0% acharam este documento útil (0 voto)
141 visualizações109 páginas

DocumentoTécnico RNL 6349

Enviado por

Barros Martins
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
141 visualizações109 páginas

DocumentoTécnico RNL 6349

Enviado por

Barros Martins
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

, Proposta de Classificação

Reserva Natural Local


da Foz do Almargem e
do Trafal

RESUMO TÉCNICO
Documento Técnico de suporte à criação da Reserva
Natural Local (RNL) da Foz do Almargem e do Trafal.
Disponível no âmbito de consulta pública

Município de Loulé

novembro, 2021
Índice

1
Coordenação

Patrícia Ramalho (Divisão de Ambiente)

Acompanhamento de:

Lina Madeira (Divisão de Ambiente)

Tomásia Apolo (Divisão de Ambiente)

Equipa Técnica Interna

Riscos Naturais:

Lídia Terra (Divisão de Ação Climática e Economia Circular)

Susana Farinha (Divisão de Ação Climática e Economia Circular)

Equipa Técnica Externa

Geologia:

Prof(s). Hélder Pereira e Francisco Lopes (Biologia & Geologia/ pós-graduação Geociências)

Revisão de:

Divisão de Ação Climática e Economia Circular (DACEC);

Divisão de Ambiente (DA);

Divisão de Cultura, Museu e Património (DCMP);

Divisão de Economia Local, Comércio e Turismo (DELCT);

Divisão de Planeamento (DP);

Divisão de Sistemas de Informação Geográfica (DSIG);

Serviço Municipal de Proteção Civil, Segurança e Florestas (SMPCSF).

2
Índice
1 – Enquadramento --------------------------------------------------------------------------------------------------------------6

2 - Caracterização do Território ----------------------------------------------------------------------------------------------12

2.1 – Enquadramento Geográfico--------------------------------------------------------------------------------12

2.2 – Caracterização Física -----------------------------------------------------------------------------------------16

2.2.1 – Relevo e Altitude--------------------------------------------------------------------------------16

2.2.2 – Declives--------------------------------------------------------------------------------------------16

2.2.3 – Exposição Solar --------------------------------------------------------------------------------- 16

2.2.4 – Hidrografia----------------------------------------------------------------------------------------17

3 – Caracterização Climática-------------------------------------------------------------------------------------------------- 24

4 – Caracterização da Paisagem----------------------------------------------------------------------------------------------27

4.1 – Ocupação do Solo---------------------------------------------------------------------------------------------29

4.2 – Ordenamento e Gestão do Território -------------------------------------------------------------------34

5 – Património Natural ---------------------------------------------------------------------------------------------------------43

5.1 – Geologia---------------------------------------------------------------------------------------------------------43

5.2 – Biodiversidade-------------------------------------------------------------------------------------------------46

5.2.1 – Flora e Habitats ---------------------------------------------------------------------------------46

5.2.2 – Fauna-----------------------------------------------------------------------------------------------54

6 – Caracterização Socioeconómica ----------------------------------------------------------------------------------------71

7 – Riscos Naturais---------------------------------------------------------------------------------------------------------------74

8 - Ameaças Externas-----------------------------------------------------------------------------------------------------------87

9 - Considerações Finais--------------------------------------------------------------------------------------------------------89

10 -Referências Bibliográficas------------------------------------------------------------------------------------------------ 92

11 - Anexos - Cartografia

11.1 - Delimitação geográfica da área da RNL da Foz do Almargem e do Trafal

11.2 – Carta da Ocupação do Solo

11.3 – Carta da Hidrografia

11.4 – Carta da Geologia

11.5 – Carta de Ordenamento do Plano Diretor Municipal (em vigor)

11.6 – Carta do Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC) atualizada

11.7 – Carta das Faixas de Gestão de Combustível do Plano Municipal da Defesa da Floresta
Contra Incêndios do município de Loulé (PMDFCI)

3
Glossário de Siglas

ALGU Herbário da Universidade do Algarve

ANPC Autoridade Nacional de Proteção Civil

APA Agência Portuguesa do Ambiente

CAOP Carta Administrativa Oficial de Portugal

cE3c Centre for Ecology, Evolution & Environmental Changes

CIMA Centro de Investigação Marinha Ambiental

CML Câmara Municipal de Loulé

COS Carta de Ocupação do Solo

DGADR Direção-Geral da Agricultura e Desenvolvimento Rural

DGT Direção-Geral do Território

DSIG Divisão de Sistemas de Informação Geográfica

ECD Estudos de Caracterização e Diagnóstico (elaborados no âmbito da revisão do PDM)

EMAAC Estratégia Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas de Loulé

EN Em Perigo

ERPVA Estrutura Regional de Proteção e Valorização Ambiental

ERSTA Estudo do Risco Sísmico e de Tsunamis do Algarve

ETAR Estação de Tratamento de Águas Residuais

ICNF Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas

INE Instituto Nacional de Estatística

INV Invernante

IPMA Instituto Português do Mar e da Atmosfera

LC Pouco Preocupante

LVI Lista Vermelha dos Invertebrados

LVVP Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal

MADRP Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas

NMM Nível Médio do Mar

NT Quase Ameaçada

PDM Plano Diretor Municipal

PGRH Plano de Gestão de Região Hidrográfica

PIAAC Plano Intermunicipal de Adaptação às Alterações Climáticas do Algarve

4
PMAC Plano Municipal de Ação Climática de Loulé

PMDFCI Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios de Loulé

PMEPC Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil de Loulé

POOC Plano de Ordenamento da Orla Costeira

PROT Algarve Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve

PSRN2000 Plano Sectorial da Rede Natura 2000

RAN Reserva Agrícola Nacional

RCM Resolução de Conselho de Ministros

REASE Rede de Educação Ambiental para os Serviços dos Ecossistemas

REN Reserva Ecológica Nacional

REOT Relatório de Estado do Ordenamento do Território

RES Residente

RNL Reserva Natural Local

SPEA Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves

TAGIS Centro de Conservação das Borboletas de Portugal

VU Vulnerável

Glossário de Símbolos

% Percentagem

ºC Graus Celsius

ha Hectares

hab Habitantes

hab/km2 Habitantes por quilómetro quadrado

Km Quilómetros

km2 Quilómetro quadrado

m Metros

m/s Metros por segundo

m/ano Metros por ano

m3/ano Metros cúbicos por ano

mm Milímetros

5
1. Enquadramento

A Câmara Municipal de Loulé tem vindo a trabalhar em temas que considera prioritários para o
desenvolvimento social, económico e ambiental do município, direcionando e alinhando cada
vez mais as suas estratégias com as diretrizes nacionais e internacionais nomeadamente no que
diz respeito à Ação Climática e Salvaguarda Ambiental - pilar fundamental na estratégia de
desenvolvimento local e um dos grandes desígnios da política pública municipal. A proteção e
preservação dos ecossistemas e dos seus serviços, bem como da biodiversidade é uma
responsabilidade de todos nós, pretendendo o município dar mais um passo na proteção e
valorização do litoral, a par do Parque Natural da Ria Formosa, onde as pressões urbanas,
turísticas e climáticas competem constantemente com a capacidade de resiliência e adaptação
do meio. Na certeza de que investir no Ambiente é uma aposta essencial e o caminho certo por
um futuro melhor, mais sustentável e consequentemente com gerações mais conscientes e
felizes, propõe assim, o município de Loulé criar e classificar a área da Reserva Natural Local da
Foz do Almargem e do Trafal, ao abrigo do Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de julho (regime
jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade), republicado pelo Decreto-Lei n.º
242/2015 de 15 de outubro, após reunidos os elementos necessário no que diz respeito ao seu
valor científico, ecológico, social e económico. Esta classificação está de acordo com o exposto
no n.º 2 do artigo 10.º do Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de julho, na sua atual redação, onde
se pode ler: “Devem ser classificadas como áreas protegidas as áreas terrestres e aquáticas
interiores e as áreas marinhas em que a biodiversidade ou outras ocorrências naturais
apresentem, pela sua raridade, valor científico, ecológico, social ou cénico, uma relevância
especial que exija medidas específicas de conservação e gestão, em ordem a promover a gestão
racional dos recursos naturais e a valorização do património natural e cultural, regulamentando
as intervenções artificiais suscetíveis de as degradar.”

No seguimento de todos os esforços e recursos que têm sido aplicados ao nível do concelho de
Loulé em matérias de alterações climáticas, impactes e vulnerabilidades futuras (e.g. aumento
de temperatura, redução generalizada da precipitação anual, aumento de fenómenos de
precipitação intensa, acentuação da estação seca, subida do nível médio do mar) é fundamental
um olhar crítico para todos os dados disponíveis à presente data e promover a sua integração
nos planos e estratégias a aplicar no território com vista a garantir o equilíbrio dos ecossistemas
e manutenção dos respetivo processos ecológicos evitando elevados custos para a economia e
danos irreversíveis na segurança e saúde pública (PMAC, 2021).

6
A seleção da tipologia da nova área protegida de âmbito local teve em consideração o disposto
no artigo 18.º do Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de julho, na sua redação atual: “Entende -se
por reserva natural uma área que contenha características ecológicas, geológicas e fisiográficas,
ou outro tipo de atributos com valor científico, ecológico ou educativo, e que não se encontre
habitada de forma permanente ou significativa”, e a indicação da autoridade nacional para a
conservação da natureza e biodiversidade, o Instituto da Conservação da Natureza e das
Florestas, I.P. (ICNF).

A área que aqui se propõe classificar como Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal
localiza-se na freguesia de Quarteira, no limite sudeste da faixa litoral e abrange uma área de
135,4 ha.

Esta área já se encontrava abrangida pelas medidas preventivas estabelecidas no âmbito do


Processo de Revisão do Plano Diretor Municipal de Loulé (Aviso nº 4770/2019, publicado no
Diário da República, 2.ª série, n.º 56, de 20 de março), prazo que foi prorrogado pelo Aviso n.º
4889/2021 (publicado no Diário da República, 2.ª série, n.º 48, de 17 de março), por lhe ser
reconhecida importância na minimização dos impactes resultantes das alterações climáticas e
respetiva salvaguarda da prossecução do interesse público, precavendo-se assim a densificação
da edificação, pressão que se verifica elevada na área envolvente.

A zona é atravessada por duas ribeiras, a ribeira da Fonte Santa ou do Almargem e a ribeira do
Carcavai com origem no cerro da Cabeça Gorda (Barrocal), com cerca de 19 km de extensão
(Almargem, 2017), correspondendo as respetivas fozes às zonas húmidas propriamente ditas,
cuja dimensão de área alagável e duração da disponibilidade de água depende, na sua maioria,
da pluviosidade anual.

Importa lembrar que no dia 2 de fevereiro de 1971 se procedeu à assinatura do 1º tratado global
sobre a conservação e o uso sustentável das zonas húmidas, especialmente como habitat de
aves aquáticas - a “Convenção de Ramsar”, na cidade Iraniana com o mesmo nome. O Estado
Português assinou esta Convenção sobre Zonas Húmidas em 1980 (Decreto n.º 101/80, de 9 de
outubro) assumindo, entre outras obrigações “o dever de promoção da conservação de Zonas
Húmidas (todos os ambientes aquáticos do interior e zona costeira marinha) e das aves
aquáticas, devendo o mesmo estabelecer Reservas Naturais e garantir a devida proteção das
mesmas”.

As zonas húmidas, constituem dos mais ricos e produtivos ecossistemas da biosfera, fornecendo
uma variedade de serviços ecossistémicos ao Homem, na sua maioria indispensáveis mas pouco
valorizados: serviços de aprovisionamento (e.g. alimento, água potável, recursos genéticos e

7
bioquímicos); serviços de regulação (e.g. purificação do ar e da água, regulação do ciclo
hidrológico, controlo da erosão, regulação do clima por via do sequestro e armazenamento de
carbono, controlo de pragas e doenças, proteção contra cheias e intempéries); serviços de
suporte (e.g. formação do solo e habitats, produção primária de biomassa, fertilidade do solo e
ciclo de nutrientes) e serviços culturais (e.g. identidade cultural e territorial, valores estéticos,
espirituais e religiosos, de lazer e recreio), sendo imperativo o seu uso racional e sustentável.

Para além destes serviços, as zonas húmidas são muitas vezes referenciadas como hotspots da
biodiversidade, uma vez que albergam milhares de espécies animais e vegetais, com especial
destaque para as aves e peixes, que aí, encontram abrigo e alimento, permitindo assegurar a
sua propagação genética através da preservação das gerações futuras com impactos diretos no
estado das populações à escala global. As comunidades vegetais características das zonas
húmidas compõem muitos dos habitats de interesse para a conservação, ocorrendo algumas
espécies de flora, raras e endémicas, importantes para a preservação do património natural
florístico nacional. Importa ainda referir que a área aqui em causa integra a região
mediterrânica, considerada como um dos maiores hotspots de biodiversidade do mundo, na
qual foram já identificadas mais de 25 000 espécies de flora, das quais, metade são consideradas
endemismos (Sundseth, K., 2010), reforçando a responsabilidade acrescida do poder local na
sua proteção e conservação.

Esta área foi alvo do estudo – “Valorização das Zonas Húmidas do Algarve: Foz do Almargem-
Trafal” - coordenado pela Associação Almargem – Associação de Defesa do Património Cultural
e Ambiental do Algarve, em parceria com várias entidades, nomeadamente com a Sociedade
Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), com o Centro de Investigação Marinha e Ambiental
da Universidade do Algarve (CIMA), com o Centro de Conservação das Borboletas de Portugal
(TAGIS) e com o Centre for Ecology, Evolution & Environmental Changes da Universidade de
Lisboa (cE3c), que resultou de uma candidatura aprovada ao Fundo Ambiental do Ministério do
Ambiente e Transição Energética em 2018 onde, apesar da elevada pressão antropogénica a que
a área está sujeita, se pode ler que “a área é extremamente rica em vida selvagem,
nomeadamente em espécies com estatutos de proteção elevados”.

A área alberga uma grande diversidade de espécies de aves aquáticas e terrestres ao longo do
ano, tendo sido registadas 137 espécies à data do estudo “Valorização das Zonas Húmidas do
Algarve – Foz do Almargem e do Trafal”, com destaque para as aves aquáticas invernantes e
migratórias, que reúnem elevadas concentrações de indivíduos nos períodos de invernada e
migração, realçando-se as seguintes espécies prioritárias (LVVP, 2005): zarro-comum Aythya

8
ferina (EN|VU - Res/Inv), frisada Mareca strepera (VU|NT - Res/Inv), pato-de-bico-vermelho
Netta rufina (EN|NT - Res/Inv), caimão Porphyrio porphyrio (VU) e gaivota-de-audouin
Ichthyaetus audouinii (VU), assumindo as três primeiras espécies, particular relevância na altura
da nidificação pelo estatuto de ameaça que apresentam; engloba nove habitats naturais e semi-
naturais constantes do Decreto-Lei n.º 49/2005, publicado no Diário da República, série I-A,
n.º39, de 24 de fevereiro, tendo sido registados 9 elementos florísticos com interesse para a
conservação, entre eles as espécies Frankenia boissieri (VU), Cynanchum acutum (EN) e
Melilotus segetalis subsp. Fallax (LC), integrando esta última espécie os anexos II e IV da Diretiva
Habitats (Diretiva 92/43/CEE do Conselho, de 21 de maio de 1992, transposta para a ordem
jurídica nacional pelo Decreto-Lei n.º 140/99 e alterada pelo Decreto-Lei n.º 49/2005, publicado
no Diário da República, série I-A, n.º39, de 24 de fevereiro), às quais acrescem, pelo menos mais
5 espécies descritas para a área, segundo a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal
Continental (Carapeto et al., 2020): Thymus albicans (VU), Armeria macrophylla (VU), Ulex
argenteus subsp. subsericeus (VU), Trisetaria dufourei (EN) e Tuberaria globulariifolia var. major
(EN), esta última protegida pelos Anexos II e IV da Diretiva Habitats (Diretiva 92/43/CEE do
Conselho, de 21 de maio de 1992, transposta para a ordem jurídica nacional pelo Decreto-Lei
n.º 140/99 e alterada pelo Decreto-Lei n.º 49/2005, publicado no Diário da República, série I-A,
n.º39 de 24 de fevereiro) e Anexo I da Convenção de Berna (aprovada pelo Decreto nº 95/81 e
regulamentada pelo Decreto-Lei n.º 316/89, publicado no Diário da República, 1.ª série n.º219
de 22 de setembro); no local foram ainda registadas diversas espécies de insetos com valor de
conservação, das quais se destacam três endemismos ibéricos de escaravelhos: a espécie
Pterostichus ebenus, a subespécie Carabus rugosus celtibericus e a subespécie Licinus
punctatulus granulatus e a grande probabilidade de ocorrência da borboleta Melitaea aetherie,
uma das espécies de borboletas mais ameaçadas em Portugal e do louva-a-deus-dos-olhos-
pontiagudos Apteromantis aptera, espécie endémica da Península Ibérica e que consta do anexo
II da Diretiva Habitats (Diretiva 92/43/CEE do Conselho, de 21 de maio de 1992, transposta para
a ordem jurídica nacional pelo Decreto-Lei n.º 140/99 e alterada pelo Decreto-Lei n.º 49/2005,
publicado no Diário da República, série I-A, n.º39 de 24 de fevereiro). Ainda segundo o estudo
acima referido, esta zona tem grande valor como área de reprodução de libélulas e libelinhas do
Algarve, tendo sido registadas 6 espécies, uma delas, Hemianax ephippiger, considerada como
Quase Ameaçada no nosso país. Tem ainda um grande potencial para abrigar, pelo menos,
outras vinte espécies, algumas delas raras e de distribuição muito localizada em Portugal,
nomeadamente, Lestes macrostigma e Selysiothemis nigra, espécies ameaçadas em Portugal,
sendo que esta última foi recentemente confirmada na área.

9
Desta forma, e seguindo os objetivos da Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e
Biodiversidade 2030 (Resolução do Conselho de Ministros n.º 55/2018, publicado no Diário da
República, 1.ª série, n.º 87 de 7 de maio), o Plano de Ação Litoral XXI (APA, 2017), a Estratégia
Municipal de Adaptação às Alterações Climáticas de Loulé (CML, 2016), o Plano Municipal de
Ação Climática de Loulé (PMAC, 2021) e a Agenda de Sustentabilidade “Floresta, Biodiversidade
e Desenvolvimento Rural” do Concelho de Loulé para 2025, o município pretende assumir uma
gestão integrada e transversal desta área, privilegiando a proteção e valorização dos recursos e
dos sistemas naturais, salvaguardando a biodiversidade do local bem como a preservação dos
valores paisagísticos, culturais e sociais, cumprindo com o disposto no Artigo 18º, do Decreto-
Lei n.º 142/2008, de 24 de julho, na sua atual redação: “A classificação de uma reserva natural
visa a proteção dos valores naturais existentes, assegurando que as gerações futuras terão
oportunidade de desfrutar e compreender o valor das zonas que permaneceram pouco alteradas
pela atividade humana durante um prolongado período de tempo, e a adoção de medidas
compatíveis com os objetivos da sua classificação, designadamente: a) A execução das ações
necessárias para a manutenção e recuperação das espécies, dos habitats e dos geossítios em
estado de conservação favorável; b) O condicionamento da visitação a um regime que garanta
níveis mínimos de perturbação do ambiente natural; c) A limitação da utilização dos recursos,
assegurando a manutenção dos atributos e das qualidades naturais essenciais da área objeto de
classificação.”

Apresentam-se assim, de seguida, os objetivos específicos da Reserva Natural Local da Foz do


Almargem e do Trafal:

a) Proteger, conservar e valorizar a natureza e a biodiversidade, o território, o património


geológico, arquitetónico, arqueológico (e.g. etnográfico), cultural e paisagístico;
b) Conhecer, conservar e/ou recuperar os ecossistemas e os serviços ecológicos que lhes
estão subjacentes, através da implementação de medidas de adaptação às alterações
climáticas, incluindo o uso sustentável e eficiente dos recursos naturais e a promoção
e disseminação das boas práticas agroflorestais e dos recursos hídricos;
c) Promover e divulgar os valores naturais e culturais presentes na Reserva Natural,
através da criação de estratégias de sensibilização adequadas aos vários públicos e/ou
de polos de atração turística ou de lazer;
d) Promover práticas educativas e científicas que conduzam a uma maior literacia
ambiental e cultura científica, incentivando a participação ativa das comunidades
locais na conservação do território, numa perspetiva de desenvolvimento harmonioso
e sustentável;

10
e) Promover e incentivar a monitorização de espécies e habitats e dos processos
hidrológicos, biofísicos, climáticos, geológicos, ecológicos e socioeconómicos mais
relevantes no contexto da Reserva Natural, visando uma gestão adaptativa fortemente
baseada no conhecimento técnico e científico;
f) Promover o ordenamento do território para que o seu uso seja feito sem prejuízo dos
fins referidos nas alíneas anteriores, tendo em conta os serviços ecológicos associados
ao mosaico de paisagem que caracteriza a área, com destaque para a regulamentação
dos acessos à praia e dos trilhos oficiais para visita da Reserva Natural;
g) Promover o usufruto sustentável do território ao nível turístico, desportivo e de lazer;
h) Promover o restabelecimento, estabilização e proteção do sistema dunar;
i) Contribuir para a substituição gradual de espécies exóticas e/ou invasoras por espécies
indígenas;
j) Fomentar a adoção de boas práticas quer nos habitantes locais (e.g. usos do solo) quer
nos visitantes (e.g. pisoteio, perturbação de espécies, poluição), num contexto de
valorização da paisagem;
k) Fomentar o desenvolvimento económico, social e cultural da região, de forma
equilibrada e sustentada, beneficiando, sempre que possível, as comunidades locais, a
partir de produtos, da prestação de serviços e da geração de novas oportunidades de
trabalho, assim como do seu bem-estar;
l) Promover uma gestão integrada e participativa da área da Reserva Natural.

O município de Loulé acautelará os recursos financeiros, materiais e humanos necessários à


prossecução dos objetivos específicos da Reserva Natural, sendo que os custos a afetar serão
mínimos quando comparados com os benefícios que resultarão da proteção e conservação
desta área nas suas vertentes ambiental, económica e social.

O presente documento visa assim apresentar os fundamentos para a criação de uma Área
Protegida de âmbito local - a Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal - através da
sua caracterização sob os aspetos geológicos, geográficos, biofísicos, paisagísticos e
socioeconómicos. Constituem anexos integrantes do presente relatório a carta de delimitação
da área da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal (1:25 000) (Anexo 11.1) e as
cartas da ocupação do solo (Anexo 11.2) , hidrografia (Anexo 11.3), geologia (Anexo 11.4),
ordenamento do Plano Diretor Municipal (11.5), Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC)
atualizada (Anexo 11.6) e das faixas de gestão de combustível do Plano Municipal da Defesa da
Floresta Contra Incêndios do município de Loulé (Anexo 11.7), à escala de 1:10 000.

11
2. Caracterização do Território
2.1. Enquadramento Geográfico

A área da Reserva Natural Local que aqui se propõe classificar situa-se na freguesia de Quarteira,
onde se localiza a cidade com o mesmo nome, uma das duas cidades que integram os limites do
município de Loulé, concelho que assume uma posição central na região do Algarve, a sul de
Portugal Continental.

Fig.1 - Enquadramento geográfico da área da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal (CML-DSIG, 2021).

Com cerca de 763,67km2 de área e 70.622 habitantes (INE, 2012), Loulé é o maior município
desta região quer em área (cerca de 15,5%) quer em população (cerca de 15,7%), distinguindo-
se no seu território três sub-regiões com características edafo-climáticas muito próprias, são
elas a Serra, o Barrocal e o Litoral, ocupando cada uma, respetivamente e aproximadamente,
45%, 40% e 15% da superfície do concelho (PMAC, 2021).

De acordo com a versão de 2020 da Carta Administrativa Oficial de Portugal (CAOP), da Direção
Geral do Território (DGT), o município de Loulé está dividido por nove freguesias, das quais duas
se localizam, maioritariamente, na sub-região Litoral (Almancil e Quarteira), quatro,
maioritariamente, na sub-região Barrocal (Boliqueime, Loulé - São Sebastião, Loulé - São
Clemente e União de Freguesias de Querença, Tôr e Benafim), duas nas sub-regiões Barrocal e

12
Serra (Alte e Salir) e uma inteiramente integrada na sub-região Serra (Ameixial). A freguesia que
apresenta maior área de superfície no concelho é Salir com cerca de 24,6%, correspondendo a
menor área à freguesia de Quarteira, com cerca de 5% (DGT, 2013 in PMDFCI, 2017). Apesar de
constituir a freguesia de menor dimensão no concelho, Quarteira é a freguesia que apresenta
maior densidade populacional, com 570,62 habitantes/Km2, contrastando com Salir com 14,77
habitantes/Km2, segunda freguesia menos povoada, a seguir ao Ameixial com 3,54
habitantes/km2 (INE, 2012).

Fig.2 - Divisão Administrativa e por sub-regiões (Serra, Barrocal e Litoral), do concelho de Loulé (CML-DSIG, 2021).

Com características tipicamente mediterrânicas, à semelhança dos restantes concelhos que


integram o Distrito de Faro, Loulé possui um clima temperado, com uma estação seca durante
o verão e uma estação chuvosa no inverno, concentrando-se cerca de 80% da precipitação total
anual entre os meses de outubro a março (EMAAC, 2016). As variáveis associadas ao clima como
a temperatura média do ar ou a precipitação podem apresentar variações consideráveis entre
as três sub-regiões que dividem o território, variando a temperatura média anual do concelho
entre os 14,9ºC na Serra e os 17,0ºC no Litoral, com o Barrocal a registar um valor intermédio
de 16,4ºC (PMAC, 2021). No litoral, a proximidade ao oceano confere uma notável moderação
aos regimes diário e anual da temperatura do ar contrastando a temperatura média invernal
(12,9ºC) e a temperatura média máxima de verão (27,2ºC), respetivamente com os 9,0ºC e os
28,5ºC da Serra. Segundo os dados apresentados no Plano Municipal de Ação Climática de Loulé

13
(2021), as áreas menos chuvosas do concelho são também as de posição costeira e de menor
altitude (Litoral) com uma precipitação média anual a rondar os 620 mm em oposição à Serra
(740 mm).

A área proposta a classificar como Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal,
localiza-se assim no limite sudeste da faixa litoral da freguesia de Quarteira, com uma extensão
de 135,4 ha. É limitada a sul pela linha de costa e Rua do Poço Romano, a nascente pelo limite
administrativo da freguesia de Quarteira/Almancil, coincidindo, na sua maioria, com a Ribeira
do Carcavai (de onde se exclui o campo de golfe) até a sua interseção com a Rua do Trafal, a
Poente pela Rua do Poço Romano, articulando a Norte, com os limites do solo urbano, conforme
indicado no Anexo I do presente documento.

Fig.3 – Proposta de delimitação da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal (CML-DSIG
2021 – Anexo 11.1).

Esta área caracteriza-se pela presença da parte terminal do curso de duas linhas de água, a
ribeira da Fonte Santa ou do Almargem e a ribeira do Carcavai, ambas interrompidas por uma
barreira arenosa que origina duas zonas húmidas de dimensão e duração variável, dependendo,
na sua maioria, da pluviosidade anual. Estes planos de água estão interligados por um mosaico
de paisagens diversificado (dunas e arribas, matos, floresta de pinheiro manso, misto de
pomares, culturas de sequeiro e regadio, pastagens naturais e vegetação palustre) essencial à

14
presença das espécies de flora e fauna que caracterizam e que valorizam o património natural,
cultural, económico e social do território.

Para a definição dos limites geográficos da área da Reserva Natural Local consideraram-se os
valores naturais previamente identificados no estudo” Valorização das Zonas Húmidas do
Algarve – Foz do Almargem e do Trafal” (Almargem, 2019), os limites físicos artificiais e/ou
naturais presentes no local (linhas de água; estradas; orla costeira), a dimensão das várias
parcelas no terreno, os limites da freguesia, a classificação do solo no âmbito do Plano Diretor
Municipal de Loulé, a presença de Loteamentos, o cadastro predial experimental, as Medidas
Preventivas (Aviso n.º 4889/2021), entre outros.

Olival. © CML Pastagem natural. © CML

Foz do Almargem. © CML Praia do Almargem. © CML

15
2.2. Caracterização Física

2.2.1 Relevo e Altitude

O relevo e a altitude são variáveis que estão diretamente relacionadas entre si. Ao longo da
história, desempenharam um papel, por vezes determinante, na distribuição da fauna, da flora
e do homem no território, influenciando elementos como o clima, o sistema hídrico, usos do
solo, entre outros. Tal como anteriormente mencionado o relevo do Algarve é marcado pela
existência de três sub-regiões com diferenças edafo-climáticas, sendo que, de uma forma geral,
se verifica um crescimento progressivo altimétrico de Sul para Norte, ou seja, do Litoral para a
Serra correspondendo as altitudes mais elevadas à Serra do Caldeirão, a Norte e Nordeste do
concelho (PMDFCI, 2017). Na região do Litoral predominam altitudes inferiores a 75 metros, no
Barrocal, entre os 75 e os 300 metros e na Serra altitudes superiores a 300 metros (PMDFCI,
2017).

2.2.2 Declives

O declive é uma variável geofísica que influencia as aptidões do território constituindo, a par de
todas as características físicas, uma condicionante ambiental.
Segundo os Estudos de Caracterização e Diagnóstico elaborados no âmbito da revisão do PDM
de Loulé (ECD) e tal como seria de esperar, os declives tornam-se progressivamente mais
acentuados com a altitude, correspondendo os maiores declives à Serra (15% a 30%), com
exceção das áreas relativamente mais planas associadas ao fundo dos vales. O Litoral é
caracterizado por apresentar um território maioritariamente plano onde predominam os
declives até aos 2%, aumentando gradualmente no Barrocal, com um relevo moderadamente
acidentado, entre os 2 e os 15%. Para a análise de declives efetuada no estudo acima referido
foram definidas seis classes: 0-2, 2-5, 5-8, 8-15,15-30 e >30%.

