algumas vezes repetido. Em virtude dessa verdadeira montagem da
personalidade do Conselheiro, que aliás Euclides já encontrara em outros – nas
cátedras universitárias, nos jornais, revistas e até documentos policiais – é que
nos foi legada a figura do fanático, com a seqüela de dados “científicos” e
descrição de situações, sintomas e manifestações “mórbidas”. Afinal, insano e de
doença hereditária, como não poderia deixar de ser!”. (Destaquei) [Op. cit., p.
32].
9 – LEOPOLDO M. BERNUCCI. “O que fazer ainda com a posição do
narrador que inicialmente declara ter A. Conselheiro passado de
trabalhador a vadio, quando depois de algumas páginas adiante vemos o
asceta empreendido na tarefa incansável de construir igrejas, as quais, num
dado momento podiam ser elegantes e belíssimas, e em outros pesadas, rudes
e imperfeitas?” [A Imitação dos Sentidos, São Paulo: Edusp/University Of
Colorado At Boulder, 1995, p. 20].
10 – DORIAN JORGE FREIRE. “Euclides não conseguia ver Antonio
Conselheiro senão como resultado de taras, produto de desavenças familiares,
quando o exame mais supérfluo faz saltar um Antonio Conselheiro gerado por
um estado de coisas, produto de uma situação econômica”. [Canudos – Subsídios,
op. cit., p. 342].
11 – FLÁVIO R. KOTHE. “Digamos que Euclides tivesse razão na
concepção de que a virtude deve ser imposta a ferro e fogo, eliminando-se toda
fonte de erro. É claro que, em sua concepção, seria preciso inventar um
Ministério da Reprodução, com superpoderes para determinar quem deveria
reproduzir com quem, para que no menor tempo possível fosse alcançada a
184
melhor raça no Brasil”. [«Declives da Cunha», inO Clarim e a Oração, op. cit.,
p. 250].
12 – ROBERTO POMPEUDE TOLEDO. “Euclides, em seu livro tão belo
quanto contraditório, em que tanto desqualifica, com invectivas racistas, as
práticas dos brasileiros despossuídos, quanto lhes estende o socorro da denúncia e
da compaixão, horroriza-se com a arquitetura e o urbanismo do arraial, que
chama de “urbs monstruosa” e “civitas sinistra do erro”. Ora, nota o sociólogo
Duglas Teixeira Monteiro, o padrão de construção das casas que tanto
escandalizou Euclides é “nada mais nada menos” que “a habitação comum do
sertanejo pobre”. [Op. cit., pp. 86-87].
13 – FRANKLINDE OLIVEIRA. “Embora não seja Os Sertões uma
obra de ficção é um livro de estrutura épica”. [ApudA Imitação dos Sentidos, op.
cit., p. 19].
14 – GILBERTO FREYRE. “A paisagem que transborda d´Os Sertões
é aquela que a personalidade angustiante de Euclydes da Cunha precisou de
exagerar para completar-se e exprimir-se nela: para afirmar-se”.
(Destaquei).[IBID., op. cit., p. 21].
15 – JOSÉ LINSDO REGO. “Este sertanejo de Euclides, era mais
uma ficção do gênio criador, era mais o homem da imaginação do poeta que
o homem verdadeiro dos nossos sertões nordestinos”. (Destaquei) -[Ibid., op.
cit., p. 21].
16 – MÁRIODE ANDRADE. “Pois eu garanto que Os Sertões são um
livro falso. A desgraça climática do Nordeste não se descreve. Carece ver o
que ela é. É medonha. O livro de Euclides da Cunha é uma boniteza genial
porém uma falsificação hedionda. Repugnante. Mas parece que nós
brasileiros preferimos nos orgulhar duma literatura linda a largar a
literatura duma vez para encetarmos o nosso trabalho de homens. Euclides
da Cunha transformou em brilho de frase sonora e imagens chiques o que é
cegueira insuportável deste solão; transformou em heroísmo o que é miséria
pura, em epopéia. Não se trata de heroísmo não. Se trata de miséria, de
miséria mesquinha, insuportável, medonha. Deus me livre de negar
resistência a este nordestino resistente. Mas chamar isto de heroísmo é
desconhecer um simples fenômeno de adaptação. Os mais fortes vão-se
embora”. (Destaquei). [Ibid., op. cit., p. 21].
185
13.
AS PRÉDICAS – IDEÁRIO CRISTÃO
“Quantos têm estudado o homeme o episódio, são agora forçados a
rever a idéia feita sobre o episódio e o homem. Antonio Conselheiro ressurge afinal
da condição miseranda para o plano respeitável”.
PEDRO CALMON,
[Carta a Ataliba Nogueira de 30.09.74, 2a ed., 1978, p. XI].
Embora os persistentes e intensos estudos do Prof. José Calasans da
Silva iniciados desde o meado do século pretérito, e que, no entendimento de
estudiosos hajam mexido com a trombeta final, e aparentemente aberto frinchas
na gaiola de ouro da obra euclidiana, a verdade é que, no seu contexto, foram
tímidas tais incursões, quer na análise dos ideais religiosos como no
conhecimento biográfico do Conselheiro. No campo da historiografia, nada!
Naqueles idos, o invólucro de obscuridade que revestia a personalidade do
missionário e a vida no povoado, sobremodo dificultou que se determinasse –
ainda que mínima – uma visão do “simples” que verdadeiramente ali foi
vivenciado. Assim, neste imbróglio de desinformação cujas únicas fontes eram a
trombeta final e os parciais documentos oficiais e notícias censuradas de jornais,
longe estava qualquer revelação acreditada que instruísse a ideologia religiosa do
beato, enquanto nada se conhecia de seu passado.
A percepção inicial de Calasans acerca de Canudos foi acanhada e
inicialmente sob o ângulo das tradições, crenças, lendas, canções e costumes, ou
seja, com a visão do folclorista da vida sertaneja. Assim confirma sua primeira
incursão ao tema, ainda na década de 40, na matéria Subsídios para o cancioneiro
histórico de Sergipe, R. Aracaju, 2, 1944. Desde os anos 1950, inúmeros,
valiosos e conhecidos trabalhos foram publicados, contudo, mesmo diante de
suas intensas pesquisas, notadamente voltadas para os fatos narrados por ralos
sobreviventes, pessoas da região e episódios da “guerra”, o eminente estudioso
não chegou a conceber uma noção verdadeira sobre Antonio Conselheiro.
As informações obtidas tiveram como principal fonte de consultas
Abelardo Montenegro, que conceitua como “a mais informativa biografia do
Bom Jesus Conselheiro”, [No Tempo de Antonio Conselheiro, op. cit., p. 100],
chegando a conceber a ida do frade João Evangelista à Canudos como “louvável
iniciativa pacificadora”, quando lá186nada tinha a ser pacificado, e reputa o
Relatório de “documento básico”, [«Canudos Não Euclidiano – Fase anterior ao
início da Guerra do Conselheiro»,in Canudos Subsídios, op. cit.,pp. 16-17],
Relatório tal que se tornou o mais básico documento, não ao entendimento do
missionário e da gente que o seguia, mas fundamentando e legitimando o
genocídio, como escrevi em letras anteriores. É impossível dissociar o Antonio
Conselheiro de Os Sertões do Antonio Conselheiro autêntico, verdadeiro, sem
honesta e cuidadosamente confrontar as Memórias do Prof. Manuel Ximenes
Aragão e as matérias do jornalista João Brígido dos Santos, o que fiz em capítulo
precedente. Tal análise extingue e apaga a imposição de violência
indevidamente atribuída à ancestralidade do missionário e a ele próprio, donde
surgiram as definições de “tara hereditária”, “temperamento vesânico”,
“truanesco e pavoroso”, e, especialmente “fanático”. Calasans – como a maioria
dos historiadores – não trabalhou tal confrontação, o que se comprova por seu
continuado uso de velhos e desconsiderados chavões discriminatórios e
pejorativos, como “fanáticos” e “jagunços”. Como é sabido, seu último projeto
seria escrever a biografia do Conselheiro, passo que infelizmente não efetivou.
