Consequências do Abuso Sexual Infantil
Consequências do Abuso Sexual Infantil
CURSO DE PSICOLOGIA
BRASÍLIA-DF
DEZEMBRO/2007.
TATIANA GUIMARÃES IKAWA
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Professor Maurício da Silva Neubern, Doutor em Psicologia.
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Professora Carlene Dias Tenório, Doutora em Psicologia.
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Professor Fernando González Rey, Doutor em Psicologia.
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Agradecimentos
Agradeço primeiramente a Deus, pois muitas vezes me desanimei com esse trabalho e
Muito obrigada aos meus pais, irmãos, avó e tia Teresa por toda a torcida e apoio.
Obrigada pela paciência com meus momentos de desespero e irritação. Sem vocês realmente
Agradeço o meu orientador Maurício Neubern por todo o carinho e paciência. Por ter
Agradeço a Patrícia, por todo carinho e amparo que tive em momentos de desespero e
angústia. Pois sempre emprestou um pouco do seu tempo para me ouvir e me aconselhar.
Agradeço a Fernanda por sempre me apoiar e incentivar e por todo o carinho não só
Aos amigos que compreenderam minha ausência nesses meses: Odália, Juliana,
e Beatriz.
Faço dois agradecimentos especiais.: Aos meus avôs José Francisco e Masachika
Ikawa. Na verdade não são agradecimentos. Dedico a eles todo esse trabalho. Pois gostaria
muito que estivessem aqui para comemorarem junto comigo mais uma etapa da minha vida.
iv
SUMÁRIO
RESUMO........................................................................................................................... V
INTRODUÇÃO................................................................................................................. 06
2.2. Sofrimento......................................................................................................................25
CONCLUSÃO.....................................................................................................................42
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS..............................................................................46
v
RESUMO
O presente trabalho tem como objetivo uma reflexão acerca das conseqüências do abuso
sexual, assim como as medidas que podem ser utilizadas para trabalhar de forma individual e
com a família. Inicialmente é realizada uma reflexão sobre a definição do que vem a ser abuso
sexual no sentido legal e psicológico, na perspectiva de diversos autores. Em seguida
apresenta-se o conceito de infância, assim como as mudanças que tal definição sofreu e sofre
com o momento histórico, dificultado muitas vezes um entendimento mais claro do que vem a
ser criança e com isso o que vem a ser abuso sexual e suas relações com a noção de infância.
E com isso proporcionar uma reflexão se esse conceito de infância desapareceu ou não de
nossa sociedade. Da mesma forma, procura-se refletir sobre o conceito de família e sua
origem. O abuso sexual apresenta sinais tanto físicos como psicológicos, que por sua vez,
geram diversos tipos de sofrimentos. O enfoque psicológico é discutido nesse trabalho, no
sentido de refletirmos acerca da dinâmica familiar que apresenta o abuso como parte
reguladora desse sistema e com isso desenvolve o surgimento do segredo e demais conflitos
relacionais entre os membros da família, e o meio social em que se encontram inseridos,
assim como as conseqüências a curto e longo prazo do abuso para todos os membros desse
sistema, não só para a vítima. Também é abordada nesse momento a questão da perpetuação
da violência. O trabalho com famílias abusivas requer toda uma preparação da equipe, a fim
de promover com segurança a revelação por parte da vítima e com isso proporcionarem uma
reestruturação familiar sem que o abuso continue. Visa também a continuidade do tratamento
incluindo todos os sujeitos do sistema envolvido e uma reconstrução da identidade de todos os
membros do sistema familiar, possibilitando um novo olhar e vivência em relação ao processo
de abuso sexual. Reflexões acerca das medidas terapêuticas desenvolvidas e sua eficiência. E
o por que do trabalho em equipe, ou seja envolvendo diversos profissionais juntos, tais como
advogados, assistentes sociais, psiquiatras, médicos psicólogos, entre outros. Cabe a todos os
profissionais envolvidos compreensão acerca do abuso sexual intrafamiliar, seu contexto, a
visão que cada membro apresenta em relação ao abuso. Os mecanismos que os membros da
família apresentam para não lidarem com a realidade de abuso e com isso muitas vezes
dificultarem o processo terapêutico.
casto. Definido, de forma geral, como uma coação exercida por um adulto ligado à criança
O abuso e a violência sempre existiram na história, porém de forma sempre velada por
século XIX, época em que surgiram os reformatórios sociais, sendo a maioria de orientação
todas as classes sociais e cuja incidência não se revela no seu inteiro teor, já que, na grande
conhecimento e preocupação com a sua saúde mental, tornando possível a visão do abuso
sexual infantil por diversas vertentes, muito embora esta integração desses “olhares” esteja
caminhando lentamente.
situacionais.
adultos com crianças e adolescentes como objeto gratificante para as necessidades ou desejos
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sexuais do adulto e que causam danos a essas vítimas. Importante lembrarmos que o abuso
sexual também é possível entre um adulto agindo como abusador de outro adulto.
Segundo Furniss (2002), o abuso sexual deve ser visto e abordado tanto pelo aspecto
dos direitos da criança, como pelo aspecto de promover sua saúde física e psicologia. Mas,
menos graves, que são aqueles cometidos entre parentes afins, sobrinhos, cunhados e outros,
assim como a separação dos incestos consangüíneos das outras formas de relações
incestuosas: os para-incestos, que são aqueles nos quais as pessoas poderiam ser consideradas
parentes, como, por exemplo, entre o amante da mãe com a filha desta, ou entre filhos que
moram juntos mas que têm pais diferentes; e os incestos polimorfos, os quais alguém se
considerado como equivalente do incesto por envolver o poder do mais forte sobre o mais
fraco.
