SURGIMENTO DA COMÉDIA
A Comédia surge na Grécia, no ano de 486 a.C., aproximadamente 50 anos após o
desenvolvimento das Tragédias. Também originada nas festas Dionisíacas, era
considerada um gênero literário menor: o júri que apreciava a Tragédia era composto
por nobres e o da Comédia era escolhido entre as pessoas da platéia.
A temática também diferia nos dois gêneros. Enquanto a Tragédia contava a história de
deuses e heróis, a Comédia falava de homens comuns.
O gênero cômico amadureceu com Aristófanes, que é considerado o maior autor da
Comédia Antiga. De suas mais de 40 peças, conhecemos apenas 11, entre elas:
"Lisístrata", "As Vespas", "As Nuvens" e "Assembléia de Mulheres”, todas voltadas à
crítica política. A encenação da Comédia Antiga era dividida em duas partes: na
primeira, chamada agón, prevalecia um duelo verbal entre o protagonista e o coro; no
intervalo, o coro retirava as máscaras e falava diretamente com o público para definir
uma conclusão para a primeira parte; e, a seguir, vinha a segunda parte da comédia cujo
objetivo era esclarecer os problemas que surgiram no agón.
A Comédia Antiga, por fazer alusões jocosas aos mortos, satirizar personalidades vivas
e até mesmo os deuses, teve sempre a sua existência muito ligada à democracia. A
rendição de Atenas na Guerra do Peloponeso, no ano de 404 a.C., levou consigo a
democracia e, conseqüentemente, pôs fim a Comédia Antiga.
Após a capitulação de Atenas frente à Esparta, surgiu a Comédia Nova, que se iniciou
no fim do século 4 a.C. e durou até o começo do século 3 a.C. Essa última fase da
dramaturgia grega exerceu profunda influência nos autores romanos, especialmente em
Plauto e Terêncio.
Na Comédia Nova, o coro já não é um elemento atuante, sua participação fica resumida
à coreografia dos momentos de pausa da ação, a política quase não é discutida. Seu
tema são as relações humanas, passando de político a social. É uma Comédia mais
realista e procura, utilizando uma linguagem bem comportada, estudar as emoções do
ser humano.
O principal comediógrafo dessa fase foi Menandro. Mais de 100 peças suas chegaram
recentemente até nós. Muitas conhecemos apenas por título ou por fragmentos citados
por outros autores antigos, com exceção de "O Misantropo", uma de suas oito peças
premiadas, cujo texto completo, preservado num papiro egípcio, foi encontrado e
publicado em 1958.
Plauto e Terêncio, os melhores autores latinos de Comédia, não somente tomaram a
Menandro entrechos inteiros, como também cenas integrais, apenas vertidas para o
latim com ligeiras alterações.
Em suas composições, Menandro começa a delinear os arquétipos (personagens típicos).
Sua temática envolve aventuras galantes, conflitos de interesses, ocorrências
imprevistas, intrigas amorosas. Seus personagens podem ser definidos pelo padrão de
virtude ou vício que os caracterizava: velhos avarentos, mães complacentes, cortesãs
ambiciosas, soldados fanfarrões, escravos alcoviteiros, aqueles mesmos tipos, em suma,
que se estratificaram na comédia posterior, de Plauto a Moliére.
FARSA
Gênero teatral cômico menos exigente que a alta comédia e que tem por objetivo
principal divertir o público, a Farsa originou-se em épocas medievais, embora existam
alguns elementos farsescos nas comédias de Aristófanes e Plauto. No Renascimento,
vários autores dedicaram-se ao gênero, entre os quais Gil Vicente, autor da conhecida
Farsa de Inês Pereira.
A Farsa é uma modalidade burlesca de peça teatral, caracterizada por personagens e
situações caricatas. É estética e literariamente inferior à comédia; é uma peça
humorística na qual os personagens são rudes ou exageradamente fracos, covardes e
impotentes. É comum a associação dos dois tipos, farsa e comédia, em uma única peça
humorística, com o uso da comédia para a trama maior e da farsa para os seus incidentes
subsidiários.
O gênero, que se distingue da Sátira por não estar preocupado com uma mensagem
moral, busca apenas o humor e, para isso, vale-se de todos os recursos. Recorre a
estereótipos (a alcoviteira, o amante, o pai feroz, a donzela ingênua) ou situações
conhecidas (o amante no armário, gêmeos trocados, reconhecimentos inesperados).
