E. P. Thompson: Política e Utopia Histórica
E. P. Thompson: Política e Utopia Histórica
Epigrafe e Dedicatória
Apresentação
Artigos:
Sobre os autores
Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites, manhãs e madrugadas em que não
precisamos de morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra em nós uma grande serenidade, e dizem-se
as palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o sorriso de quem se reconhece e viajou à
roda do mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.
José Saramago
debate e a polêmica. Não apenas sobre o “fazer da história”, mas também sobre o fazer
da política e suas múltiplas relações e implicações. Nesse contexto, o título do
seminário – Política e Paixão – foi escolhido com muito cuidado e expressava um
entendimento, que ainda partilhamos, de que reflexão e ação são princípios inextricáveis
para se compreender tanto a produção historiográfica, quanto a intervenção política de
Thompson. Afinal, ele “aliou paixão e intelecto, os dons do poeta, do narrador, do
analista”. Política e paixão são evidentes no modo arrebatado como escreveu, divergiu,
debateu e militou em diferentes causas. Além disso, reafirmava nosso princípio de uma
atitude critica permanente como orientação teórica indispensável para a compreensão da
história real, bem como nosso engajamento e compromisso, político e teórico, com uma
“história a partir de baixo”.
Essa procura foi, sem dúvida, uma das razões que nos estimularam a transformar
o dossiê de 2004 no livro ora apresentado. A segunda, e mais importante, foi nosso
desejo de reafirmar os valores que nos motivaram a organizar o seminário em 2003, mas
também a possibilidade de introduzir uma questão central, não devidamente destacada
naquela ocasião, o tema da utopia. Nesses tempos tão pragmáticos, de crise nas
ideologias (especialmente entre as esquerdas), de esvaziamento dos projetos de futuro,
de soberania do “mercado”, tempos em que alimentar o sonho de uma sociedade
realmente justa, igualitária e sem classes parece não apenas uma atitude ultrapassada e
inútil, mas tão distante como os extintos dinossauros. Exatamente por isso, o resgate de
Thompson como um historiador que sempre tentou conciliar razão e utopia – ou que,
justamente, viveu essa tensão – torna-se hoje ainda mais vital.
Nesse estudo, como o título sugere, Thompson discute os caminhos e descaminhos que
levaram o artista gráfico, arquiteto, poeta, escritor e tradutor inglês William Morris, do
romantismo à militância socialista. Em seu “Pós-escrito”, Thompson realiza um balanço
da recepção de seu livro, mas também dos debates sobre a vida e a obra de William
Morris durante os vinte e um anos que separam as duas edições. O “Pós-escrito” é
particularmente relevante porque nele Thompson estuda, mais uma vez, a opção de
Morris pelo socialismo, mas, ao fazê-lo, reflete também sobre a sua própria adesão.
Nesse processo, o tema da utopia reaparece como noção fundamental. A Utopia emerge
não como uma doutrina ou uma descrição sistemática da sociedade futura. O objetivo de
Morris – e podemos concluir que também o de Thompson – “era incorporar, nas formas
de fantasia, valores alternativos, delineados por um modo de vida alternativo” e o que
distingue “essa iniciativa é, precisamente, sua qualidade aberta, especulativa, e o
desapego de sua imaginação às exigências da precisão conceitual”. O que importa, na
verdade “é o desafio à imaginação”, e duas coisas acontecem nessa aventura da
imaginação: “nossos valores habituais (o “senso comum” da sociedade burguesa) ficam
confusos e entramos no espaço próprio e recém encontrado da utopia: a educação do
desejo. Esse processo não se confunde com “uma educação moral” com vistas a um fim
dado: significa, mais corretamente, abrir um caminho para a aspiração, “ensinar o
desejo a desejar, a desejar melhor, a desejar mais e acima de tudo desejar de um jeito
diferente”. Desse modo, o papel da utopia é liberar o desejo para interrogar
ininterruptamente nossos valores, tanto quanto interrogar a si mesmo. Como a
“educação do desejo”, a “Utopia” deve estar no centro da ação política dos que
acreditam que outro mundo é possível. Assim, assumimos que retomar a utopia de uma
sociedade justa e igualitária é reafirmar o legado político e historiográfico da tradição
continuada por E. P. Thompson e sempre guiada pela razão, como ele defendia.
*****
E. P. Thompson
A primeira menção deve ser feita para a “William Morris Society” que, ao longo
dos últimos vinte anos, organizou uma valiosa série de eventos, conferências e
publicações. A Revista da Sociedade conta com uma bibliografia atualizada e, em 1961,
o secretário honorário da Sociedade, senhor R.C.H. Briggs, publicou uma Handlist dos
discursos de Morris. Uma lista mais completa de conferências e discursos, com a data
em que foram proferidos, se encontra em Eugene D. LeMire, Unpublished Lectures of
William Morris1, que apresenta integralmente, pela primeira vez, dez conferências que
só haviam sido citadas antes em meu texto ou nos dois volumes de May Morris. Outra
conferência interessante (de 1889), e notas para uma futura, foram publicadas por Paul
Méier2. Com exceção das cartas de Morris à J.L. Mahon3, são poucas as cartas novas
importantes publicadas. Uma coleção valiosa de notas críticas sobre o trabalho de
Morris foi feita por Peter Faulkner4 e pelo menos duas novas seleções de escritos
políticos foram disponibilizadas5.
Muito tem sido escrito sobre a atividade artística de Morris. Fiz pouco para
revisar meu capítulo relativo ao tema, embora esteja ciente de que seja inadequado à sua
∗
Thompson, E.P. “Postscript: 1976”, in: William Morris: Romantic to Revolutionary, London: Merlin
press, 1976. Trad.: Virgínia M. H. Valdez. Revisões de Tais Blauth e Maria Stela M. de Moraes e revisão
técnica de Adriano Duarte e Ricardo G. Müller.
1
Detroit, 1969.
2
Paul Meier, “An Unpublished lecture of William Morris: “How Shall We Live Then?”, “International
Review of Social History, XIV, 1971, parte 2: “Justice and Socialism”, notas adicionais para uma
conferência em 1885, no apêndice I a Paul Meier, La Pensée Utopique de William Morris (Paris, 1972).
3
Em R. Page Arnot, William Morris, the Man and the Myth (1964). O professor Norman Kelvin, do
Departamento de Inglês, City College, City University of New York, Nova York, 10031, passou dez anos
reunindo materiais para uma coleção completa de cartas. Qualquer um que tenha conhecimento de alguma
carta inédita está convidado a entrar em contato com ele.
4
Peter Faulkner (ed.), William Morris: The Critical Heritage (1973).
5
Asa Briggs (ed.), William Morris: Selected Writings and Designs (1962); A. L. Morton (ed.) Political
Writings of William Morris (1973).
1
variada temática. Quando tanto foi publicado pelas autoridades no assunto, a atitude
mais sábia para alguém não tão qualificado é o resguardo. Uma importante revisão de
opiniões consagradas a respeito da influência de Morris foi feita pelo falecido Peter
Floud, que contestou a idéia de que a revolução do gosto no período médio vitoriano foi
conseqüência do “Movimento Morris” e que enfatizou sua participação – por vezes
idiossincrática, por vezes conservadora – em uma tradição inovadora mais ampla6.
Como Floud foi suficientemente gentil para me escrever aprovando meu capítulo,
deixei-o como estava, mesmo que, em alguns pontos, se atenha a convenções mais
antigas. Mais recentemente, foram produzidas novas contribuições importantes de Paul
Thompson, Ray Watkinson e outros7. Philip Henderson, em sua biografia de Morris,
aumentou nosso conhecimento sobre a Firma, inspirando-se na correspondência de
Warington Taylor e de Morris com Sir Thomas Wardle8. A partir desses materiais, e de
outros, na Califórnia, foi possível escrever uma história definitiva da Firma9.
6
Infelizmente, a morte prematura de Flouds nos impediu de conhecer suas conclusões completas: mas. cf.
seus artigos no Listener, 7 e 14 de outubro, 1954; “Dating Morris Patterns”, Architectural Review, julho
de 1959; “English Chintz: the influence of William Morris, CIBA Review, 1961.
7
Paul Thompson, The Work of William Morris (1967); Ray Watkinson, William Morris as Designer
(1967). Também Graeme Shankland em (ed.) Asa Briggs, op. cit., R. Furneaux Jordan, The Medieval
Vision of William Morris (1960): A.C. Sewter, The Stained Glass of William Morris and his Circle (New
Haven, 1975); E. Goldzamt, William Morris et la Genèse Sociale de L’Architecture Moderne (Varsovia,
1967).
8
Warington Taylor, Victoria & Albert Museum, Reserve Case, JJ35; Sir Thomas Wardle, W. & A. Box II
86 zz. Ver especialmente Philip Henderson, William Morris: His Life, Work and Friends (1967: Penguin
ed., 1973), p. 105-112 (Taylor) e p. 193-195 (cartas a Wardle sobre tinturas).
9
Alguns livros de atas de Morris & Co. encontram-se na Biblioteca Pública de Hammersmith. Livros de
contabilidade, de desenho, e outros materiais da Firma encontram-se atualmente na coleção privada de
Sanford e Helen Berger, em sua casa de Carmel, perto de São Francisco. É uma pena que os papéis da
Firma tenham se separado pelo Atlântico e ainda uns em mãos públicas e outros em mãos privadas. Mas
os pesquisadores que puderem ir à Califórnia encontrarão (como aconteceu comigo) generosidade no
acesso a eles por parte de seus donos atuais.
10
William Morris, Writer (William Morris Society, 1961). Um breve ensaio de interpretação geral, de
George Levine, H.J. Dyos e M. Wolff (eds.) The Victorian City (1973), II, p. 495-517, é também recente e
perceptivo.
2
entre os estudiosos da literatura inglesa11. Esses capítulos constituem uma parte
importante de minha argumentação a respeito da crise do romantismo no início da era
vitoriana na Inglaterra e permaneço tão pronto a defendê-los hoje, como quando foram
escritos. Em um aspecto podem ser detectados os primeiros sinais de degelo na gélida
resistência a Morris: uma geração nutrida com Tolkien e C.S. Lewis (este último um
crítico favorável a Morris)12 está agora disposta a ler com mais complacência os últimos
romances em prosa de Morris. Essa tolerância crescente permitiu aos críticos, cujo
interesse prioritário reside no pensamento político de Morris, mostrar um renovado
respeito por The House of the Wolfings e The Roots of Mountains13. Quando a primeira
edição deste livro surgiu, a única menção (até onde sei) foi em uma ameaçadora resenha
no Times Literary Supplement, que afirmava que muitas páginas
O estudo de Paul Thompson sobre Morris não se limita ao seu trabalho como
designer, mas oferece uma biografia mais completa, estruturada em torno de sua obra. A
nova biografia de Philip Henderson é mais segura em sua abordagem da vida pessoal e
dos conflitos de Morris. Henderson restaura o silêncio obrigatório de Mackail diante das
relações de William e Janey Morris com Dante Gabriel Rosseti, e ele se inspira na
remanescente correspondência entre Janey e Rosseti à qual, quando escrevi meu livro,
não se tinha acesso. Essas cartas trazem à tona a dificuldade dos três amigos, mas não
11
Jessie Kocmanova expressou seu desacordo em “Some Remarks on E.P. Thompson’s Opinions of the
Poetry of William Morris”, Philologica Pragensia, III, 3, 1960, e em The Poetic Maturing of William
Morris (Praga, 1964). Mas não fui convencido por suas avaliações críticas.
12
C.S. Lewis, Rehabilitations and Other Essays (Oxford, 1939).
13
Em especial a obra de John Goode, discutida mais adiante. Também Lionel Munby, “William Morris’s
Romances and the Society of the Future”, Zeitschrift für Anglistic u. Amerikanistik, X, 1, 1962. Parecem-
me de maior ajuda os estudos de Jessie Kocmanova sobre A Dream of John Ball e os últimos romances
em prosa do que seus estudos sobre a poesia de Morris. Ver Brno Studies in English II, n. 68, 1960 e VI,
n. 109, 1966.
14
15 de julho de 1955.
3
me leva a rever meu tratamento anterior do tema. Philip Anderson é sempre
perceptivo15em todas as questões, exceto às relativas ao pensamento e à ação política de
Morris, e ele freqüentemente apreende melhor as nuances das relações pessoais do que
eu: mas no que diz respeito às poesias de Morris, prefiro ficar com minha própria
interpretação. Talvez a nova evidência mais significativa a vir à tona relaciona-se não
com os Morris, mas com Edward e Georgie Burne-Jones: pois parece, agora, que
durante o auge da obsessão mútua entre Janey e Rosseti, Ned Burne-Jones também
estava envolvido em um caso amoroso com Mary Zambaco. Sem dúvida, isso
despertaria a simpatia mútua entre Georgie e Morris16. Quanto às relações entre Morris
e Rosseti nos últimos anos, essa nova evidência pode levar apenas a conclusões
lamentáveis. Janey foi acometida por doenças inexplicáveis, talvez de origem neurótica.
Rosseti debochava de Morris em suas cartas particulares a Janey, chamando-o, durante a
agitação com a Questão Oriental, de “O Odger do futuro”17, enquanto Morris
comentaria por ocasião da morte de Rosseti:
15
Jack Lindsay, que se beneficiou do trabalho de Henderson, assim como do trabalho de Meier, oferece
também algumas pertinentes sugestões em sua confusa biografia, William Morris: His Life and Work
(1975).
16
Ver Henderson, [Link]., pp. 124-5; C. Doughty e Robert Wahl (eds.) Letters of Dante Gabriel Rossetti
(Oxford, 1965), II, p. 685; Penelope Fitzgerald, Edward Burne-Jones (1975), em especial cap. 10.
17
“Teria Top relegado o comércio a segundo plano em relação à poesia, e agora se dedica a atender
unicamente pedidos de atacado no ramo da filantropia – pois o varejo está abaixo de um verdadeiro
humanista? Mas não; sem uma loja ele não poderia ser o Odger do futuro!”: D.G. Rossetti, a Janey
Morris, 1º de abril de 1878, citado em Jack Lindsay, William Morris, p. 224-225. George Odger, o líder
sapateiro, havia participado repetidamente de eleições parlamentares, com forte apoio, e enfrentou tanto
liberais quanto conservadores, representando uma plataforma de trabalhadores radicais; morreu em 1877.
18
Morris a W. Bell Scott, 9 de abril de 1882, citado em Philip Henderson, op. cit., p. 260.
4
como se supõe próprio de um biógrafo, está sempre pronta para demonstrar sua simpatia
com o biografado e, como também se supõe próprio, ela estende sua simpatia à mulher
que ele amou. Disso não se segue que a autora tivesse que se sentir obrigada a escrever
de forma não generosa sobre William Morris. Mas ela não perde a oportunidade de
fazê-lo. Ela dá a entender, com autoridade, que Morris era um fracasso como amante:
seus primeiros poemas de amor vinham à tona em alguns minutos roubados do tempo
para a tapeçaria ou o desenho de papel de parede (no entanto, Morris não se ocupava de
nenhum dos dois quando escreveu os poemas de The Defence of Guenevere). Morris se
atraía pelo norte, Janey e Rosseti pelo sul e Grylls, atraída também pelo sul, demonstra
comiseração a Janey. Se esta frequentemente se recolhia ao silêncio (observa Grylls
com uma madura autocomplacência) era apenas porque “viu por dentro” os amigos
socialistas de Morris, especialmente Shaw. E mais coisas desse tipo.
Não quero ser mal interpretado. Não é minha intenção oferecer um julgamento
moralista sobre o comportamento de Janey e Rosseti. William e Janey Morris não eram
felizes juntos, e se vivessem em outro tempo, teria sido melhor se tivessem se separado
e encontrado outros companheiros. Mas o que é ofensivo é a suposição de Grylls de que
se Morris aceitou o papel de mari complaisant (mesmo que seja um marido
complacente ferido e infeliz), isso lhe permitiria representá-lo como um homem sem
masculinidade e alvo de ridiculização. Esse é um dos mais velhos e indignos
estereótipos da dominação masculina nas relações sexuais e que, ao meu entender,
deriva mais do poder da ditadura universal do estereótipo, do que qualquer
determinismo sexual inerente. Além disso, essa idéia foi transmitida com força peculiar
nas próprias convenções femininas. Ao longo das gerações, as mulheres se
aconselharam mutuamente a perdoar ou fazer vista grossa à infidelidade de seus
maridos e a desprezar o marido que tivesse uma atitude similar com sua esposa. Em
resumo, mesmo desejando não julgar Janey e Rosseti, sugiro que foi uma questão de
honra para Morris não agir, naquela difícil situação, conforme os padrões vitorianos,
como o marido “enganado”. No mais, me abstive de consultar qualquer das cartas já
publicadas de Janey na coleção da senhora Troxell. Acredito que já se meteram demais
no assunto19.
19
Esse meu juízo é talvez presunçoso à luz da correspondência entre Rossetti e Janey Morris, disponível
quando estas páginas estavam na impressão: Dante Gabriel Rossetti and Jane Morris: Their
Correspondence, ed. John Bryson (Oxford, 1976). Mesmo que sejam, em alguns aspectos, pouco
reveladoras, essas cartas (a maioria delas são de Rossetti) parecem revelar o caráter daquela relação.
5
Muito material novo apareceu sobre os socialistas das décadas de 1880 e 1890,
mesmo que seja pouco o que se relaciona diretamente à Liga Socialista. Meu próprio
relato concentra-se inevitavelmente nas relações de Morris com Hyndman e deu uma
inadequada atenção à F.S.D.∗, tanto em nível de seção como de distrito. O estudo de
Chushichi Tsuzuki sobre Hyndman apresenta um justo relato sobre o fim dessa
história20. Tenho sérias discordâncias com os julgamentos de Tsuzuki expostos aqui21,
porém tenho menos em relação a seu competente estudo sobre Leonor Marx22.
Enquanto escrevia, somente apareceu o primeiro volume da biografia definitiva de
Eleanor Marx, por Yvonne Kapp23. O próximo volume, anunciado para breve,∗ deverá
nos oferecer o primeiro estudo completo sobre a atividade de Aveling na Liga e na
Bloomsbury Socialist Society: a julgar pelo anterior, o livro promete ser tão
Existem várias cartas de 1868-70, em que a paixão mútua de Janey e Rossetti é revelada por completo
pela primeira vez. Em 1869 Janey sofreu seu primeiro colapso nervoso e Morris a levou a Ems para que
se recuperasse. Os três amigos parecem ter tentado viver esse triângulo com afeto mútuo e sinceridade
confessional: “Tudo o que lhe preocupa” (Rossetti escreveu a Janey, em Ems, em julho de 1869) “é a
absorvente questão comigo, como o caro Top não se importará que lhe diga nesse momento angustiante.
Quanto mais ele a ama, mais ele percebe que você é amável e nobre demais para não ser amada...”
Qualquer que fosse o modo com o qual os três amigos tentavam “lidar” com a situação, parece claro que a
tentativa fracassou. Não temos cartas dos anos de crise, 1870-75. São os anos das viagens de Morris à
Islândia – período em que Janey e Rossetti ficavam juntos freqüentemente, em Kelmscott. Quando se
retomou a correspondência, em 1877, houve uma triste mudança na situação. Gabriel está se preparando
para se mudar de Kelmscott e não há mais mensagens amistosas (mas sim alguns sarcasmos) para “Top”.
Janey aparenta ter entrado em um estado de melancolia crônica e hipocondria (os sintomas mencionados
incluem dores na região lombar, ciática, nevralgia, enxaqueca, dores de garganta e febres), que entrou em
sintonia com a melancolia de Rossetti. “Eu espero”, escreveu Gabriel na véspera do natal de 1879, “que
você passe um natal alegre”. Em resposta, Janey não escreve nada relativo ao seu natal, mas escreve sobre
sua filha May: “ela está excessivamente frágil neste inverno e acho que não terá uma longa vida. Melhor
para ela!” (De fato May viveria mais de setenta anos). É uma correspondência completamente triste, de
duas pessoas preocupadas consigo mesmas, unidas por uma melancólica obsessão retrospectiva redimida
por uma preocupação e respeito recíprocos. Muito daquela relação permanece obscuro, não se sabe até
que ponto acreditar em Hall Caine (trazido à luz por Meier) sobre Rossetti lhe ter dito que ele havia se
tornado impotente por causa de um acidente (naqueles anos?); além disso, as cartas revelam pouco sobre
os paradoxos de sentimento e conduta de Rossetti (sua amante, Fanny Cornforth, nunca é mencionada).
Está claro apenas que a relação não se encaixa facilmente em nenhum estereótipo e que uma distância
emocional se estabeleceu entre Morris de um lado e Janey e Rossetti de outro.
∗
Federação Social-Democrática (Social Democratic Federation/SDF). Criada em 1881 por Henry
Hyndman e outros sindicalistas. William Morris desenhou o cartão de filiação à Sociedade, antes de
romper e organizar a Liga Socialista, como Thompson explica. N. Ed.).
20
H. M. Hyndman and British Socialism (Oxford, 1961). Sobre Londres, ver também Paul Thompson,
Socialists, Liberals and Labour: The Struggle for London: 1885-1914 (1967) e (para relações de classe de
forma geral) Gareth Stedman Jones, Outcast London (Oxford, 1971).
21
Ver minha crítica no Bulletin of the Society for the Study of Labour History, n. 3, outono de 1961, p.66-
71.
22
C. Tsuzuki, The Life of Eleanor Marx 1885-1898 (Oxford, 1967).
23
Eleanor Marx: Family Life, 1855-83 (1972). Este volume apresenta Eleanor, de forma completa, e
também Aveling.
∗
Cf. Eleanor Marx: the Crowded Years, 1884-98, v. 2, Virago Press, 1979 (N. ed.).
6
esclarecedor, quanto convincentemente parcial. E, agora, temos estudos mais completos
sobre as atividades de outros colegas de Morris na propaganda socialista24. O estudo de
Dona Torr sobre Tom Mann é indispensável para se entender o conturbado período das
novas revoltas sindicais e da fragmentação da organização socialista no final da década
de 188025. Meu próprio estudo sobre Tom Maguire amplia a história da Liga no West
Riding nesses mesmos anos26. A Sociedade Fabiana também atraiu muita atenção dos
investigadores27. E agora se sabe mais sobre as idéias e sobre a infatigável propaganda
socialista de George Bernard Shaw durante a década de 1880: em seu diário consta que
ele deu até 100 conferências e pronunciamentos, promovidos por entidades muito
diferentes, a cada ano. Essas fontes também revelam que o confronto teórico entre o
Fabianismo e o “Morrissismo” foi ainda mais consciente e prolongado do que eu havia
suposto28. Esse fato não retira a relevância dos novos estudos; sem dúvida passei ao
largo de trabalhos importantes; mas essa pesquisa me parece suficiente.
24
S. Pierson, “Ernest Belfort Bax: the Encounter of Marxism and Late Victorian Culture”, Journal of
British Studies, 1972; Laurence Thompson, The Enthusiasts (1971) – sobre Bruce e Catherine Glasier; W.
J. Fishman, East End Jewish Radicals, 1875-1914. Nova informação sobre a Labour Emancipation
League, Frank Kitz e outros pioneiros londrinos se encontra em Stan Shipley, Club Life and Socialism in
Mid-Visctorian London (History Workshop, 1972) e sobre o anarquismo londrino em Rudolf Rocker, The
London Years (1965).
25
Tom Mann and his Times (1965).
26
“Homage to Tom Maguire”, em Asa Briggs e John Saville (eds.), Essays in Labour History (1960).
27
Em especial A.M. McBriar, Fabian Socialism and English Politics, 1884-1918 (Cambridge, 1962);
Margareth Cole, The Story of Fabian Socialism (1961); E.J. Hobsbawn, “The Fabians Reconsidered” em
Labouring Men (1964). E também Wolfe e Pierson (discutidos adiante).
28
As novas fontes sobre Shaw e as relações entre os fabianos e a Liga Socialista em 1886 são discutidas
no Apêndice II da edição de 1976.
7
Pelo menos a pergunta pode ser feita. Mas deve-se atentar em como formulá-la.
Vários de meus sucessores, em volumes publicados pelas mais respeitadas editoras
acadêmicas, concordam que a questão pode ser colocada apenas de um modo: minha
pesquisa está viciada pelo dogmatismo marxista. Uma obra de “pesquisa inteligente e
exaustiva”, segundo uma opinião generosa, “mas prejudicada pelo profundo viés
marxista do autor”. As atividades de Morris “são examinadas pelo prisma da luta de
classes e o resultado é uma visão um tanto distorcida das idéias de Morris”29. Outro vê
meu livro como “um fracasso por seu desejo equivocado de apresentar seu personagem
como um marxista ortodoxo”30. Um crítico menos generoso observa que meu livro
dedicou “900 páginas para demonstrar que Morris era mesmo um marxista”31.
Eu havia acreditado que o livro era algo bem diferente. Ele é, em um aspecto
central, um argumento sobre a tradição romântica e sua transformação feita por Morris.
(É interessante que Raymond Williams e eu – seu importante Cultura e Sociedade
surgiu três anos depois deste livro – trabalhamos, um sem o conhecimento do outro,
diferentes aspectos da crítica romântica ao utilitarismo). Mas deixando isso de lado, o
que tem de ser perguntado é se não foi o comprometimento político de Morris, e não o
de Marx, que ofendeu a esses autores. Neste caso, meu delito foi, principalmente,
revelar uma intensa inclinação morrissoniana. A questão é difícil: é verdade que em
1955 permiti que constassem do texto alguns intimidadores moralismos políticos, assim
como algumas crenças stanilistas. Eu tinha então uma noção algo reverente do
marxismo como uma ortodoxia herdada e minhas páginas incluíam passagens polêmicas
cuja vulgaridade, sem dúvida, faz estremecerem os pesquisadores atuais. O livro foi
publicado no auge da Guerra Fria. O McCarthismo intelectual não estava limitado aos
Estados Unidos, embora poucos das gerações posteriores entendam seus discretos
modos britânicos de operação. Simpatias marxistas contavam com tão má reputação,
que não tinham muita expressão fora das publicações comunistas; e a vulgaridade da
29
James W. Hulse, Revolutionists in London (Oxford, 1970), p. 27.
30
Williard Wolfe, From Radicalism to Socialism: Men and Ideas in the Formation of Fabian and
Socialist Doctrines (New Haven, 1975), p.320.
31
J.Y. Le Bourgeois, “William Morris and the Marxist Myth”, Durham University Journal, dezembro de
1976.
8
minha própria polêmica32 só pode ser entendida considerando-se que se dirigia contra as
onipresentes e requintadas vulgaridades das ortodoxias antimarxistas daquele tempo.
O clima pode ser ilustrado pela acolhida dispensada ao meu livro pela imprensa
não-socialista33. Essa acolhida foi principalmente o silêncio, quebrado pela revisão do
The Times Supplement, intitulada “Morris e o marxismo”. O crítico relatou que meu
livro estava carregado “de uma forte inclinação marxista” e com “um tom rabugento”; a
“notável façanha” do seu autor é que ele “consegue sustentar um clima de mau humor
por 900 páginas”. Minhas citações tiradas dos escritos políticos de Morris “mostram o
quão vagas eram as visões socialistas de Morris” e o livro todo “serve meramente para
enfatizar aspectos de Morris que seria melhor deixar de lado”34. Está claro que seria
Morris, e não Thompson, e nem mesmo Marx, quem deveria ser novamente relegado ao
silêncio do descrédito.
32
Eliminei certas passagens (por exemplo, primeira edição, p. 735-46) não porque devo desculpas por tê-
las incluído em 1955, mas porque não são relevantes em 1976.
33
Na verdade, meu livro foi mais bem recebido que a maioria dos livros da Lawrence & Wishart (uma
editora comunista), recebendo uma generosa análise de G.D.H. Cole no Listener e uma crítica confusa,
mas não injusta, de A.J.P. Taylor no Manchester Guardian.
34
15 de julho de 1955.
∗
Principal biblioteca para pesquisa da Universidade de Oxford (N. Ed.).
9
socialista original, cuja obra era complementar ao marxismo. E em repetidas ênfases,
sobretudo sobre a relevância atribuída a Morris como um moralista, não deveria ter sido
difícil para um leitor sensível detectar indícios de uma controvérsia subjacente à
ortodoxia à qual eu então pertencia.
Mas essa linha de argumentação é incômoda, uma vez que foca sua atenção
sobre minha própria evolução (e apologia) intelectual e distrai a atenção da nossa real
preocupação: William Morris e seu pensamento político. Devemos então retornar à
questão já colocada: alguns escritores recentes fizeram uso da crítica a meu livro para
mascarar o seu desagrado velado em relação a Morris. Desse modo, ao invés de lermos
“o profundo viés marxista” de Thompson, devemos na verdade ler “o compromisso
inflexível de Morris com o socialismo revolucionário?” Pois, se eu tivesse realmente
deturpado minhas considerações sobre as posições de Morris, será que esses críticos
iriam corrigi-las, de maneira consciente e precisa? Mas não há evidências de que isso
tenha sido feito. Assim, Willard Wolfe, que afirma que minha intenção de apresentar
Morris como um marxista foi um “equívoco”, não oferece um exame mais detalhado
dos escritos socialistas de Morris e apresenta, sucessivamente, os seguintes julgamentos
do socialismo de Morris: a) suas conferências da década de 1880 “advogavam uma
forma de utopia radical-individualista muito semelhante à de Shaw” (p. 132, n. 48);35 b)
seu socialismo era “ético-estético” (p. 162); e c) Morris “deve ser classificado entre os
adeptos do socialismo cristão” da F.S.D., já que seu socialismo era “de caráter
essencialmente religioso” e “fundamentado em um ideal essencialmente cristão de
irmandade” (p. 174, 301). Isso pode ser suficiente para a Yale University Press, mas
havia sido rejeitado pelo editor da Commonweal: parece argumentar que o socialismo de
Morris era mesmo muito agradável, e nunca rude, embora deixasse sem resposta a
questão de como conciliar uma “utopia radical-individualista” com um “ideal cristão de
irmandade”.
35
Neste Pós-escrito, distingo as referências à edição revisada [em inglês] do presente livro, colocando-as
em itálico (162), das referências às obras de outros autores em discussão anotadas deste modo (p. 162).
36
Oxford, 1970.
10
Embora as idéias discutidas flutuem sem conexão com a política algumas partes do
estudo são bem executadas. Talvez por conhecer mais sobre Morris, eu acredite que o
estudo sobre ele foi o pior do livro. Hulse, que sabe que meu livro é prejudicado por um
“profundo viés marxista”37, sabe muito mais coisas sobre o socialismo de Morris,
embora seu conhecimento seja baseado mais freqüentemente na pura afirmação do que
na argumentação: assim (do Manifesto da Liga Socialista)∗, “que continha vários
argumentos marxistas, mas o tom geral era moderado” (p.85); e da divisão, “Morris viu
a ruptura como necessária porque a bancada de Hyndman era muito autoritária,
oportunista e loucamente militante – em resumo, muito marxista.” (p.85).
Somos assegurados também que “a doutrina da luta de classes foi uma das idéias
marxistas gradual e parcialmente assimiladas por Morris”. (p. 81). Em resumo, mais
uma vez o socialismo de Morris é mostrado como algo agradável; e se o marxismo é
definido como “autoritário”, “louco” e “oportunista” (ou seja, não agradável), então
Morris dificilmente poderia ter se associado a ele, a menos por acidente. Mas não está
claro que Hulse tenha nos ajudado a chegar a algo mais preciso. Como, evidentemente,
ele não fez nenhum estudo do Commonweal ou do movimento político real38, suas
afirmações só se sustentam em uma autoconfiança acadêmica.
Isso é uma pena, pois Hulse tem, de fato, uma substancial contribuição para
corrigir minha versão. Ele argumenta que Morris pode ter sido mais influenciado por
Kropotkin e pelos anarco-comunistas do que geralmente se considera; particularmente
em sua noção de federação de comunas, como aparece em “The Society of the Future” e
em News from Nowhere (Notícias de Lugar Nenhum). É uma colocação razoável: a
“extinção do Estado” não foi uma preocupação central de Engels ou dos círculos
marxistas da década de 1880, enquanto essa era uma preocupação compartilhada por
Morris e Kropotkin. Em 1887, Morris observou que:
37
Em contraste, Hulse apresenta Lloyd Wendell Eshleman (pseudônimo Lloyd Eric Grey), A Victorian
Rebel: The Life of William Morris (Nova York, 1940: e sob título e autor diferentes, Londres, 1949) como
“a biografia geral mais facilmente acessível dos últimos 25 anos... baseada em uma competente
investigação e uma favorável compreensão de Morris. Para a opinião de Mackail, em 1940, relativa à
“falta de sinceridade” de Eshleman, ver Meier, op. cit., p.303. Examinei detidamente o enjoativo e
completamente desonesto livro de Eshleman Grey em “The Murder of William Morris”, Arena, abril-
maio de 1951; e o ofendi ainda mais na primeira edição [inglesa], p. 741-3.
∗
Reproduzido no Apêndice I do livro, Thompson, E.P.: William Morris..., 1976 (N. Ed.).
38
Hulse observa (p. 17) que a F.S.D., a Liga e os fabianos “encheram as colunas de seus respectivos
periódicos com criticas às outras organizações”; isto é bobagem, sobretudo o relativo a Commonweal. Ele
observa sobre o Domingo Sangrento: “foi preciso apenas alguns oficiais para dispersar a multidão”
(p.93). E assim por diante.
11
(Ele) tinha um absoluto (e característicamente inglês) horror à
interferência e à centralização do governo, horror esse que
alguns de nossos amigos, que se formaram nos moldes
alemães, não temem na mesma medida (451).
A imaginação de Morris pode ter sido mais estimulada por Kropotkin e por
discussões com seus seguidores na Liga do que eu havia sugerido. Mas Hulse
compromete seu próprio argumento com sua franca parcialidade e pouca pesquisa,
agravadas por seu rancor antimarxista. Sua conclusão oferece um bazar eclético, que
poderia aparecer em outras dúzias de estudos acadêmicos contemporâneos: o socialismo
de Morris pode ser mais bem descrito como católico, influenciado pela Idade Média e
pelo niilismo russo, assim como por Mill e por Marx” (p.110). Seria “mais bem
descrito” desse modo se o objeto de nossa preocupação fosse uma conversa polida, mas
não se quiséssemos dar uma definição precisa: o que, alguém, se pergunta, trouxe essas
inspirações a Morris, e como esses elementos improváveis foram combinados? Hulse
conclui que “não faz muito sentido insistir que Morris pertencia mais a um ramo do
socialismo, ou comunismo, ou anarquismo, do que a outro” (p.109). Pode ser assim
mesmo: “atribuir” a Morris essa ou aquela tendência faz menos sentido do que eu
mesmo supus. Mas, na verdade, para que serve um objetivo, se o que se deseja é ocupar-
se de Morris, definir o que foi o socialismo de Morris, avaliar seus valores, idéias e
estratégias? E isso dificilmente pode ser feito se ignorarmos sua polêmica com o
fabianismo de um lado, e com o anarquismo, de outro. Negligenciando ambas, e
supervalorizando a influência de Kropotkin, Hulse acaba sendo mais um a atribuir (de
maneira confusa) tendências a Morris.
Não teria me estendido tanto em meus desacordos com Hulse se eles não
ilustrassem um problema generalizado de interpretação de Morris. O que tem sido feito,
seguidamente, é tomar um estereótipo do marxismo em sua evolução subseqüente para
remetê-lo a Morris, e a intenção é dissociar Morris completamente do marxismo ou
assimilá-lo completamente a ele (descartando tudo que não seja possível assimilar como
“imaturidades” ou excessos românticos). Mas a questão fundamental não deveria ser se
Morris era ou não um marxista, mas sim se ele era um “morrisista” e, se ele foi, essa era
uma posição coerente e séria? Esse problema é ilustrado, com diferentes
direcionamentos, por dois estudos, ambos mais sérios que qualquer outro relatado até
12
agora: Marxism and the Origins of British Socialism de Stanley Pierson39 e La Pensée
Utopique de William Morris, de Paul Meier.
39
Ithaca e Londres, 1973.
∗
Independent Labour Party, fundado em 1893, sob a liderança de Keir Hardie (N. ed.).
13
Essa consideração é justa e convincente. De certo modo é uma interpretação
aceitável do que ocorreu. Pierson apenas reforça seu argumento quando ele aponta que,
longe de o processo britânico ter sido único, “o marxismo europeu posterior seguiu
praticamente a mesma pauta de ruptura e reassimilação” a tradições nacionais (p.278),
mesmo quando as misturas resultantes foram por vezes aclamadas como “marxismo”
ortodoxo. Porém, em outro sentido, que deve preocupar mais os estudiosos de Morris, a
interpretação de Pierson é menos aceitável. Para começar, essa história intelectual é
vista nos termos da cultura mais elaborada. Mas, quando consideramos o problema da
relação entre a teoria socialista e o movimento da classe trabalhadora entre 1880 e 1890,
a “pauta herdada de pensamento e sentimento”, que exige nossa atenção, não é a do
utilitarismo nem a do romantismo, nem mesmo (com exceção de algumas regiões) a do
inconformismo, e sim a do trabalhismo – isto é, uma cultura de classe, já com uma
longa história de luta, com suas próprias estratégias e maneiras de organização, assim
como certa moral de classe, embora essas estratégias e maneiras de se organizar fossem
significativamente influenciadas – e, por vezes, subordinadas – às idéias que Pierson
descreve. Essa questão não contradiz, necessariamente, o argumento de Pierson, pois
essa cultura de classe foi capaz de assimilar o “socialismo ético” de Merrie England e
um pouco de Morris, de modo que não cabe ignorá-la, mas ainda é insuficiente para
desafiar as estratégias mestras do movimento. Não obstante, deixa um resíduo em
termos de motivação, meta, retórica, obstinação pela “Quarta Cláusula”∗ e, ainda – mais
do que alguns historiadores marxistas estão dispostos a admitir – prioridades socialistas
expressas em nível local, o que muito contribuiu para as ambigüidades do movimento
trabalhista moderno e para as dificuldades de seus mais abjetos líderes parlamentares.
Isso levanta, com toda a força, a questão da ideologia, e este não é um problema
abordado por Pierson40. Trata-se mais do que uma questão de “mediações” ou
“assimilações” intelectuais. Confrontações teóricas muito agudas estavam acontecendo,
nas quais o pensamento socialista emergente se confrontava com o “senso comum” da
sociedade vitoriana liberal-capitalista e suas ilusões ideológicas dominantes. E esse
alerta nos leva a duas considerações pertinentes. Primeiro, em que sentido a nova teoria
∗
Provável referência à “Quarta Cláusula” do Partido Trabalhista britânico, aprovada em 1918, e que
estabelece seus objetivos e valores. Tem sido objeto de constantes lutas internas para sua revisão – como
sua nova versão, de 1995, quando Tony Blair era líder do partido.
