INTRODUÇÃO GERAL À BÍBLIA E
HISTÓRIA DE ISRAEL
CURSOS DE GRADUAÇÃO – EAD
Introdução Geral à Bíblia e História de Israel – Prof.ª Dra. Elisa Rodrigues e Prof.ª Ms.
Elizangela Aparecida Soares
Meu nome é Elisa Rodrigues, natural de Osasco-SP. Sou bacha-
rel em Teologia e doutora em Ciências da Religião, na área de
Literatura e Religião do Mundo Bíblico, pela Universidade Me-
todista de São Paulo. Também sou bacharel em Sociologia e
Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São
Paulo e doutoranda em Ciências Sociais, na área de Cultura e
Política, pela Universidade Estadual de Campinas. Pesquiso te-
mas relacionados à religião, especialmente a hermenêutica de
textos sagrados (judaico-cristãos) e a recepção dessa literatura
pelos protestantismos, neopentecostalismos e catolicismos.
Além de artigos publicados em periódicos especializados em
Teologia e Religião, sou uma das autoras do livro intitulado Palavra de Deus, palavra da
gente: as formas literárias na Bíblia, publicado pela Editora Paulus, e escrevi o livro O que
é teologia?, publicado pela MK Editora.
E-mail:
[email protected] Meu nome é Elizangela Aparecida Soares, natural de Divino de
São Lourenço-ES. Sou mestre em Ciências da Religião e gradua-
da em Teologia pela Universidade Metodista de São Paulo. Tam-
bém sou redatora da revista Oracula, uma publicação do Grupo
Oracula de Pesquisa em Apocalíptica Judaica e Cristã, do qual
sou membro desde 2004. Minhas pesquisas estão voltadas, es-
pecialmente, para literatura e religião no mundo bíblico, histó-
ria cultural e história das ideias no judaísmo antigo e cristianis-
mo primitivo.
E-mail:
[email protected] Fazemos parte do Claretiano - Rede de Educação
Elisa Rodrigues
Elizangela Aparecida Soares
INTRODUÇÃO GERAL À BÍBLIA E
HISTÓRIA DE ISRAEL
Batatais
Claretiano
2013
© Ação Educacional Claretiana, 2008 – Batatais (SP)
Versão: dez./2013
220.09 R611i
Rodrigues, Elisa
Introdução geral à bíblia e história de Israel / Elisa Rodrigues, Elizangela
Soares – Batatais, SP : Claretiano, 2013.
220 p.
ISBN: 978-85-8377-019-0
1. Introdução geral à Bíblia. 2. Antigo testamento. 3. Monarquia. 4. Israel.
5. De Nabucodonosor a Alexandre. 6. História de Israel. I. Soares,
Elizangela. II. Introdução geral à bíblia e história de Israel.
CDD 220.09
Corpo Técnico Editorial do Material Didático Mediacional
Coordenador de Material Didático Mediacional: J. Alves
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Camila Maria Nardi Matos Felipe Aleixo
Carolina de Andrade Baviera Filipi Andrade de Deus Silveira
Cátia Aparecida Ribeiro Paulo Roberto F. M. Sposati Ortiz
Dandara Louise Vieira Matavelli Rodrigo Ferreira Daverni
Elaine Aparecida de Lima Moraes Sônia Galindo Melo
Josiane Marchiori Martins
Talita Cristina Bartolomeu
Lidiane Maria Magalini
Vanessa Vergani Machado
Luciana A. Mani Adami
Luciana dos Santos Sançana de Melo
Luis Henrique de Souza Projeto gráfico, diagramação e capa
Patrícia Alves Veronez Montera Eduardo de Oliveira Azevedo
Rita Cristina Bartolomeu Joice Cristina Micai
Rosemeire Cristina Astolphi Buzzelli Lúcia Maria de Sousa Ferrão
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SUMÁRIO
caderno de referência de conteúdo
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................... 9
2 oRIENTAÇÕES PARA ESTUDo........................................................................... 11
3 referências bibliográficas ...................................................................... 34
Unidade 1 – Introdução Geral à Bíblia
1 Objetivos......................................................................................................... 35
2 Conteúdos...................................................................................................... 35
3 Orientações para o estudo da unidade................................................ 36
4 Introdução à Unidade ............................................................................... 36
5 As línguas originais e os primeiros livros.......................................... 38
6 As primeiras traduções da Bíblia............................................................ 44
7 O debate sobre as autorias da Bíblia e seus locais de origem...... 51
8 QUESTões AUTOAVALIATIVAs......................................................................... 58
9 CONSIDERAÇÕES............................................................................................... 59
10 e-REFERÊNCIAS ................................................................................................. 60
11 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 60
Unidade 2 – Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do
Antigo Testamento
1 Objetivos......................................................................................................... 61
2 Conteúdos...................................................................................................... 61
3 Orientações para o estudo da unidade................................................ 62
4 Introdução à Unidade ............................................................................... 63
5 FORMAS E GÊNEROS LITERÁRIOS DA BÍBLIA.................................................. 63
6 O QUE SÃO FORMAS E GÊNEROS LITERÁRIOS?.............................................. 68
7 OS GÊNEROS MAIORES NA BÍBLIA................................................................... 78
8 Visão geral sobre o Antigo Testamento.............................................. 80
9 abordagens sobre o a "torAh" ou o "pentateuco"........................... 95
10 Q UESTões AUTOAVALIATIVAs......................................................................... 97
11 considerações .............................................................................................. 98
12 E-REFERÊNCIAS................................................................................................. 99
13 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 99
Unidade 3 – Antes da Monarquia: o Período das Tribos
1 Objetivos......................................................................................................... 101
2 Conteúdos...................................................................................................... 101
3 Orientações para o estudo da unidade................................................ 102
4 Introdução à Unidade ............................................................................... 102
5 Introdução geral ao tribalismo............................................................ 103
6 Patriarca Abraão e história de Israel................................................... 107
7 TRIBOS E OS AGRUPAMENTOS......................................................................... 116
8 ESTABELECIMENTO DAS TRIBOS...................................................................... 121
9 QUESTões AUTOAVALIATIVAs......................................................................... 123
10 Considerações............................................................................................... 123
11 E-REFERÊNCIAS................................................................................................. 124
12 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 125
Unidade 4 – Israel Pré-Monárquico
1 OBJETIVOS......................................................................................................... 127
2 Conteúdos...................................................................................................... 127
3 Orientações para o estudo da unidade................................................ 127
4 Introdução à Unidade ............................................................................... 128
5 UM ISRAEL PRÉ-ESTATAL................................................................................... 129
6 DE PRÉ-ESTATAL A SISTEMA MONÁRQUICO................................................... 132
7 CRISE TRIBAL E AS ORIGENS ESTATAIS DE ISRAEL.......................................... 134
8 QUESTões AUTOAVALIATIVAs......................................................................... 137
9 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 137
10 E-REFERÊNCIAS................................................................................................. 138
11 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 138
Unidade 5 – Monarquias: Israel e Judá
1 OBJETIVOS......................................................................................................... 139
2 Conteúdos...................................................................................................... 139
3 Orientações para o estudo da unidade................................................ 140
4 Introdução à Unidade................................................................................ 140
5 "DÁ-NOS UM REI... COMO AS OUTRAS NAÇÕES" .......................................... 141
6 PROBLEMA DA SUCESSÃO DINÁSTICA............................................................ 154
7 ISRAEL, REINO GLORIOSO: O GOVERNO SOB SALOMÃO............................... 155
8 QUESTões AUTOAVALIATIVAs......................................................................... 169
9 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 169
10 E-REFERÊNCIAS................................................................................................. 170
11 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 171
Unidade 6 – De Nabucodonosor a Alexandre
1 OBJETIVOS......................................................................................................... 173
2 Conteúdos...................................................................................................... 173
3 Orientações para o estudo da unidade................................................ 174
4 Introdução à Unidade................................................................................ 174
5 NABUCO QUEM?............................................................................................... 175
6 ORIGEM DA HISTÓRIA DO CATIVEIRO DOS JUDEUS NA BABILÔNIA............ 176
7 VÃO-SE OS BABILÔNIOS, VÊM OS PERSAS...................................................... 181
8 SAI A PÉRSIA, ESTABELECE-SE O PERÍODO HELENÍSTICO.............................. 186
9 DEPOIS DE ALEXANDRE.................................................................................... 188
10 REVOLTA DOS MACABEUS............................................................................... 189
11 Q UESTões AUTOAVALIATIVAs......................................................................... 197
12 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 197
13 E-REFERÊNCIAS................................................................................................. 198
14 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS....................................................................... 199
Unidade 7 – Antigo Testamento como Fonte para o Estudo da
História de Israel
1 Objetivos......................................................................................................... 201
2 Conteúdos...................................................................................................... 201
3 Orientações para o estudo da unidade................................................ 202
4 INTRODUÇÃO À UNIDADE................................................................................ 202
5 HISTÓRIA DE ISRAEL OU "HISTÓRIAS" DE ISRAEL? ........................................ 203
6 NOVAS PERSPECTIVAS SOBRE A HISTÓRIA DE ISRAEL................................... 204
7 LEITURA DO ANTIGO TESTAMENTO................................................................ 206
8 O ANTIGO TESTAMENTO COMO FONTE: DO COTIDIANO ÀS GRANDES
QUESTÕES POLÍTICAS....................................................................................... 208
9 LEGISLAÇÃO E ORDENAÇÃO SOCIAL .............................................................. 213
10 CONSIDERAÇÕES .............................................................................................. 217
11 E-REFERÊNCIAS................................................................................................. 218
12 R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ...................................................................... 219
Claretiano - Centro Universitário
Caderno de
Referência de
Conteúdo
CRC
Ementa––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Panorama sobre as línguas, materiais, autores, divisão e traduções. Compre-
ensão da Bíblia e seu conteúdo: cânon e visão geral do Antigo Testamento. O
processo formador do cânon e dos livros bíblicos, gêneros literários e condiciona-
mentos da Bíblia. Experiência fundante do povo hebreu no seu contexto histórico
e geográfico. Formação dos textos bíblicos como testemunho da experiência da
fé hebraica, da sua noção de sagrado e de especificidades dadas a partir das
suas relações sociais, culturais e geopolíticas. História: diferentes etapas da for-
mação do povo, desde o período patriarcal até o período helenístico.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
1. INTRODUÇÃO
Primeiramente, o estudo de Introdução Geral à Bíblia e His-
tória de Israel consiste na apresentação da literatura bíblica como
fonte, segundo a historiografia, bem como parte do complexo
conjunto de documentos (os canônicos) que dizem respeito ao ju-
daísmo antigo. Em segundo lugar, concede tratamento à história
da Israel com base nas narrativas e depoimentos fornecidos pelos
livros que compõem o Antigo Testamento.
10 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Os conteúdos apresentados a seguir visam propiciar o en-
tendimento de que a Bíblia é um livro formado por muitos outros
livros. Essa diversidade literária se reflete nas diversas narrativas,
poemas, cânticos, profecias, crônicas e outras formas e gêneros li-
terários distribuídos entre o Novo e o Antigo Testamento. Por essa
razão, a historiografia e outras disciplinas das Ciências Humanas
têm se apropriado desse material como fonte de conhecimento
para a pesquisa sobre judaísmos e cristianismos na Antiguidade.
Diante desse contexto, a tarefa de quem lê, traduz e inter-
preta os textos da Bíblia (o exegeta e ou hermenêuta) é a de reco-
nhecer o formato, as características e o tipo de utilização que os
autores dos tempos bíblicos fizeram dessas memórias, registradas
conforme demandas e questões que se impunham aos escritores
no período de redação.
Neste Caderno de Referência de Conteúdo, verificaremos
que o ambiente e as intenções de cada autor contribuíram e, em
certo ponto, determinaram o ato da comunicação das memórias,
das lembranças e das histórias do povo de Deus relacionadas na
Bíblia. Desse modo, é possível afirmar que entre o ambiente e o
texto existe influência, visto que a maneira de se comunicar algo
indica, também, o "olhar" de alguém sobre certa realidade, sua
própria experiência e repertório.
Essa compreensão é relevante, pois indica-nos que o cami-
nho para conhecer a Bíblia tem como estágio compreendê-la como
um conjunto de elementos ligados intimamente: as línguas origi-
nais dos escritos bíblicos, os povos e suas culturas narradas nos
textos, a geografia dos locais por onde estes andaram, residiram,
guerrearam, amaram e cultuaram ao seu Deus, Lahweh. Cada um
desses elementos constitui a Bíblia, fonte histórica e Livro Sagrado
para judeus e cristãos.
Em Introdução Geral à Bíblia e História de Israel, trataremos,
fundamentalmente, da história de Israel. Contudo, antes de en-
trarmos no quadro histórico do povo de Deus, serão apresenta-
das informações necessárias à compreensão dessa fonte e de seu
© Caderno de Referência de Conteúdo 11
processo de constituição. Com isso, pretende-se demonstrar que
a literatura bíblica propõe um complexo conjunto de documentos
que exigem ser considerados à luz de sua escrita, da cultura das
pessoas que a escreveram e da memória do povo de Israel.
Após essa introdução aos conceitos principais, apresenta-
mos, no tópico a seguir, algumas orientações de caráter motivacio-
nal, bem como dicas e estratégias de aprendizagem que poderão
facilitar o seu estudo.
2. oRIENTAÇÕES PARA ESTUDo
Abordagem Geral
Aqui, você entrará em contato com os assuntos principais
deste conteúdo de forma breve e geral e terá a oportunidade de
aprofundar essas questões no estudo de cada unidade.
Esta Abordagem Geral visa fornecer-lhe o conhecimento bá-
sico necessário para que você possa construir um referencial teó-
rico com base sólida – científica e cultural –, para que, no futuro
exercício de sua profissão, você a exerça com competência cogniti-
va, ética e responsabilidade social.
Antes de iniciarmos o estudo de Introdução Geral à Bíblia e
História de Israel, devemos nos atentar para o fato de que existe
uma ampla bibliografia disponível sobre os conteúdos que serão
estudados. Portanto, tudo o que for apresentado é passível de dis-
cussão e de crítica.
Em princípio, deve-se compreender que a história de Israel
Antigo é sempre uma "nova" história de Israel antigo. Tal afirma-
ção não é descabida, visto que é com base nos livros colecionados
pelo Antigo Testamento que reconstruímos a história de Israel, a
qual, de fato, está distante de nós, intérpretes modernos, há cerca
de dois mil anos. Logo, o que temos é uma construção idealizada
de sua história.
Claretiano - Centro Universitário
12 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Assim, cabe-nos compreender que, ao construirmos um
quadro histórico acerca de alguém, de um acontecimento passa-
do ou de qualquer coisa, sempre nos valemos do conjunto de co-
nhecimentos e de experiências que temos à nossa disposição. Isso
significa que, ao relatarmos uma história, discorremos a partir de
vocabulários específicos, ideologias e metodologias que estão ao
nosso alcance.
Para ilustrar esse ponto, basta pensar em uma cena históri-
ca ocorrida há décadas. Agora, imagine que é necessário recontar
essa história muitos anos depois e com os recursos literários dis-
poníveis nesse período. Obviamente, desde que o primeiro relato
sobre o fato foi tecido, algum tempo se passou e se acumularam
pesquisas, documentos e descobertas. Portanto, experiência, co-
nhecimento, vocabulário, metodologia e outros elementos impor-
tantes cooperam para a construção de um discurso.
Esse conjunto de informações e de elementos está circuns-
crito por uma historicidade, que é diferente da historicidade da-
queles primeiros homens e mulheres que relataram os episódios
da história. Com isso, a história de Israel, por exemplo, sempre
será nova a partir do ponto de vista de quem constrói o relato his-
toriográfico.
Quando Martin Noth escreveu sobre Israel como uma "con-
federação de tribos", e Albrecht Alt, em 1944, escreveu que o rit-
mo da história de Israel tinha relação com a situação geográfica e
climática do Antigo Oriente Próximo, ambos falavam e interpreta-
vam documentos do mesmo Israel.
Todavia, os próprios contextos de pesquisa, os interesses
e as metodologias conduziram a diferentes perspectivas sobre a
história de Israel, pois, a cada década, novas descobertas arqueo-
lógicas, novas evidências e novos documentos indicam diferentes
rumos para a pesquisa. Portanto, o que sabemos hoje é um pouco
mais em relação ao que sabíamos no começo do século 20, mas,
possivelmente, pode ser menos do que o futuro nos reserva.
© Caderno de Referência de Conteúdo 13
Isso nos conduz à afirmação não dogmática de que a histó-
ria de Israel está mudando. O consenso que havia até meados da
década de 1970 foi despedaçado; hoje, o racionalismo positivista
que entendia somente o texto bíblico como base, como o único
manual sobre a história de Israel, tem sido ampliado nos meios
acadêmicos e nos círculos de leitura da Bíblia. Já são muitas as pu-
blicações de documentos e de descobertas de manuscritos antigos
que fornecem ricas informações sobre a história do povo de Israel,
suas tradições, crenças e símbolos.
A sequência patriarcal, antes vista como única possibilidade
histórica para Israel, isto é, José no Egito, a escravidão, o êxodo,
a conquista da terra, a divisão em tribos, os impérios de Davi e
de Salomão, a divisão dos reinos em Norte e Sul, o exílio e a volta
para a terra prometida, hoje tem sido revista à luz das descobertas
arqueológicas, da comparação de fontes e da metodologia da his-
tória comparada das religiões.
O uso exclusivo dos textos bíblicos como única fonte para a
história de Israel tem sido questionado por muitos. A arqueologia
ampliou as perspectivas sobre as etapas da formação de Israel, e,
nesse sentido, a "arqueologia bíblica" tornou-se uma chave geral,
pois hoje se sabe que existem ramos da pesquisa mais especiali-
zados, como a "arqueologia da Palestina", a "arqueologia da sírio-
-palestina" e, ainda, uma "arqueologia do Levante Sul".
Mesmo a crítica literária, uma escola de investigação que se
ocupa de examinar os textos bíblicos nos níveis da história da tra-
dição, da redação e das formas, já tem apontado para a perspec-
tiva de que os gêneros literários que formam o complexo bíblico
não são predominantemente históricos; existem mitos, fábulas,
etiologias, parábolas, sátiras, lamentos e tantas outras formas de
redação que o material bíblico evoca para si um olhar atento, mi-
nucioso, quase que investigativo.
Essa perspectiva nos convida a examinar os textos bíblicos
como se tivéssemos uma lupa em punho, um instrumento que é
necessário para a identificação de vestígios e pistas que possam nos
ajudar a montar esse "quebra-cabeça" que é a história de Israel.
Claretiano - Centro Universitário
14 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Nesse sentido, é cada vez mais atrativa a elaboração de uma
"história de Israel" que considere o material bíblico, a arqueologia
e os documentos extrabíblicos.
A construção de um relato histórico, isto é a compreensão
de Israel, inicialmente, à parte de chaves teológicas familiares que,
muitas vezes, nos impedem de ver o povo hebreu, as tribos, o es-
tado monárquico e outros episódios da história de Israel como a
história de um povo que contraiu e desfez alianças políticas, que
lutou pela posse da terra no Oriente Próximo Antigo e que, em
razão desses acontecimentos, desenvolveu intercâmbios culturais
com os povos vizinhos, pode nos ajudar a ver Israel a partir de ou-
tro prisma, que não apenas a perspectiva do "povo escolhido" ou
do "povo de Deus".
O que a arqueologia e a historiografia contemporâneas pre-
tendem é construir uma história de Israel e dos povos vizinhos ou,
quem sabe, uma história da Síria/Palestina.
Controvérsias na História de Israel
A partir de 1967, o norte-americano Thomas L. Thompson,
ao pesquisar sobre os textos do Gênesis, sobre os patriarcas e os
paralelos com os costumes de Nuzi, chegou à conclusão que o am-
biente adequado para as tradições patriarcais era o primeiro milê-
nio AEC.
Contrariamente ao que a maioria dos pesquisadores disse,
até então, Thompson descartou o segundo milênio como ambien-
te das tradições sobre os patriarcas. Em 1974, com o lançamento
de seu livro, houve grande reboliço entre os pesquisadores do An-
tigo Testamento.
Décadas depois, em 1987, Thompson examinou a questão
das origens de Israel e retomou os argumentos da década de 1970,
na qual localizou as origens de Israel em uma região montanhosa,
ao Norte de Jerusalém, e durante o século 9 AEC. Essa conclusão
propunha que não poderia haver monarquia unida sob Davi e Sa-
lomão em Jerusalém, no século 10 AEC.
© Caderno de Referência de Conteúdo 15
Quando, mais tarde, em 1992, a tese de Thompson foi publi-
cada, a reação ao seu livro foi bastante explosiva, o que o fez ser
afastado da universidade onde lecionava e desenvolvia pesquisas,
nos Estados Unidos, e convidado a trabalhar no Departamento de
Estudos Bíblicos da Universidade de Copenhague. Mas essa não foi
a única controvérsia em torno da história de Israel.
Ainda na década de 1960, o canadense John Van Seters revi-
sou, criticamente, a Hipótese Documentária do Pentateuco e exa-
minou as tradições sobre Abraão. Como se sabe, desde que foi de-
senvolvida, no século 18, a Hipótese Documentária afirmava que
o Pentateuco foi elaborado em etapas, em momentos distintos e
conforme diferentes tradições.
A Teoria Documentária do Pentateuco surgiu no século 18 e
tem passado por diversas fases. Julius Wellhausen é o nome clás-
sico dessa teoria e publicou suas obras de referência em 1878 e
1883. Esse estudioso se baseou em uma filosofia evolucionária
naturalista da história e da religião de Israel, de acordo com a ten-
dência racionalista típica de seu tempo.
A expressão clássica dessa teoria afirma o Pentateuco como
obra bem posterior a Moisés, constituída de quatro documentos,
que pode ser resumida da seguinte forma:
1) "J": o nome de Deus é sempre escrito como JHVH e
transliterado como Javé.
2) "E": o nome de Deus é sempre apresentado como Elo-
him (Hebraico para Deus ou poder).
3) "D": escreveu o livro de Deuteronômio, os livros de Jo-
sué, de Juízes, 1 e 2 Samuel e 1 e 2 Reis.
4) "P": material sacerdotal (em inglês priestly). Usa Elohim
e El Shaddai como nomes de Deus.
Desse modo, é formada a sigla JEDP.
As fontes javista, eloísta, deuteronômio e sacerdotal foram
elaboradas desde o século 10 AEC, na corte davídico-salomônica,
até o século 5 AEC, com Esdras, na Jerusalém pós-exílica.
Claretiano - Centro Universitário
16 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Porém, Van Seters concluiu que a fonte J deveria ser conside-
rada como tradição pós D; por isso, toda a Hipótese Documentária
deveria ser examinada novamente. A pesquisa de Van Seters foi pu-
blicada em 1975, e, nos anos subsequentes, 1976 e 1977, duas ou-
tras pesquisas sobre o mesmo tema foram publicadas; desde então,
a teoria clássica das fontes do Pentateuco nunca mais foi a mesma,
conforme verificamos no emblemático título da pesquisa publicada
pelo prof. Walter Kaiser Explodindo a teoria JEDP, de 1991.
Segundo Van Seters, em 1992 e 1994, a tradição javista é
uma obra unificada que se estende da criação do mundo até a
morte de Moisés, e, portanto, os javistas elaboraram uma obra his-
toriográfica, que Van Seters compara à obra do historiador grego
Heródoto. Para tanto, a tradição J teria se baseado tanto na tradi-
ção oral quanto na escrita, mas teria concedido especial atenção a
uma construção teológica e unificadora para Israel.
Assim, o objetivo da obra J era corrigir o nacionalismo e o
ritualismo da tradição deuteronômica; por isso, o Javista era pos-
terior ao Deuteronômio e contemporâneo ao Dêutero-Isaías, que
tinha afinidades com Jeremias e com Ezequiel. Contudo, a tradição
J deveria ser considerada anterior à tradição sacerdotal, P, que,
por sua vez, não seria uma obra independente, mas uma série de
suplementos pós-exílicos ao deuteronomistas e javistas. Por fim, a
tradição eloísta, E, não se sustentaria como documento indepen-
dente e desapareceria.
Pode-se perceber, dessa forma, que a pesquisa sobre a his-
tória de Israel tem um leque de investigações, perspectivas e me-
todologias muito amplo, mas, nem sempre, consensual, o que, a
despeito do que possa parecer, não é ruim; antes, demonstra que
há espaço para diferentes abordagens e posturas sobre Israel, sua
religião, expressão cultural e literatura.
O Antigo Israel
Mas, então, onde fica o Antigo Israel?
© Caderno de Referência de Conteúdo 17
Em 1992, o professor Philip Davies, da Universidade de She-
ffield, no Reino Unido, publicou um interessante e provocador li-
vro sobre o Antigo Israel . Nessa obra, Davies argumentou que a
expressão "Antigo Israel" era um construto erudito elaborado pe-
los estudiosos, a partir da imagem de um Israel bíblico e de alguns
dados arqueológicos.
Entretanto, esse Israel não era o Israel histórico, e, assim,
seria necessária uma busca pelo "Antigo Israel", imerso e esque-
cido na construção ideal de um Israel comunitário e escolhido por
Deus. A imagem de um Israel bíblico era mais um problema do que
um dado, e a correção desse problema se daria com a exclusão da
literatura bíblica, isso porque as definições de "Israel", dos "cana-
neus", do "exílio" e do "período persa" apresentadas pelo material
bíblico não ofereciam um retrato suficientemente claro para que
se pudesse reconstituir Israel. Para Davies, o historiador precisa
investigar a história real, independentemente do conceito bíblico.
Davies questionou a continuidade étnica entre os exilados
judaítas do século 6º e os que vieram da Babilônia na época persa
para repovoar Judá. Ele afirmou que a literatura bíblica foi inventa-
da nas épocas persa e grega, com o objetivo de formar um quadro
cultural para exportação, entendeu que as histórias foram criadas
e colecionadas na sequência que hoje conhecemos e, por fim, su-
geriu que o estado asmoneu (ou macabeu) é que tornou possível a
transformação do Israel literário em um Israel histórico.
Importa-nos que as possibilidades de compreensão da his-
tória de Israel são muitas e, algumas delas, bastante controversas,
mas, para nós, pesquisadores de religião e de teologia, são válidas
como arsenal metodológico e, sobretudo, como recursos para re-
pensar nossos próprios pressupostos.
Outra discussão muito interessante está relacionada às ori-
gens dos estados israelitas.
Em 1996, foi publicado um livro, editado por Volkmar Fritz
e Philip R. Davies, denominado As origens dos antigos estados is-
Claretiano - Centro Universitário
18 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
raelitas, no qual os autores discutem a existência ou não de uma
monarquia unida em Israel e, especialmente, de um império daví-
dico-salomônico.
O sempre polêmico Philip Davies, logo na introdução do li-
vro, lembrou que o debate sobre a formação dos estados israelita
e judaico já existia desde longa data e que ele havia significativa-
mente esquentado com a descoberta, em 1993, da inscrição de Tel
Dan.
Desde 1966, Avraham Biran escavava o sítio arqueológico de
Tel Dan. Foram vários anos de trabalho até que a descoberta mais
importante ocorresse, finalmente, em 1993, ocasião em que sua
equipe removia o entulho da área do portão da cidade. Parte da
muralha, destruída em 733-732 AEC, continha um fragmento de
um monumento inscrito.
Por se tratar de um fragmento, a mensagem estava incom-
pleta. Havia 13 linhas incompletas escritas em hebraico arcaico, a
escrita usada antes do exílio, em 586 AEC. As palavras eram sepa-
radas por pontos e a inscrição reza como segue:
(1) ...meu pai subiu
(2) ...e meu pai morreu, ele foi para...
(3) real outrora na terra de meu pai...
(4) Eu (lutei contra Israel?) e Hadad foi diante de mim...
(5) ...meu rei. E eu matei de (entre eles) X infantes, Y char-
(6) retes e dois mil cavaleiros...
(7) o rei de Israel. E matou (...o parente)
(8) g da casa de Davi. E eu pus...
(9) sua terra ...
(10) outro...(ru)
(11) conduziu contra is(rael...)
(12) sítio contra...
© Caderno de Referência de Conteúdo 19
Nessa polêmica inscrição, alguns especialistas leem um par
de palavras como uma referência a um rei da "casa de Davi" – o
que faria dessa inscrição a primeira e, até agora, única referência
extrabíblica a Davi e ao seu reino; outros, porém, preferem negar
qualquer apoio desse texto à existência de um reino davídico na
região da Palestina.
A partir dessa descoberta arqueológica, Davies pergunta: O
que teria sido esse primeiro "estado israelita"? Um reino unido
composto pelas tribos de Israel e Judá que dominou todo o terri-
tório da Palestina e, em seguida, foi dividido em reinos do "Norte"
e do "Sul"? Ou seria tudo isso mera ficção? O que teria acontecido
na região central da Palestina nos séculos 10 e 9 AEC?
Uma possibilidade de resposta a essas perguntas foi pro-
posta por Christa Schäfer-Lichtenberger, da Alemanha. De acordo
com sua perspectiva, muitos autores atualmente defendem uma
reconstrução da sociedade israelita do século 10 apenas com o uso
da arqueologia e das fontes do Antigo Oriente Médio.
Todavia, ao contrário do texto bíblico, o silêncio dessas duas
fontes leva tais autores:
• à negação da existência de um estado israelita no século
10;
• à afirmação de que esses primeiros reis e sua organização
política nada mais eram do que projeções pós-exílicas.
Portanto, antes de falar da emergência do estado israelita,
seria necessário fazer algumas considerações sobre sua situação.
A ausência de documentos escritos no Antigo Oriente Médio
sobre Israel na Idade do Ferro I (1200-900 a.C.) pode ter quatro
causas, uma independente da outra:
1) Não existiu uma entidade política de nome Israel nessa
época.
Claretiano - Centro Universitário
20 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
2) Síria/Palestina, Egito e Assíria não conseguiram hege-
monia política sobre essa região nessa época e, por isso,
nada registraram.
3) Os textos não sobreviveram porque foram registrados
em papiros.
4) Os escritos ainda não foram encontrados.
Christa Schäfer-Lichtenberg assegura que a ausência de mo-
numentos e inscrições dessa época indicam que não devemos co-
locar Judá (reino de Israel) no mesmo nível do Egito ou da Assíria,
pois esses impérios, por sua grandeza, teriam deixado vestígios de
sua época na mesma proporção de sua importância; portanto, es-
tados com estruturas menores ou menos representativas em rela-
ção ao Egito e à Assíria não poderiam ser medidos com os mesmos
critérios usados para os grandes impérios.
E mesmo que inscrições em monumentos tenham existido,
elas estariam em Jerusalém, onde dificilmente teriam sobrevivido
às reformas religiosas de reis como Josias – isso porque continham
os títulos de outras divindades que não Javé – ou às maciças des-
truições militares de que a cidade foi vítima.
Christa encerra sua abordagem concluindo que a arqueolo-
gia não possui todas as chaves para a elaboração da história de Is-
rael e que esse debate é predominantemente teórico; em seguida,
ela propõe uma perspectiva teórica, que tem início com a discus-
são sobre a noção do Estado como forma de organização política.
Para tanto, entre outros teóricos, ela usou a abordagem sociológi-
ca de Max Weber ao compreender Israel a partir da categoria de
estado primitivo.
Niels Peter Lemche, da Dinamarca, introduziu o conceito de
"sociedade patronal" ("patronage society") para explicitar a varie-
dade social da Síria e, especialmente, da Palestina, no período do
Bronze Recente (1500-1200 AEC).
Esse modelo, frequentemente chamado de "sistema social
mediterrâneo", parece ter sido onipresente em sociedades com
© Caderno de Referência de Conteúdo 21
certo grau de complexidade, mas que não constituíam, ainda, es-
tados burocráticos. Aqui, Lemche também parece lançar mão da
sociologia weberiana para estudar o estado de Israel, cuja organi-
zação vertical ele definiu, porém, como típica de uma sociedade
patronal, isto é, no topo, encontramos o patrono, um membro de
uma linhagem líder, e, abaixo dele, deparamos-nos com seus clien-
tes, normalmente homens e suas famílias.
Lemche explicou que a ligação entre patrono e cliente é pes-
soal, com juramento de lealdade do cliente ao patrão e de prote-
ção do patrono ao cliente. Assim, em tal sociedade, códigos de leis
não seriam necessários, pois ninguém diria ao patrono como jul-
gar. O problema dessa abordagem é que Lemche não considera o
sistema de patronagem uma espécie de código, mas uma espécie
de nomos que ordena e impõe limites ao comportamento social.
Seguindo Lemche, a crise da Palestina pode ser explicada a
partir desta realidade: os senhores das cidades-estado palestinas
interpretavam o faraó como seu patrono e requeriam proteção em
nome de sua fidelidade; todavia, o estado egípcio não reconhe-
cia os israelitas do mesmo modo e, por isso, os tratava de modo
impessoal, segundo normas burocráticas. Em decorrência disso, a
percepção era a de que os pequenos reis das cidades de Canaã
foram abandonados pelo faraó.
Nota-se, portanto, que os estudiosos lançam mão de dife-
rentes instrumentais e metodologias para a construção de suas
abordagens. Tanto a pesquisadora alemã quanto o estudioso di-
namarquês empregaram os conceitos e o modelo weberiano de
análise sociológica.
Todavia, os resultados foram diferentes pela própria natu-
reza do interesse de cada estudioso, o que nos mostra o quanto a
história de Israel pode ser uma nova história. Para nós, é muito im-
portante dedicar especial atenção à identificação dos referenciais
teóricos e ideológicos de cada autor que estudamos. Qual é a tese
central dos autores que lemos? Quais são os argumentos relacio-
Claretiano - Centro Universitário
22 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
nados que visam legitimar a tese apresentada? Como cada autor
constrói sua história de Israel?
Essas perguntas são muito relevantes, tendo em vista que,
a partir delas, podemos nos afastar de abordagens fundamenta-
listas, utópicas e/ou românticas demais. Isso não quer dizer que
podemos contar a verdadeira história de Israel, mesmo porque
estamos anos-luz dos acontecimentos, da cultura e das condições
que o rodearam; mas a atenção ao que lemos e o olhar crítico po-
dem nos facultar aproximações honestas do que teria sido o Israel
tribalista, monárquico, dividido e dominado.
É possível a escrita de "uma" história de Israel?
Esse questionamento nos leva à observação de que, assim
como nos estudos sobre o Jesus histórico e sobre as origens da
cristandade, parece cada vez mais comum a pesquisa na área de
Literatura Bíblica, que valoriza a pluralidade e a diversidade no ju-
daísmo antigo.
Se, de um lado, durante muito tempo, os estudiosos da Bí-
blia se esforçaram para construir um quadro retilíneo e uniforme
da história de Israel até Jesus e seu movimento, com a finalidade
de manter certa unidade no cristianismo, hoje em dia, por outro
lado, a tendência da pesquisa tem sido conduzida, justamente,
para o lado oposto.
Isto é, a exegese, amparada por outras disciplinas das Ciên-
cias Humanas, como a antropologia social e a história cultural, tem
buscado interpretar o material bíblico a partir dos detalhes e das
peculiaridades da cultura de Israel. Segundo essa abordagem da
história, às vezes, pequenos gestos revelam mais do que qualquer
atividade formal cuidadosamente preparada por algum redator.
Essa é a proposta de um método interpretativo centrado so-
bre os resíduos, sobre os dados marginais, considerados revelado-
res de um grupo social, de uma religião, de uma cultura.
© Caderno de Referência de Conteúdo 23
Atualmente, existe um grupo de pesquisadores que se reú-
nem com o intuito de discutir a metodologia histórica. Esse grupo
surgiu com o objetivo de abordar, de maneira sistemática, as ques-
tões centrais da história de Israel, tendo como coordenador Lester
L. Grabbe, professor de Bíblia hebraica e judaísmo antigo.
Para ele, o debate sobre o modo como a história de Israel
tem sido escrita está se tornando cada vez mais complexo nas últi-
mas décadas, pois alguns pesquisadores julgam perigosos o deba-
te e suas conclusões mais recentes.
Basicamente, existem duas posturas que necessitam ser es-
pecificadas: a primeira, chamada maximalista, defende que tudo
o que, nas fontes, não é falso deve ser aceito como histórico; já a
segunda, chamada minimalista, propõe que tudo o que não pode
ser legitimado por evidências que corroborem para sua autentici-
dade deve ser descartado.
Desde 1996, o grupo tem apresentado suas conclusões para
discussão, e, nesses encontros, os debates giram em torno das se-
guintes perguntas: é possível a escrita de uma história de Israel?
Como? Nesse empreendimento, qual é o papel dos escritos do An-
tigo Testamento?
Em um dos relatórios, os pesquisadores admitiram que al-
gumas posturas são irreconciliáveis; contudo, todos concordaram
que a história da Antiga Palestina e da Síria deve considerar toda a
região do Mediterrâneo, bem como as trocas simbólicas e os po-
vos que nela viveram. Tratar a história de uma nação específica
como a história de "todo o Oriente próximo" parece ser um erro,
especialmente quando essa história traz elementos de outros po-
vos, relatos de conflitos e de divisões.
Relegar os intercâmbios e as relações que existiram entre
Israel e os povos vizinhos, bem como escrever uma história do an-
tigo Israel, seria como corroborar para a escrita de uma história
fictícia. Com isso, os pesquisadores não negaram a existência de
um reino de Israel, assim como de um reino de Judá, testemunha-
dos pela Assíria.
Claretiano - Centro Universitário
24 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Todavia, os membros desse seminário fizeram objeções a
duas concepções correntes:
• o construto literário "Israel bíblico" pode ser diretamen-
te traduzido em termos históricos. A ideia é que essa
expressão não dá conta da complexidade de Israel, con-
siderando as várias etapas de sua formação. Assim, não
teria existido apenas um Israel, mas vários, e não teria
existido apenas um judaísmo, mas diferentes judaísmos
propiciados pelos contatos étnicos e processos de cons-
trução identitária.
• Israel deve canalizar e dominar o estudo da região na
Antiguidade. Os membros do seminário consideraram
que a história de Israel não se circunscreve ao universo
de acontecimentos ocorridos com os israelitas, mas que
esses fatos estavam inseridos num lastro histórico muito
mais amplo, que envolve o conhecimento de outros po-
vos, como os egípcios, os babilônios, os persas, os gregos,
os romanos etc.
Após esse acirrado debate, alguns pesquisadores, imbuídos
pelo espírito pós-moderno, cogitaram a impossibilidade de se fa-
zer história. Mas essa postura, segundo a qual "tudo é interpre-
tação", parece não ter cedido espaço aos anseios de muitos dos
pesquisadores, os quais ainda reconhecem na Bíblia uma podero-
sa fonte de informações e de dados antigos a serem investigados
e interpretados.
Talvez, em face desse debate, a postura mais adequada seja
a honestidade quanto a nós mesmos, nossos pressupostos, ideo-
logias e lentes, as quais colocamos com a finalidade de achar no
texto o que queremos. Se pudermos identificar essas motivações
nem sempre adequadas, porventura possamos escrever e recons-
truir não a história de Israel, mas uma história de Israel, sempre
atentos aos limites de nossas propostas.
© Caderno de Referência de Conteúdo 25
Glossário de Conceitos
O Glossário de Conceitos permite a você uma consulta rápi-
da e precisa das definições conceituais, possibilitando-lhe um bom
domínio dos termos técnico-científicos utilizados na área de co-
nhecimento dos temas tratados em Introdução Geral à Bíblia e His-
tória de Israel. Veja, a seguir, a definição dos principais conceitos:
1) Anacronismo: trata-se da atribuição de data, período
ou época incorretos. Quando há erro cronológico. Por
exemplo: atribuir a um acontecimento moderno uma
datação antiga, quando tal acontecimento não poderia
ter ocorrido.
2) Anômalo, anomalia: a anomalia pode ser entendida
como aquilo que escapa à norma ou ao conjunto de leis
que servem para classificar em ordens específicas. Para
a antropologia, anômalo é o comportamento, a condi-
ção, a pessoa ou o objeto considerado inadequado em
relação ao compêndio de elementos rejeitados de certo
sistema ordenado. A antropóloga Mary Douglas chama
a atenção para a diferença entre os termos "anomalia" e
"ambiguidade", embora tanto um quanto o outro apon-
tem uma espécie de inadequação. Anômalo é aquilo que
foge a certos padrões; ambíguo é o que apresenta pos-
sibilidade de duas interpretações: "[...] uma anomalia é
um elemento que não se ajusta a um dado conjunto ou
série; a ambigüidade é um tipo de afirmação sujeita a
duas interpretações. Mas a reflexão sobre certos exem-
plos mostra que há pouca vantagem em se distinguir en-
tre estes dois termos na aplicação prática. O melaço não
é sólido nem líquido; pode-se dizer que nos dá uma im-
pressão sensorial ambígua. Pode-se dizer também que o
melaço é anômalo na classificação de líquidos e dos só-
lidos, não estando nem em um nem em outro conjunto"
(DOUGLAS, 1966, p. 53).
3) Apócrifo: para a tradição judaico-cristã, os livros apócri-
fos são considerados textos não inspirados, assim como
os pseudoepígrafos, coleções judaicas do mesmo perío-
do cujos autores reais são desconhecidos. Em geral, es-
ses textos recebiam nomes de autores conhecidos, mas
Claretiano - Centro Universitário
26 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
não há evidência de que tenham sido realmente escri-
tos por eles. Conjectura-se que essa tenha sido a forma
encontrada por editores menores para que seus textos
fossem aceitos.
4) Cânon: (kanón) palavra grega originária de um emprés-
timo semítico "( "הנקkanê), cujo sentido é "junco" que
passou a designar "vara de medir" e, posteriormente,
"regra", "padrão" ou "norma". Tardiamente, adquiriu o
significado de "lista" ou "tabela". Durante os séculos 2 e
3, o vocábulo referiu-se ao conteúdo normativo doutri-
nário e ético da fé cristã e, por volta do século 4, passou
a designar lista de livros que constituem o Antigo e o
Novo Testamento. Atualmente, o sentido mais comum
corresponde à coleção encerrada de documentos que
formam a Bíblia.
5) Concílio: em sentido religioso, esse termo diz respeito
à assembleia realizada pelo alto clero, a fim de elaborar
decisões doutrinárias, disciplinares ou relacionadas à fé.
6) Copta, escrituras gnósticas, gnosticismo: esses três con-
ceitos estão relacionados; o copta é uma língua africana
usada na redação dos textos chamados gnósticos; gnos-
ticismo é o movimento formado por judeus convertidos
ao cristianismo e espalhados pelo império até o Norte
da África que mesclava as culturas judaicas, gregas e
coptas. O que se sabe dos gnósticos ainda é pouco e o
conhecimento que se tem atualmente veio por meio da
pesquisa em textos gnósticos, datados, aproximadamen-
te, entre os séculos 1 e 4, e descobertos na região de
Nag Hammadi (Egito), em 1945. Dentre os textos gnós-
ticos mais conhecidos, está o Evangelho de Tomé (EvT),
escrito em língua copta.
7) Dialética: "Em grego, a palavra dia quer dizer dois, du-
plo; o sufixo lética deriva-se de logos e do verbo legin
(cujo sentido estudamos nos capítulos dedicados à lin-
guagem e ao pensamento). A dialética, como já vimos,
é um diálogo ou uma conversa em que os interlocutores
possuem opiniões opostas sobre alguma coisa e devem
discutir ou argumentar de modo a passar das opiniões
contrárias à mesma idéia ou ao mesmo pensamento so-
© Caderno de Referência de Conteúdo 27
bre aquilo que conversam. Devem passar de imagens
contraditórias a conceitos idênticos para todos os pen-
santes. A dialética platônica é um procedimento intelec-
tual e lingüístico que parte de alguma coisa que deve ser
separada ou dividida em dois ou duas partes contrárias
ou opostas, de modo que se conheça sua contradição e
se possa determinar qual dos contrários é verdadeiro e
qual é falso. A cada divisão surge um par de contrários,
que devem ser separados e novamente divididos, até
que se chegue a um termo indivisível, isto é, não for-
mado por nenhuma oposição ou contradição e que será
a idéia verdadeira ou a essência da coisa investigada.
Partindo de sensações, imagens, opiniões contraditórias
sobre alguma coisa, a dialética vai separando os opostos
em pares, mostrando que um dos termos é aparência
e ilusão e o outro, verdadeiro ou essência. A dialética é
um debate, uma discussão, um diálogo entre opiniões
contrárias e contraditórias para que o pensamento e a
linguagem passem da contradição entre as aparências à
identidade de uma essência. Superar os contraditórios
e chegar ao que é sempre idêntico a si mesmo é a ta-
refa da discussão dialética, que revela o mundo sensí-
vel como heraclitiano (a luta dos contrários, a mudança
incessante) e o mundo inteligível como parmenidiano
(a identidade perene de cada idéia consigo mesma)"
(CHAUI, 2000, p. 229).
8) Dialógica, dialogismo: o princípio da dialógica e do dia-
logismo, fundamentalmente desenvolvidos na obra de
M. Bakhtin, relaciona-se à concepção de linguagem, mas
também de mundo e de vida. Essa concepção se opõe
ao monologismo da cultura moderna do relativismo, de
um lado, e do dogmatismo, do outro. O dialogismo pres-
supõe interação, deslocamento da noção de sujeito que
tem ação sobre o objeto, como se fossem domínios se-
parados. Assim, o princípio constitutivo do pensamento
dialógico é a descentralização, isto é, o "[...] sujeito per-
de o papel de centro e é substituído por diferentes (ain-
da que duas) vozes sociais, que fazem dele um sujeito
histórico e ideológico. Em outros termos, concebe-se o
Claretiano - Centro Universitário
28 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
dialogismo como o espaço interacional entre o eu e o tu
ou entre o eu e o outro" (BARROS, 2003, p. 2-3). Trata-se
do espaço criado entre ambos.
9) Diáspora: trata-se do movimento mundial de dispersão
dos judeus no decorrer dos séculos.
10) Endogamia: termo originário de endo (dentro) e gamia
(casamento). Refere-se a casamentos entre membros de
um mesmo grupo social, seja família, linhagem ou clã.
11) Epônimo: palavra originária do grego epónymos, cujo
significado aponta para o que cede seu nome a alguém
ou a alguma coisa.
12) Exegese: disciplina por meio da qual se elabora uma in-
terpretação, comentário ou explicação de literatura reli-
giosa como a Bíblia. Envolve procedimentos gramaticais,
filológicos, históricos, geopolíticos e culturais.
13) Exogamia: termo originário de exo (para fora) e gamia
(casamento). Refere-se a casamentos realizados entre
pessoas de famílias, linhagens ou clãs diferentes.
14) Helenismo, helenização: termos usados quando nos
referimos à cultura e a um modo de vida que se segui-
ram às conquistas de Alexandre. Para M. Hengel e J. G.
