A Segunda Vinda de Cristo
Quando e como será a volta de Cristo? Poderá ele voltar a qualquer momento?
O estudo de eventos futuros é muitas vezes chamado “escatologia”, segundo a palavra
grega “εσχάτως”, eschatos, que significa “último”. O estudo da escatologia, portanto, é
o “estudo das últimas coisas”.
Incrédulos podem fazer predições razoáveis de eventos futuros com base em padrões
de ocorrências passadas, mas na natureza da experiência humana é evidente que os
seres humanos, por si mesmos, não conseguem conhecer o futuro. Mas, os cristãos que
creem na Bíblia vivem outra situação. Ainda que não possamos conhecer tudo acerca do
futuro, Deus conhece todas as coisas futuras e, nas Escrituras, trata dos principais fatos
ainda futuros na história do universo. Podemos ter absoluta certeza da ocorrência
desses fatos porque Deus nunca erra e jamais mente.
A Bíblia Sagrada fala de certos eventos importantes que afetarão todo o universo.
Especificamente, ela trata da segunda vinda de Cristo, do milênio, do julgamento final,
da punição eterna para os incrédulos e da recompensa eterna para os crentes, e da vida
com Deus no novo céu e na nova terra.
A história da igreja tem presenciado muitos debates - com frequência exaltados - sobre
questões acerca do futuro. Neste estudo, começaremos com os aspectos da segunda
vinda de Cristo sobre os quais concordam todos os evangélicos e depois passaremos
para uma questão polêmica: se Cristo pode ou não voltar a qualquer momento.
1. HAVERÁ UMA VOLTA SÚBITA, PESSOAL, VISÍVEL E CORPÓREA DE CRISTO
O próprio Jesus, os apóstolos e demais escritores do Novo Testamento ensinaram sobre
o retorno de Cristo (Mt.24.44; Jo.14.3; 1Ts.4.16; Hb.9.28; Tg.5.8; 2Pe.3.10; 1Jo.3.2;
Ap.22.20). Esse tema, portanto, é mencionado com frequência em todo o Novo
Testamento. É a esperança dominante da igreja neotestamentária. Esses versículos
predizem um retorno repentino de Cristo, extraordinário e visível (Ap.1.7).
As passagens são muito explícitas, não dando margem à ideia (antes popular nos círculos
protestantes liberais) de que o próprio Cristo não voltará, mas, simplesmente, que o
espírito de Cristo, ou seja, a aceitação de seu ensino e a imitação de seu estilo de vida
baseado no amor, voltaria de maneira crescente à terra. Não é seu ensino ou seu estilo
de conduta, mas “o Senhor mesmo” que descerá do céu (1Ts.4.16). É o próprio Jesus
“assunto ao céu” que “virá do modo como o vistes subir” (At.1.11). Sua manifestação
não será a mera vinda espiritual para habitar no coração das pessoas, mas uma volta
pessoal e corpórea, “do modo como o vistes subir”.
2. DEVEMOS ANSIAR PELA VOLTA DE CRISTO
A resposta de João no final de Apocalipse deve caracterizar o coração dos cristãos em
todas as épocas: “Amém! Vem, Senhor Jesus!” (Ap.22.20). O verdadeiro cristianismo nos
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treina a viver “no presente século, sensata, justa e piedosamente, aguardando a bendita
esperança e a manifestação da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus”
(Tt.2.12-13; Fp.3.20).
Será que os cristãos, de fato, aguardam ansiosamente a volta de Cristo? Quanto mais os
cristãos se virem enredados nas coisas desta vida e mais negligenciarem a comunhão
cristã genuína e seu relacionamento pessoal com Cristo, tanto menos ansiarão por sua
volta. Por outro lado, muitos cristãos que enfrentam sofrimentos e perseguições, ou os
mais idosos e enfermos, e aqueles que andam diariamente com Cristo de maneira viva
e profunda, terão um anseio mais intenso por sua volta. De certa forma, portanto, o
quanto realmente aguardamos a volta de Cristo mede a condição espiritual de nossa
vida no momento. Isso também mede, de certa forma, até que ponto vemos o mundo
como realmente é, conforme Deus o vê: escravizado ao pecado e em rebeldia contra
Deus, subordinado ao poder do maligno (1Jo.5.19).
