GrandesÊSíndromesÊVasculares
Maria Fernanda
Lima
2021.1
-> Síndrome vascular é uma injúria aguda em território vascular, resultando em sinais e sintomas neurológicos
que podem ser permanentes;
-> Essa injúria aguda tanto pode ocorrer de forma isquêmica, quando ocorre uma limitação, uma restrição ou
um bloqueio à vascularização de determinada região do cérebro, que é chamado de AVC isquêmico, ou a partir
da hemorragia da artéria acometida, que é chamado de AVC hemorrágico;
-> As principais artérias cerebrais são as artérias cerebrais anteriores e cerebrais médias, que são ramos da
carótida interna e fazem a circulação anterior do cérebro, e cerebrais posteriores, que são ramos da artéria
basilar e fazem a circulação posterior do cérebro. O tronco é vascularizado pelas artérias vertebrais, que
formam a artéria basilar. As grandes síndromes vasculares acometem essas artérias principais;
-> Circulação anterior:
• A artéria carótida interna termina seus ramos na artéria cerebral anterior e cerebral média;
• A artéria cerebral anterior é responsável pela irrigação da região medial e superior, mais interna, do lobo
frontal;
• A artéria cerebral média é responsável pela irrigação de uma área gigantesca do cérebro chamada de
grande convexidade cerebral, que engloba a região lateral do lobo frontal, temporal e parietal, além de
algumas áreas de associação entre os lobos parietal, temporal e occipital;
• AVC - Artéria Cerebral Anterior:
▪ A artéria cerebral anterior é responsável pela região do homúnculo de penfield referente aos membros
inferiores, o que implica em um sintoma neurológico mais importante na parte inferior do corpo. Além
disso, pode provocar, em decorrência de edema, o surgimento de sintoma na região desde o braço até a
mão, dificilmente acometendo a face;
▪ Ao acometer a base do lobo frontal, promove o surgimento de hemiparesia, que geralmente é incompleta
já que não acomete a face e, às vezes, completa, desproporcionada de predomínio crural, ou seja, que
predomina na região de membros inferiores;
▪ O córtex sensitivo primário está localizado no lobo parietal e é espelhado no lobo frontal e, por isso,
pode-se esperar uma alteração sensitiva de membro inferior;
▪ OBS.: Uma hemiparesia é proprocionada quando acomete igualmente membro superior e inferior e é
desproporcionada quando acomete mais um dos dois. A desproporcionada ocorre quando as fibras
responsáveis pela área estão mais espalhadas, que é o caso das fibras do córtex, e é preciso que o AVC
acometa uma região mais extensa para que consiga acometer igualmente o membro superior e o membro
inferior. A proporcionada, por outro lado, ocorre quando as fibras estão próximas, como na cápsula
interna, levando a um acometimento semelhante em membro superior e inferior;
▪ Podem ocorrer quadros confusionais, quadros de depressão, apraxias, hipobulia ou abulia, apatia e
indiferença. Isso costuma ocorrer principalmente em AVCs extensos ou bilaterais, que dificilmente
ocorrem.
• AVC - Artéria cerebral média:
▪ Quanto mais distal é o ramo acometido, menos sintomático é o AVC;
▪ Lobo frontal -> A área motora primária está localizada no lobo frontal enquanto o córtex sensitivo
primário está localizado no lobo parietal e é espelhado no lobo frontal. Em um AVC de artéria
cerebral média que acomete lobo frontal e parietal, pode-se ter uma hemiparesia completa, ou
seja, com o acometimento da face, e desproporcionada de predomínio braquial por lesão da área
primária contralateral à lesão e uma hemihipoestesia contralateral à lesão, principalmente do
braço e da face. Ao acometer o hemisfério dominante, pode-se ter afasia motora;
▪ Lobo temporal -> Esse lobo é responsável por diversas áreas, incluindo memória, olfato, audição,
cognição, linguagem, entre outras. Entretanto, para que um AVC promova sintomas relacionados à
audição, olfação, memória, é necessário que a lesão seja bilateral. Dessa forma, espera-se
principalmente uma alteração de linguagem caso o lobo temporal do hemisfério dominante, que, na
maioria dos casos, é o esquerdo, promovendo uma afasia sensitiva, de Wernicke. Pode-se ter uma
quadrantanopsia superior contralateral em decorrência da passagem das radiações ópticas;
▪ Lobo parietal -> Se ocorre o acometimento do hemisfério não dominante, que geralmente é o
hemisfério direito, tem-se heminegligência, extinção sensitiva. Pode-se ter também apraxias,
alterações sensitivas (seja o acomentimento no hemisfério dominante ou não). Além disso, pode-
se ter uma quadrantanopsia inferior contralateral em decorrência da passagem das radiações
ópticas;
▪ Em AVCs de artéria cerebral média muito extensos, há o acometimento de ambas áreas da
linguagem, promovendo uma afasia global e pode ocorrer também uma hemianopsia pelo
acometimento de todas as radiações ópticas que passam pelos lobos parietal e temporal.