Não sou, nem de longe me entendo historiador, mas compreendo que
os documentos do frade italiano e as matérias de Brígido, constituem documentos
básicos da historiografia de Canudos, tendo-se em consideração a avaliação
atribuída ao adjetivo básico.Básicos sim, pois se prestaram para fundamentar
oentendimento de que o beato era um insano fanático, e, em conjunto, para
legitimar e legalizar a destruição do arraial de Belo Monte-Canudos, onde seus
habitantes simplesmente "plantavam, colhiam, creavam, edificavam e
resavam (sic)", (Destaquei). [César Zama, op. cit.,p. 24]
Contudo, é obrigação de quem lê e entende analisar o que está sob
seus olhos, com o direito legítimo, de formar seu juízo. No entanto,
historicamente não se pode obscurecer, por mais notáveis sejam os autores, que
tais ou quais documentos, no curso do episódio analisado, hajam sido injustos ou
errados. Tal proceder constitui uma forma leviana de escamotear a verdade,
simplesmente por respeito a estudiosos ditos ilustrados, ao se fazer um juízo de
que seus escritos foram ou não, injustos ou errados, sendo certo que a História
não admite dogmas. Não se analisa neste texto, especificamente o sangrento
episódio Canudos, mas, insisto, unicamente a figura de Antonio Vicente Mendes
Maciel e sua Vida e Obra missionária, e, se tais documentos turvam a verdade,
como tal devem ser revelados e considerados, e não foram os 100 anos de Os
Sertões, que o eximiram de tal. Aliás, "a História não tem ponto final", segundo
Alberto Dinis.
187
Em 1976, no apogeu da ditadura militar, em seu escritório de
Salvador, foi Calasans entrevistado pelo repórter-cineasta Ipojuca Pontes que
filmava o Documentário CANUDOS, e ao ser indagado como via a figura de
Antonio Conselheiro, respondeu: “Creio que há necessidade de uma revisão
histórica da figura do Conselheiro. Porque, no meu modo de julgar e pelo que
tenho conseguido ver nos documentos e depoimentos, o Conselheiro realmente
era uma figura de líder da sua época pelos serviços que prestou no sertão,
construindo igrejas, levantando muros de cemitérios, fazendo pequenos tanques
para uso da população, dando seus conselhos sempre no sentido do bem. Uma
figura extraordinariamente humana, que conseguiu dominar um número imenso
de sertanejos. Todos recordam a figura do Conselheiro como um homem bom
que só pregava o bem. A desgraça que houve – dizem eles – não foi por causa do
Bom Jesus Conselheiro”.
“Ele distribuía com os pobres os recursos que angariava na sua
pregação. Conversava com seus adeptos com uma voz muito mansa, muito
suave, a todos chamando “meu irmão”, e esses por sua vez o tratavam de
“meu pai”. Jamais se intitulou Conselheiro, sustentando que era apenas um
simples Peregrino preocupado em ajudar os desventurados. É por isto que eu
acho que a sua figura humana obteve e alcançou tanto prestígio no seio das
populações do nordeste baiano. Ninguém nesta região jamais teve tanto prestígio,
que era capaz de enfrentar o das autoridades religiosas e das autoridades civis,
donde naturalmente os choques que surgiram”.
Contudo, foi Calasans o primeiro estudioso a deter subsídios que o
capacitassem avaliar devidamente os ideais missionários do Conselheiro, pois, já
em 1972 possuía os originais do manuscrito Apontamentos dos Preceitos da
Divina Lei de Nosso Senhor Jesus Cristo Para a Salvação dos Homens, 250 pp.,
datado de Belo Monte, Província da Bahia, 25 de maio de 1895.
Inexplicavelmente, o professor e historiador manteve em sua biblioteca o valioso
documento, doando-o, inédito, em 1983, ao Centro de Estudos Baianos da
UFBA, e só foi publicado após seu falecimento – 28.05.2001 – sob o título
Breviário de Antonio Conselheiro, Centro de Estudos Baianos da UFBA,
Salvador, 2002.
O estranho retardamento desta publicação, em 1997 é lamentado por
Hoornaert quando as refere em nota de rodapé [op. cit., p. 114], escrevendo:
“Aproveitamos da oportunidade para fazer um apelo no sentido de que se
publiquem estas prédicas, que não são idênticas às publicadas por Nogueira”.
Verdade é que o eminente estudioso nunca considerou seriamente ou submeteu
ao entendimento de doutros188estudiosos o manuscrito do
Conselheiro sob sua guarda, e só em «Canudos Não Euclidiano – Fase anterior ao
início da Guerra do Conselheiro», escreveu: “Sem sombra de dúvida, os dois
trabalhos do peregrino são essenciais para se entender o fenômeno Canudos e a
personalidade do mais famoso condutor de homens nos sertões brasileiros do
séculoXIX”. (Destaquei) [In Canudos – Subsídios para sua reavaliação
histórica, op. cit., p. 19].
Historicamente, quem na verdade abriu a gaiola de ouro e minimizou
os sons da trombeta final, foi o professor, jurista e membro do Instituto
Histórico e Geográfico Brasileiro, Ataliba Nogueira, que publicou o manuscrito
do Conselheiro – Prédicas aos canudenses e um discurso sobre a república, Belo
Monte, Província da Bahia, 12 de janeiro de 1897, [In Antonio Conselheiro e
Canudos, São Paulo: Companhia Editora Nacional, 1a ed., 1974, 2a ed., 1978],
onde assim conceitua o missionário: “É bem diversa a figura realmente
histórica de António Conselheiro da outra que se criou à revelia dos
documentos e demais fontes indispensáveis ao juízo crítico. Não só é erro,
mas ainda injustiça à sua memória”. (Destaquei) [Op. cit., 2a ed., 1978, p.
210].
Corroborando o que antes afirmamos acerca do desconhecimento da
pessoa do Conselheiro, e não obstante as revelações deparadas no manuscrito, no
recente ano do centenário do genocídio – 1997 – assevera o teólogo e historiador:
“Apesar de tudo isso, a impressão que se nos impõe é que poucos
especialistas em Canudos leram as prédicas do Beato. Nas quatro sínteses
sobre Canudos (Otten, Villa, Arruda, Levine), por exemplo, só Otten trabalha
especificamente o sermonário dele. Duglas Monteiro tinha feito o mesmo
quase vinte anos antes (1974). Por não ler as prédicas, ainda se repetem
estereótipos como “pregações apocalípticas” ou ainda afirmações de que
“seus sermões misturavam citações em latim e excertos das HorasMarianas e
da Missão Abreviada”, acrescentando que com eles o Conselheiro “mistificava
seus ouvintes”. (Destaquei). Hoornaert, 1997, op. cit., pp. 115-116].