Mas isso significaria que não devemos empreender projetos a longo prazo? Se um
dentista aguarda ansiosamente a volta de Cristo, deve entrar num projeto de pesquisas
que leve dez anos? Ou um cristão deve começar um curso de três anos num seminário
ou numa faculdade teológica? E se Cristo voltar na véspera da formatura, antes que
tenha alguma oportunidade de empenhar tempo significativo no ministério
propriamente dito?
Com certeza, devemos envolver-nos em atividades de longo prazo. É exatamente por
isso que Jesus não nos permite saber a verdadeira hora de sua volta. Ele quer que
estejamos ligados a ele, em obediência, não importa o ritmo de nossa vida, até o
momento de sua volta. Estar “apercebido” para a volta de Cristo (Mt.24.44) é obedecer-
lhe fielmente no presente, empenhando-se ativamente em qualquer trabalho para o
qual ele nos tenha convocado.
3. NÃO SABEMOS QUANDO CRISTO VOLTARÁ
Algumas passagens indicam que não sabemos, e não podemos saber, quando Cristo
voltará (Mt.24.44; Mt.25.13; Mc.13.32-33). Jesus está nos dizendo que não podemos
saber quando será a sua Segunda Vinda. Já que ele voltará em hora inesperada, devemos
estar prontos o tempo todo para o seu retorno. A consequência prática disso é que se
deve considerar errado, de imediato, quem diz saber, especificamente, quando virá
Jesus.
Os testemunhas-de-jeová têm feito muitas predições de datas específicas da volta de
Cristo, e todas elas provaram-se enganadas. Também, outros, na história da igreja,
fizeram tais predições, às vezes, alegando novo entendimento de profecias bíblicas e,
outras vezes, alegando ter recebido revelações pessoais do próprio Jesus, indicando o
momento de seu retorno. É uma pena que tantos tenham sido enganados por essas
declarações porque quando as pessoas se convencem de que Cristo voltará (por
exemplo) dentro de um mês, começam a se desvencilhar de todos os compromissos a
longo prazo. Tiram as crianças da escola, vendem as casas, demitem-se do emprego e
desistem de trabalhar em qualquer projeto a longo prazo na igreja ou em outro lugar.
De início, pode aumentar o zelo pela evangelização e pela oração, mas a natureza
irracional do comportamento deles neutraliza todo o impacto evangelístico que possam
ter. Além disso, estão simplesmente desobedecendo ao ensino das Escrituras de que
não se pode conhecer a data da volta de Cristo, o que significa que até mesmo a oração
e a comunhão deles com Deus ficará também prejudicada.
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Qualquer um que diga conhecer a data em que Cristo voltará - seja qual for a fonte -
deve ser rejeitado, considerado incorreto.
4. TODOS OS EVANGÉLICOS CONCORDAM QUANTO ÀS CONSEQUÊNCIAS DEFINITIVAS
DA VOLTA DE CRISTO
Não importam as discordâncias quanto aos detalhes, todos os cristãos que têm a Bíblia
por autoridade final concordam que a consequência definitiva da última volta de Cristo
será o julgamento dos incrédulos e a recompensa final dos que creem e que os que
creem viverão com Cristo, por toda a eternidade, num novo céu e numa nova terra. Deus
Pai, Filho e Espírito Santo reinará e será cultuado num reino eterno em que já não haverá
pecado, dor ou sofrimento.
Os pormenores sobre esse assunto, discutiremos na próxima parte deste estudo.
5. HÁ DISCUSSÃO QUANTO AOS PORMENORES DOS EVENTOS FUTUROS
Os cristãos discordam a respeito de pormenores específicos sobre o que acontecerá logo
antes e logo depois da volta de Cristo. Especificamente, eles discordam quanto à
natureza do milênio e da relação entre a vinda de Cristo e o milênio, quanto à sequência
da volta de Cristo e o período da grande tribulação que sobrevirá à Terra e na questão
da salvação do povo judeu (e a relação entre os judeus salvos e a igreja).
Antes de examinarmos algumas dessas questões com mais detalhes, é importante
afirmar a posição evangélica genuína dos que defendem posturas diferentes sobre essas
questões. Os evangélicos que defendem essas várias posições concordam, todos, que as
Escrituras são inerrantes e que eles têm o compromisso de crer em tudo o que elas
ensinem.
Suas diferenças giram em torno da interpretação de várias passagens que tratam desses
eventos, mas suas diferenças nessas questões devem ser vistas como questões de
importância secundária, não como diferenças quanto a questões doutrinárias
importantes.
