A noite abre meus olhos
- o amor em sete poetas contemporâneos -
Encantamento
há uma palavra mágica que se diz. essa palavra
é sempre diferente. montanha, precipício, brilho.
essa palavra pode ser um olhar. a voz. um olhar.
essa palavra pode ser o espaço de silêncio onde
não se disse uma palavra. brilho, , montanha.
essa palavra pode ser uma palavra, qualquer palavra.
há uma palavra mágica que se diz. há um momento.
depois dessa palavra, só depois dessa palavra,
pode começar o amor.
A Mulher Mais Bonita do Mundo
estás tão bonita hoje. quando digo que nasceram
flores novas na terra do jardim, quero dizer
que estás bonita.
entro na casa, entro no quarto, abro o armário, abro
uma gaveta, abro uma caixa onde está o teu fio
de ouro.
entre os dedos, seguro o teu fino fio de ouro, como
se tocasse a pele do teu pescoço.
há o céu, a casa, o quarto, e tu estás dentro de mim.
estás tão bonita hoje.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
estás dentro de algo que está dentro de todas as
coisas, a minha voz nomeia-te para descrever
a beleza.
os teus cabelos, a testa, os olhos, o nariz, os lábios.
de encontro ao silêncio, dentro do mundo,
estás tão bonita é aquilo que quero dizer.
Amor
o teu rosto à minha espera. o teu rosto
a sorrir para os meus olhos. existe um
trovão de céu sobre a montanha.
as tuas mãos são finas e claras. vês-me
sorrir. brisas incendeiam o mundo.
respiro a luz sobre as folhas da olaia.
entro nos corredores de outubro para
encontrar um abraço nos teus olhos.
este dia será sempre hoje na memória.
hoje compreendo os rios. a idade das
rochas diz-me palavras profundas.
hoje tenho o teu rosto dentro de mim.
na hora de pôr a mesa, éramos cinco:
o meu pai, a minha mãe, as minhas irmãs
e eu. depois, a minha irmã mais velha
casou-se. depois, a minha irmã mais nova
casou-se. depois, o meu pai morreu. hoje,
na hora de pôr a mesa, somos cinco,
menos a minha irmã mais velha que está
na casa dela, menos a minha irmã mais
nova que está na casa dela, menos o meu
pai, menos a minha mãe viúva. cada um
deles é um lugar vazio nesta mesa onde
como sozinho. mas irão estar sempre aqui.
na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco.
enquanto um de nós estiver vivo, seremos
sempre cinco.
fico admirado quando alguém, por acaso e quase sempre
sem motivo, me diz que não sabe o que é o amor.
eu sei exactamente o que é o amor. o amor é saber
que existe uma parte de nós que deixou de nos pertencer.
o amor é saber que vamos perdoar tudo a essa parte
de nós que não é nossa. o amor é sermos fracos.
o amor é ter medo e querer morrer.
não posso encontrar mais
que as nossas vozes
entrançadas onde não
posso encontrar mais
que o nosso tempo
recortado do tempo todo
do silêncio das palavras
da manhã do dia em
que não posso encontrar
mais que o teu rosto
que o teu rosto que
a brisa breve e definitiva
do teu rosto na espiral
constante de te amar e
te sofrer noites insones
de não posso encontrar
mais que e não posso
encontrar mais que o
teu sorriso discreto o
círculo do teu olhar e
em duelo comigo próprio
não posso encontrar mais
que a nave perdida o jardim
das palavras que te tentam
do silêncio da manhã do
dia em que não posso
encontrar mais que as
nossas vozes entrançadas
porque não posso encontrar
mais não posso encontrar
mais
não quero
no tempo em que éramos felizes não chovia.
levantávamo-nos juntos, abraçados ao sol.
as manhãs eram um céu infinito. o nosso amor
era as manhãs. no tempo em que éramos felizes
o horizonte tocava-se com a ponta dos dedos.
as marés traziam o fim da tarde e não víamos
mais do que o olhar um do outro. brincávamos
e éramos crianças felizes. às vezes ainda
te espero como te esperava quando chegavas
com o uniforme lindo da tua inocência. há muito
tempo que te espero. há muito tempo que não vens.
um dia, quando a ternura for a única regra da manhã,
acordarei entre os teus braços. a tua pele será talvez demasiado bela.
e a luz compreenderá a impossível compreensão do amor.
um dia, quando a chuva secar na memória, quando o inverno for
tão distante, quando o frio responder devagar como a voz arrastada
de um velho, estarei contigo e cantarão pássaros no parapeito da
nossa janela. sim, cantarão pássaros, haverá flores, mas nada disso
será culpa minha, porque eu acordarei nos teus braços e não direi
nem uma palavra, nem o princípio de uma palavra, para não estragar a perfeição da
[felicidade.
o tempo, subitamente solto pelas ruas e pelos dias,
como a onda de uma tempestade a arrastar o mundo,
mostra-me o quanto te amei antes de te conhecer.
eram os teus olhos, labirintos de água, terra, fogo, ar,
que eu amava quando imaginava que amava. era a tua
a tua voz que dizia as palavras da vida. era o teu rosto,
era a tua pele. antes de te conhecer existias nas árvores
e nos montes e nas nuvens que olhava ao fim da tarde.
muito longe de mim, dentro de mim, eras tu a claridade.
