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PERTENCER Clarice

O texto descreve o forte desejo da autora de pertencer desde a infância, já no berço. Ela nasceu sem pertencer a nada e ninguém, o que a acompanhou por toda vida, gerando solidão. A autora também desejava poder dar suas alegrias e forças a algo ou alguém a que pertencesse.
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PERTENCER Clarice

O texto descreve o forte desejo da autora de pertencer desde a infância, já no berço. Ela nasceu sem pertencer a nada e ninguém, o que a acompanhou por toda vida, gerando solidão. A autora também desejava poder dar suas alegrias e forças a algo ou alguém a que pertencesse.
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CENTRO DE ENSINO PROFESSOR ANTONIO CARLOS BECKMAM

PERTENCER
Clarice Lispector

Um amigo meu, médico, assegurou-me que desde o berço a criança sente o ambiente, a
criança quer: nela o ser humano, no berço mesmo, já começou.
Tenho certeza de que no berço a minha primeira vontade foi a de pertencer. Por motivos que
aqui não importam, eu de algum modo devia estar sentindo que não pertencia a nada e a ninguém.
Nasci de graça.
Se no berço experimentei esta fome humana, ela continua a me acompanhar pela vida afora,
como se fosse um destino. A ponto de meu coração se contrair de inveja e desejo quando vejo uma
freira: ela pertence a Deus.
Exatamente porque é tão forte em mim a fome de me dar a algo ou a alguém, é que me tornei
bastante arisca: tenho medo de revelar de quanto preciso e de como sou pobre. Sou, sim.
Muito pobre. Só tenho um corpo e uma alma. E preciso de mais do que isso. Com o tempo, sobretudo
os últimos anos, perdi o jeito de ser gente. Não sei mais como se é. E uma espécie toda nova de
“solidão de não pertencer” começou a me invadir como heras num muro.
Se meu desejo mais antigo é o de pertencer, por que então nunca fiz parte de clubes ou de
associações? Porque não é isso que eu chamo de pertencer. O que eu queria, e não posso, é por
exemplo que tudo o que me viesse de bom de dentro de mim eu pudesse dar àquilo que eu pertenço.
Mesmo minhas alegrias, como são solitárias às vezes. E uma alegria solitária pode se tornar patética.
É como ficar com um presente todo embrulhado em papel enfeitado de
presente nas mãos - e não ter a quem dizer: tome, é seu, abra-o! Não
querendo me ver em situações patéticas e, por uma espécie de contenção,
evitando o tom de tragédia, raramente embrulho com papel de presente os
meus sentimentos.
Pertencer não vem apenas de ser fraca e precisar unir-se a algo ou a
alguém mais forte. Muitas vezes a vontade intensa de pertencer vem em
mim de minha própria força - eu quero pertencer para que minha força não
seja inútil e fortifique uma pessoa ou uma coisa. Quase consigo me
visualizar no berço, quase consigo reproduzir em mim a vaga e, no entanto,
premente sensação de precisar pertencer. Por motivos que nem minha mãe nem meu pai podiam
controlar, eu nasci e fiquei apenas: nascida.
No entanto fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava
doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter um filho curava uma mulher
de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança. Só que não curei minha
mãe. E sinto até hoje essa carga de culpa: fizeram-me para uma missão determinada e eu falhei.
Como se contassem comigo nas trincheiras de uma guerra e eu tivesse desertado. Sei que meus pais
me perdoaram por eu ter nascido em vão e tê-los traído na grande esperança.
Mas eu, eu não me perdoo. Quereria que simplesmente se tivesse feito um milagre: eu nascer
e curar minha mãe. Então, sim: eu teria pertencido a meu pai e a minha mãe. Eu nem podia confiar a
alguém essa espécie de solidão de não pertencer porque, como desertor, eu tinha o segredo da fuga
que por vergonha não podia ser conhecido.
A vida me fez de vez em quando pertencer, como se fosse para me dar a medida do que eu
perco não pertencendo. E então eu soube: pertencer é viver. Experimentei-o com a sede de quem está
no deserto e bebe sôfrego o último gole de água de um cantil. E depois a sede volta e é no deserto
mesmo que caminho!
LISPECTOR, C. A descoberta do mundo. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.p. 110-478.

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