2.2.3 Exposição Solar

A exposição da superfície do território aos quadrantes geográficos (norte, sul, este e oeste)
possibilita a existência de diferentes microclimas que influenciam a aptidão dos solos e
respetivos usos bem como a sua colonização por diferentes espécies de flora e fauna.
Segundo o Plano Municipal de Defesa da Floresta contra Incêndios do concelho de Loulé (2017)
não existe uma predominância clara de qualquer exposição devido ao modelar ondulado
provocado pela presença de barrancos. O Barrocal, por sua vez, apresenta uma predominância

16
pelas encostas expostas a Sul e áreas sem exposição correspondentes aos topos das elevações.
No Litoral, à semelhança da hipsometria e declive, predominam as áreas sem exposição face à
predominância de áreas planas.

2.2.4 Hidrografia

A água ou a falta dela, bem como a sua gestão, têm sido temas muito abordados nos últimos
anos em todo o país. Numa região de características climáticas mediterrânicas, como é o caso
do Algarve, as previsões de especialistas apontam por um lado para o agravamento das
condições de aridez, e por outro para a frequência de fenómenos de precipitação intensa num
curto período de tempo, consequência das alterações climáticas que afetam toda a organização
territorial tal como a conhecemos bem como as interações entre os organismos e a sua relação
com o meio, dinâmicas que comummente caracterizam os ecossistemas.
Para além desta agravante os sistemas fluviais estão sujeitos a instabilidades associadas à
modificação contínua das suas características físicas, e em particular da sua geometria, em
consequência da ação do escoamento e do Homem. Essas consequências são a erosão,
transporte e deposição dos sedimentos, resistência aos escoamentos fluviais e o
condicionamento das situações de cheias, secas e poluição a que estão frequentemente
associados impactes económicos, sociais e ambientais significativos (PDMFCI, 2017).

A geomorfologia que caracteriza a região do Algarve permite que a hidrografia se apresente sob
duas formas distintas: superficial e subterrânea. Os cursos de água superficiais predominam na
Serra e os subterrâneos no Barrocal e Litoral, armazenando-se a água em aquíferos cársicos.

Os recursos hídricos superficiais do município de Loulé estão inseridos em duas bacias


hidrográficas principais: Ribeiras do Algarve (RH8), que abrange 71,8% da área do município, e
Ribeira do Guadiana (RH7), que abrange a restante área (EMAAC, 2016). As linhas de água
pertencentes à bacia do Guadiana desenvolvem-se na extremidade mais a Norte do concelho,
nascendo na Serra do Caldeirão e correndo predominantemente para Norte, constituindo
afluentes da margem direita do rio Guadiana. As linhas de água da bacia hidrográfica das Ribeiras
do Algarve dividem-se em dois grupos, as de maior dimensão, que nascem na serra do Caldeirão
e têm um desenvolvimento predominante de nascente para poente antes de infletirem para Sul
em direção ao mar, e as de menor dimensão, que nascem na cumeada a Sul de Algibre e que se
desenvolvem predominantemente de Norte para Sul, em direção à linha de costa (PDMFCI,
2017).

17
A área da Reserva Natural da Foz do Almargem e do Trafal é atravessada por duas ribeiras, a
ribeira da Fonte Santa ou do Almargem que tem a sua origem, provável, no sítio da Cascalheira,
percorrendo cerca de 5,5 km até à foz e a ribeira do Carcavai com origem no cerro da Cabeça
Gorda (Barrocal), com cerca de 19 km de extensão, pertencendo ambas à região hidrográfica
das Ribeiras do Algarve (RH8). As respetivas fozes são responsáveis pelas zonas húmidas que
caracterizam a área, cuja dimensão e duração depende, na sua maioria, da pluviosidade anual.
As bacias hidrográficas das ribeiras da Fonte Santa e Carcavai ocupam uma área total de 74 km2,
a primeira com 11 km2 e a segunda com 63 km2 (Almargem, 2017).

Fig.4 - Carta hidrográfica da área da Reserva Natural da Foz do Almargem e do Trafal (CML-DSIG, 2021 – Anexo
11.3).

18
o Ribeira da Fonte Santa

Segundo a publicação “Cadoiço e Foz do Almargem” elaborada pela Associação Almargem no


âmbito do projeto REASE (Rede de Educação Ambiental para os Serviços dos Ecossistemas -
2017), documento usado para a descrição que se segue das duas ribeiras, embora esta ribeira
derive o seu nome da localização, no seu terço inferior, da famosa Fonte Santa, possui ainda
um ramo importante mais a jusante que atravessa o antigo sítio do Almargem, integrado hoje
nos arrabaldes da extremidade nordeste da cidade de Quarteira, de onde advém a outra
designação de ribeira do Almargem, que comummente lhe é atribuída, sobretudo à lagoa
litoral onde desagua, conhecida por Foz do Almargem.
Esta ribeira possui um caudal intermitente, em muitos locais apenas percetíveis em épocas de
chuva forte e continuada, altura em que podem aqui ocorrer grandes enxurradas e inundações,
como as que ocorreram em finais de 2015 (Almargem, 2017).

Destaca-se pela sua importância histórica a Fonte Santa, localizada perto da estrada Almancil-
Quarteira, que durante muitos anos foi a única nascente capaz de alterar naturalmente as
características do curso de água temporário. Com águas hipossalinas e bicarbonatadas, a fonte
que alimentava uma charca, foi usada desde tempos antigos para banhos terapêuticos
(reumatismo, doenças de pele) e lavagem de roupa. Já nos finais do séc. XX, a fonte foi perdendo
caudal devido à proliferação de construções e furos de captação de água na zona circundante,
encontrando-se hoje abandonada. Estas águas contribuíam para manter o nível da ribeira e da
lagoa do Almargem onde, através de uma levada, forneciam a energia necessária ao
funcionamento de duas azenhas situadas na sua margem esquerda (Almargem, 2017).

A Lagoa da Foz do Almargem é o que resta de um pequeno estuário, existente, pelo menos, até
ao período romano e que, pouco a pouco, foi sendo colmatado por areias e aluviões fluviais.
Uma vez cheia, o comprimento da lagoa atinge os 830 metros, com uma largura máxima de 185
metros e uma profundidade que nunca ultrapassa os 5 metros. A porção terminal sul é
constituída por uma barreira arenosa relativamente elevada e com uma largura de cerca de 50
metros. Apesar de tudo, em situações de marés vivas ou tempestades marítimas, podem ocorrer
galgamentos oceânicos, rompendo a barreira arenosa e possibilitando a renovação parcial da
massa de água lagunar, procedendo-se, por vezes, à abertura artificial da barra. Por este motivo
e pela redução significativa do caudal anual da ribeira, as águas da lagoa são salobras (salinidade
entre 3 e 12 g/kg, respetivamente na época húmida e seca), com uma qualidade da água
geralmente aceitável, exceto no que respeita ao aumento significativo de coliformes após as
primeiras grandes chuvadas, devido aos efluentes descarregados e acumulados ao longo da
bacia hidrográfica (Almargem, 2017)

19
Fig.5 - Rede Hidrográfica da Ribeira da Fonte Santa (adaptado de REASE - Almargem, 2017).

20
o Ribeira do Carcavai

Na publicação de 2017 “Cadoiço e Foz do Almargem” podemos ler que o nome desta ribeira tem
variado ao longo dos anos nos mapas topográficos, sendo inicialmente designada por Carcava
e, mais recentemente, por Carcavai. Na zona de Loulé, cidade atravessada por um dos ramos da
ribeira, ela é conhecida por Cadouço ou Cadoiço, referindo-se estes termos a canais, pegos ou
covas abertos por águas revoltas nas rochas do leito de uma ribeira.

A metade inferior da bacia hidrográfica, correspondendo essencialmente a terrenos arenosos e


cascalhentos do Litoral, é caracterizada por uma densa rede de linhas de água. Na metade
superior predominam os terrenos calcários do Barrocal onde a densidade de linhas de água é
menor.

Pode-se considerar que a ribeira possui dois ramos principais que confluem na zona da
Franqueada. O ramo mais a poente inclui as ribeiras de Vale da Rosa e de Alfeição, enquanto
para nascente se localiza a Ribeira do Cadoiço, sendo este o ramo mais extenso. Popularmente,
a origem desta ribeira é atribuída ao Olho de Água, exsurgência de carácter intermitente situada
a nordeste de Loulé, na zona do Paixanito. Na verdade, o volume do caudal da ribeira só
aumenta muito significativamente quando esta nascente rebenta, o que apenas sucede após
um período de chuvas intensas. Contudo, a Ribeira do Cadoiço tem a sua verdadeira origem no
Cerro da Cabeça Gorda, concretamente no barranco mais a poente que nasce a 340 m de
altitude (Almargem, 2017)

Para além do Olho de Água do Paixanito, diversas outras nascentes surgem dentro desta bacia
hidrográfica, destacando-se desde logo a existência de várias nascentes no interior do atual
casco urbano de Loulé, o que permite a manutenção do caudal da Ribeira do Cadoiço, mesmo
em anos de seca extrema como aconteceu em 2017. Uma destas nascentes, situada sob a zona
da Praça da República, alimenta a Fonte das Bicas Velhas, a partir da qual se origina o chamado
Talvegue d’el-Rei, o primeiro afluente da margem direita do Cadoiço a jusante da cidade. A
nascente mais célebre, de águas possivelmente provenientes da zona sudeste de Loulé, é a
Fonte do Cadoiço, exsurgência natural situada junto à entrada sul da cidade e que deu o seu
nome à ribeira que a atravessa. Na zona nordeste, situa-se a bem conhecida Fonte da Cássima.
Ao longo do resto da bacia hidrográfica surgem outras nascentes e fontes como por exemplo a
Nora dos Velhos e o Poço Geraldo, no ramo da Ribeira de Alfeição, a Fonte da Alface, no ramo
da Ribeira de Vale da Rosa, a nascente da Goncinha, cujas águas alimentavam as azenhas aí
existentes, ou a Fonte Coberta, já no troço final da Ribeira de Carcavai.

21
Para além dos efluentes agrícolas e rurais descarregados ao longo de toda a bacia hidrográfica,
na cidade de Loulé subsistem ainda episódios de contaminação por efluentes domésticos. Há
ainda a sublinhar que duas importantes ETARs, apoiadas por diversas estações elevatórias,
funcionam junto desta ribeira, para aí vertendo os seus efluentes. A ETAR de Loulé situa-se na
Ribeira do Cadoiço, junto da confluência das linhas de água do Talvegue d’el-Rei e da Goncinha.
A ETAR de Vale de Lobo encontra-se no Trafal, a uma centena de metros da foz da Ribeira de
Carcavai, constituindo uma importante fonte de alimentação de água à zona húmida. Ambas as
instalações apresentam um nível de tratamento muito razoável, acima do secundário, mas com
episódios pontuais de contaminação das águas, sobretudo em épocas de excesso de
precipitação ou de efluentes a tratar.

22
Fig.6 - Rede Hidrográfica da Ribeira de Carcavai (adaptado de REASE - Almargem, 2017).

23
3. Caracterização Climática

A análise do clima de um dado território requer, por norma, longas séries de observações
consecutivas (pelo menos com 30 anos) de vários parâmetros que em climatologia se podem
denominar por meteoros, tais como precipitação, humidade, temperatura, vento, entre outros
(PMDFCI, 2017).

Para a caracterização climática do concelho teve-se em conta o período correspondente à


Normal Climatológica 1971-2000, com a análise das tendências da evolução recente dos diversos
parâmetros climáticos entre 1971 e 2017, metodologia adotada no Plano Municipal de Ação
Climática de Loulé (2021).

O clima do concelho de Loulé tal como se pode ler no seu Plano Municipal de Ação Climática,
apresenta características típicas do Clima Mediterrâneo (Csa, na classificação de Kõppen-Geiger)
ou seja, um tipo climático temperado (mesotérmico) com um inverno chuvoso e um verão
quente e seco. As variações detetadas nos parâmetros estudados coincidem maioritariamente
com a sua divisão em 3 sub-regiões que constituem unidades morfoclimáticas locais (no sentido
sul-norte): Litoral, Barrocal e Serra.

A proximidade ao oceano, a altitude e a posição topográfica são os três principais fatores que
condicionam o comportamento da temperatura do ar, verificando-se um aumento dos
contrastes térmicos estacionais e um incremento na diversidade espacial dos parâmetros da
temperatura no sentido sul-norte (PMAC, 2021).

No mesmo documento, pode ler-se que “No litoral, a proximidade ao oceano confere uma
notável moderação aos regimes diário e anual da temperatura do ar, apresentando
características térmicas claramente distintas das áreas mais interiores do concelho. No Barrocal,
onde o relevo se organiza numa alternância de planaltos com vales e depressões que se alongam
de W para E, a posição topográfica constitui um fator climático decisivo, determinando a
acentuação, tanto das condições de frio invernal como das de calor estival, especialmente nos
locais, mais deprimidos e abrigados. Na passagem do Barrocal para a Serra, em função do
aumento significativo da altitude, verifica-se uma diminuição geral dos valores dos parâmetros
térmicos.”

24
Segundo os parâmetros climáticos disponíveis entre 1971 e 2000, a temperatura média anual
do concelho varia entre os 14,9ºC na Serra e os 17,0ºC no Litoral, com o Barrocal a registar um
valor intermédio (16,4ºC).
O inverno é tendencialmente mais temperado na área costeira, com as temperaturas médias a
rondar os 12,1ºC e mais fresco na Serra, com a temperatura média a atingir os 9,0ºC. Os valores
médios no Barrocal são intermédios relativamente aos da Serra e do Litoral. O verão, por sua
vez, é quente, com as temperaturas médias a variar entre os 24,1 e os 25,9ºC nos meses mais
quentes (julho e agosto). Contudo, é mais fresco na sua faixa litoral, pelo efeito amenizador do
mar na temperatura do ar, e também na Serra, em resultado do incremento altitudinal,
atingindo, respetivamente, 28,5 e 27,2ºC de temperatura média máxima. O Barrocal destaca-se
pelas condições de calor mais acentuadas, com a média estacional das máximas a rondar os
30ºC.
Usando a mesma sequência de dados (1971 a 2000) e no que diz respeito à distribuição da
precipitação ao longo do ano e num contexto nacional, Loulé apresenta quantitativos de
precipitação média anual baixos, com cerca de 620 mm nas áreas litorais (de menor altitude),
superando ligeiramente os 700 mm no Barrocal, e alcançando os valores mais elevados na Serra,
iguais ou superiores a 740 mm. É durante o inverno, nos meses de dezembro a março, que se
regista o maior volume de precipitação total, enquanto os quantitativos de outono superam, de
forma muito ligeira, os de primavera (PMAC, 2021). Entre 1971 e 2003, registaram-se 8 eventos
de seca na Serra, 9 no Litoral e 10 no Barrocal. Destes eventos de seca, 4 ocorreram com
severidade severa ou extrema no Litoral e no Barrocal, enquanto na Serra, apenas foram
identificados 2 eventos com esta intensidade (PMAC, 2021).

Relativamente ao regime anual do vento em Loulé e segundo o Plano Municipal de Ação


Climática (2021) que teve como base os registos horários de vento da estação meteorológica de
Loulé – Aeródromo para o período de 2010-2017, verifica-se um significativo contraste entre o
inverno e o verão, quer em termos de direção quer em velocidade média. É no verão, entre os
meses de julho e setembro, que a velocidade média do vento é mais elevada, atingindo
aproximadamente 3,0 m/s, com domínio dos ventos de Norte, mas verificando-se também um
notório aumento de frequência dos ventos do rumo Sudoeste. No inverno, entre outubro e
janeiro, os ventos apresentam uma velocidade média mais baixa, aproximadamente de 2,0 m/s,
onde predominam os ventos de Este, seguindo-se os rumos Leste-nordeste e Leste-sudeste em
termos de frequência. Nos restantes meses do ano o regime é muito variável em termos de
direção, não sobressaindo nenhum rumo como dominante. Os ventos de Sul sopram muito
raramente neste local, qualquer que seja o mês considerado.

25
A análise das tendências recentes (período 1971-2000) do comportamento das diversas
variáveis climáticas no concelho de Loulé evidencia um aumento significativo de algumas das
variáveis: temperatura média anual (+0,4ºC/década no concelho, com o Litoral, onde se localiza
a RNL, a registar +0,59°C/década na primavera, +0,61°C/década no verão e +0,31°C/década no
outono); temperatura máxima anual (+0,49°C/década no concelho, com o Litoral a registar
+0,68°C/década na primavera e +0,88°C/década no verão); temperatura mínima anual
(+0,50°C/década no Litoral, com +0,73°C/década na primavera e +0,73°C/década no outono);
n.º de dias muito quentes no verão (+1,5 dias/década no Litoral); n.º de dias de verão (+8
dias/década no concelho, os quais, no Litoral, ocorrem sobretudo na primavera) (PMAC, 2021.)

Os cenários de evolução climática para Portugal até ao final do séc. XXI apontam para o
agravamento da frequência e intensidade dos eventos climáticos extremos e do aumento da
suscetibilidade à desertificação, com a seca a constituir um dos eventos climáticos extremos que
mais deverá afetar o concelho de Loulé́ no futuro. (PMAC, 2021).

26
4. Caracterização da Paisagem
Segundo a Convenção Europeia da Paisagem (2000) a “Paisagem” designa uma parte do
território, tal como é apreendida pelas populações, cujo carácter resulta da ação e da interação
de fatores naturais e/ou humanos”. Distingue-se ainda o importante papel que desempenha
através de funções de interesse público nos campos cultural, ecológico, ambiental e social,
sendo que, mediante os valores naturais que comporta, as paisagens são cada vez mais “usadas”
como terapias que promovem a saúde e o bem-estar humano.

A paisagem é assim um testemunho fundamental para o entendimento do património histórico


e cultural da nossa sociedade, tendo o Litoral desempenhado um papel preponderante na
fixação dos povos no concelho de Loulé, na sua prosperidade e riqueza. Desde os tempos
romanos que o Litoral é referenciado como uma zona propícia ao comércio marítimo
(exportação de excedentes agropecuários e venda de recursos do mar), à produção de azeite, à
tinturaria e à extração de sal, elemento fundamental na transformação, conserva e transporte
de peixe (Almargem, 2021), sendo o “Loulé Velho”, sítio incontornável no panorama do domínio
romano do litoral algarvio, prova irrefutável desses tempos. Tratava-se de uma luxuosa villa
romana associada à presença de um lagar e abundantes cetárias (tanques de salga de peixe e
produção de garum), para além de sepulturas e uma capela paleocristã que, dada a sua
localização geográfica, teria funcionado como polo aglutinador de população, com a capacidade
de gerar atividades económicas que proporcionaram a sua contínua ocupação (Almargem,
2017). Esta estacão tem vindo a desaparecer de forma progressiva devido à erosão costeira, com
particular aceleração desde a década de 1970. Pouco parece restar da parte habitacional e
industrial do sitio, mas conserva-se ainda a sua importante necrópole (cemitério), com
comprovado uso pelo menos entre os séculos III a VI/VII d. C., bem como outras áreas e vestígios
cuja função desconhecemos (Almeida, Viegas 2020), preservados na área de domínio marítimo
e na abrangida pela presente proposta de proteção. Esta zona costeira comportaria ainda os
terrenos mais férteis do concelho para a produção de searas (cultura de trigo e cevada), bem
tão necessário à dieta mediterrânica como escasso (Almargem, 2021). Durante muitos anos,
Quarteira esteve intrinsecamente ligada às artes piscatórias, onde as populações do interior
rumavam pontualmente para banhos terapêuticos, transformando-se mais tarde num polo de
atração ao turismo de sol e lazer. O Forte Novo, também conhecido por Forte da Armação,
devido à existência na zona de uma antiga armação de atum, é outra evidência da ocupação
humana e importância da vigilância na defesa do território e das suas populações. Terá sido
construído no séc. XVI e remodelado várias vezes ao longo dos anos, até que, no séc. XX, chegou
a albergar um posto da Guarda Fiscal. Em meados dos anos 70, a erosão costeira galopante levou

27
ao abandono do forte e à sua derrocada poucos anos mais tarde. Os únicos vestígios existentes
já só podem ser avistados debaixo de água, a cerca de 80 metros da atual base da arriba
(Almargem, 2017). Com cerca de 75% da população nacional sediada na zona de costa (APA,
2017) onde as principais áreas urbanas e de turismo intensivo têm lugar é urgente encontrar um
equilíbrio entre os recursos naturais e as atividades económicas, garantindo assim a proteção
do património natural, cultural e da vida humana.

Na área da Reserva Natural Local é possível ainda observar na zona da foz do Almargem e do
Trafal um sistema de diques e canais de distribuição de água com comportas, outrora usados na
agricultura, atestando a intensa antropização do passado. Por toda a área da Reserva são visíveis
antigas noras e aquedutos que transportavam a água para as várias parcelas de terra e que
permitiam a subsistência dos que da agricultura dependiam.

A Paisagem da Reserva Natural Local é assim enriquecida pela água das duas ribeiras que lá
desaguam e pelo mar que se avista no horizonte. A zona costeira é composta por cordões
dunares, arribas e uma mancha de matos mediterrânicos a oeste da foz do Carcavai. Ambas as
zonas húmidas apresentam amplas manchas de vegetação palustre, nomeadamente juncais e
caniçais, assim como áreas de lagoa costeira a sul, dependendo da disponibilidade de água.
Entre estas duas áreas existe uma extensa zona de pinhal manso, assim como antigos pomares
de sequeiro e citrinos, zonas de matos, pastagens naturais e algumas hortas.

A Foz do Almargem em si consiste numa lagoa costeira ampla e funda na sua parte sul, cuja
extensão varia consoante a disponibilidade de água. Esta não tem um carácter permanente
estável, podendo mesmo ficar seca durante os meses de verão. É, no entanto, na área da
Reserva o local com maior capacidade de retenção de água doce. A norte da área onde a água
persiste mais tempo, existe toda uma área de juncal, cujo grau de alagamento depende
igualmente da disponibilidade de água, podendo existir pequenas lagoas entre a vegetação
palustre. Ao longo da ribeira que alimenta a zona húmida (a este), existe uma fina, mas extensa
mancha de caniçal, ladeada por uma extensa mancha de pinhal manso, que se estende e se
alarga para norte da área de juncal (Almargem, 2019).

A zona do Trafal apresenta um mosaico de habitats mais complexo que a Foz do Almargem.
Dependendo da disponibilidade de água doce, formam-se algumas lagoas costeiras de reduzida
dimensão na parte sul da área, sendo a que se encontra no extremo sudoeste da mesma, a que
apresenta uma maior capacidade de retenção de água, contudo, menos ampla e funda que a da
Foz do Almargem (Almargem, 2019). Ao longo do troço final da ribeira do Carcavai, existe uma
mancha de caniçal, assim como numa área diretamente a norte da lagoa costeira principal. Um

28
amplo juncal em locais onde valas alimentaram antigas hortas complementa a zona húmida na
maioria da sua extensão para norte. Este habitat poderá alagar, dependendo da disponibilidade
de água.

Considera-se que a paisagem é, em parte, um espelho do ordenamento do território que pode


ser moldado através de instrumentos de gestão territorial, onde o Plano Diretor Municipal tem
um papel preponderante, nomeadamente no que concerne à classificação e qualificação do
solo.

Apresenta-se de seguida a caracterização da ocupação do solo (PDM e COS2018) para a área da


Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal bem como a sua integração no Sistema
de Gestão Territorial.

4.1 Ocupação do Solo

Segundo os estudos de diagnóstico do Plano Municipal de Defesa da Floresta contra Incêndios


do concelho de Loulé (2017) e para uma área de território com, aproximadamente, 76.367 ha,
a floresta é a ocupação do solo dominante no concelho de Loulé, com cerca de 29.890 ha (39%),
apresentando maior expressividade nas freguesias de Salir (11.829 ha), Ameixial (7.744 ha) e
Alte (4,735 ha). Segue-se a ocupação por incultos, onde se incluem os matos e as pastagens
espontâneas, com 21.898 ha, representando cerca de 29% da área total do concelho, com maior
representatividade nas freguesias de Salir (4.614 ha) e União de Freguesias de Querença, Tôr e
Benafim (4.159 ha). As áreas agrícolas com cerca de 17.240 ha (23%) em todo o concelho,
apresentam valores mais elevados na União de Freguesias de Querença, Tôr e Benafim, com
3.192 ha, seguindo-se as freguesias de São Sebastião (Loulé), com 2.678 ha e Boliqueime com
2.563 ha, enquanto que as áreas urbanas ocupam cerca de 7,4% da área total do concelho (5.663
ha), com valores muito significativas de 1.779 ha e 1.640 ha, para as freguesias de Almancil e
Quarteira, respetivamente.

29
Águas interiores e Matos e
Freguesias Agricultura Floresta Improdutivos Urbano
Zonas Húmidas Pastagens

Almancil 1.270 625 1.690 102 701 1.179


Alte 2.038 5 4.735 0 2.551 104
Ameixial 462 70 7.744 0 3.959 71
Boliqueime 2.563 12 218 55 1.255 518
Quarteira 971 98 611 31 402 1.640
Salir 2.052 13 11.829 0 4.614 259
São Clemente 2.014 0 244 109 1.644 606
São Sebastião 2.678 1 304 146 2.613 527
UF de Querença, Tôr e 3.192 106 2.515 86 4.159 159
Benafim
Total 17.240 930 29.890 529 21.898 5.663
Fig.7 - Ocupação do Solo (ha) no concelho de Loulé (adaptado de PMDFCI, 2017).

É possível concluir pela tabela acima apresentada que o município de Loulé apresenta uma área
de espaços florestais (floresta e incultos) muito significativa, ocupando cerca de 68% da área
total do município (51.788ha), sendo que na freguesia de Quarteira, a classificação do solo
dominante é o solo urbano, com 1640 ha (43%), seguido da área agrícola, com 971 ha (25,45%),
área de floresta, com 611 ha (16%) e águas interiores e zonas húmidas a ocupar os 98 ha (2,6%).
Note-se que a zona húmida do Trafal, integrada na área protegida a classificar como Reserva
Natural Local não está classificada nas Cartas de Uso e Ocupação do Solo (COS), produzidas pela
Direção-Geral do Território (DGT) como zona húmida, mas sim como pastagens.

Relativamente aos povoamentos florestais, a espécie dominante, no concelho de Loulé, é o


sobreiro, ocupando uma área de cerca de 19.668 ha (65,8%) da superfície florestal total do
concelho, com as principais manchas a localizarem-se maioritariamente na zona da Serra e parte
Norte do Barrocal. Distribuem-se ainda por estas duas sub-regiões os principais povoamentos
de “novas plantações” (povoamentos puros de sobreiro, azinheira, pinheiro manso, pinheiro
bravo, eucalipto, pinheiro de Alepo e medronheiro e respetivos povoamentos mistos),
totalizando cerca de 3.134 ha, o que corresponde a 10,5% da superfície florestal total.

Os povoamentos de pinheiro manso (2.184 ha) correspondem a cerca de 7,3% da superfície total
do concelho ocupada por floresta e localizam-se, preferencialmente, no Litoral, servindo de
proteção ao sistema dunar, nas freguesias de Almancil com 1.405 ha e de Quarteira com 411 ha.
Esta espécie tem uma ocupação expressiva na freguesia de Quarteira, correspondendo a 67%
da superfície florestal, com destaque na paisagem da área da Reserva Natural Local da Foz do
Almargem e do Trafal.

30
Apesar da reformulação que se verificou necessária com vista à produção da COS2018, tendo
esta passado a incluir 83 classes (mais 35 classes do que a anterior COS2015), com níveis de
desagregação reajustados e alterações na designação de algumas classes e densificação de
algumas definições (DGT, 2019), não permitindo por isso fazer comparações diretas com os
documentos estratégicos do município de Loulé usados no presente documento para efeitos de
análise da área da Reserva Natural (e.g. Estudos de Caracterização e Diagnóstico no âmbito da
Revisão do Plano Diretor Municipal de Loulé (2009/2013); Plano Municipal de Defesa da Floresta
Contra Incêndios de Loulé (2017), entre outros), as diferenças, não aparentam ser significativas,
mantendo-se a predominância no concelho da área florestal, seguida por incultos, área agrícola
e urbana. Da análise superficial da COS2018 para o concelho de Loulé verifica-se uma ligeira
descida na área ocupada por Floresta (classes: Floresta e Superfícies agroflorestais – 29.457 ha)
e na área ocupada por Incultos (classes: matos e pastagens – 21.194 ha), e um ligeiro aumento
na percentagem da área agrícola, com 18.345 ha (24%) e da área urbana, agora com 6.263 ha
(8,2%).
Apresenta-se de seguida a carta de ocupação do solo para a área da Reserva Natural Local da
Foz do Almargem e do Trafal com base na Carta de Uso e Ocupação do Solo (COS) para 2018 da
Direção-Geral do Território (DGT), atualizada.

Fig.8 - Carta de Ocupação do Solo da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal (CML-DSIG, 2021 – Anexo
11.2).

31
A COS é uma cartografia de polígonos, que representam unidades de ocupação/uso do solo
homogéneas. Entende-se por unidade de ocupação/uso do solo qualquer área de terreno
superior ou igual à unidade mínima cartográfica definida (1 ha) com distância entre linhas
superior ou igual a 20 m cuja percentagem de uma determinada classe de ocupação/uso do solo
seja superior ou igual a 75% da totalidade da área delimitada (Caetano et al., 2010 in DGT, 2019).
Desta forma, apesar de um polígono apresentar uma determinada ocupação/uso do solo não
quer dizer que na mesma área não possam ocorrer outras ocupações que representem menos
de 25% do polígono gerado. Assim a leitura desta carta deve ser feita com a cautela e o
discernimento necessários tendo em consideração que a cartografia gerada se aplica a todo o
país não correspondendo muitas vezes, na totalidade, à realidade do território à escala local.

