Tradição e Modernização no Mulungu
Tópicos abordados
Tradição e Modernização no Mulungu
Tópicos abordados
Capítulo 2
possível de ligação com o mundo coletivo projetado para fora do trabalho escravo e da
senzala1, diversas formas de manifestação do sagrado foram geradas através dos processos de
popular o sincretismo apresenta uma predisposição estrutural à porosidade2 que, sem fundir
corporeidade das pessoas que atuam nas práticas devocionais. O fato da comunidade rural
Mulungu ser totalmente negra, isto é, sem mistura de cor-de-pele, remete à existência de
maneiras de ser devoto. A concepção do corpo como totalidade aberta ao meio externo, que
religiosidade local, não cabe nos propósitos desta pesquisa, que pretende captar os discursos
verbais e corporais das pessoas que processam o catolicismo sincrético, fornecendo sentidos
de mudança da tradição estão diretamente associados à corporeidade das pessoas que atuam na
da prática ritual de visitar as casas pedindo esmolas para festejar o Santo Reis. Neste
deslocamento do ritual, motivado pela necessidade de pagar uma promessa à São Sebastião, em
1
PRANDI, Reginaldo. Sincretismo, anti-sincretismo e reafricanização. In: BACELAR, Jeferson; CAROSO, Carlos
(org.) Faces da tradição afro-brasileira. Rio de Janeiro: Pallas; Salvador: CEAO, 1999, p.96.
2
SANCHIS, Pierre (org.) Fiéis & Cidadãos. Percursos de sincretismo no Brasil. Rio de Janeiro: EdUERJ, 2001,
p.25.
3
SODRÉ, Muniz. Corporalidade e liturgia negra. In : Negro Brasileiro Negro. Revista do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional, n° 25, 1997, p. 32.
4
BASTIDE, Roger . As religiões Africanas no Brasil. Contribuição a uma sociologia das interpenetrações de
civilizações. São Paulo. Livraria Pioneira Editora, 2ªed. 1985; 1ª ed. Universitaires France, 1960.
76
Santo se insere num contexto de mudanças radicais na comunidade Mulungu: o êxodo rural
O Mulungu formado por 115 casas hoje está muito bom para viver, de acordo com a
opinião da maioria dos moradores. Ao mesmo tempo em que começou o Reisado de São
família, da bolsa escola e do programa fome zero, que fornecem uma renda mensal aos
moradores; a chegada de água encanada (1997) com distribuição racionada duas vezes por
semana, e a instalação da luz elétrica (2000) que possibilitou a construção da casa da farinha
igreja nova (2001). Esta modernização do lugar aponta mudanças na sensibilidade corporal das
pessoas que, naturalmente, reverberam na maneira de fazer o Reisado e nos sentidos desta
entre valores antigos e novos na comunidade Mulungu, cuja organização comunitária é baseada
na hierarquia familiar e religiosa. A liderança feminina do Reisado que era feito por homens, o
sucesso do Reisado que apareceu na televisão antes mesmo da chegada de luz elétrica no lugar,
a diminuição do esforço físico com o carro que passou a levar o Reisado até as comunidades
mudanças que nos convidam a pensar sobre a relevância da corporeidade como campo de
emergência do Reisado de São Sebastião, através da corporeidade das pessoas que fazem essa
tradição e dos sentidos atribuídos às suas mudanças, sem situá-las como perdas de suas
rural Mulungu, com cerca de 600 moradores, não é reconhecida como quilombo, nem
reinvindica esta posição, apesar de ser vista como um grupo de negros que viveram e vivem de
maneira mais ou menos independente das suas relações externas. A idéia de quilombo,
vinculada à condição de ex-escravos, é rejeitada pelos moradores que afirmam nunca terem
sido escravos. Ser negro no Mulungu significa fazer parte da família. Mas a continuidade das
relações de parentesco não inclui a ausência de contato com o meio externo. As idas e vindas
dos moradores até a cidade de Boninal, sede do Município de Boninal onde fica o Mulungu, é
feira semanal: ponto de encontro entre todas as comunidades rurais do Município. Mas a
distância física de apenas 6km entre o Mulungu e a cidade de Boninal não corresponde à
Boninal. Minha presença na cidade despertava a curiosidade dos moradores, pois o fato de
morar em Salvador e ser pesquisadora da Universidade era suficiente para ser vista como
que ficaria hospedada no Mulungu, pois pesquisar o Reisado desta comunidade como cultura
tradicional era bem visto, mas me misturar com as pessoas de lá compartilhando com eles o
cotidiano era menos “nobre”. A hegemonia da sociedade de Boninal não existe apenas em
do preconceito racial, que não é declarado abertamente, pode ser vista na preocupação quase
excessiva dos moradores do Mulungu com a imagem deles diante da sociedade de Boninal.
Além do contato intenso com a cidade de Boninal, o trânsito dos moradores para a
cidade de São Paulo também participa da vida social e econômica do Mulungu 6. O êxodo rural
6
De acordo com Umberto Carvalho Moraes, técnico da EBDA (Empresa Bahiana de Desenvolvimento Agrícola)
que trabalha no Município de Bonnal há 20 anos, o movimento migratório dos pequenos agricultores para a cidade
de São Paulo, devido às secas constantes, é freqüente em várias comunidades rurais do Município. Depoimento
79
dos homens a partir da segunda metade do séc.XX marcou a história do lugar. Nesta época em
tradição do Reisado é uma conseqüência do fim dos homens. Segundo Isabela Francisco de
Souza, no Mulungu ficavam apenas mulheres, crianças e velhos, neste tempo em que se
dependesse de um homem para carregar o caixão o morto ficava sem enterrar7. Apesar do
êxodo rural ter diminuído, a partir de 1980, a possibilidade de alguém voltar de São Paulo ou
de alguém ir para lá, ainda faz parte da vida dos moradores do lugar. Nas idas e vindas para a
cidade, em busca de dinheiro, se construiu uma verdadeira ponte Mulungu-São Paulo, que de
várias formas insere a grande metrópole, com cera de 16 milhões de habitantes, na vida local
desta comunidade rural com cerca de 600 pessoas. A presença de muitos parentes em São
continua exercendo grande poder de atração nas pessoas jovens que querem melhorar de vida.
Porém se a saída dos moradores para São Paulo participa da vida local, a chegada de alguém da
Fotos 3 e 4 : Roupas no varal. Paisagens do Mulungu e da Favela Parque Santo Antônio, onde as pessoas
vivem para ganhar dinheiro em São Paulo. Ano 2002.
O fato de poucas pessoas de fora penetrarem nesta família pode ser associado à
fraqueza do lugar, onde a falta de chuvas dificulta a atividade agrícola que mal supre as
necessidades básicas. Mas diante da naturalidade dos moradores do Mulungu em lidar com o
desprezo das pessoas de fora do lugar, a noção de fraqueza do meio natural se estende ao meio
social. Neste sentido a continuidade da cor-de-pele negra, enquanto traço da família Mulungu,
pode ser vista como delimitação de um território protegido, no qual ninguém despreza ninguém
e todo mundo se ajuda. Porém esta delimitação territorial pela continuidade das relações de
parentesco nada tem a ver com ausência de contato com o lado de fora do lugar. Aqui uma
das relações de troca dos moradores com o meio externo na dinâmica de mudanças sociais do
lugar.
81
De acordo com Ireno Francisco de Souza, 86 anos, o único morador que conhece as
origens do Mulungu, o lugar se formou a partir do casamento da sua tia-avó Porquera com um
senhor branco proprietário de terras: o Nogueira que era uma pessoa muito importante, não era
daqui não, chegou pra cá. Chegou de Minas. Ficou aqui e morreu aqui também 10. Este
casamento explica o fato de todos os moradores do Mulungu serem proprietários de suas terras
por herança familiar. Quando Ireno nasceu em 1918 o lugar já estava cheio de gente que
chegou da Cotia, uma comunidade rural vizinha, que era só negros também, mas depois se
misturou... Aqui não misturou, o povo daqui vive daqui mesmo, quando cabava ficava tudo por
aqui mesmo. Não saía pra fora não não vinha gente de fora também. Ficou só mesmo os
morador11. O trânsito dos moradores da Cotia para o Mulungu envolve relações de parentesco
com o Nogueira que, antes de se casar com Porquera, se casou com uma mulher da Cotia.
Alguns moradores do Mulungu, descendentes deste primeiro casamento têm cor-de-pele clara,
mas isto não representa nenhuma forma de superioridade em relação aos outros moradores.
Apesar da comunidade ter se formado antes da abolição da escravidão (1888), o tempo dos
escravos não entra na memória do lugar: quando acabou com a escravidão eu acho que já tava
tudo aqui --- séc. XVIII, acho que foi, nem sei quando foi que foi o --- mas deve ter marcado,
tem lugar que tem marcado mas aqui mermo eu não tenho não 12. Esta afirmação de Ireno vai
ao encontro das palavras de Ronaldo Senna 13 sobre a ausência de trabalho escravo na região
agrícola, onde se encontra o Mulungu, pois na Chapada Diamantina o trabalho escravo voltado
9
No séc.XVI algumas expedições de bandeirantes chegaram até a região da Chapada Diamantina (Bahia), mas o
povoamento desta região começou de fato no séc.XVIII e se consolidou no séc. XIX, por causa da economia
gerada em torno do garimpo de diamantes. BANDEIRA, Renato Luis. Chapada Diamantina, história, riquezas e
encantos. Salvador: Onavlis editora, 1997, p.18
10
Entrevista com Ireno Francisco de Souza. Mulungu, 27/12/2001.
11
Idem
12
Entrevista com Ireno Francisco de Souza em 27/12/2001. Elias Mendes nascido em 1874 no Mulungu registrou
num papel sua própria data de nascimento. Este foi o documento mais antigo que encontrei no Mulungu, na posse
de Fabrício Pereira Alves, que também me mostrou a escritura de propriedade de terras de um morador do
Mulungu datada em 1921. Pesquisa de campo, Mulungu, 2004
13
SENNA, Ronaldo de Salles – Jarê, Manifestação Religiosa na Chapada Diamantina. Uma face do candomblé.
Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 1998, p.50.
82
para a extração de ouro e diamantes, na primeira metade do séc.XIX, se concentrou na zona das
A história da origem do Mulungu pelo casamento de uma mulher negra com um homem
branco proprietário das terras mostra que a comunidade não se formou no isolamento. As
relações de troca com o meio externo fazem parte da vida local. Mas até que ponto “o que vem
de fora” entra na família Mulungu, que, diferentemente de outras comunidades negras rurais, se
manteve com cor-de-pele negra pela continuidade das relações de parentesco? Como este lugar
fraco foi mantido durante mais de um século através da agricultura de subsistência, ainda hoje,
insuficiente para o auto-sustento da comunidade? Até que ponto as formas de controle e auto-
14
Alguns dos principais motivos desta desintegração são: a decadência da economia do garimpo, a extinção do
tráfico negreiro externo (1850), a lei do Ventre Livre (1871), a venda de escravos para a região cafeeira no sudeste
do país, e as emigrações provocadas por duas secas nas décadas de 1860 e 1870. PIRES, Maria de Fátima Novaes.
O crime na cor. Escravos e forros no alto sertão da Bahia (1830-1888). São Paulo: Annablume/Fapesp, 2003.
83
controle corporal participam das estratégias de negociação dos moradores do Mulungu com a
quase incompatível com o de cidadão. O poder público cede lugar ao poder privado
diretamente associado à estrutura familiar com autoridade centrada na figura do pater. Neste
vinculada ao seu status na organização familiar. As lutas entre as famílias reforçam a coesão
interna da cada família. Quando alguém da família é atingido todos os outros buscam o
agressor para castigá-lo, estendendo o castigo a todas as pessoas da sua família. Neste contexto
instrumento restaurador da segurança e proteção oferecidas pela família a seus membros 15.
Mas a noção de família no coronelismo não se restringe aos laços de sangue. Os parentes do
coronel eram todos que se vinculavam a ele, seja por interesses políticos ou por necessidade de
sobrevivência. Esta parentela que vivia em torno do Coronel prestava-lhe serviços e apoiava
todas as suas ações, funcionando também como informantes. A massa de trabalhadores estava
tão ligada ao Coronel que o indivíduo até mesmo, perdia sua identidade..... Era gente do
Coronel X ou Y era um “Marcelino de César” (do Coronel César de Sá), etc. O seu sobrenome
costumava ser o nome do Coronel a quem servia16. As obrigações do coronel eram: fazer
justiça, harmonizar interesses e proteger sua família. Em nome da justiça os coronéis marcaram
a história da Chapada Diamantina com lutas incessantes, entre famílias que afirmavam seus
família, e se estenderam ao campo político através do voto eleitoral. Com a República (1889) o
15
ROSA, Dora Leal – O Mandonismo Local na Chapada Diamantina. Salvador: Dissertação de mestrado em
Ciências Humanas, 1973, p.35.
16
Idem, p.44.
84
poder público se instaura, absorvendo o poder privado dos coronéis, que penetra na esfera dos
governos Municipais. O voto do trabalhador rural se torna mais um serviço prestado ao seu
patrão. Até 1930, quando a política do Estado Novo interrompe o mandonismo local dos
com o mundo de fora, mantendo seu poder de vida e de morte em nome da justiça. Este quadro
de violência se faz sentir no Município de Boninal quando, por causa de fraudes eleitorais, o
coronel Horácio de Mattos, mais temido da região, invade a cidade de Boninal, em 1919,
disseminando o pânico. Sete anos mais tarde a passagem da Coluna Prestes na cidade de
Boninal (6km Mulungu) provoca outra batalha violenta, que mobiliza o exército do coronel
Horácio de Mattos.17
memória do Mulungu, onde os revoltosos chegaram a se esconder por uns dias18. Mas é
moradora de Boninal, aquele povo de lá do Mulungu é corajoso, eles não têm medo de nada
não19. Para o pessoal do Mulungu o valor da coragem é associado à defesa do lugar e das
pessoas do lugar. As brigas são evitadas ao máximo, mas desde que alguém de fora agride uma
pessoa do lugar puxando briga o Mulungu fecha e com Deus adiante, faz justiça com as
próprias mãos. Mas o grande motivo de orgulho das pessoas é evitar brigas e ter boas relações
com todo mundo, sobretudo com as pessoas da sociedade de Boninal. Esta capacidade de
aceitar tudo o que acontece é vista como um diferencial do Mulungu em relação às outras
17
O Batalhão Patriótico das Lavras Diamantina, comandado pelo coronel Horácio de Matos, o mais aguerrido
caudilho do sertão baiano, perseguiu a Coluna Prestes até a fronteira da Bolívia. NEVES, Erivaldo Fagundes.
