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Implicações Filosóficas da Física Moderna

Este documento explora as implicações filosóficas da física moderna, comparando-a com visões antigas do mundo. Aborda como a mecânica quântica e a relatividade revolucionaram a compreensão da realidade, questionando noções como matéria, espaço e tempo. Também discute como a física contemporânea se aproxima de abordagens holísticas orientais, apesar de sua herança racional ocidental.
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Implicações Filosóficas da Física Moderna

Este documento explora as implicações filosóficas da física moderna, comparando-a com visões antigas do mundo. Aborda como a mecânica quântica e a relatividade revolucionaram a compreensão da realidade, questionando noções como matéria, espaço e tempo. Também discute como a física contemporânea se aproxima de abordagens holísticas orientais, apesar de sua herança racional ocidental.
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FÍSICA E FILOSOFIA

Explorando algumas implicações


filosóficas da nova física
Índice

1 - Introdução ............................................................................................................................... 4

2 - Os caminhos da Física Clássica .............................................................................................. 6

3 - Os primeiros fisiólogos e a transição do pensamento mítico para o “Logos” ............................ 8

4 - O saber verdadeiro e a opinião em Platão e a ciência como demonstração


de Aristóteles ........................................................................................................................... 11

5 - A Idade Média e a contribuição da visão judaico-cristã.......................................................... 12

6 - Os avanços da Renascença .................................................................................................. 13

7 - A Idade Moderna, o Iluminismo e dois contemporâneos ........................................................ 14

7.1 O cartesianismo .................................................................................................................... 14

7.2 O empirismo .......................................................................................................................... 15

7.3 O criticismo kantiano ............................................................................................................. 15

7.4 Duas concepções contemporâneas como formas novas de interpretar a nova física: o
realismo crítico de Karl Popper e as regiões da realidade de Delfim Santos ........................ 15

8 - As estranhas leis do infinitamente pequeno ..................................................................... 17

8.1 - No início era o átomo .......................................................................................................... 17

8.2 - A Interpretação de Copenhaga e o afastamento de Einstein ............................................ 18

9 - Passeando nos jardins perfumados do Oriente ................................................................ 21

10 - Acerca das implicações filosóficas da física quântica ..................................................... 22

BIBLIOGRAFIA

1
2
We each exist for but a short time, and in that time explore but a
small part of the whole universe. But humans are a curious species. We
wonder, we seek answers. Living in this vast world that is by turns kind
and cruel, and gazing at the immense heavens above, people have
always asked a multitude of questions: How can we understand the
world in which we find ourselves? How does the universe behave?
What is the nature of reality? Where did all this come from? Did the
universe need a creator? Most of us do not spend most of our time
worrying about these questions, but almost all of us worry about them
some of the time.

Traditionally these are questions for philosophy, but philosophy is


dead. Philosophy has not kept up with modern developments in
science, particularly physics. Scientists have become the bearers of
the torch of discovery in our quest for knowledge. The purpose of this
book is to give the answers that are suggested by recent discoveries
and theoretical advances. They lead us to a new picture of the
universe and our place in it that is very different from the traditional
one, and different even from the picture we might have painted just
a decade or two ago. Still, the first sketches of the new concept can
be traced back almost a century.

S. Hawking, “The Grand Design”

3
Teu é o dia e tua é a noite: a um aceno teu, os instantes voam.
Concede-nos, então, tempo para meditarmos nos segredos da
tua Lei e não a feches aos que batem à sua porta…
Sto. Agostinho, Confessiones, Livro XI (384-386)

1 - Introdução

Stephen Hawking escreveu na abertura do seu último livro “The Grand Design”:

“A filosofia está morta. Não soube acompanhar os desenvolvimentos da ciência e em particular da


física. Os cientistas tornaram-se os novos portadores da chama da descoberta na nossa jornada em
busca do conhecimento”.

Mas será assim? Ou será que a filosofia se tornou mais uma vez, como em tantos momentos chave
da história da humanidade, uma ferramenta essencial para dar sentido ao real (e ao imaginário). O
que faria Hawking com a pilha de equações que corporizam o seu trabalho como físico teórico? Que
sentido metafísico seria capaz de transmitir aos seus semelhantes? A verdade é que depois de abrir
o livro com esta frase bem ao seu estilo provocador, Hawking não faz outra coisa senão filosofar, nas
180 páginas que se seguem. Talvez Hawking pretenda dizer que os físicos teóricos, trabalhando nas
fronteiras do conhecimento e confrontando-se, como nunca se terão confrontado, com a estranha
natureza da matéria, procurem na Filosofia o sentido de que necessitam para que a sua investigação
se torne inteligível. Mas a ser assim não só a Filosofia não está morta como está bem viva, e se torna
um imperativo para quem busca um sentido nas coisas.

Em todo o caso é indubitável que a Física contemporânea, desde o dealbar do Séc. XX até aos dias
de hoje, tem vindo a exercer uma influência fundamental na sociedade humana, que excede
grandemente a extraordinária panóplia de ferramentas tecnológicas a que deu origem, maravilhosas
algumas, temíveis outras, estendendo-se aos domínios do pensamento e da cultura e moldando uma
nova e radicalmente diversa visão da realidade, com implicações filosóficas só comparáveis às
grandes revoluções do pensamento.

Por trás dos extraordinários avanços tecnológicos que fizeram das nossas sociedades verdadeiras
comunidades globais, encurtando distâncias antes intransponíveis e pondo frente a frente, ainda que
virtualmente, pessoas que de outro modo estariam a dezenas de milhares de quilómetros;
desvendando aos atónitos olhos humanos, um mundo natural e um universo de uma complexidade
e riqueza que superam a imaginação mais delirante, a verdade é que a física atómica teve um
impacto muito mais profundo na humanidade, do que “apenas” os milagres da técnica a que
assistimos quotidianamente.

Questionando radicalmente os conceitos fundadores da própria visão que temos do que chamamos
realidade; abalando em definitivo noções tão fundamentais como matéria, espaço, tempo, causa e
efeito, a Física do Séc. XX, como jamais na tradição ocidental, desde a Grécia Clássica, iniciou uma
profunda revolução do pensamento aproximando-se, como nunca uma emanação dessa mesma

4
tradição essencialmente “racional” – a ciência contemporânea – tanto se aproximara, da abordagem
holística e meditativa característica dos misticismos orientais, do Taoísmo ao Hinduísmo ou ao
Budismo.

Os primeiros trinta anos do Séc. XX veriam nascer as duas teorias fundamentais – a relatividade e a
mecânica quântica – responsáveis por este sismo que abalou os fundamentos do pensamento
científico e filosófico da sociedade ocidental. Período conhecido como a Idade de Ouro da Física
durante o qual, perplexos e deslumbrados, homens geniais como Albert Einstein, Werner
Heisenberg, Niels Bohr, Max Planck, Louis de Broglie, Erwin Schrödinger, John von Neumann, Paul
Dirac, Enrico Fermi, Wolfgang Pauli, Max von Laue e outros, demoliram e reedificaram, agora sobre
novos e menos sólidos pilares, a nossa visão das coisas e do universo. E mais: longe de substituírem
umas certezas por outras, operaram1, liderada pela mecânica quântica, uma radical mudança na
forma de encarar a própria ciência e o seu método, levando-a ao extremo de rever conceitos basilares
como experiência, repetibilidade, certeza, previsão, condições iniciais e finais, etc. O impacto
epistemológico desta revolução foi, e continua a ser tal, que muitos dos físicos teóricos trabalhando
nesses baluartes avançados da ciência, se olham como os novos e verdadeiros filósofos,
desbravando as longínquas fronteiras do saber.

Neste trabalho faz-se uma breve e necessariamente limitada abordagem dessa radical
transformação operada pela física atómica (e subatómica) sobre a nossa visão contemporânea do
mundo, tentando por em evidência as consequências filosóficas de tal transformação, introduzindo
de igual maneira a curiosa relação que essa nova perspectiva estabelece com formas muito antigas
de olhar o mundo, características dos monismos orientais. Estabelece-se um diálogo com dois dos
maiores vultos da física contemporânea, W. Heisenberg e S. Hawking, grandes homens de ciência,
mas também grandes divulgadores, preocupados com a transmissão das suas descobertas em
linguagem inteligível a não físicos, compreendendo as tremendas implicações filosóficas das
descobertas neste domínio da física avançada. Em dois livros chave – “Physics and Philosophy” de
Heisenberg e “The Grand Design” de Hawking – é possível desenhar uma panorâmica das
implicações metafísicas das descobertas nos campos da mecânica quântica (e também da
relatividade) na primeira pessoa, em Heisenberg, um dos pais da mecânica quântica, e numa
perspectiva actual, cujo rumo aponta para a busca da teoria do tudo, em Hawking.

Propõe-se revisitar a mecânica newtoniana, os seus fundamentos filosóficos e o caminho percorrido


desde o período clássico para aí chegar, bem como a visão mais recente de dois filósofos
contemporâneos, Karl Popper e Delfim Santos; apresenta-se seguidamente uma panorâmica dos
avanços da física do XX, nos dois extremos do conhecimento: a teoria da relatividade, que se ocupa
do infinitamente grande, e a física quântica, que se interessa pelo infinitamente pequeno. Procura
pôr-se em evidência as implicações metafísicas das suas descobertas e em que medida estas duas
teorias questionam a mecânica racional e a própria noção de realidade; faz-se um paralelo entre a
visão quântica do mundo e a abordagem holística dos misticismos orientais e finalmente apontam-
se as principais implicações filosóficas das descobertas e propostas da física quântica.

1 Alguns contra vontade, como Albert Einstein, que sempre se recusou a aceitar que a criação de Deus fosse
estruturalmente incerta e não determinista.