40
Este ponto é tratado com ênfase na crítica de Keith Nield a Pierson no Bulletin of the Society for the
Study of Labour History, n. 27, outono de 1973.
14
socialista (e suas estratégias) constituem um rompimento crítico, ou uma ruptura, não
com esse ou aquele ponto do pensamento liberal vitoriano, mas com as idéias
ordenadoras do liberalismo burguês? Se considerarmos que essa ruptura se constituiu de
fato, daí não se pode concluir que a nova teoria socialista fosse, em todos os aspectos,
madura, coerente, e sem contradições internas41. Pode-se concluir tão-somente que, em
pontos críticos e certas idéias centrais, essa teoria era antagônica à ideologia burguesa e,
especificamente, não propunha o aperfeiçoamento do Estado liberal capitalista, mas sim
sua transformação revolucionária. Segue-se que, quando atentamos aos argumentos de
Pierson quanto à “assimilação”, estaremos alertas para identificar o quanto se alastrou
essa assimilação, se chegou longe o suficiente para dissolver as pretensões
revolucionárias da nova teoria e arrastá-la, por meio da “ruptura”, para uma
acomodação com a antiga; ou se serviu apenas para confundir e constranger (talvez
seriamente) a nova. Assim, há uma chance de Pierson estar certo (e acho que ele está)
em argumentar que os fabianos e os marxistas da F.S.D. (e de outras seções européias)
compartilharam uma reduzida noção de homem econômico que tinha muito em comum
com a tradição utilitarista. Mas os fabianos combinavam isso com teorias de renda da
terra e sobre o valor, do Estado e de história, e com uma estratégia mais permeável, que
claramente os fez retroceder pela linha divisória ideológica, enquanto a F.S.D, apesar de
todas as dificuldades que Hyndman representa, continuou a oferecer, até a véspera da
Guerra Mundial, uma confusa e sectária teoria do socialismo revolucionário42.
41
Tampouco significa que devemos endossar todas as noções de “corte” de Althusser (rupture, no
original em inglês). Eu não endosso.
42
Fomos lembrados que as idéias de Hyndman não eram idênticas às de toda F.S.D.; ver Hobsbawn,
Labouring Men.
15
idéias existiam em pessoas reais em contextos reais (freqüentemente, contextos de
sérios confrontos de classe – o Domingo Sangrento, as greves dos mineiros, a Guerra do
Sudão, o novo sindicalismo) e as idéias tinham uma meta a cumprir no presente antes de
serem transmitidas ao futuro. Também poderia ser perguntado (embora isto entre em
choque com certas noções da disciplina acadêmica) se certas idéias estavam corretas.
Isso pode sugerir duas coisas: que a descrição convencional de Pierson sobre a
derivação “romântica” das idéias de Morris (com conceitos marxistas sobrepostos ao
romantismo, mas não integrados a ele) é inadequada, ou que a tradição romântica teve
possibilidades de antagonismo ao senso-comum capitalista maiores do que geralmente
se lhes atribui. Eu acredito que ambas as sugestões estejam corretas. A interpretação de
Pierson sobre a teoria política de Morris consegue, de algum modo, deixar de lado a
política de Morris: suas notas no Commonweal, sua ação organizada, suas ações anti-
imperialistas e internacionalistas, sua luta para acabar com o chauvinismo no centro do
movimento. A falta de atenção de Pierson é tanta que lhe permite escrever que Morris
43
Ver Bernard Semmel, Imperialism and Social Reform (Cambridge, USA, 1940).
16
“virtualmente dissolveu as pretensões morais em sentimentos estéticos” (p.275)44 e que
“Morris levou muito mais adiante a tendência (evidente em Carlyle e Ruskin) de
eliminar o conhecimento pleno daqueles impulsos dos homens que não se harmonizam
com seus desejos de amizade e beleza”45. Esses são comentários estranhos para se
referir a um pensador que argumenta que “a morte de toda a arte” era preferível à sua
sobrevivência entre uma elite que estava numa posição de supremacia de classe (664). E
quem, mais que nenhum outro de seu tempo, focou sua visão nos desastres do nosso
século, identificou o “ódio maniqueísta do mundo”, solto em sua refinada cultura (240),
anteviu a possibilidade de o imperialismo levar a “uma época regular de guerra” (428) e
de a transição para o socialismo vir a ser “mais terrível, muito mais confusa e cheia de
sofrimento do que o período da queda de Roma” (723) e, por fim, argumentou que “a
tremenda organização sob a qual vivemos” antes que “perder qualquer coisa que
realmente seja sua essência... fará cair o teto do mundo sobre sua cabeça” (542)46. Não é
fácil imaginar como Pierson pode deduzir uma antecipação tão assombrosamente
profética de uma consciência que se negava a reconhecer nos homens outros impulsos
que não os seus desejos de amizade e beleza. “Do ponto de vista marxista”, Pierson nos
assegura, “o socialismo de Morris foi regressivo – uma recaída no subjetivismo e
idealismo dos quais Marx tentou resgatar os reformadores socialistas”. Em resumo,
Morris retornou à utopia (p. 274, 84)47.
44
Cf. Morris: “Não estou advogando a produção de um pouco mais de beleza no mundo, por mais que a
ame muito, e por muito que estou disposto a me sacrificar por ela; é pela vida humana que advogo”, “Art
and its Producers” (1888); “Mais uma vez venho lhes advertir contra a suposição, vocês que podem amar
a arte especialmente, de que farão algum bem tentando reavivar a arte ao lidar com seu exterior morto.
Digo que são os objetivos da arte o que devem buscar, mais que a arte em si própria; e nessa busca
podemos nos encontrar em um mundo desnudo e em branco, como resultado de nos preocuparmos com a
arte ao menos até o ponto de não suportarmos seus blefes”, “The Aims of Art” (1886). Ver também a
carta sobre a greve dos mineiros de 1893, “The Deeper Meaning of the Struggle” em Letters, p. 355-357 e
acima, 665.
45
Ver p. 274-5. Também p. 84, onde é suposto que Morris tendia a recusar o reconhecimento “dessas
forças na vida, categorizadas anteriormente como pecadoras ou trágicas”.
46
Quando digo “mais que nenhum outro de seu tempo”, estou pensando nos socialistas britânicos. Mas
não é fácil sugerir comparações européias, a menos que falemos de pessimistas cósmicos (não-
socialistas). Se Engels em seus últimos anos se permitiu enfrentar um pessimismo realista similar,
manteve isso para si.
47
Agrada a Pierson esse termo, “regressivo”. Em outro lugar (The Victorian City, eds. H.J. Dyos e M.
Wolff, 1972, II, p. 879) ele acredita que Morris tente salvar a “visão rural” ao “aderi-la ao marxismo”.
“Impulsos ideológicos no marxismo encorajaram o projeto, mas ele foi incompatível com o realismo
social e econômico daquele sistema de pensamento e que logo entrou em colapso. No socialismo de
Morris a regressão romântica terminou virtualmente no anarquismo...” O “colapso” aqui não é o do
pensamento de Morris, mas a avaliação mais matizada de Pierson no livro em discussão.
17
Então, há duas discordâncias, e ambas são relevantes. Primeiro, sustento contra
Pierson que certos conceitos socialistas, críticos e centrais, não foram sobrepostos à
crítica romântica de Morris, mas foram, em realidade, integradas a ela, de modo que
constituísse uma ruptura com a tradição antiga, sinal de sua transformação48. Na medida
em que esses conceitos estão de acordo com os de Marx e que, em alguns casos,
derivam diretamente de fontes marxistas, devemos chamá-los de marxistas. Segundo,
sustento contra Pierson que a tradição romântica não deve ser definida apenas nos
termos de suas características tradicionais, conservadoras, “regressivas”, “escapistas” e
“utópicas” – e, portanto, como uma contracorrente contínua que ameaçava empurrar
Morris de volta ao “subjetivismo” e ao “idealismo”. Mas, ao contrário, nos termos de
que essa tradição continha recursos de natureza muito distinta, capazes de sofrer essa
transformação, independentemente da difusão dos escritos de Marx e Engels. Isso
significa que a crítica moral ao processo capitalista convergia para conclusões
concordantes com a crítica de Marx e coube à genialidade característica de Morris
pensar além dessa transformação, fazer sua junção e selá-la com a ação. Tampouco
Pierson deveria ignorar que a classificação dessa crítica como “regressiva”, “utópica” e
“idealista” era um modo fácil de livrar-se do problema, já que uma maneira alternativa
de interpretação dessa tradição havia sido proposta, não apenas neste livro, em 1955,
mas, muito convincentemente, por Raymond Williams em Cultura e Sociedade em
1958. Se Pierson está certo em afirmar que “do ponto de vista marxista, o socialismo de
Morris era conservador” (regressive, no original) – e não podemos saber como o
próprio Marx o teria visto –, isso pode ser apenas um indicativo da letargia imaginativa
e da constrição teórica que o marxismo ortodoxo atravessava desde a década de 1880.
Esse fato não comprova, necessariamente (se for verdade), que a junção era impossível
ou que Morris era um intelectual incompetente. Poderia significar, inclusive, que o
marxismo ortodoxo deu as costas a uma conjuntura crítica que negligenciou para seu
próprio risco e subseqüente desgraça.
48
Prefiro o termo “transformação” ao invés de “extensão”, empregado por Raymond Williams em
Cultura e Sociedade (1958), p. 158, já que insiste na “ruptura” assim como na continuidade. Discuti esse
ponto mais veementemente em uma crítica de The Long Revolution, em New Left Review, 9 & 10,
maio/junho & julho/agosto 1961, que será reproduzida em breve junto com meus ensaios políticos
(Merlin Press, 1977). Quaisquer diferenças entre Williams e eu diminuíram (assim acredito eu) com o
passar dos anos e nenhum de nós iria argumentar do mesmo modo hoje. A escolha dos termos não é
importante, mas o tema permanece de interesse. (Nota Ed.: esse livro não foi publicado como Thompson
previa).
18
Prefiro continuar a trabalhar a questão desse modo, já que agora percebo, muito
mais claramente do que quando escrevi esse livro, o perigo de outro estereótipo. Esse
estereótipo propõe que William Morris “tornou-se um marxista”, foi “convertido ao
marxismo”, etc. O perigo pode ser encontrado ao longo do sólido e sempre útil estudo
de Paul Meier49. Sinto polemizar com ele, pois esta importante atenção ao pensamento
político de Morris por um escrupuloso pesquisador francês é mais uma indicação de que
tal pensamento está vivo e não confinado a um idioma nacional. Meier analisou
criteriosamente as influências de Morris: as clássicas, as utópicas e de outros tipos;
examinou, com muito cuidado, cada evidência da influência marxista sobre ele, em seus
textos e conversações com Engels e Bax50. Em seguida, reuniu todos os elementos dos
escritos de Morris relativos à sociedade comunista (e ao estado de transição do
socialismo) e os apresentou mais sistematicamente do que eu (ou, na verdade, Morris)
jamais pretendi. Tudo isso foi feito de forma lúcida e com um respeito generoso por seu
personagem. Temos certeza de que o livro colocará um fim a muita bobagem.
49
Uma edição inglesa de La Pensée Utopique de William Morris (Paris, 1972) está anunciada pela
Harvester Press. (Nota Ed.: de fato foi publicada, em dois volumes, entre 1978 e 1979, William Morris:
the Marxist Dreamer).
50
Ver também Meier “Friedrich Engels et William Morris”, La Pensée, n. 156, Abril, 1971, p.68-80.
51
F. Engels e Paul & Laura Lafargue, Correspondence (Moscou, 1959), 2 vols.
19
ampliada de Marx (atuando em grande parte por meio do partido alemão) tinham uma
influência prejudicial e elitista sobre o movimento europeu. Talvez esse seja apenas um
pequeno defeito frente à imensa e positiva influência da obra central de Engels e a
perspicácia de muitos de seus juízos. Porém esse pequeno defeito, em alguns momentos,
se chocou frontalmente com Morris: depois de ler as cartas de Lafargue, refinei e afiei
meus próprios juízos em um dado ponto da revisão (470-1). Entre 1887 e 1888 Morris
tinha razões para sentir que já havia suportado o bastante. As ações dos “marxistas” da
Liga haviam sido prejudiciais e se destacaram pela falta de camaradagem. Embora sua
estratégia fosse um avanço diante do purismo de Morris, foi tolice forçar debates sobre
um assunto menos importante (o das candidaturas parlamentares).52 A tentativa de
manipular uma unidade doutrinal do movimento europeu com base nos programas do
partido alemão justificou a irritação de Morris por Bax, que estava “infuso na conserva
marxista” (471); e (um ponto que eu havia deixado passar), além de tudo, a constante
solidariedade de Morris com o partido alemão resultou, no início de 1888, no fato de ele
ser forçado a pagar a considerável quantia de mil libras por causa de um processo de
difamação53. De fato, sobre os encontros pessoais de Morris com o círculo da família
marxista, pode-se ficar surpreso, sobretudo pela paciência que teve.
52
Já em 24 de julho de 1884, Morris escreveu a Robert Thompson: “Acredito (e sempre acreditei)... que o
objetivo imediato mais importante... é a redução legal da jornada de trabalho. Qualquer trabalhador pode
ver a imediata vantagem disso; os sindicatos têm de lançar-se a esse objetivo...” Esse se tornaria “um caso
internacional” Letters, p.205. Quando os marxistas da seção de Bloomsbury romperam com a Liga se
esforçaram ao máximo na agitação pelas 8 horas, e não nas candidaturas parlamentares. Se tivessem feito
deste seu cavalo de batalha, quando ainda estavam na Liga, não teria sido necessária nenhuma ruptura.
53
Resumidamente, Commonweal (7 de janeiro, 1888) tornou pública a revelação, no Sozial-Demokrat, de
treze policiais espiões alemães, um dos quais, Reuss, vivia na Inglaterra. Reuss entrou com uma ação
legal. Engels comentou que Morris estava amedrontado, mas tentou reunir dados para uma defesa.
Quando a causa foi perdida, parece que Morris teve de pagar a indenização e outros custos de seu próprio
bolso.
54
Acho útil a sugestão de que The House of the Wolfings e os artigos de Morris sobre “The development
of Modern Society” na Commonweal (1890) possam ter se inspirado em idéias presentes n’A Origem da
Família, derivadas de conversas com Engels ou com Bax. Contudo, ainda tem de ser provado que Morris
20
suposição de que Morris era incapaz de chegar a qualquer conclusão originalmente
marxista por conta própria55: “Malgré notre sincère admiration pour son génie”, escreve
Meier, “et notre refus de ne voir en lui qu’un rêveur, il nous est difficile de croire qu’il
ait pu s’élever tout seul à ce niveau théorique” (p. 409)56. Em outros momentos nos
defrontamos novamente com a mesma confluência entre Morris e marxismo, que foi o
meu tema. Não precisamos perder tempo com a questão trivial de atribuir prioridade de
pensamento a Morris ou Engels. O que Meier faz, quando insiste que os conceitos
socialistas de Morris são sempre derivados do “marxismo” é, em primeiro lugar, reduzir
a noção de marxismo a uma espécie de tradição familiar – um tipo de legitimidade real
que garantiria a única descendência válida – e, em segundo, subestimar seriamente o
vigor da tradição que Morris transformou e que manteve muito de sua contribuição,
assim como Hegel permaneceu respaldando Marx.
Há duas objeções a isso. A primeira (complexa demais para aparecer aqui) é que
é uma questão discutível a de que se sai ganhando ao formalizar a “dialética” deste
estava se inspirando mais em Engels do que (como sugeriu John Goode) em Ancient Society, de Morgan.
Ver Meier, La Pensée Utopique, p.308, 359-65; Goode (citado adiante), p. 261-5.
55
Em especial, acho forçada a atribuição de Meier de uma influência da tese de Marx sobre Feuerbach (p.
347); e a idéia de que a insistência completamente característica de Morris de que uma moralidade
comunista deve se basear nos hábitos induzidos pelas condições gerais de vida em uma sociedade
comunista deve responder a seu conhecimento do manuscrito A Ideologia Alemã (inédito até 1932),
Meier, p.706-708.
56
O caso discutido aqui é difícil. Meier concede uma influência muito genérica às idéias (então inéditas)
da Crítica ao Programa de Gotha. Possivelmente algumas derivam de conversas com Engels, Bax, os
Aveling e outros, enquanto outras eram originais de Morris.
21
modo. Se pensarmos em contradição, e no processo dual e plural de mudança social,
Morris já os tinha captado, e isso se confirmou com sua leitura de O Capital. A segunda
é que, uma vez que Morris havia alcançado conclusões socialistas e levado a cabo uma
ruptura definitiva com a noção Whig de progresso, ele teve de alcançar – e alcançou –
uma compreensão dialética do processo: não apenas porque ele havia chegado ao
“marxismo”, mas por causa de toda a força da tradição romântica que o projetava. De
fato, poucas passagens de seus escritos têm um sentido maior de inevitabilidade do que
as meditações finais em John Ball. A crítica romântica é facilmente descrita como
“regressiva” ou “nostálgica” porque está baseada em um apelo aos valores pré-
capitalistas: e isso é bem específico em Morris, com sua localização imaginativa de
valor nos contextos medieval, germânico e o da antiga Islândia. Como observou
Raymond Williams, Morris transmite diretamente em seu pensamento socialista alguns
termos da crítica romântica ao utilitarismo, como no caso da oposição entre a idéia de
comunidade (ou “sociedade verdadeira”) e a “civilização mecânica”57. Portanto é difícil
perceber como Morris pôde ter transformado essa tradição se não tivesse se atido a uma
noção dialética (a “espiral” de Bax) da reafirmação de um novo nível e a novas formas
dos valores pré-capitalistas de comunidade e “barbárie”58.
57
Op. cit. p. 149. Ver também George Levine, op. cit. sobre a continuidade da subjacente “metáfora
orgânica”.
58
Ao fazer essas críticas devo acrescentar que Meier lida bem com as questões de “barbarismo” e
“civilização” no pensamento de Morris: ver especialmente sua discussão sobre Richard Jefferies, After
London, e sua influência (p.107-13) e parte III, capítulo 1. Mas, como aponta Goode, Morgan também
vislumbrava que a “civilização” continha em si “os elementos da autodestruição”, já que a propriedade
privada se tornara “um poder incontrolável”, o “próximo estágio mais elevado da sociedade” será “um
renascer, em sua forma mais elevada, da liberdade, igualdade e fraternidade dos antigos”; uma visão que
influenciou tanto Morris quanto Engels, que a citou na conclusão de The Origin of the Family.
59
“The Revival of Architecture” (1888).
22
Ruskin ensinou, e não Marx; e em 1880, quando não sabia quase nada de Marx, Morris
escrevia:
E foi para o movimento “Anti-Scrape” que ele falou, em 1884, sobre a nova
compreensão da história:∗
Desse modo, não posso aceitar nem a idéia de Pierson de que certos conceitos
marxistas foram “sobrepostos” ao romantismo de Morris, sem integração; nem o
julgamento implícito de Meier, de que romantismo é equivalente a “idealismo” (em sua
60
“The Revival of Handicraft” (1880).
∗
A Sociedade para a Proteção dos Prédios Antigos (Society for the Protection of Ancient Buildings ou
SPAB) também é conhecida como Anti-Scrape. Foi fundada por William Morris e Philip Webb em1877,
contra o que eles compreendiam como processos abusivos de renovação dos prédios antigos na Inglaterra
vitoriana. Morris estava particularmente preocupado com a prática que ele definia como falsificação ou
fraude (forgery); i. e., a tentativa de restaurar prédios copiando, ou forjando, um estado ideal de um
passado distante. Ao contrário, defendia que esses prédios não deveriam ser restaurados, mas preservados,
para entrarem na história e formarem um patrimônio cultural. Hoje, a SPAB ainda atua de acordo com as
propostas originais de Morris (N. Ed.).
23
conotação marxista ortodoxa) e que poderia ser descartado depois que Morris se
tornasse “um marxista” 61. E se temos de escolher entre dois erros, o segundo pode ser o
mais incorreto. Pode parecer que estou dançando em cima de um alfinete, mas outros
fizeram isso antes de mim. Raymond Williams, em 1958, ofereceu uma crítica
convincente às contradições internas dos críticos marxistas ingleses (me incluindo):
Pelo menos devemos perguntar o que poderia estar no centro da frase, “Marx
transformando o romantismo?” Isso pode passar pelo que realmente ocorreu com o
pensamento de Morris. Ou poderia apenas significar que o marxismo pôde engolir o
romantismo, sem deixar vestígios, assimilando sua boa fé como um nutriente útil, e
descartando seu “sentimentalismo”, seu realismo moral, e sua coragem utópica como
uma excreção demasiado idealista. E essa é a segunda resposta que aparece
frequentemente, apenas para caracterizar as reações de Engels a Morris. Existiu um
breve momento de cordialidade entre os dois, no momento da ruptura, quando Morris
estava muito satisfeito de ver sobre a mesa de Engels a Old Norse Edda∗ e respondeu
lendo para ele alguns trechos de Sigurd: “Saiu tudo muito bem”62. Depois disso
61
Ver Meier (p.646) onde ele se refere a “un passage progressif des positions idéalistes du début au
materialisme marxiste de sa maturité.” (N. ed.: “uma passagem progressiva das posições idealistas (de
seu) início ao materialismo marxista de sua maturidade”).
∗
Coleção de poemas e contos de dois manuscritos medievais encontrados na Islândia, escritos em Old
Norse (língua falada pelos habitantes da Escandinávia, e os das áreas por eles ocupadas, durante a era
Viking, até aproximadamente 1300) (N. Ed.).
62
Engels a Laura Lafargue, 23 de novembro de 1884, Correspondence, I, p.245.
24
sucederam-se as referências desdenhosas e depreciativas: Engels não podia se
incomodar por “fazê-las” a um “rico artista entusiasta” e “socialista sentimental”. (471).
Não há evidência de que ele tenha lido Hopes and Fears for Art (1882) e nem Signs of
Change (1888), mas há comprovação de que não leu Notícias de Lugar Nenhum. Ele leu
Socialism, its Growth and Outcome, e aparentou uma aprovação tépida; mas esse era
um texto do movimento que ele estava examinando por sua utilidade: Engels não deu a
mínima indicação de que, por sua vez, tivesse qualquer coisa a aprender com Morris.
Como observei em 1959, “enquanto Morris se dedicou profundamente, e com sucesso, a
entender e absorver muito da tradição de Engels, este não apresentou esforço
comparável direcionado a Morris”.63
Marx, cuja revolta inicial condizia com a tradição romântica, poderia ter
analisado Morris de forma mais cordial. Mas não se pode resumir isso a uma mera
questão de temperamento. O desdém de Engels com Morris exemplifica a estreiteza da
ortodoxia naqueles anos, uma estreiteza que pode ser notada não apenas em seus
próprios escritos, mas, de forma mais ampla na tradição marxista. À medida que
avançavam as tendências na direção do determinismo e positivismo, a tradição sofreu
um fechamento teórico geral e a possibilidade de junção das tradições, proposta por
Morris, foi impossibilitada. A crítica romântica ao capitalismo, embora transformada, se
tornou suspeita de “moralismo” e “utopia”. Não preciso, em 1976, argumentar que a
subseqüente carência de autoconsciência moral (e inclusive de vocabulário) levou a
principal tradição marxista a algo pior que a confusão64. Mas isso nos ajuda a identificar
dois pontos importantes sobre o atual significado de Morris. Primeiro, é mais
importante entendê-lo como um romântico (transformado) do que como um marxista
(conformado). Segundo, sua importância na tradição marxista pode ser percebida, hoje,
menos no fato da sua adesão a essa tradição, do que nas “ausências” ou fracassos dos
marxistas em legitimar essa adesão. A “conversão” de Morris ao marxismo apresentou
uma possibilidade de junção a que o marxismo não correspondeu, e esse fracasso – que
é, em certo sentido, uma falha que persiste, e não apenas na tradição comunista
63
The Communism of William Morris (London: William Morris Society, 1965) – conferência apresentada
em maio de 1959.
64
Já que eu mesmo não me ative ao tema quando escrevi este livro, seria hipocrisia trabalhar isso agora.
25
hegemônica – tem mais para nos ensinar do que os sermões quanto ao generoso
envolvimento de Morris65.
65
Cf. o comentário de Asa Briggs de que os escritos de Morris “fornecem o material para uma crítica do
socialismo (e comunismo) do século XX, bem como para uma crítica do capitalismo do século XIX”:
William Morris: Selected Writings, p. 17.
66
M. M. H. Abensour, “Les Formes de l’Utopie Socialiste-Communiste”, thèse pour le Doctorat d’Etat en
science politique, Paris 1, 1973, especialmente cap. 4. A ser publicado sob o título Utopies et dialectique
du socialisme, Payot, Paris (1977?).
67
Abensour retoma os artigos negligenciados de Murry: “The Return to Fundamentals: Marx and
Morris”, Adelphi, V, números 1 e2 (outubro-novembro 1932); “Bolchevism and Bradford”, Adelphi, IV,
n. 5 (agosto 1932).
26
científica” de Notícias de Lugar Nenhum (p. 263), para ele uma atitude evasiva68. Por
trás dessa fórmula, Abensour detecta uma rejeição à validade do utópico em qualquer
forma: uma “utopia científica” pode ser tolerada apenas porque não é realmente utópica.
Estas não são palavras de Abensour, mas uma observação sobre suas
argumentações. E também irei comentar certas contrapropostas suas: (1) mesmo que se
possa assentir (como ele faz) as críticas de Marx e Engels aos socialistas utópicos
anteriores a 1850, esses são julgamentos políticos específicos, que não precisam
condenar, de uma vez por todas, toda temática geral de utopia; (2) Morris é,
inevitavelmente, um comunista utópico, não apenas por Notícias de Lugar Nenhum,
mas também pela evidência em grande parte de seus escritos políticos mais diretos, e
qualquer julgamento que não encare essa verdade é culpável por evasão; (3) o problema
68
Ver acima 693. Aceito a crítica de Abensour, mas deixo esse trecho como está, um texto que forma
parte desse debate.
27
da relação de Morris com o marxismo faz surgir agudamente a questão, não de se os
marxistas deveriam criticar Morris, mas sim se o marxismo deveria criticar a si mesmo.
28
mostrar como, em torno de um conjunto genérico de expectativas (“prévision
générique”) do pensamento marxista, a imaginação utópica pode avançar outras
hipóteses acerca do futuro. Hipóteses que não são nem marxistas nem antimarxistas,
mas simplesmente “a-marxistas”. Morris podia tomar (e o fez) certas proposições como
seu ponto de partida, mas as usou como um trampolim a partir do qual sua imaginação
deu um salto utópico (p.277). Se a tradição marxista hegemônica buscou reduzir a
percepção de Morris ao seu próprio ponto de partida, isso é porque essa tradição estava
se fechando em uma circularidade doutrinal autoconfirmadora.
Qual é, então, a função da nova utopia de Morris, se ela nem resgata proposições
que podem ser validadas em relação ao texto, nem tampouco oferece, da maneira
clássica, um estrito modelo social? O comunismo (como Morris o compreendia) exigia
a subversão da sociedade burguesa e a reversão de toda a ordem da vida social:
69
“How Shall We Live Then?”, op. cit., p.6.
70
“L’utopie se détache du concept pour devenir image, image médiatrice et ouverture à la vérite du désir”
(p.329). (“A utopia se destaca do conceito para se tornar imagem, imagem mediadora e abertura à verdade
do desejo”, N. Ed.).
29
espaço próprio e recém encontrado da utopia: a educação do desejo. O que não é o
mesmo que “uma educação moral” com vistas a um fim dado: é, mais corretamente,
abrir um caminho para a inspiração, é “ensinar o desejo a desejar, a desejar melhor, a
desejar mais, e acima de tudo desejar de um jeito diferente” (p. 330). A utopia de
Morris, quando bem sucedida, libera o desejo para interrogar ininterruptamente nossos
valores e também a ele mesmo71:
Tampouco Abensour admite que se veja isso como uma forma de crítica política, posto
que é, em seu nível mais profundo, uma crítica a tudo que entendemos por “política” (p.
347).
Este estudo notável despacha as velhas questões para o passado e propõe novos
problemas. Quando antes a questão tinha sido “era Morris uma marxista ou um não-
marxista?”, agora se comprova que, em grande parte de sua propaganda comunista, ele
não era nem uma coisa nem outra. Ele estava em outro lugar, fazendo outra coisa, e a
questão não é tão errônea quanto inapropriada. Isso explica a dificuldade de todos os
críticos, exceto o “repressivo” senhor Meier, para reduzir os escritos socialistas de
Morris a um sistema; e por que esses escritos assistemáticos ainda poderiam provocar
reações tão profundas? Podemos e devemos afirmar que Morris era um marxista e um
utópico, mas não devemos permitir nem um hífen, nem um sentido de contradição entre
os dois termos. Sobretudo, o segundo termo não deve ser reduzido ao primeiro.
Tampouco devemos permitir uma condescendência que presuma que a “educação do
desejo” seja uma parte subordinada.
Saúdo a visão de Abensour, ainda mais porque foi essa perspectiva que,
submersa, estruturou este livro quando foi escrito pela primeira vez, mas que, ao fim,
falhei em sua articulação. Em minha ênfase sobre “aspiração” dentro da tradição
romântica, sobre “realismo moral”, sobre o jogo repetido de Morris com a palavra
71
“Sa fonction est de donner libre cours au désir d’interroger, de voir, savoir, au désir meme”. (p.329).
(“Sua função é dar um curso livre ao desejo de interrogar, ver, saber, ao desejo por si próprio”, N. Ed.).
30
“esperança” e no próprio título da parte quatro (“Necessity and Desire”), eu apontava
uma conclusão que, no final, abandonei por piedade à política-como-texto e por timidez
ante o termo “utópico”. Mas a pertinência salta aos olhos: Morris foi um comunista
utópico72, com toda a força da tradição romântica transformada por trás dele.
72
Escrevo “comunista utópico” porque recuso o termo “marxista utópico” (assim como Abensour recusa
“utopia científica”), já que o termo “comunista” pode pertencer a sistemas de valores tanto quanto a
sistemas teóricos, de uma forma que “marxista” já não faz. Por “comunista” entendo, em especial, aqueles
valores que o próprio Morris atribuiu à sociedade do futuro.
∗
Devido ao sentido dos comentários de Thompson nesses trechos adotamos a tradução de Utopianism por
utopismo (inexistente em Português) e não por utopia, como na maioria dos casos nesse artigo (N. Ed.).
31
Justificar o utopismo (no sentido proposto por Abensour) não significa, é claro,
que qualquer obra utópica (não clássica, não jurídico-política) é tão boa quanto
qualquer outra. A “educação do desejo” não está além da crítica do sentido ou dos
sentimentos, embora os procedimentos de crítica devam estar mais próximos àqueles da
literatura criativa do que àqueles da teoria política. Há modos disciplinados e
indisciplinados de “sonhar”, mas a disciplina é da imaginação e não da ciência. Resta
demonstrar que o pensamento utópico de Morris sobrevive a essa crítica, bem como à
crítica de noventa anos bastante sombrios. Não mudei minha opinião de que seja assim.
Raymond Williams chegou a uma conclusão mais sutil, e que foi discutida tanto por
Abensour quanto por John Goode. Williams escreveu:
Essa argumentação não está muito longe do meu próprio juízo (717). E nem é
imperativo que a questão da visão utópica necessariamente esteja aqui em foco, nos
exemplos que Williams apresenta, e assumindo o “sentido mais amplo” de escrito
político. Mas Abensour teme que Williams esteja deixando uma abertura para a evasão,
assim como deixei em relação à “utopia científica”. Pois o juízo poderia facilmente
reduzir o utópico ao político, em sua notação usual (“um bom escritor político”), que
poderia então ser julgado por cânones políticos normais 74.
73
Culture and Society, 1958, p. 155-156.
74
“Privilégiant une lecture politique, l’interpréte s’expose à minimiser ou à même passer sous silence la
critique de la politique dans l’oeuvre de William Morris, si fondamentale qu’elle vise une fin de la
politique et que son auteur ne peut être dit un penseur politique au sens classique du terme” (Abensour, p.
341). (“Ao privilegiar uma leitura política, o intérprete corre o risco de minimizar ou mesmo omitir a
crítica da política na obra de William Morris, tão fundamental que visa um fim da política e que seu autor
não pode ser considerado um pensador político no sentido clássico do termo”, N. Ed.).
32
A objeção de Abensour descansa em parte sobre sua boa e minuciosa leitura de
Notícias de Lugar Nenhum – de sua estrutura e sua franqueza – e em parte sobre uma
crítica ao descuido de Williams com a tradição utópica anterior. Mas as questões podem
ser reduzidas a apenas uma: por que as obras utópicas e “políticas” deveriam ser
colocadas umas contra as outras, quando tão obviamente elas devem ser consideradas
juntas? Por que somos convidados a pagar esse preço? Williams desiste muito
facilmente de Notícias e de John Ball, como talvez Pilgrims’s Progress ou As Viagens
de Gulliver possam ter sido deixadas de lado por leitores para quem esses livros se
tornaram muito familiares para o mobiliário da mente (furniture of the mind, no
original). E John Goode lança uma questão muito parecida. É fascinante observar como
Abensour e Goode, trabalhando com materiais diferentes e inspirando-se nos pontos
fortes – analíticos e críticos – de suas respectivas disciplinas e idiomas, chegam a
conclusões similares.
A obra de Goode está acessível e não preciso me estender nas informações sobre
ela75. Ele observa que a análise de Williams “sugere a ordem adequada para se ler
Morris”, mas que, como um julgamento crítico, “precisa ser questionado”, pois tal
desvalorização drástica dos escritos criativos de Morris traria uma mudança de categoria
e Williams “parece não perceber quão magnífica seria essa mudança”. Uma crítica
similar é dirigida a mim: também apresento uma “ruptura entre os juízos morais e
estéticos” que “novamente reduzem a obra criativa de Morris a um papel marginal”76.
Goode então retorna aos escritos criativos de Morris, de Sigurd em diante, mas sem
pretender reabilitá-los dentro dos termos convencionais da crítica literária. O que ele faz
é investigar os problemas que Morris teve de superar na obra criativa de seus anos
socialistas. Essa obra deveria ser vista como “uma reação formal a problemas
teoricamente insolúveis, exceto em termos de metáforas, insatisfatórias e intratáveis na
situação histórica real” (p.222). Nessa perspectiva, Goode se aproxima da visão de
Pierson, de que “a fusão efetuada por Morris entre a visão romântica e o marxismo”,
como conseqüência, “aguçou o divórcio entre a consciência e a realidade social objetiva
que caracterizou o pensamento de Carlyle e Ruskin”77. Quanto mais profunda a
75
John Goode, “William Morris and the Dream of Revolution”, in John Lucas (ed.) Literature and
Politics in the Nineteenth Century (1971).
76
Goode, p. 222-3, e a primeira edição desta obra, 779. Neste caso, a avaliação adequadamente criticada
por Goode como “complacente” era demasiado piedosa para constar nesta revisão.
77
Pierson, op. cit, p. 274. É o único lugar onde Pierson permite o termo “fusão”.
33
compreensão de Morris das determinações do processo capitalista, mais intransigente se
tornou o protesto contra as determinações de aspiração ou “desejo”, mais difícil foi
revestir essas aspirações em formas contemporâneas, e mais urgente se tornou o
“desejo” dominar a “necessidade”. Goode compartilha minha opinião de que foi o
desespero, mais que a visão, o que colocou Morris em direção ao socialismo
revolucionário (p.235) e, mesmo que o marxismo “dê à sua visão uma base histórica, o
conceito central de sua ideologia socialista – a alienação – esteve com ele desde o
início” (p.236)78. Não apenas podemos usar o conceito “alienação” sobretudo de um
modo analítico, e não meramente descritivo, como também Goode demonstra que
Morris era muito consciente de seu diagnóstico – como quando escreveu que a
“civilização engendrou desejos que ela mesma nos proíbe de satisfazer, portanto, não é
apenas mesquinha, mas também torturante” ou que “toda civilização cultivou nossa
sensibilidade apenas para desapontá-la” (p.236)79. Portanto, Morris encarou essa
contradição, em uma tensão produzida por uma visão de um futuro socialista que “está
de certo modo mais além da consciência imediata, embora isso seja concebível em
termos teóricos” (p.238), – uma tensão também manifesta em sua própria obra (que
Goode sugere ser o verdadeiro protagonista dos últimos escritos criativos) entre “a visão
do potencial histórico” e as monótonas ou deprimentes realidades presentes do
movimento. Enfrentando contradições entre aspirações socialistas e a devastadora
presença da realidade capitalista (com seu “senso-comum” sinalizando a todo o
momento a “impossibilidade” da realização socialista), uma reação geral dentro da
tradição marxista era (como observou Gramsci) uma recaída no predestinado
determinismo mecânico – um vigor fortalecido pela fé na inevitabilidade “da causa”80.
Não é apenas que Morris, talvez de forma crescente, duvidou de tal determinismo ou
evolucionismo81. É, também, como repara muito bem Goode, uma pseudo-resolução do
78
Apoio firmemente o juízo de Goode quanto ao tema unitário da alienação na obra de Morris, da
juventude à maturidade. Mas gostaria que Goode, como muitos marxistas ingleses, não usasse o termo
“ideologia” de modo tão descuidado; Morris não tinha “uma ideologia socialista”.
79
Estou ciente que o termo “alienação” é usado com diversos sentidos nos escritos marxistas. Mas esse
sentido de sensibilidade alienada parece permissivo e de acordo com algumas passagens de Marx.
80
Goode, p. 260, citando Gramsci, The Modern Prince, 1967, p. 69.
81
Até meados dos anos 1880, e depois ocasionalmente (por exemplo, 748), Morris se refere ao “novo
entendimento da história” em termos de “evolução” de um tipo necessário. Minha impressão é que ele
viria a duvidar desse evolucionismo depois de 1887 (ver, por exemplo, 427-30). Engels, Bax, Aveling,
Hyndman e companhia, todos tinham o hábito de utilizar metáforas evolucionistas (em certas ocasiões,
em um paralelo explícito com o darwinismo); e Goode nota com justiça (p.270) que alguns dos
comentários de Engels sobre a cena inglesa mostram um derrotismo “meramente reflexivo” agravado pela
energia determinista.
34
problema da alienação: uma resolução (ou “Revolução”) “alcançada por forças externas
a si mesmo: a alienação humana (man´s alienation, no original) terminará por forças
externas” (p.270). Face a essas contradições, devemos analisar como as obras de Morris
“tentaram, com muito sucesso, encontrar uma maneira pela qual a mente criativa possa
ser retratada em sua determinada e determinante relação com a realidade histórica”
(p.222) e também como as próprias pessoas podem ser vistas “tanto como uma força
determinante quanto como uma força determinada” (p.271).
Isso não pode ser feito, entretanto, no contexto das formas recebidas do
realismo. É, portanto, inevitável e justo que Morris elaborasse uma nova versão para sua
antiga herança romântica de sonho:
Mas como eles devem ser considerados? É aqui que Goode se aproxima da
mesma solução de Abensour, mas (como me parece) finalmente se assusta e retrocede.
