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Formalização do Caso Clínico na Psicanálise

O documento discute como a formalização de um caso clínico tem sido concebida de diferentes maneiras ao longo da história da psicanálise, sem um padrão estabelecido. A autora argumenta que a psicanálise consiste na articulação entre a experiência clínica e a teoria, e que a teoria instrumentaliza a posição do analista. Ela propõe alguns princípios para formalizar casos clínicos com base em um caso específico.

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Formalização do Caso Clínico na Psicanálise

O documento discute como a formalização de um caso clínico tem sido concebida de diferentes maneiras ao longo da história da psicanálise, sem um padrão estabelecido. A autora argumenta que a psicanálise consiste na articulação entre a experiência clínica e a teoria, e que a teoria instrumentaliza a posição do analista. Ela propõe alguns princípios para formalizar casos clínicos com base em um caso específico.

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C ?

Lêda Guimarães
Psicanalista
Membro da Escola Brasileira de Psicanálise
Membro da Associação Mundial de Psicanálise
(2000-2003)
Diretora do IPB (Instituto de Psicanálise da Bahia)
Professora do Curso de Especialização de Teoria da Psicanálise de Orientação Lacaniana, do IPB em
convênio com a Universidade Baiana de Medicina
[email protected]

Resumo

O caso clínico vem sendo concebido de várias maneiras ao longo da história da psicanálise, desde
um historial clínico até o fragmento de caso, não resultando num standard. A psicanálise é uma
clínica, não é restritamente uma teoria, ainda que tenha um corpo teórico. Mas é uma clínica que
não existe sem a formalização teórica. Do mesmo modo, a teoria da psicanálise é essencialmente
uma teoria da clínica. Portanto, a psicanálise consiste nessa articulação íntima entre o real da
experiência e a teoria relativa a esse real. Assim, a teoria da psicanálise instrumentaliza a posição
analítica para que o analista venha a operar em seu ato.

Palavras chave: caso clínico, história clínica, teoria psicanalítica, formalização da experiência, ato
analítico.

H ?

Abstract

The clinical case has been conceived in many ways throughout the history of psychoanalysis, from
a report to a case fragment, not resulting in a standard. The psychoanalysis is a clinic, not only a
theory, although it has a theoretical body. But it is a clinic that does not exist without theoretical
formalization. In the same way, the theory of psychoanalysis is essentially a theory of the clinic.
Therefore the psychoanalysis consists of this intimate articulation between the real experience
and the theory related to this reality. This way the theory of psychoanalysis instruments the
analytical position so that the analyst operates in his act.

Key words: clinical case, clinical history, psychoanalytical theory, formalization of the experience,
analytical act.

A formalização de um caso clínico vem sendo concebida de várias maneiras ao longo da história da
psicanálise, desde um historial clínico até um fragmento de caso, sem resultar no estabelecimento de um
standard, nem mesmo num consenso nas Escolas da AMP para definir com precisão em que consiste um
caso clínico. Para dar um tratamento a essa questão, falarei a partir do que meu percurso permanente de
formação em psicanálise vem me ensinando no sentido formalizar um caso clínico. Tomarei como
referências teóricas algumas articulações conceituais da primeira com a segunda clínica de Lacan1, para
formular alguns norteadores que venho utilizando no trabalho de construção do caso clínico.

Apresento algumas considerações preliminares antes de propor esses norteadores. A psicanálise é uma
clínica, não é restritamente uma teoria, ainda que tenha um corpo teórico. Mas é uma clínica que não existe
sem a formalização teórica, assim como a teoria da psicanálise é essencialmente uma teoria da clínica.
Portanto, a psicanálise consiste nessa articulação íntima entre o real da experiência e a teoria relativa a
esse real. Dizer isso não é um jogo retórico. Vejamos por quê.

