Universidade de Lisboa
Faculdade de Letras
O País a Régua e Esquadro
Urbanismo, Arquitectura e Memória na Obra Pública de Duarte Pacheco
Sandra Cristina de Jesus Vaz Costa Marques de Almeida
(Mestre em História da Arte)
Dissertação para a obtenção do grau de Doutor em História, na especialidade de
Arte, Património e Restauro
Orientador científico
Professora Arquitecta Ana Cristina dos Santos Tostões
Co-orientador científico
Professora Doutora Maria João Baptista Neto
2009
O País a Régua e Esquadro
Resumo
Esta dissertação aborda a Obra Pública empreendida por Duarte Pacheco e tem como
principal objectivo contribuir para a clarificação do processo de concepção e
concretização de todo um programa coordenado pelo político de 1925 a 1943.
Referenciando o universo de estudo ao Urbanismo, Arquitectura e Memória Patrimonial
no contexto português ao longo do período considerado e com base na sua aplicação a
seis estudos de caso, analisa-se no legado do político a relação entre o decreto, o
projecto e o concreto.
Considerando o modo de actuação de Duarte Pacheco e identificando o seu método de
trabalho em áreas tão distintas quanto a direcção do Instituto Superior Técnico, a
Câmara Municipal de Lisboa, o Ministério da Instrução Pública e o Ministério das
Obras Públicas e Comunicações, o legado do político surge numa nova perspectiva,
possível através da recolha de uma parcela importante de informação que clarifica o
tempo, o modo, os serviços e os agentes que no espaço de dezoito anos modificaram a
paisagem do país.
Palavras-chave:
Obras Públicas
Urbanismo
Arquitectura
Memória
Método
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O País a Régua e Esquadro
Abstract
Concerning the study of Duarte Pacheco’s Legacy, this research aims to contribute
towards the clarification of the political decision, the technical conception and the
reality of public equipment building process that integrated a major program defined
and coordinated by the politician himself from 1925 till 1943.
Confining the study to areas such as Urbanism, Architecture and Heritage in the 20th
century second quarter Portuguese scenario, and applying these three disciplines in six
case-studies, the analysis of Duarte Pacheco’s legacy appears clarified in its three
evolutionary stages: the law, the project and the concrete reality.
Taking in consideration Duarte Pacheco’s political performance and high lightning his
thought and method in four cabinets, namely, as Lisbon School of Technical
Engineering Director (IST), as Lisbon Local Council Mayor, as Education Minister and
as Public Equipments and Transports Minister, the politician legacy steps forward
bringing a new perspective vividly represented in the amount of documentation that
clarifies how a team of town planners, architects, engineers and artists reached, in no
more than eighteen years, the achievement of building a country’s new landscape.
Keywords:
Public Equipments
Urbanism
Architecture
Heritage
Method
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O País a Régua e Esquadro
AGRADECIMENTOS
Ao longo da elaboração deste trabalho tive o apoio de várias pessoas e instituições a
quem desejo expressar os meus agradecimentos.
Uma primeira palavra de agradecimento para a Professora Arquitecta Ana Tostões,
orientadora desta dissertação, que acompanhou com dedicação, entusiasmo e rigor o
desenvolvimento das várias fases que compuseram o presente estudo. Que tornou
possíveis tantas outras campanhas de investigação em que participámos e sem as quais o
presente trabalho não teria sido possível.
À Professora Doutora Maria João Neto, co-orientadora desta investigação, por todo o
apoio, saber, serenidade e segurança, determinação e confiança, o meu profundo
agradecimento.
Ao Arquitecto Manuel Lacerda, que ao autorizar o pedido de equiparação a bolseiro,
nos permitiu a redução parcial do horário de prestação de serviço, tornando possível a
realização deste trabalho.
São ainda credores de agradecimentos a Dra. Isabel Ribeiro e o Senhor Espiga da
Biblioteca e Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas, a Dra. Ilda Cristovão,
do já extinto Arquivo e Biblioteca do Conselho Superior de Obras Públicas, a Dra.
Elisabete Gama do Gabinete de Estudos Olisiponenses, a Dra. Ana Rigueiro do Núcleo
de Arquivo do Instituto Superior Técnico, a Dra. Alexandra Gonçalves da Divisão de
Arquivos da EP Estradas de Portugal SA, a Dra. Ana Paula Gordo e Dr. Jorge Resende
da Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian, o Dr. Licinio Fidalgo da Área
Cultural de Gestão Cemiterial da Câmara Municipal de Lisboa, a Dra. Filomena Beja e
a Engenheira Júlia Serra do Arquivo das Construções Escolares do Ministério da
Educação, o Dr. João Vieira e Dr. João Paulo Machado do Instituto de Habitação e
Reabilitação Urbana, bem como o Dr. José Alberto Seabra do Museu Nacional de Arte
Antiga.
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O País a Régua e Esquadro
À Professora Doutora Margarida Souza Lobo, à Professora Doutora Margarida Pereira e
ao Professor Vitor Manaças agradecemos a cedência de material fundamental ao nosso
estudo, agradecendo ainda a disponibilidade a amabilidade e a generosidade de partilha.
Ao Professor Doutor Hugo Beirão da Veiga e ao Arquitecto Caetano Maria Beirão da
Veiga, agradecemos o entusiasmo e carinho que depositaram neste projecto.
Ao Dr. Paulo Pereira, pela crítica exigente, as opiniões certeiras e os conselhos firmes
nos primeiros momentos de hesitação.
Aos meus colegas e amigos agradeço a forma como acreditaram, debateram, ouviram e
sobretudo acompanharam e ampararam este projecto: Ana Cristina Pais, Alexandra
Curvelo, Anísio Franco, Fernanda Xavier, João Paulo Martins, José Alberto Ribeiro,
Luísa Penalva, Marina Carvalho, Miguel Soromenho, Sílvia Viana, Susana Lobo, Rui
Afonso Santos.
Ao José Alberto Ribeiro pelo desafio de participar no primeiro curso de doutoramento
em História da Arte que abriria na Faculdade de Letras e à Deolinda Folgado por me ter
acompanhado nesta jornada.
À Alice Alves pela disponibilidade de todas as horas.
À Catarina Félix, companheira de tantas incursões arquivísticas.
À Ana Catarina Parada, pela leitura atenta e dedicada.
Ao Miguel Soromenho pela infinita disponibilidade e paciência.
Aos meus pais por tudo.
Ao Carlos, marido atento, pela crítica implacável e pela inabalável segurança.
À minha filha, porto seguro feito de sorrisos, abraços e desenhos que provam afinal, que
a escrita não é um caminho solitário.
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O País a Régua e Esquadro
Índice
Resumo ............................................................................................................................2
Abstract ............................................................................................................................3
Agradecimentos ................................................................................................................4
Índice de Figuras …………………………………………………………...…………. 8
Introdução ………………………………………………………….…………………14
Capítulo 1. Anatomia do Mito .....................................................................................24
1.1. A Face Branca do Regime .......................................................................................27
1.2. A Memória do País ..................................................................................................54
Capítulo 2. O Político na Academia ............................................................................75
2.1. Os Anos de Formação (1900-1923) .........................................................................77
2.2. A Engenharia Política ..............................................................................................95
2.3. A Construção do IST: o projecto e o concreto ......................................................124
Capítulo 3. Os Ministérios de Poder .........................................................................150
3.1. A Instrução Pública (1928): laboratório de ideias .................................................152
3.2. Obras Públicas e Comunicações (1932-1936): o plano metódico .........................172
3.3. A Câmara Municipal de Lisboa (1938): um programa de cidade .........................207
3.4. Obras Públicas e Comunicações (1938-1943): construir um país .........................233
Capítulo 4. Pensar Lisboa ……..................................................................................265
4.1. Desenho Urbano: o grau zero da obra ...................................................................266
4.1.1. O Plano da Costa do Sol .............................................................................271
4.1.2. O Plano Director de Lisboa ........................................................................287
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O País a Régua e Esquadro
4.2. Lisboa de Tejo e Mar: obras, engenho e arte na cidade-cais ……........................305
4.2.1. As Gares Marítimas .....................................................................................315
4.2.2. A Ponte sobre o Tejo ...................................................................................332
4.3. Património e Identidade: os museus e a construção da memória ..........................349
4.3.1. O Museu Nacional de Arte Antiga ..............................................................359
4.3.2. O Museu Nacional de Arte Contemporânea ...............................................380
Capítulo 5. Um Desenho de País …………………………………………………....402
4.1 O Gabinete Ministerial. Ponto de encontro de uma irmandade desavinda:
Engenheiros e Arquitectos ……………………………………………………………405
5.2. Programas à Escala Nacional ……………………………………………………418
Considerações Finais ……………………………………………………………….434
Fontes e Bibliografia ....................................................................................................438
Índice de Abreviaturas ..................................................................................................461
Índice Onomástico ........................................................................................................462
Índice Documental ........................................................................................................468
Apêndice Documental
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O País a Régua e Esquadro
Índice de Figuras
Figura 1 – Cortejo fúnebre de Duarte Pacheco.
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 2 – Cortejo fúnebre de Duarte Pacheco.
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 3 – Sessão plenária na Câmara Municipal de Lisboa a 18 de Novembro de 1943.
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 4 – O Presidente no Conselho na Assembleia Nacional, 25 de Novembro de 1943.
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 5 – Caricatura de Duarte Pacheco as propósito das reformas operadas na Câmara Municipal de
Lisboa. Francisco Valença, 1938.
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 6 – Cerimónia de inauguração do Viaduto Duarte Pacheco
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 7 – Viaduto Duarte Pacheco, placa evocativa, pormenor.
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 8 – Cerimónia de Inauguração do Estádio Nacional
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 9 – Exposição 15 Anos de Obras Públicas 1932-1947, recinto expositivo instalado no Instituto
Superior Técnico
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 10 - Exposição 15 Anos de Obras Públicas 1932-1947, recinto expositivo instalado no Instituto
Superior Técnico
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 11 – Exposição 15 Anos de Obras Públicas 1932-1947, Medalha comemorativa, Álvaro Brée,
1948.
Fonte: Biblioteca e Arquivo Histórico do Ministério das Obras Públicas
Figura 12 - Exposição 15 Anos de Obras Públicas 1932-1947, Guia da Exposição
Figura 13 – Projecto para o Monumento a Duarte Pacheco, proposta da Câmara Municipal de Lisboa
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 14 – Maquete do Monumento a Duarte Pacheco, Loulé. Projecto de Cristino da Silva, 1952-1953.
Fonte: Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian
Figura 15 – Cerimónia de inauguração do Monumento a Duarte Pacheco, Loulé
Fonte: Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian
Figura 16 - Cerimónia de inauguração do Monumento a Duarte Pacheco, Loulé
Fonte: Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian
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O País a Régua e Esquadro
Figura 17 – Cerimónia de Inauguração da Sala Duarte Pacheco no Museu Municipal de Lisboa (Palácio
da Mitra)
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 18 – Monumento a Duarte Pacheco, Lisboa.
Atelier Nuno Santos Pinheiro Arquitectos e Mestre António Duarte, 1991.
Figura 19 – Evocar Duarte Pacheco, 1993.
Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 20 – José de Azevedo Pacheco, pai de Duarte Pacheco
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 21 – Maria do Carmo Pacheco, mãe de Duarte Pacheco
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 22 – Os irmãos Pacheco
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 23 – A Resposta do Paíz, Marçal Pacheco, 1895.
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 24 – Duarte Pacheco, cerca de 1904.
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 25 – Duarte Pacheco aluno do IST
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 26 – Duarte Pacheco no Laboratório de Máquinas, IST
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 27 – Retrato de Duarte Pacheco
Fonte: Câmara Municipal de Lisboa/Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 28 – O Conselho Escolar do Instituto Superior Técnico
Fonte: Núcleo de Arquivo do IST.
Figura 29 – O Corpo Docente do Instituto Superior Técnico
Fonte: Núcleo de Arquivo do IST
Figura 30 - Instituto Superior Técnico.
Fonte: L‘Architecture d’aujourd’hui, 1934.
Figura 31 – Instituto Superior Técnico
Fonte: Revista Arquitectos, 1938.
Figura 32 – Instituto Superior Técnico, Perspectiva aérea.
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 33 – Átrio do Instituto Superior Técnico
Fonte: Revista Arquitectos, 1938.
Figura 34 – Laboratório do Instituto Superior Técnico
Fonte: Revista Arquitectos, 1938.
Figura 35 – Busto de Alfredo Bensaúde, Átrio do Pavilhão Central do IST
Figura 36 – Retrato de Brito Camacho, Sala do Conselho Escolar do IST
Figura 37 – Retrato de Duarte Pacheco, Sala do Conselho Escolar do IST
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O País a Régua e Esquadro
Figura 38 – Duarte Pacheco e o Coronel Vicente de Freiras, 1928.
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 39 – Na cerimónia em que tomou posse como Ministro das Obras Públicas e Comunicações,
1932.
Fonte: Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 40 – Na inauguração do Monumento ao Marquês de Pombal
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 41 – Cerimónia de posse de Duarte Pacheco como Presidente da Câmara Municipal de Lisboa,
1938.
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 42 – Na cerimónia em que tomou posse do cargo de Ministro das Obras Públicas e Comunicações
pela segunda vez, 1938.
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 43 - Duarte Pacheco e o Presidente da República em Monsanto, 1938. Estúdio Mário Novais,
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 44 – Cerimónia de Inauguração do Bairro da Quinta da Calçada, 1939.
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 45 – Vistoria às obras de restauro do Teatro Nacional de S. Carlos, 1939
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 46 – Visita ao Aeroporto da Portela
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 47 – Duarte Pacheco e Roberto Espregueira Mendes. Ministro e Sub-Secretário de Estados das
Obras Públicas e Comunicações, 1942
Fonte: Gazeta dos Caminhos de Ferro, nº 1273, Janeiro de 1941, página 15.
Figura 48 – Duarte Pacheco no Aeroporto da Portela, com Eduardo Rodrigues de Carvalho, 1942
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 49 – Duarte Pacheco com Óscar Carmona, Oliveira Salazar e Eduardo Rodrigues de Carvalho,
1943.
Fonte: Gabinete de Estudos Olisiponenses, Álbuns de Efemérides
Figura 50 – Duarte Pacheco com Oliveira Salazar e Eduardo Rodrigues de Carvalho, s/d.
Fonte: Gabinete de Estudos Olisiponenses, Álbuns de Efemérides
Figura 51 – Demarcação Geográfica da Área abrangida pela Costa do Sol
Figura 52 – Áreas de extensão da Região de Lisboa consideradas por Alfred Agache, 1936
Figura 53 – Estrada Marginal Lisboa Cascais
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 54 – Estrada Marginal Lisboa-Cascais
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 55 – Auto-estrada
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
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O País a Régua e Esquadro
Figura 56 – Auto-estrada
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 57 – Estádio Nacional
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 58 – Parque Florestal de Monsanto, processo de arborização
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 59 – Parque Florestal de Monsanto, panorâmica.
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 60 – Plano Director de Lisboa, 1948. Estabelecimentos de Ensino
Fonte: Gabinete de Estudos Olisiponenses.
Figura 61 – Plano Director de Lisboa, 1948. Áreas de Expansão
Fonte: Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 62 – Plano Director de Lisboa, 1948. Estrutura orgânica citadina.
Fonte: Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 63 – Plano Director de Lisboa, 1948
Fonte: Gabinete de Estudos Olisiponenses
Figura 64 – Porto de Lisboa, Cais de Alcântara, Anos 20.
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 65 – Porto de Lisboa, Cais dos Soldados, Anos 20.
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 66 – Revista Técnica, Fevereiro de 1933.
Fonte: Arquivo Fotográfico Municipal de Lisboa
Figura 67 – Proposta de Cid Perestrelo para a localização da Gare Marítima de Lisboa, in Revista
Técnica, Fevereiro de 1933, nº 72.
Figura 68 – Proposta de P. Pardal Monteiro para a Avenida de ligação entre o Cais do Sodré e a Praça do
Comércio, in CALDAS, João Vieira, P. Pardal Monteiro Arquitecto, Lisboa AAP, 1997.
Figura 69 – Gare Marítima de Alcântara. Estúdio Mário Novais, Anos 40.
Figura 70 – Gare Marítima Rocha Conde de Óbidos. Estúdio Mário Novais, Anos 40.
Figura 71 – Ponte sobre o Tejo, proposta de Miguel Correia Pais, 1879.~
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
Figura 72 – Ponte sobre o Tejo, proposta de Seirig e Bartissol, 1889
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
Figura 73 – Revista ABC, 1923. Artigo sobre as várias propostas de travessia do Tejo
Figura 74 – Proposta para a construção de um Funicular para travessia do Tejo
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
Figura 75 – Proposta para a construção de um Túnel para a travessia do Tejo
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
Figura 76 – Proposta da Firma Schneider et Cie para a travessia do Tejo, 1934.
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
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O País a Régua e Esquadro
Figura 77 – Proposta da Firma Schneider et Cie para a travessia do Tejo, 1934
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
Figura 78 – Proposta da Firma Hojgaaard & Schultz para a travessia do Tejo, 1934
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
Figura 79 – Proposta da Firma Hojgaaard & Schultz para a travessia do Tejo, 1934
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
Figura 80 – Proposta da Firma United States Steel Products para a travessia do Tejo
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
Figura 81 – Proposta da Firma United States Steel Products para a travessia do Tejo
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
Figura 82 – Proposta da Firma United States Steel Products para a travessia do Tejo
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
Figura 83 – Capa do Processo Ponte sobre o Tejo, 1934
Fonte: EP Estradas de Portugal SA, Arquivo Histórico
Figura 84 – Museu Nacional de Belas Artes, gravura
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
Figura 85 – Inauguração da Exposição de Arte Ornamental Portuguesa e Hespanhola, 1882, gravura
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
Figura 86 – Museu Nacional de Belas Artes, aspecto da Sala de Pintura Portuguesa c. 1900
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
Figura 87 – Proposta de José Luís Monteiro para o MNAA
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
Figura 88 – Excerto do programa expositivo de José de Figueiredo para o MNAA
Fonte: Arquivo do MNAA
Figura 89 – Perspectiva Norte do projecto de ampliação do Museu Nacional de Arte Antiga
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
Figura 90 – Perspectiva Sul do projecto de ampliação do Museu Nacional de Arte Antiga
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
Figura 91 – Museu Nacional de Arte Antiga, perspectiva aérea
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
Figura 92 – Museu Nacional de Arte Antiga. Distribuição de Serviços, João Couto
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
Figura 93 – Condições de instalação do Museu Nacional de Arte Contemporânea, 1938
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
Figura 94 – Projecto do Museu Nacional de Arte Contemporânea para a Praça do Império. Cristino da
Silva, 1941-1943.
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
Figura 95 – Projecto do Museu Nacional de Arte Contemporânea para a Praça do Império. Cristino da
Silva, 1941-1943.
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
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O País a Régua e Esquadro
Figura 96 – Projecto do Museu Nacional de Arte Contemporânea para a Praça do Império. Cristino da
Silva, 1941-1943.
Fonte: Arquivo Fotográfico do MNAA
Figura 97 – Logótipo da construtora Teixeira Duarte
Fonte: Guia da Exposição 15 Anos de Obras Públicas
Figura 98 – Logótipo da construtora OPCA
Fonte: Arquivo OPCA
Figura 99 – Ponte da Trofa
Fonte: Arquivo OPCA
Figura 100 – Viaduto Duarte Pacheco, postal ilustrado
Figura 101 – Obras de tapamento do caneiro de Alcântara
Fonte: Arquivo OPCA
Figura 102 – Obras de tapamento do caneiro de Alcântara
Fonte: Arquivo OPCA
Figura 103 – Avenida de Ceuta
Fonte: Arquivo OPCA
Figura 104 – Pousada de S. Brás de Alportel, Miguel Jacobetty Rosa
Fonte: Arquivo da Direcção Geral de Turismo
Figura 105 – Posada de S. Gonçalo do Marão
Fonte: Arquivo da Direcção Geral de Turismo
Figura 106 – Estrada de ligação entre Alcobaça e Aljubarrota
Fonte: Exposição 15 Anos de Obras Públicas
Figura 107 – Exemplo de estrada com sistema de protecção
Fonte: Exposição 15 Anos de Obras Públicas
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O País a Régua e Esquadro
Introdução
Em Outubro de 1925 Duarte Pacheco ingressou no corpo docente do Instituto
Superior Técnico como professor de Matemáticas Gerais e dois anos depois tomou
posse como director da mesma escola. Aos 28 anos foi Ministro da Instrução Pública e
com 32 foi Ministro das Obras Públicas e Comunicações. Com 38 anos foi Presidente
da Câmara Municipal de Lisboa. Faleceu aos 43 anos, quando contava já nove anos de
exercício do cargo de Ministro das Obras Públicas e Comunicações.
Activo entre 1925 e 1943, em dezoito anos de actividade, e no âmbito das
atribuições que lhe foram conferidas, Duarte Pacheco regulamentou, planeou e executou
medidas estruturais. De igual modo, pelo mesmo período de tempo e na sequência da
sua actividade como director do IST, Presidente de Câmara e Ministro, o país assistiu à
transformação material de uma escola, de uma cidade e de um território.
Consequentemente, a transversalidade da obra pública de Duarte Pacheco tornou-se
tema incontornável da História Portuguesa do século XX.
Na primeira edição da Arte em Portugal no século XX74 José-Augusto França
caracterizaria Duarte Pacheco como um homem de acção e poder de concretização,
considerando a construção das novas instalações do IST como fio condutor de toda a
sua actividade futura no domínio da planificação arquitectónica e urbana.
Sob o olhar da Arquitectura consignada ao desenho urbano, Ana Tostões75
analisou a acção política de Duarte Pacheco a uma escala de cidade, a de Lisboa, e
Margarida Souza Lobo76, tomando por base a medida ministerial que em 1934 decretou
a instituição do urbanismo como ponto prévio ao plano de ordenamento territorial,
analisou o universo de propostas de expansão urbana decorrentes da política pública
iniciada pelo ministro.
Na avaliação do fenómeno de restauro dos monumentos e da actuação da
Direcção Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais entre 1929 e 1960, Maria João
Neto demonstrou que a acção de Duarte Pacheco ultrapassou a vontade férrea de
74
FRANÇA, José-Augusto, A Arte em Portugal no século XX 1911-1961, Lisboa, Bertrand Editora, 1974.
75
TOSTÕES, Ana, Monsanto, Parque Eduardo VII, campo Grande. Keil do Amaral, Arquitecto dos
Espaços Verdes de Lisboa, Lisboa, Edições Salamandra, 1992.
76
LOBO, Margarida Souza, Planos de Urbanização. A Época de Duarte Pacheco, Lisboa, DGOTDU-
FAUP, 1995.
14
O País a Régua e Esquadro
controlo dos serviços estatais, revelando uma inédita preocupação de renovação dos
quadros técnicos das Obras Públicas77.
No domínio da Geografia do Território, e tomando como exemplo o Plano da
Costa do Sol, Margarida Pereira78 reconheceu no ministro o elemento decisivo e
estruturante na planificação urbana a uma escala regional e em estudos recentes,
Gonçalo Canto Moniz79 sublinhou a presença de Duarte Pacheco no Ministério da
Instrução Pública, considerando que nos escassos sete meses que o jovem ministro
tutelou a pasta da Instrução, embora não tendo conseguido implementar uma efectiva
reforma do ensino liceal, contribuiu de forma decisiva para a reforma material das
construções escolares liceais, política que retomaria anos depois no Ministério das
Obras Públicas e Comunicações.
De todas as entradas biográficas existentes sobre Duarte Pacheco, o Dicionário
Biográfico Parlamentar dirigido por Manuel Braga da Cruz e António Costa Pinto80,
reúne a informação mais completa, não só no âmbito da descrição das várias actividades
exercidas pelo político e na citação das mais conhecidas obras por ele planeadas, como
na determinação da sua filiação partidária.
No domínio das instituições, cumpre ainda assinalar que entre 1993 e 1994 a
Câmara Municipal de Lisboa e o Instituto Superior Técnico celebraram o
cinquentenário da morte de Duarte Pacheco. Prestando tributo àquele que através da sua
acção política transformou a Lisboa herdada de oitocentos numa Lisboa moderna e
elevou uma escola de engenharia técnica ainda embrionária, ao estatuto de uma das
mais conceituadas escolas do país, a evocação da efeméride reflecte a posição de
reconhecimento destas duas instituições públicas face à obra do político. Estruturada em
dois módulos, uma exposição e um catálogo, a iniciativa da Câmara Municipal de
Lisboa evocaria a obra de Duarte Pacheco na cidade de Lisboa81. Das homenagens
prestadas pelo IST resultaria um número especial da revista Técnica, inteiramente
77
NETO, Maria João, Memória Propaganda e Poder. O Restauro dos Monumentos Nacionais (1929-
1960), Porto, FAUP, 2001.
78
PEREIRA, Margarida, O Processo de Decisão na Política Urbana. O Exemplo da Costa do Sol,
Lisboa, dissertação de doutoramento apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa, 1994.
79
MONIZ, Gonçalo Canto, Arquitectura e Instrução. O Projecto moderno do Liceu 1836-1936, Coimbra,
Edições do Departamento de Arquitectura da FCTUC, 2007.
80
POLICARPO, Verónica, “Duarte José Pacheco”, in Dicionário Biográfico Parlamentar (1935-1974),
direcção de Manuel Braga da Cruz e António Costa Pinto, Lisboa, Colecção Parlamento, 2005, pp.284-
289.
81
Catálogo da Exposição Evocar Duarte Pacheco no Cinquentenário da Sua Morte (1943-1993), Lisboa,
Câmara Municipal de Lisboa, 1993.
15
O País a Régua e Esquadro
dedicado à acção do ministro, com compreensivo e justificado enfoque para a renovação
material do Instituto82.
Na obra Momentos de Inovação e Engenharia em Portugal no Século XX83, a
transversalidade da obra pública e da acção política de Duarte Pacheco, seria também
referenciada por diversos autores, mas até à data, o estudo de Margarida Acciaiuoli
permaneceria como o mais aprofundado. A autora, que já em 1982, no catálogo da
exposição Os Anos 40 na Arte Portuguesa, trabalhara a obra de Duarte Pacheco, em
1991, na sua dissertação de doutoramento, analisaria o tema em maior detalhe84.
Margarida Acciaiuoli concluiria que a actividade de Duarte Pacheco se traduziu em
urbanidade, melhoramentos, programas e tipologias. Mas a propósito da ascensão
meteórica do jovem e desconhecido professor do Técnico que se lançou na empresa de
construção das novas instalações do Instituto, a autora colocaria a questão: como foi
possível? E esta questão foi o ponto de partida da presente dissertação.
Da acção política de Duarte Pacheco resultou um enorme edifício que compõe
uma obra vasta em número e em alcance. A mesma obra que, na sequência de uma
morte brutal e prematura, o regime político tornou mito.
Partimos para este estudo com uma certeza apenas: não foi nunca nosso
objectivo realizar uma biografia de Duarte Pacheco. Moveu-nos uma convicção:
características como a inteligência, o raciocínio rápido e matemático ou a invulgar
capacidade de trabalho de Duarte Pacheco e que a máquina do Estado Novo foi hábil
em transformar num de ícone de regime, não explicariam a obra, apenas a glorificaram
num jogo de propaganda. Posturas inversas que, na inversão do dicionário político,
reduziram a obra de Duarte Pacheco ao testemunho petrificado da aplicação de um
braço forte da lei, não compreenderam a profundidade, o alcance e sobretudo a
actualidade da sua acção política.
Os dois pressupostos que presidiram a este trabalho determinam uma estrutura
de dissertação desenvolvida em cinco capítulos, balizando o âmbito do estudo numa
cronologia que se inicia com a vida pública do político em 1925, não terminando em
1943, data do seu falecimento, mas estendendo-se até 1963, data da criação do Gabinete
82
Revista Técnica, revista da Associação de Estudantes do Instituto Superior Técnico, nº 2/94 de
Setembro de 1994.
83
Momentos de Inovação e Engenharia em Portugal no século XX, Lisboa, coordenação de Manuel
Heitor, José Maria Brandão de Brito e Fernanda Rollo, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2004.
84
BRITO, Margarida Acciaiuoli de, Os Anos 40 em Portugal. O País, O Regime e as Artes
“Restauração” e “Celebração”, dissertação de doutoramento em História da Arte apresentada à
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1991.
16
O País a Régua e Esquadro
de Estudos de Urbanização Duarte Pacheco. Importa contudo esclarecer que os cinco
corpos capitulares que compõem a presente dissertação não seguem uma linha
cronológica linear. Activo publicamente entre 1925 e 1943, Duarte Pacheco foi
professor e director do Instituto Superior Técnico por onze anos, os mesmos anos em
que desempenhou por duas vezes cargos ministeriais. De igual modo, quando em 1938
cessou no cargo de direcção do IST, presidiu à Câmara Municipal de Lisboa por
escassos meses para seguidamente retomar um cargo ministerial. Este trajecto político
pautado pela permanência e alternância entre vários gabinetes obrigou-nos a analisar a
sua actividade, método de trabalho e produção efectiva de obra numa sequência de
pastas e tutelas e não tanto numa óbvia sequência temporal.
Neste sentido, considerámos importante que no primeiro capítulo da dissertação
se compreendesse a forma como o Estado Novo trabalhou a imagem de Duarte Pacheco,
considerando igualmente necessário referir os contributos da produção histórica dos
últimos trinta e cinco anos para a clarificação da obra do político. Na prossecução dos
nossos objectivos, procedemos à recolha e análise do teor de notícias produzido nos
periódicos de maior tiragem, considerando como ponto de partida o momento da morte
do ministro. Sequentemente procedemos à análise das iniciativas realizadas em
memória do político. Do estudo deste trilho traçado pelo tempo, e num espaço de vinte
anos, desde a data de desaparecimento de Duarte Pacheco à criação de um serviço de
urbanismo com o seu nome, assistimos a três fases de atitude do regime face ao político:
a morte celebrada como perda nacional, a figura tornada mito, e a sequente diluição da
mesma numa efeméride.
Derrubado o Estado Novo, o desmoronamento do sistema político criou uma
compreensível nuvem de opacidade que se traduziu na produção de ensaios imbuídos de
uma arrogância fatal, maniqueísta e redutora que o crivo da História85 se encarregaria de
relegar para o plano das opinião política, surgindo, como atrás dissemos, uma primeira
análise da obra de Duarte Pacheco pelo maduro olhar de José-Augusto França.
Considerando-se a construção das novas instalações do IST como a primeira e
decisiva obra de Duarte Pacheco, julgámos necessário que no segundo capítulo do
presente estudo se colocassem questões e se aprofundasse conhecimento sobre esta
empresa do político. O facto de um jovem de 27 anos de idade, sem produção
85
HAYEK, F.A., The Road to Serfdom, London and New York, Routlegde Classics, first published in
1944.
17
O País a Régua e Esquadro
académica ou científica, ser eleito pelos seus decanos pares, director de uma escola e
dirigir o processo de construção da mesma, obtendo verbas e terrenos com uma
facilidade quase seráfica, fez-nos investigar mais fundo e obter no inédito do Núcleo de
Arquivo do IST algumas das respostas para as nossas questões.
Neste sentido, se a consulta de documentação como as Actas do Conselho
Escolar do Técnico ou os Copiadores de correspondência, nos permitiu identificar uma
malha de relações internas e externas, permitiu-nos também identificar o corpo
científico que sustentou a eficiência desta escola de engenheiros, elencar os temas
levados a debate, saber da importância e da relatividade de cada um deles, das opções
tomadas, bem como das linhas de rumo seguidas ao longo de trinta anos de percurso.
No que confere ao período de presença de Duarte Pacheco no Técnico como aluno,
professor e director, a informação recolhida no material inédito presente no Núcleo de
Arquivo do IST permitiu-nos identificar e analisar o singular ingresso de Duarte
Pacheco no quadro docente do IST, a razão pela qual o Conselho Escolar confia a este
engenheiro a direcção das obras das novas instalações do instituto e por inerência a
direcção da própria escola. De igual modo, a informação recolhida nesta mesma
documentação inédita, permitiu-nos compreender a forma de actuação do político.
Seguidamente, sendo conhecidas e estando enumeradas as obras produzidas sob
responsabilidade política de Duarte Pacheco, mais do que situá-las estética ou
formalmente, julgámos importante contextualizá-las na malha do tempo e compreender
a sua génese no método e plano de trabalho do político. Deste modo, o terceiro capítulo
da dissertação analisa as circunstâncias em que a sua acção promoveu e deu origem a
uma obra coesa porque planificada em método e metas. Na realização destes objectivos
considerámos importante o levantamento e análise da documentação produzida por
Duarte Pacheco no âmbito das várias funções desempenhadas. Deste modo, de
despachos ministeriais a decretos, da orgânica de serviços, à composição e identificação
dos quadros técnicos decisores que constituíram o núcleo duro de colaboradores, a
análise da documentação produzida no Ministério da Instrução Pública, na Câmara
Municipal de Lisboa e no Ministério das Obras Públicas e Comunicações, permitiu-nos
identificar o tempo e modo de Duarte Pacheco em três gabinetes distintos e autónomos,
porém coesos na forma como o político encarou a obra pública. Neste sentido, a análise
da documentação consultada no Arquivo Histórico do Ministério da Educação, no
Arquivo e Biblioteca do Ministério das Obras Públicas, no extinto Arquivo do Conselho
Superior de Obras Públicas, bem como nos Arquivos Históricos e Intermédios da
18
O País a Régua e Esquadro
Câmara Municipal de Lisboa, permitiu-nos identificar na actuação política de Duarte
Pacheco uma invulgar coerência de método. Socorrendo-nos das palavras do político,
num plano de coordenação, unidade e eficiência, e em gabinetes de trabalho como o da
Instrução, do Município ou das Obras Públicas e Comunicações, Duarte Pacheco
revelou profunda preocupação na formação dos cidadãos, na vivência dos mesmos de
forma planeada e equipada numa cidade, visando como objectivo último a
funcionalidade orgânica de um país.
Consignados à nossa área de formação académica e de actividade profissional,
dirigimos o presente estudo para a análise de três temas que integram a obra pública de
Duarte Pacheco: o Urbanismo, a Arquitectura e a Memória Patrimonial, uma vez mais
não considerados numa classificação formal, mas num valor estrutural alheio a rótulos
estéticos ou políticos, porque impregnado de profunda actualidade. Neste sentido, e
buscando nestes três vectores da obra pública de Duarte Pacheco o sentido transversal
que o mesmo imprimiu aos projectos exarados do seu gabinete, decidimos a sua análise
em seis estudos de caso. No domínio da urbanidade, regra base de ocupação e
ordenamento de território, estudámos a articulação entre o Plano da Costa do Sol e o
Plano Director da cidade de Lisboa. No domínio dos equipamentos e num momento em
que paquetes de grande calado voltaram ao Tejo e para o mesmo rio se adivinha a
construção de uma terceira ponte no local determinado Duarte Pacheco em 1934,
recuperámos o processo construtivo das gares marítimas e projecto de uma ponte que o
regime não quis erguer. De igual modo, no momento em que muitas atenções se
centram de novo na Praça do Império existindo até um projecto que promete
«redescobrir Belém», julgámos pertinente trazer à luz das considerações patrimoniais a
preocupação de Duarte Pacheco na planificação de equipamentos culturais como os
museus. Neste sentido, em contraponto mas sem confronto, recuperámos o processo de
obra de ampliação do Museu Nacional de Arte Antiga e o projecto que visou a
construção de um Museu Nacional de Arte Contemporânea.
Sendo nosso objectivo clarificar o processo de concepção e concretização do
programa de obras coordenado por Duarte Pacheco, julgámos importante considerar
documentação paralela aos projectos de obra que compuseram os estudos de caso. Neste
sentido, tanto os processos de obra como a documentação administrativa coeva revelar-
se-iam de extrema importância para a compreensão de duas realidades distintas: o
projecto e o concreto. Na sequência do levantamento e análise de documentação como
os Pareceres dos Conselhos Superiores de Obras Públicas e de Belas Artes relativos ao
19
O País a Régua e Esquadro
projecto das Gares Marítimas ou à ampliação do Museu de Arte Antiga, os Estudos e
Relatórios das Comissões da Ponte sobre o Tejo, ou a documentação administrativa
produzida por directores de museu como José de Figueiredo e João Couto, permitiram-
nos um maior entendimento acerca da memória processual que compõe a construção das
obras públicas.
O quinto e último capítulo, fechando os temas e os factos trabalhados ao longo
da dissertação abre espaço de análise à composição e ao método de trabalho das equipas
de colaboradores que constituíram o gabinete ministerial de Duarte Pacheco. De igual
modo, apresentam-se de forma breve algumas obras que, embora geograficamente
distantes, testemunham a preocupação do político em concretizar um plano de obras
estruturais a uma escala nacional.
Considerando as Obras Públicas como testemunhos de engenho e arte, como
monumentos que pontuam as ruas das vilas e cidades do país, foi nosso intento trazer à
luz da História da Arte, da Arquitectura e do Urbanismo, a memória processual da obra
pública de Duarte Pacheco. O trabalho de arquivo realizado permitiu-nos reunir um
volume considerável de material inédito que possibilitou uma análise inovadora da
questão que de início nos moveu. Em dezoito anos Duarte Pacheco tornou possível a
construção de um programa de obras infra-estruturais porque a par do braço forte da lei
que permitiu a blindagem legal da sua acção política, ousou pensar além do
politicamente pedido. A ousadia custar-lhe-ia o sacrifício de um mandato ministerial,
mas o seu eficaz método de trabalho asseguraria o seu regresso ao palco da política
activa. Munido de uma equipa pluridisciplinar que com ele concebeu e concretizou um
plano de obra à escala nacional e com um profundo olhar perspectivado no futuro, em
dezoito anos Duarte Pacheco desenhou a construção de um país a régua e esquadro.
20
O País a Régua e Esquadro
Capítulo 1
Anatomia do Mito
21
O País a Régua e Esquadro
Capítulo 1. Anatomia do Mito
Duarte Pacheco nasceu em Loulé no dia 19 de Abril. Atesta o assento de
baptismo que terá nascido no ano de 1899. Afirmava o político que nascera em 1900 e
que o pároco, por engano, lhe atribuíra mais um ano de vida.
Quarto filho varão de José Azevedo Pacheco e de Maria do Carmo Pacheco, teve
três irmãos e sete irmãs. Órfão de mãe aos seis anos de idade e de pai aos catorze anos,
frequentou o ensino em Loulé até ao terceiro ano do liceu. No ano lectivo de 1916/17
transitaria para o Liceu de Faro, concluindo o 7º ano com 17 valores.
Matriculado no Instituto Superior Técnico em Lisboa no ano lectivo de
1917/1918, nas disciplinas de Engenharia Geral, concluiria o curso de Engenharia
Electrotécnica e Máquinas no ano lectivo de 1922/23.
Professor interino do IST para a disciplina de Matemáticas Gerais em 1925,
passaria a professor efectivo em 1926. No mesmo ano seria nomeado director interino
do IST e em 1927 director efectivo da mesma escola.
De 19 de Abril a 10 de Novembro de 1928 desempenhou o cargo de Ministro da
Instrução Pública, regressando à direcção do IST ainda em Novembro do mesmo ano,
cargo em que se manterá até 5 de Julho de 1932, data em que é nomeado Ministro do
Comércio e Comunicações. A 7 de Julho de 1932 o mesmo Ministério, como
atribuições reforçadas passa a denominar-se de Ministério das Obras Públicas e
Comunicações. Na remodelação ministerial de 18 de Janeiro de 1936 o seu nome é
preterido e regressa à direcção do IST até 31 de Dezembro de 1937. No dia 1 de Janeiro
de 1938 toma posse como Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, cargo de que
abdica a 25 de Maio do mesmo ano por impossibilidade de acumulação de cargos
públicos: a partir desta data Duarte Pacheco integra de novo o corpo governamental
como Ministro das Obras Públicas e Comunicações.
No desempenho dos cargos públicos que lhe foram confiados, foi distinguido
com a Grã Cruz da Ordem Militar de Cristo a 29 de Junho de 1933 e com a Grã Cruz da
Ordem de Santiago de Espada a 9 de Dezembro de 1940. A 9 de Junho de 1941 foi
homenageado pelos Municípios do país, como forma de agradecimento pela pronta
resposta como reagiu aos prejuízos causados pelo ciclone que assolou o país a 15 de
Fevereiro desse mesmo ano.
22
O País a Régua e Esquadro
A 16 de Novembro de 1943 morreria no Hospital de Setúbal, vítima dos graves
ferimentos causados pelo acidente de viação sofrido cerca de Vendas Novas, quando
regressava a Lisboa, depois de mais uma vistoria a uma das obras em curso.
Do extenso quadro de nomes que integraram o governo de Oliveira Salazar,
Duarte Pacheco é, seguramente, o mais conhecido dos seus ministros. Na história do
século XX português, este político surge como figura referencial de Ministro das Obras
Públicas. Na História de Portugal, o seu nome integra um quadro de referência maior:
um estatuto só alcançado pelos poucos que marcam a história de um país.
A vida de Duarte Pacheco foi curta: 43 anos, 7 meses e 7 dias. Em 23 anos fez-
se homem e engenheiro. Os 20 anos seguintes passá-los-ia a fazer o que melhor sabia:
política. Em 20 anos de causa pública reformou, legislou, programou e construiu. Nesse
mesmo espaço de tempo angariou admiradores e adversários. A sua presença não era
discreta e a sua forma de fazer política não era consensual.
Empregou mão-de-obra barata para erguer as infra-estruturas que o país não
tinha. E porque o país não tinha recursos, escudado no braço forte da lei, expropriou ou
desvalorizou propriedades, esventrando quintas e demolindo imóveis, para encurtar
espaço no rasgar de uma estrada, ou para definir o perímetro de salvaguarda de um
monumento.
A classe política estremecia à exposição das suas ideias, e o governo oscilava
entre o temor do embaraço e a certeza da obra feita.
Vítima de acidente de viação aos 43 anos de idade, legava ao país uma
impressionante obra mas com ela um enorme vazio. E dentro desse vazio nascia o mito:
um mito construído, encenado e alimentado pelo regime: a elegia de um homem que
votara a sua vida à causa pública e que morrera ao serviço da Nação.
Mais de sessenta anos volvidos sobre a morte de Duarte Pacheco, o carisma do
ministro permanece, permanecendo também a dualidade de opiniões. Não se questiona a
capacidade de trabalho, a necessidade ou a qualidade da obra construída, questiona-se
muitas vezes sobre o modus operandi do ministro e o regime político que ele integrou.
Com a queda do Estado Novo desmoronou-se um sistema político e com ele
muitas instituições e reputações. A Ponte Salazar mudou de nome, o Viaduto Duarte
Pacheco manteve-se.
Pelo país existem avenidas, ruas, escolas e edifícios Duarte Pacheco porque as
figuras incontornáveis da história são aquelas que habitam o nosso quotidiano.
23
O País a Régua e Esquadro
1.1. A Face Branca do Regime
“Às 13 e 25 o féretro entrava no Mausoléu dos Beneméritos da
Cidade. Não houve discursos. Estava terminada a cerimónia.
E aqueles milhares e milhares de pessoas, de representação ou
simples admiradores, retiraram-se dentro do mesmo ambiente
de luto e de saudade.”
In Diário de Lisboa, 17 de Novembro de 1943.
Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas e Comunicações, faleceu no
Hospital de Setúbal, na madrugada do dia 16 de Novembro de 1943. Causa da morte:
esmagamento da perna direita e colapso circulatório86.
Na manhã do dia 15 de Novembro, o ministro saíra de Lisboa com destino a Vila
Viçosa, com o objectivo de vistoriar os trabalhos finais do Monumento a D. João IV que
tinha data de inauguração marcada para dia 8 de Dezembro. A pressa não movia o
ministro, movia-o a insistência. Inscrito no calendário das Comemorações dos
Centenários, o Monumento a D. João IV deveria ter sido inaugurado em 1940, mas por
vicissitudes várias a obra arrastara-se no tempo87. Duarte Pacheco deslocou-se a Vila
Viçosa com uma equipa de 5 colaboradores: Joaquim Marques, chauffeur do ministro
há 9 anos, João Venâncio correio de ministros, e os engenheiros Jorge Gomes de
Amorim, João Barbosa Carmona e Raul Mesquita de Lima.
Terminada a sessão de trabalho no paço ducal, a equipa regressava de imediato a
Lisboa: na agenda do ministro o expediente encerrava com uma reunião do Conselho de
86
A causa clínica da morte de Duarte Pacheco está descrita no Livro de Assento de defuntos do Cemitério
do Alto de São João, Livro de Registo Nº 4356, de 17 de Novembro de 1943, Nº de Guia 505, Freguesia
de Santa Isabel;” Nome Duarte José Pacheco ou Duarte Pacheco, com local de sepultura no Mausoléu dos
Beneméritos da Cidade, por Ordem de Serviço Nº 59 da Câmara Municipal de Lisboa em 16 de
Novembro de 1943.”
87
Sobre a cronologia da obra do Monumento a D. João IV no Paço Ducal de Vila Viçosa VIDE SAIAL,
Joaquim, Estatuária Pública Portuguesa. Os Anos 30 (1926-1940), Lisboa, Bertrand Editora, 1991, pp.
171-179.
24
O País a Régua e Esquadro
Ministros. A viagem de regresso nunca se concluiu e o conselho ministerial não teve
lugar.
Na Cova do Lagarto, ao Km 65 da Estrada Nacional nº 4 que liga Montemor-o-
Novo a Vendas Novas, cerca das 17h30 ocorreu um despiste. O carro do ministro
embateu violentamente contra uma árvore e caputou. Dos seis ocupantes da viatura,
quatro sofreram ferimentos ligeiros, Amorim teve morte imediata e o ministro
aparentava um grave ferimento na perna direita. Assistido pelo capitão-médico
Jerónimo Carlos da Silveira que acorreu ao local numa ambulância cedida pelos
Serviços de Saúde da Escola Prática de Artilharia de Vendas Novas, foi depois
evacuado para o Hospital de Setúbal, e aí foi assistido pela equipa médica residente. A
esta equipa se juntou pelas 23h30 o Dr. Trigo de Negreiros que acompanhava a Setúbal
o Presidente do Conselho e o Ministro do Interior. A hipótese de amputação da perna
não poderia salvar o ministro: a violência do embate no momento do acidente provocara
graves hemorragias internas. Duarte Pacheco viria a falecer na madrugada de dia 16.
O governo decretou funerais nacionais com todas as honras militares88. O corpo
do ministro chegou a Cacilhas em ambulância cerca das 7h00, atravessou o Tejo num
cacilheiro que atracou ao Cais do Sodré às 8h05 e daí seguiu para o Salão Nobre dos
Paços do Concelho, onde ficou em câmara ardente até às 11h00 do dia seguinte.
No dia 16 desceu um vazio sobre o país: o Rádio Clube Português cancelou a
emissão, as bandeiras dos serviços públicos, dos municípios, das universidades e dos
institutos desceram a meia haste e no dia 17, dia das exéquias, Lisboa saiu à rua em
silêncio e vestida de negro. As direcções da União de Grémios de Lojistas de Lisboa e
dos Grémios Concelhios de Comerciantes de todos os géneros, bens e serviços, fizeram
um convite a todos os associados para que se encerrassem as portas89.
No Salão Nobre da cidade, pelas 10h00 da manhã, o arcebispo de Mitilene,
acolitado pelo reverendo padre Ramalho, celebrou missa de corpo presente que foi
acompanhada pela Orquestra Sinfónica da Emissora Nacional, sob direcção do maestro
Pedro de Freitas Branco.
88
“Tendo falecido, por desastre, em serviço do seu cargo, o ministro das Obras Públicas, engenheiro
Duarte Pacheco; sendo de justiça dar testemunho ao reconhecimento nacional pela obra realizada sob o
seu impulso e a sua direcção; Usando da faculdade conferida pela segunda parte do nº 2 do artigo 109º da
Constituição, o Governo decreta e eu promulgo, para valer como lei, o seguinte: artigo único – os funerais
do engenheiro Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas e Comunicações, serão feitos pelo Estado,
devendo ser prestadas honras militares. Publique-se e cumpra-se como nele se contém, Paços do Governo
em 16 de Novembro de 1943”, in Diário do Governo, I Série, Suplemento, Decreto-Lei nº 33.240.
Paços do Governo da República, 16 de Novembro de 1943.
89
Cfr. Diário de Lisboa, 16 de Novembro de 1943.
25
O País a Régua e Esquadro
Na estrita regra protocolar, ao lado do Evangelho, tomaram lugar Oliveira
Salazar, presidente do Conselho, José Alberto dos Reis, presidente da Assembleia
Nacional, os ministros e subsecretários de estado. Do lado da Epístola, em
representação do Cardeal Patriarca, esteve presente o cónego Carneiro Mesquita.
Eduardo Rodrigues de Carvalho encabeçava a representação da Câmara Municipal de
Lisboa, eram ainda presentes Couto dos Santos, director-geral dos CTT, Fezas Vital, 1º
vice-presidente da Câmara Corporativa em representação do General Eduardo Marques,
todos os governadores civis do país, presidentes das Câmaras Municipais, os familiares
de Duarte Pacheco e de Jorge Gomes de Amorim. O general Amilcar Mota, em
representação do Presidente da República, surgiu pouco depois das 11h00.
Terminada a homilia, seguiu-se o cortejo fúnebre com traçado definido pela
equipa composta por Henrique Viana, director do protocolo, o Coronel Esmeraldo de
Carvalhais, chefe de protocolo do Ministério da Guerra e o capitão Maia de Loureiro,
representante da Polícia de Segurança.
Precedido por um grupo de esquadrões de cavalaria e escoltado por esquadrões
de infantaria da Guarda Nacional Republicana, o féretro abandonou os Paços do
Concelho, seguiu à Praça do Comércio, Rua do Ouro, Rossio, Martim Moniz, Almirante
Reis, Praça do Chile, Morais Soares e Cemitério do Alto do S. João, tendo os restos
mortais do ministro sido depositados no Mausoléu dos Beneméritos da Cidade de
Lisboa. Ficou definido no protocolo, que não haveria lugar a turnos ou discursos,
apenas missa de encomendação na capela.
Duarte Pacheco extinguira-se fisicamente. Mas não mais que isso. Nunca o
ministro fora discreto ou consensual. O governo acabara de perder o Ministro das Obras
Públicas. Um homem solteiro, sem herdeiros directos e um ministro sem herdeiros
políticos90.
Na semana sequente à morte do ministro os jornais agitaram-se na publicação de
textos com vincado elogio fúnebre91. Em uníssono relatam a precoce orfandade de
Duarte Pacheco na cidade onde nasceu, Loulé; exaltam o brilhante percurso e distinção
obtida no Liceu de Faro; clamam a ascensão meteórica no Instituto Superior Técnico,
90
No dia 18 de Novembro o Diário do Governo decretava a nomeação interina de Duarte João Pinto da
Costa Leite como Ministro das Obras Públicas e Comunicações. Só na remodelação ministerial de 6 de
Setembro de 1944 surgiria a nomeação definitiva de Augusto Cancela de Abreu como Ministro das Obras
Públicas e Comunicações.
91
Cfr. O Século, “Esboço Biográfico”, 16.11.1943; Idem, “O último sonho de Duarte Pacheco”
17.11.1943; Ibidem, “O Duro Ofício de Governar”, 22.11.1943. Cfr. Jornal de Notícias “Ao serviço da
Nação”, 19.11.1943; Cfr. Diário de Notícias “O último adeus a Lisboa”, 20.11.1943.
26
O País a Régua e Esquadro
onde de aluno caloiro a director não mediou 10 anos. Quanto ao enorme edifício que
compõe a sua acção política, os mesmos jornais são unânimes na classificação da
actividade ministerial: plano grandioso, pensamento e acção, cultura disciplinada,
capacidade de trabalho, são apenas algumas das palavras-chave.
No dia 18 de Novembro, em sessão da Câmara Municipal de Lisboa, Eduardo
Rodrigues de Carvalho protagoniza o primeiro discurso institucional sobre o falecido
ministro92. Presidente substituto da Câmara Municipal de Lisboa desde 1938, altura em
que Duarte Pacheco renuncia ao cargo por incompatibilidade de acumulação com a
pasta das Obras Públicas, conhecedor do trabalho e do método do ministro, seu
colaborador desde os tempos de trabalhos preparatórios ao projecto das Gares
Marítimas, Rodrigues de Carvalho foi seguramente um dos homens de confiança do
político.
No discurso proferido, Rodrigues de Carvalho enaltece a obra operada por
Duarte Pacheco na cidade de Lisboa, relembrando o impulso inédito promovido pela
construção das novas instalações do IST. Relembra obras como a requalificação no
abastecimento de água à cidade e sublinha ainda a boa relação município-ministério
face à iniciativa do ministro em promover a elaboração do tão necessário plano de
urbanização e extensão da cidade.
Em reconhecimento dos melhoramentos operados pelo ministro, Rodrigues de Carvalho
lança quatro propostas: que a título póstumo lhe seja concedida a medalha de ouro da
cidade e o nome aposto na lista de beneméritos; que seja dado o seu nome a uma das
principais artérias da cidade sendo que essa artéria esteja relacionada com a sua obra;
que se proceda ao estudo e realização de um mausoléu funerário e que se proceda ao
estudo da forma e local onde se perpetue o reconhecimento municipal pela obra
ministerial93.
A proposta lançada por Rodrigues de Carvalho dará início a um debate velado
acerca da edificação de um monumento em memória de Duarte Pacheco, situação que
perdurará até 195294.
92
A Exposição de Eduardo Rodrigues de Carvalho estender-se-ia ainda pela sessão camarária de 25 de
Novembro.
93
CARVALHO, Eduardo Rodrigues de, “A Obra do Engenheiro Duarte Pacheco no Município de
Lisboa”, in Boletim do Comissariado do Desemprego, Lisboa, Imprensa Nacional, 1934-1974, Boletim
de 1943, pp. 89-105.
94
Questão que desenvolveremos posteriormente.
Cfr. CML, Actas das Sessões da Câmara Municipal, Actas Nº 74 e 75, sessões da CML realizadas nos
dias 18 e 25 de Novembro e dias 9, 18, 27 e 30 de Dezembro de 1943.
27
O País a Régua e Esquadro
De todos os discursos e textos produzidos sobre Duarte Pacheco, o discurso
proferido por Rodrigues de Carvalho é o único que arrisca classificar o afastamento do
ministro da pasta das Obras Públicas de 1936 a 1938, como injusto e fruto de pressões
políticas:
“Precisamente no final desta sua primeira estadia na Pasta das Obras
Públicas ainda coube ao engenheiro (...) a ingrata missão de remodelar
e organizar os serviços do Ministério dentro dos princípios
orientadores do decreto-base da orgânica dos Serviços de Estado (...)
Nessa ocasião, que ror de injustiças, de despeitos e verrinices se
amontoaram para o tomar como alvo! (...) Terminaram por vencer
apesar de tudo aqueles a que os excepcionais dotes do engenheiro
faziam sombra e deu-se o que era fatal: o Ministro passou novamente
a ser simplesmente, o engenheiro” (...)95
O Presidente substituto da CML afirma ainda que no tempo que mediou entre o
afastamento e o retorno de Duarte Pacheco à cena política, os projectos e obras que
deixara em curso no gabinete das Obras Públicas, pouca ou nenhuma evolução tiveram:
“Ao entrar na Câmara, em 1938, o engenheiro Duarte Pacheco
encontrou praticamente no mesmo pé em que os havia deixado ao sair
do Ministério, dois anos antes, os problemas do Parque Florestal, do
Aeroporto, das saídas da cidade, e da mudança da fábrica de gás para
a Matinha.”96
Com esta afirmação Rodrigues de Carvalho deixava bem claro que os projectos
para Lisboa que implicavam uma parceria, um diálogo MOPC-CML, não tiveram
sequência por parte do ministro que ocupou a pasta das Obras Públicas entre 1936 e
1938: Joaquim José de Andrade e Silva Abranches.
Nos inúmeros discursos e textos que se seguem não voltaremos a encontrar uma
posição tão clara e definida como a de Eduardo Rodrigues de Carvalho.
Cfr. ELIAS, Helena Catarina da Silva Lebre, Arte Pública e Instituições do Estado Novo – Arte Pública
das Administrações Central e Local do Estado Novo em Lisboa: Sistemas de Encomenda da CML e do
MOPC/MOP (1938-1960), Barcelona, dissertação de mestrado apresentada ao Departamento de Escultura
da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Barcelona, 2006, pp. 320-322.
95
CARVALHO, Eduardo Rodrigues de, Op. Cit., pág. 94.
96
IDEM, Op. Cit., pág. 100.
28
O País a Régua e Esquadro
A 25 de Novembro, a 2ª sessão legislativa da III Legislatura da Assembleia
Nacional foi consagrada à memória do falecido ministro. Proferiram discurso o
Presidente da Assembleia, o Presidente do Conselho e os deputados Sebastião Ramires,
Melo Machado, Quirino Mealha e Albino dos Reis.
Num discurso breve e linear, o Presidente da Assembleia Nacional enuncia as
características mais evidentes de Duarte Pacheco: personalidade forte e rica, capacidade
de trabalho, espírito de iniciativa, agudeza mental, poder de realização e força de
vontade. Equipara a morte do ministro a proporções de uma verdadeira perda
nacional97.
O discurso do Presidente do Conselho, muito breve, como o próprio reconhece,
abre o espaço político necessário à instrumentalização da memória do falecido ministro:
um ministro com impulso de dinamismo, intensa felicidade de criar, poder de resolução
e vontade de aço. Um engenheiro que detestava as improvisações, que adiava os
problemas até ao seu estudo exaustivo mas definitivamente resolvido. Um ministro
desinteressado até à renúncia, resignado ante a incompreensão, mas confiante no
sentimento de gratidão do povo. Um ministro que podia ter morrido na função,
envelhecido precocemente , mas que em lugar disso, morreu ao serviço dela, vítima
dela. Um homem público que tomava a peito servir o interesse de todos98.
No início do discurso, Salazar remetia para um outro momento aquelas palavras
de louvor e de justiça para dizer um dia. Demoraria dez anos para voltar a proferir
palavras em memória de Duarte Pacheco.
Findo o discurso do Presidente do Conselho, ouviram-se ainda na Assembleia
Nacional mais quatro intervenções. Sebastião Ramires repete e sublinha as qualidades
do ministro e acrescenta mais uma figura de retórica: morreu no seu posto, como
soldado ferido em pleno campo de batalha99.
O deputado Melo Machado, relembra que muitas vezes na Assembleia criticou
diversos actos do ministro, não estando arrependido das ligeiras observações que fez à
sua obra, pois as fez com intenção de colaborar e não de ferir. Aponta as obras do
ministro como o desejo de construir perfeitamente, e lança ao hemiciclo a proposta de
97
Cfr. “Uma Sessão na Assembleia Nacional: O Discurso do Presidente da Assembleia Nacional” in
Boletim do Comissariado do Desemprego, Lisboa, Imprensa Nacional, 1934-1974, Boletim de 1943, pp.
78-79.
98
SALAZAR, António Oliveira, “Na Morte de Duarte Pacheco”, in Discursos e Notas Políticas, vol. IV,
1943-1950, Coimbra, Coimbra Editora Lda., 1951, pp. 23-27.
99
Cfr. “Uma Sessão na Assembleia Nacional: O Discurso do Deputado da Nação Sr. Sebastião Ramires”
in Boletim do Comissariado do Desemprego, Lisboa, Imprensa Nacional, 1934-1974, Boletim de 1943,
pp. 81-83.
29
O País a Régua e Esquadro
compensação monetária aos familiares dependentes de Jorge Gomes de Amorim e do
ministro. Amorim deixara família numerosa e Duarte Pacheco morrera pobre100.
O deputado Quirino Mealha sublinha que continuar a sua obra é o dever de
consagração nacional da sua imortalidade101 e José Albino dos Reis acrescenta que a
obra de Duarte Pacheco foi verdadeiramente extraordinária e não houve aldeia onde
ele não deixasse o seu dedo de gigante102.
No dia 20 de Dezembro, pouco mais de um mês após a morte do político, na
abertura da sessão plenária do Conselho Superior de Obras Públicas, sessão a que
presidiu o ministro interino Costa Leite, o presidente do douto conselho, António
Vicente Ferreira, proferia o último discurso do ano e o último dos elogios fúnebres.
Para o presidente do CSOP, aquele que havia sido seu aluno, colega, director no
IST e seu amigo era um homem raro. No discurso de Vicente Ferreira surge um novo,
ténue, mas decisivo pormenor: Duarte Pacheco é o executor de um plano maior, traçado
por mão mestra: nas palavras do presidente do CSOP, o falecido ministro era o
colaborador ideal que Oliveira Salazar encontrara para a execução do seu plano de
obras públicas103.
Os números de Dezembro de 1943 das revistas da Ordem dos
Engenheiros, do Sindicato dos Arquitectos e da Associação de Estudantes do IST, a par
de tantas outras, prestam também, ao falecido ministro, as suas homenagens.
Nos números publicados no primeiro trimestre do ano de 1944, alguns
periódicos retomam o acontecimento.
A Revista Municipal da Câmara de Lisboa dedica um número especial à
memória do falecido ministro, publicando o discurso proferido por Eduardo Rodrigues
de Carvalho nos dias sequentes à sua morte. O periódico apresenta ainda uma relação
das obras mais emblemáticas da capital planeadas e dirigidas pelo gabinete ministerial e
publica um dos raros discursos de Duarte Pacheco104.
100
Cfr. “Uma Sessão na Assembleia Nacional: O Discurso do Deputado da Nação Sr. Melo Machado” in
Boletim do Comissariado do Desemprego, Lisboa, Imprensa Nacional, 1934-1974, Boletim de 1943, pp.
83-84.
101
Cfr. “Uma Sessão na Assembleia Nacional: O Discurso do Sr. Deputado Quirino Mealha” in Boletim
do Comissariado do Desemprego, Lisboa, Imprensa Nacional, 1934-1974, Boletim de 1943, pp. 84-85.
102
Cfr. “Uma Sessão na Assembleia Nacional: O Discurso do Sr. Deputado José Albino dos Reis” in
Boletim do Comissariado do Desemprego, Lisboa, Imprensa Nacional, 1934-1974, Boletim de 1943, pp.
85-88.
103
CSOP, Livro de Actas das Sessões Plenárias, Acta nº 8, de 20 de Dezembro de 1943.
104
O número especial de 1944 da Revista Municipal da Câmara Municipal de Lisboa publica o discurso
Duarte Pacheco aquando da tomada de posse no segundo mandato de Ministro das Obras Públicas e
Comunicações, cerimónia que teve lugar no dia 25 de Maio de 1938.
30
O País a Régua e Esquadro
O Boletim do Comissariado do Desemprego reserva o primeiro capítulo à
memória do ministro: publica os discursos proferidos na CML e na Assembleia
Nacional na sequência da sua morte, reúne um dossier de imprensa com artigos
publicados sobre Duarte Pacheco à data do seu falecimento e faz uma listagem
estimativa das obras mandadas executar pelo ministro, ao abrigo do programa de
financiamento subsidiado pelo Fundo de Desemprego:
“É extremamente difícil dar, no espaço de que se dispõe, uma relação
completa das obras que, através do Comissariado do Desemprego,
foram comparticipadas pelo engenheiro Duarte Pacheco. Basta dizer
que foram lavradas portarias para comparticipações de 7.100 obras,
num valor total de 300.000 contos.” 105
No primeiro número de 1944 a Revista Panorama, revista de arte e turismo
editada pelo SPN/SNI, enfatiza a vida e obra do falecido ministro e publica um texto de
António Ferro e um texto de Cottinelli Telmo.
Cottinelli Telmo, colaborador directo de Duarte Pacheco, traça em linhas breves
o retrato do ministro: o arquitecto é hábil na escrita e recria com facilidade a imagem de
bulício e actividade fervilhante do gabinete ministerial onde, da aprovação ou crítica a
um projecto ao corrupio de audiências, das desoras no cumprimento da agenda pelas
persistentes reuniões, à discussão do pormenor do material ou do orçamento, o ministro
centralizava atenção e decisão.
Na opinião de Cottinelli, Duarte Pacheco é o Sonhador de Grandes Coisas106.
Mais tarde, em texto manuscrito não publicado, Cottinelli reunirá uma série de textos
avulsos com a intenção de escrever sobre o ministro:
“Esperei por um monumento, por um in-memoriam, por uma
obra melhor que esta...Não os vejo...Por isso me arrisquei a juntar
subsídios para um livro que outro mais autorizado, com melhor nome
que o subscreva, há de escrever. (...) Assim se explica a ousadia de
quem foi apenas um colaborador como muitos, um amigo como
105
“A obra do Engenheiro Duarte Pacheco através do Comissariado do Desemprego”, in Boletim do
Comissariado do Desemprego, ano 1944, Lisboa, Imprensa Nacional, pág. 26.
106
TELMO, José Ângelo Cottinelli, “Um Grande Homem de Acção” in Panorama, Revista de Arte e
Turismo, Lisboa, SPN-SNI, ano 3, nº 19, Fevereiro de 1944, s/p.
31
O País a Régua e Esquadro
muitos, e que por “sentir-se em família” se dispensa atitudes de
107
escritor, preceitos de biógrafo ou fundamentos de historiador”.
Neste mesmo texto, Cottinelli relembra ter escrito o artigo na Panorama, sob
sugestão de António Ferro a Carlos Queirós e confessa que a sua prestação foi escrita de
um jacto, artigo que nunca mais reli108.
Não se distanciando do conteúdo e do estilo da alocução feita aos microfones da
Emissora Nacional, aquando da morte do ministro109, o texto que António Ferro publica
no primeiro número da Panorama de 1944, encerra um ciclo que se vinha formando
desde Novembro de 1943. Em três meses a memória e a imagem do ministro fora
burilada ao pormenor, e Ferro, no seu estilo gongórico daria o último retoque:
“Estou a vê-lo...máscara viva (...) máscara dinâmica (...) o que foi
grande na vida cinematográfica deste homem vertiginoso, mais ainda
que a sua obra foi o seu sonho (...) E as únicas realidades grandes que
podem vencer a morte são as realidades do sonho, os impossíveis
tornados possíveis (...) miragens que ele soube poder transformar em
realidade (...) Não! O engenheiro Duarte Pacheco não morreu, não
morrerá! Difícil, até, desejar paz à sua alma! A sua alma continuará a
trabalhar. Os seus restos mortais são imortais (...) assim a sua alma
continuará a ser, por muitos anos, a grande construtora do Estado
110
Novo, da Pátria ressurgida, do Portugal de Salazar.”
Este mesmo texto estaria na base da locução do pequeno documentário realizado
também em 1944 por António Lopes Ribeiro. Numa curta metragem de cerca de dez
minutos, a par das teatrais palavras de Ferro, surgiam as poderosas imagens do funeral
de Estado do falecido ministro. Enfatizada a solenidade da homenagem prestada na
107
Duarte Pacheco, s. data, manuscrito não concluído, Espólio Cottinelli Telmo. Este manuscrito está
integralmente reproduzido nas páginas 247 a 277 do volume II da dissertação de mestrado de João Paulo
do Rosário MARTINS, Cottinelli Telmo/1897-1948 a obra do arquitecto, Lisboa, dissertação de
mestrado em História da Arte Contemporânea apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa, 1995.
108
TELMO, José Ângelo Cottinelli, Duarte Pacheco, s. data, manuscrito não concluído, Espólio
Cottinelli Telmo, in MARTINS, João Paulo do Rosário, Op. Cit., vol. II, pág. 249.
109
Cfr. Alocução proferida pelo Sr. António Ferro, presidente da direcção da Emissora Nacional ao
microfone da mesma Emissora”, in Boletim do Comissariado do Desemprego, ano 1944, Lisboa,
Imprensa Nacional, pág. 106-108.
110
FERRO, António, “O Engenheiro Duarte Pacheco” in Panorama, Revista de Arte e Turismo, Lisboa,
SPN-SNI, Ano 3, nº 19, Fevereiro de 1944, s/paginação.
32
O País a Régua e Esquadro
morte de Duarte Pacheco, as imagens sucediam-se na demonstração da obra produzida
pelo homem que votara a vida ao serviço público111.
Em vinte anos de vida pública, Duarte Pacheco angariara admiradores na exacta
proporção em que angariara inimigos. Não esquecendo a referencial e conveniente vénia
ao presidente do Conselho, todos os que concordavam com o modo de actuação do
ministro das Obras Públicas não hesitavam em classificar os melhoramentos estruturais
do país com as obras do Duarte Pacheco112 ou intitular o ministro com o cognome de o
Edificador113.
Do lado oposto, todos os que eram atropelados pela máquina construtiva das
Obras Públicas, que por ela eram materialmente prejudicados, ou politicamente
enfraquecidos, não hesitavam em reunir esforços para deter, não tanto a política de
obras públicas instituída pelo Governo e assegurada pelo braço forte da lei, mas o seu
implacável e determinado executor: Duarte Pacheco.
A fama de Duarte Pacheco como hábil negociador do ramo imobiliário em
proveito de um objectivo público a cumprir, era conhecida e comentada em Lisboa
desde meados dos Anos 20, altura em decorreram as negociações entre a Câmara
Municipal e os particulares que detinham quintas e prédios rurais na zona onde se viria
a edificar o IST114.
Na década de trinta, empossado ministro, Duarte Pacheco fez da lei das
expropriações por utilidade pública o grau zero dos terrenos que haveriam de receber os
equipamentos a construir, e em 1938, quando tomou posse como presidente da Câmara
Municipal de Lisboa, reorganizou os serviços camarários que cerca de dez anos antes,
quando negociara terrenos para a construção do campus universitário, tinha considerado
desactualizados e pouco eficientes.
Esta forma de estar na política e de fazer política, não era discreta, conveniente
nem consensual. A personalidade empreendedora, o carácter forte e determinado no uso
da argumentação e defesa dos seus projectos, eram características estranhas ao
imobilismo e compadrio mudo que populava nos corredores dos ministérios. A surpresa,
111
Vide Arquivo Nacional de Imagens em Movimento (ANIM), “A Morte e a Vida do Engenheiro Duarte
Pacheco”, nº extraordinário do Jornal Português, Sociedade Portuguesa das Actualidades, Realização e
Locução de António Lopes Ribeiro, 1944.
112
FERREIRA, António Vicente Ferreira, Discurso em Memória de Duarte Pacheco, in CSOP, Livros de
Actas das Sessões Plenárias, Acta nº 8 de 20 de Dezembro de 1943.
113
MARTINS, Rocha, “Lisboa quem te viu!”, in Diário de Notícias, 11 de Novembro de 1943. Artigo
publicado precisamente 5 dias antes morte de Duarte Pacheco.
114
Sobre as negociações imobiliárias que precedem a construção do IST Vide Infra Capítulo 2.
33
O País a Régua e Esquadro
a falta de argumentação e o desconcerto eram situações em que usualmente caíam os
opositores ao ministro. Por Lisboa e pelo país era usual a graçola:
“A pior província do país é o Algarve.
A pior vila Loulé.
A pior família os Pachecos.
E o pior dos Pachecos o Duarte!”
Num tom de humor, eram usuais as referências ao ministro no teatro de revista e
nas caricaturas de jornal, mas num tom mais abrasivo, as críticas e as queixas subiam de
tom e subiam no patamar da cena política. Do questionar da sanidade mental do
ministro ao questionar da sua integridade moral, tudo servia de argumento nas missivas
enviadas ao Presidente do Conselho e ao Ministro do Interior115.
Se em vida Duarte Pacheco não reunira nunca o consenso, quando soou a notícia
da sua morte, o facto foi assinalado com lágrimas e champanhe116. Entre lamentos e
festejos, a dualidade manteve-se.
Contudo, o choque e a surpresa esfumaram-se em breves momentos. A morte do
ministro alterava o quadro político. O ministro que morrera solteiro e sem descendentes
directos ou herdeiros políticos, extinguia-se fisicamente mas muito rapidamente seria
aclamado como poucos: não necessitava de memórias, discursos ou notas políticas. Em
lugar de palavras, o país herdava a obra. Obra aplaudida pelos seguidores e obra onde
continuariam a tropeçar todos aqueles que já haviam sido colhidos pela máquina
construtiva do Edificador.
Nos três meses sequentes à morte do ministro assiste-se à progressiva neutralização
dos aspectos negativos associados à sua prática ministerial. Regenerada
politicamente num processo de memória selectiva, à figura pública eram retiradas
todas as inconveniências usualmente a ela associadas. Dos elogios fúnebres de
Novembro de 1943 aos textos panegíricos de 1944 decorre este esvaziamento de
inconveniências, da mesma forma que se procede à superlativação de capacidades e
qualidades. Duarte Pacheco é então petrificado numa imagem de homem que encara
a causa pública como um sacerdócio; um homem despojado e desinteressado de bens
terrenos. A sua capacidade de trabalho é elevada a uma categoria quase sobre-
115
Vide Apêndice Documental, documentos 1 e 2.
116
DACOSTA, Fernando, “Um Confiscador”, in Máscaras de Salazar, Lisboa, Casa das Letras, 2006,
página 164.
34
O País a Régua e Esquadro
humana, não só pela argúcia, sagacidade, agilidade mental e domínio transversal das
matérias e da argumentação, mas também pela tenaz resistência física ao cansaço e à
fome117.
Em 1938, no discurso de tomada de posse do segundo mandato das Obras
Públicas, Duarte Pacheco definindo a causa pública e o serviço público, definira-se a si
próprio, legitimando a sua forma de actuação política:
“Um homem público verdadeiramente digno desse nome e
verdadeiramente amante da sua pátria só pode, só deve ter um
desígnio – servi-la, servi-la em tudo, em todos os lugares e em todos
118
os momentos”
A circunstância que envolveu a morte do ministro: acidental, brutal e arbitrária, aos
43 anos de idade, no fulgor de todas as capacidades físicas e mentais, fez emergir
essa imagem paradigmática de político – homem público, que serviu a pátria até ao
último momento.