Droysem, por exemplo, o helenismo define-se como o
sincretismo entre culturas gregas e orientais. De fato, a
definição desse conceito é mais complexa do que a sua
abstração; mas, por ora, importa-nos apenas ter em
mente que o helenismo estava relacionado, essencial-
mente, às questões de cunho cultural.
15) Mediterrâneo: trata-se de um mar interior do Atlânti-
co Oriental, localizado entre a África Setentrional, a Ásia
Ocidental e a Europa Meridional. A extensão do mar
abrange cerca de 2,5 milhões de km2, o que o torna o
maior mar continental do mundo.
16) Nômades: povos, grupos sociais ou tribos caracteriza-
dos por não fixarem moradia em lugares específicos. O
comportamento nômade é marcado por ser itinerante e
pela mobilidade.
17) Prescrição: em sentido jurídico, trata-se de ordem for-
mal e explícita. Também significa preceito.
© Caderno de Referência de Conteúdo 29
18) Pseudoepígrafo: os livros pseudoepígrafos são assim
designados porque possuem autoria e autenticidade
questionáveis. Portanto, tanto títulos quanto autores
são falsamente atribuídos com o propósito de terem au-
toridade legitimada.
19) Satrapias: denominação para a divisão do antigo impé-
rio persa.
20) Seminômades: povos, grupos sociais ou tribos caracte-
rizados por fixarem moradia em determinados lugares
temporariamente. Apesar da possibilidade de mobilida-
de, esse traço não é acentuado, visto que lugares que
apresentam condições satisfatórias podem ser escolhi-
dos para fixar moradia e desenvolver outras atividades
relacionadas à vida social e econômica do grupo. Um
clérigo ou monarca exerce poder em governos de cará-
ter teocrático.
21) Teocracia: do grego "téo" (Deus, divino) e "cracia" (go-
verno). Portanto, significa governo de Deus ou instituído
por Deus. Um governo teocrático é caracterizado por ser
centrado em uma autoridade legitimada pelo divino, ou
seja, o poder emana de Deus.
22) Vernáculo: trata-se da língua própria de um país ou de
uma região; língua nacional, idioma, vernáculo.
Esquema dos Conceitos-chave
Para que você tenha uma visão geral dos conceitos mais
importantes deste estudo, apresentamos, a seguir (Figura 1), um
Esquema dos Conceitos-chave. O mais aconselhável é que você
mesmo faça o seu esquema de conceitos-chave ou até mesmo o
seu mapa mental. Esse exercício é uma forma de você construir o
seu conhecimento, ressignificando as informações a partir de suas
próprias percepções.
É importante ressaltar que o propósito desse Esquema dos
Conceitos-chave é representar, de maneira gráfica, as relações en-
tre os conceitos por meio de palavras-chave, partindo dos mais
complexos para os mais simples. Esse recurso pode auxiliar você
na ordenação e na sequenciação hierarquizada dos conteúdos de
ensino.
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30 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Com base na teoria de aprendizagem significativa, entende-se
que, por meio da organização das ideias e dos princípios em esque-
mas e mapas mentais, o indivíduo pode construir o seu conheci-
mento de maneira mais produtiva e obter, assim, ganhos pedagógi-
cos significativos no seu processo de ensino e aprendizagem.
Aplicado a diversas áreas do ensino e da aprendizagem es-
colar (tais como planejamentos de currículo, sistemas e pesquisas
em Educação), o Esquema dos Conceitos-chave baseia-se, ainda,
na ideia fundamental da Psicologia Cognitiva de Ausubel, que es-
tabelece que a aprendizagem ocorre pela assimilação de novos
conceitos e de proposições na estrutura cognitiva do aluno. Assim,
novas ideias e informações são aprendidas, uma vez que existem
pontos de ancoragem.
Tem-se de destacar que "aprendizagem" não significa, ape-
nas, realizar acréscimos na estrutura cognitiva do aluno; é preci-
so, sobretudo, estabelecer modificações para que ela se configure
como uma aprendizagem significativa. Para isso, é importante con-
siderar as entradas de conhecimento e organizar bem os materiais
de aprendizagem. Além disso, as novas ideias e os novos concei-
tos devem ser potencialmente significativos para o aluno, uma vez
que, ao fixar esses conceitos nas suas já existentes estruturas cog-
nitivas, outros serão também relembrados.
Nessa perspectiva, partindo-se do pressuposto de que é
você o principal agente da construção do próprio conhecimento,
por meio de sua predisposição afetiva e de suas motivações in-
ternas e externas, o Esquema dos Conceitos-chave tem por ob-
jetivo tornar significativa a sua aprendizagem, transformando o
seu conhecimento sistematizado em conteúdo curricular, ou seja,
estabelecendo uma relação entre aquilo que você acabou de co-
nhecer com o que já fazia parte do seu conhecimento de mundo
(adaptado do site disponível em: <http://penta2.ufrgs.br/eduto-
ols/mapasconceituais/utilizamapasconceituais.html>. Acesso em:
11 mar. 2010).
© Caderno de Referência de Conteúdo 31
Processo
de redação
Fonte do Bíblia Esfera
período (Antigo histórico-
Testamento) -política
Esfera sócio-
-cultural
Figura 1 Esquema dos Conceitos-chave do Caderno de Referência de
Conteúdo Introdução Geral à Bíblia e História de Israel.
Como pode observar, esse Esquema oferece a você, como
dissemos anteriormente, uma visão geral dos conceitos mais im-
portantes deste estudo. Ao segui-lo, será possível transitar entre
os principais conceitos e descobrir o caminho para construir o seu
processo de ensino-aprendizagem.
O Esquema dos Conceitos-chave é mais um dos recursos de
aprendizagem que vem se somar àqueles disponíveis no ambien-
te virtual, por meio de suas ferramentas interativas, bem como
àqueles relacionados às atividades didático-pedagógicas realiza-
das presencialmente no polo. Lembre-se de que você, aluno EaD,
deve valer-se da sua autonomia na construção de seu próprio co-
nhecimento.
Claretiano - Centro Universitário
32 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Questões Autoavaliativas
No final de cada unidade, você encontrará algumas questões
autoavaliativas sobre os conteúdos ali tratados, as quais podem ser
de múltipla escolha, abertas objetivas ou abertas dissertativas.
Responder, discutir e comentar essas questões, bem como
relacioná-las com a prática do ensino de Introdução Geral à Bíblia
e História de Israel pode ser uma forma de você avaliar o seu co-
nhecimento. Assim, mediante a resolução de questões pertinentes
ao assunto tratado, você estará se preparando para a avaliação fi-
nal, que será dissertativa. Além disso, essa é uma maneira privile-
giada de você testar seus conhecimentos e adquirir uma formação
sólida para a sua prática profissional.
Bibliografia Básica
É fundamental que você use a Bibliografia Básica em seus
estudos, mas não se prenda só a ela. Consulte, também, as biblio-
grafias complementares.
Figuras (ilustrações, quadros...)
Neste material instrucional, as ilustrações fazem parte inte-
grante dos conteúdos, ou seja, elas não são meramente ilustra-
tivas, pois esquematizam e resumem conteúdos explicitados no
texto. Não deixe de observar a relação dessas figuras com os con-
teúdos, pois relacionar aquilo que está no campo visual com o con-
ceitual faz parte de uma boa formação intelectual.
Dicas (motivacionais)
Este estudo convida você a olhar, de forma mais apurada,
a Educação como processo de emancipação do ser humano. É
importante que você se atente às explicações teóricas, práticas e
científicas que estão presentes nos meios de comunicação, bem
como partilhe suas descobertas com seus colegas, pois, ao com-
partilhar com outras pessoas aquilo que você observa, permite-se
© Caderno de Referência de Conteúdo 33
descobrir algo que ainda não se conhece, aprendendo a ver e a
notar o que não havia sido percebido antes. Observar é, portanto,
uma capacidade que nos impele à maturidade.
Você, como aluno do curso de Graduação na modalidade
EaD, necessita de uma formação conceitual sólida e consistente.
Para isso, você contará com a ajuda do tutor a distância, do tutor
presencial e, sobretudo, da interação com seus colegas. Sugeri-
mos, pois, que organize bem o seu tempo e realize as atividades
nas datas estipuladas.
É importante, ainda, que você anote as suas reflexões em
seu caderno ou no Bloco de Anotações, pois, no futuro, elas pode-
rão ser utilizadas na elaboração de sua monografia ou de produ-
ções científicas.
Leia os livros da bibliografia indicada, para que você amplie
seus horizontes teóricos. Coteje-os com o material didático, discu-
ta a unidade com seus colegas e com o tutor e assista às videoau-
las.
No final de cada unidade, você encontrará algumas questões
autoavaliativas, que são importantes para a sua análise sobre os
conteúdos desenvolvidos e para saber se estes foram significativos
para sua formação. Indague, reflita, conteste e construa resenhas,
pois esses procedimentos serão importantes para o seu amadure-
cimento intelectual.
Lembre-se de que o segredo do sucesso em um curso na
modalidade a distância é participar, ou seja, interagir, procurando
sempre cooperar e colaborar com seus colegas e tutores.
Caso precise de auxílio sobre algum assunto relacionado a
este Caderno de Referência de Conteúdo, entre em contato com
seu tutor. Ele estará pronto para ajudar você.
Claretiano - Centro Universitário
34 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
3. referências bibliográficas
BARROS, D. L. P.; FIORIN, J. L. (Org.). Dialogismo, polifonia, intertextualidade: em torno de
Mikhail Bakhtin. São Paulo: Edusp, 2003.
CHAUI, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000.
DOUGLAS, M. Pureza e perigo. São Paulo: Perspectiva, 1966.
EAD
Introdução Geral à
Bíblia
1
1. Objetivos
• Reconhecer e analisar a Bíblia como um conjunto de li-
vros que versam a respeito da história de Israel em duas
etapas: Antigo e Novo Testamento.
• Conhecer aspectos relacionados à formação do cânon bí-
blico, as tradições que o constituem e suas traduções.
• Interpretar o processo de elaboração da Bíblia como fru-
to de um longo processo histórico, do qual participaram,
ativamente, homens e mulheres.
2. Conteúdos
• As línguas originais dos textos bíblicos.
• Os primeiros livros bíblicos e as primeiras traduções.
• As origens dos autores e dos escritos bíblicos.
36 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
3. Orientações para o estudo da unidade
Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Ao estudar esta unidade, tenha uma ou mais versões da
Bíblia, a fim de identificar, na fonte, as citações bíblicas
que serão apontadas e comparar os textos. Sugerimos as
traduções: Bíblia de Jerusalém e/ou Bíblia Sagrada, tra-
duzida por João Ferreira de Almeida (versão atualizada).
2) Outros recursos como dicionários, dicionários de termos
em grego e mapas também são úteis para a compreen-
são dos conteúdos a seguir.
3) Leia esta unidade e as próximas sem perder de vista que
os textos do Antigo e do Novo Testamento constituem
literatura matizada num período histórico específico e,
como toda produção literária, também falam a respeito
do seu tempo, da cultura da época, de costumes, de prá-
ticas e ideias típicas desse período.
4) Observe que usaremos a seguinte forma de citar os ca-
pítulos e versículos:
a) a vírgula separa capítulos de versículos (por exemplo:
Gn 1,3);
b) o ponto separa versículos (por exemplo: Gn 24,25.32);
c) o hífen une versículos (por exemplo: Gn 24,28-32);
d) o travessão une capítulos (por exemplo: Gn 47—50).
4. Introdução à Unidade
Ao iniciarmos o estudo desta unidade, é muito importante
que compreendamos a origem da palavra "Bíblia". Isso equivale à
pergunta: qual a etimologia da palavra "Bíblia"?
A palavra "Bíblia" é originária da língua grega: "τὰ βίβλια"
("tá bíblia"), plural de "βίβλιον", cuja transliteração é "bíblion", e
significa:
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 37
• "os livros";
• "a coleção de livros".
Trata-se, portanto, de uma "biblioteca", geralmente conhe-
cida pelo seu caráter de texto religioso central para o judaísmo e
para o cristianismo, mas é, também, uma fonte primária de inves-
tigação e de estudos do Mediterrâneo Antigo.
A Bíblia é constituída por dois blocos literários:
• O Antigo Testamento: que conta a história do povo de Is-
rael, suas crenças, costumes e memórias; bloco literário
conhecido como Primeiro Testamento.
• O Novo Testamento: que apresenta Jesus de Nazaré, sua
vida, obra e ministério na terra. Esse conjunto de livros é
também conhecido como Segundo Testamento.
Além de ser conhecida como Bíblia, essa biblioteca de textos
sagrados também é denominada "Sagrada Escritura", "Palavra de
Deus", "Sagradas Letras", "Livro da Aliança" e "Livro Sagrado".
O termo "Testamento", oriundo da língua hebraica e que
traduzimos por "aliança", é aplicado à Bíblia porque, na tradição
judaica e cristã, esse conjunto de livros é entendido como docu-
mento que expressa a vontade de Iahweh para seu povo.
Em função dessa relação entre Iahweh, o povo de Israel e as
comunidades cristãs, manifestada por intermédio das suas tradi-
ções e memórias registradas na Bíblia, a população hebraica mere-
ceu ser chamada "Povo do Livro" durante muito tempo.
Hoje, a Bíblia é um dos livros mais procurados, seja para lei-
turas devocionais entre fiéis, seja para literatura ou fonte de es-
tudos históricos e exegéticos; trata-se de um livro que, além de
expressar a vida religiosa de judeus e cristãos, contém prescrições
morais e éticas usadas por esses grupos, que contribuíram para
a sua organização social e, ainda hoje, servem como parâmetros
para a religiosidade de diversos grupos religiosos ou não.
Claretiano - Centro Universitário
38 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
A Bíblia migrou do Oriente para o Ocidente e foi traduzida
para vários idiomas. Apropriada por diferentes expressões religio-
sas, é lida, interpretada e ensinada em igrejas cristãs, em grupos
religiosos diversos, em pastorais, grupos de oração, grupos inde-
pendentes de estudo, centros de pesquisa etc. Inquirida, investi-
gada e questionada, trata-se de uma literatura importante para a
compreensão dos aspectos que tangem à religiosidade cristã, bem
como para o entendimento de traços que constituem o pensa-
mento e as sociedades modernas.
Em razão disso, nesta unidade, será feita uma breve intro-
dução à Bíblia e seu processo de redação e transmissão, com a
finalidade de fornecer referências básicas sobre essa importante
literatura de caráter religioso, histórico e cultural.
5. As línguas originais e os primeiros livros
No tempo em que os hebreus iniciaram a redação da Bíblia,
o sistema de escrita silábica cedeu lugar ao alfabeto, que usava dez
vezes menos sinais. Anteriormente, eram utilizados, pelo menos,
300 sinais, e, com a simplificação proporcionada pelo alfabeto, na
segunda metade do segundo milênio a.C., quando se presume que
Moisés libertou os israelitas da dominação egípcia, torna-se mais
fácil o acesso à leitura e à escrita; todavia, essas práticas não eram
para todos. Ler e escrever eram privilégios geralmente atribuídos
a sacerdotes, escribas e pessoas ligadas à nobreza.
Originalmente, a Bíblia foi escrita em três línguas:
• hebraico;
• grego;
• aramaico.
É importante saber que o hebraico e o aramaico eram lín-
guas com certa semelhança. A língua hebraica é composta, basica-
mente, de consoantes que, desde os séculos iniciais de nossa era,
passaram a ser acompanhadas pelas vogais, sob a forma de um
sistema de pontos e grifos.
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 39
Enquanto o hebraico constituía a primeira língua, o aramaico
correspondia à língua popular, por meio da qual os hebreus se co-
municavam cotidianamente. Pode-se dizer que o aramaico era um
tipo de dialeto que descendia do hebraico e que teria assimilado
um pouco da lógica da língua grega, bem como o uso de alguns de
seus termos.
Portanto, era comum, no tempo de Jesus, falar aramaico, es-
crever em hebraico e arriscar algumas sentenças em grego. Essa
dinâmica foi possibilitada pelo intercâmbio político e cultural do
período, dado em função do governo romano, mas também em
razão das relações de comércio que permitiram a construção de
estradas e rotas que favoreceram o circuito de viajantes, comer-
ciantes, artesãos, civis em geral e soldados. Desse modo, podemos
entender o processo de influência de uma língua sobre a outra em
razão das demandas políticas e sociais da época.
O processo de redação do Antigo ou Primeiro Testamento
deu-se em hebraico, com algumas exceções:
• Em aramaico, foram escritas as passagens de Esdras 4,6—
6, 18; 7,12-26; Daniel 2,4-7.28; duas palavras em Gênesis
31,47; uma frase em Jeremias 10,11.
• Em grego, foram escritos os livros de 2 Macabeus, Sabe-
doria e Eclesiástico (embora o original desse último seja
hebraico).
• Escritos parcialmente em grego foram os livros Ester, Ju-
dite, 1 Macabeus, Tobias, além de partes de Daniel (3,24-
90; 13-14), Baruc e Carta de Jeremias (C.Jr).
• O Novo ou Segundo Testamento foi todo escrito em grego
κοινῆ (koiné = comum).
Koiné –––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
A koiné pode ser considerada um tipo de linguagem grega coloquial e popular
com influências semíticas. Com a expansão do império grego e, posteriormente,
do romano, o mundo tornou-se helenista e bilíngue, devido a isso, sabemos que
os judeus falavam tanto a koinê quanto a sua língua nativa. Já na segunda meta-
de do século 2 d.C. (após 150 d.C.), o grego suplantou todos os outros dialetos.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
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40 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Materiais usados na confecção dos escritos
Acerca do material empregado para o registro dos escritos
bíblicos, sabemos que os mais primitivos e comuns para o registro
escrito eram:
• a pele crua, comumente de carneiro;
• o papiro, comum no Egito e usado desde 3000 a.C.;
• o pergaminho, pelo ano 100 a.C., oriundo de Pérgamo, na
Ásia Menor, de onde proveio sua denominação;
• outros materiais como pedra, metal, tijolo, cerâmica e ós-
traca (concha de ostra).
Os primeiros livros eram muito diferentes da aparência que
tem a Bíblia hoje. Na Babilônia, por exemplo, quando desejavam
registrar algo (como a narrativa sumeriana do dilúvio, datada de
2.100 a.C.), o material usado era o barro moldado em forma de
placas (ou pranchas), que eram levadas ao forno e secas. Desse
modo, adquiriam a necessária resistência para as longas jornadas.
Ao final do século 2 a.C., a composição do Antigo Testamen-
to, como o conhecemos, foi encerrada, embora ainda houvesse
alguma diferença na ordem dos livros, que foram escritos em rolos
de pergaminho. No hebraico moderno, o termo que significa "li-
vro" possuía o sentido de "rolo" no hebraico bíblico.
Após a escrita
No terceiro milênio a.C., é provável que os egípcios já empre-
gassem o papiro para o registro de documentos, cartas e tratados.
O papiro (P) era extraído de uma planta que se desenvolvia às mar-
gens do delta do Rio Nilo; era um material produzido, basicamen-
te, pelos egípcios. O caule que chegava a 6 metros de altura era
cortado em lâminas bem finas, por meio de um instrumental espe-
cial desenvolvido pelos egípcios; após as lâminas serem cortadas,
eram dispostas lado a lado, verticalmente, e, a seguir, sobre essa
fila disposta, eram colocadas outras lâminas na posição horizontal,
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 41
formando um ângulo reto, as quais eram molhadas, prensadas e
polidas; após secas, eram utilizadas para a escrita.
Entende-se que a cor desse material era amarelo ou cinza claro,
mas o tamanho variava conforme a necessidade. Há papiros de até
45 metros de comprimento. As obras gregas alcançavam entre 10
e 12 metros de extensão. Sabe-se que os gregos importavam esse
material do Egito, provavelmente, desde meados do V século a.C.
(BITTENCOURT, 1993, p. 66).
A face em que os escritos apareciam nos papiros se chamava
recto, e as colunas possuíam cerca de 7cm de largura (entre linhas
de 1,5 a 2,0cm para as anotações). Tratava-se de um material para
redação precioso e frágil, que, em temperaturas altas, se tornava
quebradiço. Em função do difícil manuseio, no começo do século
2, começou a ser substituído pelos cadernos. Não se sabe se os
cadernos foram inventados por cristãos, mas foram seguramente
colocados em uso por eles.
Com seu uso frequente, percebeu-se que o espaço que os
rolos requeriam era demasiado grande, o que tornava ainda mais
difícil o seu manuseio. Isso pode ser ilustrado pelo códice de Ches-
ter Beatty, formado por três papiros que contêm diferentes tre-
chos bíblicos:
1) Papiro Chester Beatty nº 1 (P45) − os quatro evangelhos
(Mateus, Marcos, Lucas e João) e Atos.
2) Papiro Chester Beatty nº 2 (P46) − Romanos, Primeira Co-
ríntios, Segunda Coríntios, Efésios, Filipenses, Colossen-
ses, Gálatas, Primeira Tessalonicenses e Hebreus.
3) Papiro Chester Beatty nº 3 (P47) − Apocalipse – primeira
metade do século 1.
No século 3 d.C., havia um códice formado por quatro evan-
gelhos e pelo livro de Atos. Assim como no caso mencionado ante-
riormente, esses livros, na forma de rolos, formaram um conjunto
de cinco rolos separados, o que causava alguma dificuldade no
manuseio dos textos.
Quando os copistas iniciavam uma obra (códice), tinham de
calcular o tanto de material que iriam necessitar, e, por isso, alguns
Claretiano - Centro Universitário
42 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
papiros eram usados frente e verso. Quando usados no verso, a lei-
tura tornava-se mais difícil; por vezes, todo o trabalho era efetuado
em apenas um único caderno, como é o caso do P75 (Lucas e João).
Os primeiros cadernos reunidos em livros tinham de oito a
dez folhas e, mesmo assim, continham muito conteúdo. Segundo
Peter Katz "parece verossímil de que foram os cristãos gentios que
adotaram a forma de códice para as Escrituras para diferenciarem-
-se do uso feito pelos judeus na sinagoga".
Já por volta do século 4 d.C., o material que passou a ser
utilizado foi o couro dos cordeiros (dos currais) e das gazelas (dos
campos). Assim, surgiram os pergaminhos.
Modo de preparo dos pergaminhos:
• O pelo era removido e o interior raspado com pedra-po-
mes.
• Depois, era purificado com um tipo de material seme-
lhante a cal e, assim, tornava-se branco, de grande du-
rabilidade e de fácil escrita; poderia receber tinta preta e
outros motivos decorativos.
• O lado usado para a escrita era aquele cujos pelos foram
raspados.
O pergaminho, entre judeus e cristãos, era conhecido antes
do século 4; há pergaminhos datados dos séculos 2 e 3. Na litera-
tura não religiosa, sabe-se de seu uso bem mais cedo, por volta do
século 1, todavia, este só superou o papiro por volta dos séculos
3 e 4.
A escrita sobre os pergaminhos era inicialmente realizada
com penas metálicas e, posteriormente, com penas de ganso so-
bre linhas feitas com estilete. A delicadeza e a arte empregadas na
redação desses pergaminhos podiam ser notadas no uso de moti-
vos coloridos e letras douradas e prateadas; mas, em geral, usava-
-se tinta preta e vermelha. Como esse material era caro, poderia
ser reutilizado, e, se caso um pergaminho fosse reaproveitado, as
palavras eram raspadas, e o material, novamente usado.
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 43
Essa prática foi condenada pelo Concílio de Trullo (692 d.C.),
mas, dos 297 manuscritos que se conhece, 52 são os palimpsestos
(pergaminhos nos quais, por meio da raspagem, se faz desapare-
cer a primeira escrita para, então, a sua reutilização). Por vezes, a
primeira escrita pode ser recuperada com o auxílio de processos
químicos, e, atualmente, o uso de raio ultravioleta tem servido à
leitura desses textos raspados.
O uso do pergaminho só diminuiu por volta do século 12,
quando começou a ser substituído pelo papel. O papel foi inventa-
do pelos chineses no século 1 d.C., mas passou a ser utilizado pelo
mundo árabe apenas no século 8. Dos 5.300 manuscritos (MSS) do
Novo Testamento, sabemos que 1.250 foram escritos em papel,
que era uma imitação do pergaminho.
Quanto à escrita, nas inscrições, usavam-se letras altas e re-
gulares; os MSS mais antigos possuíam apenas letras maiúsculas,
que se diferenciavam das outras maiúsculas por serem mais re-
dondas e sem separação muito definida. Essas letras eram chama-
das unciais e se caracterizavam por serem um tipo de texto contí-
nuo. Somente após o século 11, a escrita passou a ser contínua e
em letra minúscula, passando a se chamar cursiva.
Os manuscritos mais antigos não tinham elementos para
auxiliar o leitor. O sistema de separação mais antigo pode ser
encontrado no Códice Vaticano, que é o mais antigo dos Unciais
(325-350 d.C.), e, até 1475, não se tinha conhecimento dele. Ao
ser catalogado na biblioteca do Vaticano, descobriu-se que esses
manuscritos continham grande parte do Antigo Testamento (ver-
são LXX), alguns apócrifos e o Novo Testamento em grego.
Há, também, o sistema criado por Eusébio de Cesareia para
a localização de trechos dos evangelhos: os cânones eusebianos.
Vírgula e ponto não eram sinais comuns nos escritos originais;
eles somente passaram a ser utilizados por volta do século 4 d.C.
para indicar uma frase simples ou uma pequena frase de senti-
do completo. Tampouco existia, também, a divisão dos textos em
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44 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
capítulos e versículos; essa organização foi elaborada por Estêvão
Langton, arcebispo de Cantuária (1226-1228), e, posteriormente,
aplicada pelo frei Sante Pagnini ao Antigo Testamento.
6. As primeiras traduções da Bíblia
Atualmente, é comum a publicação e o comércio de Bíblias
de diferentes tradutores e editores. Há versões em diferentes lín-
guas, com traduções em linguagem popular e anotações direcio-
nadas para os públicos adulto, jovem e infantil. Nas traduções mais
confiáveis, contudo, o texto de referência é o escrito original em
língua hebraica, conhecido por Bíblia hebraica (BH) ou texto mas-
sorético (TM) e os originais em grego.
Traduções do Antigo Testamento
A fim de melhor entender esse tópico, vamos começar defi-
nindo o termo "cânon".
Cânon ("κανών" − kanón) é uma palavra grega originária de
um empréstimo semítico ( הנקkanê), cujo sentido é "junco", que
passou a designar "vara de medir" e, posteriormente, "regra", "pa-
drão" ou "norma". Tardiamente, adquiriu o significado de "lista"
ou "tabela"; durante os séculos 2 e 3, o vocábulo referiu-se ao con-
teúdo normativo doutrinário e ético da fé cristã e, por volta do
século 4, passou a designar lista de livros que constitui Antigo e o
Novo Testamento. Atualmente, o sentido mais comum correspon-
de à coleção encerrada de documentos que formam a Bíblia.
O cânon da BH, como o da Bíblia protestante, não contém os
chamados livros apócrifos. Para a tradição judaico-cristã, os livros
apócrifos são considerados textos não inspirados, assim como os
pseudoepígrafos, coleções judaicas do mesmo período cujos auto-
res reais são desconhecidos. Em geral, esses textos recebiam no-
mes de autores conhecidos, mas não há evidência de que tenham
sido realmente escritos por eles. Conjectura-se que essa tenha
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 45
sido a forma encontrada por editores menores para que seus tex-
tos fossem aceitos.
Os sete livros deuterocanônicos adotados pela Septuaginta
(LXX) são: Tobias, Judite, 1 e 2 Macabeus, Sabedoria, Eclesiástico e
Baruc. Esse cânon corresponde ao reconhecido pelos rabinos em
Jamnia (90 d.C.).
O arranjo da BH (cânon hebraico, judaico ou texto massoréti-
co) corresponde a 24 livros. São eles:
a) A Torá (a Lei): Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deu-
teronômio.
b) Os Profetas:
• os Anteriores: Josué, Juízes, Samuel (1 e 2 considera-
dos em conjunto) e Reis (1 e 2 em conjunto);
• Os Posteriores: Isaías, Jeremias, Ezequiel e o Rolo dos
Doze: Oseias, Joel, Amós, Abdias, Jonas, Miqueias,
Naum, Habacuc, Sofonias, Ageu, Zacarias e Mala-
quias.
c) Os Escritos:
• Poesia e Sabedoria: Salmos, Provérbios e Jó;
• Os Cinco Rolos (Megilot), usados por ocasião de uma
festa específica: Cântico dos Cânticos (Festa da Pás-
coa), Rute (Festa dos Pentecostes), Lamentações (9
do mês de Abibe), Eclesiastes ou Coélet (Festa dos Ta-
bernáculos) e Ester (Festa do Purim).
• História: Daniel, Esdras-Neemias e Crônicas (1 e 2 em
conjunto).
Esse conjunto de livros é conhecido, também, sob o título
de Livros Protocanônicos (Próteros + kanón), pois corresponde à
primeira lista de livros catalogados. Dele surgiram:
• a versão da Septuaginta (LXX, Setenta), 3º ao 2º século
a.C.;
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46 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
• as traduções de Áquila, Símaco e Teodocião, no século 2
d.C.;
• a Hexapla de Orígenes (século 3 d.C.), uma compilação
em seis colunas da BH, uma transliteração dessa mesma
BH, da Septuaginta, além das traduções de Áquila, Símaco
e Teodocião.
O mais antigo manuscrito completo da LXX é de proveniên-
cia cristã (século 4 d.C.). Seu arranjo é considerado deuterocanôni-
co, pois foram aceitos pelo segundo cânon, assim disposto:
a) Livros da Lei (o nome "Pentateuco" é de origem helêni-
ca, com uso a partir de Fílon): Gênesis, Êxodo, Levítico,
Números e Deuteronômio.
b) Livros de História: Josué, Juízes, Rute; Quatro livros dos
reinos: 1 e 2 Samuel, 3 e 4 Reis, 1 e 2 Crônicas, 1 (apócri-
fo) e 2 Esdras-Neemias, Tobias, Judite, Ester e adições a
Ester, 1 e 2 Macabeus (3 e 4 apócrifos).
c) Livros de Poesia e Sabedoria: Salmos, Provérbios de
Salomão, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Jó, Livro da
Sabedoria (Sabedoria de Salomão), Eclesiástico (ou Sa-
bedoria de Sirácida).
d) Livros Proféticos:
• Os Doze Profetas Menores: Oseias, Amós, Miqueias,
Joel, Abdias, Jonas, Naum Habacuc, Sofonias, Ageu,
Zacarias e Malaquias.
• Os Profetas Maiores: Isaías, Jeremias, Baruc, Lamen-
tações, Carta de Jeremias, Ezequiel e Daniel (incluin-
do Susana = Daniel 13, Bel e o Dragão = Daniel 14 e o
Cântico dos três mancebos).
A tradução dos Livros da Lei (Pentateuco) foi completada
cerca de 250 a.C., a dos Profetas, aproximadamente, 200 a.C., e a
dos Escritos, cerca de 100 a.C.
É notório que as listas cristãs mais antigas seguem, principal-
mente, o cânon hebraico da Palestina; por exemplo, a lista da Pa-
lestina em Alexandria, no Egito (cerca de 275-100 a.C.). Entretanto,
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 47
os primeiros cristãos geralmente usavam a LXX sob a alegação de
que os judeus da Palestina não incluíam os apócrifos e pseudoepí-
grafos em suas coleções. A lista da LXX foi aceita pela maioria dos
sínodos de 393 d.C., embora um dos votos contrários tenha sido o
de Jerônimo.
No século 16 d.C., os reformadores retomaram o cânon he-
braico. Em 1546 d.C., o Concílio de Trento aceitou como canônicos
os seguintes livros: Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesi-
ástico, Baruc e 1 e 2 Macabeus; além disso, aceitou adições aos
livros de Ester, Baruc (a Carta de Jeremias) e Daniel (O Cântico dos
três mancebos, A história de Susana, Bel e o Dragão e a Oração de
Azarias). Em 1592 d.C., a edição Vulgata (autorizada pelo Concílio
de Trento) incluiu 1 e 2 Esdras e a Oração de Manassés.
Assim, as primeiras comunidades cristãs adotaram a versão
grega do Antigo Testamento, a qual contemplava, como mencio-
nado, em seu conjunto, alguns livros que o cânone hebraico não
possuía e que posteriormente foram considerados "apócrifos".
Embora existam contradições quanto ao caráter "inspirado"
de alguns dos textos antes mencionados, as tradições orais e as
memórias relegadas, de algum modo, serviram para a composição
do Antigo Testamento, bem como para o Novo Testamento e, ain-
da hoje, constituem importantes fontes do período e são frequen-
temente visitadas, a fim de subsidiar estudos históricos.
Traduções do Novo Testamento
Como traduções do Novo Testamento, temos:
• as versões Siríaca, Copta e Vetus Latina;
• A Vulgata de São Jerônimo para o latim ao final do sécu-
lo 4, elaborada a pedido do Papa Dâmaso I (ACIDIGITAL,
2007).
"Vulgata" é o termo usado para indicar a versão latina da BH;
trata-se da abreviatura de "vulgata editio" ou "vulgata versio" ou
Claretiano - Centro Universitário
48 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
"vulgata lectio". Essas expressões correspondem, respectivamen-
te, a edição, tradução ou leitura de divulgação popular do texto
bíblico referente ao Antigo Testamento.
Em geral, o arranjo dessa versão segue a LXX; entretanto,
1 e 2 Esdras são iguais a Esdras-Neemias, e os livros de 3 e 4 Es-
dras, assim como a Oração de Manassés, foram dispostos ao fim
do Novo Testamento. Os Profetas Maiores foram colocados antes
dos Profetas Menores.
Além desses livros, a Vulgata traz prólogos críticos (do grego
"πρόλογος", no latim prologos) elaborados e inseridos nessa versão
por Jerônimo. O cânon foi assim organizado:
• Prólogos de Jerônimo:
a) Pentateuco (Gênesis);
b) Josué;
c) Reis − Prologus Galeatus;
d) Crônicas;
e) Esdras;
f) Tobias;
g) Judite;
h) Ester;
i) Jó;
j) Salmos (LXX);
k) Livros de Salomão;
l) Isaías;
m) Jeremias;
n) Ezequiel;
o) Daniel;
p) 12 Profetas (Menores);
q) Os evangelhos;
r) Epístolas Paulinas − Primum Quaeritur.
• Notas de Jerônimo:
a) Salmos (Hebreus);
b) Adições de Ester.
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 49
No século 20, em 1979, foi promulgada a Neovulgata, que
consiste em uma tradução latina da Bíblia com objetivo litúrgico;
destinada, principalmente, à igreja. Essa tradução foi iniciada em
1907, e, em 1965, foi constituída a Comissão Pontíficia para a Neo-
vulgata, que desenvolveu um trabalho acurado, verso a verso, de
tradução, revisão e comparação com os originais em hebraico e
grego.
Traduções em vernáculo
Vernáculo é "a língua própria de um país ou de uma região;
língua nacional, idioma vernáculo" (HOUAISS, 2009).
A seguir, algumas traduções em vernáculo.
a) a Espanha conheceu múltiplas versões a partir do século
13;
b) com a invenção da imprensa, por Gutenberg (a partir de
1450), fizeram-se 15 traduções latinas e 10 alemãs;
c) "[...] a primeira tradução da Bíblia para o português de
Portugal foi feita pelo calvinista João Ferreira de Almei-
da, em 1680. No Brasil, a Bíblia foi impressa pela primei-
ra vez em 1864, no Rio de Janeiro, por Garnier Livreiro-
-Editor" (SAB, 2001/2003, p. 4);
d) entre 1570 e 1770, a Igreja católica proibiu as traduções
vernáculas da Sagrada Escritura;
e) no começo do século 20, porém, Pio X recomendava
que, ao menos, os Evangelhos estivessem à disposição
das famílias.
Tradições, traduções e seus condicionamentos
O processo de escrita dos textos bíblicos e dos textos rela-
cionados ao período bíblico, como os apócrifos e os pseudoepígra-
fos, pode ser compreendido à luz do ideal de preservação de uma
identidade cultural (a judaica), o qual implica crenças, hábitos,
códigos e valores, mas também como a "chave" da manutenção
de certo modo de organização social que se pauta na religião. O
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50 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
registro, portanto, corresponde a uma forma de documentação e
fixação dessa ordem por meio da escrita.
É preciso entender que essa escrita está inscrita em um uni-
verso linguístico que está diretamente associado a um período his-
tórico; nesse caso específico, o período antigo. Assim, traduzir os
escritos bíblicos do hebraico, do aramaico ou do grego não repre-
senta tarefa fácil, mas exige conhecimento da língua, da lógica da
língua e da cultura à qual essa língua está ligada.
Por essa razão, a tradução deve gerar, por parte do tradutor,
a preocupação quanto às implicações da realização de seu traba-
lho; em outras palavras, preocupação quanto à transmissão dos
conteúdos, de maneira que não se perca a lógica da mensagem
devido às suas especificidades culturais e, ao mesmo tempo, que
a mensagem seja transmitida numa outra língua que também está
inscrita espacial e temporalmente.
Não é de hoje que um dos principais problemas da tradução,
sempre evocado nas discussões, expresso no provérbio italiano
"traduttore, traditore" e cujo significado é que "todo tradutor é
um traidor", aponta a impossibilidade de se transmitir, reter ou
conduzir os sentidos de um texto de modo completo, com todas as
suas configurações. O contrário da traição seria a fidelidade, obje-
tivo de equivalência que se mostra inalcançável, dado que se tem
o "texto de partida", mas não "a mente da autoria".
A tarefa de tradução, portanto, exige interpretação. Assim,
tanto para fazer exegese dos textos originais quanto para a inter-
pretação, deve-se considerar que:
a) entre o tradutor-intérprete (sujeito) e o texto (objeto)
não há separação;
b) a linguagem humana determina o seu horizonte de com-
preensão e de conhecimentos;
c) entre o todo (o mundo) e o particular (o texto) há uma
relação de circularidade;
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 51
d) sempre existe um ponto de referência por meio do qual
se institui certa compreensão.
Logo, se a tradução pode ser considerada, em alguma medi-
da, "espelho" ou "pintura" que visa à representação imperfeita do
texto de partida, é preciso considerar que essa tarefa é sempre um
exercício e que a tradução se faz num jogo circunscrito pelos âm-
bitos anteriormente descritos. As traduções nunca serão "cópias"
exatas.
Destarte, sobre essa dicotomia no traduzir – devoção e máximo
respeito ao texto estrangeiro versus liberdade em nome da beleza
ou da maior receptividade da obra, dentre outros fatores – pairam
essas duas palavras-chave, ou seja, fidelidade e traição, conceitos
há muito tempo enfocados dentro do âmbito dos Estudos de Tradu-
ção [...] (FARIA, 2010, p. 88-89).
Desse modo, é importante entender que todas as traduções
serão diferentes entre si, e isso ocorre porque os sentidos do texto
não são estáveis, estão em relação aos âmbitos que o circunscre-
vem historicamente e aos âmbitos nos quais o tradutor está ins-
crito.
Em razão dessa complexidade, também a literatura bíblica
traduzida de modo vernacular pode apresentar diferenças de uma
versão para outra. Metodologicamente, então, o estudo da Bíblia
amparado por diferentes traduções é estrategicamente adequado,
a fim de se obter resultados satisfatórios. A comparação entre tex-
tos, originais e traduções, é um método recomendado nos estudos
de textos antigos e de caráter sagrado, como é o caso da Bíblia.
7. O debate sobre as autorias da Bíblia e seus
locais de origem
É notório que um grande número de manuscritos bíblicos
chegou até nossa era. Isso é muito interessante, porque nos lega
bastantes informações sobre o período bíblico. Em contraste, os
conhecimentos obtidos sobre a história e o pensamento filosófico
Claretiano - Centro Universitário
52 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
grego apoiam-se em um número bem inferior de documentos e
de manuscritos, que, em geral, datam de centenas de anos após a
morte de seus autores.
No caso da Bíblia, diferentemente, há uma série de docu-
mentos relacionados ao Novo Testamento. Esses documentos
constituem além de textos sagrados, fontes primárias para o estu-
do histórico e exegético. Assim, a grande quantidade de documen-
tos relacionados ao mundo bíblico fornece a possibilidade de se
conhecer mais sobre o período, a região, a cultura e a vida socio-
política dos hebreus e do Mediterrâneo Antigo.
Falar sobre a autoria dos livros que compõem a Bíblia é deli-
cado e exige certo arcabouço teórico. Como estudantes de teolo-
gia, é necessário atentar para as considerações feitas pela Crítica
Literária, disciplina que se ocupa há alguns séculos de estudar, tra-
duzir, comparar, interpretar e reconstruir a história judaica e cris-
tã, partindo dos textos bíblicos, dos manuscritos e dos fragmentos
descobertos pelos pesquisadores. Trata-se, portanto, de um traba-
lho arqueológico e comparativo que leva em consideração a histó-
ria dos povos que cultuaram Iahweh como seu Deus.
Partindo dessa relação entre Deus, os povos e as pessoas
descritos na Bíblia, podemos intuir quem foram os autores dos tex-
tos bíblicos. Como consequência disso, Deus está presente como
autor da Bíblia e se revela para a humanidade por meio das muitas
pessoas que creram na sua existência e se envolveram no trabalho
de redação da história de seu povo.
Desse modo, podemos afirmar que, com o intuito de trans-
mitir a revelação de Deus para outros, é que diferentes autores
escreverem a história, as memórias, as leis, as tradições e as men-
sagens contidas na Bíblia, a fim de orientar o povo hebreu a viver
individual e coletivamente. Isso nos permite compreender que,
embora a Bíblia seja interpretada e entendida como a "Palavra de
Deus", trata-se de uma fonte escrita por pessoas humanas, em lin-
guagem humana e, portanto, com caráter simbólico, social e ético.
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 53
Trata-se de um verdadeiro livro feito em mutirão, em lugares
diferentes, distintas épocas e por muitas pessoas. Assim, expressa
a Constituição Dei Verbum:
As palavras de Deus, expressas em línguas humanas, tornaram-se
intimamente semelhantes à linguagem humana, como já o Verbo
Eterno do Pai, tomando a fraqueza da carne humana, se tornou
semelhante aos homens (CONSTITUIÇÃO DEI VERBUM 13).
Para a formação da Bíblia, contribuíram diferentes pessoas:
homens, mulheres, pais, mães, artesãos, comerciantes, poetas, sá-
bios, escribas e tantos outros. Portanto, pode-se dizer que a Bíblia
corresponde a um conjunto de livros que retratam o modo de vida
de um período, bem como as expectativas de um grupo social.
O processo de constituição da Bíblia foi longo. Sabe-se que
o Antigo Testamento levou mais de mil anos para ser escrito, e o
Novo Testamento, mais ou menos, 50 anos – entre 1250 a.C. e 100
d.C. aproximadamente, o que nos conduz à compreensão de que o
processo de redação, seleção, edição e compilação dos livros que
compõem a Bíblia, executado por copistas e tradutores, contou
com o registro de tradições, mas também com acréscimos e cor-
reções feitas a partir de um ideal de santidade, correção e pureza
que se pretendia alcançar para que se agradasse a Deus.
Em relação ao Novo Testamento, a partir do ano 50 d.C., as
primeiras comunidades cristãs passaram a colecionar cartas es-
critas e transmitidas por seus líderes, com o objetivo de orientar
espiritual e moralmente os grupos cristãos que se formavam. Par-
ticularmente, as cartas ou epístolas do apóstolo Paulo eram as que
mais circulavam entre as comunidades, e tais cartas colecionadas
foram compiladas juntamente com os evangelhos e o livro conhe-
cido como Atos dos Apóstolos, de redação inspirada em extratos e
tradições orais que remontam ao período entre, aproximadamen-
te, 70 e 90 d.C. Ao fim do século 1 d.C., a redação do Novo Testa-
mento fora praticamente encerrada.
Quanto aos locais onde a Bíblia teria sido escrita, sabe-se
que o Antigo Testamento foi escrito na Palestina: em Judá (o reino
Claretiano - Centro Universitário
54 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
do Sul) e em Samaria (o reino de Israel, ao Norte); na Babilônia,
onde o povo judeu esteve exilado entre 587 e 539 a.C., e no Egito,
onde muitos judeus viviam na diáspora. Entenda-se por diáspora
a "dispersão dos judeus, no decorrer dos séculos, por todo o mun-
do" (HOUAISS, 2009).
Os livros do Novo Testamento foram escritos na Palestina
(região que se acredita ser o lugar de origem de Jesus de Nazaré),
na Síria (Ásia Menor), na Grécia e na Itália, particularmente, Roma.
Esses lugares correspondem às regiões por onde os discípulos de
Jesus teriam efetuado suas primeiras pregações e fundado peque-
nas comunidades (SAB 2001/2003, mapa 1).
Para compreender melhor os locais de redação dos escritos
bíblicos, observe o mapa na Figura 1 a seguir:
Figura 1 Prováveis regiões de redação dos escritos bíblicos.
Do mesmo modo que os escritos do Antigo Testamento fo-
ram elaborados gradualmente, levando em consideração as expec-
tativas populares e as lideranças judaicas, também o Novo Testa-
mento contou com um acurado processo de compilação. Em certa
medida, isso tem relação com a própria lógica sociocultural judai-
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 55
ca. O povo que produziu o Antigo Testamento também contribuiu,
fundamentalmente, para a produção do Novo Testamento, o que
nos leva a compreender esses conjuntos de forma complementar.
Pesquisadores do século 1 e do cristianismo das origens jul-
gam necessário considerar, atentamente, a inserção de Jesus no
judaísmo. Para alguns estudiosos do Novo Testamento, a origem
judaica de Jesus poderia apontar a relação entre o seu "Movimen-
to" e a formação das primeiras comunidades cristãs como grupos
de renovação dentro do judaísmo. Decorre dessa perspectiva, o
abandono da abordagem que considera judaísmo e cristianismo
movimentos separados, pois "[...] a pregação de Jesus é uma esca-
tologia da restauração que tem por objetivo a restauração do povo
judaico" (THEISSEN, 2002, p. 29).
De pronto, essa perspectiva acerca dos escritos bíblicos re-
futa a ideia de que o Antigo e o Novo Testamento são conjuntos
literários sem relação um com o outro. A leitura atenta de cada
um desses blocos revelará que há continuidade entre eles, muito
embora existam diferenças significativas no estilo da redação, nos
objetivos de cada Testamento e mesmo na teologia, isto é, na per-
cepção do sagrado, de cada um dos conjuntos. Essas diferenças,
que até podemos entender como rupturas, se devem ao que pre-
tendiam as autorias por ocasião da escrita desses documentos e,
nesse sentido, estão relacionadas com as diversas nuances sociais
e culturais que constituíram o quadro histórico subjacente.
Para compreender a Bíblia
Para compreender a Bíblia, é necessário conhecer a história
do povo hebreu, as peculiaridades das terras e dos povos do Me-
diterrâneo Antigo, bem como os assuntos relacionados às culturas
da época, aos costumes, hábitos, valores e códigos. Esses conhe-
cimentos nos auxiliam a compor um quadro de referências que
lança luz sobre os textos, visto que a literatura bíblica emerge de
contextos específicos.