VALTER HUGO MÃE1
esplendorosa borboleta de sangue
todos os monstros têm o teu
nome, de mais ou menos bocas, grandes ou
pequenas milhares de patas, sangue jorrando ou
líquenes desfeitos, todos os monstros têm
o teu nome e por ofício perseguem-me. entram
por mim no soalheiro mundo dos
homens, usam a minha incúria
eu sou
uma esplendorosa borboleta de sangue. um
ser que voa no coração
e cada monstro virá dizer que me ama e
saberá convencer-me a suportar os seus
tentáculos, a apreciar até os beijos nos
orifícios mucosos por onde expele a
língua e será capaz de me fazer querer o
esbracejar nocturno dos seus gestos
e eu direi o teu nome e nunca me
enganarei
1
valter hugo mãe nasceu em Saurimo, Angola, 25 de Setembro de 1971.
Além de escritor é editor, artista plástico, cantor e DJ português.
Passou a infância em Paços de Ferreira e em 1980 mudou-se para Vila do Conde. Licenciou-se em Direito e fez
uma pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea.
Em 1999, fundou com Jorge Reis Sá a Quasi edições. Em 2001, ainda na Quasi, co-dirige a revista Apeadeiro e,
em 2006, funda a editora Objecto Cardíaco. Em 2007, atingiu o reconhecimento público com a atribuição do
Prémio Literário José Saramago, durante a entrega do qual o próprio José Saramago considerou o romance o
remorso de baltazar serapião um verdadeiro "tsunami literário". Entretanto, começa a escrever letras para
canções e em 2008 funda, com Miguel Pedro e António Rafael, do grupo Mão Morta, a banda Governo, onde
assume a função de vocalista.
a natureza revolucionária da felicidade
quem deixou sobre o coração
um feixe de luz
não cega nunca
poema sobre o amor eterno
inventaram um amor eterno. trouxeram-no em braços para o meio das pes-
soas e ali ficou, à espera que lhe falassem. mas ninguém entendeu a neces-
sidade de sedução. pouco a pouco, as pessoas voltaram a casa convictas de
que seria falso alarme, e o amor eterno tombou no chão. não estava desespe-
rado, nada do que é eterno tem pressa, estava só surpreso. um dia, do outro
lado da vida, trouxeram um animal de duzentos metros e mil bocas e, por
ocupar muito espaço, o amor eterno deslizou para fora da praça. ficou muito
discreto, algo sujo. foi como um louco o viu e acreditou nas suas intenções.
carregou-o para dentro do seu coração, fugindo no exacto momento em que
o animal de duzentos metros e mil bocas se preparava para o devorar
não te voltarei a
ver. espera por mim
apenas no coração, onde
te farei sempre crescer e
onde, acima das minhas
forças, me trarás o amor e
a felicidade de um dia te
haver conhecido. bastar-me-ei
obrigatoriamente com isso, e
acreditarei que não enlouquecerás,
para exerceres a piedade de
fazer o mesmo por mim
imagina que o sol, um dia, ao
invés de manter as flores a arder
as desilude com falsas promessas
de amor. o que seria de mim, tão
romântico, se nessa altura, como
queres, estivesse depositado
nas tuas perfumadas mãos
amar-te queima, como se nós anjos
vivêssemos no inferno, cândidos,
atarefados com sofrer por amor além
dos suplícios impostos pelo diabo.
amar-te queima, como se nós anjos
voássemos em fogo, translúcidos,
soltando faúlhas do coração carbonizando,
viciados na dependência pela ternura.