Mesmo assim, vale estudar essas questões com maior riqueza de detalhes, porque
ganharemos mais entendimento da natureza dos eventos planejados por Deus e
prometidos a nós e, também, porque ainda há esperança de que surja uma unidade
maior na igreja quando aceitarmos reexaminar essas questões e nos empenharmos em
discuti-las.
6. PODERÁ CRISTO VOLTAR A QUALQUER MOMENTO?
Uma das discussões significativas surge quando se debate se Cristo poderá voltar a
qualquer momento. Por um lado, há muitas passagens que nos incentivam a estar
prontos porque Cristo voltará em hora inesperada. Por outro lado, há algumas
passagens que falam de certos eventos que ocorrerão antes da volta de Cristo. Há
diferentes modos de resolver a aparente tensão entre esses dois conjuntos de
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passagens, e alguns cristãos concluem que Cristo ainda poderá voltar a qualquer
momento e outros que ele não poderá voltar pelo menos antes de uma geração, já que
seria preciso esse tempo para que se cumpram alguns eventos preditos que precisam
ocorrer antes de sua volta.
1. Versículos que predizem uma vinda repentina e inesperada de Cristo.
Para sentir a força cumulativa das passagens que predizem que Cristo poderá voltar
muito em breve, é bom simplesmente alistá-las aqui em ordem: (Mt.24.36-39; 42-44;
25.13; Mc.13.32-37; Lc.12.40; Fp.3.20; 1Ts.5.2; Tt.2.12-13; Hb.10.25; Tg.5.7-9; 1Pe.4.7;
2Pe.3.10; Ap.1.3; 22.7, 12, 20).
Que dizer dessas passagens? Se o Novo Testamento não contivesse passagens sobre os
sinais que precederão a volta de Cristo, é provável que concluíssemos pelas passagens
que acabamos de citar que Jesus poderia vir a qualquer momento.
Quanto aos textos que dizem que Jesus está vindo “logo”, precisamos compreender que
os profetas bíblicos muitas vezes falam pela perspectiva da “abreviação profética”, que
vê eventos futuros mas não vê o período intermediário anterior à sua ocorrência.
George Ladd diz: Os profetas pouco se interessavam pela cronologia, e o futuro era
sempre considerado iminente [...] os profetas do Antigo Testamento mesclavam as
perspectivas próximas e distantes, formando um painel sem igual. A profecia bíblica não
é essencialmente tridimensional, mas bidimensional; possui altura e largura, mas não se
importa com a profundidade, i.e., a cronologia dos eventos futuros [...] o distante é visto
através da transparência do imediato. É verdade que a igreja primitiva vivia na
expectativa da volta do Senhor, e faz parte da natureza da profecia bíblica tornar
possível para cada geração viver na expectativa do fim.
Pedro também nos lembra que o Senhor vê o tempo de outra perspectiva, de modo que
“logo”, para ele, talvez não seja o que esperamos (2Pe.3.8-9).
2. Sinais que precedem a volta de Cristo.
A outra série de textos a considerar trata de alguns sinais que as Escrituras dizem
preceder a hora da volta de Cristo. De fato, Berkhof diz: “De acordo com as Escrituras
alguns fatos importantes devem ocorrer antes da volta do Senhor e, assim, não se pode
considerá-la iminente”.
Aqui vale alistar as passagens que fazem referência mais direta aos sinais que devem
ocorrer antes da volta de Cristo.
a. A pregação do evangelho a todas as nações. É necessário que primeiro o
evangelho seja pregado a todas as nações (Mt.24.14; Mc.13.10).
b. A grande tribulação (Mt.24.15-22; Mc.13.7-8; 19-20; Lc.21.20-24).
c. Falsos profetas realizando sinais e maravilhas (Mt.24.23-24; Mc.13.22).
d. Sinais no céu (Mt.24.29-30; Mc.13.24-26; Lc.21.25-27).
e. A vinda do homem da iniquidade e a rebelião. Paulo escreve aos
tessalonicenses que Cristo não virá, a menos o homem da iniquidade seja antes
revelado, e depois o Senhor Jesus, em sua vinda, o destruirá (2Ts.2.1-10). Esse
"homem da iniquidade” é às vezes identificado com a besta em Apocalipse 13 e
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às vezes chamado anticristo, o último e pior da série de "anticristos"
mencionados em 1João 2.18.
f. A salvação de Israel. Paulo fala do fato de que muitos judeus não creram em
Cristo, mas diz que em algum ponto do futuro um número maior será salvo
(Rm.11.12, 25-26).
