Corrimento Vaginal: Definição, Etiologia, Fisiopatologia, Apresentação Clínica Geral
2.1. Definição
A secreção vaginal varia com o período do ciclo menstrual em que a mulher é observada:
pode ser leitosa durante os dias pré e pós menstruais ou clara e aquosa no meio do ciclo
menstrual.
Corrimento vaginal é, por definição, a mudança de cor, cheiro ou aumento do volume da
secreção vaginal, resultantes de uma infecção vaginal ou cervical. O corrimento vaginal é a
consequência de uma inflamação das paredes da vagina ou do colo do útero (vaginite ou
cervicite). É portanto uma síndrome, causada por diferentes agentes etiológicos e/ou
patologias.
É importante diferenciar uma secreção vaginal normal (fisiológica) da secreção provocada
por uma infecção de transmissão sexual ou por outras.
2.2. Etiologia:
As causas mais comuns de corrimento vaginal no nosso meio são as seguintes:
• Vaginoses bacterianas (Gardenerlla Vaginalis e outras bactérias).
• Gonorreia,
• Trichomas vaginalis.
• Cândida albicans,
• Clamídia trachomatis
Outras causas menos comuns de corrimento vaginal são:
• Vaginite pós traumática
• Vaginite atrófica - encontrada em mulheres na menopausa devido a deficiência das
hormonas.
2.3. Fisiopatologia
A transmissão dos agentes infecciosos é feita através de contacto íntimo, principalmente
por relações sexuais sem preservativo. A presença do microorganismos no tracto urogenital
resulta em processos inflamatórios com respectivas manifestações clínicas que incluem
principalmente irritação vulvar com ou sem prurido e secreção vaginal de diferentes
características. Se não tratadas, estas infecções podem acometer os órgãos genitais internos
por via ascendente, linfática ou hematogénea e causar um quadro potencialmente grave
denominado Doença Inflamatória Pélvica (DIP). Os principais agentes envolvidos nos
casos de DIP são a N. Gonorrhoeae e a C. Trachomatis.
2.4. Manifestações Clínicas gerais
Dependendo do agente causal, o corrimento vaginal pode vir acompanhado de prurido,
disúria, dispareunia (dor durante o coito) e causar edema ou hiperemia da vulva.
Quanto as características, o corrimento pode ser abundante, em pequena quantidade, ter cor
amarelada ou branca e apresentar odor específico.
Figura 1. Vagina esbranquiçada por secreção vaginal
BLOCO 3: DIAGNÓSTICO E TRATAMENTO DAS DIFERENTES CAUSAS DE
CORRIMENTO VAGINAL
Conforme referido na aula 11, através dos testes microbiológicos do corrimento vaginal, é
possível determinar o(s) agente(s) etiológico(s) específico(s) envolvido em caso de
corrimento vaginal. No nosso contexto, o tratamento das ITS é feito por abordagem
sindrómica, e diagnóstico e tratamento etiológico está indicado quando o tratamento
sindrómico falha e em casos complicados. Para fins didácticos, nesta aula descreve-se
primeiro o diagnóstico e tratamento etiológico do Corrimento vaginal e posteriormente será
descrita a abordagem sindrómica.
A tabela abaixo mostra as principais causas de corrimento vaginal, seu diagnóstico e
tratamento apropriados.
Causa da Agente Sinais e Exames Tratamento
Vaginite etiológico Sintomas Laboratoriais
Gonorreia Neisseria A maioria dos Exame directo dos Ciprofloxacina
Gonorrhoea casos é esfregaços, aonde 500mg, VO, dose única ou,
e assintomática. são observados Cefixime 400 mg via oral dose
Pode causar diplococos Gram única ou,
corrimento negativos Kanamicina 1 g IM dose única
vaginal, disúria, Cultura
polaciúria e
dispareunia Grávidas: Cefixime 400 mg via
oral dose única
Trichomonas Trichomonas Corrimento Exame directo a Metronidazol 2g, VO, dose
vaginalis vaginalis vaginal amarelo fresco da secreção. única ou,
esverdeado, Coloração de Gram Metronidazol 500mg, 12/12hs,
bolhoso com aonde se observa o 7 dias
mau cheiro, Trichomonas.
com ou sem Teste de Nas gestantes só administrar
prurido,com Papanicolau. Metronidazol após o 1º.