Formação histórico-cultural e perspectivas de desenvolvimento regional sustentável da Chapada Diamantina.
Salvador: Companhia de Desenvolvimento e Ação Regional – CAR, n°20. Chapada Diamantina; Programa de
Desenvolvimento Regional Sustentável, 1997.
18
Fato mencionado por Ireno Francisco de Souza. Mulungu, 27/12/2001
19
Conversa informal com Donza, na cidade de Boninal, em dezembro do ano 2001.
85
Boninal, é a falta de ambição que caracteriza o pessoal do Mulungu: para eles tá tudo bom20.
Pela união familiar e pelas boas relações com as pessoas de fora do lugar os conflitos são
controlados.
Mas a aceitação de tudo o que acontece também passa pela religiosidade católica
centrada na devoção aos Santos. No contexto do catolicismo rural em que as relações de trocas
pessoais e familiares participam das interações dos devotos com os Santos, as noções de
promessa é uma prova de fidelidade ao Santo que corresponde à realização de um milagre. Mas
na falta de chuvas a proteção dos Santos é uma condição de vida, portanto, mesmo fora do
campo da promessa existe uma relação de dívida-fidelidade com os Santos, que sempre devem
ser agradados, pois um Santo insatisfeito pode causar problemas. A valorização do aspecto
humano dos Santos se manifesta tanto na intimidade pessoal como na celebração coletiva,
quando as relações sociais se fortalecem pela festa do Santo, no dia do seu aniversário21. Na
festa de São Sebastião a comunidade Mulungu se abre para receber as pessoas de fora do lugar.
A dimensão social da festa religiosa entra em jogo nas relações cotidianas do moradores do
Mulungu com o meio externo. A boa festa valoriza a imagem do Mulungu como um lugar de
No cotidiano do Mulungu São Sebastião sempre pode ser evocado para resolver todos
os tipos de problemas. O olhar do Santo testemunha todas as interações sociais. Mas se o Santo
ajuda ele também castiga, portanto é preciso agradá-lo para que ele possa atuar correspondendo
20
Conversa informal com Neide, na cidade de Salvador, em setembro do ano 2001.
21
Expressão utilizada por Maria Caetano dos Santos, enquanto arrumávamos a igreja para o dia da festa. Mulungu,
25/01/2002.
86
aos pedidos que lhe são feitos. A atividade do Santo é mais importante do que sua história, que
ninguém conhece. A história de São Sebastião eu não sei como é que é, mas mãe mermo
começou festejar São Sebastião foi pela doença que ela sentia ---- mãe, foi por isso que ela
começou. Primeiro foi santo Reis depois ela trocou a imagem. Tudo de São Sebastião é quase
tudo é pela uma promessa, você acredita? Aqui, aqui no Mulungu é um benefício de São
Sebastião aqui quase tudo é por uma promessa22. Os milagres do Santo, que fazem parte da
Santo é indissociável da corporeidade dos devotos que atuam com ele e para ele. Entre as rezas,
celebração do seu dia é a principal forma de agradá-lo. São Sebastião, adorado também em
outras comunidades rurais próximas ao Mulungu, é celebrado em vários lugares 23. Mas o
Reisado de São Sebastião é exclusivo da comunidade Mulungu, que se orgulha de ter a melhor
festa da região.
A abertura do Mulungu para a festa de São Sebastião (20 janeiro) começa pela saída dos
devotos do Santo com o Reisado. A finalidade do ritual de visitação às casas é pedir o dinheiro
do Santo e convidar as pessoas para a sua festa, quando também o Mulungu se afirma no
melhor de si diante das pessoas de fora do lugar. Mas se todos os anos São Sebastião é
celebrado com a mesma festa, a maneira de fazer a festa acompanha as mudanças do lugar. A
festa como meio de afirmação social do Mulungu, sobretudo diante da sociedade de Boninal,
também é uma ocasião de mostrar que o lugar está cada vez melhor. Portanto a transformação
Comunidades rurais do Município de Boninal que fazem festa ou reza no dia de São Sebastião: Nova Colina,
23
Conceição, Capão, Baixão, Olho d’Água, segundo Augusta Maria Mendes. Mulungu, 2002.
87
janeiro, o Mulungu gentilmente adiou sua festa (nos anos 2002 e 2004) para não tirar os
convidados dos outros lugares, pois sua festa é tão boa que atrai todos. O principal motivo pelo
qual as pessoas preferem a festa do Mulungu é a falta de brigas que normalmente acontecem
entre os homens, quando eles ficam bêbados e se tornam agressivos. Na festa do Mulungu os
homens também bebem muita cachaça, mas as mulheres não deixam as brigas acontecerem.
Maria conta que na festa do ano 2000 chegou uns home de fora eles era daqui da Conceição –
e os home começou na festa -- querendo brigar aquela bagunça assim e tava a roda aqui e
gente tava que nem aqui (risada) -- né os home tá ali querendo brigar tá não sei o que – ô men
eu saí --- saí mermo falei ocês respeita, cês respeita aqui porque aqui somo de
responsabilidade, aqui não é lambança aqui não é molecagem não, ocês querer fazer ocês vai
fazer no lugar docês. Aqui não. Oi aqui se ocês querer comer ói - tem comida cês vai comer –
cês quere um café pode vim que tem - cês querer qualquer outra bebida pode vim que tem. O
que cês quere aqui ocês acha mas negócio de bagunça aqui é favor ocês vão faze no seu lugar.
Aqui não aqui é outra responsabilidade e saí assim no meio do povo assim (gesto decidido) –
88
e os menino : ô Maria quieta ---- quieta não quem manda aqui sou – batia nos tranco – quem
manda aqui é eu com Deus adiante eu quero vê quem vai mandar aqui24.
A boa imagem social do lugar inclui tanto a atitude de respeito, pelo controle das brigas,
como o visual do corpo e das casas. Em função da festa todas as pessoas pintam suas casas, e
aqueles que podem compram roupas novas. A presença ativa das mulheres, importante para a
harmonia da festa, também entra na imagem do lugar : tinha um home que trabalha que falou :
é eu vou na festa do Mulungu --- cê vai mas sabe come é que vai porque lá as muié não deixa
pros home não -- é as muié mermo corta um zelo ... lá tem que ir com mais firme no dia que ce
vê oi todo mundo chegar aqui né? Não tem um que faz bagunça , vai faze vai que nós mesmo
corta, nós mesmo manda vortá, nós corta é na hora 25. Durante a festa as mulheres também
bebem cachaça, mas elas não perdem o controle de si mesmas nem dos homens que querem
arrumar confusão. A imagem do Mulungu como lugar onde as mulheres mandam também
inclui a liderança feminina do Reisado. Tradicionalmente os Reisados no meio rural são feitos
por homens, a presença das mulheres reiseiras é uma particularidade do Mulungu que está
diretamente associada ao êxodo rural masculino para a cidade de São Paulo, como será visto
mais adiante.
Reisado que cantando de casa em casa tira a esmola do Santo, mas a organização da festa é
responsabilidade do festeiro. Para ser festeiro é preciso inspirar confiança e ter prestígio social,
a cada ano uma pessoa diferente é escolhida para ocupar este cargo. Se o festeiro do ano realiza
uma boa festa seu status social aumenta. Os interesses políticos e sociais entram em jogo na
festeiros foram: o dono da rádio Tupã (também candidato a vereador Municipal) e o dono do
24
Maria Caetano dos Santos. Entrevista no Mulungu, 01/02/2002.
25
Idem
89
Mas o prestígio das pessoas escolhidas para serem festeiras não é vinculado ao poder
econômico. Você pode procurar assim ---- oi que Maria falou que quem festeja São Sebastião
não bota um vintém... Que já vem daqui ó (estala os dedos sinalizando o tempo passado) nós já
vem labutando com ele, não precisa bater papo falando assim ó que eu paguei do meu bolso
que não paga não. Ele mesmo faz a festa dele. Graças a Deus. Nunca. Nunca teve um festeiro
pra falar assim eu botei --- tem hora até que sobra—sobra—não tem um festeiro pra falar
assim eu botei um real do meu bolso. Se botar ele mermo que tá vendo ele mermo castiga 26. O
dinheiro sagrado do Santo, que independe do festeiro, são as esmolas recebidas pelo trabalho
de cantar o Reis de casa em casa. Diante da onipotência do Santo pobres e ricos são iguais, ou
quase iguais, pois ele mesmo financia sua festa. Dinheiro ninguém não põe não ---- não tem
esses rico—nem que for rico não faz não. Eli, esses aí de Boninal já foi tudo festeiro nós sai o
que nós tira nós entrega tudo... se um festeiro falar assim – eu desmento na cara --- se um
festero falar assim – ó eu fiz a festa de São Sebastião e eu botei 50 ou 100 do meu eu desmento
assim é mentira--- nunca. Ele mesmo faz a festa dele, porque ele mesmo é rico . Ninguém não
26
Ibidem
90
põe não Lô. Se um festero falar eu tô ponhando --- eu falo é mentira, é mentira, é mentira 27. A
Reisado do Mulungu.
a orquestra de fanfarra para tocar na procissão, a banda de forró e o aparelho de som para fazer
o baile, o padre para rezar missa, as compras de comida de morteiros que explodem no ar para
Depois do baile, que dura a noite inteira, e antes da missa que começa pela manhã, a comida é
oferecida para todos os convidados. A fartura de comida (feita para sobrar) 28, a música de
forró, e a missa do padre são indispensáveis para a festa acontecer. Tudo isso é produzido com
o dinheiro do Reisado, mas a grandeza da festa depende das escolhas do festeiro e da sua
capacidade de administrar o evento. O festeiro pode oferecer algumas coisas, como o carro com
comida da festa, (o dono do super-mercado) etc. estes benefícios que entram em jogo na
que passa a bandeira da festa, ou seja, ele tem o direito de escolher o festeiro do próximo ano.
Mas se alguém pedir a bandeira por causa de uma promessa feita ao Santo, o festeiro tem pouca
opção de escolha, pois promessa é dívida. No ano 2002, quando eu estava no Mulungu, a festa
foi feita pela mãe-de-santo Olívia Alves dos Santos que pediu o cargo para pagar uma
27
Ibidem
28
Lista das compras de comida para a festa do ano 2004: 20kg feijão, 20kg arroz, 1 saco (10kg) de batatinha,
20kg macarrão, 8 latas de massa de tomate, 3 latas de óleo, temperos, verduras, alface, tomate, pimentão. O dono
do super-mercado, que era o festeiro do ano, ofereceu 30Kg de carne. A pessoa que mais trabalha na festa é a
cozinheira. Muitas mulheres fogem desta responsabilidade, pois quem cozinha não pode se divertir durante a festa.
A comida é preparada por apenas uma mulher durante a noite toda, enquanto o baile acontece. Algumas pessoas a
ajudam, mas de maneira informal, quem trabalha duro é apenas a cozinheira.
91
A igreja do Mulungu, comida pelos cupins, foi demolida no ano 2000, quando outra
igreja começou a ser construída com muito esforço ao longo de um ano. A religiosidade
católica dos moradores alimentada pelas rezas coletivas, que sempre acontecem no altar de
Augusta lideradas pelas rezadeiras, não diminui a importância do prédio da igreja, aberta
apenas no dia da festa de São Sebastião para receber o padre. Sem igreja o padre não pode rezar
a missa da festa nem batizar as crianças do Mulungu. A oficialização da fé católica pela relação
igreja-padre-batizado tem seu espaço no dia da festa de São Sebastião, quando a comunidade se
apresenta no melhor de si para receber as pessoas de fora. Mas neste contato anual com o
catolicismo oficial os padres mudam. Existem poucos padres na região e no final do mês de
janeiro eles são solicitados por muitas comunidades rurais que celebram São Sebastião. Com a
No ano 2002 Graciliano, italiano com mais de 70 anos, padre da igreja da cidade de
Seabra, fez um sermão clássico centrado na idéia de pecado e no valor da confissão. O discurso
do padre Josué, adepto da Teologia da Libertação, que rezou a missa no ano 2004, foi diferente.
Este padre da igreja de Boninal, negro de 37 anos, chegado de São Paulo em 2003, explica que
Boninal. Apesar de não introduzir elementos afros nos cultos católicos oficiais dentro das
igrejas, o padre começou a mudar os costumes da região rezando missas mensais nas
comunidades rurais, onde normalmente os outros padres chegavam apenas para o dia da festa
do Santo. No começo do 2004 Josué voltou para a cidade de São Paulo, e certamente outro
padre realizará a missa da festa de São Sebastião no próximo ano. Os discursos das missas
influenciam as pessoas que comentam o que o padre disse, mas a diferença entre o que é dito
92
não interfere no valor da figura do padre, cuja principal função é batizar as crianças,
legitimando a fé católica dos devotos, que no dia-a-dia interagem diretamente com os Santos.
Foto 8: Padre Josué, missa do ano Foto 9: Padre Graciliano, missa do ano 2002,
2004 quando o altar foi construído. quando igreja foi inaugurada.
A festa do ano 2002 com a inauguração da igreja construída de tijolos, entre as casas de
taboca (tijolo de barro), entrou para a história da comunidade. Esta mudança substancial na
imagem do lugar ultrapassou a beleza das casas pintadas e das roupas compradas em função do
dia da festa. A construção da igreja mostra que o lugar está melhor do que antes, e isto inclui,
de alguma forma, o reconhecimento do esforço/valor dos moradores que fizeram a igreja com
muito trabalho, dinheiro e a ajuda de Deus. A felicidade geral e o orgulho de inaugurar a igreja
foi o quadro do qual emergiu um conflito inesperado. No dia da festa do Santo, diante dos
convidados de fora, dentro da igreja nova, na hora do discurso da passagem da bandeira para o
Neste ano a mãe-de-santo Olívia fez uma festa grandiosa, mas até o momento da
procissão final que precede a solenidade da passagem da bandeira, ela ainda não sabia o nome
93
do festeiro do próximo ano. Oficialmente o festeiro tem o direito de escolher a pessoa que vai
fazer a festa seguinte, mas de fato esta escolha também é feita pelas reisieras. Na hora do
discurso que faz parte da finalização da festa marcada pela passagem da bandeira, Olívia se
sentindo ofendida falou o que ninguém esperava ouvir: o tanto que a falsidade caminha... aí eu
ia entregar a bandeira sem saber a quem ia receber. Vocês acredita isso? Que até pelas costas
eu fui apunhalada (....) porque eu não podia nem explicar pra alguém, quem ia pegar a
bandeira? Eu não sei, isso era um causo de vergonha ... e falsidade e igreja não combina,
falsidade com igreja não combina (Augusta intervém), com o padre também não combina, eu
esperei até a última hora, o padre pediu, eu falei que não sabia, os músicos me perguntou eu
falei também que não sabia, teve que sair a procissão pro papel cair pelas minhas costas 29.