Com todas as virtudes e nenhum defeito, talvez uma ou outra marca de carácter
mais forte mas em prol do bem comum, a figura do ministro, outrora objecto das
maiores controvérsias e alguns embaraços de governo, passaria a ser utilizada como
símbolo e como forma de legitimação dos que herdaram a sua obra: os políticos.
A 8 de Dezembro de 1943, três semanas após a morte de Duarte Pacheco, era
inaugurada a primeira obra pública legada pelo ministro: um legado pesado, pois
tratava-se da Estátua Equestre de D. João IV, a última obra vistoriada antes do fatídico
acidente. Num período de luto político não houve lugar a festividades, apenas discursos
circunstanciais. Teríamos de esperar pelo ano de 1944 para assistir à inauguração de
duas magnas obras projectadas pelo gabinete de trabalho de Duarte Pacheco: o Viaduto
sobre o vale de Alcântara e o Estádio Nacional.
A 28 de Maio de 1944 era inaugurado o eixo rodoviário que ligava o aglomerado
citadino de Lisboa ao Parque de Monsanto. Este primeiro troço da inédita auto-estrada
117
CARVALHO, Eduardo Rodrigues de, “A Obra do Engenheiro Duarte Pacheco no Município de
Lisboa”, in Boletim do Comissariado do Desemprego, ano 1944, Lisboa, Imprensa Nacional, pág. 103.
118
PACHECO, Duarte, Discurso de tomada de posse no 2º mandato de Ministro das Obras Públicas e
Comunicações, in Boletins do Comissariado do Desemprego – Boletim de 1943, Lisboa, Imprensa
Nacional, pág. 19.
35
O País a Régua e Esquadro
Lisboa - Cascais, recebia o nome de Viaduto Duarte Pacheco. Na presença do
Presidente da República, do Presidente do Conselho e do seu governo, foram lidos os
discursos de Costa Leite, ministro interino das Obras Públicas e Comunicações, e de
João Barbosa de Carmona, presidente da Junta Autónoma das Estradas, organismo
responsável pela concretização do projecto. No discurso oficial esta obra era equiparada
ao génio construtivo do contíguo Aqueduto das Águas Livres119.
Na história da engenharia portuguesa, este viaduto lançado sobre o vale de
Alcântara era um símbolo maior, a coroa e o engenho de uma classe profissional.
Atribuir a uma obra desta dimensão o nome do ministro que promoveu a sua
construção, que além de político fora engenheiro e director da escola de engenharia
mais conceituada no país, era uma medida política que cumpria o desiderato mas
também o desafio lançado por Eduardo Rodrigues de Carvalho aquando da morte de
Duarte Pacheco:
“que seja dado o seu nome a uma das principais artérias da cidade
120
sendo que essa artéria esteja relacionada com a sua obra”
A 10 de Junho do mesmo ano era inaugurado o Estádio Nacional no vale do
Jamor, em Oeiras. Obra com plano regulamentado para elaboração de concurso desde 1
de Março de 1934, com data prevista de conclusão em 1940, ano de celebrações
centenárias, o Estádio da alma atlética de Duarte Pacheco como afirmaria António
Ferro, seria a terceira obra inaugurada já depois da morte do ministro121.
Para esta inauguração, Eduardo Rodrigues de Carvalho que presidira à primeira
comissão administrativa de obras do Estádio Nacional, não seria convidado pelo
protocolo. Contudo o facto não inibiria o engenheiro militar de prontamente enviar uma
carta de felicitações ao Presidente do Conselho, relatando o lapso protocolar e
119
Cfr. Diário de Notícias, 29 de Maio de 1944.
120
CARVALHO, Eduardo Rodrigues de, “A Obra do Engenheiro Duarte Pacheco no Município de
Lisboa” in Op. Cit., pp. 89-105.
121
Sobre o processo de concepção e construção do Estádio Nacional Vide Teresa ANDRESEN, Do
Estádio Nacional ao Jardim Gulbenkian. Francisco Caldeira Cabral e a primeira geração de arquitectos
Paisagistas 1940-1970, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian, 2003.
Vide também Teresa ANDRESEN, “O Estádio Nacional - A sua génese e a sua Construção”, in O Estádio
Nacional. Um paradigma da arquitectura do desporto e do lazer, Oeiras, Actas das Jornadas Europeias
do Património – Concelho de Oeiras, Câmara Municipal de Oeiras, 2005.
36
O País a Régua e Esquadro
relembrando o chefe de governo que existia uma co-autoria política da obra inaugurada,
referindo-se obviamente a Duarte Pacheco122.
O Presidente do Conselho e a sua máquina protocolar tinham contudo planos
maiores para o antigo chefe de gabinete de Duarte Pacheco. Ciente da fidelidade de
Eduardo Rodrigues de Carvalho à obra e à memória do ministro, o governo de Oliveira
Salazar, mais precisamente José Frederico Ulrich, Ministro das Obras Públicas,
convidaria Rodrigues de Carvalho para Presidente da Comissão Executiva da Exposição
15 Anos de Obras Públicas 1932-1947. Entre 1946 e 1947, Eduardo Rodrigues de
Carvalho estaria empenhado em levar a cabo esta magna exposição.
Em 1948, com a exposição 14 Anos de Política de Espírito o regime consagrava
a obra do Secretariado de Propaganda Nacional e com a Exposição 15 Anos de Obras
Públicas, celebrava a máquina construtiva em que se transformara o Ministério com o
mesmo nome. Também os obreiros eram convidados a celebrar esta evocação do
espírito criativo: os engenheiros pela realização do II Congresso Nacional de
Engenharia e os arquitectos através do I Congresso Nacional de Arquitectura.
No dia de abertura da exposição no IST, inaugurava ao público, no topo nascente
da Alameda de D. Afonso Henriques a Fonte Monumental. Peça de escultura
arquitectónica imponente, a Fonte celebrava a obra de requalificação hidráulica que
permitiu o reforço de entrada de águas do Tejo no abastecimento à cidade de Lisboa123.
No acto de inauguração, o Ministério das Obras Públicas entregaria a obra à Câmara
Municipal de Lisboa.
No topo nascente da mesma Alameda estaria patente, no recinto do Instituto
Superior Técnico, de 28 de Maio a 7 de Novembro de 1948, a Exposição dos 15 Anos
de Obras Públicas. Supervisionada politicamente por José Frederico Ulrich, ministro
das Obras Públicas, comissariada na definição de conteúdos por Rodrigues de Carvalho,
Mário Pessoa Jorge e Mário Ferreira Lima, e projectada numa linguagem expositiva por
Jorge Segurado na qualidade de arquitecto-chefe do evento, esta magna exposição
celebrava a obra construída entre os anos de 1932 e 1947.
A Exposição apresentava-se estruturada em quatro núcleos expositivos
correspondentes a quatro pavilhões: Comunicações, Hidráulica, Edifícios e
Urbanização, sequentemente fraccionados em 27 sub-secções alveolares autónomas mas
122
Vide Apêndice Documental, Documento 3.
123
Cfr. SANTOS, Rui Afonso, “Fontes Luminosas” in Dicionário da História de Lisboa, Lisboa 94,
direcção de Francisco Santana e Eduardo Sucena, Lisboa, 1994, pp. 407-410.
37
O País a Régua e Esquadro
inscritas em cada uma destas grandes áreas de intervenção no domínio dos
equipamentos públicos. A cada sub-secção pertenciam dois delegados à exposição e um
decorador. Sobre o primeiro delegado incidia a responsabilidade técnica, sobre o
segundo a concepção espacial, daí a obrigatoriedade de responder pela categoria de
arquitecto. O artista plástico de cada sub-secção era responsável pela decoração do
recinto expositivo.
De modo a aligeirar e tornar mais apelativa a visita à exposição, o comissariado
socorreu-se do apoio da Emissora Nacional e da FNAT, entidades que realizaram serões
recreativos no recinto expositivo. Também o Exército, a Marinha e a Guarda Nacional
Republicana se prestaram a colaborar, através da presença das suas bandas militares.
Nas palavras do comissário executivo:
“... este capítulo de diversões era necessário pois o funcionamento da
exposição correria o risco de vir a cair num ambiente puramente
estático se não tivesse havido a preocupação de entrecortá-lo com um
124
ou outro elemento capaz de distrair o público...”
No cômputo final, Rodrigues de Carvalho afirmaria que meio milhão de
visitantes teria afluído às instalações do Técnico para visitar a Exposição.
Terminado o evento e desmantelados os quatro pavilhões efémeros, algumas
obras de divulgação tinham por função perpetuar esta iniciativa evocativa: os dois
volumes constituintes do catálogo expositivo, os folhetos desdobráveis, o guia da
exposição, o livro dos monumentos nacionais e o catálogo sumário da secção
retrospectiva, compunham o núcleo de publicações. A medalha comemorativa, da
autoria do escultor Álvaro De Brée, o selo comemorativo, da autoria de Cottinelli
Telmo, e o cartaz celebrativo da autoria de Fred Kradolfer, compunham os objectos de
colecção.
O documentário cinematográfico com direcção, montagem e fotografia de
Perdigão Queiroga, som de Henrique Dominguez e locução de Pedro Moutinho,
produzido nos laboratórios da Lisboa Filme, teria merecido nas palavras de Rodrigues
de Carvalho, toda a atenção e empenho por parte de José Frederico Ulrich:
124
CARVALHO, Eduardo Rodrigues de, Discurso do Presidente da Comissão Executiva da Exposição, in
15 Anos de Obras Públicas 1932-1945, vol. II, Lisboa, Ministério das Obras Públicas, 1948, pág. 246.
38
O País a Régua e Esquadro
“S. Ex.ª o Ministro das Obras Públicas, se viu forçado a acompanhar
minuciosamente todos os passos preparatórios da execução deste
documentário – iniciados pela indicação dos assuntos a filmar; passou,
em seguida, pelas difíceis, morosas e fatigantes operações de escolha
125
dos assuntos mais representativos “
Este documentário, como Rodrigues de Carvalho afirmaria no discurso de
encerramento do certame, foi diariamente projectado na exposição, em uma ou mais
sessões, e foi também passado em diversas localidades do país126.
Contudo, para uma exposição que se queria celebrativa do espírito construtivo e
dinamizador do Estado, pacífica e cordata na assistência e na vivência, a Exposição dos
15 Anos de Obras Públicas não correu ao sabor de todos os objectivos programados.
Ao abrigo do convite lançado pelo Ministro das Obras Públicas, tanto os
engenheiros como os arquitectos, tiveram oportunidade de se reunir em congresso de
classe. Embora o II Congresso Nacional de Engenharia tenha decorrido sem
sobressaltos, as questões lançadas a debate no I Congresso Nacional de Arquitectura
abriram agenda de trabalhos na futura prática da Arquitectura em Portugal. O primeiro
Congresso Nacional de Arquitectura, nas teses apresentadas a debate, contestaria a
intrusão e imposição do Estado em 15 anos de produção arquitectónica votada a uma
imagem politizada da Arquitectura127.
Num outro registo, num contexto de avanços e recuos de jogo político, a
Exposição dos 15 Anos de Obras Públicas revelar-se-ia o palco de uma situação adiada
há já 5 anos: o Monumento a Duarte Pacheco.
Figura incontornável na celebração das Obras Públicas realizadas desde 1932,
com considerável número de obras inauguradas já após a sua morte e com algumas
ainda por inaugurar em 1947, Duarte Pacheco pairou sobre o certame.
125
CARVALHO, Eduardo Rodrigues de, “Discurso do Presidente da Comissão Executiva da Exposição”,
in 15 Anos de Obras Públicas 1932-1945, Livro de Ouro, Lisboa, Ministério das Obras Públicas, 1948,
pág. 22.
126
Idem, CARVALHO, Eduardo Rodrigues de, Discurso do Presidente da Comissão Executiva da
Exposição, in 15 Anos de Obras Públicas 1932-1945, vol. II, Lisboa, Ministério das Obras Públicas,
1948, pág. 246.
127
Sobre o tema Vide 1º Congresso Nacional de Arquitectura, Maio/Junho de 1948, Relatório da
Comissão Executiva, Teses, Conclusões e Votos do Congresso, Lisboa, Ordem dos Arquitectos, edição
fac-similada, Julho de 2008, por ocasião do 10º aniversário da Ordem dos Arquitectos.
Em análise e desenvolvimento do tema Vide Ensaios de Ana TOSTÕES, Ana Isabel RIBEIRO e Nuno
Teotónio PEREIRA na obra supra referida, pp. 11-54.
39
O País a Régua e Esquadro
No respeitante a procedimentos protocolares, todos os discursos inaugurais e de
encerramento da exposição foram unânimes na recorrência à obra e memória de Duarte
Pacheco, à excepção do discurso inaugural de Cottinelli Telmo, que, na qualidade de
Presidente do Sindicato Nacional dos Arquitectos Portugueses, não fez qualquer
referência ao ministro.
Mas decerto esta ausência não significava omissão, antes o contrário. Em lugar
de palavras de circunstância e oportunidade política, o arquitecto optara pela coerência
dos actos. Cottinelli era o empenhado autor da maquete que, em exibição no hall do
Pavilhão Central do IST, representava a proposta de Monumento de homenagem a
Duarte Pacheco. Esse simples objecto, ali estrategicamente colocado como manobra
política de diversão, causaria alguns incómodos e acabaria por ter um efeito contrário ao
propósito inicial: se ali fora colocado para apaziguar as vozes que à boca pequena
sussurravam a demora na prestação de homenagem ao falecido ministro, a sua exibição
resultou como prova de fragmentação de ideias, desarticulação de serviços e falta de
iniciativa do Estado em resolver um processo que se arrastava desde 1943.
Antes de Cottinelli, discursara Rodrigues de Carvalho no estatuto de Presidente
da Comissão Executiva. O governo teria encarregue o engenheiro militar de presidir à
comissão executiva do evento tendo em conta o percurso profissional de Rodrigues de
Carvalho: funcionário da Repartição de Edifícios da DGEMN desde 1933, engenheiro
técnico de obras como as Gares Marítimas, Teatro Nacional de São Carlos, Estádio
Nacional ou Anexo do Museu de Arte Antiga, chefe de gabinete de Duarte Pacheco e
seu presidente substituto na Câmara Municipal de Lisboa.
Como Rodrigues de Carvalho, poucos técnicos dominariam de forma transversal
as competências do ministério que de 1932 a 1945 abrangera Obras Públicas e
Comunicações.
No domínio das competências técnicas, Rodrigues de Carvalho era de facto um
funcionário exemplar. Mas na sua formação de engenheiro militar, este técnico obedecia
a uma regra de conduta estrita: lealdade ao superior hierárquico. E, para Rodrigues de
Carvalho o seu superior era e continuaria a ser Duarte Pacheco.
Na sessão solene de abertura da Exposição dos 15 Anos de Obras Públicas,
vénias feitas ao Presidente da República e ao Ministro das Obras Públicas, Rodrigues de
Carvalho enuncia os princípios que presidiram à concepção da exposição: divulgação
dos trabalhos realizados ou em franca via de execução. E é na sequência do
desenvolvimento destes princípios que aponta uma incongruência grave:
40
O País a Régua e Esquadro
“ o modelo do monumento a erigir em Loulé à memória do
Engenheiro Duarte Pacheco, exposto no grande hall deste edifício,
traduz, por enquanto, um mero projecto, uma simples aspiração que,
embora claramente perfilhada pelo Governo ao facilitar as Câmaras
Municipais do País a forma legal de concorrerem monetariamente
para a sua execução não se consubstanciou ainda, na verdade, em
actos materiais.
(...) atrevo-me por isso a pensar – a afirmar mesmo como uma certeza
– que se em vez de ter hoje o seu início, a Exposição fosse aberta um
ano mais tarde, a maqueta a que me estou referindo não faria excepção
entre as demais, no aspecto a que me referi”. 128
A inconveniência protagonizada por Rodrigues de Carvalho não passaria
incólume. A 7 de Novembro, data da cerimónia solene de encerramento da Exposição
15 Anos de Obras Públicas, Mário Pessoa Jorge e Mário Ferreira Lima, membros da
Comissão Executiva do certame, seriam agraciados pelo Chefe de Estado com o Grau
Oficial da Ordem de Cristo. Rodrigues de Carvalho, Presidente da mesma comissão,
não seria condecorado129.
A ideia de erguer um Monumento de homenagem a Duarte Pacheco surgira em
1943, logo após a morte do ministro. Eduardo Rodrigues de Carvalho, então presidente
da Câmara Municipal de Lisboa, lançara a ideia em sessão camarária e esta fora
aprovada por unanimidade pela vereação do município130.
Em reuniões camarárias posteriores, a ideia foi ganhando forma e consistência.
Escolhera-se o local: o Parque Florestal de Monsanto. Escolhera-se o modelo: um
padrão-miradouro, num modelo verticalizante, bem de acordo com o perfil do ministro.
128
CARVALHO, Eduardo Rodrigues de, CARVALHO, Eduardo Rodrigues de, “Discurso do Presidente
da Comissão Executiva da Exposição”, in 15 Anos de Obras Públicas 1932-1945, Livro de Ouro, Lisboa,
Ministério das Obras Públicas, 1948, pág. 23.
129
Cfr. 15 Anos de Obras Públicas 1932-1945, vol. II, Lisboa, Ministério das Obras Públicas, 1948, pág.
243.
No processo individual de funcionário de Eduardo Rodrigues de Carvalho no Arquivo do Ministério das
Obras Públicas e Comunicações (Corpo Documental MOPC - CIP, Eduardo Rodrigues de Carvalho),
surge a nota de que o engenheiro militar foi condecorado com a Ordem Militar de Cristo a 16 de Junho de
1948, contudo, não conseguimos confirmar este dado com outras fontes.
130
Sobre o desenrolar do processo camarário que concerne o não concretizado Monumento a Duarte
Pacheco em Lisboa consultar ELIAS, Helena Catarina da Silva Lebre, Arte Pública e Instituições do
Estado Novo – Arte Pública das Administrações Central e Local do Estado Novo em Lisboa: Sistemas de
Encomenda da CML e do MOPC/MOP (1938-1960), Barcelona, dissertação de mestrado apresentada ao
Departamento de Escultura da Faculdade de Belas Artes da Universidade de Barcelona, 2006, pp. 320-
322.
41
O País a Régua e Esquadro
Programara-se o financiamento da obra: inserida no programa de trabalhos previstos no
plano de execução do Parque Florestal, a obra de homenagem estaria reduzida a custos
mínimos.
Contudo, antes do final da sessão em que se procederia a deliberações finais
sobre o projecto, a reunião de Câmara foi interrompida pela saída do Presidente.
Regressado à sala, Rodrigues de Carvalho informaria a vereação que recebera instruções
do Governo:
“Reabertos os trabalhos, o presidente deu conhecimento à Câmara do
desejo que lhe fora agora mesmo manifestado pelo Governo (...) de
querer reservar para si a iniciativa das homenagens a prestar à
memória do eng. Duarte Pacheco, e a orientação sobre a forma de o
131
fazer.”
Chamando a si, em Dezembro de 1943 a iniciativa de homenagear a obra e a
memória do ministro, o governo controlaria o tempo e o modo dessa mesma
homenagem, ou seja, poderia dar-lhe uma dimensão conveniente e consentânea com o
discurso de Estado.
De 1943 a 1946 não existem referências oficiais ao Monumento, mas do mesmo
modo que a Câmara Municipal de Lisboa avançara em 1943 com a proposta de
construção de um monumento em homenagem a Duarte Pacheco, também em 1946 a
Câmara Municipal de Loulé decidira promover a construção de um monumento em sua
memória. Para tal chegou mesmo a contactar Manuel Laginha, arquitecto recém-
formado, natural de Loulé, como o falecido ministro. Contudo, será Cottinelli Telmo o
arquitecto encarregue de levar a cabo esta tarefa com a colaboração de Leopoldo de
Almeida132. Em 1947 este projecto chegou mesmo a ser apresentado à Câmara
Municipal de Loulé e ao Ministro das Obras Pública José Frederico Ulrich.
Também em 1947, no fervilhar da preparação da exposição dos 15 Anos de
Obras Públicas, o MOP, por iniciativa própria, pretendia inaugurar em Lisboa um
monumento em memória de Duarte Pacheco. Para o efeito delegara também em
131
CML, Actas das Sessões da Câmara, Acta número 75 da reunião de Câmara efectuada a 9 de
Dezembro e com continuação a 18, 27 e 30 de Dezembro, página 111, nesta perspectiva citada por
ELIAS, Helena Catarina da Silva Lebre, Op. Cit. pág. 322, nota 439.
132
Vide MARTINS, João Paulo do Rosário, Cottinelli Telmo/1897-1948 a obra do arquitecto, Lisboa,
dissertação de mestrado em História da Arte Contemporânea apresentada à Faculdade de Ciências Sociais
e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1995, pág. 415.
42
O País a Régua e Esquadro
Cottinelli Telmo a concepção do projecto. Era intenção do governo mandar erguer um
monumento na Alameda D. Afonso Henriques, no seguimento do campus universitário
do IST133. Contudo, este projecto seria suspenso e em lugar de um monumento em
memória do ministro seria inaugurada a Fonte Luminosa.
Contudo, como vimos, uma maquete do projecto do monumento estará patente
ao público no hall do Pavilhão Central do IST em 1948, na Exposição 15 Anos de Obras
Públicas. É esta maquete, da autoria de Cottinelli Telmo, que Eduardo Rodrigues de
Carvalho refere no discurso inaugural da exposição, criticando não o objecto em si, mas
o contexto em que o mesmo se insere. Em síntese, o colaborador do ministro afirma que
o projecto não passa de uma intenção adiada. Sabe-se apenas que o local escolhido para
celebrar a memória do ministro é Loulé, a sua terra natal; e que o financiamento da obra
fica a cargo de todos os municípios do país. Mas porque o Governo determina o
momento em que o projecto convenientemente passa à pedra, Rodrigues de Carvalho
crítica a demora na concretização do mesmo.
Da morte do ministro, em 1943, à inauguração da Exposição 15 Anos de Obras
Públicas, em 1948, mediaram cinco anos e nesse tempo o projecto não passara de uma
maquete. Mas outros cinco anos seriam precisos para que o Monumento de Homenagem
a Duarte Pacheco fosse erguido e inaugurado em Loulé. Na política de inaugurações
deste governo, não era ainda chegado o momento oportuno.
Ainda antes de se resolver em definitivo a questão do Monumento Duarte
Pacheco, em 1951, oito anos após o falecimento do ministro, a Revista Internacional
publicava um número especial In Memoriam134.
Neste número especial foram reunidas as contribuições de muitos dos agentes
institucionais que, no desempenho dos seus cargos, trabalharam e privaram com o
ministro. Prolixa em tributos, a revista apresenta 21 depoimentos135.
133
Idem, Op. Cit., pág. 416.
134
Revista Internacional, Duarte Pacheco In Memorian, Lisboa, nº 23, 1951, número de homenagem à
memória do Engenheiro Duarte Pacheco no 8º aniversário do seu falecimento.
135
A par dos depoimentos do Presidente do Conselho e do Ministro das Obras Públicas, a edição conta
ainda com os depoimentos do Reitor da Universidade de Coimbra, Maximino Correia, Caetano Beirão da
Veiga e Herculano de Carvalho, professores do IST, Caeiro da Mata, antigo Ministro dos Negócios
Estrangeiros, Roberto Espregueira Mendes que fora sub-secretário de Obras Públicas no ministério de
Duarte Pacheco, Eduardo Rodrigues de Carvalho, antigo Presidente da CML e Mendes Corrêa, antigo
Presidente da Câmara Municipal do Porto, António Ferro, João Carlos Alves, Presidente da Comissão
Fiscalizadora das Águas de Lisboa, Luís Albuquerque Couto dos Santos, Director Geral dos CTT,
Barbosa Carmona, antigo Chefe de Repartição da JAE, Duarte Abecassis, Presidente do CSOP, José
António Miranda Coutinho, Secretário Geral do Ministério das Comunicações, Jaime Lopes Dias,
Director dos Serviços Centrais e Culturais da CML, Leitão de Barros, e os qualificados técnicos
43
O País a Régua e Esquadro
O número especial da Revista Internacional abre a edição com a homenagem
prestada pelo Presidente do Conselho, Oliveira Salazar. Oito anos volvidos sobre a
morte do ministro, o chefe de governo mantinha a afirmação defendida em 1943:
remetia para um outro momento aquelas palavras de louvor e de justiça para dizer um
dia. Ou seja, em 1951 a homenagem prestada por Oliveira Salazar a esta edição In
Memoriam resumia-se à publicação de um excerto do discurso que proferira a 25 de
Novembro de 1943, quando a 2ª sessão legislativa da III Legislatura da Assembleia
Nacional fora consagrada à memória do falecido ministro.
Ao reeditado texto de Oliveira Salazar segue-se o testemunho do Ministro das
Obras Públicas e a este se seguem os depoimentos daqueles que haviam colaborado ou
desempenhado funções de alto cargo nos organismos afectos a algumas das áreas de
acção abrangidas pela actividade política de Duarte Pacheco: o IST, os municípios de
Lisboa e do Porto, a reforma material das Universidades e os equipamentos escolares, as
Comunicações, os Transportes, o Saneamento, a Urbanização.
Uma vez mais os depoimentos são unânimes na exaltação das capacidades
intelectuais, na invulgar capacidade de trabalho e infatigabilidade do ministro, no louvor
do sentido de patriotismo e na inabalável devoção pela causa pública.
A estes testemunhos abonatórios se juntam, no final desta edição especial In
Memoriam, todos os municípios do país, um número considerável de agremiações
comerciais e industriais, escolas e institutos, empresas e particulares que, numa acção
concertada se haviam comprometido a adquirir um exemplar da referida revista.
Contudo, um depoimento que ficaria à margem do tom uníssono e laudatório
seria uma vez mais o de Eduardo Rodrigues de Carvalho. No seu texto, o engenheiro
militar demora-se na descrição da obra de Duarte Pacheco na cidade de Lisboa: do
desenho urbano às soluções rodoviárias, da questão da salubridade à habitação, dos
equipamentos construídos aos deixados em projecto. E por isso mesmo retoma a
questão do Mausoléu/Monumento em homenagem ao falecido ministro, como prova em
falta de uma gratidão devida:
“A capital, porém, ainda não lhe pagou a sua dívida de gratidão (...)
Oito anos volvidos, os nºs 3º e 4º desta deliberação [estudo e
realização de um mausoléu e estudo do local onde se perpetue o
engenheiros do CSOP Raul de Mesquita Lima, Salvador Sá Nogueira, Raul da Costa Couvreur e Paulo de
Serpa Pinto Marques.
44
O País a Régua e Esquadro
reconhecimento] as cinzas de Duarte Pacheco continuam à espera
dessa oportunidade. Os seus amigos e dilectos colaboradores,
arreigados no preito à sua memória com o mesmo vigor no sentimento
como se tão longo período não fosse já decorrido, confiam que elas
não tenham já muito que esperar”.136
As cinzas de Duarte Pacheco repousam até hoje no Mausoléu dos Beneméritos
da Cidade de Lisboa. Mas os amigos e dilectos colaboradores do ministro não
esperariam muito mais tempo para ver erguido um Monumento em sua homenagem. O
monumento existiria, mas não em Lisboa. Seria construído na cidade de Loulé, a cerca
de 300 quilómetros de distância da capital.
Como atrás se referiu, desde 1946 que o município de Loulé reclamava para si a
legitimidade de construção do Monumento em Homenagem a Duarte Pacheco,
argumentando o facto de o falecido ministro ser natural daquela cidade. Nesse mesmo
ano encarregara Manuel Laginha de elaborar um estudo que foi posteriormente entregue
a Cottinelli Telmo. Este arquitecto acabaria por trabalhar duas propostas - uma da
Câmara de Loulé e outra do MOP - sendo que nenhuma das duas teria execução.
Em 1948 Cottinelli Telmo falecia e em 1949 Cristino da Silva ficaria encarregue
de elaborar novo projecto. De 1949 a 1952 o projecto estagnou, mas em Novembro
desse mesmo ano arrancaria em definitivo.
Comparticipado pelo Estado e pelos municípios, o Monumento a erigir numa
zona de expansão da cidade, enquadrado por um projectado parque municipal, destinar-
se-ia a perpetuar a memória do falecido Ministro das Obras Públicas.
O trabalho resultou da articulação entre várias entidades: a Câmara Municipal de
Loulé e a Direcção dos Serviços de Melhoramentos Urbanos, adstrita à Direcção Geral
dos Serviços Urbanos. Ao topo deste projecto articulado estava o Ministério das Obras
Públicas. O trabalho realizou-se num prazo de 17 meses e obra estaria concluída pouco
antes da data do 10º aniversário do falecimento do ministro.
Cristino da Silva concebeu um monumento esquemático: uma coluna sólida,
com 5 metros de diâmetro e 17 metros de altura como símbolo da gigantesca obra
realizada pelo eminente Ministro. O aspecto inacabado e fracturado da coluna seria uma
136
CARVALHO, Eduardo Rodrigues de, “Lisboa na vida de Duarte Pacheco”, in Revista Internacional,
Duarte Pacheco In Memorian, Lisboa, nº 23, 1951, número de homenagem à memória do Engenheiro
Duarte Pacheco no 8º aniversário do seu falecimento, s/paginação.
45
O País a Régua e Esquadro
alegoria plástica à vida e obra interrompidas tão brutalmente pelo fatal desastre que o
vitimou137.
Na base da coluna voltada ao eixo da praça, seria colocado um plinto com um
baixo-relevo em bronze com a efígie do ministro. Esta seria ladeada por duas palmas de
glória esculpidas na pedra. Assente sobre plataforma circular de 30 metros de diâmetro
e emoldurada por muro de suporte semicircular com 4 metros de altura e dupla
escadaria lateral, a coluna monumental seria ornada com baixos-relevos representativos
das infra-estruturas com que Duarte Pacheco dotara o país.
Na memória descritiva do projecto, assinada por Cristino da Silva a 26 de
Agosto de 1952138, lê-se que pelos trabalhos do arquitecto autor do projecto e pelos
trabalhos dos 10 escultores que realizaram a composição plástica do monumento, o
Estado não teve despesas pois todos ofereceram desinteressadamente os seus trabalhos
à Nação139.
Contudo, em correspondência anterior a esta data, mais precisamente a 18 de
Abril de 1952, a Repartição de Melhoramentos Urbanos enviava a Cristino da Silva a
cópia de num ofício do Ministro das Obras Públicas à Câmara de Loulé a propósito do
Monumento a Duarte Pacheco140. Neste documento o trabalho desinteressado oferecido
à nação ganha outra dimensão, pois revela que o processo de elaboração e execução do
Monumento a Duarte Pacheco, esbarrou, até ao último momento, numa série de
obstáculos que foram silenciados.
No dito ofício o ministro revelava preocupações com a orçamentação da obra, ao
ponto de determinar que a coluna passasse dos inicialmente projectados 22 metros de
altura para os 17 metros que na realidade veio a ter. Na argumentação do Ministro, o
facto dever-se-ia à escala de Loulé.
137
Biblioteca de Arte da Fundação Calouste Gulbenkian – Espólios de Arquitectura, Espólio Cristino da
Silva LCS 53: Projecto do Monumento ao Engenheiro Duarte Pacheco a Erigir em Loulé. Memória
Descritiva.
138
Idem, Ibidem, Op. Cit.
139
Idem, Ibidem, Op. Cit.
Leopoldo de Almeida realizou a efígie do Ministro; Barata Feyo assinou o baixo-relevo dos Monumentos
Nacionais e Exposição do Mundo Português; Henrique Moreira realizou o baixo-relevo alusivo a
Hospitais e Escolas; a Álvaro Brée couve o baixo-relevo do Estádio e Edifícios; a João Fragoso o da
Urbanização e Habitação; a Martins Correia o baixo-relevo do Aeroporto e Plano Director de Lisboa; a
Raul Xavier as Pontes e Caminhos de Ferro; a Anjos Teixeira a Camionagem e Estradas; a António
Duarte os Portos e Abastecimento de Água e a Euclídes Vaz a Radiodifusão e a Hidráulica Agrícola.
140
Idem, Ibidem, Ofício nº 2487 da Repartição de Melhoramentos Urbanos enviado ao Arquitecto
Cristino da Silva, página 1.
46
O País a Régua e Esquadro
Mas a preocupação maior do ministro prendia-se com o facto de até àquela data
apenas 136 municípios terem contribuído com 100 contos, Lisboa e Porto outros 100
contos cada, a Câmara de Loulé 200 contos e o Fundo de Desemprego 400 contos.
Porque a 6 meses da data de inauguração, 163 municípios continuavam sem
subscrever o financiamento do Monumento, José Frederico Ulrich estima que a sua
comparticipação não exceda os 100 contos, optando por encurtar o orçamento da obra e
contabilizar apenas com os 900 contos em caixa, afirmando que de forma optimizada o
melhor seria não ultrapassar os 800 contos. O ministro pede ainda que seja averiguado o
preço dos trabalhos dos escultores. No seguimento deste propósito define que se
adoptará:
“ a coluna projectada mas com base mais simplificada, sem qualquer
medalhão e apenas com uma inscrição neste género: Ao Eng. Duarte
Pacheco/Ministro das Obras Públicas/1932-1936/1938-1943 e uma
frase do Senhor Presidente do Conselho na sessão da Ass. Nacional
que se seguiu à morte do Eng. Duarte Pacheco” 141
Em finais de 1952, quase dez anos após a morte do ministro Duarte Pacheco, a
adesão dos municípios ao propósito de concretização do Monumento em sua memória,
parecia já não ser um acto espontâneo e colectivo.
Ao contrário da verdade política construída, o valor probatório dos documentos
atesta que de um total de 301 Câmara Municipais existentes em 1952-1953, apenas 138
contribuíram de facto para o orçamento da obra.
O mesmo efeito de alheamento provocado pelo já considerável distanciamento
temporal, atingia o gabinete do Presidente do Conselho. A 13 de Novembro de 1953,
três dias antes da inauguração do Monumento, o ministro das Obras Públicas informava
Oliveira Salazar de que em Loulé os trabalhos preparativos para a cerimónia de
inauguração estariam já ultimados, na expressão do ministro as coisas estariam bem
afinadas142. No mesmo dia o ministro enviava nova missiva ao Presidente do Conselho
e pela informação contida na resposta de Ulrich, subentendem-se as questões colocadas
pelo Chefe de Governo. Oliveira Salazar sabia que o Monumento se iria inaugurar em
Loulé, teria uma imagem esquemática da configuração do monumento, mas certamente
141
Idem, Ibidem, Op. Cit., página 2.
142
Vide Apêndice Documental, Documento 4.
47
O País a Régua e Esquadro
fora informado de que a coluna interrompida não teria uma forma clássica nem seria o
tipo de peça escultórica de adesão estética imediata.
O ministro das Obras Públicas informava nada de concreto poder afirmar, pois
não vira a obra concluída, mas sossegava o Presidente do Conselho: apesar do aspecto
interrompido [que alguns viam como inacabado] o monumento fora erigido numa praça
que encimava a nova e imponente Avenida Marechal Carmona. E, para maior impacto
visual, a coluna tinha 17 metros de altura. O ministro esperava que a imponência do
conjunto sortisse efeito143.
E deste modo o dia 16 de Novembro de 1953 amanhecia em Loulé com a certeza
de uma consagração nacional, a uma década de distância.
Uma primeira cerimónia, de carácter religioso, teve lugar na Igreja Matriz de
Loulé pelas 9h30 da manhã. Acolitado pela hierarquia eclesiástica da diocese, o bispo
coadjutor do Algarve celebrou missa. Após a cantata Libera me, D. Francisco Maria
Rendeiro procedeu à última absolvição e proferiu um sermão tendo por tema o Pie Jesu
dona ei requiem144.
A segunda cerimónia teve lugar na casa onde nasceu Duarte Pacheco. No
número 34 da Praça da República os clarins da Mocidade Portuguesa tocaram a sentido
e o irmão mais novo do ministro homenageado, Nuno Pacheco, era convidado a
descerrar a lápide evocativa145:
“Nesta casa nasceu Duarte Pacheco em 9 – 4 – 1899, e que, como
ministro das Obras Públicas e Comunicações, visionou, dirigiu e
realizou a recuperação material da sua Pátria, ao serviço da qual
faleceu em 16 – 11 – 1943”
Após o descerramento da placa, usou da palavra o Presidente da Câmara de
Loulé. Uma vez mais todos os predicados do falecido ministro seriam enunciados.
Findo o discurso, ouviu-se o Hino Nacional.
Pouco depois das 14h00 chegavam os convidados de Lisboa, vindos num
comboio especial. Maioritariamente seriam engenheiros e colaboradores próximos do
ministro. Do cortejo salientavam-se figuras como Belard da Fonseca, director do IST,
acompanhado por Beirão da Veiga e Herculano de Carvalho, professores catedráticos do
143
Idem.
144
Cfr. Diário de Notícias, 17 de Novembro de 1953.
145
Cfr. Diário da Manhã, 17 de Novembro de 1953.
48
O País a Régua e Esquadro
mesmo Instituto. António Eça de Queiroz, director da Emissora Nacional e Tavares de
Almeida em representação do SPN também se evidenciavam da mole humana que
confluía para o monumento.
Às 14h30 entravam na Avenida Marechal Carmona o Presidente do Conselho, o
Ministro da Presidência, o Ministro das Obras Públicas e o Ministro das Comunicações.
Para além destas figuras de Estado seriam chamados à tribuna de honra os Presidentes
das Câmaras de Loulé e de Lisboa, o Bispo Coadjutor do Algarve, o Governador Civil
de Faro, o Comandante da 4ª Região Militar, os engenheiros Cancela de Abreu e
Espregueira Mendes antigos subsecretário de estado de Duarte Pacheco, Veiga da
Cunha e Sebastião Ramires. Estariam ainda presentes, entre outros, o arquitecto Cristino
da Silva e o engenheiro Sá e Melo, como elementos representativos da equipa que
trabalhara no projecto do monumento prestes a inaugurar. Em representação da família
do homenageado, estavam presentes na tribuna de honra os dois irmãos mais velhos do
celebrado ministro: Clotilde e Humberto Pacheco.
Ao som do hino da «Maria da Fonte», Clotilde Pacheco foi convidada a
descerrar o medalhão de bronze146. Discursaram depois o Presidente da Câmara
Municipal de Loulé, o Presidente da Câmara Municipal de Lisboa e por fim o
Presidente do Conselho.
Se os discursos dos dois presidentes de câmara se enquadravam na usual
tipologia panegírica, o discurso de Oliveira Salazar constituiu no parecer da redacção do
Diário de Notícias uma magistral oração, uma peça literária do melhor quilate. 147 Do
discurso do Presidente do Conselho o DN retiraria as seguintes «head-lines»:
“Duarte Pacheco não era um político na acepção corrente do termo,
mas homem de governo extreme, como os permite um regime em que
a governação tem podido ser quase tudo e a pequena política quase
nada.”148
146
O Diário de Notícias e o Diário da Manhã, dos dias 17 de Novembro de 1953 noticiam que foi
Clotilde Pacheco quem descerrou a efígie de bronze do Monumento de Homenagem a Duarte Pacheco.
Contudo, o Primeiro de Janeiro de 17 de Novembro de 1953 notícia que foi a segunda irmã mais velha de
Duarte Pacheco quem descerrou a efígie: Sofia Pacheco Magalhães.
147
Cfr. Diário de Notícias, 17 de Novembro de 1953.
148
“Discurso de Oliveira Salazar a Inauguração do Monumento Duarte Pacheco, em Loulé”, in Diário de
Notícias, 17 de Novembro de 1953.
49
O País a Régua e Esquadro
Embora reafirme que ainda não é local nem o momento próprio, o Presidente do
Conselho acede ao que prometera há dez anos na Assembleia Nacional, e presta um
depoimento sobre Duarte Pacheco. No parecer do chefe do governo, Duarte Pacheco
poderia ser enaltecido de duas formas: pela massa de realizações materiais e pela
escola que formou. Compondo as duas a sua obra, a primeira dependeu do tempo e da
circunstância para se poder concretizar, enquanto que a segunda apenas se deveu à
riqueza da sua personalidade. Contornada a segunda valência da obra de Duarte
Pacheco, o IST, Oliveira Salazar centra o discurso na obra material do ministro, a
mesma obra que dependeu de um tempo comungado por todos os presentes na
cerimónia, mas dependente da circunstância, ou seja do ensamble ministerial em que o
Presidente do Conselho era já jubilado149.
Qualificando a obra material de Duarte Pacheco como uma obra imensa, o chefe
do governo explica a solução utilizada pelo ministro para atingir tais resultados:
selecção e preparação de numeroso pessoal para uma eficiente coordenação de esforços;
definição de princípios e exigência de planos.
Definido o método de trabalho de Duarte Pacheco, Oliveira Salazar define ainda
o seu ministro:
“Duarte Pacheco não era um político na acepção corrente do termo
(...) como se receasse as multidões, falava pouquíssimo em público; os
seus discursos foram raros e curtos (...) e nunca falava no povo, para
não o diminuir como plebe e poder servi-lo como Nação”150
Duarte Pacheco, não fora de facto, um político na usual acepção do termo. Ao
contrário de Oliveira Salazar e dos vários ministros que constituíram os governos do
Presidente do Conselho, Pacheco raras vezes discursou, dispensava as notas políticas e
revelava-se arredio de cerimónias protocolares. Não por receio de multidões mas por
convicção de profunda perda de tempo.
Duarte Pacheco impregnava o exercício da sua actividade como ministro com o
pensamento e o método em que a Engenharia o havia moldado: para a obtenção de um
resultado, uma obra, demorava-se na concepção dos elementos, no processo de
149
O Jubileu Ministerial de Oliveira Salazar havia sido festejado a 27 e 28 de Abril desse mesmo ano.
Cfr. Diário da Manhã, número especial, Jubileu Ministerial de Salazar, 27 de Abril de 1928 – 27 de Abril
de 1953.
150
“Discurso de Oliveira Salazar a Inauguração do Monumento Duarte Pacheco, em Loulé”, in Diário de
Notícias, 17 de Novembro de 1953.
50
O País a Régua e Esquadro
conjugação desses mesmos elementos até à fase de conclusão. Obra concluída, resultado
obtido. Para as cerimónias de inauguração outros políticos cumpririam a função, os da
política do discurso inflamado, da política do quase nada.
Para o regime, o ano de 1953 terminava com um balanço positivo: em Abril o
Presidente do Conselho recebera em Lisboa as maiores ovações populares por ocasião
da celebração do “Jubileu Ministerial” e em Novembro, em Loulé, numa moldura
humana considerável, encerrava-se definitivamente a questão por dez anos adiada: o
Monumento de Homenagem a Duarte Pacheco.
Em 1943, na sessão de 25 de Novembro na Assembleia Nacional, Oliveira
Salazar prometera para outro momento as palavras de louvor e justiça sobre o ministro.
Em 1953, dez anos volvidos e em pleno acto de homenagem, Oliveira Salazar afirmaria
que não era ainda o local nem o momento próprio para o fazer. Nem o faria. Com o
discurso de Loulé, o Presidente do Conselho encerrava publicamente a questão. Com o
mesmo discurso, Salazar que não receava as multidões e habilmente jogava com
palavras, neste acto de homenagem, reclamava para si e para o seu governo a
legitimidade da celebração de uma obra que, afinal era o próprio regime: um regime em
que a governação tem podido ser quase tudo, e podendo ser tudo podia ser também a
vida e obra do ministro homenageado. Em Loulé celebrara-se o desempenho de Duarte
Pacheco, mas a obra era do regime.
Publicamente Oliveira Salazar não voltaria a mencionar o nome do ministro,
contudo, politicamente e sempre que a situação se afigurasse favorável, o nome do
ministro seria evocado a bem da Nação. Este processo de apropriação manteve-se até ao
final do regime então vigente.
A 16 de Novembro de 1962 era inaugurada a “Sala Duarte Pacheco” no Palácio
da Mitra, local onde estava instalado o Museu Municipal de Lisboa. Esta cerimónia,
realizada dezanove anos após a morte de Duarte Pacheco encerrava um processo de
doação que se iniciara há dois anos e meio.
A 19 de Abril de 1960 Jaime Lopes Dias, Director dos Serviços Centrais e
Culturais da CML apresentava ao Presidente do município a proposta de aceitação do
espólio intacto, tal como o grande Ministro e Presidente da CML o deixou151.
151
CML, Gabinete de Estudos Olisiponenses, Espólio Duarte Pacheco, Documentação Administrativa,
Ofício enviado por Jaime Lopes Dias – Director dos Serviços Centrais e Culturais da CML ao Presidente
da CML.
51
O País a Régua e Esquadro
Em carta datada de 30 de Maio de 1960 e enviada ao Presidente da CML,
Clotilde e Humberto Pacheco, irmãos do falecido ministro, confirmavam a intenção de
doação do espólio e enunciavam o desejo ver o município instituir um espaço
musealizado onde se prestasse homenagem à obra e memória de Duarte Pacheco152.
Na sessão camarária de 22 de Junho de 1960 era aprovada por unanimidade a
aceitação da doação da família de Duarte Pacheco, com o compromisso de criação de
um espaço individualizado e sem prejuízo de desmembramento do espólio153.
Em Agosto do mesmo ano era feita a primeira apreciação ao espólio doado. Uma
primeira secção agrupava a biblioteca do ministro: heterogénea, composta por cerca de
1.200 volumes divisíveis nas categorias de Literatura, História, Engenharia,
Arquitectura e Assuntos Técnicos de carácter nacional e internacional, e ainda algumas
publicações oficiais dos vários ministérios. Numa segunda secção agrupada na categoria
de mobiliário, estariam incluídas várias estantes abertas e fechadas, mesa de trabalho,
secretária e cadeiras. À parte destes dois grandes grupos, reuniam-se alguns álbuns de
fotografias a documentar as várias fases de construção de obras mandadas erguer pelo
ministro, as pastas de honra de diversas câmaras do país, ofertas de carácter oficial, um
grande número de plantas, alguns objectos pessoais que decorariam o seu gabinete de
trabalho e ainda uma gravura de Lisboa, datada do século XVI154.
Quanto ao projecto de musealização do gabinete de trabalho do ministro, a Sala
Duarte Pacheco, não poderia efectivar-se no Palácio das Galveias por incompatibilidade
de organização dos serviços. Quanto à possibilidade de instalação da sala Duarte
Pacheco no Museu da Cidade, poderia até desactivar-se a Biblioteca que aí funcionava,
tendo em conta a diminuta afluência de leitores. Contudo, a conservadora-chefe julgava
difícil a reconstituição de um gabinete de trabalho com carácter actual num palácio
setecentista155.
Por despacho do Presidente da Câmara156 decide-se a transferência da biblioteca
municipal para outro local, determinando-se a instalação da Sala Duarte Pacheco no
152
Vide Apêndice Documental, Documento 5.
153
CML, Acta nº 290 da Sessão Plenária de 22 de Junho de 1960, com publicação nas Actas da Reunião
Ordinária da Câmara, pp. 11-12.
154
CML, GEO/DDP, Ofício enviado pela conservadora do Museu Municipal de Lisboa ao Conservador-
Chefe dos Museus Municipais, Repartição de Bibliotecas e Museus da CML.
155
CML, GEO/DDP, Informação redigida pela Conservadora-Chefe dos Museus Municipais, Repartição
de Bibliotecas e Museus da CML, a 15 de Agosto de 1960.
156
CML, GEO/DDP, Ofício enviado pelo Director dos Serviços Centrais e Culturais da CML ao
Conservador-Chefe dos Museus Municipais, Repartição de Bibliotecas e Museus da CML em 30 de
Agosto de 1960.
52
O País a Régua e Esquadro
Museu da Cidade. Em Novembro desse mesmo ano Clotilde e Humberto Pacheco
visitam o espaço declaram que a sala não tem as condições julgadas indispensáveis
para o fim em vista. Um ano volvido e algumas beneficiações feitas na sala onde
funcionara a Biblioteca Municipal, foram factores que condicionaram uma mudança de
atitude por parte dos irmãos de Duarte Pacheco157.
A 29 de Outubro de 1962 era feita a mudança do escritório particular do antigo
ministro, da sua residência particular para a Sala o Museu Municipal e a 16 de
Novembro desse mesmo ano, sem pompa e apenas com palavras circunstanciais, era
inaugurada a Sala Duarte Pacheco. Na Revista Municipal o acto de inauguração não
mereceria destaque editorial constando apenas da lista de efemérides do mês de
Novembro.
A título oficial e até ao final da vigência do regime, as referências a Duarte
Pacheco irão manter-se pontualmente, sempre que num discurso ou situação concreta, o
governo ou os seus agentes entenderem que a evocação do nome ou da obra do
ministro, investe de dignidade as intenções do governo e do Estado158.
Neste sentido se entende que em Março de 1963, o Ministério das Obras
Públicas decrete a criação do Gabinete de Estudos de Urbanização Duarte Pacheco159.
Quase trinta anos depois de Duarte Pacheco ter decretado a execução dos Planos Gerais
de Urbanização160, o regime constatava que a reflexão profunda sobre a cultura urbana,
era de facto uma necessidade. Uma vez mais, a medida política escudava-se num nome
que creditava a acção: o ministro.
A título particular, e também no ano de 1963 surge numa das pastas de
correspondência privada endereçada à Presidência do Conselho, uma carta de Humberto
Pacheco, irmão de Duarte Pacheco. Nessa carta, Humberto, em nome da família, pede a
Alfredo Barbieri Leandro que agradeça a Oliveira Salazar o facto de se ter feito
representar na missa mandada rezar em memória do ministro161.
157
Vide Apêndice Documental, Documento 6.
158
A evocação da obra e da memória de Duarte Pacheco continuará presente no discurso dos agentes
políticos, nomeadamente na apresentação de projectos levados a debate ao hemiciclo da Assembleia
Nacional. Cfr. Diário das Sessões da Assembleia Nacional – Debates Parlamentares, 1943-1970.
159
Diário de Governo, 1ª Série, nº 75, Decreto-Lei 44948, de 29 de Março de 1963.
160
Diário do Governo, 1ª Série, Decreto-Lei 24802, de 21 de Dezembro de 1934.
161
ANTT, AOS/CP – 207, Correspondência: Humberto Pacheco, Lisboa, 20 de Novembro de 1963.
53
O País a Régua e Esquadro
1.2. A Memória do País
“O Homem das Obras: Duarte Pacheco”
O Independente, 12 de Novembro de 1993.
Em 1991 era inaugurada a A5, a auto-estrada Lisboa-Cascais. Quarenta e cinco
anos passados desde a abertura do Viaduto Duarte Pacheco e da inauguração do
primeiro lanço da auto-estrada que ligava Lisboa ao Estádio Nacional, a extensão de
24,7 km estava finalmente concluída.
Duarte Pacheco decretara em 1933 a criação da primeira auto-estrada em
Portugal. Numa articulação com um outro eixo viário, a turística e panorâmica estrada
marginal, a auto-estrada da Costa do Estoril, pretendia ser um eixo viário de eleição, a
percorrer de automóvel pela franja social mais eleva e com destino ao Estoril e Cascais,
as vilas cosmopolitas das termas, do veraneio, dos casinos e das ancestrais famílias
europeias que numa Europa em conflito, ali buscavam discrição e diversão.
Contudo, de 1933 a 1991 o cenário alterara-se por completo. Política
habitacional quase não existia. O mercado de arrendamentos nunca fora incentivado
nem actualizado. Em consequência e cerca de meio século volvido, a cidade de Lisboa
aumentara na população flutuante diária mas decrescera brutalmente na população
residente.
Com um mercado de habitação quase inexistente, a população activa de Lisboa
distribuiu-se maioritariamente pelos concelhos de Loures, Amadora, Sintra, Oeiras e
Cascais. Nos meados dos anos 80, a circulação automóvel na Estrada Marginal rondava
já uma média diária de 38.500 veículos. Do mesmo modo, a rede ferroviária que servia
a linha de Cascais e a linha de Sintra, assistia a um crescendo na utilização
54
O País a Régua e Esquadro
89
.
A adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia em 1986 permitira a entrada
nos cofres do Estado de fundos monetários estruturais que seriam aplicados
maioritariamente na renovação ou criação de infra-estruturas. As vias de comunicação
seriam uma das apostas. É neste contexto que se conclui em 1991 a auto-estrada Lisboa-
Cascais.
À saída do Viaduto Duarte Pacheco, no arranque imediato da auto-estrada, seria
colocado um monumento de homenagem ao ministro promotor do equipamento. Com
projecto arquitectónico do atelier Nuno Santos Pinheiro e concepção plástica de
António Duarte, o monumento encomendado pelo Ministério das Obras Públicas,
Transportes e Comunicações, foi inaugurado pelo primeiro-ministro em exercício,
Aníbal Cavaco Silva. Cinquenta e oito anos após a publicação do documento que
decretara a construção da auto-estrada, a obra estava finalmente concluída e o seu
mentor homenageado.
O Monumento a Duarte Pacheco é composto por duas peças. Em fundo um
memorial onde estão inscritas as datas biográficas e os cargos públicos exercidos pelo
político. Sobre um pedestal cilíndrico, esculpido em bronze, em vulto perfeito, de pé e
olhar frontal, o ministro aponta com a mão direita o plano que segura na mão esquerda.
Se a concepção plástica do monumento se revela pouco mais que esquemática, a
sua localização revela-se ineficaz. Parece não ser uma peça de contemplação, apenas
uma peça de presença, de referência, e talvez por isso mesmo dela não resulte qualquer
fruição. O acesso pedonal não existe e a paragem de veículos não é recomendada
embora exista placa de refúgio, certamente apenas utilizada pelas equipas de
manutenção. A observação do monumento só é possível de duas formas: na imobilidade
do congestionamento da A5 no sentido Cascais - Lisboa pela manhã, ou no sentido
inverso ao final da tarde.
Entre 1993 e 1994, duas instituições públicas celebraram o cinquentenário da
morte de Duarte Pacheco. Nas homenagens prestadas, a Câmara Municipal de Lisboa e
o Instituto Superior Técnico expressariam a imagem e os conteúdos que, cinquenta anos
volvidos, o espelho da memória conseguia reflectir.
A iniciativa da Câmara Municipal de Lisboa estruturou-se em dois módulos:
uma exposição e um catálogo. De 25 de Novembro de 1993 a 6 de Janeiro de 1994,
89
Projectos e Obras 1990-1995, Lisboa, Ministério das Obras Públicas, Transportes e Comunicações,
Lisboa, Edições Inapa, 1995.
55
O País a Régua e Esquadro
esteve patente no Palácio Beau Séjour em Lisboa, a exposição Evocar Duarte Pacheco
no Cinquentenário da sua morte. Tanto a exposição como o catálogo foram concebidos
e elaborados por técnicos e investigadores ao serviço da Câmara. O Espólio Duarte
Pacheco, doado pela família do ministro em 1962, serviria de base, cinquenta anos
depois, a uma exposição e uma publicação evocativas da figura histórica. Nas palavras
do Vereador do pelouro da Cultura:
“Duarte Pacheco marcou, de forma decisiva, não apenas a imagem de
Lisboa do seu tempo mas também a do País (...) A cidade deve-lhe
não apenas o parque de Monsanto ou o Aeroporto mas uma ideia de
cidade cuja expansão, urbanização e arquitectura, entregue a
arquitectos prestigiados, assentava numa activa participação do
município na definição das regras urbanísticas e no controlo do uso
solo. A municipalização de solo urbano, feita por si, foi de tal
dimensão e importância que ainda hoje se sentem os seus efeitos (...) “
90
A responsável pelo Gabinete de Estudos Olisiponenses (GEO), entidade
camarária que recebia a exposição evocativa, teria também algumas palavras de tributo:
“50 anos passados após a morte do Eng.º Duarte Pacheco a
Câmara Municipal de Lisboa (...) vem prestar homenagem àquele que
foi seu Presidente e a quem a Cidade tanto deve. Esta modesta
homenagem, uma pequena amostragem documental recolhida no
Espólio Duarte Pacheco e em documentação bibliográfica e
iconográfica do GEO, tenta inventariar, de um modo sumário, a obra
91
de Duarte Pacheco em Lisboa.”
Com esta iniciativa, a Câmara de Lisboa celebrava a memória e a obra daquele
que fora seu presidente.
90
SOARES, João, Nota Introdutória ao Catálogo da Exposição Evocar Duarte Pacheco no
Cinquentenário da Sua Morte (1943-1993), Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1993, pág. 3.
91
MOREIRA, Maria da Assunção Júdice, Nota Introdutória ao Catálogo da Exposição Evocar Duarte
Pacheco no Cinquentenário da Sua Morte (1943-1993), Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa, 1993, pág.
5.
56
O País a Régua e Esquadro
Mas mais importante que a celebração da efeméride e deste património de
memória comum, outro valor ficaria desta exposição evocativa: a recuperação e
exibição permanente de um espólio que, por anos a fio havia tido um percurso ingrato,
lamentável, mas infelizmente frequente no panorama do património móvel e
documental português.
O Espólio Duarte Pacheco, doado pela família do político à CML em 1962, dera
origem em 1963 à Sala Duarte Pacheco, no Palácio da Mitra, local onde à data estava
instalado o Museu Municipal. De 1963 a 1978 aí permaneceu. Contudo, por esta data a
referida sala foi transformada em copa e as espécies que compunham a referida
colecção foram enviadas para o Palácio Galveias, ali tendo permanecido até 1989.
Nesse mesmo ano, por necessidade de acomodação do Director do Departamento de
Cultura, a Sala seria novamente desmantelada e as espécies acondicionadas. Em 1991
assiste-se ao desmembramento do espólio: parte segue para a 4ª Repartição Cultural sita
na Rua da Palma, sendo outra parte colocada num depósito da Avenida da India. Em
data que não conseguimos apurar, o acervo mobiliário e alguns objectos pessoais do
ministro regressam de novo às Galveias mas, por necessidade de obras de remodelação
das instalações da Rua da Palma, o acervo bibliográfico que compunha o espólio,
transita para o Palácio dos Coruchéus.
Em 1992 a CML decide executar um projecto de celebração do cinquentenário
da morte de Duarte Pacheco e procura reunir todos os elementos constituintes do
Espólio. Foi neste momento que se detectou o seguinte: da listagem de 1963 para a
listagem de 1992 constatou-se a falta de 88 espécimens bibliográficos. Este facto,
diminuindo a colecção e a sua integridade, não afectou o seu conteúdo geral, pois a
nível de estudo e análise, continuam perfeitamente perceptíveis os vários corpos que
constituem a biblioteca de Duarte Pacheco. Mas em consciência, a Câmara Municipal
de Lisboa adoptaria uma medida definitiva: em 1994, no fecho da exposição evocativa
de Duarte Pacheco, o Gabinete de Estudos Olisiponenses ficaria encarregue da guarda
definitiva, da inventariação, catalogação e divulgação do Espólio Duarte Pacheco92.
Ainda no ano de 1993 teve lugar no Instituto Superior Técnico uma Cerimónia
de Homenagem a Duarte Pacheco. A revista Técnica, publicação dirigida pela
92
Estas informações foram recolhidas no Gabinete de Estudos Olisiponenses através da consulta de
documentação administrativa relativa ao Espólio Duarte Pacheco. Porque se trata de documentação de
arquivo intermédio, por imperativos legais que nos competem como investigadora, as referências
nominais estão omissas.
57
O País a Régua e Esquadro
Associação de Estudantes do IST desde os Anos 20, editaria no número de Setembro de
1994 os depoimentos de algumas das personalidades presentes ao acto solene93.
No seu tributo, o Professor Jorge Borges de Macedo considera Duarte Pacheco
uma figura de importância científica, política, cultural e humana.94 Do mesmo modo,
considera Duarte Pacheco como a terceira figura de uma tríade em que assenta o
indiscutível prestígio do IST95. Os outros dois vértices são, no parecer do autor, o
engenheiro Alfredo Bensaúde e o professor Mira Fernandes. O autor acrescenta ainda
que Duarte Pacheco tinha um projecto republicano de desenvolvimento do país96,
embora não refira qual. Seguidamente o historiador elenca o percurso político e as
linhas mestras dos programas ministeriais de Duarte Pacheco.
No mesmo acto solene, Eduardo Arantes e Oliveira considera Duarte Pacheco
um dos mais ilustres engenheiros do IST, embora não o julgue um produto típico do
Técnico, pois a sua singularidade coloca-o fora de todos os esquemas97.
Arantes e Oliveira veicula a ideia de existência de uma estreita relação entre
Duarte Pacheco e Mira Fernandes, acrescentando que foi este que em 1925 o convidou
para professor interino do Instituto Superior Técnico98. Considera ainda que foi o
processo de construção das novas instalações do IST, com Duarte Pacheco já como
director do Instituto, que lhe deu força política e fez calar os maledicentes99.
O Reitor da Universidade Técnica, Professor Simões Lopes, no seu breve
tributo, relembra que o modelo de funcionamento descentralizado reconhecido ao IST,
em muito se ficou a dever a Duarte Pacheco100.
Num breve discurso, Ferreira do Amaral, Ministro das Obras Públicas,
Transportes e Comunicações, reconhece em Duarte Pacheco o estatuto de figura
histórica por uma razão essencial: o homem que fez, que realizou101.
93
Da informação contida na Revista Técnica nº 2/94 de Setembro de 1994 poderemos inferir as
individualidades presentes na cerimónia comemorativa que teve lugar no IST. Assim, a par dos oradores
Borges de Macedo, historiador e à data Director dos Arquivos Nacionais da Torre do Tombo; Eduardo
Arantes e Oliveira, engenheiro e Director do Laboratório Nacional de Engenharia Civil; Simões Lopes,
Reitor da Universidade Técnica de Lisboa e Ferreira do Amaral, engenheiro e Ministro das Obras
Públicas, estiveram ainda presentes as seguintes individualidades: Luís Mira Amaral, Ministro da
Indústria e Energia, Diamantino Durão, Director do IST e Abreu Faro, engenheiro decano do IST.
94
MACEDO, Jorge Borges de, “Cerimónia Comemorativa a Duarte Pacheco”, in Técnica, nº 2/94,
Setembro de 1994, pág. 9.
95
Idem, Op. Cit. Pág. 11.
96
Idem, Op. Cit., pág. 13.
97
OLIVEIRA, Eduardo R. Arantes e, “Conferência proferida na Homenagem a Duarte Pacheco”, in
Revista Técnica, nº 2/94, Setembro 1994, pág. 21.
98
Idem, Op. Cit., pág. 21.
99
Idem, Op. Cit., pág. 28.
100
LOPES, Simões, “Cerimónia Comemorativa a Duarte Pacheco, in Revista Técnica, nº 94, Setembro
1994, pág. 31.
58
O País a Régua e Esquadro
A este número da Revista Técnica de 1994 seriam ainda acrescidos dois textos:
um artigo/depoimento, de Luís Guimarães Lobato, antigo aluno do IST; e um artigo
técnico/histórico elaborado pela arquitecta Madalena Cunha Matos, à data professora do
Departamento de Engenharia Civil do IST.
Guimarães Lobato, antigo aluno do IST, membro da Associação de Estudantes
do Técnico e, no decurso da sua vida estudantil, um dos responsáveis pela Revista
Técnica, traz a este tributo, cinquenta anos volvidos sobre a morte de Duarte Pacheco, a
memória do aluno que trabalhou com o director. À data de transferência dos primeiros
serviços do IST da Boavista para a Alameda, entre 1935 e 1936, Guimarães Lobato
como aluno activo na vida do instituto, colaborou com o director na troca de impressões
sobre a melhor localização e funcionalidade de serviços, cabendo-lhe ainda a tarefa de
instalar as actividades da Associação dos Estudantes e da Revista Técnica102.
Guimarães Lobato relembra que nas novas instalações do IST as tradições e actividades
da vida estudantil associativa de consolidaram e acresceram.
Guimarães Lobato, que na sua vida profissional viria a dirigir o Laboratório
Nacional de Engenharia Civil (LNEC) relembra ainda que foi sobre a direcção de
Duarte Pacheco no IST que a escola insistiu na formação dos engenheiros técnicos mas
também científicos na experiência do saber: ou seja na concepção e elaboração de
projectos. Desta aposta nasceu a criação no IST do Centro de Estudos de Engenharia
Civil. Mais tarde esta aposta transformar-se-ia no LNEC.
Como atrás foi referido, o número da revista Técnica dedicada ao cinquentenário
da morte de Duarte Pacheco, termina com o texto de Madalena Cunha Matos. Neste
artigo de teor eminentemente técnico, a arquitecta centra-se nos aspectos formais e
conceptuais que determinaram a edificação do Instituto Superior Técnico.
Cinquenta anos após o desaparecimento de Duarte Pacheco, a Câmara Municipal
de Lisboa e o Instituto Superior Técnico prestavam tributo àquele que através da sua
acção política transformou a Lisboa herdada de oitocentos numa Lisboa moderna e
transformou uma escola de engenharia técnica ainda embrionária, numa das mais
conceituadas escolas do país. Esta evocação, esta celebração concretizada nos anos 90,
pronuncia a posição de reconhecimento das instituições públicas face à obra de Duarte
Pacheco.
101
AMARAL, Joaquim Ferreira do, “Cerimónia Comemorativa a Duarte Pacheco”, in Revista Técnica, nº
2/94, Setembro 1994, pp. 39-40.
102
LOBATO, Luís Guimarães,” Duarte Pacheco Um Homem do Futuro”, in Revista Técnica, nº 2/94,
Setembro 1994, pág. 41.
59
O País a Régua e Esquadro
Contudo, quer na exposição temporariamente exibida no Palácio Beau Séjou,
quer no catálogo que nos ficou dessa mesma exposição, poucos são os dados que nos
permitem obter um melhor conhecimento desta figura histórica. Por outro lado, também
nos depoimentos prestados pelas individualidades que no IST celebraram a memória de
Duarte Pacheco, poucas informações se conseguem recolher. Com efeito, dos dados
biográficos aos primeiros 17 anos passados no Algarve, do curso de engenharia
frequentado no IST à relação discípulo-mestre que terá existido entre Duarte Pacheco e
Mira Fernandes, da meteórica ascensão nos quadros do IST à ascensão política,
cinquenta anos volvidos sobre a morte do ministro, os dados permaneceram inalterados
na produção de conhecimento.
Entre Janeiro e Março de 2003, esteve patente nas instalações da Cordoaria
Nacional a exposição Engenho e Obra – Engenharia em Portugal no século XX. Com o
propósito de analisar e reflectir sobre os projectos de engenharia que, com impacto na
sociedade portuguesa, expressaram o poder criativo dos engenheiros, esta mostra teve
também o objectivo de dar a conhecer a evolução histórica da engenharia em Portugal.
No final de 2004 surgiria a publicação sequente à mostra atrás referida. A obra,
intitulada Momentos de Inovação e Engenharia em Portugal no Século XX, sob
coordenação de Manuel Heitor, José Maria Brandão de Brito e Fernanda Rollo, reuniu
num trabalho de investigação pluridisciplinar 140 participações textuais.
Nos três volumes que compõem esta obra as referências a Duarte Pacheco são
recorrentes. Este facto prende-se certamente com a transversalidade que a sua acção
como director do IST, mas também como político, operou no domínio da engenharia em
Portugal. Nas primeiras páginas da edição Guimarães Lobato relembraria o facto:
“Duarte Pacheco procedeu (...) à criação de uma nova estrutura
orgânica das obras públicas (...) promoveu a criação de quadros de
engenheiros das diversas especialidades, por forma a garantir o alto
nível da engenharia, as concepções, os projectos e as realizações de
cada empreendimento, com vista a integrarem conceitos de ciência
aplicada à engenharia de gestão, na elaboração de projectos e suas
realizações, proporcionando à arquitectura e às artes as suas
103
participações efectivas, numa visão global dos empreendimentos”.
103
LOBATO, Luís Guimarães, Nota Introdutória ao volume I da obra Momentos de Inovação e
Engenharia em Portugal no século XXI, Lisboa, coordenação de Manuel Heitor, José Maria Brandão de
Brito e Fernanda Rollo, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2004.
60
O País a Régua e Esquadro
Contudo, como indivíduo, Duarte Pacheco não fora estudado. Da sua actividade
política haviam ficado as obras, pouco ou nada se sabendo do seu trajecto profissional,
do seu pensamento ou da construção do seu modo de actuação política.
Na história do século XX português o nome de Duarte Pacheco, como atrás se
referiu, é incontornável e, porque a sua acção política se constituiu mais de obra
construída do que de obra escrita, é no domínio dos estudos de História da Arte, de
Património e Restauro, da Arquitectura e do Urbanismo que vamos encontrar
referências mais precisas no que concerne à sua actividade.
José-Augusto França na obra Arte em Portugal no século XX, com primeira
edição de 1974, afirma que Duarte Pacheco foi, em essência, um homem de acção e de
coordenação de visões de conjunto. Na argumentação destas características, o autor
aponta as seguintes obras: a construção do IST, a planificação urbana que preside à
edificação do próprio instituto e, depois desta, a própria estrutura citadina que imprime
à cidade de Lisboa com o Plano de Urbanização trabalhado com Etienne De Gröer104.
O historiador afirma ainda que Duarte Pacheco não se ocupou apenas de Lisboa.
Na sua capacidade de coordenação e visão de conjunto, para a cidade do Porto
encomendou a elaboração de um plano de urbanização aos italianos Marcello Piacentini
e Gionanni Muzio e a uma escala nacional iniciou o processo de urbanização do país
através do Decreto-Lei 24.802 de 21 de Dezembro de 1934105.
No que respeita à configuração formal dos equipamentos construídos, o autor
defende que se utilizou:
“um estilo definidor da mentalidade ideológica epocal, dentro dum
totalitarismo que era da política nacional e também muito do
temperamento do ministro e do seu gosto – que tantos arquitectos
106
haviam de satisfazer, com pressurosa sinceridade”.
104
FRANÇA, José-Augusto, A Arte em Portugal no Século XX (1911-1961), Venda Nova, Bertrand
Editora, 3ª edição, 1991, pp.240-260.
105
Neste Decreto-Lei o Ministro das Obras Públicas e Comunicações decreta que todas as localidades
portuguesas com população igual ou superior a 2.500 habitantes, estão obrigadas a realizar um plano de
urbanização e a proceder ao levantamento de plantas topográficas. Só com o cumprimento destes
pressupostos as Câmaras Municipais poderão licenciar no futuro todas as obras e só no cumprimento
desta lei as Câmaras Municipais poderão executar expropriação por utilidade pública.
106
Idem, Op. Cit., pág. 242.
61
O País a Régua e Esquadro
Margarida Acciaiuolli de Brito, que já em 1982, no catálogo da exposição Os
Anos 40 na Arte Portuguesa, trabalhara a obra de Duarte Pacheco, em 1991, na sua
dissertação de doutoramento, aprofunda o tema107.
Para a autora, Duarte Pacheco é “o grande disciplinador das cidades e vilas do
país” e é no Decreto-Lei 24.802 de 21 de Dezembro de 1934 que temos uma ideia
imediata das pretensões de Duarte Pacheco108, ou seja, o ministro pretendia o
desenvolvimento das localidades e, para tal, era necessário dotá-las de infra-estruturas,
torná-las comunicantes, mas sob domínio e controle do processo a partir do
ministério109. Para Margarida Acciaiuoli de Brito, a obra pública de Duarte Pacheco
traduziu-se em: urbanidade, melhoramentos, programas e tipologias. Após a morte do
ministro, considera a autora que não houve um só projecto que aglutinasse ou
consusbtancializasse os interesses do Estado Novo110.
Em 1992, na obra dedicada ao estudo de Francisco Keil do Amaral, Ana Tostões
conduz-nos a uma análise mais precisa da obra de Duarte Pacheco na cidade de
Lisboa111. No parecer da autora, Duarte Pacheco é um indivíduo consciente dos
problemas inerentes à expansão de uma grande cidade moderna e é nesta perspectiva
que devem ser entendidas as suas propostas, a regulamentação urbana camarária, a
legislação urbana emanada do ministério e em consequência, as obras.
Socorrendo-se do testemunho de Keil do Amaral112, Ana Tostões transmite-nos a
imagem de como funcionaria o mercado imobiliário em Lisboa, antes da
regulamentação decretada por Duarte Pacheco:
“Antes da passagem meteórica de Eng. Duarte Pacheco pela Câmara
Municipal de Lisboa os negócios especulativos e a arbitrariedade do
desenvolvimento da cidade desenvolveram-se pacificamente. A
Câmara deixava à iniciativa privada a urbanização e a definição do
113
crescimento da capital.”
107
BRITO, Margarida Acciaiuoli de, Os Anos 40 em Portugal. O País, O Regime e as Artes
“Restauração” e “Celebração”, dissertação de doutoramento em História da Arte apresentada à
Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1991.
108
Idem, Op. Cit., pág. 412.
109
Idem, Op. Cit., pág. 412.
110
Idem, Op. Cit., pág. 473.
111
TOSTÕES, Ana, Monsanto, Parque Eduardo VII, Campo Grande. Keil do Amaral, Arquitecto dos
Espaços Verdes, Lisboa, Edições Salamandra, 1992.
112
AMARAL, Francisco Keil do, Lisboa, uma cidade em Transformação, Lisboa, Europa-América, 1970.
113
TOSTÕES, Ana, Op. Cit., pág. 37.
62
O País a Régua e Esquadro
E é nesta consciência dos problemas inerentes à expansão da cidade que se
compreendem obras como o primeiro lanço da auto-estrada Lisboa-Cascais-Sintra e o
lançamento do Viaduto de Alcântara ou a articulação do sistema viário da capital com a
regulamentação da estrada marginal que liga a capital à Costa do Sol.
Para a autora, a criação do Parque Florestal de Monsanto integra-se também
nesta política de expansão da capital para Ocidente, revelando já um novo conceito de
parque, distante no tempo e no modo do “passeio público” da avenida, e trazendo a
novidade de um espaço verde urbano, integrado numa escala maior de pensar a
cidade114.
