Origens das Sociedades Complexas
Resumo das aulas. 1
Introdução
Noções gerais sobre a Pré-história: periodização e cronologia. O ambiente da
Pré-história: a era Quaternária; os períodos Plistocénico e Holocénico.
Caraterização geral das sociedades do Paleolítico: sociedades de caçadores-
recolectores. O pós-glaciar (c. 12 000/ 10 000 antes do Presente) e os
caçadores- recolectores do período Mesolítico: economia predadora de
“espectro amplo”.
Recomenda-se a leitura, como introdução à Pré-história, dos seguintes textos:
V. O. Jorge, “Pré-história” (ficha extra-texto da revista Arqueologia, nº 7, Porto,
1983). [Bib. do Inst. de Arqueologia/ Nónio: material de apoio].
V. O. Jorge, “Paleolítico” (ficha extra-texto da revista Arqueologia, nº 10, Dez.
84). [Bib. do Inst. de Arqueologia/ Nónio: material de apoio].
V. O. Jorge, “Caçadores-recolectores (sociedades de)” (ficha extra-texto da
revista Arqueologia, nº 13, Jun. 86). [Bib. do Inst. de Arqueologia/ Nónio:
material de apoio].
O período Mesolítico
12 000/ 10 000 – 6 000 BP
As sociedades predadoras do pós-glaciar
O termo Mesolítico provém do grego: mesos (no meio de) + lithos
(pedra). Designa o conjunto de culturas que se intercalam entre o Paleolítico e
o Neolítico, ou seja, culturas que se encontram num momento de transição,
entre uma economia de predadores e uma economia de produtores.
O período Mesolítico engloba culturas pós-glaciares anteriores ao
Neolítico muito diversas, que têm de comum, apenas, serem contemporâneas.
De facto, conhecem-se na Europa e na região do Próximo Oriente populações
deste período que evoluem em sentidos diversos:
- umas mantêm-se numa linha de tradição paleolítica (são
fundamentalmente caçadores-recolectores e pescadores);
- outras evoluem no sentido do Neolítico (sedentarização
extensiva, controlo/ domesticação de animais, colheita intensiva de cereais).
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Origens das Sociedades Complexas
Para estes dois tipos de culturas adoptou-se, então, uma nova
terminologia, que permite uma caracterização socioeconómica e tecnológica
das comunidades que integram o período Mesolítico:
- sociedades epipaleolíticas: culturas de predadores sucessoras do
Paleolítico superior com uma economia baseada na caça, pesca, mariscagem,
exploração de recursos flúvio-marítimos (caracois) e de vegetais (recolecção).
Ex.: Azilense pirenaico (que sucede ao Magdalenense final); Epigravetense
espanhol (La Cocina), sucedendo ao Gravetense; Tardenoisense (La Fère-en-
Tardenois, França);Maglemosense (Europa do Norte); etc.
- sociedades proto-neolíticas: culturas que se desenvolvem em
“zonas de invenção” (como é o caso do Próximo Oriente, área onde existem
cereais em estado selvagem e herbívoros potencialmente domesticáveis) e que
evoluem para estádios que conduzem à produção de alimentos animais e
vegetais, diminuindo a caça, a pesca e a recoleção de alimentos vegetais; são,
portanto, populações em vias de sedentarização e de evolução para a
economia de produção; a exploração intensiva e controlo dos rebanhos conduz
à sua domesticação e à criação de gado; a colheita sistemática de gramíneas
(proto-agricultura) poderá culminar na selecção e domesticação de espécies
vegetais e na agricultura.
Estas comunidades são genericamente contemporâneas das sociedades
epipaleolíticas; destacam-se como áreas mais importantes: Próximo Oriente
(trigo candial e cevada) e a Mesoamérica (milho, produtos hortícolas); mas é
de considerar de igual modo a importância local de outras áreas do mundo:
China (arroz e milho miúdo); Ásia do sudeste (tubérculos); América Central
(milho) e América do sul (produtos hortícolas); África equatorial (inhame,
sorgo, etc.).