Considerando o estudo de Levine, em nota de rodapé à p. 116, incrédulo
escreveu: “Ficamos admirados em ver que ainda em 1995, 22 anos após a
publicação desses escritos, o Conselheiro ainda possa ser tratado como
possuído por “loucura carismática”: “Milhares de pessoas foram para lá
(Canudos), atraídas pela loucura carismática do Conselheiro”, para serem
“mistificadas” por ele”. (Destaquei).
Sem qualificação que me autorize análises de teologia, cristologia,
mariologia e demais temas eclesiais, recorri ao entendimento de eminentes
sacerdotes católicos, teólogos com189cursos no exterior, além de renomados
historiadores, genealogistas e autores de inúmeras publicações, a quem submeti o
exame das Prédicas.
1 – PE. NERI FEITOSA – Autor de mais de 50 títulos publicados, tal
como Crato – Arneiroz – Feitosa - Documentário e Guia[Fortaleza: Ediç. UFC,
1987], e vários outros, cujas citações delongariam o texto. É este o entendimento
do sacerdote e teólogo.
“VALOR FILOSÓFICO, TEOLÓGICOE APOLOGÉTICODAS PRÉDICASDE
ANTONIOCONSELHEIRO”.
“A filosofia é o chão firme da teologia. A teologia sentiria falta de
nomenclatura e dos recursos corretos na arte de argumentar, se a filosofia não lhe
oferecesse este embasamento”.
“A filosofia é a ciência da sã curiosidade, querendo explicar o que a
inteligência encontra na sombra ou pouco esclarecido. Por isto, o filósofo é posto
em arte com a face perdida no pensamento e na reflexão”.
“O mestre Aristóteles ofereceu-nos o ramo da Lógica, a maior e a
menor, ensinando a argumentar com precisão. Sintetizou o silogismo em duas
premissas, a maior e a menor, donde salta espontaneamente a conclusão lógica”.
“A teologia também reflete, mas reflete os dados da Revelação,
usando a ferramenta fornecida pela filosofia, para não deslizar para o sofisma, ou
seja, para um argumento mal elaborado”.
“A teologia ramifica-se como estrela de cinco pontas: Fundamental,
Dogmática, Moral, Ascética e Mística”.
“A religiosidade não faz parte da teologia: é estudada por ela, como
sendo a prática religiosa herdada, firmada em tradição, sem conhecimento
profundo da Revelação e dispensando argumentos justificadores”.
“Toda a teologia leva a uma sã espiritualidade; sã no conteúdo, nos
princípios, nos argumentos que a fundamentam e na prática equilibrada e
coerente diante do confronto com a vida cotidiana”.
“A Apologética é uma arma intelectual de defesa da fé. Usa
argumento e deve ter conhecimento de causa”.
“As 29 Prédicas marianas do Conselheiro constituem um modelo
perfeito de Pregação bem feita: doutrinária, de bom conteúdo, curta, sóbria
e com muito material para reflexão”. [Destaquei].
“Não há mariolatria em nenhuma delas, mas sadia mariologia. Entre o
Conselheiro e o Vaticano II (1964), houve desando e exagero nos escritos sobre
Maria. A Constituição Dogmática LumenGentium (n. 67) lembra isto e logo veio
190
a determinação para as Editoras Católicas não publicarem livros marianos que
não ligassem a grandeza de Maria ao Mistério de Cristo (cf. n. 52)”.
“É curioso e admirável que o Conselheiro faz isto naturalmente,
nas 29 Prédicas: como quem diz – “basta ser inteligente para fazer assim”.
“Ele teve um professor de filosofia, porque estas 29 Prédicas são todas
elaboradas em forma de bom argumento: exposição do assunto; reflexão em cima
do assunto; conclusão correta: mudar de vida”.
“Seu modusloquendi elaborou frases que só os filósofos sabem urdir:
“A dor da Senhora está em proporção com o amor que Ela tem a seu Filho” (28,
3o); “Assim como não há fruto sem raiz, também não pode haver amor ao
próximo sem que preceda o amor de Deus” (5o Mandamento; “Demonstrada
como se acha a realidade desta proposição...” (1o Mandamento)”.
“A prédica do Conselheiro é mais uma contemplação. Dificilmente
me agrada a pregação do padre e do bispo: quase sempre em forma de discurso
mais próximo para palanque político, sem esquema, sem mensagem, cansativa,
longa e vazia. O contrário conseguiu fazer o Conselheiro”.
“Teologicamente as prédicas marianas são irrepreensíveis: são ricas;
não escorregam para o sentimentalismo; doutrinariamente corretas. O mesmo
digo das prédicas sobre os Mandamentos. Trata cada Mandamento com dignidade
e riqueza de enfoques; não escorrega para o moralismo viciado (como fizeram os
jansenistas), não aperta a consciência e guarda fidelidade ao Evangelho”.
“Nas Prédicas, ele revela que teve aulas de teologia: o modo de falar
às vezes é escolástico e casuístico: “a opinião mais provável” (9o Mandamento);
“é piamente crível” (13, 3o). Estas expressões têm peso determinado para a crença
no assunto”.
“Quando aborda temas que afrontam os teólogos, ele é seguro:
prerrogativas excepcionais de Maria na ordem da natureza e da graça (12); o
choque entre a natureza e a graça (17, 2o); casamento do filho contra a vontade
dos pais (4o Mandamento; confiança em Deus e atitude nossa (9, 3o)”.
“Espanta como ele coloca bem perante a fé os problemas da
impunidade e da receptação. É bom conhecedor do Direito Civil (2o M)”.
“Na parte apologética, ele sofre os defeitos que também tinham os
bispos do tempo. A prédica contra a República e o contrato civil baseia-se em
conhecimento parcial ou por ouvir dizer coisas alarmantes, quando impiedade era
a união”.
“Os bispos do tempo faziam Cartas Pastorais contra a Maçonaria e o
Protestantismo em cima de generalidades vazias: “tão horrível peçonha”; “tão
191
diabólica invenção”; “seita perversa e destruidora...” sem citar fatos. Faltava
conhecimento dos estatutos da Maçonaria e da doutrina da Reforma”.
“O Conselheiro levou-se pela mesma falha; fez uma apologética
pobre, em favor do Império e da Igreja. Faltou base para argumentar, discordar e
rejeitar; prevaleceu o sentimento. Foi uma apologética carunchada de sofisma”.
(Os destaques são meus).
2 – PE. GERALDO OLIVEIRA LIMA – Sabidamente um dos maiores
estudiosos brasileiros da saga da Coluna Prestes, autor de vários estudos sobre o
tema, tal como Raízes da Coluna Prestes, [Rio de Janeiro: Companhia Brasileira
de Artes Gráficas, 1988], além de temas históricos nacionais e regionais. É o
pioneiro historiador da cidade de Mons. Tabosa, onde foi vigário, com a
excelente obra Gênese da Paróquia de Monsenhor Tabosa [Rio de Janeiro:
Marques Saraiva Gráficos e Eds. Ltda., 1994]. É esta sua percepção.
“ENCONTROCOM ANTONIO CONSELHEIRO”.
“Programado pela Providência Divina, chegou-me às mãos Prédicas e
Discursos de Antonio Conselheiro, peça organizada e posta a público, pelo
historiador Ataliba Nogueira”.
