II CONGRESSO INTERNACIONAL DE SUPERVISÃO CLÍNICA: LIVRO DE COMUNICAÇÕES & CONFERÊNCIAS
A análise swot como estratégia de
(auto) avaliação: uma partilha de experiências
em contextos de prática clínica supervisionada
Rui Pereira1 & Maria Rito2
1
Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho, Professor adjunto. Enfermeiro Es-
pecialista em Enfermagem Comunitária. Contacto:
[email protected] 2
Escola Superior de Enfermagem da Universidade do Minho, Professor coordenador. Enfermeiro
Especialista na área da Saúde Pública.
Resumo
A avaliação é uma realidade indissociável dos processos formativos e do desenvolvimento
de competências em contextos de prática clínica pelos estudantes de enfermagem. Neste
trabalho, equacionámos a utilização da análise SWOT enquanto metodologia estruturada e
sistematizada de (auto) avaliação em ensinos clínicos/estágios, pretendendo-se ponderar os
ganhos potenciais associados ao recurso à metodologia SWOT, enquanto estratégia comple-
mentar de avaliação das diversas experiências formativas em contextos da prática. Na ge-
neralidade os resultados obtidos apontam para uma significativa utilidade da análise SWOT
enquanto estratégia de apoio à (auto) avaliação, num contexto de reflexão crítica. Também a
simplicidade de utilização e o cariz pragmático a ela subjacente parecem revestir-se de inte-
resse para os estudantes em contexto de prática clínica, nomeadamente a clarificação entre
fatores intrínsecos e extrínsecos, bem como a distinção entre fatores favorecedores e difi-
cultadores da aquisição/desenvolvimento de competências e aprendizagens em contexto de
prática clínica. Numa perspetiva indutiva, a experiência adquirida associada aos resultados
empíricos verificados, apresentam-se como argumentos favoráveis à utilização sistemática
da análise SWOT no contexto dos ensinos clínicos/estágios.
Palavras-chave: análise SWOT; ensinos clínicos / estágios; avaliação; supervisão clínica em
enfermagem.
Abstract
TEvaluation is inseparable from formative processes and the development of skills in the
context of clinical practice of nursing students. In this work, we equate the use of SWOT
analysis as a methodology for structured and systematic (self)evaluation in clinical teaching
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/ internship, pretending to balance the potential gains associated with the use of SWOT me-
thodology as a complementary strategy for evaluating several formative experiences in set-
tings of practice. In general the results suggest a significant usefulness of SWOT analysis as a
strategy to support (self)evaluation in the context of a critical reflection. Also the simplicity
of use and its underlying pragmatic oriented seems to be of interest to students in the con-
text of clinical practice, including the clarification between intrinsic and extrinsic factors, as
well as the distinction between factors enhancers and inhibiting the acquisition and deve-
lopment of skills and learning in the context of clinical practice. In an inductive perspective,
the experience linked to the observed empirical results are presented as arguments for the
systematic use of SWOT analysis in the context of clinical teaching and internship.
Keywords: SWOT analysis; clinical teaching / practice; evaluation; nursing clinical supervi-
sion.
Introdução
A avaliação é uma realidade indissociável dos processos formativos e do desenvolvimento de
competências em contextos de prática clínica pelos estudantes de enfermagem. Em confor-
midade e em concreto, neste trabalho equacionámos a utilização da análise SWOT (Strengths,
Weaknesses, Opportunities, Threats) enquanto metodologia estruturada e sistematizada de
(auto) avaliação em ensinos clínicos/estágios1, pretendendo-se ponderar os ganhos potenciais
associados ao recurso à metodologia SWOT, como estratégia complementar de avaliação em
contextos da prática, no âmbito do ensino pré-graduado de enfermagem2.
O método de análise SWOT foi inicialmente concebido como um modelo de avaliação da posi-
ção de uma organização ou empresa face ao mercado. No contexto de ensino / aprendizagem
e do desenvolvimento de competências associadas à prática clínica, a análise SWOT é elabo-
rada na perspetiva de focar a síntese dos cenários, sinalizando os pontos fortes, pontos fra-
cos, oportunidades e ameaças. Assim, consolidam-se os mais relevantes aspetos / dimensões,
que favorecem ou dificultam as aprendizagens. Em paralelo com a distinção entre dimensões
favorecedoras e dificultadoras anteriormente assinalada, surgem os eixos associados aos fa-
tores intrínsecos e aos fatores extrínsecos. Os primeiros consideram, entre outros, as dimen-
sões de ordem pessoal, individual e específica de cada aluno (e.g. atitudes, comportamentos,
percursos formativos prévios e postura face à aprendizagem em contexto de prática clínica
supervisionada). Quanto aos segundos, encontram-se intimamente ligados a aspetos de or-
dem organizacional, estrutural e institucional, à dinâmica funcional das diferentes unidades
de saúde / serviços e ainda às caraterísticas e perfis dos próprios supervisores e ou tutores.