amar-te queima, como se nós anjos
pudéssemos ainda ser o casal que
fomos, adolescentes e loucos, obcecados
por uma alegria que, mesmo doendo, perdura
procura-me por todos os lados, procura-me
às escuras por todos os lados, estarei
algures, fremindo, criando bichos entre
os braços e as pernas, aguardando que
me salves. só assim te amarei, se souberes
descortinar o caminho para o lugar onde
me escondo, com medo, com fantasmas,
feito para ser amado apenas por quem,
avistando-me no fundo do poço, me
puder querer sem garantia de outra condição
sabes que o amor é feito de coisas
bonitas que se dizem, coisas inventadas que
te soam a verdes de esperança, disfarces intencionais
que te levam a crer em mim. não acredito
no amor tolinho de quem é sincero, sou
tão entregue à consciência pura do
domínio que farei de cada coisa que te
diga uma forma de te prender. e tu hás-de
rastejar por mim até ao fim dos tempos, para
me dares prazer, para me assistires, e eu nunca
te substituirei, será essa a minha forma de te
amar, será esse o meu garantido respeito
se eu te mostrar a minha luz interior
podes abdicar de ser apenas uma
fantasia e existir tangente ao meu
corpo, pergunto. se eu te mostrar a
minha luz interior, fazendo do coração
coisa de muita intensidade exposta
com coragem à tua ausência, podes
abdicar de ser apenas uma fantasia e
beijar-me ainda nesta tão fria noite,
pergunto
ANA LUÍSA AMARAL2
Que se abram os meus olhos
Que se abram os meus
olhos, devagar
(fechados tanto
tempo, tantas noites
de frio)
Que rebentem em folhas,
devagar: uma
explosão de luz
onde a paz doa,
uma pequena lágrima,
renasça
(Toca-me os olhos
devagar
até que o frio me
aqueça)
2
Nasceu em 1956 em Lisboa. Aos nove anos, mudou-se, por vontade alheia, de Sintra para terras do Norte (Leça
da Palmeira), tendo sofrido na pele a estupidez da divisão Norte/Sul. Leituras que mais a marcaram: o Zorro
(de que foi assinante desde os seis anos e de que possui ainda hoje todos os números); Oito Primos; a colecção
completa de Os Cinco (nunca gostou de Os Sete); Ivanhoe; David Crockett; Os Contos de Alhambra.
Deve ter gostado tanto da Faculdade que por lá se deixou ficar, como professora, até ao presente momento.
Kamasutras
Atira a roupa toda
para o chão.
Depressa. Sem momento sedutor
nenhum
As peças aos bocados,
desmaiadas,
caídas pelo chão.
Do mais pesado ao mais quase
infinito de leveza.
E deixa a luz
acesa. Sem sedução
nenhuma. Uma luz pelo menos
de 60 watts.
Ou então crua,
de supermercado
Escolhe armário,
sítio esquadriado
onde os corpos
não possam descansar.
Sem qualquer tipo
de preliminar,
assalta-me
vestida:
que eu tenha a roupa
toda. Do mais pesado
ao mais
quase íntimo de leveza.
Luzes todas acesas
Depressa
e de repente
Passemos à cozinha.
E lá, numa poética de mãos,
em suprema ginástica de olhar,
comamos lentamente,
com saber hindu,
os restos do assado sobrado
do jantar
À luz
fosforescente
e sedutora, no mais
preliminar,
lança contra o fogão,
por sobre o ombro,
o copo de cristal
(dos de pé alto!)
Que o chão,
ao ser-lhe agudo como asfalto,
lhe ensine o kamasutra
em última edição
Reflexos
Olho-te pelo reflexo
do vidro
e o coração na noite
E o meu desejo de ti
são lágrimas por dentro,
tão doídas e fundas
que se não fosse:
o tempo de viver;
e a gente em social desencontrado;
e se tivesse a força;
e a janela ao meu lado
fosse alta e oportuna,
invadia de amor o teu reflexo
e em estilhaços de vidro
mergulhava em ti
Excessos
Quando eu me apaixonei
doía tanto tudo:
eram espelhos e vidros
eram veias cortadas nas palavras
Quando eu me apaixonei
tudo era tão doído:
sentava-me de noite e tudo
à minha frente: imagens como filmes,
a paixão aos bocados e pensar
que morria
Sem o rigor de agora,
pequenas disciplinas devagar
e sopesar palavras:
[excessos de saudades
desses tempos]
As correcções do amor
Hoje, a saudade de ti: punhalada
de tinta muito branca,
o cheiro do que é novo, o cheiro da
doença a alastrar
Se estivesses aqui, dirias o meu nome
corrigias-me as coisas, e tudo estava
bem, mesmo que dentro de sentido
opaco
A tinta muito branca, o cheiro
que é do novo, aqui, neste café,
corrigem-me a memória:
o cozinhares tão mal, a desarrumação
em tantos cantos, os nomes que criavas
para chamares às coisas
outra coisa
E os pedidos depois,
súplicas do silêncio e do não choro,
tenacidades de viver igual,
e não ceder a tanto – e não ceder
Hoje, em tão grande a saudade,
minha amiga,
nem sei o que me resta:
sonhar com o telefone a tocar,
e a voz,
ou eu a corrigir-me o hábito
do número –
Aliterando silêncios: composições
Não queres fazer o silêncio
comigo?