No momento do ato analítico, o analista não pensa (L;<;=, 1967-68), pois o ato irrompe abruptamente. Se
no ato o analista não pensa, isso não quer dizer que ele seja da ordem do que poderíamos chamar de uma
intuição do analista, pois não convém que esse ato seja movido pelas singularidades da subjetividade do
analista; para isso, é indispensável a análise pessoal na formação psicanalítica. Porém, mais além das
condições subjetivas que permitem a sustentação da posição analítica, é ainda fundamental que o analista
esteja bem orientado em seu ato. Orientado em quê? Aqui entra a articulação do ato analítico com a teoria
da psicanálise, não simplesmente o conhecimento do seu corpo teórico em si mesmo, mas
fundamentalmente a utilização da teoria enquanto instrumento conceitual para definir a direção da cura
caso a caso. Será a leitura dos dados clínicos, do que ocorre a cada sessão de análise, utilizando os
instrumentos conceituais da psicanálise para efetivar esta leitura, que permitirá ao analista um trabalho
constante de formulação da direção da cura para cada caso. Assim, a teoria da psicanálise instrumentaliza a
posição analítica para que o analista venha a operar em seu ato. Desse modo, a posição analítica articulada
à formalização teórica, constitui dois lastros indissociáveis para que a clínica psicanalítica ocorra.

A partir desse preâmbulo, podemos já dizer que a formalização do caso clínico, além de se prestar como um
trabalho voltado para a transmissão da psicanálise, antes de qualquer coisa, consiste num trabalho
essencial no dia-a-dia da clínica para orientar o analista na direção da cura, por meio de uma constante
formalização do material bruto dos pacientes em casos clínicos.

Para traçar alguns norteadores para a formalização do caso clínico, utilizarei o caso Karine, publicado sob o
título “Um modo de fazer consistir o pai” (GKLM;NOPQ, 2006). Para suas formulações teóricas, esse texto
tomou como ponto de mira a consistência crescente que a função paterna foi alcançando na estrutura
subjetiva ao longo da cura desse sujeito. É um caso que também se presta para discutirmos a temática das
neuroses “histéricas” contemporâneas. Neuroses que denominei como “mal-ditas histéricas” num outro
texto que estou preparando para publicação. “Mal-ditas” com a duplicidade homofônica de sentido que esse
termo comporta: “mal-nomeadas” como histéricas, já que suas estruturas subjetivas ainda não estão bem
amarradas no amor ao pai, como também “malditas” quando são tomadas pela contra-transferência do
analista como “insuportáveis”, exatamente quando ele não se deixar ser ensinado por elas.

Tomarei agora o caso Karine para formular teoricamente alguns elementos que já estão presentes nos
dados clínicos de modo subjacente. Esses dados podem ser referidos como norteadores para a construção
desse caso clínico. Norteadores que orientaram a seleção e a ordenação dos dados clínicos, os quais agora
nomearei de modo explicito, contando também com algumas formalizações teóricas de Esthela Solano
acerca desse caso clínico (SUV;=U-SK;NPW, 2007).

Primeiro norteador: as condições de abertura para o ato analítico

O início de um atendimento psicanalítico requer a verificação da abertura subjetiva para o ato analítico.
Conforme parâmetros da primeira clínica de Lacan, podemos verificar essa abertura por intermédio da
demanda do sujeito: o que demanda e como formula sua demanda no campo dos ditos.

Quando Lacan conceitua que demandar é tomar a palavra dirigida ao Outro, ele indica que a demanda já
situa no campo do Outro o que o sujeito quer obter com a sua demanda. Assim, a demanda do sujeito
também indica a que Outro o sujeito se dirige (L;<;=, 1954-55).

A importância fundamental da verificação da demanda do sujeito, para a direção da cura poderá ser
articulada com as formulações da segunda clínica de Lacan acerca do parceiro-sintoma (MLVVPN, 1996-97). É
indispensável que o analista, para a sua orientação, venha a ler no caso clínico alguns dados essenciais que
indiquem o estatuto da amarração da neurose, formulando uma hipótese acerca do modo de gozo que o
sujeito mantém na sua parceria sexual com o Outro, fixando o nó de amarração da estrutura.

Desse modo, a análise da demanda do sujeito dirigida ao analista na transferência já indica a posição que o
sujeito ocupa na sua parceria sintomática com o Outro. Para tanto, convém perguntar: como o sujeito se
impõe ao Outro na sua demanda? Como exige que o Outro o receba enquanto parceiro-sintoma?