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Origens das Sociedades Complexas
Ex.: Próximo Oriente (Crescente Fértil), região onde há cerca de
10 000 anos existiam profusamente herbívoros potencialmente domesticáveis
e cereais em estado selvagem.
Shanidar (nível B2) (Iraque) – 12 000-10 000 BP: utensilagem de
tradição paleolítica (lâminas e lamelas de dorso abatido, raspadeiras, buris),
micrólitos geométricos (triângulos, crescentes e trapézios) e instrumentos de
moagem (primeiros moinhos e trituradores).
Natufense (Palestina): micrólitos geométricos associados a cabos
de madeira nos quais terão sido inseridas séries de micrólitos, funcionando
como autênticas foices; inúmeras pedras-de-mó.
Generalizadamente podemos dizer que no Próximo Oriente se regista
uma intensificação da alimentação vegetal e da colheita intensiva de cereais
(gramíneas), conduzindo a uma proto-agricultura, visível na profusão de
“foicinhas” (lâminas de foice feitas em materiais líticos), elementos de moinhos
manuais, pilões, trituradores, etc.
Será de reter:
- há neste período de transição (Plistocénico/ Holocénico) uma
grande diversidade de condições geográficas e ecológicas;
- regista-se, igualmente, uma grande diversidade cultural.
- a utensilagem lítica, tendencialmente de pequenas dimensões
(utensilagem microlítica), desenvolve-se extraordinariamente neste período; o
micrólito é o elemento comum a estas diversas culturas (com exceção do
Asturiense/ Ancorense (Portugal e Espanha), Languedocense e Mirense (sul de
Portugal), que se caraterizam pela sua utensilagem macrolítica); trata-se de
utensílio/ elemento de instrumentos compósitos, de pedra lascada, de muito
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Origens das Sociedades Complexas
pequenas dimensões (lâmina ou lamela com, aproximadamente, 1 a 3 cm de
comprimento).
orientação bibliográfica:
Chris Scarre (eds), The Human Past. World Prehistory & the Development of
Human Societies, London, Thames & Hudson, 2005. Cap. 5: "The World
transformed: from foragers and farmers to states and empires", pp. 176-
199 (sobretudo pp. 188-189). [Bib. do Inst. de Arqueologia. Nónio:
material de apoio].
André Leroi-Gourhan, Pré-história, S. Paulo, Pioneira-Editora da Universidade
de S. Paulo, 1981, págs. 127-142, sobretudo págs. 127-130 e págs. 139-
142 (cap. IV — Os caçadores-predadores do Pós-glaciário e o Mesolítico).
(versão portuguesa de La Préhistoire, Paris, PUF) (Bib. do Inst. de
Arqueologia/ Nónio: material de apoio].
Jorge Juan Eiroa, Nociones de Prehistoria General, Madrid, Editorial Ariel, 2000,
págs. 231-254 (cap. 9 — “Epipaleolítico y Mesolítico”). [Bib. do Inst. de
Arqueologia].
Colin Renfrew; Paul Bahn, Archaeology: Theories, Methods and Practice, 5ª ed.,
London, Thames and Hudson.
NEOLÍTICO
Problemática geral da neolitização
Etimologia: o termo Neolítico provém do grego: neos (novo) + lithos
(pedra).
O Neolítico corresponde a uma fase do desenvolvimento técnico,
económico e social das sociedades, posterior ao Mesolítico e anterior à Idade
dos Metais (Calcolítico, Idade do Bronze, Idade do Ferro).
Inicialmente, contudo, utilizaram-se para definir o Neolítico sobretudo
critérios tecnológicos: artefactos de pedra polida e vasos de cerâmica. É neste
contexto que surgem igualmente as expressões “Idade da Pedra Lascada”
(Paleolítico) e “Idade da Pedra Polida” (Neolítico).
Este critério, com o evoluir da investigação, revelou-se insuficiente.
Como vimos, no período Mesolítico, alguns grupos de caçadores-recoletores
utilizavam já utensílios de pedra polida, como por exemplo a cultura
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Origens das Sociedades Complexas
Maglemosense (micrólitos e objetos de adorno de pedra polida), sem que tal
represente, ao nível económico, uma grande alteração.