Claretiano - Centro Universitário
56 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Para o registro desses eventos, as autorias bíblicas emprega-
ram recursos literários com o intuito de melhor expressarem seus
conteúdos. Tais recursos dizem respeito, principalmente, à forma
da redação. São os gêneros literários, dentre os quais destacamos:
o histórico, o profético, o sapiencial, o poético e o doutrinário.
Mas também há outros indícios que atestam a concretude
das narrativas. Além dos gêneros, que visam à representação de
acontecimentos, de fatos etc., por meio da forma da redação ora
poética, ora de sabedoria, há, na literatura bíblica do Antigo e do
Novo Testamento, a ocorrência de localizações geográficas, de
nomes de reis e outras personagens históricas que, em conjunto,
constituem evidências do período que contribuem para a recons-
trução da história do povo de Israel.
Deve-se atentar que o processo de constituição da Bíblia
segue estágios que compreendem a transmissão oral, a escrita, a
compilação do texto e a última etapa, nominada "canonização".
Esse processo diz respeito à comunicação e à recepção de uma
mensagem, conforme a Figura 2 a seguir.
Figura 2: Comunicação e Recepção de mensagem
A comunicação de uma mensagem pressupõe a existência
de emissores e receptores. A mensagem, isto é, o conteúdo a ser
propagado, somente pode ser transmitido se o código entre emis-
sor e receptor for o mesmo. Por código, entendemos o sistema de
símbolos sistematizados e que formam uma língua conhecida pelo
emissor e pelo receptor, a fim de que possa haver decodificação
e compreensão dos conteúdos enviados. A mensagem deve ser
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 57
transmitida por um mesmo canal (isto é, fala, escrita etc.); a sín-
tese dessa mensagem transmitida é o referente, constituído pelo
contexto, pela situação e pelos objetos a que ela remete.
No caso da Bíblia, histórias, narrativas, tradições sobre o
povo de Israel no Antigo Testamento, ensinos e milagres atribuídos
a Jesus, posteriormente, seu movimento e o surgimento das co-
munidades cristãs no Novo Testamento, transmitidos oralmente,
conformam a mensagem dos textos que compõem o cânon bíbli-
co. Ademais, os emissores – povo de Israel, comunidades cristãs,
autores e autoras, copistas e outros –, envolvidos no processo de
escrita divulgaram suas mensagens por meio da redação, usando
como canal a escrita, nas línguas hebraica e grega. Códigos comuns
para as sociedades do Mediterrâneo Antigo.
Devemos notar, entretanto, que o processo de comunicação
não é linear, envolvendo interferências e ruídos que comprome-
tem a transmissão e o ideal de integridade no relato dos conte-
údos e das mensagens. Dessa forma, vontade pessoal, idiossin-
crasias, vícios de linguagem, preferências, pressupostos e outros
erros humanos constituem o documento bíblico e não lhe extraem
a relevância, tanto para fins de estudo acadêmico quanto para fins
devocionais. Esses "ruídos" também podem ser considerados par-
te da revelação bíblica porque são dados históricos.
Destarte, para compreender a Bíblia, é importante reconhe-
cer que há saberes locais, isto é, respectivos ao tempo, à cultura
e às questões materiais do período em que cada livro foi escrito,
que necessitam ser especificados e estudados. À luz desse quadro
de referências, a compreensão torna-se mais viável, assim como as
relações com o tempo e as situações presentes.
Leitura Complementar–––––––––––––––––––––––––––––––––
A Bíblia como complexo literário
"[...] uma leitura é sempre uma leitura: a abertura de uma janela, e não a contem-
plação de um espelho" (BOYARIN)
A literatura bíblica constitui amplo material religioso e cultural que foi forjado no
Claretiano - Centro Universitário
58 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
decorrer de extenso período histórico. Aproximadamente, em 1200 a.C., Israel
iniciava seu processo de consolidação. Deste ponto em diante, se diz que Israel
lançava-se à escrita de sua história, o que para estudantes, professores e pes-
quisadores da Bíblia faz da disciplina história de Israel importante componente
da exegese. Nesse sentido, o mundo literário obviamente fornece dados a res-
peito da tradição judaica e, posteriormente, da tradição cristã, que não exclui a
primeira, mas desenvolve-a agregando novos sentidos. Todavia, a história de
Israel "[...] pergunta por acontecimentos e processos que são refletidos nas e
pelas imagens da história" (GUNNEWEG, 2005, p. 33), nas e pelas narrativas
que podem ou não ser históricas.
Essa literatura ampla é formada pelos manuscritos considerados canônicos
– Bíblia Hebraica e Novo Testamento (NT) – e pelos textos não canônicos –
pseudoepígrafos e escrituras gnósticas. Durante muito tempo, o primeiro grupo
era considerado oficial, enquanto o segundo foi classificado como não oficial e,
portanto, não confiável, visto que seu estilo era constituído de uma linguagem,
muitas vezes, rebuscada, outras, simplória, caracterizada por descontinuidade e
simbolismos. Para estudiosos, no entanto, tais textos formam um complexo lite-
rário que lança luz sobre a história dos judaísmos e dos cristianismos e coopera
para a formulação de teorias acerca desses movimentos.
Apesar de procurarmos superar a dicotomia oficial/não oficial, a abordagem
compreensiva desse complexo deve fiar-se pelo estabelecimento de critérios.
Primeiro, é preciso reconhecer que esse material é peculiar, pois, como se sabe,
nem todos os textos encerram descrições claras do período e tampouco objeti-
vam transmitir com neutralidade os fatos e acontecimentos da época. Narrativas
fictícias, imagens e simbolismos, quando produzidos e representados na litera-
tura, provavelmente, dialogavam com suas realidades e, em certa medida, de-
sencadeavam mudanças na própria história. Dessa dialética, decorreu uma das
peculiaridades da literatura judaico-cristã: a pluralidade de gêneros e de formas
literárias que compõem o complexo literário judaico-cristão.
Segundo, tal sorte de textos, ao mesmo tempo em que aproxima o leitor/intérpre-
te moderno, também o afasta à medida que mantém certa reserva de sentidos
que só se permite desvelar à luz: de si mesma – no contexto histórico-social mais
amplo em que está inserida da metodologia exegética dos instrumentais forneci-
dos por outras disciplinas das ciências humanas – como antropologia, sociologia
e arqueologia da criatividade hermenêutica. Em função disso, o estudo das for-
mas e dos gêneros literários tem se revelado ferramenta útil para a compreensão
dos judaísmos e dos cristianismos.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
8. QUESTões AUTOAVALIATIVAs
Sugerimos que você procure responder, discutir e comentar
as questões a seguir, que tratam da temática desenvolvida nesta
unidade.
A autoavaliação pode ser uma ferramenta importante para
você testar o seu desempenho. Se você encontrar dificuldades em
© U1 - Introdução Geral à Bíblia 59
responder a essas questões, procure revisar os conteúdos estuda-
dos para sanar as suas dúvidas. Esse é o momento ideal para que
você faça uma revisão desta unidade. Lembre-se de que, na Edu-
cação a Distância, a construção do conhecimento ocorre de forma
cooperativa e colaborativa; compartilhe, portanto, as suas desco-
bertas com os seus colegas.
Confira, a seguir, as questões propostas para verificar o seu
desempenho no estudo desta unidade:
1) Qual é a relação entre os livros bíblicos e a vida do povo de Israel no Antigo
Testamento?
2) Qual é a relação entre os livros do Novo Testamento e a vida de Jesus?
3) Qual é a relação entre os textos do Novo Testamento e a vida de seus segui-
dores e seguidoras?
4) Quais motivos podem ter conduzido à redação dos textos bíblicos?
5) Qual é a relevância de se registrar tradições e memórias de um grupo social
por meio da redação?
9. CONSIDERAÇÕES
Nesta unidade, pudemos entender que a Bíblia é uma biblio-
teca de livros cuja variedade de autores, memórias e tradições que
elenca a torna uma importante fonte histórica sobre o povo de Isra-
el, sua cultura e tradições, desde o Antigo até o Novo Testamento.
Essa biblioteca é constituída de dois blocos que, embora
apresentem períodos diferentes da história de Israel, devem ser
compreendidos em conjunto.
As concepções sobre Iahweh, pureza, salvação e outros as-
suntos que dizem respeito às crenças judaico-cristãs, portanto,
apresentam-se conforme as demandas do próprio povo de Israel
retratado na Bíblia. A transmissão de toda essa mensagem, do oral
ao escrito, envolveu o trabalho de muitas pessoas, e, por essa ra-
Claretiano - Centro Universitário
60 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
zão, a Bíblia não está livre de certos condicionamentos, que devem
ser examinados à luz de instrumentais metodológicos de diferen-
tes disciplinas.
Nesse sentido, o estudo das formas e dos gêneros literários,
bem como dos processos que dizem respeito à formação do An-
tigo Testamento, são necessários para o desenvolvimento de um
quadro de referências propício à exegese dos textos do Antigo e do
Novo Testamento, conforme verificaremos na próxima unidade.
10. e-REFERÊNCIAS
Sites pesquisados
FARIA, J. C. A tradução entre a cruz e a espada: fidelidade versus traição. Revelli – Revista
de Educação, Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas, Inhumas, v. 2, n. 1, p. 88-89, mar.
2010. Disponível em: <http://www.ueginhumas.com/revelli/revelli3/numero_2/Revelli.
v2.n1.artigo07.pdf>. Acesso em: 2 fev. 2012.
11. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ARTOLA, A. M.; SÁNCHEZ CARO, J. M. Bíblia e palavra de Deus. São Paulo: Ave-Maria,
1996.
BALLARINI, T. (Org.). Introdução à Bíblia com antologia exegética: atos dos apóstolos e
epístolas paulinas. Petrópolis: Vozes, 1968.
BITTENCOURT, B. P. O Novo Testamento: metodologia da pesquisa textual. Rio de
Janeiro: JUERP, 1993. 233 p. (Publicado anteriormente pela ASTE, sob o título "O Novo
Testamento: cânon, língua, texto").
GUNNEWEG, A. H. J. História de Israel: dos primórdios até Bar Kochba e de Theodor Herzl
até os nossos dias. Tradução de Monika Ottermann. São Paulo: Teológica/Loyola, 2005.
(Série Biblioteca de Estudos do Antigo Testamento).
HOUAISS, Antônio (Ed.). Dicionário eletrônico Houaiss. Rio de Janeiro: Objetiva, 2009. 3
CD-ROM.
SCHLAEPFER, C. F., OROFINO, F. R.; MAZZAROLO, I. A Bíblia: introdução historiográfica e
literária. Petrópolis: Vozes, 2004.
THEISSEN, G.; MERZ, A. O Jesus histórico: um manual. Tradução de Milton Camargo Mota
e Paulo Nogueira. São Paulo: Loyola, 2002. (Bíblica Loyola 33).
EAD
Aspectos Literários da
Bíblia e a Formação do
Antigo Testamento
2
1. Objetivos
• Perceber que o processo de transmissão da história, da
tradição religiosa e da memória do povo de Israel e das
primeiras comunidades cristãs na Bíblia contou com o
emprego de formas e gêneros literários, a fim de expres-
sar tais conteúdos do modo mais próximo ao cotidiano
desses grupos.
• Compreender que a redação da Bíblia e, em especial, a
formação do Antigo Testamento visam à documentação e
à fixação da história do povo de Israel na relação com seu
Deus, Iahweh.
2. Conteúdos
• O que são gêneros e formas literárias da Bíblia?
• História da formação do Antigo Testamento.
62 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
3. Orientações para o estudo da unidade
Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Tenha sempre a mão o significado dos conceitos expli-
citados no Glossário e suas ligações pelo Esquema de
Conceitos-chave para o estudo de todas as unidades
deste CRC. Isso poderá facilitar sua aprendizagem e seu
desempenho.
2) A relação entre gêneros, formas literárias e o conteúdo
da história de Israel está na intencionalidade das auto-
rias em usar esses recursos como estratégia para melhor
expressar a experiência do povo hebreu na relação com
seu Deus.
• Indicações de leitura:
a) BERGER, K. As formas literárias do Novo Testamento.
Tradução de Fredericus Antonius Stein. São Paulo: Lo-
yola, 1998. Principalmente, a "Introdução", na qual
são apresentados os conceitos gerais, a relevância
dos estudos das formas literárias para o estudo da Bí-
blia e a relação entre escritura e oralidade.
b) RODRIGUES, M. P. (Org). Palavra de Deus, palavra da
gente: as formas literárias na Bíblia. São Paulo: Pau-
lus, 2004.
c) A noção de dialogismo usada nesta unidade é basea-
da na ideia de que, entre as dimensões existentes, há
um princípio constitutivo de interação. Assim sendo,
cada dimensão, sujeito ou objeto tem potencial de
ação, isto é, de agência que constrói uma relação in-
teracional em que não há um centro. A esse respeito,
sugerimos que você leia: BARROS, D. L. P. Dialogismo,
polifonia e enunciação. In: BARROS, D. L. P.; FIORIN,
J. L. (Org.). Dialogismo, polifonia, intertextualidade:
em torno de Mikhail Bakhtin. 2. ed. São Paulo: Edusp,
2003. (Coleção Ensaios de Cultura).
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 63
4. Introdução à Unidade
Este Caderno de Referência de Conteúdo se dedica a apre-
sentar a você conhecimentos sobre a Bíblia e, em especial, a estu-
dar a história de Israel. Em razão disso, vamos conhecer as formas
literárias que constituem o material bíblico e o processo de forma-
ção do Antigo Testamento.
Na unidade anterior, foi apresentada uma introdução geral
à Bíblia, bem como a discussão sobre as tradições que constituem
seu cânon, especificidades das autorias e condicionamentos histó-
ricos, culturais e sociais.
Nesta unidade, verificaremos como os condicionamentos
presentes no processo de transmissão das tradições relacionadas
ao povo de Israel podem ser identificados também por meio das
formas literárias, o que são elas e como compõem o material bí-
blico. Em seguida, daremos prosseguimento ao estudo da Bíblia,
enfocando o Antigo Testamento e seus livros históricos.
Assim, obteremos informações sobre períodos e documen-
tos bíblicos marcantes, como o profetismo bíblico, a literatura no-
velística e sapiencial etc. Esse quadro de referências que desenvol-
veremos servirá para a compreensão de nosso principal assunto: a
história de Israel e de seu povo, cuja religião e cultura concederam
bases tanto para o judaísmo quanto para o cristianismo.
5. FORMAS E GÊNEROS LITERÁRIOS DA BÍBLIA
O estudo da Bíblia requer aprofundamento na história do
período em que foi produzida, bem como conhecimento das lín-
guas em que foi escrita e a aproximação da cultura, dos costumes
e das práticas religiosas que constituem o quadro de referências
sobre o qual se funda os livros que compõem o cânon bíblico.
Claretiano - Centro Universitário
64 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Com a intenção de não nos isolarmos em um debate estéril
"do texto pelo texto", isto é, quando o estudioso, pesquisador ou
intérprete busca compreender a Bíblia a partir dela mesma, sem
recorrer a outros materiais subsidiários, é que salientamos a rele-
vância de uma metodologia de pesquisa e exegese que considere
o criticismo com o uso do método histórico-crítico e da crítica tex-
tual. Tal necessidade de instrumentos teóricos e metodológicos se
justifica em função de ser a literatura judaico-cristã um material
religioso e cultural forjado no decorrer de extenso período histó-
rico.
Em 1200 a.C., aproximadamente, Israel iniciava seu proces-
so de consolidação. Desse ponto em diante, diz-se que Israel se
lançou à escrita de sua história. Assim, a história de Israel "[...]
pergunta por acontecimentos e processos que são refletidos nas e
pelas imagens da história" (GUNNEWEG, 2005, p. 33), nas e pelas
narrativas que podem ou não ser históricas.
Os manuscritos canônicos (Bíblia hebraica, LXX e Novo Tes-
tamento) e os textos não canônicos (pseudoepígrafos e escrituras
gnósticas) representam um amplo complexo literário que proje-
ta o período antigo e as identidades culturais judaicas e cristãs.
Durante muito tempo, o primeiro grupo de textos foi considerado
oficial, enquanto o segundo foi classificado como não oficial e não
confiável, visto que seu estilo era constituído de uma linguagem,
muitas vezes, rebuscada, outras, simplória, caracterizada por des-
continuidade e simbolismos.
Para fins de estudo do material bíblico, tais textos formam
um conjunto literário subsidiário que lança luz sobre a história dos
judaísmos e dos cristianismos. Apesar de ser relevante superar a
dicotomia oficial/não oficial, a abordagem compreensiva desse
complexo não deve ocorrer sem o estabelecimento de critérios.
Seja em função da não comprovação da autenticidade des-
ses livros, seja por causa do caráter "fictício" das narrativas ou em
razão de seus ensinos heterodoxos, esses argumentos corrobora-
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 65
ram para que somente os textos canônicos, a partir de 341 (em
Antioquia), fossem empregados como fontes para compreensão
do mundo judaico-cristão. Disso, resultou que somente os textos
reconhecidos pela Igreja como registros e documentos oficiais fo-
ram considerados adequados para a construção da história dos ju-
daísmos e dos cristianismos.
Todavia, na atualidade, entende-se que, para os estudos
relacionados à Bíblia e aos âmbitos sobre os quais ela repousa,
narrativas fictícias, imagens e simbolismos, quando produzidos
e representados literariamente, foram formulados a partir e em
diálogo com suas realidades e, em certa medida, desencadearam
mudanças nesses mesmos contextos e nas relações sociais a que
se associavam.
Essa dinâmica circular entre oralidade, escrita e as pessoas
envolvidas nessa produção pode ser entendida por meio da rela-
tivização da separação entre sujeito e objeto; isto é, ao entender-
mos que, entre os indivíduos e as tradições bíblicas por eles produ-
zidas, há uma relação de continuidade, diferente da separação que
supõe apenas a ação do sujeito (indivíduo) sobre o objeto (texto),
admitimos que também as tradições escritas possuíam influência,
ou seja, ação sobre os sujeitos.
Dessa relação dialógica, decorreu uma das peculiaridades da
literatura judaico-cristã: a pluralidade de gêneros e de formas lite-
rárias que compõem o complexo literário judaico-cristão.
A diversidade das formas indica o esforço das autorias e pes-
soas envolvidas no processo de redação das tradições, histórias e
memórias do povo de Israel, ao buscar expressar, por meio da es-
crita, a riqueza de conteúdos, símbolos, imagens, conhecimentos e
explicações de que era composta a sua realidade e suas tradições
orais. Nesse sentido, as formas e os gêneros literários podem ser
entendidos como recursos usados para fixar a riqueza da experiên-
cia religiosa daquele povo.
Claretiano - Centro Universitário
66 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
De um lado, tal sorte de textos, ao mesmo tempo que apro-
xima o leitor e intérprete moderno da tradição religiosa daquele
grupo, do outro, também o afasta à medida que mantém certa
reserva de sentidos que só se permite desvelar à luz:
a) de si mesma, no contexto histórico-social mais amplo
em que está inserida;
b) da metodologia exegética;
c) dos instrumentais fornecidos por outras disciplinas das
ciências humanas (como sociologia e antropologia);
d) da criatividade hermenêutica.
Em função disso, o estudo das formas e dos gêneros literá-
rios revela-se ferramenta útil para a compreensão dos judaísmos
e dos cristianismos, desde que associada ao quadro histórico e so-
cial ao qual está vinculada.
A relação das formas com a história
O debate acerca das formas literárias da Bíblia tem sido am-
plamente formulado desde o século 19, com Rudolf Bultmann e
Martins Dibelius. Mais recentemente, Klaus Berger (1984), em As
formas literárias do Novo Testamento, ocupou-se de traçar o es-
tudo histórico das formas literárias usadas no material neotesta-
mentário para atender às demandas de estudo da Bíblia "como
literatura".
O aspecto relevante dessa perspectiva é que o mundo ju-
daico-cristão se tornou mais amplo com a consulta e análise de
outros materiais que anteriormente não eram considerados ofi-
ciais, como é o caso dos pseudoepígrafos e das escrituras gnósticas
mencionados anteriormente.
Após a Reforma Protestante, grande parte da literatura uti-
lizada para a pesquisa sobre judaísmo e cristianismo era consti-
tuída, predominantemente, pelo material bíblico canônico, o que,
de certo modo, se compreende à luz da concepção de ciência da
época, que se afastava tanto da teoria quanto da história social e
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 67
privilegiava os saberes mediados pela observação e pela experi-
mentação. Subjacente à noção de separação entre oficiais e não
oficiais, estava a compreensão de que os textos não canônicos não
ofereciam registros idôneos da religiosidade judaica.
Acerca desses textos, dizia-se que o estilo destoava dos ma-
nuscritos considerados canônicos. Alguns argumentos enfatizavam
as imagens e as narrativas mitológicas como estranhas ao material
da Bíblia hebraica e do Novo Testamento. Todavia, sabe-se, hoje,
que a literatura de Qumran foi produzida e armazenada em caver-
nas próximas ao Mar Morto desde, aproximadamente, 225 a.C. a
68 d.C., e que as escrituras gnósticas circulavam entre comunida-
des cristãs entre a segunda metade do 1º até o 3º século.
Textos descobertos em 1945 e escritos em língua copta ge-
ralmente são datados entre a segunda metade do século 1 e sécu-
lo 3; há quem estenda esse período até o século 4. Esses textos se
referem aos inícios da tradição cristã e apresentam evidências de
influências judaicas, egípcias e gregas. Sobre esse tema, indicamos
a consulta das obras As escrituras gnósticas, de Bentley Layton,
e Textos gnósticos: biblioteca de Nag Hammadi II: evangelios, he-
chos, cartas, de Antonio Piñero.
Disso, conclui-se que muitas informações desses extratos
são valiosas para o aclaramento dos contextos de judeus e de cris-
tãos desse período. Assim:
O estudo das formas literárias combina a crítica dos gêneros li-
terários com a investigação de sua história. A crítica dos gêneros
literários investiga-os com base em determinados critérios. A his-
tória dos gêneros é a história de seu uso no quadro da história do
Oriente Médio, do Oriente Próximo e da Europa. A expressão "es-
tudo das formas literárias" foi mantida porque a análise da forma
literária sempre é o primeiro passo do trabalho exegético (BERGER,
1998, p. 13).
Com o estudo das formas e gêneros literários, a compreen-
são do eixo judaico-cristão abriu-se para perceber que as literatu-
ras eram expressões da cultura oral que se tornaram fonte escrita
e origem da tradição.
Claretiano - Centro Universitário
68 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
De acordo com o historiador marxista britânico Eric Hobs-
bawm, a ideia de tradição como entendida hoje deve sua origem
ao surgimento da escrita que, em certa medida, materializou a cul-
tura oral. Sobre o assunto, consulte a obra The invention of tradi-
tion, com organização de Eric Hobsbawm e Terence Ranger.
A importância dessa relação entre oralidade e escrita pode
ser avaliada nas palavras de Jean Batany: "O oral escreve-se, o es-
crito quer-se imagem do oral, de qualquer modo é feita referência
à autoridade de uma voz" (LE GOFF; SCHMITT, 2002, p. 383).
Em outras palavras, o registro escrito pretende fixar a ora-
lidade na expectativa de manter a autoridade dessa memória e
mantê-la viva.
Essa perspectiva nos autoriza a compreender que a descon-
tinuidade, os simbolismos e outras especificidades dos canônicos
e dos não canônicos representam evidências de maior proximida-
de entre o texto e a realidade de quem o produziu. Isso implica
dizer que, nesses textos, houve menor edição e intervenção ex-
ternas. Consequentemente, tais textos estariam mais próximos do
processo sociocultural do qual estavam em relação.
Destarte, o estudo das formas e gêneros literários valoriza as
vozes e as experiências religiosas dos judeus no Antigo Testamento
e das comunidades cristãs no Novo Testamento, que se materiali-
zaram por meio da narrativa, da história, da profecia, da poesia,
dos hinos, das cartas e de outros gêneros.
6. O QUE SÃO FORMAS E GÊNEROS LITERÁRIOS?
A primeira coisa, a saber, no que tange aos gêneros e às for-
mas literárias, é que identificá-los contribui para uma melhor com-
preensão do texto. Isso ocorre porque, entre o conteúdo de um
texto e a sua forma de apresentação, há certa relação que, se des-
velada, pode aproximar o intérprete da intencionalidade do texto.
Portanto, além de notar a informação ou o assunto transmitido
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 69
pelo texto, é também necessário notar como tais conteúdos foram
expressos.
Para exemplificar a relação entre conteúdo e forma, leia o
verso a seguir: "O homem prudente é lento para a ira; e se honra
em ignorar uma ofensa" (Provérbios 19,11).
O conteúdo do verso acima exalta a prudência e o autocon-
trole. Mas, para além de recomendar que se evite o sentimento
de ira, o provérbio funciona como a síntese da sabedoria popular
resumida numa fórmula curta, que conduz o leitor ao questiona-
mento sobre o que é melhor: irar-se repentinamente e esbravejar
ou deixar passar a ofensa sem descontrolar-se?
A forma de um texto é relativa. Um mesmo conteúdo pode
ser expresso de diferentes formas. Certos assuntos podem ser
transmitidos com neutralidade (pela apresentação apenas dos
fatos), com emoção (por meio de poesia ou música), em tom de
piada (com sarcasmo) etc.
Tanto na forma oral quanto na escrita existem formas fixas
convencionadas socialmente e que são mais ou menos formais.
Teses, dissertações, artigos científicos, requerimentos, processos e
outros são documentos escritos em linguagem formal (técnica), di-
ferente de poesias, contos, romances, fábulas e outros tipos. Mas
num e noutro casos, essas formas de expressão escrita correspon-
dem a formas fixas que expressam ideias e sentimentos, que, se
identificados, podem contribuir para a melhor compreensão do
que está escrito.
É importante notar, ainda, que o tipo de escrita – mais ou
menos técnica – não torna os textos mais ou menos confiáveis.
Isso significa que não se trata de considerar mitos, poesias, con-
tos, romances e fábulas menos "reais" do que histórias, profecias,
crônicas etc.; trata-se de compreender que cada forma literária é
responsável por expressar determinadas verdades ou explicações
sobre realidades dadas, de modo a causar entre leitor e texto uma
espécie de aproximação que gere entendimento.
Claretiano - Centro Universitário
70 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Por essa razão, a Bíblia possui diversas formas fixas empre-
gadas por seus autores com diferentes finalidades. Além desses
recursos literários, cabalas, simbolismos, metáforas etc. são for-
mas de expressão de um período que objetivavam comunicar algo.
Ignorar essas especificidades pode comprometer o entendimento
do texto bíblico.
A forma fixa:
Soma de suas características de estilo, de sintaxe e estrutura; isto
é, sua configuração lingüística. Querendo definir uma soma, já or-
denaremos essa forma de acordo com determinados princípios, de
sorte que sobressaem as características dominantes. Sobretudo
em comparação com as formas de outros textos, torna-se visível,
então, quais são os elementos formais característicos de um texto.
Cada texto tem uma forma, podendo tê-la em comum com outros
textos, parcial ou integralmente. Características estruturais são
aquelas que resultam da relação das partes de um texto entre si
(BERGER, 1998, p. 13).
Em Gênesis 12,10-20, está registrada a narrativa segundo a
qual, no Egito, Abrão escapou da morte por ter apresentado ao
Faraó, como irmã, sua esposa Sarai. Com a mesma forma, história
semelhante é apresentada em Gênesis 20,1-18 e em 26,1-11. Nes-
se último extrato, Isaac e Rebeca são protagonistas.
Nessas três narrativas, há uma forma fixa que podemos con-
siderar modelo ou padrão. Esse recurso também pode ser iden-
tificado no Novo Testamento. Nos evangelhos, Mateus 12,9-14,
Marcos 1,23-27, Lucas 5,1-11 e João 2,1-11, por exemplo, há uma
estrutura modelar recorrente, isto é, as narrativas de milagres
ocorrem conforme:
a) a introdução (cuja intenção é ambientar o milagre);
b) a súplica;
c) a intervenção de Jesus;
d) o efeito do milagre;
e) a reação das pessoas presentes.
Vejamos essa estrutura em duas perícopes, de acordo com o
Quadro 1 a seguir.
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 71
Quadro 1 Exemplo de estrutura modelar.
Mateus 12,9-14 Marcos 1,23-28
Introdução Introdução
9 Partindo dali, entrou na sinagoga deles. 23 Na ocasião, estava na sinagoga deles um
homem possuído de um espírito imundo,
Súplica que gritava.
10 Ora, ali estava um homem com a mão Súplica
atrofiada. Então, perguntaram-lhe a fim de acusá-
lo: "É lícito curar aos sábados?" 24 dizendo: "Que queres de nós, Jesus
Nazareno? Vieste para arruinar-nos? Sem
Intervenção de Jesus quem tu és: o Santo de Deus.
11 Jesus respondeu: "Quem haverá dentre vós Intervenção de Jesus
que, tendo uma ovelha e caindo ela numa cova
em dia de sábado, não vai apanhá-la e tirá-la 25 Jesus, porém, o conjurou severamente:
dali?" "Cala-te e sai dele".
12 Ora, um homem vale muito mais do que uma Efeito do milagre
ovelha! Logo, é lícito fazer o bem aos sábados".
26 Então o espírito impuro, sacudindo-o
Efeito do milagre violentamente e soltando grande grito,
deixou-o.
13 Em seguida, disse ao homem: "Estende a
mão". Ele a estendeu e ela ficou sã, como a outra.
Reação das pessoas presentes Reação das pessoas presentes
14 Então, os fariseus, saindo dali, tramaram 27 Todos então se admiraram,
contra ele, sobre como acabariam com ele. perguntando uns aos outros: "Que é isto?
Um novo ensinamento com autoridade!
Até mesmo aos espíritos impuros dá
ordens, e eles lhe obedecem!"
28 Imediatamente a sua fama se espalhou
em todo o lugar, em toda a redondeza da
Galiléia.
As narrativas antes mencionadas, uma de milagre e outra de
exorcismo, seguem certo padrão que constitui uma estrutura que
será repetida em outras narrativas. A recorrência dessa estrutura
aponta uma forma fixa que, no nível semântico, apresenta certo
estilo dos autores envolvidos no processo de construção do texto.
Assim, tanto no Novo Testamento quanto no Antigo Testamento,
narrativas que obedecem certo padrão de apresentação podem
ser oriundas de um estilo de redação com a finalidade de comuni-
car algo especificamente aos destinatários desse período.
Claretiano - Centro Universitário
72 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Identificar formas fixas na literatura bíblica, bem como pa-
drões de redação e estruturas recorrentes, é um instrumento me-
todológico relevante para a reconstrução da história do povo de
Israel. Vozes do passado estão presentes tanto nos textos consi-
derados oficiais quanto naqueles caracterizados por linguagem
simples e imagens fantásticas. Esses materiais constituem a subs-
tância daquilo que temos para reconstruir o passado da sociedade
judaico-cristã que, nos termos de Prins, pode ser entendido como
"[...] culturas compostas em que uma linguagem assume tanto for-
mas orais, quanto escritas, para todo o povo ou para uma propor-
ção dele" (PRINS, 1992, p. 169).
A forma fixa no Antigo Testamento
Em 587 a.C., o rei da Babilônia, Nabucodonosor, tomou a
capital do reino de Judá (Jerusalém) e exilou diversos de seus ha-
bitantes; entre eles, sacerdotes, funcionários da corte e artesãos.
Nesse período, além da terra ter sido tomada, o Templo foi des-
truído, e o rei, deposto.
Esse fato foi narrado pela literatura bíblica por meio de dife-
rentes formas:
a) como relato histórico em 2 Reis 25, que destacou o sa-
que ao Templo e a morte de seus líderes (verso 21);
b) na forma de canto fúnebre, cuja ênfase recaiu sobre os
sentimentos de morte que atingiram os habitantes de
Jerusalém (Lamentações 1,17);
c) na forma de oração, registrada no Salmo 137;
d) na forma de profecia, bradada por Ezequiel (34,2) em
tom de crítica;
e) na forma de exortação, proferida por Isaías (40-55).
Observar a forma como cada texto foi transmitido por seus
autores – narrativa, poema, oração e discurso profético – contri-
bui, portanto, para que seu conteúdo seja conhecido e a sua re-
levância compreendida. As formas literárias são forjadas a partir
de intencionalidades e, como tal, possuem propósitos de ressaltar
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 73
emoções experienciadas, atitudes tomadas, críticas e questões in-
teriores aos eventos relatados.
Nesse sentido, "[...] uma crítica textual rigorosa de versões
da mesma tradição abrirá caminho para se chegar a um cerne co-
mum de forma e de palavras" (PRINS, 1992, p. 174).
Veja, por exemplo, um provérbio a respeito do reinado Lozi,
na Zâmbia, escrito em língua luyana e, em seguida, o mesmo con-
teúdo apresentado numa outra língua, denominada silozi, e na for-
ma de canto:
• "Nengo minya malolo wa fulanga mei matanga, mush-
ke ni mu ku onga." ("O hipopótamo [rei] agita as águas
mais profundas do rio; as areias brancas dos locais rasos
o traem.")
• Curandeiro (canto): "Mezi mwa nuk ki tapelo!" ("A água
do rio é uma oração!")
• Curandeiro (canto): "Kubu, mwana lilolo!" ("Pequeno hi-
popótamo, filho do redemoinho!")
• Coro: "Itumukela mwa ngala!" ("Ele emerge do meio do
rio!")
• Curandeiro: "Musheke ni um konga!" ("As areias o
traem!")
• Coro: "Itumukela mwa ngala!" ("Ele emerge do meio do
rio!")
Os extratos mencionados anteriormente constituem duas
variantes do mesmo tema − o reinado: "O exemplo mostra com
clareza como os cristais da expressão permanecem inalterados no
interior de um caleidoscópio de estruturas em mutação, adaptado
a propósitos particulares" (PRINS, 1992, p. 175).
Do mesmo modo, na escrita bíblica, é possível encontrar ras-
tros da tradição oral expressos de diferentes formas, e, em cada
um desses extratos, certa emoção ou determinado aspecto é res-
saltado conforme propósitos específicos das autorias.
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74 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Há certos "cristais" que permanecem inalterados dentro de
cada uma dessas tradições. No relato histórico, no canto fúnebre,
na oração, na profecia ou exortação, as ações do rei babilônico Na-
bucodonosor, ao tomar Jerusalém, exilar alguns de seus habitan-
tes e destruir o Templo, foram retratadas ora com linearidade, ora
com tristeza, ou, ainda, como denúncia ou clamor. Em razão de
certos destaques que as autorias objetivavam conferir ao texto, é
que determinadas características aparecem nos extratos. A esses
traços internos do texto chamamos gênero literário.
O gênero literário
Para Berger (1998, p. 14):
Um gênero literário é um agrupamento de textos de acordo com
diversas características comuns, isto é, não apenas as de natureza
formal. Para construir um gênero, essas características não se acu-
mulam simplesmente, antes se relacionam entre si, obedecendo
a determinada hierarquia. As características, pois, distinguem-se
entre si por determinadas relações recíprocas. Para a definição de
um gênero é decisivo concluir que elemento causa a mais forte im-
pressão no leitor.
A ideia de forma literária é que os textos se apresentam con-
forme molduras de quadros que têm suas especificidades, mas
que guardam alguma semelhança quanto à função que exercem.
O conteúdo das molduras, isto é, as pinturas, difere entre si, pois
revelam-se por meio de diferentes técnicas, pinceladas e traços
específicos do estilo de cada artista; todavia, se pudermos dizer a
que se destinam as pinturas, em geral, para retratar algo. Vejamos,
a seguir, alguns exemplos nas Figuras 1 e 2.
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 75
Figura 1 Tarde de Domingo na Ilha de Grande Jatte, c.1886 – do francês impressionista
Georges Seurat.
Figura 2 Autorretrato com cabelo cortado – da mexicana Frida Kalho.
Embora os artistas tenham usado das telas para expressar
algo, e as molduras sejam semelhantes quanto à forma e à função
que exercem, o conteúdo de cada quadro apresenta especificida-
des marcantes que vão além do que retratam.
A primeira tela (Figura 1) descreve uma paisagem, e a se-
gunda, um autorretrato (Figura 2), até a técnica usada por cada
artista. Cada pintura guarda a impressão de seu autor, sua digital.
Como relata Ginzburg (1991, p. 145): "[...] o conhecedor da arte é
comparável ao detetive que descobre o autor do crime baseado
em indícios imperceptíveis para a maioria". Comparativamente, o
gênero literário é definido pelo conjunto de traços que, integra-
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76 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
dos, conformam a especificidade de um texto. Por exemplo, um
anúncio de imóvel, com especificações objetivas, dificilmente será
confundido com uma poesia.
Veja:
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
GUARUJÁ – R$ 190.000, 2ds.(1st), 1vg., mobília comp., gesso c/ iluminação
planejada, sist. de ar cond. Ap lindo! (11) 5555-7795 c/ proprietário.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Esse tipo de anúncio se inscreve na parte de classificados de
um jornal; além disso, a menção de um valor e a recorrência desse
tipo de texto nos permitem identificar porque há um consenso so-
cial nessa construção de conhecimento, que se trata de um texto
cujo gênero é anúncio de classificados de jornal.
Assim, o que permite a identificação do gênero de um texto
é o seu conjunto de características internas.
Para diferenciar um e outro, devemos saber que:
• A forma literária apresenta o texto do modo como ele
aparece para o leitor-intérprete.
• O gênero literário indica os diferentes modelos de texto
que podem ser identificados.
Desse modo, ao efetuar a leitura e a interpretação de um
texto, torna-se necessário perceber que ele pode apresentar-se
segundo uma forma e um único gênero, mas, igualmente, um tex-
to pode internamente apresentar-se conforme diferentes gêneros.
Para exemplificar essa última assertiva, observe o Salmo 22:
1 Do mestre de canto. Sobre "A corça da manhã". Salmo. de Davi.
2 Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? Apesar de meus
gritos, minha prece não te alcança!
3 De dia eu grito, meu Deus, e não me respondes. Grito de noite, e
não fazes caso de mim!
4 E tu habitas no santuário, onde Israel te louva!
5 Nossos antepassados confiavam em ti; confiavam, e tu os salva-
vas;
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 77
6 gritavam a ti, e ficavam livres, confiavam em ti, e não se desapon-
taram.
7 Quanto a mim, eu sou verme, e não homem, riso dos homens e
desprezo do povo.
8 Todos os que me vêem zombam de mim, abrem a boca e balan-
çam a cabeça:
9 Ele recorreu a Iahweh... Pois que Iahweh o salve! Que o liberte, se
é que o ama de fato!
10 És tu quem me tirou do ventre e me confiou aos peitos da minha
mãe.
11 Fui entregue a ti desde o nascimento, desde o ventre materno
tu és o meu Deus.
12 Não fiques longe de mim, que a angústia está perto, e não há
ninguém para me socorrer.
13 Cercam-me touros numerosos, touros fortes de Basã me ro-
deiam.
14 Contra mim escancaram a boca os leões que dilaceram e rugem.
15 Estou como água derramada, e meus ossos todos se desconjun-
tam. Meu coração está como cera, derretendo-se dentro de mim.
16 Minha força secou como argila, e minha língua colou-se ao ma-
xilar. Tu me colocas na poeira da morte.
17 Cães numerosos me rodeiam, e um bando de malfeitores me
envolve, furando minhas mãos e meus pés.
18 Posso contar todos os meus ossos.
As pessoas me observam e me encaram,
19 entre si repartem minhas vestes, e sorteiam a minha túnica.
20 Tu, porém, Iahweh, não fiques longe! Força minha, vem socor-
rer-me depressa!
21 Salva meu pescoço da espada, e a minha pessoa, das patas do
cão!
22 Arranca-me da goela do leão, faze-me triunfar dos chifres do
búfalo!
23 Vou contar tua fama aos meus irmãos, vou louvar-te no meio da
assembléia:
24 Vocês que temem a Iahweh, louvem a Iahweh! Glorifique-o,
descendência toda de Jacó! Tema-o, descendência toda de Israel!
25 Sim, porque ele não desprezou, não desdenhou a desgraça do
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78 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
pobre, nem lhe ocultou a sua face: quando gritou por socorro, ele
o escutou.
26 De ti vem o meu louvor na grande assembléia. Cumprirei meus
votos na presença dos que o temem.
27 Os pobres comerão e ficarão saciados, louvarão a Iahweh aque-
les que o buscam: "Que o coração de vocês viva para sempre!"
28 Todos os confins da terra se lembrarão, e voltarão para Iahweh.
Todas as famílias das nações se prostrarão na presença dele.
29 Pois a realeza pertence a Iahweh, é ele quem governa as nações.
30 Diante dele se prostrarão as cinzas da tumba, diante dele se cur-
varão os que descem ao pó.
31 Iahweh me fará viver para ele, minha descendência o servirá,
falará do Senhor para a geração futura,
32 contará a justiça dele ao povo que vai nascer: tudo o que o Se-
nhor realizou! (BÍBLIA, 1990).
Quanto ao texto antes mencionado, a sua forma correspon-
de a de um salmo; todavia, os versos estão distribuídos segundo
três gêneros, são eles: lamentação (v. 2-19), súplica (v. 20-22) e
promessa (v. 23-30). Cada um desses gêneros registra determina-
dos sentimentos, cujas intencionalidades também são distintas.
Tal compreensão esclarece a leitura, favorece sua compreensão e
coopera para o desvelamento de seu sentido, isto é, sua mensa-
gem.
7. OS GÊNEROS MAIORES NA BÍBLIA
A classificação dos gêneros literários na Bíblia nem sempre
é fácil. É comum que alguns textos não possam ser classificados
conforme os padrões brevemente aqui apresentados. Entretanto,
a classificação proposta representa um instrumento metodológico
para subsidiar a análise e a compreensão da literatura bíblica.
A seguir, no Quadro 2, transcrevemos os maiores gêneros
constantes na Bíblia proposta no livro Palavra de Deus, palavra da
gente: as formas literárias na Bíblia.
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 79
Quadro 2 Gêneros da Bíblia
GÊNERO CARACTERÍSTICAS INTENÇÃO
Narração de fatos do passado.
Compilação de dados sobre a
trajetória do povo de Deus. Interpretar os fatos do
História
Análise da situação política. presente.
Mitos e lendas das origens do povo
de Deus.
Denúncia de injustiças.
Chamado à conversão dos
Profecia Comunicação da palavra divina.
indivíduos e da sociedade.
Anúncio de promessa ou castigo.
Narra a transformação da história,
ou o fim dos impérios e outras Protesto e resistência contra
Apocalipse instituições humanas. os poderes humanos.
Narra visões, sonhos e audições.
Coleção de normas de conduta, Organização do povo de Deus.
Lei mandamentos, proibições e outros
tipos de regras. Chamado à justiça.
Coleção de poemas, hinos, súplicas e Comunicação afetiva entre
Salmos
cânticos. Deus e o povo.
Coleção de ditos, provérbios,
Sabedoria parábolas, conselhos, poemas, Iluminação para o cotidiano.
reflexões.
Narrativas sobre Jesus e seus Atualização da boa notícia do
discípulos. Reino de Deus.
Evangelho
Coleção de ditos, parábolas e Chamado ao seguimento de
ensinamentos de Jesus. Jesus.
Cartas Conselhos práticos, repreensões,
Orientações práticas para a
recomendações, ensinamentos,
(Epístolas) vida comunitária.
admoestações e exortações.
Fonte: Rodrigues (2004, p. 89).
Além desses, outros gêneros podem ser identificados no
conjunto literário bíblico: fábulas, narrativas familiares, novelas,
alegorias, etiologias, mitos, cosmogonias, teofanias, parábolas, sá-
tiras, leis de pureza, listas de vícios e de virtudes, sonhos, visões
apocalípticas, viagens celestiais, batalha escatológica e outros.
Claretiano - Centro Universitário
80 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Tantos gêneros expressam a diversidade da literatura bíblica
e o esforço de seus escritores e escritoras na formulação e na reda-
ção das memórias e das tradições de Israel. Esse empreendimen-
to literário teve início com a escrita do primeiro bloco da Bíblia,
conhecido como Antigo Testamento, que passaremos a estudar a
seguir.
8. Visão geral sobre o Antigo Testamento
O Antigo Testamento representa um rico conjunto de textos
sobre a história, a cultura, a religião e a organização social do povo
hebreu. Na Antiguidade, os âmbitos social, econômico e religioso
não se separavam, e, de modo geral, a vida social e econômica dos
grupos era regulada ou mantinha estreita relação com a religião.
Nesse sentido, as tradições religiosas com suas devoções, as festas
e os costumes praticados pelos fiéis tinham certa continuidade no
cotidiano das pessoas, a qual se nota, por exemplo, no cultivo de
certos alimentos, na criação de certos rebanhos de animais, no
comércio, na forma de vestir-se, no casamento, na relação com
as nações vizinhas e no estabelecimento de alianças políticas. Em
cada uma dessas áreas, a religião exercia grande influência, às ve-
zes, determinante.
Os livros que constituem o Antigo Testamento apresentam
evidências dessas relações sociais, econômicas e culturais, que,
como pudemos verificar anteriormente, foram expressas de di-
ferentes formas pela literatura. Contudo, doravante vamos nos
concentrar em outros aspectos dessa literatura, principalmente os
históricos e os sociais.
A observação e a análise do Pentateuco e dos livros de ca-
ráter histórico conduzem o leitor-intérprete moderno ao conheci-
mento da lei que regulava o comportamento religioso, mas tam-
bém social dos judeus. Portanto, o judaísmo, além de religião,
representava uma ideologia, no sentido de um conjunto de ideias
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 81
que pretendia pautar ações práticas e relações materiais historica-
mente: "Lei de Deus, que é a lei do rei" (Esd 7,26).
Entre os historiadores, há o emprego de diferentes desig-
nações para a identidade religiosa do povo judeu: (1) judaísmo é
a forma usada a partir de 586 a.C., após a ruína do templo e o
cativeiro da Babilônia; (2) antes desse período, costuma-se dizer
religião de Israel. Apesar das divisões assinaladas, não se deve per-
der de vista a continuidade que existe entre todas essas etapas da
história do povo. Sobre o assunto, confira Marcel Simon, na obra
Judaísmo e cristianismo antigo: de Antíoco Epifânio a Constantino.
Desse modo, o Gênesis, entendido como mito, representa
uma cosmologia, um conhecimento acerca do mundo e da hu-
manidade que organizava o sentido da vida das pessoas que nele
criam. O Êxodo, como um relato histórico da saída do povo he-
breu do Egito, representa uma memória que funda uma noção de
identidade nacional, de povo. Levítico, para além de um rolo de
leis religiosas, determinaria a conduta das pessoas em sociedade,
concedendo noções de certo e errado, de bem e mal, de legal e
ilegal etc.; portanto, um documento referente ao direito sagrado.