Goode também questiona o termo “utopia científica”, mas faz isso porque acredita que
Notícias de Lugar Nenhum não pode ser adequadamente descrito por nenhum dos
termos, nem por “científica” nem por “utopia”. A obra é, em primeiro lugar, não tanto
uma pintura de valores ordenados como uma inversão dos valores rejeitados da vida
82
Sem dúvida, ninguém pode abordar Sigurd, depois dessa análise, sem um tipo novo de respeito. O
problema é que Goode pode mostrar essa elaboração mítica apenas abstraindo-a da “neblina lingüística”
dos poemas e então oferecê-la como um resumo analítico; além disso, quanto já se havia dado a Morris
em seus materiais?
35
moderna (p.277) e expressa a exaustão e até mesmo o pessimismo na mente do autor:
“lugar nenhum é lugar nenhum, exceto como uma antítese conceitual na mente de um
ativista exausto.” Mas por que, nessas orações, Goode insiste sobre tal oposição? É
possível, nesse tipo de trabalho, rejeitar os valores presentes sem propor alternativas?
Como um pode ser feito sem o outro? Talvez o peso caia sobre a “antítese”. Valores de
lugar nenhum são aqueles do não-presente ou antipresente, não são ousadamente
imaginados ex nihilo? Mas primeiro tem de ser mostrado que isso é assim (o que Goode
não faz); e em segundo, que um escritor utópico pode proceder de outros modos que
não seja reordenando os valores do presente ou passado, ou propondo antíteses a esses
valores. O que Goode parece estar fazendo, como tantos outros antes dele, e como eu
mesmo em 1955, é fugindo de uma aceitação da utopia como uma forma imaginativa
válida, devido ao susto provocado por Engels em 188083. Assim, Goode se concentra
em apenas um componente de Notícias de Lugar Nenhum (o contraste sem fim entre o
futuro, passado e presente que, como eu notei (695), é essencial na estrutura da obra) em
detrimento de todos os outros:
Então, em conclusão, Goode pode afirmar que identificou o feito das últimas
obras criativas de Morris, nas quais este “descobre formas que dramatizam as tensões da
mente revolucionária”. Isso é uma parte da verdade, especialmente se consideramos
John Ball, e Goode é o primeiro a ter identificado tão bem essa parte. Mas Notícias de
Lugar Nenhum realmente deve ser lido, sensatamente, apenas como uma “agonia”? Essa
não é uma interpretação um tanto cerebral de uma obra que, de fato, propõe valores
alternativos? Pelo menos parece um juízo um tanto introvertido (“as tensões da mente
revolucionária”) de uma obra bem sucedida em comunicar uma coisa muito diferente a
um público não inclinado à obsessão narcisista do intelectual com suas próprias
angústias mentais84.
83
1880 é a data da primeira edição francesa de Socialism, Utopian and Scientific.
84
Na depressão pós 1929, Harold Laski relatou que ele havia encontrado cópias de A Dream of John Ball
e Notícias de Lugar Nenhum na zona de Tyneside (que Morris havia visitado em 1887) “em casa por casa
dos mineiros”, mesmo quando a maioria dos móveis já havia sido vendida: ver Paul Thompson, William
Morris, p. 219.
36
Posso estar errado, mas me parece que Goode chegou a uma conclusão estranha
às suas próprias evidências e isso ocorreu porque ele não examinou o problema da
utopia. Pois. anteriormente, em seu estudo, chega a um ponto muito próximo das
posições de Abensour. Ele alerta que não há nada “fácil” no uso de um sonho por
Morris, “como uma convenção dentro da qual realizar concretamente (uma) intuição
socialista”. O uso do sonho por Morris “não é polêmico, mas sim exploratório” (p.246)
e, novamente, ele o usa:
37
Se a utopia tem sucesso no que oferece, em cada obra ela deve ser submetida ao
“teste” da crítica específica. E a crítica de Goode, de A Dream of John Ball, é de longe a
melhor apreciação (e defesa) de qualquer dos trabalhos de arte socialista de Morris. A
obra de Goode, tomada em conjunto com a de Abensour, leva os estudos sobre Morris a
um território diferente. Trazem, finalmente, notícias de algum lugar novo. E isso é o
importante.
Nessa revisão, tanto de minha própria obra quanto dos estudos sobre Morris nos
últimos vinte e um anos, talvez tenha me concentrado em demasia em um problema: a
relação Morris/marxismo. Acredito que aí se encontram as questões relevantes. As
antigas tentativas de assimilar Morris ao trabalhismo, ou mesmo ao fabianismo, há
muito tempo foram descartadas. Evidentemente, o curso do trabalhismo britânico nesse
século não apenas se desviou das perspectivas defendidas por Morris, mas levou
exatamente à encruzilhada que ele anteviu. As pessoas devem “apropriar-se, pelo bem
da comunidade, de todos os meios de produção: ou seja, crédito, estradas de ferro,
minas, fábricas, marinha mercante, terra, maquinaria”, ele escreveu a um
correspondente em 1884:
85
Morris a Robert Thomson, 24 de julho [1884], Houghton Library, Harvard University, MS, Eng. 798;
Letters, p. 205.
38
loucos e poetas, seja o que for – somos, pelo menos, o único
grupo de pessoas que pôde ver que existe e que existiu uma
grande luta de classes. Além disso, podemos ver que essa luta
de classes não poderá chegar ao fim enquanto as próprias
classes também não chegarem: uma classe deve absorver a
outra.86
86
“Feudal England”, Signs of Change (1888), p. 82-83.
87
Commonweal, edição de 1º de maio, 1886.
88
“Communism” (1893).
39
histórica exploratória subestima suas próprias circunstâncias e busca os dilemas de
nosso próprio tempo com uma intuição moral tão penetrante que pode ser entendida
erroneamente como insensível:
Temos de nos decidir em relação a William Morris. Ele pode ser considerado
uma figura excêntrica, isolada, pessoalmente admirável, mas cujo pensamento principal
estava errado ou era de sentido irrelevante e deixado para trás há tempos pelos
acontecimentos. Poderia ser assim, embora não seja necessário lembrar que
precisaríamos dispensar suas ênfases e interesses secundários. Ele sempre será um
artista de maior importância na história das artes decorativas e na história narrativa do
socialismo britânico. E alguns temas de seus escritos remontarão de vez em quando à
altura do discurso revitalizado: como foi recentemente notado (uma descoberta notável!)
que ele foi o pioneiro da consciência “ecológica” responsável e nunca foi esquecido que
ele possuía opiniões definidas e incômodas com relação à questão do trabalho89. Por
outro lado, pode ser que Morris tenha sido uma figura intelectual maior. Como tal, ele
pode ser visto como nosso maior analista de alienação, nos termos da percepção
concreta do moralista e no contexto de uma tradição cultural inglesa particular. E se for
assim, ele permanece uma figura contemporânea e deve então ser importante estabelecer
a relação na qual ele se encontra no pensamento contemporâneo. E se o movimento
trabalhista britânico alcançou agora, com precisão, a encruzilhada que ele anteviu cerca
de noventa anos antes, podemos esperar uma intensa renovação no interesse sobre sua
obra e o surgimento de um número de pretendentes à sua herança.
O pretendente mais plausível, e que fala mais alto, é o “marxismo”, e por isso
insisti nesse ponto. Devo confessar que na primeira vez que li Meier, caí em depressão.
Parecia que se havia liberado Morris, vinte e um anos atrás, de um mito de ortodoxia
marxista. O resultado não era apenas repressivo, foi também tedioso e criador de
distâncias – o retrato de Morris pode agora ser pendurado na parede com segurança,
com A Crítica do Programa de Gotha em seu colo. Mas posto que Meier só estava
livremente transcrevendo algumas beatices e evasões de meu próprio tratamento
89
Essas opiniões são discutidas lucidamente por Alasdair Clayre, Work and Play (1974), em especial no
capítulo 6.
40
original, me sentia com poucas forças para retomar a discussão. Graças aos senhores
Abensour e Goode recuperei o moral. Vemos agora que Morris pode ser assimilado ao
marxismo apenas no curso de um processo de autocrítica e reordenação do próprio
marxismo.
“A igualdade é, de fato, o nosso ideal”, disse ele, e “posso explicar apenas o fato
de que alguns socialistas não tenham isso sempre presente supondo que sua ávida busca
dos meios os tenha, de alguma forma, cegado quanto ao fim.” Essa afirmação era
dirigida aos fabianos, com quem ele estava dialogando91. Em um sentido, esse ideal
podia ser definido simplesmente como uma negação da sociedade de classes: o
socialismo almeja “o pleno desenvolvimento da vida humana, livre de regulamentos
artificiais em favor de uma classe”92. A metáfora implícita, subjacente, é a “orgânica”,
inspirada na velha crítica romântica do utilitarismo: o crescimento natural da “vida” será
libertado dos freios artificiais (ou mecânicos) da “civilização”. Uma sociedade
comunista realizada não dependerá de uma nova raça criada a partir de pessoas
moralmente admiráveis, mas sim do crescimento de um sistema de valor comunal
transformado em hábito por meio da ausência da propriedade privada dos meios de
produção e da conseqüente competição pelos meios de subsistência. Em “Lugar
Nenhum” um “hábito de vida”, “um hábito de atuar, em conjunto, pelo melhor” foi
90
Morris enfatizou cuidadosamente essa seqüência em “How Shall We Live Then?”, op. cit., p. 10. Cf.
Raymond Williams, op. cit., p. 265: “O raciocínio econômico, e a promessa política, chegaram a ele por
meio do marxismo; a rebelião geral, em termos mais antigos”.
91
“How Shall We Live Then?”, p. 20.
92
Prefácio de William Morris a Socialism Made Plan (1888), de Frank Fairman, p. iv. Cf. outra definição
por negação: “o grande poder central dos tempos modernos, o mercado mundial..., com todo o engenhoso
e intrincado sistema que o mercado em busca de lucro construiu em seu redor”, deve se desenvolver em
“sua contradição, que é a troca consciente de serviços entre iguais”: “How Shall We Live Then?”, p. 16.
41
“crescendo em nós” – “é fácil para nós vivermos sem roubarmos uns aos outros” (697).
Nesse sentido, os sistemas de valores alternativos do capitalismo e do socialismo são
considerados, em formas que alguns antropólogos contemporâneos aprovariam, como
sendo, ao mesmo tempo, sustentadores e sustentados pela organização da vida
econômica e social.
Mas isso não é tudo o que Morris afirma. Pois, em outro sentido, seu uso de
critérios morais e suas afirmações de fins “ideais” e de valores prioritários são também
indicativos: indicam a direção que deve seguir o desenvolvimento histórico; sugerem
escolhas entre direções alternativas; afirmam uma preferência entre essas opções e
buscam educar os outros em suas preferências. Essas indicações nunca são absolutas ou
“utópicas” nesse sentido: Morris nunca propõe que os homens podem viver de qualquer
jeito que eles possam supor que tenham escolhido de acordo com qualquer sistema de
valores imaginável. As indicações estão situadas dentro de um coerente argumento
histórico e político. Mas estão aí e são importantes. Talvez sejam a ocasião em que
Engels não cosidere Morris um “socialista sentimental” – acusação que Morris recebeu
claramente sem arrependimento (“Eu sou um sentimental..., e tenho orgulho de sê-lo”
(718)). Essas indicações mostram que há uma “fresta” entre as posições conscientes e
declaradas de Morris e um determinismo moral (desde essas relações de produção, esses
valores e essa moralidade consoante) que ocupou muito do pensamento marxista. Na
crítica de Morris à sociedade capitalista, não há sentido em se considerar a moralidade
como um aspecto secundário, e o poder e as relações de produção como aspectos
primários. A feiúra das relações sociais vitorianas e “as vulgaridades da civilização” não
eram “senão a expressão externa da baixeza moral inata a qual somos forçados pela
nossa forma atual de sociedade...”93. Essa baixeza moral era “inata” à sua forma social:
“economia” e “moralidade” estavam enredadas no mesmo nexo de relações sociais
sistematizadas, e desse nexo deve resultar uma lógica econômica e moral.
Depreende-se que a revolta contra essa lógica deve ter um caráter igualmente
“econômico” e “moral”. Mas uma revolta moral, assim como uma econômica, deve ter
algum lugar aonde ir, um objetivo a apontar. E apontar implica escolher, não entre
direções que se podem desejar, mas entre inflexões de direção. Quando Morris dirigia
93
Prefácio a Signs of Change (1888). Estou aqui revisando uma discussão muito confusa sobre
consciência moral e a tradição marxista, na minha primeira edição, p. 83-5 (não consta na presente
edição), e substituindo-a por algumas notas apresentadas pela primeira vez em “The Communism of
William Morris”, [Link].
42
seu olhar à sociedade do futuro, ele propunha que o conflito entre desejo e utilitarismo
continuaria e que o desejo deveria e poderia definir suas próprias prioridades. Pois,
acreditar que nossos desejos têm de estar determinados por nossas necessidades
materiais pode significar tomar como certa uma noção de “necessidade” que já foi
determinada pelas próprias expectativas da sociedade existente94. Mas o desejo também
pode se impor como uma “necessidade”: na sociedade de classes, pode-se perceber na
forma de alienação, desejo insatisfeito; na sociedade do futuro, na forma de opções mais
abertas entre necessidades: “Em aparência devemos renunciar a muito daquilo que
estivemos acostumados a chamar de progresso material, para que possamos ser mais
livres, felizes e completamente iguais.”95
“Civilização” e “barbárie” foram termos que Morris sempre empregou com uma
inversão irônica, inspirando-se em parte na herança de Carlyle e Ruskin, em parte no
profundo compromisso que ele havia aprendido para certos valores e formas pré-
capitalistas. “Tornarem-se bárbaros” não lhe alarmava nem um pouco. A “civilização”
(ele escreveu a Georgie Burne-Jones em maio de 1885) “agora eu sei que está
94
Ver a crítica de Morris a alguns socialistas “práticos”: “ele está pensando totalmente no lado
conservador da natureza humana... e ignora que existe, com a mesma certeza, sua parte revolucionária”,
Commonweal, 18 de fevereiro, 1888.
95
“How Shall We Live Then?”, p. 23. Outra evidente preferência que, é claro, Morris nunca deixou de
nutrir como uma vontade, foi a necessidade da expressão artística: “Pois sem a arte o socialismo
permaneceria tão estéril quanto outras formas de organização social: ele não realizaria as vontades reais e
eternas da humanidade”. Prefácio a On the Nature of Gothic, de Ruskin (Kelmscott Press, 1892). E
(“How I Became a Socialist”): “É ocupação da arte colocar ante ele o verdadeiro ideal de uma vida
completa e sábia, uma vida em que a percepção e a criação da beleza... devam ser sentidas como algo tão
necessário ao homem quanto seu pão diário.”
96
“How Shall We Live Then?”, p.23-4. O último comentário foi talvez uma ruptura na noção de Bax de
que mudanças evolutivas “no organismo humano” iriam extirpar “o lado mais grosseiro da paixão sexual”
(705), porém Morris se valia desse pretexto para uma ironia mais geral.
43
condenada à destruição”. Esse “conhecimento” é o que ele tinha apreendido enquanto
um “socialista prático”, salvando-se assim de “um final muito pessimista da vida” (175)
Mas o assentimento do desejo precedeu esse conhecimento. “Que prazer pensar nisso!”,
continuava sua carta a Georgie:
97
Letters, p. 236.
98
Ver “Art and Socialism” (1884): “A mudança no que guardamos para nós está escondido no seio da
barbárie da civilização – o proletariado”.
∗
Algernon Charles Swinburne (5 de abril de 1837/10 de abril de 1909) foi um poeta inglês da época
vitoriana, conhecido pela controvérsia gerada no período, por seus temas sadomasoquistas, homossexuais,
fúnebres e anti-religiosos (N. Ed.).
44
popular possui uma idéia intuitiva de arte” (666)). A falta de consciência de
“civilização” não foi vista por ele como mascarando algum inconsciente proletário
saudável A própria necessidade iria impelir os trabalhadores à luta, mas essa luta não
alcançaria meta alguma a não ser que a meta fosse definida pelo desejo e uma estratégia
para seu alcance determinada pela teoria socialista. Primeiro, devemos ter “coragem
suficiente para desejar”, a “esperança consciente” deve estar no mesmo nível da
resposta à “ruína comercial” (428). Além disso, se os socialistas falharam na educação
do desejo e em aumentar essa esperança consciente, de “sustentar firmemente sua
devida reivindicação a essa plenitude e totalidade de vida que nenhum sistema de
classes pode lhes oferecer”, então eles se tornariam mais facilmente vítimas do
“embuste” de “uma espécie de simulacro utilitário de socialismo” (429). Ou, se a
sociedade existente não proporcionou sequer isso, e “se nós deixamos tudo por conta da
necessidade”, o resultado será um desastre vulcânico (724)99. O fim em si era
inalcançável sem a educação prévia do desejo ou “necessidade”. E a ciência não pode
nos dizer o que desejar ou como desejar. Morris viu isso como uma tarefa dos
socialistas (sua primeira tarefa); ajudar as pessoas a encontrarem suas vontades,
encorajá-las a querer mais, desafiá-las a querer de um modo diferente e a contemplar
uma sociedade do futuro em que as pessoas, finalmente libertadas da necessidade,
possam escolher entre diferentes vontades. “É para provocá-los a não ficarem satisfeitos
com pouco que estou aqui esta noite” (361).
Quando afirmo que Morris pode ser assimilado ao marxismo apenas no curso de
uma reordenação do próprio marxismo, não quero dizer, obviamente, que os pensadores
marxistas não tenham detectado ou proposto soluções para esses problemas. Mas é
nesse ponto que (acredito) ainda resida o problema. E “o caso Morris” – e o
atordoamento marxista por sua causa –, enfatiza que o problema ainda não foi
solucionado. Ademais, deveria estar claro por agora que existe um sentido no qual
Morris, enquanto utópico e moralista, nunca poderá ser assimilado ao marxismo, não
por nenhuma contradição de propósitos, mas sim porque não se pode assimilar desejo
ao conhecimento e porque a tentativa de fazê-lo confunde os diferentes princípios
operacionais da cultura. Desse modo, apresentei o problema da maneira errada, e o
marxismo requer menos uma reordenação de seus componentes do que um sentimento
99
Quando estava escrevendo nesse sentido, Morris apresentou as alternativas de socialismo ou desastre
social, de modo que antecipa o “Socialism or Barbarism”, de Rosa Luxemburgo.
45
de humildade ante esses componentes da cultura que nunca se poderá ordenar. Os
movimentos do desejo podem ser legíveis no texto da necessidade e então podem se
converter em objetos de crítica e explicação racionais. Mas essa crítica mal pode tocar
esses movimentos em sua origem. O “marxismo”, por conta própria, agora sabemos,
nunca fez de ninguém “bom” ou “mau”, embora uma fé, surgindo de outras fontes,
tenha alimentado uma coragem épica, e uma má fé, mas aclamada como marxismo,
tenha corrompido as primeiras premissas de Marx. Então o que o marxismo poderia
fazer, para variar, seria centrar-se um pouco em si mesmo, nos interesses do coração
socialista. Poderia fechar um balcão de sua farmácia universal e parar de distribuir
poções de análise para curar a doença do desejo. Poderia ser bom também
politicamente, já que permitiria um pequeno espaço, não apenas para os literatos
utópicos, mas também para as iniciativas não prescritas para o cotidiano de homens e
mulheres que, em alguma parte de si mesmos, se sentem ora alienados, ora utópicos.
Não será assim o ponto de vista de todos os leitores. Então é hora de sair do
caminho de Morris e acabar de uma vez por todas este livro. Não o revisarei novamente.
Deve agora ficar assim, para que as pessoas o usem como quiserem. Se quiserem usá-lo
como uma mina, está tudo bem. Os fragmentos de Morris são o que importa. Mas
gostaria que uma parte da estrutura desse livro – a parte menos notada pelos seus
críticos – recebesse um pouco de atenção antes de ser rechaçada. Estou me referindo à
análise do romantismo e de sua trajetória na vida de Morris: não apenas o modo como
Morris rejeitou o reacionário “socialismo feudal” de Carlyle e deu nova interpretação à
Natureza do Gótico, de Ruskin; mas, sobretudo, a trajetória desde o romantismo de
Keats, profundamente subjetivo (em que as aspirações, tendo sua realização negada,
circularam entre a integridade do artista e o artefato ideal de beleza), por meio da
rebelião sublimada de The Defence of Guenevere, à crise de desespero de The Earthly
Paradise, em que todos os valores do individualismo subjetivo estavam envenenados
pela mácula da mortalidade; e daqui, passando pelos mitos sociais recuperativos da saga
islandesa, até a resolução socialista.
Essa trajetória pode ser vista de dois aspectos. Na própria poesia de Morris ela
aparece como fragmentária e sugestiva, mas também como incompleta. Suas premissas
estéticas foram as que sofreram menos modificações e sua devoção aos feitos pré-
capitalistas nas artes visuais e arquitetônicas reforçaram seu teimoso apego às noções de
“beleza” pré-rafaelita e de Keats. Isso o levou à sua precipitada tentativa de inventar (ou
46
reinventar) uma linguagem que manteria a sociedade vitoriana à distância. Desse
aspecto, podemos ver como Morris desenhava o desenvolvimento do arco de sua obra
criativa. Mas, como já argumentei bastante, suas premissas estavam erradas e tentar
“criar uma nova língua” desse modo era descartar, mais que desafiar, a sensibilidade de
seu tempo. A tentativa deu certo apenas quando equiparada com a forma de sonho,
quando o desentendimento era em si um meio pelo qual a crítica do senso comum podia
ser mantida.
100
May Morris, I, p. 148.
47
relaxou ao se estender a aspiração, indiretamente, ao futuro. Quando ele imaginou essa
sociedade, ele não perguntou “como irão viver?”, mas sim “como deveremos viver?”. A
trajetória foi finalizada completamente. E o que foi transformado não foi apenas sua
tradição, mas também sua própria sensibilidade e personalidade. Podemos ver então em
William Morris, não um último vitoriano, nem mesmo um “contemporâneo”, mas uma
nova forma de sensibilidade. Se ele às vezes aparece como uma figura isolada e mal
compreendida, isso é porque poucos homens ou mulheres de seu tipo existiam então –
ou existiram desde então.
Agosto, 1976
48
The Group e os estudos culturais britânicos: Edward P. Thompson
em contexto
lamentáveis teriam sido, creio eu, outras coisas: ver os ex-membros do Grupo convertidos à
defesa da “liberdade” e da “democracia” em forma abstrata e coerente com a tradição
filosófica do individualismo burguês, à maneira de Hannah Arendt, que com tanta freqüência
gostava de refugiar-se na pólis grega como forma de não se ver obrigada a enfrentar
problemas socioeconômicos contemporâneos incômodos; ou, talvez, aderindo a “alternativas”
que não o são, como por exemplo aquela, paramarxista, da “teoria da ação comunicativa” de
Jürgen Habermas.2 Felizmente ainda existem historiadores que, como Pierre Vilar, não
aderiram nem ao pós-modernismo, nem ao neoconservadorismo do “pensamento único”, e
persistem na opinião de que “a oposição, no sistema capitalista, entre os interesses do capital e
os interesses do trabalho”, na situação atual, “continua a ser o grande drama de nosso
mundo”.3
O contraste entre franceses e ingleses que propõe Himmelfarb talvez aponte para
diferenças consideráveis entre o que foi a historiografia marxista na Inglaterra e na França −
tema, aliás, pouco estudado em detalhe.
Entre os franceses nunca existiu algo parecido, em sua coerência, com o Grupo de
Historiadores do Partido Comunista Britânico. Sem dúvida, muitos historiadores foram
membros do Partido Comunista Francês. Entretanto, mesmo um marxista que se manteve tal,
Pierre Vilar, apresentava-se ao mesmo tempo como discípulo de Lucien Febvre,4 um dos pais
fundadores da tendência dos Annales (que não foi na verdade uma “Escola” como tantas
vezes se pretende), tão influente na França e em muitos outros países após a Segunda Guerra
Mundial, sobretudo se pensarmos na assim chamada segunda geração dos annalistes, cuja
crise passou de latente a evidente com a aposentadoria de Fernand Braudel em 1969. Também
entre os intelectuais franceses situados à esquerda, muitos concordariam (em graus diversos),
sem dúvida, com a assertiva do historiador inglês Geoffrey Barraclough − que nada tinha de
marxista − acerca de o marxismo oferecer “a única base realmente satisfatória para um
ordenamento racional dos fatos complexos da história da humanidade”.5 A existência
indubitável de elementos marxistas em muitos dos annalistes, embora acompanhada por
diferenças também claras (em especial, a total ausência, mesmo em líderes de altíssimo
gabarito como Bloch, Febvre ou Braudel, de uma verdadeira teoria da mudança social:6 a
ênfase maior dos Annales sempre permaneceu muito mais nos métodos e nas técnicas do que
na teoria), em conjunto com o prestígio da tendência cujo foco mais visível era a revista,
contribuíram para que o marxismo, entre os historiadores franceses, apesar de constituir-se em
poderosa influência, ficasse como que embuçado por trás dos Annales, com efeitos a tal ponto
3
ambíguos que um historiador norte-americano do calibre de Robert Darnton achou que podia
designar os historiadores franceses das mentalidades como basicamente marxistas,7 mesmo
sendo isto falso, em minha opinião, quanto à maioria deles. Existiu, sem dúvida, o Centro de
Estudos e Pesquisas Marxistas (C.E.R.M.), que mantinha vínculos evidentes com o Partido
Comunista Francês; e houve revistas como La Pensée, Recherches Internationales à la
Lumière du Marxisme e L’Homme et la Société. Nada disto, porém, resultou numa
coletividade de historiadores nem de longe semelhante ao “Grupo” britânico, mesmo porque a
corrente intelectual mais influente que então agitou o marxismo na França (com numerosas e
infelizes repercussões em outros países), a de Louis Althusser e seus seguidores, foi
profundamente anti-histórica em suas características e em seu escolasticismo filosófico. Não
por acaso, os historiadores do “Grupo”, em sua maioria, rejeitaram vigorosa e militantemente
o althusserismo.
Do outro lado da Mancha, encontrar-se-ia um panorama bem diferente. A influência −
direta ou mesmo difusa − do marxismo entre os intelectuais era, no Reino Unido, bem menor
e só viria a aumentar, freqüentemente no bojo de posições muito influídas por Althusser, na
década de 1970, em especial nas novas universidades (em contraste com Oxford, Cambridge e
a Universidade de Londres). Lembro-me, sobretudo, de uma reunião absolutamente surrealista
de que participei certa vez em Colchester, convidado por Ernesto Laclau (antes que este
aderisse ao pós-modernismo). Mas, pelo contrário, existia um conjunto extremamente
coerente de professores e historiadores marxistas, o já mencionado Grupo (ou “Coletivo”) de
Historiadores do Partido Comunista Britânico, cujo auge como coletividade intelectual
coerente se deu, já o vimos, entre 1946 e 1956, e que se constituiu numa das comunidades
intelectuais mais consistentes da História Intelectual do século XX.
A coerência do Grupo fundava-se, em primeiro lugar, em serem seus membros velhos
amigos e correligionários:
É verdade que a qualidade dos membros do Grupo, no conjunto muito alta, podia
variar. Em especial, A. L. Morton estava num nível claramente inferior à média. Edward P.
Thompson, Eric Hobsbawm, Christopher Hill, Rodney Hilton, George Rudé, Dorothy
4
Thompson, Royden Harrison, John Saville, Victor Kiernan, George Thomson, Raphael
Samuel e, entre os mais velhos, Maurice Dobb e Dona Torr, formavam um time com altos e
baixos mas sem rival no mundo. Analogamente, a revista Past and Present foi a mais
influente de todas, mesmo considerando-se La Pensée, entre os intelectuais marxistas ou, mais
em geral, de esquerda de todo o mundo na segunda metade do século XX, provavelmente por
sediar debates mais abertamente politizados.9
Antonio Gramsci, percebido por diversos membros do Grupo como um antepassado
intelectual de máxima importância, é indisputavelmente de altíssimo nível, mas dado a meu
ver um tanto embaraçoso é o resgate e mesmo a reivindicação de William Morris, em especial
por Edward P. Thompson (1924-1993), o mais jovem dos membros mais importantes do
Grupo. É bom desconfiar, como possível antepassado intelectual, de um pensador e poeta que,
no Parlamento, foi retrospectivamente transformado em pai fundador tanto por Clement Atlee,
líder do Partido Trabalhista, quanto por William Gallacher, deputado comunista. Thompson,
por sua vez, em mais de uma ocasião escreveu que Morris, se vivo fosse, seria membro do
Partido Comunista. Mas em geral, a reivindicação de movimentos muito heterogêneos,
considerados “radicais” por Thompson, recorda a démarche que, em outro contexto, levou,
no tocante à História dos Estados Unidos, a que se achassem naquele país mais de três
centenas de movimentos de revolta de escravos − isto porque se definia “revolta” de um modo
irremediavelmente vago, minimalista e inclusivo.10 Veremos adiante a origem da valorização
de Morris no contexto dos escritos thompsonianos.
Sendo Thompson o mais jovem dentre os membros maiores do Grupo, pode-se supor
que tenha sofrido influências tanto dos intelectuais de gerações anteriores que o integravam
quanto de seus coetâneos. Acredito que sim, como ele mesmo reconheceu. Um dos pontos
comuns aos historiadores marxistas britânicos − bastante distintos uns dos outros em
numerosos aspectos − consiste numa visão do marxismo que privilegia fortemente, nos
esquemas explicativos, as relações de produção sobre as forças produtivas. Isto se nota na
concepção de feudalismo de Maurice Dobb (morto em 1976), que tendia a considerar o modo
de produção feudal como mais ou menos idêntico à servidão, noção que expôs já em 1946,
originando, com outras idéias suas, grande polêmica internacional sobre a transição do
feudalismo ao capitalismo. As idéias de Dobb assinalam uma posição clara, assumida desde
muito cedo, num dos maiores dilemas marxistas do século XX: aquele sobre que papel
atribuir na dinâmica da História, por um lado à “necessidade objetiva”, por outro à “iniciativa
do sujeito”. As posições divergentes a respeito foram assim sintetizadas por Marco Ingrosso:
5
Percebe-se um conjunto de intelectuais que lêem assiduamente uns aos outros e entre
os quais as idéias circulam. Se Rudé aprendeu com Thompson, este também aprendera com o
6
artigo de Rudé sobre John Wilkes (1957), cujos partidários foram chamados por Asa Briggs
de “os discípulos do Diabo”. Rudé e Hobsbawm iriam colaborar, alguns anos mais tarde, no
livro Captain Swing, publicado em 1969; antes disto, Hobsbawm escrevera críticas sobre as
sucessivas obras de Rudé, por este consideradas justas e construtivas.
A contextuação de E. P. Thompson não se pode limitar ao “Grupo”, pois os
historiadores deste último, desde a década de 1950, estavam sob influência constante, mas
nem sempre assumida com clareza ou por eles discutida em detalhe, dos escritos sobre a
cultura devidos a Raymond Williams e a outros autores integrantes de uma tendência que
Michael Bentley denomina “populista”,15 provavelmente por seu interesse pela oposição
cultura erudita/cultura popular (vendo nesta última, no bojo de uma antiga tradição crítica
britânica iniciada com o Romantismo, possível fator de renovação cultural) e pelo estudo da
cultura no contexto dos meios de comunicação de massa, paralelamente às influências que,
como autor, claramente recebeu dos estudos de Letras e Belas Artes.16 Embora Williams fosse
um autor instigante e vigoroso, era também em boa medida um autodidata.17 Isto talvez
explique que os historiadores do “Grupo” nem sempre reconhecessem toda a sua dívida para
com ele: dívida que, a meu ver, teve características que poderiam ser qualificadas pela
expressão inglesa mixed blessing por ter aspectos tanto positivos quanto negativos. Eric
Hobsbawm, por exemplo, embora mencione Williams como integrante de uma “tradição
doméstica [britânica] ao estudo da cultura num sentido quase antropológico”, prefere na
verdade atribuir seu próprio interesse pela cultura à leitura de obras produzidas por autores
como Evans-Pritchard e Max Gluckman, pertencentes à importante corrente inglesa da
Antropologia Cultural.18 Ora, na verdade, percebo, em seus escritos que tratam de
desenvolver temas culturais, uma tendência a considerar a “cultura” como algo dado, trivial,
um termo que se autoexplica; e acho que sua noção de cultura vem, na verdade, de Williams.
Exemplificarei, quanto a Eric Hobsbawm, com o artigo “As classes operárias inglesas
e a cultura desde o início da Revolução Industrial”.19 Creio poder dizer que todas as
passagens em que se menciona a “cultura” ficariam melhores se se substituísse tal termo por
outros, mesmo porque em nenhum momento a noção é explicitada ou exposta. Tem-se a
impressão de tratar-se de um termo evidente por si mesmo, quando na verdade é altamente
polissêmico e controverso no âmbito da Antropologia.20 No artigo de Hobsbawm −
comunicação apresentada a um simpósio em 1966 −, “cultura popular” é virtualmente um
sinônimo de, e alterna com, numerosos outros vocábulos e noções: “mentalidades populares”
(p. 197); “ ‘cultura’ operária no sentido antropológico do termo” [qual dos sentidos, seria o
caso de indagar?!], imediatamente chamada a seguir de “tradições operárias” num sentido que
7
recorda a noção posteriormente muito popular de memória (p. 198); “as mentalidades e a
cultura popular”, sem maiores especificações (p. 199); “numa sociedade de classes há
normalmente separação de classe entre as culturas, embora amiúde no quadro de uma cultura
comum: cristianismo, instituições comuns, sistemas de ensino, cujas formas estão em sua
maioria fixadas pelas camadas e pelas instituições dominantes da sociedade” (p. 200): será
que, nos dois casos, “cultura” significa exatamente o mesmo?; “hegemonia cultural” e
“simbiose” de culturas (p. 200), em ambos os casos como se fossem conceitos não
necessitados de explicação; “sistemas de valores” opostos (p. 201); separação institucional
num sentido classista como elemento que acentua a “separação cultural” (p. 201); a “cultura
operária” como resultado de uma “tradição cultural mais vasta, a das classes subalternas pré-
industriais” (p. 201): neste ponto, Hobsbawm apela diretamente para a obra de Thompson
sobre o radicalismo vinculado ao pensamento “plebeu”, embora avalie diferentemente tal
radicalismo, vendo-o como a “ala esquerda do liberalismo burguês”, mesmo se, depois,
introduz nuances a respeito (p. 203); a “cultura das classes hegemônicas” (p. 203) aparece
agora em sentido totalmente diverso, o de haute culture (o exemplo é neste ponto o balé
russo); as pp. 204-206 opõem “cultura operária” a “culturas operárias”, ao falar de sua
evolução desde antes de 1840, mostrando que acompanha as etapas do capitalismo industrial:
entretanto, a ênfase está no “estilo de vida proletário”, a seguir na “ideologia” e na
“consciência de classe”; “cultura operária” volta a ser basicamente “estilo de vida do
proletariado” na p. 206; na p. 207 fala-se de uma “cultura operária mais separatista” na
segunda metade do século XIX, mas de fato se está falando de níveis e estilos de vida; na
conclusão do artigo (p. 208), sintomaticamente, o autor menciona “estilo de vida” e
“consciência de classe proletária”, não “cultura”, menos ainda este último conceito em
alguma de suas acepções especificamente antropológicas disponíveis na década de 1960.
Acho que o mesmo se pode dizer quanto ao uso, freqüentemente inadequado e
insuficientemente discutido teoricamente, do conceito de cultura na obra de Edward P.
Thompson. Outrossim, em minha opinião veio-lhe diretamente de Raymond Williams seu
resgate de William Morris: com efeito, Williams acreditava na existência de uma tradição de
pensamento “radical” sobre a cultura, especificamente britânica, na qual incluía Morris em
posição de máximo destaque porque teria articulado uma crítica proto-socialista do
“industrialismo” (leia-se capitalismo), sugerindo ao mesmo tempo a possibilidade de uma
revivescência cultural de base popular.21 Também no caso de Thompson, portanto, acho
duvidosas as afirmações de que se inspirasse, em seu interesse pelos temas culturais, numa
leitura a fundo de obras antropológicas (ele próprio, como veremos, afirmava que desejaria ter
8
forma de abordagem por Geertz do reino de Negara; sem que, outra vez, tenhamos como
garantir ter ocorrido empréstimo.28
***
marxista de cultura, mais semelhante, de fato, àquela derivada de uma divisão do campo de
pesquisa entre Sociologia e Antropologia proposta em 1958 por Talcott Parsons e Alfred
Kroeber:
Trata-se de uma noção de cultura amputada de uma parte considerável dos conteúdos
que, desde 1871 (quando Edward Burnett Tylor pela primeira vez definiu cientificamente o
conceito), a integravam; e separa, radical e conceitualmente, o social e o cultural, coisa muito
distante do que poderia ser uma concepção marxista de cultura, que defini assim em texto
recente:
Para o marxismo, longe de se poder opor “cultural” a “social” como âmbitos separados
de estudos ou de considerações, a rede relacional durável, institucionalizada numa sociedade,
“constitui precisamente o substrato material da cultura social transmitida de geração em
geração”.35 E nada menos marxista do que reduzir os conteúdos culturais exclusivamente aos
padrões mentais e simbólicos, amputando-os dos elementos materiais que também integram
aqueles conteúdos, ou estabelecer, à maneira de Kroeber e Parsons, uma divisão do trabalho
que torne complementares a Antropologia e a Sociologia, em que o “cultural” se transforme
em algo radicalmente separado do “social” e passível de identificar e estudar com referência
só a valores, normas, rituais e símbolos. O modo de trabalhar a cultura que era o de Raymond
Williams − um modo de emprego que Thompson, tal como Hobsbawm, herdou sem, para
empregarmos o jargão atual, “problematizá-lo” (na verdade, vendo-o como algo evidente por
si mesmo) −, acabava, na prática, mesmo sem que o quisesse, por parecer-se bastante às
11
(...) o que é cultura? Minha definição favorita vai no sentido das atitudes
compartilhadas (significados, valores) tais como se expressam (tomam corpo,
aparecem simbolizadas) em artefatos e em desempenhos. (...) “artefatos”: não só
imagens, mas ferramentas, casas, a totalidade do meio ambiente de feitura
humana.(...) “desempenhos”: não só rituais e canções, mas qualquer tipo de fala
ou ação direcionada a qualquer audiência, por pequena que seja.36
É bom notar, porém, que não estou afirmando que entrasse nas intenções de
Thompson dicotomizar radicalmente o social e o cultural. Pelo contrário:
Existe aqui, sem dúvida, a vontade de entender a relação dialética entre o ser social e a
cultura (e, visivelmente, está presente uma noção de circularidde cultural à maneira de
Bakhtine, Raymond Williams ou Ginzburg). O que digo é que o emprego de uma noção
inadequada e unilateral do que sejam os conteúdos culturais prejudica um tal projeto − por
exemplo, levando o autor, às vezes, a dicotomias que lembram Lévy-Bruhl ou Lévi-Strauss
(no caso deste último, o contraste entre “sociedades quentes” e “sociedades frias”), quando
opõe, ao contrastar a sociedade britânica do século XIX com a do século XVIII, “uma
sociedade com um grau de mudança em aceleração a outra que era, em muito maior medida,
governada pelo costume”.38 Obviamente, uma dicotomia entre capitalismo e pré-capitalismo
que atribua a este último o domínio de um “costume” formador de um ambiente só muito
lentamente diferenciado, quase estático, no qual “as práticas e normas se reproduzem de
geração em geração”39, sem grandes mudanças, é muito pouco marxista: com justiça, acusou-
se o próprio Marx de descambar para posição pouco coerente com a sua habitual a respeito da
dinâmica da História ao falar da “imobilidade oriental”, milenar, que ele associava ao “modo
de produção asiático”. Ao limitar o que seja o cultural só a fatores mentais (símbolos, valores,
idéias), a cultura pode, eventualmente, parecer relacionar-se de fora com o social como algo
dado, um repertório estático, um pouco à maneira da “utensilagem mental” de Lucien Febvre.
