LIMA BARRETO: CRÍTICA LITERÁRIA E MARGINALIDADE SOCIAL
Josias de Paula Jr. (UFRPE)1
Resumo: A apreciação crítica da obra de Lima Barreto ao longo dos anos experimentou
diversas flutuações. Se, num primeiro momento, a recepção se mostrou entre reticente e
acanhada – quando não envolta na asfixia da indiferença silenciosa; nas últimas décadas, pelo
contrário, assiste a uma aceitação não raro pouco crítica, tangenciando a complacência.
Argumentamos que a atual apreciação do trabalho barretiano advém de um viés questionável
quanto à relação entre crítica e produções artísticas elaboradas por setores marginalizados – as
minorias – da realidade social.
Palavras-chave: Lima Barreto; Crítica Cultural; Estudos Culturais
As últimas décadas tem se caracterizado, em relação à fortuna crítica de Lima
Barreto, por uma espécie de consenso celebratório (MARTHA, 2000; AMADO, 2011).
Neste ano de 2017 tal impulso ganhou contornos ainda mais intensos, certamente
embalado pela escolha do autor de Clara dos Anjos como escritor homenageado da
FLIP – Festival Literário de Paraty -, cujo peso simbólico e midiático no mundo
literário nacional não encontra paralelo hoje. Vários de seus livros ganharam reedições,
foi relançada sua principal biografia até então, composta por Francisco de Assis
Barbosa e publicada uma nova biografia, ansiosamente aguardada e fruto de mais de dez
anos de pesquisa, da autoria de Lilia Moritz Schwarcz.
Os ensaios críticos acerca do autor seguiram o mesmo tom, elogiosos. Mais que
isso, o gesto crítico que se vem esboçando nos últimos anos em relação a Lima Barreto
assume uma postura de resgate, de expiação de uma suposta dívida espuriamente não
paga ao escritor carioca de Triste fim de Policarpo Quaresma. Qual dívida? Por que a
necessidade de resgate, de uma (quase) compensação? O pressuposto é de que a
primeira recepção crítica de Lima Barreto, feita ainda durante sua vida e logo após sua
morte, é marcada por uma nódoa infame, a saber: Lima Barreto teria sido injustiçado,
esmagado entre uma má-vontade na análise de seus textos e um asfixiante silêncio que o
teria impelido a patamar inferior ao merecido no gradiente de honrarias e
reconhecimento.
O que teria motivado tal recepção a Lima Barreto, ainda segundo a nova
percepção crítica, seriam elementos não-literários, isto é, sua condição de negro
(mestiço), pobre e suburbano. O julgamento justo do trabalho literário de Lima Barreto
1Doutor em Sociologia (UFPB) e integrante do GECCA (Grupo de Estudos em Crítica Cultural e Arte).
Contato: josias75@@[Link]
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haveria sido sonegado pelo preconceito, por um conjunto de forças sociais que se teriam
movido pelas raias do racismo e da mesquinhez classista. Os donos da literatura e do
poder na sociedade brasileira do começo do século XX não teriam permitido a entrada
de um “marginal”, socialmente inferior, ao mundo honorável das letras.
Nosso objetivo é questionar esses dois aspectos, a nosso ver inter-relacionados,
que conduzem atualmente a avaliação sobre Lima Barreto, ou seja: 1. Sustentaremos
que a recepção primeira de Lima Barreto não se caracteriza como tem sido delineada em
nossos dias, visto que Lima Barreto não foi de todo ignorado em vida pela crítica, assim
como fez escolhas conscientes dos riscos que trariam para si em seu objetivo de
alcançar glória e distinção, e por fim, contudo extremamente relevante, algumas críticas
negativas de que foi objeto foram acertadas, ou ao menos, coerentes; 2.
Argumentaremos que a atual avaliação do autor em questão é um mero trocar de sinais,
um valorizar sem questionamento daquilo que teria ocasionado o flagelo da injustiça: a
sua condição racial e econômica está a franqueá-lo, agora, um exaltado aplauso
condescendente; em resumo, seus condicionantes sociais étnicos e de classe, que outrora
o teriam feito padecer uma iníqua apreciação, são então transformados em a prioris
inquestionáveis de seu talento. Em suma, pensamos que é chegado o momento de uma
posição de equilíbrio na crítica a Lima Barreto.