Cada um dos livros do Antigo Testamento apresenta infor-
mações que subsidiam a reconstrução do que teria sido a vida so-
cial e religiosa dos judeus na Antiguidade.
Pentateuco e história
Observe, no Quadro 3, o cânon do Antigo Testamento na Bí-
blia Hebraica e na Septuaginta.
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82 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Quadro 3 O cânon do Antigo Testamento na Bíblia Hebraica e na
Septuaginta.
BÍBLIA HEBRAICA (BH) SEPTUAGINTA (LXX)
1. Torah (Lei): Gn, Ex, Lv, Nm, Dt. 1. Pentateuco: Gn, Ex, Lv, Nm, Dt.
2. N biîm (Nebiin) (Profetas):
e
2. Históricos: Js, Jz, Rt, 1Sm, 2Sm, 1Rs,
a) Anteriores: Js, Jz, 1Sm, 2Sm, 1Rs, 2Rs;
2Rs, 1Cr, 2Cr, Esd, Ne, Tb, Jt, Est, 1Mc,
b) Posteriores: Is, Jr, Ez, Os, Jl, Am, Ab, 2Mc.
Jn, Mq, Na, Hab, Sf, Ag, Zc, Ml.
3. Ketubîm (Escritos): Sl, Jó, Pr, Rt, Ct, Ecl, 3 Sapienciais/didáticos e poéticos: Jó, Sl,
Lm, Est (Hbr.), Dn, Esd, Ne, 1Cr, 2Cr. Pr, Ecl, Ct, Sb, Eclo.
4. Proféticos:
4. Deuterocanônicos: Est (grego), Jt, Tb, a) Profetas maiores: Is, Jr (Lm, Br), Ez,
1Mc, 2Mc, Sb, Eclo (Sir) {+ Br, Carta de Dn;
Jr}.
b) Profetas menores: Os, Jl, Am, Ab, Jn,
Mq, Na, Hab, Sf, Ag, Zc, Ml.
O termo hebraico "Torah" significa "lei", "instrução" ou "en-
sino". Portanto, designa a coleção de cinco livros chamada "Lei"
pelos judeus (cf. Esd 7, 6 e 12). Na perspectiva gentílica, os pri-
meiros cinco livros do Antigo Testamento foram designados pelo
nome Pentateuco, do grego "pentateuchos biblos", que significa
"livro de cinco volumes ou partes". Esse nome foi identificado,
pela primeira vez, nos escritos do historiador judeu Fílon de Ale-
xandria, no século 1º d.C.
A Torah ou Pentateuco constitui o primeiro núcleo dos es-
critos do Antigo Testamento. Ele apresenta o mesmo conteúdo da
Bíblia Hebraica (BH) e da Septuaginta (LXX). A partir desse núcleo,
desenvolveram-se os conjuntos seguintes: proféticos, escritos e
deuteronômios.
Os nomes dos livros que compõem esse bloco correspon-
dem às primeiras palavras hebraicas de cada texto, que, traduzi-
das, são:
a) Gênesis − "No princípio";
b) Êxodo − "Estes são os nomes";
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 83
c) Levítico − "E ele chamou";
d) Números − "E ele falou";
e) Deuteronômio − "Estas são as palavras".
Há estudiosos que consideram ser mais adequada uma
unidade literária formada por seis livros, a qual inclua o livro de
Josué. Assim, sugere o Hexateuco. Outros consideram mais ade-
quado agrupar somente os primeiros quatro livros, formando o
Tetrateuco. Desse modo, a unidade seguinte seria a obra histórica
deuteronomista, composta pelos livros Deuteronômio, Josué, Juí-
zes, Samuel e Reis.
De modo geral, os pesquisadores consentem que esses livros
foram formados por meio de conjuntos de literatura que contém
unidades de narração, estilo, perspectiva e continuidade histórica.
Assim, a separação na forma do Pentateuco teria surgido da neces-
sidade específica de guardá-lo em rolos de pergaminhos.
Os Profetas Anteriores da BH foram reunidos como livros his-
tóricos pela versão LXX. A lista dos Profetas Posteriores da BH equi-
vale aos Proféticos da LXX; já os Outros Escritos da BH estão entre
os históricos e os sapienciais da LXX. Conforme o Quadro 3 antes
mencionado, os três primeiros conjuntos de textos que formam
a BH são: a Torah, Nebiim (os Profetas) e Ketubîm (os Escritos).
No hebraico, as iniciais de cada conjunto formam TNK. Como se
sabe, a língua hebraica não conta com vogais, mas, para facilitar a
pronúncia dessa palavra, esse conjunto de três blocos foi chamado
TaNaK. Por fim, os sete livros restantes encontrados na LXX foram
chamados deuterocanônicos, tendo em vista seu caráter normati-
vo. Por esse nome, entende-se "segundo cânon".
O cânon da Bíblia entre os cristãos está dividido em quatro
blocos:
a) Pentateuco;
b) Livros Históricos;
c) Livros Sapienciais;
d) Profetas.
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84 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Entretanto, a opção dos cristãos protestantes em seguir o
cânon da BH diferencia-o do cânon católico pela ausência de al-
guns livros que, segundo a perspectiva dos primeiros, não seriam
inspirados, como pode ser visto no Quadro 4 a seguir.
Quadro 4 Diferenças entre Cânon Cristão Católico e Cânon Cristão
Protestante
CÂNON CRISTÃO CATÓLICO CÂNON CRISTÃO PROTESTANTE
PENTATEUCO PENTATEUCO
Gênesis Gênesis
Êxodo Êxodo
Levítico Levítico
Números Números
Deuteronômio Deuteronômio
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LIVROS HISTÓRICOS LIVROS HISTÓRICOS
Josué Josué
Juízes Juízes
Rute Rute
1º Samuel 1º Samuel
2º Samuel 2º Samuel
1º Reis 1º Reis
2º Reis 2º Reis
1º Crônicas 1º Crônicas
2º Crônicas 2º Crônicas
Esdras Esdras
Neemias Neemias
Tobias -----------
Judite -----------
Ester Ester
1º Macabeus -----------
2º Macabeus -----------
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86 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
LIVROS SAPIENCIAIS LIVROS SAPIENCIAIS
Jó Jó
Salmos Salmos
Provérbios Provérbios
Eclesiastes Eclesiastes
Cântico dos Cânticos Cântico dos Cânticos
Sabedoria -----------
Eclesiástico -----------
PROFETAS PROFETAS
Isaías Isaías
Jeremias Jeremias
Lamentações Lamentações
Baruc -----------
Ezequiel Ezequiel
Daniel Daniel
Oseias Oseias
Joel Joel
Amós Amós
Abdias Obadias
Jonas Jonas
Miqueias Miqueias
Naum Naum
Habacuc Habacuque
Sofonias Sofonias
Ageu Ageu
Zacarias Zacarias
Malaquias Malaquias
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 87
Os textos mais antigos do Antigo Testamento correspondem
a Gn 12-50, 1Cr 1-2 e Ex 1-18.
Os históricos
Conforme a LXX, durante os períodos da realeza, profecia e
selêucida, produziram-se os livros referentes à:
• Escola Deuteronomista: Josué, Juízes, 1 Samuel, 2 Sa-
muel, 1 Reis e 2 Reis. Livros históricos que, segundo a tra-
dição, foram escritos pelos profetas Josué (livro de Josué),
Samuel (livros de Juízes, 1 Samuel e 2 Samuel) e Jeremias
(livros de 1 Reis e 2 Reis). Aproximadamente, 400 a.C.
• Escola Cronista (Levítica): 1 Crônicas, 2 Crônicas, Esdras
e Neemias. Obra pós-exílica. Após o fim da monarquia,
o governo do povo foi atribuído aos sacerdotes e levitas,
mesmo no exílio babilônico e no retorno à Palestina. A re-
construção do Templo eleva-o a símbolo nacional. Aproxi-
madamente, 300 a.C.
No cânon protestante, os livros de Ester e Daniel guardam
diferenças em relação à versão católica. Visto que partes desses
livros foram escritas em hebraico e partes em grego, ao seguir o
cânon judeu, os protestantes prescindiram dos trechos em grego.
As Bíblias católicas apresentam o texto grego por meio de uma
numeração dupla para os versos.
Os livros dos Macabeus foram assim chamados por causa do
nome Maccabaeus, que significa "martelo" e era o apelido de Ju-
das, importante chefe da revolta dos judeus contra Antíoco IV.
Dois fatos essenciais assinalam a história do judaísmo:
• A composição do livro de Daniel em torno de 165 a.C.,
que o torna o mais recente dos escritos acolhidos no câ-
non da BH.
• Uma aguda crise representada pelo confronto entre as
forças religiosas de Israel e do helenismo. Crise que resul-
tou na revolta dos Macabeus.
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88 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Achando-se sob o domínio dos selêucidas da Síria, Israel foi
submetido à política de helenização de Antíoco Epifânio IV (175-
164). Antíoco impôs o culto a Zeus, proibindo os sacrifícios do cul-
to judeu, os ritos tradicionais, a circuncisão e a observância da Lei;
perseguiu e massacrou aqueles que fossem achados no cumpri-
mento dessas práticas cúlticas.
Antes desse episódio radical, o helenismo contava com o
apoio de alguns judeus, sobretudo da parte aristocrática: "Alguns
dentre o povo se apressaram a procurar o rei, que lhes deu auto-
rização para observar os costumes pagãos... e eles renegaram a
santa aliança, associando-se aos pagãos" (1Mac 1,13-15).
A renúncia dos costumes e do culto ao único Deus signifi-
cava a apostasia. Nesse sentido, a política de Antíoco IV procurou
apropriar-se desses processos de divisão do povo para estabelecer
o culto a Zeus no lugar de Iahweh.
[...] seu efeito foi um assomo de fervor religioso e, ao mesmo tem-
po, de orgulho nacional. Contra os helenizantes [...] os hasidim (os
piedosos) ergueram o estandarte da revolta com o apoio das mas-
sas populares. A rebelião começou na pequena cidade de Modin,
por iniciativa do sacerdote Matatias (167). Morto este, seu filho
Judas, dito Macabeu (o significado do epíteto talvez seja "martela-
dor"), assumiu a chefia da insurreição. Durante cerca de um século,
numa Palestina de novo praticamente independente sob a susera-
nia muito teórica dos reis de Antioquia, seus descendentes conse-
guiram manter-se no poder, formando a dinastia real e sacerdotal
dos macabeus, também chamada dinastia dos asmoneus, do nome
de Asmon, avô de Matatias (SIMON, 1987, p. 52).
A obra pode ter sido redigida no ano 134 a.C., com o objetivo
de narrar acontecimentos dos anos 200 e 140 a.C. Enquanto o livro
de 1º Macabeus relata os acontecimentos relacionados à revolta,
o 2º repete alguns desses conteúdos. Outros temas conhecidos
nesses livros são: a Festa da Dedicação e o tema da vida após a
morte. Em suma, pode-se afirmar que os motivos que conduziram
à revolta foram:
• Empobrecimento do povo;
• intromissão do Estado no direito sagrado;
• escravidão helenista (2Mac 8,8-11).
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 89
Os sapienciais
Os livros sapienciais são sete:
a) Jó;
b) Salmos;
c) Provérbios;
d) Eclesiastes ou Qohelet;
e) Cântico dos Cânticos;
f) Sabedoria;
g) Eclesiástico ou Sirácida.
Além desses livros de sabedoria, outros livros foram escritos
nesse período, porém, com estilos e gêneros literários diferentes.
Ex.: Judite, Éster, Rute, Jonas e Tobias.
Os escritos sapienciais têm como característica principal a
idealização da vida em sociedade com base na justiça. Eles pro-
põem uma espécie de ética para a condução da vida que resultaria
numa sociedade mais igual. Esses escritos fornecem, ainda, indí-
cios da situação de empobrecimento dos judeus como resultado
do período de dominação persa. Sua redação final foi, provavel-
mente, realizada por volta dos ano 450 a.C.
A despeito de os líderes religiosos de Israel objetivarem fron-
teiras étnicas e culturais bem definidas, isto é, não desejavam as
influências de outras culturas e sistemas religiosos em sua história,
Lei e Profecia, os livros sapienciais fornecem indícios de que essas
fronteiras não puderam ser totalmente preservadas.
Há muitos trechos e até um livro inteiro (Cântico dos Cânticos) que
não fala de Deus; [...] Às vezes não é possível identificar se o livro
é israelita ou pagão. No livro de Provérbios, por exemplo, os estu-
diosos descobriram todo um trecho igual à sabedoria do Egito (Pr
22,17-23,11). O mesmo livro recolhe palavras de Agur (Pr 30,1-14)
e de Lemuel (Pr 31,19), dois pagãos de Massa (Pr 30,1-14), uma
tribo do norte da Arábia (Gn 25,14).
[...] Jó, não é israelita. Ele vem da terra de Hus na Arábia (Jó 1.1)
(CONFERÊNCIA DOS RELIGIOSOS DO BRASIL, 1993, p. 14).
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90 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
A apropriação da sabedoria de outros povos nos permite
perceber a aproximação entre povos do Mediterrâneo Antigo e
suas culturas. A literatura de sapiência do povo judeu possui con-
vergências de pensamento e linguagem que refletem extratos do
imaginário das civilizações circunvizinhas, especialmente do Egito.
Alguns textos são classificados como de sabedoria prática, isto é,
voltada para o cotidiano da comunidade; tratam-se de manuais de
conselhos antigos como Os ensinos de Ptah-Hotep, do Egito, cerca
de 2450 a.C.
Outro importante documento composto por uma coleção de
aforismos registrados no início do 2º milênio a.C. e descoberto nas
proximidades da Babilônia são os Provérbios Sumerianos, edita-
dos em 1959 por E. I. Gordon.
Grande parte desses aforismos observa mais do que morali-
za. Eles satirizam o jactancioso ou o preguiçoso, os oficiais do pa-
lácio, os sacerdotes e outros. São aforismos que fixam, às vezes,
as lições da experiência, falando de forma mais profunda e simbó-
lica. Uma forma mais grave presente em vários tipos de literatura
mesopotâmica. As palavras de Ahikar é uma coletânea desse tipo.
Trata-se de uma coletânea produzida por um sábio assírio do sé-
culo 7º a. C que contém ditados que se aproximam dos provérbios
bíblicos quanto ao estilo e ao conteúdo.
No Antigo Testamento, apesar do zelo pelos costumes e tra-
dições e da preservação da pureza espiritual de Israel, os profetas
reconhecem a grandeza da sabedoria dos povos vizinhos, confor-
me textos como 1Re 4,30 e Is 19,11-12. Nesses extratos, os auto-
res mencionam a sabedoria do mundo antigo representada pelos
sábios do Egito. Além desses, sábios de Edom, Arábia, Babilônia
e Fenícia também são citados em textos bíblicos (Jr 49,7; Ab 8; Jó
1,3; Is 47,10; Dn 1,4; Ez 28,3ss; Zc 9,2).
O intercâmbio sociopolítico desenvolvido em função dos
conflitos políticos, das conquistas e intervenções entre essas civi-
lizações do Mediterrâneo Antigo proporcionou o que a Antropolo-
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 91
gia Cultural denomina processo de apropriação e ressignificação
de culturas ou de elementos da cultura. Outra disciplina, a História
das Religiões Comparada, propõe que existem estruturas simbó-
licas convergentes no mundo antigo que podem ser notadas por
meio de imagens, símbolos e elementos culturais que se repetem
em diferentes grupos sociais. A sabedoria, além de gênero literá-
rio, seria uma expressão de conhecimento e de cultura recorrente
em diferentes grupos sociais do Mediterrâneo que espelha o mun-
do social de seus agentes, bem como aspectos de sua identidade.
Profetas
Terminologia do Antigo Testamento para profeta
O Antigo Testamento apresenta uma multiplicidade de pala-
vras para descrever o fenômeno profético no Antigo Israel. Tama-
nha diversidade permite-nos entrever que se trata de um fenôme-
no, o que dificulta uma classificação. Todavia, três são as principais
designações para profeta:
• A palavra mais empregada para designar profeta é "nabi",
encontrada cerca de 315 vezes no Antigo Testamento e
115 na forma de verbo correspondente. Esse uso pode
ser identificado em Dt 18,18.
• Outro termo usado é "vidente", "roeh" (1Sam 9,9), tam-
bém traduzido por "hozeh", que é "visionário", conforme
2Sam 24,11.
• Por fim, "homem de Deus", "ish elohim", também se refe-
re a "profeta", conforme 1Re 13,1.
O período relativo ao estabelecimento da monarquia até
a queda de Jerusalém, em 587 a.C., pode ser tratado a partir da
perspectiva dos profetas.
O conjunto constituído pelos profetas é formado por 18 es-
critos cronologicamente, são eles:
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92 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
• Isaías, Oseias, Amós e Miqueias (profetas do século 8º
a.C.); Naum, Habacuque e Sofonias, no pré-exílio.
• 2º Isaías, Jeremias, Baruc, Ezequiel e Abdias, no exílio.
• 3º Isaías, Daniel, Joel, Jonas, Ageu, Zacarias e Malaquias,
no pós-exílio.
Os livros dos profetas também representam uma variada co-
leção de escritos reunidos durante um longo período. De modo
geral, a mensagem dos profetas buscava a preservação dos limites
da nação israelita, da sua cultura e religião e defendia-a da conta-
minação proveniente do contato com outros povos. Isso deve ser
entendido à luz da tensão entre particularismo e universalismo,
típicos da época e presentes nas mensagens proféticas. Enquanto
alguns zelavam pela unidade de Israel, outros anunciavam o dia
em que os pagãos se voltariam para o Deus de Israel.
Nesse sentido, a mensagem dos profetas tem um conteúdo
escatológico que se explica pelas menções ao juízo de Iahweh so-
bre seus fiéis e ao "dia do Senhor". Mas, diferente da linguagem
apocalíptica, que geralmente faz uso de símbolos e imagens fan-
tásticas para propor sua crítica social, a profecia tem como tra-
ços a denúncia da opressão e a crítica aos governos tiranos que
atuam materialmente na história. Para ilustrar esse ponto, observe
a mensagem de alguns profetas a seguir.
Dentre os profetas do período pré-exílico, Amós destaca-se
pela crítica e denúncias acirradas contra o governo de sua época.
Ele atuou no reino do Norte (Israel), sob o reinado de Jeroboão II
(783-743 a.C.). O livro de Amós relata a seguinte situação:
1) Perversão do direito, da imoralidade, da escravidão dos
devedores e da violação dos direitos dos pobres (Am
2,6-16).
2) Desordem e violência, opressão e rapina (Am 3,9-15).
3) Mulheres dos poderosos oprimindo os fracos (Am 4,1-
3).
4) Religião formal e impenitente (Am 4,4-6).
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 93
5) Justiça esmagada, ódio aos promotores de justiça, im-
posto opressivo, suborno contra o justo (Am 5,7-13).
6) Festas luxuriosas à custa dos pobres (Am 6,1-7).
7) Orgulho, arrogância e prepotência (Am 6,8-14).
8) Comércio exploratório e defraudador (Am 8,4-8).
Oseias atuou ao Norte, entre 752-725 a.C. Sua atuação coin-
cidiu com os últimos anos de reinado de Jeroboão II e o início dos
três anos de cerco a Samaria. Ele se opôs à monarquia com vee-
mência, pois considerava-a equivocada em suas decisões políticas
(Os 9,5). O livro de Oseias relata:
1) Falta de fidelidade e amor, perjúrio, mentira, adultério,
assassinatos, roubo, sangue derramado (Os 4,1-3).
2) Sacerdotes longe de Deus (Os 4,4-10).
3) Culto orgiástico e idólatra, prostituição (Os 4,11-15).
4) Os grandes (reis e sacerdotes) levam o povo à perdição
(Os 5,1-7).
5) Direito esmagado (Os 5,8-12).
6) Guerra siro-efraimita (Os 5,13).
7) Auxílio estrangeiro: aliança Egito e Assíria (Os 7,11ss e
12,2).
Isaías (1-39) atuou em Jerusalém, capital de Judá, entre 740-
701 a.C., durante vários reinados, razão pela qual não se pode si-
tuá-lo apenas no período pré-exílico. Sua profecia coincidiu com a
ascensão de Tiglat-Falasar, rei assírio, num período em que os reis
assírios se preparavam para conquistar os estados siro-palestinen-
ses. Nesse tempo, ocorreu a guerra siro-efraimita, em 734-733 a.C.
(Is 6-9), e Acaz desenvolveu uma política armamentista e de coali-
zão com o Egito e Efraim (Israel). Alguns textos indicam a situação
social do reino nesse período:
1) O culto formal foi condenado; Iahweh é tido como pro-
tetor dos fracos (Is 1,10-17).
2) Concentração de moradia e propriedades (Is 5,8-10).
3) Festas orgiásticas (Is 5,11-17).
4) Iniquidade e mentira (Is 5,18-19).
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94 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
5) Troca-se o bem pelo mal (Is 5,20).
6) Sabedoria humana (Is 5,21).
7) Bebedice, suborno e corrupção da justiça (Is 5,22-24).
8) Leis injustas e opressoras (Is 10,1-4).
9) Profetas e sacerdotes bêbados (Is 28,7-13).
10) Governadores mentirosos e falsos (Is 28,14-22).
11) Armações, ciladas ao juiz, privação do direito do justo (Is
29,15-24).
12) Aliança com o Egito (Is 30-31,1-3).
Em Miqueias, contemporâneo de Isaías e atuante no reino
do Sul, há condenação e crítica a situações semelhantes:
1) Poder dominante iníquo e propriedades roubadas (Mq
2,1-2).
2) Autoridades e magistrados entregues ao mal (Mq 3,1-4;
3,9-11).
3) Comércio fraudado, violência dos ricos e falsidade (Mq
6,9-12).
O livro de Jeremias refere-se ao período em que ele atuou
em Anatote, Jerusalém e Egito, por volta de 627-587 a.C. A profe-
cia, entretanto, ocorreu em três fases distintas:
• No reinado de Josias 639-609 a.C. (Jr 1.6), em que denun-
cia a luxúria, a opressão social e o direito não executado.
• No reinado de Jeoaquim, 608-598 a.C. (Jr 7-20), quando
aparece como inimigo do rei e dos sacerdotes; denuncia a
exploração dos trabalhadores; é torturado e detido.
• No reinado de Sedecias (Zedequias), 597-587 a.C., e, ain-
da, nos reinados de Jeoacaz (609 a.C.) e Joaquim/Jeconias
(598-597a.C.).
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 95
9. abordagens sobre o a "torAh" ou o "penta-
teuco"
Em 1753, o médico francês Jean Astruc sugeriu que Moisés
compilou o Gênesis de dois documentos literários diferentes, e,
nesses documentos, um empregaria o nome divino Iahweh (Jeo-
vá), e o outro, Elohim (Deus). Astruc não questionou a autoria mo-
saica, mas a sua obra impulsionou a crítica literária do Pentateuco
à investigação quanto à autoria dessa unidade.
Considerando os títulos editoriais, o próprio Pentateuco re-
vela-se como obra anônima; contudo, Moisés é o personagem de
maior relevância desse conjunto literário e, segundo a narrativa
bíblica, escreveu "livros" para preservar mandamentos divinos.
De acordo com uma pesquisa mais recente, evidências bíbli-
cas mostram uma longa e complexa história literária do conjunto
de materiais que serviram para a composição do Pentateuco até
a sua forma escrita. Assim, somente algumas perícopes poderiam
ser atribuídas diretamente a Moisés, a partir do próprio Pentateu-
co:
1) O relato da guerra contra Amaleque (Ex 17,14ss).
2) O chamado Livro da "Aliança" (Ex 24,4 e 7).
3) "As palavras da aliança" (Ex 34,27-28).
4) A lista dos acampamentos (Nm 33,2ss).
5) O corpo de leis que serviam de fundamento para o livro
de Deuteronômio e que são explicadas nele (Dt 4,44-
26,19; 27,9-28,68; 31, 9 e 24). Note especialmente em
Deuteronômio 4,5; 27,3, 31,9 e 24-26.
6) O cântico de Moisés (Dt 31,22 e 30).
Na linha de pesquisa que compreende o Pentateuco como
obra de vários autores, existem alguns argumentos interessantes:
• Certos anacronismos, como transposições de datas e des-
crições de épocas posteriores para narrativas de eventos
em períodos anteriores que apontam para autores ou
editores posteriores ao tempo de Moisés; por exemplo:
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96 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
a) pressuposição da existência da monarquia em Israel (Gn
36,31);
b) pressuposição da tomada da terra por Israel (Gn 12,6 e
13,7);
c) designação de Canaã como "terra dos hebreus" (Gn
40,15);
d) o nome da cidade de Dã leva-nos ao tempo de Juízes;
entretanto, não existia anteriormente uma cidade israe-
lita chamada por esse nome (Gn 14,14).
• Relatos duplos a respeito da criação (cf. Gn 1,1-2 e 4a-
-2,4b-25), do dilúvio (cf. 6,19 e 7,2; 7,7 e 7,13; 7,17 e
7,24), da expulsão de Hagar por Abraão (Cf. Gn 16 e 21),
da chamada de Moisés (cf. Ex 3 e 6), da esposa de um
patriarca ser levada para o harém de um rei estrangeiro
(Gn 12 e 20).
Esses agrupamentos de textos, segundo a crítica literária,
demonstram correntes de narrativas, cada qual com característi-
cas distintas quanto ao vocabulário e ao estilo, que apresentam
variação no uso de nomes divinos. Esses estudos resultaram na
chamada Teoria Documentária do Pentateuco.
A Teoria Documentária do Pentateuco surgiu no século 18 e
tem passado por diversas fases. Julius Wellhausen é o nome clás-
sico dessa teoria e publicou suas obras de referência em 1878 e
1883. Esse estudioso se baseou em uma filosofia evolucionária
naturalista da história e da religião de Israel, de acordo com a ten-
dência racionalista típica de seu tempo.
A expressão clássica dessa teoria, que afirma o Pentateuco
como obra bem posterior a Moisés e constituída de quatro docu-
mentos, pode ser resumida da seguinte forma:
a) Documento Javista (J), composto em Judá no século 9º
(cerca de 850 a.C.);
b) Documento Eloísta (E), composto em Israel no século 8º
(cerca de 750 a.C.);
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 97
c) Documento Deuteronomista (D), composto em Judá no
século 7º (cerca de 650 a.C.);
d) Documento Sacerdotal (P), da palavra alemã "priesters-
crift", composto durante o exílio babilônico no século 5º
(cerca de 450 a.C.).
Essa teoria também propôs várias etapas de desenvolvimen-
to na compilação desses documentos. Primeiro, J e E teriam sido
combinados em um só documento (JE), depois da queda de Sama-
ria (721 a.C.). Segundo, D teria sido acrescentado à coleção depois
do exílio babilônico em 586 a.C. (JED). A essa coleção teria sido
acrescentado, posteriormente, o extrato P (400 a.C.), completan-
do o Pentateuco (JEDP).
A partir de 1950, alguns críticos, especialmente da Escandi-
návia, consideraram a teoria inadequada em função de não co-
nhecerem os antigos métodos de composição e transmissão. Esse
grupo insistiu na importância da tradição oral e afirmou que a de-
signação "documento" é uma categoria moderna. Embora as qua-
tro tradições orais possam ser chamadas por siglas, são extratos
paralelos que tinham longa história oral antes de terem se tornado
tradição escrita.
A teoria documentária tem sido criticada tanto por teólogos
conservadores quanto por teólogos liberais, demonstrando, assim,
que ainda não há consenso quanto à autoria do Pentateuco. Con-
tudo, trata-se de uma perspectiva histórica importante dentro do
quadro teórico desenvolvido para a abordagem do Antigo Testa-
mento.
10. QUESTões AUTOAVALIATIVAs
Confira, na sequência, as questões propostas para verificar
seu desempenho no estudo desta unidade:
1) Quais foram as línguas originais dos textos bíblicos?
Claretiano - Centro Universitário
98 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
2) Qual é a relação entre as formas e os gêneros literários e os conteúdos apre-
sentados nos textos bíblicos?
3) Quais são os primeiros livros bíblicos? E quais são as primeiras traduções?
4) O que você entende por processo de compilação dos livros bíblicos e o que
essa compreensão implica para os estudos da Bíblia e do Antigo Testamento
especificamente?
5) Para a abordagem do Antigo Testamento, qual é a importância da aplicação
de instrumentos teóricos e metodológicos de disciplinas como história so-
cial, antropologia cultural e outras?
6) Qual é a relação do Antigo Testamento com a história de Israel? Em especial,
como os textos bíblicos podem contribuir para a compreensão dos contex-
tos socioculturais, políticos e religiosos do Mediterrâneo Antigo?
11. considerações
Para encerrar esta primeira parte de nossos estudos, quere-
mos destacar que a Bíblia é uma biblioteca constituída por 73 livros
que foram elaborados no decorrer de um longo processo histórico.
Nessa unidade, você pôde perceber que a primeira parte da
Bíblia, denominada Antigo Testamento (ou Primeiro Testamento),
possui 46 livros, que apresentam as bases da tradição, da cultura,
da língua e do modo de pensar hebraico. Cada um desses aspectos
indica um importante fator da história de Israel e de seu povo, do
qual surgiram o judaísmo e o cristianismo.
Nesse sentido, o estudo desta unidade faculta a você o en-
tendimento de que a Bíblia e, especialmente, o Antigo Testamento
são produções literárias originárias da experiência humana, do re-
lacionamento com o Deus de Israel, da linguagem, dos costumes,
dos gestos, da religião e das concepções de mundo desses judeus.
Portanto, estudar esse testamento é estudar a memória de um
povo e buscar reconstruir a experiência dessas pessoas na história
tanto do judaísmo antigo quanto da cristandade.
Nas próximas unidades, vamos continuar esse estudo e nos
aprofundaremos ainda mais na história de Israel, por meio do co-
© U2 - Aspectos Literários da Bíblia e a Formação do Antigo Testamento 99
nhecimento dos tipos de governos que lá foram instituídos em di-
ferentes períodos históricos. Do tribalismo, passando pela monar-
quia e enfrentando ocasiões de domínio e escravização por outras
civilizações, o povo judeu manteve uma relação peculiar com a
religião, tornando-a base de sua identidade.
Assim, veremos que a religião expressa na forma de litera-
tura bíblica, mas fundamentalmente vivida numa relação dinâmi-
ca entre o povo e o sagrado, traduz uma forma de ser-no-mundo
constituída de dimensões que vão do simbólico ao econômico e
ao cultural.
12. E-REFERÊNCIAS
Figuras
Figura 1 Tarde de domingo na ilha de Grande Jatte, c.1886 – do francês impressionista
Georges Seurat. Disponível em: <http://www.allposters.com.br/-sp/Tarde-de-Domingo-
na-Ilha-de-Grande-Jatte-c-1886-posters_i1099844_.htm>. Acesso em: 3 fev. 2012.
Figura 2 Autorretrato de cabelo cortado – da mexicana Frida Kalho. Disponível em:
<http://www.artepropria.com.br/ecommerce/detalhe.php?p=1289>. Acesso em: 3 fev.
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Sites pesquisados
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PCB – PONTIFÍCIA COMISSÃO BÍBLICA. A interpretação da Bíblia na igreja (21/09/1993):
EB 1402-1422. Disponível em: <http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/
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Acesso em: 28 abr. 2011.
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13. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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EAD
Antes da Monarquia: o
Período das Tribos
3
1. Objetivos
• Interpretar e analisar elementos da história da formação
de Israel que antecederam o estabelecimento da monar-
quia.
• Compreender e reconhecer que o período das tribos fa-
voreceu o intercâmbio cultural entre israelitas e outras
tradições do Mediterrâneo Antigo.
• Analisar e interpretar que as tribos vinculadas aos nomes
dos chamados patriarcas mantinham relações pautadas
por acordos e, também, por conflitos, em prol de seus in-
teresses de expansão e conquista da terra.
2. Conteúdos
• A configuração social das tribos em linhagens, famílias e
clãs.
102 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
• A divisão e a hierarquia social das famílias. Aspectos cul-
turais e trocas simbólicas que marcaram a religião e a cul-
tura das tribos de Israel.
• O processo de independência.
3. Orientações para o estudo da unidade
Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Ao estudar essa unidade, tenha uma ou mais versões da
Bíblia, a fim de identificar, na fonte, as citações bíblicas
que serão apontadas e comparar os textos. Sugerimos as
traduções: Bíblia de Jerusalém e/ou Bíblia Sagrada, tra-
duzida por João Ferreira de Almeida (versão atualizada).
2) Leia os livros da bibliografia indicada, para que você
amplie seus horizontes teóricos. Coteje com o material
didático e discuta a unidade com seus colegas e com o
tutor; pesquise novas fontes e troque experiências com
estes, pois toda experiência é bem-vinda e ajudará no
aprendizado.
3) Nesta unidade, é importante perceber a estreita relação
entre a vida, os relatos de experiência e a documentação
bíblica que encerra os períodos históricos e políticos pe-
los quais Israel passou. Fica atestado por essa literatura
que as características de cada período incidem sobre a
religiosidade judaica, e, entre um e outro campo, emer-
gem influências mútuas e circulares.
4) A fim de auxiliá-lo no estudo desta unidade, sugerimos
a leitura da obra ABC da Bíblia, de autoria de Alberto
Antoniazzi e outros, da Editora Paulus, datada de 1984.
4. Introdução à Unidade
Na Unidade 1, construímos um quadro de referências obje-
tivo sobre a Bíblia, a respeito de sua importância como fonte de
pesquisa e documento nos âmbitos religioso e acadêmico, e apon-
tamos informações necessárias para o seu estudo.
© U3 - Antes da Monarquia: O Período das Tribos 103
Na Unidade 2, tecemos considerações acerca dos aspectos
internos que a constituem como literatura e que dizem respeito ao
seu processo de redação.
Agora, nesta unidade, prosseguimos com uma apresentação
sobre o Antigo Testamento, considerando seus temas, suas produ-
ções históricas e a relação dessas matérias com o contexto viven-
cial do povo judaico. Aprofundaremos, também, o conhecimento
sobre as dinâmicas políticas e sociais dos judeus e trataremos, es-
pecialmente, o tema da configuração social das tribos de judeus
em linhagens, famílias e clãs, as quais são grupos sociais que po-
dem ser compreendidos como redes sociais a partir das quais se
obtinha orientação para o estabelecimento de modos de vida, seja
na esfera religiosa, econômica, política ou outras.
Para tanto, temas como a divisão e a hierarquia social das
famílias, os aspectos culturais e as trocas simbólicas que marcaram
a religião e a cultura das tribos de Israel serão desenvolvidos na
perspectiva de lançar luz sobre os processos que encaminharam
esse grupo às monarquias.
5. Introdução geral ao tribalismo
Vamos iniciar nossos estudos sobre esse período da história
de Israel pela definição de tribo, tendo em vista que tribalismo é a
organização social das sociedades tribais. Podemos entender que
as tribos são um tipo de divisão de alguns povos; no caso dos ju-
deus, as tribos estão relacionadas a um conjunto de descendentes.
Uma tribo pode ser considerada uma espécie de pequeno
povo. Outrora era entendida por alguns pesquisadores como um
tipo de sociedade rudimentar; hoje consideramos mais certa a
abordagem de tribos como grupos humanos com complexidade
social e simbólica.
Desse modo, consideramos que as tribos descritas no mate-
rial da Bíblia hebraica são grupos sociais, também chamados clãs.
Claretiano - Centro Universitário
104 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Seguindo a abordagem da antropologia social desenvolvida
pelo professor E. E. Evans-Pritchard em sua pesquisa intitulada Os
Nuer (1938), de modo comparativo, podemos dizer que os clãs são
formados por um grupo de pessoas que traçam sua descendência
partindo de um mesmo ancestral, em que matrimônios dentro da
mesma família são proibidos e relações sexuais entre irmãos são
classificadas como incestuosas.
Dentro de um clã pode haver diferentes linhagens e, entre
essas diferentes linhagens, relacionamentos dos seus membros.
Assim, consideramos:
Clã é um sistema de linhagens, e uma linhagem é um segmento
genealógico de um clã. Pode-se falar de todo o clã como uma linha-
gem, porém preferimos falar de linhagens como segmentos dele e
defini-las como tais (PRITCHARD, 2005, p. 201).
Para ilustrar esse ponto, no livro de Levítico, há referências
ao incesto em 18,6-17, 19,29 e 20,14. Nessas ocorrências, a pa-
lavra hebraica para designar incesto é "zimmâ", e ela se refere a
um tipo de relação proibida. Portanto, tratava-se de uma estrutura
genealógica segmentada, também conhecida como linhagem.
Divisão de Israel em tribos
Na história de Israel, houve o período em que o povo se or-
ganizou em tribos e o tempo em que a organização política se deu
na forma de monarquia.
Primeiramente, interessa-nos compreender a forma tribal
de organização. As doze tribos receberam os dez nomes dos filhos
de Jacó, e as duas tribos restantes receberam os nomes dos filhos
de José, que foram adotados por Jacó como seus próprios filhos.
As tribos foram chamadas de Rubem, Simeão, Levi, Judá,
Zebulom, Isaacar, Dã, Gade, Aser, Naftali, Benjamim, Manasses e
Efraim.
É importante notar que nenhum povo é descendente de um
único patriarca ou de uma única família (GUNNEWEG, 2005).
© U3 - Antes da Monarquia: O Período das Tribos 105
A questão da numeração e da nomeação das tribos de Israel
é um tanto complexa. Conforme os pesquisadores modernos, o
número e o nome das tribos podem variar. Para ilustrar esse pon-
to, recorremos a este exemplo: a tribo de Galaad nem sempre tem
sido citada nas listas das tribos de Israel; no entanto, ela consti-
tui um importante grupo que serviu à formação de Israel (cf. Jz 5;
10,6-12, e 7).
Para compreender melhor, vejamos o mapa da distribuição
das tribos:
Figura 1 Divisão das tribos de Israel.
Como vimos, as tribos eram unidades caracterizadas por nú-
cleos familiares que nem sempre desenvolveram relações cordiais,
o que pode ser verificado, posteriormente, com a divisão do reino,
logo após a morte do rei Salomão.
Quando o reino de Israel (norte) foi extinto, as dez tribos de-
sapareceram, e as que restaram (Judá, Benjamim e Levi) formaram
o povo judeu.
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106 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Em Gênesis, os núcleos familiares foram designados pela
expressão "descendência de Abraão" ou "posteridade" em 13,16:
"Tornarei tua posteridade tão numerosa como o pó da terra: se
alguém puder contar os grãos do pó da terra, então poderá contar
a tua posteridade". "Posteridade" ou "descendência de Abraão"
são as possíveis traduções da palavra hebraica z¹ra± ([r:z"), que
pode ser traduzida por "linhagem" ou "semente" (Gn 3,15; 15,5 e
13; 16,10 e outras).
Em Amós 7,16, a expressão utilizada é "casa de Isaac":
"Ouve, pois, agora, a palavra do Senhor: Tu me dizes: Não profeti-
zarás contra Israel, não falarás contra a casa de Isaac".
Outras referências a essas unidades, isto é, grupos familia-
res, podem ser vistas em Gn 24,38: "mas que viria à casa de seu
pai, à sua família, para aí escolher uma mulher para o seu filho", e
em 1Sm 20,29: "Disse-me: deixa-me ir, rogo-te, porque temos na
cidade um sacrifício de família, ao qual meu irmão me convidou.
Se me queres dar um prazer, permite-me que vá rever meus ir-
mãos. Por isso não veio ele à mesa do rei".
Em 1 Samuel, a palavra usada na tradução da Bíblia de Jeru-
salém é "clã", diferente da versão da Bíblia Ave-Maria, que optou
pelo termo "família".
No hebraico, a palavra usada é "mishp¹µâ", que significa tan-
to "clã" quanto "família". A raiz "shipµâ" tem origem no Ugarítico
(língua semítica antiga que, às vezes, significava "família", e outras
vezes, "descendência") e no fenício, "família".
Assim, a tribo israelita era composta de "casas" ("beyt" em
hebraico; "bayit" em árabe; "bitu" em acádio de Mari) ou de famí-
lias ("mishpaha").
Para se referir às doze tribos, encontramos, na Bíblia hebrai-
ca, a expressão "filhos de Israel" ("beney Israel"). Os israelitas tive-
ram contatos com diversos grupos e povos em função do caráter
nômade, das características de constituição e de organização, de
© U3 - Antes da Monarquia: O Período das Tribos 107
alguns conflitos entre tribos israelitas e de diferenças com vizinhos
do Oriente Próximo Antigo (CAZELLES, 1986).
6. Patriarca Abraão e história de Israel
Uma evidência de tais contatos e da troca de experiências
entre esses povos do Mediterrâneo pode ser o próprio nome do
patriarca: Abraão. Especialistas admitem que Abraão imigrou de
Harã para Canaã e talvez tenha ido, primeiramente, de Ur para
Harã.
Por causa do relato de Gênesis em que Abraão passou pelos
santuários de Siquém, Hai e Betel, fixando-se em Bersabeia (Gn
26 com 12,9-20 e 21,22-34), alguns estudiosos ligaram o nome de
Abraão a Abrhn, que, em antigos textos egípcios (século 18 AEC),
era o príncipe de Simeon.
Figura 2 A trajetória de Abraão.
"Ab(i)ram" é um nome mesopotâmico da primeira metade
do 2º milênio. Esse nome evocava o culto ao deus-pai e também
poderia ser traduzido como "o pai ama". Porém, quando migrou
para o Oeste, para a região amorita (posteriormente, Ugarit), o
nome passou a significar "o pai exaltado".
Claretiano - Centro Universitário
108 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
O primeiro deus do panteão Ugarit era Il-abi, que se traduz
pela expressão "deus-pai", algo muito próximo da conhecida ex-
pressão "deus de meu pai", que foi consagrada pela tradição judai-
ca e cristã: "Ao deus de meu pai, Abraão, Isaque e Jacó".
A história política de Israel não teve início apenas com Abrão
(alterado para Abraão); portanto, não se trata de um epônimo (do
grego "epónymos", e quer dizer o que cede seu nome a alguém ou
alguma coisa). Abraão é o nome que, entre todos os antepassados
das famílias israelitas, tem maior destaque.
Desse modo, é mais provável que a origem do nome "Israel"
esteja vinculada ao nome de outro epônimo e à relação autônoma
de correspondência com tribos seminômades do Oriente Próximo
e com os reis de Mari, no século 18 AEC (Jz 1).
As tentativas mais antigas de interpretação, que pensavam em figu-
ras da fantasia popular piedosa, antigas divindades que teriam sido
reduzidas a figuras de heróis ou a epônimos de tribos, estão todas
definitivamente ultrapassadas desde o escrito fundamental sobre
este problema publicado por Albrecht Alt. A divindade denominada
Deus de Abraão, Deus de Isaque e Deus de Jacó é uma divindade
que na história das religiões é denominada "Deus dos pais". O ca-
racterístico dessas divindades é que elas não se vinculam a um de-
terminado lugar ou a um santuário fixo, mas assumem uma relação
pessoal com um grupo de pessoas que as cultua. Por isso, o Deus
dos pais não tem um nome próprio; ele é chamado pelo nome da
pessoa que o cultuou primeiro e fundou seu culto, a quem esse
Deus apareceu primeiro para dar-lhe determinadas promessas.
Correspondentemente, ele se chama "Deus do meu pai", "Deus
do teu pai", ou, em uma fase posterior, "Deus de Abraão", "Deus
de Isaque", "Deus de Jacó", e, finalmente, depois da identificação
dos distintos deuses dos pais, "Deus de Abraão, Isaque e Jacó". O
motivo das promessas de descendência e terra, embora sua forma
literária seja, em grande parte, mais recente, é um motivo antigo e
corresponde aos anseios mais profundos de todo pastor nômade
em situação de transumância. É possível compreender a religião
dos deuses dos pais como a variante nômade ou seminômade do
culto a El, comum a todos os semitas (GUNNEWEG, 2005, p. 46).
Outro aspecto marcante da divisão de Israel em tribos é que
elas guardavam certa autonomia de movimento e não aderiam ao
governo das cidades. Quando as tribos se deslocavam, cada isra-
© U3 - Antes da Monarquia: O Período das Tribos 109
elita seguia com sua própria casa (1Sm 27,3 e 2Sm 2,3): a casa do
pai (beyt’ab).
Fatores que interferiram no modo de vida das tribos
Da mesma forma que os haneus e os benjaminitas de Mari, a
economia e a sobrevivência das tribos israelitas giravam em torno
da criação de gado de pequeno porte e pequenos campos onde
houvesse quantidade razoável de água.
Em regiões como essa, formavam-se pequenas aldeias em
que ficavam mulheres e crianças. À medida que os recursos fica-
vam escassos, as tribos movimentavam-se entre cidades de gru-
pos sedentários, deslocando-se pelos territórios até se fixarem
temporariamente em alguma região (Gn 33,13; 21,25; 26,16-33;
26,12; 34).
A respeito do nomadismo, Albrecht Alt (1883-1956) sugeriu
que a história do Antigo Oriente (Síria e Palestina) possuía um rit-
mo próprio, e que, antes de ser tomada, Canaã já teria sido habita-
da e cultivada. Esse ritmo da história teria relação com o ritmo da
natureza e do clima da Palestina (ALT, 1987).
De acordo com Gunneweg (2005), a Palestina é a terra dos
filisteus, o nome latino que se tornou costumeiro em lugar de "Ju-
deia", para designar a província romana depois das revoltas judai-
cas.
A Palestina e a Síria corresponderiam à ponte entre o conjun-
to constituído pelo Egito e Mesopotâmia e a Ásia Menor. Vejamos:
Claretiano - Centro Universitário
110 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Figura 3 Antigo Oriente.
Essa história seria influenciada, ainda, pelo clima subtropi-
cal. Com um inverno chuvoso e um verão drástico caracterizado
pela seca, o solo de cálcio ressecava com frequência no verão. Com
isso, apenas algumas fontes e córregos persistiam, prejudicando a
vida da vegetação e, principalmente, a vida humana.
A alternância de estação de chuvas e estação de seca torna
flexíveis os limites entre a terra cultivada e a estepe. Na época das
chuvas, nasce também na estepe uma vegetação que oferece ali-
mento aos pastores nômades e seus rebanhos.
Segundo Gunneweg (2005), depois das chuvas tardias, essa
vegetação morre e os pastores são obrigados a realizar a transu-
mância, isto é, a alternância de campos de pastagem, a fim de pro-
© U3 - Antes da Monarquia: O Período das Tribos 111
ver alimento e água para os rebanhos. No entendimento de Alt
(1987), essa movimentação das tribos tinha a ver com determina-
ções climáticas também.
Embora a divisão em tribos seja uma perspectiva bastante
conhecida, para alguns pesquisadores, ela não é histórica, antes
seria uma ficção. Todavia, essa hipótese encontra dificuldade de
ser sustentada, pois não explica o sentido para o qual essa ficção
teria sido criada e não considera a constância dessa tradição na
Bíblia hebraica e no Novo Testamento (GUNNEWEG, 2005).