12
É possível, então, cair na tentação − em que caem tanto Thompson, às vezes, quanto Roger
Chartier, com maior freqüência em certa fase de seus escritos − de acreditar serem as
representações culturais aquilo que dá forma ao ser social, invertendo a fórmula marxista
tradicional de que o ser social determina a consciência social. Thompson acredita que tal
fórmula requer “exame e qualificação escrupulosos”, posto que ele nega ser possível
descrever o ser social “independentemente das normas e das estruturas cognitivas primárias,
tanto quanto das necessidades materiais”.40 A meu ver, este assunto da relação entre estrutura
social e consciência social manteve-se o tempo todo, na obra thompsoniana, como dilema não
resolvido, portador de ambigüidades.
***
Os críticos de Thompson apontaram, a meu ver com razão, que esta ênfase no
histórico, no relacional, na consciência e na própria luta de classes não precisa, para sua
realização adequada, voltar-se necessariamente contra as análises estruturais, não depende de
negar a existência, incidência ou importância das estruturas. Entretanto, na luta de idéias é
freqüente que as posições se extremem e foi muito útil e liberador que, em estudos históricos
com abundante documentação e grande inteligência e agudeza de análise, o autor tenha
enfrentado um aspecto da questão de fato muito negligenciado, tradicionalmente, nos estudos
marxistas precedentes.
O empreendimento de Thompson se me afigura, assim, sobretudo em contraposição a
posturas como as de Georg Lukács e seu discípulo Lucien Goldmann. Com efeito, foram estes
provavelmente os autores mais importantes na construção de uma noção marxista do que seria
a consciência de classe, ancorando-a decididamente na estrutura do modo de produção. Tal
esforço teve aspectos positivos, por exemplo deixando mais claro o que tem de específico a
consciência de classe em confronto com outras formas de consciência:
13
Notas:
1
Gertrude Himmelfarb. “The ‘Group’: British Marxist historians”. In: ____. The New History and the Old:
Critical essays and reappraisals. Cambridge (Mass.)-London: Harvard University Press, 1987, pp. 70-93 (em
especial, pp. 90-3), pp. 192-5 (notas).
2
Para uma crítica pertinente da proposta de Habermas, ver Sergio Sevilla. Crítica, historia y política. Madrid:
Cátedra, 2000, pp. 215-28.
3
Pierre Vilar. Pensar históricamente: Reflexiones y recuerdos. Barcelona: Crítica, 1997, p. 92.
4
Idem, ibidem, p. 126, 185 nota 45.
5
Geoffrey Barraclough. Tendances actuelles de l’histoire. Paris: Flammarion, 1980, p. 38.
6
Cf. Ciro Flamarion Cardoso. Introducción al trabajo de la investigación histórica. Barcelona: Crítica, 1981, p.
127: neste ponto, mostrávamos que tal constatação foi feita pelos próprios seguidores de Fernand Braudel
reunidos no centro de estudos a que deram o nome de seu mestre, criado em Rochester (Nova York, Estados
Unidos).
7
Robert Darnton. “The history of mentalités: Recent writings on revolution, criminality, and death in France”.
In: Richard Harvey Brown and Stanford M. Lyman (orgs.). Structure, consciousness, and history. Cambridge:
Cambridge University Press, 1978, p. 133. O próprio Fernand Braudel foi apontado surpreendentemente, em
14
1968, no Times Literary Supplement, como historiador sob forte influência do marxismo, como apontou Eric
Hobsbawm. On history. London: Weidenfeld & Nicolson, 1997, p. 145.
8
Christopher Hill, Rodney H. Hilton e Eric J. Hobsbawm. “Past and Present: Origins and early years”. Past and
Present. Agosto de 1983, p. 3.
9
Uma contextuação interessante do “Grupo” acha-se em: Iván Molina Jiménez. “Imagen de lo imaginario.
Introducción a la historia de las mentalidades colectivas”. In: Elizabeth Fonseca (org.). Historia: Teoría y
métodos. San José (Costa Rica): Editorial Universitaria Centroamericana, 1989, pp. 179-224; uma síntese bem
menos simpática aos historiadores marxistas britânicos é o artigo de Gertrude Himmelfarb. Op. cit.
10
Cf., para uma visão crítica a respeito, George Rawick. “Le radici storiche della liberazione nera”. Quaderni
Piacentini. Março de 1969, pp. 77-84.
11
Marco Ingrosso. Modelos socioeconómicos de interpretación de la realidad latinoamericana. Trad. Joaquín
Jordá. Barcelona: Anagrama, 1973, pp. 49-50.
12
Coisa que não deixei de fazer, porém, em outra ocasião: Ciro Flamarion Cardoso. Ensaios racionalistas. Rio
de Janeiro: Campus, 1988, pp. 41-60.
13
Gertrude Himmelfarb. Op. cit., p. 80.
14
George Frederick Elliot Rudé. “El rostro cambiante de la multitud”. In: L. P. Curtis, Jr. (org.). El taller del
historiador. Trad. Juan José Utrilla. México: Fondo de Cultura Económica, 1975, p. 216.
15
Michael Bentley. Modern historiography: An introduction. London-New York: Routledge, 1999, p. 138.
16
Cf. Raymond Williams. Marxismo e literatura. Trad. Waltensir Dutra. Rio de Janeiro: Zahar, 1979, p. 17-26;
____. Cultura. Trad. Lólio Lourenço de Oliveira. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
17
Ver Adam Kuper. Culture: The anthropologists’ account. Cambridge (Mass.)-London: Harvard University
Press, 1999, pp. 39-46, 229-30. Para um exemplo claro do manejo inadequado − e passavelmente idealista − da
noção de cultura em Raymond Williams, ver a definição do conceito que oferece em seu livro (citado na nota
anterior) Cultura, pp. 10-13: uma definição de cultura que, mesmo na acepção que adota, enfatizadora da “ordem
social global” em cujo seio surge uma cultura específica, mantém uma noção altamente idealista e vaga de
cultura que a reduz a mero “sistema de significações” que serve para comunicar, reproduzir, vivenciar e estudar
uma ordem social dada − encarando-a, portanto, como algo exclusivamente mental.
18
Eric Hobsbawm. On history, cit., p. 183.
19
Eric Hobsbawm. “Las clases obreras inglesas y la cultura desde los comienzos de la Revolución Industrial”.
In: Louis Bergeron (org.). Niveles de cultura y grupos sociales. Trad. César Guiñazú. México: Siglo XXI, 1977,
pp. 197-208. A edição original em francês é de 1967. Trata-se de um colóquio da Escola Prática de Altos
Estudos (Paris) reunido em 1966.
20
Isto se acha desenvolvido em Ciro Flamarion Cardoso. “Sociedade e cultura: Comparação e confronto”.
Estudos Ibero-Americanos. Vol. 29, n. 2, 2003, pp. 23-49.
21
Adam Kuper. Op. cit., p. 42.
22
Cf. Julián Casanova. La historia social y los historiadores. Barcelona: Crítica, 1997, p. 69 e nota 39.
23
Peter Burke. History and social theory. Ithaca (New York): Cornell University Press, 1992, p. 71.
24
Georg G. Iggers. La ciencia histórica en el siglo XX: Las tendencias actuales. Trad. Clemens Bieg. Barcelona:
Labor, 1995, pp. 88-9.
25
Edward P. Thompson. “Folklore, anthropology, and social history”. The Indian Historical Review. Vol. 3, n. 2,
1977, p. 251.
15
26
Ver, por exemplo, Robert Darnton. O grande massacre de gatos. Trad. Sonia Coutinho. Rio de Janeiro: Graal,
1986, p. XV.
27
Suzanne Desan. “Crowds, community, and ritual in the work of E. P. Thompson and Natalie Davis”. In: Lynn
Hunt (org.). The New Cultural History. Berkeley-Los Anges: University of California Press, 1989, p. 54-5.
28
Edward P. Thompson. Op. cit., p. 254.
29
Idem, ibidem, p. 262.
30
Cf. Maurice Godelier. L’idéel et le matériel. Paris: Fayard, 1984.
31
Edward P. Thompson. Tradición, revuelta y consciencia de clase. 2a ed. Barcelona: Crítica, 1984.
32
Edward P. Thompson. “Folklore, anthropology...”, cit., p. 248.
33
Alfred L. Kroeber e Talcott Parsons. “The concept of culture and of social system”. American Sociological
Review. Vol. 23, 1958, p. 583. Nesta delimitação do conceito observa-se que o comportamento humano,
conformado pelos fatores culturais, produz artefatos influídos por tal conformação: mas a definição não inclui os
próprios artefatos (nem o comportamento humano entendido como ação social) no âmbito dos estudos culturais.
34
Ciro Flamarion Cardoso. Op. cit., p. 44.
35
Zygmunt Bauman. “Essai d’une théorie marxiste de la société”. L’Homme et la Société. Vol. 15, 1970, pp. 18-
9.
36
Peter Burke. “What is popular culture?”. In: Juliet Gardiner (org.). What is history today? London: Macmillan,
1988, p. 122.
37
Edward P. Thompson. Tradición..., cit., p. 42.
38
Edward P. Thompson. “Folklore, anthropology...”, cit., p. 248.
39
Edward P. Thompson. Tradición..., cit., p. 43.
40
Edward P. Thompson. “Folklore, anthropology...”, cit., p. 261.
41
Idem, ibidem, p. 264. Ver também Edward P. Thompson. Tradición..., cit., pp. 34-9.
42
Georg Lukács. Histoire et conscience de classe. Paris: Minuit, 1960, p. 75.
43
A respeito deste assunto, ver Ciro Flamarion Cardoso e Héctor Pérez Brignoli. El concepto de clases sociales:
Bases para una discusión. Madrid: Ayuso, 1977, pp. 79-86.
EXPERIÊNCIA E COLETIVIDADE EM THOMPSON
Abstract
Introdução
Este estudo propõe uma reflexão sobre o sentido da categoria experiência nos
estudos de Thompson, enquanto forma de apreensão da realidade a partir de elementos dela
própria. Refletir sobre a experiência, o trabalho, a educação, as classes e movimentos
sociais significa, portanto, pensar sobre a própria vida humana, como dimensões históricas
indissociáveis.
Como apreender as relações sociais teoricamente? Não o poderia ser por meio de
categorias estáticas, pelo fato da realidade estar em constante movimento, sendo este por si
só contraditório. Ao refletir sobre o sentido da experiência humana, estamos refletindo
sobre a forma de apreendê-la.
Na carta a Annenkov, Marx formula uma crítica ao livro Philosophie de la misere
de Proudhon, afirmando: “Ele não viu que as categorias econômicas são apenas
abstracções dessas relações reais, que só são verdades na medida em que subsistam essas
relações” (1982, p. 549).
Para Marx, ao produzir as relações sociais em conformidade com a sua
produtividade material, os homens produzem também as idéias, as categorias, isto é, as
expressões abstratas dessas mesmas relações sociais. “Assim, as categorias são tão pouco
eternas quanto as relações que exprimem. São produtos históricos e transitórios” (p. 551).
Podemos pensar no exemplo do interrogatório do filósofo com a mesa2 (ou com a
palavra), como um objeto inerte, sem movimento, sem relações, o que não significa uma
produção humana. Se o ser social não é uma mesa inerte que não pode refutar um filósofo
1 Este texto é uma versão revisada do artigo publicado na Revista Esboços, do Programa de Pós-Graduação
em História da UFSC. Florianópolis, n.12, 2004.
2 Texto de Thompson: “Mesa, você existe?”, no livro “A miséria da teoria ou um planetário de erros” (1981).
2
A experiência em Thompson
Como um historiador contemporâneo dentro da abordagem marxista, Thompson
desenvolve aspectos pouco estudados até então. Um deles, e de grande relevância nas suas
obras, o qual perpassa toda A Formação da Classe Operária Inglesa, é a experiência
histórica.
3
O conceito de classe social formulado por Thompson nesta obra, considera-a como
um fenômeno histórico, como algo que ocorre efetivamente nas relações humanas, não de
uma forma determinada, mas como uma capacidade de percepção e articulação de
interesses de alguns indivíduos contra outros, cujos interesses diferem dos seus.
Retratar as mudanças de vida dos trabalhadores rurais, dos artesãos e tecelões, pode
parecer um registro de frustrações e fracassos, mas a experiência apresenta muitas tradições
que se originam deste período. Dos primeiros estágios da auto-educação política de uma
classe, que dizem respeito aos efeitos morais da sociedade, acompanhamos com o autor o
despertar de uma autoconsciência coletiva, associada a teorias, instituições, normas
disciplinares e valores comunitários correspondentes que distinguem a classe operária do
século XIX da plebe do século XVIII. Da revolta dos trabalhadores na destruição de
máquinas, assistimos, nos anos de 1830 aos homens lutarem, não contra a máquina, mas
contra as relações exploradoras e opressivas intrínsecas ao capitalismo industrial. Nesse
momento, é possível falar de uma nova forma de consciência dos trabalhadores em relação
aos seus interesses e à sua situação enquanto classe, que se refletem na identidade de
interesses entre trabalhadores das mais diversas profissões e níveis de realização, de um
lado, e na identidade dos interesses da classe operária, de outro, expressos em muitas
formas institucionais e no sindicalismo de 1830-34.
Enfim, o autor explora as experiências das quais surgiu a expressão cultural e
política da consciência da classe operária. Sua análise considera o modo de vida
característico dos trabalhadores, que está associado com um modo de produção, e os
valores partilhados pelos que viveram durante a Revolução Industrial. É um estudo das
4
Se detemos a história num determinado ponto, não há classes, mas simplesmente uma
multidão de indivíduos com um amontoado de experiências. Mas se examinarmos esses
homens durante um período adequado de mudanças sociais, observaremos padrões em
suas relações, suas idéias e instituições. A classe é definida pelos homens enquanto vivem
sua própria história (THOMPSON, 1987, v.1, p.11).
Adequado aos fenômenos que estão sempre em movimento, que evidenciam – mesmo
num único momento – manifestações contraditórias, cujas evidências particulares só
podem encontrar definição dentro de contextos particulares, e, ainda, cujos termos gerais
de análise (isto é, as perguntas adequadas à interrogação da evidência) raramente são
constantes e, com mais freqüência, estão em transição, juntamente com os movimentos do
evento histórico: assim como o objeto de investigação se modifica, também se modificam
as questões adequadas (THOMPSON, 1981, p. 48).
O que queremos dizer é que ocorrem mudanças no ser social que dão origem à
experiência modificada; e essa experiência é determinante, no sentido de que exerce
pressões sobre a consciência social existente, propõe novas questões e proporciona
grande parte do material sobre o qual se desenvolvem os exercícios intelectuais mais
elaborados (THOMPSON, 1981, p. 16).
Isso que dizer que, “assim como o ser é pensado, também o pensamento é vivido”
(THOMPSON, 1981, p.17). A trajetória de vida de Thompson, para além dos muros
6
acadêmicos, lhe proporcionou elementos suficientes para pensar a realidade social de forma
menos rígida e estruturalista. Ele mesmo lembra a Althusser que conhecimentos se
formaram e se formam fora dos procedimentos acadêmicos e dos recintos da universidade.
Como professor de adultos em aulas para trabalhadores e sindicalistas, como militante do
partido comunista inglês e do movimento anti-nuclear na Europa, aprendeu logo que “a
experiência não espera discretamente, fora de seus gabinetes, o momento em que o discurso
da demonstração convocará a sua presença. A experiência entra sem bater à porta e anuncia
mortes, crises de subsistência, guerra de trincheira, desemprego, inflação, genocídio”
(p.17). Frente a estas experiências, Thompson indica que velhos sistemas conceituais
podem desmoronar e novas problemáticas podem insistir em impor sua presença.
numa única e eterna pose: pois cada um desses instantâneos não é apenas um momento do
ser, mas também um momento do vir-a-ser” (1981, p.58). Por sua vez, Marx percebe que “o
desenvolvimento das contradições de uma forma histórica de produção é, no entanto, o
único caminho histórico de sua dissolução e estruturação de uma nova” (1985, p.90).
Ao utilizar o materialismo histórico e, conseqüentemente, a dialética passado,
presente e futuro para estudar, por exemplo, o Movimento dos Sem Terra em Santa
Catarina, pode-se compreender com maior amplitude o seu sentido histórico atual, suas
raízes históricas e suas possibilidades futuras3.
O passado representa o enraizamento dos sem-terra e do Movimento, construído a
partir de um longo processo de expropriação dos trabalhadores que teve repercussões num
movimento migratório internacional (muitos dos italianos ou alemães que deixaram suas
terras em busca de trabalho no Brasil são hoje sem terra) e nacional (quando os colonos do
Rio Grande do Sul partem em busca da terra nos estados vizinhos e nas regiões centro-oeste
e norte do país). O MST também tem suas raízes nos históricos movimentos sociais que
marcaram a luta pela terra ou outras questões a ela ligadas, como o Contestado em Santa
Catarina, o movimento de Canudos no sertão da Bahia, o Juazeiro do Padre Cícero na
região do Cariri, as Ligas Camponesas, entre outros.
O presente talvez seja o aspecto mais inovador do MST ou o que permite a ele
reunir uma massa de pessoas em torno da sua bandeira de luta, que cria uma identidade
entre muitos expropriados da terra e do trabalho. O Movimento apresenta uma
possibilidade imediata, concreta de ressocialização de uma população expropriada da terra
e das condições de nela produzir e se reproduzir, através do assentamento, conquistado a
partir da ocupação, do acampamento, das longas caminhadas, das ocupações de prédios
públicos e das outras manifestações públicas utilizadas. O MST consegue dar uma resposta
aos que não tem a terra ou não tem o trabalho, organizando-os e mobilizando-os na luta
pela reforma agrária. Porém, o movimento não para por aí, ele vai mais além, ao
revolucionar o modo de vida e de trabalho dos trabalhadores rurais, superando o modelo
individual/ familiar e propondo a organização cooperada, coletiva, que se assenta sob outras
3 Este estudo fez parte da pesquisa “Assentamentos do MST e identidade coletiva”, coordenada pelas
professoras Célia R. Vendramini e Bernardete W. Aued, no âmbito do Programa Regional Sul
CNPq/FUNCITEC (projeto: Agricultura familiar: reestruturação social e capacitação humana), concluído em
2003.
8
4 DAHRENDORF, Ralf. O conflito social moderno: um ensaio sobre a política da liberdade. Trad. de Renato
Aguiar e Marco Antonio E. da Rocha. Rio de Janeiro: Jorge Zahar: Edusp, 1992.
9
que passa pelo questionamento de fontes históricas comumente utilizadas, pelo cuidado
com as fontes obscuras que deformam a história e com o seu caráter velado e,
principalmente, pelas contradições e partidarismo das fontes. Percebe-se na sua obra a
leitura do silêncio, do não dito. Analisa o papel de tradições e experiências que, a princípio,
parecem registros de frustrações e fracassos, aparentemente desconectas – “cada tradição
parece se enfraquecer sem o complemento da outra” – buscando encontrar sentido nelas, ao
serem analisadas enquanto uma totalidade social. Portanto, a análise de processo histórico e
de totalidade dá sentido aquilo que por si só é um acontecimento.
Por fim, o combate ao erro das generalizações nos faz atentar para a diversidade das
experiências coletivas, diversidade local e regional, mas também de ações e práticas
sociais, desenvolvidas em contextos e situações específicas que encontram sentido no
interior das relações sociais.
Diante dos elementos até aqui apresentados que revelam as contribuições de
Thompson para analisar o movimento social atual, também nos perguntamos sobre as
dificuldades criadas por Thompson para tal análise, especialmente no final do século XX e
início do século XXI, momento marcado por grande reavaliação, melhor seria dizer, por
abandono de categorias mais amplas para pensar a realidade, as quais se tornam cada vez
mais fragmentadas.
O próprio Thompson sugere que nossa leitura seja crítica e dinâmica,
acompanhando o próprio processo histórico.
A objeção que fazemos, já apontada por alguns estudiosos e lembrada por Lessa, ao
abordar o marxismo estruturalista (1993), diz respeito ao papel que Thompson confere à
consciência na gênese e desenvolvimento das classes sociais. Afirma o autor no prefácio dA
formação da classe operária inglesa: “a experiência de classe é determinada, em grande
medida, pelas relações de produção (...). A consciência de classe é a forma como essas
experiências são tratadas em termos culturais: encarnadas em tradições, sistemas de
valores, idéias e formas institucionais. Se a experiência aparece como determinada, o
mesmo não ocorre com a consciência de classe.” (1987, p.10)
Parece-me que Thompson fez um esforço importante para afastar-se das noções que
atribuíam à classe proletária uma conseqüente consciência de classe, que ela deveria ter se
estivesse adequadamente consciente de sua própria posição e interesses reais. Caso não
12
estivesse, o partido ou a teoria, por exemplo, poderiam tornar-se substitutivos. Por outro
lado, ou por orientação de outra ideologia, observa uma negação da existência da classe e
da consciência de classe, como algo que perturba a coexistência harmoniosa de grupos
sociais.
Procurando formular uma crítica a estas duas perspectivas, Thompson conduz sua
análise sobre a formação da classe operária inglesa supervalorizando a consciência dos
sujeitos sociais. Tal concepção pode, equivocadamente, ser confundida com um conjunto
de teorias ou conceitos que questionam as relações produtivas como centrais no processo de
produção da existência humana, considerando que outras experiências são hoje as
responsáveis pelo processo de socialização do indivíduo, como a centralidade da
comunicação, da linguagem e da interação social sobre o trabalho (HABERMAS, 1997),
dos movimentos sociais (TOURAINE, 1989), da família, dos negócios, das escolas, do
modo de vida, do cotidiano (OFFE, 1989), da ciência e da técnica (SHAFF, 1990).
Claus Offe (1989), por exemplo, trabalha com a idéia de experiência, assim como
Thompson, porém entende que a formação nos termos da experiência construída no
trabalho concreto, cotidiano, não está mais socializando, no sentido clássico. Diz que a
socialização não acontece mais no espaço da fábrica ou do trabalho. Realmente, no mundo
atual, pode-se dizer que a socialização é alienada, quando pensada no trabalho concreto,
imediato, produtivo. No entanto, ao analisarmos o trabalho de uma forma mais ampla, que
se concretiza na sociedade, concluiremos que ele continua sendo um forte fator de
socialização, bem como outras experiências vinculadas a ele.
Tais análises retiram o conflito do campo da produção e da propriedade, das
relações sociais de produção. O trabalho e a posição dos trabalhadores no processo de
produção não são tratados como o princípio básico de organização das estruturas sociais.
Em suma, negam o conflito de classe.
Conclusões
Tomar como categoria a experiência é pensar a própria formação humana, algo tão
caro nos dias de hoje. Observamos de um lado, o chamado “imperialismo teórico”, em que
a realidade sócio-histórica é naturalizada, mas também nos deparamos, por outro lado, com
uma forma de pensamento que se constitui em simples reflexo da situação que se vive,
13
espontaneamente pelo sistema fabril. Nem devemos imaginar alguma força exterior – a
revolução industrial. A classe operária formou a si própria tanto quanto foi formada.
Essa tese no ajuda a concluir este texto lançando o desafio de incorporar o sujeito ao
discurso. Enquanto a realidade sócio-histórica estiver fora do objeto real, exigindo a sua
adaptação à teoria e, portanto, naturalizando as relações sociais, o conhecimento perde seu
sentido e retira de si a responsabilidade não só com a explicação, mas também com a
transformação.
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SAGAN, Carl. O mundo assombrado pelos demônios: a ciência vista como uma vela no
escuro. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
15
1 Introdução
*
Mestre e doutora em Educação pelo Programa de Pós-Graduação em Ciências da Educação, Universidade Federal
de Santa Catarina. Professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale
do Itajaí, SC.
2
priori, se propuser o primado da teoria sobre os fatos1, aquela ganha primazia sobre a realidade
material e a domina.
Nessa perspectiva, o propósito deste estudo é reconstituir o modo segundo o qual o
historiador Edward P. Thompson conduziu seu trabalho de investigação histórica; para tanto se
vale da análise das obras A miséria da teoria ou um planetário de erros (1981) e A formação da
classe operária inglesa (1997; 1988; 1989). A intenção é estabelecer uma relação didática entre
alguns pressupostos teórico-metodológicos apresentados na primeira obra e o minucioso processo
de investigação empreendido em A formação da classe operária inglesa2 – um dos principais
trabalhos de pesquisa histórica – no qual o autor analisa o processo de formação dessa classe, no
período de 1780 a 1832.
Em A miséria da teoria ou um planetário de erros (1981), notadamente no capítulo
intitulado Intervalo: a lógica histórica, Thompson propõem-se a desenvolver, em defesa do
materialismo histórico, algumas proposições que definem a lógica histórica, “um método lógico
de investigação adequado a materiais históricos, destinado, na medida do possível, a testar
hipóteses quanto à estrutura, causação, etc., e a eliminar procedimentos autoconfirmadores [...]”
(THOMPSON, 1981, p. 49). Para ele, o estudo dos fenômenos em movimento exige do
pesquisador constantes modificações em seus procedimentos de análise, de modo a captar os
movimentos do evento histórico. Se o objeto de investigação – a história – se modifica, também
se modificam as questões adequadas.
O esforço analítico do presente estudo caminha no sentido de evidenciar o método lógico3
empregado por Thompson ao conduzir sua pesquisa sobre a formação da classe operária inglesa,
o “diálogo” que estabelece entre conceito e evidência, o conteúdo de suas interrogações em face
da empiria, o modo como busca identificar as propriedades objetivas da evidência histórica.
A atitude crítica do historiador diante das evidências, sua compreensão acerca do
necessário embate entre a teoria e a empiria no processo de produção do conhecimento, sua
1
Thompson (1981, p. 22) afirma que esse modo de pensar, denominado na tradição marxista de idealismo, enfatiza
“um universo conceitual autogerador que impõe sua própria idealidade aos fenômenos da existência material e
social, em lugar de se empenhar num diálogo continuo com os mesmos”.
2
Lançada em 1963, esta obra (com três volumes) permanece uma fonte inigualável de inspiração para a análise das
complexas inter-relações entre diferentes âmbitos da realidade social permanentemente mutante do capitalismo e de
seu impacto sobre a constituição e a redefinição das identidades de classe (FORTES, 2006).
3
Esse método, como argumenta Thompson (1981, p.48) é adequado ao material do historiador, e por isso, não se
enquadra nos mesmos critérios da lógica da física, afinal a história não oferece um laboratório de verificação
experimental, nem tampouco pode ser submetida aos mesmos critérios da lógica analítica, o discurso da
3
crítica à noção de que a Teoria tenha uma sede independente da realidade, ou ainda, à idéia
inversa de que a empiria, por si mesma, pode revelar espontaneamente sua significação, são
extremamente valiosas para os pesquisadores que, nos dias atuais, têm sido cada vez mais
seduzidos – ou pressionados – pela manipulação formalista do empírico e pela construção de
teorias que se justifiquem por sua adequação empírica e por sua utilidade instrumental.
Nessa linha de raciocínio, Moraes assinala a inédita e despolitizada cooptação de
pesquisadores – alunos e professores – “a um conhecimento sanitarizado no qual se cinde a
íntima cumplicidade entre teoria e prática no processo cognitivo ganhando, esta última, absoluta
prerrogativa” (MORAES, 2004, p. 146).
Pode-se identificar nesse contexto a relação necessária entre a emergência de modelos
mais flexíveis de acumulação do capital, especialmente o fortalecimento da economia do
conhecimento, e a ascensão de formas culturais pós-modernas que, a partir dos anos de 1970,
propagam a exaltação às diferenças, ao volátil, ao fragmento, ao imediato. Celebra-se o
pluralismo, a prática, o efêmero, o particular enquanto se condenam as “metanarrativas” ou
interpretações teóricas que busquem aplicação universal e apreensão dos processos históricos,
políticos, econômicos que atingem com maior intensidade e poder a vida cotidiana.
demonstração do filósofo. Trata-se de “um tipo diferente de lógica, adequado aos fenômenos que estão sempre em
movimento, que evidenciam – mesmo num único momento – manifestações contraditórias [...]”.
4
Nessa corrente de pensamento, o conhecimento não é uma construção. É, ao contrário, explicitamente entendido
como apropriação da realidade objetiva, como reprodução dessa realidade no pensamento, mediada por um árduo
processo de elaboração. Entre os pensadores que comungam dessas idéias situam-se também: Ahmad (1996),
Anderson (1998), Bhaskar (1979, 1991, 1997, 1986), Callinicos (1989), Collier (1994), Eagleton (1998), Lawson (1997),
Lukács (1984a, 1984b), Norris (2000, 1997a, 1997b), Salmon (1984), Searle (1995, 1998), Wood & Foster (1999). No Brasil,
destacam-se: Duayer (1995,1999, 2000, 2001, 2003), Moraes (1996, 2000, 2001, 2002, 2003, 2004, 2005), Medeiros (2003),
Duarte (1998, 2001, 2003).
4
materialismo histórico só podem ser compreendidos como categorias históricas, isto é, conceitos
próprios para a investigação de um processo, de uma realidade que não é passível de
representação conceitual estática, mas que deve ser interrogada na sua irregularidade e
contradição.
Thompson questiona a idéia de que o materialismo histórico tenha uma sede textual
autoconfirmadora. “A pátria da teoria marxista continua onde sempre esteve, [enfatiza ele], no
objeto humano real, em todas as suas manifestações (passadas e presentes); [...]” (Idem, 1981, p.
55). É certo que a construção de conceitos históricos não é privilégio do materialismo histórico.
No entanto, o pesquisador, ao empregar conceitos generalizados pela lógica – tal como
exploração, hegemonia, luta de classes – deve procurar confrontá-los com as evidências, não
tanto como regras fixas, mas antes como expectativas, uma vez que os acontecimentos reais, dada
suas irregularidades, não obedecem a regras.
Esse confronto consiste, efetivamente, num diálogo entre conceito e evidência, afinal, o
conceito surge de engajamentos empíricos e por mais abstrato que seja não encontra sustentação
se descompromissado com as propriedades determinadas da evidência (Thompson, 1981). Esse
tipo de diálogo compreende o que se poderia chamar de dialética do conhecimento histórico, ou
seja, por um lado, conceitos recebidos pelo pesquisador (tese), e por outro, as evidências com
suas determinações objetivas (antítese); a elaboração de novas interrogações ou hipóteses; o teste
dessas hipóteses face às evidências; a rejeição das hipóteses que não suportam tais provas e o
aprimoramento ou revisão daquelas que às suportam (síntese) (THOMPSON, 1981).
A recusa de Thompson às teorizações conclusivas e sua defesa quanto ao necessário
endosso do conceito pelas evidências e suas propriedades determinadas, explicitam-se no seu
trabalho de investigação histórica. Em A formação da classe operária inglesa pode-se
vislumbrar, por exemplo, sua compreensão sobre a noção de classe.
Para o autor, nenhuma categoria histórica foi mais des-historicizada e congelada do que a
categoria classe social. Devido ao seu emprego indiscriminado no universo intelectual mais
abrangente – que lhe impõe sua lógica própria – a classe social foi, de certo modo, reduzida a
uma categoria estática. Na concepção de Thompson, a noção de classe é construída por homens e
mulheres a partir de sua própria experiência de luta, e não numa estação experimental. Tampouco
se reduz “a um efeito de estrutura ulterior” (Idem, 1981, p. 57) da qual os homens não são os
sujeitos, mas apenas seus vetores. “Não vejo a classe como uma ‘estrutura’, nem mesmo como
5
uma ‘categoria’, mas como algo que ocorre efetivamente (e cuja ocorrência pode ser
demonstrada) nas relações humanas” (Idem, 1997, p. 9).
E é esse pressuposto que norteia o trabalho de investigação do autor, quando analisa a
experiência de formação da classe operária inglesa. Thompson examina a experiência construída
por grupos de profissionais que articulam a identidade de interesses entre si contra outros homens
cujos interesses diferem dos seus, durante um período adequado de mudanças sociais – 1780 a
1832 –, observando padrões em suas relações, idéias, tradição, valores e instituições.
Para o autor, as regularidades nas relações e idéias de homens e mulheres, operando
durante um expressivo período histórico e unificando acontecimentos desconectados, são a
expressão da experiência de classe como fenômeno histórico. É a concepção de classe social
como fenômeno histórico, que foge a qualquer construção teórica pejorativa, a matriz orientadora
da pesquisa de Thompson em A formação da classe operária inglesa. Duas questões centrais são
apontadas pelo autor no prefácio da referida obra e podem ser observadas – ou explicitadas – em
todo o corpo da pesquisa: por se tratar de um fenômeno histórico, sua pesquisa define-se como
“um estudo sobre um processo ativo, que se deve tanto à ação humana como aos
condicionamentos” e por assim o ser qualquer “noção” (conceito ou construção teórica) “precisa
estar sempre encarnada em pessoas e contextos reais” (Idem, 1997, p. 9).
Dessa maneira, ao falar da formação ou do making5, o autor quer enfatizar o movimento
de auto-fazer-se das classes sociais ao longo da história. Trabalhando com a hipótese de que a
classe operária formou a si própria tanto quanto foi formada, ele coloca em questão a idéia
tradicionalmente aceita de que tenha sido formada pela pressão de forças exteriores agindo sobre
seres passivos e indiferenciados. Thompson (1981, p. 101) defende um pressuposto fundamental
do materialismo histórico que aponta “a ambivalência crucial de nossa presença humana em
nossa própria história, parte sujeitos e parte objetos, agentes voluntários de nossas próprias
determinações involuntárias”.
A noção de classe traz consigo a noção de relação histórica. “Estamos falando de homens
e mulheres em sua vida material, em suas relações determinadas, em sua experiência dessas
relações e em sua autoconsciência dessa experiência” (Idem, 1981, p.111).
5
O título original da obra é The making of the english working class. Ao substantivar o gerúndio do verbo to make, o
autor intenciona enfatizar esse processo histórico de constituição da classe.
6
Nos três volumes que compõem A formação da Classe Operária Inglesa, Thompson
estuda temas correlatos, não seqüenciados, mas reveladores de experiências comuns vivenciadas
por diferentes grupos de trabalhadores ingleses, durante um período adequado de mudanças
sociais. Esse procedimento vincula-se a uma de suas proposições teóricas quando assinala que a
investigação histórica como processo requer a análise do passado não como “um agregado de
histórias separadas, mas uma soma unitária do comportamento humano, cada aspecto do qual se
relaciona com outros de determinadas maneiras” (Idem, 1981, p. 50).
Na medida em que essas ações e relações se tornam objeto de investigação histórica, isto
é, são ordenadas e estruturadas de maneira racional, o pesquisador passa a conferir
inteligibilidade à história. Trata-se de um conhecimento objetivo revelado no diálogo com as
evidências e conduzido por noções de causação, de contradição, de mediação e de organização de
vida social, política, econômica e intelectual. Noções que pertencem à teoria histórica e que, para
se mostrarem operacionais, devem ser remetidas a um diálogo disciplinado com as evidências.
Thompson (1981) considera que cada pesquisador pode fazer novas perguntas à evidência
histórica, ou revelar novos níveis de evidência, assim como, pode haver discordância de ponto de
vista ideológico entre os pesquisadores, mas isto não põe em questão, as propriedades
8
6
Os clubes jacobinos estabeleceram as raízes da participação democrática na política, ao se proporem a organizar
“um número ilimitado de membros” (THOMPSON, 1997). Tendo em seu núcleo artesãos altamente qualificados,
esses clubes constituíram-se na primeira expressão da tradição e do modelo predominante para as organizações
operárias pelos 150 anos seguintes: financiamento por meio de baixa contribuição voluntária periódica, rodízio e
igualitarismo na condução dos trabalhos, combinação de pontos conjunturais e discussões políticas “de fundo” na
pauta etc. Essa experiência inovadora de minorias tornou-se o embrião de uma nova força social que viria a redefinir
o cenário político inglês cerca de quarenta anos depois (FORTES, 2006).
9
sua nova disciplina, para a intensificação ou para a transparência do processo de exploração, para
a coesão social e cultural do explorado e para a intensificação da opressão política. Adverte que
ao destacar o caráter inovador das tecelagens, podem-se menosprezar as tradições políticas e
culturais determinantes na constituição das comunidades da classe operária.
Os operários, longe de serem os ‘filhos primogênitos da revolução industrial’, tiveram
nascimento tardio. Muitas de suas idéias e formas de organização foram antecipadas por
trabalhadores domésticos, como os que trabalhavam com a lã em Norwich e em regiões do
oeste, ou os tecelões de aviamentos em Manchester. (Idem,1988, p. 16).
conhecimento. E, à medida que esses silêncios são penetrados, não cosemos apenas um conceito
novo ao pano velho, mas vemos ser necessário reordenar todo o conjunto de conceitos”, assinala
Thompson (1981, p. 185).
A preocupação do autor com uma análise, “sempre encarnada, em pessoas e contextos
reais” (Idem, 1997, p.10), tratada anteriormente, é uma evidência bem presente em seu trabalho
de investigação. Em - A árvore da liberdade (1997), por exemplo, podem-se destacar momentos
nos quais ele procura descrever com minúcias as características dos personagens, as
circunstâncias e o contexto onde viviam. Eis alguns desses momentos:
O primeiro encontro da sociedade londrina [Sociedade Londrina de Correspondência]
ocorrera dois meses antes, numa taverna nos arredores da Strand (‘O Sino’, em Exeter
Streeet) , com a presença de nove ‘homens bem intencionados, sóbrios e industriosos’. Mais
tarde, seu fundador e primeiro secretário, Thomas Hardy, rememorava o encontro:
Após terem jantado pão, queijo e cerveja, como de hábito, e fumado seus cachimbos com
um pouco de conversa sobre a dureza dos tempos e o alto preço de todas as coisas
necessárias à vida... veio à tona o assunto que ali os reunira - a Reforma Parlamentar -, um
tema importante a ser tratado e deliberado por tal tipo de gente. (Idem, 1997, p. 15).