Sobressalta-se um pouco uma varanda
e acrescenta-se: vento
Por sobressalto: um vaso mal de frente
a estas flores,
ou um cinzeiro de pequeno porte,
ausente de cavalo,
e algum
desequilíbrio nessa mesa
Fazemos o silêncio,
se quiseres,
e assim mantemos tão aliteradas
as primeiras palavras
Está bem assim o vento,
não lhe mexas,
fica-lhe bem a asa sibilante
e ajuda à cinza que se alastra agora,
que transborda de lado na varanda
e desfaz a aridez dessa
roseira
Traz-me um pouco de paz
e ajuda-me a compor
esta paisagem
Vem fazer um silêncio,
porque o resto:
azul de som
- como em sereno
palco
Monção como de azul – e para ti
Há um imenso mar aqui em frente
numa amurada ausente
de chuvas
e de ti
E eu aqui pendurada sobre o verso,
em contínua monção como de azul
e sugestão
de simbolismo fácil:
até guindaste apareceu, sereno,
para reinventar a invenção:
de um ameno cinzento,
rasga este mar de vistas e de luz
e estende a sua mão ou garra monstruosa
a desmentir o tom
de insecto suave
É um adamastor sobre este espaço,
sobre ti que me assaltas o pensamento,
desejo, o corpo inteiro,
que eu dispo devagar,
se fecho os olhos,
ou em desarmado gesto e avassalador
se os tenho como agora,
abertos sobre ti,
mesmo contigo ausente
Meu amor.
Rasga-te o nevoeiro de memórias,
e a luz que me fascina nos teus olhos
é uma cor de céu
e pedras tão preciosas e brilhantes
que as imagens não têm
onde se aquietar
Nem o mar
resta -
As pequenas gavetas do amor
Se for preciso, irei buscar um sol
para falar de nós:
ao ponto mais longínquo
do verso mais remoto que te fiz
Devagar, meu amor, se for preciso,
cobrirei este chão
de estrelas mais brilhantes
que a mais constelação,
para que as mãos depois sejam tão
brandas
com as desta tarde
Na memória mais funda guardarei
em pequenas gavetas
palavras e olhares, se for preciso:
tão minúsculos centros
de cheiros e sabores
Só não trarei o resto
da ternura em resto desta tarde,
que nem nos foi preciso:
no fundo do amor, tenho-a comigo:
quando a quiseres -
As rotações perfeitas
Se me pedisses de repente e aqui:
«fala das luas e dos dias», eu
nem falaria, diria só que estar contigo
é estar-me:
ofício de tanto tempo,
e natural,
ajustado como pequeno girassol,
ao sul: uma paisagem
Nem saberia por onde começar:
se no olhar, se na palavra,
ou se no sorriso
que me devastou o equilíbrio do igual
Não sei, meu amor,
como entender este pequeno girassol,
explicar-lhe o movimento certo,
a rotação completa e tão
perfeita,
as folhas muito verdes
de uma tal filigrana delicada
Sobretudo, este seu hino
em direcção a tudo
e já nem sei falá-lo,
porque lhe basta o tempo, e esse
- sem palavras
JOSÉ RUI TEIXEIRA3
Fala-me secretamente das magnólias, do modo
como caem as pétalas sobre a terra nos últimos dias.
Os que não sabem da súbita brandura das manhãs,
recolhem silenciosamente fragmentos da luz de março.
Mas tu nunca caminhas sobre o trigo, nem assistes
à devastação de um amor maior que a morte.
Derramarás o teu sangue na terra incendiada,
para que chorem as flores o iniludível desfecho do inverno.
3
“Nasci no Porto, no dia 21 de Setembro de 1974. Sou casado e tenho três filhos: o João, o Tomás e a Beatriz.
Sou licenciado em Teologia pela Universidade Católica Portuguesa e mestre em Filosofia pela Faculdade de
Letras da Universidade do Porto. Sou professor na Universidade Católica e no Colégio Luso-Francês. Integro o
Centro Catecumenal da Igreja do Porto e o Secretariado Diocesano da Pastoral da Cultura. ou investigador do
Centro de Estudos do Pensamento Português (CEPP) da Universidade Católica e do Centro de Investigação
Transdisciplinar Cultura, Espaço e Memória (CITCEM) da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, onde
trabalho na dissertação de doutoramento em Literatura, sobre a vida e obra do poeta Guilherme de Faria, na
condição de bolseiro da FCT. Sou editor da Cosmorama e bibliófilo. Na condição de poeta, publiquei "Diáspora"
(2009), que reúne uma parte significativa dos poemas publicados em oito livros, desde 2000.Sou cristão e nunca
me esqueço que sou do Caminho, mas não para sempre; rumo para Casa, para junto de Deus, mas foi no
Caminho que aprendi o sabor das amoras, a alegria do mundo.”
Os velhos esperam os filhos dos filhos ao meio-dia
como se esmagassem a força dos dedos contra
as carótidas e não houvesse tempo de vê-los crescer.
Estremeço com o olhar lânguido da adolescente
que madura o útero na opacidade comovida
da sua juventude. Repito: o coração é um órgão
incendiado. Mas tu disseste-me: não despertes
o que dorme, não agites as águas paradas;
encontrarás Deus nas margens do grande rio.
Amo-te como buganvílias caídas ao redor
das casas ou o luar branco dos caminhos,
ou a substância audível da tua respiração.
As casas são coisas que se pensam contra as paredes.