Afirmando sua autoridade de festeira e suas infuências socias, por ser respeitada e conhecida na
região como mãe-de-santo, ela continuou: Outra coisa meu povo. Eu saí com o Reis em quatro
lugares, porque um lugar ficou pra igreja. E esses quatro lugar que eu saí deu suficiente pra
fazer tudo o que eu queria, tudo. Os músicos já tá pago, o padre já tá acertado, comida, tudo
---- se eu tivesse saído em 10 lugares com certeza o dinheiro de vocês tava no banco 30. A idéia
de acumular dinheiro no banco não cabe na lógica do Reisado, pois todo o dinheiro deve ser
gasto na festa do Santo. No discurso de Olívia o valor do dinheiro diretamente associado ao seu
29
Gravação do discurso de Olívia Alves dos Santos durante a passagem da bandeira. Mulungu, 27/01/2002.
30
Idem
94
são próximos dos Jarês, uma religião afro-brasileira parecida com o candomblé de caboclo 31: os
curadores de Jarê da área agrícola são as mesmas pessoas que organizam e lideram os grupos
de Reisados e, muitas vezes, esta dupla função os auxilia no processo de ascenção de status,
facilitando a sua transformação em curador principal, ou seja, chefe de curadores, o mestre 32.
Apesar de existirem poucas referências sobre o Jarê no Mulungu, aparentemente ele era feito na
época do Reisado dos homens, dentro das casas e com os instrumentos do Reis. As vezes que
tentei saber sobre a presença do Jarê no lugar as pessoas sempre desconversavam o assunto,
como se isso acontecesse de forma escondida. A única vez que testemunhei a existência de
alguma ligação do Reisado com o fenômeno da incorporação de caboclos foi na casa de uma
senhora quase cega, mais ou menos 80 anos, que mora sozinha no Mulungu. Durante a visita
do Reisado, no final do canto de altar, quando não tinha mais batuque, ela atravessou a sala
para pegar uma garrafa de guaraná e de repente baixou um caboclo. O movimento partiu da
31
Segundo Senna a diferença entre Jarê e candomblé de caboclo consiste no fato de que o primeiro não apresenta
hierarquia entre orixá e caboclo. SENNA, Ronaldo de Salles – Jarê, Manifestação Religiosa na Chapada
Diamantina. Uma face do candomblé. Feira de Santana: Universidade Estadual de Feira de Santana, 1998, p.76 .
Os estudos sobre Jarês são raros, portanto qualquer definição sobre esta manifestação religiosa afro-brasileira deve
ser relativizada. Os únicos textos que encontrei sobre o assunto são de autoria de Senna, professor de História da
Universidade Estadual de Feira de Santana (Bahia). Uma investigação detalhada sobre os Jarês ultrapassaria o
campo desta pesquisa, mas sem dúvida o assunto merece atenção.
32
Idem, p.90.
95
cabeça e rapidamente desequilibrou seu corpo todo. Maria segurou-a para que ela não caísse,
mas não houve susto das outras pessoas e nada além disso aconteceu. No dia seguinte da festa
de São Sebastião, deste ano 2002, teve um samba de caboclo na casa de candomblé da Olívia.
Foto 11: Caboclos e Santos do altar da casa de Foto 12: O altar da igreja, guardados candomblé
candomblé feita por Olívia. Mulungu, 2002. durante a construção da igreja. Mulungu, 2002.
Olívia provocado pelo desacato à sua autoridade como festeira, remete às questões sobre a
1999, um ano antes da destruição da igreja seguida da construção de outra. Durante uma
entrevista Olívia me falou das dificuldades em manter sua casa de candomblé: pra mim aqui
não dá pra mim fazer igual era pra fazer, já é difícil assim do povo não entender porque eu
aqui faço de conta que eu tô sozinha. Dia de Cosme e Damião pra mim fazer mesmo era um
caruru. Já eu não faço porque pra eu fazer aqui a maioria do povo já fala: não como quiabo,
não como coentro, não como isso, abre o corpo. Então eu já faço comida normal, enquanto os
outro fazem caruru eu tô fazendo comida como se fosse qualquer outra coisa, pra Ogum de
Ronda que é Santo Antônio também eu faço festejo, faço a reza, dou o que eu tiver, o que eu
96
posso fazer. Faço só estas duas festas, mas pretendo fazer muito mais, mas um dia se Deus
quiser.... Eu ainda não tenho instrumentos de atabaque. Era coisa que eu gostaria de ter e de
apresentar pro meu centro e pro meu centro de samba. Como eu sou afastada... quem entende
de atabaque aqui? Ninguém, alguém de fora que vem. Hoje em dia o povo tá tendo mais
contato com atabaque depois de Onildo33, depois que eu vim praqui, sempre que tem festa aqui
eu tenho que chamar os batedor de Lençóis 34. Mais adiante a presença da casa de candomblé
enquanto apenas descrevo o que foi vivido na festa deste ano 2002.
confusão exposta no discurso da passagem da bandeira foi um problema grave para a boa
imagem do lugar diante das pessoas de fora. Mas o pior de tudo foi causado pela filmagem do
acontecimento, feita por mim. A chegada de uma equipe de filmagem para registrar a festa,
avisada previamente, foi bem recebida por todos. A câmera não era um objeto estranhíssimo
visto que o Reisado já tinham sido filmado por dois programas de televisão, e a experiência
vivida como uma valorização do lugar não apresentou problemas. Apesar de explicar a todos
que o filme não era para fazer um programa de televisão, esta idéia permaneceu na cabeça das
pessoas e isto problematizou ainda mais a filmagem do conflito na igreja. Antes de deixar o
Mulungu algumas pessoas me pediram para jogar as imagens fora, eu disse que iria fazê-lo.
planos seqüência, pela câmera dura e estática, dificultou o trabalho de pensar a corporeidade
das pessoas por imagens. Fora do tempo dos acontecimentos reais as ações ficaram desprovidas
de rítmos, como corpos sem órgãos. Sem saber o que fazer guardei as imagens durante um ano,
33
Onildo Reis, professor de história da Universidade Federal de Feira de Santana, deu de presente para as reiseiras
do Mulungu um atabaque, pedido por Maria.
34
Entrevista com Olívia Alves dos Santos. Mulungu, 13/02/2002.
97
pensando em desistir da idéia de integrar o filme ao processo de pesquisa, visto que eu havia
Quando decidi começar a edição do vídeo, voltei ao Mulungu para conversar com
Augusta e negociar com ela as imagens do discurso da passagem da bandeira. Augusta foi a
pessoa que mais se sentiu ofendida com o acontecimento, por isso falei com ela. Expliquei que
para fazer o filme era muito importante mostrar a passagem da bandeira porque isso fazia parte
da festa, e que não tinha interesse algum em focalizar as ofensas de Olívia. A passagem de um
ano foi importante para o acordo, pois este acontecimento que no momento foi
desestabilizador, com o tempo se tornou mais uma história do lugar entre tantas outras.
descritivo de como acontece a festa, desta forma pretendia mostrar a transformação do lugar e
das pessoas em função da festa. Voltei ao Mulungu para mostrar o filme. Maria gostou de ver o
discurso da Olívia, dizendo que foi bom guardar a lembrança do que aconteceu. Augusta não
achou ruim nem bom, ela não falou nada. Olívia não quis ver, mas seu marido gostou dos
cortes feitos no discurso, que não a comprometeram. Eva, irmã de Augusta me disse que eu não
precisava ter mostrado o que a Olívia falou. Alguns homens me disseram que gostaram,
pediram cópias do filme. Mas não houve entusiasmo de ver o Reis na televisão.
Oito meses mais tarde comecei a segunda edição do filme, a fim de quebrar a narrativa
cronológica que pretendia “contar a festa” para focalizar o trânsito de elementos comuns entre
corpo na formação de espaços sagrados. Mas as rezas cantadas, as danças com batuque e a
indicarei que as interações corporais extra-cotidianas na festa sagrada são indissociáveis dos
98
valores culturais do corpo no cotidiano. A partir das construções que existiam antes da
de permanência: casas, bares e altares. A presença destes espaços cotidianos, que são a maioria
das construções do lugar, indica uma sensibilidade corporal formada ao longo de muitas
gerações, que entra em jogo no processamento das mudanças recentes. Em seguida abordarei as
novidades do lugar através dos circuitos do corpo fora do Mulungu, a partir do contato dos
moradores com duas cidades: Boninal e São Paulo, que entram em jogo na modernização do
Geograficamente o Mulungu é composto por três ruas afastadas entre si, que não se
cruzam: a rua da igreja, a rua de baixo e a rua do outro lado. Apesar da igreja ser uma
referência espacial para o nome das outras ruas, o prédio da igreja se abre apenas no dia da
festa de São Sebastião, quando o padre vai até a comunidade. A presença rara do padre na
comunidade não diminui sua importância. Antes de 1954 nenhum padre tinha chegado até o
Mulungu. De acordo com Augusta Maria Mendes, reiseira 69 anos, quando o primeiro padre
anunciou que iria até o Mulungu, o lugar era tão desclassificado que as pessoas de Boninal
ofereceram garfo e prato, pensando que eles não tinham nem isso para recebê-lo. Quando o
padre Rodolfo chegou, acompanhado de algumas pessoas de Boninal, Augusta lhe ofereceu
uma cadeira. Mas para surpresa geral ele dispensou a cadeira e se sentou ao seu lado. Entre
gargalhadas Augusta conta que o povo de Boninal também sentou tudo no chão 35. Em 1957 a
primeira igreja do Mulungu foi construída por causa do pedido do padre Rodolfo, ainda hoje
muito respeitado por todos os moradores36. Esta história é significativa do valor do padre na
35
Entrevista com Augusta Maria Mendes. Mulungu, 17/12/2001.
36
Dizem que o padre Rodolfo voltou para a Itália, onde nasceu. Mas ele ficou muito conhecido na região por causa
dos filhos e das histórias que deixou.
99
legitimação social da religiosidade local, apesar da sua presença não interferir no catolicismo
auto-gerado pelas rezas coletivas que acontecem nos altares. O altar é um lugar onde as pessoas
se encontram para dialogar diretamente com os Santos através das rezas coletivas, lideradas
pelas mulheres rezadeiras. Estas ocasiões de reza são também motivos de festa, pois toda reza
presença de 16 bares, que são dez por cento das construções do Mulungu, é significativa da
bares fechados podem abrir a qualquer momento, desde que haja alguém com sede. Uma
parada no bar faz parte de quase todos os caminhos. Dificilmente se recusa um golim de
cachaça no Mulungu. Apesar do clima extremamente seco as pessoas bebem pouca água. Nos
meses mais quentes do ano (janeiro e fevereiro) a temperatura acima de quarenta graus queima
37
No intervalo de dois anos (2002-2004) três novos bares foram construídos no Mulungu.
100
os miolos e faz de qualquer sombra um refúgio. Num desses dias extremamente quentes e
secos, eu estava sozinha em casa quando chegou Ireno. Com seus 86 anos ele apareceu na porta
suando muito. Naturalmente eu lhe ofereci água. Ele riu da idéia e aceitou aquela que
passarinho não bebe. Fui até o bar e peguei uma dose de catuaba (uma espécie de vinho doce),
pois ele foi obrigado a parar de beber cachaça por motivos de saúde. Mas o prazer de beber se
efeito analgésico utilizado sobretudo para aliviar as dores de dente. Todos os moradores do
Mulungu sofrem desta dor, pois o direito à assistência dentária gratuita lhes é concedido apenas
no caso de arrancar os dentes. Enquanto o dente apodrece é preciso sofrer a dor até o dia de
arrancá-lo. As garrafas de bebida raramente são guardadas dentro da casa, para beber é preciso
Foto 14: Garrafas de cachaça com ervas no bar do João. Mulungu, 2002.
Além de ser um lugar de pausas cotidianas o bar também é o único espaço de diversão
noturna, onde os homens se encontram para beber e jogar dominó. A presença das mulheres é
restrita aos bailes, nos sábados à noite. A dança transforma o espaço do bar em festa. Mas esta
101
festa do corpo em movimento é diferente do espaço aberto pela dança com batuque, nas
ocasiões de reza.
situações de namoro desagradam o Santo. Mas nos bailes a dança de par, no ritmo de forró,
pode ser um passo para o namoro. Dançando com os rapazes percebi que o pedido de namoro
pode chegar antes do final da primeira música, de forma direta, clara e segura. Mas o namoro,
que acontece ao lado do bar, também pode ser rápido e durar apenas uma noite. Minha
chamavam para dançar. Quanto mais eu dançava mais eu era convidada para dançar, mesmo
cansada eu aceitava todos os convites, me deixando levar pelo prazer de entrar no ritmo de cada
um. Pelo prazer comecei a estabelecer um contato direto com as pessoas. A dança me colocava
na mesma condição corporal de todos, pois o diálogo através do ritmo e do contato físico
naquele momento era mais importante do que a diferença de cor-de-pele ou de situação social.
Nos códigos sociais do Mulungu minha atitude de aceitar todos os convites para dançar
foi bem recebida. Sem saber eu entrava na ética do baile: a mulher nunca deve recusar o
convite de um homem. Se isto acontece ela é excluída de todas as danças, pois os outros
homens deixam de convidá-la. As mulheres casadas não participam dos bailes freqüentados por
moças (entre 14 e 20 anos) e por rapazes (de todas as idades) casados ou não. Quando uma
moça resolve ir embora todas as outras a acompanham e o baile acaba. Esta cumplicidade entre
elas que fecham o baile quando vão embora, e entre eles que deixam a mulher sem dançar se
ela recusa um convite, é significativa das formas de atuação dos homens e das mulheres na vida
social. Na passividade obrigatória de dançar com todos os homens as mulheres podem decidir o
fim do baile. A liberdade de escolher com quem dançar ou onde ir cabe ao homem, mas sem a
presença feminina para dançar ou para cuidar da casa sua liberdade acaba.