Isaías Caminhas: estreia equívoca
Quando em 1907 Lima Barreto decide trazer à lume seu primeiro romance, ele
tinha dois livros escritos, na gaveta. O Recordações do escrivão Isaías Caminha e o
Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá. Assumidamente Lima Barreto decide-se pelo
primeiro por seu potencial de escandalizar, causar polêmica, atrair para si o máximo de
atenção. Já o Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá, nas palavras do próprio autor, era
muito cerebral.2
Contudo, o romance selecionado era uma aposta de alto risco. Recordações do
Escrivão Isaías Caminha era um romance à clef, com seus personagens facilmente
identificáveis entre importantes figuras da sociedade carioca contemporânea. E tratava-
2 Numa carta destinada a Gonzaga Duque em 07 de Fevereiro de 1909, Lima Barreto deixa claro alguns
pontos decisivos sobre o romance. Dois pontos se sobressaem na missiva, sua pretensão de chocar e sua
consciência de que o livro padecia de alguns equívocos em sua estruturação e arquitetura: “Era um tanto
cerebrino, o Gonzaga de Sá, muito calmo e solene, pouco acessível, portanto. Mandei as Recordações do
Escrivão Isaías Caminha, um livro desigual, propositalmente mal feito, brutal por vezes, mas sincero
sempre. Espero muito dele para escandalizar e desagradar...” (BARRETO apud BARBOSA, 1975, p.
162, ênfase acrescentada).
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se de uma sátira mordaz, uma crítica ferina contra a imprensa em geral, e em especial o
principal jornal da época: o Correio da Manhã. Todo o funcionamento dos grandes
jornais é ridicularizado, descrito como uma maquinaria produtora de mentiras,
falsificações; eivada e atravessada pelo compadrio, pelo tratamento desigual a pessoas
em função de seu poder e capital social. É desferida um ataque feroz contra a maneira
com que a imprensa lidava com a literatura, sendo os críticos retratados como sujeitos
ignorantes, prepotentes, interesseiros.
Sabendo-se que o mediador fundamental entre a obra literária e o público
naquelas primeiras décadas do século passado era o jornal (CASTELO; CANDIDO,
1974), não é difícil imaginar as consequências que um ato beligerante como foi a
mensagem contida e publicada no Recordações poderia acarretar para o autor.
Efetivamente, e antes de tudo, o Correio da Manhã ignorou solenemente o livro,
sentindo-se frontalmente depreciado pelo texto. Apenas isto já seria suficiente para
retirar de Lima Barreto a chance de ser comentado e glosado pelo veículo mais lido
naquela quadra. Some-se que, por espírito corporativo ou solidário, outros importantes
jornais também se fecharam para a repercussão da obra (afinal, também, para além da
crítica mais direta ao Correio da Manhã, toda a grande imprensa era fortemente
satirizada).
Não obstante, e a despeito desse real boicote, o livro contou com análises e
avaliações judicativas, não sendo envolto completamente num silêncio de indiferença 3.
Neste ponto, porém, assoma uma outra dimensão do debutar de Lima Barreto: a
qualidade literária de seu texto. Críticos importantes como Medeiros & Albuquerque e
Alcides Maia foram unânimes em apontar as fraquezas do romance, visto como
excessivamente confessional, panfletário e disforme em sua composição. Qualquer
leitura atenta do romance inaugural da carreira barretiana percebe o abismo entre os
primeiros capítulos, dedicados à denúncia acurada do preconceito racial, e os capítulos
restantes, nos quais reponta a virulência do golpe contra a instituição imprensa. A
personagem perde em densidade e se transforma num mero pretexto para a denuncia
caricata da podridão que caracterizaria o submundo dor órgãos de informação. Em
3Vários críticos não se eximiram de analisar o trabalho barretiano. Pode-se destacar inúmeros, entre os
quais: Nestor Victor, Jackson Figueiredo, Tristão de Ataíde, João Ribeiro (BARBOSA, 1975).
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suma, as críticas negativas que o livro recebeu possuía fundamentos concretos, razões
coerentes.