Em 1995 Margarida Souza Lobo publica a obra Planos de Urbanização. A
Época de Duarte Pacheco115. Para a autora, ao criar a lei dos Planos Gerais de
Urbanização em 1934116:
“Duarte Pacheco tinha em mente a transformação do país pela efectiva
117
criação de uma imagem urbana com que o regime se identificasse.”
A autora não refere qual seria a imagem de país, nem o modo como se
processaria a sua obtenção. Para a autora, Duarte Pacheco é a figura marcante da
transformação do território, uma transformação que se iniciou com a operação
urbanística promovida pela construção do IST ao topo da Alameda Afonso Henriques.
No parecer da arquitecta esta intervenção na cidade prenuncia a decisão de transformar
o território dentro de uma nova ordem institucional118.
O Dicionário Biográfico Parlamentar (1935-1974), publicado em 2005 e dirigido
por Manuel Braga da Cruz e António Costa Pinto, inclui uma entrada biográfica de
Duarte Pacheco119. Da autoria de Verónica Policarpo, esta referência biográfica
apresenta-se bastante completa na descrição das várias actividades exercidas por Duarte
Pacheco, bem como na citação das mais conhecidas obras planeadas pelo ministro. No
114
TOSTÕES, Ana, Op. Cit, . pág. 38.
115
LOBO, Margarida Souza, Planos de Urbanização. A Época de Duarte Pacheco, Lisboa, DGOTDU-
FAUP, 1995.
116
Decreto-Lei 24.802 de 21 de Dezembro de 1934.
117
LOBO, Margarida Souza, Op. Cit., pág. 35.
118
Idem, Op. Cit., pág. 36.
119
POLICARPO, Verónica, “Duarte José Pacheco”, in Dicionário Biográfico Parlamentar (1935-1974),
direcção de Manuel Braga da Cruz e António Costa Pinto, Lisboa, Colecção Parlamento, 2005, pp.284-
289.
63
O País a Régua e Esquadro
que respeita à filiação partidária de Duarte Pacheco, a autora informa que este
republicano convicto pertenceu à União Liberal Republicana de Cunha Leal.
Em 2007 o Arquitecto Gonçalo Canto Moniz, na obra Arquitectura e Instrução,
o projecto moderno do liceu (1836-1936)120 sublinha a importância da presença de
Duarte Pacheco no Ministério da Instrução Pública, ainda que por escassos sete meses.
Neste período o jovem ministro, não tendo conseguido implementar uma efectiva
reforma formal do ensino liceal, contribuiu de forma decisiva para a reforma das
construções escolares liceais ao decretar a criação da “Junta dos Quarenta Mil”121.
Correctamente designada de Junta Administrativa do Empréstimo para o Ensino
Secundário, a esta equipa competiria administrar e aplicar o empréstimo de 40 mil
contos contraído com a Caixa Geral de Depósitos com o propósito de construir, ou
reparar os edifícios liceais. Em suma, Duarte Pacheco encontrara uma solução
financeira por recorrência ao crédito público, e, simultaneamente, fundava um órgão
administrativo cujo objectivo preciso seria planear obras.
No ano de 1934 esta Junta dos Quarenta Mil daria origem à Junta das
Construções para o Ensino Técnico e Secundário, mas por essa data já Duarte Pacheco
dirigia o gabinete do Ministério das Obras Públicas e Comunicações e essa mesma Junta
cumpria objectivos designados por despachos do ministro.
Nos elogios fúnebres e nos panegíricos que compõem a produção de textos no
período sequente à morte de Duarte Pacheco, encontramos o terreno propício à
apropriação política de uma imagem de homem de estado que serve o discurso do
regime. Como atrás se referiu, cedo o país passou do lamento pelo desaparecido ao culto
de uma personagem mitificada.
Não se nega a Duarte Pacheco o reconhecimento de uma personalidade activa e
extrovertida. Munido de uma inteligência prática invulgar e de uma capacidade de
trabalho impressionante, este homem era detentor de uma característica determinante: a
convicção.
E foi convicto que construiu o enorme edifício que constitui a sua obra pública.
Mas ao contrário da ideia mitificada e tão cara ao discurso do regime, Duarte Pacheco
não sendo um político na verdadeira acepção do termo, recordando as palavras de
120
MONIZ, Gonçalo Canto, Arquitectura e Instrução. O Projecto moderno do Liceu 1836-1936,
Coimbra, Edições do Departamento de Arquitectura da FCTUC, 2007.
121
Cfr. Decreto-Lei Nº 15.942 de 11 de Setembro de 1928 e nesta perspectiva citado por MONIZ,
Gonçalo Canto, Op. Cit., pp. 135-136.
64
O País a Régua e Esquadro
Oliveira Salazar em 1953, era decerto um político mais competente e preparado para a
causa pública que os políticos na normal acepção do termo.
E é esta forma invulgar de fazer política que está também presente na fortuna
crítica que a historiografia do século XX português reconhece em Duarte Pacheco, e
que, em última análise, está presente na memória do país.
65
O País a Régua e Esquadro
1. Exéquias de Duarte Pacheco, cortejo fúnebre. 2. Exéquias de Duarte Pacheco, cortejo fúnebre.
3. Sessão plenária da CML, 18 de Novembro de 1943
66
O País a Régua e Esquadro
4. Assembleia Nacional, Oliveira Salazar, sessão extraordinária em 25 de Novembro de 1943.
5. Caricatura de Duarte Pacheco, Francisco Valença, 1938.
67
O País a Régua e Esquadro
6. Inauguração do Viaduto Duarte Pacheco, 28 de Maio de 1944.
7. Viaduto Duarte Pacheco, placa evocativa.
68
O País a Régua e Esquadro
8. Inauguração do Estádio Nacional, 10 de Junho de 1944.
9 e 10. Exposição 15 Anos de Obras Públicas, 1948.
69
O País a Régua e Esquadro
11. Medalha Comemorativa da Exposição 15 Anos de Obras Públicas (frente e verso). Álvaro Brée, 1948.
12. 15 Anos de Obras Públicas, Guia da Exposição.
70
O País a Régua e Esquadro
13. Proposta da CML para o Monumento de Homenagem a Duarte Pacheco a erguer em Monsanto.
14. Maquete do Monumento de Homenagem a Duarte Pacheco, Loulé, projecto de Cristino da Silva, 1951-1953.
71
O País a Régua e Esquadro
15 e 16. Inauguração do Monumento de Homenagem a Duarte Pacheco, Loulé, 16 de Novembro de 1953.
17. Inauguração da Sala Duarte Pacheco no Museu Municipal de Lisboa, 16 de Novembro de 1962.
72
O País a Régua e Esquadro
18. Monumento a Duarte Pacheco, Lisboa. Atelier Nuno Santos Pinheiro Arquitectos e Mestre António Duarte
Escultor, 1991.
19. Evocar Duarte Pacheco no Cinquentenário da sua Morte, CML, 1993, catálogo da exposição.
73
O País a Régua e Esquadro
Capítulo 2
O Político na Academia
74
O País a Régua e Esquadro
Capítulo 2. O Político na Academia
A obra que Duarte Pacheco construiu é extensa e em grande parte devida à
tenacidade e convicção com que defendia os seus objectivos. Mas uma obra não se
explica por si só, pelas leis e políticas vigentes, muito menos por modelos de carácter.
Um homem não faz uma obra, e Duarte Pacheco não foi excepção. Uma obra explica-se
se integrada numa perspectiva maior e resulta de uma equipa de trabalho que age na
prossecução de objectivos comuns.
Duarte Pacheco foi, em essência, um político. Um político com um método de
trabalho minucioso no plano, e técnico no modelo. Em política não existem
coincidências, existem convergências de interesse. Um elemento da equipa tem
valências numa área e outro elemento tê-las-á num outro âmbito. E é na confluência
destas diversas valias que a obra surge.
As novas instalações do Instituto Superior Técnico, erguidas entre 1929 e 1942,
constituem um bom exemplo de convergência de interesses. Na construção do IST,
Duarte Pacheco liderou o processo político que lhe deu origem, centralizou no seu
gabinete a direcção da obra, mas não agiu sozinho nem foi o único a colher benefícios
da obra construída.
Mais do que fazer uma reflexão sobre as considerações estéticas e urbanísticas
que giraram em torno da concepção arquitectural do IST, e até porque estudos
profundos já foram realizados nesse sentido, interessou-nos aprofundar o conhecimento
sobre a «memória processual e construtiva» do IST. Neste sentido, a história do Técnico
carecia de maiores clarificações, tanto na identificação dos vários interesses envolvidos,
como dos agentes activos no processo.
O Instituto Superior Técnico é uma das mais prestigiadas escolas do país. De
1911 à actualidade, esta instituição estabeleceu uma teia de princípios tecida numa
malha forte e consistente e sob a qual assenta a sua garantia de sucesso: uma rede de
ligação técnica e científica com as suas congéneres, facto do qual advém o intercâmbio
de docentes e alunos e um consequente alargamento e permeabilidade do vocabulário
conceptual e partilha de conhecimento e de objectivos pelo incentivo ao trabalho de
equipa.
Esta já quase centenária escola de engenharia, criada um ano após a instituição
do regime republicano em Portugal, forneceu ao país grande parte dos seus quadros
75
O País a Régua e Esquadro
técnicos especializados e parte importante dos seus quadros políticos. Embora o perfil
de Duarte Pacheco não encaixe no modelo clássico do «engenheiro do Técnico», da
mesma forma que não encaixa no modelo clássico de «político», parte da história deste
Instituto está intrinsecamente ligada a parte da história da vida técnica e política de
Duarte Pacheco.
76
O País a Régua e Esquadro
2.1. Os Anos de Formação (1900-1923)
“No nosso país, a nação são os partidos, fora deles não há senão
ignorantes e analfabetos.”
António Feijó em carta a Luís de Magalhães, 1908.
No dia 19 de Abril de 1900, Garrett era assunto do dia na primeira página do
Diário de Notícias. Ao Parlamento afluíam representações de todo o país, clamando a
transladação dos seus restos mortais do Cemitério dos Prazeres para o Panteão do
Mosteiro dos Jerónimos. A mensagem da representação da cidade do Porto, cidade
berço de Garrett, fora redigida por Ramalho Ortigão e reclamava a homenagem nacional
devida àquele que com a sua obra contribuíra para o engrandecimento do país.
No domínio da cena política, eram os leitores do Diário de Notícias informados
de que na véspera não ocorrera assinatura real, no entanto o Ministro da Guerra fora ao
paço, levando não só a sua pasta mas também a do seu colega da Fazenda, que
continuava bastante constipado. No mesmo dia o Ministro dos Estrangeiros reunira no
seu gabinete com os Ministros da Guerra, das Obras Públicas, da Marinha e da Justiça.
Em carta enviada de Berlim, um colaborador informava que na imprensa alemã
como em toda a imprensa europeia, se notava uma grande reserva acerca da situação
financeira e colonial portuguesa, não se acreditando que o país conseguisse restabelecer
completamente o seu crédito e estabilizar a situação económica sem sacrifício dos
domínios coloniais.
Entre 1890 e 1899 cerca de 6% da população emigrara, maioritariamente para o
Brasil. Em 1899, os depósitos bancários atingiam cerca de metade do valor verificado
em 1890. As admissões na função pública estavam suspensas e murmurava-se que a
única garantia possível de liquidação da dívida pública passava pela cedência de
77
O País a Régua e Esquadro
rendimentos alfandegários do reino e das colónias como penhora aos credores franceses
e alemães122.
Em 1900 Portugal enfrentava uma grave crise económica, financeira e política.
Num quadro de instabilidade económica crescente e na ausência de soluções,
questionava-se a eficiência dos governantes e o destino do sistema político.
Foi neste quadro de incerteza que a 19 de Abril de 1900, Duarte Pacheco nasceu
em [Link], freguesia de Loulé. Filho de José de Azevedo Pacheco e de Maria do
Carmo Pacheco, seria mais um entre onze irmãos: quatro filhos homens e sete filhas
mulheres.
A 25 de Dezembro de 1903, foi baptizado na Igreja de S. Pedro, em Faro, com o
nome de Duarte123, embora em documentação posterior seja referenciado como Duarte
José. O assento de baptismo refere que o indivíduo do sexo masculino nasceu às cinco
horas da tarde do dia 19 de Abril de 1899. A data de nascimento que consta do assento
de baptismo não angaria contudo consenso na historiografia. A maioria dos autores têm
por válida a data que consta do documento. Outros defendem que na redacção do
assento de baptismo o padre se enganou e como argumento, recordam o relato de Duarte
Pacheco quando se referia a este episódio, afirmando que o erro do pároco lhe permitira
ganhar um ano de vida. Esta justificação parece-nos válida se tivermos em linha de
conta que foi prática corrente até meados do século XX adiar os baptismos e
consequentes assentos no caso preciso de Duarte Pacheco, este apenas recebeu as águas
baptismais em 1903. Este facto, aliado a um possível lapso do pároco, justifica o
desfasamento e a imprecisão na data de nascimento de Duarte Pacheco, do mesmo
modo que explica o desfasamento de datas de nascimento de inúmeros portugueses124.
Neste sentido, são aceitáveis as duas situações: poderá de facto existir um erro de
assento. Contudo, no rigor histórico, não seria o facto de o político ter nascido em 1899
ou em 1900, que alteraria o curso da sua acção futura.
Retomando ainda o documento de assento de baptismo, acrescentam-se outras
informações. O mesmo atesta a filiação de Duarte, bem como a ocupação dos seus
122
RAMOS, Rui, D. Carlos, Lisboa, Círculo de Leitores e Centro de Estudos dos Povos e Culturas de
Expressão Portuguesa - Temas e Debates, 2007, pág. 195.
123
IST, Núcleo de Arquivo, Colecção de Processos Individuais de Professores. A cópia do Assento de
Baptismo de Duarte Pacheco consta do seu Processo Individual de Funcionário do Instituto.
124
Foi prática corrente até meados do século XX adiar em meses e por vezes em anos, o registo oficial de
nascimentos em Portugal. Factores como o pagamento obrigatório do acto oficial de registo, ou a alta
mortalidade infantil, poderão explicar este facto.
78
O País a Régua e Esquadro
progenitores: filho de José de Azevedo Pacheco, ministro interino do concelho de Loulé
e de Maria do Carmo, doméstica.
Recuando a 1895, data a que respeita o assento de baptismo de Humberto, irmão
de Duarte e filho primogénito dos Pachecos, José desempenhava o cargo de escrivão de
Fazenda125. Nos oito anos que medeiam os assentos de baptismo destes seus dois filhos,
José de Azevedo Pacheco, progredindo na carreira de funcionário público, ascendeu
também na importância da participação política local.
José de Azevedo Pacheco, possuindo a instrução primária, era funcionário
público e desempenhava funções de chefe da Repartição de Finanças de Loulé.
Monárquico convicto, era um dos dirigentes locais do Partido Regenerador126.
No dealbar do século XX português, esta família algarvia era o retrato do
extracto social médio-alto do país: José de Azevedo Pacheco integrava a lista dos cerca
de 19 000 funcionários públicos do reino e pertencia aos 53% que trabalhavam na
administração fiscal127. O facto de José de Azevedo Pacheco ter, não só opinião política,
mas vida política activa, conferia-lhe um acréscimo de importância face ao extracto
social médio. A uma escala regional, José de Azevedo Pacheco era um homem que se
destacava da massa anónima pois pertencendo a um grupo político, executaria a nível
local as directivas gerais do seu partido.
Mas a tradição de compromisso político nesta família não nascera apenas com
José de Azevedo Pacheco. Como ele, mas a uma escala maior, um outro Pacheco tivera
uma vida política particularmente activa: Marçal de Azevedo Pacheco (1847-1896), tio
paterno de Duarte Pacheco.
Bacharel em Direito, Marçal Pacheco exerceu advocacia e foi presidente da
Câmara de Loulé. Fixando posteriormente residência em Lisboa, desempenhou o cargo
de chefe de repartição do Ministério da Justiça e Negócios Eclesiásticos. Membro do
Partido Regenerador foi deputado em várias legislaturas, e as suas numerosas
intervenções parlamentares e projectos-lei apresentados revelam a permanente defesa da
125
IST, Núcleo de Arquivo, Colecção de Processos Individuais de Professores. A cópia do Assento de
Baptismo de Humberto Pacheco consta do Processo Individual de Duarte Pacheco.
126
POLICARPO, Verónica, “Duarte José Pacheco”, in Dicionário Biográfico Parlamentar (1935-1974),
direcção de Manuel Braga da Cruz e António Costa Pinto, Lisboa, Colecção Parlamento, 2005, pp.284-
289.
127
RAMOS, Rui, Op. Cit., pág. 173.
79
O País a Régua e Esquadro
região algarvia128. Em 1895 Marçal Pacheco publicou A Resposta do País, panfleto
político que relatava a frágil situação económica, financeira e política então vivida129.
Ainda no domínio das ascendências familiares é importante referir que Duarte
Pacheco era sobrinho de Joaquim da Ponte (1866-?). Natural de Boliqueime, concelho
de Loulé, Joaquim da Ponte licenciou-se em Direito em 1893. Membro do Partido
Progressista, foi eleito deputado à Câmara dos Pares do Reino pelo círculo eleitoral de
Loulé130. Político activo, Joaquim da Ponte desempenhou ainda o cargo de Governador
Civil de Faro131.
Sobrinho de dois vitalícios do reino e filho de um funcionário público com
actividade política, Duarte Pacheco nasceu no seio de uma família de classe média alta
com ascendência e importância política a nível local e regional, mas também com
contactos e referências na capital. Esta distinção social da algarvia família Pacheco,
cedo se revelaria crucial no destino reservado aos onze irmãos.
Em 1906 a mãe, Maria do Carmo Pacheco, viria a falecer. Um ano mais tarde o
pai, José de Azevedo Pacheco, seria transferido em comissão de serviço para a cidade
do Faial. Os onze irmãos Pacheco, ainda menores, permaneceriam em Loulé.
A historiografia tem sido unânime ao referir que com a partida de José de
Azevedo Pacheco para os Açores em 1907, Humberto, o primogénito, teria assumido a
função paterna perante os seus 10 irmãos. Em 1907 Humberto, nascido em 1894, teria
apenas 13 anos, razão pela qual nos parece abusiva a ideia. A simples razão da
menoridade de Humberto, deita por terra esta ideia construída e inquestionada.
Decerto que antes de partir em serviço para os Açores, José de Azevedo Pacheco
se encarregou de deixar assegurada a segurança física e financeira dos filhos. Com 13
anos de idade, Humberto ainda menor, não produziria rendimentos nem faria a gestão
financeira [Link] 13 anos de idade Humberto Pacheco era estudante do Liceu de
Faro. De algum modo, a situação dos irmãos Pacheco terá sido amparada pelo vínculo
familiar, social e político do nome de família, factor que garantiu a estabilidade e
formação dos onze irmãos.
128
SOARES, Maria Isabel, “Marçal Pacheco” in Dicionário Biográfico Parlamentar 1834-1910, vol. III
(N-Z), Coordenação de Maria Filomena Mónica, Lisboa, Colecção Parlamento, 2006, pp. 147-149.
129
PACHECO, Marçal, A Resposta do Paiz, Lisboa, 3ª edição, Typographia Industrial Portugueza, 1895.
130
MOREIRA, Fernando, ”Joaquim da Ponte”, in Dicionário Biográfico Parlamentar 1834-1910, vol. III
(N-Z), Coordenação de Maria Filomena Mónica, Lisboa, Colecção Parlamento, 2006, pág.363.
131
Biblioteca e Arquivo do Ministério das Obras Públicas (BAMOP), Duarte Pacheco, Documentos
Avulsos do Gabinete do Ministro, Pasta de Notas Biográficas.
80
O País a Régua e Esquadro
Em 1914, com apenas 48 anos de idade, José de Azevedo Pacheco morre,
deixando aos filhos uma pequena herança que os quatro irmãos farão reverter
unicamente a favor das sete irmãs. Por esta data Humberto tem já 20 anos e Duarte 14.
Havia dois anos que Duarte frequentava o Liceu de Faro em regime de internato. Em
1917 Duarte conclui o ensino liceal com distinção e nesse mesmo ano segue para
Lisboa, ao encontro do irmão Humberto.
Humberto matriculou-se em 1916 no Instituto Superior Técnico132, mas no ano
seguinte estará inscrito na Faculdade de Direito. No ano lectivo de 1917-1918 Duarte
inscreve-se no IST, frequentando as várias disciplinas que compõem o curso geral de
engenharia. Em 1920 opta pela especialidade em Engenharia Electrotécnica e em 1923
conclui o curso133. Na escolha da área de formação, Duarte Pacheco optou por uma área
em franca expansão, a Engenharia, e matriculou-se numa escola recém-criada, o IST134.
A estrutura moderna do ensino da engenharia surge em 1837 com a criação da
Escola do Exército e a Escola Politécnica de Lisboa, bem como a Academia Politécnica
do Porto135. Até esta data a formação de engenheiros esteve desde meados do século
XVII e pelo século XVIII, intrinsecamente ligada à engenharia militar. Em 1837 a
Escola do Exército mantém o ensino da engenharia militar e o ensino das diferentes
armas militares136, facultando ainda o ensino de engenharia civil. Por seu lado, a Escola
Politécnica de Lisboa ministrava os ensinos preparatórios à Escola do Exército e à
Escola Naval. No Porto a Academia Politécnica, escola de carácter civil, facultava 10
cursos137.
No decorrer dos anos seguintes as três escolas realizaram algumas reformulações
curriculares e permaneceram como as instituições formadoras de militares, engenheiros
civis e condutores que integrariam os quadros da engenharia de obras públicas em
Portugal138.
132
IST, Núcleo de Arquivo, Registo Individual de Alunos, ano de 1916.
133
Por norma a historiografia estabelece o ano de 1922 como datada conclusão do curso de Duarte
Pacheco, contudo, nos registos encontrados no Núcleo de Arquivo do IST no ano lectivo de 1922-1923,
Duarte Pacheco surge inscrito em 7 disciplinas. Vide Apêndice Documental, Documento 7.
134
Decreto de 23 de Maio de 1911.
135
RODRIGUES, Maria de Lurdes, Os Engenheiros em Portugal, Oeiras, Celta Editora, 1999. Vide ainda
GRÁCIO, Sérgio, “Notas sobre a emergência e a consolidação do ensino da engenharia”, in Momentos de
Inovação e Engenharia em Portugal no Século XX, vol. I, Lisboa, coordenação Manuel HEITOR, José
Maria Brandão de BRITO e Fernanda ROLLO, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2004, pp 231-239.
136
Artilharia (a leccionar em 3 anos), Estado-Maior (2 anos), Infantaria (1 ano) e Cavalaria (1 ano).
137
Engenharia de Minas, de Pontes, de Estradas, Construtores de navios, Geografia, Curso Oficial de
Marinha, de Pilotos, de Comerciantes, de Agricultores e Directores de Fábrica.
138
GRÁCIO, Sérgio, Op. Cit., pág. 231.
81
O País a Régua e Esquadro
Em 1852 com a criação da Escola Industrial de Lisboa e a Escola Industrial do
Porto institui-se o ensino médio. Inicialmente estas instituições vocacionaram a sua
actividade para a formação de operários metalúrgicos, mestres e directores de obras. A
partir de 1865 esta área de formação mantém-se e é acrescida dos cursos de condutores
de minas, obras públicas e máquinas.
Em 1870 Lisboa e Porto apresentam já dois níveis de ensino: o Industrial e o
Comercial. A partir de 1884 os cursos de engenharias passam a ensino superior e a
importância dos cursos médios dilui-se uma vez que as escolas industriais e comerciais
proliferam com facilidade. Em 1889 o Instituto Industrial e Comercial de Lisboa
mantém os cursos de Química, Construção Civil e Máquinas, apresentando a novidade
curricular de Engenharia Industrial e Engenharia Electrotécnica.
Com a instituição da I República surgem reformas estruturais a nível do ensino
superior: a reestruturação da Universidade de Coimbra e a criação das Universidades de
Lisboa e do Porto. A par destas medidas, o governo republicano cria ainda as escolas
técnicas que abrangem as áreas da Engenharia, Comércio e Indústria. Em 1911 é extinto
o Instituto Industrial e Comercial de Lisboa e em seu lugar surgem dois institutos: o
Instituto Superior Técnico e o Instituto Superior de Comércio. No Porto, extinta a
Escola Politécnica, é criada em 1915 a Faculdade Técnica139.
O IST, ao qual apenas têm acesso os candidatos com aprovação no curso
complementar de ciências dos liceus, apresenta um curso geral de engenharia com a
duração de 2 anos que precede o ingresso nas especialidades de minas, mecânica,
electrotecnia e quimico-industrial. Ao IST fica também reservado o curso de engenharia
civil, que deixa de existir na Escola do Exército, reduzida que fica à engenharia
militar140. Os institutos comerciais passam a leccionar apenas os cursos médios.
O impulso determinante dado pelos dirigentes republicanos ao ensino técnico,
reside na sincera crença do progresso material como base de sustento social e de suporte
ao regime141. A importância atribuída pelo regime republicano ao ensino técnico, não se
baseou em precedentes de desenvolvimento que justificassem as saídas profissionais
139
A Faculdade de Técnica do Porto, decorre da anterior Escola Politécnica e em 1926 passou a designar-
se Faculdade de Engenharia , estando anexa à Faculdade de Ciências da Universidade do Porto.
140
HEITOR, Manuel, HORTA, Hugo, CONCEIÇÃO, Pedro, “Do ensino técnico ao ensino das ciências
da engenharia em Portugal no século XX”, in Momentos de Inovação e Engenharia em Portugal no
Século XX, vol. I, Lisboa, coordenação Manuel HEITOR, José Maria Brandão de BRITO e Fernanda
ROLLO, Lisboa, Publicações D. Quixote, 2004, pp. 241-285.
141
GRÁCIO, Sérgio, Op. Cit., pág. 235.
82
O País a Régua e Esquadro
que o novo sistema de ensino procurava criar. A indústria mecânica, a indústria química
e a electrificação iniciavam os primeiros ensaios de estabelecimento no mercado.
Aliás, no momento em que foi conhecida a oferta de especializações de
engenharia facultadas pelo IST, o modelo chegou a ser considerado ambicioso para o
mercado de trabalho que o Portugal dos inícios do século XX tinha para oferecer aos
engenheiros142. Contudo, como acontecera em Oitocentos, os quadros do estado,
maioritariamente o Ministério das Obras Públicas, continuariam a absorver a grande
parte destes profissionais. A convicção republicana na aplicação racional do
conhecimento, traduz-se no campo do ensino na criação das Escolas Técnicas. É neste
contexto político que se insere a criação do IST: como um dos baluartes da aplicação
tecnológica do conhecimento.
A criação do IST está politicamente relacionada com Manuel Brito Camacho,
Ministro do Fomento que decretou a criação do instituto. Cientificamente, a criação do
IST está ligada a Alfredo Bensaúde, engenheiro formado na Alemanha e professor do
Instituto Industrial e Comercial de Lisboa No domínio da prática e da pedagogia
científica, o pensamento de Alfredo Bensaúde encontrou eco nos ideais republicanos.
O projecto de Alfredo Bensaúde consistia na promoção de um espírito técnico
em detrimento do espirito clássico. Bensaúde fizera a sua formação na Alemanha, e é o
modelo alemão das Escolas Técnicas Superiores (Teschnische Höchschüle) que irá
aplicar no projecto do IST: uma escola autónoma, alicerçada no método de ensino
transmitido através do conhecimento académico e técnico, ou seja, na aplicação prática
dos conhecimentos. O incremento das unidades de investigação e o culto de uma vida
académica livre seriam também factores indispensáveis a uma escola que tinha por lema
o mérito de alunos e professores143.
Na estruturação do modelo desta nova escola, Bensaúde teve a colaboração de
professores que também adquiriram a sua formação fora de Portugal e que, instituído o
IST, passaram a integrar o corpo docente do instituto: Charles Lepierre, Ernst Fleury,
Abram Droz, Giovanni Costanzo e Léon Fesh.
Em 1917, os primeiros engenheiros diplomados pelo IST afirmavam-se nas
várias actividades:
142
GRÁCIO, Sérgio, Op. Cit., pág. 234.
143
BENSAÚDE, Alfredo, Notas Histórico-Pedagógicas sobre o Instituto Superior Técnico, 1922.
83
O País a Régua e Esquadro
“Ao entrarmos na guerra, seis anos depois de fundado o Instituto, já
oito antigos alunos se encontravam colocados como engenheiros civis
na direcção do porto de Lisboa, na Companhia dos Caminhos de Ferro
Portugueses, na Companhia dos Fósforos e no Ministério do Fomento;
três outros, como engenheiros mecânicos na mesma Companhia e no
mesmo Ministério; ainda três como engenheiros de minas de Vale de
Vouga, de carvão de Porto de Mós e de cobre de Souzal; dois outros
como engenheiros electricistas na Companhia dos Telefones de
Lisboa; e três como engenheiros químicos na Companhia União
Fabril. A indústria da extracção do rádio na fábrica do Barracão
(Guarda), até então dirigida por engenheiros franceses, passou para as
mãos de dois antigos alunos do Instituto.”144
Em 1918 o IST e a Faculdade de Engenharia do Porto apresentavam cursos com
a duração de seis anos. Se por um lado o tempo idêntico dos cursos de engenharia
leccionados em Lisboa e no Porto anuncia o percurso uniforme no ensino superior, por
outro lado anuncia também a consequente perda de autonomia do IST, uma vez que o
instituto deixa de poder decidir apenas e só em função dos seus objectivos e do seu
Regulamento que, em 1911 estabelecera a licenciatura em 5 anos. E é precisamente
neste período conturbado da história do instituto que vamos encontrar Duarte Pacheco
inscrito no primeiro ano do curso geral de engenharia.
A entrada de Duarte Pacheco no Instituto Superior Técnico, como aluno caloiro
do curso geral, não foi discreta. Matriculado pela primeira vez no Instituto no ano
lectivo de 1917/1918, logo a 25 de Outubro o director do estabelecimento recebe uma
carta do reitor do Liceu de Faro pedindo a inquirição do aluno Duarte José Pacheco:
“acerca do que ele sabe sobre a agressão de que foi vítima o professor
deste liceu José António Dentinho Júnior, por parte de um aluno da 5ª
145
classe João de Freitas Figueiredo Mascarenhas”.
No dia seguinte encontramos novo pedido do reitor do Liceu de Faro, num tom
bem mais incisivo146. Do depoimento prestado pelo aluno infere-se que estando este
144
Idem, Op. Cit., In Revista Técnica, Ano XXII, nº 175, Junho de 1947, pág. 437.
145
IST, Núcleo de Arquivo, Actas do Conselho Escolar do IST e Correspondência Recebida, 25 de
Outubro de 1917.
84
O País a Régua e Esquadro
arrolado como testemunha do processo, foi o mesmo anulado superiormente. Não
conseguimos contudo descortinar a natureza do processo: se de averiguações, se
disciplinar e qual a entidade superior que o terá dado como anulado. Da veracidade do
facto ocorrido e relatado não temos qualquer registo, contudo um episódio de pedido de
esclarecimento que leva um aluno caloiro a prestar depoimento no gabinete do director
do Instituto, não foi seguramente uma situação cómoda para nenhuma das partes.
A 15 de Fevereiro de 1918, ainda no decorrer do primeiro ano lectivo de Duarte
Pacheco no IST, tem lugar uma Assembleia-Geral de Alunos que visa o debate sobre a
necessidade de renovação do Regulamento do Instituto criado em 1911. A necessidade
de revisão do Regulamento relacionava-se com duas questões prementes. Por um lado a
colisão de interesses entre engenheiros e condutores de obra na disputa de soluções e
categorias profissionais147 e, por outro lado, a normativa governamental que visava a
uniformização da duração dos cursos superiores de Engenharia, de cinco para seis anos
em Lisboa e no Porto, facto que como atrás referimos, veio a concretizar-se. Contudo,
esta política de uniformização levantava de imediato outra questão: o regime de
cadeiras, precedências, licenças e diplomas.
Sendo uma das prerrogativas do IST o incentivo da vida académica livre e
activa, da Assembleia Geral de Alunos resulta a criação de um documento que sustenta
a posição dos mesmos face à situação criada. Informam os alunos que, se não forem
acautelados os interesses do Instituto, o director deverá demitir-se. Deste documento,
redigido pelos estudantes e endereçado ao director do Instituto, Alfredo Bensaúde,
146
Actas do Conselho Escolar do IST e Correspondência Recebida, 26 de Outubro de
1917:Reitoria do Liceu de João de Deus, Faro 26 de Outubro de 1917, Actas do
Conselho Escolar do IST e Correspondência Recebida, 26 de Outubro de 1917:
Não sendo aceitável o depoimento do aluno desse Instituto, senhor Duarte José Pacheco, enviado por
essa secretaria em 25 do corrente, em vista do processo a que o dito aluno se refere ter sido anulado
superiormente, rogo a Vossa Exa. se digne ouvir o depoente pela segunda vez nos seguintes termos:
1º) Teve o senhor Duarte José Pacheco, testemunha apresentada no processo que corre presentemente
contra o aluno da 5ª classe deste liceu, pelo Exmo. Professor José António Dentinho Júnior,
conhecimento de uma agressão por parte do aluno João de Freitas Figueiredo Mascarenhas?
2º) No caso afirmativo, foi testemunha ocular?
3º) Ou teve conhecimento desta agressão pelo próprio aluno incriminado, ou então por terceiros?
4º) Conhece o instrumento de que o aluno incriminado se serviu para agredir o professor José António
Dentinho Júnior?
5º) Conhece a origem deste conflito?
6º) Teve este caso muito ou pouco eco na cidade?
147
Sobre esta questão Vide RODRIGUES, Maria de Lurdes, Os Engenheiros em Portugal, Oeiras, Celta
Editora, 1999. Vide ainda GRÁCIO, Sérgio, “Notas sobre a emergência e a consolidação do ensino da
engenharia”, in Momentos de Inovação e Engenharia em Portugal no Século XX, vol. I, Lisboa,
coordenação Manuel HEITOR, José Maria Brandão de BRITO e Fernanda ROLLO, Lisboa, Publicações
D. Quixote, 2004, pp. 231-239.
85
O País a Régua e Esquadro
constam 178 assinaturas e Duarte Pacheco assina em 136º lugar, como aluno do curso
geral148.
Encetado o diálogo com o Conselho Escolar do IST, a Comissão de
representação dos Alunos consegue um acordo que satisfaz estudantes e corpo
docente149.
Em 1918, no início do curso, Duarte Pacheco toma consciência de que uma mera
deliberação política, no caso preciso aquela que, visando a uniformização do ensino da
engenharia, afectou a escola que ele próprio frequentava. Perante a mesma situação,
tomamos nós consciência de que Duarte Pacheco pertence ao grupo dos que têm opinião
e dentro desse grupo pertence ao núcleo dos que tomam posição. Deste modo, e volvido
apenas quatro meses após o ingresso no IST, Duarte Pacheco revelou-se como um aluno
com participação activa no movimento de protesto e no abaixo-assinado enviado ao
director do instituto150.
Nos anos de 1919 a 1923 não voltamos a ter qualquer tipo de registo de dados
relativos ao aluno Duarte Pacheco, que conclui, segundo os cadernos de assento do IST,
o curso de Engenharia Electrotécnica e Máquinas com a classificação final de 14,3
valores, não atingindo as médias brilhantíssimas que a historiografia lhe atribuiu. Na
148
IST, Núcleo de Arquivo, Actas do Conselho Escolar do IST e Correspondência Recebida, Documento
nº 6, lido na sessão do Conselho Escolar do IST de 15 de Fevereiro de 1918.
149
IST, Núcleo de Arquivo, Actas do Conselho Escolar do IST e Correspondência Recebida, Documento
nº 6, lido na sessão do Conselho Escolar do IST de 20 de Fevereiro de 1918:Urgindo definir de uma
maneira absolutamente insofismável a situação em que se encontram, perante as leis vigentes, os
indivíduos que concluíram os diferentes cursos do IST, pois que por certos diplomas o estado reconhece
como engenheiros, pondo em dúvida noutros essa qualidade, que aliás a Indústria particular já
amplamente reconheceu, os alunos do IST entendem como resolução do conflito, as seguintes alterações
ao Regulamento desta Escola:
1º Aos indivíduos habilitados com todas as cadeiras e dois meses de tirocínio finalmente será passada a
sua carta de engenheiro
2º Facultativamente manter-se-á apresentação d’um projecto e sua defesa que constituirá a prova final
de doutoramento, que evidentemente dará em concursos públicos, vantagens de preferência.
Aproveitando a oportunidade, exprimem ainda os alunos o desejo de serem ouvidos sobre outras
alterações ao regulamento, taes como condições de admissão, organização de cursos, desenvolvimento
da parte prática no sentido da sua máxima eficiência, etc, etc.
A boa vontade manifestada na solução d’este conflito e das nossas reclamações, é a garantia que nos
será feita inteira e completa justiça.
Lisboa, aos 20 de Janeiro de 1918
A Comissão Delegada dos Alunos do IST
O Conselho Escolar aceita a solução:
Enquanto se não modificar/organizar o regulamento do instituto, na parte que respeita ao exame final,
passar-se-ão aos alunos que tiverem terminado a parte escolar de qualquer dos cursos nele processados,
diplomas de engenheiro.
, aprovado por maioria, para emitir ofício
150
Embora a direcção do IST e a Associação de Alunos do IST tenham chegado a um ponto de
compromisso, o novo Regulamento do Instituto Superior Técnico só surgirá em 1921 pelo decreto 7.727
de 6 de Outubro.
86
O País a Régua e Esquadro
folha de registo de Duarte Pacheco não existem reprovações mas algumas cadeiras são
repetidas, situação que sustenta a ocorrência de uma das seguintes situações: ou Duarte
Pacheco compareceu a exames uma segunda vez, ou terá protelado a frequência das
disciplinas que apenas têm classificação na segunda matrícula efectuada.
No mesmo registo individual de aluno não existe qualquer referência ao serviço
militar prestado ou ao local, instituição ou empresa onde o jovem engenheiro poderá ter
realizado o tirocínio. Esta designação era à época utilizada para denominar o período de
estágio, facto correntemente mencionado no registo dos alunos do IST.
Com efeito, na tipologia da documentação consultada verificámos que o director
do instituto enviava cartas a empresas públicas e privadas, na tentativa de que os seus
alunos tirocinantes pudessem estagiar e aplicar os seus conhecimentos nas situações
práticas da vida profissional. Nestas mesmas missivas, o director do IST incentivava as
empresas a receber os alunos do Técnico como tirocinantes, pois também as empresas
ganhariam em inovação técnica, eficiência e prestígio151.
Oficialmente, Duarte Pacheco não tirocinou em nenhum local ou empresa. Em
nome deste aluno não encontrámos nenhuma carta de referência da direcção do IST a
indicá-lo para qualquer tirocínio. Se o fez foi a título particular e sem registo nos seus
certificados de habilitações. Na historiografia corrente também não encontrámos
qualquer referência ao facto. Contudo, outras referências existem, nomeadamente acerca
do seu envolvimento político e do seu modo de subsistência em Lisboa desde 1918.
Os autores têm sido unânimes ao situar politicamente Duarte Pacheco como
Republicano. Em 1919 ter-se-á alistado no batalhão académico que combateu uma
revolta monárquica aquartelada em Monsanto. Este episódio ficou conhecido como «A
Escalada de Monsanto»152.
Estudos mais recentes conseguiram identificar a filiação partidária de Duarte
Pacheco. Convicto de um ideário republicano conservador, terá pertencido à União
Liberal de Cunha Leal. E em 1926, já empossado Director do IST, terá apoiado a
151
IST, Núcleo de Arquivo, Actas do Conselho Escolar do IST e Correspondência Recebida 1911-1925.
A título de curiosidade indicamos destinatários como a Estação Central de Electricidade, as Oficinas dos
Caminhos de Ferro, Serviços de Tracção, Serviços de Vias e Obras, Caminhos de Ferro e Carris de Ferro
de Lisboa, Companhias Reunidas e Gás e Electricidade, Fábrica da Boavista, Serviços Fabris da Marinha,
Central Tejo, a Fábrica de Material de Guerra, Fábrica da Vista Alegre, Fábrica da Fiação de Vouzela,
entre tantas outras.
152
José Augusto França, Margarida Acciaiuoli, Jorge Borges de Macedo entre outros autores.
87
O País a Régua e Esquadro
instituição da ditadura militar153. Em 1928, quando tomou posse como Ministro da
Instrução, foi em prol dos ideais republicanos que jurou honrar o cargo para o qual foi
nomeado154.
Como acontecera com Marçal e José Pacheco ou como sucedera com Joaquim
da Ponte, a apetência natural desta família para a política activa manifestava-se uma vez
mais, pois para além de Duarte, também Humberto tinha filiação partidária, no caso, o
Partido Republicano Democrático155.
Quanto à questão da autonomia financeira dos Pacheco, relembramos que,
órfãos desde 1914 e tendo concordado em reservar apenas às irmãs a herança paterna,
os irmãos, embora decerto com possibilidades financeiras que permitiram a sua
educação elementar e liceal, cedo se autonomizaram. Duarte Pacheco, ainda aluno de
Liceu, terá iniciado uma actividade que lhe permitiu amealhar alguns rendimentos: as
aulas de «explicações» a colegas menos expeditos nas matérias leccionadas. Em Lisboa
a situação manter-se-ia. Nos relatos de Herculano de Carvalho, professor do IST e seu
sucessor na direcção do instituto:
“Já durante o curso ele se distinguira pela sua actividade docente,
servindo-se dos seus conhecimentos de matemática para viver
materialmente independente, com as numerosas lições particulares que
156
dava”.
Mas Duarte Pacheco não terá subsistido unicamente com os rendimentos obtidos
nas sessões de explicações. Enquanto estudante, temos notícia de que Duarte Pacheco
viveu com o irmão mais velho, Humberto. Este, que frequentara o IST em 1916-1917,
deixara a Engenharia para frequentar a Faculdade de Direito, como atrás referimos.
Humberto Pacheco, formado em Direito, não exerceu advocacia157. A sua actividade
153
POLICARPO, Verónica, “Duarte Pacheco”, in Dicionário Biográfico Parlamentar 1935-1974, vol. II
M-Z, direcção de Manuel Braga da Cruz e António Costa Pinto, Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais –
Assembleia da República, 2005, página 284.
154
ACCIAIUOLI, Margarida, Op. Cit., pág. 390.
155
MACEDO, Jorge Borges de, “Cerimónia Comemorativa a Duarte Pacheco”, in Técnica, Lisboa, 1994,
nº 2, 1994.
156
CARVALHO, Herculano de, “Duarte Pacheco matemático e realizador”, in Revista Internacional, In
Memoriam, Lisboa, 1951.
157
Criada em 1936, a Ordem dos Advogados herdou os ficheiros arquivados na extinta Associação dos
Advogados de Lisboa e cujos estatutos remontam a 1838. Do arquivo histórico da Ordem dos Advogados,
que guarda os acervos documentais da profissão desde 1838, não consta o nome de Humberto Pacheco
como advogado.
88
O País a Régua e Esquadro
profissional esteve sempre relacionada com seguradoras e, certamente, aí aplicaria os
seus conhecimentos de consultadoria jurídica158. Também Duarte terá colaborado com o
irmão na actividade seguradora, como avança Borges de Macedo159.
Humberto Pacheco tem grande importância na forma como a personalidade de
Duarte Pacheco se estrutura e, de algum modo, é factor determinante na forma como
certos acontecimentos se irão desenrolar e encadear na vida futura do irmão mais novo.
Da precoce orfandade em Loulé, à partilha do espaço em que vivem em Lisboa ou até
do companheirismo da opção política, estes dois irmãos parecem ter vivido de facto,
uma relação de cumplicidade.
Por outro lado, a actividade profissional de Humberto, também experimentada
por Duarte, para além da autonomia financeira, cedo terá permitido o acesso a um outro
mundo: o dos contactos, dos proprietários e dos bens.
Os anos de licenciatura de Duarte Pacheco são anos de formação intensiva:
formação académica, política e social. Aluno inteligente e sociável, rapidamente
angariou a simpatia de colegas e a atenção de professores. Por outro lado, a consciência
e convicção políticas que desde cedo demonstrou, agiram como factor de integração, de
pertença a um grupo. Do mesmo modo, quer a boa prestação estudantil, quer o processo
de identificação política, foram factores que permitiram a distinção de Duarte Pacheco
da massa anónima da estudantina. As «explicações» facultaram desafogo monetário e o
auxílio na actividade seguradora do irmão permitiu-lhe o acesso a um extracto social
maior: o da propriedade, sendo que propriedade é poder.
E foi deste modo, entre as aulas e os corredores do IST, entre as explicações
remuneradas e entre a carteira de clientes segurados angariados com o irmão, que
Duarte Pacheco foi traçando o seu percurso e construindo credibilidade.
Concluindo o curso de Engenharia Electrotécnica em 1923, Duarte Pacheco só
volta a ser referido na documentação do IST em 1925, data em que integra os quadros
docentes como professor da cadeira de Matemáticas Gerais. Contudo, um depoimento
de Caetano Maria Beirão da Veiga, proferido em 1951 na Casa do Algarve a propósito
de uma homenagem póstuma a Duarte Pacheco, permite-nos saber através deste seu
158
Aliás, a actividade de Humberto Pacheco no ramo das seguradoras manteve-se nas décadas seguintes
pois em 1960, quando enceta diálogo com a CML para executar a doação do espólio de Duarte Pacheco,
na correspondência trocada com o município, por várias vezes anexa o seu cartão pessoal e desse cartão
consta que é Administrador da Companhia de Seguros Ourique, sita na Avenida da Liberdade, nº 211-1º
andar.
159
MACEDO, Jorge Borges de, Op. Cit., pág. 12.
89
O País a Régua e Esquadro
professor da disciplina de Contabilidade, onde esteve nos dois anos que medeiam entre
a data de conclusão do curso e a data de entrada no IST como professor:
“Quando Duarte Pacheco terminou o curso de Engenheiro
Electrotécnico eu ocupava o cargo de Administrador Delegado da
Empresa Nacional de Publicidade, proprietária e editora do Diário de
Notícias.
Nessa época, o Duarte passava horas a meu lado, no meu gabinete
particular e servia-se dele como se seu fosse”160.
Como atrás se referiu, não existem registos de que Duarte Pacheco tenha
estagiado em qualquer instituição ou empresa. Do mesmo modo, não existe registo de
que alguma vez Duarte Pacheco tenha exercido a profissão para a qual estava habilitado.
Aliás, o facto de nunca ter exercido Engenharia seria motivo de críticas por parte de
alguns dos seus colegas161.
Sabemos contudo que após a conclusão do curso frequentado no IST, Duarte
Pacheco se manteve muito próximo de Caetano Beirão da Veiga e usou o gabinete
como se seu fosse. A relação entre Duarte Pacheco e Caetano Maria Beirão da Veiga
ultrapassou o registo de aluno e professor. O conhecimento e o trato cordial dos
corredores e das salas de aula, transformou-se numa relação de amizade quase paternal
como reconhece Beirão da Veiga162.
Caetano Maria Beirão da Veiga (1884-1962) foi professor catedrático da
disciplina de Contabilidade no IST e no Instituto Superior de Comércio. Mas, par da
actividade docente, exerceu também actividade privada no sector dos seguros,
previdência e aplicações financeiras163.
160
Caetano Maria Beirão da Veiga, “Duarte Pacheco. Inteligência, Dinamismo e Infatigabilidade”,
in Revista Internacional, 1951, s/p.
161
É nos anos de 1926 a 1929 que o debate acerca da importância social do Engenheiro atinge o seu auge.
O primeiro congresso de engenharia acontece em 1931 e a Ordem dos Engenheiros surge apenas em
1936. Contudo, no final dos Anos 20 o título de engenheiro é objecto de acesa discussão, nomeadamente
na Revista da Associação dos Engenheiros Civis Portugueses.
A este propósito Duarte Pacheco é acusado de utilizar o título de engenheiro na prossecução dos seus
próprios interesses e é apelidado de intruso. Sobre a questão Vide COSTA, J. E. Dias da, “O título de
engenheiro. Sua hermenêutica jurídica. Seu significado Social”, in Revista da Associação dos
Engenheiros Civis Portugueses, nº 649, Novembro-Dezembro de 1928, página 223.
162
Vide Apêndice Documental, Documento 8.
163
A Universidade de Lisboa e os seus Mestres. Notas Biográficas, Lisboa, 1956, pp. 539-541. Caetano
Maria Beirão da Veiga concluiu o curso superior de comércio em 1904, no Instituto Industrial e
Comercial de Lisboa. No início da sua actividade profissional desempenhou funções diplomáticas na
Direcção Geral dos Negócios Políticos e Diplomáticos e no Gabinete do Ministro dos Estrangeiros.
90
O País a Régua e Esquadro
Em 1923, como o próprio Beirão da Veiga informa, desempenhava o cargo de
administrador delegado da Empresa Nacional de Publicidade. Detentora do Diário de
Notícias. Acresce informar que, à época, a Empresa Nacional de Publicidade pertencia
ao grupo económico Companhia Industrial de Portugal (CIP) – Caixa Geral de
Depósitos. Em suma, a amizade de Beirão da Veiga permitiu a Duarte Pacheco o acesso
a um grupo maior: o da alta finança e do capital. Mas em 1923 Beirão da Veiga
desempenharia uma outra função: a de vereador da Câmara Municipal de Lisboa; facto
que, como adiante veremos, se revelaria determinante.
A clarificação e a junção dos vários dados que compõem a vida familiar, social e
política de Duarte Pacheco, revela-se afinal bem diferente da quase agiografia criada
em torno deste nome. Estamos perante um indivíduo que entre 1917, data de chegada a
Lisboa e 1923, data de conclusão do curso, se movimentou com relativa facilidade nas
várias áreas decisórias da sociedade lisboeta. Estamos perante um indivíduo que advém
de uma família com tradições políticas: um tio par do reino filiado no Partido
Regenerador; um outro tio par do reino filiado no Partido Progressista e, ainda, um pai
politicamente activo. A par da actividade política, estes três ascendentes familiares
partilham ainda de outra característica: todos eles desempenharam cargos de nomeação,
ou seja, desempenhavam a nível local um cargo de confiança dos órgãos decisórios
centrais, estacionados em Lisboa.
Com estas características, a família Pacheco conseguiu mover-se de forma
transversal na cena política de finais do século XIX e inícios do século XX. Apenas e só
com estas duas credenciais os irmãos Pacheco movimentam-se por Lisboa numa
miríade de contactos. Tendo eles próprios filiação partidária, sendo republicanos,
definiram-se num modelo de actuação política. Com contactos, credo político,
credenciais académicas e actividade financeira, o espaço de manobra e o palco de
influências cresceu a uma escala maior, a de Lisboa.
Como afirmava António Feijó: no nosso país, a nação são os partidos, fora deles não
há senão ignorantes e analfabetos. É precisamente neste retrato de país que Duarte
Pacheco se continuará a movimentar nos anos seguintes.
Na carreira docente foi professor do IST, do Instituto Superior de Comércio e do Instituto Superior de
Ciências Económicas e Financeiras. Foi nomeado director efectivo deste último instituto e foi, por
diversos períodos, director interino do IST.
Em 1923 foi eleito vereador da Câmara Municipal de Lisboa.
No domínio da actividade privada, Beirão da Veiga exerceu cargos de administração na Companhia de
Seguros A Soberana e no Banco Português do Atlântico, foi actuário do Montepio Geral e presidente do
conselho de administração do Banco Português do Continente e Ilhas.
91
O País a Régua e Esquadro
20 e 21. José de Azevedo Pacheco e Maria do Carmo Pacheco, pais de Duarte Pacheco.
22. Os irmãos Pacheco
92
O País a Régua e Esquadro
23. A Resposta do Paiz. Marçal Pacheco, 1895.
24 e 25. Duarte Pacheco em 1904 e em 1918.
93
O País a Régua e Esquadro
26. Duarte Pacheco no Laboratório de Máquinas do IST. 27. Retrato de Duarte Pacheco, c.1920.
94
O País a Régua e Esquadro
2.2. A Engenharia Política
“Duarte Pacheco era daqueles homens que seduzem pelo
entusiasmo com que se dão a uma obra (...) Conheci as
convicções de Duarte Pacheco, nunca vislumbrei nele a sombra
sequer de ambição política.”
Marcelo Caetano, Minhas Memórias de Salazar.
No Verão de 1925, ausente de Lisboa e na impossibilidade de estar presente na
sessão do Conselho Escolar do IST agendada para 31 de Julho, Mira Fernandes enviava
no dia 18 do mesmo mês, uma carta ao Director do Instituto. Essa missiva iria produzir
modificações no corpo docente do Técnico no ano lectivo seguinte164. Aureliano de
Mira Fernandes (1884-1958), doutorado em Matemática, era professor catedrático do
IST e do Instituto Superior de Ciências Económicas e Financeiras (ISCEF). No Técnico
era Regente das três cadeiras de Matemáticas Puras (Matemáticas Gerais, Cálculo
Diferencial Integral e das Variações e Mecânica Racional), e no ISCEF regia a
disciplina de Análise Matemática. Pertencia ainda a duas Sociedades Científicas: a
Academia das Ciências de Lisboa e a Academia de Ciências Exactas, Técnicas e
Naturais de Madrid. Eminente matemático e reconhecido na comunidade científica
internacional, entre livros, lições e artigos, a sua bibliografia ascendeu a 118 títulos165.
Mira Fernandes era assim um dos mais conceituados professores do IST.
Na carta enviada a Eduardo Ferrugento Gonçalves (1863-1942)166, o militar que
em 1921 substituíra Alfredo Bensaúde na direcção do IST, Mira Fernandes afirma que a
regência das três cadeiras é demasiado cargo para um professor só. O docente declara
164
Vide Apêndice Documental, Documento 9.
165
Cfr. A Universidade Técnica de Lisboa e os seus mestres, Notas Biográficas, Lisboa, 1956,pp. 768-
775.
166
Eduardo Augusto Ferrujento Gonçalves ingressou na Escola do Exército em 1881 e ali concluiu o
curso de Engenharia Militar e Civil em 1885, tendo-se dedicado à carreira docente. Foi professor da
disciplina de Máquinas Marítimas, Topografia e Geodesia na Escola Naval e na Escola de Guerra. Foi
também professor do IST, regendo a disciplina de Máquinas e Geradores. De 1921 a 1926 foi director do
IST.
95
O País a Régua e Esquadro
que é seu desejo que o Conselho o faça substituir na regência da primeira cadeira, o
que corresponde à disciplina de Matemáticas Gerais, e adianta que a sua substituição
acarreta dois problemas: o técnico e o legal.
No estrito cumprimento do Regulamento do Instituto, sob o ponto de vista
técnico, era possível que um professor com assento no Conselho Escolar (professor
regente) substituísse um seu colega na regência de uma disciplina. Contudo, a situação
de sobrecarga horária e pedagógica atribuída a Mira Fernandes, era uma situação
partilhada por todos os professores regentes do IST. Era pois remota a hipótese de
algum docente assoberbar ainda mais a sua agenda lectiva com a regência da disciplina
que Mira Fernandes queria deixar de leccionar. Daí o facto do matemático, na missiva
endereçada ao Director, referir que sobre o primeiro [ o problema técnico], no caso de
nenhum dos nossos ilustres colegas querer incumbir-se da regência, sabe V. Exa, o que
eu penso. E o Director sabia. A escolha do novo docente estava feita mas um problema
se colocava como afirmava Mira Fernandes, o problema legal.
O Regulamento do IST determinava que vagando uma das disciplinas, o
Conselho Escolar poderia convidar ao seu provimento qualquer pessoa com provas de
competência técnica demonstrada por trabalhos e matérias que constituíssem o
programa da dita cadeira. Nas palavras do fundador científico do IST, Alfredo
Bensaúde, o Conselho Escolar atribuía muito menos valor aos diplomas académicos do
que à sua actividade científica ou técnica post-escolar167. Esta escola considerava que
as provas de competência se demonstravam pela medição da produção científica e pela
colaboração em trabalhos da técnica ou da indústria.168.
Até 1930, data em que o Instituto passou a integrar a Universidade Técnica de
Lisboa, sempre que o IST pretendia recrutar docentes, não procedia a concurso público.
Nas palavras de Bensaúde, a vontade do Conselho Escolar não é secreta169. Avaliando
a produção científica e técnica dos nomes propostos a Conselho, o nome eleito era
defendido em parecer por três professores e pelo Director. Esse mesmo parecer era
proposto ao ministro da tutela e publicado em Diário de Governo, tornando-se assim
um documento oficial e público.
167
BENSAÚDE, Alfredo, “O Recrutamento dos Professores do Instituto Superior Técnico”, Notas
Histórico-Pedagógicas sobre o Instituto Superior Técnico, in Revista Técnica, Ano XXII, Nº 175, Junho
de 1947, pág. 435.
168
Idem, Op. Cit., pág. 435.
169
Idem, Op. Cit., pág. 435.
96
O País a Régua e Esquadro
Retomando as palavras de Mira Fernandes, o Director do IST sabia o que
pensava o regente das Matemáticas sobre o nome a propor, mas havia de facto um
problema legal a transpor: o cumprimento pleno do Regulamento.
Na sessão do Conselho Escolar de 31 de Julho de 1925, o Director dá
conhecimento da carta de Mira Fernandes. O Conselho compreende e aceita o pedido de
dispensa do professor e resolve por unanimidade que Mira Fernandes seja substituído na
regência da cadeira de Matemáticas Gerais pelo ex-aluno do instituto, o Sr. Duarte José
Pacheco, na qualidade de professor interino170. Contudo, a questão legal foi relembrada
por dois membros do Conselho. O professor Silva Pinto lembrou que seria conveniente
Duarte Pacheco apresentar tese, a fim de não criar um mau precedente. O professor
Lino Neto acrescentou que a exigência do mesmo exame final para um caso destes, ou
seja, para ingresso no corpo docente, seria bom para prestigiar a escola. Beirão da
Veiga contra-argumenta afirmando que o proposto é um espírito brilhantíssimo e não
exigindo o regulamento o exame final para a nomeação de professores interinos, essa
formalidade pode bem dispensar-se no caso presente171.
De facto, o Regulamento não exigia tese final para a nomeação de professores
interinos, mas atentando nas palavras cautelosas de Silva Pinto e de Lino Neto, a não
existência de um trabalho final de curso poderia abrir um mau precedente. Este simples
facto acrescenta duas informações. Por um lado ficamos a saber que Duarte Pacheco
nunca apresentou tese final de curso. Por outro lado, sabemos também que antes de
dele, nunca nenhum outro docente do IST havia sido recrutado sem a titularidade desta
credencial académica.
Esta situação vem demonstrar que o ingresso de Duarte Pacheco no corpo
docente do IST, não corresponde ao método natural de recrutamento de professores do
Instituto. Tendo em linha de conta os requisitos estipulados por Bensaúde aquando da
criação da escola, Duarte Pacheco não correspondia ao perfil dos engenheiros
recrutados para docentes do Técnico. Não havia demonstrado de 1923 a 1925, espaço de
tempo que medeia entre a conclusão do curso no Técnico e o seu ingresso como
professor no mesmo instituto, saber tratar, com originalidade e proficiência, os
assuntos que constituem o programa da cadeira a prover, do mesmo modo que não
existe notícia de ter colaborado em trabalhos de técnica ou indústria172. Estes eram, de
170
Vide Apêndice Documental, Documento 10.
171
Vide Apêndice Documental, Documento 10.
172
BENSAÚDE, Alfredo, Op. Cit., pág. 435.
97
O País a Régua e Esquadro
facto, os requisitos base de recrutamento do IST: a produção científica e a aplicação
prática e técnica do saber. Duarte Pacheco não cumpria nenhum dos dois requisitos.
A sua entrada no corpo docente do IST revela que existiria um interesse maior,
bem mais profundo que o usual e decerto legítimo ingresso de um novo elemento numa
escola em ascensão. Esse interesse ultrapassava as qualificações técnicas e a produção
científica que outros proponentes, da sua idade ou mais velhos, poderiam apresentar.
Contudo, a questão nunca se colocou. Na missiva enviada ao Director, Mira Fernandes
não nomeia eventuais substitutos. Na sessão do Conselho, quando na ordem de
trabalhos é apresentada a situação de pedido de dispensa por parte de Mira Fernandes
para a cadeira de Matemáticas Gerais, o Conselho decide atribuir a docência da
disciplina a Duarte Pacheco. Esta atribuição foi feita por unanimidade e sem referência
a qualquer outro nome. A entrada do ex-aluno não teve qualquer opositor ou qualquer
oposição. Esta forma célere e expedita revela interesses maiores e de ambas as partes.
Apenas a título de exemplo, lembremos que Porfírio Pardal Monteiro, primeiro
assistente da disciplina de Desenho Arquitectónico desde 1920, sob regência da
disciplina de Arquitectura leccionada por Álvaro Machado, só em 1925 passou a Chefe
de Trabalhos. Aliás coincidência ou não, este facto ocorre na mesma sessão em que é
aprovada por unanimidade a entrada de Duarte Pacheco no quadro docente do IST.173
Porfírio Pardal Monteiro, de Assistente a Chefe de Trabalhos esperou 5 anos para
progredir na carreira. Levaria outros 12 para chegar a professor interino174. Duarte
Pacheco seria professor interino por menos de 1 ano, pois em Outubro seguinte passaria
a professor efectivo. E a questão científica ou técnica nem sequer se colocava nesta
situação, pois matemáticos ou ex-alunos desenvoltos nas ciências exactas existiriam
bastantes, o mesmo não acontecendo no caso da disciplina leccionada por Pardal
Monteiro, como reconheceu o próprio Conselho: atendendo às dificuldades de
encontrar entre os alunos ou ex-alunos de Belas Artes pessoas que queiram ou possam
aceitar o encargo desta assistência175.
A clarificação do processo de entrada de Duarte Pacheco no corpo docente do
Técnico revela-se afinal bem mais complexa do que se poderia supor e bem mais
sinuosa que a versão criada pela historiografia. Duarte Pacheco foi um bom aluno, mas
não um aluno de médias brilhantíssimas. Nunca produziu um texto teórico nem existe
173
Vide Apêndice Documental, Documento 10.
174
IST, Núcleo de Arquivo, Processos Individuais de Professores, Processo Porfírio Pardal Monteiro.
175
Vide Apêndice Documental, Documento 10.
98
O País a Régua e Esquadro
testemunho de que tenha exercido científica ou tecnicamente a profissão de engenheiro,
requisitos inerentes ao recrutamento do corpo docente do IST. Assim sendo, a
clarificação do processo de integração permite-nos afirmar que se por um lado existe
um óbvio interesse pessoal de Duarte Pacheco em integrar o quadro docente, interesse
esse partilhado pelos seus proponentes, os catedráticos Mira Fernandes e Beirão da
Veiga, que investem a sua autoridade académica na proposta de entrada do antigo aluno,
existe por outro lado, o interesse da instituição em acolher Duarte Pacheco, apesar da
singularidade desta admissão abrir um precedente científico e técnico no recrutamento
legal de um docente.
Aliás, o facto de Duarte Pacheco não possuir as clássicas credenciais
académicas, será sempre referido na documentação oficial do instituto. Em Outubro de
1926, no parecer de admissão de Duarte Pacheco a professor efectivo do IST, o Director
Ferrujento Gonçalves e os professores Mira Fernandes, Borges de Sequeira e Beirão da
Veiga afirmam que não tem o Engenheiro Duarte José Pacheco obra escrita176. Se na
sua admissão como professor interino, esse facto não era impeditivo de nomeação,
como argumentara em 1925 Beirão da Veiga, no caso de nomeação efectiva a obra
escrita era necessária. Contudo, uma vez mais o Conselho do IST contornou a questão
justificando que Duarte Pacheco era saído ha pouco tempo da Escola, não seria facil tê-
la. Nesta sciencia [a Matemática] mais do que em qualquer outra, o ensino gera a
producção scientifica177.
Existia de facto um interesse maior e comum a todas as partes e por alguma
razão Duarte Pacheco parecia ser a peça de encaixe nesse mesmo interesse. E o
interesse, o verdadeiro objectivo, seria o melhoramento material do Instituto. Instalado
na Rua da Boavista desde a data de criação, o IST carecia de condições dignas. Vivendo
a escola uma situação deplorável, afigurava-se necessária e inadiável a criação de
condições para a existência de novas instalações para o Instituto Superior Técnico:
“Havia muito já, que toda a gente considerava indecorosas as
instalações do instituto, situadas no Conde Barão, abarracadas,
inestéticas, anti-higiénicas e provisórias – como tanta coisa nesta
176
Vide Apêndice Documental, Documento 11.
177
Vide Apêndice Documental, Documento 11.
99
O País a Régua e Esquadro
quadra nacional; todos falavam, maldiziam, censuravam, mas
178
ninguém actuava.”
Duarte Pacheco era seguramente a peça de encaixe que ligaria todos os pontos
nevrálgicos, decisórios e indispensáveis à concretização deste projecto. E no Conselho
Escolar do IST, senão no todo dos seus elementos constituintes, pelo menos nos
elementos de maior peso decisório, existia a plena consciência do facto. Antes de
Duarte Pacheco nada se conseguiu e depois dele nada se lhe acrescentou179.
A questão das novas instalações do IST transcendia o conceito de equipamento
educativo. Afigurava-se como um projecto global e transversal, com fins científicos,
pedagógicos, sociais e profissionais. A questão da necessidade de existência de
instalações condignas para professores e alunos era indiscutível. As condições mínimas
de ensino teórico não estavam garantidas e a prática do ensino técnico afigurava-se
seriamente comprometida, uma vez que o espaço para laboratórios era escasso e o
material rareava. As transformações estruturais de mercado iniciavam-se nos restantes
países europeus, e com condições tão precárias o ensino técnico em Portugal não
poderia competir com os seus congéneres. Numa sociedade em transformação célere, os
engenheiros eram tidos como agentes produtores de riqueza180.
Em 1916 Alfredo Bensaúde conseguira verba governamental para a construção
do novo edifício destinado ao instituto, no caso 400 contos. Contudo, o projecto nunca
avançou181. O Director do Instituto conseguiu que a Caixa Geral de Depósitos
desbloqueasse os primeiros 100 contos para o arranque das obras, mas apesar de
inúmeras diligências o processo ficou bloqueado. Bensaúde recorreu ao Ministro da
Instrução Pública, ao Presidente da Comissão do Orçamento da Câmara dos Deputados
e ao Secretário do Conselho Superior da Administração Financeira, mas o projecto
nunca se concretizou182. Com os 100 contos iniciais Bensaúde poderia iniciar o
projecto, mas sem a certeza da posse efectiva dos restantes 300 contos, a desbloquear a
50% nos anos económicos de 1917-1918 e 1918-1919, o Director do IST receava ver-se
178
VEIGA, Caetano Maria Beirão da, Op. Cit., s/p.
179
Com a morte de Duarte Pacheco em 1943, cessam em definitivo as obras das novas instalações do IST.
Previstos no projecto inicial e a edificar a poente do Pavilhão Central, dois pavilhões (Hidráulica e
Laboratório de Máquinas) não chegarão a ser construídos.
180
BENSAÚDE, Alfredo, Op. Cit., pág. 436.
181
Pelo artigo 31 da Lei Orçamental Nº 220 de 30 de Junho de 1914, o Governo autorizou o empréstimo
de 400 contos para a construção do novo edifício do Instituto Superior Técnico.
182
Vide Apêndice Documental, Documento 12.
100
O País a Régua e Esquadro
na contingência de em determinada altura ter de suspender as obras por falta de
recursos183 E foi precisamente o que aconteceu.
Aquando da sua criação, ficou o Instituto instalado na Boavista, ao Conde Barão.
Herdara as instalações do extinto Instituto Industrial184. Ficou também o Instituto na
posse de alguns terrenos na área do extinto Convento das Francesinhas, propriedade que
administraria como melhor lhe aprouvesse.
O barracão da Boavista designação pela qual eram conhecidas as instalações do
Técnico, poucas condições oferecia à prática do ensino. As salas de aulas teóricas eram
exíguas, as salas de aulas práticas, não sendo construídas de raiz, não apresentavam as
características necessárias de verdadeiros laboratórios, a iluminação era deficiente, o
aquecimento inexistente e as infiltrações de água eram permanentes ao ponto de por em
risco a segurança de alunos, professores e do próprio edifício185.
Não bastando todas as diligências inerentes à necessária credibilidade da
imposição do ensino técnico superior, Bensaúde pautou o mandato como director do
IST numa insistente luta de atribuição de instalações condignas para o seu instituto. Nas
inúmeras missivas que envia às várias entidades insiste na necessidade de existência de
condições básicas à prática do ensino:
“o ensino da engenharia carece de grandes laboratórios, salas de
desenho, oficinas, etc, não se poderá desenvolver entre nós, enquanto
não possuirmos um edifício apropriado onde esse ensino se possa
186
fazer convenientemente”.
Outro dos argumentos usualmente utilizados por Bensaúde residia na invocação
patriótica dos destinatários das suas missivas:
“No interesse do desenvolvimento do ensino superior técnico da
engenharia em Portugal e para que seja o país dotado de um
183
Vide Apêndice Documental, Documento 12, carta de Alfredo Bensaúde ao Presidente da Comissão do
Orçamento da Câmara dos Deputados.
184
Aquando da criação do Instituto Industrial optara-se por aquela localização tendo em conta a grande
concentração industrial na zona da Boavista. Sobre o tema Cfr. CUSTÓDIO, Jorge, “Reflexos da
Industrialização na fisionomia e vida da cidade”, in O Livro de Lisboa, coord. Irisalva Moita, Lisboa94-
Expo98, 1998, pp. 461-462.
185
As precárias condições de funcionamento do IST na Boavista são recorrentemente lembradas nas
Sessões do Conselho Escolar do IST entre os anos de 1911 a 1935.
186
Vide Apêndice Documental, Documento 12, carta de Alfredo Bensaúde ao Administrador da Caixa
Geral de Depósitos e Instituições de Previdência, em 21 de Janeiro de 1916.
101
O País a Régua e Esquadro
estabelecimento modelar onde o ensino se possa fazer com vantagem,
187
venho solicitar do patriotismo de V. Exa.”
Com a verba inicial de 100 contos, e na esperança de desbloqueio dos restantes
300 contos, Bensaúde não procurou novos terrenos para a edificação das novas
instalações do Instituto. Na posse de parte dos terrenos do extinto Convento das
Francesinhas, resolveu a 15 de Agosto de 1916, adjudicar a Francisco Vital dos Santos
Teixeira a empreitada de demolições e terraplanagens necessárias para levar a cabo o
programa das novas instalações188.
Quanto ao projecto arquitectónico, a escolha recaiu sobre Miguel Ventura Terra,
o arquitecto de eleição de Bensaúde. O mesmo arquitecto que em 1896 projectara a casa
do professor, situada na Rua de S. Caetano à Lapa.
A encomenda do projecto das instalações do IST a Ventura Terra data de 1915,
como defende José-Augusto França189. Por determinação do Conselho Escolar do IST,
Ventura Terra recebeu um ofício datado de 9 de Novembro de 1915, ofício que o
encarregava da elaboração do projecto do Instituto190.
E o assunto não seria sigiloso pois a 25 de Agosto de 1915 a Associação de
Estudantes do IST, em carta ao Director, e a propósito da notícia do projecto das novas
instalações, lembrava a necessidade, não só de inclusão de instalações necessárias à
sede da associação, como além destas, da inclusão no projecto de campos de patinagem,
ténis, esgrima, etc, a exemplo do que se vê lá fora, nos estabelecimentos modelares de
França, Alemanha e Suíça191.
Em Setembro de 1916, em carta enviada ao Presidente da Câmara Municipal de
Lisboa, Bensaúde afirma que se vai iniciar a construção do novo edifício, razão pela
qual pede que se proceda ao alinhamento da Rua João das Chagas e da Calçada da
Estrela.192. Contudo, os receios do Director do IST concretizaram-se. Nos anos de 1917
187
Vide Apêndice Documental, Documento 12, carta de Alfredo Bensaúde ao Presidente da Comissão do
Orçamento da Câmara dos Deputados em 9 de Fevereiro de 1916.
188
IST, Núcleo de Arquivo. Copiador de Cartas Nº 5, Novembro de 1915 a 30 de Abril de 1918, Carta de
Alfredo Bensaúde a Francisco Vital dos Santos Teixeira, em 15 de Agosto de 1916.
189
FRANÇA, José-Augusto, A Arte em Portugal no Século XX, 3ª edição, Venda Nova, Bertrand Editora,
1991, pág. 241.
190
IST, Núcleo de Arquivo. Copiador de Cartas Nº 5, Novembro de 1915 a 30 de Abril de 1918, Carta de
A. Viegas endereçada a Alfredo Bensaúde a 30 de Abril de 1918 e referente à liquidação de contas com
Miguel Ventura Terra.
191
Vide Apêndice Documental, Documento 13.
192
IST, Núcleo de Arquivo. Copiador de Cartas Nº 5, Novembro de 1915 a 30 de Abril de 1918, Carta de
Alfredo Bensaúde ao Presidente da Câmara Municipal de Lisboa em 22 de Setembro de 1916.
102
O País a Régua e Esquadro
e 1918 não se regista qualquer entrada de verba nos cofres do IST referentes à
construção do novo edifício.
Em 1918 a intenção de edificar no terreno das Francesinhas um já projectado
Museu Comercial de Lisboa é apresentada ao Director do IST. Em contraponto
Bensaúde responde que não se opõe à construção de tal edifício, caso se permutem
terrenos, e aponta a Tapada das Necessidades como área preferencial para a construção
do novo edifício do IST193.
Em Novembro de 1919 Bensaúde envia ao Ministro do Comércio e
Comunicações toda a informação solicitada pelo Senador Constâncio de Oliveira. Este
documento acabará por relatar o historial do gorado projecto de construção das novas
instalações do Técnico, de 1915 a 1918194.
