Os
Escolhidos
Elle n G. W h ite
Tradução
Karina Carnassale Deana
Davidson Figueiredo Deana
Casa Publicadora Brasileira
Tatuí, SP
Título original em inglês:
Beginning of the end
Copyright © da edição em inglês: Pacific Press Publishing
Association, Nampa, EUA. Direitos internacionais reservados.
Direitos de tradução e publicação em
Língua portuguesa reservados à
Casa Publicadora Brasileira
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1ª edição: ? mil exemplares
2015
Coordenação Editorial: Vanderlei Dorneles
Editoração: Neila D. Oliveira
Revisão: Adriana Seratto e Luciana Gruber
Projeto Gráfico: Levi Gruber
Capa: Marisa Ferreira e Levi Gruber
Imagem da Capa: Vandir Dorta Jr.
Imagem interna (escudo): © Andrey Kuzmin / Fotolia
IMPRESSO NO BRASIL / Printed in Brazil
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
White, Ellen G., 1827-1915.
Os escolhidos / Ellen G. White ; tradução
Karina Carnassale Deana, Davidson F. Deana. –
1. ed. – Tatuí, SP : Casa Publicadora
Brasileira, 2015.
Título original: Beginning of the end.
ISBN 978-85-345-2169-7
1. Adventistas do Sétimo Dia – Doutrinas
2. Igreja - História 3. Patriarcas (Bíblia)
4. Profetas I. Título.
15-00345 cdd-286.732
Índices para catálogo sistemático:
1. Igreja Adventista do Sétimo Dia : Doutrinas :
Cristianismo : Religião 286.732
Os textos bíblicos citados neste livro foram extraídos
da Nova Versão Internacional, salvo outra indicação.
Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial,
por qualquer meio, sem prévia autorização escrita do autor e da Editora.
Tipologia: Chaparral Pro Light Display, 12,5/14,8 – 14935/31431
Índice
Prefácio ................................................................................................................................................................................................................ 9
1. Por que Foi Permitido o Pecado? ......................................................................................................................... 11
2. A Criação ...................................................................................................................................................................................................... 18
3. A Difícil Situação do Ser Humano ............................................................................................................... 23
4. O Plano Revelado ......................................................................................................................................................................... 32
5. O Primeiro Assassino........................................................................................................................................................... 38
6. Homens Fiéis a Deus ............................................................................................................................................................. 43
7. Destruído pela Água ............................................................................................................................................................. 50
8. Um Novo Começo ..................................................................................................................................................................... 59
9. O Início da Semana Literal ........................................................................................................................................ 63
10. Línguas Confundidas ...................................................................................................................................................... 67
11. O Pai de Todos os Fiéis .................................................................................................................................................... 72
12. Um Bom Vizinho em Canaã ................................................................................................................................. 77
13. A Prova da Fé .................................................................................................................................................................................. 86
14. O Pecado de Sodoma e Gomorra .................................................................................................................. 94
15. O Casamento Mais Feliz na Bíblia ........................................................................................................ 103
16. Jacó e Esaú ....................................................................................................................................................................................... 109
17. A Fuga e o Exílio de Jacó ............................................................................................................................................ 114
18. A Terrível Noite de Luta............................................................................................................................................. 122
19. A Volta Para Casa ................................................................................................................................................................ 128
20. A Surpreendente História de José ....................................................................................................... 135
21. José e Seus Irmãos .............................................................................................................................................................. 143
22. O Líder do Povo de Deus ....................................................................................................................................... 158
23. As Dez Pragas do Egito ............................................................................................................................................ 168
24. A Primeira Páscoa .............................................................................................................................................................. 180
25. Os Israelitas Deixam o Egito .......................................................................................................................... 184
26. Israel Enfrenta Dificuldades .......................................................................................................................... 190
27. A Lei no Monte Sinai .................................................................................................................................................... 199
28. O Bezerro de Ouro ......................................................................................................................................................... 208
29. O Ódio de Satanás Pela Lei de Deus ................................................................................................. 219
30. A Habitação de Deus em Israel .................................................................................................................. 227
31. O Pecado de Nadabe e Abiú .............................................................................................................................. 238
32. A Graça de Cristo e a Nova Aliança .................................................................................................... 241
33. Terríveis Reclamações ................................................................................................................................................ 248
34. Doze Espiões em Canaã ......................................................................................................................................... 256
35. Corá Lidera uma Rebelião .................................................................................................................................. 262
36. Quarenta Anos no Deserto ............................................................................................................................ 269
37. O Fracasso de Moisés.................................................................................................................................................... 272
38. Por que a Demora? .......................................................................................................................................................... 278
39. A Conquista de Basã .................................................................................................................................................... 287
40. Balaão Tenta Amaldiçoar Israel ............................................................................................................... 291
41. Balaão Leva Israel a Pecar ..................................................................................................................................... 301
42. A Lei de Deus a uma Nova Geração .................................................................................................. 308
43. A Morte de Moisés ............................................................................................................................................................. 313
44. Atravessando o Jordão ............................................................................................................................................. 320
45. A Queda Miraculosa de Jericó .................................................................................................................... 324
46. As Bênçãos e as Maldições ................................................................................................................................. 332
47. Enganados ........................................................................................................................................................................................ 335
48. Enfim, no Lar ............................................................................................................................................................................ 339
49. Últimas Palavras de Josué ................................................................................................................................. 348
50. A Bênção dos Dízimos e Ofertas ............................................................................................................ 352
51. O Cuidado de Deus Pelos Pobres .............................................................................................................. 355
52. As Festas Anuais.................................................................................................................................................................. 360
53. Os Libertadores de Israel ...................................................................................................................................... 364
54. O Mais Forte e Mais Fraco dos Homens ................................................................................. 375
55. O Chamado de Samuel ............................................................................................................................................ 383
56. Eli e Seus Filhos Rebeldes .................................................................................................................................. 387
57. Castigo à Vista ......................................................................................................................................................................... 392
58. As Escolas dos Profetas ............................................................................................................................................ 401
59. O Primeiro Rei ........................................................................................................................................................................ 407
60. O Terrível Erro de Saul ............................................................................................................................................. 416
61. Saul é Rejeitado......................................................................................................................................................................... 423
62. Davi é Ungido Rei .............................................................................................................................................................. 430
63. Davi Enfrenta Golias .................................................................................................................................................... 433
64. A Fuga de Davi ......................................................................................................................................................................... 438
65. A Grandeza do Coração de Davi .............................................................................................................. 446
66. Saul Tira a Própria Vida ......................................................................................................................................... 455
67. Espiritismo Antigo e Moderno ................................................................................................................ 460
68. A Dura Prova de Davi ................................................................................................................................................ 464
69. Davi é Coroado Rei ........................................................................................................................................................ 469
70. O Reinado de Davi ........................................................................................................................................................... 473
71. O Pecado e o Arrependimento de Davi.......................................................................................... 482
72. A Rebelião de Absalão................................................................................................................................................. 489
73. Homem Segundo o Coração de Deus ............................................................................................ 502
Apêndice ............................................................................................................................................................................................ 508
Prefácio
E ste volume é uma
adaptação do livro
From Eternity Past [Desde os Tem-
Exceto quando estiverem indica-
dos, os textos bíblicos foram extraí-
dos da Nova Versão Internacional.
pos Eternos], a edição conden- Muitas pessoas a preferem porque
sada do clássico de Ellen G. White, acham que conseguem compreendê-
Patriarcas e Profetas. O volume con- la com mais facilidade.
densado incluiu todos os relatos e Os Escolhidos é um livro rico em
principais aplicações contidas no informações sobre o relato bíblico
livro original. Além disso, exceto das origens – a origem do pecado,
pelo acréscimo de uma ou outra deste mundo, do plano da salvação
palavra, para uma transição mais e do povo de Deus. Torna as precio-
suave, foram mantidas exatamente sidades encontradas em Patriarcas
as mesmas palavras da Sra. White. e Profetas acessíveis a mais pessoas.
Em Os Escolhidos, foi dado um passo Dessa forma, ajuda a tornar tam-
além nesse sentido. Nele foram fei- bém mais conhecido o início da his-
tas substituições de palavras, ex- tória do “grande conflito” que a Sra.
pressões e construções de frases White relatou de forma tão convin-
para adaptá-las aos leitores do cente nos cinco volumes da série
século 21. O livro, porém, não é uma O Grande Conflito. Que muito mais
paráfrase. Segue o texto da edição leitores possam experimentar o
condensada frase por frase e man- poder transformador desses livros
tém a força da composição literá- em sua vida e da apresentação que
ria da Sra. White. Espera-se que os fazem dos temas bíblicos. Esse é o
novos leitores desenvolvam, assim, nosso desejo e oração.
um novo gosto pelos escritos da Sra.
White e que sejam levados a ler e Depositários do Patrimônio
apreciar os livros originais, embora Literário de Ellen G. White
estejam escritos no estilo de uma
época anterior.
1
Por que Foi
Permitido o Pecado?
“D eus é amor.” Sua natu-
reza, Sua lei são amor.
Sempre foi assim e assim sempre
Poderoso, Pai Eterno, Príncipe da
Paz” (Is 9:6). “Suas origens estão no
passado distante, em tempos anti-
vai ser. Toda manifestação do poder gos” (Mq 5:2).
criador é uma expressão de amor in- O Pai atuou por meio de Seu
finito. A história do grande conflito Filho na criação de todos os seres
entre o bem e o mal, desde o mo- celestiais. “Pois nEle foram criadas
mento em que se iniciou primei- todas as coisas […], sejam tronos ou
ramente no Céu, revela também o soberanias, poderes ou autoridades”
imutável amor de Deus. (Cl 1:16). Os anjos são ministros de
O Soberano do Universo não es- Deus, que estão prontos a executar
tava sozinho em Sua obra de fazer Sua vontade. No entanto, o Filho,
o bem. Ele tinha um companheiro “o resplendor da glória de Deus e a
para apreciar Seu propósito e par- expressão exata do Seu ser”, “sus-
ticipar de Sua alegria em propor- tentando todas as coisas por Sua
cionar felicidade aos seres criados palavra poderosa” tem a suprema-
(ver Jo 1:1, 2). cia sobre todos eles (Hb 1:3; ver v. 8).
Cristo, o Verbo, era um com o Pai Deus deseja de todas as Suas
eterno, um em natureza, em caráter, criaturas um serviço de amor – ser-
em propósito. “E Ele será chamado viço motivado pela apreciação do
Maravilhoso Conselheiro, Deus Seu caráter. Ele não tem prazer na
12 Os Escolhidos
obediência forçada. Concede a todos corrompeu a sua sabedoria por causa
a liberdade para Lhe prestar ser- do seu esplendor” (Ez 28:17). “Você,
viço voluntário. Enquanto todos os que dizia no seu coração: […] ‘ergue-
seres criados foram leais por amor, rei o meu trono acima das estrelas
houve perfeita harmonia por todo de Deus; […] serei como o Altíssimo’”
o Universo de Deus. Nenhuma nota (Is 14:13, 14). Embora fosse mais
dissonante havia para desfigurar a honrado do que a hoste celestial,
harmonia celestial. ele ousou cobiçar a adoração devida
Entretanto, ocorreu uma mu- unicamente ao Criador. O príncipe
dança nesse estado de felicidade. dos anjos desejou o poder que per-
Houve alguém que usou de forma tencia, por direito, a Cristo somente.
errada a liberdade que Deus con- A perfeita harmonia do Céu
cedeu às Suas criaturas. O pecado foi então quebrada. No conselho
teve sua origem com aquele que, celestial, os anjos insistiam com
abaixo de Cristo, era o mais hon- Lúcifer. O Filho de Deus apresen-
rado por Deus e o mais elevado tou perante ele não só a grandeza,
entre os habitantes do Céu. Lúcifer, a bondade e a justiça do Criador,
“filho da alvorada” (Is 14:12), era mas a natureza imutável de Sua lei.
santo e incontaminado. “Assim diz Desviando-se dela, Lúcifer deson-
o Soberano, o Senhor: ‘Você era o raria o seu Criador e traria ruína
modelo da perfeição, cheio de sabe- sobre si mesmo. Contudo, a adver-
doria e de perfeita beleza. […] Você tência, feita com misericórdia e
foi ungido como um querubim amor infinitos, apenas despertou
guardião, pois para isso Eu o desig- maior resistência. Lúcifer permitiu
nei. Você estava no monte santo de que prevalecessem os sentimentos
Deus e caminhava entre as pedras de inveja que nutria por Cristo e
fulgurantes. Você era inculpável em ficou ainda mais obstinado.
seus caminhos desde o dia em que O Rei do Universo convocou os
foi criado até que se achou maldade exércitos celestiais para uma reu-
em você’” (Ez 28:12, 14, 15). nião e apresentou a verdadeira
Pouco a pouco, Lúcifer cedeu posição de Seu Filho, mostrando
ao desejo de exaltação pessoal. a relação que Ele mantinha com
“Seu coração tornou-se orgulhoso todos os seres criados. O Filho de
só por causa da sua beleza, e você Deus partilhava do trono do Pai,
Por que Foi Permitido o Pecado? 13
e a glória do Ser eterno, existente mais ele cedeu ao sentimento de
por Si mesmo, rodeava a ambos. inveja por Cristo. As altas honras
Ao redor do trono, todos os santos conferidas a Lúcifer não provoca-
anjos estavam reunidos, “milhares vam nenhuma gratidão para com o
de milhares e milhões de milhões” seu Criador. Ele se gloriava em seu
(Ap 5:11). Perante os habitantes do brilho e aspirava ser igual a Deus.
Céu, o Rei declarou que ninguém, Os anjos se alegravam em executar
a não ser Cristo, poderia penetrar suas ordens, e estava ele revestido
inteiramente em Seus propósitos de glória mais do que todos eles.
e executar os poderosos conselhos Apesar disso, o Filho de Deus era
de Sua vontade. Logo Cristo deveria mais exaltado do que ele. “Por que”,
exercer o Seu poder divino na cria- perguntava esse poderoso anjo, “de-
ção da Terra e de seus habitantes. veria Cristo ter a supremacia?”
Lúcifer saiu então para espalhar
A Batalha no Coração o espírito de descontentamento
de Lúcifer entre os anjos. Durante algum
Os anjos reconheceram alegre- tempo, escondeu seu verdadeiro
mente a supremacia de Cristo e ex- propósito, fingindo ser reverente
travasaram seu amor e adoração. para com Deus. Disfarçadamente
Apesar de Lúcifer ter se curvado ele começou a plantar dúvidas com
com eles, existia em seu coração um respeito às leis que governavam os
conflito estranho e violento. A ver- seres celestiais, sugerindo que os
dade e a lealdade estavam lutando anjos não necessitavam dessas leis,
contra a inveja e o ciúme. Por algum pois sua sabedoria era um guia su-
tempo, ele se deixou levar pela in- ficiente. Todos os seus pensamen-
fluência dos santos anjos. Quando tos eram santos; não havia para eles
os cânticos de louvor se elevavam, o maior possibilidade de errar do que
espírito do mal parecia dominado; para o próprio Deus. A exaltação
indescritível amor fazia vibrar todo do Filho de Deus da mesma forma
o seu ser; em harmonia com os ado- como era feita com o Pai foi repre-
radores sem pecado, sua alma se ex- sentada como sendo uma injustiça
pandia em amor para com o Pai e para com Lúcifer. Se esse príncipe
o Filho. Mesmo assim, seu desejo dos anjos pudesse tão somente al-
de supremacia retornou e uma vez cançar a sua verdadeira e elevada
14 Os Escolhidos
posição, grande bem resultaria para descontentes, infelizes e insatis-
todo o exército do Céu, pois era o feitos com o propósito de Deus
seu propósito conseguir liberdade em exaltar a Cristo. Entretanto, os
para todos. Enganos sutis foram ra- anjos que eram leais defenderam a
pidamente ganhando terreno nas sabedoria e a justiça do decreto di-
cortes celestiais por meio dos pla- vino. Cristo era o Filho de Deus, um
nos perversos de Lúcifer. com Ele antes que os anjos fossem
A verdadeira posição do Filho de chamados à existência. Ele sempre
Deus tinha sido a mesma, desde o estivera à direita do Pai. Por que pre-
princípio. No entanto, muitos dos cisava haver discórdia agora?
anjos ficaram cegos devido aos en- Deus foi muito paciente com
ganos de Lúcifer. Infiltrou na mente Lúcifer. O espírito de descontenta-
deles a desconfiança e o desconten- mento era um elemento novo, es-
tamento de forma tão astuta que tranho e inexplicável. O próprio
não perceberam o que ele estava fa- Lúcifer não percebeu para onde es-
zendo. Lúcifer apresentou os pro- tava sendo levado. Mesmo assim,
pósitos de Deus sob uma falsa luz esforços que somente o amor e a sa-
para que os anjos ficassem pouco bedoria infinitos poderiam revelar
a pouco aborrecidos e insatisfeitos. foram feitos para convencê-lo de seu
Ao mesmo tempo em que alegava erro. Ele foi levado a ver qual seria
ser totalmente leal a Deus, insistia o resultado de persistir em revolta.
em afirmar que mudanças eram Lúcifer estava convencido de
necessárias para a estabilidade do que não tinha razão. Viu que “o
governo divino. Assim, enquanto Senhor é justo em todos os Seus ca-
promovia a discórdia às escondidas minhos e é bondoso em tudo o que
e a rebelião, ele fazia parecer que seu faz” (Sl 145:17), que os estatutos di-
único objetivo era promover a leal- vinos são justos e que, como tais,
dade e preservar a harmonia e a paz. ele os deveria reconhecer diante de
Embora não houvesse uma re- todo o Céu. Se ele tivesse feito isso,
belião declarada, a divisão de sen- poderia ter salvado a si mesmo e a
timentos crescia gradualmente muitos anjos. Se estivesse disposto
entre os anjos. Alguns olhavam com a se voltar para Deus, satisfeito por
simpatia para as críticas e suges- preencher o lugar a ele designado
tões sutis de Lúcifer. Eles estavam no grande plano divino, teria sido
Por que Foi Permitido o Pecado? 15
reintegrado em suas funções. Havia todos teriam liberdade. Um grande
chegado o tempo para uma decisão número de anjos declarou seu pro-
final; deveria se render à soberania pósito de aceitá-lo como chefe.
divina, ou se colocar em rebelião Lúcifer esperava conquistar todos os
aberta. Quase chegou à decisão de anjos para o seu lado. Queria se tor-
voltar; mas o orgulho o impediu. nar igual ao próprio Deus e ser obe-
Era um sacrifício grande demais decido por todo o exército celestial.
para quem foi tão altamente hon- Os anjos fiéis ainda insistiam com
rado confessar que tinha cometido ele e seus simpatizantes para que se
um erro! submetessem a Deus, apresentando-
Lúcifer apontou a longanimi- lhes o resultado inevitável caso se
dade de Deus como uma prova da recusassem. Advertiram todos a fe-
superioridade de si mesmo e não char os ouvidos ao raciocínio enga-
do Criador, uma indicação de que o nador de Lúcifer, insistiram com ele
Rei do Universo aceitaria suas con- e seus seguidores para que buscas-
dições. Se os anjos permanecessem sem a presença de Deus sem demora
firmes com ele, declarou, poderiam e confessassem o erro de questionar
ainda conseguir tudo o que dese- Sua sabedoria e autoridade.
jassem. Entregou-se totalmente ao Muitos ficaram inclinados a se
grande conflito contra o seu Criador. arrepender de seu descontenta-
Assim, Lúcifer, o “portador de luz”, mento e ser recebidos novamente no
tornou-se Satanás, “o adversário” de favor do Pai e de Seu Filho. Lúcifer,
Deus e dos seres santos. porém, declarou que os anjos que
se uniram a ele tinham ido muito
Satanás Lidera a Rebelião longe para retroceder; Deus não os
Ao rejeitar com desprezo os ape- perdoaria. Quanto a ele, estava deci-
los dos anjos que permaneceram dido a nunca mais reconhecer a au-
fiéis, ele os chamou de escravos ilu- toridade de Cristo. A única opção
didos. Nunca mais reconheceria a que restava era exigir sua liberdade
supremacia de Cristo. Resolveu re- e adquirir, pela força, os direitos que
clamar a honra que deveria ter sido não lhes haviam sido concedidos.
conferida a ele. Prometeu àqueles Deus permitiu que Satanás le-
que entrassem em suas fileiras um vasse avante sua obra até que o espí-
governo novo e melhor. Disse que rito de descontentamento resultasse
16 Os Escolhidos
em revolta completa. Era necessário fez parecer que era ele quem es-
que seus planos se desenvolvessem tava procurando promover o bem
completamente a fim de que todos do Universo. Seu verdadeiro caráter
pudessem ver sua verdadeira na- devia ser compreendido por todos.
tureza. O governo de Deus incluía Era necessário que ele tivesse tempo
não somente os habitantes do Céu, para se manifestar por meio de suas
mas todos os mundos que Ele tinha obras perversas.
criado. Lúcifer concluiu que, se ele Ele declarou que todo o mal era o
havia conseguido convencer os anjos resultado da administração divina;
do Céu à rebelião, poderia também era seu objetivo aperfeiçoar os esta-
convencer os outros mundos. Todos tutos de Deus. Por isso, Deus per-
os seus atos eram de tal maneira re- mitiu que Lúcifer demonstrasse a
vestidos de mistério, que era difícil natureza de suas pretensões, a fim
tornar clara a verdadeira natureza de mostrar o efeito das mudanças
de sua obra. Mesmo os anjos fiéis por ele propostas na lei divina. Sua
não conseguiam discernir completa- obra deveria condená-lo. Era preciso
mente o seu caráter ou ver para onde que todo o Universo visse o engana-
sua obra estava levando. Tudo o que dor desmascarado.
era simples ele envolvia em mistério
e, distorcendo a verdade, lançava dú- Por que Deus Não
vida sobre as mais claras afirmações Destruiu Satanás?
feitas por Deus. Sua elevada posição Mesmo depois que foi expulso
dava maior força às suas afirmações. do Céu, a Sabedoria infinita não des-
truiu Satanás. A fidelidade das cria-
Deus Não Destruiu Satanás turas de Deus deve estar baseada na
Enquanto Deus podia empregar certeza de Sua justiça e amor. Seria
apenas métodos que fossem coe- difícil para os habitantes do Céu e
rentes com a verdade e a justiça, dos mundos não caídos ver a justiça
Satanás usava o que Deus não usaria de Deus na destruição de Satanás. Se
– a bajulação e o engano. Portanto, ele tivesse sido imediatamente des-
era necessário demonstrar não só truído, alguns teriam servido a Deus
aos habitantes do Céu, mas a todos pelo temor em vez de o fazerem por
os mundos, que o governo de Deus é amor. A influência do enganador não
justo, que Sua lei é perfeita. Satanás teria sido completamente destruída,
Por que Foi Permitido o Pecado? 17
tampouco o espírito de rebelião teria durante todos os tempos que vi-
sido eliminado. Para o bem de todo o riam – um testemunho perpétuo
Universo, ao longo dos séculos sem da natureza do pecado e de seus
fim, ele deveria desenvolver mais terríveis resultados. Assim, a his-
completamente seus princípios, a tória dessa experiência com a rebe-
fim de que suas acusações contra o lião seria uma eterna defesa a todos
governo divino pudessem ser vistas os seres santos para impedir que
sob sua verdadeira luz, e para que a fossem enganados quanto à natu-
justiça de Deus, bem como a imutá- reza da transgressão.
vel natureza de Sua lei, não pudes- “As Suas obras são perfeitas, e
sem nunca mais ser questionadas. todos os Seus caminhos são justos.
A rebelião de Satanás deve- É Deus fiel, que não comete erros;
ria ser uma lição para o Universo, justo e reto Ele é” (Dt 32:4).
2
*
A Criação
“M ediante a palavra
do Senhor foram
feitos os céus, e os corpos celestes,
‘Façamos o homem à Nossa ima-
gem, conforme a Nossa seme-
lhança. Domine ele sobre […] toda
pelo sopro de Sua boca. Pois Ele a Terra […]. Criou Deus o homem
falou, e tudo se fez; Ele ordenou, e à Sua imagem, à imagem de Deus
tudo surgiu” (Sl 33:6, 9). o criou; homem e mulher os criou”
Quando a Terra saiu das mãos de (Gn 1:26, 27).
seu Criador, era extraordinariamente De uma forma bem clara está
bonita. Por toda parte, o solo fértil estabelecida a origem da raça hu-
produzia uma vegetação exuberante. mana. Deus nos criou à Sua ima-
Não existiam pântanos lamacentos gem. Não há razão para supor que
nem desertos áridos. Arbustos gra- evoluímos por meio de lentos graus
ciosos e flores delicadas agradavam a de desenvolvimento, a partir das
vista por toda a parte. O ar era puro formas inferiores da vida animal
e saudável. A paisagem era mais bo- ou vegetal. A Palavra inspirada des-
nita do que os terrenos ornamenta- creve a origem da nossa raça não
dos do palácio mais luxuoso. como estando relacionada ao de-
Depois que a Terra foi chamada senvolvimento de uma linhagem
à existência, repleta de todo tipo de germes, moluscos e quadrú-
de vida animal e vegetal, o homem pedes, mas ao grande Criador.
– a obra-prima do Criador – en- Embora tendo sido formado do pó,
trou em cena. “Então disse Deus: Adão era “filho de Deus” (Lc 3:38).
* Este capítulo é baseado em Gênesis 1 e 2.
A Criação 19
Os seres criados de ordem in- O Primeiro Casamento
ferior não podem compreender Depois da criação de Adão, “o
o conceito de Deus; no entanto, Senhor Deus declarou: ‘Não é bom
foram feitos com a capacidade de que o homem esteja só; farei para
amar e servir ao homem. “Tu o fi- ele alguém que o auxilie e lhe cor-
zeste dominar sobre as obras das responda’” (Gn 2:18). Deus deu a
Tuas mãos; sob os seus pés tudo Adão uma companheira que lhe cor-
puseste: […] e até os animais sel- respondesse, que poderia ser uma
vagens, as aves do céu” (Sl 8:6-8). com ele, em amor e simpatia. Eva
Somente Cristo é “a expressão foi criada de uma costela tirada do
exata” (Hb 1:3) do Pai, mas Adão lado de Adão. Ela não deveria domi-
e Eva foram formados à seme- nar, como a cabeça, nem ser pisada
lhança de Deus. Sua natureza es- sob seus pés, como se fosse inferior,
tava em harmonia com a vontade mas devia estar ao seu lado, como
de Deus, sua mente era capaz de sua igual, amada e protegida por
compreender os propósitos divi- ele. Ela era o seu segundo eu, mos-
nos. Suas afeições eram puras; o trando isso a união íntima que de-
apetite e as paixões estavam sob o veria existir nesse relacionamento.
domínio da razão. Eles eram san- “Além do mais, ninguém jamais
tos e felizes por terem em si a ima- odiou o seu próprio corpo, antes o
gem de Deus e obedecerem à Sua alimenta e dele cuida” (Ef 5:29). “Por
vontade perfeitamente. essa razão, o homem deixará pai e
Quando nossos primeiros pais mãe e se unirá à sua mulher, e eles
saíram das mãos do Criador, a face se tornarão uma só carne” (Gn 2:24).
deles irradiava a luz da vida e da “O casamento deve ser honrado
alegria. Adão era muito mais alto por todos” (Hb 13:4). É uma das duas
que os homens que vivem atual- instituições que, depois da queda,
mente. Eva era um pouco menor Adão trouxe consigo para além dos
em altura; porém, suas formas portais do Paraíso. Quando os prin-
eram nobres e cheias de beleza. cípios divinos são reconhecidos e
Esse casal, sem pecado, não usava obedecidos, o casamento se torna
roupas artificiais; eles estavam uma bênção; preserva a pureza e fe-
vestidos de uma cobertura de luz, licidade do gênero humano e eleva a
semelhante à que os anjos usam. natureza física, intelectual e moral.
20 Os Escolhidos
“Ora, o Senhor Deus tinha plan- descansou de toda a obra que reali-
tado um jardim no Éden, para os zara na criação” (Gn 2:2, 3). Tudo era
lados do leste, e ali colocou o homem perfeito, digno de seu divino Autor;
que formara” (Gn 2:8). Nesse jardim e Ele descansou, não como alguém
havia árvores de toda espécie, mui- que estivesse cansado, mas satisfeito
tas delas carregadas de frutos de- com o trabalho realizado, fruto de
liciosos. Lindas videiras cresciam Sua sabedoria e bondade.
eretas, com seus ramos pendendo Depois de repousar no sétimo
sob o peso de frutos saborosos. dia, Deus o separou como um dia de
O trabalho de Adão e Eva era mol- descanso. Seguindo o exemplo do
dar os ramos da videira, formando Criador, os seres humanos deve-
caramanchões, para fazerem assim, riam repousar nesse dia santo, não
com árvores vivas, um lar para eles só para que pudessem refletir sobre
morarem sob as árvores cobertas de a obra da criação de Deus, mas para
folhas e frutos. No meio do jardim que seu coração se enchesse de amor
estava a árvore da vida, superando e reverência para com o Criador.
em beleza a todas as outras árvo- O sábado foi dado para toda
res. Seu fruto tinha a propriedade a família humana. Ao observá-lo,
de manter a vida para sempre. as pessoas demonstrariam, cheias
“Assim foram concluídos os céus de gratidão, seu reconhecimento a
e a Terra, e tudo o que neles há” Deus como seu Criador e legítimo
(Gn 2:1). “E Deus viu tudo o que Soberano. Que elas eram obra das
havia feito, e tudo havia ficado muito Suas mãos e sujeitas à Sua autoridade.
bom” (Gn 1:31). Nenhuma mancha Deus viu que o sábado era muito
de pecado ou sombra da morte des- importante para os seres humanos,
figurava a bela criação. “As estrelas mesmo no Paraíso. Deveriam deixar
matutinas juntas cantavam e todos de lado os próprios interesses du-
os anjos se regozijavam” (Jó 38:7). rante um dos sete dias. Precisavam
de um sábado que os fizesse se lem-
A Bênção do Sábado brar de Deus e despertasse neles a
Em seis dias a grande obra da gratidão, pois tudo o que desfruta-
criação foi finalizada. Deus “nesse vam vinha das mãos do Criador.
dia descansou. Abençoou Deus o sé- É plano de Deus que o sábado
timo dia e o santificou, porque nele dirija a nossa mente para as obras
A Criação 21
que Ele criou. A beleza que reveste O Belo Jardim do Éden
a Terra é um testemunho do amor Deus colocou os seres humanos
de Deus. As colinas eternas, as altas sob a lei, súditos do governo divino.
árvores, o botão que desabrocha e Ele poderia tê-los criado sem a fa-
as delicadas flores, tudo nos fala de culdade de transgredir a lei. Poderia
Deus. O sábado, que aponta para ter evitado que tocassem no fruto
Aquele que tudo fez, também nos proibido; mas, nesse caso, Adão e
convida a abrir o grande livro da na- Eva não passariam de meros robôs.
tureza e encontrar nele a sabedoria, Se eles não tivessem liberdade de es-
o poder e o amor do Criador. colha, sua obediência seria forçada.
Nossos primeiros pais foram Isso seria contrário ao plano de Deus,
criados inocentes e santos, mas seria indigno dos seres humanos
não estavam isentos da possibili- por Ele criados e teria reafirmado a
dade de praticar o mal. Deus os fez acusação feita por Satanás de que o
seres morais livres. Eles podiam governo de Deus não era justo.
escolher obedecer ou desobedecer. Deus fez os nossos primeiros
Antes de estarem eternamente se- pais pessoas corretas, sem nenhuma
guros, a sua lealdade deveria ser tendência para o mal. Apresentou a
provada. Logo no início, quando o eles as mais fortes motivações pos-
homem passou a existir, Deus co- síveis para que se mantivessem fiéis.
locou uma restrição ao desejo de A obediência era a condição para a
satisfação própria, um sentimento felicidade eterna e o acesso à árvore
fatal que constituiu a base da queda da vida.
de Lúcifer. A árvore do conheci- O lar de nossos primeiros pais
mento devia se tornar uma prova deveria ser um modelo para outros
da obediência, fé e amor de nossos lares, quando seus filhos saíssem
primeiros pais. Estavam proibidos para ocupar a Terra. Hoje, as pessoas
de provar do fruto dessa árvore, se orgulham dos edifícios magnifi-
sob pena de morte. Precisavam ser centes e casas riquíssimas que cons-
expostos às tentações de Satanás; troem, gloriando-se nas obras das
porém, se suportassem a prova, se- próprias mãos, mas Deus colocou
riam colocados fora do seu poder, Adão em um jardim. Esta era uma
para desfrutarem eternamente o lição para todos os tempos – a verda-
favor de Deus. deira felicidade não é encontrada na
22 Os Escolhidos
satisfação do orgulho e do luxo, mas eram não apenas filhos sob o pa-
na comunhão com Deus por meio ternal cuidado de Deus, mas es-
das obras que Ele criou. O orgulho tudantes que recebiam instruções
e a ambição nunca serão satisfeitos; diretamente do Criador, que é ple-
porém, as pessoas verdadeiramente namente sábio. Eles eram visitados
sábias encontrarão prazer real nas pelos anjos e tinham o privilégio de
fontes de alegria que Deus colocou conversar face a face com Aquele
ao alcance de todos. que os havia criado. Estavam cheios
Ao casal no Éden foi confiado o do vigor fornecido pela árvore da
jardim “para cuidar dele e cultivá-lo”. vida, sua capacidade intelectual era
Deus designou o trabalho como somente um pouco menor que a dos
uma bênção para ocupar a mente, anjos. As leis da natureza estavam
fortalecer o corpo e desenvolver as abertas à sua mente pelo infinito
suas habilidades. Por meio da ati- Criador e Mantenedor de todas as
vidade mental e física, Adão en- coisas. Cada criatura vivente, desde
contrava um dos maiores prazeres a poderosa baleia que vive nas águas
de sua santa existência. É um erro dos oceanos até o minúsculo inseto
considerar o trabalho uma maldi- que flutua em um raio de sol, eram
ção, mesmo que ele traga cansaço todos familiares para Adão. Ele deu
e dor. Há pessoas ricas que olham a cada um o seu nome e conhecia a
com desprezo para as classes traba- natureza e os hábitos de todos. Em
lhadoras, mas isso não está em har- cada folha da floresta, em cada es-
monia com o propósito de Deus ao trela, na terra, no ar e no céu, em
criar o homem. Adão não deveria tudo estava escrito o nome de Deus.
ficar na ociosidade. Nosso Criador, A ordem e a harmonia da criação fa-
que compreende o que é melhor lavam da infinita sabedoria e poder.
para a nossa felicidade, designou a Enquanto Adão e Eva permane-
Adão o seu trabalho. A verdadeira cessem fiéis à lei divina, eles esta-
alegria da vida é encontrada apenas riam constantemente adquirindo
por homens e mulheres que se dedi- novos tesouros do conhecimento,
cam ao trabalho. O Criador não pre- descobrindo novas fontes de felici-
parou nem um espaço sequer para a dade e obtendo compreensões cada
prática da preguiça. vez mais claras do imensurável e in-
Adão e Eva, como santo par, falível amor de Deus.
3
A Difícil Situação
do Ser Humano*
N ão estando mais livre
para incitar a rebelião
no Céu, Satanás encontrou um novo
A lei de Deus é uma revelação
da Sua vontade, uma transcri-
ção do Seu caráter, a expressão do
campo para tramar a ruína da raça amor divino e de Sua sabedoria.
humana. Movido pela inveja, deci- A harmonia da criação depende da
diu trazer sobre Adão e Eva a culpa perfeita conformidade com a lei do
e a penalidade do pecado. Ele trans- Criador. Tudo se encontra sob leis
formaria o amor deles em descon- fixas que não podem ser desres-
fiança, e os cânticos de louvor em peitadas. Dentre todos os que ha-
críticas ao seu Criador. Assim, não bitam na Terra, somente os seres
somente mergulharia esses seres humanos são responsáveis diante
inocentes na miséria, mas lançaria da lei moral. Deus lhes concedeu o
a desonra sobre o nome de Deus e poder para compreender a justiça e
causaria grande pesar no Céu. a bondade da Sua lei e deles requer
Mensageiros celestiais revelaram contínua obediência.
a nossos primeiros pais a história da Assim como os anjos, os mora-
queda de Satanás e suas ciladas para dores do Éden tiveram um período
destruí-los, expondo a eles a natu- de tempo para mostrar o que fa-
reza do governo divino que o prín- riam. Poderiam obedecer e viver,
cipe do mal estava tentando destruir. ou desobedecer e morrer. Aquele
* Este capítulo é baseado em Gênesis 3.
24 Os Escolhidos
que não poupou os anjos que peca- separar de seu marido. Ao lado
ram não podia poupá-los também; a dele, correria menos perigo do que
transgressão traria sobre eles a mi- quando estivesse sozinha. Sem
séria e a ruína. se dar conta, ela saiu de perto de
Os anjos avisaram Adão e Eva Adão. Esquecendo-se do aviso do
para estarem atentos contra as ar- anjo, logo estava contemplando,
madilhas de Satanás. Se eles rejei- com uma mistura de admiração
tassem firmemente suas primeiras e curiosidade, a árvore proibida.
insinuações, estariam seguros. Caso O fruto era belo, e ela ficava imagi-
cedessem à tentação, sua natureza nando por que Deus os tinha proi-
se tornaria tão depravada que, por bido de comê-lo.
eles mesmos, não teriam poder nem Aquela era a oportunidade do
disposição para resistir a Satanás. tentador. “Foi isto mesmo que Deus
A árvore do conhecimento se disse: ‘Não comam de nenhum fruto
tornou a prova de sua obediência e das árvores do jardim’?” (Gn 3:1).
amor a Deus. Se eles não atendessem Eva ficou surpresa ao ouvir o eco de
à Sua vontade nesse caso em espe- seus pensamentos. A serpente con-
cial, seriam considerados transgres- tinuou, fazendo elogios à grande
sores. Satanás não iria segui-los com beleza de Eva, e suas palavras a
tentações contínuas; poderia ter agradaram. Em vez de fugir dali, de-
acesso a eles somente quando eles teve-se para ouvir a serpente falar.
se aproximassem da árvore proibida. O que ela não imaginava é que era
Para realizar seu trabalho sem Satanás falando por intermédio da
ser percebido, Satanás utilizou um fascinante serpente.
disfarce. A serpente era uma das Ela respondeu: “Podemos comer
criaturas mais inteligentes e mais do fruto das árvores do jardim, mas
belas. Seu brilho era deslumbrante. Deus disse: ‘Não comam do fruto
Ao pousar na árvore proibida, sabo- da árvore que está no meio do jar-
reando o fruto delicioso, chamava dim, nem toquem nele; do contrá-
a atenção e encantava os olhos. rio vocês morrerão’” (Gn 3:2, 3).
Assim, no jardim onde reinava a Então a serpente disse à mulher:
paz, o destruidor estava à espreita. “Certamente não morrerão! Deus
Os anjos preveniram Eva para sabe que, no dia em que dele come-
que tivesse o cuidado de não se rem, seus olhos se abrirão, e vocês,
A Difícil Situação do Ser Humano 25
como Deus, serão conhecedores do é um engano. Elas estão começando
bem e do mal” (Gn 3:4, 5). a descer por um caminho que con-
Ao provarem dessa árvore, de- duz à degradação e à morte.
clarou ela, alcançariam um estado
mais elevado de vida. Disse ainda A Sutileza do Apelo
que ela mesma tinha comido e de Satanás
adquirido o dom da fala. Insinuou Satanás disse ao santo casal
que, de maneira egoísta, o Senhor que eles só teriam a ganhar se que-
os havia proibido de comê-lo para brassem a lei de Deus. Hoje, mui-
que não se tornassem iguais a Ele; tos afirmam ter mais liberdade
porque aquele fruto proporcionava do que aqueles que obedecem aos
sabedoria e poder. Por isso, Deus mandamentos de Deus e que estes
não permitia que eles provassem têm uma visão estreita da vida.
ou tocassem nele. Disse que a ad- O que é isso senão um eco da voz
vertência divina fora feita simples- do Éden? “Deus sabe que, no dia
mente para intimidá-los. Como seria em que dele comerem” – transgre-
possível que eles morressem? Não direm a ordem divina – “seus olhos
tinham eles comido do fruto da ár- se abrirão, e vocês, como Deus, serão
vore da vida? Deus estava tentando conhecedores do bem e do mal”
impedir que atingissem um grau de (Gn 3:5). Satanás não deixou trans-
desenvolvimento mais nobre e al- parecer que ele tinha sido expulso
cançassem maior felicidade. do Céu. Ele ocultou a própria angús-
Essa tem sido a obra de Satanás tia para arrastar outros à mesma po-
desde os dias de Adão até o pre- sição. Assim, hoje os transgressores
sente. Ele tenta as pessoas a descon- procuram disfarçar o seu verdadeiro
fiar do amor de Deus e a duvidar caráter. Entretanto, estão do lado de
de Sua sabedoria. Em seus esfor- Satanás, pisando a lei de Deus e le-
ços para investigar o que Deus lhes vando outros à ruína eterna.
negou, multidões desprezam as ver- Eva duvidou das palavras de
dades que são essenciais para a sal- Deus, e foi isso que a levou à queda.
vação. Satanás tenta as pessoas a No juízo, as pessoas não serão con-
desobedecer, a acreditar que estão denadas porque creram conscien-
entrando em um campo maravi- ciosamente em uma mentira, mas
lhoso do conhecimento. Tudo isso porque não acreditaram na verdade.
26 Os Escolhidos
Devemos firmar o nosso coração no tinham sido advertidos. Conforme
conhecimento da verdade. Podemos Deus tinha dito, ela deveria mor-
estar certos de que qualquer coisa rer. Em resposta, Eva insistia com
que venha a contradizer a Palavra ele: “Coma!” – repetindo as palavras
de Deus procede de Satanás. da serpente de que certamente não
A serpente apanhou o fruto da morreriam. Ela não via evidência al-
árvore proibida e o colocou nas mãos guma do desagrado de Deus; porém,
de Eva ainda relutante. Fez com que sentia uma deliciosa e estimulante
ela recordasse das próprias palavras, influência vibrando por todo o seu
ao afirmar que Deus os havia proi- corpo com uma nova vida.
bido de tocá-lo, senão morreriam. Adão compreendeu que sua
Vendo que nada de mal acontecia, companheira tinha desobedecido
Eva tomou coragem. Então, quando à ordem de Deus. Travou-se uma
“viu que a árvore parecia agradável terrível batalha em sua mente.
ao paladar, era atraente aos olhos Lamentava ter permitido que Eva
e, além disso, desejável para dela se saísse de perto dele. Entretanto, o
obter discernimento, tomou do seu ato estava consumado; ele teria que
fruto, comeu-o” (Gn 3:6). Enquanto se separar da companhia daquela
comia, sentia como se estivesse en- que tinha sido a sua alegria.
trando em uma esfera mais elevada Como poderia suportar isso?
da existência. Adão tinha desfrutado a compa-
Depois de ter ela mesma trans- nhia de Deus e dos santos anjos.
gredido a ordem divina, Eva se tor- Ele sabia qual era o destino reser-
nou o agente de Satanás para causar vado à raça humana se permane-
a ruína de seu marido. Em um es- cessem fiéis a Deus. Mesmo assim,
tado de estranho entusiasmo fora todas as bênçãos envolvidas desa-
do normal, com as mãos cheias do pareceram de sua vista diante do
fruto proibido, ela saiu à sua pro- receio que tinha de perder aquela
cura e o encontrou. dádiva que, aos seus olhos, era de
Adão parecia surpreso e ao muito maior valor que todas as ou-
mesmo tempo horrorizado. Diante tras. O amor, a gratidão e a leal-
das palavras de Eva, ele respon- dade para com o Criador – tudo foi
deu que aquilo poderia ser uma colocado de lado por amor a Eva.
cilada do inimigo contra quem Ela era uma parte dele mesmo, e
A Difícil Situação do Ser Humano 27
Adão não podia suportar a ideia da Satanás estava exultante. Ten-
separação. Se ela deveria morrer, ele tou a mulher para que ela passasse a
morreria com ela. Não poderiam ser desconfiar do amor de Deus, a duvi-
verdadeiras as palavras da sábia dar de Sua sabedoria e a transgredir
serpente? Nenhum sinal de morte Sua lei; finalmente, por meio dela,
aparecia em Eva, então ele decidiu ocasionou a derrota de Adão!
enfrentar as consequências. Tomou
o fruto e o comeu rapidamente. Triste Mudança
De início, após a sua transgres- O grande Legislador deveria co-
são, Adão imaginou estar entrando municar a Adão e Eva as consequên-
em uma esfera elevada de existên- cias de sua transgressão. Quando
cia. Então o pensamento de seu pe- Adão e Eva eram inocentes e san-
cado o encheu de terror. O amor e a tos, eles ficavam felizes com a apro-
paz que sentiam até então desapa- ximação de seu Criador; naquele
receram, e em seu lugar experimen- momento, porém, fugiram aterro-
taram um sentimento de pecado, rizados. “Mas o Senhor Deus cha-
temor pelo futuro e um grande mou o homem, perguntando: ‘Onde
vazio interior. A veste de luz que os está você?’ E ele respondeu: ‘Ouvi
envolvia desapareceu e, para suprir Teus passos no jardim e fiquei com
sua falta, tentaram fazer uma co- medo, porque estava nu; por isso me
bertura. Não poderiam, enquanto escondi.’ E Deus perguntou: ‘Quem
estivessem sem roupa, enfrentar o lhe disse que você estava nu? Você
olhar de Deus e dos santos anjos. comeu do fruto da árvore da qual
Eles começaram a ver então o lhe proibi comer?’” (Gn 3:9-11).
verdadeiro caráter do pecado. Adão Adão colocou a culpa em sua es-
censurou sua companheira por ter se posa, lançando assim a culpa no
afastado dele e permitido que a ser- próprio Deus: “Foi a mulher que
pente a enganasse. Ambos, porém, me deste por companheira que me
tentavam se convencer de que Deus, deu do fruto da árvore, e eu comi”
que tinha dado a eles tantas evi- (Gn 3:12). Por amor a Eva, ele propo-
dências de Seu amor, iria perdoá- sitalmente preferiu perder a aprova-
los por essa única transgressão; que ção de Deus e uma vida de eterna
não seriam submetidos a um cas- alegria; ali, então, procurou tornar
tigo tão terrível como receavam. sua companheira, e até mesmo o
28 Os Escolhidos
próprio Criador, responsáveis por dela; Este lhe ferirá a cabeça, e você
sua transgressão. Lhe ferirá o calcanhar” (Gn 3:15).
Quando Ele perguntou à mu- Eva foi informada a respeito da
lher: “Que foi que você fez?” Ela tristeza e dor que deveria sofrer:
respondeu: “A serpente me enga- “Multiplicarei grandemente o seu
nou, e eu comi” (Gn 3:13). “Por que sofrimento na gravidez; com sofri-
criaste a serpente?” “Por que per- mento você dará à luz filhos. Seu de-
mitiste que ela entrasse no Éden?” sejo será para o seu marido, e ele a
– essas eram perguntas que esta- dominará” (Gn 3:16). Deus a tinha
vam envolvidas em sua primeira criado igual a Adão. Infelizmente
desculpa. O espírito de justificação o pecado trouxe discórdia e, a par-
própria foi alimentado por nossos tir de então, a união e a harmonia
primeiros pais tão logo se entrega- entre eles seriam mantidas e pre-
ram à influência de Satanás, e ele servadas somente pela submissão
tem se manifestado em todos os fi- da parte de um ou de outro. Eva
lhos e filhas de Adão. tinha sido a primeira a transgredir a
O Senhor pronunciou então a ordem de Deus. Foi por sua insistên-
sentença sobre a serpente: “Uma cia que Adão pecou, assim, a partir
vez que você fez isso, maldita é você desse momento, foi colocada em su-
entre todos os rebanhos domésticos jeição ao seu marido. Dessa forma, o
e entre todos os animais selvagens! abuso da supremacia que foi dada ao
Sobre o seu ventre você raste- homem tem muitas vezes trazido à
jará, e pó comerá todos os dias da mulher bastante amargura e trans-
sua vida” (Gn 3:14). Da mais bela formado sua vida em um fardo.
das criaturas do campo, ela se tor- Eva tinha sido muito feliz ao
nou a mais rasteira e a mais detes- lado do esposo. Entretanto, ela se
tada de todas elas, temida tanto encheu de esperança com a possi-
pelos homens como pelos animais. bilidade de entrar em uma esfera
As palavras dirigidas à serpente a mais elevada que aquela que Deus
seguir foram aplicadas ao próprio lhe havia designado. Ao tentar ele-
Satanás como indicação de sua der- var sua posição original, caiu muito
rota e destruição final: “Porei inimi- mais abaixo do lugar onde estava.
zade entre você e a mulher, entre a Em seus esforços para alcançar
sua descendência e o Descendente posições para as quais Deus não
A Difícil Situação do Ser Humano 29
as habilitou, hoje, muitas pessoas grande misericórdia, mostraria ao
estão deixando vago o lugar onde povo a santidade de Sua lei e os leva-
poderiam ser uma bênção. ria a ver o perigo que corriam se a co-
Para Adão, o Senhor declarou: locassem de lado por pouco que fosse.
“Visto que você deu ouvidos à sua
mulher e comeu do fruto da árvore Um Plano de Restauração
da qual Eu lhe ordenara que não A vida de muitas lutas e cuida-
comesse, maldita é a terra por sua dos que dali em diante caberia à hu-
causa; com sofrimento você se ali- manidade foi uma ordem dada com
mentará dela todos os dias da sua amor, uma forma de disciplina que
vida. Ela lhe dará espinhos e ervas da- se tornou necessária por causa do
ninhas, e você terá que alimentar-se pecado, para impor um limite à sa-
das plantas do campo. Com o suor tisfação do apetite e às paixões e
do seu rosto você comerá o seu pão, desenvolver hábitos de domínio pró-
até que volte à terra, visto que dela prio. Fazia parte do grande plano de
foi tirado; porque você é pó, e ao pó Deus para a restauração do homem.
voltará” (Gn 3:17-19). A advertência dada aos nossos
Deus tinha concedido livre- primeiros pais – “Não [comam] da
mente a Adão e Eva o que era bom e árvore que está no meio do jardim,
retido o mal. Mesmo assim, eles co- não [toquem] nele; do contrário
meram da árvore proibida; por isso, vocês [morrerão]” (Gn 2:17) – não
a partir de então, teriam o conheci- significava que deveriam morrer
mento do mal todos os dias de sua exatamente no dia em que comes-
vida. Em vez de uma vida de traba- sem do fruto proibido. Naquele dia,
lho feliz, teriam que enfrentar uma porém, a sentença irrevogável seria
vida de ansiedade e trabalho árduo. pronunciada. Naquele mesmo dia
Estariam sujeitos a decepções, pesa- estariam condenados à morte.
res, dor e, finalmente, à morte. Para que pudesse possuir uma
Deus fez o primeiro casal para go- existência sem fim, o homem de-
vernar sobre a Terra e sobre todos os veria continuar a comer da ár-
seres viventes. Quando eles se rebe- vore da vida. Não tendo mais esse
laram contra a lei divina, as criatu- direito, sua vitalidade iria dimi-
ras inferiores se rebelaram contra o nuir gradualmente até que a vida
seu domínio. Então o Senhor, em Sua se acabasse. Era plano de Satanás
30 Os Escolhidos
que Adão e Eva comessem da ár- nós argumentam que é impossível
vore da vida e assim perpetuassem obedecer aos seus preceitos. Se isso
uma existência de pecado e de sofri- fosse verdade, por que Adão sofreu
mento. Santos anjos foram comis- a pena máxima por tê-la transgre-
sionados para guardar a árvore da dido? O pecado de nossos primeiros
vida. Ao redor desses anjos flameja- pais trouxe a culpa e a tristeza sobre
vam raios de luz semelhantes a es- o mundo e, se não fosse pela miseri-
padas resplandecentes. A ninguém córdia de Deus, teria mergulhado a
da família de Adão foi permitido ul- raça humana em terrível desespero.
trapassar aquela barreira; por isso é Que ninguém se engane. “O salário
que não há pecadores imortais. do pecado é a morte” (Rm 6:23).
Depois que pecaram, Adão e
Seria Deus Severo Demais? Eva suplicaram para permanecer
Muitas pessoas consideram a no lar de sua inocência e alegria.
onda de desgraças desencadeadas Prometeram que no futuro presta-
pela transgressão de nossos pri- riam total obediência a Deus. Foi
meiros pais como sendo uma con- dito a eles que a sua natureza tinha
sequência terrível demais para um se tornado depravada por causa do
pecado tão pequeno. Se analisassem pecado. Suas forças para resistir ao
mais profundamente essa questão, mal estavam diminuídas. A partir de
poderiam reconhecer o seu erro. Por então, por estarem totalmente cons-
Sua grande misericórdia, a prova cientes de sua culpa, teriam menos
que Deus designou a Adão não era poder para manter a sua integridade.
severa. A própria leveza da proibi- Com grande tristeza, despedi-
ção foi o que tornou o pecado ex- ram-se do belo lar e dali saíram para
cessivamente grande. Se tivesse sido habitar na Terra, onde já estava pre-
designada alguma grande prova a sente a maldição do pecado. A at-
Adão, então aqueles cujo coração mosfera estava sujeita a grandes
se inclinam para o mal se descul- mudanças, e o Senhor, misericor-
pariam dizendo: “Essa é uma ques- diosamente, proveu uma roupa de
tão trivial, e Deus não é tão exigente peles para eles, como uma forma de
a respeito de coisas pequenas.” proteção contra o frio.
Muitos que ensinam que a lei de Ao testemunharem os primei-
Deus não tem mais validade para ros sinais de decadência em uma
A Difícil Situação do Ser Humano 31
flor que murchava ou numa folha seus agradáveis caminhos. Somente
que caía, Adão e sua companheira quando a maldade dos descenden-
lamentaram muito mais profunda- tes de Adão e Eva determinou a
mente do que as pessoas fazem hoje destruição pelas águas do dilúvio,
por seus mortos. Quando as lindas a mão que plantou o Jardim do
árvores deixaram cair suas folhas, Éden o retirou da Terra. Quando
a cena lhes trouxe à mente o fato Deus, no fim, restaurar todas as coi-
cruel de que a morte havia se tor- sas, quando forem criados “novos
nado o fim de todos os viventes. céus e nova Terra”, o Jardim do Éden
O Jardim do Éden permaneceu será restabelecido, mais gloriosa-
na Terra por muito tempo depois que mente adornado que no princípio
seus moradores foram banidos de (Ap 21:1).
4
O Plano Revelado
A queda de Adão e Eva en-
cheu todo o Céu de tris-
teza. Parecia não haver um meio de
O plano da salvação foi estabe-
lecido antes da criação da Terra,
pois Cristo é o “Cordeiro que foi
escape para aqueles que transgredi- morto desde a fundação do mundo”
ram a lei. Os anjos cessaram os seus (Ap 13:8); foi, porém, uma luta para
cânticos de louvor. o Rei do Universo entregar Seu
O Filho de Deus sentiu grande Filho para morrer pela raça cul-
compaixão pela raça caída quando pada. “Deus amou ao mundo de tal
foram apresentadas diante dEle maneira que deu o Seu Filho unigê-
as desgraças do mundo perdido. O nito, para que todo aquele que nEle
amor divino idealizou um plano por crê não pereça, mas tenha a vida
meio do qual o homem, que estava to- eterna” (Jo 3:16, ARA). Oh, quão
talmente desamparado, poderia ser grande é o mistério da redenção!
salvo. A lei de Deus, que havia sido O amor de Deus por um mundo que
quebrada, exigia a vida do pecador. não O amou!
Apenas um Ser igual a Deus poderia Deus Se revelaria em Cristo,
fazer a expiação por sua transgres- “reconciliando consigo o mundo”
são. Ninguém, a não ser Cristo, po- (2Co 5:19). Os seres humanos ti-
deria salvar os pecadores da maldição nham se tornado tão degradados
da lei e levá-los novamente a viver em pelo pecado que era impossível para
harmonia com o Céu. Cristo tomaria eles voltar a viver em harmonia com
sobre Si a culpa e a vergonha do pe- Deus, cuja natureza é de pureza e
cado para resgatar a raça caída. bondade. Cristo poderia comunicar
O Plano Revelado 33
o poder divino para que se unisse ao tinha o poder para redimi-lo. Cristo
esforço humano. Assim, por meio do “por um pouco foi feito menor do
arrependimento para com Deus e que os anjos […] por ter sofrido a
pela fé em Cristo, os filhos caídos de morte” (Hb 2:9). Ao tomar a natu-
Adão poderiam uma vez mais ser “fi- reza humana sobre Ele, Sua força
lhos de Deus” (1Jo 3:2). não seria igual a dos anjos, e eles
Os anjos não se alegraram é que deveriam fortalecê-Lo em
quando Cristo revelou a eles o Seus sofrimentos. Deveriam tam-
plano da redenção. Com pesar e ad- bém guardar os súditos da graça do
miração, ouviam Suas palavras, en- poder dos anjos maus.
quanto Ele lhes dizia como deveria No momento em que os anjos
entrar em contato com a degradação testemunhassem a agonia e a hu-
da Terra, suportar a tristeza, a ver- milhação de seu Senhor, desejariam
gonha e a morte. Ele Se humilharia livrá-Lo de seus assassinos, mas não
descendo à posição do homem para deveriam intervir. Fazia parte do
participar pessoalmente das triste- plano que Cristo sofresse o desprezo
zas e tentações que homens e mu- e maus-tratos de homens ímpios.
lheres teriam que enfrentar, a fim Cristo garantiu aos anjos que,
de “socorrer aqueles que também por Sua morte, Ele resgataria a mui-
estão sendo tentados” (Hb 2:18). tos e recuperaria o reino que tinha
Quando Sua missão como profes- sido perdido por causa da transgres-
sor estivesse terminada, Ele seria são. Os remidos deveriam herdá-lo
submetido a todo tipo de insulto e com Ele. Pecado e pecadores não
tortura que Satanás poderia inspi- mais existiriam, nunca mais per-
rar. Deveria morrer a mais cruel das turbariam a paz do Céu e da Terra.
mortes como um pecador culpado. Então uma inexprimível alegria
Teria que suportar terrível angústia encheu o Céu. Pelas cortes celes-
e a ocultação da face do Pai quando tiais ecoaram os primeiros acordes
os pecados do mundo todo recaís- do cântico que deveria soar sobre
sem sobre Ele. as colinas de Belém: “Glória a Deus
Os anjos se ofereceram para nas alturas, e paz na Terra aos ho-
se tornarem eles mesmos esse sa- mens” (Lc 2:14). “As estrelas matu-
crifício pela raça humana. Apenas tinas juntas cantavam e todos os
Aquele que havia criado o homem anjos se regozijavam” (Jó 38:7).
34 Os Escolhidos
Deus Promete um Salvador sua salvação. Adão e sua compa-
Na sentença pronunciada sobre nheira não seriam abandonados
Satanás no jardim, o Senhor decla- ao domínio de Satanás. Por meio
rou: “Porei inimizade entre você e a do arrependimento e fé em Cristo,
mulher, entre a sua descendência e poderiam novamente se tornar fi-
o Descendente dela; Este lhe ferirá lhos de Deus.
a cabeça, e você Lhe ferirá o calca- Adão e Eva viram, como nunca
nhar” (Gn 3:15). Essa foi a promessa antes, a culpa do pecado e seus re-
de que o poder de Satanás, o grande sultados. Suplicaram que a penali-
adversário, seria finalmente des- dade do pecado não recaísse sobre
truído. Adão e Eva permaneciam Aquele cujo amor tinha sido a fonte
como transgressores diante do justo de toda a sua alegria; em vez disso,
Juiz, mas antes que ouvissem da pediram que recaísse sobre eles e
vida de lutas e tristezas que deve- seus descendentes.
riam enfrentar, que retornariam ao Foi dito a eles que, por ser a lei de
pó, ouviram as palavras que não os Jeová a base do Seu governo, nem
deixariam sem esperança. Eles pode- mesmo a vida de um anjo poderia
riam olhar para o futuro e antever ser aceita como sacrifício pela trans-
a vitória final. gressão. Apenas o Filho de Deus,
Satanás sabia que sua obra para que os havia criado, poderia fazer a
promover a degeneração da natu- expiação por eles. Da mesma forma
reza humana seria interrompida, que a transgressão de Adão trouxe
que de alguma forma o homem sofrimento e morte, o sacrifício de
seria capacitado a resistir ao seu Cristo traria vida e imortalidade.
poder. Mesmo assim, ele se alegrava Quando foi criado, Adão re-
com seus anjos porque, depois de ter cebeu o domínio de toda a Terra.
causado a queda do homem, conse- Entretanto, ao ceder à tentação, ele
guiria tirar o Filho de Deus de Sua se tornou prisioneiro de Satanás.
exaltada posição. Quando Cristo to- O domínio passou para aquele que o
masse sobre Si a natureza humana, tinha vencido. Assim, Satanás pas-
Ele também poderia ser vencido. sou a ser “o deus desta era” (2Co 4:4).
Anjos celestiais revelaram de No entanto, Cristo, por Seu sacrifí-
maneira ainda mais ampla aos nos- cio, iria não somente redimir a fa-
sos primeiros pais o plano para a mília humana, mas restabeleceria
O Plano Revelado 35
o domínio por eles perdido. Tudo o se enchesse de todo tipo de sofri-
que foi perdido pelo primeiro Adão mento. Por meio da satisfação do
será restaurado pelo segundo Adão apetite e das paixões, as pessoas se
(ver Mq 4: 8). tornariam incapazes de apreciar as
Deus criou a Terra para ser habi- grandes verdades do plano da re-
tada por seres santos e felizes. Esse denção. Mesmo assim, Cristo pode-
propósito se cumprirá quando, re- ria suprir as necessidades de todos
novada pelo poder de Deus e liber- que fossem a Ele com fé. Sempre
tada do pecado e da tristeza, ela se haveria alguns que preservariam o
tornar a morada eterna do remidos. conhecimento de Deus e permane-
ceriam puros.
Os Terríveis Frutos As ofertas sacrificais foram orde-
do Pecado nadas como um reconhecimento de
O pecado causou a separação arrependimento pelo pecado e se-
entre Deus e a família humana, e riam também uma confissão de fé
somente a expiação feita por Cristo no prometido Redentor. Para Adão,
poderia transpor o abismo. Deus o primeiro sacrifício foi uma oferta
Se comunicaria com as pessoas por extremamente dolorosa. Sua mão
meio de Cristo e dos anjos. deveria se erguer para tirar a vida
A Adão foi revelado que, em- que só Deus podia dar. Foi a pri-
bora o sacrifício de Cristo fosse meira vez que ele testemunhou a
suficiente para salvar o mundo in- morte. Ele sabia que, se tivesse sido
teiro, muitos escolheriam viver uma obediente a Deus, nenhuma morte
vida de pecado em vez do arrepen- teria ocorrido. Adão tremia com
dimento e obediência. O crime au- o pensamento de que seu pecado
mentaria ao longo das sucessivas faria derramar o sangue de Cristo,
gerações. A maldição do pecado re- o imaculado Cordeiro de Deus. Essa
pousaria mais e mais pesadamente cena lhe trazia um sentimento ví-
sobre a raça humana e sobre a Terra. vido da enormidade da sua trans-
Os dias dos homens e das mulhe- gressão que coisa alguma, a não ser
res seriam abreviados por causa a morte do amado Filho de Deus,
de sua trajetória de pecado; eles se poderia expiar. Uma estrela de
degenerariam em sua força física, esperança iluminou seu tenebroso
moral e intelectual até que o mundo futuro.
36 Os Escolhidos
O Propósito mais Amplo a posse deste mundo “porque”, dizia
da Redenção ele, “eles preferiram a mim como seu
O plano da redenção tinha um governante”. Alegava que era impos-
propósito ainda mais amplo e pro- sível conceder o perdão ao pecador;
fundo que a salvação do homem. que aqueles que pertenciam à raça
Não foi apenas para que os habitan- caída eram todos legítimos súditos
tes deste pequeno mundo pudessem seus e que o mundo era seu. Deus,
dar à lei de Deus a consideração a porém, deu o próprio Filho a fim
ela devida, mas para vindicar o ca- de suportar a penalidade da trans-
ráter de Deus perante o Universo. gressão. Assim, os pecadores pode-
Foi olhando para esse grande resul- riam ser restaurados ao Seu favor
tado de Seu sacrifício, pouco antes e levados novamente para o seu
de Sua crucifixão, que o Salvador lar no Éden. O grande conflito ini-
exclamou: “Chegou a hora de ser ciado no Céu deveria ser decidido
julgado este mundo; agora será ex- aqui no mundo, no próprio campo
pulso o príncipe deste mundo. Mas que Satanás reclamava como seu.
Eu, quando for levantado da Terra, Todo o Universo ficou mara-
atrairei todos a Mim” (Jo 12:31, 32). vilhado diante da humilhação de
A morte de Cristo pela salvação da Cristo para salvar homens e mu-
humanidade justificaria Deus e Seu lheres caídos. Quando Cristo veio
Filho quanto à maneira de lidar com ao mundo em forma humana, todos
a rebelião de Satanás, confirmaria a estavam profundamente interessa-
lei de Deus e revelaria a natureza e dos em acompanhá-Lo ao percorrer
os resultados do pecado. Ele a trilha manchada de sangue,
Desde o princípio, o grande con- desde a manjedoura até o Calvário.
flito girou em torno da lei de Deus. O Céu observava o insulto e a zom-
Satanás procurava provar que Deus baria que Cristo recebia. Os habitan-
era injusto, que Sua lei era imper- tes das cortes celestiais sabiam que
feita e que para o bem do Universo tudo havia sido feito sob a instiga-
era necessário que fosse mudada. ção de Satanás. Todos observavam a
Ao atacar a lei, seu objetivo era abo- batalha entre a luz e as trevas, cada
lir a autoridade de Deus, seu Autor. vez mais violenta. Quando Cristo
Quando Satanás venceu Adão e clamou sobre a cruz: “Está con-
Eva, ele pensou que tinha adquirido sumado!” (Jo 19:30), um grito de
O Plano Revelado 37
triunfo ressoou por todos os mun- então a agonia e a morte do amado
dos e pelo próprio Céu. A grande ba- Filho de Deus teriam sido suporta-
talha estava decidida, e Cristo era das apenas para dar a Satanás exa-
vencedor. Sua morte respondeu à tamente o que ele queria; então o
pergunta se o Pai e o Filho tinham príncipe do mal teria triunfado e
ou não amor suficiente pela huma- suas acusações contra o governo
nidade para exercerem a abnegação divino seriam mantidas. O próprio
e o espírito de sacrifício. Satanás re- fato de Cristo ter suportado o cas-
velou seu verdadeiro caráter como tigo pela desobediência humana é
mentiroso e assassino. A uma só voz, um poderoso argumento de que a lei
o Universo fiel se uniu em reconheci- é imutável; que Deus é justo, miseri-
mento à administração divina. cordioso e abnegado; e que a justiça
Se a lei de Deus tivesse sido abo- e a misericórdia infinitas se unem
lida na cruz, como muitos alegam, na administração de Seu governo.
