Tesouro e Traição: Aventura e Tragédia nas Astúrias
Tesouro e Traição: Aventura e Tragédia nas Astúrias
O TESOURO
Os três irmãos de Medranhos, Rui, Guanes e Rostabal, eram então, em todo o Reino
das Astúrias, os fidalgos mais famintos e os mais remendados.
Nos Paços de Medranhos, a que o vento da serra levara vidraça e telha, passavam eles
as tardes desse Inverno, engelhados nos seus pelotes de camelão, batendo as solas rotas sobre
as lajes da cozinha, diante da vasta lareira negra, onde desde muito não estalava lume, nem
fervia a panela de ferro. Ao escurecer devoravam uma côdea de pão negro, esfregada com
alho. Depois, sem candeia, através do pátio, fendendo a neve, iam dormir á estrebaria, para
aproveitar o calor das três éguas lazarentas que, esfaimadas como eles, roíam as traves da
manjedoura. E a miséria tornara estes senhores mais bravios que lobos.
Ora, na Primavera, por uma silenciosa manhã de domingo, andando todos três na
mata de Roquelanes a espiar pegadas de caça e a apanhar tortulhos entre os robles, enquanto
as três éguas pastavam a relva nova de Abril — os irmãos de Medranhos encontraram, por trás
de uma moita de espinheiros, numa cova de rocha, um velho cofre de ferio. Como se o
resguardasse uma torre segura, conservava as suas três chaves nas suas três fechaduras. Sobre
a tampa, mal decifrável através da ferrugem, corria um dístico em letras árabes. E dentro, até
às bordas, estava cheio de dobrões de ouro!
No terror e esplendor da emoção, os três senhores ficaram mais lívidos do que círios.
Depois, mergulhando furiosamente as mãos no ouro, estalaram a rir, num riso de tão larga
rajada que as folhas tenras dos olmos, em roda, tremiam... E de novo recuaram, bruscamente
se encararam, com os olhos a flamejar, numa desconfiança tão desabrida que Guanes e
Rostabal apalpavam nos cintos as cabos das grandes facas. Então Rui, que era gordo e ruivo, e
o mais avisado, ergueu os braços, como um árbitro, e começou por decidir que o tesouro, ou
viesse de Deus ou do Demónio, pertencia aos três, e entre eles se repartiria, rigidamente,
pesando-se o ouro em balanças. Mas como poderiam carregar para Medranhos, para os cimos
da serra, aquele cofre tão cheio? Nem convinha que saíssem da mata com o seu bem, antes de
cerrar a escuridão. Por isso ele entendia que o mano Guanes, como mais leve, devia trotar
para a vila vizinha de Retortilho, levando já ouro na bolsilha, a comprar três alforges de couro,
três maquias de cevada, três empadões de carne e três botelhas de vinho. Vinho e carne eram
para eles, que não comiam desde a véspera: a cevada era para as éguas. E assim refeitos,
senhores e carruagens, ensacariam o ouro nos alforges e subiriam para Medranhos, sob a
segurança da noite sem lua.
— Bem tramado! — gritou Rostabal, homem mais alto que um pinheiro, de longa
guedelha, e com uma barba que lhe caía desde os olhos raiados de sangue até á fivela do
cinturão.
Mas Guanes não se arredava do cofre, enrugado, desconfiado, puxando entre os dedos
a pele negra do seu pescoço de grou. Por fim, brutalmente:
— Manos! O cofre tem três chaves... Eu quero fechar a minha fechadura e levar a
minha chave!
— Também eu quero a minha, mil raios! — rugiu logo Rostabal.
Rui sorriu. Decerto, decerto! A cada dono do ouro cabia uma das chaves que o
guardavam. E cada um em silêncio, agachado perante o cofre, cerrou a sua fechadura com
força. Imediatamente Guanes, desanuviado, saltou na égua, meteu pela vereda de olmos, a
caminho de Retortilho, atirando aos ramos a sua cantiga costumada e dolente:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...
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Grande pena! Tanto mais que a parte de Guanes seria em breve dissipada, com rufiões, aos
dados, pelas tavernas.
— Ah! Rostabal, Rostabal! Se Guanes, passando aqui sozinho, tivesse achado este
ouro, não dividia connosco, Rostabal!
O outro rosnou surdamente e com furor, dando um puxão às barbas negras:
— Não, mil raios! Guanes é sôfrego... Quando o ano passado. se te lembras, ganhou os
cem ducados ao espadeiro de Fresno, nem me quis emprestar três para eu comprar um gibão
novo!
— Vês tu? — gritou Rui, resplandecendo.
Ambos se tinham erguido do pilar de granito, como levados pela mesma ideia, que os
deslumbrava. E, através das suas largas passadas, as ervas altas silvavam.
— E para quê — prosseguia Rui. — Para que lhe serve todo o ouro que nos leva? Tu
não o ouves, de noite, como tosse? Ao redor da palha em que dorme, todo o chão está negro
do sangue que escarra! Não dura até ás outras neves, Rostabal! Mas até lá terá dissipado os
bons dobrões que deviam ser nossos, para levantarmos a nossa casa, e para tu teres ginetes, e
armas, e trajes nobres, e o teu terço de solarengos, como compete a quem é, como tu, o mais
velho dos de Medranhos...
— Pois que morra, e morra hoje! — bradou Rostabal.
— Queres?
Vivamente, Rui agarrara o braço do irmão e apontava para a vereda de olmos, por
onde Guanes partira cantando:
— Logo adiante, ao fim do trilho, há um sítio bom, nos silvados. E hás de ser tu,
Rostabal, que és o mais forte e o mais destro. Um golpe de ponta pelas costas. E é justiça de
Deus que sejas tu, que muitas vezes, nas tavernas, sem pudor, Guanes te tratava de «cerdo» e
de «torpe», por não saberes a letra nem os números.
— Malvado!
— Vem!
Foram. Ambos se emboscaram por trás de um silvado que dominava o atalho, estreito
e pedregoso como um leito de torrente. Rostabal, assolapado na vala, tinha já a espada nua.
Um vento leve arrepiou na encosta as folhas dos álamos — e sentiram o repique leve dos sinos
de Retortilho. Rui, coçando a barba, calculava as horas pelo Sol, que já se inclinava para as
serras. Um bando de corvos passou sobre eles, grasnando E Rostabal, que lhes seguira o roo,
recomeçou a bocejar, com tome, pensando nos empadões e no vinho que o outro trazia nos
alforges.
Enfim! Alerta! Era, na vereda, a cantiga dolente e rouca, atirada aos ramos:
Olé! Olé!
Sale la cruz de la iglesia,
Vestida de negro luto...
Rui murmurou: — Na ilharga! Mal que passe! — O chouto da égua bateu o cascalho.
uma pluma num sombrero vermelhejou por sobre a ponta das silvas.