De 1919 a 1926 a questão das precárias condições de instalação do IST
continuaram a ser referidas em Conselho Escolar, mas das intenções à viabilidade de um
projecto de melhoramentos, nada aconteceu.
É na sessão imediatamente anterior à primeira presença de Duarte Pacheco como
membro do Conselho Escolar, que a questão das instalações do Instituto é novamente
relançada e questionada.
Com efeito, em sessão de 7 de Agosto de 1926 o Director do IST, General
Ferrugento Gonçalves, comunica ao Conselho as diligências junto de Sua Excelência o
Ministro do Comércio para a mudança do Instituto para o edifício do antigo Colégio de
Campolide195. Uma vez mais, as diligências seriam infrutíferas. A ocupação do Colégio
de Campolide estava já destinada ao aquartelamento de uma unidade militar, como
informou o Ministro do Comércio, mediante informação obtida com o Ministro da
Guerra.
Na impossibilidade de o IST se deslocar para Campolide, o professor Almeida
Garrett alvitrou a hipótese de se deslocar o Técnico para os extintos serviços da
Cordoaria Nacional, lembrando que o edifício é vasto e bem situado196. Contudo, o
Conselho optou por manter a comissão encarregada do exame de viabilidade de
193
Vide Apêndice Documental, Documento 14.
194
Vide Apêndice Documental, Documento 15.
195
IST, Núcleo de Arquivo. Correspondência Recebida e Actas das Sessões do Conselho Escolar (1918-
1917), Acta da Sessão do Conselho Escolar em 7 de Agosto de 1926.
196
Idem, Ibidem.
103
O País a Régua e Esquadro
mudança, que continue funcionando a fim de averiguar da existência de outro edifício
para onde seja possível mudar o instituto197.
A entrada de Duarte Pacheco no corpo docente do IST não alterou a evidência
das necessidades prementes do Instituto. A sua entrada alterou o modo de agir. Como os
seus colegas do Conselho, também Duarte Pacheco acreditava que as novas instalações
se afiguravam como um projecto global e transversal, com fins científicos, pedagógicos,
sociais e profissionais. Mas Duarte Pacheco acrescentou um outro factor de importância
a este projecto. Um factor decisório, o político.
O círculo restrito de confiança de Duarte Pacheco seguramente que já havia
percepcionado o facto, e acreditava que ele seria o homem certo para encabeçar a
equipa que levaria a bom termo o ambicioso projecto das novas instalações do Técnico.
Mas era necessário conquistar a confiança e a unanimidade do Conselho Escolar do IST.
E Duarte Pacheco conseguiu ganhar essa confiança por mérito próprio.
No ano lectivo de 1925-1926 leccionou a disciplina de Matemáticas Gerais e
representou o Director do IST na Comissão nomeada pelo Governo para o estudo das
reclamações de alunos em greve. Em Outubro de 1926, como atrás foi referido, o
Conselho Escolar propôs ao Ministro da tutela a nomeação definitiva de Duarte
Pacheco, nomeação essa que saiu em Diário de Governo no mesmo mês. Ainda em
Outubro de 1926 ficou Duarte Pacheco encarregue do estudo minucioso dos horários198.
O Director havia recebido inúmeros requerimentos de alunos reclamando que os
horários estabelecidos no instituto não permitiam a frequência efectiva de disciplinas
inerentes à tabela de precedências. Pela existência de sobreposição horária de
disciplinas nucleares, os alunos viam-se assim obrigados a faltar a aulas indispensáveis.
Duarte Pacheco ficou encarregue de reorganizar os quadros horários de todas as
disciplinas leccionadas no IST e todas as alterações foram aprovadas por unanimidade
pelo Conselho Escolar199.
No dia 6 de Novembro de 1926 Duarte Pacheco toma pela primeira vez lugar na
Sessão do Conselho Escolar do IST. Como docente efectivo, Duarte Pacheco passou a
pertencer ao Conselho Escolar: órgão decisório e deliberativo do Instituto nas questões
de organização e planificação científica, técnica, pedagógica e financeira. Como
197
Idem, Ibidem.
198
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência Recebida e Actas das Sessões do Concelho Escolar (1918-
1927), Acta da Sessão do Conselho Escolar de 25 de Outubro de 1926.
199
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência Recebida e Actas das Sessões do Concelho Escolar (1918-
1927), Acta da Sessão do Conselho Escolar de 25 de Outubro de 1926.
104
O País a Régua e Esquadro
membro do Conselho, Duarte Pacheco poderia agora apresentar propostas técnicas e
científicas relativas à sua área de docência, no caso a Matemática. Podia também
apresentar projectos ou tomar a palavra sempre que o julgasse necessário se o assunto
respeitasse o bom nome ou o bem comum do Instituto.
Presente no Conselho Escolar do IST pela primeira vez e no uso do direito da
palavra, Duarte Pacheco não perdeu oportunidade nem tempo e expôs a sua opinião.
Contudo, na breve intervenção, o jovem docente não se limitou a constatar o óbvio e a
lamentar o infortúnio. Numa malha de carácter que irá pautar a sua vida pública, Duarte
Pacheco revela nesta breve exposição o seu método de trabalho: análise das situações;
identificação dos erros, definição de prioridades e construção das soluções.
No momento em que tem a palavra agradece as amáveis boas-vindas,
agradecendo em especial ao professor Mira Fernandes, não só a situação presente de
docência mas também todas as atenções que lhe dispensou durante a sua vida escolar e
depois de formado. Mas a novidade surge logo de seguida. Frontal nos seus propósitos e
contrastando com as formais declarações de um corpo docente absorto nas questões da
docência e dos conteúdos programáticos das disciplinas, um corpo docente fragilizado
pela excessiva carga horária e pela idade avançada, a intervenção de Duarte Pacheco
surge com um vigor e um entusiasmo característico dos 26 anos ainda por completar.
Surge ágil na forma de atingir objectivos muito bem definidos:
“O Sr. Professor Pacheco afirma que, enquanto o instituto estiver tão
deficientemente instalado e tão pobre, não pode progredir (...) Outro
problema que julga necessário resolver é o do recrutamento do
professorado. O sistema de contratar professores estrangeiros deve
acabar (...) urge pensar na criação de bolsas de estudo, a fim de os
rapazes formados nas nossas escolas (...) possam ir ao estrangeiro
especializar-se e vir depois exercer o professorado. Outro assunto que
também necessita de ser resolvido é o dos laboratórios. De todos os
laboratórios do instituto só o de Química desempenha a sua missão e
200
trabalha regularmente.”
Como aluno do IST, Duarte Pacheco vivera sob uma perspectiva: a do estudante
que recebeu a formação técnica e científica regulamentadas e possíveis mediante as
200
Vide Apêndice Documental, Documento 16.
105
O País a Régua e Esquadro
condições existentes. Como membro do corpo docente, a sua atitude revela-se
inconformada e assertiva. Analisada a situação, Duarte Pacheco afirma que na
continuidade da situação de precariedade o IST não tem como progredir. E, sob o seu
ponto de vista, a estagnação do Instituto deve-se não só às deficientes instalações que
possui, mas também se deve à falta de material, falta de laboratórios e falhas nos
critérios de renovação do pessoal docente.
Identificados os erros, Duarte Pacheco giza as prioridades: resolver no espaço de um
ano o problema das instalações. E como a renovação das instalações e a criação de
bolsas de estudo para recrutamento de professorado exigem fundos monetários, Duarte
Pacheco aponta a forma de os conseguir: fazer pressão sobre os poderes públicos e
tomar a iniciativa de ida de todos os professores a Sua Exa. o Ministro do
Comércio201.A pressão, sob o ponto de vista de Duarte Pacheco, seria política ao utilizar
os argumentos e as acções do próprio governo: se o Estado pode sobrecarregar o seu
orçamento com mais 10.500 [contos] anuais, por motivo das últimas reformas de
ensino, também pode proporcionar ao instituto os meios de efectivar esta pretensão.
Em suma, se era pretensão do governo reformar o ensino, a legitimação do
discurso político poderia passar a obra efectiva: as novas instalações do Técnico. E é
com este argumento que Duarte Pacheco irá pressionar constantemente o poder político
até à obtenção dos fundos necessários ao arranque das obras do Técnico. Elevando o
projecto das novas instalações do IST a porta-estandarte das reformas de ensino, da
projecção do ensino técnico e da formação da nova classe profissional geradora de
riqueza, entre Novembro de 1926 e Junho de 1927, Duarte Pacheco conseguirá do
governo a publicação de três decretos fundamentais ao arranque de uma obra estrutural.
A uma distância de 25 anos, Herculano de Carvalho diria que:
“a acção dificílima que por vontade de ferro e por um optimismo
invencível, Duarte Pacheco desenvolveu para conseguir do
Parlamento que então votasse a concessão da primeira verba para
compra dos terrenos e início da construção e depois para promover as
202
expropriações necessárias, demolições, etc.”
201
Vide Apêndice Documental, Documento 16.
202
CARVALHO, Herculano de, Op. Cit., sem paginação.
106
O País a Régua e Esquadro
Logo a 1 de Fevereiro de 1927 é publicado o Decreto 13 113 que permite ao IST
contrair um empréstimo com a Caixa Geral de Depósitos no valor de 3.500 contos para
construção do novo edifício. A 2 de Junho o mesmo ano o Decreto 13 717 decreta a
necessidade de atribuição de bolsas de estudo no estrangeiro para professores e alunos
diplomados pelo IST; e o Decreto 13 718, publicado no mesmo dia, eleva para 10.500
contos a verba destinada à construção do novo edifício.
A confiança do Conselho Escolar estava conquistada. Entre Novembro de 1926,
data em que Duarte Pacheco toma pela primeira vez assento no Conselho e Junho de
1927, à parte das regências das disciplinas, responsabilidade técnica e científica inerente
a cada um dos professores com assento no Conselho, todas as questões burocráticas, de
consultadoria, delegação e comissão, passaram a ser atribuídas por unanimidade a
Duarte Pacheco. O argumento era por demais repetido: Duarte Pacheco era o professor
mais novo, e no perfeito domínio da argúcia e inteligência revelava total
disponibilidade. Como se não bastasse, era ainda bem conhecedor de todos os
assuntos203.
Com a presença de Duarte Pacheco o cenário do IST alterou-se por completo.
De 1911 a 1926 o Instituto não conseguiu sequer transferir-se para um outro edifício
que apresentasse melhores condições. Duarte Pacheco ingressara no corpo docente do
IST no ano lectivo de 1925/1926, tomando pela primeira vez assento no Conselho
Escolar do Instituto no ano lectivo de 1926/1927. A 6 de Novembro de 1927, no
primeiro momento em que no Conselho Escolar teve o uso da palavra, Duarte Pacheco
identificou os problemas do Instituto e avançou com as soluções. Entre 1 de Fevereiro e
2 de Junho de 1927, o poder político ao publicar os decretos 13 113, 13 717 e 13 718,
tornava força de lei as palavras de um homem, que recém-chegado ao IST, conseguiria
o que o Conselho Escolar e dois Directores de um Instituto Público não conseguiram em
15 anos: terreno e verba para construção.
203
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência Recebida e Actas das Sessões do Concelho Escolar (1918-
1927), Actas das Sessões do Conselho Escolar de 6 de Novembro de 1926 a 8 de Junho de 1927.
Neste espaço de tempo Duarte Pacheco representou o Director do IST na Comissão nomeada pelo
Governo para estudar as reclamações de alunos em greve; procedeu à reforma da tabela de horários para
todos os cursos leccionados no IST; por delegação do IST integrou a Comissão encarregada pela Direcção
Geral do Ensino Industrial e Comercial de classificar os candidatos a vagas de professores agregados das
escolas do ensino elementar industrial e comercial; ficou encarregue de formular a resposta ao Instituto
Electrotécnico e de Mecânica Aplicada de Toulose que solicitada a inclusão do IST na lista oficial de
escolas estrangeiras cujos cursos deveriam ser equivalentes aos cursos das escolas superiores de
engenharia portuguesas; foi delegado do IST à Comissão Organizadora do I Congresso Nacional de
Engenharia, entre outras representações.
107
O País a Régua e Esquadro
Na sessão do Conselho de 5 de Fevereiro de 1927 é lido o decreto 13 113. Com
este documento oficial o Governo autorizava o IST a negociar com a Caixa Geral de
Depósitos um empréstimo de 3.500 contos para a construção das novas instalações. Por
proposta do Director e com a aprovação unânime do professorado, ficou consignado em
acta:
“ um voto de louvor e agradecimento ao professor Sr. Duarte Pacheco
a cujos esforços e tenacidade se deve o grande benefício que
204
representa para este Instituto a publicação do decreto”.
Seguidamente, o Director informa que, de harmonia com o disposto no artigo 5º
do mesmo decreto205, se torna necessário eleger os dois representantes do Conselho
para, juntamente com a Comissão Administrativa, dirigir e fiscalizar a construção do
novo edifício do Instituto.206 O professor Santos Viegas propõe, sendo aprovado por
unanimidade, que sejam eleitos para as funções determinadas no artigo 5º do decreto:
“ os professores Duarte Pacheco que tanto se tem interessado pelo
assunto e Francisco Maria Henriques em vista das suas qualidades e
207
da sua especialização.”
Francisco Maria Henriques era o professor regente de Engenharia Civil do IST.
Membro do Conselho Escolar, desempenhava também funções de consultadoria na
Caixa Geral de Depósitos. Como consultor da instituição bancária estatal, este professor
do Técnico não se limitava a emitir pareceres no âmbito da Engenharia. Ultrapassando o
universo dos créditos técnicos, os seus pareceres focavam também as questões
arquitectónicas dos projectos de obra da CGD208. Este facto justifica a escolha de
204
Vide Apêndice Documental, Documento 17.
205
“A construção do novo edifício do Instituto Superior Técnico será dirigida e fiscalizada por uma
comissão constituída pelos membros da comissão administrativa do mesmo estabelecimento de ensino e
por dois delegados do seu conselho escolar, devendo prestar contas dessa administração ao Conselho
Superior de Finanças”, Artigo 5º do Decreto 13.113 de 24 de Janeiro de 1927, publicado no Diário do
Governo, I Série, de 1 de Fevereiro de 1927.
206
Idem, Ibidem.
207
Idem, Ibidem..
208
Sobre os processos de construção, modelos adoptados e sobre a caracterização técnica dos quadros
decisórios da Caixa Geral de Depósitos Vide BRITES, Joana Rita da Costa, Caixa Geral de Depósitos,
Crédito e Previdência: Modelos e Programas Arquitectónicos na Construção do Estado Novo (1929-
1970), dissertação de Mestrado em História da Arte apresentada à Faculdade de Letras da Universidade
de Coimbra, texto policopiado, 2007, pág. 34-35.
108
O País a Régua e Esquadro
Francisco Maria Henriques para a direcção técnica da obra. O engenheiro civil tenta
declinar a escolha que sobre ele recaiu, embora não tenha sucesso no propósito. E é
como vogal da direcção técnica, escolhido pelos seus pares que emite desde logo o
primeiro parecer sobre o projecto de obra:
“O professor Sr. Francisco Maria Henriques lembra que o trabalho
tem uma parte directiva e outra artística. Propõe por isso que à
209
comissão fique agregado o professor de Arquitectura.”
Francisco Maria Henriques referia-se obviamente, a Álvaro Machado, o
professor regente de Arquitectura do IST. E neste primeiro momento, o de leitura,
interpretação e aplicação prática do decreto que aprovava o financiamento de
construção das novas instalações do Técnico, surgia a primeira divisão:
“O professor Sr Pacheco entende que não é oportuna a proposta do Sr.
Francisco Maria Henriques, visto que a comissão no interesse do
melhor desempenho da sua missão, ouvirá quem julgar conveniente e
agregará a si todos quantos a possam auxiliar à medida que esse
210
auxílio for sendo necessário.”
A proposta de Francisco Maria Henriques, de agregar à comissão técnica o
professor de Arquitectura Álvaro Machado, seria aprovada por todos os professores
presentes no Conselho, com a excepção de Duarte Pacheco211.
Mentor da crença de viabilidade de construção do novo edifício e credor do mérito
na obtenção de verba para a viabilidade o projecto, Duarte Pacheco demonstra que tem
ideias firmes e bem claras sobre a questão. Ao não concordar com a agregação de
Álvaro Machado ao corpo directivo da comissão que supervisionará a construção do
novo edifício, Duarte Pacheco declina a validade da apreciação estética de Álvaro
Machado. Embora a presença do arquitecto na comissão técnica de obra tenha sido
votada por todos os professores, prevaleceu a vontade de Duarte Pacheco, uma vez que
a questão não voltará a ser levantada em Conselho e Álvaro Machado não chegará
nunca a integrar esta comissão.
209
Vide Apêndice Documental, Documento 17.
210
Idem, Ibidem.
211
Idem, Ibidem.
109
O País a Régua e Esquadro
Este facto denuncia duas situações possíveis. Duarte Pacheco poderia não sentir
empatia face à posição estética praticada por Álvaro Machado na arquitectura que
projectava ou leccionava no IST, ou não sendo esse o caso, Duarte Pacheco teria já
em vista as linhas estéticas ou o arquitecto que faria o traço arquitectónico das novas
instalações.
Em todo este processo, apenas neste primeiro momento, o de leitura do decreto que
autorizava o empréstimo para o início da construção do novo edifício, foi alvitrado
em Conselho Escolar o nome de um arquitecto, Álvaro Machado. A questão de
direcção arquitectónica da obra não será nunca referida, como se a uma esfera
superior se tivesse já decido o nome do arquitecto que projectaria o novo edifício.
O verdadeiro projecto do novo IST parece ter sido gizado na esfera da política
pública e não no âmbito de um exercício voluntário de cidadania. Ao contrário do que
acontecera entre 1915 e 1918 com Alfredo Bensaúde que, apresentando um projecto
educativo e um projecto arquitectónico, não conseguiu ir além do patamar das intenções
políticas, com Duarte Pacheco assistimos a um desenrolar dos acontecimentos de forma
célere e eficaz. E por uma razão simples: Duarte Pacheco era o político na academia.
Bensaúde foi o cientista, o técnico, o pedagogo que defendeu um projecto de ensino e
que num tempo preciso o poder político legitimou ao criar o IST. Mas quando Bensaúde
propôs a projecção material da escola criada em decreto, não conseguiu passar do
projecto.
Duarte Pacheco fez o percurso inverso. Quando entrou no IST e integrou o
quadro docente, a credibilidade política já existia, pois só assim se justificam os
contactos políticos facultados ao mais alto nível, o nível da decisão. Não era pelo facto
de ser professor do IST há pouco mais de 1 ano que Duarte Pacheco teria acesso directo
a um gabinete ministerial. Como o próprio afirma a propósito da concessão de crédito
para a construção do novo edifício do Instituto, tinha acesso directo aos ministros, à
cúpula do poder:
“Disse-lhe Sua Excelência o Ministro que não podendo o
Estado dar de uma só vez o dinheiro necessário para a conclusão da
obra, entendia que os 3.500 [contos] não deviam ser gastos apenas nos
alicerces. Devia a obra ir sendo feita parcialmente concluindo o que
110
O País a Régua e Esquadro
fosse começado, pois assim mais fácil lhe parecia conseguirem-se os
212
meios necessários para a conclusão da obra.”
Mas a par da concessão de verba para o financiamento de obra, Duarte Pacheco
tinha também a segunda e imprescindível questão já resolvida, a do terreno. E pensando
numa perspectiva global, de congregação de esforços mas também de interesses,
pensara também a angariação de parceiros:
“Pensou interessar também os industriais na realização deste
desejo e pede aos colegas que o coadjuvem nesta iniciativa. Sabe que
não há muito o que se pode conseguir mas o efeito moral será enorme
e levará o governo a dar mais facilmente o que faltar. Relata já terem
sido encetadas as negociações com o proprietário do terreno, tendo
este fixado o pagamento em duas prestações: um no acto da escritura e
213
a segunda até ao fim de Junho depois de retiradas as colheitas.”
E centrando-nos agora na questão dos terrenos, relembremos, como atrás foi
dito, que Duarte Pacheco, nos dois anos que decorreram entre a conclusão do curso em
1923 e o seu ingresso no IST como professor interino em 1925, não exerceu engenharia.
Como referiu Beirão da Veiga: quando terminou o curso passava horas a meu lado, no
meu gabinete e servia-se dele como se seu fosse214. Relembremos ainda que Beirão da
Veiga, professor catedrático do IST e do ISCEF, exercia para além da docência,
actividade privada na banca e nas seguradoras. Também Humberto Pacheco, licenciado
em Direito e irmão de Duarte, não tendo exercido advocacia, optou pela consultadoria
jurídica no ramo das seguradoras.
As seguradoras avaliam e validam a posse e a transacção de propriedade,
nomeadamente no mercado de terrenos.
Nestes dois anos que vão de 1923 a 1925, Duarte Pacheco, por estreita relação
pessoal ou por actividade própria, tendo trabalhado com o irmão no ramo das
seguradoras, teve acesso directo ao mercado do imobiliário, dos proprietários e dos
bens. Na proximidade ou no exercício pleno da actividade seguradora, teve também
acesso ao mercado financiador da transação de bens e propriedades: a banca.
212
Idem, Ibidem.
213
Idem, Ibidem.
214
Vide Supra, ponto 2.1.
111
O País a Régua e Esquadro
A utilização do gabinete de Beirão da Veiga demonstra a plena confiança e a
estreita amizade que o professor tem pelo ex-aluno. Mas revela outros dados. Duarte
Pacheco utilizaria o gabinete com um propósito, um propósito que seria do
conhecimento de Beirão da Veiga, tendo o seu consentimento e a sua aprovação.
Seria seguramente um projecto pensado, estruturado e que visava corresponder
aos legítimos anseios de vários interesses que convergiam para o mesmo objecto e com
o mesmo objectivo: as instalações do Técnico.
Desde logo, existia o interesse maior de professores e alunos que, desde a
fundação do Instituto, reclamavam o desenvolvimento da primeira escola superior de
engenharia do país, aquela de que mais directamente depende o progresso215. Este
conceito de elite, de escola formadora dos agentes criadores do progresso e da riqueza
do país, sempre foi instruído e aplicado no IST. No domínio da Engenharia existe o
Técnico existindo depois as outras escolas. E para os engenheiros formados pelo
Técnico, não só como antigos alunos da escola mas como profissionais conscientes da
importância social e económica da sua actividade, o envolvimento num projecto desta
envergadura, como agentes da indústria ou como seus funcionários especializados, seria
uma forma de obtenção de mérito e de credibilidade. Daí o facto de Duarte Pacheco
referir que pensou interessar também os industriais.
No domínio da esfera política, a credibilidade e a adesão não se conseguem com
palavras, mas com acção, com obra. E a verdadeira reforma do ensino, o
desenvolvimento da primeira escola de engenharia do país, só seria possível com o seu
efectivo melhoramento material: o novo edifício. Deste modo, também no domínio
político, a viabilidade deste projecto se apresentaria como uma medida benéfica. Como
dissera o ministro do Comércio a Duarte Pacheco, devia a obra ir sendo feita
concluindo o que fosse começado.
A construção do IST seria conseguida numa conjugação de esforços e no
encontro dos vários interesses em jogo. Cada um a seu modo, buscava legitimidade e
reconhecimento. E se todos o poderiam conseguir, todos o conseguiram.
Neste processo Duarte Pacheco foi a pedra de fecho de uma abóbada, de uma
cúpula, e não o expedito e voluntário professor de 26 anos que recém-chegado ao corpo
docente do Instituto se lança solitário num projecto que dependeu unicamente da sua
vontade e esforço, como defende Beirão da Veiga numa versão abonatória:
215
IST, Núcleo de Arquivo. Copiador de Cartas Nº 5, Novembro de 1915 a 30 de Abril de 1918, Carta de
Alfredo Bensaúde ao Director do Posto de Desinfecção Pública de Lisboa, em 18 de Setembro de 1916.
112
O País a Régua e Esquadro
“Animado daquela confiança firme, impulsionado por uma
visão larga (...) eis que se mete na Câmara Municipal de Lisboa,
coberto com o simples título de professor do Instituto, e de alto a
baixo, esquadrinha a planta da cidade. A sua vista aguda fixa-se nos
vastos terrenos, quintas e quintais que se dilatavam para as bandas do
Arco do Cego. Lá no foro do seu íntimo, decide que ali se elevaria
imponente o edifício do Técnico, condigno e adequado à finalidade da
216
Escola. E aí se ergueu”
Margarida Acciaiuoli coloca em questão como foi possível que um jovem e
desconhecido professor tivesse entrado assim pelas Repartições do Município de
Lisboa, fazendo prevalecer as suas ideias217.
Para Duarte Pacheco o acesso às Repartições do Município foi muito fácil. Entre
1923 e 1925 o jovem desconhecido utilizara o gabinete de Beirão da Veiga como se seu
fosse, e eis que se mete na Câmara coberto com o simples título de professor porque o
próprio Beirão da Veiga lhe permitiu esse acesso. No Diário de Notícias, Duarte
Pacheco poderia utilizar o gabinete particular que Beirão da Veiga possuía no domínio
da actividade privada que sempre exerceu. Mas Beirão da Veiga em 1923 era também
Vereador da Câmara Municipal de Lisboa. Duarte Pacheco entrou nas repartições do
município não como simples e desconhecido professor, mas como amigo pessoal do
vereador camarário.
Acresce ainda um outro facto. Como atrás se disse, desde a sua fundação que o
IST viveu uma situação de insalubridade de instalações. E desde a mesma data existiu
uma comissão encarregada do exame de viabilidade de mudança do instituto. Esta
designação é muitas vezes utilizada na documentação produzida pelo Conselho Escolar
do Técnico, pois a questão das instalações é assunto recorrente nas discussões do
professorado218.
Acrescido também da qualidade de membro desta comissão, Duarte Pacheco terá
tido acesso aos serviços camarários que lhe permitiram o escrutinar de terrenos livres na
216
VEIGA, Caetano Maria Beirão da, Op. Cit., s/p.
217
ACCIAIUOLI, Margarida, Os Anos 40 em Portugal. O País, o Regime e as Artes – “Restauração” e
“Celebração”, Lisboa, dissertação de doutoramento apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e
Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1991, pág. 397.
218
IST, Núcleo de Arquivo, Corpos documentais referentes aos Copiadores de Correspondência de 1911 a
1926 e Actas das Sessões do Conselho Escolar de 1911 a 1926.
113
O País a Régua e Esquadro
cidade de Lisboa. E o mais indicado docente do IST e membro da referida comissão
seria Duarte Pacheco, uma vez que de todos os professores do Instituto, era ele o que
reunia mais informação sobre a questão, pois colaborara com o irmão no ramo dos
seguros, tendo por isso os contactos e os acessos directos aos proprietários e
intervenientes do ramo imobiliário. Acresce ainda o facto de que, caso lhe faltasse o
modo de chegar a alguns proprietários de forma directa, outro meio havia para
estabelecer o contacto: o gabinete de Beirão de Veiga, ilustre professor que trazia a este
projecto a credibilidade financeira, social e que como vereador da Câmara, acrescentava
também ao projecto o necessário manejo político.
Como político que era, Duarte Pacheco agarrou este projecto como a primeira
das suas obras. Para Duarte Pacheco o Técnico seria um projecto de obra e um projecto
político e os dois decretos que conseguiu em 1927 assim o demonstram.
Na sessão do Conselho Escolar de 8 de Junho de 1927 Duarte Pacheco era
louvado pelos colegas, pois as suas diligências e insistências perante os ministros
permitiram a publicação de um decreto que elevaria para 10.500 contos a verba
destinada à construção do edifício, permitindo ainda a publicação do decreto que
permitia a atribuição de bolsas de estudo no estrangeiro a professores diplomados pelo
instituto219.
Sete meses antes, quando pela primeira vez tivera o uso da palavra no Conselho
Escolar, Duarte Pacheco afirmara que no espaço de um ano a questão da construção do
novo edifício estaria resolvida. Afirmara também a necessidade de criação de bolsas de
estudo para formação de professores, como atrás referimos. As diligências do jovem
professor tinham sortido o efeito desejado pela escola e a escola estava disposta a
retribuir.
Havia já algum tempo que, por razões de saúde, o Director do IST havia pedido
dispensa de funções. Na sua ausência, e no cumprimento do regulamento, fora
substituído por Beirão da Veiga, à data o professor com mais tempo de serviço prestado
ao instituto.
Na sessão do Conselho Escolar de 21 de Junho de 1927, Beirão da Veiga
informava que não pretendia continuar a dirigir interinamente o Instituto. Argumentava
que passando a integrar a comissão administrativa da construção do novo edifício, não
fazia sentido continuar a ser o director interino e presidente do conselho, pois na
219
Decretos 13 718 e 13 717.
114
O País a Régua e Esquadro
acumulação de cargos passaria a ser fiscal de si mesmo. A este argumento acrescentava
ainda que se no ano lectivo anterior nas suas atribuições como director interino a sua
actividade não havia ultrapassado os serviços de expediente, agora assuntos de maior
importância se colocavam.
Da mesma forma que em 1925 Mira Fernandes criara o momento oportuno para
a entrada de Duarte Pacheco no IST, em 1927 Beirão da Veiga colocava à disposição o
cargo de director interino, no exacto momento em que os destinos do Instituto iniciavam
um novo e decisivo rumo. Perante a posição de Beirão da Veiga o nome de Duarte
Pacheco surgiria no Conselho Escolar como solução única e unânime para a direcção
interina do IST220.
Com 27 anos de idade, Duarte Pacheco sendo o professor do IST com menos
tempo de serviço, era reconhecido pelos seus pares como o único membro do Conselho
Escolar com o conhecimento profundo das necessidades do Instituto e com todas as
qualidades e o tempo que aos restantes falta[va] quase em absoluto221. A 10 de Agosto
de 1927 seria nomeado pelo governo como Director efectivo do Instituto Superior
Técnico.
Como Director do IST, Duarte Pacheco estava agora investido de plenos poderes
de representação e negociação em nome do Instituto. Como atrás se referiu, a 5 de
Fevereiro de 1927, Duarte Pacheco informara o Conselho de que haviam já sido
iniciadas as negociações com o proprietário do terreno sobre o qual se construiria o
novo edifício do IST, estando já acordado também o modo de pagamento em duas
prestações, uma no acto da escritura e a segunda até ao fim de Junho depois de
retiradas as colheitas222.
Este terreno situava-se nas imediações do bairro do Arco do Cego, o primeiro
bairro social de Lisboa. Criado por decreto na vigência da I República com o objectivo
de dar resposta à carência de habitação para a classe operária, de 1919 a 1927 este
bairro, com projecto arquitectónico de Adães Bermudes, Frederico Caetano de Carvalho
e Edmundo Tavares, pouco avançara na execução da obra223.
220
Vide Apêndice Documental, Documento 18.
221
Vide Apêndice Documental, Documento 18.
222
Vide Apêndice Documental, Documento 17.
223
Raquel Henriques da Silva aponta como principais causas de atrasos na concretização da obra factores
como o local escolhido para a sua implantação e a complexidade do projecto arquitectónico. Para a
autora, a ambição do programa e o facto de o bairro se localizar distante das zonas industriais da cidade,
tornara pouco credível a sua vocação operária. O desenho urbano, o traço arquitectónico e os vários
equipamentos que o compunham (habitação, educação, comércio, assistência e lazer) revelavam
considerável complexidade. Contudo a ambição do projecto justificava-se precisamente pela necessidade
115
O País a Régua e Esquadro
Em política as coincidências raramente existem. Em 1927 arrancava em
definitivo a obra do bairro do Arco do Cego, iniciando-se também o projecto do IST. A
CML tomaria a responsabilidade de execução do projecto do bairro social que estaria
concluído em 1935. Em 1935 tinha também início o primeiro ano lectivo nas novas
instalações do IST.
Esta campanha de obra concertada, este duplo interesse que decide a retoma de
um projecto e a aceitação de um outro que lhe é contíguo, materializa os diálogos e os
objectivos comuns das instituições. Em 1927 Duarte Pacheco é director do IST e na
mesma data é presidente da CML o coronel Vicente de Freitas. Numa iniciativa
concertada, estes dois homens, encabeçando as instituições que dirigiam, marcaram a
urbanização e extensão daquela zona da cidade. Alguns arruamentos estavam já
lançados, contudo a determinação na conclusão do bairro do Arco do Cego e a escolha
do local de implantação do campus universitário seriam duas obras que, decisivamente,
iriam valorizar os terrenos circundantes. E este mesmo argumento de valorização
predial teria sido utilizado por Duarte Pacheco aquando da negociação de compra e
cedência de terrenos. Em documento já citado, em 1938 numa queixa directa a Oliveira
Salazar, afirma-se que:
“Existia nas proximidades do actual Instituto Superior Técnico uma
quinta da “Assunção” com uma área de 69.067,10m2. Em 1927
pensou a Câmara Municipal de Lisboa na urbanização dessa quinta.
Por isso o engenheiro Duarte Pacheco, a pedido particular e em
representação também particular do então presidente da Câmara
Municipal de Lisboa, entabulou negociações com o Dr. Reis Torgal,
procurador da proprietária ultimando-se essas negociações(...)”224
No seu estudo, Margarida Acciaiuoli defende a escolha do local de implantação
do IST decorreu da escolha pessoal de Duarte Pacheco e que :
crescente de existência de um bairro operário naquela exacta área precisamente pela crescente
implantação de unidades industriais como foram o caso da Fábrica de Teares de Francis Whellhouse ao
Campo Pequeno ou a Fábrica de Lanifícios Lusitânia do Campo Grande. Sobre o tema Cfr. CUSTÓDIO,
Jorge, “Reflexos da Industrialização na fisionomia e vida da cidade”, in O Livro de Lisboa, coord. Irisalva
Moita, Lisboa, Lisboa-94-Expo98, Livros Horizonte, 1998.
224
Apêndice Documental, Documento 1.
116
O País a Régua e Esquadro
“ressalta deste enunciado a própria inexistência dos serviços
camarários como entidade institucional. Ela não tem projecto nem
ideias para uma extensa zona ao largo do Arco do Cego, ela não lhe dá
225
limites de actuação, não lhe impõe um estudo prévio da zona.”
Duarte Pacheco e Vicente de Freitas não teriam interesse particular na
negociação de terrenos. Contudo, cada um a seu modo e em representação das
instituições que dirigiam, teriam um interesse comum, público e político. A Câmara
Municipal de Lisboa, apercebendo-se da possibilidade de valorização de terrenos e
expansão da cidade, avançou com a conclusão da obra do bairro, actualizando contudo a
faixa social destinada a ocupar os fogos; já não os operários mas antes a burguesia de
serviços, nomeadamente a dos próprios serviços camarários226.
Com esta mesma percepção e com o empréstimo contraído com a CGD, o IST
comprou os terrenos necessários à área de construção do novo edifício. Mas foi
literalmente mais longe. Adquirindo uma área bem mais alargada do que a necessária à
construção, o Instituto investiu capital na compra de prédios rurais, pois o que ali
existiam eram quintas. Apresentado o plano de obra à Câmara Municipal de Lisboa
obter-se-ia o licenciamento de construção. Mas na licença obtida foi contemplada toda a
área adquirida e não apenas a área necessária à construção das novas instalações da
escola. Com esta medida, o investimento feito pelo IST havia capitalizado num muito
curto espaço de tempo. Tendo adquirido prédios rurais, o IST era agora proprietário de
prédios urbanos, pois tinha já licenciada pela câmara a área de terrenos para construção.
Licenciada a urbanização, seria possível pensar no saneamento e nos arruamentos, e
com a valorização obtida na alteração de valor de mercado, o IST venderia parcelas do
terreno a um preço superior ao da aquisição. Esta situação permitiria o acumular de
valores que seriam canalizados para o fortalecimento de uma segunda verba necessária
ao Instituto: a verba destinada ao financiamento da construção.
É já como proprietário que o IST faz permutas de terrenos com a CML227,
permutas essas necessárias a obras camarárias e não a obras de extensão do campus
225
ACCIAIUOLI, Margarida, Op. Cit., pág. 397.
226
SILVA, Raquel Henriques da, “Bairro Social do Arco do Cego”, Portugal: Arquitectura do Século XX,
TOSTÕES, Ana; BECKER, Annette; WANG, Wilfried (com.), Munchen, New York, Frankfurt, Lisboa,
Prestel / DAM / PF 97, 1998, página 162.
227
Entre os anos de 1929 e 1942 o IST permuta dezenas de parcelas de terrenos com a Câmara Municipal
de Lisboa.
117
O País a Régua e Esquadro
universitário. Com efeito, só no ano de 1929 a troca de terrenos ascendeu ao valor total
de 10.970, 72 m2 destinados a leitos de rua.
Mas a autarquia não foi caso único. Outras instituições públicas comprariam ao
Técnico terreno necessário à construção. Foi o caso do Instituto Nacional de Estatística.
A 23 de Março de 1933 o IST recebia do INE a quantia de 300.000$00 correspondente
à segunda prestação do pagamento de um lote de terreno228. A 11 de Maio de 1934 o
mesmo INE pagaria a quantia 200.000$00, correspondente à terceira prestação229.
O mesmo aconteceria com particulares. A 13 de Novembro de 1932 o Instituto
recebia de Augusto Pontes dos Santos Chaves como sinal de princípio de pagamento de
um terreno na Av. Miguel Bombarda e com a área de 430,08 m2 ao preço de 100$00
cada 1m2 a quantia de 5000$00230.
Em carta datada de 25 de Novembro de 1932 e endereçada ao Director Geral do
Ensino Técnico, o IST informava que nos anos económicos de 1927 a 1932 obtivera
1419 121$18 em receitas próprias, verba que entregara ao Tesouro231. No ano de 1933 a
receita obtida na venda de terrenos atingiria os 917 529$30232.
Todas estas actividades estavam contudo consignadas em lei. O decreto 13 113
de 1 de Fevereiro de 1927 previra que:
“As importâncias provenientes da venda dos terrenos sobrantes dos
que vão ser adquiridos, poderão ser alienados pelo Instituto Superior
233
Técnico”.
O decreto 13 718, de 2 de Junho de 1927 acrescia ao Instituto uma ainda maior
margem de manobra de negociação:
CML, Arquivo Intermédio – Arquivo Municipal do Arco do Cego, Escrituras de Trocas de Terrenos. A 9
de Fevereiro, em documento assinado pelos dois outorgantes, Câmara e o Instituto Superior Técnico, está
descrito que a Câmara entrou na posse de 10.950,72 m2 de terreno destinado ao prolongamento da
Avenida Miguel Bombarda, dando em troca dois talhões de terreno, um com a área de 1.485,49m2 e outro
com 646,56m2, Fls 48v (7).
Com data de 2 de Fevereiro de 1929 existe uma escritura de permuta de terrenos entre a CML e o IST,
permuta essa que visa conclusão da Avenida nº 20.
A 26 de Março de 1942 a CML compra ao IST um terreno com 113 m2, sito próximo da Avenida
Almirante Reis.
228
IST, Núcleo de Arquivo, Copiador de Cartas sem numeração (1932-1936).
229
Idem, Ibidem.
230
Idem, Ibidem.
231
Idem, Ibidem.
232
Idem, Ibidem.
233
Alínea a) do Artigo 4º do Decreto 13 113 de 24 de Janeiro de 1927, publicado no Diário do Governo, I
Série, de 1 de Fevereiro de 1927.
118
O País a Régua e Esquadro
“É autorizada a comissão administrativa do Instituto Superior
Técnico a alienar, por venda ou simples cedência, parcelas ou faixas
de terreno adquiridos para as suas futuras instalações, sem o prejuízo
do fim a que os mesmos terrenos estão destinados, e a adquirir, por
compra ou troca com a Câmara Municipal de Lisboa, ou com
quaisquer outras entidades públicas ou particulares, outras faixas ou
parcelas de terrenos confinantes, para compensação das que tiver
234
alienado ou cedido.”
Em todo este processo, e principalmente a partir do momento em que Duarte
Pacheco foi nomeado director do IST, tornara-se difícil dissociar a sua figura do
Instituto. Seria também muito difícil dissociar o Instituto da figura. Duarte Pacheco
encabeçava um projecto: o Técnico. E o Técnico seria o que Duarte Pacheco dele
conseguisse fazer ser. O professorado e o governo já o haviam entendido. E tê-lo-iam
entendido ao ponto de, académica e politicamente terem delegado neste homem de 27
anos o futuro material de uma escola e a projecção política que daí pudesse advir.
Senão noutro lugar, Marcelo Caetano terá conhecido Duarte Pacheco no IST,
pois como professor de Economia Política e Direito Industrial, leccionou no Instituto.
De Duarte Pacheco Marcelo Caetano diria que se dava com entusiasmo com que se dão
a uma obra, do mesmo modo que em 1953, na última referência oficial a Duarte
Pacheco, Oliveira Salazar dissera que o seu ministro não era um político na acepção
corrente do termo.
Como Salazar e Caetano, também Duarte Pacheco era um político, mas em
essência divergia do modelo e da filiação partidária. Pacheco era um republicano
convicto, Salazar um monárquico católico e Caetano um integralista. Do mesmo modo,
e em essência, Duarte Pacheco divergia também do modelo de engenheiro, como
reconhecera Arantes e Oliveira:
“Seria errado chamar-lhe um produto típico da Escola, porque ele foi
235
um homem verdadeiramente singular, fora de todos os esquemas.”
234
Artigo 7º do Decreto 13 718 de 27 de Maio de 1927, publicado no Diário de Governo, I Série, de 2 de
Junho de 1927.
235
OLIVEIRA, Eduardo R. Arantes e, “Obras Públicas em Portugal no Século XX”, in Momentos de
Inovação e Engenharia em Portugal no Século XX, Lisboa Publicações D. Quixote, 2004, vol. I, pág.395.
119
O País a Régua e Esquadro
Em Duarte Pacheco todos reconheciam a convicção, embora não conseguissem
identificar sob que forma esta poderia manifestar. Para os políticos ele era o engenheiro
e para os engenheiros era o político. E o que cada um destes grupos encontrava em
Duarte Pacheco era a singularidade, a estranheza da faceta que não conseguiam
identificar. Salazar e Caetano encabeçaram projectos políticos e conceitos de Estado. E
quando olhavam um qualquer interlocutor buscavam ver nele o sinal de ambição desse
mesmo projecto porque os semelhantes não se identificam nas palavras, denunciam-se
no olhar.
A ambição de Duarte Pacheco era outra: a política investia-o do poder de agir.
Duarte Pacheco era um político de acção e não de discurso. Acreditava na possibilidade
de desenvolvimento através da obra, gerando esta, obras sequentes. Este jovem político
acreditava na mudança, no progresso através da acção. Uma acção que abalaria os
alicerces das atitudes e das certezas de um conservadorismo que olhava a tradição como
a única certeza de futuro.
120
O País a Régua e Esquadro
28. O Conselho Escolar do IST nas instalações da Boavista.
29. O Corpo Docente do IST, retrato de grupo registado nas instalações da Boavista.
121
O País a Régua e Esquadro
30. 31 e 32. IST, o Campus.
122
O País a Régua e Esquadro
33. Átrio do Pavilhão Central do IST.
34. Laboratório do IST.
123
O País a Régua e Esquadro
2.3. A Construção do IST: o projecto e o concreto
“Só em Portugal é que se ligou à Arquitectura a idéa da
fachada, da pele, da superfície exterior da parte construída. É
êste um erro em que por ignorância quási sempre, e por
conveniência algumas vezes, muito boa gente cae, na nossa
terra”
Porfírio Pardal Monteiro, Revista Arquitectos, 1940.
As novas instalações do Instituto Superior Técnico, construídas entre 1929 e
1942, constituem o primeiro campus universitário erguido em Portugal236. Contudo, e
apesar de o IST constituir na década de 30 o primeiro conjunto edificado de raiz
vocacionado para o ensino superior, tanto o projecto de obra como o processo
construtivo da mesma permaneceram e permanecem desconhecidos.
Entre 1927 e 1931 o Estado permitiu ao IST a contracção de um empréstimo
com a Caixa Geral de Depósitos num valor total de 17.500 contos237. Uma obra pública
orçamentada nestes valores estaria sujeita à aprovação do Conselho Superior de Obras
Públicas. A aprovação por parte do CSOP implicaria parecer positivo de apreciação do
projecto nas suas mais variadas vertentes: orçamento, viabilidade técnica e consistência
estética e construtiva. Nos registos do CSOP não existe porém qualquer referência de
entrada do projecto do IST para emissão de parecer.238
236
Em 1934 o decreto Nº 294 de 4 de Dezembro, publicado em Diário de Governo, II Série de 15 de
Dezembro de 1934, determinava a construção da Cidade Universitária de Coimbra e criava a primeira de
3 das Comissões Administrativas do projecto de obra. As obras da Cidade Universitária tiveram início em
1939, o primeiro edifício foi inaugurado em 1942 e o último em 1975. O projecto geral da Cidade
Universitária de Coimbra é da autoria de Cottinelli Telmo. Em 1948, na sequência da morte inesperada,
Cottinelli, Cristino da Silva tomava posse como arquitecto-chefe da obra.
Em 1949 arrancava o projecto de construção da Cidade Universitária de Lisboa. Porfírio Pardal Monteiro
receberia a encomenda dos projectos para a Faculdade de Direito, Letras e Reitoria da Universidade.
237
Em 1931 o Governo autorizou novo empréstimo, desta vez no valor de 7000 contos, para a construção
das novas instalações do IST. Em 1927 autorizara um empréstimo de 10.500 contos.
238
Apresentada a peculiar situação ao Conselho Superior de Obras Públicas, o Secretário do Conselho, Sr.
Engenheiro Pedro Aarão Bensaúde Galhardo permitiu-nos uma consulta profunda do espólio documental
daquele organismo público. Entre 2006 e 2007, a técnica arquivista da instituição, a Dra. Ilda Cristovão,
procedeu à vistoria de todos os registos de projectos entrados e pareceres emitidos pelo CSOP e constatou
124
O País a Régua e Esquadro
Como obra pública e tendo o IST estado sob tutela do Ministério do Comércio e
Comunicações até 1929, data em que, como organismo de ensino técnico, transitou para
a tutela do Ministério da Instrução Pública, seria possível que nos arquivos destas duas
instituições se encontrasse o projecto do IST. Como obra pública e como equipamento
escolar, este empreendimento carecia de apreciação técnica e pedagógica. Contudo, em
nenhum dos arquivos das duas instituições ministeriais consta a análise e apreciação do
projecto.
Tratando-se de uma obra que abre novas artérias de expansão da cidade, seria
possível que a Câmara Municipal de Lisboa tivesse registo da sua apreciação.
Consultados os arquivos histórico, intermédio, e auscultada a eventualidade de
permanecer em arquivo corrente, o resultado das diligências permaneceu inalterado.
Dos serviços camarários não consta a existência do projecto das novas instalações do
IST.
Consultado também o Núcleo de Arquivo do próprio IST, apenas se
identificaram dois elementos: documentação administrativa produzida no decurso dos
anos do processo construtivo e dois desenhos; uma perspectiva geral e uma planta de
implantação do conjunto arquitectónico.
Madalena Cunha Matos apresentou em 1994, na revista Técnica, um ensaio
crítico sobre a “concepção arquitectónica do IST”.239 No seu texto a autora afirma que
teve por base de estudo a análise directa das seguintes fontes: obra construída, desenhos
e textos do autor. Como textos do autor refere e cita apenas e só aqueles que abaixo
analisaremos: o texto de 1934 da revista L’Architecture d’Aujourd’hui, e os dois textos
de 1938, referentes à revista Técnica e à revista Arquitectos.
Madalena Cunha Matos, afirma que analisou os desenhos originais constantes
dos arquivos do IST e da família Pardal Monteiro240.
No decurso da nossa pesquisa, e para nossa estranheza e frustração, foi-nos
comunicado no Núcleo de Arquivo do IST que não existiam desenhos para além da
conhecida perspectiva e planta de implantação. Contudo, Madalena Cunha Matos refere
no seu estudo a existência de desenhos originais constantes do arquivo do IST cuja
catalogação, ordenação cronológica e análise, constituem um desenvolvimento deste
que não consta daquele espólio documental qualquer informação relativa à construção dos novos edifícios
do IST.
239
MATOS, Madalena Cunha, “Concepção Arquitectónica do Instituto Superior Técnico” in Técnica,
Lisboa, Nº 2/ 94, Setembro 1994, pp. 63-84.
240
Idem, Op. Cit., pág. 64.
125
O País a Régua e Esquadro
estudo241. Tentámos também nós o acesso a esses desenhos originais, contudo,
confrontado o serviço de arquivo do IST com estes dados, não obtivemos mais do que o
desconhecimento. Em suma, em 1994 o IST catalogou e ordenou cronologicamente
desenhos originais datados de 1927 a 1935, contudo, e infelizmente para a sua história e
para a história da arquitectura urbana do país, os mesmos desenhos não estavam
catalogados no serviço de arquivo em 2006 nem em 2007, datas que correspondem à
nossa prospecção documental. De 1994 a 2007 perdera-se o rasto e o acesso aos
desenhos originais referenciados por Madalena Cunha Matos. Ficara uma data: 1927, a
data do projecto.
Não existindo nota de que qualquer arquivo público tivesse à sua guarda as
peças escritas ou desenhadas do projecto do IST, tivemos de limitar a reconstituição dos
dados e dos factos recorrendo aos depoimentos do arquitecto autor da obra e recorrendo
aos trabalhos daqueles que, de forma aprofundada, se debruçaram sobre este objecto de
estudo. Contudo, na sistematização da informação as incongruências iriam surgir.
Não existindo registo de existência do projecto de obra das novas instalações do
Instituto Superior Técnico, no que respeita às linhas de investigação histórica não existe
acesso à fonte primária. Não existe acesso ao programa científico das instalações a
projectar, não existe acesso à memória descritiva do arquitecto, aos cálculos de
estabilidade do engenheiro nem às peças desenhadas, aditadas, corrigidas ou alteradas.
Não existe o quando, o quem, o como nem o porquê. Existe apenas uma versão, a do
arquitecto da obra: Porfírio Pardal Monteiro. E sobre o seu depoimento se tem feito a
história da construção do Técnico.
Sobre este projecto Pardal Monteiro publicou três artigos fundamentais à
compreensão e leitura da obra: o primeiro artigo data de 1934 e foi publicado na Revista
Architecture d’Aujourd’hui242. De 1938 data o artigo “O problema arquitectural do
IST”, publicado na revista Técnica243. Também em 1938 na revista Arquitectos, no
número de Maio, o IST era tema de capa244.
Pardal Monteiro era em 1934 o correspondente em Portugal da revista
Architecture d’Aujourd’hui. Professor no IST desde 1920, e como autor do projecto
241
Idem, Op. Cit., pág. 64, Nota 3.
242
MONTEIRO, Porfírio Pardal, “L’Institut Supérieur Technique à Lisbonne”, L’Architecture
d’Aujourd’hui, 5ème année, 4ème série, nº 4, Maio, 1934.
243
Idem, “O Problema Arquitectural do I.S.T”, in Técnica, Revista da Associação de Estudantes do
Instituto Superior Técnico, Lisboa, Maio de 1938, pp. 624-630.
244
Idem, “Instituto Superior Técnico”, in Arquitectos, Lisboa, Sindicato Nacional dos Arquitectos, nº 4,
Maio, 1938, pp. 97-120.
126
O País a Régua e Esquadro
arquitectónico das novas instalações, publicou na revista Técnica, a revista da
Associação de Estudantes do Técnico, um artigo sobre a questão arquitectural da obra.
Como Presidente do Conselho Director do Sindicato Nacional dos Arquitectos desde
1936, estava também facilitada a publicação do seu artigo monográfico na revista
Arquitectos.
Pelos depoimentos de Pardal Monteiro ficamos a saber que, antes da atribuição
do projecto do IST, o arquitecto nunca estivera perante um programa tão vasto e
completo para resolver245.
Pardal Monteiro não era um arquitecto inexperiente. Em 1919 ingressara nos
quadros da Caixa Geral de Depósitos e de 1920 a 1925 chefiara a Secção de Obras e
Edifícios daquela instituição246. No desempenho destas funções projectara já edifícios
como as agências da Caixa Geral de Depósitos de Alcântara, em Lisboa, da Avenida dos
Aliados, no Porto ou a agência de Setúbal. Também para a CGD projectara um bairro de
casas económicas. Aprofundando a capacidade projectual do programa habitacional
concebera prédios de rendimento, moradias e palacetes e, no domínio da arquitectura
religiosa, assinara o projecto da Igreja Adventista de Lisboa. Em 1925 fora incumbido
do projecto daquele que haveria de ser o primeiro de muitos equipamentos com a sua
assinatura: a Estação de Caminhos de Ferro do Cais do Sodré.
Pardal Monteiro afirma ter conhecido Duarte Pacheco precisamente no dia da
inauguração da Estação do Cais do Sodré247. O facto ocorreu a 19 de Agosto de 1928.
Por esta data Duarte Pacheco desempenhava o cargo de Ministro da Instrução Pública e
seria no desempenho dessas funções que figuraria no evento.
Parece-nos pouco credível a versão do arquitecto. Pardal Monteiro era docente
do IST desde 1920. Duarte Pacheco fora aluno do IST de 1917 a 1923. Em 1925
ingressara no Instituto também como professor e em 1927 fora nomeado director da
escola em que Pardal Monteiro leccionava há já 7 anos. As instalações do IST na Rua
da Boavista não eram amplas. A título protocolar, num diálogo informal de colegas
docentes ou, na ínfima hipótese de cruzamento num corredor, Pardal Monteiro e Duarte
245
MONTEIRO, Porfírio Pardal, “O Problema Arquitectural do I.S.T”, in Técnica, Revista da Associação
de Estudantes do Instituto Superior Técnico, Lisboa, Maio de 1938, pág. 624.
246
PACHECO, Ana Ruela Ramos de Assis, Porfírio Pardal Monteiro / 1897-1957: a obra do arquitecto,
Lisboa, dissertação de mestrado em História da Arte Contemporânea apresentada à Faculdade de Ciências
Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1998, pág. 19.
Cfr. Também CALDAS, João Vieira, P. Pardal Monteiro Arquitecto, Lisboa, Associação dos Arquitectos
Portugueses1997.
247
Pardal Monteiro, «Memorial», 7 de Novembro de 1957, página 7, nesta perspectiva citado por Ana
Assis Pacheco, Op. Cit.,página 64.
127
O País a Régua e Esquadro
Pacheco decerto travaram conhecimento antes de 19 de Agosto de 1928, caso contrário
Duarte Pacheco, no desempenho das funções de Ministro da Instrução, dificilmente
nomearia Pardal Monteiro para uma comissão de estudo tendo em vista a criação de
residências estudantis, como de facto nomeou em Julho de 1928248.
Certa é a data oficial de encomenda do projecto ao arquitecto: 1 de Novembro de
249
1928 . Em carta assinada pelo então director interino Raul Mendonça, é o arquitecto
informado de que na sessão do dia anterior (31 de Outubro) a Comissão de Construção
do Novo Edifício:
“... resolveu que fosse encarregado da elaboração do projecto das
novas instalações do Instituto Superior Técnico alguém, que sendo já
funcionário deste Instituto, aliasse à sua comprovada competência a
250
melhor dedicação por esta escola.”
Na mesma carta o director interino revelava urgência na elaboração do projecto
e apresentaria ao arquitecto um curto prazo de execução:
“foi também voto da citada comissão que o projecto fosse feito com
brevidade, de modo a que, no mês de Março p.f. se comecem, sendo
251
possível, as obras”.
A comissão responsável pela construção das novas instalações havia escolhido o
mais novo dos arquitectos docentes do IST. Em detrimento do regente de Arquitectura
do Instituto, o arquitecto Álvaro Machado, cabia ao seu jovem assistente a honra de
realizar a mais vasta composição arquitectónica de edifícios escolares, feita entre nós
nos últimos séculos252.
248
Diário do Governo, II Série, nº 168 de 25 de Julho de 1928.
249
VIDE PACHECO, Ana Assis, Op. Cit., pág. 65, nota 107 e cópia do documento em apêndice
documental anexo. A autora apresenta no seu estudo a cópia de um oficio do IST enviado a Pardal
Monteiro incumbindo-o de elaborar o projecto das novas instalações do IST. Este documento pertence ao
espólio da família do arquitecto.
250
Idem, Ibidem.
251
Idem, Ibidem.
252
MONTEIRO, “O Problema Arquitectural do I.S.T.”, in Técnica, nº 93 Maio de 1938, pág. 624.
128
O País a Régua e Esquadro
Nas suas notas particulares Pardal Monteiro afirmaria que Duarte Pacheco já lhe
havia feito o convite pessoalmente253.
Se tivermos em linha de conta apenas e só os dados fornecidos por Pardal
Monteiro, este não conhecera Duarte Pacheco antes de Agosto de 1928. Por outro lado,
o IST, atribuindo-lhe a 1 de Novembro o encargo de elaboração do projecto das novas
instalações concedera um prazo curto: em Março deveriam iniciar-se as obras. Pardal
Monteiro contaria então com uns escassos 4 meses para a elaboração de tão ambicioso
projecto. Mas acrescentemos ainda um outro dado: Pardal Monteiro afirma que:
“A falta, no nosso meio, de casos idênticos para a comparação e
estudo, pelos quais pudesse mais rapidamente assentar ideias, levou-
me a realizar, antes de atacar o estudo do problema, uma viagem de
estudo pela Europa, em visita a algumas das melhores e mais
254
afamadas escolas de engenharia.”
No estudo desenvolvido sobre a obra de Pardal Monteiro, Ana Assis Pacheco
socorre-se de um «Memorial», um caderno de apontamentos particulares do arquitecto.
Nas suas notas, a páginas 59 da entrada do dia 9 de Novembro de 1956, Pardal
Monteiro escreve que:
“a viagem durou dois meses e foi feita no Inverno (...)
observou grandes e pequenas escolas, velhas e novas e nelas contactou
inúmeros professores e assistentes. Verificou que não existiam na
Europa novas escolas e foi nas velhas que colheu os melhores
255
ensinamentos”.
Embora Duarte Pacheco tenha convidado pessoalmente o arquitecto para a
elaboração do projecto de construção das novas instalações do IST, a encomenda oficial
aconteceu a 1 de Novembro de 1928. Pardal Monteiro escreve ainda que antes de iniciar
o projecto do IST viajou dois meses pela Europa, no Inverno, suportando frio e neve
como não conhecera. Tal significaria que entre Novembro de 1928 e Março de 1929,
253
PACHECO, Ana Assis, Op. Cit., pág. 65 e nota 111, nesta perspectiva citando o «Memorial» do
arquitecto, 9 de Novembro de 1956.
254
Idem, Op. Cit., pág. 629.
255
PACHECO, Ana Assis, Op. Cit., pág. 66, e notas 11 e 112, nesta perspectiva citando Pardal Monteiro.
129
O País a Régua e Esquadro
prazo que na nota de encomenda o IST afirma ter intenção de iniciar as obras das novas
instalações, o arquitecto teria estado ausente dois meses, em viagem de estudo. Ficaria
com outros dois meses para elaboração do projecto, o que se afiguraria pouco viável.
Mas o arquitecto teve afinal mais tempo para trabalhar na elaboração do projecto. As
256
obras só se iniciaram em Novembro de 1929 e não em Março como desejara o
Instituto.
Contudo, a data da viagem permanece por esclarecer. Aliás a data e o percurso
da mesma pois não se sabe onde esteve nem o que viu257.
Pardal Monteiro foi um homem «viajado». Por gosto pessoal, por curiosidade
intelectual ou por necessidade de permanente actualização face à constante produção
artística europeia, este arquitecto saiu muitas vezes de Portugal.
No seu estudo, Ana Assis Pacheco refere que Pardal Monteiro se deslocou a
Paris em 1925 com o propósito de visitar a «Exposition des Arts Décoratifs et
Industriels Modernes»258.
Em missões oficias de estudo, por atribuição de bolsas de estudo, ou pela
participação em congressos, encontrámos no seu registo de docente do IST sete saídas
para cidades europeias entre os anos de 1934 e 1948259. A este número acrescentam-se
ainda saídas anuais de licença de férias nos anos de 1949 a 1953260. A título oficial ou
particular não existem mais referências de viagens de Pardal Monteiro ao estrangeiro.
Como docente do IST, e tendo viajado por dois meses, no Inverno, Pardal Monteiro
teria obrigatoriamente de suspender a actividade lectiva para encetar tal viagem,
contudo, ao contrário de todas as outras viagens que realizou e que foram submetidas a
registo no seu processo individual de professor do IST, não existem registos de saída de
Pardal Monteiro de 1925 a 1934.
256
“ Pôde pois ser lançada a primeira pedra do Pavilhão Central no dia 27 de Novembro de 1929”
OLIVEIRA, Eduardo Arantes e, “Conferência proferida na Homenagem a Duarte Pacheco”, in Técnica,
nº 2/94, Setembro de 1994, pág. 24. Também nesta perspectiva citado por CALDAS, João Vieira, OP.
CIT, pág. 46.
257
Vide CALDAS, João Vieira, P. Pardal Monteiro Arquitecto, Lisboa, Associação dos Arquitectos
Portugueses, 1997, pág. 48
258
PACHECO, Ana Assis, Op. Cit., página 31, nota 66.
259
IST, Núcleo de Arquivo, Processos Individuais de Professores; Processo de Porfírio Pardal Monteiro:
Viagens; de 4 a 20 de Setembro de 1934 realizou uma missão de estudo por Espanha, Itália, França,
Bélgica e Alemanha. De 6 a 8 de Agosto de 1935 esteve presente no Congresso Internacional de
Arquitectos, em Roma e de 17 a 21 de Maio de 1937 regista-se outra saída para outro Congresso
Internacional de Arquitectos, mas sem referência de local. Nos anos de 1944, 1945 e 1948 teve permissão
de saída para o estrangeiro por atribuição de bolsa de estudo, mas sem referência de local.
260
Na monografia dedicada a Pardal Monteiro, João Vieira CALDAS refere saídas do arquitecto para o
estrangeiro, em licença de férias, nos anos de 1949 a 1953., Vide CALDAS, João Vieira, Op. Cit., pág.
115.
130
O País a Régua e Esquadro
Teria Pardal Monteiro feito esta pesquisa logo em 1925?
O ingresso de Duarte Pacheco no corpo docente do IST é aprovado pelo
Conselho Escolar do Instituto no mesmo dia em que este organismo faz progredir na
carreira o arquitecto Pardal Monteiro, a 31 de Julho de 1925.261. Isto significa que, no
ano lectivo de 1925-1926, Duarte Pacheco e Pardal Monteiro eram já colegas docentes
do IST, e colegas jovens, com novas ideias.
Recordemos ainda que em sessão do Conselho Escolar do IST, em 5 de
Fevereiro de 1927, quando o professor Francisco Maria Henriques sugeriu a integração
do arquitecto Álvaro Machado na comissão de trabalhos das novas instalações, Duarte
Pacheco foi o único professor que recusou a proposta, argumentando que a comissão
ouviria quem julgasse conveniente262.
Aliás, Pardal Monteiro, ao revisitar nas suas memórias o momento em que
Duarte Pacheco lhe endereça o convite para a elaboração do projecto arquitectónico das
novas instalações do Instituto afirmaria:
“Tenho a seu respeito boas informações, dadas por pessoas que me
merecem a maior confiança. Você é o arquitecto que eu e o Conselho
263
escolhemos.”
No intuito de sintetizar a informação recolhida pelos vários investigadores
reunimos então vários dados: Madalena Cunha Matos, tendo tido acesso aos desenhos
originais de Pardal Monteiro data o projecto do IST de 1927 a 1935.
No que respeita às datas de construção, sabemos que as obras do Técnico não
tiveram início antes de Novembro de 1929.
Como poderia Pardal Monteiro ter conhecido Duarte Pacheco apenas em Agosto
de 1928 (como o próprio afirma) aquando da inauguração da Estação do Cais do Sodré,
se trabalhava afinal no projecto das novas instalações do IST desde 1927?
Por alguma razão Pardal Monteiro afirmou ter conhecido Duarte Pacheco apenas
em 1928. Tê-lo-á feito por lapso ou omissão, pois trabalhava oficiosamente o projecto
das novas instalações do IST desde 1927 e sob convite pessoal de Duarte Pacheco.
261
Vide Apêndice Documental, Documento 10.
262
Vide Apêndice Documental, Documento 17.
263
MONTEIRO, Porfírio Pardal, Memorial, 7 de Novembro de 1956, página 57.
131
O País a Régua e Esquadro
Pardal Monteiro foi um excelente arquitecto, como poucos que teve a
arquitectura portuguesa do século XX, mas teve falhas de memória. Talvez por isso
sentisse necessidade de recorrer aos apontamentos pessoais, o «Memorial»264. Ainda
assim o seu Memorial apresenta incongruências de datas e de situações. Talvez o
Memorial de Pardal Monteiro, mais que um depoimento, tenha resultado da necessidade
de reconstituição que o arquitecto conseguisse fazer do seu próprio trajecto. Começaria
a escrever o Memorial em 1956 e morreria em 1957, vítima de si próprio, mas deixando
uma obra imensa, sendo uma delas o novo IST.
Na concepção física do Técnico, Pardal Monteiro enfrentava um projecto de
obra complexo e vasto e, simultaneamente contido nos custos. O arquitecto chegou
mesmo a afirmar que a proporção entre a intenção e orçamento se lhe afiguravam como
bastante para tornar inviável a realização da obra.265
O programa das novas instalações do IST, escola técnica por excelência,
implicava a existência de salas de aulas teóricas, salas de trabalhos práticos,
laboratórios, anfiteatros, salas de professores, salas de assistentes, sala de conferências,
biblioteca, museus de secção e museu de engenharia, salão de festas, dependências da
associação de estudantes, serviços de tipografia, serviços administrativos, piscina,
ginásio e demais dependências desportivas. A tudo isto acresciam as competências e
especificidades de cada um dos ramos da engenharia leccionada no IST.
No cumprimento deste vastíssimo programa, Pardal Monteiro procurou
primeiramente uma solução de implantação do campus no plano de arruamentos que
propositadamente a Câmara Municipal de Lisboa projectava para o local.266 Contudo,
apesar de sujeito ao traçado camarário e ao acidentado perfil do terreno, o arquitecto
entendeu que, o que quer que fosse que se construísse seria uma pequena acrópole a
dominar toda a região daquele prolongamento das «Avenidas Novas».267
Apresentando-se o volume de construção num programa muito vasto, Pardal
Monteiro distribuiu as várias engenharias por módulos construtivos porque a divisão
dos cursos em especialidades impunha a previsão de futuras ampliações e porque os
264
Caderno de notas pessoais existente no espólio da família do arquitecto e inúmeras vezes citado por
Ana Assis Pacheco no estudo monográfico que elaborou sobre a obra do arquitecto.
265
IDEM, Op. Cit., pág. 624.
266
MONTEIRO, Porfírio Pardal, Arquitectos, nº 4, Maio de 1938, pág. 115.
267
IDEM, Op. Cit., pág. 115.
132
O País a Régua e Esquadro
perfis de terreno não eram favoráveis à concentração de todas as instalações num
edifício.268
Uma vez que o perímetro construtivo, o perfil de terreno e o funcional
cumprimento do programa não permitiam a existência de um único edifício, Pardal
Monteiro não utilizou a clássica disposição em perfil longitudinal. 269 E porque o plano
municipal previa a abertura de uma ampla alameda, o arquitecto orientou nesse sentido
o lado principal da composição de modo que o IST influísse seriamente na orientação
da CML quanto à conclusão das obras de urbanização projectadas para o local.270
Depois de determinada a implantação, o número de módulos, a sua distribuição e
o seu perfil, o arquitecto trabalhou em planta a funcionalidade de cada um destes
pavilhões. Nesta preocupação de organicidade do conjunto Pardal Monteiro afirmava
que:
“ao iniciar os estudo não tive qualquer preocupação de chegar a um
determinado resultado plástico. Só depois de resolvidas todas as
plantas e de pensar demoradamente nas possibilidades económicas,
271
comecei a procurar traduzir essas plantas nos alçados”.
E foi na transposição da orgânica planificada do conjunto arquitectónico para o
risco dos alçados que Pardal Monteiro criou um conjunto arquitectónico
paralelepipédico, de volumetria depurada e de geometria pura. As paredes rebocadas
dos pavilhões, sem recurso a cunhais, com cornijas de simples rebordo e cobertura em
terraço acentuavam a horizontalidade do conjunto arquitectónico. Apenas o imponente
pavilhão central reservava considerável monumentalidade e alguma animação murária
de recurso arts déco272.
As críticas não se fizeram esperar. Em 1933, ainda apenas as paredes do Técnico
estavam levantadas, já as vozes se levantavam também. As obras do Técnico eram o
espelho do país: o 8 e o 80. Do pardieiro da Boavista os alunos de engenharia passariam
para o colosso da Alameda273. Mas o engenheiro Armando Ferreira, autor do ácido
268
IDEM, Op. Cit., pp. 111 e 113.
269
IDEM, Op. Cit., pág. 115.
270
IDEM, Op. Cit., 116.
271
Idem, Op. Cit., pág. 116.
272
CALDAS, João Vieira, Op. Cit., pág. 49.
273
FERREIRA, Engenheiro Armando, “O Colosso do IST”, in Gazeta dos Caminhos de Ferro, Lisboa,
Nº 1084, 16 de Fevereiro de 1933, pp. 107-108.
133
O País a Régua e Esquadro
artigo insistia numa crítica construtiva. No seu parecer, uma escola que diplomava uma
média de 30 engenheiros por ano, sendo que a maioria dos seus estudantes do curso
geral cumpriam um programa escolar quase idêntico ao da Faculdade de Ciências, bem
podia o Técnico ceder o espaço nos seus vazios pavilhões de especialidade que
diplomavam 2 ou 3 alunos por ano para outros alunos de outras escolas, pois existiam
faculdades inteiras em casas alugadas!
Em 1937 Alfredo Bensaúde apelava à razão:
“Tenho ouvido dizer que algumas pessoas consideram exageradas as
dimensões da nova escola. Parece-me essa crítica injustificada. Os que
assim pensam terão talvez em mente o tipo da nossa escola
tradicional, em que o ensino se fazia quase exclusivamente por meio
de giz e quadro negro (...) As boas escolas técnicas modernas
aproximam-se cada vez mais dum aglomerado de laboratórios e de
274
oficinas que se assemelham a verdadeiras instalações industriais.”
Se a amplitude da construção pasmava alguns, a composição estética afligia
outros tantos. Afinal o Técnico era um caixote!275 Na história da arquitectura
portuguesa, o Técnico seria a primeira grande obra pública moderna276.
Mas do projecto à construção da obra muitas vicissitudes teriam se ser vencidas
ou contornadas. Desde logo a contenção orçamental e o emprego de mão de obra pouco
qualificada impediu Pardal Monteiro de concretizar na obra o que idealizara no
estirador. Em lugar de utilizar o betão armado como elemento exclusivo estrutural, pode
apenas aplicá-lo nas vigas, lages maciças e pavimentos, reservando-se para o
enchimento das caixas murárias o emprego de alvenaria e tijolo277.
A mesma contenção orçamental determinou que apenas parte do projecto se
concretizasse. Os edifícios correspondentes aos laboratórios de Hidráulica e de
274
BENSAÚDE, Alfredo, “O Instituto Superior Técnico”, in Técnica, Lisboa, Ano XII, Nº 88, Dezembro
de 1937, pág. 339.
275
“Como poderemos aceitar que em Lisboa e em todo o país se ergam caixotes de Moscovo, de
Munique, de toda a parte, menos de Portugal?”, in Arquitectura Portuguesa, nº 38, Maio de 1938, pág. 9,
Nesta perspectiva citada por CALDAS, João Vieira, Op. Cit., pág. 49.
276
CALDAS, João Vieira, Op. Cit., pág. 50.
277
MATOS, Madalena Cunha, Op. Cit., pág. 66. Vide ainda TOSTÕES, Ana, Cultura e Tecnologia na
Arquitectura Portuguesa, dissertação de doutoramento apresentada ao Instituto Superior Técnico da
Universidade Técnica de Lisboa, 2002, pp. 196-206.
134
O País a Régua e Esquadro
Máquinas e Motores, a poente do pavilhão central, que Pardal Monteiro refere no seu
texto de 1934 não chegariam a ser construídos278.
Na falha da localização, da existência do projecto arquitectónico da primeira
grande construção pública do regime e o único equipamento universitário construído
nos anos 30279, a reconstituição do processo conceptual e construtivo das novas
instalações do IST levanta questões e carece de inúmeras respostas. Desde logo se
afigura curioso o facto de não existir um projecto concreto, físico, documental em
nenhum dos organismos públicos envolvidos na sua construção.
Os três artigos que Pardal Monteiro publicou entre 1934 e 1938 e referentes ao
novo IST, são isso mesmo: artigos de autor. Não são memórias descritivas de projecto.
E como artigos técnicos e estéticos que são, e publicados em revistas diferentes e com
diferentes datas, apresentam as versões que melhor se inserem na directriz editorial e no
público-alvo que as consome.
Obra pública, com contenção orçamental e política, o IST reserva
essencialmente para o Pavilhão Central a austeridade e a monumentalidade dos serviços
que encerra280. E quando recorre à decoração, fá-lo numa linguagem mais que praticada
e sem risco: as arts déco. É desta argumentação que o arquitecto da obra se socorre
quando escreve os textos de 1938 para a revista Técnica e Arquitectos, revistas lidas em
Portugal por engenheiros e arquitectos, alunos de engenharia e arquitectura. Mas
quando em 1934 escrevera o artigo para a Architecture d’Aujourd’hui, bastião do
Movimento Moderno281, argumentava não ter podido empregar apenas o betão armado
como era sua pretensão, por razões de ordem económica e directivas políticas superiores
no emprego de mão-de-obra pouco qualificada282.
Como afirmava Pardal Monteiro em 1940, só se ligou à Arquitectura a idéa da
fachada, da pele, da superfície exterior da parte construída. Entendemos, obviamente,
que o arquitecto se referia ao panorama generalizado de leitura superficial da
Arquitectura. Mas transposta esta realidade para a obra concreta, no caso o processo
construtivo do IST, entre a leitura da «pele» e a identificação do «osso», fica a faltar a
estrutura densa e intermédia que sustenta essas duas componentes arquitectónicas.