5
*
O Primeiro Assassino
C aim e Abel, os filhos de
Adão, possuíam um cará-
ter totalmente diferente. Abel via
Eles deveriam demonstrar sua fé no
sangue de Cristo, como a expiação
prometida, oferecendo o primogê-
justiça e misericórdia na maneira nito do rebanho em sacrifício.
como o Criador tratava com a raça Os dois irmãos construíram
caída e aceitava agradecido a espe- seus altares de modo semelhante,
rança da redenção. Caim, porém, per- e cada um trouxe uma oferta.
mitiu que sua mente vagueasse pelo Abel apresentou um sacrifício es-
mesmo caminho que levou Lúcifer à colhendo sua oferta no rebanho.
queda – questionar a justiça e a au- “O Senhor aceitou com agrado Abel
toridade divinas. e sua oferta” (Gn 4:4). Desceu fogo
Esses irmãos foram provados do Céu e consumiu o sacrifício. Mas
para saber se creriam e obedeceriam Caim, desrespeitando a ordem di-
às ordens de Deus. Compreendiam reta do Senhor, apresentou apenas
o sistema de ofertas ordenado por uma oferta dos frutos da terra. Não
Deus. Estavam cientes de que de- houve sinal algum do Céu para mos-
viam expressar sua fé no Salvador, trar que ela havia sido aceita. Abel
a quem as ofertas representavam, e implorou ao irmão que se aproxi-
ao mesmo tempo reconhecer a total masse de Deus de acordo com a
dependência dEle para o perdão. ordem divina, mas seus apelos tor-
Sem derramamento de sangue não naram Caim ainda mais determi-
poderia haver remissão de pecado. nado a seguir a própria vontade.
* Este capítulo é baseado em Gênesis 4:1-15.
O Primeiro Assassino 39
Por ser mais velho, desprezou o con-
(Hb 11:4). Abel viu a si mesmo como
selho de seu irmão. um pecador e enxergou tanto o pe-
Caim se apresentou diante de cado como sua penalidade – a morte
Deus com ressentimento em seu – separando-o de Deus. Ele trouxe
coração. Sua oferta não expressava o cordeiro imolado, reconhecendo
nenhuma tristeza pelo pecado, pois assim as reivindicações da lei que foi
seria um reconhecimento de fra- transgredida. Por meio do sangue der-
queza da sua parte seguir exata- ramado, ele olhou para Cristo mor-
mente o plano indicado por Deus, rendo na cruz. Confiando na expiação
confiando sua salvação completa- que ali seria feita, ele teve a certeza
mente à expiação que seria feita por
de que estava justificado e de que o
um Salvador prometido. Iria se apre-
Criador havia aceitado sua oferta.
sentar diante dEle com os méritos Caim teve a mesma oportu-
de si mesmo. Não levaria o cordeironidade de aceitar essas verdades.
nem misturaria seu sangue com a Deus não escolheu um irmão para
oferta, mas apresentaria seus frutos,
ser aceito e outro rejeitado. Abel es-
produtos do seu trabalho, como um colheu a fé e a obediência; Caim, a
favor feito a Deus. Caim obedeceu ao
incredulidade e a desobediência.
construir o altar, obedeceu ao levar Caim e Abel representam as
um sacrifício, mas prestou apenas duas classes que existirão até o fim
uma obediência parcial. A essência da história da Terra. Uma se bene-
– o reconhecimento da necessidade ficia do sacrifício que foi estabele-
de um Redentor – foi excluída. cido para a salvação do pecador;
Tanto Caim como Abel eram pe- a outra confia nos próprios méri-
cadores e ambos reconheceram a tos. Aqueles que não sentem a ne-
supremacia de Deus quanto à reve- cessidade do sangue de Cristo, que
rência e a adoração. Externamente, se sentem seguros da aprovação de
a aparência de sua religião era a Deus por suas obras, estão come-
mesma até certo ponto; mas, a não tendo o mesmo erro de Caim.
ser por isso, a diferença era grande. Quase toda religião falsa está
baseada no mesmo princípio – o
Diferença entre Caim e Abel homem pode confiar nos próprios es-
“Pela fé Abel ofereceu a Deus forços para obter a salvação. Alguns
um sacrifício superior ao de Caim” alegam que a raça humana pode não
40 Os Escolhidos
apenas se aperfeiçoar, mas se ele- porque Deus não aceitou sua oferta
var e se regenerar por si mesma. Da substituta em lugar do sacrifício por
mesma forma que Caim julgava estar Ele ordenado e também se enfure-
seguro do favor divino, apresen- ceu contra seu irmão, que preferiu
tando uma oferta em que faltava o obedecer a Deus em vez de se unir
sangue do sacrifício, assim também em rebelião contra Ele.
fazem aqueles que esperam elevar a Deus não deixou Caim entregue
humanidade ao padrão divino, inde- a si mesmo, mas Se dispôs a conver-
pendentemente da expiação feita por sar com ele, que se mostrou tão in-
Jesus. A história de Caim nos mostra sensato. “Por que você está furioso?
que a humanidade não tem a tendên- Por que se transtornou o seu rosto?
cia de olhar para cima, para o que é Se você fizer o bem, não será aceito?
divino, mas para as coisas de baixo, Mas se não o fizer, saiba que o pe-
que são satânicas. Cristo é a nossa cado o ameaça à porta” (Gn 4:6, 7).
única esperança (ver Atos 4:12). Se ele confiasse nos méritos do Sal-
A fé verdadeira será revelada por vador prometido e obedecesse às
meio da obediência a todos os man- ordens de Deus, desfrutaria o favor
damentos de Deus. Desde os dias de de Deus.Por outro lado, se ele per-
Adão até o presente, o grande conflito sistisse na descrença e no pecado,
tem sido com relação à obediência à não teria razão para se queixar por
lei de Deus. Em todas as épocas exis- ter sido rejeitado pelo Senhor.
tiram aqueles que se achavam no di- Em vez de reconhecer seu pe-
reito de obter o favor de Deus mesmo cado, Caim continuou a reclamar da
quando deixavam de obedecer a al- injustiça de Deus e a nutrir inveja
gumas de Suas ordens. Entretanto, e rancor contra Abel. Com mansi-
foi pelas obras que “a fé foi aperfei- dão, embora de maneira firme, Abel
çoada” e, sem as obras de obediên- defendeu a justiça e a bondade de
cia, a fé “está morta” (Tg 2:22, 17). Deus. Ele mostrou o erro de Caim e
Aquele que professa conhecer a Deus tentou convencê-lo de que a falha es-
“mas não obedece aos Seus manda- tava nele mesmo. Enfatizou a com-
mentos, é mentiroso, e a verdade não paixão de Deus ao poupar a vida de
está nele” (1Jo 2:4). seus pais quando Ele poderia tê-los
Quando Caim viu que sua oferta punido com a morte instantâ-
havia sido rejeitada, ficou irado nea. Insistiu, dizendo que Deus os
O Primeiro Assassino 41
amava; senão, não teria dado Seu Caim, o assassino, logo foi cha-
Filho, inocente e santo, para sofrer mado para responder por seu crime.
a pena que eles teriam que pagar. “Então o Senhor perguntou a Caim:
Tudo isso fez com que Caim ficasse ‘Onde está seu irmão Abel?’ Res-
ainda mais irado. A razão e a cons- pondeu ele: ‘Não sei; sou eu o res-
ciência lhe diziam que Abel estava ponsável por meu irmão?’” (Gn 4:9).
certo, mas ele estava irado por não Ele recorreu à falsidade para escon-
ter sido compreendido em sua rebe- der sua culpa.
lião. Furioso, ele matou seu irmão.
Assim, em todas as épocas, os A Sentença de Caim
ímpios odiaram aqueles que eram Novamente o Senhor pergun-
melhores do que eles. “Quem pra- tou a Caim: “O que foi que você
tica o mal odeia a luz e não se apro- fez? Escute! Da terra o sangue do
xima da luz, temendo que as suas seu irmão está clamando” (Gn 4:10).
obras sejam manifestas” (Jo 3:20). Caim teve tempo suficiente para re-
O assassinato de Abel foi o pri- fletir. Ele compreendia quão horrí-
meiro exemplo da inimizade entre vel era a natureza do ato que havia
a serpente e a semente da mulher – praticado e a mentira que havia pro-
entre Satanás e Cristo, cada qual com ferido para tentar ocultá-lo; mas ele
seus seguidores. Sempre que, pela fé ainda continuou sendo rebelde, e a
no Cordeiro de Deus, uma pessoa se sentença não mais foi adiada. A voz
recusa a atender ao pecado, Satanás divina pronunciou as terríveis pa-
fica irado. A vida santa de Abel foi lavras: “Agora amaldiçoado é você
um testemunho contra a alegação de pela terra, que abriu a boca para re-
Satanás de que guardar a lei de Deus ceber da sua mão o sangue do seu
é impossível para os seres humanos. irmão. Quando você cultivar a terra,
Quando Caim viu que não podia do- esta não lhe dará mais da sua força.
minar Abel, ficou tão irado que des- Você será um fugitivo errante pelo
truiu a vida do irmão. Onde quer que mundo” (Gn 4:11, 12).
alguém se coloque em defesa da lei Por causa de Sua misericórdia,
de Deus, o mesmo espírito será ma- Deus ainda poupou a vida de Caim
nifestado. Apesar disso, todo mártir e lhe deu a oportunidade de arre-
que morreu por Jesus morreu como pendimento. Mesmo assim, Caim
um vencedor (ver Ap 12:9, 11). viveu somente para endurecer cada
42 Os Escolhidos
vez mais o coração, para estimular natureza dessa rebelião para todo o
a rebelião contra a autoridade di- Universo, reafirmando amplamente
vina e para se tornar o chefe de a Sua sabedoria e justiça na maneira
toda uma linhagem de pecadores de lidar com o mal.
obstinados. Sua influência exerceu Os habitantes de outros mun-
uma força desmoralizadora até que dos observavam com profundo in-
toda a Terra se tornou tão corrupta teresse a condição existente na Terra
e cheia de violência que foi preciso antes do dilúvio. Eles viram os re-
ser destruída. sultados da forma de governo que
A negra história de Caim e de Lúcifer tinha tentado estabelecer
seus descendentes foi um exem- no Céu, colocando de lado a lei de
plo de qual teria sido o resultado Deus. Os pensamentos do coração
de permitir que o pecador vivesse humano eram somente maus, conti-
para sempre a fim de continuar em nuamente (ver Gn 6:5), e em conflito
sua rebelião contra Deus. A paciên- com os princípios divinos da pureza,
cia de Deus não convenceu o ímpio da paz e do amor. Esse foi um exem-
a deixar de ser ousado e desafiador. plo da terrível depravação resultante
Quinze séculos após ter sido pro- da astúcia de Satanás.
nunciada a sentença sobre Caim, o Pelos fatos revelados no desen-
crime e a corrupção inundaram a rolar do grande conflito, Deus tem
Terra. Estava claro que a sentença de a simpatia de todo o Universo, en-
morte sobre a raça caída era não ape- quanto, passo a passo, o Seu grande
nas justa, mas um ato de misericór- plano avança para o cumprimento
dia. Quanto mais tempo os homens final na completa destruição da re-
viviam em pecado, mais degradados belião. Ficará constatado que todos
e imprudentes se tornavam. aqueles que rejeitaram os preceitos
Satanás está em constante ativi- divinos estavam do lado de Satanás
dade para deturpar o caráter e o go- na luta contra Cristo. Quando o
verno de Deus a fim de manter os príncipe deste mundo for julgado
habitantes do mundo sob seus enga- e todos os que se uniram a ele par-
nos. Deus vê o fim desde o princípio. ticiparem de sua sorte, o Universo
Seus planos foram abrangentes e de inteiro exclamará: “Justos e verda-
longo alcance, não somente para pôr deiros são os Teus caminhos, ó Rei
um fim à rebelião, mas demonstrar a das nações!” (Ap 15:3).
6
*
Homens Fiéis a Deus
A dão teve outro filho que
seria o herdeiro da pri-
mogenitura espiritual. O nome Sete,
“Também a Sete nasceu um
filho, a quem deu o nome de Enos.
Nessa época começou-se a invocar
dado a esse filho, significava “desig- o nome do Senhor” (Gn 4:26). A dis-
nado” ou “compensação”; a mãe es- tinção entre as duas classes se tor-
colheu esse nome porque, segundo nou mais evidente – por parte de
ela mesma: “Deus me concedeu um uma havia uma grande profissão de
filho no lugar de Abel, visto que fidelidade a Deus, por parte de outra
Caim o matou’” (Gn 4:25). Sete era havia desprezo e desobediência.
muito mais parecido com Adão do Antes da queda, nossos pri-
que os outros filhos, tinha um cará- meiros pais guardaram o sábado
ter digno e seguia os passos de Abel. que foi instituído no Éden e, de-
Mesmo assim, não herdou mais bon- pois de serem expulsos do Paraíso,
dade natural do que Caim. Sete, eles continuaram a observá-lo.
assim como Caim, herdou a natu- Compreenderam que todos, mais
reza caída de seus pais. No entanto, cedo ou mais tarde, vão entender não
ele recebeu também o conhecimento só que as leis divinas são sagradas
do Redentor e instrução na justiça. e imutáveis, mas que a penalidade
Ele trabalhou como Abel teria traba- para a transgressão certamente se
lhado, caso estivesse vivo, para que seguirá. O sábado foi honrado por
a mente dos pecadores voltasse a re- todos aqueles que permaneceram
verenciar e obedecer ao seu Criador. fiéis a Deus. Entretanto, Caim e seus
* Este capítulo é baseado em Gênesis 4:25-6:2.
44 Os Escolhidos
descendentes não respeitaram o dia sua pureza inicial. Depois de algum
em que Deus descansou. tempo, começaram a se misturar
Caim fundou então uma cidade com os habitantes dos vales. “Os fi-
e deu a ela o nome de seu filho lhos de Deus viram que as filhas dos
mais velho. Ele saiu da presença do homens eram bonitas” (Gn 6:2). Os fi-
Senhor para ir em busca de rique- lhos de Sete desagradaram ao Senhor
zas e prazeres na Terra, tornando- quando eles se casaram com elas.
se o líder daquela grande classe de Muitos adoradores de Deus foram
pessoas que adoravam o deus deste atraídos pelas seduções que estavam
mundo. No que diz respeito aos constantemente diante deles e perde-
meros progressos materiais e ter- ram a santidade de seu caráter. Ao se
restres, os seus descendentes se des- misturarem com a raça corrompida,
tacaram bastante. Entretanto, eram tornaram-se como eles. As restrições
contrários aos propósitos de Deus ao sétimo mandamento deixaram
para a raça humana. Ao assassinato, de ser obedecidas, “e eles escolheram
Lameque, o quinto na descendên- para si aquelas que lhes agradaram”
cia de Caim, acrescentou a poliga- (Gn 6:2). Os filhos de Sete “seguiram
mia. Abel tinha levado uma vida de o caminho de Caim” (Jd 11). Eles não
pastor de ovelhas, e os descenden- apenas mantiveram a mente fixa na
tes de Sete seguiram o mesmo cami- prosperidade e nas alegrias munda-
nho, considerando-se “estrangeiros nas, mas também desprezaram os
e peregrinos na Terra”, em busca de mandamentos do Senhor. O pecado
uma “pátria melhor, isto é, a pátria se espalhou amplamente na Terra.
celestial” (Hb 11:13, 16).
Por algum tempo, as duas classes A Longa Vida de Adão
permaneceram separadas. A descen- Durante quase mil anos, Adão
dência de Caim se espalhou a partir procurou impedir a propagação do
do lugar em que primeiramente se mal. Ele recebeu ordens para instruir
estabeleceu, dispersando-se depois seus descendentes nos caminhos do
pelos vales e planícies onde os filhos Senhor e guardou como um tesouro
de Sete habitavam. Para fugirem de o que Deus lhe havia revelado, repe-
sua influência contaminadora, eles tindo esses ensinos às gerações que
se retiraram para as montanhas, e o sucederam. Por nove gerações, ele
lá mantiveram o culto a Deus em descreveu a santa e feliz condição
Homens Fiéis a Deus 45
em que vivia no Paraíso, repetindo cedo, e aqueles que viviam no temor
a história da sua queda. Contou a de Deus continuavam a crescer em
eles a respeito dos sofrimentos pelos conhecimento e sabedoria por toda a
quais Deus havia lhe ensinado a ne- vida. Comparados a eles, os famosos
cessidade da estrita lealdade à Sua intelectuais de nosso tempo parece-
lei e explicou a respeito das miseri- riam muitas vezes inferiores, tanto
cordiosas provisões feitas para a sua em força física como mental. À me-
salvação. Entretanto, ele tinha que dida que ia diminuindo tanto a ex-
enfrentar frequentemente amargas pectativa de vida das pessoas quanto
reprovações pelo pecado que havia a sua força física, também era redu-
trazido tamanha desgraça sobre zida a sua capacidade mental.
seus descendentes. É verdade que as pessoas hoje
Quando deixou o Éden, o pensa- desfrutam os benefícios daquilo
mento de que deveria morrer fazia que outros que viveram antes delas
com que Adão estremecesse de hor- realizaram. Mentes superdotadas
ror. Cheio de remorso por seu pe- deixaram suas obras para aqueles
cado e lamentando a dupla perda que viriam depois. As vantagens das
pela morte de Abel e a rejeição de pessoas daquele tempo eram muito
Caim, Adão foi dominado pelo peso maiores. Por centenas de anos, ti-
da angústia. Embora a sentença de veram entre eles aquele que foi for-
morte tenha parecido terrível no iní- mado à imagem de Deus. Adão havia
cio, ao contemplar os resultados do aprendido do próprio Criador a his-
pecado por quase mil anos, naquele tória da criação; ele mesmo havia
momento, ele entendeu que era um testemunhado os acontecimentos
ato de misericórdia de Deus pôr fim a ocorridos por mais de nove séculos.
uma vida de sofrimento e de tristeza. Os antediluvianos eram donos de
Os anos que antecederam o di- uma memória poderosa para reter o
lúvio não foram, como muitos ima- que era comunicado a eles e depois
ginavam, uma era de ignorância e transmitir isso de forma intacta aos
de selvageria. As pessoas não ape- seus descendentes. Por centenas de
nas eram dotadas de grande força anos, existiram sete gerações vi-
física e mental, mas tinham vanta- vendo na terra ao mesmo tempo,
gens incomparáveis. Suas faculda- aproveitando entre si o conheci-
des mentais se desenvolviam muito mento e a experiência de todas elas.
46 Os Escolhidos
Longe de ser uma era de trevas O Primeiro Homem
religiosas, foi uma época de grande que Nunca Morreu
luz. Todo o mundo teve a oportuni- Enoque viveu 65 anos e gerou
dade de receber a instrução de Adão. um filho. Depois disso, andou com
Aqueles que temiam ao Senhor ti- Deus por trezentos anos. Ele era um
nham não só a Cristo, mas tam- dos que preservavam a verdadeira
bém os anjos como seus instrutores. fé, os antepassados da Semente
Tiveram uma testemunha silen- prometida. Dos lábios de Adão, ele
ciosa da verdade, o jardim de Deus, aprendeu a respeito da história da
que por muitos séculos permaneceu queda e da graça de Deus, conforme
na Terra. O Éden permanecia bem à revelado na promessa, e confiou na
vista, com sua entrada vedada por vinda do Redentor no futuro.
anjos que a vigiavam. O objetivo do Depois do nascimento de seu
jardim e a história das suas duas primeiro filho, Enoque alcançou
árvores eram fatos indiscutíveis. uma experiência mais elevada.
A existência e suprema autoridade Quando viu o amor do filho por
de Deus eram verdades que as pes- seu pai, sua confiança pura em sua
soas demoraram a questionar en- proteção, ao sentir a profunda ter-
quanto Adão estava entre eles. nura de seu coração por aquele pri-
Apesar da iniquidade que pre- meiro filho, ele entendeu uma lição
valecia, uma linhagem de homens preciosa sobre o maravilhoso amor
santos, seguidores de Deus, viviam de Deus no dom de Seu Filho. O in-
como que na companhia do Céu – finito amor de Deus demonstrado
pessoas com inteligência excepcio- em Cristo acabou se tornando o
nal e talentos maravilhosos. Eles tema de suas meditações, de dia e
tinham uma sagrada missão – de- de noite. Enoque procurou revelar
senvolver um caráter de justiça para esse amor ao povo ao seu redor.
ensinar a lição da santidade, tanto Para ele, andar com Deus não
às pessoas de seu tempo, quanto às era uma forma de arrebatamento
futuras gerações. Apenas poucos ou visão, mas ocorria em todas as
são mencionados na Bíblia, mas atividades da vida diária. Como es-
em todas as épocas Deus teve tes- poso e pai, amigo, cidadão, ele de-
temunhas fiéis, adoradores de cora- monstrava ser um servo inabalável
ção sincero. do Senhor.
Homens Fiéis a Deus 47
Seu coração estava em harmonia de Cristo e de Sua vinda em glória,
com a vontade de Deus; pois “duas acompanhado de todos os santos
pessoas andarão juntas se não es- anjos. Viu também o estado de cor-
tiverem de acordo?” (Am 3:3). Con- rupção do mundo quando Cristo
tinuou a andar de maneira santa viesse pela segunda vez – que ha-
por mais trezentos anos. Sua fé veria uma geração orgulhosa, pre-
se tornava cada vez mais forte, e potente, voluntariosa, que pisava a
maior era o seu amor, com o passar lei e desprezava a obra expiatória.
dos séculos. Ele viu os justos coroados de glória
Enoque era um homem de grande e honra e os ímpios sendo destruí-
conhecimento, honrado com as re- dos pelo fogo.
velações especiais vindas de Deus. Enoque se tornou um pregador
Apesar disso, foi um dos homens da justiça e transmitia as mensa-
mais humildes. Assim ele perma- gens enviadas por Deus a todos os
necia diante do Senhor. Para ele, a que as desejassem ouvir. Na terra
oração era tão importante quanto em que Caim procurou fugir da
a respiração; ele vivia na própria at- presença divina, o profeta relatava
mosfera do Céu. maravilhosas cenas que lhe foram
Por meio dos santos anjos, Deus mostradas em visão. “Vejam”, dizia
revelou a Enoque não apenas o Seu ele, “o Senhor vem com milhares de
propósito de destruir o mundo por milhares de Seus santos, para julgar
um dilúvio, mas também o plano da a todos e convencer todos os ímpios
redenção de uma forma mais ampla, a respeito de todos os atos de impie-
mostrando a ele os grandes acon- dade” (Jd 14, 15).
tecimentos relacionados à segunda Enquanto ele pregava o amor de
vinda de Cristo e ao fim do mundo. Deus em Cristo, reprovava os peca-
Ele não conseguia entender a dos que prevaleciam e advertia que
questão dos mortos. Ele achava o juízo certamente viria sobre o
que tanto os justos como os ímpios transgressor. Não são somente coi-
voltariam ao pó da mesma forma e sas agradáveis que são faladas por
que esse seria o seu fim. Não con- homens santos. Deus coloca nos lá-
seguia ver a vida do justo além do bios de Seus mensageiros verda-
túmulo. Em visão profética, Enoque des que são penetrantes e incisivas
foi instruído a respeito da morte como uma espada de dois gumes.
48 Os Escolhidos
Alguns davam ouvidos às men- Trasladado para o Céu
sagens de advertência, mas as mul- As pessoas daquela geração zom-
tidões seguiam mais ousadamente bavam de Enoque porque ele não
em seus maus caminhos. Assim procurava juntar riquezas neste
também, a última geração zombará mundo. O coração dele estava nos
das advertências dos mensageiros tesouros eternos. Ele viu o Rei em
do Senhor. Sua glória no meio da cidade de Sião.
Em meio a uma vida de muito Tanto a mente quanto o coração e
trabalho, Enoque manteve firme- o estilo de vida de Enoque estavam
mente sua comunhão com Deus. nas coisas celestiais. Quanto maior
Após permanecer por algum tempo era a iniquidade existente, maior era
entre o povo, ele se retirava para ficar o seu anseio pelo lar celestial.
a sós, para saciar a sede e a fome que Por trezentos anos, Enoque
tinha do conhecimento divino. Por andou com Deus. Dia a dia, alme-
viver em constante comunhão com java uma união mais íntima; cada
Deus, Enoque refletia mais e mais a vez mais próximo ficava o seu rela-
imagem divina. Seu rosto brilhava cionamento até que Deus o tomou
com a luz que resplandece no sem- para Si. Depois de andar tanto
blante de Jesus. tempo com Deus na Terra, ele con-
Ao se passarem os anos, a maré da tinuou essa caminhada e passou
transgressão humana avançava cada pelos portais da Cidade Santa –
vez mais, e mais negras se tornavam o primeiro entre os habitantes da
as nuvens do juízo divino. Mesmo Terra a entrar lá.
assim, Enoque continuava em seu ca- Sua falta foi sentida na Terra.
minho, advertindo, apelando, supli- Alguns, tanto justos como ím-
cando e se esforçando para que essa pios, testemunharam sua partida.
tendência regredisse. Embora seus Aqueles que o amavam, procuraram
apelos fossem ignorados por aquele muito por ele, mas sem resultado.
povo pecador e amante dos prazeres, Para eles, Enoque não “foi encon-
Enoque tinha a certeza da aprovação trado” porque Deus o tinha levado.
de Deus. Continuou a lutar contra Pela trasladação de Enoque, o
o mal até que Deus o retirou deste Senhor desejava ensinar uma im-
mundo de pecado e o levou para as portante lição. Havia o perigo de ho-
puras alegrias do Céu. mens e mulheres se desanimarem
Homens Fiéis a Deus 49
por causa dos terríveis resultados de modo que não experimentou a
do pecado de Adão. Muitos estavam morte; […] pois, antes de ser arre-
prontos a clamar: “O que ganhamos batado recebeu testemunho de que
por termos temido ao Senhor e ob- tinha agradado a Deus” (Hb 11:5).
servado as Suas leis, sendo que uma O caráter piedoso desse profeta
pesada maldição recaiu sobre a raça representa o estado de santidade
humana, e a morte será o fim de que deve ser alcançado por aque-
todos nós?” Satanás estava estimu- les que serão “comprados da Terra”
lando a crença de que não há recom- (Ap 14:3) por ocasião da segunda
pensa para os justos nem punição vinda de Cristo. O pecado vai pre-
para os ímpios e que era impossí- valecer, assim como aconteceu no
vel para os seres humanos obede- mundo antes do dilúvio, Muitos
cer aos preceitos divinos. No caso vão se rebelar contra a autoridade
de Enoque, Deus queria mostrar o do Céu. Como Enoque, o povo de
que Ele sempre vai fazer pelos que Deus buscará a pureza de coração,
guardam os Seus mandamentos. As vivendo de acordo com a Sua von-
pessoas eram ensinadas que é possí- tade até que esses justos reflitam
vel obedecer à lei de Deus, que eram a semelhança com Cristo. Vão ad-
capazes de, por Sua graça, resistir vertir o mundo quanto à segunda
à tentação e se tornarem puros e vinda do Senhor e, por seu exem-
santos. A trasladação de Enoque plo de santidade, condenarão os pe-
foi uma prova da veracidade de cados dos infiéis. Da mesma forma
sua profecia a respeito do futuro, como Enoque foi trasladado para
com sua recompensa de vida imor- o Céu, os justos vivos serão tras-
tal para os que forem obedientes e ladados antes da destruição da
de condenação para o transgressor. Terra pelo fogo (ver 1Co 15:51, 52;
“Pela fé Enoque foi arrebatado, 1Ts 4:16-18).
7
*
Destruído pela Água
N os dias de Noé, uma
dupla maldição repou-
sava sobre a Terra, como resultado
sabedoria, hábeis em imaginar as
obras mais engenhosas e extraordi-
nárias; porém, permitiram que sua
do pecado de Adão e do assassinato vida de pecado não tivesse limites.
cometido por Caim. Ainda assim, a Deus havia concedido dons es-
Terra era bela. As colinas eram co- peciais a esses antediluvianos, mas
roadas com árvores majestosas; as eles usaram Sua generosidade para a
planícies exalavam a doce fragrân- exaltação própria, transformando-
cia de milhares de flores. Os frutos os em maldição ao colocarem suas
da Terra eram de uma imensa va- afeições nos dons e não no Doador.
riedade, quase sem limite. As ár- Procuravam se superar uns aos ou-
vores ultrapassavam em tamanho tros na ornamentação e decoração
e perfeita proporção a qualquer de suas moradas com a mais habi-
uma que hoje exista. Sua madeira lidosa mão de obra. Deleitavam-se
era nobre, tão dura quanto pedra, e em cenas de prazer e perversidade.
quase com a mesma durabilidade. Não desejavam conhecer nada mais
O ouro, a prata e as pedras precio- a respeito de Deus e logo passaram a
sas existiam em abundância. negar Sua existência. Glorificavam
A raça humana ainda conser- o gênio humano, adoravam as obras
vava grande parte do vigor que das próprias mãos e ensinavam os
tinha no princípio. Havia mui- filhos a se curvarem diante das ima-
tos gigantes, reconhecidos por sua gens de escultura criadas por eles.
* Este capítulo é baseado em Gênesis 6 e 7.
Destruído pela Água 51
O salmista descreve os efeitos Como resultado, o crime e o sofri-
produzidos no adorador por prestar mento aumentaram rapidamente.
culto aos ídolos: “Tornem-se como Nem o casamento nem os direitos
eles aqueles que os fazem e todos de propriedade eram respeitados.
os que neles confiam” (Sl 115:8). Os homens se divertiam com a vio-
É uma lei do espírito humano que lência. Sentiam prazer em destruir
pela contemplação somos transfor- os animais. O uso da carne como ali-
mados. Se a mente nunca se eleva mento fazia com que eles se tornas-
acima do nível da humanidade, se sem ainda mais sedentos de sangue.
não é levada a contemplar a sabedo- Assim, acabaram desprezando total-
ria e o amor infinitos, o ser humano mente até mesmo a vida humana.
decairá constantemente, e cada vez O mundo estava em sua infância,
mais e mais baixo. “O Senhor viu mas a maldade havia se espalhado
que a perversidade do homem tinha tanto que Deus disse: “Farei desa-
aumentado na Terra e que toda a in- parecer da face da Terra o homem
clinação dos pensamentos do seu que criei” (Gn 6:7). Ele declarou que
coração era sempre e somente para Seu Espírito não ficaria brigando
o mal. […] Ora, a Terra estava cor- para sempre com a raça culpada. Se
rompida aos olhos de Deus e cheia não parassem de pecar, Ele os elimi-
de violência” (Gn 6:5, 11). Sua lei era naria da Sua criação; destruiria os
transgredida, e o resultado foi a prá- animais e a vegetação que fornecia
tica de todo pecado que se podia abundante provisão de alimento, e
imaginar. A justiça foi lançada ao transformaria a linda Terra em um
pó e os clamores dos oprimidos al- vasto cenário de destruição.
cançaram o Céu.
Um Barco Preserva a Vida
Indiferença para com Cento e vinte anos antes do di-
a Vida Humana lúvio, o Senhor revelou a Noé o Seu
A poligamia começou a ser prati- plano e orientou-o a construir uma
cada logo no início, embora fosse con- arca. Noé precisava contar a todos
trária ao plano de Deus. Apesar de que Deus iria trazer um dilúvio de
Deus ter dado uma só esposa a Adão, águas sobre a Terra. Aqueles que acre-
as pessoas decidiram seguir seus de- ditassem na mensagem e se prepa-
sejos pecaminosos após a queda. rassem, por meio do arrependimento
52 Os Escolhidos
e reforma de sua vida, receberiam o “Pela fé Noé, quando avisado a
perdão e seriam salvos. Matusalém e respeito de coisas que ainda não se
seus filhos, que viveram para ouvir a viam, movido por santo temor, cons-
pregação de Noé, ajudaram na cons- truiu uma arca para salvar sua famí-
trução da arca. lia. Por meio da fé ele condenou o
Deus deu a Noé as dimensões mundo e tornou-se herdeiro da jus-
exatas da arca e o instruiu sobre tiça que é segundo a fé” (Hb 11:7).
como construí-la. A sabedoria hu- Enquanto Noé pregava a mensa-
mana não poderia ter idealizado gem de advertência, sua fé era aper-
uma estrutura tão resistente e du- feiçoada e se tornou evidente, um
rável. Deus foi o Arquiteto e Noé exemplo daquele que crê exata-
o construtor-mestre. A arca tinha mente no que Deus diz. Tudo o que
três andares de altura com ape- ele tinha foi empregado na arca.
nas uma porta em um dos lados. Ao começar a construir aquele
A entrada de luz era por cima, e imenso barco, multidões vinham de
os diversos compartimentos esta- todas as direções para ver a estranha
vam dispostos de tal maneira que cena e ouvir as fervorosas palavras
todos eram iluminados. O mate- do pregador.
rial empregado era a madeira de No início, muitos apareciam
cipreste de Gofer, resistente ao apo- para ouvir a mensagem que estava
drecimento por centenas de anos. sendo pregada; porém, não se vol-
A construção dessa imensa estru- taram para Deus em verdadeiro
tura foi um processo bastante lento. arrependimento. Vencidos pela in-
Por causa do tamanho das árvores credulidade que predominava, eles
e da qualidade da madeira, foi exi- se uniram aos seus antigos compa-
gido muito mais trabalho naquela nheiros, rejeitando a mensagem so-
época que nos dias de hoje para pre- lene. Alguns ficaram convencidos e
pará-la. Tudo o que era possível ao teriam atendido ao apelo, mas eram
homem fazer foi feito para a rea- tantos os que zombavam de Noé
lização de um trabalho perfeito. que acabaram entrando no mesmo
Mesmo assim, a arca, por si mesma, espírito, resistiram aos convites de
não era capaz de resistir à tempes- misericórdia e logo se encontraram
tade. Somente Deus poderia preser- entre os mais ousados zombadores.
var Seus servos da fúria das águas. Ninguém vai tão longe no pecado
Destruído pela Água 53
como aqueles que já receberam uma Noé, porém, permanecia como
vez a luz, mas resistiram ao convin- uma rocha em meio à tempestade.
cente Espírito de Deus. A ligação com Deus fez com que ele
Nem todas as pessoas daquela ficasse mais forte ainda na força
geração foram idólatras. Muitos do Poder infinito. Durante cento e
afirmavam ser adoradores de Deus. vinte anos, sua voz solene soou aos
Alegavam que seus ídolos eram re- ouvidos daquela geração, adver-
presentações da Divindade e que, tindo a respeito dos acontecimen-
por meio deles, podiam obter uma tos que, de acordo com a sabedoria
concepção mais clara do Ser divino. humana, eram impossíveis.
Essas pessoas eram as principais a Até então, nunca havia chovido;
rejeitar a pregação de Noé e, final- a terra era regada por uma neblina
mente, declararam que a lei divina ou orvalho. Os rios nunca passavam
não estava mais em vigor, que era dos seus limites e levavam com se-
contrário ao caráter de Deus punir a gurança as suas águas para o mar.
desobediência. Tinham a mente tão Deus fixou leis que impediam as
cegada pela rejeição que realmente águas de transbordar para além de
acreditavam que a mensagem de suas margens (ver Jó 38:11).
Noé não passava de uma ilusão. O tempo foi passando, mas o co-
O mundo tinha se posicionado ração das pessoas, que era muitas
contra a justiça de Deus e Suas leis, vezes tomado pelo medo, começou
e Noé era considerado um fanático. a ficar tranquilo. Eles achavam que
Grandes homens – mundanos, a natureza estava acima do Deus da
honrados e também os sábios – di- natureza. Se a mensagem de Noé es-
ziam: “As ameaças de Deus são ape- tivesse correta, a natureza teria que
nas para nos intimidar e nunca vão se desviar de seu curso. Mostraram
se cumprir. A destruição do mundo desprezo pelos avisos de Deus ao
e a punição dos seres que Ele criou continuar fazendo tudo o que fa-
nunca vão acontecer pelas mãos do ziam antes de receberem as adver-
Criador. Não tenham medo, Noé é tências. Continuaram com suas
um fanático perturbado.” Eles conti- festas e banquetes de glutonarias.
nuaram em sua desobediência e im- Comiam e bebiam, plantavam e
piedade, como se Deus não tivesse construíam, fazendo planos para o
falado por meio de Seu servo. futuro. Afirmavam que, se houvesse
54 Os Escolhidos
qualquer verdade no que Noé dizia, arca, você e toda a sua família, por-
pessoas de renome – os sábios, os que você é o único justo que encon-
que eram mais prudentes e os gran- trei nesta geração” (Gn 7:1). A sua
des homens – estariam a par do que influência e exemplo resultaram em
estava acontecendo. bênçãos. Deus salvou com ele todos
O tempo de graça estava para os membros de sua família.
terminar. A arca estava concluída,
do jeito que o Senhor tinha deter- Um Anjo Fecha a Porta
minado, e nela foram armazenados Os animais do campo e as aves
alimentos para homens e animais. do céu tinham entrado na arca para
Então o servo de Deus fez seu úl- se refugiarem. Noé e sua família
timo e solene apelo ao povo. Noé estavam dentro da arca, “então o
implorou que buscassem refúgio Senhor fechou a porta” (Gn 7:16).
enquanto ainda havia tempo. Mais A porta era tão pesada que era im-
uma vez, eles rejeitaram suas pala- possível ser fechada pelos que esta-
vras e gritaram em zombaria. vam dentro da arca. Mãos invisíveis
De repente, animais de todas as giraram a porta vagarosamente
espécies foram vistos saindo das para o seu lugar. Noé foi fechado
montanhas e das florestas. Eles ca- lá dentro, e aqueles que rejeitaram
minhavam em silêncio até a arca. a misericórdia de Deus ficaram do
As aves saíram em revoada de todas lado de fora. Assim também será
as direções e, em perfeita ordem, en- fechada a porta da misericórdia
traram na arca. Com Noé, os ani- quando Cristo cessar Sua obra de
mais “entraram na arca” (Gn 7:9) de intercessão em favor dos pecado-
dois em dois, e os animais limpos, res, antes de Sua vinda nas nuvens
sete pares de cada espécie. Filósofos do céu. A partir daí, a graça divina
foram chamados para explicar esse não vai mais conter os ímpios, e
acontecimento tão singular. A raça Satanás terá pleno domínio sobre
condenada procurava banir seus aqueles que rejeitaram a misericór-
crescentes temores com diverti- dia divina. Eles vão tentar destruir
mentos ruidosos, parecendo convi- o povo de Deus; mas, assim como
dar sobre eles o castigo da ira divina Noé foi fechado dentro da arca, os
que já tinha despertado. justos também estarão protegidos
Deus ordenou a Noé: “Entre na pelo poder divino.
Destruído pela Água 55
Depois que Noé e sua família Primeiro as pessoas viram seus
entraram na arca, durante sete dias esplêndidos edifícios e os lindos
não houve sinal algum de que cai- jardins e bosques onde haviam co-
ria uma tempestade. Nesse período, locado seus ídolos serem destruí-
sua fé foi provada. Foi um tempo de dos pelos raios que caíam do céu.
triunfo para o mundo lá fora. As pes- Altares onde haviam sido oferecidos
soas ainda zombavam das manifes- sacrifícios humanos eram derruba-
tações do poder de Deus. Multidões dos e os adoradores estremeciam
se reuniam ao redor da arca. Elas diante do poder do Deus vivo.
se divertiam e debochavam daque- A violência da tempestade foi
les que estavam lá dentro, com uma aumentando cada vez mais. O ter-
coragem e arrogância que jamais ti- ror das pessoas e dos animais era
nham demonstrado antes. indescritível. Acima do rugido da
No oitavo dia, nuvens negras se tormenta, era possível ouvir os la-
espalharam pelo céu. Relâmpagos mentos de homens e mulheres que
riscavam o céu, seguidos do baru- haviam desprezado a autoridade
lho assustador dos trovões. Logo, pe- de Deus. O próprio Satanás, que
sadas gotas de chuva começaram a foi obrigado a permanecer entre
cair. O mundo nunca tinha testemu- os elementos em fúria, temeu por
nhado nada parecido, e o coração das sua vida. Ele pronunciava maldi-
pessoas foi tomado pelo medo. Todos ções contra Deus, acusando-O de
se perguntavam: “Será que Noé es- injustiça. Muitos, como Satanás,
tava certo e o mundo está condenado blasfemavam contra Deus. Outros,
à destruição?” Os animais vaguea- em pânico diante do terror, esten-
vam desesperados, de um lado para dendo as mãos para a arca, implora-
outro, no mais intenso terror. Então vam a Noé para que ele os deixasse
“as fontes das grandes profundezas entrar. Finalmente sua consciência
jorraram, e as comportas do céu se havia sido despertada para enten-
abriram” (Gn 7:11). As nuvens trans- derem que há um Deus que governa
bordavam como se fossem podero- nos Céus.
sas cataratas. Os rios ultrapassaram Chamaram pelo Criador com
seus limites e inundaram os vales. todas as suas forças, mas os ouvi-
Jatos de água irrompiam da terra dos dEle não estavam mais aber-
com força indescritível. tos para ouvir seu clamor. Naquela
56 Os Escolhidos
hora terrível, perceberam que a homens e animais lutando entre si
transgressão da lei de Deus havia por um lugar mais alto, onde pudes-
determinado a ruína deles. Mesmo sem firmar os pés, até serem arras-
assim, não se humilharam, não se tados pelas águas.
entristeceram nem sentiram qual- Dos picos mais altos, pessoas
quer aversão pelo mal. Teriam desa- em desespero olhavam para um
fiado novamente o Céu caso o juízo oceano sem praias. As solenes ad-
tivesse sido removido. vertências do servo de Deus não
Alguns se agarraram à arca até mais pareciam motivo de zomba-
serem levados pelas águas revoltas, ria. Aqueles pecadores condenados
ou o local onde se apoiavam se des- suplicavam por mais uma hora de
prendeu ao colidir com as rochas e graça, mais um apelo que viesse
árvores. A pesada arca estremecia dos lábios de Noé! Era preciso que
em cada fibra ao ser chacoalhada o amor em forma de justiça divina
por fortes ventos. Os gritos dos pusesse um fim ao pecado. Os zom-
animais dentro dela exprimiam o badores de Deus morreram na es-
medo e a dor por que estavam pas- curidão das profundezas.
sando. Mesmo assim, a arca conti-
nuou a flutuar em segurança. Anjos As Condições Antes
foram enviados para guardá-la. do Dilúvio
Alguns pais amarraram seus fi- Os pecados que clamaram por
lhos e a si mesmos em cima de gran- vingança sobre o mundo ante-
des animais, porque sabiam que estes diluviano também existem hoje.
se apegariam ao máximo à vida e su- O temor de Deus foi banido do co-
biriam aos lugares mais altos para es- ração humano. Sua lei é tratada com
capar das águas que subiam mais e indiferença e desprezo. “Pois nos
mais. Outros se amarravam às mais dias anteriores ao dilúvio, o povo
altas árvores no topo das colinas ou vivia comendo e bebendo, casando-
montanhas, mas as árvores eram ar- se e dando-se em casamento, até o
rancadas desde a raiz e arremessa- dia em que Noé entrou na arca; e
das para dentro das ondas. À medida eles nada perceberam, até que veio
que as águas subiam, o povo fugia o dilúvio e os levou a todos. Assim
em busca de refúgio nas montanhas acontecerá na vinda do Filho do
mais altas. A todo momento havia homem” (Mt 24:38, 39). Deus não
Destruído pela Água 57
condenou a geração antediluviana ter se extinguido. Essas atrocidades
por comer e beber. Deu a eles os fru- se tornam tão comuns que quase
tos da terra em grande abundância não provocam surpresa. O ímpeto
para suprir suas necessidades físi- das paixões e da ilegalidade, uma vez
cas. O seu pecado foi usar esses dons fora de controle, vão encher a Terra
sem demonstrar gratidão para com de maldição e desolação. O mundo
o Doador, satisfazendo o apetite antediluviano representa a condi-
sem restrições. Era lícito se casarem. ção para a qual se encaminha rapi-
Ele deu instruções especiais sobre damente a sociedade moderna.
esse relacionamento, revestindo-o Deus enviou Noé para advertir o
de santidade e beleza. No entanto, o mundo a fim de que o povo pudesse
casamento foi pervertido para que ser levado ao arrependimento e es-
servisse às paixões. capasse da ameaça de destruição. Ao
se aproximar o tempo da segunda
Condições Semelhantes Hoje vinda de Cristo, o Senhor enviará
Uma condição semelhante existe Seus servos com uma mensagem de
hoje. O apetite é satisfeito sem restri- advertência ao mundo para que este
ções. Mesmo alguns dos que dizem se prepare para esse grande aconte-
ser seguidores de Cristo estão co- cimento. Multidões vivem transgre-
mendo e bebendo com os ímpios. dindo a lei de Deus, e agora, em Sua
A intemperança amortece as facul- misericórdia, Ele os convida a obe-
dades morais e espirituais, levando decer aos Seus sagrados mandamen-
à satisfação das paixões mais bai- tos. O perdão é oferecido a todos os
xas. Multidões se tornam escravas que abandonarem os seus pecados,
da imoralidade e vivem apenas para por meio do arrependimento e fé em
os prazeres sensuais. A extravagân- Cristo. Muitos, porém, ainda rejei-
cia invade a sociedade. As pessoas tam Suas advertências e negam a au-
sacrificam a integridade pelo luxo e toridade da Sua lei.
ostentação. A fraude, o suborno e o De toda a vasta população exis-
roubo são praticados normalmente tente na Terra antes do dilúvio,
sem serem repreendidos. A mídia apenas oito pessoas creram e obe-
traz relatos de crimes cometidos com deceram à Palavra de Deus dada
tanto sangue-frio que o instinto de por meio de Noé. Assim, antes que
preservação da vida humana parece o Legislador venha para punir os
58 Os Escolhidos
desobedientes, os pecadores serão estímulos sensuais impede que as
aconselhados a se arrepender; mas a pessoas sejam impressionadas com
maioria não dará ouvidos a essas as únicas verdades que podem salvá-
advertências. “Antes de tudo saibam las da destruição vindoura.
que, nos últimos dias, surgirão escar- Nos dias de Noé, os filósofos
necedores zombando e seguindo suas declaravam que era impossível o
próprias paixões. Eles dirão: ‘O que mundo ser destruído pela água. Da
houve com a promessa da Sua vinda? mesma forma, hoje, mentes cientí-
Desde que os antepassados morre- ficas tentam mostrar que o mundo
ram, tudo continua como desde o não pode ser destruído pelo fogo.
princípio da criação’” (2Pe 3:3, 4). Quando todos consideraram a profe-
Jesus fez a significativa per- cia de Noé uma ilusão, havia chegado
gunta: “Quando o Filho do homem o tempo de Deus agir. O Legislador é
vier, encontrará fé na Terra?” maior que as leis da natureza. “Assim
(Lc 18:8). “O Espírito diz claramente como foi nos dias de Noé, […] acon-
que nos últimos tempos alguns tecerá exatamente assim no dia em
abandonarão a fé e seguirão espíri- que o Filho do homem for revelado”
tos enganadores e doutrinas de de- (Lc 17:26, 30). “O dia do Senhor,
mônios” (1Tm 4:1) “Saiba disto: nos porém, virá como ladrão. Os céus
últimos dias sobrevirão tempos ter- desaparecerão com um grande es-
ríveis” (2Tm 3:1). trondo […], e a Terra, e tudo o que
nela há, será desnudada” (2Pe 3:10).
Quando a Porta da Graça Quando os líderes religiosos
Se Fechar apontarem para um futuro de lon-
Quando o tempo para a sua sal- gas eras de paz e prosperidade, e o
vação estava chegando ao fim, os mundo estiver absorvido em plan-
antediluvianos se entregaram às tar e edificar, em banquetes e diver-
festas e aos divertimentos mais em- timentos, rejeitando as advertências
polgantes, preenchendo a vida com de Deus e zombando de Seus men-
alegria e prazer. Em nossos dias, sageiros – então é que “a destruição
o mundo está absorvido na busca virá sobre eles de repente, […] e de
do prazer. Um ciclo constante de modo nenhum escaparão” (1Ts 5:3).
8
*
Um Novo Começo
A s águas ultrapassaram
as montanhas mais
altas. O barco foi lançado de um
o topo das montanhas começou a
aparecer, eles enviaram um corvo
para descobrir se havia terra seca.
lado para outro por cinco longos A ave, não encontrando nada a não
meses. A família que estava na arca ser água, continuou a voar, indo e
pensava que não sobreviveria. Foi voltando para a arca. Sete dias de-
uma prova severa, mas Noé não pois, foi enviada uma pomba. Ela
teve a sua fé abalada. não encontrou onde pousar e retor-
Quando as águas começaram a nou para a arca. Noé esperou mais
baixar, o Senhor fez com que a arca sete dias e soltou a pomba nova-
flutuasse até chegar a um lugar se- mente. Quando ela voltou no fim
guro entre as montanhas que ti- da tarde com uma folha de oliveira
nham sido preservadas por Seu no bico, houve grande alegria. Com
poder. Essas montanhas estavam muita paciência, Noé esperou por
a pouca distância umas das outras, mais sete dias e aguardou por ins-
e a arca flutuou até esse local tran- truções especiais para deixar a arca.
quilo. Isso trouxe grande alívio aos Finalmente um anjo abriu a pe-
viajantes cansados de serem arras- sada porta e disse ao patriarca e sua
tados pela tempestade. família que saíssem para a terra
Noé e sua família esperavam an- firme e levassem com eles todos
siosamente sair e pisar na terra no- os animais. Noé não se esqueceu
vamente. Quarenta dias depois que dAquele que os havia preservado
* Este capítulo é baseado em Gênesis 7:20-9:7.
60 Os Escolhidos
por meio de Seu amorável cuidado. a Terra. […] O Meu arco que colo-
Seu primeiro ato foi construir um quei nas nuvens. Será o sinal da
altar e oferecer sacrifício, expres- Minha aliança com a Terra. Quando
sando assim sua gratidão a Deus Eu trouxer nuvens sobre a Terra e
pelo livramento e sua fé em Cristo, nelas aparecer o arco-íris, então Me
o grande sacrifício. Essa oferta lembrarei da Minha aliança com
foi agradável ao Senhor e trouxe vocês e com os seres vivos de todas
bênçãos não só a Noé e sua famí- as espécies [...] que vivem na Terra”
lia, mas a todos os que vivessem (Gn 9:11-16).
sobre a Terra. “O Senhor […] disse A generosidade de Deus e a Sua
a Si mesmo: ‘Nunca mais amaldi- compaixão para com as Suas cria-
çoarei a terra por causa do homem turas é muito grande! Isso não
[…]. Enquanto durar a terra, plan- quer dizer que Deus jamais Se es-
tio e colheita, frio e calor, verão e in- queceria, mas Ele fala em uma lin-
verno, dia e noite jamais cessarão’” guagem que podemos entender.
(Gn 8:21, 22). Noé saiu para uma Quando os filhos perguntassem o
terra desolada; mas antes de fazer significado do arco que aparece no
uma casa para si mesmo, construiu céu, os pais deveriam repetir a his-
um altar para Deus. Ele tinha muito tória do dilúvio e dizer a eles que
pouco gado; mesmo assim, ofereceu o próprio Deus o colocou nas nu-
alegremente uma parte ao Senhor, vens como uma promessa de que
como reconhecimento de que tudo as águas nunca mais inundariam a
era dEle. Da mesma forma, nós de- Terra novamente. Assim, cada gera-
vemos reconhecer Sua misericórdia ção testificaria do amor divino pela
para conosco, dedicando nossa de- humanidade e a confiança em Deus
voção e ofertas à Sua causa. seria fortalecida.
No Céu, algo parecido com um
Sinal da Bondade de Deus arco-íris circunda o trono de Deus
Para que as pessoas não temes- e forma um arco sobre a cabeça de
sem a vinda de outro dilúvio, o Cristo (Ez 1:28; Ap 4:2, 3). Quando
Senhor fez uma promessa que ani- a grande impiedade do homem atrai
mou a família de Noé: “Estabeleço os juízos divinos, o Salvador inter-
uma aliança com vocês: […] nunca cede junto ao Pai, apontando para o
mais haverá dilúvio para destruir arco nas nuvens, para o arco-íris ao
Um Novo Começo 61
redor do trono, como um sinal de Toda a superfície da Terra foi
Sua misericórdia para com o peca- modificada pelo dilúvio. Em todos
dor arrependido. os lugares havia corpos mortos
“É como os dias de Noé, quando sobre a terra. O Senhor não pode-
jurei que as águas de Noé nunca mais ria permitir que ficassem se decom-
tornariam a cobrir a Terra. De modo pondo e contaminando o ar. Um
que agora jurei não ficar irado con- vento forte, que soprou para fazer
tra você, nem tornar a repreendê- as águas secarem, removeu-os com
la. […] Minha fidelidade para com grande força. Em alguns casos, o
você não será abalada, nem será re- vento carregou até os cumes das
movida a Minha aliança de paz’, montanhas, amontoando árvores,
diz o Senhor, que tem compaixão pedras e terra sobre os corpos mor-
de você” (Is 54:9, 10). tos. Dessa mesma forma, a prata e
Quando Noé viu os poderosos o ouro, madeiras de qualidade e
animais selvagens saindo da arca, pedras preciosas, que tinham en-
ele temeu, mas o Senhor enviou um riquecido o mundo antes do dilú-
anjo com a mensagem para lhe dar vio, ficaram ocultos. A violenta ação
segurança: “Todos os animais da das águas acumulou terra e rochas
Terra tremerão de medo diante de sobre esses tesouros, formando
vocês: os animais selvagens, as aves montanhas sobre eles. Deus viu que
do céu, as criaturas que se movem quanto mais Ele fazia homens peca-
rente ao chão e os peixes do mar; dores prosperarem e enriquecerem,
eles estão entregues em suas mãos. mais eles corrompiam os seus cami-
Tudo o que vive e se move servirá nhos diante dEle.
de alimento para vocês. Assim como As montanhas, que antes eram
lhes dei os vegetais, agora lhes dou tão bonitas, passaram a ser ín-
todas as coisas” (Gn 9:2, 3). gremes e irregulares. Rochas aci-
Antes desse tempo, Deus não dentadas e pontiagudas estavam
havia permitido que o homem co- espalhadas por toda a face da
messe alimentos animais; mas Terra. Onde antes estavam os te-
agora que toda erva verde tinha sido souros mais ricos de ouro, prata e
destruída, ele permitiu que comes- pedras preciosas eram vistas as mar-
sem a carne dos animais limpos que cas mais pesadas da maldição. A de-
haviam sido preservados na arca. vastação atingiu mais levemente os
62 Os Escolhidos
territórios que não eram habitados e toda parte haverá terríveis terremo-
onde o número de crimes era menor. tos e erupções.
Quando Jesus voltar, serão vis- Deus destruirá os ímpios da
tas manifestações mais terríveis Terra. Os justos, porém, serão pre-
ainda e que o mundo jamais viu. servados assim como Noé foi guar-
As montanhas arderão como for- dado na arca. Diz o salmista: “Se
nalha e derramarão correntes de você fizer do Altíssimo o seu abrigo,
lavas ao se unirem os raios do céu do Senhor o seu refúgio, nenhum
com o fogo da Terra, destruindo jar- mal o atingirá” (Sl 91:9, 10; ver tam-
dins e campos, vilas e cidades. Por bém verso 14 e Sl 27:5).
9
O Início da Semana Literal
A ssim como o sábado, a se-
mana teve a sua origem
na criação e foi preservada ao longo
dia, devemos deixar o trabalho de
lado para comemorar o descanso
do Criador.
da história bíblica. O próprio Deus O ensino de que foram neces-
determinou qual seria a extensão sários milhares de anos para que
da primeira semana. Era constituída os acontecimentos da primeira se-
por seis dias literais, de 24 horas. Seis mana da criação passassem a exis-
dias foram empregados na obra da tir é uma prova de incredulidade
criação. No sétimo dia, Deus descan- em sua forma mais falsa e peri-
sou, e então o separou como dia de gosa. Seu verdadeiro caráter está
descanso para o homem. “Lembra-te tão disfarçado que é defendido e en-
do dia do sábado para santificá-lo. […] sinado por muitos que professam
Pois em seis dias o Senhor fez os céus crer na Bíblia. “Mediante a palavra
e a Terra, o mar e tudo o que neles do Senhor foram feitos os céus, e
existe, mas no sétimo dia descansou. os corpos celestes, pelo sopro da
Portanto, o Senhor abençoou o sé- Sua boca” (Sl 33:6). A Bíblia não re-
timo dia e o santificou” (Êx 20:8, 11). conhece que houve longas eras em
Essa parece ser uma boa razão, que a Terra evoluiu lentamente do
e bastante convincente também, caos em que se achava. Para cada dia
quando entendemos os dias da que se sucedeu na criação, o regis-
criação como dias literais. Os pri- tro sagrado declara que consistiu de
meiros seis dias da semana nos são tarde e manhã, como todos os ou-
dados para o trabalho. No sétimo tros dias que se seguiram.
64 Os Escolhidos
Os geólogos alegam ter provas Deus que a descoberta dessas coisas
de que a Terra é muito mais antiga firmasse a fé na história inspirada.
do que a Bíblia ensina. Foram desco- Mesmo assim, muitos hoje, com seus
bertos ossos de homens e animais, falsos raciocínios, caem no mesmo
muito maiores do que qualquer um erro que os povos antediluvianos –
existente hoje; com isso, muitos as coisas que Deus deu a eles como
concluem que a Terra foi povoada benefício, eles transformaram em
durante longas eras antes do tempo maldição ao fazerem mau uso delas.
apresentado no registro da criação. Há um esforço constante para
Esse raciocínio tem levado muitos explicar a criação como sendo re-
que afirmam crer na Bíblia a ado- sultado de causas naturais. Até
tarem a opinião de que os dias da mesmo professos cristãos aceitam
criação foram formados por longos o raciocínio humano contrário aos
e indefinidos períodos de tempo. fatos apresentados nas Escrituras.
No entanto, fora da história bí- Muitos se opõem ao estudo das
blica, a geologia não pode provar profecias, especialmente de Daniel
nada. Vestígios encontrados no e Apocalipse, alegando que não po-
solo dão prova de condições que demos entendê-las. Essas mesmas
diferem do que ocorre no presente pessoas aceitam avidamente as su-
em vários aspectos, mas o tempo em posições apresentadas por geólogos
que essas condições existiram pode que contradizem o relato de Moisés.
ser entendido somente com base no A maneira exata como Deus reali-
Registro Inspirado. Na história do zou a obra da criação, Ele jamais re-
dilúvio, a Inspiração explicou o que velou ao homem; a ciência humana
a geologia por si só jamais consegui- não pode penetrar nos segredos do
ria descobrir. Nos dias de Noé, ho- Altíssimo (ver Dt 29:29).
mens, animais e árvores – muitas Aqueles que abandonam a
vezes maiores do que aquelas que Palavra de Deus e procuram expli-
existem hoje – foram soterrados car as obras por Ele criadas com base
e, assim foram preservados como nos princípios científicos estão na-
prova para as gerações posteriores vegando em um oceano desconhe-
de que os povos que habitavam na cido sem mapa ou bússola. Mesmo
Terra naquela época pereceram por as mentes mais privilegiadas, se não
causa de um dilúvio. Era desígnio de forem guiadas pela Palavra de Deus
O Início da Semana Literal 65
em suas pesquisas, ficam desnortea- Ainda assim, os cientistas pen-
das em suas tentativas para encon- sam que podem compreender a sa-
trar uma relação entre a ciência e bedoria de Deus. A ideia de que Ele
a revelação. Aqueles que duvidam está limitado pelas leis que criou
dos registros do Antigo e do Novo é amplamente divulgada. As pes-
Testamento serão levados a dar um soas ignoram a Sua existência ou
passo a mais e passarão a duvidar da acham que têm explicações para
existência de Deus. Então, ao per- tudo, até mesmo para a atuação do
derem sua âncora, ficarão batendo Seu Espírito no coração humano; e
de um lado para outro nas rochas da não mais reverenciam o Seu nome.
incredulidade e do desespero. Muitos ensinam que a natureza
A Bíblia não deve ser provada por é regida por leis fixas, nas quais o
ideias científicas humanas. Céticos, próprio Deus não pode interferir.
por meio de uma compreensão equi- Essa é uma ciência falsa. A natureza
vocada, tanto da ciência como da é serva do Seu Criador. Deus não
revelação, alegam ter encontrado coloca de lado Suas leis; Ele as usa
contradições entre elas; mas, quando continuamente como Seus instru-
corretamente entendidas, elas estão mentos. Há na natureza uma con-
em perfeita harmonia. Moisés es- tínua atividade do Pai e do Filho.
creveu sob a direção do Espírito de Cristo diz: “Meu Pai continua traba-
Deus, e uma teoria verdadeira rela- lhando até hoje, e Eu também estou
cionada à geologia nunca apresen- trabalhando” (Jo 5:17).
tará descobertas que não estejam Com relação a este mundo, a
em harmonia com suas declarações. obra da criação realizada por Deus
está concluída; pois as Suas obras
Harmonia entre a Verdadeira estavam “concluídas desde a cria-
Ciência e a Bíblia ção do mundo” (Hb 4:3). Sua ener-
Na Palavra de Deus são levanta- gia ainda é exercida ao sustentar os
das muitas questões que eruditos ja- objetos de Sua criação. Cada respi-
mais poderão responder. Há muitas ração, cada pulsação é uma prova
coisas comuns no dia a dia que men- do cuidado universal dAquele em
tes humanas nunca poderão enten- quem nós “vivemos, nos movemos
der de uma forma completa, mesmo e existimos” (At 17:28). A mão de
com toda a sua sabedoria. Deus guia os planetas e os mantém
66 Os Escolhidos
em sua posição. Ele “põe em marcha voa mais e mais alto e explora novas
cada estrela do Seu exército celes- profundezas, mas em suas pesqui-
tial, e a todas chama pelo nome. Tão sas nada traz que entre em conflito
grande é o Seu poder e tão imensa a com a revelação divina. O livro da
Sua força, que nenhuma delas deixa natureza e a Palavra Escrita lançam
de comparecer!” (Is 40:26). Por Seu luz um sobre o outro.
poder, a vegetação floresce, as folhas Podemos continuar sempre bus-
aparecem e as flores desabrocham. cando, sempre aprendendo; mas,
Ele “faz crescer a relva nas colinas” ainda assim haverá o infinito à
(Sl 147:8), e por meio dEle os vales nossa frente. As obras da criação são
se tornam férteis. “Os animais da testemunhas do poder e da gran-
floresta […] buscando de Deus o ali- deza de Deus (ver Sl 19:1). Aqueles
mento” (Sl 104:20, 21), e toda criatura que fazem da Palavra Escrita o seu
vivente, desde o menor inseto até o conselheiro encontrarão na ciên-
homem, todos dependem diaria- cia um ponto de apoio para enten-
mente do Seu cuidado providencial. der Deus. “Pois desde a criação do
Toda verdadeira ciência está em mundo os atributos invisíveis de
harmonia com Suas obras; toda ver- Deus, Seu eterno poder e Sua na-
dadeira educação conduz à obediên- tureza divina, têm sido vistos cla-
cia ao Seu governo. A ciência revela ramente, sendo compreendidos por
novas maravilhas à nossa vista; meio das coisas criadas” (Rm 1:20).
10
*
Línguas Confundidas
P ara repovoar a Terra
que estava desolada,
Deus preservou apenas uma família,
as leis divinas, trouxe a esperança
de um futuro mais promissor aos
seus descendentes. Com relação a
a casa de Noé. Deus disse a ele: “Você esses filhos foi declarado: “Bendito
é o único justo que encontrei nesta seja o Senhor, o Deus de Sem! E seja
geração” (Gn 7:1). Apesar disso, já es- Canaã seu escravo. Amplie Deus o
tava prefigurado o caráter de seus território de Jafé; habite ele nas ten-
descendentes por intermédio dos das de Sem, e seja Canaã seu escravo”
três filhos de Noé: Sem, Cão e Jafé. (Gn 9:26, 27). A linhagem de Sem de-
Noé, falando por inspiração di- veria ser a do povo escolhido. Abraão
vina, previu a história das três gran- e o povo de Israel seriam descenden-
des raças que teriam esses homens tes dele, e por meio deste povo é que
como pais. Seguindo a linhagem de Cristo devia vir. E “habite ele [Jafé]
Cão, por meio do filho em vez de o nas tendas de Sem”. Os descenden-
pai, ele declarou: “Maldito seja Canaã! tes de Jafé deveriam participar espe-
Escravo de escravos será para seus ir- cialmente das bênçãos do evangelho.
mãos” (Gn 9:25). O ato antinatural A linhagem de Canaã desceu às
de Cão revelou seu caráter corrupto. mais degradantes formas de paga-
Essas más características se perpetua- nismo. Embora a maldição profética
ram em Canaã e seus descendentes. a tenha condenado à escravidão,
Por outro lado, a reverência de- Deus suportou sua corrupção até
monstrada por Sem e Jafé para com que passaram dos limites. Então
* Este capítulo é baseado em Gênesis 9:25-27; 11:1-9.
68 Os Escolhidos
eles se tornaram escravos dos des- rio Eufrates, atraídos pela beleza da-
cendentes de Sem e Jafé. quele lugar e pela fertilidade do solo.