Da leitura da carta de ocupação do solo acima apresentada, verifica-se que a área da Reserva
Natural é composta por um mosaico de parcelas heterogéneo, com áreas florestadas (38,99 ha),
pastagens naturais (32,64 ha), massas de água superficiais (32,16 ha), agricultura (17,93 ha),
matos (6,27 ha), espaços descobertos ou com pouca vegetação (5,68 ha) e uma pequena parte
do território artificializada (1,75 ha). Após visita da Divisão de Ambiente, no dia 25 de maio de
2021, à área da Reserva Natural Local para validação in loco da classificação dos Usos do Solo
gerada pela COS 2018, constatou-se que a área total das massas de água no local estaria
subdimensionada, não apenas pela percentagem de superfície do território coberto por água
como também pela dimensão das manchas de vegetação palustre (e.g. manchas de caniçal e
juncal), vegetação característica de zonas húmidas, ocupando uma área de 32,16 ha (23,7%).
As áreas de florestas são compostas maioritariamente por pinheiro manso (coberto > 50%) com
algumas manchas de matos no seu subcoberto, ocupando quase 30% da área da Reserva,
seguindo-se as áreas de pastagem espontânea, com aproximadamente 24% do território. A área
agrícola identificada a norte da foz do Almargem estende-se agora um pouco mais para sul
correspondendo a hortícolas enquanto que as restantes manchas se caracterizam por pomares
de sequeiro (oliveiras, figueiras e alfarrobeiras) e citrinos, aparentemente abandonados. Os
matos que ocorrem na área são pobres e pouco desenvolvidos com exceção da mancha de
matos mediterrâneos que se localiza no limite sudeste da RNL, classificada pela COS 2018, como
Floresta, correspondendo os espaços descobertos ou com pouca vegetação a zonas de praia,
dunas, arribas e solos sem cobertura vegetal.

Segundo os Estudos de Caracterização e Diagnóstico elaborados no âmbito da revisão do PDM


de Loulé (2013), a maior parte dos solos do concelho apresentam uma baixa capacidade de uso
agrícola, incluindo-se 78% dos solos nas classes D e E, solos considerados sem aptidão agrícola,

32
com apenas 14% dos solos classificados com boa aptidão para uso agrícola (classes A e B). Em
termos gerais, pode dizer-se que a aptidão agrícola dos solos diminui com a distância à costa,
sendo que a freguesia do Ameixial, que fica mais a norte, tem 99% da área na classe E, enquanto
as freguesias mais próximas do litoral têm 1/3 ou mais dos solos com boa aptidão agrícola.
Destaca-se a freguesia de Quarteira, com a maior área de solos classificados com a melhor
aptidão, correspondendo cerca de 24,5% a solos de classe A.

Apresenta-se de seguida a área da Reserva Agrícola Nacional (RAN) em vigor para o concelho de
Loulé, aprovada no âmbito da publicação do Plano Diretor Municipal de Loulé pela RCM n.º
81/95, de 24 de agosto, alterado, parcialmente ratificado e publicado pela RCM n.º 66/2004, de
26 de maio, de acordo com a Carta de capacidade de uso do solo (DGADR-MADRP).

Fig.9 - Carta de capacidade de uso do solo e área RAN na Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal (adaptado de ECD,
2009).

Verifica-se pela carta acima apresentada que as áreas RAN na Reserva Natural Local da Foz do
Almargem e do Trafal se restringem às zonas húmidas e/ou às áreas envolventes,
correspondendo as classificações A e B, solos com melhor aptidão agrícola, respetivamente à
zona húmida do Trafal, influenciada diretamente pela ribeira do Carcavai, e à ribeira do
Almargem.

Ainda no âmbito dos Estudos de Caracterização e Diagnóstico elaborados no âmbito da revisão


do PDM de Loulé e segundo a Planta de Ordenamento em Vigor para o concelho (fig.10), que se
apresenta de seguida, verifica-se que na área da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e
do Trafal as áreas identificadas na figura 8 como Floresta estão classificadas como áreas de

33
proteção, as áreas inundáveis (a norte da lagoa da foz do Almargem) e contíguas às linhas de
água como áreas de agricultura condicionada II, a metade oeste do Trafal como Reserva Agrícola
Nacional e as zonas de praia, dunas, arribas e áreas marginais da lagoa do Almargem como áreas
de Reserva Ecológica Nacional.

Fig.10 – Planta de ordenamento em vigor: qualificação do solo rural (adaptado de ECD, 2009).

4.2 Ordenamento e Gestão do Território

A área que se propõe aqui classificar localiza-se na linha de costa, zona do território onde a
pressão humana tem tido um impacto significativo na alteração da paisagem e na modelação
biofísica do território, devendo, por este motivo, promover-se uma gestão integrada, articulada
e concertada com os objetivos e medidas apresentados nos vários planos, programas e
estratégias de âmbito local, regional e nacional e que visam a proteção, uso e valorização desta
área. Destacam-se de seguida os planos de âmbito regional, mais importantes, com
abrangência na área da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal: o Plano Diretor
Municipal (PDM), o Plano de Gestão da Região Hidrográfica das Ribeiras do Algarve (RH8 – 2º
ciclo), aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 52/2016, de 20 de setembro,
retificada e republicada pela Declaração de Retificação n.º 22-B/2016, de 18 de novembro e o
Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve (PROT Algarve), aprovado pela
Resolução do Conselho de Ministros n.º 102/2007, de 3 de agosto, tendo sido objeto de uma
retificação publicada no Diário da República – Declaração de Retificação n.º 85-C/2007, de 2 de
outubro.

34
Em fevereiro de 2019, foi aprovado, em Assembleia Municipal, o estabelecimento de medidas
preventivas e a subsequente suspensão da eficácia do Plano Diretor Municipal de Loulé numa
área territorial que abrange a área que se pretende classificar (Aviso nº 4770/2019, publicado
no Diário da República, 2.ª série, n.º 56, de 20 de março, prazo que foi prorrogado pelo Aviso
n.º 4889/2021, publicado no Diário da República, 2.ª série, n.º 48, de 17 de março). Esta decisão
assentou na constatação de um conjunto de fragilidades ambientais, que importava minimizar
no âmbito da revisão do Plano Diretor Municipal, tendo em consideração o atual regime de uso
do solo previsto no PDM para aquela área, face às opções estratégicas municipais, vertidas em
estudos e projetos em curso, em particular na revisão do PDM de Loulé, no Relatório sobre o
Estado do Ordenamento do Território (REOT) e na Estratégia Municipal de Adaptação às
Alterações Climáticas (EMAAC). Diz-nos o Aviso nº 4770/2019, recentemente prorrogado pelo
Aviso n.º 4889/2021, que perante a sensibilidade biofísica da área em causa, decorrente da
influência de uma zona húmida (Almargem/Trafal), o regime do uso do solo colocava em causa
a minimização dos impactes resultantes das alterações climáticas e respetiva salvaguarda da
prossecução do interesse público. A adoção destas medidas preventivas teve ainda como
vantagens, a salvaguarda de ecossistemas sensíveis, áreas que devem ser protegidas, bem
como a valorização do sistema urbano, precavendo-se a densificação da edificação e
prosseguindo os princípios de contenção urbana, rentabilização de infraestruturas e
equipamentos coletivos e ainda de compactação da malha urbana e qualificação do espaço
público.

Neste âmbito, na área identificada como “A” e ”D” na figura seguinte (nº. 11), refentes à área
de aplicação das medidas preventivas, a decisão de suspensão resultou na interdição das
seguintes ações na área a classificar como Reserva Natural:
o operações de loteamento e obras de urbanização, de construção, de ampliação, de
alteração e de reconstrução, com exceção das que sejam isentas de controlo
administrativo prévio;
o trabalhos de remodelação de terrenos;
o derrube de árvores em maciço ou destruição do solo vivo e do coberto vegetal.

35
Fig.11 - Carta de ordenamento do Plano Diretor Municipal em vigor para a área da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do
Trafal e área de aplicação das Medidas Preventivas (Legenda: Ver Anexo 11.5 e Aviso nº 4770/2019) (CML-DSIG, 2021).

Tal como se pode observar na figura 11, a área da Reserva Natural Local encontra-se classificada
na Carta de Ordenamento do Plano Diretor Municipal de Loulé em vigor em solo rural nas
seguintes categorias/subcategorias de espaço:
a) Espaços Agrícolas: áreas de agricultura condicionada II (Artigo 41.º do Regulamento do
PDM) – áreas da RAN coincidentes com zonas ameaçadas pelas cheias, correspondendo esta
tipologia à zona húmida do Trafal, numa faixa contígua à ribeira do Carcavai e à zona norte da
foz da ribeira do Almargem; áreas de Reserva Agrícola Nacional (Artigos 38.º e 67.º do
Regulamento do PDM) - parcelas identificadas como zonas agrícolas a norte e noroeste do
Trafal.
b) Espaços Florestais – Áreas de Proteção (Artigo 42.º e 44.º do Regulamento do PDM).
Abrange toda a área de pinhal manso presente na área, enquanto elemento de proteção e
consolidação de solos pobres ou suscetíveis à erosão, de valorização paisagística e de
conservação e promoção da biodiversidade, funcionando ainda como corredores ecológicos
entre as zonas húmidas.

36
c) Espaços Naturais – Grau I – Áreas de Reserva Ecológica Nacional (Artigo 53.º 65.º do
Regulamento do PDM), corresponde a zonas de dunas, arribas, lagoa do Almargem e parcelas
de terreno contíguas às margens, com alguma expressão no acompanhamento da ribeira a
norte.

Sem prejuízo das disposições acima identificadas, aplicam-se cumulativamente as constantes no


Capítulo II (Edificação em solo rural) – artigos 88.º e seguintes, bem como os regimes de
salvaguarda de recursos e valores naturais das áreas integradas no POOC Vilamoura/ VRSA,
previstos no Capítulo II (artigo 107.º e seguintes) da Declaração n.º 79/2021, de 27 de julho
(Alteração por adaptação do PDM aos Planos Especiais de Ordenamento do Território).

Neste contexto, a área de intervenção do então Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC)
Vilamoura-Vila Real de Santo António (Anexo 11.6) abrange uma faixa terrestre com uma largura
máxima de 500 metros, contados para o interior do território a partir da linha que limita a
margem das águas, em 6 concelhos, onde se inclui o concelho de Loulé. De entre os vários
objetivos específicos do então plano, destacam-se pela sua convergência com o presente
documento: a proteção a zonas de elevado valor e sensibilidade ambiental; a manutenção e
valorização do mosaico paisagístico, considerando a paisagem agrícola, florestal, zonas
humanizadas, formações geomorfológicas e ecossistemas costeiros; a requalificação de áreas
degradadas, nomeadamente através da demolição de construções, de ações de renaturalização
de habitats recorrendo a vegetação autóctone e de medidas de controlo e irradicação de plantas
invasoras e o ordenamento balnear, articulando a procura com as restrições e potencialidades
biofísicas e qualificação de valores paisagísticos da orla costeira. No regulamento do PDM estão
identificadas as atividades interditas e condicionadas.

Relativamente aos regimes de proteção específicos do espaço, constata-se que a grande maioria
da área do Trafal e da Foz do Almargem a classificar corresponde a Solo rural: espaços naturais,
espaços florestais de proteção e espaços agrícolas. Na categoria espaços naturais - áreas de
habitats naturais, seminaturais ou outros, com notáveis valores ambientais e paisagísticos, no
contexto deste troço da orla costeira foram identificadas as seguintes subcategorias: praias;
dunas; arribas, taludes e zonas adjacentes; e áreas complementares da conservação da
natureza, onde se inclui a Foz do Almargem. Sem prejuízo das restantes condicionantes, nos
espaços naturais, são interditas algumas atividades, nomeadamente a realização de obras de
edificação, a abertura de novos acessos, alargamento ou impermeabilização dos existentes salvo
se destinado a serviços de segurança ou emergência; a construção de novas áreas de

37
estacionamento, alargamento ou impermeabilização dos existentes. De acordo com o então
POOC Vilamoura/ VRSA (que passará a Programa pela entidade competente), as praias são
acompanhadas de algumas interdições nomeadamente, permanência de autocaravanas ou
similares nos parques e áreas de estacionamento entre as 0 horas e o nascer do sol;
estacionamento de veículos fora dos limites dos parques de estacionamento e das áreas
expressamente demarcadas para esse fim; utilização dos parques e áreas de estacionamento
para outras finalidades, designadamente a instalação de tendas ou o exercício de outras
atividades sem licenciamento prévio. As várias praias que ocorrem ao longo da costa foram
classificadas em vários tipos pertencendo a praia do Forte Novo, a praia do Almargem e a praia
de Loulé Velho ao tipo III – praia equipada com uso condicionado (praia seminatural),
correspondendo esta classificação a praias que não se encontram sujeitas à influência direta dos
núcleos urbanos e que estão associadas a sistemas naturais sensíveis. A praia do Trafal está
classificada como tipo IV - praia não equipada com uso condicionado (praia natural), que
corresponde à praia associada a sistemas de elevada sensibilidade que apresentam limitações
para o uso balnear, nomeadamente por razões de segurança dos utentes e, ao contrário das
praias anteriores, não dispõe de um plano de praia. Os planos de praia pretendem estabelecer
medidas para a recuperação dunar, áreas de lazer equipadas, renaturalização de áreas
degradadas e medidas corretivas de erosão superficial, bem como regulamentar os acessos e
áreas destinadas a estacionamento.

As fichas elaboradas para apoiar a regulamentação, o ordenamento e a proteção dos valores


naturais, sociais e económicos das praias atrás referidas, contêm informação semelhante para
as 3 praias contíguas, nomeadamente a necessidade de se criarem bolsas de estacionamento no
interior, em espaços aplanados e clareiras, bem como a necessidade de se delimitar o acesso
viário de forma a impedir o estacionamento lateral. Para as praias do Loulé Velho e do Almargem
foi recomendado a criação de zonas de merendas. Houve ainda a sugestão de criação de uma
passadeira sobre-elevada como acesso pedonal e a promoção de fixação do sistema dunar e
reforço da parte posterior. Nota-se alguma preocupação com a pressão antrópica sobre as
arribas.

A zona da Foz do Almargem no então POOC Vilamoura/ VRSA está classificada como Área
Complementar de Conservação da Natureza – espaço singular em termos de valor biofísico,
manifestamente importante como habitat da avifauna. A circulação de veículos motorizados
está interdita (exceto os de vigilância ou emergência), bem como quaisquer atividades que
perturbem a avifauna, nomeadamente através do ruído e da redução das condições de

38
tranquilidade necessárias à manutenção das populações. As áreas de pinhal que integram o
limite da área estão classificadas como Espaços Florestais de Proteção, áreas normalmente
compostas por formações arbóreas de elevado interesse ambiental e paisagístico, constituídas
nomeadamente por pinheiro-manso, sendo um dos objetivos prioritários de ordenamento a
conservação dos recursos e a valorização ambiental das áreas integradas neste regime de
proteção específicos. São interditas as seguintes atividades: a construção de quaisquer novas
edificações; a abertura de caminhos (exceto os estritamente necessários para a atividade
florestal), percursos de descoberta da natureza e acesso a equipamentos públicos de interesse
ambiental, em todos os casos mediante aprovação das entidades competentes; melhoria dos
caminhos existentes, exceto os estritamente necessários para a atividade florestal, percursos de
descoberta da natureza e acesso a equipamentos de interesse ambiental, habitação e turismo
em espaço rural, em todos os casos mediante aprovação das entidades competentes. Sem
prejuízo dos condicionamentos legais aplicáveis, constitui exceção a construção de
equipamentos públicos de interesse ambiental. O então POOC Vilamoura/ VRSA prevê ainda a
interdição da introdução de novos povoamentos de eucaliptos ou o corte de vegetação
autóctone. Tal como identificado no Plano Diretor Municipal a área do Trafal (Foz da ribeira do
Carcavai), está classificada como espaço agrícola, sendo objetivo prioritário de ordenamento a
conservação e valorização ambiental paisagística e económica das áreas integradas nesta
categoria de espaço, bem como a promoção do Código de Boas Práticas Agrícolas para a
proteção da água contra a poluição com nitratos de origem agrícola.

Quanto aos Estudos de Caracterização e Diagnóstico elaborados no âmbito da revisão do PDM


de Loulé, foram apontadas, como essenciais, alterações na delimitação da Rede Ecológica
Nacional e da Reserva Agrícola Nacional, atualmente em vigor para o concelho de Loulé, assim
como a criação de uma Estrutura Ecológica Municipal que deverá ser constituída por áreas
destinadas à conservação da natureza e valorização e preservação da biodiversidade, à
proteção e reabilitação dos recursos históricos e culturais e a redes de equipamentos de
tempos livres. O objetivo é garantir que diferentes áreas forneçam múltiplas funções
nomeadamente na proteção dos recursos naturais, na proteção e valorização dos corredores
ecológicos, no estabelecimento de uma rede de recreio e na requalificação da paisagem
agrícola, florestal, urbana e cultural, tendo em conta a presença do património natural e
edificado. Neste âmbito assumem particular importância os cursos de água e zonas ribeirinhas
envolventes, os elementos de património paisagístico e cultural, as áreas importantes para a
conservação da natureza, os espaços verdes de recreio, os solos de elevada capacidade de uso,
as zonas integradas na Reserva Ecológica Nacional e as matas e manchas de vegetação com

39
interesse paisagístico e ecológico sempre de forma articulada com o Plano de Ordenamento
do Território do Algarve.

Após leitura dos referidos instrumentos de gestão territorial não se encontraram


incompatibilidades nos objetivos e visão estratégica para a área da Reserva Natural Local da
Foz do Almargem e do Trafal, sendo que existem vários objetivos em comum, nomeadamente
a proteção e conservação das linhas de água, regulamentação de acessos à costa, conservação
dos ecossistemas, dos seus serviços e dos valores naturais presentes, preservação ou melhoria
da qualidade ambiental, promoção de um turismo responsável, sustentável bem como a sua
valorização económica.

Descrevem-se abaixo os principais objetivos e medidas mais importantes de cada instrumento


de planeamento, ordenamento e gestão do território previsto para a área da RNL:

 o Plano de Gestão de Região Hidrográfica das Ribeiras do Algarve vigente (2016/2021), é um


instrumento que visa a gestão, a proteção e a valorização ambiental, social e económica das
águas a nível regional, em consonância com a legislação nacional e acordos internacionais. Um
dos principais objetivos é atingir ou preservar o Bom Estado/Potencial das massas de água da
região, assegurando a disponibilidade de água para as utilizações atuais e futuras. Segundo a
avaliação do 2º ciclo do PGRH, a ribeira do Almargem está classificada como “Razoável” quanto
ao estado ecológico/potencial e “Bom” quanto ao estado químico. Por sua vez a ribeira do
Cadoiço (Carcavai) apresenta uma classificação de “Medíocre” no estado ecológico e “Bom”
para o estado químico, o que resulta numa classificação do estado global “Inferior a Bom”. O
prazo para atingir os objetivos planeados para esta massa de água foi prorrogado (2022 – 2027)
com a justificação de que o espaço de tempo até 2021 seria insuficiente para uma recuperação
do sistema ecológico, existindo pressões significativas associadas aos setores agrícola e
urbano. Deste modo, não se encontram medidas contraditórias neste plano e nos demais
instrumentos de gestão do território, requerendo os mesmos uma melhoria qualitativa do
estado ecológico e químico das zonas húmidas alvo de classificação, onde será dada especial
atenção à redução ou eliminação de cargas poluentes (e.g. nutrientes provenientes da
agricultura, incluindo pecuária; pesticidas, águas residuais) e à prevenção ou controle dos
impactes negativos das espécies exóticas invasoras e introdução de pragas. As comunidades
ripícolas, associadas a estas massas de água deverão ser preservadas e conservadas uma vez
que desempenham uma importante função ecológica de fixação e manutenção das margens,
e de filtragem de nutrientes, bem como de regularização e retenção de águas em picos de

40
cheia, para além de constituírem habitats propícios para muitas espécies animais e vegetais.

 O Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve (PROT Algarve) assume sete


opções estratégicas que correspondem a grandes objetivos e linhas de intervenção
estruturantes da organização, ordenamento e desenvolvimento territorial da Região dos quais
se destaca, a sustentabilidade ambiental, que traduz preocupações de proteção e valorização
de recursos naturais e biodiversidade. Dentro desta temática distinguem-se 3 vertentes, o
sistema litoral, o sistema ambiental e a salvaguarda dos recursos hídricos. O primeiro visa a
defesa das áreas costeiras mais sensíveis, a prevenção de situações de risco e a contenção da
urbanização massiva da faixa costeira sul. O sistema ambiental pretende garantir a estrutura e
função dos sistemas naturais e seminaturais, promover a conservação da natureza e da
biodiversidade, assegurando a articulação recíproca com as atividades socioeconómicas,
recuperar a qualidade do espaço público e da paisagem e garantir a disponibilidade de recursos
para o desenvolvimento.
A promoção da qualidade ambiental é uma questão prioritária sobretudo no litoral onde a
ocupação urbana e turística é intensa.

A área da RNL pertence à unidade territorial – Litoral Sul e Barrocal e à subunidade territorial
de Vilamoura/Quarteira/Quinta do Lago e apesar de não ter sido integrada na área nuclear da
Estratégia Regional de Proteção e Valorização Ambiental (ERPVA) - áreas consideradas
fundamentais para a proteção e conservação da natureza e da biodiversidade, tem uma
pequena área, a lagoa do Almargem, que foi incluída no grupo dos corredores ecológicos
costeiros que têm como função a manutenção de uma rede de espaços não edificados na faixa
costeira, assegurando a continuidade ecológica entre o litoral e o interior e a manutenção de
uma paisagem seminatural, tradicional do Algarve. Esta Estrutura Regional de Proteção e
Valorização Ambiental abrange as áreas fundamentais para a conservação da natureza (áreas
da Rede Nacional de Áreas Protegidas e Sítios de Importância Comunitária e Zonas de Proteção
Especial da Rede Natura 2000), ou seja, as áreas classificadas, as zonas húmidas e as que são
essenciais para a regulação dos ciclos hidrológicos, para a proteção do solo e para o combate
à desertificação, em articulação com as áreas de suporte tanto da produção agrícola e florestal
como da pesca e aquacultura. Todos os territórios que venham a ser classificados como áreas
protegidas de âmbito regional ou local serão integrados na área nuclear da ERPVA.

41
 O Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios de Loulé aprovada à data de
19/02/2018, e em vigor até 18/02/2023, inclui a Carta de Ocupação do Solo e as Faixas de
Gestão de Combustível – Rede Secundária (FGC-RS – Anexo 11.7), classificando parte da área
que se pretende propor a Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal como Floresta,
Matos e Pastagens e a maioria das áreas limítrofes da Reserva Natural Local como Faixas de
Gestão de Combustível – Rede Secundária (FGC-RS – Anexo 11.7). Este plano é essencial na
defesa das pessoas e bens e na salvaguarda dos recursos florestais e, juntamente com a
legislação que estabelece as medidas e ações a desenvolver no âmbito do Sistema Nacional de
Defesa da Floresta contra Incêndios (Decreto-Lei n.º 124/2006, de 28 de junho) e com o Decreto-
Lei n.º 10/2018, de 14 de fevereiro, que clarifica os critérios aplicáveis à gestão de combustível
nas faixas secundárias de gestão de combustível e interpreta o regime excecional dessas
mesmas redes, impõe ações de limpeza da vegetação nas áreas que integram as Faixas de
Gestão de Combustível, incluindo as redes secundárias. Estas redes secundárias de faixas de
gestão de combustível, de interesse municipal ou local, e no âmbito da proteção civil de
populações e infraestruturas, cumprem funções de redução dos efeitos da passagem de
incêndios, protegendo de forma passiva vias de comunicação, infraestruturas e equipamentos
sociais, zonas edificadas e povoamentos florestais de valor especial e de isolamento de
potenciais focos de ignição de incêndios e desenvolvem-se sobre:
a) As redes viárias e ferroviárias públicas;
b) As linhas de transporte e distribuição de energia elétrica e gás natural (gasodutos);
c) As envolventes aos aglomerados populacionais e a todas as edificações, aos parques de
campismo, às infraestruturas e parques de lazer e de recreio, aos parques e polígonos
industriais, às plataformas logísticas e aos aterros sanitários.

Importa referir e sublinhar que no caso concreto das áreas da Reserva que integrem uma faixa
de gestão de combustível, devem as entidades responsáveis pela gestão de combustível dessas
mesmas áreas, solicitar à Comissão Municipal de Defesa da Floresta, ao abrigo do n.º IV do
Anexo do Decreto-Lei n.º 10/2018, critérios específicos de gestão de combustíveis por se
tratarem de, manchas de arvoredo com especial valor patrimonial ou paisagístico ou manchas
de arvoredo e outra vegetação protegida no âmbito da conservação da natureza e
biodiversidade, de forma a salvaguardarmos a flora e fauna característicos do nosso território,
de desbastes intensivos e desproporcionados, com grandes probabilidades de provocarem
repercussões nefastas e prejudiciais ao bom funcionamento dos ecossistemas. Este Decreto
pretende ainda propiciar a substituição, nas faixas secundárias de gestão de combustível, as

42
áreas de monoculturas ocupadas por espécies mais vulneráveis aos incêndios, por espécies
autóctones e mais resilientes ao fogo.

5. Caracterização do Património Natural

5.1 – Geologia

A área da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal pertence à Bacia do Algarve que
corresponde aos terrenos que orlam o Sul de Portugal entre o Cabo de São Vicente e o rio
Guadiana. Esta bacia foi criada num contexto tectónico, predominantemente distensivo,
relacionado com a abertura do Oceano Atlântico. Atualmente, esta bacia penetra o interior da
região algarvia de forma irregular – com uma largura variável entre 3 e 25 km – sendo
essencialmente constituída por rochas sedimentares, de idade mesocenozoica, dispostas ao
longo de cerca de 140 km numa faixa de orientação W-E (Terrinha et al., 2013). Do ponto de
vista geomorfológico, a Bacia do Algarve está subdividida em duas unidades – o Barrocal e o
Litoral – referidas na literatura científica clássica.

As litologias que ocorrem na área da Reserva Natural Local são essencialmente compostas por
rochas brandas, nomeadamente calcários, cascalheiras, arenitos, areias, siltes e argilas datadas
dos períodos Neogénico e Quaternário. Considerando a nomenclatura da Folha Oriental da Carta
Geológica da Região do Algarve, à escala 1/100000 (Manuppella et al., 1992), a litostratigrafia
da área de estudo é a seguinte: Arenitos calcários e calcários com seixos (Miocénico); Areias e
cascalheiras de Faro-Quarteira (Plistocénico); Cascalheiras e terraços (Holocénico); Areias de
duna e areias de praia (Holocénico); Aluviões e sapais (Holocénico) (Fig. 12).

A área da RNL, a norte, integra parte da bacia hidrográfica da ribeira do Carcavai, mais extensa
e com origem no Barrocal, que drena terrenos de idade mesozoica. A sul, as bacias hidrográficas
da ribeira da Fonte Santa (ou do Almargem) e da ribeira do Carcavai, desenvolvem-se em
terrenos do Litoral, essencialmente nas formações de idade cenozoica.

43
Fig.12 – Carta Geológica da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal. Legenda: aluv – aluviões e sapais (Holocénico); ad
– areias de duna (Holocénico); ap – areias de praia (Holocénico); Qb – Cascalheiras e terraços (Holocénico); Qa – areias e cascalheiras
de Faro-Quarteira (Plistocénico); MLP2 – arenitos calcários e calcários com seixos (Miocénico); C1-2 - Calcários cristalinos de Pão
Branco; Margas superiores; Dolomitos de Chão de Cevada; Calcários e dolomitos de Caliço; Margas e calcários de Porto de Mós;
Margas de Luz, Calcários com Palorbitolina (Cretácico Inferior a Cretácico Superior) (CML-DSIG, 2021 – Anexo 11.4).

Em termos hidrogeológicos, na área da RNL a produtividade aquífera está associada a dois


sistemas aquíferos dominantes – o sistema aquífero de Quarteira e o sistema aquífero da
Campina de Faro. Os dois sistemas aquíferos, são delimitados a sul pelo mar e estão separados
entre si pela zona de falha de Carcavai, sendo provável a existência de conexão hidráulica entre
ambos. Na área considerada, os depósitos correspondentes às Areias e cascalheiras Faro-
Quarteira suportam, em ambos os sistemas, aquíferos livres superficiais. As formações
carbonatadas miocénicas subjacentes abrigam um aquífero confinado multicamada. O aquífero
superficial desenvolvido nas Areias e cascalheiras Faro-Quarteira recebe recarga direta a partir
das águas da precipitação. O aquífero livre superficial e o aquífero subjacente, no geral, são
independentes, contudo haverá zonas de conexão hidráulica. Essa conexão, poderá tornar-se
problemática no caso de contaminação das águas do aquífero superficial, uma vez que este é
muito vulnerável à contaminação devido às atividades desenvolvidas à superfície que produzam
poluentes (Almeida et al., 2000).

44
Na área da RNL os solos apresentam-se pouco evoluídos e pobres, sendo classificados nas
seguintes categorias: litossolos, regossolos, solos litólicos e solos salinos (DGADR, 2008).

A nível geomorfológico a zona em estudo apresenta um relevo diversificado que se caracteriza


pela ocorrência de zonas lagunares, zonas dunares e arribas litorais. A evolução destas
estruturas, nas últimas décadas, tem vindo a ser condicionada pela subida do nível médio da
água do mar desde o último máximo glaciário (Teixeira, 2005) e consequente incremento da
erosão costeira. A subida do nível médio do mar quando conjugada com a sobrelevação do nível
do mar, associada a tempestades, tende a potenciar a ocorrência de galgamentos oceânicos,
inundações e a erosão costeira.