das emoções e dos conflitos familiares. O impacto emocional geralmente ocorre devido a
influência cultural em relação ao assunto. Mas outro fator de extrema relevância nesse caso é
o papel de adulto que a criança ou o adolescente passa a desempenhar nessa situação, sendo
que esse era o papel que seus responsáveis deveriam desenvolver, e muitas vezes são esses
As fronteiras do indivíduo não estão limitadas por sua pele, mas incluem tudo aquilo
com que o sujeito interage (isto significa que) as fronteiras do sistema significativo do
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indivíduo não se limitam à família nuclear ou extensa, mas incluem todo o conjunto de
Assim, as dificuldades vividas por uma determinada pessoa, devem ser analisadas de
um ponto de vista que abranja à família e à sociedade em que aquela está inserida, ou seja
A violência sexual é um evento que abala toda a família, assim como toda a rede
social, por se encontrar dificuldade em ser discutida, avaliada e na buscar ações imediatas de
violação de tabu sociais, que pode gerar desconforto na família e nos profissionais que lidam
favorecendo sua continuidade. Segundo Ferrari e Vecina (2002), algumas possibilidades são
pensadas quanto a manutenção do segredo pelo cônjuge, tais como: medo de agressão; recusa
em lidar com a perda, já que qualquer tomada de atitude dele pode implicar no afastamento do
companheiro ou do filho que está sofrendo agressão. A manutenção do segredo pela criança
ou adolescente pode ocorrer pois este acredita que ninguém dará credibilidade ao que ela diz
ou que ninguém seria capaz de protegê-la; pode temer perder o afeto do agente da agressão.
Furniss sugere que o terapeuta introduza uma ‘idéia’ sobre um segredo, como um
procedimento que se pode adotar sem pressionar a criança para a revelação. Ele utiliza “A
Estória de uma Outra Criança”, como metáfora para falar daquilo que ela mesma vivencia.
seja, o que ocorre no sistema familiar que apresenta a violência como parte de sua dinâmica
familiar e as conseqüências que esse abuso gera a curto e longo prazo para a vítima e sua
família. Conseqüentemente o trabalho aborda meios de intervenção para esses casos. Meios
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Para isso, o trabalho foi estruturado da seguinte forma: num primeiro momento
concepções acerca do tema. Em seguida, é feita uma reflexão da origem do termo infância, as
mudanças que esse conceito sofreu com o passar do tempo e a influência cultural que é
como a família teve que se posicionar e se reestruturar diante dessas mudanças que a infância
intrafamiliar. Assim como os mecanismos utilizados pela vítima para lidar com o abuso.
Nesse momento também são apresentadas reflexões acerca da perpetuação de tal violência.
Num terceiro momento o trabalho aborda a família que apresenta como dinâmica de
suas relações a violência. Assim como o segredo que permeia tais relações, ou seja, a função
que tal segredo pode estar desenvolvendo nesse sistema e o porque é mantido pelos membros
da família.
Por fim, o trabalho discute formas de intervenção com famílias que apresentam a
dinâmica o abuso sexual. Como o trabalho deve ser desenvolvido pelos profissionais e os
cuidados que devem ser tomados. A intervenção que é mencionada no trabalho também serve
como prevenção, a fim de evitar a continuidade do abuso. Para isso fortalecendo todo o
Segundo Furniss (1993), o abuso sexual da criança é tanto uma questão política quanto
afirma também que a consciência cada vez maior do abuso sexual da criança por parte dos
profissionais tem sua origem em duas fontes. A primeira é o crescente movimento dos direitos
Segundo alguns autores o termo abuso é usado para definir uma forma de maus-tratos
de crianças e adolescentes, que apresenta tanto violência física como psicológica, geralmente
responsáveis. Por sua vez Watson (1994) define abuso sexual como qualquer atividade ou
Friedman (1990) sugere que os estatutos que tratam do abuso sexual da criança
deveriam abordar, como principal fator em sua definição, a habilidade de consentir livremente
variável particular (idade, nível cognitivo, força, habilidades sociais, maturidade física, etc.) e
haveria uma análise completa da situação por parte do promotor (na decisão da acusação) e do
Segundo Gabel (1997), o abuso sexual supõe três níveis: o forte, aquele que exerce o
poder sobre o fraco. A dependência que o fraco possui em relação ao forte e o atentado ao
Numa concepção antropológica, Chauí (1985), define o abuso sexual como uma
uma assimetria de uma relação hierárquica, que possui como fins a dominação, exploração e
opressão. Já no outro pólo o ser humano é tratado como coisa, e não como sujeito.
envolvido, pois, acreditam que deve haver uma diferença de idade de cinco anos ou mais
quando a vítima é menor de 12 anos e uma diferença de dez anos ou mais quando a criança
DePanfilis e Salus (1992 apud Amazarray & Koller, 2005) apresentam a distinção
entre abuso sexual e estupro, sendo que para ser considerado abuso sexual, os atos devem ser
cometidos por uma pessoa responsável pelo cuidado da criança, já no estupro os atos são
cometidos por uma pessoa que não é responsável pelo cuidado da criança, caracterizado por
uma agressão sexual que inclui relação sexual contra a vontade da vítima.
O paradigma jurídico, que tem como base a teoria penal brasileira, considera os crimes
sexuais como crimes contra os costumes, e não contra a pessoa, ou seja, a violência sexual
não é considerada uma violação dos direitos humanos individuais, mas transgressões aos
São considerados tipos de abuso aqueles nos quais não há contato físico, como por
maioria das vezes, na posição de poder do agente sobre a vítima, que é chantageada ou
ameaçada pelo agressor; Abuso sexual verbal, definido por conversas abertas sobre atividades
telefonemas obscenos, a maioria deles é feita por adultos, especialmente do sexo masculino.
campo de visão deles. A intenção, neste caso, é chocar a vítima. A experiência pode ser
Também há os abusos com contato físico, como por exemplo: Atentado violento ao
pudor que consiste em constranger alguém a praticar atos libidinosos, utilizando violência
grave ou ameaça. Aqui, seria forçar a criança ou o adolescente a praticar tais atos ou forçá-los
a permitir a prática de tais atos. Eles podem ser masturbações e/ou toque em partes íntimas,
sexo anal e oral. Dessa categoria devem fazer parte todos os tipos e formas de violência
sexual praticadas contra crianças e adolescentes do sexo masculino, que incluam penetração.
Quando praticados contra mulheres de qualquer idade com penetração vaginal é denominado
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estupro; estupro É, do ponto de vista legal, a prática sexual em que ocorre penetração vaginal
com uso de violência ou grave ameaça. É considerado crime hediondo, inafiançável, devendo
Importante destacarmos que há conceitos que devem ser esclarecidos quanto ao seu
significado no que se refere ao código penal. São eles: estupro e atentado violento ao pudor. O
primeiro refere-se a um crime no qual o agressor só pode ser um homem, que constrange a
mulher a fim de obter relação sexual vaginal. Enquanto que o atentado violento ao pudor
refere-se a um crime comum, no qual qualquer gênero pode se configurar como agressor ou
vítima, assim como pode envolver ato sexual diverso (sexo oral, anal, etc.).