Também é possível definir a Farsa em oposição à Fábula, na medida em que a primeira,
ao contrário desta, apresenta o que se pode denominar uma falsa moral.
O MEDIEVAL
Foi marcante do século X ao início do século XV e teve grande influência no século
XVI. A princípio eram encenados dramas litúrgicos em latim, escritos e representados
por membros do clero. Os fiéis participavam como figurantes e, mais tarde, como atores
e misturavam ao latim a língua falada no país. As peças, sobre o ciclo da Páscoa ou da
Paixão, eram longas, podiam durar vários dias. A partir dos dramas religiosos,
formaram-se grupos semi-profissionais e leigos, que se apresentavam na rua. Os temas
ainda eram religiosos, mas o texto tinha tom popular e incluía situações tiradas do
cotidiano. Na França, os jeux (jogos) contavam histórias bíblicas.
A proibição dos mistérios pela Igreja, em 1548, já na idade moderna, tentou pôr fim à
mistura abusiva do litúrgico e do profano. Essa medida consolidou o teatro popular. Os
grupos se profissionalizaram e dois gêneros se fixaram: as comédias bufas, chamadas de
soties (tolices), com intenções políticas ou sociais; e a farsa, como a de Mestre Pathelin,
que satirizava o cotidiano. Seus personagens estereotipados e a forma como eram
ironizados os acontecimentos do dia-a-dia reapareceram no vaudeville, que no século
XVII foi apresentado nos teatros de feira.
Autores medievais - No século XII, Jean Bodel foi o autor do Jogo de Adam e do Jogo
de Saint Nicolas. Os miracles (milagres), como o de Notre-Dame (século XV), de
Théophile Rutebeuf, contavam a vida dos santos. E, nos mistérios, como o da Paixão
(1450), de Arnoul Gréban, temas religiosos e profanos se misturaram. A comédia era
profana, entremeada de canções. O Jogo de Robin et de Marion (1272), de Adam de la
Halle, foi um dos precursores da ópera cômica.
Espaço cênico medieval - O interior das igrejas era usado inicialmente como teatro.
Quando as peças tornaram-se mais elaboradas e exigiram mais espaço, passaram para a
praça em frente à igreja. Palcos largos deram credibilidade aos cenários extremamente
simples. Uma porta simbolizava a cidade; uma pequena elevação, uma montanha; uma
boca de dragão, à esquerda, indicava o inferno; e uma elevação, à direita, o paraíso.
Surgiram grupos populares que improvisavam o palco em carroças e se deslocavam de
uma praça a outra.
TEATRO RELIGIOSO
Levando em consideração a difícil missão da igreja católica de divulgar sua seita e ser
compreendida, iniciou-se uma busca incessante por novos meios de transmitir a palavra
de um deus único, de forma que os católicos começaram a colocar em prática toda e
qualquer iniciativa que, por ventura, estivesse apta a contradizer os costumes seculares
da humanidade em prol de um cristianismo recém descoberto. Os poetas, atores,
cantores e malabaristas sentiram a necessidade de se unirem, misturando-se em círculos
de amizade, de forma que os artistas começaram a trocar informações, ensinando e
aprendendo técnicas diferentes de se fazer arte. A comédia havia sido restringida aos
palácios dos senhores feudais, de forma que, para uma boa concepção cênica, havia a
necessidade do artista ser completo para poder agradar seu senhor. Assim surgiu o
menestrel, uma modalidade de artista que, versátil, procurava entreter o público e seu
senhor com seu vasto talento, dançando, fazendo acrobacia, declamando, cantando,
encenando e criando a todo instantes novas piadas para divertir aqueles que o assistiam.
Como o clero bania os artistas desse naipe, não permitindo essa forma de arte, muitos
artistas ganhavam a vida fazendo arte nas estradas, muitas vezes em troca de comida e
moradia.
A igreja tinha o poder total e assim utilizava a arte cênica para ensinar e desenvolver
temas religiosos, orientando as pessoas mais simples a seguir aquela idéia de
moralidade, manipulando homens e mulheres, ensinando os sete pecados capitais, as
histórias do velho testamento e as representações dos demônios na terra. Até mesmo as
comédias eram utilizadas para demonstrar ao público as pérfidas conseqüências da
heresia, o que, conseqüentemente causava medo na platéia, fazendo com que todos
seguissem os passos do cristianismo sem contrariar nem questionar.