Karine, com idade em torno de trinta anos, chegou ao consultório apresentando-se por meio de um pedido
que consistia numa condição de suportabilidade, que dependia de uma ressalva em relação ao modo como a
analista deveria operar. Quando interrogada sobre as razões da sua vinda, disse: “vim porque sei que
preciso muito fazer análise”, “sempre precisei”. Afirmou ainda que levou muito tempo para reunir toda a
coragem e se decidir a dar esse passo. Justificou esse pedido apoiada numa posição subjetiva de um certo
pavor controlado, dizendo que há mais de cinco anos havia iniciado uma análise na qual só pôde suportar
permanecer em torno de quatro ou cinco meses, pois se sentia encurralada com o modo de intervenção do
analista e com o fato de fazer as sessões deitada no divã. Passou a sofrer de uma doença psicossomática
que precipitou sua saída. Karine chegou a considerar que a doença teria alguma coisa a ver com essa
experiência de análise.

O que dizer desse modo de formular uma demanda ao analista? Que Karine chega impondo uma restrição à
maneira como a analista deverá operar com ela. Esses dados indicam, desde a primeira entrevista, o modo
sintomático da relação dessa paciente com o Outro ao qual ela dirige uma demanda que pode ser
interpretada do seguinte modo: “Peço que você me responda, mas que você responda como eu decido. Você
tem que me permitir e aceitar que eu domine, quer dizer, que eu possa controlá-la para que nada do que
você disser ou fizer seja imprevisível para mim. E, sobretudo, nada de surpresas”.

Na verificação das condições de abertura ao ato analítico, além de localizar na demanda do sujeito sua
parceria-sintomática com o Outro, é importante também verificar uma condição estrutural fundamental:
Qual foi o fator mobilizador da demanda? Em que circunstâncias esse fator emergiu? Desde quando? Isso
consiste em delimitar o ponto de desestabilização da estrutura.

Karine diz: “vim porque sei que preciso muito fazer análise”, “sempre precisei”. O que esse dado clínico nos
indica? Podemos levantar uma hipótese de que, para esse sujeito, a estabilização da sua estrutura não se
mantinha numa homeostase de gozo bem fixada. Mas em que ponto?

Encontramos, num dado clínico, o motivo que levou esse sujeito ao analista anterior e a partir do qual
verificamos que sua questão dirigida à análise foi sobre o amor. Ainda que, nesse novo pedido de análise,
Karine não se ocupasse inicialmente em falar sobre essa questão, o modo como foi traçada a direção da
cura lhe permitiu retomá-la seriamente mais adiante. O que nos permitirá verificar que o ponto de
desestabilização da sua estrutura situava-se no campo do amor.

Como Karine enunciou essa sua questão na análise anterior? Questionando se verdadeiramente gostava do
namorado. Mas não chegou a uma resposta sobre isso, ou melhor, abandonou esse modo de enunciar sua
questão quando interrompeu aquela análise. Fez um acting out: decidiu noivar e, a partir daí, a questão
sobre o amor se inverteu, passou a enunciar que não tinha certeza se o namorado verdadeiramente a
amava. Com esses dados já podemos ler algum índice acerca do modo de suplência que esse sujeito
mantém para tamponar a fenda que se abre em sua estrutura. Diante da pergunta acerca do amor que quer
obter do Outro, esse sujeito faz uma suplência ocupando-se com o amor que falta ao Outro.

Na verificação da demanda dirigida à analista, que elementos norteadores fundamentais já puderam ser
delimitados para a direção da cura desse sujeito?

Alguns indicadores do seu modo sintomático de parceria com o Outro.

Se já houve na estrutura desse sujeito uma estabilização bem fixada ou não.

O ponto de desestabilização onde a fenda na estrutura se abre para uma intervenção analítica.

Indicadores do modo de suplência que tenta tamponar o ponto de desestabilização da estrutura.

O que requer ainda verificar: como opera a suplência na estrutura?

Segundo norteador: o modo de suplência

O modo de suplência presente no nó de amarração da estrutura opera por meio da estratégia do eu, do eu
como absoluto, não aceitando a falta nem o intervalo no qual pudesse emergir o enigma do desejo do
Outro. Em lugar de se interrogar acerca da falta relativa à dimensão do amor no campo do Outro, Karine
desdobra seu eu numa estratégia que consiste em completar permanentemente os outros, sempre se
fazendo metade do outro, a metade imprescindível. Ela diz: “Não sei dizer não” nem aos pais, nem aos
amigos, nem aos colegas. Demonstra permanentemente a sua abnegação, seu zelo, seus dons, todas as
virtudes do eu. Oferece presentes, socorre os amigos emprestando-lhes dinheiro, é amigável, divertida,
agradável. Ela sempre satisfaz os outros.