"crimes contra os costumes", presente no Código Penal, para "crimes sexuais". É que o
Código Penal ainda trata essa questão a partir do aspecto moral. A intenção é trazer uma visão
adolescentes.
Outro ponto importante é o tratamento mais amplo para os crimes sexuais. Segundo o
Código Penal, o estupro, por exemplo, é um delito cometido apenas contra as mulheres. A
atentado violento ao pudor como um único tipo penal, um crime contra as pessoas, e não
somente contra as mulheres. A idéia é que seja possível punir também, de forma mais severa,
as agressões contra os meninos. Importante destacarmos que a mulher pode sim ser tão
culpada quanto o homem. Ela pode ser configurada como co-autora. Como a relação homem e
mulher é considerada natural e normal, se um adolescente do sexo masculino for forçado a ter
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relação anal, só poderá ser protegido com base em dois tipos de penas: atentado violento ao
Também faz parte do rol de mudanças sugeridas a instituição da ação penal pública
para todos os crimes sexuais. Hoje, apenas é possível iniciar uma investigação quando existe
uma queixa privada. O problema é que a grande maioria dos casos de violência sexual é
cometida por alguém da própria família da criança, impedindo que o fato venha à tona. E a
alteração no Código Penal abre espaço para que o Ministério Público apresente a denúncia
independentemente de ter havido uma reclamação por parte da vítima ou de alguém de sua
família.
Segundo Dobke (2001), o abuso sexual infantil pode ser extrafamiliar ou intrafamiliar.
segundo a autora, em ambos os casos a criança é utilizada pelo adulto, num verdadeiro
A palavra incesto deriva do latim “incestus”, que significa impuro, manchado, não
casto. Definido, de forma geral, como uma coação exercida por um adulto ligado à criança
participar de práticas eróticas. Azevedo e Guerra (2000) fazem a separação entre o incesto
propriamente dito e os menos graves, que são aqueles cometidos entre parentes afins,
sobrinhos, cunhados e outros, assim como a separação dos incestos consangüíneos das outras
formas de relações incestuosas: os para-incestos, que são aqueles nos quais as pessoas
poderiam ser consideradas parentes, como, por exemplo, entre o amante da mãe com a filha
desta, ou entre filhos que moram juntos mas que têm pais diferentes; e os incestos polimorfos,
os quais alguém se aproveita do cargo ou função que exerce para se impor sexualmente a um
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subalterno, considerado como equivalente do incesto por envolver o poder do mais forte sobre
o mais fraco.
que pode ser considerado abuso para uma determinada sociedade pode não o ser para uma
outra. Questões relacionadas ao abuso sexual infantil já são em si mesmas difíceis de serem
discutidas. Que pode se agrava se os profissionais não estiverem bem treinados e integrados
Modernidade que ganha espaço nos séculos XVII para o XVIII, quando passa ser definida
como um período de ingenuidade e fragilidade do ser humano, que deve receber incentivos
possíveis para sua felicidade. Nos fins da Idade Média, tem como marca o ato de mimar e
elite). A morte também passa a ser recebida com dor e abatimento. Já no século XVII, as
promovido por Igrejas, leis e pelo Estado, onde a educação ganha terreno: trata-se de um
instrumento que surge para colocar a criança "em seu devido lugar”, assim como se fez com
os loucos, as prostitutas e os pobres. Embora com uma função disciplinadora, a escola não
nasce com uma definição de idade específica para a criança ingressá-la. Isto porque os
ainda não havia triunfado e educação nascia, portanto, com uma função prática, ora de
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Estudos históricos mostram que até o início dos tempos modernos, a criança não era
vista como sendo diferente do adulto, sempre calada, não merecendo ser ouvida, mas
vivenciando e assistindo o mundo no qual ela não era considerada protagonista. Curiosamente
se verifica que essa concepção está relacionada com o significado etimológico da palavra. “O
sentimento da infância não significa o mesmo que afeição pelas crianças corresponde à
criança do adulto, mesmo jovem”.(Ariès, 1981, p. 156). Ela era tratada sem distinção do
miniatura. Segundo Ariès (1981), após os sete anos de idade a criança passava a usar roupas
iguais à dos adultos e a ser tratada como tal. Conforme ressalta Ariés (1981 p.56): “Dessas
duas idéias, uma nos parece arcaica: temos hoje, assim como no fim do século XIX, uma
tendência a separar o mundo das crianças do mundo dos adultos. A outra idéia, ao contrário,
ligados às práticas e hábitos culturais da sociedade ao longo da história. Por volta do século
XIII, a criança era pública e considerada como a parte da família que garantia sua
assistido por várias mulheres das proximidades, o que o tornava um ato público. Quando a
criança começava a caminhar, devia dar seus primeiros passos em um local público, para que
fosse assistido por outros, pois era a forma de garantir a continuidade da família.
papel dos pais era importante nessa primeira educação, a época das aprendizagens: do espaço
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da casa, da aldeia, das redondezas, do brinquedo da relação com outras crianças, das técnicas
do corpo, das regras de participação na comunidade, das coisas da vida. A criança era um
produto da coletividade sendo preparado para desempenhar o papel que essa coletividade
esperava.
Segundo Ariès (1981), existiram duas posições distintas em relação à infância: uma
concebe a criança como ser ingênuo, que necessita de mimos, e outra que alega que a criança
causadores de muitas fraquezas. Para combater essa educação privada, a Igreja e o Estado
resolveram tomar o encargo educativo. Ou seja, o poder político e religioso, como poderes
públicos, passaram a interferir diretamente na vida privada das famílias, que aceitou a
intromissão, por acreditar não serem capazes de dar a formação adequada aos seus filhos.