Os temas bíblicos eram abordados em autos, que, ao serem encenados, traziam a tona
mistérios e elucidações referentes aos temas religiosos, como o fim do mundo e o juízo
final, que no século X criou grande suspense em toda a civilização cristã. As
apresentações eram feitas primeiramente em igrejas, porém, com o passar dos anos,
tornou-se necessário criar ambientes próprios para as apresentações, já que alguns
espetáculos contavam com dezenas de atores e uma grande estrutura, com efeitos
especiais, surpreendentes efeitos ilusórios e máquinas inovadoras, que deixavam o
público enfeitiçado e mais envolvido com a fé. Já as paixões contavam a vida de santos
e pessoas importantes do mundo cristão. Eram verdadeiras biografias que duravam
semanas, apresentadas em diversos capítulos, em praça pública, ou em grandes teatros,
cujos palcos davam maior mobilidade aos inúmeros cenários, possibilitando truques
como aparições milagrosas, aparições de santos e demônios, que enriqueciam bastante
as apresentações.
Sem dúvida, o teatro medieval contribuiu muito para o enriquecimento da arte cênica
em seus aspectos principais. Os detalhes ganharam uma importância maior: a
iluminação, feita com velas e candelabros, passou a ser encarada como parte da
concepção do cenário e o figurino ficou mais luxuoso. Na platéia, o público ganhou
camarotes, locais reservados para pessoas importantes, o que ainda não havia sido
utilizado, e para os atores, camarins com maquilagem, que os ajudava a constituir os
personagens, sem a necessidade de uma máscara.
No final da idade média, quando os estados começaram a se formar, dando inicio a
renascença, a burguesia começou a mostrar a sua tendência ao crescimento. Começaram
a surgir companhias de teatro, pois o artista sozinho tinha mais dificuldade de obter um
bom trabalho, a não ser o emprego como menestrel e bobo da corte, que tornavam-se
escassos. O crescimento das cidades proporcionava, no século XVI, a expansão do
teatro. Além disso, a renascença possibilitava a emancipação da arte em relação aos
dogmas católicos. Assim, o teatro se revolucionou, com obras históricas, cujos autores
foram buscar nos clássicos gregos e romanos suas inspirações. É o caso do italiano
Nicolau Maquiavel (1469-1527), um dos grandes filósofos do chamado “século de
ouro”, autor da peça teatral A Mandrágora. Maquiavel buscava a todo custo explicar as
contradições de sua sociedade, não utilizando um apelo transcendental (de deuses e
dogmas misteriosos) mas sim com explicações científicas reais. Com isso, Maquiavel
tornou-se um dos pensadores mais respeitáveis de seu tempo, especialista em política,
escrevendo textos didáticos e literários a respeito do tema. (veja os livros Discursos
Sobre a Primeira Década de Tito Lívio e O Príncipe).
Junto com Ludovico Ariosto (1474 – 1533) e Pietro Arentino (1492 – 1556), inspirados
em Plauto e Terêncio, Maquiavel constituiu a nova cultura, que na Itália desabrochou
mais rápido que outros países da Europa. Paralelamente, companhias grandes de teatro
faziam sucesso pela capital da Espanha, enquanto o enriquecimento dos banqueiros
dava respaldo para um crescimento estrondoso do movimento artístico europeu.
Porém, a religiosidade ainda estava presente nas obras artísticas de vários países
europeus, como Portugal por exemplo, que tinha em Gil Vicente (1465 – 1536), autor
de O Auto da Barca do Inferno, seu maior exemplo de autor eclesiástico. Entre os
espanhóis, alguns dos mais conhecidos eram Tirso de Molina (1584 – 1648), Lope de
Vega (1562 – 1635) e Miguel de Cervantes (1547 – 1616), autor de Numância e Dom
Quixote. No Brasil, o poeta espanhol José de Anchieta (1534 – 1597) utilizava-se do
drama religioso para catequizar os índios. Com os novos tempos, houve uma
estruturação dos padrões cênicos, de forma que Lope de Vega, contra a Poética de
Aristóteles, aboliu os elementos Tempo e Lugar de seus textos, também criando
espetáculos mais enxutos, de três atos no máximo. O ineditismo começava a afrontar os
tradicionalistas do teatro espanhol e assim, Cervantes, rompeu com Vega, mantendo-se
fiel às suas concepções. Vega defendia a Comedia Nueva (Comédia Nova) voltada para
o grande público, encenada em teatros públicos, com cenários simples e mambembes. A
partir dessa nova concepção, os espetáculos ficaram mais curtos, com aproximadamente
duas horas de duração e isso possibilitou que um espetáculo fosse apresentado várias
vezes numa mesma semana num mesmo teatro, dando oportunidade para todos
assistirem a peça antes que ela fosse para outro local de apresentação. Porém, como a
Comédia Nova se apresentava de maneira muito erudita tanto na Itália como na
Espanha, houve a necessidade de se realizar algo mais acessível ao público não-burguês,
de forma que assim surgiu a Commedia Dell’Arte, designada como “O Teatro do
Povo”.
