INTRODUÇÃO À MICROBIOLOGIA
A Microbiologia é um ramo da ciência que estuda os microrganismos, que
são organismos muito pequenos, não visíveis a olho nu.
Os microrganismos compreendem um grupo amplo de seres vivos, que na
maioria das vezes são encontrados na forma unicelular e apresentam a propriedade
de realizar suas funções vitais, como produção de energia, crescimento e
reprodução, sem depender de outras células. Entre eles, estão as bactérias, os
fungos, os protozoários, as algas e os vírus. Este último grupo possui natureza
acelular e enquadra-se entre os seres vivos e a matéria inanimada.
Há uma enorme diversidade de microrganismos que possui um grande
espectro de vias metabólicas, que permitiram sua sobrevivência em distintas
condições ambientais, como nas fontes termais, nas geleiras, na água, no solo, na
vegetação e em outros seres vivos. E, apesar de não serem vistos, eles
desempenham importantes funções para a manutenção do meio ambiente.
Veja, a seguir, algumas funções importantes dos microrganismos.
1) Alguns microrganismos possuem a propriedade de captar a energia do Sol e
armazená-la em moléculas que são utilizadas como alimento para outros
organismos.
2) Eles são os grandes recicladores da matéria orgânica. Decompõem organismos
mortos, produtos da excreção de outros seres vivos.
3) São utilizados na degradação de resíduos poluentes (como solventes, pesticidas,
óleos), em um processo conhecido com biorremediação.
4) Por meio da decomposição da matéria orgânica, os microrganismos disponibilizam
nitrogênio, carbono e enxofre na forma acessível para as plantas absorverem.
5) As vias metabólicas dos microrganismos têm sido exploradas pela indústria de
alimentos na produção de iogurte, queijo, pão, cerveja, vinho, entre outros, e pela
indústria farmacêutica na produção de hormônios, por meio de microrganismos
manipulados geneticamente (Biotecnologia) e de antibióticos.
6) Na área da Saúde, o conhecimento da biologia dos microrganismos permitiu a
produção de vacinas, assim como o uso de bacteriófagos (vírus que infectam
bactérias) para controle de infecções bacterianas.
7) Na agricultura, os microrganismos são utilizados para fazer o controle de pragas.
8) O conhecimento da genética dos microrganismos permitiu o desenvolvimento do
Projeto Genoma, que atua no sequenciamento do DNA genômico de diferentes
espécies.
9) Na produção de energia, os microrganismos podem ser utilizados em processos de
fermentação para a produção de biocombustíveis, como, por exemplo, o etanol, que
é uma matriz energética menos poluidora. A maior parte do gás natural (metano) é
de origem bacteriana.
A frase do ilustre pesquisador francês Louis Pasteur (18221895) resume de
maneira brilhante a atuação dos microrganismos na natureza: "O papel dos
infinitamente pequenos na natureza é infinitamente grande".
Apesar da grande biodiversidade dos microrganismos, eles podem ser
classificados em quatro tipos principais:
1) Microrganismos patogênicos: são aqueles que causam doenças infecciosas.
Estima-se que menos de 1% dos microrganismos existentes são patogênicos.
Exemplos: vírus HIV, causador da AIDS; vírus Influenza, causador da gripe; e o
Mycobacterium tuberculosis, causador da tuberculose.
2) Microrganismos não patogênicos: não causam infecções.
3) Microrganismos oportunistas: são aqueles que vivem na superfície ou no interior
dos seres vivos, inibindo o crescimento de microrganismos patogênicos na
superfície onde estão. No entanto, quando a imunidade do hospedeiro diminui, ou
quando a superfície onde habitam sofre uma lesão, estes microrganismos podem
penetrar outros tecidos e causar infecção. Exemplos: Candida albicans causa
monilíase, o popular "sapinho", em recém-nascidos; herpes, que se manifesta em
imunodeprimidos.
4) Microrganismos saprófitas: degradam material orgânico.
PROPRIEDADES GERAIS DOS VÍRUS
A palavra vírus vem do latim e significa "veneno", "toxina", e está relacionada
à descoberta do primeiro vírus, o vírus mosaico do tabaco, que ataca folhas dessa
planta, deixando-a com manchas amareladas, conforme você pode observar na
Figura 1.
Figura 1 Folha de tabaco infectada com vírus do mosaico do tabaco.
Na tentativa de realizar o isolamento do agente causador desta doença, o
pesquisador Dmitri Iwanowski realizou a filtragem da seiva de uma planta doente e
pretendia isolar a "suposta bactéria" causadora da doença, uma vez que esperava
que ela ficasse retida no filtro.