O que quer demonstrar com essa estratégia? Por um lado, que ela tem. E por outro, que ela pode preencher
todas as faltas. Com relação a seus pais, ela está sempre ocupada se dedicando a eles, principalmente,
ajudando sua mãe a tomar conta do pai doente, o que a obriga a viver sempre atarefada, trabalhando em
vários lugares ao mesmo tempo. Pode-se dizer que é um sujeito que está permanentemente numa dinâmica
de trabalhos forçados. E é isso que sustenta seu eu.

Com esse modo de fazer sintomático, Karine tenta recobrir com o imaginário, com o eu, todo o real.
Pode-se dizer que, nesse caso, a consistência imaginária do eu é o seu modo privilegiado de fazer aparecer
o seu ser no campo do Outro. Quer dizer, não encontramos aqui nessa suplência um enlaçamento simbólico
consistente que lhe forneça um S1 privilegiado, identificatório, para se fazer amável ao Outro, mas
fundamentalmente o Eu ideal, narcísico.

Examinar o estatuto da suplência na estrutura consiste em interrogar a consistência das identificações


centrais nos três registros: Com que recursos simbólicos, imaginários e fantasmáticos o sujeito conta para
sustentar o seu ser no campo do Outro, como o sujeito se faz ser para o Outro?

A prevalência do eu na parceria-sintomática de Karine nos permite verificar que esse sujeito não dispõe na
estrutura de sua neurose de um lastro firme do pai. Desse modo, não dispõe de ferramentas para fixar
solidamente no registro simbólico uma identificação ao Ideal do Outro – I(A), como resposta ao enigma do
desejo do Outro. Isso equivale a dizer que as operações lógicas de efetuação da estrutura denominadas por
Lacan, no Seminário 11 (1964), como alienação e separação, ainda não encontraram recursos libidinais
suficientes para se fixar firmemente no nó que amarra a estrutura. Para esse sujeito, lhe restou um lastro
de gozo mais bem fixado na posição de objeto da demanda da mãe, que lhe fornece uma consistência de
ser de gozo enquanto dejeto do Outro, recoberta pela estratégia do eu imaginário. Isso não permite
assegurar que esse sujeito tenha constituído na amarração da estrutura um recurso fantasmático para a
parceria sexual com o Outro, já que se mantém distante da dimensão do desejo do Outro. Desse modo,
essa estrutura subjetiva pode ser situada no campo do que hoje tem sido denominado como “neuroses
contemporâneas”.

A partir dessas formulações, é importante indicar que o Outro privilegiado da parceria sexual desse sujeito
institui-se, de modo mais consistentemente, como Outro da demanda e não como Outro do desejo. Trata-se
do Outro da demanda imperativa, intransitiva, inegociável, como Lacan conceitualiza no texto “Subversão
do sujeito e dialética do desejo” (L;<;=, 1960). Abre-se aqui uma questão, a qual levei muito tempo na
minha formação psicanalítica para começar a conceber de modo operativo na clínica: o sujeito situa no
analista, em ato na transferência, o objeto que ele é para o Outro. Pois bem, esse caso clínico nos permite
ilustrar essa vertente real da transferência. Para tanto, convém retomar a questão: na demanda inicial ao
analista, o sujeito situa o Outro em que posição? Exatamente como objeto da sua demanda massiva,
intransitiva, sem nenhuma negociação, exigindo que o Outro aceitasse seu controle absoluto.

Terceiro norteador: a estratégia do analista na transferência

A transferência não se interpreta, como diz Lacan em “A direção do tratamento...” (1958), já que ela se
apresenta em ato, portanto fora do recurso da palavra, fora do estatuto simbólico. Será, portanto, em ato
que o analista também poderá traçar a sua estratégia de modo que esta venha a operar seus efeitos.

Logo na primeira entrevista, acolhi imediatamente a demanda de Karine oferecendo todas as garantias de
que tudo faria para ter a delicadeza necessária para lhe deixar tranqüila. Isso significa que, imediatamente,
pude ler alguns dados essenciais da singularidade sintomática dessa mulher e, diante dessa singularidade,
pela via do semblante, me fiz dócil à sua demanda. Por quê? Para poder ocupar na sua subjetividade a
função de parceiro-sintoma. Só desse modo é possível existir uma análise. Essa estratégia permitiu a
fixação da transferência, de modo que o analista, ao se deixar aí ser incluído na economia libidinal do
sujeito, venha operar pouco a pouco, desde essa inclusão, uma barradura mais efetiva no campo do Outro.
Operação de incisão no Outro que não poderia ter lugar na estrutura sem essa estratégia na transferência.