O que diferencia o trabalho de Thompson não são, apenas, os diferentes tipos de fontes
utilizadas, mas também, e principalmente, a leitura e a interpretação que faz dessas fontes. As
memórias de líderes como Thomas Hardy (Idem, ibidem, p.15), o diário de John Wesley (Idem,
ibidem, p. 35); as petições de alguns trabalhadores (Idem, ibidem, p. 70); as Atas das reuniões da
Sociedade Londrina de Correspondência (Idem, ibidem, p. 134-170), além de outras fontes
históricas, possibilitaram o resgate da história de sujeitos, seus ofícios, suas tradições, seus ideais,
suas aspirações em tempos de forte perturbação social.
O trabalho com o conceito de experiência é sem dúvida, a mais importante característica
dessa obra. Para Thompson, a experiência é gerada na vida material e estruturada em termos de
classe. Nessa concepção, homens e mulheres atuam como sujeitos, não exatamente como sujeitos
autônomos, mas
[...] como pessoas que experimentam suas situações e relações produtivas determinadas
como necessidades e interesses e como antagonismos, e em seguida ‘tratam’ essa
experiência em sua consciência e sua cultura (as duas outras expressões excluídas pela
prática teórica) das mais complexas maneiras (sim, ‘relativamente autônomas’) e em
11
seguida (muitas vezes, mas nem sempre, através das estruturas de classe resultantes) agem,
por sua vez, sobre sua situação determinada. (Idem, 1981, p. 182).
[...] ao se ler a frase ‘decadência dos tecelões manuais’ deixa-se de perceber a dimensão da
tragédia que ocorreu. As comunidades têxteis estavam literalmente se extinguindo - algumas
delas, na região oeste e no Pennines, tinham entre 300 e 400 anos de existência, e outras, de
fundação muito mais recente, possuíam mesmo assim tradições e padrões culturais próprios.
[...] Antes que chegassem a esta época de agonia, as antigas comunidades de tecelões
ofereciam um modo de vida que seus membros preferiam sem vacilação aos padrões
materiais mais elevados das cidades fabris. (Idem, ibidem, p. 145).
moralizadores” (Idem, 1997, p. 61). Para ele o termo “turbas” tem sido usado de forma
demasiado desleixada pelos historiadores, “para escapar às analises ulteriores, ou ainda, numa
atitude preconceituosa, sugerindo elementos criminosos motivados pela ânsia de saques” (Idem,
1997, p.65).
Na Inglaterra do Século 18, as ações turbulentas assumiam duas formas diferentes: a de uma
ação direta popular mais ou menos espontânea, e a da utilização deliberada da multidão
como instrumento de pressão, por pessoas ‘acima’ ou à parte da multidão. A primeira forma
não recebeu a atenção que merece. Ela se baseava em bases populares mais articuladas e era
legitimada por tradições mais sofisticadas do que sugere a palavra ‘motim’. O exemplo mais
comum é o levante pelo pão ou pelo alimento, e podem-se encontrar repetidos casos em
quase todas as cidades e distritos até os anos 1840. Raramente era uma mera gritaria que
culminava no arrombamento de celeiros ou no saque de lojas. Ele vinha legitimado pelos
pressupostos de uma economia moral mais antiga, que ensinava ser imoral qualquer método
desonesto de aumentar o preço dos alimentos, para se aproveitar das necessidades do povo.
(1997, p. 65-66).
Os motins por alimentos às vezes eram tumultuados, como o ‘Grande Motim do Queijo’ na
Feira do Ganso em Nottingham, em 1764, quando queijos inteiros rolaram pelas ruas; ou o
motim na mesma cidade, em 1788, provocado pelo alto preço da carne, quando as portas e
venezianas dos açougues foram arrancadas e incendiadas juntamente com os livros de
contas dos açougueiros, na praça do mercado. Mas mesmo essa violência mostra um motivo
mais complexo que a fome: os varejistas eram punidos pelos seus preços e pela má
qualidade da carne. No mais das vezes as turbas mostravam autodisciplina, com um modelo
habitual de comportamento. (1997, p .67).
E, mais adiante, prossegue:
Como se explica a atração exercida por esta religião sobre o nascente proletariado num
período de excepcional miséria, considerando-se que as massas não tinham qualquer motivo
para se imaginarem iluminadas, que suas experiências no trabalho e nas comunidades
favoreciam os valores coletivistas em detrimento dos individualistas e que sua frugalidade,
disciplina ou ganância trariam maior proveito aos patrões do que a eles mesmos ? (Idem,
ibidem, p. 232-3).
Na busca das possíveis razões para tal fenômeno, Thompson manifesta o papel ativo dos
sujeitos no fazer de suas experiências. Sujeitos que foram objetos de uma ferrenha doutrinação,
mas que não necessariamente se colocaram nesta relação como sujeitos passivos, indiferenciados.
O autor considera que, por meio da religião, nos moldes em que ela se organizava, , esses homens
e mulheres de setores do proletariado puderam reviver ou substituir antigas tradições
14
comunitárias que, de alguma forma, haviam perdido, o que permitia que tomassem essa religião
como sua.
Thompson prossegue, esclarecendo sua concepção sobre o processo ativo. Segundo ele:
Nenhuma ideologia é inteiramente absorvida por seus partidários: na prática, ela multiplica-
se de diversas maneiras sob o julgamento dos impulsos e da experiência. Dessa forma, a
comunidade da classe operária introduziu nas capelas seus próprios valores e boa
vizinhança. Além disso, devemos tentar imaginar que espécie de ídolos e fetiches
inacreditáveis representavam todas as genealogias, anátemas e crônicas hebraicas, em
confronto com a experiência diária dos tecelões e mineiros. (Idem, ibidem, p. 278).
Pois a primeira metade do século 19, quando a educação formal de grande parte do povo se
resumia a ler e escrever e contar, não foi absolutamente um período de atrofia intelectual.
As vilas e até as aldeias ressoavam com a energia dos autodidatas. Dadas as técnicas
elementares de alfabetização, os diaristas, artesãos, lojistas, escreventes, e mestres-escolas
punham-se a aprender por conta própria, individualmente e em grupo [...]; aqui e ali, líderes
radicais locais, tecelões, livreiros, alfaiates reuniriam pilhas de periódicos radicais e
aprenderiam a usar as publicações oficiais do Parlamento; diaristas analfabetos nem por isso
deixavam de ir todas as semanas, a um bar onde lia-se em voz alta e discutia-se o editorial
de Cobbett. (Idem, 1989, p. 303 -304).
profissional, esses homens não passaram, numa única geração, do campesinato para a nova
vila industrial. Sofreram a experiência da Revolução Industrial como ingleses livres de
nascimento com idéias articuladas (Idem, 1989, p. 438).
Referências
1
Este artigo é uma versão ampliada de um paper apresentado em junho de 2002 na conferência
Making Social Movements: The British Marxist Historians and the Study of Social Movements (Edge
Hill College, Ormskirk, UK). Esta versão foi apresentada no simpósio Política em Paixão: 10 anos
sem E.P. Thompson, ocorrido na Universidade Federal de Santa Catarina em 2003.
2
Este trabalho retoma algumas das análises que desenvolvi anteriormente, quando tratei com mais
atenção a trajetória da micro-história italiana (LIMA, 2006). Para uma discussão mais geral e
detalhada sobre os temas e os protagonistas do debate, remeto ao livro.
1
próximo à histoire des mentalités francesa. Entretanto, uma aproximação mais cuidadosa do
debate mostra-nos claramente como aquele debate italiano estava fundado, em seus
princípios, em uma reflexão sobre as relações entre a história e as ciências sociais, largamente
influenciada pela antropologia social inglesa e os estudos de história social na Inglaterra. Na
verdade, de acordo com seus próprios protagonistas, a micro-história pode mesmo ser vista
como um dos caminhos adotados, na Itália, para a constituição de uma história social mais
elaborada e mais fundamentada teoricamente (GRENDI, 1998, p. 258).
As referências intelectuais da micro-história são, naturalmente, diversificadas. Por um
lado, um forte entrelaçamento com o debate intelectual italiano no pós-guerra, com
referências ao marxismo de Gramsci e a herança intelectual da história ético-política.
Influenciada e ao mesmo tempo em oposição a esta herança, a micro-história responde
também ao forte influxo, a partir da década de 1960, da historiografia francesa dos Annales, a
história “serial” econômica e demográfica, mas também a antropologia econômica
influenciada por Karl Polanyi e sua perspectiva “substantivista”, bem como a antropologia
social (e a network analysis) e suas discussões sobre “escala” e a tentativa de superação dos
modelos estrutural-funcionalistas3. Nesse emaranhado de influências, entretanto, que lugar
pode ser atribuído (se é que é possível fazê-lo), à história social inglesa?
Em primeiro lugar, não há dúvida que esta articulação aconteceu. Talvez a prova
mais enfática disso esteja na publicação, em 1981, de uma antologia de artigos de Thompson
como um dos volumes inaugurais da coleção Microstorie (Micro-histórias), a mesma coleção
que abrigaria, em seguida, boa parte dos principais trabalhos publicados pelos “micro-
historiadores” italianos4. Se quisermos entender como Thompson torna-se micro-historiador
teremos que investigar de modo mais aproximado os significados dessa incorporação.
3. As pistas de importantes trocas historiográficas entre Inglaterra e Itália no campo da
história social estão espalhadas em livros, revistas e trajetórias individuais. Para não nos
perdermos na rede de relações que envolvem tanto a leitura britânica de Gramsci quanto a
participação cruzada de historiadores italianos e britânicos em revistas tão importantes nos
dois países com Studi Storici e Past and Present, podemos nos deter em alguns rastros
significativos.
Carlo Ginzburg, uma das figuras mais importantes do debate de que estou
falando, reconheceu há alguns anos a importância central que o trabalho de Hobsbawm
exerceu sobre as suas primeiras escolhas e hipóteses para os estudos (mais tarde famosos)
sobre a cultura das classes subaternas e as concepções populares sobre a feitiçaria5. O uso de
Hobsbawm e outros historiadores ingleses de categorias gramscianas de análise como
3
A referência mais importante aqui é a do trabalho do antropólogo norueguês Fredrik Barth (BARTH,
1981).
4
Em italiano, “Microstorie”. Esta coleção foi dirigida por Carlo Ginzburg e Giovanni Levi, e
publicada pela Einaudi em Turim, entre 1981 e 1992.
5
“Por trás das minhas hipóteses estava a leitura dos ensaios de Eric Hobsbawm, do historiador
marxista inglês – ambos reunidos em Primitive Rebels (1959) e, acima de tudo, um estudo publicado
por ele em 1960 em Società, a revista ideológia do Partido Comunista Italiano, com o título ‘Por uma
história das classes subalternas’, que ecoava um termo usado por Gramsci nos seus Cadernos do
Cárcere. Para mim também, assim como para muitos outros intelectuais italiano de minha geração, a
leitura dos escritos de Gramsci foi um fato decisivo. O Gramsci proposto por Hobsbawm era Gramsci
lido e interpretado nos termos da antropologia social britânica.” (GINZBURG, 1993, p. 79).
2
“hegemonia” e “classes subalternas” havia produzido um efeito imediato não apenas em
Ginzburg mas, paradoxalmente, em muitos historiadores italianos cuja leitura de Gramsci
passou a ser fortemente influenciada pelo uso que os historiadores marxistas britânicos faziam
dos conceitos interpretativos do filósofo italiano.
Outro exemplo eloqüente do forte impacto dos historiadores ingleses está na recepção
dos trabalho de E. P. Thompson na Itália, não apenas The Making, que foi traduzido em 1969,
mas seus artigos sobre a “cultura plebéia” na Inglaterra do século XVIII. São trabalhos que
influenciaram diretamente os estudos fundamentais de micro-história, como os livros de
Giovanni Levi (“A herança imaterial”), Franco Ramella (“Terra e telai”), Maurizio Gribaudi
(“Mondo operario e mito operaio”) e Simona Cerutti (“Mestieri e privilegi”) (LEVI, 1988;
RAMELLA, 1984; GRIBAUDI, 1987; CERUTTI, 1992).
Seria difícil, no espaço de um artigo, explorar cuidadosamente os múltiplos fios
que ligam as experiêncas britânica e italiana no campo da história social. Meus objetivos aqui
deverão ser necessariamente mais modestos.6. Em parte por sugestão da própria abordagem
micro-histórica, eu escolhi abordar o problema exposto no início através de – na falta de uma
palavra melhor – um estudo-de-caso. Tentarei explorar de um modo mais aproximado as
influências e trocas historiográficas (de resto desiguais) que levaram a propor, nos princípios
do debate da micro-história na Itália, a proposta teórica e metodológica de uma microanálise
histórica do social. Para cumprir esse objetivo, partirei do trabalho de Edoardo Grendi7,
responsável por algumas das escassas e importantes discussões programáticas sobre a
microanálise social na Itália a partir dos anos 1970.
[Link] primeiros contatos de Grendi com a história social britânica remontam aos
seus estudos na London School of Economics e suas pesquisas de doutorado sobre a história
do socialismo na Inglaterra, entre 1958 e 1960. Sob a orientação de Ralph Miliband, Grendi
estudou o trabalhismo, bem como o movimento operário e as várias tradições socialistas na
Inglaterra entre os séculos XIX e XX8.
O interesse pela história “from below” estava presente em suas leituras e o
aproximaram dos estudos de história social inspirados pelo marxismo (do qual, aliás, ele
sempre foi teoricamente distante), conduzidos naqueles mesmos anos. Sua escolha pela
história social, entretanto, era atravessada por um forte interesse pela história local e urbana,
assim como por questões ligadas à demografia, os estudos sobre a estratificação social e o
social change (ambos de inspiração sociológica) 9.
6
Fiz um trabalho mais extenso de investigação sobre as origens e as diferentes versões da micro-
história italiana em LIMA, 1999.
7
Edoardo Grendi (1932-1999) foi um dos mais importantes historiadores relacionados ao debate sobre
a micro-história na Itália. Trabalhando como professor de História Moderna e Contemporânea na
Universidade de Gênova, seus temas de pesquisa eram as tradições socialistas e os movimentos dos
trabalhadores na Inglaterra Vitoriana e a história social e local da República de Gênova e da Liguria
(especialmente nos séculos XV-XVII). Ele fez parte do comitê editorial dos Quaderni Storici
(Bologna, il mulino) apartir de 1970.
8
O resultado final das pesquisas de Grendi na LSE (entre 1958 e 1960) foi publicado na Itália poucos
anos depois (GRENDI, 1964)
9
GRENDI, 1961, 1965 e 1970a. Sobre a influência da sociologia nas primeiras discussões de Grendi
sobre o movimento operário, ver BERTA, 2002.
3
5. A história social inglesa estava alcançando, durante os anos sessenta, alguns
dos seus resultados mais consistentes. As discussões de Grendi mostravam uma forte atenção
crítica sobre eles, demonstrada em várias resenhas e em coletâneas organizadas por ele entre
os anos 60 e 70. Um exemplo particularmente importante nesse sentido é o livro de
Thompson, tornado um dos “clássicos” dessa historiografia: The Making of the English
Working Class (1963). Quando traduzido para o italiano, em 196911, Grendi publicou uma
resenha na Rivista Storica Italiana (GRENDI, 1970); seu julgamento sobre o livro nos
permite entender melhor os critérios a partir dos quais conduzia suas leituras em história
social.
Em primeiro lugar, o livro de Thompson não era resenhado sozinho. O estudo de
J.F.C. Harrison sobre a tradição do “socialismo utópico” de Robert Owen na Inglaterra e nos
Estados Unidos – um livro com objetivos mais modestos do que o amplo estudo de Thompson
– era também objeto de discussão. E precisamente nessa diferença de intenção e alcance
estava a primeira razão da crítica de Grendi, que preferia o primeiro – atento às
especificidades de seu objeto – ao segundo.
O livro de Thompson era criticado por sua recusa em analisar a classe trabalhadora
inglesa através dos seus números. Estava ausente em The Making toda aquela problemática –
central, por outro lado, na discussão francesa, por exemplo – sobre a estratificação social,
sobre a caracterização propriamente sociológica da classe. Algo impensável para alguém que,
como Grendi, considerava a demografia “o fundamento, a pedra de fundação da história
social” (GRENDI & BIANCO, 1970). No julgamento de Grendi, a ênfase dada pelo autor de
The Making ao momento político em detrimento da composição social concreta da classe
terminava por comprometer o objetivo geral de estabelecer as características constitutivas da
classe a partir do seu verdadeiro contexto relacional. A abordagem da “cultura” de classe se
daria com a mesma imprecisão, enfatizando as “leituras e ideologias” em detrimento daquela
noção antropológica da cultura definida como “uma qualidade das relações humanas ativas”.
Na crítica de Grendi, a “economia moral” das classes trabalhadoras, tal como considerada por
Thompson no livro, não era “um ‘cimento’ de solidariedade e reciprocidade, mas uma
‘economia política socialista’” (GRENDI, 1970, p. 985).
Grendi via no livro em The Making uma tendência à generalização fácil – onde
“fenômenos sociais locais” eram tratados como “símbolos de um processo nacional” –
agravada pela falta de uma “consistente técnica historiográfica”. O tratamento das
particularidades locais lhe parecia particularmente grave: Thompson na verdade reconhecia a
“diversidade de sociedades e ‘culturas’ locais”, mas não era capaz de integrá-las no quadro
geral de modo convincente. Em suas palavras: “Thompson, recusando a considerar
objetivamente a classe, a ‘verificá-la’ de acordo com definições e tentativas de quantificação,
não oferece nenhuma resposta, e seu salto desde as ‘culturas’ necessariament locais à ‘classe
operária inglesa’ resulta, - de acordo com Grendi – realmente grosseiro demais.”. “A
identificação da classe com a consciência de classe e com a cultura política é já
problemática”, continuava, mas a “passagem inversa das ‘culturas’ políticas à consciência de
classe, à classe, parece francamente artificial” (GRENDI, 1970, p. 987)
The Making trazia elementos inovadores, mas era incapaz de “empenhar a mente” ou
“seduzir a inteligência”. O livro de Harrison, entretanto, era “legível e estimulante”, com uma
“abordagem moderna” e “muito bem conduzido”. Tudo isso era traduzido em um julgamento
rigoroso: “O sucesso e as discussões suscitadas pelo livro de Thompson”, dizia Grendi,
“demonstram apenas o quanto a historiografia moderna tenha deixado de lado os estudos dos
4
fenômenos de transformação social que, (...) Thompson se limita a reivindicar, não a
desenvolver ilustrativamente. Creio que na história da cultura historiográfica seja este o
significado do livro de E.P. Thompson” (GRENDI, 1970, p. 990).
Um juizo certamente duro demais com o livro de Thompson, mais significativo ainda
na medida em que se tratava de um trabalho que fora largamente reconhecido como uma
“radical experiência a partir de baixo”. É um fato que, a despeito da sua tradução
relativamente rápida, The Making não teve uma grande repercussão na Itália; mas as razões do
dissenso de Grendi não são reflexo de um humor geral dos estudiosos italianos do movimento
operário com relação ao historiador inglês (do qual, de resto, Grendi dificilmente seria um
representante típico). Suas críticas são, entretanto, reveladoras, na medida em que apontam,
por contraste, o quadro a partir do qual ele mesmo pensava a história do movimento operário
e a história social como um todo. O julgamento de Grendi sobre o livro de Thompson se
manteve praticamente inalterado ao longo dos anos10. É a experiência posterior do historiador,
seus trabalhos sobre a cultura plebéia do século XVIII, sobretudo Whigs and Hunters e
aqueles artigos que seriam publicados mais tarde em Customs in Common, que iriam
interessá-lo de fato (GRENDI, 1994, p. 235). As múltiplas analogias entre o trabalho mais
“maduro” de Thompson e as próprias pesquisas e indagações historiográficas de Grendi nos
permitirão entender melhor as fronteiras fluidas que ligavam seus trabalhos dentro do
contexto das articulações e trocas historiográficas que estou explorando.
6. Nos primeiros anos da década de 1970, Grendi se dedicou a discutir suas
perspectivas sobre história social em textos que esclarecem o sentido de suas aproximações e
dissensos com relação à historiografia sobre a experiência dos trabalhadores (incluída aí a
radical experiência inglesa).
Grendi era um dos protagonistas de um importante debate que estava apenas iniciando
no contexto italiano, sobre o significado da história social e do movimento operário. Suas
investigações, entretanto, podem ser lidas como um diálogo com as perspectivas elaboradas
pela história social inglesa, especialmente os argumentos de Edward Thompson sobre as
relações entre a história e tradição teórica marxista11.
Diferente de Thompson – acredito que é preciso dizer de saída – Grendi não é um
historiador marxista. Sua insatisfação com o quadro analítico do marxismo e seus conceitos
centrais de análise, bem como o teleologismo contido em ambos está claramente demonstrada
em cada discussão que propõe. Entretanto, e isso é talvez o que torna se confronto com
Thompson particularmente interessante, Grendi está inteiramente enredado em debates
historiográficos e teóricos que são marcados pelos parâmetros de análise herdados do
marxismo: o significado da ação política dos trabalhadores e grupos subalternos, a
constituição da sociedade contemporânea, a definição de seus sujeitos políticos, os sentidos e
possibilidades de sua transformação. Assim, a discussão com uma historiografia marcada pelo
marxismo, especialmente em se tratando do debate inglês, é incontornável: uma discussão que
vai marcar o seu trabalho e que se constrói também nos confrontos e dissensos.
10
Ver a introdução de Grendi em THOMPSON, 1981. Ver também GRENDI, 1994.
11
Ver por exemplo, Modos de Dominação e Revoluções na Inglaterra (originalmente publicado em
Actes de la Recherche en Sciences Sociales, 2-3, 1976), traduzido em português em THOMPSON,
2001, pp. 203-226. Ver também THOMPSON, 1978.
5
O que há em comum entre Grendi e Thompson é o estudo das classes trabalhadoras
através de seu processos históricos, seu fazer-se. Não o proletariado entendido como coisa,
como fórmula estática, mas a “proletarização” 12 como um processo histórico largamente
indeterminado e marcado pela ação humana. Nos dois historiadores há a suspeita contra o uso
“essencialista” dos conceitos analíticos. O historiador italiano, entretanto, distancia-se
nitidamente dos conceitos e categorias marxistas. Nas palavras de Grendi em 1972:
“(...): classe operária, consciência de classe, movimento operário. Não se trata
de uma lógica de concatenação: formação da classe – maturação de uma
consciência de classe – movimento político da classe para o poder. Trata-se
sim de termos críticos, decididamente inadequados como parâmetros
analíticos para a história das classes trabalhadoras da sociedade
industrial. De onde vem então o seu sucesso? Certamente da ideologia
corrente, com aquilo que é típico da contribuição ideológica, que constitui
portanto uma primeira tentativa de interpretação. (...) Historiografia política e
historiografia militante. Digamos também historiografia idealista que sacrifica
a análise e o trabalho severo por uma preocupação pelos ‘significados’ macro-
históricos.” (GRENDI, 1972, pp. 172, grifo meu)
A interrogação central de Grendi permanecia a mudança social: as características da
transformação social e política que vem a tona com o advento da sociedade industrial, e os
mecanismos e processos que operaram e dirigiram aquelas transformações, assim como o
significado das lutas dos trabalhadores dentro deste horizonte. Nessa perspectiva, a
compreensão da transformação implicava colocar as novas configurações dentro do quadro
das experiências históricas do passado: não apenas os predecessores diretos das novas formas,
mas todo o universo das experiências possíveis. A análise histórica, segundo Grendi, deveria
tentar entender a transformação a partir do ponto de vista das mudanças que aconteceram no
campo das relações sociais, assim como seus significados culturais.
Para Grendi, as lutas dos trabalhadores faziam sentido como uma defesa dos valores
éticos e culturais que que são desafiados pela ascenção da sociedade de Mercado. Esta
perspectiva – na falta de termo melhor – “culturalista” referia-se, por um lado, à
considerações antropológicas, e, por outro, era muito próxima aos termos que a história social
inglesa estava colocando em jogo.
Os exemplos são vários”: o trabalho de Hobsbawm sobre o “ludismo” era certamente
uma referência garantida13. Mesmo que não explicitamente, o mesmo era válido para o
argumento da importância da “economia moral” levantado por Thompson. Em ambos os
casos – assim como para Grendi – as sugestões da antropologia social serviam como um
catalisador para as análises, propondo abordagens e temáticas de pesquisa.
12
“O (novo) processo de estratificação social que define a sociedade industrial, a formação de um
mercado de trabalho livre “(GRENDI, 1972, pp. 166).
13
O artigo de Hobsbawm, The Machine Breakers (HOBSBAWM, 1964), foi também publicado na
coletânea de Grendi sobre o movimento operário (GRENDI, 1973). De acordo com o julgamento de
Grendi, o historiador britânico havia resgatado aquele movimento do “complô histórico e ideológico
que o apresentava como uma típica manifestação de uma ação social irracional, masoquista e, no
melhor dos casos, desesperada.” (GRENDI, 1973, p. xxx). Era a mesma atitude intelectual que ele
identificava em outro trabalho de Hobsbawm, Captain Swing (com G. Rudé, London, 1969).
6
Em termos freqüentemente ambígüos, o tema do encontro entre história e antropologia
era corrente na historiografia dos anos 70. Mas, no campo da história social, esse tema “da
moda” havia sido, de todo modo, antecipado por alguns dos trabalhos de Hobsbawm nos anos
50. Seus interesses sobre as lutas e protestos dos trabalhadores “pré-industriais”, assim como
o que ele chamava de formas “arcaicas” de luta social nas sociedades camponesas
mediterrâneas e da América Latina são exemplo disso14. Inspirado de muitos modos pelas
leituras de Gramsci, Hobsbawm escreveu sobre sociedades e povos que “não tendo nascido
em um mundo capitalista, tiveram entretanto que lidar com o problema de adaptar-se a ele”
(KAYE, 1995, p. 147).
O encontro de Grendi com a antropologia social acontece naqueles mesmos anos. Na
verdade, essa estava, desde o início, entre as suas “aquisições” durante seu período na
Inglaterra. Estudar na London School of Economics no fim dos anos cinqüenta havia
significado entrar em contato com uma das instituições mais importantes dentro do contexto
das ciências sociais inglesas, onde a antropologia tinha um lugar especial.
A antropologia social articulava-se, nas pesquisas de Grendi, à antropologia
econômica, objeto de outra coletânea de textos organizada e publicada por ele em 1972:
ambas foram fundamentais para a construção de uma proposta “microanalítica”.
7. Em um curso universitário, ministrado e publicado entre 1970 e 1971, sobre a
história do pensamento econômico, Grendi comparava as duas interpretações que lhe
pareciam heuristicamente mais importantes sobre a origem do capitalismo: a de Karl Marx e a
de Karl Polanyi.
Sobre Marx, seu julgamento era expresso nas primeiras linhas:
“Dois aspectos do pensamento e da obra de Marx são particularmente
‘modernos’ e importantes: o coerente historicismo que considera o capitalismo
como um modo de produção contingente – isto é emerso no curso do
desenvolvimento histórico e objeto de transformação – e a proposta da
economia política como anatomia da sociedade civil, modelo, portanto, de
análise ‘total’ onde ‘a teoria econômica é convertida em análise histórica e a
exposição da história em história racionalmente encadeada’. Estes dois pontos
fundam, como é fácil ver, uma concepção qualitativa do sistema social,
qualidade que deriva claramente da análise da sua ‘estrutura’ e da procura das
suas origens” (GRENDI, 1971, p.3)
Apesar da sua “escatologia”, a perspectiva de Marx colocava a contingência em um
lugar central: a sociedade capitalista era produto de uma história e não o resultado necessário
e natural do desenvolvimento da sociedade. As formulações de Marx sobre a emergência do
modo do produção capitalista eram construídas sobre o “clássico” modelo inglês e pensadas
para a realidade da economia da Europa ocidental: isso explicaria, para Grendi, “o caráter
teleológico” que a sua exposição da história assumia, mas isso não comportava
necessariamente “a inelutabilidade do destino capitalista para todas as sociedades
econômicas”, nem a “universalidade das categorias explicativas do capitalismo” para o estudo
14
Me refiro a HOBSBAWM, 1959. Durante os anos cinqüenta, Hobsbawm viajou pelos países
mediterrâneos, incluindo a Itália onte, além de colher material para a escrita de Primitive Rebels, ele
encontrou outros membros do PCI e provavelmente, através deles, o trabalho de Gramsci (KAYE,
1995, p. 146).
7
de qualquer sociedade (GRENDI, 1971, pp. 17 e 19). O marxismo – na análise de Grendi –
era mantido no horizonte das possibilidades heurísticas, mas a uma distância crítica sempre
bastante marcada. Por outro lado, a interpretação de Polanyi, exposta em A Grande
Transformação (POLANYI, 1957) tinha em comum com a de Marx sua ênfase no caráter
contingente do capitalismo. Assim como para Marx, a história inglesa fornecia a matéria-
prima para as discussões de Polanyi. Suas concepções teóricas, entretanto, eram muito
diferentes: a “sociologia clássica e a antropologia aplicada” tomando, para o segundo, o lugar
ocupado pela “filosofia e a economia clássicas” para o primeiro. De acordo com Grendi, o
tópico chave desenvolvido na parte central de “A grande transformação” era:
“uma apaixonada crítica não da sociedade industrial, mas da economia e da
sociedade de mercado. A tese central é clara (...): a economia de mercado, isto
é, do sistema econômico no qual o mercado constitui o supremo mecanismo
regulador, representa uma utopia anti-social imposta com a violência que
subordina a própria sociedade ao mercado; mas o corpo social se defende
criando os institutos necessários e acaba por sair vitorioso; mas o seu êxito é
uma situação de crise profunda e dramática da própria sociedade. Isto é
suficiente para esclarecer que Polanyi não é um revolucionário no sentido em
que era Marx, cuja dialética lhe é profundamente estranha, voltado como é a
considerar a sociedade como um ‘inteiro-total’ cuja crise ou o nascimento são
diagnosticados nos termos analíticos do ‘social change’ e não da revolução.”
(GRENDI, 1971, p. 22)
Grendi mostrou em várias oportunidades uma concordância substancial com a leitura
de Polanyi sobre o significado cultural e social da imposições de uma sociedade de mercado.
A interpretação de Polanyi referia-se diretamente a um pensador inglês que esteve no centro
das discussões de Grendi sobre as origens do movimento operário inglês: Robert Owen15.
Podemos partir deste interesse comum para explorar a aproximação que se estabelecia entre o
historiador italiano e o pensamento do autor de “A grande transformação”.
Para Polanyi havia sido Owen, e não Marx, a entender o significado profundo da
implantação da “utopia anti-social” do mercado e o impacto produzido por ela sobre a
sociedade inglesa (e em especial, os trabalhadores). O tributo pago por Marx à economia
política (em especial a David Ricardo) o fez colocar em primeiro lugar as relações
econômicas, e ver estas transformações em termos econômicos. Por outro lado, para Owen (e
para Polanyi), a economia não era a principal força explicativa do que acontecera, e ela
própria só poderia ser compreendida em relação aos aspectos sociais que estavam em jogo. A
tragédia era antes de tudo social e cultural. Nas palavras de Polanyi:
“[Owen] entendia o fato de que aquilo que parecia primariamente como um
problema econômico era essencialmente social. Em termos econômicos, o
trabalhador era certamente explorado: ele não recebia o que lhe era devido.
Mas, embora importante, isso estava longe de ser tudo que importava. Apesar
15
Robert Owen (1771-1858) foi um dos principais personagens o pensamento pré-Marxista na
Inglaterra. Sua concepção utópica da sociedade (A new view of society, de 1816) dirigiu a experiência
da “comunidade industrial”, uma comunidade modelo construída por ele em torno da sua fábrica em
New Lanark. Owen foi um industrial (proprietário de uma indústria têxtil) e um reformador social. O
encontro com sua interpretação do impacto da nova sociedade de mercado foi fundamental para o
pensamento de Polanyi.
8
da exploração, ele poderia estar financeiramente melhor do que antes. Mas um
princípio muito desfavorável para a felicidade individual e geral estava
acabando com o seu ambiente social, sua vizinhança, sua posição na
comunidade, seu ofício; em poucas palavras, com aquelas relações com a
natureza e o homem dentro das quais sua existência econômica estava
formalmente encapsulada. A Revolução Industrial estava causando um
deslocamento social de estupendas proporções, e o problema da pobreza era
apenas o aspecto econômico deste evento.” (POLANYI, 1957, p. 129)
A atenção de Grendi às conclusões de Polanyi não se justificava apenas pelo seu
caráter “anti-economicista”, mas principalmente pelo alcance “antropológico” presente na sua
argumentação. A “novidade” que representava encontrar em um trabalho sobre a Inglaterra do
século XIX (como era A grande transformação) um número expressivo de citações de
antropólogos – como B. Malinowski, R.C. Thurnwald, R. Firth – não escapava a Grendi
(GRENDI, 1971, p. 85).
É significativa, nesse sentido, a comparação que Polanyi estabelecia entre a
experiência das tribos africanas – que ele recolhia na antropologia inglesa dos anos trinta e
quarenta – e aquela das poorer classes inglesas do início do Oitocentos, “os nativos
destribalizados e degradados do seu tempo” (POLANYI, 1957, p. 290)16.
O confronto entre diferentes culturas (os brancos no caso africano, a utopia do
mercado auto-regulador no segundo caso) era o elemento central da comparação. O contato
cultural destrutivo produzia um fenômeno cujo caráter principal não era de natureza
econômica, mas social.
Quando de The Great Transformation é traduzido pela primeira vez em italiano,
Grendi publica uma resenha na Rivista Storica Italiana. Tentando re-apresentar ao leitor o
sentido que o livro de Polanyi ainda possuía – depois dos mais de trinta anos que o separavam
da sua edição original – Grendi enfatizava a atualidade da sua aproximação com a
antropologia e a sua consequente crítica ao etnocentrismo: “(...) a valorização das
‘civilizações diversas’ é o princípio de uma crítica radical da nossa civilização, uma
subversão dos seus presumidos ‘fundamentos naturais’, sobre os quais se fundou a economia
política, o verdadeiro vilain de la pièce. Complementar ao assunto é igualmente a
redescoberta (...) de Owen e do seu gênio solitário. Deste modo, o autor reencontra no estudo
das sociedades primitivas e no assim chamado ‘socialismo utópico’ a inspiração fundamental
necessária para conquistar a ‘distância’ do drama da sociedade presente” (GRENDI, 1976, p.
629.)
A necessidade, afirmada por Grendi, de “tomar distância” da sociedade presente era
coerente com a crítica à aplicação direta dos conceitos “modernos” da sociedade industrial
para aquelas realidades históricas que lhe eram estranhas. Afinal, o pecado do etnocentrismo
16
“Intrinsecamente, as condições são as mesmas. A diferença principal é que uma classe social faz
parte de uma sociedade que habita a mesma área geográfica, enquanto o contato cultural ocorre
usualmente entre sociedades estabelecidas em diferentes regiões geográficas. Em ambos os casos, o
contato pode ter um efeito devastador sobre a parte mais fraca. Não é a exploração econômica, como
muitas vezes se considera, mas a desintegração do ambiente cultural da vítima que é a causa da
devastação(...). Para o estudioso do início do capitalismo esse paralelo é altamente significativo. A
condição de algumas tribos nativas na África hoje carrega uma semelhança inequívoca com aquele das
classes trabalhadoras inglesas no início do século XIX”. (POLANYI, 1957, p. 157)
9
na historiografia é também chamado de anacronismo – a tentação de encontrar no passado (o
outro) o reflexo de si. Se o estudo da estrutura da sociedade burguesa “revelava” categorias
capazes de abordá-la, para Grendi era discutível que se intuísse a universalidade ou a
adequação destas mesmas categorias para a compreensão de outras sociedades: isso era
igualmente válido para as sociedades européias anteriores ao surgimento da moderna
sociedade burguesa (GRENDI, 1971, p. 98).
Daí a consequente referência a Owen e às sociedades não-européias estudadas pela
antropologia. Para entender o sentido das propostas de Owen era preciso devolvê-lo ao
universo cultural e ético da sociedade inglesa tal como era estruturada antes da ascensão da
sociedade de mercado: seu “socialismo utópico” – cuja tradição era considerada por Grendi a
mais influente na história do socialismo inglês (GRENDI & BIANCO, 1970, pp. ciii-civ) –
traduzia a tentativa de defesa dos modos de existir e de organizar a vida (sua ética ou sua
“economia moral”) de uma sociedade que era desagregada pela imposição da sociedade de
mercado. Se a compreensão das origens do movimento operário passava necessariamente por
um reencontro com a sociedade pré-industrial, para a qual as categorias da sociedade
burguesa eram insuficientes, era preciso encontrar outros instrumentos e outras categorias
para enfrentar esse objetivo. Para Grendi, o trabalho de Polanyi mostrava que o sucesso no
entendimento da sociedade pré-industrial dependia da possibilidade de compreendê-la a partir
dos seus próprios termos, de sua alteridade. A antropologia – a disciplina que, por excelência,
coloca a alteridade como o seu objeto de estudo – oferecia as possibilidades mais proveitosas
de diálogo.
Os termos de sua análise eram claros: o estudo das sociedades não-européias (não-
industriais e não-capitalistas) trazia analogias evidentes com o estudo das sociedades da
Europa de Antigo Regime. Pensadas a partir da ótica das comunidades e dos povoados, ambas
se caracterizavam pelo fato de terem suas economias fortemente baseadas na agricultura17.
Assim, se a antropologia estudava o mundo camponês do subdesenvolvimento, ela poderia –
analogicamente – lançar luz sobre as sociedades camponesas do passado18.
A explicação da economia agrária era de todo modo a grande insuficiência da teoria
econômica. A antropologia, por outro lado, havia sido a disciplina que mais direcionou sua
atenção para este mesmo mundo. Essa havia sido a razão pela qual Polanyi foi buscar
subsídios nessa disciplina para a sua crítica à “utopia anti-social” da sociedade de mercado. A
perspectiva de Polanyi havia interessado especificamente a Grendi na medida em que permitia
desnaturalizar o “mercado” (considerado como uma forma histórica) como elemento
explicativo de qualquer sociedade. Desse modo ele abria o caminho para o interesse pelas
sociedades de “não-mercado” a partir delas mesmas, isto é, das situações concretas que as
constituíam. A perspectiva “substantivista” de Polanyi, inspirada na antropologia, voltava-se
então para o concreto das relações econômicas, afastando-se das abstrações da teoria
econômica (GRENDI, 1972a, p. xxix).