Um dia alguém morre apressadamente e as referências
estruturais da memória são elementos geométricos
e decorativos no interior das casas, impressos
nos fragmentos de luz. E o amor cabe dentro da morte
como punhados de terra em mãos fechadas.
As mulheres são os lugares recuados
em que as mãos descobrem os filhos.
São lugares fundos, luminosos por dentro,
habitados por extensões espirituais,
porções parasitárias de semelhança
que se mantêm amarradas por ataduras
viscerais e que um dia, violentamente,
são entregues à luz.
As mulheres são como mesas e os filhos crescem
em seu redor. Com o descuido próprio de crescer,
os filhos desarrumam os afectos. Um dia abandonam
a casa e deixam os brinquedos espalhados pelo chão
e as mulheres ficam vazias para sempre.
Nunca mais regressaste a casa
desde agosto. O teu lugar à mesa ficou vazio.
Eu coleccionei os nomes de lugares distantes,
desenhei sistemas de coordenadas,
regressei às regiões endémicas dos sismos,
à solidão unívoca das margens dos rios,
ao silêncio radial das magnólias.
Digo: Os dias são todos de morrer.
Nenhuma das memórias que tenho de ti
sabe negar essa evidência.
Nunca mais regressaste a casa desde agosto. Eu fiquei
sentado na soleira da porta à espera da cura. Brincava
ocasionalmente com o fogo, porque era a tua voz
que me trazia o outono, era a fuligem nas tuas mãos
que me ensinava a hermenêutica dos dilúvios e a mecânica
da extinção das espécies. Mas nunca mais regressaste a casa
e eu aprendi a soletrar silenciosamente a tua ausência.
Embala-me, porque a morte é funda
e o desejo etérea função dos labirintos,
profusão verbal comprazida
em tuas mãos, ebulição compulsiva
do teu corpo. Embala-me,
porque em breve amanhece e a tensão
da tua voz é nocturna
e milenar como o fogo.
JOSÉ TOLENTINO MENDONÇA4
Olhar sobre a cidade
tão perto o sol nasce
da planície que
o esconde
vem sentir o cheiro das amendoeiras
pelas ameias daquelas casas
guerreiro ágil
anda atravessar os velhos pórticos
e depois fica
sem saber em que tempo
estamos
ou se teremos ainda
que morrer
anda, é manhã sim
mas já é tarde
e tu sabes
4
Poeta, sacerdote e professor, José Tolentino Mendonça nasceu em 1965, na Ilha da Madeira. Doutorado em
Teologia Bíblica, em Roma, volta para Lisboa e nesta cidade, torna-se capelão e docente da cadeira de Teologia
Bíblica na Universidade Católica.
Padre desde os 24 anos de idade, José Tolentino Mendonça afirma que a sua vocação religiosa " foi uma coisa da
juventude, inconsequente, imprudente, inesperada, que eu procuro manter. Ser padre é (...) aceitar a pobreza
como condição. E a pobreza é uma coisa chata de viver. É achar que isso pode ser uma forma de dizer alguma
coisa ao seu tempo. ".
Ocupa já um lugar de destaque na poesia portuguesa contemporânea, o autor, para quem "A poesia é a arte de
resistir ao seu tempo".
Editou o seu primeiro livro de poesia Os Dias Contados em 1990 e, desde então, tem diversificado a sua obra
como poeta, ensaísta e tradutor.
A fala do rosto
És Tu quem nos espera
nas esquinas da cidade
e ergue lampiões de aviso
mal o dia se veste
de sombra
Teu é o nome que dizemos
se o vento nos fere de temor
e o nosso olhar oscila
pela solidão
dos abismos
Por Ti é que lançamos as sementes
e esperamos o fruto das searas
que se estendem
nas colinas
Por Ti a nossa face se descobre
em alegria
e os nossos olhos parecem feitos
de risos
É verdade que recolhes nossos dias
quando é outono
mas a Tua palavra
é o fio de prata
que guia as folhas
por entre o vento
A casa onde às vezes regresso
A casa onde às vezes regresso é tão distante
da que deixei pela manhã
no mundo
a água tomou o lugar de tudo
reúno baldes, estes vasos guardados
mas chove sem parar há muitos anos
Durmo no mar, durmo ao lado de meu pai
uma viagem se deu
entre as mãos e o furor
uma viagem se deu: a noite abate-se fechada
sobre o corpo
Tivesse ainda tempo e entregava-te
o coração
Murmúrios do mar
Paga-me um café e conto-te a minha vida
O inverno avançava
nessa tarde em que te ouvi
assaltado por dores
o céu quebrava-se aos disparos
de uma criança muito assustada
que corria
o vento batia-lhe no rosto com violência
a infância inteira
disso me lembro
Outra noite cortaste o sono da casa
com frio e medo
apagavas cigarros nas palmas das mãos
e os que te viam choravam
mas tu não, tu nunca choraste
por amores que se perdem
Os naufrágios são belos
sentimo-nos tão vivos entre as ilhas, acreditas?
e temos saudades desse mar
que derruba primeiro no nosso corpo
tudo o que seremos depois
«Pago-te um café se me contares
o teu amor»
A presença mais pura
Nada do mundo mais próximo
mas aqueles a quem negamos a palavra
o amor, certas enfermidades, a presença mais pura
ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância da língua comum deixaste
o teu coração?»