hiperemia da Cultura Trimestre
vulva e
dispareunia
Cândida Cândida Corrimento Exame directo a Clotrimazol óvulos, 500 mg, uso
albicans vaginal branco fresco da secreção vaginal, dose única a noite, ou
em grumos aonde se observa a
(aspecto de Cândida albicans. Nistatina óvulos de 100.000 UI,
iogurte), com Coloração de 1 óvulo vaginal a noite, 14 dias
prurido intenso Gram.
e hiperemia da Teste de
vulva Grávidas: Clotrimazol óvulos,
Papanicolaou. 500 mg, uso vaginal, dose única
Cultura a noite
Nas pacientes seropositivas e
nos casos com doença extensa
ou recorrente administrar:
Clotrimazol óvulos, 500 mg, uso
vaginal a noite, 3 dias e associar
medicação oral:
Fluconazol 150mg, VO, dose
única
Clamídia Clamídia Maioria é Cultura de células Azitromicina
trachomatis assintomática. e PCR (Reacção de 1g, VO, dose única, ou
Corrimento Cadeia Polimerase) Doxiciclina
vaginal 100mg, VO
amarelado,
disúria, 12/12h, 7 dias
polaciúria e Grávidas: Azitromicina 1g, VO,
dispareunia com dose única
ou sem
sangramento
pós coito
Vaginose Gardnerella Corrimento Presença de células Metronidazol 2g, VO, dose
Bacteriana vaginalis e vaginal com típicas no única ou,
outras odor de “peixe esfregaço vaginal. Metronidazol 500mg, VO,
bactérias morto”, ou Teste da solução 12/12hs, 7 dias
fétido, com de soro fisiológico
aspecto com hidróxido de Nas gestantes só administrar
cremoso ou potássio (KOH) a Metronidazol após o 1º.
acinzentado. 10%. Trimestre
Corrimento
aumenta no
período após a
menstruação e
depois da
relação sexual .
O odor do
corrimento é
mais forte após
relações sexuais
sem
preservativo
Vide abaixo: notas e precauções sobre a medicação
O tratamento da síndrome do corrimento vaginal não é só medicamentoso. É de suma
importância também fazer o aconselhamento, oferecer o teste de HIV, teste para sífilis
(RPR ou VDRL) e serologia para hepatite B, quando disponível.
Todas as mulheres que são diagnosticadas da síndrome de corrimento vaginal devem
receber preservativos. Deve-se perguntar se os parceiros sexuais estão sintomáticos e fazer
o convite para os parceiros comparecerem a Unidade Sanitária e agendar o retorno.
Notas e precauções sobre os medicamentos usados no tratamento do corrimento vaginal
Para mais detalhes consultar a disciplina de Introdução à Ciências Médicas e Formulário
Nacional de Medicamentos:
1. Ciprofloxacina (oral)
• Contra-indicada na gravidez e lactação, não recomendado uso em crianças e
adolescentes.
2. Cefixime (oral)
• Contra-indicado se alergia à cefalosporinas e penicilinas.
3. Kanamicina (IM)
• Provoca ototoxicidade e nefrotoxicidade. Na gravidez deve-se usar só se não houver
alternativas devido ao risco de ototoxicidade fetal.
• Deve-se evitar tratamento por mais de 6 dias e não exceder a dose máxima de 10
gramas.
4. Metronidazol (oral)
• Frequentemente provoca sintomas de irritação gastrointestinal.
• Contra-indicado no 1º trimestre da gravidez, insuficiência hepática severa e
alcoolismo crónico.
• Administrar de preferência durante as refeições para reduzir irritação
gastrointestinal. Deve-se evitar consumo de bebidas alcoólicas durante o tratamento até 1 a
2 dias depois.
5. Azitromicina (oral)
• Contra-indicado em caso de sensibilidade a qualquer macrólido.
• Não tomar em simultâneo com medicamentos que contenham alumínio e magnésio.
Administrar os comprimidos 1 hora antes ou 2 horas depois das refeições.
6. Doxiciclina (oral)
• Contra-indicado na gravidez, lactação e crianças menores de 12 anos.
• A presença de alimentos (sobretudo leite e derivados) diminui a absorção.
7. Clotrimazol (óvulos vaginais)
• Usar com precaução no 1º trimestre da gravidez.
8. Nistatina (óvulos vaginais)
• Melhores resultados com uso concomitante de creme para tratamento da vulvite
(quase sempre associada).