8. A idéia de “microanálise” como uma proposta de pesquisa para a história social se
materializa paulatinamente nos trabalhos de Grendi durante os anos 70. Em 77 sai o artigo
17
Os termos de comparação partem da consideração de que a “economia camponesa” (um termo
“altamente vago”, mas com forte caráter heurístico) era “o verdadeiro fenômeno universal da história”
(GRENDI, 1971, p. 145).
18
Isso estava claro, por exemplo, em sua introdução a Antropologia economica (GRENDI, 1972a).
10
que costuma ser encarado como ponto de partida efetivo do debate sobre a micro-história na
Itália: Microanálise e história social na revista Quaderni Storici. No ano seguinte, um livro
analisando as perspectivas econômicas de Polanyi, intitulado, significativamente: Polanyi, da
antropologia econômica à microanálise histórica (GRENDI, 1978).
Aqui, todos os elementos da proposta estavam presentes: a articulação entre a
antropologia econômica e a história social, tendo como ponto de partida a intuição original do
pensador húngaro.
Para Grendi, o valor heurístico da proposta de Polanyi – tema do livro – estava em
primeiro lugar nos caminhos abertos, as sugestões de pesquisa que o seu trabalho
possibilitava. O modelo geral de mudança proposto em A grande transformação era apontado,
no entanto, como o maior problema do livro. Polanyi havia construído um mecanismo onde
havia duas forças antagônicas em jogo: por um lado a economia de mercado que impunha a
idéia de um mercado auto-regulado e que tinha como principal “instrumento conceitual” a
economia política19; do outro lado, a reação defensiva da sociedade. A tensão entre estas duas
forças era o motor para a mudança que explicava “as origens políticas e econômicas do nosso
tempo” (sub-título do livro de Polanyi). Neste modelo quase mecânico (“morfológico
institucional”), Grendi reconhecia o maior limite de Polanyi, sua “epistemologia mecanicista”
que era incapaz de articular de fato um modelo explicativo para a dinâmica histórica
(GRENDI, 1976, p. 637).
Essa avaliação geral não impedia que Grendi enxergasse perspectivas teóricas novas
abertas por Polanyi (mas não resolvidas por ele). Na sua avaliação, era preciso avançar no
caminho da aproximação entre história e antropologia, atualizando seus termos. A ponte que
Polanyi havia estendido entre a compreensão das sociedades ditas “etnológicas” e aquelas
chamadas “históricas” não havia sido de fato atravessada: a proposta de uma microanálise
histórica se propunha, no juízo de Grendi, a fazer exatamente isto20.
Para além de A grande transformação, também os trabalhos posteriores de Polanyi e
de sua equipe, sobre as sociedades antigas e, principalmente, sobre o Daomé dos séculos XVII
e XVIII interessavam a Grendi de um modo especial21. São pesquisas onde Polanyi operava
como historiador, ao mesmo tempo que confrontava os dados da antropologia – “os princípios
e comportamentos humanos na realidade social” – com as categorias etnocêntricas da teoria
econômica. Mas Polanyi não havia utilizado todos os recursos disponíveis da antropologia na
realização de seu projeto: a abordagem microanalítica era um deles e constituía, na
perspectiva sustentada por Grendi, o terreno privilegiado sobre o qual as perspectivas
histórica e antropológica poderiam de fato convergir. Isso estava explícito na sua introdução
ao livro:
“É este o sentido dos desenvolvimentos que se tenta dar aqui às posições de
Polanyi: a proposta de uma radical perspectiva indutiva passível de
organização nos termos de uma estratégia de pesquisa que se ponha
19
“... o mais formidável instrumento conceitual de destruição”, Cf. Grendi, E. Recensione: Karl
Polanyi, cit. p. 633.
20
GRENDI, 1978, p.11. Ver também: GRENDI, 1976 e GRENDI, 1978a.
21
As referências são: Polanyi, K; Arensberg, C & Pearson, H.W., Trade and Market in the Early
Empires, New York: Free Press, 1957; e Polanyi, K. Dahomey and the Slave Trade, Washington:
Washington Universtity Press, 1968.
11
pacientemente a reconstruir os nexos interpessoais e dinâmicos entre
indivíduos, famílias, comunidades, e sociedade mais ampla, dedicando uma
particular atenção às relações, capitais, de intermediação. Trata-se de um
caminho fortemente estimulado e condicionado (pelo uso de categorias ou
esquemas generalizadores) pelo trabalho antropológico.
Na raiz está portanto uma concepção diversa dos processos sociais: não o
produto anônimo do confronto ‘objetivo’ de oferta e demanda, mas o fruto do
jogo complexo e articulado de confrontos e mediações sempre
caracteristicamente personalizados e nesse sentido traduzíveis em termos de
‘cultura’.” (GRENDI, 1978 p. 2).
O objetivo era então o de “radicalizar” Polanyi, aprofundando seu diálogo com a
antropologia. Essa apropriação da “intuição” de Polanyi na direção da microanálise (uma
perspectiva que, de resto, era indiferente ao autor húngaro) era certamente mediada, no caso
de Grendi, pelas discussões em torno da história social e pela antropologia social posterior a
Polanyi que operava, na Inglaterra, a crítica aos limites dos modelos estrutural-funcionalistas.
Para entendermos melhor essa passagem, gostaria de me voltar para aqueles momentos
encontrados por Grendi em sua leitura de Polanyi e que lhe sugerem o percurso a seguir. Em
primeiro lugar, a interpretação de Polanyi sobre a sociedade de mercado construía-se sobre
algumas questões históricas importantes. A primeira delas era a origem do mercado.
Historicamente, o mercado não era uma instituição necessária, nem universal. Em
Trade and Market in the Early Empires (POLANYI; ARENSBERG & PEARSON, 1957),
Polanyi e seus colaboradores haviam mostrado a existência de complexas instâncias da
economia em vários dos grandes impérios da Antiguidade onde – apesar da amplidão
geográfica envolvida e da conseqüente complexidade administrativa – a instituição do
mercado muitas vezes nunca chegou a existir, como na Babilônia de Hammurabi, ou onde era
fortemente controlada pela autoridade, como no comércio administrativo (port of trade)
praticado na Grécia antiga (onde os preços praticados não eram livres, mas determinados
politicamente). De acordo com a interpretação de Polanyi, o mercado ocupava uma posição
decididamente marginal nas sociedades antigas. Essa era, obviamente, uma posição que
contrariava frontalmente a interpretação da economia clássica que, anacronicamente,
enxergava nas grandes civilizações mercantis greco-orientais os antepassados ilustres (e
lógicos) do mercado auto-regulador das sociedades contemporâneas. Na proposta de Polanyi,
deslocava-se a atenção do estudo da qualidade da economia para o estudo do funcionamento
das instituições (GRENDI, 1978a, pp. 262-263).
A sociedade européia do Antigo Regime era, por outro lado, claramente mercantil,
onde o comércio de longa distância tinha um lugar fundamental. Uma sociedade mercantil,
mas não uma sociedade de mercado: mesmo ali – antes do aparecimento da industrialização
– a lógica da negociação, a lógica do mercado, funcionava apenas nas relações comerciais
externas e não constituíam a lógica econômica (interna) da sociedade. Outras lógicas, distintas
daquela do jogo da oferta e da procura, operavam em sua organização econômica e social. A
desagregação desta sociedade estava ligada à transformação desta lógica econômica: o fator
decisivo foi o nascimento da máquina e da indústria. A introdução desta “novidade produtiva”
em uma sociedade mercantil acabava por implicar a “subordinação do comércio à produção e
a consequente mercantilização, em escala mundial” não apenas dos produtos, mas “da terra,
do trabalho e da moeda” cuja “substância” escapava à lógica da mercadoria (GRENDI, 1976,
12
p. 632). A extensão da lógica do mercado a estas instâncias da sociedade havia sido central
para sua desarticulação.
A compreensão deste fenômeno estava na origem da lógica elaborada por Polanyi para
classificar as diversas sociedades a partir do lugar ocupado pela economia em cada uma delas.
O parâmetro central desta classificação estava na constatação que, nas economias “arcaicas” e
“primitivas” (e do mesmo modo aquelas da Europa pré-industrial), a economia era
“encapsulada” (embedded) pela sociedade, ou seja, não era constituída como uma instância
autônoma, mas fundamentalmente dependente do conjunto das relações sociais. Com o
advento da sociedade de mercado, com a mercantilização progressiva da terra, do dinheiro e
do trabalho (e a extensão da lógica do mercado às relações sociais), assim como a
conseqüente desagregação dos equilíbrios comunitários, a economia era sistematicamente
“desencapsulada” (disembedded) da sociedade, na medida em que aquela não respondia mais
às regras das relações sociais (as leis humanas), mas às “leis naturais” do mercado.
Esse par de conceitos – encapsulado/desencapsulado (embedded/disembedded) –
utilizados para “classificar” as economias, apesar da sua “crueza terminológica”, iluminavam
– no julgamento de Grendi –aspectos fundamentais da organização social das sociedades pré-
industriais, que eram o interesse principal de sua leitura de Polanyi. Em primeiro lugar, se as
relações econômicas não eram comandadas pelo princípio da maximização, era preciso se
interrogar sobre os parâmetros que dirigiam as relações econômicas destas sociedades.
A análise das sociedades não-capitalistas produzia assim novas categorias de análise:
reciprocidade e redistribuição eram conceitos que iluminavam a compreensão da lógica das
trocas econômicas em sociedades que não eram governadas pela lógica do mercado. Segundo
o juízo de Grendi, a abordagem substantivista de Polanyi fundava deste modo os
comportamentos econômicos sobre as “interações ou relações sociais”. A perspectiva
“comparativista” de Polanyi se voltava antes de tudo para as formas econômicas (trocas,
fluxos de bens) e enfatizava as características “integrativas” que estas apresentavam. Mas
Polanyi também acabava por sobrevalorizar, na avaliação de Grendi, os caracteres de
estabilidade das sociedades estudadas, deixando de lado elementos importantes de análise,
como as assimetrias e desequilíbrios que estavam presentes nos sistemas22. Reconhecidos os
limites das análises do pensador húngaro, o tributo pago por ele aos modelos estrutural-
funcionalistas, restava levar adiante os caminhos originais que apontava, buscando na
antropologia outros instrumentos e perspectivas que Polanyi não quis, ou não conseguiu,
incorporar nas suas investigações.
22
Um exemplo disto que, segundo Grendi, era um dos limites importantes do trabalho de Polanyi, se
encontrava no fato de que o pensador húngaro – pensando a economia apenas do ponto-de-vista da
troca-integração – não dava o devido peso a questões centrais da economia das sociedades estudadas,
como o tema da “alocação de recursos” (produção-acumulação), temas que eram, por outro lado,
centrais nas análises marxistas e da economia clássica, e que permitiriam dar maior peso aos
elementos de instabilidade e de desequilíbrio dos sistemas. Na leitura que Grendi propõe para o último
trabalho de Polanyi, Dahomey and the Slave Trade, isso fica bastante evidente (GRENDI, 1978, pp.
42-55).
13
Esse é o sentido das discussões de Grendi sobre outras questões antropológicas: os
temas da troca e da transação, da escala e dos modelos dinâmicos (gerativos) da ação social23.
O sentido da “troca”, no âmbito da antropologia, era central na análise da estruturação
da sociedade. A própria interação entre as pessoas poderia ser lida em termos de trocas: “troca
de bens, materiais e imateriais, isto é, como transação” (GRENDI, 1978 p. 61). Se a estrutura
social se constrói sobre a regularidade das relações sociais (e portanto sobre a interação entre
indivíduos e grupos) a análise micro-sociológica destas relações é a contribuição principal da
abordagem antropológica para o estudo de qualquer sociedade no tempo
Em economias encapsuladas (embedded), como eram aquelas das sociedades
européias de Ancien Régime, e onde o papel integrativo chave exercido pela distribuição e
pela troca passava necessariamente pela relação entre as famílias e a comunidade, a
orientação da análise parecia para Grendi bastante evidente: “desde o ‘micro’ da unidade
doméstica ao ‘macro’ da sociedade mais ampla, através da comunidade entendida como forma
de agregação sócio-espacial intermediária, assimilável a modelos morfológicos diversos”
(GRENDI, 1978, p. 95).
9. Na microanálise proposta por Grendi, espaço e escala eram temas de fundamental
importância. Da família à comunidade e desta às formas agregativas mais amplas. A
interrogação sobre as “formas de integração” entre as diferentes esferas torna-se central na
análise. As relações entre as unidades produtivas ligavam-se às trocas e aos fluxos de bens
dentro da comunidade: trocas verticais e horizontais, interações que “exprimiam
fundamentalmente uma série de relações interpessoais mais ou menos institucionalizadas” e
que poderiam, portanto, ser cartografadas” (GRENDI, 1978, p. 122).
Se as relações econômicas são integrativas, ligando a economia doméstica à economia
da comunidade e a partir daí à instâncias mais amplas e à sociedade global, é possível
cartografar estas formas e os seus protagonistas. Pensar as formas de integração significava
portanto pensar a forma pela qual se trama o tecido social24.
As relações sociais e econômicas deveriam ser pensadas antes de tudo como relações
interpessoais. Do ponto de vista de história social, a microanálise dessas relações para
compreender o processo real da estruturação social e suas formas de integração era muito
coerente com essa consideração geral.
No julgamento de Grendi, a analogia entre a microanálise histórica e a pesquisa de
campo da antropologia era central na realização prática desta proposta. É possível se
estabelecer uma ponte entre a lógica da pesquisa de campo e a cartografia da documentação.
Como o fieldwork – a verificação direta, in loco do quotidiano e das relações correntes em
uma dada comunidade – é vedado aos historiadores da Europa camponesa da Idade Moderna,
a idéia é transferir a sua lógica “holística” para o universo de fontes disponível: daí o sentido
de cruzar sistematicamente a documentação que testemunhava indiretamente as relações
sociais e as transações nestas sociedades – as fontes da demografia e da economia, como
registros paroquiais, atos notariais, cadastros, censos, processos jurídicos, etc.. Documentos
indiretos, como se disse, e muitas vezes excepcionais, mas mesmo esta excepcionalidade
23
Estes termos referem-se diretamente ao trabalho de Fredrik Barth (ver especialmente Models of
social organization, em BARTH, 1981). Sobre a influência de Barth sobre a micro-história, ver
ROSENTHAL, 1998; ver também LIMA, 1999.
24
Ver, para a antropologia, MITCHELL, 1969, BLOK, 1988 e GRIBAUDI, 1992.
14
deveria ser colocada a serviço da compreensão do quotidiano “normal” das relações
correntes25. No julgamento de Grendi, o levantamento e cruzamento sistemático destes
registros em um espaço delimitável de interrelações sociais – uma comunidade ou povoado –
permitiria, analogicamente, um acesso tão eficaz e uma possibilidade de análise tão concreta
quanto aquela permitida pela antropologia em seus estudos.
Assim, a microanálise era definida por Grendi como o procedimento de uma história
social entendida como uma “história das relações entre as pessoas e os grupos”
(GRENDI, 1977, p. 519, grifo meu).
Esse é, enfim, o sentido da “passagem analítica do conceito de classe ao conceito de
grupo social” que era proposta por Grendi em 1977, como passo fundamental a ser dado pela
história social.26. Classe e grupo social: o primeiro termo, para Grendi, supunha relações
sociais sem de fato analisá-las; o segundo, permitiria uma abordagem mais realista do
sentidos das solidariedade e das interações sobre os quais se construíam os movimentos
políticos e, desse modo, a própria origem das transformações sociais.
10. Aqui gostaria de retornar com mais elementos ao que me propus fazer no início
desta apresentação: pensar sobre o que revelam as aproximações e distâncias entre a proposta
de micronálise social contida nos trabalhos de Grendi e a obra histórica de Thompson.
Como vimos, o interesse pela história social inglesa e pelo trabalho de Thompson
atravessa grande parte das reflexões historiográficas de Grendi desde desde os anos sessenta.
A edição de uma coletânea com os artigos de Thompson como um dos volumes inaugurais da
coleção “Microstorie” (Micro-histórias) parece, entretanto, mais do que sinal de um interesse
difuso, como uma verdadeira reivindicação intelectual. Era ao mesmo tempo o
reconhecimento de uma intensa analogia no campo dos procedimentos de pesquisa, assim
como na própria concepção de história.
A coletânea intitulava-se Sociedade Patrícia, Cultura Plebéia – Oito ensaios de
antropologia história sobre a Inglaterra do século XVIII 27. Na introdução ao volume,
25
“Caracteristicamente, o historiador trabalha sobre muitos testemunhos indiretos: nessa situação o
documento excepcional pode resultar excepcionalmente ‘nomal’, exatamente porque revelador.”
(GRENDI, 1977, p. 512). Esse termo “excepcional-normal” teve uma fortuna inesperada em algumas
discussões sobre a microstoria, especialmente em ligação com a discussão de Ginzburg sobre o
“paradigma indiciário” (do qual parece ser um corolário). Mas é preciso notar que essa fortuna é
desproporcional ao lugar que teve nos trabalhos e discussões de Grendi, bem como em suas
formulações sobre a microanálise: a referência ao documento excepcional diz respeito à idéia de que
um comportamento generalizado e considerado inteiramente normal, muitas vezes não é documentado
exatamente por sua condição de “normalidade”: um documento que o registre acabaria por ter um
caráter “excepcional-normal”.
26
Grendi concordava com ao antropólogo Eric Wolf que lamentava “a falta de uma teoria dos grupos
sociais na elaboração teórica de Marx, o que terminnava por confinar o conceito de classe a uma
dimensão preconceituosa, e portanto não operativo-analítica” (GRENDI, 1977, p. 507).
27
Os 8 ensaios são: Time, Work-Discipline and Industrial Capitalism, The Moral Economy of the
English Crowd in the XVIIIth Century (ambos originalmente publicados em Past and Present, em
1967 e 1971), Rough Music: the English Charivari (Annales ESC, 1972), The Crime of Anonymity
(publicado em Albion’s Fatal Tree em 1975), Anthropology and the Discipline of the Historical
Context (Midland History, 1972), Patrician Society, Plebeian Culture (Journal of Social History,
15
Grendi fazia um estudo atento da trajetória intelectual de Thompson, articulando tanto suas
posições políticas quanto suas reflexões historiográficas.
Em seu perfil de Thompson, encontramos mais uma vez as mesmas afirmações
críticas encontradas anos antes, assim como a clara distância tomada por ele por algumas das
questões caras ao historiador inglês, como sua adesão aos conceitos marxistas – como
“classe” e “consciência de classe” – julgados esquemáticos e teleológicos pelo historiador
italiano.28. Encontramos do mesmo modo, entretanto, o reconhecimento de uma intensa
proximidade intelectual.
Sem jamais citar as similaridades entre Thompson e Polanyi, reconhecemos na análise
de Grendi sobre o historiador inglês os ecos dos mesmos parâmetros que lhe pareciam
heuristicamente fecundos nas conclusões do economista húngaro. Mesmo reiterando suas
críticas ao “impressionismo” de The Making, Grendi chamava atenção para a compreensão de
Thompson da transformação das “formas de vida” dos trabalhadores na Inglaterra entre os
séculos XIX e XX de um modo que era “congruente com a interpretação da revolução
industrial como um cataclisma” (Introduzione, THOMPSON, 1981, p. xiii). A interpretação
de Thompson, “em chave romântico-marxista” do capitalismo industrial na Inglaterra como
uma transformação cultural (THOMPSON, 1981, p. xvii) tinha certamente muito em comum
com a interpretação polanyiana – mediada pelo socialismo utópico de Owen – da degradação
social e cultural imposta, no mesmo contexto, pela utopia anti-social do Mercado29.
Arriscando um pouco, podemos afirmar que o próprio interesse de Thompson pelo
Romantismo – não apenas um interesse histórico, mas principalmente moral e político que
informava, de muitos modos, sua própria distância com relação a alguns aspectos do
marxismo – harmonizava-se fortemente com a atenção de Grendi ao pensamento de Owen e
as tradições utópicas e socialistas pré-marxistas na Inglaterra.
No perfil proposto por Grendi em 1981, ele tentava iluminar a nova atenção italiana ao
trabalho de Thompson. Este era, segundo seu julgamento, ligado a razões tanto políticas
quanto históricas: seu apelo contra o reducionismo na análise histórica, sua ênfase sobre a
cultura, a moralidade, a experiência, era caminhos para “reconquistar sistematicamente o
protagonismo do indivíduo e do grupo, a human agency como ele chamava” (Introduzione,
THOMPSON, 1981, pp. xxvi-xxvii). Sua maneira de formular a ligação umbilical com o
marxismo e desenvolver essa inspiração era identificada por Grendi em três aspectos centrais:
1) seu ancoramento à dimensão histórica, 2) sua perspectiva resolutamente materialista, 3)
suas atenção às assimetrias sociais e políticas que fundavam suas análise cultural. Finalmente,
na mesma direção, Grendi via exemplificado na pesquisa histórica de Thompson o “princípio
1974), Folklore, Anthropology and Social History (The Indian Historical Review, 1978), e
Eighteenth Century English Society: class struggle without class? (Social History).
28
A relação de Thompson com os conceitos marxistas atravessa todo seu trabalho. Ela pode ser
resumida, entretanto, em sua afirmação em Agenda of Radical History, onde, citando as categorias
marxistas de classe, ideologia e modo de produção, considerava-as “conceitos difíceis, mas ainta
criativos” (THOMPSON, 1993, p. 361).
29
De todo modo, a familiaridade de Thompson com o “substantivismo econômico” de Polanyipode ser
intuída pela referência feita em 1966 aos “estudos antropológicos das sociedades camponesas e
tribais” feitos por Paul Bohannan e George Dalton (dois “polanianos” – eu trabalho era Markets in
Africa), cf. History from below, The Times Litterary Supplement, 07/april/1966, agora em
THOMPSON, 2001, p. 194.
16
heurístico de uma análise o mais circunstanciada possível dos comportamentos” que aliada
aos princípios citados, lhe permitiram “a recuperação da dimensão da experiência histórica
(que) permite recuperar como objetos históricos a moral (...) e a cultura” (...) como objetos
históricos” (Introduzione, THOMPSON, 1981, p. xi, grifo meu).
Em 1994, no ano seguinte ao falecimento de Thompson e após a publicação de
Costumes em Comum, Edoardo Grendi revisita a obra do historiador e militante inglês e seu
significado. É um comentário que atualiza as avaliações anteriores à luz dos últimos
resultados das pesquisas de Thompson sobre a cultura plebéia. Uma vez mais, Grendi chama a
atenção para a força das análises de Thompson, ao colocar a experiência coletiva popular
como autêntico sujeito histórico. “Seu ponto forte era, exatamente, o de estar a altura de
recriar a experiência do vivido sem sacrificar a preocupação pela sua base material.”
(WICKHAN, 2002, p. 324).
Como nos lembra Chris Wickhan, trata-se de “um grande historiador que abraça
brilhantemente em uma dúzia de páginas o trabalho de um outro” (WICKHAN, 2002, p. 324).
Ao fazer isso, Grendi definia também seu próprio projeto.
Acredito, enfim, que entre os dois Eduardos há uma grande sintonia de fundo: ela
começa pela distância e a recusa moral da sociedade fundada sobre a utopia anti-social do
mercado. A partir daí a coerente leitura que enxerga as origens das lutas dos trabalhadores do
nosso tempo a partir não dos parâmetros da economia entendida como esfera autônoma, mas a
partir de seu significado social e cultural. Em seguida, a intuição original do programa de
pesquisa thompsoniano: interrogar a experiência dos trabalhadores a partir do seu fazer-se.
Analisar, portanto, os grupos sociais não como coisas, mas como processos.
Dois aspectos fundamentais acentuam essa confluência e o próprio sentido de
reivindicar Thompson em favor da micro-história. O primeiro, aquilo que Grendi chamava de
“sabedoria contextual” que era abundante nos trabalhos do historiador inglês: a atenção à
composição das situações históricas singulares e a contextualização da ação social. Do mesmo
modo, a escolha analítica que, colocando a si mesma em uma posição “a partir de baixo” –
isto é, do ponto de vista das classes subalternas –exigia “distintas técnicas de trabalho e
distintos postulados, acima de tudo, orientação valorativas que não estão dentro do processo
normal da aculturação acadêmica” (Introduzione, THOMPSON, 1981, p. xxxiii): fontes
distintas, instrumentos intelectuais distintos, distintas hierarquias de relevância. Ambas
perspectivas eram fundamentais para o “pleno resgate dos sujeitos históricos”, aspecto
essencial, de acordo com Grendi, “para toda vocação para a história social” (Introduzione,
THOMPSON, 1981, p. xxxii-xxxiii)30.
Enfim, a forte inspiração antropológica de Thompson, assim como suas próprias
tentativas de microanálise social – como em Whigs and Hunters ou em Rough Music –
parecem, nesse contexto, muito coerentes com toda a proposta microanalítica. Seu apelo ao
estudo das particularidade, os conflitos e mudanças menos evidentes, e, enfim, a importância
fundamental dada a ação humana consolidam esse horizonte comum.
São confluências que explicam de muitos modos a constante atenção crítica que as
propostas de Thompson continuam a receber dos historiadores ligados à micro-história. Como
30
“Nesse sentido” – escreve Grendi algumas linhas adiante – “tomar distância dos valores sociais
correntes é perfeitamente complementar à inspiração autêntica do historiador social” (Introduzione,
THOMPSON, 1981, p. xxxiii)
17
nos lembra Simona Cerutti, a micro-história pretendia, antes de tudo, uma radicalização da
intuição original de Thompson, levando até as últimas conseqüências as implicações de uma
análise processual dos grupos humanos e de suas transformações (CERUTTI, 1998, pp. 173-
4).
18
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21
O LEGADO DE THOMPSON AO ESTUDO DAS MULTIDÕES E DOS
PROTESTOS POPULARES
Sidnei Munhoz
Preâmbulo
A produção deste texto teve originalmente o propósito
específico: debater a influência dos trabalhos de Thompson nos estudos dos
protestos sociais, principalmente aqueles caracterizados pela ação das
multidões. Uma primeira versão do presente texto foi apresentada no seminário
“Política e Paixão: Dez anos sem E.P. Thompson”, realizado em 2003, na
Universidade Federal de Santa Catarina e algum tempo depois publicada na
revista Esboços, editada pelo Programa de Pós-graduação em História dessa
conceituada universidade 1. A atividade foi uma homenagem ao historiador
inglês na passagem do décimo ano da sua morte. De início, lembro ao leitor que
a minha aproximação à temática objeto desta reflexão se deu ao longo do
desenvolvimento dos meus trabalhos de mestrado e doutorado. Assim, as
análises aqui sumarizadas, foram pautadas pelos interesses imediatos vinculados
àqueles projetos de estudo. 2 No entanto, procurei efetuar a apresentação das
perspectivas apresentadas por Thompson sempre que possível considerando o
contexto dos diálogos por ele estabelecidos com os seus contemporâneos. Para
uma melhor compreensão desse processo, busquei mesmo que de forma sucinta
apresentar uma gênese das reflexões relacionadas ao aparecimento das
multidões e dos protestos populares no campo da história e, de forma menos
específica, nas ciências humanas 3. O texto agora apresentado mantém as
1 MUNHOZ, Sidnei J. Thompson, o marxismo e o estudo dos protestos populares . Esboços Revista do
Programa de Pós Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis - Brasil, v.
12, n. -, p. 107-122, 2004.
2 MUNHOZ, Sidnei J. A Ordem do caos versus o ocaso da ordem: saques e quebra-quebras em São Paulo - 1983.
Campinas, 1990. Dissertação (Mestrado em História Social do Trabalho) - Universidade de Campinas. MUNHOZ, Sidnei.
Cidade ao Avesso: desordem e progresso em São Paulo no limiar do século XX. São Paulo, 1997. Tese (Doutorado em
História Econômica) – Departamento de História. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Universidade de
São Paulo. MUNHOZ, Sidnei. Riots and looting in São Paulo city - 1983. Institute of Latin American Studies. The
University of Glasgow,1996. (Occasional Papers Series; 63).
3 Em outros textos procuro fazer uma apresentação mais geral do conjunto da obra de Thompson, da relação
entre a sua militância e a sua produção acadêmica e dos debates em que se envolveu. Veja Fragmentos de
um possível diálogo com Edward Palmer Thompson e com alguns de seus críticos. Revista de História
características do seu original, embora com a estrutura relativamente alterada,
até porque nos cinco anos que nos separam da publicação da sua primeira
versão, nada aconteceu que viesse a colocar por terra o ponto de vista defendido
àquela época.
Gênese histórica
Ao examinar a produção histórica relativa ao estudo dos
protestos sociais caracterizados pela ação das multidões, até meados da década
de 1950, depara-se com a falsa impressão de efemeridade e de insignificância
desses conflitos. As análises históricas referentes ao tema, regra geral, eram
exíguas ou superficiais, baseadas principalmente em preconceitos provenientes
da criminologia e da psicologia das multidões. Essa observação não indica a
inexistência de produção sobre o assunto, mas a pouca atenção do profissional
da história dispensada ao tema.
Regional, Ponta Grossa, v. 2, n. 2, p. 153-185, 1997; Thompson, o marxismo, a New Left e a ação política. In:
ZANIRATO, Silvia Helena; PELEGRINI, Sandra. (Orgs.). Narrativas da pós-modernidade na pesquisa
histórica.. 1 ed. Maringá: Eduem, 2005, v. 1, p. 193-213.
Michelet defendia uma perspectiva diferente pois via nas
multidões revolucionárias uma expressão das virtudes republicanas 4. No
entanto, Michelet também via a multidão de forma estereotipada e baseada em
abstrações, embora de forma diversa dos autores mencionados anteriormente.
Além disso, a vertente micheletiana pouco se propagou ao longo do século
dezenove e na primeira metade do século seguinte. Assim, as visões
reacionárias sobre o tema tornaram-se hegemônicas. Deve-se ainda ressaltar que
o tema das multidões ocupou presença marcante na literatura da época. Dickens,
Allan Poe, Baudelaire, Zola, Victor Hugo, entre outros abordaram o tema.
4 KAYE, Harvey (ed). The face of the Crowd. Studies in Revolution, Ideology and Popular Protest. New York: Harvester
Wheatsheaf, 1988, p. 7-8.
5 Um sumário dos debates sobre o assunto pode ser encontrado em BRESCIANI, M. Stella M. Londres e Paris no século
XIX: o espetáculo da pobreza. São Paulo: Brasiliense, 1982.
organização mais complexas e superiores: o sindicato e o partido
revolucionário, lugares por excelência da ação proletária. Daí as manifestações
de multidões não se coadunarem com o socialismo científico, embora
demonstrassem a revolta popular contra a miséria e a opressão impostas pela
sociedade capitalista aos produtores das riquezas. A essas ações populares
faltava tanto a direção quanto a existência de um claro projeto político para a
transformação da sociedade. Enfim, segundo esse prisma, eram manifestações
espasmódicas, tendiam a se repetir com certa freqüência em momentos de crise,
mas uma vez passado aquele momento, não deixavam marcas nem propiciavam
transformações sociais significativas. Assim, pode-se dizer que esses dois
campos, em rigor opostos, a saber, aquele influenciado pelo marxismo ortodoxo
e o composto pelas abordagens históricas conservadoras, se aproximavam, pois,
tanto em um quanto no outro tais movimentos emergiam com traços de
arcaísmo.
6 Scipio Sighele analisa a multidão a partir de uma perspectiva fortemente embasada na criminologia. Sighele foi
influenciado tanto por Lombroso quanto por Enrico Ferri, seguindo um meio termo entre os trabalhos dos dois. Em 1891,
dessa produção. Sighele e Tarde estudaram o problema da multidão a partir de
uma perspectiva da criminologia. Eles estavam interessados em compreender o
grau de responsabilidade de indivíduos que houvessem tido participação em
crimes coletivos.
Para Le Bon,
pelo simples fato de fazer parte de uma multidão, o homem desce, pois,
muitos graus na escala da civilização. Isolado, era talvez um indivíduo
Sighele publicou “a multidão criminosa”, quando já apresenta os eixos centrais das suas reflexões sobre as multidões: a
importância da emergência das multidões na sociedade contemporânea, a perda de identidade do indivíduo na massa
através da imitação dos outros, a tendência à violência e mesmo ao crime nas ações das multidões. Contudo, em Sighele, o
indivíduo não desaparece por completo na multidão, podendo haver níveis de responsabilidade criminal dependendo do
papel que ocupou na multidão. SIGHELE, Scipio. A Multidão criminosa. Ensaio de psicologia coletiva. Rio de Janeiro:
Simões, 1954.
7 Gustave Le Bon, em Psicologia das Multidões, escrito em 1895, via na emergência das multidões na sociedade
contemporânea, um sinal da corrosão dos valores da sociedade. Para ele, na multidão, todas as individualidades se
dissolviam, surgindo um novo ente (coletivo) a quem todos se subsumiam. Le Bon via nessa perspectiva o perigo de
dissolução dos principais valores da sociedade cristã e ocidental. O seu pensamento implica uma reação ao crescimento do
papel adquirido pelas pessoas comuns e a necessidade do retorno à hierarquização da sociedade
8 Tarde entendia haver na sociedade uma hierarquia baseada nas capacidades de cada um ou cada grupo. Ele via nas
elites, a capacidade de criar. O restante era capaz de apenas reproduzir por imitação a esse processo. Assim, Tarde via o
crime e os desvios sociais como um claro sinal da desintegração das elites tradicionais. A preocupação de Tarde não era
estudar a multidão propriamente dita, mas estudar uma nova forma de comunicação que emergia naquele momento
histórico, daí a sua atenção estar principalmente voltada para compreender a emergência do público. As conclusões de
Tarde se distinguiam tanto das de Le Bon, a quem criticava por dissolver o indivíduo na multidão e por exagerar a
supremacia destrutiva das massas quanto das conclusões de Lombroso, por desconsiderar a importância da experiência,
resumindo a ação ao determinismo do meio. TARDE, Gabriel. A Opinião e as massas. São Paulo: Martins Fontes, 1992;
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22/01/2004.
9 Le Bon, Gustavo. Psicologia das multidões. Rio de Janeiro: F Briguiet, 1959. (Biblioteca de Filosofia Científica). p.3-4.
(destaque do original)
culto; em turma, é instintivo, por conseguinte um bárbaro. Tem a
espontaneidade, a violência, a ferocidade e também os entusiasmos e os
heroísmos dos seres primitivos.10
Controvérsias
Assim, no campo do marxismo, o estudo dos conflitos de
multidões quase foi relegado ao completo abandono e pouco avançou no final
do século XIX e início do seguinte. Uma das primeiras exceções foi,
certamente, Rosa Luxemburgo. Ela não estava preocupada em estudar as
multidões, mas em compreender o espontaneísmo das massas no contexto da
luta de classes. Em Greve de massas, partido e sindicato, publicado em 1906, a
autora apontava o espontaneísmo das massas como um importante elemento na
luta contra a tendência ao vanguardismo e à burocracia partidária. Contudo, não
se pode afirmar que ela negasse a necessidade de organização e, mesmo, da
13 RAMOS, Gustavo A. Angústia e sociedade na obra de Sigmund Freud. Campinas: Editora da Unicamp, 2003,
principalmente p. 169-172. Agradeço ao Dr. Gustavo ª Ramos pelo diálogo estabelecido em relação a
esse tema.
14 MARX, Karl. O 18 brumário de Luís Bonaparte e Cartas a Kugelmann. Rio de janeiro: Paz e Terra, 1978,
principalmente p. 70-72. BOTTOMORE, Tom. Verbete Lumpemproletariado. In: BOTTOMORE, Tom (ed). Dicionário
do pensamento marxista. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1988, p. 223.
existência de uma vanguarda. Ao desenvolver tal trajetória, mesmo que muito
tangencialmente, Luxemburgo abordou o problema da ação das multidões.
17 GROH, Dieter. Base-Processes and the problem of organization: outline of a social history research project. Social
History, v.4, n.2, p.265-283, May 1979
classificados como movimentos espontâneos. Aglutinam-se, assim, distintas
formas de manifestação sob um mesmo rótulo 18.
23 KAYE, Harvey . (Ed) The Face of the crowd. Studies in the revolution, ideology and popular protest. Selected essays
of George Rudé. London: Harvester-Wheatsheaf, 1988. p. 4-5. Sobre a trajetória de Rudé, veja a sua própria análise desse
processo em . CURTIS Jr, Lewis P. (Org.). El Taller del historiador, México: Fondo de Cultura Económica,1975
24 SOBOUL, Albert. SOBOUL, Albert. História da Revolução Francesa. Rio de Janeiro. Zahar, 1964.; SOBOUL, Albert.
Utopia e Revolução Francesa. In: DROZ, Jacques. História geral do socialismo, v.1, Liboa: Horizonte, 1976, p. 254-335.
25 COBB, Richard. The Police and the people: French popular protest 1789-1820. Oxford: Oxford University Press, 1972.
Entre as décadas de 1950 e 1970, esse campo de estudos se
expandiu significativamente, com destaque para os trabalhos desenvolvidos por
Eric J. Hobsbawm, George Rudé, Edward Thompson e Charles Tilly.
26 RUDÉ, George. The Crowd in the French Revolution. Oxford: Oxford University Press, 1967. Ideologia e protesto
popular. Rio de Janeiro: Zahar, 1982; RUDÉ, G. The Crowd in history: a study of popular disturbances in France and
England, 1730-1848. New York: J. Wiley, 1964; RUDÉ, G. Criminal and victim: crime and society in early nineteenth-
century England. Oxford: Clarendon, 1985. RUDÉ, George e HOBSBAWM, Eric. Capitain Swing. Harmondsworth,
1973.
27 Apenas a título de esclarecimento, George Rudé é norueguês, todavia sua trajetória sempre esteve vinculada à historia
social inglesa (embora sempre tenha ocupado postos acadêmicos fora da Inglaterra), onde se graduou e se doutorou..
28 PIVEN, Francis Fox ; CLOWARD, Richard. Poor people's movements. Why they succeed, how they fail? New York:
Vintage Books, 1978.
afirmou, entre outras coisas, que, quando não organizados, os movimentos,
apesar de poderem ter alguma eficácia, não deixam marcas e que,
posteriormente, apenas os historiadores têm conhecimento deles.
29 Esta perspectiva aparece principalmente em The Crowd in the History e em The Crowd in the French Revolution.
Posteriormente, em Ideologia e Protesto popular e em alguns artigos contidos em The face of the Crowd, por exemplo,
nota-se uma significativa mudança na análise feita por Rudé que, aparentemente, se afasta da visão espasmódica dos
protestos populares das multidões.
30 HOLTON, J. Robert. The Crowd in history: some problems and method. Social History, v.3, n.2, p. 219-33. 1978
31 RUDÉ, George. The French Revolution and “Participation”in: The faces of the Crowd op. Cit p. 135-147. Veja
também a introdução a essa coletânea efetuda por Harvey Kaye, p 1-40, principalmente p.11.
distritos rurais ou centros comerciais. Para ele, é a estabilidade proporcionada
por costumes enraizados na população que propicia a emergência de rebeliões e
protestos coletivos, e não a existência de instabilidade ocasionada, por exemplo,
pela imigração de massa, em novas cidades em rápido processo de
desenvolvimento. Ao demonstrar essa tese, embasado na análise de casos
diversos, Rudé oferece material para contestar os trabalhos conservadores
baseados na matriz Le Boniana, da turba instável, desgovernada e sem
propósitos claros 32. Considerados no seu conjunto, os estudos efetuados por G.