102
Os altares construídos para guardar as imagens dos Santos são heranças de família. Dos quatro
altares, apenas o altar da Augusta Maria Mendes é aberto para as rezas. A liderança religiosa
das irmãs Mendes se estende ao Reisado, que antes era liderado pelo pai delas, morto na cidade
de São Paulo.
mulheres que chegam perto da hora marcada. Uma reza pode durar até quatro horas de cantos
sem interrupções. Sentadas no chão elas pedem proteção, saúde e força para trabalhar.
responsável pelos foguetes (morteiros) lançados entre algumas orações. O som da explosão
avisa aos moradores que a reza está acontecendo. Esta conexão entre o que acontece dentro do
altar e o que acontece do lado de fora também faz parte do corpo que reza. O que se passa por
dentro do corpo é indissociável do meio externo. A ausência de uma unidade vocal e a estrutura
dialogal dos cantos, que também existe no Reisado, estabelece uma interação corporal
constante. A dissonância sonora dos cantos forma uma totalidade aberta que absorve os
elementos externos, como um choro de criança, uma conversa, uma gargalhada, enfim, tudo o
que acontece no espaço do altar é absorvido pela reza. A sonoridade das vozes parece surgir do
geradas pelas relações entre as pessoas. Fora de qualquer unidade vocal os cantos dissonantes
homogênea, cria uma harmonia tensa que parece abrir um espaço de potencialidades. Esta
harmonia dissonante também faz parte da estética do altar arrumado sobre uma mesa. Cada
imagem mantém sua autonomia, integrando uma totalidade aberta que sempre pode ser
alterada, pela entrada de novos Santos, mudanças de flores ou enfeites. No trabalho artesanal de
arrumar o altar pra ficar bonito as imagens sagradas quase sempre são colocadas em lugares
diferentes. A beleza do conjunto envolve estas sutilezas que mostram o cuidado e a dedicação
A solenidade da reza não exclui o humor dos comentários sobre cada um que chega e
cumprimenta todos. A alegria de estar junto suaviza as emoções fortes que emergem do
diretamente com o Santo de maneira íntima, com se ele fosse mais uma pessoa presente no
lugar: é a hora dos pedidos. Sempre são as mesmas rezadeiras que pedem ao Santo em nome de
104
todos. Mas a moça Jussara, que sofre de epilepsia com 15 anos, é preferida das rezadeiras para
falar com o Santo. Neste momento solene todas as pessoas riem, pois o principal motivo da
escolha de Jussara é a sua maneira engraçada de falar enquanto faz os pedidos. Através de
Jussara comecei a perceber que existe uma dimensão espiritual do riso também no cotidiano da
entusiasmo, dedicados aos participantes da reza: Deus, o dono-da- casa (que é o dono do altar),
todos os santos do altar, as pessoas presentes, as pessoas ausentes e as pessoas de fora. Esta
celebração final do que foi vivido na reza precede o canto do Reis de altar, que marca a
passagem da reza sentada no chão para o batuque que se prolonga por dentro da noite.
Foto 17: No samba o altar ganha segundo plano. Detalhe das baquetas
feitas dos morteiros disparados durante as orações. Mulungu 2004.
O batuque é indissociável das danças que atravessam o espaço interno do altar numa
celebração do coletivo, sem relação direta com as imagens dos Santos. As danças que
acontecem depois que as pessoas rezaram cantando cerca de quatro horas, abrem um espaço de
começam pela voz depois se manifestam pela dança, como acontece no ritual de visita do
105
Reisado. Na reza o canto parte da interação das pessoas com as imagens dos Santos dentro do
altar. No Reisado o canto parte da interação das reiseiras com as palavras do Santo oferecidas
ao dono-da-casa, antes dele abrir a porta para recebê-las. Tanto na reza como no reisado a
comunicação das pessoas com o Santo envolve a passagem entre espaço interno e o espaço
externo em dois lugares de intimidade familiar: o altar e a casa. Mas como o espaço íntimo se
No Mulungu as portas das casas, afastadas entre si, raramente ficam entreabertas. Se a
porta está aberta qualquer pessoa pode entrar e se sentir em casa. Se a porta está fechada as
pessoas só chegam por algum motivo. Para entrar na casa de alguém é preciso estar certo de ser
bem recebido. Se existe algum conflito a pessoa nem passa perto da porta da casa da outra. O
espaço interno da casa, com poucas entradas de luz, protege o corpo do calor e das confusões
sentam na porta para ver quem passa. Cada pessoa pode chegar com uma história, o que
aconteceu no dia anterior, o que está acontecendo em Boninal, ou o que vai acontecer nos
próximos dias, todas as notícias circulam através desses encontros cotidianos. Mas é sobretudo
em torno das histórias engraçadas que as pessoas passam o tempo juntas. A graça no Mulungu
é quase uma virtude, que dificilmente pode ser entendida se for dissociada do costume de beber
cachaça. O álcool e o humor imprimem uma leveza ao corpo no cotidiano. A tristeza quase
Nas ocasiões de visita o dono-da-casa oferece uma cadeira, sobretudo quando a pessoa é
de fora (como eu) ou quando a pessoa é mais velha, em sinal de respeito. Na gentileza de
oferecer uma cadeira, a pessoa de fora é, literalmente, colocada num nível superior. Sentar na
importância da cadeira está mais no gesto de oferecê-la do que no fato de ocupá-la. Quando a
visita não quer entrar na casa a cadeira é colocada do lado de fora, numa extensão do espaço
interno da casa pela valorização da pessoa que chega. Depois da cadeira o tempo da visita pode
se prolongar no café ou na cachaça. O café sempre é bebido na casa, mas a cachaça é bebida no
bar.
começo eu pensava que estas pausas eram situações de constrangimento provocadas pela minha
presença, mas depois percebi que eu não era assim tão importante. O silêncio é sobretudo uma
com minha verborragia inicial de querer saber tudo de uma vez, priorizando as informações
em detrimento do contato humano. Captar o sentido do que não era verbalizado nem sempre
me foi possível. Mas percebi que as situações de conflitos sempre são desviadas. A discrição é
107
uma virtude. Os meios de controle do corpo e do espaço podem ser extremamente sutis na
manutenção da harmonia familiar. Saber a hora de calar faz parte da boa educação no Mulungu.
Os limites do que é dito também valem para o que é visto. Nas casas, o livre acesso de
todos que chegam e logo ficam à vontade não chega aos quartos. Durante minha estadia de dois
meses na casa da Maria Caetano dos Santos, nunca entrei em outro quarto fora do meu. A
privacidade dos quartos é mantida às vezes apenas com uma cortina, sem porta. Na casa da
Maria o quarto de hóspedes, onde eu durmo, não é ocupado por outra pessoa quando eu não
estou. Entre os quartos alguns permanecem vazios: espaços que guardam a ausência. Quando
alguém morre o seu quarto pode ficar vazio durante muito tempo. Estes dois espaços vazios
preenchidos pela ausência de alguém que morreu ou de alguém que pode chegar, independe da
quantidade de pessoas que moram na casa. Mesmo se muitas pessoas dormem juntas no mesmo
quarto a presença destes espaços vazios faz parte da vida na casa. Neste sentido a privacidade
dos quartos não está associada à ocupação individual, exceto para os hóspedes e para os
homens solteiros. A privacidade parece vinculada ao fato de não mostrar o que se passa dentro
dos quartos. Enquanto os filhos não saem de casa eles dormem num quarto separado, as
mulheres dormem entre elas ou junto com as crianças. Na primeira noite que dormi na casa da
Maria, sua irmã se ofereceu para dormir comigo, caso eu tivesse medo de dormir sozinha.
Agradeci sem entender o motivo do medo. Depois de alguns dias senti de fato medo da noite no
Mulungu, pois tinha sempre a impressão de estar sendo vista ou vigiada por alguém.
Conversando com outras pessoas soube que o perigo da noite é o encosto dos espíritos que
Ninguém sabe ao certo o motivo da morte do outro, mas a certeza maior da vida é a morte: o
destino de todos nós. No entanto a loucura e os males provocados pelo encosto são as piores
coisas que podem atingir alguém, e que acontecem com bastante freqüência. A importância dos
108
caboclos e dos trabalhos de candomblé está diretamente associada a este problema, como será
Além dos quartos, da cozinha e da sala, apenas três casas tinham banheiro até o ano
próprios moradores. Mas no final do primeiro mês de trabalho a construção dos banheiros foi
mudanças significativas na vida dos moradores do Mulungu que, em sua maioria, afirmam:
aqui agora está muito bom. Este aqui também inclui as relações dos moradores com os lugares
de fora, sobretudo Boninal e São Paulo. Através dos circuitos do corpo fora do Mulungu,
apresentarei o quadro de mudanças sociais do qual emergiu o atual Reisado de São Sebastião.
Até que ponto a tradição do Reisado, mantida pela sua dinâmica de transformações através da
109
Mulungu ficou bom de viver. Mas a chegada da luz elétrica em duas épocas diferentes mostra
que o lugar, mesmo pequeno, não é homogêneo. A rua de baixo, por ser um local de passagem
entre a cidade de Boninal e duas outras comunidades rurais (Cedro e Conceição), foi iluminada
em 1982 enquanto as duas outras ruas ficaram no escuro até o ano 2000. O primeiro posto
telefônico instalado na região rural do Município de Boninal, também foi na rua de baixo em
1987. Apesar do telefone ter sido instalado por engano, a sua presença facilitou a comunicação
dos moradores do Mulungu com os seus parentes na cidade de São Paulo e com os moradores
de outras comunidades rurais que utilizavam o posto telefônico do Mulungu. No ano 2000,
quando as duas outras ruas receberam luz, a Casa da Farinha foi construída na rua de baixo. A
problema da plantação de mandioca continuar vinculado às chuvas que nem sempre acontecem.
Mulungu, criada em 1997, no mesmo ano em que chegou água encanada na comunidade. Antes
disso tinha época que faltava até água aqui pra gente beber, conforme diz Ireno. Apesar da
água, distribuída duas vezes por semana em cada rua, ainda ser armazenada e utilizada com
Foto 20: máquina de fazer farinha Foto 21: O trabalho de fazer farinha é feito pelas
ativada em 2004. mulheres. Mulungu, 2004.
Estas mudanças que aconteceram a partir da década de 1980, quando o êxodo rural dos
modernização que não diz respeito apenas às condições de vida interna do lugar, mas também à
relação dos moradores com a sociedade de Boninal. O discurso de Sebastião Oliveira Santos,
bom relacionamento com a sociedade: a pessoa que trabalha na roça --- na zona rural ele
tem que ter o – ele tem que trabalhar pra o nome dele na sede ser uma pessoa desincubida. Né,
uma pessoa que digamos tá aqui, de repente ele precisa de um remédio, digamos o seguinte ---
por exemplo né precisar de um remédio vai lá na farmácia fala com fulano que manda o
remédio pra mim, então se a pessoa não for uma pessoa mermo capacitada, uma pessoa --- ele
sabe que aquele remédio não vem porque sabe que a pessoa não paga...38 No meio rural, ser
uma pessoa de confiança (e mostrar isso) é como ter dinheiro para comprar o que for preciso.
Quando tudo ou quase tudo pode ser pago através de dívidas e/ou prestações a longo prazo, a
confiança vale ouro. A partir de 1990 a aposentadoria rural (R$180,00), e as ajudas financeiras
do governo, como bolsa escola (R$45,00 mensais para quem estuda), bolsa família (R$50,00),
38
Entrevista com Sebastião Oliveira Santos, 55 anos. Mulungu, 29/12/2001.
111
vale-gás (R$30,00), e por último a fome zero (R$50,00), forneceram aos moradores uma renda
consumo dos moradores não alterou a maneira de pagar as compras através de prestações e
dívidas.
controle e de auto-controle que passam pelo compromisso corporal com aquilo que se fala. Este
valor da palavra-compromisso, característico da cultura oral, não foi alterado pelo processo de
Mulungu em 1976. Ele conta que depois da construção do prédio da escola, em 1974 as
professora não queria vir ninguém praqui ninguém --- o prefeito fazia a boa vontade, dizia
olha eu tô falando com algumas pessoa pra vim aí não quer vir. Aí achava que era longe... Eu
sei que a gente pedia e ele mandava e a gente queria um. Agora eu não sei se era porque ---
mas naquela época é--- professor aqui era --- quem era professor aqui --- ele, ele, como é que
eu posso dizer? ele se julgava muito, entendeu? 39 Sebastião ainda morava em São Paulo nesta
época em que lutava pelo ensino público e gratuito no Mulungu. Sua valorização do estudo
onde trabalhou 27 anos como mestre de obras, entre idas e vindas anuais. As dificudades de
encontrar um professor para dar aulas no Mulungu, levaram Sebastião à convidar Juvenal, 16
anos, recém-chegado de São Paulo, e morador da comunidade rural Sonhem. Enquanto Juvenal
Mulungu, e assim se fez professor oficial do lugar onde ensina até hoje.