5
O tempo, absoluto, verdadeiro e matemático, por si e pela sua
própria natureza, corre uniformemente e independentemente de
qualquer influência externa.
I. Newton, Principia.

2 - Os caminhos da Física Clássica

A visão clássica das coisas, do mundo e do universo, repousou durante quase trezentos anos na
fortaleza inexpugnável do mundo mecanicista, cujo fundamento, sólido como um maciço rochoso2
era nas palavras de Newton “o espaço absoluto, na sua própria natureza e sem ter em conta
nenhuma ação externa, permanece sempre idêntico e imóvel”. No mundo newtoniano, perfeito,
eterno e imutável, os graves, isto é, partículas com massa sensíveis à força gravitacional, moviam-
se de acordo com equações matemáticas elegantes e rigorosas, que podiam prever com exactidão,
a posição que assumiria um corpo, dadas as condições x, y, z iniciais e uma força actuante F,
deslocando-se do ponto x1, y1, z1 para o ponto x2, y2, z2, quando actuado pela mencionada força F.

O espaço tridimensional, com comprimento, largura e altura, utilizando os termos da linguagem


corrente, é o palco privilegiado dos movimentos dos pontos materiais, a que no final, são reduzidos
todos os fenómenos físicos. Na visão de Newton, Deus teria criado no começo, as partículas
materiais, as forças que sobre elas agem e as leis que regem o seu movimento e, dado um impulso
inicial no sistema, este teria continuando a correr eternamente, qual máquina comandada por leis
eternas e imutáveis. Há portanto na visão newtoniana um profundo determinismo, em que tudo tem
uma causa definida, dando lugar a um efeito igualmente preciso e previsível.

Na mecânica racional, em harmonia perfeita, os “pontos de massa”, isto é, objectos materiais


pequenos, sólidos e indestrutíveis, a partir dos quais toda a matéria é construída, deslocam-se no
vazio por ação das forças actuantes, de acordo com a sua massa e com o quadrado da distância
entre elas. A matéria é sempre conservada, comportando-se passivamente. Newton inaugura na sua
obra magistral, os “Philosophiae Naturalis Principia Mathematica” um conjunto de definições e
axiomas que determinam um mundo perfeito e fechado, cujas equações traduzem rigorosamente as
possibilidades e graus de liberdade de cada partícula dentro do sistema, permitindo prever
rigorosamente a sua posição e a duração do seu percurso, dadas quaisquer condições iniciais
conhecidas. A representação matemática do sistema assegura a sua harmonia e a impossibilidade
de qualquer contradição. A sua perfeição, aplicabilidade aos fenómenos observados no mundo
macroscópico e facilidade de derivação para todo o tipo de fenómenos naturais, fez com que durante
mais de dois séculos se considerassem as leis da natureza - o trabalho de Deus - adequadamente
desvendadas, nada mais restando aos vindouros, que detalhar e aperfeiçoar a aplicação dos
fundamentos aos casos particulares de cada um. Deste modo, a mecânica newtoniana se foi
estendendo aos domínios da astronomia, definindo com rigor as órbitas e posições de estrelas e
planetas; da mecânica de fluidos e hidrodinâmica, ao mundo das vibrações e fenómenos rotatórios,
à teoria da elasticidade ou à acústica. A extraordinária ferramenta que constitui o cálculo diferencial,
permitiu com relativa facilidade, desenvolver um conjunto de soluções matemáticas capazes de

2Esta alusão à firmeza de uma fundação rochosa é, ela também, curiosamente ilusória. Como mais tarde a geodinâmica
veio a demonstrar, as próprias rochas repousam sobre placas em constante movimento e todo o globo se encontra em
permanente mudança e convulsão.

6
prever e explicar com estonteante precisão, os fenómenos observados no nosso mundo
macroscópico.

Este rigoroso determinismo encontrou em Laplace3 um adepto fervoroso, desenvolvendo um


conjunto de poderosas ferramentas matemáticas que aperfeiçoaram e refinaram os cálculos de
Newton. Seguro da sua ciência, Laplace, na “Mecânica Celeste” defendia, como Descartes, que:

… “Uma mente, que em um preciso momento conhecesse todas as forças actuantes na natureza,
bem como a posição de todas as coisas constituintes do mundo – supondo que era suficientemente
vasta para abarcar uma tal análise – compreenderia na mesma formulação, os movimentos dos
maiores corpos celestes e dos mais pequenos átomos e nada seria incerto para ela, o futuro, tal
como o passado, ser-lhe-iam inteiramente desvendados” …

Mesmo o estudo dos corpos quentes e a teoria do calor, já no Séc. XIX, assimilando as trocas de
calor a uma complicada sucessão de fenómenos de vibração (ou sacudidelas) das moléculas, mais
ou menos intensas consoante o estado físico e a temperatura, asseguravam a descrição desses
fenómenos, servindo-se das ferramentas proporcionadas pela recém-chegada teoria das
probabilidades. Os trabalhos de termodinâmica de Clausius, Gibbs & Boltzmann, fundamentaram
assim, teoricamente as trocas de calor.

O mundo mecânico, perfeito e imutável, constituiu o firme sustentáculo de uma construção


conceptual da realidade completamente explicável e previsível, na qual os fenómenos ocorrem de
modo idêntico, desde que repetidos nas mesmas condições. A sua fenomenologia era descritível
através de equações de elevada precisão, as causas e os seus efeitos bem determinados, a sua
plena compreensão e domínio, gradualmente adquiridos, com uma segurança nunca antes
experimentada. A repetibilidade e previsibilidade garantidas pela teoria, ancoradas num sólido
método experimental e poderosas ferramentas de cálculo, asseguraram o desenvolvimento explosivo
das diversas áreas do saber científico, desde as ciências fundamentais, às aplicadas, garantindo
bases sólidas para os avanços tecnológicos que deram supremacia às sociedades europeias sobre
o resto do mundo. Ainda nas palavras de Laplace, que interpreta magistralmente o dealbar desta era
prodigiosa, a que não será alheia certamente, a sensação de poder que se deve ter apoderado destes
homens extraordinários, dirigindo-se a Napoleão Bonaparte, questionado, ainda acerca da sua
Mecânica Celeste:

- Senhor Laplace dizem-me que nestes seus cinco longos volumes, não menciona uma única vez o
Criador? Ao que Laplace terá respondido: - Sire, na verdade não tive necessidade dessa hipótese!

Tudo corria bem neste bem oleado mundo mecânico da física racional, mas a verdade é que menos
de cem anos passados sobre a célebre resposta de Laplace, começam a despontar as primeiras
brechas neste edifício magnífico, com as descobertas e investigação de J.C. Maxell e M. Faraday no
campo da electricidade e do magnetismo4. Na verdade, estes fenómenos não podiam ser explicados
cabalmente pelo modelo mecânico, carecendo de um novo conceito de força, não como algo que
produz efeitos – uma perspectiva newtoniana – mas antes uma realidade física em si – o campo de

3 Este argumento de Laplace na sua Mecânica Celeste é conhecido também como o Demónio de Laplace, o termo demónio
referindo-se ao intelecto humano.
4 Glazebrook, R. T., James Clerk Maxwell and Modern Physics, pp 18-24.

7
forças – ou simplesmente campo. Assim e em lugar de interpretar a interacção entre uma carga
positiva e outra negativa, dizendo simplesmente que se atraem como duas massas na mecânica
newtoniana5, passou a entender-se que uma carga cria uma “condição” ou “perturbação” no espaço
em seu redor, que origina uma compulsão na outra carga, quando está presente. Esta capacidade
de criar uma perturbação é designada por “campo” e é criada pela carga em si, independentemente
da presença, ou não, de outra carga nas vizinhanças, para sentir o seu efeito. Esta nova abordagem
induz uma mudança radical na forma de olhar a realidade física, já que na óptica newtoniana, as
forças estavam intimamente ligadas aos corpos sobre os quais actuavam, não podendo subsistir
independentemente destes.

Já no Séc. XX a designada nova física, vem tornar evidentes as limitações do modelo newtoniano e
mostrar que a sua validade é limitada, reduzindo-se a uma fracção da realidade, o nosso mundo
macroscópico, revelando-se inaplicável aos domínios do infinitamente grande e do infinitamente
pequeno.

Mas antes de questionar o maravilhoso mundo mecânico de Newton, cujo substrato metafísico mais
próximo provém em grande medida (ainda que não exclusivamente), do racionalismo de Descartes
e das suas consequências para o pensamento, vejamos como foi possível aqui chegar, revisitando
alguns momentos fundamentais da evolução do conhecimento, que permitiram chegar à ousadia de
Laplace.

3 - Os primeiros fisiólogos e a transição do pensamento mítico para o “Logos”

Cerca do Séc. VI a.C., numa colónia helénica na Jónia, na Ásia Menor, nasceu um movimento de
diferenciação do Logos que vai mudar o modo de pensar as coisas e o mundo, abandonando
progressivamente a narrativa mítica e renovando o pensamento, iniciando o que havia de ser a
semente do que hoje conhecemos como civilização ocidental.

Não que a ciência Jónica fosse já o produto da reflexão da inteligência sobre a realidade, formulando
hipóteses sujeitas à prova da experimentação, não se assemelhando em quase nada, à ciência tal
como hoje a entendemos. Na verdade, ela apenas (e quão titânico é este apenas) transpõe para o
plano do pensamento abstrato, um sistema de representação que a mitologia elaborou. As
cosmologias destes primeiros filósofos jónicos retomam e prolongam os mitos cosmogónicos,
buscando uma resposta subtilmente diferente para o mesmo tipo de problema, a emergência de um
mundo ordenado a partir do Kaos6.

Servindo-se do mesmo material conceptual, pelas mãos dos fisiólogos, os fenómenos naturais
começam a ser despidos do seu manto mitológico, desvendando a nudez crua das suas leis naturais.