O impacto dessas passagens parece tão claro que, conforme mencionamos acima,
muitos cristãos sentem que Cristo simplesmente não pode voltar a qualquer momento.
Quando analisamos a lista de sinais acima, não parece necessário argumentar muito
para demonstrar que a maior parte desses eventos, ou talvez todos eles, ainda não
ocorreu. Ou, pelo menos, é o que parece a quem lê essas passagens pela primeira vez.
3. Soluções possíveis.
Como harmonizar passagens que nos parecem aconselhar a estar prontos porque Cristo
pode voltar logo com passagens que indicam que alguns eventos importantes e visíveis
devem ocorrer antes que ele possa voltar? É possível propor algumas soluções.
Uma solução é dizer que Cristo não poderá vir a qualquer momento. O tempo que deve
transcorrer antes da volta de Cristo depende do tempo que a pessoa julga necessário
para que alguns dos sinais se cumpram, tais como a pregação do evangelho a todas as
nações, a vinda da grande tribulação e a reunião de todo o número dos judeus que serão
salvos.
A dificuldade dessa concepção é dupla. Primeiro, realmente parece anular a importância
das advertências de Jesus a que estejamos atentos, prontos, ao fato de que voltará
numa hora que não esperamos. Qual a força de um alerta a que estejamos prontos para
uma vinda inesperada de Cristo, se sabemos que essa vinda não pode ocorrer senão
depois de muitos anos? A ideia de expectativa urgente pela volta de Cristo fica muito
diminuída ou totalmente anulada nessa posição, e tal consequência parece bem
contrária à intenção de Jesus em deixar tais alertas.
Segundo, a ideia de que Cristo não poderá vir a qualquer momento parece empregar
os sinais que precederão a volta de Cristo de maneira bem oposta à maneira pela qual
Jesus queria que fossem empregados. Os sinais são dados para que, vendo-os,
intensifiquemos nossas expectativas quanto à volta de Cristo. Jesus disse: “Ora, ao
começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei a vossa cabeça; porque a vossa
redenção se aproxima” (Lc.21.28).
E os alertas também são dados para impedir que os que creem se desviem, seguindo
falsos messias: “Então, Jesus passou a dizer-lhes: Vede que ninguém vos engane. Muitos
virão em meu nome, dizendo: Sou eu; e enganarão a muitos [...] Então, se alguém vos
disser: Eis aqui o Cristo! Ou: Ei-lo ali! Não acrediteis” (Mc.13.5-6,21). Assim, os sinais são
dados para impedir que os cristãos sejam surpreendidos por esses eventos notáveis,
para garantir que Deus os conhece antemão e para que impedir que sigam supostos
messias que não vêm da maneira como Cristo virá: de modo extraordinário, visível,
vencendo o mundo. Mas os sinais jamais foram dados para que pensássemos: “Jesus
não pode vir nos próximos anos”. Não há indicações de que Jesus tenha dado esses
sinais para fornecer aos cristãos motivo para não estarem prontos para sua volta ou para
incentivá-los a não esperar que ele venha a qualquer momento! Usar dessa maneira os
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sinais que precederão a volta de Cristo é usá-los de um modo jamais planejado por Jesus.
Assim, não parece convincente dizer que Cristo não poderá voltar a qualquer momento.
A outra solução principal desse problema é dizer que Cristo de fato poderá voltar a
qualquer momento e harmonizar as duas séries de passagens de várias maneiras. (1)
Um jeito de harmonizá-las é dizer que o Novo Testamento fala de duas voltas distintas
de Cristo, ou de duas segundas vindas de Cristo, ou seja, uma vinda secreta em que
Cristo tira os cristãos do mundo (uma vinda “para os seus santos”) e, depois, após sete
anos de tribulação sobre a terra, uma vinda visível, pública e triunfante (uma vinda “com
os seus santos”) em que Cristo virá para reinar sobre a terra. Durante o intervalo de sete
anos, todos os sinais que ainda não se cumpriram (a grande tribulação, os falsos profetas
com sinais e maravilhas, o anticristo, a salvação de Israel e os sinais nos céus) serão
cumpridos, de modo que não há tensão nenhuma entre esperar por uma vinda que
ocorrerá “a qualquer momento” e o entendimento de que uma vinda posterior será
precedida por muitos sinais.