278
MATOS, Madalena Cunha, Op. Cit., pág. 69.
279
TOSTÕES, Ana, Op. Cit., pág. 196
280
Salão Nobre, Sala do Director, Sala do Conselho Escolar, Salão de Festas e dois Auditórios.
281
CALDAS, João Vieira, Op. Cit., pág. 50.
282
Sobre a questão Vide MATOS, Madalena Cunha, Op. Cit.¸ pp. 65-66; CALDAS, João Vieira, Op. Cit.,
pág. 50 e TOSTÕES, Ana, Op. Cit., pp. 204-205.
135
O País a Régua e Esquadro
Com os depoimentos do arquitecto e através da observação directa da obra, foi
possível identificar, analisar e produzir conhecimento sobre a sua «ossatura»: os
materiais seleccionados, o seu emprego, as técnicas e as tecnologias. Mas ao domínio da
história compete um entendimento maior: o processual. Ao tempo e à forma há que
acrescentar o modo. Uma leitura da arquitectura feita à flor da pele, à cota soleira, e um
diagnóstico da estrutura que a ergue, ajudam a ler a obra mas não a lêem por inteiro.
E foi a reconstituição do modo, dessa memória processual que nos moveu nas
pesquisas efectuadas. Parte dos elementos que conseguimos obter foram já apresentados
nos pontos anteriores, e outros elementos existem e que se apresentam de seguida. Isto
porque entendemos que a compreensão e leitura de uma obra, nomeadamente de uma
obra pública, passa não só pela análise do projecto e pelo estudo da obra construída,
como também pela análise do seu processo construtivo, o processo de obra: o elemento
que faz a ponte entre o projecto e o concreto.
Muitas questões permanecem contudo sem resposta e à cabeça surge a questão
primeira: existiu de facto um projecto oficial para a construção das novas instalações do
IST? Ou, nos vários entraves, resistências, risco de inviabilidade da obra, ambição do
projecto, o IST da Alameda se foi construindo à revelia das agressivas investidas
políticas, do cepticismo académico e da reserva da nova classe económica: os
engenheiros?
É facto assente de que existiu uma Comissão de Construção do Novo Edifício.
Ela estava prevista no decreto que facultou a primeira contracção de crédito de
financiamento283, e em sessão do Conselho Escolar de 5 de Fevereiro ficou essa
Comissão composta pelos seguintes elementos: Caetano Maria Beirão da Veiga
(director interino em substituição do director do IST, General Ferrujento Gonçalves,
ausente por motivo de doença) e Raul de Mendonça (professor catedrático). A estes dois
membros, representantes da comissão administrativa da escola acresciam os dois
«delegados escolares»: Duarte Pacheco e Francisco Maria Henriques. Com o decorrer
do tempo, tendo em conta as disponibilidades lectivas e as alterações do quadro
docente, mediante saídas ou linhas de progressão de carreira, os elementos constituintes
desta Comissão de Construção do Novo Edifício não permaneceram sempre os mesmos,
mas em essência a composição da comissão manteve-se até 1942, data em que deixa de
ser mencionada na documentação administrativa produzida pelo IST.
283
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei Nº 13 113, de 24 de Janeiro de 1927.
136
O País a Régua e Esquadro
Na nossa linha de investigação, e porque amiúde esta comissão é citada nas
Actas das Sessões do Conselho Escolar entre 1927 e 1942, procurámos saber no Núcleo
de Arquivo do IST onde estaria a documentação produzida pela Comissão de
Construção do Novo Edifício. Do mesmo modo que o Núcleo de Arquivo não tinha
qualquer registo sobre as peças desenhadas referentes ao projecto arquitectónico do IST,
também não tinha qualquer referência sobre a existência desta «comissão» e da possível
existência de uma colecção documental tão específica.
Decorre deste facto que, uma vez mais, os elementos que conseguimos obter
sobre a memória processual de construção do IST, se limitaram à leitura das Actas das
Sessões do Conselho Escolar e à dispersa correspondência expedida ou recebida pela
instituição.
Na sessão de Conselho Escolar de 8 de Junho de 1927, tendo regressado de um
Congresso Internacional de Ciências Matemáticas realizado em Cádiz, onde aliás
angariou os mais rasgados elogios por parte da comunidade científica, o professor Mira
Fernandes era louvado pelos seus colegas do IST. O professor, agradecendo a distinção
comunicava:
“ter aproveitado a ocasião para solicitar de alguns dos mais ilustres
professores espanhóis, plantas e projectos das escolas de engenharia
que julga são da maior utilidade para este Instituto agora que será
284
tratado das suas futuras instalações.”
Já as obras do Técnico iam avançadas quando, a 7 de Abril de 1931 o Chefe de
Trabalhos da 4ª Cadeira pedia ao Conselho Escolar um subsídio de viagem de estudo a
França e Alemanha, com a finalidade de colher elementos para instalação do
Laboratório de Física no novo edifício285.
Na documentação consultada não encontrámos seguimento a nenhuma das
propostas avançadas, contudo o facto de dois professores: um catedrático e um chefe de
trabalhos, se proporem a este tipo de situações, significa que o corpo docente do
Instituto estava empenhado na construção material, técnica e logística do novo IST. A
mesma situação demonstra ainda que este corpo docente pretendia ter uma participação
284
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência Recebida e Actas das Sessões do Concelho Escolar 1918-
1927, Acta da Sessão do Conselho Escolar de 8 de Junho de 1927.
285
Vide Apêndice Documental, Documento 19.
137
O País a Régua e Esquadro
activa neste projecto: mais e melhor que quaisquer outros profissionais, os professores
saberiam das verdadeiras necessidades da nova escola que se erguia.
Na sessão do Conselho Escolar de 19 de Maio de 1930, Duarte Pacheco informa
que existe o projecto de reunir também na periferia dos terrenos do novo edifício, as
moradias dos professores que o desejassem. Com este propósito o Director do IST
havia negociado com a Companhia Geral do Crédito Predial Português o financiamento
das construções, descontando-se uma determinada percentagem nos vencimentos dos
professores durante um prazo estipulado286.
Um dos professores que aderirá a este projecto é José de Mascarenhas Pedroso
Bellard da Fonseca, proprietário da habitação unifamiliar, que ficou conhecida na
história da arquitectura portuguesa como a «Casa Bellard da Fonseca». Projectada por
Cristino da Silva logo em 1930, seria construída no ano seguinte e constituiu
seguramente a aposta mais inovadora que se realizou em Lisboa no quadro da
arquitectura da vida privada287.
A 17 de Junho de 1932, última sessão de Conselho Escolar a que é presente
antes de ser chamado ao governo e liderar a pasta das Obras Públicas, Duarte Pacheco
ouve a Moção do Conselho Escolar. Neste documento a escola tece rasgados elogios ao
seu director e reconhece que para a efectivação integral do plano de transformações
indispensáveis à vida do Instituto, que a acção directiva do Engenheiro Duarte
Pacheco perdure por muito tempo288. O Director agradece e lança uma proposta de
trabalho aos seus colegas:
“A obra feita é a primeira etapa. Urge também marcar o problema da
reorganização da escola. Julga porém impossível esta reorganização
289
antes de uma condigna instalação.”
A 15 de Julho de 1932, data da sessão de Conselho seguinte a esta, Caetano
Maria Beirão da Veiga substitui interinamente Duarte Pacheco no desempenho do cargo
de director do Instituto e de presidente do Conselho Escolar. Desempenhará estas
funções até ao dia 11 de Junho de 1936.
286
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência Recebida e Actas das Sessões do Concelho Escolar 1918-
1927, Acta da Sessão do Conselho Escolar de 19 de Maio de 1930.
287
TOSTÕES, Ana, Op. Cit., pág. 308-314.
288
Vide Apêndice Documental, Documento 20.
289
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência Recebida e Actas das Sessões do Concelho Escolar 1927-
1940, Acta da Sessão do Conselho Escolar de 17 de Junho de 1932.
138
O País a Régua e Esquadro
Nomeado ministro, Duarte Pacheco estava por lei impedido de desempenhar
quaisquer outros cargos públicos e, no cumprimento do regulamento do IST, a direcção
interina da escola seria desempenhada pelo professor com maior antiguidade de serviço.
No impedimento deste, outro colega poderia ser nomeado. Com acontecera quando
Duarte Pacheco desempenhou o cargo de Ministro da Instrução Pública de Abril a
Novembro de 1928, Beirão da Veiga permanecia como professor mais antigo da
instituição. Como sucedera em 1928, a direcção interina do IST seria desempenhada por
um dos homens da esfera de influência de Duarte Pacheco. Mas entre 1928 e 1932 a
situação do Instituto mudara substancialmente.
Entre os anos de 1932 e 1935 decorrem as obras de maior fôlego na construção
das novas instalações do IST. Como atrás dissemos, em 1933 erguem-se já as caixas
murárias do pavilhão central, pavilhões das engenharias, instalações desportivas e
oficinas. E é no surgimento da imponente construção que começam a surgir as primeiras
críticas. Se até aí os mais cépticos guardavam reserva e silêncio face às dificuldades
inerentes à concretização do projecto, a partir do momento em que o campus se começa
a erguer acima da cota soleira, erguem-se vozes de crítica, sobretudo em relação aos
capitais investidos no projecto:
“Custou já, assim incompleta, ao país, uns 17 mil contos e sabe-se lá o
290
que é preciso gastar para terminar”.
Mas o tom de crítica não tinha apenas origem externa. A crítica mais incisiva
vinha de dentro do próprio Instituto. Na sessão de Conselho de 23 de Julho de 1933 o
professor Adrião de Sequeira pedia que ficassem consignadas em acta as perguntas
formuladas na sessão anterior, pretendendo que se consignassem também em acta as
respostas do director:
“sobre o quantitativo já dispendido com as obras do novo edifício,
qual o estado em que essas obras se encontravam actualmente e qual a
época provável em que o Instituto irá ocupar as suas novas
291
instalações”.
290
FERREIRA, Armando, Op. Cit., pág. 108.
291
Vide Apêndice Documental, Documento 21.
139
O País a Régua e Esquadro
Perante a inquirição de Adrião de Sequeira, Beirão da Veiga afirmava ter
respondido na sessão anterior na medida do seu alcance:
“que como Director, entendia que só devia responder perante o
292
Tribunal de Contas”.
Francisco Maria Henriques, opinando que o Director não respondera na
totalidade às questões formuladas por Adrião de Sequeira, nomeadamente em relação à
data prevista de transferência para as novas instalações, lançava fogo ao debate e
acrescia outra questão: quem dirigia actualmente as obras? 293
Quanto à data de mudança de Instalações, Beirão da Veiga afirmava não ter
ainda informações concretas e acrescentava que aceitou a direcção interina do Instituto
com uma única condição, que as obras continuassem sob a direcção de Duarte
Pacheco294.
Este questionário incisivo e acalorado por parte de alguns elementos do
Conselho Escolar do IST, vem afinal revelar que o órgão decisório do Instituto pouco
conhecia acerca do andamento da obra das suas futuras instalações. Ficara estabelecido
logo em Fevereiro 1927, aquando da publicação do primeiro decreto, a composição da
equipa que faria a administração da obra. Nessa data, a par dos professores mais
antigos, Beirão da Veiga e Raul de Mendonça (representantes da Comissão
Administrativa do IST), Duarte Pacheco e Francisco Maria Henriques, compunham
também o grupo de trabalho como delegados do Conselho Escolar. Contudo, pela
questão lançada em 1933 por Francisco Maria Henriques, depreende-se que o professor
já não integra o grupo de trabalho.
A situação de precariedade das instalações do IST na rua da Boavista não se
mantivera, antes pelo contrário, piorara de 1927 a 1933. A obra do Técnico na Alameda
ia crescendo em volume, mas pouco para além disso. Mais um ano lectivo se iniciava e
parecia não haver data prevista para a conclusão de obra e transferência de instalações.
Mais um ano lectivo se iniciava e os membros do Conselho Escolar desconheciam os
montantes já investidos numa obra cujo rumo desconheciam.
292
Apêndice Documental, Documento 21.
293
Apêndice Documental, Documento 21.
294
Apêndice Documental, Documento 21.
140
O País a Régua e Esquadro
Mais do que excedendo a compreensível expectativa em ver a obra terminada, as
questões assertivas lançadas a Beirão da Veiga em sessão do Conselho, e na insistência
de que questões e respostas ficassem consignadas em acta, são factos que vêm relevar
que o processo construtivo das novas instalações do IST era decidido numa outra esfera,
alheia, estranha e indiferente ao órgão decisório da escola. O desempenho do cargo de
Ministro das Obras Públicas e Comunicações não afastara Duarte Pacheco da direcção
da obra das novas instalações do IST. Embora ministro, Duarte Pacheco chamara a si o
projecto, mantendo a acessoria dos professores Beirão da Veiga e Raul de
Mendonç[Link] Pacheco no desempenho das funções de Estado não tinha porque
responder ao Conselho Escolar do IST. Beirão da Veiga e Raul de Mendonça não
respondiam aos seus pares. Como afirmara o director interino, as respostas eram
prestadas anualmente ao Tribunal de Contas. E eram-no de facto e no cumprimento da
lei296.
No ano de 1934 o Conselho Escolar reúne apenas duas vezes: no final do ano
lectivo 1933/1934 e no início do ano lectivo de 1934/1935. Na sessão de 8 de
Novembro o colégio de professores preocupa-se em distribuir de forma eficaz os
docentes disponíveis para a regência de disciplinas. Duarte Pacheco, no exercício de
funções governamentais, deixara de leccionar as cadeiras de Matemáticas Gerais e
Análise Algébrica, e Álvaro Machado aguardando já a carta de aposentadoria, deixara
também de leccionar. Este facto implicou mudanças de horários e regências de
disciplinas entre Pardal Monteiro e Bellard da Fonseca297
Já a sessão anterior a esta, realizada a 31 de Julho, lançara o optimismo na sala
do Conselho. Duas empresas privadas pretendiam associar a sua actividade industrial ao
ensino praticado no Instituto.
Apostada a aplicar em prémios escolares a quantia de 1% do valor total obtido
anualmente, a empresa Lampada Lumiar, sucursal da Empreza Nacional de
295
As apetências naturais desta equipa de trabalho, formada logo em 1927, manter-se-ia até ao período
final de construção do Técnico. Duarte Pacheco na liderança, Beirão da Veiga no pelouro das viabilidades
financeiras orçamentais e de contabilidade e Raul de Mendonça, o hábil e experiente inspector-
engenheiro que mantinha carreira não só no Técnico, como docente de Hidráulica Agrícola, mas que
desde 1902, ingressara nas Obras Públicas, tendo pertencido a variadas comissões de estudo e de serviço,
e por isso conhecendo todos os meandros da máquina burocrática de Estado.
296
Na documentação fragmentada que conseguimos coligir no Núcleo de Arquivo do IST identificámos
um Copiador de Correspondência com cartas sem numeração. De entre as inúmeras cartas, avulsas e
diversas nos assuntos existem missivas enviadas ao Director-Geral do Tribunal de Contas e datadas de
1933 a 1936. Em todas elas o director interino declara o nome dos três elementos gerentes da obra do IST.
Vide Apêndice Documental, Documento 22.
297
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência Recebida e Actas das Sessões do Concelho Escolar 1927-
1940, Acta da Sessão do Conselho Escolar de 8 de Novembro de 1934.
141
O País a Régua e Esquadro
Aparelhagem Eletrica (ANAE) pretendia entregar 35% desse valor ao IST298. Propunha
a empresa que com esse mesmo fundo fossem criados dois prémio anuais e
denominados «Lampada Lumiar». Propunha ainda a empresa a atribuição dos prémios
da seguinte forma:
“(...) ao aluno que terminar o curso de Engenheiro electrotécnico
coma maior classificação e ao aluno mais classificado da
299
especialidade de Electrotecnia”.
Por seu lado a Companhia Cimento Tejo, tendo tomado conhecimento de que
seria criada brevemente no Instituto uma cadeira especial para o ensino de cimento
armado e suas aplicações, e porque um ensino tão específico só faria progredir a
construção civil entre nós, vinha por carta informar a direcção do Instituto da seguinte
intenção:
“no primeiro ano que funcionar a dita cadeira, entregará mil escudos
para serem aplicados como prémio a conferir ao aluno que nela tiver a
mais alta classificação e esta importância, enquanto subsistir a cadeira
será anualmente posta à disposição para o mesmo fim, no mês em que
300
for necessária.”
Algo mudara. Nos primeiros 10 anos de existência do IST Alfredo Bensaúde
enviava cartas às várias empresas existentes para que recebessem como tirocinantes os
alunos finalistas do Técnico. Em 1934, a construção material do Técnico começara a
angariar definitivamente o interesse dos industriais. Esta aliança, este interesse comum
entre o IST e empresariado industrial e científico teria aqui o seu início. Os prémios
escolares funcionariam não só como incentivo às boas prestações escolares mas também
como forma de incentivo à criação de projectos de investigação e angariação de
298
Na proposta da empresa os restantes 65% seriam atribuídos à Escola Comercial Patrício Prazeres,
Escola Industrial Afonso Domingues, Escola Industrial Marquês de Pombal e secção Industrial da Escola
Fonseca Benevides e Secção de Arte da mesma Escola. Cfr. IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência
Recebida e Actas das Sessões do Concelho Escolar 1927-1940, Acta da Sessão do Conselho Escolar de
31 de Julho de 1934.
299
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência Recebida e Actas das Sessões do Concelho Escolar 1927-
1940, Acta da Sessão do Conselho Escolar de 31 de Julho de 1934.
300
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência Recebida e Actas das Sessões do Concelho Escolar 1927-
1940, Acta da Sessão do Conselho Escolar de 31 de Julho de 1934.
142
O País a Régua e Esquadro
profissionais competentes. Este tipo de parceria entre a escola e o mercado manter-se-ia
e mantêm-se até hoje. Em 1934 o Técnico atingia um dos objectivos que haviam
presidido à sua criação: os seus alunos formandos e engenheiros diplomados eram já
considerados pelos industriais como agentes de progresso. O IST era agora uma escola
de mérito e de excelência.
O ano lectivo de 1935/1936 decorreu já nas novas instalações do IST.
Curiosamente, nos registos documentais produzidos pelo Instituto nos anos de 1935 não
encontrámos qualquer referência ao facto, ao processo de transferência de serviços, ou
sequer aos critérios de distribuição e de reorganização da escola.
A 17 de Junho de 1932, quando nas vésperas de integrar a equipa
governamental, Duarte Pacheco afirmara que a obra feita era a primeira etapa e seria
também importante reflectir sobre o problema da reorganização da escola, afirmara
ainda que tal tarefa seria realizada após a condigna instalação301
Afastado do governo e presidindo à sessão do Conselho Escolar de 31 de Julho
de 1936, Duarte Pacheco retoma a direcção do Instituto e pretende saber qual a posição
do professorado do IST sobre uma reorganização bem mais ampla: o projecto de
reforma do ensino técnico. Em termos práticos, o Conselho não tem opinião sobre o
trabalho desenvolvido pela «Comissão de Reforma do Ensino Técnico» e aguarda a
publicação oficial da dita reforma em Diário de Governo. Duarte Pacheco é de opinião
contrária. Defende que se o Instituto não concorda com a reforma, deverá intervir junto
do governo antes da publicação da projectada reforma302.
Com efeito, estava em curso uma reforma do ensino técnico e o IST não havia
sido consultado sobre a questão, nem em termos pedagógicos nem em termos de
conteúdos programáticos de matérias e métodos de ensino. A forma directa e
contundente como Duarte Pacheco agarra a questão, revela duas vertentes: por um lado,
e tendo estado afastado da Sala do Conselho por cerca de 4 anos, tenta saber de forma
taxativa qual a posição do Conselho Escolar face à situação exposta. Por outro lado, o
facto de argumentar que, contra ou a favor da reforma do ensino técnico, a opinião do
Conselho tem de ser unânime e presente ao ministro da tutela, é um facto que revela
uma vez mais o modo de actuação de Duarte Pacheco: directo e objectivo.
Entre Julho de 1936 e Julho de 1937 e sempre que reúne, o Conselho Escolar
trata exclusivamente de assuntos relativos a progressões na carreira docente. A última
301
Vide Supra, nota 123.
302
Vide Apêndice Documental, Documento 23.
143
O País a Régua e Esquadro
sessão do Conselho Escolar do Técnico presidida por Duarte Pacheco, tem lugar a 31 de
Julho de 1937303. Neste último registo, Duarte Pacheco deixava algumas propostas de
reflexão aos seus pares:
“O último tirocínio deverá passar para 3 ou 6 meses? Os tirocínios
deverão ser classificados? Neste caso, qual o coeficiente a atribuir à
304
sua classificação?”
Ainda em 1938, no final do ano, o Conselho Escolar do IST tomava
conhecimento de um documento de trabalho e sobretudo, um documento de reflexão.
Os estudos estatísticos de 1928 a 1938 revelavam os resultados práticos do ensino no
Técnico. Em 10 anos e com uma média anual de 141 alunos matriculados, o IST
apresentava 100 reprovações. Apenas 31% dos alunos conseguiam concluir o curso
entre os 6 e os 10 anos de frequência da escola, pois 69% dos inscritos, levavam mais de
10 anos a concluir os estudos de Engenharia305.
No período de 10 anos que Duarte Pacheco dirigira o IST, esta escola obtivera o
que o político prometera: uma renovação material através da construção de instalações
condignas. Cumpria ao corpo docente reflectir sobre os critérios pedagógicos do ensino
técnico em geral e sobre o ensino da engenharia em particular.
Com a saída do IST para cumprimento do segundo mandato nas Obras Públicas,
Duarte Pacheco já não voltaria ao Técnico. Abdicara em definitivo da direcção do
Instituto mas não esquecera que o projecto delineado em 1927 não estava ainda
concluído. Os dois pavilhões que no programa original figuravam a poente do Pavilhão
Central, iriam receber um dos serviços de Hidráulica e Ensaios de Materiais e o
Laboratório de Máquinas.
Em 1942 o gabinete ministerial de Duarte Pacheco subscreveria ao IST duas
verbas de 300 mil escudos cada uma: uma primeira verba destinada ao início da
construção do pavilhão de Hidráulica e uma segunda verba para as obras de reparação
303
Depois desta data o Conselho Escolar só voltará a reunir um ano depois, a 30 de Julho de 1938. Por
esta data é presidente do Conselho Escolar o novo Director efectivo do IST, o professor Herculano de
Carvalho.
304
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência e Actas do Conselho Escolar (1927-1940), Acta da Sessão
do Conselho Escolar de 31 de Julho de 1937.
305
Vide Apêndice Documental, Documento 24.
144
O País a Régua e Esquadro
dos terraços do IST. Com apenas 6 anos de ocupação efectiva, começam a surgir os
primeiros problemas de manutenção306.
Relativamente à Hidráulica, por determinação da Direcção Geral de Hidráulica,
Pardal Monteiro fôra incumbido de realizar o programa e projecto da obra307, mas a 31
de Julho de 1942 a situação parecia ter voltado a ponto nulo:
“O Senhor Presidente explica que os trabalhos estão suspensos. O
Instituto já entregou a Sua Exa. o Ministro das Obras Públicas os
trabalhos do projecto, mas Sua Exa. o Ministro ainda os conserva em
estudo, parecendo que achou grande demais, principalmente o que se
308
refere ao laboratório de hidráulica.”
A situação do Laboratório de Máquinas não era melhor. Embora os anos lectivos
decorressem já nas novas instalações do IST ao Arco do Cego desde 1935, as aulas
práticas de Engenharia de Máquinas decorriam ainda nas velhas instalações da Rua da
Boavista309. O IST tinha já vendido à firma H. Vaultier a parte do antigo edifício
correspondente precisamente à área onde o velho laboratório estava instalado, mas o
prazo de entrega do imóvel expirara e o Instituto via-se na contingência de, não tendo o
previsto e necessário Laboratório de Máquinas, ver as instalações do antigo despejadas
por justa causa.
No ano lectivo de 1942/1943, já sob a direcção de Bellard da Fonseca, a situação
não só não se resolvera como piorara.
O terreno onde funcionava o laboratório de máquinas fora vendido no período de
direcção de Herculano de Carvalho. O mandato deste professor decorreu entre 1938 e
1942. Por esta data a opção fora considerada válida pois o montante da venda e o tempo
subjacente seriam investidos na construção do novo edifício. Contudo tal não se
verificou e o Instituto estava agora numa situação sem retorno. As mais variadas
soluções eram apresentadas pelos professores presentes a Conselho: da hipótese de não
haver aulas práticas de laboratório enquanto não houvesse edifício, até à transferência e
306
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência e Actas do Conselho Escolar (1941-1948), Acta da Sessão
do Conselho Escolar de 7 de Maio de 1941. Vide Ainda Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 32
453 de 27 de Novembro de 1942.
307
Idem, Ibidem.
308
IST, Núcleo de Arquivo, Correspondência e Actas do Conselho Escolar (1941-1948), Acta da Sessão
do Conselho Escolar de 31 de Julho de 1942.
309
Idem, Ibidem.
145
O País a Régua e Esquadro
distribuição do pessoal e do material pelos espaços vagos e dispersos das novas
instalações, todas as propostas eram válidas, na eminência do despejo310.
Em sessão do Conselho de 28 de Fevereiro de 1945, Bellard da Fonseca informa
que está retomada a proposta de construção do Laboratório, mas não no local previsto.
Informa ainda que Pardal Monteiro está encarregue da remodelação do projecto para
adaptação ao novo terreno311. Contudo, o projecto de Máquinas e o projecto de
Hidráulica não passarão da necessidade e da intenção.
Em 1947 o IST preparava-se para receber o II Congresso Nacional de
Engenharia, o I Congresso Nacional de Arquitectura e a Exposição Comemorativa dos
15 Anos de Obras Públicas. No mesmo ano recebia da Secção Pedagógica da
Associação de Estudantes do Técnico uma «Exposição sobre o ensino no IST». Como o
documento estatístico de 1938312, que revelara de forma crua os resultados obtidos no
ensino da engenharia, também este documento poderia servir de base de trabalho e
reflexão ao professorado sobre o rumo do ensino técnico313.
O Conselho Escolar reservava-se ao silêncio. O mesmo silêncio a que se
reservara aquando da morte de Duarte Pacheco.
Nas actas das sessões do Conselho Escolar, e antes da ordem de trabalhos,
sempre que havia notícia do falecimento de um professor do Instituto, era consignado
em acta um voto de pesar. O mesmo acontecia quando existia notícia de falecimento de
ascendentes directos, descendentes directos ou familiares das esposas dos professores
do Instituto.
Duarte Pacheco faleceu a 16 de Novembro de 1943. A sessão do Conselho
Escolar imediatamente a seguir ao seu falecimento ocorreu a 10 de Dezembro. Ocorreu
ainda uma última sessão nesse ano, a 16 de Dezembro. Em nenhuma das duas sessões a
morte de Duarte Pacheco foi mencionada. Morrera um ministro, um antigo director do
Instituto, um antigo professor. E o Conselho Escolar do Instituto Superior Técnico
reservara-se ao silêncio. As palavras, de circunstância, guardá-las-ia para as cerimónias
protocolares.
310
Vide Apêndice Documental, Documento 25.
311
IST, Núcleo de Arquivo, Documentos apresentados ao Conselho Escolar, (1940-1948), Acta da Sessão
do Conselho Escolar em 5 de Novembro de 1942, Acta da Sessão do Conselho Escolar de 28 de Fevereiro
de 1945.
312
Vide Apêndice Documental, Documento 24.
313
Vide Apêndice Documental, Documento 26.
146
O País a Régua e Esquadro
O busto de Alfredo Bensaúde, esculpido por António Duarte, foi colocado no
átrio do Pavilhão Central em 1943. À sala do Conselho do IST presidem desde 1945,
dois retratos: o de Brito Camacho e o de Duarte Pacheco. Estas obras materializam a
memória dos homens que ergueram o Técnico: do projecto ao concreto.
147
O País a Régua e Esquadro
35. Busto de Alfredo Bensaúde, átrio do Pavilhão Central do IST.
36 e 37. Retratos de Brito Camacho e Duarte Pacheco. Sala do Conselho Escolar do IST.
148
O País a Régua e Esquadro
Capítulo 3
Ministérios de Poder
149
O País a Régua e Esquadro
Capítulo 3. Os Ministérios de Poder
A obra pública de Duarte Pacheco teve início em 1925, data do seu ingresso no
corpo docente do IST. No desempenho do cargo de director do Técnico, este político
daria início à construção material, política, técnica e científica que reconhecidamente
esta escola de Engenharia adquiriu a partir do segundo quartel do século XX.
A par do projecto realizado por Duarte Pacheco no IST acrescem todos os
trabalhos por ele realizados no Ministério da Instrução Pública, no Ministério das Obras
Públicas e Comunicações e na Câmara Municipal de Lisboa no desempenho dos cargos
ministeriais e de presidência camarária.
No domínio da produção legislativa, este político foi hábil na construção de uma
malha legal que lhe permitiu agir de forma rápida e objectiva, mas também autoritária,
na medida em que todos os procedimentos e interesses de Estado prevaleceram sobre os
interesses e os direitos individuais. O carisma, a convicção e o braço forte da lei
permitiram a Duarte Pacheco realizar em 20 anos uma obra pública impressionante em
número, em escala e em repercussão.
Portador de um carisma e de uma profunda convicção na possibilidade de
desenvolvimento do país, este político parecia conseguir transformar simpatizantes em
apoiantes de causa.
Embora centralizador no modo de agir politicamente, revelou-se cooperante,
flexível e bom ouvinte no modo de trabalhar os projectos, talvez pelo facto de ter sido
formado por uma escola em que o trabalho de equipa sempre foi valorizado como uma
das condições inerentes ao sucesso de um projecto. Neste sentido, o político soube
munir-se de uma equipa de trabalho multidisciplinar, cordata, confiante e produtiva,
criando um gabinete de trabalho inédito.
Da actividade ministerial de Duarte Pacheco na Instrução Pública e nas Obras
Públicas e Comunicações e da sua actividade na gestão camarária da cidade de Lisboa
como presidente do município, a historiografia tem traçado em linhas gerais a sua acção
política e tem referenciado as linhas arquitecturais e artísticas das principais obras
saídas do seu gabinete. Neste ponto do trabalho, não é nosso objectivo tecer
considerações estilísticas sobre as obras produzidas pelo gabinete ministerial de Duarte
Pacheco.
150
O País a Régua e Esquadro
Procurámos dirigir o nosso estudo num outro sentido: identificar as
circunstâncias e as condições que permitiram o surgimento da obra pública de Duarte
Pacheco. E identificado o cenário político, económico e social, tentámos identificar o
método de trabalho do ministro. No enredo político, com maior ou menor dotação
orçamental, mas com objectivos precisos e uma equipa de trabalho constituída por
técnicos especializados, o ministro, munido de uma máquina legal que não permitia
recursos de contra-parte, programou a equipagem de um país. E num programa de
construções infra-estruturais a «grande obra pública» teve o mesmo peso processual que
o pequeno melhoramento do caminho vicinal. Se nos manuais da História a grande obra
pública tem tido lugar de destaque, no gabinete de trabalho do ministro mereceu a
mesma importância que o pequeno melhoramento.
Do mesmo modo, na gestão dos assuntos camarários o Plano de Urbanização da
Cidade mereceu a mesma importância que o regulamento da venda de carne. Isto
porque, no seu modo de actuação, Duarte Pacheco considerava que deveria existir
coordenação, unidade e eficiência. E neste modelo de actuação, embora pensado de
forma particular e exaustiva, cada projecto era parte constituinte e indivisível de um
todo.
No presente capítulo procuraremos demonstrar que na actividade política de
Duarte Pacheco existiu a profunda convicção de que a Instrução, os Equipamentos, as
Comunicações e a Cidade tinham uma origem comum na formação dos indivíduos e na
construção do país: a viabilidade do futuro.
151
O País a Régua e Esquadro
3.1. A Instrução Pública (1928): laboratório de ideias
“É não só altamente vantajoso, mas até mesmo necessário, criar
nos alunos hábitos de leitura, visto que a leitura bem orientada e
devidamente graduada é um elemento de principal importância
para a sua instrução e desenvolvimento mental.”
Duarte Pacheco, Ministro da Instrução Pública, Diário do
Governo, Portaria 5:589 de 11 de Setembro de 1928.
A 18 de Abril de 1928, na véspera de completar 28 anos de idade, Duarte
Pacheco tomava posse como Ministro da Instrução Pública. Integrava a equipa
governamental do coronel José Vicente de Freitas e manter-se-ia em funções até ao dia
10 de Novembro do mesmo ano.
Vicente de Freitas, que em 1917 ainda com a patente de tenente-coronel
comandara uma brigada na I Grande Guerra, foi um dos militares que apoiou o golpe
militar do 28 de Maio de 1926. Na sequência da exposição pública das suas convicções
políticas, em Junho do mesmo ano foi nomeado presidente da Comissão Administrativa
da Câmara Municipal de Lisboa e manteve-se no cargo até Agosto de 1927, data em que
passou a integrar o governo do General Carmona, tutelando a pasta do Interior.
Em 1926 já Duarte Pacheco havia explorado a viabilidade de negócio nos
terrenos cercanos ao Arco do Cego, tendo em vista aquela parcela como área
preferencial para a construção do novo IST. Em 1927 Duarte Pacheco conseguira do
governo a autorização de contracção de um empréstimo visando a aquisição dos
mesmos terrenos. Neste processo, o município foi sempre ao encontro dos objectivos do
director do IST, tanto na aquisição como na permuta de terrenos particulares ou
camarários, uma vez que o local escolhido para a construção das novas instalações do
Técnico abria caminho a uma nova área de expansão e valorização da cidade.
No desempenho das suas funções e auspiciando resultados satisfatórios para as
duas instituições, tanto o engenheiro Duarte Pacheco enquanto director do IST, como o
152
O País a Régua e Esquadro
Coronel Vicente de Freitas, na qualidade de Presidente da Comissão Administrativa da
CML; trabalharam em prol de um mesmo objectivo. Com efeito, se Duarte Pacheco
conseguisse levar a bom termo o negócio de aquisição e permuta de terrenos das quintas
contíguas ao Arco do Cego, teria onde construir as novas instalações do Técnico. Por
seu turno, promovendo Vicente de Freitas a negociação e facilitando as permutas numa
área de terreno ainda sem programação camarária, acelerava o processo de urbanização
da área envolvente à construção das novas instalações do IST.
O clima de confiança que se gerou em torno deste projecto ultrapassou os meros
interesses institucionais das duas partes envolvidas. Recordemos que nas negociações
encetadas com os proprietários dos terrenos ou seus representantes legais, Duarte
Pacheco se apresentou a título particular e em representação também particular do
então presidente da Câmara Municipal de Lisboa314.
Este clima de confiança pessoal entre os dois homens, e sobretudo a crença do
militar na habilidade política e técnica do director do IST, seriam factores decisivos para
que Vicente de Freitas convidasse Duarte Pacheco a integrar a sua equipa
governamental. O coronel escolhia o jovem engenheiro e director da escola de
engenharia mais prestigiada do país, como o novo rosto da Instrução Pública. Na
primeira página do Diário de Notícias do dia 18 de Abril o perfil do novo ministro era
assim traçado:
“Tomou conta da pasta da Instrução Pública o ilustre matemático e
professor sr. Dr. Duarte Pacheco, que muito novo também, é já hoje
um dos homens de ciência mais ilustres da nossa terra e
desempenhava ultimamente, apesar de ser dos professores mais
modernos, por votação unânime do Conselho, as elevadas funções de
director do Instituto Superior Técnico, nas quais revelou sempre a
315
maior competência e raras qualidades de ponderação e acção.”
Assinado o termo de posse no dia 18 de Abril pelas duas horas da tarde316,
Duarte Pacheco recolhia ao gabinete ministerial e fazia publicar no Diário do Governo
314
Vide Apêndice Documental, Documento 1.
315
Diário de Notícias, 1ª página, 18 de Abril de 1928.
316
Idem, página 1.
153
O País a Régua e Esquadro
as duas primeiras medidas políticas317. Contudo, antes de se lançar por completo à
empresa que Vicente de Freitas lhe havia confiado, Duarte Pacheco teria de deslocar-se
a Coimbra com um propósito: retornar a Lisboa com a certeza de que Oliveira Salazar
integraria o governo como ministro das Finanças.
Na sequência do golpe militar de 28 de Maio de 1926, e após o breve triunvirato
de 30 de Maio constituído pelos Generais Mendes Cabeçadas, Gama Ochoa e Gomes da
Costa que entre si haviam distribuído todas as pastas governamentais, a 3 de Junho
formou-se uma equipa governamental que Oliveira Salazar integrou como Ministro das
Finanças318. Contudo esta equipa ministerial manter-se-ia em funções apenas por duas
semanas pois a 17 de Junho Gomes da Costa imporia novo golpe militar. A 9 de Julho
seria a vez de Sinel de Cordes recuperar o poder. Manter-se-ia em funções até Abril de
1928 mas a sua actuação como chefe de governo, nomeadamente na inadequação e falta
de conhecimentos no domínio da gestão das finanças públicas, culminaria num déficit
público vertiginoso e numa instabilidade social crescente319.
Em Abril de 1928 ocorria nova estruturação governamental: Óscar Carmona
mantinha-se como Presidente da República mas Sinel de Cordes era preterido: Carmona
escolhia o coronel Vicente de Freitas como chefe de governo. Formada parte da equipa,
competia a Duarte Pacheco, o mais jovem membro do corpo governamental, deslocar-se
a Coimbra e convencer aquele que em 1926 fora por cerca de duas semanas ministro das
Finanças, de que estavam finalmente reunidas as condições políticas para que pudesse
exercer o seu cargo na plenitude do programa que julgasse necessário à recuperação
financeira do país.
O clima de confiança pessoal e de identificação política existente entre o chefe
de governo Vicente de Freitas e o ministro Duarte Pacheco era inegável. Como atrás
referimos, ambos haviam já trabalhado em prol de um objectivo comum na cidade de
Lisboa, podendo agora elevar a sua acção concertada a uma escala nacional. Também
no domínio político, ambos professavam os ideais republicanos. Contudo, dos dois
317
Logo na tarde de 18 de Abril de 1928 regula a nomeação de reitores e vice-reitores dos liceus e dos
directores de classe e define o programa de exames de admissão aos Institutos Superiores de Comércio de
Lisboa e do Porto. Vide Decreto-Lei 15 392, publicado em Diário do Governo I Série nº 88.
A 19 de Abril regula a situação dos professores contratados do Ensino Técnico Elementar Comercial e
Industrial que à data da publicação do decreto 12 147 estava em exercício de funções e publica ainda a
Portaria nº 5 323 que revoga a Portaria nº 4 825 que ordenava dispensa de serviço a todo o pessoal
assalariado da Biblioteca Nacional. Vide Decreto-Lei 15 398, publicado em Diário do Governo, I Série nº
89.
318
Cfr. Nova História de Portugal, Direcção de Joel SERRÃO e A. H. De Oliveira MARQUES, vol. XI,
Portugal da Monarquia para a República, coordenação de MARQUES, A. H. De Oliveira, página 739.
319
Idem, Op. Cit., página 738-745.
154
O País a Régua e Esquadro
governantes, Duarte Pacheco era decerto o mais eloquente, com maior poder de
argumentação e com maior margem de manobra política, posto que sendo um estreante
na cena política governativa não revelava ainda compromissos ou preferências. Por
outro lado, tendo em conta situações ocorridas posteriormente, parece clara a antipatia
que o militar republicano Vicente de Freitas sempre nutriu pelo católico e simpatizante
monárquico professor de Coimbra Oliveira Salazar. Em prol do restabelecimento do
equilíbrio da finança pública, Vicente de Freitas reconhecia a possibilidade de Oliveira
Salazar sanar o sistema, mas não condescendia no facto de se deslocar a Coimbra com o
intuito de convidar o professor a integrar o seu governo320. Por seu turno, Duarte
Pacheco, convincente perante políticos ao ponto de conseguir o decreto de contracção
de empréstimos e verbas para construção de uma escola, convincente perante
proprietários na venda e permuta de terrenos e convincente perante um colégio
senatorial de professores catedráticos de um instituto público, que não por mero acaso, o
tinham elegido como director de todos eles, parecia talhado para a tarefa de trazer da
Alta de Coimbra ao Terreiro do Paço o eminente professor da Lusa Atenas.
Acresce aqui informar que quando Duarte Pacheco se deslocou a Coimbra, não o
fez como mero cidadão patriota e homem de boa vontade. Mais do que um republicano
de direita incumbido de convencer um anti-republicano a integrar uma equipa
governamental321, Duarte Pacheco era um Ministro já empossado que ia a Coimbra falar
directamente com um professor. Quando Oliveira Salazar, professor de Economia da
Universidade de Coimbra, recebeu Duarte Pacheco em Abril de 1928, estava a receber a
visita do seu ministro, o Ministro da Instrução Pública. A subalternidade hierárquica
impunha a circunstância. Oliveira Salazar poderia até não estar receptivo ao convite mas
320
A 10 de Novembro de 1928 Vicente de Freitas apresenta a demissão do governo iniciado a 28 de Abril
mas é reconduzido como Chefe de Governo. Salazar mantém-se como seu ministro das Finanças, contudo
este governo cai a 8 de Julho de 1929 quando Vicente de Freitas recusa uma portaria do Ministro da
Justiça e Cultos (Mário de Figueiredo) que pretendia permitir as procissões com toque de sino a horas
indiscriminadas. Na sequência deste facto Mário de Figueiredo e Oliveira Salazar, católicos convictos,
apresentaram a demissão e o governo caiu. Contudo, Vicente de Freitas, que pretendia atingir
politicamente os dois ministros sai derrotado do processo, pois é substituído na chefia do governo por
Ivens Ferraz e Salazar mantém-se em funções. Vicente de Freitas passará a ser a partir desta data e até
1952, data da sua morte, um público opositor de Salazar. Cfr. António. José Telo “Freitas, José Vicente
de”, in Dicionário de História do Estado Novo, direcção de Fernando ROSAS e J.M. Brandão de BRITO,
Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, vol. I, pág., 373.
321
Designação utilizada por Gonçalo Canto Moniz na obra Arquitectura e Instrução. O projecto do liceu
moderno 1836-1936, Coimbra, Departamento de Arquitectura da Faculdade de Ciências e Tecnologia da
Universidade de Coimbra, 2007,página 135.
155
O País a Régua e Esquadro
ficou decerto receptivo aos argumentos de Duarte Pacheco: serviço público e condições
necessárias ao exercício do cargo322.
No domínio das convicções políticas Duarte Pacheco não se revelara nunca pela
escrita, optara sempre pela acção. Em oposição, Oliveira Salazar desde os tempos do
seminário de Viseu que colaborava como publicista em vários periódicos e foi através
deles e da prática docente que angariou apoiantes e construiu credibilidade política323.
No domínio da argumentação política entre o ministro republicano conservador
e o professor católico e simpatizante monárquico, valia agora um passo maior. Duarte
Pacheco garantia a Salazar as condições políticas necessárias para que este passasse
para o campo da acção a emanada e construída imagem de «salvador das finanças» que
proliferava na palavra dita e escrita. E assim aconteceu. Salazar tomou posse da pasta
das Finanças a 27 de Abril de 1928 e gostou do sabor do poder, não mais tendo
regressado ao professorado de Coimbra.
De 27 de Abril a 10 de Novembro de 1928 Duarte Pacheco e Oliveira Salazar
integrariam pela primeira vez a mesma equipa governativa. O ministro das Finanças
teria direito de veto sobre as propostas de despesa dos restantes ministérios e dele
dependia a decisão de executar os cortes orçamentais e a reforma fiscal necessária ao
reequilibro do orçamento de Estado. Por seu turno, no gabinete da Instrução Pública,
Duarte Pacheco iria encontrar o panorama de indefinição educativa que caracterizou a
política educativa do período respeitante à ditadura militar.
322
Fernando Rosas afirma que em Março de 1928, quando após a desastrosa gerência financeira de Sinel
Cordes, a ditadura fica sem finanças nem política financeira (...) todas as atenções se viram para o
prestigioso professor de Finanças de Coimbra (...) que se faz caro a Duarte Pacheco- enviado a Coimbra
para o convencer a aceitar a pasta das Finanças – e impõe condições draconianas que serão aceites.
Defendemos que Duarte Pacheco vai a Coimbra em Abril, já empossado do cargo de Ministro da
Instrução Pública uma vez que Oliveira Salazar só toma posse como Ministro das Finanças nove dias
depois de Pacheco. Na formação inicial do governo e até Oliveira Salazar aceitar o cargo, foi o Coronel
Vicente de Freitas que interinamente geriu a pasta. Cfr. Fernando ROSAS, António de Oliveira Salazar”
in Dicionário de História do Estado Novo, direcção de Fernando ROSAS e J.M. Brandão de BRITO,
Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, vol. II, pp. 864.
323
Os primeiros textos de intervenção política de Salazar são publicados no bissemanário de Viseu A
Folha. Nos textos publicados Oliveira Salazar revela indignação face à crescente onda anti-clerical e
assume-se anti-republicano. Ainda em Viseu escreverá no periódico Ecos e os seus artigos manterão o
mesmo pendor político. Já em Coimbra, integra o Centro Académico de Democracia Cristã (CADC) e
escreve regularmente no Imparcial, o folheto político da associação. Em 1926, gorada a primeira
experiência governativa regressa ao professorado de Coimbra, contudo a permanência da escrita política,
mas sobretudo a credibilidade que vai ganhando como economista face ao descalabro das contas públicas
geridas pelos militares, fazem crescer a sua popularidade.
Em 1927, após a rejeição de Sinel de Cordes ao seu relatório de trabalhos sobre os projectos de decreto de
reforma do sistema financeiro português, Salazar entra definitivamente em ruptura com a ditadura militar
instituída e inicia no Novidades uma crítica feroz à ruinosa política financeira da ditadura.
Vide Fernando ROSAS, António de Oliveira Salazar” in Op. Cit., pp. 861-876.
156
O País a Régua e Esquadro
A reforma educativa de 1911 constituiu um marco na história pedagógica e
social de um país pouco desenvolvido e quase iletrado. Em 1911 a percentagem de
população analfabeta atingia os 69,6%, ainda assim uma melhoria face aos 74% dos
portugueses que em 1900 permaneciam sem conhecimento sequer das primeiras
letras324.
Ao quadro da ideologia política republicana presidia o conceito de igualdade na
cidadania sem estrutura hierárquica de classe ou condição. E a liberdade de cada
cidadão residia na possibilidade de escolha sem pressão de outrém e pressupunha a
existência de uma educação formal. É no âmbito deste projecto de cidadania esclarecida
que surge a reforma republicana de 1911. Um projecto educativo ambicioso que
decretou a obrigatoriedade do ensino primário, reforçou o ensino liceal e anulou a
unicidade universitária em Coimbra ao criar as universidades de Lisboa e do Porto325.
Inovador na arquitectura educativa, no que respeita aos equipamentos escolares
o regime republicano pouco avançou. Do ensino primário ao universitário as actividades
lectivas decorreram maioritariamente em edifícios adaptados das extintas casas
religiosas, embora Lisboa tivesse recebido 3 novos liceus e as cidades do Porto, Faro e
Leiria, um liceu cada326.
A par do ensino oficial decorria com normalidade o ensino particular. No registo
de 1930 embora apenas 2% da população dos 11 aos 17 anos frequentasse o ensino
liceal, 40% desse número frequentava o ensino liceal particular327.
No período de vigência da ditadura militar não existiu um projecto educativo,
mas apenas uma gestão do sistema educativo existente. Com o período ditatorial assiste-
se à redução da escolaridade obrigatória, limitação das condições de acesso ao ensino
liceal e encerramento de estabelecimentos de ensino superior como foi o caso do
Instituto Industrial e Comercial de Coimbra, Faculdade de Letras do Porto e Faculdade
de Farmácia e a Escola Normal Superior, ambas em Coimbra328.
A ditadura militar decretou ainda o encerramento da Faculdade de Direito de
Lisboa, precisamente quatro dias antes da tomada de posse de Duarte Pacheco como
Ministro da Instrução Pública. O descontentamento do professorado e da população
324
Números indicados nos Censos da População do Reino de Portugal no 1º de Dezembro de 1900 e da
População de Portugal nº 1 de Dezembro de 1911, nesta perspectiva citados por MARQUES, A. H- de
Oliveira, in Op. Cit., pág. 519.
325
Idem, Op. Cit., pp. 519-576.
326
Idem, Op. Cit., pp. 538-546. Vide também MONIZ, Gonçalo Canto, Op. Cit., pp. 55-130.
327
Idem, Op. Cit., pág. 537.
328
MARQUES, A. H. de Oliveira, Op. Cit., pp- 575.
157
O País a Régua e Esquadro
estudantil que pontualmente levaram o protesto até à greve, a degradação das
instalações escolares e a escassez de verbas para o ensino surgiam como moldura da
situação política herdada pelo jovem ministro.
No programa do governo empossado a 18 de Abril de 1928 e na composição de
onze linhas de acção ministerial, a prioridade era dada à manutenção da ordem pública.
Como referiria o chefe do governo no dia seguinte ao da tomada de posse e em
entrevista ao Diário de Notícias, havemos de a manter, custe o que custar329. Mantida a
ordem pública, seguia-se a segunda prioridade: a compressão nacional de despesas.
Como terceira prioridade o chefe de governo apontava a justa e equitativa defesa dos
rendimentos do Estado, através de uma urgente revisão do regime de contratações. A
remodelação dos serviços públicos, a organização do Código Administrativo e o
enquadramento da produção nacional nas leis económicas vigentes, cumpriam os
objectivos quarto, quinto e sexto do programa ministerial. A contenção do número de
efectivos militares ao estritamente necessário, o cumprimento integral da lei das
incompatibilidades, a remodelação dos serviços diplomáticos portugueses e o incentivo
à produção de riqueza da metrópole e das colónias, cumpriam os objectivos oitavo,
nono, décimo e décimo primeiro do governo empossado330. No programa de actuação
ministerial e intervenção política na máquina do Estado, existia um objectivo a cumprir:
rever, reconsiderar e actuar visando a maior eficiência dos serviços com o menor custo
possível. O mesmo objectivo estava reservado para a alínea nº 7 do programa de
governo, a Instrução. Nas palavras do chefe de governo:
“É esse um dos nossos maiores empenhos. A instrução primária
ministrar-se-á a todos e será gratuita. A secundária e a superior não
será preciso desenvolvê-las com tanta intensidade e serão pagas por
aqueles que as quiserem receber. É preciso animar a instrução
particular, não a deixando esmagar pela oficial. Nos estabelecimentos
de ensino particular não se ensina com menos proveito e utilidade do
que nos liceus. Mas, além dessas classes de instrução, existe ainda a
instrução técnica e é essa que procuraremos intensificar o mais
possível, especialmente a de carácter agrícola, não para criarmos
novas legiões de engenheiros e de doutores, mas para organizarmos
329
Cr. Diário de Notícias, 19 de Abril de 1928, 1ª e 2ª páginas.
330
Idem, páginas 1 e 2.
158
O País a Régua e Esquadro
um verdadeiro exército de práticos com conhecimentos necessários à
331
melhor valorização da terra.
Como nos restantes dez objectivos do programa ministerial, também na
Instrução a palavra de ordem era a contenção de despesa. Embora mantendo a
escolaridade obrigatória e gratuita para o nível primário de ensino, neste projecto de
governo só ascenderiam ao escalão secundário e superior aqueles que conseguissem
financiar os seus estudos. Quanto ao incremento do ensino técnico, mais do que formar
especialidades, o chefe de governo considerava primordial a formação de profissionais
que conseguissem produzir riqueza através de uma rentável utilização dos recursos
naturais do país.
Duarte Pacheco tutelou a pasta da Instrução Pública de 18 de Abril a 10 de
Novembro de 1928. Neste período de tempo o ministério produziu cerca de 80
diplomas332. Este facto, que por um lado espelha o objectivo de cumprimento do
programa de governo na pasta da Instrução, por outro lado revela o método de trabalho
deste político: disciplinar legislativamente o que pode ser corrigido e legislar a
construção de novas soluções.
Tendo por base a análise da produção legislativa exarada pelo gabinete
ministerial, numa primeira fase do mandato que podemos situar entre Abril e Julho,
Duarte Pacheco procedeu a uma «gestão de recursos humanos e administrativos do
ensino». Com efeito, a produção legislativa transversal aos vários níveis de ensino,
centrou-se maioritariamente na regulamentação de nomeações e substituições de pessoal
docente e pessoal adjunto333.
Do mesmo modo, denota-se a atenção do ministro em regulamentar os
calendários escolares, as condições de acesso dos alunos aos diversos graus e
331
Idem, página 2.
332
Caetano Maria Beirão da Veiga, “Duarte Pacheco. Inteligência, Dinamismo e Infatigabilidade” in
Revista Internacional, 1951, s/p.
333
Entre outros diplomas e a título de exemplo, o Decreto 15 459 de 11 de Maio de 1928 aprova o
regulamento para nomeação e substituição de professores, instrutores e demonstradores da Escola Naval;
na II Série do Diário de Governo nº 110 de 17 de Maio de 1928 procede à organização dos quadros de
ensino secundário e pessoal adjunto ao mesmo ensino; o Decreto 15 634 de 25 de Junho de 1928 constitui
o quadro de professores agregados dos liceus masculinos; o Decreto 15 663 de 3 de Julho de 1928
determina que os reitores das universidades sejam de nomeação do governo e que os vice-reitores
continuem a ser eleitos, em lista tríplice, pela Assembleia Geral da Universidade, o Decreto 15 748 de 19
de Julho determina que os vice-reitores dos liceus sejam nomeados pelo Governo entre os professores
efectivos dos respectivos quadros, mediante eleições dos conselhos escolares em lista tríplice.
159
O País a Régua e Esquadro
especialidades de ensino, bem como as condições de obtenção de equivalências,
transferências e diplomas334.
A produção legislativa desta primeira fase do mandato ministerial de Duarte
Pacheco, revelando a necessidade de regulamentação de processos administrativos
como matrículas, exames e recorrências, teve em vista não apenas a clarificação,
correcção e uniformização de regras, como também a sua imediata entrada em vigor no
ano lectivo de 1928-1929. Do mesmo modo, as medidas tomadas relativamente à gestão
do pessoal docente, técnico e administrativo, passariam a produzir efeito imediato.
Por outro lado, o facto de o ministro determinar que os reitores das
Universidades e os vice-reitores dos Liceus passariam a ser nomeados pelo governo335 e
não pelos seus pares, surgia como medida centralizadora e unívoca da política de
direcção dos dois níveis de ensino.
Assim, e na primeira fase do mandato ministerial, com o objectivo de cumprir e
aplicar na Instrução as directivas do programa governamental, nomeadamente a quarta
alínea336, Duarte Pacheco tem por objectivo regulamentar de modo uniforme a máquina
administrativa do ensino, gerir os quadros docentes, técnicos e administrativos que
compõem essa mesma máquina, e por fim, pretende ainda resgatar para a figura
ministerial a prerrogativa de nomeação daqueles que, na prática diária da gestão escolar
na sala de aula do liceu e no auditório de uma faculdade, praticam a verdadeira política
educativa. Em suma, ao decretar que a nomeação de reitores e vice-reitores de
universidades e de liceu seja feita pelo governo, o ministro pretende que no exercício
destes cargos esteja presente a confiança científica, técnica e pedagógica reconhecida
pela classe docente, mas que em simultâneo estes cargos sejam exercidos por indivíduos
em que esteja também depositada a confiança política necessária ao cumprimento de um
projecto de ensino.
Na primeira fase do mandato ministerial, fase de regulamentação e
uniformização pessoal e administrativa do ensino, assistimos ao que poderíamos chamar
334
Entre outros diplomas e a título de exemplo, o Decreto nº 15 453 de 10 de Maio de 1928 promulga
várias disposições sobre a abertura das aulas, férias, época de exames e transferências de alunos nos
estabelecimentos de ensino dependentes do Ministério; o Decreto nº 15 541 de 4 de Junho de 1928
determina as condições em que os alunos universitários podem recorrer a exames de 1ª e 2ª épocas; o
Decreto 15 600 de 20 de Junho de 1928 regula a realização de exames no ensino primário elementar; o
Decreto 15 621 de 23 de Junho de 1928 permite a admissão aos Liceus de alunos com 9 anos completos
de escolaridade.
335
Decreto nº 15 663 de 3 de Julho de 1928 e Decreto nº 15 748 de 19 de Julho de 1928.
336
Remodelação dos serviços de modo a não haver sobreposições e atender-se que os serviços
semelhantes ou que tenham afinidade fiquem sob uma mesma direcção única, in Diário de Notícias, 19
de Abril de 1928, 1ª página.
160
O País a Régua e Esquadro
de etapa inicial do método de trabalho de Duarte Pacheco, a fase reguladora. Na
segunda fase do mandato, Duarte Pacheco dá início a uma nova etapa desse mesmo
método: a fase projectual, ou das «comissões». Procedendo à selecção de áreas
específicas de actuação política, o ministro cria para cada uma dessas áreas uma
comissão de estudo. A comissão reúne em si uma equipa com conhecimentos científicos
e técnicos multidisciplinares. Com esta medida o ministro pretende obter não só o
diagnóstico aprofundado dos problemas existentes, como propostas para sua solução.
Neste sentido, a 21 de Julho de 1928 Duarte Pacheco nomeia uma comissão
composta por nove elementos337. Todos os elementos da equipa de trabalho
desempenham funções na área do ensino primário, liceal ou superior. Alguns membros
da equipa desempenham cargos de direcção enquanto outros desenvolvem actividade na
área da docência. A pluralidade técnica e curricular dos elementos seleccionados por
Duarte Pacheco estende-se até à polaridade das opiniões políticas338, mas para o
ministro o credo político dos elementos constituintes da comissão parecia ser um dado
acessório uma vez que interessava tão somente a contribuição que cada um deles
poderia trazer a assuntos que o governante julgava de necessária e urgente resolução. A
esta comissão estavam atribuídas seis propostas de trabalho sintomáticas de seis
situações existentes na Instrução. O ministro procurava assim optimizar esforços e
encontrar soluções eficazes para o combate ao analfabetismo, uma forma eficaz de
articulação entre o ensino oficial e o ensino particular, um método rápido de execução
de edificações escolares, o cumprimento de normas de higiene e prática desportiva no
ensino primário, estabelecimento da base organizativa das escolas normais primárias e
reorganização do seu inspectorado e articulação do ensino primário praticado com os
níveis seguintes de escolaridade, nomeadamente o secundário, e o técnico industrial,
comercial e agrícola.
337
Os membros da comissão criada eram os seguintes: Aníbal Valdez de Passos e Sousa, director-geral
interino do Ensino Primário Normal; José Guilherme Pacheco de Miranda, inspector-adjunto da Sanidade
Escolar e Educação Física; engenheiro Francisco Maria Henriques, professor do Instituto Superior
Técnico; Bento de Jesus Caraça, professor do Instituto Superior de Comércio; António Leitão, director da
Escola Normal Primária de Coimbra; Alfredo de Carvalho, professor do Liceu João de Deus; Albano dos
Santos Ramalho, inspector do Círculo Escolar de Castelo Branco; António Figueirinhas, publicista e
editor da Educação Nacional; e Mário Augusto Vieira, professor oficial do Ensino Primário Elementar.
Cfr. Diário do Governo, II Série, nº 166 de 21 de Julho de 1928.
338
O historiador Joaquim Veríssimo Serrão assinala esta situação de polaridade política nos elementos
que constituem a comissão encarregada de elaborar parecer sobre a realidade liceal, contudo, também
nesta primeira comissão existem nomes de oposição directa e pública à linha de actuação da ditadura
militar como é o caso de Bento de Jesus Caraça. Cfr. SERRÃO, Joaquim Veríssimo, História de Portugal
(1926-1935), vol. XIII, Lisboa, Editorial Verbo, 1996, páginas 610-611.
161
O País a Régua e Esquadro
Ao decretar a constituição desta plural equipa de trabalho e ao traçar estes seis
planos de análise transversal, Duarte Pacheco pretende encontrar as soluções
necessárias ao eficaz funcionamento do ensino primário. Desde logo, encontrar uma
solução eficaz de combate ao analfabetismo. Embora instituído como obrigatório, o
ensino primário era pouco frequentado339 e reflexo sintomático de uma questão maior e
intrínseca à realidade de um país onde o baixo desenvolvimento económico se reflectia
na utilização de mão-de-obra infantil como contributo para o rendimento familiar.
Quando no mesmo decreto Duarte Pacheco determina ser necessário estimular
uma eficaz colaboração do ensino primário particular com o ensino primário oficial,
significa que nalgum ponto de actuação o particular e o oficial divergiam. Em concreto
não conseguimos apurar a divergência e não é esse o objectivo do nosso estudo,
contudo, ao se assinalar a questão em decreto tal significa que, a título de conteúdos
programáticos, métodos de trabalho ou outro parâmetro de actuação, as duas práticas
estavam desarticuladas e criavam situações de fricção na aquisição de conhecimentos
dos alunos quando propostos aos níveis de ensino sequentes.
No que confere à terceira medida, o facto de o ministro apontar como necessária
a criação de um método rápido e eficaz de execução de edificações escolares, é também
sintoma de que os equipamentos escolares primários necessitariam de alguma renovação
material340.
A necessidade de se estabelecerem normas de higiene e de prática de educação
física nos estabelecimentos de ensino primário, seria por um lado reflexo das novas
pegagogias do mundo moderno, mas também da instituição de regras básicas de saúde e
salubridade.
Com a última medida Duarte Pacheco tentava buscar solução para um dos
objectivos do programa de governo: o incentivo ao ensino técnico. E o bom sucesso do
ensino técnico dependia de uma articulação de raiz, ou seja, o ensino primário.
A 25 de Julho de 1928 o político decretava a necessidade de criação de
residências estudantis para alunos que, querendo ou tendo a possibilidade material de
prosseguir nos estudos, ficavam obrigatoriamente afastados dos seus locais de
339
Para 1920 os quadros apontam uma percentagem de 66,2% e em 1930 61,8%. Vide MARQUES, A. H:
de Oliveira, Op. Cit., pág. 520.
340
A situação material das edificações escolares primárias apresentava uma situação de degradação
crescente. Vide BEJA, Filomena Marona et. al., Muitos Anos de Escolas, vol. I Edifícios para o Ensino
Infantil e Primário até 1941, Lisboa, Ministério da Educação – Direcção-Geral de Administração Escolar,
1990.
162
O País a Régua e Esquadro
origem341. Ao decretar a necessidade de existência de locais de acolhimento dos alunos
deslocados, Duarte Pacheco tentava colmatar uma outra situação que decorrendo da
primeira provocava algum desequilíbrio nos vários níveis de ensino, embora
maioritariamente no ensino liceal342.
À excepção dos alunos das classes mais abastadas que, residentes ou deslocados,
revelavam maior facilidade de instalação ou acomodação perto dos estabelecimentos de
ensino onde recebiam formação superior, os restantes alunos universitários eram na sua
maioria filhos de professores de liceu. Quando os filhos destes professores ingressavam
no ensino superior tal situação implicava a mobilidade do agregado familiar pois não
existia qualquer tipo de apoio social ou logístico aos alunos universitários deslocados. E
não existindo apoio, o financiamento de um curso superior a um filho revelava-se
demasiado oneroso para um professor de liceu. Por tal facto era usual que, quando um
filho ingressasse na universidade, toda a família partisse para o mesmo destino. Na
prática, assistia-se ao esvaziamento dos quadros docentes dos liceus do país e um
crescendo de professores de liceu nas cidades de Lisboa, Coimbra e Porto.
Ao criar uma comissão para estudar com a maior urgência a forma de
estabelecer residências de estudantes nas cidades em que elas sejam mais convenientes,
o político tenta colmatar uma falha do sistema de ensino ao reconhecer a necessidade de
criação de medidas de apoio social aos alunos deslocados. Tenta também com a mesma
medida reequilibrar os quadros docentes do ensino liceal.
Se na primeira comissão de estudo Duarte Pacheco reunira apenas quadros
docentes e dirigentes de ensino, nesta comissão e porque especificamente se torna
necessário que esta equipa de trabalho encontre uma solução material de acomodação: a
residência estudantil, o político nomeia também um técnico indispensável à mesma
equipa: um arquitecto, no caso Porfírio Pardal Monteiro, o mesmo que por esta data
trabalharia já no projecto das novas instalações do Técnico.
No dia 16 de Agosto de 1928 o Diário do Governo publica três diplomas que, no
domínio da pasta da Instrução, merecem referência e reflexão, uma vez que espelham a
posição política de Duarte Pacheco relativamente a questões basilares da educação: a
língua, a literatura, a investigação, a produção de conhecimento e a escola como centro
pedagógico.
Relativamente à importância da Língua Portuguesa, considera o ministro:
341
Diário do Governo, II Série, nº 168 de 25 de Julho de 1928.
342
SERRÃO, Joaquim Veríssimo, Op. Cit., pp. 611-612.
163
O País a Régua e Esquadro
“ (...) a unidade idiomática é o mais poderoso factor da coesão
nacional (...) as criações literárias são, pelo seu carácter de beleza
comunicativa, os marcos de realce do dinamismo evolutivo da
linguagem (...) a história da literatura nacional não deve confinar-se
numa exposição cronológica e mumificada de nomes, títulos e
assuntos, mas ser o quadro animado e sugestivo da marcha da grei
343
portuguesa através do campo estético”.
A este propósito, e porque Duarte Pacheco considera que as livrarias editoras
Aillaud e Bertrand, ao editarem a História da Literatura Portuguesa Ilustrada
revelaram um gesto educativo e patriótico, decide atribuir-lhes um público testemunho
de louvor.
O ministro da Instrução considera ainda que a propósito do apoio aos
investigadores portugueses, os decretos de 1923 e 1924344 não produziram nenhum
efeito345. Por tal facto Duarte Pacheco considera indispensável a criação de um
organismo permanente que supervisione e proceda à gestão do serviço das bolsas de
estudo atribuídas a professores e a alunos, em Portugal e no estrangeiro. Considera
ainda a necessidade de que este organismo promova e oriente os trabalhos de
investigação científica através da possibilidade de criação de centros de estudo, de
forma a desenvolver e coordenar a actividade intelectual portuguesa.
Esta era uma realidade que Duarte Pacheco conhecia bem. No primeiro dia em
que tomara assento na sala do Conselho Escolar do IST e exercera o direito do uso da
palavra, afirmara a necessidade de incentivo e apoio à investigação e melhor
qualificação da classe docente e dos alunos recém-formados do instituto346. Em 1927,
por intervenção política directa de Duarte Pacheco, o IST obtivera do governo uma
verba considerável para atribuição de bolsas de estudo347, contudo, porque a lei vigente
não pressupunha a existência de um organismo regulador, gestor e tutelar no domínio da
formação e investigação científica, a aplicação prática das bolsas tornava-se difícil e
morosa. Como professor e director do IST este político tinha experimentado a falha do
343
Portaria de 13 de Agosto de 1928, Diário do Governo, II Série nº 187 de 16 de Agosto de 1928.
344
Refere-se Duarte Pacheco aos Decretos nº 9 332 de 29 de Dezembro de 1923 e nº 10 074 de 6 de
Setembro de 1924.
345
Portaria de 13 de Agosto de 1928, Diário do Governo, II Série nº 167 de 16 de Agosto de 1928.
346
Vide Apêndice Documental, Documento 16, relativo à sessão do Conselho Escolar do Instituto
Superior Técnico ocorrida a 6 de Novembro de 1926.
347
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 13 717 de 2 de Junho de 1927.
164
O País a Régua e Esquadro
sistema neste domínio. Como membro da equipa governativa e no uso do poder
legislativo do cargo que agora desempenhava, decidiu nomear uma comissão cujo
objectivo era o de apresentar, no mais curto espaço de tempo, um plano de organização
do necessário organismo tutelar de atribuição, regulamentação e gestão de bolsas e
projectos de investigação.
Duarte Pacheco não considerava a «escola» como mero espaço de apoio
logístico, qual local por onde se poderiam distribuir, consoante as disponibilidades e por
classes de conhecimento, os alunos e respectivos professores. Para este político a
«escola», sendo ela primária, liceal ou superior, deveria ser considerada um centro de
zona pedagógica348. E para tal tornava-se necessário estudar e delimitar estes «centros
de zona». Só com o diagnóstico correcto das situações vividas pelos centros, nas suas
atribuições pedagógicas e na sua importância social, no corpo de docentes, discentes e
de pessoal técnico e administrativo, se poderia obter um retrato fiel da realidade do
ensino e sobre ele actuar na forma programada e que o ministro considerava ser a
correcta: através da coordenação, da unidade e da eficiência. Já como professor e
director do IST Duarte Pacheco considerava ser esta a verdadeira função da escola.
Mantinha agora o mesmo pensamento como ministro da Instrução e mantê-lo-ia após o
desempenho deste cargo e no desempenho futuro de sequentes cargos públicos e
políticos.
Para o ministro a situação material e de lotação das escolas não deveria de ser
considerada como factor arbitrário uma vez que condicionava fortemente a qualidade do
ensino ministrado. Relativamente ao ensino primário, já na nomeação de uma anterior
comissão de estudo, o ministro considerara a necessidade de revisão da situação
existente ao nível do ensino oficial349. Essa mesma posição seria mantida relativamente
ao ensino particular:
“As actuais instalações da maioria das escolas particulares, obrigando
as crianças a permanecer em recintos acanhados durante horas
consecutivas numa promiscuidade condenável e perigosa acumulação,
não podem deixar de merecer ao Estado as devidas atenções,
exercendo sobre elas uma fiscalização directa, no intuito de
acompanhar o seu funcionamento (...) julga o Estado da maior
348
Portaria de 13 de Agosto de 1928, Diário do Governo, II Série nº 187 de 16 de Agosto de 1928.
349
Vide Supra nota 22.
165
O País a Régua e Esquadro
conveniência a publicação imediata do presente decreto estabelecendo
350
um mínimo de habilitação para o seu exercício.
Com a redacção da Portaria de 13 de Agosto de 1928351 Duarte Pacheco
determina a necessidade de intervenção ao nível do ensino liceal. Com a nomeação de
uma comissão de estudo, o ministro pretende obter informação precisa sobre a realidade
liceal existente e, pelo parecer da mesma comissão, encontrar as soluções necessárias ao
programa orgânico e objectivo do ensino liceal, de modo a executá-lo a partir do ano
lectivo de 1928-1929.
Na prática, esta medida cirúrgica de intervenção no sistema de ensino liceal
reflecte a posição de Duarte Pacheco: a necessidade de uma verdadeira reforma na
orgânica dos Liceus. Com efeito, à comissão de estudo são pedidos todos os elementos
que convergem nesse sentido: a delimitação da zona de influência pedagógica do liceu;
a fixação de lotação de alunos; a determinação das condições necessárias à primeira
matrícula no ensino liceal; a reorganização dos quadros docentes (efectivos e
agregados) e do pessoal administrativo; a revisão dos programas dos cursos
complementares de letras e ciências; a criação de um plano geral de trabalhos práticos
individuais para os cursos complementares; um plano normativo dos conteúdos
programáticos a leccionar nos liceus e por fim a regulamentação do regime de exames.
Ou seja, da admissão ao exame final, os liceus deveriam praticar um programa de
ensino a que presidisse a coordenação, a unidade e a eficiência.
E para que estes centros pedagógicos funcionassem de forma eficiente,
coordenada e unitária, impunha-se necessariamente a questão da melhoria material. Mas
porque a situação material dos liceus não era uniforme e Duarte Pacheco considerava
necessária uma padronização, decretou a criação de uma Junta Administrativa que,
respondendo às necessidades mais urgentes do ensino secundário, operasse o
melhoramento material dos liceus no cumprimento de um plano geral e metódico. A 11
de Setembro de 1928 Duarte Pacheco criava aquela que ficou conhecida pela
designação de Junta dos 40 Mil, embora o decreto a denominasse de Junta
Administrativa do Empréstimo para o Ensino Secundário352.
350
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 16 014, I Série, de 9 de Outubro de 1928.
351
Portaria de 13 de Agosto de 1928, Diário do Governo, II Série nº 187 de 16 de Agosto de 1928.
352
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 15 942, I Série, de 11 de Setembro de 1928.
Leia-se MONIZ, Gonçalo Canto, Op. Cit., pp. 135-138.
166
O País a Régua e Esquadro
Por condições materiais de ensino, o ministro entendia serem consideradas não
só as características dos edifícios escolares, mas também as instalações desportivas, o
mobiliário e o material didáctico. No cômputo destas condições residiria a verdadeira
função pedagógica dos estabelecimentos de ensino. Na prática da lei vigente, e porque
ao ensino liceal estava atribuída autonomia administrativa, os reitores e os conselhos
escolares decidiam o destino de aplicação das receitas directamente cobradas aos alunos
(propinas de matrículas, taxas de exame, certificados, emolumentos, entre outros).
Contudo, as condições materiais dos liceus não eram idênticas. Algumas escolas,
porque mais recentes e melhor equipadas, poderiam aplicar as suas verbas na renovação
de material didáctico de apoio, enquanto outras, depauperadas e mal instaladas, não
conseguiam ir além das pontuais medidas de reparação de uma instalação eléctrica ou
sanitária.
Acrescia ainda uma outra situação, no caso, referente à população estudantil
liceal. Do mesmo modo que relativamente ao ensino superior, o ministro considerara
como necessária a criação de residências estudantis para alunos deslocados, também no
domínio dos estudos liceais Duarte Pacheco defendia:
“a necessidade incontestável de instituir aos alunos cujos pais vivem
fora das localidades onde eles seguem os seus estudos, Residências de
Estudantes, que revistam todas as condições de ordem higiénica
353
propícias ao seu desenvolvimento físico (...)”