5 Os fenómenos da electricidade e magnetismo foram inicialmente assimilados por Maxell, a forças actuantes, emulando
as forças gravitacionais, estudando-se os seus efeitos e acções, mais uma vez à luz da mecânica racional.
6 Para Cornford, “não se trata de uma vaga analogia. Entre a filosofia de Anaximandro e a Teogonia de um poeta inspirado

como Hesíodo, as estruturas correspondem-se até ao pormenor. E mais, o processo que leva à construção naturalista do
filósofo, estava já a ser trabalhado na obra de um hino de glória a Zeus, que celebra o poema de Hesíodo. O mesmo tema
mítico de ordenação do mundo repete-se, com efeito, nas duas formas, que traduzem níveis diferentes de abstração.”

8
É assim que os elementos dos Milésios ou dos Eleatas, já não são personagens míticas, como
Ouranos ou Gaia, embora também ainda não se tenham afirmado como realidades concretas, como
Céu ou Terra. São antes poderes eternamente activos, divinos e naturais em simultâneo. E assim os
Deuses são confrontados e tem que passar a coexistir, a partir de agora, com um campo paralelo,
que busca sentido na própria intelecção das coisas e na explicação das suas causas, sem recorrer,
para o efeito, a uma narrativa de cariz antropomórfico.

Lembremo-nos contudo que a dualidade Mithos/Logos persiste, e o que emana da harmonia dos
números e da nova escala musical dos Pitagóricos, por exemplo, tem tanto de racional, na sua busca
do desvendar das relações matemáticas escondidas por detrás da beleza auditiva das suas
harmonias, como de mitológico, no imperativo de manutenção do bem ontológico supremo, a
inserção harmónica do homem em um Kosmos governado por essas mesmas harmonias e seus
números e sem as quais derivará irremediavelmente para a desordem e o Kaos.

Mas a marca fundamental que está na génese do nosso modo racional de pensar, nasce desta
conexão orgânica entre o velho Mithos e o novo Logos, que comumente apelidamos de Razão: um
novo modo de pensar, que progressivamente vai descobrindo que a compreensão do que são as
coisas e das suas razões de ser, tem sentido “em si”, não carecendo de uma narrativa que lhe dê
significado. A inteleção da natureza e dos seus “segredos” passa, desde então a ser “o propósito”,
constituindo uma mudança de qualidade determinante na atitude perante os fenómenos naturais,
que começam a ser objeto de observação apurada e crítica e tentativamente explicados, ainda que
recorrendo muitas vezes a formas distantes do que hoje entendemos como Ciência.

Se se pode falar de um símbolo dessa nova atitude, será sem dúvida a busca da arkhé das coisas e
do mundo natural, no seu sentido cosmológico forte, isto é, aquilo que possibilita, que sustenta, o
“Ser”, opondo-se ao “nada”. É assim para Tales de Mileto (624-548 a.C.) para quem tudo é feito de
água, o sustentáculo metafísico do mundo natural; para Anaxímenes (588-524 a.C.), que atribui essa
função ao “ar”; para Pitágoras (570-? a.C.) que concebe o “número” como sustentáculo do mundo;
para Empédocles (490-444 a.C.) que define os quatro elementos – água, ar, terra e fogo – que ainda
hoje fazem parte do olhar não científico sobre a natureza; para os fundadores da escola atomista,
Demócrito (500-? a.C.) e Leucipo (460-400 a.C.), os primeiros a conceber uma partícula indivisível e
eterna a partir da qual toda a matéria é construída7; é assim enfim, para os restantes protagonistas
desta época fascinante.

Analisemos agora com mais detalhe a contribuição de alguns destes grandes homens, cuja visão é
especialmente relevante para a compreensão da nova física, começando por Anaximandro (610-546
a.C.). Para este filósofo a arkhé cósmica é o apeiron, do qual todas as coisas partem e a que sempre
regressam, remetendo para a noção de “sem limite”, ou indeterminado. Ainda hoje se discute se os
Helenos tiveram, ou não, a intuição do infinito, no sentido moderno do termo, mas esta é seguramente
uma das primeiras, senão a primeira afirmação desta noção fundamental para a nova física. Outras
duas visões que trilham caminhos diversos, ou mesmo antagónicos segundo alguns autores, são as
de Parménides (c. 512 a.C.) e Heraclito (c. 500 a.C.).

7Note-se que o átomo de Demócrito e Leucipo pouco tem a ver com o conceito da física contemporânea, à excepção talvez
do nome, como adiante se verá.

9
Parménides preocupa-se com o fundamento ontológico da realidade, concluindo acerca da
necessidade do absoluto do Ser, a sua arkhé, aquilo que faz com que tudo seja e não pereça para
sempre, ou nunca tenha sequer existido. Parménides, numa argumentação puramente lógica, afirma
que o “devir”, ou seja a mudança que observamos todos os dias no mundo real, é ilusório e, nesse
sentido absoluto, não é possível ao Ser, não-Ser, em simultâneo, isto é, o par Ser/não-Ser é
impossível. Parménides nega a possibilidade de algo fora do ser, para este fisiólogo, o vazio não é
possível logicamente.

Heraclito pelo contrário, preocupa-se com a natureza da mudança que se observa em tudo, na
natureza e nos seus fenómenos. É vulgar usar-se a sua famosa frase, de que “não nos podemos
banhar duas vezes na mesma água do mesmo rio”, aplicando-a às mais diversas situações do dia-
a-dia. A filosofia de Heraclito, cuja arkhé é o Logos, que se exprime materialmente no fogo, sustenta
que tudo se move e o movimento é absoluto. Fala do uno e do múltiplo e da tensão, ou tonos, entre
eles, que constitui o motor da transformação da realidade e os unifica. O devir é assim uma força
absolutamente positiva8 que faz mover o mundo. Há nesta visão de Heraclito um prenúncio do que
virá a ser a gnosiologia empirista, para a qual todo o saber provém da experiência sensível.

Esta visão heraclitiana do devir e da tensão entre o uno e o múltiplo, é vista por muitos físicos
contemporâneos, como Heisenberg9, como traduzindo com mais fidelidade a representação filosófica
dos fenómenos estudados pela nova física e oposta à visão estática de Parménides, que poderá ser
aproximada a um ponto de vista que hoje se poderia caracterizar como racionalista. Nas palavras de
Heisenberg “… se substituirmos a palavra “fogo” por “energia” podemos quase repetir as suas
afirmações palavra por palavra, do nosso ponto de vista moderno…”. Bohr, por outro lado, interessa-
se pelo Tao, adoptando aliás o símbolo do “yin/yang” como cota de armas, cuja divisa era ”contraria
sunt complementa”. Para Bohr, Heraclito é o filósofo grego que mais se aproxima do misticismo
oriental.

Há que ressalvar no entanto, que esta aparente contradição entre estes dois importantes fisiólogos,
pode ser amenizada, se olhada à luz da interpretação de A. Pereira10

“ … O fundamental quer da intuição de Parménides quer da intuição de Heraclito não é o modo


particular externo como transmitem as suas descobertas, mas o cerne destas. E o cerne das intuições
destes filósofos, aparentemente nos antípodas metafísicos um do outro, é o sentido do absoluto do
que é. Só que esse absoluto é diferente, oposto mesmo. Mas não é esta oposição que é o
fundamental, mas sim a intuição de um absoluto princípio que tudo explica, que tudo permite
compreender. Quer o «Logos», para Heraclito, quer o Ser, para Parménides, são o absoluto do que
é. Sem o «Logos», não há actualidade ontológica alguma; o «Logos» é, pois, tão “imóvel” quanto o
Ser de Parménides. …”

Outro actor importante no caminho para o conceito contemporâneo de átomo é Anaxágoras (500-
428 a.C.) contemporâneo de Empédocles, para quem as coisas do mundo se estruturam em11 “…
espírito (nous), sementes (spermata) e sua relação. Tudo é materialmente constituído por infinitas e

8 É talvez a primeira intuição de força no sentido de motor da transformação e resultado, ontologicamente positivo, do
equilíbrio entre os opostos.
9 Heisenberg, W., Physics and Philosophy, pp. 28-32
10 Pereira, A. Lições de História da Filosofia Antiga, pp. 23-24.
11 Ibidem, pp. 25-26

10
infinitamente divisíveis sementes ontológicas, que são modos materiais qualitativos. …” A visão da
composição das coisas pelas sementes, capazes de construir todo o tipo de matéria, variando
unicamente as suas proporções, é uma das primeiras afirmações da noção de “mistura” e
“separação”. Para este fisiólogo o Universo é posto em movimento por um impulso inicial do Nous.

Para Leucipo e Demócrito (c. 460-400 a.C.), fundadores do Atomismo, o Kosmos, que é eterno,
constitui-se de elementos materiais, igualmente eternos, em número infinito e indivisíveis - os átomos
- que seriam assim os constituintes elementares da matéria, a partir dos quais a realidade é
construída. Entre os átomos, o espaço vazio (interatómico) onde aqueles se movimentam. Para os
Atomistas, o espaço é infinito e vazio, sendo preenchido pelo movimento eterno dos átomos, limite
último para a divisão da matéria, absolutamente simples, não nascendo ou perecendo. Sendo
infinitamente diversos, na forma e na ordem relativa e posição, e sendo o seu número infinito, um
número igualmente infinito de combinações entre eles é possível, engendrando a possibilidade de
infinitos mundos, todos diferentes. Apesar de reportarem a realidades radicalmente diversas do que
hoje entendemos por átomos e mundo subatómico, a verdade é que esta intuição de Leucipo e
Demócrito propõe algumas ideias que se aproximam de conceitos gerais da teoria atómica, como
por exemplo o espaço inter-partículas, onde estas se movimentam ou a partícula elementar a partir
da qual a matéria é construída.