39
Idem
112
Antes desta escola ser construída existia o ensino pago do prof. Sulino, na comunidade
Conceição a 8Km do Mulungu. Apenas um filho era escolhido para aprender a ler. O menino
mais esperto freqüentava a escola, enfrentado o esforço de caminhar 16km com apenas um ovo
para comer. As meninas não podiam aprender a ler nem escrever para não trocarem cartas com
seus namorados. Marilene Maria de Souza, 44 anos, fala deste tempo em que a escola era na
palmatória, não tinha essas coisas de prova. A lição era estudada e o professor tomava a lição,
se errasse era na palmatória. Hoje é tudo mais fácil 40. Do tempo da palmatória até a expansão
do ensino primário no Mulungu, com a construção de mais duas salas de aula em 1990, se
passaram menos de 40 anos. Atualmente quatro professores dão aulas no lugar e os alunos que
conseguem completar os estudos têm acesso gratuito ao curso de segundo grau, escolaridade
máxima oferecida na cidade de Boninal. Na formatura de 2° grau do ano 2001, entre 120
estudantes que receberam o diploma havia três pessoas do Mulungu, o que foi considerado uma
Foto 22: Formandos do Mulungu ao lado de Foto 23: Crianças comendo bolo na festa
Sebastião.Cerimônia em Boninal, 2001. dos formandos no Mulungu, 2001.
pelo excesso de mão-de-obra especializada não absorvida pelas escolas da região. Atualmente o
interesse maior em completar os estudos é conquistar alguma chance de ir para São Paulo
da passagem pela cidade de São Paulo. Esta perspectiva de sair do Mulungu fornece sentido ao
Mulungu alterando o ritmo cotidiano do lugar. A partir de 1999 este transporte diário e gratuito
facilitou o acesso diário dos moradores até a cidade. As idas e vindas até a cidade para receber
dinheiro no Banco do Brasil ou falar com o prefeito, ou comprar coisas, fazem parte do
cotidiano das pessoas, que sempre se arrumam e lavam os pés para irem até a cidade. O ritual
quase cotidiano de ir até a cidade faz parte da vida local. Com o ônibus é possível chegar na
cidade mais rápido e menos desarrumado, pois não é preciso enfrentar a poeira e o suor do
caminho feito na perna (45 minutos andando). Alguns, poucos, moradores do Mulungu
trabalham em Boninal como varredores de rua, entregadores de gás, faxineiras dos prédios da
prefeitura, ou como empregadas domésticas em casas de família, o que é menos procurado pelo
fato de pagarem pouco. Mas esses trabalhos não exercem grande poder de atração sobre os
moradores do Mulungu, que preferem ir até São Paulo para ganhar dinheiro. Esta cidade
continua sendo o maior referencial de desenvolvimento para o lugar, apesar do fuxo migratório
do processo de construção identitária da comunidade como lugar onde são as mulheres que
mandam. Durante a migração em massa dos homens para São Paulo, entre 1950-1980, as
mulheres começaram a tomar conta de tudo enquanto o lugar crescia com o dinheiro que
chegava da cidade. Nesta época só ficavam os velhos e as criança e as mulher. Depois que as
mulher tomou conta. Pra trás quando a gente ia daqui pra São Paulo ---- fazia até horror que
as mulheres ficava chorando vendo os marido saia, os filho --- hoje costumaram que ta indo é
114
as mulher – hoje imagina mais a gente aqui na roça do que ir pra São Paulo. Agora danô
porque as mulher tá indo tudo pra lá...41. Nestas palavras de Ireno é clara a importância da
presença feminina para a permanência da vida no Mulungu, mas o heroísmo de ganhar dinheiro
em São Paulo é dos homens que, quando chegavam mostrando conforto, eram festejados como
São Paulistanos.
Para Sebastião o Deus de lá era um o daqui era outro. Porque eu vi o conforto que
quem ia pra São Paulo e vinha aqui ninguém tinha. Então isso foi criando uma ilusão --- né,
na maioria do acho que de quase todos os brasileiro essa ilusão, né, foi ilusão, a pessoa achar
que pra ele se manter tinha que ser com a ajuda de São Paulo --- é que uma parte sim porque
São Paulo ajudou bastante – quando na época que a construção civil tava funcionando acho
que o Brasil inteiro ele se sentia mais reforçado, com mais energia através da construção
civil . Depois que a construção civil parou, parou o Brasil inteiro porque a classe pobre que
vai pra São Paulo eles procuram logo é a construção civil, se a construção civil não tiver
funcionando eles vão fazer o que? Nada. Mas no ano que eu fui a São Paulo tava com a
potência, tava com toda a bola, tava com tudo naquela época então naquela época eu cheguei.
Todas as pessoas daquela época foi todo mundo bem aplaudido 42. Mas o conforto oferecido
pelo dinheiro fácil de ganhar em São Paulo era precedido da viagem em pau-de-arara, um tipo
de caminhão de carga que levava muitos nordestinos para a região sudeste (Rio de Janeiro e
São Paulo). Segundo Ireno o mais duro era viajar no pau-de-arara. Levava 8 dias. Daqui pra
Monte Azul era 4 dias, de Monte Azul pra lá era mais 4. A gente saía de Monte Azul pernoitava
no caminho e ia pra Belo Horizonte (Minas) pra lá levava mais 4. Teve tempo ia de home e ia
de mulher, tinha dia que a senhora viajava e --- viajava ---fazia até nojo da gente viajar, o
ônibus o tanto de pé ia que a senhora não podia nem mexer. Ia de pé. Era sofrimento dona. O
sofrimento mais duro que eu vi foi esse aí, mas trabalhar em São Paulo não.O sofrimento da
41
Ireno Francisco de Souza. Op.Cit.2001.
42
Sebastião Oliveira Santos. Op.Cit.2001.
115
viagem era pior. Trabalhar em São Paulo não era tão duro não .... Hoje não, graças a Deus,
mudaram. Além de saber ler e escrever para conseguir algum emprego, também é preciso ter
algum dinheiro antes de sair do Mulungu, a passagem de ônibus para São Paulo custa
R$170,00. Os relatos pouco animadores das pessoas que voltam, depois de morar muitos anos
na cidade, não apagam o sonho jovem de ir para São Paulo ganhar dinheiro. Apesar das
condições de vida no Mulungu terem melhorado muito, em relação ao que era antes, o principal
motivo da diminuição do êxodo rural é a falta de trabalho em São Paulo. Sinhozinho Rosalino
de Souza, reiseiro de 55 anos, que foi para a cidade 33 vezes fala que São Paulo já foi bom, e
aqui tá desse jeito. Mas niguém vai embora, come hoje, não come amanhã. O tempo não
espera por ninguém. Eu aproveito. Vai fazer o que? Você não vai dar jeito, eu também não vou
No ano 2003, quando fui até a favela Parque Santo Antônio, para conhecer as pessoas
do Mulungu que moram em São Paulo, encontrei Ivanildo José de Souza procurando trabalho,
23 anos, recém-chegado na casa do seu tio. No ano seguinte ele voltou ao Mulungu para passar
a festa de São Sebastião, e trouxe a boa notícia: em São Paulo agora tem emprego de
segurança. A novidade de que São Paulo voltou a ficar bom, em pouco tempo se tornou o
principal assunto entre os homens jovens. Este novo mercado de trabalho que se abre, gerado
pela violência urbana, suscita expectativas naqueles que almejam uma vida melhor, ou seja:
dinheiro e conforto. Mas a violência nas favelas também é um dos motivos pelos quais as
pessoas deixam seus barracos para voltarem a morar no Mulungu, onde as maiores vantagens
são viver com tranqüilidade e trabalhar sem patrão, lavrando a própria terra, com esperanças de
um dia chover. Provavelmente o novo mercado de trabalho que se abre, oferecendo empregos
43
Ireno Francisco de Souza. Op.Cit, 2001.
44
Entrevista com Sinhozinho Rosalino de Souza. Mulungu, 15/01/2002.
116
de segurança, não anuncia um movimento migratório tão forte quanto aquele vivido entre
1950-80. Mas a cidade de São Paulo continua sendo uma saída para os moradores do Mulungu,
Para as pessoas que vivem em São Paulo ainda existem vantagens de estar na cidade,
apesar de ganharem pouco dinheiro trabalhando muito. Firmina Francisca de Souza, reiseira de
48 anos, que mora há 15 anos em São Paulo, na favela Parque Santo Antônio, leva a vida
sofrida assim que ocê não tem responsabilidade assim de sair.. cê só tem responsabilidade
assim de ir de casa pro seu serviço... cê vai assim numa brincadeira num sai cê fica ali com
medo de ter algum tiroteio, cê num sabe assim quem tá assim junto, não sabe se tá junto mais
um bandido, se tá junto duma pessoa legal, é assim... 45 Mas foi com o dinheiro do trabalho de
faxineira na cidade que ela construiu sua casa no Mulungu, onde moram duas das suas seis
filhas. Além do dinheiro as maiores vantagens de São Paulo são o acesso às roupas bonitas e o
direito à assistência médica. Em Boninal não tem assim um médico de operação, ele só faz
45
Entrevista com Firmina Francisco de Souza. São Paulo, 14/06/2002.
117
cesária né? Lá não já tem um médico de operação, já tem um médico de cesária, já tem aquele
médico se ocê tá com problema de cabeça, já tem aquele médico de pele, se ocê faz um exame
de sangue já tem aquele médico que já sabe ver o exame de sangue, é assim... 46 Muitos
moradores do Mulungu, quando têm algum problema de saúde grave, viajam até São Paulo
Algumas doenças são tratadas no hospital de Boninal, mas muitos problemas de saúde
são resolvidos pelos caboclos. Depois de morar 17 anos em São Paulo, onde conheceu o pai-
de-santo que a iniciou no candomblé, na cidade de Cachoeira (Bahia), Olívia Alves dos Santos,
39 anos voltou para o Mulungu (onde nasceu) com a missão de ajudar o seu povo com os
chegada de Olívia, existia o pai-de-santo Lindofo Bispo Araújo, que morava na comunidade
Sonhem onde fazia trabalhos espirituais, mas segundo sua esposa Ambrosina Mendes ele
apenas benzia as pessoas e fazia consultas. A incorporação dos caboclos acontecia no ritual do
Jarê, que aparentemente era feito dentro das próprias casas durante o mês de setembro. Mas a
Idem
46
118
modernização do lugar. De acordo com suas palavras isso aqui era diferente bem diferente. De
quatro anos pra cá. Quando eu vim pra cá com os caboclos e o povo. Aqui era bem mais
diferente, mais humilde. Tinha problema de tudo, de água de luz, se fosse pra comprar uma
coisa, pra mexer na casa, era não sei o que tinha... aqueles mau fluídos, aí não tem que ser
diferente. Não tem ninguém melhor do que ninguém, tem que trabalhar unido pedindo sempre
aos caboclos. A gente ia sambar na mata, os caboclos pedia : “tem que abrir as matas”. A
gente ia abrir as matas, lá no meio do mato, ia hoje às sete horas e voltava amanhã às sete
horas, e não tinha nada, fazia café bebia por lá, ficava por lá, bastante gente. Nessa parte
mudou bastante, o Mulungu hoje está muito bom, muito bom. Hoje o Mulungu ta dez. Ficou
exatamente do jeito que eu queria, eu queria assim. Era um lugar que era muito atrasado 47.
Mas Olívia também fala das dificuldades em manter a casa de candomblé: O que me trouxe
praqui foi meu povo, minha família, porque eu sei que eles precisam muito de mim, isso eu sei
mas me sinto aqui como se fosse um peixe fora do mundo. Aqui eu tenho parente mas da
umbanda eu não tenho ninguém. Eu tenho filho de santo, mas da umbanda não tem ninguém,
se eu quisesse participar de reunião o mais próximo é em Feira de Santana. Tem outra coisas
que eu queria passar para os meus filhos de santo que eles lá passam e eu não tenho como. E
dar o que eles merecem , mas eu não tenho como passar. No samba de caboclo não posso fazer
roupa pra eles , pra cada um quando chegar ter sua roupinha. Coisa que eu sei que é
importante, eu não posso48. Pouco tempo depois a casa de candomblé foi desativada. No ano
2003 Olívia pediu licença para os caboclos e desfez o terreiro para abrir o primerio
estabelecimento comercial do Mulungu, onde se pode comprar manteiga, óleo, sabão, entre
outras coisas básicas. Esta pequena venda também funciona como bar. A transformação da casa
47
Olívia Alves dos Santos. Op.Cit. 2002.
48
Idem
119
espiritualmente os moradores do lugar, além das pessoas de fora do lugar, que vão até o
A partir do ano 2000 a instalação de luz elétrica também levou o aparelho de televisão
para dentro das casas do Mulungu. Atualmente a televisão participa dos circuitos do corpo
cotidiano. Mas no processo de assimilação do que chega de fora pela tela da televisão, nem
todos os programas são vistos. A seleção dos programas é associada aos assuntos conhecidos.
O programa do Ratinho é preferido pela maioria dos moradores. Este programa consiste numa
encenação de fatos reais sobre problemas conjugais. Nas denúncias da injustiça dos homens
com as mulheres aparecem muitos homens que engravidam as mulheres sem assumirem a
paternidade dos filhos. Este assunto encontra ressonância na atual situação de muitas mulheres
mulher pela gravidez coloca o homem no papel do vilão ou do mau-caráter, no Mulungu isto
não chega a acontecer, pois no valor da maternidade como base da organização familiar-
comunitária existe uma solidariedade entre as mulheres que, até certo ponto, podem dispensar a
presença masculina para criarem seus filhos. Mas ao lado da solidariedade feminina também
existem rivalidades, sobretudo entre as mães dos pais solteiros e as suas mulheres. Caso haja
alguma preferência da mãe entre as mulheres do filho, ela pode influenciar no casamento ou
pelo menos no “ajuntamento” dos dois. Os homens nunca são vistos como inimigos pelas
Maria gosta de assisitir o programa do Ratinho porque mostra a realidade, para ela as
novelas são desinteressantes porque falam coisas de mentira. Acompanhando algumas sessões
de televisão, em quatro casas diferentes pude notar que as pessoas se divertem com o programa
passiva. O jornal Nacional é visto sobretudo pelos homens que já viveram em São Paulo. Mas o
principal motivo da instalação da antena parabólica, na casa da Maria Caetano dos Santos, é o
120
acesso à Rede Canção Nova (São Paulo) que exibe exclusivamente missas que envolvem um
retrato do padre Marcelo Rossi, pioneiro des movimento religioso, já estava pendurado nas
paredes de muitas casas. Estas missas na televisão podem ser assistidas de dia ou de noite.
Existe uma interação religiosa com a tela, sobretudo nas orações do Pai-Nosso ou da Ave-
Alguns dias depois de chegar no Mulungu, enquanto eu andava ao lado de Maria, que
me apresentava aos moradores, uma senhora Joana me viu com a câmera de fotografias na mão.
Com todo entusiasmo ela saiu de dentro da sua casa me pedindo para fotografar o padre Jonas
que estava na televisão, rezando uma missa às 10h da manhã. Ela queria guardar a imagem do
padre. Incerta de conseguir registrar a figura do padre com minha câmera de plástico e o
excesso de luz, eu pedi para os seus netos ficarem ao lado da televisão. Se o padre não
aparecesse eu poderia pelo menos lhe oferecer uma imagem das crianças. Na semana seguinte
lhe entreguei a fotografia. Ela me agradeceu muito, feliz por guardar o padre Jonas, sem fazer
49
Sobre o advento da TV católica e da TV evangélica no Brasil, ver MARIZ, Cecília. Comparando a Rede Vida de
Televisão com a Vinde TV. In: BIRMAN, Patricia (org.) Religião e Espaço Público. São Paulo: Attar;
CNPq/PRONEX, 2003, pp. 345-362.