Rostabal rompeu de entre a sarça por uma brecha, atirou o braço, a longa espada — e toda a
lâmina se embebeu molemente na ilharga de Guanes, quando ao rumor, bruscamente ele se
virara na sela. Com um surdo arranco, tombou de lado, sobre as pedras. Já Rui se arremessava
aos freios da égua — Rostabal. caindo sobre Guanes, que arquejava, de novo lhe mergulhou a
espada, agarrada pela folha como um punhal, no peito e na garganta.
— A chave! — gritou Rui.
E arrancada a chave do cofre ao seio do morto, ambos largaram pela vereda —
Rostabal adiante, fugindo, com a pluma do sombrero quebrada e torta, a espada ainda nua
entalada sob o braço, todo encolhido, arrepiado com o sabor do sangue que lhe espirrara para
a boca: Rui, atrás, puxava desesperadamente os freios da égua, que, de patas fincadas no chão
pedregoso, arreganhando a longa dentuça amarela. não queria deixar o seu amo assim
estirado, abandonado, ao comprido das sebes.
Teve de lhe espicaçar as ancas lazarentas com a ponta da espada — e foi correndo
sobre ela, de lâmina alta, como se perseguisse um mouro, que desembocou na clareira onde o
sol já não dourava as folhas. Rostabal arremessara para a relva o sombrero e a espada; e
debruçado sobre a laje escavada em tanque, de mangas arregaçadas, lavava, ruidosamente, a
face e as barbas.
A égua, quieta, recomeçou a pastar, carregada com os alforges novos que Guanes
comprara em Retortilho. Do mais largo, abarrotado, surdiam dois gargalos de garrafas. Então
Rui tirou, lentamente, do cinto, a sua larga navalha. Sem um rumor na relva espessa, deslizou
até Rostabal, que resfolegava, com as longas barbas pingando. E serenamente, como se
pregasse uma estaca num canteiro, enterrou a folha toda na largo dorso dobrado, certeira
sobre o coração.
Rostabal caiu sobre o tanque, sem um gemido, com a face na água, os longos cabelos
flutuando na água. A sua velha escarcela de couro ficara entalada sob a coxa. Para tirar de
dentro a terceira chave do cofre, Rui solevou o corpo — e um sangue mais grosso forrou,
escorreu pela borda do tanque, fumegando.
****
Agora eram dele. Só dele, as três chaves do cofre! E Rui, alargando os braços, respirou
deliciosamente. Mal a noite descesse, com o ouro metido nos alforges, guiando a fila das
éguas pelos trilhos da serra, subiria a Medranhos e enterraria na adega o seu tesouro! E
quando ali na fonte, e além rente aos silvados, só restassem, sob as neves de Dezembro.
alguns ossos sem nome, ele seria o magnífico senhor de Medranhos, e na capela nova do solar
renascido mandaria dizer missas ricas pelos seus dois irmãos mortos... Mortos como? Como
devem morrer os de Medranhos — a lutar contra o Turco!
Abriu as três fechaduras, apanhou um punhado de dobrões, que fez retinir sobre as
pedras. Que puro ouro, de fino quilate! E era o seu ouro! Depois foi examinar a capacidade dos
alforges — e encontrando as duas garrafas de vinho, e um gordo capão assado, sentiu uma
imensa fome. Desde a véspera só comera uma lasca de peixe seco. E há quanto tempo não
provava capão!
Com que delícia se sentou na relva, com as pernas abertas, e entre elas a ave loura,
que rescendia, e o vinho cor de âmbar! Ah! Guanes fora bom mordomo — nem esquecera
azeitonas. Mas porque trouxera ele, para três convivas, só duas garrafas? Rasgou uma asa do
capão: devorava a grandes dentadas. A tarde descia, pensativa e doce, com nuvenzinhas cor-
de-rosa. Para além, na vereda, um bando de corvos grasnava. As éguas fartas dormitavam,
com o focinho pendido. E a fonte cantava, lavando o morto.
Rui ergueu à luz a garrafa de vinho. Com aquela cor velha e quente, não teria custado
menos de três maravedis. E pondo o gargalo à boca, bebeu em sorvos lentos, que lhe faziam
ondular o pescoço peludo. Oh vinho bendito, que tão prontamente aquecia o sangue! Atirou a
garrafa vazia — destapou outra. Mas, como era avisado, não bebeu, porque a jornada para a
serra, com o tesouro, requeria firmeza e acerto. Estendido sobre o cotovelo, descansando,
pensava em Medranhos coberto de telha nova, nas altas chamas da lareira por noites de neve,
e o seu leito com brocados, onde teria sempre mulheres.
De repente, tomado de uma ansiedade, teve pressa de carregar os alforges. Já entre os
troncos a sombra se adensava. Puxou uma das éguas para junto do cofre, ergueu a tampa.
tomou um punhado de ouro... Mas oscilou, largando os dobrões, que retilintaram no chão, e
levou as duas mãos aflitas ao peito. Que é, D. Rui? Raios de Deus! Era um lume, um lume vivo,
que se lhe acendera dentro, lhe subia até às goelas. Já rasgara o gibão, atirava os passos
incertos, e, a arquejar, com a língua pendente. limpava as grossas bagas de um suor horrendo
que o regelava como neve. Oh Virgem Mãe! Outra vez o lume, mais forte, que alastrava, o
roía! Gritou:
— Socorro! Alguém! Guanes! Rostabal!
Os seus braços torcidos batiam o ar desesperadamente. E a chama dentro galgava —
sentia os ossos a estalarem como as traves de uma casa em fogo.
Cambaleou até à fonte para apagar aquela labareda, tropeçou sobre Rostabal; e foi
com o joelho fincado no morto, arranhando a rocha, que ele, entre uivos, procurava o fio de
água. que recebia sobre os olhos, pelos cabelos. Mas a água mais o queimava, como se fosse
um metal derretido. Recuou. caiu para cima da relva. que arrancava aos punhados, e que
mordia, mordendo os dedos, para lhe sugar a frescura. Ainda se ergueu. com uma baba densa
a escorrer-lhe nas barbas: e de repente; esbugalhando pavorosamente os olhos, berrou, como
se compreendesse enfim a traição, todo o horror:
— É veneno!
Oh! D. Rui, o avisado, era veneno! Porque Guanes, apenas chegara a Retortilho,
mesmo antes de comprar os alforges, correra cantando a uma viela, por detrás da catedral, a
comprar ao velho droguista judeu o veneno que, misturado ao vinho, o tornaria a ele, a ele
somente, dono de todo o tesouro. Anoiteceu. Dois corvos, de entre o bando que grasnava
além nos silvados, já tinham pousado sobre o corpo de Guanes. A fonte, cantando. lavava o
outro morto. Meio enterrado na erva negra, toda a face de Rui se tornara negra. Uma
estrelinha tremeluzia no céu.
O tesouro ainda lá está, na mata de Roquelanes.
Queirós, José Maria Eça de. Contos, Porto Editora, Lisboa, pp. 97-104
CIVILIZAÇÃO
Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num palácio,
com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado.