-> Circulação posterior:
• Composta pelas artérias vertebrais, artéria basilar e artérias cerebrais posteriores;
• As artérias cerebrais posteriores são responsáveis pela irrigação do lobo occipital,
principalmente, e pela relação dele com os lobos temporais e parietais;
• As artérias cerebrais posteriores são as únicas responsáveis pela irrigação da área primária da
visão, sendo responsável pela visão;
• AVC - Artéria cerebral posterior:
▪ Pode-se ter perda de um campo visual inteiro e essa pode ser a única manifestação;
▪ Tem-se hemianopsia homônima contralateral em decorrência da ausência de resposta da área
primária da visão às radiações ópticas que chegam até ela;
▪ Algumas das artérias perfurantes que se originam
das artérias cerebrais posteriores são
responsáveis pela irrigação do pedúnculo cerebral,
que são as fibras que saem do cérebro entrando
no mesencéfalo, em específico as fibras motoras
que saem da cápsula interna e entram no meio do
mesencéfalo, o que corresponde a área irrigada
pelas artérias perfurantes. Quando ocorre um
AVC logo no início da artéria cerebral posterior,
tem-se o acometimento do tálamo, de todo o
córtex occipital e também do mesencéfalo,
gerando uma hemiparesia completa proporcionada,
acometendo igualmente todo o hemicorpo,
contralateral pela lesão dessas fibras motoras
bem localizadas;
▪ Pode-se ter agnosia visual, que é quando o
indivíduo não reconhece objetos do dia a dia
mesmo que os possa ver, mas consegue
reconhecer ao tocá-los;
▪ Pode-se ter alexia sem agrafia, que consiste na perda da capacidade de compreensão da palavra
escrita ou impressa secundária a uma lesão cerebral, mas que não é acompanhada da incapacidade
ou perda da capacidade de escrever ou montar frases coerentes;
▪ O indivíduo pode apresentar a síndrome de Gerstmann, que é uma condição neurológica rara,
caracterizada por um grupo de alterações cognitivas que correspondem a uma tétrade composta
por agrafia, acalculia (perda das habilidades matemáticas já adquiridas), desorientação direita-
esquerda e agnosia digital (incapacidade de reconhecer os dedos na mão);
▪ Pode-se ter disfunção cognitiva (memória);
▪ Quando a lesão é bilateral, pode-se ter cegueira cortical (ausência total da visão em ambos os
olhos mesmo que estejam em perfeito estado), síndrome de Anton (uma forma de anosognosia que
se manifesta como uma complicação rara da síndrome da cegueira cortical devido ao
comprometimento dos centros visuais de associação e produz a negação da cegueira por um
paciente que obviamente não pode ver), prosopagnosia (incapacidade de identificar faces
familiares, incluindo as de amigos próximos, ou de distinguir objetos individuais dentre uma classe
de objetos, apesar da capacidade de identificar características faciais genéricas e objetos),
entre outros.
• AVC - Tronco cerebral:
▪ São potencialmente mais graves, assim como os AVCs de artéria cerebral média, e, por isso, é
importante saber identificá-los, já que podem provocar sintomas graves como uma disautonomia
ou ser grandes ao ponto de gerar um edema que leva ao fechamento do quarto ventrículo,
promovendo uma hidrocefalia aguda com aumento da pressão intracraniana que pode ocasionar a
movimentação do lóbulo flóculo-nodular do cerebelo para baixo, comprimindo o bulbo e levando a
uma disautonomia;
▪ Apresentação de diversos sintomas em decorrência da pequena extensão da região formada pelo
meséncefalo, ponte e bulbo;
▪ Pode-se ter uma hemiparesia completa proporcionada em decorrência da proximidade das fibras e
vários sintomas diversos associados, como alteração de coordenação, hemiparesia, alteração
sensitiva, diplopia, paralisia facial periférica, entre outros;
▪ Caso o AVC seja bastante específico, o indivíduo pode apresentar um único sintoma;
▪ Os sintomas associados à lesão dos nervos cranianos falam a favor de AVC de tronco cerebral, já
que é nele que estão localizados os núcleos desses nervos. Entre esses sintomas, pode-se ter uma
diplopia, uma paralisia facial periférica ou uma lesão do hipoglosso com desvio contralateral da
língua, por exemplo;
▪ AVC bulbar -> Apresentação de diversos sintomas, entre eles, ataxia ipsilateral, hipoestesia da
face ipsilateral, hipoestesia incompleta do hemicorpo contralateral, vestibulopatia em caso de
lesão dos núcleos vestibulares, disfunção dos nervos IX e X, síndrome de Wallenberg (síndrome
sensitiva cruzada) e disautonomia por lesão do núcleo responsável pelo controle da frequência
cardíaca e respiratória;
▪ AVC pontino -> Quando em pequenas proporções, é menos sintomático e grave que o AVC bulbar,
apresentando sintomas como hemiparesia e ataxia. Ao acometer uma grande área da ponte,
entretanto, o indivíduo pode apresentar hemiparesia e disfunção dos nervos V, VI (ambos os olhos
não conseguem olhar para o lado esquerdo porque é o núcleo do VI que é responsável pela mirada
horizontal e que manda o comando para o nervo III para que a abdução seja realizada) e VII pelo
acometimento dos seus núcleos;
▪ AVC mesencefálico -> Pode-se ter hemiparesia pelo acometimento do pedúnculo mesencefálico e
disfunção do nervo III. O indivíduo pode apresentar a síndrome de Weber, em que ocorre o
acometimento do nervo III ipsilateral, levando a uma paralisia, e a via piramidal, levando a uma
hemiparesia completa proporcionada contralateral.