RENASCENÇA
Do século XV ao XVI. Prolongou-se, em alguns países, até o início do século XVII. O
teatro erudito, imitando modelos greco-romanos, era muito acadêmico, com linguagem
pomposa e temática sem originalidade. Mas, em vários países, o teatro popular manteve
viva a herança medieval. As peças eram cheias de ação e vigor, e o ser humano era o
centro das preocupações.
Com a derrocada do teatro religioso (exceto na Espanha e Portugal), houve uma procura
maior por parte das elites pelo texto dramático. Willian Shakespeare difundiu porém
uma literatura voltada ao público popular, abordando temas diversos, mantendo ainda a
configuração teatral medieval, porém reciclando o conteúdo de seus espetáculos. Essa
tendência foi adquirida graças ao momento histórico da Inglaterra, sua política e seu
povo.
Nessa época a Inglaterra, governada pela rainha Elizabeth I (1558 – 1603), tinha uma
das melhores economia do mundo e isso inevitavelmente se refletia na educação e no
desenvolvimento cultural. Os jovens escritores da época se aventuravam a apresentar
suas peças nos teatros de Londres recém construídos, entre eles The Globe, The Theatre
e The Rose, cujas estruturas eram bem peculiares: feitos para receber Sua Majestade e
um número vasto de pessoas.
O teatro renascentista sentia o peso da quebra com a religiosidade. Os atores e diretores
eram protegidos por pessoas de alto escalão na corte e da nobreza, que de um jeito ou de
outro permitiam a continuidade das apresentações, de forma que, por certo período, as
peças ocorreram diariamente sem problema algum. Entre outros temas polêmicos,
Shakespeare escreveu Hamlet, cuja trama mostra um jovem príncipe da Dinamarca em
dúvida se prefere o conforto tangente do poder ou se opta pelos riscos de uma grande
aventura. Indeciso, ele se indaga: “Ser ou não ser, eis a questão”. Em Romeu e Julieta, o
autor desafia normas sociais que ditavam regras para o casamento, provando que o amor
deve ser um sentimento ministrado de maneira individualista. Estudiosos dizem que se
por um acaso houvesse perda total dos documentos que falam a respeito da raça
humana, bastaria as peças oriundas desse poeta magistral para descrever o homem.
Após a morte de Shakespeare, os teatros ingleses fecharam as suas portas por causa da
eterna guerra dos puritanos, que declaravam-se contra o teatro, afirmando ser um objeto
trevoso do demônio. Os teatros só reabririam as portas após vinte anos, apresentando
peças de George Eterege (1634 – 1691) e John Dryden (1631 – 1700).
COMÉDIA RENASCENTISTA – SHAKESPEARE
A exemplo das tragédias e dos dramas históricos, os estudiosos estabelecem entre as
comédias de Shakespeare uma certa hierarquia. Seis delas seriam grandes comédias, ou
seja, estariam ao nível do seu autor e, de fato, todas são muito apreciadas, têm um
enredo intrincado e sempre acabam bem. As tais excepcionais seriam: Trabalhos de
Amores Perdidos, Sonho de Uma Noite de Verão, O Mercador de Veneza, Muito
Barulho por Nada, Como Gostais e Noite de Reis. Na comédia, como na tragédia,
resplandece o gênio.
Em muitos casos, as comédias consistem na reelaboração e enriquecimento de histórias
consagradas que se preservaram e foram popularizadas depois do aparecimento da
imprensa. Embora partindo da temática consagrada, conhecida, Shakespeare deu-lhe
mais complexidade, mais flexibilidade, mais fluidez, tornando-a um desfile de
surpresas, de inverosimilhanças, de intrigas que se complicam sempre mais, levando o
espectador a um clímax de excitação e curiosidade ansiosa que somente o desenlace
feliz, alegre, satisfatório, consegue aliviar.