Ao longo do troço costeiro Forte Novo - Vale do Lobo, os vales largos e planos das ribeiras do
Carcavai e da Fonte Santa são intercalados por arribas talhadas nas Areias e cascalheiras de Faro-
Quarteira que recuaram várias dezenas de metros nas últimas décadas devido à erosão costeira
(e.g. Marques, 1991; Correia et al., 1996; Pereira et al., 1998).

De acordo com os Estudos de Caracterização e Diagnóstico elaborados no âmbito do processo


de Revisão do Plano Diretor Municipal de Loulé, a erosão máxima total, entre 1947 e 2007,
atingiu cerca de 100 m no troço costeiro Forte Novo - Trafal, reduzindo-se progressivamente
para leste, para 70 m no Trafal, 30 m em Vale de Lobo poente e 10 m em Vale do Lobo nascente
(APA, 2015). No entanto, com a realização de realimentação artificial das praias daquele troço
costeiro, essa situação tem vindo a ser mitigada (Cruz de Oliveira et al., 2008).

No que respeita à tectónica, a área considerada é afetada por algumas estruturas, tais como
diáclases e falhas que evidenciam neotectónica (i.e., atividade tectónica recente ocorrida nos
últimos 2,6 milhões de anos). A estrutura tectónica com maior relevância é a zona de falha do
Carcavai, com direção NE-SO, definida no terreno, grosso modo, pelo traçado do vale da ribeira
de Carcavai. Esta é uma falha geológica ativa com uma componente de movimentação inversa
e de desligamento esquerdo, apresentando um traçado complexo devido a várias reativações
que sofreu durante as Eras Mesozoica e Cenozoica (Dias, 2001).

A atividade neotectónica desta estrutura está expressa por evidências de deformação –


microfalhas e diáclases – que afetam as formações rochosas correspondentes às Areias e
cascalheiras de Faro-Quarteira, observáveis nos troços de arribas litorais entre as zonas de Forte
Novo e do Garrão. Na área existem filões detríticos injetados nas Areias e cascalheiras de Faro-
Quarteira que correspondem a estruturas induzidas por liquefação associada provavelmente à
atividade neotectónica da falha do Carcavai (Dias, 2001).

45
Estudos recentes realçam a possibilidade desta falha gerar sismos de magnitude elevada
(superior a 6 na escala de Richter) (Dias, 2001; Ressurreição et al., 2011). Do ponto de vista
tectónico e sismotectónico acresce ainda a existência de registos de sismos e tsunamis históricos
catastróficos que afetaram a zona em estudo, de entre os quais se destaca o evento de 1 de
novembro de 1755.

5.2 – Biodiversidade

A caracterização do património florístico e faunístico que adiante se apresenta teve por base o
estudo “Valorização das Zonas Húmidas do Algarve: Foz do Almargem-Trafal”, coordenado pela
Associação Almargem entre 2018 e 2019, que contou com a colaboração de uma equipa técnica
formada por especialistas independentes bem como de entidades como a Sociedade Portuguesa
para o Estudo das Aves (SPEA), o Centro de Investigação Marinha e Ambiental da Universidade
do Algarve, o Tagis – Centro de Conservação das Borboletas de Portugal e o cE3c - Centre for
Ecology, Evolution & Environmental Changes da Universidade de Lisboa, descrevendo-se em
cada temática, de forma resumida, a entidade responsável, a metodologia e as datas de recolha
de dados. Note-se que esta área não coincide na totalidade com a área proposta para
classificação sendo a primeira de dimensão inferior.

5.2.1 Flora e Habitats

Os Habitats, de uma forma simplista, podem ser definidos, como unidades de paisagem
compostas por um conjunto de espécies animais e/ou vegetais que se relacionam entre si e/ou
com o meio em função das características edafoclimáticas e da intervenção humana de cada
lugar. São pilares essenciais à biodiversidade e devem ser estudados e monitorizados com vista
à sua preservação e recuperação sempre que se verifique necessário.

O estudo da composição e distribuição das comunidades vegetais naturais constitui uma base
fundamental na compreensão das comunidades vegetais e respetiva correspondência
fitossociológica com os habitats naturais e seminaturais descritos nas fichas de caracterização
ecológica e de gestão do Plano Setorial da Rede Natura 2000, assumindo por isso um papel de
maior importância.

Os dados que abaixo se apresentam são da autoria da Universidade do Algarve e resultaram de


duas saídas de campo nos dias 19.01.2019 e 26.01.2019. As espécies observadas nas saídas de
campo foram identificadas no local ou recolhidas para posterior confirmação em laboratório
(herbário da Universidade do Algarve - ALGU), cuja identificação seguiu, as seguintes obras de
referência: Castroviejo et al. (1986a, 1990, 1993a, 1993b, 1997a, 1997b, 2008), Garmendia &

46
Navarro (1998), Talavera et al. (1999), Talavera et al. (2000), Paiva et al. (2001), Feliner et al.
(2003), Aedo & Herrero (2005), Devesa et al. (2007), Benedí et al. (2009), Morales et al. (2010),
Talavera et al. (2010), Talavera et al. (2012), Talavera et al. (2013), Coutinho (1939), Franco
(1971; 1984), Franco & Rocha Afonso (1994; 1998; 2003), Valdés et al. (1987) e Blanca et al.
(2009).

No total foram identificados nove habitats naturais e semi-naturais constantes do anexo B-I do
Decreto-Lei n.º 49/2005, de 24 de fevereiro, sendo dois deles classificados como habitats
prioritários para a conservação, nomeadamente Lagunas Costeiras (1150) e Dunas fixas com
vegetação herbácea (2130).

Código Designação do habitat natural e semi- Associação vegetal


natural
1150* * Lagunas costeiras Ruppietum maritimae;
Phragmito australis-Bolboschoenetum maritimi;
Limonio vulgare-Juncetum subulati;
Typho angustifoliae-Phragmitetum australis.
1210 Vegetação anual das zonas de acumulação Salsolo kali-Cakiletum maritimae
de detritos pela maré
1410 Prados salgados mediterrânicos Limonio vulgare-Juncetum subulati
pertencentes à ordem Juncetalia maritimii
2110 Dunas móveis embrionárias Elytrigietum unceo-boreoatlanticae
2120 Dunas móveis do cordão dunar com Loto cretici-Ammophiletum arundinaceae
Ammophila arenaria (“dunas brancas”)

2130* * Dunas fixas com vegetação herbácea Artemisio crithmifoliae-Armerietum pungentis


(“dunas cinzentas”)
2130pt1 – Duna cinzenta com matos
camefíticos dominados por Armeria
pungens e Thymus carnosus
2230 Dunas com prados de Malcolmietalia Ononido variegatae-Linarietum pedunculatae
6420 Pradarias húmidas mediterrânicas de Holoschoeno vulgaris-Juncetum acuti; Trifolio
ervas altas da Molinio-Holoschoenion resupinati-Holoschoenetum vulgaris
92D0 Galerias e matos ribeirinhos meridionais Polygono equisetiformis-Tamaricetum africanae
(Nerio-Tamaricetea e Securinegion
tinctoriae)

Fig.13 - Habitats naturais e semi-naturais constantes do anexo B-I do Decreto-Lei n.º 49/2005, de 24 de fevereiro,
presentes na zona húmida do Trafal e da foz do Almargem (Almargem, 2019).

Esta identificação teve como base a aplicação dos fundamentos e metodologias fitossociológicas
(Escola Zürich-Montpellier ou Sigmatista), seguindo as propostas de Braun-Blanquet & Pavillard
(1928), Tüxen (1937), Braun-Blanquet (1979), Géhu & Rivas-Martínez (1981), atualizadas por
Capelo (2003), Rivas-Martínez (2005; 2007; 2011), Lazare (2009) e Biondi (2011) e respetiva
correspondência fitossociológica às fichas de caracterização ecológica e de gestão (habitats
naturais) do PSRN2000 (aprovado pela R.C.M. n.º 115-A/2008, de 21 de julho de 2008), o qual

47
consubstancia um conjunto de medidas e orientações consideradas adequadas à
implementação da Rede Natura 2000 em Portugal continental, tendo presente a Diretiva n.º
92/43/CEE, também designada por Diretiva Habitats, transposta para direito nacional pelo
Decreto-Lei n.º 140/99, de 24 de abril, com redação que lhe foi dada pelo Decreto-Lei n.º
49/2005, de 24 de fevereiro.

Da análise florística resultaram um total de 228 espécies (não incluindo subespécies e


variedades), pertencentes a 55 famílias botânicas (vide Almargem, 2019), das quais 214 são
autóctones, destacando-se pelo seu interesse de conservação ou elevado valor patrimonial as
espécies Frankenia boissieri (VU) e Cynanchum acutum (EN), ambas ameaçadas segundo a Lista
Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental (Carapeto et al., 2020), as espécies Melilotus
segetalis subsp. Fallax (LC) e Malcolmia triloba subsp. gracilima, ambas protegidas ao abrigo da
Diretiva Habitats – anexos II e IV para a primeira espécie e anexo V para a segunda, a espécie
Linaria peduncupala, cuja população nacional, atualmente conhecida se divide em duas
subpopulações: orla litoral sul do Algarve e península de Tróia, admitindo-se que o seu estado
de conservação poderá apresentar sérias dificuldades, derivadas da excessiva fragmentação do
habitat e a espécie Echium gaditanum que em Portugal continental apresenta uma distribuição
restrita à orla litoral sul algarvia, ocorrendo principalmente ao longo dos sistemas dunares do
sotavento, onde se destacam os ocorrentes nas ilhas-barreira. Foram ainda identificadas na área
de estudo três espécies com o estatuto de quase ameaçada (NT) são elas: Chamaesyce peplis,
Ononis Variegata e Ruppia marítima.

Apresenta-se abaixo o elenco florístico resultante do estudo “Valorização das Zonas Húmidas do
Algarve: Foz do Almargem – Trafal”, onde foram incluídas as espécies espontâneas,
subespontâneas e invasoras ocorrentes na área estudada, sendo que este último grupo será
apresentado numa tabela à parte. Note-se, contudo, que os inventários florísticos realizados no
âmbito desta candidatura ao Fundo Ambiental, não evidenciam a totalidade das espécies
existentes devido, principalmente, à época do ano e ao prazo extremamente reduzido para a
realização do trabalho em causa. Houve assim a necessidade de incorporar outros registos cuja
colheita ocorreu na área em estudo, nomeadamente os registos dos táxones depositados no
ALGU, devidamente identificados com (*) e com indicação do número de registo do herbário
(e.g. ALGU 14275). Adicionalmente, foram ainda incorporados os registos das espécies
identificadas pelos autores nos últimos anos na área estudada, devidamente assinalados com
(**).

48
Nome científico Nome comum C/ Interesse p/conservação
Aetheorhiza bulbosa (L.) Cass. Condrilha-de-Dioscórides
Allium ampeloprasum L. Porro-bravo
Ammophila arenaria subsp. arundinacea [Link]. Estorno
Anacyclus radiatus Loisel. ** Pão-posto
Anagallis arvensis L. ** Morrião
Anchusa calcarea Buglossa-calcária
Andryala integrifolia L. ** Tripa-de-ovelha
Anthemis maritima L. -
Arisarum vulgare Targ.-Tozz. subsp. simorrhinum Candeias
(Durieu) Maire & Weiller
Aristolochia baetica L. Erva-cavalinha
Armeria pungens (Link) Hoffmanns. & Link Cravo-das-areias
Artemisia crithmifolia L. Raspa-saias
Arum italicum Miller subsp. italicum Jarro-dos-campos
Asparagus acutifolius L. Espargo-bravo-menor
Asparagus albus L. Estrepes
Asparagus aphyllus L. Espargo-bravo-maior
Atriplex patula L. -
Atriplex prostrata Boucher ex DC. ** Armoles-silvestres
Bellis annua L. Margarida-menor
Beta maritima L. ** Acelga-brava
Bituminaria bituminosa (L.) C.H. Stirt. ** Trevo-bituminoso
Bolboschoenus glaucus (Lam.) [Link]. Junça
Bolboschoenus maritimus (L.) Palla Junquilho-dos-salgados
Brassica barrelieri (L.) Junka ** Labrêsto-de-flor-amarela
Briza media L. Bole-bole-intermédio
Bromus diandrus Roth Espigão
Bryonia dioica Jacq. Briónia-branca
Cakile maritima Scop. Eruca-marinha
Calendula arvensis L. Erva-vaqueira
Calystegia sepium (L.) [Link]. Trepadeira-das-balsas
Calystegia soldanella (L.) [Link]. Couve-marinha
Carduus meonanthus Hoffmanns. & Link -
Carex cuprina (I. Sándor ex Heuff.) Nendtv. ex A. Kern. -
Carlina racemosa L. Cardo-asnil
Centranthus calcitrapae (L.) Dufr. Calcitrapa
Cerastium glomeratum Thuill. Cerástio-enovelado
Ceratonia siliqua L. Alfarrobeira
Chamaerops humilis L. Palmeira-anã
Chamaemelum mixtum (L.) All. ** Margaça
Chamaesyce peplis (L.) Prokh. ** Maleiteira-das-praias NT
Chenopodium album L. Catassol
Chenopodium chenopodioides (L.) Aellen -
Chenopodium murale L. Pé-de-ganso
Capsella bursa-pastoris (L.) Medik. ** Bolsa-do-pastor
Convolvulus althaeoides L. ** Corriola-rosada
Convolvulus arvensis L. ** Corriola
Corrigiola litoralis L. subsp. perez-larae Chaudhri, Muñoz Erva-pombinha
Garmendia & Pedrol * (*ALGU 15040)
Corynephorus canescens (L.) [Link]. Erva-pichoneira
Crocus clusii [Link] * (*ALGU 14275) Açafrão-bravo
Crithmum maritimum L. Funcho-marítimo
Crucianella maritima L. Granza-da-praia

49
Nome científico Nome comum C/ Interesse p/conservação
Crypsis aculeata (L.) Aiton -
Cynanchum acutum L. ** Esgana-cães EN
Cynara cardunculus L. Cardo-do-coalho
Cynara humilis L. Alcachofra-brava
Cynodon dactylon (L.) Pers. Grama
Cynoglossum creticum Mill. Orelha-de-lebre
Cyperus capitatus Vand. Junça-das-dunas
Cyperus rotundus L. Junça
Daphne gnidium L. Trovisco
Daucus carota L. ** Cenoura-brava
Daucus muricatus (L.) L. ** Cenoura-brava
Dipcadi serotinum (L.) Medik. Jacinto-da-tarde
Diplotaxis catholica (L.) DC. Grizandra
Dittrichia viscosa (L.) Greuter subsp. revoluta Táveda
(Hoffmanns & Link) Pinto da Silva & Tutin
Soagem-do-algarve Restrita à orla litoral sul e
Echium gaditanum Boiss. **
sudoeste do Algarve
Echium plantagineum L. Soagem
Elytrigia juncea (L.) Nevski subsp. boreoatlantica Feno-das-areias
(Simonet & Guin.) Hyl.
Elytrigia repens (L.) Desv. ex Nevski ** -
Emex spinosa (L.) Campd. Azeda-espinhosa
Epilobium hirsutum L. Epilóbio-eriçado
Equisetum ramosissimum Erva-pinheira
Eryngium campestre L. Cardo-corredor
Eryngium maritimum L. Cardo-marítimo
Erodium bipinnatum Willd. -
Erodium laciniatum (Cav.) Willd. -
Erodium cicutarium (L.) L’Her. Bico-de-cegonha
Erodium malacoides (L.) L’Hér. Maria-fia
Erodium moschatum (L.) L’Hér. Agulha-moscada
Euphorbia helioscopia L. ** Maleiteira
Euphorbia hirsuta L. Titímalo-dos-vales
Euphorbia peplus L. Ésula-redonda
Euphorbia terracina L. -
Fumaria officinalis L. Erva-molarinha
Frankenia boissieri Reut. ex Boiss. - VU
Foeniculum vulgare Mill. Funcho
Galactites tomentosus Moench Cardo
Galium aparine L. subsp. aparine Amor-de-hortelão
Geranium dissectum L. Coentrinho
Glaucium flavum Crantz ** Papoila-das-praias
Glebionis coronaria (L.) Cass. ex Spach Pampilho-ordinário
Hedypnois arenaria (Schousboe) DC. -
Helichrysum italicum subsp. picardii (Boiss. & Reut.)
Perpétua-das-areias
Franco
Heliotropium europaeum L. Erva-das-verrugas
Hirschfeldia incana (L.) Lagr.-Foss. Ineixas
Holcus lanatus L. Erva-lanar
Hordeum marinum Huds. ** Cevada-dos-ratos
Hordeum murinum L. subsp. leporinum (Link) Arcang. ** Cevada-das-lebres
Hyparrhenia sinaica (Delile) Llauradó ex G. López -
Hypochaeris glabra L. -
Iris pseudacorus L. Lírio-amarelo-dos-pântanos

50
Nome científico Nome comum C/ Interesse p/conservação
Juncus acutus L. var. acutus Junco-agudo
Juncus acutus var. decompositus Guss. -
Juncus subulatus Forssk. Junco
Juncus maritimus Lam. Junco-marítimo
Lathyrus ochrus (L.) DC. Ervilhaca-dos-campos
Lavandula sampaioana (Rozeira) Rivas Mart., T.E. Díaz &
Fern. Gonz. subsp. lusitanica (Chatyor) Rivas Mart., T.E. Rosmaninho-maior
Díaz & Fern. Gonz.
Lavatera cretica L. Malva-bastarda
Lavatera olbia L.
Lavatera trimestris L. Lavatera-de-três-meses
Lagurus ovatus L. Rabo-de-lebre
Lamarckia aurea (L.) Moench Escovinhas
Lemna minor L. Lentilhas-de-águas-menores
Lepidium latifolium L. Erva-pimenteira
Restringe-se à orla litoral sul
Linaria pedunculata (L.) Chaz. ** - do Algarve e península de
Tróia
Linaria spartea (L.) Chaz. Avelino
Linum bienne Mill. Linho-bravo
Lolium multiflorum Lam. Erva-castelhana
Lotus creticus L. Cornichão-das-areias
Lupinus angustifolius L. Tremoço-bravo
Lythrum salicaria L. Erva-carapau
Malcolmia littorea (L.) [Link]. Goivinho-da-praia
Malcolmia triloba (L.) Spreng. subsp. gracilima (Samp.) Diretiva 92/43/CEE (Anexo V)
-
Franco
Malva parviflora L. Malva-de-Espanha
Medicago littoralis Rohde ex Loisel. -
Medicago marina L. Luzerna-das-praias
Medicago polymorpha L. ** Carrapiço
Melilotus indicus (L.) All. ** Trevo-de-cheiro
Melilotus segetalis (Brot.) Ser. ** Diretiva 92/43/CEE (Anexos II
Anafe
& IV)
Melilotus siculus (Turra) [Link]. ** Anafe-dos-salgados
Mentha pulegium L. ** Hortelã-pimenta-mansa
Mentha suaveolens Ehrh. ** Hortelã-comum
Mercurialis ambigua L. Barredoiro
Misopates orontium (L.) Rafin. Focinho-de-rato
Narcissus papyraceus Ker Gawl. Narciso-de-inverno
Olea europaea L. var. sylvestris (Mill.) Rouy ex Hegi Zambujeiro
Oenanthe lachenalii C.C. Gmel. ** Bruco-de-salvaterra
Ononis variegata L. - NT
Otanthus maritimus (L.) Hoffmanns. & Link Cordeirinhos-da-praia
Pallenis spinosa (L.) Cass. Pampilho-espinhoso
Pancratium maritimum L. Narciso-das-areias
Panicum repens L. Escalracho
Papaver dubium L. ** Papoila-longa
Paronychia argentea Lam. Erva-prata
Phagnalon saxatile (L.) Cass. Alecrim-das-paredes
Phragmites australis (Cav.) Trin. ex Steud. Caniço
Picris echioides L. Raspa-saias
Pinus pinea L. Pinheiro-manso
Piptatherum miliaceum (L.) Cosson Talha-dente

51
Nome científico Nome comum C/ Interesse p/conservação
Pistacia lentiscus L. Aroeira
Plantago afra L. ** Erva-das-pulgas
Plantago bellardii All. ** Tanchagem
Plantago coronopus L. Diabelha
Plantago lanceolata L. Língua-de-ovelha
Plantago serraria L. Pulgueira
Polycarpon alsinifolium (Biv.) DC. -
Polygonum arenastrum Boreau * (*ALGU 14967) -
Polygonum equisetiforme Sibth. & Sm. Língua-de-galinha
Polygonum lapathifolium L. ** Erva-pessegueira
Polygonum maritimum L. Polígono-da-praia
Polypogon monspeliensis (L.) Desf. Rabo-de-zorra-macio
Portulaca oleracea L. ** Beldroega
Potentilla reptans L. Cinco-em-rama
Pseudorlaya pumila (L.) Grande -
Quercus rotundifolia Lam. Azinheira
Ranunculus trilobus Desf. Patalôco-verde-amarelo
Raphanus raphanistrum L. subsp. raphanistrum Saramago
Reichardia gaditana (Willk.) Cout. -
Reichardia picroides (L.) Roth Escorcioneira
Retama monosperma (L.) Boiss. Piorno-branco
Ridolfia segetum Moris Endrão
Rubia peregrina L. Ruiva-brava
Rubus ulmifolius Schott Silvas
Rumex bucephalophorus L. Catacuzes
Rumex crispus L. Labaça-crespa
Rumex pulcher L. subsp. woodsii (De Not.) Arcang. Labaça-sinuada
Ruppia maritima L. - NT
Salicornia ramosissima [Link] * (*ALGU 15044) Espargo-do-mar
Salsola kali L. Barrilha-espinhosa
Salsola soda L.* (*ALGU 14966) Soda-maior
Salvia verbenaca L. Salva-dos-caminhos
Scirpoides holoschoenus (L.) Soják subsp. australis
Juncos
(Murray) Soják
Scolymus hispanicus L. Cardo-de-ouro
Scolymus maculatus L. Escólimo-malhado
Scorzonera laciniata L. Escorcioneira
Senecio vulgaris L. Tasneirinha
Sherardia arvensis L. ** Granza-dos-campos
Silene gallica L. Nariz-de-zorra
Silene niceensis All. -
Smyrnium olusatrum L. Salsa-de-cavalo
Sonchus asper (L.) Hill Serralha-áspera
Solanum nigrum L. Erva-moira
Spergularia marina (L.) Besser -
Spergularia media (L.) [Link] -
Spergularia purpurea (Pers.) G. Don f. Sapinho-roxo
Stachys arvensis (L.) L. Rabo-de-raposa
Stachys ocymastrum (L.) Briq. Rabo-de-raposa
Tamarix africana Poir. Tamargueira
Thapsia villosa L. Tápsia
Torilis arvensis (Huds.) Link subsp. neglecta (Spreng.)
Salsinha
Thell.
Trifolium angustifolium L. ** Trevo-massaroco

52
Nome científico Nome comum C/ Interesse p/conservação
Trifolium campestre Schreb. ** Trevo-amarelo
Trifolium squamosum L. Trevo-de-pé-de-pássaro
Trifolium resupinatum L. Trevo-da-pérsia
Tuberaria lignosa (Sweet) Samp. Alcar
Urginea maritima (L.) Baker Cebola-albarrã
Urospermum picroides (L.) Scop. ex F.W. Schmidt ** Leituga-de-burro
Urtica membranacea Poiret Urtiga-de-caudas
Verbena officinalis L. Aljabão
Vicia benghalensis L. ** Ervilhaca-vermelha
Vicia lutea L. ** Ervilhaca-amarela
Vicia parviflora Cav. Ervilhaca-brava
Vinca difformis Pourr. Congossa
Xanthium spinosum L. Pica-três

Fig. 14 - Elenco florístico resultante do Estudo “Valorização das Zonas Húmidas do Algarve: Foz do Almargem-Trafal (Almargem, 2019).

Para além das espécies acima elencadas, identificaram-se 14 espécies invasoras, todas elas
listadas no Anexo II do Decreto-lei nº 92/2019, de 10 de julho (Lista Nacional de Espécies
Invasoras):
Nome científico Nome comum
Acacia longifolia (Andrews) Willd. Acácia-de-espigas
Arctotheca calendula (L.) Levyns Erva-gorda
Arundo donax L. Cana
Aster squamatus (Sprengel) Hieron Mata-jornaleiros
Carpobrotus edulis (L.) N. E. Br. Chorão-da-praia
Conyza bonariensis (L.) Cronq. Avoadinha-peluda
Cotula coronopifolia L. Botões-de-latão
Gomphocarpus fruticosus (L.) W.T. Aiton Algodoeiro-falso
Nicotiana glauca R. C. Graham Charuto-do-rei
Opuntia ficus-indica (L.) Miller Figueira-da-Índia
Oxalis pes-caprae L. Azedas
Ricinus communis L. Ricíno
Spartina densiflora Brongon Spartina
Tetragonia tetragonoides (Pall.) Kuntze Espinafre-da-Nova-Zelândia
Fig. 15 - Espécies de plantas invasoras ao abrigo do Decreto-lei n.º 92/2017, de 10 de julho, resultante do Estudo
“Valorização das Zonas Húmidas do Algarve: Foz do Almargem-Trafal (Almargem, 2019).

Para além das espécies acima descritas com interesse para a conservação, acrescem, pelo menos
mais 5 espécies descritas para a área, segundo a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal
Continental (Carapeto et al., 2020): Thymus albicans (VU), Armeria macrophylla (VU), Ulex
argenteus subsp. subsericeus (VU), Trisetaria dufourei (EN) e Tuberaria globulariifolia var. major
(EN), esta última protegida pelos Anexos II e IV da Diretiva Habitats (Diretiva 92/43/CEE do
Conselho, de 21 de maio de 1992, transposta para a ordem jurídica nacional pelo Decreto-Lei
n.º 140/99 e alterada pelo Decreto-Lei n.º 49/2005, publicado no Diário da República, série I-A,
n.º39 de 24 de fevereiro) e Anexo I da Convenção de Berna (aprovada pelo Decreto nº 95/81 e

53
regulamentada pelo Decreto-Lei n.º 316/89, publicado no Diário da Républica, 1.ª série n.º219
de 22 de setembro).

5.2.2 – Fauna

Insetos
Segundo o Projeto da Lista Vermelha de Grupos de Invertebrados Terrestres e de Água Doce de
Portugal Continental ([Link] que se encontra a decorrer, os organismos
invertebrados são a maior componente da biodiversidade em qualquer ecossistema terrestre
ou dulçaquícola e desempenham um conjunto de funções vitais essenciais para o seu
funcionamento. Estima-se que só os insetos representam 50% da biodiversidade do planeta com
cerca de 5 milhões de espécies em todo o mundo, das quais se conhecem pouco mais de 1
milhão (Garcia-Pereira et al., 2012). Estes invertebrados, para além de constituírem a base das
cadeias tróficas e garantirem a transferência de energia e nutrientes a muitas espécies, são
imprescindíveis na polinização e dispersão de sementes, o que garante a reprodução e
preservação da diversidade genética de muitas plantas.

A biodiversidade deste grupo em Portugal Continental está longe de ser conhecida, estimando-
se que existam mais de 30 000 espécies. Apesar da rica biodiversidade nacional, que inclui
diversas espécies exclusivas (endémicas) e muitas outras de distribuição restrita, o
conhecimento do estado de conservação da maioria das espécies de invertebrados permanece
ainda muito incipiente (LVI).

A manutenção de uma elevada diversidade e abundância de insetos em qualquer área natural é


assim essencial para garantir o equilíbrio dos ecossistemas terrestres.

A inventariação dos invertebrados realizada no âmbito do estudo “Valorização das Zonas


Húmidas do Algarve: Foz do Almargem – Trafal” esteve a cargo do Tagis – Centro de Conservação
das Borboletas de Portugal e resultou de trabalho de campo, consulta a publicações científicas,
plataformas online e a naturalistas com conhecimento da área de estudo.

O trabalho de campo foi realizado em dezembro de 2018 e fevereiro de 2019 através de um


conjunto de metodologias dirigidas aos mais diversos grupos, nomeadamente arrastos na
coluna de água para invertebrados aquáticos (e.g. ninfas de Odonata), uso de armadilhas-de-
queda (pitt-fall) para insetos de solo (e.g Carabidae, Grillidae), uso de armadilhas para insetos
polinizadores (e.g. Hymenoptera, Diptera), varrimentos e batimentos para insetos da vegetação
(Orthoptera, Hemiptera, larvas de Lepidoptera), percursos lineares para contagem e registo

54
fotográfico por períodos de 30 minutos e pesquisa aleatória de observação e registo fotográfico
de todos os grupos detetados.

No total foram inventariadas 94 espécies de insetos, entre as quais, o escaravelho-das-palmeiras


(Rhynchophorus ferrugineus), espécie exótica invasora e seis espécies que possuem algum tipo
de estatuto de conservação ou que constituem endemismos ibéricos, nomeadamente as
espécies Zerynthia rumina (NT), Hemianax ephippiger (NT) Svercus palmetorum (NT-Europa) e
uma espécie e duas subespécies de escaravelhos endémicas da Península Ibérica: Pterostichus
ebenus, Carabus rugosus celtibericus, Licinus punctatulus granulatus.

Destacam-se ainda pela escassez de registos em Portugal e eventual interesse para a


conservação e para a ciência as espécies Enoplops bos, percevejo com poucos registos no país,
Amegilla fasciata, espécie de abelha-silvestre com apenas cinco registos e todos eles no sul de
Portugal e a espécie Campsomeriella thoracica, vespa-parasita, da qual se sabe muito pouco,
com apenas alguns registos no site inaturalist para a região sul do país.

Note-se que segundo os autores, a listagem que abaixo se apresenta, fica muito aquém da real
para a área de estudo, uma vez que os artrópodes constituem o grupo animal com o maior
número de espécies conhecidas, as quais ocupam uma grande diversidade de habitats e
possuem inúmeras especializações o que implica amostragens muito dirigidas. Houve ainda
alguns constrangimentos relativos à curta duração do período para recolha de dados e com a
altura em que decorreram as saídas de campo, época menos favorável à observação de adultos.