Quarto norteador: a tática utilizada pelo analista

Iniciou-se um primeiro período de análise no qual logo constatei que o insuportável consistia em deixar
aberta qualquer questão que tocasse, de algum modo, na posição subjetiva central que Karine mantinha
com o Outro em sua vida; questões levantadas por ela mesma ao longo da sua fala. Buscava logo uma
resposta que lhe fornecesse uma significação fechada, formulando ela mesma uma resposta, ou pedindo
que lhe ajudasse a encontrá-la. A busca de uma significação fechada, diferentemente do efeito de sentido
evanescente próprio à tática da interpretação como enigma, indicava o quanto esse sujeito necessitava
desse recurso eminentemente imaginário na sua estrutura. Recurso que tem valor de suplência, o que não
poderia ser desmontado de modo abrupto.

Sempre que não se sentia segura da resposta obtida durante a sessão, utilizava o recurso da atuação.
Digamos que esse período de análise consistiu no uso de uma tática que, na construção desse caso clínico,
denominei de “atuação dirigida”. A direção da cura serviu-se do cálculo relativo a quais questões Karine
poderia suportar fazer uma pequena pausa, sem uma resposta conclusiva imediata. Essa tática permitiu
instituir um pequeno espaço de tempo entre a pergunta e a verificação da resposta por meio da atuação.
Esse pequeno espaço produzia o efeito de inserir uma nova pausa entre a atuação e o dito sobre a atuação,
o qual só poderia advir na próxima sessão, ocasião em que Karine tentava se assegurar de uma resposta
formulada a partir do que buscou verificar em ato. Essa “atuação dirigida” foi a primeira tática da analista
para começar a introduzir, de forma muito sutil, uma pequena fenda no discurso desse sujeito, dentro dos
limites da sua suportabilidade, para não provocar uma desestabilização maior na estrutura.

O que é que causava o insuportável para Karine quando não obtinha uma resposta rápida? Podemos supor
que a exigência de uma resposta rápida era seu modo de defesa diante da angústia, já que não contava
com recursos simbólicos suficientes para fornecer um tecido que contornasse a fenda da qual emergia a
angústia. Ela não suportava que uma questão fosse mantida em aberto. Portanto, não era sem razão que a
resposta rápida, a significação definitiva fosse o objeto que ela esperava do Outro, que ela demandava ao
Outro na transferência.

Diante dessas condições estruturais da parceria sintomática com o Outro, qual foi a manobra da analista,
articulada à tática da “atuação dirigida”? Precisamente, não responder exatamente o que a paciente exigia
e, ao mesmo tempo, não contrariar essa exigência. No texto “A dinâmica da transferência” (1912), Freud se
orientava do mesmo modo em relação à demanda de amor do paciente dirigida ao analista. Ele propõe um
jogo de cintura delicado que consiste em não atender a demanda, mas, ao mesmo tempo, não desiludir
inteiramente o paciente.

Assim, a tática da “atuação dirigida” articulada à estratégia na transferência de atender a demanda sem
corresponder a ela inteiramente consistiu no cálculo da pausa, no cálculo do intervalo suportável na
estrutura. Pode-se dizer que existiu um cálculo da pontuação na medida em que a pausa introduzida aos
poucos entre o que Karine solicitava e a resposta dada teve o mesmo valor de uma pontuação muito
especial, o valor introduzido pelas vírgulas num texto escrito. Assim, um tecido simbólico passou a ser
constituído, pouco a pouco, de modo mais consistente em torno da fenda na qual emergia a angústia na
estrutura. Privilegiar especialmente a tática da pontuação no campo da palavra se fez necessário aqui, já
que a interpretação como enigma, enquanto um x que não remete a uma significação fechada, ainda não
teria lugar na condução da cura, diante da precariedade simbólica dessa neurose.