“Dissemos Encontro Com Antonio Conselheiro, pois, só o
conhecíamos através de Os Sertões e livros outros correlatos ao já suculento tema
Canudos – a Tróia Cabocla do Brasil. Antes, conhecíamos Antonio Conselheiro
através do circunlóquio da mediação de Euclides da Cunha e outros autores de
grande revoada. Vivíamos, até então, da intermediação para se chegar ao herói de
Canudos. O princípio básico é este: diz-se tudo sobre você, só não se o diz o
que você é e o que disse...”
“É com base nesta verdade filosófica e vivencial que Prédicas e
Discursos de Antonio Conselheiro se revestem de um cunho revolucionário-
histórico, para nós: evitando a intermediação, os ressaibos ideológicos, e na
melhor das hipóteses, a pena fácil do panegirista. Afastada e arredada a
intermediação de Os Sertões e terceiros, se nos afigura, agora, um Antonio
Conselheiro ao vivo, uma Epifania (= Aparição) em que ele – pelos sermões e
discursos – declara-se a que veio e a que vinha”.
“Prédicas e Discursos de Antonio Conselheiro trouxe a eficácia de um
agente eletrônico que anula a fita magnética que estereotipava o Conselheiro, de
reacionário, vesânico, ou até, avatar do jagunço. Nem mesmo o genial Euclides
da Cunha está exime do labéu de tê-lo radiografado sob o ângulo da
degenerescência...” 192
“Dito isto, fora marcante, para nós, os aspectos abscônditos no
bojo de Prédicas e Discursos do venerável Antonio Conselheiro. Sumariemo-
los em esboço pedagógico:”
“1 – Não fora a inequívoca autenticidade da obra, diríamos tratar-se
de uma “montagem”, tal a erudição sintática, a virgulação, a adjetivação –
considerando-se ser o Conselheiro um homem do povo...”
“2 – Composto em 4 Unidades básicas, os Escritos de Antonio
Conselheiro dão-nos a impressão, em seu escopo geral, do herói de Canudos ter
lido os Sermões do Pe. Antonio Vieira: o emprego fascinante das Anáforas,
sobretudo, nos capítulos 6 e 29 e no 8o Mandamento. Explora os contrastes, ver
capítulo 20, com antíteses marcantes e no 7o Mandamento volta às Anáforas,
jogando com o verbo furtar, onde se nota Vieira redivivo. Trata-se, na verdade,
de um Antonio Conselheiro erudito, considerando-o em seu devido tempo. Esta
fora a nossa grande surpresa ao desfolharmos as páginas de Prédicas e Discursos
do Conselheiro. As metáforas e os superlativos absolutos sintéticos são
testemunhas absolutas de que o herói de Canudos era um erudito, no contexto
analfabético da época. A Terceira Parte é, das 4 Unidades, a mais ilustrada, onde
abundam as citações em latim. Equivocam-se os que pensam ter Antonio
Conselheiro lido somente Missão Abreviada e Horas Marianas: as Prédicas e
Discursos do Conselheiro denotam um pregador forrado de leituras, embora seu
estilo seja merencório, despido de toques paisagísticos e sem tom poético. A
Quarta Parte, e última, trata de assuntos variados e mantém o nível ilustrativo da
unidade anterior”.
“Deixando-se de lado o aspecto morfológico das Prédicas do
Conselheiro e indagando-se o caráter religioso-ideológico das mesmas, ver-se-á
que não há messianismo nos escritos do herói da Tróia Cabocla do Brasil: As
Práticas e Prédicas de Antonio Conselheiro são de índole visceralmente
doutrinária. O Messianismo, lato sensu, traz duas vertentes: uma de caráter
terreal – é o Sebastianismo. Outra de índole escatológica – traduzindo-se com a
segunda vinda de Jesus à terra, não como Pai, mas como Judex. Se o Conselheiro
fora um messiânico, o fora sim, em seus atos, ou escritos outros, não em suas
Prédicas. Messiânico fora Severino Tavares, cooperador de Zé Lourenço, do
Caldeirão. Pregando na Serra das Matas, Severino deixou claro e explícito, em
suas Prédicas, a transcendência do messianismo escatológico. As Prédicas de
Antonio Conselheiro são inteiramente doutrinárias, não resvalando, nunca, para
qualquer tipologia de messianismo. Era um missionário sem ressaibos de teor
messiânico. Mariologia fora o seu grande tema, logo de início, em suas Prédicas.
193
Não vemos, pelo que está escrito de Antonio Conselheiro, sinais messiânicos em
seus escritos”. (Os destaques são meus).
194
14.
AS MÚLTIPLAS “VISÕES” DO “SIMPLES”
“Não se deve recorrer a explicações complicadas,
quando há mais simples ao alcance da mão”.
EDUARDO HOORNAERT, [Os Anjos de Canudos, 1997, p. 105].
Sem informações históricas dos acontecimentos precedentes da vida
de Antonio Conselheiro e mesmo das suas atividades no povoado de Belo Monte-
Canudos, exceto as contidas em documentos oficiais, tal como o Relatório do
frade italiano João Evangelista, comunicações parciais de vigários e de jornais,
inclusive da lavra do Barão de Jeremoabo e outros inimigos do beato, artigos
censurados de correspondentes no curso dos ataques militares ao povoado, além
das entocadas e intocáveis do livro de Euclides da Cunha, em cujas letras o beato
missionário é qualificado de “vesano”, “fanático”, “resultado tortuoso de três
raças”, e, numa só página [op. cit., p. 91], é propalado de “milenarista”,
“messianista” e “sebastianista”. Inúmeros estudiosos da chamada área
acadêmica, passaram a trabalhar o genocídio com “visões” de “fora para dentro”,
donde surgiram volumosos tratados com definições cientificistas, longe e bem
distante da “simples” realidade vivenciada pelos missionário e habitantes de Belo
Monte-Canudos.
No ilusório entendimento de que a palavra final sempre esteve com
Euclides da Cunha, até mesmo o estudioso sergipano-baiano, [Link]é Calasans
da Silva recorreu a Cunha para difundir a falsa e imaginária existência de
sebastianismo mesclado de milenarismo, idéias procedentes de papeluchos
apócrifos que teriam sido encontrados no povoado. E, na condição de pioneiro,
dedicado e obstinado estudioso do episódio Canudos, em seu integral contexto e
ao longo da vida, e que teve a coragem primeira de fazer ver que Os Sertões não
soavam como a trombeta final, não o exime de ser mencionado com tais “visões”,
por ele próprio confessadas [«Canudos Não Euclidiano – Fase anterior ao início
da Guerra do Conselheiro»,inCanudos – Subsídios para sua reavaliação
histórica,op. cit., p. 1], afora outras citadas em páginas precedentes. Não é
correto emprestar aos estudos de Calasans, o que ocorreu com Os Sertões, ou
seja, conceitua-los e tê-los como “trombetas finais”.
As variadas “visões” do que nada mais foi senão o brutal trucidamento
de ignorantes e humildes sertanejos, são produções elaboradas por intelectuais
encastelados em escritórios e gabinetes climatizados do litoral, sem
nenhuma vivência da vida rural e da195religiosidade sertaneja, onde
presumiram a existência de uma sociedade inculta e mesmo semibárbara,
constituída por “homens em rama”, e, no caso de Canudos, alienada e fanatizada.