Comunicação ou iconoclastia
Fazer literatura para Lima Barreto não era uma ação qualquer. A concepção de
literatura para o autor de Os bruzudangas carregava a impregnação da militância; Lima
Barreto nutria a ideia de que a literatura tinha uma missão, e uma missão das mais
elevadas: a de soldar as almas humanas, operando para um sentido crescente de
incremento da solidariedade e mútua compreensão. Esse entendimento do ser, da
essência da literatura, ele buscou em autores como Liev Tolstoi, Thomas Carlyle, Jean-
Marie Guyau e Hippolyte Taine.
Por óbvio, todavia, para o cumprimento da vocação da arte literária, a condição
necessária para que alcance seu destino, é a ampla comunicação entre escritor e público.
É imperioso que sua voz se alastre, se difunda, se espraie, a fim de que granjeie tocar e
transformar os corações, ferindo as consciências no intuito da emulação dos valores
mais elevados. Para atingir de modo mais seguro este requisito fundamental, elementar,
convém respeitar minimamente os códigos de ingresso no sistema literário,
aproximando-se dos seus elementos de mediação, os editores, a crítica especializada, a
imprensa e os canais de divulgação. Isto é, adotar uma posição conciliatória,
diplomática e menos belicosa, com o fito de obter uma posição de reconhecimento
sólido dentro do campo literário.
Essa não foi, nunca, a postura de Lima Barreto. Nosso autor alimentou
sistematicamente durante sua vida o fogo da iconoclastia, do desafio ao instituído;
espicaçava-o um forte sentimento de orgulho, uma altivez peculiar, cuja consequência
foi impedi-lo de negociar, compor, forjar firmes alianças na arena cultural. O
comportamento de inconformado e, mesmo, intransigente, não esperou, para aflorar, a
publicação de Isaías Caminha. A organização e lançamento, junto com alguns amigos,
da revista Floreal4 já explicitava com veemência sua intenção de não fazer quaisquer
concessões. A revista buscava escapar aos “mandarinatos literários” e emergiu pela
consciência e convicção de seus editores da necessidade de se publicarem; de se
fazerem ler, contudo sem pagar o preço da bajulação, da concessão, etc.
4Floreal era “um manifesto libertário arrogante que se coloca declaradamente for a das instituições do
Sistema, sabendo que está se dirigindo a um público desfavorável” (RIEDEL, 2009, p. 312).
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Este caminho se nos impunha, pois nenhum de nós teve a rara
felicidade de nascer de pae livreiro, e pouca gente sabe que, não sendo
assim, só há um meio de se chegar ao editor – é o jornal. Pouca gente
sabe tambem que o nosso jornal actual é a cousa mais inintelligente
que se possa imaginar (BARRETO, 1907: 05).
E prossegue reforçando a impossibilidade, a inconveniência de se transigir com
os donos da literatura, com tudo aquilo que compunha o establishment:
Demais, para se chegar a eles, são exigidas tão vis curvaturas, tantas
iniciações humilhantes, que, ao se attingir ás suas columnas, somos
outros, perdemos a pouca novidade que traziamos, para nos fazermos
iguaes a todo o mundo. Nós não queremos isso. Burros ou
intelligentes, geniaes ou mediocres, só nos convenceremos de que
somos uma ou outra cousa, indo ao fim de nós mesmos, dizendo o que
temos a dizer com a mais ampla liberdade de faze-lo (Ibid: 06).
Pode-se acrescentar - nesta caracterização do autor como um militante radical em
seus atos, em suas premissas de guerra contra as formas sociais estabelecidas - também
a negativa sistemática por parte de Lima Barreto em ocupar espaço na imprensa
“burguesa”. Possuía amigos em grandes veículos de comunicação (Pausílipo da
Fonseca, Bastos Tigres, entre outros) e teve oportunidades dentro dos mesmo, seja
como colaborador e mesmo ocupando cargos na organização de veículos. Calos Viana
entrega a Lima Barreto a secretaria da Revista da Época, porém sua permanência é
curta. O posto poderia dar-lhe alívio financeiro tão almejado, contudo, uma solicitação
para um elogio a um influente senador pelo Paraná, texto que inclusive não teria
assinatura, foi o suficiente para abandonar o emprego. Mesmo apócrifo, aquele texto
solicitado feria de morte o parâmetro ético do autor de A Nova California.