Cabe ainda mencionar Euclides (330 - 277 a.C.), de Alexandria, cuja síntese do pensamento
matemático grego, os Elementos, permaneceu conceptualmente válida até finais do Séc. XIX,
incorporando um conjunto de axiomas, definições e postulados fundadores da matemática, como a
geometria do plano, a teoria das proporções, a teoria dos números e a geometria do espaço12; e
Hipócrates (460 – 370 a.C.) o fundador da medicina como ciência, cujo juramento ainda hoje constitui
um ritual fundamental do exercício da medicina.

4 - O saber verdadeiro e a opinião em Platão e a ciência como demonstração de Aristóteles

Platão, vulto maior da história universal, encara a natureza como um mero (e imperfeito) reflexo do
mundo das ideias, imutável e eterno. Propõe um dualismo radical, que induz uma fractura
inultrapassável entre o mundo sensível e o mundo inteligível, que considera de ordens diferentes. O
saber verdadeiro – episteme – preocupa-se com o Ser e a sua natureza e opõe-se à opinião – doxa
– sobre as coisas do devir. O saber assume um carácter absoluto, constituído por verdades
universais, eternas e imutáveis. O mundo sujeito ao devir, à mudança, é desvalorizado como simples
sombra do verdadeiro mundo. A esta concepção inatista radical, proposta na República, que pode
mesmo apodar-se de inatismo gnosiológico13 e deve ser lida no contexto da política ateniense, já que
visava em grande medida combater o relativismo reinante de Protágoras, ou os cépticos como
Górgias, sucede-se um Platão mais moderado e optimista do Timeu, propondo o artífice criador do
mundo, o Demiurgo, ao serviço do bem, e a que não serão alheias as críticas severas do seu

12 Dimas, S. Lições de Epistemologia, 3ª Lição, A Filosofia e a Ciência da Antiguidade à Idade Média: a influência grega e
judaico-cristã no desenvolvimento do conhecimento científico, pp. 4-9.
13 Ibidem, 4ª Lição, Diferença entre Ciência Clássica e Ciência Moderna a partir de uma leitura de Bernard Lonergan, pp 3-

5.

11
discípulo Aristóteles, cuja visão se autonomiza da do Mestre, propondo uma maior dignificação do
mundo sensível.

Em Aristóteles a ciência abre-se ao mundo sensível, amenizando-se a fissura aberta por Platão entre
ciência e opinião. Não obstante a sua concepção da ciência é puramente demonstrativa, partindo de
premissas universais e verdadeiras adquiridas por indução educada e crítica, para chegar a
conclusões universais e necessárias14. O saber sobre o mundo sensível, desvalorizado por Platão,
que Aristóteles acredita ser possível, passa a ser objecto da ciência, buscando as propriedades
constantes das coisas e estudando as suas relações ou nexos e o seu movimento (no sentido geral
de modificação ao longo do tempo). Aristóteles funda os diversos ramos das ciências do mundo
natural tal como hoje as conhecemos: biologia, geologia, astronomia, etc. e a intuição estabelece-se
como o seu princípio,15 cada domínio fundando as suas premissas e princípios próprios. Para
Aristóteles todas as ciências partem de axiomas que suportam a demonstração, havendo alguns
contudo, comuns a todas as ciências e válidos para toda a forma de pensar enquanto tal: o princípio
de não contradição (não se pode afirmar e negar do mesmo sujeito ao mesmo tempo e sob o mesmo
aspeto dois predicados contraditórios), identidade (toda a coisa é ela própria) e terceiro excluído (não
é possível que haja um termo médio entre dois contraditórios). Aristóteles propõe um realismo
moderado que admite a superioridade do entendimento sobre a sensação, em que o saber o “porquê”
das coisas se sobrepõe à simples verificação do “quê”, reconhecendo que a universalidade é uma
forma da mente. A experiência é entendida de forma muito diversa daquela que conhecemos e
constitui-se como o conhecimento de todas as coisas singulares16. A sabedoria é assim o
conhecimento das primeiras causas e constrói-se sobre os primeiros princípios17.

5 - A Idade Média e a contribuição da visão judaico-cristã

O caminho da ciência até aos nossos dias, possibilitando os avanços civilizacionais capazes de
produzir o conhecimento racional e científico que deram origem à física contemporânea, não pode
ser compreendi sem uma referência à importância da contribuição da concepção judaico-cristã do
cosmos.

Para esta tradição, que está na fundação da nossa cultura ocidental, o mundo é criado ex-nihilo, por
um acto livre de Deus, não constituindo uma sua emanação, nem tampouco se confundindo com
Ele18. A criação é pura positividade, concebida como algo de bom. Para Sto. Agostinho o mundo não
é gerado a partir da substância de Deus é criado como algo de diverso a partir do nada (a semelhança
desta concepção com a criação ex-nihilo de universos da cosmologia quântica é notável). O tempo,
de acordo com esta interpretação, é algo que se cria em simultâneo, não havendo antes nem depois,
na perspectiva humana.

14 Ibidem, 4ª Lição, Diferença entre Ciência Clássica e Ciência Moderna a partir de uma leitura de Bernard Lonergan, pp 6-
14.
15 Aristóteles, Analíticos Posteriores, A10, 76b.
16 Aristóteles, Metafísica, §1, 981a.
17 Ibidem §1, 981b 30.
18 18 Dimas, S. Lições de Epistemologia, 3ª Lição, A Filosofia e a Ciência da Antiguidade à Idade Média: a influência grega

e judaico-cristã no desenvolvimento do conhecimento científico, pp. 10-21.

12
Esta visão do mundo como uma realidade boa criada por ação livre de um Deus omnipotente que
não se identifica com esse mundo criado, tem para muitos autores uma influência importante no
desenvolvimento do conhecimento científico, já que pressupõe um mundo ordenado e racional, cuja
organização e funcionamento pode ser estudada e compreendida. Se o mundo fosse pura
negatividade, anárquica e inconsequente, não poderia haver daí qualquer ciência, dada a sua
natureza necessariamente imprevisível e caprichosa. Na verdade o mal ontológico não é concebível
na concepção judaico-cristã, o que determina a possibilidade da ciência aventada anteriormente.
Cabe aqui mencionar a importância do Concílio de Niceia (325), a noção de criação e não geração
do Universo foi afirmada, concílio onde também se afirma a recusa dos dualismos maniqueístas do
Bem contra o Mal das cosmologias antigas, que consideram o mundo como um campo de batalha
entre esses dois princípios eternos, perspectiva que condicionaria de igual maneira a interpretação
científica do mundo, que seria olhado antes como o resultado imprevisível de uma luta entre estas
duas forças.

Nesta fase ainda pré-científica, Santo Agostinho estabelece uma distinção importante entre a razão
sapiencial e a razão científica, atribuindo a esta última a busca do conhecimento constituído pelas
verdades temporais e mutáveis19. Mais tarde, São Tomás de Aquino (1225 - 1274) dá mais um
pequeno passo com a retoma a classificação das ciências de Aristóteles e já no Séc XII a escola
franciscana inglesa produz três grandes vultos cujo papel é muito relevante: Robert Grosseteste
(1175-1253), Roger Bacon (1214 - 1292) e Guilherme de Ockham (1280 - 1347). Refira-se a
importância deste último, fundador da escola Terminista também conhecida por Ockhanismo, que
mostra crescente preocupação com a explicação do mundo e da natureza, salientando a
necessidade de fugir à subordinação da filosofia à teologia. Ockham preconiza um afastamento entre
as duas, com os seus domínios e verdades específicas. Alguns discípulos de Ockham chegam
mesmo a defender que tudo se pode explicar por causas naturais (prenunciando a visão empirista)
e a impossibilidade dos milagres, postulando que a natureza é o grande milagre de Deus. Refira-se
ainda que o pensamento de Ockham e a polémica com o Papa João XXII, que se opunha aos
Franciscanos, levam-no mesmo a enfrentar a acusações de heresia.

6 - Os avanços da Renascença

Durante a Renascença criam-se de facto as condições pata o desenvolvimento da ciência tal como
hoje a conhecemos. De todos os actores da verdadeira revolução do pensamento que se deu na
altura, cabe mencionar o papel o relevante de Copérnico (1473 - 1543), Giordano Bruno (1548 -
1600) e Galileu (1564 - 1652). Com testes três cientistas pode dizer-se que nasceu a ciência moderna
e o método experimental. É neste período que o saber deixa a esfera da Igreja e se liberta do
espartilho da escolástica, e do método especulativo das disputaciones, ensaia-se a construção de
instrumentos para melhor compreender as realidades naturais e o seu funcionamento. Ensaiam-se
métodos sofisticados de previsão, com vista a comprovar as teorias entretanto formuladas; discute-
se a natureza objectiva da matéria e despontam as noções de infinito20. A teoria heliocêntrica de
Copérnico, vem acender a polémica, já que Aristóteles defendera que a Terra era o centro do

19Ibidem.
20 Bruno, G. Acerca do Infinito, do Universo e dos Mundos, Livro Primeiro (trad. port., Lisboa, Fundação Calouste
Gulbenkian, 1998, 4.ª ed.).

13
universo. Para Aristóteles o Sol girava em seu redor e o movimento circular da última esfera celeste
fechava o universo, concepção seguida por Ptolomeu que concebeu um complicado sistema do
mundo para explicar as discrepâncias com as observações empíricas. Copérnico, ao invés, colocava
o Sol no centro, a Terra girando ao seu redor, mas imobilizava a última esfera, onde colocava as
estrelas fixas. É a ideia de um limite fixo que parecerá a Giordano Bruno contraditória, não tanto por
razões científicas, quanto por razões teológicas. Bruno defendeu em contrapartida, que a noção de
finitude implica a noção de limite, mas que esta não pode ser atribuída, sem contradição, à totalidade
do mundo. A esta convulsão rica em confronto de ideias contraditórias segue-se um período
filosoficamente muito rico, com as escolas racionalista e empirista descritas no capítulo seguinte.