Assim trabalha a “suculenta” temática bom número de estudiosos ditos da área
acadêmica, grande parte ateus e alheios aos ditames do cristianismo prático e
piedoso do sertanejo, quase sempre a serviço da elite opressora e distantes dos
oprimidos a quem o Conselheiro socorreu com a Fé, a Esperança, a Caridade, a
Solidariedade e a Fraternidade.
Assim avalia o eminente teólogo e historiador Hoornaert tais “visões”:
“Efetivamente, os discursos sobre Canudos são – na sua maioria – de tal
forma permeados deideologia que dão a impressão de querer enquadrar a
vida vivida nos seus esquemas. Impera o que os alemães chamam de
“Hineininterpretierung” (interpretação de fora para dentro)”. (Destaquei).
[1997, op. cit., p. 101]. Adiante, ajuíza o perspicaz estudioso: “Toda e qualquer
teoria social só é válida na medida em que corresponde ao efetivamente
vivido e consegue explicar sem recorrer a postulados”. (Destaquei). [Ibid., p.
105]. É esta a compreensão do respeitável Hoornaert.
No meu simples entendimento, como o dia-a-dia dos habitantes de
Belo Monte-Canudos sempre foi uma incógnita, pois os conhecimentos que nos
chegaram procediam de notícias censuradas dalguns jornais; de escassos
depoimentos colhidos pelo Comitê Patriótico da Bahia; de raros sobreviventes,
pessoas iletradas e idosas que lá viveram, e doutras que fantasiaram, sobejam
razões a Hoornaert de que não se deve “permear de ideologia” a vida dos
habitantes daquele povoado, pois os conceitos que resultam em teorias sociais
não se podem fundamentar em especulações, mas devem – preferencialmente –
frutificarem de experiências vivenciais.
FANATISMO – Foi a primeira definição que qualificou o Conselheiro
e a gente de Canudos. Pelas notícias bibliográficas, depreende-se que seu
ideólogo haja sido o cronista João Brígido dos Santos, difundida em matéria
publicada no jornal República, Fortaleza, edição de 28.06.1893, ampliada no
texto do Relatório do frade italiano João Evangelista do Monte Marciano
publicado em Salvador em 1895. Foi o conceito que se firmou e ao qual
recorreram Manuel Benício (1899), Euclides da Cunha (1902) e décadas adiante
Abelardo Montenegro (1973), dentre outros. Rui Barbosa, político baiano de
vulto nacional; jurisconsulto de renome, autor maior da Constituição de 1891 e
ambíguo defensor das vítimas do morticínio [Levine, op. cit., pp. 40 e 59] foi
outro notório prosélito do “fanatismo”: “Rui Barbosa, em carta às senhoras
cearenses, chama a revolução (de Juazeiro) de 1914 de “sedição ampliativa do
fanatismo de Canudos, em que a 196loucura de Antonio Conselheiro, se
substitui pela impostura douta de um caudilho tonsurado”. (Destaquei).
[Apud Abelardo Montenegro, op. cit., p. 76].
MILENARISMO – Além de apologista do fanatismo, foi também
Euclides da Cunha quem primeiramente afirmou a existência de ideais
milenaristas mesclados de sebastianismo na catequese do Conselheiro, esteado –
repiso – em deduções provindas de supostos escritos de cordel e sem
autenticidade encontrados no povoado. O primeiromilenarismo reapareceu em
época recente – 1995 – no alentado estudo do norte-americano Robert M.
Levine,O Sertão Prometido – O massacre de Canudos, bastante referido neste
estudo. São inegáveis os grandes méritos das amplas e diligentes pesquisas de
Levine, como reconhece Hoornaert: “O livro de Levine é redigido com muito
cuidado, bem construído, e oferece uma excelente apresentação de toda a história
de Canudos, talvez a mais completa até hoje elaborada. Mas há um problema
com o arcabouço teórico no qual o autor encaixa sua narrativa: o
milenarismo. Não se entende bemcomo Canudos possa ser explicada a partir
desse arcabouço, embora Levine não seja o único a recorrer a ele”.
(Destaquei). [1997, op. cit., p. 103].
Após fazer rápida menção aos manuscritos, em dois pequenos
parágrafos [op. cit., p. 221] Levine escreveu esta estranha nota de rodapé: “A
cópia manuscrita foi encontrada por João de Sousa Pondé, jovem médico
membro do grupo enviado para exumar o corpo do Conselheiro, que deu o livro
ao seu amigo Afrânio Peixoto, que por sua vez entregou-o a Euclides da Cunha.
Os últimos sobreviventes entregaram o livro a José Carlos Ataliba Nogueira
em 1973”. [Destaquei). Esta informação deixa claro que Levine não leu o livro
de Nogueira, pois é sabido que o Manuscrito lhe chegou através do poeta Aristeu
Seixas, então presidente da Academia Paulista de Letras, que o adquiriu num
sebo. Nenhum autor até hoje registrou que tal documento houvesse chegado a A.
Nogueira por intermédio de “últimos sobreviventes”.
Curioso é que mesmo defendendo a tese milenarista, Levine
expressou este contraditório entendimento: “Os conselheiristas sempre tentaram
viver de acordo com o catolicismo sertanejo”, [op. cit., p. 186], e este catolicismo
praticado pela gente de Belo Monte-Canudos, não esteve atrelado ao
milenarismo. Com a autoridade que me empresta as cinco décadas em que vivi no
semi-árido, das quais duas no meio rural, convivendo com pessoas das mais
variadas idades e regiões, de perto observando seus usos e costumes, a noção da
vinda de uma era precedida de catástrofes várias, após o que se estabeleceria um
milênio de abastança, justiça e felicidade, nunca povoou a mente daquela gente.
Igualmente, notícia alguma – primária 197ou bibliográfica da época – não permite
a concepção de que tal idéia fosse propalada entre os habitantes de Belo Monte-
Canudos.
MESSIANISMO – Boa parte dos que trabalharam o tema sob a ótica
do cientismo – repiso – foram inspirados em Os Sertões. Contudo, decorrido
quase um século do extermínio, a conhecida Prof. e Pesquisadora do Centro de
Estudos Rurais e Urbanos, Departamento de Sociologia da USP, Ma Isaura P. de
Queiroz, aparece com seu livro [O Messianismo no Brasil e no Mundo, São
Paulo: Dominus, 1965], também ideóloga do messianismo. Assim é considerada
por Hoornaert: “Portanto, o messianismo de Maria Isaura é extraordinário, e
por isso mesmo não consegue “tomar pé” na realidade ordinária da vida do
sertã[Link] isso mais de perto. As 16 páginas dedicadas a Canudos, no
livroMessianismo no Brasil e no mundo,iniciam-se com um texto
etnográ[Link] na obra de Euclides, o sertão parece um estranho e
longínquo mundo. Contra a República ele teria fundado “a Nova Jerusalém,
onde privilegiados pudessem esperar tranqüilos o anunciado Juízo Final,
furtando-se ao republicano governo do Anti-Cristo”. Estamos “nas sendas do
milênio”. E a autora cita um texto de Euclides para descrever a oratória que o
Conselheiro teria despejado sobre as cabeças de seus ouvintes: “oratória bárbara e
arrepiadora, misto inextricável e confuso de conselhos dogmáticos, preceitos
vulgares da moral cristã e profecias esdrúxulas. Ainda encontramos adjetivos
parecidos em Levine, vinte anos mais tarde, quando fala das “pregações
apocalípticas” do Conselheiro”. (Destaquei). [1997, op. cit., pp. 107-108].