9. Fluconazol (oral)
• Contra-indicação relativa na gravidez, insuficiência renal e hepática. Usar com
muita precaução na gravidez, lactação e em doentes renais.
• Provoca hepatotoxicidade.
10. Ketoconazol (oral)
• Contra-indicado na gravidez, doença hepática grave e lactação. Contudo, perante
necessidade de uso, avaliar para cada caso o risco/benefício e monitorar periodicamente o
doente.
• Provoca hepatotoxicidade.
ABORDAGEM SINDRÓMICA DAS ITS COM CORRIMENTO VAGINAL
4.1. Introdução
Nas Unidades Sanitárias do país, o tratamento das ITS é feito com base na abordagem
sindrómica. O diagnóstico baseado no agente etiológico é feito nos Hospitais de Referência
e está reservado para os casos de resistência e casos complicados.
forma sindrómica. Durante a anamnese o clínico deve perguntar à paciente sobre o aspecto
do corrimento vaginal, se tem odor característico e se apresenta a sintomatologia associada:
prurido vulvar, dor a micção (disúria), dor durante a relação sexual (dispareunia), edema ou
hiperemia da vulva.
Toda paciente com queixa de corrimento vaginal deve ser examinada. A inspecção da vulva
e do corrimento e o toque bimanual devem ser realizados.
A abordagem sindrómica do corrimento vaginal é feita utilizando um algoritmo específico.
Neste algoritmo há perguntas sobre os sinais e sintomas apresentados. Segundo as respostas
colhidas, “SIM” ou “NÃO”, o algoritmo vai confluindo para um diagnóstico e indica o
tratamento preconizado.
Algoritmo de corrimento vaginal
O algoritmo acima orienta acerca da conduta a ter em casos de corrimento vaginal. O
conhecimento das características específicas de cada tipo de corrimento faz com que a
interpretação e uso do algoritmo sejam mais fáceis para o clínico.
Regra geral, o algoritmo orienta para:
• Uso de algoritmo de dor no baixo-ventre nos casos em que há corrimento vaginal
associado à dor no baixo-ventre;
• Administração de tratamento para Gonorreia, Clamídia, Vaginose bacteriana e
Tricomoníase nos casos em que a especuloscopia revelar alterações do corrimento;
• Administração de tratamento para Vaginose bacteriana e Tricomoníase nos casos
em que a especuloscopia não revelar alterações do corrimento e não houver prurido
assocido;
• Administração de tratamento para Vaginose bacteriana, Tricomoníase e Candidíase
nos casos em que a especuloscopia não revelar alterações do corrimento e houver prurido
associado;
• Administração de tratamento para Gonorreia, Clamídia, Vaginose bacteriana e
Tricomoníase nos casos em que a especuloscopia não for possível, e o corrimento não
estiver associado ao prurido vaginal;
• Educação preventiva, rastreio e tratamento dos contactos sexuais, notificação dos
casos, em todas as situações.
Critérios de referência para nível superior
O Técnico de Medicina deve ser capaz de reconhecer quando uma ITS se apresenta com
sinais de gravidade.
Abaixo estão listados os critérios de gravidade que devem levar ao TM a referir os casos
para o nível de atendimento competente:
• Infecções resistentes ao tratamento usual ou de primeira escolha;
• Pacientes com infecções recorrentes apesar de tratamento apropriado;
• Doença inflamatória pélvica com suspeita de um quadro infeccioso grave;
BLOCO 5: COMPLICAÇÕES DAS INFECÇÕES POR GONOCOCO E CLAMÍDIA
As infecções de transmissão sexual causadas por Gonococo e Clamídia têm alta incidência
no nosso meio. Estas doenças podem cursar com poucos sintomas na sua fase inicial, por
isso, muitas mulheres portadoras desta infecção não procuram atendimento. Quando o
diagnóstico não é feito precocemente, e o tratamento adequado não é instituído, estas
doenças podem evoluir e causar complicações clínicas na mulher e quando gestante, na
criança que está sendo gerada.
As complicações mais comuns causadas por estas duas ITS são:
• Aumento do risco da transmissão do HIV de mãe para filho em cerca de cinco
vezes;
• Doença Inflamatória Pélvica ou cervicite;
• Abortos espontâneos, sobretudo no primeiro trimestre da gravidez;
• Morte fetal;
• Baixo peso ao nascer ou prematuridade;
• Infecção congénita da criança;
• Contaminação da criança durante o parto, causando infecção ocular.