O problema dessa solução é a dificuldade de derivar duas vindas distintas de Cristo das
passagens que predizem sua volta. Entretanto, não vamos discutir a questão aqui. Esse
assunto será tratado em um estudo específico sobre a visão pré-milenista pré-
tribulacionista da volta de Cristo. Deve-se também notar que, historicamente, essa
solução é bem recente, pois era desconhecida na história da igreja até ser proposta no
século passado por John Nelson Darby (1800-1882). Isso deve alertar-nos para o fato de
que essa solução não é a única possível para a tensão apresentada pelas passagens
acima.
(2) Outra solução é dizer que todos os sinais já foram cumpridos e, portanto, Cristo de
fato pode voltar a qualquer momento. Segundo essa perspectiva, podem se encontrar
os possíveis cumprimentos desses sinais nos eventos da igreja primitiva, ainda no
primeiro século. Em certo sentido, pode-se dizer que o evangelho foi de fato pregado a
todas as nações, surgiram falsos profetas que se opuseram ao evangelho, houve grande
tribulação na perseguição que a igreja sofreu nas mãos de alguns imperadores romanos,
o homem da iniquidade foi na realidade o imperador Nero, e o número completo do
povo judeu que será salvo tem sido preenchido gradualmente ao longo da história da
igreja, já que Paulo se apresenta como exemplo do início dessa reunião do povo judeu
(Rm.11.1). Muitos não consideram convincente nenhuma ideia que afirme que os sinais
já ocorreram porque esses sinais lhes parecem indicar eventos muito mais amplos que
os ocorridos no primeiro século.
(3) Há outra maneira de resolver essas duas séries de passagens. É dizer que é
improvável mas possível que os sinais já se tenham cumprido e, portanto, simplesmente
não podemos saber com certeza, em nenhum ponto da história, se todos os sinais foram
ou não cumpridos. Essa posição é atraente porque leva a sério o propósito básico dos
sinais, o propósito básico dos alertas e o fato de que não devemos saber quando Cristo
voltará. Quanto aos sinais, o propósito básico deles é intensificar nossas expectativas
com a volta de Cristo. Assim, sempre que vemos indicações de coisas que lembram esses
sinais, nossas expectativas em torno da volta de Cristo são despertadas e intensificadas.
Quanto aos alertas para que estejamos prontos, os que defendem essa posição diriam
que Cristo poderá voltar a qualquer momento (já que não conseguimos ter certeza de
que não se cumpriram) e, assim, precisamos estar prontos, ainda que seja improvável
que Cristo volte imediatamente (porque parece haver alguns sinais ainda não
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cumpridos). Por fim, essa posição concorda que não podemos saber quando Cristo
voltará e que ele virá numa hora que não esperamos.
Mas é possível que esses sinais tenham se cumprido? Podemos examiná-los um por vez.
Em cada um, nossa conclusão será que é improvável mas possível que o sinal já se tenha
cumprido.
a. A pregação do evangelho a todas as nações. O evangelho foi pregado a todas
as nações? É provável que não, já que há vários grupos linguísticos e étnicos
que ainda não ouviram o evangelho. É improvável, portanto, que esse sinal
tenha se cumprido. Entretanto, Paulo fala em Colossenses sobre a propagação
mundial do evangelho (Cl.1.5-6; 1.23). Nesses versículos, ele certamente não
quer dizer que cada criatura viva ouviu a proclamação do evangelho, mas que
a proclamação foi anunciada a todo o mundo e que, pelo menos no sentido
representativo, o Evangelho foi pregado a todo o mundo ou a todas as nações.
Portanto, é improvável, mas possível, que esse sinal se tenha cumprido
inicialmente no primeiro século e muitas vezes desde então, em sentido mais
amplo.