Outro que assume uma “visão” de Canudos como movimento
messiânico, estranhamente, é o Prof. Calasans. No Simpósio Nacional dos
Professores de História, Belo Horizonte, l973, apresentou o ensaio: «Canudos:
Origem e Desenvolvimento de Um Arraial Messiânico». Já em «Canudos Não
Euclidiano- Fase anterior ao início da Guerra do Conselheiro» [InJerusa
Gonçalves de Araújo (coord.). Canudos – Subsídios para sua reavaliação
histórica. Rio de Janeiro, 1986], logo à p.1 apresenta o Conselheiro e seus
seguidores como um “grupo messiânico” (sic), enquanto na Revista USP –
Dossiê Canudos – No 20, 1993-1994, à p. 13, considera o povoado como uma
“comunidade messiânica” (sic). (Destaquei).
Idéia similar tem o Prof. João Arruda, na obra: Canudos –
Messianismo e Conflito Social, [Fortaleza: UFC/SECULT, 1993]. No entanto,
bem antes – 1968 – outro brasilianista norte-americano, Ralph Della Cava,
publicou o artigoBrazilian Messianism and National Institutions: a Reapraisal of
Canudos and Juazeiro, reimpresso na Revista da FAEEBA, Salvador, jan.-jun.,
1993, também desconhecedor do198sermonário do Conselheiro, onde
estabelece uma estranha e absurda similitude entre Canudos e Juazeiro, alegando
para tal asserção as estruturas dos poderes eclesiástico e político do Brasil
imperial e republicano, concluindo por situá-los na absurda ótica do messianismo,
numa clara visão “de fora para dentro”. As considerações de Ralph Della Cava
estão mais extensamente tratadas no livro Canudos – Subsídios para sua
reavaliação histórica [Op. cit.,1986, p. 314], amplamente citado neste estudo. Os
habitantes de Canudos jamais esperaram um enviado divino que anunciasse a
abolição das condições vigentes, para instalar uma era de justiça, abastança e
felicidade. Logo após o massacre – 1899 – César Zama, médico, escritor e
político baiano, proclamou – repiso – que ali simplesmente se “plantava, colhia,
criava, edificava e rezava”.
SEBASTIANISMO – Sem alinhar-se definitivamente a nenhuma das
“escolas”, o Prof. Calasans, em 1958 já classificava a catequese do Conselheiro
com essência de sebastianismo, apresentando comunicação no Colóquio de
Estudos Etnográficos José Leite Vasconcelos, ocorrido em junho daquele ano na
cidade do Porto, Portugal, tese que comporia seu livro No Tempo de Antonio
Conselheiro[Salvador: UFBA e Livr. Progresso Ed., 1959, pp. 46-55], onde
finaliza com este incrível e duplo equívoco: “Tomou assim, em Canudos, o
sebastianismo feição nova, deixando de ser o “anelo da redenção nacional”,
de que falou João Lúcio de Azevedo, para representar, sobretudo, a esperança
popular na restauração da monarquia brasileira”. (Destaquei). [Ibid., p. 55].
Embora aureolado como dedicado estudioso do assunto, não
encontramos em suas obras posteriores qualquer postura que o redimisse dessas
excêntricas concepções. Por ocasião do 90o aniversário da Faculdade de Direito
da Bahia (1891-1981) escreveu a matéria «A Faculdade de Direito da Bahia e a
Guerra de Canudos», onde considera o«Manifesto dos Estudantes das Escolas
Superiores da Bahia aos seus colegas Republicanos de Outros Estados»,
publicado pela Revista USP – Dossiê Canudos(1993-1994), bastante citada neste
trabalho, na qual qualifica a gente do povoado como “povo sebastianista” (sic).
(Destaquei). [Op. cit., p. 8].
Na mesma e acadêmica Revista, unindo sebastianismo e messianismo,
reaparece a citada Profa. da USP, Ma Isaura P. de Queiroz, com a matéria D.
Sebastião no Brasil – O imaginário em movimentos messiânicos nacionais, [pp.
29-41]. Não se compreende como uma laureada professora e pesquisadora, 20
anos após a publicação do sermonário do Conselheiro, recorra a desacreditado
conceito euclidiano e inicie seu artigo afirmando que “publicado em 1902, o
livro Os Sertões, de Euclides da Cunha, encontrou grande sucesso; a
pungente epopéia dos sertanejos199nordestinos, agrupando-se em torno
de um chefe que acreditavam deessência divina...”. (Destaquei). [Ibid., p. 29].
Jamais se teve conhecimento de que a gente de Canudos deificasse o Conselheiro.
Definitivamente evidenciando que teses acadêmicas não explicam o
apostolado de Antonio Conselheiro e a vida no povoado, mostra a única matéria
publicada no Ceará por ocasião do centenário do genocídio – 1997 – de autoria
de um dos estudiosos do episódio, o Prof. Dr. Eduardo Diatahy Bezerra de
Menezes, sócio efetivo do Instituto (Histórico) do Ceará: “..., os inúmeros termos
empregados pelos estudiosos da área para designar seu objeto: movimentos
messiânicos, milenaristas, nativistas, revivalistas, quiliásticos, proféticos,
cultos de crise, etc., mostram que a riqueza do léxico não consegue ocultar certa
pobreza teórica generalizante de tais estudos. Além disso, qualificá-los todos
como “messiânicos” revela o viés ou inclinação a buscar como fundo histórico
dominante e, portanto, como quadro interpretativo mais amplo as tradições do
judeo-cristianismo, sobretudo em suas raízes milenaristas européias da Idade
Média. Ora, a maioria dos movimentos brasileiros que nos interessa aqui assenta
claramente no “catolicismo popular sertanejo”, e raramente eles chegam a
expressar uma proposta messiânica explícita. Além do que, na linguagem dos
seus adeptos, a palavra Messias jamais esteve presente, pois os termos que aí
circulam são Beatos, Conselheiros, Monges, Santos e Profetas. E o próprio
Antonio Vicente Mendes Maciel, em virtude mesmo de sua errância de mais de
20 anos pelos duros caminhos desse território, sempre se apresentou como
Peregrino”.
“Certamente um dos aspectos da vida e do movimento de
Canudos que maiormente padece de incompreensão da parte de nossa
tradição letrada e de nossas elites em geral está na sua dimensão religiosa.
Eis por que a elite ilustrada propôs quase sempre uma imagem esdrúxula e
sem nexo da cultura do povo e em especial de sua religiosidade”. (Destaquei).
[«Nota Preliminar sobre a religião do Povo de Canudos»,RIC, 1997, pp. 90-91].
OBRAS AUDIOVISUAIS – Dando continuidade, em síntese, refiro
às duas mais importantes obras cinematográficas versando o assunto.
CANUDOS – Documentário – Edição Nacional. Direção, roteiro e
argumento de Ipojuca Pontes, 1976, apresentado na legenda da pós-capa da fita
VHS como: “A história e a luta de Antonio Conselheiro e a gente de Canudos no
final do século passado. Um levantamento de Ipojuca Pontes com depoimentos
de testemunhas oculares, que representou o Brasil nos Festivais de Cannes
(França) e San Sebastian, na Espanha”.