Para sua surpresa, ele descobriu que o agente causador da doença
apresentava pequeno peso molecular, passando através dos poros do filtro, pois a
seiva filtrada, ao ser aplicada nas folhas de uma planta de tabaco saudável, induzia
a doença. Por causa desse fato, passou-se a denominar esses agentes filtráveis de
"vírus".
Somente após vários anos, e com o desenvolvimento da microscopia
eletrônica, foi possível isolar e visualizar o vírus mosaico do tabaco, que você pode
observar na Figura 2.
Figura 2 Fotomicroscopia eletrônica do vírus do mosaico do tabaco.
Os vírus são partículas infecciosas muito pequenas, com formas e tamanhos
variados (veja Figura 3), que não possuem natureza celular ou organelas
intracitoplasmáticas; são desprovidos de maquinaria bioquímica para realizar a
síntese macromolecular de proteínas e do seu ácido nucleico, impedindo sua
autonomia para multiplicar-se. Dessa forma, devem, obrigatoriamente, estar dentro
de uma célula para se multiplicar, utilizando a maquinaria bioquímica da célula
hospedeira. Por essa razão, todos os vírus são parasitas intracelulares
obrigatórios.
Outra característica dos vírus é que eles apresentam um único tipo de ácido
nucleico: ou DNA ou RNA, nunca possuindo ambos.
Figura 3 Representação de diferentes tipos de vírus.
ESTRUTURA VIRAL
As partículas virais, por não apresentarem natureza celular, possuem uma
estrutura bastante simples, caracterizada pela presença de seu material genético
(DnA ou RnA), que é revestido por uma cápsula proteica. Entretanto, em alguns
tipos de vírus, há um revestimento externo adicional, que é chamado de envelope,
constituído por uma camada bilipídica de fosfolipídios, proteínas e glicoproteínas,
semelhante à membrana celular.
Os vírus que não possuem envelope são denominados vírus não
envelopados, enquanto os vírus que possuem envelope são os vírus
envelopados.
Alguns vírus especializados em infectar bactérias (bacteriófagos) apresentam
uma estrutura mais elaborada, com estruturas especializadas para realizar a fixação
e a invasão das células bacterianas e, por isso, são chamados de vírus complexos.
Uma partícula viral completa recebe o nome de vírion.
Nos vírus não envelopados, o capsídeo apresenta natureza proteica, como
você pode observar na Figura 4. Cada unidade proteica do seu capsídeo é chamada
de capsômero, que pode ser de um único tipo ou não. As proteínas do capsídeo
possuem a função de reconhecer a célula hospedeira.
Figura 4 Representação esquemática de um vírus não envelopado.
Os vírus envelopados repetem a estrutura dos vírus não envelopados, e são
acrescidos do envelope, conforme demonstra a Figura 5. De acordo com o tipo de
vírus, o envelope pode possuir projeções externas de glicoproteínas, as espículas,
que têm a função de se ligar a proteínas de superfície de membrana da célula
hospedeira.
O envelope é adquirido durante o processo de saída do vírus da célula, onde
ele utiliza parte das membranas celulares (membrana nuclear ou plasmática),
associadas a suas proteínas, para construir o envelope.
A estrutura do envelope, por ser parcialmente originada da célula hospedeira,
protege as partículas virais do ataque do sistema imunológico e também facilita a
disseminação das partículas virais para novas células, por intermédio da fusão com
a membrana celular das células hospedeiras.
Figura 5 Representação esquemática de um vírus envelopado.
Há uma grande variedade de bacteriófagos, mas a maioria possui genoma de
DNA. São desprovidos de envelope e possuem estruturas acessórias como bainha
e fibras da cauda, que auxiliam no processo de fixação e invasão das bactérias.
Observe o esquema representativo de um bacteriófago na Figura 6. Veja que
o capsídeo ou cabeça possui uma forma poliédrica, onde se localiza o DNA. O
restante da estrutura viral é a cauda, que é composta por uma bainha e possui
estrutura helicoidal contrátil.
As células bacterianas apresentam uma estrutura semirrígida chamada de
parede celular. É uma membrana celular externa, uma barreira que os
bacteriófagos necessitam romper para invadir a célula.
Figura 6 Representação esquemática de um bacteriófago.
Aleatoreamente, um bacteriófago pode colidir com a parede celular de uma
bactéria, na extremidade da cauda do bacteriófago. As fibras da cauda interagem
com moléculas da parede celular bacteriana, promovendo a sua adesão.