Ingressou e colaborou ainda na prestigiada Fon Fon, também pelo breve período
de nove meses. Enfim, inadaptado ao mundo do grande jornal, Lima Barreto – a
despeito de considerações morais – não contribuía para a constituição de uma rede
dentro do campo literário que alavancasse sua reputação como autor literário. Não se
discute aqui a legitimidade de sua postura, apenas julgamos irrecorrível a explicitação
desses traços biográficos e históricos para o entendimento mais aprofundado e nuançado
de sua recepção.
Em livros como Bagatelas e Marginália, por exemplo, Lima Barreto expõe
enfaticamente sua régua de vida, sua despreocupação em agradar poderosos, em
conseguir bons empregos, em fazer fortuna pecuniária com as letras. Em Bagatelas
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escreve que nunca escreveu para agradar aos políticos e poderosos, pelo contrário.
Diagnostica uma aceitação servil – por parte dos brasileiros – dos desmandos das
autoridades; ele que, entre outros atos, se insurge contra o envio de frades e padres
católicos a bordo dos navios de guerra brasileiros (por ocasião da Primeira Guerra
Mundial), chegando inclusive a escrever em protesto ao Presidente da República,
argumento pela notória violação às leis que isso implicava. E o que o fazia mais sofrer:
ser admoestado pelos amigos e próximos: “Você é louco...” (LIMA BARRETO, 1923,
p. 80-85).
Em Marginália, por fim, podemos encontrar outros exemplos do jeito insubmisso
de Lima Barreto, sua militância consciente de que, agindo com o ímpeto que o
impulsionava, estava a se afastar da senda mais confortável no caminho da glória. Num
texto intitulado Elogio da morte, desabafa: “Dessa forma, quem, como eu, nasceu pobre
e não quer ceder uma linha da sua independência de espírito e inteligência, só tem que
fazer elogios à Morte” (s/d, p.11). É uma declaração pungente que sinaliza o paradoxo
do caminho barretiano: a) por um lado uma necessidade visceral de se fazer ler, de se
comunicar, de contribuir e participar da vocação missionária da literatura; b) por outro
lado sua natureza aversa ao instituído, como já repetido, seu carácter iconoclasta, sua
indisposição para construir uma glória literária por intermédio de gestos de aproximação
não beligerantes com os atores do sistema das letras.
Lima Barreto hoje: elogio ao mestiço pobre
O que assistimos nas últimas décadas é, como dito no começo deste ensaio, uma
retomada vigorosa da atenção em relação ao trabalho de Lima Barreto. Contudo, tem se
destacado que se procede então a um pagamento de uma dívida ao autor, cuja origem
derivaria dos traços coloniais, racistas e classistas da sociedade brasileira. Ora,
ninguém, ou poucos, negariam tais traços em nossa sociedade. Mas, devemos inquirir: é
justo elogiar Lima Barreto apenas por questões identitárias? Seu valor depende
unicamente por ter feito, de modo supostamente inaugural em nosso país, uma
“literatura negra”? Fazer literatura social é suficiente para tê-lo como um bom autor?
Num artigo para O Globo, Marcus Faustini assim escreveu: “Todas as homenagens a
Lima Barreto que acontecem este ano devem ser declaradas atos de desagravo ou não
serão homenagem alguma” (FAUSTINI, 2017).
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A verdade é que pulula nas glosas entusiastas atuais o qualificativo “gênio”
(NUNES, 2016). Quase que unanimemente Lima Barreto alçou-se à condição de gênio,
logo praticamente não criticável. Supostamente, por ter sido mestiço e pobre, e ter feito
literatura engajada, as qualidades supremas do autor de Cemitério dos Vivos não teriam
sido reconhecidas pelos seus pares contemporâneos; agora, porém, estas mesmas
qualidades, por si só, parecem suficientes para garantir-lhe o reconhecimento
inquestionável.
Tal atitude é lamentável e indigna com a força e o merecimento devidos, sem
favor, por Lima Barreto. Efetivamente Lima Barreto é autor de uma obra irregular.