Aceita-se a tradição das doze tribos nas relações com o Egito,
até por volta de 1180, em que se pode identificar as influências
egípcias sobre as tribos israelitas. Embora algumas lembranças te-
nham sido eclipsadas, as tribos guardaram a memória de terem
combatido contra tropas antes de se chocarem com as cidades
cananeias. Posteriormente, nos séculos 13-12 AEC, a presença se-
mita no Egito ocorreu na 18ª e 19ª dinastias, como cativos, famí-
lias pedindo hospedagem ou como grupos invasores (BENI-HASÃ,
ANASTASI IV).
Consoante Cazelles (1986, p. 87): "Sucedeu a esses semitas
ocupar postos importantes (Abisemu) e talvez contar com um fa-
raó usurpador (Irsu)".
Com o enfraquecimento dos egípcios e dos cananeus, as tri-
bos conquistaram lugares importantes, e, para garantir tais con-
quistas e lutar contra ameaças de invasores, elas forjaram alianças,
com o intento de criar unidade nacional.
Em ocasiões de conflitos e em situações de compartilhamen-
to de terras, as tribos uniam-se por meio de pactos; elas estabele-
ciam tais alianças como laços de parentesco, envolvendo relações
de reciprocidade que garantiam união ofensiva e defensiva contra
reinos mais poderosos (Ex 21,37, 23,4-5, 22,11).
Daí em diante, entre 1230 e 1050, ocorreram muitas bata-
lhas descritas no livro dos Juízes que geraram instabilidade para
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112 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
o povo de Israel. Todavia, é certo que os territórios de cada tribo,
com limites expressos, só foram fixados posteriormente, quando
se estabeleceram as prefeituras reais (CAZELLES, 1986).
Aspectos da cultura
Apesar das diferenças estruturais entre o Israel dividido em
tribos autônomas e o Israel unificado sob a monarquia, ambos os
períodos foram caracterizados pelo intercâmbio de Israel com po-
vos vizinhos.
Embora esses contatos fossem marcados pela tensão, eram
também repletos de trocas simbólicas que não se pode afirmar
terem sido impostas "de cima para baixo", isto é, como imposição
dos impérios dominadores, muitas influências foram assimiladas
no processo comum de vivência das culturas.
As relações com os impérios babilônicos, persas e
greco-romanos, deram-se não só a partir de assimilação passiva
de estruturas e valores simbólicos, mas também por meio de apro-
priação e ressignificação de símbolos (KÖESTER, 2005).
Posteriormente, com a Grécia e a Pérsia, as relações deram-
-se de formas diferentes. A Pérsia constituía um vasto império sob
a administração central do rei, que o controlava por meio de força
militar. A Grécia inicialmente era um país pequeno, constituído por
vários estados democráticos e com relações permeadas de hosti-
lidade.
Ambas as nações, porém, deixaram marcas de sua heran-
ça cultural e religiosa nos movimentos cristãos do século 1º. Dos
contatos estabelecidos entre "invasores", "dominadores" e "domi-
nados" emergiram culturas transformadas e híbridas, pois eram
submetidas ao convívio e à adaptação.
Canclini (1998) considera híbrida a cultura que mescla seus
elementos tradicionais (referentes históricos) com elementos sim-
bólicos e heterogêneos de outras culturas. Pesquisadores apon-
© U3 - Antes da Monarquia: O Período das Tribos 113
tam recorrências simbólicas nas liturgias e nas práticas religiosas
do judaísmo e do império greco-romano. Apesar de não colocar-
mos em questão a presença helenista ou quem seria dependente
de quem, evidências de cultos pagãos na Palestina, como o culto
a Dionísio, indicam a circulação de ideias entre aldeias e povoados
que provavelmente favoreceram a posterior expansão do cristia-
nismo em suas diversas vertentes (SMITH, 1971).
Mais recentemente, outros autores têm reafirmado a exis-
tência de evidências na Bíblia hebraica e na literatura do judaísmo
do Segundo Templo que Israel vivia sob influência da cultura reli-
giosa do Egito, Assíria, Babilônia e Canaã. Israel foi submetido à
tensão dialética que desencadeou trocas simbólicas, acréscimos
e aglutinações de sentidos. Assim, os povos orientais possuíam
diversidade de crenças e rituais mágicos que teriam sido compar-
tilhadas por Israel (FLETCHER-LOUIS, 2002). Todavia, esses rituais,
como os de adivinhação e de necromancia, foram banidos da reli-
giosidade judaica.
De acordo com a Bíblia hebraica, Saul afastou os adivinhos e
necromantes (1Sm 28,9), mas ele mesmo se utilizou dos serviços
de uma. O que implica reconhecer que, na realidade, essa e outras
práticas religiosas, ainda que banidas oficialmente, continuaram a
existir em Israel.
É provável que tais contatos não tenham sido problema para
os israelitas inicialmente, mas, em algum momento da história, a
busca por fronteiras e limites socioculturais que diferenciassem Is-
rael dos povos orientais ao redor passou a ter importância.
Nesse sentido, a crença em Iahweh como Deus único (ape-
sar de ser contestada como construção sociocultural) contribuiu
para o estabelecimento da identidade social e religiosa de Israel
(GUNNEWEG, 2005). A crença num único Deus teria relação com o
sistema das doze tribos e com a pessoa e obra de Moisés.
Com os avanços da crítica da tradição que desmanchou a
moldura narrativa do Pentateuco, reconheceu-se que essas tradi-
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114 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
ções eram originalmente independentes. Mas, em 1930, com Mar-
tin Noth, conjecturou-se que as doze tribos faziam parte de uma
espécie de confederação, à semelhança das antigas anfictionias da
Grécia. Uma das características principais dessa confederação se-
ria, justamente, o caráter religioso-sacro original da confederação.
Desse modo, o contexto histórico mais amplo de Israel for-
nece-nos indícios de que o panorama de trocas simbólicas com
outros grupos do Mediterrâneo Antigo não passou em branco até
a formação do Israel monárquico.
Ao contrário, esse panorama é que atribuiu à lei o caráter
normativo que permanecerá na Bíblia hebraica, no judaísmo do
Segundo Templo e nos movimentos cristãos do século 1º.
Por serem autônomas entre si, as tribos formulavam e vi-
viam segundo tradições diferentes, como é o caso da tribo de Levi
(filhos de Jacó). A linhagem sacerdotal pertencia a essa tribo, a
qual não era herdeira direta da terra prometida, mas foi responsá-
vel pelo desenvolvimento das leis rituais (Dt 10,8-9).
Assim, a lei passou a ser considerada paradigma que impôs
índices para o comportamento religioso e social do povo judaico;
ela reuniu o caráter religioso-simbólico e o caráter de regra social.
Portanto, sua importância estava tanto no âmbito mágico, pois tem
conteúdo religioso que se liga ao sagrado (trata-se nada menos de
uma revelação dada a Moisés), quanto no social, porque era orde-
nadora e possuía caráter legal. Por conseguinte, associava-se ao
âmbito do ordinário.
O termo "anfictionia" é o nome e a autodenominação da confede-
ração cultual – de anfictionia (anti = em torno; ktionia = residen-
tes) – em torno dos santuários de Deméter na região de Pilos e do
templo de Apolo em Delfos. Ali, Anfíction, filho do herói grego do
dilúvio Deucálion, rei da Ática, é tido como o fundador lendário e
epônimo de uma confederação sacra de doze membros. No entan-
to, utilizou-se o termo "anfictionia" também para federações sacras
análogas (GUNNEWEG, 2005, p. 84).
© U3 - Antes da Monarquia: O Período das Tribos 115
Hierarquia e divisão social
Patriarcado
No Israel dividido em tribos, o pai de cada família era o che-
fe, que também poderia ser o avô. O pai era aquele que procriava
e, portanto, também deveria ser aquele com autoridade para co-
mandar.
Em nome da sua família, o pai oferecia sacrifícios pelo cres-
cimento da casa, era o responsável pela tosquia das ovelhas, pela
circuncisão dos filhos, negociava os casamentos dos filhos e das
filhas, fazia votos e concedia bênçãos.
Ao morrer, toda a sua parentela se reunia para prestar as
homenagens fúnebres, e o seu irmão (o tio paterno) passava a
representá-lo. Na falta do irmão, o parente mais próximo deveria
assumir as responsabilidades de vingador do sangue, negociante,
herdeiro e esposo da mulher do falecido. De todo modo, as res-
ponsabilidades de liderança sempre eram atribuídas aos homens,
configuração social tipicamente patriarcal (Nm 20,27-29; Dt 34,8-
9).
Casamento e condição da mulher
As variações de costumes entre as tribos eram constantes.
Costumes relacionados aos casamentos, por exemplo, variavam
muito. Em alguns casos, a mulher desposada passava a morar na
casa do esposo e havia o costume de se tomar a esposa de famílias
próximas, o que alguns consideram uma indicação de exogamia
(exo = para fora; gamia = casamento − refere-se aos casamentos
realizados entre pessoas de famílias, linhagens ou clãs diferentes).
Já o termo endogamia (endo = dentro; gamia = casamento) se re-
fere aos casamentos entre membros de um mesmo grupo social,
seja família, linhagem ou clã.
Mas outras referências mostram que, também, uma meio-
-irmã paterna poderia ser tomada (Gn 20,12), algo parecido com
o que acontecia entre árabes de Moab, quando o primo detinha
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116 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
direito privilegiado sobre a prima. Todavia, nem sempre ocorria
dessa forma (CAZELLES, 1986).
Por causa dessa variação de costumes, posteriormente, a
tradição do Levítico teria se estabelecido como lei de pureza para
Israel, como forma de unificá-lo sob um mesmo código religioso e
social. As prescrições sobre casamento no Levítico foram relacio-
nadas no capítulo 18.
Nas tribos de Israel, os papéis e as funções sociais eram de-
marcados segundo a condição de homem e de mulher. Aos primei-
ros cabiam o trabalho, o sustento da casa e as decisões importan-
tes.
As mulheres eram responsáveis pela educação dos filhos até
certa altura da vida, pelas tarefas da casa e pela reprodução da
linhagem. Isso configura uma divisão social e hierárquica segundo
um esquema patriarcal, que era uma projeção do próprio sistema
religioso em formação.
7. TRIBOS E OS AGRUPAMENTOS
Como sabemos, uma só tribo pode compreender várias "ca-
sas" ou "famílias" que descendiam de um mesmo antepassado,
seja por sangue ou por acordo. Da mesma forma, isso acontecia
com os agrupamentos das tribos.
As tribos, quando vizinhas, nômades ou seminômades, po-
deriam se unir por meio de um acordo. Assim, criavam-se laços de
parentesco que não necessariamente eram dados pela consangui-
nidade. Tratava-se de uma aliança chamada Ben-’ameh (ou seja, o
grupo se considerava "filhos do tio" um do outro, que significava
ter um antepassado em comum).
O liame de Ben-’ameh é sólido e não pode ser rompido por um
assassínio ou roubo. O roubo de um carneiro deverá ser reparado
ao quádruplo (Ex 21,37). Um animal perdido e reencontrado por
um Ben-’ameh deverá ser restituído sem indenização (Ex 23,4-5).
Um animal roubado e "reconhecido" em posse de um Ben-’ameh
será recuperado contra indenização (Ex 22,11). [...] esse parentes-
© U3 - Antes da Monarquia: O Período das Tribos 117
co fictício cria, entre as tribos, uma verdadeira aliança ofensiva e
defensiva. É muito provável que certas tribos israelitas, tais como
as tribos vizinhas de Dã e de Neftali ou as de Manassés e de Efraim,
possam ter se unido desta forma, seja para defender-se contra o
poderoso reino de Hasor, seja para poder penetrar em Canaã (CA-
ZELLES, 1986, p. 79).
Essa forma de união entre tribos que chamamos acordo e
que estabelecia laços fictícios de parentesco também poderia ser
chamada ficção jurídica.
Adoção
A adoção é um outro processo de união. Como verificamos
no caso de Manassés: "José viu os filhos de Efraim até a terceira
geração, e também os filhos de Maquir, filho de Manassés, nas-
cidos sobre os joelhos de José" (Gn 50,23). A expressão "nascer
sobre os joelhos" de alguém equivale a ser adotado. Isso também
aparece no caso de Raquel em relação aos filhos de Bala (Gn 30,3)
e no caso de Jacó em relação a dois filhos de José (Gn 48,12).
A adoção era muito praticada pelos hurritas de Nuzi, a Leste
do Eufrates, "onde os compradores se devem fazer adotar pelos
vendedores", mas esse não teria sido o único vestígio da cultura
hurrita na tradição patriarca dos israelitas: as origens tríplices da
"narração segundo a qual Abraão e Isaac apresentam sua esposa
como sendo sua irmã, recorrendo ao costume hurrita que reforça
o estatuto de esposa, conferindo-lhe o estatuto de irmã". Nesse
sentido, a investigação das culturas vizinhas, como a dos hurritas,
propicia esclarecimentos sobre algumas tradições das tribos que,
posteriormente, já pareceriam estranhas aos redatores do Gênesis
(CAZELLES, 1986).
A marca dos hurritas entre os israelitas deu-se por causa do
domínio egípcio; eles formaram um dos nomes de Canaã desde o
começo do século 15 AEC. Sob o domínio egípcio, estavam nomes
semitas, hurritas e indo-europeus. Assim como o rei de Jerusalém
foi hurrita, provavelmente, no tempo de Davi, Areú também foi da
mesma forma que Melquisedec e Adonisedec (Js 10,1). "A tribo
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118 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
madianita de Hur (Nm 31,8; Js 13,21), como os Hur de Efraim (1Rs
4,8) e de Judá (Ex 31,2), pode ser vestígio da presença hurrita"
(CAZELLES, 1986, p. 82).
Patriarcas e processo de independência
Os estudiosos discutem laços fictícios entre Abraão, Isaac,
Jacó e Israel que poderiam pertencer a clãs distintos. A possibilida-
de de que tenham parentesco pode ser real se considerado o mo-
vimento dos hicsos, da penetração hurrita e da pressão arameia.
De 1750 a 1580 AEC, o Egito foi invadido e dominado pelos
hicsos, povo de origem semita, constituído por pastores que ven-
ceram militarmente os egípcios. Os hicsos possuíam cavalos e car-
ros de combate que, até então, não eram conhecidos no Vale do
Nilo. Nesse período, os israelitas viviam no Egito, mas, logo após,
obteriam liberdade, liderados por Moisés, e rumariam para a Pa-
lestina.
Formalmente, em torno de 1200, os faraós egípcios eram os
soberanos da Síria-Palestina; eles assumiram esse domínio, por
sua vez, dos hicsos que tinham sido, na época, entre o Médio e
o Novo Império, os senhores do Egito e, também, da região siro-
-palestinense. O sacerdote egípcio Maneto, da época tardia, que
escreveu uma história do Egito preservada em fragmentos e divi-
dida em 30 dinastias, diz dos hicsos:
"De modo imprevisto, homens de uma raça desconhecida, vindos
do oriente, tiveram a coragem de assaltar nosso país, e eles o con-
quistaram sem qualquer dificuldade e sem combate violento..."
[...] Este fato tem uma importância direta para a história de Israel
porque é característico do tipo de população da terá de Canaã, ou
seja, da terra da qual Israel tomou posse como a terra prometida
aos pais. A herança cavalheiresca sobreviveu ao fim da dominação
dos hicsos. Os cavaleiros das tribos israelitas eram descendentes
daqueles hicsos (GUNNEWEG, 2005, p. 34).
É importante saber que os grupos de Israel talvez tenham
se juntado a grupos de Jacó e descendentes de Abraão, e, apesar
de seus laços estreitos, as tribos vão continuar sua existência au-
tônoma. Simeão viverá nas cercanias de Bersabeia, especialmente
exposto à pressão egípcia.
© U3 - Antes da Monarquia: O Período das Tribos 119
Para entendermos esse complexo quadro histórico, é pre-
ciso lembrar os vários conflitos indicados na Bíblia hebraica: Levi
combatendo perto de Edom (Ex 32,25-29), descrito pelos Anais do
faráo Sheshong (século 10º) como Negueb Levi. Aser é encontrado
pelas tropas egípcias na costa e descrito no Papiro Anastasi I entre
Meguido e Saron, também perto da costa (Js 13,2 e Nm 24,24): as
tribos se agitavam num Canaã dividido e movimentado, percorrido
por tropas, enquanto a administração egípcia se desloca na região
(CAZELLES, 1986).
Até por volta de 1180, a presença egípcia podia ser notada
por meio do movimento de tropas de Ramsés II, em Canaã, e Ram-
sés III (1197-1165), na Palestina, em conflito com os povos do mar
(dentre eles, os filisteus), provavelmente da Capadócia, os quais
se instalaram na costa de Gaza, em Acre. Tais exércitos também
varreram o deserto.
Em Meguido e em Tamna, também foram encontrados ves-
tígios de Ramsés VIII e IX, porém, na segunda metade do século,
depois de 1150, a presença egípcia foi eclipsada e surgiram os rei-
nos de Edom, Moab e Amon, antes do reino de Israel (Gn 36,31).
Existiam tribos nômades e seminômades com existência
mais autônoma, como é o caso dos haneus e dos benjaminitas,
que não se adequaram facilmente à organização das cidades. Essas
tribos não eram proprietárias de terras; os patriarcas eram gerim
("hóspedes"), mais do que estrangeiros, tal como Isaac e Jacó, que
abandonaram terras (Gn 26,16-17 e Gn 35,1).
Ciclo de Abraão e Sara
O ciclo de histórias de Abraão e Sara (Gn 11,27-25, 18) pode
ser usado como paradigma explicativo da história de Israel e do
comportamento nômade e seminômade. Em especial, temas como
posse da terra, migração e escravidão foram abordados nesse con-
junto literário. Nesse sentido, a independência só seria constituída
com a posse do solo e de suas cidades, após diversas andanças e
conflitos que foram conservados na memória das tribos.
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120 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Havia diferentes memórias sobre os patriarcas que, no pro-
cesso de redação da Bíblia hebraica, cederam lugar às histórias
que talvez detinham maior força. Isso teria ocorrido, por exemplo,
em relação à tradição de Moisés, que suplantou a tradição de Aa-
rão (o levita) e Maria (Miriã).
A história da pesquisa bíblica e dos estudiosos do Antigo Tes-
tamento, em especial, tem tentado responder por qual motivo o
javista do Pentateuco, cuja síntese é monárquica e judaica, teria
dado lugar de destaque a Moisés, cuja memória estava mais pre-
sente entre as tribos do Norte (Os 12, 14).
A leitura atenta de extratos do Antigo Testamento revela que
a tradição de Maria (Miriã), em Cades, era a mais ocidental. Ma-
ria era do tipo profético, e a sua memória parece estar ligada a
de um culto associado com dança (Ex 15,20-21), curas (Ex 15,26;
Nm 12,11-16) e evocação da vitória da divindade contra o mar, tal
como o conhecia o culto de Baal Safon (Ex 15,21).
Já no caso da memória de Moisés, verificamos que essa tra-
dição estava mais associada à tribo de Efraim, que pertencia a Jo-
sué, o servidor de Moisés e presente nos textos eloístas (Ex 24,13
e 33,11 e Nm 11,28).
Em Oseias, Moisés também tem destaque como profeta e
como guardião de um santuário de Iahewh (Nm 12,7). Moisés teve
contatos no território moabita por meio de Rúben (Nm 16) e por
causa do casamento madianita ou cuchita (Ex 2 e Nm 12,1) que
acarretou relações próximas com o madianitas e o Moab da época
(Nm 22,4 e 7). Tais textos indicariam a origem egípcia de Moisés
(Nm 25,7; 1Sm 1,3), de onde saiu com um grupo josefita.
Com o enfraquecimento do império egípcio e das cidades ca-
naneias, as tribos conquistaram lugares importantes. Para garantir
tais conquistas e lutar contra as ameaças de invasores, as tribos se
uniram, com o intento de forjar uma unidade nacional.
O declínio do poder egípcio é um dos motivos do vácuo de poder
que surgiu na região siro-palestinense. Esse vácuo tornou-se a con-
© U3 - Antes da Monarquia: O Período das Tribos 121
dição da possibilidade de Israel consolidar, desenvolver e formar
um importante Estado próprio (GUNNEWEG, 2005, p. 35).
Sob o comando de Josué, da tribo de Efraim, do santuário
frequentado por Moisés, Josué chamou para o combate os beney
Israel.
8. ESTABELECIMENTO DAS TRIBOS
O livro de Josué é uma síntese, com a finalidade de historiar
a instalação das tribos, porém, em ordem dispersa. O livro de Juí-
zes, especialmente o capítulo 1, fornece um bom quadro sobre o
estabelecimento das tribos e a fundação da monarquia. O título
"Juízes" ("shophet") era usado por chefes da monarquia e era uma
instituição oeste-semítica acerca do poder político.
Por volta de 1150 AEC, houve o desaparecimento do contro-
le egípcio. Os povos do mar também sofreram certo enfraqueci-
mento, pois não suportaram a paz egípcia (1200) e migraram para
o interior. Isso é atestado pela presença de relações comerciais e
de cerâmica filisteia no Vale do Jordão.
Esta era uma ameaça para a independência das tribos: os
invasores também eram invadidos e entre as tribos nem sempre
havia entendimento, embora Efraim tenha se destacado em ter-
mos de força.
Esse período data do Ferro I, conforme as técnicas anatolia-
nas de utilização do ferro no século 14. Provavelmente, os israe-
litas tenham assimilado os usos e os instrumentos de metal dos
filisteus, dentre outras atividades para fins agrícolas (1Sm 13,20-
21). Isso é indicado, também, nas cerâmicas: jarras de aprovisio-
namento, lâmpadas de bico, cerâmica filisteia do tipo submiceno.
Claretiano - Centro Universitário
122 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
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Idade do Bronze, de 3.100 a 1.200 a.C. O uso do bronze é o que caracteriza este
período. A população da Palestina altera-se e começa a ser habitada por no-
vos povos. Ocupações ocorrem. A produção de cerâmica aumenta. A arquitetura
manifesta tendência para a urbanização. Verifica-se uma rápida transição das
vilas para cidades fortificadas e defendidas. Os grandes centros de civilização no
Egito e na Mesopotâmia desenvolvem-se neste período. Este período é dividido
em três fases (alquns autores subdividem as fases em subfases), bronze anterior
(3.100-2.000 a.C.), bronze médio (2.000-1.550 a.C.) e bronze posterior (1.550-
1.200 a.C.). A história patriarcal enquadra-se no período do bronze médio.
Idade do Ferro, de 1.200 a 333 a.C. O grande avanço deste período é o domínio
da tecnologia do ferro. Na Palestina, os filisteus fizeram bom uso desta técnica e
tornaram-se verdadeira ameaça a sobrevivência de Israel como nação (Samuel
já o sentiu e com Saul principiou a reversão). Até aqui as populações ocupa-
vam mais os vales e planícies. A partir deste momento as regiões montanhosas
passaram a ser ocupadas. Na história de Israel, este é o período da monarquia
unida, da divisão em dois reinos, dos cativeiros do Norte e do Sul, do retorno
de Judá para a Terra Prometida. No horizonte internacional figuram a Assíria, a
Babilônia e o Império Medo-Persa. Também este período é dividido em idade do
ferro anterior (1.200-900 a.C.), ferro médio (900-600 a.C.) e ferro posterior (600-
332 a.C.).
Período Helenístico, de 332 a 63 a.C. O Império Persa caiu diante de Alexandre,
o Grande. A partir de então a cultura e as idéias gregas passaram a dominar.
Nesta fase se encaixa o período da história intertestamentária.
Período Romano, de 63 a.C. a 324 Em 63 a.C., o general romano Pompeu con-
quistou a cidade de Jerusalém e a presença romana se fez sentir na civilização
ocidental (também na Terra Santa) por alguns séculos. Neste período entra a
vida de Jesus, a atividade apostólica a Igreja Primitiva (Deomar, 1989, p. 26).
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
O período dos Juízes marcou um tempo entre os séculos 11
e 13, em que as fundações e construções passaram por mudan-
ças, com sofisticações nas construções de pedra e implantação de
sistemas de esgoto. Quando os israelitas tomavam as construções
de cananeus, mantinham a arquitetura, mas suas marcas deixadas
por meio de outras construções, detalhes no plano final e na mo-
bília, denunciam as diferenças entre cananeus e israelitas.
Essas pistas não são fáceis de identificar, tendo em vista que
ocorrem muitas destruições de cidades cananeias no período do
Ferro I. Em função dos conflitos existentes na época, sabemos que,
entre 1230 e 1050, ocorrem muitas batalhas descritas no livro dos
Juízes; em muitas delas, os israelitas foram alvo de ataques, mas,
em outras, foram eles os atacantes.
© U3 - Antes da Monarquia: O Período das Tribos 123
Tais conflitos geraram um quadro de bastante instabilidade
para a sociedade israelita daquele tempo. Não se sabe ao certo
que tipo de estrutura organizava as tribos: se anfictiônica (assem-
bleia) ou espécie de "liga". Todavia, é certo que os territórios de
cada tribo, com limites expressos, só foram fixados posteriormen-
te, quando se estabeleceram as prefeituras reais.
9. QUESTões AUTOAVALIATIVAs
Confira, na sequência, as questões propostas para verificar
seu desempenho no estudo desta unidade:
1) Quais eram as características das divisões e a hierarquia social das famílias?
2) Quais são os aspectos culturais e as trocas simbólicas que marcaram a
religião e a cultura das tribos de Israel?
10. Considerações
Nesta unidade, observamos que a formação de Israel teve
início em meio a um período histórico conturbado que envolveu
disputas e conflitos pela posse da terra.
A divisão em tribos deu-se conforme a memória dos patriar-
cas, mas isso não quer dizer que eram ligadas a eles por laços de
consanguinidade; provavelmente, tratava-se de um recurso que
tinha como objetivo preservar as histórias e as memórias relacio-
nadas às origens do povo.
O interessante é notar que, divididos em tribos, esses grupos
desenvolveram suas organizações sociais conforme o período, as
condições geográficas e as relações culturais com os quais manti-
nham contato. A influência geográfica, por exemplo, pode ser no-
tada no comportamento nômade das tribos, sempre em busca da
terra e de melhores condições de sobrevivência.
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124 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Dessa forma, os acontecimentos e os processos refletidos
nos testemunhos e registros do mundo bíblico constituem impor-
tante conjunto de saberes necessários, como auxiliares não menos
importantes, da exegese do Antigo Testamento.
Compreender o quadro sócio-histórico, bem como o esta-
belecimento das tribos até a época dos Juízes, torna-se extrema-
mente relevante, a fim de se entender as razões que conduziram à
formação do Estado monárquico, um governo centralizado na figu-
ra de um rei, que, em muitas ocasiões, exerceu o poder de forma
arbitrária. Contudo, considerando o movimento da história e das
civilizações do Mediterrâneo Antigo, mesmo essa transformação
política de Israel não aconteceu ao largo dos acontecimentos do
período, assunto que será visto na próxima unidade.
11. E-REFERÊNCIAS
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______. Flor sem defesa: uma explicação da Bíblia a partir do povo. 2. ed. Petrópolis:
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STORNIOLO, I.; BALANCIN, E. Conheça a Bíblia. São Paulo: Paulinas, 1986.
EAD
Israel Pré-Monárquico
4
1. OBJETIVOS
• Reconhecer as razões que conduziram o Israel ordenado
em tribos à organização monárquica.
• Apontar e interpretar as diferenças entre o sistema tribal
e o sistema centralizado da monarquia.
2. Conteúdos
• Israel pré-estatal (pré-monárquico).
• Passagem do sistema tribalista ao estatal.
• Crise nas origens da monarquia.
3. Orientações para o estudo da unidade
Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
128 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
1) Para fixar os conteúdos desta unidade, recomendamos a
releitura dos textos deste material. Sugerimos, também,
que você realize apontamentos, com o objetivo de com-
parar e aprofundar os pontos de destaque, utilizando-se
das fontes aqui listadas e indicadas como indispensáveis
para o estudo deste tema.
2) Referência sugerida para acompanhar o estudo desta
unidade: BRIGHT, J. História de Israel. 7. ed. São Paulo:
Paulus, 2003.
4. Introdução à Unidade
Na unidade anterior, você estudou a configuração social das
tribos em linhagens, famílias e clãs, a divisão e a hierarquia social
das famílias, bem como os aspectos culturais e as trocas simbólicas
que marcaram a religião e a cultura das tribos de Israel e o proces-
so de independência.
Nesta unidade, você terá a oportunidade de estudar um
pouco mais a respeito do quadro social e histórico que conduziu a
passagem das tribos ao estado monárquico. Além disso, compre-
enderá as razões que conduziram a formação de um governo cen-
tralizado na figura de um rei (ou de reis), que, em muitas ocasiões,
exerceu o poder de forma arbitrária.
É importante observar que consideraremos o movimento da
história e das civilizações do Antigo Oriente Próximo na transfor-
mação política de Israel, que não aconteceu ao largo dos aconte-
cimentos do período. Antes, deu-se, também, como uma conse-
quência das alianças e do poderio dos filisteus na formação das
cidades-estados Gaza, Ascalom, Asdode, Ecrom e Gate.
Nesse sentido, o Israel pré-estatal surge da percepção de
que, sem um governo central, os israelitas poderiam ser subjuga-
dos pelos povos mediterrâneos vizinhos.
© U4 - Israel Pré-Monárquico 129
5. UM ISRAEL PRÉ-ESTATAL
Tradição das doze tribos: ficção ou história?
Segundo o testemunho da Bíblia hebraica, Israel teve início
com doze tribos. Frequentemente, Jacó, pai de doze filhos, é iden-
tificado com Israel. Vinculados às tribos, os nomes dos filhos de
Jacó, juntamente com ele, foram chamados patriarcas.
Contudo, na segunda unidade, indicamos que não existem
povos que tenham descendido de um único homem. Portanto,
essa tradição de Israel poderia ser uma construção genealógica fic-
tícia. O que nos leva a perguntar: qual seria a função dessa ficção?
A tradição das doze tribos permeia toda a Bíblia, do Antigo
ao Novo Testamento. Nesse último, as doze tribos foram substitu-
ídas pelos doze discípulos, chamados de o "novo Israel espiritual".
Portanto, se esse sistema fosse uma ficção sem propósito, o núme-
ro doze não precisaria ser preservado nas narrativas de Gênesis 49
e Números 1s; 26.
Decorre dessa compreensão que deve haver alguma realida-
de histórica por trás da história das doze tribos. Uma possibilidade
de entender essa questão é a compreensão de Israel como uma
confederação de doze tribos. Assim, ele estaria fundamentado
numa pré-história comum e numa fé em Deus igualmente comum,
fundados na pessoa e na obra de Moisés.
Em 1930, Martin Noth desenvolveu um pouco mais essa hi-
pótese, uma vez que ele comparou o sistema das doze tribos com
as anfictionias da Grécia e da Itália. Originalmente, anfictionia é
uma aliança estabelecida entre seis ou doze tribos, com vistas ao
estabelecimento de um culto a certa divindade.
A manutenção do santuário ficava a cargo das tribos, que
se alternavam no cuidado do espaço. As referências aos filhos de
Naor (Gn 22,20-24) e de Ismael (Gn 25,13-16), às doze tribos dos
edomitas (Gn 36,1-14) e aos seis filhos de Quetura (Gn 25,2) po-
Claretiano - Centro Universitário
130 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
dem ser parâmetros de comparação. "Israel compreendia seus vi-
zinhos em analogia a si mesmo!" (GUNNEWEG, 2005, p. 85).
Se entendermos que havia certa organização entre as tribos
(ainda não no modelo de estado instituído e com governo centra-
lizado), podemos subentender que havia "legislação" – escrita ou
não. Decorre dessa compreensão o período chamado "época dos
Juízes". O livro dos Juízes sistematizou a história das tribos entre
seu estabelecimento e a fundação da monarquia, graças à noção
de "juiz": "shophet".
Os filhos de Israel fizeram o que era mau aos olhos de Iahweh
e serviram aos Baals. Deixaram Iahweh, o Deus de seus pais, que
os tinha feito sair da terra do Egito, e serviram aos deuses dos po-
vos a seu redor.
Então a ira de Iahweh se acendeu contra Israel. Então Iahweh susci-
tou juízes que os livrassem das mãos dos que os pilhavam. Mas não
escutavam nem mesmo aos seus juízes, e se prostituíram a outros
deuses, e se prostraram diante deles. Depressa se afastaram do ca-
minho que seus pais haviam seguido, obedientes aos mandamen-
tos de Iahweh, e não os imitaram. Quando Iahweh lhes suscitava
juízes, Iahweh estava com o juiz e os salvava das mãos dos seus
inimigos enquanto vivia o juiz, porquanto Iahweh se comovia por
causa dos seus gemidos perante os seus perseguidores e opresso-
res (Jz 2,11-12; 14a; 16-18 – BÍBLIA DE JERUSALÉM).
A figura do juiz
O título de juiz era atribuído a alguns chefes, antes da mo-
narquia. Era uma instituição oeste-semítica que conferia poder de
decisão política, paralela à autoridade monárquica, mas sem os
elementos da "dinastia" e da "sacralidade religiosa". Essa noção
pode indicar uma história pré-monárquica da salvação da nação.
[...] as figuras históricas que serviram a este quadro não correspon-
dem a uma instituição única. Gedeão e Jefté são monarcas, Aod
e Otoniel eram chefes, Barac foi um oficial; os juízes menores são
apenas conhecidos por suas sepulturas, tal como os welis do mun-
do árabe. Enfim, Sansão não tem nenhuma atividade propriamente
política. É digno de nota que o redator conseguiu ligar mais ou me-
nos cada juiz com uma tribo diferente: Otoniel com Judá, Aod com
Benjamim, Barac com Neftali, Gedeão com Manasses, Tola com
© U4 - Israel Pré-Monárquico 131
Issacar, Jair com Galaad (Maquir), Jefté com Galaad (Gad), Abesã
com Aser (de fato Belém em Zabulon, Js 19,15), Elon com Zabulon,
Abdon, filho de Ilel, com Efraim, e Sansão com Dã. Faltam Rúben e
Simeão, que logo desapareceram e que eram bastante excêntricos
(CAZELLES, 1997, p. 109-110).
O juiz, portanto, era responsável pela administração do di-
reito da aliança. Isso foi salientado por Albrecht Alt em sua obra
intitulada As origens do direito israelita (Die Ursprünge des israeli-
tischen Rechts), de 1934. Alguns pesquisadores entendem que os
relatos de Josué 24,25, em conjunto com Levítico 26 e Deuteronô-
mio 27 e seguintes, podem ser interpretados como memórias da
antiga festa da renovação da aliança da anfictionia.
A hipótese da anfictionia serve à explicação das listas de doze
e à descrição de um Israel pré-estatal, com um determinado modo
de vida mesmo antes da formação do Estado. Considerá-la à luz
das anfictionias de sociedades vizinhas não é o mesmo que afir-
mar dependência mútua ou unilateral, mas compreendê-las como
estruturas sociais típicas daquele período. Os laços de parentesco
"fictícios" são, muitas vezes, mais reais do que as relações de pa-
rentesco consanguíneas.
Desse modo, as doze tribos de Israel são uma grandeza simbólica,
mas justamente como tal e por isso mesmo uma realidade à qual
se adapta a "realidade" pela qual se medem, nomeiam, ordenam e
realizam as coisas existentes [...] aparentemente, os doze filhos de
Israel representam tal realidade real-simbólica (GUNNEWEG, 2005,
p. 88).
Com frequência, "medir", "nomear" e "ordenar" são termos
usados a fim de explicar como os grupos de indivíduos, por meio
de regras e códigos de comportamento, escritos ou não, estabele-
cem sua forma de organização e critérios para o comportamento
social. Com base nessa perspectiva, a anfictionia ou a liga das tri-
bos de Israel seria uma forma de organização social e política que
permitia às tribos certa autonomia na condução de seus cotidia-
nos.
Claretiano - Centro Universitário
132 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Certamente, essa forma de organização deve ter favorecido
à pluralidade de tradições religiosas entre as tribos. Prova disso é
que, mesmo literariamente, as tribos são descritas no texto bíblico
conforme características próprias (Gn 49).
Mesmo diante do avanço dos filisteus de um lado e dos edo-
mitas, moabitas, midianitas e amonitas do outro, a confederação
das tribos demonstrava-se suscetível e instável.
6. DE PRÉ-ESTATAL A SISTEMA MONÁRQUICO
A pré-monarquia e a posterior monarquia com o estado de
Saul apresentam características comuns, que se desenvolveram de
modo gradativo. Inicialmente, essa formação de estado consistia
apenas na subordinação de algumas tribos israelitas à figura do
líder carismático Saul. Este, no entanto, diferentemente dos ca-
rismáticos antigos, começou, então, a reivindicar, para além das
distintas ações militares, uma posição de liderança que deve ser
chamada real; dentre elas, a presença do rei.
Ainda de modo rudimentar, o reino possuía capital, exército
e administração. Além disso, tinha ideologia, segundo a qual o rei
representava a figura de "pai de seu povo" e era responsável pela
segurança, pelo suprimento e pela organização estatal.
Segundo o testemunho bíblico (1Sm 8,6-20), a monarquia
foi implantada em Israel para imitar os povos vizinhos. Embora as
monarquias orientais (hititas, fenícios, cananeus e sírios) não se
pautassem apenas por um modelo, Israel guardou uma constante:
a monarquia israelita foi mais semítica com Saul e mais faraônica
com Salomão, mas ambos os reinos tiveram caráter sacro (2Sm
14,17 e 20).
A administração real convocou o povo às armas e organizou
um exército com funções e armamentos específicos. Decorreu da
criação do exército a necessidade de se criar escolas de escribas
nas quais se pudesse capacitar pessoas para o recenseamento,
para as contas nas cidades e para a administração na capital.
© U4 - Israel Pré-Monárquico 133
Trocas culturais
A formação dos escribas era uma difícil arte, e os cursos ba-
seavam-se na experiência das tradições do Egito e da Babilônia.
Além dessa marca egípcia na organização de Israel, outros indícios
atestam as trocas culturais e simbólicas entre Israel e nações vizi-
nhas. Nas liturgias, o rei era o sumo sacerdote, eleito e investido
de poder por Deus para governar o povo.
Ele presidia as festividades religiosas, intervinha nas litur-
gias, construía e mantinha o culto. A entronização real era cons-
tituída de simbologia, que se dividia em entronização, coroação,
unção e aspersão de água. O rito mais importante era o da unção,
também praticado na Fenícia, na Babilônia Antiga, entre os hititas
e, provavelmente, na Assíria e no Egito.
Assim como os reis semitas de Acad eram os "ungidos de
Anu" – deus egípcio supremo, o rei de Israel era o "ungido de
Iahweh" (1Sm 24,11; 26,9; Sl 2,2).
De um lado, o faraó, quando entronizado, recebia uma força
especial denominada ka. Do outro, ao rei de Israel, era conferido
o espírito vivo que pertencia a Deus, chamado ruah (Gn 6:3). Essa
"realidade vital" era recebida pelo governante no momento da un-
ção (1Sm 16,13, cf. 10,6; 11,6).
Desse modo, podemos conjecturar que, tanto no período
das tribos quanto no período de estabelecimento do modelo esta-
tal, Israel se portou conforme era típico naquele momento históri-
co e cultural. Isso foi feito segundo as demandas políticas da época
e as necessidades especiais das próprias comunidades.
Se, por um lado, as tribos reunidas em confederação, segun-
do os relatos do livro dos Juízes, apresentam uma coligação sem
aparato de governo unificado e centralizado, heterogênea no que
se refere ao território e sem eficácia política, mas unida pela ado-
ração ao Deus Javé, por outro, a monarquia pretendia dar conta de
novas expectativas que despontavam no cenário do Oriente Próxi-
Claretiano - Centro Universitário
134 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
mo Antigo; uma dessas expectativas pode ser identificada como a
necessidade de Israel passar de "povo" a "nação", com sentimento
de pertença e símbolos próprios. Essa demanda resultou numa cri-
se tribal.
7. CRISE TRIBAL E AS ORIGENS ESTATAIS DE ISRAEL
Época da confederação
Na época da confederação, a história bíblica nada nos conta
de nenhum grande líder, tal como foram Moisés e Josué. Os gru-
pos coligados formavam um mesmo povo, constituíam um mesmo
culto a um mesmo Deus, mas não possuíam um líder comum que
os conjugasse.
As figuras de liderança surgiram e diziam respeito apenas a
uma tribo ou clã. Mesmo aquelas figuras em que a ação excepcio-
nalmente se estendeu a um grupo de tribos não tiveram continui-
dade de projeto político, como é o caso de Gideão, que recusou a
autoridade permanente, conforme o relato de Juízes 8,22-23.
Claramente, o sistema confederativo opunha-se ao sistema
de tributos (impostos) praticado nas cidades-estado. Mas manter
essa oposição era um desafio cotidiano, porque as cidades-estado
frequentemente buscavam arruinar as tribos, por meio da vigilân-
cia das estradas, do comércio e pela manutenção do exército com
carros de guerra. Por essa razão, o livro de Juízes, em seus capítu-
los 4 e 5, conta como um grande feito a vitória de Débora e Barac
sobre Sísera, o governante de uma cidade-estado chamada Hasor.
Mas as estratégias das cidades-estado não eram os únicos
problemas enfrentados pela confederação das tribos. Na mesma
época em que os hebreus chegaram do Egito, um povo que veio
pelo mar, com armas de ferro e carros de combate, se estabeleceu
na costa de Canaã; eram os filisteus.
© U4 - Israel Pré-Monárquico 135
Dessa forma, buscando estender seu domínio para o interior,
passaram a viver em conflitos cada vez mais intensos com as tribos
de Israel, que eram um "alvo fácil", já que não possuíam um exér-
cito organizado que as defendesse ou mesmo um líder comum que
direcionasse uma defesa efetiva.
Contudo, essa também não era a única ameaça externa. Se,
do litoral para a planície, a preocupação era com os filisteus, pelo
deserto, a preocupação era conter o avanço dos edomitas, moabi-
tas, midianitas, amonitas etc., que também vinham fazendo incur-
sões para conquistar territórios das tribos.
Além dos inúmeros problemas externos sérios, a confede-
ração passava a contar com questões internas bastante delicadas,
dentre as quais podemos citar, de imediato, pelo menos, três:
• Nem todas as tribos estavam interessadas em lutar contra
os invasores. Aquelas cujos territórios não estavam sob
ameaça se mantinham fora dos projetos de defesa daque-
las na iminência de serem invadidas.
• A corrupção da justiça começava a ser revelada no seio
da confederação. Para esse ponto, o exemplo dos filhos
corruptos do sumo sacerdote Eli permanece um clássico
que pressupõe a decadência do sacerdócio dedicado ao
cuidado da Arca da Aliança (1Sm 2,12-25).
• A vivência religiosa monoteísta era o elo que dava coesão
aos clãs, ou seja, a aceitação de Javé como único Deus,
o Deus Libertador, conferia identidade e unidade às tri-
bos. Contudo, Javé era um Deus ligado à libertação, e não
tanto à preservação do ciclo da natureza, do qual depen-
diam os camponeses israelitas. Já os deuses cananeus
(especialmente Baal) eram conhecidos como aqueles que
traziam a fertilidade à terra. Sendo a agricultura a base
da sobrevivência e o ciclo da chuva essencial à produção,
os israelitas, por vezes, incorporaram a adoração às di-
vindades cananitas em sua própria religião, como modo
Claretiano - Centro Universitário
136 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
de garantir condições naturais favoráveis à sua atividade
campesina. Nas palavras de Balancin (1990), "a desagre-
gação religiosa caminhou para a desagregação política e
ideológica".
Talvez essa afirmação seja um tanto simplista e fosse melhor
que considerássemos a mentalidade pouco politizada dos israeli-
tas antes da questão religiosa em si; mas esse é, sem dúvida, um
elemento fundamental a ser considerado no bojo das razões que
levaram o sistema das tribos à convulsão.
Enquanto as tribos sofriam suas crises internas e se
uniam quando era conveniente, os filisteus formaram cinco
cidades-estado (Gaza, Ascalom, Asdode, Ecrom e Gate), unidas
mediante uma aliança política, atuando sempre em conjunto. Ape-
nas pela descrição de Golias em 1 Samuel 17,5-7, já podemos per-
ceber que seu exército era formado por guerreiros profissionais
e bem armados. Havia, também, mercenários, uma "força extra"
para muitos exércitos daquela época e de depois.
Presença dos filisteus e a formação da monarquia israelita
Conforme alguns historiadores, os israelitas recusavam-se a
fundar um estado monárquico porque, para eles, o reinado era
tido como algo pagão, e sua relação especial com Javé estabelecia
que ele era o seu governante.
Dessa forma, a edificação de um reinado nos moldes vizinhos
era uma oposição à reivindicação da soberania de Javé sobre Israel
(METZGER, 1978). Entretanto, apesar do ideal de governo divino,
o esforço dos filisteus para dominar toda a Palestina foi o impulso
emergencial gerador da união política das tribos sob o governo de
um chefe de Estado, isto é, para o estabelecimento da monarquia
(que significa "governo de uma só pessoa". Assim, essa pessoa (o
monarca, chefe de Estado ou rei) tem autoridade para criar e fazer
cumprir as leis, bem como para julgar e decidir questões jurídicas).
© U4 - Israel Pré-Monárquico 137
No regime monárquico, quando um rei morre, ele é substi-
tuído no trono por um de seus filhos, geralmente, o mais velho.
A essa sucessão se dá o nome de dinastia, por meio da qual uma
família pode se perpetuar no poder. É claro que existem algumas
exceções; por exemplo: o Vaticano, já na Era Comum, foi uma mo-
narquia em que o chefe de Estado é eleito, e não sucedido por
herdeiro consanguíneo.
Na próxima unidade, vamos estudar mais detidamente o Is-
rael monárquico.
8. QUESTões AUTOAVALIATIVAs
Confira, na sequência, as questões propostas para verificar
seu desempenho no estudo desta unidade:
1) Quais foram as razões que conduziram o Israel ordenado em tribos à orga-
nização monárquica?
2) Quais são as diferenças entre o sistema tribal e o sistema centralizado da
monarquia?
9. CONSIDERAÇÕES
O Israel pré-monárquico surgiu de uma demanda política e
social específica, ou seja, da expectativa dos grupos judaicos em
se defenderem dos povos vizinhos que se organizavam em fortes
cidades-estado.
Diante desse quadro de mudança, Israel − cujo sistema con-
federativo das tribos não se sustentava ante os frequentes ataques
de filisteus, de um lado, e de edomitas, moabitas, midianitas, amo-
nitas, de outro − requereu à monarquia na expectativa de que a
figura de um chefe pudesse conter o avanço desses vizinhos de
unificar as tribos.