1
De acordo com ABREU (2003, p. 23), o aluno aprende em ensino clínico quando “integra a informação
e desenvolve uma ação, num contexto de avaliação e controlo, processos que podem ser auto ou hétero-diri-
gidos.”
2
Na realidade, o ponto de partida para a realização deste estudo surgiu pela partilha e concordância dos
autores face a necessidades identificadas previamente em matéria de investigação em supervisão clíni-
ca em enfermagem. Para SIMÕES & GARRIDO (2007, p.606): “É necessário questionarmo-nos sobre que
estratégias escolher para favorecer a aprendizagem desejada e que tipos de transações docente – estudante,
melhor permitirão esta aprendizagem.”
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Depois de realizada a análise SWOT, devem ser direcionados esforços e definidas medidas de
remediação na procura das soluções (personalizadas e individualizadas) mais adequadas, que
permitam superar as dimensões que afetam de um modo mais negativo, o desempenho. Com
o estudo SWOT elaborado, podem-se também identificar e potenciar fatores catalisadores
do sucesso formativo. Concomitantemente, os objetivos e metas serão definidos com maior
precisão e eficácia de modo a adequar e orientar o desempenho para que se atinjam, a um
nível mais elevado, os resultados de aprendizagem / objetivos definidos para o ensino clínico
/ estágio3.
Métodos
Baseados numa lógica de cariz indutivo, partimos de uma reflexão sobre a aplicação da análi-
se SWOT de acordo com o modelo preconizado (Figura 1) por parte dos alunos, cuja utilização
como instrumento de apoio à reflexão crítica e complemento da avaliação formal, tem sido
consistentemente preconizada em ensinos clínicos e ou estágios, no período relativo aos dois
últimos anos letivos, em alunos a frequentar o 4º ano do curso de licenciatura em enferma-
gem, nomeadamente na vertente de cuidados de saúde primários/saúde comunitária.
Figura1 – Modelo de análise SWOT
Complementarmente elaborou-se e aplicou-se um instrumento de colheita de dados a 85 alu-
nos que realizaram o Estágio de Integração à Vida Profissional. O período de colheita de dados
reportou-se aos meses compreendidos entre março e julho do corrente ano (2013), tendo sido
3
O particular ênfase na avaliação e autoavaliação em contextos de prática clínica justifica-se porquan-
to nestes “pretende-se que o aluno desenvolva competências de caráter científico, técnico e humano, num
processo contínuo de crescimento e autonomia pessoal, de forma a ser capaz de planear, concretizar, gerir e
avaliar” a prestação de cuidados de enfermagem (CARVALHO, 2005, p. 104).
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obtida uma taxa de resposta de 100%. O presente instrumento cuja livre resposta ocorreu
após esclarecimento inicial e obtenção do respetivo consentimento informado, assegurava
aos participantes o anonimato, bem como a confidencialidade dos dados fornecidos e assen-
tava em três questões4 fundamentais.
Resultados
Para a sistematização e categorização genérica dos resultados obtidos, foram elencadas as di-
mensões enunciadas pelos alunos que em seguida se apresentam (Quadro 1).
Quadro 1 – Potencialidades / Dificuldades sinalizadas na utilização da análise SWOT por parte dos
estudantes
Potencialidades Dificuldades
• Suporte, estruturação e predisposição para a reflexão; • Assumir algumas dificuldades / debilidades / ameaças;
• Orientação do desenvolvimento pessoal; • Falta de destreza inicial na utilização da ferramenta / instrumento;
• Consciencialização dos pontos desfavoráveis ao desenvolvimento • Dificuldade em alocar certos parâmetros entre “ameaça” ou
de competências e aprendizagens; “oportunidade”;
• Monitorização célere da aprendizagem face à evolução do • O preenchimento numa face inicial revela-se algo complexo;
estágio; • Falta de prática na utilização;
• Abrangência, sistematização e sintetização da análise;
• Caráter esquemático e visual;
• Facilitador da elaboração do relatório crítico de atividades;
A totalidade dos alunos (n=85) entendeu que a utilização da análise SWOT se constitui “como
uma mais-valia no processo de (auto) avaliação e reflexão crítica do estágio”. Idêntico resul-
tado foi observado entre os alunos que consideram globalmente e no contexto em estudo,
a utilização da análise SWOT como “útil e / ou muito útil”. Quanto aos resultados obtidos
relativos às potencialidades / dificuldades assinaladas na sua utilização, foram várias as pers-
petivas expostas.