7 - A Idade Moderna, o Iluminismo e dois contemporâneos


7.1 O cartesianismo

Para Heisenberg21 o substrato metafísico que sustenta as certezas inabaláveis da mecânica racional,
mencionadas no ponto 2, provém directamente (ainda que não exclusivamente) da descoberta do
“cogito” por Descartes e das suas consequências. A abordagem cartesiana na busca da razão
primeira, servindo-se da ferramenta radical da “dúvida metódica”, parece garantir um fundamento
racional firme e indesmentível para o conhecimento (científico).

Olhando a realidade de fora, na perspectiva do cogito, e depois de constatar que existe e que é mais
fácil conhecer o cogito - “res cogitans”- que reside para além da contingência do mundo sensível, do
que o corpo e o mundo exterior - “res extensa” - Descartes introduz um dualismo renovado22, que
serve perfeitamente os interesses na conceptualização dos fenómenos que é característico da física
newtoniana. De igual modo, a criação da geometria analítica por Descartes, representando com rigor
a posição dos corpos no espaço tridimensional, é outro contributo maior do grande filósofo para a
descoberta das leis que regem o mundo perfeito e determinista criado por Deus.

Na verdade o dualismo cartesiano, opondo-se aos monismos dos fisiólogos nos alvores do
helenismo, é uma das marcas paradigmáticas do conhecimento na tradição ocidental. Assim é para
Platão e Sócrates, o mundo das ideias (perfeito e inacessível) opondo-se ao mundo sensível; para
Aristóteles, em que assume uma dupla dualidade, nos pares “matéria-forma” e “potência-acto”; para
Sto. Agostinho e para os tomistas, provendo o substrato racional ao Cristianismo, uma visão dual
que convinha perfeitamente ao Deus único criador do mundo e do homem; e também para a ciência
renascentista e a idade moderna, cujo caminho do geocentrismo para o heliocentrismo e o abandono
da noção medieval de movimento (herdada de Aristóteles) abrem caminho à mecânica racional. À
luz desta dualidade, os indivíduos concebem-se com mentes vivendo dentro dos seus corpos
materiais23, fragmentação interior que transpira para o trabalho de estudo dos fenómenos naturais,
eles igualmente olhados “de fora”, como se o observador não fosse actor ele próprio, no acto de
observar. A divisão cartesiana e o método científico são extremamente bem-sucedidos na edificação
do corpus de conhecimentos das ciências puras e naturais, e a visão fragmentária universaliza-se,

21 Heisenberg, W., Physics and Philosophy, pp. 40-45.


22 Na realidade trata-se mais de uma tríade – Deus-Mundo-Eu – já que o papel de Deus não se cinge à criação do mundo,
e mesmo não interferindo directamente, é condição necessária para a sua existência.
23 Não enfermando da radicalidade platoniana da alma presa ao corpo e escrava deste, esta visão opõe-se radicalmente à

visão holística do homem, característica dos monismos orientais.

14
estende-se à organização social e do trabalho, propiciando a especialização. Ainda hoje
experimentamos as consequências altamente benéficas, mas igualmente adversas, dessa excessiva
compartimentação24.

As certezas do mundo cartesiano vão ser duramente postas à prova pela nova física, que questionará
até ao nervo o seu determinismo.

7.2 O empirismo

A contrapartida empírica desta visão racionalista vai, ela também ser fortemente abalada pelas
descobertas da mecânica quântica. O empirismo inglês, proposto por Locke, Berkeley e Hume,
considera o conhecimento como puro fruto da experiência sensível, derivando de uma forma ou de
outra da percepção. Esta concepção levou no extremo, ao cepticismo Humeano, que nega a
causalidade e indução e não autoriza uma ciência dos universais. A própria natureza dos fenómenos
quânticos desfere um rude golpe nesta visão, na medida em que noções como velocidade e posição
de um electrão, que parecem perfeitamente legítimas à luz da mecânica racional, deixam de fazer
sentido no mundo do infinitamente pequeno, em que tais observações não são possíveis. O
conhecimento das realidades quânticas obriga ao recurso a conceitos que não encontram sempre a
sua justificação imediata, são, ou parecem ser contraditórios e não são verificáveis
experimentalmente de forma objectiva e directa, como pressupõe o empirismo. Isto não quer dizer
contudo que não seja possível encontrar, para lá do sensível, a sua própria causalidade e natureza
fundadas numa ordem, que é contudo diversa da do mundo macroscópico.

7.3 O criticismo kantiano

A ultrapassagem do dilema entre o racionalismo cartesiano e a visão empírica proposta pelo


criticismo kantiano encontra, ela também, objecções poderosas na física contemporânea. Na
verdade, as noções de espaço e tempo25, enquanto formas puras da sensibilidade, são desde logo
postas em causa pela relatividade, que introduz conceitos completamente novos de tempo e espaço,
postulando a sua dependência intrínseca e variabilidade, refutando inelutavelmente a visão kantiana.
Igualmente o apriorismo dos juízos sintéticos26, como o de causalidade, é questionado na sua
essência, já que em mecânica quântica não é possível falar da noção de causa e efeito em absoluto,
e o nexo de causalidade que se estabelece na previsão dos fenómenos é essencialmente não
determinístico, o resultado final não estando na dependência do conhecimento de todas as variáveis
locais que intervém num determinado processo, mas sendo antes fruto de uma natureza
intrinsecamente probabilística.

7.4 Duas concepções contemporâneas como formas novas de interpretar a nova física: o realismo
crítico de Karl Popper e as regiões da realidade de Delfim Santos

No Séc. XX, o realismo crítico de Karl Popper (1902 - 1994) e as noções de polirealidade e de
pluriverso, propostas por Delfim Santos (1907-1966) constituem um interessante contributo para o

24 Os graves problemas de que as sociedades contemporâneas tem sido vítimas, como a crise ecológica e económico-
social são também, em certa medida, o resultado desta interpretação da realidade.
25 Kant, E., Crítica da Razão Pura, A718, B746.
26 Ibidem, B4, B10.

15
enquadramento filosófico e a interpretação das consequências da mecânica quântica27. Começando
por Popper, este propõe uma epistemologia fortemente crítica do positivismo lógico e do
neopositivismo da Escola de Viena, defendendo em contrapartida, uma concepção heurística e
dinâmica da ciência, que longe de possuir as respostas certas para as questões, hauridas através
da intuição empírica, se constrói a partir de hipóteses e teorias dependentes do controlo
experimental, na forma de refutação e falsificação das conjecturas. Para Popper, o critério de
falsificabilidade faz a demarcação entre o conhecimento empírico e não empírico (a metafísica ou a
teologia, por exemplo) estabelecendo que uma teoria se considera científica só quando pode ser
falsificada ou desmentida e contraditada. Se não puder ser refutada pela observação uma ciência
não tem carácter empírico. As ciências não empíricas como as lógicas e matemáticas, devem ser
contraditadas e resistir à contradição como critério de verdade. Para este autor, a teoria científica
distingue-se do mito por poder ser criticada. Em Popper, o universo é dinâmico, imponderável e
provável, concepção que é muito interessante para a abordagem dos problemas epistemológicos
levantados pela física contemporânea. Citando Popper:

“…vivemos assim num universo aberto, uma abertura que não depende exclusivamente da existência
do conhecimento humano mas, essencialmente, da rejeição de todas as perspectivas de um universo
fechado - de um universo tanto causal como probabilisticamente fechado ....vislumbrado por Laplace,
bem como o universo vislumbrado pela mecânica ondulatória. O universo é parcialmente causal,
parcialmente probabilístico e parcialmente aberto: é emergente.”28

Em Delfim Santos encontra-se uma visão pluralista da realidade, que é encarada como um conjunto
de estratos sobrepostos em pirâmide, uma verdadeira ontologia regional, em que o objectivo é
distinguir as várias esferas do ser29. Para Delfim Santos o problema da análise categorial da realidade
traduz-se nas várias camadas em que esta se articula: a primeira que é a mais vasta e o suporte de
todas as outras, é a matéria, que se explica pela causalidade; sobre esta apoia-se a camada da vida,
cujo atributo é a finalidade, seguidamente, a consciência, explicada pela intencionalidade e, por fim,
o espírito, a mais restrita, cuja característica distintiva é a liberdade. Este último patamar é apenas
acedido pelo homem. Nas palavras do autor: “O espírito é sempre relação, é aquela ‘porção de
homem’ que revela o homem ao homem e que o une com o homem”.

Para Delfim Santos o universo não é um amontoado de coisas e a ciência não produz um amontoado
de nomes para designar essas mesmas coisas, é antes construída a partir de enunciados discursivos
que são objecto de verificação. Para este autor a verdade científica pode ser dada em termos de
probabilidade, embora não se reduza a um mero cálculo de probabilidades e o acesso à verdade
científica faz-se por vias diversas, sendo os critérios de verdade dependentes da coerência e
adequação entre o ser e o pensar. A afinidade desta concepção com algumas perplexidades
experimentadas pela física teórica contemporânea é como em Popper, muito marcante.

27 Dimas, S. Lições de Epistemologia, 11ª Lição, O racionalismo crítico de Karl Popper e Delfim Santos, na oposição ao
Neopositivismo, pp. 2-9.
28 Karl Popper, O Universo aberto, pp. 128-129.
29 Sirgado Ganho, M.L., Lições de Ontologia, pp. 24-26.

16
“Sometimes I've believed as many as six impossible
things before breakfast.”