Quinto norteador: O imperativo do supereu

Rastrear as trilhas silenciosas do imperativo do supereu consiste num trabalho fundamental não apenas
para a direção do tratamento, como também para a construção de um caso clínico, pois só desse modo os
efeitos terapêuticos operados poderão ser concebidos como efeitos analíticos, enquanto efeitos de redução
do gozo mortificante.

No caso Karine, aparece um objeto privilegiado: o dinheiro. Ela trabalha muito, ganha um salário razoável,
mas nunca tem dinheiro. E então, o que acontece com o dinheiro? O dinheiro entra como objeto
fundamental na relação sintomática com o Outro, desequilibrando a suplência imaginária do eu. Se, através
da estratégia do eu - sendo amigável, solícita, prestativa -, ela alcançar uma suposição muito forte de que
tem aquilo que pode recobrir a falta do Outro, emerge aqui, com o objeto dinheiro, um fracasso dessa
estratégia de preencher a falta, já que, no final das contas, a falta se abre diante dela. Não tem dinheiro.

Nessas condições, pede dinheiro à sua mãe. Isso quer dizer que a mãe tem o que falta a ela. Porém, dessa
forma, ela entra no infernal circuito superegóico da dívida. O que a dívida implica? Implica que, no bolso da
mãe, falta o dinheiro que ela deve, isto é, por meio da dívida ela introduz a falta na mãe. Vejam que esse é
um modo sintomático de introduzir uma falta no campo do Outro. Isso também ocorre nas anorexias ditas
contemporâneas, já que o Outro da parceria sintomática desses sujeitos não se situa no campo do dom do
amor, de dar o que não se tem, portanto, trata-se de um Outro mais bem situado no campo do
escamoteamento da dimensão do amor.

Mas, diferentemente do que é produzido por essa estratégia nas anorexias, a introdução forçada de uma
falta no Outro não teve como efeito a emergência da angústia no Outro. Com essa estratégia, a paciente
obteve essencialmente as recriminações e críticas da mãe, as quais incidiam na sua estrutura como injúrias
superegóicas, que Karine alimentava se mantendo em dívida. Em outras palavras, a dívida teve por função
sustentar a ferocidade sem limite do supereu, no ponto onde fracassava a suplência em tentar recobrir o
real. Pode-se dizer que essa paciente não devorava, era devorada, devorada pelo Outro em seu imperativo
mortífero de gozo. O que nos faz considerar que sobre essa base superegóica, de sujeição extrema aos
imperativos de gozo, advém a sua compulsão de comer, a sua insuportabilidade de esperar qualquer coisa
que tenha a fazer, saber, ou dizer.

Como foi introduzida, na direção da cura, uma leitura para esse seu gozo superegóico? Foi estabelecida uma
nova estratégia na transferência, a qual consistiu em aceitar a dívida, aceitar que a falta se inscrevesse do
lado da analista, aceitando que Karine, conforme seus próprios ditos, num esforço de não mais pedir
empréstimos à sua mãe passasse a dever o pagamento das sessões à analista.

O resultado dessa estratégia no campo dos afetos foi uma aflição de não poder satisfazer a analista, mas a
conseqüência maior foi o efeito de surpresa produzido no sujeito, pois não recebeu recriminações nem
exigências como resposta. Reconhecendo a dívida, tolerando-a sem anulá-la, a analista aceitou que o
sujeito descompletasse o Outro, isto é, aceitou ser para o sujeito um Outro incompleto, um Outro barrado.

Esse caso clínico nos ensina uma questão essencial acerca da incidência do imperativo superegóico no
campo transferencial. A demanda imperativa inicial que esse sujeito impôs à analista situava Karine na
posição de objeto do próprio imperativo, exigindo controlar o modo como deveria ser tratada pela analista.
Ao fazer semblante de dócil, a analista se deixava incluir na economia subjetiva da paciente como parceiro-
sintoma. Em relação ao ponto insuportável para a paciente de não obter respostas às suas questões, a
analista atendeu a essa demanda sem corresponder a ela inteiramente, visando a introduzir as pontuações
próprias a um tecido simbólico que começou a ser construído em torno da fenda na estrutura. Entretanto,
quanto à demanda de que a analista encarnasse o imperativo de gozo do supereu, diante do qual o sujeito
restaria como objeto desse imperativo, só houve uma resposta por parte da analista: não. Especifica-se,
assim, nesse caso clínico, a natureza da demanda em relação à qual o analista não tem nada a conceder: a
demanda de avalizar o imperativo de gozo superegóico. Seja no campo da transferência ou no campo dos
ditos do sujeito, a única resposta que cabe ao analista diante desse modo de gozo é ‘não’.