Com o decreto 15 942 Duarte Pacheco pretendia atribuir de forma igualitária e a
todos os estabelecimentos liceais as condições materiais de ensino necessárias à prática
satisfatória do ensino354.
A este programa de acção o ministro aplicava o mesmo método de viabilidade
que aplicara um ano antes no projecto das novas instalações do IST: o recurso ao
crédito. À Junta assim criada competiria a administração dos 40.000.000$00 a contrair
com a Caixa Geral de Depósitos e visando objectivos a cumprir a curto prazo:
“ (...) a construção de edifícios para o funcionamento dos liceus, a
conclusão dos já iniciados e a grandes reparações daqueles em que os
353
Idem.
354
Idem.
167
O País a Régua e Esquadro
referidos estabelecimentos de ensino funcionam e que constituem
pertença do Estado, e bem assim à aquisição do mobiliário e material
didáctico necessários aos mesmos liceus e ainda às despesas de
355
instalação das Residências de estudantes.”
Com esta medida, se por um lado o político procurava colmatar as deficiências
materiais do ensino liceal, numa segunda linha de análise, criava um órgão
administrativo central que retirava aos liceus a autonomia administrativa. Com efeito,
até então a gestão escolar havia sido realizada por reitores e conselhos escolares
representativos do poder camarário, mas com a instituição da Junta dos 40 Mil, passaria
a existir uma equipa de trabalho nomeada pelo ministro da Instrução Pública e a
funcionar no mesmo ministério.
A Junta dos 40 Mil, criada com o objectivo de planificar as obras dos liceus teria
de proceder a um exame das condições materiais de modo a dar balanço às suas
necessidades. E para a eficaz elaboração desse exame o ministro nomeara um
representante do Conselho de Inspecção do Ensino Secundário, um engenheiro, um
arquitecto, um médico e um representante da Contabilidade Pública356.
Uma vez mais o ministro socorria-se de uma equipa multidisciplinar e, a par do
parecer técnico e pedagógico, do parecer da engenharia civil e da contabilidade, gestão
e viabilidade financeira do projecto, o gabinete de trabalho ver-se-ia acrescido do
contributo dos pareceres da viabilidade arquitectónica e de salubridade, a que
correspondiam os trabalhos do arquitecto e do médico.
Também a 11 de Setembro de 1928 o jovem ministro mandava publicar em
Diário de Governo uma portaria lavrando um programa de incentivo à leitura.
Considerava Duarte Pacheco que os hábitos de leitura se revelavam não só vantajosos,
mas mesmo necessários à instrução e desenvolvimento mental dos alunos357. Por tal
facto, ordenava que se instituísse nos liceus uma política de aquisição de obras literárias
e que se instituísse também um serviço de leitura curricular e de empréstimo, a
355
Idem.
356
O representante do Conselho de Inspecção do Ensino Secundário e presidente da Junta seria Eusébio
Tagmanini, o engenheiro nomeado seria Francisco Maria Henriques, professor do IST, o arquitecto
nomeado seria Leonel Gaia, o médico o Dr. Francisco Gentil e o representante da Contabilidade Pública
seria Abel Maria Dias da Silva.
357
Diário do Governo, I Série, Portaria 5 589 de 11 de Setembro de 1928.
168
O País a Régua e Esquadro
organizar pelos professores de português, pois só assim se poderia proceder
convenientemente ao ensino da língua e da literatura portuguesa358.
Da actividade ministerial de Duarte Pacheco na pasta da Instrução Pública,
salientam-se ainda medidas como a autorização do serviço de leitura nocturna na
Biblioteca Nacional359, a classificação dos Teatros de S. Carlos e Nacional de Almeida
Garrett como imóveis de interesse público pelo seu valor artístico, pelas suas tradições
e notáveis qualidades arquitectónicas especiais360, ou a reabertura da Faculdade de
Direito de Lisboa, após promulgação da anterior lei orgânica361.
Nos sete meses de desempenho das funções ministeriais que lhe foram
atribuídas, Duarte Pacheco demonstrou saber dar resposta às directrizes traçadas pelo
chefe de governo para a pasta da Instrução. Contudo, na reforma ministerial de
Novembro de 1928 o nome de Duarte Pacheco já não constaria na formação da nova
equipa governativa. Com precisão, desconhecem-se as razões que levaram à
substituição do político, contudo, se atentarmos no programa de governo apresentado
em Abril de 1928 e a actividade ministerial desenvolvida por Duarte Pacheco,
constatamos que o ministro, embora cumprindo os objectivos traçados pelo plano de
governo, divergiu no alcance das linhas previamente traçadas.
Cumprindo as directivas respeitantes ao ensino primário e técnico, o político
ignorou as directivas do programa do governo e actuou em bloco. Duarte Pacheco
pensou uma reformulação e preenchimento de necessidades do ensino num todo: do
primário ao superior. Defendendo o conceito de «zona pedagógica», o ministro
acreditou na criação de uma nova orgânica nas escolas. Uma orgânica onde os recursos
humanos, administrativos, pedagógicos, didácticos, de conteúdos programáticos e
materiais respeitassem uma mesma unidade e assim actuassem de forma coordenada e
eficiente. Contudo, se relembrarmos as palavras de Vicente de Freitas em Abril de 1928,
entendemos o quanto em escassos meses Duarte Pacheco se distanciara do programa
ministerial:
358
Idem.
359
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 16 091, de 30 de Outubro de 1928.
360
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 15 962, de 17 de Setembro de 1928.
361
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 16 044, de 16 de Outubro de 1928, rectificado a 27 de
Outubro de 1928.
169
O País a Régua e Esquadro
“A [instrução] secundária e a superior não será preciso desenvolvê-las
com tanta intensidade e serão pagas por aqueles que as quiserem
362
receber”.
Duarte Pacheco não alterou regimes de propinas no ensino liceal nem no ensino
superior, mas ao decretar a necessidade de existência de residências estudantis para
alunos dos dois níveis de instrução, abria caminho a uma nova linha de actuação
política: a assistência social no ensino. E quando o ministro decretou a criação da Junta
dos 40 Mil, reconhecia oficialmente a necessidade de renovação material do ensino
secundário. Ou seja, o ministro reconhecia ao ensino secundário e ao superior tanta
«intensidade de desenvolvimento» quanto ao ensino primário oficial ou particular.
Contas feitas, de todos os níveis de ensino em que o jovem ministro actuou
politicamente, o menos tocado foi o ensino técnico: uma das bandeiras de salvação
erguidas no discursos político de Vicente de Freitas que defendia a intensificação do
ensino técnico agrícola363. E, talvez este facto justificasse a saída de Duarte Pacheco do
governo.
Duarte Pacheco regressaria em Novembro de 1928 ao seu espaço de recuo
político: a direcção do Técnico. No Ministério da Instrução Pública seria substituído por
Gustavo Cordeiro Ramos. Até 1936 o Ministério percorreria um gradual mas firme
trajecto de decomposição do sistema de ensino republicano até se transformar no
sistema educativo do Estado Novo. Com efeito, da gradual mudança de nome das
escolas, à alteração de programas, de professores e de direcções, o ministério foi,
paulatinamente esboroando a estrutura republicana de ensino364.
Deste modo, a Reforma do Ensino, operada por António Faria Carneiro Pacheco
em 1936 não alteraria apenas a designação do ministério, iria implantar uma nova
arquitectura de ensino no país. O organismo de Estado que em 1913 dera origem à
Instrução Pública transformava-se em 1936 no repositório da Educação Nacional.
Como republicano, em 1928 Duarte Pacheco defendera o incentivo dos hábitos
de leitura pois acreditava que ler constituía um elemento de principal importância para a
instrução e desenvolvimento mental dos cidadãos.
362
Declarações de Vicente de Freitas em Entrevista ao Diário de Notícias, 19 de Abril de 1928, página 4.
363
Vide Supra Nota 18.
364
ROSAS, Fernando, Nova História de Portugal, dir. Joel SERRÃO e A. H. de Oliveira MARQUES,
Portugal e o Estado Novo (1930-1930), Lisboa, Editorial Presença, 1992, páginas 456-460.
170
O País a Régua e Esquadro
Com o projecto educativo nacional de Carneiro Pacheco as primeiras letras bastariam
para que a nação apreendesse a lição de Salazar.
171
O País a Régua e Esquadro
3.2. Obras Públicas e Comunicações (1932-1936): o plano metódico
“Tendo sido restabelecido o antigo Ministério das Obras
Públicas, para nele se promover a concentração de todas as
obras de fomento que interessam à melhoria dos serviços do
Estado e das condições económicas da Nação, mormente
aquelas que pela sua importância técnica e valor económico
mais convém integrar num plano metódico de realização em
todo o País ...”
Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas e Comunicações,
Diário do Governo, preâmbulo ao Decreto-Lei nº 22 055, I
Série de 31 de Dezembro de 1932.
A 5 de Julho de 1932 Oliveira Salazar era empossado chefe do Governo e no
mesmo dia Duarte Pacheco tomava posse como ministro do Comércio e Comunicações,
tomando posse Sebastião Garcia Ramires como Ministro da Agricultura. Dois dias
depois era publicada no Diário do Governo a nova arrumação dos serviços dos
Ministérios do Comércio e Comunicações e da Agricultura365.
Numa reestruturação orgânica dos serviços ministeriais e tendo em vista reunir
sob a mesma direcção os principais serviços relativos à produção nacional, Duarte
Pacheco passaria a ministro das Obras Públicas e Comunicações e Sebastião Ramires
seria ministro do Comércio, Indústria e Agricultura.
O decreto de 7 de Julho de 1932, exarado pela Presidência do Conselho de
Ministros, não pretendia efectuar uma mera alteração de designação destes dois
gabinetes ministeriais. Reconhecia a necessidade funcional de separação orgânica de
vários serviços que, havendo nascido em 1852 sob uma mesma origem de âmbito legal
e prático, demonstravam há muito a urgência de reconhecimento autónomo no domínio
técnico e científico, do mesmo modo que demonstravam uma necessidade de execução
política distinta.
365
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 21 454 de 7 de Julho de 1932.
172
O País a Régua e Esquadro
Com efeito, o Decreto que a 30 de Agosto de 1852 criara o Ministério das Obras
Públicas, Comércio e Indústria, abrangia num mesmo gabinete ministerial os vários
assuntos relativos às pastas que lhe davam designação. Com três alterações de
regulamento dos serviços ministeriais entre os anos de 1852 e 1886, medidas que
visavam ajustes pontuais de optimização de serviço, a obra pública, as comunicações, o
comércio e a indústria permaneciam como assuntos indissociáveis no âmbito da acção
política. Novas reformas dos serviços ministeriais se viriam a verificar até 1903 e, para
além da obra pública, do comércio e da indústria, o Ministério ver-se-ia ainda acrescido
de uma quarta tutela: a agricultura366.
O Ministério das Obras Públicas, Comércio e Indústria que por 58 anos
mantivera a mesma designação, passaria, após a instituição do regime republicano, a
designar-se de Ministério do Fomento, contudo, a orgânica geral dos serviços manter-
se-ia idêntica367. Mais do que apostado na reestruturação eficaz dos serviços
ministeriais, o regime republicano estaria, nesta primeira fase de instituição política,
apostado em adaptar a designação do ministério a um léxico ideológico: um ministério
de fomento porque de progresso, de desenvolvimento.
Em 1917 assiste-se ao surgimento de uma nova designação: o Ministério do
Comércio368. Contudo, o decreto que atribuía novo nome à pasta, alterava
substancialmente a orgânica dos serviços. Uma permuta de tutelas entre o Ministério do
Comércio e o Ministério do Trabalho e Providência Social, determinava que os assuntos
relativos à Agricultura, Minas e Geologia transitassem para o Trabalho e Providência
Social. Em contrapartida, a par das obras públicas, comércio, indústria, monumentos e
saneamento, o Ministério do Comércio passaria a tutelar os assuntos relativos aos
Caminhos de Ferro, Administração do Porto de Lisboa e Administração de Correios e
Telégrafos.
Em 1919 nova reforma e nova designação viriam a ampliar as competências do
ministério. O anterior Ministério do Comércio, era agora o Ministério do Comércio e
Comunicações369. A criação de cinco direcções-gerais era já testemunho da importância
crescente das várias áreas de acção: Obras Públicas; Comércio e Indústria; Ensino
366
Decreto de 30 de Setembro de 1852 relativo ao Regulamento de 1852; Decreto de 5 de Outubro de
1859 relativo à Reforma de 1859; Decreto de 28 de Julho de 1886 relativo à Reforma de 1886; Decreto de
1 de Dezembro de 1892 relativo à reforma de 1892; Decreto de 28 de Dezembro de 1899 relativo à
Reforma de 1899 e Decreto de 21 de Janeiro de 1903 relativo à Reforma de 1903. Cfr. O Ministério das
Obras Públicas 1852/1977, Lisboa, Ministério das Obras Públicas, 1977.
367
Decreto de 8 de Outubro de 1910.
368
Decreto nº 3511 de 5 de Novembro de 1917.
369
Decreto nº 5541 de 9 de Maio de 1919.
173
O País a Régua e Esquadro
Industrial e Comercial; Trabalhos Geodésicos e Topográficos e Caminhos de Ferro. No
domínio da administração, a par da Administração do Porto de Lisboa, surgia já na
nova orgânica a exploração e administração de Outros Portos do País. Com a
reorganização de 1920370 o Ministério procedeu ainda a alguns reacertos a nível da
orgânica interna, contudo as competências manter-se-iam inalteradas.
A 7 de Julho de 1932 novas reformas e denominações surgiriam371. O Ministério
da Agricultura passaria a Ministério do Comércio, Indústria e Agricultura e colhia na
anterior orgânica do Ministério do Comércio e Comunicações as direcções-gerais de
Minas e Serviços Geológicos, das Indústrias, do Comércio, bem como o Instituto
Geográfico e Cadastral, a Bolsa de Mercadorias de Lisboa, os Armazéns Gerais
Industriais e a Comissão de Aproveitamento dos Carvões Nacionais.
O até então denominado Ministério do Comércio e Comunicações, pasta de que
Duarte Pacheco tomara posse como ministro, passaria a denominar-se de Ministério das
Obras Públicas e Comunicações. Da tutela da Agricultura transitava para as Obras
Públicas e Comunicações a Junta Autónoma de Obras de Hidráulica Agrícola. Este
organismo ia juntar-se aos outros treze que completavam o universo de trabalho
ministerial: o Gabinete do Ministro, a Secretaria-Geral do Ministério, o Conselho
Superior de Obras Públicas, as Pagadorias de Obras Públicas, a Direcção de Obras
Públicas do Distrito da Horta, A Direcção-Geral dos Edifícios e Monumentos
Nacionais, a Administração-Geral dos Serviços Hidráulicos e Eléctricos, a Junta
Autónoma de Estradas, a Administração-Geral dos Correios e Telégrafos, a
Administração-Geral do Porto de Lisboa, a Direcção-Geral dos Caminhos de Ferro e o
Fundo Especial de Caminhos de Ferro do Estado.
Oitenta anos volvidos, e nas palavras de Duarte Pacheco, estava decretado o
restabelecimento do:
“(...) antigo Ministério das Obras Públicas, para nele se promover a
concentração de todas as obras de fomento que interessam à melhoria
dos serviços do Estado e das condições económicas da Nação,
mormente aquelas que pela sua importância técnica e valor económico
370
Decreto nº 7036 de 17 de Outubro de 1920.
371
Decreto Nº 21 454 de 7 de Julho de 1932. Vide Supra, Nota 52.
174
O País a Régua e Esquadro
mais convém integrar num plano metódico de realização em todo o
372
País.”
O antigo Ministério das Obras Públicas a que se referia Duarte Pacheco era o
ministério de Fontes Pereira de Melo. O ministério de poder em que as infra-estruturas,
os equipamentos, o património, o saber técnico e o saber científico convergiam num
único objectivo: o desenvolvimento material do país. Com a criação do Ministério das
Obras Públicas em 1852, Fontes Pereira de Melo aglutinara num só gabinete a
concepção, construção, administração e fiscalização dos melhoramentos materiais do
país. Com o saber técnico português disponível e com a requisição de serviços de
engenheiros estrangeiros373, decretara a manutenção de estradas reais e criara estradas
municipais. Introduzira no país os caminhos-de-ferro e a telegrafia eléctrica, construíra
pontes e assegurara a navegação a vapor no Tejo e no Sado. E porque entendera que o
ensino da Engenharia necessitava de maior especificidade que não a obtida na
engenharia militar, promoveu a criação do Instituto Industrial.
De 1852 a 1932 a denominação e a orgânica do ministério haviam sofrido
alterações, mas o mesmo não sucedera com a missão e objectivos da pasta ministerial.
Em essência e embora com atribuições complementares, o ministério permanecera
como o organismo responsável pelas obras públicas de interesse nacional e vantagem
colectiva. Contudo, e embora transpareçam nas várias alterações orgânicas, não só a
pluralidade da acção ministerial, como a crescente importância das várias disciplinas
técnicas emergentes, a permanente fragilidade das contas públicas e a descontínua e
desprogramada política de melhoramentos reflectiu-se ao longo dos anos na ausência de
novas obras, na falta de manutenção do universo existente e no inevitável carácter
obsoleto de grande parte dos equipamentos devido à inexistência de uma política de
actualização. No que ao século XX diz respeito, de 1900 a 1926 não existiu uma política
nacional de infra-estruturização do país374.
Embora o Estado centralizasse as acções de intervenção no património histórico
nacional, a actuação da Administração Geral de Edifícios e Monumentos Nacionais
372
Definição de missão e objectivos do Ministério das Obras Públicas e Comunicações dada por Duarte
Pacheco no preâmbulo do decreto-lei que faz transitar do Ministério da Marinha para o MOPC o processo
de construção da Base Naval do Alfeite. Cfr. Diário do Governo, Decreto-Lei nº 22 055, I Série de 31 de
Dezembro de 1932.
373
Maioritariamente franceses.
374
NEVES, Emanuel Maranha, “Infra-estruturas em Portugal no Século XX”, in Momentos de Inovação e
Engenharia em Portugal no Século XX, volume I, Contexto, Lisboa, Publicações D. Quixote,
coordenação de Manuel Heitor, José Maria Brandão de Brito e Maria Fernanda Rollo, 2004, pp. 409-432.
175
O País a Régua e Esquadro
actuava em consonância com as verbas irrisórias que lhe eram atribuídas. À falta de
orientação política, técnica e científica que resgatasse da ruína o parque patrimonial,
acrescia a prática instituída de reutilização dos edifícios históricos para fins distintos aos
da sua construção375.
Embora o transporte de pessoas e bens se fizesse maioritariamente por caminho-
de-ferro, se em 1894 a rede ferroviária atingira os 2353 km, em 1905 a extensão não ia
além dos 2380 km. Em 10 anos os melhoramentos ferroviários eram de apenas 27 km.
Contudo se em 1894 a rede ferroviária servia cerca de 8 milhões de passageiros, em
1905 servia já 19 milhões376.
O estado de ruína e parca manutenção das estradas portuguesas, a par da
crescente importância do tráfego automóvel, foram factores que levaram à criação em
1927 de um organismo estatal centrado unicamente na sua construção, reconstrução,
administração e fiscalização: a Junta Autónoma de Estradas.
À data da criação do MOPC, no dealbar dos anos 30, o mercado interno
português materializava a evidente incapacidade produtiva do país. A caracterização
populacional era o espelho da nação: quatro quintos rural377. E num Portugal
maioritariamente rural, a paisagem agrária quase se dividia em duas grandes regiões: o
norte e o sul do rio Tejo378. Se a norte proliferavam as minúsculas parcelas do
minifúndio, com uma produção baseada nos produtos hortícolas, na vinha e no gado, a
sul o clima quente e seco sustentava a produção extensiva de trigo que obrigava a
longos pousios de cinco a sete anos379.
Ao nível da estratificação social, o Portugal rural dividia-se em dois grandes
grupos: os proprietários e os assalariados. Os «senhores da terra», grupo minoritário, era
formado pelos grandes proprietários absentistas, com os «senhores do vinho» a norte e
os «senhores do pão» a sul380. Os trabalhadores da terra eram maioritariamente
assalariados, pagos à jorna ou à semana e angariados pelos feitores das propriedades.381
375
NETO, Maria João, Memória, Propaganda e Poder. O Restauro dos Monumentos Nacionais (1929-
1960), Porto, FAUP, 2001, página 87 e seguintes.
376
Idem, Op. Cit., página 410.
377
FRANÇA, José-Augusto, Os Anos Vinte em Portugal, Lisboa, Editorial Presença, 1992, página 265.
378
AMARAL, Luciano do, A «grei agrária» in História de Portugal, dir. José Mattoso, Lisboa, Círculo
de Leitores, 1994, pp. 31-59.
379
Idem, Op. Cit., pág. 33.
380
Idem, Op. Cit., pág. 41
381
De entre o pessoal assalariado evidenciavam-se ainda dois subgrupos, o rendeiro e o caseiro. Neste
domínio, os assalariados cultivavam para si próprios uma parcela de terreno cedida pelo proprietário. Para
aprofundamento do tema Vide AMARAL, Luciano do, O país dos caminhos que se bifurcam: política
agrária e evolução da agricultura portuguesa durante o Estado Novo. 1930-1954, Lisboa, dissertação de
176
O País a Régua e Esquadro
As condições de vida neste Portugal «quatro quintos rural», traduzia-se na
crueza dos números revelados pelos inquéritos e estatísticas da época382: um Portugal
80% analfabeto, com uma taxa de mortalidade infantil a rondar os 150%. A alimentação
era pobre no teor calórico e proteico. Nas habitações não existiam instalações sanitárias
e à falta de higiene somava-se a promiscuidade de adultos e crianças viverem e
dormirem nos mesmos compartimentos, muitas das vezes partilhados até com os
animais domésticos.
Num Portugal «quatro quintos rural» pouca margem era deixada à indústria e ao
comércio. Num país com uma produção agrícola quase artesanal quase não existia
mercado: faltavam alimentos, matéria-prima e consumidores383. No domínio da
industrialização os postos fabris surgiam por surtos de crise económica. Só na
constatação da impossibilidade de se importar se abria margem a uma produção
industrial substitutiva. O tecido industrial português era maioritariamente composto por
empresas descapitalizadas e quase sempre dependentes do Estado. E mão-de-obra fabril
não qualificada tinha origem semi-camponesa384.
O Ministério das Obras Públicas e Comunicações, criado por decreto a 7 de
Julho de 1932, quer na sua orgânica interna, quer nas opções estratégicas de actuação,
não alterando a matriz económica do país, alteraria consideravelmente o seu quadro
infra-estrutural.
Desde logo a denominação do Ministério marca as suas duas frentes de
actuação: as Obras Públicas e as Comunicações. Criado um ano antes da afirmação
constitucional do regime, o MOPC desempenharia a partir de 1932, um papel
importante na consolidação do regime político em crescendo: o Estado Novo. No
domínio das Comunicações e até 1939 o MOPC seria responsável por 15,5% da despesa
pública385. Até 1939 a rede de estradas alcançaria os 500km e absorveria 32% das
despesas do ministério. Os melhoramentos portuários absorveriam 40% da verba386.
No dealbar do segundo quartel do século XX Portugal era um país periférico,
dependente dos combustíveis sólidos e líquidos vindos do exterior. Cerca de 90% do
comércio externo era efectuado por via marítima, facto que justifica a aposta nos
mestrado apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa,
1993.
382
AMARAL, Op. Cit., pp. 41-59.
383
ALVES, Carlos Garcia, “A «indústria nacional» in História de Portugal, dir. José Mattoso, Lisboa,
Círculo de Leitores, 1994, pp. 61- 99.
384
Idem, Op. Cit., página 62.
385
Idem, Op. Cit., página 412.
386
NEVES, Emanuel Maranha das, Op. Cit., pp. 411-412.
177
O País a Régua e Esquadro
melhoramentos portuários387. No dealbar do segundo quartel do século XX e embora
crescesse o debate sobre a necessidade de industrialização do país, o Estado optava por
dar primazia às vias de comunicação, acreditando que a mobilidade de pessoas e bens
bastariam para incrementar o mercado interno. Contudo, o mercado interno vivia
maioritariamente de uma produção agrícola pouco desenvolvida e de uma indústria
pouco mais que tradicional, como atrás se referiu.
No domínio das Comunicações, o MOPC procurou equipar o país com as infra-
estruturas necessárias à circulação de pessoas, bens e serviços inerentes à economia
praticada, defendida e instituída pelo regime. No domínio das Obras Públicas o MOPC
procuraria promover a concentração de todas as obras de fomento que interessa[va]m à
melhoria dos serviços do Estado e das condições económicas da Nação, como afirmava
Duarte Pacheco. O pragmatismo orgânico do Ministério recém-criado iria revelar uma
vez mais o método de trabalho deste político. Como o próprio afirmaria: num plano
metódico de realização em todo o País.
O plano metódico levaria três meses a ser gizado. Tendo tomado posse a 5 de
Julho de 1932, por todos os meses de Julho e Agosto o ministro procura responder a
assuntos correntes do ministério. Compulsando-se o Diário do Governo e a sua
produção legislativa apercebemo-nos de uma actividade ministerial centrada no reforço
da dotação orçamental, bem como na manutenção das obras portuárias do Douro, de
Leixões e do Rio Mondego. Do mesmo modo se denota a preocupação em impulsionar
as obras adstritas à Administração Geral de Correios e Telégrafos388.
A 30 de Setembro de 1932 o Diário do Governo publicava o plano metódico do
ministro. Dos catorze organismos que constituíam o MOPC, três desempenhariam um
papel crucial na transformação material do país389.
À Junta Autónoma de Estradas organismo a que, desde a sua criação em 1927,
competia o serviço de manutenção corrente das vias existentes, bem como os serviços
de construção e grande reparação, novas competências seriam atribuídas. Na orgânica
do MOPC as atribuições da JAE não se limitavam ao universo das vias de comunicação.
Com o decreto de 30 de Setembro de 1932 Duarte Pacheco atribuía a este organismo o
programa de melhoramentos rurais. A «obra de melhoramentos rurais» fora decretada
387
.Idem, Op. Cit., pp. 411-412.
388
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 21 459 de 15 de Julho de 1932; Decreto – Lei nº 21 489 de 22 de
Julho de 1932, entre outros.
389
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 21 454 de 7 de Julho de 1932.
178
O País a Régua e Esquadro
em 1931390 com o intuito de o Estado dotar as populações rurais de trabalhos públicos
locais. Em Setembro de 1932 Duarte Pacheco reconhecia a necessidade de intensificar
esses mesmos trabalhos e considerava como melhoramentos rurais:
“(...) as obras de interesse local e vantagem colectiva a executar fora
dos centros urbanos e das sedes dos concelhos, compreendendo a
construção ou reparação de estradas municipais, estradas não
classificadas, caminhos vicinais, pavimentos, chafarizes, tanques,
391
lavadouros e obras semelhantes.”
À Direcção Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais que, desde a data de
criação em 1929, zelava pela manutenção, conservação e restauro do património
arquitectónico e arqueológico classificado, passaria a estar agregado o programa de
melhoramentos urbanos:
“São considerados melhoramentos urbanos as obras de interesse local
e vantagem colectiva a executar fora dos grandes centros,
compreendendo a realização de planos de urbanismo, a construção, a
transformação e reparação de escolas primárias, escolas profissionais
elementares, liceus municipais, hospitais e outros edifícios de
392
assistência, museus e monumentos nacionais.”
À DGEMN competia a orientação técnica e a fiscalização das obras de
melhoramentos urbanos e, segundo o decreto, competia também ao mesmo organismo o
estabelecimento de um acordo com as entidades locais sobre os programas de
urbanismo a realizar. Aos organismos locais competia a apresentação de um programa
de obras necessárias, do mesmo modo que competia ao Ministério da Instrução Pública
a apresentação de um programa geral de construção, ampliação ou reparação de escolas.
Reconhecendo a necessidade de resolver o estado sanitário do País, à
Administração Geral dos Serviços Hidráulicos e Eléctricos passaria a competir a
orientação técnica das câmaras municipais na realização do programa de melhoramentos
390
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 19 502 de 20 de Março de 1931.
391
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 21 696 de 30 de Setembro de 1932.
392
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 21 697 de 30 de Setembro de 1932.
179
O País a Régua e Esquadro
de águas e saneamento, bem como a elaboração dos estudos e projectos de obras a
realizar, reforma das obras existentes e fiscalização do universo construído:
“São consideradas melhoramentos de águas e saneamento as obras de
captação e distribuição de água e o estabelecimento, beneficiação e
ampliação de redes de esgoto nas vilas e povoações importantes e nas
393
cidades com excepção dos grandes centros.”
A par dos programas específicos que compunham os melhoramentos rurais,
urbanos e de águas e saneamento, programas de trabalhos a realizar a uma escala
municipal, todos os catorze organismos que compunham o MOPC trabalhavam de
forma articulada a uma escala total do território naquilo a que Duarte Pacheco
designava de grandes obras públicas394, ou seja, as infra-estruturas de interesse nacional
e vantagem colectiva.
Ainda antes de decretar o triplo plano de acção do programa de melhoramentos
regionais, no que ao domínio das grandes obras públicas diz respeito, Duarte Pacheco
instituiu uma comissão administrativa para dirigir as obras de construção do Instituto
Português de Oncologia395 e chamou à competência do seu ministério todos os serviços
relativos à fiscalização e construção de novas obras relativos ao abastecimento de
águas à cidade de Lisboa396.
Até ao final do ano de 1932 dois outros decretos exarados pelo gabinete do
ministro seriam determinantes no gizado plano das grandes obras públicas.
A uma escala nacional passariam a estabelecer-se zonas de protecção dos
edifícios públicos de reconhecido valor arquitectónico397. As zonas de protecção seriam
fixadas mediante parecer do Conselho Superior de Obras Públicas e da DGEMN e de
quaisquer juntas ou comissões autónomas e administrativas de Estado que o julgassem
necessário. Sempre que se tratasse do estabelecimento de uma zona de protecção
relativa a um Monumento Nacional as propostas careciam de parecer do Conselho
Superior de Belas Artes.
393
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 21 698 de 30 de Setembro de 1932.
394
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 21 699 de 30 de Setembro de 1932.
395
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 21 633 de 2 de Setembro de 1932.
396
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 21 635 de 2 de Setembro de 1932.
397
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 21 875 de 18 de Novembro de 1932.
180
O País a Régua e Esquadro
Contudo, este decreto-lei não salvaguardava unicamente as zonas de protecção
dos monumentos nacionais e dos edifícios públicos de reconhecido mérito. Pretendia-se
também a criação de uma zona de protecção dos edifícios públicos a construir. Para tal,
todos os projectos de novos edifícios ou grandes reconstruções em edifícios do Estado
passariam a carecer de aprovação directa do Ministro das Obras Públicas e
Comunicações. Do mesmo modo, nenhuma construção ou reconstrução estatal, se
inserida numa zona de protecção, poderia ser efectuada sem prévia autorização do
ministro. O mesmo decreto retirava às câmaras municipais o poder de concessão de
licenciamento de obras nos perímetros de salvaguarda sem prévia autorização
ministerial. O mesmo documento exigia ainda que a construção dos novos edifícios do
Estado se subordinasse aos planos de urbanização estabelecidos pelos municípios ou
pela DGEMN.
O decreto de 18 de Novembro, mais do que decretar uma zona especial de
protecção do património histórico e dos edifícios notáveis, munia o ministro das Obras
Públicas e Comunicações do direito de veto sobre os futuros projectos municipais e
particulares, do mesmo modo que munia o ministro do direito de expropriação, ao
abrigo de uma eventual zona de protecção de edifícios a construir. Com quatro meses de
governação e não estando ainda identificadas as grandes obras públicas a realizar, o
ministro, fiel ao seu pragmático método de trabalho, antecipava-se a qualquer
eventualidade procedendo à regulamentação de um processo construtivo centralizado no
seu gabinete.
A fechar o ano de 1932 o MOPC integrava no seu plano metódico de
realizações, as obras do Arsenal do Alfeite, até então na dependência do Ministério da
Marinha398. Aproveitando os estudos e projectos já realizados, cumpria agora ao MOPC
a elaboração do plano definitivo da obra. Numa articulação entre ministérios, previa a
lei que a comissão administrativa da obra respondesse aos dois ministros, contudo, todo
o processo projectual e construtivo ficaria a cargo do MOPC.
A necessidade de concentração dos vários serviços inerentes à arma da Marinha
era um assunto debatido em Lisboa desde finais do século XIX. Contudo, do processo
de decisão à possibilidade de concretização da obra, da viabilidade dos projectos
apresentados à viabilidade financeira de execução, todos os factores contribuíram para
uma diluição do processo no tempo.
398
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 22 055 de 31 de Dezembro de 1932.
181
O País a Régua e Esquadro
Esta alteração de tutela do processo e projecto de transferência da Base Naval de
Lisboa para o Alfeite, se bem que justificada pela subordinação ao cálculo e
programação de um plano geral de obras infra-estruturais a realizar, deixa transparecer o
crescendo aglutinador do gabinete ministerial de Duarte Pacheco.
Com efeito, ao abrigo do plano metódico das grandes obras públicas, o MOPC
não só herda a continuidade de execução de obras em curso e que anteriormente
estavam sob tutela dos organismos estatais que delas beneficiariam, como passará a
tutelar a quase totalidade das futuras construções.
Ainda relativamente ao decreto que chama ao MOPC o processo construtivo da
Base Naval do Alfeite, e porque o documento legal reflecte o modo transversal de
actuação do gabinete ministerial de Duarte Pacheco, importa sublinhar a forma
articulada e programada de pensar a obra pública. Com efeito, não só se verificava a
necessidade de concentração dos serviços de uma arma de defesa nacional num local
mais recatado aos olhares, embora amplo nas instalações, como se verificava a
necessidade crescente de expansão urbanizada da própria cidade de Lisboa. Tomando
posse do processo construtivo da base naval, o ministério ganhava margem de manobra
para actuar noutros capítulos de competências inerentes à sua orgânica, no caso a
valorização do Porto de Lisboa e a urbanidade da cidade capital:
“ (...) é cada vez mais urgente a mudança do velho Arsenal de Lisboa,
cuja situação rouba a esta cidade o mais belo passeio marginal, além
do prejuízo que para os serviços do porto de Lisboa, o primeiro do
País, representa a inutilização de toda aquela importante frente
marítima, que deverá sem dúvida ser o centro da sua maior actividade
marítima de turismo (...) não falando da necessidade absoluta,
reconhecida já muitos anos, de descongestionar o intenso trânsito da
Rua do Arsenal, abrindo uma nova artéria marginal de comunicação
399
entre a Praça do Comércio e o Cais do Sodré.”
O breve trecho acima citado é indicador do método de trabalho programado e
articulado, da planificação de quase esquadria métrica com que o gabinete de trabalho
de Duarte Pacheco procederá à infra-estruturização do país. Trabalhando cada projecto
de forma profunda e cirúrgica, o gabinete ministerial não perde a visão de conjunto de
399
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 22 055 de 31 de Dezembro de 1932.
182
O País a Régua e Esquadro
um plano maior onde as várias realizações programadas avançam de forma coordenada,
independentemente do facto de se tratar de uma obra de beneficiação, ampliação,
transferência, construção ou planificação urbana. Com efeito, o ministro e os seus
colaboradores procedem inicialmente a uma triagem de diagnóstico de necessidades.
Num sistema de pirâmide e ao abrigo da programação de obras, são solicitadas às
direcções-gerais, às administrações-gerais e às juntas que façam chegar ao gabinete
ministerial todas as necessidades de manutenção, reparação e construção. Em face dos
inquéritos efectuados, na concordância e aprovação ministerial dos projectos, e no
respeito de um programa geral de realizações, o Ministério procede à distribuição das
verbas orçamentais400.
E a questão das verbas orçamentais, condição indispensável à viabilidade de
qualquer projecto, foi também programada pelo ministro. A 30 de Setembro, quando
decretou o «plano de ataque» à escala regional: o plano de melhoramentos rurais,
urbanos e de saneamento, o MOPC decretou também a criação do Comissariado e do
Fundo do Desemprego401.
O político que em 1927 conseguira o financiamento das obras de construção das
novas instalações do IST402 e que em 1928 conseguira um plano de financiamento para
a renovação material dos Liceus403, experimentava agora a uma escala nacional uma
solução de financiamento dos melhoramentos materiais do país, do mesmo modo que
canalizava para as obras públicas uma parte considerável da mão-de-obra necessária à
sua concretização.
No preâmbulo ao decreto que institui a criação do Comissariado do
Desemprego, encontramos a crueza do Portugal «quatro quintos rural» traduzida em
números. Em Agosto de 1931 o Estado iniciara um inquérito sobre a crise do
desemprego404 e os resultados revelaram-se preocupantes. Num primeiro apuramento
registaram-se 38.200 desempregados, mas em Dezembro do mesmo ano o número
subiria para os 39.200. Em Março de 1932 era já de 40.100 e em Junho atingiria os
41.600. Até ao final do mês de Julho uma descida acentuada da taxa de desemprego
cifrava-se nos 26.400, contudo, o decréscimo não correspondia a nenhuma medida de
combate ao desemprego, significava apenas que cerca de 15.000 indivíduos que de
400
Cfr. A Lei Orgânica do Ministério das Obras Públicas e Comunicações in Diário do Governo, I Série,
Decreto-Lei nº 21 454 de 7 de Julho de 1932.
401
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 21 699 de 30 de Setembro de 1932.
402
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei 13.113 de 1 de Fevereiro de 1927.
403
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 15 942 de 11 de Novembro de 1928.
404
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 20 222 de 15 de Agosto de 1931.
183
O País a Régua e Esquadro
Outubro a Março não encontravam colocação, chegada a época das colheitas e das
debulhas de trigo a sul do Tejo, encontravam nos meses de Verão o único trabalho
possível: o sazonal. Finda a colheita e a debulha do trigo e, pelo final do Verão, a
apanha da azeitona, os números do desemprego voltariam a subir até Junho no ano
seguinte.
Na observância dos números apurados no inquérito, considerava o governo a
distinção entre «desemprego absoluto» e «desemprego rural temporário», bem como a
distinção profissional dos desempregados. No grupo I eram considerados os
empregados bancários e comerciais, pessoal de escritório ou equiparados. No grupo II
os oficiais, ajudantes e aprendizes de qualquer ofício, à excepção da construção civil
que cumpria o grupo III. No grupo IV identificavam-se os serventes e trabalhadores sem
ofício definido. Neste último grupo o governo fazia ainda a distinção entre «urbanos» e
«rurais».
Tomando por referência o censo de Junho de 1932 (41.600 desempregados), mas
retirando ao resultado da soma 600 indivíduos por considerar estatisticamente
imprudente fixar números aproximados abaixo da casa do milhar, afirmava o governo
que ao grupo I correspondiam 3000 desempregados, o grupo II se fixava nos 13.000, o
grupo III nos 6000 e no grupo IV 4000 desempregados urbanos e 15000 desempregados
rurais.
Conhecidos os números, cumpria ao governo organizar o auxílio. Contudo, e ao
contrário das medidas operadas em países de elevada cultura, o governo não pretendia
distribuir qualquer subsídio gracioso ou esmola do erário. Considerando o governo que
Portugal não se encontrava na precária situação de países como os Estados Unidos da
América, Inglaterra ou Alemanha, encarava-se o problema do desemprego de uma outra
forma:
“Não se dão esmolas, procura dar-se trabalho (...) Num País em que
tanta coisa útil há para fazer, é quase ironia que nele haja alguém que
405
não tenha trabalho.”
Num país em que tanta coisa de útil havia para fazer, considerava o governo
como prioritários os trabalhos de melhoramentos rurais, melhoramentos urbanos, águas
e saneamento, limpeza de valas e ribeiras e arborização. Para a execução destes mil
405
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 21 699 de 30 de Setembro de 1932, página 1976.
184
O País a Régua e Esquadro
pequenos trabalhos406 o governo iria canalizar indivíduos pertencentes aos grupos III e
IV do universo de desempregados, ou seja, oficiais, ajudantes e aprendizes do ramo da
construção civil e serventes, e ainda os trabalhadores sem ofício definido. Na prática, o
governo canalizava para o plano de melhoramentos materiais do país a mão-de-obra
menos qualificada e que correspondia em grande parte à percentagem flutuante da taxa
global de desempregados.
Estando o plano de melhoramentos materiais definido e a mão-de-obra
necessária à sua execução recrutada nos números fornecidos pelo Comissariado do
Desemprego, bastava encontrar uma forma de financiamento que assegurasse o
pagamento dos salários e dos projectos de obra. E a fórmula estava já estabelecida.
Porque não bastava o braço protector dos poderes públicos, e porque o interesse
era colectivo e exemplo de humanidade e de civismo, o governo chamava a esta
iniciativa a contribuição dos particulares empregados e empregadores. Deste modo:
“Todos os que empreguem normalmente um ou mais empregados e
operários em indústria ou comércio concorrerão em cada mês, para o
Fundo de Desemprego com 1 por cento da importância paga em
salários, vencimentos, gratificações, percentagens, subsídios, prémios,
diuturnidades ou quaisquer outras remunerações fixas ou eventuais e,
correspondentemente cada um dos empregados ou operários com 2
407
por cento do que no mesmo mês receber, sob qualquer rubrica.”
Na prática, por cada trabalhador activo no ramo privado, o Fundo de
Desemprego passaria a auferir mensalmente 3% do valor salarial praticado. Se o
empregado contribuía com 2% do vencimento, a entidade empregadora contribuía com
1%.
Contudo, a contribuição obrigatória para o Fundo de Desemprego não se
limitava às actividades de comércio e indústria. Também as actividades liberais eram
chamadas a esta contribuição:
“Os gerentes, administradores e quaisquer outros indivíduos
directamente encarregados da gestão das empresas e sociedades e que
406
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 21 699 de 30 de Setembro de 1932, página 1977.
407
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 21 699 de 30 de Setembro de 1932, Artigo 20º, página
1979.
185
O País a Régua e Esquadro
por elas sejam remunerados, e os engenheiros, médicos e advogados e
quaisquer técnicos ao serviço das mesmas empresas, com carácter
permanente ou temporário, são igualmente sujeitos à dedução da
408
percentagem fixada.”
À contribuição de 2% estavam ainda obrigados os trabalhadores assalariados e
os administradores dos estabelecimentos ou empreitadas do Estado,409 bem como os
proprietários rústicos e urbanos410.
A totalidade das contribuições seria mensalmente depositada na Caixa Geral de
Depósitos. Ao Comissariado do Desemprego cabia a gestão do fundo monetário obtido
bem como o recrutamento, distribuição e transporte dos desempregados
preferencialmente para as obras de melhoramentos da área da sua residência ou região,
mas se necessário fosse, para as regiões onde houvesse falta de braços e oferta de
trabalho.
Com a criação do Fundo de Desemprego e do seu órgão gestor, o Comissariado,
o MOPC conseguia de uma só vez chamar à sua guarda, não só o controlo e distribuição
da mão-de-obra para os planos de melhoramento material do país, como o pagamento
dessa mesma mão-de-obra através de um fundo financeiro paralelo à dotação
orçamental anual do ministério.
Embora à data da sua criação o governo considerasse que o Comissariado do
Desemprego seria de duração temporária, devendo ser extinto pelo Governo quando o
estado de crise de trabalho o aconselhasse, esta forma paralela de obtenção de verbas e
canalização de mão-de-obra para os planos de melhoramentos urbanos, rurais, de
abastecimento de água e saneamento, bem como de arborização e policiamento de
estradas, manter-se-ia durante quase todo o período de vigência do regime.411
Acresce ainda o facto de que as verbas obtidas através do Fundo do Desemprego
não serviram unicamente para o pagamento dos salários e transporte dos assalariados
para os estaleiros de obra em curso. Parte da verba obtida nas deduções mensais
previstas na lei passaria a ser canalizada para o orçamento das próprias obras. E se de
início este passo de engenharia financeira permitiu pôr em marcha o plano de
408
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 21 699 de 30 de Setembro de 1932, § 4º, página 1979.
409
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 21 699 de 30 de Setembro de 1932, § página 1979.
410
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 21 699 de 30 de Setembro de 1932, Artigo 22º, página
1980.
411
Vide Boletins do Comissariado do Desemprego 1934-1971, Lisboa, Imprensa Nacional, Boletins
mensais de 1934 a 1971.
186
O País a Régua e Esquadro
melhoramentos urbanos, rurais, de abastecimento de água e saneamento, em pouco
tempo parte do Fundo passaria também a ser utilizado na realização das grandes obras
públicas e na salvaguarda dos monumentos nacionais.
Na consulta da mais variada documentação processual produzida pelo MOPC e
apenas a título de exemplo, refira-se que em obras tão díspares como a obra de
abastecimento de água à vila de Mangualde entre 1935 e 1938, o transporte de material
para a construção do Anexo do Museu de Arte Antiga entre 1934 e 1943, ou as obras de
restauro da Igreja de Santa Maria do Castelo de Abrantes entre 1941 e 1943, é
inequívoca a presença de mão-de-obra bem como a comparticipação financeira por
parte do Comissariado do Desemprego nas três empreitadas412.
De 7 de Julho a 31 de Dezembro de 1932, o organismo de Estado que fora o
Ministério do Comércio e Comunicações e se transformara no Ministério das Obras
Públicas e Comunicações, conseguia num espaço de 6 meses munir-se de uma malha
legal de tal modo densa, que se permitiria avançar de forma firme sobre todo o território
nacional.
A lei orgânica do MOPC, no domínio de todas as suas missões e objectivos, e ao
abrigo de uma orientação única com maior benefício para o País413, justificava a
absorção por parte deste ministério de uma quantidade considerável de competências
que anteriormente eram tuteladas por outras pastas ministeriais. Porque os
melhoramentos e obras anteriormente a cargo de outros organismos passavam ao abrigo
da lei, a estar sob alçada do MOPC, o ministério recém-criado, figura tutelar e única
orientadora do processo construtivo, fazia ainda reverter a seu favor parte considerável
das verbas anteriormente atribuídas aos outros ministérios.
Com esta medida o MOPC retirava aos demais ministérios a competência legal
de decisão no processo projectual e construtivo de toda e qualquer empreitada e
reconhecia-lhes apenas a especificidade da competência técnica. Aliás, este facto está
bem presente nas inúmeras comissões administrativas de obras então criadas e em que, a
par dos arquitectos e engenheiros de obra colaboradores do ministério, se encontram
412
Sobre a participação do Comissariado de Desemprego na campanha de preservação do património
arquitectónico Vide NETO, Maria João, Op. Cit., pp. 157 e seguintes. Vide FRANCO, António Sousa,
“As Finanças do Estado Novo: o mito realizado e os seus frutos”, in História de Portugal dos tempos pré-
históricos aos nossos dias, dirigida por João Medina, Amadora, Ediclube, volume XII.
413
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 21 454 de 7 de Julho de 1932.
187
O País a Régua e Esquadro
também os representantes dos organismos ou instituições beneficiários das mesmas
obras414.
Por outro lado quando o MOPC chamou a si a definição das zonas de protecção
não só do património histórico edificado, como o dos edifícios públicos de Estado,
chamava à figura ministerial a última decisão no âmbito da construção pública,
municipal e particular415. Acresce ainda o facto de que esta lei se tornava extensível aos
edifícios públicos a construir.
Se a esta capacidade de aglutinação de projectos e unicidade do poder último de
decisão a que o MOPC se reserva, aliarmos a manobra de engenharia financeira e
recrutamento de mão-de-obra que encontramos na criação do Fundo e do Comissariado
do Desemprego, e anexarmos ainda a «sempre que necessária» lei das expropriações ao
abrigo da utilidade pública, temos reunidas todas as condições par compreender a forma
de blindagem legal da qual o MOPC se muniu para poder pôr em prática o plano
metódico de realização em todo o País, que Duarte Pacheco afirmava ser possível e
para, através dele, se promover a concentração de todas as obras de fomento416.
No dia 30 de Dezembro de 1932, o ministro das Obras Públicas e Comunicações
revelava ainda uma outra intenção:
“Tenciona, é facto, o Governo fazer uma remodelação completa dos
serviços de obras públicas para os dotar com uma organização bem
417
ordenada que corresponda às necessidades actuais”.
Contudo, a reorganização dos serviços do ministério não aconteceria antes de
Novembro de 1935. Até lá só se efectuariam alterações parciais de serviço,
nomeadamente no recrutamento de técnicos especializados, com especial incidência
para os engenheiros e os arquitectos.
Aliás, a aposta de Duarte Pacheco nas qualificações técnicas superiores dos
quadros do MOPC, será uma constante ao longo do cumprimento dos dois mandatos. E
414
Apenas a título de exemplo refira-se que no que às Construções Hospitalares confere, as comissões
administrativas revelam na sua composição a presença de médicos, uma vez que como profissionais de
saúde, sabiam, no domínio das suas competências, as necessidades a que o programa fixo de uma nova
construção teria de saber responder. Do mesmo modo, às comissões administrativas das Construções
Escolares eram presentes professores ou na edificação de um museu era elemento constituinte da
comissão administrativa um profissional de museologia.
415
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 21 875 de 18 de Novembro de 1932.
416
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 22 055, I Série de 31 de Dezembro de 1932.
417
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 22 049, I Série de 30 de Dezembro de 1932.
188
O País a Régua e Esquadro
esta aposta começou desde logo na selecção dos colaboradores directos do ministro: os
chefes de gabinete.
De Julho de 1932 a Maio de 1935, ou seja, na quase totalidade de cumprimento
da primeira presença de Duarte Pacheco nas Obras Públicas e Comunicações, o seu
chefe de gabinete foi o engenheiro João Carlos Alves.
Quando em 1932 Duarte Pacheco aceitou a pasta das Obras Públicas e
Comunicações, confiou a um assistente as disciplinas que como professor tinha a cargo
no IST, e confiou a Beirão da Veiga a direcção interina do Instituto. Mas não entrou
solitário no gabinete ministerial. Do Técnico trazia para a chefia do gabinete do MOPC
o colega João Carlos Alves, então docente dos trabalhos práticos da disciplina de
Estradas e Caminhos de Ferro418. Ao Técnico requisitou ainda dois assistentes para no
MOPC desempenharem a função de secretariado das actividades ministeriais419.
No gabinete ministerial, na assessoria directa ao ministro revelar-se-ía
irrepreensível e, no domínio do apoio técnico, João Carlos Alves revelar-se-ía uma
aposta ganha. A ele se deve a responsabilidade dos primeiros estudos relativos ao
abastecimento de água à cidade de Lisboa.
A falta de água em Lisboa era um problema recorrente mas o crescimento
constante da população agravava a situação. À parte da pressão imposta pelas
necessidades populacionais, acresciam a tomada de consciência de necessidade de
progressos domésticos, de higiene e de salubridade. Também a crescente instalação
industrial se revelava um factor de exigência acrescido no domínio do abastecimento de
água.
Recordemos que uma das primeiras medidas de Duarte Pacheco como Ministro
das Obras Públicas e Comunicações foi a de resgatar para a sua tutela todos os trabalhos
relativos ao abastecimento de água à cidade de Lisboa420. Efectuando a 18 de Novembro
de 1932 e em nome do governo, a revisão de contrato com concessionária Companhia
das Águas de Lisboa421, sem sequer dar conhecimento das condições desse mesmo
contrato ao segundo outorgante, Duarte Pacheco fazia elevar o preço da água para 1$30
com o objectivo de fazer reverter para um Fundo de Obras o remanescente das receitas
da dita Companhia e assim custear as necessárias obras de beneficiação ao
418
IST, Núcleo de Arquivo, Processos Individuais de Professores, Processo de João Carlos Alves.
419
João Carlos Alves, Chefe de Trabalhos Práticos do IST e António Joaquim Simões Crespo e Fernando
Manuel Duarte Silva, assistentes do IST tomariam posse no dia 11 de Julho de 1932. Diário do Governo,
II Série, 11 de Julho de 1932.
420
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 21 635 de 2 de Setembro de 1932.
421
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 21 879 de 18 de Novembro de 1932.
189
O País a Régua e Esquadro
abastecimento de água à cidade. À Companhia das Águas de Lisboa restavam duas
opções: assinar o contrato ou ver desmantelada a empresa. O contrato foi assinado a 31
de Dezembro de 1932 e o ministro encontrava através de um Fundo de Obras, a solução
para custear as obras que fariam chegar um generoso caudal diário de água, não só a
Lisboa, como à Costa do Sol e aos conselhos de Sintra, Loures, Vila Franca e
Azambuja422.
Também a solução de obtenção de uma verba especificamente destinada às
necessárias obras para o reforço de abastecimento de água, foi politicamente gerida por
Duarte Pacheco. Na prática, a solução era a mesma de sempre, embora adaptada a um
universo específico. Se no caso do Fundo do Desemprego o governo procedia à colecta
de uma percentagem dos rendimentos dos assalariados, das entidades empregadoras,
dos profissionais liberais e dos proprietários rurais e urbanos, fazendo reverter para o
dito fundo um maneio financiador de obras generalizadas, o Fundo de Obras presente
no novo contrato assinado com a empresa concessionária da exploração de
abastecimento de água à cidade de Lisboa, funcionaria como uma verba paralela ao
orçamento do Ministério e concorreria para o reforço da dotação necessária à avultada
campanha de obras.
No domínio técnico, todo o processo de abastecimento de água, não só à cidade
de Lisboa como à região da grande Lisboa, foi encaminhado por João Carlos Alves.
Bom conhecedor das matérias o engenheiro chegaria mais tarde a desempenhar o cargo
de Presidente da Comissão de Fiscalização das Águas de Lisboa.
Em 1932 Duarte Pacheco definira as frentes de acção do MOPC: o plano de
melhoramentos rurais, urbanos e de saneamento, as comunicações e as grandes obras
públicas. No ano de 1933 arrancava em força o poder construtivo do ministério.
Considerando toda a vantagem em concentrar os vários organismos autónomos
encarregues da construção e melhoramentos de edifícios públicos, era transferida para
o MOPC a Junta Administrativa do Empréstimo para o Ensino Secundário423. Apenas
com outra designação, este organismo derivava da Junta dos 40 Mil, a mesma que
Duarte Pacheco instituíra em 1928, com o objectivo de gerir as verbas de financiamento
bem como o processo construtivo dos equipamentos escolares liceais. Se em 1928 o
político criara as condições monetárias, a partir de 1933 chamaria ao seu gabinete a
422
ALVES, João Carlos, “O Eng. Duarte Pacheco e as Águas de Lisboa” in Revista Internacional,
número especial, Duarte Pacheco in Memoriam, Lisboa, 1951, s/paginação.
423
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 22 802 de 7 de Janeiro de 1933.
190
O País a Régua e Esquadro
direcção do processo construtivo dos liceus, dando assim um novo fôlego aos projectos
em curso e criando as condições necessárias à construção de novos equipamentos
escolares424.
Também na sequência da transferência do processo construtivo da Base Naval
do Alfeite, da tutela da Marinha para o MOPC, procederia Duarte Pacheco à
regulamentação das funções da respectiva comissão administrativa425.
A 10 de Abril de 1933 o político dava início a um projecto com uma escala
regional. Ao encarregar o urbanista Alfred Agache de proceder ao estudo preliminar da
urbanização da zona de Lisboa ao Estoril e Cascais426, o ministro fazia nascer
económica e politicamente o projecto de urbanização da zona da Costa do Sol427.
A 30 de Junho Duarte Pacheco determinava que ficassem a cargo do MOPC a
construção do novo Palácio de Justiça de Lisboa, bem como as obras de construção e
reparação dos edifícios dos Tribunais Civis do Porto, penitenciárias, cadeias centrais,
distritais e comarcãs e as colónias penais428.
A 31 de Julho o ministro decretava a construção de dois hospitais escolares: um
em Lisboa e outro no Porto. Com capacidade para 1500 camas cada um, e com o custo
calculado de 60.000 contos, estabelecia o político a data prevista para a sua
inauguração: 29 de Dezembro de 1936429. Contudo, o processo arrastar-se-ia no tempo.
Projectados em 1938 e com obras iniciadas em 1940, os hospitais escolares só estariam
concluídos em 1953.
A 23 de Setembro era lançado o programa das Casas Económicas430. Num
projecto articulado entre o MOPC e o Sub-Secretariado das Corporações e Previdência
Social, competia ao ministério a superintendência na construção das casas, a aprovação
dos projectos e seus orçamentos, a fiscalização da construção, a administração das
verbas, bem como os planos de obras e de benfeitorias. Para tal efeito era criada na
DGEMN a secção de Casas Económicas, organismo responsável pela coordenação e
administração processual do programa construtivo. As câmaras municipais, as
424
Sobre a questão dos Liceus Vide MONIZ, Gonçalo Canto, “ Os Liceus Modernos” in Op. Cit. pp 133-
207. Vide também MARQUES, Fernando, “Os Liceus do Estado Novo: Arquitectura, Currículo e Poder”,
Lisboa, Educa, 2003.
425
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 22 981 de 11 de Fevereiro de 1933.
426
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 22 444 de 10 de Abril de 1933.
427
Sobre os Planos de Urbanização da Costa do Sol, e tratando-se de um dos casos de estudo do presente
trabalho Vide Supra Capítulo IV, ponto 4.1.1.
428
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 22 785 de 30 de Junho de 1933.
429
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 22 917 de 31 de Julho de 1933.
430
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 052 de 23 de Setembro de 1933.
191
O País a Régua e Esquadro
corporações administrativas e os organismos administrativos eram também
responsabilizados no processo, vendo-se obrigados a contribuir para o Fundo das Casas
Económicas.
As casas construídas destinar-se-iam aos chefes de família assalariados
operários, membros dos sindicatos nacionais, funcionários públicos, civis ou militares e
operários permanentes dos quadros do Estado e dos municípios. As casas a construir
seriam habitações unifamiliares com quintal, com tipologias correspondentes aos
agregados familiares e em função do respectivo rendimento. Com uma prestação mensal
deduzida no salário do titular do empréstimo, o juro cobrado não poderia exceder os 5%
ao ano e a amortização teria um prazo máximo de 20 anos.
No cumprimento do plano metódico de realização em todo o País, que Duarte
Pacheco afirmava ser possível e para, através dele, se promover a concentração de
todas as obras de fomento, também no que confere ao programa habitacional o MOPC
centralizava o processo construtivo. Decidindo modelos, tipologias, projectos,
construção e aprovação de benfeitorias, o ministério chamava a si a responsabilidade
projectual e construtiva das casas económicas e relegava nas câmaras municipais a
responsabilidade de aquisição de terrenos, bem como o financiamento e a construção de
arruamentos próprios de acesso aos agrupamentos de casas, passeios, canalizações de
esgotos, água e luz. Caso os municípios não cumprissem com a sua parte no processo,
poderia a DGEMN através da secção das casas económicas, proceder aos trabalhos de
urbanização e saneamento, contudo, todas as importâncias despendidas seriam cobradas
às respectivas câmaras.
A 20 de Novembro Duarte Pacheco encontraria na classificação das estradas e
na reorganização os serviços da JAE, a melhor forma para fixar um plano de verbas de
beneficiação, manutenção e construção para o decénio de 1933 a 1943431.
No preâmbulo ao decreto, o político reconhece que o plano apresentado no
documento legal não constitui resolução integral do problema. Não se trata de um
plano geral pois carece de elementos importantes e seguros como a duração e
comportamento dos modernos pavimentos, ou as estatísticas relativas à previsão do
aumento de circulação automóvel nas estradas do País. Contudo, e apesar de reconhecer
que estes elementos constituem condição indispensável à organização de um plano
geral, o ministro considera a necessidade imediata de o governo promover a
431
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 239 de 20 de Novembro de 1933.
192
O País a Régua e Esquadro
reconstrução de cerca de 4000 km de estradas e construir mais de 1000 km de estradas
novas, estimulando e movimentando a riqueza pública e promovendo o progresso e o
bem-estar.
No plano estabelecido pelo ministro, a classificação das estradas como
nacionais, municipais e vicinais, actua como factor que estabelece a responsabilidade da
sua construção, reparação e manutenção:
“As estradas nacionais dependem, desde a criação à conservação,
inteiramente do Estado. Às câmaras municipais pertence construir,
reparar e conservar as estradas municipais e ainda, em cooperação
com as juntas de freguesia, quando estas por si só não possam suportar
432
todos os encargos, cuidar dos caminhos vicinais.”
Considerava-se que as estradas nacionais de 1ª classe seriam todas aquelas que
estabelecessem ligação entre as principais regiões do país, formando uma malha
principal de rede viária, e que estabelecessem comunicação entre as sedes de província,
os distritos, os grandes centros urbanos e a capital. Eram ainda consideradas nacionais
as estradas que assegurassem ligação aos portos comerciais e de pesca, às estações de
caminhos-de-ferro mais importantes, aos centros agrícolas, industriais e comerciais e
maior expansão e ainda todas as vias que estabelecessem ligação com o país vizinho433.
Considerava-se ainda que as estradas nacionais de 2ª classe seriam as que
estabelecessem a ligação directa das capitais de província e distrito às capitais de
concelho.
Na construção e conservação de caminhos vicinais e estradas municipais de
acentuado interesse rural, bem como na pavimentação dos arruamentos dos municípios,
nomeadamente nos troços de continuação de estradas nacionais, o Estado cooperaria
com as câmaras a e juntas de freguesia, contudo corriam os respectivos encargos por
conta das câmaras434.
Se na criação do Fundo do Desemprego e do Fundo de Obra, o gabinete
ministerial havia encontrado a fórmula de obtenção de um reforço de verba através do
lançamento de uma tributação obrigatória a sujeitos individuais e colectivos, no caso do
plano de obras viárias para o decénio de 1933-1943, a solução encontrada seria a via
432
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 239 de 20 de Novembro de 1933, página 2019.
433
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 239 de 20 de Novembro de 1933, Artigo 2º.
434
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 239 de 20 de Novembro de 1933, Artigo 10º.
193
O País a Régua e Esquadro
administrativa. Através da repartição de despesas consoante a divisão administrativa do
país, caberia ao Estado apenas a construção, manutenção e reparação das estradas
nacionais.
A 23 de Dezembro de 1933 Duarte Pacheco procedia à reorganização do
Conselho Superior de Obras Públicas435. Órgão consultivo de carácter técnico e
destinado a coadjuvar o governo na resolução de questões técnicas relativas a obras de
interesse nacional, o CSOP emitia os pareceres sobre os projectos de obra que por
virtude da lei ou por determinação do Ministro das Obras e Comunicações lhe fossem
acometidos. Na sequência do alargamento das funções do MOPC, considerava o
ministro a necessidade de uma maior especialização do Conselho. Funcionando em
sessões plenárias, ficavam os âmbitos de acção dos projectos de obras públicas
considerados em 5 secções: Estradas e Caminhos de Ferro na 1ª secção; Portos na 2ª; na
3ª secção os assuntos relativos a Hidráulica Fluvial e Agrícola; a 4ª secção ficaria
destinada à Urbanização e à Salubridade, sendo que os dois capítulos de trabalho
ficariam divididos em sub-secções. Também a 5ª secção, a de Electricidade, se dividira
em duas subsecções: da 1ª constariam a produção, transporte, distribuição e utilização
de energia eléctrica, e da 2ª sub-secção constariam as telecomunicações.
A par de um reacerto funcional entre órgão consultivo e gabinete ministerial,
este diploma faz transparecer a profunda necessidade do ministro em munir o MOPC de
pessoal técnico superior especializado no domínio da Engenharia, mas simultaneamente
de centralizar na figura tutelar do Ministro das Obras Públicas e Comunicações o
controlo dos pareceres técnicos «superiormente visados pelo douto conselho».
Na hierarquia do CSOP, sempre o que o ministro fosse presente a uma sessão,
presidiria ao acto e aos trabalhos436. Contudo, e porque tal ocorrência era rara, a
presidência do CSOP competia à segunda figura do ministério: o secretário-geral.
Competia ainda a cada uma das figuras responsáveis pelos principais organismos do
MOPC a presença nas sessões. Deste modo, os directores-gerais da DGEMN, dos
Serviços Hidráulicos e Eléctricos, dos Correios e Telégrafos e dos Caminhos de Ferro,
bem como da Administração do Porto de Lisboa, das Juntas Autónomas de Estradas, de
435
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 398 de 23 de Dezembro de 1933.
436
Duarte Pacheco apenas presidiu ao Conselho Superior de Obras Públicas por duas vezes. A 14 de
Agosto de 1933 quando, em sessão conjunta das cinco secções, empossou o novo presidente do CSOP e
Secretário-Geral do MOPC, Engenheiro Inspector Fernando Homem da Cunha Corte Real. Cfr. Actas das
Sessões Conjuntas do Conselho Superior de Obras Públicas, Acta Nº 2 de 14 de Agosto de 1933 e a 2 de
Junho de 1943 quando empossou António Vicente Ferreira do mesmo cargo. Cfr. Livro de Actas das
Sessões Plenárias, Actas Nº 6, 2 de Junho de 1943.
194
O País a Régua e Esquadro
Obras de Hidráulica Agrícola, eram presentes ao CSOP. Eram ainda presentes os
representantes dos serviços florestais e agrícolas, direcção-geral de saúde e do Instituto
Nacional de Combustíveis.
À parte dos representantes dos organismos tutelares passaria o CSOP a ser
composto um quadro de vinte e seis engenheiros, a saber: oito engenheiros inspectores
do quadro do CSOP; um engenheiro inspector do quadro do MOPC; três oficiais da
Marinha de Guerra tendo um deles de ser engenheiro hidrógrafo e outro especialista em
radiocomunicações; seis engenheiros civis; quatro engenheiros electrotécnicos; um
engenheiro mecânico; um engenheiro hidrógrafo e um engenheiro agrónomo.
Considerava ainda Duarte Pacheco indispensável a presença de professores do
Instituto Superior Técnico e da Faculdade de Engenharia do Porto como vogais para as
questões de:
“estradas e caminhos de ferro, de pontes, de portos de mar, de
hidráulica aplicada e agrícola, de construções civis ou urbanização, de
higiene e salubridade, de aplicações de electricidade ou de
437
electrotecnia e de telecomunicações”.
Às sessões de cada secção e sub-secção presidiria um engenheiro de livre
escolha do Ministro. No CSOP, teriam ainda assento dois arquitectos também de
escolha do Ministro. Os arquitectos ficariam adstritos à 1ª sub-secção da 5ª secção, a
Urbanização, e os eleitos de Duarte Pacheco seriam Carlos Ramos e Porfírio Pardal
Monteiro438.
Na reorganização do CSOP assiste-se assim à preocupação do político em
actualizar organicamente a estrutura do Conselho, dotando-o ainda de um corpo técnico
especializado. Contudo, no proveito de uma eficaz articulação de serviços, o Ministro
reservava para si mesmo o direito de nomeação do presidente, dos vogais engenheiros e
dos arquitectos. Embora órgão técnico e consultivo, ao douto CSOP não era atribuído o
poder de veto sobre projectos presentes ou futuros.
437
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 398 de 23 de Dezembro de 1933, Capítulo II, Artigo 4º,
alínea e), página 2197.
438
Competia à sub-secção de Urbanização emitir parecer sobre projectos de construção de edifícios
públicos importantes, quer do Estado quer das corporações administrativas, sobre planos de urbanização,
compreendendo especialmente o traçado de novas avenidas, ruas, largos, praças, parques, etc, ou
modificação das actuais, nas cidades, vilas e quaisquer povoações com mais de 5000 habitantes ou que
fossem consideradas zonas de turismo. VIDE Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 398 de 23 de
Dezembro de 1933, Capítulo IV, Artigo 25º, página 2199.
195
O País a Régua e Esquadro
No gabinete ministerial, local de reconhecimento de realidades, de diagnósticos
e de formas de acção, em 1933 a actividade aumentara consideravelmente. Em Abril e
devido ao intenso serviço a seu cargo, e porque a equipa de colaboradores havida sido
reforçada com 8 elementos, autorizava-se o reforço da dotação orçamental de material
de apoio439. A 31 de Julho, e por conveniência de serviço, autorizava-se uma viagem de
estudo a Espanha440 e a 8 de Dezembro, quase findo o ano de 1933, o próprio Ministro,
face ao volume de trabalhos em curso e em projecto, recorria à aquisição de um
automóvel441.
E eis-nos chegados a 1934. Mais do que um ano de construção no domínio da
grande obra pública, 1934 revela-se como um ano de continuidade na reorganização dos
serviços tutelados pelo MOPC442. A par da sistemática necessidade de Duarte Pacheco
de fazer articular os distintos serviços, 1934 é um ano de lançamento de projectos. Tal
facto prende-se não só com a capacidade organizativa e executiva do ministro, mas
também com o equilíbrio das finanças públicas e a consequente disponibilidade de
aplicação de recursos financeiros nas obras públicas443.
No domínio da criação de equipas específicas de trabalho, processo
indispensável à rápida e eficiente obtenção de resultados, Duarte Pacheco dedica no
primeiro trimestre de 1934 especial atenção ao programa das construções hospitalares.
A 20 de Janeiro cria uma comissão administrativa das obras de construção do IPO444 e a
27 de Março define as atribuições e competências da comissão administrativa das obras
de construção dos Hospitais Escolares445.
No que respeita à reorganização dos serviços do ministério, se por um lado as
alterações efectuadas no quadro de pessoal técnico da DGEMN e no quadro de pessoal
do Laboratório de Estudo e Ensaios de Materiais de Construção446, nos revelam a
persistente preocupação do ministro em canalizar para os vários organismos que
compõem a orgânica do MOPC, os profissionais especializados necessários à
439
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 22 424 de 8 de Abril de 1933.
440
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 22 919 de 31 de Julho de 1933.
441
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 322 de 8 de Dezembro de 1933.
442
Pelo Decreto-Lei nº 24 139 de 4 de Julho de 1934 Duarte Pacheco modifica os quadros de pessoal da
DGEMN e do Laboratório de Estudo e Ensaio de Materiais de Construção, cria uma Comissão
Administrativa autónoma para superintender as obras de construção do IPO, pelo Decreto-Lei nº 23 480
de 1 de Janeiro de 1934 e define as atribuições e competências da Comissão Administrativa das Obras de
Construção dos Hospitais Escolares pelo Decreto-Lei nº 23 706 de 27 de Março de 1934.
443
Sobre o tema Vide FRANCO, António Sousa, Op. Cit., nesta perspectiva citado por Neto, Maria João,
Op. Cit, pp. 157-158.
444
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 480 de 20 de Janeiro de 1934.
445
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 703 de 27 de Março de 1934.
446
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 24 139 de 4 de Julho de 1934.
196
O País a Régua e Esquadro
concretização plena dos projectos; por outro lado, o contínuo ingresso de indivíduos
nesses mesmos quadros justifica-se pelo crescente volume e ritmo de trabalhos em
curso e em projecto.
No preâmbulo ao diploma de alterações ao quadro de pessoal técnico da
DGEMN reconhece o MOPC que:
“O número sempre crescente de obras a cargo da Direcção Geral de
Edifícios e Monumentos Nacionais (...) tem tornado insuficiente o
número de engenheiros de que o referido organismo dispõe para as
447
dirigir e fiscalizar, tanto mais que estão dispersas pelo País.”
Relativamente ao Laboratório de Estudo e Ensaio de Materiais de Construção
considera o ministério:
“tornar-se indispensável, em virtude do desenvolvimento dos serviços
448
a seu cargo, elevar a dois o número de experimentadores”.
É pois importante sublinhar que não são apenas os projectos e as obras que
crescem em número e avançam no terreno. É o próprio ministério que, na sua renovação
orgânica e na crescente e especializada composição técnica e profissional, avança
coerente e construído.
Como atrás referimos, 1934 foi também um ano de projectos, nomeadamente de
projectos urbanos. Em Abril de 1933 Duarte Pacheco entregara a Alfred Agache a traça
a que haveriam de obedecer no futuro todos os elementos de aproveitamento e
valorização da magnífica faixa marginal a ser servida pela nossa primeira estrada de
turismo449. Julgando o ministro a necessidade de se pensar o crescimento dos centros
urbanos de forma planificada e não como mera resposta pontual a uma necessidade
circunstancial, e não existindo em Portugal técnicos formados na área do Urbanismo,
Duarte Pacheco recorreu aos serviços do vice-presidente da Sociedade Francesa de
Urbanistas, para se proceder ao estudo preliminar de urbanização da zona de Lisboa ao
Estoril e Cascais.
447
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 24 139 de 4 de Julho de 1934, página 1254.
448
Idem.
449
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 22 444 de 10 de Abril de 1933.
197
O País a Régua e Esquadro
Em Setembro de 1934 a JAE ficava encarregue de proceder ao levantamento
topográfico da região entre Algés e Cascais de modo a demarcar com rigor a rede de
estradas que servia a região. Reconhecia o diploma ministerial que só desta forma se
poderia estudar convenientemente o plano geral de urbanização daquela região450.
E esta ideia de urbanidade, de forma pensada e estruturada de planificação de
um crescimento ordenado, começava a ganhar forma no gabinete do ministro.
Em Novembro determinava o governo que a Câmara Municipal de Lisboa
promovesse na serra de Monsanto, a criação do Parque Florestal da Cidade. No
preâmbulo ao decreto que dá origem política ao Parque de Monsanto, é evidente o facto
de que a convivência do ministro com Alfred Agache era bem mais próxima do que a
mera relação de um governante e um prestador de serviços:
“Recomendam os urbanistas como principal elemento de
embelezamento e higiene dos agrupamentos populacionais a criação
de núcleos de arborização regularmente distribuídos em função da
451
densidade das populações e das exigências da estética”.
Considerando o diploma que, no seu interior Lisboa não tem um maciço de
arborização passível de ser considerado um parque florestal, determina o mesmo
diploma que a Serra de Monsanto reúne as características necessárias à realização do
projecto.
Sob supervisão do MOPC fica estabelecido que compete à CML promover a
criação do Parque Florestal numa extensão total de 600 hectares, competindo-lhe ainda
a elaboração do projecto em colaboração com a JAE e a Direcção Geral dos Serviços
Florestais452.