Desde o berço, onde sua mãe, senhora gorda e crédula de Trás-os-Montes, espalhava,
para reter as Fadas Benéficas, funcho e âmbar, Jacinto fora sempre mais resistente e são que
um pinheiro das dunas. Um lindo rio, murmuroso e transparente, com um leito muito liso de
areia muito branca, refletindo apenas pedaços lustrosos de um céu de Verão ou ramagens
sempre verdes e de bom aroma, não ofereceria, àquele que o descesse numa barca cheia de
almofadas e de champanhe gelado, mais doçura e facilidades do que a vida oferecia ao meu
camarada Jacinto. Não teve sarampo e não teve lombrigas. Nunca padeceu, mesmo na idade
em que se lê Balzac e Musset, os tormentos da sensibilidade. Nas suas amizades foi sempre
tão feliz como o clássico Orestes. Do amor só experimentara o mel — esse mel que o amor
invariavelmente concede a quem o pratica, como as abelhas, com ligeireza e mobilidade.
Ambição, sentira somente a de compreender bem as ideias gerais e a «ponta do seu intelecto»
(como diz o velho cronista medieval) não estava ainda romba nem ferrugenta... E todavia,
desde os vinte e oito anos, Jacinto já se vinha repastando de Schopenhauer, do Eclesiastes, de
outros pessimistas menores, e três, quatro vezes por dia, bocejava, com um bocejo cavo e
lento, passando os dedos finos sobre as faces, com se nelas só palpasse palidez e ruína.
Porquê?
Era ele, de todos os homens que conheci, o mais complexamente civilizado — ou,
antes, aquele que se munira da mais vasta soma de civilização material, ornamental e
intelectual. Nesse palácio (floridamente chamado o Jasmineiro) que o seu pai, também Jacinto,
construíra sobre uma honesta casa do século XVII, assoalhada a pinho e branqueada a cal —
existia, creio eu, tudo quanto para bem do espírito ou da matéria os homens têm criado,
através da incerteza e dor, desde que abandonaram o vale feliz de Septa-Sindu, a Terra das
Águas Fáceis, o doce país ariano. A biblioteca — que em duas salas, amplas e claras como
praças, forrava as paredes, inteiramente, desde os tapetes de Carmânia até ao teto, donde,
alternadamente, através de cristais, o sol e a eletricidade vertiam uma luz estudiosa e calma —
continha vinte e cinco mil volumes, instalados em ébano, magnificamente revestidos de
marroquim escarlate. Só sistemas filosóficos (e com justa prudência, para poupar espaço, o
bibliotecário apenas colecionara os que irreconciliavelmente se contradizem) havia mil e
oitocentos e dezassete!
Uma tarde que eu desejava copiar um ditame de Adam Smith, percorri, buscando este
economista ao longo das estantes, oito metros de economia política! Assim se achava
formidavelmente abastecido o meu amigo Jacinto de todas as obras essenciais da inteligência
— e mesmo da estupidez. E o único inconveniente deste monumental armazém do saber era
que todo aquele que lá penetrava, inevitavelmente lá adormecia, por causa das poltronas,
que, providas de finas pranchas móveis para sustentar o livro, o charuto, o lápis das notas, a
taça de café, ofereciam ainda uma combinação oscilante e flácida de almofadas, onde o corpo
encontrava logo, para mal do espírito, a doçura, a profundidade e a paz estirada de um leito.
Ao fundo, e como um altar-mor, era o gabinete de trabalho de Jacinto. A sua cadeira, grave e
abacial, de couro, com brasões, datava do século XIV, e em torno dela pendiam numerosos
tubos acústicos, que, sobre os panejamentos de seda cor de musgo e cor de hera, pareciam
serpentes adormecidas e suspensas num velho muro de quinta. Nunca recordo sem assombro
a sua mesa, recoberta toda de sagazes e subtis instrumentos para cortar papel, numerar
páginas, colar estampilhas, aguçar lápis, raspar emendas, imprimir datas, derreter lacre, cintar
documentos, carimbar contas! Uns de níquel, outros de aço, rebrilhantes e frios, todos eram
de um manejo laborioso e lento: alguns, com as molas rígidas, as pontas vivas, brilhavam e
feriam: e nas largas folhas de papel Whatman em que ele escrevia, e que custavam quinhentos
réis, eu por vezes surpreendi gotas de sangue do meu amigo. Mas a todos ele considerava
indispensáveis para compor as suas cartas (Jacinto não compunha obras), assim como os trinta
e cinco dicionários, e os manuais, e as enciclopédias, e os guias, e os diretórios, atulhando uma
estante isolada, esguia, em forma de torre, que silenciosamente girava sobre o seu pedestal, e
que eu denominara o Farol. O que, porém, mais completamente imprimia àquele gabinete um
portentoso carácter de civilização eram, sobre as suas peanhas de carvalho, os grandes
aparelhos, facilitadores do pensamento — a máquina de escrever, os autocopistas, o telégrafo
Morse, o fonógrafo, o telefone, o teatrofone, outros ainda, todos com metais luzidios, todos
com longos fios. Constantemente sons curtos e secos retiniam no ar morno daquele santuário.
Tique, tique, tique! Dlim, dlim, dlim! Craque, craque, craque! Trrre, Trrre, Trrre!... Era o meu
amigo comunicando. Todos esses fios mergulhados em forças universais transmitiam forças
universais. E elas nem sempre, desgraçadamente, se conservavam domadas e disciplinadas!
Jacinto recolhera no fonógrafo a voz do conselheiro Pinto Porto, uma voz oracular e rotunda,
no momento de exclamar com respeito, com autoridade:
— Maravilhosa invenção! Quem não admirará os progressos deste século?
Pois, numa doce noite de S. João, o meu supercivilizado amigo, desejando que umas
senhoras parentas de Pinto Porto (as amáveis Gouveias) admirassem o fonógrafo, fez romper
do bocarrão do aparelho, que parece uma trompa, a conhecida voz rotunda e oracular:
— Quem não admirará os progressos deste século?
Mas, inábil ou brusco, certamente desconcertou alguma mola vital — porque de
repente o fonógrafo começa a redizer, sem descontinuação, interminavelmente, com uma
sonoridade cada vez mais rotunda, a sentença do conselheiro:
— Quem não admirará os progressos deste século?
Debalde Jacinto, pálido, com os dedos trémulos, torturava o aparelho. A exclamação
recomeçava, rolava, oracular e majestosa:
— Quem não admirará os progressos deste século?
Enervados, retirámos para uma sala distante, pesadamente revestida de panos de
Arrás. Em vão! A voz de Pinto Porto lá estava, entre os panos de Arrás, implacável e rotunda:
— Quem não admirará os progressos deste século?
Furiosos, enterrámos uma almofada na boca do fonógrafo, atirámos por cima mantas,
cobertores espessos, para sufocar a voz abominável. Em vão! Sob a mordaça, sob as grossas
lãs, a voz rouquejava, surda mas oracular.
— Quem não admirará os progressos deste século?