121
Uma abordagem mais ampla sobre a presença da televisão, e o impacto cultural que este
possível dizer que as referências locais entram em jogo na seleção do que chega de fora, apesar
da diversidade de interesses variar de acordo com a idade, o sexo, a personalidade, etc, pois os
programas citados não são os únicos assistidos. Mas o interesse maior desta pesquisa não está
na chegada do mundo de fora pela televisão, e sim na projeção do Mulungu para o mundo de
fora, através da imagem do Reisado na televisão, que aconteceu antes da chegada deste
filmada por dois programas de televisão: Bahia Singular Plural 51 (IRDEB/TVE), transmitido
50
ABUD-LUGHOD, Lila. A interpretação de cultura(s) após a televisão. In: Cadernos de Antropologia e Imagem,
n°13. A Espetacularização da vida social. Rio de Janeiro: UERJ; NAI, 2001, pp.103-130.
51
O programa Bahia Singular Plural, dirigido por Josias Pires e produzido pelo IRDEB (Instituto de Radio e
Difusão do Estado da Bahia) entre 1999 e 2002, consiste em mostrar e valorizar a diversidade da cultura popular
no Estado da Bahia. A escolha dos lugares filmados foi baseada no mapeamento das manifestações populares do
Estado da Bahia traçado pelo folclorista Nélson Araújo. ARAÚJO, Nélson. Pequenos mundos: um panorama da
cultura popular na Bahia, vol.3. Salvador: Universidade Federal da Bahia, Fundação Jorge Amado, 1986.
122
Ronaldo Senna sobre a existência de uma cultura de raízes mais atuais, onde as referências
processo de modernização do lugar. Estas duas aparições do grupo nos programas de televisão
devocional começou em 1997, quando o grupo se apresentou pela primeira vez como
Faz Cidadão), realizado no Morro do Pai Inácio. No ano seguinte o mesmo projeto social
evento sobre cultura popular. Nos anos 2000 e 2002 o grupo participou de dois Festivais de
Reisados da Chapada Diamantina, nas cidades de Boninal e de Piatã, com o apoio da Prefeitura
de Boninal. Duas outras viagens até a cidade de Salvador foram feitas em 2001 (Inauguração
52
ARAUJO, Delmar Alves de ; NEVES, Erivaldo F.; SENNA, Ronaldo de Salles. Bambúrrios e quimeras. Feira
de Santana: UEFS, 2002, p.221.
123
em outro evento sobre cultura popular. O deslocamento do Reisado de seu contexto religioso
corporal diferente daquela que entra em jogo na espetacularidade do ritual de visita às casas.
Reisado como espetáculo da cultura popular é mais um elemento que participa da dinâmica de
mudanças na forma de fazer a performance do Reisado não alteram o tipo de interação corporal
performance quando o Reisado se apresenta nos eventos sobre cultura popular, a interação
de visita às casas. As danças são o maior motivo do sucesso do Reisado do Mulungu tanto no
ritual como no espetáculo, mas no primeiro caso elas emergem do encontro entre as pessoas,
enquanto no espetáculo elas são mostradas e vistas como representação da cultura num
processos de montagem da cena e o sentido das danças, também envolve relações financeiras.
Se o dinheiro recebido pelas reiseiras e pelos reiseiros, em nome do Santo, durante o ritual da
visita é sociabilizado através da festa, o dinheiro (cachês) das apresentações feitas em eventos
sobre cultura popular é dividido entre as pessoas, como acontece com o trabalho artístico
124
profissional, apesar deste status de artista dos reiseiros ser limitado ao tempo das viagens.
agregador do Reisado, como meio de renovação da vida coletiva, se dilui no aspecto ilustrativo
olhar externo/espectador e o senso estético da cena, mas no contexto das trocas sociais que
Ninguém sabe quando começou a devoção de Santo Reis no Mulungu, mas até meados
do séc.XX apenas os homens faziam o Reisado. Todos os anos eles saíam da comunidade em
peregrinação, e ficavam pelo mundão de Deus, cantando de casa em casa, durante oito dias e
função de cozinheiras, mas elas não cantavam. A força física e espiritual, necessária para cantar
o Reis, era exclusiva dos homens. Na saída dos limites territoriais do Mulungu através da
prazer, retorna sob a forma de proteção divina, que entre as secas recorrentes se manifesta
sobretudo pela chuva. No Mulungu a festa final, do dia 6 de janeiro, celebrava o Santo e a
volta dos reiseiros, recebidos pela comunidade como verdadeiros heróis. Este processo de
cantar o Reis, também acontecia na preparação da festa final: quem ficava cá ficava esperando,
mas era como naquele tempo, porque você vê hoje, as coisa hoje é tudo facinho, porque se eles
saísse com o reis o que é que era de fazer, se fosse um bolo era precisar de pisar um milho,
esses lugar longe não, mas aqui na roça era assim. Se fosse um café o café era assim dos
caroço, pisa era no pilão pra torrar e não tinha tempo não, quem tava aqui só tava cuidando
125
da festa do dia de chegar os reiseiros, era uma festa mesmo53. Neste movimento de saída e
volta dos reiseiros não existem referências sobre a a participação das pessoas de fora do
Mulungu na festa do Santo Reis. A expressão sair pelo mundo afora ou pelo mundão de Deus,
é significativa do contato com o lado de fora pela saída dos reiseiros quando as distâncias
percorridas eram determinadas pela força da perna. Além da comunicação com o Santo, o
heroísmo dos reiseiros também envolve as aventuras vividas durante o Reisado, e revividas por
Este tempo do Reisado dos homens acabou em 1944, quando eles foram para São Paulo.
Ficou muitos tempo mesmo sem cantar Reis... Acabou os velho acabou tudo, agora em vez dos
homem aprender quem aprendeu foi só as mulher, foi eu mais Maria que aprendeu porque nós
era pequena, não era grande não ainda era pequena. Quando esse povo morreu eu era
pequena, mas eu gravei o Reis na cabeça que não havia meio de eu esquecer. Toda vida eu
gosto, tenho mesmo boa vontade mesmo. Os que foram pra São Paulo morreu 54. Além da
memória de Augusta Maria Mendes e de Maria Caetano dos Santos, existe também uma
herança familiar que entra em jogo na continuidade da devoção, pois seus pais eram cantadores
de Reis. Mas as mulheres não aprenderam a tocar os instrumentos dos homens (rabeca, viola e
gaita). Foi sobretudo o canto do Reis que ficou guardado na memória. A tradição das mulheres
cantar o Reis, mas isto só aconteceu dez anos depois que acabou o Reisado dos homens.
No final da década de 1940 houve uma grande seca na região, que instalou a fome até
1954, quando os homens reiseiros já estavam trabalhando em São Paulo para ganhar a vida. No
desespero da falta d’água a tia da Maria Caetano dos Santos fez uma promessa para Santo Reis.
Assim, as mulheres começaram a cantar o Reis de casa em casa batendo umas latinha e
pedindo chuva. Dois meses depois, no dia 8 de março de 1954 aconteceu o milagre da chuva. A
53
Entrevista com Augusta Maria Mendes. Mulungu, 17/12/2001.
54
Idem
126
precisão da data concretiza a realidade do milagre num tempo histórico. Desde então este
Reisado continuou a ser cantado todos os anos dentro do Mulungu, pois as mulheres não saíam
pelo mundo afora como os reiseiros. Neste Reis da tia Rita as mulheres se apropriaram da
tradição de cantar o Reis batendo nas latinhas, na falta de qualquer instrumento. Esta passagem
do Reisado dos homens para as mulheres foi provocada pela necessidade vital de um milagre.
Neste sentido o caráter devocional do Reisado, na voz das mulheres, não coloca em jogo a
saída dos limites territoriais do Mulungu, mas apenas a celebração do Santo e o fortalecimento
da própria vida coletiva interna à comunidade. Este Reis de Santo Reis herdado da Tia Rita
continuou sendo cantado por causa do compromisso de Maria com a sua Tia Rita que, antes de
morrer, lhe pediu para não deixar o Reis acabar. Todos os anos as reiseiras cantam nas casas
do Mulungu, entre o dia 1 de janeiro até o dia de Santo Reis, cuja festa não envolve mais o
heroísmo de ser reiseiro, como acontecia no Reisado dos homens. Mas o heroísmo volta a fazer
parte do Reisado, de maneira diferente, quando as mulheres saem dos limites da comunidade
fazendo sucesso com o Reisado de São Sebastião. Porém antes disso é preciso explicar que
existe ainda um terceiro Reis que convive com estes dois: o Reis da Caixinha.
No mesmo período do Reis da tia Rita acontece o Reis da Caixinha, que é uma herança
da mãe de Augusta Maria Mendes, feita por ela e suas irmãs. O Reis da Caixinha consiste em
passar nas casas com a imagem do Santo Reis, dentro de uma caixa de sapatos, pedindo
dinheiro para o dia da sua festa. Esta maneira de pedir dinheiro para a festa do Santo, levando
sua imagem pelas casas, também existe em outras comunidades rurais da região. A imagem do
Santo se faz veículo de comunicação entre as pessoas. O dono-da-casa recebe a imagem nos
braços, faz um pedido para o Santo, lhe dá o dinheiro, faz o sinal da cruz e leva a imagem até a
próxima casa. A vida da imagem passa pelo pedido pessoal e pela oferta de dinheiro. Com o
Reis da Caixinha as mulheres saíam do Mulungu andando até outras comunidades vizinhas,
mas sem cantar. O Reis da Caixinha e o Reis da tia Rita, feitos ainda hoje, são heranças de
127
família. A festa do dia de Santo Reis, celebrada com duas rezas: uma na casa da sobrinha da tia
Rita e outra no altar de Augusta, não envolve a presença das pessoas de fora da comunidade.
Enquanto o grupo canta o Reis numa comunidade, outras pessoas podem circular com a
imagem de São Sebastião em outra comunidade, a fim de conseguir mais dinheiro e convidados
para a festa. Isto é significativo da importância da presença das pessoas de fora do Mulungu na
festa de São Sebastião, que marca um diferencial em relação aos Reisados de Santo Reis. Este
grupo pelas suas casas, do que o compromisso com uma herança familiar. Mas o Reisado de
Foto 27: Mulheres com a imagem de São Sebastião, antes de saírem com o carro
para pedir a dinheiro da festa. Mulungu, janeiro 2004.
128
dinheiro dos homens que trabalhavam em São Paulo, houve um surto de meningite na região. A
vida no lugar foi ameaçada pela doença. Augusta conta que não tinha médico aqui por perto
nem se morre, não sei se foi falta de quem tratasse, não tava curando essa doença não. Aí
depois deu no Sonhem um menino desceu doente, ela tava mais longe, eu só via falando, a
meningite tá matando, não sei onde é que no outro canto morreu, isso tava assim, daí um
pouco deu numa menininha morreu no Sonhem dessa doença. Aí agora moça Maria..... Foi até
Maria que fez essa promessa. Maria falou: O meu Deus, se Deus ajudar que essa doença não
dá aqui no nosso lugar nem nos arrebaldes em qualquer pessoa, né? Se Deus ajudar se acabar
essa doença sem dar aqui no lugar e na comunidade, é pra nós sair três dias cantando Reis.
Ela fez a promessa pra São Sebastião. Se São Sebastião afugentasse essa doença era pra sair
três dias cantando Reis, eu acho que essa promessa ficou feita mais de uns cinco anos, caça
reiseiro de fora pra vir, quem é que vem? Tava ficando perigoso.
De vez enquando a mãe de Maria falava: caça reiseiro de fora pra pagar essa
promessa! Mas onde é que ia procurar reiseiro de fora? só se fosse no Baixão, era muito longe
daqui. Na Conceição também era longe pra mode vir esses reiseiros. E também pra mode
cantar três dias aqui não dava pra ir, as vezes eles não queria vir pra esse lugar.
Aí um dia Maria falou: Vamos pagar essa promessa?Eu falava aonde nós vai? Ela falava
assim nós vai em Boninal. Aí uma falava eu não vou, a outra falava eu também não vou,
também lá eu não vou. Vamo cantar aqui no lugar, mas aqui no lugar não dava três dias pra
cantar55.
Na versão de Maria foi sua mãe, Jovina Caetano dos Santos que fez a promessa, depois
da morte de duas crianças no Mulungu: Aí ela pegou com São Sebastião, falou São Sebastião
se ele fugentasse essa doença --- que ela ia fazer uma mesa pros sete anjo. Aí ficou, ela falou
55
Augusta Maria Mendes. Op. Cit. 2001.
129
como é que nós vamos cumprir essa promessa? Aí nós falou assim: Vamo cantar um reis?
Vamo. E onde é que nós canta esse reis? Vamo no Boninal? Vamo. Aí juntou uma zenta de nós
aí uns falou assim --- Nós vai chega lá se a gente, ocês vai na frente, gente ri nós vai embora e
se não ri nós fica. Então vamo, umas latinha umas coisa, aí descemo. Quando nós chegou lá
primeiro nós cantou na porta da igreja. Os outro ficou cá encima esperando eu mais Augusta,
se a gente risse que eles voltava pra trás--- aí nós foi, um monte de nós, Adezita, foi um tantão,
nós cantou — quando nós cantou o povo achou bom – aí agora todo mundo gostou aí os outro
já encostou --- aí os outro já encostou tudo – dois sordado logo tomou conta de nós — pegou
nós foi entregar na Guariba. Esse Dadinho e Aurélio é que tomava conta assim , era os coisa
da prefeitura. Seu Antônio era sordado, aí ele foi entregar nós lá na Guariba, nós cantando
adiante ele com o carro atrás até chegou na casa de Dadinho e Aurélio. Entregou nós portanto
nós anda assim mas---- é tudo de é mesmo do começo ---já vem já apurado. Pegou nós e voltou
pra trás e nós ficou, nós cantemo, cantemo e todo mundo-- não agora é uma devoção que todo
mundo achou -- falou que nós não podia mais parar a devoção56.
Alguns moradores dizem que foi Maria, outros dizem que foi sua mãe que fez a
promessa para São Sebastião. Mas, independente de quem fez a promessa, havia uma
boa receptividade dos moradores de Boninal, mostram o quanto as interações sociais cotidianas
entram em jogo neste ritual de visita às casas do Reisado. Tanto que o principal motivo da
continuidade do Reisado de São Sebastião foi o sucesso da performance das reiseiras. Com
apenas uma saída do Reisado a promessa já estava paga, pois o combinado com o Santo foi
cantar três dias e três noites. Mas a devoção continuou no ano seguinte pelos pedidos dos
moradores. De acordo com Augusta: Quando nós chegou na porta da igreja e que nós cantou o
Reis. Ah! O povo aí agora já falou, não aí agora é pra cantar é na rua, e nós foi uma noite
56
Maria Caetano dos Santos. Op.Cit.2002.