Classe Insecta
Ordem Coleoptera
Bembidion sp. Dytiscidae* Pogonus chalceus
Brachycerus sp. Gastrophysa polygoni Pterostichus ebenus
Carabus rugosus celtibericus Graptodytes sp. Rhynchophorus
ferrugineus**
Carabus sp. Licinus punctatulus granulatus Scarites cyclops
Chlaenius spoliatus Melolontha sp. Staphylinidae*
Chrysolina bankii Ocypus sp.
Coccinella septempunctata Oxythyrea funesta
Curculionidae* Platydracus sp.
Ordem Dermaptera
Forficula auricularia Labidura riparia
Ordem Diptera
Calliphora vicina Episyrphus balteatus Eristalis tenax
cf. Pollenia sp. Eristalinus aenus Eupeodes sp.

55
Chrysotoxum intermedium Eristalis similis
Ordem Hemiptera
Corixidae* Gerridae* Pyrrhocoris apterus
Dolycoris baccarum Lygaeus equestris Scantius aegyptius
Enoplops bos Nezara viridula Spilosthetus pandurus
Ordem Hymenoptera
Amegilla fasciata Eoferreola sp. Polistes dominula
Andrena sp. Eumenes sp. Polistes nimpha
Apis mellifera Hylaeus sp. Polistes sp.
Bembix sp. Ichneumonidae* Pompilidae*
Bombus terrestris Lasioglossum malachurum Seladonia sp.
Campsomeriella thoracica Lasioglossum sp. Sphex sp.
Ceratina sp. Podalonia sp. Vespula germanica
Ordem Lepidoptera - Heterocera
Autographa gamma Rhodometra sacraria Thaumetopoea pityocampa
Nomophila noctuella
Ordem Lepidoptera - Rhopalocera
Colias crocea Lycaena phlaeas Pieris rapae
Euchloe belemia Maniola jurtina Polyommatus icarus
Euchloe crameri Papilio machaon Vanessa atalanta
Iphiclides feisthamelii Pararge aegeria Vanessa cardui
Leptotes pirithous Pieris brassicae Zerynthia rumina
Ordem Mantodea
Mantis religiosa
Ordem Odonata
Aeshna mixta Ischnura graellsii Sympetrum fonscolombii
Hemianax ephippiger Sympecma fusca Sympetrum striolatum
Ordem Orthoptera
Acrotylus insubricus Locusta migratoria Svercus palmetorum
Anacridium aegyptium Morphacris fasciata
Eyprepocnemis plorans Pezotettix giornae
Fig.16 - Lista de espécies de insetos registadas na área de estudo (Almargem, 2019) apresentadas por Ordem. Aparecem
indicadas com * aqueles organismos em que não foi possível ir além da família. Aparece marcada com ** uma espécie
invasiva no nosso país.

Ainda segundo os mesmos autores, a área da Reserva Natural tem uma grande probabilidade
de ocorrência da borboleta Melitaea aetherie, uma das espécies de borboletas mais ameaçadas
em Portugal e do louva-a-deus-dos-olhos-pontiagudos Apteromantis aptera, espécie endémica
da Península Ibérica e que consta do anexo II da Directiva Habitats. A zona foi referenciada como
de grande valor para a reprodução de libélulas e libelinhas do Algarve, sendo que, para além das
6 espécies registadas tem ainda um grande potencial para abrigar, pelo menos, outras vinte
espécies, algumas delas raras e de distribuição muito localizada em Portugal, nomeadamente,
Lestes macrostigma e Selysiothemis nigra, espécies ameaçadas em Portugal. Note-se que esta

56
última espécie, a libélula-preta-do-Algarve (Selysiothemis nigra) foi recentemente confirmada
(31-05-2021) na zona do Almargem.

Anfíbios e Répteis

Os anfíbios e répteis são essenciais ao equilíbrio dos ecossistemas servindo não só de alimento
para muitas das espécies da nossa fauna como também de agentes de controlo a muitas das
pragas agrícolas. As espécies que ocorrem na Península Ibérica encontram-se isoladas do
continente europeu pelos Pirenéus o que faz com que muitas das nossas espécies constituam
endemismos ibéricos ou macaronésicos.

O estudo dos anfíbios e répteis realizado no âmbito do projeto “Valorização das Zonas Húmidas
do Algarve: Foz do Almargem-Trafal” foi conduzido pelo especialista Vasco Cruz que cruzou os
dados recolhidos no campo, incluindo o habitat favorável à presença das espécies, com a
informação disponível sobre a distribuição da herpetofauna nacional (Loureiro. et al., 2008). Das
11 espécies de anfíbios dadas para o local confirmaram-se por observação direta as espécies
Bufo spinosus e Pelophylax perezi e das 18 espécies de répteis com distribuição na área de
estudo confirmaram-se as espécies Tarentola mauritanica e Timon lepidus.

O trabalho de campo consistiu na realização de transectos diurnos e noturnos em diferentes


habitats para observação direta, tendo sido feito um esforço na procura de animais letárgicos
sob rochas e troncos e de animais escondidos entre a vegetação das margens das massas de
água. Para a identificação de espécies de anfíbios em corte nupcial, foram realizados pontos de
escuta noturnos, tentando abranger toda a área de estudo. Com o objetivo de prospetar a
presença de anfíbios em fase larvar ou de hábitos aquáticos, realizaram-se varrimentos com
auxílio de rede camaroeiro, procurando abranger diferentes profundidades e tipos de
vegetação.

Apresentam-se de seguida as listas de espécies de anfíbios e répteis dadas para a área de estudo
com o estatuto de proteção e respetiva distribuição:

57
Presente
Presente em x Diretiva
Nome científico Nome Comum ICNF IUCN Berna Presença
no Atlas quadriculas Habitats
vizinhas
Alytes cisternasii Sapo-parteiro-ibérico Não 2 LC LC B-IV Provável
Bufo spinosus Sapo-comum Sim 5 LC LC Confirmada
Discoglossus B-II; B- Muito
Rã-de-focinho-pontiagudo Sim 1 NT LC
galganoi IV provável
Muito
Epidalea calamita Sapo-corredor Sim 5 LC LC B-IV
provável
Muito
Hyla meridionalis Rela-meridional Sim 3 LC LC B-IV
provável
Muito
Pelobates cultripes Sapo-de-unha-negra Sim 2 LC VU B-IV
provável
Pelodytes sp. Sapinho-de-verrugas-
Não 3 NE Provável
(Ibericus/punctatus) verdes/ibérico
Pelophylax perezi Rã-verde Sim 7 LC LC B-IV Confirmada
Salamandra-de-costelas- Muito
Pleurodeles waltl
salientes
Sim 2 LC NT III
provável
Salamandra Salamandra-de-pintas-
amarelas
Não 3 LC LC III Provável
salamandra
Triturus pgymaeus Tritão-marmorado-pigmeu Sim 1 NE Provável

Fig. 17 - Lista de espécies de anfíbios dadas para a área de estudo (Almargem, 2019) com os respetivos estatutos de conservação a nível
nacional de acordo com o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a nível internacional de acordo com a União
Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN; Classificação de acordo com a Diretiva Habitats (92/43/CEE) e convenções de Berna,
*Bona e *Cites e análise da distribuição segundo o Atlas de distribuição dos Anfíbios e Répteis de Portugal (Loureiro. et al., 2008). Legenda:
LC - Pouco preocupante; NT - Quase ameaçado; VU - Vulnerável; EN - Em Perigo; CR - Criticamente em perigo; DD - Informação insuficiente;
NE - Não Avaliado. ∗Nenhuma espécie classificada ao abrigo das Convenções de Bona e Cites.

De entre os anfíbios dados para o local, três espécies pertencem à ordem Urodela (salamandras
e tritões) e oito espécies pertencem à ordem Anura (sapos e rãs), representando no seu
conjunto cerca de 60% da riqueza específica de anfíbios a nível nacional.

Destaque para as espécies Triturus pygmaeus, Alytes cisternasii, Pelodytes ibericus, endemismos
ibéricos, consideradas ameaçadas pelo Guia de Campo “Anfíbios e Répteis de Portugal”
(Maravalhas e Soares, 2017).

No Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (Cabral, M.J. et al., 2005), atualmente em
revisão, apenas a espécie Discoglossus galganoi possui estatuto desfavorável, estando
classificada como Quase Ameaçada (NT). As espécies Triturus pygmaeus e Pelodytes
ibericus/punctatus não apresentam estatuto de conservação uma vez que foram elevadas ao
estatuto de espécie recentemente.

58
Presente
Nome Presente no em x Diretiva
Nome científico ICNF IUCN Berna Cites Presença
comum Atlas quadriculas Habitats
vizinhas
Licranço-de- Muito
Blanus mariae Maria Sim 3 NE
provável
Cobra-de-
Muito
Chalcides bedriagai pernas- Sim 3 LC NT II B-IV
pentadáctila
provável
Chamaeleo Camaleão- Muito
comum Sim 3 LC LC II II-A B-IV
chamaeleon provável
Cobra-lisa- Muito
Coronella girondica meridional Sim 2 LC LC III
provável
Cágado-de-
Emys orbicularis carapaça- Não 1 EN NT II B-II; B-IV Provável
estriada
Hemidactylus Osga-turca
Não 3 VU LC III Provável
turcicus
Hemorrhois Cobra-de- Muito
ferradura Sim 4 LC LC II
hippocrepis provável
Macroprotodon Cobra-de-capuz Muito
Sim 1 LC NT III
brevis provável
Malpolon Cobra-rateira Muito
Sim 5 LC LC III
monspessulanus provável
Cágado- VU Muito
Mauremys leprosa mediterrânico Sim 5 LC II
(Europa) provável
Cobra-de-água- Muito
Natrix maura viperina Sim 4 LC LC III
provável
Cobra-de-água- Pouco
Natrix natrix de-colar Não 2 LC LC III
provável
Lagartixa-
Podarcis virescens Sim 1 NE Provável
ibérica
Psammodromus Lagartixa-do- Muito
mato-comum Sim 4 LC LC III
algirus provável
Psammodromus Lagartixa-do-
mato-ibérica Sim 1 NT LC III Provável
hispanicus
Tarentola Osga-comum
Sim 5 LC LC III Confirmado
mauritanica
Timon lepidus Sardão Sim 3 LC NT II Confirmado
Cobra-de-
Zamenis scalaris
escada
Não 4 LC LC III Provável

Fig. 18 - Lista de espécies de répteis dadas para a área de estudo (Almargem, 2019) com os respetivos estatutos de conservação a nível nacional de
acordo com o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a nível internacional de acordo com a União Internacional para a
Conservação da Natureza (IUCN; Classificação de acordo com a Diretiva Habitats (92/43/CEE) e convenções de Berna, *Bona e Cites; análise da
distribuição segundo o Atlas de distribuição dos Anfíbios e Répteis de Portugal (Loureiro. et al., 2008). Legenda: LC - Pouco preocupante; NT - Quase
ameaçado; VU - Vulnerável; EN - Em Perigo; CR - Criticamente em perigo; DD - Informação insuficiente; NE - Não Avaliado. *Nenhuma espécie
classificada ao abrigo da Convenção de Bona.

59
As dezoito espécies de répteis dadas para o local representam cerca de 60% por cento da
diversidade de répteis terrestres de Portugal continental, das quais se destacam o cágado-de-
carapaça-estriada Emys orbicularis, espécie classificada como Em Perigo (EN) pelo Livro
Vermelho dos Vertebrados de Portugal (2005) e incluída nos Anexos B-II e B-IV da Diretiva
Habitats e no Anexo II da Convenção de Berna, a osga-turca Hemidactylus turcicus espécie
classificada como Vulnerável e a lagartixa-do-mato-ibérica Psammodromus hispanicus
classificada como Quase ameaçada, ambas protegidas pelo Anexo III da Convenção de Berna
(Cabral, M.J. et al., 2005).

As espécies Podarcis virescens e Blanus mariae, endemismos ibéricos, não apresentam estatuto
de conservação uma vez que foram elevadas ao estatuto de espécie recentemente.

Apesar de não estar referenciada na listagem de espécies acima apresentada e tendo em conta
a disponibilidade de habitat e a confirmação da espécie nas proximidades, há uma grande
probabilidade de ocorrência da lagartixa-de-dedos-denteados Acanthodactylus erythrurus,
espécie classificada como Quase ameaçada no Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal
(Cabral, M.J. et al., 2005).

Merecem ainda destaque, as espécies Chalcides bedriagai e Macroprotodon brevis, com uma
distribuição fragmentada no nosso país, consideradas potencialmente ameaçadas pelo guia
“Anfíbios e Répteis de Portugal” (Maravalhas e Soares, 2017) bem como o camaleão-comum
(Chamaeleo chamaeleon), espécie considerada ameaçada, com populações reduzidas
possivelmente em declínio e protegida ao abrigo da Diretiva Habitats (Anexo B-IV) e Convenção
de Cites (Anexo II-A), segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal (Cabral, M.J. et
al., 2005), confirmada no local observação direta no dia 25 de maio de 2021.

Mamíferos

Os mamíferos terrestres não voadores são um dos grupos mais difíceis de observar uma vez que
para além de terem atividade, na sua maioria noturna, são espécies bastante desconfiadas e
sensíveis à presença humana. Desta forma o seu estudo depende da conjugação de várias
técnicas direcionadas para os diferentes grupos como a armadilhagem e/ou a análise de
egagrópilas, caso existam registos de corujas-das-torres na área de estudo, (para os
micromamíferos) ou o uso de foto-armadilhagem conjuntamente com a realização de transectos
para deteção de indícios de presença para os mesomamíferos. A identificação de espécies
através de pegadas e dejetos não é um método 100% fiável e como tal é necessária alguma
prudência no uso desses dados, contudo, verifica-se que para algumas espécies esta

60
metodologia pode ser bastante útil uma vez que deixam marcas únicas e irrefutáveis da sua
presença (e.g. javali, coelho, lebre, texugo, lontra).

O estudo “Valorização das Zonas Húmidas do Algarve: Foz do Almargem-Trafal” não incidiu
sobre este grupo de fauna pelo que se apresenta abaixo a listagem de espécies de mamíferos
terrestres não voadores com presença confirmada e/ou credível com base na 2ª edição da mais
recente versão do Atlas dos Mamíferos de Portugal (Bencatel J. et al., 2019):

Atlas_Mam_Port_
Mamíferos Terrestres Não Voadores Categorias de Ameaça Instrumentos Legais
2019
Diretiva
Nome científico Nome Comum Ocorrência LVVP IUCN Berna Cites
Habitats
Musaranho-de-dentes-
Crossidura russula credível LC LC III
brancos
Erinaceus
Ouriço-cacheiro confirmado LC LC III
europaeus
Herpestes
Sacarrabos confirmado LC LC III B-V; D
ichneumon
Lepus granatensis Lebre confirmado LC LC III
Lutra lutra Lontra credível LC NT II IA B-II; B-IV
Meles meles Texugo credível LC LC III
Oryctolagus
Coelho-bravo confirmado NT EN
cuniculus
sus scrofa Javali credível LC LC
Vulpes vulpes Raposa credível LC LC D

Fig. 19 - Lista de espécies de mamíferos dadas para a área de estudo (Bencatel J. et al., 2019) com os respetivos estatutos de conservação a
nível nacional de acordo com o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a nível internacional de acordo com a União
Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN; Classificação de acordo com a Diretiva Habitats (92/43/CEE) e convenções de Berna,
*Bona e Cites .Legenda: LC - Pouco preocupante; NT - Quase ameaçado; VU - Vulnerável; EN - Em Perigo; CR - Criticamente em perigo; DD -
Informação insuficiente; NE - Não Avaliado. *Nenhuma espécie classificada ao abrigo da Convenção de Bona.

Note-se que o tipo de presença associado a cada espécie, na tabela acima, teve como referência
1 quadrícula UTM (Universal Transverse Mercator) de 10x10 km2 (Bencatel et al., 2019) onde a
área da Reserva Natural se insere, contudo, a área da quadrícula é superior aos limites
geográficos da área da Reserva, pelo que, devem os referidos dados ser utilizados com a cautela
e o discernimento necessários. Na metodologia utilizada para a realização do referido Atlas, uma
quadrícula preenchida significa que a espécie foi detetada pelo menos uma vez, no período
indicado, nalgum ponto da quadrícula sendo que os registos classificados como “credíveis”
foram obtidos por naturalistas (profissionais ou amadores com experiência de campo) e/ou
considerados plausíveis tendo em conta a ecologia e a distribuição conhecida da espécie.

Destaque para a lontra (Lutra lutra), considerada como Quase ameaçada (NT) pelo IUCN
(International Union for Conservation of Nature) e para o coelho-bravo (Oryctolagus cuniculus)

61
que passou recentemente de um estatuto de Quase ameaçado (NT) para Ameaçado (EN), a nível
global.

Os morcegos, à semelhança das restantes ordens de mamíferos, não foram alvo do estudo
“Valorização das Zonas Húmidas do Algarve: Foz do Almargem-Trafal” e como tal será
importante promover e apoiar estudos científicos sobre este grupo que, segundo o Livro
Vermelho dos Vertebrados de Portugal (Cabral, M.J. et al., 2005) detém 9 espécies ameaçadas
e outras 9 com estatuto de Informação Insuficiente (DD), podendo ler-se no site do projeto de
revisão do Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental
([Link] que (...) “A recolha de
informação sobre morcegos de Portugal é, por isso, uma prioridade nacional”.

A área inerente à RNL não foi alvo de amostragem aquando da realização do projeto Atlas dos
Morcegos (Rainho A. et al., 2013) e os poucos estudos que se conhecem mais próximos da área
em questão já são bastante antigos e como tal podem não corresponder à realidade atual. Ainda
assim é possível observar, nos mapas gerados pelo referido Atlas, dados históricos de presença
de duas espécies, nomeadamente do morcego-de-ferradura-pequeno (Rhinolophus
hipposideros) e do morcego-arborícola-pequeno (Nyctalus leisleri). A primeira espécie apresenta
a categoria de Vulnerável (VU) e a segunda Dados insuficientes (DD), estando ambas protegidas
pela Convenção de Berna (Anexo-II), Convenção de Bona (II) e Diretiva Habitats (Anexos B-II e B-
IV para a primeira espécie e B-IV para a segunda) (Cabral, M.J. et al., 2005).

Aves

As aves são o grupo faunístico com maior destaque na área da Reserva Natural uma vez que
para além da maior facilidade na sua observação, servem de atração a diferentes públicos
nomeadamente a ornitólogos, naturalistas, simpatizantes da fotografia da natureza, o que gera
um maior volume de dados sobre o grupo em detrimento dos outros, informação muito útil ao
corpo técnico e científico com impacto na gestão do território. São ainda excelentes auxiliares
em ações de educação e sensibilização ambiental quer para o público em geral quer para as
escolas do concelho.

Segundo o estudo “Valorização das Zonas Húmidas do Algarve: Foz do Almargem-Trafal”, entre
2012 e 2019 registaram-se na área de estudo 137 espécies de aves (134 provenientes de dados
Ebird e 3 provenientes de relatórios do Comité Português de Raridades), das quais 7 são
consideradas raras, 3 exóticas e 26 ameaçadas (Criticamente Em Perigo (CR), Em Perigo (EN) ou
Vulnerável (VU)) a nível nacional, segundo o Livro Vermelho dos Vertebrados de Portugal
(Cabral, M.J. et al., 2005).

62
O estudo das aves foi conduzido pela Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA), a
quem coube, também, a coordenação científica do projeto.

Para além do levantamento histórico dos registos existentes na plataforma Ebird entre 1 de
janeiro de 2012 e 1 de janeiro de 2019 e demais fontes bibliográficas, realizou-se uma saída de
campo em janeiro de 2019 para reconhecimento do local e contagem de aves.

É nas zonas húmidas e vegetação envolvente da Foz do Almargem e do Trafal que se concentram
o maior número de aves presentes na área da Reserva Natural. A densidade populacional e
riqueza específica da área depende da disponibilidade de água ao longo do ano, sendo que a
lagoa do Almargem, parte terminal da Foz do Almargem, constitui o local com maior capacidade
de retenção de água doce da Reserva Natural, atingindo os 830 metros de comprimento, quando
cheia, uma largura máxima de 185 metros e uma profundidade que nunca ultrapassa os 5
metros.

Segundo a entidade responsável pelo estudo das aves (Almargem, 2019) nas zonas húmidas
acima referidas, existe na área da RNL habitat propício à reprodução de várias espécies de aves
aquáticas, contudo, para muitas delas, o grau de alagamento das lagoas é uma condicionante
determinante no sucesso de nidificação.

Segundo a análise dos dados recolhidos no Ebird, e considerando o período de nidificação


definido apenas para os meses de junho e julho, nidificam na Foz do Almargem pequenas
populações de pato-real Anas platyrhyncos, pato-de-bico-vermelho Netta rufina, zarro Aythya
ferina e frisada Mareca strepera, para além de espécies com presença regular ao longo do ano
como o mergulhão-pequeno (Tachybaptus ruficollis), o galeirão (Fulica atra), a galinha-d’água
(Galinulla chloropus) e o pernilongo (Himantopus himantopus).

A nidificação destas espécies, ainda que pouco comum, assume particular relevância na área de
estudo, uma vez que ao contrário das suas populações invernantes, as populações que nidificam
em Portugal estão avaliadas como ameaçadas: Em Perigo para as espécies de pato-de-bico-
vermelho e zarro e Vulnerável para a frisada (Cabral, M.J. et al., 2005).

Contudo, estas zonas húmidas aparentam ter potencial para acolher outras espécies durante a
época de reprodução, uma vez que existem registos da sua presença na altura da nidificação,
embora sem indícios de nidificação comprovados. O nível de água em ambas as áreas, desce
abruptamente no início do Verão, coincidindo com a época balnear e, consequentemente, com
o aumento da presença humana no local.

63
De notar que o ano com maior número de confirmações de nidificação na Lagoa do Almargem
foi em 2018, um ano de pluviosidade excecional nos meses de abril, maio e junho (IPMA 2019
in Almargem, 2019), o que poderá indicar que existindo habitat e disponibilidade de água
durante a época de reprodução, o sucesso reprodutor das espécies que já lá nidificam pode
aumentar, possibilitando também a nidificação de outras espécies tais como o mergulhão-de-
crista Podiceps cristatus (LC), o caimão Porphyrio porphyrio (VU), a garça-vermelha Ardea
purpurea (EN), o garçote Ixobrychus minutos (VU) e, dependendo dos níveis de perturbação, as
espécies chilreta Sternula albifrons (VU) e o borrelho-de-coleira-interrompida Charadrius
alexandrinus (LC) (Cabral, M.J. et al., 2005).

Na vegetação palustre, característica das margens das zonas húmidas, cria o rouxinol-bravo
Cettia cetti, a fuinha-dos-juncos Cisticola juncidis e o tecelão-de-cabeça-preta Ploceus
melanocephalus (espécie exótica resultante de fuga de cativeiro) e provavelmente o rouxinol-
pequeno-dos-caniços Acrocephalus scirpaceus, espécie classificada como Quase ameaçada (NT)
(Cabral, M.J. et al., 2005).

É sobretudo durante o inverno que as zona húmidas da Foz do Almargem e do Trafal apresentam
maior disponibilidade de água, e como tal atraem maior diversidade e abundância de aves
aquáticas, sendo o período de inverno considerado pelo estudo “Valorização das Zonas Húmidas
do Algarve: Foz do Almargem – Trafal” os meses de novembro a fevereiro.

Para além de maiores concentrações das espécies de anatídeos já referidas (pato-de-bico-


vermelho, pato-real, frisada e zarro), a área acolhe, nestes meses, espécies como o pato-
trombeteiro Spatula clypeata, a marrequinha Anas crecca, o arrabio Anas acuta e o negrelho
Aythya fuligula, apresentando esta última espécie o estatuto de Vulnerável (Cabral, M.J. et al.,
2005).

A área alberga ainda como território de invernada várias espécies de limícolas como o
pernilongo Himantopus himantopus, o pilrito-das-praias Calidris alba, o pilrito-de-peito-preto
Calidris alpina, a narceja Gallinago gallinago, o borrelho-de-coleira-interrompida Charadrius
alexandrinus, o perna-vermelha Tringa totanus ou o maçarico bique-bique Tringa ochropus.

Durante esta época as lagoas costeiras são locais de refúgio para diversas espécies de gaivotas,
incluindo espécies menos comuns como a gaivota-de-audouin (Ichthyaetus audouinii), a gaivota-
de-cabeça-preta (Ichthyaetus melanocephalus), ou mesmo a gaivota-de-bico-fino

64
(Chroicocephalus genei). É sobretudo durante os meses de inverno que mais regularmente é
observado o caimão (Porphyrio porphyrio).

As áreas de vegetação palustre são utilizadas por espécies de passeriformes invernantes pouco
abundantes e localizados em Portugal como a petinha-ribeirinha (Anthus spinoletta), o chapim-
de-mascarilha (Remiz pendulinus) e a escrevedeira-dos-caniços (Emberiza schoeniclus).

As zonas húmidas da Foz do Almargem e Trafal e áreas adjacentes são um ponto de paragem
importante entre aves que fazem migrações entre os seus territórios de nidificação a norte, e
áreas de invernada no continente Africano, principalmente na África Ocidental, tanto na
primavera (março-maio) como no outono (agosto-outubro). São um local de paragem migratória
importante para espécies de limícolas que efetuam viagens transcontinentais, permitindo que
repousem e acumulem energia para a continuação das suas viagens, maximizando o sucesso das
mesmas, com destaque para o pernilongo (Himantopus himantopus), o milherango (Limosa
limosa), o borrelho-grande-de-coleira (Charadrius hiaticula), o borrelho-de-coleira-
interrompida (Charadrius alexandrinus), o pilrito-das-praias (Calidris alba), o pilrito-de-peito-
preto (Calidris alpina), o maçarico bique-bique (Tringa ochropus) e o maçarico-das-rochas
(Actitis hypoleucos).

Durante estas passagens migratórias a presença de aves como a íbis-preta (Plegadis falcinellus)
ou o flamingo (Phoenicopterus roseus) adquire maior expressão na área. Durante este período
é comum a observação de várias espécies de garças, nomeadamente a garça-vermelha (Ardea
purpurea), o garçote (Ixobryxus minutos), ou a garça-branca-pequena (Egretta garzetta), já
registada a utilizar a área como dormitório com várias dezenas de indivíduos.

Durante a época migratória este é também um importante ponto de paragem para gaivinas e
garajaus, acolhendo como área de repouso e alimentação chilretas (Sternula albifrons),
garajaus-de-bico-preto (Thalasseus sandvicensis), tendo já sido observadas nestes períodos
espécies menos comuns em Portugal como a gaivina-preta (Chlidonias niger) e o garajau-grande
(Hydroprogne caspia).

As áreas de vegetação palustre em volta dos espelhos e cursos de água são importantes pontos
de paragem para passeriformes migradores transcontinentais como o rouxinol-pequeno-dos-
caniços (Acrocephalus scirpaceus) e a felosa-dos-juncos (Acrocephalus schoenobaenus). Toda a
zona envolvente é ainda um ponto de paragem e/ou passagem para espécies migradoras de
longo curso como a águia-calçada (Hieraaethus pennatus), o abelharuco (Merops apiaster), a
poupa (Upupa epops), a alvéola-amarela (Motacilla flava) ou a toutinegra-de bigodes (Sylvia
cantilans).

65
É possível afirmar-se assim que estas zonas húmidas assumem elevada importância para a
comunidade avifaunística, com especial relevância para as populações invernantes,
proporcionando-lhes abrigo e alimento. Durante as migrações, servem como ponto de paragem
permitindo que as espécies descansem e recuperem forças antes de continuarem viagem.
Durante a época de reprodução albergam populações com densidades populacionais baixas,
mas com estatutos de conservação de ameaça, assumindo particular importância na
conservação destas espécies.

Apresenta-se de seguida a listagem de aves com ocorrência confirmada na área da Reserva


Natural entre janeiro de 2012 e janeiro de 2019.