As amáveis Gouveias tinham abalado, apertando desesperadamente os xales sobre a
cabeça. Mesmo à cozinha, onde nos refugiámos, a voz descia, engasgada e gosmosa:
— Quem não admirará os progressos deste século?
Fugimos espavoridos para a rua. Era de madrugada. Um fresco bando de raparigas, de
volta das fontes, passava cantando com braçados de flores:
cabiam seis amigos, que Jacinto escolhia com critério na literatura, na arte e na metafísica e
que, entre as tapeçarias de Arrás, representando colinas, pomares e pórticos da Ática, cheias
de classicismo e de luz, renovavam ali repetidamente banquetes que, pela sua
intelectualidade, lembravam os de Platão. Cada garfada se cruzava com um pensamento ou
com palavras destramente arranjadas em forma de pensamento.
E a cada talher correspondiam seis garfos, todos de feitios dissemelhantes e astuciosos
— um para as ostras, outro para o peixe, outro para as carnes, outro para os legumes, outro
para a fruta, outro para o queijo. Os copos, pela diversidade dos contornos e das cores, faziam,
sobre a toalha mais reluzente que esmalte, como ramalhetes silvestres espalhados por cima de
neve. Mas Jacinto e os seus filósofos, lembrando o que o experiente Salomão ensina sobre as
ruínas e amarguras do vinho, bebiam apenas em três gotas de água uma gota de bordéus
Chateaubriand, 1860. Assim o recomendam Hesíodo no seu Nereu, Diocles nas suas Abelhas. E
de águas havia sempre no Jasmineiro um luxo redundante — águas geladas, águas
carbonatadas, águas esterilizadas, águas gasosas, águas de sais, águas minerais, outras ainda,
em garrafas sérias, com tratados terapêuticos impressos no rótulo... O cozinheiro, mestre
Sardão, era daqueles que Anaxágoras equiparava dos Retóricos, aos Oradores, a todos os que
sabem a arte divina de «temperar e servir a Ideia»: e em Síbaris, cidade do Viver Excelente, os
magistrados teriam votado a mestre Sardão, pelas festas de Juno Lacínia, a coroa de folhas de
ouro e a túnica milésia que se devia aos benfeitores cívicos. A sua sopa de alcachofras e ovas
de carpa; os seus filetes de veado macerados em velho madeira com puré de nozes; as suas
amoras geladas em éter, outros acepipes ainda, numerosos e profundos (e os únicos que
tolerava o meu Jacinto), eram obras de um artista, superior pela abundância das ideias novas
— e juntavam sempre a raridade do sabor à magnificência da forma. Tal prato desse mestre
incomparável parecia, pela ornamentação, pela graça Dorida dos lavores, pelo arranjo dos
coloridos frescos e cantantes, uma joia esmaltada do cinzel de Cellini ou Meurice. Quantas
tardes eu desejei fotografar aquelas composições de excelente fantasia, antes que o
trinchante as retalhasse! E esta superfinidade do comer condizia deliciosamente com a do
servir. Por sobre um tapete, mais fofo e mole que o musgo da floresta da Brocelanda,
deslizavam, como sombras fardadas de branco, cinco criados e um pajem preto, à maneira
vistosa do século XVIII. As travessas (de prata) subiam da cozinha e da copa por dois
ascensores, um para as iguarias quentes, forrado de tubos onde a água fervia; outro, mais
lento, para as iguarias frias, forrado de zinco, amónia e sal, e ambos escondidos por flores tão
densas e viçosas, que era como se até a sopa saísse fumegando dos românticos jardins de
Armida. E muito bem me lembro de um domingo de Maio em que, jantando com Jacinto um
bispo, o erudito bispo de Chorazin, o peixe emperrou no meio do ascensor, sendo necessário
que acudissem, pura o extrair, pedreiros com alavancas.
****
Nas tardes em que havia «banquete de Platão» (que assim denominávamos essas
festas de trufas e ideias gerais), eu, vizinho e íntimo, aparecia ao declinar do Sol, e subia
familiarmente ao quarto do nosso Jacinto — onde o encontrava sempre incerto entre as suas
casacas, porque as usava alternadamente de seda, de pano, de flanelas Jaegher, e de foulard
das Índias. O quarto respirava o frescor e aroma do jardim por duas vastas janelas, providas
magnificamente (além das cortinas de seda mole Luís XV) de uma vidraça exterior de cristal
inteiro, de uma vidraça interior de cristais miúdos, de um toldo rolando na cimalha, de um
estore de sedinha frouxa, de gazes que franziam e se enrolavam como nuvens e de uma
gelosia móvel de gradaria mourisca. Todos estes resguardos (sábia invenção de Holland & E.Ca
de Londres) serviam a graduar a luz e o ar — segundo os avisos de termómetros, barómetros e
higrómetros, montados em ébano, e a que um meteorologista (Cunha Guedes) vinha, todas as
semanas, verificar a precisão.
Entre estas duas varandas rebrilhava a mesa de toilette, uma mesa enorme de vidro,
toda de vidro, para a tornar impenetrável aos micróbios, e coberta de todos esses utensílios de
asseio e alinho que o homem do século XIX necessita numa capital, para não desfear o
conjunto sumptuário da civilização. Quando o nosso Jacinto, arrastando as suas engenhosas
chinelas de pelica e seda, se acercava desta ara — eu, bem aconchegado num divã, abria com
indolência uma revista, ordinariamente a Revista Eletropática, ou a das Indagações Psíquicas. E
Jacinto começava... Cada um desses utensílios de aço, de marfim, de prata, impunham ao meu
amigo, pela influência omnipoderosa que as coisas exercem sobre o dono (sunt tyrannioe
rerum) o dever de o utilizar com aptidão e deferência. E assim as operações do alindamento de
Jacinto apresentavam a prolixidade, reverente e insuprimível, dos ritos de um sacrifício.
Começava pelo cabelo... Com uma escova chata, redonda e dura, acamava o cabelo,
corredio e louro, no alto, aos lados da risca; com uma escova estreita e recurva, à maneira do
alfange de um persa, ondeava o cabelo sobre a orelha; com uma escova côncava, em forma de
telha, empastava o cabelo, por trás, sobre a nuca... Respirava e sorria. Depois, com uma
escova de longas cerdas, fixava o bigode; com uma escova leve e flácida acurvava as
sobrancelhas; com uma escova feita de penugem regularizava as pestanas. E deste modo
Jacinto ficava diante do espelho, passando pêlos sobre o seu pêlo, durante catorze minutos.
de buscar interesses e emoções que o reconciliassem com a vida — penetrando à cata dessas
emoções e desses interesses pelas veredas mais desviadas do saber, a ponto de devorar,
desde Janeiro a Março, setenta e sete volumes sobre a evolução das ideias morais entre as
raças negroides. Ah! nunca homem deste século batalhou mais esforçadamente contra a seca
de viver! Debalde! Mesmo de explorações tão cativantes como essa, através da moral dos
negroides, Jacinto regressava mais murcho, com bocejos mais cavos!