A escola substituiu a aprendizagem como meio de educação. Isso quer dizer que a
criança deixou de ser misturada aos adultos e de aprender a vida diretamente, através
do contato com eles. A despeito das muitas reticências e retardamentos, a criança foi
separada dos adultos e mantida à distância numa espécie de quarentena, antes de ser
solta no mundo. Essa quarentena foi a escola, o colégio. Começou então um longo
processo de enclausuramento das crianças (como dos loucos, dos pobres e das
partir do século XIII, a família conjugal formada por poucos integrantes, se fortalece. Isso se
das trocas comerciais, ao fortalecimento do poder real bem como à efetividade da segurança
menos integrantes que podia voltar os seus olhos para as crianças. Assim, o surgimento de
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uma família reduzida gera um sentimento de proteção, cuidado e atenção à criança. A partir
da família conjugal, os seus membros estariam voltados para si e não mais para um
agrupamento maior.
Ariès identifica várias "descobertas" da infância: nos séculos VI a VII, nos séculos XII
a XIV, nos séculos XVI e XVII, no século XVIII e início do XIX, e no final do XIX e início
do XX. A história da infância move-se por "linhas sinuosas", de modo que a criança pode ter
sido considerada impura no início do século XX, como o fora na Alta Idade Média. Se há uma
vez mais positiva da infância, os debates assumem uma forma cíclica e não linear. A
meninos e meninas.
lado da ciência, do estado - nação e da liberdade religiosa, a infância como estrutura social e
como condição psicológica, surgiu por volta do século dezesseis e chegou refinada e
(Apud, Corazza, 2002, p.86), afirma que existia um conceito de infância no século XVI, que
pode ter se desenvolvido melhor nos séculos posteriores, mas eram feitas distinções entre o
crianças.
Já outros historiadores como Demos (Apud, Corazza, 2002, p.91), concordam com
Ariès, (1981) que não existia o conceito de infância, mas discorda de quanto a época em que
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tal conceito tornou-se conhecido (século XVII), sugere que, talvez neste período, pudesse ter
existido algum reconhecimento da infância como uma etapa diferente da vida adulta.
Hoyles, (Apud, Corazza, 2002, p.94), argumenta que a infância é uma convenção
social e não um estado natural e que tanto esta quanto a família nuclear são invenções
recentes que datam do século XVII. Porém, acrescenta que, mesmo depois do aparecimento
cuidados físicos em morais dispensados aos filhos, este grupo constituído como infância
prossegue sendo um dos principais grupos oprimidos, por sua natureza imputada de
subserviência e dependência.
Hunt, (Apud, Corazza, 2002, p.107), confirma a tese principal de Ariès, concluindo
que a criança do período pré – moderno era vista como sendo inferior aos adultos, e que
tipografia revolucionou a sociedade, criando com a palavra impressa um novo limite entre
quem sabia e não sabia ler. A educação passou a ser necessária, as escolas se multiplicaram,
jovem começou a existir e a ser respeitada como tal, distinguindo a criança do adulto no
visibilidade. Mas, ao mesmo tempo, assim se plantavam as sementes que hoje a ameaçam.
um poderoso ataque à linguagem e à leitura, porque as pessoas não lêem TV, vêem, o que
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precisa oferecer uma variedade inesgotável de assuntos. Não guarda segredos de espécie
alguma, o que resulta na impossibilidade de proteger a criança. Nunca ela soube tanto da vida
adulta como agora. E isso significa que está sendo expulsa do jardim da infância, enquanto o
com suas distinções face à vida adulta é um produto cultural, histórico e passível de
também para o seu declínio está articulada às mudanças nas tecnologias de comunicação, uma
vez que esses meios tecnológicos disponíveis passam a modificar a nossa própria estrutura de
interesses, a esfera simbólica e o contexto no qual pensamos. Ou seja, a medida que nós
consumimos livros, jornais, rádio e televisão (a Internet não entrou nas referências do autor),
Tanto para Postman (1999), quanto para Ariès (1978), a escolaridade tornou o
diferencial na Renascença, assim o “ser criança” estava vinculado ao saber ler e compreender
os códigos da linguagem. Dessa forma a leitura tornou-se fator que diferenciava criança e
adulto.
Uma mesma sociedade, em seu tempo, comportará a partir de sua constituição sócio -
econômica e cultural, diferentes infâncias sendo cada qual, a partir do lugar social que ocupa
ou na verdade nem ocupava, seja como objeto de intervenção dos adultos, seja no sentido do
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O presente trabalho mostra uma variedade de definições de abuso sexual. Com base
importante lembrarmos que esses autores estavam inseridos em um momento histórico que é
diferente do atual. Percebe-se hoje que a infância não tem um início claro, cada vez mais as
crianças “amadurecem” mais cedo e isso pode ser percebido pelo comportamento das
O inverso também ocorre, não sabemos mais quando esse período de infância termina,
pois encontramos hoje muitos adolescentes e porque não adultos se comportando de forma
autores mencionam, visto que muitas leis são formuladas, assim como estatutos como, por
classe (crianças). Esses meios possibilitam proteção e segurança as crianças vítimas de abusos
e violências.
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Marido, mulher e filhos; pessoas do mesmo sangue; conjunto das pessoas que vivem na
Segundo Ferrari e Vecina (2002), o conceito de família sofreu mudanças ao longo dos
anos. Num primeiro momento a família tinha como responsabilidade somente a transmissão
da vida, mais tarde, esse sistema passou a valorizar aspectos como a intimidade e a
necessidade de uma identidade para esse grupo de pessoas que viviam num mesmo ambiente.