A profecia de Noé não determi- Ali resolveram construir uma ci-
nou o caráter e o destino de seus fi- dade e nela uma torre tão alta que
lhos; porém, mostrou qual seria o se tornaria a maravilha do mundo.
resultado do caminho que tinham A ordem de Deus era que o povo se
escolhido e do caráter que tinham dispersasse, mas esses construtores
desenvolvido. Como regra, os filhos de Babel decidiram manter sua co-
herdam as disposições e tendências munidade unida e fundar um reino
de seus pais e imitam o seu exem- que finalmente abrangesse toda a
plo. Da mesma forma, a corrupção Terra. Então a cidade se tornaria
e a irreverência de Cão foram re- a capital de um império univer-
produzidas em seus descendentes, sal. Sua glória atrairia a admira-
trazendo maldição sobre eles por ção e os aplausos de todo o mundo.
muitas gerações. A majestosa torre, que alcançaria até
Por outro lado, como foi grande- o céu, tinha por objetivo permane-
mente recompensado o respeito cer como um monumento do poder
de Sem por seu pai e quão nobre e e sabedoria de seus construtores.
honrada é a linhagem de homens Aqueles que foram habitar na
santos que aparece como seus planície de Sinear não acreditavam
descendentes! no pacto feito por Deus de que Ele
Durante algum tempo, os descen- não traria um dilúvio sobre a Terra
dentes de Noé continuaram a viver novamente. Um dos objetivos para
entre as montanhas onde a arca construir a torre era garantir sua se-
ficou ancorada. Ao crescerem em nú- gurança em caso de outro dilúvio.
mero, a apostasia os levou à divisão. Já que tinham conseguido subir à
Aqueles que não queriam mais se altura das nuvens, esperavam en-
lembrar do seu Criador e desejavam tender a causa do dilúvio. O obje-
se libertar das restrições de Sua lei fi- tivo principal do projeto era exaltar
cavam aborrecidos com os ensinos e ainda mais aqueles que o haviam
exemplo de seus vizinhos tementes a idealizado e desviar de Deus a mente
Deus. Depois de algum tempo, deci- das futuras gerações.
diram se separar. Assim, eles se mu- Quando a torre estava parcial-
daram para Sinear, às margens do mente construída, de repente, o
Línguas Confundidas 69
trabalho que estava avançando tam- Senhor foi cumprido por intermé-
bém foi interrompido. Anjos foram dio dos próprios meios pelos quais
enviados para deter o projeto dos alguns haviam tentado impedir que
construtores. A torre havia alcan- ele se realizasse.
çado uma grande altura, e os traba- Que perda! Era plano de Deus
lhadores que estavam em diferentes que, quando as pessoas saíssem
pontos recebiam e passavam para os para habitar as várias partes da
outros os pedidos do material de que Terra, levassem consigo a luz da ver-
necessitavam. À medida que as men- dade. Noé, o fiel pregador da justiça,
sagens eram passadas de um para viveu trezentos e cinquenta anos
outro, a língua foi confundida de tal depois do dilúvio; assim, seus des-
maneira que as instruções transmi- cendentes tiveram a oportunidade
tidas eram frequentemente o oposto de aprender a respeito dos precei-
daquelas que haviam sido dadas. Todo tos divinos e da história sobre como
o trabalho foi interrompido. Os cons- Deus lidou com a raça humana.
trutores não conseguiam explicar a Entretanto, eles não tinham o de-
razão dos estranhos mal-entendi- sejo de preservar o conhecimento
dos entre eles. Em sua ira e decepção, a respeito de Deus; e devido à con-
acusavam uns aos outros. Como prova fusão de línguas, não conseguiram
do desagrado de Deus, raios vindos do mais se comunicar com aqueles que
Céu destruíram a parte superior da poderiam lhes trazer maior luz.
torre e a lançaram ao solo. Satanás estava tentando provo-
car desrespeito para com as ofer-
O Propósito ao Confundir tas sacrificais que simbolizavam a
as Línguas morte de Cristo. Como as pessoas
Até aquela época, todos falavam estavam com a mente obscurecida
a mesma língua. A partir de então, pela idolatria, ele as levou a per-
aqueles que compreendiam a fala verter essas ofertas, sacrificando
uns dos outros se uniram em grupos. os próprios filhos nos altares cons-
Uns foram para uma direção e outros truídos para os seus deuses. Ao se
para outra. “Assim o Senhor os disper- afastarem de Deus, os atributos do
sou dali por toda a Terra” (Gn 11:8). caráter divino – a justiça, a pureza
Essa dispersão foi um meio de po- e o amor – eram substituídos pela
voar a Terra; e assim o propósito do opressão, violência e brutalidade.
70 Os Escolhidos
Os moradores de Babel decidiram de que o Criador do Universo é o
estabelecer um governo indepen- Governante Supremo do Céu e da
dente de Deus. Contudo, alguns entre Terra. Ninguém pode desafiar Seu
eles temiam ao Senhor. Por amor a poder sem colher os resultados!
esses que eram fiéis, o Senhor adiou Existem ainda construtores de
os Seus juízos e concedeu tempo ao torres em nossos dias. Os humanis-
povo para revelar seu verdadeiro ca- tas se atrevem a dar sua sentença
ráter. Os que temiam a Deus tenta- sobre o governo moral de Deus.
ram convencê-los a desistir de seu Desprezam Sua lei e se vangloriam da
plano, mas o povo se uniu em inteligência humana. Então, “quando
seu ousado projeto contra o Céu. Se os crimes não são castigados logo, o
tivessem continuado sem serem im- coração do homem se enche de pla-
pedidos, teriam corrompido o mundo nos para fazer o mal” (Ec 8:11).
em sua infância. Se essa aliança entre
eles tivesse sido permitida, uma A Torre de Babel Atual
grande potência teria surgido para Muitos se desviam dos claros en-
banir a justiça da Terra – e, com ela, sinos da Bíblia e criam doutrinas ba-
a paz, a felicidade e a segurança. seadas em especulações humanas e
Aqueles que temiam ao Senhor em fábulas que agradam aos ouvidos.
clamavam a Ele para que inter- Depois apontam para a sua “torre”
viesse. “O Senhor desceu para ver como se ela fosse um caminho para
a cidade e a torre que os homens subir ao Céu. Lábios eloquentes ensi-
estavam construindo” (Gn 11:5). nam que o pecador não morrerá, que
Em Sua misericórdia para com o a salvação pode ser conseguida sem
mundo, Deus frustrou os planos a obediência à lei de Deus. Se os pro-
dos construtores da torre. Ele con- fessos seguidores de Cristo aceitas-
fundiu a língua, inutilizando assim sem a norma ordenada por Deus, ela
os planos de rebelião. Deus suporta os levaria à verdadeira unidade. En-
por longo tempo a maldade hu- quanto a sabedoria humana for exal-
mana, mas dá oportunidade para tada e colocada acima de Sua santa
o arrependimento. De tempos em Palavra, haverá divisões e dissensão.
tempos, Sua mão invisível é esten- A confusão existente entre cren-
dida para reprimir a iniquidade. ças e denominações que vivem em
O mundo obtém prova inequívoca conflito é muito apropriadamente
Línguas Confundidas 71
representada pelo termo Babilônia, A hora do juízo de Deus se apro-
que a profecia aplica às igrejas xima. Seu soberano poder será reve-
amantes do mundo nos últimos dias lado; as obras do orgulho humano
(ver Ap 14:8; 18:2). cairão por terra.
11
*
O Pai de Todos os Fiéis
D epois que os moradores
de Babel se dispersa-
ram, a idolatria se tornou quase uni-
seu nome e você será uma bênção”
(Gn 12:2). A essa bênção foi acres-
centada a certeza de que o Redentor
versal novamente. O Senhor deixou do mundo viria de sua linhagem:
que os pecadores com seu coração “E por meio de você todos os povos da
endurecido seguissem seus maus ca- Terra serão abençoados” (Gn 12:3).
minhos, e escolheu Abraão, um des- No entanto, como primeira condi-
cendente de Sem, como guardador ção para o cumprimento da pro-
da Sua lei para as futuras gerações. messa deveria ocorrer uma prova
Deus sempre teve um remanescente de fé; foi exigido um sacrifício.
para preservar as preciosas revela- Deus enviou uma mensagem a
ções da Sua vontade. Abraão herdou Abraão: “Saia da sua terra, do meio
esse patrimônio sagrado. Inconta- dos seus parentes e da casa de seu
minado pela apostasia, ele persis- pai, e vá para a terra que Eu lhe mos-
tia fielmente na adoração a Deus. trarei” (Gn 12:1). Abraão devia se
O Senhor comunicou Sua vontade afastar da influência de seus paren-
a Abraão e transmitiu a ele o conhe- tes e amigos. Seu caráter deveria ser
cimento de Sua lei e da salvação que distinto, diferente de todo o mundo.
seria concedida por meio de Cristo. Ele não podia nem mesmo explicar
A Abraão foi dada a promessa: sua atitude para que os amigos en-
“Farei de você um grande povo, e tendessem. Sua família idólatra não
o abençoarei. Tornarei famoso o compreenderia seus motivos.
* Este capítulo é baseado em Gênesis 12.
O Pai de Todos os Fiéis 73
A inquestionável obediência de Deus tem uma obra para eles faze-
Abraão é uma das mais extraordi- rem; a influência dos amigos iria
nárias provas de fé encontradas em atrapalhá-la.
toda a Bíblia (ver Hb 11:8). Con- Quem está pronto, ao receber o
fiando na promessa divina, ele dei- chamado de Deus, a renunciar os
xou sua casa, parentes e a terra planos acariciados, a aceitar novos
natal; partiu, sem saber para onde, deveres e entrar em campos com os
a fim de ir aonde Deus o levasse. quais ainda não está familiarizado?
“Pela fé peregrinou na terra pro- Aqueles que assim fizerem terão a
metida como se estivesse em terra fé que teve Abraão e irão partilhar
estranha; viveu em tendas, bem com ele da “glória eterna” (2Co 4:17;
como Isaque e Jacó, co-herdeiros da ver também Rm 8:18).
mesma promessa” (Hb 11:9). O chamado do Céu veio primeira-
Fortes laços o prendiam ao seu mente a Abraão em “Ur dos Caldeus”,
país, seus parentes e seu lar, porém e, em obediência, ele se mudou para
ele não hesitou em atender ao cha- Harã. Até esse local, a família de seu
mado. Não fez nenhuma pergunta pai o acompanhou. Ali, Abraão per-
a respeito da terra da promessa – maneceu até a morte de Terá.
se o solo era fértil, o clima saudá-
vel. O lugar mais feliz da Terra para Rumo ao Desconhecido
ele seria onde Deus desejava que ele Depois da morte de seu pai, a voz
estivesse. divina ordenou que continuasse.
Muitos ainda são provados Além de Sara, a esposa de Abraão, so-
como foi Abraão. Não ouvem a voz mente Ló decidiu partilhar com ele
de Deus falando diretamente do a vida de peregrinação. Abraão era
Céu, mas Ele os chama por meio dos dono de grandes rebanhos e tinha
ensinos de Sua Palavra e pelos acon- muitos servos. Ele partiu da terra
tecimentos dirigidos por Sua provi- de seus pais para nunca mais voltar,
dência. Pode ser necessário terem levando consigo tudo o que tinha,
que abandonar uma carreira que “todos os bens que havia acumulado
promete riquezas e honra, causar e os seus servos, comprados em Harã”
a separação dos parentes para ini- (Gn 12:5). Em Harã, tanto Abraão
ciar o que parece um caminho de como Sara conduziram outros à ado-
abnegação, dificuldades e sacrifício. ração e ao culto do verdadeiro Deus.
74 Os Escolhidos
Esses foram com ele para a “Terra da do acampamento para o sacrifício
Promessa”, a terra de Canaã. da manhã e da tarde. Quando se
O lugar onde eles ficaram pela mudava para outro lugar, o altar
primeira vez foi Siquém. Abraão permanecia. Os cananeus nôma-
fez seu acampamento sobre a relva des receberam instrução de Abraão;
de um extenso vale, com seus bos- e, sempre que qualquer um desses
ques de oliveiras e fontes que jor- passava pelo altar, também adorava
ravam. Era uma bela e fértil região, o Deus vivo ali.
“uma boa terra, cheia de riachos, […]
terra de trigo e cevada, videiras e fi- Por que Deus Permitiu
gueiras, romãzeiras, azeite de oliva a Prova
e mel” (Dt 8:7, 8). Uma pesada som- Abraão continuou a viajar para o
bra repousava sobre a colina co- sul, e sua fé foi provada novamente.
berta de árvores e a planície cheia Parou de chover, e os rebanhos e o
de árvores frutíferas. Em meio aos gado não encontravam pastagens.
bosques, foram erguidos altares A fome ameaçava todo o acampa-
aos falsos deuses, e sacrifícios hu- mento. Todos estavam atentos para
manos eram oferecidos no alto das ver o que Abraão iria fazer ao en-
colinas mais próximas. frentar dificuldades e mais dificul-
Então “o Senhor apareceu a Abrão dades. Enquanto a confiança dele
e disse: ‘À sua descendência darei esta parecia inabalável, eles sentiam que
terra’” (Gn 12:7). Sua fé foi fortalecida havia esperança; sabiam que Deus
por essa certeza. “Abrão construiu era amigo de Abraão e que Ele ainda
ali um altar dedicado ao Senhor, o estava guiando.
que lhe havia aparecido” (Gn 12:7). Abraão se apegava à promessa:
Ainda como peregrino, logo partiu “Farei de você um grande povo, e
para um lugar próximo a Betel. Ali, o abençoarei. Tornarei famoso o
ele construiu um altar mais uma vez seu nome, e você será uma bênção”
e invocou o nome do Senhor. (Gn 12:2). Ele não iria permitir que
Abraão nos dá um exemplo as circunstâncias abalassem sua fé
digno. A sua vida foi de oração. nas palavras de Deus. Para escapar
Onde quer que armasse sua tenda, da fome, ele desceu até o Egito. Por
próximo a ela, construía um altar e estar passando grande dificuldade,
convidava a todos que faziam parte não voltou para a Caldeia, de onde
O Pai de Todos os Fiéis 75
tinha vindo, mas buscou refúgio qual foram capacitados. Anjos celes-
temporário o mais próximo possí- tiais podem se unir a eles na obra a
vel da Terra da Promessa. ser finalizada na Terra.
O Senhor, em Sua sabedoria,
permitiu essa prova a Abraão para O Lamentável Erro
lhe ensinar lições que se tornariam de Abraão
um benefício para todos os que te- Enquanto estava no Egito,
riam que suportar a aflição. Deus Abraão demonstrou que não es-
não Se esquece nem rejeita aqueles tava livre da fraqueza humana.
que depositam sua confiança nEle. Sua esposa, Sara, era “muito bonita”
As provações que testam mais se- (Gn 12:14), e ele estava certo de que
veramente a nossa fé e fazem pare- os egípcios iriam cobiçar a bela es-
cer que Deus nos abandonou devem trangeira e matar seu marido. Ra-
nos levar para mais perto de Cristo. ciocinou que não estaria mentindo
Devemos depor todos os nossos far- em apresentar Sara como sua irmã,
dos aos Seus pés e experimentar a pois ela era filha de seu pai, embora
paz que Ele nos dará em troca. não fosse filha de sua mãe.
O calor da fornalha é que separa Isso era um engano. Por causa
a impureza do verdadeiro ouro do ca- da demonstração de falta de fé
ráter cristão. É por meio de provações de Abraão, Sara foi colocada em
difíceis e severas que Deus disciplina grande perigo. O rei do Egito or-
Seus servos. Ele vê que alguns têm denou que ela fosse levada ao pa-
habilidades que podem ser emprega- lácio, pretendendo fazer dela sua
das no avanço de Sua obra. Em Sua esposa. O Senhor, em Sua grande
sabedoria, Deus os conduz a posições misericórdia, protegeu Sara e puniu
que provam o seu caráter e revelam a casa real com “graves doenças”
as fraquezas das quais eles mesmos (Gn 12:17). O rei percebeu então que
não têm conhecimento. Ele lhes dá a tinha sido enganado. Ele reprovou
oportunidade de corrigir esses defei- Abraão, dizendo: “O que foi que
tos. Mostra suas fraquezas e os en- você fez comigo? […] Por que disse
sina a se apoiarem inteiramente nEle. que era sua irmã? Foi por isso que
Dessa maneira, são educados, treina- eu a tomei para ser minha mulher.
dos e disciplinados, preparados para Aí está a sua mulher. Tome-a e vá!”
cumprir o grande propósito para o (Gn 12:18, 19).
76 Os Escolhidos
A maneira com que Faraó tra- sobre ele, trazendo novamente juí-
tou Abraão foi amável e generosa, zos sobre a casa real.
mas ele lhe ordenou que deixasse o O caso não poderia ser man-
Egito. Sem saber, esteve a ponto de tido em segredo. Entenderam que o
causar uma grave ofensa a Abraão, Deus a quem Abraão adorava prote-
mas Deus livrou o monarca de co- geria Seu servo e que qualquer mal
meter tão grande pecado. Faraó viu feito a ele seria vingado. É perigoso
naquele estrangeiro um homem causar dano a um dos filhos do Rei
honrado por Deus. Se Abraão per- do Céu. O salmista afirma que Deus
manecesse no Egito, suas rique- “não permitiu que ninguém os opri-
zas, que se multiplicavam cada vez misse, mas a favor deles repreendeu
mais, provavelmente desperta- reis dizendo: ‘Não toquem nos Meus
riam a inveja ou cobiça dos egíp- ungidos; não maltratem Meus pro-
cios, e algum dano poderia recair fetas’” (Sl 105:14, 15).
12
Um Bom Vizinho
*
em Canaã
A braão voltou muito
rico para Canaã, “tanto
em gado como em prata e ouro”
mim e você, ou entre os seus pasto-
res e os meus; afinal somos irmãos!
Aí está a terra inteira diante de você.
(Gn 13:2). Ló estava com ele, e foram Vamos separar-nos. Se você for para
para Betel, onde armaram suas ten- a esquerda, irei para a direita; se for
das novamente. Mesmo em meio a para a direita, irei para a esquerda”
dificuldades e provações, eles ti- (Gn 13:8, 9).
nham vivido juntos em harmonia, Muitas pessoas sob circunstân-
mas em sua prosperidade havia pe- cias semelhantes se apegariam aos
rigo de desentendimento entre eles. seus direitos e preferências pessoais.
As pastagens não eram suficientes Muitos lares e igrejas têm sido divi-
para os rebanhos e o gado que eles didos, tornando a causa da verdade
tinham. Era evidente que deveriam um escândalo e uma desgraça entre
se separar. os ímpios. Os filhos de Deus em todo
Abraão foi o primeiro a pro- o mundo são uma só família, e o
por os planos para manter a paz. mesmo espírito de amor e concilia-
Embora toda aquela terra lhe ti- ção deve governá-los. “Dediquem-se
vesse sido dada por Deus, ele cortes- uns aos outros com amor fraternal.
mente não exigiu esse direito. “Não Prefiram dar honra aos outros mais
haja desavença”, disse ele, “entre do que a si próprios” (Rm 12:10).
* Este capítulo está baseado em Gênesis 13 a 15; 17:1-16; 18.
78 Os Escolhidos
A disposição de fazer aos outros Ao ar livre daqueles planaltos com
como desejaríamos que eles nos fizes- seus bosques de oliveiras e vinhe-
sem evitaria ou acabaria com grande dos, seus campos de cereais e lon-
parte dos problemas da vida. O cora- gas pastagens das colinas ao redor,
ção em que o amor de Cristo é culti- ele armou seu acampamento, con-
vado terá esse amor que cuida “não tente com sua vida simples, dei-
somente dos seus interesses” (Fp 2:4). xando para Ló o perigoso luxo do
Ló não demonstrou gratidão vale de Sodoma.
alguma ao seu generoso tio. Em Abraão não deixou de influen-
vez disso, de forma egoísta, tentou ciar seus vizinhos. Em contraste
tirar todas as vantagens possíveis. com os adoradores de ídolos, sua
“Olhou então Ló e viu todo o vale vida e caráter exerciam uma in-
do Jordão, todo ele bem irrigado […]; fluência poderosa em favor da ver-
era como o jardim do Senhor, como dadeira fé. Sua fidelidade a Deus
a terra do Egito” (Gn 13:10). A re- era inabalável. Tanto sua cordiali-
gião mais fértil de toda a Palestina dade quanto sua bondade inspira-
era o vale do Jordão, que lembrava vam confiança e amizade.
o Paraíso perdido para quem ali pas- Enquanto Cristo habita no co-
sava, e com a mesma beleza e produ- ração, é impossível ocultar a luz de
tividade das planícies enriquecidas Sua presença. Ela se tornará mais
pelo Nilo, que eles haviam deixado radiante à medida que a névoa do
para trás. Havia cidades, ricas e egoísmo e do pecado que nos en-
belas, que convidavam a um comér- volve for se dissipando com a luz
cio lucrativo. Deslumbrado com a do Sol da Justiça.
visão dos benefícios materiais, Ló Aqueles que pertencem ao povo
não levou em conta os problemas de Deus são luz em meio às trevas
morais encontrados lá. Ele “escolheu morais deste mundo. Espalhados
todo o vale do Jordão” e “mudou seu pelos grandes centros, cidades e
acampamento para um lugar pró- vilas, eles são condutos por meio
ximo a Sodoma” (Gn 13:11, 12). Ele dos quais Deus comunicará a um
mal podia imaginar os resultados mundo incrédulo o conhecimento
dessa escolha egoísta! e as maravilhas da Sua graça. É seu
Logo depois da separação, desejo que todos os que recebem a
Abraão se mudou para Hebrom. salvação sejam luz e que seu caráter
Um Bom Vizinho em Canaã 79
brilhe intensamente, revelando o foi despertada, e Abraão decidiu
contraste com as trevas do egoísmo resgatar Ló. Antes, porém, ele bus-
que vêm do coração natural. cou o conselho divino e só depois
Abraão sabia fazer uso da diplo- Abraão se preparou para a guerra.
macia, era corajoso e hábil na guerra. Convocou trezentos e dezoito ser-
Três reis que eram irmãos e gover- vos do seu acampamento, homens
nantes das planícies dos amorreus, ensinados no temor de Deus, a ser-
onde ele habitava, demonstraram viço de seu senhor, e que sabiam
amizade e o convidaram para uma usar as armas. Seus aliados, Manre,
aliança. Assim, eles teriam mais se- Escol e Aner, uniram-se a ele e juntos
gurança, pois o país estava cheio de partiram em perseguição aos inva-
violência e opressão. Logo surgiu a sores. Os elamitas estavam acam-
ocasião em que Abraão teve que so- pados em Dã, na fronteira ao norte
licitar a ajuda dessa aliança. de Canaã. Orgulhosos e entusias-
mados com a vitória, entregaram-se
Resgatado por Abraão às orgias. Abraão se aproximou do
Quedorlaomer, rei de Elão, tinha acampamento à noite. Seu ataque,
invadido Canaã alguns anos antes, extremamente forte e inesperado,
tornando os cananeus sujeitos a concedeu a ele uma rápida vitória.
ele. Vários de seus príncipes se re- O rei de Elão foi morto; e seu exér-
voltaram, e o rei elamita marchou cito, tomado de pânico, fugiu derro-
novamente contra o país para con- tado. Ló e sua família, com todos os
quistá-lo. Cinco reis de Canaã lu- prisioneiros e seus bens, foram re-
taram contra os invasores, apenas cuperados, e os ricos despojos dos
para serem completamente derro- inimigos passaram para as mãos
tados. Os vitoriosos saquearam as dos vitoriosos.
cidades da planície e partiram com Abraão não somente prestou
um rico despojo, além de muitos ca- um grande serviço ao país, mas
tivos, entre os quais estavam Ló e mostrou ser um homem de valor.
sua família. Todos viram que a religião de
Um dos cativos conseguiu esca- Abraão lhe deu coragem não ape-
par e, por meio dele, Abraão soube nas para ficar do lado do que era
do que tinha acontecido com seu so- direito, mas para defender os opri-
brinho. Toda a sua afeição por ele midos. Quando voltou, o rei de
80 Os Escolhidos
Sodoma saiu ao seu encontro para Abraão Teve Medo
honrar o vencedor, pedindo que lhe Abraão sempre foi um homem
devolvesse apenas os prisioneiros. de paz, que evitava ao máximo o
Os despojos pertenciam aos ven- conflito e a discórdia. Ficava horro-
cedores; mas Abraão se recusou a rizado quando se recordava da car-
tirar vantagem dos desafortunados nificina que havia testemunhado.
e solicitou que os aliados recebes- Os exércitos das nações que ele
sem a parte a que tinham direito. havia derrotado certamente tenta-
Poucos teriam resistido à ten- riam uma nova invasão e procura-
tação de ficar com um despojo tão riam se vingar dele. Além do mais,
rico ao serem submetidos a uma ele ainda não tinha tomado posse
prova como essa. O exemplo de de Canaã nem alimentava mais a es-
Abraão é uma reprovação aos am- perança de lhe nascer um herdeiro,
biciosos e egoístas. “De mãos levan- por meio de quem a promessa fosse
tadas”, disse ele, “ao Senhor, o Deus cumprida.
Altíssimo, Criador dos céus e da Em uma visão à noite, ouviu no-
Terra, juro que não aceitarei nada vamente a voz divina: “Não tenha
do que lhe pertence, nem mesmo medo, Abraão! Eu sou o seu escudo;
um cordão ou uma correia de san- grande será a sua recompensa!”
dália, para que você jamais venha (Gn 15:1). Como iria se cumprir
a dizer: ‘Eu enriqueci Abraão’” a promessa da aliança se a dá-
(Gn 14:22, 23). Deus prometeu diva de um filho lhe era negada?
abençoar Abraão, e toda a glória “Ó Soberano Senhor, que me darás,
seria devida a Ele. se continuo sem filhos: […] Um servo
Outro que veio para dar as da minha casa será o meu herdeiro!”
boas-vindas ao vitorioso Abraão (Gn 15:2, 3). Abraão pretendia fazer
foi Melquisedeque, rei de Salém. de seu fiel servo Eliézer seu filho
Como “sacerdote do Deus Altís- adotivo. Então obteve a promessa
simo”, ele pronunciou uma bên- de que um filho dele mesmo seria
ção sobre Abraão e deu graças ao o seu herdeiro. Foi dito a Abraão
Senhor que trouxe tão grande li- que olhasse para as incontáveis es-
vramento por meio de Seu servo. trelas que brilhavam no céu, e de-
“E Abraão lhe deu o dízimo de pois ele ouviu estas palavras: “Assim
tudo” (Gn 14:20). será a sua descendência” (Gn 15:5).
Um Bom Vizinho em Canaã 81
“Abraão creu em Deus e isso lhe foi separados dos idólatras e de que
creditado como justiça” (Rm 4:3). Deus os aceitava como Seu tesouro
O Senhor Se dispôs a fazer um especial. Não deveriam se casar com
concerto com Seu servo. Abraão os pagãos, pois, se fizessem isso, não
ouviu a voz de Deus lhe dizendo apenas seriam tentados a se envol-
que não esperasse pela posse ime- ver em práticas pecaminosas de ou-
diata da Terra Prometida, apon- tras nações, mas também seriam
tando para os sofrimentos de seus induzidos à idolatria.
descendentes antes de entrarem em
Canaã. O plano da redenção lhe foi Abraão Hospeda Anjos
desvendado, tanto na morte de Deus conferiu grandes honras a
Cristo, o grande sacrifício, como na Abraão. Anjos andavam e conver-
Sua vinda em glória. Abraão tam- savam com ele. Quando os juízos
bém viu a Terra restaurada à sua be- de Deus estavam para cair sobre
leza edênica, a ser concedida como Sodoma, o fato não foi encoberto
a herança eterna, em cumprimento dele. Abraão se tornou um interces-
completo e final da promessa. sor diante de Deus pelos pecadores.
Quando fazia quase vinte e cinco Em um dia de verão, no calor do
anos que Abraão estava em Canaã, meio-dia, Abraão estava assentado à
o Senhor apareceu a ele e disse: “De entrada de sua tenda, quando viu de
Minha parte, esta é a Minha aliança longe três viajantes. Antes de che-
com você. Você será o pai de muitas garem à sua tenda, os estranhos
nações” (Gn 17:4). Em sinal do cum- pararam. Sem esperar que lhe pe-
primento dessa aliança, seu nome, dissem qualquer favor, com toda a
que até aquele momento era Abrão, cortesia, Abraão insistiu para que
foi mudado para Abraão, que signi- lhe dessem a honra de permanecer
fica “pai de muitas nações” (Gn 17:5). ali um pouco e tomassem uma re-
O nome de Sarai se tornou Sara – feição. Ele mesmo trouxe água para
“princesa”; porque “dela procederão que pudessem lavar os pés e tirar o
nações e reis de povos” (Gn 17:15, 16). pó da viagem. Separou o alimento
Nessa mesma ocasião, o rito da e, enquanto descansavam em uma
circuncisão foi dado a Abraão para refrescante sombra, permaneceu ao
ser observado por ele e seus descen- lado deles respeitosamente, durante
dentes como um sinal de que eram o tempo em que comiam e bebiam
82 Os Escolhidos
o que lhes tinha providenciado. Ele mesmo faria um exame de sua
Mil anos mais tarde, por inspira- conduta. Se não tivessem passado
ção, o apóstolo fez referência a esse dos limites da misericórdia divina,
ato de cortesia: “Não se esqueçam certamente Deus concederia a eles a
da hospitalidade; foi praticando-a oportunidade de se arrependerem.
que, sem o saber, alguns acolheram Dois dos mensageiros celestiais
anjos” (Hb 13:2). partiram, deixando Abraão a sós
Abraão viu em seus hóspedes com Aquele que ele soube então ser
apenas três viajantes cansados, o Filho de Deus. O homem de fé in-
não imaginando que entre eles es- tercedeu em favor dos habitantes de
tava Um que era divino, sem pecado, Sodoma. Ele os salvou uma vez pela
a quem ele deveria adorar. O ver- espada, e naquele momento tentava
dadeiro caráter dos mensageiros salvá-los pela oração. Ló e sua fa-
celestiais foi então revelado. Eles es- mília ainda estavam morando lá, e
tavam em seu caminho como agen- Abraão procurava livrá-los da fúria
tes da ira de Deus; contudo, para dos juízos divinos.
Abraão eles falaram primeiramente Com profunda humildade, ele
sobre bênçãos. Deus não tem prazer insistiu em seu pedido: “Sei que
na vingança. já fui muito ousado ao ponto de
Abraão tinha honrado a Deus, falar ao Senhor, eu que não passo
por isso o Senhor o honrou, re- de pó e cinza” (Gn 18:27). Não re-
velando a ele os Seus propósi- clamava o favor por causa de sua
tos. “Esconderei de Abraão o que obediência ou sacrifícios que ti-
estou para fazer?”, disse o Senhor vesse feito ao cumprir a vontade
(Gn 18:17). “As acusações contra de Deus. Como pecador que era, ro-
Sodoma e Gomorra são tantas e o gava em favor do pecador. Mesmo
seu pecado é tão grave que desce- assim, Abraão demonstrou a con-
rei para ver se o que eles têm feito fiança de uma criança que faz uma
corresponde ao que tenho ouvido. súplica a seu amado pai. Embora
Se não, Eu saberei” (Gn 18:20, 21). Ló estivesse residindo em Sodoma,
Deus sabia qual era o pecado de ele não participava dos pecados de
Sodoma, mas Ele Se expressou em seus habitantes. Abraão imaginava
linguagem humana para que Sua que poderia haver outros adora-
justiça pudesse ser compreendida. dores do verdadeiro Deus naquela
Um Bom Vizinho em Canaã 83
populosa cidade. Ele rogou: “Longe O testemunho dado pelo pró-
de Ti […] matar o justo com o ímpio prio Deus é: “Abraão Me obedeceu e
[…]. Não agirá com justiça o Juiz de guardou Meus preceitos, Meus man-
toda a Terra?” (Gn 18:25). Ao serem damentos, Meus decretos e Minhas
atendidos os seus pedidos, ele teve leis” (Gn 26:5). “Pois Eu o escolhi, para
a certeza de que, se até mesmo dez que ordene aos seus filhos e aos seus
pessoas justas fossem encontradas descendentes que se conservem no
em Sodoma, a cidade seria poupada. caminho do Senhor, fazendo o que
A oração de Abraão por Sodoma é justo e direito, para que o Senhor
mostra que devemos nutrir ódio faça vir a Abraão o que lhe prometeu”
pelo pecado, mas piedade e amor (Gn 18:19). Foi uma grande honra
pelo pecador. Ao nosso redor as pes- para a qual Abraão foi chamado – ser
soas estão caindo na ruína. A toda pai do povo que foi o guardião da ver-
hora, alguns passam para além do dade de Deus para o mundo, por meio
alcance da misericórdia divina. do qual todas as nações seriam aben-
Onde estão as vozes convidando e çoadas com a vinda do Messias pro-
apelando aos pecadores para fugi- metido. Abraão guardaria a lei e agiria
rem dessa condenação tão terrível? com justiça e retidão. Ele não somente
Onde estão aqueles que estão inter- temeria ao Senhor, mas instruiria sua
cedendo junto a Deus por eles? família a fazer o que é reto.
Toda a casa de Abraão com-
Quem Ora por “Sodoma” preendia mais de mil pessoas. Ali,
Hoje? como em uma escola, recebiam ins-
O espírito de Abraão era o espí- trução que os prepararia para repre-
rito de Cristo, que é o grande inter- sentar a verdadeira fé. Ele era um
cessor em favor do pecador. Cristo educador de chefes de família, e eles
manifestou para com o pecador seguiriam seus métodos no governo
um amor que tão somente a infi- de suas casas.
nita bondade poderia conceber. Na Era necessário unir os membros
agonia da crucifixão, esmagado pelo da família para construir uma bar-
terrível peso dos pecados do mundo reira contra a idolatria que tinha se
todo, Ele orou por Seus assassinos: espalhado naquela região. Abraão
“Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o procurou por todos os meios pro-
que estão fazendo” (Lc 23:34). teger os que estavam com ele, para
84 Os Escolhidos
que não se misturassem com os revelam um sentimentalismo cego e
pagãos e vissem suas práticas idó- egoísta, equivocadamente chamado
latras. Ele teve o cuidado de impres- de amor, que permite aos filhos vi-
sionar a mente com a majestade e verem sob o controle da própria
a glória do Deus vivo, a quem ver- vontade. Isso é uma crueldade para
dadeiramente se deve prestar culto. com a juventude e um grande mal
O próprio Deus separou Abraão para o mundo. A condescendência
de seus parentes idólatras para que dos pais fortalece no jovem o de-
pudesse ensinar e educar a famí- sejo de seguir suas inclinações, em
lia longe das más influências na vez de se submeter aos mandamen-
Mesopotâmia e assim pudesse pre- tos divinos. Assim, eles crescem para
servar a verdadeira fé em sua pu- depois transmitir sua falta de reli-
reza, por meio de seus descendentes. giosidade e espírito rebelde a seus
filhos e netos. A obediência à auto-
A Influência do Viver Diário ridade paterna deveria ser ensinada
Os filhos e a casa de Abraão como o primeiro passo na obediên-
eram ensinados que estavam sob o cia à autoridade de Deus.
governo do Deus do Céu. Não de- O ensino amplamente divulgado
veria haver opressão por parte dos de que as leis de Deus não estão mais
pais, nem desobediência por parte em vigor tem o mesmo efeito que
dos filhos. A influência silenciosa a idolatria sobre a moral do povo.
de sua vida diária era um exem- Os pais não ordenam sua casa de
plo constante. Havia uma fragrân- maneira que observe o caminho do
cia em sua vida e uma nobreza de Senhor. Os filhos, ao formarem o
caráter que revelavam a todos que próprio lar, não se sentem na obriga-
ele estava em constante ligação com ção de ensinar aquilo que eles mes-
o Céu. Ele não desprezava o servo mos não foram ensinados a praticar.
mais humilde. Em sua casa não exis- É por essa razão que há tantas famí-
tia uma lei para o senhor e outra lias sem Deus, e é por isso também
para o servo. Ele tratava a todos que a maldade está tão generalizada.
com justiça e compaixão, como her- É necessário uma reforma – uma
deiros com ele da graça da vida. profunda e ampla reforma. Os pais
Quão poucos em nossos dias necessitam de reforma. Pastores
seguem esse exemplo! Muitos pais também necessitam. Necessitam de
Um Bom Vizinho em Canaã 85
Deus em sua casa. Devem levar a a Deus um sacrifício de oração de
Palavra de Deus à sua família e ensi- manhã e à tarde, enquanto a esposa
nar a seus filhos, de maneira amável e os filhos se unem a ele em oração
e incansável, como viver para agra- e louvor. Jesus terá prazer em per-
dar a Deus. Os filhos que vivem em manecer em um lar assim.
famílias assim estão firmados sobre De todo lar cristão, o amor deve
um fundamento que não pode ser fluir em atos intencionais de bon-
destruído pela onda devastadora da dade, em demonstrações de gentil
incredulidade e da dúvida. e abnegada cortesia. Há lares em
Em muitos lares, os pais acham que Deus é adorado e onde reina o
que não têm condições de dedicar mais verdadeiro amor. Suas miseri-
alguns momentos para agradecer córdias e bênçãos caem como o or-
a Deus pela luz do sol, pela chuva valho da manhã sobre esses que se
e pela proteção dos anjos. Não têm curvam humildemente em oração.
tempo para a oração. Saem para o Uma casa bem ordenada é um
trabalho como o boi ou o cavalo, poderoso testemunho em favor da
sem um pensamento sequer rela- religião cristã. Uma nobre influên-
cionado a Deus ou ao Céu. O Filho cia em atuação na família exerce
de Deus deu a própria vida para res- também sua ação sobre os filhos.
gatá-los; no entanto, eles têm pouco O Deus de Abraão está com eles. O
mais apreciação por Sua bondade Deus do Céu fala a todo pai fiel:
que os animais. “Eu o escolhi, para que ordene aos
Se existiu um tempo em que seus filhos e aos seus descendentes
cada casa deveria ser uma casa de que se conservem no caminho do
oração, esse tempo é hoje. O pai, Senhor, fazendo o que é justo e di-
como sacerdote do lar, deve oferecer reito” (Gn 18:19).
13
*
A Prova da Fé
A braão acreditou na pro-
messa de que teria um
filho, mas não esperou que Deus
Orgulhosa por ser a nova esposa
de Abraão e pela possibilidade de se
tornar a mãe de uma grande nação
cumprisse a Sua palavra de acordo que viria de sua descendência, Hagar
com o Seu tempo e à Sua maneira. ficou cheia de si. Os ciúmes entre Sara
Deus permitiu que a promessa de- e Hagar perturbavam a paz do lar que
morasse a se cumprir para provar a tinha sido tão feliz. Sendo obrigado
fé de Abraão, porém ele não conse- a escutar as reclamações das duas
guiu suportar a prova. mulheres, Abraão tentou restabele-
Já idosa, Sara sugeriu um plano cer a harmonia, mas não conseguiu.
para que a promessa divina se cum- Embora Sara tivesse insistido para
prisse – que Abraão se casasse com que ele se casasse com Hagar, agora
uma de suas servas. A poligamia ela o acusava de ser o errado. Ela que-
não era mais considerada como ria mandar a rival embora. Abraão
pecado, mas não deixava de ser se recusou a permitir isso, porque
uma transgressão da lei de Deus Hagar seria a mãe de seu filho –
com consequências fatais para a que ele tão ansiosamente esperava,
santidade e a paz da família. O ca- o filho da promessa. Mesmo assim,
samento de Abraão com Hagar re- ele ainda deixou Hagar sob o domí-
sultou em mal – não somente para nio de Sara, pois esta era sua senhora.
a sua casa, mas para as gerações “Então Sarai tanto maltratou Hagar
futuras. que esta acabou fugindo” (Gn 16:6).
* Este capítulo é baseado em Gênesis 16; 17:18-20; 21:1-14; 22:1-19.
A Prova da Fé 87
Hagar foi para o deserto. En- aos seus descendentes. De repente,
quanto descansava ao lado de uma ele foi colocado de lado. Mãe e filho
fonte, sozinha e sem amigos, apa- odiaram o filho de Sara.
receu um anjo do Senhor. Cha- A alegria de todos aumentou
mando-a de “Hagar, serva de Sarai” sua inveja, até que Ismael passou a
(Gn 16:8), ele lhe disse: “Volte à zombar abertamente do herdeiro
sua senhora e sujeite-se a ela” da promessa de Deus. Sara viu no
(Gn 16:9). Com a repreensão, porém, espírito de revolta de Ismael uma
ele acrescentou palavras de con- contínua fonte de desentendi-
forto: “Multiplicarei tanto os seus mento e insistiu com Abraão que
descendentes que ninguém os po- mandasse Hagar e Ismael embora
derá contar” (Gn 16:10). Então ela do acampamento.
foi instruída a dar a seu filho o Abraão ficou muito angustiado.
nome de Ismael – “Deus ouvirá”. Como poderia mandar embora
Quando Abraão estava com Ismael, seu filho, a quem ele tanto
quase cem anos de idade, a pro- amava? Confuso, suplicou a dire-
messa de um filho foi renovada: ção divina. Por meio de um anjo, o
“Sara, sua mulher, lhe dará um Senhor o orientou a concordar com
filho, e você lhe chamará Isaque. o desejo de Sara; dessa forma, ele
Com ele estabelecerei a Minha poderia restabelecer a harmonia e
aliança” (Gn 17:19). “E no caso de a felicidade à sua família. O anjo
Ismael”, disse Ele, “levarei em conta prometeu que Deus não abandona-
o seu pedido. Também o abençoa- ria Ismael e que ele se tornaria pai
rei; […] e dele farei um grande povo” de uma grande nação. Abraão obe-
(Gn 17:20). deceu, mas não sem profundo so-
frimento. O coração do pai estava
A Poligamia Traz Sofrimento muito angustiado quando se despe-
O nascimento de Isaque encheu diu de Hagar e de seu filho.
as tendas de Abraão e Sara de ale- A santidade do matrimônio deve-
gria; mas, para Hagar, esse acon- ria ser preservada por todo o tempo.
tecimento destruiu seus maiores Os direitos e a felicidade desse rela-
sonhos. Todos pensavam em Ismael cionamento precisam ser protegi-
como o herdeiro das riquezas de dos com muito cuidado, mesmo que
Abraão e das bênçãos prometidas à custa de grande sacrifício. Sara foi
88 Os Escolhidos
a única verdadeira esposa de Abraão. Abraão era muito rico e consi-
Nenhuma outra pessoa estava auto- derado um príncipe poderoso pelos
rizada a partilhar de seus direitos. governantes de toda aquela região.
Ela não queria que Abraão divi- O Céu parecia ter rodeado de bên-
disse seus sentimentos com outra, e çãos sua vida de sacrifício e paciente
o Senhor não a reprovou por exigir perseverança.
que sua rival fosse banida de casa.
A Ordem para Oferecer
Exemplo para Todas Isaque
as Gerações Em fiel obediência, Abraão tinha
Abraão deveria ser um exem- deixado seu país natal e andado
plo de fé para as gerações futuras. como estrangeiro na terra que de-
Ainda assim, sua fé não foi perfeita. veria receber como herança. Havia
Ele mostrou falta de confiança em aguardado por muito tempo o nas-
Deus quando se casou com Hagar. cimento do herdeiro prometido.
Então, para que alcançasse o nível Seguindo a orientação de Deus,
mais alto de fé, Deus o submeteu a Abraão havia pedido a Ismael e
outra prova, a mais difícil que qual- Hagar que fossem embora. Agora,
quer ser humano jamais foi cha- quando parecia que suas esperan-
mado a suportar. Em uma visão à ças estavam para se realizar, ele re-
noite, Deus ordenou que ele sacri- cebia uma prova maior que todas
ficasse seu filho sobre o monte que as outras.
Deus iria lhe mostrar. A ordem deve ter esmagado
Já com cento e vinte anos de de angústia o coração daquele
idade, Abraão não tinha mais a pai: “Tome seu filho, seu único
força da juventude. No auge da filho, Isaque, a quem você ama […].
idade adulta, é possível enfrentar Sacrifique-o ali como holocausto”
com coragem as dificuldades e afli- (Gn 22:2). Isaque era a luz de seu
ções que fariam o coração desani- lar, a alegria de sua velhice, o her-
mar nos anos da velhice. Apesar deiro da bênção prometida; entre-
disso, Deus havia reservado a prova tanto, Deus lhe ordenou que ele
mais difícil para o momento em que mesmo derramasse o sangue da-
Abraão já estava idoso e desejando quele filho. Para Abraão, isso pare-
o descanso. cia algo impossível.
A Prova da Fé 89
Satanás estava a postos para su- voltou tremendo em desespero. Foi
gerir que ele estava enganado, pois até onde estava Sara, que também
a lei divina ordena: “Não matarás” dormia. Deveria despertá-la? Como
(Êx 20:13). Deus não exigiria o que desejava aliviar o coração e parti-
tinha proibido. Ao sair da sua tenda, lhar com ela essa terrível responsa-
Abraão relembrou a promessa de bilidade! Abraão se conteve. Isaque
que sua descendência seria tão nu- era a sua alegria e o seu orgulho; o
merosa quanto as estrelas. Como amor de mãe poderia se recusar a
Isaque poderia ser morto se essa fazer esse sacrifício.
promessa deveria ser cumprida por
meio dele? Abraão se prostou e orou Três Dias Muito Tristes
como nunca antes para obter alguma Abraão acordou o filho e lhe con-
confirmação da ordem, para saber tou da ordem para irem oferecer sa-
se ele realmente tinha que cumprir crifício em uma montanha distante.
esse terrível dever. Lembrou-se dos Isaque tinha ido adorar várias vezes
anjos que tinham sido enviados para com seu pai; por isso, ele não ficou sur-
revelar o propósito de Deus de des- preso com a notícia. A lenha estava
truir Sodoma e lhe trazido a pro- preparada e colocada sobre o jumento
messa desse mesmo filho Isaque. então partiram com dois servos.
Foi até o lugar onde já havia se en- Pai e filho viajavam em silêncio.
contrado antes com os mensageiros Abraão refletia em seu terrível se-
celestiais, na esperança de receber gredo. Seus pensamentos estavam
outra orientação, mas ninguém apa- naquela mãe amável, orgulhosa do
receu. A ordem de Deus estava clara filho e no dia em que teria que vol-
em seus ouvidos: “Tome seu filho, tar para casa sozinho. Ele bem sabia
seu único filho, Isaque, a quem você que a notícia da morte do filho seria
ama.” Ele deveria obedecer a essa como uma faca cortando seu coração.
ordem. Estava amanhecendo, e ele Aquele dia – o mais longo na
tinha que começar a viagem. vida de Abraão – arrastava-se e ia
Ao retornar à tenda, foi até onde chegando ao fim. Ele passou a noite
Isaque dormia o sono calmo e pro- em oração, esperando ainda que
fundo da juventude e inocência. algum mensageiro celestial viesse
Por um momento, o pai olhou para lhe dizer que o jovem poderia voltar
o rosto de seu querido filho e então intacto para sua mãe, porém nada
90 Os Escolhidos
nem ninguém veio aliviar seu cora- filho à morte. Abraão não quis que
ção angustiado. ninguém, a não ser Deus, testemu-
Outro longo dia. Outra noite de nhasse a cena da separação. Pediu
humilhação e oração. A ordem para que seus servos ficassem mais atrás,
matar seu filho continuava soando dizendo: “Eu e o rapaz vamos até lá.
aos seus ouvidos. Satanás estava Depois de adorarmos, voltaremos”
próximo para lançar dúvida e des- (Gn 22:5).
crença, mas Abraão resistiu às suas A lenha foi colocada sobre
insinuações. Isaque, o pai pegou a faca e as bra-
Quando estavam prontos para ini- sas, juntos começaram a subir em
ciar a jornada do terceiro dia, Abraão direção ao topo da montanha.
viu o sinal prometido, uma nuvem de O jovem finalmente disse: “Meu pai!
glória pairando sobre o Monte Moriá. […] As brasas e a lenha estão aqui,
Estava certo de que a voz que falara mas onde está o cordeiro para o ho-
com ele tinha vindo do Céu. locausto?” (Gn 22:7).
Mesmo naquele momento, não Que prova foi essa! Como aque-
murmurou contra Deus. Havia rece- las carinhosas palavras, “meu pai”,
bido esse filho de forma inesperada. feriram o coração de Abraão! Ele
Aquele que havia lhe concedido esse ainda não poderia lhe dizer. Então
precioso presente tinha o direito de respondeu: “Deus mesmo há de pro-
pedir de volta o que era Seu. Então ver o cordeiro para o holocausto,
a fé lhe renovou a promessa: “Por meu filho” (Gn 22:8).
meio de Isaque que sua descendên- No lugar indicado, construíram
cia há de ser considerada” (Gn 21:12) o altar e colocaram a lenha sobre ele.
– uma descendência numerosa como Depois, com voz trêmula, Abraão re-
os grãos de areia na praia. Isaque era velou a Isaque a mensagem divina.
o filho de um milagre e não poderia
o poder que lhe deu a vida ressuscitá- Educado para Obedecer
lo? Abraão se apegou à palavra di- Com terror e espanto, Isaque
vina: “Levou em conta que Deus pode ficou sabendo da sua sorte, mas
ressuscitar os mortos” (Hb 11:19). não ofereceu nenhuma resistên-
Ninguém a não ser Deus era cia. Poderia ter fugido se quisesse.
capaz de compreender o enorme O idoso pai, exausto com as lutas
sacrifício do pai em entregar seu daqueles três dias terríveis, não
A Prova da Fé 91
poderia ter se oposto à vontade doe seus descendentes: “‘Juro por Mim
jovem forte. Isaque, porém, tinha mesmo’, declara o Senhor, ‘que por
ter feito o que fez, não Me negando
sido educado, desde criança, a obe-
decer prontamente e, ao saber do seu filho, o seu único filho, esteja
propósito de Deus, ele se entregoucerto de que o abençoarei e farei
sem resistir. Partilhava da mesma fé
seus descendentes tão numerosos
de Abraão e sentiu-se honrado em como as estrelas do céu e como a
dar sua vida em oferta a Deus. areia das praias do mar. Sua descen-
As últimas palavras de amor dedência conquistará as cidades dos
um para com o outro foram ditas, que lhe forem inimigos e, por meio
as últimas lágrimas derramadas, dela, todos os povos da Terra serão
o último abraço foi dado. O pai le-
abençoados, porque você Me obede-
vantou a faca. No mesmo instante, ceu’” (Gn 22:16-18).
o Anjo de Deus o chamou do Céu: Desde então, o grande ato de
“Abraão, Abraão!” Ele rapidamente fé praticado por Abraão perma-
respondeu: “Eis-me aqui.” Então ele
nece como uma coluna de luz, ilu-
ouviu novamente a voz: “‘Não toqueminando o caminho dos servos de
no rapaz’, disse o Anjo. ‘Não lhe faça
Deus em todos os tempos. Durante
nada. Agora sei que você teme a Deus,
esses três dias de viagem, Abraão
porque não Me negou seu filho, o seu
teve tempo suficiente para racio-
único filho’” (Gn 22:11, 12). cinar e duvidar de Deus. Ele pode-
Abraão viu “um carneiro preso ria ter pensado que matar seu filho
pelos chifres” e logo a seguir o faria com que fosse considerado um
ofereceu “em lugar de seu filho” assassino, um segundo Caim; seus
(Gn 22:13). Com grande alegria ensinos poderiam ser rejeitados e
e gratidão, Abraão deu um novo desprezados, destruindo assim seu
nome àquele lugar sagrado – “Jeová-
poder para fazer o bem a seus seme-
jiré”, que significa: “O Senhor pro-
lhantes. Poderia ter se justificado,
verá” (Gn 22:14). dizendo que a idade o dispensava
de obedecer, mas ele não se apegou
Promessa Renovada às desculpas. Abraão era humano.
No Monte Moriá, por meio de Suas paixões e afeições eram seme-
um juramento solene, Deus confir- lhantes às nossas, porém ele não
mou novamente a bênção a Abraão parou para ficar pensando na dor
92 Os Escolhidos
que sentia em seu coração. Sabia que Deus “anunciou primeiro as
Deus é justo e reto em tudo aquilo boas-novas a Abraão” (Gl 3:8). A fé
que nos pede para fazer. do patriarca foi firmada no Reden-
‘“Abraão creu em Deus, e isso lhe tor que um dia viria. Cristo disse:
foi creditado como justiça’ e ele foi “Abraão, pai de vocês, regozijou-se
chamado amigo de Deus” (Tg 2:23). porque veria o Meu dia; ele o viu
Paulo diz ainda: “Os que são da fé, estes e alegrou-se” (Jo 8:56). O cordeiro
é que são filhos de Abraão” (Gl 3:7). oferecido em lugar de Isaque repre-
Abraão demonstrou sua fé por meio sentava o Filho de Deus, que seria
de suas obras. “Não foi Abraão, nosso sacrificado em nosso lugar. O Pai,
antepassado, justificado por obras, olhando para Seu Filho, disse ao pe-
quando ofereceu seu filho Isaque cador: “Viva: Eu achei um resgate.”
sobre o altar? Você pode ver que A angústia que Abraão supor-
tanto a fé como as obras estavam tou durante os dias mais negros da-
atuando juntas, e a fé foi aperfei- quela terrível prova foi permitida
çoada pelas obras” (Tg 2:21, 22). para que ele pudesse compreender
Muitos não conseguem enten- uma parte da grandeza do sacrifício
der a relação entre fé e obras. Dizem feito por Deus para a nossa redenção.
eles: “Apenas creia em Cristo e estará Nenhuma outra prova poderia ter
salvo; isso não tem nada que ver com causado em Abraão tamanho sofri-
guardar a lei.” Entretanto, a fé ver- mento como o oferecimento do pró-
dadeira é demonstrada por meio da prio filho. Deus deu Seu Filho para
obediência. O Senhor declara com que sofresse uma morte de agonia e
respeito ao pai dos fiéis: “Abraão Me humilhação. Não foi permitido aos
obedeceu e guardou Meus preceitos, anjos que interferissem, como ha-
Meus mandamentos, Meus decre- viam feito no caso de Isaque. Não
tos e Minhas leis” (Gn 26:5). Tiago houve nenhuma voz que exclamasse:
assim nos diz: “Assim também a fé, “Basta!” Para salvar a raça caída, o Rei
por si só, se não for acompanhada da glória entregou a Sua vida.
de obras, está morta” (Tg 2:17). “Aquele que não poupou Seu
João, que tanto fala de amor, nos próprio Filho, mas O entregou por
diz: “Porque nisto consiste o amor todos nós, como não nos dará jun-
a Deus: em obedecer aos Seus man- tamente com Ele, e de graça, todas
damentos” (1Jo 5:3). as coisas?” (Rm 8:32).
A Prova da Fé 93
Lição para o Universo não envolvia sofrimento, mas a
O sacrifício exigido de Abraão ordem que foi dada a Abraão exigia
não foi somente para o bem de si o mais angustiante sacrifício. Todo o
mesmo nem apenas para benefício Céu contemplava com espanto e ad-
das futuras gerações; serviu tam- miração a inabalável obediência de
bém de instrução para os seres sem Abraão. Todo o Céu admirava sua
pecado, no Céu e em outros mun- lealdade. Ficou provado que as acusa-
dos. A Terra, onde o plano da re- ções de Satanás eram falsas. A aliança
denção está sendo executado, é o feita entre Deus e Abraão provou que
livro de estudos do Universo. Como a obediência será recompensada.
Abraão havia mostrado falta de fé, Quando a ordem foi dada a
Satanás o havia acusado diante dos Abraão para oferecer seu filho, todos
anjos e de Deus. O Senhor desejou os seres celestiais observaram com
provar a lealdade de Seu servo pe- intenso interesse cada passo no cum-
rante todo o Céu, para demonstrar primento dessa ordem. Luz foi lan-
que nada menos que a perfeita obe- çada sobre o mistério da redenção, e
diência pode ser aceita, explicando até mesmo os anjos compreenderam
assim de forma mais clara para eles mais claramente a maravilhosa pro-
o plano da salvação. vidência feita por Deus para a nossa
A prova dada a Adão no Éden salvação (ver 1Pe 1:12).
14
O Pecado de Sodoma
*
e Gomorra
E ntre as cidades do
vale do Jordão estava
Sodoma, que era “como o jardim do
sofrimento. O povo se entregou à
satisfação de seus desejos sensuais.
“Ora, este foi o pecado de sua irmã
Senhor” (Gn 13:10), por sua fertili- Sodoma: ela e suas filhas eram ar-
dade e beleza. Ricas plantações se es- rogantes, tinham fartura de co-
palhavam pelos campos, ao lado dos mida e viviam despreocupadas;
rebanhos e do gado que cobriam as não ajudavam os pobres e os neces-
colinas ao redor. A arte e o comércio sitados. Eram altivas e cometeram
contribuíam para o enriquecimento práticas repugnantes diante de
da orgulhosa cidade. Os tesouros do Mim. Por isso Eu Me desfiz delas,
Oriente enfeitavam seus palácios e conforme você viu” (Ez 16:49, 50).
as caravanas traziam todo tipo de Satanás tem mais sucesso quando
preciosidades para abastecer os mer- faz seus ataques no momento em
cados. Com pouca preocupação ou que as pessoas estão sem ter nada
trabalho, as pessoas tinham condi- para fazer.
ções de viver confortavelmente. Em Sodoma havia prazeres,
A despreocupação e as riquezas orgia, banquetes e bebedeiras. As
endureciam o coração que nunca paixões mais abomináveis não ti-
havia se preocupado com a pobreza nham limites. O povo não apenas
ou vivido sobrecarregado pelo desafiava abertamente a Deus e à
* Este capítulo é baseado em Gênesis 19.
O Pecado de Sodoma e Gomorra 95
Sua lei, mas também se divertia beleza. Multidões em busca de pra-
com a violência. Embora tivessem o zeres iam de um lado para outro,
exemplo do mundo antediluviano e preocupadas em aproveitar as ale-
soubessem de sua destruição, segui- grias do momento.
ram o mesmo caminho de maldade. No cair da noite, dois estranhos se
Quando Ló se mudou para aproximaram dos portões da cidade.
Sodoma, a perversão ainda não era Ninguém poderia imaginar que
tão generalizada e, em Sua miseri- aqueles eram os poderosos porta-
córdia, Deus permitiu que raios de vozes do juízo divino. A multidão
luz brilhassem em meio às trevas despreocupada mal sonhava que,
morais. Abraão não era um estra- por causa da maneira como ha-
nho para o povo de Sodoma, e sua viam tratado aqueles mensageiros
vitória sobre forças muito mais po- celestiais, naquela mesma noite, eles
derosas provocaram espanto e ad- atingiram o auge da transgressão
miração. Ninguém poderia negar que acabou condenando a cidade.
que um poder divino o havia feito
vencedor. Seu espírito nobre e al- Ló Hospeda Anjos
truísta, tão estranho aos habitan- Ali morava um homem que
tes egoístas de Sodoma, foi outra havia demonstrado bondade e aten-
prova de que a religião que ele ção para com os desconhecidos,
honrava era superior. Deus estava convidando-os para irem à sua casa.
falando àquele povo por Sua pro- Ló não imaginava quem eles eram
vidência, mas o último raio de luz e por que estavam ali; mas, ser edu-
havia sido rejeitado, como todos os cado e hospitaleiro era um hábito
outros anteriormente. que ele cultivava – uma lição que
A última noite de Sodoma estava havia aprendido com Abraão. Se
chegando, mas seus moradores não não tivesse cultivado o espírito de
perceberam. Enquanto os anjos se cortesia, poderia ter sido destruído
aproximavam para executar a mis- com Sodoma. Muitos lares fecham
são de destruição, as pessoas so- suas portas a estranhos, e assim dei-
nhavam com prosperidade e prazer. xam do lado de fora mensageiros
O último dia foi como todos os ou- de Deus que trariam grandes bên-
tros. Os raios do pôr do sol banha- çãos. O Senhor Se agrada dos atos
vam a paisagem de incomparável humildes e sinceros de abnegação
96 Os Escolhidos
diária, praticados alegremente e de Os estranhos perguntavam a res-
boa vontade. peito do caráter da cidade, quando
Conhecendo a maneira abusiva em vaias e zombarias a multidão co-
pela qual os estranhos eram trata- meçou a gritar, exigindo que os ho-
dos em Sodoma, Ló encarou como mens fossem levados para fora.
seu dever protegê-los depois que Ló saiu para tentar convencê-los.
entraram na cidade, oferecendo a “Não, meus amigos”, disse ele. “Não
eles um lugar em sua casa. Estava façam essa perversidade!” (Gn 19:7).
assentado no portão quando os Ele usou o termo “amigos” no sen-
viajantes se aproximaram. Ló se tido de vizinhos, esperando ganhar
levantou de seu lugar e foi ao en- a confiança deles. Mesmo assim, a
contro deles. Curvando-se em sinal ira deles se tornou como o rugido de
de cortesia, disse: “Meus senhores, um furacão. Eles zombaram de Ló
por favor, acompanhem-me à casa e o ameaçaram de tratá-lo pior do
do seu servo. Lá poderão […] passar que tinham pensado em fazer com
a noite’ [...]. ‘Não, passaremos a noite seus hóspedes. Eles o teriam feito
na praça’” (Gn 19:2), responderam em pedaços se os anjos de Deus não
eles, parecendo recusar. Eles tinham o tivessem livrado. Os mensageiros
duas razões para responder dessa celestiais “agarraram Ló, puxaram-
maneira – provar a sinceridade de no para dentro e fecharam a porta.
Ló e parecer que desconheciam o Depois feriram de cegueira os ho-
caráter dos habitantes de Sodoma, mens que estavam à porta da casa,
como se pensassem que era seguro dos mais jovens aos mais velhos,
ficar na rua à noite. Ló insistiu em de maneira que não conseguiam
seu convite até que concordaram e encontrar a porta” (Gn 19:10, 11).
foram com ele para casa. Se não tivessem sido atingidos por
A hesitação dos estrangeiros e cegueira dupla, sendo entregues
a insistência de Ló atraiu a aten- à dureza do seu coração, Deus os
ção e, à noite, antes que se acomo- teria atacado de tal forma que de-
dassem, uma multidão pervertida sistiriam de fazer o que pretendiam.
e descontrolada se reuniu ao redor Os pecados revelados naquela úl-
da casa; um grupo imenso, tanto de tima noite não eram maiores do que
jovens como de velhos, todos toma- nas muitas noites anteriores, mas
dos pelas paixões mais desprezíveis. a misericórdia de Deus, durante
O Pecado de Sodoma e Gomorra 97
tanto tempo desprezada, cessou fi- para deixarem a cidade. Apesar da
nalmente de batalhar. Os fogos da urgência, Ló estava demorando. Ele
vingança de Deus já estavam pron- não tinha uma noção real dos vícios
tos para serem acesos. degradantes praticados naquela ci-
Os anjos revelaram a Ló o obje- dade depravada. Não percebia a ter-
tivo de sua missão: “Estamos para rível necessidade de que os juízos de
destruir esse lugar. As acusações Deus precisavam colocar um fim ao
feitas ao Senhor contra este povo pecado. Alguns de seus filhos se ape-
são tantas que Ele nos enviou para garam a Sodoma e o pensamento de
destruir a cidade” (Gn 19:13). Os deixar aqueles a quem tanto amava
estrangeiros a quem Ló havia ten- na Terra parecia insuportável. Era
tado ajudar prometeram protegê-lo difícil abandonar sua casa luxuosa
e também salvar toda a sua famí- e toda a riqueza adquirida durante
lia, que deveria fugir daquela ímpia toda a vida, para sair dali de mãos
cidade. A multidão se cansou e foi vazias, sem nem mesmo saber para
embora; então Ló foi avisar seus fi- onde ir. Confuso e muito triste, ele
lhos. “Saiam imediatamente deste estava demorando demais. Se não
lugar, porque o Senhor está para fosse pelos anjos, todos eles teriam
destruir a cidade!” (Gn 19:14). Eles morrido. Os mensageiros celestiais
riram e disseram que aquilo não o tomaram pela mão, também a sua
passava de superstição. Suas filhas esposa e as filhas, e os levaram para
foram influenciadas pelos maridos. fora da cidade.
Não viram nenhum sinal de perigo. Em todas as cidades da planí-
Eles tinham muitos bens e não acre- cie, eles não conseguiram encontrar
ditaram que a bela Sodoma seria nem mesmo dez pessoas justas. Em
destruída. resposta à oração de Abraão, o único
homem que temia a Deus foi tirado
Ló Perde Tudo às pressas para não ser destruído.
Ló voltou muito triste para casa Com grande firmeza, foi dada a
dizendo que, mesmo apelando, não ordem: “Fuja por amor à vida! Não
havia conseguido convencê-los. olhe para trás e não pare em lugar
Então os anjos lhe disseram que ele nenhum da planície! Fuja para as
deveria chamar a esposa e as duas montanhas, ou você será morto!”
filhas que ainda estavam em casa (Gn 19:17). Lançar um olhar mais
98 Os Escolhidos
demorado sobre a cidade, parar por Novamente foi dada a ordem
um momento que fosse, arrependi- para que se apressassem, pois a
dos por deixar seu lar tão bonito, terrível tempestade de fogo não
teria lhes custado a vida. As violen- demoraria muito a cair. Um dos fu-
tas manifestações dos juízos divi- gitivos olhou para trás, para a ci-
nos estavam apenas aguardando dade condenada, e se tornou um
que esses pobres fugitivos pudes- monumento do juízo de Deus. Se o
sem escapar com segurança. próprio Ló tivesse obedecido e fu-
Ló, confuso e aterrorizado, ar- gido para a montanha sem fazer
gumentava que não poderia fazer objeção, sua esposa também po-
o que os dois visitantes haviam deria ter escapado. Seu exemplo a
lhe dito. Morando naquela cidade teria salvado do pecado que selou
má, sua fé havia se tornado fraca. sua condenação. Sua relutância fez
O Príncipe do Céu estava ao seu com que ela desse pouca importân-
lado, mesmo assim Ló suplicava por cia à advertência divina. Embora
sua vida, como se Deus, que antes seu corpo estivesse na planície, seu
demonstrou tanto amor por ele, não coração tinha ficado em Sodoma;
mais o guardasse. Ele deveria ter por isso ela morreu com a cidade.
confiado totalmente no Mensageiro Ela se rebelou contra Deus porque
divino. “Aqui perto há uma cidade Seus juízos envolveram seus bens
pequena. Está tão próxima que dá e seus filhos na destruição. Achava
para correr até lá. Deixe-me ir para que Deus tinha sido muito severo
lá! Mesmo sendo tão pequena, lá es- com ela, ao exigir que toda a riqueza
tarei a salvo” (Gn 19:20). Zoar ficava que eles demoraram tantos anos
apenas a uns poucos quilômetros para acumular fosse destruída. Em
de Sodoma e, da mesma forma, era vez de aceitar o livramento com gra-
má e estava condenada à destrui- tidão, presunçosamente olhou para
ção. Ló pediu que ela fosse poupada, trás, com o imenso desejo de con-
insistindo que esse era apenas um tinuar vivendo o mesmo estilo de
pequeno pedido. Seu desejo foi aten- vida daqueles que rejeitaram o con-
dido. O Senhor garantiu: “Está bem selho divino.
[...]. Também lhe atenderei esse pe- Há cristãos que dizem: “Não
dido; não destruirei a cidade da qual quero ser salvo, a menos que minha
você fala” (Gn 19: 21). esposa e filhos sejam salvos comigo.”