130
todinha, os meninos eu vou mas só vou cantar de noite de dia eu não vou cantar lá não.
Quando o dia amanheceu eu levei o dia a noite sem saber que hora que era, foi três dias assim
ó. Só em Boninal. Nós ficamos três dias só pra cumprir a promessa, quantos dias nós não
passou, de lá mesmo nós foi pra Guariba, cantar num lugarzinho que tem mais na frente. De lá
nós veio aqui, chegou aqui tornou a voltar foi pra Vazante.
Aí agora nós veio, nós já pagou a promessa agora nós veio embora.
Moça, quando foi no outro ano esse povo tava procurando, que dia tem o reis, que dia tem o
reis... E com isso ficou continuando cantar o reis, foi assim desse jeito foi pela promessa. Era
pra cantar só naquele ano. Agora ficou o Reis de São Sebastião, antes era o santo Reis, do dia
6 de janeiro57.
Santos a maioria da sede (Boninal) ele tinha uma porcentagem máxima de preconceito, porque
você vê aqui a comunidade aqui é uma comunidade negra --- e eles -----tinha isso como a---,
tinha nós aqui como uma pessoa assim esculhambasubedeira a maioria deles nós não era nem
brasileiro, nós não é nem brasileiro na idéia deles. Para Sebastião, que ainda morava em São
preconceito racial dos moradores de Boninal: foi obrigado de chamar até a polícia com medo
do pessoal que o pessoal --- não -- ele desrespeitava, ele desrespeitava não tinha aquela ... não
considerava --- uma que quem tava com o reis era a classe negra, a classe negra já era
desclassificada --- pra eles ---- então aí cabava eles nem não dava assunto, era perigoso
alguém bater com um pandeiro que no Reis tem isso ou um bumbo um zabumbo, perigo que
coisa até pegar e furar, eles tinham – era capaz de fazer isso, então dé que eles ficaram com
medo chamou até a polícia58. Mas para Maria Augusta Mendes o medo de não serem bem
recebidas também se justifica pelo fato delas serem mulheres. A recomendação da mãe de
57
Augusta Maria Mendes. Op.Cit, 2001.
58
Maria Caetano dos Santos. Op.Cit.,2002.
131
Maria Caetano dos Santos sobre como elas deveriam cantar o Reis mostra os bons modos de
uma mulher: pra fica tudo com a cabecinha, quando chegasse num canto ficasse tudo com as
cabecinha baixa oi tudo assentadinha não abrisse o dente pra ninguém --- fazesse as coisa
tudo na sinceridade portanto ta até hoje ---- ce vê esse reis ta aí – nunca teve uma bagunça ---
ainda é importante para a boa entrada do grupo em qualquer lugar, não apenas em Boninal.
Mas é na efervescência da festa promovida dentro das casas que o Reisado agrada. O segredo
do sucesso do Reisado de São Sebastião são as danças. Se no Reisado dos homens eles também
dançavam, pelo corpo das mulheres a dança ganha outras conotações no contexto social da
Chapada Diamantina. Além do estranhamento provocado pelo fato das mulheres tocarem
tambor, o que é raro na região, o contato corporal estabelecido através das danças cria um
espaço de liberdade pelo movimento, que temporariamente subverte os bons modos sociais de
uma mulher.
A maioria das reiseiras atuais são as mesmas que começaram a cantar o Reisado de São
Sebastião em 1974. As mulheres que seguram o Reis são as sobrinhas de Maria Caetano dos
Santos e as irmãs de Maria Augusta Mendes, todas com mais de 40 anos, em sua maioria
solteiras, largadas (separadas do marido), virgens ou viúvas. Todas afirmam que depois do
primeiro casamento é melhor ficar sozinha pois se o segundo não for bom, elas serão obrigadas
a ficar com o marido para o resto da vida. Além do medo de ficar com um marido que não é
bom, sem poder separar pela segunda vez, existem poucos homens solteiros acima de 40 anos,
atualmente a maioria da população masculina do Mulungu nasceu dos homens que foram para
São Paulo.
grupo, está associada ao fato dos seus pais terem sido “chefes” do reisado dos homens, pois a
59
Idem
132
tomada do Reis pelas mulheres não abalou a transmissão no circuito familiar de pai para filho.
As sobrinhas de Maria são Tereza, Senhorinha, Isabela e Firmina, esta última mora em São
Paulo mas sempre que pode chega para cantar o Reis; e as irmãs de Augusta são Raimunda,
Ambrosina, Teodora e Eva. Apenas Senhorinha e Teodora são casadas, mas seus maridos não
se incomodam delas sairem com o Reis. Esta excessão pode ser associada ao fato da tradição
familiar predominar sobre a “vontade do marido”, pois quando a mulher casa é “natural” que
ela fique em casa, como aconteceu com Ednéia que aos 24 anos deixou de cantar o Reis. O
prazer de dançar e cantar em nome do Santo, saindo com o Reis pro mundo, apresenta um
espaço de liberdade que contrasta com o controle social exercido sobre a mulher casada, pois
conforme as palavras de Ednéia sobre a vida de casada: o pior é o que os outros falam. Além
das sobrinhas de Maria e das irmãs de Augusta, as reiseiras Senhorinha e Francisca também
participam deste núcleo central do grupo, ambas solteiras. Mas a situação das reiseiras que se
mativeram sem homem é ambígüa, pois elas não usufruem de uma liberdade incondicional.
jogo no controle da sexualidade tanto na vida cotidiana como durante o giro do Reisado,
quando qualquer situação de sedução ou namoro é uma ofensa ao Santo. A lambaça ou a sem-
vergonhice são proibidas e isto é indispensável ao bom andamento do Reisado. Maria explica
que o povo respeita , né? Respeita recebe tudo com alegria --- aquele prazer --- é muito
responsável entrar nas casa -- não tem uma casa que ce bate que não abre a porta -- tudo ce
viu -- pode tá dormindo -- levanta da cama e vem ---- abrir a porta --- como é que a gente vai
fazer? Coisa moça vai fazer lambança --- fazer isso tudo – coisar sem responsabilidade – que
todo mundo fala --- ontem mermo eu vi aquele homem falando com o padre que ó a coisa
responsável -- responsabilidade porque é tudo na sinceridade – não tem lambança... Não pode
é tá com aquele dente aberto nem aquelas bestajada, aquelas coisa – aquelas palhaçada –
aqueles quáquáquáquá dando risada, rindo ... isso aí não dá certo não ... 60 O caso de uma
60
Entrevista com Maria Caetano dos Santos. Mulungu, 01/02/2002.
133
moça que fez lambança e depois ficou grávida é contado por Maria como exemplo da pior
coisa que pode acontecer com o Reis. A moça, excluída socialmente, recebeu o devido castigo
divino.
liberdade corporal pela dança, como será visto no próximo capítulo. Na efervescência da festa,
dentro de cada casa, a excitação física provocada pela música, pela dança e pela cachaça nunca
pode virar bagunça. O respeito ao dono-da-casa é uma condição necessária ao ritual da visita.
namoros.
masculina no Reisado atual é tocar a gaita, um tipo de flauta de metal, que remete à tradição do
Reisado dos homens cantado com o acompanhamento de instrumentos melódicos. Com toque
da gaita o canto das mulheres fica mais bonito. Mas a presença da gaita e dos homens é
dispensável. Desde quando o Reisado de São Sebastião começou os homens que moravam em
São Paulo chegavam, ou não, para tocar gaita. Eu tava em São Paulo já participava do Reis. É
uma coisa que a gente faz por amor né, a gente --- isso é um cultura que nós temo que a gente
faz por por amor mesmo que nós temo, então as vez quando tava o reis, passava o reis que eu
não estava presente , tava pra São Paulo mas aquilo ali naquela festa de Reis meu Deus do céu
aquilo eu ficava na memória, eu ficava de lá parece que eu escutava todo o reis na cabeça.
Mas tava distante fazer o que? Eu tinha vontade de as vez mas quem é empregado não é dono
de si. As vez eu queria vim --- o patrão dizia não só se você pedir conta, mas eu não queria
pedir conta pra não ter aquele prejuízo grande...61 Outras pessoas que moram em São Paulo,
ainda hoje, voltam ao Mulungu para cantar o Reis. Atualmente os homens mais jovens, que não
chegaram a ir para São Paulo começam a participar do Reisado tocando gaita ou instrumentos
que passou a ser feito até final de janeiro, foram importantes para o crescimento desta devoção
religiosa como representatividade do lugar Mulungu. Mas existem fatores materiais, fornecidos
dentro do Mulungu as reiseiras batiam umas latinhas, na cidade de Boninal era preciso pelo
menos um zabumba para cantar o Reis, por causa da grande quantidade de casas a serem
visitadas.
Seu Elízio, farmacêutico da cidade que faz consultas médicas e vende os remédios para
o pessoal do Mulungu, emprestou os instrumentos para as reiseiras. Maria conta que Eli tomo o
bumba comprou, entregou pra nós : Oi ocês só me entrega esse bumba quando ocês cabar a
devoção. Quando cabava a devoção nós ia lá entregar, quando chegava a devoção nós ia
135
buscar62. Os mesmos instrumentos de percussão: zabumba, caixa e pandeiro, são tocados ainda
hoje pelas mulheres. A introdução de um atabaque em 1998, pedido por Maria, foi um presente
oferecido por alguém de fora do lugar. Mas Germinda dos Santos Anjos, que apesar de morar
em Boninal também é reiseira do Mulungu, foi a pessoa responsável pela compra dos
instrumentos que hoje são tocados no Reisado. Segundo Maria nós não tinha nenhum
instrumento nós veio aumentar de instrumento assim quando Germinda entrou --- ela deu
também pra compra uns instrumento prá nós já diferençou, já fez aquela diferença também,
que ela também, não é pra dizer que coisa, que ela também subiu nós muito Germinda -- ela
comprava instrumento --- ela que diferençava mode de roupa pra nós – essa merma que ta aí
foi Ezequiel o prefeito, essa que nós tem aí—mas quem primeiro diferençou assim mode de
em que morou em São Paulo ela chegava para cantar com o pessoal do Mulungu. Tocando
pandeiro, comecei, não sabia atropelar ( dançar), comecei, não sabia, aí eu comecei --- aí eu
acho que --- sabe mesmo a batucada assim, aquele prazer que a gente tem, dá mais força pra
gente, a gente começa né? Aí gostei mesmo de uma vez, pra sair é meio difícil. Aí eu inventei,
né? Sair com elas e eu inventei de fazer uma roupa especial pro reis pra ficar tudo igual 63. As
roupas do Reisado foram compradas por Germinda com o dinheiro do seu bolso. Em 1981 o
primeiro uniforme utilizado pelas reiseiras foi feito com as blusas de malha compradas na
cidade de São Paulo. O desenho de um gato com a frase I love cat na estampa da blusa,
segundo Germinda foi o desenho que a gente chegou na loja e encontrou as camiseta igual ...
Eu fui na 25 de janeiro --- na 25 de março e lá em São Paulo, aí eu cheguei nessa loja e tinha
vários tipos, aí eu falei não, eu vou levar tudo igual então a moça falou não essa aqui tem a
completa que cê quer, aí eu peguei trinta camisetas. ... Cheguemo aí juntamos – dividimo pra
62
Entrevista com Maria Caetano dos Santos. Mulungu, 01/02/2002.
63
Entrevista com Germinda dos Santos Anjos. Mulungu, 24/02/2002.
136
todo mundo aí. Germinda esclarece que o desenho do gato não significa nada, significou
porque tinha a quantidade... Agora a saia vinho pra ficar mais uma estrada, pra dar um
destaque né
O segundo uniforme, criado e encomendado por Germinda, foi feito em 1987: uma
camiseta branca com a imagem de São Sebastião entre as palavras Devotos de São Sebastião, e
o nome de cada pessoa nas costas da blusa. Ainda é Germinda que explica: só pusemos só o
nome das pessoa só pra saber quem era, porque nós saía quando nós chegava nas casa
perguntava com é o seu nome? Aí a gente já pôs pra não ficar procurando né? Aí eles já sabia,
ah é fulano, é fulano aí ja sabia – a gente pôs espontaneamente né?(...) Mas a gente não pôs
significando assim sobre nada, só mesmo pra gente não ficar procurando o nome e eu mesma
não sabia o nome delas todas, eu não sabia então eu – até hoje eu não sei o nome delas ainda,
tem muitas aí que eu não sei o nome64. A terceira roupa, mais sofisticada do que as outras foi
64
Idem.
137
Reis na cidade de Salvador65. Mas as reiseras não usam nenhuma destas roupas para cantarem
nas comunidades rurais. Na cidade de Boninal existe uma preocupação com o visual do Reis,
tanto pelo uso das roupas como do estandarte de São Sebastião. O estandarte como símbolo da
devoção é mais importante para os moradores da cidade do que para as reiseiras, sendo quase
cidade. Estas mudanças no visual das reiseiras entram em jogo na boa imagem do Reisado
Em 1976, dois anos depois da primeira saída do Reisado de São Sebastião, a introdução
do carro com motorista para levar o grupo até as comunidades visitadas foi determinante na
ampliação do seu trajeto. A idéia de diminuir o esforço físico gasto na peregrinação partiu de
Germinda. Na primeira vez que ela saiu no Reis seus pés incharam muito: eu cheguei em casa
fiquei com os pés lá, deitada – aí quando foi no outro dia já comecei a andar de novo – aí
parece que aliviou --- aí eu comecei a cantar com o pessoal ----- e criei aquele maior prazer,
né? (...) Elas andava de pé né? Aí eu falei gente vamos arrumar um carro porque esse negócio
levava ele dexava a gente lá e nós vinha cantando vinha cantando quando cançava aí mandava
recado aí eles ia, era recado não tinha telefone não. Alguém passava dava recado o motorista
ia trazia dexava a gente naquele local—daquele local a gente cantava 66. Atualmente o carro é
de Reis, que ajudou a devoção com instrumentos, roupas e o carro, justificam sua liderança no
grupo pela relação de gratidão das reiseiras em relação a ela. A situação social de Germinda,
que já foi candidata à Vereadora Municipal nas eleições de 1999, e “sabe falar bem” também
65
Esta apresentação num evento sobre cultura popular, promovido pelo Projeto Social Faz Cidadão (Fundação
Cultural do Estado da Bahia), aconteceu em 1999 no Centro de Convenções, cidade de Salvador.
66
Germinda dos Santos Anjos. Op. Cit., Mulungu 2002.