A altura desesperada do azul
no teu retrato de adolescente há centenas de anos
a extinção dos lírios no jardim municipal
o mar desta baía em ruínas ou se quiseres
os sacos do supermercado que se expandem nas gavetas
as conversas ainda surpreendentemente escolares
soletradas em família
a fadiga da corrida domingueira pela mata
as senhas da lavandaria com um "não esquecer" fixado
o terror que temos
de certos encontros de acaso
porque deixamos de saber dos outros
coisas tão elementares
o próprio nome
Ouve o que diz a mulher vestida de sol
quando caminha no cimo das árvores
«a que distância deixaste
o coração?»
Se me puderes ouvir
O poder ainda puro das tuas mãos
é mesmo agora o que mais me comove
descobrem devagar um destino que passa
e não passa por aqui
à mesa do café trocamos palavras
que trazem harmonias
tantas vezes negadas:
aquilo que nem ao vento sequer
segredamos
mas se hoje me puderes ouvir
recomeça, medita numa viagem longa
ou num amor
talvez o mais belo
A estrada branca
Atravessei contigo a minuciosa tarde
deste-me a tua mão, a vida parecia
difícil de estabelecer
acima do muro alto
folhas tremiam
ao invisível peso mais forte
Podia morrer por uma só dessas coisas
que trazemos sem que possam ser ditas:
astros cruzam-se numa velocidade que apavora
inamovíveis glaciares por fim se deslocam
e na única forma que tem de acompanhar-te
o meu coração bate
A noite abre meus olhos
Caminhei sempre para ti sobre o mar encrespado
na constelação onde os tremoceiros estendem
rondas de aço e charcos
no seu extremo azulado
Ferrugens cintilam no mundo,
atravessei a corrente
unicamente às escuras
construí minha casa na duração
de obscuras línguas de fogo, de lianas, de líquenes
A aurora para a qual todos se voltam
leva meu barco da porta entreaberta
o amor é uma noite a que se chega só
De Profundis
Faltam aos planos das cidades
esfinges aladas
palmas fora de tempo, matagais
pequenos acrescentos a vermelho
Faltam atlas com algum detalhe
para as emissões nocturnas
nos agudos da nossa incerteza
falta uma beleza
a olhar por nós
indiscernível, entreaberta ainda
Talvez a nós próprios falte
essa grande medida
insondáveis cordas na travessia
uma juventude que o mundo possa
documentar
os teus olhos são o que resta
dos livros sagrados
e da grande pintura perdida
MARIA DO ROSÁRIO PEDREIRA5
O meu mundo tem estado à tua espera; mas
não há flores nas jarras, nem velas sobre a mesa,
nem retratos escondidos no fundo das gavetas. Sei
que um poema se escreveria entre nós dois; mas
não comprei o vinho, não mudei os lençóis,
não perfumei o decote do vestido.
Se ouço falar de ti, comove-me o teu nome
(mas nem pensar em suspirá-lo ao teu ouvido);
se me dizem que vens, o corpo é uma fogueira –
estalam-me brasas no peito, desvairadas, e respiro
com a violência de um incêndio; mas parto
antes de saber como seria. Não me perguntes
porque se mata o sol na lâmina dos dias
e o meu mundo continua à tua espera:
houve sempre coisas de esguelha nas paisagens
e amores imperfeitos – Deus tem as mãos grandes.
5
Maria do Rosário Pedreira ( Lisboa, 1959 ) é editora e escritora.
Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, na variante de Estudos Franceses e Ingleses, pela Universidade
de Lisboa em 1981, foi professora de Português e Francês (durante cinco anos), actividade que a influenciou
decisivamente a escrever para um público jovem. Como escritora, tem já publicados vários trabalhos de ficção,
poesia, crónicas e literatura juvenil, procurando neste último género a transmissão de valores humanos e
culturais.
Quando eu morrer, não digas a ninguém que foi por ti.
Cobre o meu corpo frio com um desses lençóis
que alagámos de beijos quando eram outras horas
nos relógios do mundo e não havia ainda quem soubesse
de nós; e leva-o depois para junto do mar, onde possa
ser apenas mais um poema - como esses que eu escrevia
assim que a madrugada se encostava aos vidros e eu
tinha medo de me deitar só com a tua sombra. Deixa
que nos meus braços pousem então as aves ( que , como eu,
trazem entre as penas a saudade de um verão carregado
de paixões). E planta à minha volta uma fiada de rosas
brancas que chamem pelas abelhas, e um cordão de árvores
que perfurem a noite - porque a morte deve ser clara
como o sal na bainha das ondas, e a cegueira sempre
me assustou (e eu já ceguei de amor, mas não contes
a ninguém que foi por ti). Quando eu morrer, deixa-me
a ver o mar do alto de um rochedo e não chores, nem
toques com os teus lábios a minha boca fria. E promete-me
que rasgas os meus versos em pedaços tão pequenos
como pequenos foram sempre os meus ódios; e que depois
os lanças na solidão de um arquipélago e partes sem olhar
para trás nenhuma vez: se alguém os vir de longe brilhando
na poeira, cuidará que são flores que o vento despiu, estrelas
que se escaparam das trevas, pingos de luz, lágrimas de sol,
ou penas de um anjo que perdeu as asas por amor.