66
Nome científico Nome Comum ICNF IUCN Berna Bona Cites Diretiva Aves
Acrocephalus Felosa-dos-juncos NE (MigPass) LC
schoenobaenus
Acrocephalus Rouxinol-pequeno-dos- NT LC II II
scirpaceus caniços
Actitis hypoleucos Maçarico-das-rochas VU LC II II
Alauda arvensis Laverca LC LC III
Alca torda Torda-mergulheira LC NT III
Alcedo atthis Guarda-rios LC LC II A-I
Anas acuta Arrábio LC LC III II C D
Anas crecca Marrequinha LC LC III II CD
Anas platyrhynchos Pato-real LC LC III II D
Anthus pratensis Petinha-dos-prados LC NT II
Anthus spinoletta Petinha-ribeirinha EN(Rep)/LC(Vis) LC II
Apus apus Andorinhão-preto LC LC III
Apus pallidus Andorinhão-pálido LC LC II
Ardea cinerea Garça-real LC LC III
Ardea purpurea Garça-vermelha EN LC II II A-I
Arenaria interpres Rola-do-mar LC LC II II
Athene noctua Mocho-galego LC LC II II A
Aythya ferina Zarro-comum EN (Res)/VU (Vis) VU III II D
Aythya fuligula Negrinha VU LC III II D
Bubulcus ibis Garça-boieira LC LC II A
Bútio-comum Buteo buteo LC LC II II II A
Cairina moschata ** Pato-do-mato LC
Calidris alba Pilrito-das-praias LC LC II II
Calidris alpina Pilrito-de-peito-preto LC LC II II
Calidris ferruginea Pilrito-de-bico- VU NT II II
comprido
Carduelis carduelis Pintassilgo LC LC II
Cecropis daurica Andorinha-dáurica LC LC II
Certhia Trepadeira-comum LC LC II
brachydactyla
Cettia cetti Rouxinol-bravo LC LC II II
Charadrius Borrelho-de-coleira- LC LC II II A-I
alexandrinus interrompida
Charadrius dubius Borrelho-pequeno-de- LC LC II II
coleira
Charadrius hiaticula Borrelho-grande-de- LC LC II II
coleira
Chlidonias Gaivina-d'asa-branca LC
leucopterus*
Chlidonias niger Gaivina-preta NE (MigPass) LC
Chloris chloris Verdilhão LC LC II
Chroicocephalus Gaivota-de-bico-fino LC
genei*
Chroicocephalus Guincho-comum LC LC III
ridibundus
Ciconia ciconia Cegonha-branca LC LC II II A-I

67
Nome científico Nome Comum ICNF IUCN Berna Bona Cites Diretiva Aves
Circus aeruginosus Águia-sapeira VU LC II II II-A A-I
Cisticola juncidis Fuinha-dos-juncos LC LC II II
Columba livia Pombo-das-rochas DD LC III A D
Columba palumbus Pombo-torcaz LC LC D
Cyanistes caeruleus Chapim-azul LC LC II
Cyanopica cooki Pega-azul LC LC II
Delichon urbicum Andorinha-dos-beirais LC LC II
Dendrocopos major Pica-pau-malhado- LC LC II
grande
Egretta garzetta Garça-branca-pequena LC LC II A A-I
Emberiza calandra Trigueirão LC LC III
Emberiza schoeniclus Escrevedeira-dos- VU(Res)/LC(Vis) LC II
caniços
Erithacus rubecula Pisco-de-peito-ruivo LC LC II II
Estrilda astrild** Bico-de-lacre NA LC C
Falco tinnunculus Peneireiro-vulgar LC LC II II II A
Ficedula hypoleuca Papa-moscas-preto NE (MigPass) LC
Fringilla coelebs Tentilhão LC LC III
Fulica atra Galeirão LC LC III II D
Fulica cristata* Galeirão-de-crista RE(Rep)/CR(Vis) LC II A-I
Galerida cristata Cotovia-de-poupa LC LC III
Galerida theklae Cotovia-escura LC LC II A-I
Gallinago gallinago Narceja CR(Rep)/LC(Vis) LC III II D
Gallinula chloropus Galinha-d'água LC LC III D
Garrulus glandarius Gaio LC LC D
Hieraaetus pennatus Águia-calçada NT LC II II II A A-I
Himantopus Pernilongo LC LC II II A-I
himantopus
Hirundo rustica Andorinha-das- LC LC II
chaminés
Hydroprogne caspia Garajau-grande EN LC II II A-I
Ichthyaetus audouinii Gaivota-de-audouin VU VU II I/II A-I
Ichthyaetus Gaivota-de-cabeça- LC LC II II A-I
melanocephalus preta
Ixobrychus minutus Garçote VU LC II II A-I
Larus fuscus Gaivota-de-asa-escura VU(Rep)/LC(Vis) LC
Larus michahellis Gaivota-argêntea LC LC III
Limosa lapponica Fuselo LC NT III II A-I
Limosa limosa Milherango LC NT III II
Linaria cannabina Pintarroxo LC LC II
Lophophanes Chapim-de-poupa LC LC II
cristatus
Luscinia Rouxinol-comum LC LC II III
megarhynchos
Mareca penelope Piadeira LC LC III II C D
Mareca strepera Frisada VU(Res)/NT(Vis) LC III II D

68
Nome científico Nome Comum ICNF IUCN Berna Bona Cites Diretiva Aves
Melanitta fusca* Pato-fusco VU
Melanitta nigra Negrola EN LC III II A-III
Melanitta Pato-careto LC
perspicillata*
Merops apiaster Abelharuco LC LC II II
Morus bassanus Ganso-patola LC LC III
Motacilla alba Alvéola-branca LC LC II
Motacilla cinerea Alvéola-cinzenta LC LC II
Motacilla flava Alvéola-amarela LC LC II
Muscicapa striata Papa-moscas-cinzento NT LC II II
Netta rufina Pato-de-bico-vermelho EN(Res)/NT(Vis) LC III II
Numenius phaeopus Maçarico-galego VU LC III II
Oenanthe oenanthe Chasco-cinzento LC LC II II
Parus major Chapim-real LC LC II
Pandion haliaetus Águia-pesqueira CR(Res)/EN(Vis) LC II II II-A A-I
Passer domesticus Pardal-doméstico LC LC
Phalacrocorax carbo Corvo-marinho-de- LC LC III
faces-brancas
Phoenicopterus Flamingo RE(Rep)/VU(Vis) LC II II II-A A-I
roseus
Phoenicurus ochruros Rabirruivo-preto LC LC II II
Phoenicurus Rabirruivo-de-testa- LC LC II II
phoenicurus branca
Phylloscopus collybita Felosinha LC LC II II
Phylloscopus ibericus Felosa-ibérica LC LC II II
Phylloscopus Felosa-musical NE (MigPass) LC
trochilus
Pica pica Pega-rabuda LC LC
Picus sharpei Pica-pau-verde LC LC II
Platalea leucorodia Colhereiro VU(MigRep)/NT(Vis) LC II II II A A-I
Plegadis falcinellus Íbis-preta RE LC II II A-I
Ploceus Tecelão-de-cabeça- NA LC C
melanocephalus** preta
Pluvialis squatarola Tarambola-cinzenta LC LC III II
Podiceps cristatus Mergulhão-de-crista LC LC III
Podiceps nigricollis Cagarraz NT LC II
Porphyrio porphyrio Caimão VU LC II A-I
Ptyonoprogne Andorinha-das-rochas LC LC II
rupestris
Rallus aquaticus Frango-d’água LC LC III
Regulus ignicapilla Estrelinha-real LC LC II II
Remiz pendulinus Chapim-de-mascarilha NT LC III
Riparia riparia Andorinha-das- LC LC II
barreiras
Saxicola rubetra Cartaxo-nortenho VU LC II II
Saxicola rubicola Cartaxo LC LC II II
Serinus serinus Chamariz LC LC II

69
Nome científico Nome Comum ICNF IUCN Berna Bona Cites Diretiva Aves
Sitta europaea Trepadeira-azul LC LC II
Spatula clypeata Pato-trombeteiro EN(Res)/LC(Vis) LC III II C D
Spatula querquedula Marreco NE (MigPass) LC
Stercorarius skua Moleiro-grande LC LC III
Sterna dougallii* Andorinha-do-mar- LC
rósea
Sternula albifrons Andorinha-do-mar-anã VU LC II II A-I
Streptopelia Rola-turca LC LC III
decaocto
Sturnus unicolor Estorninho-preto LC LC II
Sylvia atricapilla Toutinegra-de-barrete- LC LC II II
preto
Sylvia cantillans Toutinegra- LC LC II
carrasqueira
Sylvia melanocephala Toutinegra-de-cabeça- LC LC II II
preta
Tachybaptus ruficollis Mergulhão-pequeno LC LC II
Thalasseus Garajau-de-bico-preto NT LC II II A-I
sandvicensis
Tringa flavipes* Perna-amarela- LC
pequeno
Tringa glareola Maçarico-bastardo NE (MigPass) LC
Tringa nebularia Perna-verde VU LC III II
Tringa ochropus Maçarico-bique-bique NT LC II II
Tringa totanus Perna-vermelha- CR(Rep)/LC(Vis) LC III II
comum
Turdus merula Melro-preto LC LC III II D
Turdus philomelos Tordo-pinto NT(Rep)/LC(Vis) LC III II D
Upupa epops Poupa LC LC II

Fig. 20 - Lista de espécies de aves registadas para a área alvo do estudo “Valorização das Zonas Húmidas do Algarve: Foz do Almargem-Trafal
(Almargem, 2019), na plataforma Ebird entre 01/01/2012 e 01/01/2019 e relatórios do Comité Português de Raridades (CPR), com os respetivos
estatutos de conservação a nível nacional de acordo com o Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) e a nível internacional de
acordo com a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN); Classificação de acordo com a Diretiva Aves (2009/147/CEE) e convenções
de Berna, Bona e Cites. As espécies assinaladas com um * são consideradas raras e as suas observações em Portugal Continental estão sujeitas a
homologação por parte do CPR. Espécies marcadas com ** são consideradas espécies exóticas, provavelmente resultado de fuga de cativeiro. Legenda:
LC - Pouco preocupante; NT - Quase ameaçado; VU - Vulnerável; EN - Em Perigo; CR - Criticamente em perigo; DD - Informação insuficiente; NE - Não
Avaliado; MigPass – Migrador de passagem; Rep – Reprodutor; Vis – Visitante; Res – Residente; MigRep – Migrador Reprodutor.

70
Caracterização Socioeconómica

O concelho de Loulé tem registado ao longo das últimas décadas (1991;2001;2011) uma
tendência de crescimento populacional significativo, com 70.622 habitantes registados no
concelho em 2011, o que representa um incremento populacional de cerca de 19,37%
comparativamente aos valores apresentados em 2001 (INE). Este crescimento demográfico não
tem sido homogéneo em todo o concelho, verificando-se uma crescente concentração
populacional nas freguesias de Quarteira e São Clemente e uma perda populacional significativa
nas restantes freguesias, traduzindo-se num forte desequilíbrio entre o litoral e o interior e em
particular no despovoamento da Serra.

Segundo o Relatório sobre o Estado do Ordenamento do Território de Loulé (2018), o saldo


natural do município é, no ano dos últimos Censos (2011), ainda positivo, contudo, desde então
que se verifica um saldo natural negativo, situando-se nos -150 indivíduos em 2016, situação
que se prevê inverter, dentro de alguns anos devido à dinâmica migratória.
A atratividade turística do Litoral contrasta assim com a saída dos jovens e progressivo
envelhecimento da população no interior com sérios impactes no abandono da prática agrícola.

População Residente (hab) Densidade populacional (hab/km²)


Unidade Territorial
2011 2001 1991 2011
Região do Algarve 451 006 395 218 341 404
Município de Loulé 70 622 59 160 46 585
Almancil 11 136 8 799 6 012 178,74
Alte 1 997 2 176 2 349 21,17
Ameixial 439 604 892 3,54
Boliqueime 4 973 4 473 4 387 107,64
Quarteira 21 798 16 129 10 275 570,62
Salir 2 775 3 023 3 385 14,77
Loulé (São Clemente) 17 358 14 406 10 978 375,71
Loulé (São Sebastião) 7 433 6 734 5 292 118,54
União de Freguesias de
2 713 2 816 3 015 26,54
Querença, Tôr e Benafim
Fig. 21 – População residente no concelho de Loulé entre 1991-2001 e 2001-2011, e densidade populacional (2011), por freguesia
(INE).

71
Verifica-se pela tabela acima apresentada que as dinâmicas populacionais do concelho têm
variado de forma muito díspar ao longo das últimas décadas, correspondendo a maior perda
demográfica à freguesia do Ameixial, com - 27,3% entre 2001 e 2011, freguesia menos populosa,
com apenas 439 habitantes à data dos Censos de 2011.
As freguesias de Almancil, de Quarteira, de São Clemente e São Sebastião (freguesias da cidade
de Loulé) e de Boliqueime apresentam, tal como no período intercensitário anterior, um
acréscimo demográfico entre 2001 e 2011, correspondendo o maior acréscimo populacional à
freguesia de Quarteira, com 21 798 habitantes, o que se traduz num aumento de 35,15%, ainda
assim, bastante inferior ao apresentado em 1991-2001 (57%).

Assim, e segundo os dados de 2011 (INE, 2012), é possível afirmar que aproximadamente 71%
de toda a população do concelho de Loulé se localiza em três das nove freguesias do concelho
de Loulé, nomeadamente em Quarteira (30,86%), São Clemente (24,57%) e Almancil (15,76%),
havendo um contraste muito significativo no número de habitantes por Km2 (densidade
populacional) entre as freguesias de Quarteira, com 570,62 hab/km2 e o Ameixial com 3,54
hab/km2, freguesias com 3.815,68 ha e 12.384,95 ha de área, respetivamente. Esta tendência
está em linha com o índice de envelhecimento do concelho que tem vindo a aumentar nas
últimas décadas. De acordo com os Estudos de Caracterização e Diagnóstico elaborados no
âmbito da revisão do PDM de Loulé, observavam-se em 2011, para o concelho de Loulé, 132
idosos por cada 100 jovens, por oposição aos 128 idosos por cada 100 jovens registados em
2001, com apenas três freguesias a expressarem valores inferiores à média do concelho (132),
nomeadamente Almancil, Quarteira e São Clemente com respetivamente 104, 89 e 119.
Destaca-se, mais uma vez, a freguesia de Quarteira, ainda com um predomínio da população
jovem face aos idosos, exibindo assim, um forte contributo (enquanto freguesia mais populosa)
para a jovialidade da população concelhia (PMAC, 2021).
A distribuição da população ao nível concelhio está intrinsecamente ligada aos setores de
atividade económica, que se distinguem em três grandes grupos, nomeadamente o setor
primário, o secundário e o terciário. Em 2011 (INE), cerca de 79,9% da população ativa
trabalhava no setor terciário com um predomínio na parte Sul do concelho, evidenciando a forte
dinâmica económica baseada no turismo e atividades conexas como o imobiliário e a atividade
bancária. O desenvolvimento turístico assenta numa especialização no turismo sol e praia e
também no golfe, exibindo uma forte concentração da oferta turística no litoral, onde se
concentra 90% da oferta do alojamento local (freguesias de Quarteira e Almancil) (REOT, 2018).
Segundo os Estudos de Caracterização e Diagnóstico elaborados no âmbito da revisão do PDM
de Loulé as freguesias da Serra e do Barrocal apresentam uma reduzida atratividade turística,

72
devido, maioritariamente, à fraca oferta de alojamento. Contudo, exibem um conjunto de
potencialidades turísticas ainda por explorar, que poderão contribuir para a redução do
fenómeno de despovoamento do interior.
Em 2018, Loulé apresentava um total de 13.488 empresas, representando as PME (pequenas e
médias empresas) 99,9% das empresas do concelho. A distribuição das empresas com sede no
concelho por atividade económica revela um maior predomínio do “Alojamento, restauração e
similares” (18,6%), seguido das “Atividades administrativas e dos serviços de apoio” (15%) e do
“Comércio por grosso e retalho; reparação de veículos automóveis e motociclos” (14,4%) (INE).

A indústria transformadora representa no concelho apenas 2,59% das empresas sedeadas em


Loulé, assumindo, ainda assim, um forte protagonismo no contexto regional, uma vez que as
128 indústrias transformadoras localizadas no concelho, em 2016, representavam 18% do total
regional (PMAC, 2021).

No que concerne à agricultura e ainda segundo os Estudos de Caracterização e Diagnóstico


elaborados no âmbito da revisão do PDM de Loulé (2013), o despovoamento do interior reflete-
se também no enorme impacto do abandono da prática agrícola, tendência representada pela
redução do número total de explorações agrícolas e da superfície agrícola utilizada no concelho.
Contudo, entre 2008 e 2016, destaca-se um elevado dinamismo de criação de emprego na área
agrícola que incrementou em 90% os postos de trabalho, o que poderá significar um retomar
das práticas agrícolas sob a alavanca do reconhecimento da qualidade dos produtos agrícolas
tradicionais e gastronómicos como o mel, a alfarroba, a amêndoa e o figo, o que poderá
contribuir para o reforço do sector e da economia das freguesias do interior (PMAC, 2021).

73
7. Riscos Naturais

A Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal localiza-se numa zona costeira a que se
associam um conjunto de vulnerabilidades que, aliadas às alterações climáticas, por via da
subida do nível médio global do mar, das alterações no regime de agitação marítima e das
alterações no regime dos temporais, potenciam os riscos costeiros de galgamento, inundação,
erosão, instabilidade de vertentes e intrusão salina.

O traçado e a posição atuais da linha de costa dependem de um conjunto alargado de fatores


interativos e retroativos, dos quais se destacam o forçamento oceanográfico (ondas, marés,
correntes costeiras, sobrelevação meteorológica, nível médio do mar), os sedimentos (natureza,
dimensão, disponibilidade), o contexto geomorfológico (incluindo praias, arribas, estuários,
lagoas e ilhas barreira) e a intervenção antrópica (Santos et al., 2017)

Na costa de Portugal Continental, o principal “motor” do transporte sedimentar relaciona-se


com a agitação incidente pelo que, de uma forma simplificada, a evolução da posição da linha
de costa pode ser, em grande medida, explicada através da interação entre as ondas, o
fornecimento sedimentar e as variações do nível médio relativo do mar (Santos et al., 2017).

O litoral do concelho de Loulé, com cerca de 13km de extensão e localizado nas freguesias de
Quarteira e Almancil, insere-se na célula sedimentar “Olhos de Água (concelho de Albufeira) –
Foz do Guadiana (concelho de Vila Real de Santo António)” em que o sentido do transporte se
processa de oeste para leste. O fornecimento sedimentar para o sector ocidental desta célula –
”Olhos de Água – Cabo de Santa Maria (concelho de Faro)” – provém sobretudo das areias
produzidas pela erosão das arribas arenosas existentes no troço “Olhos de Água – Garrão
(concelho de Loulé)” e, secundariamente, dos sedimentos transportados pelas linhas de água
que aí drenam para o litoral (erosão hídrica) (Teixeira, 2010).

O litoral do concelho de Loulé caracteriza-se, a oeste, pela presença de um vale muito largo que
corresponde ao troço terminal da Ribeira de Quarteira, responsável por cerca de 80% do débito
sólido fluvial que aflui ao litoral, estimado em 200.000m3/ano, dos quais cerca de 5-10%
correspondem a sedimentos areno-cascalhentos (Andrade, 1990 & Teixeira, 1999/2000 in
Teixeira, 2010). Já a margem esquerda desta ribeira está totalmente artificializada pela
construção da marina de Vilamoura (anos 70) e de edificações de carácter habitacional e

74
turístico. Esta artificialização prolonga-se para leste através da malha urbana de Quarteira,
formando uma frente urbanizada contínua com cerca de 3,1km que confina diretamente com a
praia, destacando-se o porto de pesca de Quarteira (construção dos quebra-mar em 1999) e os
7 esporões de defesa costeira de Quarteira (anos 90) (ECD, 2013)

Para leste de Quarteira desenvolve-se um areal contínuo que se estende ao longo de cerca de
5,5km até à raiz de barreira da Ria Formosa, junto à Quinta do Lago e se prolonga até à barra do
Ancão passando pela Praia de Faro. Ao longo dos 4,4km mais a ocidente desta extensa praia,
existem quatro troços de arribas talhadas em formações detríticas do Plio-Plistocénico
(Manupella, 1992 & Moura, 1988 in Teixeira, 2010), com desigual desenvolvimento e altura (de
poente para nascente) – Forte Novo, Trafal, Vale de Lobo e Garrão – as quais são interrompidas
por barreiras arenosas que encerram as fozes das linhas de água que drenam para o litoral –
Ribeira do Almargem (ou da Fonte Santa) e Ribeira do Carcavai (ECD, 2013; Teixeira, 2010). Nas
zonas vestibulares destas ribeiras desenvolvem-se planícies de inundação de dimensões
consideráveis, onde a influência marinha é atualmente pouco significativa (associada a episódios
esporádicos de galgamento costeiro durante a ocorrência de ondulação de tempestade, ou
durante os curtos períodos de comunicação com o mar, quando o plano de inundação da várzea
ultrapassa o plano do raso de barreira, rasgando barra efémera), fruto do avançado estado de
preenchimento sedimentar das várzeas, cujas cotas ultrapassam, em cerca de 1 a 3m, o plano
da preia-mar de águas vivas (Teixeira, 2010).

Fig.22 - Morfologia e linhas de água do troço litoral em que se insere a Reserva Natural Local (Teixeira, 2010).

75
O litoral do concelho de Loulé encontra-se sob uma grande pressão antrópica por concentrar,
não só a maioria da população residente, mas também dos visitantes, visto ser onde se localizam
as 10 zonas balneares (Vilamoura, Quarteira, Forte Novo, Almargem, Loulé Velho, Vale do Lobo,
Garrão poente e Garrão nascente, Ancão e Quinta do Lago) e a maioria dos empreendimentos
e camas turísticas do concelho, assim como vários equipamentos associados (e.g., campos de
golfe) (EMAAC, 2016).
Paralelamente, o litoral do concelho constitui um dos exemplos mais marcantes de erosão
costeira no litoral algarvio. As evidências de recuo das arribas remontam há mais de 9 mil anos
(Teixeira, 2005 in Teixeira, 2010), com uma taxa de recuo médio na ordem de 0,20-0,80m/ano
(Teixeira, 2011 in Santos et al., 2017). Contudo, a construção dos molhes do anteporto da marina
de Vilamoura veio dificultar/interromper o trânsito sedimentar, conduzindo à redução do
volume de areias disponível na praia para absorver os efeitos erosivos do mar (com ênfase em
períodos de temporal), e desencadeando um processo erosivo que se propagou rapidamente a
oriente de Quarteira: arribas do Forte Novo a partir de 1974, Trafal na década de 1980, Vale do
Lobo entre 1983 e 1990 e Garrão entre 1990 e 1993 (EMAAC, 2016). Entre 1991 e 2001, as taxas
de recuo médio do topo das arribas no troço costeiro Forte Novo-Garrão registaram o valor
máximo no Forte Novo (2,27m/ano), seguido de Vale do Lobo (0,93m/ano) e do Trafal
(0,83m/ano), tendo os restantes sectores estudados registado recuos inferiores (entre 0,06 e
0,14m/ano) (Oliveira, 2005 in EMAAC, 2016).

De acordo com os Estudos de Caracterização e Diagnóstico elaborados no âmbito da revisão do


PDM de Loulé (2013), no período 1947-2007, a erosão costeira máxima total atingiu cerca de
100m no troço “Forte Novo –Trafal”, reduzindo-se progressivamente para leste até ao Garrão
(70m no Trafal; 30m em Vale de Lobo poente; 10m em Vale do Lobo nascente e no Garrão), zona
a partir da qual os recuos tenderam a aumentar gradualmente no mesmo sentido (10 a 15m na
Quinta do Lago; 40 a 50m na Praia de Faro). Com efeito, não apenas o litoral de arriba, mas
também o litoral baixo arenoso do concelho de Loulé tem vindo a sofrer um intenso processo
erosivo. Entre 1944 e 1980, registou-se uma erosão total da duna frontal da Península do Ancão
de cerca de 35m, tendo a maior parte deste processo ocorrido a partir dos anos 60 (DGP, 1982
in ECD, 2013).

A Reserva Natural Local é limitada a sul pelo troço costeiro “Forte Novo – Trafal” (desde o último
esporão de Quarteira até ao extremo leste da arriba do Trafal), extremamente sensível e
praticamente desprovido de fontes sedimentares que não sejam a erosão das arribas e praias.
As velocidades de evolução tendem a ser elevadas visto que a altura muito reduzida das arribas

76
só permite a libertação de volumes consideráveis de sedimentos à custa de grandes recuos da
linha de costa. Para além da perda de área inerente a este processo, também a invasão da lagoa
da foz da Ribeira do Almargem pela água do mar poderá ter consequências ambientais
significativas (ECD, 2013).
As elevadas velocidades de erosão acima mencionadas conduziram à necessidade de proceder
a intervenções a fim de minimizar o recuo da linha de costa. Assim, desde 1998 que a
manutenção das estruturas existentes e das praias no concelho de Loulé tem sido assegurada
(devido ao seu efeito benéfico na estabilidade das arribas), com recurso a recargas artificiais de
areias, realizadas periodicamente, uma vez que o seu intervalo de vida é relativamente curto (as
perdas globais de areias cifram-se em valores um pouco superiores a 100.000m3/ano) (Santos
et al., 2017; PMAC, 2021).

Fig.23 - Praia de Vale de Lobo: a) sob ondulação de tempestade (1996); b) após a alimentação artificial de 2006
(Teixeira, 2010).

A costa de Portugal Continental encontra-se também sujeita a eventos de galgamento e


inundação costeira, que ocorrem quando o espraio das ondas ultrapassa a linha da crista dunar
(ou a crista de uma ilha barreira), provocando a transposição de água do mar sobre as barreiras
costeiras de proteção naturais ou artificiais e, caso o forçamento oceanográfico persista com
intensidade e duração suficientes, a consequente submersão das áreas adjacentes.

O galgamento costeiro induz a erosão e a acumulação simultâneas de sedimentos, fomenta


importantes alterações na costa num curto período de tempo, e pode provocar a abertura de
barras de maré e o arrastamento de pessoas e bens (PMEPC, 2014).

O galgamento e a inundação costeira dependem, não só das características do espaço físico, isto
é, da morfologia, grau de consolidação dos materiais e batimetria, como também do nível do
mar (determinado pela maré astronómica, acrescido da sobrelevação meteorológica) e do run-
up (distância vertical entre o nível médio do mar e a cota mais elevada atingida pelo espraio da

77
onda, i.e., pelo movimento da água da onda através da face da praia, após a rebentação) (Silva
et al., 2013; PMEPC, 2014; Antunes et al., 2018).

Durante os eventos de tempestade, a sobrelevação meteorológica e o run-up assumem uma


maior relevância para o galgamento costeiro, reunindo-se as condições mais propícias à
ocorrência deste fenómeno quando existe coincidência temporal entre um pico de intensidade
da agitação marítima e uma preia-mar de águas vivas equinocial (Silva et al., 2013). A Península
do Ancão apresenta-se como o local mais vulnerável do concelho de Loulé à ocorrência de
galgamentos costeiros (ECD, 2013; ANPC, 2019).

No levantamento dos principais eventos meteorológicos a que este concelho esteve exposto no
período 2000-2014, realizado no âmbito da EMAAC de Loulé – Estratégia Municipal de
Adaptação às Alterações Climáticas de Loulé (2016), não foram encontrados registos de
galgamentos costeiros. Contudo, mais recentemente, o PMAC de Loulé refere que a passagem
da tempestade Emma pelo território nacional, no dia 01 de março de 2018, provocou eventos
de galgamento costeiro, tanto na freguesia de Quarteira como de Almancil, com impacte médio
na vida da população.

No âmbito do Estudo de Avaliação da Subida do Nível Médio do Mar e Sobrelevação da Maré


em Eventos Extremos de Galgamento e Inundação Costeira do Município de Loulé (2018),
decorrente da implementação da EMAAC de Loulé, foi elaborada uma cartografia de
perigosidade de inundação (incluindo de inundação permanente) e de vulnerabilidade física da
zona costeira e estuarina do concelho de Loulé, em situações extremas de maré, para o
horizonte temporal de 2050 e 2100 (tendo como referência o ano 2020). Verifica-se que, para
2050, existe perigo de inundação costeira extrema numa área concelhia de 2,93Km2, o que
corresponde a um acréscimo de 0,88Km2 relativamente ao estimado para 2020. A freguesia de
Almancil é a que apresenta a maior área de exposição ao risco de inundação costeira no cenário
intermédio de subida do Nível Médio do Mar (NMM) (Mod.FC_2Sul: modelo para a costa do
Algarve que estima uma subida intermédia – com maior probabilidade de ocorrência – em
metros, de 0,21m em 2020, de 0,47m em 2050, e de 1,26m em 2100). Considerando o setup
(aumento do NMM na zona de rebentação, promovido pela agitação marítima e por ventos
fortes, estes últimos em particular nas águas interiores, onde as ondas de agitação marítima não
se fazem sentir) adicional de agitação marítima e de vento, contabilizam-se 4,05Km2 de área
concelhia com perigo de inundação costeira extrema, o que traduz um acréscimo de apenas
0,22Km2 face ao estimado para 2020.

78
Já para 2100, identifica-se uma área de 7,35Km2 sem setup e de 8,8Km2 com setup,
correspondendo a um acréscimo, respetivamente, de 4,42 e 4,75Km2 relativamente a 2050. A
freguesia de Quarteira é a que apresenta a maior área de exposição ao risco de inundação
costeira extrema, no cenário intermédio e no cenário extremo (NOAA – National Oceanic and
Atmospheric Administration: modelo apresentado no relatório de 2017 dessa entidade norte-
americana e que estima uma subida extrema – com probabilidade de ocorrência significante e,
por isso, não desprezável – em metros, de 0,26m em 2020, de 0,80m em 2050, e de 2,63m em
2100) de subida do NMM, sendo 4,9% e 5,1% da sua área potencialmente afetada,
respetivamente.

Relativamente à área da Reserva Natural Local, a cartografia permite identificar a existência de


zonas de potencial ocorrência de inundação costeira extrema com nível de perigosidade
(probabilidade) elevado a extremo, zonas de potencial suscetibilidade física elevada a extrema
à inundação costeira extrema e zonas de potencial submersão (inundação costeira permanente),
com destaque, mesmo no cenário menos gravoso de alterações climáticas e a curto prazo, para
a margem norte/nordeste da lagoa da Foz da Ribeira do Almargem.

Fig. 24 –Projeção de eventos de galgamento e Inundação costeira na área da Reserva Natural Local, em 2050, considerando
o cenário Mod.FC_2Sul de alterações climáticas (projeção de subida do NMM igual a 0,47m). Em (C) considerou-se apenas o
efeito de maré e a subida do NMM, e em (A) e (B) estes foram acrescidos de sobrelevação meteorológica, para um período
de retorno de 100 anos. Em (A), as 5 cores representam os níveis de vulnerabilidade à inundação, tendo em conta a
probabilidade de inundação, as distâncias à linha de costa, à rede hidrográfica e às redes de escoamento, e a geologia: verde
escuro = 0-20%, muito baixo; verde claro = 20-40%, baixo; amarelo = 40-60%, moderado; laranja = 60-80%, elevado; vermelho
= 80-100%, extremo. Em (B), as 5 cores representam os intervalos de probabilidade de inundação: branco = 0,1-20%, muito
baixa; azul1 = 20-40%, baixa; azul2 = 40-60%, moderada; azul3 = 60-80%, elevada; azul escuro = 80-100%, extrema. Em (C), as
5 cores representam os níveis de cota máxima de submersão: branco = 0,1% de submersão, duração de 9h/ano; azul1 = 1%,
duração de 88h/ano; azul2 = 2,5%, duração de 219h/ano; azul3 = 5%, duração de 438h/ano; azul escuro = 10%, duração de
876h/ano (adaptado de Antunes et al., 2018).