O Pecado de Sodoma e Gomorra 99
Acham que o Céu não seria Céu sem De repente, como o estrondo de
a presença daqueles a quem tanto um trovão, mesmo sem nenhuma
amam. Será que as pessoas que ali- nuvem no céu, a tempestade desa-
mentam esse tipo de sentimento bou. O Senhor fez chover fogo e en-
não sabem que estão ligadas por xofre sobre as cidades e a planície.
laços muito mais fortes de amor e Palácios e templos, mansões, jar-
lealdade ao seu Criador e Redentor? dins, vinhedos e multidões amantes
Se nossos amigos rejeitam o amor do prazer, inclusive aqueles que na
do Salvador, nós também devería- noite anterior insultaram os men-
mos rejeitar? Cristo pagou um preço sageiros do Céu – todos foram con-
infinito por nossa salvação, e aque- sumidos. A fumaça subia como se
les que dão valor a esse presente não fosse uma grande fornalha. O belo
desprezarão a misericórdia de Deus vale de Sidim se tornou um lugar
porque outros decidem fazer assim. que nunca mais seria reconstruído
O fato de outros desconhecerem as ou habitado – uma testemunha,
justas exigências de Deus deve nos para todas as gerações, da plena
animar a sermos mais prontos para certeza dos juízos de Deus sobre os
honrar a Deus e levar todos os que transgressores.
pudermos a aceitar o Seu amor. Existem pecados maiores do
que aqueles pelos quais Sodoma e
Sodoma é Destruída Gomorra foram destruídas. Aqueles
“Quando Ló chegou a Zoar, o que ouvem o convite do evangelho
sol já havia nascido sobre a Terra” para o arrependimento e não aten-
(Gn 19:23). Os brilhantes raios da dem ao chamado são mais culpados
manhã pareciam trazer somente que os moradores do vale de Sidim.
prosperidade e paz às cidades da O destino de Sodoma é uma séria
planície. A vida ativa e agitada nas advertência, não somente aos que
ruas estava apenas começando. As são culpados por viverem aberta-
pessoas seguiam por vários cami- mente no pecado, mas para todos
nhos, concentradas nos negócios ou aqueles que não levam em conside-
prazeres do novo dia. Os genros de ração a luz e os privilégios envia-
Ló estavam se divertindo à custa dos pelo Céu.
dos temores e advertências dadas O Salvador aguarda uma res-
pelo sogro já idoso. posta à Sua oferta de amor e de
100 Os Escolhidos
perdão com mais carinho e com- homens” (Mt 15:9). A infidelidade
paixão que o coração de um pai na domina em muitas igrejas, não uma
Terra ao perdoar um filho que se re- infidelidade declarada, como a nega-
belou. “Voltem para Mim e Eu vol- ção aberta da Bíblia, mas uma infi-
tarei para vocês” (Ml 3:7). Aquele delidade sutil que enfraquece a fé
que insiste em recusar esse grande na Bíblia como a revelação de Deus.
amor será finalmente deixado em A verdadeira religião tão essencial
trevas. O coração que despreza a mi- à vida deu lugar ao formalismo sem
sericórdia de Deus por longo tempo sentido. Como resultado, a imora-
fica endurecido pelo pecado e não é lidade e a apostasia tomaram
mais capaz de responder à influên- conta. Cristo declarou: “Aconteceu
cia da graça divina. No dia do juízo, a mesma coisa nos dias de Ló. […]
haverá mais tolerância para as cida- Acontecerá exatamente assim no
des da planície do que para aqueles dia em que o Filho do homem for
que conheceram o amor de Cristo e revelado” (Lc 17:28, 30). O mundo
se voltaram para os prazeres do pe- está amadurecendo rapidamente
cado. Nos livros do Céu, Deus man- para a destruição.
tém um registro dos pecados das Nosso Salvador afirmou: “Te-
nações, das famílias e de cada pes- nham cuidado para não sobre-
soa. Ainda são estendidos convi- carregar o coração de vocês de
tes ao arrependimento e ofertas de libertinagem, bebedeira e ansieda-
perdão, mas virá o tempo em que a des da vida, e aquele dia venha so-
folha de registro estará completa, bre vocês inesperadamente. Porque
a decisão pessoal tomada e o destino ele virá sobre todos os que vivem
da pessoa selado de acordo com sua na face de toda a Terra” – a todas as
escolha. Então será dado o sinal para pessoas cujos interesses estão foca-
executar o juízo. dos neste mundo. “Estejam sempre
atentos e orem para que vocês pos-
Outra Sodoma sam escapar de tudo o que está para
No mundo religioso de hoje, acontecer, e estar em pé diante do
pouca importância é dada à mise- Filho do homem” (Lc 21:34-36).
ricórdia de Deus. Multidões anu- Antes da destruição de Sodoma,
lam a lei; “seus ensinamentos não Deus enviou uma mensagem a Ló:
passam de regras ensinadas por “Fuja por amor à vida!” (Gn 19:17).
O Pecado de Sodoma e Gomorra 101
A mesma voz de advertência foi As pessoas continuam so-
ouvida antes da destruição de nhando com prosperidade e paz.
Jerusalém: “Quando virem Jeru- Multidões proclamam: “Paz e se-
salém rodeada de exércitos, vocês gurança”, enquanto o Céu declara
saberão que a sua devastação está que repentina destruição está para
próxima. Então os que estiverem cair sobre o transgressor. Na noite
na Judeia fujam para os montes” anterior à destruição, as cidades
(Lc 21:20, 21). Eles não deveriam da planície se entregaram aos ex-
se demorar, mas fugir o mais rá- cessos e aos prazeres e zombaram
pido possível. dos avisos do mensageiro de Deus.
Houve uma saída, uma clara se- Na mesma noite, a porta da mise-
paração dos ímpios, uma fuga para ricórdia se fechou para sempre aos
salvar a vida. Foi assim nos dias de despreocupados e ímpios habitan-
Noé; assim foi com Ló; aconteceu o tes de Sodoma. Deus não será zom-
mesmo com os discípulos antes da bado para sempre.
destruição de Jerusalém; e assim O mundo em massa rejeitará a
será nos últimos dias. Mais uma vez misericórdia de Deus e será de uma
podemos ouvir a voz de Deus cha- vez destruído para sempre. Aqueles
mando Seu povo para ficar longe da que atenderem às advertências ha-
maldade espalhada por toda parte. bitarão “no abrigo do Altíssimo” e
A imoralidade e a apostasia dos descansarão “à sombra do Todo-
últimos dias foram apresentadas ao Poderoso” (Sl 91:1).
profeta João na visão de Babilônia, Não muito tempo depois,
“a grande cidade que reina sobre os quando Deus viu que era necessá-
reis da Terra” (Ap 17:18). Antes de rio, Zoar também foi destruída. Ló
sua destruição, será feito o convite fugiu para as montanhas e passou
do Céu: “Saiam dela, vocês, povo a viver em uma caverna.
Meu, para que vocês não participem Mesmo assim, a maldição de
dos seus pecados, para que as pragas Sodoma o seguiu. A atitude imo-
que vão cair sobre ela não os atin- ral de suas filhas foi o resultado
jam!” (Ap 18:4). Como nos dias de das más amizades naquela cidade
Noé e de Ló, não pode existir união ímpia. Ló escolheu Sodoma pelos
entre Deus e o mundo, nem busca prazeres e lucros que oferecia, em-
por tesouros terrestres (Mt 6:24). bora tenha mantido o temor de
102 Os Escolhidos
Deus em seu coração. Ele foi salvo inteiramente livre da maldade e or-
como “um tição tirado do fogo” denar bem a sua casa, mas fracassou.
(Zc 3:2), mas sem seus bens e lamen- O resultado está claro diante de nós.
tando a perda da esposa e dos filhos, Assim como Ló, muitos perce-
passou a morar em cavernas, em bem que seus filhos já estão perdi-
uma vida de completa humilhação dos, e apenas conseguem salvar a si
em sua velhice. Ele deu ao mundo mesmos. Toda uma vida de traba-
não uma raça de pessoas justas, mas lho está perdida; não passa de um
duas nações idólatras que se opu- triste fracasso. Se tivessem prati-
seram e guerrearam contra o povo cado a verdadeira sabedoria, seus
de Deus até que foram destruídas, filhos talvez não tivessem ficado
quando se encheu a sua taça de ini- ricos, mas teriam garantido o di-
quidade. Como foram terríveis os reito à herança imortal.
resultados que se seguiram por A herança que Deus prometeu
causa de um passo mal dado! não está neste mundo. Abraão “pe-
“Não esgote suas forças ten- regrinou na terra prometida como
tando ficar rico; tenha bom senso!” se estivesse em terra estranha;
(Pv 23:4). “O avarento põe sua famí- viveu em tendas, bem como Isaque
lia em apuros” (Pv. 15:27). “Os que e Jacó, co-herdeiros da mesma pro-
querem ficar ricos caem em tenta- messa. Pois ele esperava a cidade
ção, em armadilhas e em muitos de- que tem alicerces, cujo arquiteto
sejos descontrolados e nocivos, que e edificador é Deus” (Hb 11:9, 10).
levam os homens a mergulharem Devemos viver neste mundo como
na ruína e na destruição” (1Tm 6:9). peregrinos e estrangeiros, se preten-
Quando Ló entrou em So- demos alcançar “uma pátria melhor,
doma, ele pretendia se manter isto é, a pátria celestial” (Hb 11:16).
15
O Casamento Mais
*
Feliz na Bíblia
A braão estava bem idoso,
mas ainda tinha uma
coisa a fazer. Deus havia nomeado
Nos tempos antigos, os contra-
tos de casamento eram geralmente
feitos pelos pais, e esse era o cos-
Isaque como o próximo guardião da tume entre aqueles que adoravam
lei divina e o pai do povo escolhido, a Deus. Ninguém era obrigado a se
mas ele ainda era solteiro. casar com quem não poderia amar,
Os cananeus eram adoradores mas os jovens eram orientados pela
de ídolos, e Deus proibiu os casa- decisão e bom senso de seus pais te-
mentos entre eles e Seu povo, sa- mentes a Deus. Era considerado uma
bendo que tais uniões levariam à desonra para os pais, e até mesmo
apostasia. Isaque era gentil e sub- um crime, agir de modo contrário.
misso. Se ele se unisse a alguém que Confiante na sabedoria de seu
não temia a Deus, correria o risco de pai, Isaque estava satisfeito em en-
sacrificar o princípio em favor da tregar esse caso a ele, crendo tam-
harmonia. Para Abraão, a escolha de bém que o próprio Deus dirigiria a
uma esposa para seu filho era uma escolha a ser feita. Os pensamentos
questão extremamente importante. de Abraão se voltaram para os pa-
Estava ansioso para que Isaque se rentes de seu pai na Mesopotâmia.
casasse com alguém que não o afas- Eles não estavam livres da idolatria,
taria de Deus. mas tinham o conhecimento do
* Este capítulo é baseado em Gênesis 24.
104 Os Escolhidos
verdadeiro Deus. Isaque não deve- esposa e amigos, ele partiu para a
ria ir até lá, mas talvez fosse possí- longa jornada além de Damasco,
vel encontrar uma jovem na família até as planícies banhadas pelo rio
de seu pai, que estivesse disposta a Eufrates, o grande rio do Oriente.
deixar sua casa e se casar com ele Quando chegou a Harã, a “ci-
para manter a pureza do culto ao dade onde Naor tinha morado”
verdadeiro Deus. (Gn 24:10), parou do lado de fora
Abraão confiou esse importante dos muros, próximo ao poço onde
assunto a Eliézer, “o servo mais as mulheres vinham à tarde para
velho de sua casa” (Gn 24:2), um buscar água. Estava preocupado.
homem experiente e de bom discer- Resultados importantes e de gran-
nimento, que vinha lhe prestando des consequências, não só para a
um serviço fiel por muito tempo. Ele casa de seu senhor, mas para as ge-
exigiu que seu servo fizesse um jura- rações futuras, dependiam da esco-
mento solene, prometendo que não lha que ele fizesse. Lembrando-se de
escolheria uma esposa para Isaque que Deus enviaria o Seu anjo com
entre os cananeus, mas que escolhe- ele, orou pedindo uma clara dire-
ria uma moça da família de Naor, na ção. Na família de seu senhor, ele
Mesopotâmia. Se não conseguisse estava acostumado a sempre agir
encontrar uma moça que quisesse com bondade e hospitalidade e, na-
deixar seu lar e sua família, então o quele momento, pediu que um ato
mensageiro estaria livre de seu jura- de cortesia indicasse a jovem que
mento. Abraão o animou com a cer- Deus tinha escolhido.
teza de que, com a ajuda de Deus, Mal terminou a oração, e a res-
sua missão seria bem-sucedida. “O posta foi dada. Entre as moças que
Senhor, o Deus dos Céus”, disse ele, estavam junto ao poço, as manei-
“que me tirou da casa de meu pai e ras corteses de uma delas atraíram
de minha terra natal […] enviará o a sua atenção. Assim que ela se reti-
Seu anjo adiante de você” (Gn 24:7). rou, o estranho foi ao seu encontro e
O mensageiro partiu sem de- pediu um pouco de água do cântaro
mora. Pegando dez camelos para uso que tinha sobre os ombros. O pe-
de seu grupo e do cortejo nupcial que dido recebeu uma amável resposta,
poderia retornar com ele, levando e ela se ofereceu para tirar água para
também presentes para a futura os camelos também.
O Casamento Mais Feliz na Bíblia 105
Assim, o sinal que pediu rapi- Rebeca Acreditou em Eliézer
damente lhe foi dado. A jovem “era A própria Rebeca foi consultada
muito bonita”, e sua prontidão e cor- para saber se ela estava disposta a
tesia provaram que tinha um bom ir para um lugar tão distante da
coração e uma natureza dinâmica casa de seus pais a fim de se casar
e ativa. Até aí a mão divina estava com o filho de Abraão. Ela acredi-
com ele. O mensageiro perguntou tou que Deus a havia escolhido para
de quem ela era filha e, quando ele ser a esposa de Isaque e disse: “Sim,
soube que o pai da moça era Betuel, quero” (Gn 24:58).
sobrinho de Abraão, “curvou-se em O servo, imaginando a alegria
adoração ao Senhor”. de seu senhor, ficou ansioso para
O mensageiro explicou então à partir e, logo ao amanhecer, eles se
jovem o relacionamento que tinha puseram a caminho na viagem de
com Abraão. Ao voltar para casa, volta para casa. Abraão morava em
ela contou o que tinha acontecido, e Berseba, e Isaque, que estava pas-
Labão, seu irmão, no mesmo instante, toreando os rebanhos numa região
saiu apressado e trouxe o estranho próxima, tinha voltado à tenda
para se hospedar na casa deles. de seu pai para esperar pelo men-
Eliézer não quis comer alimento sageiro que vinha de Harã. “Certa
algum antes de falar da missão que tarde, saiu ao campo para meditar.
o havia levado até ali, da oração Ao erguer os olhos, viu que se apro-
junto ao poço e de tudo o que tinha ximavam camelos. Rebeca tam-
acontecido depois disso. Então ele bém ergueu os olhos e viu Isaque.
disse: “Agora, se quiserem mostrar Ela desceu do camelo e perguntou
fidelidade e bondade a meu senhor, ao servo: ‘Quem é aquele homem
digam-me; e, se não quiserem, di- que vem pelo campo ao nosso en-
gam-me também, para que eu de- contro?’ ‘É meu senhor’, respondeu
cida o que fazer” (Gn 24:49). E a o servo. Então ela se cobriu com o
resposta foi: “Isso vem do Senhor; véu. Depois o servo contou a Isaque
nada lhe podemos dizer, nem a tudo o que havia feito. Isaque levou
favor, nem contra. Aqui está Rebeca; Rebeca para a tenda de sua mãe
leve-a com você e que ela se torne a Sara; fez dela sua mulher, e a amou;
mulher do filho do seu senhor, como assim Isaque foi consolado após a
disse o Senhor” (Gn 24:50, 51). morte de sua mãe” (Gn 24:63-67).
106 Os Escolhidos
Abraão tinha observado o resul- veio de sua descendência foi um
tado dos casamentos entre aqueles povo pagão e perturbador.
que temiam a Deus e os que não te- A esposa de Ló foi uma mulher
miam, desde os dias de Caim até a egoísta, sem religião, e fez tudo para
época em que vivia. As consequên- separar seu marido de Abraão. Se
cias de sua união com Hagar e os não fosse por sua causa, Ló não
casamentos de Ismael e Ló estavam teria ficado em Sodoma. A influên-
diante dele. A influência de Abraão cia de sua esposa e o seu relacio-
sobre seu filho Ismael foi prejudi- namento com o povo dessa ímpia
cada pelo convívio com os paren- cidade o teriam levado a se afastar
tes idólatras de Hagar e pela ligação de Deus, se não fossem as fiéis ins-
de Ismael com esposas descrentes. truções recebidas de Abraão em sua
A inveja de Hagar e das esposas juventude.
que ela escolheu para Ismael cercou É perigoso, para aquele que teme
sua família com uma barreira que a Deus, relacionar-se com aqueles
Abraão se esforçou, mas não con- que não O temem. “Duas pessoas
seguiu ultrapassar. andarão juntas se não estiverem
Os primeiros ensinos de Abraão de acordo?” (Am 3:3). A felicidade
não deixaram de ter algum efeito e o sucesso do casamento depen-
sobre Ismael, mas as influências dem da harmonia entre marido e
de suas esposas resultaram na prá- mulher; mas há uma diferença ra-
tica da idolatria em sua família. dical de gostos, inclinações e obje-
Separado de seu pai e amargurado tivos entre o crente e o descrente.
pelas brigas e discórdias de um lar Por mais puros e corretos que sejam
onde faltava o amor e o temor de os princípios de um, a influência de
Deus, Ismael foi levado a escolher um companheiro ou companheira
a vida selvagem de um chefe de la- descrente terá a tendência de afas-
drões do deserto; “sua mão será con- tar o crente de Deus.
tra todos, e a mão de todos contra Aqueles que entraram para o ca-
ele” (Gn 16:12). No fim da vida, ele se samento quando ainda não eram
arrependeu e voltou ao Deus de seu convertidos, e depois se converte-
pai, mas as marcas de caráter fica- ram, têm maior obrigação de serem
ram e foram transmitidas aos seus fiéis ao seu cônjuge, não importando
descendentes. A poderosa nação que quais sejam as suas diferenças
O Casamento Mais Feliz na Bíblia 107
quanto à fé religiosa. Entretanto, as tarde demais. A mesma falta de sa-
ordens de Deus devem ser colocadas bedoria e domínio próprio que de-
acima de todo relacionamento ter- terminaram a escolha precipitada
reno, mesmo que traga provações e tornam os problemas ainda piores,
perseguição. O espírito de amor e até que o casamento se transforma
fidelidade pode conquistar o côn- em um fardo. Assim, muitos perde-
juge descrente. No entanto, o casa- ram a felicidade nesta vida e a espe-
mento com descrentes é proibido na rança da vida futura.
Bíblia. “Não se ponham em jugo de- Se a Bíblia já foi necessária como
sigual com os descrentes” (2Co 6:14; conselheira, se em algum tempo a
ver também v. 17, 18). direção divina deveria ser buscada
em oração, é ainda mais no mo-
Antes do Casamento mento de dar esse passo que une
Isaque foi o herdeiro das pro- as pessoas para toda a vida.
messas pelas quais o mundo seria Pais e mães jamais deveriam per-
abençoado; mesmo assim, quando der de vista a responsabilidade que
estava com quarenta anos de idade, têm para com a felicidade futura de
permitiu que seu pai escolhesse uma seus filhos. Ao mesmo tempo em
esposa para ele. O resultado desse que Abraão exigia de seus filhos o
casamento traz um belo exemplo respeito à autoridade paterna, sua
de felicidade no lar: “Isaque levou vida diária dava fiel testemunho
Rebeca para a tenda de sua mãe de que essa autoridade não era um
Sara; fez dela sua mulher, e a amou; domínio egoísta ou arbitrário, mas
assim Isaque foi consolado após a que estava fundamentada no amor
morte de sua mãe” (Gn 24:67). e que tinha em vista o bem-estar e
É muito comum encontrar jo- a felicidade deles.
vens que acham que a escolha de Os pais e mães têm o dever de
um companheiro para a vida é uma orientar os sentimentos dos jovens
questão pessoal, que diz respeito a para que sejam colocados naque-
eles somente. Acham-se capazes de les que serão companheiros apro-
fazer a própria escolha sem a ajuda priados para eles. Devem moldar o
dos pais. Alguns anos após o casa- caráter de seus filhos desde os pri-
mento são o bastante para mostrar meiros anos de vida, para que sejam
a eles o seu erro, mas quando já é puros e nobres, atraídos para tudo
108 Os Escolhidos
que seja bom e verdadeiro. Se o O verdadeiro amor é um prin-
amor à verdade, à pureza e à bon- cípio elevado e santo, inteiramente
dade foi colocado desde cedo em seu diferente do amor que é despertado
coração, o jovem procurará a ami- por um impulso, e que morre de re-
zade daqueles que possuem essas pente ao ser duramente provado.
características. Na casa dos pais, os jovens devem se
Pais, procurem ser semelhan- preparar para formar seus próprios
tes ao nosso Pai celestial, que é todo lares. É ali que devem praticar a ab-
amor. Permitam que no lar reine negação, a bondade, a cortesia e a
uma atmosfera de alegria. Isso será simpatia cristã.
de muito maior valor para seus fi- O jovem que sai de um lar assim
lhos do que terras ou dinheiro. Que para se tornar o chefe da própria fa-
o amor no lar seja mantido vivo no mília saberá como promover a feli-
coração de cada um deles para que cidade daquela que escolheu como
possam olhar para trás e relembrar o companheira para toda a vida.
lar de sua infância como um lugar de O casamento, em vez de ser o fim
paz e felicidade bem próximo do Céu. do amor, será apenas o seu começo.
16
*
Jacó e Esaú
J acó e Esaú, os filhos gê-
meos de Isaque, apre-
sentam um nítido contraste entre
desertos, depois voltava para casa
com a caça e com as emocionantes
histórias de sua vida de aventuras.
eles, tanto no caráter como na vida. Jacó era mais ajuizado e esfor-
Antes de nascerem, o anjo de Deus çado, sempre pensava mais no futuro
previu o quanto eles seriam diferen- que no presente, vivia contente com
tes. Em resposta à oração aflita de a vida no lar, ocupado em cuidar dos
Rebeca, o anjo declarou que ela teria rebanhos e cultivar a terra. Sua mãe
dois filhos. Ele revelou a história apreciava sua paciente perseverança,
deles no futuro, dizendo que cada economia e prudência. O cuidado e
um se tornaria o pai de uma pode- atenção que ele dedicava à mãe con-
rosa nação, mas que um seria maior tribuíam mais para a felicidade dela
que o outro, e que o mais novo do- do que os gestos impulsivos de cari-
minaria sobre o mais velho. nho que Esaú demonstrava de vez
Esaú cresceu fazendo a própria em quando. Para Rebeca, Jacó era o
vontade e centralizava todo o seu in- filho mais querido.
teresse no momento em que estava Esaú e Jacó foram ensinados a
vivendo. Sem limites, sua alegria considerar o direito de primogeni-
era viver a vida selvagem e a vida de tura como uma questão de grande
caçador. No entanto, era o favorito importância, pois incluía não só a he-
de seu pai. Esse filho mais velho ex- rança dos bens materiais, mas a lide-
plorava sem medo as montanhas e rança espiritual. Aquele que a recebia
* Este capítulo é baseado em Gênesis 25:19-34; 27.
110 Os Escolhidos
se tornava o sacerdote de sua família, claramente o caráter de seus filhos
e da linhagem de seus descendentes do que seu marido. Convencida de
viria o Redentor do mundo. que a herança da promessa divina
Por outro lado, quem recebesse estava destinada a Jacó, ela repetiu
o direito de primogenitura tinha al- para Isaque as palavras ditas pelo
gumas obrigações. Aquele que her- anjo. Mesmo assim, as afeições do
dasse a bênção deveria dedicar sua pai estavam centralizadas no filho
vida ao serviço de Deus. No casa- mais velho. Ele estava decidido a dar
mento, nas relações familiares, na a Esaú o direito de primogenitura.
vida pública, deveria consultar a Jacó ficou sabendo por sua mãe
vontade de Deus. que o direito de primogenitura de-
Isaque falou com seus filhos a res- veria ser dado a ele e desejava in-
peito desses privilégios e condições, e tensamente receber os privilégios
explicou claramente que Esaú, como dessa bênção. Não era a posse das ri-
o irmão mais velho, era o que tinha quezas de seu pai que ansiosamente
direito à primogenitura. No en- esperava; era o direito de primoge-
tanto, Esaú não se dedicava à devo- nitura que ele mais almejava. Ter co-
ção nem tinha inclinação para viver munhão com Deus como Abraão,
uma vida religiosa. Para ele, as exi- oferecer sacrifícios pelo pecado, ser
gências que acompanhavam o direito o pai do povo escolhido, de onde
de primogenitura não passavam de viria o prometido Messias, tomar
restrições inconvenientes e até de- posse da herança imortal que en-
testáveis. Esaú considerava um fardo volvia as bênçãos da aliança – esses
de escravidão a lei de Deus e a condi- eram os privilégios e a honra que
ção da aliança de Deus com Abraão. Jacó ardentemente desejava.
Decidido a satisfazer a própria Ouvia com atenção tudo o que seu
vontade, o que mais desejava era ter pai dizia a respeito da primogenitura
a liberdade de fazer o que lhe agra- espiritual; guardou cuidadosamente
dasse. Para ele, o poder e as riquezas, na memória o que aprendeu com sua
festas e orgias eram o que trazia feli- mãe. Esse assunto se tornou o foco
cidade. Amava a liberdade sem restri- de sua vida. Apesar disso, Jacó não
ções de sua vida selvagem e errante. tinha um relacionamento pessoal
Rebeca se lembrava das palavras com o Deus a quem ele reverenciava.
do anjo e conseguia diferenciar mais O coração não tinha sido renovado
Jacó e Esaú 111
pela graça divina. Procurava constan- Agora poderia fazer o que quisesse.
temente um meio pelo qual pudesse Para satisfazer prazeres descontro-
conseguir a bênção que era desvalo- lados assim, equivocadamente cha-
rizada por seu irmão, mas que para mados de liberdade, muitos estão
ele era tão preciosa. vendendo seu direito de primogeni-
tura representado por uma herança
Esaú Vende seu Tesouro eterna nos Céus!
Ao voltar para casa certo dia, de- Esaú se casou com duas mulhe-
pois da caçada, com muita fome e can- res hititas. Elas adoravam falsos deu-
sado, Esaú pediu o alimento que seu ses, e a idolatria delas trazia grande
irmão estava preparando. Jacó apro- amargura para Isaque e Rebeca.
veitou o momento para tirar vanta- Esaú tinha transgredido uma das
gem da situação e ofereceu o alimento condições da aliança que proibia o
em troca da primogenitura. “Estou casamento entre o povo escolhido
quase morrendo. De que me vale esse e os pagãos; mesmo assim, Isaque
direito?” (Gn 25:32), exclamou o ca- ainda estava decidido a conceder a
çador precipitado e condescendente ele o direito de primogenitura.
consigo mesmo. Por um prato de len- Os anos se passaram. Isaque, já
tilhas vermelhas, ele abriu mão de sua idoso e cego, sentindo que a morte
primogenitura e confirmou a troca se aproximava, resolveu não de-
com um juramento. Para satisfazer morar mais a dar a bênção ao seu
um desejo do momento, demons- filho mais velho. Sabendo da opo-
trando toda a sua indiferença, ele tro- sição de Rebeca e de Jacó, decidiu
cou a gloriosa herança que o próprio realizar a solene cerimônia em se-
Deus tinha prometido a seus pais. gredo e deu as instruções a Esaú: “Vá
Todo o seu interesse estava no pre- ao campo caçar alguma coisa para
sente. Ele estava pronto a sacrificar as mim. Prepara-me aquela comida
coisas celestiais por prazeres terrenos, saborosa que tanto aprecio e traga-
a trocar um bem futuro por uma sa- me para que eu a coma e o abençoe
tisfação momentânea. antes de morrer” (Gn 27:3, 4).
“Assim Esaú desprezou o seu di- Rebeca contou a Jacó o que tinha
reito de filho mais velho” (Gn 25:34). acontecido, insistindo para que to-
Ao desistir da primogenitura, ele massem uma atitude imediata a fim
sentiu uma sensação de alívio. de que a bênção não fosse concedida
112 Os Escolhidos
a Esaú. Ela afirmou ao filho que, se vida. Essa cena ainda estava vívida
ele seguisse suas instruções, obteria diante dele, anos depois, quando o
o direito de primogenitura conforme mau procedimento de seus filhos
Deus tinha prometido. Jacó não con- apertava seu coração.
cordou facilmente. O pensamento de Assim que Jacó saiu da tenda
enganar seu pai lhe causava grande de seu pai, entrou Esaú. Embora ti-
angústia. Um pecado como esse tra- vesse vendido seu direito de primo-
ria maldição em vez de bênção. genitura, ele estava determinado a
Ele enfim cedeu e começou a co- obter as bênçãos por ela garanti-
locar em ação as sugestões de sua das. Com a bênção da primogeni-
mãe. Jacó não tinha a intenção de tura espiritual, estavam envolvidas
mentir; porém, ao estar na pre- as bênçãos materiais que davam o
sença de seu pai, percebeu que tinha direito de chefiar a família e de rece-
ido muito longe para voltar atrás. ber porção dobrada das riquezas do
Mesmo assim, conseguiu receber a pai. “Meu pai, levante-se e coma da
cobiçada bênção por meio da fraude. minha caça, para que o senhor me
dê sua bênção” (Gn 27:31).
Consequências do Engano Tremendo de espanto e angús-
Jacó e Rebeca foram bem- tia, o idoso pai, já cego, soube do en-
sucedidos em seu plano, mas conse- gano praticado contra ele. Sentiu
guiram apenas aborrecimento e tris- profundamente a decepção que
teza por seu engano. Deus afirmou o filho mais velho também senti-
que Jacó receberia a bênção da pri- ria. No entanto, veio à sua mente,
mogenitura; portanto, Sua palavra no mesmo instante, a convicção de
teria se cumprido se Jacó tivesse es- que a providência de Deus havia
perado que Deus agisse em seu favor. feito acontecer justamente o que
Rebeca se arrependeu amargamente ele estava determinado a impe-
do mau conselho que deu ao filho. dir. Lembrou-se das palavras do
Jacó sentiu o peso da culpa. Ele anjo a Rebeca e viu que Jacó seria
tinha pecado contra seu pai, contra o mais indicado para cumprir os
seu irmão, contra si mesmo e con- propósitos de Deus. Enquanto as
tra Deus. Não levou mais que uma palavras da bênção eram pronun-
hora para ele cometer um ato que lhe ciadas, ele sentia sobre si o Espírito
traria arrependimento para toda a de Inspiração; e confirmou então a
Jacó e Esaú 113
bênção que pronunciou involunta- Na Bíblia, Esaú é chamado de
riamente sobre Jacó: “A ele abençoei; “imoral ou profano” (Hb. 12:16).
e abençoado ele será!” (Gn 27:33). Ele representa aqueles que dão
pouco valor à redenção adquirida
Arrependimento Tardio por Cristo e estão prontos a sacrifi-
Esaú deu pouca importân- car sua herança no Céu pelos bens
cia à bênção quando ainda estava passageiros da Terra. Multidões
ao seu alcance; porém, a partir do vivem sem qualquer preocupa-
momento em que não pôde mais ção ou cuidado pelo futuro. Como
recebê-la, ficou terrivelmente triste Esaú, exclamam: “Comamos e beba-
e com muita raiva. “Meu pai, o se- mos, porque amanhã morreremos”
nhor tem apenas uma bênção? (1Co 15:32). Quando os desejos
Abençoe-me também, meu pai!” do apetite tomam conta, Deus e o
(Gn 27:38). Contudo, o direito de Céu são praticamente desprezados.
primogenitura que ele tão descui- Diante do dever de se purificarem
dadamente trocou, não pôde con- de toda a impureza da carne e do
seguir de volta. “Por uma única espírito, aperfeiçoando a sua san-
refeição” (Hb 12:16), por uma satis- tidade no poder de Deus, sentem-
fação momentânea do apetite que se ofendidos.
nunca foi reprimido, Esaú vendeu Multidões estão vendendo seu
sua herança. direito de primogenitura pela sa-
Quando viu a loucura que tinha tisfação dos sentidos. Sacrificam
feito, já era muito tarde para voltar a saúde, enfraquecem as faculda-
atrás. “Não teve como alterar sua des mentais e perdem o Céu, tudo
decisão, embora buscasse a bên- por um simples prazer temporário
ção com lágrimas” (Hb 12:17). Esaú que os enfraquece e desmoraliza
ainda poderia buscar o favor de ao mesmo tempo. Esaú despertou
Deus, caso se arrependesse, mas não muito tarde para conseguir recupe-
tinha mais como recuperar a primo- rar sua perda. Assim acontecerá no
genitura. Ele ficou muito triste pelos grande dia de Deus com aqueles que
resultados do seu pecado, mas não trocaram sua posição de herdeiros
pelo pecado em si. do Céu por suas satisfações egoístas.
17
*
A Fuga e o Exílio de Jacó
A meaçado de morte por
Esaú, Jacó saiu da casa
de seu pai como fugitivo, mas levava
Ao anoitecer do segundo dia, ele
já estava distante das tendas de seu
pai. Sentia-se rejeitado e sabia que
consigo a bênção paterna. Isaque re- toda aquela inquietação havia re-
novou a promessa da aliança feita a caído sobre ele por causa de seu
ele e orientou o filho para que pro- mau procedimento. O desespero
curasse uma esposa entre a família o incomodava tanto que ele quase
de sua mãe, na Mesopotâmia. deixou de orar. Estava tão solitá-
Jacó partiu para fazer sua via- rio que sentiu necessidade da pro-
gem solitária com o coração profun- teção de Deus como nunca antes.
damente perturbado. Com apenas Em lágrimas, ele confessou seu
um cajado na mão, ele teve que via- pecado e pediu sinceramente que
jar centenas de quilômetros em ter- Deus lhe desse uma prova de que
ras habitadas por tribos selvagens e não o havia abandonado por com-
nômades. Cheio de remorso e medo, pleto. Jacó perdera toda a confiança
procurava evitar as pessoas. Estava em si mesmo e ficou com medo de
com receio de ser seguido pelo irmão que Deus o tivesse rejeitado.
que se havia deixado dominar pela Apesar de tudo, Deus ainda
raiva. Temia ter perdido para sem- tinha misericórdia de Seu servo
pre a bênção que Deus tinha pro- fugitivo e sem qualquer confiança
metido lhe dar, e Satanás estava a em si mesmo. Com grande compai-
postos para atacá-lo com tentações. xão, o Senhor revelou exatamente
* Este capítulo é baseado em Gênesis 28 a 31.
A Fuga e o Exílio de Jacó 115
o que Jacó precisava – um Salvador. cumpriria por meio dele, Jacó teria
Ele tinha pecado, mas Deus revelou forças para se manter fiel.
um caminho pelo qual poderia ser Nessa visão, Jacó ficou sabendo
restaurado ao favor divino. de detalhes do plano da redenção
Cansado, o viajante se deitou no que eram importantes para ele
chão, tendo uma pedra como tra- naquele momento. A escada que
vesseiro. Ao dormir, ele viu uma es- ele viu no sonho era a mesma a que
cada, cuja base estava apoiada na Cristo Se referiu em Sua conversa
Terra enquanto o topo alcançava o com Natanael: “Vocês verão o Céu
Céu. Por essa escada, anjos subiam aberto e os anjos de Deus subindo
e desciam. Acima estava o Senhor e descendo sobre o Filho do homem”
da glória, e do Céu Jacó ouviu a Sua (Jo 1:51). O pecado de Adão e Eva
voz: “Eu sou o Senhor, o Deus de seu separou a Terra do Céu, de maneira
pai Abraão e o Deus de Isaque. […] que os seres humanos não mais
Todos os povos da Terra serão aben- poderiam ter comunhão com seu
çoados por meio de você e da sua Criador. Mesmo assim, o mundo
descendência” (Gn 28:13, 14). Essa não foi deixado sem esperança.
promessa tinha sido feita a Abraão A escada representa Jesus, o meio
e a Isaque, e agora estava sendo re- indicado para a comunicação. Cristo
novada a Jacó. Naquele momento, nos une, em nossa fraqueza e de-
ele ouviu as seguintes palavras de samparo, à fonte de infinito poder.
ânimo e de conforto: “Estou com Tudo isso foi revelado a Jacó no
você e cuidarei de você, aonde quer sonho. Embora no momento sua
que vá; e Eu o trarei de volta a esta mente conseguisse entender apenas
terra. Não o deixarei enquanto não uma parte da revelação, suas gran-
fizer o que lhe prometi” (Gn 28:15). des e misteriosas verdades foram o
O Senhor, em Sua misericórdia, estudo de toda a sua vida, trazendo
revelou o futuro ao fugitivo arre- cada vez mais luz à sua compreensão.
pendido para que pudesse estar Jacó despertou do sono no pro-
preparado para resistir às tenta- fundo silêncio da noite. A visão havia
ções que seriam colocadas diante se acabado. Agora, ele conseguia ver
dele quando estivesse sozinho somente o contorno das colinas so-
entre pessoas idólatras e astutas. litárias sob o céu brilhante e cheio
Sabendo que o propósito de Deus se de estrelas. Tinha consigo o solene
116 Os Escolhidos
sentimento de que Deus estava com livramentos proporcionados por
ele. “Sem dúvida o Senhor está neste Deus, ao abrir caminhos diante
lugar”, disse ele, “mas eu não sabia!” deles quando tudo parecia escuro
[…] “Temível é esse lugar! Não é outro, e ameaçador, animando-os quando
senão a casa de Deus; esta é a porta estavam prontos a desanimar.
dos Céus” (Gn 28:16, 17). Diante de tantas bênçãos inumerá-
“Na manhã seguinte, Jacó pegou veis, deveríamos constantemente
a pedra que tinha usado como tra- nos perguntar: “Como posso retri-
vesseiro, colocou-a em pé como co- buir ao Senhor toda a Sua bondade
luna e derramou óleo sobre o seu para comigo?” (Sl 116:12).
topo” (Gn 28:18). Ele chamou aquele
lugar de Betel, ou “casa de Deus” Por que o Dízimo é Sagrado
(Gn 28:19). Então fez um voto so- Sempre que passamos por um li-
lene: “Se Deus estiver comigo, cui- vramento especial ou bênçãos novas
dar de mim nesta viagem que estou e inesperadas nos são concedidas,
fazendo, prover-me de comida e devemos reconhecer a bondade de
roupa, e levar-me de volta em se- Deus por meio de dádivas e ofertas
gurança à casa de meu pai, então à Sua causa. Assim como recebemos
o Senhor será o meu Deus. E esta continuamente as bênçãos de Deus,
pedra que hoje coloquei como co- devemos também continuamente
luna servirá de santuário de Deus; e Lhe oferecer nossas dádivas.
de tudo o que me deres certamente “De tudo o que me deres”, disse
Te darei o dízimo” (Gn 28:20-22). Jacó, “certamente Te darei o dí-
Jacó não estava tentando fazer zimo” (Gn 28:22). Deveremos nós,
um contrato com Deus. O Senhor que temos a plena luz do evange-
prometeu prosperidade a ele antes lho, ficar satisfeitos em dar a Deus
disso, e esse voto foi feito por um menos do que deram aqueles que
coração cheio de gratidão pela cer- viveram antes de Jesus ter vindo
teza do amor e da misericórdia de ao mundo? Não são nossas obriga-
Deus. Jacó sentiu que tais evidên- ções muito maiores? Como é inútil
cias especiais do favor divino me- tentar contar matematicamente o
reciam uma retribuição. tempo, o dinheiro e o amor, diante
Os cristãos devem sempre lem- de tão imensurável amor e de um
brar com gratidão dos preciosos dom de valor incalculável como
A Fuga e o Exílio de Jacó 117
esse. Dízimos para Cristo! A es- O Amor de Jacó por Raquel
mola mesquinha é uma resposta Antigamente, era costume exi-
vergonhosa para aquilo que teve um gir que o noivo, antes de confirmar
preço tão alto! Da cruz do Calvário, o contrato de casamento, pagasse
Cristo nos pede uma consagração para o pai da noiva uma soma em
sem reservas de tudo o que temos, dinheiro, ou o equivalente em uma
de tudo o que somos. propriedade, de acordo com a sua
Com a fé renovada e a certeza situação financeira. Isso era con-
da presença dos anjos do Céu com siderado uma proteção para o ca-
ele, Jacó “seguiu viagem e chegou à samento. Os pais não achavam
Mesopotâmia” (Gn 29:1). Como foi seguro confiar a felicidade de suas
diferente a sua chegada daquela do filhas a homens que não tivessem
mensageiro de Abraão, quase cem feito as devidas economias para o
anos antes! Eliézer, o servo, che- sustento da família. Se não tives-
gou com uma caravana de ajudan- sem suficiente controle financeiro,
tes montados em camelos, com ricos energia para administrar seus ne-
presentes de ouro e prata. Jacó era gócios e adquirir gado ou terras,
um viajante solitário, com os pés temiam que de nada valeria sua
cansados e doloridos, sem nenhum vida juntos. Também eram toma-
bem, a não ser o seu cajado. Assim das algumas providências para pro-
como aconteceu ao servo de Abraão, var aqueles que não tinham como
Jacó também parou junto ao poço, pagar por uma esposa. Era permi-
e foi ali que ele se encontrou com tido que o noivo trabalhasse para
Raquel, a filha mais nova de Labão. o pai da moça a quem ele amava.
Após falar sobre o seu parentesco, O tempo era determinado pelo
foi bem recebido na casa de Labão. valor do dote exigido. Quando o
Poucas semanas foram necessárias pretendente era fiel e provava ser
para que o pretendente mostrasse digno, recebia a filha como esposa.
o valor de sua prontidão e habili- O dote que o pai recebia geral-
dade. Sendo assim, insistiram com mente era dado à filha quando se
ele para que ficasse. Ficou combi- casasse. Contudo, tanto no caso
nado que Jacó prestaria a Labão de Raquel como no de Lia, tomado
sete anos de trabalho para poder pelo egoísmo, Labão ficou com o
se casar com Raquel. dote que deveria ter dado a elas.
118 Os Escolhidos
Elas se referiram ao dote quando cometeu um engano cruel ao substi-
disseram, pouco antes de deixar tuir Raquel por Lia. O fato de a pró-
a Mesopotâmia: “Não apenas nos pria Lia ter cooperado para a farsa
vendeu como também gastou tudo fez com que Jacó sentisse que não
o que foi pago por nós!” (Gn 31:15). poderia amá-la. Muito indignado,
A exigência de que o noivo deve- ele repreendeu Labão, que lhe ofere-
ria prestar serviço para conseguir se ceu Raquel por outros sete anos de
casar com sua noiva era uma forma serviço. Labão insistiu que Lia não
de evitar casamentos precipitados. deveria ser despedida. Isso colocou
Dava a ele a oportunidade de provar Jacó numa posição muito dolorosa
a profundidade de seu amor, como e difícil, mas ele acabou concor-
também suas habilidades para pro- dando; ficaria com Lia e se casaria
ver o sustento da família. Nos dias com Raquel, que foi sempre aquela
de hoje, as pessoas têm pouca opor- que ele mais amou; porém, sua vida
tunidade de se familiarizar com os foi amargurada pela rivalidade que
hábitos e costumes umas das ou- existia entre as irmãs que se torna-
tras. São praticamente estranhas ram suas esposas.
quando unem sua vida diante do Por vinte anos, Jacó permaneceu
altar. Muitos percebem, quando na Mesopotâmia trabalhando para
já é tarde, que não conseguem se Labão, que tinha em mente obter
adaptar um ao outro, e o resultado todos os benefícios do parentesco
é a angústia e sofrimento ao longo entre eles. Exigiu catorze anos de
de toda a vida. Muitas vezes, a es- trabalho árduo por suas duas filhas
posa e os filhos sofrem com a pre- e, durante o tempo restante, o salá-
guiça ou vícios do marido e pai. Se o rio de Jacó foi mudado dez vezes.
caráter dos pretendentes fosse pro- Mesmo assim, Jacó trabalhou
vado antes do casamento, de acordo com dedicação e fidelidade. Durante
com esse antigo costume, muita in- algumas épocas do ano era necessá-
felicidade poderia ser evitada. rio que estivesse constantemente
Jacó prestou sete anos de fiel com o rebanho nos campos, para
serviço por Raquel, e os anos que guardá-los e evitar que morres-
serviu “lhe pareceram poucos dias, sem de sede na estação da seca, e
pelo tanto que a amava” (Gn 29:20). durante os meses mais frios para
O egoísta e ganancioso Labão que não congelassem com a pesada
A Fuga e o Exílio de Jacó 119
geada que caía durante a noite. Jacó os carrega junto ao Seu coração. Suas
era o chefe dos pastores; os servos ovelhas O amam. “Mas nunca segui-
que ele empregava eram pastores rão um estranho; na verdade, fugi-
ajudantes. Se faltasse alguma ove- rão dele, porque não reconhecem a
lha, o chefe dos pastores sofria o voz de estranhos” (Jo 10:5).
prejuízo e chamava os servos para A igreja de Cristo foi comprada
darem estrita conta se o rebanho com Seu sangue, e todo pastor que
não estivesse se desenvolvendo con- tiver o espírito de Cristo imitará o
forme o esperado. Seu exemplo de abnegação, traba-
lhando constantemente pelo bem
Temos um Pastor Fiel daqueles que estão sob a sua res-
A vida do pastor, em seu cuidado ponsabilidade, e o rebanho crescerá
e amor pelas criaturas indefesas, sob os seus cuidados. “Quando se
ilustra algumas verdades preciosas manifestar o supremo Pastor”, diz
do evangelho. Cristo é comparado o apóstolo Pedro, “vocês receberão a
a um pastor. Ele viu Suas ovelhas imperecível coroa de glória” (1Pe 5:4).
condenadas a morrer nos terrí- Já cansado de trabalhar para
veis caminhos do pecado. Para sal- Labão, Jacó decidiu voltar para
var esses seres errantes, deixou as Canaã. Disse então ao sogro: “Deixe-
honras e glórias da casa de Seu Pai. me voltar para a minha terra natal.
Ele diz: “Procurarei as perdidas e tra- Dê-me as minhas mulheres, pelas
rei de volta as desviadas. Enfaixarei quais o servi, e os meus filhos, e par-
a que estiver ferida e fortalecerei a tirei. Você bem sabe quanto traba-
fraca. […] Eu salvarei o Meu reba- lhei para você.” Labão insistiu para
nho, e elas não mais serão saquea- que ele ficasse, dizendo: “Peço-lhe
das. […] Nem os animais selvagens que fique. […] descobri que o Se-
as devorarão” (Ez 34:16, 22, 28). nhor me abençoou por sua causa”
Sua voz é ouvida chamando as (Gn 30:25-27).
ovelhas ao Seu aprisco, “e será um Jacó respondeu: “O pouco que
abrigo e sombra para o calor do dia, você possuía antes da minha che-
refúgio e esconderijo contra a tem- gada aumentou muito” (Gn 30:30).
pestade e a chuva” (Is 4:6). Ele for- Com o passar do tempo, Labão
talece a fraca, alivia as que sofrem, passou a ter inveja da grande
ajunta os cordeiros em Seus braços e prosperidade de Jacó, que “ficou
120 Os Escolhidos
extremamente rico” (Gn 30:43). irado e decidido a forçar todo o
Assim como o pai, os filhos de grupo a voltar. Os fugitivos esta-
Labão também estavam com inveja, vam realmente em grande perigo.
e suas palavras maldosas chegaram O próprio Deus interveio para
aos ouvidos de Jacó: Ele “‘tomou proteger Seu servo. “Tenho poder
tudo que o nosso pai tinha e jun- para prejudicá-los”, disse Labão, “mas,
tou toda a sua riqueza à custa do na noite passada, o Deus do pai de
nosso pai.’ E Jacó percebeu que a ati- vocês me advertiu: ‘Cuidado! Não diga
tude de Labão para com ele já não nada a Jacó, não lhe faça promessas
era a mesma de antes” (Gn 31:1, 2). nem ameaças” (Gn 31:29). Isso que-
Jacó teria deixado seu astuto ria dizer que ele não deveria obrigar
sogro muito tempo antes, não fosse o Jacó a retornar ou insistir com ele fa-
medo que tinha de se encontrar com zendo promessas lisonjeiras.
Esaú. Percebia que estava em perigo, Labão tinha retido o dote de ca-
por causa dos filhos de Labão que, ao samento de suas filhas e tratava
olharem para a sua riqueza como se Jacó usando de astúcia e grosseria,
fosse deles, poderiam tomá-la pela mas naquele momento o reprovou
violência. Ele se achava em grande por ter partido secretamente e por
perplexidade e angústia. Então lem- não ter dado ao pai a oportunidade
brou-se da graciosa promessa feita de fazer uma festa de despedida, ou
em Betel, e levou o seu caso a Deus. mesmo de se despedir de suas filhas
Por meio de um sonho, sua oração e de seus netos.
foi respondida: “Volte para a terra de Em resposta, Jacó apresentou
seus pais e de seus parentes, e Eu es- claramente a conduta egoísta e am-
tarei com você” (Gn 31:3). biciosa de Labão, e apelou para ele
Os rebanhos e o gado foram re- como testemunho de sua fidelidade
unidos rapidamente e enviados à e honestidade: “Se o Deus de meu
frente, e com suas duas mulheres, pai, o Deus de Abraão, o Temor de
filhos e servos, Jacó atravessou o rio Isaque não estivesse comigo”, disse
Eufrates, apressando-se para chegar Jacó, “certamente você me despediria
a Gileade, nas fronteiras de Canaã. de mãos vazias. Mas Deus viu o meu
Depois de três dias, Labão saiu atrás sofrimento e o trabalho das minhas
deles, alcançando-os no sétimo dia mãos e, na noite passada, Ele mani-
de viagem. Ele estava extremamente festou a Sua decisão” (Gn 31:42).
A Fuga e o Exílio de Jacó 121
Labão não poderia negar os entre nós. Então Jacó fez um jura-
fatos e propôs uma aliança de paz. mento em nome do Temor de seu
Jacó concordou e uma pilha de pe- pai Isaque” (Gn 31:49, 53).
dras foi erguida como símbolo da- Para confirmar a aliança, as duas
quele pacto. A essa coluna, Labão partes realizaram um banquete.
deu o nome de Mispá, “Torre de Passaram a noite reunidos amiga-
Vigia”, dizendo: “Que o Senhor nos velmente e, ao amanhecer, Labão e
vigie, a mim e a você, quando es- seu grupo partiram para casa. Com
tivermos separados um do outro. essa separação, acabou toda a ligação
[…] Que o Deus de Abraão, o Deus que havia entre os filhos de Abraão e
de Naor, o Deus do pai deles julgue os moradores da Mesopotâmia.
18
*
A Terrível Noite de Luta
C om muitos pressentimen-
tos, Jacó refez todo o cami-
nho pelo qual passou como fugitivo
Mais uma vez o Senhor deu a
Jacó um sinal do cuidado divino;
dois exércitos de anjos celestiais
vinte anos antes. Seu pecado por avançavam com seu grupo para ser-
ter enganado seu pai estava sempre vir de proteção. Jacó se lembrou da
diante dele. Sabia que seu longo exílio visão em Betel tanto tempo antes,
era o resultado direto daquele pecado. e seu coração sobrecarregado ficou
Pensava nesse ato dia e noite e, com a mais leve. Os mensageiros divinos
consciência pesada, a caminhada se que lhe trouxeram esperança e cora-
tornava muito triste. Ao aparecerem à gem ao fugir de Canaã deveriam ser
distância as colinas de sua terra natal, os guardas durante o seu retorno.
todo o seu passado voltou claramente “Quando Jacó os avistou, disse: ‘Este
diante dele. Com a lembrança de seu é o exército de Deus!’” (Gn 32:2).
pecado vieram também as promessas Mesmo assim, Jacó sentiu que
divinas de auxílio e direção. deveria fazer alguma coisa para
Teve medo quando pensou em garantir sua segurança. Então en-
Esaú. Seu irmão poderia ser levado viou mensageiros a Esaú com uma
à violência contra ele, não somente saudação, na esperança de que seu
pelo desejo de vingança, mas para irmão a receberia de bom grado.
obter a posse da riqueza que du- Os servos foram enviados ao “meu
rante tanto tempo tinha conside- senhor Esaú”. Eles deveriam se re-
rado como sua. ferir a seu senhor como “teu servo
* Este capítulo é baseado em Gênesis 32-33.
A Terrível Noite de Luta 123
Jacó”. Para afastar o temor de que Um Anjo Luta com Jacó
ele tinha retornado para reclamar Esse encontro aconteceu em
a herança, Jacó teve o cuidado de uma região solitária e montanhosa,
declarar em sua mensagem: “Tenho onde habitavam animais selvagens
bois e jumentos, ovelhas e cabras, e se escondiam ladrões e assassinos.
servos e servas” (ver Gn 32:4, 5). Desprotegido, Jacó se prostrou em
Esaú, porém, não enviou res- terra, em profunda angústia. Era
posta alguma à amigável mensa- meia-noite. Tudo o que ele mais pre-
gem. Parecia certo que Esaú estava zava na vida estava exposto ao pe-
vindo em busca da vingança. O ter- rigo e à morte. Mais amargo ainda
ror invadiu o acampamento. “Jacó era o pensamento de que o seu pe-
encheu-se de medo e foi tomado de cado é que havia atraído esse perigo
angústia” (Gn 32:7). Seu grupo, de- sobre os inocentes.
sarmado e indefeso, estava com- Inesperadamente, uma forte
pletamente despreparado para um mão pousou sobre ele. Pensou que
confronto inimigo. De seus imen- fosse um inimigo procurando tirar
sos rebanhos, ele enviou presentes sua vida. Na escuridão, os dois luta-
generosos a Esaú, com uma mensa- ram, tentando vencer um ao outro.
gem amigável novamente. Fez tudo Nenhum dos dois falou uma só pa-
o que estava ao seu alcance a fim de lavra, mas Jacó lutou com todas as
reparar a falta que tinha para com suas forças e não cedeu por um mo-
seu irmão e afastar o perigo que os mento sequer. Enquanto lutava para
ameaçava. Então ele suplicou pela defender a própria vida, a culpa pe-
proteção divina: “Não sou digno de sava em seu coração; seus pecados
toda a bondade e lealdade com que pareciam estar sempre diante dele
trataste o Teu servo. […] Livra-me, para o separar de Deus.
rogo-Te, das mãos de meu irmão Mesmo na terrível situação em
Esaú, porque tenho medo que ele que se encontrava, ele se lembrou
venha nos atacar, tanto a mim, como das promessas divinas. A luta con-
às mães e às crianças” (Gn 32:10, 11). tinuou até quase o romper do dia,
Jacó decidiu passar a noite em ora- quando o estranho colocou o dedo
ção, a sós com Deus. O Senhor pode- na coxa de Jacó e ele ficou manco
ria abrandar o coração de Esaú. NEle instantaneamente. Jacó compreen-
estava a única esperança de Jacó. deu então que tinha lutado com um
124 Os Escolhidos
mensageiro celestial. Foi por isso confiado nas promessas de Deus e
que, em seu esforço quase sobre-hu- havia procurado, pelos próprios es-
mano, não conseguiu a vitória. Era forços, fazer aquilo que Deus teria
Cristo, “o Anjo do concerto”. Jacó es- realizado a Seu tempo e de acordo
tava aleijado e sofrendo a dor mais com a Sua providência. Como prova
terrível que já havia sentido, mas de que ele tinha sido perdoado, seu
não O quis largar. Arrependido e nome foi mudado para outro que
humilhado, ele se agarrou ao Anjo. manteria viva a lembrança de sua
“Ele chorou e implorou o Seu favor” vitória. “Seu nome”, disse o anjo,
(Os 12:4), suplicando uma bênção. “não será mais Jacó, mas sim Israel,
Tinha que ter a certeza de que seu porque você lutou com Deus e com
pecado estava perdoado. O Anjo homens e venceu” (Gn 32:28).
insistiu: ‘“Deixe-me ir, pois o dia O momento de crise em sua vida
já desponta’. Mas Jacó Lhe respon- tinha passado. A dúvida, a perplexi-
deu: ‘Não Te deixarei ir, a não ser dade e o remorso tinham amargu-
que me abençoes’” (Gn 32:26). Ele rado sua vida; mas, a partir daquele
tinha a confiança daquele que con- momento, tudo estava mudado.
fessa a própria indignidade, e ainda Sentia a doce paz de estar recon-
assim crê na fidelidade de um Deus ciliado com Deus. Jacó não estava
que mantém a palavra do concerto. mais com medo de se encontrar com
Jacó “lutou com o Anjo e saiu seu irmão. Deus poderia mover o
vencedor” (Os 12:4). Esse mortal, fa- coração de Esaú para que aceitasse
lível e pecador, venceu com a ajuda sua demonstração de humildade e
da Majestade do Céu. Firmou suas arrependimento.
mãos trêmulas nas promessas de Enquanto Jacó lutava com o Anjo,
Deus, e o coração do Amor Infinito outro mensageiro celeste foi enviado
não poderia deixar de atender à sú- a Esaú. Em sonho, Esaú viu seu irmão,
plica do pecador. que durante vinte anos tinha vivido
fora da sua terra como fugitivo; tes-
De Jacó para “Israel” temunhou sua angústia ao saber
Jacó viu então claramente o que sua mãe estava morta; ele o viu
erro que o havia levado ao pecado rodeado pelos exércitos de Deus.
de obter o direito de primogeni- O Deus de seu pai estava com ele.
tura pelo engano. Ele não tinha Os dois grupos finalmente se
A Terrível Noite de Luta 125
aproximaram um do outro; o chefe representa a prova pela qual o povo
do deserto conduzindo seus ho- de Deus deverá passar exatamente
mens de guerra, e Jacó com suas antes da segunda vinda de Cristo.
esposas e filhos, servos e servas, se-
“Ouvem-se gritos de pânico, de
guidos por longas filas de rebanhos
pavor e não de paz. […] Como será
e gado. Apoiado em seu cajado, Jacó
terrível aquele dia! Sem compara-
passou à frente, pálido e manque-ção! Será tempo de angústia para
jando, em consequência de sua luta
Jacó; mas ele será salvo” (Jr 30:5, 7).
recente. Ele andava devagar e peno- Quando Cristo finalizar Sua
samente, mas seu rosto estava ilu-
obra de mediação em nosso favor, co-
minado, irradiando paz e alegria.meçará então esse tempo de angús-
Ao ver aquele coxo sofredor, tia. O caso de cada pessoa terá sido
“Esaú correu ao encontro de Jacó e
decidido e não haverá sangue expia-
abraçou-se ao seu pescoço. […]. E eles
tório para purificar do pecado. O so-
choraram” (Gn 33:4). Até mesmo o lene anúncio será feito: “Continue o
coração dos rudes soldados de Esaú
injusto a praticar a injustiça; conti-
foi tocado. Não conseguiam enten-nue o imundo na imundícia; con-
der a razão da mudança ocorrida tinue o justo a praticar justiça;
em seu capitão. e continue o santo a santificar-
Em sua noite de angústia, Jacó
se” (Ap 22:11). Assim como Jacó foi
aprendeu como é vão o auxílio ofe-
ameaçado de morte por seu irado
recido pelo homem, quão infundadairmão, da mesma forma o povo de
é a confiança no poder humano. Deus estará em perigo por causa
Desamparado e sentindo-se in- dos ímpios. Os justos clamarão a
digno, ele suplicou a promessa daDeus por livramento dia e noite.
misericórdia de Deus para o peca- Satanás acusou Jacó diante dos
dor arrependido. Aquela promessa anjos de Deus, reivindicando o di-
reito de destruí-lo por causa do seu
foi a certeza que teve de que Deus
o perdoaria e o aceitaria. pecado. Tentou impor sobre ele o
sentimento de culpa pretendendo
“Tempo da Angústia desencorajá-lo e quebrar sua liga-
de Jacó” ção com Deus. Quando Jacó orou
A experiência de Jacó durante fervorosamente e em lágrimas, o
aquela noite de luta e angústia Mensageiro celeste, para provar
126 Os Escolhidos
sua fé, também o lembrou de seu pe- preservado a sua vida de forma tão
cado e tentou se desvencilhar dele. misericordiosa. Assim, no tempo
No entanto, Jacó tinha aprendido de angústia, se o povo de Deus che-
que Deus é misericordioso. Ao rever gasse a ter pecados não confessa-
sua vida, foi quase levado ao deses- dos diante deles, quando fossem
pero, mas ele se agarrou firmemente torturados pelo temor e angústia,
ao Anjo e, clamando sinceramente, o desespero acabaria com sua fé e
com brados angustiantes, insistiu eles não conseguiriam ter confiança
em seu pedido e prevaleceu. para pleitear com Deus por seu li-
vramento. Contudo, eles não terão
A Luta Final faltas ocultas a revelar. Seus peca-
A experiência do povo de Deus dos terão sido apagados pelo sangue
será semelhante a essa em sua úl- expiatório de Cristo, e não conse-
tima luta contra os poderes do mal. guirão mais se lembrar deles.
Deus vai provar sua fé, sua perseve- Todos aqueles que procuram
rança, sua confiança em Seu poder. desculpar ou ocultar seus pecados, e
Satanás tentará aterrorizá-los com permitem que eles permaneçam nos
o pensamento de que seus peca- livros do Céu, sem serem confessa-
dos foram grandes demais para ser dos e perdoados, serão vencidos por
perdoados. Ao reverem sua vida Satanás. Quanto mais exaltada for
passada, suas esperanças se sub- a sua profissão e mais honrada a po-
mergirão. Ao se lembrarem, porém, sição que ocupam, mais certa é a vi-
da misericórdia de Deus e de seu tória do grande adversário.
sincero arrependimento, vão se ape- A história de Jacó é para nós
gar às Suas promessas. Sua fé não uma certeza de que Deus não rejeita
falhará porque suas orações não são aqueles que foram atraídos ao pe-
respondidas imediatamente. A ex- cado, mas que retornaram a Ele em
pressão de seu coração será: “Não Te verdadeiro arrependimento. Deus
deixarei ir, a não ser que me aben- ensinou a Seu servo que apenas a
çoes” (Gn 32:26). graça divina poderia lhe conceder
Se Jacó não tivesse se arrepen- a bênção que tão ardentemente de-
dido de seu pecado antes, por con- sejava. De modo semelhante acon-
seguir o direito de primogenitura tecerá com aqueles que viverão nos
pelo engano, Deus não poderia ter últimos dias. Em nossa fraqueza e
A Terrível Noite de Luta 127
indignidade, devemos confiar nos ganhas pelo talento, educação, ri-
méritos de um Salvador que foi cru- queza ou favor dos homens; são aque-
cificado e ressuscitou. Ninguém ja- las recebidas na sala de audiência de
mais perecerá enquanto fizer isso. Deus, quando a fé sincera, em agonia,
A experiência de Jacó é um tes- lança mão do braço forte da oração.
temunho do poder da oração per- Todos aqueles que se apegarem
severante. É agora que temos que às promessas de Deus, como fez
aprender essa lição de que devemos Jacó, e forem fervorosos e perse-
viver uma fé inabalável. As maio- verantes como ele foi, serão bem-
res vitórias não são aquelas que são sucedidos como ele.
19
*
A Volta para Casa
D epois que atravessou
o Jordão, “Jacó che-
gou a salvo à cidade de Siquém, em
e tristeza; dois irmãos estavam en-
volvidos no crime de assassinato;
uma cidade inteira foi destruída e
Canaã” (Gn 33:18). Ali, “por cem seus moradores assassinados em
peças de prata, comprou dos filhos represália ao ato irresponsável de
de Hamor, pai de Siquém, a parte do um jovem impetuoso. O início de
campo onde tinha armado acam- tudo, o que levou a consequências
pamento. Ali edificou um altar” tão terríveis foi porque a filha de
(Gn 33:19, 20). Foi ali também que Jacó saiu “para conhecer as mulhe-
cavou o poço ao lado do qual Jesus res daquela terra” (Gn 34:1), asso-
Se assentou dezessete séculos mais ciando-se com os descrentes. Quem
tarde. No calor do meio-dia, o Filho busca prazeres entre aqueles que
de Jacó, o Salvador, descansou junto não temem a Deus está atraindo as
a esse poço e falou aos Seus ouvin- tentações.
tes, que O escutavam maravilhados, A cruel traição que Simeão e
a respeito daquela “fonte de água a Levi armaram contra os siquemi-
jorrar para a vida eterna” (Jo 4:14). tas foi um terrível pecado. A notí-
O tempo em que Jacó e seus fi- cia da vingança encheu de horror o
lhos permaneceram em Siquém coração de Jacó. Amargurado pelo
acabou em violência e derrama- engano e violência que seus filhos
mento de sangue. A única filha praticaram, ele disse: “Vocês me pu-
que ele tinha foi levada à vergonha seram em grandes apuros, atraindo
* Este capítulo é baseado em Gênesis 34; 35 e 37.
A Volta para Casa 129
sobre mim o ódio dos cananeus e Relembrando a Primeira
ferezeus, habitantes desta terra. Experiência em Betel
Somos poucos, e se eles juntarem Com profunda emoção, Jacó re-
suas forças e nos atacarem, eu e a petiu a história de sua primeira vi-
minha família seremos destruídos” sita a Betel e de como o Senhor lhe
(Gn 34:30). apareceu à noite em visão. Seu cora-
Jacó entendeu que havia mo- ção ficou comovido; seus filhos tam-
tivo para que todos se humilhas- bém foram tocados por um poder
sem profundamente. A crueldade e que dominou a todos. Ele utilizou o
a falsidade estavam estampadas no meio mais eficaz a fim de prepará-los
caráter de seus filhos. Os falsos deu- para tomarem parte na adoração a
ses e a idolatria tinham ganhado Deus quando chegassem a Betel.
terreno, até certo ponto, dentro da “Então entregaram a Jacó todos os
sua família. deuses estrangeiros que possuíam e
Enquanto Jacó estava assim, os brincos que usavam nas orelhas,
prostrado em angústia, o Senhor e Jacó os enterrou ao pé da grande
lhe ordenou que fosse para o sul, até árvore, próximo a Siquém” (Gn 35:4).