Abrigo Aizpea (Navarra, Pirinéus ocidentais). Epipaleolítico. Indústria lítica.
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Vaso de cerâmica do Neolítico Antigo com decoração cardial (decoração
impressa com cardium edule). Bacia do Mediterrâneo. Réplica.
De facto, as populações do período Mesolítico continuam a ser
caçadores-recoletores (predadores), embora agora explorem mais
intensivamente os recursos naturais da região que ocupam: caça (mamíferos,
aves), recoleção de frutos e gramíneas, pesca, mariscagem, coleta de caracois,
etc.
Do mesmo modo, identificaram-se populações mesolíticas que
conhecem e utilizam a cerâmica sem que isso represente uma passagem de
uma economia predadora para uma economia produtora. Por outro lado, a
utensilagem em pedra lascada perdurou, em muitas regiões, até à Idade dos
Metais, coexistindo com a utensilagem em pedra polida e mesmo artefactos de
metal.
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Origens das Sociedades Complexas
Assim, os indicadores tecnológicos não são suficientes para identificar as
transformações de ordem económica e social que caraterizam as sociedades
produtoras.
O Neolítico é caraterizado, sobretudo, pela aquisição de um novo modo
de vida:
i) o homem passa a ser um produtor, estabelecendo-se novas
relações entre este e o meio natural em que vive, modificando mais
profundamente o meio ambiente, através da agricultura, da seleção das
espécies, da criação de gado, das técnicas de irrigação e adubação dos
terrenos, etc.
ii) com o Neolítico intensificam-se os povoados permanentes e as
relações sociais complexificam-se.
Estas transformações foram de tal modo profundas e, aparentemente,
rápidas, que alguns investigadores as incluiram sob a expressão de “revolução
neolítica”, procurando traduzir as profundas mudanças que o modo de vida
destas populações sofreu (Gordon Childe).
Hoje em dia, contudo, considera-se esta expressão inadequada,
porquanto:
i) não há, de facto, uma mudança brusca na passagem do
Mesolítico para o Neolítico;
ii) o Mesolítico já pré-figura o período seguinte, nomeadamente
com:
a) a fixação precoce das populações (sedentarização);
b) a colheita sistemática de grãos de gramíneas
cerealíferas (proto-agricultura);
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Origens das Sociedades Complexas
c) a diversificação da economia (“economia de espectro
amplo”, expressão de Kent Flannery);
d) o controlo de algumas espécies de animais (proto-
domesticação);
e) as inovações tecnológicas (pedra polida, foices,
moinhos manuais, pilões, etc.).
A passagem do Mesolítico para o Neolítico é um processo lento, sem
ruturas, respeitando as tradições culturais de cada região. E o mesmo se pode
dizer relativamente à passagem do Neolítico para a Idade dos Metais
(Calcolítico). Não há “revoluções”, no sentido de mudanças repentinas e
inesperadas.
Assim, as sociedades neolíticas iniciais revelam uma grande diversidade e
o “processo de neolitização” aparece-nos diferentemente representado no
“registo” arqueológico, como que “incompleto” ou “imperfeito”:
- Síria/ Palestina: em contextos pré-agrícolas surgem os
primeiros povoados estáveis;
- do Mediterrâneo oriental ao Paquistão: as primeiras
comunidades agrícolas (economia produtora) não
conhecem a cerâmica (Neolítico pré-cerâmico ou
acerâmico);
- Japão: o conhecimento da tecnologia cerâmica (c. 16 000
BP) é muito anterior ao estádio produtor;
- Eurásia setentrional: a cerâmica é anterior ao
desenvolvimento da agricultura e da criação de gado.
Por outro lado, é necessário ter em consideração que o “processo de
neolitização” se inicia nas várias regiões do mundo com diferentes espécies
animais e vegetais:
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Origens das Sociedades Complexas
- trigo e cevada (da Anatólia à Palestina);
- arroz (Sudeste asiático);
- milho miúdo (China);
- sorgo e painço (África, Sudão);
- milho e feijão (América);
- tubérculos (Ásia).