79
Para além do risco de inundação costeira pela água do mar, e por inerência dos efeitos adversos
das alterações climáticas, o aumento da frequência de fenómenos extremos de precipitação
intensa concentrada no tempo, acarreta riscos de inundações e cheias com potenciais
consequências prejudiciais para a saúde humana, o ambiente, o património cultural e as
atividades económicas.

Da análise da “Carta Síntese de Riscos” (II.27), elaborada no âmbito dos ECD (2009), verifica-se
que, na Reserva Natural Local, as áreas potencialmente sujeitas a inundações para um período
de retorno de 100 anos são, essencialmente, as margens das linhas de água que a atravessam –
Ribeira do Almargem e Ribeira do Carcavai. Na “Ficha Síntese sobre Áreas Inundáveis” (EDC,
2009), que acompanha os estudos acima mencionados, é possível verificar quais os pontos
próximos da área da Reserva Natural Local identificados como suscetíveis a inundações,
nomeadamente:

 Troço terminal da Ribeira do Almargem e na passagem da estrada n.º 396;


 Troço terminal da Ribeira do Carcavai, junto à estrada n.º 572-2, na passagem da estrada
n.º 396, a montante do caminho-de-ferro, a montante da A22 e na envolvente da
povoação de Vale de Éguas.

Fig. 25 – Carta Síntese das Áreas Inundáveis para a área da Reserva Natural Local da Foz
do Almargem e do Trafal para um período de retorno de 100 anos (ECD, 2009).

80
A intrusão salina (introdução de água salgada num sistema aquífero) é outro dos fenómenos
preocupantes que afetam cada vez mais as zonas costeiras. Os aquíferos costeiros possuem em
equilíbrio dinâmico a água salgada do mar e a água doce continental que pode deixar o aquífero
por descarga através de afloramento ou pela extração mecânica. Este equilíbrio é função do
caudal de água doce que escoa para o mar. Se as quantidades de água doce extraídas nas
captações forem superiores à recarga, então está criada uma situação de desequilíbrio que vai
provocar a penetração da água salgada para o interior, progredindo de forma lenta, mas
contínua, atingindo progressivamente as captações mais afastadas do mar (Silva e Haie, 2000).

De acordo com os Estudos de Caracterização e Diagnóstico elaborados no âmbito da revisão do


PDM de Loulé (2013), o crescimento demográfico, bem como a crescente pressão urbanística
no litoral do concelho de Loulé, têm conduzido à sobre-exploração dos recursos naturais,
incluindo os recursos hídricos subterrâneos, existindo indícios e casos concretos de desequilíbrio
nos aquíferos, conducentes à intrusão salina, e que se refletem na salinização dos furos e poços
situados no litoral (a identificação de concentrações anómalas de cloretos em amostras de água
colhidas neste locais está frequentemente associada à dissolução de minerais evaporíticos,
sendo as ocorrências deste tipo por vezes difíceis de distinguir da mistura com água do mar). Se
as captações de água doce forem implantadas sobre as massas de água salgada, pode mesmo
ocorrer a subida de sais com a forma característica de cone (Silva e Haie, 2000).
Adicionalmente, devido à impermeabilização urbana e industrial das zonas de recarga dos
aquíferos, vai-se reduzindo a capacidade de infiltração e aumentando a probabilidade de
descida dos potenciais hidráulicos, com o consequente avanço da cunha salina para o interior.

Apesar de a pressão sobre os recursos hídricos subterrâneos ter sofrido uma redução a partir da
década de 1990, com a alteração da origem da água destinada ao abastecimento público para
as águas superficiais, a sua utilização em furos e poços privados ainda se mantém, com ênfase
no consumo para a rega (ECD, 2013).
Os estudos realizados no âmbito da revisão do PDM, identificam os 3 sistemas aquíferos
localizados no sul do concelho de Loulé como os mais suscetíveis à intrusão salina – “Quarteira”,
“Campina de Faro” e “Albufeira – Ribeira de Quarteira”, existindo efetiva conexão hidráulica
entre estes aquíferos e o mar (Monteiro et al., 2007 in ECD, 2013), local de descarga dos
mesmos.
Da análise da “Carta Síntese de Riscos” (II.27), elaborada no âmbito dos ECD (2009), verifica-se
que foi considerada a delimitação, no litoral do concelho de Loulé, de uma faixa de proteção à
intrusão salina, com a largura de 1000m (medida do mar para terra, perpendicularmente à linha

81
de costa), a qual abrange a maior parte da área da Reserva Natural Local, incluindo as respetivas
fozes. Estes estudos referem que, não obstante a execução de furos na “Zona Terrestre de
Proteção” (faixa entre a margem e 500m para o interior, medida na perpendicular à linha de
costa, definida no âmbito do PROT Algarve – Plano Regional de Ordenamento do Território do
Algarve, aprovado pela Resolução do Conselho de Ministros n.º 102/2007, de 3 de agosto de
2007) estar sujeita a limitações e, do ponto de vista hidrogeológico, poder aliviar os sistemas
aquíferos na zona de interface entre a água doce e a água salgada, a distância de 500m não
resolve os problemas de intrusão salina que possam existir para montante. Assim, este estudo
considera que as medidas que se preconizam para a zona costeira do concelho de Loulé não se
devem limitar apenas a essa faixa de 500m, mas à extensão dos 3 sistemas aquíferos acima
mencionados.

Por último, importa destacar a atividade sísmica que poderá afetar a Reserva Natural Local,
tendo em conta a sua proximidade a estruturas tectónicas ativas, nomeadamente, na área
imersa, as existentes na fronteira (usualmente designada por falha Açores-Gibraltar) entre as
placas litosféricas Euroasiática e Africana e, no território emerso algarvio, as deformações
intraplaca, com destaque, no concelho de Loulé, para a Falha de S. Marcos-Quarteira, a Falha de
Loulé e a Falha do Carcavai (instalada na zona da ribeira com o mesmo nome).

Fig. 26 – A figura inserida no canto superior direito identifica a fronteira entre as placas Euroasiática e Africana (AGFZ = Falha Açores Gibraltar; GF
= Falha da Glória). A figura maior constitui um mapa tectónico simplificado do Golfo de Cadiz e das planícies abissais vizinhas (Planície Abissal do
Tejo e Planície Abissal da Ferradura), com indicação das principais estruturas aí existentes (Falha da Planície Abissal do Tejo, Falha do Banco de
Gorringe, Falha da Ferradura, Falha do Marquês de Pombal, Falha do Banco de Portimão e limites SWIM – Margem Sudoeste Ibérica) que poderão
originar sismos de grandes magnitudes e tsunamis, com consequências para a região do Algarve ( adaptado de Matias et al., 2013).

82
Conforme referido por Dias et al. no ERSTA – Estudo do Risco Sísmico e de Tsunamis do Algarve
(ANPC, 2010), ao longo dos séculos, o Algarve tem sido afetado por uma sismicidade histórica
(registada por relatos escritos e imagens) e por uma sismicidade instrumental (registada por
aparelhos próprios, a partir de 1961 inclusive) importante, destacando-se alguns sismos de
grandes proporções como os ocorridos em 24 de agosto de 1356, 1 de novembro de 1755 e 28
de fevereiro de 1969, do tipo interplaca, que tiveram origem numa faixa imersa que se estende
desde o Banco de Gorringe (localizado a cerca de 150km a sudoeste do Cabo de São Vicente) até
ao estreito de Gibraltar (a sudeste).

No território emerso algarvio, a sismicidade (do tipo intraplaca) não se propaga


significativamente para o interior, sendo possível identificar três zonas de maior atividade,
designadamente a área que se estende da Serra de Monchique até Portimão, a área entre
Albufeira-Loulé-Faro, e a área de Tavira-Vila Real de S. António-Castro Marim.

Fig.27 - Mapa sintético das principais falhas ativas identificadas na região do Algarve com a localização dos paleosismitos atualmente
identificados: 1 - depósitos plio-quaternários; 2 - falha provável; 3 - falha inversa (marcas no bloco superior); 4 - desligamento; 5 - falha com
componente de movimentação vertical de estilo desconhecido (traços no bloco abatido); 6 - dobra; A - Baiona; B - Sinceira (A e B correspondem
ao sistema de falhas S. Teotónio-Aljezur-Sinceira- Ingrina); C - Martinhal; D - Barão de S. João; E - Espiche-Odiáxere; F - Lagos; G - Rib.ª de
Odiáxere; H - Alvor; I - Portimão; J - Ferragudo; K - Sr.ª do Carmo; L - Relvas; M - Rib.ª de Espiche; N - Vale Rabelho; O - Baleeira; P - Albufeira; Q
- Mosqueira; R - Oura; S - S. Marcos-Quarteira; T - Carcavai: U - Areias de Almancil; V - Faro; Y - S. Estevão; X - Loulé; W - Eira de Agosto; Z - S.
Brás de Alportel (Dias, 2001 & Dias e Cabral, 2002 in ANPC, 2010).

No ERSTA (ANPC, 2010), alguns autores associam à Falha de Loulé os três sismos que
impactaram mais negativamente este concelho, nomeadamente o de 1587 (final de novembro),
o de 1722 (27 de dezembro) e o de 1856 (12 de janeiro).

83
Carrilho et al. identificam no ERSTA (ANPC, 2010) as zonas de Loulé e Tavira como sendo as mais
importantes na região do Algarve, em termos de energia sísmica libertada, no período entre 63
a.C e 2003 d.C, em consequência do sismo de 1722 e de alguns sismos significativos ocorridos
na zona de Loulé.

Os efeitos primários de um sismo de magnitude elevada podem ser devastadores, traduzindo-


se na vibração intensa e rotura do solo, e em danos severos/colapso (parcial ou total) de
edifícios, equipamentos e infraestruturas (dependendo do seu grau de vulnerabilidade). A
ocorrência de um sismo pode provocar efeitos secundários, também devastadores para o
ambiente, pessoas e bens, nomeadamente, réplicas, deslizamentos e aluimentos de terras,
incêndios, inundações por rotura de canalizações, diques ou barragens, e tsunamis.

Em particular, os tsunamis podem provocar a morte de pessoas e animais por arrastamento ou


afogamento, e a danificação/destruição de habitats, de portos, marinas e embarcações, de
edifícios, infraestruturas (eletricidade, água e saneamento) e vias de comunicação localizados
próximos da costa (sobretudo em locais de cota reduzida) (PMEPC, 2014).

De acordo com Vicente et al. em “Risco Sísmico: Aprender com o Passado - XII Encontro Nacional
de Riscos (Lourenço e Gomes, 2019)”, não existe consenso na comunidade científica sobre qual
é o grau do risco sísmico do Algarve, designadamente em face das incertezas sobre a sua real
perigosidade sísmica, tendo sido publicados muitos estudos contraditórios ao longo dos anos.
Existem estudos (Giardini et al., 2013 in Lourenço e Gomes, 2019) em que a perigosidade sísmica
do Algarve aparece como sendo menor do que a de Lisboa, e outros (Anexo Nacional do
Eurocódigo 8 – Comité Europeu de Normalização, 1998 in Lourenço e Gomes, 2019) em que esta
é a região de Portugal Continental com os maiores valores de aceleração de pico (variação
máxima da vibração do solo em função do tempo) e, consequentemente, com a maior
perigosidade sísmica.

Paralelamente, existem estudos que apontam para valores muito baixos referentes às
intensidades máximas observadas no Algarve ao longo da história (Ferrão et al., 2016 in
Lourenço e Gomes, 2019), enquanto outros apresentam intensidades máximas generalizadas de
X (Teves-Costa et al., 2019 in Lourenço e Gomes, 2019), o que corresponde a um grau
“Destruidor” na escala de Mercalli Modificada.

A incerteza sobre o intervalo de recorrência de sismos de grande magnitude (e tsunamis) com


origem na área imersa a sul/sudoeste do Algarve também é grande, existindo estimativas muito
díspares entre diferentes modelos de delimitação e caracterização das zonas sismogénicas
(Carvalho e Malfeito, 2016), e entre os mesmos autores (Matias et al., 2013), dependendo se

84
cada estrutura tectónica (ou conjunto de estruturas) é considerada isoladamente (e.g., um
mínimo de 10.000 anos para um sismo de magnitude 8.7 na escala de Richter, semelhante ao
de 1755) ou se a proximidade de outras falhas ativas é tida em conta (e.g. 3.500 anos ou menos
para um sismo da mesma magnitude). Não obstante, por se estimar um período de retorno
superior a 200 anos para a ocorrência de sismos desta magnitude e tsunamis, é-lhes atribuído
um grau de probabilidade baixo na Avaliação Nacional de Risco (ANPC, 2019).

Dias et al. estimam no ERSTA (ANPC, 2010) que o intervalo de recorrência de um sismo com
origem na Falha do Carcavai seja de 94.400 a 157.330 anos e que a magnitude máxima
expectável de um sismo com origem na área emersa do concelho de Loulé não exceda 7.0 (6.3-
7.0 para a Falha de S. Marcos-Quarteira, 6.3 para a Falha de Loulé e 6.6 para a Falha do Carcavai).

No âmbito do ERSTA (ANPC, 2010), foi avaliada a influência do efeito de sítio (resultado da
filtragem a que as ondas sísmicas são sujeitas ao atravessarem as camadas superficiais) na
propagação das ondas sísmicas, através do cálculo de um Índice de Vulnerabilidade,
considerando os atributos do substrato rochoso que mais intervêm no agravamento desse efeito
(por ordem decrescente de importância: litologia, espessura dos sedimentos Plio-Quaternários,
grau de carsificação, e declive da superfície topográfica). O Índice de Vulnerabilidade obtido para
a região do Algarve apresenta valores elevados na zona costeira a leste de Lagos,
vulnerabilidades médias na zona do Barrocal algarvio e vulnerabilidades mais baixas na região
da Serra Algarvia. A área envolvente à Ria Formosa, mais concretamente entre o Rio Guadiana
e a Ribeira de Quarteira, é a mais vulnerável da costa algarvia ao efeito de sítio na propagação
das ondas sísmicas, com maior expressão territorial nos concelhos de Olhão, Faro e Loulé.

Fig. 28 - Índice de vulnerabilidade sísmica


da região do Algarve, de baixo (verde) a alto
(vermelho), de acordo com o efeito de sítio
decorrente das particularidades litológicas,
estruturais e morfológicas (ANPC, 2010).

85
Na versão do ERSTA apresentada à Assembleia da República (ANPC, 2010), refere-se que o troço
“Vilamoura – Vila Real de Santo António” é a zona costeira de maior vulnerabilidade a tsunamis
no litoral do Algarve, particularmente nas zonas de menor cota, onde não existem arribas na
retaguarda da praia que impeçam a progressão das ondas para o interior. Nas modelações
efetuadas no âmbito deste estudo, foram identificados como mais vulneráveis a um cenário de
tsunami com ondas de 3m acima do NMM (+2m acima do Zero Hidrográfico), no concelho de
Loulé, alguns locais pontuais de menor elevação e junto às barras de maré (e.g., Ribeira de
Quarteira, marina de Vilamoura e barra do Ancão). Nos cenários com ondas de 5 e 7m acima do
NMM, as zonas de vulnerabilidade aumentam significativamente, especialmente desde a barra
do Ancão até ao final deste troço, com valores entre 88% e 99%, demonstrando claramente a
maior vulnerabilidade da Ria Formosa em relação ao resto do Algarve.

A partir da cartografia de risco de tsunami elaborada no âmbito do ERSTA (ANPC, 2010) por
Baptista et al., é possível inferir que, qualquer que fosse a fonte geradora de tsunami na área
imersa a sul/sudoeste do Algarve, as ondas demorariam entre 24 a 48 minutos a chegar à costa
de Quarteira, sendo uma zona de elevada vulnerabilidade à inundação por tsunami devido à
extensa ocupação urbana, com ênfase na época estival.

Caso a ocorrência de um sismo de magnitude 8.0, com epicentro localizado a 188km a


oeste/sudoeste de Faro (epicentro idêntico ao do sismo ocorrido a 17 de dezembro de 2009),
como o simulado por Costa et al. no ERSTA (ANPC, 2010), fosse geradora de um tsunami, toda a
área da Reserva Natural Local seria potencialmente inundada pelas ondas. Contudo, não se
estima que, por si só, este sismo (cuja intensidade no concelho de Loulé oscilaria entre VII e VIII)
viesse a causar danos humanos (mortos, feridos ou desalojados) na área da Reserva Natural
Local, podendo apenas condicionar a utilização de alguns edifícios aí existentes.

Fig. 29 - Zonas potencialmente inundadas por um tsunami gerado por um sismo de magnitude 8.0, com
epicentro localizado a 188km a oeste/sudoeste de Faro – pormenor de Vilamoura e Quarteira (ANPC, 2010).
86
8. Ameaças Externas
São várias as ameaças apontadas pelo estudo “Valorização das Zonas Húmidas do Algarve: Foz
do Almargem-Trafal” à conservação das espécies e habitats presentes na área da Reserva
Natural Local, sobretudo de origem antrópica.

Elencam-se abaixo algumas das ameaças mais evidentes e impactantes para a área da Reserva
Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal:

 A pressão imobiliária, impulsionada pela indústria do turismo, tem lugar de destaque


em toda a área envolvente aos limites propostos da Reserva;
 A perturbação humana, associada a elevados índices de visitação, particularmente
preocupante, nos meses de verão aquando da prática balnear. Ao elevado número de
pessoas associam-se práticas de conduta não compatíveis com os objetivos da Reserva
tais como a circulação desregrada de viaturas motorizadas por toda a área; o
estacionamento abusivo de viaturas fora dos locais estabelecidos para esse efeito; a
prática de autocaravanismo, pernoita e campismo selvagem em locais sensíveis como
arribas, dunas e zonas húmidas; o pisoteio do cordão dunar, habitat sensível e tão
importante na proteção da zona costeira contra o avanço do mar; a presença de cães
sem trela nas zonas húmidas e dunas, impactando diretamente a nidificação de muitas
aves; o aumento considerável de resíduos na área;
 A falta de proteção legal que protege a área de ameaças externas;
 A presença de espécies exóticas que, por sua vez, competem com a fauna e flora
autóctone, com consequências nefastas para a biodiversidade, descaracterizando a
paisagem;
 A qualidade e gestão dos níveis de água das ribeiras do Almargem e do Carcavai, que
apresentam, pontualmente, episódios de poluição possivelmente devido à descarga de
efluentes domésticos e de origem agropecuária, com níveis de água, no verão, muito
baixos ou nulos o que condiciona a nidificação de muitas espécies de aves. Os níveis de
água dependem, na sua maioria, da taxa anual de precipitação, contudo, a proliferação
de furos e captações de água ilegais a montante das ribeiras podem condicionar a
disponibilidade de água assim como a abertura artificial das barras;
 A degradação do cordão dunar resultante do excesso de pisoteio, acumulação de
resíduos e presença de espécies invasoras como por exemplo a Carpobrotus edulis.

87
 A degradação da falésia que devido à sua natureza e composição, já se encontra em
perigo de desmoronamento, agravando-se o seu estado pela circulação e
parqueamento excessivo de viaturas não autorizadas;
 A proliferação de trilhos desregrada é visível por toda a área da Reserva com a
circulação indevida de pessoas e viaturas que acabam por aceder ou pisotear zonas
sensíveis.

A área que aqui se propõe classificar é um espaço apelativo e atrativo à prática balnear no verão
e a atividades de lazer durante todo o ano. Esta proximidade entre o Homem e o Território,
pode, por vezes, entrar em conflito, mediante os interesses e necessidades dos diferentes
intervenientes, que atuam num mesmo espaço, e o meio, sendo imperativo encontrar um
equilíbrio que sirva a todos, através da partilha de responsabilidades e desafios no uso e gestão
do território. Não é a intenção da classificação de uma determinada área proibir o acesso à área
ou limitar o usufruto deste espaço que é de todos, mas sim implementar um modelo de visitação
que não degrade ou perturbe os ecossistemas e os seus serviços, tão importantes para o nosso
bem-estar e saúde.

Importa assim que o modelo de gestão da área da Reserva seja elaborado de forma conjunta
por todas as entidades com responsabilidade nas matérias de ambiente, ação climática e
ordenamento do território e por todos os cidadãos que usufruem da área seja por razões lúdicas,
económicas e/ou científicas, devendo este documento contemplar as ameaças externas já
identificadas para a área e outras que poderão surgir no futuro. As medidas e ações devem ainda
contemplar os instrumentos disponíveis sobre Ação Climática para o município de Loulé,
nomeadamente a EMAAC, o PMAC, o PIAAC, o ESNMM e os Estudos de Caracterização do
Processo de Revisão do PDM de Loulé de forma a minimizar e/ou combater alguns riscos
naturais já identificados para a área da Reserva, tais como intrusão salina, zonas ameaçadas
pelas cheias, galgamento e inundação oceânica e erosão costeira.

A gestão de uma área protegida tem de ser, obrigatoriamente, acompanhada por uma estratégia
de educação e sensibilização ambiental, onde a partilha do conhecimento é a peça chave na
mudança de comportamentos futuros, mais conscientes e sustentáveis.

88
9. Considerações Finais

Segundo o Regime Jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade (Decreto-Lei n.º


142/2008, de 24 de julho, na sua atual redação), a classificação de uma área protegida visa
conceder-lhe um estatuto legal de proteção adequado à manutenção da biodiversidade e dos
serviços dos ecossistemas e do património geológico, bem como à valorização da paisagem.

A área da Reserva Natural Local da Foz do Almargem e do Trafal proposta para classificação, tal
como ficou explícito pelos dados atrás expostos, constitui um refúgio para muitas espécies de
fauna e flora que urge preservar num litoral muito urbanizado onde a pressão antrópica é cada
vez maior. Importa referir que os estudos de fauna e flora resultantes do estudo “Valorização
das Zonas Húmidas do Algarve: Foz do Almargem-Trafal” (Almargem, 2019) e que alavancaram
o processo de classificação nem sempre decorreram nas épocas mais favoráveis à observação
das espécies devido a condicionalismos de tempo inerentes ao Fundo Ambiental, acreditando-
se que a listagem aqui apresentada possa estar subestimada, necessitando de mais estudos
continuados no futuro. Ainda assim, da análise florística, resultaram um total de 228 espécies,
214 das quais autóctones de onde se destacam pelo seu interesse de conservação ou elevado
valor patrimonial nove espécies (Chamaesyce peplis, Cynanchum acutum, Echium gaditanum,
Frankenia boissieri, Linaria pedunculata, Malcolmia triloba subsp. gracílima, Melilotus segetalis,
Ononis variegata e Ruppia marítima), às quais acrescem, pelo menos mais 5 espécies descritas
para a área, segundo a Lista Vermelha da Flora Vascular de Portugal Continental (Carapeto et
al., 2020): Armeria macrophylla, Thymus albicans, Trisetaria dufourei, Tuberaria globulariifolia
var. major, Ulex argenteus subsp. subsericeus. Foram ainda identificados nove habitats naturais
e semi-naturais constantes do anexo B-I do Decreto-Lei n.º 49/2005, de 24 de fevereiro, sendo
dois deles classificados como habitats prioritários para a conservação, nomeadamente Lagunas
Costeiras (1150) e Dunas fixas com vegetação herbácea (2130).

No que concerne à fauna foram identificadas, pelo estudo acima referido, 235 espécies, das
quais 137 são aves, 94 insetos, 2 anfíbios e 2 répteis. O grupo das aves foi o que registou maior
diversidade, com 26 espécies ameaçadas, com destaque para as aves aquáticas invernantes e
migratórias, altura em que as zonas húmidas assumem maior importância para este grupo
devido à maior disponibilidade de água. Destaque ainda para o papel fundamental destas zonas
húmidas, na altura da reprodução, para as populações nidificantes de pato-de-bico-vermelho
(Netta rufina), zarro (Aythya ferina) e frisada (Mareca strepera), as duas primeiras espécies

89
avaliadas como “Em Perigo” e a última como “Vulnerável”, segundo o Livro Vermelho dos
Vertebrados de Portugal (2005).

No grupo dos insetos, das 94 espécies observadas destacam-se, pelo seu interesse para a
conservação, as espécies Amegilla fasciata, Campsomeriella thoracica, Enoplops bos, Hemianax
ephippiger, Pterostichus ebenus, Svercus palmetorum, Zerynthia rumina e as subespécies,
Carabus rugosus celtibericus e Licinus punctatulus granulatus. Importa ainda realçar o grande
potencial da área para acolher muitas outras espécies RELAPE (Raras, Endémicas, Localizadas,
Ameaçadas ou em Perigo de Extinção), tais como a borboleta Melitaea aetherie, o louva-a-deus-
dos-olhos-pontiagudos Apteromantis aptera, a libelinha lestes-das-marismas Lestes
macrostigma ou a libélula-preta-do-Algarve Selysiothemis nigra, recentemente confirmada.

Existem ainda 11 espécies de anfíbios e 18 espécies de répteis dadas para o local, das quais
apenas se confirmaram 2 espécies de cada grupo, nomeadamente Bufo spinosus e Pelophylax
perezi e Tarentola mauritanica e Timon lepidus, confirmando-se recentemente a presença do
camaleão-comum (Chamaeleo chamaeleon).

Segundo a 2ª edição da mais recente versão do Atlas dos Mamíferos de Portugal (Bencatel J. et
al., 2019) existem nove espécies de mamíferos terrestres não voadores com presença
confirmada e/ou credível na área da Reserva, não existindo dados recentes sobre a ocorrência
dos morcegos na zona.

As zonas húmidas inerentes à foz do Almargem e do Carcavai são áreas prioritárias a preservar
(Convenção de Ramsar), que devem ser valorizadas não apenas pelo valor estético que conferem
à paisagem e sensação de bem-estar social, mas também pelo alimento, água, refúgio e habitat
que fornecem a muitas das espécies, bem como pelos serviços que fornecem ao Homem
(aprovisionamento, regulação, suporte e culturais), nomeadamente no combate às alterações
climáticas e fenómenos extremos associados.

As alterações climáticas e a degradação do ambiente representam uma ameaça existencial para


a Europa e para o resto do mundo, sendo um dos desígnios do Pacto Ecológico Europeu (CE,
2019) travar a perda da biodiversidade e o uso desmedido dos recursos naturais onde a saúde
da natureza tem lugar de destaque pelos impactos diretos que tem no bem-estar físico e mental
do Homem.

90
A pandemia veio trazer uma nova forma de pensar e de experienciar a vida, tendo havido um
reforço e priorização no contacto do Homem com a natureza, ocupando as áreas protegidas um
papel fundamental no que respeita à saúde e bem-estar social. É, portanto, essencial promover
o uso sustentável destes espaços e dos seus recursos, garantido o bom funcionamento dos
ecossistemas e respetivos serviços, condição essencial no combate à perda da biodiversidade,
ameaça destacada no Programa do XXI Governo Constitucional e que assume especial relevo no
contexto das alterações climáticas.

Deve a criação desta Reserva intentar o desenvolvimento/uso sustentável do território, num


contexto da valorização dos recursos naturais, da água e do solo, bem como salvaguardar
sistemas e processos biofísicos associados ao litoral e ao ciclo hidrológico terrestre, que
asseguram bens e serviços indispensáveis ao desenvolvimento das atividades humanas.

Importa assim conciliar a dinamização destes territórios com a conservação da natureza e da


biodiversidade tendo em conta as cinco principais causas diretas da perda de biodiversidade –
alterações na utilização dos solos em terra e no mar, sobre-exploração, alterações climáticas,
poluição e espécies exóticas invasoras (Estratégia Europeia da Biodiversidade 2030) através de
uma política de proximidade, onde os visitantes, residentes e proprietários devem ser agentes
ativos nesta gestão e unir esforços com os diferentes setores de atividade e devidas entidades
governativas competentes para se atingir um equilíbrio que melhor se adeque às dinâmicas
ecológicas, económicas e sociais da área que aqui se propõe classificar como Reserva Natural
Local da Foz do Almargem e do Trafal.