definida hoje como uma instituição que ocupa um lugar intermediário entre o indivíduo e a
dinâmica familiar apresenta apresenta diversos elementos em sua comunicação que podem
Ariès menciona em sua obra história social da criança e da família (1981), que todas as
relações entre os séculos XV e XVI eram misturadas, não havia sequer uma separação entre
vida íntima e social, o próprio ambiente físico do lar, onde muitas pessoas circulavam e os
cômodos eram comuns, impossibilitava muitas vezes a intimidade de casais e troca de afeto
coincidem com um novo significado que é dado à criança, a de um sujeito que necessita de
cuidado e proteção da família e que deve ser mantida num ambiente separado do adulto, ou
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seja, não participar e nem se envolver com assuntos que eram dirigidos especificamente aos
presente gerando como modelo para os membros desse sistema a vivência de “Sagrada
Família”. Outros fatores que contribuíram também para as mudanças no sistema familiar
foram a Revolução Industrial e o capitalismo, com esses acontecimentos a família passa a ter
como função proteger seus membros de um mundo ameaçador e competitivo. Com isso, os
Segundo Ariès (1981), nesse mesmo período as questões relativas ao corpo como o toque
detalhes em relação a educação dos filhos e com isso buscam de todas as formas meios que
automaticamente falamos do outro. Como foi discutido o significado de ambos passou por
necessita de cuidados e proteção gera com isso uma reorganização no sistema familiar e na
sua dinâmica e a necessidade de privacidade para os membros desse sistema e com isso o
afeto entre marido e mulher e pais e filhos ganha importância tanto para a manutenção da
membros envolvidos. Os reflexos do abuso podem ser notados tanto no presente como no
futuro
Segundo as mesmas autoras citadas anteriormente, em famílias onde ocorre abuso sexual
aprisionados. Em muitos casos essa é única forma de contato físico vivido pelos membros
evolvidos no abuso.
Amor, sexo, carinho e humilhação são vividos de forma ambígua, com desrespeito às
expectativas de papéis a serem cumpridos pelos adultos são trocados por atitudes de posse
Summit (1983), descreve mecanismos utilizados pela criança vítima de abuso. Um deles
fingir que a parte de baixo do corpo não existe no momento em que ocorre a ação.
da idade da pessoa agredida e da que agride; do tipo de relação entre eles; da personalidade da
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Conseqüências a longo prazo: seqüelas físicas; chances de serem pais abusadores no futuro;
violenta.
Para Furniss (1993), o dano psicológico pode estar relacionado aos seguintes itens: a
idade entre quem comete o abuso e a vítima; quão estreitamente era a relação da pessoa que
cometeu o abuso com a pessoa que sofreu o abuso; a ausência de figuras parentais protetoras e
o grau de segredo.
Segundo Silva (1998), a criança que sofreu ou sofre abuso apresenta alguns sinais, tais
sedutor com pessoas do mesmo sexo do agressor, fuga de casa, alterações no sono, auto-
2.2. Sofrimento
Para Dobke (2001) e Furniss (2002), o abuso sexual apresenta danos primários, ou
seja, causados pelas etapas do abuso – fase de sedução, da interação sexual abusiva e do
no processo individual.
ainda não se adaptou completamente aos aspectos dos direitos humanos da criança. A
intervenção profissional pode acarretar sofrimento tanto a criança como a família, visto que os
vínculo criança – terapeuta e família- terapeuta ficam prejudicadas. A criança abusada pode
ser vista por seus familiares como bode expiatório e com isso, punida e castigada e acusada
por todos os problemas familiares. A vulnerabilidade da criança pode favorecer novos ciclos
de abusos.
podem expressar sentimento de culpa. Sua origem deve-se ao seu senso equivocado de
responsabilidade, que ela deriva do fato de ter sido participante no abuso. Tal confusão muitas
vezes tem como contribuição as ameaças de quem cometeu o abuso, que na maioria das vezes
a responsabiliza pelas conseqüências que podem ser geradas caso seja revelado o abuso.
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No caso de meninos que sofreram abuso sexual, eles podem apresentar dúvidas quanto
homem tem de se defender e de que sempre são capazes de evitarem agressões de qualquer
natureza. Sem contar que a mídia sempre os aponta como agressores e não como possíveis
Com base no trabalho de Silva (1998), será discutido como os sinais mencionados pela
sinalizar que algo está errado e muitas vezes não ser escutada por aqueles que são próximos a
introdução prematura ao sexo cria uma aparência exterior sofisticada, que esconde uma
A insinuação de atividade sexual pode ocorrer sem uma explicação direta do que
aconteceu como, por exemplo, no caso de um programa de televisão no qual é exibida uma
cena onde um homem mais velho se insinua a uma menina bem mais jovem e a criança
comenta que o homem que aparece no programa lembre o membro da família que abusa da
restrições de adultos quanto a masturbação muitas crianças podem utilizar objetos dentro de
Vítimas de incesto freqüentemente chegam cedo à escola e saem tarde da mesma. Uma
intenção de manterem-se afastados de seus lares, já que esse local não representa segurança a
incesto tem restrição de seus responsáveis de terem amizades fora do ambiente escolar.
Apesar dessas crianças tentarem ter amizades na escola apresentam dificuldades para criarem
vínculos.
próximo encontro, criando formas para fugir deles e preocupadas com as tensões familiares.
série de outros problemas. Ao relatar o abuso, a vítima sendo uma adolescente pode ser
culpada por ter seduzido o agressor. Podem também transferir esse comportamento para
relacionamentos com outras pessoas, o que pode gerar uma nova agressão sexual.
criança responsável pela resposta adulta de abuso sexual, em que a pessoa que comete
fuga não é revelado, a não ser que um adulto sensível e que transmita confiança a adolescente
O distúrbio de sono também pode ser um sinal apresentado pela criança que sofreu
abuso sexual. Essas crianças freqüentemente têm pesadelos noturnos, podem permanecer
durante o dia. Dormir em excesso também pode ser um sinal, no qual a criança evita a
realidade no sono.
Auto-mutilação é na maior parte das vezes praticada por crianças mais velhas,
adolescentes. Esse tipo de comportamento pode ser abordado de diferentes ângulos, muitas
vítimas encontram-se deprimidas e com baixa auto-estima, ao ferir o próprio corpo fazem
uma tentativa de torná-los menos sedutores; tentam apagar a lembrança do abuso provocando
dor; pode ser considerado também uma auto-punição, por sentirem-se muitas vezes culpadas
pelo abuso.
Segundo Flores e Caminha (1994 apud Amazarray & Koller, 2005), o Transtorno de
traumáticas).
Furniss (1993), permite que a criança não perceba a realidade como realidade de abuso.
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Assim, no momento em que ocorre o ato sexual a criança pode ter a sensação de não pertencer
ao seu corpo ou que seus membros inferiores não fazem parte dela naquele momento.