Posteriormente, as fibras da cauda liberam a enzima lisozima, que degrada a
parede celular, produzindo um poro na parede celular, a bainha contrátil contrai e,
por propulsão, o material genético viral é introduzido no citoplasma da bactéria
hospedeira. Veja a sequência na Figura 7.
Figura 7 Representação esquemática de um bacteriófago invadindo uma
célula bacteriana.
REPLICAÇÃO VIRAL
De modo geral, os vírus multiplicam-se em seis passos, como demonstra a
Figura 8.
Figura 8 Esquema dos passos da replicação viral.
Entenda, a seguir, cada um desses passos:
1) Adesão (adsorção): por meio de moléculas do envelope (espículas) ou do capsídeo
(capsômero), a partícula viral adere-se à membrana celular da célula hospedeira.
2) Penetração: é a introdução do vírion ou de seu material genético no interior da
célula hospedeira.
3) Desnudamento (perda da cobertura): se for o caso, o vírus perde o capsídeo, ou
também o envelope, para expor seu material genético.
4) Síntese: ocorre a síntese de novas cópias do material genético viral e a síntese das
proteínas virais.
5) Montagem (maturação): processo em que o vírion é montado por meio das
biomoléculas disponíveis (ácido nucleico e proteínas virais). no caso dos vírus
envelopados, o vírion só é finalizado durante a saída do vírus da célula por
brotamento, onde ele utiliza parte da membrana da célula contendo proteínas virais
para constituir seu envelope.
6) Liberação: na saída da célula, as partículas virais podem lisá-la ao saírem
coletivamente. Existem alguns casos de saída da célula por brotamento em que as
partículas virais saem de maneira mais controlada, não submetendo a célula
hospedeira à lise.
Os bacteriófagos podem se replicar por meio do ciclo lítico ou por meio do
ciclo lisogênico. Ao fazer o ciclo lítico como o da Figura 9, os bacteriófagos
seguem os passos da replicação viral descritos; porém, durante a fase de liberação,
eles lisam a célula hospedeira, uma vez que liberam coletivamente a enzima
lisozima, que rompe com a parede celular bacteriana, permitindo que as partículas
virais escapem para invadir outras células.
Observe que no ciclo lisogênico, ainda na Figura 9, após o passo da
penetração, o material genético viral é incorporado ao material genético bacteriano,
e nesta condição ele é chamado de prófago. O vírus pode permanecer latente como
um prófago no interior da célula bacteriana por um período longo de tempo. Cada
vez que esta bactéria em lisogenia se multiplicar, as células descendentes levarão
consigo uma cópia do prófago. Eventualmente, o prófago pode sofrer um estímulo
externo (falta de nutrientes, presença de drogas) e iniciar o ciclo lítico. O vírus do
herpes, que promove lesões bolhosas nos lábios, é um exemplo de vírus que faz
ciclo lisogênico, ele permanece no interior das células do sistema nervoso. Porém,
quando a imunidade do indivíduo enfraquece, este vírus entra no ciclo lisogênico,
migra para as células epitelias dos lábios e multiplica-se causando as lesões
bolhosas nos lábios.
Figura 9 Esquema dos ciclos de replicação lítico e lisogênico dos
bacteriófagos.
VÍRUS E CÂNCER
Estima-se que 15% dos cânceres humanos sejam resultantes de infecções
virais. Como no caso dos bacteriófagos que fazem o ciclo lisogênico, alguns vírus
que infectam as células animais também podem inserir seu material genético no
genoma humano em sítios aleatórios, transformando as células em um tumor
maligno.
Ao se integrar ao genoma humano, o vírus induz a síntese das proteínas
virais; algumas destas proteínas interrompem o efeito dos genes supressores de
tumores e, dessa forma, a célula hospedeira passa a se dividir descontroladamente.
PRÍONS E VIROIDES
Príons e viroides são agentes semelhantes aos vírus, porém não possuem a
característica de um vírion completo.
O príon é uma proteína infecciosa que apresenta resistência a calor e a
agentes químicos e replicação lenta. Acredita-se que esta proteína pode ser
originada por mutação ou adquirida por meio da ingestão de alimento contaminado,
uso de produtos médicos contaminados (hormônios, sangue e transplantes) e
transmissão por meio de instrumentos contaminados de procedimentos cirúrgicos.