E era então que ele se refugiava intensamente na leitura de Schopenhauer e do
Ecclesiastes. Porquê? Sem dúvida porque ambos esses pessimistas o confirmavam nas
conclusões que ele tirava de uma experiência paciente e rigorosa, «que tudo é vaidade ou dor,
que quanto mais se sabe, mais se pena, e que ter sido rei de Jerusalém e obtido os gozos todos
na vida só leva a maior amargura...» Mas porque rolara assim a tão escura desilusão — o
saudável, rico, sereno e intelectual Jacinto? O velho escudeiro Grilo pretendia que «Sua
Excelência sofria de fartura!»
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Ora, justamente depois desse Inverno, em que ele se embrenhara na moral dos
negroides e instalara a luz elétrica entre os arvoredos do jardim, sucedeu que Jacinto teve a
necessidade moral iniludível de partir para o Norte, para o seu velho solar de Torges. Jacinto
não conhecia Torges, e foi com desusado tédio que ele se preparou, durante sete semanas,
para essa jornada agreste. A quinta fica nas serras — e a rude casa solarenga, onde ainda resta
uma torre do século XV estava ocupada, havia trinta anos pelos caseiros, boa gente de
trabalho, que comia o seu caldo entre a fumaraça da lareira e estendia o trigo a secar nas salas
senhoriais.
Jacinto, logo nos começos de Março, escrevera cuidadosamente ao seu procurador
Sousa, que habitava a aldeia de Torges, ordenando-lhe que compusesse os telhados, caiasse os
muros, envidraçasse as janelas. Depois mandou expedir, por comboios rápidos, em caixotes
que transpunham a custo os portões do Jasmineiro, todos os confortos necessários a duas
semanas de montanha — camas de penas, poltronas, divãs, lâmpadas de Carcel, banheiras de
níquel, tubos acústicos para chamar os escudeiros, tapetes persas para amaciar os soalhos. Um
dos cocheiros partiu com um cupé, uma vitória, um breque, mulas e guizos.
Depois foi o cozinheiro, com a bateria, a garrafeira, a geleira, bocais de trufas, caixas
profundas de águas minerais. Desde o amanhecer, nos pátios largos do palacete, se pregava,
se martelava, como na construção de uma cidade. E as bagagens, desfilando, lembravam uma
página de Heródoto ao narrar a invasão persa. Jacinto emagrecera com os cuidados daquele
Êxodo. Por fim, largámos numa manhã de Junho, com o Grilo e trinta e sete malas.
Eu acompanhava Jacinto, no meu caminho para Goães, onde vive minha tia, a uma
légua farta de Torges: e íamos num vagão reservado, entre vastas almofadas, com perdizes e
champanhe num cesto. A meio da jornada devíamos mudar de comboio — nessa estação que
tem um nome sonoro em ola e um tão suave e cândido jardim de roseiras brancas. Era
domingo de imensa poeira e sol — e encontrámos aí, enchendo a plataforma estreita, todo um
povaréu festivo que vinha da romaria de S. Gregório da Serra.
Para aquele trasbordo, em tarde de arraial, o horário só nos concedia três minutos
avaros. O outro comboio já esperava, rente aos alpendres, impaciente e silvando. Uma sineta
badalava com furor. E, sem mesmo atender às lindas moças que ali saracoteavam, aos bandos,
afogueadas, de lenços flamejantes, o seio farto coberto de ouro, e a imagem do santo
espetada no chapéu — corremos, empurrámos, furámos, saltámos para o outro vagão, já
reservado, marcado por um cartão com as iniciais de Jacinto. Imediatamente o trem rolou.
Pensei então no nosso Grilo, nas trinta e sete malas! E debruçado da portinhola avistei ainda
junto ao cunhal da estação, sob os eucaliptos, um monte de bagagens, e homens de boné
agaloado que, diante delas, bracejavam com desespero.
Murmurei, recaindo nas almofadas:
— Que serviço!
Jacinto, ao canto, sem descerrar os olhos, suspirou:
— Que maçada!
Toda uma hora deslizámos lentamente entre trigais e vinhedo; e ainda o sol batia nas
vidraças, quente e poeirento, quando chegámos à estação de Gondim, onde o procurador de
Jacinto, o excelente Sousa, nos devia esperar com cavalos para treparmos a serra até ao solar
de Torges. Por trás do jardim da estação, todo florido também de rosas e margaridas, Jacinto
reconheceu logo as suas carruagens, ainda empacotadas em lona.
Mas quando nos apeámos no pequeno cais branco e fresco — só houve em torno de
nós solidão e silêncio... Nem procurador, nem cavalos! O chefe da estação, a quem eu
perguntara com ansiedade «se não aparecera ali o Sr. Sousa, se não conhecia o Sr. Sousa»,
tirou afavelmente o seu boné de galão. Era um moço gordo e redondo, com cores de maçã
camoesa, que trazia sob o braço um volume de versos. «Conhecia perfeitamente o Sr. Sousa!
Três semanas antes jogara ele a manilha com o Sr. Sousa! Nessa tarde, porém, infelizmente,
não avistara o Sr. Sousa!» O comboio desaparecera por detrás das fragas altas que ali pendem
sobre o rio. Um carregador enrolava o cigarro, assobiando. Rente da grade do jardim, uma
velha, toda de negro, dormitava agachada no chão, diante de uma cesta de ovos. E o nosso
Grilo, e as nossas bagagens?... O chefe encolheu risonhamente os ombros nédios. Todos os
nossos bens tinham encalhado, decerto, naquela estação de roseiras brancas que tem um
nome sonoro em ola. E nós ali estávamos, perdidos na serra agreste, sem procurador, sem
cavalos, sem Grilo, sem malas. Para que esfiar miudamente o lance lamentável? Ao pé da
estação, numa quebrada da serra, havia uma aldeia foreira à quinta, onde alcançámos, para
nos levarem e nos guiarem a Torges, uma égua lazarenta, um jumento branco, um rapaz e um
podengo. E aí começámos a trepar, enfastiadamente, estes caminhos agrestes — os mesmos,
decerto, por onde vinham e iam, de monte a rio, os Jacintos do século XV. Mas, passada uma
trémula ponte de pau que galga um ribeiro todo quebrado por fragas (e onde abunda a truta
adorável) os nossos males esqueceram, perante a inesperada, incomparável beleza daquela
serra bendita. O divino artista que está nos Céus compusera, certamente, esse monte numa
das suas manhãs de mais solene e bucólica inspiração.
A grandeza era tanta como a graça... Dizer os vales fofos de verdura, os bosques quase
sacros, os pomares cheirosos e em flor, a frescura das águas cantantes, as ermidinhas
branqueando nos altos, as rochas musgosas, o ar de uma doçura de Paraíso, toda a majestade
e toda a lindeza — não é para mim, homem de pequena arfe. Nem creio mesmo que fosse
para mestre Horácio. Quem pode dizer a beleza das coisas, tão simples e inexprimível? Jacinto
adiante, na égua tarda, murmurava:
— Ah! que beleza!