b. A grande tribulação. Mais uma vez, parece provável que a linguagem das
Escrituras indique que haverá na terra um período de sofrimento muito maior
que tudo que se tenha experimentado. Mas deve-se notar que muitas pessoas
entenderam que os alertas de Jesus quanto à grande tribulação referem-se ao
cerco romano a Jerusalém na guerra judaica de 66-70 d.C. O sofrimento
durante essa guerra foi mesmo terrível e pode ser que o Jesus descreveu ao
predizer essa tribulação. De fato, desde o primeiro século, tem havido muitos
períodos de perseguição violenta e intensa a cristãos e, mesmo em nosso
século, isso tem ocorrido em grandes áreas do globo, com cristãos sendo
terrivelmente perseguidos na antiga União Soviética, na China comunista e
em países muçulmanos. Seria difícil convencer alguns cristãos deste século
que têm sofrido décadas de perseguição por causa da fé e tiveram
conhecimento de que a perseguição afetou milhares de outros cristãos em
amplos segmentos do mundo, que a grande tribulação ainda não ocorreu. Há
anos que eles vêm ansiando e orando pela volta de Cristo, para que ele os
resgate da tribulação que estão enfrentado. Mais uma vez, ainda que
possamos pensar que as palavras de Jesus indicam a probabilidade de uma
perseguição maior no futuro, é difícil ter certeza disso. Parece adequado
concluir que é improvável, mas possível, que a predição de uma grande
tribulação já se tenha cumprido.
c. Falsos cristos e falsos profetas. Com respeito a falsos cristos e falsos profetas
que operarão sinais e maravilhas, qualquer missionário que tenha trabalhado
com povos entre os quais proliferem a feitiçaria e as atividades demoníacas
logo testemunhará que aparentes “sinais e maravilhas” têm sido realizados
com frequência pelo poder demoníaco em oposição à difusão do evangelho.
Com certeza, os milagres demoníacos na corte do faraó produziram sinais
falsos em oposição aos milagres de Moisés (Êx.7.11; 8.7; cf. a atividade de
Simão, o mago, em At.8.9-11). Quaisquer que sejam as formas específicas, tais
operações de milagres enganosos são quase sempre acompanhadas de
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religiões falsas e desviam muitas pessoas (os líderes de tais grupos poderiam
ser chamados falsos messias e falsos profetas). Parece possível que as
palavras de Jesus predigam uma manifestação muito maior desse tipo de
atividade no período logo anterior à sua volta, mas, de novo, é difícil ter
certeza de que será assim. É melhor concluir que é improvável, mas ainda
possível, que esse sinal já se tenha cumprido.
d. Sinais portentosos no céu. A ocorrência de sinais nos céus é o sinal que quase
certamente ainda não aconteceu. Obviamente, tem havido eclipses do sol e
da lua e aparecido cometas desde que começou o mundo. Mas Jesus fala de
algo muito maior (Mt.24.29). Além disso, é significativo que essa descrição de
eventos cósmicos em Mateus 24.29 seja seguida no restante da frase pela
descrição do “Filho do Homem vindo sobre as nuvens do céu, com poder e
muita glória” (v.30). Dados esses fatos, parece improvável que e as descrições
da queda das estrelas do céu e do escurecimento do sol e da lua sejam uma
simples linguagem simbólica. É melhor entendê-las como sinais literais que
ocorrerão logo antes da volta de Cristo e, como tais, estarão em categoria
diferente da dos outros sinais, já que parece certo que não tenham ocorrido
ainda. Entretanto, poderiam ocorrer com muita rapidez, em poucos minutos
ou no máximo em uma ou duas horas - sendo imediatamente seguidas pela
volta de Cristo. Esses sinais em especial não são do tipo que nos levaria a negar
que Cristo pode voltar a qualquer momento.
e. A manifestação do homem da iniquidade. Tem havido muitas tentativas ao
longo da história para identificar o homem da iniquidade (o “anticristo”) com
personagens históricos que exerceram grande autoridade e trouxeram danos
e devastação às pessoas sobre a terra. Muitos pensaram que os antigos
imperadores romanos, Nero e Domiciano, que perseguiram severamente os
cristãos, seriam o anticristo. (Muitos imperadores romanos, inclusive esses
dois, autoproclamaram-se Deus e exigiram culto.) Mais recentemente, era
comum pensar que Adolf Hitler, bem como Joseph Stalin, seria o anticristo.
Por outro lado, desde a Reforma, muitos protestantes, especialmente os que
foram perseguidos pela Igreja Católica, pensam que um ou outro dos papas
foi o anticristo. Mas todas essas identificações mostraram-se falsas, sendo
provável que um “homem da iniquidade” ainda pior surja no cenário do
mundo, trazendo sofrimentos e perseguição sem paralelos, só para ser
destruído por Jesus quando ele voltar. Mas o mal perpetrado por muitos
desses outros governantes tem sido tão grande que, pelo menos enquanto
eles estão no poder, seria muito difícil ter certeza de que “o homem da
iniquidade” mencionado em 2 Tessalonicenses 2 ainda não tenha aparecido.