Estudos indicam que o príon (proteína alterada) tem a capacidade de atuar
sob as proteínas de membrana de células nervosas, removendo-as da membrana
celular e convertendo-as em príons (proteína com conformação alterada). Com isso,
promovem alterações degenerativas no cérebro, como a encefalopatia
espongiforme, em que as células nervosas vão gradativamente morrendo, dando um
aspecto esponjoso ao encéfalo.
A doença humana mais conhecida é a doença de Creutzfeudt-Jacob, que
tem sido associada à ingestão de carne infectada de gado portador de encefalopatia
espongiforme bovina, popularmente conhecida como a "doença da vaca louca".
Os viroides, por sua vez, correspondem a moléculas de RNA de baixo peso
molecular, que não contêm informação genética para a síntese de uma proteína, não
possuindo capsídeo ou envelope.
Alguns viroides causam doenças em plantações de interesse comercial, como
no caso de plantações de tomate, em que o príon induz a doença de atrofia apical
do tomate.
Propriedades Gerais das Bactérias
Iremo abordar os aspectos da morfologia interna e externa das bactérias.
Você terá a oportunidade de conhecer os principais tipos de bactérias existentes em
relação à composição da parede celular, uma estrutura localizada externamente à
membrana celular. Além disso, você aprenderá uma técnica de coloração, a
coloração de Gram, que diferencia as bactérias Gram-positivas das Gram-
negativas.
Espera-se que, ao final desta unidade, você seja capaz de reconhecer a
morfologia e a fisiologia das estruturas bacterianas e que seja apto a distinguir os
tipos de bactérias em relação à composição da parede celular.
MORFOLOGIA BACTERIANA
As bactérias são células procarióticas, constituídas de uma única célula e
desprovidas de envelope nuclear. Possuem um cromossomo circular único, porém
algumas bactérias podem possuir informação genética extracromossômica, que está
presente em pequenas moléculas de DNA circular, chamadas de plasmídios.
As bactérias não possuem em seu citoplasma as organelas membranosas,
típicas das células eucarióticas; possuem apenas os ribossomos, que realizam a
síntese proteica.
As células procarióticas são muito pequenas em relação às células
eucarióticas. Enquanto as células procarióticas possuem um diâmetro que varia de
0,1 µm a 60 µm, as células eucarióticas podem apresentar um diâmetro de 2 µm a
200 µm. Dessa forma, a relação superfície/volume é maior nas células procarióticas.
Ter uma elevada relação superfície/volume significa que nenhuma parte do
interior da célula está distante da superfície e que os nutrientes externos podem
chegar rapidamente a qualquer parte da célula, pois a velocidade com que os
nutrientes ou as substâncias excretadas entram ou saem da célula é inversamente
proporcional ao tamanho celular. Por essa razão, as células procarióticas, em
condições favoráveis, se multiplicam rapidamente.
Para você ter uma ideia do impacto do tamanho celular em relação à
velocidade do crescimento celular entre as células eucarióticas e procarióticas, basta
avaliar o tempo médio que elas demoram a se dividir: uma bactéria, em média,
demora 20 minutos para se multiplicar, enquanto a média das células do corpo
humano é de 24 horas.
Encontramos na natureza uma variedade muito grande em relação à forma da
célula bacteriana. Veja, na Figura 1, as formas mais comuns:
Figura 1 Representação de formas e arranjos bacterianos.
Repare na diversidade de formas:
1) coco: forma esférica;
2) bacilo: forma de bastão;
3) vibrião: forma de vírgula; 4) espirilo: forma ondulada; 5) espiroqueta: forma
espiral.
Além de apresentarem formas típicas, algumas bactérias são encontradas em
grupos, formando diferentes arranjos:
1) diplococo: dois cocos;
2) tétrade: 4 cocos em cubo;
3) sarcina: 8 cocos em cubo;
4) estreptococo: uma série de cocos em cadeia;
5) estafilococo: arranjo semelhante ao cacho de uva;
6) diplobacilo: dois bacilos unidos;
7) estreptobacilo: vários bacilos em cadeia.
Veja, na Figura 2, a estrutura geral das bactérias, composta por:
• membrana celular;
• citoplasma, que contém a região nucleoide, onde está o cromossomo único,
ribossomos, grânulos e vesículas.
Figura 2 Esquema representativo da estrutura geral das bactérias.
Externamente à membrana, a bactéria possui parede celular e a presença
facultativa de algumas estruturas, como cápsula, pili (pelos) e flagelo.
Essas estruturas serão estudadas a partir de agora com mais detalhes.