Eu atrás, no burro, com as pernas bambas, murmurava:
— Ah! que beleza!
Os espertos regatos riam, saltando de rocha em rocha. Finos ramos de arbustos
floridos roçavam as nossas faces, com familiaridade e carinho. Muito tempo um melro nos
seguiu, de choupo para castanheiro, assobiando os nossos louvores. Serra bem acolhedora e
amável... Ah! que beleza!
Por entre estes «Ahs!» maravilhados chegámos a uma avenida de faias, que nos
pareceu clássica e nobre. Atirando uma nova vergastada ao burro e à égua, o nosso rapaz, com
o seu podengo ao lado, gritava:
— Aqui é que estamos!
E ao fundo das faias havia com efeito um portão de quinta, que um escudo de armas
de velha pedra, roída de musgo, grandemente afidalgava. Dentro já os cães ladravam com
furor. E, mal Jacinto, e eu atrás dele no burro de Sancho, transpusemos o limiar solarengo,
correu para nós, do alto de uma escadaria, um homem branco, rapado como um clérigo, sem
colete, sem jaleca, que erguia para o ar, num assombro, os braços esgazeados. Era o caseiro, o
Zé Brás. E logo ali, nas pedras do pátio, entre o latir dos cães, surdiu uma tumultuosa história
que o pobre Brás balbuciava, aturdido, e que enchia a face de Jacinto de lividez e de cólera. O
caseiro não esperava Sua Excelência. Ninguém esperava Sua Excelência. (Ele dizia sua
inselência.)
O procurador, o Sr. Sousa, estava para a raia desde Maio, a tratar a mãe que levara um
coice de mula. E decerto houvera engano, cartas perdidas... Porque o Sr. Sousa só contava com
a sua Excelência, em Setembro, para a vindima. Na casa nenhuma obra começara. E
infelizmente para Sua Excelência os telhados ainda estavam sem telhas, e as janelas sem
vidraças...
Cruzei os braços, num justo espanto. Mas os caixotes — esses caixotes remetidos para
Torges, com tanta prudência, em Abril, repletos de colchões, de regalos, de civilização?... O
caseiro, vago, sem compreender, arregalava os olhos miúdos, onde já bailavam lágrimas. Os
caixotes?! Nada chegara, nada aparecera. E na sua perturbação o Zé Brás procurava entre as
arcadas do pátio, nas algibeiras das pantalonas... Os caixotes? Não, não tinha os caixotes!
Foi então que o cocheiro de Jacinto (que trouxera os cavalos e as carruagens) se
acercou, gravemente. Esse era um civilizado — e acusou logo o governo. Já quando ele servia o
senhor visconde de S. Francisco se tinham assim perdido, por desleixo do governo, da cidade
para a serra, dois caixotes com vinho velho da Madeira e roupa branca de senhora. Por isso
ele, escarmentado, sem confiança na Nação, não largara as carruagens — e era tudo o que
restava a Sua Excelência: o breque, a vitória, o cupé e os guizos. Somente, naquela rude
montanha, não havia estradas onde elas rolassem. E como só podiam subir para a quinta em
grandes carros de bois — ele lá as deixara em baixo, na estação, quietas, empacotadas na
lona...
Jacinto ficara plantado diante de mim, com as mãos nos bolsos:
— E agora?
Nada restava senão recolher, cear o caldo do Zé Brás, e dormir nas palhas que os fados
nos concedessem. Subimos. A escadaria nobre conduzia a uma varanda, toda coberta, em
alpendre, acompanhando a fachada do casarão e ornada, entre os seus grossos pilares de
granito, por caixotes cheios de terra, em que floriam cravos. Colhi um cravo. Entrámos. É o
meu pobre Jacinto contemplou, enfim, as salas do seu solar! Eram enormes, com as altas
paredes rebocadas a cal que o tempo e o abandono tinham enegrecido, e vazias,
desoladamente nuas, oferecendo apenas como vestígio de habitação e de vida, pelos cantos,
algum monte de cestos ou algum molho de enxadas. Nos tetos remotos de carvalho negro
alvejavam manchas — que era o céu já pálido do fim da tarde, surpreendido através dos
buracos do telhado. Não restava uma vidraça. Por vezes, sob os nossos passos, uma tábua
podre rangia e cedia.
Parámos, enfim, na última, a mais vasta, onde havia duas arcas tulheiras para guardar
o grão; e aí depusemos, melancolicamente, o que nos ficara de trinta e sete malas — os
paletós alvadios, uma bengala e um Jornal da Tarde . Através das ]anelas desvidraçadas, por
onde se avistavam copas de arvoredos e as serras azuis de além-rio, o ar entrava, montesino e
largo, circulando plenamente como num eirado, com aromas de pinheiro bravo. E lá de baixo,
dos vales, subia, desgarrada e triste, uma voz de pegureira cantando. Jacinto balbuciou:
— É horroroso!
Eu murmurei:
— É campestre!
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diamantina, que é tudo o que neste céu cristão resta do esplendor corporal de Vénus! Jacinto
nunca considerara bem aquela estrela — nem assistira a este majestoso e doce adormecer das
coisas. Esse enegrecimento de montes e arvoredos, casais claros fundindo-se na sombra, um
toque dormente de sino que vinha pelas quebradas, o cochichar das águas entre as relvas
baixas — eram para ele como iniciações. Eu estava em frente, no outro poial. E senti-o suspirar
como um homem que enfim descansa.
Assim nos encontrou nesta contemplação o Zé Brás com o doce aviso de que estava na
mesa a ceiazinha. Era adiante, noutra sala mais nua, mais negra. E, aí, o meu supercivilizado
Jacinto recuou com um pavor genuíno. Na mesa de pinho, recoberta com uma toalha de mãos,
encostada à parede sórdida, uma vela de sebo, meio derretida num castiçal de latão, iluminava
dois pratos de louça amarela, ladeados por colheres de pau e por garfos de ferro. Os copos, de
vidro grosso e baço, conservavam o tom roxo do vinho que neles passara em fartos anos de
fartas vindimas. O covilhete de barro com as azeitonas deleitaria, pela sua singeleza ática, o
coração de Diógenes. Na larga broa estava cravado um facalhão... Pobre Jacinto!
Mas lá abancou resignado, e muito tempo, pensativamente, esfregou com o seu lenço
o garfo negro e a colher de pau. Depois, mudo, desconfiado, provou um gole curto do caldo,
que era de galinha e rescendia. Provou, e levantou para mim, seu companheiro e amigo, uns
olhos largos que luziam, surpreendidos. Tornou a sorver uma colherada do caldo, mais cheia,
mais lenta... E sorriu, murmurando com espanto:
— Está bom!
Estava realmente bom: tinha fígado e tinha moela: o seu perfume enternecia. Eu, três
vezes, com energia, ataquei aquele caldo: foi Jacinto que rapou a sopeira. Mas já arredando a
broa, arredando a vela, o bom Zé Brás pousara na mesa uma travessa vidrada, que
transbordava de arroz com favas. Ora, apesar de a fava (que os Gregos chamaram ciboria)
pertencer às épocas superiores da civilização e promover tanto a sapiência que havia em Sício,
na Galácia, um templo dedicado a Minerva Ciboriana — Jacinto sempre detestara favas.