Betel. A lembrança desse lugar lhe Deus fez com que o medo to-
trazia à mente não apenas a visão masse conta dos habitantes da terra
dos anjos e das promessas da mise- para que não tentassem se vingar
ricórdia de Deus, mas do voto que do massacre ocorrido em Siquém.
ele tinha feito ali, reafirmando que Os viajantes chegaram a Betel em
o Senhor seria o seu Deus. Decidido segurança. Ali, o Senhor apareceu a
a limpar sua casa da contaminação Jacó mais uma vez e renovou com
da idolatria, antes de ir para esse ele a promessa da aliança.
lugar sagrado, ele deu instruções De Betel, eram apenas dois dias
a todos: “Livrem-se dos deuses es- de viagem até Hebrom, mas essa jor-
trangeiros que estão entre vocês, nada trouxe muita dor pela morte
purifiquem-se e troquem de roupa. de Raquel. Duas vezes ele havia tra-
Venham! Vamos subir a Betel, onde balhado sete anos, por amor a ela.
farei um altar ao Deus que me ouviu O amor que tinha por Raquel tor-
no dia da minha angústia e que tem nou mais leve o seu trabalho, pois
estado comigo por onde tenho an- havia sido um amor profundo e
dado” (Gn 35:2, 3). duradouro.
130 Os Escolhidos
Antes de morrer, Raquel lhe separação entre Jacó e Esaú fazia
deu um segundo filho. Já quase ex- parte do plano de Deus com relação
pirando, ela deu o nome de Benoni a Jacó. Como os dois irmãos eram
à criança, “o filho da minha dor”, tão diferentes um do outro quanto à
mas o pai preferiu chamá-lo de fé que professavam, era melhor que
Benjamim, “o filho da minha mão vivessem separados.
direita” ou “minha força”. Tanto Esaú como Jacó tinham
Quando Jacó chegou ao fim liberdade para viver de acordo com
de sua viagem, ele “foi visitar seu os mandamentos de Deus e receber
pai Isaque em Manre, […], que é o Seu favor, mas os dois irmãos se-
Hebrom” (Gn 35:27). Ali perma- guiram caminhos totalmente di-
neceu durante os últimos dias de ferentes e a vida de cada um deles
vida de seu pai. Para Isaque, bas- continuou a se diferenciar cada vez
tante doente e cego, a bondade e a mais uma da outra.
atenção desse filho que havia ficado Não houve nenhuma preferência
tanto tempo longe de casa foi um arbitrária da parte de Deus para que
conforto durante os anos de soli- Esaú fosse excluído das bênçãos da
dão e perda de seus entes queridos. salvação. Não há outra decisão, a não
Jacó e Esaú se encontraram junto ser a que é tomada pela própria pes-
ao leito de morte de seu pai. Os sen- soa, pela qual ela venha a se perder.
timentos do irmão mais velho esta- Deus estabeleceu em Sua Palavra as
vam completamente mudados. Jacó, condições para que todos sejam can-
muito satisfeito com as bênçãos es- didatos à vida eterna – obediência
pirituais da primogenitura, cedeu aos Seus mandamentos, por meio
para o irmão mais velho a herança da fé em Cristo. Ele apresenta como
das riquezas de seu pai – a única modelo o caráter que está em har-
herança que Esaú buscava ou apre- monia com a Sua lei, e todo aquele
ciava. Não estando mais separados que atingir essa norma entrará no
pela inveja ou ódio, eles se despedi- reino do Céu. Com relação à nossa
ram e Esaú foi morar no Monte Seir. salvação final, essa é a única eleição a
Deus, que é rico em bênçãos, con- que a Palavra de Deus faz referência.
cedeu a Jacó as bênçãos seculares, Eleita é toda pessoa que opera
além da bênção mais elevada que ele a própria salvação com temor e
buscava – a bênção espiritual. Essa tremor, que veste a armadura e
A Volta para Casa 131
combate o bom combate da fé. frutos ainda mais amargos no ca-
É escolhido todo aquele que ora fer- ráter de seus filhos. Esses filhos
vorosamente, busca as Escrituras, desenvolveram graves defeitos.
foge da tentação, mantém firme a A vida em família revelou os resulta-
sua fé e é obediente a toda palavra dos da poligamia. Esse terrível mal
que sai da boca de Deus. As provi- faz secar as fontes do amor e sua
sões para a redenção são oferecidas influência enfraquece os laços mais
a todos; os resultados serão desfru- sagrados. O ciúme das várias mães
tados por aqueles que cumprirem provocou amargura nos relaciona-
as condições. mentos familiares. Os filhos cresce-
Esaú desprezou as bênçãos da ram mal-humorados e insubmissos.
aliança. Por sua escolha deliberada, A vida do pai foi entristecida pela
ele se separou do povo de Deus. Jacó ansiedade e a dor.
escolheu a herança da fé. Ele se es- Apesar disso, um deles tinha
forçou por obter essa herança pela um caráter totalmente diferente –
astúcia, traição e falsidade; mesmo o filho mais velho de Raquel, José,
assim, Deus permitiu que seu pe- cuja rara beleza pessoal parecia re-
cado fosse um meio de correção fletir a beleza interior do seu espí-
para ele. Jacó nunca se desviou do rito e do seu coração. Puro, ativo e
seu propósito ou renunciou à sua alegre, o rapaz possuía sinceridade
escolha. Jacó saiu um homem di- e firmeza moral. Ele dava atenção
ferente daquela noite de luta. Sua às instruções de seu pai e tinha pra-
autoconfiança foi destruída. Mesmo zer em obedecer a Deus. As qualida-
depois, em lugar da falsidade e do des que depois o distinguiram no
engano, sua vida foi marcada pela Egito – gentileza, lealdade e veraci-
simplicidade e verdade. Os ele- dade – já estavam evidentes. Depois
mentos indesejáveis do seu caráter da morte de sua mãe, ele se apegou
foram consumidos no fogo da for- mais intimamente ao pai. O cora-
nalha; o verdadeiro ouro da fé reve- ção de Jacó estava ligado a esse filho
lada em Abraão e Isaque mostrou de sua velhice. Ele “gostava mais de
seu brilho na vida de Jacó. José do que de qualquer outro filho”
O pecado de Jacó e a cadeia (Gn 37:3).
de acontecimentos que dele se Esse carinho pelo filho viria a
originaram levaram a produzir se tornar a causa de problemas e
132 Os Escolhidos
tristezas. Jacó foi imprudente em levantou e ficou em pé, e os seus fei-
demonstrar sua preferência por xes se ajuntaram ao redor do meu e
José, e isso provocou a inveja dos se curvaram diante dele” (Gn 37:7).
outros filhos. José tentou bondo- “Então você vai reinar sobre
samente corrigir seus irmãos, mas nós? Quer dizer que você vai nos
isso apenas aumentou ainda mais o governar?” (Gn 37:8), exclamaram
ódio e o ressentimento. Não supor- os seus irmãos irados e cheios de in-
tava ver os irmãos pecando contra veja. Pouco tempo depois, ele teve
Deus e levou o problema ao seu pai. outro sonho, que também contou
aos irmãos: “Desta vez o Sol, a Lua
O Presente e Sonhos e onze estrelas se curvavam diante
Com profunda emoção, Jacó im- de mim” (Gn 37:9). O pai, que estava
plorou que não trouxessem vergo- presente, falou em tom de reprova-
nha sobre seu nome e, acima de tudo, ção: “Será que eu, sua mãe, e seus
que não desonrassem a Deus desres- irmãos, viremos a nos curvar até
peitando daquela maneira as Suas o chão diante de você?” (Gn 37:10).
leis. Envergonhados porque sua mal- Apesar da aparente severidade
dade tinha sido revelada, os moços de suas palavras, Jacó acreditava
pareceram estar arrependidos, mas que o Senhor estava revelando o fu-
apenas esconderam os seus verda- turo a José.
deiros sentimentos, que se tornaram Enquanto o rapaz estava ali,
mais cruéis ao verem que suas faltas diante dos irmãos, o Espírito de
tinham sido expostas. Inspiração fazia o seu rosto brilhar.
O presente do pai a José, uma Não puderam deixar de admirar o
túnica muito cara, usada somente irmão, mas odiavam a pureza com
por pessoas importantes, provocou que ele reprovava os seus pecados.
neles a suspeita de que ele preten- Os irmãos tinham que se mudar
dia ignorar os filhos mais velhos e de um lugar para outro para encon-
conceder o direito de primogenitura trar pasto para os seus rebanhos.
para o filho de Raquel. Logo depois desses acontecimen-
Certo dia, o rapaz contou a eles tos, os irmãos foram para Siquém.
um sonho que teve. “Estávamos Algum tempo se passou sem que
amarrando os feixes de trigo no mandassem notícias, e o pai come-
campo, quando o meu feixe se çou a se preocupar com a segurança
A Volta para Casa 133
deles por causa da crueldade que ti- o devorou. Veremos então o que será
nham cometido contra os siquemi- dos seus sonhos” (Gn 37:20).
tas. Assim, mandou que José fosse à Rúben não poderia suportar a
procura deles. Se Jacó soubesse dos ideia de assassinar seu irmão e pro-
verdadeiros sentimentos de seus fi- pôs que jogassem José vivo em um
lhos para com José, não o teria en- poço e o deixassem ali para mor-
viado sozinho até onde estavam. rer. Ele pretendia resgatar o irmão
Com alegria no coração, José se secretamente e mandá-lo de volta
despediu de seu pai, e nenhum dos para seu pai. Depois de convencer
dois poderia imaginar o que aconte- todos a aceitarem seu plano, Rúben
ceria até o dia em que viessem a se saiu, temendo que suas reais inten-
reencontrar. Quando José chegou a ções fossem descobertas.
Siquém, seus irmãos e os rebanhos José chegou sem ter ideia do
não estavam mais lá. Perguntou a perigo que corria. Em vez de ser
respeito deles, e foi informado de saudado como esperava, ficou ater-
que estavam em Dotã. Ele se apres- rorizado com a ira e os olhares de
sou, esquecendo o cansaço, tendo vingança dirigidos a ele. Seus ir-
em mente aliviar as preocupações mãos o agarraram e tiraram sua
de seu pai e encontrar os irmãos a túnica. Suas zombarias e ameaças
quem ele ainda amava. revelavam um propósito mortal.
Seus irmãos o viram se apro- Ele implorava que o deixassem, mas
ximando, mas, em seu ódio, nem se recusavam a ouvi-lo. Aqueles ho-
pensaram na longa viagem que ele mens cheios de ódio o arrastaram
tinha feito para encontrá-los na- à força até um poço muito fundo
quele lugar, no seu cansaço e fome, que havia por perto, empurraram
ou no direito de ser bem recebido e o irmão para dentro dele e o deixa-
no amor fraternal. Ao olharem para ram ali para morrer.
a sua túnica, o símbolo do amor de
seu pai, ficaram enfurecidos. “Lá Vendido como Escravo
vem aquele sonhador!” (Gn 37:19). Logo se aproximou um grupo de
A inveja e a vingança dominavam viajantes – uma caravana de ismae-
seus sentimentos. “É agora! Vamos litas a caminho do Egito com suas
matá-lo e jogá-lo num destes poços, mercadorias. Judá sugeriu então
e diremos que um animal selvagem que vendessem seu irmão em vez
134 Os Escolhidos
de o deixarem a morrer. Assim, ele que tinham cometido. Mataram
estaria fora do seu caminho, e não um cabrito, mergulharam a túnica
seriam culpados do seu sangue, de José no sangue do animal e a le-
“afinal”, insistiu, “é nosso irmão, é varam para seu pai, dizendo que
nosso próprio sangue” (Gn 37:27). a tinham encontrado no campo.
Todos concordaram, e José foi ra- “Achamos isto. Veja se é a túnica de
pidamente tirado do poço. teu filho” (Gn 37:32). Eles não esta-
Quando ele viu os mercadores, a vam preparados para ver a terrí-
terrível verdade caiu como um raio vel dor de coração e o sofrimento
sobre ele. Tornar-se um escravo era indescritível que foram obriga-
algo que ele temia mais do que a pró- dos a testemunhar. “É a túnica de
pria morte. Aterrorizado e em agonia, meu filho!”, disse Jacó. “Um ani-
apelou para cada um de seus irmãos, mal selvagem o devorou! José foi
mas foi em vão. Alguns tiveram pena despedaçado!” (Gn 37:33). Seus fi-
dele, mas todos achavam que tinham lhos procuraram confortá-lo, mas
ido longe demais para voltar atrás. ele “rasgou suas vestes, vestiu-se de
José contaria para o pai. Com o co- saco e chorou muitos dias por seu
ração endurecido pelo ódio, eles o en- filho.[...] ‘Chorando descerei à se-
tregaram nas mãos dos mercadores pultura para junto de meu filho’”
pagãos. A caravana seguiu seu cami- (Gn 37:34), clamava em desespero.
nho e logo se perdeu de vista. Os moços, aterrorizados com o
Rúben voltou ao poço, mas José que tinham feito, além de temerem
não estava mais lá. Quando soube o a condenação de seu pai, tinham
que tinha acontecido com ele, achou ainda que se manter em silêncio
que era melhor se unir aos seus ir- sobre sua culpa, que até para eles
mãos para tentar encobrir o crime parecia grande demais.
20
A Surpreendente
*
História de José
E nquanto isso, José es-
tava a caminho do
Egito, levado pelos donos da ca-
Ainda assim, essa experiência
seria uma bênção para ele. Em pou-
cas horas, ele aprendeu coisas que
ravana que o haviam comprado. nem mesmo vários anos poderiam
Mesmo de longe, o jovem conseguia lhe ter ensinado. Seu pai agira de
ver as colinas entre as quais esta- forma errada para com ele, com
vam as tendas de seu pai. Chorou seu favoritismo e falta de disci-
amargamente ao pensar em seu plina. Isso deixou seus irmãos ira-
amoroso pai, em sua solidão e so- dos e provocou a atitude cruel que
frimento. Ainda soavam em seus o separou de seu lar. Havia defeitos
ouvidos as palavras dolorosas e em seu caráter que tinham sido es-
os insultos dirigidos a ele diante timulados. Ele estava se tornando
de suas súplicas desesperadas em exigente e cheio de si. Sentia que
Dotã. Com o coração tremente ele não estava preparado para lidar
olhou para o futuro. Sozinho e sem com as dificuldades que estavam
amigos, qual seria o seu destino na- diante dele na vida cruel e de aban-
quela terra estranha para onde es- dono de um escravo.
tava indo? Por algum tempo, José Então seus pensamentos se vol-
se entregou a uma tristeza e terror taram para o Deus de seu pai. Várias
incontroláveis. vezes tinha ouvido a história da
* Este capítulo é baseado em Gênesis 39-41.
136 Os Escolhidos
visão de Jacó quando saiu de sua lealdade a Deus. Estava rodeado de
casa como um exilado e fugitivo. cenas e sons indesejáveis, mas era
Contaram a ele a respeito das pro- como se nada visse ou ouvisse. Ele
messas do Senhor a Jacó e como, na não permitia que seus pensamen-
hora da necessidade, os anjos vie- tos se ocupassem com coisas proi-
ram para ensinar, confortar e pro- bidas. O desejo de alcançar o favor
teger. Tinha aprendido do amor de dos egípcios não o fazia abrir mão
Deus em dar um Redentor. Todas de seus princípios. Não fazia qual-
essas preciosas lições vividamente quer esforço para ocultar o fato de
vieram à tona. José tinha certeza de que era um adorador de Jeová.
que o Deus de seus pais seria o seu “O Senhor estava com José, de
Deus. Entregou-se completamente modo que este prosperou.” Seu pa-
ao Senhor ali mesmo e orou para trão “percebeu que o Senhor estava
que o Guarda de Israel estivesse com ele e que o fazia prosperar em
com ele em seu exílio. tudo o que realizava” (Gn 39:2, 3).
Todo o seu ser tremeu diante da A confiança de Potifar em José au-
elevada resolução de se mostrar fiel mentava dia a dia e, finalmente, ele
a Deus, de agir como um súdito do o promoveu a seu mordomo, com
Rei do Céu. Ele enfrentaria as pro- total controle sobre todos os seus
vações em sua vida com coragem bens. “Assim deixou ele aos cuida-
e cumpriria fielmente o seu dever. dos de José tudo o que tinha, e não
A terrível experiência de um único se preocupava com coisa alguma,
dia fez com que deixasse de ser exceto com sua própria comida”
uma criança mimada, para se tor- (Gn 39:6).
nar um homem ponderado, corajoso O dinamismo, prontidão, zelo e
e confiante. energia de José eram coroados pela
Quando chegou ao Egito, José foi bênção divina; mesmo seu senhor
vendido a Potifar, capitão da guarda idólatra aceitava isso como o se-
real. Durante dez anos, foi exposto gredo de sua prosperidade. Deus era
a tentações em meio à idolatria, ro- glorificado pela fidelidade de Seu
deado de toda pompa da realeza, da servo. Era seu objetivo que o crente
riqueza e cultura da mais alta nação em Deus aparecesse em marcante
civilizada que existia na época. contraste com os adoradores de ído-
Mesmo assim, José manteve a sua los. Assim, a luz da graça celestial
A Surpreendente História de José 137
resplandeceria em meio às trevas na Terra; e, fossem quais fossem
do paganismo. as consequências, seria fiel ao seu
O capitão chegou a considerar Senhor no Céu. O primeiro pensa-
José como um filho, em vez de um mento de José foi em Deus. “Como
escravo. O jovem foi levado a entrar poderia eu, então, cometer algo tão
em contato com homens de posi- terrível e pecar contra Deus?”, disse
ção e elevado nível intelectual, ad- ele (Gn 39:9). Os jovens devem sem-
quirindo não apenas conhecimento pre se lembrar de que, onde quer
das ciências, idiomas e negócios, que estejam, o que quer que façam,
mas também uma educação neces- sempre se encontram na presença
sária para ser o futuro primeiro- de Deus. Nada em nossa conduta
ministro do Egito. deixa de ser observado por Ele.
Não podemos ocultar nossos cami-
Tentação Quase Invencível nhos do Altíssimo. Para cada ação
A esposa do senhor de José ten- há uma testemunha invisível. Cada
tou induzir o jovem a transgredir a ato, cada palavra, cada pensamento
lei de Deus. Ele tinha permanecido é tão claramente observado como
incontaminado da corrupção que se houvesse apenas uma pessoa
enchia aquela terra pagã, mas essa no mundo todo.
tentação, tão repentina, tão forte, José sofreu por manter sua in-
tão sedutora – como deveria lidar tegridade. Sua tentadora se vingou,
com ela? fazendo com que fosse colocado na
José bem sabia o que a recusa lhe prisão. Se Potifar tivesse acredi-
traria. De um lado estavam a cum- tado na acusação feita por sua es-
plicidade, os favores e as recompen- posa, contra José, o jovem hebreu
sas; do outro, a desgraça, a prisão, e teria perdido a vida, mas a simpli-
talvez a morte. Toda a sua vida fu- cidade e lealdade que tinham carac-
tura dependia da decisão do mo- terizado sua conduta eram prova de
mento. José seria fiel a Deus? Com sua inocência. Para salvar a reputa-
inexprimível ansiedade, os anjos ção da casa de seu senhor, ele sofreu
olhavam para aquela cena. a desonra e a escravidão.
A resposta de José revela o No início, José foi tratado severa-
poder do princípio religioso. Ele não mente pelos carcereiros. O salmista
trairia a confiança de seu senhor diz: “Machucaram-lhe os pés com
138 Os Escolhidos
correntes e com ferros prenderam- futuro. Quando inspirados por um
lhe o pescoço, até cumprir-se a sua motivo justo, toda palavra bondosa
predição e a palavra do Senhor con- falada aos aflitos, todo ato realizado
firmar o que dissera” (Sl 105:18, 19). para aliviar os oprimidos e tudo o
que for dado aos necessitados resul-
José na Prisão tarão em bênçãos para o doador.
O verdadeiro caráter de José O padeiro-chefe do rei e o
brilhou mesmo na prisão. Os anos copeiro-chefe tinham sido presos
de serviço fiel que havia prestado por um ato errado que cometeram
foram pagos da maneira mais cruel; e ficaram sob a responsabilidade de
porém, ainda assim, não ficou de- José. Num dia pela manhã, ele per-
primido ou perdeu a confiança. Ele cebeu que pareciam muito tristes e
tinha paz e deixou seu caso nas bondosamente perguntou por que
mãos de Deus. Não ficava pensando estavam daquele jeito. Explicaram
nas injustiças cometidas contra ele que cada um deles havia tido um
e procurava aliviar as tristezas dos sonho fora do comum e queriam
outros. Mesmo na prisão, encon- muito saber qual era o seu signifi-
trou um trabalho que poderia fazer. cado. “Não são de Deus as interpre-
Deus o estava preparando, na escola tações?”, disse José. “Contem-me os
da aflição, para um propósito maior, sonhos” (Gn 40:8).
e ele não se recusou a receber a dis- Depois que cada um contou
ciplina necessária. Aprendeu lições o sonho que teve, José revelou o
de justiça, simpatia e misericórdia seu significado. Em três dias, o co-
que o prepararam para usar o poder peiro seria reintegrado ao seu cargo
com sabedoria e compaixão. e daria o copo nas mãos do Faraó,
Aos poucos, José foi ganhando como fazia antes, mas o padeiro-
a confiança do carcereiro da prisão, chefe seria morto por ordem do rei.
que acabou confiando a ele a guarda Nos dois casos aconteceu conforme
de todos os prisioneiros. Sua con- havia sido predito.
duta na prisão – sua integridade, O copeiro do rei tinha demons-
sua simpatia por aqueles que viviam trado profunda gratidão por José,
em angústia e sofrimento – abriu pela feliz interpretação do sonho e
o caminho para que se tornasse por muitos atos de bondade e aten-
um homem próspero e honrado no ção. Por sua vez, José, referindo-se à
A Surpreendente História de José 139
prisão injusta a que havia sido con- lembrasse do próprio sonho; com
denado, suplicou que seu caso fosse ele, veio à sua lembrança o pedido
levado perante o rei. “Quando tudo de José e o remorso por seu esqueci-
estiver indo bem com você”, disse ele, mento e ingratidão. Imediatamente,
“lembre-se de mim e seja bondoso ele informou ao rei como seu sonho
comigo; fale de mim ao Faraó e tire- e o sonho do padeiro-chefe tinham
me desta prisão, pois fui trazido à sido interpretados por um escravo
força da terra dos hebreus, e tam- hebreu e como as predições haviam
bém aqui nada fiz para ser jogado se cumprido.
neste calabouço” (Gn 40:14, 15). Era humilhante para o Faraó
O copeiro-chefe viu que seu consultar um escravo, mas ele es-
sonho tinha se realizado em todos tava disposto a fazer isso para que
os detalhes; mas quando foi restau- sua mente perturbada se acalmasse.
rado ao favor real, ele se esqueceu José foi enviado imediatamente ao
daquele que o havia ajudado. José palácio; tirou suas roupas de prisio-
permaneceu como prisioneiro por neiro e foi levado à presença do rei.
mais dois anos. A esperança que “O Faraó disse a José: ‘Tive um
tinha começado a arder em seu sonho que ninguém consegue inter-
coração, pouco a pouco foi se apa- pretar. Mas ouvi falar que você, ao
gando, e às outras provações foi ouvir um sonho, é capaz de inter-
acrescentada a mais amarga dor da pretá-lo.’ Respondeu-lhe José: ‘Isso
ingratidão. não depende de mim, mas Deus
Entretanto, a mão divina estava dará ao Faraó uma resposta favo-
pronta para abrir as portas da pri- rável’” (Gn 41:15, 16). José, modes-
são. Em uma noite, o rei do Egito tamente, recusou a honra de possuir
teve dois sonhos que indicavam sabedoria superior. Somente Deus
aparentemente o mesmo aconteci- pode explicar esses mistérios.
mento e pareciam estar prevendo O Faraó começou então a relatar
uma grande calamidade. Os magos seus sonhos: “Sonhei que estava em
e sábios não puderam dar a inter- pé, à beira do Nilo, quando saíram
pretação. A perplexidade do rei au- do rio sete vacas, belas e gordas, que
mentava e o terror se espalhou por começaram a pastar entre os juncos.
todo o palácio. A agitação geral Depois saíram outras sete, raquíti-
fez com que o copeiro-chefe se cas, muito feias e magras. Nunca vi
140 Os Escolhidos
vacas tão feias em toda a terra do deve estabelecer supervisores para
Egito. As vacas magras e feias come- recolher um quinto da colheita do
ram as sete vacas gordas que tinham Egito durante os sete anos de far-
aparecido primeiro. Mesmo depois tura. Eles deverão recolher o que
de havê-las comido, não parecia que puderem nos anos bons que virão
o tivessem feito, pois continuavam e fazer estoques de trigo que, sob
tão magras como antes. Então acor- o controle do Faraó, serão armaze-
dei. Depois tive outro sonho. Vi sete nados nas cidades. Esse estoque ser-
espigas de cereal, cheias e boas, que virá de reserva para os sete anos de
cresciam num mesmo pé. Depois fome que virão sobre o Egito, para
delas, brotaram outras sete, mur- que a terra não seja arrasada pela
chas e mirradas, ressequidas pelo fome” (Gn 41:33-36).
vento leste. As espigas magras en- A interpretação foi racional e
goliram as sete espigas boas. Contei coerente. A política recomendada
isso aos magos, mas ninguém foi era sólida e não tinha como ser co-
capaz de explicá-lo” (Gn 41:17-24). locada em dúvida. A quem pode-
ria ser confiada a execução desse
A Interpretação do Sonho plano? A preservação da nação de-
do Faraó penderia da sabedoria dessa esco-
“‘O Faraó teve um único sonho’, lha. Por algum tempo, a questão
disse-lhe José. ‘Deus revelou ao dessa indicação esteve em estudo.
Faraó o que Ele está para fazer’” Por meio do copeiro-chefe, o mo-
(Gn 41:25). Haveria sete anos de narca ficou sabendo da sabedoria e
muita fartura. Os campos e hortas prudência demonstradas por José
produziriam em grande quanti- na administração da prisão. Era
dade, como nunca antes. Esse pe- evidente que ele tinha uma habi-
ríodo seria seguido por sete anos de lidade administrativa superior.
fome. “A fome que virá depois será Em todo o reino, José foi o único
tão rigorosa que o tempo de fartura homem dotado de sabedoria para
não será mais lembrado na terra” indicar o perigo que ameaçava o
(Gn 41:31). “Procure agora o Faraó”, país e o preparo necessário que de-
disse ele, “um homem criterioso e veria ser feito para enfrentar uma
sábio e coloque-o no comando da situação como aquela. Não havia
terra do Egito. O Faraó também ninguém, entre os oficiais do rei,
A Surpreendente História de José 141
tão bem qualificado para conduzir atinge a humilde flor no vale ar-
os negócios da nação naquele mo- ranca pela raiz a frondosa árvore
mento de crise. “Será que vamos no topo da montanha. Assim tam-
achar alguém como este homem, bém, aqueles que mantiveram
em quem está o espírito divino?” sua integridade na vida humilde
(Gn 41:38), perguntou o rei aos seus que levavam podem ser arrasta-
conselheiros. dos pelas tentações que aparecem
com o êxito e as honras mundanas.
De Prisioneiro a O caráter de José resistiu da mesma
Primeiro-Ministro forma tanto à prova da adversi-
Foi feito então a José o surpreen- dade como da prosperidade. Ele
dente anúncio: “Uma vez que Deus era um estrangeiro em terra pagã,
lhe revelou todas essas coisas, não separado de sua família, mas acre-
há ninguém tão criterioso e sábio ditava que a mão divina tinha di-
como você. Você terá o comando rigido completamente a sua vida.
de meu palácio, e todo o meu povo Com inabalável confiança em Deus,
se sujeitará às suas ordens. Somente desempenhava fielmente os deve-
em relação ao trono serei maior que res do cargo que ocupava. A aten-
você. […] Em seguida o Faraó tirou do ção do rei e dos grandes homens
dedo o seu anel-selo e o colocou no do Egito foi dirigida ao verdadeiro
dedo de José. Mandou-o vestir de Deus, e eles aprenderam a respei-
linho fino e colocou uma corrente tar os princípios revelados na vida
de ouro em seu pescoço. Também de José como adorador de Jeová.
o fez subir em sua segunda car- Em seus primeiros anos, José se-
ruagem real, e à frente os arautos guiu o seu dever e não a inclinação.
iam gritando: ‘Abram caminho!’” A integridade, a simples confiança, a
(Gn 41:39, 40, 42, 43). nobre natureza do jovem produziram
Da prisão, José foi elevado a go- frutos em seus atos quando homem.
vernador de toda a terra do Egito, As circunstâncias variadas que
uma posição altamente honrada, encontramos dia a dia são destina-
mas também cercada de perigos. das a provar a nossa fidelidade e
Ninguém pode ocupar uma ele- a nos qualificar para maiores res-
vada posição sem estar sujeito ponsabilidades. Ao se apegar aos
ao perigo. A tempestade que não princípios, a mente se acostuma
142 Os Escolhidos
a atender às exigências do dever Um caráter reto tem maior valor
acima do prazer e da vontade. que o ouro de Ofir. Sem ele, nin-
A mente assim disciplinada não os- guém pode alcançar uma elevada
cila entre o que é certo e o errado posição. A formação de um caráter
como a cana balança ao vento. Pela nobre representa o trabalho de uma
fidelidade nas pequenas coisas, ad- vida inteira. Deus oferece as opor-
quirem forças para serem fiéis nas tunidades; o êxito depende do uso
coisas maiores. que fazemos delas.
21
*
José e seus Irmãos
S ob a direção de José, foram
construídos imensos arma-
zéns em toda a terra do Egito para
A fome também atingiu com
força o país em que Jacó vivia. Ao
ouvir falar da grande provisão feita
guardar todo o excedente da colheita pelo rei do Egito, dez dos filhos de
esperada. Durante os sete anos em Jacó viajaram até lá para comprar
que houve comida, a quantidade de cereais. Foram encaminhados ao
grãos armazenados foi muito além representante do rei e, assim como
do que se poderia calcular. outros compradores, apresentaram-
Então começaram os sete anos se diante do governador da terra.
de fome, de acordo com a predição “Curvaram-se diante dele com o
de José. “Houve fome em todas as rosto em terra. […] José reconheceu
terras, mas em todo o Egito havia os seus irmãos, mas eles não o reco-
alimento. Quando todo o Egito co- nheceram” (Gn 42:6, 8). Seu nome
meçou a sofrer com a fome, o povo hebreu foi mudado por outro que
clamou ao Faraó por comida, e foi dado pelo rei, e era bem pouca
este respondeu a todos os egípcios: a semelhança entre o primeiro-
‘Dirijam-se a José e façam o que ele ministro do Egito e o jovem que
disser.’ Quando a fome já se havia eles tinham vendido aos ismaeli-
espalhado por toda a terra, José tas. Quando José viu seus irmãos
mandou abrir os locais de armaze- se curvarem diante dele, seus so-
namento e começou a vender trigo nhos e as cenas do passado surgi-
aos egípcios” (Gn 41:54-56). ram vividamente diante dele. Com
* Este capítulo é baseado em Gênesis 41:54-56; 42 a 50.
144 Os Escolhidos
seu olhar aguçado, logo percebeu sozinho, deixando seu irmão na pri-
que Benjamim não estava entre são? Isso faria parecer que eles ti-
eles. Será que ele também havia nham sido mortos ou se tornado
sido vítima da crueldade e traição escravos. Se Benjamim fosse trazido,
deles? Decidiu então saber a ver- seria apenas para acabar tendo a
dade. “Vocês são espiões!”, disse ele. mesma sorte deles. Decidiram ficar e
“Vieram para ver onde a nossa terra sofrer juntos, em vez de causar mais
está desprotegida” (Gn 42:9). tristezas ao pai pela perda do único
Os irmãos responderam: “Não, filho que lhe restava. Assim, todos
meu senhor, teus servos vieram foram lançados na prisão.
comprar comida. […] Teus servos
são homens honestos, e não es- Homens Arrependidos
piões” (Gn 42:10, 11). Desejou tirar Os filhos de Jacó tinham pas-
alguma informação deles, com rela- sado por uma mudança de caráter.
ção à sua casa, mas sabia o quanto Antes, eles eram invejosos, tempe-
suas declarações poderiam não ser ramentais, enganadores, cruéis e
verdadeiras. Ele repetiu a acusação, vingativos; mas, depois que foram
e eles responderam: “Teus servos provados pelas dificuldades, mos-
eram doze irmãos, todos filhos do traram-se mais abnegados, leais uns
mesmo pai, na terra de Canaã. O ca- com os outros, dedicados ao seu pai
çula está agora em casa com o pai, e e, mesmo sendo já adultos, estavam
o outro já morreu” (Gn 42:13). sujeitos à sua autoridade.
Afirmando estar em dúvida a Os três dias que estiveram pre-
respeito da história que eles haviam sos no Egito foram de amargura e
contado, o governador declarou que tristeza, ao refletirem sobre seus pe-
eles deveriam permanecer no Egito cados. Se Benjamim não pudesse ser
até que um deles fosse e trouxesse trazido, sua condenação como es-
o irmão mais moço. Se não fizes- piões parecia certa.
sem isso seriam tratados como No terceiro dia, José mandou
espiões. Os filhos de Jacó não pu- que seus irmãos fossem levados pe-
deram concordar porque o tempo rante ele. Não poderia detê-los por
necessário para tudo isso faria suas mais tempo. Talvez seu pai e suas
famílias passarem fome; e quem famílias já estivessem sofrendo pela
entre eles poderia fazer a viagem falta de alimento. “Eu tenho o temor
José e seus Irmãos 145
de Deus. Se querem salvar sua vida”, novamente levado para a prisão.
disse ele, “façam o seguinte: Se vocês No tratamento cruel que prati-
são homens honestos, deixem um caram contra seu irmão, Simeão
de seus irmãos aqui na prisão, en- foi o instigador e principal men-
quanto os demais voltam, levando tor do plano.
trigo para matar a fome das suas Antes de permitir que seus ir-
famílias. Tragam-me, porém, o seu mãos partissem, José deu ordens
irmão caçula, para que se compro- para que recebessem o suprimento
vem as suas palavras e vocês não de trigo e também que o dinheiro
tenham que morrer” (Gn 42:18-20). de cada um fosse escondido na boca
José se comunicava com eles do saco. No caminho, um dos ir-
por meio de um intérprete. Não po- mãos abriu o saco e ficou surpreso
dendo nem de longe imaginar que ao encontrar sua bolsa com a prata.
o governador entendia o que fala- Os outros ficaram alarmados e dis-
vam, eles conversavam livremente seram: “Que é isto que Deus fez co-
uns com os outros em sua presença. nosco?” (Gn 42:28).
“Certamente estamos sendo puni- Jacó, muito ansioso, estava
dos pelo que fizemos a nosso irmão. aguardando a volta de seus filhos, e
Vimos como ele estava angustiado quando eles chegaram, todo o acam-
quando nos implorava por sua vida, pamento se reuniu animadamente
mas não lhe demos ouvidos; por em volta deles enquanto contavam
isso nos sobreveio esta angústia” ao pai tudo o que tinha acontecido.
(Gn 42:21). Rúben, que tinha idea- O coração de todos eles estava cheio
lizado um plano para libertar José de temor. A conduta do governador
em Dotã, acrescentou: “Eu não lhes egípcio parecia envolver alguma
disse que não maltratassem o me- coisa mal-intencionada, e seus te-
nino? Mas vocês não quiseram me mores foram confirmados quando,
ouvir! Agora teremos que prestar ao abrirem os sacos, o dinheiro foi
contas do seu sangue” (Gn 42:22). encontrado em cada um deles. Em
José, que entendia tudo o que angústia, o idoso pai exclamou:
diziam, não pôde dominar suas “Vocês estão tirando meus filhos
emoções. Saiu e chorou. Quando de mim! Já fiquei sem José, agora
voltou, ordenou que Simeão fosse sem Simeão e ainda querem levar
amarrado diante de seus olhos e Benjamim. Tudo está contra mim!
146 Os Escolhidos
[…] Meu filho não descerá com por seu irmão e também assumir a
vocês; seu irmão está morto, e ele é culpa para sempre caso deixasse de
o único que resta. Se qualquer mal levar Benjamim de volta ao seu pai.
lhe acontecer na viagem que estão Jacó não poderia mais se
por fazer, vocês farão estes meus ca- recusar a dar o seu consentimento.
belos brancos descerem à sepultura Disse aos filhos que levassem ao go-
com tristeza” (Gn 42:36, 38). vernador um presente com algumas
Entretanto, a seca continuou, e o coisas que o seu país devastado pela
suprimento de trigo levado do Egito fome ainda tinha para oferecer: “Um
estava quase se acabando. Mais e pouco de bálsamo, um pouco de mel,
mais negra era a sombra da fome algumas especiarias e mirra, algu-
que se aproximava. O idoso pai via mas nozes de pistache e amêndoas.
a necessidade que passavam nos Levem prata em dobro. […] Peguem
rostos ansiosos de todos no acam- também o seu irmão e voltem àquele
pamento. Então ele disse: “Voltem homem” (Gn 43:11-13). Quando seus
e comprem um pouco mais de co- filhos estavam prontos para par-
mida para nós” (Gn 43:2). tir para uma viagem tão incerta, o
Judá respondeu: “O homem nos idoso pai se levantou e, erguendo
advertiu severamente: ‘Não voltem as mãos ao Céu, proferiu esta ora-
à minha presença, a não ser que ção: “Que o Deus todo-poderoso lhes
tragam o seu irmão’. Se enviares o conceda misericórdia diante daquele
nosso irmão conosco, desceremos e homem, para que ele permita que o
compraremos comida para ti. Mas seu outro irmão e Benjamim voltem
se não o enviares conosco, não ire- com vocês” (Gn 43:14).
mos, porque foi assim que o homem Viajaram mais uma vez para o
falou: ‘Não voltem à minha presença, Egito e se apresentaram diante de
a não ser que tragam o seu irmão’” José. Ao olhar para Benjamim, que
(Gn 43:3-5). Vendo que seu pai co- também era filho de sua mãe, José
meçava a ceder, ele disse: “Deixa o ficou muito comovido. Conseguiu es-
jovem ir comigo e partiremos ime- conder a emoção, mas ordenou que
diatamente, a fim de que tu, nós e fossem levados à sua casa para par-
nossas crianças sobrevivamos e não ticiparem de um almoço com ele. Os
venhamos a morrer’” (Gn 43:8). Ele irmãos ficaram muito amedronta-
se ofereceu para ser o responsável dos, com receio de serem acusados
José e seus Irmãos 147
por causa do dinheiro encontrado nos laram? Ainda está vivo?” “Teu servo,
sacos. Imaginavam que tivesse sido nosso pai, ainda vive e passa bem”,
colocado de propósito com o objetivo foi a resposta. “E se curvaram para
de encontrarem uma razão para que prestar-lhe honra.” (Gn 43:27, 28).
fossem feitos escravos. Como prova Então olhou para Benjamim e disse:
de sua inocência, informaram ao ad- “É este o irmão caçula de quem me
ministrador da casa que tinham tra- falaram?” E acrescentou: “Deus lhe
zido de volta o dinheiro encontrado conceda graça, meu filho” (Gn 43:29);
nos sacos e também mais dinheiro mas José ficou muito emocionado
para comprar o alimento; e acrescen- ao ver o irmão e não conseguiu
taram: “Não sabemos quem pôs a dizer mais nada. “Entrando em seu
prata em nossa bagagem” (Gn 43:22). quarto, chorou” (Gn 43:30).
“‘Fiquem tranquilos’, disse o admi- Quando José conseguiu se re-
nistrador. ‘Não tenham medo. O seu compor, voltou para junto dos
Deus e o Deus de seu pai foi quem lhes irmãos. Pelas leis das classes so-
deu um tesouro em suas bagagens, ciais, os egípcios eram proibidos
porque a prata de vocês eu recebi’” de comer com pessoas de qual-
(Gn 43:23). Os irmãos ficaram alivia- quer outra nação. Por essa razão,
dos. Assim que Simeão foi libertado foi posta uma mesa separada para
da prisão e se uniu a eles, sentiram os filhos de Jacó, enquanto o go-
que Deus tinha sido verdadeiramente vernador, devido à sua alta posi-
misericordioso com todos. ção, comia sozinho, e os egípcios
também tinham mesas separadas.
Os Sonhos se Cumprem Quando todos se assentaram, os ir-
Novamente mãos ficaram surpresos ao ver que
Quando o governador se en- foram colocados um após o outro,
controu novamente com eles, en- exatamente de acordo com a idade
tregaram a ele os seus presentes e de cada um. “Então lhes serviram
humildemente “curvaram-se diante da mesa de José” (v. 34), mas a por-
dele até o chão” (Gn 43:26). De novo ção de Benjamim era cinco vezes
seus sonhos lhe vieram à mente. Ele maior que a de qualquer um deles.
cumprimentou os irmãos e se apres- Com isso, esperava descobrir se o
sou em perguntar: “Como vai o pai de irmão mais novo era olhado com
vocês, o homem idoso de quem me fa- a mesma inveja e ódio que foram
148 Os Escolhidos
demonstrados a ele. Imaginando consideradas uma proteção contra
ainda que José não compreendia a o assassinato por envenenamento.
sua língua, os irmãos conversavam Diante da acusação do adminis-
normalmente entre si, dando a ele trador, os viajantes responderam:
uma boa oportunidade para conhe- “Por que o meu senhor diz isso?
cer seus verdadeiros sentimentos. Longe dos seus servos fazer tal
José ainda queria provar seus ir- coisa! Nós lhe trouxemos de volta,
mãos mais uma vez. Antes de saí- da terra de Canaã, a prata que en-
rem do Egito, ordenou que seu copo contramos na boca de nossa ba-
de prata fosse colocado no saco de gagem. Como roubaríamos prata
mantimentos do irmão mais novo. ou ouro da casa do seu senhor? Se
algum dos seus servos for encon-
A Prova Final de trado com ela, morrerá; e nós, os
Arrependimento demais, seremos escravos do meu
Alegremente eles partiram de senhor” (Gn 44:7-9).
volta para a casa de seu pai. Simeão e “Concordo”, disse o administra-
Benjamim foram com eles; seus ani- dor. “Somente quem for encontrado
mais estavam carregados de trigo, e com ela será meu escravo. Os de-
todos achavam que tinham escapado mais estarão livres” (Gn 44:10).
em segurança dos perigos que pare- A busca começou logo em se-
ciam cercá-los. No entanto, tinham guida. “Cada um deles descarregou
apenas chegado aos arredores da ci- depressa a sua bagagem e abriu-a”
dade, quando foram surpreendidos (Gn 44:11), e o administrador exa-
pelo administrador do governador, minou cada uma delas, começando
que bastante irado perguntou a eles: pela de Rúben, em ordem, até chegar
“Por que retribuíram o bem com o ao mais moço. A taça foi encontrada
mal? Não é esta a taça que meu se- na bagagem levada por Benjamim.
nhor usa para beber e fazer adivi- Os irmãos rasgaram suas roupas
nhações? Vocês cometeram grande com um sentimento de completa
maldade!” (Gn 44:4, 5). Eles achavam desgraça e lentamente retornaram
que essa taça tinha o poder de des- para a cidade. Pela própria promessa
cobrir qualquer substância venenosa que haviam feito, Benjamim estava
que nela fosse colocada. Taças desse condenado à escravidão. Eles acom-
tipo tinham muito valor, pois eram panharam o administrador até
José e seus Irmãos 149
o palácio e, ao encontrarem o go- conosco, logo que meu pai, que é tão
vernador, curvaram-se até o chão apegado a ele, perceber que o jovem
diante dele. não está conosco, morrerá. Teus ser-
“Que foi que vocês fizeram?”, vos farão seu velho pai descer seus
disse ele. “Vocês não sabem que um cabelos brancos à sepultura com
homem como eu tem poder para tristeza. Além disso, teu servo ga-
adivinhar?” (Gn 44:15). José pre- rantiu a segurança do jovem a seu
tendia saber se realmente tinham pai, dizendo-lhe: ‘Se eu não o trou-
se arrependido do seu pecado. xer de volta, suportarei essa culpa
Judá respondeu: “O que diremos diante de ti pelo resto da minha
a meu senhor? Que podemos falar? vida!’ Por isso, agora te peço, por
Como podemos provar nossa ino- favor, deixa o teu servo ficar como
cência? Deus trouxe à luz a culpa escravo do meu senhor no lugar do
dos teus servos. Agora somos es- jovem e permite que ele volte com
cravos do meu senhor, como tam- seus irmãos. Como poderei eu vol-
bém aquele que foi encontrado com tar a meu pai sem levar o jovem co-
a taça” (Gn 44:16). migo? Não! Não posso ver o mal que
“Longe de mim fazer tal coisa!”, sobreviria a meu pai” (Gn 44:30-34).
foi a resposta. “Somente aquele que José estava satisfeito. Tinha visto
foi encontrado com a taça será meu em seus irmãos os frutos do verda-
escravo. Os demais podem voltar em deiro arrependimento. Deu ordens
paz para a casa do seu pai” (Gn 44:17).
para que todos se retirassem, exceto
aqueles homens. Então, chorando em
O Apelo de Judá alta voz, ele exclamou: “Eu sou José!
Em profunda angústia, Judá se Meu pai ainda está vivo?” (Gn 45:3).
aproximou do governador. De ma-
neira eloquente, ele descreveu a Reconciliação!
dor de seu pai pela perda de José Os irmãos de José ficaram sem
e sua dificuldade em permitir que entender, calados, cheios de medo e
Benjamim fosse com eles ao Egito, espantados. O governador do Egito
por ser ele o único filho de Raquel, era o seu irmão José, a quem eles in-
o filho a quem Jacó tanto amava. vejavam e teriam matado, mas que
“Agora, pois, se eu voltar a teu acabaram vendendo como escravo!
servo, a meu pai, sem levar o jovem Todos os seus maus-tratos passaram
150 Os Escolhidos
diante deles. Lembraram-se de como todo o palácio e governador de todo
odiavam seus sonhos e de tudo o o Egito. Voltem depressa a meu pai
que fizeram para impedir que se e digam-lhe: ‘Assim diz o seu filho
cumprissem; porém, nada mais fi- José: Deus me fez senhor de todo
zeram do que desempenhar o seu o Egito. Vem para cá, não te demo-
papel para que eles se realizassem. res. Tu viverás na região de Gósen
Naquele momento em que estavam […] tu, os teus filhos, os teus netos,
completamente sob seu poder, sem as tuas ovelhas, os teus bois e todos
dúvida ele iria se vingar de tudo o os teus bens. Eu te sustentarei ali,
que tinha sofrido. porque ainda haverá cinco anos de
Ao ver o quanto estavam con- fome. Do contrário, tu, a tua família
fusos, ele disse bondosamente: e todos os teus rebanhos acabarão na
“Cheguem mais perto”. Quando se miséria’” (Gn 45:7-11). “Então ele se
aproximaram, ele continuou: “Eu lançou chorando sobre o seu irmão
sou José, seu irmão, aquele que Benjamim e o abraçou, e Benjamim
vocês venderam ao Egito! Agora, não também o abraçou, chorando. Em se-
se aflijam nem se recriminem por guida beijou todos os seus irmãos e
terem me vendido para cá, pois foi chorou com eles. E só depois os seus
para salvar vidas que Deus me en- irmãos conseguiram conversar com
viou adiante de vocês” (Gn 45:3, 4). ele” (Gn 45:14, 15). Eles confessaram
Sentindo que já tinham sofrido o com muita humildade o seu pecado e
suficiente por sua crueldade para suplicaram que os perdoasse.
com ele, procurou com muita gene- A notícia do que tinha aconte-
rosidade aliviar seus temores e tirar cido foi rapidamente levada ao rei.
deles a amargura por continuarem Ele confirmou o convite do governa-
se condenando. dor à sua família, dizendo: “Eu lhes
“Deus me enviou à frente de darei o melhor da terra do Egito”
vocês para lhes preservar um rema- (Gn 45:18). Os irmãos de José foram
nescente nesta terra e para salvar- enviados com grande suprimento
lhes a vida com grande livramento! de alimentos e de tudo o que neces-
Assim, não foram vocês que me sitavam para trazer todas as famí-
mandaram para cá, mas sim o pró- lias e os servos para o Egito.
prio Deus. Ele me tornou ministro Os filhos de Jacó voltaram para
do Faraó, e me fez administrador de a casa de seu pai com estas alegres
José e seus Irmãos 151
novas: “José ainda está vivo! Na ver- A promessa de inumeráveis
dade ele é o governador de todo o descendentes, como as estrelas do
Egito” (Gn 45:26). No começo, Jacó céu, tinha sido dada a Abraão, mas,
ficou cheio de espanto; quase não até aquela época, o povo escolhido
podia acreditar no que ouvia; mas tinha aumentado muito vagarosa-
quando viu a longa caravana, com car- mente. Naquela época, a terra de
ros e animais, e quando se deu conta Canaã estava sob o domínio de po-
de que Benjamim estava junto dele derosas tribos pagãs que não seriam
novamente, ficou convencido. Com tiradas de lá até “a quarta geração”
imensa alegria, exclamou: “Basta! (Gn 15:16). Para se tornar um povo
Meu filho José ainda está vivo. Irei numeroso, os descendentes de Israel
vê-lo antes que eu morra” (Gn 45:28). deveriam ou expulsar os habitan-
Mais um ato de humilhação tes da terra ou se dispersar entre
restava para aqueles dez irmãos. eles. Se eles se misturassem aos ca-
Eles confessaram então para o pai naneus estavam em perigo de ser
o engano e a crueldade que trou- atraídos à idolatria. Por outro lado,
xeram tantos anos de amargura à o Egito oferecia as condições ne-
sua vida, e também à deles, durante cessárias para o cumprimento do
todo aquele tempo. Jacó nunca po- plano divino. Uma região do país,
deria imaginar que fossem capazes bem regada e fértil estava à dis-
de cometer um pecado tão vil, mas posição deles, proporcionando as
ele perdoou seus filhos pelo erro co- condições necessárias e todas as
metido e os abençoou. vantagens para o seu rápido cresci-
O pai e seus filhos, com todas mento. Permaneceriam como um
as suas famílias, seus rebanhos e povo distinto e separado, excluído
o gado, além de outros que faziam da participação da idolatria rei-
parte do acampamento, logo esta- nante no país.
vam a caminho do Egito. Numa Quando chegaram ao Egito, todo
visão à noite, veio a palavra divina: o povo se encaminhou para a terra
“Não tenha medo de descer ao Egito, de Gósen. José foi para lá em sua car-
porque lá farei de você uma grande ruagem oficial, acompanhado de uma
nação. Eu mesmo descerei ao Egito grande comitiva. Apenas um pensa-
com você e certamente o trarei de mento enchia a sua mente, uma sau-
volta” (Gn 46:3, 4). dade imensa que fazia seu coração
152 Os Escolhidos
vibrar. Ao ver os viajantes se apro- consciente superioridade, levantou
ximando, o amor cujos sentimentos as mãos e abençoou Faraó.
tinham sido reprimidos por tantos Em sua primeira saudação a
anos não mais poderia ser contro- José, Jacó falou como se estivesse
lado. Ele desceu de sua carruagem pronto para morrer, depois de ter
e correu para saudar seu pai. “Assim colocado um ponto final tão feliz
que o viu, correu para abraçá-lo e, em sua longa ansiedade e tristeza.
abraçado a ele, chorou longamente. Ainda seriam concedidos a ele mais
E Israel disse a José: ‘Agora já posso dezessete anos na tranquila e afas-
morrer, pois vi o seu rosto e sei que tada terra de Gósen. Esses anos
você ainda está vivo’” (Gn 46:29, 30). foram um feliz contraste com os
José desejava livrar seus irmãos anos turbulentos que Jacó tinha vi-
das tentações a que estariam ex- vido até então. Ele viu em seus filhos
postos em uma corte pagã; assim, evidências de verdadeiro arrependi-
ele os aconselhou a dizer ao Faraó mento. Sua família estava rodeada
qual era exatamente a sua ocupa- de todas as condições necessárias
ção. Os filhos de Jacó seguiram esse para o desenvolvimento de uma
conselho, sendo cuidadosos tam- grande nação. Sua fé se apegou à cer-
bém em declarar que tinham vindo teza da promessa de que no futuro
para estar apenas por um tempo seriam levados para viver em Canaã
naquela terra, e não para se torna- outra vez. Ele mesmo estava cercado
rem habitantes permanentes, re- de toda demonstração de amor
servando assim a eles o direito de e favor que o primeiro-ministro
partirem quando desejassem. do Egito poderia lhe conceder.
O Fim da Vida de Jacó Jacó Reconhece os Filhos
Não muito tempo depois de ter de José
chegado ao Egito, José levou seu pai Outra questão importante que
para ser apresentado ao Faraó. Jacó necessitava de atenção – os filhos
era um estranho nas cortes reais, de José deveriam ser formalmente
mas, em meio às grandiosas cenas reconhecidos como parte dos filhos
da natureza, manteve sua comu- de Israel. Ao vir para a sua última
nhão com um Governante mais visita ao seu pai, José levou con-
poderoso. Naquele momento, em sigo Efraim e Manassés. Por meio
José e seus Irmãos 153
de sua mãe, esses jovens estavam li- Não havia nenhuma queixa dos dias
gados à mais alta ordem do sacer- do passado. Ele não considerava mais
dócio egípcio e a posição de seu pai suas provações e tristezas coisas que
abria diante deles os caminhos da recaíram sobre ele. Em sua memó-
riqueza e da honra, caso preferis- ria guardava apenas as lembranças
sem se unir aos egípcios. Contudo, da misericórdia e amorável bondade
era desejo de José que eles se unis- de Deus, que estiveram com Jacó du-
sem ao povo do seu pai. Com isso, rante toda a sua peregrinação.
ele demonstrou sua fé na promessa Todos os filhos de Jacó foram
do concerto, renunciando em favor reunidos ao redor de seu leito de
de seus filhos todas as honras que a morte. “Então Jacó chamou seus
corte do Egito oferecia para ter um filhos e disse: Ajuntem-se a meu
lugar entre as menosprezadas tribos lado para que eu lhes diga o que
de pastores, às quais foram confia- lhes acontecerá nos dias que virão”
dos os oráculos de Deus. (Gn 49:1).
Disse Jacó a José: “Os seus dois
filhos que lhe nasceram no Egito, Jacó Prediz o Futuro
antes da minha vinda para cá, serão de seus Filhos
reconhecidos como meus; Efraim e O espírito de inspiração repou-
Manassés serão meus, como são sou sobre Jacó, e em visão profé-
meus Rúben e Simeão” (Gn 48:5). tica foi apresentado diante dele o
Deveriam ser reconhecidos como futuro de seus descendentes. Um
seus e se tornarem chefes de tribos após outro, os nomes de seus filhos
distintas. foram mencionados, foi descrito
Ao se aproximarem, o patriarca o caráter de cada um, e a história
os abraçou e os beijou, colocando so- futura da tribo foi também breve-
lenemente as mãos sobre a cabeça mente predita.
deles para abençoá-los. Então ele
orou: “Que o Deus a quem serviram Rúben, você é meu primogênito,
meus pais Abraão e Isaque, o Deus minha força, o primeiro sinal do
que tem sido o meu pastor em toda meu vigor, superior em honra,
a minha vida até o dia de hoje, o Anjo superior em poder (Gn 49:3).
que me redimiu de todo o mal, aben- Mesmo assim, o terrível pecado de
çoe estes meninos” (Gn 48:15, 16). Rúben em Edar fez com que ele
154 Os Escolhidos
se tornasse indigno da bênção da não recebeu nenhuma herança, ex-
primogenitura. Jacó continuou: ceto quarenta e oito cidades. Sua fi-
Turbulento como as águas, já não delidade, quando as outras tribos se
será superior (Gn 49:4). apostataram, assegurou sua indica-
ção para o sagrado serviço do san-
O sacerdócio foi dado a Levi, tuário. Dessa maneira, a maldição
tanto o reino quanto a promessa se transformou em bênção.
messiânica a Judá, enquanto que
a José coube a dupla porção da he- Judá, seus irmãos o louvarão, sua
rança. A tribo de Rúben nunca se mão estará sobre o pescoço dos
sobressaiu em Israel e não foi tão seus inimigos; os filhos de seu
numerosa quanto a de Judá, José pai se curvarão diante de você.
ou Dã, e estava entre as primeiras a […]
serem levadas para o cativeiro. O cetro não se apartará de Judá,
Os próximos foram Simeão e nem o bastão de comando de
Levi. Eles haviam se unido em seus seus descendentes, até que venha
atos de crueldade para com os sique- Aquele a quem ele pertence,
mitas e tinham sido os maiores cul- e a Ele as nações obedecerão
pados na venda de José. (Gn 49:8-10).
Eu os dividirei pelas terras de Jacó e O leão, o rei da selva, é um sím-
os dispersarei em Israel (Gn 49:7). bolo bastante apropriado para essa
tribo. Dela vieram Davi e o Filho
Moisés, em sua última bênção de Davi, Siló, o verdadeiro “Leão
a Israel, antes de entrar em Canaã, da tribo de Judá”, a quem todos os
não fez referência alguma a Simeão. poderes finalmente se curvarão e
Na divisão das terras para as tribos, todas as nações honrarão.
essa tribo recebeu apenas uma pe- Jacó predisse um futuro prós-
quena parte do que era destinado a pero para a maioria de seus filhos.
Judá, e as famílias que depois se tor- Então ele falou sobre José, e o co-
naram mais poderosas formaram ração do pai transbordou ao pedir
diversas colônias e se estabelece- as bênçãos sobre “a fronte daquele
ram em territórios fora das fron- que foi separado de entre os seus ir-
teiras da Terra Santa. Levi também mãos” (Gn 49:26).
José e seus Irmãos 155
José é uma árvore frutífera, árvore Nuvens negras se acumularam em
frutífera à beira de uma fonte, seu caminho, mas o pôr do sol no
cujos galhos passam por cima fim de seus dias foi claro, e a luz do
do muro. Céu iluminou seus últimos momen-
Com rancor arqueiros o ataca- tos. Dizem as Escrituras: “Mesmo
ram, atirando-lhe flechas com depois do anoitecer, haverá clari-
hostilidade. dade” (Zc 14:7). “Considere o ínte-
Mas o seu arco permaneceu firme, gro, observe o justo; há futuro para
os seus braços fortes, ágeis para o homem de paz” (Sl 37:37).
atirar, pela mão do Poderoso de A Inspiração registra fielmente
Jacó […]. as falhas de homens bons que se
As bênçãos de seu pai são superio- destacaram por terem recebido o
res às bênçãos dos montes an- favor de Deus. Isso tem dado aos
tigos, às delícias das colinas incrédulos um motivo para zom-
eternas. Que todas essas bên- barem da Bíblia. Entretanto, uma
çãos repousem sobre a cabeça de das mais fortes evidências da vera-
José, sobre a fronte daquele que cidade das Escrituras é que ela não
foi separado de entre os seus ir- minimiza os fatos nem oculta os pe-
mãos. (Gn 49:22-26). cados de seus grandes personagens.
Se a Bíblia tivesse sido escrita por
Jacó era um homem bastante pessoas não inspiradas, certamente
sentimental; seu amor por seus fi- teria apresentado seus ilustres per-
lhos era forte e terno. Perdoou todos sonagens de maneira mais elogiosa.
os filhos e os amou até o fim. Em sua Somos encorajados em nos-
ternura paternal, ele teria pronun- sos esforços para alcançar a jus-
ciado apenas palavras de ânimo e tiça quando examinamos onde
esperança, mas o poder de Deus re- outros lutaram, pois eles passa-
pousou sobre ele e, sob a influência ram por desânimo e tristezas exa-
da Inspiração, foi levado a declarar a tamente como nós. Ao analisarmos
verdade, mesmo que fosse dolorosa. as tentações pelas quais eles passa-
Os últimos anos de Jacó foram ram, percebemos que mesmo assim
de tranquilidade e descanso depois eles venceram pela graça de Deus.
dos dias turbulentos e fatigan- Embora algumas vezes tenham sido
tes pelos quais ele havia passado. vencidos, eles se reergueram e foram
156 Os Escolhidos
abençoados por Deus. Da mesma entristeceu porque seus irmãos
forma, nós também podemos nos pensavam que ele ainda mantinha o
tornar vencedores no poder de espírito de vingança. “Não tenham
Jesus. Por outro lado, o registro da medo”, disse ele. “Estaria eu no lugar
vida de cada um deles pode servir de Deus? Vocês planejaram o mal
de advertência para nós. Deus vê o contra mim, mas Deus o tornou em
pecado em Seus mais favorecidos e bem, para que hoje fosse preservada
lida com suas falhas até com mais a vida de muitos. Por isso, não te-
severidade que naqueles que têm nham medo. Eu sustentarei vocês e
menos luz e responsabilidade. seus filhos” (Gn 50:19-21).
Depois do sepultamento de
Jacó, os irmãos de José volta- Vendo Cristo em José
ram a ficar com o coração cheio A vida de José é um exemplo da
de temor. Tinham consciência da vida de Cristo. Foi a inveja que mo-
própria culpa e suspeitaram então tivou os irmãos a venderem José
que José traria sobre eles a puni- como escravo; esperavam impe-
ção pelo crime que haviam come- dir que o irmão se tornasse maior
tido e que havia sido adiada por do que eles. Estavam certos de que
tanto tempo. Não ousaram apare- não mais seriam importunados por
cer diante dele pessoalmente, mas seus sonhos, depois de terem eli-
enviaram uma mensagem: “Antes minado todas as possibilidades de
de morrer, teu pai nos ordenou que realização. Deus dirigiu suas ações
te disséssemos o seguinte: ‘Peço- para que viesse a acontecer exata-
lhe que perdoe os erros e pecados mente o que eles haviam tentado
de seus irmãos que o trataram com evitar. Igualmente, os sacerdotes
tanta maldade!’ Agora, pois, perdoa e líderes judeus tinham inveja de
os pecados dos servos do Deus de Cristo. Mataram Jesus para que Ele
teu pai” (Gn 50:16:17). não Se tornasse rei; mas, ao assim
Essa mensagem tocou o cora- agirem, foi esse mesmo resultado
ção de José e ele chorou. Mais ani- que obtiveram.
mados, seus irmãos vieram e se Pelo tempo que passou como
prostraram diante dele com estas escravo no Egito, José se tornou
palavras: “Aqui estamos. Somos o salvador da família de seu pai.
teus escravos!” (Gn 50:18). José se Contudo, esse fato não diminuiu
José e seus Irmãos 157
a culpa de seus irmãos. Da mesma povo. Durante todos aqueles anos,
forma, a crucificação de Cristo por sua fé em Deus para levar Israel de
Seus inimigos fez com que Ele Se volta à Terra da Promessa se man-
tornasse o Redentor da humani- teve inabalável.
dade, o Salvador da raça caída e o Quando percebeu que seu fim
Governante do mundo todo. O crime estava próximo, seu último ato foi
de Seus malfeitores foi simples- mostrar como sua vida estava li-
mente tão hediondo que era como gada à vida de Israel. Suas últimas
se a mão guiadora de Deus não esti- palavras foram: “Deus certamente
vesse dirigindo os acontecimentos. virá em auxílio de vocês e os tirará
José foi falsamente acusado e desta terra, levando-os para a terra
lançado na prisão, por causa de sua que prometeu com juramento a
lealdade. Da mesma forma, Cristo Abraão, a Isaque e a Jacó”(Gn. 50:24).
foi menosprezado e rejeitado não só Também fez com que os filhos de
porque Sua vida era justa e abnegada, Israel jurassem solenemente que le-
mas porque ela era uma reprovação variam seus ossos com eles de volta
ao pecado. Embora não fosse culpado para a terra de Canaã. “Morreu José
de falta alguma, Ele foi condenado com a idade de cento e dez anos.
pelas declarações de falsas testemu- E, depois de embalsamado, foi co-
nhas. A paciência de José diante da locado num sarcófago no Egito”
injustiça, sua disposição em perdoar (Gn 50:26).
e a nobreza de sua generosidade para Ao longo dos séculos de lutas
com seus irmãos desnaturados re- que se seguiram, o caixão em que
presentam não apenas o sofrimento José estava sepultado se tornou
resignado do Salvador diante do ódio um testemunho para Israel de que
e abuso de homens maus, mas prin- eles eram peregrinos no Egito.
cipalmente o Seu perdão a todos que Para eles, aquele caixão era uma
vão a Ele, confessando os seus peca- lembrança de que deveriam man-
dos com humildade. ter suas esperanças na Terra da
José viveu para testemunhar o Promessa, pois o tempo do livra-
crescimento e a prosperidade de seu mento certamente viria.
22
O Líder do Povo
*
de Deus
E m reconhecimento
ao trabalho que José
havia prestado a todo o povo do
No entanto, com o passar do
tempo, o grande homem que foi
usado por Deus para salvar o Egito
Egito, os filhos de Jacó receberam morreu. “Então subiu ao trono do
não somente uma parte do país Egito um novo rei, que nada sabia
como sua nova casa, mas ficaram sobre José” (Êx 1:8). Não que ele não
também livres de pagar os impos- soubesse tudo o que José fez pela
tos e tiveram todo o alimento de nação, mas porque não queria reco-
que precisaram durante os anos nhecer o que havia sido feito. Queria
de fome. O rei reconheceu publi- de todas as formas que tudo fosse
camente que foi por causa do Deus esquecido. “Disse ele ao seu povo:
de José que o Egito teve tanta co- Vejam! O povo israelita é agora nu-
mida enquanto outras nações es- meroso e mais forte que nós. Temos
tavam morrendo com a falta de que agir com astúcia, para que não
alimento. Ele viu também que a ad- se tornem ainda mais numerosos
ministração de José tinha enrique- e, no caso de guerra, aliem-se aos
cido grandemente o reino, e como nossos inimigos, lutem contra nós
agradecimento tratou a família de e fujam do país” (Êx 1:9, 10).
Jacó com muita consideração e o Os israelitas “eram férteis, pro-
que tinha de melhor. liferaram, tornaram-se numerosos
* Este capítulo é baseado em Êxodo 1-4.