Na próxima unidade, vamos compreender um pouco mais as
situações emergenciais que corroboraram para a passagem do sis-
Claretiano - Centro Universitário
138 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
tema tribal ao estatal e conhecer os principais problemas políticos
que assolaram a constituição dos reinos e conduziram à degrada-
ção do império israelita.
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EAD
Monarquias: Israel e Judá
5
1. OBJETIVOS
• Reconhecer as situações emergenciais que permitiram a
transição do sistema tribal para o estatal na história de
Israel.
• Identificar os elementos políticos mais relevantes na
constituição do reino.
• Distinguir o conjunto das dinâmicas que conduziram à de-
gradação do império israelita.
2. Conteúdos
• Introdução à história das monarquias de Israel e de Judá.
• Medidas de organização estatal.
• Personalidades envolvidas no impulso e na corrosão dos
estados.
• Surgimento e o ressurgimento de potências mundiais.
140 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
• Relação dos estados entre si e com os governos estran-
geiros.
• Extinção dos estados.
3. Orientações para o estudo da unidade
Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Sua formação é essencial, pois ela determinará posturas
e escolhas no desenvolvimento de sua prática. Invista
em você, faça da pesquisa e da interação com seus cole-
gas de curso e seu tutor hábitos que poderão ajudá-lo a
ampliar e aprofundar seus conhecimentos.
2) Tenha sempre à mão um caderno de anotações para co-
locar suas dúvidas e ideias que forem surgindo conforme
o desenvolvimento deste estudo.
3) Procure observar, nesta unidade, que a história de Israel
reflete o movimento de um povo em busca do fortale-
cimento da sua identidade social e cultural. A constru-
ção dessa identidade passou, impreterivelmente, pela
constituição da noção de nação, com traços de governo,
legislação e religião próprios. Nesse sentido, o governo
monárquico, caracterizado pela centralização do poder,
respondia, no nível político, a uma necessidade de go-
vernança e, no nível religioso, projetava a crença numa
única divindade.
4. Introdução à Unidade
Após o estudo do Israel pré-monárquico, chegamos, enfim,
ao estudo sobre a formação da monarquia em Israel, ou melhor,
das monarquias no estado do norte (Israel) e no estado do sul
(Judá).
As perguntas que orientarão nossa incursão na história polí-
tica do povo israelita são:
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 141
• Que circunstâncias levaram à transição do regime tribal
para o sistema monárquico?
• Em que medida esse sistema funcionou e no que foi insa-
tisfatório?
• Quais foram as questões mais centrais no desenvolvimen-
to e, posteriormente, na queda das monarquias do sul e
do norte?
Em nossa busca pelas possíveis respostas para essas ques-
tões, faremos um caminho clássico em estudos que pretendem
oferecer pistas sobre a história política de Israel:
a) Ofereceremos uma visão geral da situação das tribos
que viveram pouco antes da instituição do reino.
b) Passaremos por tramas políticas (no bom e no mau sen-
tido), governantes proeminentes e suas medidas.
c) Contaremos com "altos e baixos" nessas monarquias
que culminaram com a dissolução de ambas (Israel e
Judá) pela potência mundial do momento.
5. "DÁ-NOS UM REI... COMO AS OUTRAS NAÇÕES"
Filisteus e a transição para a monarquia israelita
Quando os filisteus começaram a ocupar pontos estratégi-
cos na Palestina, passaram a obrigar os israelitas a lhes entregar
produtos naturais (cobrança de tributos), a determinar o desar-
mamento das tribos, proibindo, com isso, o artesanato do ferreiro
(1Sm 13,19ss.) e a esperar pelo surgimento do líder carismático es-
pontâneo do momento. Todos os clãs queriam aderir a esse líder,
pois combater os filisteus já não era considerada uma boa ideia.
A tropa de agricultores mal armados, mal treinados e que
não podiam permanecer por longos períodos longe dos seus afa-
zeres diários não representava páreo para o exército profissional
dos filisteus. Assim, a confederação das doze tribos rendeu-se
diante da necessidade de constituir um governo e um exército or-
ganizado, que fosse capaz de defendê-la.
Claretiano - Centro Universitário
142 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Diante do quadro de ameaças conjugado entre "povos do mar" e
"povos do deserto", as tribos se viram obrigadas a agir conjunta-
mente e sob uma liderança comum e permanente. Dessa maneira,
por volta do ano 1000 a.C., surge o Estado de Israel (1Sm 8-12),
originado não única, mas especialmente pela pressão da política
externa. Em contraposição a perigos anteriores, a ameaça filisti-
na não era aguda e localizada, mas uma situação bastante crônica
(DONNER, 2004, p. 203).
Para se compreender a busca por um governo central, outras
causas podem ser: a ruptura da solidariedade tribal (Jz 19), o en-
riquecimento de alguns juízes (Jz 10 e 12) e o enfraquecimento da
credibilidade do santuário. Tais fatores internos contribuíram para
a mudança do regime político (SCHWANTES, 2006).
No entanto, a opção pela monarquia não se deu de for-
ma tão tranquila como se pode pensar. Vejamos: em 1 Samuel,
dá-se conta de duas tradições muito distintas sobre a instauração
do estado monárquico israelita. A primeira, em 9,1-10,16; 11,1-
11,15 e 13-14, apresenta um relato favorável no qual é dito que o
próprio Iahweh escolheu Saul como libertador do povo. Já os tex-
tos de 8,1-22; 10,18-25; 12 e 15 se mostram contrários à criação
do Estado e afirmam que essa não é a vontade de Iahweh, embora
o próprio povo quisesse um rei, "assim como as outras nações"
(1Sm 8,5).
No contexto da transição do regime tribal para o monárqui-
co, não há dúvidas de que Samuel exerceu um papel essencial,
sendo apontado em tradições diversas como Nasireu, profeta, juiz,
vidente e homem de Deus.
Note que é a ele que, em um dia em Rama, motivados pela
insatisfação com a maneira pela qual seus filhos exerciam o cargo
de juízes, os anciãos de Israel pediram um rei "como as outras na-
ções".
Entretanto, o que está em jogo nesse pedido e que deixa Sa-
muel amargurado é o princípio da teocracia (governo de Iahweh
sobre o povo de Israel). Por isso, Samuel consulta Iahweh sobre
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 143
a questão toda, já que a pretensão de Israel se voltava contra o
próprio Iahweh, seu verdadeiro rei. Iahweh concede ao povo o que
pede, mas não sem adverti-lo do que seja uma solicitação como
essa:
Eis como governará o rei que reinará sobre vós: tomará vossos fi-
lhos para encarregá-los de seus carros e de sua cavalaria e terão de
correr na frente de seu carro. Ele os tomará para fazer deles chefes
de mil e chefes de cinqüenta, para lavrar sua lavoura, para colher
a sua colheita, para fabricar suas armas e o equipamento de seus
carros. Tomará vossas filhas como perfumistas, cozinheiras e padei-
ras. Tomará os vossos melhores campos, as vossas vinhas e vossos
olivais. Ele os tomará e os dará aos seus servos. Cobrará o dízimo de
vossas searas e de vossas vinhas para dá-lo aos seus eunucos e ser-
vos. Tomará vossos servos e vossas servas, os melhores de vossos
jovens e os vossos jumentos para pô-los a seu serviço. Cobrará do
dízimo de vossos rebanhos. Vós mesmos, enfim, sereis seus escra-
vos. Naquele dia gritareis por causa do rei que tiverdes escolhido,
mas o Senhor não vos responderá naquele dia (1Sm 8,11-18 – A
BÍBLIA TEB).
Verificamos, desse modo, que a própria literatura bíblica de-
monstra certo desacordo quanto à eleição de um rei. Enquanto um
grupo de textos atesta uma posição favorável à implantação de um
Estado monárquico, o outro é contrário.
Isso indica que, provavelmente, o livro de 1 Samuel foi es-
crito por autores diferentes e em épocas diferentes. Portanto, a
união desses textos pode ter sido feita por um terceiro redator que
objetivava harmonizar essas duas memórias.
Outro aspecto a se ressaltar é que, nesse caso, novamente,
a literatura nos indica que os processos históricos nem sempre são
unívocos, ou seja, a história é construída com vozes dissonantes
e opiniões que se chocam. Prova disso é que a escolha do rei e
a fundação do estado monárquico israelita não constituíram uma
decisão unívoca.
Saul, o primeiro rei
A escolha do benjamita Saul como rei do recém-formado es-
tado de Israel aparece sob três formas distintas no relato bíblico.
Claretiano - Centro Universitário
144 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
A primeira narrativa é relatada em 1 Samuel 9,1-10,8, e fala
em sua escolha por unção. "Samuel tomou o frasco de azeite e
o derramou sobre a cabeça de Saul e o beijou. Disse: ‘Não foi o
Senhor que te ungiu como chefe do seu patrimônio?’ (1Sm 10,1).
A segunda narrativa, em 1 Samuel 10,17-27, menciona em
sorteio:
Samuel convocou o povo para junto do Senhor, em Mispá [...]. Sa-
muel mandou que se aproximassem todas as tribos de Israel: a tri-
bo de Benjamim é que foi escolhida. Mandou que se aproximasse a
tribo de Benjamim, segundo a ordem de seus clãs: o clã de Matri é
que foi escolhido. Em seguida foi escolhido Saul, filho de Qish [...].
Depressa foram buscá-lo e ele se apresentou no meio do povo: ele
ultrapassava todo o povo do ombro para cima [...]. Então o aclama-
ram e gritaram: "Viva o rei!".
O terceiro relato, em 1 Samuel 11,1-15, é considerado pelos
exegetas como o mais antigo e, muito provavelmente, o mais au-
têntico. Aqui, a escolha de Saul como rei é feita por aclamação:
Então todo o povo foi a Guilgal. Lá fizeram rei a Saul, na presença
do Senhor, em Guilgal, ofereceram sacrifícios de paz, na presença
do Senhor, e Saul e todos os habitantes de Israel se entregaram a
grande alegria (1Sm 11,15).
Mas de onde surge esse benjamita filho de Qish? Sua pro-
clamação como rei por aclamação nos ajuda a localizá-lo nesse
contexto. A forma da primeira aparição pública de Saul deu-se nos
moldes do surgimento de um líder carismático.
Pouco antes de se tornar rei, Saul obteve uma vitória sobre
os amonitas. Jabes-Gileade havia sido oprimida pelo rei de Amon,
Naás, que aproveitou a grande confusão provocada entre as tribos
israelitas pelo avanço dos filisteus para ocupar a terra de Gileade.
Os habitantes de Jabes-Gileade apelaram à ajuda das demais
tribos. Segundo a narrativa bíblica, "o espírito de Deus sobreveio
a Saul [...] e ele foi tomado de violenta cólera" (1Sm 11,6). Dessa
forma, Saul reuniu o exército de todas as tribos e, num ataque sur-
presa, repeliu os amonitas, libertando a cidade de Jarbes-Gileade.
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 145
Contudo, após se livrar dos amonitas, Saul não dispersou as
forças que reuniu em torno de si, e os representantes de Israel na-
quele exército popular viram nele o líder que estava em condições
de organizar a libertação israelita da opressão filistina. "Foi este
carismático convocado por Iahweh, eficaz nas batalhas, que as tri-
bos de Israel proclamaram como seu rei" (METZGER, 1978, p. 59).
A primeira tarefa de Saul como rei ungido, escolhido ou acla-
mado, consistiu em quebrar o domínio filisteu sobre Israel (1Sm
13). Para tanto, organizou um pequeno exército de guerreiros,
com parte do qual é bastante provável que Jonatas, seu filho mais
velho, tenha conseguido eliminar os postos de ocupação filisteus
em Gibeá (1Sm 14).
O governo filisteu, é claro, encarou a formação do reino is-
raelita como rebelião e enviou tropas punitivas a várias regiões
das tribos. E este foi o erro filisteu: seu excesso de confiança, pois
as tropas punitivas eram apenas isto: "punitivas", e não tiveram
condição de concentrar forças para uma batalha decisiva. Por fim,
o conflito repentino transformou-se numa vitória esmagadora, e
Saul conseguiu expulsar as forças de ocupação filisteias estaciona-
das no território israelita.
De certo, Saul era mais um líder guerreiro do que propria-
mente um rei, pois seu governo era, essencialmente, militar. Por
essa razão, sua empreitada principal foi organizar um exército per-
manente, para o qual escolheu Abner, seu parente, como general-
-chefe.
Em razão da ênfase bélica dada às ações de Saul, pouco se
sabe de sua administração, e nenhum fato relacionado às funções
de política interna é digno de menção na narrativa bíblica, tanto
que Abner é o único detentor de cargo citado nominalmente no
estranho sistema estatal de Saul. Em 1Sm 21,8, também é mencio-
nado um edomita chamado Doeg, chefe dos pastores de Saul, mas
nada se sabe no tocante a essa função.
Claretiano - Centro Universitário
146 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Possivelmente, havia um pequeno orçamento público, uma
vez que a prioridade dos recursos devia ter sido empregada na
cobertura dos gastos militares. Nenhum funcionalismo e nenhum
aparelho administrativo são descritos no governo saulita.
Nada se sabe sobre sua dinâmica organizativa do Estado,
como a administração da justiça, verificação dos limites geográ-
ficos das tribos, promulgação de leis, unificação territorial etc.
Sabe-se, contudo, que ele não constituiu um sacerdócio oficial e
tampouco um aparelho civil destinado à cobrança de impostos.
Também não estabeleceu uma capital para o seu governo, visto
que continuou vivendo em seu povoado, que sequer possuía mu-
ralhas (PIXLEY, 1990).
O reinado de Saul não durou muito. As crises internas, es-
pecialmente aquelas desencadeadas pela quebra das relações
entre ele e Samuel, guardião das antigas tradições sacrais e que
começou a anunciar que Saul fora rejeitado por Iahweh (1Sm 15),
ofereciam condições adversas para o segundo confronto com os
filisteus, que sairiam vitoriosos.
A estratégia dos filisteus consistiu em rumar para o norte e
ocupar a planície de Jezreel, cortando a comunicação entre as tri-
bos do norte com as do centro e do sul, de maneira que o rei não
conseguia reunir sua força total.
Desse contra-ataque filisteu, nos montes de Gilboa, decor-
reram o aniquilamento dos israelitas, a morte da maior parte dos
filhos de Saul e a dele mesmo, que, ferido, se lançou sobre a pró-
pria espada (1Sm 31).
Como troféus de guerra, os filisteus levaram consigo a ca-
beça e as armas de Saul e afixaram seu corpo e os de seus filhos
mortos no muro de Bet-Shean. Mais tarde, os corpos foram res-
gatados e receberam os funerais apropriados pelos habitantes de
Jabes-Gileade.
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 147
Davi, o rei-pastor estrategista e a monarquia dual
A história de Saul depara-se e mistura-se com o aparecimen-
to de uma das personalidades mais destacadas da história de Is-
rael. Estamos nos referindo a Davi, da cidade de Belém, na tribo
de Judá, o mais jovem de oito irmãos e pastor das ovelhas do pai.
O encontro entre essas duas figuras é narrado de duas formas na
literatura samuélica.
Na primeira, Davi aparece como alguém chamado para acal-
mar Saul quando está em suas crises de nervosismo e violência
(1Sm 16,14-23). Na segunda, o encontro se dá no contexto de
batalha contra os filisteus, no episódio em que Davi, com funda
e pedra, derrota um guerreiro de estatura diferenciada chamado
Golias (1Sm 17).
Esse último episódio fez que Davi fosse "bem visto por todo
o povo e também pelos servos de Saul" (1Sm 18,5) e, com a afei-
ção da parte do chefe de Estado, relatada em 1Sm 16,21, fosse
de pronto transformada em ódio e inveja. À medida que crescia a
simpatia dos guerreiros e do povo em relação a Davi, Saul passou
a percebê-lo como um perigoso concorrente e a persegui-lo por
isso.
Saul versus Davi
As relações entre Saul e Davi são bastante tensas e estra-
nhas. Em razão das perseguições de Saul, Davi precisou fugir para
o deserto da Judeia, onde reuniu um grupo de insatisfeitos e bus-
cou sobreviver.
Esse grupo, conhecido da tradição como "os valentes de
Davi", foi o núcleo duro do seu exército, sendo indubitavelmente
leal e pronto para as campanhas mais ousadas (1Cr 12,8). A maio-
ria dos membros desse grupo era oriunda de Judá e Benjamim,
embora houvessem aqueles vindos de tribos mais longínquas.
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148 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Mas Davi não usou nenhuma das várias oportunidades que
teve para golpear Saul, pois o rei era um escolhido de Iahweh (1Sm
24,26). Por sua vez, ao ouvir falar de um ataque filisteu, Saul apres-
sou-se para enfrentá-los, proporcionando a Davi uma oportunida-
de de escapar (1Sm 23,27-28).
Visto que Saul se mantinha na ofensiva, Davi e seu grupo de
guerrilheiros colocaram-se a serviço do rei filisteu de Gate, Aquis.
O governante filisteu não só acolheu Davi, como também lhe en-
tregou como feudo uma cidade na periferia chamada Ziclague. Em
troca, Davi poderia ser convocado a qualquer momento para lutar
ao lado de Aquis (1Sm 27).
Sua estratégia para manter a confiança de Aquis era uma
"conta simples". Davi dizia ao rei que estava atacando as tribos
situadas no Neguebe, enquanto ele e seu grupo de guerrilheiros
combatiam, na verdade, os grandes inimigos dessas tribos, como
os amalequitas e outros grupos nômades.
Eles invadiam as cidades dos inimigos dos israelitas e traziam
os despojos para os filisteus. Ao mesmo tempo que defendiam os
israelitas e mandavam presentes aos anciãos das tribos meridio-
nais (1Sm 30,26-31), conquistavam a confiança do rei filisteu ao
entregarem-lhe os despojos obtidos nas investidas (1Sm 27,5-12).
Contudo, os filisteus não permitiram que Davi participasse da ba-
talha contra os israelitas, receando que ele os traísse.
Será que a história de Israel teria sido diferente se Davi tives-
se ido à batalha ao lado do rei filisteu? Quais estratégias ele ado-
taria? Agradava tanto aos israelitas quanto aos filisteus em suas
empreitadas como mercenário de Aquis? Esse é um exercício para
a nossa imaginação apenas, mas as perguntas nos redirecionam
para a esperteza de Davi, que não enfrentou grandes problemas
para voltar a Judá e ser proclamado rei quando Saul morreu.
Saul teve o mérito de ser o primeiro rei instituído do estado
de Israel e de eliminar, durante algum tempo, a ameaça constituí-
da pelos filisteus, com seus guerreiros profissionais bem armados,
bem treinados e com estratégias eficazes de ocupação.
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 149
Contudo, a monarquia que se formou sob seu governo era
deficiente em várias frentes, incluindo uma que não poderia apre-
sentar debilidade sob nenhuma circunstância: a organização in-
terna do Estado. Vale observar que Saul estava mais preocupado
com questões militares e com a defesa do território israelita do
que com "pormenores" políticos locais, cuja organização caberia
ao seu sucessor.
Morte de Saul e elevação de Davi
Com a morte de Saul, Davi radicou-se em Hebron, onde foi
feito rei sobre a Casa de Judá (2Sm 2,4). Possivelmente, "Casa de
Judá", significa clãs ligados ou anexados à tribo de Judá. Podemos
também supor que essa aclamação da Casa de Judá não tenha
acontecido sem o consentimento dos filisteus, que passaram a ter
todo o controle do território com a derrota do exército de Saul.
Teriam, portanto, continuado a ver Davi como um de seus feudatá-
rios e seu reinado como um governo vassalo, ou seja, um governo
dependente dos filisteus (METZGER, 1978).
Com a elevação de Davi, as tribos do Sul apareceram pela
primeira vez como uma unidade política separada das demais tri-
bos da coligação, passando a constituir-se como um corpo estatal
autônomo em relação ao norte.
É importante salientar que Isbaal (Isboset), único filho so-
brevivente de Saul, havia sido constituído por Abner, em Maanain,
como rei de todo Israel (2Sm 2,8ss.), claramente uma reivindica-
ção de soberania sobre todas as tribos. Entretanto, as tribos do
sul já haviam se separado e estabelecido seu próprio governante.
Dessa forma, o termo "Israel" passou a ser empregado para
definir dois tipos diferentes de situação: como designativo da Liga
das Doze Tribos, como havia sido até então, e o Estado que se es-
tendia sobre as tribos da Palestina Central Oriental e Setentrional,
surgido recentemente sem Judá.
Claretiano - Centro Universitário
150 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Com base na separação entre norte e sul e do duplo reina-
do resultante dela, seguiu-se uma série de agitações políticas e
fronteiriças entre os dois estados. Uma delas resultou na morte de
Abner por Joabe, comandante do exército de Davi, quando após se
desentender com Isbaal tentava fazer negociações com o sul (2Sm
3). Outra resultou na morte do próprio Isbaal por dois de seus pró-
prios homens (2Sm 4,1-12).
A situação de Davi tornou-se particularmente delicada quan-
do os assassinos de Isbaal apareceram em Hebron com sua cabe-
ça de presente para Davi, na esperança de serem recompensados
pelo que haviam feito.
Contudo, Davi procurava manter boas relações com o norte
há algum tempo, e a atitude ostensiva dos assassinos de Isbaal le-
vantaria uma suspeita que poderia colocar toda essa política a per-
der. Por isso, ordenou a morte de ambos e deu a cabeça de Isbaal.
Após a morte de Isbaal, o único herdeiro homem da casa de
Saul, Mefiboset, filho de Jonatas, estava fisicamente incapacitado
e, portanto, impedido de perpetuar a dinastia. Sem ninguém que
pudesse assumir o comando do Estado, as tribos do norte recor-
reram a Davi.
No entanto, isso não foi um sacrifício para elas, já que Davi
conquistara sua simpatia do norte no passado e agora estava casa-
do com Mical, filha de Saul. E foi dessa maneira, com um contrato
solene firmado no santuário, que os anciãos das tribos do norte
ungiram Davi como rei de Israel (2Sam 5,1-3). Engana-se quem
pensa que, com a instituição de Davi como rei, os estados do norte
e do sul se fundiram em um único estado. Isso não aconteceu. Isra-
el e Judá seguiram existindo como estados independentes, ligados
apenas por um único governante. Noutras palavras, Davi, que já
era o rei de Judá há pelo menos sete anos, agora também gover-
nava o estado de Israel.
A questão que surgia partindo daí estava focada na capital.
Seria difícil que Davi se mantivesse em Hebron sem provocar a
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 151
desconfiança das tribos do norte. Ao mesmo tempo, ele entraria
em sérias dificuldades com o sul se fixasse a capital no norte.
Note que Davi se mostra um estrategista e tanto! Para se ver
livre do dilema norte-sul, ele enviou seus mercenários para que
conquistassem uma cidade jebusita chamada Jerusalém, que não
pertencia nem ao reino do norte nem ao reino do sul, mas que
era uma cidade-estado cananeia localizada em ponto neutro, pre-
cisamente na divisa entre Judá e Benjamim, essa última uma tribo
pertencente ao reino do norte.
Davi tornou Jerusalém sua propriedade particular (daí a de-
signação "cidade de Davi"), onde estabeleceu sua família, sua cor-
te, seus mercenários e o centro cúltico de Israel, ao levar para lá a
Arca da Aliança (2Sm 6).
Os capítulos 2 a 24 de 2 Samuel contam sobre o império de
Davi. Após receber o Estado formado pelas tribos do norte, ele
empreendeu uma obra política que, pela ocasião de sua morte, te-
ria já tornado Israel um território muito mais vasto do que aquele
recebido quando ascendeu ao poder. Essa empreitada tinha a ver
com:
• a unificação do país sob seu governo;
• a subjugação das tribos vizinhas.
A unificação do reino era essencial para lhe conferir identi-
dade política. Para tanto, o primeiro passo foi o estabelecimento
da capital, como já observamos, convertendo-a tanto em assento
de unidade política quanto religiosa.
Ao estudarmos a história de Israel, não devemos nos esque-
cer, nem por um instante, de que ela é formada e direcionada, pri-
mordialmente, pelo fator religioso, isto é, pela vontade de Iahweh.
Assim, a estratégia de Davi de tornar a capital política do reino em
sua capital religiosa foi brilhante!
O próximo passo tinha a ver com a destruição do poder filis-
teu, uma força que perturbava o sossego israelita muito antes do
Claretiano - Centro Universitário
152 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
surgimento de Saul. Esse propósito se realizou em duas batalhas,
ambas travadas no vale de Refaim, a sudoeste de Jerusalém.
A vitória de Davi sobre os filisteus assegurou-lhe o controle
do Corredor de Gezer e das cidades-estado cananeias subordina-
das aos filisteus, as quais se anexaram ao estado do norte (2Sm
24,7; 1Rs 4,12).
Com a anexação de cidades-estado cananeias, os reinos do
sul e do norte obtiveram um território unificado. Contudo, não se
podia dizer o mesmo da população, que agora contava com cana-
neus em relação de pertença aos estados israelitas, o que inevi-
tavelmente traria problemas de ordem religiosa um pouco mais
tarde.
No que se refere à subjugação dos vizinhos, Davi avançou
para Moabe, transformando-a em um estado vassalo que lhe pa-
gava impostos. Em relação a Zobá e Damasco, ainda que tivessem
se coligado para combater os israelitas, foram derrotadas e tive-
ram de pagar pesados tributos a Davi, que obteve desse embate
ricos despojos (2Sam 8,12-13).
Com Edom aconteceu o mesmo em batalha travada perto de
sua capital, Petra (2Sm 8,14), e, no tocante aos amonitas, não foi
diferente, apesar das alianças que Amon fizera com pequenos rei-
nos sírios que Davi não tinha dominado em campanhas anteriores
(2Sm 10).
Davi e a organização de seu reino
Diferente de Saul, Davi organizou o reino sob seu governo.
Preocupou-se não apenas com a defesa do território, mas com sua
expansão. Estabeleceu uma capital política e um centro cúltico,
para o qual nomeou o sacerdote-chefe como funcionário da Coroa
– o que indica a instituição do culto controlado diretamente pelo
rei, "como em outras nações".
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 153
Constituiu um pequeno ministério formado por um secretá-
rio de estado (Josafá), um chefe de exército (Joabe), um chefe da
guarda (Benaia), um conselheiro (Aquitofel) e um secretário parti-
cular (Ozai), além de manter um exército pessoal que não exigia a
incorporação de membros das tribos.
Para tanto, havia um sistema tributário sobre os vassalos que
aliviava as tribos, as quais vinham de uma longa história de resis-
tência a qualquer tipo de tributo.
É claro que o governo de Davi não foi isento de oposições.
Uma delas veio de seu próprio filho, Absalão, que conseguiu se
coroar rei em Hebron, a antiga capital do reino do sul (2Sm 15,7-
12), e assumir o controle de Jerusalém durante algum tempo (2Sm
15-17).
Outra oposição veio da parte Shebba, o benjamita. Benja-
mim era o berço de Saul e ali havia quem acreditasse que Davi não
era tão inocente assim em relação à morte da casa do primeiro rei.
Desse modo, é de Shebba, tratado como "vagabundo" (no
sentido de imprestável) na narrativa de 2 Samuel, que vem o famo-
so bordão que assumiria grande importância mais tarde: "Nós não
temos parte com Davi, nem patrimônio com o filho de Jessé. Cada
qual para as suas tendas, ó Israel!" (2Sm 20,1).
Não obstante às oposições, o reino sob Davi chegou ao seu
apogeu, e Israel encontrou nesse monarca um líder militar brilhan-
te e astuto, capaz de explorar a situação dominante em seu favor.
É fato que a narrativa bíblica não omite as fraquezas, os erros
e os desvios de Davi, como sua condescendência em relação aos
próprios filhos, o adultério com Bate-Shebba conjugado ao assas-
sinato de seu marido, bem como a inabilidade do rei na regula-
mentação da sucessão. Contudo, ainda assim, a tradição israelita
testemunha que Iahweh estava com ele.
Claretiano - Centro Universitário
154 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
6. PROBLEMA DA SUCESSÃO DINÁSTICA
No tocante à sucessão, uma sequência de tragédias marca a
família real. A falta de juízo crítico de Davi sobre seus filhos sempre
foi um problema para o soberano. Lembremos aqui do episódio do
incesto praticado por Amnon com sua irmã Tamar (2Sm 13). Davi
nem sequer o castigou!
Davi tinha seis filhos nascidos de diferentes mulheres, mas
não se decidiu por nenhum deles como seu sucessor no trono. Dos
seis vindos ao mundo ainda em Hebron, três foram mortos, restan-
do Amnon, Absalão e Adonias.
É claro que o mais velho, Amnon, se considerou o príncipe
herdeiro; no entanto, após os acontecimentos entre ele e Tamar,
para Absalão, o segundo na escala, Amnon estava desqualificado
como o sucessor de seu pai no trono. Por essa razão, esperou até
que houvesse condições para eliminar o irmão incestuoso e, assim
que pôde, o fez.
Depois disso, Amnon saiu do país até que a dor e a ira de Davi
minorassem. Isso acontecido, novamente a indulgência de Davi se
manifestou e ele recebeu Absalão de volta. Na sequência, Absalão
provoca um golpe de estado contra seu pai (2Sm 15). No entanto,
Absalão morreu de uma forma estúpida (preso pelos cabelos em
galhos de terebintos, tornou-se vítima fácil para Joabe) ao seguir
um conselho ainda mais estúpido de Cusai: caso Davi quisesse evi-
tar a batalha aberta e se refugiar em alguma localidade, Absalão
deveria passar cordas ao redor do muro dessa localidade e puxar
até que fosse arrastada para o vale e arrasada (2Sm 17).
Com Amnon e Absalão mortos, Adonias considerou-se o
sucessor óbvio de Davi e obteve o apoio de Joabe e de Abiatar,
ambos influentes ministros conservadores do reino. Entretanto,
quando tudo parecia indicar que Adonias seria o próximo rei, o
inesperado acontece: um partido de oposição é formado pelo sa-
cerdote Zadoque, pelo profeta Natã e por Benaia, comandante dos
mercenários de Davi.
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 155
Dessa forma, era defendida uma estranha proposta por esse
partido: o favorecimento do filho que Davi tivera do relacionamen-
to de origem duvidosa com Bate-Shebba e que, até então, sequer
havia sido cogitado – Salomão (DONNER, 2004).
7. ISRAEL, REINO GLORIOSO: O GOVERNO SOB SA-
LOMÃO
Natã e Bate-Shebba assumiram para si a tarefa de conven-
cer Davi a designar Salomão como príncipe corregente e herdei-
ro. Davi, já cansado dos conflitos familiares vindos de longa data,
cedeu às pressões morais da dupla, de maneira que Salomão foi
ungido rei e aclamado pelos mercenários (1Rs 1,38-40).
Salomão era um candidato muito improvável. E aqui po-
demos endossar perguntas muito pertinentes feitas por Donner
(2004): no auge de sua paixão pela esposa do aristocrata Urias,
Bate-Shebba, teria Davi feito a ela alguma promessa política rela-
cionada ao filho que tiveram? Ou acreditariam os partidários de
Salomão que os filhos gerados em Hebron, diante de tantos escân-
dalos, estariam todos desqualificados para o trono? Difícil dizer, e
qualquer suposição a essa altura pode levar a considerações de-
masiadamente fantasiosas.
Mas o fato é que a indecisão de Davi sobre os rumos
da sucessão foi a linha que perpassou todas essas querelas
político-familiares e que fez dele, já quando bastante velho, um
marionete nas tramas palatinas (DONNER, 2004).
Morte de Davi e reinado de Salomão
Na morte de Davi, ocorrida pouco tempo depois, Salomão
subiu definitivamente ao trono e logo tratou de eliminar qualquer
ameaça a seu reinado, iniciando por ordenar à Benaia que tirasse
Adonias de seu caminho na primeira chance que tivesse.
Claretiano - Centro Universitário
156 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Depois foi a vez de Joabe, um dos pilares do sistema esta-
tal davídico, assassinado pelo mesmo Benaia. E quanto a Abiatar,
acabou exilado em sua propriedade em Anatote, onde Salomão o
mantinha sob controle. Inúmeros materiais avulsos sobre o reina-
do de Salomão, de origem e época diversas, estão nos capítulos
3 a 11 do primeiro livro dos Reis. Ele é comumente referenciado
pela tradição como um governante sábio, o mais sábio de todos.
Mas há certos fatores em seu governo que talvez mereçam mais
destaque do que sua sabedoria.
Quando assumiu o trono, ali pela metade do século 100 a.C.,
a tarefa de Salomão parecia ser bastante óbvia: fortalecer o reino
para fora do território das tribos e, no plano interno, procurar os
meios de equilibrar seus elementos constitutivos diversificados.
Contudo, não foi bem assim. Inicialmente, Salomão estava
mais interessado no produto das conquistas de seu pai, de modo
que o período de seu governo foi marcado por ações ao melhor
estilo dos reis orientais: culto luxuoso, construções grandiosas, in-
tensa atividade comercial, especialmente importação (ouro, prata,
marfim, roupas finas, armas, cavalos de raça, perfumes, embarca-
ções fenícias, madeiras de lei, carruagens, carros de guerra, pavões
e macacos), grande intercâmbio diplomático e os primeiros frutos
de uma atividade intelectual israelita. Embora não tenha amplia-
do as conquistas de Davi, Salomão dedicou-se ao desenvolvimento
econômico e cultural do seu reino.
Desse modo, deu forma real ao projeto de construção do
templo idealizado por seu pai no monte Moriá, construiu os muros
ao redor de Jerusalém e edificou cidades fortes, como Megido e
Azor, além de haver reedificado Gezer e de ter feito fortificações
em algumas cidades (1Rs 9,17-19).
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 157
Figura 1 Maquete do templo de Salomão.
Entre as várias novidades implementadas no governo salo-
mônico estava a forma de administração, com a divisão do reino
em doze prefeituras, cada uma com seu administrador, responsá-
vel pelo cuidado dos interesses da coroa nas várias partes do país
e pelo abastecimento da corte por um mês no ano (1Rs 4,7-19).
Em sua obra História de Israel a partir dos pobres, Jorge Pixley faz
uma crítica bastante contundente a esse tipo de administração,
que, para ele, fez que o governo da nação passasse a ser piramidal.
Além disso, em Pixley (1990), lemos que Salomão elevou a outro
nível o sistema de corveia (trabalho forçado), que havia sido ape-
nas iniciado por Davi anos antes.
Esse sistema é descrito em alguns detalhes em 1Rs 5,27-32
e era empregado para as atividades de construção, exército, minas
e no serviço dos navios. A corveia é, sem dúvida, uma forma de
pagar imposto.
Entretanto, não era a única. Havia o fornecimento de pro-
dutos agrícolas e de gado para exportação e manutenção da corte
e do exército (BALANCIN, 1990). Logo, a conta dos grandes em-
Claretiano - Centro Universitário
158 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
preendimentos era mandada para o mesmo povo, que tinha longa
tradição de resistência ao pagamento de tributos, mas que se vira
envolvido nesse sistema por seu próprio rei.
Apesar dos episódios sangrentos que envolveram a ascensão
de Salomão ao trono, os 40 anos do seu reinado foram pacíficos,
com exceção de um embate contra Hadade, o Idumeu, e de al-
guns distúrbios fomentados por Rezom, da Síria, e por Jeroboão,
de quem falaremos mais tarde. O conflito com outros povos pas-
sou a ser resolvido de forma diplomática e pelo comércio, o que
apontou, também, as contradições do novo sistema:
• Já que não havia inimigo a combater, para que o imposto
destinado à manutenção do exército?
• O comércio com o exterior exigia dos israelitas uma gran-
de produção de excedente, o que não gerava nenhum re-
torno econômico para os camponeses, além de exigir que
consumissem cada vez menos.
No entanto, a obsessão de Salomão, com a glória de Israel
em franca oposição com sua despreocupação em relação à solidi-
ficação de seu governo para fora, foi o que propiciou o começo do
esfacelamento do grande reino de Davi.
Dessa forma, parte do território de Edom escapou ao domí-
nio de Salomão, bem como parte da província aramaica, com aten-
ção especial para Damasco, que, mais tarde, se tornaria o mais
perigoso inimigo do reino do norte (1Rs 11,23-25).
Rompimento da conexão norte e sul
Morte de Salomão e elevação de Roboão
Salomão, quando faleceu, em 926 a.C., foi sucedido no trono
por seu filho Roboão, que não teve nenhum problema em se esta-
belecer em Jerusalém como rei de Judá, amparado pela continui-
dade dinástica.
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 159
No entanto, as coisas ao norte eram um pouco diferentes. As
tribos de lá não se sentiam incondicionalmente obrigadas a reco-
nhecer o padrão dinástico e reservavam o direito de convocar para
si um novo regente, bem como de se submeterem a ele por meio
de determinadas regulamentações contratuais.
Contudo, as tribos do norte estavam dispostas a reconhecer
Roboão como seu rei, desde que se pudesse negociar com ele o
sistema tributário criado e imposto por Salomão. Roboão, equivo-
cadamente, não admitiu qualquer negociação e, por essa teimosia,
provocou a separação das tribos do norte da Casa de Davi. A ele-
vada tributação tinha relação com o padrão de consumo da corte,
razão pela qual não assentiu negociar os impostos e, em função da
redução na arrecadação, entendeu, para seu próprio bem, ampliar
a espoliação, a fim de manter seus aliados na corte.
Reino do norte e elevação de Jeroboão
O reino do norte elegeu Jeroboão como seu rei, aquele mes-
mo Jeroboão que se havia insurgido contra Salomão algum tempo
antes e que, por isso, se viu obrigado a fugir para o Egito. A atitude
estúpida de Roboão teve consequências insuperáveis para ambos
os reinos.
A ligação entre os dois estados por meio de união pessoal
deixava de existir de forma decisiva, e o reino de Davi decompôs-
-se; com isso, o estado do norte (Israel) e o estado do sul (Judá) se-
guiram existindo como dois reinos sem muita importância política
entre as potências formadas no Oriente Próximo.
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160 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Figura 2 Os reinos do norte (Israel) e do sul (Judá).
Ciclo do reino do norte
Jerusalém continuou a ser a residência dos davididas e capi-
tal de um pequeno reino, enquanto Jeroboão, mais uma espécie
de reformador do que propriamente um rei, passou por Siquém,
Penuel e, finalmente, por Tirza, onde fixou a capital do norte du-
rante algumas décadas.
Embora Jerusalém tivesse deixado de ser capital para os
nortistas, os cidadãos governados por Jeroboão continuaram suas
peregrinações ao templo, que, apesar de tudo, ainda era sentido
como centro cultual, afinal, era lá que havia a Arca da Aliança.
Entretanto, as consequências religiosas não tardaram a vir.
Jeroboão transformou em centros cúlticos estatais os antigos san-
tuários das cidades de Dã e de Betel e, em cada uma delas, eri-
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 161
giu a imagem dourada de um touro, sobre o qual Iahweh estaria
apoiado, invisivelmente. Jeroboão entendeu que, se os nortistas
continuassem a ir até o templo de Jerusalém, a separação não se-
ria efetivada.
Outra medida religiosa de Jeroboão foi constituir sacerdotes
escolhidos entre o povo e que não eram filhos de Levi (1Rs 12,31).
Essa ação foi duramente criticada, pois, durante muito tempo, so-
mente os levitas exerciam funções nos santuários; eram especial-
mente separados para esse ofício.
Enquanto, no sul, a questão da sucessão permanecia resol-
vida de uma vez por todas com o reinado hereditário, no norte,
não se admitiu nenhuma dinastia que se mantivesse governando
perpetuamente.
Essa opção mais "democrática" do norte evitava que o povo
tivesse de suportar um soberano injusto, mas trazia consigo gran-
de instabilidade política. Desse modo, depois de Jeroboão, que
reinou por 22 anos, o reino do norte enfrentou um ciclo de golpes
de estado encabeçados pelo exército, que, embora não possuísse
credibilidade diante do povo, possuía as armas!
É claro que, no norte, havia uma tensão entre reinado por
eleição e a tentativa de se estabelecer uma dinastia; no entanto,
todas essas tentativas foram rechaçadas. Um novo homem sem-
pre era designado como futuro regente e, para garantir seu gover-
no, tratava de eliminar toda a parentela do regente anterior.
Assim, de golpe em golpe, Jeroboão I, Nadabe, Baasa, Elá e
Zinri, a história chega a Amri, que governou o reino do norte por
12 anos, construiu a cidade de Samaria, fixando, definitivamente,
a capital nortista.
Dinastia de Amri
Amri também teve o mérito de ter conseguido fundar uma
dinastia que durasse mais que uma geração (1Rs 15,25-16,22) e
Claretiano - Centro Universitário
162 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
de manter boas relações com Judá durante todo tempo em que
reinou. Boas relações que se estenderam pelo período de sua di-
nastia, que durou 30 anos.
A política exterior de Amri consistiu-se em reconhecer Aram-
-Damasco e em estabelecer aliança com Tiro, a qual foi consolidada
pelo casamento de seu filho Acab com a princesa fenícia Jezabel.
Para fundar aliança com o reino do sul, Atalia, filha de Acab,
casou-se com Jorão de Judá, filho de Josafá; por causa dessa boa
relação, Israel e Judá chegaram a enfrentar juntos Damasco (1Rs
22).
Enquanto as políticas externas de Amri iam obtendo cada
vez mais êxito, os principais problemas para os amridas eram veri-
ficados internamente e tinham caráter religioso. Ao se casar com
Acab, Jezabel parece ter trazido consigo sacerdotes de Baal.
Partindo daí, a estratégia adotada por Amri e seus descen-
dentes foi estabelecer o culto de Baal em Samaria, sem impedir
que o culto de Iahweh acontecesse em Betel e Dã, de modo que
Baal fosse cultuado pelos habitantes da Samaria, e Iahweh, pelas
tribos (PIXLEY, 1990).
Essa medida gerou conflitos e mortes. Os profetas de Iahweh
foram eliminados por Jezabel (1Rs 18,4), e, em contrapartida, o
profeta Elias degolou os profetas de Baal (1Rs 18,40). A situação
interna permaneceu crítica até 841 a.C., com a queda da dinastia
dos amridas.
O caso dos amridas aconteceu da mesma forma que em ou-
tros reinados: com um golpe de estado desferido por certo Jeú, ofi-
cial do exército. Esse golpe foi demasiadamente sangrento e deu
conta da morte de algumas figuras importantes, como Jorão (2Rs
9,22-26), Acazias, rei de Judá (2Rs 9,27-29), que era filho de Atalia,
e, também, um grupo da família real de Judá (2Rs 10,12-14).
Novamente, temos a questão religiosa como desencadeado-
ra de ações extremas. Em 2 Reis 9,1-10, ressalta-se que o profeta
Eliseu estimulou Jeú, que, entre suas medidas religiosas, eliminou
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 163
o culto a Baal de Samaria (2Rs 10,18-27), mas não sem fazer escor-
rer o sangue de seus sacerdotes e profetas, bem como daqueles
que conseguiu identificar como adeptos de Baal.
Como bem observa Pixley (1990), ainda que o texto de 2 Reis
afirme que Jeú eliminou de Israel o culto de Baal, essa afirmação
talvez não possa ser tomada ao pé da letra, pois, como Baal era
identificado como divindade da almejada chuva, ele certamente
era o deus de muitos camponeses (PIXLEY, 1990). Dessa forma, po-
demos supor que Jeú tenha extirpado o culto oficial de Baal, mas
não o culto mais primitivo prestado entre a população camponesa.
Como era de se esperar, as mortes causadas em Judá pelo
golpe praticado em Israel puseram fim à política de boa vizinhan-
ça que se havia estabelecido durante décadas. A guerra, contudo,
não se deu de imediato, mas somente uns cinquenta anos mais
tarde, quando o rei de Judá, Amasias, fez uma incursão sobre o
exército de Israel, sendo derrotado e levado como prisioneiro para
Samaria (2Rs 14,8-14).
A dinastia de Jeú permaneceu por quase 100 anos no poder,
tendo alguns dos seus membros mais destacados, como Joás, Jeo-
acaz e Jeroboão II, que reinaram pelo espaço de 41 anos. Nesse
meio tempo, muitos levantes se sucederam, como a quarta de cin-
co invasões da Síria por Salmanesser III em 841 a.C.
Assim como as cidades fenícias, o reino sob o poder de Jeú
teve de pagar pesados impostos ao rei assírio, enquanto também
precisou se defender das investidas de Damasco e de, pelo menos,
três empreendidas por Hazael (2Rs 8,12; Am 1,3), que conseguiu,
dessa maneira, apoderar-se de várias cidades israelitas.
A ameaça arameia só foi detida nos anos 800 a.C., quando o
rei assírio Adadnirari III fez que ela se rendesse. Nessa época, o rei
israelita era Joás, que, em decorrência da ação assíria, conseguiu
tomar de volta algumas das cidades conquistadas por Hazael.
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164 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Depois dele, Jeroboão II, sob a asa da política assíria, conse-
guiu recompor parte do território israelita (2Rs 14,25). A dinastia
iniciada por Jeú teve seu fim nos anos 745 a.C., quando Zacarias,
filho de Jeroboão, foi assassinado por Salum; com seu término,
"estava definitivamente apagada a última fase brilhante de Israel"
(METZGER, 1978, p. 92).
Embora a Assíria já estivesse "por perto" desde as invasões
e a anexação da Síria, somente a partir de 740 a.C., essa potência
militar reconhecida e temida por sua brutalidade (Is 5,26-29; Na 2)
resolveu avançar na direção do estado de Israel. A sujeição aconte-
ceu em três etapas características da política expansionista assíria:
• pagamento de tributo em 738 a.C. (2Rs 15,19ss.);
• redução do Estado em 733-2 a.C. por seu desmembra-
mento (2Rs 15,29);
• anexação do que sobrou ao sistema provincial assírio,
com consequente perda de direito político, econômico
e religioso, deportação da classe dirigente e instalação
de uma elite estrangeira em seu lugar (BALANCIN, 1990;
SCHMIDT, 2004).
Observe:
Figura 3 Império assírio.
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 165
A sequência das três ações assírias sobre determinada nação
iniciava-se com a sua insurreição. Dessa forma, a tentativa de pe-
quenos estados, como Israel, de livrarem-se da subordinação ape-
nas os afundava e os levava aos estágios seguintes.
Como resultado da Guerra Siro-Efraimita (que Rezim da Síria e Peca
de Israel travaram contra Judá para obrigá-lo a integrar uma coali-
zão contra a Assíria), os assírios invadiram Israel e o precipitaram
para o segundo estágio de dependência, ou seja, mutilação do es-
tado. Judá escapou, mas incorreu no primeiro estágio de depen-
dência e teve que pagar pesados impostos ao governo assírio (2Rs
16,8,10ss).
Samaria resistiu durante três anos, mas caiu em 722 a.C.;
com ela, o reino do norte ou o estado de Israel. Como os assírios
espalharam a elite expatriada, os rastros das tribos do norte foram
apagados.
