Saúde Mental de Crianças na Pandemia COVID-19
Saúde Mental de Crianças na Pandemia COVID-19
ISSN: 2525-8761
DOI:10.34117/bjdv7n1-466
RESUMO
INTRODUÇÃO: A pandemia de COVID-19 evidentemente afetou a saúde mental. As
crianças e os adolescentes são especialmente mais vulneráveis aos impactos dos eventos
estressores e com isso estão mais susceptíveis ao desenvolvimento de problemas
psicológicos e psiquiátricos. METODOLOGIA: Foi realizada uma pesquisa nas bases de
dados MedLine e SciELO em setembro e outubro de 2020. Incluiu-se nesta revisão
integrativa estudos qualitativos e quantitativos, revisões de literatura e estudos teórico-
reflexivos em inglês ou português publicados em 2020, excluindo-se os que não
analisaram crianças e adolescentes entre 2 a 24 anos. RESULTADOS: A partir da busca
foram encontrados 247 artigos e após a aplicação dos critérios de inclusão e exclusão,
além da leitura dos resumos, 11 foram selecionados. Fatores estressores como o
distanciamento social, o fechamento das escolas e das universidades, a recessão
econômica, a violência doméstica e as incertezas do curso da pandemia influenciaram
negativamente a saúde mental das crianças e dos adolescentes, resultando em aumento da
prevalência de transtornos psicossomáticos. CONCLUSÃO: Essa revisão aponta para a
necessidade da rede de apoio baseada no suporte socioemocional para minorar os efeitos
psicológicos da pandemia de COVID-19 nas crianças e adolescentes.
ABSTRACT
BACKGROUND: The COVID-19 pandemic has clearly affected mental health. Children
and adolescent are especially vulnerable to the impacts of stressful events and therefore
more susceptible to develop phychological and psychiatric disorders. METHODS: A
search was performed in the MedLine and SciELO databases in September and October
2020. Qualitative and quantitative studies, reviews and theoretical-reflective studies in
English or Portuguese published in 2020 were included, those which did not included
children and adolescents between 2 and 24 years were excluded. RESULTS: Initially,
247 articles were found and after applying the exclusion and inclusion criteria and reading
the abstracts, 11 were selected. The main reasons for the negative effect of the pandemic
on the mental health are the stress factors such as social distancing, school and university
closure, economic recession, domestic violence, fear of the course of the pandemic. The
result was the increase in the prevalence of psychosomatic and neuropsychiatric
manifestations on the children and adolescents. CONCLUSIONS: The present study
shows the importance of the support group based on emotional and social help to mitigate
the psychological effects of COVID-19 on children and adolescents.
1 INTRODUÇÃO
A saúde mental se relaciona diretamente a uma boa qualidade vida, promovendo
felicidade e autoconfiança para lidar com as adversidades. Estima-se que
aproximadamente 10-20% das crianças e dos adolescentes do mundo apresentam algum
problema nessa frente psíquica, liderando o quadro de diagnósticos clínicos nessa faixa
etária. Suas consequências perduram por toda a vida, mas mesmo assim são
negligenciadas pelo governo e estigmatizadas pela população (KIELING C et al. 2011).
A pandemia da infecção causada pelo SARS-CoV-2 (Severe Acute Respiratory Syndrome
coronavírus 2) denominada Doença coronavírus 2019 ou COVID-19 amplifica os fatores
estressores do psiquismo e influencia negativamente a saúde mental (YOSHIKAWA H et
al 2020).
Ao avaliar as questões sociais e psicológicas da pandemia, é visível que esse
momento tem grande potencial de afetar o desenvolvimento neuropsíquico das crianças.
Nessa faixa etária, devido a fase do neurodesenvolvimento infantil, as mesmas são
especialmente vulneráveis a eventos de estresse em virtude da compreensão limitada da
situação, da incapacidade ou dificuldade de formar estratégias de enfrentamento e do
bloqueio em expressar seus sentimentos e angústias (IMRAN N et al. 2020). Esses fatores
em conjunto ao medo propiciado pela perda ou separação dos cuidadores podem resultar
em sofrimento mental imediato ou a longo prazo, incluindo maior risco de desenvolver
transtornos de humor e psicose, e suicídio na idade adulta (LIU JJ et al. 2020).