O Líder do Povo de Deus 159
e fortaleceram-se muito, tanto que trabalho lhes dava oportunidade,
encheram o país” (Êx 1:7). Apesar para que destruíssem as crianças
disso, eles tinham se mantido uma hebreias do sexo masculino assim
raça sem mistura, não tinham nada que nascessem. Satanás sabia que
em comum com os egípcios, nem deveria surgir um libertador entre
nos costumes, nem na religião, e o os israelitas, e, usando o rei para des-
número deles, que aumentava cada truir os meninos, esperava frustrar
vez mais, parecia agora uma ameaça os propósitos divinos. No entanto,
para o rei e seu povo. as mulheres temiam a Deus e decidi-
Muitos eram não apenas operá- ram não obedecer a essa ordem cruel.
rios habilidosos, mas inteligentes e O rei, indignado com o fracasso
contribuíram grandemente para o de seu plano, fez uma lei mais agres-
enriquecimento do Egito. O rei preci- siva. “O Faraó ordenou a todo o seu
sava de trabalhadores como eles para povo: ‘Lancem ao Nilo todo menino
a construção de seus grandes palá- recém-nascido, mas deixem viver as
cios e templos. Por isso, ele os com- meninas” (Êx 1:22).
parou com egípcios que haviam se
vendido ao reino, bem como tudo o Nascido na Pior Época
que tinham. Depois, foram coloca- Enquanto esse decreto estava em
dos encarregados para cuidar deles, pleno vigor, nasceu um menino, filho
“e os sujeitaram a cruel escravidão. de Arão e Joquebede, que eram israe-
Tornaram-lhes a vida amarga, im- litas da tribo de Levi. Os pais, confian-
pondo-lhes a árdua tarefa de prepa- tes de que o tempo da libertação de
rar o barro e fazer tijolos, e executar Israel estivesse chegando e que Deus
todo tipo de trabalho agrícola; […]. levantaria um libertador para Seu
Todavia, quanto mais eram oprimi- povo, decidiram que seu filhinho não
dos, mais numerosos se tornavam e poderia ser sacrificado. A fé em Deus
mais se espalhavam” (Êx 1:13, 14, 12). fortaleceu o coração dos pais, “e não
O rei e seus conselheiros espe- temeram o decreto do rei” (Hb 11:23).
ravam dominar os israelitas com o A mãe escondeu o filho por
trabalho duro, fazendo com que di- três meses. Então, percebendo que
minuíssem em número e mudassem não era mais seguro tentar escon-
seu espírito independente. Foram der o bebê, preparou um cestinho
dadas ordens às mulheres, cujo de junco e passou betume e piche
160 Os Escolhidos
para não entrar água; deitou o bebê Doze Anos Muito Breves
ali dentro e colocou o cesto entre Deus ouviu a oração daquela mãe.
os juncos à margem do rio. A irmã Com profunda gratidão, ela iniciou
do menino, Miriã, ficou por perto, a alegre tarefa de educar seu filho
olhando atentamente para ver o que para Deus. Sabia que em breve de-
aconteceria com seu irmãozinho. veria entregá-lo à sua “mãe”, a filha
Estavam ali também outros vi- do rei, para ser rodeado de influên-
gias. A mãe confiou seu filho aos cias que poderiam afastá-lo de Deus.
cuidados de Deus, e anjos invisíveis Esforçou-se por ensinar a ele o temor
cuidavam do bebê enquanto dormia. a Deus e o amor à verdade e à justiça.
Os anjos levaram a filha do Faraó até Mostrou-lhe a loucura e o pecado da
aquele local. O pequeno cesto des- idolatria, e o ensinou, desde os pri-
pertou a sua curiosidade e, ao olhar meiros anos a se curvar e a orar ao
para aquele lindo bebê que come- Deus vivo, que era o único que po-
çou a chorar, seu coração ficou cheio deria ouvi-lo e ajudá-lo em qualquer
de compaixão; seus sentimentos de dificuldade.
simpatia se estenderam à mãe des- Ela manteve o menino em sua
conhecida que tentou por esse meio casa tanto quanto foi possível, mas
salvar a vida de seu precioso filhi- teve que entregá-lo quando estava
nho. Ela decidiu que o menino deve- com aproximadamente doze anos.
ria ser salvo; ela o adotaria como seu. Daquela humilde choupana, foi le-
Miriã, percebendo que o menino vado para o palácio real, para a filha
estava sendo aceito com ternura, ar- do Faraó, e ela “o adotou” (Êx 2:10).
riscou-se a chegar mais perto e disse Mesmo ali, ele não se esquecia das
finalmente: “A senhora quer que eu lições aprendidas ao lado de sua
vá chamar uma mulher dos hebreus mãe. Eram uma proteção contra o
para amamentar e criar o menino?” orgulho, a incredulidade e o vício
(Êx 2:7). A permissão foi dada. que aumentava cada vez mais entre
A irmã correu até sua mãe com os esplendores da corte.
a feliz notícia e voltou com ela até Toda a vida futura de Moisés
onde estava a filha do Faraó. “Leve e a grande missão que ele cumpriu
este menino e amamente-o para como líder de Israel são um teste-
mim, e eu lhe pagarei por isso”, disse munho da importância da obra rea-
a princesa (Êx. 2:9). lizada por uma mãe cristã. Nenhum
O Líder do Povo de Deus 161
outro trabalho pode se igualar a esse. tornar seu neto adotivo seu sucessor
A mãe está lidando com o desenvolvi- ao trono, e o jovem Moisés foi edu-
mento da mente e caráter dos filhos, cado para ocupar essa elevada posi-
trabalhando não somente para a vida ção. “Moisés foi educado em toda a
neste mundo, mas para a eternidade. sabedoria dos egípcios e veio a ser po-
Ela está semeando as sementes que deroso em palavras e obras” (At 7:22).
vão brotar e produzir frutos, que Sua habilidade como líder militar fez
podem ser tanto para o bem, como com que se tornasse o favorito nos
para o mal. Sua obra não é pintar exércitos do Egito, e era geralmente
belas formas em uma tela ou fazer es- respeitado como uma alta persona-
culturas no mármore, mas imprimir lidade. Satanás tinha sido derrotado
na mente humana a imagem divina. em seu propósito. O mesmo decreto
As impressões produzidas na mente que condenava os filhos dos hebreus
permanecerão por toda a vida. Os fi- à morte foi revertido por Deus para
lhos são colocados aos cuidados dos possibilitar a educação e preparo do
pais para serem ensinados, não para futuro líder de Seu povo.
serem herdeiros de um trono de um Os anciãos de Israel foram ins-
império na Terra, mas para serem truídos por anjos de que o tempo
como reis e rainhas para Deus, e assim para a sua libertação estava pró-
reinarem por toda a eternidade. ximo e que Moisés era o homem que
No dia solene do juízo, os regis- Deus usaria para realizar essa obra.
tros revelarão que muitos crimes Os anjos instruíram Moisés também,
foram cometidos como resultado da revelando-lhe que Jeová o havia esco-
ignorância e da negligência daque- lhido para quebrar o cativeiro de Seu
les que tinham o dever de guiar os povo. Moisés tinha em mente que de-
filhos no caminho do bem. Os regis- veriam obter sua liberdade em uma
tros revelarão também que muitos batalha e esperava liderar as forças
que têm abençoado o mundo com hebreias contra os exércitos do Egito.
sua mente brilhante, com a verdade
e a santidade, devem seu sucesso a Como o Jovem Moisés
uma mãe cristã que por eles orava. foi Provado
Na corte de Faraó, Moisés rece- Pelas leis do Egito, todos aque-
beu a melhor educação social, po- les que ocupavam o trono dos fa-
lítica e militar. O monarca decidiu raós deveriam se tornar membros
162 Os Escolhidos
da classe sacerdotal. Moisés, como o grandes povos da Terra, para bri-
mais provável herdeiro, deveria ser lhar nas cortes do mais glorioso
formalmente iniciado nos mistérios reino e para empunhar o cetro do
da religião nacional. Contudo, ele poder. Como historiador, poeta, fi-
não estava convencido de que de- lósofo, general de exércitos e legis-
veria participar do culto aos deu- lador, ninguém se igualava a ele.
ses. Foi ameaçado com a perda da Apesar de ter o mundo a seus pés, ele
coroa e advertido de que poderia teve força moral para recusar toda ri-
ser deserdado pela princesa se per- queza, grandeza e fama, “preferindo
sistisse em praticar a fé professada ser maltratado com o povo de Deus”
por seu povo. Mesmo assim, ele es- (Hb 11:25).
tava inabalável em sua determina- O majestoso palácio de Faraó e
ção de não adorar a nenhum outro, o trono foram apresentados como
senão ao único Deus, o Criador do uma forma de sedução a Moisés;
céu e da Terra. Tentou convencer mas ele sabia que eram nas formas
os sacerdotes e adoradores, mos- e costumes das cortes que estavam
trando a eles como era sem sentido entronados os prazeres pecamino-
sua supersticiosa reverência a obje- sos que fazem o povo se esquecer
tos insensíveis. Por algum tempo, de Deus. Ele olhava para além do
sua resistência foi aceita devido à lindo palácio, para além da coroa,
elevada posição que possuía e pela podendo ver as mais altas honras
consideração que o rei e o povo ti- que os santos do Altíssimo recebe-
nham para com ele. rão em um reino incontaminado
“Pela fé Moisés, já adulto, recusou pelo pecado. Pela fé, ele viu uma
ser chamado filho da filha do Faraó, coroa que jamais se acabará e que
preferindo ser maltratado com o o Rei do Céu colocará na cabeça do
povo de Deus a desfrutar os prazeres vencedor. Essa fé o levou a se unir à
do pecado durante algum tempo. Por humilde, pobre e desprezada nação
amor de Cristo, considerou sua de- que preferiu obedecer a Deus em vez
sonra uma riqueza maior do que os te- de servir ao pecado.
souros do Egito, porque contemplava Moisés permaneceu na corte
a sua recompensa” (Hb 11:24-26). do palácio até os quarenta anos.
Moisés estava preparado para as- Visitava seus irmãos no cativeiro
sumir o primeiro posto entre os e os animava com a certeza de que
O Líder do Povo de Deus 163
Deus iria agir em favor do seu livra- imediatamente, mas Moisés, per-
mento. Certo dia, ao ver um egíp- cebendo o perigo que corria, fugiu
cio ferir um israelita, Moisés lutou para a Arábia.
contra ele e o matou. A não ser o is- O Senhor o dirigiu nessa cami-
raelita, ninguém mais testemunhou nhada, e ele encontrou um lar na
esse ato, e Moisés imediatamente casa de Jetro, o sacerdote e prín-
enterrou o corpo na areia. Ele mos- cipe de Midiã, que também era um
trou que estava pronto para assu- adorador de Deus. Passado algum
mir a causa de seu povo e esperava tempo, Moisés se casou com uma
vê-los se erguerem para recupe- das filhas de Jetro; e ali, como guar-
rar sua liberdade. “Ele pensava que dador de seus rebanhos, ele perma-
seus irmãos compreenderiam que neceu quarenta anos.
Deus o estava usando para salvá-los, Não era a vontade de Deus liber-
mas eles não o compreenderam” tar seu povo por meio da guerra,
(At 7:25). Ainda não estavam pre- como Moisés pensava, mas por Seu
parados para a liberdade. grande poder, para que a glória fosse
No dia seguinte, Moisés viu dois dada a Ele somente. Moisés não es-
hebreus brigando um com o outro. tava preparado para a sua grande
Um deles, naturalmente, estava er- obra. Ele ainda tinha que apren-
rado. Moisés chamou a atenção do der a mesma lição de fé que havia
ofensor, que no mesmo instante sido ensinada a Abraão e a Jacó –
revidou dizendo que ele não tinha não confiar na força nem na sabe-
direito algum de interferir, e rude- doria humana, mas no poder de
mente o acusou pelo crime: “Quem o Deus para cumprir Suas promes-
nomeou líder e juiz sobre nós? Quer sas. Na escola da abnegação e das
matar-me como matou o egípcio?” dificuldades, ele deveria aprender
(Êx 2:14). a exercer a paciência e a controlar
O caso logo chegou aos ouvi- seus instintos. Seu coração deveria
dos do Faraó. Disseram ao rei que estar completamente em harmonia
esse ato significava muito mais, que com Deus, antes de ensinar o conhe-
Moisés planejava liderar seu povo cimento da Sua vontade a Israel e
contra os egípcios, derrubar o go- demonstrar um cuidado paternal
verno e assentar-se no trono. O rei sobre todos aqueles que necessitas-
determinou que ele deveria morrer sem de seu auxílio.
164 Os Escolhidos
Às Vezes é Preciso solene, ele via a majestade do Deus
Desaprender Altíssimo e, em contraste, conse-
No Egito, Moisés aprendeu mui- guia compreender quão impoten-
tas coisas que precisava desaprender. tes eram os deuses do Egito. Ali, seu
As influências do ambiente em que orgulho e presunção foram esmaga-
havia crescido tinham deixado pro- dos. Os efeitos causados pelo luxo
fundas impressões em sua mente em do Egito desapareceram. Moisés
desenvolvimento e, até certo ponto, se tornou humilde, reverente e
haviam moldado seus hábitos e o “muito paciente, mais do que qual-
caráter. O tempo poderia remover quer outro que havia na Terra”
essas impressões. Renunciar ao erro (Nm 12:3), e também forte na fé.
e aceitar a verdade exigiria uma tre- Enquanto os anos se passavam,
menda luta por parte de Moisés. suas orações por Israel eram eleva-
Deus seria o seu Ajudador quando o das dia e noite. Ali, sob a inspira-
conflito se tornasse severo demais ção do Espírito Santo, ele escreveu
para a força humana suportar. o livro de Gênesis. Os longos anos
“Se algum de vocês tem falta passados na solidão do deserto
de sabedoria, peça-a a Deus, que a abençoaram ricamente o mundo
todos dá livremente, de boa von- em todas as épocas.
tade; e lhe será concedida” (Tg 1:5).
Entretanto, Deus não comunicará O Tempo de Libertação se
a luz divina aos homens enquanto Aproxima!
estiverem satisfeitos em permane- “Muito tempo depois, morreu o
cer nas trevas. Para receberem o au- rei do Egito. Os israelitas gemiam e
xílio divino, eles devem reconhecer clamavam debaixo da escravidão; e o
sua fraqueza e deficiências; devem seu clamor subiu até Deus. […] Deus
concentrar seus pensamentos na olhou para os israelitas e viu a si-
grande mudança que Deus deseja tuação deles” (Êx 2:23, 25). O tempo
realizar neles; devem despertar e se para a libertação tinha chegado.
esforçar para manter uma vida de Os propósitos de Deus se cum-
oração sincera e perseverante. pririam de tal forma que aca-
Cercado pelas encostas das altas bariam com o orgulho humano.
montanhas, Moisés estava sozi- O libertador se apresentaria
nho com Deus. Naquele cenário como um humilde pastor, levando
O Líder do Povo de Deus 165
somente uma vara em sua mão, mas não quis ir e disse: “Quem sou eu
Deus tornaria aquela vara o sím- para apresentar-me ao Faraó e tirar
bolo do Seu poder. os israelitas do Egito?” (Êx 3:11).
Enquanto pastoreava seus reba- Moisés pensou na cegueira, na
nhos, certo dia, perto de Horebe, “o ignorância e na incredulidade de seu
Monte de Deus” (Êx 3:1), Moisés viu povo. Muitos não conheciam quase
um arbusto em chamas; queimava, nada a respeito de Deus. “Quando
mas não se consumia. Quando se eu […] lhes disser: ‘O Deus dos seus
aproximou, uma voz que vinha do antepassados me enviou a vocês’,
fogo o chamou pelo nome. Com os lá- e eles me perguntarem: ‘Qual é o
bios trêmulos, ele respondeu: “Eis-me nome dEle? Que direi?’ Disse Deus
aqui.” Foi avisado para não se apro- a Moisés: ‘Eu Sou o que Sou. […] Eu
ximar de maneira irreverente: “‘Tire Sou me enviou a vocês” (Êx 3:13, 14).
as sandálias dos pés, pois o lugar em Deus ordenou a Moisés que reu-
que você está é terra santa. […] Eu sou nisse primeiramente os anciãos de
o Deus de seu pai, o Deus de Abraão, Israel que sofriam havia muito tempo
o Deus de Isaque, o Deus de Jacó’. por causa da escravidão e transmi-
Então Moisés cobriu o rosto por- tisse a eles a mensagem enviada por
que teve medo de olhar para Deus” Deus. Então ele deveria ir perante o
(Êx 3:4-6). rei e dizer: “O Senhor, o Deus dos he-
Com muita reverência por estar breus, veio ao nosso encontro. Agora,
diante de Deus, ele continuou ou- deixe-nos fazer uma caminhada de
vindo: “De fato tenho visto a opres- três dias, adentrando o deserto, para
são sobre o Meu povo no Egito, oferecermos sacrifícios ao Senhor, o
tenho escutado o seu clamor, por nosso Deus” (Êx 3:18).
causa dos seus feitores, e sei quanto Moisés foi avisado antecipada-
eles estão sofrendo. Por isso desci mente de que o Faraó iria resistir ao
para livrá-los das mãos dos egíp- apelo. A coragem do servo de Deus
cios e tirá-los daqui para uma terra não deveria falhar. O Senhor ma-
boa e vasta, onde manam leite e nifestaria Seu poder. “Por isso es-
mel […]. Vá, pois, agora; Eu o envio tenderei a Minha mão e ferirei os
ao Faraó para tirar do Egito o Meu egípcios com todas as maravilhas
povo, os israelitas” (Êx 3:7, 8, 10). que realizarei no meio deles. Depois
Admirado e aterrorizado, Moisés disso ele os deixará sair” (Êx 3:20).
166 Os Escolhidos
O Senhor declarou: “Quando a mão no peito e, quando a tirou,
vocês saírem, não sairão de mãos ele viu que estava como a outra. Por
vazias. Todas as israelitas pedirão meio desses sinais, seu povo e tam-
às suas vizinhas, e às mulheres que bém o Faraó ficariam convencidos
estiverem hospedando em casa, ob- de que um Ser mais poderoso do
jetos de prata e de ouro, e roupas, que o rei do Egito certamente es-
que vocês porão em seus filhos e em tava entre eles.
suas filhas” (Êx 3:21, 22). Os egíp-
cios tinham enriquecido pelo tra- Moisés Fica Relutante
balho injustamente exigido dos Cheio de angústia e medo, o
israelitas, e era justo que recebessem servo de Deus alegou que não se
a recompensa pelos anos de traba- expressava bem: “Ó Senhor! Nunca
lho que prestaram. Deus os ajudaria tive facilidade para falar […]. Não
para que os egípcios fossem genero- consigo falar bem!” (Êx 4:10).
sos para com eles. Os pedidos dos Moisés pediu que fosse esco-
escravos seriam atendidos. lhida outra pessoa. Depois que o
Que prova Moisés poderia dar Senhor prometeu remover todas
ao seu povo de que tinha sido ver- as dificuldades e que seria bem-su-
dadeiramente enviado por Deus? cedido, qualquer outra queixa sobre
“E se eles não acreditarem em mim”, sua incapacidade revelaria falta de
disse ele, “nem quiserem me ouvir e confiança em Deus. Envolvia um re-
disserem: ‘O Senhor não lhe apare- ceio de que Deus talvez não pudesse
ceu’?” (Êx 4:1). A voz lhe disse que capacitá-lo ou de que teria cometido
jogasse sua vara ao chão. Assim um erro na escolha da pessoa.
que a jogou, “ela se transformou Arão, seu irmão mais velho, que
numa serpente. Moisés fugiu dela” tinha usado diariamente a língua
(Êx 4:3). A voz lhe ordenou que a dos egípcios, era capaz de se expres-
pegasse, e ela se transformou em sar por meio dela perfeitamente.
vara na sua mão. Então a voz lhe Deus disse a Moisés que Arão viria
disse para colocar a mão no peito, para se encontrar com ele. As pa-
debaixo da roupa. Ele obedeceu e lavras a seguir, ditas pelo Senhor,
“quando a retirou, ela estava le- foram uma ordem incondicional:
prosa; parecia neve” (Êx 4:6). Depois “Você falará com ele e lhe dirá
lhe disse que colocasse novamente o que ele deve dizer. […] E ele será o
O Líder do Povo de Deus 167
seu porta-voz diante do povo. E leve revelou que seus inimigos já esta-
na mão esta vara; com ela você fará vam todos mortos.
os sinais milagrosos” (Êx 4:15-17). No caminho, quando vinha de
Moisés não pôde mais resistir, por- Midiã, um anjo apareceu a Moisés
que não tinha mais desculpas. de maneira assustadora, como se
Depois que aceitou a tarefa, quisesse destruí-lo. Nenhuma ex-
Moisés se dedicou a ela de todo o plicação foi dada, mas Moisés se
coração, depositando total con- lembrou de que não tinha dado a
fiança no Senhor. Deus abençoou devida importância a uma das or-
sua obediência imediata e ele se tor- dens divinas. Tinha negligenciado o
nou eloquente, cheio de esperança, rito da circuncisão de seu filho mais
autoconfiante e devidamente pre- novo. Essa negligência da parte do
parado para a maior obra já con- líder escolhido de Israel diminuiria
fiada a um ser humano. a importância das leis e conselhos
A pessoa adquirirá força e efi- de Deus diante do povo. Zípora, te-
ciência ao aceitar as responsabili- mendo que o marido fosse morto,
dades que Deus coloca sobre ela. realizou ela mesma esse ritual, e
Por mais humilde que seja sua po- o anjo permitiu que Moisés conti-
sição ou limitações que possua, nuasse sua viagem. Sua vida pode-
aquela que depositar sua confiança ria ser preservada unicamente por
na força divina e realizar seu traba- meio da proteção dos santos anjos.
lho com fidelidade alcançará a ver- Enquanto ele vivesse na negligência
dadeira grandeza. Sentir as próprias de um dever conhecido, não estaria
fraquezas já é um indício do reco- seguro, pois poderia não ser prote-
nhecimento da importância da obra gido pelos anjos de Deus.
a ela designada. Tal pessoa terá em No tempo de angústia, justa-
Deus seu conselheiro e sua força. mente antes da volta de Cristo, os
Lá no fundo, Moisés temia tanto fiéis serão mantidos e protegidos
o Faraó quanto os egípcios que ha- pela intervenção dos anjos, mas
viam projetado sua ira contra ele não haverá segurança para a pes-
quarenta anos antes; isso fez com soa que transgredir a lei de Deus.
que ficasse com receio de voltar ao Os anjos não podem proteger aque-
Egito. Depois que se dispôs a obe- les que estão desrespeitando qual-
decer à ordem divina, o Senhor lhe quer um dos mandamentos divinos.
23
*
As Dez Pragas do Egito
I nstruído por anjos, Arão
saiu ao encontro de seu
irmão, na solidão do deserto, pró-
“Quem é o Senhor, para que eu
Lhe obedeça e deixe Israel sair?”, per-
guntou o monarca. “Não conheço o
ximo a Horebe. Ali, Moisés contou Senhor, e não deixarei Israel sair”
a Arão “tudo o que o Senhor lhe (Êx 5:2).
tinha mandado dizer, e também fa- Em resposta, Moisés e Arão dis-
lou-lhe de todos os sinais milagro- seram: “O Deus dos hebreus veio ao
sos que lhe havia ordenado realizar” nosso encontro. Agora, permite-nos
(Êx 4:28). Juntos seguiram viagem caminhar três dias no deserto, para
para o Egito, a fim de se reunirem oferecer sacrifícios ao Senhor, o nosso
com os anciãos de Israel. “E eles cre- Deus; caso contrário, Ele nos atingirá
ram. Quando o povo soube que o com pragas ou com a espada” (Êx 5:3).
Senhor decidira vir em seu auxílio, A ira do rei se acendeu. “Moisés e
tendo visto a sua opressão, curvou- Arão, por que vocês estão fazendo o
se em adoração” (Êx 4:31). povo interromper suas tarefas?”, disse
Com uma mensagem para o rei, ele. “Voltem ao trabalho!” (Êx 5:4).
os dois irmãos entraram no palá- O reino acabou sofrendo grande
cio dos faraós como embaixadores perda pela interferência desses es-
do Rei dos reis: “Assim diz o Senhor, trangeiros. Ao pensar nisso, ele acres-
o Deus de Israel: ‘Deixe o Meu povo centou: “Essa gente já é tão numerosa,
ir para celebrar-Me uma festa no de- e vocês ainda os fazem parar de tra-
serto’” (Êx 5:1). balhar!” (Êx 5:5).
* Este capítulo é baseado em Êxodo 5-10.
As Dez Pragas do Egito 169
Durante o cativeiro, os israelitas Os encarregados indicaram ofi-
tinham perdido, até certo ponto, o ciais dos próprios israelitas para
conhecimento da lei de Deus e, de fiscalizarem o trabalho. Quando a
maneira geral, tinham desrespei- ordem do rei entrou em vigor, o povo
tado o sábado. As cobranças feitas se espalhou por toda a terra para
por seus encarregados tornaram juntar as sobras, por não encontra-
a observância do sábado aparen- rem mais palha, mas viram que era
temente impossível. Então Moisés impossível produzir a mesma quan-
mostrou ao povo que a obediência tidade de tijolos de antes. Por não
a Deus era a condição para o seu li- terem conseguido, os oficiais he-
vramento. Os esforços feitos para breus foram cruelmente espancados.
restaurar a observância do sábado Esses oficiais foram até a pre-
passaram a ser notadas por seus sença do rei para apresentar suas
opressores. (Ver Apêndice, Nota 1.) queixas. O Faraó respondeu ao pe-
O rei, profundamente pertur- dido deles com ironia: “Preguiçosos
bado, suspeitou que os israelitas esti- é o que vocês são! Preguiçosos! Por
vessem armando um plano de revolta isso andam dizendo: ‘Iremos ofere-
no trabalho. Faria com que não res- cer sacrifícios ao Senhor’” (Êx 5:17).
tasse nenhum tempo livre para eles Ele ordenou que voltassem ao traba-
planejarem uma rebelião. Imediata- lho e disse que de forma alguma suas
mente, adotou medidas para tornar o tarefas seriam aliviadas. Ao voltarem,
trabalho mais difícil e acabar com seu encontraram Moisés e Arão, e protes-
espírito de independência. O mate- taram: “O Senhor os examine e os jul-
rial de construção mais comum era o gue! Vocês atraíram o ódio do Faraó
tijolo cozido ao sol, e esse era um tra- e dos seus conselheiros sobre nós, e
balho que empregava grande número lhes puseram nas mãos uma espada
de escravos. Como a palha cortada para que nos matem” (Êx 5:21).
era misturada com o barro, eram ne- Moisés ficou angustiado. Os so-
cessárias grandes quantidades dela. frimentos do povo tinham aumen-
O rei ordenou então que a palha não tado. Por todo o país jovens e idosos
fosse mais fornecida; os próprios tra- lamentavam em desespero. Todos
balhadores tinham que ir procurá- se uniram para acusá-lo pela mu-
la, e exigiu que fosse feita a mesma dança desastrosa que acabou pio-
quantidade de tijolos. rando todas as suas condições de
170 Os Escolhidos
vida. Com o coração cheio de amar- divindades que os israelitas chama-
gura, Moisés saiu e apresentou o seu vam de deuses falsos; no entanto,
clamor diante de Deus: “Senhor, por eram uma nação rica e poderosa.
que maltrataste este povo? Afinal, Diziam que seus deuses os haviam
por que me enviaste? Desde que abençoado, ajudando-os a prosperar
me dirigi ao Faraó para falar em e dando a eles os israelitas como ser-
Teu nome, ele tem maltratado este vos. O próprio Faraó se orgulhava
povo, e Tu de modo algum libertaste de que o Deus dos hebreus não po-
o Teu povo!” (Êx 5:22, 23). deria livrá-los das suas mãos.
A resposta que recebeu foi: Palavras como essas destruíam
“Agora você verá o que farei ao Faraó. as esperanças de muitos israelitas.
Por Minha mão poderosa, ele os dei- Era verdade que eram escravos,
xará ir; por Minha mão poderosa, ele seus filhos tinham sido mortos e
os expulsará do seu país” (Êx 6:1). a vida deles havia se tornado um
Os anciãos de Israel procuravam fardo; mas continuavam adorando
animar a fé dos irmãos, pois havia ao Deus do Céu. Certamente Ele não
sido muito abalada. Eles repetiam os deixaria assim nesse cativeiro
as promessas feitas a seus pais e as de idólatras. Contudo, aqueles que
palavras proféticas de José que já eram fiéis a Deus compreendiam
predizia a libertação de todo o povo que era porque Israel tinha se afas-
da escravidão do Egito. Alguns ou- tado do Senhor, pelo desejo de mui-
viam e acreditavam. Outros rejei- tos de se casarem com aqueles que
tavam e acabavam perdendo as pertenciam às nações pagãs, le-
esperanças. Os egípcios, ao serem vando-os assim à idolatria, que o
informados do que estava sendo Senhor tinha permitido que se tor-
divulgado entre os escravos, come- nassem escravos. Cheios de con-
çaram a zombar de suas expectati- fiança, asseguravam aos outros que
vas e negavam com desdém o poder Ele logo acabaria com a escravidão.
de Deus. Com desprezo e cheios de Os israelitas ainda não esta-
ironia, eles diziam: “Se o seu Deus é vam preparados para o livramento.
justo e misericordioso, e Seu poder Não tinham fé suficiente em Deus.
é maior do que dos deuses dos egíp- Muitos se contentavam em viver no
cios, por que Ele não fez de vocês cativeiro para não ter que enfrentar
um povo livre?” Eles adoravam as dificuldades ao se mudarem para
As Dez Pragas do Egito 171
uma terra estranha; e os costumes tirasse Israel por meio de uma sur-
de alguns tinham se tornado tão se-preendente manifestação do Seu
melhantes aos dos egípcios que pre-poder. Antes que cada praga caísse,
feriam permanecer no Egito. Assim, Moisés deveria descrever como
o Senhor conduziu os acontecimen- seria e quais as consequências, para
tos para que o espírito tirano do rei
que o rei pudesse ter a escolha de se
do Egito fosse mais amplamente de- livrar dela. Cada castigo rejeitado
monstrado e Ele também pudesse seria seguido de outro mais severo,
Se revelar ao Seu povo. A tarefa deaté que seu orgulhoso coração se
Moisés teria sido muito menos es- humilhasse, e ele reconhecesse o
tressante se muitos dos israelitas Criador do céu e da Terra como o
não tivessem se tornado tão cor- Deus vivo e verdadeiro. O Senhor
rompidos, a ponto de não deseja- castigaria o povo do Egito por sua
rem deixar o Egito. A Bíblia afirmaidolatria e reduziria ao silêncio o
que “eles não lhe deram ouvidos, por
seu orgulho para que outras nações
causa da angústia e da cruel escra-pudessem ouvir a respeito de Seus
vidão que sofriam” (Êx 6:9). poderosos atos e tremessem diante
Novamente a mensagem divina deles, e para que Seu povo se afas-
veio a Moisés: “Vá dizer ao Faraó, rei
tasse da adoração aos ídolos e Lhe
do Egito, que deixe os israelitas saí-
prestasse um culto genuíno.
rem do país” (Êx 6:11). Desanimado, Mais uma vez, Moisés e Arão en-
ele respondeu: “Se os israelitas não
traram na sala do trono do rei do
me dão ouvidos, como me ouvirá o Egito. Ali estavam os dois repre-
Faraó?” (Êx 6:12). Ele foi instruído
sentantes da raça escravizada, ro-
a levar Arão consigo para falarem deados por altas colunas, adornos
com Faraó e novamente dizerem reluzentes, belos quadros e escultu-
que “tinham ordem para tirar do ras dos deuses pagãos. O rei pediu
Egito os israelitas” (Êx. 9:13). que realizassem algo sobrenatural
como prova de que sua missão era
O Egito Ainda Poderia divina. Arão pegou a vara e a lançou
Ser Salvo diante do Faraó. Ela se tornou uma
Moisés foi informado de que o serpente. O monarca mandou cha-
Faraó não cederia antes que Deus mar “os sábios e feiticeiros”, e “cada
enviasse os juízos sobre o Egito e um deles jogou ao chão uma vara, e
172 Os Escolhidos
estas se transformaram em serpen- verdadeiros os prodígios que Deus
tes. Mas a vara de Arão engoliu as realizou por meio de Moisés.
varas deles” (Êx 7:11, 12). O rei, mais Satanás deu a ele exatamente o que
decidido do que nunca, afirmou que ele desejava. Fez Moisés e Arão pare-
seus magos tinham tanto poder cerem apenas magos e encantadores
quanto Moisés e Arão. Ele acusou e que a mensagem que traziam não
os servos do Senhor de serem im- merecia ser considerada como vinda
postores; porém, pelo poder divino, de um Ser superior. Assim, a imita-
foi impedido de fazer mal a eles. ção de Satanás fez com que Faraó
endurecesse o coração e não ficasse
As Imitações de Satanás convencido. Satanás esperava tam-
Na verdade, não foram os fei- bém abalar a fé de Moisés e de Arão.
ticeiros que transformaram suas O príncipe do mal sabia muito
varas em serpentes; mas, por meio bem que Moisés prefigurava Cristo,
da mágica, ajudados pelo grande en- que viria para destruir o reinado
ganador, eles conseguiram produzir do pecado na família humana. Ele
esse efeito. O príncipe do mal possui sabia que quando Cristo aparecesse,
toda sabedoria e poder de um anjo grandes milagres seriam realizados
caído, mas não tem o poder de criar como prova de que Ele tinha sido
ou dar vida; esse é um atributo con- enviado por Deus.
ferido somente a Deus. Satanás pro- Ao imitar a obra de Deus, reali-
duziu uma imitação. zada por meio de Moisés, Satanás
Aos olhos humanos, as varas esperava não somente impedir o li-
foram transformadas em serpen- vramento de Israel, mas, no futuro,
tes. Faraó e sua corte acreditaram destruir a fé nos milagres de Cristo,
que isso tinha acontecido. Embora fazendo com que parecessem ape-
o Senhor tenha feito com que a ser- nas o resultado do poder humano.
pente verdadeira engolisse as serpen-
tes falsas, Faraó não considerou esse As Pragas
um ato realizado pelo poder de Deus, Moisés e Arão foram instruídos
mas uma espécie de mágica superior a ir até a margem do rio na manhã
à dos seus encantadores. seguinte. Como as cheias do Nilo
Faraó procurava alguma des- eram consideradas uma fonte de ali-
culpa para não aceitar como sendo mento e riqueza para todo o Egito,
As Dez Pragas do Egito 173
o rio era adorado como um deus, Quando Faraó viu que não con-
e o rei costumava ir diariamente às seguiam, ficou um tanto humi-
margens do rio para fazer suas de- lhado. Mandou chamar Moisés e
voções pessoais. Os dois irmãos re- Arão e disse: “Orem ao Senhor para
petiram novamente a mensagem que Ele tire estas rãs de mim e do
para ele, e então estenderam a vara meu povo; então deixarei o povo
e bateram com ela na água. Aquele ir e oferecer sacrifícios ao Senhor”
córrego, que para eles era sagrado, (Êx 8:8). Eles pediram ao rei que dis-
foi transformado em sangue. Os sesse quando deveriam orar para
peixes morreram e o rio cheirava que a praga fosse removida. O rei
mal. Da mesma forma, a água nas marcou para o dia seguinte, espe-
casas e nos poços foi transformada rando que as rãs desaparecessem
em sangue, mas “os magos do Egito por si mesmas; assim sofreu uma
fizeram a mesma coisa por meio de grande humilhação por ter que se
suas ciências ocultas. O coração de submeter ao Deus de Israel. A praga
Faraó se endureceu, […] deu-lhes continuou até o tempo especificado,
as costas e voltou para o seu palá- e então elas morreram em todo o
cio. Nem assim o Faraó levou isso Egito, mas logo começaram a apo-
a sério” (Êx 7:22, 23). Durante sete drecer e a poluir o ar.
dias a praga continuou, mas isso O Senhor poderia ter feito com
não mudou o pensamento do Faraó. que elas retornassem ao pó em um
Novamente Arão estendeu a instante, mas não fez isso para que o
vara, e rãs começaram a sair do rio. rei e seu povo não dissessem que era
Elas se espalharam pelas casas, en- algum tipo de encantamento feito
traram nos quartos onde dormiam por seus magos. Depois de mortas,
e até dentro dos fornos e amassa- eles fizeram grandes montes delas,
deiras. Os egípcios consideravam a uma prova de que esse trabalho não
rã um animal sagrado e não as des- havia sido realizado por obra de
truíram; mas essa praga repugnante magia, e que se tratava, na verdade,
e cheia de lodo enchia até o palá- de um juízo vindo do Deus do Céu.
cio do Faraó, e o rei estava desespe- “Mas quando o Faraó percebeu
rado para tirá-las de lá. Parecia que que houve alívio, obstinou-se em
os magos tinham produzido rãs, seu coração” (Êx 8:15). Por ordem de
mas não conseguiam removê-las. Deus, Arão estendeu a mão com a
174 Os Escolhidos
vara, e o pó da terra se tornou em pio- pediu que os servos de Deus interce-
lhos por toda a terra do Egito. Faraó dessem diante dEle para que a praga
chamou os magos para fazerem o fosse removida. Eles prometeram
mesmo, mas eles não conseguiram. fazer isso, mas o advertiram para
Os próprios magos reconheceram: que não lidasse com eles tentando
“Isso é o dedo de Deus” (Êx 8:19). enganá-los. A praga cessou, mas o
Apesar das evidências, o rei ainda coração rebelde do rei se endureceu,
permanecia inflexível. e ele ainda se recusou a ceder.
Outro juízo se seguiu. Moscas Um ataque mais terrível se se-
encheram as casas, e “e em todo o guiu – uma peste que atingiu todo
Egito a terra foi arruinada pelas o gado do Egito. Tanto os animais
moscas” (Êx 8:24). Essas moscas sagrados como os de carga – vacas,
eram grandes e venenosas, e sua bois e ovelhas, cavalos, camelos e ju-
picada era extremamente dolo- mentos – foram destruídos. Foi cla-
rosa. Como foi predito, essa praga ramente anunciado que os hebreus
não chegou à terra de Gósen. estavam livres dessa praga. Faraó,
depois que enviou mensageiros à
Faraó Endurece o Coração casa dos israelitas, constatou que
Faraó finalmente deu aos israe- era realmente verdade: “nenhum
litas a permissão para sacrificarem animal dos israelitas havia mor-
no Egito, mas eles se recusaram. rido” (Êx 9:7). Ainda assim o rei se
“Isso não seria sensato”, respondeu recusou a ceder.
Moisés. […] “Se oferecermos sacri- A seguir, o Senhor disse a Moisés
fícios que lhes pareçam sacrilégio, que tirasse um punhado de cinza
isso não os levará a nos apedrejar?” de um forno, dando-lhe a seguinte
(Êx 8:26). Os animais que os he- ordem: “Moisés a espalhará no ar,
breus deveriam sacrificar estavam diante do Faraó” (Êx 9:8). As mi-
entre aqueles que os egípcios consi- núsculas partículas se espalharam
deravam sagrados. Matar um deles, por toda a terra do Egito, e onde
mesmo que fosse por acidente, era quer que caíssem, produziam bo-
um crime punido com a morte. lhas que se arrebentavam em feri-
Moisés novamente fez a pro- das purulentas que “começaram a
posta de irem a caminho de três estourar nos homens e nos animais”
dias ao deserto. O rei concordou e (Êx 9:10). Até ali, os sacerdotes e os
As Dez Pragas do Egito 175
magos tinham incentivado Faraó o Faraó, o Senhor manifestou Sua
em sua obstinação; porém, dessa ira contra a adoração a outros deu-
vez, a praga também os alcançou. ses e Sua determinação para punir
Atingidos por uma doença repug- a crueldade e a opressão.
nante e dolorosa, eles não conse- Com relação a Faraó, o Senhor
guiram mais lutar contra o Deus declarou: “Mas Eu vou endurecer o
de Israel. Os magos não foram ca- coração dele, para não deixar o povo
pazes nem de proteger a si mesmos. ir” (Êx 4:21). Nenhum poder sobre-
O coração do Faraó se endure- natural endureceu o coração do rei;
ceu mais ainda. Então o Senhor lhe foram as sementes da rebelião por
enviou uma mensagem: “Mandarei ele semeadas quando rejeitou o pri-
desta vez todas as Minhas pragas meiro milagre que produziram os
contra você, contra os seus conse- seus resultados. Como ele teve a ou-
lheiros e contra o seu povo, para que sadia de continuar cada vez mais
você saiba que em toda a Terra não firme em sua teimosia, seu coração
há ninguém como Eu. […] Mas Eu o foi ficando mais e mais endurecido,
mantive em pé exatamente com este até o dia em que ele foi chamado
propósito: mostrar-lhe o Meu poder” para ver o corpo frio e sem vida dos
(Êx 9:14, 16). Por Sua providência, primogênitos.
Deus dirigiu os acontecimentos
para que aquele rei fosse colocado Como se Desenvolve
no trono exatamente no tempo in- a Teimosia
dicado para a libertação de Israel. Deus nos fala por meio de Seus
Embora a misericórdia de Deus servos para nos advertir contra o
tivesse se retirado da vida desse or- pecado. Se uma pessoa se nega a cor-
gulhoso Faraó, sua vida havia sido rigir os próprios erros, o poder di-
preservada para que, por meio de vino não impede os resultados de
sua teimosia, o Senhor pudesse re- seus atos. Tais pessoas estão endu-
velar Suas maravilhas no Egito. recendo o coração contra a influên-
Foi permitido que o povo sofresse cia do Espírito Santo.
a cruel opressão dos egípcios para Aquele que cede à tentação uma
que não se enganassem a respeito vez, cederá mais facilmente a se-
da degradante influência da idola- gunda vez. Sempre que volta a co-
tria. Por Sua maneira de lidar com meter o mesmo pecado, seu poder
176 Os Escolhidos
de resistência diminui, os olhos estiverem nos campos, que não ti-
ficam cegados e a convicção vai se verem sido abrigados, serão atin-
extinguindo. Deus não opera mi- gidos pelo granizo e morrerão”
lagres para impedir as consequên- (Êx 9:19). Ninguém jamais tinha
cias. “Pois o que o homem semear, visto uma tempestade como aquela
isso também colherá” (Gl 6:7). Dessa que estava sendo anunciada. A no-
maneira, multidões ouvem com a tícia se espalhou rapidamente, e
mais fria indiferença as verdades todos os que creram na palavra do
que anteriormente faziam vibrar Senhor recolheram seu gado, en-
seu coração. Semearam a negligên- quanto os outros que desprezaram
cia e a resistência à verdade, e é isso o aviso deixaram seus animais no
o que colhem. campo. Assim, mesmo em meio ao
Algumas pessoas acalmam a juízo, a misericórdia de Deus foi
consciência culpada dizendo para manifestada e se pôde ver quantos
si mesmas: “Posso mudar meu modo foram levados a crer em Deus.
errado de agir quando eu quiser.” A tempestade veio – trovões e
Pensam que, depois de deixarem as granizo misturado com fogo. “Nunca
influências do grande rebelde, elas houve uma tempestade de granizo
conseguirão mudar de líder quando como aquela em todo o Egito, desde
estiverem cercadas pelo perigo. que este se tornou uma nação. Em
Acontece que isso não se faz tão fa- todo o Egito o granizo atingiu tudo
cilmente. Uma vida de satisfação o que havia nos campos, tanto ho-
pecaminosa deformou de tal ma- mens como animais; destruiu toda
neira seu caráter que não têm mais a vegetação, além de quebrar todas
condições de receber a imagem de as árvores” (Êx 9:24, 25). Ruína e
Jesus. Se nenhuma luz tivesse bri- desolação marcaram o caminho do
lhado em seu caminho, a misericór- anjo destruidor. Somente a terra de
dia teria agido em seu favor; mas, Gósen foi poupada.
após a luz ter sido rejeitada por
tanto tempo, ela será retirada. Faraó Finalmente Cede
A seguir, Faraó foi ameaçado Todo o Egito se estremecia
com uma praga de granizo. “Agora, diante dos juízos divinos. Faraó
mande recolher os seus rebanhos mandou chamar rapidamente os
[…]. Todos os homens e animais que dois irmãos e disse: “Desta vez eu
As Dez Pragas do Egito 177
pequei. O Senhor é justo; eu e o meu Céu. Moisés avisou o monarca de
povo é que somos culpados. Orem que seria enviada uma praga de ga-
ao Senhor! Os trovões de Deus e o fanhotos que cobriria toda a terra e
granizo já são demais. Eu os deixa- comeria toda erva verde que havia
rei ir; não precisam mais ficar aqui” restado. Eles encheriam as casas
(Êx 9:27, 28). e até o próprio palácio. Disse que
Moisés sabia que a luta ainda essa seria uma calamidade que nem
não tinha terminado. As confis- “seus pais nem seus antepassados
sões e as promessas de Faraó não jamais viram, desde o dia em que
eram resultado de uma mudança ra- se fixaram nesta terra até o dia de
dical em seus pensamentos; foram hoje” (Êx 10:6).
ditas por causa do terror e angús- Os conselheiros de Faraó esta-
tia pelo quais ele passava. Mesmo vam aterrorizados. O país tinha so-
assim, Moisés prometeu atender ao frido grandes perdas com a morte
seu pedido, pois não desejava dar do gado. Muitas pessoas haviam
ao Faraó mais nenhuma oportuni- morrido com a chuva de granizo.
dade para demonstrar sua teimosia. As florestas tinham sido derruba-
O profeta saiu ignorando a fúria da das e a colheita estava destruída.
tempestade. Faraó e todos os seus Os egípcios estavam perdendo ra-
conselheiros foram testemunhas pidamente tudo o que tinham ga-
do poder de Jeová em preservar a nhado com o trabalho dos hebreus.
vida de Seu mensageiro. Assim que Toda a terra estava ameaçada pela
Moisés saiu da cidade, e ergueu fome. Os príncipes e oficiais se reu-
as mãos ao Senhor, os trovões e o niram em volta do rei e insistiram:
granizo cessaram e a chuva parou “Até quando este homem será uma
(Êx 9:29). Assim que o rei se refez ameaça para nós? Deixa os homens
de seus temores, seu coração voltou irem prestar culto ao Senhor, o Deus
a se rebelar. deles. Não percebes que o Egito está
Então o Senhor Se propôs a arruinado?” (Êx 10:7).
dar uma prova indiscutível da di- Faraó mandou chamar Moisés e
ferença que Ele estabeleceu entre Arão novamente e disse a eles: “Vão
Israel e os egípcios. Todas as nações e prestem culto ao Senhor, o seu
deveriam saber que os hebreus es- Deus. Mas, digam-me, quem irá?”
tavam sob a proteção do Deus do (Êx 10:8).
178 Os Escolhidos
Faraó Endurece o Coração Assim eles fizeram, e um forte vento
Novamente ocidental levou os gafanhotos na di-
A resposta foi: “Temos que levar reção do Mar Vermelho. Apesar de
todos: os jovens e os velhos, os nos- tudo, o teimoso rei ainda se man-
sos filhos e as nossas filhas, as nos- teve firme em seu propósito.
sas ovelhas e os nossos bois, porque O povo do Egito estava entrando
vamos celebrar uma festa ao Senhor” em desespero, e estavam cheios de
(Êx 10:9). temor quanto ao futuro. Toda a
O rei se enfureceu e gritou: nação adorava Faraó como um re-
“De forma alguma! Só os homens presentante do seu deus; mas mui-
podem ir prestar culto ao Senhor, tos estavam convencidos de que ele
como vocês têm pedido. E Moisés e estava lutando contra Aquele que
Arão foram expulsos da presença do tornava as forças da natureza em
Faraó” (Êx 10:11). O Faraó simulava agentes da Sua vontade. Os escra-
ter profundo interesse no bem-estar vos hebreus estavam ficando cada
do povo e grande cuidado por seus vez mais confiantes no livramento.
filhos, mas seu verdadeiro interesse Em todo o Egito, havia um temor
era manter as mulheres e crianças oculto de que a raça escravizada se
para, assim, garantir o retorno dos levantasse para se vingar de todo
homens. mal que tinham recebido. Em todos
Então Moisés estendeu sua os lugares o povo se perguntava:
vara sobre a terra, e soprou um “O que acontecerá depois disso?”
vento oriental que trouxe os gafa- De repente, desceu sobre a
nhotos. “Nunca antes houve tantos terra do Egito uma densa escuri-
gafanhotos, nem jamais haverá” dão. As trevas eram tantas que po-
(Êx 10:14). Eles encheram o ar até deriam “ser apalpadas” (Êx 10:21).
que o céu se escureceu, e devoraram Estava difícil até para respirar.
toda a vegetação que restava. “Ninguém pôde ver ninguém, nem
Faraó mandou chamar imedia- sair do lugar durante três dias. To-
tamente o profeta e disse: “Pequei davia, todos os israelitas tinham
contra o Senhor, o seu Deus, e con- luz nos locais em que habitavam”
tra vocês! […] Orem ao Senhor, o seu (Êx 10:23). O Sol e a Lua eram ado-
Deus, para que leve esta praga mor- rados pelos egípcios, mas essas tre-
tal para longe de mim” (Êx 10:16, 17). vas misteriosas atingiram o povo
As Dez Pragas do Egito 179
e seus deuses igualmente. (Ver gritou ele. “Trate de não aparecer
Apêndice, Nota 2.) Por mais ter- nunca mais diante de mim! No dia
rível que fosse, esse juízo era uma em que vir a minha face, você mor-
prova da compaixão de Deus e de rerá” (Êx 10:28).
Seu desejo de não causar destrui- Moisés respondeu: “Será como
ção. Ele daria tempo ao povo para disseste; nunca mais verei a tua
refletir e se arrepender antes de face” (Êx 10:29).
trazer sobre eles a última e mais “E o próprio Moisés era tido em
terrível das pragas. alta estima no Egito pelos conselhei-
No fim do terceiro dia de tre- ros do Faraó e pelo povo” (Êx 11:3).
vas, Faraó chamou Moisés e con- O rei não ousava fazer mal a ele,
cordou em permitir que o povo porque o povo o considerava como
partisse, contanto que ficassem os o único que tinha poder para remo-
rebanhos e o gado. “Nem um casco ver as pragas. Eles desejavam que os
de animal será deixado”, respon- israelitas tivessem a permissão para
deu Moisés firmemente (Êx 10:26). deixar o Egito. O rei e os sacerdotes
A ira do rei explodiu descontrolada- é que negaram os pedidos de Moisés
mente. “Saia da minha presença!”, até o fim.
24
*
A Primeira Páscoa
Q uando Moisés fez o pe-
dido de libertação de
Israel ao rei do Egito pela primeira
uma vez mais veio diante dele com
a terrível mensagem: “Assim diz o
Senhor: ‘Por volta da meia-noite,
vez, ele advertiu o Faraó de que po- passarei por todo o Egito. Todos os
deriam cair as mais terríveis pragas. primogênitos do Egito morrerão,
“Israel é o Meu primeiro filho, e Eu desde o filho mais velho do Faraó,
já lhe disse que deixe o Meu filho herdeiro do trono, até o filho mais
ir para prestar-Me culto. Mas você velho da escrava que trabalha no
não quis deixá-lo ir; por isso matarei moinho, e também todas as pri-
o seu primeiro filho” (Êx 4:22, 23). meiras crias do gado. Haverá grande
Deus tem um terno cuidado pranto em todo o Egito, como nunca
pelos seres formados à Sua imagem. houve antes nem jamais haverá.
Se a perda de suas colheitas, de seus Entre os israelitas, porém, nem se-
rebanhos e do gado tivesse levado o quer um cão latirá contra homem
Egito ao arrependimento, os filhos ou animal.’ Então vocês saberão que
não teriam sido atingidos. Como a o Senhor faz distinção entre o Egito
nação resistiu até as últimas con- e Israel” (Êx 11:4-8).
sequências a ordem divina, o golpe Antes de executar essa sentença,
final estava pronto para ser dado. o Senhor deu instruções aos filhos de
Moisés tinha sido proibido de Israel, por meio de Moisés, a respeito
aparecer novamente na presença do de sua partida do Egito e sobre como
Faraó, sob pena de morte; entretanto, poderiam se prevenir contra o juízo
* Este capítulo é baseado em Êxodo 11; 12:1-32.
A Primeira Páscoa 181
que estava para cair. Cada família, A Páscoa Aponta para Cristo
sozinha ou reunida com outras, de- A Páscoa deveria ser um ato
veria matar um cordeiro ou um ca- tanto comemorativo como sim-
brito “sem defeito”, e com um feixe de bólico, que apontava não somente
hissopo espalhar o sangue “nas late- para a libertação da escravidão
rais e nas vigas superiores das por- do Egito, mas para o maior livra-
tas das casas” (Ex 12:7) para que o mento que Cristo iria realizar no
anjo destruidor, ao vir à meia-noite, futuro, libertando Seu povo do ca-
não entrasse ali. Deveriam comer a tiveiro do pecado. O cordeiro do
carne assada, com pão sem fermento sacrifício representa “o Cordeiro de
e ervas amargas, naquela noite, con- Deus”, em quem está a nossa única
forme Moisés os orientou: “Cinto no esperança de salvação. O apóstolo
lugar, sandálias nos pés e cajado na Paulo assim escreveu: “Pois Cristo,
mão. Comam apressadamente. Esta é nosso Cordeiro pascal, foi sacrifi-
a Páscoa do Senhor” (Êx 12:11). cado” (1Co 5:7). Não bastava que o
O Senhor declarou ainda: cordeiro da Páscoa fosse morto; seu
“Naquela mesma noite passarei pelo sangue deveria ser aspergido nos
Egito e matarei todos os primogê- portais. Da mesma forma, os méri-
nitos, tanto dos homens como dos tos do sangue de Cristo devem ser
animais, e executarei juízo sobre aspergidos em nossa vida. Devemos
todos os deuses do Egito. Eu sou crer que Ele não somente morreu
o Senhor! O sangue será um sinal pelo mundo, mas que morreu por
para indicar as casas em que vocês nós, individualmente.
estiverem; quando Eu vir o sangue, O hissopo simbolizava purifica-
passarei adiante. A praga de destrui- ção. “Purifica-me com hissopo, e fi-
ção não os atingirá quando Eu ferir carei puro; lava-me e mais branco do
o Egito” (Êx 12:12, 13). que a neve serei” (Sl 51:7).
Para celebrar esse grande livra- O cordeiro deveria ser preparado
mento, Israel deveria realizar a festa inteiro; nenhum osso poderia ser
da Páscoa todos os anos, por todas quebrado; assim como nenhum osso
as gerações futuras – “É o sacrifício do Cordeiro de Deus, que morreu por
da Páscoa ao Senhor, que passou nós, seria quebrado (ver Jo 19:36).
sobre as casas dos israelitas no Egito A carne deveria ser comida. Não
e poupou nossas casas” (Êx 12:27). basta crermos em Cristo para o
182 Os Escolhidos
perdão dos pecados; pela fé, deve- a festa, não com o fermento velho,
mos receber constantemente a nu- nem com o fermento da maldade e
trição espiritual que dEle provém, da perversidade, mas com os pães
por meio de Sua Palavra. Cristo sem fermento, os pães da sinceri-
disse: “Se vocês não comerem a dade e da verdade” (1Co 5:7, 8).
carne do Filho do homem e não Antes de conseguirem a li-
beberem o Seu sangue, não terão berdade, os escravos precisavam
vida em si mesmos. Todo aquele demonstrar sua fé no grande livra-
que come a Minha carne e bebe o mento. Deveriam colocar o sangue
Meu sangue tem a vida eterna. […] em suas casas e separar-se dos egíp-
As palavras que Eu lhes disse são es- cios, cada um com a própria famí-
pírito e vida” (Jo 6:53, 54, 63). Os se- lia, e ficar reunidos dentro de suas
guidores de Cristo devem receber a casas. Todos os que deixassem de
Palavra de Deus em si mesmos para seguir as instruções do Senhor per-
que ela se torne a força que lhes deriam o seu primogênito pela mão
move a vida e as ações. Pelo poder do destruidor.
de Cristo devem ser transformados
à Sua semelhança e refletir os atri- Como a Fé Deve Ser
butos divinos. Demonstrada
O cordeiro tinha que ser comido O povo precisava dar prova
com ervas amargas, representando a de sua fé por meio da obediência.
amargura da escravidão no Egito. Da Assim, todos aqueles que esperam
mesma forma, quando nos alimen- ser salvos pelo sangue de Cristo
tamos de Cristo, devemos fazê-lo também devem compreender que
com arrependimento no coração têm algo a fazer para alcançar a sal-
por nossos pecados. O pão não le- vação. Necessitamos nos desviar do
vedado – pão sem fermento – tam- pecado para a obediência. Somos
bém tinha um significado. Todos salvos pela fé, e não pelas obras;
os que receberem vida e nutrição porém, nossa fé deve ser demons-
em Cristo devem se afastar do fer- trada por meio das obras. Devemos
mento do pecado. Paulo assim escre- apreciar e utilizar toda ajuda que
veu à igreja de Corinto: “Livrem-se Deus proveu para nós; precisamos
do fermento velho, para que sejam crer e obedecer a todas as reivindi-
massa nova […]. Por isso, celebremos cações divinas.
A Primeira Páscoa 183
Quando Moisés transmitiu a para se desencadear naquela noite.
Israel as providências tomadas por A marca do sangue – o sinal da pro-
Deus para a sua libertação, “o povo teção do Salvador – estava em suas
curvou-se em adoração” (Êx 12:27). portas, e o destruidor não entrou.
Muitos dos egípcios foram levados À meia-noite, “houve grande
a reconhecer o Deus dos hebreus pranto no Egito, pois não havia
como o único Deus verdadeiro, e casa que não tivesse um morto”.
estes pediram para se abrigar nos Todo primogênito daquela terra,
lares de Israel quando o anjo des- “desde o filho mais velho de Faraó,
truidor passasse por sua terra. Eles herdeiro do trono, até o filho mais
foram alegremente recebidos e se velho do prisioneiro que estava no
comprometeram a servir a Deus e calabouço, e também todas as pri-
a sair do Egito com Seu povo. meiras crias do gado” tinham sido
Os israelitas obedeceram às ins- atingidos (Êx. 12:29-33). O orgu-
truções dadas por Deus. Suas fa- lho de cada casa tinha sido derru-
mílias foram reunidas, o cordeiro bado. Gritos e choro enchiam o ar.
pascal foi morto, a carne foi assada O rei e seus oficiais estavam apavo-
ao fogo, e foram também prepara- rados diante de tanto horror. Com a
dos os pães e as ervas amargas. O pai arrogância lançada em terra, Faraó
e sacerdote da casa aspergiu o san- “mandou chamar Moisés e Arão e
gue nos portais. Depressa e em silên- lhes disse: ‘Saiam imediatamente do
cio, o povo comeu o cordeiro pascal. meio do meu povo, vocês e os israe-
Pais e mães tomavam nos braços litas! Vão prestar culto ao Senhor,
seus amados primogênitos, ao pen- como vocês pediram […], e abençoem
sarem no golpe terrível que estava a mim também’” (Êx 12:31, 32).
25
Os Israelitas
*
Deixam o Egito
A ntes do amanhecer, o
povo de Israel estava a
caminho. Durante as pragas, aos
das pragas. Esse grupo foi um pro-
blema constante e um embaraço
para Israel.
poucos, os israelitas tinham se O povo levou consigo “grandes
reunido em Gósen. Algumas provi- rebanhos, tanto de bois como de
dências tinham sido tomadas para ovelhas e cabras” (Êx 12:38). Antes
a necessária organização e controle de deixar o Egito, o povo exigiu uma
das multidões que estavam a cami- recompensa pelo trabalho que não
nho. Elas já estavam divididas em foi pago, e os escravos saíram com
grupos sob a responsabilidade dos muitas riquezas que receberam de
líderes indicados. seus opressores.
Assim partiram, “cerca de seis- “No dia em que se completaram
centos mil homens a pé, além de os quatrocentos e trinta anos, todos
mulheres e crianças. Grande multi- os exércitos do Senhor saíram do
dão de estrangeiros de todo tipo se- Egito” (Êx 12:41). Os israelitas leva-
guiu com eles” (Êx 12:37, 38) – não ram com eles os ossos de José que,
somente aqueles que estavam mo- durante os anos sombrios do cati-
tivados pela fé no Deus de Israel, veiro, mantinham viva diante deles
mas também um número muito a promessa da libertação de Israel.
maior que desejava apenas escapar Em vez de seguirem o caminho
* Este capítulo é baseado em Êxodo 12:34-51; 13-15.
Os Israelitas Deixam o Egito 185
direto para Canaã, atravessando o povo de dia, nem a coluna de fogo,
país dos filisteus, o Senhor os con- de noite” (Êx 13:20-22). Diz o sal-
duziu para o sul, rumo às praias do mista: “Ele estendeu uma nuvem
Mar Vermelho. “Pois disse: ‘Se eles para lhes dar sombra, e fogo para
se defrontarem com a guerra, tal- iluminar a noite” (Sl 105:39; ver
vez se arrependam e voltem para também 1Co 10:1, 2). Ela servia de
o Egito’” (Êx 13:17). Os filisteus os proteção contra o calor abrasador,
considerariam escravos fugitivos de e sua sombra e umidade proporcio-
seus senhores e não pensariam duas navam um ar refrescante e agradá-
vezes antes de guerrear contra eles. vel em meio à aridez e o ar seco do
Os israelitas tinham pouco conheci- deserto. À noite, tornava-se uma co-
mento de Deus e sua fé nEle ainda luna de fogo que iluminava o acam-
era bem pequena; teriam ficado pamento e lhes dava a certeza da
aterrorizados e desanimados. Não contínua presença divina.
tinham armas, não tinham o cos- Viajaram pelo caminho longo e
tume de guerrear e estavam depri- entediante daquela terra deserta. Já
midos devido ao longo período de estavam ficando cansados de andar
cativeiro, além da responsabilidade por aqueles lugares cheios de mon-
que tinham com as mulheres e os fi- tes e vales, e alguns começaram a
lhos, as ovelhas e o gado. Ao guiá-los ficar com medo de serem perse-
pelo caminho do Mar Vermelho, o guidos pelos egípcios. A nuvem ia
Senhor demonstrou ser verdadeira- adiante, e eles a seguiam. Então o
mente um Deus de cuidado e amor. Senhor orientou Moisés para que
eles se desviassem pela encosta de
A Coluna de Nuvem um penhasco rochoso e acampas-
“Os israelitas partiram de Sucote sem junto ao mar. Deus lhe revelou
e acamparam em Etã, junto ao de- que Faraó viria persegui-los, mas
serto. Durante o dia o Senhor ia que Deus seria honrado em seu
adiante deles numa coluna de livramento.
nuvem, para guiá-los no caminho, Os conselheiros de Faraó disse-
e de noite, numa coluna de fogo, ram ao rei que seus escravos tinham
para iluminá-los, e assim poderiam fugido para nunca mais voltar.
caminhar de dia e de noite. A co- Os grandes homens do reino, refa-
luna de nuvem não se afastava do zendo-se de seus temores, alegaram
186 Os Escolhidos
que as pragas tinham sido o resul- coração do povo de Israel. A maioria
tado de causas naturais. “O que foi deles correu para Moisés com suas
que fizemos? Deixamos os israeli- queixas: “Foi por falta de túmulos
tas saírem e perdemos os nossos no Egito que você nos trouxe para
escravos!”, clamavam amargurados morrermos no deserto? […] Antes
(Êx 14:5). ser escravos dos egípcios do que
Faraó reuniu suas forças, “man- morrer no deserto” (Êx 14:11, 12).
dou aprontar a sua carruagem e Na verdade, não havia possi-
levou consigo o seu exército. Levou bilidade alguma de livramento, a
todos os carros de guerra do Egito, menos que o próprio Deus inter-
inclusive seiscentos dos melhores viesse; como tinham sido levados
desses carros, cada um com um ofi- àquela situação em obediência à
cial no comando” (Êx 14:6, 7), cava- ordem divina, Moisés não temia as
leiros, capitães e todos os soldados. consequências. Sua calma conduziu
O próprio rei, acompanhado por a resposta segura ao povo: “Não te-
grandes homens de seu reino, lide- nham medo. Fiquem firmes e vejam
rou o exército atacante. Os egípcios o livramento que o Senhor lhes
temiam que sua submissão forçada trará hoje, porque vocês nunca mais
ao Deus de Israel tivesse provocado verão os egípcios que hoje veem.
o ridículo diante de outras nações. O Senhor lutará por vocês; tão so-
Se conseguissem sair com grande mente acalmem-se” (Êx 14:13, 14).
demonstração de poder e trouxes- Pela falta de disciplina e domí-
sem de volta os fugitivos, salva- nio próprio, o povo se tornou vio-
riam sua reputação e recuperariam lento e irracional. Seus gritos e
os serviços e seus escravos. lamentos eram altos e profundos.
Os hebreus estavam acampa- Tinham seguido a maravilhosa co-
dos ao lado do mar, que parecia luna de nuvem como um sinal de
uma barreira intransponível diante Deus para que avançassem, mas ela
deles, enquanto um monte difícil de não os teria conduzido pelo lado
subir bloqueava a passagem pelo contrário da montanha, por um
sul, impedindo que avançassem. caminho que não tinha passagem?
De repente, viram ao longe o brilho Como estavam com a mente iludida,
das armaduras e as carruagens se o Anjo de Deus parecia ser um sinal
movendo. O terror tomou conta do de desgraça.