Dorme, meu amor, que o mundo já viu morrer mais
este dia e eu estou aqui, de guarda aos pesadelos.
Fecha os olhos agora e sossega - o pior já passou
há muito tempo; e o vento amaciou; e a minha mão
desvia os passos do medo. Dorme, meu amor -
a morte está deitada sob o lençol da terra onde nasceste
e pode levantar-se como um pássaro assim que
adormeceres. Mas nada temas: as suas asas de sombra
não hão-de derrubar-me - eu já morri muitas vezes
e é ainda da vida que tenho mais medo. Fecha os olhos
agora e sossega - a porta está trancada; e os fantasmas
da casa que o jardim devorou andam perdidos
nas brumas que lancei ao caminho. Por isso, dorme,
meu amor, larga a tristeza à porta do meu corpo e
nada temas: eu já ouvi o silêncio, já vi a escuridão, já
olhei a morte debruçada nos espelhos e estou aqui,
de guarda aos pesadelos - a noite é um poema
que conheço de cor e vou cantar-to até adormeceres.
Não tenhas medo do amor. Pousa a tua mão
devagar sobre o peito da terra e sente respirar
no seu seio os nomes das coisas que ali estão a
crescer: o linho e a genciana; as ervilhas-de-cheiro
e as campainhas azuis; a menta perfumada para
as infusões do verão e a teia de raízes de um
pequeno loureiro que se organiza como uma rede
de veias na confusão de um corpo. A vida nunca
foi só inverno, nunca foi só bruma e desamparo.
Se bem que chova ainda, não te importes: pousa a
tua mão devagar sobre o teu peito e ouve o clamor
da tempestade que faz ruir os muros: explode no
teu coração um amor-perfeito, será doce o seu
pólen na corola de um beijo, não tenhas medo,
hão-de pedir-to quando chegar a primavera.
Onde quer que o encontres -
escrito, rasgado ou desenhado:
na areia, no papel, na casca de
umaárvore, na pele de um muro,
no ar que atravessar de repente
a tua voz, na terra apodrecida
sobre o meu corpo - é teu,
para sempre, o meu nome.
Não há mais nenhum nome. Depois de ti
destinaram-me apenas corpos que não amei,
rostos onde não quis pousar os olhos por temor
de os fixar, mãos que eram sempre as sombras
das tuas mãos sob os lençóis. Nunca sequer as vi,
nem toquei esses dedos que, no escuro, celebravam
na minha a tua carne - se outro motivo os trazia,
por mais vago, também não quis ouvi-lo, nunca
o soube. Depois de ti, depois dos outros homens,
é ainda o teu nome que digo, e nenhum outro.
Ficou vazio o teu lugar à mesa. Alguém veio dizer-nos
que não regressarias, que ninguém regressa de tão longe.
E, desde então, as nossas feridas têm a espessura
do teu silêncio, as visitas são desejadas apenas
a outras mesas. Sob a tua cadeira, o tapete
continua engelhado, com a tua ida.
Provavelmente ficará assim para sempre.
No outro Natal, quando a casa se encheu por causa
das crianças e um de nós ocupou a cabeceira,
não cheguei a saber
se era para tornar a festa menos dolorosa,
se para voltar a sentir o quente do teu colo.
Nada entre nós tem o nome da pressa.
Conhecemo-nos assim, devagar, o cuidado
traçou os seus próprios labirintos. Sobre a pele
é sempre a primeira vez que os gestos acontecem. Porém,
se se abrir uma porta para o verão, vemos as mesmas coisas -
o que fica para além da planície e da falésia; a ilha,
um rebanho, um barco à espera de partir, uma palavra
que nunca escreveremos. Entre nós
o tempo desenha-se assim, devagar.
Daríamos sempre pelo mais pequeno engano.
Fado
Dizem os ventos que as marés não dormem esta noite.
Estou assustada à espera que regresses: as ondas já
engoliram a praia mais pequena e entornaram algas
nos vasos da varanda. E, na cidade, conta-se que
as praças acoitaram à tarde dezenas de gaivotas
que perseguiram os pombos e os morderam.
A lareira crepita lentamente. O pão ainda está morno
à tua mesa. Mas a água já ferveu três vezes
para o caldo. E em casa a luz fraqueja, não tarda
que se apague. E tu não tardes, que eu fiz um bolo
de ervas com canela; e há compota de ameixas
e suspiros e um cobertor de lã na cama e eu
estou assustada. A lua está apenas por metade,
a terra treme. E eu tremo, com medo que não voltes.