Enquanto isso... mais ao sul...
Em 931 a.C., quando as dez tribos do norte se levantaram
contra Roboão e se desligaram permanentemente do reino do sul,
o jovem rei refugiou-se em Jerusalém, de onde ele e seus descen-
dentes implantaram um reino diferente daquele ao norte, que
perpetuasse as tradições políticas e religiosas davididas.
Durante o reinado de Roboão e dos dois governantes que
o sucederam, ocorreram embates com Israel. A paz que veio no
tempo de Josafá (873-848 a.C.), mediante a aliança com a casa de
Amri, foi bruscamente interrompida pela morte da família real do
sul por Jeú, durante o levante em 841 a.C.
Nessa época, esteve no trono Atalia, mãe do rei morto e
membro da família real assassinada por Jeú em Israel. Atalia fez o
que era costume corrente no reino de seus pais: para permanecer
no poder, eliminou toda a descendência de Davi, com exceção de
seu neto Joás, que foi escondido pela tia. Essa foi a primeira vez
que o trono de Judá foi ocupado por alguém que não fosse da casa
de Davi.
Claretiano - Centro Universitário
166 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Aos sete anos de idade, Joás foi proclamado rei, e Atalia, exe-
cutada (2Rs 11). O reinado de Joás foi longo, mas, em razão de suas
indecisões e fracassos militares, acabou assassinado (2Rs 12,21).
Após sua morte, o trono foi assumido por seu filho Amasias,
aquele que investiu contra Israel, mas não obteve bons resultados
(2Rs 14,8-14). Depois disso, seguiu-se a "estiagem bélica" durante
o século 80, até a ruína de Samaria.
Essa dinâmica desencadeada após a morte de Acazias apon-
ta para uma tensão permanente entre os reis e seu próprio pesso-
al. Atalia foi morta pelo movimento levantado e encabeçado por
sacerdotes e pelo povo da terra, apoiados por certa ala do exérci-
to. Joás, que a substituiu, foi assassinado por seus servos, com o
apoio dos sacerdotes.
Amasias, que esteve prisioneiro de Israel em 792 a.C., quan-
do libertado, foi assassinado por gente de Jerusalém. Assim, con-
forme o reino do norte se via cada vez mais perto de desaparecer,
as tribos do sul encontravam-se em processo de desintegração
política.
Segundo Pixley (1990), o problema parecia residir no inchaço
da burocracia estatal. Havia administradores demais! Por ocasião
da separação do norte, os administradores do sul que estavam em
Israel também se refugiaram em Jerusalém.
Ao longo da história de Judá, algumas reformas foram em-
preendidas no sentido de reduzir o staff administrativo; e, em 911-
870 a.C., o primeiro esforço é verificado com Asa (2 Cr 14,4). Os
"lugares altos", além de centros religiosos, eram também postos
de governo.
Pela eliminação deles, Asa pôde enxugar um pouco a máqui-
na administrativa judaíta. Esforços subsequentes vieram, em 873-
848 a.C., com Josafá (2 Cr 17,6), e, em 716-687 a.C., com Ezequias
(2 Cr 29-31).
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 167
No plano externo, a gigante nuvem assíria também começa-
va a fazer sombra sobre Judá, que, em 734 a.C., durante o reinado
de Acaz, havia se tornado reino vassalo da Assíria, pagando-lhe
tributos e submetendo-se à sua política exterior. Várias incursões
foram feitas pelo governante assírio na Palestina, que foi definiti-
vamente conformada por Senaquerib apenas em 701 a.C.
Por essa época, Senaquerib derrotou Judá e impôs-lhe o se-
gundo estágio de dependência: desmembrou Judá, deixando ao
reino avassalado somente a capital, Jerusalém, e seus arredores.
Esse segundo estágio se deu durante o reinado de Ezequias (716-
697 a.C.).
Em suma, desde 722 a.C., Israel estava anexado à Assíria,
cujo rei era, então, Sargão II, enquanto Judá era seu Estado vas-
salo, desde 734 a.C. No entanto, sua vantagem diminuiu, sensi-
velmente, quando foi reduzido à sua capital, com sua margem de
alcance em 701 a.C.
Contudo, mesmo a superpotência assíria começou a ter seu
poder vagarosamente desgastado depois do ano 650 a.C. Após o
reinado vassalo de Manasses, já no período de declínio da sobe-
rania assíria, Josias (639-609 a.C.) teve habilidade para retomar o
poder político, bem como parte do reino do norte.
Este curto período de liberdade possibilitou a reforma em que se
introduziu o Deuteronômio, ou sua forma primitiva, como uma es-
pécie de lei estatal, deputou-se o culto, excluindo elementos aliení-
genas e proclamou-se Jerusalém santuário exclusivo em Israel (622
a.C.; 2Rs 22s) (SCHIMIDT, 2004, p. 31).
A Assíria debilitada já tinha sucessores: os medos e os cal-
deus ou neobabilônios. Na divisão territorial, coube aos babilônios
toda a Mesopotâmia e a soberania sobre a Palestina-Síria. Assim,
Jeoaquim, filho de Josias e rei de Judá nessa época, tornou-se vas-
salo de Nabucodonosor, príncipe herdeiro da Babilônia.
Não demorou muito e Jeoaquim deixou de pagar os tributos
à Babilônia. Num primeiro momento, Nabucodonosor não desfe-
riu nenhum golpe decisivo sobre Judá. Contentava-se, de vez em
Claretiano - Centro Universitário
168 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
quando, em enviar tropas de incursões para perturbar Judá, mas
nada além disso.
Nabucodonosor apenas movimentou,, seriamente, suas tro-
pas em direção ao reino do sul quando soube da morte de Jeo-
aquim, no ano de 598 a.C. Seu intento era minar a soberania de
Jeconias, seu filho e sucessor.
Desse modo, Jerusalém sofreu seu primeiro sítio em 597
a.C., e Jeconias foi exilado com sua família, a classe alta, formada
por homens capacitados para o serviço militar, e os artesãos, entre
os quais encontramos o profeta Ezequiel.
Nabucodonosor foi indulgente com Jerusalém e entronizou
um davidida chamado Matanias, de quem mudou o nome para
Zedequias (597-587 a.C., 2Rs 24,17). Isso significa que, pelo menos
em princípio, o rei babilônico não anexou Judá, mas permitiu que
ele continuasse como um estado vassalo.
Durante alguns anos, Zedequias manteve fidelidade ao siste-
ma de vassalagem babilônico, mas sucumbiu diante das pressões
da opinião pública, ignorando os avisos de Jeremias, para que não
se rebelasse contra o rei babilônico. A medida de Zedequias teve
resposta imediata da Babilônia, que se lançou sobre Judá em 587-
586 a.C. e, sem encontrar muita resistência, ocupou todo o seu
território.
Zedequias tentou fugir para a Transjordânia, mas foi pego e
viu seus filhos serem mortos diante de si. Em seguida, tendo seus
olhos vazados, foi levado como prisioneiro para a Babilônia. Algu-
mas semanas após conquistarem Jerusalém, os babilônios atea-
ram fogo ao palácio, às fortificações e a outras grandes constru-
ções, dentre elas, o templo.
A Arca da Aliança, antigo santuário e registro da igualmente
antiga confederação das doze tribos, deve ter sido consumida pelo
fogo juntamente com o templo. Assim, chegou ao fim para Judá
sua existência como Estado.
© U5 - Monarquias: Israel e Judá 169
8. QUESTões AUTOAVALIATIVAs
Confira, na sequência, as questões propostas para verificar
seu desempenho no estudo desta unidade:
1) Como a monarquia se estabeleceu em Israel?
2) Após Salomão, por qual razão o Reino se dividiu e por que, em pouco mais
de 250 anos, nenhum reino sobreviveu?
9. CONSIDERAÇÕES
Esta unidade nos apresentou a dinâmica da formação mo-
nárquica na história de Israel. Em princípio, havia uma confedera-
ção de tribos que contava com o surgimento de alguma figura de
liderança carismática quando elas estavam em perigo.
Contudo, essa medida nem sempre funcionava a contento,
visto que tribos cujos territórios estavam fora do raio de perigo
não estavam sempre dispostas a atender aos apelos daquelas em
situação crítica.
Daí a necessidade de organização de um exército que defen-
desse as tribos, e da vontade se ser "como as outras nações", sur-
ge a proposta monárquica. Partindo daí, uma série de desdobra-
mentos revelam-nos estratégias, organizações, desorganizações,
tramas, golpes, alianças lícitas e ilícitas, a conexão entre norte e
sul por meio de um rei único, a desconexão subsequente em razão
da inabilidade do pretendente monárquico.
Dessa forma, acrescenta-se a isso assassínios, casamentos
diplomáticos e situações delicadas emergentes deles, anarquias,
indulgências, reformas, brios, medidas pouco inteligentes, estra-
nhezas religiosas, opressões sob roupagens diversas, vassalagem,
desterro, extinção dos estados afinal.
A organização de um governo não é algo ruim. Aliás, é neces-
sária para a ordenação da existência e identidade de um povo. É
Claretiano - Centro Universitário
170 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
muito provável que as tribos de Israel tivessem desaparecido mui-
to rápido se nada houvesse sido feito no sentido de organizá-las
como nação (ou nações).
O grande dilema surge das ações dos governantes, que po-
dem se mover entre a perpetuação e o indiscutível aniquilamento
de um povo com todo o complexo relacional (social, religioso, eco-
nômico, cultural etc.) que o constitui.
A boa notícia é que a história do povo do Antigo Testamento
não se encerra com o crepúsculo dos reinos, primeiro do norte e
depois do sul. Ela continua sob novas condições, como veremos na
unidade seguinte.
10. E-REFERÊNCIAS
Lista de figuras
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© U5 - Monarquias: Israel e Judá 171
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Claretiano - Centro Universitário
Claretiano - Centro Universitário
EAD
De Nabucodonosor a
Alexandre
6
1. OBJETIVOS
• Reconhecer as potências no mundo antigo sob as quais os
judeus se viram subordinados.
• Reconhecer as estratégias usadas pelos conquistadores
em relação aos conquistados.
• Identificar elementos de transição cultural e religiosa.
• Identificar elementos que conferiram identidade aos ju-
deus na sucessão de processos e de projetos dominató-
rios.
2. Conteúdos
• Histórias da história do cativeiro dos judeus na Babilônia.
• A hegemonia persa e o retorno dos judeus a Jerusalém.
• Judá ou Judeia na era helenística.
• A dinastia dos asmoneus.
174 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
3. Orientações para o estudo da unidade
Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Os conceitos a serem abordados podem ser assimilados
mais facilmente a partir de debates, questionamentos
e cooperação. Desse modo, discuta os temas com seus
colegas.
2) Se você se interessar pelas maravilhas do mundo anti-
go, consulte a obra As sete maravilhas do mundo anti-
go, de autoria de Peter. A. Clayton e Martin J. Price, da
Ediouro, datada de 2003. Além de ser uma obra muito
interessante sobre o assunto, ela revela os detalhes das
célebres construções monumentais da Antiguidade. E
quais foram essas maravilhas? Além dos Jardins Suspen-
sos da Babilônia, há, ainda, a grande Pirâmide de Gizé,
a estátua de Zeus em Olímpia, o templo de Ártemis em
Éfeso, o Mausoléu de Halicarnasso, o Colosso de Rodes
e o Farol de Alexandria. Leitura altamente recomendá-
vel, especialmente para aqueles que se interessam em
conhecer o que significaram e significam essas constru-
ções, das quais, hoje, resta, apenas, a Pirâmide de Gizé.
4. Introdução à Unidade
Após um "sobrevoo" sobre a formação e dissolução das mo-
narquias em Israel e Judá, colocamos nossos pés na Unidade 6,
que continua o tema da unidade anterior e trata, principalmente,
da história política de Israel.
A partir deste momento, chegamos a etapas muito especiais
nessa história, pois trataremos de quando os israelitas, por meio
de uma sucessão de impérios esplêndidos, viveram experiências
diversificadas, principalmente no campo cultural.
As perguntas que nos conduzirão ao longo desta unidade
são:
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 175
1) Quais as consequências da destruição do reino próprio
para o povo israelita ou judeu?
2) A quem as políticas internas e externas beneficiavam?
3) Quais interesses se escondiam por detrás das benevo-
lências dos conquistadores?
4) Quais eram os interesses judaicos expressos em suas
ações político-religiosas?
Para o estudo deste Caderno de Referência de Conteúdo,
apresentaremos uma visão geral dos judeus sob o domínio dos ba-
bilônios, que culminou com o exílio da elite.
Estudaremos, também, sobre o poder do magnífico Impé-
rio Persa, que usou estratégias inéditas e diferentes das potências
anteriores para manter os israelitas conformados. Para finalizar,
verificaremos qual foi sua situação por ocasião da dominação dos
soberanos helênicos e, às vésperas da era romana, como se porta-
ram num sistema de governo próprio.
Para iniciar o estudo desta unidade, confira, no tópico a se-
guir, um pouco da história de Nabucodonosor.
5. NABUCO QUEM?
Nabucodonosor era o filho mais velho e sucessor de Nabo-
polassar, que iniciou o domínio caldeu sobre a Babilônia em 626
a.C. Durante seu reinado (605-562 a.C.), o Império Babilônico co-
nheceu seu período de glória e teve sua majestade descrita alguns
séculos mais tarde pelo famoso historiador grego Heródoto.
Nabucodonosor esteve ao lado de seu pai no comando das
tropas contra os assírios (607-606 a.C.) e, após assumir o trono, em
605 a.C., rumou para a Síria, a fim de continuar a guerra contra o
Egito, a qual Nabopolassar houvera iniciado.
Líder nato e brilhante, Nabucodonosor derrotou os egípcios,
aniquilou os fenícios, tomou a Palestina e obteve o controle total
do Oriente Médio. Ao lado de suas vitórias militares, outro de seus
Claretiano - Centro Universitário
176 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
grandes feitos foi reconstruir a Babilônia com fortificações, embe-
lezando os templos, construindo fossos, abrindo canais e fazendo
construções deslumbrantes, como os famosos Jardins Suspensos,
reconhecidos por nós como uma das sete maravilhas do mundo
antigo.
Os Jardins Suspensos da Babilônia foram uma das sete ma-
ravilhas do mundo antigo. Talvez, uma das maravilhas relatadas
sobre que menos se sabe. Muito se especula sobre suas possíveis
formas e dimensões, mas nenhuma descrição detalhada ou ves-
tígio arqueológico já foram encontrados, além de um poço fora
do comum, que parece ter sido usado para bombear água. Seis
montes de terra artificiais, com terraços arborizados apoiados em
colunas de 25 a 100 metros de altura, construídos pelo rei Nabu-
codonosor para agradar e consolar sua esposa preferida Amitis,
que nascera na Média, um reino vizinho, e vivia com saudades dos
campos e florestas de sua terra (SAID, 2012).
Figura 1 Representação dos Jardins Suspensos da Babilônia.
6. ORIGEM DA HISTÓRIA DO CATIVEIRO DOS JUDEUS
NA BABILÔNIA
Na época das campanhas de Nabucodonosor e da tomada
do poder assírio, os reinos vassalos da Assíria continuaram vassa-
los da Babilônia. E, entre eles, Judá, um pequeno Estado, vindo de
uma conturbada e desastrosa cisão, que já havia passado pelo se-
gundo estágio da dominação assíria e que agora era ,praticamen-
te, composto por sua capital, Jerusalém, e seus arredores.
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 177
Como vimos na Unidade 4, enquanto Jeoaquim foi rei de
Judá, Nabucodonosor não se preocupou em invadi-lo. Entretanto,
as coisas não seguiram do mesmo modo quando Jeoaquim mor-
reu. Assim, seu filho Jeconias mal teve tempo de começar a reinar,
pois, dentro de alguns meses, o soberano babilônico procedeu ao
primeiro cerco sobre Jerusalém, que culminou com a deportação
do rei e de sua corte no ano 597 a.C.
Contudo, esse ainda não foi o fim de Judá. Ao invés de sim-
plesmente anexá-lo, Nabucodonosor decidiu deixar que o peque-
no estado continuasse a existir como vassalo e como governante
próprio.
Desse modo, ele mesmo instituiu Zedequias como rei. Nessa
época, o profeta Jeremias pregava a inteligência, ou seja, ele ad-
vertia ao povo de Judá que permanecesse sob a Babilônia, que,
segundo ele, estava sendo usada como instrumento de Iahweh (cf.
Jr 27-29).
Jeremias foi taxado como traidor, e não demorou para que
Zedequias cedesse às vozes que lhe diziam que ele deveria romper
com sua condição de vassalo babilônico.
Diante da rebelião de seu dependente, em represália, o rei
babilônico sitiou Jerusalém pela segunda vez, a fim de, primeiro,
abrir brechas em sua defesa; depois, reduzi-la a ruínas; e, por fim,
levar a elite de seus habitantes ao desterro.
Dessa forma, teve início o tempo do cativeiro dos judeus na
Babilônia de Nabucodonosor. A invasão e a destruição de Jerusa-
lém são detalhadas já pelo final do segundo Livro de Reis.
De certo, a tomada de cidades e de estados na Antiguidade
vai além do que entendemos como trágico. Especialmente no caso
dos israelitas, a tragédia ganha proporções também religiosas, afi-
nal, a terra perdida era a mesma terra da promessa originadora do
êxodo. Era a herança especial de Israel dada por Iahweh e conquis-
tada com muitas lutas.
Claretiano - Centro Universitário
178 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Nesse momento, Judá, o último representante da totalidade
de Israel, por causa da dissolução do reino do norte no tempo da
Assíria, também havia sido eliminado como unidade política. Nos
tempos do episódio, a Babilônia era bastante próspera: possuía
seus Jardins Suspensos, tinha suas ruas asfaltadas, possuía gran-
diosos palácios e templos suntuosos; tudo o que uma grande ci-
vilização podia produzir lá se encontrava nessa época. De acordo
com Heródoto, a cidade tinha cerca de 380km2, muralhas duplas,
100 portas de bronze (sendo 25 de cada lado) e o Rio Eufrates, que
passava pelo meio da cidade. O povo levado cativo teve permis-
são para viver em colônias, o que impediu sua dispersão total. A
preocupação evidente nos escritos dos profetas contemporâneos
em relação ao exílio diz respeito à permanência da identidade re-
ligiosa, étnica e cultural, mesmo longe da Terra Prometida (LOPES,
2007).
A destruição do templo representou, ainda, um impacto par-
ticular. Segundo a tradição, o templo era a habitação de Iahweh,
e, de acordo com a lei judaica, somente ali os sacrifícios de ani-
mais podiam ser aceitos; não havia e não podia haver outro lugar.
Contudo, os guerreiros inimigos entraram, invadiram o lugar mais
sagrado, no qual somente o sumo sacerdote podia entrar, saquea-
ram seus tesouros e incendiaram o que sobrou.
Seguiu-se, então, uma sequência de três deportações rela-
cionadas aos membros da classe dominante e da nobreza, restan-
do na terra apenas classes inferiores, constituídas de agricultores.
Para evitar futuros movimentos de independência, Nabu-
codonosor executou sacerdotes, oficiais, funcionários da corte e
membros da nobreza. O livro Lamentações de Jeremias oferece-
-nos uma visão do que aconteceu naquela época: a fome veio aos
moradores da cidade, as mulheres foram violentadas, era necessá-
rio pagar para ter água e lenha, havia trabalho forçado e mesmo a
colheita era feita sob constante risco de vida, já que a terra havia
se tornado exposta aos beduínos.
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 179
Nesse contexto, formaram-se três grupos da população de
Judá:
• O primeiro é aquele dos deportados, que mantinha suas
expectativas em Jeconias, que estava preso com eles.
• O segundo é composto por aqueles que fugiram para re-
giões como Amon e Egito, sobre cujos projetos políticos
não existem registros.
• O terceiro refere-se àqueles que apoiavam o projeto de
Godolias, sob a proteção da Babilônia. Esse Godolias, um
funcionário sem parentesco com a casa de Davi, foi cons-
tituído sobre Judá por Nabucodonosor, logo após a queda
de Zedequias. Do segundo grupo saiu certo Ismael, que,
mais tarde, assassinaria Godolias (Jr 41,1-3).
O que impediu a dispersão total do grupo levado cativo foi
a obtenção de permissão para viver em colônias, enquanto seguia
sonhando com um retorno a Jerusalém. Sua saudade é registrada
de forma bela no triste canto recolhido no Salmo 137:
À beira dos rios da Babilônia, ali ficávamos sentados,
Desfeitos em prantos, pensando em Sião.
Nos salgueiros da vizinhança
Havíamos pendurado as nossas cítaras.
Ali os conquistadores nos pediam canções
E os nossos raptores, melodias alegres:
"Cantai para nós algum canto de Sião".
Como cantar um canto do Senhor em terra estrangeira?
Se eu te esquecer, Jerusalém, que a minha direita esqueça...!
Que a minha língua se me cole ao céu da boca
Se eu não pensar mais em ti,
Se eu não preferir Jerusalém a qualquer outra alegria (vv. 1-6).
De fato, muitos recomeçaram a vida na Babilônia e jamais
regressaram à Palestina, de modo que a cidade do exílio acabou
por se tornar um importante centro do judaísmo. É muito provável
Claretiano - Centro Universitário
180 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
que vários livros do Antigo Testamento, entre os quais o Deutero-
nômio, tenham chegado à sua redação final na Babilônia. Deute-
ronômio, por exemplo, narra a libertação de Jeconias da prisão.
Como não havia mais templo e não se podiam oferecer sa-
crifícios em terra impura, dois elementos rituais que não estavam
ligados a locais cúlticos foram especialmente destacados: a circun-
cisão e a observação do sábado. Esses costumes, aos quais, mais
tarde, a oração com os olhos voltados para Jerusalém foi acrescen-
tada (1Rs 8,48; Dn 6,10), passaram a constituir sinais da aliança e
de filiação a Iahweh (Ez 20,12 e 20; Gn 17,11).
Dessa forma, são nessas terras que surgem duas expectati-
vas para a restauração de Israel:
• A primeira delas se dá com o profeta Ezequiel, cujo pro-
grama gira em torno da reconstrução e reorganização do
serviço do templo (Ez 40-48).
• A segunda pode ser verificada com um profeta anônimo
que costumamos chamar de Segundo ou Deutero-Isaías
(Is 40-55), cujo objetivo era animar o povo abatido. Israel,
o servo castigado, já havia pago suas culpas (Is 40,1-2), e
seu sofrimento possuía funções salvíficas, pois, por meio
dele, as nações acreditavam em Iahweh (Is 52,13 e 53,12).
A tragédia da destruição de Jerusalém e a consequente de-
portação da elite conduziram a uma nova reflexão nos círculos
que se mantinham fiéis a Iahweh. As perguntas emergidas da crise
questionavam a duração do reino de Davi e o templo como local da
habitação de Iahweh e de seu nome.
As respostas a elas estão reunidas nas Lamentações de Jere-
mias e na obra historiográfica deuteronomista (Josué, Juízes, 1 e 2
Samuel e 1 e 2 Reis). Segundo esses corpos literários, a desgraça
de Israel foi um juízo de Iahweh sobre seus pecados (Lm 2,6ss;
4,17; Sl 89,39-46). Por isso, também, toda a esperança deveria ser
depositada nele, o único capaz de restaurar a glória de antes.
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 181
Nesse sentido, o chamado ao arrependimento e as confis-
sões eram os elementos centrais da liturgia das Festas de Lamen-
tação celebradas no santuário arrasado, uma imagem bastante
forte e triste.
7. VÃO-SE OS BABILÔNIOS, VÊM OS PERSAS
A sucessão ao trono babilônico após a morte Nabucodono-
sor em 562 a.C. deu início ao declínio do império, que agora se via
à mercê de golpes de estado. Esse enfraquecimento era propício
para o surgimento de uma nova potência: a Pérsia.
Em meados do século 6º, os persas estavam submetidos aos
medos, assim como outros povos iranianos, dos quais cobravam
impostos. Essa situação se estendeu até o ano 550 a.C., quando
um príncipe persa chamado Ciro liderou uma revolta contra o rei
medo Ciaxerxes e saiu vitorioso. Ciro, o Grande (560-530 a.C.), tor-
nou-se rei dos medos e persas após haver conquistado Ecbátana e
destronado Astíages (555 a.C.). Conquistou, também, a Babilônia
(539 a.C.). O império ia desde o Helesponto até as fronteiras da
Índia.
Desse modo, Ciro tornou-se o senhor do império medo, que
incluía o Irã, a Armênia, a Ásia Menor e parte da Mesopotâmia
Setentrional. Em 546 a.C., derrotou o rei da Lídia, fazendo que seu
reino se estendesse para a Ásia Menor Ocidental.
Alguns anos mais tarde, em 539 a.C., derrotou Nabonido e
anexou o reino babilônico ao qual pertencia a Palestina-Síria. Em
525 a.C., o sucessor de Ciro, seu filho Cambises, expandiria o do-
mínio persa até o Egito e teria para si o mérito de ser o governante
do primeiro império a se deitar por todo o Oriente Próximo (toda
a Mesopotâmia, Irã, Egito, Ásia Menor e Palestina-Síria).
O império persa atingiu seu auge em termos de território
com Dario I, quando foram conquistados o Vale do Rio Indo, no
leste, e a Trácia, no oeste. Em seu esquema administrativo, Dario
Claretiano - Centro Universitário
182 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
I dividiu o império em províncias, para as quais nomeou gover-
nadores de confiança, os denominados sátrapas. Também cons-
truiu grandes estradas (a famosa Estrada Real ligava seu imenso
império), o que facilitou o deslocamento de tropas e o movimento
comercial.
Foi durante o reinado de Ciro, o Grande, que o cativeiro babi-
lônico dos judeus chegou ao fim, pois o soberano permitiu a volta
deles a Jerusalém, bem como a reconstrução do templo no ano
538 a.C., com as despesas às expensas da reserva do Estado persa.
Por isso, Ciro é visto pelo Segundo Isaías como um libertador aben-
çoado por Deus, e sua ação, como um novo êxodo.
Sentimentos religiosos das nações conquistadas eram tolera-
dos pelo soberano, que viu nessa estratégia a forma para conseguir
a lealdade dos vassalos. Após a tomada da Babilônia, ele decretou
a devolução aos seus respectivos templos das estátuas cúlticas to-
madas dos povos conquistados por Nabonido. Esse decreto signi-
ficava a retomada dos utensílios sagrados e, possivelmente, frag-
mentos/rolos de sua tradição religiosa. O decreto reativo à volta
dos judeus a Jerusalém com a permissão de reconstrução do seu
templo está preservado no texto bíblico em 2Cr 36,22-23 e em Ed
1,1-5.
No primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia, para cumprir a palavra
de Iahweh, pronunciada por Jeremias, Iahweh suscitou o espírito
de Ciro, rei da Pérsia, que o mandou proclamar a viva voz e por
escrito, em todo o seu reino, o seguinte:
Assim fala Ciro, rei da Pérsia: Iahweh, o Deus, o céu, entregou-me
todos os reinos da terra; ele me encarregou de construir para ele
um Templo em Jerusalém, na terra de Judá. Todo aquele que, den-
tre vós, pertence a todo o seu povo, que seu Deus esteja com ele e
que se dirija para lá! (2Cr 36,22-23).
A condução dos utensílios do templo foi colocada sob a res-
ponsabilidade de certo Sesbazar, que pode se tratar do mesmo Se-
nasser listado na genealogia de 1 Crônicas 3,17ss como filho do rei
Jeconias. Se for assim, os persas não lhe estavam devolvendo o rei-
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 183
no de seu pai, mas apenas lhe conferindo uma missão: reconduzir
os utensílios do templo e reconstruí-lo. A história bíblica não nos
relata o fim de Sesbazar, mas nos deixa saber que ele só conseguiu
completar a primeira parte da missão.
[...] Além disso, o rei Ciro retirou do santuário de Babilônia, os uten-
sílios de ouro e de prata do Templo de Deus, que Nabucodonosor
retirara do santuário de Jerusalém e transportara para o templo
de Babilônia; e mandou entregá-los a Sesabassar, que ele nomeou
governador; e disse-lhe: - Toma esses utensílios, vai depositá-los no
santuário em Jerusalém e que o Templo seja reconstruído em seu
lugar primitivo (Esd 5,14-15).
Ao mesmo tempo, em Jerusalém, haviam assentadas algu-
mas situações que minaram o interesse pela construção do santu-
ário, dentre as quais podemos citar as magras condições de vida
na cidade e no resto da terra cultivada, provocadas pela seca e,
consequentemente, pela má colheita. A situação toda levou ao
consenso: "[...] não veio ainda o tempo em que a casa de Iahweh
deve ser edificada" (Ag 1,2).
A construção iniciada por Sesbazar foi retomada somente no
tempo de Dario I, sob a supervisão de um descendente de Davi
chamado Zorobabel (Ed 3,2; 1Cr 3,19). Ainda que os profetas Ageu
e Zacarias tenham ligado esperanças messiânicas a ele (Ag 2,23), o
comissionamento seguiu sendo muito específico, sem representar
restituição do antigo reino, e sempre sob a supervisão do governo
de Samaria, do qual Jerusalém se tornara província.
No ano 515 a.C., o novo templo foi concluído e inaugurado.
Ao contrário dos assírios e babilônios, que buscavam desintegrar o
elemento cúltico dos povos dominados, receando que ele pudesse
ser força geradora de revolta, os persas não interferiram na reli-
gião. Dario não fez intervenções no culto e no sacerdócio judaico,
e sua orientação explícita era de que o templo de Jerusalém fosse
dedicado, exclusivamente, à celebração de Iahweh. O único acrés-
cimo feito por ele era a prática de uma oração diária em favor do
rei.
Claretiano - Centro Universitário
184 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
É importante observar que o templo foi devolvido a Israel.
Porém, o nome "Israel" sofreu redução de sentido; ele não servia
mais para designar a coligação das extintas tribos, bem como para
nomear um estado. Diante da nova realidade, o termo "Israel" pas-
sou a ser usado para designar a comunidade cúltica que se reunia
no novo santuário de Jerusalém e que se manteve unida por meio
do culto a Iahweh (METZGER, 1978).
Já na época do rei Ataxerxes (445 a.C.), mais dois grupos de
desterrados chegaram a Jerusalém.
• O primeiro deles estava comandado por Esdras (458 a.C.),
que se dedicou à restauração do culto.
• O segundo estava com Neemias (455 a.C.), a quem o rei
enviou a Jerusalém com uma missão sobremaneira am-
pla: reconstruir-lhe os muros, povoá-la e consolidar a re-
gião.
Desse modo, Neemias, mais tarde, instituiu uma série de
normativas que incluíam o compromisso de entrega pontual dos
dízimos ao santuário, observação do sábado e o não casamento
com estrangeiros.
Nesse sentido, com administração independente, Judá fica-
va separado da Samaria, que perdia parte de seu território, incluin-
do o templo.
A autonomia de Judá encontrou oposição entre outras pro-
víncias. Como consequência do seu estabelecimento como provín-
cia, durante o século 4º, o inevitável aconteceu: a edificação de
um centro religioso em Samaria, o templo de Garizim, o "monte da
bênção" (Dt 11,29). Os habitantes de Samaria souberam se apro-
veitar dessa referência fora de propósito no Deuteronômio (que
preconiza um único lugar de culto), alegando que estavam cum-
prindo a vontade de Moisés ao firmar o culto no lugar em que ele
teria querido.
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 185
Os habitantes da Samaria eram os descendentes da popula-
ção mista israelita e pagã que ocupou aquele território depois do
exílio dos Samaritanos para Nínive (711 a.C.). Eles somente admi-
tiam como livros canônicos o Pentateuco (tal como os Saduceus)
e tinham um templo no monte Garizim (2Rs 17,24-28; Esd 4,1-4).
Por esse motivo, os Judeus (habitantes da Judeia, ao sul) rejeita-
vam-nos, como se fossem pagãos (Lc 10,25-37; Jo 4,19-22).
Do ponto de vista das elites de Samaria, era imprescindível
ter "seu" templo. Era uma necessidade política. Porém, o efeito
na fé do povo foi de criar um cisma religioso. Tratava-se de duas
interpretações contraditórias de um mesmo texto relevado, o Pen-
tateuco. Fazer peregrinações a Garizim era rechaçar a legitimidade
do templo de Jerusalém e vice-versa, já que Moisés dissera clara-
mente (em Lv 17,1-7 e Dt 12,1-14) que pode haver somente um
lugar de culto, o lugar escolhido por Javé. De um problema político
das elites, surgiu um problema de fé para as bases populares, pro-
blema ainda não resolvido nos tempos de Jesus (cf. Jo 4) (PIXLEY,
1990).
Na outra ponta, os sacerdotes de Jerusalém procuravam
manter a identidade de maneira bastante drástica por meio de ob-
servância rigorosa da lei, das tradições religiosas e da pureza de
raça. Por esse motivo, pronunciavam-se ferozmente contra à união
de judeus com estrangeiros, chegando ao ponto de colocar fim a
essas uniões quando tinham a chance (cf. Ed 9-10).
Provavelmente, o tempo de exílio não transcorreu sem pro-
vocar alterações na política judaica secular e religiosa. Dentre elas,
podemos mencionar:
a) o abandono da ideia monárquica e o retorno ao princí-
pio da teocracia, o único capaz de conjugar judeus na
Palestina com aqueles que estavam dispersos;
b) a rejeição definitiva do politeísmo;
c) a adoção do aramaico como língua popular;
d) o estabelecimento de sinagogas em diversos centros de
população judaica.
Claretiano - Centro Universitário
186 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
8. SAI A PÉRSIA, ESTABELECE-SE O PERÍODO HELE-
NÍSTICO
Vamos observar, agora, a decadência do magnífico império
dos persas com a expansão do território na tomada do estreito de
Bósforo e Darnelos, no Mar Negro.
Essa situação prejudicou o intenso comércio grego na região,
e o clima de conflito entre algumas cidades gregas e o império per-
sa desembocou em uma longa guerra. Em 490 a.C., Dario tentou
invadir a Grécia, mas foi derrotado pelos gregos. Após sua morte,
seu filho Xerxes deu sequência à luta contra a Grécia, mas foi ven-
cido entre 480 e 479 a.C.
Após sucessivas derrotas, os persas não tiveram escolha se-
não reconhecer a hegemonia grega no Mar Egeu e na Ásia Menor.
Com o enfraquecimento do império, várias das satrapias (provín-
cias em que estava dividido o antigo império persa) revoltaram-se
contra o domínio persa, e, no plano interno, a luta pelo poder foi
se tornando cada vez mais violenta.
Dessa forma, durante o século 4º a.C., o império foi se esfa-
celando como resultado de abundantes revoltas. Contudo, o golpe
final foi dado por Alexandre da Macedônia, que anexou o império
dos persas após vencer as tropas de Dario III numa série de bata-
lhas entre 334 e 331 a.C. Esse é o começo do chamado período
helenístico para vários territórios, inclusive Judá.
Mas o que é helenismo?
Helenismo é o termo usado quando nos referimos à cultura
e a um modo de vida que se seguiram às conquistas de Alexandre.
Para alguns, M. Hengel e J. G. Droysem, por exemplo, o helenis-
mo define-se como o sincretismo (mistura) entre culturas gregas e
orientais. De fato, a definição do conceito é mais complexa do que
a sua abstração. Por ora, importa-nos apenas ter em mente que
o helenismo tinha essencialmente a ver com questões de cunho
cultural e o que decorre delas (para as discussões em torno desse
conceito, veja COLLINS; STERLING, 2001).
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 187
Alexandre Magno
Alexandre III Magno ou Alexandre, o Grande, rei da Macedô-
nia (336-323 a.C.), foi um dos mais importantes militares do mun-
do antigo. Nascido em Pela, antiga capital da Macedônia, era filho
do rei Felipe II.
Seu tutor foi ninguém menos que o grande filósofo Aristóte-
les, que lhe ensinou literatura, retórica e instigou seu interesse pe-
las ciências, filosofia e medicina. Nos anos de 336 a.C., Felipe II foi
assassinado e Alexandre ascendeu ao trono da Macedônia, dando
início a uma trajetória marcante na história do mundo antigo.
Seu sucesso extraordinário originava-se da sua habilidade
como estrategista e da superioridade tática de suas forças, prin-
cipalmente a cavalaria. Ele sabia como ninguém o que fazer para
inspirar seus homens a seguirem-no nas campanhas mais ousadas
e improváveis, como foi o caso daquela na Índia.
Como político e dirigente, traçou planos grandiosos, como
o projeto de unificar Oriente e Ocidente em um grande império
mundial. Se, de fato, esse plano existiu, é certo que jamais se con-
cretizou. Entretanto, suas conquistas foram notáveis: Pérsia, Egito,
Palestina-Síria, Mesopotâmia. Enfim, todo o Oriente acabou sob
seu domínio.
Para consolidar suas conquistas, Alexandre edificou várias
cidades ao longo de seus territórios, muitas das quais se chama-
ram Alexandria em sua homenagem. Tais cidades eram bem loca-
lizadas, ladrilhadas e contavam com abastecimento de água. Eram
independentes, mas sujeitas aos editos do rei.
Os gregos mais velhos de seu exército, bem como os guerrei-
ros mais jovens, mercadores, comerciantes e eruditos alojaram-se
nessas cidades, levando consigo a cultura e a língua gregas. Assim,
Alexandre estendeu largamente a influência da cultura grega, pre-
parando o caminho para os reinos do período helenístico e para a
posterior expansão de Roma.
Claretiano - Centro Universitário
188 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Figura 2 Extensão do império de Alexandre Magno.
9. DEPOIS DE ALEXANDRE
Na realidade, o domínio de Alexandre foi muito breve, pois
ele morreu na Babilônia, em 323 a.C., antes dos 40 anos de idade.
Após sua morte, o reino que conquistou foi dividido entre três de
seus generais, da seguinte maneira:
• A Ásia Menor com Antígono.
• A Mesopotâmia e a Síria Setentrional com Seleuco.
• O Egito com Ptolomeu.
De acordo com essa divisão, entre 301 e 203 a.C., a Palesti-
na, que fazia parte da província da Síria e Fenícia, ficou submetida
aos reis helenísticos instalados no Egito, isto é, aos ptolomeus: por
ordem, Ptolomeu I Soter, Ptolomeu II Filadelfo, Ptolomeu III Ever-
getes e Ptolomeu IV Filopátor.
Durante o tempo em que os ptolomeus reinaram sobre a
Palestina, ela esteve em paz, embora não a tenham isentado da
exploração econômica. Os judeus de então puderam praticar livre-
mente o culto a Iahweh, mas não tiveram história própria. Pelo
menos não existem relatos que nos informem sobre uma.
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 189
Contudo, temos um fato importante nesse período: a tra-
dução das escrituras hebraicas para o grego, que gradualmente
tornava-se a língua corrente. Diz a lenda que, sob o patrocínio de
Ptolomeu II, setenta sábios foram reunidos na cidade de Alexan-
dria para operarem esse trabalho, que ficou conhecido como a
Tradução dos Setenta ou Septuaginta (LXX).
Inicialmente, a província da Síria e Fenícia foi objeto de de-
sejo tanto dos ptolomeus quanto dos seleucidas, que levaram a
pior nas disputas. Eles, entretanto, jamais ficaram tranquilos com
a perda da Síria e Fenícia para os ptolomeus, de modo que, em vá-
rias ocasiões, tentaram resgatar essa província. Quem conseguiu
reavê-la foi Antíoco III, quando derrotou os homens de Ptolomeu
V Epífanes. E a situação permaneceu assim até o levante de Ma-
tatias e seus filhos em 167 a.C., que conhecemos como a Guerra
dos Macabeus.
Durante os conflitos entre o soberano seleucida e o ptolo-
meu, a comunidade cultual de Jerusalém colocou-se do lado dos
seleucidas. Por essa razão, ao vencer a disputa, Antíoco III conce-
deu a Jerusalém privilégios de várias naturezas, num decreto que é
citado no livro III das Antiguidades Judaicas de Flávio Josefo. Entre
as regalias conseguidas por Jerusalém, estavam abonos estatais,
isenção de certos impostos e o direito de viver segundo as suas
próprias leis (METZGER, 1978).
10. REVOLTA DOS MACABEUS
Antíoco III deu início a uma série de campanhas anexatórias
nos territórios dominados pelas famílias dos outros generais de
Alexandre. Estava empolgado com as novas conquistas, pensando
que poderia anexar Roma também, mas "deu com a cara na por-
ta". Além de derrotado, acabou afundado em dívidas de guerra e
morreu pouco tempo depois.
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190 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Em 175 a.C., Antíoco IV assumiu o poder, bem como as mui-
tas dívidas do pai, e passou a dirigir Jerusalém de olho nos impos-
tos arrecadados pelo templo da cidade. Conforme demonstrou,
brevemente, a Unidade 2, foi durante seu reinado que se estabe-
leceu um tempo de tensões com a comunidade cultual de Jerusa-
lém, ao que tudo indica, provocadas pelo antagonismo entre os
grupos fiéis à lei e os de disposições helênicas que deram as costas
para as tradições. Os relatos do conflito estão recolhidos em 1 e 2
Macabeus.
Vale ressaltar que, desde 169 a.C., quando o rei invadiu, pro-
fanou e saqueou o templo de Jerusalém, vários costumes judai-
cos foram comprometidos: a observação do sábado, a oferenda
de sacrifícios no templo, as festas tradicionais e mesmo os rituais
de circuncisão haviam sido suspensos por tempo indeterminado.
Assim, os judeus que se mantinham fiéis às tradições apesar das
ordens reais estavam na zona de perigo.
Dentre aqueles que propunham alguma resistência, estava o
sacerdote Matatias, que recebeu uma séria advertência de Antío-
co IV: ele e seus seguidores seriam punidos se não se conformas-
sem às normativas reais. Dessa forma, para mostrar que estava de
acordo com as exigências, o sacerdote deveria oferecer um sacrifí-
cio a Zeus, deus supremo dos gregos.
Visto que Matatias não aceitou as exigências, passou a sofrer
perseguições da parte do rei. Como não podia mais ficar em sua
cidade, Modin, mudou-se com a família e mais alguns partidários
para o deserto da Judeia, de onde organizou um pequeno exército
para combater os gregos e judeus apóstatas. No entanto, Matatias
morreu apenas alguns meses depois, sendo substituído na chefia
da revolta por seu filho Judas Macabeu, que, a partir dos anos 166
a.C., deu início a uma série de conflitos contra o poderio militar de
Antíoco e acabou vencendo seu oponente.
Embora o número de homens de Judas fosse muito menor
que o do adversário (primeiro Georgias, em Emaús, e depois Lísias,
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 191
em Bete-Sur, ambos os governadores de províncias encarregados
por Antíoco), a surpreendente vitória dos insurgentes deveu-se à
perspicácia das táticas de Judas e, é claro, aos esforços de seus
partidários, para os quais essas batalhas eram decisivas.
Após as duas vitórias, Judas assumiu o controle da situação
na Judeia, podendo iniciar e concluir a purificação e reconsagração
do santuário profanado por Antíoco IV (1Mc 4,36ss). Encorajadas
por essa grande vitória, as forças judaicas seguiram em campa-
nhas, destruindo cidades helenísticas e trazendo terror sobre os
judeus que tinham deixado de reverenciar Iahweh.
Mais tarde, os judeus foram derrotados em Bet-Zacarias,
mas o rei ofereceu-lhes um acordo de paz e propôs a retirada das
normativas que originaram a revolta, que foi aceito posteriormen-
te (1Mc 6,60). No entanto, os objetivos iniciais da insurreição fo-
ram atingidos, e a solução pôs fim à primeira parte da guerra, de
cunho religioso.
Claretiano - Centro Universitário
192 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Figura 3 Representação da revolta dos macabeus.
O rei instituiu Alcimo, um membro da família sacerdotal aa-
rônica, como sumo sacerdote. Os piedosos (assideus) não tiveram
nenhum problema em aceitar a atividade sacerdotal de Alcimo
(1Mc 7,12-14). Contudo, Judas e seus irmãos não estavam satis-
feitos. Além do objetivo religioso, corria em paralelo um objetivo
político: libertar os judeus do domínio seleucida e promulgar a in-
dependência, que veio em 142, mas Judas já estava morto desde
160.
Após a morte de Judas, Jonatas e depois Simão, seus irmãos,
assumiram o poder e iniciaram a dinastia dos asmoneus, uma fa-
mília de sacerdotes levitas (não aaronitas) que se conservaram du-
rante decênios na liderança política e religiosa dos judeus.
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 193
O governo asmoneu promoveu o desenvolvimento do co-
mércio e da manufatura, o que prejudicou muito a agricultura. Em
consequência, a classe dos pequenos proprietários foi reduzida à
penúria e alguns ricos comerciantes compraram suas terras. Sur-
giram, assim, uma classe de grandes latifundiários e outra de pes-
soas miseráveis.
Tanto Jonatas quanto Simão assumiram para si, além das
funções de governantes, o posto de sumo sacerdotes. No entanto,
essa última autoatribuição dos asmoneus se manteve como motivo
de querelas internas, afinal, eles não eram da linhagem sacerdotal
de Sadoc, condição necessária para assumir o sumo sacerdócio.
Como política e religião sempre estiveram bem unidas desde
a época das tribos, a situação, toda provocada pelos poderes que
os asmoneus se atribuíram, gerou interpretações diversas, conten-
das e a formação de partidos: os fariseus, saduceus e essênios, que
tão bem conhecemos das narrativas neotestamentárias.
Mais à frente, nos anos de 66 a.C., Pompeu foi hábil para as-
segurar a soberania romana sobre a Ásia Menor. Com a deposição
do seleucida Antíoco XIII, uma nova época inicia-se para Israel e os
asmoneus, representados pelos irmãos Aristóbulo e Hircano, bus-
cam conquistar a simpatia dos romanos, inclusive levando presen-
tes caros pessoalmente a Pompeu. Enquanto isso, alguns círculos
de fariseus enviaram uma mensagem a Pompeu, na qual pediam
que ele colocasse fim ao poderio dos asmoneus.
Em vista da demora de Pompeu em dar alguma posição aos
irmãos asmoneus, Aristóbulo retirou-se cheio de indignação e re-
solveu estabelecer seu poderio por esforço próprio.
O governante romano não deixou esse insulto barato e saiu
com o exército em perseguição ao asmoneus pela Judeia. Quando
Pompeu chegou diante de Jerusalém, Aristóbulo submeteu-se aos
romanos, mas seus partidários, não.
Claretiano - Centro Universitário
194 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Foram necessários três meses para que Pompeu conseguisse
tomar a área do templo, que era fortificada, e, quando conseguiu,
o romano saboreou a vingança adentrando com seus homens o
espaço mais santo do templo.