Os Israelitas Deixam o Egito 187
Enquanto o exército egípcio se até o meio do mar. No fim da ma-
aproximava, a coluna de nuvem se drugada, do alto da coluna de fogo
ergueu majestosamente para o céu, e de nuvem, o Senhor viu o exército
passou sobre os israelitas e desceu dos egípcios e o pôs em confusão”
para ficar entre eles e o exército do (Êx 14:23, 24).
rei. Os egípcios não puderam mais Trovões ecoavam e os relâmpa-
ver o acampamento dos hebreus e gos riscavam o céu. Os egípcios fica-
foram forçados a parar. Ao se apro- ram confusos e cheios de espanto.
ximarem as trevas da noite, a coluna Tentaram voltar pelo mesmo cami-
de nuvem se tornou em uma grande nho até a praia, mas Moisés esten-
luz para os hebreus, clareando todo deu sua vara, e os altos muros de
o acampamento. água se uniram violentamente, tra-
A esperança retornou ao cora- gando o exército egípcio em suas es-
ção de Israel. O Senhor então falou curas profundezas.
a Moisés: “Diga aos israelitas que Ao amanhecer, Israel pôde ver
sigam avante. Erga a sua vara e es- o que restava de seus poderosos
tenda a mão sobre o mar, e as águas inimigos – corpos vestidos com
se dividirão para que os israelitas armadura arremessados à praia.
atravessem o mar em terra seca” Do mais terrível perigo, Jeová
(Êx 14:15, 16). trouxe completo livramento, e o
Assim que Moisés estendeu a coração deles se voltou para o Se-
vara, as águas se dividiram e Israel nhor em gratidão e fé. O Espírito
entrou pelo meio do mar em terra de Deus repousou sobre Moisés e
seca, enquanto as águas se erguiam ele dirigiu o povo em um cântico
como um muro de cada lado. A luz triunfante de gratidão, o primeiro
vinda da coluna de fogo enviada por e um dos mais sublimes que a hu-
Deus iluminava o caminho, mos- manidade já conheceu.
trando a passagem enorme aberta As mulheres de Israel deram
através das águas. início ao cântico. Miriã, a irmã de
Moisés, ia à frente, guiando-as com
O Fim do Exército de Faraó tamborim e danças. Por todo o de-
“Os egípcios os perseguiram, e serto e pelo mar soavam as alegres
todos os cavalos, carros de guerra e palavras do coro, e as montanhas
cavaleiros do Faraó foram atrás deles ecoavam e ressoavam as palavras
188 Os Escolhidos
de seu cântico de louvor: “Cantem Os Remidos Cantarão
ao Senhor, pois triunfou gloriosa- “Quem Me oferece sua grati-
mente” (Êx 15:21). dão”, diz o Criador, “honra-Me”
Esse cântico não pertence ao (Sl 50:23). Todos os habitantes do
povo judeu somente. Ele aponta Céu se unem em louvor a Deus.
para o futuro, para a destruição de Vamos todos aprender o cântico
todos os inimigos da justiça e para dos anjos agora para que possamos
a vitória final do Israel de Deus. cantá-lo quando nos unirmos ao
O profeta de Patmos viu a multi- Seu grandioso coral.
dão vestida de branco, “os que ti- Deus levou os hebreus para a
nham vencido”, em pé sobre “algo fortaleza das montanhas junto ao
semelhante a um mar de vidro mis- mar para que pudesse manifestar
turado com fogo”, segurando “har- Seu poder e derrubar completa-
pas que lhes haviam sido dadas mente, de maneira inconfundível,
por Deus, e cantavam o cântico de o orgulho de seus opressores. Ele es-
Moisés, servo de Deus, e o cântico colheu esse meio para provar a fé
do Cordeiro” (Ap 15:2, 3). do povo de Israel e fortalecer sua
Ao nos libertar da escravidão confiança nEle. Se o povo tivesse fi-
do pecado, Deus realizou um livra- cado para trás quando Moisés orde-
mento muito maior que o dos israe- nou que avançassem, Deus jamais
litas no Mar Vermelho. Assim como teria aberto o caminho no mar para
eles, devemos louvar ao Senhor com eles. Foi “pela fé” que “o povo atra-
o coração e com a nossa voz, pois vessou o Mar Vermelho como em
“grandes e maravilhosas são as terra seca” (Hb 11:29). Ao desce-
Tuas obras” (Ap 15:3) para com os rem marchando para dentro das
filhos dos homens! Que compaixão, águas, mostraram que acredita-
que amor incomparável o Senhor vam na ordem de Deus proferida
nos mostrou ao nos unir a Ele para por Moisés. Então o Poderoso de
que nos tornássemos um especial Israel dividiu o mar para preparar
tesouro para o próprio Deus! Que um caminho para os seus pés.
sacrifício fez nosso Redentor para Muitas vezes, a vida fica cercada
que pudéssemos ser chamados fi- de perigos, e parece difícil cumprir
lhos de Deus! nossos deveres. A imaginação nos
Os Israelitas Deixam o Egito 189
leva à beira da ruína. Nessas horas, sombras de incerteza desaparecerem
nós podemos ouvir claramente a voz e não houver mais perigo algum de
de Deus nos dizendo: “Avancem!” fracasso ou derrota, nunca, absoluta-
Devemos obedecer à Sua ordem, mente, vão obedecer; mas a fé insiste
mesmo que nossos olhos não consi- corajosamente em avançar. O cami-
gam enxergar através da escuridão nho pelo qual Deus nos guia pode se
e que sintamos as ondas geladas ba- estender através do deserto ou pas-
tendo em nossos pés. Aqueles que de- sar pelo meio do mar, mas é um ca-
cidem só obedecer quando todas as minho seguro.
26
Israel Enfrenta
*
Dificuldades
D o Mar Vermelho, o
povo de Israel iniciou
sua jornada mais uma vez, guiado
Mara, o local mais próximo onde
ficavam fontes, as águas eram im-
próprias para o uso. Com tristeza
pela coluna de nuvem. Todos es- no coração, ele ouviu os gritos de
tavam cheios de alegria pelo novo alegria: “Água! Água!”, ecoando pelo
sentimento de liberdade que desfru- acampamento. Homens, mulheres e
tavam e porque todo o desconten- crianças se apressaram alegremente
tamento que havia entre eles agora para chegar ao oásis. De repente, ou-
havia sido acalmado. viu-se um grito de angústia da mul-
No entanto, por três dias du- tidão – a água era amarga!
rante a viagem, não conseguiam Em seu desespero, o povo culpou
encontrar água. As reservas que Moisés, sem se lembrar de que a pre-
trouxeram com eles tinham se aca- sença de Deus naquela nuvem mis-
bado. Não havia nada para aliviar teriosa o havia guiado, assim como
sua terrível sede, enquanto se ar- a eles também. Moisés fez o que eles
rastavam extremamente cansados se esqueceram de fazer; clamou fer-
sobre as planícies que ardiam com vorosamente pela ajuda de Deus.
o calor do sol. Moisés, que estava O Senhor “lhe indicou um arbusto.
familiarizado com aquela região, Ele o lançou na água, e esta se tor-
sabia o que outros ignoravam: em nou boa” (Êx 15:25). Ali Deus fez
* Este capítulo é baseado em Êxodo 15:22-27; 16-18.
Israel Enfrenta Dificuldades 191
uma promessa a Israel: “Se vocês provisões de alimentos fossem aca-
derem atenção ao Senhor, o seu bando para que o seu coração se vol-
Deus, e fizerem o que Ele aprova, tasse para Aquele que tinha sido o
se derem ouvidos aos Seus man- seu Libertador. Se pedissem socorro
damentos e obedecerem a todos a Ele em sua necessidade, ainda lhes
os Seus decretos, não trarei sobre concederia provas de Seu amor e
vocês nenhuma das doenças que Eu cuidado. Era um pecado e falta de
trouxe sobre os egípcios, pois Eu sou fé pensarem que eles ou seus filhos
o Senhor que os cura” (Êx 15:26). poderiam morrer de fome.
De Mara, o povo foi para Elim, Era necessário que encontrassem
onde encontrou “doze fontes de dificuldades e suportassem prova-
água e setenta palmeiras” (Êx 15:27). ções. Deus os estava tirando de um
Ali acamparam por vários dias. estado de corrupção e vergonha para
Quando fez um mês que tinham ocuparem uma honrosa posição
saído do Egito, as provisões de ali- entre as nações e estarem em con-
mento que levaram começaram a dições de receber sagradas respon-
acabar. Como seria possível alimen- sabilidades. Se tivessem mantido a
tar um número tão grande de pes- fé nEle, diante de tudo o que havia
soas? Até os líderes e anciãos do sido feito pelo povo, teriam supor-
povo se juntaram para se queixar tado com bom ânimo as dificulda-
contra os representantes de Deus: des, a falta de alimento e até mesmo
“Quem dera a mão do Senhor nos ti- um grande sofrimento. Eles se es-
vesse matado no Egito! Lá nos sen- queceram da bondade e do poder
távamos ao redor das panelas de de Deus ao libertá-los da escravi-
carne e comíamos pão à vontade, dão. Esqueceram-se de como seus fi-
mas vocês nos trouxeram a este lhos tinham sido poupados quando
deserto para fazer morrer de fome o anjo destruidor matou os primo-
toda essa multidão!” (Êx 16:3). gênitos do Egito. Esqueceram-se
Por enquanto, eles ainda não também da grande demonstra-
estavam passando fome, mas te- ção do poder divino diante do Mar
miam pelo futuro. Em sua imagi- Vermelho. Esqueceram-se ainda de
nação, viam seus filhos morrendo que seus inimigos, ao tentarem per-
de fome. O Senhor permitiu que as segui-los, tinham sido todos sub-
dificuldades os cercassem e que as mersos pelas águas do mar.
192 Os Escolhidos
Em vez de dizerem: “Deus fez e o temor entristecem o Espírito
grandes coisas por nós; éramos es- de Deus. Não é a vontade de Deus
cravos, mas Ele está fazendo de nós que Seu povo se sobrecarregue de
uma grande nação”, falavam somente cuidados.
das dificuldades que encontravam Nosso Senhor não nos diz que
na viagem e de quando terminaria não há perigos em nosso caminho,
sua cansativa peregrinação. mas nos mostra um refúgio que
Nestes dias em que vivemos, nunca falha. Ele convida o cansado
Deus deseja que Seu povo examine e o que está sobrecarregado de cui-
as provações pelas quais passou o dados: “Venham a Mim, todos os
antigo Israel para que aprenda como que estão cansados e sobrecarre-
deve se preparar para a Canaã ce- gados, e Eu lhes darei descanso.
lestial. Muitos olham para os israe- Tomem sobre vocês o Meu jugo e
litas daquele tempo e se admiram aprendam de Mim, pois sou manso
de sua incredulidade. Acham que e humilde de coração, e vocês encon-
não teriam sido assim tão ingratos. trarão descanso para as suas almas”
Quando sua fé é testada, mesmo (Mt 11:28, 29). Em vez de viver mur-
diante de pequenas provações, não murando e nos queixando, a ex-
demonstram ter mais fé ou paciên- pressão do nosso coração deveria
cia que o antigo Israel. Eles se quei- sempre ser: “Bendiga o Senhor a
xam da maneira como Deus decidiu minha alma! Não esqueça nenhuma
purificá-los. Embora suas necessi- de Suas bênçãos!” (Sl 103:2).
dades presentes sejam supridas, Deus conhecia todas as necessi-
muitos vivem em constante medo dades de Israel. Ele disse ao seu líder:
de que a pobreza recaia sobre eles “Eu lhes farei chover pão do Céu!”
e que seus filhos venham a sofrer. (Êx 16:4). Foram dadas instruções
Em vez de os obstáculos os levarem para que o povo juntasse uma por-
a buscar a ajuda de Deus, afastam-se ção para cada dia e juntasse em dobro
dEle, permitindo que a ansiedade e no sexto dia, para que fosse mantida
o descontentamento os dominem. a sagrada observância do sábado.
Por que somos ingratos e cheios Moisés deu à congregação a cer-
de desconfiança? Jesus é nosso teza de que suas necessidades se-
amigo. Todo o Céu está interessado riam atendidas, que o Senhor daria a
em nosso bem-estar. A ansiedade eles “carne para comer ao entardecer
Israel Enfrenta Dificuldades 193
e pão à vontade pela manhã”, e acres- teve demais, e não faltou a quem
centou: “Quem somos nós? Vocês tinha recolhido pouco” (Êx 16:18).
não estão reclamando de nós, mas
do Senhor” (Êx 16:8). Eles deveriam O Sábado Foi Honrado
saber que o Altíssimo era o seu Líder, No sexto dia, o povo colhia dois
e não somente Moisés. gômeres para cada pessoa. Os líde-
No fim do dia, o acampamento res perguntaram a Moisés por que
foi rodeado de vários bandos de co- estavam fazendo aquilo. Sua res-
dornizes, o suficiente para alimen- posta foi: “Foi isso que o Senhor
tar toda a multidão. Pela manhã, ordenou: ‘A manhã será dia de
havia sobre o solo do deserto uma descanso, sábado consagrado ao
pequena substância redonda: “Era Senhor. Assem e cozinhem o que
branco como semente de coen- quiserem. Guardem o que sobrar
tro” (Êx 16:31). Eles o chamaram até a manhã seguinte’” (Ex 16:23).
de “maná”. Então Moisés disse: Assim eles fizeram e viram que o ali-
“Este é o pão que o Senhor lhes mento não se deteriorou. ‘“Comam
deu para comer” (Ex 16:15). Os is- hoje’, disse Moisés, ‘pois hoje é o sá-
raelitas viram que havia alimento bado do Senhor. Hoje, vocês não o
em grande quantidade para todos. encontrarão no terreno”’ (Êx 16:25).
“O povo saía recolhendo o maná nas Deus ordena que Seu santo dia
redondezas, e o moía num moinho seja observado hoje de maneira
manual ou socava-o num pilão; de- tão sagrada como foi no tempo de
pois cozinhava o maná e com ele Israel. Devemos fazer do dia ante-
fazia bolos.” “[…] tinha gosto de bolo rior ao sábado um dia de preparação
de mel” (Nm 11:7, 8; Êx 16:31). a fim de que tudo esteja pronto para
Foi dito aos israelitas que juntas- as horas sagradas. Não devemos
sem um gômer [aproximadamente permitir que nossas ocupações ve-
três litros] por dia, para cada pes- nham a invadir esse tempo sagrado
soa, e que não deixassem nada para de forma alguma. Deus aconse-
a manhã seguinte. A quantidade lhou que se deve cuidar dos doen-
para o dia deveria ser recolhida pela tes nesse dia; que o trabalho que for
manhã, pois tudo o que ficasse no preciso ser feito para proporcionar
solo derreteria com o calor do sol. a eles conforto é uma obra de mise-
“Quem tinha recolhido muito não ricórdia e não uma transgressão do
194 Os Escolhidos
sábado; mas todo trabalho desne- chegarem às fronteiras de Canaã”
cessário deve ser evitado. O traba- (Êx 16:35). Durante quarenta anos,
lho que é negligenciado até o início foram diariamente lembrados do
do sábado deve ficar sem ser feito infalível e terno amor de Deus. O
até o pôr do sol desse dia. Senhor deu a eles “o pão dos Céus.
Os israelitas testemunhavam Os homens comeram o pão dos
um milagre triplo para impressio- anjos” (Sl 78:24, 25) – isto é, o ali-
nar a sua mente com relação à santi- mento que foi providenciado para
dade do sábado: porção dobrada da eles, pelos anjos. Eram ensinados
quantidade do maná caía no sexto cada dia que estavam tão ampara-
dia; no sétimo dia o maná não caía; dos em suas necessidades como se
e a porção necessária para o sábado estivessem rodeados pelos ondulan-
se conservava fresca e pura. tes campos de trigo das férteis pla-
nícies de Canaã.
O Sábado Antes do Sinai O maná era o símbolo dAquele
Dentro do contexto em que Deus que foi enviado por Deus para dar
fez cair o maná, temos provas cla- vida ao mundo. O próprio Senhor
ras de que o sábado não se origi- Jesus disse: “Eu sou o Pão da vida.
nou quando a lei foi dada no Sinai. Os seus antepassados comeram o
Antes de os israelitas chegarem ao maná no deserto, mas morreram.
Sinai, compreendiam que Deus es- Todavia, aqui está o pão que desce
perava que guardassem o sábado. do Céu [...]. Se alguém comer deste
A cada sexta-feira, quando eles re- pão, viverá para sempre. Este pão é a
colhiam porção dobrada do maná Minha carne, que Eu darei pela vida
como preparação para o sábado, a do mundo” (Jo 6:48-51).
natureza sagrada do dia de repouso Depois que partiram do de-
era fixada em sua mente. Quando serto de Sim, os israelitas se acam-
alguns deles saíram no sábado para param em Refidim. Lá não havia
colher o maná, o Senhor pergun- água. Então, mais uma vez, eles não
tou: “Até quando vocês se recusarão confiaram na providência de Deus.
a obedecer aos Meus mandamentos O povo foi se queixar a Moisés. “Dê-
e às Minhas instruções?” (Êx 16:28). nos água para beber”, gritavam ira-
“Os israelitas comeram maná dos. “Por que você nos tirou do Egito:
durante quarenta anos, […] até Foi para matar de sede a nós, aos
Israel Enfrenta Dificuldades 195
nossos filhos e aos nossos rebanhos?” Era o Filho de Deus que, velado
(Êx 17:2, 3). Quando a necessidade pela coluna de nuvem, estava ao
de alimentos foi suprida com abun- lado de Moisés e fez jorrar a fonte
dância, eles se lembraram, cheios de de água viva. Toda a congregação
vergonha, da sua incredulidade e pro- viu a glória do Senhor; mas, se a
meteram confiar no Senhor no fu- coluna de nuvem tivesse sido re-
turo; mas fracassaram na primeira movida, teriam sido mortos pelo
prova de fé. A coluna de nuvem que grande esplendor dAquele que nela
os guiava parecia esconder um terrí- Se ocultava.
vel mistério. “Quem Moisés pensava A incredulidade do povo era
que era?” “Qual era o seu objetivo ao tremendamente ofensiva e Moisés
tirá-los do Egito?” Tinham o coração tinha medo de que os juízos divinos
cheio de suspeita e desconfiança. recaíssem sobre eles. Ele deu àquele
No auge da indignação, os israelitas lugar o nome de Massá, “tentação”, e
ameaçaram apedrejar Moisés. Meribá, “contenda”, que ficou como
um marco para que o pecado deles
Água da Rocha fosse lembrado.
Em angústia, Moisés clamou ao
Senhor: “Que farei com esse povo?” A Guerra Contra Amaleque
(Êx 17:4). O Senhor lhe ordenou Um novo perigo ameaçava os
então que chamasse os anciãos de israelitas. Por terem murmurado
Israel, pegasse a vara com a qual tanto contra o Senhor, Ele permi-
tinha realizado maravilhas no Egito tiu que fossem atacados por seus
e passasse à frente do povo. Então inimigos. Os amalequitas saíram
o Senhor lhe disse: “Eu estarei à sua contra eles e atacaram os mais
espera no alto da rocha do monte fracos e cansados que tinham fi-
Horebe. Bata na rocha, e dela sairá cado para trás. Moisés deu ordens
água para o povo beber” (Êx 17:5, 6). a Josué para que escolhesse um
Ele obedeceu, e as águas brota- grupo de soldados de várias tribos e
ram em uma corrente viva que su- os guiasse na luta contra o inimigo,
priu todo o acampamento. Em Sua enquanto ele estaria em um monte
grande misericórdia, o Senhor fez mais próximo com a vara de Deus
da vara o Seu instrumento para li- em sua mão. Assim, no dia seguinte,
bertar o povo. Josué e seus soldados atacaram o
196 Os Escolhidos
inimigo, enquanto Moisés, Arão e os esforços para derrotar o inimigo
Hur ficaram na colina, observando de Israel e de Deus.
a batalha lá do alto. Com os braços Pouco antes de sua morte, Moi-
estendidos para o céu e segurando sés enviou ao povo este solene apelo:
a vara de Deus em sua mão direita, “Lembrem-se do que os amalequitas
Moisés orava para que os exérci- lhes fizeram no caminho, quando
tos de Israel vencessem. Eles per- vocês saíram do Egito. Quando
ceberam que, enquanto as mãos de vocês estavam cansados e exaus-
Moisés estavam estendidas para tos, eles se encontraram com vocês
cima, Israel estava vencendo; mas, no caminho e eliminaram todos os
quando ele baixava os braços, o ini- que ficaram para trás; não tiveram
migo vencia. Como Moisés estava temor de Deus. […] Vocês farão com
ficando muito cansado, Arão e Hur que os amalequitas sejam esqueci-
seguraram seus braços até o pôr do dos debaixo do céu. Não se esque-
sol, quando o inimigo foi derrotado. çam!” (Dt 25:17-19). Com relação a
O ato de Moisés foi muito sig- esse povo ímpio, o Senhor decla-
nificativo, pois mostra que Deus rou: “O Senhor fará guerra contra
tinha o destino de Israel em suas os amalequitas de geração em ge-
mãos. Enquanto mantivessem sua ração!” (Êx 17:16).
confiança no Senhor, Ele lutaria por Os amalequitas não ignoravam
eles, ajudando-os a vencer seus ini- o caráter de Deus e Sua suprema au-
migos. Por outro lado, sempre que toridade, mas decidiram desafiar o
deixassem de se apegar ao Senhor e Seu poder. As maravilhas realizadas
passassem a confiar em si mesmos, por Moisés diante dos egípcios se
ficariam fracos e o inimigo prevale- tornou assunto de zombaria entre
ceria contra eles. eles. Fizeram um voto, diante de
A força divina deve ser combi- seus deuses, de que destruiriam
nada com o esforço humano. Moisés os hebreus e se vangloriavam, di-
sabia que Deus não lutaria em favor zendo que Israel não tinha forças
de Israel enquanto o povo perma- suficientes para enfrentá-los. Eles
necesse inativo. Durante todo o não tinham recebido nenhuma
tempo em que o grande líder in- ameaça dos israelitas. A agressão
tercedia junto ao Senhor, Josué e que fizeram não foi motivada por
seus bravos soldados faziam todos qualquer provocação por parte dos
Israel Enfrenta Dificuldades 197
israelitas. Foi para desafiar a Deus é trazida, e eu decido entre as par-
que procuraram destruir Seu povo. tes, e ensino-lhes os decretos e leis de
Os amalequitas eram pecadores in- Deus” (Êx 18:16). Jetro se opôs a essa
subordinados já por muito tempo. situação, dizendo: “O que você está fa-
Em Sua misericórdia, Deus os cha- zendo não é bom. Você e seu povo fi-
mava ao arrependimento apesar de carão esgotados, pois essa tarefa lhe
tudo; mas, quando os homens é pesada demais. Você não pode exe-
de Amaleque atacaram as fileiras cutá-la sozinho” (Êx 18:17, 18). Ele
cansadas e indefesas de Israel, se- aconselhou Moisés a nomear pes-
laram o destino de sua nação. Sobre soas capazes, tementes a Deus, como
todos aqueles que amam e temem chefes de mil, outros como chefes de
a Deus, Ele estende Sua mão como cem, de cinquenta e de dez. Esses
um escudo protetor; cuidem para homens deveriam julgar questões
não ferir essa mão, pois ela maneja de menor importância, enquanto os
a espada da justiça. casos mais difíceis e importantes de-
Jetro, o sogro de Moisés, que veriam ainda ser levados a Moisés.
morava não muito longe do lugar Esse conselho foi aceito, e trouxe não
onde estavam acampados, decidiu somente alívio a Moisés, mas contri-
visitar os hebreus e levar consigo a buiu para que fosse estabelecida uma
esposa de Moisés e seus dois filhos. ordem mais perfeita entre o povo.
Moisés, o grande líder, saiu alegre- O fato de ter sido escolhido para
mente para se encontrar com eles e instruir outros não levou Moisés a
os trouxe para a sua tenda. concluir que ele mesmo não necessi-
tava de instrução. O líder escolhido
O Sábio Conselho de Jetro de Israel ouviu com atenção as su-
Pouco depois que chegou ao gestões do piedoso e sábio sacerdote
acampamento, Jetro viu quão pesa- de Midiã e adotou o plano por ele
das eram as responsabilidades que proposto.
Moisés levava. Traziam a ele não só De Refidim, o povo continuou
questões de interesses e deveres com sua jornada seguindo para onde se
relação ao povo, mas também todas movia a coluna de nuvem. A rota
as controvérsias que surgiam entre que fizeram os levou através de ári-
eles. Moisés lhe disse: “Toda vez que das planícies, íngremes encostas
alguém tem uma questão, esta me e desfiladeiros rochosos. Então se
198 Os Escolhidos
depararam como o Monte Sinai que Senhor reuniu Seu povo para que
se erguia diante deles com solene pudesse impressionar os israelitas
majestade. A coluna de nuvem re- e fazê-los entender a santidade de
pousou sobre o seu cume, e o povo Seus mandamentos, declarando de
espalhou suas tendas pela planície. viva voz Sua santa lei. Grandes e
Ali seria sua morada durante quase radicais mudanças deveriam ocor-
um ano. À noite, a coluna de fogo rer neles, pois as influências degra-
lhes dava a certeza da proteção di- dantes da escravidão e da idolatria
vina e, enquanto dormiam profun- tinham deixado suas marcas nos
damente, o pão do Céu caía suave hábitos e no caráter do povo de
por todo o acampamento. Israel. Deus estava agindo para
Ali, Israel deveria receber a erguê-los a um nível moral mais
mais maravilhosa revelação que elevado, transmitindo a eles o co-
Deus já fez à humanidade. Ali, o nhecimento de Si mesmo.
27
*
A Lei no Monte Sinai
P ouco tempo depois
que os israelitas acam-
param no Sinai, Moisés foi cha-
foi: “Faremos tudo o que o Senhor
ordenou” (Êx 19:8). Assim, eles fize-
ram um concerto solene com Deus e
mado ao monte para se encontrar se comprometeram a aceitá-Lo como
com Deus. Israel seria levado a um seu Soberano, tornando-se plena-
íntimo e especial relacionamento mente submissos à Sua autoridade.
com o Altíssimo – para se organi- Deus pretendia fazer da oca-
zar como igreja e como nação sob o sião em que pronunciaria Sua lei
governo de Deus. uma cena de inspiradora e admirá-
“Vocês viram o que fiz ao Egito vel grandeza. Tudo o que estivesse li-
e como os transportei sobre asas gado ao serviço de Deus deveria ser
de águias e os trouxe para junto de considerado com a maior reverên-
Mim. Agora, se Me obedecerem fiel- cia. O Senhor disse a Moisés: “Vá ao
mente e guardarem a Minha aliança, povo e consagre-o hoje e amanhã.
vocês serão o Meu tesouro pessoal Eles deverão lavar as suas vestes e
dentre todas as nações. Embora toda estar prontos no terceiro dia, por-
a Terra seja Minha, vocês serão para que nesse dia o Senhor descerá sobre
Mim um reino de sacerdotes e uma o Monte Sinai, à vista de todo o
nação santa” (Êx 19:4-6). povo” (Êx 19:10, 11). Todos deveriam
Moisés retornou ao acampa- ocupar o seu tempo em solene pre-
mento e repetiu a mensagem divina paração para comparecer diante de
aos anciãos de Israel. A resposta deles Deus. Eles e suas roupas deveriam
* Este capítulo é baseado em Êxodo 19-24.
200 Os Escolhidos
estar livres de impureza. Deveriam escravidão” (Êx 20:2). Aquele que
se dedicar à reflexão pessoal, jejum os havia tirado do Egito, que abriu
e oração para que seu coração pu- o mar para que passassem e derro-
desse ser purificado de todo pecado. tou Faraó com seu exército – era Ele
Na manhã do terceiro dia, o topo quem estava proclamando Sua lei.
do Monte Sinai estava coberto por Deus honrou os hebreus ao
uma pesada nuvem, que ia descendo fazer deles os guardiães e defenso-
cada vez mais escura e compacta até res da Sua lei, mas eles deveriam
que ele foi totalmente envolvido em considerá-la um depósito sagrado
trevas e terrível mistério. Então se para todo o mundo. Os preceitos
ouviu um som como o de trombeta, dos Dez Mandamentos são adap-
convocando o povo para se encon- tados ao modo de vida das pessoas
trar com Deus. Relâmpagos ilumina- em todos os lugares e foram dados
vam a densa escuridão e os trovões para instrução e governo de todos.
ecoavam entre as montanhas ao São dez leis curtas, abrangentes e
redor. “O Monte Sinai estava coberto cheias de autoridade, que combi-
de fumaça, pois o Senhor tinha des- nam o nosso dever para com Deus
cido sobre ele em chamas de fogo. […] e para com o próximo, todos basea-
todo o monte tremia violentamente” dos no grande e fundamental prin-
(Êx 19:18). Os filhos de Israel treme- cípio do amor: ‘“Ame o Senhor, o seu
ram de medo e caíram prostrados Deus, de todo o seu coração, de toda
diante do Senhor. Até Moisés excla- a sua alma, de todas as suas forças e
mou: “Estou apavorado e trêmulo!” de todo o seu entendimento’ e ‘ame
(Hb 12:21). o seu próximo como a si mesmo”’
A seguir, cessaram os trovões; a (Lc 10:27). Nos Dez Mandamentos,
trombeta parou de tocar; a terra es- esses princípios são aplicados à
tava quieta. Houve um período de nossa vida.
solene silêncio e então se ouviu a voz (1) “Não terás outros deuses
de Deus falando através da densa es- além de Mim” (Êx 20:3). Qualquer
curidão que O envolvia no monte, coisa que acariciamos, que tenda a
rodeado por Seus anjos. Nesse minimizar o nosso amor a Deus ou
monte, o Senhor proclamou Sua lei. venha a interferir no culto que deve
“Eu sou o Senhor, o teu Deus, ser prestado somente a Ele, fazemos
que te tirou do Egito, da terra da disso um deus.
A Lei no Monte Sinai 201
(2) “Não farás para ti nenhum punidos pela culpa de seus pais, a
ídolo, nenhuma imagem de qual- não ser que participem dos seus pe-
quer coisa no Céu, na Terra, ou nas cados. Mesmo assim, por herança e
águas debaixo da terra. Não te pros- exemplo, os filhos se tornam parti-
trarás diante deles nem lhes presta- cipantes dos pecados de seus pais.
rás culto” (Êx 20:4). Más tendências, apetite pervertido
e moral corrompida, assim como as
A Lei e o Comportamento enfermidades físicas e a degenera-
Humano ção são passadas de pai para filho
Muitas nações pagãs diziam até a terceira e quarta geração.
que suas imagens eram apenas “Mas trato com bondade até mil
símbolos por meio dos quais ado- gerações aos que Me amam e obe-
ravam a Divindade, mas Deus decem aos Meus mandamentos”
declarou que tal culto é pecado. (Êx 20:6). Para aqueles que são fiéis
A intenção de representar o Eterno em Seu serviço, Deus promete mi-
por meio de objetos materiais re- sericórdia, não somente até a ter-
baixa nossos conceitos de Deus. ceira e quarta geração, como a ira
Nossa mente é atraída para a cria- dirigida àqueles que O desprezam,
tura e não para o Criador. Quando mas a milhares de gerações.
os conceitos a respeito de Deus são (3) Não tomarás em vão o nome
rebaixados, da mesma forma o do Senhor, o teu Deus, pois o Senhor
homem também é degradado. não deixará impune quem tomar o
“Eu, o Senhor, o teu Deus, sou Seu nome em vão” (Êx 20:7).
Deus zeloso” (Êx 20:5). A íntima re- Esse mandamento nos proíbe de
lação de Deus com Seu povo é re- usar o nome de Deus de maneira des-
presentada pela relação que há no cuidada. Ao mencionar Deus impen-
casamento. Sendo que a idolatria é sadamente na conversação comum
o adultério espiritual, o desagrado e pela frequente repetição irrefle-
de Deus contra ela é bem apropria- tida de Seu nome, nós O desonra-
damente chamado de ciúme. mos. “Santo e temível é o Seu nome!”
“Castigo os filhos pelos pecados (Sl 111:9). Devemos pronunciá-
de seus pais até a terceira e quarta lo com reverência e solenidade.
geração daqueles que Me despre- (4) “Lembra-te do dia de sábado,
zam” (Êx 20:5). Os filhos não são para santificá-lo. Trabalharás seis
202 Os Escolhidos
dias e neles farás todos os teus os cuidados de que necessitam; mas
trabalhos, mas o sétimo dia é o todo trabalho desnecessário deve
sábado dedicado ao Senhor, o teu ser estritamente evitado. Para san-
Deus. Nesse dia não farás trabalho tificar o sábado, não devemos nem
algum, nem tu, nem teus filhos ou mesmo permitir que nossa mente se
filhas, nem teus servos ou servas, fixe nas coisas do mundo. O man-
nem teus animais, nem os estran- damento inclui todos aqueles que
geiros que morarem em tuas cida- estão dentro das nossas “portas”.
des. Pois em seis dias o Senhor fez Os que fazem parte da família
os céus e a Terra, o mar e tudo o que devem deixar de lado suas ocupa-
neles existe, mas no sétimo dia des- ções diárias durante as horas sa-
cansou. Portanto, o Senhor aben- gradas. Todos devem se unir para
çoou o sétimo dia e o santificou” prestar a Ele um culto voluntário
(Êx 20:8-11). em Seu santo dia.
O sábado não é apresentado (5) Honra teu pai e tua mãe, a
como uma nova instituição, mas fim de que tenhas vida longa na
como um tempo que foi estabe- terra que o Senhor, o teu Deus,
lecido desde a criação. Ao apon- te dá” (Êx 20:12). Os pais têm o
tar para Deus como Aquele que direito a um grau de amor e res-
fez os céus e a Terra, distingue o peito que a nenhuma outra pessoa
verdadeiro Deus dos falsos deu- devem ser dados. Rejeitar a legí-
ses. Assim, o sábado é um sinal de tima autoridade dos pais é rejei-
nossa lealdade a Ele. O quarto man- tar também a autoridade de Deus.
damento é o único entre os dez que O quinto mandamento requer que
traz tanto o nome como o título do os filhos não somente respeitem,
Legislador, o único que mostra por sejam submissos e obedeçam aos
autoridade de quem a lei foi dada. seus pais, mas que deem a eles
Portanto, ele contém o selo de Deus. amor e ternura, aliviem suas preo-
O Senhor nos deu seis dias para cupações, tenham respeito pelo
trabalhar, e Ele pede que façamos seu nome, cuidem deles e os con-
nosso trabalho nesses seis dias. fortem na velhice. Pede também
Atos necessários e de misericórdia que seja dado o devido respeito aos
são permitidos no sábado. Os doen- pastores e àqueles a quem Ele deu
tes e os que sofrem precisam receber autoridade.
A Lei no Monte Sinai 203
(6) “Não matarás” (Êx 20:13). Proíbe negócios duvidosos e requer
Todos os atos de injustiça que de o pagamento justo de dívidas e sa-
alguma forma abreviam a vida; o lários. Toda tentativa de obter van-
espírito de ódio e vingança ou a con- tagem pela ignorância, fraqueza ou
descendência com qualquer senti- infelicidade de outros é registrada
mento que leve à prática de atos como fraude nos livros do Céu.
ofensivos em relação aos outros (até (9) “Não darás falso testemunho
mesmo desejar intimamente o mal contra o teu próximo” (Êx 20:16).
de alguém, pois “qualquer que se Toda intenção de enganar se consti-
irar contra seu irmão estará sujeito tui uma falsidade. Um olhar, um mo-
a julgamento” (Mt 5:22); negligen- vimento da mão, uma expressão do
ciar o cuidado de um necessitado, de rosto podem representar uma falsi-
maneira egoísta; condescendência dade tão eficaz quanto o que se diz
própria ou excesso de trabalho que por palavras. É falsidade até mesmo
venha a prejudicar a saúde – todas a declaração de fatos feita de forma
essas coisas, em maior ou menor enganosa para induzir ao erro. Toda
grau, são uma forma de transgres- tentativa de prejudicar a reputação do
são do sexto mandamento. nosso próximo, pela difamação, calú-
(7) “Não adulterarás” (Êx 20:14). nia ou injúria, e até mesmo a ocul-
A lei de Deus requer pureza não so- tação intencional da verdade para
mente na vida exterior, mas também prejudicar outros se constitui em
quanto às intenções e emoções secre- transgressão do nono mandamento.
tas do coração. Cristo, que ensinou (10) “Não cobiçarás a casa do teu
de maneira mais abrangente nossos próximo. Não cobiçarás a mulher
deveres para com a lei de Deus, de- do teu próximo, nem seus servos
clarou que um mau pensamento ou ou servas, nem seu boi ou jumento,
um olhar é verdadeiramente tão pe- nem coisa alguma que lhe pertença”
cado quanto o ato ilícito. (Êx 20:17). O décimo mandamento
(8) “Não furtarás” (Êx 20:15). atinge a própria raiz de todos os pe-
Essa é uma proibição que condena cados; proíbe o desejo egoísta, do
o sequestro de pessoas e o tráfico qual nasce o ato pecaminoso. A pes-
de escravos, guerras de conquista, soa que se recusa a ceder até mesmo
furto e roubo. Exige estrita integri- a um desejo pecaminoso com relação
dade nos mínimos detalhes da vida. a alguma coisa que pertença a outro
204 Os Escolhidos
não será culpada de ter cometido um chamadas de “juízos”, porque os juí-
ato ilícito para com ninguém. zes deveriam julgar de acordo com
Deus proclamou Sua lei com essas normas. Diferente dos Dez
demonstrações do Seu poder e gló- Mandamentos, elas foram entre-
ria para que Seu povo jamais se es- gues particularmente a Moisés.
quecesse daquela cena. Ele desejava A primeira dessas leis estava re-
mostrar a todos a santidade e a imu- lacionada aos servos. Um hebreu
tabilidade da Sua lei. não poderia ser vendido para ser es-
cravo por toda a vida. Seu período
A Lei do Amor de trabalho era limitado a seis anos;
Ao ser apresentada a grande no sétimo ano deveria ser posto em
regra da justiça de Deus diante do liberdade. Era permitido ter escra-
povo, as pessoas puderam com- vos que não fossem israelitas, mas
preender, como nunca antes, quão sua vida e a própria pessoa eram es-
ofensivo é o pecado e quão grande tritamente guardadas. O assassino
era a sua culpa à vista de um Deus de um escravo deveria ser punido;
santo. Eles clamaram a Moisés: “Fala um ferimento causado a um escravo
tu mesmo conosco, e ouviremos. por seu senhor, ainda que fosse a
Mas que Deus não fale conosco, perda de um dente, dava ao escravo
para que não morramos” (Êx 20:19). o direito à liberdade.
O líder respondeu: “Não tenham Os israelitas deveriam cuidar
medo! Deus veio prová-los, para que para não manter o espírito de cruel-
o temor de Deus esteja em vocês e dade, como aquele pelo qual tinham
os livre de pecar” (Êx 20:20). sofrido sob as ordens dos capata-
Com a mente cegada e perver- zes egípcios. A lembrança de sua
tida pela escravidão e o paganismo, amarga experiência no cativeiro
o povo não estava preparado para deveria fazer com que se colocas-
compreender completamente a sem no lugar do servo, e assim de-
amplitude dos princípios dos dez monstrassem amor e misericórdia.
preceitos dados por Deus. Foram Os direitos das viúvas e órfãos
assim acrescentadas algumas ins- eram especialmente preservados.
truções como ilustração e aplica- Se os maltratarem, “e eles clama-
ção dos princípios expressos nos rem a Mim”, diz o Senhor, “Eu certa-
Dez Mandamentos. Essas leis foram mente atenderei ao seu clamor. Com
A Lei no Monte Sinai 205
grande ira matarei vocês à espada; dosamente como fundamentos da
suas mulheres ficarão viúvas e seus lei nacional e, assim como os dez
filhos, órfãos” (Êx 22:23, 24). Os es- preceitos, eram a condição para o
trangeiros que se unissem a Israel de- cumprimento das promessas de
veriam ser protegidos do mal e da Deus a Israel.
opressão. “Não oprima o estrangeiro. Então foi dada esta mensagem
Vocês sabem o que é ser estrangeiro, ao povo: “Eis que envio um Anjo à
pois foram estrangeiros no Egito” frente de vocês para protegê-los por
(Êx 23:9). todo o caminho e fazê-los chegar ao
Era proibido cobrar juros de em- lugar que preparei. Prestem atenção
préstimos feitos aos pobres. As vestes e ouçam o que Ele diz. Não se rebe-
ou o cobertor de um homem pobre, lem contra Ele” (Êx 23:20, 21). Cristo
que tivessem sido tomados como ga- na coluna de nuvem e de fogo foi o
rantia, deveriam ser restituídos ao seu Líder. Ao mesmo tempo em que
anoitecer. Os juízes eram advertidos havia símbolos ou “tipos” que apon-
a não perverterem a justiça, atuando tavam para a vinda de um Salvador,
em favor de uma causa falsa ou rece- havia também um Salvador pre-
bendo suborno. A mentira e a calúnia sente, que dava as ordens a Moisés
eram proibidas, e os atos de bondade para que ele as transmitisse ao
deveriam ser praticados mesmo para povo, e que foi posto diante deles
com inimigos pessoais. como único canal de bênção.
Novamente o povo foi lembrado
da sagrada obrigação que todos ti- Como Foi Feita a
nham para com o sábado. Foram “Antiga Aliança”
designadas festas anuais, quando “Quando Moisés se dirigiu ao
todos os homens da nação deve- povo”, depois que desceu do monte,
riam se reunir perante o Senhor, le- “e transmitiu-lhes todas as palavras
vando suas ofertas de gratidão e as e ordenanças do Senhor, eles respon-
primícias de Sua generosidade nas deram em uníssono: ‘Faremos tudo
colheitas. O objetivo de todos esses o que o Senhor ordenou’” (Êx 24:3).
regulamentos foi declarado: “Vocês Então eles reafirmaram o con-
serão Meu povo santo” (Êx 22:31). certo. Moisés construiu um altar
Essas leis deveriam ser registra- ao pé do monte e, ao lado dele, er-
das por Moisés e guardadas cuida- gueu doze colunas, “representando
206 Os Escolhidos
as doze tribos de Israel” (Êx 24:4), Moisés e “Josué, seu auxiliar”
como testemunho de sua aceita- foram chamados para se encontrar
ção da aliança. A seguir, “Moisés com Deus. O líder indicou Arão e
leu o Livro da Aliança para o povo” Hur para que, auxiliados pelos an-
(Êx 24:7). Todos tinham a liberdade ciãos, dirigissem o povo em seu
de escolher se concordariam com as lugar. Moisés esperou ser chamado
condições da aliança. Eles ouviram à sala de audiência do Altíssimo.
a lei de Deus sendo proclamada, e Sua paciência e obediência foram
seus princípios foram aplicados a provadas, mas ele não abandonou
várias situações para que pudessem seu posto. Até mesmo esse servo
saber o quanto essa aliança envol- favorecido de Deus não poderia se
via. Mais uma vez o povo respondeu aproximar de Sua presença ime-
unanimemente: “Faremos fielmente diatamente e suportar Sua glória.
tudo o que o Senhor ordenou” (Êx Durante seis dias, ele deveria dedi-
24:7). “Quando Moisés terminou de car sua vida a Deus, examinando
proclamar todos os mandamentos o coração pela meditação e oração.
da Lei a todo o povo, levou sangue No sétimo dia, que era o sábado,
[…] e aspergiu o próprio livro e todo Moisés foi chamado para dentro da
o povo, dizendo: ‘Este é o sangue da nuvem. “Moisés entrou na nuvem […].
aliança que Deus ordenou que vocês E permaneceu no monte quarenta
obedeçam” (Hb 9:19, 20). dias e quarenta noites” (Êx 24:18).
“Moisés, Arão, Nadabe, Abiú e se-
tenta autoridades de Israel subiram Deus Exalta os Escravos
e viram o Deus de Israel, sob cujos Durante todo o tempo em que
pés havia algo semelhante a um pavi- ficou no monte, Moisés recebeu ins-
mento de safira, como o Céu em seu truções para a construção de um
esplendor” (Êx 24:9, 10). Os setenta santuário no qual a presença di-
anciãos deveriam ajudar Moisés a vina se manifestaria de modo es-
governar Israel, e Deus pôs o Seu pecial. “E farão um santuário para
Espírito sobre eles. Eles não viram Mim, e Eu habitarei no meio deles”,
Deus como Ele é, mas viram a glória foi a ordem de Deus (Êx 25:8). Pela
de Sua presença. Ficaram meditando terceira vez a guarda do sábado foi
em Sua glória, pureza e misericórdia ordenada. “Isso será um sinal per-
até que pudessem se aproximar dEle. pétuo entre Mim e os israelitas”,
A Lei no Monte Sinai 207
o Senhor declarou, “a fim de que sai- pessoal do Rei dos reis. Deus os se-
bam que Eu sou o Senhor, que os parou do mundo, fez deles os guar-
santifica. […] Quem fizer algum tra- diães da Sua lei e, por meio deles, era
balho nesse dia será eliminado do Seu propósito preservar na Terra o
meio do seu povo” (Êx 31:17, 13, 14). conhecimento de Si mesmo.
A partir de então, o povo foi hon- Assim, a luz do Céu deveria res-
rado com a permanente presença de plandecer em um mundo em tre-
seu Rei. “E habitarei no meio dos is- vas. Uma voz apelando a todos os
raelitas e serei o seu Deus. […] E o povos para saírem da idolatria e ser-
lugar será consagrado pela Minha virem ao Deus vivo seria ouvida. Se
glória” (Êx 29:45, 43). os israelitas fossem fiéis no cumpri-
Depois de terem sido uma raça de mento da responsabilidade a eles
escravos por tanto tempo, os israeli- confiada, Deus seria a sua defesa e
tas foram exaltados acima de todos Ele os exaltaria acima de todas as
os povos, tornando-se o tesouro outras nações.
28
*
O Bezerro de Ouro
E nquanto esteve no
monte, a ausência de
Moisés causou um clima de espera
que Ele poderia fazer. Se tivessem
procurado obter uma compreen-
são mais clara das ordens dadas
e apreensão para Israel. O povo por Deus e, de coração humilde,
aguardava ansiosamente a sua O buscassem, teriam sido protegi-
volta. Como estavam acostuma- dos contra a tentação. Mas logo se
dos a representações materiais da tornaram descuidados, indiferentes
divindade no Egito, foi difícil para e sem consideração para com as leis;
eles confiar em um Ser invisível e isso aconteceu especialmente com
passaram a depender de Moisés a “mistura de gente”, aqueles que
para sustentar sua fé. Agora esta- saíram do Egito com eles. Estavam
vam sem ele. As semanas foram impacientes para retomar logo o ca-
se passando, e Moisés não voltava. minho para a terra que manava leite
Para muitos no acampamento, pa- e mel. Essa boa terra foi prometida
recia que seu líder teria desertado a eles sob a condição de obediência,
ou que havia sido consumido pelo mas se esqueceram desse compro-
fogo devorador. misso. Alguns sugeriram que a me-
Durante o período de espera, ti- lhor opção era voltar para o Egito;
veram tempo para meditar na lei mas, quer seguissem para Canaã
de Deus, de acordo com tudo o que ou voltassem para o Egito, a maior
tinham ouvido, e preparar o cora- parte do povo decidiu não mais es-
ção para receber novas revelações perar por Moisés.
* Este capítulo é baseado em Êxodo 32-34.
O Bezerro de Ouro 209
Os que pertenciam à “mistura tinham sugerido, se resolvessem
de gente” foram os primeiros a co- voltar ao Egito, teriam o favor dos
meçar a reclamar e demonstrar sua egípcios ao levarem uma imagem
impaciência, e foram os líderes da à frente deles como seu deus. (Ver
apostasia. Entre as coisas que os Apêndice, Nota 3.)
egípcios tinham como símbolos de
suas divindades estava o boi ou o Em vez de Líder, Servo
bezerro. Por sugestão daqueles que Arão foi fraco ao contestar o pe-
praticaram a idolatria no Egito, foi dido do povo. Sua indecisão e timidez
feito um bezerro para ser adorado. naquele momento crítico apenas fi-
O povo desejava ter alguma imagem zeram com que as pessoas se tornas-
para representar Deus e que fosse sem mais decididas ainda. Um delírio
à frente deles em lugar de Moisés. cego e irracional pareceu tomar conta
Os grandes prodígios realizados no da multidão. Alguns permaneceram
Egito e no Mar Vermelho tinham fiéis à sua aliança com Deus, mas a
por objetivo firmar sua fé em um maioria deles se uniu na apostasia.
Deus invisível, todo-poderoso e o Alguns, que se arriscaram a denun-
grande Ajudador de Israel. O desejo ciar a construção da imagem como
do povo por alguma manifestação idolatria, foram espancados e, por
visível de Sua presença foi atendido fim, acabaram perdendo a vida.
com a presença da coluna de nuvem Arão também temeu por sua se-
e de fogo, e pela revelação de Sua gurança e, em vez de se posicionar
glória no Monte Sinai. Mesmo com nobremente em honra a Deus, ele se
a nuvem de Sua presença diante rendeu às exigências da multidão.
deles, ainda assim voltaram o cora- Por conta própria, eles trouxeram
ção para a idolatria no Egito. seus ornamentos e, com isso, ele
Na ausência de Moisés, a auto- moldou um bezerro à semelhança
ridade legal tinha sido concedida a dos deuses do Egito.
Arão, e uma multidão se reuniu ao O povo exclamava: “Eis aí os
redor de sua tenda. A nuvem, disse- seus deuses, ó Israel, que tiraram
ram eles, estava permanentemente vocês do Egito!” (Êx 32:4). Arão não
no monte, e não mais iria guiá-los apenas permitiu tamanho insulto
em suas viagens. Queriam ter uma a Jeová, ele fez ainda mais: Ao ver
imagem em seu lugar. Conforme a satisfação do povo com o bezerro
210 Os Escolhidos
de ouro, construiu um altar diante que você tirou do Egito, corrompeu-
dele e anunciou: “Amanhã haverá se. Muito depressa se desviaram da-
uma festa dedicada ao Senhor. Na quilo que lhes ordenei” (Êx 32:7, 8).
manhã seguinte, ofereceram holo- A aliança de Deus com Seu povo
caustos e sacrifícios de comunhão. tinha sido quebrada, e Ele declarou
O povo se assentou para comer e a Moisés: “Deixe-Me agora, para
beber, e levantou-se para se entre- que a Minha ira se acenda contra
gar à farra” (Êx 32:5, 6). eles, e Eu os destrua. Depois farei de
Uma religião que permite ao você uma grande nação” (Êx 32:10).
povo se entregar aos prazeres egoís- O povo de Israel, especialmente
tas e sensuais agrada tanto às mul- aquela “multidão mista”, estaria
tidões hoje como nos dias de Israel. sempre inclinada a se rebelar con-
Ainda existem Arões fracos e com- tra Deus, a se queixar de seu líder
placentes na igreja, que cedem aos e a entristecê-lo com sua increduli-
desejos daqueles que não são conver- dade e obstinação. Por seus pecados,
tidos, induzindo-os assim ao pecado. já tinham perdido o favor de Deus.
Se Deus resolvesse destruir
Promessa Quebrada Israel, quem poderia pleitear por
Apenas poucos dias haviam se eles? Moisés viu um fundo de espe-
passado desde que os hebreus esti- rança onde parecia haver somente
veram trementes diante do Monte o desânimo e a fúria divina. As pa-
Sinai e ouviram as palavras do lavras ditas por Deus: “Deixe-Me
Senhor: “Não terás outros deuses agora”, ele entendeu não como uma
além de Mim” (Êx 20:3). A glória de proibição, mas sim como uma opor-
Deus ainda pairava sobre o topo do tunidade para interceder pelo caso
monte, à vista da congregação; mas deles; se ele suplicasse fervorosa-
“fizeram um bezerro, adoraram um mente, Deus pouparia Seu povo.
ídolo de metal. Trocaram a Glória Deus deu a entender que iria
deles pela imagem de um boi que rejeitar Seu povo. Falou deles a
come capim” (Sl 106:19, 20). Moisés como “seu povo, que você
No monte, Moisés foi avisado tirou do Egito”. Moisés negou que
da apostasia que estava ocorrendo a liderança de Israel pertencesse a
no acampamento. “Desça”, o Senhor ele. Não eram dele, mas de Deus –
disse a Moisés, “porque o seu povo, “Teu povo, que tiraste do Egito com
O Bezerro de Ouro 211
grande poder e forte mão”. Moisés nação. Deus Se agradou de sua fi-
ainda insistiu: “Por que diriam os delidade, de sua integridade e con-
egípcios: ‘Foi com intenção maligna fiou a ele a grande responsabilidade
que Ele os libertou, para matá-los de guiar Israel à Terra Prometida.
nos montes’?” (Êx 32:11, 12). Quando Moisés e Josué desce-
Durante os poucos meses desde ram do monte e se aproximaram
que Israel havia deixado o Egito, do acampamento, viram o povo gri-
a notícia de seu maravilhoso li- tando e dançando ao redor de seu
vramento tinha se espalhado por ídolo – era uma cena de verdadeira
todas as nações ao redor. O pavor orgia pagã, uma imitação das festas
repousava sobre esses povos pagãos. idólatras do Egito. Quão diferente
Todos observavam para ver o que o era do solene e reverente culto dedi-
Deus de Israel ia fazer por Seu povo. cado a Deus! Moisés ficou desolado.
Se fossem destruídos, seus inimigos Acabava de sair da presença da gló-
triunfariam. Os egípcios alegariam ria de Deus e não estava preparado
que suas acusações eram verdadei- para aquela abominável demonstra-
ras – em vez de levar Seu povo ao ção da degradada condição de Israel.
deserto para sacrificar, Ele fez com Para demonstrar o horror com que
que fossem sacrificados. A destrui- viu tamanha ofensa cometida, atirou
ção do povo a quem Ele tanto exal- as tábuas de pedra ao chão, e elas se
tou, traria difamação ao Seu nome. quebraram diante de todo o povo,
Que imensa responsabilidade têm mostrando com isso que eles tinham
aqueles que são altamente honra- quebrado a sua aliança com Deus e,
dos por Deus de tornar o Seu nome assim, Deus estava quebrando a Sua
um louvor aqui na Terra! aliança com eles também.
Enquanto Moisés intercedia por
Israel, o Senhor ouviu as suas súpli- Moisés Castiga os
cas e atendeu à sua abnegada oração. Transgressores
Deus provou o amor de Seu servo Moisés pegou o ídolo e o atirou
por aquele povo ingrato, e Moisés no fogo. A seguir, ele o reduziu a pó
resistiu nobremente à prova. A pros- e espalhou na corrente de água que
peridade do povo escolhido de Deus descia do monte. Assim, ele mos-
era mais importante para ele do que trou a completa inutilidade do deus
se tornar o pai de uma poderosa que eles estavam adorando.
212 Os Escolhidos
O grande líder convocou seu glória na imagem de um bezerro.
irmão culpado de permitir tão Deus havia confiado a ele o governo
grande pecado. Arão tentou se de- do povo na ausência de Moisés, mas
fender ao relatar os clamores do ele permitira a rebelião. “O Senhor
povo, alegando que, se não tivesse irou-Se contra Arão a ponto de que-
feito conforme pediram, teria sido rer destruí-lo” (Dt 9:20). Sua vida foi
morto. “Eles me disseram: ‘Faça para poupada em resposta à fervorosa in-
nós deuses que nos conduzam, pois tercessão de Moisés; Arão se arre-
não sabemos o que aconteceu com pendeu de seu grande pecado, e foi
esse Moisés, o homem que nos tirou restaurado ao favor de Deus.
do Egito.’ Então eu disse a eles: ‘Quem
tiver enfeites de ouro, traga-os Como Arão Estimulou
para mim.’ O povo trouxe-me o a Rebelião
ouro, eu o joguei no fogo e surgiu Se Arão tivesse tido a coragem
esse bezerro!’’’ (Êx 32:23, 24). Ele de permanecer do lado direito, po-
queria levar Moisés a acreditar que deria ter evitado a apostasia. Se
tinha acontecido um milagre, que o tivesse se mantido firme em sua
ouro havia se transformado em um lealdade a Deus e lembrado o povo
bezerro por um poder sobrenatu- da solene aliança que tinha feito
ral. Suas desculpas de nada adianta- com Ele, o mal teria sido evitado.
ram. Foi tratado, com justiça, como Sua tolerância em atender aos de-
o principal culpado. sejos do povo fez com que os israeli-
O próprio Arão, “que fora consa- tas se aventurassem a ir mais longe
grado ao Senhor” (Sl 106:16), tinha no pecado do que jamais poderiam
feito o ídolo e anunciara a festa. imaginar.
Ele não conseguiu impedir os idó- Para se justificar, Arão tentou
latras de desafiar o Céu. Ele não se responsabilizar o povo por sua fra-
abalou ao proclamarem diante da queza em ceder ao pedido deles;
imagem fundida: “Eis aí os seus deu- mesmo assim, enchiam-se de admi-
ses, ó Israel, que tiraram vocês do ração por sua bondade e paciência.
Egito” (Êx 32:4). Ele tinha estado O espírito condescendente de Arão e
com Moisés no monte e lá pôde con- o desejo de agradar o povo cegaram
templar a glória do Senhor. Havia seus olhos para que não visse a enor-
sido ele que transformara aquela midade da ofensa por ele permitida.
O Bezerro de Ouro 213
Suas decisões custaram a vida de parte daquela “mistura de gente”
milhares. Em contraste, estava a continuou em rebelião. Em nome do
conduta de Moisés. Ao executar fiel- “Senhor, o Deus de Israel”, Moisés
mente os juízos de Deus, demons- ordenou àqueles que se mantiveram
trava que o bem-estar de Israel era livres da idolatria que empunhas-
mais precioso para ele do que a pros- sem suas espadas e matassem a
peridade, a honra ou a vida. todos os que persistiam na rebelião.
Deus deseja que Seus servos pro- “E naquele dia morreram cerca de
vem sua lealdade a Ele ao repreen- três mil dentre o povo” (Êx 32:28).
derem fielmente o pecado, por mais Os líderes da rebelião foram elimi-
doloroso que seja esse ato. Aqueles nados, porém os que se arrepende-
que são honrados por terem rece- ram foram poupados.
bido uma missão divina não devem As pessoas devem ser cuida-
se exaltar ou negligenciar os deveres dosas quanto à maneira de jul-
desagradáveis, mas realizar a obra gar e condenar os outros. Quando
de Deus com inabalável fidelidade. Deus ordena que executem a sen-
Se não fosse imediatamente re- tença que Ele deu com relação ao pe-
primida, a rebelião permitida por cado, o Senhor deve ser obedecido.
Arão se desencadearia em verda- Aqueles que realizaram esse ato
deira atrocidade e levaria a nação doloroso demonstraram, ao cum-
à ruína. O mal deveria ser elimi- prirem essa ordem, sua indigna-
nado com total severidade. Moisés ção contra a rebelião e a idolatria.
convocou o povo e disse: “Quem O Senhor honrou a fidelidade por
é pelo Senhor, junte-se a mim” eles demonstrada ao fazer uma
(Êx 32:26). Aqueles que não se uni- menção especial à tribo de Levi.
ram aos outros em apostasia de- A justiça contra os traidores de-
veriam ficar à direita; os que eram veria ser executada para a manuten-
culpados, mas que se arrependeram, ção do governo divino. Até mesmo
ficaram à esquerda. Foi constatado nisso a misericórdia de Deus foi
que a tribo de Levi não havia to- demonstrada: Ele deu liberdade de
mado parte no culto idólatra. Entre escolha e oportunidade de arrepen-
as demais tribos havia um grande dimento a todos. Somente aqueles
número que expressou seu arrepen- que persistiram na rebelião é que
dimento. Uma multidão, a maior foram eliminados.
214 Os Escolhidos
Por que a Punição Assim aconteceria no Sinai. Se
Era necessário que esse pecado a transgressão não fosse punida,
fosse punido para que se tornasse os mesmos resultados seriam vis-
uma advertência às nações vizi- tos outra vez. A Terra teria se tor-
nhas quanto ao desagrado de Deus nado tão corrompida como nos
pela idolatria. Dali em diante, toda dias de Noé. Grandes males te-
vez que os israelitas condenassem riam se seguido, maiores ainda
a idolatria, seus inimigos lança- que aqueles que ocorreram por
riam sobre eles a acusação de que ter sido poupada a vida de Caim.
o povo que alegava ter Jeová como Foi pela misericórdia de Deus que
seu Deus tinha feito um bezerro milhares sofreram o castigo para
de ouro e o adorado em Horebe. que não houvesse a necessidade de
Embora fossem obrigados a reco- executar os juízos sobre milhões.
nhecer essa triste verdade, Israel Para salvar a muitos, Ele teve que
poderia apontar para o terrível punir uns poucos.
destino dos transgressores como Além do mais, como o povo
prova de que seu pecado não tinha havia rejeitado a proteção divina,
sido desculpado. toda a nação ficou exposta ao
O amor, não menos que a jus- poder dos inimigos. Logo teriam
tiça, exigia que fosse aplicada a caído como presa de seus pode-
pena. Deus remove aqueles que de- rosos adversários. Foi necessário,
cidem continuar em rebelião para para o bem de Israel, que esse pe-
que não levem outros à ruína. Ao cado fosse punido o mais rápido
poupar a vida de Caim, Deus de- possível.
monstrou o resultado de permitir Não foi demonstrada menos mi-
que o pecado fique sem punição. sericórdia aos próprios pecadores
Sua vida e tudo o que ensinou aos que foram eliminados, impedidos
outros levou ao estado de corrup- assim de seguir o seu mau cami-
ção que determinou a destruição do nho. Se a vida deles tivesse sido
mundo inteiro pelo dilúvio. A histó- poupada, o mesmo espírito que os
ria do povo antediluviano é um tes- levou a se rebelarem contra Deus
temunho de que a grande paciência teria resultado em ódio e conflitos
de Deus e as restrições feitas por entre eles mesmos. Acabariam se
Ele não refrearam a sua maldade. destruindo uns aos outros.
O Bezerro de Ouro 215
Amor Semelhante que não apenas o nome deles fos-
ao de Cristo sem apagados, mas também o seu;
Quando o povo começou a enten- ele não suportaria ver os juízos de
der quão grande era a sua culpa, en- Deus caírem sobre aqueles que ti-
cheu-se de temor, receando que todos nham sido tão miraculosamente li-
os ofensores fossem eliminados. Então bertos por Sua graça. A intercessão
Moisés prometeu interceder por eles de Moisés por Israel ilustra a me-
diante de Deus mais uma vez. diação de Cristo em favor dos peca-
“Vocês cometeram um grande dores. O Senhor não permitiu que
pecado”, disse ele. “Mas agora subirei Moisés carregasse a culpa do trans-
ao Senhor, e talvez possa oferecer gressor, como Cristo fez, e Ele res-
propiciação pelo pecado de vocês” pondeu a Moisés: “Riscarei do Meu
(Êx 32:30). Em sua confissão diante livro todo aquele que pecar contra
de Deus, ele disse: “Ah, que grande Mim” (Êx 32:33).
pecado cometeu este povo! Fizeram Em profunda tristeza, o povo se-
para si deuses de ouro. Mas agora, pultou os seus mortos. Três mil caí-
eu Te rogo, perdoa-lhes o pecado; se ram ao fio da espada; pouco depois,
não, risca-me do Teu livro que escre- uma praga invadiu o acampamento;
veste” (Êx 32:31, 32). e então veio até eles a mensagem
Na oração de Moisés, nossa de que a presença divina não mais
mente é dirigida para os registros os acompanharia em sua jornada:
celestiais, nos quais estão inscritos “Eu não irei com vocês, pois vocês
os nomes de todos, e os seus atos fiel- são um povo obstinado, e Eu pode-
mente registrados, quer sejam bons, ria destruí-los no caminho.” Então
quer sejam maus. O livro da vida Deus ordenou a Moisés que dissesse
contém os nomes de todos os que aos israelitas: “Agora tirem os seus
entregaram a vida a Deus. Se qual- enfeites, e Eu decidirei o que fazer
quer um desses continuou obstina- com vocês” (Êx 33:3, 5). Em penitên-
damente no pecado, endurecendo o cia e humilhação, “do monte Horebe
coração contra a influência de Seu em diante, os israelitas não usaram
Santo Espírito, no juízo, seu nome mais nenhum enfeite” (Êx 33:6).
será apagado do livro da vida. Por ordem divina, a tenda que
Se o povo de Israel fosse rejei- tinha servido como local temporá-
tado pelo Senhor, Moisés preferiria rio de culto foi levada para “fora do
216 Os Escolhidos
acampamento”. Essa era mais uma eles: “Se me vês com agrado, revela-
prova de que Deus tinha retirado me os Teus propósitos, para que eu
deles a Sua presença. O povo sen- Te conheça e continue sendo aceito
tiu profundamente essa repreen- por Ti. Lembra-Te de que esta nação
são. Para as multidões que tinham é o Teu povo” (Êx 33:13).
a consciência pesada, parecia que O Senhor respondeu: “Eu mesmo
uma grande calamidade estava o acompanharei, e lhe darei des-
sendo anunciada. canso” (Ex 33:14). Ainda assim,
Apesar de tudo, não foram dei- Moisés não estava satisfeito. Ele orou
xados sem esperança. A tenda foi para que o favor de Deus fosse resta-
armada fora do acampamento, e belecido ao Seu povo e que o sinal vi-
Moisés a chamou de “Tenda do sível de Sua presença continuasse a
Encontro” (Êx 33:7). Todos os que guiá-los em sua viagem: “Se não fores
se sentiam verdadeiramente arre- conosco, não nos envies. Como se sa-
pendidos e desejavam voltar para o berá que eu e o Teu povo podemos
Senhor eram orientados a ir até lá contar com o Teu favor, se não nos
para confessarem os seus pecados e acompanhares?” (Êx 33:15, 16).
buscarem Sua misericórdia. Quando Então o Senhor disse a Moisés:
retornavam às suas tendas, Moisés “Farei o que Me pede, porque tenho
entrava na Tenda do Encontro. Me agradado de você e o conheço
O povo aguardava por algum sinal pelo nome.” O profeta ainda não
de que suas intercessões por eles parou de suplicar. Ele fez um pe-
fossem aceitas. Quando a coluna de dido que nenhum ser humano Lhe
nuvem desceu e permaneceu à en- tinha feito antes: “Peço-Te que me
trada do tabernáculo, o povo chorou mostres a Tua glória” (Êx 33:17, 18).
de alegria. “Todos prestavam adora-
ção em pé, cada qual na entrada de Moisés Vê a Glória de Deus
sua própria tenda” (Êx 33:10). Em resposta ao pedido de
Moisés, palavras cheias de graça
A Necessária Ajuda de Deus foram pronunciadas: “Diante de
Moisés tinha aprendido que, para você farei passar toda a Minha bon-
liderar o povo com êxito, ele deveria dade” (Êx 33:19). Moisés foi cha-
contar com a ajuda de Deus. Suplicou mado novamente para ir ao alto
pela certeza da presença divina com do monte. Então, a mão que fez o
O Bezerro de Ouro 217
mundo, aquela mão “que transporta adorou” (Êx 34:8). O Senhor bon-
montanhas sem que elas o saibam” dosamente prometeu renovar Seu
(Jó 9:5), tirou essa criatura do pó favor a Israel e fazer maravilhas
e o colocou na fenda da rocha, en- como jamais tinham sido feitas “na
quanto a glória de Deus e toda a Sua presença de nenhum outro povo do
bondade passavam diante dele. mundo” (Êx 34:10). Durante todo
Para Moisés, essa experiência foi esse tempo, assim como no prin-
a certeza de que tudo aquilo era in- cípio, Moisés foi miraculosamente
finitamente de maior valor para ele sustentado. Por ordem de Deus, ele
do que toda a sabedoria do Egito ou preparou duas tábuas de pedra e as
todas as suas realizações como es- levou com ele ao topo do monte; e
tadista ou chefe militar. Nenhum uma vez mais o Senhor “escreveu
poder, habilidade ou conhecimento nas tábuas as palavras da aliança:
terrenos pode tomar o lugar da per- os Dez Mandamentos” (Êx 34:28,
manente presença de Deus. ver Apêndice, Nota 4).
Moisés ficou sozinho na pre- O rosto de Moisés resplandecia
sença do Eterno e não teve medo, com uma luz deslumbrante quando
pois sua vida estava em harmonia ele desceu do monte. Tanto Arão
com a vontade de seu Criador. “Se eu como o povo “tiveram medo de
acalentasse o pecado no coração, o aproximar-se dele” (Êx 34:30). Ao
Senhor não me ouviria” (Sl 66:18). ver como estavam com medo, trans-
Todavia, “o Senhor confia os Seus mitiu a eles a promessa de reconci-
segredos aos que O temem, e os leva liação com Deus. Ouviram em sua
a conhecer a Sua aliança” (Sl 25:14). voz todo o amor e simpatia e, final-
A Divindade passou por Moisés e mente, um dos homens teve coragem
proclamou sobre Si: “Senhor, Senhor, para se aproximar dele. Muito admi-
Deus compassivo e misericordioso, rado e sem conseguir falar, ele apon-
paciente, cheio de amor e de fideli- tou silenciosamente para o rosto de
dade, que mantém o Seu amor a mi- Moisés e então para o Céu. O grande
lhares e perdoa a maldade, a rebelião líder entendeu o que ele queria dizer.
e o pecado. Contudo, não deixa de Conscientes de sua culpa, não pode-
punir o culpado” (Êx 34:6, 7). riam suportar a luz celestial que os
“Imediatamente Moisés pros- teria enchido de alegria se tivessem
trou-se com o rosto em terra, e O sido obedientes a Deus.