Rodado no semi-árido sertão de Canudos e adjacências e por seu
pioneirismo em plena vigência da200ditadura militar, se constitui no mais
acreditado do gênero, bastante citado neste trabalho. Emocionado, diante do que
seus olhos avistaram e através da narração do ator Walmor Chagas, o ilustre
roteirista proclamou: “Canudos...aqui sob estas águas estão submersos os
despojos de 5.000 casas. Canudos...uma cidade, um sonho, um pesadelo ou
certamente a luta pela independência inviável. Em torno de Canudos as
consciências [Link] casas fazem recordar um projeto desesperado de
organização humana que não foi permitido evoluir”. (Destaquei).
GUERRA DE CANUDOS – Por ocasião do centenário da hecatombe,
a Rede Globo de Televisão levou às telas das TVs a minissérie Guerra de
Canudos, fruto de uma riquíssima produção e protagonizada por um elenco de
grandes atores e atrizes da poderosa emissora, e, segundo a legenda inicial
“baseado na obra de Sérgio Resende”. Na introdução o narrador lê o seguinte
texto: “Por volta de 1860, o cearense Antonio Vicente Mendes Maciel inicia
longa peregrinação pelo sertão. Durante três décadas pregou a palavra de Deus,
construiu Igrejas e reformou cemitérios. Apesar de enfrentar a oposição da Igreja
Católica e das Elites, consolidou enorme prestígio entre a população sertaneja.
Quando a República foi proclamada em 1889, Antonio Conselheiro insurgiu-se
contra ela”.
O roteirista romanceia a vida da família de Zé Venâncio e sua decisão
de seguir o Conselheiro, transformando-o, afinal, num mártir em defesa do
povoado assaltado. Quase inteiramente influenciado pelo livro de Manuel
Benício, descaracteriza até mesmo a aparência do Conselheiro, apresentando-o
com basta e desgrenhada cabeleira e longa barba inculta, quando Honório
Vilanova asseverou que o missionário tinha “barbas e cabelos cerrados, pretos e
lisos, aparados nos dias de sábado”. [Memorial, op. cit., p. 69]. A cena do
primeiro sermão do missionário, feito ao anoitecer sob a copa duma árvore
iluminada por uma fogueira nas proximidades da casa de Zé Venâncio, é a
reprodução ipsis litteris do texto romanceado de Manuel Benício, onde descreve
um ilusório sonho atribuído ao Conselheiro. [Benício, op. cit., p. 90].
É uma longa, portentosa e rica produção cinematográfica de 2h42m de
duração, sendo que logo aos 16 min. se encerram as notícias sobre os 24 anos
ininterruptos de peregrinação do missionário (1873-1897); aos 19, vêem-se cenas
do confronto de Uauá (21.11.1896) que originou os seguidos ataques militares;
aos 20, surge o cenário dos trabalhos da Igreja Nova em adiantado estado de
edificação. Dos 20 minutos em diante, são quase exclusivamente focalizadas
cenas cruéis das investidas armadas – parte verídica da obra de Benício –
culminando com a destruição do povoado a ferro e fogo, e o cruento extermínio
dos sobreviventes. Historicamente e201trabalhando o apostolado do
Conselheiro é omissa acerca de suas atividades, eis que apenas 20 minutos tratam
superficialmente do povoado, e o imenso tempo que restou – 2h e 22min. – a rica
produção exibiu, como ficou dito, as incursões militares. Como fonte formadora e
de otimização de opinião, veiculada pela emissora com maior audiência no país,
tem o demérito da quase totalidade das obras literárias até então publicadas, com
a manifesta e expressa sugestão de "fanatismo religioso".
NA MÚSICA E NA POESIA REGIONAIS – Igualmente em
síntese, recorro às figuras emblemáticas e exponenciais nas respectivas áreas
culturais nordestinas. Em 1961, quando ainda incipientes as pesquisas de maior
alcance sobre o Conselheiro e Belo Monte-Canudos, Luís Gonzaga, astro maior
do cancioneiro popular do Nordeste, gravou o baião estranhamente intitulado
Capitão Jagunço, como tal qualificando o Conselheiro. Inicia com o refrão:
“Capitão... Capitão... a patente do meu nome tem valimento, mas só Deus dá a
salvação”, inserindo no texto esta inusitada afirmação: “Conselheiro se julgava o
Messias do sertão”. Homem de origem simples e de poucas letras, não teve o
eminente cancionista outra inspiração que não o vozeio popular, sob a insinuação
da violência e do fanatismo religioso.
Já na poesia popular, o mais conceituado poeta da lira nordestina,
Patativa do Assaré, dedicou extensos e belos versos ao beato no poema Antonio
Conselheiro, donde destaquei esta estância:
“Com a sua simpatia
sua honestidade e brio,
ele criou na Bahia
um ambiente sadio
onde vivia tranqüilo
ensinando tudo aquilo
que a moral cristã encerra,
defendendo os desgraçados
do jugo dos potentados
dominadores da terra”. [PATATIVADO ASSARÉ.Cordéis. Fortaleza:
Edições UFC, 1999, p. 140].
NOTA FINAL – A quem conheceu, habitou e vivenciou o dia-a-dia
de um vilarejo sertanejo com seu cotidiano monótono, normal, simples e comum,
onde parece coabitar uma só família, tamanhos são os laços de afinidade, ouvindo
as raras homilias dos vigários que por ali deambulam, é difícil compreender as
insistentes razões que incitaram tantos estudiosos a emprestarem “visões” de
cientismo acadêmico à catequese do202Conselheiro, embora o povoado de
Belo Monte-Canudos seja um caso atípico pelas circunstâncias de
“anormalidade” que lhe atribuíram as elites políticas e latifundiárias. Uma
simples leitura de tais “visões” deixa claro o desconhecimento dos autores acerca
da vida desenvolvida no arraial, especialmente dos ignorados e escassos dados
biográficos do beato.
À exceção de Abelardo Montenegro, com o mérito de mínimas
achegas, mas basicamente alicerçado em João Brígido, nenhum outro historiador
ocupou-se em pesquisar os antecedentes biográficos de Antonio Conselheiro,
sequer confrontando as notas de Brígido acerca da família Maciel, com as
Memórias do prof. Ximenes Aragão, fonte única que inspirou o jornalista.
Prevaleceu a “Obra Monumento”, a “Bíblia da nacionalidade” do eruditismo
literário de Euclides da Cunha em que se fundamentaram as múltiplas “visões”,
inclusive entre pesquisadores estrangeiros, que absolutamente desconhecem a
vida sertaneja. Aliás, a falta de interesse dos pesquisadores nacionais sobre
Canudos, ensejou a que, há mais de uma década, o antropólogo, historiador e
Prof. Renato Ferraz, da UNEB, expendesse esta afirmação: “Hoje, os
pesquisadores brasileiros de Canudos estão em nítida minoria em face dos
procedentes de outros países, até mesmo do Japão!”. [Revista USP-Dossiê
Canudos, p. 84]. Contudo, trabalhando as “visões”, é oportuna esta indagação de
Hoornaert: “Por que não dizer que Canudos era um povoado sertanejo
normal, que chegou à notoriedade por uma série de fatores que não alteram
a perfeita normalidade de sua maneira de ver o mundo e organizar a vida?”
(Destaquei). [1997, op. cit., p. 105].