Mais uma vez, é improvável, mas possível, que esse sinal se tenha cumprido.
f. A salvação de Israel. Com respeito à salvação da plenitude de Israel, mais uma
vez deve-se dizer que Romanos 9-11 parece indicar que ainda haverá uma
grande reunião futura dos judeus, quando eles aceitarem Jesus como seu
Messias. Mas não é certo que Romanos 9-11 prediga isso, e muitos alegam
que não ocorrerá nenhuma outra reunião de judeus, diferente da que já
temos visto ao longo da história da igreja, uma vez que Paulo se apresenta
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como um exemplo básico dessa reunião (Rm.11.1-2). Mais uma vez, é
improvável, mas possível, que esse sinal já se tenha cumprido.
g. Conclusão. Exceto pelos sinais espetaculares nos céus, é improvável, mas
possível, que esses sinais já se tenham cumprido. Além disso, o único sinal que
parece certamente não ter ocorrido, o escurecimento do sol e da lua e a
queda das estrelas, poderia ocorrer num período de poucos minutos e, assim,
parece adequado dizer que Cristo pode voltar agora a qualquer hora do dia
ou da noite. É, portanto, improvável, mas certamente possível, que Cristo
possa voltar a qualquer momento. Mas essa posição faz justiça aos alertas a
que estejamos prontos e de que a vinda de Cristo se dará num momento
inesperado? É possível estar pronto para algo que pensamos ser improvável
acontecer num futuro próximo? Certamente, sim. Todos os que usam o cinto
de segurança ao dirigir ou compram apólices de seguro pessoal preparam-se
para um evento que julgam improvável. De modo semelhante, parece
possível levar a sério os alertas de que Jesus pode vir num momento
inesperado para nós e, ainda assim, dizer ser provável que os sinais que
precedem sua vinda ainda ocorram no futuro. Essa posição traz benefícios
espirituais quando procuramos viver como cristãos num mundo que muda
rapidamente. No vai-e-vem da história do mundo, vemos de tempos em
tempos eventos que poderiam ser o cumprimento final de alguns desses
sinais. Eles acontecem e depois desaparecem. Durante os dias mais
tenebrosos da Segunda Guerra, parecia bem provável que Hitler fosse o
anticristo. Durante períodos de perseguição contra a igreja, talvez pareça mais
provável que os cristãos estejam no meio da grande tribulação. Quando
ficamos sabendo de terremotos e fomes e guerras, ficamos imaginando se
Cristo não estaria perto. Então esses eventos saem de cena, e a maré que leva
para o fim dos tempos parece recuar por um tempo. Então, de novo, uma
nova onda de eventos irrompe no cenário mundial e, mais uma vez, aumenta
nossas expectativas em torno da volta de Cristo. Com cada "onda" sucessiva
de eventos, não sabemos qual delas será a última. E isso é bom, porque Deus
não quer que saibamos. Ele simplesmente quer que continuemos ansiando
pela volta de Cristo, esperando que ocorra a qualquer momento. É
espiritualmente nocivo para nós dizer que sabemos que esses sinais ainda não
ocorreram, e parece estender os limites da interpretação crível dizer que
sabemos que esses sinais já ocorreram. Mas parece caber bem no meio da
abordagem neotestamentária da volta de Cristo dizer que não sabemos com
certeza se esses eventos ocorreram. A exegese responsável, a expectativa de
uma volta repentina de Cristo e uma dose de humildade em nosso
entendimento são todas preservadas nessa posição. Então, se Cristo de fato
voltar de repente, não seremos tentados a levantar objeções, dizendo que um
ou outro sinal ainda não ocorreu. Simplesmente estaremos prontos para
recebê-lo quanto ele se manifestar. E se ainda houver grande sofrimento e se
começarmos a ver grande oposição ao Evangelho, um grande avivamento
entre o povo judeu, avanço notável na pregação do evangelho em todo o
mundo e ainda sinais espetaculares nos céus, então não ficaremos
desanimados nem acovardados, porque nos lembraremos das palavras de
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Jesus: "... ora, ao começarem estas coisas a suceder, exultai e erguei a vossa
cabeça; porque a vossa redenção se aproxima" (Lc.21.28).
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