Segundo Gabel (1997), a criança percebe o seu corpo como profanado; há perda de
integridade física; sensações novas foram despertadas, mas não integradas. A criança exprime
a angústia de que algo se quebrou no interior de seu corpo. Queixas somáticas como mal-estar
difuso, impressão de alteração física, persistência das sensações que lhe foram impingidas e
dores nos ossos são freqüentes. Podem ocorrer crises de falta de ar, desmaios, problemas
provocadas por lesões conseqüentes do ato de se coçar, que podem levar até ao sangramento,
sendo uma forma de pertencimento do corpo pela excitação, pelo prazer e sofrimento.
abuso, a forma como ele se vê e significa o que ocorreu. Segundo Madanes (1997),
problemas trazidos na terapia têm como questões o amor, proteger e ajudar o outro, ou
pode ter a função de obter amor. Essa linha divisória torna-se então muito tênue. “O desejo de
ser amado e apreciado pode externar as melhores qualidades da pessoa, mas, também, pode
incesto). Ao mesmo tempo em que sente amor por aquele que chama de pai, sente raiva, pois
o mesmo infringe sofrimento, invadiu um espaço que ele muitas vezes pouco conhecia, seu
corpo. Como conseqüência fica marcada para essa criança que para obter amor precisa sentir
Em alguns casos percebe-se que a criança que foi abusada envolve-se no futuro com
outra pessoa que pode vir a abusar novamente dela ou infringir algum outro tipo de violência
que não seja sexual. É uma reprodução do que esse sujeito entende como amor. É o modelo
Ray Wyre (1996), sugere que para entender por que algumas vítimas de abuso sexual
passam a ser autores do mesmo ato, é preciso prestar atenção ao tipo de abusador, à relação
Sanderson (2005), em sua obra sugere que pesquisas demonstram que fantasia –
evoluir para abusos de contato sexual que vence inibidores internos e contribui para a
indivíduo a cometer abuso sexual infantil, são elas: motivação, inibições internas, inibições
externas e resistência.
criança. O abusador quer satisfazer uma necessidade emocional. Existe uma “adequação”,
vezes o nível psicossexual de desenvolvimento da criança. Por vezes isso se deve a baixa
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adulto.
relações com pessoas da sua faixa etária. Esse adulto pode também ter ausência de fonte de
gratificação que seja tão satisfatória quanto a criança, talvez por conta de pouca habilidade
mesmo a permissão para realizar o abuso. Embora a maior parte das pessoas tenha alguns
tabus e preconceitos relativos ao abuso sexual de crianças, a maioria dos abusadores não as
próprios que o que desejam fazer não é prejudicial à criança. Também podem ocorrer
pensamentos nos quais a culpa não é dele, mas sim, da criança por ser precoce ou sedutora.
Tais processos de pensamento distorcido ou o uso de drogas ou álcool não causam o abuso
sexual , mas atuam como desinibidores que permitem que a violência aconteça. E ambos são
A superação de inibidores externos, leva em conta o ambiente externo, que pode criar
oportunidade para o abuso ou impedir que aconteça. Esses fatores incluem a família, vizinhos,
(Sanderson, 2005,p.70).
para que possibilite o abuso sexual de fato. O abusador procura analisar quais fatores tornam
uma rede de amigos e suporte familiar que fornecem pouco apoio. Uma criança que se mostra
confiante pode transmitir mensagens que inibam a tentativa do abuso. Porém, não podemos
desconsiderar quem sempre existe a possibilidade de ela ser vencida por coerção ou
manipulação e violência.
pelas (os) filhas (os), às vezes desde o nascimento. Os que regridem à adolescência são
aqueles que só se tornaram interessados por suas (seus) filhas (os) quando essas (esses)
entram na puberdade. Para esses pais incestuosos o foco é a mudança corporal da criança. Os
veículo ou receptáculo para sua auto-satisfação. Com freqüência esses pais sentem-se
culpados e preocupados com qualquer mal que pudessem ter causado. Para dissipar a culpa,
racionalizam considerando que a filha (o) no momento do abuso encontrava-se excitada (o).
fato de se considerarem incompetentes, voltavam-se para as (os) filhas (os) não pela
raivosos abusam das (os) filhas (os) mais por raiva do que por desejo sexual. Raiva pela
criança exigir atenção constante da mãe ou raiva da mãe por não dar mais atenção a esse pai.
fatores que podem influenciar o abuso sexual e sua perpetuação. Alguns fatores mencionam,
porém, a existência de uma série de variáveis das quais pouco conhecemos e que necessitam
mais pesquisas.
pertinentes a esse grupo, conteúdos como por exemplo a violência. Dessa forma, a família fica
bonzinho e o agressivo).
observa-se que os lugares ocupados pela vítima e pelo agente da agressão são mantidos por
muito tempo. O poder também é delegado a um determinado membro e a outro não, logo, a
pessoa a quem é delegado o poder está carregando e expressando a violência que faz parte
reconhecer e respeitar limites. Tais situações podem ser identificadas pelo abuso de poder,
família. A omissão no exercício da função também é observada nessas famílias, que pode se
dar tanto pelo pai como pela mãe. Nesse contexto familiar muitas vezes a mãe fica no lugar da
que não sabe ou no pode fazer nada em relação ao abuso. Quando o abusador é o pai
biológico pode gerar nessa mãe receio e dúvidas em relação aos seus direitos e como se
defender e defender seus filhos. Assim como uma ambigüidade de sentimentos em relação ao
seu parceiro que é o agente do abuso, como em relação ao seu filho, que passa a ocupar o
papel de companheiro(a) sexual do parceiro. Essa família também pode apresentar confusão
infantilizada.
divórcio.
O papel da mãe nesse contexto também deve ser discutido. Em famílias rígidas e
moralistas apresentam mães que cuidam perfeitamente de seus filhos. Porém, essa relação
mãe-criança é abalada quando essas crianças tentam indicar a ocorrência do abuso sexual.
Essas mães normalmente desconsideram ou desqualificam o que é dito, embora possam tomar
medidas para desmentir as alegações. Algumas crianças não se sentem próximas das mães, e
com isso, voltam-se para o pai em busca de cuidado, porém esses pais a traem nesse processo
de busca de apoio emocional. A criança por sua vez, sente-se desprotegida de cuidados e
Furniss (2002), menciona que a família dita organizada é aquela que apresenta um
incesto nesse tipo de sistema familiar é altamente secreto e um tabu quanto ao seu
reconhecimento. O abuso sexual incestuoso nessa família muitas vezes revela um problema
carregado emocionalmente caracterizado por intensa tristeza por parte dos envolvidos quando
conflito conjugal normalmente aparece de forma clara e muitas vezes o pai permanece na
família por meio do abuso sexual. O segredo nessa família é de certa forma conhecido pelos
membros do sistema, mas não é falado e é um tabu quanto a ser revelado publicamente.