O tema dominante é sempre o amor, vítima de desencontros que suscitam confusões
capazes de prender o público e também de diverti-lo. Noite de Reis, que é incluída entre
as grandes comédias por todos os grandes estudiosos de Shakespeare, pode servir como
exemplo do tipo de trama e das situações desencontradas. Dois irmãos gêmeos (Viola e
Sebastião) acabam separados por um naufrágio e imaginam-se mortos, embora ambos
estejam salvos, sem saber um do outro. A moça, tendo perdido a oportunidade de entrar
para o serviço de uma rica Condessa, disfarça-se com trajes masculinos e, nessa
condição, provoca paixões. Até que o irmão reapareça e tudo torna-se claro, há outros
equívocos de personalidade. Entram em cena tipos exóticos e equívocos paralelos ao
central.
Ainda que em todas elas haja um toque de realismo, de modo a fazer crer que se trata de
gente de carne e osso, as comédias são geralmente atemporais e sem representar lugares
conhecidos, capazes de permitir comparações. Sua ação transcorre em lugares
idealizados, sem localização precisa. A única exceção dá-se no caso de “As Alegres
Comadres de Windsor” que, segundo a tradição, teria sido elaborada a fim de atender a
uma sugestão da Rainha Elizabete I, no sentido de que relatasse os amores de Falstaff,
personagem que tanto sucesso alcançara nos dramas históricos.
Nas comédias encontra-se a maior galeria de mulheres jovens e atraentes, criada por
Shakespeare.
Nascida na Itália, a Commedia Dell’Arte trouxe de volta um pouco da pantomima, do
ridículo e da vulgaridade que as comédias primitivas gregas expunham após as
Tragédias Gregas no tempo do Império Romano. Porém, a diferença estava nos trajes
carnavalescos, nos temas abordados, na alegria e euforia que dominavam os palcos do
século XVI. Os reis e rainhas não tinham mais o seu próprio menestrel, pois preferiam
se dirigir aos simples teatros com toda a pompa de uma majestade para assistir junto
com os seus súditos às engraçadas peças teatrais que buscavam abordar os temas mais
surpreendentes. Esse gênero pedia muitíssimo de seu intérprete, pois esse tinha que
seguir a risca o roteiro, porém, preocupando-se com o público, que pagava o ingresso
somente para rir. Caso percebesse que o público não estava achando engraçado o roteiro
original, podia improvisar caso tivesse alguma idéia realmente engraçada.
As mulheres eram proibidas de atuarem no palco, de forma que os homens é que faziam
os papeis femininos. Para ficar mais real, os homens efeminados eram convidados para
o papel das donzelas, o que deixava as cenas ainda mais engraçadas para o público. Os
atores se engajavam dentro de uma companhia de teatro e tornavam-se famosos por um
estilo único de personagem. Assim que um ator se especializava em interpretar um tipo
de personagem, só fazia esse tipo até o final de sua carreira. O teatro veneziano trazia
sempre os mesmos tipos de personagem em suas comédias: o Pantaleão, o Arlequim, o
Criado, o Doutor, o Capitão, a Colombina, a Noiva, a Ama, o Pai da Noiva e o Herói,
constituindo sempre os mesmos tipos de roteiro. Normalmente os roteiros da Commedia
Dell’Arte tratavam de contar a história de dois namorados que lutavam contra a negação
dos pais, enfrentando assim uma série de problemas para se casarem. Foi na Commedia
Dell’Arte que o inglês William Shakespeare (1564 – 1616) buscou inspiração para seus
espetáculos teatrais, pois, apesar do sucesso das comédias, os dramaturgos tinham
vontade de alçar vôos bem maiores, escrevendo textos com temas mais profundo, com
uma linguagem mais bem formulada e não vulgar. Shakespeare, certo da necessidade de
elevar o nível das peças apresentadas, em plena era da Commedia Dell’Arte, teve a
coragem de utilizar os temas esdrúxulos e ridicularizados na comédia em novas
abordagens, com textos ricos, poéticos e dramáticos. Foi o caso do espetáculo Romeu e
Julieta, que, seguindo o tema abordado pela maioria das comédias (guerra entre duas
famílias e um amor impossível), foi apresentado ao público com um forte teor
dramático, causando furor na época, por causa das belezas poéticas e da concepção
tocante, que agradou até mesmo Sua Majestade.