Essa estratégia na transferência constituiu-se como fundamental na cura, pois só assim o sujeito pôde
começar a aceitar uma surpresa enigmática que pudesse advir do Outro, resultando, depois de três anos de
trabalho, numa mudança radical da posição desse sujeito diante da demanda do Outro.

Sexto norteador: o modo de defesa privilegiado

Uma frase se destacou desde o início, servindo como uma peça fundamental na direção da cura: “sou
gorda, feia, nenhum homem vai me querer”. Frase sempre repetida em bloco, imutável, à qual Karine
estava identificada, como uma significação fechada acerca do seu ser de mulher. Frase que sempre advinha
quando pensava em terminar a relação com o seu noivo, pois passou a constatar que não sentia por ele
nenhuma paixão, nem admiração, nem desejo sexual.

Trata-se de uma frase que constitui um modo de defesa ao estilo obsessivo, pois mantém na estrutura do
seu argumento uma relação lógica entre dois elementos de ligação para sustentar os enunciados: “se...
então...” – “se sou gorda e feia, então nenhum homem vai me querer”. Essa lógica aristotélica reina no
cogito do eu, engendrando o estatuto de verdade nos enunciados e introduzindo desse modo a debilidade
mental no campo da neurose.

A importância de localizar esse modo de defesa - “Sou gorda, feia, nenhum homem vai me querer” –
consiste em verificar que essa defesa sustenta uma função de nó nos três registros:

1) No imaginário: sustenta a consistência ideacional do seu corpo - “gorda” e “feia”.

2) No simbólico: os S1 “gorda” e “feia” fornece um nome para se fazer representada, mas não para um
outro significante (S2), já que eles não têm o estatuto de identificações simbólicas relativas ao I(A).
A forte consistência imaginária articulada a esses significantes fornecem uma significação absoluta
para seu ser de mulher, tamponando qualquer questão sobre o feminino.

3) No real: “gorda” e “feia” recobrem o real com a ideação da imagem do corpo, funcionando aqui como
nome de gozo, enquanto dejeto do Outro.

Uma forte insistência da analista foi necessária para introduzir uma escuta que permitisse romper a
consistência de nó da defesa fundamental. Sempre que Karine repetia em seus ditos “sou gorda, feia,
nenhum homem vai me querer”, a analista perguntava de modo insistente: “quem lhe disse isso?”.
Introduzia, desse modo, uma questão acerca da frase axiomática sem jamais enunciar o nome de gozo,
para que este não viesse a ser localizado como um dito do Outro na transferência, de modo a não reafirmar
esta fixação de gozo. Introduzir essa pergunta implicava também enunciar, desde o lugar do Outro na
transferência, que não acreditava que era ela quem o dizia, retirando da frase o verbo “sou”, deslocando
para um outro o lugar da enunciação. Diante da insistência da analista, as respostas de Karine passaram
por várias modulações:

“Eu sei que sou assim”

“Todo mundo diz”

“Meu irmão e minha mãe diziam”

“Minha mãe disse”

Depois que o lugar da enunciação dessa voz imperativa pôde ser bem localizado na mãe, a analista
introduziu esse sujeito na dimensão da crença no estatuto de verdade dos ditos da mãe: “Sempre acredito
que tudo que minha mãe diz é verdade”. Desse modo, abriu para o sujeito a oportunidade de passar a
questionar as razões dessa crença.
Dizer que o analista adotou aqui uma posição ativa, sustentada num desejo férreo, consiste em um modo
de formulação epistêmica, conforme enunciado por Eric Laurent em A conversação de Arcachon (MLVVPN et
;VVL, 1977), a propósito da direção da cura na psicose. Naquela ocasião, Laurent propôs que o analista deve
sustentar uma posição ativa para localizar os sinais mínimos de amarração da estrutura, sustentando um
desejo férreo de se fazer destinatário desses sinais. Retomo aqui esses termos propostos por Eric Laurent
para dizer que, nesse caso de neurose, a analista adotou firmemente essa posição de desejo para intervir
decididamente na quebra da defesa que sustentava a amarração da estrutura. Entretanto, adotou também
de modo decidido a direção de introduzir simultaneamente um novo elemento na amarração da estrutura,
um gozo mais vivificante, localizando ou fazendo aparecer na fala de Karine os signos do amor ao pai. Esse
trabalho de reenodamento é fundamental para a amarração da estrutura, pois não convém que uma defesa
seja desmontada sem que o sujeito já tenha instalado os lastros firmes sustentação num outro lugar mais
apaziguador.