Rudé são de inestimável valia para a história social. 33
32 Veja RUDÉ, George. The Growth of cities and popular revolt, 1750-1850: with particular reference to Paris,
principalmente p. 221 e p. 238, in Harvey KAYE (ed) The Face of the crowd. studies in revolution, ideology and popular
protest. selected essays of George Rudé. London: Harvester-Wheatsheaf, 1988.
33George Rudé inicia os seus estudos sobre as multidões em meados da década de 1950. Dentre os primeiros trabalhos
deve-se destacar. The Gordon Riots: A Study of the Rioters and their Victms.
34 Sobre esta questão veja principalmente, THOMPSON, E.P. Eighteenth century English society: class struggle without
class. Social History, v.3, n. 2, p. 133-166, may, 1978 e A Formação da classe operária Inglesa, op. cit. . Um debate
relativo ao assunto, (embora não fosse o eixo central do mesmo), aparece na History Workshop Journal, entre 1978 e
1979. Rafael Aracyl e Mario Garcia Bonafé, publicaram os artigos deste debate que surgiu após a edição de A Miséria da
teoria, onde apresentam um útil apanhado do trajeto dos chamados marxistas humanistas. Veja ARACYL, Rafael ;
BONAFÉ, Mário.(Org.) Hacia una historia socialista. Barcelona: Serbal, 1983.
em períodos de escassez de alimentos e de fome generalizada, Thompson
denominou “economia moral”. Essa perspectiva se opõe à visão espasmódica,
que via nesses movimentos uma mera reação instintiva frente à fome, mas sem
que os protagonistas dessas ações fossem capazes de desenvolver uma
consciência própria a respeito do processo em que estavam inseridos. Em
decorrência, esses conflitos eram vistos como desprovidos de direção política e
principalmente sem objetivos claramente definidos. Para Thompson, é difícil
afirmar que esses movimentos fossem políticos, contudo ele entende que
constitui um erro classificá-los como apolíticos ou pré-políticos.
35 Veja, principalmente, THOMPSON, E.P. The Moral Economy of The English Crowd in Eighteenth Century, [Link].
Encontra-se também alguma discussão sobre o assunto em Patrician Society, Plebeian Culture op. cit.. A revisão desta
discussão e o debate com os principais críticos do autor está em Customs in Commom op. cit.
36 THOMPSON, Edward P. A Formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987; THOMPSON,
Edward P. Customs In Commom. New York: New York Press, 1991. THOMPSON, Edward P. The Moral economy of
the English crowd in the eighteenth century. Past & Present, n.50, p.76-131, Feb. 1971.
37 THOMPSON, E.P.. The Moral economy of the English crowd in the eighteenth century. In: Past & Present , n. 50 , p.
76-131. Feb. 1971.
38 THOMPSON, Edward. P. Patrician Society, Plebeian Culture. Journal of Social History. v. 7,n. 4, p. 382-405,
summer, 1974.
plebe desenvolvia as suas ações de resistência baseada em práticas defensivas
fundadas no direito consuetudinário, impondo à gentry concessões e obrigações.
Em contrapartida, através dessas concessões e de uma complexa trama fundada
em reciprocidades paternalistas, a gentry exercia a sua dominação. Contudo,
esse processo não pressupunha a ausência de conflito, mas a sua delimitação.
Dessa forma, a hegemonia da gentry podia conter revoluções, mas não
contestações ou rebeliões. Afirmou, ainda, que o preço pago pelas classes
dominantes inglesas para manter essa hegemonia foi a licenciosidade da plebe.
Periodicamente, a plebe encenava o seu espetáculo de rebeldia e a gentry
contracenava com punições pontuais e exemplares. De um lado, a plebe
ameaçava mais do que, de fato, podia e, de outro, a gentry procurava
demonstrar punir mais do que era capaz. Havia um contrateatro fundamental
para o exercício da hegemonia patrícia 39.
39 Em 1991, Thompson refaz este artigo publicando-o com o título de The Patricians and the Plebs, tornando-o mais
sofisticado, mas com poucas alterações em relação ao original.. Cf. E. P. THOMPSON, Customs In Common. New York :
contornos de luta de classes. Tornaram-se, ainda, um campo de contestação e de
oposição aos novos valores que ameaçavam o modo de vida da plebe.
Paralelamente, Thompson não via essa cultura plebéia como autodefinida ou
independente de influências externas. Ela teria se formado defensivamente, em
oposição à força e ao controle patrício. Essa cultura havia sido vigorosamente
propagada, de geração a geração, ramificando-se através da transmissão oral, de
almanaques, de livretes, de anedotas e de músicas de escárnio.
40 Essa tese thompsoniana revolucionou o perfil através do qual era tratado o século dezoito inglês. Hoje, há um
reconhecimento desses conflitos mesmo em trabalhos conservadores, que anteriormente viam nesse período a existência
de uma tranquilidade social.
41 THOMSPON, E. P. Senhores e caçadores: a origem da lei negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987.
42 WOOD, Elen faz uma breve mas precisa análise desse trabalho de E.P. Thompson. Veja seu Custom against
capitalism. New Left Review, n. 195, Sep./Oct.1992, p. 21-28. Em Whigs and Hunters, Thompson detalha a tese de que
no transcorrer do século XVIII, estaria ocorrendo, na Inglaterra, a criminalizaão de antigos costumes.
história social, influenciando historiadores, cientistas sociais e outros
pesquisadores em diferentes regiões do planeta.
43 Veja WOODS, Jr. Individuals in the rioting crowd; a new approach. In: The Journal of Interdisciplinary History, v.15,
n. 1, p.1-24, Summer, 1983.
transformação os distúrbios envolvendo multidões podem ser considerados
como normais e até mesmo necessários. Woods Jr. vê nos distúrbios, não apenas
a expressão de um conflito de forças, mas de valores, sendo que os
historiadores, mais recentemente, têm estudado as multidões a partir desses
motivos; contudo, têm visto essas multidões constituídas por indivíduos
possuidores de motivos comuns. Assim, afirma o autor, chegou-se à conclusão
da existência de valores políticos ou sociais comuns nessas comunidades.
Partindo desse ponto, propõe discutir como se dava a coesão dos valores nessas
multidões. Indaga ainda sobre a possível existência de uma homogeneidade
social e identidade comparativa.
44Randall, Adrian. Before the luddites: custom, community and machinery in the English woollen industry. 1776-1809.
Cambridge: Cambridge University Pres, 1991. Mais recentemente, Randall e Andrew Charlesworth organizaram uma
coletânea debatendo mercado, cultura de mercado e protesto popular na Inglaterra e Irlanda durante o século XVIII. O
trabalho, como reconhecem os editores, possui uma profunda dívida para com a produção thompsoniana, mas o débito
para com ele somente poderia ser pago através do engajamento crí[Link] não esperaria nada menos que isso.
Veja, RANDALL, Adrian ; CHARLESWORTH, Andrew (eds). Markets, market culture and popular protest in
eighteenth-century Britain and Ireland. Liverpool: Liverpool University Press, 1996.
45 HOLTON, J. Robert. The Crowd in history: some problems and method. Social History, v.3, n.2, p. 219-33. 1978
Thompson efetuou um trabalho mais cuidadoso e abordou problemas
importantes relativos à tradição e à cultura. Ele afirma que Rudé não tratou de
comunidade, ficando preso a noções de classe e de ocupação. Pode-se
reconhecer a procedência dessa crítica, pois, apesar de toda a tipificação dos
componentes das multidões apresentada por Rudé em The Crowd in the French
Revolution, finaliza-se a leitura dessa obra sem se compreenderem
características importantes desta forma de protesto social.
46 Cf. DESAN, Suzanne Massas, comunidade e ritual na obra de E. P. Thompson e Natalie Davis. in: L. HUNT (Org.). A
Nova história cultural. São Paulo: M. Fontes, 1992. p. 63-96.
47 Sobre esse problema, veja também WOODS, JR. Individuals in the rioting crowd; a new approach. The Journal of
Interdisciplinary History, v.15, n.1, p.1-24, Summer, 1983.
Ao aproximar-me do final desse texto, gostaria de
sublinhar a existência de uma vasta produção acadêmica em que é possível
observar o emprego inadequado da obra de Thompson. Sobre esse assunto, de
certa forma, espinhoso e merecedor de minucioso estudo, é possível observar as
inúmeras tentativas de utilização dos conceitos ou idéias desenvolvidos por
Thompson ao mesmo tempo em que eram valorizados modelos estruturalistas,
tão combatidos pelo autor. Parte do ocorrido resulta de leituras inadequadas
tanto dos textos produzidos em um campo quanto no outro. Porém, também é o
resultado de um processo inadequado de apropriação das idéias desenvolvidas
por Thompson e que, de forma bastante célere, foram, descontextualizadas,
vulgarizadas e descaracterizadas. Em decorrência, muitas das suas perspectivas,
antes, minoritárias e à margem do mainstream acadêmico, sofreram profundas
metamorfoses e tornaram-se dominantes. No entanto o fizeram como meros
simulacros do pensamento outrora defendido com a militância política e com a
pena da caneta de um incansável ativista e um dos mais brilhantes historiadores
do nosso tempo. Em decorrência, nos deparamos com um paradoxo: quando a
influência de Thompson se tornou dominante nos estudos dos movimentos
sociais, parece-nos que muitos dos trabalhos que reivindicavam essa herança
estavam cada vez mais distantes das idéias e da prática política do grande
historiador britânico.
48 KAYE, Harvey. “Why do Ruling Classes Fear History?”and other questions. Houndmills:MacMillan,
1996.
Lei, justiça e direito: algumas sugestões de leitura da obra de E. P.
Thompson1
Resumo:
Esse artigo discute as noções de lei, justiça e direito na obra de E. P. Thompson. Seu
objetivo é compreender como essas noções foram articuladas e como se conectaram com as
idéias de experiência e cultura. As obras estudadas foram aquelas publicadas no livro “The
essencial E. P. Thompson” editado em 2002, pela historiadora Dorothy Thompson. O
artigo também procura compreender quais os possíveis desdobramentos políticos que essas
noções sugerem, hoje, para o pensamento e a ação de uma esquerda democrática.
Abstract:
This article discusses the notions of law, justice and rights in the works of E. P. Thompson.
The main objective is to understand how these notions were articulated and how they were
connected with de ideas of experience and culture. The works under analysis were
published in the book “The essential E. P. Thompson”, organized in 2002, by the historian
Dorothy Thompson. The discussion proposed in this article is also an attempt to understand
the possible political implications these notions for the democratic left movement’s
thinking and actions.
1 Adriano Luiz Duarte, professor de História do Brasil e História contemporânea na Universidade Federal de Santa
Catarina. Esse artigo é resultado das estimulantes discussões na disciplina “Thompson essencial” ministrada em 2007 no
departamento de história da UFSC, aos alunos que dela participaram sou muito grato.
2 Thompson, Edward Palmer. Senhores e Caçadores: a origem da lei negra. Trad. Denise Bottmann. Rio de Janeiro. Ed.
Paz e Terra, 1987. p. 360.
costume, história e teoria e lendo e escrevendo história. Logo na apresentação, ela justifica
a importância da compilação argumentando:
“[E. P. Thompson] foi um dos historiadores mais influentes de sua geração. Além
de livros de primeira ordem sobre história social, publicou obras de política
contemporânea, pesquisas, debates e polêmicas sobre uma ampla variedade de
temas acadêmicos e não acadêmicos. A seleção dos seus escritos que este volume
apresenta se limita, em geral, a sua obra como historiador da Inglaterra dos
séculos XVIII e XIX.”3
10 “A economia moral da multidão inglesa do século XVIII” In: Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular
tradicional. Trad. Rosaura Eichemberg. São Paulo. Cia das Letras, 1998.
intelectuais quanto em termos políticos: “um código penal sanguinário ao lado de uma
interpretação e aplicação liberal e, por vezes, meticulosa das leis”.11
Esse paradoxo levou Thompson a argumentar que: “a posição do inglês comum não
era tanto democrática, em qualquer sentido positivo, quanto antiabsolutista. Ele próprio se
sentia um individualista, com poucos direitos difundidos, mas protegido pelas leis contra a
intrusão de um poder arbitrário.”12 Assim, ele argumenta que no século XVIII o sistema
jurídico oferecia, efetivamente, uma proteção para o homem comum. O pobre até podia
sentir-se pouco protegido diante da lei; porém, aquele foi o “grande século para os teóricos,
juízes e advogados constitucionalistas (...) [pois] o sistema de jurados oferecia efetivamente
uma certa proteção”13 para o homem pobre comum. Conseqüentemente, de conservadores a
jacobinos, predominava a convicção de que o “império da lei era o legado característico do
‘inglês livre de nascimento’ e sua garantia contra o poder arbitrário”.14
Portanto, desde A Formação da classe operária inglesa, de 1963, a lei aparece nos
trabalhos de Thompson, simultaneamente, como um problema político e
teórico. Desde então, a lei não aparece como puro arbítrio, ou simples
mecanismo de domínio direto de uma classe sobre outra; ela emerge como um
campo de batalhas, porque “na Inglaterra, o governo se deparava com uma
série de obstáculos: uma lei indefinida, o sistema de júri (...) uma
opinião pública saturada de constitucionalismo e disposta a se levantar
em defesa contra qualquer atentado às liberdades individuais.”• Como é
recorrente em seus trabalhos, ao finalizar a discussão de “A economia
moral da multidão inglesa no século XVIII”, Thompson faz uma digressão,
sobre como os conflitos daquele século poderiam informar, as nossas ações
políticas. Ele reconhecia o quanto era difícil, no fim do século XX,
pensarmos sobre uma economia moral; ou seja, pensarmos a cerca de um
mundo em que o mercado não fosse uma coisa natural, em que os preços
devessem se ajustar às necessidades dos pobres. Por isso, nosso maior
risco, como historiadores, seria o de encurtarmos as longas transições e,
com isso, perdermos de vista os embates humanos que as informavam.
Afinal, ele insiste, “a história não tem atalhos”.
**********
11 Thompson, Edward. P. A formação da classe operária inglesa: a árvore da liberdade. Trad. Denise Botttmann. São
Paulo, Paz e terra, Vol. I. p. 86.
12 Idem, Ibidem. Grifos meus.
13 Idem, Ibidem.
14 Idem, p.90.
15 Idem, p. 135.
No texto seguinte, “El delito do anonimato”, Thompson sugere que a carta anônima
é uma forma comum de protesto social, em todas as sociedades que tenham ultrapassado
certo limiar de alfabetização, e nas quais as formas de defesa coletiva ainda sejam débeis a
ponto de expor os participantes dos protestos à força da repressão. As cartas anônimas
podem ser usadas de muitas maneiras, como desagravo pessoal ou simples meio de
extorsão; nesse caso, elas não pertencem a uma fase determinada do desenvolvimento
social.
A questão que parece decisiva para compreendermos o significado do “delito do
anonimato” é que a sociedade inglesa do século XVIII estruturava-se em relações de
paternalismo e deferência (domínio e subordinação); sendo assim, existiriam muitas razões
para que as pessoas desejassem manter-se no anonimato. “Te diria meu nome, mas a minha
simplicidade não o permite”, teria dito um mineiro de carvão em Newcastle, em
1765, ao finalizar uma carta ameaçadora.• Mas constituiria um equívoco
imaginar que o anonimato seria apenas o refúgio exclusivo dos pobres. Ele
podia também ser o instrumento usado pelos cavalheiros, ou profissionais
liberais “para chamar a atenção das autoridades sem ofender a um vizinho
influente.”• Portanto, a carta anônima é a mais primitiva forma de
protesto social e industrial, protesto no qual a vitimização era uma
constante, e diretamente proporcional à proteção que a comunidade podia
oferecer “contra a vingança dos influentes”.
As cartas anônimas tendiam a se tornar mais comuns nos momentos de
escassez e de alta de preços; nesse sentido, é possível inferir que elas
eram perfeitamente compreendidas pelas partes em conflito. A carta era,
portanto, parte constitutiva de um código regular e ritualizado de
comportamento. Pode-se concluir, por conseguinte, que a carta anônima,
embora na maior parte das vezes fosse escrita por indivíduos, pode ser
tomada como um produto coletivo. Talvez, por isso, sempre tenha
permanecido alta a proporção de cartas enviadas, em relação às prisões
dos seus remetentes. Isso se deve, à extrema dificuldade de localizar os
autores, dificuldade mais acentuada nos casos de protesto social do que
nos casos de chantagem. Por outro lado, paradoxalmente, sempre houve uma
alta proporção de absolvições em relação às condenações, seja pela
dificuldade de se comprovar a autoria das cartas, seja pela proteção que
o sistema do júri – marcado pela “repugnância dos jurados do século XVIII
16 Essa foi a epígrafe escolhida por Thompson para o texto. “El delito de anonimato” Op. Cit.
17 Idem, p. 194.
em enviar um homem à morte por escrever umas quantas linhas em papel”• –
proporcionava aos autores, nos casos em que fossem identificados.
Destarte, o sistema do júri era parte fundamental no tenso
equilíbrio em uma sociedade assentada no binômio paternalismo e
deferência. Mesmo quando as provas contra os autores das cartas eram
convincentes, os magistrados nem sempre se sentiam seguros de que a
condenação fosse a melhor solução, como bem expressou o juiz de paz,
reverendo William Baker, em julho de 1795: “temíamos que por seu delito
não fosse submetido aos castigos que desejávamos”• Ou seja, o sistema do
júri podia proporcionar, de fato, uma rede de proteção aos autores das
cartas anônimas, e levá-los ao tribunal podia implicar sua absolvição, o
que não apenas legitimaria suas ações perante a comunidade mas,
principalmente, desautorizaria os mecanismos repressivos e limitaria o
alcance das autoridades, além de abalar de modo significativo o binômio
domínio/subordinação.
O sistema do júri podia dar tranqüilidade “aos de baixo”, ao mesmo
tempo em que causava insegurança “aos de cima”. Por conta dessas
possibilidades abertas pelo do sistema do júri, o mundo legal aparece
como um campo em que os mais variados conflitos podiam ser teatralizados.
De modo que a lei tanto poderia ser percebida como instrumento da
dominação de classe, ou como uma “máscara do domínio de uma classe”•,
quanto como uma sofisticada rede de proteção para o homem comum.
Constituindo-se como uma arena pública para os conflitos, a sua aplicação
poderia variar de um lugar para outro ou de um momento para outro. Na
Escócia, por exemplo, os “juízes eram dóceis ou sectários, e os júris
podiam ser manipulados impunemente (...) mas na Inglaterra o governo se
deparava com uma série de obstáculos, uma lei indefinida, o sistema do
júri, e uma opinião publica saturada de retórica constitucionalista.”•
Creio ser possível afirmar que Thompson, desde A Formação da Classe Operária
Inglesa, esteja operando com dois modos distintos, e muitas vezes antagônicos, de
apreensão do universo da lei. Ora a lei aparece como mediação dos conflitos de classe, ora
aparece como expressão da dominação de uma classe sobre a outra. Essa variação depende
do contexto. De todo modo, a forma mais sofisticada de sua interpretação aparece no livro
“Senhores e caçadores: a origem da lei negra”, de 1975. Referindo-se às Duas Leis22 de
1795, que tinham como objetivo liquidar as organizações jacobinas, ele escreveu:
18 Idem, p. 210.
19 Idem, p. 221.
20- Thompson, Edward. Senhores e Caçadores: a origem da lei negra. Op. Cit., p. 350.
21 A Formação da Classe Operária Inglesa. Op. Cit.. p. 135.
22 A primeira das leis transformava a “incitação do povo”, e o estímulo ao ódio ou ao desprezo, oralmente ou por escrito,
contra o Rei, um delito de traição, passível de ser punido com a pena capital. A segunda lei proibia o encontro de mais de
“já se afirmou que as Duas Leis mais latiam do que mordiam. A pena de morte
nunca foi aplicada em suas disposições. Embora se mantivesse a suspensão do
Habeas Corpus por oito anos, parece que foram poucos os detidos sem
julgamento. Foi, é claro, o latido desejado por Pitt: temor, espiões, magistrados
vigilantes com poderes indefinidos, exemplos ocasionais. Entre o latido a
mordida das Duas Leis. havia, em todo caso, a barreira de um júri inglês (...) as
leis, de qualquer forma, tiveram êxito.”23
O que significa exatamente dizer que uma lei “mais late do que morde”? Parece que,
nesse contexto, o objetivo da lei é mais produzir o temor e o medo do que desencadear um
ato punitivo em si. Seu objetivo era mais assustar pelo rosnado, do que ferir pela mordida.
O seu êxito estaria, então, criar um clima que desestimulasse a ação coletiva ou individual,
mais do que punir a ação efetivada. Segundo Thompson, as “Duas Leis” obtiveram êxito e
alcançaram seu objetivo ao dar forma ao “domínio de classe”. A despeito dessa
constatação, ele aponta uma brecha, ao assinalar que entre o enunciado da lei e a sua efetiva
punição havia o sistema do júri (com seus valores, sua cultura, suas experiências e,
principalmente, sua retórica do “inglês livre de nascimento”). Afinal, não havia nenhuma
garantia prévia de que um júri aplicasse a letra da lei, de acordo com os interesses do
legislador.
**********
O capítulo “O império da lei”, pode ser lido como um balanço que conclui o
percurso das discussões anteriores. Já no prefácio do livro, Thompson revela que seu
objetivo de compreender a origem e o significado da Lei Negra24 estava embasado na
constatação da “importância da lei na história jurídica do século XVIII”25 Essa importância
está estreitamente conectada com as funções do Estado na Inglaterra: preservar, em
primeiro lugar, a propriedade privada e, em seguida, as liberdades e a vida dos
proprietários. É neste contexto que a Lei Negra adquire sentido. Ela seria a expressão de
um momento historicamente determinado, em que o direito à propriedade é revestido,
constitucionalmente, com a sacralidade de uma série de leis. O direito à propriedade e a
cinqüenta pessoas, sem notificação a um magistrado, e dava à polícia poderes para prender os oradores e dispersar a
multidão. Ver: A Formação da Classe Operária Inglesa. Op. Cit. p. 159.
23 Idem. Vol. I, p. 162.
24 A “lei Negra” é um conjunto de decretos, publicados em maio de 1723, que passa a criminalizar mais de cinqüenta
novos delitos com a pena capital, que vão desde andar armado, ou com os rostos pintados de preto, até caçar, ferir ou
roubar, gamos, veados, coelhos e peixes dentro das florestas e reservas de caça reais. Ver. Senhores e Caçadores: Op.
Cit.. p. 22.
25 Idem, p. 15.
proteção aos proprietários foi tão seriamente defendida que, no limite, condenavam-se à
morte os infratores que pusessem ambas em risco.
Visto desse modo, o conjunto de decretos conhecidos como Lei Negra pareceria
reforçar as premissas de que a lei é a “expressão do domínio de uma classe sobre as
outras”. Contudo, o próprio Thompson aponta que a Lei Negra foi esboçada de um modo
muito vago e abrangente, e que isso deve ser levado em consideração, principalmente
quando nos damos conta da precisão jurídica do século XVIII. Exatamente por conta desse
caráter vago e impreciso, ela rapidamente se converteu “em terreno prolífico para decisões
judiciais cada vez mais abrangentes”26 Essa calculada imprecisão da lei não era, contudo,
uma peculiaridade do constitucionalismo inglês do século XVIII, sendo possível encontrá-
la em diversos contextos históricos. Discutindo especificamente sobre o caso dos negros da
floresta de Windsor, Thompson escreveu:
“Surgiu um caso interessante que lança luz sobre a operação da justiça. John East
fora condenado, nas sessões judiciais de Buckingham, ao degredo por roubo de
servos. O Rei recebeu, no seu caso, uma recomendação formal do lorde juiz-
presidente Pratt (que julgava East) no sentido de suspender a condenação.”27
26 Idem, p.23.
27- Senhores e caçadores Op. Cit. p. 94.
pena que corrige. Mais adiante, comentando outro caso relacionado à caça ilegal de cervos,
Thompson acrescenta:
“O processo de Pepper é instrutivo e uma correção muito útil às idéias daqueles
historiadores descontentes que acham que uma lei imparcial não poderia intervir
para proteger os súditos (e os interesses públicos) contra predadores de alta
posição”.29
No processo em que é réu John Pepper, a lei serviu como instrumento para também
disciplinar as elites, de maneira que os súditos poderiam, efetivamente, defender-se da
rapinagem “dos de cima” e obter algumas vitórias nos tribunais, mesmo que vitórias
eventuais. É dessa complexa teia de significados que Thompson faz uma instigante
descrição de como a Lei Negra foi tomando corpo e se consolidando:
“Não suponho que o episódio da atividade negra tenha sido avidamente tomado
por eles [o governo] como uma desculpa, para decretar um código de terror que
já teriam meditado, e cujo esboço já preparado estaria numa gaveta, justamente à
espera de uma tal ocasião. A contingência surgiu de modo não premeditado (...)
mas o tipo de reação a essa contingência vinha determinado pela ideologia e
sensibilidade do tipo de gente que se encontrava no poder; mas a lei recebera
aprovação real, esses homens viram os úteis poderes que tinham em mãos, e
procuraram em torno as ocasiões de empregá-los e prolongá-los. Isso não é uma
conspiração, e sim uma conseqüência.”30
31 Idem, p. 350.
a lei, portanto, era o espaço do conflito, não do consenso. Por isso, ela não pode ser vista
simplesmente como ideologia, ou como aparato do Estado, ou instrumento da classe
dominante. Enfim, a lei deve ser vista, principalmente, como mediação dessas mesmas
relações, de paternalismo e deferência, de domínio e subordinação. E isso, observa
Thompson, é diferente de dizer que a lei é mera tradução dessa relação, pois as relações de
classe não eram expressas de qualquer modo, “mas dentro das formas da lei”. Assim, a lei
tem suas características próprias, sua história própria e sua própria lógica de
desenvolvimento.
Conseqüentemente, faz parte do “caráter especifico da lei” que ela aplique critérios
lógicos que se refiram a padrões de universalidade e de igualdade. Como corpo de regras e
procedimentos, essa é uma característica dos sistemas legais. Assim, para que a ordenação
jurídica seja eficaz – e expresse a hegemonia de classe – a lei deve ser (ou ao menos
aparecer) independente e justa. Ela só consegue isso obedecendo à sua própria lógica
específica. Além disso, mesmo que a ideologia domine a lei, esta não pode ser
desacreditada como mera hipocrisia, porque moraliza as funções da dominação, legitima
para os próprios poderosos o seu poder, e os faz sentirem-se úteis e justos. Ou seja, a lei
deve ser seguida, também, pela classe dominante. Os dominantes precisam acreditar na lei,
tanto quanto os dominados, e é essa crença compartilhada que educa e disciplina ambos.
Refletindo sobre a sociedade escravocrata da América, no século XIX, Eugene
Genovese deslocou a pergunta de Thompson: por que uma sociedade escravista, baseada
numa forma de domínio direto e explícito, precisava de leis? Questão intrigante, cuja
resposta exige perceber que o campo do direito não pode ser tomado como algo estático ou
como mero reflexo de condições que lhe são exteriores; ao contrário, deve ser percebido
como uma força ativa e parcialmente autônoma que exerce um papel mediador
fundamental, seja entre senhores e escravos, seja entre senhores de escravos. Assim, a lei
teria, simultaneamente, um papel de mediação e de civilização, já que os governados se
submeteriam às vontades dos governantes, mas os governantes teriam de considerar às
exigências dos governados, tanto quanto os interesses, muitas vezes conflitantes entre si,
dos próprios governantes.
Desse modo, o sistema jurídico seria um dos instrumentos através do qual o grupo
dominante, ou uma fração dele, se autodisciplinava, impondo seu ponto de vista para o
restante de sua própria classe, ao mesmo tempo em que orientava, educava e disciplinava as
classes antagônicas. Além disso, o sistema jurídico cumpria uma função mais prosaica:
expressar os interesses de classe, ao mesmo tempo mostrar a disposição dos “dos de cima”
de negociar com “os de baixo”. Conseqüentemente, argumenta Genovese, os sistemas
jurídicos devem exibir uma equanimidade suficiente para se legitimar tanto aos olhos dos
governados quanto dos governantes (que não o manipulam diretamente) e, assim,
estabelecer um mínimo de ordem social.
Nas sociedades modernas, os fundamentos teóricos e morais da ordem jurídica, sua
história real e suas instituições determinam a ordem mais ampla e o sistema de domínio de
classes, pois classe alguma pode governar por muito tempo, sem a capacidade de
apresentar-se como a guardiã dos interesses e das aspirações de toda a sociedade. Desse
modo, as classes dominantes, sejam quais forem – senhores de escravos, fidalgos ou
burgueses industriais – sempre se confrontam com o problema da coerção, de modo a
tornar mínima a necessidade de usá-la e, ao mesmo tempo, precisam mascarar o fato de que
o poder do Estado menos repousa na força do que representa a realidade da força.32
A Justiça e seu aparato eram a arena principal, onde se desenvolviam os conflitos de
classe no século XVIII na Inglaterra. A burguesia e a pequena nobreza criavam leis para se
defender do poder arbitrário do Estado e da monarquia; essas leis podiam expressar a
apologia da propriedade privada frente aos “de baixo”; mas estabelecia, também, uma série
de direitos, que não podiam simplesmente ser violados, e aos quais os “de baixo”
efetivamente tinham acesso. O argumento central de Thompson é que, obviamente, não se
pode acreditar na imparcialidade abstrata da lei. Onde há desigualdade de classe, a lei
sempre será uma impostura. Não obstante, nos contextos mais variados, a lei não serve
apenas para reforçar o poder dos dominantes, muitas vezes ela limita esse poder de um
modo específico e eficaz e, ao fazê-lo, dá aos “aos de baixo” certas armas que legitimam
suas ações e restringem sua submissão. Portanto, reitera Thompson, há uma diferença
fundamental entre o poder arbitrário e o domínio da lei. E essa diferença tem sido
sistematicamente negligenciada, o que a experiência do século XX não poderia ter
permitido que acontecesse.
32- Genovese, Eugene. A Terra Prometida: o mundo que os escravos criaram. Trad. Maria Inês Rolim e Donaldson
Garschagen. Rio de Janeiro. Paz e Terra, 1988. p. 49.
**********
33 Sobre a questão dos direitos civis, ver a coletânea Writing by candlelight. Merlin Press. London, 1980. Sobre o
movimento pacifista, ver: Shaw, Martin. “From total war to democratic peace: exterminism and historical pacifism” In:
Kaye, Harvey and McClelland, Keith (ed.) E. P. Thompson critical perspectives. Temple University Press, Philadelphia,
1990. Müller, Ricardo Gaspar. Realismo e utopia: E. P. Thompson e o exterminismo. Revista Esboços: dossiê cultura e
resistência: dez anos sem E. P. Thompson, n° 12, 2004. Thompson. E. P. (et al) Exterminismo e guerra fria. Trad. Denise
Bottmann. Brasiliense, São Paulo, 1985. Os comentários a seguir foram inspirados nesses dois textos.
34 “As exigências históricas a favor dos ‘direitos’ dos indivíduos e da comunidade contra a autoridade transgressora do
Estado confirmam para Thompson, que a própria experiência de luta mantém-se como a principal forma de definição de
interesse de classe. O clamor por um ‘direito’ possibilita que pessoas subjugadas afirmem sua solidariedade mútua, em
oposição à classe dominante.” Müller, Ricardo. Op. Cit., p. 97, grifos no original.
35 Idem, ibidem.
luta libertária contra a opressão do Estado tornando mais aguda a consciência de classe dos
de baixo.
O maior perigo no combate em defesa da democracia estava exatamente na apatia
política. Ela conduzia à perda da força do dissenso, enfraquecia o necessário e fundamental
entusiasmo para se opor às autoridades e, inevitavelmente, conduzia ao autoritarismo:
“quero apenas notar que a condição prévia para o exterminismo dos povos europeus é o
exterminismo do processo democrático aberto...”36 Ou seja, o fim da política é o
impedimento da capacidade de discutir, dissentir, deliberar, opinar e escolher. E a
finalidade da política “é a ação, e ação com resultado.”37 Ação e palavra – as condições
necessárias para a democracia – parecem fundamentais para se compreender o que
Thompson entendia por política vista de baixo. 38
Destarte, há uma diferença profunda entre viver sob o domínio da lei ou sob o poder
arbitrário. Essa constatação, observa Thompson, parece ter passado em branco para muitos
agrupamentos de esquerda.39 Num certo sentido, é como se uma parte significativa dela
ainda não houvesse ajustado as suas contas com a “experiência totalitária” produzida pelo
socialismo burocrático. A “agenda de 1956” continua aberta.40 E esse ajuste de contas
continua fundamental para que ela saia do impasse em que se encontra nesse início de
século XXI.41 Sem esse difícil e doloroso mergulho na sua própria história, não parece ser
possível reencontrar a utopia que pavimente o caminho para um socialismo democrático e
renovado.
42 Com essa “aproximação” não pretendo sugerir que eles compartilhem pressupostos teóricos e visões de mundo.
Reconheço que se filiam a perspectivas teóricas muito distintas, o que não impede, contudo, que possamos enxergar
“pontos de contato” em suas discussões, possivelmente decorrentes da importância central que ambos atribuíam à ação
política.
43 Arendt, Hannah. As origens do totalitarismo. Trad. Roberto Raposo. São Paulo. Cia. das letras, 1989. E Entre o
passado e o futuro. 3ª Ed. São Paulo. Perspectiva, 1992. p. 54.
44 Marshall, T. H. Cidadania, classe social e status. Trad. Meton Gadelha. Rio de Janeiro. Zahar editores, 1967. Ver
também Bobbio, Norberto. A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro, Campus, 1992.
45 Sobre momentos cruciais dessa luta ver: Eley, Geoff. Forjando a democracia: história da esquerda na Europa, 1850-
2000. Trad. Paulo Cezar Castanheira. São Paulo. Fundação Perseu Abramo, 2005.
46 Bobbio, Norberto. O futuro da democracia. Trad. Marco Aurélio Nogueira. São Paulo. Paz e Terra, 2000.
ação, palavra e contingência. E o poder arbitrário, e a violência que ele engendra,
representa riscos imensuráveis, principalmente para “os de baixo”.
No caso do Brasil, isso tem sido reiteradamente reafirmado. Afinal, ser pobre no
Brasil é uma condição associada a uma altíssima “taxa de aversão ao risco”, o que implica
uma opção por estratégias organizativas que evitem o conflito – no mais das vezes
estratégias conservadoras e de mera sobrevivência – configurando o que o Wanderley
Guilherme dos Santos chamou de o “custo do fracasso”. As desigualdades sociais seriam
tão profundas que quaisquer ações coletivas implicariam um alto risco da perda do status
quo, por mais insignificante que ele seja. Para “os de baixo” sempre seria possível piorar a
sua situação.47 Muito já se discutiu sobre a constituição dos direitos de cidadania na
sociedade brasileira, os diretos políticos, salvaguardados os períodos ditatoriais e as
limitações no direito de voto, estão aí desde o século XIX; os direitos sociais, bem ou mal,
foram consolidados na primeira metade do século XX. O que parece menos desenvolvido
entre nós são, precisamente, os direitos civis (a igualdade perante a lei, a garantia da
propriedade, a liberdade de ir e vir, a liberdade de trabalho, de manifestação, a garantia da
integridade física); aqueles estabelecidos na Inglaterra pelo “constitucionalismo do século
XVIII”, assegurados pelo sistema do júri, e entusiasticamente defendidos “pelos de baixo”.
O acesso aos tribunais e a igualdade perante a lei são a condição sine qua non dos direitos
civis. São exatamente as dificuldades de acesso à justiça que têm marcado entre nós o
“custo do fracasso”. É, portanto, nesse contexto, que se torna mais crucial ainda a defesa do
domínio da lei contra o poder arbitrário.
47 Wanderley Guilherme dos Santos, Horizonte do Desejo: Instabilidade, Fracasso Coletivo e Inércia Social Rio de
Janeiro: FGV, 2006, p.179/180.
Exterminismo e Liberdade Política. ∗
Ricardo G. Müller∗
Introdução
Sua contribuição, portanto, pode ser observada em diferentes áreas acadêmicas e campos
temáticos, como os dos estudos dos movimentos sociais, que exigem rupturas de fronteiras e
mediações teóricas mais sistemáticas.
∗
Artigo publicado no livro E. P. Thompson: política e paixão, organizado por Ricardo G. Müller e Adriano Duarte,
no prelo, a sair pela Editora Insular, de Florianópolis, em março de 2009.
∗
Professor do Dept°. de Sociologia e C. Política e do PPGSP/UFSC.
2
O ativismo político de Thompson prioriza a crítica a dois dos problemas mais cruciais
que a classe trabalhadora enfrentou nos últimos anos do século XX - a violação sistemática das
liberdades civis e sua reductio ad absurdum (redução ao absurdo) na proliferação dos
armamentos nucleares. Unindo teoria e prática, Thompson focou seu trabalho em uma série de
questões e experiências que, por mais de quarenta anos, guardaram uma significativa
consistência e coerente atitude intelectual. Fiel às premissas do marco dos ‘eventos de 1956’,
assume como seus o papel e o compromisso de reafirmar os princípios socialistas em uma luta
contra as políticas do estatismo e autoritarismo.* Nesse contexto, articulou uma proposta de uma
“política vista de baixo” (politics from below) à concepção formulada em seu antigo projeto de
uma “história vista de baixo” (history from below).
O ponto central dessa dinâmica é a união mediante a luta, união capaz de articular os
interesses organizados ao longo do processo histórico, mas eventualmente conflitantes.
Thompson considera que nas condições contemporâneas (no caso, sobretudo o início dos anos de
*
Cf. Thompson, E. P. (1991), “Ends and Histories”, in Kaldor (ed) (1991), p. 7-25. Cf. também Bess, M. (1993a, p.
19-38).
3
A luta de Thompson pelos “direitos civis” pode ser demarcada por sua oposição a quatro
ações políticas básicas: o apelo do governo à idéia de “interesse da nação”, que legitimaria a
aprovação de qualquer iniciativa do Estado; a intervenção do Estado no sistema legal; a
administração e manipulação da mídia e a crescente tendência na direção de um estado de
segurança, em que as vozes de oposição são submetidas a dispositivos de constante vigilância,
censura e repressão na mídia.
Para Thompson, essa situação explicava-se pelo fato de que, desde 1945, um consenso
popular fora arquitetado e construído em torno dos termos da polaridade da guerra fria.
Ortodoxias e ideologias se formaram e desenvolveram uma consciência com vistas a confirmar a
polarização. Na União Soviética, a ideologia foi efetivamente definida como antiimperialismo.