Mas até ao final do ano o ministério que promovera o estudo preliminar de
urbanização da região compreendida entre Lisboa e o Estoril-Cascais, pretendia
estender ao território nacional os princípios gerais em matéria de urbanização, de forma
a promover:
450
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 24 453 de 1 de Setembro de 1934.
451
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 24 453 de 1 de Setembro de 1934, página 1947.
452
Sobre o projecto do Parque Florestal de Monsanto e sua evolução VIDE TOSTÕES, Ana, Monsanto,
Parque Eduardo VII, Campo Grande, Lisboa, Edições Salamandra, 1992.
198
O País a Régua e Esquadro
“o melhor critério e a mais justa consideração das condições locais e
das necessidades futuras e segundo as melhores regras da higiene e da
453
convivência das aglomerações urbanas”.
Reconhecendo o facto de as câmaras municipais não disporem de técnicos na
moderna arte e ciência da urbanização, ainda assim o MOPC julgava indispensável que
as mesmas procedessem aos levantamentos topográficos das zonas urbanas de maior
interesse público e elaborassem um plano bem delineado e com previsão de futuro.
O mesmo diploma pretendia também proporcionar aos arquitectos e engenheiros
portugueses o ensejo de desenvolverem o gosto e interesse pelos estudos de
urbanização. Tudo isto porque, ao abrigo do novo diploma, em todas as localidades
com número igual ou superior a 2000 habitantes, nenhuma obra de urbanização se
realizaria sem que fosse parte integrante de um plano geral de urbanização
devidamente concebido454.
Da vontade política de Duarte Pacheco em aplicar a mais do que necessária
planificação ordenada do crescimento urbano e a incapacidade de resposta do país por
falta de quadros técnicos e meios logísticos de apoio, foi-se o processo de urbanização
adiando no tempo. Apenas nos grandes aglomerados urbanos e ainda assim com
projectos realizados por autores estrangeiros, os planos de urbanização foram surgindo.
O ano de 1934 não terminaria sem o lançamento de dois grandes projectos: as
cidades universitárias de Coimbra e Lisboa.
A 4 de Dezembro Duarte Pacheco nomeava os arquitectos Raul Lino e Luís
Benavente para estudarem um projecto de urbanização em torno das instalações
universitárias de Coimbra. Tendo em conta que a condição e a capacidade das
instalações existentes não satisfaziam já as exigências do ensino e da vida académica,
determinava o ministro a importância de definição a área necessária à sua conveniente
expansão e integrá-la num plano geral de ampliações de molde a poder-se formar a
Cidade Universitária de Coimbra455. Do mesmo modo, determinava o ministro a
nomeação de uma comissão constituída por professores das várias faculdades para se
redigir um programa de necessidades inerentes à Universidade e que serviria de base ao
requerido plano geral a elaborar pelos arquitectos456.
453
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 24 802 de 21 de Novembro de 1934.
454
Para maior aprofundamento do tema Vide Infra Capítulo IV, ponto 4.1.
455
Diário do Governo, II Série, Portaria de 4 de Dezembro de 1934.
456
Diário do Governo, II Série, Portaria de 11 de Dezembro de 1934.
199
O País a Régua e Esquadro
Este grupo de trabalho produziu um relatório de estudo, contudo Duarte Pacheco
julgou-o insuficiente. Em 1937, aquando da celebração dos 400 anos da Universidade
de Coimbra, Oliveira Salazar lamentava o facto de não haver sido possível realizar os
melhoramentos a tempo de se inaugurarem durante as comemorações457. Na mesma
sessão de comemoração o Presidente do Conselho lançaria as bases do proto-programa
das obras futuras para:
“dar realce e valor à grandiosa cidade universitária, bastaria libertá-la
de incrustados malfazejos, fazer sobressair as imponentes massas,
isolar a colina sagrada e dotá-la com instalações apropriadas às
458
exigências dos novos estudos.”
Contudo, e apesar da vontade expressa do Presidente do Conselho, só em 1941
Duarte Pacheco voltaria a retomar o projecto da Cidade Universitária de Coimbra ao
nomear uma comissão administrativa de obra. Sob o plano geral de Cottinelli Telmo,
uma mole de novos edifícios seriam implantados na colina da Universidade. Dos
edifícios primitivos permaneceriam apenas o Paço Dionisino, a Via Latina e a
Biblioteca Joanina. Todos os colégios que desde finais do século XV nasceram e
orbitaram em torno da universidade desapareceriam. Entre 1941 e 1945 dois terços da
área da Alta de Coimbra seriam demolidos. Cerca de 2000 habitantes seriam
desalojados e transferidos para um bairro propositadamente criado para o seu
realojamento: o Bairro de Celas. O projecto de construção da Cidade Universitária de
Coimbra, iniciado politicamente em 1934 só estaria terminado em 1975, data da
inauguração do último módulo construtivo, o edifício das Ciências de Física e Química.
Mais do que um projecto do MOPC, a Cidade Universitária de Coimbra construída na
Alta Coimbrã, seria um projecto de Oliveira Salazar, uma espécie de imposição do dedo
do homem na história da Lusa Atenas. Projecto condenado à nascença por
impossibilidade de implantação de uma tão imponente massa arquitectónica, esta
teimosa e impertinente acrópole trazia na sua grandeza os germens da sua
derrocada459.
457
SALAZAR, António de Oliveira, “ Duas Palavras de Prefácio” (1 de Dezembro de 1937) Discursos e
Notas Políticas, vol. II, 1935-1937, Coimbra. 1937.
458
SALAZAR, António de Oliveira, “ Duas Palavras de Prefácio” (1 de Dezembro de 1937) Discursos e
Notas Políticas, vol. II, 1935-1937, Coimbra. 1937.
459
CORREIA, Vergílio, “A Cidade Universitária” in Diário de Coimbra, 26 de Junho de 1939.
200
O País a Régua e Esquadro
Em Dezembro de 1934 anunciava o Diário do Governo a necessidade de se
construírem os novos edifícios para instalação da Reitoria e das Faculdades de Letras e
de Direito da Universidade de Lisboa. Ao contrário da opção tomada para Coimbra,
Lisboa não estaria limitada a uma área restrita de implantação dos futuros edifícios. Nos
amplos e vazios terrenos do Campo Grande o espaço disponível permitia a projecção de
um verdadeiro campus universitário. A encomenda do projecto arquitectónico seria
entregue a Porfírio Pardal Monteiro em Outubro de 1935460, contudo o primeiro esboço
do trabalho não estaria completo antes de 1938.
Duarte Pacheco exigiria a revisão do anteprojecto ao condicionar o orçamento de
construção até aos 15.000 contos461 e só em 1940 aprovaria os projectos definitivos dos
edifícios considerados prioritários: a Reitoria e a Faculdade de Direito462. Contudo, as
restrições orçamentais decorrentes da crise de uma Europa em guerra, o racionamento
dos materiais de construção e a primazia dada à Cidade Universitária da Coimbra que
integrava o plano de obras das comemorações centenárias, foram factores que fizeram
protelar no tempo a construção da Cidade Universitária de Lisboa. Pardal Monteiro não
voltaria a retomar o projecto antes do final da década de 40463.
Ainda nos finais de 1934 o MOPC decidira integrar no seu programa de
realizações a construção do Estádio de Lisboa. Na sequência da decisão nomeara uma
comissão encarregue de considerar vários elementos: arranjo interior, lotação, área e
acesso464. A mesma comissão considerou ainda a zona de localização:
“a oeste de Lisboa, pronunciando-se com mais interesse por uma
solução destinada a promover paralelamente a valorização da Torre de
Belém e uma ligação fácil ao polígono florestal da Serra de
465
Monsanto.”
Sobre a construção da Cidade Universitária de Coimbra Vide COSTA, Sandra Vaz, A Cidade
Universitária de Coimbra – Um Projecto de Modernização cultural: utopia e realidade, Lisboa,
dissertação de mestrado em História da Arte apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa, 1998.
Vide também, ROLO, Nuno Rosmaninho, O princípio de uma «revolução urbanística» no estado novo,
os primeiros programas da cidade universitária de Coimbra (1934-1949), Coimbra, Minerva, 1996.
460
PACHECO, Ana Assis, Porfírio Pardal Monteiro / 1897-1957 a obra do arquitecto, Lisboa,
dissertação de mestrado em História da Arte apresentada à Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa, 1998, página 97, nota 56.
461
Idem, Op. Cit., página 99, nota 65.
462
Idem, Op. Cit., página 99.
463
Idem, Op. Cit., página 185 e seguintes.
464
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 24 933 de 10 de Janeiro de 1935.
465
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 24 933 de 10 de Janeiro de 1935, página 109.
201
O País a Régua e Esquadro
Contudo, numa visão mais abrangente do território, Alfred Agache que
trabalhava o anteprojecto de urbanização da zona de Algés a Cascais, entregara também
em Dezembro de 1934 os primeiros trabalhos e propunha a implantação do estádio num
outro plano que o governo julgava mais oportuno à realização rápida e relativamente
económica466.
Em Janeiro de 1935 decretava o governo a construção do estádio com uma
lotação de 30 000 lugares, e um complexo desportivo com campos de jogos, piscinas,
vias de acesso, parque de estacionamento e edifícios anexos e necessários à prática dos
desportos. O estádio de Lisboa seria inaugurado nove anos depois, a 10 de Junho de
1944 mas com o estatuto de Estádio Nacional467.
A 13 de Março o gabinete de Duarte Pacheco elevava a área de levantamentos
468
topográficos da zona de Algés a Cascais dos 10 000 para os 12 000 hectares e a 22
de Maio decretava oficialmente a designação de Costa do Sol para a zona compreendida
entre Lisboa, Oeiras e Cascais. A urbanização desta linha de costa ficaria a cargo do
Gabinete de Urbanização da Costa do Sol, sob tutela do ministro469.
A 23 de Novembro o ministro tomaria uma medida que chegaria a ser alvo de
comentário abonatório por parte da Rainha Dona Amélia470: o desafronto da Torre de
Belém pela transferência para um outro local das instalações da fábrica de gás instalada
nas suas imediações desde 1888471. Afirmava o diploma legal que o monumento
nacional corria risco devido à degradação dos materiais pelo ataque químico dos fumos
ácidos produzidos na fábrica. De forma unânime esta medida do ministro tem sido
sublinhada sob o ponto de vista da salvaguarda patrimonial. Contudo, se analisado à luz
da lógica da produção legislativa ministerial de Duarte Pacheco, o diploma de
«desafronto» da Torre de Belém, ao beneficiar o monumento em si mesmo abria
também o caminho legal necessário ao ministro não só para transferir a fábrica de gás
para um qualquer outro local, como permitia a libertação dos terrenos contíguos à Torre
de Belém, terrenos esses que estabeleciam a linha de início do Plano da Costa do Sol.
No decreto que anunciava a construção do Estádio, afirmava-se o seguinte:
466
Idem,
467
Vide Supra Capítulo 1,ponto 1.1.
468
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 25 133 de 13 de Março de 1935.
469
Diário do Governo, I Série, Lei nº 1 909 de 22 de Maio de 1935.
470
Vide “Entrevista de D. Amélia cedida a Leitão de Barros”, in Notícias Ilustrado, 1938.
471
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 25 726 de 23 de Novembro de 1935.
202
O País a Régua e Esquadro
“...já então o Governo ordenara que fosse elaborado um plano de
urbanização da região a oeste de Lisboa, entre a Torre de Belém e
Cascais, e assim julgou aconselhável incorporar nesse estudo o da
conveniente localização do Estádio de Lisboa. Devendo o plano de
urbanização em estudo prever grandes artérias de ligação da Costa do
472
Sol à cidade...”
Neste sentido, na linha de continuidade da acção ministerial de Duarte Pacheco,
o político que interpretou as vantagens do urbanismo como se de um «grau zero» da
construção se tratasse, o desafronto da Torre de Belém, a par da valorização patrimonial
e urbana, seria o ponto de partida para o desenho de uma das grandes artérias de
ligação da Costa do Sol à cidade, e assim foi.
O ano de 1935 não terminaria sem que o ministro procedesse à reorganização
dos serviços do Ministério das Obras Públicas e Comunicações473. Na nova orgânica do
ministério sentia-se já o peso da obra construída e dos projectos em curso: em dois anos
e meio o MOPC mantendo as direcções-gerais dos Edifícios e Monumentos Nacionais e
dos Caminhos de Ferro, elevava à mesma categoria os Serviços Hidráulicos e
Eléctricos, bem como os Serviços de Viação. Os Portos do Douro e de Leixões eram
elevados à categoria de Administração existindo ainda uma Junta Autónoma dos Portos.
Como serviços constituintes da orgânica do ministério o político considerava ainda o
Comissariado do Desemprego e todas as Juntas Administrativas ou de Fiscalização e
outros organismos especiais de carácter temporário.
De 18 de Janeiro de 1936 a 25 de Maio de 1938 Duarte Pacheco foi afastado do
poder político efectivo. Não existiu uma razão pontual para o seu afastamento nem um
episódio específico que o justificasse. Em 1943, após a morte do ministro, e em sessão
de homenagem póstuma na Assembleia Nacional, Oliveira Salazar afirmaria que teve de
sacrificá-lo uma vez474. Em Maio de 1938, no discurso de tomada de posse como
Ministro das Obras Públicas e Comunicações, pasta que lhe era entregue pela segunda
vez, Duarte Pacheco afirmaria perante o ministro da Justiça que o empossara:
472
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 24 933 de 10 de Janeiro de 1935, página 109.
473
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 26 117 de 23 de Novembro de 1935.
474
SALAZAR, António de Oliveira, “Na Morte de Duarte Pacheco” 25 de Novembro de 1943 in
Discursos e Notas Políticas, vol. IV 1943-1953, Coimbra, Coimbra Editora Lda., 1951, pág. 27.
203
O País a Régua e Esquadro
“É com verdadeira emoção que recebo das mãos de V. Exa. a pasta
das Obras Públicas e Comunicações. (...) Emoção que provém ainda
da circunstância de V. Exa. ser o ministro da Justiça.
Esta palavra Justiça soa hoje aos meus ouvidos e ecoa no meu coração
por uma forma singular...
O meu regresso à pasta das Obras Públicas e Comunicações parece ter
o significado – ao menos tem-no para mim – de veredicto da Nação à
obra que iniciei neste ministério em 1932, e foi interrompida no inicio
de 1936 (...)”475
Na interpretação do ministro, a interrupção de 1936 devera-se a injustiças,
ingratidões, cabalas e grosserias. E como resposta a todos os que duvidassem das suas
intenções governativas afirmava:
“A minha acção consistirá fundamentalmente em cumprir e fazer
cumprir a palavra de ordem do Doutor Salazar. Precisarei ainda
476
assegurar a minha fidelidade ao seu pensamento governativo?”
A obra de Duarte Pacheco do MOPC de 1932 a 1936 era já considerável, mas
regulada e erguida à contra-vontade de muitos.
O Fundo de Desemprego, que permitia o financiamento das obras de
melhoramentos e o pagamento da mão-de-obra que os executava, era conseguido à custa
da tributação mensal obrigatória de 2% do rendimento dos assalariados do
empresariado, do comércio e da indústria; 1% do mesmo valor era retirado a todas as
entidades empregadoras dos mesmos ramos, 2% a todos os administradores e
profissionais liberais e 2% a todos os proprietários rurais e urbanos.
Quando Duarte Pacheco chamou à pasta das Obras Públicas o pelouro do
abastecimento de água à cidade de Lisboa, não alterou apenas as bases contratuais
existentes sem prévio conhecimento da empresa concessionária, alterou as regras de um
jogo.
E o ministro não cedia a pressões de particulares ou de grupos económicos.
Embora mais avançado no tempo, recordemos um episódio relatado pelo próprio num
despacho ministerial de 1941. Três administradores de três cimenteiras (Liz, Secil e
475
Vide Apêndice Documental Documento 27.
476
Idem.
204
O País a Régua e Esquadro
Leiria) pediram audiência a Duarte Pacheco. Antes contudo haviam já reunido com o
ministro do Comércio e Indústria e dele haviam obtido a resposta que queriam ouvir: no
que ao Comércio e Indústria dizia respeito, poderiam aumentar o preço do cimento.
Entrados no gabinete de Duarte Pacheco e certos de que este não se oporia à palavra do
colega de governo expuseram números e estatísticas. O político não se impressionou, e
contra-argumentou relembrando as medidas de excepção com que as cimenteiras se
faziam valer nas margens de lucro. Cimentado o silêncio dos administradores, o
ministro deu por finda a audiência e o preço do cimento não subiu477.
O fervor construtivo dos projectos exarados pelo gabinete do ministro, dotava o
país das infra-estruturas necessárias, e empregava a mão-de-obra que de outra forma
não conseguiria emprego ou rendimento, mas tudo isto se conseguia com grande custo
para os proprietários, empregadores e profissionais liberais. Quando o ministro
decretava a abertura de mais uma estrada ou a zona de protecção de um monumento
histórico ou de um edifício público, o decreto implicava o aval do Estado em toda e
qualquer acção presente e futura da área consignada em decreto. E na área existiam
propriedades. E num país em que quase tudo estava por construir, Duarte Pacheco
aplicou a lei da expropriação por utilidade pública a um ritmo alucinante.
Os assalariados há muito que viviam com parcas condições de vida. Quanto aos
pequenos proprietários, ainda que a lei das expropriações lhes dividi-se em dois um
lameiro de terra para dar lugar a uma estrada, todos unidos não conseguiam deter o
político. Mas os grandes proprietários e os grandes industriais podiam, e não hesitaram
em fazê-lo e Oliveira Salazar cedeu à pressão e sacrificou o ministro.
Decidido o afastamento de Duarte Pacheco da pasta das Obras Públicas e
Comunicações, em Janeiro de 1936 o militar e engenheiro Silva Abranches surgiria
como a solução técnica e política para ocupar o cargo478.
Em finais de Março, tendo levado cerca de dois meses a inteirar-se da
pluralidade de projectos em estudo e das obras em curso, Silva Abranches criava a Junta
477
Vide Apêndice Documental, Documento 28.
478
Joaquim José de Andrade e Silva Abranches (1888-1939) tomou posse como ministro das Obras
Públicas e Comunicações a 18 de Janeiro de 1938 e cumpriu mandato até 25 de Maio de 1938. Formado
em Engenharia pela Escola Militar em 1912, desempenharia em 1918 em França uma importante missão
de reparação de comunicações e salvação de material das tropas inglesas nos terrenos da batalha de La
Lyz. Regressado a Portugal em 1919, toda a sua actividade profissional e bibliográfica se centraria em
torno da administração, gestão e direcção de caminhos de ferro e em 1934, no I congresso da União
Nacional apresentaria uma comunicação sobre o tema. VIDE FIGUEIRAS, Rita, “Abranches, Joaquim
José de Andrade e Silva” in Dicionário Biográfico Parlamentar 1935-1974, vol. I (A-L), Lisboa, direcção
de Manuel Braga da Cruz e António Costa Pinto, Colecção Parlamento, 2004, pp.82-83.
205
O País a Régua e Esquadro
de Electrificação Nacional479. No diploma o ministro reconhecia que o problema da
electrificação do País é há muito objecto da atenção do Governo. E, no seguimento dos
trabalhos realizados pelo seu antecessor, determinava a criação do organismo
encarregue de estudar as providências necessárias ao desenvolvimento da electrificação
e à unificação e regulamentação do mercado de concessões de exploração e de
licenciamento das instalações eléctricas.
A 9 de Julho de 1936 e tendo em conta a forma determinada e célere com que o
projecto vinha sendo gerido desde 1933, o MOPC decretava a criação do Gabinete do
Plano de Urbanização da Costa do Sol480. Dependente do ministério, este organismo
autónomo e de carácter temporário passaria a superintender todos os assuntos referentes
ao processo de urbanização da região. Em termos de gestão urbanística, a criação do
Gabinete de Urbanização da Costa do Sol passaria a implicar a sujeição dos municípios
de Lisboa, Oeiras e Cascais à autorização superior do gabinete ministerial em todos os
assuntos referentes ao licenciamento de construções481.
No que respeita às grandes obras públicas em curso, Silva Abranches reforça por
duas vezes a importância a despender com a conclusão dos edifícios da Assembleia
Nacional, a nova Casa da Moeda, o Novo Manicómio de Lisboa, o Museu de Arte
Antiga, o Governo Civil de Lisboa e repartições públicas de Beja, Paços do Conselho de
Setúbal e Maternidade de Júlio Diniz, no Porto482 E em Fevereiro de 1937, dados por
terminados os trabalhos de construção da Base Naval do Alfeite, o ministro extingue a
Comissão Administrativa da obra483.
Nos 16 meses que compõem o mandato de Silva Abranches nas Obras Públicas e
Comunicações, não existe um projecto de estudo, um projecto de avaliação ou uma obra
infra-estrutural mandada erguer pelo ministro. Não existe na história do Ministério das
Obras Públicas e Comunicações uma decisão política a que possamos atribuir a
designação de «obra do Silva Abranches». Neste período de tempo a actividade do
ministério quase se resumiu à gestão dos projectos em curso, e ainda assim, não de
todos, com adiante veremos.
479
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 26 470 de 28 de Março de 1936.
480
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 26 762 de 9 de Julho de 1936.
481
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 27 601 de 29 de Março de 1937. Sobre o tema Vide Infra
Capítulo IV, ponto 4.1.
482
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 27 008 de 15 de Setembro de 1936 e Decreto-lei nº 27 409
de 29 de Dezembro de 1936.
483
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 28 461 de 14 de Fevereiro de 1937.
206
O País a Régua e Esquadro
3.3. A Câmara Municipal de Lisboa (1938): um programa de cidade
“A função do município não é a de fazer comércio ou indústria.
Ela deve fundamentalmente consistir em promover o
enriquecimento do património da Cidade, pela realização duma
larga obra de urbanização, e velar por tudo o que respeita à
higiene, ao conforto, aos transportes dos munícipes, e por uma
vasta e eficaz acção de fiscalização.”
Duarte Pacheco, Actas das Sessões da Câmara Municipal de
Lisboa, Sessão de 3 de Janeiro de 1938.
Nos 16 meses que cumprem o período de tempo que esteve afastado do
Ministério das Obras Públicas e Comunicações, Duarte Pacheco manteve uma
actividade intensa.
Regressando ao IST, o seu espaço de recuo político, e retomando a direcção do
Instituto, retomou também a actividade docente e manteve, até Dezembro de 1937, uma
presença constante no acompanhamento das obras finais de construção das novas
instalações, dando-se assim por terminada a principal etapa do projecto do Técnico na
Alameda484.
Foi também por este período de tempo que, na companhia de Porfírio Pardal
Monteiro, e tendo visitado Paris e Roma, fez a única viagem ao estrangeiro de que
existe registo485.
Em Janeiro de 1938, a convite do governo, Duarte Pacheco assumia a
presidência da Câmara Municipal de Lisboa e, no desempenho dessas funções, passaria
a tomar assento nas sessões da Câmara Corporativa. Nesta Câmara nunca usaria do
direito da palavra, mas na Câmara Municipal de Lisboa, do dia da tomada de posse à
484
Vide Supra, Capítulo 2, pontos 2.2 e 2.3.
485
No Memorial de 1956, Porfírio Pardal Monteiro relata que esteve com Duarte Pacheco em Roma no
Verão de 1937. Da capital italiana saíram a visitar alguns países, terminando em Paris onde estava a
última exposição internacional realizada até antes da segunda guerra mundial, MONTEIRO, Porfírio
Pardal, Memorial, dactilografado, 1956, entrada de diário de 23 de Outubro de 1956.
207
O País a Régua e Esquadro
última das sessões camarárias a que presidiu, Duarte Pacheco, o homem que não
gostava de discursos em actos solenes, gostava de ter a palavra nas sessões de trabalho.
E foi no uso da palavra que nas sessões camarárias liderou debates, traçou diagnósticos,
expôs projectos, apontou críticas e estabeleceu soluções.
É facto assente que Duarte Pacheco não era homem de discursos. Oliveira
Salazar relembrou o facto em 1953 em Loulé, na sessão inaugural do Monumento de
homenagem ao ministro486. Duarte Pacheco não gostava de ouvir nem de proferir
discursos e a sua postura nos actos públicos denuncia-o. Nas cerimónias públicas de
maior ou menor solenidade, no contacto directo com as individualidades protocolares
ou com os populares, o político revela uma postura ministerial formal, mas
simultaneamente descontraída e espontânea. Contudo, nos momentos em que as
circunstâncias impõem o discurso, o ministro ergue-se hirto, os gestos surgem
angulosos e a expressão facial mais do que séria, torna-se esfíngica 487. O ar grave e
sério que Duarte Pacheco apresenta no acto de discursar, mais do que significando a
incorporação de uma pose de estado, deixa transparecer o profundo incómodo que o
político sente face às palavras circunstanciais e vazias que compõem a política da
oratória.
Mas também neste registo, talvez por talhe de personalidade ou pela
singularidade do «fazer política», e apesar do notório incómodo que revela face à
obrigatoriedade protocolar do acto de discursar, o Duarte Pacheco que nos surge em
«discurso directo» revela-se um político tão objectivo, frontal e assertivo quanto o
Duarte Pacheco surgido «em acção directa» que se revela transcrito nas actas de sessões
do IST, da CML, dos despachos, das portarias ou dos decretos ministeriais da instrução
Pública ou das Obras Públicas e Comunicações.
Nos poucos discursos públicos proferidos de que existe registo, é notório o facto
de que o político não utiliza o discurso como exercício de oratória ou de propaganda
política. E porque não o faz, os seus discursos são povoados de planos, acontecimentos
e também de emoções. Na palavra, como na vida política, Duarte Pacheco traçou linhas
rectas.
No breve discurso de tomada de posse como presidente da Câmara Municipal de
Lisboa, Duarte Pacheco acusa ainda considerável incómodo relativamente ao
486
Vide Capítulo 1, ponto 1.1.
487
Vide Documentários de António Lopes Ribeiro: “Exposição do Mundo Português”, 1940 e “A Morte e
a Vida do Engenheiro Duarte Pacheco”, 1944.
208
O País a Régua e Esquadro
afastamento das Obras Públicas em 1936, reclama-se de algum grau de responsabilidade
na obra de ressurgimento nacional, revela que houve intervenção do Presidente do
Conselho para que aceitasse o cargo, informa que aceita o cargo com sacrifício e que o
faz por considerar que lhe serão asseguradas as condições necessárias ao
desenvolvimento de um trabalho concreto:
“ (...) Sei que é pesada a tarefa que de mim se exige e dou conta da
extensão do sacrifício que a aceitação deste encargo representa para
mim. Conheço também, por dura experiência, o prémio de amarguras
que geralmente se colhe ao serviço esforçado e honesto do interesse
público (...) aceitei a difícil missão por um imperativo de consciência
(...) porque não poderia esquecer as minhas responsabilidades na obra
de ressurgimento nacional (...) nem pude, apesar de tudo, ser
insensível ao apelo que me dirigiu o Presidente do Conselho (...) e
aceitei por um dever de civismo, tendo a certeza que me serão
488
asseguradas as condições necessárias de um trabalho profícuo (...)
Em 1928, empossado Ministro da Instrução Pública, Duarte Pacheco deslocara-
se a Coimbra e garantira a Oliveira Salazar as condições políticas necessárias para que
pudesse exercer o seu cargo na plenitude do programa que julgasse necessário à
recuperação financeira do país. Dez anos depois, o Presidente do Conselho assegurava a
um co-responsável na obra de ressurgimento nacional, as condições necessárias de um
trabalho profícuo na Câmara Municipal de Lisboa. Com sacrifício e apesar de tudo,
Duarte Pacheco aceitava o cargo.
O político iria desempenhar o cargo de Presidente da Câmara Municipal de
Lisboa e não de presidente [de mais] uma comissão administrativa do município489.
Até Dezembro de 1937 a capital, como as restantes áreas concelhias do país, fora
gerida e orientada por voláteis e pouco coesas comissões, formadas por facções políticas
que entre si dividiam os pelouros que compunham a administração do território que a lei
488
Vide Apêndice Documental, Documento 29.
489
Vitor Matias Ferreira é o primeiro autor a referir que Duarte Pacheco é o primeiro presidente da
Câmara Municipal de Lisboa nomeado pelo Governo, contudo, dirigindo o seu estudo para as questões de
gestão fundiária operadas pelo político, o autor não analisa a questão sob o ponto de vista jurídico e
administrativo do município. Vide FERREIRA, Vitor Matias, A Cidade de Lisboa: de Capital do Império
a Centro da Metrópole, Lisboa, Publicações D. Quixote, 1987, página 130.
209
O País a Régua e Esquadro
lhes conferia490. O Código Administrativo de 1936-1940 viria alterar o quadro de gestão
camarária em todo o país. Embora o município de Lisboa ficasse abrangido pelo regime
especial das grandes cidades, importa relembrar, ainda que em linhas gerais, as regras
do novo Código.
Desde logo, o Presidente da Câmara Municipal passaria a ser nomeado pelo
Governo. O indivíduo, com habilitações superiores, deveria ser escolhido de entre os
munícipes, vogais do Conselho municipal, antigos vereadores ou membros de
comissões administrativas anteriores, por forma a conhecer bem o universo de trabalho
em causa. Contudo, a condição primeira da nomeação era clara: os presidentes de
câmara dependiam da confiança política do poder central491.
O Presidente da Câmara teria duas funções: a chefia da administração municipal
e a representação do governo como magistrado administrativo. No domínio das
competências, o Presidente teria a seu cargo a orientação e coordenação da
administração municipal, a superintendência da execução das deliberações camarárias e
a representação do poder central como magistrado administrativo492.
Os concelhos urbanos de Lisboa e Porto viam-se abrangidos por um regime
especial. Desde logo, a linha territorial definiria a acção municipal: a área de concelho
coincidiria com a área da cidade e esta dividir-se-ia em bairros493. Em Lisboa e no Porto
não existiria Conselho Municipal. Existiria um corpo de 12 vereadores directamente
eleito pelas juntas de freguesia e organismos corporativos. Nas Câmaras de Lisboa e
Porto os presidentes não teriam funções de magistrado administrativo, pois a
representação do governo competia ao governador civil, que exerceria direcção jurídica
sobre os administradores dos bairros.
Os concelhos de Lisboa e Porto ficavam abrangidos pela federação de
municípios, ou seja, a associação voluntária ou imposta por lei de câmaras municipais,
para a realização de interesses comuns dos respectivos concelhos494.
Como casos passíveis de criação de federações de municípios, o Código
Administrativo previa o estabelecimento ou unificação de serviços municipalizados; a
elaboração e execução de um plano comum de urbanização e expansão; a administração
490
Sobre o tema Vide História dos Municípios Portugueses e do Poder Local, Lisboa, Círculo de
Leitores, direcção de César Oliveira e coordenação de Nuno Gonçalo Monteiro, 1996.
491
CAETANO, Marcelo, Manual de Direito Administrativo, Coimbra, Coimbra Editora Limitada, 4ª
edição, 1956, página 386.
492
Idem, Op. Cit., página 387.
493
Idem, Op. Cit., página 390.
494
Idem, Op. Cit., página 391.
210
O País a Régua e Esquadro
de bens ou direitos comuns ou indivisos ou ainda a organização e manutenção de
serviços especiais comuns.
Embora Lisboa tivesse tido desde sempre um regime municipal próprio495, o
Código Administrativo de 1936-1940 iria introduzir no município as bases de uma
reforma de serviços e de uma gestão camarária sem precedentes. E passando o
Presidente da Câmara de Lisboa a ser escolhido pelo Governo, o Governo escolhera
Duarte Pacheco.
A presença efectiva do político na presidência do município de Lisboa seria
curta. Iria de Janeiro a Maio de 1938. A ascendência política de Duarte Pacheco no
município de Lisboa perduraria para além desse tempo e os reflexos da sua passagem
pela Câmara permanecem até aos nossos dias496.
A 3 de Janeiro de 1938, dois dias depois da nomeação de Duarte Pacheco como
novo presidente da CML, o Ministro do Interior, Mário Pais de Sousa, procedia no
Salão Nobre dos Paços do Concelho, à investidura dos vereadores camarários497. À
concorrida cerimónia onde estiveram presentes «centenas de pessoas», como relataria o
Diário de Notícias, destacavam-se políticos como Marcelo Caetano, académicos como
Beirão da Veiga, jornalistas e literatos como o director do DN Eduardo Swalbach ou o
seu chefe de redacção Urbano Rodrigues, empresários como Fausto de Figueiredo,
religiosos como Monsenhor Pinto de Abreu, militares como o capitão Henrique Galvão,
arquitectos como Carlos Ramos ou engenheiros como Sebastião Ramires ou Bacelar
Bebiano. Estiveram também representadas as juntas de freguesia de Lisboa e as
Câmaras Municipais de Loures, Vila Franca de Xira, Alenquer, Lourinhã, Azambuja,
Sobral de Monte Agraço e Cadaval498.
Após a investidura do corpo de vereadores camarários, o Ministro do Interior
afirmaria que a Câmara Municipal de Lisboa estaria entregue em boas mãos, posto que
a vereação era constituída por homens honestos e competentes e presidida pela figura
inconfundível do engenheiro Duarte Pacheco499.
495
Idem, Op. Cit., página 391.
496
Vide Editorial do Jornal Público do dia 19 de Setembro de 2006 pelo seu director, José Manuel
Fernandes, sob o título “Lá se vão os Anéis...”.
497
Tomaram posse como vereadores da Câmara Municipal de Lisboa: Fernando Frade Viegas da Costa,;
José Formosinho Sanches; Manuel do Espírito Santo Silva; Ivo Cruz; Luís Alexandre da Cunha;
Boaventura de Almeida Belo; Manuel Henrique de Carvalho; Francisco Marques; Júlio Martins; Alberto
Carlos Lima de Sousa Rego, Luís Costa; Manuel de Beires Junqueira e Valentim de Carvalho.
498
O Diário de Notícias sublinharia a ausência das representações municipais de Sintra, Oeiras e Arruda
dos Vinhos, Cfr. Diário de Notícias de 4 de Janeiro de 1938, primeira página, 4ª coluna.
499
Cfr. Diário de Notícias de 4 de Janeiro de 1938.
211
O País a Régua e Esquadro
Passada a palavra, o inconfundível Duarte Pacheco agradeceria a presença e as
palavras do Ministro do Interior, agradeceria a presença de todos os que assistiam ao
acto de investidura dos vereadores e sem palavras nas entrelinhas ou entredentes,
expunha as novas regras da gerência municipal:
“É certo que, nos termos do novo Código Administrativo, as
responsabilidades e deveres da administração do Município, que antes
eram distribuídos por todos os membros da vereação, recaem agora
quase inteiramente sobre o Presidente da Câmara e os seus imediatos
500
colaboradores, os directores de serviços.”
Em discurso directo Duarte Pacheco expunha as condições de desempenho do
novo cargo que estava prestes a iniciar. Nomeado pelo Governo para exercer as funções
de Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, o político teria a seu cargo a orientação e
coordenação da administração municipal bem como a superintendência da execução das
deliberações camarárias. Ao abrigo do novo Código Administrativo, o presidente
camarário passaria a ter pleno poder de escolha dos seus colaboradores directos, ou seja,
dos directores dos serviços municipais necessários à orientação da gestão camarária.
No novo organigrama da Câmara Municipal de Lisboa o corpo de vereadores
funcionaria como um órgão deliberativo e consultivo, mas sem poder de veto ou
resolução. Na prática, o Código Administrativo atribuía ao presidente da câmara plenos
poderes de gestão municipal. Nomeado pelo Governo, o presidente da Câmara passaria
a ser o homem da confiança política central colocado no órgão decisório da política
local. Um homem nomeado pelo governo, auxiliado pelos seus directores de serviço,
desempenharia o seu cargo de forma centralizada, respondendo hierarquicamente
apenas e só ao poder central.
Nesta renovada cena política criada pelo Código Administrativo, os vereadores
que a 3 de Janeiro de 1938 acabavam de tomar posse no Salão Nobre dos Paços do
Concelho da Câmara de Lisboa, passariam a tomar conhecimento do programa de
gestão do município numa espécie de regime de simultaneidade. Como os políticos, os
religiosos, os militares, os literatos, os engenheiros, os arquitectos e demais presentes
que compunham as «centenas de pessoas que quiseram presenciar o acto», ficavam os
empossados vereadores camarários, como os demais presentes, a saber as linhas de
500
Vide Apêndice Documental, Documento 30.
212
O País a Régua e Esquadro
orientação que Duarte Pacheco julgava necessárias à gestão do município. E ainda que
não concordassem com as linhas de rumo traçadas de nada lhes valia o desacordo, pois
o presidente da Câmara apenas responderia ao Presidente do Conselho:
“1º Aos munícipes devem os serviços da Câmara acolhedora
deferência, consideração, prontas informações e rápida resolução dos
assuntos do seu interesse.
2º O funcionalismo municipal há-de exercer as suas funções com
produtividade e competência pondo ao serviço da Câmara toda a
actividade necessária, e por cima de tudo com uma honestidade
perfeita.
3º A administração da Câmara deve caracterizar-se pelo dinamismo,
pela clareza e pela simplicidade; e visar a desembaraçar-se de tudo o
que pode ser entregue com proveito às actividades particulares.
4º A Câmara há-de procurar trabalhar em estreita colaboração com os
serviços do Estado por onde correm negócios que se relacionam com
os da sua esfera de acção e com todas as instituições interessadas no
progresso da cidade, quer sob o aspecto administrativo, cultural e de
acção social., quer urbanístico, sanitário e económico.
5º No domínio das grandes realizações e da construção de edificações
citadinas a Câmara deve trabalhar em sujeição a um plano geral de
urbanização e expansão, deve chamar a si tudo o que represente a
execução de obras de urbanização e há-de promover o embelezamento
das edificações existentes e impor a rigorosa fiscalização das novas
em defesa do aspecto arquitectónico da cidade.” 501
Duarte Pacheco, o homem escolhido pelo governo para iniciar na CML a
execução do novo Código Administrativo, expunha em traços gerais as linhas de
orientação que julgava necessárias à boa administração do município. Findo o breve
discurso e as sequentes aclamações, o novo anfitrião do Salão Nobre dos Paços do
Concelho, parecia querer dar por encerrada a cerimónia e os cumprimentos finalizando
a sua intervenção com um taxativo meus senhores, basta de discurso e vamos ao
trabalho502.
501
Vide Apêndice Documental, Documento 30.
502
Vide Apêndice Documental, Documento 30.
213
O País a Régua e Esquadro
E assim foi. Após a tomada de posse do corpo de vereadores, teve lugar a
primeira reunião camarária. A segunda reunião ocorreu duas semanas depois. No
período de tempo que mediou entre a primeira e a segunda reunião o político iria
proceder, como o próprio definiria à primeira parte do trabalho, de estudo e reflexão.
Talvez um período de acalmia, mas não um período improdutivo503.
Ao aceitar o cargo de presidente da CML, Duarte Pacheco estava convicto de
que era preciso trabalhar dentro do espírito do novo Código Administrativo504. E nesse
sentido, nos primeiros dias de contacto com a realidade municipal, o político deu início
ao primeiro ponto do seu já clássico método de trabalho, ou seja, «a fase reguladora».
Duarte Pacheco chamar-lhe-ia o período de acalmia. Acalmia aparente e apenas para os
mais desatentos, pois este período de tempo em que o político procede a um trabalho
minucioso e invisível, é o mesmo período de tempo em que toma contacto com a
realidade de trabalho que se lhe apresenta e que é posteriormente seguido pela «fase
produtiva», essa sim, estonteante no ritmo, na escala e na transversalidade de alcance
das acções deliberadas. Aquilo que Duarte Pacheco identifica como período de acalmia
traduz-se na prática, e como já tivemos oportunidade de referir anteriormente, na
tomada de conhecimento da realidade de trabalho, da análise e diagnóstico de situações,
da definição de prioridades e da construção de soluções. O período de acalmia é pois o
período de tempo que o político demora a regular passo a passo toda a acção futura do
seu gabinete de trabalho.
No que ao município diz respeito, Duarte Pacheco reconhece que o período de
acalmia terá de ser mais longo do que esperava, apesar do seu desejo de o encurtar o
quanto possível505. Contudo, a aplicação do novo Código Administrativo era um
imperativo e, como tal, nos dias 17 e 18 de Janeiro o presidente da CML apresentava à
vereação uma lista de medidas de carácter administrativo interno que ajud[ass]e o
presidente na gerência da vida municipal506.
Neste sentido Duarte Pacheco propõe a criação de quatro comissões municipais:
uma comissão de fiscalização de contratos de concessão, uma comissão de codificação
de posturas, uma comissão de trânsito e uma comissão de turismo.
503
Vide Apêndice Documental, Documento 30.
504
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 2, sessão realizada a 17 e 18 de Janeiro de
1938.
505
Idem, página 2.
506
Idem, página 2.
214
O País a Régua e Esquadro
Citando os exemplos de concessão de contratos com a Carris e com as
Companhias Reunidas de Gás e Electricidade, o presidente declara que é importante
fiscalizar os contratos de forma a que fiquem inteiramente assegurados os direitos do
público. No que confere à codificação de posturas, considera o presidente a necessidade
de os munícipes saberem em que lei vivem e o município saber que lei aplicar. No que
respeita ao trânsito, e depois de analisar a questão, percebeu o presidente porque razão
onde há muitos que mandam acaba por não mandar ninguém. Assim sendo, e para que
todas a entidades intervenientes na regulamentação do trânsito operem no seu pelouro e
colaborem com as restantes, julga-se necessária a criação da comissão507. O presidente
considerava ainda a necessidade de criação de uma comissão de turismo para se
averiguar em definitivo a existência, ou não, da possibilidade de Lisboa ser considerada
uma zona de turismo.
No parecer de Duarte Pacheco, e tendo por base a análise da situação específica
do município lisboeta, estas quatro comissões compunham o cumprimento da alínea
prevista no novo Código Administrativo referente à possibilidade de existência de
órgãos municipais consultivos.
Quanto aos órgãos executivos, os órgãos que aliados ao gabinete do presidente
da câmara, e ao abrigo do novo Código, constituiriam a nova cúpula plenipotenciária do
poder municipal, Duarte Pacheco propunha a criação de seis direcções de serviço, a
saber: a Direcção dos Serviços Centrais, a Direcção dos Serviços de Urbanização e
Obras; a Direcção dos Serviços de Finanças; a Direcção dos Serviços Técnico-
Especiais; a Direcção dos Serviços de Salubridade e a Direcção dos Serviços de
Abastecimento508.
Ao abrigo do novo Código Administrativo, o presidente da CML seria
coadjuvado na gestão camarária pelos seus directores de serviço e estes teriam a seu
cargo os serviços camarários que o presidente lhes atribuísse. Duarte Pacheco decidira
esta orgânica para a Câmara Municipal de Lisboa e porque tendo a certeza lhe estavam
asseguradas as condições necessárias de um trabalho profícuo, como afirmara no
discurso de tomada de posse, foi esta a proposta que apresentou ao Ministro do Interior
e foi esta a proposta aprovada pelo Governo.
507
Sob orientação do Governo a CML presidiria à Comissão. Como parceiros de trabalho estariam
presentes os representantes da Direcção Geral dos Serviços de Viação e a Polícia de Segurança Pública.
508
Idem, página 4.
215
O País a Régua e Esquadro
Embora ciente da necessidade de alguns reacertos futuros e apresentando o
esquema das Direcções de Serviço da Câmara a título provisório, Duarte Pacheco
explicou também a orientação seguida na escolha dos seus directos colaboradores, os
directores de serviço.
Para a Direcção dos Serviços Centrais era necessária uma personalidade de
formação jurídica, com experiência de administração pública e um conhecimento
profundo dos trabalhos do novo Código. A escolha recaiu sobre Jaime Lopes Dias509.
Para a Direcção dos Serviços de Urbanização e Obras, seria necessário um
engenheiro civil experimentado na técnica de construção e que tivesse a clara noção
que é aos arquitectos, mais que aos engenheiros civis, que compete orientar as
construções da cidade, e que apreendesse das questões gerais de urbanização um
conceito moderno. A escolha recaiu sobre José Frederico Ulrich.
Para a Direcção dos Serviços de Finanças seria necessário alguém
experimentado nas finanças e na contabilidade pública e a escolha recaiu sobre António
Fernandes Leitão.
Para a Direcção dos Serviços Técnico-Especiais, onde o presidente incluía items
como a iluminação, abastecimento de água, aquecimento, serviços de viação ou
transportes, a escolha recaiu sobre Eduardo Rodrigues de Carvalho.
Para as Direcções dos Serviços de Salubridade e Abastecimento foram
escolhidos Judah Bento Ruah e Joaquim Tiago Ferreira.
Em duas semanas Duarte Pacheco procedera à reorganização dos serviços
camarários e merecera total aprovação por parte do governo e do corpo de vereadores da
CML.
No seguimento dos trabalhos da sessão plenária da câmara o presidente
esclareceria ainda que, ao abrigo do Código Administrativo, as reuniões ordinárias
deixariam de estar sujeitas à «ordem do dia» porquanto se destinavam a tratar de
assuntos de administração corrente e, nesse sentido, passaria a submeter à Câmara
algumas propostas de trabalho. E a primeira proposta lançada à mesa de trabalhos seria
o Parque Florestal de Monsanto510.
509
Cfr. Diário do Governo, II Série, Portaria do Ministério do Interior de 21 de Janeiro de 1938, que
nomeia os directores de serviço da Câmara Municipal de Lisboa ao abrigo da alínea a) do artº 6º do
Decreto nº 26.417.
510
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 2, sessão realizada a 17 e 18 de Janeiro de
1938, página 2.
216
O País a Régua e Esquadro
Duarte Pacheco começou por reler o decreto em que o governo incumbiu a CML
de promover a criação do dito Parque511. Algumas das disposições encontravam-se já
cumpridas, mas outras estavam ainda em falta. Estipulado o perímetro do Parque num
total de 700 hectares, fôra o mesmo dividido em seis zonas. Para se levarem a cabo as
expropriações por utilidade pública, procedera-se à constituição de uma comissão de
avaliação. A peritagem de avaliação dos terrenos referentes à primeira estava já
concluída e havia sido entregue ao presidente no dia anterior ao da presente reunião.
Relembrava contudo o político, que no respeitante aos projectos de arborização e
de arruamentos do referido Parque, a CML não respeitara os prazos estipulados e
posteriormente prorrogados pelo mesmo decreto. Neste sentido, verificando Duarte
Pacheco que o esboço do ante-projecto não poderia ser aproveitado, ordenou novo
estudo, visando a possibilidade de se iniciar ainda em 1938 o processo de arborização:
“ (...) conhecendo o interesse que o Governo tem na realização do
empreendimento, procurou e obteve a anuência dos Senhores
Ministros da Agricultura e das Obras Públicas para que os trabalhos
começassem imediatamente, com dispensa de formalidades não
512
essenciais. Perde-se assim menos de um ano.”
Tendo escolhido o Parque Florestal de Monsanto como obra inicial do programa
de realizações camarárias, Duarte Pacheco avançaria desde logo para uma segunda
questão. Decorriam por parte do Governo as obras de beneficiação da Assembleia
Nacional. Nesse sentido, e porque a Câmara devia ao Governo a melhor e mais estreita
colaboração, Duarte Pacheco propunha à aprovação o projecto de prolongamento da
Rua da Imprensa posto que a dita rua se encontrava na delineada zona de protecção do
imóvel. Se necessário fosse, que se procedessem às expropriações necessárias. A
proposta seria aprovada e o presidente seguiria para a proposta seguinte.
Sendo a Câmara Municipal de Lisboa proprietária de um número considerável
de terrenos sobrantes, Duarte Pacheco propunha a alienação dos mesmos terrenos em
hasta pública. Os terrenos seriam alienados em lotes exclusivamente destinados a
511
Decreto-lei nº 24 625 de 1 de Novembro de 1934.
512
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 2, sessão realizada a 17 de Fevereiro de
1938, página 2.
217
O País a Régua e Esquadro
edificações de tipo previamente fixado pela Câmara513. Com esta proposta Duarte
Pacheco tinha objectivos precisos:
“ (...) conseguir que os terrenos municipais sejam vendidos a quem
constrói e só a quem constrói (...) é necessário que o Município
procure intervir em defesa dos que constróem e dos futuros utentes
dos prédios (...) Além disso, a divisão, em lotes, dos terrenos, será
feita pela própria Câmara, em obediência às conveniências de ordem
estética e higiénica, o que, como se compreenderá, é de primordial
514
importância.”
Esta proposta de Duarte Pacheco visava a instituição do regime de loteamentos
urbanizados e reguladores das futuras edificações urbanas. Centralizando no poder
camarário a faculdade de programar o desenho, a densidade e a ocupação dos solos da
cidade, procedia-se ao primeiro passo da regulamentação urbana de Lisboa. Aprovada a
proposta pelo corpo de vereadores, iniciava-se assim a primeira medida de Duarte
Pacheco para a transformação da cidade. Em lugar da arbitrariedade vigente das
«empresas de urbanização», a CML passaria a chamar a si mesma a urbanização
programada da cidade.
Mas se nesta proposta inicial de Duarte Pacheco o regime de imposição de
loteamentos urbanizados se circunscrevia a terrenos municipais sobrantes, tal constituía
apenas a primeira fase de um projecto maior já pensado pelo político. Com efeito, após
a apresentação da proposta, o vereador Luís Costa, congratulando o presidente pela
forma simples e célere encontrada para resolver a questão da regulamentação das
edificações urbanas, propunha que o mesmo princípio se estendesse a todos os terrenos
particulares515.
Duarte Pacheco sossegava o vereador pois o plano estava traçado:
“Na minha proposta fala-se só em terrenos municipais, mas por detrás
dela está uma política cujo sentido já enunciei quando, ao tomar conta
513
O programa de alienação apresentado por Duarte Pacheco apresentava 14 alíneas. Vide Actas das
Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 2, sessão realizada a 17 de Fevereiro de 1938, pp.5-7.
514
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 2, sessão realizada a 17 de Fevereiro de
1938, página 7.
515
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 3, sessão realizada a 17 e 18 de Janeiro de
1938, página 7.
218
O País a Régua e Esquadro
da gerência da Câmara, afirmei o pensamento de que todas as obras de
516
urbanização devem ser realizadas pelo Município”.
E assim sucederia. Ainda no ano de 1938 teria início um vasto plano de
municipalização de solos. A forma de englobar os terrenos particulares na política de
urbanização municipal arrancaria a partir de Julho, já com Duarte Pacheco de novo nas
Obras Públicas e Comunicações. Contudo, e porque as disposições legais não estavam
ainda concertadas, Duarte Pacheco iria entretanto procedendo à identificação dos
problemas e das prioridades de realização camarária.
E um dos problemas dizia respeito à localização dos novos mercados retalhistas
necessários à boa serventia da cidade. A propósito das obras de urbanização em curso
na zona de protecção da Assembleia Nacional, tornava-se imperativa a extinção do
Mercado de S. Bento517. O presidente da câmara considerava que há muito este mercado
estava condenado pois apresentava precárias condições higiénicas de instalação.
Contudo, considerava o político que mais importante que encontrar no imediato uma
solução de remedeio para a substituição do mercado extinto, importava pensar que:
“O problema da localização dos novos mercados retalhistas nas
diferentes zonas da Cidade tem de se resolver em íntima ligação com
518
o estudo do Plano Geral de Urbanização”.
E o político estava de facto a pensar a cidade a uma escala maior e sob a
regência de um plano geral e metódico, o seu. A resolução de cada problema pontual só
estaria concluída quando integrada na sequência lógica de um ordenamento
generalizado. E todas as situações vividas na orgânica citadina contavam na busca da
ordem. E para Duarte Pacheco, a ordem conseguia-se através da regulamentação.
Nesta nova orgânica de cidade tornava-se tão importante e urgente dotar a
cidade de novos cemitérios519, como regulamentar as praças fixas de táxis520 ou o
comércio de carnes521.
516
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 3, sessão realizada a 17 e 18 de Janeiro de
1938, página 8.
517
Idem, página 17.
518
Idem, página 17.
519
Idem, página 8.
520
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 6, sessão realizada a 19 de Maio de 1938,
página 16.
219
O País a Régua e Esquadro
A questão dos lixos urbanos, se bem que respondendo a questões sanitárias,
também se integrava neste plano metódico de realização. Na segunda sessão camarária
a que presidira, Duarte Pacheco insurgira-se contra a precária situação da limpeza
urbana de Lisboa. A cidade produzia cerca de 500 toneladas de lixo diárias, o que em
volume, e pelas contas do político, fazia o peso duplicar cubicamente. Acrescia ainda o
facto de que grande parte dos lixos era utilizada como produto de engorda dos suínos
que posteriormente eram consumidos pela população lisboeta. Importava pois pensar e
reequacionar a recolha, o transporte, a fiscalização e a eliminação do lixo produzido522.
A situação sanitária da cidade era de tal forma deplorável que Duarte Pacheco
julgava necessário um tempo adicional para encontrar uma solução eficaz. Em Julho de
1935 a Câmara decretara a obrigatoriedade do uso de recipientes para recolha do lixo,
contudo, como expunha o político:
“Mesmo que fossem manufacturados mil caixotes por semana – limite
até agora não atingido pela indústria particular e pelos Serviços
Industriais da Câmara, em conjunto – seriam precisos quase dois anos
para se conseguirem cem mil recipientes, número que representa
metade dos que os Serviços Industriais da Câmara dizem ser
523
necessários”.
Relativamente a este assunto, o político decretou a proibição de utilização de
lixos na engorda de suínos524, e informou que, a partir de Março de 1939, parte dos lixos
que sempre haviam sido transportados para a outra margem do Tejo, deixariam de ser
transportados em fragatas no cais da Alfândega e passariam a ser embarcados no
extremo da 3ª secção do porto de Lisboa, longe das vistas da população e como convém
à saúde pública525.
Outra situação que gerava numerosas reclamações estava relacionada com o
sabor e odor da água distribuída na rede pública de Lisboa526. As canalizações de água,
521
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 6, sessão realizada a 19 de Maio de 1938,
página 2.
522
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 3, sessão realizada a 17 de Fevereiro de
1938, página 7.
523
Idem, página 13.
524
Idem, página 1.
525
Idem, página 19.
526
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 4, sessão realizada a 17 de Março de 1938,
página 5.
220
O País a Régua e Esquadro
sendo constituídas de ferro fundido, eram revestidas a alcatrão. Numa das condutas
elevatórias do Carregado, detectara-se a passagem de água com altos valores de fenóis,
que, em contacto com o cloro dos reservatórios e o alcatrão das canalizações reagira
quimicamente produzindo um alto teor de cloro-fenóis. Resolvera-se a situação,
contudo, Duarte Pacheco informava que, no programa de abastecimento de água à
cidade, estava prevista a substituição completa de toda a velha canalização.
E na imensidão de questões e propostas que se levantavam na gestão do
município, estava concluído um estudo que Duarte Pacheco propusera à Comissão
Municipal de Arte e Arqueologia: as bases do prémio municipal de arquitectura.
Considerava a comissão municipal que as construções dos bairros excêntricos e
das avenidas novas é[ra] a negação do nosso passado e a negação do nosso
presente527. Para os «estetas comissários» o risco arquitectónico de traço moderno,
empregue nas novas construções em nada correspondia à estética citadina lisboeta:
povoada de bairros antigos e de tradição arquitectónica528. Considerava ainda a
comissão municipal que a criação dos prémios tinha por objectivo o estímulo e a
compensação moral dos cultores da Arquitectura.
Neste sentido propunha-se que anualmente se abrisse, entre arquitectos
portugueses, um concurso de projectos para edifícios de habitação. Os projectos seriam
elaborados em concordância com um programa organizado pela CML e publicado no
Diário Municipal. O prémio pecuniário seria atribuído ao melhor «projecto para casas
de habitação», podendo o júri fixar ainda menções honrosas. A par desta distinção, a
CML comprometia-se ainda a conceder aos interessados a correspondente licença de
construção, com dispensa de formalidades e sob orientação técnica do arquitecto autor
do projecto.
A par do Prémio Municipal de Arquitectura para projectos de casas de habitação,
a Comissão Municipal de Arte e Arqueologia apresentava também as bases do Prémio
Municipal de Arquitectura para Edificações. Esta distinção anual caberia ao autor do
projecto de construção que, no parecer do júri, correspondesse à melhor composição
arquitectural, tendo e conta valores como a adaptação do edifício ao terreno ou a
funcionalidade programática do mesmo.
527
Idem, página 7.
528
Idem, página 7.
221
O País a Régua e Esquadro
O vereador Arquitecto Luis Cunha felicitaria Duarte Pacheco pela ideia de
instituir os prémios de arquitectura e felicitaria ainda a Comissão Municipal de Arte e
Arqueologia pela forma como havia interpretado a ideia do presidente da câmara529.
Quando incentivou a Comissão Municipal de Arte e Arqueologia a estudar as
bases do Prémio Municipal de Arquitectura, Duarte Pacheco não estava preocupado
com as tendências estéticas da arquitectura praticada nas novas edificações da Lisboa
das Avenidas Novas. Com efeito, se politicamente Duarte Pacheco é responsável pela
criação do Prémio Municipal de Arquitectura, tal não significa que seja responsável
pelo teor dos conteúdos renitentes do parecer subscrito pela referida comissão
municipal. Importa relembrar que quando Duarte Pacheco se concentrou no projecto de
construção das novas instalações do IST, em detrimento da arquitectura praticada pelos
arquitectos da velha guarda, optou pelas linhas traçadas por Pardal Monteiro, um jovem
arquitecto que riscou o Técnico da Alameda ao sabor da modernidade arquitectónica.
Em essência, o que de facto preocupava o político era não só a forma desordenada em
que Lisboa ia crescendo, como também a declarada ausência de saber técnico dos
agentes envolvidos no processo de edificação.
Deste modo, no seguimento da apresentação à sessão camarária das bases do
programa dos prémios municipais de arquitectura, Duarte Pacheco aproveitou o clima
de considerações que se geraram em torno da prática de uma boa e má arquitectura, para
lançar a debate o problema da construção civil530.
Considerava o presidente da CML que a questão da construção civil se revelava
particularmente importante e por vários motivos: pelo volume de capital envolvido, pela
percentagem de mão-de-obra envolvida e pela percentagem de construções particulares
que influíam na expansão e feição da cidade. E em tom de desafio lançava mais uma
proposta de trabalho:
“Vamos ver se a Câmara da minha presidência tem a coragem de
prestar à Cidade o pequeno serviço de orientar devidamente a
construção civil em Lisboa. Provavelmente não será um grande
serviço, pelo reconhecimento que a população venha a manifestar por
529
Idem, página 11.
530
Idem, página 11.
222
O País a Régua e Esquadro
ele, mas será em todo o caso um serviço, pelos benefícios que, na
531
realidade, a Cidade há-de colher”.
Para exemplificar os problemas da má prática de construção civil operada em
Lisboa, Duarte Pacheco iria socorrer-se do mesmo exemplo a que recorrera o vereador
Viegas da Costa, presidente da Comissão Municipal de Arte e Arqueologia. Contudo, ao
contrário do vereador que, olhando o caso dos excêntricos novos bairros de Lisboa vira
a «negação arquitectónica do passado e do presente», o presidente da CML não via
prática arquitectónica, via algo de aterrador e indiscritível, só justificável pelo facto de
a grande maioria dos projectistas não ter formação nem competência para o ser532.
Mas Duarte Pacheco não poupava responsabilidades à Câmara Municipal, pois
aprovando os projectos postos à sua consideração, compactuava com a situação:
“A maior parte dos indivíduos que se apresentam como «projectistas»
não têm, repito, competência para o ser, e então apresentam aquilo a
que se pode chamar uns bonecos à aprovação da Câmara. Mas a
533
Câmara tem o dever de não aprovar tais criações (...) ”
Para Duarte Pacheco qualquer edificação urbana era, fundamentalmente, uma
obra de arquitectura534 e, por tal facto defendia que no domínio das construções
deveriam de existir três intervenientes: o arquitecto, o engenheiro e o construtor.
Considerava que o político que apenas o arquitecto tinha a formação cultural e aptidão
profissional necessárias para conferir às construções a substância arquitectural e estética
inerente a qualquer edificação. Ao engenheiro competiria estabelecer as condições
necessárias à estabilidade das edificações e ao construtor a execução da obra, mas sob
orientação e direcção dos dois técnicos: o arquitecto e o engenheiro.
Absolutamente objectivo, Duarte Pacheco afirmaria:
“É necessário velar pela estética da Cidade, entregando a quem de
535
direito, aos arquitectos, a orientação geral das construções.”
531
Idem, página 11.
532
Idem, pp.11 e 12.
533
Idem, página 12.
534
Idem, página 12.
535
Idem, página 13.
223
O País a Régua e Esquadro
O político apresentaria ainda um outro argumento que julgava pertinente: o
financeiro e, uma vez mais, não isentava a Câmara das suas responsabilidades. Era facto
mais que sabido que os projectos assinados pelos técnicos competentes, os arquitectos,
eram mais dispendiosos que os projectos assinados por indivíduos sem as necessárias
credenciais técnicas. Contudo, como afirmaria Duarte Pacheco:
“ (...) uma vez que a Câmara tem aceitado a intervenção de uns e de
outros quase igualmente – e às vezes em consequência de influências
de certos perniciosos agentes, tratando melhor os barbeiros que os
536
médicos – é evidente que os interessados não hesitam (...) ”
Como já vinha sendo hábito, o corpo de vereadores aprovaria o parecer exposto
pelo presidente da câmara, no caso o parecer relativo às edificações urbanas. Duarte
Pacheco agradeceria o apoio e passaria de imediato à questão seguinte: o Parque
Florestal de Monsanto.
Informava o presidente que os trabalhos de arborização já tinham sido iniciados.
Uma equipa de duzentos operários trabalhava ao ritmo de duas mil covas por dia e, no
espaço de oito meses, estariam plantadas quatrocentas e cinquenta mil árvores537.
Seguidamente Duarte Pacheco informou a Câmara acerca das obras que iriam ter
lugar na Avenida Almirante Reis com o objectivo de melhorar as condições de
circulação de trânsito naquela importante artéria da cidade. Com novo pavimento do
Socorro à Praça do Chile, a avenida veria suprimida a placa central e em seu lugar
correriam as linhas do eléctrico de forma a deixar espaço suficiente a duas faixas de
rodagem em cada um dos sentidos da avenida.
Exposta esta iniciativa, Duarte Pacheco passaria a outro assunto. Considerando
que embora a resolução completa só pudesse surgir com o estudo do plano de
urbanização da cidade538, o político considerava que estando em projecto a construção
do Aeroporto de Lisboa na zona triangulada pela Avenida Alferes Malheiro, o Areeiro e
a Portela de Sacavém, poderia considerar-se definido o traçado de acesso a Lisboa pelo
lado da Encarnação539.
536
Idem, página 13.
537
Idem, página 16.
538
Idem, página 17.
539
Idem, Página 17.
224
O País a Régua e Esquadro
Definido o traçado da nova estrada que ligaria Lisboa ao aeroporto e ao Norte do
país, considerava o político que se tornava necessária a declaração de utilidade pública
da obra de construção da mesma estrada e, por tal facto, e não pondo em risco a sua
execução, que se realizassem as expropriações necessárias em toda a área abrangida
pela nova via540.
A sessão camarária de Março não terminaria sem que Duarte Pacheco se referi-
se a mais um dos problemas da cidade de Lisboa: as barracas.
Citando o decreto que ele próprio mandara publicar em Diário do Governo em
Setembro de 1933541 a propósito do programa das Casas Económicas, afirmava o
político que no espaço dos dois meses e meio que cumpriam já o tempo da sua
presidência da Câmara de Lisboa, tomara todas as providências necessárias à conclusão
dos trabalhos de urbanização do bairro Económico da Ajuda. Informava ainda que
estariam em fase de conclusão os bairros do Forno e da Serafina e que, no total, estes
três novos bairros facultariam mais de seiscentas habitações542.
Na sequência do exposto, julgava o político que se tornava necessário pensar nas
famílias que viviam em barracas sem condições de higiene ou salubridade, como era o
caso do conhecido «Bairro das Minhocas», às Laranjeiras. Não sendo possível fazer
transitar a população deste bairro para casas perenes, propunha Duarte Pacheco a sua
transferência para casas desmontáveis. A proposta do presidente de câmara foi aprovada
por unanimidade.
O propósito lançado por Duarte Pacheco para esta franja da população, teria eco
na imprensa. A 29 de Março o Diário de Notícias apresentava uma entrevista com
Carlos Santos, o engenheiro que no mandato anterior havia sido vereador e vice-
presidente da CML.
Sob a questão da política das casas económicas, relembrava o engenheiro que
nem todos os agregados familiares se podiam candidatar ao programa da habitação
lançado pelo governo em 1933. Devido ao baixo rendimento, muitas famílias que
também necessitavam de habitação viviam em bairros construídos com tábuas velhas e
folhas ferrugentas543. Estimava-se que cerca de cinquenta mil pessoas vivessem em dez
mil barracas que não haviam nascido de geração espontânea. Um mercado paralelo de
540
Idem, página 17.
541
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 052 de 23 de Setembro de 1933.
542
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 4, sessão realizada a 17 de Março de 1938,
página 19.
543
Diário de Notícias, 29 de Março de 1938, página 2.
225
O País a Régua e Esquadro
proprietários detinha a posse das ditas barracas e através do seu aluguer a estas famílias
de precário e volátil rendimento, obtinham uma média de cinco mil contos ao ano.
Como alertava o engenheiro, os proprietários destes bairros clandestinos obtinham um
lucro de rendas superior em dobro ao rendimento dos proprietários de casas localizadas
no Bairro Azul ou nos novos bairros de qualquer cor544.
Lembrava ainda o engenheiro que desde 1928545 que o governo tentava
contrariar a situação, contudo, como remataria o DN: leis não faltam ... o que faltam são
as casas...O engenheiro Carlos Santos remataria também: confiava absolutamente na
energia do presidente da câmara e do apoio que decerto o Grande Chefe lhe daria e por
isso acreditava que em vida chegaria ainda a ver o clarão do incêndio das infames
barracas que vexavam a cidade546.
A 21 de Abril de 1938 decorreria a quinta sessão camarária presidida por Duarte
Pacheco. Os trabalhos da sessão girariam em torno da prestação que a CML poderia
desempenhar no plano das Comemorações Centenárias da Fundação e Restauração da
Nacionalidade, a celebrar em 1940. Como Presidente da Câmara Municipal de Lisboa,
cidade palco de grande número das festividades programadas, Duarte Pacheco havia
sido nomeado membro da Comissão dos Centenários547.
Com efeito, em nota oficiosa de 27 de Março de 1938548, Oliveira Salazar traçara
o programa de uma iniciativa a realizar em 1940: a Celebração do Duplo Centenário da
Fundação e Restauração de Portugal549. Num período em que na Europa se viviam
momentos de profunda incerteza política, económica e social, e que em Espanha
estalara já uma guerra civil, Portugal iria celebrar as duas datas centenárias. Nem
Portugal nem os portugueses corriam risco de crise de identidade cultural, e questões
como os nacionalismos, regionalismos ou autonomias, eram cenários que também não
se colocavam, nem podiam colocar, porque afinal Portugal era uma Nação nascida cerca
de 1140, restaurada cerca de 1640 e com data de (re) nascimento previsto para Maio de
1940. Mas porque o proto-programa das festas lançado por Oliveira Salazar em Março
544
Idem, página 4.
545
Diário do Governo, Decreto-Lei nº 16 55 de 16 de Outubro de 1928.
546
Diário de Notícias, 29 de Março de 1938, página 4.
547
Diário do Governo, II Série, Portaria de 11 de Abril de 1938 exarada pela Presidência do Conselho de
Ministros.
548
Nota Oficiosa da Presidência do Conselho, in Diário de Notícias, 27 de Março de 1938.
549
Sobre o tema Vide FRANÇA, José-Augusto, A Arte em Portugal no Século XX (1911-1961), Venda
Nova, Bertrand Editora, 3ª edição, 1991;Idem, “1940: a Exposição do Mundo Português” in Colóquio
Artes, nº 45, Junho de 1980; ACCIAIUOLI, Margarida, Os Anos 40 em Portugal. O País, o Regime e as
Artes – “Restauração” e “Celebração”, Lisboa, dissertação de doutoramento apresentada à Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 1991.
226
O País a Régua e Esquadro
de 1938 era extenso e ambicioso, a nação renasceria com um ligeiro atraso, a 23 de
Junho de 1940. O regime encontrava nos áureos momentos pátrios da fundação da
nacionalidade e na restauração da coroa portuguesa, os graus de heroicidade necessários
à recomposição da alma lusa. Num processo de identificação e de legitimação histórica,
o regime revestia-se da carga heróica dos seus antecessores de 1140 e 1640 e, coroava-
se ele próprio em 1940 numa terceira idade de ouro no percurso do ser português550.
Numa Europa em convulsão política, um pequeno país revelava ser detentor de
uma matriz de nacionalidade com oito séculos de história que proporcionavam uma
linha de fronteira estável, e importava trazer à cena política nacional e internacional a
perenidade dessa nacionalidade impoluta. E a encenação da celebração estava
determinada e agendada ao mais alto nível, pois o Presidente do Conselho estipulara o
programa a seguir.
A par de uma imensidade de pequenos arranjos e grandes obras, o país deveria
munir-se das condições necessárias a todos os que do exterior nos visitassem. Por todo o
país se deveria ter atenção à limpeza das casas e das ruas e o estabelecimento de um
certo número de pousadas em recantos provincianos551. Mas de entre todas as
condições apontavam-se como prioritários os acessos viários à capital mas também uma
estação marítima, pelo menos no porto de Lisboa, bem como o aeródromo da Portela
de Sacavém552.
A recuperação do Castelo de S. Jorge, em Lisboa, representaria a mais nobre das
homenagens ao fundador da nação, D. Afonso Henriques e para Vila Viçosa projectava-
se também uma homenagem a D. João IV, o restaurador da nacionalidade.
Mas o plano de celebração era bem mais ambicioso, porque o ser português era
manter o espírito heróico dos antepassados e acrescentar-lhe o nosso poder realizador.
Neste sentido era apresentada uma lista de treze grandes obras que deveriam estar
concluídas até 1940, atestando a capacidade realizadora dos portugueses. E as obras
diziam respeito aos trabalhos de restauro do Palácio de Queluz; o novo edifício da Casa
da Moeda; o Anexo do Museu de Arte Antiga; o complexo auto-estrada Lisboa-Cascais,
Estádio e estrada marginal; o desafogo da Torre de Belém; a beneficiação da
Assembleia Nacional; a resolução urbanística do Parque Eduardo VII; as reparações do
550
Expressão utilizada do por Augusto de Castro, Comissário Geral da Exposição do Mundo Português in
A Exposição do Mundo Português e a sua finalidade, Lisboa, edição da Empresa Nacional de
Publicidade, 1940, página 216.
551
Nota Oficiosa da Presidência do Conselho, in Diário de Notícias, 27 de Março de 1938.
552
Idem.
227
O País a Régua e Esquadro
Teatro Nacional de S. Carlos; o Parque Florestal de Monsanto; a primeira fase de
construção dos Hospitais Escolares e a ligação da emissora Nacional às colónias
portuguesas553.
A par das várias comemorações que aconteceriam um pouco por todo o país,
reserva-se para a capital o plano de uma magna exposição histórica: a Exposição do
Mundo Português. A ter lugar em Belém, no espaço limitado a oriente pela Praça
Afonso de Albuquerque e a ocidente pela Torre de Belém, o recinto expositivo
resguardava-se na carga histórica do Mosteiro de Santa Maria de Belém dos Jerónimos
e surgiria imponente à beira Tejo.
À luz da análise histórica, a exposição do Mundo Português constituiria a
iniciativa político-cultural mais importante do Estado Novo554. Outras iniciativas
expositivas a antecederam no tempo e outras tiveram lugar posteriormente555, contudo,
da iniciativa politico-ideológica à convocação de esforços materiais e humanos, a
Exposição do Mundo Português tomaria proporções inéditas e irrepetíveis.
Pela citação, ainda que sumária, do teor da nota oficiosa que define o programa
das comemorações centenárias556 se depreende facilmente que para o regime, a
concretização do projecto assentava num rol de obras públicas em fase de construção ou
em fase de projecto. O Presidente do Conselho acreditava que o nosso poder realizador
permitia que, no curto espaço de dois anos tudo se restaurasse, melhorasse e construísse.
Neste mundo de coisas que espelhavam o nosso poder realizador e que eram
necessárias à concretização do projecto celebrativo, era óbvia a decisão do Presidente
do Conselho, mas era óbvia também a árdua tarefa a quem competia a empreitada: por
um lado a Câmara Municipal, de Lisboa e por outro lado o Ministério das Obras
Públicas e Comunicações.
Do rol de obras elencadas pelo Presidente do Conselho como testemunhos do
poder realizador do ser português, todas conferiam com projectos iniciados por Duarte
553
Idem.
554
BARROS, Júlia Leitão de, “Exposição do Mundo Português” in Dicionário de História do Estado
Novo, vol. I, dir. Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, pp.325-327.
555
Vide ACCIAIUOLI, Margarida, Exposições do Estado Novo 1934-1940, Lisboa, Livros Horizonte,
1998; SILVA, PAULO; João Carlos, “Exposições Coloniais”, in Dicionário de História do Estado Novo,
vol. I, dir. Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, pp.327 - 329;
SILVA, Raquel Henriques da, “Exposições de Artes Plásticas”, in Dicionário de História do Estado
Novo, vol. I, dir. Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, pp. 329-
331; FERNANDES, José Manuel, “Exposições de Obras Públicas” in Dicionário de História do Estado
Novo, vol. I, dir. Fernando Rosas e J.M. Brandão de Brito, Lisboa, Círculo de Leitores, 1996, pp. 332-
333.
556
O estudo exaustivo das Comemorações Centenárias e da Exposição do Mundo Português foi realizado
por Margarida Acciaiuoli, Op. Cit., 1991.