Sétimo norteador: A função materna e paterna no caso clínico


Em um caso clínico, os pais não interessam enquanto pessoas acerca das quais venha a ser traçado um
perfil conforme o que, nas teorias da psicologia, é denominado de personalidade. Para a psicanálise, os pais
interessam enquanto funções operativas na estrutura do sujeito:
- funções imaginárias: o Outro onipotente absoluto, tanto na vertente do ideal quanto na de numa
encarnação terrorífica.
- funções simbólicas: o DM (desejo da mãe) e o NP (Nome-do-Pai), operadores da significação fálica.
- funções de gozo: o pai, que se posiciona como macho, sexuado, que toma uma mulher como objeto a
causa do seu desejo, que transmite um traço sintomático do seu gozo sexual. A mãe enquanto uma
verdadeira mulher, Medéia que, enlouquecida pelo seu gozo feminino, toma seus filhos como objetos de
sacrifício a esse gozo.
Quando, num relato de caso clínico, os pais são referidos em bloco – “meus pais”, ou “os pais” – passamos
muito longe das funções operativas que interessam à psicanálise em cada caso. Quando o pai e a mãe
permanecem referidos por meio de semblantes imutáveis ao longo do caso, verifica-se que não houve
qualquer efeito analítico para aquele sujeito. Um tratamento requer que o ato analítico tenha operado as
mudanças de estatuto da mãe e do pai. Tais mudanças vão sendo operadas em par, pois a modificação do
estatuto de um resulta diretamente na mudança do estatuto do outro na estrutura de um sujeito.
No caso clínico de Karine, na medida em que a onipotência da mãe, enquanto Outro da demanda, foi sendo
gradativamente reduzida, o estatuto do pai foi sendo modificado numa seqüência que se inicia por uma
forte consistência imaginária, para dar lugar gradativamente ao seu estatuto simbólico:
- Pai que nunca a apoiava diante da sua mãe porque ele assim não o queria. Pai suposto como pai ideal,
que poderia abrigá-la de todo o mal, se assim o quisesse.
- Pai covarde, decaído do ideal, que não tinha coragem de enfrentar a mãe para não contrariá-la. Pai
situado como homem sexuado no seu modo de fazer parceria sexual com sua mulher. Pai do qual o
sujeito pode extrair um uso, operando uma identificação ao seu traço sintomático.
- Pai do amor, que apesar das suas falhas, a ama. Pai castrado porque ama dando o que não tem. Pai da
armadura histérica, pois introduz o sujeito Karine num novo modo de discurso, passando a supor o
estatuto de verdade no saber inconsciente e não mais nos ditos da mãe.
A partir dessas mudanças operadas no estatuto do pai e da mãe, Karine pôde assentar-se na posição de
sujeito dividido e, desse modo, pôde abrir uma questão acerca do enigma da feminilidade.

Oitavo norteador: foco central do caso clínico


Um caso clínico pode ser diferenciado de um historial clínico, de um relato de caso e de um fragmento de
caso na medida em que é formalizado para dar tratamento epistêmico a uma questão conceitual. Nela, a
seleção dos dados clínicos toma como ponto de mira a demonstração de uma hipótese, a abertura de uma
questão etc.
Nesse sentido, tanto os norteadores aqui propostos como outros mais que possam ser formulados só
interessam para cada caso clínico como ordenadores dos dados clínicos conforme o foco central epistêmico
que foi escolhido para formalizar o caso.

Nota

1. Trata-se de uma referência ao modo como Jacques-Alain Miller se refere à clínica em Lacan como
decorrência dos três tempos do seu ensino (MLVVPN, 2002).

R 9 B ; < =
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MILLER, J.-A. et ALLI. (1997). La conversation de Arcachon. In: Los inclasificables de la clínica
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Texto recebido em: 20/08/2007


Aprovado em: 10/10/2007

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