Lewis Carroll

8 - As estranhas leis do infinitamente pequeno

8.1 - No início era o átomo

Mas afinal de que se trata quando falamos de física quântica? A sua origem remonta à descoberta
de um fenómeno correlacionado, relativo à matéria aquecida a altas temperaturas, que irradia numa
tonalidade vermelha inicialmente e depois branca, seja qual for o material de que é constituída e a
sua cor iniciais. Estudado em corpos negros pela sua neutralidade cromática, o fenómeno deveria
ter uma explicação simples no quadro das teorias da radiação e termodinâmica. A verdade contudo
é que as sucessivas teorias que baseavam a sua interpretação nessas formulações clássicas todas
falharam, (as investigações no final do Séc. XIX de Lord Raleigh & Jeans, em particular) até que Max
Planck, no início do Séc. XX inflectiu a investigação da radiação geral para a radiação atómica,
simplificando a abordagem matemática da relação entre radiação e calor. Da aplicação das suas
fórmulas simples às experiências (teóricas ou laboratoriais) entretanto conduzidas por Rubens &
Curlbaum, no domínio da radiação e do calor, Planck descobre que as suas leis simples se aplicavam
na perfeição aos estranhos fenómenos observados nos corpos muito quentes e que essas fórmulas
se comportavam como um oscilador, isto é, denunciavam uma mesma e bem definida quantidade de
energia libertada ou absorvida, como se essa variação se desse por saltos e não, como seria de
esperar, em contínuo. É famosa a história contada pelo seu filho, que em passeio no parque de
Grunewald, nos subúrbios de Berlim, o seu pai lhe confidenciara, reflectindo sobre as perplexidades
suscitadas pela investigação, uma estranha sensação, como se estivesse a desvendar os segredos
mais profundos da matéria30. A ideia de que a energia só podia ser emitida ou absorvida em
quantidades discretas, mais tarde batizadas de quanta por Einstein, era tão nova e estranha que não
podia enquadrar-se na física clássica, apesar das tentativas desesperadas de Planck de a tornar
compatível com as teorias de radiação e do calor. O jovem Einstein entretanto avançou com uma
ousada interpretação do fenómeno, para ajudar a lidar com as duas realidades revolucionárias com
que entretanto se deparava: a primeira, decorrente do efeito fotoeléctrico, resultante da emissão de
electrões por uma fonte luminosa, que não dependia da sua intensidade, mas antes da cor, ou
melhor, da sua frequência. Este efeito era inexplicável à luz da teoria clássica, mas encontrava uma
clara interpretação se admitisse que a luz era constituída por uma determinada quantidade de
energia viajando pelo espaço. O fenómeno tornava-se ainda mais claro se se servisse dos resultados
da investigação de Planck, que constatara que essa quantidade, sempre a mesma, era igual à
frequência da luz multiplicada pela constante de Planck; a segunda consistia no calor específico dos
corpos, que na teoria clássica era consistente nas altas e médias temperaturas, mas falhava
dramaticamente no campo das temperaturas muito baixas. Einstein demonstrou que aplicando a
teoria de Planck à vibração elástica dos átomos que constituíam a matéria fria, se obtinham
resultados consistentes com as observações experimentais. A partir daqui a teoria da natureza da
luz mudou radicalmente, e esta passou a ser interpretada como um fenómeno duplo,
simultaneamente ondulatório e corpuscular, encarando Einstein esta contradição como algo normal
no começo da investigação, certamente explicável mais tarde, com os desenvolvimentos futuros. Era
todo um campo novo a desbravar, com um longo caminho a percorrer. Ocorriam em paralelo
importantes avanços na investigação da estrutura do átomo, com os trabalhos de Curie, Rutherford

30 Heisenberg W., Physics and Philosophy, pp 4-5.

17
e Becquerel, resultando no famoso modelo do átomo de Rutherford. Nada da teoria da mecânica
racional parecia funcionar quando aplicado à órbita do electrão, em torno do núcleo atómico. Desde
logo a sua estabilidade era intrigante, nenhum sistema planetário seria tão estável como ele,
regressando rapidamente às condições iniciais depois de uma colisão. Também era impossível uma
explicação satisfatória para o espectro de emissão, depois da sua excitação com uma descarga
eléctrica ou de calor. Parecia haver novas e estranhas leis dos quanta, determinando quais os
patamares, ou estados estáveis do átomo, nada parecendo existir de permeio, como se houvesse
uma descontinuidade, um buraco no continuum do espaço, dado pela constante de Planck. Nascia
a mecânica quântica.

Apesar das inconsistências e perplexidades, a maioria dos envolvidos nesta viagem aos segredos
mais profundos da matéria, acreditava que mais tarde ou mais cedo, seria possível esclarecer, com
a clareza e distinção31 a que a física clássica os havia habituado, as indeterminações que insistiam
em colar-se à teoria, como se a incerteza fosse não uma deficiência da teoria e/ou da observação,
mas antes algo de estrutural. A verdade é que cada vez mais cientistas se convenciam de que
estavam em presença de algo muito diferente. Em 1924, Louis de Broglie experimenta estender esta
natureza dual partícula/onda, às partículas elementares da matéria, sugerindo que uma certa onda
de matéria pode corresponder ao movimento de um electrão, à semelhança de um quanta de luz em
movimento. Ao tentar determinar as órbitas assim sugeridas, começa a ganhar força a
impossibilidade real - material ou teórica - de determinar com precisão a posição e o momento de
uma partícula determinada, em volta de um qualquer núcleo. É possível medir com precisão a sua
posição, ou o seu momento, num dado instante, mas não os dois em simultâneo, sendo ambos
mutuamente exclusivos, ou seja, quando se conhece a posição é impossível conhecer o momento e
vice-versa. Este fenómeno intrigante e nunca antes observado num sistema, leva Heisenberg a
formular em 1927, o seu famoso enunciado fundador da mecânica quântica, impondo restrições à
possibilidade de encontrar um electrão numa determinada posição na nuvem electrónica e cuja
expressão matemática é:


∆𝑥𝑖 ∆𝑝𝑖 ≥ 2

em que h é a constante de Planck dividida por 2. Heisenberg, Bohr e mais tarde todos os envolvidos
na famosa reunião de Copenhaga que dará origem à interpretação do mesmo nome, começam lenta
mas seguramente a compreender que a indeterminação que decorre desta formulação não é uma
deficiência da teoria mas uma propriedade intrínseca às realidades atómica e subatómica. As
previsões probabilísticas não são para os autores da Interpretação de Copenhaga (IC), redutíveis ao
desconhecimento de um qualquer parâmetro ou variável local, são elas próprias paradoxalmente,
estruturalmente indeterminísticas.

8.2 - A Interpretação de Copenhaga e o afastamento de Einstein

A IC nasce de um paradoxo32. Sabemos que qualquer fenómeno da física, refira-se à experiência


quotidiana, à complexidade dos sistemas planetários ou à física subatómica, é descrito e sempre o
será, usando os termos da física newtoniana, servindo-se da linguagem comum e das suas

31 Pode entender-se esta noção de clareza e distinção à maneira de Descartes, traduzindo a profundidade e exactidão que
se requer do conhecimento de uma determinada realidade.
32 Heisenberg, W., Physics and Philosophy, pp 15-25.

18
poderosas ferramentas. Conscientes das suas limitações sabemos contudo que não podemos, nem
devemos procurar alternativas, porque estas não existem. No entanto o desafio posto aos físicos
reunidos em Copenhaga durante o ano de 1927, foi precisamente este: como é possível descrever
uma experiência teórica como as que conduziram à mecânica quântica, que transcende a linguagem
newtoniana convencional, nessa mesma linguagem, a única ao dispor para transmitir essas
realidades?

Como se afirmava no início do ponto 2, para a mecânica racional é possível prever com exactidão, a
posição de um corpo determinado, dadas as condições x, y, z iniciais e uma força actuante F,
deslocando-se do ponto x1, y1, z1, para o ponto x2, y2, z2, quando actuado pela mencionada força F.
Todas as condições do sistema são perfeitamente definidas por um conjunto de equações
matemáticas rigorosas. Ora o mesmo não se passa na mecânica quântica. Imagine-se que se
pretende determinar a probabilidade de encontrar um determinado electrão na nuvem electrónica,
em dois momentos dados: quando a função de probabilidade é determinada, no início de uma
observação, é possível pelas leis da mecânica quântica, calcular essa função de probabilidade, para
um qualquer momento posterior, prevendo assim o valor de probabilidade de encontrar o electrão na
nuvem. Esse cálculo posterior não é contudo, o resultado do conhecimento perfeito do percurso feito
pelo electrão, mas apenas um valor de probabilidade de ele se encontrar noutro ponto determinado
passado um tempo dado. A previsão apenas representa uma tendência para que determinados
acontecimentos ocorram, influenciada ainda pela nossa capacidade de os conhecer. Deste modo a
interpretação da experiência obedece a três passos33: (1) a transcrição da experiência numa função
de probabilidade; (2) a evolução dessa função no tempo e (3) o cálculo do novo valor através da
função de probabilidade. O primeiro passo implica necessariamente o cumprimento de certas
relações de incerteza; o segundo passo é completamente desconhecido e impossível de conhecer34
e só no terceiro passo é possível regressar do plano da probabilidade para a actualidade. O problema
real desta interpretação põe-se quando se pretende responder à pergunta: - Mas o que acontece
realmente durante a experiência? A realidade é que não é possível responder a essa pergunta, a
função de probabilidade descrevendo não um, mas vários possíveis eventos que conduzem à
actualização da probabilidade, eventos possíveis que só se materializam num evento específico, no
preciso acto de observar. Há aqui portanto uma incerteza intrínseca, o que não significa contudo
qualquer tipo de anarquia. A mecânica quântica permite previsões perfeitamente quantificáveis e
seguras, simplesmente a estas previsões está inerente uma incerteza intrínseca que não é levantada
pelo conhecimento completo das variáveis locais que a condicionam, como ao lançar os dados, ou
fazendo previsões sobre a evolução dos mercados ou da meteorologia. Acresce outro aspecto
igualmente estranho que se observa apenas neste domínio do infinitamente pequeno. A existência
material das realidades estudadas só se actualiza no acto de observação, isto é, sem uma
determinada observação que objective a sua posição, o electrão não se encontra em lado nenhum
materialmente descritível. Apenas mostra uma determinada tendência para aparecer. Esta visão terá
enormes implicações nos estudos recentes sobre a massa do universo, nos campos da matéria e
energia negras e na possibilidade da criação de universos ex-nihilo, ou seja literalmente a partir do
nada.