Geralmente mais de uma criança é envolvida em abuso incestuoso, por exemplo, quando a
criança que era abusada sai de casa normalmente um de seus irmãos passa a ser a vítima.
relação familiar, é por meio dele que díades são moldadas, triângulos e alianças são
Segundo o mesmo autor, quando uma criança é obrigada por um dos pais a manter um
segredo que exclui o outro progenitor tal medida prejudica o bem-estar desse sujeito que foi
Segundo Gabel (1997), os abusos intrafamiliares acorrem em segredo, que pode ser
imposto por violência, ameaças ou em uma relação sem palavras, tendo como função manter
uma coesão familiar e proteger a família do julgamento de seu meio em que vive. Por isso é
importante sustentar a palavra da criança e fornecer o apoio, uma vez que há um grande risco
dela se fechar em seu silêncio para alívio de todos, sem perspectivas de receber ajuda ou
apoio do adulto, pois já passou pela experiência do abuso de poder dos adultos e da ausência
de credibilidade.
Ferrari e Vecina (2002), listam alguns fatores que mantém o segredo entre os membros
da família. O não agressor ou o parceiro pode permanecer em silêncio por temer o agente da
agressão; medo de romper o equilíbrio familiar, mesmo que precária; não querer lidar com
perdas, pois ao tomar uma decisão corre o risco de perder o companheiro e/ou a criança; seu
A criança pode permanecer calada pois acredita que ninguém pode protegê-la, mesmo
que as pessoas de sua casa tenham consciência do que se passa, porém, a criança acredita que
ninguém possui meios para ajudá-la; temor em perder o afeto do agressor, quanto mais
próximo biologicamente, mais a criança se cala; receio em ser julgada como culpa pelo meio
social em que vive; medo de represálias, como por exemplo agressões ou ser retirada de sua
família.
Numa família seus membros atribuem significados diferentes relativos ao segredo que
com casos de abuso sexual incestuoso, são eles: Diagnóstico inicial ou avaliação sumária,
circunstâncias que favoreçam o abuso. Assim que o grau de risco realizado, medidas
protetivas são tomadas. A vitima ou o agressor pode ser afastado da residência, por exemplo.
voltadas ao atendimento de casos de abuso, porém, nada impede que esses casos sejam
realizadas com familiares. Em seguida por meio de sessões individuais e/ou inserção em
grupos de pessoas vitimizadas, grupos de orientação aos pais, de casais, e dos que agridem. O
trabalho terapêutico tem como foco tanto o trabalho individual como familiar.
revolta, culpa e vergonha, sentimentos negativos e positivos em relação àquele que agrediu e
em relação à família. Dessa forma, a vítima tem possibilidade de perceber que o evento não
quando ocorre na fase na qual o sujeito não se encontra mais em situação de abuso, pois dessa
Segundo Furniss (1993), a síndrome de adição para a pessoa que abusa apresenta
criança é uma interação ilegal, aditiva para a pessoa que abusa, em que a “droga” é
a pessoa que abusa como figura parental. A adição a uma ‘droga’ que é uma criança
reconhece que o abuso é errado e que constitui um crime; a pessoa que abusa sabe que o ato é
prejudicial a criança, mesmo assim isso não impede que o abuso ocorra; o abuso serve como
que o abuso esteja prejudicando a criança pode levar o abusador a tentativas de parar o abuso;
a excitação constitui o elemento aditivo central e a gratificação sexual do ato contribui para
abuso gera sintomas de abstinência, como ansiedade, irritabilidade, agitação, entre outros.
continuidade do abuso durante o processo terapêutico. O mesmo autor menciona passos que
situação de abuso como um fato psicológico e realidade da família, o agressor deve assumir a
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responsabilidade pelo abuso, responsabilidade parental pelos cuidados gerais, trabalho mãe-
um processo legal para que o processo terapêutico prossiga. Tal medida pode não ser
necessária quando a criança é mais velha e não deseja retornar a casa, ou quando a mãe a
família rejeitam a criança e a colocam como bode expiatório. Essas circunstâncias tornam
mais seguro que a criança permaneça sob cuidados fora de casa. O autor acredita que se deve
trabalhar no sentido de que a pessoa que abusa deixe a casa, e não a criança.
encontrar juntamente com a vítima e a família uma linguagem sexual explícita, precisam
descrever os eventos para os quais podem ter palavras para descrever. É necessário que o
profissional dê esse espaço a família e a vítima fornecendo a eles segurança de que sabe lidar
O agressor deve assumir a responsabilidade pelo abuso. Porém, isso não significa que
ele é o único participante ativo e que a criança seja passiva, ou que a mãe desconhecia o fato.
O pai ao assumir a responsabilidade retorna ao seu papel de pai, de cuidador e protetor. Por
sua vez, a criança retorna à posição de criança, o que favorece o alivio de seu senso de
A responsabilidade parental pelos cuidados gerais, trata-se dos papéis dos pais.
Independentemente de eles continuarem como casal, eles sempre terão responsabilidade com
seus filhos. “Pais em conflito freqüentemente usam problemas conjugais para evitar questões
problemas conjugais quando as questões conjugais são tratadas.” (Furniss, 1993, p. 118) O
ponto principal a ser tratado nesse momento da terapia é se os pais encontram-se dispostos a
assumirem o cuidado com o filho abusado, independente se continuarão ou não como casal.