2 METODOLOGIA
Para realização desta revisão integrativa, foi realizada uma pesquisa nas bases de
dados National Library of Medicine (MedLine) e Scientific Electronic Library Online
(SciELO), durante o mês de setembro e outubro de 2020, avaliando estudos publicados
até dia 6 de outubro deste ano. A questão norteadora para a produção do presente estudo
foi: “Qual o impacto ou efeito da pandemia da COVID-19 na saúde mental das crianças e
dos adolescentes?”. Os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS): “child”, “adolescents”,
“mental health”, “COVID-19 pandemic”, e suas variações no Medical Subject Headings
(MeSH) foram utilizadas para a construção da frase de pesquisa.
Os critérios de inclusão foram estudos qualitativos e quantitativos, revisões de
literatura e estudos teórico-reflexivos, publicados em inglês ou português no ano de 2020
que se relacionavam diretamente ao tema. Excluiu-se duplicatas e aqueles estudos que não
analisaram as repercussões da pandemia na saúde mental crianças e adolescentes entre 2
a 24 anos de idade, carta aos editores, ponto de vista, editorias e comentários. Para definir
o limite de idade dos participantes foi considerado a faixa etária da adolescência entre 10
a 24 como proposto por pesquisadores do Centro de Saúde do Adolescente de Melbourne,
Austrália (SAWYER SM et al. 2018).
3 RESULTADOS
Inicialmente foram identificados 247 artigos (PubMed: 178; SiELO: 69) nas fontes
consultadas, e depois da aplicação dos critérios de inclusão e exclusão 156 publicações
(PubMed: 65; SiELO: 46) foram encontradas. Após a leitura dos resumos completos, os
que não estavam relacionados a temática proposta foram retirados e 10 estudos (PubMed:
7; SiELO: 3) foram selecionados para compor o escopo deste trabalho. Um artigo foi
analisado e adicionado à revisão através da busca continuada, totalizando 11 estudos.
Os artigos analisados foram separados conforme autoria, ano de publicação e
metodologia, e os fatores de risco e fatores protetores relacionados à saúde mental em
crianças e adolescentes estão demonstrados na Tabela 1 em conjunto com seus
respectivos resultados.
Tabela 1 – Síntese dos estudos selecionados sobre impacto da pandemia de COVID-19 na saúde mental de
crianças e adolescentes.
Autores
(ano de
publicaçã Amos
Resultados Fatotes de risco Fatores protetores
o) tra
Metodolog
ia
Grupo A · Quarentena e isolamento · Acesso às
121
apresentou maior social informações sobre a
crianças e
sofrimento · Tédio e restrição de doença
Saurabh adolescent
psíquico do que atividades · Contato com entes
K, es em
grupo B (p · Preocupação em se queridos através das
Ranjan S quarentena
˂0.001). No infectar ou infectar outros mídias sociais
(2020) (A) e 131
entanto, grupo B · Perdas financeiras da · Rede colaborativa de
sem fazer
também família psiquiatras,
Estudo de quarentena
apresentou maior · Indisponibilidade dos psicoterapeutas,
Coorte (B) de 9 a
nível de estresse suprimentos básicas da vida voluntários da
18 anos
na pandemia. · Incertezas futuras comunidade
· Interrupção dos · Conscientização do
Prevalência de
Zhou SJ 8079 vestibulares COVID-19
sintomas
et al. estuda · Efeitos negativos sobre o (conhecimento,
depressivos
(2020) ntes de desenvolvimento medidas de prevenção
(43,7), de
Estudo 12 e 18 acadêmico e controle e projeções
ansiedade
Transve anos · Informações falsas de tendência)
(37,4%) e ambos
rsal · Alta das taxas de infecção · Intervenções
(31,3%)
· Isolamento social psicológicas
Prevalência de
· Vício em smartphone e
sintomas
internet
depressivos nos
Duan L, · Graduação afetada
estudantes foi de · Intervenções
et al. 3613 · Infecção de familiares e
22,28% durante psicológicas online e
(2020) estuda amigos
o surto precoces
ntes de · Rumores e desinformação
Níveis de · Estilo de
Estudo 7 a 18 sobre as origens da doença
ansiedade: enfrentamento focado
Transver anos infecciosa
crianças (23,87 em problemas
sal · Isolamento social
± 15,79) e
· Estilo de enfrentamento
adolescentes
focado em emoções
(29,27 ± 19,79).
· Informações
Indivíduos com confiáveis
Zhang Q 896 alta resiliência · Controlar o
· Interrupção da
et al. estuda emocional conhecimento para
aprendizagem
(2020) ntes de podem se evitar pânico
· Fechamento das escolas
Estudo 12 a recuperar de excessivo
· Falta de relacionamentos
Transver 14 emoções · Intervenção
interpessoais
sal anos negativas mais psicológica
rapidamente. · Resiliência
emocional
desgaste mental aos estudantes nesse período (ZHOU SJ et al. 2020; DUAN L et al. 2020).