Discussão
Na generalidade os resultados obtidos apontam para uma significativa utilidade da análise
SWOT enquanto estratégia de apoio à (auto) avaliação, num contexto de reflexão crítica. Tam-
bém a simplicidade de utilização e o cariz pragmático a ela subjacente parecem revestir-se de
interesse para os estudantes em contexto de prática clínica, nomeadamente a clarificação en-
tre fatores intrínsecos e extrínsecos, bem como a distinção entre fatores favorecedores e difi-
cultadores da aquisição/desenvolvimento de competências e aprendizagens em contexto de
prática clínica. Complementarmente o cariz dinâmico e a estrutura alicerçante da evolução
do desempenho em contexto de prática clínica, são potencialidades destacadas pelos alunos.
4
I. De um modo geral entende que a utilização da análise SWOT foi uma mais-valia no processo de
(auto) avaliação e reflexão crítica do seu estágio? II. De que modo caraterizaria a utilização deste ins-
trumento como ferramenta complementar / apoio à sua (auto) avaliação em termos das suas eventuais
potencialidades / dificuldades? III. Atendendo ao contexto anteriormente explicitado, como classificaria
globalmente a utilização da análise SWOT?
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Em termos de dificuldades, denotam-se sobretudo questões inerentes à falta de experiência
na utilização do método, sendo as restantes questões elencadas, inerentes a este fator prin-
cipal. Neste sentido, caberá em primeira instância à equipa docente, uma intervenção ini-
cial, complementada pela continuidade da supervisão pedagógica, que capacite os estudan-
tes para uma utilização adequada do método, nomeadamente atendendo aos pressupostos
expostos no enquadramento do presente trabalho. Também os tutores e supervisores em
contexto da prática, poderão efetuar um acompanhamento em contexto, monitorizando o
evoluir do processo de aprendizagem e aquisição / desenvolvimento de competências com
base na análise SWOT.
Conclusões
A experiência adquirida, associada aos resultados empíricos verificados, apresentam-se
como argumentos favoráveis à utilização sistemática da análise SWOT no contexto dos en-
sinos clínicos/estágios, necessitando contudo de maior e alargada demonstração empírica. A
análise SWOT afigura-se no entanto e preliminarmente, como uma ferramenta de trabalho
extremamente útil podendo (e devendo) ser utilizada continuamente com o objetivo de refle-
xivamente5, clarificar o caminho a ser percorrido em termos de aprendizagem e o que deve
ser feito na persecução, desenvolvimento e aprofundamento das competências anterior-
mente identificadas. De um modo sumário e simplificador, a estratégia SWOT carateriza-se
por identificar, visando a sua eliminação / mitigação os pontos fracos em áreas onde existem
riscos e fortalecer os pontos fortes em áreas onde se identificam oportunidades.
O seu cariz dinâmico deverá ser observado de um modo permanente porquanto a mudança
é a única constante em qualquer contexto de aprendizagem. Neste âmbito, a mudança cons-
tante significa que a análise SWOT não poderá ser feita uma única vez. A sua elaboração e
reavaliação deverão ocorrer de uma modo regular, sendo que, idealmente, a análise inicial e
consequentes revisões de matriz deveriam ocorrer num estádio inicial de integração aos con-
textos de prática clínica, num momento de avaliação intercalar e ainda, aquando da avaliação
final. Recorrendo a este mecanismo dinâmico de feedback e controlo6, percebe-se que alguns
ambientes se mantêm estáveis, enquanto que outros se desenvolvem lentamente, de maneira
previsível e outros ainda, mudam rapidamente e de um modo imprevisível.
5
A este propósito afigura-se como particularmente esclarecedor e assertiva a análise de Carvalho
(2005, P. 66-67) ao postular que: “Muitos cursos, entre o os quais o curso de enfermagem, incorporam pe-
ríodos de prática nos seus currículos. Mas este facto por si só não é garantia do desenvolvimento de qualquer
competência. (…) É necessário que exista um instrumento que permita e facilite a aprendizagem em contexto
de prática. E esse instrumento é a reflexão.”
6
A importância destes mecanismos foi demonstrada por ARAÚJO e colaboradores num estudo de in-
vestigação sobre práticas supervisivas em enfermagem. Neste, os autores concluíram que era funda-
mental “o reforço de práticas interativas por parte dos docentes, não dispersas mas diversificadas, que indi-
ciem um desenvolvimento efetivo da aprendizagem do estudante. Uma orientação convergente, com feedback
ajustado em tempo e em conteúdo (…) são também fundamentais, permitindo ao estudante atingir melhores
resultados.” (ARAÚJO et al. 2012, p. 119).
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Consequentemente, no momento atual, os autores revêm-se na íntegra na perspetiva de
Pearce (2007, p. 25) quando sistematiza que “a SWOT analysis is a simple tool that can be used
in (…) personal development. It is an excellent first method for exploring the possibilities for ser-
vice or personal development, being neither cumbersome nor time consuming, and is effective
because of its simplicity.”
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