As implicações filosóficas desta concepção são enormes, como se verá no capítulo 9, já que,
implicam que o observador que até agora tinha sido olhado como isso mesmo, alguém que não
intervém, torna-se ele próprio (e os seus instrumentos de medição) actor e participante activo da

33 Heisenberg, W., Physics and Philosophy, pp 15-16.


34 Na verdade em mecânica quântica não faz sentido falar em caminho do electrão de A para B;

19
experiência que está a conduzir, passando a fazer parte do sistema. Acresce que se verifica ainda
outro fenómeno particular e que contradiz a nossa forma mais profunda de encarar a realidade. Para
a IC, num evento quântico entre duas partículas – uma colisão por exemplo – há um efeito
instantâneo de uma medição feita numa partícula em um ponto determinado, na outra partícula, em
outro ponto afastado independentemente da distância que as separa, isto é, sem que as partículas
possam ter interagido novamente (no sentido material do termo). Note-se que esta concepção
contradiz o postulado da relatividade, na medida em que não é possível que haja interacção da
observação feita em uma partícula na outra, em simultâneo, sem violar o limite universal da
velocidade de luz.

O paradoxo proposto pela IC, que postula que uma partícula subatómica não tem uma posição nem
um momento definidos, sem que ocorra uma observação que actualize o que até essa observação
não passa de uma possibilidade, conhecido como EPR35, a partir das iniciais de Einstein-Podolsky-
Rosen, desce ao nervo da divergência entre as visões que a física clássica e quântica nos oferecem
da realidade. A visão clássica, da qual Einstein, nunca abdicará, discordando frontalmente da IC,
mantendo que numa observação não criamos a realidade apenas a observamos e o indeterminismo
intrínseco constatado resulta do desconhecimento da totalidade das variáveis em presença. É
famosa uma frase sua referindo-se à IC de que “Deus não joga aos dados com o universo”. Esta
posição de Einstein, de um claro realismo dogmático, que manteve até ao final da vida, compreende-
se considerando a sua dificuldade em aceitar um mundo indeterminado e caótico como o que a
mecânica quântica parecia anunciar. O mundo quântico era, nas palavras de Heisenberg36:

“Nas experiências com eventos atómicos, temos que lidar com coisas e factos, com fenómenos que
são tão reais como qualquer outro fenómeno do dia-a-dia. Mas os átomos e as partículas elementares
em si não são tão reais; constituem antes um mundo de possibilidades e potencialidades, em vez de
um mundo de coisas e factos.”

Cabe ainda mencionar que a IC não responde cabalmente a todas as interrogações que decorrem
da fenomenologia quântica, denunciando a sua fragilidade se posta perante a pergunta “ O que
acontece aos equipamentos de medida usados nas experiências durante a observação de um evento
quântico?”. Note-se que como se afirmou anteriormente, de acordo com a IC o observador (e a sua
panóplia instrumental) tornam-se, eles também, parte do sistema, durante uma experiência quântica.
O indeterminismo e incerteza que interessam o evento em si, invadem e contaminam o sistema de
observação, afectando a própria medição. Heisenberg desvaloriza a influência deste fenómeno,
argumentando que a dimensão da perturbação é de tal modo pequena que é totalmente anulada
pelo ambiente em redor. No entanto para alguns cosmologistas actuais, conhecidos como
cosmologistas quânticos, mais radicais, levantam novas objecções a esta resposta simplista de
Heisenberg, argumentando que se tomando o universo ele próprio como um mundo quântico,
alargando o sistema ao universo em si, não se pode falar de compensação e é necessário tomar as

35 Trata-se de uma experiência teórica proposta por Einstein, Podolsky e Rosen visando refutar o postulado da Interpretação
de Copenhaga de que uma medição realizada em uma parte do sistema quântico pode ter um efeito instantâneo no
resultado de uma medição realizada em outra parte, independentemente da distância que separa as duas partes. John Bell
proporá um conjunto de inequações que um sistema deve satisfazer para cumprir com a concepção clássica de Einstein.
Nos anos oitenta foi possível realizar a experiência, por um físico francês A. Aspect, que confirmou a a Interpretação de
Copenhaga, havendo de facto violação das inequações de Bell (Heisenberg, W. Physics and Philosophy, pp xvi-xvii).
36 Heisenberg, W.,Physics and Philosophy, pp. xiii-xiv.

20
realidades quânticas pelo que elas são, sem recorrer a argumentos epistemológicos complementares
para validação da teoria propriamente dita.

Pode dizer-se portanto que a física quântica é ainda hoje, passado quase um século das primeiras
descobertas e investigações, um mundo de possibilidades em aberto, questionando radicalmente as
nossas mais simples e fundamentais noções de realidade, como matéria e existência, causalidade e
tempo.

Para estabelecer um paralelo com a lição da teoria nuclear, …


(temos de considerar) aqueles problemas epistemológicos com que
já pensadores como Buda e Lao Tse se defrontaram, tentando
harmonizar a nossa posição como espectadores e actores no
grande teatro da existência.
Niels Bohr

9 - Passeando nos jardins perfumados do Oriente

A viagem proposta neste capítulo faz uma muito breve revisitação das principais formas de
pensamento oriental, assimiláveis ao que no Ocidente entendemos por religião e filosofia, embora
muitas vezes este paralelo, ainda que legítimo, se torne um pouco redutor. Os grandes monismos
espirituais do subcontinente indiano, da China e do Japão, como o hinduísmo, budismo e taoísmo,
apesar de todos diferentes entre si, ocupam-se de igual maneira do conhecimento místico intemporal,
para lá da razão tal como a conhecemos no Ocidente. Os caminhos desta tradição mística-meditativa
propõem diferentes descrições do mundo, que partilham contudo uma mesma concepção orgânica,
que olha para além da realidade objectiva das coisas e viaja pela concentração meditativa, até
regiões do conhecimento que muito se aproximam da visão suscitada pela mecânica quântica.

Na realidade, as dificuldades sentidas físicos na explicitação linguística das suas concepções de


realidade tem, na experiência mística-meditativa que constitui um dos pilares destas tradições, um
paralelo curioso que vale a pena aprofundar. Assim como o físico teórico sabe que os conceitos de
que se serve para descrever a natureza são limitados e não confunde o mapa, que é a imagem
mental dessa descrição, passível de ser transmitida por palavras, com o território que pretende
representar, também o místico, durante as experiências de meditação profunda, desenvolve uma
noção da realidade que não é passível de descrição objectiva na linguagem comum. A relatividade
dos conceitos de espaço e tempo, por exemplo, que só recentemente fazem parte da cultura científica
ocidental e integram hoje o conhecimento comum, é desde há milénios familiar aos meditadores
orientais, como Ashvaghosha37: “Que fique claro que o espaço não é mais do que um modo
descritivo, sem existência em si mesmo. O espaço apenas existe na relação com a nossa consciência
fragmentadora.”

Atente-se agora na curiosa similitude dos argumentos usados por um dos maiores físicos
contemporâneos, Louis de Broglie e compare-se com os propostos pelo Lama Govinda. Nas palavras
de de Broglie:

37 Ashvaghosha, The wakening of faith, p. 107.

21
“No espaço-tempo, tudo o que constitui passado, presente e futuro é tomado en bloc38 … cada
observador à medida que o tempo passa, descobre de certa forma, novas secções do espaço-tempo,
que lhe surgem como aspectos sucessivos do mundo material, apesar do conjunto de
acontecimentos que constitui o espaço-tempo, existir previamente ao seu conhecimento.”39

O Lama Govinda, por seu lado, afirma:

Se nos referimos à experiencia do espaço em meditação, estamos a ter em conta uma dimensão
totalmente diferente … neste espaço-sentir, a sequência temporal converte-se numa existência
simultânea, lado a lado com a existência das coisas … e nada disso permanece estático, antes se
torna num continuum vivo, no qual o espaço e o tempo se diluem.”40

Outra similitude curiosa entre estas duas áreas do conhecimento humano consiste na consciência
do físico nuclear de que o observador é também parte integrante da experiência, é actor do acto de
observar e com isso interfere no sistema e faz parte dele. Para os místicos, o meditador procura uma
integração no todo universal, tornando-se uma parte com idêntico valor. Em ambos os casos as
observações têm lugar em lugares inacessíveis aos sentidos, os estados elevados de concentração
e consciência no místico; o mundo atómico e sub-atómico para o físico nuclear.

“Dixitque Deus fiat lux et facta est lux”


Genesis 1.3.

10 - Acerca das implicações filosóficas da física quântica

As implicações filosóficas da física contemporânea são muito significativas e vão para além do puro
impacto filosófico propriamente dito, que se tentará descrever mais adiante, estendendo-se à própria
sociedade, naquilo que conhecemos como o lugar-comum da nossa concepção do mundo e das
coisas e do seu funcionamento. Como se afirmava na Introdução, a relatividade e mais radicalmente,
a mecânica quântica, questionam o cerne dos conceitos de que fazemos uso diariamente e que nos
permitem fazer sentido do mundo onde vivemos. Assim e se para a relatividade, os conceitos de
tempo e espaço são duas faces da mesma moeda e não existem em termos absolutos, como parece
decorrer da nossa experiência quotidiana, nem constituem o pano de fundo fixo e imutável, as formas
a priori de Kant, onde situávamos os objectos, na mecânica quântica é a própria noção de espaço e
matéria que é posta em causa, como se de repente olhássemos para o nosso corpo e este deixasse
de existir, enquanto realidade material objectiva. É difícil imaginar algo de mais radical na
interpelação do real.