228
O País a Régua e Esquadro
Pacheco no MOPC de 1932 a 1936. Algumas delas teriam sido retomadas pelo político
assim que em Janeiro de 1938 tomou posse como Presidente da Câmara Municipal de
Lisboa. Mas todas as obras que permaneciam sob alçada directa do MOPC pareciam ter
desacelerado no processo construtivo. E no desempenho do cargo de ministro das Obras
Públicas e Comunicações estava desde 17 de Janeiro de 1936 o Coronel Silva
Abranches. Estávamos agora em Março de 1938. Silva Abranches contava já com 26
meses de actividade ministerial nas Obras Públicas. Lida a nota oficiosa da Presidência
do Conselho, outros 26 meses contavam para a data inaugural das Comemorações
Centenárias.
Silva Abranches não fora colocado no ministério para acelerar a máquina
construtiva do Estado, mas sim para abrandar o ritmo, não tanto das construções, mas da
malha de acções que lhe estavam subjacentes: as expropriações, as tributações ou as
revisões de contrato com entidades individuais e colectivas. Mas por ora as atenções
centrar-se-iam em Lisboa.
Nas comemorações dos Centenários, nomeadamente no projecto da Exposição
do Mundo Português, a cidade de Lisboa representaria um papel de relevo. Duarte
Pacheco era desde Janeiro de 1938 Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, sendo
também membro do Comissariado das Comemorações Centenárias. Como anterior
ministro das Obras Públicas e como actual presidente de câmara, conhecia melhor que
qualquer outro político os projectos das obras elencadas no plano dos centenários.
Neste sentido, na sessão camarária de 21 de Abril de 1938 Duarte Pacheco
apresentava três propostas para o cumprimento pleno da prestação da CML no programa
dos centenários: assegurar a transferência plena da Fábrica de Gás de Belém para a
Quinta da Matinha; assegurar as ligações da cidade à auto-estrada Lisboa-Cascais e
assegurar o processo de arborização da segunda parcela do parque Florestal de
Monsanto.
Relativamente à transferência para outro local da Fábrica de Gás, que situada
desde 1888 nas imediações de Belém assegurava grande parte da iluminação da cidade,
considerava o presidente da câmara que, no cumprimento do decreto que o próprio
decretara em 1935557, competia à CML a montagem da tubagem de ligação dos
gasómetros da Quinta da Matinha ao Terreiro do Paço, através da futura avenida
marginal do lado oriental da cidade. Neste sentido, afirmava Duarte Pacheco a
557
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 25 726 de 23 de Novembro de 1935.
229
O País a Régua e Esquadro
necessidade de se declarar a utilidade pública desta faixa de terreno e sua consequente
aquisição ou expropriação558.
No caso respeitante às ligações da cidade à auto-estrada Lisboa-Cascais, caberia
à CML a execução dos arruamentos necessários à decretada zona de influência daquele
equipamento. Por tal facto, na zona alta da cidade cumpriria à CML executar os
arruamentos de acesso à auto-estrada na zona de Campolide, não se descurando contudo
os arruamentos de acesso nas zonas do Alto da Ajuda, Restelo, Algés e baixa
marginal559.
Tendo em conta que decorriam a bom ritmo os trabalhos de arborização da
primeira zona do Parque Florestal de Monsanto, considerava o presidente da câmara que
se tornava necessário dar início aos trabalhos da segunda zona. Nesse sentido, Duarte
Pacheco propôs o arranque dos trabalhos de arborização e lançamento de estradas do
parque560.
A quinta sessão camarária presidida por Duarte Pacheco não encerraria sem que
fosse aprovado o plano provisório de remoção de lixos da cidade. Para tal o político
tinha pensado um concurso de arrematação, visando a melhoria das condições sanitárias
da cidade561.
A 19 de Maio de 1938 Duarte Pacheco presidiria pela última vez às sessões
camarárias. À sua responsabilidade ficaria regulamentado o comércio de carnes562, bem
como o projecto de posturas comerciais563.
No domínio das obras em curso ou em projecto, considerava o presidente a
necessidade de aquisição de vários prédios rústicos abrangidos pelo perímetro do
aeroporto e, por tal facto, tornava-se necessária a sua compra ou expropriação564.
Em virtude dos estudos urbanísticos em curso, informava ainda Duarte Pacheco
da necessidade de se negociar a forma de aquisição dos terrenos necessários ao projecto
de prolongamento da Avenida da Liberdade.
Cerca das 14 horas Duarte Pacheco daria por encerrada a sessão. Até dia 24 de
Maio permaneceria como presidente da CML. No dia 25 tomaria posse como Ministro
558
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta da sessão nº 5, realizada a 21 de Abril de
1938, página 3.
559
Idem, página 4.
560
Idem, página 7.
561
Idem, pp. 11-31.
562
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta da sessão nº6, realizada a 19 de Maio de
1938, pp. 2-5.
563
Idem, pp. 11-14 e 16-18.
564
Idem, página 16.
230
O País a Régua e Esquadro
das Obras Publicas e Comunicações e regressaria, de imediato, ao gabinete de que fora
afastado em Janeiro de 1936.
No cumprimento da lei Duarte Pacheco não poderia acumular dois cargos
públicos e, ao tomar posse como ministro abdicou da presidência da Câmara Municipal
de Lisboa. Eduardo Rodrigues de Carvalho, amigo pessoal do ministro, engenheiro-
chefe de muitas das suas obras, seu antigo chefe de gabinete e seu director municipal
dos Serviços Técnico-Especiais no município seria nomeado Presidente-Substituto da
Câmara Municipal de Lisboa.
Duarte Pacheco deixara os Paços do Concelho e regressara ao Terreiro do Paço,
mas não virara as costas à cidade. Lisboa desempenharia um papel fundamental no
plano metódico do político. Duarte Pacheco não esquecera que:
“ (...) o problema do plano de urbanização e expansão da cidade era
sem dúvida o mais importante de todos os problemas citadinos
565
actuais.”
Na Câmara de Lisboa ficara um dos homens de confiança do ministro, o homem
encarregue de executar as medidas necessárias à concretização do plano director da
cidade traçado por Duarte Pacheco.
Existe um denso e coeso conjunto de obras infra-estruturais erguidas em Lisboa
e cuja responsabilidade política recai sobre Duarte Pacheco. De 1928 a 1938, sob acção
directa do político assiste-se a uma inegável transformação, extensão, e equipagem da
cidade e não só, uma vez que parte das infra-estruturas erguidas não representaram
unicamente um interesse ou melhoramento local, mas antes um interesse nacional e
colectivo, nomeadamente todos os trabalhos realizados mais no domínio das
Comunicações do que propriamente no domínio das Obras Públicas.
Mas subjacente a todas as obras estruturais e infra-estruturais realizadas por
Duarte Pacheco na cidade de Lisboa estaria o plano de urbanização, esse grau zero
planificador e regulador da extensão e edificação da capital. Sobre este plano teceremos
considerações num outro capítulo do trabalho.
Porque o plano de urbanização da cidade surge política e historicamente como a
obra primordial do político, todo o outro trabalho realizado tende a tornar-se invisível
565
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta da sessão nº2, realizada a 17 e 18 de Janeiro
de 1938, página 14.
231
O País a Régua e Esquadro
face à extensão e repercussão do plano regulador. Foi pois nosso objectivo trazer à luz
das considerações históricas a obra total de Duarte Pacheco na cidade de Lisboa no
desempenho do cargo de Presidente da Câmara.
Como primeiro Presidente da Câmara Municipal de Lisboa nomeado pelo
Governo, Duarte Pacheco teve por principal preocupação regular a máquina
administrativa municipal em concordância directa com o Código Administrativo de
1936-1940.
Mas fez mais. Em cinco meses de gerência camarária procurou dar resposta às
deploráveis questões sanitárias da cidade566, procurou regular as actividades comerciais
e industriais, atribuiu aos arquitectos a responsabilidade de assinar os projectos de
edificações urbanas e teve a coragem de apontar ao município a quota-parte de
responsabilidade no caótico regime de construção da cidade. Mais do que um promotor
do Prémio Municipal de Arquitectura, Duarte Pacheco foi o político que declarou existir
uma profunda diferença entre Arquitectura e Construção Civil.
Uma vez mais, a frontalidade da acção e linearidade das suas palavras
produziriam mais vozes de desagrado do que aplausos. Muitos interesses estavam
instalados há décadas senão mesmo gerações, e a política urbana de Duarte Pacheco
abalara já alguns alicerces.
Como Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, Duarte Pacheco imprimira em
cinco meses um regime regulador a todas as actividades que compunham a vida
citadina. E se como ministro atribuíra à cidade de Lisboa um número considerável de
obras infra-estruturais, só no seu desempenho como presidente da câmara essas mesmas
obras avançaram de facto. E algumas delas avançariam até à conclusão mas sob estritas
e exigentes condições de garantia: com um homem da plena confiança do ministro nos
Paços do Concelho e com Duarte Pacheco no Terreiro do Paço.
566
Relembremos questões como a recolha do lixo, a proibição de alimentação dos suínos de consumo
com lixos domésticos, solução química reguladora dos níveis de cloro-fenóis existentes na rede pública de
abastecimento de água, a regulação de do comércio de carne, da circulação de táxis, do regime de toldos e
esplanadas, entre outros.
232
O País a Régua e Esquadro
3.4. Obras Públicas e Comunicações (1938-1943): construir um país
“Não se queira tudo para se poder ter alguma coisa.
E é possível que, persistindo com fé em realizar gradualmente o
que as realidades forem consentindo, se acabe por conseguir
tudo o que se deseja.”
Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas e Comunicações,
in Diário do Governo, 12 de Agosto de 1938.
A 23 de Março de 1938, cinco dias antes de se tornar pública a nota oficiosa da
Presidência do Conselho que anunciava a celebração política do duplo centenário da
Fundação e Restauração da Nacionalidade, Silva Abranches terá adoecido e Manuel
Rodrigues Júnior assumiu interinamente a pasta das Obras Públicas e Comunicações até
ao dia 24 de Maio. No dia 25 do mesmo mês Duarte Pacheco tomava posse do cargo e
da pasta ministerial. Silva Abranches não estaria presente na cerimónia de tomada de
posse. O facto mereceria referência no Diário de Notícias sem que se justificasse
motivo de doença, apenas a ausência do ministro cessante567.
Como tivemos já oportunidade de referir, o discurso proferido por Duarte
Pacheco naquela cerimónia revestiu-se de profunda emotividade. Aliás, o discurso não
foi sequer preparado. Socorrendo-se de algumas expressões de circunstância, entre o
improviso do momento e a contenção imposta pelo acto solene, Duarte Pacheco, entre
uma e outra frase, tropeçou nas palavras, fez pausas e silêncios e revelou, sobretudo,
uma voz embargada e trémula, muito distinta por exemplo, da firmeza e da limpidez de
voz que se sente no discurso de inauguração da Exposição do Mundo Português ou,
num outro exemplo, da voz de comando que do seu gabinete em Lisboa, lançava ao
Administrador Geral dos CTT que, no Porto, fazia a contabilidade dos estragos e
prejuízos provocados pelo ciclone de 1941568.
567
Cfr. Diário de Notícias, número de 26 de Maio de 1938.
568
RTP, Arquivo Histórico de Rádio, Subregistos, Discursos de Duarte Pacheco.
233
O País a Régua e Esquadro
Contudo, fiel a si próprio, o ministro empossado manteria a verticalidade das
palavras e de forma frontal respondia às questões que, no sussurro dos corredores do
poder, lançavam dúvidas sobre a suas intenções políticas:
“E que programa trago? O meu programa é o programa do Governo
apresentado tão brilhantemente ao país pelo eminente Chefe do
Governo, na lei da reconstituição económica, em leis complementares
e na recente nota sobre as comemorações centenárias. (...) Venho
encontrar no Ministério das Obras Públicas e Comunicações o mesmo
dinamismo, o mesmo espírito de bem servir a Nação que me honro de
aqui ter deixado? Por mim, pouco ou nada mudei; espero que os que
aqui trabalham não tenham também mudado muito.
Temos, entre muitas coisas, uma tarefa ingente a nosso cargo: a
realização das obras inscritas no magnífico programa das
comemorações centenárias, enunciado pelo sr. Presidente do
Conselho.
Todos poremos nessa realização a nossa inteligência, a nossa vontade,
todo o nosso esforço até ao esgotamento.
Agradeço agora a todas as pessoas presentes a carinhosa simpatia que
me trazem, amparando-me na profunda emoção deste momento.
Bem hajam.”569
Pese embora o clima de intriga característico da cena política, a questão do
«programa» trazido por Duarte Pacheco às Obras Públicas e Comunicações, era questão
que trazia em si alguma legitimidade.
Mais do que centrada em questões de teoria política, a cúpula do Estado Novo
concentrava-se no desenho político e administrativo do país. Desenho esse traçado pelo
Governo e em torno do qual orbitava uma classe abastada detentora de saber,
propriedade e poder. Nos salões das decisões políticas, a par da ancestral aristocracia de
sangue que emprestava às iniciativas e empreendimentos o crédito do nome, existia uma
burguesia endinheirada ávida de atingir o patamar da aristocracia do mérito. De
católicos monárquicos a republicanos, de religiosos a civis, de industriais a empresários,
de literatos a construtores, o regime político sustentava-se numa base social e
económica em que a serventia de interesses legitimava e reforçava a máquina do Estado.
569
Apêndice Documental, Documento 27.
234
O País a Régua e Esquadro
Neste regime de interesses e conflitos, o Presidente do Conselho surgia como uma
espécie de figura seráfica que orquestrava politicamente um ensamble, socorrendo-se de
instrumentos de subtilezas várias como as pinças ou as luvas de pelica.
E de tal modo os instrumentos políticos do Presidente do Conselho eram
díspares, que houve ministros que se souberam destituídos das pastas ao ler os jornais
pela manhã, como outros houve que foram agraciados com a consideração da palavra.
Apenas um ministro mereceu do Presidente do Conselho o reconhecimento
público da justificação de afastamento, do sacrifício por pressão política: e esse ministro
foi Duarte Pacheco. Entre o eufemismo e a hipérbole, consoante a maior ou menor
simpatia face à situação, as várias facções que compunham o Estado Novo ouviram e
interpretaram na figura de estilo correspondente às suas posições, as palavras do Chefe
do Governo quando este reconheceu que tivera por uma vez de sacrificar o ministro. E
quando o Presidente do Conselho retirou a Duarte Pacheco o poder político, fê-lo por
reconhecer a tensão que a actividade ministerial deste homem estava a exercer sobre o
tecido social e financeiro que compunha o desenho político e administrativo criado pelo
próprio regime.
Um Estado que se queria Novo tinha um país por construir e num país onde tudo
estava por fazer, a construção do país teria de se implantar num terreno. Mas o terreno
tinha dono. Por natureza um dono servil ao Estado Novo se o Estado de algum modo
também o servisse. Mas quando o Estado, na figura do Ministro das Obras Públicas e
Comunicações, sobrepôs ao direito da propriedade o dever do serviço e da utilidade
pública, surgiu um clima de fricção. O regime político entrava em contradição uma vez
que a tensão se exercia substancialmente sobre a propriedade, essa propriedade quase e
sempre pertença dos que constituíam o próprio Estado, essa propriedade reconhecida
como o sempiterno baluarte de poder.
Em 1936 fôra politicamente oportuno afastar o ministro. Mas em 1938 o cenário
político internacional alterara-se consideravelmente. Numa Europa em conflito bélico e
numa Espanha em guerra civil, cada milímetro de terra conquistado ou perdido fazia
deslizar a esquadria do poder. Em 1938 a propriedade atingira o estatuto de território
político de nações, não de países. E Portugal não era excepção. Em 1938, na Nota
Oficiosa de 27 de Março, ao afirmar que por oito séculos a nação portuguesa
permanecia definida e estável nas suas linhas de fronteira, o Presidente do Conselho
atribuía à terra o seu mais alto valor: o patriótico. A terra e a História nela plantada,
desempenhariam um papel estruturante nas Comemorações Centenárias. Mas para a
235
O País a Régua e Esquadro
efectivação do projecto, tornava-se necessário chamar de novo à cena política o homem
que, não olhando aos interesses instalados, dava garantias de cumprimento da agenda
política e do programa de obras.
No discurso de tomada de posse, Duarte Pacheco afirmaria que entre muitas
coisas, existia uma tarefa urgente: a realização das obras inscritas no programa das
comemorações centenárias. E declarando pôr ao serviço dessa realização toda a sua
inteligência e esforço até ao esgotamento, Duarte Pacheco não tencionava desviar-se do
cumprimento dos objectivos traçados. Contudo, limitar o regresso de Duarte Pacheco à
pasta das Obras Públicas e Comunicações no cumprimento preciso do programa
previsto para as comemorações centenárias, traduz-se numa interpretação redutora do
significado desta retoma política, pois o ministro, embora avançando de imediato com
as obras mais adiantadas, não irá descurar os planos gerais, como o próprio afirma em
decreto e na sequente acção política, como adiante veremos570.
Na Nota Oficiosa de 27 de Março de 1938, Salazar elencava as obras que
atestariam o «poder realizador» do regime: a empreitada de restauro e beneficiação do
palácio, jardim e parque de Queluz; o novo edifício da Casa da Moeda; o anexo do
Museu de Arte Antiga; a auto-estrada Lisboa-Cascais; o Estádio Nacional e sequentes
ligações viárias à auto-estrada e à estrada marginal; a libertação da Torre de Belém pela
deslocação da Fábrica de Gás para outro local; as obras do Palácio de S. Bento e
respectiva urbanização da zona envolvente; resolução urbanística do prolongamento da
Avenida da Liberdade; beneficiação do Teatro Nacional de S. Carlos; o maior avanço
possível no projecto do Parque Florestal de Monsanto; conclusão da primeira fase de
construção dos Hospitais Escolares de Lisboa e Porto; maior impulso na criação de
bairros de casas económicas em Lisboa e ligação radiofónica de Lisboa às terras
coloniais.
Umas ainda em decreto ou projecto, e outras já em fase de execução, todas estas
obras partilhavam de uma origem comum: o Ministério das Obras Públicas e
Comunicações, o organismo detentor do poder realizador do regime e pelos anos de
1932 a 1936 pensara, decretara e projectara a execução destas obras.
Salazar disse um dia que «em política, aquilo que parece é», mas em política o
que existe é o que se fez, e com Duarte Pacheco afastado do MOPC de 1936 a 1938, o
substituto Silva Abranches não só não fez novo como desacelerou o que até então vinha
570
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 29 043 de 7 de Outubro de 1938.
236
O País a Régua e Esquadro
sendo feito, principalmente em Lisboa, a cidade detentora ou reguladora das doze obras
que o Presidente do Conselho elencara na nota oficiosa de Março como testemunhos do
poder realizador do ser português.
No período de tempo que Duarte Pacheco presidiu à Câmara Municipal de
Lisboa, os projectos do Parque Florestal de Monsanto; do desafogo da Torre de Belém
pela transferência da Fábrica de Gás; dos trabalhos de urbanização da área envolvente
ao Palácio de S. Bento, do prolongamento da Avenida da Liberdade ou do desenho dos
arruamentos e vias de ligação à auto-estrada Lisboa-Cascais e Estrada Marginal, foram
projectos trabalhados no domínio das atribuições camarárias.
Regressado ao gabinete ministerial, num espaço de seis semanas Duarte Pacheco
abriria dois créditos para reforço de dotações orçamentais para as obras em curso e
despesas de gabinete571. Até ao final de Junho, o ministro tomava o pulso ao gabinete no
seu já característico período de acalmia, a fase reguladora, a do trabalho invisível. Por
este tempo toda a produção administrativa giraria em torno de dossiers relativos aos
melhoramentos urbanos, rurais, de saneamento e abastecimento de água, bem como aos
portos marítimos, correios e telégrafos, hidráulica agrícola, produção e abastecimento
de electricidade.
A 1 de Julho de 1938 o Diário do Governo publica os dois decretos que,
exarados pelo gabinete do ministro, dão o arranque definitivo ao segundo mandato de
Duarte Pacheco no MOPC. E o segundo mandato tem início com um passo definitivo
para a concretização do plano de urbanização de Lisboa.
Ao decretar a aquisição à Companhia dos Caminhos de Ferro Portugueses, da
faixa de terreno situada entre o Caneiro de Alcântara e a Torre de Belém, o ministro
traçava em linhas gerais mas definitivas, as directrizes que passariam a compor a zona
ribeirinha de Lisboa572.
Deste modo, considerava o diploma que:
“O plano de urbanização da cidade de Lisboa, actualmente em estudo,
comporta, entre outras realizações, o arranjo das Praças dos Jerónimos
e de Afonso de Albuquerque, a valorização da Avenida Marginal e o
573
embelezamento das imediações da Torre de Belém.”
571
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 28 743 de 7 de Junho de 1938 e Decreto-Lei nº 28 892 de
30 de Julho de 1938.
572
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 28 796 de 1 de Julho de 1938.
573
Idem.
237
O País a Régua e Esquadro
O plano de urbanização de Lisboa contemplava portanto a valorização da zona
de Belém, a mesma zona que o ministro considerava desde 1933 ser a linha de fronteira
e ponto de partida para o plano de urbanização da Costa do Sol e por isso mesmo o
ponto de arranque da estrada marginal. E se por questões de ordenamento de território
se tornava necessário intervir naquela zona, por questões de salvaguarda patrimonial,
Duarte Pacheco decretara em 1935 o desafogo da Torre de Belém. E para 1940, por
questões políticas, o espaço de Belém estava já reservado para receber a Exposição do
Mundo Português. E deste modo, retomando os projectos lançados no primeiro
mandato, sob pretexto e pressão do tempo impostos pelo cumprimento do programa de
celebração dos centenários, o ministro conseguia avançar no terreno da concretização
urbana da zona ocidental de Lisboa.
Mas no domínio do plano de urbanização, Duarte Pacheco não avançava
unicamente na direcção de Belém, pensava a cidade num todo programado. E nesse
sentido, se no diploma de 1 de Julho afirmava a necessidade de aquisição de terrenos à
CP numa extensão que ia do Caneiro de Alcântara à Torre de Belém, no mesmo
diploma o ministro avançava já com as linhas traçadas para a mesma zona ribeirinha,
mas a oriente.
Com efeito, e apresentando um plano de aproveitamento da zona portuária,
considerava o gabinete ministerial que, para uma melhor articulação de serviços, toda a
zona comercial e industrial efectuada no porto, transitaria para a zona oriental da cidade,
zona para a qual estava já programada uma nova avenida marginal, a mesma que Duarte
Pacheco enunciara ainda na presidência da CML. No respeitante ao tráfego fluvial,
marítimo nacional e internacional e demais serviços limpos do porto de Lisboa, ficariam
estes situados entre o Terreiro do Paço e a Torre de Belém.
Mas as acções políticas necessárias à concretização do plano de urbanização de
Lisboa, seriam ainda facilitadas pela publicação de um outro decreto exarado pelo
gabinete do ministro das Obras Públicas e Comunicações: o decreto que permitia a
expropriação por utilidade pública ao abrigo de doze obras inscritas no programa dos
Centenários:
“Aeroporto de Lisboa, estradas e arruamentos de acesso a Lisboa e ao
aeroporto; construção de casas económicas em Lisboa e Porto; arranjo
e integração do Castelo de S. Jorge; urbanização do Parque Eduardo
238
O País a Régua e Esquadro
VII; arranjo do bairro de Alfama; Auto-estrada e estrada marginal
Lisboa-Cascais; arranjo urbanístico das zonas dos Palácios da Ajuda,
Assembleia Nacional e de Queluz, em Lisboa, e dos Carrancas no
Porto; avenida marginal ao Tejo; urbanização da Praça dos Jerónimos;
edifícios universitários de Lisboa e novos hospitais de Lisboa e Porto;
as obras de urbanização da cidade de Lisboa e novos edifícios para
574
quartéis.”
Constituindo o Plano de Urbanização de Lisboa um dos estudos de caso do
presente trabalho, remetemos para o capítulo sequente a sua análise mais profunda575.
Contudo, urge desde já salientar que, embora este decreto contemplasse numa das suas
alíneas as obras de urbanização de Lisboa que o Governo aprovar para serem iniciadas
até 1940, das restantes onze alíneas que cumpriam o programa de obras contemplado
por este decreto, apenas os quartéis se localizavam por todo o país e o Palácio dos
Carrancas e um dos Hospitais Escolares se situavam no Porto. Já a auto-estrada e a
estrada marginal Lisboa-Cascais, cumpriam objectivos de um plano urbano e rodoviário
de escala regional, mas a sua aplicação técnica e prática continha no plano de
urbanização de Lisboa uma importância de extrema relevância. Quando às restantes seis
obras, os trabalhos de urbanização surgiam no mesmo patamar de importância que as
obras de edificação ou beneficiação. Tal significa que o decreto 28 797 de 1 de Julho de
1938, se assume de uma importância extrema e mesmo definitiva para o arranque
político e jurídico do Plano de Urbanização da Cidade de Lisboa.
Retomando o decreto 28 797, na sua aplicação como diploma de trabalho no
caso de necessidade de expropriação, importa referir que, se até 1936 muitas queixas e
desagrados se tinham manifestado contra Duarte Pacheco, a partir de 1 de Julho de
1938, data da instituição desta força de lei, a situação dos proprietários iria piorar
consideravelmente.
Por norma, numa situação de expropriação por utilidade pública, era constituída
uma comissão de avaliação composta por elementos representantes do proprietário e do
Estado. E, em caso de desacordo no montante referente avaliação, podia cada uma das
partes recorrer do processo.
574
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 28 797 de 1 de Julho de 1938.
575
Vide Infra Capítulo IV, ponto 4.1.
239
O País a Régua e Esquadro
Este processo era moroso, como referiu Duarte Pacheco na sessão camarária de
17 de Fevereiro de 1938576. Na mesma sessão camarária, e lendo o parecer de uma
comissão de peritos que se debruçou sobre o processo de expropriação relativo à
primeira das seis zonas que constituíam o perímetro do projectado Parque Florestal de
Monsanto, Duarte Pacheco havia de referir que se realizara:
“um processo de expropriações experimentado pela primeira vez no
nosso País, [que] permitiu a intervenção dos proprietários, da Câmara
como entidade expropriante, de delegados do Governo pelos
Ministérios competentes, e do Supremo Tribunal de Justiça. (...) pelo
facto de ter sido o autor deste processo de expropriações, tinha o
prazer especial de ler a declaração da comissão: a todos os vogais
desta comissão se afigura que os valores médios obtidos são uma
577
justa e razoável indemnização dos terrenos expropriados.”
Na mesma sessão camarária o político sublinhava ainda a questão do tempo e da justiça:
“ao contrário do que muita gente supôs quando da publicação do
respectivo Decreto [da criação do Parque Florestal] longe de redundar,
como se pensava, num cataclismo para os proprietários, veio tornar
possível, com rapidez e justiça, a realização de uma obra que, pelos
métodos ordinários de expropriação, talvez nem daqui a vinte anos
578
estivesse começada.”
A 17 de Fevereiro, em sessão camarária, Duarte Pacheco lia o relatório de uma
comissão de peritos que legitimava em 1938, a solução por ele encontrada para dar
início ao projecto do Parque de Monsanto. Com efeito, entre 1934 e 1935 o político
experimentara uma solução diferente da usual no processo de expropriação. Se por
norma a avaliação de terrenos surgia no encontro entre a entidade expropriante e o
proprietário, com direito a recurso de ambas as partes no caso de desacordo, Duarte
Pacheco alterou as regras do jogo para obter a celeridade necessária à expropriação: de
um lado ficava o proprietário e do outro lado a contra-parte: o Estado. Mas o Estado era
576
Actas das Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 3, sessão realizada a 17de Fevereiro de
1938, páginas 2 e 3.
577
Idem, página 3.
578
Idem, página 3.
240
O País a Régua e Esquadro
aqui composto por vários intervenientes, todos eles interessados na expropriação: a
Câmara como entidade expropriante e os Ministérios das Obras Públicas e da
Agricultura nas suas respectivas competências. Logo neste ponto, a alegação do
proprietário estava em minoria pois as alegações estatais ganhavam em número. E
porque a decisão seria desde logo exarada pelo Supremo Tribunal de Justiça, não existia
apelo nem recurso.
Com este processo de expropriação, que Duarte Pacheco reclama ser da sua
autoria, entre Setembro de 1934 e Dezembro de 1935, o Estado realizou em Monsanto
expropriações numa extensão de 130 hectares.
Se a 17 de Fevereiro de 1938 o político obtivera de uma comissão de peritos a
aprovação do método aplicado entre 1934 e 1935, a partir de 1938, com a publicação do
decreto 28 797, a nova fórmula passaria a ter a força da lei.
Deste modo, e porque existia um curto prazo de dois anos, para se concretizar o
programa de obras e melhoramentos que o governo se propunha realizar para levar a
efeito o programa traçado para a comemoração do duplo centenário da Fundação e
Restauração da Nacionalidade, na necessidade de se proceder a uma expropriação, o
procedimento seria o seguinte:
“Para cada obra ou melhoramento serão constituídas comissões de três
árbitros, dois permanentes – indicado um pela entidade adquirente e
outro pelo presidente do Supremo Tribunal de Justiça – e um terceiro,
designado para cada prédio, por escolha do respectivo proprietário.
Na arbitragem os peritos atenderão ao valor real e corrente dos prédios
durante os últimos três anos, e, na falta de unanimidade, será tomada a
média aritmética dos laudos que mais se aproximarem, da arbitragem
579
não haverá recurso”.
A fórmula encontrada quase não diferia do método utilizado por Duarte Pacheco
na expropriação dos 130 hectares da primeira zona de Monsanto.
579
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 28 797 de 1 de Julho de 1938, §1º e §2º.
241
O País a Régua e Esquadro
Vitor Matias Ferreira considera que o decreto 28 797 de 1 de Julho de 1938 tem
por base a Lei de 26 de Julho de 1912, ou seja, o diploma legal que institui o regime
geral de expropriação por utilidade pública580.
Em rigor, o homem é indissociável da propriedade da mesma forma que a
expropriação por utilidade pública existe existindo Estado. Em rigor, Duarte Pacheco
reclama para si a autoria da fórmula que reserva ao Estado a expropriação sem processo
de recurso. Em rigor, ao abrigo do decreto 28 797, entre 1938 e 1943 o Estado, aqui
protagonizado pelo MOPC e pelo seu ministro Duarte Pacheco, expropriou em Lisboa
cerca de 1300 hectares de terreno581. Em rigor, fê-lo de forma autoritária e surda. Em
rigor, o MOPC e o seu ministro conseguiram as condições básicas para a execução de
um Plano de Urbanização da cidade.
Mas o ano de 1938 seria profícuo na produção legislativa e na retoma das obras
que pelos anos de 1936 e 1937, quase haviam estagnado. A 26 de Julho, considerando o
governo que o projecto do aeroporto cumpria os objectivos de um melhoramento de
interesse geral e não apenas local, resolve comparticipar financeiramente a obra e regula
a área de intervenção da CML no projecto de obra582.
A 12 de Agosto, sob a forma de decreto, Duarte Pacheco retomava politicamente
a questão que lançara à sessão camarária de 17 de Março: as casas económicas e as
casas desmontáveis583. De forma realista, considerava o ministro não ser possível
erradicar o problema da habitação. Contudo, se o decreto de 1933584 permitira construir
cerca de seiscentas moradias em Lisboa, e um número quase idêntico na cidade do
Porto, e, constituindo o programa da habitação um dos melhoramentos consignados no
programa das comemorações centenárias, um novo impulso seria dado ao programa:
entre 1938 e 1940 estava prevista a construção de duas mil casas na capital.
Para as famílias que não tinham possibilidades de aderir ao programa das casas
económicas, e porque no programa das comemorações centenárias importava estarmos
em condições de receber quem nos visita585, previa-se que até 1940 se construíssem em
580
FERREIRA, Vitor Matias, A Cidade de Lisboa: de Capital do Império a Centro de Metrópole, Lisboa,
Publicações D. Quixote, 1987, página 151, nota 9.
581
FERREIRA, Vitor Matias, Op. Cit., página 158.
582
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 28 882 de 26 de Julho de 1938.
Constituindo o Aeroporto de Lisboa um dos estudos de caso do nosso trabalho, remete-se para o Capítulo
IV. Ponto 4.2, a análise aprofundada da questão.
583
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 28 912 de 12 de Agosto de 1938. Vide ainda Actas das
Sessões da Câmara Municipal de Lisboa, Acta nº 4, sessão realizada a 17 de Março de 1938, página 19.
584
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 23 052 de 23 de Setembro de 1933.
585
SALAZAR, António Oliveira, Nota Oficiosa in Diário de Notícias, 27 de Março de 1938.
242
O País a Régua e Esquadro
Lisboa mil casas desmontáveis de fibrocimento e madeira, com instalação de água e
esgotos e só entregues aos habitantes depois de completamente mobiladas586.
A 19 de Setembro de 1938 o decreto 29 011 dava início à construção do
programa das escolas primárias587. Contudo, o plano de construção destes equipamentos
escolares remontava a 1928, precisamente ao período de tempo em que Duarte Pacheco,
enquanto Ministro da Instrução Pública, nomeara uma comissão multidisciplinar com o
intuito de obter as informações necessárias ao estabelecimento da base organizativa das
escolas normais primárias e procurando também encontrar a fórmula para a criação de
um método rápido e eficaz de execução de edificações escolares588.
Aliás, Duarte Pacheco não deixaria de referir o facto no preâmbulo do decreto de
1938:
“Está no programa do Governo há alguns anos fazer estudar, aprovar e
executar o plano geral de escolas primárias a construir em todo o País,
para que possa ter definitiva solução o nosso velho problema de
instrução primária. Já em 1928 foram dados os primeiros passos nesse
589
sentido (...)”
Mas referia mais. Lembrava que entre 1934 e 1935, o Ministério das Obras
Públicas e Comunicações em colaboração com o Ministério da Instrução Pública,
retomara o estudo iniciado pela equipa de 1928 e conseguira:
“levá-lo a um estado de adiantamento que permitiu prever para 1936 o
começo da execução do plano geral dos novos edifícios a
590
construir.”
Lembrava o ministro que dentro da orientação pedagógica traçada pelo
Ministério da Instrução em 1928 e projectada pelo Ministério das Obras Públicas e
Comunicações até 1936, quase tudo estava pronto. E o quase tudo contemplava os
projectos-tipo regionais, os orçamentos, os edifícios a construir ou a ampliar com a
relação total do país, à excepção do distrito de Lisboa, concelho do Porto e cidades de
586
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 28 912 de 12 de Agosto de 1938.
587
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 29 011 de 19 de Setembro de 1938.
588
Vide Supra ponto 3.1.
589
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 29 011 de 19 de Setembro de 1938
590
Idem.
243
O País a Régua e Esquadro
Braga, Coimbra, Guarda, Setúbal e Viana do Castelo, que eram alvo de estudos
especiais591.
Contudo, em 1936 dois factos alterariam o cenário político e a alteração teria
efeito imediato no plano das construções escolares primárias: Duarte Pacheco seria
afastado das Obras Públicas e Comunicações e o Ministério da Instrução Pública dava
lugar ao Ministério da Educação Nacional. Este último facto, mais do que alterar o
nome de uma tutela, alteraria os fundamentos do ensino e da educação. E as escolas
primárias, os repositórios de saber, mereceriam um novo olhar e a reconsideração dos
estudos prévios. O projecto construtivo de escolas primárias que ficou conhecido como
o «plano dos centenários», só estaria concluído em 1941592, contudo o diploma de
Setembro de 1938 promoveria a retoma do projecto, nomeadamente nas escolas
primárias a construir nos agrupamentos de casas económicas e de todos os edifícios que
se encontravam em fase de construção.
A 7 de Outubro de 1938 e porque algumas das obras propostas para conclusão
em 1940 se encontravam já em avançada fase de projecto, e haviam merecido já a
aprovação do mesmo, autorizava o governo que Duarte Pacheco iniciasse as obras da
estrada marginal e auto-estrada Lisboa-Cascais, bem como das obras do Estádio de
Lisboa, com dispensa de quaisquer formalidades legais593. A 7 de Dezembro de 1938 a
JAE recebia a dotação consignada no orçamento para que procedesse à construção da
estrada marginal e da auto-estrada Lisboa-Cascais594.
No ano de 1939 manter-se-ia o ritmo dos trabalhos relativos aos planos gerais de
melhoramentos urbanos, rurais e de abastecimento de água e saneamento. Os trabalhos
relativos aos portos marítimos, aos correios e telégrafos e aos serviços eléctricos e
hidráulicos por todo o país, mantinham também um ritmo constante. A par destes planos
gerais, decorriam também as obras integradas no programa das realizações centenárias.
A 2 de Fevereiro era aprovado pelo governo um protocolo adicional ao contrato
celebrado entre o Estado, a CML e as Companhias Reunidas de Gás e Electricidade para
a transferência da Fábrica de Gás e dos respectivos gasómetros das proximidades da
Torre de Belém para a Matinha595.
591
Idem.
592
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 31 468 de 19 de Agosto de 1941. Sobre o tema VIDE
BEJA, Filomena Marona et. al., Muitos Anos de Escolas, vol. I Edifícios para o Ensino Infantil e
Primário até 1941, Lisboa, Ministério da Educação – Direcção-Geral de Administração Escolar, 1990.
593
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 29 043 de 7 de Outubro de 1938.
594
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 29 227 de 7 de Dezembro de 1938.
595
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 29 421 de 2 de Fevereiro de 1939.
244
O País a Régua e Esquadro
A 25 de Maio era aberto um crédito para reforço das dotações consignadas no
orçamento ao Palácio de Queluz e da Ajuda596.
A 5 de Setembro, após aprovação do projecto dos novos traçados da estrada
marginal Lisboa-Cascais, era autorizado o levantamento e alteração da linha férrea na
zona da avenida da Índia, no troço compreendido entre o Bom Sucesso e Alcântara.
Ainda em Setembro, no dia 29, a DGEMN era autorizada a celebrar contrato
com uma empresa de construção, para execução das obras de fundação, superestrutura
de betão armado e paredes da Estação Marítima de Alcântara597. Levantavam-se assim
as caixas murárias de uma estação marítima, pelo menos, no porto de Lisboa, como
anunciara em Março de 1938 o Presidente do Conselho598.
E no seguimento do mesmo programa, e porque importava o estabelecer um
certo número de pousadas em recantos provincianos, onde a iniciativa privada não
cuidou até hoje da necessidade de quem viaja ou passeia599, a 4 de Novembro a mesma
DGEMN era autorizada a celebrar contrato para a execução das obras de construção das
Pousadas da Serra da Estrela, Vale do Vouga e Marão600.
No dia 13 de Novembro tinham início os trabalhos de reparação do Palácio dos
Carrancas, no Porto, e sua adaptação a Museu Nacional Soares dos Reis601.
O ano de 1940, ano das comemorações centenárias da Fundação e Restauração
da Nacionalidade, não traria alterações ao ritmo funcional do MOPC. Mantinham-se
todos os trabalhos relativos aos planos gerais de melhoramentos, aos planos das grandes
obras públicas e novas iniciativas surgiam do gabinete de Duarte Pacheco.
A 13 de Julho era possível celebrar o contrato de execução da obra de tapamento
do Caneiro de Alcântara.602 Esta obra infra-estrutural de saneamento revelava-se de
extrema importância, pois a ribeira de Alcântara que, desde a Falagueira de Monsanto
ao rio Tejo corria a céu aberto, arrastava consigo todos os lixos e detritos industriais e
domésticos da zona norte e ocidental da cidade, causando um grave problema de saúde
pública. Urgia assim, criar um sistema de evacuação dos esgotos da cidade.
A 27 de Setembro o MOPC recebia uma dotação orçamental extraordinária de
20 mil contos destinada a intensificar os trabalhos públicos em todo o país, com especial
596
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 29 621 de 22de Maio de 1939.
597
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 29 945 de 28 de Setembro de 1939.
598
SALAZAR, António de Oliveira, Op. Cit.
599
Idem, Op. Cit.
600
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 30 024 de 4 de Novembro de 1939.
601
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 30 048 de 13 de Novembro de 1939.
602
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 30 589 de 7 de Julho de 1940.
245
O País a Régua e Esquadro
incidência no Alentejo e nos distritos de Braga, Porto, Viseu, Guarda e Setúbal603. Os
trabalhos iriam incidir na construção e reparação de estradas, num projecto a realizar
pela Junta Autónoma de Estradas e ainda obras em rios, cursos de água e costas
marítimas, sob orientação da Direcção Geral dos Serviços Hidráulicos e Eléctricos.
A mesma Direcção Geral dos Serviços Hidráulicos e Eléctricos ficaria
encarregue, a 6 de Dezembro, de celebrar o contrato de execução da empreitada de
melhoramentos nas praias da Costa do Sol604.
Do elenco de doze obras que compunham o exemplo do poder realizador dos
portugueses, e à excepção Estádio Nacional, todas estiveram operacionais como palco
ou cenário dos festejos, mas em verdade, nenhuma se concluíra a tempo das
celebrações. Mas o programa das festas era extenso e variado e entre a luz e cor dos
cortejos, todas as atenções se dirigiram a Lisboa de Junho a Dezembro de 1940. E de
entre a variedade de eventos, o recinto expositivo criado à beira Tejo surgia numa
magnitude inédita.
Na cerimónia de inauguração da Exposição Histórica do Mundo Português, o
comissário geral Augusto de Castro diria:
“É a primeira vez que se realiza uma exposição de História. É a
primeira vez no Mundo que se expõe, em imagens, os símbolos de
605
uma Civilização”
Ocupando esta cidade histórica uma área de cerca de 560 mil metros quadrados,
na sua construção efémera trabalharam durante 11 meses 15 engenheiros, 13
arquitectos, 1000 estucadores, 5 mil operários e 129 serventes606. Concebida num plano
regular em quadrilátero definido por duas alas perpendiculares ao Tejo: o Pavilhão dos
Portugueses no Mundo e o Pavilhão de Honra e de Lisboa; a estes se seguiam numa
distribuição regular os restantes pavilhões expositivos da História de Portugal,
Fundação, Descobrimentos, Colonização, Brasil, Independência e Portugal em 1940.
As aldeias portuguesas e a secção colonial, a par da reconstituição material
apresentariam figurantes, o centro regional e a exposição etnográfica materializavam
603
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 30 765 de 27 de Julho de 1940.
604
Diário do Governo, I Série, Decreto-Lei nº 30 939 de 6 de Dezembro de 1940.
605
Diário de Notícias, 24 de Junho de 1940.
606
BARROS, Júlia Leitão de, “Exposição do Mundo Português” in Dicionário da História do Estado
Novo, dir. J. M. Brandão de Brito e Fernando Rosas, vol. I, Círculo de Leitores, 1996, pp. 352-327.
246
O País a Régua e Esquadro
nas intendências do quotidiano a unicidade do ser português e o Espelho de Água, a
feira de atracções e a zona comercial emprestavam ao recinto um tom festivo e
recreativo. Amarrada ao Tejo, a Nau Portugal, réplica de uma embarcação portuguesa
de setecentos, bem como o Padrão dos Descobrimentos, reclamavam a herança do
espírito navegador da alma lusa.
Para a efectiva execução deste projecto, o MOPC alterou o curso de uma linha
férrea, expropriou terrenos, desalojou habitantes e demoliu considerável número de
construções e, em 11 meses construiu uma cidade histórica feita de estuque, madeira,
gesso e papel.
No acto de inauguração da exposição, Duarte Pacheco afirmaria:
“Erguer em escassos onze meses, com recursos diminutos – agravadas
as dificuldades próprias do empreendimento com as que resultaram do
conflito europeu e do inverno passado excepcionalmente rigoroso e
prolongado – o quadro que os vossos olhos embevecidos vão
contemplar dentro de momentos pode parecer um milagre, e é, sem
607
dúvida, um êxito fulgurante.”
O político reconhecia a Sá e Melo, comissário adjunto da exposição e a
Cottinelli Telmo, arquitecto-chefe, a autoria da proeza:
“Os realizadores da Exposição foram o engenheiro Sá e Melo e o
arquitecto Cottinelli Telmo. No risco e no complexo artístico da
Exposição, Telmo, artista raro e talentoso, artista em tudo – artista nos
olhos, nas mãos, artista na alma, no coração. Na organização e na
execução, Sá e Melo, tenaz, incansável, calmo, modesto, oportuno,
608
previdente. Homenagem a eles primeiro.”
Na cerimónia de encerramento Duarte Pacheco diria que a exposição fora um
sonho lindo609, mas os planos do ministro eram reais e concretos e se a Exposição do
Mundo Português tinha sido um sonho, a função futura do espaço que a recebera estava
já programada no plano de obras do gabinete ministerial.
607
Vide Apêndice Documental, Documento 31.
608
Idem.
609
Vide Apêndice Documental, Documento 32.
247
O País a Régua e Esquadro
Deste modo, a 8 de Setembro de 1941 o Ministério decretava a criação da
CAPOPI, a Comissão Administrativa do Plano de Obras da Praça do Império610.
Pretendia-se que esta comissão, autónoma e de carácter eventual, elaborasse o plano
geral, estudos e projectos das obras a realizar na Praça do Império e zona marginal de
Belém, e que administrasse as obras de adaptação e ampliação necessárias ao
conveniente aproveitamento dos pavilhões, instalações e arranjos ainda existentes no
recinto da Exposição do Mundo Português.
O grupo de trabalho seria liderado por Sá e Melo e Cottinelli Telmo, dois dos
colaboradores mais próximos do ministro, os mesmo que a 15 de Outubro iriam dirigir
outra importante obra pública, a adiada Cidade Universitária de Coimbra611.
Ano de gestão do plano de obras em curso e do surgimento de novos projectos,
1941 seria também um ano de imprevistos e agravamento financeiro para o Ministério.
A 15 de Fevereiro um ciclone assolara o país e os estragos e prejuízos eram avultados.
Em Lisboa, através de uma conversa via rádio, Duarte Pacheco tentava obter
informações de terreno do Administrador Geral dos CTT do Porto, que 5 dias depois do
desastre natural, dirigia na região norte os trabalhos de recuperação das linhas
telefónicas612.
Informava o administrador que a situação pior se vivia abaixo de Albergaria-a-
Velha, com uma extensão de 20 km de linhas telefónicas derrubadas, mas com
possibilidades de reparação rápida pois entre Oliveira de Azeméis e a Mealhada
estavam colocadas cinco brigadas de reparação, e aguardava-se ainda a chegada de mais
duas brigadas de apoio da circunscrição de Braga.
Com extrema dificuldade de comunicação, dados os danos causados, ministro
insistia na urgência de reparação da rede, com prioridade para a extensão Lisboa-Porto.
Informava ainda Duarte Pacheco que já nessa manhã havia visitado o distrito de
Santarém e os estragos eram muito grandes. Considerava o Ministro que a
Administração Geral dos CTT de Lisboa ficava responsável pela reparação das linhas
até Coimbra e incumbia à Administração do Porto a reparação a norte desse encontro.
Informava ainda o Administrador Geral que a cidade do Porto fora gravemente
afectada pelo ciclone. Os danos materiais eram ligeiros, apenas a Faculdade de Ciências
necessitaria de uns milhares de telhas pois o telhado havia sido levantado, contudo, os
610
Diário do Governo¸ I Série, Decreto-Lei nº 31 502 de 8 de Setembro de 1941.
611
Diário do Governo¸ I Série, Decreto-Lei nº 31 576 de 15 de Outubro de 1941.
612
RTP, Arquivo Histórico de Rádio, Subregistos, Conversa radiofónica entre Duarte Pacheco e o
Administrador Geral dos CTT do Porto a 17 de Fevereiro de 1941.
248
O País a Régua e Esquadro
danos nos cabos de electricidade haviam paralisado a estação elevatória do vale do
Sousa, que fora totalmente destruída. O abastecimento de água à cidade havia sido
interrompido e os reservatórios só garantiam caudal até ao final da tarde desse mesmo
dia.
Informava ainda o Administrador que no Porto de Leixões não havia danos a
registar, mas em Viana sim. De Lisboa informava o ministro que a Direcção Geral de
Estradas considerava normalizado o serviço de viação, embora com ligeiros atrasos; os
serviços de caminhos-de-ferro e rodoviário estavam também normalizados embora o
transporte de correio entre Lisboa e Porto estivesse atrasado.
Se os registos documentais existentes nos permitem analisar o universo da acção
política exercida por Duarte Pacheco, e se nos permitem ainda fazer a caracterização do
seu método de trabalho, ou se os registos iconográficos e de imagens em movimento
nos permitem a captação de momentos, de emoções, de linguagem corporal, o registo
sonoro transporta-nos para uma outra dimensão: a humana. A voz, na composição do
timbre, da entoação, da cadência do discurso, das interjeições, surge também como mais
um documento da História.
Neste registo sonoro com a duração de 22 minutos, tornamo-nos ouvintes da
acção fervilhante de um verdadeiro gabinete de crise e surge clara a forma serena mas
determinada com que Duarte Pacheco lidera o «teatro de operações». A 20 de Fevereiro,
uma semana após a passagem do ciclone, o gabinete do ministro abre um crédito para as
despesas de reparação dos prejuízos causados613. No espaço de uma semana o ministro
tinha quantificados os estragos, planeadas as intervenções e orçamentadas as despesas.
A 26 de Junho de 1942 estando quase concluídos os trabalhos de construção da
estrada marginal e do primeiro troço da auto-estrada, julga o político ser de
conveniência incluir estes equipamentos, bem como o viaduto de Alcântara, no plano
nacional de estradas614.
E socorrendo-nos da expressão de Duarte Pacheco, também em 1942, outras
duas grandes obras públicas estão em fase de conclusão: a Gare Marítima de Alcântara
está apta a receber os trabalhos de decoração do hall central 615e o Aeroporto de Lisboa
613
Diário do Governo¸ I Série, Decreto-Lei nº 31 147 de 20 de Fevereiro de 1941.
614
Diário do Governo¸ I Série, Decreto-Lei nº 32 108 de 26 de Junho de 1942.
615
Diário do Governo¸ I Série, Decreto-Lei nº 32 191 de 12 de Agosto de 1942.
249
O País a Régua e Esquadro
pode já receber a comissão administrativa que promoverá a abertura ao serviço público
do tráfego aéreo civil616.
No ano de 1943, a par da gestão dos planos de melhoramentos urbanos, rurais,
de abastecimento de água e de saneamento, o Ministério manteve a bom ritmo o curso
das obras públicas e de comunicações. Mas novos planos de obras estavam agendados.
A 11 de Junho o ministro havia ordenado a todas as administrações portuárias
que promovessem a elaboração dos planos de arranjo e expansão dos portos em que
exercessem a sua jurisdição617.
A 1 de Julho Duarte Pacheco autorizaria a DGEMN a celebrar o contrato de
obras de ampliação e transformação do edifício dos CTT dos Restauradores618 e a 14 do
mesmo mês abria um crédito orçamental para que a Administração Geral do Porto de
Lisboa procedesse à construção do Aeroporto Marítimo619.
No domínio da regulamentação interna do Ministério, a 1 de Maio de 1943
Duarte Pacheco dava nova redacção ao artigo 10º do decreto 23 398 que promulgava a
reorganização do Conselho Superior de Obras Públicas. Assim sendo, se a 23 de
Dezembro de 1933 se considerara que:
“o Ministro das Obras Públicas escolherá livremente o Presidente do
620
Conselho de entre os vogais das alíneas a) e b) do artigo 4º”.
ou seja, de entre os oito engenheiros inspectores do quadro técnico de obras públicas do
CSOP ou de um engenheiro inspector do quadro de engenheiros electrotécnicos do
MOPC. Com a revisão à lei, passava agora o Ministro a escolher o presidente do
Conselho:
“de entre os vogais da alínea a) e b) do artigo 4º ou de entre os
professores referidos na alínea e) do mesmo artigo que tenham a
qualidade de engenheiros inspectores, embora não se encontrem na
621
situação de efectividade em relação a este último cargo”.
616
Diário do Governo¸ I Série, Decreto-Lei nº 32 323 de 15 de Outubro de 1942.
617
Diário do Governo¸ I Série, Decreto-Lei nº 32 842 de 11 de Junho de 1943.
618
Diário do Governo¸ I Série, Decreto-Lei nº 32 892 de 1 de Julho de 1943.
619
Diário do Governo¸ I Série, Decreto-Lei nº 32 901 de 14 de Julho de 1943.
620
Diário do Governo¸ I Série, Decreto-Lei nº 23 398 de 23 de Dezembro de 1933.
621
Diário do Governo¸ I Série, Decreto-Lei nº 32 737 de 1 de Maio de 1943.
250
O País a Régua e Esquadro
Na prática, esta alteração significava que o Ministro das Obras Públicas e
Comunicações passaria a poder escolher o presidente do CSOP de entre os professores
do Instituto Superior Técnico ou da Faculdade de Engenharia da Universidade do Porto,
sem a necessidade vinculativa de ter de escolher o presidente do organismo consultivo
do Ministério de entre os funcionários do quadro. Com esta alteração, Duarte Pacheco
colocava no mesmo patamar de valência legal do douto CSOP os engenheiros
inspectores de carreira no quadro da administração pública e os professores do ensino
técnico superior que leccionavam Engenharia.
Na prática, Duarte Pacheco optaria obviamente, por escolher o presidente do
CSOP fora dos quadros do Ministério. Podendo optar entre um engenheiro técnico e
burocrata ou um engenheiro docente, permanentemente actualizado nos domínios da
prática e do ensino da Engenharia, o ministro escolheria o segundo. E, na escolha do
presidente do CSOP podendo também optar pelo recrutamento de entre o Instituto
Superior Técnico e a Faculdade de Engenharia da Faculdade do Porto, o ministro
escolheria o IST.
A 2 de Junho de 1943 Duarte Pacheco presidia à sessão plenária do Conselho
Superior de Obras Públicas e, acompanhado dos seus assessores, do Subsecretário de
Estado e do Secretário Geral do Ministério, ali estava para:
“dirigir ao novo Presidente do CSOP, saudações e votos das maiores
felicidades no desempenho do seu alto cargo (...) O CSOP muito
apreciará ter como Presidente um engenheiro que é grande entre todos
622
os engenheiros: António Vicente Ferreira.”
Duarte Pacheco reconhecia assim ao IST a maior das autoridades técnicas e
científicas no domínio dos trabalhos de Obras Públicas e Comunicações, ao fazer valer
em força de lei, a presidência do seu douto parecer em todos os projectos que para tal
fosse consultado.
Obviamente que, a par do reconhecimento da excelência de ensino praticado no
IST, a alteração à lei protagonizada por Duarte Pacheco, trazia em si uma manobra
política. António Vicente Ferreira, que fora seu professor e depois seu colega na
docência do IST, era, sobretudo, um dos seus homens de confiança e, se em tantos
622
Arquivo e Biblioteca do Conselho Superior de Obras Públicas, Livro de Actas das Sessões Plenárias,
Actas Nº 6, 2 de Junho de 1943.
251
O País a Régua e Esquadro
outros organismos do Ministério estavam colocados os homens de confiança do
ministro, a presidência do CSOP revestia-se de uma importância extrema, uma vez que
este órgão consultivo e deliberativo, embora não podendo vetar qualquer projecto
apresentado pelo gabinete ministerial, podia atrasar consideravelmente a sua
concretização, como havia já acontecido com algumas obras, com foi caso das Gares
Marítimas623.
Esta alteração à lei que verificamos na nova redacção que Duarte Pacheco dá ao
artigo 10º do decreto que promulgava a reorganização do CSOP, vem ao encontro da
forma como o político sempre se colocou no domínio das suas actuações. Duarte
Pacheco procurou sempre munir-se de uma equipa de colaboradores pequena em
número mas coesa na actuação. E, ao longo dos quase vinte anos que compõem a vida
pública deste homem, constatamos que todos estes colaboradores estiveram em
permanência colocados nos órgãos decisórios do trajecto de Duarte Pacheco.
Se em 1923, data da conclusão do curso em Engenharia no IST, Duarte Pacheco
podia entrar nos serviços da CML e ter ao seu dispor os dados necessários para a
prospecção de dados fundiários da cidade de Lisboa, uma vez que o seu professor amigo
pessoal Caetano Beirão da Veiga havia sido eleito vereador camarário, em 1925, outro
seu professor e amigo, Aureliano de Mira Fernandes, abdicava de leccionar uma das
disciplinas que tinha a cargo para que o seu pupilo pudesse integrar o quadro docente do
IST.
E se em 1927, já director do IST, Duarte Pacheco negociara com a CML a
compra e permuta de terrenos necessários à concretização do projecto das novas
instalações do Técnico, em 1928, Vicente de Freitas, aquele que um ano antes fora
presidente do município de Lisboa, era agora chefe de governo, e Duarte Pacheco faria
parte da sua equipa governativa como Ministro da Instrução Pública.
Em 1928, empossado ministro, Duarte Pacheco dirigir-se-ia a Coimbra para
levar a Oliveira Salazar a garantia política da condição governativa do país. Dias depois
os dois políticos seriam membros do mesmo governo. E em 1932 Oliveira Salazar, já
chefe de governo, não esqueceria o carisma do engenheiro republicano da ala
desenvolvimentista e escolhia Duarte Pacheco para a liderança do projecto de
construção das obras públicas e comunicações do país. E nos 26 meses que Duarte
Pacheco esteve afastado do Terreiro do Paço, as obras em curso reflectiram a sua
623
Vide Infra, Capítulo 4, ponto 4.2.
252
O País a Régua e Esquadro
ausência, e porque em política o que parece é, e o verdadeiro ópio do povo reside na
contemplação da obra feita, em 1938 Duarte Pacheco, não dando garantias de descrição
e subserviência, dava garantias de realização e entre a vontade e a necessidade, o Chefe
do Governo condescendeu à segunda opção.
A obra pública de Duarte Pacheco tem uma dimensão esmagadora no número,
na consistência, na abrangência e na transversalidade de formas, temas e programas.
Das propostas de reformas educativas e dos projectos de apoio social à educação ou dos
programas das edificações escolares, a acção política de Duarte Pacheco nos sete meses
que liderou o gabinete da Instrução Pública, abriu novas perspectivas à condição legal,
processual e material do ensino.
No Ministério das Obras Públicas e Comunicações Duarte Pacheco realizou uma
obra verdadeiramente estrutural. Da reorganização do Ministério e organismos dele
dependentes, à produção normativa e construtiva, o seu legado é absolutamente
impressionante. No domínio das Comunicações os portos marítimos de Leixões, Viana
do Castelo e Setúbal, foram alvo de uma profunda reorganização e nova equipagem. Só
neste programa infra-estrutural e até 1939, o Ministério absorveu 40% do seu
orçamento. No domínio das vias de comunicação, de entre estradas nacionais,
municipais e vicinais, pontes e viadutos, foram construídos cerca de 500 quilómetros de
extensão. Acresce o facto de que este plano rodoviário não se circunscreveu unicamente
ao factor quantitativo. Os perfis das estradas construídas apresentaram um salto
qualitativo na medida em que existiu a preocupação de enquadramento paisagístico e
inserção urbanística dos traçados.
As obras de hidráulica agrícola permitiram uma maior extensão de terrenos
produtivos e os trabalhos hidroeléctricos permitiram o reforço do abastecimento
eléctrico doméstico, comercial e industrial.
No domínio dos programas arquitectónicos a actuação ministerial de Duarte
Pacheco foi também transversal e abrangente.
Na Educação todos os níveis de ensino foram contemplados com novas
construções escolares. Das creches às escolas primárias e liceus, dos institutos às
universidades, a preocupação do Ministério não se revelou unicamente com o
«levantamento de paredes», procurou-se pensar e construir cada escola com a
organicidade que Duarte Pacheco defendia já em 1928: a zona pedagógica.
No domínio das Construções Hospitalares o Ministério deu início à construção
dos equipamentos necessários ao serviço nacional de assistência médica e abarcou
253
O País a Régua e Esquadro
várias áreas de intervenção. Do posto de vacinação ao sanatório terapêutico, do centro
radiológico ao hospital escolar, verificou-se a construção programada nas várias escalas
e nas mais diversas dimensões regionais.
O programa habitacional e também os programas de abastecimento de água e
saneamento, mereceram do político a maior preocupação. Na vigência dos dois
mandatos ministeriais, o volume de documentação produzida reflecte a profunda
mudança na questão sanitária do País624. Duarte Pacheco concentrou meios e moveu
inúmeros esforços para levar a cabo as obras de saneamento básico e abastecimento de
água potável aos dezoito distritos do continente.
A par da política de restauros monumentais, realizada por um dos organismos
dependentes do Ministério, a DGEMN, o gabinete ministerial de Duarte Pacheco
concentrou também tempo e verbas consideráveis na beneficiação e na construção dos
repositórios do património móvel: os museus.
E se a obra pública de Duarte Pacheco passou também pela acção política
dirigida ao património móvel e imóvel, é ainda de considerar a sua acção na valorização
do património natural e paisagístico. Neste último domínio, o pontuado das estradas ou
a implantação das primeiras pousadas portuguesas revelam a minúcia que, no gabinete
de trabalho do ministro era dada a cada projecto. Esse mesmo projecto que encerrava
em si, a parte indivisível do todo.
E neste todo é importante não esquecermos a equipa. Duarte Pacheco foi um
político hábil. Como atrás dissemos, em cada um dos momentos decisórios de uma
possível ascensão, o político ascendeu, porque em cada um desses momentos algum dos
seus semelhantes intercedeu.
Mas em política a sorte não existe, a sorte faz-se e Duarte Pacheco percebeu
cedo que em política só se sobrevive e ainda assim com uma equipa. E a sua maior
força, a sua maior autoridade advinha da equipa que formou. Uma equipa plural de
técnicos especializados no domínio da engenharia e da arquitectura. A esta equipa
restrita, com acesso directo ao gabinete ministerial, tinham também acesso os técnicos
especializados em cada uma das áreas de actuação do Ministério. E eram os
engenheiros, os arquitectos e os técnicos especializados que compondo as «comissões
administrativas de obra» dos projectos exarados pelo MOPC, compunham de facto o
gabinete ministerial e actuavam pelo país numa frente construtiva incansável.
624
Expressão inúmeras vezes utilizada por Duarte Pacheco nos preâmbulos aos decretos-lei e aos
despachos ministeriais.
254
O País a Régua e Esquadro
Duarte Pacheco não foi um homem viajado. Pelo país viajou muito, literalmente
até à morte, mas do país só saiu uma vez, na companhia de Pardal Monteiro para ver
Paris, Roma e Nápoles. Mas Duarte Pacheco, que não viveu o suficiente para viajar,
percebeu cedo que era importante colher informações no exterior, saber de outras
experiências e aprender com os exemplos. E por isso insistiu na formação externa dos
licenciados do Técnico, e pela mesma razão, já ministro, enviou os engenheiros e os
arquitectos ao exterior em comissões de estudo. E porque era necessário construir
escolas, hospitais, pontes, viadutos, gares, museus, prisões e teatros, com os
engenheiros e os arquitectos seguiram a colher elementos, técnicos tão distintos como
professores, médicos, historiadores ou conservadores. E neste gabinete ministerial, para
além da pluralidade de ofícios, houve também lugar à pluralidade de gostos e de ideias.
O traço de Cottinelli, o de Carlos Ramos ou de Keil do Amaral conviveram em
harmonia. E a engenharia militar de Eduardo Rodrigues de Carvalho não colidiu nunca
com a engenharia de pontes de Barbosa Carmona ou com a engenharia de construções
de Guimarães Lobato.
Do mesmo modo que no segundo capítulo deste trabalho tentámos recuperar a
memória processual que encerra na construção do IST nas suas várias frentes de
afirmação no Portugal do segundo quartel do século XX, fase intrinsecamente ligada à
direcção escolar e actuação política de Duarte Pacheco, neste terceiro capítulo tentámos
de igual modo trazer à luz das considerações históricas a mesma memória processual
que explica a obra realizada pelo mesmo homem nos Ministérios da Instrução Pública e
Obras Públicas e Comunicações, bem como na Câmara Municipal de Lisboa.
A obra construída pelo ministro é evidente e inegável, contudo, o modo, a
cadência, o método, os avanços e os recuos, as hesitações ou as cedências, são
elementos que consideramos tão decisórios na configuração final na obra construída
quanto uma directiva da Presidência do Conselho de Ministros ou a rigidez de uma
dotação orçamental fixa.
Em momentos muito particulares da História, os elementos e as circunstâncias
parecem querer convergir num agente ou objectivo comuns. E no que à Obra Pública e
às Comunicações confere, houve de facto um momento de convergência em harmonia:
unicidade política, económica, técnica, tecnológica e humana. Existiu um homem que
criou um gabinete de trabalho que não existiu antes e não existiu depois. Sem a força do
Estado e da Lei que teve ao seu dispor, Duarte Pacheco não teria construído o que
construiu. Mas com as condições que lhe foram permitidas e com as condições que ele
255
O País a Régua e Esquadro
próprio instituiu a partir do seu gabinete de trabalho, construiu quase ininterruptamente
durante vinte anos. E se em História um quarto de século é uma geração, Duarte
Pacheco construiu uma geração de país.
Com o braço forte e centralizador da lei, Duarte Pacheco teve ao seu dispor uma
máquina legal que lhe permitiu a criação de uma blindagem orçamental inédita.
Relembremos que ao abrigo do Fundo de Desemprego o ministro conseguiu, através da
tributação mensal obrigatória de 2% do rendimento dos assalariados do empresariado,
do comércio e da indústria; 1% do mesmo valor retirado a todas as entidades
empregadoras dos mesmos ramos, 2% a todos os administradores e profissionais
liberais e 2% a todos os proprietários rurais e urbanos, obteve o Ministério um
financiamento paralelo e acrescido àquele que normalmente lhe provinha da dotação
orçamental anual. Relembremos ainda que o decreto que criou este Fundo criou também
um Comissariado encarregue da gestão da mão-de-obra necessária ao plano de obras
definido pelo gabinete ministerial.
Mas se o Fundo e o Comissariado do Desemprego tiveram um papel decisório
no custo real das obras a realizar, a mesma força de lei que permitira a sua criação,
criaria também uma outra figura legal imprescindível à rápida execução das obras
exaradas pelo gabinete ministerial: a expropriação sem recurso por parte do
expropriado. E a mesma lei, autoritária e surda, permitiria ainda a revogação ou
alteração de contratos, sempre a favor do Estado e nunca a favor dos concessionários.
Se a este braço forte da lei, característico de um regime autoritário,
acrescentarmos um método de trabalho minucioso, como foi o método de trabalho de
Duarte Pacheco, temos encontrada a memória processual dos trabalhos realizados num
instituto público, numa câmara municipal e em dois ministérios.
Sem o braço forte da lei pouco teria sido possível, mas o método de trabalho do
ministro explica a capacidade de concretização que o seu gabinete teve e outros não
tiveram, ainda que ao seu dispor tivessem a mesma malha legal.
Demonstrámos que no Ministério da Instrução Pública, no Ministério das Obras
Públicas e Comunicações e na Câmara Municipal de Lisboa, o método de trabalho de
Duarte Pacheco, ainda que adaptado a cada uma das realidades, não diferiu nunca no
modelo. Primeiramente o político instituiu uma fase de regulamentação interna.
Seguidamente procedeu à fase projectual e posteriormente instituiu a fase
administrativa.
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Nas palavras do ministro existia um plano metódico de realização em todo o
país, e para a execução plena desse plano metódico o político, estando munido de uma
malha legal centralizadora, procedeu à regulamentação de funcionários e serviços. Na
fase projectual criou comissões de estudo que conceberam propostas de soluções viáveis
às necessidades relevadas nos trabalhos de diagnóstico e posteriormente, na fase
administrativa, geriu técnica e financeiramente a construção das soluções.
Como o ministro afirmara, o plano metódico de realizações obedecia a três
princípios: coordenação, unidade e eficiência. A coordenação era estabelecida pelo
gabinete ministerial. A unidade tinha já sido por ele definida no período de
regulamentação, na tal fase reguladora, de «acalmia», como definia o próprio. E a
eficiência existia porque do gabinete ministerial eram lançadas equipas de trabalho
precisas e com objectivos traçados.
Dos elementos que conseguimos recolher, depreende-se que mais do que
autoritário, Duarte Pacheco seria um homem exigente. Exigente até ao esgotamento,
como o próprio afirmava. Mas para os poucos que tendo trabalhado com ele ainda
resistem ao tempo, pronunciar o nome Duarte Pacheco é provocar um sorriso, que
antecede uma catadupa de histórias com peripécias num gabinete de trabalho onde
parecia existir sempre luz.
Talvez um hábito que o próprio ministro tenha levado do Técnico para o
Terreiro do Paço. A todas as horas do dia e da noite há sempre uma luz numa qualquer
sala do Técnico. No Terreiro do Paço as luzes passaram a apagar-se cedo, há muito
tempo.
No dia 15 de Novembro de 1943 Duarte Pacheco assinava o último dos decretos:
o decreto 33 237. Mais um reforço de dotação orçamental, mais uma obra. No dia
seguinte, o decreto era publicado no Diário do Governo e, logo pela manhã, Duarte
Pacheco sairia de Lisboa com destino a Vila Viçosa, a visitar uma outra obra. Voltaria
ao final da tarde para a reunião do Conselho de Ministros.
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38. Duarte Pacheco com o Coronel Vicente de Freitas, 1928.
39. Na cerimónia em que tomou posse do cargo de Ministro
do Comércio e Comunicações, 5 de Julho de 1932.
40. Na inauguração do Monumento ao Marquês de Pombal,
13 de Maio de 1934.
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41. Cerimónia de posse de Duarte Pacheco como Presidente da Câmara Municipal de Lisboa, 1 de Janeiro de 1938.
42. Na cerimónia em que tomou posse do cargo de Ministro das Obras Públicas e Comunicações pela segunda vez, 25
de Maio de 1938.
43. No Parque Florestal de Monsanto com o Presidente da República, 1938.
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44. Cerimónia de Inauguração do Bairro da Quinta da Calçada, 1939.
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45. Vistoria às obras de restauro do Teatro Nacional de S.
Carlos, 1939.
46. Visita ao Aeroporto da Portela,
1942.
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47. Duarte Pacheco e Roberto Espregueira Mendes. Ministro e Sub-Secretário de Estados das Obras Públicas e
Comunicações, 1941.
48. Duarte Pacheco no Aeroporto da Portela, com Eduardo Rodrigues de Carvalho, 1942.
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49. Duarte Pacheco com Óscar Carmona, Oliveira Salazar e Eduardo Rodrigues de Carvalho, 1943.
50. Duarte Pacheco com Oliveira Salazar e Eduardo Rodrigues de Carvalho, s/d.
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Capítulo 4
Pensar Lisboa
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O País a Régua e Esquadro
Capítulo IV. Pensar Lisboa
De Outubro de 1917, data da matrícula de Duarte Pacheco como aluno do
primeiro ano do curso de Engenharia Geral do IST, a Novembro de 1943, data das
exéquias do ministro, a cidade de Lisboa foi simultaneamente palco e espectador
preferencial da obra pública do político.
Dotado de uma aptidão natural para vislumbrar a viabilidade onde a maioria via
o inalcançável, Duarte Pacheco, decerto na forma mais incómoda do politicamente
correcto ao tornar pública a propriedade privada, provou ser possível construir uma
cidade de forma planeada. A construção do novo IST na Alameda poderá ter constituído
o motor de arranque da situação, mas se este feito catapultou Duarte Pacheco para as
mais altas esferas políticas, as do poder de decisão e de execução, este manteve-se e
produziu obra por mérito próprio. A História da Política Portuguesa tem-nos provado
que chegar a ministro é afinal bem mais fácil do que parece. Permanecer ministro
implica já um estofo permitido a um grupo menor e governar em prol da causa pública
parece ser um exercício de poder extremamente difícil. Para Duarte Pacheco chegar a
ministro foi fácil pois conseguiu-o com 28 anos de idade. E embora tendo falecido
precocemente aos 43 anos, demonstrou também que os trajectos políticos são feitos de
avanços e recuos, de demissões, afastamentos e retomas políticas. Contudo, Duarte
Pacheco soube exercer o ministério do poder político como poucos: não defendendo
interesses próprios ou de classe, defendeu a viabilidade futura de Lisboa e com ela do
país e dos cidadãos.
Ao contrário do propalado por António Ferro e propagandeado pelo discurso
político do Estado Novo, Duarte Pacheco demonstrou ao longo de toda a sua actividade
política que não teve sonhos nem foi acometido de visões. O político soube pensar
Lisboa como uma cidade estruturada por eixos viários, equipada com espaços verdes,
museus, escolas primárias, liceus e universidades, hospitais, mercados, gares, pontes,
viadutos, aeroportos e demais infra-estruturas inerentes à funcionalidade orgânica a que
qualquer cidade deve responder.
No presente capítulo, como nos anteriores, mais do que tratar estética ou
formalmente a obra de Duarte Pacheco na cidade capital, procuraremos recuperar e
reconstituir a memória processual que lhe deu origem.
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4.1. Desenho Urbano: o grau zero da obra
O terramoto ocorrido em Lisboa no dia 1 de Novembro de 1755 fez desabar a
capital de um reino que se vinha construindo há cinco séculos. Este cataclismo natural
que numa proporção catastrófica varreu vidas e edifícios, permitiu contudo o
reequacionar de uma capital de império que desde o século XVI muito crescia mas que
estruturalmente construída numa intrincada malha medieva, resistia à tão necessária
mudança625.
Removidos corpos e escombros, demolidas as construções em risco de
desmoronamento, e progressivamente retomadas as actividades administrativas
inerentes a uma capital de reino e sede de império, tornou-se imperativo reerguer a
cidade, tomando-se como ponto de partida a zona ribeirinha do Terreiro do Paço. De
entre seis propostas pensadas, uma seria aprovada. Um plano gizado na Sala do Risco,
estruturado em dois módulos: uma primeira esquadria regular do rio ao largo do Rossio
e uma segunda esquadria, lançada a Oeste, com