91
10. Referências Bibliográficas

 Agência Portuguesa do Ambiente (2015). Relatório de vulnerabilidades climáticas


futuras - Município de Loulé. Programa AdaPT (Projeto [Link]). Disponível
em: [Link]
[Link]/upload_files/client_id_1/website_id_1/Ambiente/Relatorio_Vulnerabilidades
_Futuras_Loule_Revisto_Final.pdf;

 Agência Portuguesa do Ambiente (2016). Plano de Gestão da Região Hidrográfica das


Ribeiras do Algarve (RH8) – 2016/2021;

 Agência Portuguesa do Ambiente (2017). Plano de Ação Litoral XXI. Disponível em:
[Link]
_Litoral_XXI_v13032019.pdf
 Almargem (2017). Livro digital: Cadoiço e Foz do Almargem. REASE. Disponível em:
[Link]
=17:2018-01-02-11-39-24&Itemid=107;
 Almargem (2019). Valorização das Zonas Húmidas do Algarve: Foz do Almargem –
Trafal. Fundo Ambiental. Disponível em:
[Link]
d=18:2019-06-03-09-30-01&Itemid=107;
 Almargem (2021). Loulé – Cadoiço e Megalapiás: revelar o que já existe. Relatório final;
 Almeida, C.; Mendonça, J. L.; Jesus, M. R. & Gomes, A. J. (2000). Sistemas Aquíferos de
Portugal Continental - Unidade Hidrogeológica: Orla Meridional. Centro de Geologia da
Universidade de Lisboa & Instituto Nacional da Água, Lisboa, 432-661;
 Almeida, R. R. d., & Viegas, C. (2020). O sítio romano de Loulé Velho e o paleoestuário
da Ribeira de Carcavai (LORIVAI): perspetivas e primeiros resultados de um projeto de
investigação. In Nelson Vaquinhas (Ed.), Atas III Encontro da História de Loulé (pp. 69-
88). Loulé: Câmara Municipal de Loulé;
 Antunes, C., Rocha, C. e Catita, C. (2018). Estudo de Avaliação da Subida do Nível Médio
do Mar e Sobrelevação da Maré em Eventos Extremos de Galgamento e Inundação
Costeira do Município de Loulé: Cartografia de Inundação e Vulnerabilidade. Relatório
Técnico-Científico elaborado no âmbito da Estratégia Municipal de Adaptação às
Alterações Climáticas de Loulé. Instituto Dom Luiz – Faculdade de Ciências da
Universidade de Lisboa. Lisboa. 106p;

92
 Autoridade Nacional de Proteção Civil – Direção Nacional de Planeamento de
Emergência/ Núcleo de Riscos e Alerta (Coords.). (2010). Estudo do Risco Sísmico e de
Tsunamis do Algarve. Autoridade Nacional de Proteção Civil. Carnaxide. Disponível em
[Link] (versão final publicada em
dezembro de 2010) e
[Link]
s%2Fdocs%[Link]%3Fpath%3D6148523063446f764c324679595842774f6a63334e7
a637664326c75636d56785833426c636d6431626e52686379395953533979634445304
d7931346153307859574d74595335775a47593d%26fich%3Drp143-xi-1ac-
[Link]%26Inline%3Dtrue&psig=AOvVaw2z6_dlr0Yz1s8PNpx3HqdR&ust=162393055394
1000&source=images&cd=vfe&ved=2ahUKEwiqt93vipzxAhVNdRQKHcl8AskQr4kDegQI
ARBA (versão apresentada à Assembleia da República em fevereiro de 2010);

 Autoridade Nacional de Proteção Civil. (2019). Avaliação Nacional de Risco. Autoridade


Nacional de Proteção Civil. Carnaxide. 129p. Disponível em
[Link]
AVALIACAONACIONALRISCO/PublishingImages/Paginas/default/ANR2019-
vers%C3%[Link];
 Aviso n.º 4770/2019, de 20 de março, D.R. n.º 56/2019, série II. Medidas preventivas no
âmbito do Processo de Revisão do Plano Diretor Municipal de Loulé. Município de Loulé;
 Aviso n.º 4889/2021, de 17 de março, D.R. n.º 53/2021, Série II. Prorrogação do prazo
das medidas preventivas (Quarteira Nascente). Município de Loulé;

 Bencatel, J., Sabino-Marques, H., Álvares, F., Moura, A.E. & Barbosa, A.M. (eds.), 2019.
Atlas de Mamíferos de Portugal, 2ª edição. Universidade de Évora, Portugal. 271 pp;
 Cabral, M.J. (coord.); J. Almeida, P.R. Almeida, T. Delliger, N. Ferrand de Almeida, M.E.
Oliveira, J.M. Palmeirim, A.I. Queirós, L. Rogado, M. Santos-Reis (eds.) (2005). Livro
Vermelho dos Vertebrados de Portugal. Instituto da Conservação da Natureza. Lisboa.
659p;

 Câmara Municipal de Loulé – Serviço Municipal de Proteção Civil/ Divisão de Proteção


Civil e de Vigilância. (2014). Plano Municipal de Emergência de Proteção Civil do
Município de Loulé – Parte IV: Informação Complementar (Secção II). Câmara Municipal
de Loulé. Loulé;

93
 Câmara Municipal de Loulé –Divisão de Proteção Civil e de Vigilância/Gabinete Técnico
Florestal de Loulé (2017). Plano Municipal de Defesa da Floresta Contra Incêndios de
Loulé - Caderno I: Informação de Base. Comissão Municipal de Defesa da Floresta Contra
Incêndios de Loulé. Loulé. 112p. Disponível em [Link]
[Link]/pt/menu/1534/[Link];

 Câmara Municipal de Loulé/ CEDRU – Centro de Estudos de Desenvolvimento Regional


e Urbano, Lda. (2021). Plano Municipal de Ação Climática de Loulé. Câmara Municipal
de Loulé. Loulé.

 Câmara Municipal de Loulé/ [Link]. (2016). Loulé: Estratégia Municipal de


Adaptação às Alterações Climáticas. Câmara Municipal de Loulé. Loulé. Disponível em
[Link]

 Câmara Municipal de Loulé/ DHV, S.A. (2009). Estudos de Caracterização e Diagnóstico


no Âmbito da Revisão do Plano Diretor Municipal de Loulé (Fase 1) – Análise Biofísica
(Vol. II): Fichas Síntese. Câmara Municipal de Loulé. Loulé. Disponível em
[Link]
[Link]#diagnostico-integrado;

 Câmara Municipal de Loulé/ DHV, S.A. (2013). Estudos de Caracterização e Diagnóstico


no Âmbito da Revisão do Plano Diretor Municipal de Loulé (Fase 3) – Análise Biofísica
(Vol. II). Câmara Municipal de Loulé. Loulé. 210p + Anexos;

 Câmara Municipal de Loulé/RR Planning, Lda. (2018). Relatório sobre o estado do


Ordenamento do Território de Loulé. Câmara Municipal de Loulé. Loulé. Disponível
em [Link]
[Link]/upload_files/client_id_1/website_id_1/files/Consultas%20Publicas/Planeame
nto%20e%20Urbanismo/2018/Aprova%C3%A7%C3%A3o%20do%20REOT%2026-07-
2018/3.REOT_Loule_final.pdf;

 Carapeto A., Francisco A., Pereira P., Porto M. (eds.). (2020). Lista Vermelha da Flora
Vascular de Portugal Continental. Sociedade Portuguesa de Botânica, Associação
Portuguesa de Ciência da Vegetação – PHYTOS e Instituto da Conservação da Natureza
e das Florestas (coord.). Coleção «Botânica em Português», Volume 7. Lisboa: Imprensa
Nacional, 374 pp.;

94
 Carvalho, A. e Malfeito, N. (2016). Períodos de Recorrência de Sismos para Portugal
Continental: Uma Análise Crítica. Revista Portuguesa de Engenharia de Estruturas. Série
III, N.º 2: pp 51-62. Laboratório Nacional de Engenharia Civil. Lisboa. Disponível em
[Link]

 Comissão Europeia (2019). Pacto Ecológico Europeu - Comunicação da Comissão ao


Parlamento Europeu, ao Conselho Europeu, ao Conselho, ao Comité Económico e Social
Europeu e ao Comité das Regiões;

 Correia, F., Dias, J. A., Boski, T. & Ferreira, Ó. (1996). The retreat of the eastern Quarteira
cliffed coast (Portugal) and its possible causes. In: Jones, P.S.; Healy, M.G., and Williams,
A.T. (eds.), Studies in Coastal Management. Cardigan, UK: Samara Publishers, 129-136;

 Cruz de Oliveira, S., Catalão, J., Ferreira, Ó. & Dias, J. A. (2008). Evaluation of Cliff Retreat
and Beach Nourishment in Southern Portugal Using Photogrammetric Techniques.
Journal of Coastal Research, Volume 24, Issue 4A, 184-193;

 Decreto n.º 101/80, de 9 de outubro, D.R. n.º 234/1980, série I. Aprova para ratificação
a Convenção sobre Zonas Húmidas de Importância Internacional, especialmente como
Habitat de Aves Aquáticas. Ministério dos Negócios Estrangeiros - Direcção-Geral dos
Negócios Políticos - [Link]

 Decreto n.º 4/2005, de 14 de fevereiro, D.R. n. º31/2005, Série I-A. Convenção Europeia
da Paisagem. Aprova a Convenção Europeia da Paisagem, feita em Florença em 20 de
outubro de 2000. Ministério dos Negócios Estrangeiros -
[Link]

 Decreto n.º 95/81, de 24 de julho, D.R. n.º 167/1981, série I. Aprova, para ratificação,
a Convenção Relativa à Proteção da Vida Selvagem e do Ambiente Natural na Europa.
Ministério dos Negócios Estrangeiros -
[Link]

95
 Decreto-Lei n.º 10/2018, de 14 de fevereiro, D.R. n. 32/2018, Série I. Clarifica os critérios
aplicáveis à gestão de combustível no âmbito do Sistema Nacional de Defesa da Floresta
contra Incêndios. Administração Interna - [Link]
lei/10/2018/02/14/p/dre/pt/html;

 Decreto-Lei n.º 124/2006, de 28 de junho, D.R. n. º123/2006, Série I-A. Estabelece as


medidas e ações a desenvolver no âmbito do Sistema Nacional de Defesa da Floresta
contra Incêndios. Ministério da Agricultura, do Desenvolvimento Rural e das Pescas -
[Link]

 Decreto-Lei n.º 140/99, de 24 de abril, D.R. n.º 96/1999, série I-A. Revê a transposição
para a ordem jurídica interna da Diretiva n.º 79/409/CEE, do Conselho, de 2 de abril
(relativa à conservação das aves selvagens), e da Diretiva n.º 92/43/CEE, do Conselho,
de 21 de maio (relativa à preservação dos habitats naturais e da fauna e da flora
selvagens). Revoga os Decretos-Leis [Link] 75/91, de 14 de fevereiro, 224/93, de 18 de
junho, e 226/97, de 27 de agosto. Ministério do Ambiente - [Link]
lei/140/1999/04/24/p/dre/pt/html;

 Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de julho, D.R. n.º 142/2008, Série I. Estabelece o regime
jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade. Ministério do Ambiente, do
Ordenamento do Território e do Desenvolvimento Regional -
[Link]

 Decreto-Lei n.º 242/2015, de 15 de outubro, D.R. n.º 202/2015, Série I. Procede à


primeira alteração ao Decreto-Lei n.º 142/2008, de 24 de julho, que aprova o regime
jurídico da conservação da natureza e da biodiversidade. Ministério do Ambiente,
Ordenamento do Território e Energia - [Link]
lei/242/2015/10/15/p/dre/pt/html;

 Decreto-Lei n.º 316/89, de 22 de setembro, D.R. n.º 219/1989, série I. Regulamenta a


aplicação da convenção da vida selvagem e dos habitats naturais na Europa. Ministério
do Planeamento e da Administração do Território - [Link]
lei/316/1989/09/22/p/dre/pt/html;

96
 Decreto-Lei n.º 49/2005, de 24 de fevereiro, D.R. n.º 39/2005, série I-A. Primeira
alteração ao Decreto-Lei n.º 140/99, de 24 de abril, que procedeu à transposição para
a ordem jurídica interna da Directiva n.º 79/409/CEE, do Conselho, de 2 de Abril,
relativa à conservação das aves selvagens (directiva aves) e da Directiva n.º 92/43/CEE,
do Conselho, de 21 de Maio, relativa à preservação dos habitats naturais e da fauna e
da flora selvagens (directiva habitats). Ministério do Ambiente e do Ordenamento do
Território - [Link]

 Decreto-Lei n.º 92/2019, de 10 de julho, D.R. n.º 130/2019, Série I. Assegura a execução,
na ordem jurídica nacional, do Regulamento (UE) n.º 1143/2014, estabelecendo o
regime jurídico aplicável ao controlo, à detenção, à introdução na natureza e ao
repovoamento de espécies exóticas da flora e da fauna. Presidência do Conselho de
Ministros - [Link]

 Dias, L.F. e Santos, F.D. (Coords.). (2019). Plano Intermunicipal de Adaptação às


Alterações Climáticas do Algarve – CI-AMAL (PIAAC-AMAL). Dias, L.F., Aparício, C., Veiga-
Pires, C. e Santos, F.D. (Eds.). Faro. Disponível em
[Link]

 Dias, R. P. (2001). Neotectónica da Região do Algarve. Dissertação de doutoramento,


Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, 369p;

 Direção-Geral da Agricultura e Desenvolvimento Rural (2008). Carta de Solos e de


Capacidade de Uso do Solo de Portugal na escala 1:50 000, Lisboa;

 Direção-Geral do Território (2019). Especificações técnicas da Carta de Uso e Ocupação


do Solo (COS) de Portugal Continental para 2018. Relatório Técnico. Direção-Geral do
Território. Disponível em [Link]
cous/COS2018/ET-COS-2018_v1.pdf;

 Direção-Geral do Território (2021). Carta Administrativa Oficial de Portugal, versão de


2020 (CAOP2020). Direção-Geral do Território. Disponível em:
[Link]

 DIRECTIVA 92 /43 /CEE DO CONSELHO de 21 de maio de 1992, N. L 206/7. Relativa à

97
preservação dos habitats naturais e da fauna e da flora selvagens. Jornal Oficial das
Comunidades Europeias;

 Instituto Nacional de Estatística (2012). Censos 2011. XV Recenseamento geral da


população. Resultados definitivos – Região Algarve. Lisboa: INE, 2012. Disponível em :
[Link]
t&menuBOUI=13707294&contexto=pu&PUBLICACOESpub_boui=156657607&PUBLIC
ACOESmodo=2&selTab=tab1;

 Loureiro, A., Ferrand de Almeida, N., Carretero, M. A., & Paulo, O. S. (2008). Atlas dos
Anfíbios e Répteis de Portugal (2a ed.). Lisboa: Instituto da Conservação da Natureza e
da Biodiversidade;

 Lourenço, L. e Gomes, A. (2019). Risco Sísmico: Aprender com o Passado (XII Encontro
Nacional de Riscos). Estudos Cindínicos. Vol. 6. Associação Portuguesa de Riscos,
Prevenção e Segurança. Coimbra. 186p. ISBN: 987-989-54295-5-5. Disponível em
[Link]
content/uploads/2018/SEC/6/Ebook_SEC_Riscos_Sismico.pdf;

 Manuppella, G. (Coord.) (1992). Carta Geológica da Região do Algarve, escala


1/100.000, Folha Oriental. Serv. Geol. Portugal, Lisboa;

 Maravalhas E. & Soares A. (2013). As Libélulas de Portugal. Booky Publisher. Portugal;

 Maravalhas E. & Soares A. (2018). Anfíbios e Répteis de Portugal. Lisboa: Ernestino


Maravalhas;

 Maravalhas E. ed. (2003). As Borboletas de Portugal. Vento Norte. Portugal;

 Marques, F. (1991). Taxas de recuo das arribas do litoral sul, do Algarve e a sua
importância na avaliação de riscos geológicos, Seminário “A zona costeira e os
problemas ambientais”, Comissão Nacional EUROCOAST, Univ. Aveiro, 100-108;

 Matias, L.M., Cunha, T., Annunziato, A., Baptista, M.A. e Carrilho, F. (2013).
Tsunamigenic earthquakes in the Gulf of Cadiz: fault model and recurrence. Natural
Hazards and Earth System Sciences. Vol. 13: pp. 1-13. Disponível em
[Link]

98
 Pereira, H., Guerreiro, V., Dias, J. M. & Ferreira, Ó. (1998). Short-term cliff retreat at
Quarteira–Vale do Lobo (Algarve–Southern Portugal). Littoral ‘98, 395-397;

 Pereira, P. G., Monteiro, E., Vala, F., & Luís, C. (2012). Insetos em Ordem. O Mundo na
Escola – Ministério da Educação e Ciência;

 Projeto Lista Vermelha de Invertebrados. FCiê[Link]. Disponível em:


[Link]

 Projeto Livro Vermelho dos Mamíferos de Portugal Continental. FCiê[Link]. Disponível


em: [Link]

 Rainho A., Alves P., Amorim F. & Marques J.T. (Coord.) (2013). Atlas dos morcegos de
Portugal Continental. Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas. Lisboa. 76
pp + Anexos;

 Resolução do Conselho de Ministros n.º 102/2007, de 3 de agosto, D.R. n.º 149/2007,


série I. Aprova a revisão do Plano Regional de Ordenamento do Território do Algarve.
Lisboa: Presidência do Conselho de Ministros;

 Resolução do Conselho de Ministros n.º 103/2005, de 27 de junho, D.R. n.º 121, série
I-B. Aprova o Plano de Ordenamento da Orla Costeira (POOC) Vilamoura-Vila Real de
Santo António – Regulamento do Plano de Ordenamento da Orla Costeira Vilamoura –
Vila Real de Santo António. Lisboa: Presidência do Conselho de Ministros;

 Resolução do Conselho de Ministros n.º 52/2016, de 20 de setembro, D.R. n.º 181, série
I. Aprova os Planos de Gestão das Regiões Hidrográficas do Minho e Lima, do Cávado,
Ave e Leça, do Douro, do Vouga e Mondego, do Tejo e Ribeiras Oeste, do Sado e Mira,
do Guadiana e das Ribeiras do Algarve. Lisboa: Presidência do Conselho de Ministros;

 Resolução do Conselho de Ministros n.º 55/2018, de 7 de maio, D.R. n.º 87/2018, série
I. Aprova a Estratégia Nacional de Conservação da Natureza e Biodiversidade 2030.
Presidência do Conselho de Ministros -
[Link]

99
 Resolução do Conselho de Ministros n.º 66/2004, de 26 de maio, D.R. n.º 123/2004,
Série I-B. Ratifica parcialmente a alteração do Plano Diretor Municipal de Loulé e aprova
a alteração da delimitação da Reserva Ecológica Nacional. Presidência do Conselho de
Ministros - [Link]

 Resolução do Conselho de Ministros n.º 81/95, de 24 de agosto, D.R. n.º 195/1995, série
I-B. Ratifica o Plano Diretor Municipal de Loulé. Presidência do Conselho de Ministros -
[Link]

 Ressurreição, R., Cabral, J., Dias, R. P., Carvalho, J., C. & Pinto, C. (2011). Neotectonic
activity on the Carcavai fault zone (Algarve, Portugal). Comunicações Geológicas, 98, 5-
14;

 Santos, F.D., Lopes, A.M., Moniz, G., Ramos, L. e Taborda, R. (2017). Grupo de Trabalho
do Litoral – Gestão da Zona Costeira: O Desafio da Mudança. Santos, F.D., Penha-Lopes,
G. e Lopes, A.M. (Eds.). Lisboa. 368p. ISBN: 978-989-99962-1-2. Disponível em
[Link]

 Silva, A.N., Taborda, R., Lira, C., Andrade, C.F., Silveira, T.M. e Freitas, M.C. (2013).
Determinação e Cartografia da Perigosidade Associada à Erosão de Praias e ao
Galgamento Oceânico. Relatório Técnico-Científico correspondente ao Entregável
1.3.2.a do projeto “Consultoria para a Criação e Implementação de um Sistema de
Monitorização do Litoral abrangido pela área de Jurisdição da ARH do Tejo”, da Agência
Portuguesa do Ambiente, I.P./ Administração da Região Hidrográfica do Tejo. Centro de
Geologia e Instituto Dom Luiz – Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Lisboa.
34p. Disponível em
[Link]
namento/SistemasMonitorizacaoLitoral/E_1.3.2.a_Galgamento_oceanico.pdf

 Silva, J.F. e Haie, N. (2000). Planeamento e Gestão Global de Recursos Hídricos Costeiros
– Estratégias para a Prevenção e Controlo da Intrusão Salina. Actas do 5ª Congresso da
Água – A Água e o Desenvolvimento Sustentável: Desafios para o Novo Século.
Culturgest – Lisboa, 25 a 29 setembro 2020. Associação Portuguesa dos Recursos
Hídricos. Lisboa. Disponível em

100
[Link]
%20Estrategias%20Controlo%20Intrus%C3%A3o%[Link];

 Sundseth, K. (2010). Natura 2000 na Região Mediterrânica. Direção-Geral do


Ambiente (Comissão Europeia);

 Teixeira, S. (2005). Evolução holocénica do litoral em regime transgressivo: o caso da


costa de Quarteira (Algarve, Portugal). Coastal Hope Conference Proceedings, Lisboa,
121-124;

 Teixeira, S.B. (2010). Agravamento do Risco Associado à Erosão Costeira no Troço do


Litoral entre Forte Novo e Garrão (Loulé). Nota Técnica do Departamento de Recursos
Hídricos do Litoral da Administração da Região Hidrográfica do Algarve, I.P. 20p.
Disponível em [Link]
2/publication/325807478_Agravamento_do_risco_associado_a_erosao_costeira_no_t
roco_do_litoral_entre_Forte_Novo_e_Garrao_Loule_Algarve_Portugal/links/5b25619
40f7e9b0e374cc75b/Agravamento-do-risco-associado-a-erosao-costeira-no-troco-do-
[Link];

 Terrinha, P., Rocha, R., Rey, J., Cachão, M., Moura, D., Roque, C., Martins, J., Valadares,
V., Cabral, J., Azevedo, M. do R., Barbero, L., González Clavijo, E. J., Dias, R. P., Matias,
H., Madeira, J., Silva, C. M., Munhá, J., Rebêlo, L. P., Ribeiro, C., Vicente, J., Gonçalves, J.
N., Youbi, N. & Bensalah, M. K. (2013). A Bacia do Algarve: estratigrafia, paleogeografia
e tectónica. In R. Dias, A. Araújo, P. Terrinha, & J. C. Kullberg (Eds.) Geologia de Portugal
no contexto da Ibéria, Vol. II: Geologia Meso-Cenozóica de Portugal, Livraria Escolar
Editora, Lisboa, 29-166.

101
CÂMARAMUNI
CIP
ALDEL
OUL
É
Res
erv
aNa
tur
alL
oca
ldaF
oz doAl
mar
gem –T
raf
al
De
li
mit
açã
oPr
ovi
sór
ia

L
egenda
Escala 1:
25.
000
F
ozdoAl
mar
gem –T
raf
al
0 250 500 1.000 m

S
ist
emadeRe
fer
ênc
ia: PT-TM06/ETRS89 Ba
seCa
rtog
ráf
ic
a: Cartas Militares 1:25.000 Série M888 (CIGeoE, 2007) Ma
p ae
labor
adop or
: DSIG (AML) Da
ta: 24-
03-
2021
CÂMARAMUNI
CIP
ALDEL
OUL
É
Res
erv aNa
tur
alL
oca
ldaF
oz doAl
m a
rgem – T
raf
al(
Del
i
m i
taç
ã oPr
ovi
sór
ia)
At
ual
i
zaç
ã odaCa
rtadeOc
upa
çã oS
olo(
Inf
orm a
çã og
eog
ráf
ic
ace
didape
laDi
reç
ã o-
Ger
aldoT
err
it
óri
o)

L
egenda
Res
erv
aNa
tura
lLoc
aldaF
ozdoAl
marg
em –T
raf
al
COSa
tual
i
zada2021
T
err i
tóri
osa
rti
fi
ci
al
iz
ados
Ag
ric
ult
ura
P
ast
agens
F
lores
tas
Ma
tos
E
spa
çosdes
cobert
osouc
om pouc
aveg
eta
ção
Escala 1:
10.
000
Ma
ssa
sdeá
guas
uperf
ic
iai
s
0 125 250 500 m

S
ist
emadeRe
ferênc
ia: PT-TM06/ETRS89 - European Terrestrial Reference System 1989 Ba
seCa
rtog
ráf
ic
a: Ortofotomapas (DGT, 2018) Ma
pael
abora
dopor: Divisão de Sistemas de Informação Geográfica (AML) Da
ta: 05-08-2021
CÂ MARAMUNI
CIP
ALDEL
OUL
É
Res
erv
aNa
tur
alL
oca
ldaF
oz doAl
mar
gem –T
raf
al(
Del
i
mit
açã
oPr
ovi
sór
ia)
S
obr
epos
içãoc
om Hi
drog
raf
ia(
Prov
en i
en t
edasCa
rtasMi
li
tar
es-
CIGeoE
)

Ri
be
ira
de
Ca
rca
vai

L
egen da
Re
ser
vaNa
tu r
alL
oca
ldaF
ozdoAl
mar
gem –T
raf
al
Hidr
ogr
afia(
Car
tasMil
ita
res-I
GeoE
)-l
inha
s
Escala 1:
10.
000
Hidr
ogr
afia(
Car
tasMil
ita
res-I
GeoE
)-pol
íg
onos
0 125 250 500 m

S
iste
madeRe
fer
ê nc
ia: PT-TM06/ETRS89 - European Terrestrial Reference System 1989 Ba
seCa
rtog
ráf
ic
a: Ortofotomapas (DGT, 2018) Ma
pael
abor
adopor
: Divisão de Sistemas de Informação Geográfica (AML) Da
ta: 24-03-2021
CÂ MARAMUNI
CIP
ALDEL
OUL
É
Res
erv
aNa
tur
alL
oca
ldaF
o zdo Al
mar
gem –T
raf
al(
Del
i
mit
açã
o Pr
ovi
sór
ia)
S
o br
epo s
ição c
o m Geo l
ogi
a(I
nfor
maç
ão g
era
dano âmbi
to daRev
isã
o do PDM-
Est
udo sdeCa
rac
ter
iz
ação pel
o L
NEG-
Uni
dadedeI
nves
ti
gaç
ão deGeo l
ogi
aeCar
tog
raf
iaGeo l
ógi
ca)

L
egenda
Re
ser
vaNa
tur
alL
oca
ldaF
ozdoAl
m a
rgem –T
raf
al
F
urodec
apt
açã
odeá
gua
E
sta
çãopa
leol
ít
ic
ades
upe
rfíc
ie
F
alha
F
alhaoc
ult
a
F
alhapr
ová
vel
a
luv
a
d
a
p
Qb
Qa
! ! ! ! ! !

! ! ! ! !

! ! ! ! ! !

! ! ! ! !

! ! ! ! ! !

ML
P2
! ! ! ! !

! ! ! ! ! !

Escala 1:
10.
000
C1-
2
0 125 250 500 m

S
ist
em adeRe
fer
ê nc
ia: PT-TM06/ETRS89 - European Terrestrial Reference System 1989 Ba
seCa
rtog
ráf
ic
a: Ortofotomapas (DGT, 2018) Ma
pael
abor
adopor
: Divisão de Sistemas de Informação Geográfica (AML) Da
ta: 12-05-2021
CÂ MARAMUNI
CIP
ALDEL
OUL
É
Res
erv
aNa
tur
alL
oca
ldaF
oz doAl
mar
gem –T
raf
al(
Del
i
mit
açã
oPr
ovi
sór
ia)
S
obr
epos
içãoc
om Car
tadeOr
den amen t
odoPl
an oDi
ret
orMun i
ci
pal
em v
igor

L
egen da
Re
ser
vaNa
t ur
alL
oca
ldaF
ozdoAl
mar
gem –T
raf
al
RPDM -Medi
dasPr
even t
iva
s-Qua
rtei
raNa
scen t
e:
Ár
eaA
Ár
eaB
Ár
eaC
Escala 1:
10.
000
Ár
eaD
0 125 250 500 m

S
iste
madeRe
fer
ênc
ia: PT-TM06/ETRS89 - European Terrestrial Reference System 1989 Ba
seCa
rt og
ráf
ic
a:Carta de Ordenamento PDM (CML, 1995) Ma
pael
abor
adopor
: Divisão de Sistemas de Informação Geográfica (AML) Da
ta: 24-03-2021
CÂ MARAMUNI
CIP
ALDEL
OUL
É
Res
erv
aNa
tur
alL
oca
ldaF
o zdo Al
mar
gem – T
raf
al(
Del
i
mit
açã
o Pr
ovi
sór
ia)
S
o br
epo s
içã
o c
o m aPl
ant
adeOr
dena
ment
o do PDM-Ada
pta
ção a
o Pl
ano deOr
dena
ment
o daOr
laCo s
tei
ra(
POOC)

L
egenda
Res
erv aNa
tur
alL
oca
ldaF
oz doAl
mar
gem –T
raf
al
S
OLOURBANO
E
spa
çosdeUr
baniza
çãoPr
ogr
ama
da,
EspaçosdeUr
banizaçãoPr
ogr
ama
da
E
spa
çosUr
baniza
dos
,Es
paçosT
urí
st
ic
os
S
OLORURAL
Pr
aia
s
Duna
s
Ar
riba
s,T
aludeseZ
onaAdj
acent
e
Ár
eaHúmidaeÁ r
easAme
aça
daspel
asCheia
s
Ár
easdeEnqua
dra
ment
o
L
inha
sdeÁ g
uaeMa
rgens
Ár
easCompl
eme
nta
resdeCons
erva
çãodaNa
tur
eza
S
oloRur
al-Es
paçosF
lor
est
aisdePr
ote
cção
Escala 1:
10.
000
S
oloRur
al-Es
paçosa
grí
col
as
0 125 250 500 m

S
ist
emadeRe
fer
ênc
ia: PT-TM06/ETRS89 - European Terrestrial Reference System 1989 Ba
seCa
rtog
ráf
ic
a:Carta de Ordenamento PDM (CML, 1995) Ma
pael
abor
adopor
: Divisão de Sistemas de Informação Geográfica (AML) Da
ta: 10-09-2021
CÂ MARAMUNI
CIP
ALDEL
OUL
É
Res
erv
aNa
tur
alL
oca
ldaF
ozdoAl
mar
gem –T
raf
al(
Del
i
mit
açã
oPr
ovi
sór
ia)
S
obr
ep os
içã
ocom a
sFa
ixa
sdeGe
stã
odeCombus

vel
doPl
anoMuni
ci
pal
deDe
fes
adaF
lor
est
aCont
raI
ncêndi
os

L
egenda
Reser
vaNa
tur
alL
oca
ldaF
ozdoAl
mar
gem –T
raf
al
Escala 1:
10.
000
F
aix
as deGest
ãodeCombust
íve
l
0 125 250 500 m

S
ist
emadeRe
fer
ênc
ia: PT-TM06/ETRS89 - European Terrestrial Reference System 1989 Ba
s eCa
rtog
ráf
ic
a:Carta de Ordenamento PDM (CML, 1995) Ma
pael
abor
adopor
: Divisão de Sistemas de Informação Geográfica (AML) Da
ta: 05-08-2021

Você também pode gostar