COMMEDIA DELL´ARTE
A Commedia Dell'Arte teve seu início no século XVI, na Itália. Veio se opor a
"Comédia Erudita" e também foi chamada de "Commedia All'Improviso" e "Commedia
a Soggetto".
As apresentações deste tipo de comédia eram feitas nas ruas e praças públicas: ao
chegarem em uma cidade, os artistas solicitavam a permissão para se apresentar, em
suas carroças ou praticáveis, pois eram raras as possibilidades de conseguir um espaço
cênico adequado. As companhias eram itinerantes e possuíam uma estrutura de esquema
familiar.
A Commedia Dell'Arte se fundamenta nos seguintes parâmetros: a ação cênica ocorria
no improviso dos atores, que passavam a ser os autores dos diálogos apresentados,
seguiam apenas um roteiro, que se denominava “canovacci”, possuindo total liberdade
de criação.
O ator tinha um papel fundamental cabendo-lhe não só a interpretação do texto mas
também a contínua improvisação e inovação do mesmo. Malabarismo, canto e outro
feitos eram exigidos continuamente ao ator. O uso das máscaras (exclusivamente para
os homens) caraterizava os personagens geralmente de origem popular.
A enorme fragmentação e a quantidade de dialetos existentes na Itália do século XVI
obrigavam o ator a um forte uso da mímica que tornou-se um dos mais importantes
fatores de atuação no espetáculo.
O ator na Commedia Dell’Arte precisava ter "uma concepção plástica do teatro" exigida
em todas as formas de representação e a criação não apenas de pensamentos como de
sentimentos através do gesto mímico, da dança, da acrobacia, consoante as
necessidades, assim como o conhecimento de uma verdadeira gramática plástica, além
desses dotes do espírito que facilitam qualquer improvisação falada e que comandam o
espetáculo. A enorme responsabilidade que tinha o ator em desenvolver o seu papel,
com o passar do tempo, levou à uma especialização do mesmo, limitando-o a
desenvolver uma só personagem e a mantê-la até a morte. A contínua busca de uma
linguagem puramente teatral levou o gênero a um distanciamento cada vez maior da
realidade.
A Commedia Dell'Arte foi importante sobretudo como reação do ator a uma era de
acentuado artificialismo literário, para demonstrar que, além do texto dramático, outros
fatores são significativos no teatro.
No século XVIII a Commedia Dell’Arte entrou em declínio, tornando-se vulgar e
licenciosa. Então, alguns autores tentaram resgatá-la criando textos baseados em
situações tradicionais deste estilo de teatro, mas a espontaneidade e a improvisação
textual era a peculiaridade central e, assim, a Commedia Dell’Arte não tardou a
desaparecer.
Um dos autores que muito trabalhou para este resgate foi o dramaturgo italiano Carlo
Goldoni (1707-1793).
OS PERSONAGENS
Os personagens da Commedia Dell’Arte são divididos em três categorias: os Zanni são
os personagens de classe social mais baixa, os servos; os Vecchi, que representam os de
classe social mais abastada; e os Innamorati, os amantes, que querem se casar.
Arlecchino - É um palhaço, um dos Zanni. Acrobata, amoral, glutão. É facilmente
reconhecível pela roupa branca e preta com estampa em forma de diamantes. Sua
máscara possui uma testa baixa com uma verruga. Algumas vezes, usa um lenço negro
sob o queixo e amarrado no alto da cabeça. Geralmente, Arlecchino é o servo do
Pantalone, às vezes do Dottore. Ele ama Colombina, mas ela apenas o faz de idiota.
Colombina - A contrapartida feminina do Arlecchino. Usualmente retratada como
inteligente e habilidosa. É uma das servas, uma Zanni. Algumas vezes, utiliza roupas
com as mesmas cores do Arlecchino, mas não usa máscara.
Brighella - Um trapaceiro, de pouca moral e desmerecedor de confiança. Criado
libidinoso e cínico. Também é cantor e apreciador de boa música. É o companheiro
mais frequente de Arlecchino.
Pantalone - Um dos Vecchi. Geralmente, muito rico e muito avarento. O arquétipo do
velho pão-duro. Não se preocupa com mais nada além de dinheiro. O cavanhaque
branco e o manto negro sobre o casaco vermelho, possui uma filha casadoira ou é ele
próprio um cortejador tardio.