É necessário evidenciar que esses ambientes não promovem apenas o ensino pedagógico,
mas auxiliam na nutrição dos estudantes, na prática de atividades físicas e na higiene
pessoal, de forma que o estilo de vida saudável por completo foi afetado durante a
pandemia (GHOSH R et al. 2020).
Outro ponto relevante tange ao medo das crianças e dos adolescentes em se
infectarem com Sars-CoV-2 e transmitirem aos seus entes queridos, além das incertezas
do curso da pandemia. Esse estresse adicional promoveu ainda mais insegurança e
aumentou os níveis de ansiedade vivenciados por eles (SAURABH K et al. 2020; DUAN
L et al. 2020; GHOSH R et al. 2020; RODRIGUES BB et al. 2020).
Além disso, ficar tanto tempo em casa pode acarretar desavenças familiares que
em conjunto a falta de espaço pessoal, o comportamento anormal dos pais com os filhos
e a saúde mental abalada dos cuidadores podem proporcionar efeitos psicopatológicos.
(GHOSH R et al. 2020; YEASMIN S et al. 2020). Pelo mesmo motivo, as denúncias de
abuso, negligência, exploração e violência doméstica apresentaram um considerável
aumento nessa época e o confinamento colocou as crianças e os adolescentes em uma
posição de maior susceptibilidade a essas práticas criminosas (GHOSH R et al. 2020).
Nesse período, as figuras parentais abusivas passam mais tempo com suas vítimas no
ambiente doméstico e utilizam práticas punitivas físicas ou mentais para controlar as
desobediências (GHOSH R et al. 2020; OLIVEIRA WA et al. 2020). Essas agressões
físicas e/ou psíquicas causam marcas eternas e comprometem o desenvolvimento
neuropsicológico e são fatores de risco para transtornos psicossomáticos, abusos de
substâncias ilícitas e comportamento suicida (GHOSH R et al. 2020).
Diante do cenário catastrófico econômico causado pela pandemia de COVID-19
muitas famílias foram atingidas e os filhos vivenciaram grande preocupação em relação a
perda de emprego dos pais e o medo de indisponibilidade futura das necessidades básicas
como comida e água (SAURABH K et al. 2020). Assim, a situação socioeconômica e
perda financeira foi evidenciada na literatura como grande fator estressor no período da
quarentena (SAURABH K et al. 2020; LOADES MA et al. 2020). Essa questão irá
fortalecer ainda mais as desigualdades pré-existentes e os mais afetados serão os grupos
já marginalizados. Ilustrando esse quadro, já é observado que crianças e adolescentes de
famílias mais pobres vem sofrendo evasão escolar para se envolver em trabalhos informais
com intuito de gerar renda familiar (GHOSH R et al. 2020).
proporcionou a este grupo um maior apoio para enfrentar a situação (SAURABH K et al.
2020; GHOSH R et al. 2020; LOADES MA et al. 2020; MAIA BR e DIAS PC, 2020).
Além disso, apesar de constituir uma prática relativamente nova, a psicoterapia e as
consultas psiquiátricas online são evidenciadas nos estudos como práticas fundamentais
para o acompanhamento dos pacientes, para desenvolver medidas de enfrentamento e de
autoajuda nesse momento de distanciamento social (SAURABH K et al. 2020; ZHOU SJ
et al. 2020; DUAN L et al. 2020; ZHANG Q et al. 2020; LOADES MA et al. 2020;
RODRIGUES BB et al. 2020; YEASMIN S et al. 2020).
Ademais, em um estudo transversal foi avaliado a resiliência emocional como
estratégia essencial diante da pandemia, já que proporciona uma recuperação mais rápida
após experiências emocionais negativas. Concomitantemente, esse fator protetor foi
positivamente correlacionado com as habilidades de gestão da aprendizagem (p < 0,01)
que são fundamentais para os estudantes nesse momento (ZHANG Q et al. 2020).
Portanto, já existem evidências cientificas que analisam a implementação de
medidas de proteção da saúde mental em crianças e adolescentes, reduzindo os impactos
negativos da pandemia de COVID-19 na questão psicológica e psiquiátrica.