Tentou todavia uma garfada tímida. De novo os seus olhos, alargados pelo assombro,
procuraram os meus. Outra garfada, outra concentração... E eis que o meu dificílimo amigo
exclama:
— Está ótimo!
Eram os picantes ares da serra? Era a arte deliciosa daquelas mulheres que em baixo
remexiam as panelas, cantando o Vira, meu bem? Não sei — mas os louvores de Jacinto a cada
travessa foram ganhando em amplidão e firmeza. E diante do frango louro, assado no espeto
de pau, terminou por bradar:
— Está divino!
Nada, porém, o entusiasmou como o vinho, o vinho caindo de alto, da grossa caneca
verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em si mais alma que muito
poema ou livro santo! Mirando à luz de sebo o copo rude que ele orlava de espuma, eu
recordava o dia geórgico em que Virgílio, em casa de Horácio, sob a ramada, cantava o fresco
palhete da Rética. E Jacinto, com uma cor que eu nunca vira na sua palidez schopenháurica,
sussurrou logo o doce verso:
maciça e indesbastável ignorância de bacharel, com que saí do ventre de Coimbra, minha mãe
espiritual. Jacinto, porque na sua ponderosa biblioteca tinha trezentos e dezoito tratados
sobre astronomia! Mas que nos importava, de resto, que aquele astro além se chamasse Sírio
e aquele outro Aldebarã? Que lhes importava a eles que um de nós fosse José e o outro
Jacinto? Éramos formas transitórias do mesmo ser eterno — e em nós havia o mesmo Deus. E
se eles também assim o compreendiam, estávamos ali, nós à janela num casarão serrano, eles
no seu maravilhoso infinito, perfazendo um acto sacrossanto, um perfeito acto de Graça —
que era sentir conscientemente a nossa unidade, e realizar, durante um instante na
consciência, a nossa divinização.
Assim enevoadamente filosofávamos — quando Zé Brás, com uma candeia na mão,
veio avisar que «estavam preparadas as camas das suas inselências...» Da idealidade descemos
gostosamente à realidade, e que vimos então nós, os irmãos dos astros? Em duas salas
tenebrosas e côncavas, duas enxergas, postas no chão, a um canto, com duas cobertas de
chita; à cabeceira um castiçal de latão, pousado sobre um alqueire: e aos pés, como lavatório,
um alguidar vidrado em cima de uma cadeira de pau!
Em silêncio, o meu supercivilizado amigo palpou a sua enxerga e sentiu nela a rigidez
de um granito. Depois, correndo pela face descaída os dedos murchos, considerou que,
perdidas as suas malas, não tinha nem chinelas nem roupão! E foi ainda Zé Brás que
providenciou, trazendo ao pobre Jacinto, para ele desafogar os pés, uns tremendos tamancos
de pau, e para ele embrulhar o corpo, docemente educado em Síbaris, uma camisa da caseira,
enorme, de estopa mais áspera que estamenha de penitente, e com folhos crespos e duros
como lavores em madeira... Para o consolar, lembrei que Platão, quando compunha o
Banquete, Xenofonte, quando comandava os Dez Mil, dormiam em piores catres. As enxergas
austeras fazem as fortes almas — e é só vestido de estamenha que se penetra no Paraíso.
— Tem você — murmurou o meu amigo, desatento e seco — alguma coisa que eu
leia?... Eu não posso adormecer sem ler!
Eu possuía apenas o número do Jornal da Tarde , que rasguei pelo meio e partilhei com
ele fraternalmente. E quem não viu então Jacinto, senhor de Torges, acaçapado à borda da
enxerga, junto da vela que pingava sobre o alqueire, com os pés nus encafuados nos grossos
socos, perdido dentro da camisa da patroa, toda em folhos, percorrendo na metade do Jornal
da Tarde, com os olhos turvos, os anúncios dos paquetes — não pode saber o que é uma
vigorosa e real imagem do desalento!
Assim o deixei — e daí a pouco, estendido na minha enxerga também espartina, subia,
através de um sonho jovial e erudito, ao planeta Vénus, onde encontrava, entre os olmos e os
ciprestes, num vergel, Platão e o Zé Brás, em alta camaradagem intelectual, bebendo o vinho
da Rética pelos copos de Torges! Travámos todos três bruscamente uma controvérsia sobre o
século XIX. Ao longe, por entre uma floresta de roseiras mais altas que carvalhos, alvejavam os
mármores de uma cidade e ressoavam cantos sacros. Não recordo o que Xenofonte sustentou
acerca da civilização e do fonógrafo. De repente tudo foi turbado por fuscas nuvens, através
das quais eu distinguia Jacinto, fugindo num burro que ele impelia furiosamente com os
calcanhares, com uma vergasta, com berros, para os lados do Jasmineiro!
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Cedo, de madrugada, sem rumor, para não despertar Jacinto, que, com as mãos sobre
o peito, dormia placidamente no seu leito de granito — parti para Goães. E durante três
quietas semanas, naquela vila onde se conservam os hábitos e as ideias do tempo de el-rei D.
Dinis, não soube do meu desconsolado amigo, que decerto fugira dos seus tetos esburacados e
remergulhara na civilização. Depois, por uma abrasada manhã de Agosto, descendo de Goães,
de novo trilhei a avenida de faias, e entrei o portão solarengo de Torges, entre o furioso latir
dos rafeiros. A mulher do Zé Brás apareceu alvoroçada à porta da tulha. E a sua nova foi logo
que o Sr. D. Jacinto (em Torges, o meu amigo tinha dom) andava lá em baixo com o Sousa nos
campos de Freixomil.
— Então, ainda cá está o Sr. D. Jacinto?
Sua inselência ainda estava em Torges — e a sua inselência ficava para a vindima!...
Justamente eu reparava que as janelas do solar tinham vidraças novas; e a um canto do pátio
pousavam baldes de cal; uma escada de pedreiro ficara arrimada contra a varanda; e num
caixote aberto, ainda cheio de palha de empacotar, dormiam dois gatos.
— E o Grilo apareceu?
— O Sr. Grilo está no pomar, à sombra.
— Bem! E as malas?
— O Sr. D. Jacinto já tem o seu saquinho de couro...