Os Innamorati - São os amantes. O Innamorato e a Innamorata têm muitos nomes. Eles
são jovens, virtuosos e perdidamente apaixonados um pelo outro. Usam os trajes mais
belos e de acordo com o período e a moda vingente, e nunca usam máscara. Geralmente,
cantam, dançam ou recitam poemas.
Dottore - O doutor. Visto como o homem intelectual, mas geralmente essa impressão é
falsa. Ele é o mais velho e rico dos Vecchi. Geralmente, interpretado como um pedante,
avarento e sem o menor sucesso com as mulheres. Usa uma toga preta com gola branca,
capuz preto apertado sob um chapéu preto com as abas largas viradas para cima.
Il Capitano - Forte e imponente, mas não necessariamente heróico, geralmente usa
uniforme militar, mas de forma exagerada e desnecessariamente pomposa. Conta
vantagens como guerreiro e conquistador, mas acaba desmentido. Capa e espada são
adereços obrigatórios.
Pedrolino - Também conhecido como Pierrot ou Pedro, é o servo fiel. Ele é forte,
confiável, honesto e devotado a seu mestre. Ele também é charmoso e carismático e usa
roupas brancas folgadas com um lenço no pescoço.
Pulcinella - Muitas vezes conhecido como Punch. O esquisito, inspirador de pena,
vulnerável e geralmente desfigurado. Na maioria das vezes, com uma corcunda. Muitas
vezes, não é capaz de falar e, por isso, comunica-se através de sinais e sons estranhos.
Sua personalidade pode ser a de um tolo, ou de um enganador. Tem a voz estridente e
sua máscara tem um nariz grande e curvo, como o bico de um papagaio.
Scaramuccia - Também conhecido como Scaramouche, é um pilantra. Usa uma máscara
de veludo negro, assim como também são suas roupas e seu chapéu. Um bufão,
geralmente retratado como um contador de mentiras covarde.
COMÉDIA DE COSTUMES
A Comédia de Costumes surgiu com o escritor francês Molière que, apesar de ser
amante da tragédia e ter um explícito preconceito contra as farsas, destacou-se como
comediante. Suas obras se caracterizam pelas fortes críticas aos costumes da população
francesa de sua época, sobretudo no que diz respeito à política e à religião. De suas
principais obras, podemos citar Escola de Maridos, Escola de Mulheres, O Tartufo e O
Doente Imaginário.
Esse subtipo de Comédia caracteriza-se pela criação de tipos e situações de época, com
uma sutil sátira social. Proporciona uma análise dos comportamentos humanos e dos
costumes num determinado contexto social, tratando freqüentemente de amores ilícitos,
da violação de certas normas de conduta, ou de qualquer outro assunto, sempre
subordinados a uma atmosfera cômica. A trama desenvolve-se a partir dos códigos
sociais existentes, ou da sua ausência, na sociedade retratada. As principais
preocupações dos personagens são a vida amorosa, o dinheiro e o desejo de ascensão
social. O tom é predominantemente satírico, espirituoso e cômico, oscilando entre o
diálogo vivo e cheio de ironia e uma linguagem às vezes conivente com a amoralidade
dos costumes.
No Brasil, o principal representante e pioneiro do gênero é Martins Pena, que
caracterizou com bom humor as graças e desventuras da sociedade brasileira. Dotado de
singular veia cômica, escreveu comédias e farsas – dentre elas, O Juiz de Paz da Roça,
Quem Casa Quer Casa, As Casadas Solteiras e O Noviço - que encontraram, na metade
do século XIX, um ambiente receptivo que favoreceu a sua popularidade. Envolvem
sobretudo a gente da roça e do povo comum das cidades. Sua galeria de tipos,
constituindo um retrato realista do Brasil na época, compreende: funcionários,
meirinhos, juízes, malandros, matutos, estrangeiros, falsos cultos, profissionais da
intriga social, em torno de casos de família, casamentos, heranças, dotes, dívidas, festas
da roça e das cidades.
Artur Azevedo, autor muito popular e que retratou os costumes da sociedade brasileira
do final da Monarquia e início da República alcançando enorme sucesso com as peças
Véspera de Reis e A Capital Federal, foi o consolidador do gênero introduzido por
Martins Pena.