Portanto, com a prisão de Aristóbulo e de seus filhos, a sobe-
rania asmoneia encontrou um fim nada célere e carente de qual-
quer glória no ano 63 a.C. A partir de então, a Palestina nada mais
foi do que uma entre muitas outras províncias romanas. Para com-
pletar a humilhação, em 37 a.C., os romanos coroaram um estran-
geiro para reinar sobre os judeus, Herodes, originário da Idumeia,
que, tempos antes, havia sido conquistada pelos macabeus.
Leitura complementar––––––––––––––––––––––––––––––––––
A História da Terra Santa
Da promessa até o cativeiro
2126 a.C. - Deus chama Abrão para a terra de Canaã (Gn 12.1-3).
1913 a.C. - Deus estabelece uma aliança incondicional com Abraão e revela-lhe
os limites da terra prometida a ele e aos seus descendentes para sempre (Gn
15).
1800 a.C. - Deus confirma a aliança abraâmica com Isaque (Gn 26.1-5).
1760 a.C. - Deus confirma a aliança com Jacó (Gn 28.13-15).
1728 a.C. - José é vendido como escravo no Egito (Gn 37.36).
1706 a.C. - Jacó (agora chamado Israel, Gn 32.28) e seus filhos mudam-se para
o Egito (Gn 46.1-26).
1446 a.C. - O êxodo do Egito (Êx 14).
1406 a.C. - Início da conquista israelita de Canaã.
1375 a.C. - Começa o período dos juízes.
1050-930 a.C. - O reino unido (Saul, Davi e Salomão). Em 1000 a.C., Davi con-
quista Jerusalém e a torna a capital de Israel.
930-732 a.C. - O reino dividido (Norte = Israel; Sul = Judá). Jerusalém é a capital
de Judá.
722 a.C. - A Assíria conquista o Reino do Norte (Israel).
605-586 a.C. - A Babilônia conquista o Reino do Sul (Judá) e destrói o Templo de
Salomão. Início do cativeiro babilônico.
Do retorno até Herodes, o Grande
539 a.C. - Queda da Babilônia diante da Média-Pérsia (Dn 5).
538 a.C. - Ciro, o rei persa, permite o retorno dos judeus à sua terra (Esdras 1).
537 a.C. - Judeus retornam a Jerusalém sob Zorobabel.
516 a.C. - A reconstrução do Segundo Templo é concluída.
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 195
458 a.C. - Nova leva de judeus retorna a Israel sob Esdras.
445 a.C. - Artaxerxes I envia Neemias a Jerusalém para reconstruir os muros
(Ne 2).
430 a.C. - Malaquias, a última voz profética; depois dele, 400 anos de "silêncio".
333 a.C. - Alexandre, o Grande, conquista a Pérsia, iniciando o período helenís-
tico (grego).
323 a.C. - Morre Alexandre, o Grande. Seu reino é dividido entre seus quatro
generais (Ptolomeu, Seleuco, Cassandro e Lisímaco).
167 a.C. - Antíoco IV (Epifânio) profana o Templo.
165 a.C. - Judas Macabeu lidera a revolta contra Antíoco, purifica o Templo e
restabelece a independência sob a dinastia hasmoneana.
63 a.C. - O general romano Pompeu entra em Jerusalém, pondo fim à indepen-
dência judaica; Júlio César é assassinado.
37 a.C. - Os romanos apontam Herodes, o Grande, como "rei dos judeus" e
outorgam-lhe autoridade sobre a Judéia, Samaria e Galiléa.
De Herodes até Maomé
20 a.C. - Herodes inicia a reconstrução do Templo.
6-5 a.C. - Jesus nasce em Belém.
4 a.C. - Morre Herodes; César Augusto divide o território: Arquelau recebe a
Judéia, Herodes Antipas, a Galiléia e Filipe, a Ituréia e Traconites (Nordeste da
Galiléia – Lc 3.1).
26-36 d.C. - Pôncio Pilatos governa a Judéia.
30 d.C. - Jesus, o Messias, é crucificado, ressuscita dentre os mortos e ascende
ao céu. Começa a era da Igreja no Dia de Pentecostes (Shavuot).
66-73 d.C. - Primeira insurreição judaica. Os romanos destroem Jerusalém e o
Templo (70 d.C.), e atacam Massada, onde 960 judeus preferem cometer suicídio
a se renderem (73 d.C.).
132-135 d.C. - Segunda insurreição judaica. O imperador Adriano reconstrói Je-
rusalém como uma cidade pagã e a denomina Aelia Capitolina. Rabbi Akiva lide-
ra a rebelião e proclama como messias o líder militar Simon Bar Kochba. O povo
judeu, que não tinha acesso apenas a Jerusalém, é disperso por toda a terra.
Roma renomeia Judá, Samaria e Galiléia de Siria Palaestina, conhecida mais
tarde como Palestina.
200 d.C. - Muitos judeus dispersos retornam.
312-313 d.C. - O imperador Constantino abraça o cristianismo.
330 d.C. - Constantino muda-se para Bizâncio, e dá-lhe o nome de Constantino-
pla (hoje Istambul, Turquia), mantendo o controle sobre a Palestina.
570 d.C. - Muhammad ibn Abd Allah [Maomé] nasce em Meca (Arábia Saudita).
De Maomé aos turcos otomanos
610 - Maomé declara que o anjo Gabriel mostrou-lhe uma tabuinha determinando
que ele se tornaria um mensageiro de Deus [Alá]. Daí até sua morte ele passou
a ter "visões". Assim começou a religião muçulmana, o islamismo, que significa
"submissão a Alá".
622 - Maomé foge de Meca para Yathrib (que passou a ser chamada de Medina
= Cidade do Profeta). Sua retirada é conhecida como Hégira ("hijrah", em árabe
Claretiano - Centro Universitário
196 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
= emigração). O calendário muçulmano começa nessa data – 1 d.H. (primeiro
ano depois da Hégira).
630 - Os árabes omíadas tornam-se os primeiros muçulmanos presentes em
Jerusalém.
632 - Morre Maomé.
639-661 - Governo árabe muçulmano. Apenas neste período de 22 anos a Terra
Santa foi governada pelos árabes – mesmo então, como parte de um grande
império.
661-1099 - Muçulmanos governam a Palestina. No entanto, não se trata de
árabes, e sim dos abássidas, vindos de Bagdá, dos fatímidas, procedentes do
Cairo, e dos seljúcidas, da Turquia.
1099-1187 - As cruzadas católicas, sob o papa Urbano II, conquistam Jerusalém
e massacram judeus e muçulmanos.
1187 - Saladino, um muçulmano curdo de Damasco, recaptura Jerusalém e gran-
de parte da Palestina.
1244-1303 - Os mongóis da Ásia destituem a dinastia de Saladino. Os mame-
lucos muçulmanos e os mongóis lutam pelo poder. A presença dos cruzados
termina em 1291 d.C.
1513-1517 - Os muçulmanos turco-otomanos conquistam a Palestina.
Dos turcos otomanos até os britânicos
1517 - Os muçulmanos turco-otomanos governam a Palestina como parte de
seu império.
1840 - Governo turco completamente restaurado. Líderes ingleses começam a
discutir a possibilidade de restabelecer o povo judeu em sua própria terra.
1822 - Judeus fazem aliyah (imigração) da Romênia para a Palestina.
1890-1891 - Uma grande massa de judeus proveniente da Rússia desembarca
em Israel.
1894-1895 - Na França, o capitão Alfred Dreyfus é condenado por espionagem,
em meio a um feroz anti-semitismo.
1896 - Theodor Herzl escreve Der Judenstaat ("O Estado Judeu").
1897 - O Primeiro Congresso Sionista, convocado por Herzl, é realizado em Ba-
siléia (Suíça). Mais de 200 participantes, de 17 países, criaram a Organização
Sionista Mundial, que buscava "estabelecer uma pátria para o povo judeu em
Eretz-Israel (a terra de Israel), assegurada pela lei". O Congresso Sionista se
reuniu todos os anos, de 1897 a 1901, e desde então se reúne a cada dois anos,
até os dias de hoje.
1901 - O Congresso Sionista criou o Fundo Nacional Judaico (FNJ), destinado
a levantar recursos para a aquisição de terras em Eretz Israel. O FNJ é o maior
proprietário de terras em Israel (12,5% do território), tendo adquirido mais da
metade dessa extensão antes do estabelecimento da nação.
1904 - Segunda onda de imigração de judeus, provenientes principalmente da
Rússia e da Polônia.
1906 - A primeira escola judaica de ensino médio é fundada em Haifa e uma
escola de artes é fundada em Jerusalém.
1908-1914 - Segunda aliyah de judeus vindos do Iêmen.
1909 - Tel Aviv, a primeira cidade totalmente judaica, é fundada na Palestina.
© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 197
1910 - Fundação do kibbutz Degania.
1914-1918 - Primeira Guerra Mundial.
1917 - O general britânico Edmund Allenby conquista a Palestina, a leste e a
oeste do Jordão, pondo fim ao domínio otomano. Em novembro, os britânicos
publicam a Declaração Balfour, apoiando o estabelecimento de "uma pátria para
os judeus".
1920 - A Liga das Nações dá aos britânicos um mandato sobre a Palestina, com
ordens de implementação da Declaração Balfour. (Israel My Glory - http://www.
beth-shalom.com.br)
Publicado anteriormente na revista Notícias de Israel, em maio de 2003. Dispo-
nível em: <http://www.beth-shalom.com.br/artigos/terrasanta.html>. Acesso em:
16 fev. 2012.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
11. QUESTões AUTOAVALIATIVAs
Confira, a seguir, as questões propostas para verificar o seu
desempenho no estudo desta unidade:
1) Identifique e elenque as potências do mundo antigo sob as quais os judeus
padeceram subordinação.
2) Quais foram as estratégias empregadas pelos povos que tomaram Israel e o
fizeram subordinado?
3) Quais elementos podem ser apontados como marcadores que conferiram
identidade aos judeus na sucessão de processos e de projetos dominató-
rios?
12. CONSIDERAÇÕES
A história política de Israel é tão conturbada e entrelaçada
por artimanhas de todos os gêneros e níveis quanto às histórias de
outros povos na iminência de subjugação ou daqueles que já ha-
viam sido subjugados à mesma época. Era necessário se mover en-
tre as novidades do vaivém dos soberanos e as próprias tradições,
para não ter, além do território, também a memória anexada.
Enquanto o reino do norte (Israel) foi dissolvido em meio às
medidas assírias, Judá encontrou formas de "durar", porém, a falta
de jeito e estratégias pouco inteligentes de alguns dos seus líderes
colocaram a perder todo o esforço anterior.
Claretiano - Centro Universitário
198 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
À medida que os artifícios correm de um lado para o outro e
poderes externos e internos se alternam no governo da vida coti-
diana, as pessoas contadas entre as classes mais baixas da popu-
lação sofriam todos os tipos de reveses, sendo as últimas a serem
consideradas no pensamento político até então. Fazia-se política
para certas classes, mas não para todas.
No entanto, nessa conjuntura toda, chama-nos atenção as
condições da identidade cultural e religiosa estabelecidas (as cri-
ses) e a luta para que ela não fosse engolida pelas ondas babilô-
nica, persa e, depois, helenística, que estendiam seu alcance para
cada vez mais longe. E surgem, desses tempos conturbados ao ex-
tremo, aqueles elementos que nos permitem reconhecer o caráter
ritual e cultural judaicos até o tempo presente.
Embora a dinâmica religiosa tenha cedido lugar aos anseios
de poder em dado momento dessa história, o fato é que ela foi a
mola propulsora de ação no sentido da preservação das tradições
e da retomada da pátria. Nesse sentido, estrategicamente falando,
não podemos dizer que os assírios dos tempos longínquos esta-
vam errados em diluir as tradições religiosas de seus conquistados,
podemos?
Lembre-se de que estaremos à disposição para ajudá-lo em
suas dificuldades e para aprender com seus progressos. Acesse a
Sala de Aula Virtual e participe!
13. E-REFERÊNCIAS
Lista de figuras
Figura 1 Representação dos Jardins Suspensos da Babilônia. Disponível em: <http://www.
rocklin.ca/socials.htm>. Acesso: 4 set. 2007.
Figura 2 Extensão do império de Alexandre Magno. Disponível em: <http://faq.
macedonia.org/history/alexander.the.great.html>. Acesso em: 15 set. 2007.
Figura 3 Representação da revolta dos macabeus. Disponível <http://roma-antiga.
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© U6 - De Nabucodonosor a Alexandre 199
Sites pesquisados
BETH-SHALOM. Maquete do Segundo Templo. Disponível em: <http://www.beth-shalom.
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14. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
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Claretiano - Centro Universitário
200 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
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VAUX, R. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Teológica, 2003.
EAD
Antigo Testamento como
Fonte para o Estudo da
História de Israel
7
1. Objetivos
• Reconhecer que o Primeiro Testamento (Antigo Testa-
mento) é um importante material para o conhecimento
da história de Israel.
• Perceber que a literatura do Antigo Testamento reflete a
dinâmica da experiência histórica, política e cultural dos
israelitas.
• Identificar no Antigo Testamento elementos do âmbito
social e cultural, típicos das mentalidades e dos proces-
sos históricos do Antigo Oriente Próximo, que auxiliem a
compreensão da sociedade judaica em seu processo de
constituição identitária.
2. Conteúdos
• Papel da historiografia na reconstituição da história de Is-
rael.
202 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
• Vida das comunidades judaicas refletidas no Antigo
Testamento.
• Antigo Testamento como testemunho religioso e cul-
tural da sociedade judaica.
• Antigo Testamento como base para ordenação e
constituição da identidade judaica.
3. Orientações para o estudo da unidade
Antes de iniciar o estudo desta unidade, é importante que
você leia as orientações a seguir:
1) Organize seu cronograma para não atrasar a entrega das
atividades.
2) Ao se aproximar do final deste estudo, lembre-se de que
é este o momento em que você terá uma visão geral do
que estudou. Antes de começar esta unidade, retome os
principais pontos analisados até agora.
3) As referências bibliográficas a seguir contribuem para a
compreensão da história de Israel:
• GOODMAN, M. A classe dirigente da Judéia: as ori-
gens da revolta judaica contra Roma, 66-70 d.C. Rio
de Janeiro: Imago, 1994.
• PERISTIANY, J. G. Honra e vergonha: valores das so-
ciedades mediterrâneas. Tradução de José Cutileiro.
Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1988.
• POLANYI, K.; ARENSBERG, C;. PEARSON, H. (Ed.). Co-
mercio y mercado en los imperios antiguos. Barcelo-
na: Labor Universitaria Monografías, 1976.
4. INTRODUÇÃO À UNIDADE
Após a apresentação da literatura bíblica como fonte, cuja
redação reflete em nível simbólico e social, crenças e comporta-
mentos do povo de Israel, verificamos os principais acontecimen-
© U7 - Antigo Testamento como Fonte para o Estudo da História de Israel 203
tos relativos à história desse grupo. Nesta última unidade, discuti-
remos como as linhas de interpretação e os métodos de pesquisa,
de um lado, constroem diferentes histórias de Israel e, de outro,
fornecem relevantes perspectivas sobre a sociedade israelita na
Antiguidade.
Nesse sentido, verificaremos como o conjunto literário da
Bíblia Hebraica ao mesmo tempo que reflete a memória e a tradi-
ção do povo de Israel serve à construção de uma nova identidade,
buscada em razão dos constantes processos de contato e de assi-
milação da cultura dos povos vizinhos.
Desse modo, nesta unidade, apontaremos como a literatura
bíblica pós-exílio se preocupa em reunir as histórias patriarcais, a
memória e as tradições das famílias judaicas. Todavia, ao mesmo
tempo, busca-se estabelecer como uma "nação", cujos laços de
solidariedade e pertença se fundam com base na sua legislação,
que é religiosa (espiritual) e social (ética).
5. HISTÓRIA DE ISRAEL OU "HISTÓRIAS" DE ISRAEL?
Ao construirmos um quadro histórico acerca de alguém, de
um acontecimento passado ou de qualquer coisa, sempre nos va-
lemos do conjunto de conhecimentos e de experiências que temos
à nossa disposição. Isso significa que, ao relatarmos uma história,
discorremos baseados nos vocabulários específicos, ideologias e
metodologias que estão ao nosso alcance. O que implica é que a
História de Israel, assim como a história de qualquer outra civiliza-
ção que conhecemos, é sempre uma construção idealizada a partir
de documentos, de evidências arqueológicas e de metodologias
disponíveis em um período.
Mesmo que o tema seja o Israel Antigo, a descrição e a cons-
trução da imagem desse Israel estarão sempre amparadas em um
momento da pesquisa, em uma tendência de metodologia histo-
riográfica e no horizonte cultural de quem elabora esse discurso.
Claretiano - Centro Universitário
204 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Quando Martin Noth escreveu sobre Israel como uma "con-
federação de tribos", e, em 1944, Albrecht Alt escreveu que o rit-
mo da história de Israel tinha relação com a situação geográfica e
climática do Antigo Oriente Próximo, ambos falavam e interpreta-
vam documentos do mesmo Israel.
Todavia, seus próprios contextos de pesquisa, seus próprios
interesses e suas metodologias desembocaram em diferentes
perspectivas acerca da "história de Israel", algumas não conciliá-
veis, outras complementares, permitindo-nos pensar que sempre
que nos referirmos ao Israel Antigo, estaremos nos referindo a um
"novo" Israel Antigo.
A cada década, novas descobertas arqueológicas, novas evi-
dências e novos documentos indicam diferentes rumos para a pes-
quisa. Portanto, o que sabemos hoje é um pouco mais em relação
ao que sabiam os pesquisadores do século 20 e, possivelmente,
menos do que a futura pesquisa revelará.
De todo modo, o importante é notarmos que essa história,
além de contar com o conjunto literário, também dispõe de ferra-
mentas metodológicas disponibilizadas por outras disciplinas das
Ciências Humanas (como a crítica literária, a sociologia, a história
cultural, a antropologia social e outras), além da chamada cultura
material, caracterizada pelas descobertas de documentos e de ar-
tefatos arqueológicos igualmente importantes para a investigação
de Israel e das civilizações vizinhas.
6. NOVAS PERSPECTIVAS SOBRE A HISTÓRIA DE IS-
RAEL
Embora, atualmente, a literatura bíblica não seja considera-
da a única fonte de pesquisa sobre a história do Israel Antigo, os
estudos do Antigo Testamento têm sido revisados com frequência,
em virtude das publicações de documentos e de descobertas de
manuscritos antigos que fornecem ricas informações sobre a his-
tória do povo de Israel, suas tradições, crenças e símbolos.
© U7 - Antigo Testamento como Fonte para o Estudo da História de Israel 205
A histórica sequência patriarcal – Israel, José no Egito, a es-
cravidão, o êxodo, a conquista da terra, a divisão em tribos, os im-
périos de Davi e de Salomão, a divisão dos reinos em norte e sul, o
exílio e a volta para a terra prometida –, antes considerada a única
possibilidade de compreensão do Antigo Testamento, atualmente,
tem sido iluminada por novas abordagens metodológicas.
A arqueologia ampliou as perspectivas sobre as etapas da
formação de Israel, e, em decorrência de sua especialização, já não
é mais possível falar de "arqueologia bíblica", mas "arqueologia da
Palestina", "arqueologia Sírio-Palestina" e "arqueologia do Levan-
te Sul".
Todos esses ramos da arqueologia têm fomentado o deba-
te sobre não apenas um judaísmo coeso e unificado, mas sobre a
possibilidade da coexistência de identidades judaicas, mesmo an-
tes do século 1º a.C.
Mesmo a crítica literária, como escola de investigação que
examina os textos bíblicos nos níveis da história da tradição, da
redação e das formas, já teria apontado resultados nessa linha de
compreensão, isto é, que a variedade de gêneros literários presen-
tes no conjunto da Bíblia Hebraica, nem sempre históricos, indica a
diversidade de memórias que serviram à formação de Israel.
Mitos, fábulas, etiologias, parábolas, sátiras, lamentos, leis e
tantas outras formas de redação podem indicar a diversidade ét-
nica e cultural presente na História de Israel. Tradições que foram
herdadas de várias gerações, de tribos e grupos diferentes, que
foram transmitidas oralmente até serem submetidas ao processo
de redação da Bíblia Hebraica.
Nesse sentido, é cada vez mais atrativa a elaboração de uma
"História de Israel" que considere o material bíblico, a arqueologia
e os documentos extrabíblicos.
Portanto, de início, é necessário compreender Israel e o ma-
terial do Antigo Testamento à parte das chaves teológicas, do povo
Claretiano - Centro Universitário
206 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
escolhido, da nação santa, do povo de Deus e outras, que, muitas
vezes, nos impedem de ver o povo hebreu, as tribos, o estado mo-
nárquico e outros episódios da história de Israel, como: a história
de um povo que contraiu e desfez alianças políticas, que lutou pela
posse da terra no Oriente Próximo Antigo e que, em razão desses
acontecimentos, desenvolveu intercâmbios culturais com os povos
vizinhos.
Para facilitar esse tipo de leitura que privilegia o conteúdo
dos livros bíblicos, procurando compreendê-los à luz de seus con-
textos históricos, políticos e culturais específicos, verificaremos al-
guns critérios para a leitura do Antigo Testamento.
7. LEITURA DO ANTIGO TESTAMENTO
Considerando que o Antigo Testamento fornece um dos ma-
teriais necessários à interpretação e à construção da história de
Israel, pois correspondem ao registro da tradição, das memórias e
do processo histórico dessa nação, propomos a seguir um quadro
geral de princípios para a leitura e compreensão do material bíbli-
co. Os princípios a seguir foram formulados com base nos textos
A interpretação do Antigo Testamento, de Rolf Knierim, e A forma-
ção do Antigo Testamento, de Rolf Rendtorff.
Para a compreensão do Antigo Testamento, recomendamos
os seguintes princípios gerais da leitura:
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
Inicialmente, recomenda-se a leitura dos capítulos de cada livro com olhar atento
às unidades de pensamento.
1.1 Observar as divisões em capítulos que, às vezes, refletem as unidades de
pensamento; isto é, indicam o início e o fim do desenvolvimento de um tema,
uma ideia e uma proposição.
1.2 As versões recentes do material bíblico dividem o texto em capítulos e pará-
grafos. Muitas vezes, esse tipo de divisão reflete a opinião dos editores moder-
nos quanto às unidades menores de pensamento. Por definição, um parágrafo é
composto por uma ideia apresentada de modo coeso.
2. É necessário perceber e acompanhar a ideia central (objetivo ou mensagem)
do livro no seu conjunto.
© U7 - Antigo Testamento como Fonte para o Estudo da História de Israel 207
2.1 Todos os livros bíblicos possuem enredos. Identificar se esse enredo é ne-
cessário, a fim de compreender como a narrativa se desenvolve na perspectiva
de corroborar a ideia central.
2.2 É recomendável realizar a leitura do livro bíblico com o amparo de um esbo-
ço proporcionado por comentários bíblicos. Esses comentários podem auxiliar o
entendimento do conteúdo do livro quanto às ênfases principais e seu desenvol-
vimento.
3. Para uma segunda leitura, recomenda-se a estruturação de um esboço pró-
prio, que pode ser elaborado com o auxílio dos comentários consultados.
3.1 Atenção aos lugares, aos hábitos, aos acontecimentos, aos personagens,
aos temas e aos propósitos do livro ou do capítulo são necessários, a fim de se
situar a narrativa dentro de um quadro histórico-social.
4. Recomenda-se que palavras-chaves e campos semânticos recorrentes no tex-
to sejam grifados.
5. O uso de algumas simples perguntas pode auxiliar a compreensão do texto,
seja do capítulo ou da perícope (unidade menor do texto): quem, quando, como,
por que, qual, para quem, o que etc.
6. Uma análise gramatical de sentenças e de períodos, especialmente de trechos
difíceis, pode ser útil à determinação das unidades de pensamento.
6.1 Recomenda-se a consulta aos dicionários, dicionários bíblicos, dicionários
teológicos e dicionários dos termos em hebraico-aramaico ou grego. Concordân-
cias bíblicas e aparatos críticos também podem ser esclarecedores.
7. Outros recursos relevantes são os mapas que auxiliam a localização dos even-
tos, dos lugares mencionados nos textos bíblicos, das condições geográficas e
climáticas.
7.1 As informações geopolíticas das regiões que compõem o contexto dos textos
auxiliam a compreensão e o entendimento quanto a certos elementos e peculia-
ridades do mundo antigo.
––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––––
É válido salientar que o uso desses critérios na execução da
leitura e estudo da literatura bíblica tem por finalidade lançar luz
sobre aspectos importantes da história de Israel, como a religiosi-
dade e a cultura. Como sabemos, no Mediterrâneo Antigo, religião
e vida social não eram campos distintos. A religião era fornecedora
de sentidos tanto para a vida espiritual quanto para a configuração
da vida social dos povos.
Nesse sentido, a escrita do Antigo Testamento representa a
tentativa de fixação da memória de um povo em processo de cons-
tituição de sua identidade e de sua nação.
Claretiano - Centro Universitário
208 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
8. O ANTIGO TESTAMENTO COMO FONTE: DO COTI-
DIANO ÀS GRANDES QUESTÕES POLÍTICAS
O conjunto constituído pelos livros do Antigo Testamento (a
Toráh, os Profetas e os Escritos) é, por natureza, uma formação
literária complexa. Prova disso está logo no início da Bíblia, com os
dois relatos distintos da criação do mundo.
O primeiro relato é sistemático e propõe uma sequência de
sete dias para a criação (Gn 1,1 até a primeira frase de Gn 2,4, que
forma o epílogo). Nessa tradição, o mundo foi criado com base no
nada caótico, segundo a vontade e a ordem de Deus.
No segundo relato, o estado primitivo não é representado
pela água, mas pela seca (Gn 2,4b e seguintes). Essa narrativa em-
prega outro tipo de linguagem permeada de representações e de
simbolismos.
Decorre dessa constatação dois relatos que correspondem a
duas tradições originadas em tempos diferentes, que foram colo-
cadas lado a lado, o que indica que o Antigo Testamento resulta de
um lastro histórico que "cresceu durante mil anos". Nele, encon-
tramos reunidos os testemunhos de fé do povo de Israel, proce-
dentes de muitos séculos.
Em cada geração, levantavam-se, de forma nova, as pergun-
tas que resultavam da fé de Israel em um só Deus e seu agir na his-
tória com seu povo. E cada geração tinha de dar as suas próprias
respostas. Tudo isso se documentou nas mais diversas formas, nos
textos agora reunidos no Antigo Testamento (RENDTORFF, 1998).
No Antigo Testamento, a tradição oral e a tradição escrita
estão presentes desde a Torah (Pentateuco), passando pelos his-
tóricos e os profetas pré-exílicos, até as porções de livros como
Salmos e Provérbios.
Vejamos o Quadro 1 a seguir.
© U7 - Antigo Testamento como Fonte para o Estudo da História de Israel 209
Quadro 1 Elementos da Pré-Tradição Oral e da Pré-Tradição Escrita
ELEMENTOS DA PRÉ-TRADIÇÃO ORAL ELEMENTOS DA PRÉ-TRADIÇÃO ESCRITA
Moisés, segundo Êxodo 24,4 e 7,
escreveu o "Livro da Aliança", que existiu
Êxodo 15 relata "O Cântico de Moisés", separadamente até tornar-se uma das
o qual foi entoado por ele e o povo ao fontes empregadas pelo autor do livro de
Senhor. Êxodo.
O assunto celebrado é o livramento de Josué 10,13 refere-se à outra possível
Israel do exército do Faraó. Antes, porém, fonte antiga: "O Livro dos Justos".
em Êxodo 14, há o relato do mesmo
1 Reis 11,41 menciona uma das fontes
evento, elaborado de outra forma.
escritas do seu autor: "O Livro da História
Nesse sentido, o cântico foi preservado de Salomão".
tanto de modo oral quanto de modo
2 Reis 1,18 refere-se ao "Livro da História
escrito pelos grupos de sacerdotes
dos Reis de Israel".
ligados às tradições religiosas ao longo
dos séculos. Todas essas referências são investigadas,
inicialmente, pela alta crítica literária
(século 18 d.C.).
Na vida das famílias e dos clãs existiam situações típicas que
se repetiam com regularidade, sendo, muitas vezes, ligadas a certo
lugar e determinadas épocas. Tais situações constituíam o Sitz im
Leben (contexto vivencial) desses grupos. Eram acontecimentos,
como julgamentos, rituais e festas religiosas. Muitos desses even-
tos e ocasiões se fixaram na literatura do Antigo Testamento por
meio de formas e gêneros literários fixos.
Os textos que compõem o Antigo Testamento formam um
compêndio de literatura proveniente do Antigo Oriente Próximo. A
história desse conjunto se estende desde a imigração dos israelitas
na Palestina, no século 13 a.C., até os últimos séculos antes da era
cristã.
Os cânticos e os ditos são considerados os textos mais anti-
gos. Esse é o caso do Salmo 22 que estudamos na Unidade 2. Por
meio dessas formas que eram fixadas na memória com mais facili-
dade, as tradições foram preservadas por muito tempo.
Exemplo disso é a canção de vitória, de Miriam (Ex 15,21),
que canta a destruição dos egípcios no mar. Outro é a canção de
Claretiano - Centro Universitário
210 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Lameque (Gn 4,23-24), uma "fanfarronada" que fala de cruel vin-
gança de morte; ou, então, a canção do poceiro (Nm 21,17-18),
que se deve imaginar cantada durante a cavação de um poço. E,
também, canções mais extensas, como a magnífica canção de Dé-
bora (Jz 5), que provém de tempos muito remotos (RENDTORFF,
1998).
A conhecida batalha escatológica bíblica, também conhecida
como "Armagedom", foi construída de acordo com os mitos de
combate presentes e conhecidos nas religiões do Antigo Oriente
Próximo.
Nas tradições judaicas, Iahweh, o Deus da monarquia e do
estado de Israel, é imaginado como o deus cananeu Baal e o deus
babilônico Marduk (deus da chuva que subjugava as rebeldes
águas cósmicas simbolizadas pela serpente ou os dragões Leviatã
e Raab − Sl 29,3.10).
Assim como Baal, que lutou contra as águas para submetê-
-las à sua vontade (Sl 74,13-14; Jz 5,19), Iahweh foi representado
como deus guerreiro que sustentava Israel na luta contra os inimi-
gos (RODRIGUES, 2004).
As porções mais antigas do Antigo Testamento, antes de se-
rem fixadas por escrito, eram transmitidas por meio da tradição
oral. Provavelmente, Jeremias 36,2 possa exemplificar esse ponto,
já que as mensagens do profeta eram de, aproximadamente, 627 a
605 a.C., o que indica que teriam sido preservadas pela memória e
transmitidas na forma poética.
O cotidiano em versos
Fundamentalmente, podemos dizer que o modo como os
textos se dividem em termos de gênero no Antigo Testamento se-
gue o esquema: prosa, narrativa e poesia. Com base nisso, elabo-
ramos o Quadro 2 a seguir.
© U7 - Antigo Testamento como Fonte para o Estudo da História de Israel 211
Quadro 2 Formas Literárias e Gêneros Literários
FORMAS LITERÁRIAS GÊNEROS LITERÁRIOS
A narrativa
A parábola
A fábula
As subcategorias da prosa (forma natural
de falar em oposição ao verso) são A alegoria
geralmente entendidas como: O sermão
A história curta
O discurso
O oráculo
O ensaio
A historiografia
O mito
As subcategorias da narrativa.
O conto folclórico
As descobertas arqueológicas mostram A lenda
vários gêneros como:
A saga
O material jurídico
Canções, que podem ser:
• nupciais (Cantares de
Salomão);
• fúnebres (Lamentações);
• hinos (Salmos 42-46, 92, 124 e
As subcategorias da poesia.
147 e outros);
A arte de se expressar em verso que,
• populares (1Sm 18,7 – resumo
muitas vezes, emprega a linguagem
de uma canção popular).
figurada. Pelo menos, a terça parte do
Antigo Testamento é formada de poesia, Bênçãos e maldições ("palavras
e, foi somente em 1753 (d.C.) que essa patriarcais") (Gn 12,1-3; 14,19-20; 22,16-
poesia foi, pela primeira vez, examinada. 18; 48,15-16; 49,2-27 e cf. Gn 3,14-19;
As principais categorias da poesia são: 4,23-24; 9,25-27).
Sentenças – uma só linha poética (Gn
10,9, por exemplo).
Enigmas (Jz 14,14).
Provérbios – o livro de Provérbios (cf. Jr
18,18).
Poemas diversos – os Salmos (a maior
parte de Jó é poesia dramática).
Claretiano - Centro Universitário
212 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Tradições muito antigas foram colecionadas em forma de
provérbios populares, especialmente no Antigo Israel, "quando,
após a faina diária, as pessoas se reuniam junto ao portão. Os pro-
vérbios alcançaram forma artística na corte real, conforme relatam
notícias do tempo de Salomão (1Rs 5,11-12)".
Segundo Robert Lowth (1753) e outros estudiosos, a poesia
hebraica tem duas características básicas:
a) paralelismo ou "rima" de pensamento.
b) várias sequências de sílabas tônicas e átonas (ritmo).
Em tempos antigos, já se colecionava esses provérbios (Js
10,13 e 2Sm 1,18, o "livro do valente", e, em Nm 21,14, o "livro
das guerras de Javé"), além dos contos (sagas) que descreviam os
vultos das origens de Israel.
Nesse sentido, o termo "saga" indica que não havia interesse
histórico-cronológico na fixação de uma sequência exata dos even-
tos. Mas a saga conservava em "cores vivas" o que era próprio da
época, dos personagens e da consciência do povo:
Nelas o passado está presente como parte integrante da própria
história daqueles que as narram e ouvem. Reconhecem, naquilo
que Abraão, Jacó e Moisés experimentaram uma representação de
suas próprias experiências que tiveram e ainda têm. Israel entende
sua história sempre como história de Deus [...]. Deste modo, estas
sagas representam, com toda a sua vivacidade narrativa, muitas ve-
zes, uma profunda profissão de fé (RENDTORFF, 1998, p. 9).
Esse breve quadro literário fornece uma dimensão de como
a literatura do Antigo Testamento estava imbricada à vida de Israel
e suas comunidades.
Assim, os textos refletem tanto a experiência social quanto
as expectativas e o desejo de constituição de uma civilização que
fosse não apenas "povo" (no sentido de conjunto de pessoas), mas
"nação", com sentimento de pertença e símbolos que expressas-
sem sua identidade.
Esse conjunto de saberes reunidos no Antigo Testamento,
que falam a respeito de conflitos políticos e questões de compor-
© U7 - Antigo Testamento como Fonte para o Estudo da História de Israel 213
tamento relacionadas ao cotidiano das pessoas que viveram na-
quele período, revela-se como fonte primária para os estudos e a
compreensão do judaísmo na Antiguidade.
9. LEGISLAÇÃO E ORDENAÇÃO SOCIAL
Quando saíram do Egito e se livraram da tirania das cidades-
-estado, o povo hebreu organizou-se de acordo com outro mode-
lo. Esse modelo correspondia ao de tribos, em grupos familiares.
As tribos receberam o direito à terra (com exceção de Levi),
e o poder de decisões era descentralizado (não havia exércitos,
corte, rei ou um templo).
Conforme verificamos, a forma de se executar justiça tam-
bém era peculiar a cada tribo (Jz 4–5) e visava a favorecer as tribos
autonomamente. Nesse contexto, a lei tinha como objetivo man-
ter a dignidade e a liberdade das tribos, a fim de que não retomas-
sem as condições de escravidão.
Houve, entretanto, a necessidade de mudança no sistema de
organização que ficou explicitado no texto de 1 Samuel 8, quando
se reivindicou o estabelecimento de uma monarquia.
A passagem do sistema tribalista para o monárquico acarre-
tou uma nova configuração social e, em consequência, uma nova
forma de viver. O rei necessitava de corte, de exército e de recur-
sos para manter a nova estrutura, o que transformou radicalmente
a vida das tribos.
Na sequência, soma-se a mudança ocasionada pelo exílio e
o pós-exílio.
Não havia mais reis, nem profetas, nem terra. O templo ha-
via sido destruído. O que fazer então? Tudo é centralizado no cul-
to, no Novo Templo. Ganham força os sacerdotes e os levitas. A
maior parte das leis e mandamentos, que hoje encontramos no
Antigo Testamento, foi organizada nesse tempo. O texto de Levíti-
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214 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
co discorre a respeito das coisas ligadas ao culto, à pureza. Se foi
bom por um lado, por outro, restringiu a lei novamente a um gru-
po separado, e o povo ficou fora, considerado impuro (Nm 5 e 8).
A lei ganhou função e sentido de destaque. A Torah tornou-
-se o coração da fé dos judeus, o que pode ser verificado na prática
de certos rituais até os dias de hoje; por exemplo: muitos judeus
usam o tefilim, uma caixinha que se amarra em várias partes do
corpo, dentro da qual há um trecho da Bíblia, como Deuteronômio
6. Essa seria uma forma mais do que simbólica, porque tem mate-
rialidade, de expressar que a lei está na mente, no coração e nas
ações (RODRIGUES, 2004).
Compreendendo o Levítico com base na antropologia
A lei como tradição que sobreviveu e foi herdada dos levitas
não pode ser entendida como algo ruim ou demasiado rígido sim-
plesmente.
[...] arbitrariedade é decididamente uma qualidade que não se es-
pera encontrar no Levítico [...] Pois a crítica das fontes atribui ao
Levítico uma origem sacerdotal, cujos autores preocupavam-se
predominantemente com a ordem (DOUGLAS, 1976, p. 62-63).
O exame das leis que impunham padrões de comportamen-
to religioso e social, para além de explicitar o meio pelo qual os
judeus se ordenavam no dia a dia, também expressa a sua lógica
de pensamento, aquilo que os subsidiava na estruturação de es-
quemas interpretativos para viver e se relacionar no mundo em
sociedade. Para amparar uma análise e compreensão desses es-
quemas, a antropologia cede importantes conceitos e chaves me-
todológicas.
Pode-se dizer que parte da relevância da lei estava em seu
caráter regulador. Os preceitos positivos e negativos foram pro-
mulgados por serem eficazes: observá-los traria prosperidade,
infringi-los traria o perigo, representado na ira de Iahweh. Tanto
os preceitos quanto as cerimônias estavam pautadas pela ideia da
santidade do Deus, que os homens deveriam fomentar em suas
próprias vidas (DOUGLAS, 1976).
© U7 - Antigo Testamento como Fonte para o Estudo da História de Israel 215
A ideia hebraica de qadash (o que equivale dizer: sereis sa-
grados (ou separados), porque eu sou sagrado), ligava-se à noção
de integridade tanto de pessoas físicas quanto de objetos e de
animais apresentados no Templo. Os animais para o sacrifício, por
exemplo, deveriam ser perfeitos, as mulheres deveriam ser puri-
ficadas após o parto e o período menstrual, os leprosos deveriam
ser separados e limpos ritualmente antes que se aproximasse de-
les, todas as secreções corporais eram consideradas impuras. An-
tes de se entrar no Templo, não deveria haver qualquer sinal de
secreções pelo corpo, pois os sacerdotes não podiam ter contato
com a morte (a não ser que um parente morresse), e o sumo sa-
cerdote jamais poderia ter contato com ela.
A atenção ao que o texto diz explicita a importância que a ex-
periência religiosa exercia tanto social quanto espiritualmente, o
que é fundamental para reconhecermos a relevância das regras de
pureza para os judeus naquele período. As prescrições de pureza
objetivavam que tanto pessoas quanto objetos associados ao Tem-
plo estivessem "completos", íntegros e separados. Aqui podemos
identificar um esquema de estruturação do mundo baseado em
oposições: limpo/sujo, puro/impuro, bem/mal, benção/maldição
etc. Esse esquema classificatório concede sentido ao grupo que,
com base nas noções por ele oferecidas, pode conduzir seus julga-
mentos e ações. Essa lógica não era peculiar ao Israel Antigo, mas
compartilhada por outros povos do Mediterrâneo Antigo. Todavia,
importa-nos que estava presente, por exemplo, na concepção dos
mitos de combate, os quais aventavam grandes batalhas entre for-
ças do bem e do mal.
Conquanto, essa noção inicialmente religiosa se estendia
para o âmbito social, na medida em que, na concepção judaica,
um exército só poderia vencer a guerra com seu inimigo caso esti-
vesse sob a bênção de Deus. Portanto, essa lógica permitia expli-
car sucessos ou fracassos políticos.
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216 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
Conforme narrativa bíblica em Josué 7,25-26a, no episódio
em que Acã escondeu em sua tenda despojos da guerra que Israel
travara contra um inimigo (objetos de luxo de origem babilônica),
todo o Israel foi amaldiçoado e considerado anátema, o que se
explica pelo fato de que os objetos pertenciam à nação inimiga e
pagã; portanto, eram considerados impuros e não deveriam entrar
no campo de Israel:
Por que trouxeste desgraça sobre nós? Que Iahweh, neste dia, tra-
ga desgraça sobre ti! E todo o Israel o apedrejou (e os queimou
e os cobriu de pedras). E levantaram sobre ele um grande monte
de pedras, que existe ainda hoje. Aplacou-se então Iahweh da sua
ardente ira (BÍBLIA DE JERUSALÉM).
Para o recebimento da bênção de Iahweh, era necessário
que todo homem e mulher estivessem devidamente separados e
íntegros diante Deus, conforme as regras de pureza.
Desse modo, no contexto social do Israel Antigo, a integrida-
de e a totalidade representavam a perfeição. Isso é ilustrado es-
pecialmente nas passagens de Levítico 21,16-24 e Deuteronômio
23,2, que dizem, claramente, que corpos deformados não deviam
se aproximar do véu sagrado nem da assembleia do Senhor.
Em Levítico 21,16-24, os impedidos de entrarem na assem-
bleia eram os cegos, os coxos, os desfigurados, os deformados, os
que tivessem pé ou braço fraturado, os corcundas, os anões, os
que tinham belida no olho, ou dartro, ou pragas purulentas, ou os
eunucos que em Deuteronômio 23,1 eram homens que tinham os
testículos esmagados ou o membro viril cortado.
Em ambas as situações, qualquer indivíduo que apresentas-
se sinais de mutilação ou imperfeição era considerado inadequado
(anômalo) para a assembleia do Senhor. A anomalia pode ser en-
tendida como aquilo que escapa à norma e, portanto, configura-
-se como um desvio. O que é anômalo não pode ser classificado.
Trata-se de algo que desliza, isto é, não pode ser apreendido por
nenhuma esquema interpretativo, e é essa característica que o
transforma em algo indesejável.
© U7 - Antigo Testamento como Fonte para o Estudo da História de Israel 217
No esquema judaico, a ideia subjacente é que tais pessoas
imperfeitas não se assemelhavam à santidade de Deus: "Sou eu,
Iahweh, que vos fiz subir da terra do Egito para ser o vosso Deus:
sereis santos, porque eu sou santo" (Lv 11,45). O que equivale
dizer: sereis sagrados (ou separados) porque eu sou sagrado
(qadôsh).
O ideal de santidade de Iahweh é uma projeção do povo de
Israel que, nesse contexto histórico, ansiava pela construção de
uma nação de identidade social sólida, em meio ao quadro de di-
ferentes civilizações e culturas do Antigo Oriente Próximo. A base
para a constituição dessa nação e de sua identidade foi cedida pela
religião e, em especial, pelo Levítico.
Se, aos olhos do leitor moderno, os textos que versam so-
bre pureza e impureza parecem estranhos e excludentes, há de
se entendê-los à luz da história e do tipo de sociabilidades que se
desenvolvia na época.
Para esse esclarecimento, o Antigo Testamento continua
sendo um documento relevante para a compreensão da religião e
da cultura de Israel.
10. CONSIDERAÇÕES
Nesta unidade, tivemos a oportunidade de estudar o papel
da historiografia na reconstituição da história de Israel, a vida das
comunidades judaicas refletidas no Antigo Testamento, o Antigo
Testamento como testemunho religioso e cultural da sociedade ju-
daica, bem como o Antigo Testamento como base para ordenação
e constituição da identidade judaica.
Para o desenvolvimento desses temas, ao longo deste CRC,
contamos com o instrumental teórico-metodológico da crítica das
formas, das discussões da historiografia e alguns conceitos descri-
tivos da sociologia e da antropologia. Assim, foi possível constatar
que a compreensão do Antigo Testamento passa pela seleção de
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218 © Introdução Geral à Bíblia e História de Israel
modelos teóricos específicos e que, a cada interpretação proposta,
uma diferente abordagem é construída, privilegiando determina-
dos aspectos da fonte.
Desse modo, ao mesmo tempo que o Antigo Testamento
pôde ser compreendido como um complexo conjunto de docu-
mentos que servem para a investigação da história de Israel, as di-
nâmicas internas da experiência religiosa, política, social e cultural
dos israelitas puderam ser conhecidas com base na identificação e
compreensão dos processos históricos do Antigo Oriente Próximo,
em que a sociedade judaica estava inscrita.
O final de Introdução Geral à Bíblia e História de Israel deixa
entreaberto o horizonte do período Antigo e convida o leitor e es-
tudante moderno a explorá-lo e investigá-lo, usando como ponto
de partida as informações aqui disponibilizadas.
Após esse longo trajeto de estudos que nos proporcionou
um passeio pela introdução geral à bíblia, bem como pela história
de Israel em seu aspecto histórico e literário, social e antropoló-
gico, religioso e vivencial, verificamos que essa história apresenta
uma ampla riqueza de experiências, de memórias e de tradições
que foram preservadas no Antigo Testamento.
Nesse sentido, a "História de Israel" ou as "Histórias de Isra-
el" são discursos que elaboramos, também, conforme nosso pró-
prio horizonte cultural, o que não faz do Antigo Testamento uma
literatura manipulável ou sem sentido.
Ao contrário, o afã de contarmos essa história indica exata-
mente o oposto: que se trata de uma literatura viva e colorida para
a qual sempre retornamos quando precisamos de inspiração.
11. E-REFERÊNCIAS
JEWISH STUDIES. Homepage. Disponível em: <http://www.biu.ac.il/JS/JSIJ/>. Acesso em:
22 fev. 2012.
ORACULA. Revista de Estudos de Apocalíptica, Misticismo e Fenômenos Visionarios.
© U7 - Antigo Testamento como Fonte para o Estudo da História de Israel 219
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PROJETO DE ESTUDOS JUDAICO-HELENÍSTICOS (PEJ). Homepage. Disponível em: <http://
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12. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
DOUGLAS, M. Leviticus as literature. New York: Oxford, 1999.
______. Pureza e perigo. São Paulo: Perspectiva, 1976.
KNIERIM, R. A interpretação do antigo testamento. São Bernardo do Campo, SP: Editeo,
1990.
RENDTORFF, R. A formação do antigo testamento. 5. ed. São Leopoldo, RS: Sinodal, 1998.
RODRIGUES, M. P. (Org.). Palavra de Deus, palavra da gente: as formas literárias na
Bíblia. São Paulo: Paulus, 2004.
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