A OMISSÃO DA VERDADE – Os inúmeros estudos que versam
Canudos quase sempre distinguem-se por suas extensas informações
bibliográficas, causando estranheza que apenas um deles mencione a matéria do
jornalista Luciano Carneiro, publicada na revista de maior circulação nacional da
época,O Cruzeiro, edição de 05.12.1953, unicamente citada por Nertan Macedo
no estimávelMemorial de Vilanova(1964), em nota de rodapé às pp. 59-60, e
assim considerada na bibliografia da obraCanudos – Subsídios para sua
reavaliação histórica, 1986, p. 310: “Reportagem com Aristeu Seixas, poeta e
bibliófilo, que comprou, por 500 cruzeiros, um manuscrito do Conselheiro. Para
o poeta, o que mais o impressionou foi a descoberta de que Antônio Maciel
não era um fanático e que o seu misticismo era coerente com as doutrinas da
Igreja. Transcreve alguns fragmentos dos sermões e rezas do beato, com o
intuito de mostrar a sua imagem real, bem distante da “imagem que a
História lhe guardou”.Entrevista, ainda, “os dois mais velhos sobreviventes de
Canudos”: os ex-jagunços Manuel203Ciríaco e Pedrão, defensores
incondicionais da figura de Antonio Conselheiro, “que só pregava e fazia o
bem”. (Destaquei).
Somente 21 anos depois da reveladora reportagem de Luciano
Carneiro(1974) é que o jurisconsulto e acadêmico paulista, José Carlos de Ataliba
Nogueira, no livro Antonio Conselheiro e Canudos, publicou integralmente o
sermonário que data de 12.01.1897. Daquele ano(1974) até hoje, os únicos a
considerarem o manuscrito foram Duglas Teixeira Monteiro, Alexandre Otten e
Eduardo Hoornaert. Embora Luciano Carneiro haja transcrito em sua matéria
algumas passagens do manuscrito, José Calasans, estudioso atento ao tema e
autor da primeira bibliografia em seu livro No Tempo de Antonio Conselheiro,
Salvador:Livr. Progresso Ed., 1959, no subtítulo «Subsídios para a Bibliografia
da Campanha de Canudos», pp. 84-111, onde enumera 111 títulos, por
desconhecidas razões omitiu a matéria.
Fato bastante estranho e enigmático – já registrado em passagem
precedente – é que desde 1972 os originais doutro manuscrito, datado de “Belo
Monte, Província da Bahia, 24 de maio de 1895”, se encontravam em poder do
Prof. Calasans, publicado somente no ano do centenário de Os Sertões sob o
título Breviário de Antonio Conselheiro, Centro de Estudos Baianos da
Universidade Federal da Bahia, Salvador, 2002, publicação ocorrida após o
falecimento de Calasans verificado em 28.05.2001. Apresentando a obra, a
abnegada pesquisadora e Profa. da USP, Walnice Nogueira Galvão, escreveu:
“Com paciência e sem precipitação tornou-se possível, cem anos depois,
corrigir um capítulo mal contado da História do Brasil”. (Destaquei).
Por outro lado, não é crível que a tantos pesquisadores e estudiosos
fosse desconhecida a matéria de Luciano Carneiro e a publicação de Ataliba
Nogueira, donde se infere um aparente propósito de preservar a falsa e mutilada
imagem biográfica e apostolar do Conselheiro, projetada por Euclides da Cunha.
204
15.
BREVE CONSIDERAÇÃO
“A verdade se robustece com a pesquisae a demora;
a falsidade com a pressa ea incerteza”.
TÁCITO.
“Crateús, 4/4/1994.
Meu caro Fernando.
Por intermédio do Pe. Helênio, recebi o “História de Tamboril”,
1994. Quero agradecer-lhe o presente significativo e, especialmente, a paixão e
afeto com que se dedicou à pesquisa das fontes primárias e escritas (livros,
revistas etc.) para descobrir as Raízes da terra e da gente de Tamboril.
A leitura me ajudou a perceber a centralidade de Tamboril, durante
décadas, dentro de uma grande Região e a importância da Matriz de São
Gonçalo da Serra dos Cocos, sobre estes Sertões e a Serra.
Se você tiver tempo, pesquise mais sobre Antonio Conselheiro e o
seu papel histórico para construir uma Economia popular participativa e
auto-gerada.
Um abraço pascal.
Seu velho irmão,
D. Fragoso”(sic). (Destaquei).
Amizade sedimentada por quatro décadas, desde que D. Antonio
Batista Fragoso assumiu a nova Diocese de Crateús em 1964, reputado como um
dos mais notáveis e sábios membros do episcopado Nordestino, a honrosa
correspondência alertou-me para fatos históricos desconhecidos. É que referindo
a passagem de Antonio Conselheiro por Tamboril na função de mestre-escola, e,
documentado em versões da historiografia oficial o qualifiquei como líder de uma
“legião de sertanejos analfabetos e fanáticos”. [Op. cit.,p. 167]. Reparando a
verdade sugerida, in memoriam dedico este simples trabalho ao cristão, D.
Antonio Batista Fragoso, que devotou sua existência em defesa dos oprimidos.
Sem projeto preconcebido, senão a curiosidade que me produziu a
sugestão do eminente amigo, daqui e dali fui adquirindo em sebos e através de
bibliófilos, dentre os quais destaco a simpática pessoa de João Carlos Neto, as
raras matérias que versavam a tragédia de Canudos, raríssimas delas pouco
tratando da obscura figura de seu líder espiritual. Como inexistem fatos que não
ocorram sob a lógica de causa e efeito, determinei-me a investigar a
primeira, Antonio Conselheiro,205invariavelmente verberado com
designações de que “soffria de affecção mental (sic); “dava bem uma bonita
página de Lombroso (sic)”, e “é um fanatico com quem a autoridade se deve
haver com extrema prudencia nas suas alucinações (sic)”, ou seja, um perigoso
psicopata. Chegou-me a incredulidade, e com ela a certeza de que tão graves
distúrbios psíquicos não se harmonizavam com os caracteres do missionário de
Belo Monte- Canudos.
Destarte, repito, apliquei-me a indagar e analisar a trajetória de
Antonio Conselheiro, desde o nascimento à degoladura. Não custou para chegar à
conclusão de que por trás da vida e da obra do beato predicante ocultava-se e fora
maquiada uma injusta desfiguração histórica. No período de mais de um decênio,
coligi documentos e informações dispersas em numerosa bibliografia, e
cuidadosamente trabalhei, muitas vezes em noites insones madrugadas a dentro,
em confrontar e escoimar falsidades, erros e enganos.
No curso do texto, obriguei-me a expor indispensáveis comentários e
análises no intuito de restabelecer a verdade, mas, invariavelmente alicerçadas
nas idéias e conceitos de estudiosos e historiadores que se ocuparam da matéria.
Enfatizo, contudo, que tais observações, comentários e reflexões, não pautaram
senão pela busca isenta da certeza histórica. Enfim, aqui o tenho por concluso, e o
juízo de valor da Vida e da Obra apostolar de Antonio Conselheiro, remeto à
consideração do leitor.
206
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Dados e Endereço do Autor:
Fernando AraújoFarias
CPF 006 449 193-53
RG 2007009000508 – SSP-CE
Rua Tabeliã Ana Araújo Ribeiro, n. 22 (Centro)
63750-000 Tamboril, CE.
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