Louvado Deus! O meu Jacinto estava, enfim, provido de civilização! Subi contente. Na
sala nobre, onde o soalho fora composto e esfregado, encontrei uma mesa recoberta de
oleado, prateleiras de pinho com louça branca de Barcelos e cadeiras de palhinha, orlando as
paredes muito caiadas que davam uma frescura de capela nova. Ao lado, noutra sala, também
de faiscante alvura, havia o conforto inesperado de três cadeiras de verga da Madeira, com
braços largos e almofadas de chita; sobre a mesa de pinho, o papel almaço, o candeeiro de
azeite, as penas de pato espetadas num tinteiro de frade, pareciam preparadas para um
estudo calmo e ditoso das humanidades; e na parede, suspensa de dois pregos, uma
estantezinha continha quatro ou cinco livros, folheados e usados, o D. Quixote, um Virgílio,
uma História de Roma, as Crónicas de Froissart. Adiante era certamente o quarto de D. Jacinto,
um quarto claro e casto de estudante, com um catre de ferro, um lavatório de ferro, a roupa
pendurada de cabides toscos. Tudo resplandecia de asseio e ordem. As janelas cerradas
defendiam do sol de Agosto, que escaldava fora, os peitoris de pedra. Do soalho, borrifado de
água, subia uma fresquidão consoladora. Num velho vaso azul, um molho de cravos alegrava e
perfumava. Não havia um rumor. Torges dormia no esplendor da sesta. E, envolvido naquele
repouso de convento remoto, terminei por me estender numa cadeira de verga junto à mesa,
abri languidamente o Virgílio, murmurando:
Todo o fio de água, todo o tufo de erva, todo o pé de vinha o ocupava como vidas filiais porque
fosse responsável. Conhecia certos melros que cantavam em certos choupos. Exclamava
enternecido:
— Que encanto, a flor do trevo!
À noite, depois de um cabrito assado no forno, a que mestre Horácio teria dedicado
uma ode (talvez mesmo um carme heroico) conversámos sobre o Destino e a Vida. Eu citei,
com discreta malícia, Schopenhauer e o Ecclesiastes... Mas Jacinto ergueu os ombros, com
seguro desdém. A sua confiança nesses dois sombrios explicadores da vida desaparecera, e
irremediavelmente, sem poder mais voltar, como uma névoa que o sol espalha. Tremenda
tolice! Afirmar que a vida se compõe, meramente, de uma longa ilusão — é erguer um
aparatoso sistema sobre um ponto especial e estreito da vida, deixando fora do sistema toda a
vida restante, como uma contradição permanente e soberba. Era como se ele, Jacinto,
apontando para uma urtiga, crescida naquele pátio, declarasse, triunfalmente: «Aqui está uma
urtiga! Toda a quinta de Torges, portanto, é uma massa de urtigas.» — Mas bastaria que o
hóspede erguesse os olhos, para ver as searas, os pomares e os vinhedos!
De resto, desses dois ilustres pessimistas, um, o alemão, que conhecia ele da vida —
dessa vida de que fizera, com doutoral majestade, uma teoria definitiva e dolente? Tudo o que
pode conhecer quem, como este genial farsante, viveu cinquenta anos numa soturna
hospedaria de província, levantando apenas os óculos dos livros para conversar, à mesa-
redonda, com os alferes da guarnição! E o outro, o israelita, o homem dos Cantares, o muito
pedantesco rei de Jerusalém, só descobre que a vida é uma ilusão aos setenta e cinco anos,
quando o poder lhe escapa das mãos trémulas, e o seu serralho de trezentas concubinas se
torna ridiculamente supérfluo à sua carcaça frigida. Um dogmatiza funebremente sobre o que
não sabe — e o outro sobre o que não pode. Mas que se dê a esse bom Schopenhauer uma
vida tão completa e cheia como a de César, e onde estará o seu schopenhauerismo? Que se
restitua a esse sultão, besuntado de literatura, que tanto edificou e professorou em Jerusalém,
a sua virilidade — e onde estará o Ecclesiastes? De resto, que importa bendizer ou maldizer da
vida? Afortunada ou dolorosa, fecunda ou vã, ela tem de ser vivida. Loucos aqueles que, para a
atravessar, se embrulham desde logo em pesados véus de tristeza e desilusão, de sorte que na
sua estrada tudo lhes seja negrume, não só as léguas realmente escuras, mas mesmo aquelas
em que cintila um sol amável. Na Terra tudo vive — e só o homem sente a dor e a desilusão da
vida. E tanto mais as sente, quanto mais alarga e acumula a obra dessa inteligência que o torna
homem, e que o separa da restante Natureza, impensante e inerte. É no máximo da civilização
que ele experimenta o máximo de tédio. A sapiência, portanto, este em recuar até esse
honesto mínimo de civilização, que consiste em ter um teto de colmo, uma leira de terra e o
grão para nela semear. Em resumo, para reaver a felicidade, é necessário regressar ao Paraíso
— e ficar lá, quieto, na sua folha de vinha, inteiramente desguarnecido de civilização,
contemplando o anho aos saltos entre o tomilho, e sem procurar, nem com o desejo, a árvore
funesta da Ciência! Dixi!
Eu escutava, assombrado, este Jacinto novíssimo. Era verdadeiramente uma
ressurreição no magnífico estilo de Lázaro. Ao surge et ambula que lhe tinham sussurrado as
águas e os bosques de Torges, ele erguia-se do fundo da cova do Pessimismo, desembaraçava-
se das suas casacas de Poole, et ambulabat, e começava a ser ditoso. Quando recolhi ao meu
quarto, àquelas horas honestas que convêm ao campo e ao Otimismo tomei entre as minhas a
mão já firme do meu amigo, e pensando que ele enfim alcançara a verdadeira realeza, porque
possuía a verdadeira liberdade, gritei-lhe os meus parabéns à maneira do moralista de Tíbur:
Daí a pouco, através da porta aberta que nos separava, senti uma risada fresca, moça,
genuína e consolada. Era Jacinto que lia o D. Quixote. Oh bem- aventurado Jacinto! Conservava
o agudo poder de criticar, e recuperara o dom divino de rir!
Quatro anos vão passados. Jacinto ainda habita Torges. As paredes do seu solar
continuam bem caiadas, mas nuas.
De Inverno enverga um gabão de briche e acende um braseiro. Para chamar o Grilo ou
a moça, bate as mãos, como fazia Catão. Com os seus deliciosos vagares, já leu a Ilíada. Não
faz a barba. Nos caminhos silvestres pára e fala com as crianças. Todos os casais da serra o
bendizem. Ouço que vai casar com uma forte, sã e bela rapariga de Goães. Decerto crescerá ali
uma tribo, que será grata ao Senhor!
Como ele, recentemente, me mandou pedir livros da sua livraria (uma Vida de Buda,
uma História da Grécia e as obras de S. Francisco de Sales) fui, depois destes quatro anos, ao
Jasmineiro deserto. Cada passo meu sobre os fofos tapetes de Carmânia soou triste como num
chão de mortos. Todos os brocados estavam engelhados, esgaçados. Pelas paredes pendiam,
como olhos fora de órbitas, os botões elétricos das campainhas e das luzes — e havia vagos
fios de arame, soltos, enroscados, onde a aranha regalada e reinando tecera teias espessas. Na
livraria, todo o vasto saber dos séculos jazia numa imensa mudez, debaixo de uma imensa
poeira. Sobre as lombadas dos sistemas filosóficos alvejava o bolor: vorazmente a traça