A neolitização é um processo complexo e multifacetado, revelando uma
adaptação às condições geográficas, ecológicas e culturais de cada região.
Não é hoje aceitável, por isso, a teoria difusionista que considerava a
existência de uma única zona nuclear (o “Crescente Fértil”) a partir da qual se
teria expandido o novo modo de vida, consubstanciado na “economia de
produção”.
Na verdade, o Neolítico surgiu em várias áreas do mundo, hoje
consideradas zonas de invenção independentes do Crescente Fértil; o Neolítico
nessas regiões mostra uma adaptação às condições ecológicas locais; são,
contudo, regiões mais ou menos favoráveis ao novo modo de vida (América
Central, Peru, China do Norte, Sudeste da Ásia (Tailândia, Indochina, Malásia),
África (Sudão — savana sudanesa).
orientação bibliográfica:
Chris Scarre (eds), The Human Past. World Prehistory & the Development of
Human Societies, London, Thames & Hudson, 2005. Cap. 5: "The World
transformed: from foragers and farmers to states and empires", pp. 176-
199 (sobretudo pp. 188-189). [Bib. do Inst. de Arqueologia. Nónio:
material de apoio].
André Leroi-Gourhan, Pré-história, S. Paulo, Pioneira-Editora da Universidade
de S. Paulo, 1981, págs. 143-152 (cap. V — O Neolítico). (versão
portuguesa de La Préhistoire, Paris, PUF; há também uma versão em
castelhano; ambos os livros estão disponíveis na Biblioteca do Instituto
de Arqueologia). [Bib. do Inst. de Arqueologia/ Nónio: material de apoio].
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Origens das Sociedades Complexas
V. O. Jorge, “O Neolítico — a emergência das sociedades agrícolo-pastoris na
perspectiva da Pré-história”, Arqueologia, 6, Porto, 1982, pp. 11-18. [Bib.
do Inst. de Arqueologia/ Nónio: material de apoio].
Sigfried J. De Laet, “Do início da produção de alimentos aos primeiros
estados”. In: S. J. de LAET, A. H. DANI, J. L ; LORENZO, R. B. NUNOO
(eds.), História da Humanidade. Vol. I — A Pré-história e o Início da
Civilização, Lisboa, Editorial Verbo, 1996, pp. 382-393. [Biblioteca do
Instituto de Arqueologia/ Nónio: material de apoio].
Lennart Palmqvist, “A Grande Transição. De 10 000 a. C. a 4 000 a. C.”. In:
Goran Burenhult (coord.), Enciclopédia Ilustrada da Humanidade. Da
Pedra ao Bronze. Caçadores, recolectores e primeiros agricultores”,
Lisboa, Círculo de Leitores, 1995, pp. 17-38. [Biblioteca do Instituto de
Arqueologia/ Nónio: material de apoio].
Peter Rowley Conwey, “Caçadores-recolectores e agricultores da Idade da
Pedra, na Europa. De 10 000 a. C. a 3 000 a. C. De recolectores de plantas
a produtores de alimentos”. In: Goran Burenhult (coord.), Enciclopédia
Ilustrada da Humanidade. Da Pedra ao Bronze. Caçadores, recolectores e
primeiros agricultores”, Lisboa, Círculo de Leitores, 1995, pp. 59-77.
[Biblioteca do Instituto de Arqueologia/ Nónio: material de apoio].
Jacques Cauvin, Nascimento das Divindades. Nascimento da Agricultura. A
Revolução dos Símbolos no Neolítico, Lisboa, Instituto Piaget, 1999, págs.
101-107 (cap. 6 — “Agricultura, demografia, sociedade: um balanço”),
págs. 109-116 (cap. 7 — “A revolução neolítica: uma mutação mental”).
[Bib. do Inst. de Arqueologia].
Jorge Juan Eiroa, Nociones de Prehistoria General, Madrid, Ariel, 2000, págs.
273-294 (cap. 11 — “El Neolítico”). [Bib. do Inst. de Arqueologia].
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