Como já insistentemente aludido neste ensaio, seu Recordações do escrivão de Isaías
Caminha oscila entre um romance de denúncia social (com intenso teor de exposição
aguda do racismo brasileiro), em seus primeiros capítulos, bem estruturados e densos, e
um panfleto anti-imprensa, nos capítulos posteriores, nos quais o personagem principal
flutua um tanto obliquamente. O Triste fim de policarpo Quaresma, saído em jornal
como folhetim, é muito mais bem-acabado, inteiro, bem resolvido composicionalmente.
Em Numa e Ninfa, outro folhetim, assistimos novamente a um recuo na qualidade
intrínseca; para, por fim – e se restringindo apenas aos seus romances -, voltarmos a ler
um Lima Barreto que acerta com mais vigor em Vida e Morte de M. J. Gonzaga de Sá 5.
Em todas as obras, para além de sua maior ou menor consistência estrutural, persiste sua
virtude satírica, seu aguçado faro para a crítica, sua observação ampla dos tipos e
costumes da vida urbana contemporânea.
A força como que se vivencia hoje os desdobramentos dos estudos culturais, para
os quais “O intento é ressocializar e rehistoricizar (sic) a grande arte, tornada abstrata
nas mãos das elites, bem como promover as manifestações das classes populares e
das minorias a um estado de dignidade cultural que não lhes é concedido
(BORDINI, 2006: 14 – Ênfase acrescentada), tem acarretado num certo exagero, já
denunciado inclusive por muitos: o elogio condescendente e populista 6.
Conquanto pareça ser irresistível hoje o argumento segundo o qual a literatura – e
a crítica literária - seja um segmento, e apenas mais um, no amplo espectro daquilo que
desde Michel Foucault vem-se chamando de “práticas discursivas”; e reconhecendo-se,
5
Baseio-me, nesta breve suma apreciativa do conjunto romanesco do autor, nas palavras de Monteiro
Lobato, seu editor no final da vida. Cf. Lobato, 2009: 48.
6 Cf. também CEVASCO, 2003.
217
na linha argumentativa desenrolada por Terry Eagleton (1997), que estamos desde
sempre, ao exercer o mister literário (incluindo, aqui também, a teoria e a crítica),
pisando o terreno do político; tampouco assoma como uma verdade insofismável que
aquilo que se impregna como “o literário” de modo persistente no imaginário de uma
cultura seja pura e simplesmente substituído por uma consciência militante “bem-
intencionada”, a qual reduz todo e qualquer discurso a seu epílogo político.
Por fim, como há dito Noé Jitrik, uma vez que qualquer texto seja uma
interpretação da vida humana, é natural que a crítica o cobre por sua dimensão ética. O
problema vem à tona, na medida em que se descai para o denuncismo, tropegamente
deixando de discernir representação ficcional e realidade, tornando toda e qualquer
vítima social em “herói cultural”. É o mal passo que devém da militância totalitária 7.
Voltando a Lima Barreto, e concluindo, sustentamos que a boa lição de Antonio
Candido continua de pé. É necessário na análise crítica compreender como o elemento
social – a crítica, a denúncia – se filtra e se transfigura em fator artístico, na rica
conjunção do externo no interno (Candido, 1967). É possível dizer que Lima Barreto
poderia ter uma recepção mais ampla, de maior repercussão? Sim. Mas não lhe faltou a
crítica contemporânea de todo, nem sequer os senões que recebeu derivam apenas de
sua condição de negro e pobre. É possível alargar sua fortuna crítica? Claro. Possível de
desejável. Contudo que façamos justiça ao autor, analisando sua obra em si, em seus
méritos e defeitos, não precisando escudá-la em perigosas vestes vitimarias.
7 “... la literatura, como es obvio, desaparece, deja de ser ella misma um registro crítico del todo social,
cosa que se le atribuía em virtud de lo que era capaz de crear, es desacralizada en lo que tiene de
incognoscible para convertirse em un mero punto de partida para describir y definir un asunto grave e
tomar posición frente a él y, sobre todo, em relación con sus productores. Se produce, en este punto, una
exasperación hermenéutica, el asunto tapa su formulación, en todo lo que se mira se ve el asunto y no más
ni su proceso ni la autonomía relativa del código que lo vehiculiza” (Jitrik, 2000: 37-38).
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