4 DISCUSSÃO
Através dos resultados supracitados, é possível evidenciar que a pandemia de
COVID-19 ainda apresentará muitas repercussões sociais, econômicas e emocionais nos
próximos anos. Apesar de diferentes dimensões, ao comparar com outras pandemias como
Gripe H1N1, Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS) ou Ébola, focando nos efeitos
psicopatológicos, a quarentena provocou impactos negativos que perduraram por muito
tempo, como confusão, raiva, ansiedade, medo e TEPT, apresentando-se como um
problema de saúde pública (BROOKS SK et al. 2020). Dessa forma, para o uso bem-
sucedido da quarentena é fundamental que os efeitos negativos associados a ela sejam
reduzidos (BROOKS SK et al. 2020). É importante que as crianças e os adolescentes em
conjunto com seus familiares e demais redes de apoio como psicólogos e psiquiatras
promovam medidas de enfrentamento das situações estressantes da pandemia (Figura 1).
Nessa linha de pensamento, algumas pessoas enlutadas no período pandêmico,
especialmente devido ao luto desprivilegiado, já que o contato com os familiares
infectados é restrito e existe a impossibilidade de se despedir propriamente, podem
vivenciar um estado de luto incessante e incapacitante associado a efeitos físicos e
psicológicos como problemas de adaptação, transtorno de estresse pós-traumático,
depressão, luto complicado e até suicídio. (STIKKELBROEK Y et al. 2020; SUN Y et al.
2020; FEGERT JM et al. 2020). O luto familiar acarreta problemas de saúde mental em
aproximadamente 25% das crianças afetadas e os adolescentes apresentam alto risco de
desenvolver distúrbios internalizadores, incluindo episódios graves depressivos
(STIKKELBROEK Y et al. 2020). Dessa forma, o apoio psicossocial é necessário para
reduzir a carga psicológica e promover resiliência emocional nas crianças e nos
adolescentes que perderam seus entes queridos na pandemia.
Além disso, a diminuição do sistema de apoio nesse período e a exposição a
eventos estressores múltiplos intensificaram a ameaça à segurança e exacerbaram a
vulnerabilidade à violência doméstica das crianças e dos adolescentes. O abuso físico,
psicológico ou sexual pode acarretar maior risco de desregulação e psicopatologia do
desenvolvimento em todo o período de vida (CUARTAS J 2020). Esse fato causa sequelas
sociais que vão além da crise de saúde pública atual e por isso o governo deve investir no
acesso à terapia cognitivo-comportamental focada no trauma e em campanhas de
conscientização contra o abuso infantil e a favor da denúncia dessas práticas (GHOSH et
al. 2020; CUARTAS J 2020). Em conjunto a isso, a comunidade é um pilar fundamental
para mitigar as consequências desses abusos e deve se posicionar contra os mesmos ao
invés de banalizar essas atitudes criminosas.
Apesar da COVID-19 afetar clinicamente a população em geral, as consequências
da pandemia estão diretamente relacionadas aos determinantes multifatoriais sociais do
processo saúde doença. Por esse motivo, a carga psicológica associada à patologia atinge
desproporcionalmente essas crianças e adolescentes já desfavorecidos e vulneráveis
(FEGERT JM et al. 2020). O bloqueio econômico da pandemia já resultou em milhões de
desempregados e no aumento do número da população abaixo da linha de pobreza e pode
esperar-se uma alta ainda maior de intempéries financeiras após a fase aguda da pandemia.
Assim, esse retrato de vulnerabilidade socioeconômica acarreta sentimento de culpa,
frustração, depressão e angústia mental, e pode elevar as taxas de suicídio e abuso de
substâncias dependentes pelos responsáveis (OLIVEIRA WA et al. 2020; DUBEY S et
al. 2020).
Dessa forma, a recessão econômica se relaciona à redução do bem-estar emocional
dos cuidadores e das crianças e adolescentes, posto que esta situação influencia
negativamente o vínculo de confiança entre eles, aumentando o risco de problemas
psicológicos e psiquiátricos nessa população (FEGERT JM et al. 2020). Portanto, como
essas disparidades socioeconômicas acarretam falta de acesso à saúde, à educação e à
Figura 1 – Estratégias propostas para reduzir a carga psicológica sobre as crianças e os adolescentes
durante a pandemia de COVID-19.
EVENTO
ESTRESSOR
Pandemia de
COVID-19
PROTETORES
FATORES
Melhoria Campanhas de Atendimento Comunicação
das conscientização psicológico e virtual com
condições contra o abuso psiquiátrico parentes e/ou
financeiras infantil online família distantes
//
Núcleos de apoio Acesso às Estratégia de
psicossocial aos tecnologias paraprópria, 2020enfrentamento do luto
discentes
Fonte: Autoria
estudo
SAÚDE MENTAL
PRESERVADA
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