218 Os Escolhidos
Moisés cobriu o rosto com um A glória que refletia no sem-
véu e continuou fazendo isso todas blante de Moisés é uma prova de
as vezes que voltava ao acampa- que, quanto mais íntima for a nossa
mento, depois de estar em comu- comunhão com Deus e mais claro
nhão com Deus. o conhecimento que temos de Seus
Pela presença dessa brilhante preceitos, mais plenamente estare-
luz, Deus tinha por objetivo im- mos em harmonia com a imagem
pressionar Israel com o exaltado divina.
caráter de Sua lei e com a glória Assim como Moisés, o interces-
do evangelho revelado por meio sor de Israel, escondeu o seu rosto,
de Cristo. Enquanto Moisés estava Cristo, o divino Mediador, também
no monte, Deus lhe apresentou não escondeu Sua divindade na huma-
somente as tábuas da lei, mas tam- nidade quando veio à Terra. Se Ele
bém o plano da salvação. Ele viu o tivesse vindo revestido do esplen-
sacrifício de Cristo prefigurado em dor do Céu, seres humanos pecado-
todos os tipos e símbolos da era ju- res não suportariam a glória de Sua
daica; e a luz celestial que irradiava presença. Por isso, Ele Se humilhou
do Calvário era nada menos do que e veio “à semelhança de homem pe-
a glória da lei de Deus que também cador” (Rm 8:3), para que pudesse
brilhava no rosto de Moisés. alcançar a raça caída e reerguê-la.
29
O Ódio de Satanás
Pela Lei de Deus
O primeiro esforço de Satanás
para derrubar a lei de Deus
– que ele iniciou entre os seres sem
Mais uma vez, Satanás foi derro-
tado; e, mais uma vez, ele recorreu ao
engano com a esperança de conver-
pecado no Céu – pareceu, por algum ter a derrota em vitória. Procurou
tempo, estar funcionando. Milhares retratar Deus como injusto por
de anjos foram seduzidos. O apa- ter permitido que nossos primei-
rente triunfo de Satanás resultou ros pais transgredissem a Sua lei.
em derrota e perda, separação de “Sendo que Deus sabia qual seria o
Deus e expulsão do Céu. resultado, por que Ele permitiu que
Quando o conflito foi reiniciado Suas criaturas fossem colocadas à
na Terra, parecia que Satanás havia prova e trouxessem sofrimento e
obtido vantagem de novo. Por morte?” Os filhos de Adão, volun-
causa da transgressão, o homem tariamente, deram ouvidos ao ten-
se tornou seu prisioneiro. Parecia tador e reclamaram contra o único
então estar aberto o caminho para Ser que poderia salvá-los do poder
Satanás estabelecer um reino inde- destruidor de Satanás.
pendente e desafiar a autoridade Ainda hoje, muitas pessoas
não apenas de Deus, mas de Seu repetem a mesma queixa de re-
Filho. O plano da salvação permi- volta contra Deus. Não percebem
tiu que o homem voltasse a viver que, se Deus privasse os seres hu-
em harmonia com Deus. manos da liberdade de escolha,
220 Os Escolhidos
Ele os tornaria nada mais do que Satanás começou a armar suas
robôs. Assim como os habitantes ciladas para seduzir e destruir
de todos os outros mundos, nós esse povo. Os filhos de Jacó foram
devemos passar pela prova da obe- tentados a se casar com pessoas
diência, mas nunca sermos colo- idólatras e a adorar seus ídolos.
cados em uma posição em que Entretanto, a fidelidade de José
seja necessário cedermos ao mal. foi um testemunho da verdadeira
Nenhuma tentação ou prova é per- fé. Satanás lutou para apagar essa
mitida além do que somos capazes luz por meio da inveja dos irmãos
de suportar. de José, fazendo com que ele fosse
Com o crescimento da popula- vendido como escravo, mas a von-
ção, quase o mundo todo se uniu tade de Deus prevaleceu.
em rebelião. Era como se Satanás Ao se manter fiel a Deus, tanto
tivesse conseguido sair vitorioso na casa de Potifar como na prisão,
mais uma vez; porém, a Terra foi José foi educado e preparado para
purificada de toda a sua contami- ocupar o cargo de primeiro-ministro
nação moral por meio do dilúvio. da nação. Sua influência foi sentida
em toda a terra do Egito e o conhe-
Por que Deus Escolheu Israel cimento do verdadeiro Deus se es-
Assim diz o profeta: “Ainda que palhou amplamente até os lugares
se tenha compaixão do ímpio, ele mais distantes. Os sacerdotes idóla-
não aprenderá a justiça; […] e não vê tras ficaram alarmados. Instigados
a majestade do Senhor” (Is 26:10). por Satanás, em sua hostilidade
Foi assim após o dilúvio. Os habi- para com o Deus do Céu, usaram de
tantes da Terra se rebelaram con- todos os meios para apagar essa luz.
tra o Senhor. Era a segunda vez Depois que Moisés fugiu do
que o mundo rejeitava a aliança Egito, a idolatria voltou a preva-
com Deus. Tanto o povo que viveu lecer. Ano após ano, as esperan-
antes do dilúvio como os descen- ças dos israelitas iam se acabando.
dentes de Noé rejeitaram a auto- O povo e o rei zombavam do Deus
ridade divina. Deus então fez uma de Israel. Esse espírito de oposição
aliança com Abraão e escolheu para foi aumentando até o ponto em que
Si um povo a fim de que este se tor- se revelou por meio do confronto
nasse o guardador da Sua lei. entre o Faraó e Moisés. Quando o
O Ódio de Satanás Pela Lei de Deus 221
líder hebreu se apresentou diante Ao chegar o tempo da liberta-
do rei com a mensagem enviada ção de Israel, Satanás se propôs a
pelo “Senhor, o Deus de Israel”, não manter aquele povo, mais de dois
foi por desconhecer o verdadeiro milhões de pessoas, na ignorân-
Deus, mas o desafio ao Seu poder cia, superstição, cegueira e escravi-
que o inspirou a perguntar: “Quem dão para que pudesse apagar de sua
é o Senhor, para que eu Lhe obedeça mente a lembrança de Deus.
[...]? Não conheço o Senhor, e não Quando Moisés realizou os pro-
deixarei Israel sair” (Êx 5:2). Do iní- dígios diante do rei, Satanás tentou
cio ao fim, a oposição de Faraó foi contrafazê-los e resistir à vontade
motivada pelo ódio e o desafio. de Deus. Isso apenas preparou o ca-
Nos dias de José, o Egito tinha minho para maiores demonstrações
sido um refúgio para Israel. Deus foi de Seu poder e de Sua glória.
honrado pela bondade demonstrada Deus “fez o Seu povo sair cheio
ao Seu povo, e então Aquele que é mi- de júbilo, e Seus escolhidos com
sericordioso e compassivo deu tempo cânticos alegres […] para que obe-
para que cada juízo por Ele enviado decessem aos Seus decretos e guar-
realizasse a sua obra. Os egípcios ti- dassem as Suas leis” (Sl 105:43, 45).
veram a prova do poder de Jeová e Durante o cativeiro no Egito,
todos os que quisessem poderiam se muitos israelitas tinham perdido
submeter a Deus e escapar de Seus grande parte do que conheciam
juízos. A obstinação do rei apenas re- sobre a lei de Deus e misturaram
sultou no avanço do conhecimento os princípios da lei com os costu-
do verdadeiro Deus e levou muitos mes e tradições pagãos. O Senhor
egípcios a se entregarem a Ele. os levou até o Sinai e, de lá, Ele pro-
A grande idolatria dos egípcios e clamou Sua lei.
sua crueldade durante a última parte Até mesmo enquanto Deus pro-
da peregrinação dos hebreus em suas clamava Sua lei no Sinai, Satanás es-
terras deveria ter feito os israelitas se tava preparando suas armadilhas
afastarem da idolatria e os levado a para levar o povo a pecar. Ao conduzi-
fugir para o Deus de seus pais em los à idolatria, destruiria o signifi-
busca de refúgio. Satanás cegou a cado e a importância de todo o culto.
mente deles, levando-os a imitar as Afinal, como pode o homem adorar
práticas de seus senhores pagãos. aquilo que é representado por uma
222 Os Escolhidos
obra criada por ele mesmo? Se dessa colocaram ao lado de Satanás foram
maneira o povo se esquecesse de seu eliminados, o povo, humilhado e ar-
relacionamento com Deus e se pros- rependido, foi misericordiosamente
trasse diante desses objetos repul- perdoado. Todo o Universo foi tes-
sivos e insensíveis, então as más temunha das cenas do Sinai; todos
paixões do coração não teriam restri- viram o contraste entre o governo
ções e Satanás poderia controlá-los de Deus e o de Satanás.
sem nenhum limite.
Ali mesmo, junto ao Sinai, O Verdadeiro Sinal
Satanás deu início ao seu plano para de Lealdade
abolir a lei de Deus, levando avante A reivindicação divina quanto
a mesma obra que havia começado à reverência e adoração acima
no Céu. Durante os quarenta dias de todos os deuses dos idólatras
em que Moisés esteve no monte está baseada no fato de que Ele
com Deus, Satanás ficou insti- é o Criador. Assim diz o profeta
gando a dúvida, a apostasia e a rebe- Jeremias: “Mas o Senhor é o Deus
lião. Quando o líder do povo saiu da verdadeiro […]. Foi Deus quem fez
presença da glória divina com a lei a Terra com o Seu poder, firmou o
à qual eles tinham prometido obe- mundo com a Sua sabedoria e es-
decer, encontrou o povo da aliança tendeu os céus com o Seu entendi-
ajoelhado em adoração diante de mento. […] Esses homens são todos
uma imagem de ouro. estúpidos e ignorantes; cada ouri-
Satanás planejou destruir todo ves é envergonhado pela imagem
o povo. Como demonstraram estar que esculpiu. Suas imagens escul-
completamente corrompidos, Sata- pidas são uma fraude, elas não têm
nás acreditava que o Senhor se afas- fôlego de vida. São inúteis, são obje-
taria deles. Assim estaria garantida tos de zombaria. Quando vier o jul-
a extinção da semente de Abraão, gamento delas, perecerão” (Jr 10:10,
destinada a preservar o conheci- 12, 14, 15). O sábado, como um me-
mento do Deus vivo, da qual de- morial do poder criador de Deus,
veria vir a verdadeira Semente que aponta para Ele como Aquele que
deveria vencer Satanás. Entretanto, fez o Céu e a Terra. É uma testemu-
o grande rebelde mais uma vez foi nha constante de Sua grandeza, sa-
derrotado. Enquanto aqueles que se bedoria e amor. Se o sábado tivesse
O Ódio de Satanás Pela Lei de Deus 223
sido sempre observado como um pouco respeito e, quando o marido
tempo sagrado, nunca teria exis- morria, tinha que se submeter à au-
tido um ateu ou um idólatra. toridade do filho mais velho. Moisés
O sábado se originou no Éden; é ordenou a obediência dos filhos e
tão antigo como o próprio mundo filhas; mas, ao Israel se afastar do
e foi observado por todos os pa- Senhor, o quinto mandamento,
triarcas, desde a criação. Quando a assim como os outros, passou a ser
lei foi proclamada no Sinai, as pri- desrespeitado.
meiras palavras do quarto manda- Satanás “foi homicida desde o
mento foram: “Lembra-te do dia de princípio” (Jo 8:44), e assim que
sábado para santificá-lo” (Êx 20:8), conseguiu dominar a raça hu-
mostrando que o sábado não foi mana, não somente tentou os ho-
colocado como dia de guarda nessa mens a se odiarem e matarem uns
época. Ele nos aponta para a sua aos outros, mas tornou a violação
origem na criação. O objetivo de do sexto mandamento uma parte
Satanás era derrubar esse grande de sua religião.
memorial. Se os homens pudessem As nações pagãs foram levadas
ser levados a se esquecer de seu a crer que os sacrifícios humanos
Criador, não fariam esforços para eram necessários para que eles con-
resistir ao poder do mal e Satanás seguissem o favor de seus deuses, e
os faria seus prisioneiros. os atos mais terríveis de crueldade
O ódio de Satanás para com a lei foram cometidos sob as várias for-
de Deus o levou a fazer guerra con- mas de idolatria. Entre elas estava o
tra cada um dos Dez Mandamentos. costume de fazer seus filhos passa-
O desprezo à autoridade dos pais rem pelo fogo diante de seus ídolos.
logo conduz para a desobediên- Quando um deles saía sem danos,
cia à autoridade de Deus; por isso, o povo acreditava que suas ofertas
Satanás tem se esforçado para di- tinham sido aceitas. Consideravam
minuir a obrigação imposta pelo que aquele que tinha conseguido se
quinto mandamento. Em muitas livrar era favorecido pelos deuses.
nações pagãs, os pais eram aban- Esse filho passava a receber uma
donados ou mortos assim que se série de benefícios e era muito res-
tornassem incapazes de cuidar de peitado a partir de então. Por mais
si mesmos. A mãe era tratada com terríveis que fossem os seus crimes,
224 Os Escolhidos
nunca recebia qualquer punição. Deus Vencerá a Batalha
Por outro lado, se um filho fosse Multidões dão ouvidos aos en-
queimado ao passar pelo fogo, sua ganos de Satanás e se colocam em
sorte estava selada; a ira dos deu- oposição a Deus. Mesmo em meio
ses somente seria aplacada tirando à operação do mal, os propósitos
a vida da vítima. Em tempos de de Deus avançam para o seu cum-
grande apostasia essas horríveis primento. O Senhor está revelando
práticas pecaminosas chegaram a sua justiça e benevolência a todos
ser praticadas pelos israelitas. os seres inteligentes por Ele cria-
A transgressão do sétimo man- dos. Toda a raça humana se tornou
damento também foi praticada logo transgressora da lei de Deus. Ainda
no início, em nome da religião. Ritos assim, pelo sacrifício de Seu filho,
sexuais pervertidos e baixos se tor- todos podem se voltar para Deus.
naram parte do culto pagão. Os pró- Por meio da graça de Cristo, são ca-
prios deuses eram representados pacitados a obedecer à lei do Pai. Ao
como sendo impuros, e seus adora- longo dos séculos, Deus tem reunido
dores davam rédeas às mais baixas um povo que, conforme Ele afirma,
paixões. As festas religiosas eram “tem a Minha lei no coração” (Is 51:7).
caracterizadas por atos de impureza A maneira como Deus lida com
praticados abertamente. a rebelião irá desmascarar a obra
A poligamia foi um dos peca- que tem continuado encoberta por
dos que trouxeram a ira de Deus tanto tempo. Os resultados de se co-
sobre o mundo antediluviano. locar de lado os preceitos divinos es-
Ainda assim, após o dilúvio, a po- tarão inequívocos diante de todos
ligamia se tornou generalizada. os seres inteligentes criados. A lei de
Por meio de esforços calculados, Deus será reivindicada. Na presença
Satanás buscava perverter a ins- de todo o Universo como testemu-
tituição do casamento, enfraque- nha, o próprio Satanás confessará a
cer suas obrigações e minimizar a justiça do governo de Deus e a im-
sua santidade. Não existia maneira parcialidade da Sua lei.
mais segura pela qual ele pudesse Os terrores do Sinai deveriam re-
desfigurar a imagem de Deus no presentar as cenas do juízo para o
ser humano e abrir as portas para povo. O som da trombeta convocava
o sofrimento e a imoralidade. Israel para se encontrar com Deus.
O Ódio de Satanás Pela Lei de Deus 225
A voz do Arcanjo e a trombeta de feita por Ele. “Então os reis da Terra,
Deus convocarão os vivos e os mor- os príncipes, os generais, os ricos, os
tos de toda a Terra para estarem poderosos” – se esconderão “em ca-
diante da presença de seu Juiz. No vernas e entre as rochas das mon-
grande dia do juízo, Cristo virá “na tanhas” e dirão às montanhas e às
glória de Seu Pai, com Seus anjos” rochas: “Caiam sobre nós e escon-
(Mt 16:27). Todas as nações estarão dam-nos da face dAquele que está
reunidas diante de Sua presença. assentado no trono. […] Pois chegou
Quando Cristo vier em glória com o grande dia da ira deles; e quem po-
Seus santos anjos, toda a Terra será derá suportar?” (Ap 6:15-17).
iluminada com a extraordinária luz Satanás tem defendido que bons
de Sua presença. “Nosso Deus vem! resultados poderiam vir com a trans-
Certamente não ficará calado! À Sua gressão, mas ficará constatado que “o
frente vai um fogo devorador, e, ao salário do pecado é a morte” (Rm 6:23).
Seu redor, uma violenta tempestade. “‘Pois certamente vem o dia, ardente
Ele convoca os altos Céus e a Terra, como uma fornalha. Todos os arro-
para o julgamento de Seu povo” gantes e todos os malfeitores serão
(Sl 50:3, 4). “Isso acontecerá quando como palha, e aquele dia, que está
o Senhor Jesus for revelado lá dos chegando, ateará fogo neles’, diz o
Céus, com os Seus anjos poderosos, Senhor dos Exércitos. ‘Não sobrará
em meio às chamas flamejantes. Ele raiz ou galho algum’” (Ml 4:1).
punirá os que não conhecem a Deus Em meio à tempestade do juízo
e os que não obedecem ao evangelho divino, os filhos de Deus não terão
de nosso Senhor Jesus” (2Ts 1:7, 8). motivos para temer. “O Senhor será
Quando Moisés saiu da presença um refúgio para o Seu povo, uma
divina, no monte, o Israel culpado fortaleza para Israel” (Jl 3:16).
não suportava a luz que glorificava o O grande plano da redenção tem
seu rosto. Muito menos os pecadores o propósito de trazer o mundo de
poderão olhar para o Filho de Deus volta ao favor de Deus. Tudo o que foi
quando Ele aparecer na glória de Seu perdido pelo pecado será restaurado.
Pai, rodeado por todos os Seus san- Não somente a raça humana será
tos anjos, para executar o juízo sobre restaurada, mas toda a Terra, para
os transgressores da Sua lei e aque- se tornar o lar eterno daqueles que
les que rejeitaram a obra de expiação foram obedientes. Então se cumprirá
226 Os Escolhidos
o propósito original de Deus na cria- toda a sua oposição, agressividade e
ção. “Os santos do Altíssimo recebe- procurou destruir, serão honrados
rão o reino e o possuirão para sempre; por todo o Universo sem pecado.
sim, para todo o sempre” (Dn 7:18). “Assim o Soberano, o Senhor, fará
Os sagrados mandamentos de nascer a justiça e o louvor diante de
Deus, aos quais Satanás demonstrou todas as nações” (Is 61:11).
30
A Habitação de Deus
*
em Israel
A ordem foi dada a Moisés
enquanto ele estava no
monte com Deus: “E farão um san-
uma “representação do verda-
deiro”, “cópias das coisas que estão
nos Céus” (Hb 9:23), uma represen-
tuário para Mim, e Eu habitarei no tação em miniatura do templo ce-
meio deles” (Êx 25:8). Ele recebeu lestial onde Cristo, o nosso grande
todas as orientações necessárias Sumo Sacerdote, deveria ministrar
para a construção do tabernáculo. em favor do pecador. Deus deu a
Por causa de sua apostasia, os is- Moisés uma visão do santuário ce-
raelitas não tinham mais direito lestial e ordenou que fizesse tudo
à bênção da presença divina; con- de acordo com o modelo que lhe foi
tudo, quando foram aceitos por apresentado.
Deus novamente, o grande líder Para a construção do santuário,
levou avante a ordem divina. foi necessária uma grande quanti-
O próprio Deus entregou a dade dos mais preciosos materiais.
Moisés o projeto para o santuá- No entanto, o Senhor aceitava ape-
rio, com instruções quanto ao seu nas aqueles que eram ofertados
tamanho, forma, os materiais a voluntariamente.
serem empregados e cada peça dos Todo o povo respondeu ao apelo.
móveis que deveria conter. Os lu- “E todos os que estavam dispos-
gares santos, feitos à mão, eram tos, cujo coração os impeliu a isso,
* Este capítulo é baseado em Êxodo 25-40; Levítico 4; 16.
228 Os Escolhidos
trouxeram uma oferta ao Senhor altura. No entanto, era uma estru-
para a obra da Tenda do Encontro. tura magnífica. A madeira era de acá-
[…] Todos os que se dispuseram, cia, menos sujeita a se deteriorar que
tanto homens como mulheres, qualquer outra que pudesse ser en-
trouxeram joias de ouro de todos contrada na região do Sinai. As pa-
os tipos: broches, brincos, anéis e or- redes eram feitas de tábuas verticais,
namentos” (Êx 35:21, 22). com encaixes de prata, e sustentadas
Enquanto o santuário estava firmemente por colunas e armações
sendo construído, homens, mulhe- para encaixe. Revestidas de ouro,
res e crianças continuaram trazendo davam a aparência de ouro maciço.
suas ofertas até que os responsáveis
pelo trabalho acharam que já tinham Dois Compartimentos,
muito mais do que poderiam usar. Duas Fases
“Então Moisés ordenou que fosse O edifício era dividido em dois
feita esta proclamação em todo o compartimentos por um belo véu, e
acampamento: ‘Nenhum homem outro véu semelhante vedava a en-
ou mulher deverá fazer mais nada trada do primeiro compartimento.
para ser oferecido ao santuário’” Eram confeccionados nas mais
(Êx 36:6). A dedicação, zelo e libera- belas cores – azul, púrpura e escar-
lidade dos israelitas são um exem- lata – com querubins trabalhados
plo digno de ser imitado. Todos os em fios de ouro e prata que repre-
que amam o culto a Deus manifes- sentavam a hoste angélica.
tarão o mesmo espírito de sacrifício A tenda sagrada estava rodeada
na preparação de uma casa onde o por um espaço descoberto, cha-
Senhor possa se encontrar com eles. mado de pátio. A entrada ficava na
Deveríamos doar o necessário para extremidade oriental, fechada por
a realização do trabalho de forma cortinas de bela confecção, mas in-
espontânea, para que os construto- feriores às do santuário. O edifício
res possam dizer como aqueles que podia ser visto pelo povo do lado
construíam o tabernáculo: “Não tra- de fora. No pátio, próximo à en-
gam mais ofertas!” trada, ficava o altar de bronze para
O tabernáculo era pequeno, com as ofertas queimadas, ou holocaus-
não mais de vinte metros de com- tos. Sobre esse altar eram queima-
primento e seis de largura e seis de dos todos os sacrifícios feitos com
A Habitação de Deus em Israel 229
fogo ao Senhor, e suas pontas eram revestido de ouro. Toda manhã
aspergidas com o sangue expiató- e toda tarde, o sacerdote deveria
rio. Entre o altar e a porta do ta- queimar incenso sobre o altar; no
bernáculo estava a pia, que também grande Dia da Expiação, suas pon-
era de cobre, feita com os espelhos tas eram tocadas com sangue da
que tinham sido ofertas voluntárias oferta pelo pecado e também era as-
doadas pelas mulheres de Israel. Na pergido com sangue. O fogo desse
pia, os sacerdotes deveriam lavar as altar tinha sido aceso pelo próprio
mãos e os pés, toda vez que entra- Deus. Dia e noite o santo incenso
vam no tabernáculo sagrado ou se espalhava seu perfume por esses
aproximavam do altar para ofere- compartimentos sagrados, e tam-
cer uma oferta queimada ao Senhor. bém poderia ser sentido do lado de
No primeiro compartimento do ta- fora, ao redor do tabernáculo.
bernáculo, o lugar santo, estavam a Além do véu interior, estava o
mesa dos pães da presença – tam- santo dos santos, o ponto central
bém chamados de pães da propo- da cerimônia simbólica da expia-
sição –, o candelabro e o altar de ção e intercessão, o elo de ligação
incenso. A mesa dos pães ficava do entre o Céu e a Terra. Nesse com-
lado norte; era revestida de ouro partimento estava a arca, reves-
puro. Nessa mesa, a cada sábado, os tida de ouro por dentro e por fora,
sacerdotes colocavam doze pães, em contendo as duas tábuas de pedra
duas pilhas. No lado sul ficava o can- com os Dez Mandamentos. Era cha-
delabro com sete lâmpadas. Os bra- mada “a arca do testemunho” ou
ços do candelabro eram decorados “arca da aliança”, por serem os Dez
com flores artisticamente trabalha- Mandamentos a base da aliança
das, todas confeccionadas em uma feita entre Deus e Israel.
só peça de ouro maciço. As lâmpa- A cobertura da arca era chamada
das nunca eram apagadas todas ao de propiciatório. Era feita de uma
mesmo tempo, para que o ambiente peça de ouro maciço, com dois que-
ficasse iluminado dia e noite. rubins sobre ela, um de cada lado,
Bem em frente ao véu que sepa- também de ouro maciço. A posição
rava o lugar santo do lugar santís- dos querubins, com o rosto voltado
simo, e local da presença de Deus, um para o outro, e olhando reveren-
estava o altar de incenso, todo temente para baixo, na direção da
230 Os Escolhidos
arca, representava a reverência que das glórias do templo de Deus no
a hoste celestial tem para com a lei Céu, o grande centro da obra rea-
de Deus e o seu interesse no plano lizada em favor da nossa redenção.
da redenção. A construção do tabernáculo
Na parte de cima do propicia- foi realizada em aproximadamente
tório estava o shekinah, a manifes- meio ano. Quando foi finalizada,
tação da presença divina. Quando Moisés examinou todo o traba-
necessário, mensagens divinas lho dos construtores “e viu que ti-
eram comunicadas ao sumo sacer- nham feito tudo como o Senhor
dote por uma voz que vinha de den- tinha ordenado. Então Moisés os
tro da nuvem. abençoou” (Êx 39:43). O povo de
A lei de Deus, que estava den- Israel se juntou ao redor para ver a
tro da arca, era a grande regra de sagrada obra construída. A coluna
justiça e juízo. Essa lei condenava o de nuvem se moveu e parou sobre
transgressor à morte; mas, acima da o santuário, “e a glória do Senhor
lei, estava o propiciatório. Por meio encheu o tabernáculo” (Êx 40:34).
da obra expiatória, era concedido o Houve uma revelação da majes-
perdão ao pecador arrependido. “O tade divina e, por algum tempo,
amor e a fidelidade se encontrarão; a nem mesmo Moisés pôde entrar ali.
justiça e a paz se beijarão” (Sl 85:10). Com profunda emoção, o povo con-
templou admirado o sinal de que
Pálido Reflexo da Glória Deus havia aceitado a obra das suas
Celestial mãos. Um solene temor repousava
Linguagem alguma é capaz de sobre todos. A alegria que sentiam
descrever a glória do cenário apre- em seu coração transbordava em lá-
sentado dentro do santuário. As grimas. Deus havia consentido em
paredes revestidas de ouro que re- ir morar com eles.
fletiam a luz vinda do candelabro Nos dias de Abraão, o sacerdócio
dourado; a mesa e o altar de incenso, era considerado um direito do filho
que brilhavam com o ouro, além do mais velho. A partir dessa época, em
segundo véu, a arca sagrada, e sobre lugar do filho mais velho, o Senhor
ela o santo shekinah, a manifesta- aceitou a tribo de Levi para reali-
ção da presença de Jeová – tudo era zar a obra do santuário. No en-
nada mais que um pálido reflexo tanto, somente a Arão e seus filhos
A Habitação de Deus em Israel 231
era permitido servir como reais sa- e romãs nas cores azul, púrpura e
cerdotes diante do Senhor; os de- escarlate. O éfode, uma veste mais
mais que pertenciam à tribo eram curta, era preso por um cinto com
encarregados das responsabilidades as mesmas cores. O éfode não tinha
do tabernáculo e de seu mobiliário. mangas e em suas ombreiras bor-
Os sacerdotes usavam uma ves- dadas em ouro eram colocadas
timenta especial. A veste do sacer- duas pedras de ônix, que traziam
dote comum era de linho branco, os nomes das doze tribos de Israel.
tecida em uma só peça, amarrada à Sobre o éfode estava o peitoral,
cintura por um cinto branco, tam- colocado sobre os ombros e preso
bém de linho, bordado em azul, púr- por um cordão azul. As bordas eram
pura e vermelho. Na cabeça, usava formadas de várias pedras precio-
um turbante de linho, ou mitra, sas, as mesmas que formam os doze
completando seu traje exterior. fundamentos da cidade de Deus.
Os sacerdotes deveriam deixar seus O Senhor declarou: “Toda vez que
sapatos no pátio, antes de entrarem Arão entrar no Lugar Santo, levará
no santuário, e também lavar as os nomes dos filhos de Israel sobre o
mãos e os pés antes de iniciarem as seu coração no peitoral de decisões,
solenidades no tabernáculo. Dessa como memorial permanente pe-
maneira, ficava clara a lição de que rante o Senhor” (Êx 28:29). Assim,
aqueles que se aproximassem da Cristo, o grande Sumo Sacerdote, ao
presença de Deus deveriam remo- pleitear, com Seu sangue, em favor
ver toda contaminação. do pecador, traz sobre o coração o
As vestes do sumo sacerdote nome de todo crente arrependido.
foram feitas com muita dedicação À direita e à esquerda do peitoral
e cuidado, usando tecidos, metais havia duas grandes pedras conheci-
e pedras de grande valor. Assim re- das como Urim e Tumim. Quando
presentavam a elevada posição que levavam questões perante o Senhor
ocupava. Além do traje de linho para serem decididas, se a pedra da
usado pelo sacerdote comum, ele direita ficasse iluminada, era um
usava uma vestimenta azul, tam- sinal do consentimento ou apro-
bém confeccionada em uma só vação de Deus e, se uma nuvem co-
peça. Em toda a volta, a barra era brisse a pedra à esquerda, era prova
decorada com campainhas de ouro de negação ou reprovação.
232 Os Escolhidos
Todas as coisas ligadas à roupa temor por causa dos próprios peca-
e às vestes dos sacerdotes tinham dos ou por causa do próprio sacer-
por objetivo impressionar o povo dote, pois ele poderia ter sido morto
com a santidade de Deus e a pureza pela glória do Senhor.
requerida daqueles que iam à Sua
presença. O Ministério Diário
Toda manhã e toda tarde, um
Prefiguração das Coisas cordeiro de um ano era queimado
Celestiais sobre o altar, simbolizando a con-
Não somente o santuário, mas sagração diária da nação e sua
o ministério dos sacerdotes eram constante dependência do sangue
uma “cópia e sombra daquele que expiatório de Cristo. Somente “uma
está nos Céus” (Hb 8:5). O minis- oferta sem mácula” poderia ser um
tério consistia de duas partes: um símbolo da perfeita pureza de Jesus,
ministério diário e outro anual. que Se ofereceria como “um cor-
O ministério diário era realizado no deiro sem mancha e sem defeito”
altar dos holocaustos, no pátio do (1Pe 1:19). O apóstolo Paulo diz:
tabernáculo e no lugar santo; o mi- “Portanto, irmãos, rogo-lhes pelas
nistério anual era realizado no lugar misericórdias de Deus que se ofe-
santíssimo. reçam em sacrifício vivo, santo e
Nenhum olho mortal, a não ser agradável a Deus; este é o culto ra-
o do sumo sacerdote, deveria ver o cional de vocês” (Rm 12:1). Aqueles
compartimento interno do san- que O amam de todo o coração de-
tuário. Somente uma vez ao ano, o sejarão prestar a Ele o melhor ser-
sumo sacerdote poderia entrar ali. viço de sua vida e buscarão colocar
Em reverente silêncio o povo aguar- toda a força de seu ser em harmo-
dava a sua volta, elevando em seu nia com a vontade divina.
coração fervorosas orações pelas Quando o sacerdote oferecia
bênçãos divinas. Diante do propi- o incenso, era levado mais direta-
ciatório, o sacerdote fazia a expia- mente à presença de Deus do que
ção por Israel, e Deus, na nuvem de em qualquer outro ato do minis-
glória, encontrava-Se com ele. Se o tério diário. A glória de Deus, que
sumo sacerdote demorasse mais do se manifestava sobre o propiciató-
que de costume, o povo se enchia de rio, ficava parcialmente visível no
A Habitação de Deus em Israel 233
primeiro compartimento. Ao ofe- deveriam examinar o coração e
recer o incenso perante o Senhor, confessar os seus pecados. Suas pe-
o sacerdote olhava na direção da tições subiam com a nuvem de in-
arca e, quando a glória divina des- censo, enquanto, pela fé, recebiam
cia sobre o propiciatório, enchia o os méritos do Salvador prometido,
lugar santíssimo, ou muitas vezes representado pelo sacrifício expia-
os dois compartimentos, e o sacer- tório. Tempos depois, quando os
dote tinha que ir para a porta do ta- judeus foram espalhados como es-
bernáculo. Assim como o sacerdote cravos em terras distantes, ainda
olhava com fé para o propiciatório, voltavam o rosto para Jerusalém na
que ele não poderia ver, o povo de hora do sacrifício e elevavam suas
Deus hoje deve dirigir suas orações orações ao Deus de Israel. Os cris-
a Cristo, o grande Sumo Sacerdote tãos veem nesse costume um exem-
que intercede em seu favor no san- plo para a oração da manhã e da
tuário celestial. noite. Deus contempla com grande
O incenso representa os méri- prazer aqueles que se curvam pela
tos e a intercessão de Cristo, Sua manhã e à noite para buscar o per-
perfeita justiça que, pela fé, é atri- dão e apresentar os pedidos de bên-
buída ao Seu povo, e é somente ela çãos de que necessitam.
que torna aceitável a Deus o culto de Os pães da presença eram
seres pecadores. Deveriam se apro- uma oferta perpétua, que faziam
ximar de Deus por meio do sangue parte do sacrifício diário. Estavam
e do incenso – símbolos que apon- sempre na presença do Senhor
tavam para o grande Mediador, por (Êx 25:30), como reconhecimento
meio de quem unicamente a mise- da dependência de Deus, tanto para
ricórdia e a salvação poderiam ser o alimento físico como para o espi-
concedidas ao pecador arrependido. ritual, recebidos somente pela me-
Quando os sacerdotes entra- diação de Cristo. Deus alimentou
vam no lugar santo pela manhã e Israel com o pão do Céu, e ainda
à tarde, o sacrifício diário estava dependiam de Sua generosidade,
pronto para ser oferecido sobre o tanto para o alimento físico como
altar, no pátio. Essa era uma ocasião para as bênçãos espirituais. O maná
de grande interesse; os adorado- e o pão da presença apontavam para
res reunidos junto ao tabernáculo Cristo, o Pão vivo. Ele mesmo disse:
234 Os Escolhidos
“Eu sou o Pão vivo que desceu do À medida que os pecados de Israel
Céu” (Jo 6:51). Os pães eram removi- eram transferidos para o santuário,
dos cada sábado e substituídos por os lugares santos ficavam contami-
pães novos. nados, e era necessária uma cerimô-
A parte mais importante do mi- nia especial para removê-los. Deus
nistério diário era a cerimônia em ordenou que fosse feita uma obra
favor daquele que pecou. O pecador de expiação, ou purificação, para
arrependido trazia a sua oferta à cada um dos compartimentos sa-
porta do tabernáculo e, colocando grados, assim como pelo altar, para
a mão sobre a cabeça da vítima, “purificá-lo e santificá-lo das impu-
confessava seus pecados, transfe- rezas dos israelitas” (Lv 16:19).
rindo-os assim, de maneira sim- Uma vez ao ano, no grande dia
bólica, para a vítima inocente que da expiação, o sumo sacerdote en-
seria sacrificada. Depois o animal trava no lugar santíssimo para rea-
era morto pelas mãos de seu dono, lizar a purificação do santuário. Ele
então o sacerdote levava o san- levava dois bodes para a porta do
gue até o lugar santo e o aspergia tabernáculo e lançava sortes sobre
diante do véu, atrás do qual estava eles, “uma para o Senhor e a outra
a arca contendo a lei que o pecador para Azazel” [ou bode emissário]
transgrediu. Com essa cerimônia, (Lv 16:8). O bode sobre o qual caía
por meio do sangue, o pecado era a primeira sorte deveria ser morto
transferido simbolicamente para o como oferta pelos pecados do povo.
santuário. Em alguns casos, o san- O sacerdote levava o sangue para
gue não era levado para o lugar dentro do véu e o aspergia sobre o
santo (ver Apêndice, Nota 5), mas propiciatório. “Assim fará propiciação
a carne era comida pelo sacerdote, pelo lugar santíssimo por causa das
conforme a orientação de Moisés, impurezas e das rebeliões dos israe-
que disse: “Foi-lhes dada para retirar litas, quaisquer que tenham sido os
a culpa da comunidade” (Lv 10:17). seus pecados. Fará o mesmo em favor
As duas cerimônias simbolizavam da Tenda do Encontro” (Lv 16:16).
a transferência do pecado do peca- “Então colocará as duas mãos
dor arrependido para o santuário. sobre a cabeça do bode vivo e con-
Essa cerimônia era realizada dia fessará todas as iniquidades e re-
após dia, em todos os dias do ano. beliões dos israelitas, todos os seus
A Habitação de Deus em Israel 235
pecados, e os porá sobre a cabeça do o pecador não estava inteiramente
bode. Em seguida enviará o bode livre da condenação da lei. No dia da
para o deserto aos cuidados de um expiação, o sumo sacerdote, após ter
homem designado para isso. O bode oferecido um sacrifício pela congre-
levará consigo todas as iniquida- gação, dirigia-se ao lugar santíssimo
des deles para um lugar solitário” com o sangue e o aspergia sobre o
(Lv 16:21, 22). Até que o bode fosse propiciatório, que estava acima das
enviado, o povo não deveria se con- tábuas da lei.
siderar livre do fardo de seus peca- Dessa forma eram satisfeitas as
dos. Todo o Israel ficaria esperando, reivindicações da lei que exigia a
de coração humilde e contrito, en- vida do pecador. Então, em sua po-
quanto era realizada a obra da ex- sição de mediador, o sacerdote to-
piação. Todo trabalho precisava ser mava sobre si os pecados e, ao sair
deixado e a congregação inteira de- do santuário, levava com ele todo
veria passar o dia em solene humi- o peso da culpa de Israel. Colocava
lhação diante de Deus, com oração, suas mãos sobre a cabeça do bode
jejum e profundo exame de coração. emissário e confessava “todas as ini-
quidades e rebeliões dos israelitas,
Verdades Ensinadas pelo todos os seus pecados” (Lv 16:21).
Dia da Expiação Quando o bode era enviado dali,
Essa cerimônia anual ensinava esses pecados eram considerados
importantes verdades a respeito separados do povo para sempre.
da obra de expiação. Nas ofertas Essa cerimônia era realizada como
pelo pecado, apresentadas durante uma “cópia e sombra daquele que
o ano, um substituto seria aceito está nos Céus” (Hb 8:5).
em lugar do pecador, mas o san-
gue da vítima não fazia a expiação O Santuário Celestial
completa pelo pecado. Provia ape- O santuário terrestre era “uma
nas o meio pelo qual o pecado era ilustração para os nossos dias” do
transferido para o santuário. Pela local em que as ofertas e sacrifícios
oferta do sangue, o pecador confes- são oferecidos; esses dois lugares
sava a culpa de sua transgressão e santos eram “cópias das coisas que
expressava fé nAquele que tiraria estão nos céus” (Hb 9:9, 23). Cristo,
o pecado do mundo. Mesmo assim, nosso grande Sumo Sacerdote,
236 Os Escolhidos
“serve no santuário, no verdadeiro ensinar as importantes verdades re-
tabernáculo que o Senhor erigiu, e lacionadas ao santuário celestial e
não o homem” (Hb 8:2). à obra realizada em prol da reden-
O apóstolo João recebeu uma ção do homem.
visão do templo de Deus no Céu. Depois de Sua ascensão, nosso
Nessa visão, viu que “diante dEle Salvador deveria iniciar Sua obra
estavam acesas sete lâmpadas de como nosso Sumo Sacerdote. “Pois
fogo”. Ele viu um anjo “que trazia um Cristo não entrou em santuá-
incensário de ouro. […] A ele foi dado rio feito por homens, uma sim-
muito incenso para oferecer com as ples representação do verdadeiro;
orações de todos os santos sobre Ele entrou nos Céus, para agora se
o altar de ouro diante do trono” apresentar diante de Deus em nosso
(Ap 4:5; 8:3). O profeta teve per- favor” (Hb 9:24).
missão para ver o primeiro com- O ministério sacerdotal de
partimento do santuário celestial. Cristo consistia de duas gran-
Novamente, “foi aberto o santuário des divisões, cada uma ocupando
de Deus nos Céus”, e ele olhou para um período de tempo e tendo um
além do véu, no santo dos santos. lugar distinto no santuário celestial.
Ali, ele viu “a arca da Sua aliança” O ministério terrestre, um símbolo
(Ap 11:19), representada pelo re- do ministério celestial, consistia de
cipiente sagrado construído por duas divisões – o serviço diário e o
Moisés para conter a lei de Deus. anual – e a cada um era destinado
Paulo declara que “o tabernáculo um compartimento do tabernáculo.
e todos os utensílios das suas ceri- Quando subiu ao Céu, Cristo ficou
mônias”, quando completos, são “có- diante da presença de Deus para in-
pias das coisas que estão nos Céus” terceder, com Seu sangue, em favor
(Hb 9:21, 23). João diz que viu o san- daqueles que creram e se arrepen-
tuário no Céu. Aquele santuário em deram. Como símbolo da Sua inter-
que Jesus ministra em nosso favor é cessão, no serviço diário, o sacerdote
o grande santuário original. O san- aspergia o sangue do sacrifício no
tuário construído por Moisés era lugar santo, em favor do pecador.
uma cópia do santuário celestial. Embora o sangue de Cristo
O santuário terrestre e todo o tenha o poder de libertar o peca-
seu cerimonial tinham por objetivo dor arrependido da condenação da
A Habitação de Deus em Israel 237
lei, isso não apaga o pecado que fica o deserto e separados para sempre
registrado no santuário até a expia- da congregação.
ção final. Da mesma forma, nos ce- Como Satanás é o único respon-
rimoniais simbólicos do santuário sável por todos os pecados que cau-
terrestre, o sangue da oferta remo- saram a morte do Filho de Deus, a
via o pecado do penitente, mas ele justiça exige que ele sofra a puni-
permanecia no santuário até o dia ção final. A obra de Cristo para a
da expiação. redenção de homens e mulheres
No grande dia do juízo final, os e para a purificação do Universo
mortos serão “julgados segundo o da contaminação do pecado es-
que estava registrado nos livros” tará encerrada quando os pecados
(Ap 20:12). Então os pecados de forem colocados sobre Satanás,
todos aqueles que se arrependeram que receberá a condenação final.
serão eliminados dos livros do Céu. Igualmente, o ciclo anual do ceri-
Assim, o santuário está livre, ou pu- monial simbólico também se encer-
rificado, do registro do pecado. Nos rava com a purificação do santuário
serviços simbólicos do santuário e confissão dos pecados sobre a ca-
terrestre, essa grande obra realizada beça do bode emissário.
para apagar os pecados era repre- Nos serviços do tabernáculo, o
sentada pelas cerimônias do dia da povo era ensinado todos os dias a
expiação, a purificação do santuá- respeito das grandes verdades re-
rio pela remoção dos pecados que lacionadas à morte de Cristo e Seu
o contaminavam. ministério no santuário celestial.
Na expiação final, os pecados da- Uma vez ao ano, a mente de todos
queles que se arrependeram serão era levada a contemplar os aconte-
apagados dos registros do Céu, para cimentos finais do grande conflito
nunca mais ser lembrados. Assim entre Cristo e Satanás, a purificação
também, no cerimonial simbó- final do Universo tanto do pecado
lico, os pecados eram levados para como de pecadores.
31
O Pecado de Nadabe
*
e Abiú
D epois da dedicação do
tabernáculo, os sa-
cerdotes foram consagrados à sua
a ordem de Deus ao utilizarem “fogo
profano”. Pegaram o fogo comum e
não o fogo sagrado provido pelo
sagrada função. Essas cerimônias próprio Deus. Por causa desse pe-
duraram sete dias; no oitavo dia, cado, desceu fogo do Senhor e os de-
Arão ofereceu os sacrifícios que vorou diante de todo o povo.
Deus ordenou, e revelou a Sua glória Abaixo de Moisés e Arão, Na-
de maneira surpreendente – fogo dabe e Abiú eram os que ocupavam
desceu do céu e consumiu a oferta posição mais elevada em Israel.
que estava sobre o altar. Em uma Assim como os setenta anciãos, eles
só voz, o povo se ergueu em acla- haviam sido honrados de modo es-
mações de louvor e adoração, cur- pecial pelo Senhor por terem rece-
vando-se com o rosto em terra. bido permissão para contemplar
Pouco tempo depois, uma ter- a Sua glória no monte. Tudo isso
rível calamidade caiu sobre a fa- tornou o pecado deles mais grave.
mília de Arão, o sumo sacerdote. As pessoas que recebem maior luz e,
Seus dois filhos pegaram cada um como os príncipes de Israel, sobem
o seu incensário e queimaram in- o monte, recebendo o privilégio de
censo neles, como cheiro suave pe- manter comunhão com Deus na luz
rante o Senhor. Eles transgrediram de Sua glória, não devem pensar que
* Este capítulo é baseado em Levítico 10:1-11.
O Pecado de Nadabe e Abiú 239
podem pecar sem sofrer as conse- daquilo que determinou. Deus não
quências e que Deus não irá punir pôs em Sua Palavra ordem alguma
com rigor o seu pecado. Grandes pri- que possamos obedecer ou desobe-
vilégios requerem santidade e inte- decer, de acordo com a nossa von-
gridade à altura da luz recebida. tade, e não sofrer as consequências.
Grandes bênçãos jamais dão per- “Então Moisés disse a Arão e a
missão para pecar. seus filhos Eleazar e Itamar: ‘Não
Nadabe e Abiú não foram ensi- andem descabelados, nem rasguem
nados a ter domínio próprio. A falta as roupas em sinal de luto, senão
de firmeza de seu pai o levou a ser vocês morrerão […], porquanto o
desleixado com a disciplina dos fi- óleo da unção do Senhor está sobre
lhos. Permitiu que seus filhos se- vocês’” (Lv 10:6, 7). O grande líder
guissem a própria vontade. Eles se lembrou ao seu irmão as palavras
acostumaram tanto a fazer o que do Senhor: “À vista de todo o povo
bem entendiam que nem mesmo glorificado serei” (Lv 10:3). Arão
o desempenho da função mais sa- ficou em silêncio. A morte de seus
grada teve o poder de interromper filhos por tão terrível pecado – ele
seus hábitos errados. Eles não com- percebeu que aquele pecado era o re-
preenderam a necessidade da es- sultado da negligência dele mesmo
trita obediência às ordens de Deus. ao seu dever – esmagava de angús-
A equivocada tolerância de Arão tia o coração do pai. Ele não deveria
para com seus filhos os levou a se deixar transparecer, por qualquer
tornarem alvos dos juízos divinos. demonstração de tristeza, que sim-
patizava com o pecado. A congrega-
Obediência Parcial não ção não poderia ser levada a achar
é Aceita que a falha estava com Deus.
Deus não aceita uma obediên- O Senhor desejava ensinar Seu
cia parcial. Não era o bastante que povo a reconhecer a justiça de Suas
nessa hora solene, quase tudo esti- correções para que outros também
vesse de acordo com as Suas instru- temessem. Deus reprova aquela
ções. Ninguém se engane em pensar falsa simpatia que tenta desculpar o
que qualquer uma das ordens de pecado. Aqueles que erram não con-
Deus não seja tão essencial ou que seguem entender a enormidade de
Ele aceitará outra coisa no lugar sua transgressão e, sem o poder do
240 Os Escolhidos
Espírito Santo para convencê-los, aqueles que ocupavam posições
ficam quase cegos em relação ao seu de responsabilidade deveriam ser
pecado. Os servos de Cristo têm o muito temperantes a fim de man-
dever de mostrar aos que erram o ter a mente clara e distinguir entre
perigo que correm. Muitos são le- o certo e o errado.
vados à ruína como resultado dessa A mesma obrigação repousa
falsa e enganosa simpatia. sobre todo seguidor de Cristo.
Nadabe e Abiú jamais teriam “Vocês, porém, são geração eleita, sa-
cometido aquele pecado fatal se cerdócio real, nação santa, povo ex-
antes não estivessem sob o efeito clusivo de Deus” (1Pe 2:9). Quando
do vinho que tomavam livremente. se faz uso das bebidas alcoólicas,
Por sua intemperança, não estavam os resultados são os mesmos do
mais qualificados para o desempe- caso daqueles sacerdotes de Israel.
nho da função sagrada. Tinham a A mente perde a sensibilidade para
mente confusa e as percepções mo- o pecado e o coração fica insensível,
rais tão adormecidas que não con- até que a distinção entre o sagrado
seguiam fazer a diferença entre o e o comum perca a sua importância
sagrado e o comum. Deus fez então e não faça mais diferença. “Assim,
uma advertência a Arão e aos seus quer vocês comam, bebam ou façam
dois filhos vivos: “Você e seus filhos qualquer outra coisa, façam tudo
não devem beber […] antes de en- para a glória de Deus” (1Co 10:31).
trar na Tenda do Encontro, senão Uma séria e terrível advertência é
vocês morrerão” (Lv 10:9). O uso de dirigida à igreja de Cristo em todos
bebidas alcoólicas impede as pes- os tempos: “Se alguém destruir
soas de compreenderem a santidade o santuário de Deus, Deus o des-
das coisas sagradas ou o valor das truirá; pois o santuário de Deus,
exigências feitas por Deus. Todos que são vocês, é sagrado” (1Co 3:17).
32
A Graça de Cristo
e a Nova Aliança
A o serem criados, Adão
e Eva tinham conheci-
mento da lei de Deus. Estavam fa-
escolheu Abraão, de quem Ele de-
clarou: “Abraão Me obedeceu e
guardou Meus preceitos, Meus
miliarizados com suas exigências, mandamentos, Meus decretos e
e seus princípios estavam escritos Minhas leis” (Gn 26:5). Deus lhe deu
em seu coração. Quando caíram em o ritual da circuncisão, uma prática
pecado, a lei não foi mudada, mas que deveria ser mantida como um
Deus deu a eles a promessa de um sinal de que permaneceriam sepa-
Salvador. As ofertas sacrificais apon- rados da idolatria e obedeceriam
tavam para a morte de Cristo como à lei de Deus. A falha dos descen-
a grande oferta pelo pecado. dentes de Abraão em cumprir esse
A lei de Deus foi transmitida de compromisso foi a causa de sua
pai para filho por meio de sucessi- escravidão no Egito. Pela influên-
vas gerações, mas foram poucos cia de suas relações com os idóla-
os que lhe obedeceram. O mundo tras e por sua submissão forçada
se tornou tão mau que foi neces- aos egípcios, os princípios divinos
sário purificá-lo de sua corrupção se tornaram ainda mais corrompi-
por meio do dilúvio. Noé ensinou dos com os ensinos depravados do
os Dez Mandamentos aos seus des- paganismo. Foi por esse motivo que
cendentes. Como o homem nova- o Senhor desceu na nuvem sobre o
mente se afastou de Deus, o Senhor Sinai e proclamou Sua lei em tão
242 Os Escolhidos
grande majestade para que todo o Duas Leis: a Moral
povo ouvisse. e a Cerimonial
Mesmo então, Ele não confiou Muitos confundem esses dois sis-
Sua lei à memória de um povo que temas utilizando textos que falam
tão facilmente poderia esquecê-la, da lei cerimonial para provar que a
mas a escreveu em tábuas de pedra. lei moral foi abolida, mas essa é uma
Deus não parou ao dar a eles os Dez distorção da Bíblia. O sistema ceri-
Mandamentos. Ordenou a Moisés monial consistia de símbolos que
que escrevesse juízos e leis, dando apontavam para Cristo, para o Seu
instruções detalhadas sobre o que sacrifício e sacerdócio. Os hebreus
Ele requeria. Essas instruções ape- deveriam cumprir o ritual da lei ce-
nas ampliavam os princípios dos rimonial com seus sacrifícios e orde-
Dez Mandamentos, de maneira nanças até que o tipo encontrasse o
mais específica, para proteger sua antítipo – o símbolo se tornasse reali-
santidade. dade – na morte de Cristo. Então de-
Se os descendentes de Abraão ti- veria cessar todo o sistema de ofertas
vessem se mantido fiéis à aliança, sacrificais. É essa lei que Cristo “re-
que tinha a circuncisão como um moveu, pregando-a na cruz” (Cl 2:14).
sinal, não haveria necessidade de Referindo-se à lei dos Dez Man-
proclamar a lei no Sinai ou gravá-la damentos, o salmista escreveu: “A
em tábuas de pedra. Tua Palavra, Senhor, para sempre
O sistema sacrifical também foi está firmada nos Céus” (Sl 119:89).
pervertido. Por meio dos longos con- O próprio Cristo afirma: “Não pen-
tatos com os idólatras, Israel tinha sem que vim abolir a Lei. […] Digo-lhes
misturado muitos costumes pagãos a verdade: Enquanto existirem céus e
à sua forma de adoração; assim, o terra, de forma alguma desaparecerá
Senhor deu ao povo instruções pre- da Lei a menor letra ou o menor traço,
cisas a respeito do serviço sacrifi- até que tudo se cumpra” (Mt 5:17, 18).
cal. Toda a lei cerimonial foi dada Aqui Jesus ensina que os preceitos da
a Moisés, e ele a escreveu em um lei de Deus serão mantidos enquanto
livro. A lei dos Dez Mandamentos os céus e a Terra existirem.
foi escrita pelo próprio Deus, nas Com relação à lei proclamada no
tábuas de pedra, e guardadas den- Sinai, Neemias diz: “Tu desceste ao
tro da arca da aliança. Monte Sinai; dos céus lhes falaste.
A Graça de Cristo e a Nova Aliança 243
Deste-lhes ordenanças justas, leis raça caída tem sido feita por meio
verdadeiras, decretos e mandamen- de Cristo. Foi o Filho de Deus que
tos excelentes” (Ne 9:13). Paulo, “o fez a promessa da redenção a nossos
apóstolo dos gentios”, declara: “De primeiros pais. Adão, Noé, Abraão,
fato, a lei é santa, o mandamento é Isaque, Jacó e Moisés compreende-
santo, justo e bom” (Rm 7:12). ram a abrangência do evangelho.
Embora a morte de Cristo tenha Esses homens santos dos tempos
colocado um fim à lei dos tipos e passados mantinham comunhão
sombras, não diminuiu a obrigação com o Salvador que viria ao nosso
para com a lei moral. O próprio fato mundo em forma humana.
de que foi necessário Cristo mor- Cristo foi o guia dos hebreus no
rer para que se tornasse possível a deserto, o Anjo que ia adiante deles,
expiação da transgressão dessa lei encoberto pela coluna de nuvem.
prova que ela é imutável. Foi Ele quem deu a lei a Israel. (Ver
Apêndice, Nota 6.) Em meio à gló-
Cristo, o Mediador ria que desceu sobre o Sinai, Cristo
da Nova Aliança proclamou os Dez Mandamentos da
Alguns afirmam que Cristo veio lei de Seu Pai. Foi Ele que deu a lei a
para abolir o Antigo Testamento. Moisés, gravada em tábuas de pedra.
Apresentam a religião dos hebreus Cristo falou ao Seu povo por
como nada mais que meras for- meio dos profetas. O apóstolo Pedro
mas e cerimônias. Isso é um erro. declara que os profetas “que falaram
Ao longo de todos os séculos após da graça destinada a vocês investi-
a queda, “Deus em Cristo estava re- garam e examinaram, procurando
conciliando consigo o mundo” (2Co saber o tempo e as circunstâncias
5:19). Cristo era o fundamento e o para os quais apontava o Espírito
centro do sistema sacrifical. Desde de Cristo que neles estava, quando
que nossos primeiros pais peca- lhes predisse os sofrimentos de
ram, o Senhor entregou o mundo Cristo e as glórias que se seguiriam
nas mãos de Cristo para que, por àqueles sofrimentos” (1Pe 1:10, 11).
Sua obra como Mediador, redi- É a voz de Cristo que nos fala por
misse a humanidade perdida e con- meio do Antigo Testamento. “O tes-
firmasse a autoridade da lei de Deus. temunho de Jesus é o espírito de
Toda a comunicação entre o Céu e a profecia” (Ap 19:10).
244 Os Escolhidos
Enquanto esteve pessoalmente Desde que o Salvador derramou
na Terra, Jesus direcionou a mente Seu sangue e voltou para o Céu “para
do povo para o Antigo Testamento. [...] Se apresentar diante de Deus em
“Vocês estudam cuidadosamente nosso favor” (Hb 9:24), uma luz tem
as Escrituras, porque pensam que brilhado da cruz do Calvário e do
nelas vocês têm a vida eterna. E santuário celestial. O evangelho de
são as Escrituras que testemu- Cristo dá sentido à lei cerimonial.
nham a Meu respeito” (Jo 5:39). À medida que novas verdades são re-
Naquela época, os livros do Antigo veladas, podemos ver de forma mais
Testamento eram a única parte intensa o caráter e os propósitos de
existente da Bíblia. Deus. Cada novo raio de luz propor-
A lei cerimonial foi dada por ciona uma compreensão mais clara
Cristo. Mesmo depois que ela dei- do plano da redenção. Encontramos
xou de ser observada, o grande após- nova beleza e força na Palavra inspi-
tolo Paulo declarou ser ela gloriosa rada e estudamos suas páginas com
e digna de seu divino Originador. interesse cada vez maior.
A nuvem de incenso que subia ao Não era o propósito de Deus que
Céu com as orações de Israel re- Israel levantasse um muro de sepa-
presenta a Sua justiça, pois é ape- ração entre eles e seus semelhantes.
nas por meio dela que a oração do O coração do Amor Infinito circun-
pecador se torna aceitável a Deus. dava todos os habitantes da Terra,
A vítima sangrando sobre o altar procurando Se revelar a eles e torná-
testemunhava de um Redentor que los participantes de Seu amor e de
um dia viria. Assim, ao longo de sé- Sua graça. Sua bênção foi concedida
culos de trevas e apostasia, a fé foi ao povo escolhido para que pudesse
mantida viva no coração humano abençoar outros.
até a vinda do Messias prometido. Abraão não se excluiu do povo que
Jesus era a Luz do mundo antes vivia ao seu redor. Manteve relações
de vir à Terra em forma humana. de amizade com os reis das nações vi-
O primeiro raio de luz que pene- zinhas e, por meio dele e de sua in-
trou nas trevas do pecado veio de fluência, o Deus do Céu foi revelado.
Cristo, e dEle vem todo raio da luz Deus Se manifestou ao povo do
celestial que brilha sobre os mora- Egito por meio de José. Por que o
dores da Terra. Senhor desejou exaltar José de forma
A Graça de Cristo e a Nova Aliança 245
tão grandiosa entre os egípcios? luz, em vez de permitir que ela bri-
Ele o colocou no palácio do rei para lhasse entre os povos ao seu redor,
que a luz do Céu brilhasse longe e fechando-se em seu orgulhoso exclu-
perto. José foi um representante de sivismo como se o amor e o cuidado
Cristo. Os egípcios deveriam ver em de Deus fossem somente deles.
seu benfeitor o amor de seu Criador A aliança da graça foi feita a
e Redentor. Por meio de Moisés, Deus princípio no Éden. Após a queda do
também fez brilhar uma luz ao lado homem, Deus prometeu que a se-
do trono do maior reino da Terra mente da mulher feriria a cabeça
para que todos pudessem ter o conhe- da serpente. Essa aliança oferecia a
cimento do Deus vivo e verdadeiro. todos o perdão e a graça auxiliadora
Quando Israel foi libertado do de Deus para obedecer, por meio
Egito, o conhecimento do poder de da fé em Cristo. Prometia também
Deus se espalhou por toda a parte. a vida eterna sob a condição de fi-
Séculos após o êxodo, os sacerdotes delidade à lei de Deus. Assim, os
filisteus ainda lembravam o povo patriarcas receberam a esperança
das pragas do Egito e os advertia a da salvação, por intermédio dessa
não se oporem ao Deus de Israel. aliança feita com Ele.
Deus renovou essa mesma
Por que Deus Escolheu Israel aliança com Abraão, ao lhe fazer a
Deus chamou os filhos de Israel promessa: “Por meio dela, todos os
para Se revelar por meio deles a todos povos da Terra serão abençoados”
os habitantes da Terra. Para esse pro- (Gn 22:18). Abraão creu em Cristo
pósito, Ele ordenou que se conservas- para perdão dos pecados. Foi essa fé
sem como um povo diferente das que lhe foi atribuída como justiça.
nações idólatras ao seu redor. A aliança com Abraão mantinha
Tanto naquela época quanto hoje também a autoridade da lei de
era muito importante que o povo de Deus. O testemunho de Deus a
Deus se mantivesse puro e incontami- respeito de Seu servo foi: “Abraão
nado. Deus não desejava que Seu povo Me obedeceu e guardou Meus pre-
se excluísse do mundo e assim dei- ceitos, Meus mandamentos, Meus
xasse de exercer sua influência sobre decretos e Minhas leis” (Gn 26:5).
os outros. Foi seu coração perverso e Embora essa aliança tenha sido
incrédulo que os levou a esconder a feita com Adão e renovada com
246 Os Escolhidos
Abraão, não poderia ser confir- a amá-Lo e confiar nEle. Ele os ligou
mada até a morte de Cristo. Ela a Si ao libertá-los do cativeiro.
existia pela promessa feita por Na verdade, eles não compreen-
Deus; foi aceita pela fé, porém, ao diam muito bem a santidade de
ser garantida por Cristo, foi cha- Deus, a imensa maldade de seu cora-
mada de “a nova aliança”. A lei de ção, sua completa incapacidade para
Deus foi a base de Sua aliança, que obedecer à lei de Deus por si mes-
era simplesmente um pacto para mos e a necessidade de um Salvador.
levar os pecadores a viverem nova- Deus deu a eles a Sua lei com a
mente em harmonia com a vontade promessa de lhes conceder gran-
divina, colocando-os onde pode- des bênçãos sob a condição de obe-
riam obedecer à lei de Deus. diência: “Agora, se Me obedecerem
A outra aliança – chamada nas fielmente e guardarem a Minha
Escrituras de “a antiga aliança” – foi aliança, […] serão para Mim um reino
feita no Sinai, entre Deus e Israel, de sacerdotes e uma nação santa”
e foi confirmada pelo sangue de (Êx 19:5, 6). O povo não compreen-
um sacrifício. A aliança feita com dia quão maldoso era o seu coração e
Abraão, confirmada por meio do que, sem Cristo, era impossível guar-
sangue de Cristo, é chamada de dar a lei de Deus. Achando que conse-
“segunda aliança”, ou “nova aliança”, guiriam se manter fiéis pela própria
porque o sangue pelo qual foi selada força, o povo declarou: “Faremos fiel-
foi derramado depois do sangue da mente tudo o que o Senhor ordenou”
primeira aliança. (Êx 24:7). Sem duvidar, eles entraram
Se a aliança feita com Abraão em aliança com Deus. Contudo, pou-
oferecia a promessa da redenção, cas semanas se passaram até que-
por que foi feita outra aliança no brarem sua aliança e se curvarem
Sinai? Durante os anos de cati- em adoração ao bezerro de ouro. Ao
veiro, o povo havia perdido grande reconhecerem seu pecado e a neces-
parte do conhecimento que tinha sidade de perdão, foram levados a
de Deus e dos princípios da aliança sentir a necessidade do Salvador re-
feita com Abraão. Quando os liber- velado na aliança feita com Abraão e
tou do Egito, o propósito de Deus simbolizado pelas ofertas sacrificais.
era revelar a eles o Seu poder e mi- Estavam preparados para valorizar
sericórdia para que fossem levados as bênçãos da nova aliança.
A Graça de Cristo e a Nova Aliança 247
A Nova Aliança e a sido, pois, justificados pela fé, temos
Justificação pela Fé paz com Deus, por nosso Senhor
As condições da antiga aliança Jesus Cristo” (Rm 5:1). “Anulamos
eram: obedeça e viva: “Maldito então a lei pela fé? De maneira ne-
quem não puser em prática as pa- nhuma! Ao contrário, confirmamos
lavras desta lei” (Dt 27:26). A nova a lei” (Rm 3:31). “Porque, aquilo que
aliança foi estabelecida com “melho- a lei fora incapaz de fazer por estar
res promessas”, promessas de per- enfraquecida pela carne, Deus o fez,
dão e da graça divina, para mudar enviando Seu próprio Filho, à seme-
o coração e levá-los a viver em har- lhança do homem pecador, como
monia com a lei de Deus. “‘Esta é a oferta pelo pecado. E assim conde-
aliança que farei com a comunidade nou o pecado na carne, a fim de que
de Israel depois daqueles dias’, de- as justas exigências da lei fossem
clara o Senhor: ‘Porei a Minha lei no plenamente satisfeitas em nós, que
íntimo deles e a escreverei nos seus co- não vivemos segundo a carne, mas
rações. […] Porque Eu lhes perdoarei segundo o Espírito” (Rm 8:3, 4).
a maldade e não Me lembrarei mais Começando com a primeira pro-
dos seus pecados’” (Jr 31:33, 34). messa evangélica e perpassando
A mesma lei que foi gravada pela era patriarcal e judaica até o
em tábuas de pedra é escrita pelo presente, podemos ver que os pro-
Espírito Santo nas tábuas do cora- pósitos de Deus no plano da re-
ção quando aceitamos a justiça de denção têm se desenvolvido pouco
Cristo. Seu sangue expia os nossos a pouco. As nuvens foram removi-
pecados. Sua obediência é aceita em das, o nevoeiro e as sombras de-
nosso favor. Então, pela graça de sapareceram, e Jesus, o Redentor
Cristo, andaremos como Ele andou. do mundo, é revelado. Aquele que
Por meio do profeta, Ele declarou proclamou a lei no Sinai é o mesmo
a respeito de Si mesmo: “Tenho que pregou o sermão no monte.
grande alegria em fazer a Tua von- Os grandes princípios do amor a
tade, ó Meu Deus; a Tua lei está no Deus são apenas uma repetição do
fundo do Meu coração” (Sl 40:8). que Ele disse por meio de Moisés.
O apóstolo Paulo apresenta a re- O Instrutor é o mesmo, tanto nos
lação entre a fé e a lei na nova aliança