No trabalho mãe – criança,o foco é tornar a mãe uma pessoa emocionalmente mais
central e protetora. Em quem a criança possa confiar. Nesse processo emergem duas questões
centrais. A primeira refere-se aos sentimentos da mãe de culpa por ter falhado em proteger a
criança do abuso e a necessidade que a criança tem nesse momento de confiar que a mãe a
protegerá caso o abuso continue. A segunda questão é a rivalidade que pode existir entre a
mãe e a criança. O sentimento que muitas mães podem nutrir é o de não serem valorizadas
pelos seus companheiros, e por conta disso terem sido trocadas por suas filhas (os).
a criança pode passar por um período de ódio e rejeição em relação àquele que agrediu, nesse
construir ou reconstruir relacionamentos de confiança com o pai, assim como com outras
figuras masculinas. Pois isso possibilitará que futuramente a criança, no caso de menina,
tenha vínculos saudáveis com o masculino, e que crianças do sexo masculino tenham vínculos
No trabalho com os pais como parceiros, é importante estarmos atentos que há uma
confusão de papéis por parte da mãe, (papel de mãe e de parceira). Essas mães tendem a
decidir inicialmente pelo divórcio, reação moralista em relação as suas expectativas e as dos
profissionais. Porém, mesmo com essa decisão, muitas percebem que ainda estão muito
conseguem admitir por questões morais da própria situação de abuso. Os profissionais nesse
momento devem rever sua atitude moral, a fim de darem credibilidade ao que essas mães
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sentem e apontar o benefício que essa rejeição pode ter para a criança que foi abusada naquele
momento de crise. Pois se esses cuidados por parte do terapeuta ou da equipe de trabalho não
forem tomadas é possível que haja uma conspiração dos pais contra essa rede de ajuda.
quem é abusador, mas compreender que a família com a qual trabalha apresenta uma
CONCLUSÃO
O abuso sexual infantil intrafamiliar é um assunto cada vez mais discutido em nossa
sociedade e no mundo. Porém, percebemos que ainda há pouca habilidade para lidar com o
assunto, isso ocorre tanto por parte dos membros da família que apresentam a violência sexual
como parte da dinâmica desse sistema como em relação aos profissionais que em muitos
momentos não se encontram devidamente capacitados, ,muitas vezes por não compreenderem
È importante que as vítimas sejam protegidas e tratadas, pois dessa forma é possível
evitar a continuidade e perpetuação do abuso. Assim como as seqüelas que o abuso sexual
seus conflitos, os desajustes existentes e qual ou quais as funções que o abuso sexual
representa para esse sistema. Sabemos no entanto que esse processo não é fácil, pois a família
muitas vezes desenvolve mecanismos para evitar o contato com a realidade do abuso e
seja, quais mecanismos são disponibilizados que visão proteção à vítima e família nesse
contexto de abuso sexual. Citaremos alguns meios utilizados: os abrigos, a adoção e a criança
Porém, a retirada da criança de seu meio familiar requer trabalhar com um mito que surge
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com freqüência: que a permanência com a família é sempre o melhor a ser feito. O papel do
abrigo não deve ser o de encobrir a real situação da família. Deve oferecer cuidado e proteção
que vão além das necessidades físicas. O local também pode oferecer com suas rotinas
suporte afetivo, com vínculos significativos. A criança ou adolescente nesse contexto por
a esses pais que irão receber a criança. Caso isso não ocorra de forma adequada essa nova
família pode reproduzir sem perceber o abuso sexual. Muitas vezes a criança ou adolescente
que sofreu abuso sexual só consegue se relacionar com o outro de forma sexualizada.
Portanto, é necessário que os pais adotivos saibam falar de forma clara sobre sexualidade com
cuidados de parentes também necessita cautela, pois mesmo que a intenção inicialmente seja
medida não causará mais conflitos. Quando a criança permanece com parentes maternos,
muitas vezes esta se vê obrigada a negar qualquer tipo de carinho que tenha em relação ao pai,
no caso aquele que cometeu o abuso. Quando a criança é encaminhada aos cuidados de
parentes paternos, esta pode sofrer pressões que visem minimizar o abuso, inclusive a criança
Com base nos procedimentos citados acima, podemos refletir até que ponto essas
medidas são realmente eficazes? Elas realmente proporcionam aquilo que apresentam como
acompanharem a longo prazo vítima e família. Pois, sabe-se que o conceito de família tem sua
origem no social, sendo que este se encontra em constante transformação a dinâmica familiar
por sua vez também. Mas não é só a transformação da sociedade e a dinâmica familiar que
merecem estudos e pesquisas mais profundas, o entendimento de como cada sujeito que
Segundo Furniss (1993), um dos aspectos que pode contribuir para a omissão da
denúncia está relacionado ao sentimento de culpa que uma eventual participação consentida
possa causar. Outro complicador pode se o fato dessa família estar comprometida
membro dessa família devem ser reorganizados . Ou seja, que a criança ou adolescente que
sofreu o abuso tenha possibilidade de ser novamente filho, protegido e cuidado por seus
progenitores. E que esses consigam dar credibilidade a criança ou adolescente e que entrem
dos sentimentos e experiências e a visão das pessoas em relação alguma coisa, sem que para
isso o terapeuta tenha que concordar ou não com o que é dito. E dessa forma possibilitar a
O foco do trabalho dirigiu-se a uma reflexão acerca da família abusiva, o que mantém
tal dinâmica, a função do segredo, as confusões de papéis nesse sistema e as dificuldades que
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a equipe que trabalha com essas famílias enfrentam. As conseqüências psicológicas foram
contempladas nesse trabalho, assim como medidas que podem ser utilizadas para intervir num
carrega consigo uma interpretação patológica. Afinal, sabe-se que a partir de alguns relatos
temos informação de que o sujeito abusado por vezes sentiu prazer com ato sexual abusivo.
Convém esclarecermos que não desqualifico o termo, muito menos menciono que quem sofre
Por fim, sabemos que há muitas informações que não foram apresentadas nesse
trabalho, visto que é um tema muito abrangente e que ainda necessita de muitos estudos e
pesquisas.
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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
desenvolvimento de crianças vítimas de abuso sexual. Psicologia Reflexão e crítica. 11, 3, 30.
Ariès, P.(1981). História social da criança e da família. Rio de Janeiro, Editora LCT.
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Black, E.I. (1994).Os segredos na família e na terapia familiar. Porto Alegre: Artmed,
Ferrari, D.C.A. & Vecina, T.C.C. (2002) O fim do silêncio na violência familiar:
Paulo: Psy.
colaborativa orientada para solução dos efeitos posteriores ao abuso sexual. In: O’Hanlon. W.
comum da crise. In: Mcnamee. S. A terapia como construção social. Porto Alegre, RS: Artes
Médicas.