138
entra em jogo na sua liderança como “produtora” do grupo, sobretudo quando o Reisado é
no contexto ritual de visita às casas são processadas pela dinâmica de troca entre o grupo de
Reisado é apresentada como espetáculo nos eventos sobre cultura popular. Entre a
dimensão simbólica do corpo na performance. Quais são os valores que entram em jogo no
fazer o Reisado dentro do contexto devocional? Quais são os impactos da visão do Reisado
novos lugares, sendo bem recebido e ainda ganhar algum dinheiro, é motivo de grande alegria.
A visão da reiseira Isabela Francisco de Souza sobre a cidade de Salvador é significativa das
circunstâncias especiais de viajar com o Reis: A viagem pra Salvador é a mesma coisa que
agente tá no céu. Ali pra mim é a mesma coisa d’eu tá no céu ... Eu achei melhor assim pra
coisar, mais melhor do que São Paulo ave maria, o movimento é um movimento quase igual,
né? Mas Salvador eu acho que Salvador é mais até adiantado um pouco do que São Paulo. 67
bom tratamento recebido na posição de Reiseiros do Mulungu é uma saída do lugar social,
67
Isabela Francisco de Souza. Entrevista coletiva com as reiseiras, Mulungu, 27/12/2001.
139
ocupado na vida cotidiana. Isabela, que se sentiu no céu quando foi para Salvador, recebe uma
diária de R$5,00 para varrer as ruas da cidade de Boninal todos os dias às 6h da manhã,
trabalhando para a Prefeitura de Boninal. Neste sentido o valor de viajar com o Reis envolve
tanto o deslocamento espacial quanto social das pessoas, ainda que o status de reiseiro/artista
Depois da alegria de receber um convite para viajar com o Reis aparece uma questão
delicada: quem vai? A quantidade de pessoas que querem viajar é sempre maior do que os
daqueles que vão viajar com o Reisado colocam em jogo valores que não correspondem
explicar que no contexto religioso o grupo de Reis é flexível, ou seja, nem todas as reiseiras
participam de todas as saídas do Reisado. A única obrigação das reiseiras é com o Santo, se
alguém não puder sair no Reis um dia, então outra pessoa vai, e ninguém cobra a presença de
ninguém. Portanto a rotatividade entre as pessoas que fazem o Reisado é constituinte do grupo.
A quantidade de reiseiras pode variar entre oito e vinte pessoas mais ou menos. Mas no
contexto religioso ocorre uma seleção natural/circunstancial das pessoas que formam o grupo,
Axé68 no ano 2004, foi feita uma lista com o nome das pessoas escolhidas. O contato dos
produtores culturais da Caminhada Axé com a comunidade Mulungu foi intermediado por Ieda
Marques, que há cerca de dez anos convive com várias comunidades rurais da Chapada
organização dos festivais de Reisados que são uma oportunidade dos grupos se conhecerem. Os
nomes da lista foram escolhidos em comum acordo entre Ieda, Maria e Augusta, que são as
“chefes” do Reis. Ieda focalizou o aspecto cênico, ou seja, a escolha das pessoas que cantam e
dançam bem para o bom desempenho do grupo durante a apresentação, pois a boa realização
do espetáculo abre possibilidades do grupo ser convidado para fazer outras viagens. Ieda
também estava atenta ao equilíbrio entre a quantidade de homens, mulheres e crianças para
critérios de dançar e cantar bem não eram os únicos, pois o convite para viajar com o Reis é
incluído numa lógica de troca de favores. Convidar alguém para viajar também pode ser uma
oportunidade de fortalecer relações amistosas com pessoas que já contribuiram ou que podem
contribuir com o grupo de Reis. Se a pessoa honrada com o convite não puder viajar por algum
motivo, ela pode enviar um representante, filho, irmão ou qualquer outra pessoa que não é
necessariamente reiseiro, pois no Mulungu todos sabem cantar e dançar. Este aspecto político
faz parte do Reisado também no contexto religioso em que as escolhas anuais de cada festeiro,
responsável pela festa final do Santo, são permeadas de articulações sociais baseadas em trocas
de interesses.
Na escolha das pessoas para viajar com o Reis, Ieda, Maria e Augusta concordaram
sobre a presença de algumas pessoas que sabem falar bem para resolver as coisas (trabalho de
produção), de preferência um homem que não fique inibido com as pessoas da cidade. Esta
sair pro mundo. Acompanhando o grupo durante sua estadia em Salvador, antes de começar a
Caminhada Axé, percebi que no meio urbano a postura das mulheres é mais recatada do que na
comunidade, enquanto os homens podem ser mais extrovertidos fora da comunidade do que
dentro dela.
141
é: com que roupa? No contexto devocional não existe nenhuma roupa específica, fora aquelas
feitas e/ou compradas por Germinda, e que não serviam para viajar por que já estavam velhas e
usadas. Nas duas primeiras viagens para Salvador (1998 e 2001) as roupas utilizadas foram
feitas com o apoio da Prefeitura de Boninal, sendo que Germinda foi responsável pela escolha
do pano e do modelo. Nesta viagem do grupo para a Caminhada Axé quem elaborou e mandou
fazer as roupas foi Ieda. Germinda não participou desta última apresentação do Reisado, pois
estava fazendo um tratamento de saúde em São Paulo, mas normalmente ela centraliza esta
função de produtora do grupo, tanto no contexto religioso como fora dele. A importância
lugar, para as pessoas que fazem o Reisado elas são uma conseqüência da visão (externa) sobre
o Reisado como espetáculo da cultura tradicional. Esta valorização do visual do grupo também
se estende ao estandarte, mas de maneira diferente, pois ele não é produzido para cada
apresentação nem é utilizado no ritual de visita às casas. O estandarte bonito com a imagem de
142
São Sebastião, feito com tecido de cetim, fica guardado para ser utilizado apenas nos
espetáculos. O uso do estandarte é restrito ao dia da festa de São Sebastião no Mulungu para a
moradores pedem a presença dele. Nestes casos se faz uso de outro estandarte, menos luxuoso
e danças que serão mostradas no tempo limitado do espetáculo. Mas o pensamento cênico
baseado num senso de montagem pré-elaborado por alguém, característico do espetáculo teatral
como obra de arte, nada tem a ver com a lógica interativa da performance de visita às casas. O
espaço cênico do palco, no teatro ou em lugares abertos (rua, praça, praia, etc.), condiciona um
da visita, que acontece dentro das casas, a visualidade da performance nunca pode ser captada
em sua totalidade pelo olhar espectador. Nas pequenas salas, às vezes com apenas cinco metros
143
quadrados, ocupadas por cerca de 30 pessoas, a visão de tudo o que acontece é sempre parcial.
ocorre no espetáculo. No contexto ritual da visita, a apreensão parcial de tudo o que acontece
num espaço físico reduzido, revela a infinitude do que é visto. As danças que emergem da
interação corporal entre as pessoas são vistas aos pedaços, pois na ausência de distanciamento
envolvem o tempo dos acontecimentos, provocados pelos encontros, que fornecem sentido às
indissociável da sua subjetividade relacionada ao tempo vivido e do espaço reduzido das casas.
pouco tempo. O espetáculo deve ser visto e captado em sua totalidade pelo olhar espectador.
As músicas e as danças escolhidas para serem mostradas no espetáculo são aquelas que
fazem sucesso no contexto ritual, ou seja, as mais solicitadas pelos moradores das casas
visitadas. O aspecto externo do movimento corporal, como forma valorizada a partir do espaço
danças nas visitas às casas é delimitado pela roda formada pela distribuição dos corpos em
entrar e sair de dentro da roda, numa troca de papéis constante entre espectador e atuante. Esta
distribuição circular dos corpos não cabe no palco, pois se as danças acontecem dentro da roda
fechada os espectadores não podem vê-las, e o espetáculo perde o seu sentido. Mas a quebra da
roda em semi-círculo altera o tipo de interação corporal estabelecida pelas pessoas que dançam.
Neste sentido é possível dizer que as mesmas danças são outras, não apenas porque são feitas
ritual da visita, mas no espetáculo elas se inserem num processo de montagem baseado no olhar
do espectador.
144
popular atrai a participação dos jovens ao grupo. Mas de acordo com Augusta esses meninos
novo só quer andar assim na folia, sem sofrer, eles não sabem o que é o Reis, quem pensar que
vai pro Reis que nem esses menino novo pra fazer uma coisa e não sabe o que é que eles tá
fazendo, ou se é rindo, ou se é não dá certo não Lu, não dá não 69. A consciência de saber o que
está fazendo é associada ao esforço corporal oferecido ao Santo, pois em nome do Santo o Reis
entra em qualquer parte com sofrimento, prazer e alegria. Augusta explica o valor do respeito e
mas é pela alteridade que o corpo se faz veículo das palavras do Santo, no prazer de oferecer
prazer ao dono-da-casa. Os jovens que não seguram o Reis (aguentar até o fim) por não
aproximam o fim da tradição do Reisado, na opinião de Augusta: nessa modernagem que vem,
não vai não. Dinha eu vou lhe dizer oi, se acabar essa modernagem assim, ó eu, Maria,
Tereza, Bela, Francisca. Pode dizer acabou, acabou o Reis. Por causa que o Reis como eles
quer não vai. Como essa modernagem quer não vai70. O problema em torno do transmissão dos
cantos do Reis, pela falta de vontade dos jovens em aprender com os mais velhos, encontra
ressonância num contexto social marcado pela passagem da oralidade para a escrita. A primeira
geração alfabetizada do Mulungu atualmente têm entre 20 e 30 anos, acima desta idade as
distância entre ambas as gerações: diante da insatisfação de Augusta com os jovens, que não se
interessam pelo Reis, Edson, de 22 anos, argumentava a dificuldade de aprender a cantar sem
poder ler as palavras cantadas. Para Edson o fato de Augusta não pedir para alguém escrever as
palavras do Reis significava uma falta de vontade de ensinar. Mas para ela que aprendeu o Reis
A previsão de Augusta sobre o fim da tradição do Reisado contrasta com o sucesso das
suas apresentações como espetáculo da cultura tradicional. A motivação recente de viajar com
o Reis, que atrai a participação dos jovens, exclui o valor do sofrimento associado à
interlocução com o Santo no contexto ritual. Mas o fato é que eles participam do Reisado e que
esta participação provoca mudanças tanto na maneira de fazer a performance como na sua
receptividade. Tendo em vista que a liderança do grupo continua nas mãos das reiseiras, estas
alterações aparecem de formas sutis. O confronto de valores antigos e novos, presente nas
interesse dos jovens em viajar com o Reis, para se manifestar também na ousadia das mulheres
que saíram do Mulungu para cantar o Reis na cidade de Boninal ou na ampliação do percurso
70
Idem
71
Expressão utilizada por Maria para dizer que não sabe ler nem escrever. Pesquisa de campo, Mulungu 2002.
146
cotidianas dos moradores do Mulungu com as pessoas de fora do lugar, pois o espaço pessoal e
The promise to São Sebastião holds crucial significance as it originated from a community's crisis response and shaped cultural traditions like Reisado. Initially a religious act to fulfill a vow to avert disease, it established a recurring cultural practice that continues to influence contemporary cultural events, marking a fusion of faith, tradition, and community identity . This practice underscores how deeply ingrained religious vows are transformed into cultural legacies within the Mulungu community .
Reisado performers face challenges in balancing traditional practices with modern expectations by navigating between maintaining cultural authenticity and modifying performances to meet the aesthetic preferences of modern audiences . This involves reconciling interactive, communal rituals with more visually oriented, staged spectacles . The need to visually appeal to an audience often necessitates changes in costumes and performance structures, potentially eroding some traditional practices .
In its religious context, the performance of Reisado de São Sebastião maintains its traditional interaction related to devotion, focusing on the presence of the Santo and an interactive engagement with the community . In contrast, the spectacular context dissociates this interaction from religious elements, focusing instead on the visual appeal to spectators, aligning more with stage representation rather than a devotional act . The emotional and interactive engagement is replaced by a performance meant for audience consumption, highlighting a shift in cultural dynamics .
The spectacularization of Reisado performances presents cultural benefits, such as increased visibility, cultural preservation funding, and enhanced community pride . However, it also poses risks like the dilution of authenticity, the prioritization of visual appeal over traditional values, and possible cultural misinterpretation by audiences unfamiliar with its origins . These complexities underscore the delicate balance between adaptation for widespread cultural recognition and the preservation of unique community traditions .
External demand significantly influences the continuity and transformation of Reisado de São Sebastião by validating the performance through non-community-based recognition, such as invitations for public spectacles and media appearances . This demand drives the adoption of elements that appeal to external spectators, like elaborate costumes and structured performances, which facilitates ongoing interest and support but might dilute traditional elements .
Uniforms and visual appearances in Reisado de São Sebastião performances signify the external valuing of cultural elements and are closely tied to the process of its spectacularization . While meant to present a traditional culture, the emphasis on visual elements such as uniforms reflects an adaptation to modern aesthetic demands, representing a broader trend of cultural modification where visual appeal becomes crucial for cultural validation and showcases .
The societal perception of Reisado de São Sebastião has transformed significantly from being viewed primarily as a religious ritual to being recognized as a cultural spectacle. This shift can be attributed to its participation in public events and festivals, media exposure, and the strategic promotion of cultural identity by incorporating costumes and modern performance settings . These adaptations cater to broader audience interests, transforming the ritual from a community-centric devotion to a medium of cultural expression that reaches larger, external audiences, affecting its traditional essence .
In Reisado de São Sebastião, traditional music and instruments have evolved by incorporating new elements to enhance visual and auditory appeal in public spectacles. While core instruments like the zabumba and pandeiro remain, the introduction of the atabaque in 1998 reflects adaptation influenced by external exposure and evolving performance contexts . These changes align with the expectations of audiences who favor a vibrant auditory experience during cultural exhibitions .
The transition from traditional community-based performance to a spectacularized form in Reisado festivals carries significant implications. It highlights a shift towards modernization and the influence of external validation on cultural practices . The emphasis on pleasing external spectators alters the intrinsic communal and devotional meanings, posing a challenge to cultural authenticity and continuity. This shift reflects broader societal trends where traditional practices become curated displays, potentially diminishing the cultural significance for the original practitioners .
The involvement of women in Reisado de São Sebastião reflects broader societal shifts where women play more prominent roles in both community leadership and cultural preservation . Initially driven by the necessity during a health crisis, women's roles expanded from executing a promise to avoiding disease to becoming key participants and organizers of cultural events, signifying changes in traditional gender roles within the Mulungu community .