38 Em francês no original.
39 Schillpp, P.A., Einstein philosopher and scientist, p. 114.
40 Govinda, L. A., Foundations of Tibetan Mysticism, p 116.

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Um problema de comunicação: a linguagem

Interessa mencionar que a perda de sentido da linguagem comum, e mesmo da linguagem científica,
ao falar dos fenómenos quânticos se deve, em primeiro lugar, à não objectividade da tradução para
a linguagem vulgar, do valor simbólico da matemática que descreve estes fenómenos. A linguagem
comum, mesmo socorrendo-se de neologismos que vão surgindo para colmatar as deficiências de
representação, com os quais tentamos descrever eventos quânticos como a “interferência de
probabilidades”, é muito limitada, levando ao uso exagerado de metáforas e mesmo de recursos
estilísticos com uma ressonância poética, indutores de frequentes erros de interpretação. Há uma
ambiguidade inultrapassável da linguagem que torna a tradução da formulação matemática uma
tarefa árdua.

Para colmatar essa deficiência Birkoff & Neumann e mais recentemente Weizsäcker, propuseram o
uso de uma adaptação da lógica formal, a lógica quântica41 (QL) como tradução da linguagem
simbólica da matemática. Nesta adaptação, o princípio do terceiro excluído, “tertio non datur” é
necessariamente objecto de modificação, para cumprir com os requisitos da mecânica quântica. Há
ainda que estabelecer os vários níveis de linguagem admissíveis: o primeiro referente aos objectos
em si, átomos ou partículas; o segundo, às afirmações sobre esses objectos e o terceiro às
afirmações acerca das afirmações sobre os objectos. Consideremos para exemplificar esta situação,
um átomo movendo-se no interior de uma caixa negra, dividida por uma parede em partes iguais e
possuindo um orifício pequeno por onde o átomo pode passar. De acordo com a lógica clássica, há
apenas duas possibilidades para o átomo: ou se encontra numa metade, ou na outra. Para a
mecânica quântica contudo, não é assim, existem outras possibilidades numa estranha mistura das
duas anteriores. Para lidar com esta situação Weizsäcker postula diferentes graus de verdade,
traduzidos pela interferência de probabilidade. Nesta concepção, a presença do átomo num lado ou
outro da caixa é “não decidida”, o que não significa desconhecida, isso implicaria que estivesse num
lugar, ou no outro. Não decidido implica portanto que a situação a descrever carece de um termo
complementar para ser decidida42. Note-se que podem retirar-se daqui sérias implicações
ontológicas, dado que ao afirmar que as proposições que representam o estado de um determinado
átomo, em cada uma das caixas, são ambas verdadeiras, então o que se afirma é que é possível a
coexistência de dois estados contraditórios, a presença simultânea do Ser da mesma partícula em
dois lugares diferentes, uma espécie de ubiquidade quântica43, o que por sua faz regressar a questão
da validade do uso da linguagem não puramente matemática para a descrição destes fenómenos, já
que não sendo assim, também não se pode afirmar o contrário, isto é, que a partícula está num ponto
ou noutro. Explicando o paradoxo por outra via, a partícula mostra tendência para estar num ponto
ou noutro, mas só está realmente nesse ponto quando a procuro aí, como se só existisse se o
observador fosse à sua procura44.

41 Von Weizsäcker, C. F., Heisenberg’s Philosophy, In Symposium on the Foundations of Modern Physics 1985, pp. 277-
293.
42 Na realidade é a observação que vai colapsar a onda de probabilidade e actualizar essa decisão.
43 Esta designação é do autor e corresponde unicamente a uma intuição pessoal sobre o fenómeno que carece de validação

teórica ou experimental.
44 Na verdade nunca saberemos onde estaria a partícula se o observador não a procurasse, pelo que a pergunta em si é

destituída de sentido, em termos quânticos.

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Um pouco mais além…

Falemos agora de outras implicações filosóficas fundamentais decorrentes da Interpretação de


Copenhaga, que constitui até à data, a melhor descrição não matemática dos fenómenos observados
na mecânica quântica. Em primeiro lugar o problema ontológico da criação de mundos a partir do
nada. De acordo com as mais recentes investigações acerca da matéria escura e energia escura,
que justificam a maior parte da massa observada no universo, é possível a criação de novos mundos
a partir do nada, que é ele próprio um conceito sem significado. Para o físico teórico e cosmologista
Lawrence Krauss45, a criação de novos mundos ex-nihilo, é não só possível, como necessária para
explicar algumas particularidades da mecânica quântica. Para este físico a resposta à famosa
questão de Leibniz: “- Porquê o ser em vez do nada?” É na realidade bastante simples: “- Porque
tinha que ser, em mecânica quântica o nada, o vazio, significa sempre alguma coisa.“. A discussão
sobre as implicações ontológicas (e não só ontológicas, também teológicas) desta ideia radical não
cabe evidentemente no âmbito deste trabalho, mas seriam suficientes se mais nada houvesse, para
afirmar que o impacto filosófico da nova física é tremendo.

Mas há ainda outros aspectos que não podem ser desvalorizados, como a assumpção da
indeterminação como uma característica intrínseca do universo, decorrente do princípio da incerteza
de Heisenberg e o comportamento estruturalmente não determinista do mundo quântico. As
implicações gnosiológicas dessa condição podem parecer, à primeira vista, favoráveis a um
cepticismo radical, mas a verdade é que não é assim, na medida em que incerteza não significa
desconhecimento ou qualquer deficiência na forma de conhecer, isto é, não há propriamente uma
desadequação entre o sujeito que conhece e a coisa que conhece, há uma nova relação entre os
dois, ambos passando a fazer parte de um sistema em que um interage com o outro. Dito de outro
modo, a relação sujeito que conhece → coisa conhecida deixa de ser unívoca para se transformar
numa relação biunívoca: sujeito que conhece  coisa conhecida46. É importante sublinhar que
indeterminado não significa anárquico. Também neste campo é difícil imaginar inovação mais radical.

Na relação com a epistemologia, pode dizer-se que a mecânica quântica amplia os próprios limites
desta disciplina filosófica, em particular a Interpretação de Copenhaga, que se serve amplamente de
recursos epistemológicos, para intentar uma tradução inteligível dos fenómenos quânticos,
facilitando o uso das suas previsões pelas restantes ciências, tecnologias e pela sociedade em geral.
Na verdade, uma das questões mais contundentes levantadas em oposição à IC, vem precisamente
da sua necessidade de recorrer à epistemologia para se explicar convenientemente, atendendo ao
seu carácter duplo: perfeitamente previsível e intrinsecamente incerto, não lhe bastando a pura
formulação matemática.

Um outro aspecto da maior relevância consiste na penetração da mecânica quântica em outras


culturas, para além da sua origem, a chamada cultura ocidental. A mecânica quântica, mais do que
qualquer outro ramo da ciência, interpela outras culturas e civilizações, como as do extremo oriente,
designadamente a Índia, Japão e China, com as quais estabelece diálogo e interage fortemente,
nelas encontrando similitudes e novas epistemologias que lhe deem sentido. Há ainda um lado
contraditório nas consequências directas desta ciência, algumas positivas, como a que decorre da
cooperação que suscita de diversas nações, no sentido de promover grandes experiências capazes

45 Krauss, L., A Universe from Nothing: Why There Is Something Rather Than Nothing.
46 O símbolo utilizado,  não significa equivalência, mas antes relação biunívoca.

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de esclarecer os seus mistérios mais íntimos e de que o CERN47 é um dos exemplos paradigmáticos,
ainda que não único; outras muito negativas, como a invenção das armas nucleares, com todos os
riscos que lhes estão associados, que vão até à destruição total do ecossistema que sustenta a vida
na Terra. Note-se ainda que em termos tecnológicos, os avanços possibilitados pela física quântica
fazem parte daquele reduzido conjunto de avanços teóricos, com consequências directas na vida
prática das pessoas. Lembremo-nos das telecomunicações móveis, da medicina nuclear, da
miniaturização, etc.

A mecânica quântica sendo uma ciência teórico-experimental levanta não obstante, questões
metafísicas fundamentais muito relevantes para a nossa visão do mundo, possuindo um tão grande
poder de nos interpelar no âmago das nossas convicções que tem servido com fins apologéticos,
como argumento de igual valor, pelas correntes a favor48 ou negando a existência de Deus49, que é
talvez a questão metafísica mais relevante que a humanidade alguma vez se pôs. Esta e outras
interrogações que transcendem o puro domínio da ciência enquanto tal, interpelam a filosofia e
desafiam-na a encontrar as respostas que a pura ciência não tem vocação, nem é capaz de dar, mas
que são essenciais para que a humanidade possa pensar e fazer sentido das suas descobertas.

Pelo aluno,

José António Amaral

47 O CERN - Conseil Européen pour la Recherche Nucléaire, é um centro de investigação na fronteira Franco-Suíça, dotado
de um acelerador de partículas capaz de realizar experiências da física das altas energias, suscetíveis de testar
experimentalmente muitas das teorias mencionadas no texto e centrais para o avanço da mecânica quântica.
48 Vejam-se por exemplo os discursos do Papa Pio XII a favor da Criação, a partir de uma posição concordista, que parte

da concepção cosmológica do universo em expansão (Big Bang).


49 Hawking (op. cit.) usa exactamente o mesmo tipo de argumentos para dispensar a necessidade do Criador.

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BIBLIOGRAFIA

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