DANIEL FARIA6
Depois das queimadas as chuvas
Fazem as plantas vir à tona
Labaredas vegetais e vulcânicas
Verdes como o fogo
Rapidamente descem em crateras concisas
E seiva
E derramam o perfume como lava
E se quiséssemos queimar animais de grande porte
Eles não regressariam. Mas a morte
Das plantas é a sua infância
Nova. Os caules levantam-se
Cheios de crias recentes
Também os corações dos homens ardem
Bebem vinho, leite e água e não apagam
O amor
6
Daniel Augusto da Cunha Faria nasceu em Baltar, Paredes, a 10 de Abril de 1971.
Frequentou o curso de Teologia na Universidade Católica Portuguesa – Porto. Licenciou-se em Estudos
Portugueses na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Durante esse período (1994-1998) a opção
monástica criava solidez.
Faleceu a 9 de Junho de 1999, quando estava prestes a concluir o noviciado no Mosteiro Beneditino de
Singeverga.
Últimas Explicações
Explicação do amor e do orvalho
Uma fogueira no meio da noite cercada
Por um homem com os olhos rasos de água
Outra explicação do amor e do milagre
Maior dos meus amigos, maior
Dor que me reparte
Ausência que me une, maior
Olhar que me comove
Silêncio
Quando o silêncio me responde
Se o fogo destruir a casa
E apagar a cal que caia a casa
Onde irei escrever o teu nome?
E se não escrever o teu nome
Como direi a alegria ao mundo?
Ainda que vigie como um sistema de alarme
E encha a minha boca com sirenes
Como direi na minha casa em chamas
Que és a única luz?
O chão carbonizado é a erosão do meu destino
Respeito o luto e não vou abrir caminhos:
Mas se tu és também o incêndio
Como não rebento na cinza?
E se o fogo destruir o homem que caia a casa
E apagar o coração
Como explicarei aos sem abrigo
O teu auxílio?
O relento não pode vergar-me
Porque sou mais resistente do que o hissope:
Mas se o fogo consome o sopro que me mantém de pé
Que chama porei na fronte quando o teu anjo vier?
Amo-te no intenso tráfego
Com toda a poluição no sangue.
Exponho-te a vontade
O lugar que só respira na tua boca
Ó verbo que amo como a pronúncia
Da mãe, do amigo, do poema
Em pensamento.
Com todas as ideias da minha cabeça ponho-me no silêncio
Dos teus lábios.
Molda-me a partir do céu da tua boca
Porque pressinto que posso ouvir-te
No firmamento.
Amo-te como um planeta em rotação difusa
E quero parar como o servo colado ao chão.
Frágil cerâmica de poros soprados no teu hálito
Vasilha que ergues em tua mão de oleiro
Cálice que não pudeste afastar de ti.
Amo-te nesta ideia nocturna da luz nas mãos
E quero cair em desuso
Fundir-me completamente.
Esperar o clarão da tua vinda, a estrela, o teu anjo
Os focos celestes que a candeia humana não iguala
Que os olhos da pessoa amada não fazem esquecer.
Amo tão grandemente a ideia do teu rosto que penso ver-te
Voltado para mim
Inclinado como a criança que quer voltar ao chão.
Amo-te na carne que tomaste do chão que aplaino
Com as mãos
Com as palavras que escrevo e apago
Na areia, no cérebro.
Amo-te com o cérebro em ferida
Pensando-te
Remédio que derramas em mim a tua medicina, a morte
No meu corpo. Até que repouse como enfermo
No teu leito. Amo febrilmente amo o dia
Em que disseres: Larga
A tua enxerga! — E ande
Amo o caminho que estendes por dentro das minhas divisões.
Ignoro se um pássaro morto continua o seu voo
Se se recorda dos movimentos migratórios
E das estações.
Mas não me importo de adoecer no teu colo
De dormir ao relento entre as tuas mãos.
Todas as minhas fontes vêm de ti
As nascentes
E amo-te com a constância do moribundo que respira
Já sem saber de que lado o visita a morte
Procuro a ligação entre ti e a luz muito miudinha depois dostemporais
Entre a luz e os estilhaços nas ruas bombardeadas
Desconheço o colar onde unes tudo
Procuro entender como é que moldas
Os meus pés ao equilíbrio que os desloca no chão
Sei que és tu que me levantas
Que remendas o meu corpo cada dia
Em ti encontro a pulsação
Que rebenta - uma artéria como nunca
Tinha jorrado. Cratera onde durmo
Recluso, árvore à chuva
Em dificuldade extrema
De respiração
Ponho a cabeça entre os ramos, lanço os braços para fora
Como um pássaro entre um bando
De disparos
Tu moves as agulhas, tu unes de novo
As minhas asas à curva do céu