No Ocidente, forjou-se uma ortodoxia mais flexível, pragmática e por isso mais difícil de
ser definida.‡ Esta aparente flexibilidade ocorria provavelmente por ser sustentada por uma
falácia, a ilusão de que não haveria no Ocidente nenhum tipo de ortodoxia e que a liberdade de
expressão para todos era o sistema que prevalecia. Por essa razão, os autocratas de Washington
podiam falar de um “mundo livre”.
†
Cf. Thompson, E. P. (1978, p. 1-34). Sua publicação original foi em Thompson, E. P. et al. (ed) (1960), Out of
Apathy. Por questões de espaço, o artigo foi muito reduzido para a coleção de 1960 e sua importância pode ser
avaliada pelo número de revisões a que foi submetido, inclusive de alguns argumentos, até sua reedição em 1978 em
The Poverty of Theory... - a respeito, ver nota de Thompson, E. P. (1978, p. 399).
‡
Vale lembrar, Ocidente ou “Natopolis”, segundo o sarcástico batismo de Thompson - uma ironia em relação ao
poder exercido pela NATO (North Atlantic Treat Organization) ou OTAN (Organização do Tratado do Atlântico
Norte); com a mesma ironia, Thompson emprega as expressões “natopolitana” e “natopolitanismo”.
4
Assim como ocorreu com a CND – que no início dos anos de 1960 ganhou o apoio de
amplas camadas da sociedade –, a “heresia” do não-ortodoxo não mais lhe permitia alcançar uma
platéia maior, o que levou esse movimento a perder espaço e suporte e ser incluído entre as
matérias ou temas proibidos pela direção da mídia britânica. Na mídia, o dissenso não poderia
aparecer como uma perspectiva coerente, competente, confiável ou legítima.
conflito. Essa estratégia significa que “cada um dos grupos da esquerda deva ter para consigo as
responsabilidades dos outros grupos, sem perder nenhum de seus princípios”.
Frente a uma manipulação política tão bem sustentada e difundida em toda a mídia
tornava-se indispensável articular uma agenda democrática e encontrar formas mais criativas de
atingir o público. Ao lado de Stuart Hall e Raymond Williams (e outros como Tony Benn e
Michael Foot), Thompson (1980, p. xiii) reclama a reconstrução de um front popular efetivo e
vigoroso, reminiscência do movimento que ele admirava nos anos de 1930.
§
Cf. Bess, M. (1993, p. 124); em correspondência com Bess, Thompson observou que os marxistas precisavam
incorporar todas as perspectivas em uma ética única de democracia, afirmando também que “o marxismo sempre
subestimou religião, nacionalismo e formações de gênero”.
7
vender armas, sem nenhum constrangimento moral ou político:** “O mundo avançado não pode
seguir despejando armamentos no Terceiro Mundo e esperar que tudo continue o mesmo. Não
podemos ter certeza de que essas armas serão usadas somente para matar seu próprio povo ou
(...) reprimir seus pobres”. Thompson percebeu a “guerra das Malvinas” como uma das mais
significativas conseqüências dessas vendas.††
Ainda como parte dessa estratégia, a imprensa britânica desenvolvia uma “doutrinação
subliminar” que conduzia a um consenso sobre o tema dos mísseis, levando a população a
acreditar que as decisões haviam sido efetivamente formuladas no país. Na verdade, porém,
sequer foram debatidas no Parlamento, embora sustentadas por um consenso nacional.
Convém lembrar, por exemplo, que a BBC não autorizou que Thompson participasse de
um programa especial (Dimbleby Lecture) sobre os movimentos pela paz e a campanha
antinuclear, coordenado pelo jornalista político Jonathan Dimbleby, em 1981. Essa palestra não
realizada deu origem a seu texto Beyond the Cold War, editado em 1982.
**
O termo “autoritária” era o mais usado pela mídia, depois substituído por “totalitária”. Nessa inflexão, não
convém esquecer a invasão do Timor Leste, pela Indonésia, em 1975, incentivada pelos Estados Unidos, e
subseqüente genocídio praticado com armas de fabricação inglesa.
††
Ou talvez o último momento de outro processo: no caso o fomento sistemático de golpes de Estado nas Américas
Central e do Sul (sobretudo de caráter militar), em especial por parte dos Estados Unidos, durante as décadas de
1960 e 1970, e a posterior sustentação dos regimes advindos desses golpes, processo do qual a Inglaterra também
participou. Em seus artigos Thompson faz poucas referências a esses fatos, nessa perspectiva. Contudo, apesar de
sua defesa do internacionalismo e do diálogo internacionalista (Thompson, 1978, p. iv), e de se referir à América
Latina como um “continente generoso” (em um poema de sua autoria em homenagem a Salvador Allende, cf.
Thompson, E. P. (1985, p. 278)), essa questão não aparece como uma de suas preocupações principais.
‡‡
Em Aldermaston, Berkshire, localiza-se uma Atomic Weapons Establishment (AWE), uma “fábrica” onde são
realizadas pesquisas e desenvolvidos artefatos nucleares, desde 1950. As manifestações populares da CND contra a
instalação de armas norte-americanas em Aldermaston ganharam destaque em 1961, com passeatas em Londres e
Glasgow quando da transferência de um submarino nuclear dos EUA, carregado de 16 mísseis atômicos Polaris,
para Holy Loch, Escócia. A principal marcha ocorreu em 31 de março, partindo de Aldermaston e Wethersfield,
estendendo-se até 3 de abril, quando o protesto encerrou com o cerco à embaixada norte-americana em Londres.
Como desfecho da marcha, a polícia dissipou os manifestantes sob coerção física, prendendo 31 pessoas. Na
ocasião, Bertrand Russell, um dos organizadores do movimento, expressou um de seus objetivos afirmando que “nós
permanecemos juntos a favor da sanidade em um mundo que enlouqueceu”. Cinco meses depois, durante uma
manifestação em Trafalgar Square (Londres), Russell (de 89 anos) e sua esposa seriam detidos e condenados a uma
semana de prisão – cerca de 1.000 participantes também foram presos e condenados a penas maiores por se
recusarem a “manter a paz” (sic).
8
A quarta hipótese afirma que uma détente (distensão) não iria emergir “de cima”, uma
vez que, como Thompson assinala, “o estado de permanente terror favorece a aquisição de poder
interna e externamente a essas elites”. Finalmente, a quinta indica que o caminho mais viável
para a desarticulação do sistema só poderia ser um ataque a partir de baixo. Thompson acredita
na importância de uma iniciativa popular baseada na “neutralidade ativa”, juntamente com outros
movimentos antinucleares, de modo a encorajar a “dissidência” através da Europa.†††
§§
Cf. Thompson, E. P. (1980, p. 267), citando artigo de Sir James Goldsmith, Now!, 9-15 de novembro de 1979.
***
Cf. Williams, R. et al. (ed) (1968). May Day Manifesto.
†††
Cf. Thompson, E. P. (1980, p. 277-282), “European Nuclear Disarmament”, publicado originalmente em The
Guardian, 28 de janeiro de 1980; (1982a, p. 109-112), “A Show for the European Theatre”, originalmente em The
Guardian, 23 fevereiro de 1981. E (1982b, p. 119-122), discurso no Hyde Park, Londres, 24 de outubro de 1981.
9
Coerente com sua defesa do humanismo, Thompson (1980, p. 275) observa: “Nós já
estamos em risco – Grã-Bretanha, Europa, civilização, o projeto humano (...)”. Essa colocação
indica a convicção de Thompson sobre a necessidade de maior apoio para um novo grupo, o
European Nuclear Disarmament (END)‡‡‡ – um movimento pan-europeu destinado a combater
os interesses políticos e militares de soviéticos e norte-americanos na Europa, idealizado por Ken
Coates, também ativista da Bertrand Russell Peace Foundation.§§§
[A] dissuasão não é uma condição imóvel, fixa, é um estado de degradação. Dissuasão
tem contido a exportação de violência contra o bloco oposto, mas, ao proceder assim, o
poder repressivo do Estado tem se voltado contra seu próprio criador. A violência
reprimida tem sustentado e agido sobre a economia, a política, a ideologia e a cultura dos
poderes antagônicos. Essa é a estrutura profunda da guerra fria.
Essa seria a lógica de justificação para a guerra fria e para o prosseguimento da corrida
armamentista. Thompson (1982, p. 14-16) acredita que, no Ocidente, a culpa caberia à
supremacia norte-americana e à falta de vontade de seus satélites europeus em rejeitar essa
situação e a “mentalidade” aí contida. Isso porque, ainda segundo Thompson (1982, p. 14-15), a
diplomacia norte-americana valia-se muito de seu poder de veto, respaldada em seu poderio
militar, o que impedia a existência de qualquer dissenso por parte dos países europeus. É esse,
aliás, o contexto da proposta de um “atlanticismo”, sob a dominação dos Estados Unidos, não
questionada na Grã-Bretanha, nem mesmo pelo supostamente oposicionista Labour Party.
Thompson mostra como a guerra fria, independentemente de suas origens após a Segunda
Guerra Mundial, parecia operar com uma dinâmica própria, uma lógica interna e um conjunto
‡‡‡
(Apelo ao/ou Campanha pelo) Desarmamento Nuclear Europeu (END). A partir daqui citado pelas iniciais.
§§§
O END foi criado para ser (além de um movimento pacifista contra as armas de destruição de massa e a favor dos
direitos humanos e da preservação ecológica) um “coletivo” que proporcionasse uma teoria geopolítica alternativa
para movimentos sociais em luta contra o potencial extermínio da raça humana. Em um processo liderado por
Thompson, o grupo reuniu os principais líderes da CND, da International Confederation for Disarmament and Peace
e Pax Christi. O END diferenciava-se da CND por propor uma perspectiva internacionalista na análise da corrida
armamentista e tentar coordenar e divulgar a luta por um projeto alternativo para toda a Europa.
****
O termo “deterrence” tem uso corrente, tanto na imprensa como na bibliografia em português, como
“dissuasão”. O termo expressa a política ou prática de armazenar armamentos nucleares, por parte de uma nação,
para deter o ataque nuclear de outra; expressa também uma política de dissuasão e um projeto de limitação de armas
nucleares a longo prazo. (“Each must be motivated, of its own inherent nature, by the desire to vanquish the other.
Only the mutual fear of ‘deterrence’ can stave off a total confrontation”).
10
específico de argumentos, o que ocultava o forte interesse dos Estados envolvidos em sua
continuidade.
Thompson (1982, p. 17) percebe que a reciprocidade das relações entre Estados Unidos e
União Soviética era fundamental a essa lógica, um contexto no qual uma forma de ação
antagônica deveria ser sistematicamente igualada pelo antagonismo da resposta.†††† Esse
procedimento, a seu ver, era determinante para que “os estabelecimentos militares e de segurança
fossem auto-reprodutivos”.
Thompson (1982, p. 18) observa que esse “vínculo por exclusão” é intrínseco à
socialização humana. E é tão fundamental para a formação e a consciência de classe quanto para
a construção de uma nação ou para sujeitar as pessoas a uma ideologia. Esse processo, porém,
estabelece uma ameaça e, no limite, faz crescer o ódio pelos “outros”.
Nas polêmicas da guerra fria essa cultura foi artificialmente invocada para assegurar os
interesses dos respectivos blocos. Ambas as culturas e identidades nacionais (soviéticas e norte-
americanas) entrelaçaram-se nas premissas ideológicas do conflito, ao mesmo tempo em que as
aprofundaram cada vez mais. A guerra fria contribuiu, nesse sentido, para introjetar o
“americanismo” na população norte-americana, a reforçar o mito do sonho americano (American
††††
Thompson, E. P. (1982a, p. 332) teve muita dificuldade para explicar que não estava propondo uma identidade
entre os blocos, mas sim sua reciprocidade: a interação de ambos os blocos criava um “problema nuclear”
internacional e uma situação de equivalência entre eles, em relação a esse problema.
11
dream), tornando-o uma atração em oposição à tirania do “outro” mundo, tirânico e sem
liberdade.‡‡‡‡
‡‡‡‡
Cf. também Gramsci, A. (1972, p. 285-323), seu clássico ensaio “Americanismo e Fordismo” in Notas sobre
Maquiavelo, sobre la política y sobre el Estado moderno.
12
processo de deslegitimação da guerra fria a partir da própria arena de embate entre União
Soviética e Estados Unidos.
A contribuição mais significativa de Thompson nos debates sobre a guerra fria – mas,
especialmente, contra a “corrida armamentista”, a “ameaça nuclear” e em nome da organização
de grupos e movimentos pacifistas –, nessa época, talvez seja o ensaio (Protest and Survive), de
1980, em resposta ao documento do governo conservador inglês, Protect and Survive, sobre
como se proteger no caso de um ataque nuclear.§§§§
No ensaio (Protest and Survive), Thompson antevê a Europa não como um “teatro de
guerra”, mas como o “teatro da paz”, resultante de pressão popular democrática.***** Para isso
acontecer, entretanto, seria necessária uma détente internacional que assegurasse um futuro
independente do sistema de guerra. Ou seja, uma vez definida uma estratégia, as contradições do
papel da Europa na guerra fria poderiam ser usadas contra os “guerreiros” em Washington e
Moscou.
§§§§
Cf. Thompson, E. P. (1980a, p. 33). Convém observar que a publicação do Manifesto foi patrocinada pela
Bertrand Russell Peace Foundation e pela CND. Cf. também Kaye, H. (1984, p. 218), onde ele traça um paralelo
entre Thompson e Tom Paine no uso do formato de panfleto (pamphlet) para divulgar uma mensagem radical, de
modo a atingir um público mais amplo. Cf. também entrevista de Thompson e Cory Coll, conduzida por Harry
Kreisler, do Institute of International Studies, Berkeley, em agosto de 1983, sobre “armas nucleares, corrida
armamentista e os movimentos pela paz”, editada por Jon Stewart e publicada em California Living, Sept. 11, 1983.
Cf. [Link]
*****
Thompson formulou suas idéias sobre a política como teatro, como representação do poder, e sobre o
contrateatro no protesto dos movimentos populares, em seus trabalhos dedicados às formas de rebelião nas
sociedades pré-industriais e nos primeiros momentos do movimento operário. Cf. Thompson, E. P. (1974, p. 383-
405), “Patrician Society, Plebeian Culture”, in Journal of Social History, e (1998, p. 25-85), “Patrícios e Plebeus”. A
esfera teatral do exercício do poder político busca conformar os governados, manter seu consentimento, ativo ou
passivo; perpetuar o respeito às normas, valores e símbolos; fixar os limites do politicamente possível e tolerável.
Constitui parte fundamental da hegemonia, domínio não baseado diretamente na coerção material. Cf. Thompson, E.
P. (1982a, p. 8-11) a seção “O ‘Teatro do Apocalipse’”, de seu ensaio “Notas sobre o Exterminismo”, para se avaliar
a relação entre a idéia de teatro e a lógica da estrutura da guerra fria.
13
Necessitamos uma categoria nova [exterminismo] para definir esta época clara de história
nuclear-confrontacional, e nunca é pouco dizer que isto não significa, mediante um gesto
de varinha mágica, que seja necessário renunciar a todas as categorias anteriores ou que
não funcionem mais todas as forças históricas anteriores. (...) Não se trata simplesmente
de uma questão de força: é uma questão de legitimidade. Ali onde nenhuma forma de
poder está legitimada pela responsabilidade civil e por um processo aberto como é
devido, pode ocorrer que uma forma de poder dê lugar a outra. Cada uma destas formas
de poder é tão legítima ou ilegítima quanto a outra.
†††††
Cf. Thompson, E. P. (1982a, p. 1-2). Ele comenta, mas sem maiores detalhes, que “a Primeira Guerra Mundial
e o colapso do nazismo seriam exemplos de militarismo e imperialismo caminhando na direção de seus próprios
fins”.
14
bombardeio nuclear sobre o Japão - e concorda com C. Wright Mills que “a causa imediata da
Terceira Guerra Mundial é a sua preparação”.‡‡‡‡‡ Ambas as guerras anteriores foram
previsíveis, assim como as guerras no Terceiro Mundo.
Dê-nos a vitória [nesse processo] e o mundo começará a se mover outra vez. Comece a
quebrar esse campo de força e os 30 anos de impedimentos à mobilidade da política
européia (...) irão ceder. Nada irá acontecer natural ou facilmente (...): mas, se afastarmos
esses blocos da rota de colisão, eles mesmos começarão a mudar. A polícia e os
fabricantes e vendedores de armas irão começar a perder sua autoridade e os ideólogos
perderão suas falas. Um novo espaço para a política irá se abrir.
Conclusões
Uma das principais motivações de Thompson em sua luta pelo fim da guerra fria, e pela
causa humanista e pacifista, é o de reafirmar o imperativo da razão humana.****** Daí o protesto,
o questionamento, as críticas contundentes contra o absurdo da corrida armamentista, a
importância de colocar em xeque sua necessidade e prioridade.
‡‡‡‡‡
Cf. Wright Mills (1958), The Causes of World War Three, New York: Simon & Schuster, p. 47.
§§§§§
Cf. Bahro, R. (1982a), “A New Approach for the Peace in Germany”, in Thompson, E. P. (1982a), p. 87-116.
******
A problemática da razão é um tema recorrente na obra de Thompson e fundamental para seu entendimento. A
motivação básica de Thompson em escrever A Miséria da Teoria foi o resgate da razão, a seu ver, ameaçada teórica
e politicamente pelo estruturalismo, por Althusser e seguidores, e pela correlata crise no interior do marxismo. No
“Prefácio”, na primeira parte de A Miséria..., e em sua “Carta Aberta a Kolakowski”, percebemos a dimensão de sua
angústia quanto ao problema. Cf. Thompson, E. P. (1978, p. i-v; 131; 193-194).
15
Observa ainda (1982a, p. 1) que “usa ‘racionalidade’ nessas ‘Notas’ para designar a
busca racional do interesse próprio, enquanto atribuido a uma nação, classe, elite política, etc.
Em outra perspectiva, nenhuma dessas buscas precisa se apresentar como racional”. E Thompson
(1982a, p, 2) conclui na primeira parte do artigo: “Não posso oferecer mais do que notas,
fragmentos de um raciocínio. Alguns fragmentos devem assumir a forma de questões, dirigidas
ao imobilismo da esquerda marxista”.††††††
Vemos que Thompson procura realizar, mais uma vez, uma “chamada à razão” e
convocar seus companheiros para uma nova campanha. Assim, quando Thompson considera o
objeto de análise “irracional”, trata-se, ao contrário, de buscar uma nova teoria, referida a uma
análise de classe para compreender o que está acontecendo e “agir em conseqüência”. Trata-se,
portanto, de buscar a razão, uma racionalidade que possa criar uma estratégia de luta e orientar
novas ações contra a situação denunciada. Daí também o chamamento de Thompson a seus
“camaradas” contra o imobilismo e a apatia – mais uma vez, out of apathy.
Devemos correr o risco. Pois só podemos acabar com a guerra fria de duas maneiras: pela
destruição da civilização européia ou pela reunificação da cultura política européia. A
primeira irá acontecer se os grupos dominantes nos superpoderes rivais, percebendo que
os argumentos estão mudando (...) e que seus estados-satélites estão se tornando mais
independentes, terminarem por compensar essa perda de influência política e econômica
com um aumento de medidas de militarização. Isto é (...) o que está acontecendo agora. O
resultado será terminal. Mas podemos enxergar uma pequena abertura na direção da outra
alternativa. E se acreditamos que essa alternativa seja possível, então devemos redefinir
††††††
Cf. Thompson (1985a, p. 17).
16
nossas prioridades. Não devemos investir mais nada em mísseis, mas sim o máximo em
nossa capacidade de comunicação e diálogo.
De fato Thompson não chegou a formular uma nova teoria como pensou e que a
categoria de exterminismo não responde à sua inquietação e às perguntas e necessidades
formuladas. Mas sabemos que pode expressar o processo de transformação das relações sociais e
que deve ser compreendida em função da lógica histórica pensada por Thompson.
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THOMPSON, Edward P. (1998). Costumes em Comum: Estudos Sobre a Cultura Popular
Tradicional. São Paulo: Companhia das Letras.
17
Complementar:
INTRODUÇÃO
opostas não podem ser objetivamente comparadas porque, da mesma forma que a
beleza está nos olhos de quem ama, a verdade está na ótica de quem a afirma”
(Duayer, 2006, p. 120), conclui-se a impossibilidade da verdade, a negação do
real, do racional, da objetividade, enfim, da própria cognição do real. E se o
conhecimento não pode ser neutro, por conseguinte, não pode também ser
objetivo. (Moraes, 2007, f. 2)
Por isso, informa Lukács (1979, p. 32), é necessário que o ponto de partida
do conhecimento se constitua em uma abstração correta, que em sua estrutura
interna já possua características da pesquisa científica. Filosofia e ciência
originam-se na vida cotidiana, desenvolvem-se como instâncias autônomas para,
finalmente, retornar à práxis imediata e informá-la com novas ou melhores
concepções. O aprofundamento teórico, possibilitado pelas formas mais
sofisticadas de conhecimento, permite um alargamento do escopo da práxis
humana, fazendo com que o que se apresentava como um paradoxo à experiência
imediata passe a ser compreendido como verdade científica (Moraes, 2007). Marx
(1865) assinala que é um paradoxo que a “terra se mova em volta do sol e que a
água seja constituída por dois gases altamente inflamáveis. A verdade científica é
sempre um paradoxo do ponto de vista da experiência imediata que alcança
apenas a mistificada aparência das coisas”. Assim, a teoria não deve abandonar
seu lugar catalisador e nem poderia ser de outra forma, assinala Duayer (2003),
uma vez que em um mundo cada vez mais complexo teorizar é um imperativo da
prática.
Como se vê, não são de pouca monta as questões que apontam o norte das
discussões teórico-metodológicas na sociologia nos dias de hoje. Este trabalho
propõe-se a contribuir para o debate lembrando um dos mais interessantes e
controversos pensadores do século XX, o historiador inglês E. P. Thompson, o
qual, de nosso ponto de vista, já a seu tempo antevia os problemas acima
assinalados e jamais renunciou à base ontológica de sua pesquisa. Mas, cabe
indagar, por que sua obra interessaria a este debate?
Inglis (1982, p. 199) assinala que Thompson nos ofereceu “um novo
passado para viver”, transformando “a memória social, de modo que as pessoas
definiram novas perspectivas, na medida em que puderam reinterpretar a
formação do presente”. Ou como aponta Müller (2002, p. 14), porque Thompson
exerceu oposição apaixonada à crescente desumanização das relações sociais,
“marca de sua contribuição ao que ele considerava o processo de luta popular por
uma sociedade democrática. Ele reafirmou o materialismo histórico em seu caráter
de teoria da emancipação humana, de constante renovação dos valores de uma
cultura de dissidência”. Agregue-se, também, sua importância para o
desenvolvimento de uma concepção de história, a “história vista de baixo”, fato
que, segundo ele mesmo, muitas vezes o levou a ser complacente com aspectos
conservadores dos movimentos populares (Thompson, 1980).
Além disso, Thompson desenvolveu um importante diálogo entre as
ciências sociais ao incorporar em suas pesquisas históricas categorias
sociológicas, como também ao criticar as tendências funcionalistas de ambas as
disciplinas, a sociologia e a história. Nesse sentido, seu método para analisar a
formação da classe trabalhadora pode ser visto como uma crítica às leis e regras
metodológicas de historiadores sociais conservadores, de marxistas ortodoxos,
bem como as dos sociólogos funcionalistas, responsáveis pelos “sistemas de
estratificação”, que pretendem explicar e justificar eventuais diferenças de classe.
Thompson posicionou-se contra essas tendências enfatizando as relações entre o
humano e o histórico. A seu ver, classe é um fenômeno histórico e não uma
categoria rígida, cristalizada, tal como a compreendiam, de um lado a ortodoxia
marxista, de outro a sociologia funcionalista. Em suas palavras:
Por classe, entendo um fenômeno histórico que unifica uma série de
acontecimentos díspares e aparentemente desconectados, tanto na
matéria-prima da experiência como na consciência. Ressalto que é um
fenômeno histórico. Não vejo a classe como uma “estrutura”, nem
mesmo como uma “categoria”, mas como algo que ocorre efetivamente
(e cuja ocorrência pode ser demonstrada) nas relações humanas.
Ademais a noção de classe traz consigo a noção de relação histórica.
Como qualquer outra relação, é algo fluido que escapa à análise ao
tentarmos imobilizá-la num dado momento e dissecar sua estrutura. A
Maria Célia M. Moraes/UFSC e Ricardo G. Müller/UFSC e UFRJ 7
mais fina rede sociológica não consegue nos oferecer um exemplar puro
de classe, como tampouco um do amor ou da submissão. A relação
precisa estar sempre encarnada em pessoas e contextos reais.
(Thompson, 1968, p. 8; grifo no original).1
1
Cf. Thompson, E. P. (1987, p. 9-10). Na edição brasileira o “Prefácio” compreende as páginas de
9 a 14 do vol. I. Embora lançada em 1987 em três volumes, a edição brasileira não publicou os
“Comentários Bibliográficos” (‘Bibliographical Note’); o “Posfácio” à edição de 1968, onde
Thompson responde a críticas recebidas e o “Prefácio” à reedição de 1980, com observações sobre
o percurso do livro até aquele momento e um novo balanço de sua recepção.
2
Entre os principais eventos políticos de 1956, destacam-se o discurso de Khruschev no XX
Congresso do Partido Comunista da União Soviética (e a divulgação de um relatório sobre o
período de Stalin); as crises do Canal de Suez e a de Chipre e a invasão soviética da Hungria – a
Maria Célia M. Moraes/UFSC e Ricardo G. Müller/UFSC e UFRJ 8
vida de militância até sua morte. Para Thompson, a noção de dissenso implicou,
em um primeiro momento, um embate com as tendências comunistas ortodoxas e
suas definições dogmáticas. Contra elas, propôs a análise dos sujeitos envolvidos
na construção de seus próprios destinos e a idéia de um continuum para o
socialismo na trilha do legado de luta da classe trabalhadora – de seus
“antecedentes” históricos, como os movimentos de oposição ao governo de
Walpole, na década de 1720, até a resistência pacifista pelo desarmamento nuclear
e à administração de Margareth Thatcher na década de 1980.
Apesar de sua importância, essas não seriam razões suficientes para
trazermos Thompson a esse Encontro. Há motivos ainda mais pertinentes.
Thompson nos diz respeito, particularmente, porque seu pensamento é uma defesa
da razão e dos fundamentos ontológicos do real, e portanto forte contraponto ao
ceticismo epistemológico corrente, à visão relativista que nega a possibilidade do
conhecimento objetivo e ao atual anti-realismo e suas promessas de consciências
(e ciências) mais pragmáticas (Duayer, 2003). Mostramos que as proposições
thompsonianas, que têm a disciplina histórica como referência, podem orientar a
reflexão acerca da pesquisa sociológica e dos problemas do mundo
contemporâneo. Em A Miséria da Teoria, por exemplo, Thompson (1978, p. 217)
afirma: “Este é um tempo em que a razão deve ranger os dentes. À medida que o
mundo se modifica, devemos aprender a modificar nossa linguagem e nossos
termos. Mas nunca deveríamos modificá-los sem razão”.
qual, sobretudo, provocou a desfiliação de vários membros do Partido Comunista Britânico, como
as de Thompson e outros historiadores.
Maria Célia M. Moraes/UFSC e Ricardo G. Müller/UFSC e UFRJ 9
A LÓGICA HISTÓRICA
3
Como o descreve Müller (2002, p. 150), trata-se de um texto construído “contra o estruturalismo
de Louis Althusser (“o Aristóteles do novo idealismo marxista”, in Thompson, 1978, p. 196).
Maria Célia M. Moraes/UFSC e Ricardo G. Müller/UFSC e UFRJ 10
EXPERIÊNCIA E CULTURA
5
Segundo Thompson, exemplos desse tipo de trabalho eram encontrados em periódicos como
Comparative Studies in Society and History, Le Mouvement Social, Sociologie et Travail e
Economic Development and Cultural Change.
Maria Célia M. Moraes/UFSC e Ricardo G. Müller/UFSC e UFRJ 16
6
No original em inglês: sexy.
7
Cf. Thompson (1994, p. 214), em inglês: new features, no sentido de novas formas e
características que se desenvolvem no decorrer da dinâmica histórica.
Maria Célia M. Moraes/UFSC e Ricardo G. Müller/UFSC e UFRJ 18
Para Thompson (2001, p. 249) essas tipologias são importantes não por
serem estruturas universais, mas “particularmente pelo fato de as funções
imediatas do ritual” que definem “serem dinâmicas”.
8
Nesse trecho ambivalência (no original, ambivalence) não significa ambigüidade, mas uma
relação de duas vias, entre positivo e negativo, como entre o ato de doar e o de receber.
Maria Célia M. Moraes/UFSC e Ricardo G. Müller/UFSC e UFRJ 19
9
Thompson (1978, p. 302 e 355-356) delimita os “conceitos de junção” como: (1) “a
‘necessidade’”, que na antropologia aparece “como ‘norma’ e na ‘história’ como ‘vontades’ ou
‘valores’”; (2) “modo de produção”, como “uma pressão determinante dentro de um complexo
processo histórico”; (3) “classe”, “como a estruturação de um modo de produção, ou acontecendo
(eventuating) de formas que nunca podem ser predeterminadas”; (4) o próprio “determinismo”,
quando considerado como “fechamento” ou “pressão”.
Maria Célia M. Moraes/UFSC e Ricardo G. Müller/UFSC e UFRJ 21
Stuart Hall (1981, p. 384) argumenta que a forma pela qual Thompson
define “experiência” em dois momentos não é adequada porque “combina coisas
10
Cf. Thompson (1978, p. 201) onde ele afirma que “esse diálogo se processa em ambas as
direções” e (p. 224-225) sobre “o diálogo entre o ser social e a consciência social, que dá origem à
experiência”. Como o ser social não é inerte, “tampouco a consciência social é um recipiente
passivo”, pois “atua de volta sobre o ser”. Thompson (1978, p. 205) resume sua crítica a Althusser
nos seguintes termos: “A categoria ganhou uma primazia sobre seu referente material; a estrutura
conceitual paira sobre o ser social e o domina”.
11
Esse encontro fez parte da programação de um Seminário, sob a coordenação de Raphael
Samuel, promovido pelo Ruskin College e pelo grupo “History Workshop”. Participaram: Stephen
Yeo, como presidente do painel; Stuart Hall, com o trabalho “In Defense of Theory”; Richard
Johnson, com o texto “Against Absolutism” e E. P. Thompson, com “The Politics of Theory”,
onde responde aos dois debatedores e avança outras questões. Cf. Samuel, Raphael (ed.) (1981),
que reproduz o debate no capítulo “Culturalism: Debates around The Poverty of Theory”, p. 375-
408. Cf. Müller, Ricardo (2002, p. 190 et passim). A propósito, Martin Jay (2006, p. 196, n. 103)
acredita que o Ruskin College, em Oxford, é o melhor exemplo de um lócus para a prática da
história a partir de baixo, de acordo com as idéias de Thompson. Fundado em 1967, foi a principal
base do grupo History Workshop, e de seu periódico, e Raphael Samuel foi seu principal líder.
Maria Célia M. Moraes/UFSC e Ricardo G. Müller/UFSC e UFRJ 22
que... ‘na realidade’ (na experiência vivida) ocorrem juntas, mas que têm que ser,
analiticamente, distinguidas”. Hall comenta que a tentativa de Thompson de
sobrepujar esse problema “falando de duas ‘experiências’ – experiência I
(condições) e experiência II (como estas são anexadas à consciência)” é
teoricamente insatisfatória. Segundo Hall, “não se facilita o difícil processo de
pensar a relação entre dois termos nomeando-os com o mesmo conceito”, porque
isso simplesmente confundiria distinções que têm que ser mantidas
conceitualmente separadas.
Acusações mais graves são efetuadas por Richard Johnson (1981, p. 386-
396), ao definir como revisionista e um “absolutismo” teórico a atitude de
Thompson em relação a Althusser, a seu ver uma atitude que mais subtrai do que
agrega para a construção de posições sólidas dentro da tradição marxista. Nessa
empreitada, Johnson atua mais como político do que cientista.
Por essa razão, assevera Thompson (1981, p. 406), essa é a única maneira
possível de “explicar a mudança histórica com alguma racionalidade”. E
acrescenta: “A experiência I está em eterna fricção com a consciência imposta e,
quando ela irrompe, nós, que lutamos com todos os intricados vocabulários e
disciplinas da experiência II, podemos experienciar alguns momentos de abertura
e de oportunidade, antes que se imponha mais uma vez o molde da ideologia”.
Dessa forma, a experiência, “sem bater na porta”, constitui e nega, opõe e
resiste, estabelece mediações, é espaço de prática, intervenção, obstaculização,
recusa, é processo de formação de identidades de classe e, poderíamos
acrescentar, de gênero, de geração, de etnias. Processos dialeticamente articulados
que ela, a experiência, expressa de forma privilegiada.
Thompson distancia-se, como se vê, do conceito vulgar de experiência, o
que estabelece sua equivalência com a empiria. Mesmo porque, como sublinham
Moraes e Torriglia (2000, p. 53), “a construção empirista da experiência induz ao
relativismo e à passividade e à aceitação de todo o status quo”, posição que está
na contramão da proposta intelectual e de vida do historiador.
Maria Célia M. Moraes/UFSC e Ricardo G. Müller/UFSC e UFRJ 25
PALAVRAS FINAIS
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Sobre os autores:
Ciro Flamarion Santana Cardoso: Professor titular da Universidade Federal Fluminense (UFF),
Niterói/RJ. Possui graduação em História pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1965),
doutorado em História, Université de Paris X, Nanterre (1971) e pós-Doutorado, pela New York
University (1994). Tem experiência na área de História, com ênfase em História Antiga e
Medieval, principalmente em Egiptologia. Coordenador do Centro de Estudos Interdisciplinares
da Antigüidade (CEIA - UFF). Áreas de interesse: E-mail: ciro@[Link]
Adriano Luiz Duarte: Professor Adjunto do Dept°. de História e do Programa de pós-graduação
em História da UFSC. Mestre em Sociologia (USP, S. Paulo, 1995); Doutor em História
(UNICAMP, Campinas, 2002); pós-doutorado na New York University (2008). É autor do livro
Cidadania e exclusão: Brasil, 1937-1945, sobre o mundo do trabalho no Estado Novo. Publicou
diversos artigos sobre os temas história do trabalho, cidadania, associativismo popular, cultura
política e cultura popular. Linha de Pesquisa na Pós-Graduação: Trabalho, Sociedade e Cultura.
Regina Célia Linhares Hostins: catarinense, professora e pesquisadora do Programa de Mestrado
em Educação, na Universidade do Vale do Itajaí (UNIVALI). Realizou seus estudos de mestrado
e doutorado em Educação, no PPGE, Universidade Federal de Santa Catarina, na linha de
pesquisa Educação, História e Política, na qual aprofundou conhecimentos sobre as bases
ontológicas e epistemológicas da formação do pesquisador em Educação, notadamente na
perspectiva do materialismo histórico e do realismo crítico, com autores como E. P. Thompson,
Roy Bhaskar e G. Lukács.
Henrique Espada Lima: professor adjunto do Departamento de História e do Programa de Pós-
Graduação em História da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). É autor de A micro-
história italiana: escalas, indícios e singularidades (Civilização Brasileira, 2006), e de vários
artigos na área de teoria da história, historiografia e história do trabalho no Brasil do século XIX.
Maria Célia Marcondes de Moraes (in memoriam): professora titular do Centro de Ciências da
Educação da Universidade Federal de Santa Catarina (1995/2008). Professora do Dept°. de
Economia da UFF (1987/1995). Mestre em Filosofia (UFRJ, 1979); doutora em Educação
(PUC/RJ, 1990); pós-doutorado em Educação (Universidade de Nottingham, 1993/1994).
Pesquisadora do CNPq. Foi Representante Adjunto da área de Educação junto à CAPES (1998-
2000); Representante da área de Educação junto à CAPES (2001-2003) e membro da Comissão
de Acompanhamento dos Programas de pós-graduação em Educação da CAPES (2005, 2006).
Foi membro do Comitê Assessor da Área de Educação do CNPq (2005-2008). Autora de
inúmeros livros e artigos, com ênfase em Filosofia da Educação, abordando principalmente os
seguintes temas: questões de teoria e método na pesquisa em Educação; produção de
conhecimento e formação de pesquisadores..
Ricardo Gaspar Müller: Professor associado do Dept. de Sociologia e Ciência Política e do
Programa de pós-graduação em Sociologia Política (PPGSP) da UFSC, desde 1999. Professor do
Dept. de Comunicação Social da UFF, de 1980 a 1999. Mestre em Sociologia (UFMG, B.
Horizonte, 1988); doutorado em História Social (USP, S. Paulo, 2002) e pós-doutorado em
Sociologia (UFRJ, 2007/2008). Visiting Scholar na Universidade de Nottingham (1993/1994 e
2001). Pesquisador do TMT (Núcleo de Estudos das Transformações do Mundo do Trabalho),
UFSC. Linhas de pesquisa: (1) Idéias, Instituições e Práticas Políticas; e (2) Mundos do
Trabalho. Membro do comitê editorial de Política e Sociedade: revista de Sociologia Política, do
PPGSP, UFSC.
Sidnei José Munhoz: Doutor em História Econômica pela USP; Pós-doutorado em História na
UFRJ, 2002. Professor da área de História Contemporânea e do Programa de Pós-Graduação em
História na Universidade Estadual de Maringá (UEM); do Programa de Pós Graduação em
História Comparada (UFRJ) e do Consórcio Programa Rio de Janeiro de Estudos de Relações
Internacionais, Segurança e Defesa Nacional (CPRJ-Prodefesa). Pesquisador do CNPq e
Pesquisador Associado do Laboratório de Estudos do Tempo Presente (UFRJ). Foi coordenador
do Programa de pós-graduação em História (PPH-UEM) e editor da revista Diálogos
(PPH/UEM). Principais publicações: “Riots and Looting in São Paulo city- 1983” ILAS,
University of Glasgow, 1996. Foi um dos organizadores (junto com Francisco Carlos Teixeira da
Silva) da Enciclopédia de Guerras e Revoluções do século XX, Rio: Elsevier/Campus, 2004.
Célia Regina Vendramini: Professora do Centro de Ciências da Educação da Universidade
Federal de Santa Catarina. Doutora em Educação pela UFSCar; pós-doutorado na Universidade
de Lisboa. Pesquisadora do CNPq e do TMT (Núcleo de Estudos das Transformações do Mundo
do Trabalho (UFSC). Autora do livro Terra, trabalho e educação: experiências sócio-educativas
em assentamentos do MST; co-autora do livro Retratos do MST: Ligas Camponesas e Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra e organizadora do livro Educação em movimento na luta
pela terra.